Suplente de senador é posição que passa quase totalmente
despercebida pelo eleitor
Isso dá margem a arranjos familiares ou para recompensar
doadores de campanha
Michelle
Bolsonaro designou o irmão para ocupar o posto de primeiro suplente na
chapa que ela encabeça para uma das vagas de senador pelo Distrito Federal. Bia
Kicis, que concorrerá à segunda vaga pelo mesmo PL da
ex-primeira-dama, pôs o filho. Helder Barbalho, que pretende tornar-se senador
pelo Pará, escolheu o pai, o eterno Jader Barbalho.
Arranjos familiares desse tipo são corriqueiros em
eleições para o Senado. Também é
comum ver financiadores de campanha galgados à posição de suplente. É um
investimento que pode "se pagar", quando se considera que, na atual
legislatura, 20 suplentes já chegaram a exercer, ainda que momentaneamente, o
mandato. O suplente substitui o titular em caso de morte, afastamento, renúncia
ou cassação.
O mecanismo tem sua lógica. Determinar
desde a origem quem são os "vices" dos senadores é uma forma de
economizar recursos. O mandato de oito anos é longo, então não são pequenas as
chances de substituição fazer-se necessária. O problema é que esse sistema
exige mais recursos atencionais do que o eleitor mediano é capaz de oferecer.
No Brasil, eleições para o Executivo e para o Legislativo
são casadas, e são as primeiras que mobilizam as atenções. Falamos muito da
disputa presidencial, um pouco dos pleitos para governador, e as legislativas,
que talvez sejam até mais importantes, ficam a reboque. Não é exagero afirmar
que o eleitor escolhe seu candidato a senador só quando sai de casa para votar.
Em 2018, Dilma
Rousseff liderava todas as pesquisas de intenção de voto para o Senado
por Minas, mas
ficou em quarto lugar.
Se nem nos senadores o eleitor presta muita atenção, o que
não dizer dos pobres deputados estaduais? Nesse contexto, os suplentes de
senador se tornam menos que curiosidades abstratas. Eles ficam tão
cognitivamente escondidos que concorrer como suplente é um bom jeito de
"fazer passar a boiada".
Não vou tão longe a ponto de defender o descasamento entre
eleições para o Executivo e para o Legislativo, mas poderíamos ao menos
extinguir os suplentes.
Candidatos fogem de confronto e encerram entrevistas ao
ouvir questões incômodas
Flávio Bolsonaro estava à vontade. Escoltado por Paulo Skaf,
desfilou pelos salões da Fiesp como novo escolhido do empresariado paulista. O
senador esbanjou bom humor até se deparar com um grupo de repórteres. Mudou de
semblante ao ouvir uma pergunta sobre o caso “Dark horse”, que revelou suas
relações com Daniel Vorcaro.
“Gente, olha só... vocês vão parar no tempo?”, reagiu, sem
disfarçar a irritação. “Não adianta, vocês não vão me colocar na mesma página
desse cara. Hoje o governo Lula é que deve explicações. Vão cobrar explicações
dele”, ordenou, antes que uma assessora encerrasse a entrevista.
O candidato do PL engrossou com os
jornalistas na noite de segunda-feira. Na manhã de terça, foi a vez de Lula
abandonar uma coletiva após ser questionado sobre os rolos do filho Fábio Luís.
O presidente havia caminhado até os repórteres ao fim da cerimônia do Dia do
Soldado. Falou o que quis sobre soberania e investimentos em Defesa. Ao ouvir
uma pergunta sobre Lulinha, deu as costas e bateu em retirada.
Lula e Flávio são muito diferentes, mas têm adotado táticas
semelhantes. Querem fazer campanha no olimpo, a salvo do escrutínio e do
contraditório. Por isso, fogem de entrevistas longas, sabatinas e debates.
Preferem falar em ambientes controlados, onde não precisam enfrentar temas
incômodos.
O presidente passou a abrir o palácio a youtubers e
influenciadores que só faltam lhe pedir autógrafo. O senador reeditou as lives
em que o pai pregava para a bolha da extrema direita. No domingo, os dois se
uniram no boicote ao debate da Band. Usaram desculpas variadas: a presença de
nanicos, o risco de pegadinhas, o formato previamente aceito por seus próprios
assessores.
O mau comportamento dos presidenciáveis já foi imitado por
candidatos a governador. Eduardo Paes e Sergio Moro também faltaram aos
primeiros debates no Rio e no Paraná. Esconderam-se atrás da liderança nas
pesquisas, descrevendo como estratégia o que foi apenas soberba e desrespeito
ao eleitor.
Se pudessem, Lula e Flávio se limitariam a recitar discursos
e gravar peças de propaganda. Os dois só confirmaram presença na bancada do
Jornal Nacional, onde falarão nos próximos dias, porque sabem que o custo da
ausência seria maior.
O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo
tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como
líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da
costa do Amapá e
pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que
vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.
Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões
que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um
líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de
forças pende para os querem explorar o petróleo. Não
adianta dar murros em ponta de faca.
É preciso ver a contradição como do tipo não antagônico,
dessas em que um dos polos não desaparece. Em suma, uma contradição que segue
seu caminho, no caso explorando o petróleo e tendo rigorosa atenção com o meio
ambiente. De um lado, a pressão dos políticos, como Davi Alcolumbre, que querem
resultados rápidos; de outro a vigilância internacional sobre uma região que o
próprio Brasil mostrou como essencial à saúde do planeta.
Tive a oportunidade de viajar pela região para documentar no
Pará a área com os maiores manguezais do mundo. Escrevi também um texto para o
belo livro de fotos de João Farkas sobre a Costa Norte. Os manguezais são
impressionantes. Árvores de 30 metros, as pessoas saindo da mata com fieiras de
enormes caranguejos. No restaurante da cidade de Bragança, o caranguejo era o
principal prato.
]A região concentra 80% dos manguezais do Brasil. Até 2005,
pensava-se que os maiores manguezais estavam na Índia e em Bangladesh. Um
mapeamento por satélite revelou que a maior extensão está Costa Amazônica:
aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados. Manguezais, sabe-se bem, são
berçários marinhos e abrigam grande biodiversidade. São um pouco ignorados, mas
sua riqueza não monetária é muito superior ao petróleo que possa ser encontrado
ali.
Numa das viagens, cruzei o Amapá da capital até Oiapoque,
simpática cidade de cerca de 30 mil habitantes. Há uma inscrição: “Aqui começa
o Brasil”, porque é o extremo norte do país. Ela está à margem do Rio Oiapoque,
diante da Guiana Francesa. A julgar pelas cidades litorâneas do Rio, como
Macaé, o petróleo atrai muita gente, e grandes hotéis serão construídos. No
entanto, não vi saneamento básico na cidade, e seu hospital é bastante
precário. Fomos atingidos por uma intoxicação alimentar. Diante do quadro hospitalar,
a saída foi a automedicação.
Oiapoque abriga hoje o centro veterinário construído pela
Petrobras. Exigência do Ibama, o centro atenderá à fauna em caso de vazamento.
O tema é um pouco vasto para só um artigo. Uma das linhas de debate pode ser a
comparação com os resultados do pré-sal nas cidades litorâneas do Rio. Ele vai
se esgotar, e a Margem Equatorial é a esperança de renovação. Será que a Região
Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que
funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?
O tema é vasto, mas a vantagem é que o tempo é generoso.
Assim como em Oiapoque se diz que “aqui começa o Brasil”, aqui começa uma nova
aventura com o petróleo.
Artigo publicado no jornal O Globo em 25 / 08 / 2026
Cada vez mais a escolha dos candidatos tem passado longe
das convenções
Decisões antes tomadas por uma instância coletiva ficam
nas mãos de um pequeno grupo
Idas e vindas na definição de candidaturas ganharam destaque
no noticiário recentemente. Dois exemplos são o senador mineiro Cleitinho,
do Republicanos,
cuja candidatura ao governo atravessou
sucessivas reviravoltas, e o ex-prefeito de Maceió JHC (João Henrique
Caldas), do PSDB,
que ora concorreria ao Senado, ora ao governo. E as indefinições sobreviveram
às convenções partidárias.
As convenções, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto,
deveriam ser o momento em que os partidos decidem não apenas se lançarão
candidatos, mas quem serão eles.
A Lei das Eleições é
clara: cabe às convenções a escolha dos candidatos. Mas o que vimos foram os
partidos postergando essa decisão até 15 de agosto, data limite para registro
das candidaturas. Mas como isso é possível?
