domingo, 3 de maio de 2026

A RENDIÇÃO DO SENADO

Míriam Leitão, O Globo

A imagem é eloquente. Olhos fechados, o senador Davi Alcolumbre, sentado na cadeira da presidência do Congresso, deita o rosto no peito do senador Flávio Bolsonaro e por ele é abraçado carinhosamente. A imagem foi escolha unânime para ilustrar os jornais de sexta e é uma dessas maravilhas de síntese que o fotojornalismo produz. Ela explica a semana. Nos dias que se seguiram ao 8 de janeiro de 2023 as fotos mostraram que aquele mesmo Congresso fora alvo da violência política dos que queriam o golpe. Contra quem? Contra todos os eleitos. Um manifestante pichou no vidro quebrado do Salão Negro do Congresso: “Destituição dos Poderes”. Foi isso que o pai do senador que afagava Davi Alcolumbre estimulou no país.

Durante a quinta-feira o bolsonarismo produziu cenas de euforia puxadas por Flávio Bolsonaro, como fizera na véspera. No plenário, parlamentares cantaram, gritaram, fizeram coros de campanha eleitoral como se aquilo fosse um palanque e não a sede do Poder Legislativo. Bolsonaristas tinham razão de estar felizes. A presidência do Senado rendera-se totalmente ao projeto que acabou vitorioso no meio da quinta-feira, quando o Congresso disse que os que atentam contra a democracia brasileira devem ter penas menores e sair mais rapidamente da prisão. E que podem esperar mais benesses no futuro porque o país, que nunca antes havia punido golpistas, pode voltar ao leito natural e perdoá-los.

Isso é mais grave do que foi dito. Não era a segunda derrota do presidente Lula na semana. Era a derrota do país e do seu pacto civilizatório que passa necessariamente pelo fortalecimento da democracia. A única conclusão possível, diante desse desfecho é que o sistema democrático permanece sob ataque no Brasil.

Derrota de Lula foi a rejeição do nome de Jorge Messias para ministro do Supremo. O fato mostra que o presidente poderia ter feito melhor escolha e prova que os articuladores do governo no Senado não souberam prever aquele desfecho e isso é falha elementar. Veteranos na política não podem cometer tal erro. A fala de Alcolumbre ao ouvido do líder do governo no Senado, Jaques Wagner, é elucidativa. O “vai perder por oito” significava que Davi sabia o que se passava no Senado e Jaques, não.

Lula tem agora nova chance. Pode escolher melhor seu indicado. Deveria ser uma indicada. Sim, uma mulher. Preferencialmente uma mulher negra. Existem muitas pessoas que atendem ao requisito principal, o do notório saber jurídico. Se o que a oposição alega é que Messias tem excessiva proximidade com o presidente, esse perfil deve ser afastado.

Lula precisa ouvir o Lula que escolheu a ministra Cármen Lúcia em 2006. Tanto ela, quanto Rosa Weber, indicada por Dilma Rousseff, não foram escolhidas por lealdade ao governante e se tornaram emblemáticas. Cármen deu ao país, entre outros, o voto “cala a boca já morreu”, Rosa deixou como legado a resposta “democracia inabalada” que deu ao 8 de janeiro. Em três anos, Cármen atinge a idade limite e o Supremo volta a ser o túmulo da diversidade.

O presidente Lula tem que olhar para frente. Não deveria estar preocupado em descobrir possíveis traidores na sua base para a rejeição de Messias. Na campanha, Lula tem dois problemas graves e eles não são as derrotas que teve no Congresso. A avaliação do seu governo permanece com saldo negativo. Todo governante ao longo do ano eleitoral acaba melhorando a avaliação, até Jair Bolsonaro que perdeu a eleição. Só que começaram a melhorar antes. Estamos em maio e nada de Lula aumentar sua aprovação. O segundo problema é a guerra. Ela aumenta a inflação, eleva o preço dos combustíveis, pode provocar falta de insumos para a produção de alimentos, e detém o corte dos juros. A guerra deteriora o ambiente econômico, piora a qualidade de vida, e afeta o humor do eleitorado.

