terça-feira, 16 de junho de 2026

CARVÃO E A LENTA TRANSIÇÃO ENERGÉTICA

Jorge J. Okubaro, O Estado de S. Paulo

O impacto das condições de tráfego por Ormuz nos deixa claro que essa transição necessária, desejável e desejada é, antes de tudo, lenta

A turbulência por que passa a economia mundial a cada anúncio de fechamento ou de abertura do Estreito de Ormuz – por onde, em condições normais, trafega cerca de um quarto do petróleo consumido no planeta – é o sinal mais evidente de quanto continuamos dependentes de combustíveis fósseis. Transição energética, sobretudo pela redução do uso desse tipo de combustível, tem sido uma das expressões mais frequentes desses tempos. Para muitos, é a indicação de que está a nosso alcance quase imediato um futuro mais limpo e saudável. Mas o que o impacto das condições de tráfego por Ormuz nos deixa claro é que essa transição necessária, desejável e desejada é, antes de tudo, lenta – talvez lenta demais para quem luta por um mundo ambientalmente melhor.

O petróleo, por seu peso na matriz energética mundial e por seu uso disseminado pela indústria, é o exemplo mais óbvio da nossa dependência dos combustíveis fósseis. Mas há também o carvão mineral. No mundo, o carvão responde por mais de 25% da oferta de energia (ou 27,7% em 2023, segundo a Resenha Energética Brasileira 2025, elaborada pelo Ministério de Minas e Energia). O peso desse combustível na matriz energética brasileira é relativamente baixo, o que o tira do foco das preocupações nacionais com a transição energética. No entanto, a utilização do carvão mineral no País talvez mereça alguma atenção.

Nas últimas décadas, segundo a Resenha, a participação do carvão mineral na oferta interna de energia, embora permanecesse pequena, cresceu de 2,8% em 1973 para 4,4% do total em 2023. O uso do carvão mineral no Brasil foi tema destacado do relatório do Global Energy Monitor sobre essa fonte energética divulgado no fim de maio (Boom and Bust Coal 2026). O relatório analisa a expansão e a contração do consumo do carvão mineral no mundo e mostra um quadro aparentemente contraditório no Brasil.

De um lado, o Brasil tornou-se oficialmente o primeiro país latino-americano a não registrar nenhum novo empreendimento de usinas termoelétricas a carvão mineral. Projetos que vinham sendo elaborados ou estudados foram abandonados. Em fevereiro do ano passado, o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (Ibama) encerrou o processo de licenciamento de uma usina no Rio Grande do Sul, com potência de 726 megawatts (MW). Em novembro, arquivou o projeto de outra usina no Rio Grande do Sul, com potência de 600 MW.

A abundância de recursos renováveis é uma boa justificativa para a exclusão de novas termoelétricas a carvão do sistema de geração energética do País. Mas o que dizer do fato – que gerou a contradição apontada no relatório do Global Energy Monitor – de o Brasil adotar políticas que prolongam a vida útil das usinas em operação?

Em 24 de novembro do ano passado, um dia depois do encerramento da 30.ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (COP30), na qual o Brasil e mais 194 países assumiram o compromisso de intensificar as ações climáticas, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto (sancionado pelo Executivo) que prorrogou até 2040 as compras obrigatórias de energia elétrica gerada por usinas a carvão. Contratos de compra de energia de outras termoelétricas a carvão também foram prorrogados. Esses contratos asseguram mais sobrevida às usinas beneficiadas. As mais antigas são consideradas as mais poluentes e caras da matriz energética brasileira.

“Os impactos negativos do carvão mineral sobre o clima, a saúde e a economia são evidentes, e os custos são, em última análise, repassados aos consumidores brasileiros”, observou Gregor Clark, da equipe do Global Energy Monitor. “Os abundantes recursos de energia renovável do Brasil oferecem um caminho muito mais seguro, acessível e sustentável.”

Clark tem razão. O País precisa intensificar o uso de fontes que reduzam a emissão de carbono, de modo a contribuir para desacelerar o aquecimento do planeta. Os gases emitidos pela queima de combustíveis fósseis (carvão mineral, derivados de petróleo e gás natural) são os principais responsáveis pelo aumento da temperatura do planeta. Daí o esforço mundial para reduzir seu consumo.

Mas a transição energética envolve a substituição de ativos existentes e operantes, e isso implica custos elevados e mudanças extensas no padrão do uso de fontes de energia. O abandono desses ativos não pode ser imediato. Igualmente não é racional esperar que o consumo do petróleo, do carvão mineral e do gás acabe antes de haver a garantia de fontes capazes de substituí-los em volume, custo e eficiência toleráveis. Mesmo o Brasil já sendo destaque mundial por ter metade de sua matriz energética com fontes renováveis (a média mundial é de apenas cerca de 15%), continua a depender de combustíveis fósseis. Petróleo e derivados, gás natural e carvão mineral respondem pela outra metade da matriz energética brasileira.

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CPI, UMA INUTILIDADE

Antonio Claudio Mariz de Oliveira*, Folha de S. Paulo

Objetivo constitucional das CPIs é investigar fatos determinados de interesse público

Investigações partem para fatos não previstos com repercussão midiática

Chama a atenção no nosso ordenamento jurídico a existência de institutos que uma vez aplicados à realidade se afastam por completo do seu escopo. Esse distanciamento entre o legal e o real desvirtua por completo o seu desiderato originário.

Um exemplo são as comissões parlamentares de inquérito, com previsão constitucional (artº 58, parº 3º). O seu objetivo seria a "apuração de fato determinado e por prazo certo". Para isso possuem "poderes de investigação próprios das autoridades judiciais". As leis 1539/52 e 10179/03 regem a sua atuação.

O regimento da Câmara, em seu artigo 35,I, por sua vez, define que o fato precisa ser de interesse para a vida pública, ordem constitucional e social, devendo estar explicitado no pedido de instalação da CPI.

As comissões possuem, pois, um objetivo bem definido: investigar fatos predeterminados que possuam relevância para a vida jurídica, social e econômica do país.

No entanto, o desrespeito a suas finalidades e limites é notório e chocante. As apurações se desviam e alcançam fatos inicialmente não previstos. Ademais, os seus integrantes se arvoram em magistrados e ultrapassam as barreiras de suas atuações.

Não são incomuns os casos em que fatos estranhos passam a ser investigados. Fatos, diga-se, sempre de repercussão pública e midiática.

Os parlamentares só demonstram a sua tendência, por vezes uma fúria investigativa, quando os palcos lhes são abertos para que se transformem em atores de um espetáculo midiático. É indisfarçável o desejo de obterem protagonismo que compromete a seriedade e o escopo da própria investigação.

Assumem atitudes arrogantes, agressivas, voltadas para a sua performance diante das câmeras. Cometem o delito de abuso de autoridade frequentemente. Prendem quando não poderiam, mandam tirar advogados da sala e por vezes lhes dão voz de prisão, interrompem depoimentos, pois desejam que digam o que querem ouvir.

Quando integram uma CPI já possuem cristalizadas suas opiniões sobre a responsabilidade do investigado antes mesmo do término das investigações. Assim, as perguntas e requerimentos que fazem, muitos aos berros, fazem parte do show que protagonismo exibicionista e inócuo.

O anseio por promoção e protagonismo por parte de deputados e senadores; as injunções políticas e partidárias; as disputas individuais; a exposição mediática mesmo que à custa de declarações sobre as

investigações em curso; as constantes ofensas e agressões fizeram com que as apurações perdessem a sua razão de ser. Por esses e outros fatores que as deturpam e as desviam de seus rumos originários, se impõe uma indagação

Por que as comissões parlamentares de inquérito ainda existem?

Como acentuou de forma clara e enfática a excelente advogada criminal Maria Jamile José, o regime constitucional reserva ao juiz o papel de julgar e o das CPIs o de investigar e nada mais. Quem julga é o juiz. Ademais quaisquer medidas restritivas da liberdade e de outros direitos só podem ser decretadas por ele. No entanto, assiste-se, habitualmente, à adoção de medidas de força por parte dessas comissões.

Essas e outras razões levam a seguinte indagação: por que as comissões parlamentares de inquérito ainda existem no nosso ordenamento?

Elas em nada contribuem para o aprimoramento de nossas instituições e nem sequer constituem um instrumento eficaz para a apuração de ilícitos da responsabilidade de cidadãos e agentes públicos.

Que as polícias investiguem, o Ministério Público acuse, a advocacia defenda e a magistratura aplique ou não as sanções cabíveis. Ao Legislativo cumpre fazer leis.

*Advogado

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ESTADOS UNIDOS IMPÕEM TETO PARA AVANÇO DA IA

Pedro Doria, O Globo

Os EUA não têm regra. Não há regulação, muito menos processo. Quem avalia se uma IA é ameaça ou não?