Fui às atas das convenções partidárias. Descobri primeiro
que, apesar de sua relevância, elas não estão disponíveis para download no
portal de dados abertos da Justiça
Eleitoral: é preciso acessá-las individualmente por estado, partido e
eleição —alô, TSE.
Com ajuda de pesquisadores, jornalistas e ferramentas de inteligência
artificial, reuni as atas nacionais e estaduais de 2018, 2022 e 2026.
O que eu descobri? Analisando as convenções estaduais, com
foco nos cargos majoritários estaduais, encontrei que, entre 2018 e 2026, a
fatia de convenções que decidem não lançar candidato próprio ficou estável, o
que mudou foi outra coisa: quem escolhe o nome dos candidatos. A delegação
desta decisão à comissão executiva passou de 12% para 36% dos casos, esvaziando
a convenção como instância de escolha dos candidatos. E esse recuo da convenção
como instância decisória é mais frequente entre os partidos de centro e
direita, como o Republicanos de Cleitinho e o PSDB de JHC. Em 2026, esses
partidos delegaram a escolha em 46% dos casos, contra 29% entre os partidos de
centro-esquerda e esquerda.
Em muitos casos, a delegação vai além da escolha de nomes
ainda indefinidos. As atas autorizam a comissão executiva a rever decisões
tomadas pela própria convenção, inclusive sobre candidaturas e coligações. Ou
seja, a instância coletiva não apenas deixa de decidir, pode ter suas decisões
completamente revistas.
O efeito é concentrar decisões antes tomadas por uma
instância coletiva nas mãos de um pequeno grupo, quando não de um único
dirigente. Mais uma mostra do distanciamento dos partidos da sociedade.
Cabe destacar que esse esvaziamento das instâncias de
decisão coletivas conta com a chancela da Justiça Eleitoral. Pelo menos desde
2002 o TSE considera lícito que convenções deleguem à comissão executiva a
escolha posterior dos candidatos, inclusive sem indicar nomes. O tratamento
contrasta com o dado às comissões provisórias dos partidos, que muitas vezes
substituem os diretórios. O STF derrubou a regra que permitia sua duração por
até oito anos, por entender que órgãos compostos por dirigentes indicados, e
não eleitos, poderiam minar a democracia interna.
Nos dois casos, o problema é semelhante, concentrar poder,
retirando-o de instâncias coletivas. Só em um deles o Judiciário resolveu impor
limites.
Um detalhe: em muitos partidos, a comissão executiva que
recebe o poder de escolher os candidatos é ela própria nomeada por uma comissão
provisória.
A IA em breve nos permitirá fazer as perguntas mais
indiscretas às nossas heroínas da literatura
'Diadorim, você fazia xixi em pé com os jagunços?' ou
'Capitu, o que você viu no Escobar?'
A IA (ou dona Iaiá, como a batizou o poeta
e acadêmico Antonio Carlos Secchin) nos oferece uma nova oportunidade de
nos metermos onde não fomos chamados. Segundo li, em breve poderemos
"conversar" por meio dela com personagens da literatura e
ouvir deles respostas a questões que seus autores deixaram em suspenso ao
criá-los. Eis algumas possibilidades.
Eu faria a Diadorim, herói/heroína de
"Grande
Sertão: Veredas", algumas perguntas indiscretas, talvez até
impróprias: "Diadorim, como você conseguiu se passar por homem durante
tanto tempo no meio daqueles jagunços abrutalhados? Eles faziam xixi em pé no
mato, em grupo, e davam as três pancadinhas. E você? E se eles, entre uma
batalha e outra, te desafiassem para um xixi à distância? Como era na hora de
tomar banho, com todo mundo se jogando nu no rio? E, com todo respeito, como
você se virava quando estava naqueles dias?". Uma pergunta de cada vez,
claro, para não dar chance a Diadorim de me engabelar.
Mas não sei se a maioria das pessoas irá primeiro a
Diadorim. Ninguém resistirá a tentar espremer a personagem mais enigmática,
cuja intimidade todos gostariam de invadir —a insuperável Capitu, de "Dom Casmurro"—,
para fazer a pergunta fatal: "Capitu, você, afinal, traiu ou não o
Bentinho, seu marido, com o Escobar?" Ninguém se conforma com que Machado de
Assis tenha deixado
essa dúvida no ar, gerando dezenas de especulações e até romances
que se atreveram a recontar a história.
Nas garras da IA, Capitu seria crivada de perguntas:
"Capitu querida, o Bentinho era mesmo um bolha, mas, pelo amor de Deus, o
que você viu no Escobar?". Ou então: "O Brás Cubas, outro personagem
de Machado, era muito melhor. Por que você não pulou de livro e foi ter um caso
com ele? Na ficção, tudo é possível!".
Enfim, são perguntas válidas. Só não confio nas respostas da
IA, uma idiota da objetividade, incapaz de competir com os escritores naquilo
que caracteriza a verdadeira criação: o intangível, o mágico, o que não tem
resposta, nem nunca terá.
Relator dos casos Master e Lulinha, ministro do STF
promete imparcialidade, mas vazamentos já influem na eleição
Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então
presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho
Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão
escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era
André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.
Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador
e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi
alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com
potencial para influir no resultado da eleição.
Estão nas mãos de Mendonça o caso Master,
que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha,
que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos
diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept
Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o
noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do
primeiro turno.
Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi
flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes,
subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia
favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o
governo do pai dele.
Os escândalos devem servir de munição para as duas
campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai
apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.
Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala
pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da
República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a
investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a
permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez
circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a
“interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.
Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição
presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava
as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma
decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma
delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba
desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas
sentenças.
Em declarações a um podcast de seu próprio instituto,
Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e
“imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas
palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.
Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no
caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir
protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe
aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou
intimações para se explicar à polícia.
É sempre melhor quando a Justiça redemocratizada se alia
à História, claro. Mesmo que tardiamente
Três gerações depois do sombrio 18 de agosto de 1936, ainda
é proibido esquecer. Passaram 90 anos desde o fuzilamento do poeta Federico
García Lorca por falangistas de Granada. Seu corpo nunca foi encontrado.
Segunda-feira passada, dia 17, a homenagem mais vibrante e desempoeirada
ocorreu nas ruas de Madri, quando uma ruidosa centena de jovens artistas
emergiu do Palácio de Velázquez carregando (com autorização do Ministério da
Igualdade) uma pequena estátua de Lorca sorridente. Num misto de “procissão laica”
com flashmob a que foram se juntando cidadãos comuns, o cortejo seguiu até a
Plaza de Santa Ana, no Barrio de las Letras. Ali, cantaram, declamaram e
dançaram aos pés da estátua oficial, em bronze e tamanho natural, do cultuado
dramaturgo de “La Casa de Bernarda Alba”.
Uma imensa faixa com a conhecida estrofe de
um poema de Lorca fez parte do cortejo: Quiero dormir un rato,/Um rato, un
minuto, un siglo;/pero que todos sepan que no he muerto.
Recapitulando. Ao arrepio da ascensão do nazismo na Alemanha
e do fascismo na Itália, o ano de 1936 começara na Espanha com a vitória
eleitoral de uma Frente Popular que reuniu socialistas, comunistas, anarquistas
e organizações operárias. Ficaram no poder por pouco tempo — menos de quatro
meses. Em julho daquele ano, a efêmera República foi derrubada. A Guerra Civil
de três anos que se seguiu, cujo horror foi imortalizado por Picasso em
“Guernica”, causou a morte direta de cerca de 500 mil pessoas. A ditadura de
Franco durou 36 anos, sua teia de cicatrizes ainda lateja, e a Espanha até hoje
não conseguiu enterrar boa parte daqueles mortos.
Lorca foi preso e assassinado logo no primeiro mês, apesar
de não ser filiado a nenhum partido de esquerda. As acusações contra ele,
extraídas dos arquivos públicos, dizem o essencial:
— Se ignora sua filiação política, mas sua ideologia é
francamente esquerdista [...] publicou várias poesias negando a existência de
Deus [...] Conceitualização de sua vida privada: un invertido (homossexual).
Foi esse o pecado capital do cultuado poeta nacional que, à
época do fuzilamento, tinha 38 anos e se preparava para assumir uma relação com
um jovem de 19. O paradeiro exato de seu corpo continua desconhecido, apesar
das periódicas escavações nas montanhas entre Viznar e Alfacar, salpicadas de
valas comuns do horror falangista. Mesmo decorrido quase um século, é proibido
esquecer. À falta de justiça, cabe à memória atravessar o tempo para alcançar
novas gerações.
