segunda-feira, 2 de novembro de 2026

NOSSA SENHORA APARECIDA, ROGAI POR NÓS

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Campanha eleitoral de 2026 mostra racismo cada vez mais escancarado no Brasil

PEC da redução da maioridade penal é exemplo mais revelador da situação

A campanha eleitoral de 2026 foi bastante reveladora a respeito do quanto o racismo, essa deformação moral que se instalou na sociedade brasileira, está arraigado e cada vez mais escancarado no Brasil. Para refrescar a memória, cito alguns atos e fatos marcantes.

Teve homem branco conduzindo homem negro acorrentado (vestido de vermelho e carregando um tridente) durante uma manifestação da extrema direita no RJ. Além da clara associação com a escravização, será que se tratava também de uma alusão a Exu, orixá de matriz africana?

Teve parlamentar branca estalando chicote rua afora para comemorar a vitória eleitoral, em SC. Até os mais distraídos são capazes de associar essa atitude aos castigos físicos impingidos aos negros escravizados durante séculos.

Contudo, o exemplo mais revelador diz respeito à PEC (proposta de emenda constitucional) que reduz a maioridade penal. Para espanto de muita gente (o que me inclui), a iniciativa foi defendida pela oposição e pela situação na corrida à Presidência da República.

Como se sabe, a esmagadora maioria dos adolescentes que se encontram no sistema socioeducativo brasileiro é negra, pobre, vive em situação de vulnerabilidade social e tem baixa escolaridade. Essa combinação os deixa mais expostos à violência e à criminalidade, o que torna evidente o impacto de natureza étnico-racial da PEC em questão.

E nada indica que reduzir a maioridade penal implica queda da criminalidade ou aumento da segurança pública. A criminalidade juvenil representa uma fração bem pequena dos crimes cometidos no país. Adolescentes respondem por menos de 1% dos crimes e por 0,5% dos homicídios e tentativas de homicídio no Brasil (Instituto Sou da Paz).

Para piorar, a inserção de adolescentes no sistema penitenciário junto de adultos facilitaria o recrutamento de menores por facções criminosas. Concluo pedindo que Nossa Senhora Aparecida, uma santa preta, padroeira do Brasil, que também não foi poupada durante a eleição, rogue por nós.

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BOLSONARISTAS ENROLAM JORNAIS COM ROTEIRO TÍPICO DE STEVE BANNON

Ombudsman, Folha de S. Paulo

Estratégia para despistar fuga expõe armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, do complicado declaratório em off

Vaivém sobre itinerário e trapalhadas de carta golpista de Flávio Bolsonaro repetem receituário do ideólogo de Donald Trump

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça (27), quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.

Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".

Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".

Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.

Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.

O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.

Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.

O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".

A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.

Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".

Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.

Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.

O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".

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LULA E O MERCADO

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S. Paulo

Decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade produzem consequências nefastas para a sociedade

O governo Lula e os petistas em geral padecem de uma grave enfermidade. Desconhecem como controlar o mercado, acreditando que o Estado é uma espécie de demiurgo que tudo pode dominar. Têm uma crença desmedida em suas ações, como se elas obedecessem, em seus efeitos, à sua vontade. Ocorre que decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade, como se o mercado fosse constituído por relações pessoais e não por regras impessoais, produzem consequências nefastas para a sociedade. A política, quando bem pensada e conduzida, deveria corresponder a ideias fundadas na racionalidade econômica.

O mercado funciona segundo regras que possuem uma autonomia própria, semelhante a leis que regulam os fenômenos naturais. A política não tem o condão de dominar essas leis, embora possa influir em seu funcionamento ou em seu mau funcionamento. E em nosso mundo, tal modo de funcionamento não vigora em nível apenas nacional, mas também internacional. Um evento de quebra de um grande banco na Europa ou nos EUA afeta diretamente o sistema financeiro e logo econômico em nosso próprio país. As pessoas e as empresas atuam nesse processo, apesar de não poderem alterar as suas regras. Podem, isso sim, extrair lucros e dividendos, se souberem deles bem se aproveitar, podendo igualmente padecerem prejuízos e perdas se delas se afastarem.

O governo Lula vive numa ficção. Por exemplo, estabelece um arcabouço fiscal para, em momento seguinte, o desobedecer, estabelecendo exceções que seguem uma determinação jurídica e política. Dirão imediatamente que tal exceção estaria contemplada nas regras do arcabouço, seguindo uma determinação legal. São precatórios, despesas variadas, subsídios e favorecimentos múltiplos que caracterizam o que chamam de política de governo. É como se tudo que fosse legalizado dessa maneira estivesse justificado. Em consequência, estabelece-se como regra geral a gastança desordenada como a que observamos no processo eleitoral, como se tudo fosse possível, como se sua única consequência fosse a vitória eleitoral, quando o que foi criado foi a desordem financeira e econômica. Festejam a vitória desfazendo o País. É um champanhe com veneno.

Acontece que a farra ou a embriaguez paga o seu preço.

A dívida pública cresce, uma vez que segue suas próprias regras, independentemente da decisão legal que a embasou. E para financiar a dívida crescente, é necessário ter compradores que acreditem na capacidade de pagamento do Estado assim endividado. Quanto menor credibilidade tiver, maior será o juro cobrado e o crédito para empresas e pessoas, aumentando o prêmio de risco e fazendo disparar o dólar, os juros imediatos e os de longo prazo. Logo, o Estado terá um custo crescente para o financiamento da dívida, a taxa Selic sofrerá suas consequências mantendo-se elevada, a inflação será pressionada e assim por diante. De nada adianta, diante de tal quadro, simplesmente afirmar que tudo foi legal.

Note-se o efeito imediato da vitória de Lula. Queda vertiginosa da Bolsa, alta do dólar, juros futuros elevados e prêmios de risco maiores. E tudo isso ocorre independentemente do que tal empresário ou banqueiro disser, porque também ele deve necessariamente seguir as regras de mercado, sob pena de falir. Um governo que transmite insegurança jurídica e menospreza a economia de mercado não pode pretender que outros acreditem nas narrativas que apresenta, a exemplo da célebre afirmação de Lula de que todo gasto é investimento. As regras da contabilidade e da matemática vão para o espaço.

Outro exemplo dessa encenação canhestra é a crença de que basta uma conversa com a “Faria Lima” para que tudo volte ao normal. Lula envia um ministro para apaziguar os seus interlocutores como se tudo estivesse, então, resolvido. A premissa é completamente falsa, visto que relações pessoais de ministros com lideranças empresariais e financeiras não têm a faculdade de alterar as regras impessoais do mercado. Por mais importante que seja uma empresa, ela não deixa de ser um agente econômico e financeiro que está destinado a seguir as regras de mercado, sob pena de naufragar se não o fizer. São agentes de leis e regras que os ultrapassam e sobre as quais não exercem nenhum controle.

Claro que se poderia aduzir que o mercado é uma construção histórica, diferente de um fenômeno natural, que poderia consequentemente ser alterado ou revolucionado para utilizar um vocabulário esquerdizante. A proposta seria a abolição da economia de mercado, com o Estado tudo determinando, inclusive a vida pessoal de cidadãos tornados servos. A história não aconselha tal opção, a menos que queiramos seguir os exemplos comunistas, como a ex-União Soviética, Camboja, Coreia do Norte e Cuba. Sociedades miseráveis, opressivas e liberticidas. Se essa não for a escolha, mais sábio seria seguir as regras de uma economia livre.

Lula e o PT têm um encontro marcado com o mercado, embora finjam que nada de grave está por vir.

