Elio Gaspari,
O Globo
Movimento da Polícia Federal indicam que pode estar sendo
reaberto o caso da fraude praticada na empresa
A ida da Polícia Federal aos marqueses da rede varejista
Americanas, bem como o bloqueio de até R$ 54 bilhões de seus bens, indicam que
pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa.
Quando os holofotes estavam voltados para a rede e a empresa
era vista como “terra arrasada”, um banqueiro chamado Daniel Vorcaro armava sua
rede de notáveis para salvar seu banco. Organizava farofas com hierarcas e
festas com jovens eslavas.
A sabedoria convencional ensina que o escândalo seguinte
abafa a roubalheira anterior. Nesse caso, o banco Master abafaria o caso da
Americanas. A ação da PF desmentiu essa urucubaca.
A fraude da Americanas mobilizou várias
equipes de investigadores e produziu a maior pizzaria dos últimos tempos.
Chegaram ao ponto de criar uma CPI que não ouviu ninguém relevante e não
apontou para vivalma. Exageraram na exibição do próprio poderio. Soberba.
Só não haviam domesticado a Polícia Federal. Má ideia.
Quando o caso do banco Master começou, urdiu-se uma vacina
judicial. Levaram a farinha, o queijo e os tomates. Iam ligar o forno e, sem
estridência, alguém pôs na pizza contratos de advocacia e um resort de
granfinos no Paraná. O tempero azedou a pizza.
O canalha e o tribunal
O nível de uma banda do Supremo Tribunal Federal chegou a
tal ponto que merece atenção um ensinamento do advogado americano Roy Cohn
(1927-1986):
“Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz.”
Como promotor, Cohn foi o braço direito do senador Joseph
McCarthy na caça às bruxas dos anos 50. Como advogado foi um temível litigante
e teve como cliente e discípulo um jovem empresário chamado Donald Trump.
Em setembro chegará às livrarias sua biografia, escrita pelo
craque Kai (Oppenheimer) Bird. Seu título diz tudo:
“Um canalha americano.”
Mendonça não é Moro
Não custa repetir: André Mendonça não é Sergio Moro. Seu
único projeto é sair inteiro do Supremo Tribunal.
Conversa difícil
A conversa de Lula com o senador Jaques Wagner que resultou
no seu afastamento da liderança do governo foi das mais difíceis de seus 80
anos.
Maggie Haberman
Chegou às livrarias nos Estados Unidos o novo livro da
repórter Maggie Haberman. É “Regime Change”, desta vez, com seu colega Jonathan
Swan. Destrincha o primeiro ano do governo de Donald Trump. Resulta um
presidente vingativo, egocêntrico e mercurial. Na sua Casa Branca o bilionário
Elon Musk passou de gênio a doido.
Num de seus melhores momentos eles descrevem a subserviência
pós-eleitoral de Mark Zuckerberg, que o havia banido de sua rede, e de Jeff
Bezos. Bezos reclamou dos jornalistas do seu Washington Post, e um dos filhos
de Zuckerberg escreveu uma carta a Trump dizendo que ele levará os EUA a uma
era de ouro.
Puxa-saco é parte da vida, mas presidente tripudiando com a
exibição das mensagens que eles lhe mandaram é novidade.
O último livro de Haberman foi uma biografia de Trump.
Chama-se “Vigarista”.
Trump e o Irã
Em outubro passado, o comentarista Tucker Carlson alertou-o
para o risco de se meter com o Irã, tema da agenda de Benjamin Netanyahu.
“Não vamos fazer isso”, respondeu Trump.
“Ótimo. Porque a única coisa que pode implodir seu governo é
uma guerra com o Irã. Essa é uma armadilha de seus inimigos. Essa gente o
odeia. Depois que você entra, é difícil sair. Estropia sua presidência“.
Deu no que deu.
Maduro
Haberman e Swan contam que no dia 21 de novembro o
bilionário brasileiro Joesley Batista esteve com Trump e Marco Rubio (seu canal
seria Melania, a mulher do presidente). Eterno desconfiado, Trump conduziu a
conversa em espanhol para testar a proficiência de Joesley com o idioma.
Batista foi a Caracas e sugeriu a Maduro que renunciasse.
Nada feito.
Trump tentou de novo, mandando Tucker Carlson a Maduro. O
ditador venezuelano ofereceu ao intermediário americano provas de que as urnas
da eleição de 2020 nos Estados Unidos estavam viciadas. Não colou, o recado de
Trump era claro: vamos tomar seu país e seu petróleo.
Com a frota americana ao largo, Maduro tentou negociar.
Trump oferecia-lhe a carta do exílio. A essa altura, o secretário de Estado
Marco Rubio já tinha posto uma coleira na vice-presidente Delcy Rodríguez. O
secretário de Estado diz que ela é séria, porém corrupta.
Na véspera do Natal, Trump tinha três opções: Maduro seria
mandado para o Qatar, para a Turquia ou para a cadeia. No dia 3 de janeiro
Maduro e sua mulher foram sequestrados e estão presos nos Estados Unidos.
A prioridade de Rubio
Marco Rubio credenciou-se para ocupar a Secretaria de Estado
com a ideia de que os Estados Unidos perdem muito tempo com a Europa e o
Oriente Médio enquanto deveriam ser mais ativos na América Latina.
A encalacrada em que Trump se meteu com o Irã indica que
Rubio não foi ouvido por seu chefe, mas já já ele arruma outra encrenca por
aqui.
Alexandre e Alcolumbre
Pode vir a ser perda de tempo supor que o próximo Senado
votará o impedimento do ministro Alexandre de Moraes. A amizade do doutor com o
senador Davi Alcolumbre é uma barreira quase intransponível.
Como a sede é muita, escolherão outra vítima.
Vorcaro na Papudinha
Instalado numa cela da Papudinha, Daniel Vorcaro terá mais
clima para refletir sobre a qualidade de sua delação. A cada semana que passa,
a Polícia Federal e o Ministério Público precisam menos dela.
A esta altura, sua transferência para um regime de prisão
domiciliar é pouco mais que um sonho de noite de inverno.
Bolsonaro x Bolsonaro
Que grande novela dariam as brigas passadas, presentes e
futuras da família Bolsonaro.
Ganha um fim de semana em Miami quem souber um só tema de
política pública que os divide. É puro Nelson Rodrigues.
Gordon no Planalto
Atribui-se ao escritor Otto Lara Resende uma frase cruel,
disparada durante o governo do marechal Castello Branco (1964-1967):
“Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente da
República.”
Gordon, um professor de Harvard, era o embaixador americano
e não achava a menor graça na piada. Seu senso de humor era limitado.
Já o adido militar, general Vernon Walters, era uma piada
ambulante. Renomado poliglota, dizia: “Eu falo sete idiomas e não penso em
nenhum.”
Quando falavam que ele urdiu a deposição do presidente João
Goulart, respondia:
“Se eu entendesse o Brasil, não teria comprado um
apartamento no Panorama Palace Hotel.”
O prédio, construído numa encosta de Ipanema, nunca ficou
pronto.