Com um prazo tão curto para o recesso parlamentar, beira
o surrealismo que a prioridade do Congresso Nacional seja a barganha por mais
dinheiro para suas bases
Oito dias úteis. Com o recesso parlamentar marcado para ter
início no próximo dia 22, o Congresso Nacional trabalha, de fato, somente até o
dia 20, uma sexta-feira. O tempo curto, no entanto, parece incompatível com o
volume de pautas prioritárias na agenda do Legislativo, a maior parte delas
ligada à economia.
Até o fim do ano, a Câmara e o Senado precisam avançar sobre
o Orçamento para 2025, sobre a Reforma Tributária e diante do pacote de corte
de gastos enviado pelo governo federal. Se o andamento da lista de tarefas cabe
à vontade dos presidentes do Senado, Rodrigo Pacheco, e da Câmara, Arthur Lira,
a pilha de compromissos tem como pano de fundo a má vontade dos congressistas
com o governo após o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio do ministro
Flávio Dino, dificultar a liberação de emendas parlamentares.
O noticiário de ontem trouxe ainda mais incerteza sobre o
cenário da reta final do ano, diante da condição de saúde do presidente Luiz
Inácio Lula da Silva. É evidente que, neste momento, a prioridade do chefe do
Planalto é — e deve ser — a recuperação do hematoma cerebral que exigiu
uma cirurgia de emergência. Ainda assim, em um momento de pressão do Congresso
contra o Executivo, o governo precisa encontrar meios de superar a conturbada
relação com deputados e senadores.
Das três pautas prioritárias, a votação do orçamento de 2025
é inadiável. No entanto, essa análise fica pendente diante das discussões
acerca do corte de gastos — como ferramenta de controle da dívida pública a
partir de uma economia prevista de cerca de R$ 70 bilhões nos próximos dois
anos — e da nova regulamentação tributária. Na prática, as duas últimas
funcionam como condicionantes da primeira.
Com um prazo tão curto, beira o surrealismo que a prioridade
do Congresso Nacional seja a barganha por mais dinheiro para suas bases. Como
se constatou na última eleição, as emendas foram parte fundamental da
manutenção no poder daqueles que já o ocupam. O alto índice de reeleição e a
ampla vitória de partidos do chamado Centrão traduziram um cenário já esperado
por analistas, mas, ainda assim, comprobatório do poder que essa parcela do
orçamento tem para definir futuros políticos.
Cabe também o papel do governo nesta discussão. Em um país
politicamente polarizado, é evidente que há dificuldades de articulação entre
Executivo e Legislativo. No entanto, isso não exclui a necessidade de uma
melhor interlocução entre as partes. A independência dos poderes, por exemplo,
precisa ser respeitada. Nesse quesito, pouco ajuda que a decisão sobre o
bloqueio das emendas tenha sido assinada justamente por Flávio Dino, que até
outro dia ocupava o Ministério da Justiça e Segurança Pública.
Há também trunfos por parte do governo. Em operação
realizada ontem, a Polícia Federal (PF) prendeu 15 pessoas na Bahia, em São
Paulo e em Goiás, todas acusadas de integrar uma organização criminosa de
fraudes licitatórias e desvio de dinheiro público. A quadrilha desviava
recursos de emendas parlamentares e deve ser usada pelo Planalto para
pressionar o Congresso junto à opinião pública.

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