sábado, 25 de abril de 2026

NOVÍSSIMO DICIONÁRIO DE CARIOQUÊS

Eduardo Affonso, O Globo

Graças aos investimentos maciços na linguagem, a cidade não tem mais mendigos, apenas pessoas em situação de rua

Outono: Espécie de verão fora de época; definição aplicável também ao inverno e à primavera.

Faixa de pedestre: Pintura decorativa feita no asfalto para que os pedestres tenham o que admirar enquanto aguardam que um deus ex-machina providencie a redução do trânsito.

Amendoeira: Árvore fetiche da cidade, cantada em prosa e verso, que tem a dupla vantagem de fornecer frutos de escasso valor nutritivo para a fauna nativa e causar danos permanentes a calçadas, muros e tubulações. Só é removível quando desaba, durante um vendaval, destruindo fiação, veículos e tudo o mais que houver à sua volta.

Barra da Tijuca: Cruza de Brasília com Miami, com mais engarrafamentos que a primeira e menos segurança que a segunda; situa-se nas proximidades do Rio de Janeiro.

pertencente a todos, disponível para ser privatizada pelo primeiro que tomar posse; vide trechos das praias da Barra da Tijuca defronte aos hotéis.

Ciclovia: Pista exclusiva para motonetas, motocicletas, atletas, skates, patins, patinetes, carrinhos de bebê, tutores e seus pets — e até ciclistas.

Caixa de som: Forma de democratização de gêneros musicais subalternizados, levando funk, reggaeton, sertanejo, sofrência etc. a quem quer que esteja nas praias, praças, ciclovias, academias, quadras de esportes ou no transporte coletivo. O sistema é inclusivo, buscando atingir, por meio do excesso de decibéis, mesmo pessoas com reduzida capacidade auditiva.

Fone de ouvido: Peça de ficção que, se um dia vier a ser inventada, permitirá que alguém consiga ouvir o que quiser sem que todos no seu entorno sejam obrigados a compartilhar essa experiência.

Vizinho: Pessoa que dorme com a televisão ligada e, se morar no apartamento de cima, arrasta móveis altas horas da noite; também fala ao celular no elevador, tem caixa de som e é disruptivo em relação aos limites da própria vaga de estacionamento.

Pit bull: Cão dócil, de índole incompatível com o uso de focinheira, cujo tutor considera a coleira como item facultativo; é a prova de que não é o cachorro que se parece com o dono, mas o dono que se parece com o cachorro.

Lei do silêncio: Lenda urbana, assim como as inscrições fenícias na Pedra da Gávea e o destino das vigas da Perimetral.

1746: Espécie de confessionário telefônico; número para o qual o cidadão liga a fim de contar um segredo que jamais deverá chegar ao ouvido das autoridades competentes.

Mendigo: Espécie erradicada da paisagem urbana, graças aos investimentos maciços feitos na linguagem; a cidade agora tem apenas pessoas em situação de rua — milhares e milhares delas —, todas voltadas à ocupação criativa de pontos de ônibus e imóveis abandonados, ao upcycling de caixotes e caixas de papelão e à ressignificação de carrinhos de supermercado como peças de mobiliário. São um modelo de vida em contato com a natureza, economia de água e substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia, com seus veículos movidos a tração humana.

Governador: Futuro presidiário que, até o trânsito da sentença em julgado, ocupa o mais alto posto do Executivo estadual.

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O TRABALHO QUE MATA

Flávia Oliveira, O Globo

Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada, mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego, exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.

Às vésperas do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, terça-feira que vem, a OIT põe o dedo numa ferida de impacto não apenas humanitário, mas também econômico-financeiro. As perdas estimadas com os riscos psicossociais equivalem a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) global, a cada ano. Tudo resultado de como as atividades laborais são concebidas, organizadas e geridas num mundo assentado em flexibilização e informalidade.

Para chegar ao número de mortes, os pesquisadores cruzaram duas fontes de evidência. Primeiro, reuniram dados sobre a ocorrência global dos cinco principais fatores de risco psicossocial no trabalho: pressão excessiva; desequilíbrio entre esforço e recompensa; insegurança na contratação; longas jornadas; bullying e assédio. Na sequência, identificaram como esses fatores aumentam a probabilidade de condições graves de saúde, entre as quais doenças cardiovasculares e transtornos mentais. Por fim, relacionaram aos indicadores de mortalidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao estudo Global Burden of Disease (Carga Global de Doenças, em tradução livre), que quantifica perda de saúde por enfermidades, lesões e fatores de risco.

Além de quase 1 milhão de mortes, a OIT estimou 45 milhões de anos de vida saudável perdidos por trabalhadores de todo o planeta. Longas jornadas estão associadas a males do coração e acidente vascular cerebral. Estima-se que um terço (35%) das pessoas ocupadas trabalhem mais de 48 horas por semana. Ao longo da carreira, um em cada quatro trabalhadores (23%) sofreu ao menos um episódio de assédio; 18% foram vítimas de violência psicológica.

Em publicação da entidade, Manal Azzi, da área de Políticas e Sistemas de Segurança e Saúde no Trabalho, afirmou que “os riscos psicossociais estão se tornando um dos desafios mais significativos no mundo moderno do trabalho”. Assim, o enfrentamento ao problema é essencial tanto para proteger a saúde física e mental dos trabalhadores quanto para fortalecer a produtividade, o desempenho das empresas e o desenvolvimento sustentável dos países.

O relatório merece atenção particular num Brasil com quase 40 milhões de trabalhadores na informalidade — a despeito do desemprego na mínima histórica — e em pleno debate sobre redução de jornada para implantação do regime de dois dias de folga por cinco de trabalho. Há um par de PECs protocoladas no Congresso Nacional para alterar a legislação que, desde 1988, fixou em 44 horas a carga semanal. Dias atrás, o governo apresentou Projeto de Lei de teor assemelhado pedindo urgência na tramitação. O fim da escala 6x1 tornou-se plataforma de campanha do presidente Lula pelo quarto mandato. O empresariado, de modo geral, resiste à mudança, sob o argumento de aumento de custos e perda de produtividade na economia.

— A economia brasileira foi erigida por pessoas escravizadas que nunca descansavam, morriam cedo e eram substituídas por outras, traficadas a baixo custo. Até hoje, parte do país acredita que precisamos explorar mais nossos trabalhadores para conseguir competir, mas foi com dois dias de descanso que os Estados Unidos aumentaram a produtividade nos anos 1940. Aqui, a maioria já descansa dois dias, mas isso não foi garantido para todos. Precisa ser. A economia não quebrará, como não quebra com aumentos do salário mínimo de custo similar, nem quebrou em 1988, quando a jornada máxima foi reduzida de 48 para 44 horas semanais. O mesmo foi dito quando se quis acabar com a escravidão ou estabelecer outros direitos trabalhistas, que ajudaram a modernizar e fortalecer a economia, melhorando a saúde da população — argumenta Marcos Hecksher, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Um ano atrás, o Ministério do Trabalho anunciou a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, após diálogos com representantes de trabalhadores e empregadores. O primeiro ano foi de adaptação. A previsão é que, a partir do fim do mês que vem, as normas passem a ser inspecionadas, com possibilidade de autuação. A OIT mencionou no relatório a decisão brasileira.

O estudo da organização também aponta que jornadas com dois dias seguidos de descanso favorecem o desligamento cognitivo. Isso significa que o trabalhador pode usar um dia para descansar e outro para lazer e/ou atividades pessoais. As pausas podem reduzir diagnóstico de burnout, já classificado como doença laboral, e de outros males. Sem falar que, no capitalismo, mais tempo para viver também implica horas adicionais de consumo de mercadorias e serviços. Urge fazer das facilidades do mundo moderno e digitalizado não apenas meio de lucratividade exagerada, mas ferramenta de bem-estar. Em vez de pulsão de morte, impulso à (boa) vida.

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UM CASE DO SUPREMO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.

Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.

A estratégia – por meio da qual Mendes e time comunicam inexistir autoridade para investigá-los – consiste em investir na pessoalidade, com uísques, charutos, contratos e sociedades, na hora de ser político e empresário, e, quando cobrados acerca das relações estabelecidas, sobrepor a impessoalidade. E então Moraes, Dias Toffoli, Nunes Marques etc. tornam-se o próprio Supremo. E assim a apuração sobre a conduta do indivíduo vira ataque à instituição, donde a reação via inquérito onipresente e infinito.

O bicho veio para ficar, faz sete anos – e Mendes diz em “alto e bom som”: “Vai acabar quando terminar”, ativo pelo menos até as eleições, dedicado à forja de delitos futuros, para punir aqueles políticos, inclusive parlamentares no exercício de suas prerrogativas, que decidirem pedir votos criticando (“perseguindo!”) ministros do Supremo, recorrendo de repente à tradição satírica do discurso político no Brasil – esse crime. O inquérito anunciado como foice sobre a cabeça da atividade político-eleitoral; admitido por arma-ameaça na mão de juízes incapazes de lidar com os reveses do debate público em que se meteram e em que interferem; inquérito instrumentalizado como mecanismo autoritário de controle.