A semana trouxe mais um dado eloquente. O Brasil melhorou 58 pontos no ranking da liberdade de imprensa da ONG Repórteres sem Fronteira desde o fim do governo Bolsonaro. O que isso significa? Exatamente o que os dados mostram. A imprensa foi atacada, ameaçada, cerceada no governo passado. Os cercadinhos em que o então presidente gritava com os repórteres, as ofensas às mulheres jornalistas, a tentativa de sonegar dados na pandemia, que só foi neutralizada pelo consórcio da imprensa, foram fatos marcantes daquele projeto autoritário. Quando o autoritarismo vence, o jornalismo é a primeira vítima.

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PI, UMA AUTOBIOGRAFIA INFINITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Livro conta a fascinante história da constante ligada a círculos

Autores elucidam alguns dos mistérios associados a esse número

Confesso que comecei "Pi: uma autobiografia infinita", de Mahsa Allahbakhshi, Andrés Navas e Verena Rodríguez, com um pé atrás. É que a premissa do livro, Pi narrando em primeira pessoa a sua história, me pareceu um pouco pueril. Mas o leitor logo se habitua a essa estrutura e passa a deliciar-se com a torrente de informações matemáticas e históricas que se segue. Pi fascina humanos desde que eles juntaram seu gosto por formas circulares com a capacidade de contar.

O livro nos transporta por diferentes eras e civilizações. Quatro mil anos atrás, os babilônios já haviam aproximado Pi do valor de 3,125, pouca coisa menor que o 3,14159265358980 embutido nas modernas máquinas de calcular. No século 3 a.C., Arquimedes, valendo-se da diferença de área entre polígonos inscritos e circunscritos a um círculo, chegou a 22/7 (3,142857). É um método trabalhoso. O sábio grego teve de fazer um número exorbitante de contas sem o benefício dos algarismos arábicos e até de papel e lápis. Só tinha uma vareta para riscar a areia.

Os autores não se limitam à Antiguidade e nem a Pi. Eles discutem outros números interessantes, como a constante de Euler (e) e a razão áurea (Phi), além de descrever didaticamente as contribuições dos muitos matemáticos que foram ao longo dos séculos elucidando mistérios que cercam Pi.

O ponto alto, para mim, é quando eles exploram o caráter irracional e transcendente de Pi, nos lançando no universo dos infinitos realmente grandes. Simplificando, qualquer sequência imaginável de números está contida em Pi. Isso inclui a Bíblia, se transcrevermos cada uma de suas letras para o código ASCII. E não apenas a Bíblia, mas todos os livros já escritos, os por escrever e até mesmo os que jamais foram nem serão escritos. Isso não está no livro, mas essa intuição algo vertiginosa é a mesma que Nietzsche usou para postular a doutrina do eterno retorno. Se o tempo é verdadeiramente infinito, então tudo o que já aconteceu se repetirá infinitas vezes.

O infinito é grande.

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GIGANTE COME GIGANTE

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A Warner lançou Humphrey Bogart, Doris Daym, James Dean. Agora eles pertencem à Paramount

A um custo de US$ 111 bilhões, a Paramount ditará o que bilhões terão de pagar para assistir

Depois de meses de negociações, uma das marcas gigantes do show business aceitou ser engolida por outra —de histórico nem de longe comparável, mas mais hábil em controlar receitas e despesas. Ao se fundir com a Paramount, a Warner entregou sua dívida de US$ 30 bilhões, suas propriedades (CNN, TNT, HBO Max, Discovery Chanel) e tudo que a Warner Bros., fundada em 1920, representou para o cinema. A Paramount, um estúdio médio no apogeu de Hollywood se comparado à MGM e à própria Warner, já detinha forças consideráveis: a CBS, a MTV, a editora Simon & Schuster. Agora, a um custo total de US$ 111 bilhões, ditará o que bilhões de telespectadores terão de pagar para assistir.

