sexta-feira, 15 de maio de 2026

EDUARDO BOLSONARO, O HOMEM DA GRANA

Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Paulo Motoryn, The Intercept Brasil

EXCLUSIVO: Eduardo Bolsonaro tinha poder sobre dinheiro do “Dark Horse”, revela contrato

O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, atuou como produtor-executivo de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, com responsabilidades e poder sobre a gestão financeira do projeto, segundo um contrato assinado por ele e diálogos obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil

Os registros contradizem afirmações feitas por Eduardo Bolsonaro em uma publicação no Instagram na quinta-feira, 14, sobre sua relação com o filme e colocam o deputado federal cassado como uma peça-chave com poder na tomada de decisões, inclusive financeiras, sobre o filme que conta a história do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Também mostram que Eduardo omitiu sua conexão com a busca de dinheiro para financiar o filme ao dizer, no post feito no Instagram, que apenas cedeu seus direitos de imagem e não exerceu qualquer cargo de gestão no “Dark Horse”.

Um contrato de produção, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024, traz a empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora, e Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias, também do PL paulista, à frente da produção-executiva, função com poder para lidar diretamente com o controle de orçamento e gestão financeira de um projeto audiovisual.

Contrato cita que Jair Bolsonaro cedeu “os direitos de história de vida” para a produção, na época intitulada “O Capitão do Povo”, e não “Dark Horse”.Contrato cita que Jair Bolsonaro cedeu “os direitos de história de vida” para a produção, na época intitulada “O Capitão do Povo”, e não “Dark Horse”.

Segundo o documento, a produtora e os produtores-executivos agiriam em conjunto para dedicar-se a atividades de desenvolvimento do projeto, dentre elas “envolvimento nas considerações estratégicas relacionadas ao financiamento do filme e preparação de informações e documentação para investidores e assistência na identificação de recursos de financiamento de filmes, incluindo créditos e incentivos fiscais, colocação de produtos e patrocínio”.

O contrato obtido pelo Intercept define uma ampla gama das funções que Eduardo teria na produção. Junto com os outros produtores, a empresa GoUp e o deputado federal Mario Frias, ele teria a responsabilidade sobre as decisões sobre como os recursos seriam captados e gastos. Não há informação, porém, sobre quem, de fato, executou essas funções.

Contrato descreve atividades a serem executadas pela produtora e pelos produtores-executivos do filme.

Enviamos questionamentos para Eduardo Bolsonaro e para o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto. A defesa do deputado Mario Frias informou que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo da produção do filme Dark Horse” e “nunca recebeu qualquer quantia do fundo de investimento cujo produto privado final é o filme”.

A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro disse que não iria se manifestar sobre o tema. A defesa de Jair Bolsonaro disse ao Intercept que ele não pode se manifestar porque está preso – e destacou que não tinha acesso ao ex-presidente porque as visitas dos advogados são restritas.

Uma troca de mensagens entre o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Daniel Vorcaro de 21 de março de 2025 destaca o papel de articulador financeiro exercido por Eduardo na produção do filme.  

Miranda, que teve papel de intermediário entre Vorcaro, a família Bolsonaro e o deputado Mario Frias em tratativas sobre o filme, encaminha para o banqueiro uma captura de tela de uma mensagem que Eduardo o enviou e diz: “Já estou fazendo o aditivo da troca da empresa e preciso de um direcionamento seu para seguir.”

Na mensagem de Eduardo a Miranda, o deputado federal cassado diz: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos.”

Em seguida, de acordo com a mensagem obtida pelo Intercept, Eduardo explica como seria a melhor forma de enviar o dinheiro: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”. 

Embora não seja possível precisar a data que Eduardo enviou a mensagem a Miranda, o encaminhamento da captura de tela para Vorcaro indica que isso ocorreu em março de 2025 – mesmo mês em que Eduardo anunciou que ia se licenciar do mandato para ficar nos EUA e buscar as “devidas sanções aos violadores de direitos humanos”.

Enviamos questionamentos para Miranda, que esclareceu que ele “não desempenhou qualquer função na produção, divulgação, gestão financeira e estratégia de lançamento do filme Dark Horse” tendo limitado sua participação a “intermediar o contato entre pretenso investidor e os interessados no projeto”. Leia a resposta na íntegra

Outro documento, datado de fevereiro de 2024, mostra ainda uma minuta de aditivo de contrato para a produção de “Dark Horse” em que Eduardo é qualificado como financiador do filme e autoriza o uso de recursos financeiros que ele investir no projeto. Não há confirmação se o aditivo foi, de fato, assinado.

Aditivo do contrato cita que Eduardo, que consta como “financiador”, se compromete a “financiar parcialmente a produção cinematográfica”.Aditivo do contrato cita que Eduardo, que consta como “financiador”, se compromete a “financiar parcialmente a produção cinematográfica”.

Embora ele diga não ser “dono do filme”, o contrato – datado de  novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024 – designa explicitamente Eduardo e Frias como tendo poder de gestão e decisão sobre a produção, juntamente da GoUp. 

A minuta que o designa como financiador da operação também contradiz sua fala de que ele teria apenas cedido “direitos de imagem”.

Contrato foi assinado digitalmente e, embora a data conste como 26 de novembro de 2023, a assinatura de Eduardo Bolsonaro foi formalizada no acordo em 30 de janeiro de 2024.

A GoUp Entertainment é uma empresa sediada na Flórida que tem como sócios a brasileira Karina Ferreira da Gama e um brasileiro naturalizado nos Estados Unidos, Michael Brian Davis. 

Em dezembro, revelamos como uma organização não-governamental na qual Karina é sócia, o Instituto Conhecer Brasil, havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público sem concluir as entregas previstas. Desde março, o Ministério Público está investigando o contrato. 

Nesta sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou a abertura de uma apuração preliminar para apurar se houve direcionamento de emendas parlamentares para projetos culturais, inclusive o filme Dark Horse. A TV Globo noticiou na quinta-feira, 14, que o STF tenta, há mais de um mês, intimar o deputado Mario Frias a prestar informações sobre “possíveis irregularidades na execução de recursos de emendas” destinados ao Instituto Conhecer Brasil – o parlamentar e produtor-executivo do filme teria destinado R$ 2 milhões à ONG. 

Enviamos questionamentos para Karina Gama e para seu sócio, Michael Brian Davis, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.