No dia 9 de junho, terça-feira da semana passada, a Anthropic lançou com certo estardalhaço seu novo modelo de ponta, Claude Fable. Era, de longe, a inteligência artificial (IA) mais avançada à disposição no mercado. Era. Na sexta, dia 12, quando mal passava das 17h em Washington, o secretário de Comércio Howard Lutnick mandou uma ordem. Era para a companhia suspender o acesso ao Fable para qualquer cidadão estrangeiro. Incluam-se na lista os próprios funcionários da Anthropic que não nasceram nos Estados Unidos (muitos). A equipe de comando da empresa leu o papel, sabia que colocar um filtro por nacionalidade é impossível, aí tomou a única decisão viável: tirou do ar. Ninguém mais usa. E, assim, o governo americano essencialmente acaba de impor um teto ao avanço da IA. A partir de determinado nível de capacidade, está proibido. Evidente que não vai durar. Foi puro improviso de quem não pensou nas consequências. Mas é fundamental compreender tudo que está em jogo.

Antes de tudo: o discurso de Dario Amodei, fundador e CEO da Anthropic, vem consistentemente batendo na mesma tecla: a IA tem potencial de se tornar muito perigosa para o mundo, é preciso que os governos regulem urgentemente. Na semana passada mesmo, ele publicou mais um de seus longos ensaios sugerindo que os Estados nacionais organizem grupos de trabalho enxutos e eficientes para sugerir uma regra, já que os Poderes Legislativos perderam a capacidade de se mover, travados pela polarização ocidental. Ele vinha dizendo sobre o Mythos, a família de modelos de que o Fable faz parte, justamente que representavam uma ameaça à cibersegurança. Seria capaz de quebrar quase tudo, do Windows no computador pessoal até os sistemas que comandam distribuição de energia, passando pelos circuitos bancários. Talvez não seja uma boa estratégia bater o bumbo dizendo que seu produto oferece risco real a todo mundo. Vai desempregar, vai desestruturar, vai facilitar fraude e tudo o mais não é discurso que faça muitos amigos.

Ao mesmo tempo, Amodei é figura malquista na Casa Branca. Dos principais líderes do Vale do Silício, é de longe o que se mantém mais distante de um governo que gosta de empresários e executivos subservientes. No Vale, há quem finja essa subserviência, como a turma de Apple e Google. Há quem se esforce para manter proximidade, como OpenAI e Meta. E há os que trabalharam ativamente pela eleição de Trump. Foi assim com Elon Musk e seu conjunto de empresas, da Tesla ao X e à SpaceX. Só a Anthropic mantém distância explícita. Isso atrai simpatia de um campo político. Mas também provoca animosidade num governo impulsivo. O Departamento de Defesa já nomeou a Anthropic como ameaça à segurança do país, perdeu na Justiça e teve de recuar. Agora é o Departamento de Comércio.

Só que, desta vez, o governo tem alguma razão de estar preocupado. Scott Bessent, o secretário do Tesouro, foi avisado na quinta por Andy Jassy, CEO da Amazon. Seus engenheiros haviam sido capazes de quebrar parte dos sistemas de segurança do Fable. Justamente aquele pedaço que o impedia de violar sistemas de cibersegurança. O Fable poderia ser usado para ataques de grande porte. A Amazon é a maior acionista da Anthropic. Pois é. E foi seu CEO que disparou o alarme contra a companhia. Após conversas internas no governo, Lutnick deu a ordem de suspensão. Quem entende do assunto diz que é puro alarmismo. Ocorre que, se hoje é puro alarmismo, amanhã pode não ser.

Os Estados Unidos não têm regra. Não há regulação, muito menos processo. Quem avalia se uma IA é ameaça ou não? Como se contêm os perigos, ao mesmo tempo facilitando o desenvolvimento de tecnologia que melhore a vida? É para isso que serve regulação. Para não impedir o progresso, evitando malefícios previsíveis.

Mas a decisão não tem como ficar de pé. Não é possível conferir a cidadania de quem tem acesso a uma tecnologia e de quem não tem. Ainda que fosse, terrorismo interno existe. Proibir acesso a estrangeiros não suspende ameaças. E vai além: há uma disputa no mundo entre EUA e China. Se o governo americano proíbe que seus laboratórios cheguem primeiro à corrida, as consequências são duas. A primeira é que os engenheiros mais importantes vão migrar para outros países. As empresas também. O Reino Unido estará de portas abertas, a França idem. E nem precisa ir longe. A Universidade de Toronto, no Canadá, já é o principal formador de cientistas de IA.

A segunda consequência é que a China chegará primeiro na corrida.

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ALEXANDRE DE MORAES E EDUARDO BOLSONARO NO OLHO DO FURACÃO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Trump e Eduardo Bolsonaro ganharam um forte aliado contra Alexandre de Moraes: a Itália

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro e o ministro do STF Alexandre de Moraes estão novamente no olho do furacão entre Brasil e Estados Unidos, nesta semana, justamente quando o presidente Lula tem a expectativa de um encontro com Donald Trump, à margem do G-7, para discutir a nova onda de tarifas.

A novidade, desta vez, é que os ataques de Eduardo e de Trump a Moraes ganharam reforço com a decisão da Justiça da Itália de anular a extradição da ex-deputada bolsonarista Carla Zambelli, que tem dupla condenação no Brasil. Os argumentos italianos atingem o ministro do STF em cheio, em meio a várias batalhas.

A Primeira Turma do STF, que condenou Jair Bolsonaro a 27 anos de prisão, deve julgar a partir de hoje a denúncia da PGR de que Eduardo, seu filho 03, atuou para Trump aplicar o tarifaço de 2025, a Lei Magnitsky contra Moraes e a suspensão de vistos a autoridades, como forma de coagir autoridades brasileiras no julgamento do golpe.

A seu estilo sempre bélico, que irrita o PL, a família e a campanha do 01, Flávio, à Presidência, Eduardo foi às redes sociais, de véspera, para pedir a Trump e aos secretários Marco Rubio (Estado) e Scott Bessent (Tesouro) que retomem as sanções contra Moraes. Confirmando, portanto, a denúncia da PGR contra ele.

Na outra ponta, a Advocacia-Geral da União (AGU) tenta, na Justiça dos EUA, atuar no processo movido pelas redes sociais Rumble e Trump Media contra Moraes, para “defender as instituições do Estado brasileiro”. As duas empresas, uma delas de Trump, acusam Moraes de “censura”, ao suspender perfis de brasileiros que moram nos EUA.

De toda forma, o Alexandre de Moraes era um em 2025, quando foi atingido pela Lei Magnitsky, sob acusação de “politização” de decisões, prisões e bloqueio de blogs de bolsonaristas. Agora é outro. Naquele momento, era o líder da defesa da democracia. Hoje, é alvo de investigações sobre um contrato de R$ 129 milhões do escritório de sua família com o Banco Master.

Além disso, Trump não está mais sozinho, depois que a Itália negou a extradição de Zambelli, alegando parcialidade de Moraes, vítima, investigador, acusador e julgador. Zambelli mereceu as penas por violar o sistema de internet do CNJ para plantar um documento falso contra Moraes e por perseguir um cidadão nas ruas de São Paulo, de arma em punho.

Isso, porém, não apaga o fato de tantos juristas terem alertado para a temeridade de Moraes sobrepor papéis e, em algum ponto, os argumentos da Itália podem cruzar com as acusações dos EUA, Trump e Eduardo. Mais uma vez, quem estará na berlinda será o Supremo.

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A GUERRA QUE TODOS PERDERAM

Míriam Leitão, O Globo

Em mais de três meses de conflito, nenhum dos lados pode declarar vitória, e o número de perdedores é maior do que o de envolvidos

A guerra deflagrada pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã talvez termine em breve na possibilidade que se abre com o memorando que será assinado na sexta-feira. Nenhum dos lados pode declarar vitória, e o universo dos perdedores é muito mais amplo do que apenas os que estão diretamente envolvidos no confronto. Até o Brasil perdeu. Nesses 107 dias de embate, o cenário econômico brasileiro mudou completamente.

É por isso que os juros caíram tão pouco, nos dois primeiros cortes, e esta semana a redução deverá ser novamente tímida, de apenas 0,25 ponto percentual. Antes da crise internacional, a expectativa era de cortes de meio ponto ou até 0,75pp a cada reunião para uma Selic no fim do ano de 11% ou menos. A inflação estaria abaixo do teto da meta. Agora, por causa da crise geopolítica, os índices de preços estão pressionados, o acumulado em 12 meses já estourou o teto da meta e os juros só estão em queda porque estavam muito altos.

O governo americano chega ao atual momento tendo muitas razões para se arrepender de ter iniciado a aventura militar. Por causa dela, o governo do Irã testou a sua arma mais poderosa, a ameaça de fechar o Estreito de Ormuz, e se viu que sim o país tem a possibilidade de bloquear o estratégico canal logístico. Os preços dos combustíveis internamente tiveram altas expressivas, corroendo a popularidade do presidente Donald Trump. A inflação americana em geral foi afetada pela nova conjuntura de instabilidade.

A despesa militar declarada oficialmente pelo Pentágono foi de US$ 29 bilhões. Mas pode ter sido mais, já que não há transparência sobre os cálculos. O pior custo dos Estados Unidos foi reputacional. O presidente Trump deu durante os mais de três meses do conflito sinais seguidos de debilidade. Anunciou várias vezes o fim dos combates, que não haviam terminado e ameaçou o Irã sem conseguir dobrar o país dos aiatolás. Convocou a população civil do Irã a se rebelar e não obteve resposta. Ao longo do tempo ficou claro que os Estados Unidos entraram na ofensiva de forma intempestiva e sem qualquer planejamento estratégico. As evidências é que Trump subestimou os adversários e as dificuldades da operação militar.

