segunda-feira, 2 de novembro de 2026
domingo, 1 de novembro de 2026
ALÍVIO DEMOCRÁTICO
Lula 4 dá fôlego à democracia, mas extrema direita não
foi embora com Flávio
Um governo apenas de normalização institucional é muito
pouco contra ameaças que nos assombram
Será indispensável manter mobilização social e ousadia
para emparedar bolsonarismo
[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser
celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a
gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio
no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela
desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter
esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro
anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar
para 2030 desde já.
Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz
Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente
naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.
Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após
escapar
por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas
se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos
como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez
levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como
segue crescendo.
Embora o salto à frente de Flávio
Bolsonaro no primeiro turno não fosse esperado, tudo mais nos resultados
daquele dia não deveria ser surpresa.
Malgrado a derrota na disputa presidencial de 2022, o voto
bolsonarista continuou se ampliando e capilarizando desde 2018, conforme se
pôde observar nas três últimas eleições, com
a consolidação de sua presença no Congresso, nos governos e legislativos
estaduais, nas prefeituras e câmaras de vereadores.
Em vez de uma virada de maré, o triunfo de Lula quatro anos
atrás foi a recaptura do último bastião que ainda não estava plenamente nas
mãos da extrema direita.
Se aquela eleição viu um dos melhores presidentes da
história do Brasil bater o pior por uma margem mínima, 2026 obrigou Lula a
correr atrás do resultado contra um candidato que não é o político mais
expressivo nem de sua própria família —e o reconduziu ao governo para quatro
anos sob o cerco permanente de um adversário hostil e empoderado.
Nas últimas semanas, um termo circulou para caracterizar
esse cenário: haveria uma revolução de
extrema direita em curso no país. Por um lado, tratar-se-ia de uma revolução
cultural, visível, por exemplo, no avanço de todo um universo de valores e
referências associados ao agronegócio ao longo da fronteira agrícola em
expansão no interior do Brasil.
Uma revolução cultural também no modo como a extrema direita
soube dar forma aos desejos e frustrações dos atletas da
viração nas cidades grandes e médias: motoboys, motoristas de aplicativo,
aspirantes a influencers e outros trabalhadores em situação permanente de sub e
multiemprego que se identificam com a promessa de um mundo em que menos
regulação e impostos possam impulsionar seus voos pessoais.
Revolução cultural, finalmente, no
crescimento das igrejas evangélicas nas periferias e na ascensão dos empreendedores políticos: influenciadores digitais que
fizeram da agitação de extrema direita uma carreira lucrativa e que, em muitos
casos, lograram converter em votações estrondosas seu considerável capital
midiático.
Mas o termo se justificaria sobretudo porque é a extrema
direita que tem sabido melhor do que ninguém encarnar um desejo de ruptura que
paira no ar há algum tempo —uma mistura de desencanto com as promessas da
democracia e da modernidade, indiferença a instituições vistas como elitistas e
corruptas, um sentimento de que as coisas não podem seguir como estão e uma
dificuldade profunda de imaginar como elas poderiam ser diferentes.
Trata-se de uma revolta que acaba por ser extremamente conformista, na medida em que não se traduz em
projetos coletivos de combate à explosão da concentração de poder econômico e
político das últimas décadas, mas na aposta em figuras que prometem um ambiente
mais desregulado de competição de todos contra todos. Isso, contudo, não a
torna menos urgente para quem adere a ela.
Revolução ou Aceleração?
Todos os elementos dessa análise estão corretos —e, no
entanto, a palavra "revolução" não deixa de causar ruído. Não porque
ela seja privilégio exclusivo da esquerda ou porque tenha um conteúdo
determinado, mas porque falta à ascensão da extrema direita uma característica
que parece essencial ao conceito: a de ir a contrapelo do atual estado de
coisas.
Em cada um dos pontos acima, é possível dizer que o sucesso
da extrema direita vem menos de sua capacidade de andar na contramão da
história e mais de sua aptidão para navegar os ventos favoráveis das quase duas
décadas de crise permanente que vieram na esteira da debacle financeira de
2008.
A internalização do empreendedorismo de si mesmo —aquilo que
Verónica Gago chamou de "neoliberalismo desde baixo"— não é um fenômeno
recente, mas o resultado cumulativo de cinco décadas de reformas neoliberais
que reformataram o mundo em que vivemos.
O advento da plataformização e das redes digitais contribuiu
para acelerar este processo, bem como o da colonização da política pela
economia da atenção que fez
crescer exponencialmente o poder das big techs, inclusive aquele de intervir
diretamente em eleições, ao mesmo tempo que abria aos empreendedores
políticos um mercado gigante de instrumentalização da raiva, do ressentimento e
do ódio.
Neste processo, também as igrejas evangélicas funcionaram
menos como inovadoras do que como organismos especialmente adaptados a um novo
mundo que se formava.
Ocupando espaços deixados pela ausência do Estado e pela
retirada da Igreja Católica de áreas mais pobres, elas ofereciam apoio a
indivíduos expostos a condições cada vez mais hostis e uma mensagem adequada às
circunstâncias, de esforço e salvação individuais.
Durante um tempo, os desejos despertados por essa
reformatação da vida social e da subjetividade puderam se projetar em cenários
de expansão: a globalização e a abertura ao capital internacional, bolhas
especulativas como a da internet e a do mercado imobiliário. Com o estouro
desta última, a situação mudou no mundo todo.
No Brasil, o fim
do ciclo das commodities em 2015 fez com que mesmo alguns dos pilares do
sucesso petista se voltassem contra o partido. Em 2026, o voto bolsonarista
cresceu no Nordeste junto com a fronteira de um agronegócio que, desde 2018, se
realinhou à extrema direita.
A expansão do crédito, que possibilitou a "inclusão
pelo consumo" no início do século, virou endividamento em massa e fez com
que a melhora dos indicadores macroeconômicos do terceiro governo Lula não se
traduzisse na vida de muita gente.
Também a promoção do empreendedorismo popular, parte
importante do repertório lulista nos tempos de prosperidade, virou-se
contra o PT quando as condições mudaram. Não apenas a culpa pela piora
recaiu sobre o partido, como este perdeu a batalha discursiva em torno de quais
haviam sido as causas dos tempos de vacas gordas.
Em vez de as políticas redistributivas serem percebidas como aquilo que aquecera o mercado interno e tornara possível empreender, elas viraram as vilãs que tiravam dos busca-vidas para dar a quem não queria trabalhar.
É possível compreender essa mudança de vento global
examinando a transformação do imaginário em torno dessa figura-chave de nosso
tempo, o empreendedor.
As condições econômicas pós-2008 —explosão do subemprego,
aceleração da concentração de renda, inflação de ativos financeiros— fizeram
com que desaparecesse a perspectiva de uma progressão linear entre poupança e
investimento em formação, por um lado, e a mobilidade social, pelo outro.
Com isso, a ética protestante do êxito mediante o trabalho
duro sofreu uma inflexão. Quando o sonho da casa própria ou de ter filhos se
torna tão distante que não há um caminho natural até ele, cresce a busca por
atalhos: soluções mágicas como bets, criptomoedas ou o sonho de virar coach ou
influencer, caminhos que elegem um caso de sucesso em cada dezena ou centena de
milhar.
Até o otimismo de nossos tempos tem um quê de desesperado.
Isso implica que, se é essencial à esquerda saber ouvir as aspirações
dos que querem brilhar, ela não pode contentar-se com acolhê-las em seus
próprios termos, sem questionar as (im)possibilidades estruturais de sua
realização ou articular a necessidade de uma outra economia, sustentável e mais
igualitária, onde outros tipos de sonho encontrem outras condições de se
realizar.
Em boa medida, a guinada à extrema direita no mundo todo
pode ser entendida como aquilo que acontece com os desejos despertados pelo
neoliberalismo quando suas promessas de boa vida se tornam cada vez mais
difíceis de realizar: eles azedam.
Trata-se de uma política para "um tempo de expectativas
decrescentes", potencializado pelo espectro da crise ambiental, quando
perceber o mundo como um jogo de soma zero se torna cada vez mais natural.
Se as condições não parecem poder mudar, a não ser para
pior, e redistribuir a renda concentrada no topo não parece possível, só resta
a quem está na base da pirâmide competir entre si —empurrando para fora do jogo
minorias, imigrantes, ou quem quer que esteja do lado mais fraco da corda.
É por conta desta continuidade com o atual estado de coisas
que, sem menosprezar a força galvanizante da extrema direita, parece mais
adequado falar não em revolução, mas em instrumentalização e aceleração da desintegração social produzida por 50 anos de
neoliberalismo, incluindo as já quase duas décadas de sua sobrevida zumbi
pós-2008.
Alimentando-se das forças liberadas por essa desintegração,
a extrema direita as direciona na direção do colapso: da democracia e do
universalismo liberais, da legalidade, da capacidade estatal, do meio ambiente
e até mesmo da soberania indivisível —como se vê no avanço de atores soberanos
não estatais como milícias e narcotráfico, que tinham um representante direto
nessas eleições em Flávio Bolsonaro, agora foragido das investigações criminais
que pesam sobre ele.
Emancipação em Tempos de Expectativas Decrescentes
Pensar o ascenso da extrema direita como continuação e
aceleração de tendências existentes também nos ajuda a entender todas as
vantagens estruturais que ela aparenta possuir.
Vantagens do ponto de vista da mensagem, que está em
continuidade com o momento histórico de horizontes reduzidos, a gramática moral dominante e a experiência vivida de muita
gente; e vantagens do ponto de vista organizacional, já que ela se acha mais
capilarizada no tecido social e encontra nas plataformas digitais um terreno
mais favorável ao tipo de política que propõe.