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ENFRENTAMENTO ÀS BIG TECHS

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Perda de maioria legislativa não seria o maior incentivo para Trump se aproximar de Lula

Bravata de Lula contra as plataformas digitais é uma demonstração de como ainda há elementos capazes de manter as tensões entre Brasil e Estados Unidos em alta

No discurso após sua reeleição, no domingo, dia 25, o presidente Lula prometeu regular as plataformas digitais, que teriam servido de instrumento para uma “intromissão” externa na eleição brasileira. Trata-se, antes de tudo, de levantar uma bandeira cara à esquerda mundial, que defende a aprovação de leis para evitar que o poder das novas tecnologias fique concentrado nas mãos de grandes corporações privadas — insistindo na velha lógica da disputa sobre quem tem o controle dos meios de produção.

Há quem, corretamente, alerte para o risco de exagerar na dose da regulação, permitindo ao Estado praticar censura ou inibir a inovação.

Há, também, duas mensagens com destinatários externos na promessa de Lula. São eles o presidente americano Donald Trump e os chefes das big techs, as grandes empresas digitais, que incentivaram a adoção de tarifas de importação e outras estratégias de pressão contra o Brasil. A mensagem para Trump pode ser resumida assim: a derrota de Flávio Bolsonaro é também sua derrota; isso significa que há um limite para sua influência no Brasil e o melhor é buscar nossa colaboração pela via da negociação.

Já a mensagem para Mark Zuckerberg, da Meta, e seus colegas é a seguinte: vocês também perderam — vamos manter o Pix, nossas leis de comércio eletrônico e decisões concorrenciais — e agora vem o troco.

A bravata de Lula contra as plataformas digitais (era mesmo necessário levantar essa lebre no dia da vitória?) é uma demonstração de como ainda há elementos capazes de manter as tensões entre Brasil e Estados Unidos em alta. Há uma tentação de enxergar a eleição legislativa da próxima terça-feira, nos Estados Unidos, como o grande divisor de águas na relação bilateral, como se uma eventual vitória dos democratas pudesse forçar Trump a mudar de postura e buscar uma aproximação com Lula. Mesmo com maioria, a oposição no Congresso teria capacidade limitada de bloquear a política externa de Trump.

Como no caso da regulação das plataformas digitais, uma agenda à qual ele se opõe em todo o mundo, o que de fato vai pautar os próximos passos do presidente americano em relação ao Brasil é, primeiro, o reconhecimento de que Lula será seu interlocutor obrigatório pelos próximos anos, e, segundo, a avaliação sobre se a estratégia de pressão está funcionando ou não. Apesar dos sinais dúbios, a resposta para a primeira questão parece ser sim.

A segunda depende muito de como o governo Lula vai agir daqui para frente. Manter o tom de confronto depois de superada a fase de campanha não é o melhor caminho.

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QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE

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domingo, 1 de novembro de 2026

ALÍVIO DEMOCRÁTICO

Rodrigo Nunes*, Folha de S. Paulo

Lula 4 dá fôlego à democracia, mas extrema direita não foi embora com Flávio

Um governo apenas de normalização institucional é muito pouco contra ameaças que nos assombram

Será indispensável manter mobilização social e ousadia para emparedar bolsonarismo

[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar para 2030 desde já.

Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.

Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após escapar por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como segue crescendo.

Embora o salto à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não fosse esperado, tudo mais nos resultados daquele dia não deveria ser surpresa.

Malgrado a derrota na disputa presidencial de 2022, o voto bolsonarista continuou se ampliando e capilarizando desde 2018, conforme se pôde observar nas três últimas eleições, com a consolidação de sua presença no Congresso, nos governos e legislativos estaduais, nas prefeituras e câmaras de vereadores.

Em vez de uma virada de maré, o triunfo de Lula quatro anos atrás foi a recaptura do último bastião que ainda não estava plenamente nas mãos da extrema direita.

Se aquela eleição viu um dos melhores presidentes da história do Brasil bater o pior por uma margem mínima, 2026 obrigou Lula a correr atrás do resultado contra um candidato que não é o político mais expressivo nem de sua própria família —e o reconduziu ao governo para quatro anos sob o cerco permanente de um adversário hostil e empoderado.

Nas últimas semanas, um termo circulou para caracterizar esse cenário: haveria uma revolução de extrema direita em curso no país. Por um lado, tratar-se-ia de uma revolução cultural, visível, por exemplo, no avanço de todo um universo de valores e referências associados ao agronegócio ao longo da fronteira agrícola em expansão no interior do Brasil.

Uma revolução cultural também no modo como a extrema direita soube dar forma aos desejos e frustrações dos atletas da viração nas cidades grandes e médias: motoboys, motoristas de aplicativo, aspirantes a influencers e outros trabalhadores em situação permanente de sub e multiemprego que se identificam com a promessa de um mundo em que menos regulação e impostos possam impulsionar seus voos pessoais.

Revolução cultural, finalmente, no crescimento das igrejas evangélicas nas periferias e na ascensão dos empreendedores políticos: influenciadores digitais que fizeram da agitação de extrema direita uma carreira lucrativa e que, em muitos casos, lograram converter em votações estrondosas seu considerável capital midiático.

Mas o termo se justificaria sobretudo porque é a extrema direita que tem sabido melhor do que ninguém encarnar um desejo de ruptura que paira no ar há algum tempo —uma mistura de desencanto com as promessas da democracia e da modernidade, indiferença a instituições vistas como elitistas e corruptas, um sentimento de que as coisas não podem seguir como estão e uma dificuldade profunda de imaginar como elas poderiam ser diferentes.

Trata-se de uma revolta que acaba por ser extremamente conformista, na medida em que não se traduz em projetos coletivos de combate à explosão da concentração de poder econômico e político das últimas décadas, mas na aposta em figuras que prometem um ambiente mais desregulado de competição de todos contra todos. Isso, contudo, não a torna menos urgente para quem adere a ela.

Revolução ou Aceleração?

Todos os elementos dessa análise estão corretos —e, no entanto, a palavra "revolução" não deixa de causar ruído. Não porque ela seja privilégio exclusivo da esquerda ou porque tenha um conteúdo determinado, mas porque falta à ascensão da extrema direita uma característica que parece essencial ao conceito: a de ir a contrapelo do atual estado de coisas.

Em cada um dos pontos acima, é possível dizer que o sucesso da extrema direita vem menos de sua capacidade de andar na contramão da história e mais de sua aptidão para navegar os ventos favoráveis das quase duas décadas de crise permanente que vieram na esteira da debacle financeira de 2008.

A internalização do empreendedorismo de si mesmo —aquilo que Verónica Gago chamou de "neoliberalismo desde baixo"— não é um fenômeno recente, mas o resultado cumulativo de cinco décadas de reformas neoliberais que reformataram o mundo em que vivemos.

O advento da plataformização e das redes digitais contribuiu para acelerar este processo, bem como o da colonização da política pela economia da atenção que fez crescer exponencialmente o poder das big techs, inclusive aquele de intervir diretamente em eleições, ao mesmo tempo que abria aos empreendedores políticos um mercado gigante de instrumentalização da raiva, do ressentimento e do ódio.

Neste processo, também as igrejas evangélicas funcionaram menos como inovadoras do que como organismos especialmente adaptados a um novo mundo que se formava.

Ocupando espaços deixados pela ausência do Estado e pela retirada da Igreja Católica de áreas mais pobres, elas ofereciam apoio a indivíduos expostos a condições cada vez mais hostis e uma mensagem adequada às circunstâncias, de esforço e salvação individuais.

Durante um tempo, os desejos despertados por essa reformatação da vida social e da subjetividade puderam se projetar em cenários de expansão: a globalização e a abertura ao capital internacional, bolhas especulativas como a da internet e a do mercado imobiliário. Com o estouro desta última, a situação mudou no mundo todo.