O Irã pagou o preço mais alto. Perdeu alguns dos seus principais líderes. Os que sobreviveram vivem acuados. Por outro lado, o regime tirânico dos aiatolás enfrentava movimentos de protestos que com a guerra foram suspensos. Os iranianos têm agora um governo muito mais militarizado e igualmente repressivo e totalitário. O Irã bombardeou os vizinhos e entrou em embate direto na região. É um país isolado.

Israel tinha agenda própria em todo o conflito. Alegava estar dando resposta ao Hezbollah mas parecia estar numa campanha de ocupação territorial no Líbano. Hoje tem tropas no Sul do Líbano e viu o Hezbollah se enfraquecer. Porém está com relação tensa com o seu maior aliado, os Estados Unidos. A sua imagem junto a outros países do Ocidente piorou ainda mais, após ter sofrido uma violenta deterioração com os massacres na Faixa de Gaza.

A economia mundial enfrentou problemas sucessivos com o caos. A alta do petróleo, o encarecimento do frete, as dificuldades de suprimentos de insumos importantes da cadeia produtiva, o aumento dos preços de fertilizantes e inúmeros outros desequilíbrios tornaram a economia mundial mais incerta neste ano de 2026. Todos esses foram efeitos da guerra.

As negociações com o Irã para tentar ter algum controle internacional sobre o seu programa nuclear tinham mais chances de sucesso do que o que começa a ser desenhado agora no novo acordo negociado pelo Paquistão.

O FMI afirma que o PIB mundial vem resistindo ao choque, mas que uma intensificação das hostilidades e das interrupções no abastecimento representam um “risco claro para o crescimento global”, por causa do aumento nos preços das commodities, da inflação mais elevada e das tensões nas condições financeiras.

O Brasil é um dos atingidos por estes efeitos. O governo gastou até agora R$ 30 bilhões subsidiando combustíveis, mas tudo o que conseguiu foi evitar uma parte da alta dos preços dos derivados de petróleo. Houve aumento de preços, mas seria muito maior se não fosse o discutível programa de subvenção a combustíveis fósseis. O custo da guerra para o Brasil tem que incluir também a despesa com os juros que caíram menos do que se não houvesse confronto. Ainda não se sabe se a guerra terminará mesmo com este acordo, o que já se pode dizer é que nela todos perderam.

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A CRISE DO SUPREMO, POR ANDRÉ MENDONÇA

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Levantamento do Insper mostra que o ministro é o de votos mais divergentes na Corte

“Há um desequilíbrio entre os Poderes quando um tribunal avança pela criação de regras e não por sua aplicação”. Depois de uma exposição de 20 minutos sobre o impacto das decisões do Supremo Tribunal Federal na segurança jurídica do país, em evento fechado para CEOs, executivos e acadêmicos no Insper, o ministro André Mendonça sentou para uma sessão de cinco perguntas.

Recorrendo ao conceito do “juiz criativo” do jurista italiano Luigi Ferrajoli, discípulo de Norberto Bobbio, emendou: “O Judiciário não pode dar a primeira e a última palavra, precisamos ter autocontenção”, tomando posição na contenda que mobiliza críticas da academia, da sociedade e do próprio colegiado, dividido entre o presidente da Corte, ministro Edson Fachin e o decano, ministro Gilmar Mendes, que joga em todas as posições.

Apontou disfuncionalidade nas ações penais originárias iniciadas diretamente na Corte, como o inquérito das fake news, e criticou o elevado quórum de agentes legitimados a acessar o Supremo. “Tudo isso precisa ser discutido no processo constituinte derivado”, disse, numa referência explícita a uma reforma do judiciário.

Ao elencar os princípios decisórios da boa prática jurídica, disse ser necessário evitar os abusos da retroatividade: “O STF aplica novas regras ao que já estava estabelecido. É algo que preocupa muito. Indicadores do Bird sobre regulação no Brasil são piores que os do Paraguai.”

Se alguém ainda tinha dúvidas sobre a banda em que toca o ministro avesso a entrevistas e relator das duas das mais bombásticas ações em curso no STF, do Master e do INSS, conheceu ali seu diapasão. “O primeiro passo é reconhecermos que estamos doentes”, disse, ao atestar a “crise de credibilidade” das instituições.

André Mendonça não entende por “autocontenção” a reclusão - “nosso gabinete não representa o mundo”. Exibiu sua vacina para o ativismo religioso ao citar a ida ao culto presbiteriano no último domingo onde disse ter abraçado uma idosa na cadeira de rodas e uma criança: “O julgador deve estar próximo do povo e da sociedade”.

Contrariando orientação da Igreja Presbiteriana do Brasil, Mendonça compareceu no feriado de Corpus Christi, pela quinta vez, à Marcha para Jesus e, do trio elétrico, definiu o momento como “um marco histórico onde milhões de brasileiros se unem para testemunhar que foram transformados por Jesus”.

O ministro não mencionou os inquéritos que conduz, mas sugeriu o rumo tomado: “Se os mecanismos de prevenção e responsabilização deixam de funcionar a sociedade chega à conclusão de que não vale a pena acreditar nas instituições e fazer o certo.” Preparou ainda aquela plateia para as citações que estavam por vir.

O primeiro foi o alemão Jurgen Habermas - “Dizem que é de esquerda mas não me importo” - que tomou de empréstimo para descrever a “imparcialidade qualificada” com a qual o juiz deve estar aberto para ouvir as partes podendo até modificar sua pré-compreensão dos fatos. O segundo foi o indiano Amartya Sen: “Se estamos longe do ideal de justiça, comecemos por não cometer injustiças; nossas decisões devem prevalecer pela força dos argumentos e não pelo argumento da força.”

E, finalmente, ao responder a uma pergunta do professor do Insper e coordenador do encontro, Diego Arguelhes, sobre a separação entre os Poderes, arrematou: “Nossas decisões impactam a sociedade e a política. Fui indicado por um presidente de direita, mas não estou lá para ser um ministro de direita, e, sim, julgar de acordo com a Constituição. E isso precisa ser percebido pela sociedade.”

O ministro chegou depois que o ex-ministro Nelson Jobim já tinha falado e teve que deixar o auditório assim que terminou sua exposição para pegar seu vôo de volta para Brasília. Não viu, portanto, quando Jobim preparou o terreno com um histórico das disfuncionalidades que vulnerabilizam o STF.

Nem tampouco quando professor do Insper, Ivar Hartmann, que, em grande parte, referendou as disfuncionalidades já decantadas com uma montanha de dados. Com dois colegas, Arguelhes e Evan Rosevear, minerou a base de dados do STF, com 2,23 milhões de votos de 1988 até 2023.

Constatou que as decisões monocráticas são 94,8% do total - 6 mil por ano para cada ministro - sendo que 36% permanecem sigilosas. No inquérito das fake news, relatado pelo ministro Alexandre de Moraes, aquelas em segredo de justiça são a maioria. É Moraes também quem detém o recorde (43,8%) de processos distribuídos por “prevenção”, quando não há sorteio e o ministro que cuida de ação correlata fica com o processo.

Foram constatadas 74% de decisões unânimes (nos EUA a parcela é inferior a 50%). O campeão de divergência foi o ministro Marco Aurélio Mello, que integrou a Corte durante 31 dos 35 anos da pesquisa e saiu em 2021. Sua taxa foi de 16,8%. Mendonça, que o substituiu, vem em seguida, com 2,4%. O levantamento abrange a estreia do ministro num tribunal em litígio com o governo Jair Bolsonaro e o primeiro ano do inquérito do golpismo.

“O que a Corte decide depende, antes de tudo, de como ela decide. Em colegiado, um tribunal cujo dissenso é raro e ainda pouco estudado. Individualmente, um tribunal com prática cada vez mais distante daquela desenhada pela Constituição”, concluiu Hartmann num momento em que o ministro divergente já decolava para Brasília.

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MOTTA PAUTA JORNADA DE ATÉ 40 HORAS, BANDEIRA ELEITORAL DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A nova jornada de trabalho de até 40 horas está associada aos setores tradicionais da economia nos quais o trabalho é regulamentado pela CLT, como a construção civil e o comércio varejista

O presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), decidiu pautar o fim da jornada 6 x 1 pondo em votação o Projeto de Lei 1.838/26 encaminhado ao Congresso pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que limita o trabalho em até 40 horas semanais. A proposta é uma das principais bandeiras eleitorais de Lula, que aposta na “economia do afeto” para viabilizar sua reeleição. Como sempre acontece quando há mudanças nas relações de trabalho a favor dos assalariados, a maioria das entidades representativas dos empregadores se opõe à nova regulamentação. Parte da oposição deve aderir à proposta, por razões eleitorais.

O Partido Novo, do ex-governador mineiro Romeu Zema, por exemplo, defende que a alteração ocorra via negociação coletiva entre empregadores e empregados, e não por imposição legal. Alega potenciais impactos negativos na economia, no custo das contratações e na margem de lucro das empresas. Durante as votações da PEC na Câmara dos Deputados, a bancada do partido atuou na obstrução dos debates nas comissões e registrou votos contrários ao texto-base, alinhando-se a parlamentares que apontavam riscos de aumento de inflação e informalidade.