É em socorro a isso que Mendes se move e expõe. Ele, intermediário, não tem respostas sobre as relações de Moraes com Vorcaro. Moraes, agente, não pode responder sobre suas relações com Vorcaro. Trata-se de grande diferença, a mesma que explica por que tem sido o decano a apregoar um pacote de medidas – já o chama de pacto republicano – que, fechando o Estreito de Ormuz investigativo, fulminará as possibilidades de que poderosos de verdade sejam punidos neste país.

Não foi a imprensa que transformou o caso Master em “um case” do STF. Não foi a imprensa que criou o contrato do banco com o escritório Barci de Moraes. Não foi a imprensa que criou a mensagem em que o dono do Master, no dia em que seria preso, perguntava a Moraes se conseguira bloquear algo. Não foi a imprensa que criou a sociedade hoteleira entre Toffoli e a rede vorcárica, tampouco tendo criado os meses em que, mesmo assim, o ministro se manteve relator do caso Master.

Não será por obra da imprensa que as investigações sobre o Master, caminhando em várias frentes, estejam bloqueadas na porção relativa às tessituras vorcáricas com ministros do STF.

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O QUE UM EDITORIAL NÃO DIZ

Vanessa Ribeiro Mateus*, O Estado de S. Paulo

Os magistrados brasileiros não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo

O debate sobre o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público resultou, nos últimos dias, em ataques infundados, que desviam a atenção dos verdadeiros problemas do Poder Judiciário. Defende-se a extinção de pagamentos legítimos, como se um juiz com o salário cortado pudesse, de repente, oferecer melhores serviços. Os magistrados brasileiros, ao contrário do propagado, não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo: a remuneração é simplesmente compatível com a responsabilidade da função – que incide sobre o futuro das pessoas – e com a demanda por justiça num país de conflitos sociais permanentes.

Julgar acarreta um custo pessoal elevadíssimo. Exemplo de fácil visualização é o dos juízes que lidam com o crime organizado. Ameaças à vida e à integridade física tornaram-se rotineiras, com duros impactos sobre a família do magistrado. Soma-se a isso a apreensão gerada pelas decorrências de uma sentença. Quem impõe a prisão de um agressor de mulheres, a obrigatoriedade do fornecimento de um remédio ou a oferta de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não pode errar, nem se deixar influenciar pelos interesses e pressões das partes.

A magistratura exige incontáveis renúncias. Ainda que as filas dos concursos estejam cheias, as togas estão vazias: cerca de 18% dos cargos de juiz seguem desocupados – sobretudo nas regiões mais afastadas dos grandes centros –, de acordo com o Justiça em Números 2025, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O dado desmonta a narrativa de que os vencimentos são desproporcionais à prática do mercado para profissionais de igual excelência: se o valor fosse efetivamente elevado, então as vagas estariam todas preenchidas.

O fato é que muitos juízes estão deixando o serviço público para obter maiores ganhos na iniciativa privada. E a consequência dessa campanha orquestrada contra a magistratura será o enfraquecimento da prestação jurisdicional, com o agravamento da fuga de quadros e o esvaziamento de comarcas – com prejuízo direto aos cidadãos, que deixam de receber atendimento.

Essa realidade não apareceu em editorial publicado pelo Estadão ( Judiciário insaciável, 13/4, A3). O texto fugiu da discussão dos reais gargalos da Justiça e exagerou no retrato do que é exceção. O número de magistrados investigados por venda de sentenças no Brasil, por exemplo, dentro de um universo de 18 mil, pode ser contado nos dedos; no entanto, surgiu distorcido como ilustração do comportamento geral. Vale para a magistratura o que vale para os jornalistas, os empresários e qualquer outra classe: os erros de um indivíduo não representam a totalidade.

Semelhante falseamento foi a tônica da descrição das prerrogativas dos magistrados. Diferentemente do que afirmou o jornal, nenhum juiz pode definir a própria remuneração, e muito menos “criar benefícios por decreto”. A lei que fixa o subsídio é aprovada por deputados federais e senadores e submetida ao presidente da República. Nenhum magistrado tem a caneta no processo legislativo.

Da mesma forma, o CNJ, responsável pelo controle externo do Judiciário, dispõe de autonomia para regulamentar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Sob a presidência do ministro Edson Fachin, o colegiado acertou ao compatibilizar as determinações com a necessidade de preservação da independência judicial. Não houve recriação do auxílio-moradia, que jamais foi julgado inconstitucional e prosseguirá reservado somente a hipóteses excepcionais, de caráter indenizatório. Também não houve reinstituição da “assistência pré-escolar”, apenas se evitou a penalização da maternidade, para que as mulheres possam assumir posições de relevância, inclusive as mães de filhos pequenos.

A pior das ilações, entretanto, foi a de que as “corporações” da magistratura e do Ministério Público são corruptas. Ora, se há “desvio de finalidade”, “locupletamento” e “apropriação de recursos públicos”, é dever do jornal nomear os envolvidos e descrever as situações, de modo que possam responder perante a lei. Insinuações de ilegalidades, se não comprovadas, servem só à destruição de reputações – o que é ainda mais grave quando praticado por meio da deturpação da liberdade de imprensa.

Nunca é demais lembrar que os membros do Judiciário agora atacados eram, até pouquíssimo tempo atrás, incensados como defensores do Estado de Direito, incumbidos de salvaguardar a Nação da ameaça do autoritarismo. Apenas naquele momento as garantias que asseguram a imparcialidade das decisões judiciais contra as pressões políticas e econômicas eram bem-vindas?

Ao substituir a análise pela generalização – por meio de uma escolha de palavras que não é fortuita –, a publicação deixou de focar no que realmente importa: o acesso da população a uma Justiça efetiva e independente. Não se trata de estilo, mas de uma opção retórica que parece orientada para finalidades específicas, que precisam ser compreendidas para reconduzirmos o debate a um plano racional e produtivo. Se o ruído dos adjetivos superar a clareza dos fatos, o cidadão permanecerá desinformado.

*Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)

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MORRE JOSÉ FREJAT

Ester Lima, TV Globo, g1

José Frejat, pai do cantor Frejat e ex-deputado, morre aos 102 anos no Rio

Ele estava internado com uma pneumonia. O ex-deputado teve uma trajetória marcada pela resistência política.

O ex-deputado federal José Frejat morreu aos 102 anos neste sábado (25), no Rio. Ele estava internado com uma pneumonia e não resistiu. O político era pai do cantor Frejat. A informação foi confirmada pela assessoria do artista.

José Frejat teve uma trajetória marcada pela resistência política. Foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), fundador do Movimento Nacionalista Brasileiro (MNB) e um dos nomes importantes na luta pelas Diretas Já.

Ele também era advogado e ex-procurador da Fazenda.

O velório será realizado às 13h30 deste domingo (26), no Cemitério São João Batista, em Botafogo. O sepultamento está previsto para as 15h30.

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TEMPOS MOVEDIÇOS

Marco Aurélio Nogueira*, O Estado de S. Paulo

O mundo exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia

A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.

Depois de 16 anos sucessivos no poder, o primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar, flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.

Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.

A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.

A primeira é que o sistema internacional permanece sem instituições que o organizem e atenuem a defesa encarniçada de interesses econômicos e geopolíticos nacionais. As grandes potências deixam seus exércitos de prontidão porque são movidas pela destruição de “inimigos” fabricados, que, pelos azares da história, ocupam territórios ricos e/ou estratégicos. Em nome disso, dão-se ao direito de exterminar populações que, a rigor, nem sequer se beneficiam da riqueza de suas terras. O multilateralismo desapareceu e a Organização das Nações Unidas (ONU) pouco pode fazer para conter a dança macabra das superpotências. A cooperação entre os governos é reduzida, o que dificulta a resolução de problemas planetários comuns.

A segunda é que a insatisfação e a indignação se espalharam. Seja no plano político-social, seja no plano moral, os cidadãos de cada país estão saturados emocionalmente. Suas organizações políticas não os abrigam. Seus governos não os agradam. A vida vivida está cheia de dificuldades. Se olharem para além de suas janelas, veem massacres e guerras que se estendem no tempo. Ucrânia, Rússia, Gaza, Irã, Israel. Uma bola de fogo que ziguezagueia pelos continentes.

Com isso, as sociedades nacionais inflam-se de desentendimentos. Sobressaltadas, indignadas e refratárias a diálogos racionais, as pessoas ficam prontas para aderir à primeira caravana populista e/ou de extrema direita que despontar no cenário. Podem assumir a xenofobia e atacar estrangeiros e imigrantes; podem abraçar o racismo para entrar em atrito com africanos e muçulmanos; podem acreditar no supremacismo branco e concluir que os caucasianos estão sendo “substituídos” por outras cores de pele; podem virar fanáticos religiosos para combater tudo o que não integre suas bíblias e seus credos fundacionais. Afundadas num turbilhão de insatisfações, tendem a apoiar candidatos “alternativos”, que prometem novos amanhãs e falam em repor o que se perdeu. Foi assim na Hungria. Foi assim na eleição de Trump e de Bolsonaro. Poderá ser assim no Brasil.