Com isso, a Paramount se apodera também do patrimônio inestimável que a Warner Bros. deu ao século 20: o cinema sonoro, os filmes de gângsteres, os musicais de Busby Berkeley, uma superlinha de desenhos animados, os melhores capa-e-espada, os mais ásperos filmes de guerra, os filmes noir e muito mais. Foi a Warner que descobriu e lançou Humphrey Bogart, James Cagney, Bette Davis, Barbara Stanwyck, Errol Flynn, Lauren Bacall, Doris Day, Marlon Brando e James Dean.

Da Warner saíram "O Inimigo Público" (1931), "Rua 42" (1933), "Capitão Blood" (1935), "Jezebel" (1938), "Relíquia Macabra" (1941), "Casablanca" (1942), "O Tesouro de Sierra Madre" (1948), "Fúria Sanguinária" (1949), "O Pirata Sangrento" (1950), "Uma Rua Chamada Pecado" (1951), "Assim Estava Escrito" (1952), "Sindicato de Ladrões" (1954), "Nasce uma Estrela" (1954), "Juventude Transviada" (1955), "Rastros de Ódio" (1956), "My Fair Lady" (1964). Entre uma e outra dessas obras-primas, seu catálogo de filmes "menores" nos fazia ir ao cinema pelo menos uma vez por semana o ano inteiro.

A Paramount também tem um belo passado, mas não pega nem aspirante. Foi dominada durante décadas pelo espírito bíblico-orgiástico de Cecil B. DeMille, um de seus fundadores.

Hoje, não faz mais diferença. A telinha de 3 polegadas do celular reduz tudo a pouco mais do que nada.

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SAUDADE ETERNA

Há exatos sete anos,  falecia em Fortaleza, o ex-vereador de Sobral (CE), José Inácio.

DNA político - Zé Inácio é neto do ex-prefeito de Sobral, Jerónimo Prado (fundador da Universidade Vale do Acaraú - UVA), filho do ex-prefeito, José Parente Prado (duas vezes prefeito de Sobral e três vezes deputado estadual) que faleceu em 26 maio de 1999 e irmão de Ricardo Prado (ex-deputado estadual) e Marco Prado, o Chocolate (ex-vereador de Sobral).

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URNAS ELETRÔNICAS: 30 ANOS EM PROL DA DEMOCRACIA

Carlos Mário da Silva Velloso*, Correio Braziliense

A urna eletrônica veio, sobretudo, para afastar as fraudes, para tornar mais seguras as eleições. Ela está engajada na revolução dos computadores

No dia 13 de maio, data em que as primeiras urnas eletrônicas foram enviadas aos Tribunais Regionais Eleitorais (TREs) — 13 de maio de 1996 —, a urna eletrônica completará 30 anos de sucesso, utilizadas pela primeira vez nas eleições de 1996, que foram presididas pelo ministro Marco Aurélio.

Um pouco de história não faz mal. 

No trabalho em que escrevi a respeito do tema — Urnas eletrônicas, um pouco de sua história, publicada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em Balanço das eleições, 2014 —, em prefácios que fiz e em entrevistas que concedi, contei como a urna foi idealizada e o ideal concretizado.

Tudo começou com uma conversa, num intervalo de partidas de tênis, no Clube Naval de Brasília, com o técnico em informática Paulo César Bhering Camarão. Empossado na presidência do TSE, em dezembro de 1994, submeti a matéria à apreciação do Tribunal, que decidiu pela informatização do voto. Nomeei, então, uma grande comissão, integrada por juristas, cientistas políticos, técnicos em informática, que a mídia denominou de Comissão de Notáveis. Dessa comissão, formamos cinco comissões temáticas, todas elas presididas por ministros do TSE — Reforma do Código Eleitoral, Reforma Partidária, Reforma do Sistema de Voto (voto proporcional, voto distrital), Financiamento das Campanhas Eleitorais e a Comissão de Informatização do Voto. Concluídos os trabalhos, foram eles remetidos aos presidentes da República, do Senado, da Câmara dos Deputados e do Supremo Tribunal Federal (STF).