Agora, o assunto volta à pauta. Nesta terça-feira, na reunião de líderes, antes da votação, o relator da proposta, deputado Leo Prates (Republicanos-BA), deverá esclarecer pontos de seu parecer. O texto é o item único da pauta do plenário. O projeto foi enviado pelo Poder Executivo com regime de urgência e tranca a pauta de votações. “Com a apreciação da matéria, destravamos a pauta da Casa”, disse Motta em suas redes sociais. A questão de fundo na regulamentação do fim da jornada 6 x1 é a forma de transição, se a redução será gradativa e seu prazo de implementação.

Guardadas as diferenças de contexto, é alarmista o discurso de que a alteração desorganizará setores básicos da economia, que ainda adotam a jornada de 6×1. Lembra o processo de abolição da escravatura, que levou 38 anos de transição. Começou com a Lei Eusébio de Queirós, que proíbe o tráfico transatlântico de escravos para o Brasil, em 1950, o que não impediu o tráfico clandestino. Com o surgimento de jornais, clubes e associações favoráveis à emancipação, em 1971, foi aprovada a Lei do Ventre Livre, que declarava livres os filhos de mulheres escravizadas nascidos a partir daquele ano.

Destacaram-se na campanha abolicionista o escritor monarquista e diplomata Joaquim Nabuco, que criou a Fundação da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão em 1980; o farmacêutico e jornalista José do Patrocínio, que beijaria a mão da princesa Isabel por ocasião da Proclamação da Lei Áurea, em 1988; o engenheiro André Rebouças, que dançou com a Regente do Império no famoso Baile da Ilha Fiscal; e o advogado e poeta Luís Gama, o único republicano do grupo.

“Uberização”

Em 1884, as províncias do Ceará e do Amazonas aboliram a escravidão antes do restante do país. Mesmo assim, em 1885, com a Lei dos Sexagenários, que libertava os escravos com mais de 60 anos, mais uma vez foi adiado o fim do trabalho escravo, com o argumento de que isso levaria o país ao colapso. Com o crescimento das fugas coletivas e a multiplicação dos quilombos, a abolição se tornou inadiável. O Exército se recusava a participar da captura de escravos fugitivos. Finalmente, em 13 de maio de 1988, a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, cuja importância não deve ser relevada, porque mudou o modo de produção no Brasil.

A abolição não foi uma concessão isolada. Combinou a resistência dos escravos, a ação dos abolicionistas, a pressão internacional, as mudanças econômicas e a crescente mobilização popular. Entretanto, as sequelas sociais da escravidão permanecem. Para introduzir o trabalho assalariado nas fazendas, sobretudo de café, desde o final de Império, levas de imigrantes italianos, espanhóis e japoneses, entre outras nacionalidades, foram trazidas para o Brasil.

A maioria dos 700 mil escravos libertados foi alijada da produção, discriminada e marginalizada. No Brasil, a cada ciclo de modernização ou esgotamento de produção, a mão de obra é descartada. Foi assim nos ciclos do ouro em Minas Gerais, do cacau na Bahia e da borracha na Amazônia. Essa situação se repete agora, com o avanço tecnológico, que descarta mão de obra, engendra novas formas de produção e cria profissões, num processo irreversível de inovação e mudanças sociais.

Inevitavelmente, a automação chegará a setores como a construção civil. A nova jornada de trabalho de até 40 horas está associada aos setores tradicionais da economia nos quais o trabalho é regulamentado pela CLT. Não atinge as atividades pautadas pela chamada “uberização”, nas quais os trabalhadores não têm patrão e regulam a própria jornada de trabalho. De certa forma, com o aumento das horas livres, também será associada à ampliação do trabalho via aplicativos e do empreendedorismo.

Lula já se beneficia dos programas de transferência de renda, como Bolsa Família e Vale Gás, e dos aumentos de salário real, da queda da taxa de emprego e da isenção do pagamento de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. A implantação imediata da jornada de até 40 horas é mais uma bandeira de campanha que deixa na defensiva a oposição.

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A COPA JÁ NÃO É MAIS A MESMA

Artigo de Fernando Gabeira

Minha principal atividade nesta Copa é comprar figurinhas para o neto. Nem sempre foi assim. Nas muitas Copas que vivi, o clima não era tão tranquilo.

Em 1970, assisti à final entre Brasil e Itália refugiado na Argélia. Um grupo de asilados pensou em torcer contra o Brasil, porque a vitória fortaleceria a ditadura militar. Bastaram alguns minutos de jogo para que todos estivessem torcendo apaixonadamente pelo Brasil e se sentissem no paraíso com a goleada.

Ainda no Brasil, acompanhei o jogo Brasil e Tchecoslováquia numa solitária na prisão. Não havia rádio, não havia vizinhos nas outras celas, não havia nada. Só silêncio. Pelos gritos que vieram da rua, contei os gols do Brasil e concluí alegremente que vencemos por 4 a 0. Ilusão. Eles fizeram um gol que ficou perdido na barreira de silêncio. Poderiam ter feito dois, três, e eu não saberia.

As Copas, sobretudo no período da ditadura, sempre foram um tema político. João Saldanha foi uma espécie de herói para nós por ter resistido à pressão de Emílio Garrastazu Médici. Saldanha era o técnico da seleção, e o general Médici queria que ele convocasse Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro. Saldanha respondeu: o presidente escolhe o ministério dele, eu escalo a minha seleção.

O mundo mudou. As Copas, que eram tema da política interna, são hoje problema geopolítico. Quando Estados Unidos, Canadá e México resolveram hospedar a Copa de 2026 em conjunto, pensavam em projetar uma América do Norte unida e aberta ao mundo. A América do Norte já não está tão unida. E a abertura ao mundo, sobretudo nos Estados Unidos, transformou-se em paranoia diante do estrangeiro.

Os primeiros signos desse novo momento histórico apareceram com a decisão de barrar a entrada do juiz da Somália Omar Abdulkadir Artan. Omar é considerado um dos grandes juízes do mundo, apesar de vir de um país pobre, sem grande tradição em futebol. Foi recebido como herói ao voltar para a Somália. A delegação de Senegal foi objeto de dura fiscalização ao entrar nos Estados Unidos. Não se sabe por que tanto rigor contra os africanos.

A Fifa tem aguentado tudo calada. A mesma Fifa que, no Brasil, fez e aconteceu, impôs regras como se o seu presidente fosse um imperador. Um jornal francês caricaturou Gianni Infantino como fantoche de Trump. Sua imagem depois dessa Copa dificilmente escapará disso. Mesmo antes, Infantino criou um prêmio da paz e entregou o troféu a Trump, algumas semanas antes de ele começar uma guerra contra o Irã.

Uma característica desta Copa é que um dos anfitriões está em guerra com um dos participantes (embora tenha sido anunciado um cessar-fogo). É uma experiência única bombardear um país enquanto a seleção nacional do país bombardeado disputa uma partida de futebol no campo do inimigo.

Os iranianos também pagam um preço por disputar a Copa. Ficarão concentrados em Tijuana e viajarão para os Estados Unidos apenas para jogar e voltar em seguida. Pensar que grandes disputas internacionais foram criadas para unir os povos… A verdade é que líderes como Donald Trump jamais permitirão que se alcance esse objetivo.

Artigo publicado no jornal O Globo em 16 / 06 / 2026

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FUTEBOL BRASILEIRO CORRE RISCO DE VIRAR MEME SEM GRAÇA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Copa virou negócio de trilhões e ao mesmo tempo uma brincadeira de criança

A esperança do time de Ancelotti está no banco de reservas

Com a Copa do Mundo politizada, agigantada (três países anfitriões, 48 seleções, 104 partidas e zebras à espreita) e multiplataformizada (no Brasil há uma disputa de segundos entre os canais de televisão e os de internet pelo menor delay), é impossível escapar aos memes virais. O futebol é um negócio de zilhões e ao mesmo tempo uma brincadeira de criança. Uma festa em que os convivas se sentem imediatamente afetados pela síndrome de Peter Pan.

Há de tolerar as subcelebridades e os bicões, os influencers que ocupam o espaço da cobertura jornalística, o boneco orelhudo que faz comentários sobre arbitragem, a divulgação em massa da jogatina eletrônica, os pachecos e os vira-latas, as WAGs (são as esposas dos jogadores, descobri recentemente), os boletins médicos acerca da panturrilha do mascote Neymar, os torcedores que vão ao estádio só para tirar selfies. Há de aturar o cinismo de Gianni Infantino, o presidente da Fifa, e há de aguentar a bufonaria de Donald Trump, que acha que a Copa é sua.

Felizmente, sua majestade, a bola, quando tratada com inteligência e intimidade, deixa a parafernália exibicionista em segundo plano. Foi o que vimos na estreia do Brasil contra o Marrocos, em que Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, controlou a partida, com movimentação e toques precisos no meio de campo. Como se fosse veterano. Um show de ritmo e simplicidade que escancarou as deficiências do time de Ancelotti, mal escalado, com falhas individuais, postura burguesa e gorda, lentidão de dar sono. Único momento a salvar do desastre: o golaço de Vinicius Junior.