Vantagem, finalmente e sobretudo, porque, apesar do discurso
antissistema, sua prática está em perfeita continuidade com os interesses de
elites domésticas e globais que decidiram pisar no acelerador da concentração
de riqueza às custas da democracia, do meio ambiente e da imensa maioria da
população mundial.
Mais do que qualquer coisa, a quarta vitória de Lula
significa comprar tempo. Tempo para a democracia, afastando
o risco de tomada do Judiciário que um Executivo e Legislativo em mãos
bolsonaristas representava.
Tempo para o meio ambiente, diante do fato de que mais
quatro anos de um Bolsonaro na Presidência certamente poria a Amazônia numa
trajetória irreversível de savanização, com um impacto fortíssimo sobre o
aquecimento global.
Tempo para serviços públicos como saúde e educação,
afastando por ora a ameaça de cortes e privatização. Tempo para proteger as
instituições e a vida pública da infiltração cada vez maior pelo crime
organizado.
Mas é preciso ter sobre essa vitória a clareza que faltou em
2022: por ora, estamos apenas comprando tempo. Lula 3 foi um governo de
normalização, o que não deixava de ser bem-vindo após quase dez anos de
anormalidade constante; mas, em um mundo em que a tendência natural das coisas
favorece a extrema direita, agir como se estivéssemos em tempos normais é um
grande erro.
Quando as coisas vão longe demais em uma direção, as medidas
capazes de realmente corrigir seu curso não podem deixar de parecer radicais.
Por isso, será indispensável manter ao longo dos próximos
quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno para garantir que
Lula 4 tenha não apenas a chance de existir, mas de fazer o que é preciso para
começar a reverter o cenário em que a aceleração da desintegração opera e a
extrema direita cresce.
Isso significa sustentar tanto a mobilização popular quanto
a ousadia que o governo federal assumiu na reta final das eleições, quando uma
série de medidas até então tidas como impossíveis subitamente se tornaram
imparáveis —com
a proibição das bets, o
reajuste do Bolsa Família, a
redução da jornada de trabalho e a PEC
da Tarifa Zero.
A estas precisarão se somar, o quanto antes, a regulação das
big techs e o combate ao sequestro do orçamento por emendas parlamentares nada
transparentes.
Acima de tudo, a esquerda será obrigada a enfrentar a
questão fundamental que o sucesso da extrema direita em capitalizar em cima da
desintegração traz à tona:
o que significa articular um projeto emancipatório em tempos de expectativas
decrescentes?
Como podem os desejos, as esperanças e as aspirações
atualmente depositados na extrema direita serem transformados e redirecionados
para uma alternativa à altura do desafio de combater a desigualdade em um mundo
que se aproxima perigosamente do colapso ambiental?
A vitória improvável sobre o bolsonarismo, Donald Trump, o
crime organizado e o Vale do Silício tornou-se uma fonte de esperança e
entusiasmo ao redor do mundo —uma espécie de equivalente, na política
eleitoral, ao que foi o Vietnã.
A impressionante mobilização que tornou isso possível virou
um caso de estudo sobre como vencer a extrema direita nas urnas, além de ter
posto uma pulga atrás da orelha da maioria de direita no Congresso, que
certamente viu ali a possível emergência de uma força capaz de reorganizar a
correlação de forças pós-eleições.
Contudo, é preciso lembrar que foi preciso uma figura do
porte de Lula para bater o bolsonarismo em 2022 e 2026 —o que significa que a
preparação para 2030, quando
ele já não poderá se candidatar, começa desde já.
Mas é preciso estar atento para não confundir estratégia
eleitoral com estratégia política. Uma coisa, evidentemente importante, é
construir candidaturas fortes para a Presidência e o Legislativo nas próximas
eleições.
Nomes novos que despontaram com força neste último ciclo,
como
Érika Hilton e Ana
Elisa, não só oferecem esperança como apontam alguns caminhos.
Outra coisa, condição imprescindível para o sucesso da
primeira, é compor uma base social em condições não apenas de eleger tais
candidaturas, mas de emparedar aqueles que tentarão emparedar o governo,
gerando a demanda e as oportunidades para que este consiga ir além.
Isso não se fará apenas com mais influenciadores de
esquerda, como muitos pareceram concluir após o primeiro turno, mas também com
organização analógica e o esforço para elaborar um programa capaz de atualizar
o lulismo para condições muito diferentes.
Neste sentido, há uma lição muito forte a se aprender com
este segundo turno. Iniciativas vindas de fora do quartel-general de campanha,
tais como o Exército do Lula e o projeto Revelando,
foram decisivas nesta virada.
Elas, por sua vez, não teriam produzido os mesmos efeitos
sem a tenacidade de milhões de pessoas que dedicaram seu tempo, dentro e fora
das redes, para correr atrás de um resultado improvável.
Não foi o PT, nem foi Lula,
mas sim a ecologia
que se constituiu em torno deles que venceu a eleição.
Se Lula, com esse triunfo, inscreveu seu nome em definitivo
nas páginas da história brasileira, é a sua imagem nessa reta final que oferece
a lição mais potente para o que virá agora: a de um indivíduo extraordinário,
de trajetória extraordinária, mas que precisou de um povo
extraordinário para carregá-lo até a linha de chegada.
*Professor da Universidade de Essex e da PUC-Rio. Autor de "Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em Transição" e "Nem Vertical Nem Horizontal: uma Teoria da Organização"
A VIRADA DOS ESTUDANTES
Alunos de Direito da UFF iniciaram mobilização de rua que
tomou o país e ajudou a barrar a volta do bolsonarismo
Quando os historiadores do futuro forem narrar a virada
eleitoral de 2026, um capítulo terá que ser dedicado ao levante dos estudantes.
Eles começaram a sair da toca em Niterói, na noite chuvosa de segunda-feira que
se seguiu ao primeiro turno.
Alarmados com a votação do candidato da extrema direita,
alunos da Universidade Federal Fluminense convocaram um ato público diante da
Faculdade de Direito. O espaço ficou pequeno, e a turma resolveu sair em
passeata rumo à Praia de Icaraí.
“Estávamos todos chocados com o resultado”,
conta Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga.
“Terminamos a apuração em estado de desespero, mas não podíamos deixar esse
sentimento nos paralisar”, justifica.
A chuva engrossou, mas o cortejo ganhou a adesão de
estudantes de outros cursos e de moradores que desciam dos prédios para se
juntar aos jovens. “Uma das cenas mais bonitas que vi foi a de uma senhora de
bengala. Ela disse, chorando, que a minha geração precisava defender a
democracia”, lembra Valentina, que tem 19 anos e não é filiada a nenhum
partido.
Como nem tudo são flores, bolsonaristas arremessaram ovos e
papel higiênico molhado contra a garotada. Ninguém se machucou, e a marcha se
estendeu até o fim da noite.
Os jovens ainda estavam na luta quando as imagens da
passeata começaram a correr as redes sociais. “Quando abri o celular, o ato já
tinha viralizado. Recebi uma enxurrada de mensagens e de vídeos filmados das
ruas e das janelas. Até meus amigos da Bahia estavam repostando, sem saber que
eu estava lá”, diz a diretora do centro acadêmico, que nasceu em Porto Seguro e
se matriculou na UFF pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).
No dia seguinte, novas mobilizaçõ contra o bolsonarismo
pipocaram em todo o país. Na quarta-feira, universitários e secundaristas se
concentraram na Candelária, fecharam a Avenida Presidente Vargas e desceram a
Rio Branco, cenário das grandes manifestações estudantis de 1968.
O ato não foi convocado pela campanha, mas atraiu ambulantes
munidos de broches, bonés e camisetas com o nome de Lula. Era um sinal de que o
Rio, antes dominado pelo bolsonarismo, ensaiava uma guinada à esquerda no
segundo turno.
Nos últimos dias, o noticiário destacou a atuação do
deputado André Janones, que se impôs à burocracia petista e comandou a reação
nas redes. O esforço digital foi importante, mas não resolveria a parada sem a
garra dos jovens que tomaram as ruas e estimularam eleitores de todas as idades
a votarem contra a volta do bolsonarismo.
No ato que deu início ao movimento, os estudantes de Niterói
desfraldaram uma bandeira laranja e preta com a inscrição “Direito UFF —
Antifascista”. O estandarte ficou famoso em 2018, quando chegou a ser recolhido
por ordem de uma juíza eleitoral. Embora não citasse nomes, foi considerado
“propaganda negativa” contra o candidato que defendia a ditadura.
A ministra Cármen Lúcia derrubou a censura, em decisão
referendada por unanimidade no Supremo. “Impedir ou dificultar a manifestação
plural de pensamento é trancar a universidade, silenciar estudantes e amordaçar
professores”, sentenciou.
sábado, 31 de outubro de 2026
SALVE CLAUDETTE SOARES
Hoje é dia de celebrar a icônica cantora Claudette Soares,
que completa 91 anos neste sábado, 31 de outubro de 2026.
Nascida no Rio de Janeiro, em 1935, Claudette soma mais de oito décadas de uma
trajetória fundamental para a Música Popular Brasileira.
Começou na era de ouro do rádio, aos 10 anos, quando chamou a atenção de Luiz
Gonzaga, que a batizou de Princesinha do Baião.
Nos anos 1960, mudou-se para São Paulo e tornou-se uma das grandes intérpretes
da Bossa Nova e do Sambalanço. Ao longo da carreira, também transitou pelo
jazz, samba e MPB, sempre com sua voz suave e sofisticada.
