O filme do senador e pré-candidato pelo PL foi queimado por
ele mesmo. Sua ascensão nas pesquisas, que causou frisson nos mercados, sofreu
um cavalo de pau. Flávio
mentiu e continua mentindo para tentar escapar dessa fase negativa. A
questão é saber se ele ainda poderá se apresentar como candidato competitivo
quando a campanha de fato começar.
Gente ligada ao mundo das pesquisas e do
marketing político-eleitoral tem dito que os danos não serão tão profundos e
poderão ser superados. Sim, a perspectiva, pelo menos, é a de que a eleição vá
a segundo turno. E se Flávio estiver lá, vai saber.
Veremos. Por ora a situação é desastrosa para o bolsonarismo
e a direita. Lula é um animal político e eleitoral, tem a máquina na mão, prepara
novas medidas de impacto popular e ganhou um farto material para
ajudá-lo na tarefa de detonar a imagem de seu concorrente, que já não tinha
muito a mostrar além do nome do papai.
O senador é uma nulidade. Sua eleição seria, certamente, um
retrocesso histórico para o Brasil. Até mesmo os setores mais irresponsáveis do
mercado financeiro, sempre inclinados a topar tudo pela derrota de Lula e do
petismo, claudicaram diante do espetáculo de submissão à máfia do Master.
Não quer dizer que trocarão de ideia caso não se veja
escolha diferente. No nosso continente do neoliberalismo sob Pinochet, valores
democráticos são com frequência apenas enfeites para a busca a qualquer preço
de um capitalismo radicalmente elitista e antipopular. É o que o filósofo Vladimir
Safatle chamou de "complexo de Vargas Llosa".
A hipótese de afastamento de Flávio Bolsonaro pode até ser
desejável, mas um tanto complexa. Que nome poderia unir a direita com a bênção
do capitão recluso?
No rooftop da Faria Lima alguém falou em Renan
Santos? Que missão!
Seria, no final das contas, mais razoável tentar algum tipo
de composição com o lulismo em sua última grande investida com a presença do
maior líder da centro-esquerda e da política brasileira das últimas décadas.
Mas isso, vamos ser razoáveis, não existe —é impossível,
basta ver as opiniões espumosas dos porta-vozes do mercadismo sem freios de
plantão.
Como
escrevi aqui, o terreno está minado e novas explosões podem ocorrer,
inclusive com estilhaços à esquerda. Mas vale insistir: o Master é um escândalo
fortemente ligado à direita. Nasceu durante o Banco Central de Jair e Campos
Neto, e varreu a tigrada do centrão e do bolsonarismo, como se observa agora
com as reinações de Flavinho.
A manter-se a candidatura do primogênito do clã Bolsonaro,
estaremos embarcando numa disputa da mais baixa qualidade, um verdadeiro filme
de terror moral e ético, que ainda acabará sendo tratado como
"normal" por setores expressivos do establishment.
A degradação política a que assistimos encontra cada vez
menos quem com ela se espante. Como se sabe, não é apenas um caso brasileiro, o
que só piora o cenário.
O ano era... 1976, para sucedê-lo na prefeitura de Sobral
(CE), Zé Prado lança José Euclides. Para eleger seu sucessor, Zé Prado não
mediu esforços: saia às ruas de Sobral e distritos dia e noite, pedindo voto
para seu candidato.
Com slogan “De Zé pra Zé, do jeito que o povo quer” e a
força política que o jovem carismático da família Prado já demonstrava ter,
elegeu seu sucessor.
Após cinco meses no poder, Euclides rompe com Zé Prado, seu
padrinho político e responsável pela vitória que tornou o desconhecido
comerciante em prefeito de Sobral.
Ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em
série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com
milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era
Desde que estourou o escândalo envolvendo o senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, os integrantes da equipe de
campanha do filho de Jair Bolsonaro saíram por aí a dizer que foram
surpreendidos com a revelação de que o candidato a presidente tinha relações
fraternas (e transacionais) com o protagonista do maior crime financeiro da
história brasileira. Alguns admitem que o baque pode até fazer o campo
bolsonarista escolher outro candidato.
Ora, francamente: esse escândalo não muda uma vírgula da
biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com
milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios
imobiliários em dinheiro vivo. Trata-se, portanto, de um candidato com longa
ficha corrida, que nunca foi segredo para ninguém. O caso do Banco Master não
torna Flávio pior do que ele já era.
Tampouco muda alguma coisa o fato de que Flávio Bolsonaro
mentiu seguidamente – para seus aliados, para sua equipe de campanha e para a
imprensa – a respeito de suas relações com Vorcaro. A mendacidade é a própria
natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória política em cima de
desinformação, logro e desfaçatez. O filme sobre Bolsonaro, a julgar pelo
trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa doença
congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família. Como
vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no
degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser
engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro.
Mas é preciso reconhecer que Flávio sempre foi absolutamente
honesto a respeito do espírito de sua candidatura à Presidência: ele nunca
escondeu que seu único objetivo, ao chegar ao poder, é livrar o pai da cadeia.
Governar o Brasil não está nos seus planos, como não estava nos planos do
patriarca – que terceirizou a administração do governo por sua absoluta
inaptidão ao trabalho e que vivia a lamentar o fardo de estar na Presidência.
Ainda assim, alguns aliados de Flávio Bolsonaro dizem por aí
que acreditam na sobrevivência da candidatura do senador e mantêm sua
disposição em apoiá-lo. O fator determinante nesse cálculo é que Flávio, a
despeito de tudo, continua a aparecer nas pesquisas como o único capaz de fazer
frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Portanto, segundo esse raciocínio, pouco importa se Flávio
envolveu-se com o protagonista do maior escândalo financeiro da história
brasileira, se tem ligação com milicianos, se tomou dinheiro de funcionários de
seu gabinete e se fez negócios obscuros em dinheiro vivo. Também não interessa
se o tal filme feito com dinheiro de Daniel Vorcaro é tão ruim que não se pode
condenar quem o considere apenas um meio de lavar dinheiro, fazer caixa de
campanha e sustentar o irmão de Flávio, o deputado cassado Eduardo, na
sua dolce vita nos EUA. O que interessa é impedir um novo
mandato de Lula, retratado pelos bolsonaristas como o diabo em pessoa.
O Brasil não pode mais ficar à mercê dos interesses
particulares de uma única família, ainda mais quando esses interesses colidem
frontalmente com a decência e as leis. Determinada pelo “dedazo” de Jair
Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma chapa de
oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os Bolsonaros
recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em torno de
nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços de
sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto de
país.
Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom para o País, só
ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre concidadãos. De quebra,
conseguiram a proeza de devolver o poder a Lula, malgrado a extensa folha
corrida do petista. Só por isso mereceriam do País o mais absoluto desprezo.
Ativista do direito de mentir, luta contra o direito
universal de não acreditar
Chama de 'narrativa' o que lhe desabona; de 'fato' o que
lhe favorece
Filho de pai preso. Segue carreira do pai e se elege por ser
filho do pai. Obedece ideias do pai, copia métodos do pai. Tem os aliados do
pai. Trilha o
curriculum do pai. Em casa, o pai o chama pelo número de antiguidade
01. Amor filial supera o paterno.
Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme
sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere
não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude
das operações ilegais.
