Denis LerDenis Lerrer Rosenfield,
O Estado de S. Paulo
Se o STF optar pela Justiça, poderá recuperar o seu
prestígio e ganhar o reconhecimento da sociedade
O Supremo é um trem descarrilhado chocando-se com a
República. Não poderá ela resistir se nada for feito, pois o que se tem visto é
uma instituição na qual alguns de seus membros, além de exorbitarem de suas
funções e prerrogativas, defendem prioritariamente interesses privados e
corporativos. As relações promíscuas, esse é o termo mais apropriado, entre o
mafioso – impropriamente denominado de banqueiro – Daniel Vorcaro e o ministro
Alexandre de Moraes, são estarrecedoras. A mulher do ministro faz um contrato
de R$ 131 milhões com o mafioso, contrato esse por ele próprio revisado.
Fica-se com a impressão de que o trata como um funcionário seu. A República não
pode conviver com cenas desse tipo, a menos que abdique de ser a “coisa
pública” para ser a “coisa privada” de alguns.
Há, porém, ainda juízes em Brasília. André
Mendonça é uma amostra disso. Espera-se que seus colegas o sigam a bem da
República. Avançou em investigações que estão a seu cuidado, sem medo de
atingir X ou Y, visto que a lei é – ou deveria ser – igual para todos. Seu
comportamento foi, ademais, exemplar ao quebrar o sigilo do relatório da
Polícia Federal (PF). Trata-se de uma exigência republicana: a transparência
dos atos públicos. Kant já dizia que atos de agentes públicos que não vêm à luz
são por definição injustos. O que se procura esconder?
A preocupação súbita – ausente em outros atos de membros do
Supremo – de que haveria irregularidades processuais não para em pé. Se
irregularidades houve, já fazem parte de suposta “jurisprudência” do Supremo
Tribunal Federal (STF), pois praticadas em outras investigações e inquéritos, o
inquérito das “fake news” sendo o seu maior exemplo.
Irregularidades cometidas por “amigos” tornam-se legais, já
as cometidas por “adversários” e “inimigos” são ilegais. Não resiste à mínima
aplicação do princípio de não contradição, enunciado por Aristóteles e
princípio fundamental da racionalidade ocidental. Se o abandonarmos,
renunciaremos à própria razão tal como hoje a conhecemos. Onde ficaria a
hermenêutica jurídica, a interpretação?
Os fatos elencados no relatório da PF, além de outros
comportamentos correlatos, que adquirem agora uma nova significação, configuram
um abalo sísmico. Não se pode furtar a eles, sob pena de nos alienarmos da
realidade. A insistência de alguns ministros acerca de supostas irregularidades
expõe um tipo de interpretação delirante da realidade, que seria a exigir uma
análise propriamente psíquica. Os fatos se impõem, queira-se ou não. Nesse
sentido, a recusa de analisar os fatos, defendendo a nulidade da investigação,
pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, mostra que ele também torna-se
partidário de um abafa geral, não cumprindo com sua função. Não olhar a
realidade equivale a desconhecer um terremoto, atendo-se a um instrumento de
sua medição, como se não fosse apropriado. Nem por isto, politicamente, o sismo
deixa de estar presente, queimando e levando consigo os que se interpõem em seu
caminho.
A situação tornou-se tão desesperadora para alguns que o
ministro Gilmar Mendes teria, segundo noticiado, em reunião com o presidente
Lula, apregoado que delegados da PF poderiam não obedecer a ordens que
considerassem ilegais, o que equivaleria a um ato de desobediência
institucional. Qualquer delegado poderia então, em qualquer circunstância, não
obedecer a ordens de ministros? Valeria para ele e colegas amigos? O ministro
Alexandre de Moraes, por sua vez, invoca o inquérito das fake news, vigente por
razões desconhecidas por mais de sete anos, para contra-atacar, como se
estivesse a defender a democracia. Não tem cabimento. Dever-se-ia aproveitar
essa oportunidade para acabar com esse inquérito!
O STF encontra-se numa encruzilhada. Ou opta pela conduta
imparcial do ministro André Mendonça, mostrando um espírito verdadeiramente
republicano, ou leva o País a uma crise institucional de desfecho imprevisível.
Se optar por proteger um dos seus, escondendo o lixo embaixo do tapete,
tornar-se-á conivente com malfeitos e eventuais crimes, numa espécie de habeas
corpus antecipado a Daniel Vorcaro. Perderá credibilidade, legitimidade e não
terá mais a confiança da sociedade, já abalada. Se optar pela Justiça, poderá
recuperar o seu prestígio e ganhar o reconhecimento da sociedade.