Aos 91 anos, continua na ativa e prepara o lançamento, em 13 de novembro, do
álbum de inéditas O mundo é ruim para quem não sabe esperar, com composições de
Zélia Duncan, Ana Costa, Marcos Valle, Tim Bernardes e Nando Reis.
Viva Claudette Soares! Parabéns por sua história, sua elegância e sua
contribuição à música brasileira. Que venham muitos anos de saúde, música e
aplausos!
Today we celebrate the iconic singer Claudette Soares, who turns 91 this
Saturday, October 31, 2026.
Born in Rio de Janeiro in 1935, Claudette has enjoyed a career spanning more
than eight decades, becoming an important figure in the history of Brazilian
Popular Music.
She began her career during the golden age of radio, at just 10 years old, when
she caught the attention of Luiz Gonzaga, who affectionately gave her the title
Little Princess of Baião.
In the 1960s, she moved to São Paulo and became one of the leading voices of
Bossa Nova and Sambalanço. Throughout her career, she also explored jazz, samba
and MPB, always distinguished by her soft, sophisticated voice.
At 91, she remains active and is preparing to release a new album of original
songs on November 13, titled O mundo é ruim para quem não sabe esperar,
featuring compositions by Zélia Duncan, Ana Costa, Marcos Valle, Tim Bernardes
and Nando Reis.
Long live Claudette Soares! Congratulations on your remarkable journey,
elegance and contribution to Brazilian music. Wishing you many more years of
health, music and applause!
VITÓRIA DE LULA E VERGONHOSA FUGA DE FLÁVIO
Com uma contundente vitória eleitoral, o presidente Lula da
Silva se consolida como a maior liderança popular do Brasil que permitiu aos
brasileiros impedir a volta da família Bolsonaro ao poder com os riscos para a
democracia. Mesmo derrotado, o senador Flávio Bolsonaro recebeu 59,8 milhões de
votos, em grande parte pela atração do antilulismo e da insatisfação de parcela
dos brasileiros com o terceiro mandato de Lula. O ranço autoritário do
bolsonarismo não permitiu que Flávio aceitasse o resultado das urnas –
confirmado pelo TSE e seu presidente, Nunes Marques, Ministro indicado por Jair
Bolsonaro – nem reconhecesse a vitória de Lula, o que lhe permitiria aspirar a
uma posição de líder da direita brasileira.
A decisão apressada do Ministro Alexandre
de Moraes ordenando que o senador entregasse os passaportes e não saísse do
Brasil precipitou os fatos, com a fuga de Flavio Bolsonaro. Os elementos que
justificam a punição do Ministro ainda precisam ser esclarecidos, mas é lícito
imaginar que Flávio Bolsonaro sabia que existiam denúncias que levariam à sua
prisão nos primeiros dias de fevereiro quando se encerrasse sua imunidade
parlamentar. Entretanto, o histórico de inimizade política de Bolsonaro e
Moraes e as evidências de envolvimento dos dois com o dono do Banco Master,
alimentam a narrativa de perseguição política, que os Bolsonaros adoram.
Fugindo do Brasil e publicando um ridículo manifesto em que
se apresenta como o presidente eleito, Flávio Bolsonaro frustra os seus
eleitores e se isola da sua base política. Quase todas as lideranças políticas
de direita, mesmo vários bolsonaristas de primeira hora, reconheceram os
resultados das urnas e criticaram as declarações do fugitivo. Com Jair preso e
dois dos seus filhos fora do Brasil, é muito provável que o bolsonarismo
desinfle e que a ultradireita perca a capacidade de aglutinação de democratas
da direita e da centro-direita, capacidade demonstrada nestas eleições.
Confirmada esta hipótese, no futuro, o Brasil pode se livrar
da polarização política nefasta entre o lulismo e o bolsonarismo que tem
dominado a política brasileira em quase uma década. Embora Lula possa
beneficiar-se da fragilidade da família Bolsonaro sem a força do bolsonarismo,
tal fragilidade poderá descartar também o apoio dos brasileiros que
votaram nele apenas para livrar-se dos riscos e ameaças bolsonaristas. E assim,
nós escaparíamos da armadilha política que nos tem obrigado a um posicionamento
mais pela rejeição de um dos polos do que pela efetiva afinidade política
com o outro.
Brechas à gastança eleitoral têm de ser fechadas desde já
Por O Globo
Lula lançou mão de medidas eleitoreiras como nunca. Não foi
o primeiro, mas deveria ser o último
A classe política precisa desde já começar a rever as
brechas legais que permitem a profusão de medidas e benesses em série às
vésperas de eleições. Embora haja regras contra abusos, o pleito deste ano
deixou claro que não têm sido suficientes para deter o ímpeto de políticos que
recorrem à caneta para conquistar votos.
O terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula
da Silva (PT) foi pródigo nessas iniciativas, especialmente neste ano. À medida
que a popularidade de Lula enfrentava dificuldades, mais pacotes de bondades
saíam da linha de montagem. No fim de setembro, o Palácio do Planalto chegou a
anunciar uma benesse a cada quatro dias, como
mostrou reportagem do GLOBO. Nunca antes houve tantas medidas populistas em
ano eleitoral.
A lista é interminável: subvenção a combustíveis, múltiplas
versões do Desenrola para endividados, ampliação das faixas do Minha Casa,
Minha Vida para a classe média, crédito para compra de veículos por taxistas,
motoristas de aplicativo e entregadores, crédito agrícola e industrial, ajuda a
microempreendedores individuais (MEIs), além do reajuste de 15% no Bolsa
Família a apenas 17 dias do pleito — Lula alegou não saber que ele estava sem
correção. Contando financiamentos, despesas primárias e renúncias fiscais, a
conta beira R$ 300 bilhões, segundo a Instituição Fiscal Independente. E outros
mimos estão a caminho, caso do Pé-de-Meia para universitários e da tarifa zero
no transporte coletivo aos fins de semana.
Lula não foi o primeiro a gastar sem freio às vésperas do
pleito. Dilma
Rousseff (PT) e Jair
Bolsonaro (PL) recorreram ao mesmo expediente de modo despudorado. Em 2022,
quando concorria à reeleição, Bolsonaro anunciou aumento de 50% no Auxílio
Brasil. O reajuste começou a ser pago dois meses antes do primeiro turno. Na
época, Lula e o PT acusaram o adversário de usar indevidamente a máquina
pública. Antes disso, Dilma já torrara 3,1% do PIB para se reeleger, como
mostrou estudo do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas
(FGV Ibre). A prática não tem coloração partidária ou ideológica.
O uso abusivo da máquina desequilibra a disputa. O político
que tem a caneta na mão leva vantagem sobre os adversários, pois pode
distribuir benesses com recursos públicos para se beneficiar. Além disso,
qualquer gasto tem impacto inexorável no Orçamento. Evidentemente, não se podem
coibir promessas ou projetos apresentados, ao alcance de qualquer candidato.
Nem medidas emergenciais justificáveis por eventos externos, como uma pandemia
ou tragédia climática. Mas é preciso mais rigor para vetar o que estiver ao
alcance apenas de quem tem a caneta.
O artigo 73 da Lei das Eleições já veda diversas condutas,
como uso de bens públicos; ceder servidor para comitês de campanha; contratar
funcionários antes da eleição; e, sobretudo, distribuir bens, valores ou
benefícios em ano de eleição. Mas tais vedações são genéricas e, como se viu,
não têm bastado. É preciso fechar as brechas aos abusos, e a Justiça também
precisa ser mais rigorosa na interpretação das leis.
Qualquer mudança deve ser debatida com antecedência, para
não sofrer contaminação do calendário eleitoral. Mas a hora de começar é agora.
Se nada for feito, o descalabro poderá ser ainda pior nas próximas campanhas.
sexta-feira, 30 de outubro de 2026
GOLPISMO NUNCA MAIS
Em carta patética, Flávio proclama-se líder e repete farsa
de fraude na eleição
Filho, que renunciou a liderar a oposição, pirateia a
conduta delinquente do pai, Jair, e seu desprezo atávico pela democracia
Quando se pensa que os Bolsonaros já bateram no fundo do
poço do golpismo, eles descem um degrau. Flávio, candidato do PL derrotado na
eleição deste domingo, fugiu do país e, do seu esconderijo suspeito de ser
regado a dinheiro sujo do Banco Master nos Estados Unidos, proclamou-se
o verdadeiro presidente do Brasil.
Talvez alertado de que o termo poderia lhe render novas
perturbações criminais, logo editou a carta. O "presidente" virou
"líder", mas a mentira de que teria havido fraude persistiu. Luiz
Inácio Lula da
Silva (PT) teve 4,4 milhões de votos a mais que o seu adversário, diferença
maiúscula,
impossível de ser conquistada nas duas horas extras em que o escrutínio
ficou aberto por uma decisão
judicial estapafúrdia.
O filho pirateia a conduta delinquente do pai, Jair, quando
há quatro anos perdeu a reeleição. A diferença é que, fora do governo, Flávio
não tinha como assediar os comandantes militares para praticarem um golpe. Mas
o discurso arruaceiro sobre as eleições é o
mesmo, assim como o desprezo atávico pela democracia.
Foi apenas recuo tático do senador a propalada desistência,
na segunda-feira (26), de questionar a lisura da eleição. A verborragia
autoritária voltou tão logo pisou em solo americano, depois que uma decisão
política e desnecessária do ministro Alexandre de Moraes, ao determinar a
apreensão de seus passaportes, lhe deu de presente um pretexto para posar de
vítima.
O filho emula o pai também na tentativa de manter-se à testa
da oposição mesmo depois de uma atitude covarde de renúncia. A covardia de Jair
Bolsonaro foi ter perseguido uma via subversiva para manter-se no poder.