No Brasil, o fim do ciclo das commodities em 2015 fez com que mesmo alguns dos pilares do sucesso petista se voltassem contra o partido. Em 2026, o voto bolsonarista cresceu no Nordeste junto com a fronteira de um agronegócio que, desde 2018, se realinhou à extrema direita.

A expansão do crédito, que possibilitou a "inclusão pelo consumo" no início do século, virou endividamento em massa e fez com que a melhora dos indicadores macroeconômicos do terceiro governo Lula não se traduzisse na vida de muita gente.

Também a promoção do empreendedorismo popular, parte importante do repertório lulista nos tempos de prosperidade, virou-se contra o PT quando as condições mudaram. Não apenas a culpa pela piora recaiu sobre o partido, como este perdeu a batalha discursiva em torno de quais haviam sido as causas dos tempos de vacas gordas.

Em vez de as políticas redistributivas serem percebidas como aquilo que aquecera o mercado interno e tornara possível empreender, elas viraram as vilãs que tiravam dos busca-vidas para dar a quem não queria trabalhar. 

É possível compreender essa mudança de vento global examinando a transformação do imaginário em torno dessa figura-chave de nosso tempo, o empreendedor.

As condições econômicas pós-2008 —explosão do subemprego, aceleração da concentração de renda, inflação de ativos financeiros— fizeram com que desaparecesse a perspectiva de uma progressão linear entre poupança e investimento em formação, por um lado, e a mobilidade social, pelo outro.

Com isso, a ética protestante do êxito mediante o trabalho duro sofreu uma inflexão. Quando o sonho da casa própria ou de ter filhos se torna tão distante que não há um caminho natural até ele, cresce a busca por atalhos: soluções mágicas como bets, criptomoedas ou o sonho de virar coach ou influencer, caminhos que elegem um caso de sucesso em cada dezena ou centena de milhar.

Até o otimismo de nossos tempos tem um quê de desesperado. Isso implica que, se é essencial à esquerda saber ouvir as aspirações dos que querem brilhar, ela não pode contentar-se com acolhê-las em seus próprios termos, sem questionar as (im)possibilidades estruturais de sua realização ou articular a necessidade de uma outra economia, sustentável e mais igualitária, onde outros tipos de sonho encontrem outras condições de se realizar.

Em boa medida, a guinada à extrema direita no mundo todo pode ser entendida como aquilo que acontece com os desejos despertados pelo neoliberalismo quando suas promessas de boa vida se tornam cada vez mais difíceis de realizar: eles azedam.

Trata-se de uma política para "um tempo de expectativas decrescentes", potencializado pelo espectro da crise ambiental, quando perceber o mundo como um jogo de soma zero se torna cada vez mais natural.

Se as condições não parecem poder mudar, a não ser para pior, e redistribuir a renda concentrada no topo não parece possível, só resta a quem está na base da pirâmide competir entre si —empurrando para fora do jogo minorias, imigrantes, ou quem quer que esteja do lado mais fraco da corda.

É por conta desta continuidade com o atual estado de coisas que, sem menosprezar a força galvanizante da extrema direita, parece mais adequado falar não em revolução, mas em instrumentalização e aceleração da desintegração social produzida por 50 anos de neoliberalismo, incluindo as já quase duas décadas de sua sobrevida zumbi pós-2008.

Alimentando-se das forças liberadas por essa desintegração, a extrema direita as direciona na direção do colapso: da democracia e do universalismo liberais, da legalidade, da capacidade estatal, do meio ambiente e até mesmo da soberania indivisível —como se vê no avanço de atores soberanos não estatais como milícias e narcotráfico, que tinham um representante direto nessas eleições em Flávio Bolsonaro, agora foragido das investigações criminais que pesam sobre ele.

Emancipação em Tempos de Expectativas Decrescentes

Pensar o ascenso da extrema direita como continuação e aceleração de tendências existentes também nos ajuda a entender todas as vantagens estruturais que ela aparenta possuir.

Vantagens do ponto de vista da mensagem, que está em continuidade com o momento histórico de horizontes reduzidos, a gramática moral dominante e a experiência vivida de muita gente; e vantagens do ponto de vista organizacional, já que ela se acha mais capilarizada no tecido social e encontra nas plataformas digitais um terreno mais favorável ao tipo de política que propõe.

Vantagem, finalmente e sobretudo, porque, apesar do discurso antissistema, sua prática está em perfeita continuidade com os interesses de elites domésticas e globais que decidiram pisar no acelerador da concentração de riqueza às custas da democracia, do meio ambiente e da imensa maioria da população mundial.

Mais do que qualquer coisa, a quarta vitória de Lula significa comprar tempo. Tempo para a democracia, afastando o risco de tomada do Judiciário que um Executivo e Legislativo em mãos bolsonaristas representava.

Tempo para o meio ambiente, diante do fato de que mais quatro anos de um Bolsonaro na Presidência certamente poria a Amazônia numa trajetória irreversível de savanização, com um impacto fortíssimo sobre o aquecimento global.

Tempo para serviços públicos como saúde e educação, afastando por ora a ameaça de cortes e privatização. Tempo para proteger as instituições e a vida pública da infiltração cada vez maior pelo crime organizado.

Mas é preciso ter sobre essa vitória a clareza que faltou em 2022: por ora, estamos apenas comprando tempo. Lula 3 foi um governo de normalização, o que não deixava de ser bem-vindo após quase dez anos de anormalidade constante; mas, em um mundo em que a tendência natural das coisas favorece a extrema direita, agir como se estivéssemos em tempos normais é um grande erro.

Quando as coisas vão longe demais em uma direção, as medidas capazes de realmente corrigir seu curso não podem deixar de parecer radicais.

Por isso, será indispensável manter ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno para garantir que Lula 4 tenha não apenas a chance de existir, mas de fazer o que é preciso para começar a reverter o cenário em que a aceleração da desintegração opera e a extrema direita cresce.

Isso significa sustentar tanto a mobilização popular quanto a ousadia que o governo federal assumiu na reta final das eleições, quando uma série de medidas até então tidas como impossíveis subitamente se tornaram imparáveis —com a proibição das bets, o reajuste do Bolsa Família, a redução da jornada de trabalho e a PEC da Tarifa Zero.

A estas precisarão se somar, o quanto antes, a regulação das big techs e o combate ao sequestro do orçamento por emendas parlamentares nada transparentes.

Acima de tudo, a esquerda será obrigada a enfrentar a questão fundamental que o sucesso da extrema direita em capitalizar em cima da desintegração traz à tona: o que significa articular um projeto emancipatório em tempos de expectativas decrescentes?

Como podem os desejos, as esperanças e as aspirações atualmente depositados na extrema direita serem transformados e redirecionados para uma alternativa à altura do desafio de combater a desigualdade em um mundo que se aproxima perigosamente do colapso ambiental?

A vitória improvável sobre o bolsonarismo, Donald Trump, o crime organizado e o Vale do Silício tornou-se uma fonte de esperança e entusiasmo ao redor do mundo —uma espécie de equivalente, na política eleitoral, ao que foi o Vietnã.

A impressionante mobilização que tornou isso possível virou um caso de estudo sobre como vencer a extrema direita nas urnas, além de ter posto uma pulga atrás da orelha da maioria de direita no Congresso, que certamente viu ali a possível emergência de uma força capaz de reorganizar a correlação de forças pós-eleições.

Contudo, é preciso lembrar que foi preciso uma figura do porte de Lula para bater o bolsonarismo em 2022 e 2026 —o que significa que a preparação para 2030, quando ele já não poderá se candidatar, começa desde já.