"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros
milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca
ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como
tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo
sempre".
Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não
menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando
autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três
crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do
destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa
se privado o dinheiro.
Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja
recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em
espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a
quantia e deposita no banco".
Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato
(rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos
imobiliários em
áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício
formal.
Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada
pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.
Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas
continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua
relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.
Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam
pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe
desabona, de "fato" o que lhe favorece.
Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa
o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do
Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante
o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões
de crédito.
Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de
"legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As
classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter
segurança?"
Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para
pacificar o Brasil".
O Banco Central vive dias de pressão por causa pelo Banco
Master. A situação do BRB é motivo de preocupação e sem solução a curto prazo
O problema do Banco de Brasília (BRB) não está
resolvido. Longe disso. O controlador resiste à venda de algum pedaço relevante
da instituição que poderia ajudar a enfrentar a crise. Desde o fim de março, o
BRB já está pagando multa diária pela não publicação do balanço. A cada solução
apresentada, a governadora Celina Leão faz uma pesquisa com a Câmara Distrital
e sondagens de opinião pública para ver como a proposta impactaria sua
popularidade. Se houver uma queda brusca de liquidez, será difícil evitar o
pior.
O governo federal não quer ajudar, porque seria abraçar um
desgaste que não foi criado por ele, pelo contrário, foi obra do centrão e do
ex-governador bolsonarista, Ibaneis Rocha.
O governo do Distrito Federal tem insinuado que, se acontecer algum incidente,
terá sido porque a União não ajudou.
Desde 2025, o Banco
Central já liquidou 13 instituições: Master, Master BI, Letsbank,
Master DTVM, Reag, Advanced Corretora de Câmbio, Will Bank, Pleno, Pleno DTVM,
Dank SCD, Entrepay IP, Creditag Cooperativa e Frente Corretora de Câmbio. Se o
pior cenário se confirmar em relação ao BRB haverá um grande impacto porque há
desdobramentos delicados. O BRB não representa um risco sistêmico, mas pode
gerar um problema sistêmico para o poder público. Presta mais de 35 serviços e
projetos para o DF e tem em depósitos o dinheiro dos Tribunais de Justiça de
vários estados. É mais significativo para os governos do que para o mercado
financeiro.
Ao impedir a compra do Master pelo BRB e, em seguida,
liquidá-lo, o Banco Central enfrentou todo o tipo de pressão. Ainda enfrenta.
Foi acusado de ter demorado a agir, e também de ter se precipitado. Enfrentou
ameaças e pressões do Congresso, do Tribunal de Contas da União e do Supremo
quando a relatoria do caso estava com o ministro Dias
Toffoli. No dia em que apareceu uma proposta sendo votada, de emergência,
que dava poderes ao Congresso de demitir o presidente e os diretores da
autoridade monetária, o Banco Central não só não se intimidou como liquidou o
banco de Daniel Vorcaro no dia seguinte.
Esta semana, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado
houve mais uma batalha. O senador Renan
Calheiros quis acusar o Banco Central de conivência com o Master e de
estar cometendo com o BRB o mesmo erro que teria cometido com o Master.
Indiretamente estava dizendo que o BC está atrasando a liquidação. O Banco
Central não pode deixar de agir quando um banco entra em quadro de crise
irreversível, nem pode fechar um banco por pressão política.
O senador Renan Calheiros tenta a reeleição em Alagoas,
enfrentando os deputados Alfredo Gaspar e Arthur Lira numa
disputa acirrada. Renan tem razão de dizer que o Centrão pressionou o Banco
Central. O ministro do Tribunal de Contas da União Jhonatan de Jesus, que
ameaçou o BC, é do Centrão e indicado por Arthur Lira. Mas Renan acusou Gabriel
Galípolo de não ter reagido às pressões, o que não faz sentido. O que
o presidente da instituição explicou no debate é que o BC não pode entrar na
briga política, nem na disputa de redes sociais. Tem que preservar sua missão
que é garantir a estabilidade do sistema financeiro, a estabilidade da moeda e
tomar decisões técnicas e na hora certa. No debate acalorado, Galípolo
respondeu.
– O Banco Central está respondendo até agora ao Tribunal de
Contas da União uma acusação por não ter autorizado ( a compra do Master). O
Banco Central e seus servidores foram expostos e caluniados sistematicamente
porque não toparam. Coincidentemente, na semana em que o Banco Central rejeitou
a compra pelo BRB foi colocada uma proposta de voto para mandar embora o
presidente do Banco Central e os diretores. O Banco Central não tem que ir para
a televisão, gravar Instagram ou Tik Tok. Não é palanque. Toma a decisão
correta independentemente de quem está jogando pedra ou fazendo barulho.
Galípolo disse que, nos bancos que foram liquidados na
década de 1990, a técnica foi separar o “banco bom” do “banco ruim” e vender o
que era viável. No caso do Master, disse ele, “não havia banco bom”.
O Banco Central se defende de ataques de lados diferentes,
fiscaliza um mercado no qual ainda há pelo menos um banco em situação de
fragilidade, mantém o aperto monetário contra inflação crescente e continua
tentando aprovar uma PEC que possa fortalecer seu quadro de servidores. O
projeto que trata do assunto foi novamente adiado.
Lulistas e bolsonaristas se unem por acordão que torna eleição refém do sistema
A Câmara dos Deputados acaba de aprovar, num acordão que incluiu de lulistas a bolsonaristas, um monstrengo batizado de minirreforma eleitoral, que de mini não tem nada e que, em vez de reformar, promove uma avacalhação nas eleições que vêm aí.
A lista de mudanças é ampla. Uma delas prevê que a multa máxima para partidos que não apresentarem prestações de contas ou cujas contas forem rejeitadas não pode ser de mais de R$ 30 mil (antes poderia chegar a 20% do valor questionado). Considerando que o fundo partidário distribuiu R$ 1 bilhão em 2025 e que o fundo eleitoral entregará mais de R$ 5 bilhões neste ano, caiu a perto de zero o custo de fazer lambança com o dinheiro dos nossos impostos.
Mas tem mais.
O texto também dá 15 anos de prazo para as legendas renegociarem suas dívidas com a União. Bens de partidos políticos não poderão mais ser penhorados pela Justiça, mesmo que tenham sido usados por seus dirigentes para cometer crimes. Além disso, esses chefões poderão usar o fundo partidário para pagar multas, juros e dívidas que tenham contraído por dilapidar o próprio fundo.
Legendas com as contas reprovadas também não podem ser impedidas de participar das eleições, e os repasses de dinheiro público só poderão ser suspensos depois de o processo transitar em julgado. Isso se um dia for de fato julgado, já que a lei também prevê um prazo limite de cinco anos para a decisão definitiva da Justiça Eleitoral. Se o processo se arrastar para além disso, estará automaticamente suspenso, mesmo que a causa do adiamento sejam recursos protelatórios impetrados de má-fé. Nem Daniel Vorcaro faria melhor.
Como se não bastasse a farra com o dinheiro dos nossos impostos, os deputados também cuidaram de abrir a porteira para a farra da desinformação, flexibilizando as regras para disparo de mensagens.