Fundo de advogado de Eduardo recebeu dinheiro de Vorcaro

Na quarta-feira, 13, o Intercept revelou como o senador Flavio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, irmão de Eduardo, articulou apoio do banqueiro Vorcaro para financiar a produção de “Dark Horse”, segundo mensagens obtidas com exclusividade. 

Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção, dos quais pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.

A Polícia Federal apura se o dinheiro de Vorcaro para “Dark Horse” teria custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. No Instagram, o deputado federal cassado negou ter recebido o dinheiro negociado para o filme. 

O material analisado pelo Intercept indica que ao menos parte dos valores negociados por Flávio junto a Vorcaro foi para um fundo controlado por aliados de Eduardo – incluindo Paulo Calixto, o advogado encarregado de seu processo imigratório nos EUA, conforme apuração da Agência Pública

Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2 milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos analisados pelo Intercept indicam que parte do dinheiro negociado com Vorcaro para o filme foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas do banqueiro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos EUA, e controlado por aliados de Eduardo.

Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto.

Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas.

Os documentos desta segunda firma apontam Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço comercial utilizado pelo Havengate.

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Em uma das mensagens obtidas pelo Intercept, ao sugerir alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA, Eduardo Bolsonaro informa que Altieris Santana estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.

Enviamos questionamentos para Altieris Santana e Paulo Calixto, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto. 

No Instagram, Eduardo disse que “o escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos” e que foi ele quem apresentou Calixto a Mario Frias “por saber da sua competência”.

Plano de negócios previa “oportunidade de imigração”

Os documentos mostram que o filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro teve um orçamento total astronômico para os padrões brasileiros: o valor estimado é entre 23 milhões e 26 milhões de dólares. A quantia corresponde ao montante negociado por Flávio Bolsonaro com Vorcaro: 24 milhões de dólares. O custo total é superior ao de várias produções recentes de Hollywood, inclusive vencedoras do Oscar.

O orçamento do filme prevê, segundo os documentos aos quais o Intercept teve acesso, que mais de 10,7 milhões de dólares seriam destinados apenas aos custos “acima da linha”, rubrica que inclui “custos gastos antes da filmagem” – com direitos do roteiro, salários de atores, diretores, produtores, diretor de elenco, roteirista e outros envolvidos na direção financeira e criativa de alto nível do filme.

Ainda segundo os documentos, a estratégia para captar recursos consistia na oferta de 40 cotas de 500 mil dólares. Ou seja, um total de 20 milhões de dólares.

Para atrair grandes investidores, o orçamento do filme foi fatiado em pacotes de investimento VIP com regalias incomuns para o mercado de cinema. Se o investidor pagasse 1 milhão de dólares, ele comprava uma cadeira no conselho de produção – com direito a dar pitacos e influenciar as decisões do filme.

O pacote mais caro, e incomum, custava 1,1 milhão de dólares. O grande chamariz para esse investimento não era o filme, mas sim a promessa explícita de uma “oportunidade de imigração”. O plano de negócios oferecia o filme como um atalho para que ricaços comprassem o direito a um Green Card, garantindo assim o visto de residência permanente nos Estados Unidos.

Plano de negócios previa benefícios para investidores, incluindo uma “oportunidade de imigração”

A promessa de lucro da produtora era agressiva: os investidores teriam a devolução de 100% do capital aportado acrescido de um lucro de 20% sobre o valor investido. O plano de negócios projetava a receita global do filme em três cenários distintos: um pessimista (de 45 milhões de dólares), um conservador (70 milhões de dólares) e um otimista (100 milhões).

Após a quitação prioritária do capital e do prêmio de 20% aos financiadores, todo o lucro líquido restante gerado pela bilheteria e plataformas de streaming seria dividido meio a meio entre investidores e produtores. Ou seja, Eduardo Bolsonaro e Mario Frias também lucrariam com o filme.

Você tem mais documentos sobre Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, “Dark Horse” ou o Banco Master e quer que o Intercept investigue sua denúncia? Entre em contato conosco, por e-mail: lais.martins@intercept.com.breduardo.goulart@intercept.com.brleandro.becker@intercept.com.br e paulo.motoryn@intercept.com.br. Ou, então, por Signal: @laisfm.02, EduardoGoulart.01, @interceptbrasil.44

Atualização: 15 de maio de 202516h49
Texto atualizado para incluir resposta da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa, Angélica Neiva, Marina Luiza Queiroz, Rafaela Silva e Sarah Germano.

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CONVERSA COM VORCARO ATROPELA FLÁVIO BOLSONARO E ABALA A DIREITA

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Divulgação de áudio retira Lula do aperto causado pela rejeição de Jorge Messias

Flávio, em tese, poderá ser trocado por alguém mais capacitado, mas Zema e Caiado dificilmente serão protagonistas

Veio como um terremoto a revelação de um áudio no qual o senador Flávio Bolsonaro pede milhões de reais ao banqueiro Daniel Vorcaro para supostamente financiar a cinebiografia de seu pai. O furo do site Intercept atingiu não apenas a candidatura do senador, mas a própria perspectiva da direita na eleição presidencial.

O abalo sofrido por Flávio retira Lula do aperto causado pela rejeição de Jorge Messias, seu candidato ao STF. O petista respira aliviado. Se a recente rodada da pesquisa Quaest já havia sinalizado uma leve recuperação frente ao adversário que vinha crescendo, agora o céu desanuviou.

O outro lado da moeda é que o campo da esquerda considera Flávio o concorrente ideal, por tratar-se de notório incompetente, sem nenhuma experiência de gestão pública, com farto histórico de atividades suspeitas e de relacionamento com bandidos. Agora, poderá, em tese, ser trocado por alguém mais capacitado. Mas quem? O governador Tarcísio de Freitas, candidato dos sonhos do establishment e o mais temido pelo PT, já perdeu o prazo oficial para se afastar e concorrer, assim como Ratinho Jr. e outros.

Romeu Zema e Ronaldo Caiado, com suas diferenças, dificilmente serão protagonistas. O mineiro foi mais agressivo na sua tentativa de aumentar o desgaste de Flávio.

A tarefa de substituir o senador, se é que isso poderá realmente ocorrer, terá também pela frente a realidade de que o escândalo do Banco Master envolve sobretudo personagens da direita, sejam eles do centrão ou do bolsonarismo. A operação, na semana passada, contra Ciro Nogueira, que foi chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, serviu como um lembrete.

