Nunca antes neste país – ou melhor, nunca antes em seu
governo – Dilma Rousseff fez tanta política. Na semana passada, promoveu um
jantar com cinco ministros do Supremo Tribunal Federal, inclusive o presidente,
Ricardo Lewandowski. Recebeu também os presidentes do Superior Tribunal de
Justiça, do Tribunal Superior do Trabalho e do Superior Tribunal Militar, o
procurador-geral da República, Rodrigo Janot, e caciques de vários partidos.
Conversou muito, o que não faz parte de seu estilo político. Cair nos braços do
povo também não é de seu feitio – mas Dilma, na semana passada, abriu várias
exceções. Em parte por causa da mudança de estilo, Dilma terminou a semana
melhor do que começou. No início da semana, ela era uma presidente pressionada
pelo Tribunal de Contas da União (TCU), que ameaça rejeitar suas contas, e pelo
Tribunal Superior Eleitoral, que examina denúncias sobre a campanha que a
elegeu. No final da semana, as pressões nas duas instâncias estavam bem
menores.
A maior vitória de Dilma se deu no âmbito do TCU – e se
deve, em parte, à mais frutífera conversa que Dilma manteve na semana passada,
com o presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB). Com a anuência de Renan, a
senadora Rose de Freitas (PMDB), presidente da Comissão Mista do Orçamento,
recorreu ao Supremo Tribunal Federal para anular o trabalho de Eduardo Cunha
com as contas dos governos Itamar Franco, Fernando Henrique e Lula. O ministro
Luís Roberto Barroso, do Supremo, decidiu que, daqui para a frente, as votações
sobre contas deverão ocorrer sempre em
sessões do Congresso Nacional, quando a Câmara e o Senado se unem e quem
preside e decide tudo é Renan. Ou seja, não será possível a Câmara rejeitar as
contas sozinha, sob a presidência de Cunha, e encaminhar ao Senado. Aliada de
Renan, Rose pode colocar em pauta a questão das contas quando quiser, pois não
há um prazo. Depois, é preciso que seja elaborado um projeto de decreto
legislativo sobre a decisão tomada na comissão. O projeto é encaminhado ao presidente
do Congresso – no caso, Renan –, que “talvez, um dia”, como diz um aliado,
coloque o tema em votação.
Ainda na semana passada, com a anuência do PMDB, o senador
baiano Otto Alencar, do aliado PSD, apresentou um requerimento para que o TCU
desse mais prazo ao governo para explicar as pedaladas fiscais. Renan conversou
com os ministros Vital do Rego, Raimundo
Carreiro e Bruno Dantas, ligados a ele. Assim, o julgamento decisivo das contas
de Dilma, que deveria acontecer neste mês, foi para setembro, com possibilidade
de ocorrer só em outubro.
Dilma também conseguiu um atraso no Tribunal Superior
Eleitoral, o TSE. Na semana passada, um pedido de vistas do ministro Luiz Fux
adiou o julgamento de um pedido de investigação das contas de campanha de Dilma,
suspeitas de estarem contaminadas por dinheiro desviado da Petrobras. Se a
investigação passar, em última instância o TSE poderá cassar a chapa formada
por Dilma e pelo vice-presidente, Michel Temer. Neste caso, o Tribunal teria de
convocar novas eleições. Com o resultado da semana passada, esse processo
também foi estancado por algum tempo.
Enquanto Renan operava nos bastidores, Dilma seguia uma
improvável agenda popular ao feitio de seu marqueteiro, João Santana. Foi ao
estádio Mané Garrincha, em Brasília, para discursar sob os aplausos de cerca de
30 mil mulheres ligadas a um sindicato de trabalhadores rurais e reunidas na
Marcha das Margaridas. O evento acontece todos os anos e, como sempre, só fica
de pé com dinheiro público. Neste ano, as margaridas foram regadas com R$ 400
mil da Caixa, outros R$ 400 mil do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico
e Social (BNDES) e R$ 55 mil da Itaipu Binacional a título de “patrocínio”.
Dilma vestiu chapéu de camponesa e falou
com vista para faixas de “Fica, Dilma” por todos os lados e sob gritos
contra o presidente da Câmara, Eduardo Cunha (PDMB), seu malvado favorito.
Como nem só de povo se vive, Dilma – ainda no âmbito da “agenda João Santana” –
dedicou um dia a anunciar mais um grande programa de investimentos em energia,
ainda que o Orçamento esteja debilitado pelos gastos de anos anteriores. Ao
lado do ministro das Minas e Energia, Eduardo Braga (PMDB), Dilma anunciou
investimentos de R$ 186 bilhões em programas de geração e transmissão de
energia até 2018. Não há garantia de que o governo tenha recursos para isso. O
gesto segue a cartilha de Lula, mentor de Dilma, para quem é importante gerar
fatos positivos para recuperar o ânimo da população e do meio econômico.
Dilma também recebeu movimentos sociais que pediram a cabeça
do ministro da Fazenda, Joaquim Levy. Animado pela rara chance de aparecer ao
lado de Dilma, Vágner Freitas, presidente da CUT – a central sindical vinculada
ao PT –, se empolgou e passou do ponto, ao pedir a seus pares que pegassem “em
armas” para defender Dilma. Na foto, a presidente aparece com cara de paisagem.
Ela sabe que não pode abrir mão de Levy, fiador da estabilidade econômica do
país – e que as conversas de bastidores com Renan são mais importantes que a
retórica de palanque dos radicais de seu partido.
Por Leandro Loyola, Época

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