Nas eleições de 2022, elas só podiam ser enviadas a quem tivesse dado consentimento por escrito. Agora, mensagens enviadas por celulares registrados pelos partidos a pessoas “previamente cadastradas”, mesmo que por robôs, não serão consideradas disparos, e os números também não poderão ser bloqueados pelas plataformas sem ordem judicial.
Alguém aí consegue ver a Justiça fiscalizando esses cadastros nome a nome e ainda bloqueando os envios num cenário tão adverso? Caso o projeto não seja derrubado, o resultado previsível será a multiplicação de desinformação e fake news, logo na primeira eleição com a inteligência artificial a toda potência.
Todas essas mudanças foram aprovadas na noite de terça-feira em regime de urgência, com votação simbólica e aprovação de todos os grandes partidos. Ninguém teve coragem de ir ao microfone defender o texto, e quem se opôs foi a minoria de sempre.
A ânsia de liberar geral era tanta que, mesmo a Constituição prevendo que as alterações feitas em lei eleitoral só passam a valer um ano depois de sua aprovação, os parlamentares decidiram que as mudanças entram em vigor imediatamente e valem já para o pleito de outubro. Basta agora o o.k. do Senado Federal, que está louco para aderir.
Para completar o pacote da vergonha, hoje o Congresso ainda deverá repetir o que já fez na gestão Jair Bolsonaro e permitir que o governo faça doação de bens, dinheiro e benefícios como cestas básicas, tratores e ambulâncias a municípios em plena campanha eleitoral.
A reforma eleitoral ainda pode ser vetada pelo presidente Lula ou contestada e derrubada no Supremo Tribunal Federal (STF).
Independentemente do resultado final, porém, toda essa coreografia só reforça o sentimento de ojeriza ao sistema político, num contexto em que a corrupção vem crescendo no ranking de preocupações dos eleitores e escândalos como o do Banco Master fornecem assombrosas revelações a cada dia.
Claro que, com Flávio Bolsonaro (PL) sangrando em praça pública em razão do inexplicável enredo dos R$ 61 milhões de dólares aplicados por Vorcaro no filme sobre a vida de seu pai, o cenário parece bem mais favorável a Lula. Mas nem todo petista está soltando fogos.
A história das nossas eleições mostra que, quando escândalos se multiplicam, e o eleitor é tomado pelo sentimento antissistema, todo candidato competitivo sofre — incluindo o governante que comanda a máquina e busca a reeleição. Na cabeça do cidadão comum, ele encarna o próprio sistema.
Os políticos mais experientes de Brasília estão cansados de conhecer essa máxima, em especial os do Centrão. Se não estão preocupados é porque se guiam fielmente por outra máxima: o dinheiro é a graxa que azeita o sistema, mesmo que para isso seja preciso tomar todo o processo eleitoral de assalto.
Decisão sobre manutenção da candidatura de Flávio será
única e exclusivamente de Jair Bolsonaro
Os tentáculos do Master atingiram Flávio Bolsonaro e agora
começam a dar voltas pelo seu pescoço, a ponto de integrantes de seu partido, o
PL, saírem falando por aí que em 15 dias decidirão se mantêm a candidatura de
pé ou não. A cúpula do PL pode até causar nos bastidores, mas pouco tem a fazer
diante da decisão que será única e exclusivamente de Jair Bolsonaro, como foi
dele o projeto de lançar o primogênito à Presidência, e não Tarcísio de
Freitas, nome preferido dos chefões da sigla. Depois da repercussão ruim,
Valdemar Costa Neto, presidente do PL, veio a público dizer que o deadline de
15 dias, estabelecido numa reunião interna, não dizia respeito à manutenção da
candidatura do senador, mas sim à retomada de seu crescimento nas pesquisas
eleitorais.
É irrelevante o que ele diga em privado ou
em público. Valdemar terceirizou o partido para Bolsonaro, e é Bolsonaro quem
decidirá se Flávio fica ou não. O presidente do PL fez essa concessão ao clã de
olho no que realmente importa para ele: eleger grandes bancadas no Congresso.
Quanto maior a bancada, maior a fatia de dinheiro público que pinga nas contas
do partido, via fundo eleitoral. Somente neste ano, Valdemar terá em mãos R$
880 milhões para tocar a eleição. Comprar briga com os Bolsonaros agora não parece
ser bom negócio.
Bolsonaro tende a manter Flávio na disputa por uma questão
simples: a candidatura dele não foi lançada para ganhar, mas para manter a base
bolsonarista coesa em torno do clã, evitando a dispersão dela em direção a
outro candidato que, uma vez eleito, se tornaria o novo líder da direita,
engolindo Bolsonaro. Se não fosse por isso, Tarcísio teria sido o candidato. O
bom desempenho de Flávio nas pesquisas, antes da parceria cinematográfica com
Vorcaro, não estava precificado. Sua candidatura passou a ter perspectiva de
vitória à medida que ele vestiu o figurino do “Bolsonaro que toma vacina”, e
parte do eleitorado resolveu passar o pano para os detalhes do currículo, como
rachadinha e ligações com milicianos. Além disso, mesmo com o enrosco do “Dark
Horse” e o que mais aparecer em eventuais delações e afins, Bolsonaro não tem o
perfil de quem passará recibo para as denúncias e substituirá o filho, mandando
um recado para o público de que o Zero Um tem mesmo culpa em cartório.
Do lado do PT, a manutenção de Flávio na corrida é o melhor
dos mundos. Lula enfrenta um adversário enfraquecido não só pelas denúncias,
mas pelas mentiras contadas para rebatê-las. O governo assiste de camarote ao
senador ser engolido pelos tentáculos de Vorcaro e, paralelamente, toca seu
pacote eleitoreiro, na esperança de que não só a qualidade do adversário, mas
as entregas às vésperas da eleição fortaleçam Lula. Ontem foi crédito para
motorista de aplicativo comprar carro, lembrando o auxílio-taxista de Bolsonaro
em 2022.
O eleitor que se prepare para uma campanha em que os temas
centrais passarão por eventuais desvios num filme B sobre a vida de Bolsonaro e
pelo fato de “capinhas de celular e canetas” serem consideradas pelo governo
itens básicos da população, como chegou a dizer um ministro palaciano ao
defender o fim da taxa das blusinhas.
De evangélicos ao agro, Flávio queima pontes com base
fiel em meio a desgaste com filme e mudanças na equipe da campanha
Insatisfação de aliados fez a primeira vítima no entorno
de Flávio, com a saída do publicitário Marcello Lopes, o Marcellão
Flávio sofre desgaste do agro aos evangélicos e tem
primeira baixa com saída de marqueteiro
A crise instalada na pré-campanha de Flávio Bolsonaro
(PL-RJ), desencadeada a partir da revelação de sua proximidade com Daniel
Vorcaro, dono do Banco Master, estremeceu as pontes com segmentos de
sustentação do bolsonarismo nas últimas campanhas e derrubou o marqueteiro
contratado pelo senador para cuidar de sua imagem. Em meio ao desgaste, o PL já
identificou a contrariedade com interlocutores do mercado financeiro, do
agronegócio e lideranças evangélicas.