Qualquer mudança mais drástica terá, ainda, que partir ou contar com a bênção do capitão recluso. Por ora, o mais provável é deixar como está para ver como fica.

Não é descartável, também, que nomes ligados ao PT e ao presidente venham a aparecer nas investigações da Polícia Federal ou numa possível e temida delação de Vorcaro. Mas é impossível, de todo o modo, imaginar um áudio de Lula pedindo favores ao banqueiro e o tratando por "irmão".

Sabe-se que Vorcaro desembolsou cerca de R$ 61 milhões para a produção de "Dark Horse", ardilosamente concebido para levar Bolsonaro, o pai, a participar indiretamente da campanha eleitoral. As notícias, contudo, são de que a negociação entre a família e o banqueiro corrupto ia muito além dessa quantia. Envolveria Eduardo Bolsonaro e fundo suspeito nos EUA —não sendo nada certo de que se tratava de bancar o filme.

Num país como o Brasil, poucos meses antes de a campanha começar de verdade podem ser um longo tempo. O território está minado, e novas explosões devem acontecer.

Por fim, vale lembrar que os indicadores da cotação do dólar e da Bolsa no chamado "Flávio day" mostraram —como se já não fosse evidente— em que lado está o mercado financeiro, sempre inclinado a pegar caronas irresponsáveis para derrotar Lula. O tremor deixou claro que a grande armação para tentar transformar Flávio Bolsonaro num candidato bacana, moderado e amigo do ajuste fiscal, se já era improvável, agora tornou-se impossível. Resta saber como o caso vai evoluir e para onde a Faria Lima seguirá. A canoa furou e o desembarque parece inevitável.

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BOLSONARISTAS SE ENROLAM SOBRE O RACHADÃO DO DINHEIRO DE VORCARO E ELITE AMIGA SE FINGE DE MORTA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Dinheiro de Vorcaro viajou para fundo amigo nos EUA antes de chegar a filme, diz Flávio

Elite espera para ver se história cola e se pode ignorar outro escândalo dos Bolsonaro

A esta altura, qualquer pessoa que não bebe detergente notou que há um rinoceronte putrescente nas contas dos empreendimentos artísticos dos Bolsonaro e turma. Quem embolsou o dinheiro do mecenas Daniel Vorcaro?

Pode ser fichinha o fato de que Flávio Bolsonaro tenha omitido sua fraternidade com Vorcaro, como criticam seus indignados aliados, do centrão aos evangélicos políticos da direita (ah, coitados). Remendos de explicações nesta quinta (14) apenas ressaltaram suspeitas sobre a viagem do tutu.

A elite política que embarcara nessa nau de insensatos e perversos está quase quieta. Primeiro porque teme levar outra rasteira dos Bolsonaro, contumazes em largar amigos e feridos pelo caminho. Isto é, ainda não sabe como mentir sobre o assunto. Segundo, vai esperar para ver se cola a conversa dos Bolsonaro, se eles não ficam estropiados nas pesquisas. Por fim, vai calcular se o custo de pular na água supera o risco de permanecer na barca bolsonarista, pois por ora há apenas canoinhas eleitorais alternativas, como as de Ronaldo Caiado ou de Romeu Zema.

A elite econômica, que em boa parte aderiu à família golpista, se finge de morta. Para ao menos constar, ninguém vai "pedir esclarecimentos"? Até aqui, faziam qualquer negócio para derrotar Luiz Inácio Lula da Silva. Agora, correm o risco de serem cúmplices políticos de negociata.

Os Bolsonaro são amigos do dinheiro vivo e confraternizavam com criminosos. Sabe-se agora de sua associação com família aparentada nos modos, os Vorcaro, a máfia que tinha um banco. Além de sumir com dezenas de bilhões de reais, entre outras corrupções, essa gente contratava criminosos que hackeavam instituições públicas (Polícia Federal, por exemplo) e outros marginais, valentões, meganhas e espiões. Segundo a PF, Henrique Vorcaro queria a gangue em operação mesmo depois da prisão de Daniel, seu filho.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) pedinchava a dinheirama para Vorcaro dizendo que precisava pagar os custos de "Dark Horse", a ficção promocional de Jair Bolsonaro. O produtor-executivo do filme, o deputado federal Mário Frias (PL-SP), disse que a produção não recebeu nem "um centavo" de Vorcaro. A empresa produtora corroborou a declaração, dizendo ter apenas investidores estrangeiros. Mário Frias emendou sua nota inicial de explicações dizendo, em suma, que recebeu um dinheiro de um investidor que não se sabe onde pode ter arrumado o tutu.

Segundo disse Flávio à GloboNews, o dinheiro que pedinchou a Vorcaro foi parar no fundo Havengate, nos EUA, que é administrado por advogado próximo do fugitivo Eduardo Bolsonaro. Disse que havia contrato de pagamento, que Vorcaro queria lucrar com o negócio. Como parece não ter honrado o contrato, foi punido? Que vantagem levou o Havengate? Taxa de serviço? Gorjeta? Amizade?

Tem recibo? Houve despesa no Brasil? Como a turma de Vorcaro registrou a remessa (supostamente do Master) para essa empresa que supostamente investiu no filme? O dinheiro passou antes por outra empresa ou fundo?

Seja qual for a empresa estrangeira investidora, essa firma e a produtora registraram o valor das remessas e entradas? O dinheiro foi repassado centavo por centavo para o filme e gasto nisso? Isto é, a remessa de cerca de R$ 61 milhões (feita em dólares), valor que a turma não renegou, chegou na produtora do filme? Teve sobra de caixa? Por que, enfim, Vorcaro? Por que ele era "irmão"?

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CONVERSA COM VORCARO ENCERRA LUA DE MEL DE FLÁVIO BOLSONARO E PODE SER FATAL PARA CAMPANHA

Fábio Zanini, Folha de S. Paulo

Senador perde a carta do combate à corrupção, que vinha usando contra Lula

Crise ocorre em meio a vitórias políticas do presidente

Os diálogos entre Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcarorevelados pelo site Intercept Brasil, jogaram a campanha do senador em uma crise que pode ser fatal.

Publicamente ninguém admite, mas nos bastidores muitos dos aliados do senador têm dúvidas de que ele conseguirá se manter na disputa presidencial.