Mas é preciso estar atento para não confundir estratégia eleitoral com estratégia política. Uma coisa, evidentemente importante, é construir candidaturas fortes para a Presidência e o Legislativo nas próximas eleições.

Nomes novos que despontaram com força neste último ciclo, como Érika Hilton e Ana Elisa, não só oferecem esperança como apontam alguns caminhos.

Outra coisa, condição imprescindível para o sucesso da primeira, é compor uma base social em condições não apenas de eleger tais candidaturas, mas de emparedar aqueles que tentarão emparedar o governo, gerando a demanda e as oportunidades para que este consiga ir além.

Isso não se fará apenas com mais influenciadores de esquerda, como muitos pareceram concluir após o primeiro turno, mas também com organização analógica e o esforço para elaborar um programa capaz de atualizar o lulismo para condições muito diferentes.

Neste sentido, há uma lição muito forte a se aprender com este segundo turno. Iniciativas vindas de fora do quartel-general de campanha, tais como o Exército do Lula e o projeto Revelando, foram decisivas nesta virada.

Elas, por sua vez, não teriam produzido os mesmos efeitos sem a tenacidade de milhões de pessoas que dedicaram seu tempo, dentro e fora das redes, para correr atrás de um resultado improvável.

Não foi o PT, nem foi Lula, mas sim a ecologia que se constituiu em torno deles que venceu a eleição.

Se Lula, com esse triunfo, inscreveu seu nome em definitivo nas páginas da história brasileira, é a sua imagem nessa reta final que oferece a lição mais potente para o que virá agora: a de um indivíduo extraordinário, de trajetória extraordinária, mas que precisou de um povo extraordinário para carregá-lo até a linha de chegada.

*Professor da Universidade de Essex e da PUC-Rio. Autor de "Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em Transição" e "Nem Vertical Nem Horizontal: uma Teoria da Organização"

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A VIRADA DOS ESTUDANTES

Bernardo Mello Franco, O Globo

Alunos de Direito da UFF iniciaram mobilização de rua que tomou o país e ajudou a barrar a volta do bolsonarismo

Quando os historiadores do futuro forem narrar a virada eleitoral de 2026, um capítulo terá que ser dedicado ao levante dos estudantes. Eles começaram a sair da toca em Niterói, na noite chuvosa de segunda-feira que se seguiu ao primeiro turno.

Alarmados com a votação do candidato da extrema direita, alunos da Universidade Federal Fluminense convocaram um ato público diante da Faculdade de Direito. O espaço ficou pequeno, e a turma resolveu sair em passeata rumo à Praia de Icaraí.

“Estávamos todos chocados com o resultado”, conta Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga. “Terminamos a apuração em estado de desespero, mas não podíamos deixar esse sentimento nos paralisar”, justifica.

A chuva engrossou, mas o cortejo ganhou a adesão de estudantes de outros cursos e de moradores que desciam dos prédios para se juntar aos jovens. “Uma das cenas mais bonitas que vi foi a de uma senhora de bengala. Ela disse, chorando, que a minha geração precisava defender a democracia”, lembra Valentina, que tem 19 anos e não é filiada a nenhum partido.

Como nem tudo são flores, bolsonaristas arremessaram ovos e papel higiênico molhado contra a garotada. Ninguém se machucou, e a marcha se estendeu até o fim da noite.

Os jovens ainda estavam na luta quando as imagens da passeata começaram a correr as redes sociais. “Quando abri o celular, o ato já tinha viralizado. Recebi uma enxurrada de mensagens e de vídeos filmados das ruas e das janelas. Até meus amigos da Bahia estavam repostando, sem saber que eu estava lá”, diz a diretora do centro acadêmico, que nasceu em Porto Seguro e se matriculou na UFF pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

No dia seguinte, novas mobilizaçõ contra o bolsonarismo pipocaram em todo o país. Na quarta-feira, universitários e secundaristas se concentraram na Candelária, fecharam a Avenida Presidente Vargas e desceram a Rio Branco, cenário das grandes manifestações estudantis de 1968.

O ato não foi convocado pela campanha, mas atraiu ambulantes munidos de broches, bonés e camisetas com o nome de Lula. Era um sinal de que o Rio, antes dominado pelo bolsonarismo, ensaiava uma guinada à esquerda no segundo turno.

Nos últimos dias, o noticiário destacou a atuação do deputado André Janones, que se impôs à burocracia petista e comandou a reação nas redes. O esforço digital foi importante, mas não resolveria a parada sem a garra dos jovens que tomaram as ruas e estimularam eleitores de todas as idades a votarem contra a volta do bolsonarismo.

No ato que deu início ao movimento, os estudantes de Niterói desfraldaram uma bandeira laranja e preta com a inscrição “Direito UFF — Antifascista”. O estandarte ficou famoso em 2018, quando chegou a ser recolhido por ordem de uma juíza eleitoral. Embora não citasse nomes, foi considerado “propaganda negativa” contra o candidato que defendia a ditadura.

A ministra Cármen Lúcia derrubou a censura, em decisão referendada por unanimidade no Supremo. “Impedir ou dificultar a manifestação plural de pensamento é trancar a universidade, silenciar estudantes e amordaçar professores”, sentenciou.

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sábado, 31 de outubro de 2026

SALVE CLAUDETTE SOARES

Da Bossa Brasil

Hoje é dia de celebrar a icônica cantora Claudette Soares, que completa 91 anos neste sábado, 31 de outubro de 2026.

Nascida no Rio de Janeiro, em 1935, Claudette soma mais de oito décadas de uma trajetória fundamental para a Música Popular Brasileira.

Começou na era de ouro do rádio, aos 10 anos, quando chamou a atenção de Luiz Gonzaga, que a batizou de Princesinha do Baião.

Nos anos 1960, mudou-se para São Paulo e tornou-se uma das grandes intérpretes da Bossa Nova e do Sambalanço. Ao longo da carreira, também transitou pelo jazz, samba e MPB, sempre com sua voz suave e sofisticada.

Aos 91 anos, continua na ativa e prepara o lançamento, em 13 de novembro, do álbum de inéditas O mundo é ruim para quem não sabe esperar, com composições de Zélia Duncan, Ana Costa, Marcos Valle, Tim Bernardes e Nando Reis.

Viva Claudette Soares! Parabéns por sua história, sua elegância e sua contribuição à música brasileira. Que venham muitos anos de saúde, música e aplausos!

Today we celebrate the iconic singer Claudette Soares, who turns 91 this Saturday, October 31, 2026.

Born in Rio de Janeiro in 1935, Claudette has enjoyed a career spanning more than eight decades, becoming an important figure in the history of Brazilian Popular Music.

She began her career during the golden age of radio, at just 10 years old, when she caught the attention of Luiz Gonzaga, who affectionately gave her the title Little Princess of Baião.

In the 1960s, she moved to São Paulo and became one of the leading voices of Bossa Nova and Sambalanço. Throughout her career, she also explored jazz, samba and MPB, always distinguished by her soft, sophisticated voice.

At 91, she remains active and is preparing to release a new album of original songs on November 13, titled O mundo é ruim para quem não sabe esperar, featuring compositions by Zélia Duncan, Ana Costa, Marcos Valle, Tim Bernardes and Nando Reis.

Long live Claudette Soares! Congratulations on your remarkable journey, elegance and contribution to Brazilian music. Wishing you many more years of health, music and applause!

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VITÓRIA DE LULA E VERGONHOSA FUGA DE FLÁVIO

Editorial Revista Será?