Além disso, a insatisfação de aliados fez a primeira vítima
no entorno de Flávio, com a saída do publicitário Marcello Lopes, o Marcellão.
Ele estava nos Estados Unidos durante a semana mais crítica para a comunicação
do candidato, o que gerou contrariedade entre pessoas próximas ao senador.
Agora, assume a função Eduardo Fischer, que fez a campanha
de Alvaro Dias (Podemos) na corrida presidencial em 2018 e conhecido por
trabalhos publicitárias fora da política.
Repercussão negativa
Embora ainda predomine um discurso de cautela, aliados
admitem que o escândalo interrompeu a aproximação de Flávio com empresários,
investidores, produtores rurais e pastores influentes, justamente no momento em
que a campanha acreditava estar conseguindo reduzir resistências.
Entre evangélicos, o impacto foi imediato. O áudio em que
Flávio cobra dinheiro de Vorcaro provocou irritação em parte das lideranças
religiosas, sobretudo pelo fato de que o senador vinha minimizando publicamente
a relação com o banqueiro.
No grupo de WhatsApp “Aliança”, que reúne algumas das
principais lideranças evangélicas alinhadas ao bolsonarismo — entre elas Silas
Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes — o caso passou
a dominar as conversas nos últimos dias.
Segundo relatos, pastores reconheceram a gravidade política
da situação e entraram em modo de espera para medir se haverá novos
desdobramentos antes de declarar um rompimento.
O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, afirmou que o
episódio foi um “balde de água fria” na pré-campanha presidencial do senador.
— Foi muito negativo tanto o fato em si, da aproximação com
Vorcaro, como a explicação em prestações. Claro que abalou o segmento, mas
estamos todos em modo de espera para ver o que é crime e o que é apenas
narrativa. Os próximos dias e semanas vão ser importantes.
Como mostrou o GLOBO ontem, o pastor Silas Malafaia, próximo
à família, foi um dos primeiros a se manifestar. Ele vem demonstrando
descontentamento.
— A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver
comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto,
estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se
não tiver, vamos com Flávio — afirmou o pastor da Assembleia de Deus Vitória em
Cristo.
Rodovalho disse ainda que a ex-primeira-dama Michelle
Bolsonaro voltou a aparecer com mais força nas conversas internas do segmento
como eventual alternativa caso a situação de Flávio se agrave:
— Michelle não perderia nada do que já foi conquistado da
transferência de votos do Bolsonaro pai. Ela está no partido e é viável, mas
vamos esperar o presidente Bolsonaro decidir.
Anteontem, a ex-primeira-dama foi questionada publicamente,
pela primeira vez, sobre o envolvimento do senador com Vorcaro. Ela evitou
opinar e afirmou que o pré-candidato à Presidência é quem deve se posicionar.
Agenda na Faria Lima
No mercado financeiro, a repercussão do caso dominou
conversas na Brazil Week, em Nova York, que ocorreu na semana passada, e
ampliou dúvidas entre empresários e investidores que vinham enxergando Flávio
como o nome mais competitivo da direita para enfrentar o presidente Luiz Inácio
Lula da Silva (PT).
Anteontem, porém, o desgaste aumentou após a revelação de
que o senador também procurou Daniel Vorcaro após a primeira prisão do
banqueiro, quando ele cumpria medidas restritivas em São Paulo.
Nas últimas semanas, o entorno do presidenciável do PL vinha
intensificando reuniões reservadas com gestores, banqueiros e empresários em
uma tentativa de apresentar Flávio como um bolsonarista menos radical e
comprometido com responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica.
A crise fez auxiliares defenderem uma aceleração dos
anúncios de propostas econômicas e da agenda pública do senador para evitar que
o desgaste se cristalize no setor.
Foi nesse contexto que Flávio desembarcou novamente em São
Paulo ontem para uma agenda desenhada justamente para conter a deterioração do
ambiente.
O senador participou de um almoço reservado com executivos
ligados à Faria Lima e, à noite, se reuniu com empresários do turismo,
hotelaria, aviação e serviços. Hoje, ainda tem compromissos antes de retornar a
Brasília.
A campanha acompanhou de perto as oscilações no mercado,
inclusive com alta do dólar, a partir da primeira relevação do site Intercept
Brasil. A partir daí, empresários e operadores financeiros passaram a mencionar
com mais frequência alternativas dentro da direita, especialmente o governador
de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que já possuía trânsito consolidado no
mercado pelo perfil empresarial e discurso liberal. Publicamente, contudo,
ainda não há disposição para verbalizar movimentos mais bruscos.
Responsável por organizar um encontro de Flávio com
empresários há dois meses, o presidente da Federação das Indústrias de São
Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, evitou antecipar qualquer mudança de posição:
— Está cedo.
Busca por plano B
Entre empresários e parlamentares ligados ao agronegócio,
interlocutores afirmam que o apoio ao bolsonarismo permanece majoritário, mas
admitem que cresceu o desejo de parte dos produtores e lideranças rurais por
uma alternativa de direita menos sujeita a turbulências políticas.
A resistência ao nome de Flávio já existia antes da crise
envolvendo Vorcaro. Desde a desistência do governador de São Paulo, Tarcísio de
Freitas (Republicanos), da disputa presidencial, parte do setor vinha
demonstrando preferência por nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Zema, ambos
vistos como políticos com perfil mais executivo e maior capacidade de diálogo
com o setor produtivo.
O caso Master aprofundou esse movimento. Zema passou a ser
observado com mais atenção por segmentos ligados ao discurso liberal e
empresarial, enquanto Caiado mantém força junto ao setor rural e segue com
forte interlocução com a Frente Parlamentar Agropecuária.
Apesar disso, integrantes da bancada ruralista minimizam a
possibilidade de afastamento em relação a Flávio.
— O Vorcaro é tóxico, mas nosso entendimento é que isso é
uma marola que passa — afirmou o deputado Lafayette de Andrada (PL-MG),
integrante da Frente Parlamentar Agropecuária
Dirigentes do PL admitem que os próximos dias serão
decisivos. Como revelou o GLOBO, o partido deu um prazo de 15 dias para medir o
impacto do caso e avaliar se Flávio Bolsonaro terá viabilidade diante da
evolução da crise. Ontem, após ser enquadrado por aliados, o presidente do
partido, Valdemar Costa Neto, admitiu que havia dado este prazo, mas modulou o
discurso e afirmou que Flávio tem sua força política “mais sólida do que
nunca”. (Colaborou Sérgio Quintella)
Com a fragilidade atual da candidatura de Flávio, e as
dificuldades que o governo Lula tem para manter a economia em bom estado pode
ser que surja um caminho para um candidato alternativo que supere a polarização
política.
Muito além do resultado das urnas em outubro, as
consequências da derrota de um ou outro dos favoritos momentâneos nas pesquisas
de opinião, ou a vitória de um azarão (dark horse?) que surja, colocarão o
futuro do país em nova encruzilhada. O presidente Lula, cuja possibilidade de
disputar a reeleição aumenta à medida que se enfraquece a candidatura do
senador Flávio Bolsonaro, dificilmente deixará de estar no segundo turno. Mas
pode perder. Aí começa a confusão.