Com base nas diretrizes elaboradas pela Comissão de Informática, um grupo de trabalho foi formado com técnicos do melhor nível para tornar realidade o protótipo da urna, sob a liderança de Paulo Camarão. O TSE e os TREs tinham e têm excelentes técnicos. Mas o TSE procurou apoiar-se também no que o Brasil tinha de melhor no campo do conhecimento tecnológico existente à época. Firmamos convênios com o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) e com o Instituto Tecnológico da Aeronáutica (ITA). Buscamos apoio em outros centros de conhecimento tecnológico, o Ministério de Ciência e Tecnologia, a Telebrás, órgãos técnicos estaduais. O então governador de Minas, Eduardo Azeredo, ele próprio um técnico em informática, colocou à nossa disposição o serviço de informática do estado. Os ministérios militares mandaram os seus técnicos. Paisanos e militares trabalharam em conjunto pelo Brasil.

Por que o TSE pensou em instituir a informatização do voto?

Em Urnas eletrônicas, um pouco de sua história, tudo isso é contado em pormenor. A preocupação maior era com as fraudes, que ocorriam principalmente na apuração dos votos neste país continental. Ocorreu em 1994, nas eleições no Rio de Janeiro, uma grande fraude eleitoral, o que levou o TRE do Rio a anular parte das eleições. Pensamos: se isso ocorreu no Rio de Janeiro, tambor do Brasil — o que ocorre no Rio ressoa em todo o país —, o que não estaria ocorrendo nos estados mais distantes. Algo teria que ser feito. Já tínhamos o cadastro eletrônico do eleitorado, o que se fez na presidência do ministro Néri da Silveira. Em 1994, o TSE, na presidência do ministro Sepúlveda Pertence, totalizou os votos. A solução seria a informatização do voto. Era, aliás, o que faltava. Mas tornava-se necessário criar um computador acessível aos analfabetos e semialfabetizados, ao povo em geral, e que fosse totalmente seguro, de custo baixo, e que os votos pudessem ser apurados num prazo razoável. A demora que ocorria na apuração dos votos pela mão humana era longa, com prejuízo para a economia e para o andamento dos serviços públicos e privados.

A urna eletrônica veio, sobretudo, para afastar as fraudes, para tornar mais seguras as eleições. Ela está engajada na revolução dos computadores. Tudo hoje é informatizado, bancos, comércio, sociedades empresárias, cartões de crédito, repartições públicas, tribunais, empresas aéreas, aeroportos. A urna eletrônica é auditável antes, durante e depois das eleições. Ela veio para ficar. Duas coisas, aliás, bem brasileiras, criadas sem alarde, têm despertado interesse internacional: a urna eletrônica e o Pix.

A urna eletrônica torna mais legítimas as eleições— assim, a democracia que praticamos. Ela é auditável, vale enfatizar, antes, durante e depois das eleições, fazendo mais legítima a democracia, que Winston Churchill, com a fleuma britânica que o caracterizava, proclamou que "é o pior dos regimes políticos, com exceção de todos os outros que foram praticados".

A urna eletrônica brasileira nos faz orgulhosos de ser brasileiro.