É sempre melhor quando a Justiça redemocratizada se alia à
História, claro. Mesmo que tardiamente. Semanas atrás foi noticiada a captura
do coronel reformado Nelson Haase Mazzei, um dos oito militares chilenos
responsáveis pela morte sob tortura do cantor Victor Jara, 53 anos atrás. Haase
integrava a notória Brigada Tejas Verdes quando os militares derrubaram o
governo socialista de Salvador Allende, em 1973, inaugurando uma das ditaduras
mais hediondas do hemisfério. Logo nos primeiros dias do golpe, o músico-ícone
de 40 anos foi preso e submetido a torturas no Estádio de Chile (hoje
rebatizado de Estádio Victor Jara). Seu corpo foi encontrado perto do principal
cemitério de Santiago, com 44 perfurações de balas. Tinha as duas mãos
quebradas e o crânio esmagado.
A bailarina britânica e ativista Joan Jara, viúva do cantor,
morreu aos 96 anos, em 2023, sem ter podido presenciar esse ato final de
justiça. Haase Mazzei, de 80 anos, havia conseguido fugir para o sul do país
após ser condenado a 25 anos de prisão em 2023 com os demais implicados. Um
deles, Hernán Chacón, suicidou-se aos 86 anos quando a polícia foi prendê-lo em
sua residência. Outro, Pedro Barrientos, havia fugido para os Estados Unidos,
onde viveu por 34 anos até ser extraditado e preso três anos atrás. Sua
sentença será proferida em dezembro de acordo com o Código Penal chileno
específico para os 17 anos de crimes da ditadura militar.
E o brasileiro Honestino? O estudante de geologia da UnB,
militante da Ação Popular e líder da União Nacional dos Estudantes do Distrito
Federal, tinha 26 anos em 1973 quando foi assassinado e “desaparecido” pelos
órgãos da repressão militar brasileira. Foi “sumido” há 53 anos, portanto, com
graus de crueldade não incomuns numa ditadura. No segundo mês sem notícias do
filho, a mãe ouviu de militares que ele estava preso no Pelotão de
Investigações Criminais da capital, ela poderia visitá-lo no dia de Natal.
Família e amigos prepararam bolos, guloseimas. A mãe esperou seis horas em vão.
Segundo depoimento do sobrinho de Honestino à Agência Brasil, “levaram-na para
uma cela que estava cheia de sangue e disseram que o preso não estava mais lá”.
Por que falar de Honestino agora? Porque é preciso. Porque
no Brasil, ao contrário do Chile e da Argentina, os crimes da repressão militar
foram anistiados. Porque a cinebiografia “Honestino” está em cartaz nos cinemas
do país, e é desalentador ver apenas três cidadãs idosas numa das sessões.
Porque o filme e o caso dos desaparecidos deveriam estar nas televisões e em
sessões grátis nas universidades. Porque já são duas as gerações de brasileiros
que podem ter esquecido. Porque dependemos da memória dos ainda vivos.
Entre o poeta, o músico e o estudante, o denominador comum
foi a barbárie.
O El Niño pode atingir o Brasil em plena campanha
eleitoral, mas candidatos tratam a questão ambiental de forma superficial
A campanha eleitoral ignora o problema mais urgente da
humanidade: a mudança do clima. A emergência climática atinge o mundo, ondas de
calor rondam a Europa, o rio Danúbio seca, o Brasil é vulnerável em inúmeros
pontos. E deve ser atingido nos próximos meses por eventos extremos do super El
Niño. No entanto, tudo se passa como se esse fosse um tema lateral. O candidato
Flávio Bolsonaro repete a mesma ideia fixa do pai e ameaça as entidades
ambientalistas, alimentando a ideia da conspiração. O presidente Lula
apresentou o plano mais robusto dos candidatos, mas fala vagamente sobre o mapa
do caminho para a eliminação do combustível fóssil que defendeu na COP30.
Também pudera.
A imagem mais emblemática desse começo da
campanha é o presidente Lula de macacão da Petrobras e de mãos sujas de óleo
chamando o petróleo de “passaporte para o futuro”. Ainda não se sabe se a
descoberta de petróleo na Foz do Rio Amazonas será viável. Se for, a produção
começará dentro de sete ou dez anos. Há especialistas alertando sobre os
riscos, outros comemorando. A crítica é que a vida útil do poço Morpho, e de
novos que surgirem, será no tempo em que o mundo precisará abandonar o
combustível fóssil empurrado pelo aumento dos eventos climáticos extremos. Os
que são a favor admitem que o uso do petróleo vai declinar enquanto o poço
estiver em atividade, mas argumentam que daqui a 30 ou 40 anos o mundo ainda
estará usando petróleo e o nosso tem teor menor de CO2.
Se houvesse um debate eleitoral deste nível, de pró e contra
a exploração de petróleo em nova fronteira, ou da viabilidade de um mapa do
caminho da descarbonização, seria excelente. Mas, na verdade, os documentos de
campanha dos candidatos têm propostas rasas ou fazem ameaças a quem tenta
resistir ao avanço da degradação ambiental. O presidente Lula deu uma
declaração que é uma contradição em si mesma, quando disse que o petróleo na
Amazônia era o passaporte para o futuro, mas que ele não desistiria da sua luta
para que “um dia a gente não precise usar o combustível fóssil”.
O programa de Flávio Bolsonaro promete acelerar o pagamento
por serviços ambientais para o produtor que preserva a vegetação nativa, que
passará a ser tratado como “parceiro e não como suspeito”. O problema dessa
ideia é que a lei obriga o proprietário de terra a manter uma reserva, que
varia de tamanho conforme o bioma. Pagá-lo para cumprir a lei não faz sentido.
O programa de Bolsonaro diz que vai exigir transparência de financiadores e
projetos das ONGs que recebam recursos internacionais e judicializam ações
contra a União, “porque onde há dinheiro estrangeiro movendo decisões sobre o
território brasileiro há riscos ao interesse nacional, sobre os quais o cidadão
brasileiro deve estar informado”. O que o passado nos mostra é que um Bolsonaro
no poder significa a deliberada destruição ambiental para “passar a boiada”.
A verdadeira ameaça ao interesse nacional é o grau
descontrolado de destruição ambiental e não quem se mobiliza e se organiza para
tentar proteger os recursos que sustentam a vida como a água, as matas e o ar
limpo. Alimentar a teoria da conspiração em torno de instituições não
governamentais é velho truque da direita, para encobrir crimes ambientais.
O candidato Romeu Zema fala em atrair investimento privado
para o “monitoramento ambiental”. Se é para substituir o trabalho público do
INPE é uma ameaça. Fora isso já existem instituições não governamentais
processando dados de satélites. O que seria esse investimento privado?
O candidato Ronaldo Caiado diz em seu programa que “a
política ambiental deixará de ser campo de polarização entre permissividade e
punição indiscriminada”. Com falas assim fingindo ter propostas equilibradas
entre interesses diversos, os candidatos da direita, na verdade, escondem apoio
a projetos concretos, que já tramitam com o objetivo de desmontar o arcabouço
de proteção ambiental do país.
O presidente Lula chega a essa eleição com números
animadores de queda do desmatamento. Tanto o Deter quanto o Prodes trazem dados
provando que o terceiro mandato de Lula levou o desmatamento da Amazônia ao seu
nível mais baixo. E que em outros biomas também há queda das taxas de
destruição. Mas o que preocupa é a ausência de qualquer debate sobre o tema
ambiental e climático que representa para a humanidade nada menos do que uma
ameaça existencial.
Levantamento divulgado nesta sexta-feira, o primeiro
desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas
intenções de voto
Com a campanha ao Palácio do Planalto oficialmente em curso
desde o último fim de semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
aparece em vantagem em um eventual embate direto contra o senador Flávio
Bolsonaro (PL), mas começa a corrida à reeleição pressionado pela piora da
avaliação de seu governo. Pesquisa Datafolha divulgada ontem, a primeira desde
a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de
voto de Lula, Flávio e de outros aspirantes à Presidência. A imagem negativa do
governo petista, no entanto, supera neste momento a percepção positiva, e o
levantamento sugere um aumento do desgaste da gestão que é incomum em períodos
eleitorais.