Há muita raiva contra as elites, os governos e os políticos. É um problema associado à estima social. A raiva pode se voltar contra os efeitos da globalização, os imigrantes, o desemprego, a exploração, a igualdade de gênero, mas se alimenta sobretudo da sensação de que os governantes não olham para as pessoas. Políticas públicas fracassam e não há uma ideia sólida de bem comum, solidariedade e justiça.

Os tempos são movediços, marcados por revoluções provocadas pela globalização, pela tecnologia, pelo capitalismo baseado em dados, pelas lutas identitárias. Tudo gira em alta velocidade. Fatos se acumulam em sucessão frenética e são esquecidos dias depois. Desinformações avançam a galope. Imagens falam mais alto do que palavras, captam a atenção no instante.

A emergência da inteligência artificial (IA) alterou o modo como agimos, pensamos, aprendemos e compreendemos o mundo. Ela simula nossas habilidades, altera nossos mecanismos de cognição, amortece nossa vontade de pesquisar. Seduz. Seus aplicativos ficam cada vez mais fáceis de usar. Poderá ela melhorar a qualidade de vida? Há oportunidades e avanços, riscos e incógnitas.

Estaríamos numa “era de Trumps” destemperados e megalomaníacos? O presidente norte-americano agride e bagunça o mundo, mas suas condições de reprodução não estão claras. Terminará como mais um retrato na parede da Casa Branca? Ou espalhará sementes por outras plagas? Ocorre o mesmo com a extrema direita: até onde ela chegará?

Sem democracia, os cidadãos não conseguem defender sua privacidade em consonância com a pluralidade social. A democracia é um regime de negociações, entendimentos e civilidade. Seu foco é abrir espaços para todos, processar conflitos e reivindicações tendo em vista o bem-estar de uma comunidade.

Os tempos pedem entendimentos. A indignação precisa virar força política. É importante ganhar eleições e derrotar a extrema direita, mas isso só terá desdobramentos efetivos se houver uma agenda política positiva, que construa consensos em torno das reformas necessárias.

O mundo é um feixe de contradições, riscos e possibilidades. Ele exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia.

* Professor titular de teoria política da UNESP

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O TRUQUE DO BEM

Thaís Oyama, O Globo

Erika Hilton invoca valor universal para causa particular

Deputada desloca a discussão de projeto que defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais

Poucas falácias têm prosperado tanto no Brasil quanto invocar um princípio universal para legitimar uma causa de interesse particular. A deputada Erika Hilton, do PSOL, recorre ao expediente quando diz que os críticos de versões do Projeto de Lei (PL) que criminaliza a misoginia tentam tirar “o direito das pessoas à informação” e “manipular o debate contra a luta das mulheres por um país menos violento”.

Ao deslocar a discussão de um projeto que ela defende, longe de consensual, para o plano das virtudes universais (não se tem notícia de que alguém seja contra um país menos violento, contra o direito à informação e a favor do feminicídio), ela rebaixa críticos da proposta à categoria de inimigos da civilidade. Mas não só.

Há duas semanas, Erika acionou a Advocacia-Geral da União para pedir a censura de dez usuários do X acusados de espalhar informações falsas sobre o PL antimisoginia. No pacote de denunciados, vieram — juntos e misturados — humorista, influencers e jornalistas; internautas que postaram textos de fato enganosos sobre o PL aprovado no Senado e outros que, sem intenção de ludibriar o público, divulgaram e criticaram outra versão do projeto, naquele momento em circulação. No segundo caso se encaixa a jornalista Madeleine Lacsko, que, a pedido da deputada, chegou a ser incluída numa lista (de que depois foi retirada) de integrantes de uma “rede de desinformação”. Coincidentemente, a jornalista havia feito seguidas críticas à hoje presidente da Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher da Câmara pelo que chamou de perseguição judicial da parlamentar a feministas.

Erika já moveu ações contra ao menos duas mulheres que discordaram publicamente da formulação de que “uma mulher trans é uma mulher”. Argumentou que as acusadas, com suas opiniões, disseminaram “discursos de ódio” e “incitaram a discriminação de gênero”. O uso do termo “mulher”, como sabe a deputada, é objeto de intenso e legítimo debate nos meios feministas. Adeptas da ideia de que “mulher” é uma categoria definida pelo sexo biológico feminino, e não pela identidade de gênero — razão por que mulheres trans deveriam ser excluídas da definição — não são contrárias à vida de pessoas trans, como ela sugeriu. Apenas não concordam com ela — e isso Erika parece ter dificuldade de aceitar.

Em março, ela entrou com outro pedido de ação criminal baseado em acusação de transfobia, desta vez contra Carlos Massa, o Ratinho. Diante das falas do apresentador do SBT — de que ela “não é mulher, ela é trans”, e de que “mulher para ser mulher tem que menstruar”, “tem que ter útero” —, Erika foi mais longe no uso da retórica. Chegou a dizer que seus pedidos de R$ 10 milhões de indenização ao SBT e de retirada de Ratinho do ar por 30 dias não eram revanche dela, mas também das “mulheres cis que não menstruam mais” e das que, por motivos médicos, tiveram de remover o útero. Ganha um lugar no auditório do Ratinho quem encontrar uma mulher na pós-menopausa ou histerectomizada que tenha achado que as palavras do apresentador se dirigiam a ela.

Erika tem todo o direito de gritar e brigar na Justiça na defesa de suas convicções e de seus interesses. Mas faria melhor se, para isso, dispensasse o verniz da virtude e chamasse as coisas pelo nome. Censura nas redes não tem a ver com o “direito das pessoas à informação”, tampouco a perseguição a quem diverge da sua opinião sobre o uso do termo “mulher” guarda relação com a “proteção da vida de pessoas trans”. Arroubos autoritários não se tornam mais aceitáveis quando derivam de boas causas, menos ainda quando essas causas nem são tão boas assim quanto querem parecer.

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JANETE CLAIR, 101 ANOS - A MAGA DAS NOVELAS !

Hoje é dia de celebrar o nascimento da grande novelista, Janete Clair. Se estivesse viva, Janete Clair completaria hoje 101 anos. A maga das novelas!

Janete Clair deixou uma extensa obra na história da televisão brasileira. Quem nunca se emocionou, torceu e ficou bravo com seus personagens? Até as novas gerações vibram com os remakes de suas novelas.

Biografia - Janete Clair, nome artístico de Jenete Stocco Emmer Dias Gomes (Conquista, 25 de abril de 1925 — Rio de Janeiro, 16 de novembro de 1983), foi uma célebre escritora brasileira, autora de folhetins para rádio e televisão. O sobrenome Dias Gomes vem do marido, o também escritor Alfredo de Freitas Dias Gomes.

Por causa de seus sucessivos êxitos no horário das 20h, o mais nobre da Rede Globo, Janete passou a ser conhecida também como "Maga das Oito", "Dama das Oito" e "Nossa Senhora das Oito".

Janete Clair nasceu Jenete Stoco Emmer3 , filha do libanês Salim Emmer. Depois de passar uma infância tranquila em Conquista, no Triângulo Mineiro, no vale do Rio Grande, próxima a Uberaba, em Minas Gerais, o talento de Janete para a vida artística começou a despontar quando a família se mudou para Franca, em São Paulo. Na Rádio Herz, a principal emissora da cidade, Janete fazia sucesso interpretando canções em árabe e francês.

Aos quatorze anos, precisou interromper temporariamente a vida artística e se dedicou a trabalhar como datilógrafa para ajudar na renda da família. Depois, já na capital São Paulo fez estágio num laboratório como bacteriologista e aos vinte anos passou num teste para ser locutora e rádio atriz da Rádio Tupi. Adotou o sobrenome artístico Clair, inspirada na música "Clair de Lune" de Claude Debussy por sugestão de Otávio Gabus Mendes. Nessa época, trabalhando na rádio, conheceu e se apaixonou por seu futuro marido, o dramaturgo Dias Gomes.

Nos anos 50, já casada e incentivada pelo marido, passou a escrever radionovelas e teve grande sucesso com Perdão, Meu Filho (Rádio Nacional, 1956). Com Dias, Jenete teve os filhos Guilherme, Alfredo, Denise e Marcos Plínio, este falecido ainda criança com dois anos e meio, fato que a fez sofrer demasiadamente.

Na década de 1960 iniciou a produção para a televisão, com as telenovelas O Acusador e Paixão Proibida, ambas pela TV Tupi. Em 1967, recebeu a incumbência de alterar a trama da telenovela Anastácia, a Mulher sem Destino, da Rede Globo, para reduzir drasticamente as despesas de produção. Ela, então, inseriu na história um terremoto que matou mais da metade dos personagens e destruiu a maior parte dos cenários. Depois disso, ficou em definitivo na Rede Globo, onde escreveu telenovelas como Sangue e Areia, Passo dos Ventos, Rosa Rebelde e Véu de Noiva.

Nos anos 70 escreveu algumas das telenovelas de maior sucesso da história televisiva nacional, como Irmãos Coragem (1970), Selva de Pedra (1972) e Pecado Capital (1975), período este em que passou a ser chamada de "a maga das oito", por garantir índices de audiência estratosféricos nas telenovelas exibidas neste horário, sendo, em muitas, indiscutivelmente imbatível.