*Ministro aposentado, ex-presidente do Supremo Tribunal Federal (STF) e do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), professor emérito da UnB e da PUC/MG, advogado

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VALE TUDO PARA ABAFAR O ESCÂNDALO MASTER-BRB

Ana Dubeux, Correio Braziliense

A cinco meses das eleições, sabemos quem são, como agiram, como votaram e quem tem muito a temer com as revelações do caso Master

As mais recentes votações no Congresso, que culminaram com a não aprovação de Jorge Messias para ocupar a vaga aberta de ministro do Supremo Tribunal Federal e a derrubada do veto presidencial ao projeto que abranda as penas a golpistas e a outros criminosos, têm sido vistas como uma derrota fragorosa de Lula. E é. Mas não é apenas isso. É a pincelada final de um quadro fiel da política brasileira. A obra está pronta e exposta. A nós, cabe interpretá-la.

Devemos fazer isso não sob a luz dos holofotes, mas com aquela luz natural que entra pelas frestas. Ou seja, pouco importa o que dirão os políticos que misturam tintas para criar um simulacro da realidade. A luz verdadeira ilumina os fatos. E, ainda que sejam episódios distintos, que possibilitam leituras diversas, a verdade é uma só: os interesses pessoais dos artífices dessas votações prevaleceram. Integrantes do Judiciário e do Legislativo trabalharam em flagrante e desconfortável costura política para fortalecer um lado da história: o próprio.

Uma das clássicas fábulas de Esopo, A Assembleia dos Ratos, narra uma reunião de ratos que tentam encontrar uma solução para evitar o gato. Eles decidem, unanimemente, amarrar um guizo no pescoço do gato para ouvir sua aproximação. A proposta é excelente, mas ninguém se voluntaria para colocar o guizo. 

A política é uma fábula sem moral da história. Declarados inimigos são capazes de, juntos, colocarem o guizo no pescoço do inimigo. Muitas vezes, no entanto, só precisam estar atentos para ouvir o barulho com distância razoável para agir antes que esteja perto demais. O guizo do agora é o escândalo do Banco Master/BRB. O tilintar da investigação foi o alerta sonoro dos ratos. Impossível de ignorar e passível de qualquer união. Como diria Brizola, muitos "costearam o alambrado", bordão usado sempre que aliados flertavam com grupos adversários.

Do outro lado do alambrado, está o povo, traído no caso da cínica dosimetria. Ou o 8 de Janeiro não existiu? Não assistimos a uma tentativa de golpe grotesca no coração da República? Não ficou provada a ameaça à nossa democracia? Eles não se importam. Nós devemos nos importar.

Ao contrário dos mais fatalistas, consigo olhar o cenário e ver um quadro bonito, porque é relevador da verdade. A cinco meses das eleições, sabemos quem são, como agiram, como votaram e quem tem muito a temer com as revelações do caso Master/BRB. 

Ainda fabulando, lembro de O Leão, o Lobo e a Raposa, quando o leão finge estar doente para atrair outros animais e comê-los. O lobo cai na armadilha, mas a raposa, astuta, observa de longe e aprende com o erro do outro. O povo é a raposa. O eleitor estará vigilante, aprendendo, até a hora das urnas. Não subestimem o voto.

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O SENADO, AS DERROTAS DE LULA E O FANTASMA DA VELHA REPÚBLICA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A rejeição da indicação de um indicado de Lula ao Supremo não ocorria desde Floriano. A ideia de foi fruto de escolha errada e falta de capacidade de articulação não explica tudo

A crise do florianismo, que pôs fim à chamada República da Espada, e a consolidação da República Oligárquica ajudam a iluminar, por contraste histórico, o momento atual da política brasileira. A dificuldade do marechal Floriano Peixoto em exercer plenamente sua autoridade sobre o sistema político — inclusive no que diz respeito à nomeação de ministros do Supremo Tribunal Federal —, não foi um acidente institucional, mas o sintoma de uma correlação de forças em mutação, na qual as oligarquias agrárias emergiam como poder decisivo em relação aos militares e outros setores da sociedade.