No cenário de primeiro turno, Lula aparece
hoje com 39% das intenções de voto, e Flávio tem 33%. Essa diferença já chegou
a ser de 10 pontos percentuais, em junho, embora os cenários não sejam
diretamente comparáveis por mudanças na lista de candidatos. Ambos estão muito
à frente do segundo pelotão, que tem um empate técnico entre Ronaldo Caiado
(PSD), que oscilou positivamente, com 5%; Renan Santos (Missão), com 4%; Romeu
Zema (Novo), com 3%; e Augusto Cury (Avante), 2%.
Curva distinta
Em um hipotético segundo turno, Lula aparece com 47% contra
43% de Flávio. Em julho, na última vez em que o instituto havia testado esse
cenário, os percentuais eram similares (48% a 43%). Nesse meio-tempo, porém, o
percentual dos entrevistados que avaliaram o governo Lula como “ruim” ou
“péssimo” subiu de 38% para 41%, enquanto o percentual de “ótimo” e “bom”
oscilou de 32% para 33%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos.
Em agosto de 2022, numa etapa semelhante da campanha, o então
presidente Jair Bolsonaro (PL) tinha 30% de ótimo e bom, e 43% de ruim e
péssimo, segundo o Datafolha. Embora seu saldo à época fosse pior que o de Lula
atualmente, Bolsonaro vinha numa trajetória de melhora constante de avaliação,
segundo a pesquisa. Em maio daquele ano, Bolsonaro tinha 48% de ruim e péssimo,
e 25% de ótimo e bom. No caso de Lula, esses percentuais há três meses eram,
respectivamente, de 39% e de 30%.
A melhora na avaliação de Bolsonaro há quatro anos, que se
estendeu para o decorrer da campanha, veio a reboque de medidas de consideradas
“eleitoreiras” à época, como a liberação de empréstimos consignados para
beneficiários do Bolsa Família — e o aumento do benefício de R$ 400 para R$ 600
por família — e a redução compulsória de tributos, inclusive estaduais, sobre
combustíveis. Essas medidas injetaram recursos na economia às vésperas da
eleição, mas deixando buracos no orçamento para o mandato seguinte.
Lula também vem investindo em um “pacote de bondades” para
aquecer a economia, com medidas que incluem facilitação de crédito para compra
de automóveis e renegociação de dívidas de pessoas físicas e jurídicas.
Embora essas medidas venham sendo acompanhadas por
oscilações positivas no índice de “ótimo” e “bom” do governo, nos últimos dias
Lula passou a sofrer com o desgaste pelo avanço de investigação da Polícia
Federal sobre uma suposta prática de tráfico de influência envolvendo um de
seus filhos, Fabio Luis, conhecido como Lulinha (leia mais na página 6). Além
do avanço da avaliação negativa de 38% para 41% neste mês, o Datafolha também
identificou que o percentual dos que desaprovam o governo chegou a 50%, e hoje
está numericamente acima da aprovação, que é de 47%. Esta é a maior distância
desde maio, quando havia 51% de desaprovação e 45% de aprovação. Desde então,
os índices vinham praticamente iguais, com a aprovação ligeiramente acima (49%
a 48%) em julho.
Na série histórica do Datafolha, Flávio registrou uma queda
de intenções de voto em maio, quando veio à tona seu pedido de R$ 134 milhões a
Daniel Vorcaro, do Banco Master, sob pretexto de financiar um filme em
homenagem ao pai. Desde então, apesar das oscilações na avaliação do governo
Lula, o filho de Bolsonaro não conseguiu retomar o patamar de igualdade com o
petista. Até abril, segundo os levantamentos, Flávio aparecia com índice de
rejeição ligeiramente abaixo ao de Lula, e vinha encurtando a distância para o
petista em um eventual segundo turno — o placar, à época, era de 46% para o
atual presidente contra 45% para o opositor.
Desde o chamado “caso Dark horse”, porém, Flávio aparece
estacionado com 43% das intenções de voto em um embate direto com Lula, com uma
desvantagem que oscila de quatro a cinco pontos no período. Além disso, a
rejeição do eleitorado a Flávio, conforme o levantamento do Datafolha, segue
numericamente superior à de Lula: 46% dizem não votar de jeito nenhum no
candidato do PL, ante 45% que dizem o mesmo sobre o petista.
O Datafolha também testou um cenário de primeiro turno com
Pablo Marçal, que se apresentou como candidato pelo PRTB, embora esteja
inelegível. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu nesta semana a
participação de Marçal em debates e o acesso a recursos dos fundos eleitoral e
partidário. Ao ser testado com os demais candidatos, ele marcou 2% na pesquisa.
Avaliação das campanhas
Apesar do desempenho na aprovação, o resultado trouxe certo
alívio para a campanha à reeleição de Lula, que temia sofrer impacto nas
intenções de voto por causa do caso Lulinha. A campanha de Flávio, por sua vez,
avalia que o desgaste ainda vai atingir o petista e aposta no início do horário
eleitoral, na próxima sexta-feira, para ampliar a exposição do tema.
Mesmo com desempenhos tímidos no primeiro turno, Caiado,
Renan e Zema registram um patamar não muito distante do alcançado por Flávio
quando são testados em simulações de segundo turno contra Lula. Nessas quatro
hipóteses, o atual presidente bate em um teto, atualmente, de 47% a 48%, assim
como no embate direto com o filho de Bolsonaro. Caiado chega a marcar 40% ao
ser testado diretamente contra Lula, enquanto Renan e Zema ficam dez pontos
atrás do petista.
Diferentemente de Lula e Flávio, o índice de rejeição ao
trio fica em torno de 15%, segundo o Datafolha. Mas o levantamento indica um
cenário de difícil rompimento da atual polarização.
A pesquisa foi contratada pela TV Globo e pelo jornal Folha
de S. Paulo, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o
protocolo BR-04496/2026. O Datafolha entrevistou mais de 2 mil pessoas em todo
o país, entre terça e quarta-feira.
Fiasco do ato inaugural em Copacabana reforça estratégia
no digital
Primeira tentativa deu errado: sunga branca de Flávio B
foi desaprovada por seguidores
Flávio
Bolsonaro soma aproximadamente 17,6 milhões de seguidores em suas
redes sociais. Mesmo sem postar há 13 meses, o pai tem 67,2 milhões; a prisão
quase não alterou o número. No mundo digital o filho do peixe continua a ser um
peixinho.
Daí que a campanha bolsonarista, tentando repetir o
terremoto que abalou as redes em 2018 e afastar o incômodo com o desempenho
tímido do senador, se esforça para fazer com que a tropa de aliados replique os
posts. O primeiro a ser intimado a participar do esquema foi o deputado Nikolas
Ferreira (44,2 milhões de seguidores).
Curiosamente, o governo de
Donald Trump acaba de acusar
o Brasil de promover censura depois de o antigo Twitter anunciar
mudanças em seu algoritmo para as eleições de 2026. Conforme acertado com o
TSE, a plataforma deixará de recomendar, na aba "Para Você",
publicações de candidatos não seguidos pelos usuários. A regra, no entanto, não
impede o acesso às postagens. Onde está a censura, cara pálida?
A nova fase de Flávio Bolsonaro nas mídias começou de
maneira estranha. No pior estilo trumpista, ele publicou um vídeo usando
inteligência artificial. O candidato moderado aparece transfigurado, à beira de
uma piscina, usando apenas uma sunga branca, faixa presidencial atravessada no
peito musculoso de havaiano de filme e uma lata de bebida na mão.
Quem viu, quis desver. Nem a seita entendeu a mensagem
enigmática que o 01 desejava passar. Um aceno à machosfera?
Um convite à brodagem? Uma referência velada às surubas de Daniel Vorcaro? Boa
parte dos seguidores reclamou, exigindo mais "decoro" de quem
representa o conservadorismo. A publicação foi excluída.
O reforço no digital busca apagar a impressão negativa do
ato em Copacabana, com menos de 9.000 pessoas e sem as presenças no palanque
de Nikolas
Ferreira, da ex-primeira-dama Michelle e do pastor Silas Malafaia (que
também não organizará a manifestação de 7 de setembro). Falta à campanha de
Bolsonaro filho o que o lugar-comum da política define como clamor das ruas.
Pela lei e pela lógica, inquéritos contra Lulinha
deveriam estar na primeira instância
A tendência, porém, é ministros do STF manterem as
investigações sob sua guarda
Pelo que foi vazado até aqui, as suspeitas
contra Fábio Luís Lula da Silva, o popular Lulinha,
ganharam embaraçosa materialidade. Não acho que o caso levará muitos petistas a
desistir de votar em Lula, mas poderá
custar votos entre eleitores desalinhados, que tendem a ser decisivos num
eventual segundo turno. O que serve de consolo para a campanha de Lula é que
seu principal adversário, Flávio
Bolsonaro, também está envolvido em suspeitas e muito mais diretas —não é
mesmo, irmão Vorcaro?