Se desistir, por qualquer motivo, de concorrer, Lula teria
no seu vice, Geraldo Alckmin, um candidato perfeito para enfrentar Flávio,
agregando o eleitorado de centro-direita. Mas ele é um “tucano do PSB”, e o PT
prefere perder com os seus a ganhar com um aliado. Ganhando, Lula encontrará
provavelmente um Congresso de oposição mais conservador que o atual, sobretudo
no Senado. Isso tornará seu quarto governo no mínimo problemático, se não
inviável. O que sairá de um governo sem força política, apoiado por um Supremo
Tribunal Federal (STF) acuado politicamente, com probabilidade alta de
impeachment de ministro, só saberemos quando acontecer.
Um presidencialismo populista de esquerda
com um governo parlamentarista de direita é receita de crise. Só deu certo o
presidencialismo de coalizão enquanto os parlamentares não tinham o controle do
Orçamento, e o presidente da República se impunha pela distribuição de verbas a
seu bel-prazer. O poder do PT é fruto dessa circunstância, devido à cooptação
de apoios legislativos e à força popular de Lula, que leva o partido nas
costas.
À medida que a autonomia do Congresso com as emendas
orçamentárias e os fundos de financiamento foi se cristalizando, o presidente
da República, fosse de que tendência política fosse, foi perdendo o controle da
situação. Foi assim com Dilma Rousseff, que acabou interditada; com Michel
Temer, que se valeu de suas ligações históricas com a Câmara, de que foi três
vezes presidente, para governar; com Jair Bolsonaro, que entregou os anéis a
Arthur Lira para não perder os dedos; e agora com Lula em seu terceiro mandato.
Nada indica que não será assim num próximo, se houver.
Se vencer, o até agora candidato mais forte da direita,
Flávio, governará com o apoio do Congresso e poderá pôr em prática as promessas
de campanha. Algumas são extremamente perigosas, como a anistia a seu pai, o
ex-presidente Bolsonaro, e aos demais condenados pela tentativa de golpe. O
episódio histórico de condenação dos golpistas, inclusive militares, não pode
ser cancelado por uma canetada, pois a punição tem o dom de advertir eventuais
aventureiros, de direita ou de esquerda, de que a sociedade e a comunidade
internacional não aceitam esse anacronismo.
Se, no entanto, a candidatura de Flávio entrar em modo de
autodestruição, pode ser que se abra a porta para outros candidatos desse
espectro político, reforçados pelo antipetismo que sobrevive fortemente no
eleitorado brasileiro. O PSDB representou por anos a fio essa tendência,
vencendo duas eleições no primeiro turno e chegando ao segundo turno em todas
as demais, com uma base de no mínimo 40% de votos. O ex-governador de Minas
Aécio Neves foi o que mais perto chegou de vencer, perdendo por margem mínima na
reeleição de Dilma Rousseff. Já se via ali, com o escândalo do mensalão, e
depois do petrolão, uma brecha para derrotar o PT, que acabou ocupada pelo
bolsonarismo.
Com a fragilidade atual da candidatura de Flávio, e as
dificuldades que o governo Lula tem para manter a economia em bom estado devido
ao crescimento da inflação pelo desequilíbrio fiscal, e pela desatualização da
esquerda brasileira, pode ser que surja um caminho para um candidato
alternativo que supere a polarização política. O ex-governador de Goiás Ronaldo
Caiado está mais moderado que o outro ex-governador, este de Minas, Romeu Zema.
Qualquer um dos dois, porém, pode receber os votos bolsonaristas, se acontecer
o desmonte da candidatura de Flávio. O ministro aposentado do STF Joaquim
Barbosa não me parece essa figura. Mas o fato de partidos estarem em busca de
novos nomes mostra que existe a demanda.
O ano era... 1972, Zé Prado disputa pela primeira vez uma campanha eleitoral, seu adversário era o empresário Carlos Alberto, o “Carrim”. A campanha empolgava todos os sobralenses dos bairros e dos distritos.
Apoiado pelo prefeito Joaquim Barreto, uma das estratégias políticas de marketing para angariar votos de “Carrim” foi distribuir miniaturas de automóveis de plástico para o povo e dizia: “–Vamos de Carrim para chegar primeiro.”
Em contraposição à estratégia de marketing político de "Carrim", a resposta da campanha pradista veio em forma de jingle eleitoral, Pedro Lavandeira fiel amigo e compadre de Prado, fez duas canções: Todo mundo vai a pé, de carro pode virar e Pra ganhar vou a pé.
Após uma acirrada disputa, Zé Prado foi eleito prefeito de Sobral. De 1973 a 1976, Zé Prado e o vice João Edson Andrade administraram a cidade no prédio da atual Câmara Municipal.
É improvável que senadores aceitassem mudar uma regra
para dar vitória ao governo que acabaram de derrotar
O presidente se expõe a um enfrentamento que não tem
capital político nem amparo jurídico para bancar
Chama-se balão de ensaio a ideia plantada no noticiário
político de que o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) cogita
reapresentar ao Senado o
nome de Jorge Messias para
ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal
Federal.
No caso, um balão com muitos furos. O maior deles esbarra na
impossibilidade de os senadores examinarem duas vezes uma indicação na mesma
legislatura. Ato normativo da Mesa da Casa, em tese poderia ser revogado
mediante negociação entre as presidências da República e do Congresso.
E aí temos o segundo furo no balão. Davi
Alcolumbre (União-AP) e Lula não
estão exatamente em posição de boa vontade mútua, condição essencial à
construção exitosa de entendimentos.
As tentativas de recomposição feitas por intermediários
ainda não deram resultado, como observamos no distanciamento entre os dois na
posse de Kássio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior
Eleitoral.
Alcolumbre manda, mas o peso do seu comando é lastreado no
maior ou menor apoio que tenha de seus pares. Ainda que se dispusesse a atender
a conveniências do Palácio do Planalto, dependeria de sustentação no colegiado
para levar a ação adiante.
Eis, então, o terceiro furo a ser remendado: convencer os
senadores que acabaram de derrotar o governo a mudar uma regra para anular o
próprio gesto de contrariedade. Não é impossível, mas altamente improvável.
Considerando que o governo saiba de todos esses obstáculos,
a propagação da ideia de que haveria insistência na indicação atenderia a dois
possíveis propósitos: testar se houve mudança de clima depois da trombada das
conversas de Flávio
Bolsonaro (PL)
com Daniel
Vorcaro ou apenas marcar posição de autoridade de Lula na prerrogativa
de indicar juízes ao STF.
Ambas as hipóteses de frágil —para não dizer inexistente—
efeito prático. Se há outras intenções, por ora permanecem ocultas. Fato é que
Lula se expõe inutilmente a um enfrentamento que não tem capital político nem
amparo jurídico/institucional para bancar.
Condescendência com acusações e instabilidades ligadas ao
clã não se explica nem por dados econômicos e fiscais do governo de Jair
A forma como parte da elite econômica e política espera para
ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase
diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno
conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência
desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é
capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da
profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos
incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico
antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras
inconsistências.
Os quatro anos de mandato de Bolsonaro
trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já
senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de
rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo
Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais
compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo —
e tudo foi aceito.