O nome de Michelle Bolsonaro começou a ser mencionado como uma possível substituta. Alguns acham até que o PL não deveria ter candidato e apoiar Romeu Zema ou Ronaldo Caiado.

Por enquanto, Flávio se mantém no jogo, mas o impacto das mensagens é desastroso, e por vários motivos.

Primeiro, acabou a fase de Flávio nadar de braçada, apenas explorando os erros de Lula, que era o que vinha acontecendo até aqui. Essas revelações ocorrem num momento em que o presidente começa a sair das cordas, com uma série de notícias positivas. Ele teve um bom encontro com Trumpanunciou o novo Desenrola e o fim da taxa das blusinhas, por exemplo.

Pior para Flavio, ficou mais dificil agora pra ele usar a carta da corrupção contra Lula. Cada vez que ele mencionar a palavra Master, imediatamente surgirá a lembrança do diálogo pra lá de amistoso com Vorcaro.

Acusar o Lula de ter recebido o banqueiro numa audiência no Palácio do Planalto parece coisa pequena, em comparação. O presidente nunca chamou Vorcaro de irmão, nem disse "estarei contigo sempre", como fez Flávio.

O senador também foi pego no pulo, quando disse que nunca teve contato com Vorcaro, o que arranha ainda mais sua credibilidade.

Por fim, temos o pedido em si, que chegaria a incríveis R$ 134 milhões para um filme em homenagem a seu pai.

Um candidato a presidente que promete austeridade e corte de gastos supérfluos, mas pede essa quantia astronômica a um banqueiro enrolado em corrupção é um prato cheio para seus adversários.

Se a candidatura de Flávio realmente sobreviver, sai machucada desse episódio. O governo ganhou muitos motivos para emplacar o slogan Bolsomaster, e no mínimo neutralizar uma bandeira importante do senador, que é o combate à corrupção.

A eleição ainda está distante, a campanha de verdade nem começou ainda, e muita coisa ainda acontecerá.Quem sabe o que mais vem pela frente com base no temido celular de Vorcaro? Mas a vida da oposição acaba de ficar bem mais difícil.

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PRISÃO NECESSÁRIA DO PAI AUMENTA PRESSÃO POR DELAÇÃO AMPLA DE VORCARO

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Até agora, Daniel Vorcaro ofereceu menos do que os investigadores da PF já sabem

Com a prisão preventiva do pai, Henrique Vorcaro, aumentou muito a pressão sobre Daniel Vorcaro. Se quiser livrá-lo da cadeia, o ex-dono do banco Master vai ter de oferecer muito mais do que tem colocado até agora na mesa.

Preso desde novembro do ano passado, Vorcaro vem negociando com as autoridades uma delação premiada – sem sucesso. Até agora, ofereceu menos do que os investigadores da Polícia Federal já sabem.

A legislação brasileira veda a prisão de parentes para forçar alguém a delatar. O problema para Vorcaro é que esse está longe de ser o caso. O pai ficou tão envolvido quanto ele na trama criminosa.

Henrique Vorcaro é suspeito de seguir pagando os capangas contratados pelo filho, mesmo depois de sua prisão. Há mensagens extraídas de celulares em que ele combina pagamentos de R$ 400 mil ao mês e R$ 75 mil. Os grupos criminosos têm nomes sugestivos: “A Turma” e “Os Meninos”.

Junto com Fabiano Zettel, o cunhado e operador financeiro, que também está preso, a família Vorcaro formou o que o Brasil poucas vezes conseguiu desbaratar: criminosos do “colarinho-branco” com uma organização típica de máfia.

Eles cooptaram não só funcionários públicos e políticos. As novas revelações da sexta fase da Operação Compliance Zero mostram que faziam parte do grupo criminoso também policiais federais, hackers e bicheiros do Rio de Janeiro.

O ecossistema de Vorcaro acumula todo o tipo de suspeita de contravenção: invasão de sistemas públicos, corrupção de agentes públicos, ameaçar pessoas, destruir reputações, etc.

Os criminosos atuavam com desenvoltura no mundo real e virtual. As evidências são fartas e a contemporaneidade, a gravidade e a periculosidade da conduta tornam muito difícil contestar a prisão preventiva de Henrique Vorcaro. Ele deve seguir preso, assim como o filho e o genro. Sua saída também seria uma delação.

Para serem aceitas, todas as delações devem percorrer alguns passos. Primeiro, serem referendadas pela Procuradoria-Geral da República (PGR) e pela Polícia Federal. Depois, passarem pelo crivo do relator, o ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça.

Caso sejam rejeitadas pelo relator, Vorcaro e seus parentes poderiam recorrer à Segunda Turma do Supremo. Dada a quantidade de políticos e até de ministros do próprio tribunal que as delações podem envolver, não se descartam entendimentos diferentes do relator e da Turma.

Mas qual seria o impacto para a imagem do STF de uma delação esvaziada?

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MAIS UM SUBSÍDIO À GASOLINA

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

Combustíveis: medida eleitoral, subvenção para segurar preços cria distorções no consumo

Liberação de até R$ 0,89 por litro de gasolina é uma conta coletiva a ser paga; em nenhum momento o governo se dispôs a incentivar o uso racional dos combustíveis

A nova subvenção aos preços da gasolina e do óleo diesel tem o já conhecido objetivo eleitoral. Destina-se a evitar que a alta de preços se transfira para o custo de vida e, daí, para o estado de espírito do consumidor. Mas produz consequências e algumas distorções.

A liberação de até R$ 0,89 por litro de gasolina é uma boa mesada para quem usa automóvel. Como utiliza recursos públicos, não deixa de ser uma conta a pagar, que é transferida para o resto da população, principalmente para os mais pobres, o que contraria a política propalada pelo governo Lula.

O argumento central das autoridades da Fazenda é o de que esses recursos não produzem impacto sobre as contas públicas porque a alta do petróleo proporcionou receita extra em royalties e participações especiais. Mas falta transparência a essa conta. A suspeita é a de que, como das outras vezes, novo déficit mais ou menos oculto esteja na incubadora.

Não há garantia de que a contenção da alta seja transferida para os preços do varejo. A prática mostra que isso não acontece, pelo menos na proporção do subsídio distribuído. A Agência Nacional do Petróleo vem ameaçando distribuidoras e postos de combustíveis com aplicação de multas e enquadramento jurídico por prática de preços abusivos e de especulação contra o interesse do consumidor. Mas não consegue explicar o que seja isso num regime de preços livres. Se num mercado altamente concorrencial, como é o dos postos de combustível, prevalecem preços altos, é porque a lei da oferta e da procura continua produzindo efeitos.