Em 1978, parou o Brasil com a telenovela O Astro, em torno do mistério "Quem matou Salomão Hayala?" , personagem então interpretado por Dionísio Azevedo. Janete Clair se tornou a maior autora popular da história da televisão do Brasil, a única a alcançar 100 pontos de audiência.

Morreu precocemente, vitimada por um câncer no intestino, enquanto escrevia a telenovela Eu Prometo, que deixou inacabada. Esta acabou sendo concluída pela colaboradora Glória Perez, que viria a tornar-se reconhecida e respeitada novelista, e pelo seu viúvo Dias Gomes.

Janete hoje é tida como símbolo de carisma, simplicidade e talento. Suas histórias ainda povoam a mente dos brasileiros, e permitiu de modo ímpar, evidentemente junto com trabalhos de autores como Walter George Durst, Ivani Ribeiro, Cassiano Gabus Mendes e Lauro César Muniz, dentre outros, a popularização da novela como produto de cultura massificada e acessível à praticamente - senão à toda - população.

Com a participação de historiadores, parentes, amigos, admiradores e do poder público está sendo preparado o "Festival Janete Clair" que deverá acontecer todos os anos na semana do dia 25 de Abril na cidade natalícia de Janete, Conquista, interior de Minas Gerais.

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sexta-feira, 24 de abril de 2026

A SINCERIDADE DE LULA NA ESPANHA

Artigo de Fernando Gabeira

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso histórico em Barcelona. Ele descreveu a essência do momento político mundial, caracterizado pelo declínio da social-democracia e a ascensão do populismo de direita. Muitos pesquisadores e estudiosos já o fizeram. Mas a fala de Lula, com palavras simples, tem o valor existencial de alguém que detém o poder por muitos anos.

“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”

Casualmente, eu estava na Inglaterra durante a eleição de Tony Blair, e o Partido Trabalhista estava fora do poder há 15 anos. Havia muita expectativa. Mas seus movimentos foram de absorção do que se considerava o sucesso de Margaret Thatcher.

Conforme descreve John Gray: Blair engoliu a fé thatcherista no mercado como um elixir capaz de revivificar o partido e levá-lo de volta ao poder. Blair aceitou a política econômica neoliberal.

Embora exista em várias escolas de pensamento, o neoliberalismo tem em comum algumas convicções fundamentais. Considera que a principal condição da liberdade individual é o mercado. O alcance da ação governamental tem de ser estritamente limitado. O livre mercado, pensam os neoliberais, é o sistema econômico mais produtivo, portanto, deve ser estendido a todos os países do mundo.

Em outros países da Europa, essa influência também se propagou, como descrevem as pesquisadoras Sheri Berman e Maria Snegovaya, no Journal of Democracy, os social democratas deixaram de se ver como defensores da sociedade diante dos aspectos negativos do capitalismo e passaram a apresentar sua missão cada vez em termos tecnocráticos de eficiência.

Essa política da esquerda fez sentido no curto prazo no fim dos anos 70 e início dos anos 80, mas sua repercussão seria profunda: “E representou uma transformação do perfil histórico da esquerda e até mesmo de sua identidade que se baseava na luta contra o capitalismo. O sucesso da esquerda, na verdade, o sucesso da Europa ocidental após 1945, baseava-se na ideia de que o Estado Democrático era capaz de domar, ou mesmo eliminar, as consequências perigosas do capitalismo”.

Concluem as autoras: “Ao abandonar essa visão, a esquerda tradicional estava mal posicionada para capturar o ressentimento e a raiva que haviam se materializado quando o enfraquecimento da ordem social-democrata do pós-guerra produziu sua consequência: desigualdade e insegurança econômica dramáticas. A crise financeira de 2008 agravou essas tendências intensificando a frustração popular com o neoliberalismo e os partidos e elites que o abraçaram. Com a esquerda incapaz de capturar esse descontentamento, surge uma outra força empreendedora: o populismo.”

Os que viveram o século 20, observam agora que a condição de vanguarda antissistema migrou da esquerda para a direita. O interessante é que a história já avançou.

A experiência populista de Jair Bolsonaro no Brasil foi efêmera. Mais madura do que ela, a de Viktor Orbán, na Hungria, também terminou, apesar de ter se preparado para a eternidade no poder, dominando Congresso, Judiciário e imprensa.

Tanto a esquerda quanto a direita populista se encontram diante de uma tarefa difícil num capitalismo em movimento: como realizar seus projetos com recursos menores do que a expectativa e as necessidades? Ninguém monta por muito tempo esse cavalo bravio.

Lula parece ter feito um compromisso entre os gastos e a austeridade. Ele acha que o governo gastou pouco. Mas a pressão por um equilíbrio fiscal vem não só do mercado, mas de toda a imprensa. Ele resistiu às privatizações, caras ao projeto neoliberal. Mas tem dificuldade em manter instituições deficitárias como os Correios. O enunciado de seu discurso em Barcelona – o programa de campanha precisa ser cumprido – não explicita uma tarefa fácil. Sua sinceridade funciona um pouco como autocrítica, palavra comum no século passado, hoje estigmatizada pela esquerda no poder.

Pena deixar reflexões tão importantes para o exterior: o discurso foi recebido aqui, no Brasil, como mais um discurso. Mas tem contornos históricos.

A dinâmica do capitalismo impulsiona a tendência a se endividar tanto no plano pessoal quanto no de governos. A permanente frustração com os dirigentes políticos acaba produzindo também uma irresistível rotatividade. Se não me engano, ao observar essa tendência, a conclusão deveria ser um antídoto para o hubris dos políticos que chegam ao poder aspirando se manter nele para sempre.

Às vezes, isso se manifesta no desejo de nunca mais deixar que o adversário vença. Margaret Thatcher tinha como objetivo varrer o trabalhismo do mapa político da Inglaterra. E não é que ele voltou e sobrevive até hoje?

Artigo publicado no jornal Estadão em 24 / 04 / 2026

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UM BEIJA-MÃO FORA DE MODA

José Roberto Batochio*, O Estado de S. Paulo

No figurino em que está talhada, a peregrinação aos senadores costura-se fora das linhas da Constituição e da compostura republicana

A romaria que todos os indicados do presidente da República para o Supremo Tribunal Federal (STF) fazem aos gabinetes dos senadores é um beija-mão tão anacrônico quanto inapropriado. Nessa jornada, tem se movimentado o advogado-geral da União, dr. Jorge Messias, em visita aos gabinetes do Senado enquanto aguarda a sabatina a que se submeterá na Casa em 29 de abril. Se há inquirição, arguição pública para que os parlamentares possam perguntar (em rigor, discursar...) o que bem entendam, para avaliar a qualificação do indicado ao cargo, por que razão manter esse ritual prévio com os senadores que nada mais simboliza do que um pleito de voto a quem mais tarde poderá ser julgado pelo ministro?

O beija-mão é um hábito que a República não aceitou da monarquia. Com base no poder moderador, o imperador nomeava os ministros do então Supremo Tribunal de Justiça sem ouvir ou ter o referendo do Parlamento, mas mantinha a autoridade de suspendê-los ou removê-los do cargo.

O beija-mão monárquico também fazia parte do cerimonial de nomeação dos senadores. O processo de escolha era o inverso do atual: os eleitores votavam em candidatos nas províncias e uma lista tríplice era encaminhada ao imperador para a escolha final. Mais de uma vez, houve desentendimentos nesse processo, o mais célebre deles entre o escritor José de Alencar e d. Pedro II. O consagrado autor de Iracema já fora ministro da Justiça, mas, panfletário nos jornais, tornara-se um crítico do Império. Ao recebê-lo para o beija-mão no palácio, d. Pedro alegou que Alencar era muito jovem (tinha 41 anos; a Constituição de 1824 estabelecia a idade mínima de 40), ao que o escritor redarguiu com sua verve de punhal, segundo conta o Visconde de Taunay em suas Memórias: “Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal”. Referiu-se ao que ficou conhecido como golpe da maioridade, que pôs d. Pedro no trono com apenas 14 anos. Poderia ter citado também o pai, d. Pedro I, que colocou a coroa imperial na cabeça de 24 anos.

A República acabou com essa etiqueta aristocrática. Desde a Constituição de 1891, as indicações ao STF são feitas pelo presidente e somente num período o Senado deixou de referendar algumas, em 1894, quando Floriano Peixoto teve cinco indicações recusadas. A tensão escalou quando o tribunal, provocado por Rui Barbosa, concedeu habeas corpus a presos pelo governo por causa da Revolta da Armada, ao que o “marechal de ferro” teria ameaçado: “Se os seus ministros concederem ordens de habeas corpus contra os meus atos, eu não sei quem amanhã dará aos ministros os habeas corpus que eles, por sua vez, necessitarão”. Desde então, não se repetiu semelhante tensão entre o STF e o Executivo, com exceção das cassações pelo Ato Institucional n.º 5 (AI-5) em 1969 dos ministros Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal.

No figurino em que está talhada, a peregrinação aos senadores costura-se fora das linhas da Constituição e da compostura republicana. A Carta Magna estabelece apenas, no parágrafo único do art. 101, que “os ministros do Supremo Tribunal Federal serão nomeados pelo presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal.”