Sem mudanças, a seleção não irá longe. Mexidas durante o desenrolar do torneio são tradição brasileira —e não vou citar as entradas de Pelé e Garrincha, em 1958, para não recair na covardia anacrônica. A esperança está no banco: Fabinho (quem diria), Danilo Santos, Luiz Henrique, Rayan, Endrick. Para driblar a amargura do colunista, que venham os gols, a alegria e, vá lá, os memes.

Olho na França, que se apresenta nesta terça (16). É o bicho-papão.

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EVANGÉLICOS ABANDONAM FLÁVIO BOLSONARO E MIGRAM PARA LULA

Juliano Spyer*, Folha de S. Paulo

Mentira sobre relação com Daniel Vorcaro espalhou desencanto pelo bolsonarismo

Flávio é visto por muitos como crente de fachada

Evangélicos podem ser protagonistas em mais uma eleição presidencial. Desta vez, para tirar a certeza de que Flávio Bolsonaro será o candidato da direita. A última coleta da Quaest, divulgada na semana passada, mostra o nome bolsonarista caindo nove pontos nesse segmento, de 61% para 52%.

Evangélicos representam um dos pilares eleitorais do bolsonarismo. Lideranças nacionais poderiam atuar para conter a sangria, mas continuam em silêncio —e têm motivos. Apostavam na dobradinha Tarcísio-Michelle e foram atropelados pela escolha de Flávio. Em seguida, a mentira sobre a relação com um ex-banqueiro que promovia orgias aumentou o constrangimento.

Flávio é visto por muitos como crente de fachada. Não se sabe ainda para onde foram os milhões pagos por Daniel Vorcaro para o filme "Dark Horse" e cresce a expectativa de que novas revelações contaminem quem pedir apoio a ele.

O escândalo do Banco Master também expôs uma denominação frequentada pelos Bolsonaros. Vorcaro tinha como braço direito o advogado Fabiano Zettel, seu cunhado e pastor da Igreja Batista da Lagoinha. Para complicar, igrejas são espaços em que informações correm pelo boca a boca, para evitar escândalo público. Nesse ambiente, já se multiplicam boatos sobre Flávio nas festas de Vorcaro.

Dos muitos motivos para a queda de Flávio entre evangélicos, a mentira sobre a relação com Vorcaro tem efeito simbólico mais poderoso. Pastores que eu ouvi notam o desencanto com o bolsonarismo se espalhando silenciosamente.

Por que, então, as lideranças não rompem com Flávio e buscam outro nome, como fez o Ministério Madureira da Assembleia de Deus ao declarar apoio a Caiado? Entendem que o movimento é inútil porque, neste momento, ele ainda aparece como provável representante da direita no segundo turno.

Vale perguntar, então, para onde esses votos estão indo. Os dois pré-candidatos que cresceram na pesquisa da Quaest entre evangélicos foram Lula e Renan Santos, que é presidente do MBL e fundador do partido Missão.

Lula continua muito rejeitado por esse segmento, mas o apoio ao petista subiu de 24% para 31%. Os pacotes do governo para setores empobrecidos chegam ao mesmo tempo em que lideranças como Silas Malafaia, conhecidas pelo policiamento contra a esquerda, se distanciam de Flávio.

Renan é o único que cresce entre as opções à direita. Num segundo turno hipotético com Lula, o apoio de entrevistados evangélicos a ele subiu de 40% para 43%. Zema perdeu dois pontos, indo para 48%, e Caiado ficou estável, em 49%.

Os avós paternos de Renan eram evangélicos, mas ele mantém distância desse campo. Religião e política só aparecem em suas declarações para atacar a Lagoinha como igreja de Vorcaro.

Muitos pastores ainda não anunciaram apoio a Flávio. Apesar da oportunidade, nenhum pré-candidato teve atitude semelhante à de Jair Bolsonaro: querer aparecer ao lado dos evangélicos e dar importância simbólica a esse grupo, mesmo sem ter adotado essa fé.

Pedi e recebereis, diz a Bíblia.

*Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

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XANDÃO É O BRASIL

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Estará sempre disponível a crença em que a Corte constitucional italiana seria bolsonarista e teria rejeitado a extradição de Carla Zambelli como afronta político ideológica à Justiça brasileira. Num debate público em que ministro do Supremo foi consagrado nosso herói salvador, aquele a quem Vorcaro – no dia em que seria preso – perguntou sobre se conseguira bloquear algo, não faltam elementos mistificadores para compor essa fé. (E, se criticar, lembre-se: Bolsonaro volta – o golpe sempre à espreita.)

Sob a imposição do 8 de janeiro permanente, tudo sendo ataque à democracia, tem-se o Alexandre de Moraes isento. Sob a imposição do 8 de janeiro permanente, a isto foi elevado Moraes, cujo escritório de advocacia da esposa tinha contrato de R$ 130 milhões com o Master, tornado a própria encarnação do estado democrático de direito: Xandão é o Brasil; donde será ataque ao País apontar que a condição do juiz, ao mesmo tempo vítima, suscitaria “dúvidas sobre a imparcialidade, sob o aspecto objetivo, do tribunal que proferiu a condenação”.

Moraes não é somente vítima e juiz. É vítima, investigador, acusador e julgador. Às vezes, carcereiro. Os inquéritos xandônicos, infinitos e onipresentes, têm o objeto que ele quiser. Até o caso Master lhe chegou, como magistrado. Como amigo de uísque e de charuto, em Brasília ou Londres, Vorcaro lhe chegara havia tempo. (Em março de 2025, o banqueiro escreveu à noiva: “Acabou chegando hugo e ciro aqui para falarem com alexandre”.) Moraes não é somente vítima, investigador, acusador e julgador. É suspeito. E deveria ser investigado.

Lembre-se de Eduardo Tagliaferro, escolhido por Moraes para lhe compor a equipe no Tribunal Superior Eleitoral, e das denúncias que fez: o gabinete do ministro no STF encomendaria – informalmente – relatórios ao TSE que, disparados como de geração autônoma, substanciariam-esquentariam as medidas que já decidira tomar. Moraes, nem sempre vítima, não é somente investigador, acusador e julgador. É juiz sob suspeição; que deveria ser investigado. Investigado apenas o vazador Tagliaferro. Jamais o conteúdo vazado. Investigado o vazador, que nunca teve foro no STF, corrompido o princípio do juiz natural.

A questão não é Zambelli. É se Moraes poderia julgá-la, condenada por invasão do sistema do CNJ para emitir ordem falsa de prisão contra ele. A Corte de Cassação italiana não entrou no mérito do crime pelo qual a ex-deputada foi punida. Não a absolveu. Tratou do “aspecto objetivo” – o envolvimento do ministro no caso – em função do qual o estado de direito estaria em xeque, dado que a qualquer criminoso devem ser asseguradas as garantias processuais que o Direito Xandônico suprimiu.

A questão é a parcialidade de Moraes. É a subordinação do Supremo ao código de Moraes; a contaminação dos processos – do Supremo – pela prática de Moraes. Porque, virando a maré política cedo ou tarde, os vícios que reabilitaram os corruptos serão os mesmos que reabilitarão os golpistas.

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O DILEMA DOS INDEPENDENTES

Merval Pereira, O Globo

O único candidato de direita que ousa criticar o filho de Bolsonaro é Renan Santos, do Missão

A não ser que a propaganda eleitoral no rádio e na televisão provoque uma mudança substancial na campanha à Presidência da República — capaz de desmontar a desejada, pelos próprios, disputa entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro —, o segundo turno será definido pela união dos candidatos de direita em torno deste último, ou pela capacidade de Lula de alcançar os eleitores centristas independentes. As duas hipóteses são duvidosas, pois Lula parece disposto a radicalizar na campanha, para marcar sua história política, e a união da direita ainda não é uma certeza.

O único candidato de direita que ousa criticar o filho de Bolsonaro é Renan Santos, do Missão, que vem surpreendendo pela atração dos eleitores jovens, mas não parece com fôlego para chegar ao segundo turno. Seus eleitores depois serão os de Flávio. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado é o único candidato da direita que tem condições de atrair os eleitores bolsonaristas num eventual segundo turno, por isso mesmo tem feito uma campanha apática, sem proporcionar aos que não querem nenhum dos dois uma expectativa de vitória.

Nenhum dos candidatos, na verdade, apresentou até agora um programa de governo que justifique a mobilização de eleitores. Todos parecem aguardar a delação do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, ou de outro preso qualquer, para se posicionar. Estudiosos do comportamento eleitoral dos evangélicos veem Flávio sem tração nesse setor importante do eleitorado, que alavancou a candidatura de seu pai e que rejeita, na maioria, o petismo. Mesmo assim, parte deles já acena a Lula, motivada pelas benfeitorias realizadas pelo governo neste último ano — cavando a crise financeira que o próximo governo receberá como “herança maldita”. No caso de Lula, é um “abismo cavado” com os próprios pés.

Os independentes fazem agora cálculos delicados para decidir em quem votar. Há os que não queiram dar um quarto mandato a Lula e podem votar em Flávio por isso. Há os que consideram melhor votar em Lula porque seria seu último mandato, e o PT não tem substituto para continuar governando. Ou até os que jogam com a possibilidade de o vice-presidente Geraldo Alckmim assumir o governo em caso de alguma crise.