Quando optou por esse caminho ele renunciou a admitir a derrota, organizar as
forças aliadas e tentar eleger-se de novo em 2026. Era ganhar na violência ou
ser agarrado pela lei se fracassasse. Fracassou e foi condenado.
Ainda assim, o PL rendeu-se à influência do ex-presidente
preso e reduziu a sucessão presidencial a uma questão familiar. Entregou a Lula
o melhor adversário possível. O espectro da volta do bolsonarismo, na figura de
Flávio, despertou tanto medo nos eleitores que produziu a façanha da virada no
segundo turno.
A covardia de Flávio foi fugir do país horas depois de ter
obtido quase 60 milhões de votos. Ao optar pelo refúgio dourado sob a proteção
de Donald Trump, Flávio
Bolsonaro renunciou a liderar a oposição no próximo ciclo eleitoral. A
"carta" da Flórida tenta desfazer essa conclusão óbvia. Funciona como
tentativa de intimidar os partidos que farão oposição ao petista para que se
submetam a um comandante fujão.
Quem caiu uma vez na armadilha de Jair só se enredará na
segunda, urdida por seu primogênito mofino, se for idiota. O Brasil e a
centro-direita se beneficiarão do enterro das possibilidades presidenciais
dessa família autoritária, ignorante e incompetente. É hora de olhar para a
frente.
FUGA DE FLÁVIO CAIU NO RIDÍCULO
Carta golpista é rechaçada pelos próprios aliados, e
episódio revela oposição mais madura e democrática
Ao fugir do país de forma vergonhosa e sorrateira depois de
perder a eleição no último domingo, o senador Flávio
Bolsonaro (PL) desrespeitou não apenas a ordem judicial para entregar seus
passaportes, mas o voto dos mais de 59 milhões que o escolheram na urna. Ao
publicar, na chegada ao autoproclamado “exílio” nos Estados Unidos,
uma carta contestando o resultado da eleição e se proclamando “presidente
eleito” do Brasil (ou “líder”, numa versão corrigida), deu prova não apenas de
desconexão absoluta da realidade, mas do mesmo DNA golpista que levou à cadeia
seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, condenado por tramar uma insurreição
depois de perder a eleição de 2022.
As instituições brasileiras voltaram a dar
demonstração de força quando o presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE),
ministro Kassio Nunes Marques, confirmou o resultado das urnas. O próprio
partido de Flávio, o PL, reconheceu a derrota, bem como União Brasil, PP e
legendas de sua coalizão. Foram declarações oportunas, mas felizmente nem
teriam sido necessárias. Desta vez, não há multidões acampadas diante de
quartéis, nem uma conspiração em curso. A carta de Flávio, em cuja primeira
versão até o nome e o brasão da República estavam errados, caiu no ridículo.
Sua atitude foi rechaçada pelos próprios aliados, perplexos
diante da mistura de covardia, prepotência e parvoíce. De modo rude, o pastor
Silas Malafaia classificou os filhos de Jair Bolsonaro de “jumentos”. “Faz
carta, fala bobagem depois corrige”, disse a seguidores. Com sensatez, o
governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas, tentou se afastar do
bolsonarismo: “O momento exige responsabilidade, serenidade e a construção de
uma oposição forte, capaz de exercer seu papel”.
Em sua carta, Flávio deixou claro que não está à altura de
liderar essa oposição. No texto, ele tem o desplante de se comparar a
lideranças históricas levadas ao exílio por necessidade. “Charles de Gaulle
liderou a França a partir de Londres, condenado à morte pelo regime de Vichy”,
escreveu. “José Martí organizou a luta pela independência de Cuba a partir de
Nova York. Na Venezuela, Juan Guaidó e Edmundo González tiveram que deixar o
país por enfrentar a ditadura chavista.”
Contra nenhum desses personagens, contudo, havia acusações
remotamente próximas às que pesam contra Flávio. Ele é investigado em dois
inquéritos no Supremo. O primeiro apura o destino do dinheiro que pediu a
Daniel Vorcaro, artífice da maior fraude bancária da História brasileira,
alegadamente para financiar um filme sobre seu pai. O segundo, aquele que levou
a Polícia Federal a pedir recolhimento de seus passaportes, deslinda seu
envolvimento no esquema de lavagem de R$ 5 bilhões em dinheiro de apostas que
levou ao pedido de prisão contra seu amigo Willer Tomaz, advogado foragido na
mesma Miami onde
Flávio pousou com a família.
O roteiro mirabolante de seu trajeto até lá — com manobras
de despiste, a declaração mentirosa de que entregaria os passaportes, a
cooperação de aliados do argentino Javier Milei e a promessa de visto do
governo Donald Trump — supõe planejamento prévio. Não apenas havia risco de
fuga, como afirma a ordem judicial; a fuga de fato ocorreu. Para o Brasil, o
melhor a esperar do episódio é que resulte numa oposição mais madura e mais
democrática do que o patético bolsonarismo.
FLÁVIO BOLSONARO ESTÁ ISOLADO
O senador fica cada vez mais isolado em sua posição
negacionista dos fatos. Figuras importantes da direita reconhecem como legítimo
o resultado das urna das urnas
A fuga de Flávio Bolsonaro para os Estados Unidos pegou de
surpresa até mesmo aliados próximos, que se preparavam para organizar a
oposição ao governo do presidente reeleito, Luiz Inácio Lula da Silva. No
segundo turno, Flávio obteve mais de 48% dos votos, surgindo como candidato
natural para comandar o bloco oposicionista.
No entanto, parece que Flávio não compreendeu que, ao
abandonar o País, as suas chances de se manter à cabeça do movimento de direita
reduziram-se sensivelmente.
Ainda não está claro se ele fugiu sem ao menos avisar os
seus aliados mais próximos, ou se os informou, mas não seguiu a orientação
sobre a necessidade de encarar os fatos. E a realidade mostra que ele perdeu as
eleições irremediavelmente, e que isso não tem volta.
Do ponto de vista da direita, como pode ser observado pelo
comportamento de seus principais representantes, é preciso aceitar o resultado
das urnas e seguir em frente, adaptando-se à nova situação. Pelo que se
observa, um setor expressivo desse movimento quer afastar-se do extremismo
bolsonarista para assumir posição mais moderada.
O ambiente piorou após Flávio ter divulgado uma carta de
teor golpista, descrevendo-se como "o verdadeiro presidente eleito",
assim que chegou aos Estados Unidos. Logo após recuou, autodeclarando-se
"líder do Brasil".
As acusações, sem provas, que Flávio repete contra o
Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e o Supremo Tribunal Federal (STF) são
desconsideradas tanto por organizações internacionais, que verificaram as
eleições brasileiras, quanto por países em todo o mundo que reconhecem, sem
ressalvas, a vitória de Lula e a segurança e lisura do processo eleitoral.
Neste cenário, o senador fica cada vez mais isolado em sua
posição negacionista dos fatos. Figuras importantes da direita reconhecem como
legítimo o resultado das urnas, como o governador reeleito de São Paulo,
Tarcísio de Freitas (Republicanos); o senador Rogério Marinho (PL-RN),
coordenador da campanha de Flávio; o pastor Silas Malafaia, considerado da ala
mais radical do bolsonarismo e até mesmo Valdemar Costa Neto, presidente do PL,
defendem o reconhecimento da vitória de Lula, ainda que façam algumas críticas
ao processo eleitoral.
Partidos que se descrevem de centro, como o MDB, União
Brasil e PSD, também se alinham ao reconhecimento.
Portanto, a tese defendida por Flávio, considerando-se
"presidente eleito" ou"lider do Brasil", carece de
substância e falta-lhe adeptos, mesmo entre correligionários. O que a intensa
mobilização política desses dias mostra é que ele está ficando cada vez mais
isolado, um cenário que pode se agravar pela convivência com o núcleo
radicalizado que opera a partir dos Estados Unidos, mas com pouca influência no
Brasil.
quinta-feira, 29 de outubro de 2026
FLÁVIO BOLSONARO SUBMETE A DIREITA AO VEXAME COM FUGA E CARTA GOLPISTA
O pouso de Flávio
Bolsonaro (PL) no
aeroporto de Opa-Locka encerrou ontem uma bem-sucedida operação de
contrainformação que lhe permitiu chegar em segurança à terra de Donald Trump
a partir do país comandado por Javier Milei.
Enquanto escapava do Brasil
para a Argentina,
ainda não se sabe exatamente como, seu irmão Eduardo,
com alguns asseclas, plantava notas na imprensa brasileira dizendo que Flávio
estava voando ou já havia chegado a Miami e em breve
daria uma entrevista coletiva para se explicar. As horas seguintes mostraram
que aquela tinha sido a parte fácil e, por incrível que pareça, menos patética
do plano.
No final do dia, o próprio Flávio divulgou
uma carta tão golpista quanto delirante em que, além de alegar ter havido
fraude na eleição sem apresentar prova ou argumento que fizesse sentido, se
declarou “o verdadeiro presidente eleito do Brasil” e se comparou a Rui
Barbosa, ao francês Charles de Gaulle e ao cubano José Martí, entre outras
figuras históricas que tiveram de se exilar por motivos políticos.
Não vale a pena nem perder tempo contestando a tentativa
canhestra de deslegitimar a eleição presidencial. Quanto aos heróis a que
Flávio se compara, basta dizer que nenhum estava assombrado por investigações
de corrupção e lavagem de dinheiro. Nem fugiu no primeiro susto, deixando para
trás aliados e eleitores desorientados tentando defender o indefensável.