A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência,
disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se
“passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando
de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava
de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.
Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem
precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a
quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do
cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo
ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se
a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas
de casa armadas de batom.
Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de
uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para
melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de
diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado
por tramar um golpe de Estado.
E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores
de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto
de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria
família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos
Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o
Brasil.
Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio
pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado
para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma
transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a
motociata siga.
É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal
complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo
do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse
acervo do “azarão” e sua prole.
O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não
explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente
excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira,
inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas
gestões petistas.
As pesquisas e as novas revelações (que não param de
aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura.
Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o
sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser
explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.
Luísa Marzullo, Letícia Pille e Lauriberto Pompeu / O Globo
Cúpula do PL vê prazo de 15 dias para avaliar viabilidade da
candidatura de Flávio após conversas com Vorcaro
Desconfiados das versões apresentadas pelo senador e com
medo de novos fatos, ala do partido já defende a busca por opções ao Planalto
Pressionado pelo próprio partido a explicar sua relação com
o banqueiro Daniel
Vorcaro, o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio
Bolsonaro, admitiu ontem mais um fato que havia sido omitido dos próprios
aliados. Além de pedir dinheiro ao banqueiro para uma cinebiografia de seu pai,
o ex-presidente Jair
Bolsonaro, o senador confirmou que fez uma visita ao dono do Banco Master
depois de ele ser preso, no fim do ano passado. À época, Vorcaro usava
tornozeleira eletrônica e estava impedido de deixar São Paulo. A nova revelação
abalou as bancadas do partido no Congresso e consolidou o entendimento, para
parte dos colegas, de que um acontecimento novo pode sepultar a candidatura do
senador.
Publicamente, integrantes do PL trataram o
caso apenas como um novo revés, mas as justificativas apresentadas foram
consideradas pouco plausíveis. Integrantes da cúpula avaliam que, de 10 a 15
dias, será o tempo para reavaliar se Flávio terá condições de prosseguir como
candidato e se as denúncias serão relevantes eleitoralmente.
‘Um ponto final’
Flávio sustenta que só foi ao encontro do dono do Master
para colocar um “ponto final” em questões relacionadas ao patrocínio do longa.
Como revelou o Intercept Brasil, Vorcaro autorizou o repasse de R$ 61 milhões
ao filme “Dark horse”, transferência investigada pela Polícia Federal (PF). A
mesma reportagem revelou áudios em que Flávio cobra parcelas atrasadas do
banqueiro.
— Fui, sim, até o encontro dele (Vorcaro). Ele estava
restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele — disse
Flávio, na manhã de ontem, minutos depois de o encontro ser revelado pelo
portal Metrópoles. — Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final
nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave
como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o
filme não correria risco.
O senador afirmou que o único assunto tratado com Vorcaro,
tanto por telefone quanto pessoalmente, foi o financiamento do filme. Segundo
relatos feitos ao GLOBO, a avaliação interna é que a candidatura de Flávio
passaria a ser considerada “inviabilizada” se aparecerem fatos que contradigam
a versão de que sua relação com o dono do Banco Master esteve restrita
exclusivamente ao longa.
A revelação da visita se junta a uma série de turbulências
que a campanha de Flávio vem enfrentando antes mesmo de vir à tona sua
proximidade com Vorcaro. A escolha de um ex-policial civil para chefiar a
comunicação havia irritado uma ala do PL. A postura do senador durante operação
que mirou Ciro Nogueira (PP-PI), há duas semanas, ajudou a afastar parte do
Centrão, que deve optar pela neutralidade na corrida presidencial. Após a
revelação da troca de áudios entre o senador e o banqueiro, versões desencontradas
do pré-candidato, de Eduardo
Bolsonaro e de produtores do projeto, como o deputado Mario
Frias (PL-SP) e a empresa Go Up, levantaram dúvidas sobre a veracidade
das informações.
Depois de passar os últimos dias em reuniões reservadas com
Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério
Marinho, Flávio reuniu ontem cerca de 70 deputados e senadores do partido
em Brasília. Aliados ainda demonstram incômodo com a condução política do caso
e com a forma como o senador reagiu publicamente às revelações.
Ao tentar reverter a situação para o seu eleitorado, o
pré-candidato chegou a divulgar o trailer do filme nas redes sociais.
Interlocutores próximos a Valdemar afirmam que cresceu na cúpula do partido a
avaliação de que o PL precisa começar a olhar opções caso novos desdobramentos
atinjam o filho do ex-presidente.
Qualquer mudança, porém, teria que passar pelo crivo do
ex-presidente, que está em prisão domiciliar, onde mantém diálogo frequente com
Flávio.
No caso de a candidatura não se viabilizar, hoje três
figuras aparecem como principais possibilidades: Michelle Bolsonaro, a
senadora Tereza
Cristina (PP-MS) e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da
pré-campanha de Flávio. Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado
da família, Silas Malafaia resume o ambiente da pré-campanha.
— A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver
comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto,
estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se
não tiver, vamos com Flávio.
Outros preferem fazer defesa enfática do candidato do PL à
Presidência.
— Não existe nenhuma chance de Flávio ser substituído — diz
Marinho.
Os últimos acontecimentos geraram desconforto inclusive
entre aliados da família Bolsonaro. O influenciador Paulo Figueiredo, próximo
de Eduardo, afirmou publicamente que a oposição enfrenta um problema de
“comunicação e política”. Já Eduardo admitiu em uma transmissão ao vivo que o
grupo demorou a reagir justamente para evitar contradições.
A ordem agora dentro do PL é reorganizar o discurso e evitar
que Flávio fique acuado. O entorno do senador defende ampliar agendas públicas,
reforçar viagens pelo país e intensificar encontros com empresários. Ele viaja
para São Paulo hoje, onde deve ter encontros com a Faria Lima.
Desculpas e cobranças
Durante a reunião com parlamentares do PL, Flávio pediu
desculpas por não ter explicado antes detalhes da relação com Vorcaro, afirmou
diversas vezes que “não há mais nada” além da negociação envolvendo o filme e
tentou convencer os colegas de que a crise pode ser superada politicamente.
Flávio ouviu cobranças e parte dos presentes queria entender se Flávio já havia
contado tudo o que sabia ou se o partido ainda corre risco de ser surpreendido.
Flávio também tentou sustentar a tese de que jamais teria
deixado registros tão explícitos em mensagens e áudios se acreditasse estar
diante de algo ilegal. Para integrantes do PL, essa passou a ser a principal
linha de defesa construída pelo entorno bolsonarista: a de que houve erro
político e imprudência, mas não consciência de eventual irregularidade.
Mais tarde, em evento da Marcha dos Prefeitos, que ocorre em
Brasília, o presidenciável decidiu alegar que estava sendo “perseguido”, mas
sem explicar em detalhes o encontro que teve com o dono Master.
Direita diz que vai esperar um mês de pesquisas antes de
pensar em alianças
Gente do PL diz que candidatura está no lucro, pois
cresceu cedo e tem gordura
A candidatura de Flávio
Bolsonaro está no "lucro", diz gente do PL, partido do
senador fluminense. O que quer dizer? Que o pré-candidato teve um desempenho
melhor do que o esperado no início da pré-campanha, que empatou com o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas "muito
precocemente" e, por isso, "está muito bem-posicionado".