O mesmo raciocínio vale para Flávio. Há os que preferem votar em Lula para impedir a volta do clã ao poder. Também há quem tema que, no governo, o pai Jair e o irmão Eduardo tenham papel relevante, escancarando que Flávio não é “o Bolsonaro que tomou vacina”, mas o único que sobrou para representar a família. A tentativa de golpe por que o patriarca foi condenado é talvez a maior razão para que os independentes abandonem Flávio. Além do mais, há o temor justificado de que ele levará ao Palácio do Planalto toda a confusão que implica ser o herdeiro de um bolsonarismo que vive de crises, especialmente as familiares —Eduardo e o pai subindo a rampa com ele.

Confusão que continua em vigor, pois a madrasta Michelle exige desculpas públicas dos enteados para entrar na campanha de Flávio. Além disso, as pesquisas mostram que, entre os bolsonaristas, a maioria acha que Michelle deveria ser a candidata, especialmente entre os evangélicos. A crise na campanha de Flávio é tamanha que, agora, a grande esperança é que surja algum fato novo afetando diretamente Lula — no caso, por meio do filho Lulinha — ou o PT — pela delação premiada de Vorcaro ou de seus parentes e amigos envolvidos nas fraudes. Essa esperança mostra como deverá ser baixo o nível da campanha, que será curta, pouco mais de dois meses depois do fim da Copa do Mundo. Até a camisa amarela da seleção de futebol é disputada pelos dois lados, como se não tivéssemos coisas mais importantes do que como Ancelotti escalará o time ou se Neymar terá condições de jogar.

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

BOLETIM MÉDICO

Do g1 MT

Cacique Raoni é internado na UTI com infecção grave em MT

Hospital informou que o estado de saúde do líder é considerado grave e requer acompanhamento ininterrupto da equipe multiprofissional.

O líder indígena Raoni Metuktire, de 94 anos, foi internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, a 503 km de Cuiabá. A informação foi divulgada pela unidade de saúde na manhã desta segunda-feira (15).

Segundo o boletim médico, Raoni deu entrada no hospital às 17h de domingo (14), após ser transferido de avião da região de Peixoto de Azevedo, onde reside. De acordo com familiares, o cacique começou a apresentar problemas de saúde na manhã de sábado (13) e, no domingo, o quadro se agravou.

Ao chegar ao hospital, os exames iniciais apontaram alterações na função renal e indicadores compatíveis com um processo infeccioso grave. A principal hipótese diagnóstica é de sepse com foco pulmonar, causada por uma pneumonia broncoaspirativa associada a episódios de vômito.

Raoni permanece internado na UTI sob monitoramento contínuo, recebendo hidratação venosa, antibióticos de amplo espectro e suporte intensivo.

O hospital informou que o estado de saúde do líder indígena é considerado grave e requer acompanhamento ininterrupto da equipe multiprofissional.

Histórico de internações

Em maio deste ano, Raoni foi internado no mesmo hospital após sentir fortes dores na barriga devido à uma hernia antiga, mas recebeu alta médica após dois dias de tratamento. Cinco dias depois, Raoni voltou a apresentar complicações de saúde e foi novamente para a UTI para tratar um quadro de pneumonia, onde permaneceu por mais sete dias.

Segundo a unidade de saúde, o líder indígena apresentava múltiplas comorbidades, entre elas Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), cardiopatia com marcapasso implantado e insuficiência cardíaca.

Em setembro de 2022, ele chegou a ficar internado por cinco dias no hospital de Sinop, após ser diagnosticado com um problema cardíaco e passar por cirurgia para implante de marcapasso. Depois, passou alguns dias no município de Colíder até voltar para a aldeia.

Além disso, em julho de 2020, o cacique foi internado em um hospital de Colíder após ter passado mal. Ele chegou a ser transferido de avião para Sinop com complicações gastrointestinais e desidratação.

Em setembro do mesmo ano, foi novamente internado com diagnóstico de pneumonia pela equipe médica de sua aldeia, no Parque Indígena do Xingu. À época, recebeu alta médica nove dias depois. Ainda neste período, também apresentou um quadro depressivo após a morte da mulher dele, Bekwyjkà Metuktire.

Os feitos de Raoni

O líder indígena é uma das vozes mais influentes do Brasil na defesa dos indígenas e do meio ambiente. Ele iniciou seu ativismo em 1954, aprendeu português, e foi uma voz importante para o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas na Constituição de 1988.

Veja a trajetória de Raoni:

🎬Raoni ganhou destaque internacional em 1977, quando um documentário sobre sua vida foi exibido no Festival de Cannes, na França;

🎸Em 1989, visitou 17 países durante uma turnê internacional ao lado do ex-baixista Sting da banda inglesa The Police;

🏰Em 2012, foi recebido pelo então presidente da França, François Hollande, no Palácio do Eliseu. Na ocasião, pediu pela preservação da Amazônia e dos povos que vivem na região;

📃Em 2020, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). O título é concedido a pessoas que possuem destaque na sua área de atuação ou que sejam personalidades respeitadas pelo trabalho com a sociedade;

🌳Em 2023, acompanhou o presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) ao subir a rampa do Palácio do Planalto;

Em 2024, entregou uma carta ao Papa Francisco, durante um encontro no Vaticano, em Roma, para falar sobre as mudanças e catástrofes climáticas;

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APOIO À CANDIDATURA DE FLÁVIO BOLSONARO JÁ SAI CARO A SEUS MANTENEDORES

Miguel de Almeida, O Globo

E se o filho de Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? E se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0?

E se Flávio Bolsonaro acabar derrotado? E se o filho do Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? Existem outras perguntas: e se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0? Terá autoridade para evitar que seu irmão, Eduardo, venda o Brasil aos americanos? Afinal, o negócio está claro: Trump ajuda Flávio na eleição e então cobra o preço. Depois do Pix (olha o Zelle aí...) e das terras-raras, devidamente elencadas, poderia ser a Amazônia. Ou a Petrobras.

O apoio à candidatura de Flávio já sai caro a seus mantenedores. Medidas como os tarifaços 1 e 2 e a classificação das agremiações criminosas PCC e CV como terroristas causam prejuízos financeiros às empresas. A começar pela turma do agro, que deve se perguntar: até quando a ojeriza a Lula compensa a sangria provocada pelos Bolsonaros? Entra na mesa a fatura posta pelo patriarca de Rio das Ostras ao escolher o filho e não o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele joga com os seus, não para seu grupo político.

Daí que o ungido traz defeitos de origem. Não tem ajudado. Sua imagem não tem a nitidez do pai, radical assumido, misógino e ignorante em matemática. Esperto ao menos: com vários casamentos no currículo, conseguiu arrebanhar os pastores evangélicos que, em troca, ganharam várias isenções fiscais. Ficou claro que preferem ter seu paraíso em vida e não depois da morte. Bolsonaro, ao contrário do filho, se mostrou autêntico: fez da escalada de horrores sua plataforma política — vide as saudações sinceras à bandidagem.

O filho, não. Age com a espontaneidade do caixa eletrônico. Diante da revelação de sua ligação com Vorcaro, de imediato tratou de negá-la. Para abraçá-la pouco depois. Melhor fez Valdemar Costa Neto ao admitir que o jovem Bolsonaro foi buscar a parte final do dinheiro ao visitar Vorcaro já em prisão domiciliar. É nessa admissão que a direita deixa seu jogo mais claro. O custo de face dos Bolsonaros mostra-se oneroso. São muitos imóveis comprados em pagamentos em espécie, variadas rachadinhas, muitas condecorações a milicianos e infinitos rastros para manter um sangue do meu sangue no exterior.

Valdemar, com a direita, faz cálculos. Até o momento, não está enroscado com as mesadas do Master. Ciro Nogueira, presidente do PP, está mais perto da Papuda que da doce Courchevel; Antonio Rueda, comandante do União Brasil, também tem o que temer. Valdemar sorri.

O cálculo: a derrota de Flávio soa melhor que uma hipotética vitória. Com a vitória, viriam corpos e fantasmas no armário bolsonarista — e a fatura americana. E o PT, Valdemar, que já foi seu aliado, sabe administrar melhor na oposição. O naufrágio do jovem senador significaria a transformação do capital político da família em somente uma franja na extrema direita. Portanto sem força para fazer biquinho e querer ditar os rumos da direita civilizada.

Quanto a Lula, friamente, será seu último mandato. Dentro de um governo premido pela urgência de um ajuste fiscal, atolado num déficit precificado em altos juros e na necessidade desagradável de realizar um novo aperto na Previdência. Como as tendências do PT se comportarão quando o aumento de aposentadorias e do salário mínimo ocorrer apenas pelo índice inflacionário?

Em 2030, Lula irá para casa, enquanto seus correligionários continuarão atrás de votos. Será um deus nos acuda, em que a direita espera ver o Lula 4 emparedado para executar reformas que evita encarar desde seu primeiro mandato, em 2003. É uma tese.

