Há três semanas ando pelas praias do Nordeste e não consigo
chegar a uma conclusão sobre esse desastre. Foi relativamente fácil seguir os
efeitos da mancha, no sentido norte-sul, observar seus efeitos na areia e nos
seres marinhos. No entanto, é muito complicado seguir a mancha para trás, em
busca de suas origens. Satélites americanos foram usados para isso e não
encontraram rastros. Parece que a mancha engana satélites.
Baseado em fotos postas à disposição pelos europeus,
pesquisadores da Universidade da Bahia chegaram a ver o que poderia ser uma
nova mancha de 22 quilômetros quadrados a caminho da costa baiana. Essa
possibilidade foi desmentida. O Ibama sobrevoou a região e não a viu. Chegou a
supor que os pesquisadores se tivessem enganado, pois havia nuvens dificultando
a visibilidade. A técnica usada para calcular a mancha baseia-se na rugosidade
da água. A região apontada como problemática era lisa, chata. A suposição era
de que o óleo dominasse a superfície.
Os americanos, ao afirmarem não ter conseguido rastrear a
mancha, confirmam indiretamente a ideia de que o óleo, mais pesado, afunda e
navega numa camada inferior.
Minha experiência induz a uma comparação com o desastre na
Galícia, que cobri em 2003. Um petroleiro chamado Prestige derramou 770 mil toneladas
de óleo na costa da Espanha. A Galícia, região cruzada por petroleiros mal
equipados e semiclandestinos, já conhecera outros vazamentos.
Pode ser que isso esteja acontecendo com navios que saem da
Venezuela, de onde veio o petróleo vazado. Pressionados pelas sanções
americanas, fazem de tudo para escoar a produção, que, de modo geral, vai para
a Índia e a China.
Barris de rejeitos foram encontrados nas praias com
inscrições da Shell. Pesquisadores dizem que rejeitos e óleo derramado na praia
são a mesma substância. A Marinha discorda. A Shell também desmente.
Tudo isso se passa com relativo desinteresse nacional.
Deputados e senadores foram ao Vaticano e deram as costas para as praias
manchadas. O próprio Bolsonaro acusou esquerda, ONU e ONGs de ocultarem o
desastre por a origem do óleo ser a Venezuela.
Além de denunciar a esquerda, Bolsonaro pouco fez. Em
Sergipe foi preciso uma determinação judicial para que protegessem a foz dos
Rios São Francisco, Sergipe, Vaza Barris e Real, entre outros.
Embora possa haver um componente político no relativo
desinteresse, vejo outras razões para ele. Há muita atenção para certos biomas,
como a Amazônia, pois são vistos como decisivos para as mudanças climáticas.
Ignoram-se em grande escala o papel dos oceanos e a importância das correntes
marinhas no aquecimento do planeta. Num encontro internacional realizado na
Inglaterra, alguns cientistas chegaram a dizer que as correntes marinhas e sua
dinâmica é que iam determinar a irreversibilidade do aquecimento global.
Uma semana antes do desastre comecei a ler o livro de Rachel
Carson sobre o litoral. Além de excelente escritora, Rachel Carson dedicou-se à
zoologia marinha. A riqueza biológica do litoral é descrita por ela com
detalhes, desde caranguejos do tamanho da unha do polegar a seres maiores,
passando por medusas, nereidas, uma paisagem visual e verbalmente encantadora.
Na medida em que conseguirmos transmitir a riqueza da vida oceânica, talvez o
interesse aumente.
Na Galícia, em 2003, vi muitos voluntários limpando as
praias. Neste desastre no Nordeste também houve movimento, crianças em Alagoas,
artistas na Bahia, todos empenhados em tirar a sujeira da praia. Discussão
política, requerimentos, comissões, enfim, todo o zum-zum em torno de um
desastre tem o seu papel. Usar uma pá e sujar os pés é mais eficaz.
Assim como na Galícia, estamos diante de um problema
internacional. Como controlar os navios bandalhas que enganam a fiscalização e
descumprem normas de segurança?
Se o desastre foi mesmo provocado por um petroleiro, o que
me parece mais lógico, o Brasil teria de acionar mecanismos internacionais de
controle. Não fazer nada implica esperar um novo desastre, que fatalmente virá.
Ainda não sabemos o impacto real do óleo derramado. Temos as
praias como alvo porque sua limpeza é essencial para o turismo. Mas há os
manguezais e o consumo de crustáceos e moluscos tem um grande papel na dieta da
população litorânea. Aí se joga também um jogo mais difícil: limpar os mangues
demanda técnica e roupa especial. Ainda assim, é difícil.
Fico pensando num peixe-boi que é acompanhado pela Fundação
de Mamíferos Aquáticos. Chama-se Astro e nada agora entre a Praia do Coqueiro e
Mangue Seco, na Bahia. Astro é tão tranquilo quanto à presença humana que foi
atropelado por barcos 13 vezes. Depois de escapar com vida dessas trombadas,
enfrenta um novo momento. O equipamento que o monitora está coberto de óleo.
Ele parece que segue bem.
Mas, sem dúvida, a vida no mar, que é o berço da própria
vida, tornou-se uma aventura perigosa. O transporte clandestino de combustível
é um tema que merece cuidado especial. Tende a produzir desastres.
Inúmeras vezes, entre Boa Vista e Pacaraima, na fronteira
com a Venezuela, parei para documentar os destroços de carros incendiados. Em
geral eram de pequenos contrabandistas fugindo da polícia.
Não adianta apenas criticar a esquerda e as ONGs que cuidam
mais dos biomas que estão na moda. Ou culpar a esquerda, que levou anos para
descobrir o verde e possivelmente levará séculos para ver o azul.
O transporte marítimo de petróleo depende de um controle
internacional das embarcações. O Brasil foi vítima. Precisa fazer algo, caso
contrário as possibilidades de novo desastre aumentam. O oceano que deixaremos
para as novas gerações nunca mais será o que encontramos. Mesmo assim, é
preciso resistir.
Artigo publicado no Estadão em 17/10/2019

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