Uma das distorções que decorrem do sistema de subsídios é a de que o consumidor deixa de sentir na carne o que está acontecendo no mercado e, em vez de poupar combustíveis, continua a consumir à vontade. Ele poderia ser induzido ou a deixar o carro na garagem ou a reduzir a velocidade do seu veículo nas estradas. Em nenhum momento o governo se dispôs a incentivar o uso racional dos combustíveis.

Uma das alegações do Ministério da Fazenda é a de que essa subvenção é apenas temporária, sem dar indicações do que isso significa. O risco aí é o de que o temporário acabe se perpetuando.

Uma distorção que daí provém é a de que o etanol não é contemplado com a mesma facilidade e, nessas condições, perde algum grau de competitividade em relação à gasolina. A proposta do Ministério das Minas e Energia de aumentar a participação de álcool anidro à gasolina, de 30% para 32%, é tentativa de compensar isso.

No mais, essa crise e o aumento da arrecadação do governo com a alta do petróleo são mais um aviso de que a prioridade deve ser dada à produção de petróleo, enquanto a substituição do uso de combustíveis fósseis por combustíveis limpos não se completar. O mercado global ainda é altamente dependente do petróleo e do gás, e o Brasil poderia se beneficiar mais com isso.

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EVENTUAL SAÍDA DE FLÁVIO BOLSONARO É BOA NOTÍCIA PARA LIDERANÇAS EVANGÉLICAS

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Michelle e grandes pastores poderão entrar de cabeça na corrida

Tarcísio era preferido, agora eles avaliam apoiar Zema ou Caiado

As principais lideranças evangélicas do país avisaram. Bateram o pé. Flávio é o nome mais vulnerável para representar o bolsonarismo na eleição presidencial. Foram ignorados.

Malafaia foi o mais direto. Em janeiro, disse que Flávio não tinha "musculatura" e que o anúncio da candidatura foi um "amadorismo político". Falou ainda que Flávio "arrancou" a candidatura do pai fragilizado na prisão, sem consultar o partido nem as lideranças do campo.

Com o crescimento do apoio a Flávio nas pesquisas, ele e outras lideranças de grandes denominações ficaram no compasso de espera. Denúncias como esta cobrariam um preço reputacional de quem se aproximasse cedo demais.

O material que agora complica a vida do senador foi publicado nesta quinta pelo Intercept Brasil. No áudio, o tom é de súplica. O senador cobrava o pagamento de parcelas para a produção de "Dark Horse", o filme sobre Jair Bolsonaro.

As mensagens mostram que o contato ocorreu em 16 de novembro de 2025 —um dia antes de Vorcaro ser preso pela Polícia Federal enquanto tentava deixar o país. O ex-banqueiro teria transferido R$ 61 milhões para o projeto.

Nas mensagens, os dois se tratam com intimidade. Vorcaro abre com "Fala, irmãozão". Flávio responde: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente." Vorcaro já estava sendo investigado desde meados do ano.

Em nota, Flávio confirmou a autenticidade da conversa, mas negou qualquer irregularidade. Disse ser apenas "um filho, procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai". Disse que não ofereceu ou recebeu vantagens.

A chapa Tarcísio de Freitas e Michelle Bolsonaro era o consenso entre os grandes pastores —a composição mais viável para apresentar aos fiéis e disputar com Lula a presidência.

Tarcísio não é evangélico, mas é católico, e tem um perfil atraente para esse segmento: cordial, técnico, com reputação de quem faz as coisas acontecerem e à vontade no discurso cristão. Michelle complementa trazendo interlocução com mulheres conservadoras, inclusive as de perfil popular.

Como Tarcísio não se descompatibilizou —o prazo era abril—, parte desses líderes avalia declarar apoio a Zema ou Caiado.

O nome de Michelle volta a circular. Para aceitar uma vaga de vice, ela precisaria do aval do marido —ou decidir de forma unilateral. As duas hipóteses são improváveis.

Ainda assim, a ex-primeira-dama é a que mais se beneficiaria de uma eventual mudança de curso: seria consultada, chamada a opinar e teria peso para indicar nomes. Foi ela quem recomendou o nome da senadora Damares Alves como ministra do governo de Jair.

A possível saída de Flávio do páreo talvez esteja sendo celebrada pela esquerda como uma boa notícia. Não é. Lideranças religiosas —não apenas Michelle— que tinham interlocução ruim com Flávio agora têm a chance, a motivação e o tempo para entrar de cabeça na corrida.

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FLÁVIO BOLSONARO SOBE E PODE CAIR EM NOME DO PAI

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Conversa com Vorcaro abre um baú de esqueletos com potencial para triturar a candidatura do senador

Não é privada negociação de interesses entre um congressista e um operador de escandalosa fraude financeira

Um senador da República pedindo dinheiro ao operador de escandalosa fraude financeira, a quem trata de "irmão", é tudo menos uma transação corriqueira "de um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai".

conversa de Flávio Bolsonaro (PL) com Daniel Vorcaro abre o baú de esqueletos com potencial de mudar o rumo desta eleição. Evidencia a relação de proximidade de um candidato a presidente com um personagem cujos golpes envolvem dinheiro público, a quem ele cobra colaboração para a produção de uma peça de propaganda do pai ex-presidente, para ser usada na campanha eleitoral.

Não há nada de privado nisso. Há, sim, o flagrante de agressão ao interesse público no qual se inscreve, além do descrito acima, o fato de o pretendente a comandar a nação ter mentido aos correligionários e, sobretudo, aos que até agora o indicavam como favorito nas pesquisas de intenções de votos.

O impacto negativo na candidatura está posto, faltando apenas medir a extensão do estrago para se esclarecer se Flávio Bolsonaro consegue se livrar do enrosco, se terá de sair de cena da disputa presidencial ou se prossegue mesmo tendo de arrastar essa corrente.

A julgar pela rapidez com que companheiros do PL consideraram o tiro como mortal, começando a falar em substituição, parece ter sido a deixa que esse pessoal esperava para escantear o senador. Colegas da ala direita —Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) e Renan Santos (Missão)— tampouco se perfilaram ao lado dele. Ao contrário, aproveitaram a oportunidade para marcar distância.

