terça-feira, 30 de junho de 2026

REFLEXOS DA COPA NO JOGO ELEITORAL

Artigo de Fernando Gabeira

Estamos cercados por um clima de guerra, pergunto o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões

Na Copa do Mundo, esquecemos as eleições. No processo eleitoral, esquecemos a Copa. Talvez não sejam tão rigidamente separadas, tão estanques. Há dois temas que podem uni-las, laços tênues, mas que não podem ser esquecidos.

O primeiro já abordei: a necessidade de um esforço nacional para recuperar o prestígio do futebol brasileiro. Recebi algumas sugestões sobre o tema, e uma delas me pareceu interessante. As escolinhas de futebol não são supervisionadas. De modo geral, funcionam na base da experiência de um antigo jogador. Na Alemanha, trabalham com métodos, equipamentos, teoria de formação. Nada contra a criatividade, o talento espontâneo dos brasileiros. Preparação e criatividade podem coexistir, uma fortalecendo a outra.

Reconheço que, nesse tema, o papel de um governo não é tão decisivo. Mas um candidato poderia ter algum programa para o esporte nacional, com o destaque que o futebol merece. Uma forma de subestimar nosso esporte é entregá-lo de novo a um deputado qualquer do Centrão.

O segundo tema são as apostas on-line. Elas dominaram a cobertura da Copa e aumentarão sua importância em nosso cotidiano. As pesquisas já mostram que sacudiram os lares brasileiros, trazendo muita tristeza e desolação. Há dados, ainda, sobre um grande número de estudantes que deixou de tentar um curso superior porque torrou seu dinheiro nas apostas.

Pesquisadores afirmam que os efeitos são tão amplos que não conhecem toda a sua extensão. Isso significa uma limitação para as políticas públicas. Elas precisam do maior número possível de dados. No entanto, os candidatos podem dizer algo, sem demagogia.

A questão das bets impõe um problema desafiador. Grande parte dos políticos mais lúcidos prefere, em muitos temas, a liberação à repressão. No entanto, sabe também que liberar traz consequências. Uma política madura nesse campo significa um estudo profundo do que pode acontecer e um esforço para atenuar o impacto. A questão está em aberto.

Foi liberado o jogo on-line, e ele domina o universo do futebol, financiando quase tudo ao seu redor. O problema agora é avaliar o impacto seriamente e apresentar as políticas públicas que possam atenuá-lo. Sabendo, como sei, que uma só cabeça não vislumbra um programa nacional, não só os problemas da Copa entram nessa equação. O cotidiano traz questões mais dolorosas.

Na feira do fim de semana, uma moradora de Rio das Pedras, comunidade na Zona Sudoeste do Rio, me disse estar horrorizada, pois foram achados 20 corpos num lugar bem perto de sua casa. Ela sai às 5 da manhã para evitar tiroteios. Ao nosso lado, um homem que mora noutra comunidade, a Muzema, disse que o Comando Vermelho assumiu a área, e a vida não está fácil.

Fui para casa pensando que estamos cercados por um clima de guerra, perguntando o que a política pode fazer para acabar com o sofrimento de milhões de pessoas. Os candidatos falarão disso; alguns querem que os americanos bombardeiem barcos na Baía de Guanabara. Há bastante loucura no ar. No entanto, a grande tarefa continua a nos desafiar com sua relativa simplicidade: expulsar traficantes e milicianos, instalar os serviços normais do governo.

Artigo publicado no jornal O Globo em 30 / 06 / 2026

Bookmark and Share

CLARICE HERZOG, A HEROÍNA DA MEMÓRIA

Míriam Leitão, O Globo

Clarice Herzog, que completa 85 anos, dedicou a vida à luta por memória e justiça em um país que insiste em apagar os fatos

Amanhã, Clarice Herzog faz 85 anos. Ela ainda está aqui. Como Eunice Paiva, perdeu o marido assassinado pela ditadura, lutou por memória e justiça e agora chega ao ocaso em meio ao Alzheimer. Deve haver um significado profundo, que o país ainda não alcançou, o apagamento das lembranças na mente de guerreiras que lutaram para que o Brasil não se esquecesse. O país que insiste em esquecer.

Clarice é uma voz que permanecerá na história do Brasil. Quando Vladimir Herzog morreu, ela foi a primeira a gritar “Mataram o Vlado”. Zuenir Ventura me disse, certa vez, que esse grito dela aos jornalistas foi a hora primeira da resistência à mentira que a ditadura sustentou sobre a morte no II Exército. Quando tentavam enterrar às pressas o corpo do Vlado, ela gritou “Não enterrem”. Assim ela conseguiu que esperassem a mãe do Vlado, dona Zora, chegar para o enterro do filho único.

Ela continuou vocal e forte todos os anos da vida, a vida inteira, até que o silêncio se impôs pela doença. Em 1978, em plena ditadura, ela conseguiu que a Justiça responsabilizasse a União pela morte de Vladimir. Era inédito o processo e a sentença virou histórica.

A preocupação de Clarice não era vingança, não era indenização. Ela queria, como me disse um dia, que o país não se esquecesse.

— Fui à Justiça porque era a Justiça. Eles estavam matando pessoas. Queria mostrar que isso estava acontecendo no país. Eu tinha que fazer por mim, meus filhos e o país. Eu tinha que provar que ele foi assassinado.

Não foi fácil achar defensores da sua causa. Zuenir foi ao jurista Heleno Fragoso, o primeiro a aceitar. Depois, veio Sérgio Bermudes. Em São Paulo, a causa foi defendida por Marco Antonio Rodrigues Barbosa e Samuel MacDowell. Mas a ditadura impetrou mandado de segurança para que o juiz João Gomes Martins não julgasse o caso e, em seguida, o aposentou. Um outro magistrado, jovem, começando a carreira, herdou o caso e não se intimidou: Márcio José de Moraes condenou a União pela morte de Vladimir Herzog. Zora escreveu ao juiz. “Minha dor não tem consolo. Meu filho não voltará, mas seu bom nome não ficará manchado”. Entrevistei Márcio José de Moraes anos atrás e ele me disse “o Brasil descumpriu a ordem judicial”.

Clarice persistiu no mesmo caminho. Em 24 de maio de 2017, a Corte Interamericana de Justiça estava ouvindo as partes no processo que ela moveu contra o Estado brasileiro. De novo, se ouviu a voz de Clarice. O criminalista Alberto Torón, contratado pelo governo Temer, disse que não poderia haver punição dos assassinos porque “a coisa julgada não pode ser ofendida”, Clarice da plateia gritou: “Não é nada disso. Está tudo errado.”

Aquele julgamento, e a audiência com as partes, era o retrato do pior lado do Brasil. Michel Temer, o sétimo presidente da democracia, em vez de reconhecer o erro da ditadura, mandou oito pessoas, entre elas um general, contratou Toron, e todos foram defender o indefensável. O de que o país já tinha feito o possível. O Brasil que jamais condenou um único torturador estava ali para sustentar que nada mais havia a fazer. O momento em que uma jovem advogada da Advocacia-Geral da União interroga Clarice e tenta colocá-la em contradição —“mas a senhora recebeu certidão oficial certificada” — é de ter vergonha do país.

O Brasil acabou condenado, Clarice venceu esta também. Seu depoimento é um primor. Humano e corajoso. Contou da tragédia de Dona Zora atravessando a fronteira da Alemanha com o filho nos braços para ele não ser morto pelos nazistas. O abrigo na Itália e o refúgio final no Brasil onde ela achou que seu filho estava em segurança. Quando o presidente da Corte disse que valorizava a presença dela ali, Clarice respondeu: “eu é que agradeço a oportunidade. Um cara maravilhoso, do bem, o meu marido. Que morreu apanhando, um horror”.

Enquanto lutava por memória neste país que apaga os fatos e rasura a história, Clarice criou os filhos, fez carreira como pesquisadora qualitativa de opinião pública, criou o Instituto Vladimir Herzog para ser uma trincheira pública pelos valores democráticos.

Um dia, eu soube pelo seu filho Ivo que ela queria me visitar no Rio. Eu pensei em tudo o que serviria no almoço e a esperei com alegria. Infelizmente era o início da pandemia e ela não pôde vir. Essa quase visita me emociona. Eu a imagino chegando. Eu a abraçaria e diria: “Bem-vinda, Clarice, heroína do Brasil.”

Bookmark and Share

FIGURA DO DIABO APRIMOROU O PROCESSO CRIATIVO DE GUIMARÃES ROSA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo e depois escrevo, revelou o escritor

'Grande Sertão: Veredas' se valeu de conversas com vaqueiros e da leitura de Goethe

O encontro está narrado na excelente biografia de João Guimarães Rosa escrita pelo jornalista Leonencio Nossa.

Em 1966, o escritor viajou a Nova York para participar do 34º Congresso Internacional do Pen Club, ao lado de Arthur Miller, Saul Bellow, Pablo Neruda, Mario Vargas Llosa. O poeta Haroldo de Campos estava lá, e Rosa resolveu conversar com ele sobre sua experiência com o Diabo:

"Quando me vem o texto, eu fico nu, rolo no chão, luto com o Demo de madrugada no meu escritório, e depois, naquele contexto, naquele impacto, eu escrevo".