A disparada nos juros futuros exibe a desconfiança matemática sobre a próxima administração petista. Valdemar e a turma da Faria Lima observam o dado cru: pela primeira vez na História, o país ultrapassa a marca de R$ 1 trilhão em juros nominais num período de 12 meses. Em miúdos, no primeiro quadrimestre de 2026, são R$ 351,5 bilhões, ou perto de R$ 3 bilhões por dia. Dados do BC.

Sou paulistano e conheço políticos como Valdemar, que preferia Michelle, e não o filho de Jair. Ele sabe que a eleição de 2030 será a primeira sem Lula no tabuleiro. Depois de um governo difícil, a direita aposta num horizonte com um PT desmilinguido e o bolsonarismo atolado em processos criminais. Caso haja dúvidas, observe o entusiasmo de Tarcísio ao apoiar o Flávio. Não chamo aquilo de amor.

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O DEBATE SOBRE REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL PRECISA SER MAIS PROFUNDO

Irapuã Santana, O Globo

Falando apenas na redução da maioridade penal, o adolescente passa a ter possibilidade de ser punido de modo até mais brando

Na última semana, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Com isso, esse debate apareceu novamente. As próximas eleições explorarão o medo, e ninguém quer que quem cometeu crimes permaneça impune. Mas o que a realidade nos diz a respeito?

Dados do Ipea revelam que quase 13% dos menores internados cometeram crimes gravíssimos contra a vida (8,75% dos homicídios). O sistema socioeducativo lida, portanto, com uma parcela de jovens altamente violentos, e a sociedade tem razão em exigir punição severa e proporcional para eles. Observando o quadro geral, porém, essa parcela corresponde a menos de 1% dos assassinatos que ocorrem no país.

Já é possível ver que o problema é mais profundo do que parece. Daí vem outra questão: será a medida de redução inconstitucional? A resposta é negativa, porque, embora a Constituição preveja proteção integral ao menor de idade, a definição de quem é essa pessoa, obviamente, pode mudar ao longo do tempo.

Outro argumento questiona se diminuir a maioridade penal, por si só, reduz a criminalidade. A resposta é novamente negativa. Ocorre que esse não deveria ser o ponto, porque, estatisticamente, todo intervalo curto de idade terá influência pequena no todo. Além disso, por mais que pareça irrelevante em relação à totalidade, uma vida ceifada não pode ser desprezada. Por esse motivo é preciso ter resposta institucional adequada aos delitos.

Hoje, depois de cometer uma infração, o menor tem como pena máxima três anos de acolhimento institucional, sem direito à progressão de regime. Em contrapartida, um adulto que comete um homicídio simples pode sair da cadeia depois de cumprir apenas um ano e meio de reclusão, porque poderá passar ao regime semiaberto ou aberto. Falando apenas na redução da maioridade penal, o adolescente passaria a ter possibilidade de ser punido de modo até mais brando.

Daí a importância de compreender exatamente o que está em jogo. Não é o crime ou o adolescente, mas seu medo, porque, caso a preocupação fosse realmente com a violência, o foco seria, antes de tudo, buscar mecanismos de aprimoramento das resoluções dos casos que chegam até a polícia. Como apontado pelo Instituto Sou da Paz, apenas 36% dos homicídios dolosos são solucionados. A título de comparação, a taxa de resolução na Europa é de 92%, e na África de 52%.

Portanto, o caminho concreto que devemos seguir vem do resultado do recrudescimento da penalidade, somado ao aumento da eficiência da Justiça Penal brasileira, visto que, numa análise de probabilidade, ainda é vantajoso pensar em cometer crimes no Brasil, porque as chances de ser preso são pequenas, e o tempo de punição está longe de ser razoável.

O debate precisa ser mais profundo para acabarmos com a sensação de insegurança e impunidade que atinge todos nós.

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PT CONSOLIDA ESTRATÉGIA PARA OS ESTADOS

Sofia Aguiar, Valor Econômico

Impasse continua em Roraima, Tocantins, Goiás e Minas, principal foco de preocupação da sigla

A pouco meses do primeiro turno das eleições de 2026, o PT já consolidou grande parte de sua estratégia nacional para a disputa dos governos estaduais, mas ainda enfrenta impasses em quatro unidades da federação. Entre elas, Minas Gerais desponta como um dos principais focos de preocupação da legenda. Segundo maior colégio eleitoral do país, o Estado é considerado peça-chave para o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na montagem de suas alianças regionais, o PT priorizou nomes próprios e já definiu dez pré-candidatos da legenda aos governos estaduais. A estratégia busca ampliar a presença da sigla nos Estados e fortalecer o palanque presidencial de Lula. Apesar disso, os cenários de Minas Gerais, Roraima, Tocantins e Goiás seguem indefinidos.

O caso mineiro é o mais complicado e considerado crucial. Durante meses, Lula trabalhou para convencer o senador Rodrigo Pacheco (PSB) a disputar o governo do Estado. Após meses negociando para lançar o parlamentar, Pacheco decidiu não disputar a anunciou a sua desistência de concorrer ao cargo.

A renúncia abriu uma espécie de crise interna no PT. Nos bastidores, aliados petistas admitem que o presidente deu “tempo demais” para Pacheco, e que já deveria ter se pensado em um “plano B” para o pleito, caso ele não concorresse. No entanto, duas semanas depois do anúncio do ex-presidente do Senado, o cenário do nome da esquerda em Minas continua uma incógnita e, até agora, Lula não despachou uma solução para o assunto.

Desde então, lideranças petistas passaram a discutir alternativas com o presidente nacional da legenda, Edinho Silva. As opções na mesa, neste momento, estão entre lançar um nome próprio ao Estado, apoiar uma eventual indicação do PSB ou construir aliança com um outro partido.

Para dar um “norte” a essa decisão a ser tomada, o diretório estadual do PT realizou uma consulta interna junto aos filiados. O resultado apontou menor apoio à hipótese de candidatura própria. O levantamento ainda não foi submetido à direção nacional, mas deverá ser discutido nos próximos dias com Edinho.

Embora o PSB fosse o partido de Pacheco, integrantes do PT rejeitam a ideia de que a aliança esteja automaticamente consolidada. Dentre os nomes cotados pela legenda do vice-presidente Geraldo Alckmin para disputar o governo estão o ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais Jarbas Soares Júnior e o ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) Josué Gomes da Silva. No entanto, no partido de Lula, ambos os nomes não são vistos como viáveis no atual cenário político mineiro.

Paralelamente, setores do PT passaram a defender uma composição com uma terceira sigla. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), pré-candidata ao Senado, se reuniu com Edinho há cerca de duas semanas e defendeu a ele a construção de uma aliança entre PT e PSB com o MDB em torno da candidatura de Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte. A ideia defendida por ela é fazer uma “frente de centro” na disputa estadual.

A proposta foi discutida no início do mês em reunião entre Edinho, o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, e Gabriel Azevedo. Segundo interlocutores, o encontro foi considerado positivo, mas sem qualquer definição sobre eventual apoio.

No PT, a avaliação é que Gabriel Azevedo tem potencial de ampliar o alcance eleitoral de Lula em Minas, sobretudo caso consiga reunir apoios partidários relevantes. Integrantes da legenda também acreditam que uma eventual entrada mais direta de Lula na campanha pode impulsionar sua competitividade.

Para acomodar o PSB em uma eventual composição, Marília Campos também sugeriu reservar à legenda a segunda vaga na chapa ao Senado. Procurado, o PSB disse que há quadros relevantes para disputar o governo de Minas Gerais, mas que a prioridade do partido é reeleger Lula à Presidência. “O partido estará sempre aberto para montar a melhor composição”, afirmou.

Outro Estado que ainda depende de definição é Roraima. Isso porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que haverá por lá uma eleição direta para a escolha do governador para um mandato-tampão. O pleito suplementar ocorrerá por conta da vacância no cargo, em razão da cassação do atual governador, Edilson Damião (União), vice que assumiu o posto após a renúncia do titular, Antonio Denarium, filiado ao Republicanos.

Para a disputa do mandato-tampão, o PT lançou a candidatura de Nelita Frank. Por conta disso, o partido pretende aguardar o resultado do pleito suplementar para definir sua estratégia para as eleições gerais de outubro de 2026, avaliando as alianças que serão construídas no novo governo estadual a ser formado nas próximas semanas. A eleição está marcada para 21 de junho.

Por fim, Tocantins e Goiás compartilham cenários semelhantes: ambos os diretórios já indicaram nomes para a disputa, mas ainda aguardam o aval da direção nacional. Em Tocantins, cresce a tendência de apoio ao vice-governador Laurez Moreira (PSD), embora o partido também mantenha diálogo com a ex-senadora Kátia Abreu. Já em Goiás, a indicação preliminar recaiu sobre o ex-deputado estadual Luis Cesar Bueno, mas a decisão ainda precisa ser ratificada pela executiva nacional.

Apesar das indefinições pontuais, o mapa eleitoral do PT para 2026 já está majoritariamente desenhado. Dos 23 Estados definidos, dez serão de candidaturas próprias da legenda. Os partidos que receberão apoios da legenda de Lula são o PSD (4), PSB (3), MDB (2), PDT (2), PP (1) e União Brasil (1).