Ao assumir a Presidência após a renúncia de Deodoro da Fonseca, Floriano governou sob estado de exceção permanente, enfrentando a Revolta da Armada e a Revolução Federalista. Sua liderança, de caráter militar e centralizador, apoiava-se mais na força do que na mediação política. Isso enfraqueceu sua capacidade de construir uma base civil duradoura. Nesse contexto, houve o bloqueio às suas indicações para o Supremo. A Constituição de 1891 previa a participação do Senado na aprovação dos ministros, mas o que se observou foi a crescente capacidade de veto das oligarquias regionais, sobretudo aquelas ligadas à economia cafeeira paulista e às elites agrárias de Minas Gerais e do Rio de Janeiro.

A elite agrária, organizada em torno de interesses econômicos e redes clientelistas, impôs limites concretos à autoridade presidencial. Ao não conseguir emplacar ministros no Supremo, Floriano viu-se constrangido à lógica da negociação oligárquica. A eleição de Prudente de Moraes consolidou essa mudança. Primeiro presidente civil, Prudente representava a vitória do pacto entre as oligarquias regionais, que estruturariam a chamada "política dos governadores" e o sistema de alternância entre São Paulo e Minas — a "política do café com leite".

A República deixava de ser um projeto militar e passara a ser um arranjo oligárquico, baseado no controle do voto, no mandonismo local e na captura das instituições. Os fundamentos da República Velha estavam assentados também na mediação do Congresso como espaço de barganha entre elites e a subordinação do Executivo a essas correlações de força. O presidente continuava formalmente poderoso, mas sua autoridade dependia da capacidade de articular interesses dispersos, o que Floriano não sabia fazer.

A crise de 1929 devastou a economia brasileira, baseada no café, ao derrubar os preços internacionais e as exportações para os Estados Unidos. Contribuiu para a Revolução de 1930, que pôs fim à República Velha. Com forte apoio militar, Getúlio Vargas, ex-ministro da Fazenda e governador do Rio do Grande do Sul, derrubou o governo Washinton Luiz e assumiu o poder.

Correlação de forças

A rejeição da indicação de um indicado do presidente da República ao Supremo não ocorria desde Floriano. A ideia de que é fruto de escolha errada e falta de capacidade de articulação até seria suficiente para explicar os 42 votos contrários, 34 favoráveis e uma abstenção em relação a Jorge Messias. Mas o que ocorreu vai além da insatisfação do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), que havia sugerido o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para cargo. Lula preferiria que fosse seu candidato a governador em Minas Gerais, porém, agora, não será nem uma coisa nem outra, até porque não quer.

Na sequência, a derrubada pelo Congresso, sob comando de Alcolumbre, dos vetos presidenciais ao projeto de lei que diminui as penas de pessoas condenadas pelos atos antidemocráticos de 8 de janeiro de 2023 e pela tentativa de golpe de Estado, como o ex-presidente Jair Bolsonaro, mostra que há algo mais profundo, assim como ocorreu com Floriano. Na Câmara dos Deputados, foram 318 votos contra o veto e 144 a favor, com cinco abstenções. No Senado, foram 49 votos pela rejeição do veto e 24 contra.

Qualquer nome que seja indicado por Lula antes das eleições, sem acordo com o Centrão, também será derrubado. Se insistir, o presidente passará pelas agruras de Floriano, que teve cinco indicados barrados pelos senadores: o médico Cândido Barata Ribeiro, os generais Ewerton Quadros e Demóstenes Lobo e os advogados Innocêncio Galvão de Queiroz e Antônio Sève Navarro. Guardadas as proporções históricas, as duas votações revelam uma mudança de correlação de forças políticas do país.

Qualquer iniciativa que não leve isso em conta estará fadada ao fracasso. O chamado "Centrão ampliado" cumpre, hoje, papel semelhante ao das oligarquias da Primeira República: não é uma força ideologicamente coesa, mas um bloco pragmático, orientado pela lógica da sobrevivência política e da maximização de recursos. Apoia o governo enquanto isso lhe for conveniente, mas não hesita em se alinhar à oposição quando a expectativa de poder se desloca. Esse deslocamento está em curso.