Na ausência de tropa de choque aguerrida, a reação fragiliza a retaguarda do senador e cria um rombo na estratégia de defesa já prejudicada pela negativa inicial seguida pelo desmentido nos áudios. Foi pego na mentira e deixou os correligionários vendidos pela quebra de confiança.

Sendo o destino moleque travesso, o pai que lhe assegura ascensão com o capital do sobrenome o coloca na contingência de um tombo fatal.

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O PESO ELEITORAL DOS ÁUDIOS ENTRE FLÁVIO BOLSONARO E VORCARO

Roberto Fonseca, Correio Braziliense

O tom de "súplica" em mensagens e a proximidade com o Banco Master colocam o discurso moral do bolsonarismo à prova 

Faltam 142 dias para o primeiro turno das eleições. São 20 semanas pela frente. Em um ambiente político marcado pela radicalização, é razoável imaginar que este seja apenas o começo de uma temporada de denúncias, vazamentos, operações policiais e guerras de narrativa. O que vimos nos últimos dias, com a repercussão do caso Ypê e, principalmente, das conversas entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro, parece funcionar como um prenúncio do que estará no centro da disputa eleitoral até outubro.

A política brasileira entrou definitivamente na era da contaminação permanente. Não existe mais fato isolado. Tudo vira munição eleitoral instantânea. A suspensão de lotes de detergentes da Ypê pela Anvisa, uma discussão originalmente técnica, transformou-se em batalha ideológica nas redes sociais, em busca da narrativa que melhor mobiliza a bolha de cada lado. Acusações de perseguição política e campanhas de desinformação passaram a disputar espaço com os alertas sanitários. Houve quem gravasse vídeos "bebendo" detergente para contestar a decisão do órgão. Uma irresponsabilidade que o próprio ministro da Saúde precisou condenar publicamente.

Mas é no caso envolvendo o Banco Master que reside o potencial mais explosivo. Não apenas pela gravidade das investigações ou pelos valores bilionários mencionados até agora. O ponto central está na dimensão política das revelações. As mensagens divulgadas mostram uma relação próxima entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, em tom de súplica, que ultrapassa em muito a formalidade institucional ou empresarial. Expressões como "irmão" e "estarei contigo sempre" têm um peso político enorme em um país traumatizado por escândalos sucessivos de promiscuidade entre poder econômico e a classe política.

Nos bastidores de Brasília, aliados do senador admitem reservadamente a preocupação com os efeitos eleitorais do episódio. A primeira pesquisa após a divulgação das conversas será conhecida na terça-feira. Ela deve oferecer os primeiros sinais concretos sobre o impacto junto ao eleitorado. Principalmente aquele que não integra os núcleos mais fiéis do bolsonarismo ou do lulismo.

É claro que os eleitores mais convictos tendem a permanecer onde sempre estiveram. O bolsonarista raiz provavelmente aceitará qualquer justificativa apresentada. O petista fará da história um símbolo definitivo de hipocrisia. Mas eleição presidencial não se vence apenas com militância. Ela passa obrigatoriamente pelo eleitor moderado, cansado da polarização e desconfiado de todos os lados.

É justamente nesse ponto que o episódio se torna delicado para Flávio Bolsonaro. Durante anos, o combate à corrupção funcionou como um dos pilares centrais do discurso bolsonarista. Agora, cada vez que o senador mencionar o Banco Master ou tentar utilizar novamente a carta moral contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, a lembrança das mensagens virá automaticamente à tona.

Ainda é cedo para medir o tamanho real do estrago. Crises políticas têm dinâmica própria. Algumas desaparecem rapidamente. Outras criam marcas permanentes. O que sabemos é que a campanha de 2026 começou antes da hora.

As primeiras respostas virão nas pesquisas dos próximos dias. As definitivas só chegarão nas urnas.

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GRAVAÇÃO GERA CRISE NA CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO. MICHELLE É ALTERNATIVA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Houve reação em cadeia sobre as relações do pré-candidato do PL com o banqueiro Daniel Vorcaro e há controvérsias sobre a real destinação dos recursos do Master

Os áudios de Flávio Bolsonaro (RJ) pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro para a produção do filme sobre o pai, Jair Bolsonaro, instalaram uma séria crise na campanha do candidato a presidente do PL. Segundo a colunista Ana Maria Campos, da coluna CB.Poder, colega aqui do Correio, abertamente ou nos bastidores, até mesmo aliados retomam a discussão sobre a possibilidade de a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro (PL) assumir o seu lugar na disputa pela Presidência.

As gravações que vieram a público após reportagem do site The Intercept Brasil revelaram conversas em que Flávio cobra Vorcaro por repasses financeiros destinados ao filme Dark Horse, cinebiografia sobre o ex-presidente. E provocaram uma reação em cadeia sobre suas relações com o ex-banqueiro, além de informações desencontradas sobre a destinação de recursos para a produção do filme.

Ontem, Tarcísio de Freitas (Republicanos), saiu em defesa do senador. Segundo ele, o episódio não deve prejudicar a pré-candidatura de Flávio ao Palácio do Planalto. Durante entrevista coletiva, o governador de São Paulo afirmou que há um desgaste da população com o atual governo e avaliou que o cenário político favorece a oposição. Para Tarcísio, os debates conduzidos por Flávio na pré-campanha continuam mobilizando apoiadores e, por isso, a repercussão do caso não teria força para enfraquecer o senador.

O governador também afirmou que Flávio procurou esclarecer rapidamente o conteúdo das gravações divulgadas. “O Flávio imediatamente procurou dar os esclarecimentos, falou do que se tratava. Acho que o Flávio precisa continuar dando os esclarecimentos à medida que as perguntas forem aparecendo”, disse.

Tarcísio acrescentou que “o escândalo do Banco Master está no centro das atenções dos brasileiros” e afirmou que a população “não tolera mais corrupção”. Segundo a publicação, o banqueiro teria se comprometido a investir R$ 124 milhões no projeto, dos quais cerca de R$ 61 milhões já teriam sido pagos. Após a divulgação do material, Flávio confirmou que pediu dinheiro ao empresário, mas negou qualquer irregularidade.

A repercussão provocou divergências entre os envolvidos na produção do longa. O deputado federal Mário Frias (PL), produtor-executivo do filme, e a produtora GOUP Entertainment divulgaram notas afirmando que o projeto não recebeu recursos diretamente de Vorcaro ou do Banco Master. Segundo Frias — que voltou atrás naquilo que dissera —, Flávio não possui participação societária na obra e apenas cedeu os direitos de imagem da família Bolsonaro para a produção cinematográfica.