Para Haroldo de Campos, o Demo de Guimarães Rosa —que aparece no "Grande Sertão: Veredas" com dezenas de nomes (o Arrenegado, o Cramulhão, o Coisa-Ruim, o Pé-Preto, o Coxo)— não era uma simples metáfora da personificação do mal, mas uma figura que estava presente no processo de criação do autor.

Na cena em que o jagunço Riobaldo se dirige a um lugar ermo de nome assombrado, Veredas-Mortas, com a intenção de vender sua alma, não fica claro para o leitor se ele aceita o pacto. Na redemunho do personagem, o Diabo "vive dentro do homem", é o "homem arruinado", o "homem dos avessos". Portanto, é legítimo material de inspiração artística —que mal haverá nisso?

Rosa cercou Satã pelos sete lados. Ouviu de vaqueiros de Minas e Bahia histórias endiabradas e as recontou a seu modo, reinventando a linguagem.

Um de seus primeiros contos é uma adaptação de "O Demônio da Garrafa", de Stevenson. O influxo está nos monólogos filosóficos e poéticos do "Fausto" de Goethe. E também em "Doutor Fausto", de Thomas Mann, alegoria sobre a decisão da Alemanha de abraçar o nazismo, à qual o escritor assistiu de perto como diplomata em Hamburgo entre 1938 e 1942.

Em 1952, Rosa comprou a prestações um apartamento entre Copacabana e Ipanema, perto do Arpoador. Com o tempo, subiram outros prédios de um lado e de outro. Do escritório onde ele escreveu "Grande Sertão: Veredas", restou apenas a vista de parte do mar que bate num estreito pedaço de areia —a Praia do Diabo.

Bookmark and Share

MICHELLE SE CHOCA COM O PUROSANGUISMO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Existência política que lhe é permitida, limitada, deriva da condição circunstancial de mulher do pai

É preciso lembrar que a direita brasileira está no pós-Bolsonaro; e que a escolha do primogênito Flávio Bolsonaro como candidato do bolsonarismo, o cavalo puro sangue designado a encarnar o pai, é produto sobretudo da necessidade de a família Bolsonaro manter – reafirmar – a hegemonia sobre essa propriedade.

Jair está fora de combate, perseguido e injustiçado, esse é o texto; Flávio sendo aquele sacrificado cuja matéria incorpora o pai, conjuntura em que a derrota eleitoral se converteria em discurso de vitória, protegido o patrimônio político, defendida a empresa familiar que Bolsonaro

criou dentro da máquina do Estado. Território desde o qual – pensando em 2030 – dois projetos de poder se desenvolvem e chocam. Nenhum deles de Flávio, ambos avançando à revelia do que seriam os interesses da candidatura lançada para 2026.

Não há puros nessa peleja patrimonial por liderança e controle. E não será somente Eduardo Bolsonaro a tocar agenda própria e nociva às chances eleitorais do irmão. Michelle Bolsonaro faz o mesmo contra o enteado. A diferença está na forma da reação de Flávio, dura apenas para com a madrasta, expressão da natureza conspiracionista do bolsonarismo.

Ela não é Bolsonaro. O bolsonarismo é puro-sanguista. Ela não tem sangue Bolsonaro. É forasteira. Oportunista. Traidora certamente, quando faltar Jair.

Assim se organiza o pensamento bolsonarista. Note-se que o bolsonarismo eduardista – o que estará sempre mordendo, para que Flávio possa encenar moderações – refere-se a Michelle com o nome de solteira. A existência política que lhe é permitida, limitada, deriva da condição circunstancial de mulher do pai. Nenhuma novidade, se lembrarmos também de que Bolsonaro lançou o filho Carlos – contra a mãe – em contenda pelo que seria a cadeira da família na Câmara do Rio, trono que a então ex-mulher pretendia conservar. Ela não era Bolsonaro; só autorizada a usar a franquia. Separada, não poderia querer a reeleição. Carlos a venceu. Matou a própria mãe.

Os irmãos se unirão para vencer – matar – Michelle. Ela é uma ameaça sem precedentes ao que os filhos de Jair concebem como poder hereditário. Se todos ali chegaram aonde chegaram sendo beneficiários de transferências do patriarca, não será exagero dizer que, a partir do capital do mito, somente Michelle teria constituído persona pública com possibilidades de prosperar autonomamente. O roteiro do vídeo profissional que publicou é expressivo de alguém que tem, e sabe que tem, existência individual. Michelle não precisa de Flávio hoje. Flávio precisa de Michelle já.

A direita brasileira está sob o que seria a primeira etapa do pós-Bolsonaro, com o ex-presidente preso e doente, alijado da atividade política direta, fase em que se disputa também a prerrogativa de lhe ser porta-voz. Desnecessário sendo descrever o vale-tudo até onde irá o conflito quando não houver mais Jair.

Bookmark and Share

FLÁVIO E MICHELLE SE DEGLADIAM HOJE PELA LIDERANÇA EM 2030

Juliano Spyer*, Folha de S. Paulo

Senador venceu batalha dos vídeos, mas não condena ataques contra mulheres

Ex-primeira-dama está, sim, alvejando o nome indicado pelo marido

O Brasil continuará a ter os olhos voltados para o Mundial. Mas no país evangélico a disputa entre Michelle e Flávio Bolsonaro continua. O senador saiu por cima do incidente dos vídeos, mas os dois parecem dispostos a sacrificar 2026 pela liderança do PL em 2030.

Para quem não acompanhou essa partida de xadrez eleitoral: na quarta-feira (23), quando o país se acomodava no sofá para assistir à partida entre Brasil e Escócia, a ex-primeira-dama publicou dois vídeos criticando o enteado e dizendo ser ele quem abdicou do apoio dela.

A resposta da pré-campanha de Flávio foi notável do ponto de vista da comunicação e da coordenação. Primeiro, publicou um vídeo defendendo que o momento era de apoiar a seleção. Ganhou tempo. Na quinta-feira (24), sua resposta foi curta e precisa.

Na peça, o senador apresentou a sua relação com as filhas e a esposa para anular a imagem de grosseiro com mulheres. Fez um gesto de grandeza, pedindo desculpas ao desafeto, e reconheceu a importância de Michelle como liderança feminina no partido e os sacrifícios que ela faz para cuidar de Jair. E, com um drible inesperado, passou para o ataque.

Flávio inverteu as expectativas ao anunciar um encontro com mulheres em Brasília, na próxima quarta-feira (1°), e convidou Michelle a participar. São esperadas as senadoras Tereza Cristina (PP-MS) e Damares Alves (Republicanos-DF) e as deputadas federais Bia Kicis (PL-DF), Soraya Santos (PL-RJ) e Simone Marquetto (PP-SP), entre outras.

Entre quinta e sexta-feira passadas, ouvi interlocutoras identificadas com Michelle primeiro concordando com ela para, um dia depois, concluírem que sua "lavagem de roupa suja" ajudava a esquerda. Ela tinha se tornado, pela narrativa, a madrasta mesquinha da novela.

Michelle foi pressionada a responder pela acusação de conspirar para enfraquecer Flávio. Ainda na quinta-feira, nos stories do Instagram, reclamou de frases tiradas de contexto, negou que haja briga ou competição entre os dois e declarou que todos trabalharão juntos para derrotar a esquerda.

Michelle está, sim, alvejando o nome indicado pelo marido. Ao mesmo tempo, defende o próprio legado. Defensora da submissão feminina no casamento, ela criou diretórios do PL Mulher em todos os estados e ajudou a eleger 1.005 candidatas nas eleições municipais de 2024.

Ela e seus aliados evangélicos recebem cobranças para entrar na campanha sem contrapartidas. Não tem nem a garantia de que disputará o Senado pelo Distrito Federal ou de que os nomes que indica serão lançados pelo partido.

A tensão não vem só de Michelle. Flávio não pede para cessarem os ataques de natureza sexual feitos por aliados do irmão Eduardo. Na segunda-feira, a senadora Damares Alves foi exposta publicamente por não ter confirmado presença no evento com mulheres, segundo a revista Fórum.

O que vemos é uma disputa que mistura política e dinâmica familiar. Michelle sofre o machismo que cultiva. Mas o cálculo de ambos contempla 2030 —sem Lula na disputa e, talvez, sem Jair, cuja saúde se deteriora.

*Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

Bookmark and Share

EM MEIO À COPA DO MUNDO, LULA E FLÁVIO ABSORVEM DESGASTES COM ALIADOS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Militantes-raiz fazem a blindagem tanto do presidente quanto do candidato de oposição nas redes sociais, indiferentes aos fatos negativos que surgem

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva absorveu o desgaste provocado pelo envolvimento do líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), no caso Master, enquanto seu principal adversário nas eleições, Flávio Bolsonaro (PL-RR), administrou a crise com a ex-primeira-dama Michele Bolsonaro, que havia gravado um vídeo se dizendo desrespeitada e humilhada pelo filho do ex-presidente Bolsonaro. Talvez porque tenham se posicionado corretamente para estancar a crise, talvez porque o foco de atenção dos eleitores tenha se deslocado para a Seleção Brasileira na Copa do Mundo.