Flávio ainda usou no documento um brasão da República com a
inscrição “Estados Unidos do Brazil”, com z, da República Velha. Depois,
divulgou uma espécie de “vale este” da carta, em que já não se dizia mais
presidente, e sim líder do Brasil, com s. Ao todo, três versões foram
divulgadas. Parece um detalhe diante de toda a bizarrice do episódio. Mas é
daqueles detalhes que fazem qualquer um de boa-fé se perguntar se, além de
despreparado para o cargo, Flávio não sofre de algum transtorno narcísico.
Nem Trump comprou o barulho. Numa entrevista rápida logo
após a publicação da carta, ele disse que concederá autorização para o filho de
Jair
Bolsonaro ficar no país, que a eleição brasileira “foi estranha”, mas
afirmou que não se envolverá nesse rolo.
Um dia antes de começar a fugir, já sabendo da ordem de Alexandre
de Moraes para entregar seus passaportes e se manter longe de Willer Tomaz
— o amigo e advogado que, segundo a Polícia
Federal, operava uma grande lavanderia de dinheiro com apostas em bets —,
Flávio gravou um vídeo dizendo que entregaria os passaportes e ficaria no
Brasil. “Vou organizar a oposição”, disse.
Ao que tudo indica, postou e saiu correndo.
Por mais que se possa — e deva — criticar a decisão de
Moraes, que não apontou nenhum fato concreto sugerindo plano de fuga ao mandar
reter os passaportes de Flávio na mesma noite em que se anunciou o resultado da
eleição, o próprio Flávio, ao sair do Brasil da forma como saiu, pôs em segundo
plano qualquer discussão sobre o caso em si.
Depois de meses se dizendo diferente, se vendendo ao
eleitorado como o Bolsonaro “que tomou vacina”, encenando moderação e enganando
a Faria Lima com uma mal fingida crença na austeridade fiscal, ele afinal
mostrou ser um legítimo representante do clã. Só pensa em si mesmo, morre de
medo de cadeia e solta a mão dos aliados diante de qualquer dificuldade.
Na carta em que se declarou presidente, líder ou o que seja,
Flávio disse que liderará a oposição dos Estados Unidos porque hoje seus
aliados “não têm a liberdade necessária para o pleno exercício da atividade
política”. Tanto ele como os parlamentares do PL e da direita sabem que é tudo
balela. Nenhuma rede social ou vídeo diário é capaz de substituir a política
feita no dia a dia, ainda mais com o conteúdo que Flávio passou a disseminar.
Quem comemora a lambança bolsonarista são o presidente Lula
e Davi
Alcolumbre (União
Brasil-AP), que tentarão aproveitar a desorientação da direita para atrair
o Centrão e talvez até alguns desgarrados do PL para eleger o comando do
Congresso e garantir acordos que melhorem a governabilidade no próximo mandato
do petista. Se Alcolumbre se reeleger presidente do Senado
Federal, Moraes também poderá respirar aliviado por escapar de um processo
de impeachment.
Quem não tem motivos para celebrar são as lideranças da
direita que agora se veem tendo de juntar os cacos para tentar organizar a
oposição. Mas até isso pode ser temporário, já que em política não existe
vácuo. O difícil é saber quem seria capaz de superar o bolsonarismo e conduzir
a oposição por um rumo consequente.
DESAFIOS IMEDIATOS PARA OS VENCEDORES
O governo tem que se concentrar nos problemas a resolver.
Na prática o novo mandato já começou. A fuga de Flávio Bolsonaro é a crise da
oposição
O novo mandato do presidente Lula,
na prática, já começou e o governo tem decisões a tomar. A instabilidade
financeira precisa ser entendida com racionalidade. O governo aumentou muito os
gastos no período eleitoral e a economia está sem parâmetros. A oposição está
às voltas com a fuga de Flávio
Bolsonaro. Ela foi planejada com muita antecedência. As informações
desencontradas da terça eram parte de uma operação despiste. O país ficou preso
nas versões, enquanto Flávio Bolsonaro permanecia em solo brasileiro. O governo
não pode ser tragado pela confusão criada pelo perdedor. Deve focar em suas
próprias prioridades. A economia é uma delas.
A ordem de Alexandre
de Moraes de entrega dos passaportes foi pedida pela Polícia
Federal. Está sendo usada como pretexto para sustentar a teoria da
perseguição política. Caiu como uma luva em todo o enredo dos Bolsonaro para
justificar a fuga. O derrotado sabe que são muito sólidos os indícios contra
ele nos dois inquéritos, principalmente no que investiga a sua relação, que
pode ser de sociedade, com o enroladíssimo Willer Tomaz.
A fuga de Flávio Bolsonaro é um problema do bolsonarismo e
da direita. Há muitas questões para o governo resolver, a mais imediata é o que
fazer em relação à economia. Há dúvidas razoáveis sobre as questões fiscais. Só
o subsídio ao diesel, que foi agora renovado, já custou mais de R$ 50 bilhões
aos cofres públicos. Em algum momento precisará ser retirado. Foi mantido
porque o governo acreditava em um cenário de guerra mais curta. A retirada vai
elevar a inflação. Portanto é preciso construir uma estratégia de saída lenta
desse gasto. Ele tem sido coberto pelo imposto de exportação, mas é uma
distorção na economia.
Os operadores do mercado financeiro apostaram alto no
cenário em que Flávio Bolsonaro ganharia eleição. Foram tão altas as posições,
que chegaram a ser advertidos de que teriam que se preparar para as chamadas de
margem. Ninguém se preparou. O mercado entrou comprado e sem hedge num cenário
que não se concretizou. A vitória de Lula levou à reorganização completa do
portfólio e isso provocou a grande turbulência de segunda-feira. O Banco
Central entrou fazendo um leilão já programado, e o Tesouro teve que recomprar
títulos.
Há indicadores alarmantes. Para o horizonte relevante da
política monetária houve um acréscimo de 400 pontos de juros. Ou seja, a aposta
é que se o governo não fizer o ajuste das suas contas, o Banco Central elevará
os juros. E esse volume de pontos significa que o mercado está precificando a
Selic a 17%.
Algumas pessoas do governo ainda não entenderam o risco que
está em jogo. O ministro das Relações Institucionais, José
Guimarães disse que “esse assunto (ajuste fiscal) não foi discutido, nem
está sendo discutido”. Essa declaração aumenta a incerteza, que o ministro Dario
Durigan tinha tentado diminuir quando afirmou que o governo iria mirar o
centro da meta fiscal e não o piso, o que significaria elevar o superavit
primário. Depois, Guimarães postou nas redes sociais que o governo “vai
trabalhar com o Congresso para manter as contas equilibradas”.
As previsões para o ano que vem estão sendo revistas pelos
economistas de bancos ouvidos pelo Boletim Focus. Deve haver uma mudança forte
nos próximos boletins. Há quem esteja revisando inflação em mais um ponto
percentual acima do que estava, e revendo para baixo o crescimento do PIB. A
corrida de promessas foi muito grande durante o período eleitoral. O mercado
achava que o vencedor seria Flávio Bolsonaro e que ele faria um estelionato
eleitoral. Com Lula vitorioso sabe-se que esses gastos serão mesmo realizados.
Mas quanto, quando, de que forma e com que compensações, não se sabe. Neste
momento o presidente está ouvindo propostas de ajustes, enquanto forma-se um
coro para dizer que não precisa fazer nada. Lula deveria ouvir quem acha que o
ajuste precisa ser feito.
A direita agora procura um novo líder, depois que Flávio
Bolsonaro fugiu do país. Como não há espaço vago na política, o governador Tarcísio
de Freitas fez um vídeo em que agradeceu os 60 milhões de votos, disse que
a “eleição passou” e que o projeto continua.
O governo precisa evitar que haja uma crise econômica por
imperícia ou erro de diagnóstico. Foi bonita a festa da vitória. Mas quem
entende de economia saiu da festa mais cedo porque sabe que há problemas a
resolver.
TANTAS HISTÓRIAS
Rachel de Queiroz, a pioneira cearense – primeira mulher a
entrar na Academia Brasileira de Letras, 1977 – conhecida pelas belas histórias
contadas em suas obras, o carinho que tinha pelas palavras, seja nas crônicas,
nas peças de teatro ou nos romances, ela era uma mulher à frente do seu tempo.
Até na politica Rachel de Queiroz enveredou e teve uma vida intensa.
A consagrada carreira de escritora e jornalista, parte dos
brasileiros já conhece, mas, na política é desconhecida pela maioria da
população brasileira. Rachel se tornou membro do Partido Comunista ao lado de
amigos de sua geração, uma turma politizada e ‘comunizada”, como relatou ela na
autobiografia Tantos Anos, de 1998. Foi presa duas vezes.
Em 1931, após passar dois meses no Rio de Janeiro – tinha
ido receber o Prêmio Graça Aranha, dado a O Quinze – Rachel volta ao Ceará, com
credenciais do Partido Comunista, já politizada e com a missão de promover e
reorganizar o Bloco Operário e Camponês, movimento político o qual ela tinha
participado.
Rachel passou a fazer parte do Partido Comunista, mesmo sem
ter feito uma ficha, assinado alguma ata. Aliás, não se podia deixar nenhum
rastro de papéis, livros ou qualquer tipo de documento, a polícia era brutal e
se pegasse algum vestígio, levava todos para a cadeia: às pessoas e os papéis.
Com a chegada de Getúlio Vargas ao Rio, a polícia ficou mais feroz.
Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas,
os livros de Rachel de Queiroz foram proibidos e, num fato marcante, várias de
suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros
de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de
subversivos.