O interregno entre a indicação do presidente e a arguição seguida de votação no Senado foi preenchido com incabível campanha eleitoral. A arguição, sim, é o comício final – palco adequado para o indicado demonstrar, entre outras virtudes, o “notável saber j urídico” exigido pela Constituição.

Qual o teor das audiências intramuros? O candidato apresenta seu programa aos eleitores? Aceita responder a qualquer questionamento, antecipando seu voto em processos momentosos já em discussão na Corte? Dirá que “mata no peito”? Como está em campanha, agirá como é próprio aos políticos, dizendo o que o eleitor quer ouvir? É simples cerimônia de angariar simpatia, ou, ao menos, de desarmar antipatias, sem compromisso de cumprir promessas, como tanto se atribui aos políticos nos palanques?

Manda o dever de justiça ressalvar que o dr. Jorge Messias está eximido de qualquer responsabilidade por essa antiga prática. Jurista ético e probo, altamente qualificado para o cargo, não foi ele quem a criou nem lhe cabe, unipessoalmente, extingui-la – salutar medida que deve provir de acordo de cavalheiros entre o Executivo e o Senado.

Ainda que pudesse sentir-se constrangido, recusar-se à ritualística do beija-mão seria uma afronta à tradição que até agora tem passado como inócua, além de um menosprezo aos senadores.

A benevolência dos magnânimos pode contra-argumentar com o axioma “agir de boa-fé é ter a consciência tranquila, mesmo quando ninguém está olhando”. A isso chama-se ética, um valor moral para atitude não abrangida pela lei, logo por ela não proibida. Mas na fortuna e miséria das relações humanas, no caso do beija-mão, se impõe a riqueza vulgar do ditado popular que por elegância eufemística forjamos no latim: “Non est illicitum, sed non bene spectat”, ou “não é ilegal, mas não fica bem”.

*Advogado criminalista, foi presidente do Conselho Federal da OAB e Deputado Federal

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MASTER: FILA DE DELATORES ENFRENTA BARREIRA

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Com investigações avançadas, fila de delatores do Master enfrenta barreira

O que mais os delatores, incluindo Vorcaro, podem entregar nesse núcleo central?

Formou-se uma fila de possíveis delatores do caso do Banco Master: o banqueiro Daniel Vorcaro, o cunhado e operador financeiro dele, Fabiano Zettel, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa.

À medida que as investigações apertaram o cerco, todos adotaram a mesma estratégia. Trocaram de advogado e passaram a buscar um acordo.

Seus advogados, porém, têm ouvido a mesma coisa de interlocutores na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República (PGR) e no gabinete do relator do caso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Não vai ser fácil.

O mesmo motivo que os levou a buscar uma delação premiada é o que se transforma agora numa barreira para que consigam avançar no caminho do perdão judicial em troca de informações: as investigações da PF avançaram demais.

Entre os investigadores, o caso Master é tratado por ramos distintos. A trama central – que é a fraude financeira provocada pela quebra do Master e a tentativa frustrada de compra do banco pelo BRB – está praticamente elucidada.

Graças ao trabalho inicial do Banco Central, à extração minuciosa da PF dos celulares e computadores e, claro, ao descuido dos alvos, poucas vezes se viu uma investigação de corrupção tão bem detalhada.

Já estão praticamente comprovadas a gestão fraudulenta das carteiras do Master, o que provocou um rombo no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), e a tentativa de cooptar a cúpula do BRB para tentar encobrir os malfeitos. Aliás, as mensagens entre Paulo Henrique Costa e Vorcaro são para lá de comprometedoras.

O que mais os delatores, incluindo Vorcaro, podem entregar nesse núcleo central?

A resposta é simples. Praticamente nada, a não ser que cheguem a eventuais políticos que tenham facilitado as falcatruas. O ex-governador do DF Ibaneis Rocha, por exemplo, tinha ciência do que se passava?

Estará Vorcaro disposto a esclarecer as suspeitas sobre suas relações para lá de nebulosas com os ministros do Supremo Tribunal Federal já reveladas pela imprensa?

Cabe aqui dizer que não é uma caça às bruxas. Os investigadores não têm alvos predeterminados, porque isso fere o próprio princípio da colaboração. Mas a questão técnica é: os delatores serão capazes de ampliar o escopo da investigação? Isso sem falar no risco de que um delator “esvazie” o outro.

Uma colaboração bem-sucedida precisa de fatos adicionais, tem de oferecer recuperação de patrimônio e entregar provas ou elementos que permitam aos investigadores chegar a essas provas. Caso contrário, nada feito.

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ME ENGANA QUE EU GOSTO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Dois ‘outsiders’ de 2018 caíram em desgraça e um é candidato à Presidência

Os três foram eleitos governadores com ampla margem de votos impulsionados pelo bolsonarismo e pelo discurso contra a política

Três ilustres desconhecidos, que surgiram do nada, lançaram-se na política e foram eleitos governadores em 2018, na onda do bolsonarismo e contra o “sistema, a política, a corrupção e a violência”, tornam-se hoje ótimos “cases” sobre “outsiders” na política. Dois caíram em desgraça, um virou candidato a presidente.

Os dois que não deram certo vieram da área jurídica, hoje tão abalada por revelações chocantes, e apresentaram-se como impecáveis cumpridores da lei e impolutos guerreiros contra a corrupção. Ibaneis Rocha, advogado muito bem-sucedido e ex-presidente da OAB-DF, foi eleito e reeleito no DF, mas... E Wilson Witzel, ex-juiz federal (vejam só!), foi tão efêmero como governador quanto meteórico como candidato no Rio.

Ibaneis teve um fim dramático, com muita coisa a explicar sobre como o BRB, banco estatal, foi embolado com o Master e dilapidado na sua gestão. Grande “azarão”, Ibaneis teve 70% dos votos no segundo turno de 2018 e foi reeleito já no primeiro turno em 2022. Será que não tinha a menor ideia do assalto ao BRB, como não teve no 8 de janeiro do golpe?

Quanto a Witzel, foi afastado do governo do Rio, um ano e sete meses depois de eleito, e finalmente sofreu o impeachment, por unanimidade, meses depois. Por quê? Por fazer o oposto do que prometera na campanha – como Ibaneis, que sobreviveu, mas ainda vai enfrentar uma longa batalha na polícia e na Justiça.

Witzel caiu da toga, mergulhou na campanha do Rio como “outsider” e “contra a velha política” e pulou de 1% nas pesquisas para 4,7 milhões de votos (60%) no segundo turno contra o veterano Eduardo Paes, que fora prefeito da capital por dois mandatos, aliás, bem avaliados.

Quem elegeu Witzel foram petrolão, mensalão e sucessivos escândalos no Rio, que não apenas tiraram votos do “candidato do sistema” como produziram 4,6 milhões (41%) de abstenções e votos nulos e brancos, mais do que Paes. Os que lavaram as mãos e não votaram definiram o resultado.

O terceiro “outsider” foi Romeu Zema, empresário, formado em Administração pela FGV, com especialização em Harvard, que se filiou ao Partido Novo em Minas e venceu com 7 milhões de votos (72%) no segundo turno contra Antônio Anastasia, ex-governador tucano, que sucumbiu com o fim do PSDB e do PT no terceiro PIB do País.

Zema lançou-se à Presidência e, enquanto Lula, Flávio e Caiado estão cheios de dedos ao falar do STF, ele roubou a bandeira do “anti-Supremo” e soltou a língua, ainda mais depois de Gilmar Mendes virar seu maior cabo eleitoral. De outsider, Zema não tem mais nada, mas essa continua sendo sua fantasia em 2026.

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CHEGA DE PUBLICIDADE DE BETS !

Orlando Thomé Cordeiro*, Correio Braziliense

Cabe às pessoas decidirem, livremente, se querem apostar, fumar e beber. O que não se pode é permitir o incentivo ao consumo

As apostas fazem parte da cultura brasileira há séculos, atravessando períodos de proibição e legalização, refletindo as mudanças sociais e econômicas do país. No século 18, as primeiras casas de apostas começaram a surgir, impulsionadas pelo sucesso das corridas de cavalos, que se tornaram um passatempo popular, especialmente entre as classes mais altas.

No século 19, precisamente em 1892, surge o jogo do bicho. Uma ideia colocada em prática pelo barão João Batista Viana Drummond como forma de aumentar a arrecadação financeira do jardim zoológico criado por ele quatro anos antes. Como funcionava? Quando o visitante adquiria o ingresso, recebia uma figurinha de um dos 25 bichos da lista a serem sorteados. Quem tivesse a figura do bicho sorteado ganhava um prêmio em dinheiro. Em pouco tempo, essa iniciativa quase ingênua ultrapassou os limites do zoológico e ganhou as ruas do Rio de Janeiro e, posteriormente, de várias regiões do país, permanecendo viva até os dias atuais.