Quase a cada dia surgem versões novas do relacionamento de
Vorcaro com os Bolsonaro e a
produção do filme de propaganda de Jair. Mais importante, ainda não sabemos
como o tutu foi gasto e quais instrumentos foram utilizados para fazer o
trânsito do dinheiro e das justificativas de quanto passou em cada conta,
fundo, empresa. Teve sobra de caixa? Superfaturamento de custos de transação do
tráfego dos recursos ou outros? Não é por acaso que gente como Vorcaro usa
"fundo do fundo do fundo" para sumir com dinheiro.
Flávio Bolsonaro disse que vai apresentar as contas "em
trinta dias", como aqueles prazos de esclarecimentos de acidente de avião,
queda de ponte ou apagão. O vencimento da promessa seria em 18 de junho véspera
do jogo do Brasil com o Haiti na Copa.
O pessoal do PL acredita que a "espuma da narrativa vai
passar" até por causa disso, Copa, festa junina e, principalmente, porque
apareceriam más notícias econômicas para o governo Lula: taxas de juros altas
por mais tempo, criação de emprego "caindo".
Flávio
Bolsonaro vai participar da Marcha para Jesus em São Paulo, no início de junho. "Vai
mostrar", diz gente do PL, que não perdeu apoio de evangélicos, vários
irritados com o escândalo Vorcanaro, assim como a dita "direita
limpinha" e influencer (que, no entanto, faz menos de uma semana não se
importava com o histórico de sujidades dos Bolsonaro).
O
pessoal do centrão mal quer falar do assunto. Algumas lideranças dizem
que prejuízos locais já estão dados. Alianças difíceis se tornaram inviáveis,
mas não seriam lá tantas. Outros dizem que não há informação para falar ou
agir. Isto é, vão esperar para ver até onde vai a onda atual de mentiras de Flávio
Bolsonaro e "um mês de pesquisas" (para medir o tamanho do estrago).
Mais importante, não haveria o que fazer porque não há alternativa visível, nem
para agregar o antipetismo, e porque acordos não haviam sido fechados. Por fim,
parte menor do centrão iria com Lula 4 mesmo, por conveniências regionais, e
uma outra parte, menos comprometida com a extrema direita, pode mudar de barco
a depender do grau de conveniência —expectativa de poder, desempenho nas
pesquisas dos presidenciáveis ou o próprio desempenho do político, embora o
escândalo novo de Flávio dificulte o cálculo do vira-casaca.
O motivo principal da inação, porém, é a falta de
alternativa.
"Nada ficou provado contra mim", diz João
Caldas, barrado pela Lei da Ficha Limpa em 2022; ex-deputado compara novo
pré-candidato a Neymar
Morreu por falta de votos a candidatura de Aldo Rebelo ao
Planalto. Sem alcançar 1% nas pesquisas, o ex-comunista foi rifado pelo
Democracia Cristã. O presidente da sigla, João Caldas, recorre ao futebol para
explicar a decisão: “Seu time está perdendo e tem um perna de pau em campo.
Você deixa ele lá ou chama o Neymar, que está no banco?”.
O Neymar do DC é Joaquim
Barbosa, o ex-ministro do Supremo. A exemplo do atacante do Santos, seu
maior trunfo é o passado. O auge da popularidade foi em 2012, no julgamento do
mensalão.
Há oito anos, Barbosa ensaiou disputar a
Presidência pelo PSB. Desistiu alegando razões pessoais. “Ele viu que tinha
gente puxando o tapete. Aqui isso não vai acontecer. Joaquim é uma
u-na-ni-mi-da-de”, diz Caldas, recitando uma sílaba por vez.
O DC era o partido de Eymael, nanico que disputou seis
eleições presidenciais. Sua aposentadoria abriu caminho para Caldas,
ex-deputado alagoano. Em quatro décadas na política, ele já passou por PMDB,
PMN, PL, PSDB, PEN e União Brasil. Convenceu-se de que o eleitor não dá a
mínima para o troca-troca.
“O povo não escolhe partido, escolhe candidato. O Collor foi
eleito pelo PRN e o Bolsonaro pelo PSL”, lembra. Questionado se Barbosa também
usaria o figurino de salvador da pátria, ele desconversa: “Nada a ver. O
Joaquim é preparadíssimo!”.
Segundo Caldas, o ex-ministro teria o perfil certo para
pilotar uma República desgovernada. “Qual é a lei que vale no Brasil? Só a do
jogo do bicho, onde vale o escrito”, ironiza. “O país está uma bagunça, e ele
vai botar ordem na bagunça”, promete.
Apesar do entusiasmo, o Ancelotti do DC não sabe dizer se
seu Neymar tiraria votos de Lula ou
de Flávio
Bolsonaro. “Aí eu teria que ser um palpiteiro. Mas, quando a gente mostra a
foto dele, o povo vibra como se fosse gol”, empolga-se.
Doze anos depois de pendurar a capa preta de ministro,
Barbosa ainda tem a imagem associada à condenação dos mensaleiros. “Tem uma
turma aí com medo dele, né?”, provoca Caldas. O presidente do DC diz não
integrar esse time, embora já tenha sido condenado por corrupção no escândalo
da máfia dos sanguessugas.
Em 2022, ele tentou virar suplente de senador e foi barrado
pela Lei da Ficha Limpa. “Fui vítima de acusações levianas. Nada ficou provado
contra mim”, discursa. Por via das dúvidas, o ex-deputado não deve ser
candidato em outubro. “Meu projeto agora é trabalhar nas costuras. Vou virar um
office boy de luxo”, anuncia.
As campanhas de Zé Prado eram marcadas por vários
jingles/paródias que se tornaram memoráveis, entre eles: Falam de Mim, Andar com Fé, Vai Vai Vai Vai... Mas
entre tantos que se destacaram, um virou o hino da carreira política
pradista: Bandeira
Branca.
Conhecida na voz magnifica de Dalva de Oliveira, a música
ganhou uma versão feita pelo poeta popular Pedro Lavandeira, amigo fiel e
compadre de Zé Prado. Quando o clima ficava quente na campanha, Prado pedia
para o compadre Lavandeira cantar Bandeira Branca.
Próxima quarta-feira, 26 de maio, completa 27 anos que José
Parente Prado faleceu. Para lembrar a trajetória política desse líder, o
blog Sou Chocolate e Não Desisto realiza a 17ª edição da
“Semana Bandeira Branca”.
Um dos maiores líderes políticos do Ceará, Zé Prado foi
secretário municipal, deputado estadual por três legislaturas e duas vezes
prefeito de Sobral (CE).
A “Semana Bandeira Branca” terá fotos, jingles, vídeos e
postagens com histórias que marcaram as campanhas políticas de Zé Prado.
Paulo Motoryn, Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker
e Mauricio Moraes, The Intercept Brasil
ÁUDIO: Mario Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a
filme sobre Jair Bolsonaro
Essa é uma edição especial da newsletter Cartas Marcadas,
assinada por boa parte dos autores da investigação que chacoalhou o Brasil nos
últimos dias. A proposta inicial do mês de maio é que esse espaço seria
dedicado apenas a reportagens sobre a tramitação da escala 6×1.