O desligamento do Partido Comunista aconteceu após ela ver
censurado pelo próprio Partido o romance João Miguel. No romance João
Miguel, ‘campesino’ bêbado, matava outro ‘campesino’. O aviso: só
permitiria a publicação da obra, se Rachel fizesse as modificações apontadas
pelo presidente do Partido Comunista. Segundo o Partido, a trama era carregada
de preconceitos contra a classe operária.
Jamais se curvou as imposições feitas a sua obra, Rachel de
Queiroz não aceitou as tais modificações exigidas pelo Partido Comunista, pegou
o original que tinha datilografado e saiu em disparada, como relatado por ela
no capítulo O Rompimento, da autobiografia Tantos Anos.
Em sua obra Caminho de Pedras (1937), Rachel trata desse
momento político que viveu no Partido Comunista, porque fazer política na
década de 20, ser comunista era muito perigoso. A ideia de comunismo era
distorcida e alguém que ousasse se apresentar como comunista pagaria um preço
alto, até com a própria vida.
Rachel de Queiroz faleceu dormindo em sua rede, em sua casa
no Rio de Janeiro, em 4
de novembro de 2003.
CARTA ENCOLHE AINDA MAIS FLÁVIO
Candidato derrotado virou uma caricatura de líder de
oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach
Flávio Bolsonaro conseguiu um feito impressionante. Em tempo
recorde, se apequenou como líder da oposição e conseguiu produzir algo que
parecia improvável: juntou setores da direita e do governo nas críticas a suas
declarações golpistas. Para atingir tal façanha, não foi necessário nenhum fato
novo revelado pela Polícia Federal nem a publicação de eventual conversa pouco
republicana. Flávio precisou apenas de ausência de tino político, sinapse
tortuosa e conselhos ruins de meia dúzia de aloprados. Como resultado, no curto
prazo de três dias, fez evaporar parte considerável do capital político
adquirido com os quase 60 milhões de votos que recebeu.
A jornada de erros começou com o não
reconhecimento da derrota no domingo. Piorou com a fuga do Brasil, usando
argumentos mal-intencionados sobre perseguição política. Atingiu o absurdo
diante da carta precária e mentirosa, que, entre vários constrangimentos,
comporta o erro no nome do próprio país (chamado numa primeira versão de
Estados Unidos do Brazil, em vez de República Federativa do Brasil, com “s”,
por sinal), a comparação com Rui Barbosa e a autoproclamação como “presidente”
(que depois mudou para “líder”).
Ele conseguiu produzir um strike entre seus próprios
apoiadores. Integrantes do PL e do
Centrão, pragmáticos que são, poderiam ter saído em sua defesa caso houvesse o
mínimo de veracidade nos argumentos ou vantagem política em continuar apoiando
as confusões da família Bolsonaro. Mas ninguém de relevância levantou o dedo
para defendê-lo. Do governador de São Paulo, Tarcísio
de Freitas, a presidentes de partidos que compõem o Centrão, não houve quem
comprasse seu delírio. O presidente americano, Donald Trump,
foi questionado sobre o cosplay de Guaidó e disse que não se envolveria. Aliás,
Bolsonaro Júnior, como já foi chamado por Trump, hoje é um problema para ele.
Às vésperas da importante eleição de meio de mandato, Trump vê a oposição
surfar na concessão de visto para o candidato derrotado no Brasil.
Flávio está isolado. Brasília é repleta de profissionais da
política, e é sintomático que os maiores ph.D.s na matéria não tenham saído em
sua defesa. Não o fizeram porque não querem mais os Bolsonaros. Entendem que
hoje não existe perspectiva de poder em torno deles — e essa perspectiva é o
principal feromônio político. Sabem que Flávio usa a carta como melhor ataque
diante dos rolos pendentes com a Justiça envolvendo sua relação com Willer
Tomaz, o advogado suspeito de lavar dinheiro para político.
Na carta, Flávio agradece a Trump e a Javier Milei,
cuja atuação parece ter sido fundamental para a execução do plano de fuga, com
a ajuda de um jatinho (mais um) de um empresário enrolado com o governo de lá.
Aqui os investigadores também têm dúvidas sobre os dados a respeito do ingresso
pela fronteira argentina. Já está claro, porém, que o presidente argentino foi
fundamental para a fuga, enviando um assessor para facilitar o plano e causando
mais um ruído na relação com o Brasil — por mais que não houvesse mandado de
prisão expedido contra Flávio, ele estava proibido de deixar o país.
O candidato derrotado virou uma caricatura de líder de
oposição, autoexilado sob o sol de Miami Beach. Mostrou que não estava
preparado para a função de presidente da República e abriu espaço para que
outro nome ocupe a liderança da direita. Michelle
Bolsonaro e Tarcísio de Freitas já dão sinais de que estão a postos.
quarta-feira, 28 de outubro de 2026
FLÁVIO FUJÃO
Tique-taque soa como bomba-relógio; em fevereiro, senador
fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos
País só vai recuperar a sanidade quando essa família for
varrida da política pelo voto e pela lei
Fugiu, desapareceu, escafedeu-se.
Para Flávio,
o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo,
derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria
anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes,
gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça,
segundo aliados, já está na
Flórida com a família, com asilo garantido.
Motivos para o desespero não faltam. Alexandre
de Moraes barrou os passaportes e o proibiu de falar com Willer Thomas,
amigo investigado junto com ele por lavagem de dinheiro. Há no cangote do
senador o inquérito do filme "Dark Horse"
e fraudes relacionadas ao INSS. O tique-taque soa como bomba-relógio: em
fevereiro, Flávio fica sem mandato, sem foro privilegiado, sem costas quentes
pela primeira vez em 24 anos.
Nada é normal quando há um Bolsonaro na jogada. Na posse de
2019, Jair desfilou no Rolls-Royce com Carlos no
banco de trás, feito um guarda-costas. Freud talvez explicasse, mas Margaret
Mahler define melhor: simbiose, a fase psicanalítica em que o bebê não sabe
onde ele termina e a mãe começa. Fomos governados por uma família que nunca
cortou o cordão umbilical, nem entre si nem com a ideia torta de que o Estado é
o quintal de casa.
O padrão
da família é a fuga.
Derrotado, Jair amargou 45 horas calado e voou para Orlando para não passar a
faixa para Lula. Por pura birra, numa atitude antidemocrática, igualou-se a
Floriano Peixoto e João Figueiredo, os únicos a faltarem à posse do sucessor. O
resultado foi o 8 de
janeiro. Hoje, o patriarca cumpre
em casa os 27 anos de pena por tentativa de golpe.
Eduardo,
refugiado nos EUA desde 2025, articulou de lá sanções e tarifaços contra
Moraes e contra o país para livrar o pai da cadeia. Acabou condenado pelo STF por coação e
cassado por faltas. A dinastia que se diz patriota trata o Brasil como uma casa
de veraneio: usa, depreda e, quando chega a conta, some na calada da noite. O
país só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política
pelo voto e pela lei —justamente o que eles nunca respeitaram.
MORRE ROBERTO MAYA
Morre Roberto Maya, ator, apresentador e dublador, aos 91
anos
Além de área artística, comunicador também esteve a
frente do programa ‘Documento Especial’
Roberto Maya, ator, apresentador e dublador, morreu
na última terça-feira, 27, aos 91 anos. A causa divulgada foi insuficiência
respiratória, após o comunicador ser levado ao Hospital Beneficência Portuguesa
de Campinas.
Nascido em 5 de janeiro de 1935, ele é lembrado como grande
nome da comunicação. Em sua carreira, Maya atuou como apresentador do Documento
Especial, programa jornalístico que ficou conhecido por suas
reportagens investigativas e por debater diversos temas sociais.
O programa, que teve grande repercussão, ficou no ar de 1989
a 1998, passando por Manchete, SBT e Bandeirantes.
Maya cursou a Escola de Arte Dramática – EAD, na USP, além
de ter aprimorado seu trabalho na rádio e na área de dublagem.
Ele também esteve presente em papéis de novela, como Paraíso
Tropical, no filme Teus Olhos Castanhos, além de ter sido
a voz de Shere Khan em Mogli - O Menino Lobo.
Maya estava aposentado desde 2016.
terça-feira, 27 de outubro de 2026
O FUTURO DE UMA VIRADA HISTÓRICA
Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária
mobilização popular que tirou Lula
de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no
segundo certamente não será esquecida.
Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula.
Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os
outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das
armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve
para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis
a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os
eleitores de uma volta da família Bolsonaro.
Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um
Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar
dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um
lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.
No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital,
que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar
e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo
perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se
trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de
tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços
públicos.
A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou
também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones,
cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.
No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate
ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio
Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho
para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.
O perigo ainda existe num Congresso dominado por
negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas
intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência
vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias.
Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá
num novo contexto.
Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo
Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte
gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o
impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e
forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para
um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização
histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar
o Orçamento de forma racional.
Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que
o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data
centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em
grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados
Unidos.
Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de
ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos
de novos temas.
Artigo publicado no jornal O Globo em 27 / 10 / 2026
UFA !
Virada histórica de Lula sobre Flávio Bolsonaro reduz
riscos para a democracia
Na economia, presidente terá de lidar com herança maldita
que ele próprio criou
Entre a sabedoria das massas e a loucura das multidões, o
Brasil se pautou, talvez excepcionalmente, pela primeira. A população
preferiu reentronizar um Lula enfraquecido
a entregar as chaves do Planalto a um Flávio
Bolsonaro com representação reforçada no Legislativo. É uma atitude
inteligente, considerando o histórico antidemocrático do bolsonarismo. Prova-o
a recusa de Flávio em reconhecer de imediato que sofreu uma derrota por mais
de 4 milhões de votos de diferença.