Com uma contundente vitória eleitoral, o presidente Lula da Silva se consolida como a maior liderança popular do Brasil que permitiu aos brasileiros impedir a volta da família Bolsonaro ao poder com os riscos para a democracia. Mesmo derrotado, o senador Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de votos, em grande parte pela atração do antilulismo e da insatisfação de parcela dos brasileiros com o terceiro mandato de Lula. O ranço autoritário do bolsonarismo não permitiu que Flávio aceitasse o resultado das urnas – confirmado pelo TSE e seu presidente, Nunes Marques, Ministro indicado por Jair Bolsonaro – nem reconhecesse a vitória de Lula, o que lhe permitiria aspirar a uma posição de líder da direita brasileira.

A decisão apressada do Ministro Alexandre de Moraes ordenando que o senador entregasse os passaportes e não saísse do Brasil precipitou os fatos, com a fuga de Flavio Bolsonaro. Os elementos que justificam a punição do Ministro ainda precisam ser esclarecidos, mas é lícito imaginar que Flávio Bolsonaro sabia que existiam denúncias que levariam à sua prisão nos primeiros dias de fevereiro quando se encerrasse sua imunidade parlamentar. Entretanto, o histórico de inimizade política de Bolsonaro e Moraes e as evidências de envolvimento dos dois com o dono do Banco Master, alimentam a narrativa de perseguição política, que os Bolsonaros adoram.

Fugindo do Brasil e publicando um ridículo manifesto em que se apresenta como o presidente eleito, Flávio Bolsonaro frustra os seus eleitores e se isola da sua base política. Quase todas as lideranças políticas de direita, mesmo vários bolsonaristas de primeira hora, reconheceram os resultados das urnas e criticaram as declarações do fugitivo. Com Jair preso e dois dos seus filhos fora do Brasil, é muito provável que o bolsonarismo desinfle e que a ultradireita perca a capacidade de aglutinação de democratas da direita e da centro-direita, capacidade demonstrada nestas eleições.

Confirmada esta hipótese, no futuro, o Brasil pode se livrar da polarização política nefasta entre o lulismo e o bolsonarismo que tem dominado a política brasileira em quase uma década. Embora Lula possa beneficiar-se da fragilidade da família Bolsonaro sem a força do bolsonarismo, tal fragilidade poderá descartar também   o apoio dos brasileiros que votaram nele apenas para livrar-se dos riscos e ameaças bolsonaristas. E assim, nós escaparíamos da armadilha política que nos tem obrigado a um posicionamento mais pela rejeição de um  dos polos do que pela efetiva afinidade política com o outro.

Brechas à gastança eleitoral têm de ser fechadas desde já

Por O Globo

Lula lançou mão de medidas eleitoreiras como nunca. Não foi o primeiro, mas deveria ser o último

A classe política precisa desde já começar a rever as brechas legais que permitem a profusão de medidas e benesses em série às vésperas de eleições. Embora haja regras contra abusos, o pleito deste ano deixou claro que não têm sido suficientes para deter o ímpeto de políticos que recorrem à caneta para conquistar votos.

O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi pródigo nessas iniciativas, especialmente neste ano. À medida que a popularidade de Lula enfrentava dificuldades, mais pacotes de bondades saíam da linha de montagem. No fim de setembro, o Palácio do Planalto chegou a anunciar uma benesse a cada quatro dias, como mostrou reportagem do GLOBO. Nunca antes houve tantas medidas populistas em ano eleitoral.

A lista é interminável: subvenção a combustíveis, múltiplas versões do Desenrola para endividados, ampliação das faixas do Minha Casa, Minha Vida para a classe média, crédito para compra de veículos por taxistas, motoristas de aplicativo e entregadores, crédito agrícola e industrial, ajuda a microempreendedores individuais (MEIs), além do reajuste de 15% no Bolsa Família a apenas 17 dias do pleito — Lula alegou não saber que ele estava sem correção. Contando financiamentos, despesas primárias e renúncias fiscais, a conta beira R$ 300 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente. E outros mimos estão a caminho, caso do Pé-de-Meia para universitários e da tarifa zero no transporte coletivo aos fins de semana.

Lula não foi o primeiro a gastar sem freio às vésperas do pleito. Dilma Rousseff (PT) e Jair Bolsonaro (PL) recorreram ao mesmo expediente de modo despudorado. Em 2022, quando concorria à reeleição, Bolsonaro anunciou aumento de 50% no Auxílio Brasil. O reajuste começou a ser pago dois meses antes do primeiro turno. Na época, Lula e o PT acusaram o adversário de usar indevidamente a máquina pública. Antes disso, Dilma já torrara 3,1% do PIB para se reeleger, como mostrou estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (FGV Ibre). A prática não tem coloração partidária ou ideológica.

O uso abusivo da máquina desequilibra a disputa. O político que tem a caneta na mão leva vantagem sobre os adversários, pois pode distribuir benesses com recursos públicos para se beneficiar. Além disso, qualquer gasto tem impacto inexorável no Orçamento. Evidentemente, não se podem coibir promessas ou projetos apresentados, ao alcance de qualquer candidato. Nem medidas emergenciais justificáveis por eventos externos, como uma pandemia ou tragédia climática. Mas é preciso mais rigor para vetar o que estiver ao alcance apenas de quem tem a caneta.

O artigo 73 da Lei das Eleições já veda diversas condutas, como uso de bens públicos; ceder servidor para comitês de campanha; contratar funcionários antes da eleição; e, sobretudo, distribuir bens, valores ou benefícios em ano de eleição. Mas tais vedações são genéricas e, como se viu, não têm bastado. É preciso fechar as brechas aos abusos, e a Justiça também precisa ser mais rigorosa na interpretação das leis.

Qualquer mudança deve ser debatida com antecedência, para não sofrer contaminação do calendário eleitoral. Mas a hora de começar é agora. Se nada for feito, o descalabro poderá ser ainda pior nas próximas campanhas.

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sexta-feira, 30 de outubro de 2026

GOLPISMO NUNCA MAIS

Editorial Folha de S.Paulo

Em carta patética, Flávio proclama-se líder e repete farsa de fraude na eleição

Filho, que renunciou a liderar a oposição, pirateia a conduta delinquente do pai, Jair, e seu desprezo atávico pela democracia

Quando se pensa que os Bolsonaros já bateram no fundo do poço do golpismo, eles descem um degrau. Flávio, candidato do PL derrotado na eleição deste domingo, fugiu do país e, do seu esconderijo suspeito de ser regado a dinheiro sujo do Banco Master nos Estados Unidos, proclamou-se o verdadeiro presidente do Brasil.

Talvez alertado de que o termo poderia lhe render novas perturbações criminais, logo editou a carta. O "presidente" virou "líder", mas a mentira de que teria havido fraude persistiu. Luiz Inácio Lula da Silva (PT) teve 4,4 milhões de votos a mais que o seu adversário, diferença maiúscula, impossível de ser conquistada nas duas horas extras em que o escrutínio ficou aberto por uma decisão judicial estapafúrdia.

O filho pirateia a conduta delinquente do pai, Jair, quando há quatro anos perdeu a reeleição. A diferença é que, fora do governo, Flávio não tinha como assediar os comandantes militares para praticarem um golpe. Mas o discurso arruaceiro sobre as eleições é o mesmo, assim como o desprezo atávico pela democracia.

Foi apenas recuo tático do senador a propalada desistência, na segunda-feira (26), de questionar a lisura da eleição. A verborragia autoritária voltou tão logo pisou em solo americano, depois que uma decisão política e desnecessária do ministro Alexandre de Moraes, ao determinar a apreensão de seus passaportes, lhe deu de presente um pretexto para posar de vítima.