A primeira metade do século 20 vivenciou o surgimento dos cassinos que foram legalizados em 1933 pelo presidente Getúlio Vargas. Combinando jogos com shows de artistas renomados no cenário nacional e internacional, essas casas se tornaram verdadeiros centros de entretenimento. No Rio de Janeiro, eram três: Cassino Atlântico, Cassino Copacabana Palace e Cassino da Urca. No estado de São Paulo, destacavam-se o Monte Serrat, em Santos, e o Cassino Paulista, na capital. Já Poços de Caldas, em Minas Gerais, com mais de 20 cassinos em funcionamento, chegou a ser apelidada de "Las Vegas brasileira".

Porém, em 30 de abril de 1946, três meses depois de assumir a Presidência da República, o general Eurico Gaspar Dutra pegou o país de surpresa e, com um decreto-lei, ordenou o fim dos jogos de azar, pondo fim ao fervilhante negócio dos cassinos. A justificativa para sua decisão, que permanece válida nos últimos 80 anos, era apoiada na "tradição moral, jurídica e religiosa" do brasileiro, que seria incompatível com os jogos, por serem nocivos aos bons costumes.

Dando um pequeno salto no tempo, em 15 de setembro de 1962 tivemos a realização do primeiro sorteio da Loteria Federal sob a administração da Caixa Econômica Federal. Posteriormente, foram criadas a loteria esportiva, popularmente conhecida como Loteca (1970), a Quina (1994), a Mega Sena (1996), a Lotomania (1999), a Dupla Sena (2001), a Lotofácil (2003) e a Timemania (2008).

O breve histórico acima mostra que a tradição de apostas no Brasil é longa e diversificada, mas, a partir de 2018, teve início uma mudança significativa desse panorama com a legalização das bets. Essa modalidade de jogo tornou-se uma verdadeira febre! 

E não é um crescimento fortuito. O relatório intitulado Investimentos Bets 2025 - Análise Estratégica do Setor de Apostas Esportivas, elaborado pela Tunad, indica que, apenas no ano passado, essas empresas fizeram investimentos em publicidade superiores a R$ 1,4 bilhão, somando TV aberta, TV paga, rádio e streaming. Em uma ação agressiva, o segmento já está entre os cinco primeiros lugares no ranking, dividindo o pódio com o varejo e a indústria farmacêutica, segundo dados de diversas pesquisas de mercado.

Uma das principais consequências é o aumento de casos de problemas de saúde mental, como comprovam inúmeros relatos publicados na mídia. Além disso, há casos e mais casos de pessoas que simplesmente perderam todas as suas economias. Na verdade, é um comportamento típico de viciados.

Como enfrentar tal situação? Creio que precisamos criar movimentos de pressão sobre o Congresso Nacional de modo a proibir a publicidade das bets em TV aberta, rádios e revistas. Analogamente, no ano 2000 foi possível fazer o mesmo para os fabricantes de cigarro. Quem acompanhou esse movimento na época certamente se lembra da resistência do lobby daquela indústria e dos setores por ela patrocinados, mas a força da mensagem conseguiu ser vitoriosa.

Vencida essa etapa, poderíamos aproveitar para fazer o mesmo em relação às bebidas alcoólicas, já que o alcoolismo é o mais grave problema de saúde pública, com quatro pessoas hospitalizadas por hora e uma morte a cada cinco minutos por consumo excessivo. Cerca de 10% da população sofre com esse tipo de dependência.

Não se pode discutir tais medidas com base em moralismo. Cabe às pessoas decidirem, livremente, se querem apostar, fumar e beber. O que não se pode é permitir o incentivo ao consumo. Por tudo isso, agora é hora da campanha com o mote "chega de publicidade de bets".

*Orlando Thomé Cordeiro — consultor em estratégia

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DIRCEU VÊ LULA AJUSTANDO A ROTA COM 'AUTOCRÍTICA'

Andrea Jubé, Valor Econômico

Partido se depara com um fantasma do passado que assombra forças progressistas no mundo todo

No momento em que se reúne para debater o seu futuro, o PT se depara com um fantasma do passado que assombra não apenas o partido, mas as forças progressistas no mundo todo. Instado a elaborar um roteiro com experiências internacionais de partidos de esquerda para o 8º Congresso Nacional do PT, o diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar, sugeriu a leitura de “O Alfaiate de Ulm”, do intelectual e dirigente comunista Lucio Magri.

Obra de referência de intelectuais da esquerda, o livro reconstitui a história do Partido Comunista Italiano (PCI), da sua criação ao apogeu, até o fim melancólico em 1991, junto com a dissolução da União Soviética. No auge do poder, em meados dos anos 1970, o PCI era o maior partido comunista do Ocidente.

Na Segunda Guerra, o partido lutou na Resistência Italiana ao lado de socialistas, católicos e liberais para derrubar o fascismo de Mussolini. Mas em pleno apogeu, no ano de 1978, prestes a firmar uma aliança histórica com a Democracia Cristã (DC) para governarem juntos a Itália, o assassinato do líder da DC, Aldo Moro - atribuído aos comunistas - deflagrou uma fase de decadência da sigla. Anos depois, a história mostrou que os comunistas não estavam envolvidos no crime.

Valter Pomar, que é líder da tendência “Articulação de Esquerda”, em artigo de 2017 sobre “O Alfaiate de Ulm”, disse que, ressalvadas as diferenças, “é impossível não enxergar certas semelhanças entre os dilemas vividos pelo Partido Comunista Italiano nos anos 1970 e 1980 e os impasses vividos mais de vinte anos depois pelo Partido dos Trabalhadores brasileiro”. Segundo o historiador, a peculiaridade do PCI era a de ser um “partido de massas” que “fazia política” e agia no país, “mas também se instalava nas instituições e as usava para conseguir resultados e construir alianças”.

Em contraponto, o ex-ministro e ex-presidente do PT José Dirceu rechaçou, em conversa com a coluna, comparações entre o PT e o PCI. “O PT não foi criado por intelectuais, por uma vanguarda marxista-leninista”, descartou, em alusão à origem da sigla associada a Antonio Gramsci. “O PT tem raízes sociais, políticas, culturais, o petismo é uma cultura, o PT não é um só um partido eleitoral”, prosseguiu. “Por que você acha que o PT sobreviveu à Lava-Jato, e o [Fernando] Haddad teve 32 milhões de votos em 2018 e foi para o segundo turno?”, desafiou.

Para Dirceu, equivoca-se quem acredita que o senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL à Presidência, tem chance de sair vencedor do pleito de outubro. Até o momento, o primogênito de Jair Bolsonaro se consolidou como principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que buscará a reeleição.

Dirceu alertou que a campanha nem começou, e adiantou uma das estratégias para descontruir o discurso de Flávio de que ele seria uma versão “moderada” do pai, o “Bolsonaro que tomou vacina”. O líder petista lembrou declaração de Flávio de que, se vencer, subirá a rampa do lado do pai. “Você acha que é ele quem vai governar? E ele disse que o Eduardo Bolsonaro vai ser o ministro de Relações Exteriores, isso quer dizer que vamos apoiar as guerras do [presidente Donald] Trump? E vamos entregar nossas riquezas para os Estados Unidos? É isso que o Flávio vai propor para o Brasil?”, provocou.

Questionado se Flávio não estaria repetindo a estratégia bem-sucedida que foi abraçada pelo próprio Lula na campanha de 2002, quando Duda Mendonça criou o “Lulinha Paz e Amor” - e o petista saiu vencedor -, Dirceu minimizou. “Nós ganhamos cinco das seis eleições que disputamos, tivemos 45 milhões de votos no segundo turno [em 2022], temos uma ampla coalizão, com partes de partidos do centro, nós que estamos governando, eles é que têm de ganhar de nós”, ressaltou.

O ex-ministro reconheceu, contudo, que a população está insatisfeita com o atual “padrão de vida”. Mas observou que Lula captou esse sentimento e ajustou o discurso. “Ele já fez a autocrítica”, salientou, citando a recente fala de Lula em Barcelona, no dia 18 de abril. “Nós nos tornamos o sistema, por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema, não podemos nos eleger com um programa e implementar outro, não podemos trair a confiança do povo”, afirmou Lula. “A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo, nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados”, completou o presidente.

No contexto do “fantasma do PCI”, questionado sobre o futuro do PT no pós-Lula, Dirceu ressaltou que não existe essa possibilidade. “Não haverá PT sem Lula, quando ele não for mais presidente, ele estará no PT e será o maior líder popular do Brasil”, ressaltou. O ex-ministro ponderou, contudo, que o pós-Lula depende de o PT se firmar como um partido forte, consolidado, organizado, “que superou todo esse momento que viveu”. Citou novas lideranças, como Fernando Haddad. “A vida não vai ficar parada dentro do PT”, destacou.

Retomando o PCI, vale lembrar que o mundo deu voltas, e de certa forma, o partido retornou ao poder, quando o ex-comunista Massimo D'Alema se elegeu primeiro-ministro da Itália em 1998, pelo Democráticos de Esquerda (DS), o sucessor do PCI.

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CONGRESSO DO PT DEFINIRÁ DIRETRIZES E ESTRATÉGIA ELEITORAL

Andrea Jubé / Valor Econômico

Desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica e tecnológica

A cinco meses das eleições, o PT reunirá em Brasília, a partir desta sexta-feira (24), dirigentes e delegados no 8º congresso nacional, instância máxima decisória da sigla, a fim de debater a conjuntura política, definir estratégias para a disputa eleitoral e aprovar diretrizes para o futuro do partido, que completou 46 anos em fevereiro.