A ideia básica por trás do sistema de
freios e contrapesos é não deixar que nenhum agente concentre poderes demais.
Normalmente essa é uma tarefa distribuída entre diferentes instituições, mas
nada impede que o eleitorado cumpra a função. Cumpriu. E muito oportunamente,
quando se leva em conta que a cúpula do Judiciário nacional, que deveria
constituir a linha de frente nessa tarefa, vive um enorme déficit de
credibilidade e não cessa de cometer
erros em série. No próprio dia da eleição, cometeu mais dois.
Em termos de votos, Lula deve um bom pedaço de sua histórica
virada à redução, do primeiro para o segundo turno, do absenteísmo e dos
brancos e nulos —um fenômeno
raro. Basicamente, Lula foi reeleito porque pôde contar com os sufrágios de
pessoas que ou se recusaram a apoiá-lo no primeiro escrutínio ou não
consideraram importante fazê-lo. Não dá para confundir isso com um cheque em
branco.
Se o resultado do pleito representa um grande alívio
institucional, não tem efeitos tranquilizadores sobre os rumos da economia. Para
reeleger-se, Lula deu rédeas ainda mais soltas à incontinência fiscal que
caracterizou seu terceiro mandato. Enfrenta agora o duplo desafio de apresentar
uma estratégia crível para lidar com o crescimento
da dívida pública e tornar o inevitável estelionato eleitoral palatável
para os que acreditaram em suas promessas.
Não sou muito otimista, mas, depois de domingo (25), não há
como não reconhecer a extraordinária capacidade do presidente de dar a volta
por cima quando tudo parece perdido.
segunda-feira, 26 de outubro de 2026
UMA ELEIÇÃO TUMULTUADA PELA OMISSÃO
Ao deixar de decidir, o presidente da corte alterou o
curso normal da votação
Ministro deu margem à suspeição sobre a integridade de um
processo que até então sempre foi reconhecido mundialmente
Existem mil maneiras de interferir no processo eleitoral na
tentativa de manipular o resultado da votação. As mais conhecidas são a compra
de votos, a coação, o bloqueio de estradas e a restrição na oferta de
transporte público.
Contudo, desde a redemocratização (na década de 1980), nunca antes na
história deste país o processo eleitoral brasileiro esteve imerso e submerso
numa situação de tamanha obscuridade provocada pela omissão da Justiça
Eleitoral.
Salvo melhor juízo, a procrastinação do ministro presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) ao não se
pronunciar tempestivamente em relação às denúncias de falta de transporte
público pelo país (apresentadas pelas campanhas dos dois candidatos à Presidência da República) originou uma situação inédita e
anômala neste segundo turno da eleição 2026.
Diante da omissão do TSE, foi preciso acionar o Supremo
Tribunal Federal (STF), onde a denúncia foi apresentada no meio da tarde,
resultando numa decisão inexequível na totalidade das mais de 516 mil seções
eleitorais, distribuídas em 2.641 zonas eleitorais do país em razão do
adiantado da hora. Afinal, parte das urnas foram finalizadas às 17h, horário
normal de votação.
O impacto negativo da morosidade do TSE é lamentável. Ao
deixar de decidir, o presidente da corte não só alterou o curso normal da
votação, mas também deu margem à suspeição sobre a integridade de um processo
que até então sempre foi reconhecido mundialmente como seguro e célere.
Na prática, o que presenciamos no curso da votação da 10ª eleição desde a redemocratização do nosso país foi uma bateção de cabeça (presidentes de mesa e chefes de cartórios eleitorais sem saber o que fazer) marcada pela desinformação e sensação de insegurança jurídica.
É no mínimo intrigante e bastante preocupante quando a pessoa encarregada de garantir a regularidade, segurança e transparência do processo eleitoral é justamente a figura responsável por tumultuar o processo.
domingo, 25 de outubro de 2026
VIRADA HISTÓRICA
Em virada histórica, Lula derrota Flávio Bolsonaro e
chega ao quarto mandato como presidente
Após forte mobilização nas ruas e nas redes, presidente
superou derrota do 1º turno e venceu uma eleição acirrada. Petista terá pela
frente forte oposição no Congresso e o desafio de equilibrar as contas públicas
após ampliar gastos durante a campanha eleitoral.
Em uma eleição acirrada e marcada por uma virada inédita, Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito
neste domingo (25) presidente da República e conquistou seu quarto mandato à
frente do Palácio do Planalto.
Às vésperas de completar 81 anos, o que ocorrerá na
próxima terça-feira (27), o petista se tornou, ao derrotar Flávio
Bolsonaro (PL),
o primeiro presidente da história do Brasil a ser eleito quatro vezes pelo voto
popular.
A confirmação da vitória de Lula foi feita
pelo sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às 21h08, quando 97%
das urnas já tinham sido apuradas. Àquela altura, Lula tinha 51,74% e
Flávio tinha 48,26%.
O quarto triunfo de Lula ocorre mais de duas décadas depois
de chegar ao poder pela primeira vez, em 2002.
A virada histórica se deu após uma forte mobilização da
campanha do petista, nas ruas e nas redes sociais.
No quarto mandato, Lula terá grandes desafios, como
lidar com uma forte oposição no Congresso Nacional e equilibrar
as contas públicas após ampliar benefícios durante campanha eleitoral e
prometer reforçar programas sociais.
Um dos fundadores do PT, Lula foi eleito presidente em 2002,
reeleito em 2006 e
voltou ao Planalto em 2023, após vencer Jair Bolsonaro, pai de Flávio, nas
eleições de 2022.
Sua trajetória
também foi marcada por três derrotas presidenciais, condenações
posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), 580 dias de prisão
e o retorno à disputa eleitoral.
A nova vitória consolida Lula como o principal personagem da
política brasileira no século 21. E garante ao petista mais quatro anos na
chefia do Poder Executivo.
Depois
de ficar atrás de Flávio no primeiro turno, 47% a 45% dos votos válidos,
o petista protagonizou uma virada histórica na segunda etapa da disputa
eleitoral.
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Quem é Luiz Inácio Lula da Silva?
Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no
interior de Pernambuco. É o sétimo dos oito filhos do casal de lavradores
Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como Dona
Lindu.
O pai deixou Pernambuco quando Lula ainda era bebê e se
mudou para o litoral paulista em busca de trabalho. Em dezembro de 1952, aos
sete anos, Lula viajou com a mãe e os irmãos para São Paulo, em um caminhão pau
de arara.
A família se instalou inicialmente no Guarujá, onde
reencontrou Aristides, que já havia formado outra família e a dona Lindu acabou
se separando do marido.
Em 1956, mãe e filhos se mudaram para a capital paulista,
onde passaram a morar em um pequeno cômodo nos fundos de um bar.
Lula foi vendedor ambulante, engraxate e office boy, até conseguir emprego na Fábrica de Parafusos Marte.
Réplica da casa em que Lula passou a infância em Caetés, no Agreste de Pernambuco — Foto: San Costa/TV Globo
Aos 14 anos, ingressou na indústria e aos 18 anos concluiu o
curso de torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
(Senai). Antes disso, aos 17 anos, perdeu
o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho.
A vida pessoal de Lula também foi marcada por perdas
familiares. Em 1969, casou-se com a operária Maria de Lourdes da Silva, que
morreu gravida em 1971.
Em 1974, Lula se casou com Marisa Letícia, com quem viveu
por mais de quatro décadas.
Lula e a 2ª esposa, Marisa Letícia, com os filhos Fábio Luiz, Sandro Luiz e Luiz Cláudio. — Foto: Instituto Lula
Lula e dona Marisa tiveram três filhos, Fábio Luís, Sandro
Luís e Luís Cláudio. Lula também é pai de Marcos Cláudio, filho de Marisa de um
relacionamento anterior, que foi adotado pelo petista, e de Lurian, fruto de
outro relacionamento com Miriam Cordeiro.
Marisa acompanhou a ascensão política de Lula, desde o
movimento sindical até a Presidência da República. Ela morreu em fevereiro de
2017, aos 66 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).
Em maio de 2022, Lula se casou pela terceira vez, com a
socióloga Rosângela da Silva, conhecida como Janja. A cerimônia ocorreu em São
Paulo, durante a campanha que levaria o petista de volta à Presidência da
República.
Movimento sindical e PT
Luiz Inácio Lula da Silva fala durante uma assembléia com os metalúrgicos da Ford, em abril de 1984. Durante as décadas de 70 e 80, Lula dedicou-se intensamente à atividade sindical, como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC — Foto: Clovis Cranchi/Estadão Conteúdo/Arquivo
Lula trabalhou na Indústria Villares, metalúrgica em São
Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Ingressou no movimento sindical
por influência do irmão José, chamado de Frei Chico.
Foi suplente, primeiro-secretário e presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
Reeleito presidente do sindicato, Lula ganhou visibilidade
nacional pela liderança nas greves de metalúrgicos que paralisaram o ABC
durante a ditadura militar (1964-1985). O governo ditatorial reagiu, e o
sindicalista ficou 31 dias na cadeia em 1980, com base na antiga Lei de
Segurança Nacional.
Também em 1980, Lula foi um dos fundadores do Partido dos
Trabalhadores (PT), junto com políticos, sindicalistas, intelectuais,
lideranças rurais e religiosas. Dona Marisa, sua esposa na época, costurou a
primeira bandeira do partido.
O país entrava na reta final da ditadura, com a abertura
política "lenta e gradual" definida pelos militares, e ganhou
alternativa de partido à esquerda.