O filho emula o pai também na tentativa de manter-se à testa da oposição mesmo depois de uma atitude covarde de renúncia. A covardia de Jair Bolsonaro foi ter perseguido uma via subversiva para manter-se no poder. Quando optou por esse caminho ele renunciou a admitir a derrota, organizar as forças aliadas e tentar eleger-se de novo em 2026. Era ganhar na violência ou ser agarrado pela lei se fracassasse. Fracassou e foi condenado.

Ainda assim, o PL rendeu-se à influência do ex-presidente preso e reduziu a sucessão presidencial a uma questão familiar. Entregou a Lula o melhor adversário possível. O espectro da volta do bolsonarismo, na figura de Flávio, despertou tanto medo nos eleitores que produziu a façanha da virada no segundo turno.

A covardia de Flávio foi fugir do país horas depois de ter obtido quase 60 milhões de votos. Ao optar pelo refúgio dourado sob a proteção de Donald Trump, Flávio Bolsonaro renunciou a liderar a oposição no próximo ciclo eleitoral. A "carta" da Flórida tenta desfazer essa conclusão óbvia. Funciona como tentativa de intimidar os partidos que farão oposição ao petista para que se submetam a um comandante fujão.

Quem caiu uma vez na armadilha de Jair só se enredará na segunda, urdida por seu primogênito mofino, se for idiota. O Brasil e a centro-direita se beneficiarão do enterro das possibilidades presidenciais dessa família autoritária, ignorante e incompetente. É hora de olhar para a frente.

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FUGA DE FLÁVIO CAIU NO RIDÍCULO

Editorial O Globo

Carta golpista é rechaçada pelos próprios aliados, e episódio revela oposição mais madura e democrática

Ao fugir do país de forma vergonhosa e sorrateira depois de perder a eleição no último domingo, o senador Flávio Bolsonaro (PL) desrespeitou não apenas a ordem judicial para entregar seus passaportes, mas o voto dos mais de 59 milhões que o escolheram na urna. Ao publicar, na chegada ao autoproclamado “exílio” nos Estados Unidos, uma carta contestando o resultado da eleição e se proclamando “presidente eleito” do Brasil (ou “líder”, numa versão corrigida), deu prova não apenas de desconexão absoluta da realidade, mas do mesmo DNA golpista que levou à cadeia seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tramar uma insurreição depois de perder a eleição de 2022.

As instituições brasileiras voltaram a dar demonstração de força quando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), ministro Kassio Nunes Marques, confirmou o resultado das urnas. O próprio partido de Flávio, o PL, reconheceu a derrota, bem como União Brasil, PP e legendas de sua coalizão. Foram declarações oportunas, mas felizmente nem teriam sido necessárias. Desta vez, não há multidões acampadas diante de quartéis, nem uma conspiração em curso. A carta de Flávio, em cuja primeira versão até o nome e o brasão da República estavam errados, caiu no ridículo.

Sua atitude foi rechaçada pelos próprios aliados, perplexos diante da mistura de covardia, prepotência e parvoíce. De modo rude, o pastor Silas Malafaia classificou os filhos de Jair Bolsonaro de “jumentos”. “Faz carta, fala bobagem depois corrige”, disse a seguidores. Com sensatez, o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tentou se afastar do bolsonarismo: “O momento exige responsabilidade, serenidade e a construção de uma oposição forte, capaz de exercer seu papel”.

Em sua carta, Flávio deixou claro que não está à altura de liderar essa oposição. No texto, ele tem o desplante de se comparar a lideranças históricas levadas ao exílio por necessidade. “Charles de Gaulle liderou a França a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy”, escreveu. “José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o país por enfrentar a ditadura chavista.”

Contra nenhum desses personagens, contudo, havia acusações remotamente próximas às que pesam contra Flávio. Ele é investigado em dois inquéritos no Supremo. O primeiro apura o destino do dinheiro que pediu a Daniel Vorcaro, artífice da maior fraude bancária da História brasileira, alegadamente para financiar um filme sobre seu pai. O segundo, aquele que levou a Polícia Federal a pedir recolhimento de seus passaportes, deslinda seu envolvimento no esquema de lavagem de R$ 5 bilhões em dinheiro de apostas que levou ao pedido de prisão contra seu amigo Willer Tomaz, advogado foragido na mesma Miami onde Flávio pousou com a família.

O roteiro mirabolante de seu trajeto até lá — com manobras de despiste, a declaração mentirosa de que entregaria os passaportes, a cooperação de aliados do argentino Javier Milei e a promessa de visto do governo Donald Trump — supõe planejamento prévio. Não apenas havia risco de fuga, como afirma a ordem judicial; a fuga de fato ocorreu. Para o Brasil, o melhor a esperar do episódio é que resulte numa oposição mais madura e mais democrática do que o patético bolsonarismo.

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FLÁVIO BOLSONARO ESTÁ ISOLADO

Editorial O Povo

O senador fica cada vez mais isolado em sua posição negacionista dos fatos. Figuras importantes da direita reconhecem como legítimo o resultado das urna das urnas

A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos pegou de surpresa até mesmo aliados próximos, que se preparavam para organizar a oposição ao governo do presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva. No segundo turno, Flávio obteve mais de 48% dos votos, surgindo como candidato natural para comandar o bloco oposicionista.

No entanto, parece que Flávio não compreendeu que, ao abandonar o País, as suas chances de se manter à cabeça do movimento de direita reduziram-se sensivelmente.

Ainda não está claro se ele fugiu sem ao menos avisar os seus aliados mais próximos, ou se os informou, mas não seguiu a orientação sobre a necessidade de encarar os fatos. E a realidade mostra que ele perdeu as eleições irremediavelmente, e que isso não tem volta.

Do ponto de vista da direita, como pode ser observado pelo comportamento de seus principais representantes, é preciso aceitar o resultado das urnas e seguir em frente, adaptando-se à nova situação. Pelo que se observa, um setor expressivo desse movimento quer afastar-se do extremismo bolsonarista para assumir posição mais moderada.

O ambiente piorou após Flávio ter divulgado uma carta de teor golpista, descrevendo-se como "o verdadeiro presidente eleito", assim que chegou aos Estados Unidos. Logo após recuou, autodeclarando-se "líder do Brasil".

As acusações, sem provas, que Flávio repete contra o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) são desconsideradas tanto por organizações internacionais, que verificaram as eleições brasileiras, quanto por países em todo o mundo que reconhecem, sem ressalvas, a vitória de Lula e a segurança e lisura do processo eleitoral.

Neste cenário, o senador fica cada vez mais isolado em sua posição negacionista dos fatos. Figuras importantes da direita reconhecem como legítimo o resultado das urnas, como o governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos); o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da campanha de Flávio; o pastor Silas Malafaia, considerado da ala mais radical do bolsonarismo e até mesmo Valdemar Costa Neto, presidente do PL, defendem o reconhecimento da vitória de Lula, ainda que façam algumas críticas ao processo eleitoral.

Partidos que se descrevem de centro, como o MDB, União Brasil e PSD, também se alinham ao reconhecimento.

Portanto, a tese defendida por Flávio, considerando-se "presidente eleito" ou"lider do Brasil", carece de substância e falta-lhe adeptos, mesmo entre correligionários. O que a intensa mobilização política desses dias mostra é que ele está ficando cada vez mais isolado, um cenário que pode se agravar pela convivência com o núcleo radicalizado que opera a partir dos Estados Unidos, mas com pouca influência no Brasil.