Se nada fizer e optar pela escuridão, apenas transferirá o
problema para outra esfera republicana, o Senado, que será obrigado a agir. O
Senado colocaria na ordem do dia o impeachment de ministros. Um movimento deste
tipo provavelmente terá o apoio maciço da sociedade, farta com os desmandos
correntes. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, recusa-se a colocar em
votação um dos numerosos processos de impeachment em sua mesa, exorbitando,
aliás, de suas funções. Se o fizer, somente estenderá a crise para além da
atual legislatura, colocando a próxima a enfrentar prioritariamente essa
questão. Eventual reeleição sua ficará muito prejudicada. A crise institucional
simplesmente se estenderá no tempo. rer Rosenfield, O Estado de S. Paulo
Se o STF optar pela Justiça, poderá recuperar o seu
prestígio e ganhar o reconhecimento da sociedade
O Supremo é um trem descarrilhado chocando-se com a
República. Não poderá ela resistir se nada for feito, pois o que se tem visto é
uma instituição na qual alguns de seus membros, além de exorbitarem de suas
funções e prerrogativas, defendem prioritariamente interesses privados e
corporativos. As relações promíscuas, esse é o termo mais apropriado, entre o
mafioso – impropriamente denominado de banqueiro – Daniel Vorcaro e o ministro
Alexandre de Moraes, são estarrecedoras. A mulher do ministro faz um contrato
de R$ 131 milhões com o mafioso, contrato esse por ele próprio revisado.
Fica-se com a impressão de que o trata como um funcionário seu. A República não
pode conviver com cenas desse tipo, a menos que abdique de ser a “coisa
pública” para ser a “coisa privada” de alguns.
Há, porém, ainda juízes em Brasília. André
Mendonça é uma amostra disso. Espera-se que seus colegas o sigam a bem da
República. Avançou em investigações que estão a seu cuidado, sem medo de
atingir X ou Y, visto que a lei é – ou deveria ser – igual para todos. Seu
comportamento foi, ademais, exemplar ao quebrar o sigilo do relatório da
Polícia Federal (PF). Trata-se de uma exigência republicana: a transparência
dos atos públicos. Kant já dizia que atos de agentes públicos que não vêm à luz
são por definição injustos. O que se procura esconder?
A preocupação súbita – ausente em outros atos de membros do
Supremo – de que haveria irregularidades processuais não para em pé. Se
irregularidades houve, já fazem parte de suposta “jurisprudência” do Supremo
Tribunal Federal (STF), pois praticadas em outras investigações e inquéritos, o
inquérito das “fake news” sendo o seu maior exemplo.
Irregularidades cometidas por “amigos” tornam-se legais, já
as cometidas por “adversários” e “inimigos” são ilegais. Não resiste à mínima
aplicação do princípio de não contradição, enunciado por Aristóteles e
princípio fundamental da racionalidade ocidental. Se o abandonarmos,
renunciaremos à própria razão tal como hoje a conhecemos. Onde ficaria a
hermenêutica jurídica, a interpretação?
Os fatos elencados no relatório da PF, além de outros
comportamentos correlatos, que adquirem agora uma nova significação, configuram
um abalo sísmico. Não se pode furtar a eles, sob pena de nos alienarmos da
realidade. A insistência de alguns ministros acerca de supostas irregularidades
expõe um tipo de interpretação delirante da realidade, que seria a exigir uma
análise propriamente psíquica. Os fatos se impõem, queira-se ou não. Nesse
sentido, a recusa de analisar os fatos, defendendo a nulidade da investigação,
pelo procurador-geral da República, Paulo Gonet, mostra que ele também torna-se
partidário de um abafa geral, não cumprindo com sua função. Não olhar a
realidade equivale a desconhecer um terremoto, atendo-se a um instrumento de
sua medição, como se não fosse apropriado. Nem por isto, politicamente, o sismo
deixa de estar presente, queimando e levando consigo os que se interpõem em seu
caminho.
A situação tornou-se tão desesperadora para alguns que o
ministro Gilmar Mendes teria, segundo noticiado, em reunião com o presidente
Lula, apregoado que delegados da PF poderiam não obedecer a ordens que
considerassem ilegais, o que equivaleria a um ato de desobediência
institucional. Qualquer delegado poderia então, em qualquer circunstância, não
obedecer a ordens de ministros? Valeria para ele e colegas amigos? O ministro
Alexandre de Moraes, por sua vez, invoca o inquérito das fake news, vigente por
razões desconhecidas por mais de sete anos, para contra-atacar, como se
estivesse a defender a democracia. Não tem cabimento. Dever-se-ia aproveitar
essa oportunidade para acabar com esse inquérito!
O STF encontra-se numa encruzilhada. Ou opta pela conduta
imparcial do ministro André Mendonça, mostrando um espírito verdadeiramente
republicano, ou leva o País a uma crise institucional de desfecho imprevisível.
Se optar por proteger um dos seus, escondendo o lixo embaixo do tapete,
tornar-se-á conivente com malfeitos e eventuais crimes, numa espécie de habeas
corpus antecipado a Daniel Vorcaro. Perderá credibilidade, legitimidade e não
terá mais a confiança da sociedade, já abalada. Se optar pela Justiça, poderá
recuperar o seu prestígio e ganhar o reconhecimento da sociedade.
Se nada fizer e optar pela escuridão, apenas transferirá o
problema para outra esfera republicana, o Senado, que será obrigado a agir. O
Senado colocaria na ordem do dia o impeachment de ministros. Um movimento deste
tipo provavelmente terá o apoio maciço da sociedade, farta com os desmandos
correntes. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre, recusa-se a colocar em
votação um dos numerosos processos de impeachment em sua mesa, exorbitando,
aliás, de suas funções. Se o fizer, somente estenderá a crise para além da
atual legislatura, colocando a próxima a enfrentar prioritariamente essa
questão. Eventual reeleição sua ficará muito prejudicada. A crise institucional
simplesmente se estenderá no tempo.