Mas não é o quadro eleitoral que eu
gostaria de discutir hoje e sim o STF. Pela letra
fria da legislação, os inquéritos contra Lulinha não deveriam estar sob
supervisão da corte, mas sim de um juiz de primeira instância. Nem Lulinha nem
seus cossuspeitos têm prerrogativa de foro especial. A própria PGR, que teve
acesso a todo o papelório, já recomendou que o caso seja remetido à primeira
instância, mas, ao que tudo indica, André
Mendonça e Flávio Dino,
os ministros do STF que controlam as investigações, irão mantê-las sob sua
guarda.
O argumento de que "pode ser" que pessoas com foro
venham a ser implicadas é problemático. Em termos estritamente lógicos, não
podemos descartar que o papa esteja envolvido. Mas isso obviamente não nos
autoriza a transferir o caso para o âmbito do direito canônico. Num sistema
funcional de foro especial, inquéritos ficam sob a guarda do juiz natural e só
sobem na hipótese de envolvimento constatado de autoridade. As provas até então
coletadas, é igualmente óbvio, precisariam ser preservadas.
Por que então o STF não segue a lei nem a lógica? Inquérito
é poder, e, da Lei de Ferro das Oligarquias à Escolha Pública, há toda uma
família de teorias da ciência política que tentam explicar por que elites,
depois que se envolvem em jogos políticos, não apenas não abrem mão de poder
como tentam expandi-lo. Em algum sentido, lutam pela própria sobrevivência.
O triste é que, quanto mais os Poderes se aprofundam nessa
disputa, menos funcional a República vai se tornando.
No Brasil, é um erro morrer; assim que encerram o
velório, o artista começa a ser esquecido
Tom Jobim, Cazuza, Cartola, Drummond, Guimarães Rosa e
Clarice são das poucas exceções
Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho,
famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às
reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas
seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso
eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o
velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No
Brasil, é um erro morrer.
E não importa o tamanho do morto. Exemplo?
De 1930 a 1960, ninguém mais presente, poderoso e influente na música popular
do que Ary
Barroso (1903-1964). E dava razões para isso: fora o primeiro sambista
a ficar famoso, o principal abastecedor de Carmen Miranda e Francisco Alves e
fixador de gêneros como o samba dolente
("Faceira", 1931), o samba-canção ("Maria", 1934), o samba
de Carnaval ("Foi Ela", 1935), o samba dramático ("Na Batucada
da Vida", 1935), o samba baiano ("Na Baixa do Sapateiro", 1938),
o samba-exaltação ("Aquarela do Brasil", 1939) e muitas outras
variantes. Como compositor de piano, tinha uma orquestra nos dedos.
Não só. Foi também o primeiro compositor brasileiro a ser
chamado por Hollywood; o
mais ouvido locutor esportivo de seu tempo; sinônimo do Flamengo, do qual
foi cartola secreto; descobridor de talentos em seu programa de auditório;
inspirador da bossa nova (Tom Jobim e João Gilberto o adoravam); e, embora
provocasse ciúmes até em Villa-Lobos, dizia-se, com orgulho, um sambista. Pois,
com tudo isso, Ary está esquecido.
Estou falando de Ary Barroso, mas poderia citar outros
compositores, cantores, atores, escritores, pintores ou bailarinos de calibre
equivalente, no masculino ou feminino, cujo "legado" –a obra que
deixaram-- está há muito fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das
páginas dos livros e da memória do Brasil. Você poderá citar outros.
Em compensação, Tom Jobim, Cartola, Cazuza, Carlos Drummond,
Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Tarsila do Amaral nunca morreram. Por
enquanto.
Coach subiu no picadeiro para ajudar Flávio Bolsonaro e
promover seus próprios negócios; registro deve ser negado pelo TSE
A nova aventura de Pablo Marçal está com os dias contados.
Inelegível até 2032, o coach registrou a candidatura a presidente nos últimos
minutos do prazo. Conseguiu tumultuar a disputa, mas deve ser barrado pelo TSE.
Com milhões de seguidores nas redes sociais, Marçal tem a
receita para bagunçar o coreto. Em seis dias de campanha, berrou palavrões,
insultou jornalistas e chorou num podcast.
Ele reapareceu a bordo de um factoide: declarou R$ 7 bilhões
em patrimônio. Depois de ganhar as manchetes, alegou erro ao preencher um
formulário. Quem o conhece identificou mais uma pegadinha para causar polêmica
e reforçar a imagem de novo rico.
Marçal já deixou claro que a candidatura é
uma farsa. Ele subiu no picadeiro para promover seus negócios e ajudar Flávio
Bolsonaro, beneficiário dos ataques a Lula e Renan Santos.
Para o Ministério Público, a chapa foi arquitetada sobre
duas fraudes. Além de estar com os direitos políticos suspensos, o coach forjou
uma filiação ao PRTB com data retroativa. Bons tempos em que a sigla só era
notada pela figura exótica de Levy Fidelix, o bigodudo do aerotrem.
Ontem o TSE proibiu Marçal de usar recursos públicos e
participar de debates. A decisão unânime indica que a candidatura de mentirinha
já subiu no telhado. Mesmo assim, ele ainda pode ter duas ou três semanas para
encenar a farsa e pedir doações a incautos.
O candidato-coach é produto de uma era em que a política se
confunde cada vez mais com o entretenimento. Suas presepadas geram engajamento
e votos, como se viu na última eleição para a Prefeitura de São Paulo.
A seu modo, Marçal deve repetir
a passagem-relâmpago de Silvio Santos pela corrida presidencial de
1989. O homem do baú entrou na disputa a 15 dias do primeiro turno. Chegou a
ameaçar o favoritismo de Fernando Collor, mas foi barrado pelo TSE por
irregularidades no registro partidário.
As semelhanças terminam no lançamento de última hora e no
uso de uma legenda de aluguel. Diante do que se vê hoje, a candidatura de
Silvio teve a inocência de um programa de calouros.
A mera consciência partidária dos eleitores bolsonaristas
de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder
No domingo dia 16, os partidos políticos começaram suas
campanhas eleitorais de 2026. Mais do que a eleição para a presidência, as
eleições para as duas casas do Congresso decidirão o destino político do país.
A direita há décadas optou por aumentar sua representação nas duas casas e
governar o Brasil indiretamente por meio do Legislativo, emparedando a
Presidência da República. O poder político foi desfigurado pela concepção de
que o Brasil tem um partido só, o de uma família.
A mera consciência partidária dos eleitores que a seguem de
algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder. O
PT, em particular, caiu na armadilha. O que não deixou para a esquerda senão
fazer política fora dos marcos do que é propriamente democracia direta e
eleitoral.
Nessa lógica, não é estranho que os
evangélicos fundamentalistas estejam sendo aparelhados para declarar que o
Brasil cristão ou diferente ou indiferente quanto à crença, mas não evangélico,
não é o país deles, mas um país inimigo. Eles não votam pela representação
política, mas pela intervenção religiosa nas instituições políticas.
O aspecto mais importante da vitória da direita no
Legislativo e da vitória da esquerda no Executivo, em 2022, foi a libertação do
centro da relação de subserviência ao bolsonarismo. As eleições serão um teste
da hipótese.
A centro-direita chega a estas eleições de 2026 sem a
necessidade de perfilhar e assumir os débitos políticos de Bolsonaro e sua
família. Os do personalismo dos Bolsonaros e sua incompetência para lidar com
questões como a pandemia e várias outras questões pendentes da desordem e das
decisões erradas de seu governo (2019-2022).
Um indício nesse sentido foi a fala poderosa de Gilberto
Kassab, do PSD, candidato a vice-presidente, na chapa de Caiado, aos
empresários em São Paulo, incluídos os do agronegócio e seu poder na política
do interior, quando declarou que a chance de Bolsonaro nesta eleição é zero. E
que o centro está com Lula. Esclareça-se: com Lula para que derrote os
Bolsonaros.
Os Bolsonaros são produto de uma “fabricação” política, com
base sociologicamente imperfeita e incorreta naquilo que Erving Goffman
caracteriza como manipulação de impressões.