Fizemos isso nas primeiras duas semanas, nos debruçando
sobre o lobby empresarial que usa a extrema direita para atravancar a proposta.
Mas, no meio do caminho, veio um turbilhão. O Intercept Brasil publicou o
maior furo jornalístico do país desde as revelações da Vaza Jato:
as mensagens secretas que colocam a família Bolsonaro no centro do escândalo do
Banco Master, de Daniel Vorcaro.
É claro que não abriremos mão de nossa cobertura da urgente
luta dos milhões de trabalhadores que suportam o desumano regime 6×1. Mas
faremos uma pausa porque sabemos que a nossa audiência anseia por mais
informações sobre a relação do bolsonarismo com o Banco Master.
Portanto, resolvemos mudar os planos e, nesta semana,
brindar os leitores com mais um capítulo de nossa investigação: o áudio e as
mensagens de texto que revelam a proximidade de mais um líder da extrema
direita no Congresso com Daniel Vorcaro. Vamos aos fatos.
Pouco menos de uma hora após o horário em que estava
previsto um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro,
e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, no dia 11 de dezembro de 2024, em
Brasília, o deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, enviou um áudio
ao banqueiro agradecendo pelo apoio ao filme “Dark Horse”.
Na gravação, obtida com exclusividade pelo Intercept, Frias
afirma que o longa sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita
gente”, será “muito importante para o nosso país” e pede autorização para
informar Vorcaro sobre o andamento da produção.
O registro mostra intimidade entre Frias e Vorcaro, algo que
o deputado vem tentando esconder. Na semana passada, após o Interceptrevelar
que o senador Flávio Bolsonaro havia
negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme “Dark
Horse”, Frias disse que o banqueiro não
havia dado “um único centavo” para o longa-metragem.
Cerca de 20 horas depois, o deputado emitiu outra nota e
disse que havia “uma
diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”. Ele
destacou apenas que Vorcaro ou o Banco Master não haviam aparecido como
investidores. A postura demonstra um distanciamento entre os dois – uma versão
que um áudio e mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept desmontam.
O conteúdo indica que, além de produtor-executivo de “Dark
Horse”, o ex-secretário especial de Cultura de Jair Bolsonaro atuava
diretamente na articulação do filme financiado pelo banqueiro, que viria a ser
investigado pela maior fraude bancária da história do país.
Na gravação, enviada por WhatsApp para Vorcaro em 11 de
dezembro de 2024, às 18h24, Frias diz: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer
com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá?
Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?”
Imediatamente depois, Vorcaro responde: “Eu to numa ligação te chamo em
seguida”. Frias diz “Blz” e, às 19h06, os dois se falam por ligação de voz
durante cerca de 2 minutos.
Como já apontamos no início do texto, o agradecimento veio
menos de uma hora após o horário previsto para o encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro, naquele dia, na residência do banqueiro em Brasília.
Segundo mensagens reveladas pelo Intercept, a reunião foi organizada por Thiago
Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para tratar do financiamento do
filme biográfico internacional sobre Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro participava de uma reunião da Comissão de
Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ, no Senado naquele dia e deixou a sua
cadeira por volta de 17h30, no horário em que havia sido marcado o encontro. Só
voltou às 18h, o que indica que uma possível participação na reunião teria
ocorrido de forma remota ou em outro local. O Intercept não conseguiu confirmar
se o encontro, de fato, ocorreu.
Na sequência do áudio, Frias mandou novas mensagens ao
banqueiro. Em 15 de dezembro de 2024, o deputado enviou uma captura de tela a
Vorcaro que exibe uma troca de mensagens entre ele e o diretor Cyrus Nowrasteh,
revelando negociações preliminares para a produção de uma obra sobre “um homem
comum que se tornou presidente por um milagre”.
No diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator
Jim Caviezel sobre o projeto, alertando, contudo, que o astro fará duas
perguntas: “1) Posso ler o roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?”.Frias
respondeu que o ator “será imortalizado por esse papel”.
Abaixo do print, Frias escreveu para Vorcaro:
“Milagres só são possíveis quando a fé”, “Esse é um desses milagres” e “Vai ser
a maior super produção de uma história brasileira”. Aparentemente, na primeira
frase, o parlamentar quis dizer “quando há fé”.
Em 22 de dezembro de 2024, houve outra conversa entre o
deputado e Vorcaro. O banqueiro disse, às 10h19, que estava na igreja e
prometeu chamá-lo quando saísse. Frias não se conteve e, uma hora e 16 minutos
depois, antes mesmo que Vorcaro avisasse que estava disponível, escreveu que o
filme seria “o grande milagre”, capaz de tocar “milhões de pessoas em todo
mundo”, e teria “um papel histórico imprescindível para as futuras gerações”.
Disse ainda que o longa-metragem sobre o ex-presidente era uma “questão de
justiça divina”, ao que Vorcaro respondeu, às 11h40: “Tenho certeza disso”. “JB
precisa ter sua verdadeira história revelada”, acrescentou Mario Frias. Em
outra mensagem, afirmou: “2026 é do Brasil” e depois, frisou: “Deus te abençoe
meu Brother”.
As mensagens mostram que a relação entre Frias e Vorcaro ia
além de um contato protocolar entre um potencial investidor e um produtor. O
deputado também chamava o banqueiro de “meu irmão”, fazia elogios em tom
religioso e demonstrava acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.
Frias, que foi produtor-executivo de “Dark Horse” e
peça-chave na articulação da obra com o banqueiro investigado pela maior fraude
bancária do país, passou a propagar mentiras nas redes sociais, na tentativa de
descredibilizar as reportagens do Intercept.
Como revelamos no
último sábado, o parlamentar compartilhou, no dia 14 de maio, publicações
falsas alegando que o Intercept teria recuado sobre as cifras do filme sobre a
vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por
Frias expõe uma rede de desinformação financiada e estruturalmente ligada ao
PL, partido do deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner
Leandro de Lima, secretário parlamentar do também deputado federal André
Fernandes, do PL do Ceará e tesoureiro da sigla no estado.
Já a página Hora Brasília é registrada em nome de uma
empresa de Hugo Alves dos Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo
Eustáquio. A firma de comunicação atuou nas eleições de 2024 como fornecedora
de duas campanhas do PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador, em
Atibaia, no interior de São Paulo. Foi nessa cidade que Fabrício Queiroz,
ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi
preso, em 2020, na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederik
Wassef, num desdobramento da investigação que apurava o esquema de rachadinhas
na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Outro lado
Após a publicação da primeira reportagem da série, a defesa
de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas
afirmou que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre
idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo
os advogados, Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em
nome do banqueiro.
A defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas
conversas privadas decorria da “dimensão artística e cultural do projeto”.
Procuramos Mario Frias nesta terça-feira, 19, por meio de sua assessoria. Não
houve resposta até a publicação desta reportagem.
O PL também foi procurado, mas não respondeu. O espaço segue
aberto.
A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada, mas informou que
ele não vai se manifestar.