Tendo como prioridade a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica, a revolução no mundo do trabalho diante das novas tecnologias, e as mudanças nas demandas sociais e econômicas, a fim de tentar convencer os brasileiros de que o partido merece continuar no poder. Lula irá discursar no encerramento do evento no domingo (26). O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, abre o congresso com uma análise do cenário político, e o lançamento de nova campanha de filiação.

Com uma pauta extensa, as lideranças e os 600 delegados de todo o país, eleitos pela militância, devem concentrar os debates sobre dois documentos, que traçam os caminhos para a eleição de outubro: o primeiro, da subcomissão que discutiu conjuntura e tática eleitoral; e o segundo, do grupo que elaborou uma proposta de programa de governo, a ser submetido à campanha de Lula à reeleição. Segundo fontes que participam dos trabalhos, as discussões sobre o novo programa partidário, a atualização do estatuto e a remodelação da Fundação Perseu Abramo devem ficar para 2027.

Relator do novo programa partidário, o ex-ministro e ex-presidente do PT José Dirceu disse ao Valor que a necessidade de realizar este congresso é discutir a “sucessão presidencial”, e, “principalmente, as mudanças geopolíticas, como o crescimento da extrema direita e do fascismo no mundo, a política de guerra do [presidente Donald] Trump, a interferência no Brasil pelo tarifaço, a tentativa de influenciar o Supremo”.

A última vez que o PT discutiu o programa partidário foi em 2017, ano da prisão de Lula e um ano antes da eleição de Jair Bolsonaro, observou Dirceu. Quase dez anos depois, é Bolsonaro quem se encontra preso, cumprindo pena pela tentativa de golpe de Estado, enquanto, no mundo, a China tem um papel muito maior, os Brics se consolidaram e a hegemonia dos Estados Unidos está em xeque, acrescentou. Ainda nesse período, “tivemos a pandemia, a invasão da Venezuela, as guerras envolvendo Estados Unidos, Israel, Irã, e Rússia e Ucrânia”, completou.

Não é absurdo querer mexer na meta de 3% da inflação”

— José Dirceu

O texto do programa de governo que será debatido enumera 13 itens que deverão ser prioridade de eventual quarto mandato, como a defesa da democracia por uma frente ampla progressista, a maior proteção dos direitos das mulheres, com combate à escalada dos feminicídios, garantia dos direitos elementares dos cidadãos, em especial, das minorias, como indígenas e LGBTQ+, valorização do agronegócio e ampliação da reforma agrária, proteção do meio ambiente.

Prevê ainda soberania energética e mineral, “pautada por um Plano Nacional para a exploração responsável do pré-sal, da Margem Equatorial e de minerais críticos”; a “regulação democrática das big techs e o combate à desinformação”; e a construção de uma inteligência artificial nacional.

No trecho sobre a economia, o PT critica o avanço neoliberal, e considera “imperativo construir uma alternativa à captura estrutural do Banco Central pelos agentes rentistas, cujo funcionamento atual submete a política de câmbio e crédito à lógica da especulação financeira”. O partido defende uma gestão “democratizada e compartilhada com os setores produtivos e representantes do trabalho” para assegurar a autonomia técnica da instituição. Defende uma “meta permanente de juros de um dígito”, com apoio nas reservas internacionais e no controle inflacionário.

Além dos juros elevados, Dirceu também defende que o centro da meta de inflação de 3% seja revisto. “Não é absurdo querer mexer na meta, essa meta de 3% é um erro gravíssimo que foi cometido por nós mesmos”, criticou. “O país pode viver com juros de 9%, nós temos que ter esse objetivo a médio prazo”, reforçou. Para isso, ele sustenta que são necessárias reformas no BC, no Conselho Monetário Nacional (CMN), prosseguir com a reforma tributária e aprovar uma reforma política. A meta contínua de 3% foi definida em 2024 pelo CMN, do qual fazem parte os ministros da Fazenda, do Planejamento e o presidente do BC.

O secretário nacional de comunicação do PT, Éden Valadares, explicou que a proposta de programa de governo em debate é apenas um “texto-guia”, que ainda poderá ser modificado até o fim do congresso.

Dirceu ressaltou que não se trata do futuro programa de governo da campanha de Lula. Uma proposta nesse sentido ainda será elaborada e submetida pelo PT, posteriormente, aos demais partidos que farão parte da frente ampla pela reeleição de Lula, como PSB, PCdoB, PV, Psol, Rede e PDT. “O PT tem um programa, mas isso não quer dizer que será o programa que o Lula vai defender”, concluiu.

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BRASILEIROS MANDADOS DE VOLTA

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Deportações nos EUA em condições deploráveis ignoram o fato de que esse imigrante, mesmo irregular, cria riqueza por preço muito menor que o cobrado pelos nativos

A cada tantos dias, um avião fretado pelo governo americano traz de volta ao Brasil algumas dezenas de brasileiros que desembarcam em diferentes aeroportos. Um deles é o de Confins, em Belo Horizonte. A mídia tem descrito as não raro deploráveis formas de detenção dessas pessoas nos EUA e igualmente deploráveis condições da viagem de volta à pátria.

Isso não é propriamente muito diferente do que foi a vinda para cá de ancestrais, até não muito antigos, de milhões de brasileiros de hoje. As viagens em navios cuja terceira classe trouxe para o Brasil milhares de imigrantes europeus e asiáticos, durante décadas, para trabalhar nas fazendas brasileiras em condições que não eram propriamente muito diferentes das dos escravizados da escravidão recém-abolida. Não eram viagens turísticas. Meus avós maternos e meus tios lembravam dos penosos detalhes da travessia, em 1913.

Essa memória provavelmente está nas razões para que netos e bisnetos dessas pessoas se sintam motivados a “voltar à estrada” pela qual os antepassados enveredaram há mais de cem anos.

Foi quando a chamada acumulação originária deu no capitalismo que se expandia sobre realidades sociais pré-capitalistas, especialmente no campo, com a modernidade desenraizando camponeses pré-modernos e tradicionalistas. Com a disponibilidade para emigrar a um país estrangeiro mais próspero que o país de origem, ampliou-se a sequência de gerações de uma mesma linhagem, como nos lugares de origem seus parentes ainda se definem. Dispostas a continuar a busca de um lugar.

Portanto, massas humanas sociologicamente definíveis como de pessoas sem lugar. Uma anomalia de alta motivação para migrar porque são pessoas originadas de sociedades comunitárias, vinculadas a um lugar ancestral. Em busca do lugar utópico perdido.

Se, nos EUA, milhões de cidadãos daquele país para lá emigraram, especialmente da Europa e da China, em condições não necessariamente muito diferentes nos últimos mais que cem anos, há ali uma diferença: esses americanos de terceira ou quarta geração têm uma consciência histórica de sua origem e de sua realidade culturalmente peculiar, porque residual, de integração na sociedade americana. Uma consciência, no fundo, antropologicamente protetiva contra a discriminação e a eventual inferiorização social.

A sociedade americana é também consciente de que deve proteger suas fronteiras contra os que chegam por último e às pressas, supostamente para colher sem ter semeado, sem ter seguido as regras da ascensão social possível, mas limitada e relativamente lenta, penosa.

Essa não deveria ser uma concepção cultural de recepção de estranhos e forasteiros em países propriamente civilizados, que em alta dose muito devem ao imigrante, mesmo ao irregular, porque este cria riquezas por preço muito menor do que o preço cobrado pelos nativos.

Do imigrante, o preço que a sociedade de livre mercado cobra é o de quem nele é tratado como equivalente de mercadoria antes de ser reconhecido como gente. As deportações americanas de brasileiros são deportações de equivalentes de coisas, de certo modo têm essa característica. Uma mal disfarçada característica de todas as emigrações de massa desde o século XIX.

Frequentemente, é injusta porque naquele país, como em outros na Europa, são os que trabalham clandestinamente por salários um tanto maiores do que os salários brasileiros, mas muito menores do que os salários americanos. O brasileiro que acaba sendo deportado é sociologicamente um brasileiro barato. A deportação o define por isso como brasileiro descartável, porque como tal é tratado.

Os serviçais dessa tarefa têm mostrado que com facilidade ajustam sua concepção da vítima da deportação para o estereótipo redutivo de um ser que não há como classificar na estrutura social peculiar que vigora no interior de uma aeronave de passageiros: primeira classe, classe executiva, classe turística.

Na prática, as deportações americanas criaram uma permanente sociedade transitória que dura o tempo que vai da detenção e da desorganização da sociedade do imigrante até o seu desembarque num aeroporto brasileiro. A sociedade temporariamente de ninguéns. Gente que não é coisa nenhuma.