É possível definir alguém a partir de impressões sociais que
ela pode causar intencionalmente nos outros. Mas as impressões não existem a
partir de suposições gratuitas e fake news. Elas dependem de atributos de
personalidade de quem é objeto da intenção. Poderia haver, ainda, o outro lado
sociológico da questão Bolsonaro.
Max Weber explica que o carisma não se transfere de uma
pessoa a outra. Bolsonaro, aliás, não tem carisma. Tem popularidade manipulada,
o que torna mais complicada a transferência do atributo de pai para filho.
Na manifestação de Copacabana, foi montada toda uma
encenação em que imagens e falas do ex-presidente da República, agora em
cumprimento de longa pena e, portanto, legalmente impedido dessas
manifestações, atuou eleitoralmente em favor do filho. O candidato nessa
inauguração de campanha mostrou que depende significativamente de que o
eleitorado o considere cópia e expressão do pai. Não é improvável o efeito
bumerangue dessa operação.
Nesta campanha os Bolsonaros terão maior visibilidade. E,
portanto, também a terão seus erros e defeitos, com forte probabilidade que a
unificação das identidades no nome “Bolsonaro” unifique também os atributos
negativos dos membros da família. A campanha refabricará o chamado clã.
A que se deve acrescentar o agravamento decorrente de
atributos falsos e frágeis, como a manipulação bolsonarista da religião e a
superficialidade de suas demonstrações de fé. Um palavrão de baixíssimo calão,
gritado por uma vereadora bolsonarista, contra Lula, no ato de Copacabana, tem
nesses casos a função desconstrutiva da teatralidade precária do restante.
A manifestação do Rio foi diferente do aspecto não
amadorístico da manifestação do PT em São Bernardo do Campo. Lula não se
apresentou sozinho, mas acompanhado de candidatos a outras funções e de outros
partidos. Foi pluralista. Em um lugar histórico da luta dos brasileiros contra
a ditadura militar.
As esquerdas têm uma história de sofrimento pela pátria, de
luta pela liberdade e muito concreta por um país soberano e livre, por
benefícios sociais na área da saúde e da educação.
O PT e seu candidato têm uma história consolidada e
propriamente de luta pela democracia no Brasil. Tem uma história propriamente
política e brasileira. O que é bem diferente de ter suposta influência
extralegal sobre governante de potência estrangeira. O que se confirma nos atos
fiscais antipatrióticos contra o Brasil.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da
Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da
Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).
Partido Missão se declara liberal, mas abraça posições
iliberais
Credulidade da Faria Lima em relação à sigla é
inquietante
Sempre que vejo "Faria Lima" como sujeito de
título noticioso que não seja sobre trânsito, fico desconfiado. Utilizar o nome
da avenida paulistana como metonímia para "mercado financeiro" é
arriscado, entre outras razões porque o tal de mercado não é uno. Reúne desde
operadores de day trade até operários que investem o dinheiro de seus fundos de
pensão, sem mencionar a viúva aposentada e eventuais clones de Daniel
Vorcaro.
Mesmo ciente da diversidade e dos limites
da figura de linguagem, fiquei preocupado ao ler reportagens sugerindo
que a "Faria Lima" está se enamorando da candidatura
presidencial de Renan Santos,
do partido
Missão, que me parece ainda menos confiável do que o Mounjaro
paraguaio. Algum descompasso entre o ideário de uma sigla e suas propostas
concretas é sempre esperado, mas, no caso do Missão, as incongruências foram
esticadas até o ponto de colapso da identidade.
O problema de base é que o partido, no artigo 1º, § 2 de seu
estatuto, afirma ter "caráter liberal" (e é provavelmente isso que
encantou a "Faria Lima"), mas não há muito como conciliar o beabá da
cartilha liberal com o que a sigla defende. O modelo de segurança pública que
eles propõem flerta abertamente com as ideias e práticas de Nayib Bukele.
Só que não há meio de confundir o regime salvadorenho com uma democracia liberal.
Aquilo é um Estado autoritário que pratica violações sistemáticas a direitos
humanos.
Ainda que restrinjamos o liberalismo do Missão ao plano
econômico —o que já configuraria transgressão às visões mais holísticas de
liberalismo—, fica difícil pacificar a doutrina clássica com a defesa do
nacionalismo e até com um certo desenvolvimentismo. Nada disso deveria
surpreender muito, considerando que o embrião do Missão, o movimento MBL, ganhou
visibilidade tentando censurar uma apresentação artística.
O que me inquieta no flerte da "Faria Lima" com o
Missão é pensar que meus modestos investimentos podem estar nas mãos de gente
que cai muito facilmente em contos do vigário.
É preciso discutir o dilema imposto pela necessidade de
reformas em um ambiente em que muitos com poder resistem às mudanças
Um grande dilema vai marcar o início do próximo quadriênio
(2027-2030). De um lado, o país precisará fazer reformas econômicas,
administrativas e político-institucionais para não entrar numa grave crise, o
que inviabilizaria o mandato do novo presidente num momento de incerteza
internacional e aumento da desconfiança do eleitorado. Por outro, os atores que
representam o status quo atual tendem a continuar fortes, especialmente os
congressistas sob a hegemonia do Centrão, e mesmo o Judiciário, que tem perdido
popularidade, ainda tem muita capacidade de resistir à mudança.
O enfrentamento desse dilema é a questão mais importante
após a eleição, mas já deveria ser discutido desde já, pois a sociedade precisa
saber dessa dificuldade política e dos custos de não resolvê-la. Ainda mais
porque os principais presidenciáveis pouco falam da realidade que enfrentarão
no ano que vem, seja a das políticas públicas, seja a da complexa
governabilidade.
A herança das políticas públicas de Lula III tem coisas boas
e ruins. A política ambiental foi retomada depois da hecatombe bolsonarista. O
sucateamento do SUS realizado pelo governo anterior foi estancado, com algumas
novidades, como o uso inteligente da telemedicina como instrumento para
combater as desigualdades territoriais. O MEC voltou a ter protagonismo, com
diversos avanços importantes, com destaque para a política federativa de
colaboração com os estados e municípios na alfabetização, com impacto no
desempenho escolar já no presente quadriênio.
Outras medidas positivas poderiam ser
destacadas, realçando que o principal mérito governamental foi reconstruir
parcelas do Estado que tinham sido destruídas pelo bolsonarismo - algo que
poderá se repetir no próximo quadriênio. Mas a fórmula lulista de governo já
não tem a efetividade dos dois primeiros mandatos de Lula. O mundo e o Brasil
mudaram, e há novos desafios, que exigem agendas e estratégias renovadas.
Três exemplos podem ilustrar esse desgaste na fórmula
lulista de governar. O primeiro é a incapacidade de gerar um novo ciclo de
desenvolvimento para além do modelo baseado na ampliação da renda e, sobretudo,
do crédito. O país tem de construir mais riquezas aumentando a produtividade e
o investimento. Não se trata mais, como na ditadura militar, de reclamar da
falta de combate às desigualdades, porque o lulismo efetivamente levou adiante
o modelo da Constituição de 1988 e teve uma herança bendita de FHC para criar
várias políticas redistributivas de recursos e de oportunidades, um dos seus
maiores méritos. Só que se o crescimento se tornar insustentável nos planos
fiscal e monetário, já não há mais coelho na cartola que empurre por mais anos
o ajuste institucional das contas públicas.
Em segundo lugar, novas agendas e atores surgiram nos
últimos anos, de modo que o mundo das políticas públicas se tornou mais
complexo. Parte dos grupos emergentes são, inclusive, derivados do sucesso da
fórmula lulista de governar, e é preciso readequar as políticas públicas para
esse novo cenário. Tão relevante quanto dialogar, entender e descobrir novas
soluções para os novos atores é incorporar uma lista de temas que não eram
centrais no lulismo. O apoio às mulheres da classe C que vivem nos eixos metropolitanos
vai exigir um arsenal de políticas sociais diferentes. Mais importante ainda, a
política de segurança pública tem de ganhar maior centralidade na ordem de
prioridades lulista.
Aliás, um erro fatal foi não ter criado, desde o início do
mandato, um ministério específico para essa questão, o que evitaria a narrativa
de que a esquerda acredita que o problema da violência é apenas uma questão
social. Isso já não é verdade faz algum tempo e nem a direita tem sido efetiva
no assunto - basta ver o fracasso da política de segurança do governador
Tarcísio de Freitas, com a explosão de feminicídios e dos roubos ou furtos de
celulares. Entretanto, mesmo tendo ao final do governo proposto legislações
importantes como a lei Antifacção e a PEC do Sistema Único de Segurança Pública
(SUSP), a demora em colocar a temática em maior evidência custou credibilidade
eleitoral ao presidente Lula.