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quinta-feira, 29 de outubro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO SUBMETE A DIREITA AO VEXAME COM FUGA E CARTA GOLPISTA

Malu Gaspar, O Globo

O pouso de Flávio Bolsonaro (PL) no aeroporto de Opa-Locka encerrou ontem uma bem-sucedida operação de contrainformação que lhe permitiu chegar em segurança à terra de Donald Trump a partir do país comandado por Javier Milei. Enquanto escapava do Brasil para a Argentina, ainda não se sabe exatamente como, seu irmão Eduardo, com alguns asseclas, plantava notas na imprensa brasileira dizendo que Flávio estava voando ou já havia chegado a Miami e em breve daria uma entrevista coletiva para se explicar. As horas seguintes mostraram que aquela tinha sido a parte fácil e, por incrível que pareça, menos patética do plano.

No final do dia, o próprio Flávio divulgou uma carta tão golpista quanto delirante em que, além de alegar ter havido fraude na eleição sem apresentar prova ou argumento que fizesse sentido, se declarou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e se comparou a Rui Barbosa, ao francês Charles de Gaulle e ao cubano José Martí, entre outras figuras históricas que tiveram de se exilar por motivos políticos.

Não vale a pena nem perder tempo contestando a tentativa canhestra de deslegitimar a eleição presidencial. Quanto aos heróis a que Flávio se compara, basta dizer que nenhum estava assombrado por investigações de corrupção e lavagem de dinheiro. Nem fugiu no primeiro susto, deixando para trás aliados e eleitores desorientados tentando defender o indefensável.

Flávio ainda usou no documento um brasão da República com a inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com z, da República Velha. Depois, divulgou uma espécie de “vale este” da carta, em que já não se dizia mais presidente, e sim líder do Brasil, com s. Ao todo, três versões foram divulgadas. Parece um detalhe diante de toda a bizarrice do episódio. Mas é daqueles detalhes que fazem qualquer um de boa-fé se perguntar se, além de despreparado para o cargo, Flávio não sofre de algum transtorno narcísico.

Nem Trump comprou o barulho. Numa entrevista rápida logo após a publicação da carta, ele disse que concederá autorização para o filho de Jair Bolsonaro ficar no país, que a eleição brasileira “foi estranha”, mas afirmou que não se envolverá nesse rolo.

Um dia antes de começar a fugir, já sabendo da ordem de Alexandre de Moraes para entregar seus passaportes e se manter longe de Willer Tomaz — o amigo e advogado que, segundo a Polícia Federal, operava uma grande lavanderia de dinheiro com apostas em bets —, Flávio gravou um vídeo dizendo que entregaria os passaportes e ficaria no Brasil. “Vou organizar a oposição”, disse.

Ao que tudo indica, postou e saiu correndo.

Por mais que se possa — e deva — criticar a decisão de Moraes, que não apontou nenhum fato concreto sugerindo plano de fuga ao mandar reter os passaportes de Flávio na mesma noite em que se anunciou o resultado da eleição, o próprio Flávio, ao sair do Brasil da forma como saiu, pôs em segundo plano qualquer discussão sobre o caso em si.

Depois de meses se dizendo diferente, se vendendo ao eleitorado como o Bolsonaro “que tomou vacina”, encenando moderação e enganando a Faria Lima com uma mal fingida crença na austeridade fiscal, ele afinal mostrou ser um legítimo representante do clã. Só pensa em si mesmo, morre de medo de cadeia e solta a mão dos aliados diante de qualquer dificuldade.

Na carta em que se declarou presidente, líder ou o que seja, Flávio disse que liderará a oposição dos Estados Unidos porque hoje seus aliados “não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade política”. Tanto ele como os parlamentares do PL e da direita sabem que é tudo balela. Nenhuma rede social ou vídeo diário é capaz de substituir a política feita no dia a dia, ainda mais com o conteúdo que Flávio passou a disseminar.

Quem comemora a lambança bolsonarista são o presidente Lula e Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que tentarão aproveitar a desorientação da direita para atrair o Centrão e talvez até alguns desgarrados do PL para eleger o comando do Congresso e garantir acordos que melhorem a governabilidade no próximo mandato do petista. Se Alcolumbre se reeleger presidente do Senado Federal, Moraes também poderá respirar aliviado por escapar de um processo de impeachment.

Quem não tem motivos para celebrar são as lideranças da direita que agora se veem tendo de juntar os cacos para tentar organizar a oposição. Mas até isso pode ser temporário, já que em política não existe vácuo. O difícil é saber quem seria capaz de superar o bolsonarismo e conduzir a oposição por um rumo consequente.

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DESAFIOS IMEDIATOS PARA OS VENCEDORES

Míriam Leitão, O Globo

O governo tem que se concentrar nos problemas a resolver. Na prática o novo mandato já começou. A fuga de Flávio Bolsonaro é a crise da oposição

O novo mandato do presidente Lula, na prática, já começou e o governo tem decisões a tomar. A instabilidade financeira precisa ser entendida com racionalidade. O governo aumentou muito os gastos no período eleitoral e a economia está sem parâmetros. A oposição está às voltas com a fuga de Flávio Bolsonaro. Ela foi planejada com muita antecedência. As informações desencontradas da terça eram parte de uma operação despiste. O país ficou preso nas versões, enquanto Flávio Bolsonaro permanecia em solo brasileiro. O governo não pode ser tragado pela confusão criada pelo perdedor. Deve focar em suas próprias prioridades. A economia é uma delas.

A ordem de Alexandre de Moraes de entrega dos passaportes foi pedida pela Polícia Federal. Está sendo usada como pretexto para sustentar a teoria da perseguição política. Caiu como uma luva em todo o enredo dos Bolsonaro para justificar a fuga. O derrotado sabe que são muito sólidos os indícios contra ele nos dois inquéritos, principalmente no que investiga a sua relação, que pode ser de sociedade, com o enroladíssimo Willer Tomaz.

A fuga de Flávio Bolsonaro é um problema do bolsonarismo e da direita. Há muitas questões para o governo resolver, a mais imediata é o que fazer em relação à economia. Há dúvidas razoáveis sobre as questões fiscais. Só o subsídio ao diesel, que foi agora renovado, já custou mais de R$ 50 bilhões aos cofres públicos. Em algum momento precisará ser retirado. Foi mantido porque o governo acreditava em um cenário de guerra mais curta. A retirada vai elevar a inflação. Portanto é preciso construir uma estratégia de saída lenta desse gasto. Ele tem sido coberto pelo imposto de exportação, mas é uma distorção na economia.

Os operadores do mercado financeiro apostaram alto no cenário em que Flávio Bolsonaro ganharia eleição. Foram tão altas as posições, que chegaram a ser advertidos de que teriam que se preparar para as chamadas de margem. Ninguém se preparou. O mercado entrou comprado e sem hedge num cenário que não se concretizou. A vitória de Lula levou à reorganização completa do portfólio e isso provocou a grande turbulência de segunda-feira. O Banco Central entrou fazendo um leilão já programado, e o Tesouro teve que recomprar títulos.

Há indicadores alarmantes. Para o horizonte relevante da política monetária houve um acréscimo de 400 pontos de juros. Ou seja, a aposta é que se o governo não fizer o ajuste das suas contas, o Banco Central elevará os juros. E esse volume de pontos significa que o mercado está precificando a Selic a 17%.

Algumas pessoas do governo ainda não entenderam o risco que está em jogo. O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães disse que “esse assunto (ajuste fiscal) não foi discutido, nem está sendo discutido”. Essa declaração aumenta a incerteza, que o ministro Dario Durigan tinha tentado diminuir quando afirmou que o governo iria mirar o centro da meta fiscal e não o piso, o que significaria elevar o superavit primário. Depois, Guimarães postou nas redes sociais que o governo “vai trabalhar com o Congresso para manter as contas equilibradas”.