Mesmo nos casos em que já há definição de alianças, ainda não está claro qual será o grau de envolvimento de Lula nas disputas estaduais. A tendência, neste momento, é que o presidente participe ativamente da campanha dos candidatos considerados prioritários, gravando materiais de propaganda e dividindo o palanque durante o período eleitoral.

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ACORDO DÁ ALÍVIO IMEDIATO, MAS ESTÁ LONGE DE RESOLVER O PROBLEMA NUCELAR IRANIANO

Humberto Saccomandi, Valor Econômico

Os termos do acordo parecem atender as principais demandas de Teerã, como o fim do bloqueio americano

Estados Unidos e Irã parecem ter finalmente chegado a um acordo preliminar de cessar-fogo. É uma excelente notícia para o mundo, pois deve atenuar a pressão sobre o preço do petróleo, o que já começou. Faltam, porém, detalhes importantes sobre o que foi acordado. E muita coisa ainda pode dar errado até a próxima sexta-feira, data prevista para assinatura do pacto. Além disso, nada garante que a questão central, o futuro do programa nuclear do Irã, será resolvida nos próximos 60 dias. Ou seja, há o risco de o confronto ser retomado em breve.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o estreito de Ormuz, por onde passam 20% do gás e do petróleo consumido no planeta, será reaberto a partir de sexta-feira, sem cobrança de pedágio. Isso fez a cotação do petróleo tipo Brent cair para cerca de US$ 83 na abertura do pregão eletrônico na Ásia, o menor valor desde o início de março. Mas ainda bem acima dos cerca de US$ 60 do começo do ano.

O acordo parece contemplar as principais demandas de Teerã, como o fim do bloqueio e das sanções americanas à venda de petróleo iraniano, a liberação de US$ 25 bilhões em ativos iranianos congelados, o adiamento da discussão sobre o seu programa nuclear e talvez até a criação de um fundo para reconstruir infraestrutura destruída na guerra.

Ainda assim, o regime iraniano terá de lidar com um país muito danificado e uma economia abalada pelo conflito. A guerra abafou o dissenso interno, mas ele pode ressurgir rapidamente, numa sociedade empobrecida.

Para Trump, o acordo traz benefícios, mas também riscos. A menos de cinco meses das eleições para o Congresso, ele deverá reduzir o preço dos combustíveis nos EUA, o que é importante, especialmente às vésperas da temporada de férias e do início do verão, quando o consumo aumenta. Mas o preço dificilmente voltará logo ao patamar de antes da guerra. E a inflação deverá continuar subindo nos próximos meses, devido ao efeito de repasse de preços ainda em andamento.

O presidente terá também de explicar ao público americano por que quebrou sua promessa de não iniciar novas guerras e gastou centenas de bilhões de dólares (projeção de custo de longo prazo) no ataque ao Irã sem atingir o objetivo inicial, que era acabar com a ameaça do programa nuclear iraniano.

Trump afirmou que retomará os ataques se um acordo nuclear não for negociado em 60 dias. Mas ele já recuou de ameaças e estendeu prazos antes. Isso pode ocorrer novamente, e os americanos talvez não tenham um acordo final até as eleições de novembro. Teerã não dá nenhum sinal de que vai abdicar de seu programa nuclear. Pelo contrário. Na ótica iraniana, ele certamente é mais importante hoje do que antes da guerra.

Já houve expectativas frustradas de acordo antes. E muita coisa pode dar errada até sexta-feira. Há detalhes que ainda precisam ser negociados. E há a questão de Israel e o Líbano.

Tanto o Irã como os EUA confirmaram que o acordo estende o cessar-fogo ao Líbano. Israel, porém, afirmou que não faz parte desse acordo. Ou seja, deixou aberta a porta para continuar atacando o grupo Hezbollah (apoiado pelo Irã) em território libanês. Ontem mesmo houve um ataque a Beirute, o que fez Trump criticar publicamente, em termos duros, o premiê Benjamin Netanyahu.

Israel sai do conflito sem ter atingido o objetivo estratégico de acabar com a ameaça nuclear iraniana. E sem a garantia de que isso ocorrerá nas negociações nos próximos meses. O Irã poderá agora se rearmar e rearmar o Hezbollah. E Netanyahu pode estar se indisposto com um dos poucos aliados que lhe restaram nos EUA. Ele ficará marcado por ter convencido Trump a entrar numa guerra que poderá custar aos republicanos a maioria no Congresso americano nas eleições de novembro. E por insistir na guerra, mesmo quando o presidente americano estava disposto a encerrá-la.

E se não houver acordo definitivo em 60 dias? Teerã parece apostar que Trump, que hesitou em continuar a guerra agora, estará ainda menos disposto a retomar o conflito na reta final da campanha eleitoral americana. E, se os republicanos perderem a maioria no Congresso, Trump terá de pedir autorização aos congressistas para reiniciar a guerra. Há uma chance grande de o regime iraniano conseguir enrolar e protelar essa negociação, o que possivelmente é o seu objetivo desde o início.

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UM GOLPE À REPUTAÇÃO DOS EUA

Oliver Stuenkel, O Estado de S. Paulo

O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas o compromisso de continuar negociando

Há mais de cem dias, a maior potência do mundo entrou em guerra contra o Irã para eliminar o programa nuclear iraniano, destruir suas capacidades militares e derrubar o regime. Nenhum desses objetivos foi atingido. Pelo contrário: não há sinais de que o Irã tenha interrompido seu programa nuclear; suas forças seguem atacando os vizinhos e o regime, antes fragilizado, passou por uma renovação e radicalização.

Quem parece acuado não é Teerã, mas Washington. Ontem, em seu aniversário de 80 anos, Donald Trump anunciou que o acordo estava concluído, autorizou a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio aos portos iranianos. O entendimento, mediado por Paquistão e Catar, prevê a assinatura na Suíça e estende por 60 dias o cessar-fogo.

Mas o anúncio, mais do que encerrar a crise, expõe a posição em que os EUA se enfiaram: uma superpotência que ditou ultimatos, mas dependeu de mediadores para amarrar um texto cujos termos centrais ficaram adiados para uma negociação que apenas começa.

Tudo isso é notável por dois motivos. Primeiro: os EUA haviam negociado um acordo nuclear com o Irã em 2015 (sob Obama), antes de Trump rasgá-lo em 2018. Segundo: a guerra impôs um custo. Como escreveu Robin Wright na revista

The New Yorker: “A guerra custou US$ 28 bilhões, a vida de 13 americanos e de milhares de iranianos, o fechamento de Ormuz, a interrupção do fornecimento global de energia, uma crise econômica que atingiu centenas de milhões no mundo e um dano possivelmente irreversível à reputação dos EUA.”

QUEDA. Além de perceber que está com influência limitada sobre Teerã, Trump enfrenta dificuldades de controlar Israel e Hezbollah, atores-chave no conflito. Ontem, um ataque israelense a Beirute quase descarrilou o acordo e obrigou Trump a declarar que o ataque “não deveria ter acontecido”.

Que o entendimento tenha sobrevivido a esse episódio não apaga o fato de que TelAviv demonstrou, mais uma vez, poder de veto informal sobre qualquer diálogo entre EUA e Irã.

Internamente, a guerra deu força aos radicais da Guarda Revolucionária, que não temem continuar ou até intensificar o conflito que os levou ao centro do poder. O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas, segundo a revista The Economist, um compromisso de continuar negociando: a trègua estendida de 60 dias, a reabertura gradual do estreito, à medida que o Irã remove as minas, princípios gerais sobre o programa nuclear e um alívio de sanções condicionado e faseado, com os detalhes adiados.

Foi Trump quem mais recuou. Por exemplo, a entrega do urânio enriquecido, antes inegociável, deu lugar à aceitação de que o Irã dilua o material e fique com ele. O resultado mais relevante, porém, não envolve o Irã, mas os aliados dos EUA no Golfo, que absorveram danos de uma guerra que não pediram e se deram conta de que ter uma base americana não os protegeu. Pelo contrário, tornou-os alvos do Irã.

Ao perceber que os EUA não estavam dispostos a protegêlo, o Catar tentou negociar um acordo com o Irã, oferecendo suspender a produção de gás em troca do compromisso iraniano de não atacar suas principais instalações de energia.

RISCO. Daí decorre a lição para empresas e investidores: o petróleo disparou com a destruição da oferta e depois recuou diante da expectativa de acordo, num vaivém que não foi episódio isolado, mas sintoma de um novo regime de risco – a volatilidade veio para ficar. Contratos futuros, seguros e reservas amortecem choques, mas não substituem o fluxo físico. Prêmios de seguro e fretes, enquanto isso, viraram custo permanente.

Há, contudo, um beneficiário da instabilidade: ao tornar imprevisíveis os preços do petróleo, a guerra acelerou a corrida por energia limpa, e países castigados pela escassez passaram a enxergar painéis solares, baterias e veículos elétricos chineses como rota de fuga.

Para Trump, sobra um caminho amargo: oferecer concessões para destravar um estreito cuja travessia, antes da guerra, ninguém precisava negociar, enquanto a questão nuclear fica para depois. Para o mundo, a herança é mais duradoura. Qualquer que seja o desenho final do cessar-fogo, o risco geopolítico elevado da energia virou um custo fixo.

*Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de relações internacionais da FGV-SP

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