Jair Bolsonaro completou 300 dias no poder, mas ainda não
desceu do palanque. Ontem ele abriu o palácio para mais uma solenidade marcada
por autoelogios. Em discurso, voltou a exaltar a própria gestão e a atacar o
jornalismo profissional.
O presidente disse que a imprensa “não colabora com o
Brasil”. A frase mostra que ele não sabe conviver com críticas —e continua a
confundir os interesses do país com os interesses de sua família.
Bolsonaro acusou o jornalismo de tentar “colocar em seu
colo” o assassinato de Marielle Franco. Mais uma distorção. Na verdade, o
Jornal Nacional informou que ele foi citado no depoimento de uma testemunha, o
que obrigou o Ministério Público a submeter o caso ao Supremo Tribunal Federal.
Em outro momento, o presidente saiu em defesa do filho
Eduardo, alvo de pedidos de cassação. Disse que ele não merece perder o mandato
por causa de suas declarações a favor de um “novo AI-5”. “Em todos os momentos
a Câmara respeitou o sagrado direito de opinião, seja ela qual for”, afirmou.
Quando o governo fez 200 dias, as expectativas em relação ao
Zero Três eram mais elevadas. Bolsonaro ainda apostava na promoção do herdeiro
a embaixador em Washington, plano abortado para evitar uma derrota no Senado.
“Eu quero um filho melhor do que eu”, ele justificou, na ocasião.
Ontem o presidente encontrou um jeito de encaixar outra
reverência aos Estados Unidos. “Tem um senhor ali com um boné escrito ‘Trump
2020’. É um herói da guerra do Vietnã”, disse, apontando para um idoso que
assistia à cerimônia entre as autoridades.
No início da solenidade, o ministro Onyx Lorenzoni usou a
tribuna para bajular o chefe. Repetiu sua citação bíblica preferida, exaltou
seu discurso desastrado na ONU e criticou a “extrema imprensa”, termo usado
pela militância bolsonarista na internet.
Em folheto comemorativo, a Secom anunciou que “os escândalos
de corrupção sumiram do Palácio do Planalto e dos noticiários”. Propaganda é
propaganda, mas o pessoal não precisa exagerar.

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