É o que mostra a pesquisa BTG Pactual/Nexus divulgada nessa segunda-feira: ambos atravessaram as últimas semanas sob intenso desgaste político, mas nenhum deles sofreu abalo eleitoral significativo. Ao contrário, os números indicam que ambos permanecem sustentados por bases eleitorais altamente consolidadas, tornando a disputa cada vez mais dependente da conquista do eleitorado moderado e da transferência dos votos dos candidatos hoje situados na chamada terceira via.

No cenário principal de primeiro turno, Lula aparece com 42% das intenções de voto estimuladas, exatamente o mesmo percentual registrado na rodada anterior. Flávio Bolsonaro, por sua vez, oscila positivamente de 33% para 34%, permanecendo dentro da margem de erro. Ronaldo Caiado registra 5%, Renan Santos 4%, Romeu Zema 3%, enquanto os demais candidatos ficam em 1%. Brancos e nulos somam 5%, e 3% permanecem indecisos.

Wagner e Michelle produziram ruído, mas não deslocaram votos significativamente. O levantamento mostrou que 24% dos brasileiros são classificados como “lulistas raiz”, enquanto 26% pertencem ao grupo dos “bolsonaristas convictos”. Outros 6% enxergam Lula como alternativa preferencial e 9% fazem o mesmo em relação ao bolsonarismo. O contingente que pode decidir a eleição, porém, é de 20%, que permanecem efetivamente não polarizados, ao passo que 9% rejeitam simultaneamente Lula e Bolsonaro.

O lulismo, que o historiador Alberto Aggio associa à “economia do afeto”, continua mais forte entre 27% das mulheres, 29% dos eleitores com mais de 60 anos, 29% daqueles com ensino fundamental, 27% dos católicos, 30% dos moradores das capitais e 26% dos eleitores com renda de até um salário mínimo. Também apresentam presença elevada entre pessoas sem religião, onde chegam a 32%.

O grupo dos “bolsonaristas convictos” alcança 29% dos homens, 35% dos evangélicos, 30% dos eleitores com renda superior a cinco salários-mínimos, 30% dos trabalhadores formais, 29% dos moradores do Sul e 28% dos eleitores com renda entre dois e cinco salários-mínimos.

Segundo turno

São esses setores que fazem a blindagem tanto de Lula quanto de Flávio Bolsonaro nas redes sociais, indiferentes aos fatos negativos que surgem na campanha, cuja maior repercussão é entre os indecisos. O cenário de segundo turno mostra isso. Na simulação entre Lula e Flávio Bolsonaro, o presidente vence por 47% a 44%, diferença de três pontos percentuais, praticamente idêntica à observada na rodada anterior, quando o placar era de 49% a 43%.

Lula vence entre as mulheres (55% a 36%), entre os idosos (62% a 33%), entre quem possui apenas ensino fundamental (60% a 33%), entre os católicos (53% a 38%), entre os eleitores sem religião (58% a 33%) e especialmente no Nordeste (61% a 30%). Também domina amplamente entre os brasileiros de menor renda: 61% a 30% entre quem recebe até um salário-mínimo e 54% a 36% entre aqueles com renda de um a dois salários-mínimos.

Flávio Bolsonaro apresenta vantagem entre os homens (53% a 39%), entre os evangélicos (60% a 32%), entre os jovens de 16 a 24 anos (52% a 34%), entre os trabalhadores formais (53% a 37%), entre os eleitores de renda superior a dois salários mínimos, especialmente acima de cinco salários (53% a 40%), além do Sul, onde lidera por expressivos 63% a 33%.

Trocando em miúdos, se não surgir um candidato de terceira via que empolgue os eleitores, o fator decisivo da eleição será a migração dos votos dos candidatos fora da polarização principal. Os eleitores de Ronaldo Caiado dividem-se praticamente ao meio, com 40% migrando para Lula e 37% para Flávio Bolsonaro. Entre os eleitores de Romeu Zema, a vantagem é de Flávio (49%) contra 32% de Lula.

O eleitorado de Renan Santos também tende majoritariamente para o senador, com 46% migrando para Flávio e 35% para Lula. Já os apoiadores de Joaquim Barbosa transferem 52% de seus votos para Lula e apenas 25% para Flávio. Entre os eleitores de Augusto Cury, Lula recebe 49%, enquanto Flávio fica com 18%. O caso de Aécio Neves é ainda mais favorável ao presidente: 72% de seus eleitores migrariam para Lula, contra apenas 14% para Flávio. Os votos de Cabo Daciolo distribuem-se de forma relativamente equilibrada, com leve vantagem para Flávio.

Bookmark and Share

LÓGICA DO 2º PREJUDICA LULISMO NA DISPUTA PELO SENADO

César Felício, Valor Econômico

Segundo Carlos Melo, esquerda se fragiliza por não ter ampliado alianças nos Estados

A falta de amplitude do palanque do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) pode prejudicar seus aliados na corrida para o Senado, especialmente nos Estados em que o bolsonarismo lançou nomes fortes, na visão do cientista político Carlos Melo, do Insper. O arco formal de alianças em defesa da reeleição de Lula está restrito a partidos de esquerda ou centro-esquerda. Pontualmente há acordos com partidos mais ao centro ou à direita no espectro político.

O Senado renova duas vagas por Estado neste ano. Os eleitos são os dois melhores votados, independentemente se estão ou não na mesma coligação; e o eleitor vota em dois nomes. O desafio que um candidato ao Senado precisa superar para ser eleito é ser capaz de atrair o chamado “segundo voto”. Já houve muitos casos em que um nome forte, mas polarizador, ficou de fora por não ser preferencialmente a segunda opção.

Segundo Melo, esta pode ser a situação das candidaturas lulistas no Rio Grande do Sul e em São Paulo. “São nomes respeitáveis, com alto recall, mas não estão dentro de uma aliança ampla”, afirmou.

No Rio Grande do Sul, a ex-deputada Manuela D’Ávila (Psol) lidera a maioria dos levantamentos locais e seu parceiro de chapa, o deputado Paulo Pimenta (PT), aparece um pouco atrás, mas de maneira competitiva. Em São Paulo, devem disputar o Senado pela coligação lulista as ex-ministras Simone Tebet (PSB) e Marina Silva (Rede), ambas com chances de vitória de acordo com pesquisas.

“Em outras eleições Simone e Marina concorreram com mais transversalidade, mas nas atuais circunstâncias terão dificuldade de ultrapassar o perímetro da esquerda”, disse Melo. Simone Tebet foi candidata à Presidência em 2022 e Marina concorreu ao cargo em 2010, 2014 e 2018.

O obstáculo maior para as duas, ou uma das duas, ser eleita, na visão de Melo, é a consistência da principal chapa da direita, que deve ser formada pelo ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite (PP) e pelo presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, André do Prado (PL).

“Derrite sai forte na região metropolitana da capital, pelo discurso de segurança pública, área em que a esquerda é tradicionalmente frágil. E André do Prado deve sair forte no interior, por ser capaz de acionar a máquina de prefeitos”, comenta. Ainda pesa contra Marina e Simone o fato de nenhuma das duas ter raízes no Estado. A primeira foi senadora pelo Acre por dois mandatos e a segunda, pelo Mato Grosso do Sul, por um mandato.

Segundo Melo, a polarização estadual entre o governador de São Paulo Tarcísio de Freitas (Republicanos) e o ex-ministro Fernando Haddad (PT) tende a fazer com que para o Senado os eleitores façam um voto casado, sem espaço para a captação do segundo voto pela chapa adversária. O que, na visão dele, pode quebrar o favoritismo de Prado e Derrite é a divisão da direita. Se o Novo mantiver a candidatura ao Senado do deputado Ricardo Salles ficará mais difícil para o conservadorismo conseguir o primeiro e o segundo posto na eleição paulista, avalia.

No caso do Rio Grande do Sul, o cenário é menos polarizado. Além dos candidatos alinhados a Lula e Flávio Bolsonaro, o MDB deve lançar candidato ao governo estadual e ao Senado. Para a cadeira do Legislativo o nome mais mencionado é o do ex-governador Germano Rigotto, que pode crescer como segundo voto tanto pelo lado da esquerda como da direita. Estão no palanque de Flávio como candidatos ao Senado os deputados Marcel Van Hattem (Novo) e Ubiratan Sanderson (PL).

Segundo Melo, “a força da direita para o Senado não vem simplesmente da opção bolsonarista de privilegiar este ano esta eleição, mas de um caldo de cultura que começou em 2018”. Ele lembra que senadores daquela safra chegaram ao Senado defendendo uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) do Judiciário e o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). A pressão pela chamada “CPI da Toga” foi esvaziada em 2019 por iniciativa do próprio bolsonarismo, em uma articulação na qual Flávio Bolsonaro foi um dos protagonistas. À época, o senador se defendia na Justiça da acusação de ter participado de um esquema de “rachadinha” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O caso terminou arquivado por anulação de provas.

De acordo com Melo, “a esquerda entrou tardiamente no assunto, quando percebeu que não poderia ficar à mercê do Centrão”. Apesar da observação do cientista político, o lulismo se apoia em pré-candidatos ao Senado de partidos do Centrão em diversos Estados. Há espaço até mesmo para o União Brasil, no Pará, onde o partido deve lançar o ex-ministro Celso Sabino. Essa situação é mais comum, contudo, nos Estados em que Lula é claramente favorito para ficar à frente de Flávio no primeiro turno.