Fechando a lista de exemplos, o lulismo não tem sido capaz
de renovar boa parte de suas lideranças. É verdade que novos nomes com grande
talento surgiram, como o governador do Piauí, Rafael Fonteles, e figuras do
governo federal como Fernando Haddad e Camilo Santana foram bem-sucedidas em
vários pontos reformistas e vão além da agenda passadista de boa parte do
petismo.
Entretanto, a renovação precisa ser maior, incorporando
novas lideranças sociais e se aproximando mais do povo. Cresci na periferia de
São Paulo entre as décadas de 1970 e 1980, e na época as comunidades eclesiais
de base estavam por toda parte. Vários dos políticos petistas que ascenderiam
mais tarde ao poder estavam constantemente, como dizia Mário Covas, sujando o
pé no barro - e hoje estão muito distantes de uma boa parte das camadas
populares. Isso para não falar da escassez de lideranças de centro-esquerda no
mundo das redes sociais.
A dificuldade de ir além do modelo lulista dos dois
primeiros mandatos também se deveu ao novo cenário político. Nele, estiveram
presentes uma oposição forte e com uma estratégia contra as instituições, um
Congresso revigorado nos poderes, mas não nas responsabilidades, além de um
sistema de Justiça que teve fraturas no meio do caminho entre seu papel central
na defesa da democracia e o corporativismo de suas lideranças e da
magistratura, algo que está sendo rechaçado pela sociedade. Ao conturbado cenário
interno somou-se a desordem e perseguição externa provocada pelo governo Trump,
que nos atingiu com o tarifaço e com a ameaça de intervir na eleição
presidencial de 2026.
O cenário não será menos conturbado no próximo mandato
presidencial. Aí voltamos ao dilema das necessidades imperiosas da mudança
versus o poder do status quo. Em relação ao primeiro ponto, um ajuste fiscal e
da estrutura de governança administrativa vai ser necessário logo no início do
mandato. O ponto nevrálgico é que as dívidas dos cidadãos e do governo se
tornaram insuportáveis, e com a Selic nas alturas o problema tende a se agravar
muito rapidamente. Bom, então por que não se reduz numa tacada só a taxa de
juros? Já se fez isso antes, e os resultados não foram, digamos, muito bons.
Na verdade, se o próximo presidente conseguir reformular o
arcabouço fiscal para que ele seja crível por anos em sua tarefa de estancar o
crescimento da dívida pública, por meio de reformas na lógica orçamentária, nos
gastos com os penduricalhos da elite do setor público e na redução das
renúncias tributárias, seria até possível recalibrar a meta de inflação, que de
fato é irrealista para nossas condições. O casamento desses dois componentes
seria positivo, mas depende antes de um projeto de longo prazo de reforma do
Estado, que o torne sadio financeiramente e efetivo na provisão dos serviços
públicos.
O problema está no descasamento da urgência da reforma com a
defesa do status quo de quem é mais forte no sistema atual. Um exemplo diz
tudo: a redução do número de concorrentes à Câmara Federal em 2026 em
comparação ao passado recente. A oligarquização é hoje um traço marcante na
seleção dos deputados federais. A soma de emendas parlamentares bilionárias e
sem paralelo no mundo com os amplos recursos de campanha nas mãos dos partidos
tem dificultado muito a renovação congressual. Ora, as reformas teriam que
passar, em alguma medida, pela redução dos recursos que favorecem os que vão
continuar com hegemonia em Brasília.
Há outros vencedores dos últimos anos que podem ser
atingidos por reformas no próximo governo. O sistema de Justiça se fortaleceu,
com alguns impactos positivos para salvaguardar a ordem constitucional, mas com
efeitos negativos para o controle republicano de seus comportamentos e
rendimentos. Também há os grupos lobistas que reforçaram seus interesses e seus
laços com a elite dos congressistas. O caso do setor elétrico é paradigmático
aqui, com poucos jogadores obtendo altos rendimentos em detrimento dos consumidores
e da sustentabilidade do setor.
A questão é que se nada ou pouco for feito, a crise virá. O
tamanho dela ainda é controverso, mas com certeza vai impactar vários atores
sociais e a popularidade do novo presidente. A economia ficará pior do que
neste ano, o que se junta a um cenário geopolítico bem difícil, além dos
possíveis efeitos climáticos do El Niño. O quanto o status quo irá resistir à
perda geral de bem-estar? Se a resiliência do atraso for o saldo líquido do
jogo político, a crise do sistema político já será sentida fortemente nas
eleições municipais de 2028, ou até antes, com o crescimento de outsiders, o
que seria a antessala de um processo incontrolável de recomposição do poder.
Caso haja uma crise, o que é bem provável, o status quo
precisará entregar os anéis para não perder os dedos. O que ainda não sabemos,
e deveria ser discutido pragmaticamente pelos presidenciáveis e pela sociedade,
é quantos anéis são necessários para construir um caminho mais seguro para o
futuro do país.
*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela
USP e professor da Fundação Getulio Vargas
Raul Seixas (1945-1989) foi um cantor, compositor,
guitarrista e produtor brasileiro, um dos mais importantes nomes do rock no
Brasil. Entre suas músicas destacam-se: Maluco Beleza, Eu Nasci Há 10
Mil Anos Atrás, Mosca na Sopa e Ouro de Tolo.
Raul Santos Seixas nasceu em Salvador, Bahia, no dia 28 de
junho de 1945. Era filho de Raul Varela Seixas, engenheiro de estradas de
ferro, e de Maria Eugênia Santos Seixas.
Com sete anos iniciou no curso primário. Em 1957 ingressou
no Colégio São Bento, mas foi reprovado na 2ª série por três anos. Foi então
mandado para o curso interno do Colégio Marista, mas só completou a 3ª série.
Raul gostava de ler os livros da biblioteca de seu pai e
criva suas próprias histórias desenhando os personagens nos cadernos da escola.
Gostava de música, mas seu sonho era ser escritor.
Na adolescência ele ficava horas ouvindo as músicas de Elvis Presley e de
Little Richard. Em 1959, junto com o amigo Waldir Serrão, fundou o fã clube
“Elvis Rock Club”.
Os Panteras
Já integrado à cena do Rock em Salvador, em 1962, Raul
entrou para a formação da banda “Os Panteras”, formado por Mariano Lanat,
Eládio Gilbraz e Carleba.
Em 1963 a banda se apresentou no programa “Escada
de Sucesso” na TV Itapuã. Em 1967 o grupo aceitou o convite de Jerry
Adriane para ir ao Rio de Janeiro. No ano seguinte gravaram o primeiro e
único disco “Raulzito e Os Panteras”.
No Rio de Janeiro, “Os Panteras” passam por grandes
dificuldades para divulgar o disco e com o apoio do cantor tocam como banda de
apoio. Fase que ele mais tarde descreve na música “Ouro de Tolo”.
Com o fracasso da banda, o grupo voltou para Salvador.
Ainda em 1968, Raul conheceu o diretor da CBS, que mais tarde o
convidou para ser produtor da gravadora.
Aos poucos suas músicas foram gravadas por cantores da Jovem
Guarda, entre eles, Jerry Adriane, Odair José e Renato e Seus Blue Caps.
Depois de alguns lançamentos mal sucedidos, em 1970, Raul
participou do Festival Internacional da Canção com “Let Me Sing, Let Me Sing”,
defendida pelo próprio Raul, e “Eu Sou Eu e Nicuri é o Diabo”, defendida por
Lena Rios & Os Lobos.
Suas músicas chegaram à final e a partir daí, seu nome
começou a se destacar. Foi então contratado pela gravadora Philips. Conheceu o
escritor Paulo Coelho que
mais tarde se tornou seu parceiro musical.
Primeiros sucessos
Em 1973, Raul Seixas lançou seu primeiro disco Kring-ha,
Bandolo! que fez sucesso com as músicas Ouro de Tolo, Mosca na
Sopa, Metamorfose Ambulante e Al Capone.
Em 1974, Raul Seixas, junto com Paulo Coelho, criou a
“Sociedade Alternativa”, um conceito de sociedade livre inspirada no ocultista
Aleister Crowley, que foi tema do disco “Gita”, lançado no mesmo ano.
No mesmo ano, Raul e Paulo foram presos pelo Departamento de
Ordem Política e Social (DOPS) e exilados nos Estados Unidos.