As previsões para o ano que vem estão sendo revistas pelos economistas de bancos ouvidos pelo Boletim Focus. Deve haver uma mudança forte nos próximos boletins. Há quem esteja revisando inflação em mais um ponto percentual acima do que estava, e revendo para baixo o crescimento do PIB. A corrida de promessas foi muito grande durante o período eleitoral. O mercado achava que o vencedor seria Flávio Bolsonaro e que ele faria um estelionato eleitoral. Com Lula vitorioso sabe-se que esses gastos serão mesmo realizados. Mas quanto, quando, de que forma e com que compensações, não se sabe. Neste momento o presidente está ouvindo propostas de ajustes, enquanto forma-se um coro para dizer que não precisa fazer nada. Lula deveria ouvir quem acha que o ajuste precisa ser feito.

A direita agora procura um novo líder, depois que Flávio Bolsonaro fugiu do país. Como não há espaço vago na política, o governador Tarcísio de Freitas fez um vídeo em que agradeceu os 60 milhões de votos, disse que a “eleição passou” e que o projeto continua.

O governo precisa evitar que haja uma crise econômica por imperícia ou erro de diagnóstico. Foi bonita a festa da vitória. Mas quem entende de economia saiu da festa mais cedo porque sabe que há problemas a resolver.

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TANTAS HISTÓRIAS

Hoje, 29 de outubro que se comemora o Dia Nacional do Livro, fez-me lembrar de uma história da escritora cearense, Rachel de Queiroz, relatada em sua autobiografia Tantos Anos, escrita por Rachel e sua irmã caçula, Maria Luiza de Queiroz, em 1998.

Rachel de Queiroz, a pioneira cearense – primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, 1977 – conhecida pelas belas histórias contadas em suas obras, o carinho que tinha pelas palavras, seja nas crônicas, nas peças de teatro ou nos romances, ela era uma mulher à frente do seu tempo. Até na politica Rachel de Queiroz enveredou e teve uma vida intensa.

A consagrada carreira de escritora e jornalista, parte dos brasileiros já conhece, mas, na política é desconhecida pela maioria da população brasileira. Rachel se tornou membro do Partido Comunista ao lado de amigos de sua geração, uma turma politizada e ‘comunizada”, como relatou ela na autobiografia Tantos Anos, de 1998. Foi presa duas vezes.

Em 1931, após passar dois meses no Rio de Janeiro – tinha ido receber o Prêmio Graça Aranha, dado a O Quinze – Rachel volta ao Ceará, com credenciais do Partido Comunista, já politizada e com a missão de promover e reorganizar o Bloco Operário e Camponês, movimento político o qual ela tinha participado.

Rachel passou a fazer parte do Partido Comunista, mesmo sem ter feito uma ficha, assinado alguma ata. Aliás, não se podia deixar nenhum rastro de papéis, livros ou qualquer tipo de documento, a polícia era brutal e se pegasse algum vestígio, levava todos para a cadeia: às pessoas e os papéis. Com a chegada de Getúlio Vargas ao Rio, a polícia ficou mais feroz.

Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, os livros de Rachel de Queiroz foram proibidos e, num fato marcante, várias de suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de subversivos.

O desligamento do Partido Comunista aconteceu após ela ver censurado pelo próprio Partido o romance João Miguel. No romance João Miguel, ‘campesino’ bêbado, matava outro ‘campesino’. O aviso: só permitiria a publicação da obra, se Rachel fizesse as modificações apontadas pelo presidente do Partido Comunista. Segundo o Partido, a trama era carregada de preconceitos contra a classe operária.

Jamais se curvou as imposições feitas a sua obra, Rachel de Queiroz não aceitou as tais modificações exigidas pelo Partido Comunista, pegou o original que tinha datilografado e saiu em disparada, como relatado por ela no capítulo O Rompimento, da autobiografia Tantos Anos.

Em sua obra Caminho de Pedras (1937), Rachel trata desse momento político que viveu no Partido Comunista, porque fazer política na década de 20, ser comunista era muito perigoso. A ideia de comunismo era distorcida e alguém que ousasse se apresentar como comunista pagaria um preço alto, até com a própria vida.

Rachel de Queiroz faleceu dormindo em sua rede, em sua casa no Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 2003.

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CARTA ENCOLHE AINDA MAIS FLÁVIO

Julia Duailibi, O Globo

Candidato derrotado virou uma caricatura de líder de oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach

Flávio Bolsonaro conseguiu um feito impressionante. Em tempo recorde, se apequenou como líder da oposição e conseguiu produzir algo que parecia improvável: juntou setores da direita e do governo nas críticas a suas declarações golpistas. Para atingir tal façanha, não foi necessário nenhum fato novo revelado pela Polícia Federal nem a publicação de eventual conversa pouco republicana. Flávio precisou apenas de ausência de tino político, sinapse tortuosa e conselhos ruins de meia dúzia de aloprados. Como resultado, no curto prazo de três dias, fez evaporar parte considerável do capital político adquirido com os quase 60 milhões de votos que recebeu.

A jornada de erros começou com o não reconhecimento da derrota no domingo. Piorou com a fuga do Brasil, usando argumentos mal-intencionados sobre perseguição política. Atingiu o absurdo diante da carta precária e mentirosa, que, entre vários constrangimentos, comporta o erro no nome do próprio país (chamado numa primeira versão de Estados Unidos do Brazil, em vez de República Federativa do Brasil, com “s”, por sinal), a comparação com Rui Barbosa e a autoproclamação como “presidente” (que depois mudou para “líder”).

Ele conseguiu produzir um strike entre seus próprios apoiadores. Integrantes do PL e do Centrão, pragmáticos que são, poderiam ter saído em sua defesa caso houvesse o mínimo de veracidade nos argumentos ou vantagem política em continuar apoiando as confusões da família Bolsonaro. Mas ninguém de relevância levantou o dedo para defendê-lo. Do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a presidentes de partidos que compõem o Centrão, não houve quem comprasse seu delírio. O presidente americano, Donald Trump, foi questionado sobre o cosplay de Guaidó e disse que não se envolveria. Aliás, Bolsonaro Júnior, como já foi chamado por Trump, hoje é um problema para ele. Às vésperas da importante eleição de meio de mandato, Trump vê a oposição surfar na concessão de visto para o candidato derrotado no Brasil.

Flávio está isolado. Brasília é repleta de profissionais da política, e é sintomático que os maiores ph.D.s na matéria não tenham saído em sua defesa. Não o fizeram porque não querem mais os Bolsonaros. Entendem que hoje não existe perspectiva de poder em torno deles — e essa perspectiva é o principal feromônio político. Sabem que Flávio usa a carta como melhor ataque diante dos rolos pendentes com a Justiça envolvendo sua relação com Willer Tomaz, o advogado suspeito de lavar dinheiro para político.

Na carta, Flávio agradece a Trump e a Javier Milei, cuja atuação parece ter sido fundamental para a execução do plano de fuga, com a ajuda de um jatinho (mais um) de um empresário enrolado com o governo de lá. Aqui os investigadores também têm dúvidas sobre os dados a respeito do ingresso pela fronteira argentina. Já está claro, porém, que o presidente argentino foi fundamental para a fuga, enviando um assessor para facilitar o plano e causando mais um ruído na relação com o Brasil — por mais que não houvesse mandado de prisão expedido contra Flávio, ele estava proibido de deixar o país.

O candidato derrotado virou uma caricatura de líder de oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach. Mostrou que não estava preparado para a função de presidente da República e abriu espaço para que outro nome ocupe a liderança da direita. Michelle Bolsonaro e Tarcísio de Freitas já dão sinais de que estão a postos.

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