Bookmark and Share

O REINO DIVIDIDO DE FLÁVIO BOLSONARO

Thomas Traumann, O Globo

Em entrevista ao editor de O GLOBO Thiago Prado, o bispo da Igreja Sara Nossa Terra Robson Rodovalho comparou o candidato Flávio Bolsonaro com o personagem bíblico Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi. No primeiro Livro dos Reis, Roboão, ao assumir o trono, contraria os conselhos dos anciãos e decide manter os altos impostos sobre as dez tribos no Norte, gerando uma guerra civil que termina por dividir o reino entre Israel e Judá.

— (Roboão) presumiu que o reino já era dele sem precisar se esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento (evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no passado — alertou o bispo.

A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma e a liderança de Jair Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.

Faltando menos de 100 dias para o primeiro turno, a sua campanha não tem candidatos a governador viáveis em Minas Gerais e Rio de Janeiro, não obteve o apoio de nenhum partido fora o próprio PL, não arregimentou um único economista de primeira linha e perde em todas as pesquisas para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Os vídeos de Michelle Bolsonaro divulgados na semana passada acusando o enteado de maltratá-la, desobedecer a ordens do pai e fomentar uma onda de ódio nas redes sociais são reflexos dessa crise de legitimidade. Gravados com profissionalismo, os vídeos mostram a ex-primeira-dama usando o apoio do PL do Ceará ao ex-inimigo Ciro Gomes como pretexto para se mostrar como a verdadeira bolsonarista raiz da família. Michelle está se posicionando para herdar a liderança do bolsonarismo, seja em uma eventual derrota de Flávio em outubro ou até antes, na improvável hipótese de Jair decidir trocar de candidato neste ano.

A reação do bolsonarismo aos vídeos foi pesada. Os irmãos aumentaram a artilharia sobre a madrasta, mantiveram o acordo no Ceará e concentraram ainda mais o poder na campanha. Eduardo Bolsonaro compartilhou link para um vídeo com o título: “Dossiê: Michelle — As Notícias Desmentem”, no qual um youtuber acusa a ex-primeira-dama de boicotar Flávio e de agir por interesses pessoais em vez de priorizar a derrota do PT. Eduardo republicou ainda outro vídeo do ex-deputado Alexandre Ramagem que acusa a ex-primeira-dama de “birra” por não ter aceitado a decisão do marido sobre a candidatura do enteado. O primeiro auxiliar de Eduardo, o blogueiro Paulo Figueiredo, acusou Michelle de ser “tigrona com Flávio Bolsonaro e tchutchuca com (o ministro do STF) Alexandre de Moraes”. Figueiredo critica até a forma como a ex-primeira-dama chama o marido “galego”:

— Vocês não têm vontade de cortar um pouquinho os pulsos toda vez que ela fala “meu galego”? Não soa fake? Principalmente se vocês soubessem as coisas que eu sei — insinuou Figueiredo.

Deu certo. Levantamento da AP Exata Inteligência mostrou que o episódio fez as menções positivas de Flávio nas redes sociais subirem ao melhor patamar dos últimos 45 dias.

— Para o público geral, ficou consolidada a versão de que “roupa suja se lava em casa” e que a Michelle colocou em risco a possibilidade de a oposição derrotar Lula — diz Sergio Denicolli, da AP Exata. — Mas é importante ressaltar: ela não se dirigiu ao eleitorado total. Sua intenção era falar com as mulheres e com os evangélicos, e nesse segmento a imagem dela está preservada.

Com o ex-presidente incomunicável, Flávio Bolsonaro disse ao jornalista Claudio Dantas que o pai não sabia do vídeo e que “ficou tão chateado que se recusou a assistir ao noticiário, mesmo com toda a repercussão do caso na TV”. Na sexta-feira (26), em Goiânia, Flávio Bolsonaro minimizou as críticas da madrasta e definiu o episódio como “página virada”. Acredite quem quiser.

Na quarta-feira (1º), o candidato promove em Brasília um encontro com “mulheres conservadoras”. Mesmo que Michelle participe e pose para uma foto com o enteado, o estrago está feito.

A grande vantagem do bolsonarismo sobre a esquerda era a sua organização, coesão e respeito à hierarquia. Nas redes, nas ruas e no Congresso, o bolsonarismo se consolidou como um movimento político por saber disseminar uma visão de mundo única, que dava direção, palavras de ordem e coerência para os militantes.

Essa organização manteve a base unida mesmo em momentos de contradição, como a defesa da reabertura das empresas durante a epidemia da Covid, o discurso antissistema enquanto Bolsonaro entregava metade do governo para o Centrão, a campanha de desconfiança sobre as urnas eletrônicas com o PL elegendo a maior bancada do Congresso, a tentativa de golpe dos que defendiam a democracia, a condenação do ex-presidente e o descarte de Tarcísio de Freitas para a escolha de Flávio como candidato. Qualquer um que desafiasse a hierarquia era punido, como foi o governador João Doria e o general Freire Gomes. Até os vídeos de Michelle Bolsonaro.

Os vídeos desorganizam a base, racham a coesão interna e colocam em dúvida a hierarquia. Flávio Bolsonaro não foi apenas acusado de desrespeitar a mulher que cuida de seu pai doente. Foi acusado de contrariar as ordens expressas do pai sobre o Ceará e ter incentivado os ataques à madrasta. Se a milionária relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro preso Daniel Vorcaro provocou dúvidas sobre sua ética, os vídeos de Michelle atingiram sua legitimidade como o sucessor de Jair Bolsonaro.

Na pesquisa Genial/Quaest de junho, Flávio Bolsonaro já estava perdendo votos entre mulheres e evangélicos, dois segmentos nos quais Michelle é mais forte que ele. Segundo a pesquisa, depois da divulgação da doação dos R$ 61 milhões de Vorcaro a Flávio, a vantagem de Lula entre as mulheres na simulação de segundo turno saltou de 5 pontos percentuais em abril para 14 pontos percentuais em junho. Entre os evangélicos, onde Lula tem seus piores números, o escândalo Vorcaro fez a vantagem de Flávio Bolsonaro cair de 36 pontos percentuais em maio para 21 pontos em junho.

O voto feminino é um conhecido problema para o bolsonarismo. Como mostra Jairo Nicolau no livro “Um país dividido”, foram as mulheres que levaram Lula de volta ao Planalto. Depois de obter 53% dos votos femininos em 2018, Jair Bolsonaro caiu para 42% em 2022 graças à sua conduta na epidemia da Covid, à defesa da liberação de armas e às seguidas posturas misóginas. Flávio, que vinha ganhando tração por se apresentar como um Bolsonaro vacinado, foi jogado pela madrasta para o mesmo nicho masculino do pai.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, percebeu a largura da fenda aberta pelo conflito. Em entrevista à repórter Kelly Mattos, da Rádio Gaúcha, no aeroporto de Miami, ele elogiou o trabalho de Michelle (“O que ela fez pelo PL Mulher não tem preço”), fez um meio elogio a Flávio (“ele tá com a eleição quase empatada com o Lula”) e colocou a eleição em outro patamar:

— Se nós não nos entendermos, nós perderemos a eleição e quem vai pagar é o Bolsonaro — disse o dirigente. A declaração é um apito de cachorro: a vitória de Flávio não é dele, mas um veículo para a liberdade de Jair.

Como sempre repete Valdemar, as chances de Flávio Bolsonaro ser eleito presidente dependem do empenho de três pessoas: o governador Tarcísio de Freitas, o deputado Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro. Os dois primeiros ficaram neutros na disputa familiar. A terceira entrou para disputar com Flávio o espólio da família no caso de derrota em outubro. O reino está dividido.

Bookmark and Share

EM CAUSA PRÓPRIA

Merval Pereira, O Globo

Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

O caso dos penduricalhos do Judiciário é exemplar de como não é possível ter credibilidade diante da opinião pública se mudamos de posição a cada pressão recebida, especialmente quando essa pressão vem da própria corporação. O ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino tem se destacado por decisões que tocam em feridas abertas em nossa vida institucional, como as emendas parlamentares ou os penduricalhos. Parecia à opinião pública um ministro independente de panelinhas, mas, à medida que o tempo passa, mais e mais ele vai se inserindo no grupo capitaneado pelo decano Gilmar Mendes.

A decisão de “flexibilizar” sua decisão inicial que restringia duramente os penduricalhos do Judiciário vem com uma pitada de corporativismo. Quatro dos ministros do Supremo votaram em conjunto, inclusive o próprio Dino, contra sua decisão anterior. Não é preciso dizer que a corporação jurídica se mobilizou quanto pôde para pressionar os integrantes do STF que protegeram o retrocesso de Dino votando em conjunto para dizer que foi recuo institucional, não aceitação da pressão de companheiros.