Quando se agravou o surto das expulsões decorrentes da nova política “social” de Trump, a da América para os americanos, a do fazer a América grande de novo, o lema teve adeptos não só lá, mas aqui também. Muitos se lembrarão de políticos brasileiros com o boné vermelho da campanha de Trump do “make America great again”. No mesmo momento em que brasileiros eram lá considerados descartáveis para desembarcarem em aeroportos brasileiros, depois de viagens penosas e descabidas.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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MAIS FORÇA À DEMOCRACIA, NÃO MENOS

Fernando Abrucio*, Valor Econômico

Melhorias do sistema político têm de se ancorar na aceitação do dissenso, construção de negociações, valorização de controles democráticos sobre governantes e crença na verdade das urnas

O Brasil nunca viveu período democrático tão longo e sólido como o inaugurado em 1985 com o fim da ditadura militar. A consolidação do novo regime veio com a Constituição Cidadã, como Ulysses Guimarães a definiu. Além dela, o aperfeiçoamento incremental das regras, muita negociação e controles dos governantes foram as chaves do sucesso. Crises também ocorreram, mas a democracia permaneceu. A tentativa de golpe liderada por Bolsonaro fracassou e ele foi preso. O quadro atual, porém, é marcado pelo crescimento do discurso antissistema e pela dificuldade em respondê-lo.

Muitas críticas podem ser feitas hoje ao sistema político brasileiro, mas a grande questão é saber se o caminho de quem as faz é pelo fortalecimento da democracia ou para gerar seu enfraquecimento. Não basta apontar os erros e problemas. É preciso propor medidas cujo objetivo seja o aperfeiçoamento democrático. A história mostra, ademais, que muitos movimentos que captavam anseios populares e propunham discursos antissistema redundaram em autoritarismo ou totalitarismo. Assim foi com o fascismo italiano ou com o nazismo.

Se é necessário evitar a fulanização das propostas, algo que só favorece a polarização estéril que tomou conta do país, não se pode igualmente esquecer onde estavam determinados atores políticos em momentos estratégicos para a democracia e o que dizem sobre a nossa ditadura militar ou outras autocracias e autocratas pelo mundo afora. A discussão das ideias deve ser valorizada, mas é preciso cotejar a relação delas com trajetórias históricas e posicionamentos de seus proponentes. Se mudaram de posição em relação à defesa de déspotas e autoritarismos, ótimo, mas que digam isso em alto e bom som.

Realçar as posições e trajetórias é uma forma de evitar a fácil hipocrisia política de se construir uma imagem de reformador das instituições, embora nem sempre tenha defendido a democracia. O espírito de 8 de janeiro de 2023 estava recheado de palavras de ordem vinculadas ao repasse do poder ao povo. Como se comprovou nos últimos anos, contudo, o que estava por trás daquilo era um projeto autocrático de golpe de Estado.

Neste sentido, melhorias do sistema político não dependem apenas de mudanças institucionais. Elas têm de se ancorar, profundamente, em valores democráticos, que aceitem o dissenso, saibam construir negociações, valorizem os controles democráticos sobre os governantes e acreditem na verdade das urnas.

Antes de pensar o que pode ser colocado como contraponto ao sentimento antissistema que domina o ambiente atual, é essencial destacar o que gerou o sucesso da democracia pós-1988. Partir do pressuposto de que deu tudo errado na política contemporânea brasileira ou é pura ignorância em relação à história brasileira, marcada mais por autoritarismos e falta de cidadania à maioria da população, ou é uma forma de não entender o significado da democracia.

Quatro características foram centrais para os sucessos do presidencialismo de coalizão em seu auge, quando foi, por um lado, capaz de manter eleições livres, competitivas e justas, e, por outro, propiciou um ambiente institucional e social que favoreceu melhorias nos direitos de cidadania dos brasileiros. Desse modo, houve um avanço concomitante da liberdade e da igualdade.

O primeiro pilar do avanço democrático foi o aperfeiçoamento incremental das instituições. Várias reformas legais em prol de maior democratização foram feitas, podendo ser citadas a redução do poder do Executivo nas medidas provisórias, a proibição das coligações em eleições proporcionais para evitar a inflação de partidos, o maior controle das contas públicas com a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei da Ficha Limpa, entre outras. Mesmo uma medida controversa como a permissão da reeleição apresenta, segundo as pesquisas feitas na ciência política brasileira, mais pontos positivos do que negativos.

Tais modificações institucionais foram importantes, mas não seriam suficientes para alicerçar um jogo pluralista liberal-democrático. Aqui entra um segundo pilar do pós-1988: a construção de valores democráticos mais sólidos do que noutros períodos históricos, tanto no plano da classe política como na sociedade. Os políticos aceitaram mais as derrotas e a necessidade de diálogo e negociação, sobretudo se comparamos com o pré-1964, quando a intransigência política era tônica e o golpismo, a linguagem predominante de todas as forças políticas.

A disputa entre PT e PSDB no auge do presidencialismo de coalizão, que se dava não só no plano nacional como também em estados e cidades importantes, é a maior prova de uma cultura política de competição democrática que se manteve, pelo menos até 2014, nos trilhos do jogo político pluralista e tolerante. Uma boa discussão sobre esse processo pode ser vista no livro “Democracia negociada: política partidária no Brasil da Nova República” (FGV Editora), de Leonardo Weller e Fernando Limongi.

A democracia sempre tem de ser vista sob um duplo aspecto: ela dá poder de escolha soberana aos eleitores, mas também estabelece limites aos governantes eleitos. Esse é um terceiro ponto que foi central para o desenvolvimento recente do regime democrático brasileiro. O controle democrático se fortaleceu de quatro maneiras.

Uma foi a maior força dada à Constituição e às leis, cujo cumprimento ganhou maior peso na prática dos governos, com forte contribuição do STF. Além disso, os órgãos de controle, como os tribunais de contas e ministérios públicos, ganharam maior capacidade de atuação para garantir direitos e evitar corrupção. O Congresso se tornou um ator central do sistema político, e não é possível - ainda bem - governar autocraticamente sem coalizão. E ainda foram criados mecanismos de participação social, especialmente em políticas públicas no plano local, que constituíram uma pressão popular nova na história brasileira.

Completando o conjunto de avanços, uma marca do período pós-1988 foi uma luta constante pela republicanização e transparência do poder público. Nem sempre esse processo foi bem-sucedido, e isso deixou problemas até hoje não resolvidos. No entanto, muitas legislações e formas de funcionamento do Estado geraram uma administração pública mais aberta e mecanismos mais efetivos de combate à corrupção.

Exemplos nesta linha foram a Lei de Acesso à Informação e a ampliação do poder e da competência da Polícia Federal e da Receita Federal. Para quem tem dúvidas das melhorias republicanas, basta lembrar que foi uma burocracia mais autônoma e de qualidade que resistiu aos arroubos autoritários do governo Bolsonaro, em lugares como o Itamaraty ou entre os servidores do SUS.

Os avanços democráticos sofreram reveses nos últimos anos, ao que se somam problemas mais estruturais que não foram resolvidos. De todo modo, não se pode jogar a criança com a água do banho: o legado da Constituição Cidadã deve ser o alicerce de qualquer proposta de aperfeiçoamento do sistema político. É preciso valer seus princípios de soberania popular, transparência governamental, garantia de direitos e um sistema de divisão de Poderes.

A necessidade de algum grau de mudança é verdadeira. Isso se deve ao desequilíbrio no presidencialismo de coalizão, ao crescimento de emendas parlamentares pouco transparentes, ao aumento da descrença no Sistema de Justiça, ao reforço da polarização estéril e de um comportamento antissistêmico de representantes eleitos, cujo maior exemplo foi a patética tomada da mesa da Câmara pelos bolsonaristas.

O desejo da mudança, para não ser casuístico, precisa dizer o que quer para a democracia brasileira. É fundamental melhorar o desempenho do Judiciário, combater seus privilégios e tornar o STF um órgão mais colegiado e transparente. Mas isso deve ser feito também corrigindo os problemas do Congresso, especialmente o emendismo desmedido e que, da maneira como se estabeleceu, tem piorado a qualidade dos gastos públicos, o que afeta a efetividade da cidadania.

O mesmo vale para a melhoria da qualidade das instituições públicas subnacionais, pois o caso do Rio de Janeiro, em especial, mostra que o buraco profundo do sistema político está de braços dados com o crime organizado. Transparência e republicanismo para todos, e não só para alguns, deveria ser o lema de quem quer aperfeiçoar o modelo democrático brasileiro.

Para levar adiante uma agenda sistêmica de aperfeiçoamento de nossa democracia, e que não vise apenas os “inimigos” eleitorais ou se ancore em demagogias antidemocráticas, será necessário olhar crítico e independência, mas também capacidade de sustentar um diálogo baseado na universalidade da mudança: o que vale para um, vale para todos. Será que as forças políticas brasileiras estão preparadas para essa visão ampla e essencialmente democrática?

Numa eleição que deve ser marcada por intensa polarização, por uma facilidade em defender argumentos antissistêmicos e por grandes chances de tentativa de interferência externa, será preciso uma combinação rara de coragem e moderação para propor melhorias que fortaleçam a democracia brasileira. Uma agenda mais ampla e sistêmica exigirá coragem; sua implementação dependerá de muita negociação e responsabilidade para evitar a abertura de portas para os autoritários que estão à espreita.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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