A produtora também alegou que contratos de confidencialidade impedem a divulgação dos nomes dos investidores e repudiou tentativas de associar o projeto a investigações envolvendo o banqueiro. Frias afirmou ainda que a produção vem sofrendo “ataques direcionados” desde o anúncio do longa.

Apesar das negativas, relatórios de inteligência financeira do Coaf apontam que a empresa Entre Investimentos, citada como intermediadora de repasses para o projeto, recebeu R$ 159,2 milhões de fundos investigados pela Polícia Federal (PF) por suposta participação em fraudes ligadas ao Banco Master. Até o momento, não há confirmação sobre quanto desse montante teria sido efetivamente destinado à produção de Dark Horse.

Vorcaro está preso sob suspeita de comandar um esquema de fraudes financeiras investigado pela PF, com prejuízo estimado em até R$ 12 bilhões. Empresa que monitora as redes sociais em tempo real e avalia as menções a todos os pré-candidatos à Presidência da República, a AP Exata revela que Flávio já sofreu perda de credibilidade em larga escala. O volume de menções negativas subiu de forma abrupta, com alta de sete pontos percentuais. Hoje, 64,7% do que se fala sobre ele nas redes é negativo. Trata-se do pior índice entre os candidatos monitorados e o pior patamar registrado por Flávio desde que se lançou como candidato.

A perda de confiança também é significativa. No caso de Flávio, ontem, o índice de confiança chegou a apenas 13,6%. Em volume geral de menções, o senador é hoje o presidenciável mais citado nas redes, com 25% do total. Em segundo lugar aparece Romeu Zema, com 23,4%, seguido de Lula, com 21,5%. Renan Santos registra 11,9%, enquanto Ronaldo Caiado mantém presença mais regionalizada, com 7,9%.

Outro lado

A propósito da coluna intitulada Agenda evangélica pauta Lula na indicação de mulher à Defensoria Pública, publicada em 29 de abril passado, os defensores públicos da União Leonardo Trindade e Holdem Macedo rejeitam, categoricamente, qualquer alinhamento ao bolsonarismo: “O rotulo a eles atribuídos não corresponde à realidade funcional, histórica ou pessoal dos referidos servidores.” Ambos negam que “a mera participação em uma chapa eleitoral interna à instituição implica em alinhamento político-ideológico.”

Diz fui por aí

Em férias, estarei de volta à coluna em 16 de junho, uma terça-feira.

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FLÁVIO BOLSONARO, O CANDIDATO YPÊ

Pablo Ortellado, O Globo

A explicação não colou muito — ainda —, mas acredito que seja apenas questão de tempo

A quarta-feira foi marcada pelo terremoto da revelação do áudio em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro a Daniel Vorcaro para realizar um filme sobre o pai. Em tempos normais, uma revelação dessa magnitude teria o poder de destruir uma candidatura presidencial. Um candidato recebe dezenas de milhões de um banqueiro que fraudou o sistema financeiro e corrompeu todo o sistema político brasileiro. Seria devastador.

Mas não vivemos tempos normais. Vivemos tempos em que uma fiscalização da Anvisa encontra contaminação em produtos domésticos de limpeza e gera uma reação de solidariedade porque os proprietários da empresa são bolsonaristas — e uma fiscalização que autua a empresa só poderia ser perseguição política.

Flávio Bolsonaro reagiu à divulgação do áudio observando, com grande tranquilidade, que seu pedido não tinha nada demais, consistia apenas num pedido de financiamento privado a um filme. A explicação não colou muito — ainda —,mas acredito que seja apenas questão de tempo. Hoje, toda a nossa percepção do mundo está distorcida por identidades políticas hipertrofiadas, até os índices de percepção econômica antes usados pelos bancos centrais como termômetro das atividades econômicas.

O Índice de Sentimento do Consumidor da Universidade de Michigan é uma das medidas mais respeitadas de percepção econômica nos Estados Unidos. Mensalmente, uma amostra nacional de consumidores responde a cinco perguntas que medem a confiança do consumidor, uma combinação de percepção da situação econômica recente com expectativa futura. A partir de março de 2023, os pesquisadores da universidade começaram a recolher, além dos dados de percepção, a identidade política dos entrevistados. Descobriram que a percepção econômica está fortemente moldada (e distorcida) pela identidade política.

No gráfico abaixo é possível ver que, entre os democratas, o índice caiu de 88, em novembro de 2024, para 52 em março de 2025, depois da eleição de Donald Trump. Entre os republicanos, aconteceu o oposto: o índice cresceu de 57, em novembro de 2024, para 87 em março de 2025. Vale observar que não houve nenhuma mudança econômica significativa no intervalo. A mera eleição de Trump fez seus eleitores melhorarem de percepção econômica e os eleitores da candidata adversária piorarem.

Aqui no Brasil, Felipe Nunes e Thomas Traumann observaram o mesmo fato no livro “Biografia do abismo”. Em outubro de 2022, no final do governo Bolsonaro, 65% dos eleitores de Lula diziam que a economia brasileira tinha piorado no último ano, enquanto apenas 11% dos eleitores de Bolsonaro achavam a economia pior. Com a eleição de Lula, o quadro se inverteu. Em abril de 2023, sem que nenhuma mudança econômica relevante tivesse acontecido, apenas 20% dos eleitores de Lula passaram a dizer que a economia havia piorado, enquanto entre os eleitores de Bolsonaro o índice subiu para 49%.

Se até a percepção econômica está distorcida a esse ponto, dificilmente o juízo sobre a licitude ou razoabilidade da interação com um empresário será objetivo — basta lembrarmos o que aconteceu no petrolão.

Apostei com meu amigo Waldomiro José da Silva Filho que, em dois meses, a candidatura de Flávio Bolsonaro terá assimilado o baque e seguirá competitiva contra Lula. Não é desejo meu, é a constatação de como as coisas funcionam hoje no universo da política.

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PEGO NA MENTIRA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Pego na mentira, Flávio acusa golpe ao dizer que não desiste de candidatura

Próximas pesquisas medirão impacto de diálogos e pedido de dinheiro a Vorcaro

Com a palavra, Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente pelo PL: “Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz!”. O irmão era Daniel Vorcaro, dono do Banco Master e pivô do maior escândalo de fraude bancária do país. A luz que o senador pedia era dinheiro: uma bolada de R$ 134 milhões, a pretexto de financiar um filme sobre o pai.

As mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostram mais do que uma negociação entre um parlamentar e um banqueiro acostumado a comprar autoridades. Evidenciam uma relação próxima, embalada por juras de afeto e fidelidade. Os dois se tratavam como amigos, combinavam encontros e trocavam imagens de visualização única. Sabiam que o teor dos diálogos precisava ser guardado em segredo.

Desde que as falcatruas do Master vieram à tona, Flávio fingia distanciamento do caso. Em março, quando seu nome apareceu na agenda de Vorcaro, chegou a dizer que nunca havia falado com ele. Não foi a única lorota desmascarada nas últimas horas. Na manhã de quarta, o Zero Um negou ter pedido dinheiro ao banqueiro. “É mentira, de onde tirou isso?”, questionou. No fim do dia, o senador mudou de tom e admitiu que as mensagens eram verdadeiras. Na defensiva, tentou se apresentar como “um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai”.

O dinheiro de Vorcaro não era privado: era roubado. Foi surrupiado de aposentados e pensionistas e de poupadores iludidos por seus títulos podres. Parte da riqueza ostentada pelo banqueiro era subtraída de fundos públicos. Só o governo do Rio, sob gestão bolsonarista, enterrou mais de R$ 1 bilhão no Master.

Flávio sabia de tudo e torcia pela impunidade do “irmão”. “Sei que você está passando por um momento dificílimo aí”, escreveu em setembro de 2025, quando Banco Central e Polícia Federal já estavam no encalço de Vorcaro. Agora os investigadores querem saber se os repasses foram mesmo para o filme ou se serviram para abastecer o caixa da família nos EUA.

As próximas pesquisas medirão os danos do episódio à campanha do PL, mas o Zero Um já acusou o golpe ao declarar que não desistirá da candidatura. A depender dos números, aliados e financiadores podem desistir por ele. Sem meia conversa.

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CANDIDATURA DE FLÁVIO BOLSONARO RESISTE AO PRIMEIRO TESTE ?

Vera Magalhães, O Globo

Senador apresenta versões conflitantes, expõe fragilidade e evidencia amadorismo de seu entorno diante de revelação de pedido de milhões a Vorcaro

Em pouco mais de 24 horas, Flávio Bolsonaro já apresentou três versões diferentes para explicar as conversas em que, em tom para lá de camarada e subserviente, pede a bagatela de R$ 134 milhões ao banqueiro Daniel Vorcaro, já enrolado com as investigações sobre o que até então eram muitos indícios de fraudes cometidas pelo Banco Master.

A última atualização da justificativa foi feita na entrevista ao vivo que concedeu aos jornalistas Malu Gaspar, Julia Duailibi e Octavio Guedes ontem na GloboNews. Os dois eixos principais foram: 1) negar que o dinheiro efetivamente repassado por Vorcaro tenha sido usado para custear a estadia de seu irmão Eduardo nos Estados Unidos; e 2) dizer que não revelou antes ter mantido contato com Vorcaro em razão de um contrato de confidencialidade.

Como, por óbvio, a confidencialidade já não existe mais, o contrato precisa ser mostrado, em todas as suas cláusulas. Isso porque, questionado a respeito de Vorcaro, mesmo sendo tão pródigo ao fazer Pix de milhões a políticos a torto e a direito, nunca ter feito isso por caridade, Flávio apontou a razão por que ele havia topado “investir” na produção “Dark Horse”: lucrar com seu grande sucesso.

Portanto, precisa forçosamente existir um contrato formal, estabelecendo as condições pelas quais Vorcaro aceitou coproduzir um filme mais caro que 15 dos 20 últimos vencedores do Oscar, sem ter o nome de seu banco nos créditos. Levaria quanto? Se havia o tal contrato, qual a razão para Flávio mandar uma mensagem dizendo a Vorcaro que, se não fosse possível honrar o combinado, ele poderia avisar para que, então, o filho diligente pudesse “buscar de outra fonte” o dinheiro para a cinebiografia do pai?

Flávio claramente objetivava, com a entrevista, afetar indignação e se “diferenciar” do que chamou de “relações espúrias” entre Vorcaro e o PT, muito embora o escândalo do Master não tenha até agora chegado tão perto de Lula quanto está dele e de outros aliados de primeira hora do clã Bolsonaro, como o senador Ciro Nogueira — a quem, aliás, ele não se esforçou nem um pouco em defender.

Conseguiu, no entanto, deixar mais perguntas sem respostas e comprovar o que aliados, expoentes do mercado e opositores já apontavam desde a véspera: o amadorismo de sua assessoria, sua fragilidade quando confrontado com questões espinhosas e a falta de entusiasmo que existe na própria direita com sua candidatura, enfiada goela abaixo dos apoiadores por Jair Bolsonaro.

Essa estrutura precária, que vem se sustentando única e exclusivamente porque ele conseguiu rapidamente ascender nas pesquisas e empatar com Lula no segundo turno, ameaça ruir se ele não conseguir um álibi melhor para conversa tão constrangedora com o banqueiro responsável por uma fraude bilionária no sistema financeiro e, fato que ele não consegue refutar, por provocar, sim, rombos em entes públicos, como a Previdência do Rio, administrada por aliados da família Bolsonaro.

A quinta-feira foi marcada pela busca, por parte do mercado financeiro, de compreender a extensão do dano no casco da candidatura de Flávio. A chance de vitória de Lula passou a ser considerada bem maior que na véspera, e a sensação de que ainda pode haver novas revelações levava os tomadores de decisão a incluir a possibilidade de troca de candidato nas projeções.

A estrutura mambembe de comunicação do candidato, cujos cabeças são também personagens das ligações com o ecossistema de Vorcaro, foi outro fator a alarmar os aliados. Por fim, a rapidez com que diferentes expoentes da direita trataram de rifar o filho Zero Um de Jair surpreendeu aqueles que a princípio achavam que a nota pífia de Flávio estancaria a sangria. Os próximos dias serão cruciais para definir se a pré-candidatura dele para em pé ou se ficará evidente que era um bibelô de vidro de um pai preocupado apenas em manter o poder em seu círculo familiar — e se quebrou.

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