Votar contra sua própria decisão é uma árdua tarefa que Dino aceita para não romper com o corporativismo. Interessante notar que não houve nenhum voto de apoio à decisão mais rigorosa anterior. Ao contrário, os ministros dividiram-se entre os que queriam liberar geral e aqueles que aceitaram flexibilizar em algum grau as restrições, indicando que, mais adiante, pode haver novos recuos em benefício da classe. Os ministros que apresentaram o voto pela flexibilização das restrições aos penduricalhos foram: Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin e Gilmar Mendes. Posteriormente, o presidente do STF, Edson Fachin, acompanhou esse voto conjunto, depois Luiz Fux também votou no mesmo sentido, formando maioria na Corte.

A flexibilização aprovada não restabelece todos os benefícios anteriores, mas permite, entre outros pontos:

— o pagamento de férias, licenças-prêmio e plantões acumulados antes das restrições impostas pelo STF em março de 2026;

— a conversão em dinheiro de horas extras de plantões presenciais;

— a manutenção do limite de até 35% do teto constitucional para determinadas verbas indenizatórias.

Benefícios como auxílio-alimentação, auxílio-creche e assistência pré-escolar continuaram vedados para fins de superação do teto constitucional. Nunca ficou tão clara uma votação corporativa quanto desta vez. Escancarou-se a impossibilidade de os ministros do Supremo resistirem à pressão de seus colegas. Especialmente Dino, que parecia disposto a enfrentar as reações, mas não conseguiu, ou não quis, reagir. Se sua convicção era tão frágil, por que cutucou a onça? Se suas decisões sobre os penduricalhos visavam a moralizar a remuneração da classe, acabando com privilégios que não estão ao alcance da maioria da população, por que recuou com tamanha facilidade?

O próprio Fachin, que vive pregando a moralização do Judiciário e, com razão, diz que seus ministros devem ser o exemplo a seguir, por que aderiu prontamente ao recuo de Dino e parceiros? A única maneira de organizar o país é fazer com que os Poderes da República se sacrifiquem primeiro, antes de exigir outros sacrifícios, certamente imprescindíveis. Se o Congresso não restringe seus benefícios, especialmente as emendas parlamentares; se o Judiciário não consegue moralizar a remuneração dos seus; se o Executivo volta e meia está envolvido em escândalos de privilégios e corrupção, quem poderá exigir medidas de contenção de gastos para equilibrar o Orçamento e prevenir déficits fiscais e juros altos?

Bookmark and Share

BARREIRA MNEMÔNICA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Responsabilizar políticos por seus erros é um desafio para as democracias

Quando o eleitor não se lembra nem de em que votou, a tarefa fica bem mais difícil

Responsabilizar políticos pelo que eles fazem de errado é um dos grandes desafios das democracias. Não que eles nunca tenham de prestar contas. Quem está à frente do governo acaba respondendo pelo que acontece em sua gestão, às vezes até de forma meio injusta. Reeleições de presidentes ou primeiros-ministros dependem muito do desempenho da economia. Uma crise costuma interromper ou abreviar o mandato do dirigente, mesmo que ela seja totalmente exógena e ele tenha feito tudo o que era possível para reduzir seus impactos.

Pela inversa, também ocorre de governantes serem beneficiados eleitoralmente por eventos positivos sobre os quais tiveram pouca ou nenhuma participação, como uma alta de preços de commodities.

Se a responsabilização de presidentes e premiês já é precária, muito mais difícil é a de parlamentares. Em teoria, caberia ao eleitor acompanhar a trajetória de seus deputados e senadores e só renovar seus mandatos se achar que sua performance foi satisfatória. Esse tipo de responsabilização, já naturalmente difícil, encontra entre nós até barreiras mnemônicas. Pesquisa Datafolha acaba de mostrar que dois terços dos eleitores não se lembram de em quem votaram para ocupar um lugar no Congresso há quatro anos. Punições de parte desses eleitores seriam, portanto, totalmente aleatórias.

Já acreditei que esse fenômeno de esquecimento estava relacionado ao sistema proporcional que usamos para eleger deputados. A tese, porém, é desmentida pelo índice de esquecimento de senadores, que é praticamente o mesmo. Eleições para o Senado são majoritárias.

Meu palpite é que damos tanta ênfase à eleição presidencial que ela acaba ofuscando os outros pleitos. São 38% os não se recordam de em quem votaram para governador. Descasar os pleitos total ou parcialmente, como fazem alguns países, talvez minorasse e problema, mas não o resolveria.

Como sempre digo, a democracia não é boa por favorecer a escolha de bons representantes, mas por assegurar a alternância pacífica do poder.

Bookmark and Share

PROFESSOR BEM PREPARADO PARA QUÊ ?

Jorge J. Okubaro, O Estado de S. Paulo

‘As plataformas retiram dos professores a essência da atividade docente: o planejamento, a organização e a condução de suas aulas’

Dados sobre o ensino no País animam e preocupam. São uma espécie de resumo das contradições de um país que cresce sem romper sua imensa desigualdade social. Muitos índices de educação dos jovens melhoraram na última década, mas mais de 7 milhões de jovens não concluíram o ensino médio e estão fora das escolas, de acordo com dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). O número de alunos cresce, mas milhões deles concluem o ciclo básico com conhecimentos inferiores aos considerados necessários para agir com autonomia, espírito crítico e iniciativa num mundo em rápidas transformações tecnológicas. Superar essa deficiência exige professores adequadamente preparados. É desolador, no entanto, constatar que são escassas as políticas públicas com esse objetivo e, pior, observar que certas ações do poder público enfraquecem o papel do professor, o que pode comprometer o aprendizado e o futuro do aluno.

Programas para o aperfeiçoamento da docência na rede pública existem. Desde 2007, a Universidade de São Paulo (USP) mantém o programa Encontro USP-Escola, para, como explica, “promover a formação continuada de docentes da educação básica e promover a interlocução entre a universidade e a escola”. Oferecidos nas férias de janeiro e julho, os cursos destinam-se a compartilhar experiências de pesquisa e de sala de aula, por meio de palestras, debates e atividades multiculturais e interdisciplinares em todas as áreas de conhecimento. Segundo os responsáveis pelo Encontro USP-Escola, “o aprendizado é intensificado pela troca entre as vivências e práticas educacionais de docentes e as diferentes propostas desenvolvidas na USP”.

Surgido de uma iniciativa do Instituto de Física da USP, o encontro vinha sendo bastante procurado por professores da rede pública. Em 2023, foram 1.607 inscritos; em 2024, 1.170; em 2025, 1.219. Em 2026, segundo informações preliminares, foram cerca de 600. O que aconteceu? Desalento dos professores?

Não parece uma hipótese descartável, pelo menos no caso dos professores da rede estadual de ensino de São Paulo. Está havendo uma rápida substituição de professores efetivos por temporários. Alguns dados mostram a rapidez e a extensão desse processo. Em 2023, pela primeira vez, os temporários (101 mil) superaram os efetivos (90,5 mil), segundo uma pesquisa do Todos pela Educação, uma instituição privada que luta pela melhoria do ensino público. O temporário trabalha no regime de prazo determinado, sem estabilidade e sem direitos típicos da carreira do professor efetivo. Quando não há aula, seu contrato não é renovado, sem ônus para os cofres públicos. É uma forma de precarização da função de professor do ensino público estadual.

Do ponto de vista pedagógico, no entanto, talvez a mudança que mais afetou o trabalho dos professores da rede estadual de ensino de São Paulo tenha sido a evolução do projeto da Secretaria da Educação de adotar materiais didáticos digitais (basicamente slides) obrigatórios em sala de aula. Instituições que congregam professores da rede pública têm afirmado que esse modelo, chamado de plataformização do ensino, por meio do uso intensivo de material digital nas salas de aula, vem acompanhado de uma espécie de privatização do ensino público (em razão do aumento dos gastos com a compra de equipamentos e material didático fornecidos por empresas privadas).

Além disso, o uso de equipamento digital propicia o controle de metas de desempenho, monitoramento constante da atividade em sala de aula e centralização pedagógica. Adicionalmente, segundo essas instituições, as plataformas digitais podem impulsionar os resultados do Sistema de Avaliação do Rendimento

Escolar do Estado de São Paulo (Saresp), o que justificaria a compra de mais equipamentos e a renovação dos contratos em vigor.

No entanto, seu efeito mais preocupante, de acordo com essas instituições, é a drástica redução do papel do professor na sala de aula. “As plataformas digitais deixaram de funcionar apenas como ferramentas de apoio pedagógico e passaram a estruturar o funcionamento da escola, impondo conteúdos, metodologias e ritmos de aprendizagem sem diálogo com as comunidades escolares e destruindo a liberdade de cátedra de professores e professoras”, aponta um relatório sobre o assunto divulgado em maio pela organização Plataforma de Direitos Humanos (Dhesca Brasil).

O Grupo Escola Pública e Democracia (Gepud) acrescenta que o uso intenso das plataformas tem causado desinteresse e cansaço nos estudantes e contraria a tendência mundial de reduzir a utilização das tecnologias digitais e o tempo de uso de telas por crianças e adolescentes. Mais ainda, “as plataformas retiram dos professores a essência da atividade docente: o planejamento, a organização e a condução de suas aulas”.

Na essência, então, professor bem preparado para quê? Apenas para orientar os alunos sobre como manejar uma máquina?