De volta ao Rio de Janeiro, em 1975, Raul lançou “Novo
Aeon”, que fez sucesso com a música Tenta Outra Vez composta
também em parceria com Paulo Coelho.
Em 1976 lançou Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás, um
grande sucesso. Nos anos seguintes, Raul lançou O Dia Em Que a Terra
Parou, no qual se destacou a música Maluco Beleza e
também a faixa título.
Ainda na década de 70, Raul lançou os discos: Por
Quem Os Sinos Dobram e Mata Virgem, ambos em (1979).
Década de 80
Em 1980, Raul gravou o disco Abre-te Sésamo,
porém logo depois ficou sem gravadora e mergulhou no álcool e nas drogas, sem
perspectiva de novas gravações.
Em 1982, faz um show na praia do Gonzaga, em Santos e no
mesmo ano apresentou-se drogado para realizar um show em Caieiras, São
Paulo.
No ano seguinte, foi convidado para gravar um disco
pelo Estúdio Eldorado. No mesmo ano, lançou Raul Seixas, no
qual se destacou o sucesso O Carimbador Maluco, e lhe deu o
disco de ouro e um show na televisão.
Em 1984 lançou Metrô Linha 743. Depois de três
anos sem gravar, lançou Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! (1987).
No ano seguinte lançou A Pedra do Gênesis.
Em 1989 realizou diversas apresentações pelo país, em
companhia do roqueiro Marcelo Nova, o que resultou em seu último disco, A
Panela do Diabo.
No dia 21 de agosto de 1989, dois dias após o álbum chegar
ao mercado, Raul foi encontrado morto em sua cama, no apartamento em São
Paulo.
Raul Seixas faleceu em São Paulo, no dia 21 de agosto de
1989, com apenas 44 anos, vítima do álcool e das drogas..
Casamentos e filhas
Raul teve três filhas, Simone Andrea Wisner Seixas,Scarlet
Vaquer Seixas e Viviane Costa Seixas, fruto de seus casamentos com Edith Wisner
Seixas (1967 a 1974), Glória Vaquer (1975 a 1978) e Angela Affonso Costa
(1979 a 1985), respectivamente.
Frases de Raul Seixas
"Só há amor quando não existe nenhuma
autoridade".
"Do materialismo ao espiritualismo é uma simples
questão de esperar esgotarem-se os limites do primeiro".
"Somos prisioneiros da vida e temos que suportá-la
até que o último viaduto nos invada pela boca adentro e viaje eternamente em
nossos corpos".
"A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de
ser um sujeito normal".
"Quero a certeza dos loucos que brilham. Pois se o
louco persistir na sua loucura, acabará sábio".
Para Flávio Bolsonaro, o 'sistema é podre' e o Brasil
'olha com nojo para Brasília'
A família se proclama 'antissistema', mas faz parte dele
há quase 40 anos
Flávio
Bolsonaro disse em Copacabana, no domingo (16), que o
Brasil "olha com nojo para Brasília". O que Brasília terá achado
disso? Ele estava se referindo aos políticos. Os Bolsonaros são diferentes,
você sabe. Não são políticos. O sistema é "podre". Eles são
"antissistema". Mas vejamos o que cada um fez ou faz na vida.
1 - Jair
Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10
e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário
condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado. 2 - Flávio Bolsonaro.
Filho 01 de Bolsonaro. Quatro mandatos como deputado estadual pelo Rio (2002,
06, 10 e 14). Atual senador e candidato à Presidência da República.
3 - Carlos
Bolsonaro. Filho 02. Sete mandatos como vereador pelo Rio (2000, 04, 08,
12, 16, 20 e 24). No primeiro, concorreu contra a própria mãe e a derrotou.
Chamado de "vereador federal" por passar mais tempo em Brasília do
que no Rio. Candidato a senador por Santa Catarina, para onde se mudou em 2025
a fim de conseguir domicílio eleitoral. 4 - Eduardo
Bolsonaro. Filho 03. Três mandatos como deputado federal por São Paulo
(2016, 20 e 24). Cassado por abandono do cargo e condenado a quatro anos de
prisão por coação judicial. Foragido nos EUA, dedica-se a pregar medidas
econômicas contra o Brasil.
5 - Jair Renan
Bolsonaro. Filho 04. Vereador desde 2024 por Balneário Camboriú (SC). 6
- Michelle
Bolsonaro. Terceira mulher de Bolsonaro. Líder partidária e candidata a
senadora pelo Distrito Federal. 7 - Rogéria
Bolsonaro. Primeira mulher de Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo.
Vereadora pelo Rio em 1992 e 96. Candidata a deputada federal. 8 - Renato
Bolsonaro. Irmão de Bolsonaro. Foi candidato a vereador e a prefeito de
Registro (SP) e Miracatu (SP) em 1996, 98, 2000, 04, 08, 12, 16 e 24. Perdeu
todas. 9 - Percy
Bolsonaro. Pai de Bolsonaro. Filiado nos anos 1960 ao MDB de Eldorado (SP),
partido contra a ditadura
militar, e monitorado pelo extinto SNI (Serviço Nacional de Informações)
por exercício ilegal da medicina.
Incentivos institucionais e cálculo político explicam a
neutralidade da direita pragmática
Coligações de partidos não definem as escolhas do
eleitor, mas têm importantes efeitos indiretos
Aberta a temporada eleitoral, a candidatura de Flávio
Bolsonaro vive um paradoxo. Ele é o preferido dos que jogam no campo
antipetista. Pesquisa após pesquisa o situa perto —às vezes até empatado— com
o presidente Lula. Na sondagem de agosto da Quaest, tem 30%
das preferências, contra 39% do incumbente que pleiteia a reeleição. Ao mesmo
tempo, o filho do ex-presidente amarga notável isolamento das lideranças do
vasto campo das direitas.
Flávio Bolsonaro não logrou construir coligação eleitoral e terminou lançado apenas pela sua
legenda, o PL (Partido
Liberal). Desde 1989, é a primeira vez que um candidato competitivo não se
apoia numa coligação. Até seu pai, um inimigo declarado do "sistema",
teve a seu lado, além do PSL (Partido Social Liberal), o pequeno PRTB
(Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). O filho tampouco conseguiu
atrair um vice com luz própria, capaz de somar algo a uma disputa que se prevê
acirrada. E o alagoano Alfredo Gaspar (PL), político de projeção apenas
local, chega à campanha sob o peso de ter de se defender de graves denúncias
sobre seu comportamento na vida privada.
Sintomáticas são também as atitudes da
direita pragmática. Espertas, as agremiações que formam o chamado "centrão" —Movimento Democrático
Brasileiro (MDB), União Brasil,
Partido Progressistas (PP)
e Republicanos (PR)—
se refugiaram numa posição oficial de neutralidade na disputa nacional, sem
lançar candidatos próprios ao governo, nem apoiar formalmente qualquer dos
concorrentes ao Palácio do Planalto no primeiro turno.
Incentivos institucionais e cálculo político explicam a
neutralidade. Os generosos recursos dos fundos eleitoral e partidário poderão
ser totalmente empregados no que mais interessa na hora do vamos ver, porque
lhes acresce poder: as eleições para
o Congresso
Nacional e, a depender das circunstâncias, para os governos estaduais.
Já a neutralidade confere flexibilidade política à escolha das coligações
subnacionais. Ali onde o PT é forte, não
haverá por que hostilizar seu candidato à Presidência. Por trás de tudo, a
certeza de que o vitorioso sempre dependerá do apoio das forças majoritárias no
Parlamento.
A existência e a amplitude das coligações estão longe de ser
os determinantes maiores do voto. Este resulta de um conjunto de fatores que
incidem de diferentes formas sobre diferentes tipos de eleitor e incluem também
a existência de identificação do votante com um partido; simpatia pelo
candidato; e a própria campanha eleitoral e seus múltiplos recursos de
persuasão. Os cientistas políticos concordam que as coligações partidárias têm
ainda importantes efeitos indiretos. Multiplicam os recursos para campanhas;
trazem tempo e dinheiro para a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV e
para a comunicação nas redes sociais; asseguram capilaridade em todo o
território; e sinalizam a existência de apoios que fazem a candidatura —e um
futuro governo— parecer politicamente viáveis.
Assim, não será à toa que, no chocho comício inaugural da campanha de Bolsonaro-2, domingo
passado (16/8), em Copacabana, seja mais fácil contar quem não foi. Por lá não
se viram políticos conhecidos, nem bolsonaristas notórios. Prova viva da
solidão política do candidato da extrema direita.