A atuação de Lula também foi importante na criação da
Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983. No ano seguinte, ele participou
da campanha das Diretas Já, movimento que levou multidões às ruas para exigir a
volta das eleições diretas para presidente da República.
A passagem do sindicalismo para a política eleitoral começou
em 1982, quando Lula concorreu, sem sucesso, ao governo de São Paulo e ficou em
quarto lugar. Quatro anos depois, em 1986, foi eleito deputado federal por São
Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a
Constituição de 1988.
Derrotas
Lula e Fernando Collor no debate presidencial de 2° turno em 1989. — Foto: Reprodução/Editoras Bloch
Em 1989, o petista estreou na corrida ao Planalto na
primeira eleição direta para presidente desde 1960. Ele chegou ao segundo
turno, porém foi derrotado por Fernando Collor de Mello, à época no PRN, que em
1992 renunciou e foi condenado em um processo de impeachment motivado por
denúncias de corrupção.
Lula voltou a concorrer ao Planalto em 1994 e 1998, porém
nas duas ocasiões foi derrotado por Fernando
Henrique Cardoso (PSDB),
candidato impulsionado pelo êxito do Plano Real no combate à inflação.
Mandatos
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ergue os braços do presidente eleito e recém empossado Luiz Inácio Lula da Silva em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em janeiro de 2003 — Foto: Ed Ferreira/Estadão Conteúdo/Arquivo
Em 2002, Lula foi eleito com 52,7 milhões de votos. Derrotou
no segundo turno José Serra (PSDB), candidato governista. Em 1º de janeiro de
2003, tornou-se o primeiro operário a governar o Brasil.
Definiu como meta a redução da miséria e da desigualdade,
aprimorou políticas sociais e lançou programas como Fome Zero, Bolsa Família
e ProUni.
Em 2006, Lula recebeu 58,2 milhões de votos e venceu Geraldo
Alckmin, que estava no PSDB, no segundo turno. Reeleito, lançou novos
programas, com destaque para a política de habitação do Minha Casa,
Minha Vida e para as obras de infraestrutura do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC).
Lula foi badalado no exterior, ao ponto de ser chamado de “o
cara” pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Com aprovação recorde de 87%, o petista se despediu em 2010
tendo sido decisivo na vitória de Dilma Rousseff (PT), sua ex-ministra, na
corrida presidencial.
Lula iniciou o terceiro mandato em 2023 depois de vencer
Jair Bolsonaro no segundo turno com 60,3 milhões de votos.
O petista recriou ministérios extintos no governo anterior,
como o da Cultura. Também ampliou a estrutura administrativa, que hoje tem 38
pastas, com a criação de novos ministérios, como os da Igualdade Racial e o dos
Povos Indígenas.
Lula passou por algumas crises nos últimos quatro anos, como
o escândalo de fraudes no INSS, com os descontos indevidos em aposentadorias e
pensões no período de 2019 a 2024. O caso levou à troca do comando do instituto
e o indiciamento de ex-dirigentes do órgão, além da substituição de Carlos Lupi
no Ministério da Previdência Social.
Também viu o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal
Federal (STF), autorizar a Polícia Federal a realizar investigações sobre o
suposto tráfico de influência de seu filho Fábio Luís da Silva, o Lulinha, no
Ministério da Saúde e na Dataprev.
E, em junho, teve de retirar Jaques Wagner (PT-BA) da
liderança do governo no Senado, após o parlamentar baiano ser alvo da Operação
Compliance Zero, que apura um esquema de fraudes bilionárias praticadas pelo
Banco Master.
Na área econômica e social, o governo conseguiu aprovar a
reforma tributária no Congresso
Nacional e ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda.
O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome e houve a ampliação
de programas voltados à moradia e à transferência de renda, além da
implementação de medidas para ampliar o acesso à saúde e para estimular
investimentos.
Lula também precisou lidar com os reflexos de crises
internacionais, como conflitos no Oriente Médio e a política tarifária adotada
pelos Estados Unidos.
A condução das negociações comerciais e diplomáticas, que
incluiu a resposta do governo brasileiro ao tarifaço norte-americano e os
embates públicos com Donald
Trump, foi um dos principais desafios do mandato.
Também no campo econômico, o presidente foi criticado por
sua estratégia econômica, marcada pelo aumento dos gastos públicos e pelos
ataques ao Banco Central em razão da taxa básica de juros.
Lula também voltou atrás de duas decisões recentemente na
reta final das eleições.
O presidente articulou com o Congresso
a aprovação do fim da taxa das blusinhas. No início de setembro, Lula
sancionou a nova lei, que acaba com a cobrança de 20% de Imposto de Importação
sobre compras internacionais de até US$ 50.
E, antes do primeiro turno, o petista
anunciou a proibição total de apostas de quota fixa no país, as chamadas bets.
A vedação inclui também jogos online e cassinos virtuais no país, como por
exemplo, o "Jogo do Tigrinho".
Na reta final do terceiro mandato, Lula articulou a
aprovação de uma mudança histórica na legislação trabalhista: o fim da escala
6x1.
O presidente participou, no Congresso Nacional, da sessão de
promulgação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabeleceu
uma jornada de cinco dias de trabalho para dois de descanso, uma das principais
conquistas da agenda trabalhista de seu governo.
Na mesma sessão, também foi promulgada a PEC que estabelece
aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às
endemias.
Na cerimônia de promulgação das duas PECs, Lula esteve ao
lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, aliado do governo, e do presidente do
Senado, Davi Alcolumbre. Lula e Alcolumbre protagonizaram episódios de tensão
ao longo do mandato, mas voltaram a estreitar a relação durante o período
eleitoral.
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais,
Lula anunciou medidas de forte apelo popular, como o programa Prospera MEI,
voltado aos microempreendedores individuais, e o reajuste do Bolsa Família.
As iniciativas foram adotadas em meio à disputa eleitoral e
receberam críticas de adversários, que as classificaram como eleitoreiras.
A campanha no segundo turno também foi marcada por uma
grande mobilização da equipe do presidente nas redes sociais, com o canal
"Exército do Lula",
coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), que contou com mais de 10
milhões de inscritos.
Escândalos
Em 2005 estourou o escândalo do mensalão. O então deputado e
presidente do PTB, Roberto Jefferson, relatou em entrevista ao jornal
"Folha de S.Paulo" um esquema de compra de apoio político no
Congresso por meio de mesadas pagas a parlamentares de partidos da base de
Lula.
O escândalo resultou na Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) dos Correios e derrubou o ministro da Casa Civil, José Dirceu. O PT
argumentava que o esquema se tratava de caixa dois, dinheiro não declarado à
Justiça Eleitoral.
Ainda em 2005, Lula foi à televisão para um pronunciamento
em cadeia nacional no qual se disse “traído”. Sem usar a palavra mensalão,
admitiu que o partido e o governo tinham errado e deveriam pedir desculpas.
Como ex-presidente, Lula viveu altos e baixos. Superou um
câncer na laringe e viu o Supremo Tribunal Federal (STF) condenar 28 dos 38
réus na ação penal do mensalão.
Em 2014, ele comemorou a reeleição de Dilma. No mesmo ano,
começou a Operação Lava Jato, que descobriu esquema de desvio de recursos
públicos nas gestões petistas por meio de contratos da Petrobras. O dinheiro
irrigava doleiros, executivos, partidos e políticos.
A operação avançou sob a condução de Sergio Moro, juiz da
13ª Vara Criminal de Curitiba. A Lava Jato gerou delações premiadas, devolução
de parte do dinheiro desviado, prisões de empreiteiros e políticos e influenciou
no impeachment de Dilma, em 2016. A
cassação marcou a saída do PT do Planalto após 13 anos no poder.
Em 2017, Lula foi
condenado por Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do
triplex em Guarujá (SP). A condenação, a primeira de um ex-presidente
por crime comum no Brasil, foi confirmada
no ano seguinte no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), a
segunda instância de Justiça Federal. Para três desembargadores Lula recebeu
propina da construtora OAS por meio do triplex e de reformas no imóvel.
O petista negava os crimes e se dizia vítima de perseguição.
Travou uma batalha nos tribunais nos últimos anos. Como o STF tinha
entendimento de que era possível cumprir a pena após condenação em segunda
instância,
Lula foi preso em 7 de abril de 2018. Ele foi levado
para uma sala na sede da Polícia Federal em Curitiba, onde ficou encarcerado
por 580 dias.
No mesmo ano, teve a candidatura à Presidência barrada pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
com base na Lei da Ficha Limpa.
Em 2019, Lula deixou a prisão após o STF decidir que a
execução da pena só pode ocorrer após o trânsito em julgado.
Dois anos depois, em 2021, o ministro
Edson Fachin anulou as condenações relacionadas à Lava Jato, devolvendo
ao petista os direitos políticos e tornando-o elegível novamente.
Em 2011, Lula foi diagnosticado com
câncer na laringe, e superou a doença após o segundo mandato na
Presidência.
Ao longo do terceiro mandato, o petista também enfrentou
desafios relacionados à saúde.
Em 2023, Lula foi submetido a uma cirurgia
no quadril para tratar dores provocadas por artrose. Em 2024, sofreu
uma queda no banheiro do Palácio da Alvorada, que o levou a cancelar
compromissos internacionais.
Em 2025, apresentou
um quadro de labirintite e, em 2026, passou pela retirada
de uma lesão cancerígena no couro cabeludo, seguida de sessões de
radioterapia.
O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acena para eleitores no entorno da Escola Estadual Dr. João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo — Foto: ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO






