Bookmark and Share

A COPA DERROTOU A POLARIZAÇÃO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

O desânimo foi substituído por festa e otimismo, com o amarelo dominando estádios lá e cidades cá

Sim, a seleção do Brasil venceu até aqui não só os adversários, mas também a exaustiva polarização política, devolvendo a camisa e as cores verde e amarela para todos os brasileiros. Chegamos às oitavas de final com os estádios americanos e as cidades do nosso país dominados pelo amarelo vibrante, que é de nós todos e ninguém tasca.

A Copa de 2026 pegou o Brasil e os brasileiros desanimados com Ancelotti, a seleção, a saúde do Neymar, as ausências de Endrick, tudo isso em meio a uma montanha de denúncias de corrupção e muita gente temerosa de usar a nossa camisa para não ser confundida com um lado da polarização.

O clima mudou dentro e fora de campo e o amarelo está de volta com toda a força que o mundo reconhece e nós, brasileiros, temos de honrar, inclusive votando com consciência, informação e segurança. E a eleição não é só para presidente, minha gente!

Quem viu o estádio de Houston todo amarelo para a sofrida, mas linda, vitória de virada do Brasil sobre o Japão não identificou, ali, quem vota em Bolsonaro, Lula, Caiado, Zema, Renan ou qualquer outro.

Como também não identificou nas festas de São Paulo, Rio, Belo Horizonte, Recife e no País inteiro, depois do passe de Bruno Guimarães e do gol espetacular de Gabriel Martinelli, que salvou o Brasil já nos acréscimos.

É disso que o Brasil precisa: disciplina, estratégia, força, garra, fé, civilidade nas disputas e união soberana contra times, governos e ameaças externas. A seleção canarinho ainda tem imensos desafios nesta Copa,

mas já é um ótimo exemplo.

É preciso superar a polarização e discutir política com racionalidade, vasculhar biografias, técnicos, equipes, cobrar propostas factíveis, planos concretos de governo e, depois, ganhe quem ganhar, ficar em cima para fiscalizar.

Os brasileiros que metem a camisa verde-amarela, que nos deu tantas alegrias em nossa história, também devem vestir a camisa contra a corrupção que corrói nossa confiança e compromete o futuro. Ela não é exclusividade de um lado ou de outro – e está vencendo o jogo.

Os escândalos do Banco Master, do INSS, das Americanas

e o do banco Digimais, de Edir Macedo, que nem sabíamos que existia, confirmam as premissas. Sem falar na infiltração das organizações criminosas nas instituições.

A mesma camisa que é contra tudo isso é a favor das nossas vitórias, como foi com Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto no Oscar e com nossos atletas em Olimpíadas e Paraolimpíadas e em cada campeonato de ginástica, vôlei, basquete, skate e das nossas meninas do próprio futebol... Temos muito a combater, mas é bom ter também o que comemorar.

Bookmark and Share

MICHELLE TRAZ À TONA FENDA QUE PÕE EM XEQUE O BOLSONARISMO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Reação a Michelle revela que a base da divisão vai além do “mulher não sabe votar” e atinge pautas caras às mulheres conservadoras como o ECA Digital que o bolsonarismo raiz ataca

O embate entre a ex-primeira-dama e o pré-candidato do PL à Presidência não é apenas uma treta entre madrasta e enteado como quer fazer crer seu partido. Criou uma tensão interna de gênero, até então pouco relevante para o bolsonarismo.

Quem deu o mote foi Paulo Figueiredo em seu programa de quinta-feira no YouTube. Ao longo de 1h46m, o influenciador, que é o principal interlocutor bolsonarista com o secretário do Departamento de Estado dos EUA, Marco Rubio, abriu seu coração: Michelle é feminista e, portanto, marxista. A ex-primeira-dama, disse, defende cotas para mulheres que, por personalidade, são menos atraídas pela política e isso custa um caminhão de dinheiro. Foi ela quem colocou o PL Mulher no mesmo espectro ideológico de um travesti marxista como Erico Hilton. Todas as palavras são de Paulo Figueiredo, inclusive a maneira de se referir à deputada Erika Hilton (Psol-SP).

Não parou por aí. Acrescentou que as mulheres têm um voto mais emocional ante homens racionais e votam mal, vide o favoritismo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva no eleitorado feminino e dos democratas nos EUA. E disse ainda que esta incompatibilidade entre mulheres e voto acomete, principalmente, as solteiras porque as casadas acompanham o voto dos maridos. E, para arrematar, concluiu: “Vocês podem arrancar os pentelhos, principalmente as feministas, que têm mais pentelhos, mas isso é estatística”.

Entusiasmado pelo alcance de sua peroração medieval, Paulo Figueiredo provocou Damares Alves, que pusera em dúvida sua presença em evento de mulheres conservadoras promovido por Flávio Bolsonaro. A senadora do Republicanos do Distrito Federal, que foi ministra do governo Jair Bolsonaro, reagiu. A treta escalou quando Oswaldo Eustáquio, blogueiro condenado no 8/1, foragido da justiça e pré-candidato a deputado federal pelo PL do Paraná, engrossou a crítica ao feminismo e fez insinuações sobre a vida pessoal da senadora.

A entrada de Damares em cena não se dá apenas pela proximidade com Michelle. A senadora foi a defensora mais vocal da direita do ECA Digital, também conhecida por Lei Felca, que transpôs para as redes sociais o Estatuto da Criança e do Adolescente, endureceu o combate à pedofilia digital e a responsabilização das plataformas pela erotização e a monetização de conteúdo de menores de idade.

A tramitação do ECA Digital, que entrou em vigor em março, já continha o germe da desavença que agora eclodiu. Deputados que, na classificação de Figueiredo, atraem o voto racional, como os deputados do PL, Paulo Bilynskyj (SP), estrela da bancada da bala, e José Trovão (SC), caminhoneiro precursor do 8 de janeiro, tentaram emplacar emendas ao projeto. Propuseram a restrição do escopo de denúncias que o Ministério Público poderia levar adiante contra a exploração de crianças e adolescentes e mais responsabilidade dos pais, relativamente àquela das plataformas, no uso da internet por crianças e adolescentes.

Esta ala foi derrotada dentro de seu próprio partido pela resistência, principalmente, das igrejas evangélicas. Durante os cultos, os pastores colheram pressão das mães que temem pelo aliciamento de seus filhos por pedófilos digitais e afins. O presidente do Conselho de Pastores, Mauro Lima, chegou a convidar uma advogada para uma palestra sobre a importância do ECA Digital em maio, dada o tumulto provocado pela ofensiva da machosfera bolsonarista.

As bases para a expansão do embate entre Flávio e Michelle estão dadas porque a turma do senador não desistiu de revogar o ECA Digital. O deputado federal Mario Frias (PL-SP), que foi ministro de Bolsonaro e é produtor de “Dark Horse”, filme sobre o ex-presidente financiado por Daniel Vorcaro, do Master, é autor de uma iniciativa na Câmara para revogar a lei que acabou de entrar em vigor. Alega que a livre iniciativa foi cerceada e que as obrigações criadas comprometem a sobrevivência, principalmente, de pequenas plataformas de jogos online.

Aliados de Michelle, como o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), estão no clube dos contrariados pelo ECA Digital, mas, com o embate nessas bases, o estrago está feito. Nas pesquisas que conduz, a CEO do Idea, Cila Schulman, vê transversalidade ideológica na pauta e, sobretudo, no discurso de humilhação como aquele protagonizado pela ex-primeira-dama.

Coordenadora de gestão no TRE-SP, Luna Chino tem dados definitivos sobre o peso das mulheres. O eleitorado feminino não apenas supera o masculino em 7,8 milhões, como, para desgosto de Paulo Figueiredo, as mulheres comparecem mais para votar que os homens. Nas eleições de 2022 seu comparecimento foi dois pontos percentuais acima do masculino.

Isso se deve, em parte, à escolaridade. Em 2024, o número de eleitoras com ensino superior superava em 3,8 milhões o de eleitores com o mesmo nível de instrução. E a taxa de comparecimento é proporcional à escolaridade. Entre as eleitoras com diploma superior foi de 83,4%. As mulheres não apenas votam mais como também comandam o dia da votação: representam 70% dos mesários.

Flávio Bolsonaro mexeu num vespeiro. Michelle tem como mostrar que seu enteado exporá as crianças e adolescentes da periferia à selva digital e ao descontrole das armas. Para isso, a nova camisa 10 de Lula teria que sair do banco de reservas e correr o risco de cindir ao meio o bolsonarismo - sem garantia de êxito.

Bookmark and Share

segunda-feira, 29 de junho de 2026

É NECESSÁRIO HAVER RESISTÊNCIA RACIAL

Irapuã Santana, O Globo

Relutância que temos em olhar para nossa própria origem e para 56,1% da nossa população gera desumanização

Na semana passada, foram divulgadas imagens da câmera corporal de um policial militar em São Paulo referentes a um fato ocorrido em novembro do ano passado numa escola pública. A escola havia proposto uma atividade educacional sobre a cultura afro-brasileira, implementando a determinação da Lei 10.639/03, e o pai de uma aluna discordou do projeto pedagógico por pensar que havia sido ministrada uma aula de religião. Com isso, foi à escola, coagiu a professora e acionou a polícia, que prontamente o atendeu, enviando policiais armados — portando até metralhadora — para averiguar o ocorrido. Entretanto, o que as imagens captaram foi mais um episódio de violência perpetrada pelo Estado.

