Revelação de pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro não
inviabiliza candidatura de filho de Bolsonaro, e presidente abre frente
modesta, mas polarização segue intocada
A revelação de que Flávio Bolsonaro pediu R$ 134 milhões a
Daniel Vorcaro para financiar o filme sobre seu pai feriu a pré-candidatura do
senador do PL à Presidência, mas, passada uma semana, o estrago não é
suficiente para inviabilizá-lo e obrigar o bolsonarismo a buscar um novo nome.
Esta é a principal conclusão que se pode extrair da pesquisa extraordinária que
o Datafolha realizou, menos de uma semana depois da divulgação de sua rodada
regular, agora depois de o caso já ser amplamente conhecido.
O instituto voltou a campo na quarta e na quinta-feiras e,
no intervalo de menos de uma semana, captou uma discreta movimentação nos
cenários de primeiro e segundo turnos que têm Lula e Flávio Bolsonaro. O
presidente oscilou de 38% para 40% na simulação de primeiro turno, enquanto
Flávio caiu de 35% para 31%.
Na projeção de um embate de segundo turno,
o empate em 45% captado na semana passada deu lugar a uma estimativa de 47% a
43% em favor do petista. Como a margem de erro do levantamento é de 2 pontos
percentuais, Lula precisaria estar no limite inferior da margem e Flávio, no
superior, para que o empate de uma semana atrás estivesse mantido.
A vantagem que Lula conseguiu abrir após uma semana
extremamente negativa para Flávio Bolsonaro não é grande e não anula a rejeição
ainda muito alta do presidente. Neste quesito, as posições numéricas dele e de
Flávio se inverteram, mas ambos seguem com altas taxas (46% do candidato do PL,
contra 45% do petista).
Politicamente, o saldo da pesquisa, que era aguardada com
grande ansiedade nos escritórios políticos e da Faria Lima, é que Flávio segue
vivo na disputa, embora manco. E este é um cenário que não desagrada o comando
da campanha lulista: a possibilidade de uma troca de Flávio por Michelle
Bolsonaro, que nunca chegou a ser provável do ponto de vista da lógica que guia
os interesses de Jair Bolsonaro, fica ainda mais afastada. A ex-primeira-dama é
considerada pelo PT uma adversária mais difícil de combater e com maior
potencial de estrago que o filho 01.
O que fica nítido a partir da pesquisa é que a polarização,
que cientistas políticos como Felipe Nunes costumam classificar como
calcificação, segue inabalada mesmo depois do solavanco na candidatura
bolsonarista. Ou seja: nem a percepção de que o candidato mentiu, que mais
coisas podem aparecer e que sua vantagem nas pesquisas não era sólida deram
fôlego a outros nomes que tentam se viabilizar no campo do antilulismo, como
Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo).
A dianteira que Lula conseguiu abrir não lhe dá nenhuma
tranquilidade de deixar de conferir o retrovisor. As boas notícias para o
presidente residem mais no fato de que ele superou seu pior momento, logo após
a derrota na indicação para Jorge Messias no Senado, e viu cessarem as
especulações a respeito de uma possível desistência de sua candidatura a um
quarto mandato.
A expectativa em seu campo é que a continuidade das
investigações a respeito das transações entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro,
aliadas aos resultados de uma linha de montagem de políticas eleitoreiras
lançadas a toque de caixa nas últimas semanas, acabem ampliando a vantagem de
Lula.
Do lado de Flávio, as primeiras reações após a aguardada
pesquisa foram de alívio. Eles consideram que o tiro desferido pelo campo
adversário, que, avaliam, foi antecipado justamente para tirar Lula de seu
momento mais delicado, não acertou o coração, mas no máximo o joelho do
senador.
E que o antipetismo segue como a força motriz da eleição.
Portanto, passada a tempestade, eles avaliam que Flávio Bolsonaro vai recuperar
o terreno perdido, uma vez que ficará claro que a candidatura não será trocada
e que ele segue como o mais capaz de derrotar Lula no segundo turno.

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