Durante todo o vídeo, a diretora explica o que aconteceu e chega até a convidá-los para uma reunião que ocorreria com a comunidade escolar, incluindo os pais das crianças, para explicar o plano de ensino e discutir o ocorrido. Mas, ao contrário do que a lógica sugere, recebeu acusações de não ouvir e de interromper o tenente durante a conversa. Aqui vemos um caso de evidente intolerância religiosa, combinada a um problema histórico nacional: a dificuldade de colocar em prática a Lei 10.639/03.

Para ter uma ideia, entre janeiro de 2025 e 2026, o Disque 100 registrou 2.774 denúncias. Segundo dados do Ministério dos Direitos Humanos, as religiões de matriz africana concentram o maior número de denúncias, chegando a 476, o que corresponde a 17,15% dos registros. O volume de denúncias de intolerância religiosa é 360 vezes maior entre os praticantes de crenças de matriz africana do que entre os cristãos (católicos e evangélicos).

A situação fica ainda mais absurda quando pensamos que o caso aconteceu numa escola de educação infantil, com professoras tendo de encarar armas de grosso calibre, justamente por parte de quem deveria proteger sua integridade física. Talvez isso ajude a explicar a grande barreira que impede as escolas de adotar o ensino de história e cultura afro-brasileira e africana na educação básica.

Na pesquisa “Lei 10.639/03: a atuação das Secretarias Municipais de Educação no ensino de história e cultura africana e afro-brasileira”, elaborada pelo Geledés – Instituto da Mulher Negra e pelo Instituto Alana, algumas questões foram expostas após 20 anos de vigência da lei.

A primeira é que ainda estamos muito distantes do ideal, considerando que apenas 21% dos municípios brasileiros responderam aos organizadores do estudo. Isso expõe o grau de comprometimento das administrações com essa política pública importantíssima. Mas não é só: o trabalho concluiu que a ampla maioria dessas cidades (71%) realiza pouca ou nenhuma ação para garantir a efetividade da lei.

A resistência que temos em olhar para nossa própria origem e para 56,1% da nossa população gera a desumanização que faz com que professoras sejam ameaçadas por aplicar a lei. Mas nem tudo está perdido, porque, graças a uma política pública eficaz, podemos tomar conhecimento dos abusos que vêm ocorrendo nas periferias e nos mobilizar para mudar essa realidade. Afinal, é preciso resistir.

 

Bookmark and Share

FLÁVIO BOLSONARO E O EFEITO TEFLON

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

A dificuldade de Flávio Bolsonaro em ‘virar páginas’ de sua pré-campanha

Falta ao senador o ‘efeito Teflon’ de Jair Bolsonaro: a capacidade de manter apoio popular mesmo produzindo falas e fatos que para outros políticos seriam demolidores

O senador e pré-candidato presidencial Flávio Bolsonaro precisa mudar de assunto – de muitos assuntos. O mais recente foi a lavagem de roupa suja em público com a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro. Flávio, nesse fim de semana, garantiu que o episódio era “página virada”. Conhecendo o histórico de brigas na família, a trégua tende a durar apenas até a próxima desavença.

Mas o problema de Flávio vai além das ambições que Michelle alimenta e do desafio de unir a família em torno do seu projeto presidencial. A verdadeira encrenca é que a dificuldade do senador em “virar a página” de situações desabonadoras se tornou generalizada.

O impacto das revelações sobre seus contatos com o banqueiro Daniel Vorcaro, por exemplo, ainda não foi superado. O mesmo vale para o estrago causado pela visita de Flávio ao presidente Donald Trump e pela atuação do seu irmão Eduardo, ex-deputado federal, nos Estados Unidos, ambas associadas a decisões do governo americano contrárias aos interesses econômicos do Brasil.

O pré-candidato do PL à Presidência está tão afoito para se desvencilhar dessa culpa que afirma ter se inscrito para apresentar argumentos a favor do Brasil em audiência pública do Escritório Comercial americano. O senador será um corpo estranho na reunião, normalmente frequentada por representantes de empresas e associações setoriais.

O mais provável é que ele acabe atrapalhando a estratégia dos especialistas e dos diplomatas. Ou, se houver uma desistência ou adiamento do novo tarifaço que ele possa exibir como conquista diplomática, não será de graça: o secretário de Estado, Marco Rubio, já expôs, por escrito, uma “oferta generosa” de Flávio de “colocar uma equipe de transição” à disposição do governo americano caso o bolsonarismo volte ao poder no Brasil.

Falta a Flávio o “efeito Teflon” de Jair Bolsonaro: a capacidade de manter apoio popular mesmo produzindo falas e fatos que para outros políticos seriam demolidores. Nele, notícias negativas não grudavam com facilidade — em alguns casos, ele até saía fortalecido.

Mas Flávio não é Jair, pois carisma não se herda, e não há nada que o pai em prisão domiciliar possa fazer a respeito, isolado que está da arena pública. Se Flávio for derrotado, poderá ser tentador para seus aliados atribuir a culpa a Michelle. Mas o verdadeiro responsável será o próprio Jair, que preferiu um sucessor do seu sangue a apostar no governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), sem tantos esqueletos no armário.

Bookmark and Share

MORALIDADE PÚBLICA

Denis Lerrer Rosenfield*, O Estado de S. Paulo

O bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas ‘interpretações legais’ e na irresponsabilidade institucional e governamental

Escrever sobre a moralidade pública no Brasil significa falar de algo inexistente. Pode-se discorrer sobre duendes, contar suas estórias, sem que daí se siga que sejam reais. Por mais que se procure, torna-se cada vez mais difícil encontrar algo que, no passado, foi considerado um fator essencial da vida política, um eixo a guiar a conduta da sociedade e de seus representantes institucionais e políticos. Na vida social, porém, observa-se que os brasileiros prezam os valores morais e familiares, sendo muito frequentemente conservadores e respeitosos no que diz respeito à honestidade e a comportamentos retos.

Contudo, quando passamos para a vida pública, o descalabro é total. Políticos de esquerda e de direita, em qualquer posição, se empanturram de recursos públicos por meio de emendas às suas bases eleitorais, muitas vezes desviadas para o bolso de alguns, sem nenhum controle público eficaz. Em nome da não contaminação privada da vida política, criaram-se fundos partidários e eleitorais, aumentados ao bel-prazer dos parlamentares, como se o dinheiro dos pagadores de impostos fosse deles. E muitos parlamentares ainda se dão ao luxo de se aproveitarem de recursos de supostos banqueiros – como Daniel Vorcaro –, na verdade criminosos. Ganham, assim, uma vida luxuosa para se tornarem corretores de luxo. Não se deve, todavia, confundir a atividade bancária com atos ilícitos.

Note-se que as posições ideológicas são as mais variadas, mas tendo em comum uma mesma apetência para o enriquecimento ilícito. Nas atividades deste dito “banqueiro”, houve uma contaminação generalizada, cujos efeitos ainda não se esgotaram. O candidato do PL, Flávio Bolsonaro, foi diretamente afetado, assim como o presidente do PP, Ciro Nogueira, e o ex-líder do governo no Senado, Jacques Wagner, numa lista que não se exaure aqui. Mais impressionante ainda, atingiu igualmente dois ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Os argumentos utilizados, para além do fato de atingirem a inteligência alheia, compartilham de um mesmo padrão: a ausência de moralidade à qual se acrescentam supostos argumentos jurídicos.

Torna-se, então, necessária uma distinção entre valores morais e justificativas jurídicas. Do ponto de vista da moralidade, nada é apresentado, nem padrões mínimos de probidade pública ou impessoalidade. Passa-se por cima de uma questão moral essencial, tal como formulada por Kant, uma ação ou uma regra qualquer, política ou jurídica, deve ser submetida ao seguinte teste: a ação ou a regra em questão pode ser universalizada, tendo validade para qualquer um? É ela válida para a coletividade como um todo?

Em seu lugar, encontramos pretensos argumentos jurídicos, segundo os quais tudo é feito legalmente, havendo sempre uma “interpretação” ou ato administrativo qualquer a validar tal decisão. O Brasil está se tornando o País das interpretações.

Daqui a pouco 2 + 2 não serão mais quatro, mas cinco ou três ou seis, dependendo da “interpretação”, sempre havendo o recurso adicional de decretos e normas internas às corporações estatais. Terminaremos, assim, numa hermenêutica do ilícito justificada legalmente, mandando para o espaço a moralidade e a racionalidade pública.

Pegue-se ainda os penduricalhos do Judiciário, uma verdadeira excrescência, embora os desembargadores e juízes se comprazam em justificar os seus atos com “interpretações”, numa exuberância retórica visando a justificar o injustificável. A Constituição é clara: nenhum funcionário público pode ganhar mais do que estipulado para um ministro do STF. Começam, então, os “argumentos”: a verba não é do tipo X, mas do tipo Y e assim por diante. São “penduricalhos” materiais e linguísticos, os dessa hermenêutica muito criativa.

Jamais se deveria esquecer um fato básico, o de que os recursos ditos públicos são oriundos do setor privado. São os recursos dos contribuintes que foram transferidos para a esfera estatal, sob a condição, evidente, de que deveriam ser utilizados para a totalidade da sociedade e não em benefício de alguns, os privilegiados. Quantos mais recursos são gastos em privilegiar alguns, sejam agentes públicos ou privados, menos recursos haverá para creches, educação, saúde, saneamento e assim por diante. O bolo dos impostos e contribuições é finito. Uma fatia maior para uns resulta numa fatia menor para outros.

E para piorar a situação, vivemos sob um governo perdulário, cuja característica principal é a do descontrole dos gastos públicos, na mais completa irresponsabilidade fiscal. Quem deveria dar o exemplo torna-se partícipe do empobrecimento da sociedade. Procura contornar os limites dos recursos públicos em uma frenética corrida por mais impostos, cujos resultados são aumento da dívida pública, asfixia da atividade econômica e pressão inflacionária.

E o bem comum esvai-se na ausência de moralidade pública, nas “interpretações legais” e na irresponsabilidade institucional e governamental.

*Professor de filosofia na UFRGS

Bookmark and Share

PUXANDO A CAPIVARA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Como raramente puxo capivaras para a margem, eu não sabia o significado da expressão

Em breve ela se juntará a subir o sarrafo, virar o fio, ligar o sinal de alerta e outros clichês

Outro dia, num programa de TV sobre futebol, alguém disse várias vezes que era preciso "puxar a capivara". A insistência com que repetia a expressão me fez pensar que estava havendo uma infestação de capivaras nos gramados. Pelo insólito da coisa, resolvi ir aos entendidos. Aprendi que "puxar a capivara" significa "puxar a ficha", "levantar o histórico", "analisar direito". Tem a ver com a capivara que, quando surge à beira d’água e você decide puxá-la para a margem, não imagina como é pesada. Tem que puxá-la inteira para saber. Como raramente puxo capivaras para a margem, como eu podia adivinhar?

Não duvido de que, em breve, estaremos puxando capivaras a respeito de tudo. Certas combinações verbais são irresistíveis e, quando as aprendemos, não hesitamos em usá-las por qualquer motivo. Exemplos. Se concordo com alguém, agora tenho que dizer "Sigo o relator". Se fico mais exigente, é porque "subi o sarrafo". Se o fulano não deu conta do recado, é porque "não entregou". Ninguém mais fica estático para mandar uma mensagem —está sempre "passando para". Ficar atento é "ligar o sinal de alerta". Mudar de atitude é "virar a chave". E em tudo o sujeito tem de "dar o seu melhor" —ninguém se contenta em, modestamente, dar seu mais ou menos.

Já certas adiposidades verbais só acontecem por escrito. Ao ler um texto, veja quantas vezes o autor não começou a frase com "É importante notar que", "É interessante observar que", "É fundamental acrescentar que", "É indispensável destacar que", "É bom enfatizar que", "Vale salientar que", "Cabe lembrar que", "Há de se ressaltar que", "Deve-se frisar que" e um enxame de outros quês.

Sugestão: se você tropeçar numa dessas gorduras verbais, faça de conta que o sujeito não as escreveu e foi direto ao que ele achava indispensável lembrar, frisar ou destacar. Você descobrirá que essas frases não fazem falta. E terá economizado preciosos segundos de vida.

Claro que todos nós, às vezes, falamos ou escrevemos sem pensar. Periga alguém puxar a capivara.

Bookmark and Share

PARECE INCRÍVEL, MAS É PURA VERDADE

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Racismo só se tornou crime inafiançável e imprescritível com a Constituição de 1988

Injúria racial foi equiparada ao crime de racismo apenas em 2023

Por incrível que pareça, até meados do século 20 qualquer um podia recusar atendimento, serviço, hospedagem, ingresso em estabelecimento comercial a uma pessoa negra pelo mero fato de ela ser negra e não dava nada no Brasil.

É isso mesmo. A primeira legislação brasileira que enfrentou atos excludentes e corriqueiros motivados por puro preconceito de raça ou de cor na nossa fajuta "democracia racial" está completando 75 anos nos próximos dias.

Trata-se da Lei Afonso Arinos (Lei 1.390/1951), promulgada em 3 de julho —data em que atualmente é celebrado o Dia Nacional de Combate à Discriminação Racial.

Voltando ao passado, o deputado Afonso Arinos de Melo Franco, autor da lei, categorizou as práticas resultantes do preconceito de cor como contravenção penal, ou seja, infração de menor potencial ofensivo. Ao menos dois fatos, ambos ocorridos nos idos de 1950, estão associados à essa iniciativa parlamentar.

Primeiro: a pressão do movimento negro, que por meio do 1º Congresso do Negro Brasileiro (organizado por Abdias do Nascimento), no Rio de Janeiro, reuniu intelectuais e ativistas para formular políticas de igualdade racial.

Segundo: a enorme repercussão internacional negativa em torno das ofensas racistas proferidas a Katherine Dunham, famosa bailarina e coreógrafa afro-americana, que durante uma turnê no Brasil teve negada a hospedagem em um hotel de luxo de São Paulo.

Apesar de não tratar diretamente do racismo, a lei Afonso Arinos instituiu o debate jurídico sobre essa deformação moral e cívica que assola o nosso país.

Contudo, foram necessários 37 anos de luta dos movimentos sociais negros para que o racismo fosse considerado um crime inafiançável e imprescritível, coisa que só ocorreu com a Constituição Federal de 1988.

A regulamentação veio com a chamada Lei Caó (Lei 7.716/1989), referência ao autor da proposta, o advogado e deputado constituinte Carlos Alberto de Oliveira. Recentemente, em 2023, a injúria racial foi equiparada ao crime de racismo (Lei 14.532).

Bookmark and Share

AS LIÇÕES DA CRISE BRITÂNICA E OS LIMITES DA ENGENHARIA POLÍTICA

Lara Mesquita*, Folha de S. Paulo

Primeiro-ministro britânico deixa o cargo menos de dois anos após vitória trabalhista de 2024

Experiência recente mostra que reformas institucionais não blindam governos contra crises

Na última segunda-feira (22), o primeiro-ministro britânico Keir Starmer anunciou que deixará o cargo e a liderança do Partido Trabalhista. Sua saída, menos de dois anos depois da vitória trabalhista de 2024, prolonga a instabilidade política aberta pelo plebiscito do brexit.

Starmer não caiu por falta de maioria parlamentar. O Partido Trabalhista controla ampla maioria na Câmara dos Comuns. A crise veio da perda de autoridade política, da derrota nas eleições locais de maio, da pressão interna evidenciada na renúncia de ministros e da entrada de Andy Burnham na Câmara, após vencer a eleição suplementar de Makerfield. A disputa foi realizada com o objetivo de habilitá-lo para a liderança do partido, uma vez que, segundo a tradição, o primeiro-ministro deve ser membro eleito da Câmara dos Comuns.

Starmer poderia ter resistido, forçando um adversário interno a desafiá-lo. Pelas regras do Partido Trabalhista, a disputa pela liderança pode ser aberta com a renúncia do líder ou quando um desafiante formal reúne assinaturas de pelo menos 20% da bancada parlamentar. Até 2021, esse patamar era de 10%, mas foi elevado durante sua liderança, dificultando desafios internos à direção partidária. A regra agora opera em outro contexto. Ao elevar o custo de entrada na disputa, pode reduzir a fragmentação de candidaturas e facilitar a consolidação de Burnham. Regras partidárias não são procedimentos neutros. São instrumentos de poder.

A experiência britânica deixa quatro lições. A primeira é que o parlamentarismo não é sinônimo de estabilidade. A sucessão de primeiros-ministros desde o brexit mostra que nenhum desenho institucional blinda governos contra crises de legitimidade, choques econômicos ou divisões partidárias.

A segunda é que o sistema majoritário distrital pode fabricar maiorias amplas com apoio popular baixo. Em 2024, os trabalhistas conquistaram 63% das cadeiras com pouco mais de um terço dos votos. A tradução de votos em cadeiras produz maioria legislativa, mas não fabrica apoio popular.

A terceira lição é que reformas institucionais têm efeitos contingentes. O aumento do sarrafo para a disputa interna, pensado para limitar a competição no partido, pode agora favorecer uma transição rápida. A mesma regra que fortalece uma liderança pode facilitar sua substituição.

A quarta diz respeito ao brexit. Reformas complexas, quando reduzidas a escolhas binárias, podem produzir efeitos que escapam ao controle de seus autores. O referendo de 2016 teve comparecimento de 72,2%, superior aos 59,7% das eleições gerais de 2024. Ainda assim, a participação alta não impediu que o processo resultasse em instabilidade e dificuldade de entrega.

A experiência recente britânica serve de advertência aos entusiastas da engenharia política. Parlamentarismo, voto distrital, regras partidárias ou plebiscitos não são atalhos para a governabilidade.

Instituições importam: organizam incentivos e moldam a disputa. Mudar as regras do jogo pode alterar a velocidade pela qual o poder é disputado e transferido. Nem sempre isso é positivo. Em democracias, reformas não blindam governos contra crises econômicas, perda de legitimidade, fragmentação social ou incapacidade de entrega.

*Professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ

Bookmark and Share