O Congresso se move não apenas em função do Palácio do Planalto, mas das eleições de 2026. Há, contudo, uma diferença importante. Na República Velha, o poder oligárquico se exercia de forma relativamente estável, baseado em estruturas sociais rígidas e no controle do voto. No Brasil atual, a dinâmica é mais fluida, mediada por pesquisas de opinião, redes sociais e ciclos eleitorais mais curtos, além de uma derrama de emendas parlamentares impositivas. Ainda assim, o padrão se repete: a captura do sistema político por interesses regionais organizados, em detrimento de projetos nacionais mais amplos.

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sábado, 2 de maio de 2026

ACORDO, ATRITO OU RUPTURA

Murillo de Aragão, Veja

As três alternativas para resolver a crise institucional

Na trajetória recente do Brasil, jamais uma indicação presidencial ao STF havia sido recusada pelo Senado. Tampouco havia precedente de ministros agindo abertamente contra uma indicação do chefe do Executivo para a Corte máxima. Tudo isso em meio a escândalos que abalam a República. O contexto aponta para uma nação mergulhada em uma profunda crise institucional — algo que, acredito, ninguém desconhece. Mas até onde isso vai chegar? Há saída para esse impasse? Ou o que se vê no fim do caminho é um obstáculo ainda maior? As crises costumam se resolver com grandes negociações e com a queda de quem estava no comando. Foi assim em 1930, com a revolução; em 1945, com a redemocratização; em 1964, com o golpe cívico-militar; em 1985, com a reabertura democrática; e nos dois processos de impeachment presidencial. Entre grandes acordos e viradas bruscas, o país navega de crise em crise.

A tendência, especialmente em ano eleitoral, é que a crise recaia sobre o principal responsável pelo cenário: o presidente da República, cada vez mais fragilizado, à frente de um governo desorganizado, dependente do STF para tomar decisões e do clientelismo para manter sustentação no Congresso. O ônus recai sobre quem conduz o espetáculo — e o espetáculo vai mal. Para os mais radicais, o terceiro governo Lula encerrou-se com a derrota no Senado. Pode ser que sim, pode ser que não. Para parte expressiva do eleitorado, esse revés pode ser decisivo nas eleições. Por outro lado, se quiser transformar a adversidade em oportunidade, Lula pode afirmar que se recusou a ceder a pressões indevidas em troca da aprovação de Jorge Messias. Uma parcela do eleitorado pode aceitar essa versão. Mas, talvez, falte energia para o confronto advindo desse posicionamento.

“A democracia brasileira tem mostrado resistência, mas resistência não significa invulnerabilidade”

Um governo enfraquecido não foi capaz de conter a crise institucional. Pelo contrário, acabou por aprofundá-la na tentativa de avançar em sua própria agenda. Quando o equilíbrio entre os Poderes se rompe, todos saem prejudicados. No caso específico da rejeição a Jorge Messias, todos saíram prejudicados. Diante desse cenário, três caminhos se apresentam: o acordo, o atrito ou a ruptura. O acordo é a saída tipicamente brasileira — articulada nos bastidores, ela restaura a aparência de normalidade. Para isso, seria necessário que o Planalto tivesse humildade para reconhecer as derrotas, que o Senado demonstrasse moderação e que o STF mostrasse disposição para recuar dos espaços que ocupou de forma excessiva. O atrito representa a via do desgaste contínuo: Poderes em conflito permanente, decisões individuais que geram reações no Legislativo, CPIs como resposta a investigações. Nesse cenário, não há vencedores.

A ruptura, por fim, é a possibilidade que ninguém ousa mencionar. Não se trata de uma ruptura nos moldes do passado, com forças militares. Fala-se de rupturas silenciosas: a deslegitimação de um dos Poderes, o impeachment transformado em instrumento corriqueiro, a judicialização da política, o populismo que ignora as mediações democráticas. A democracia brasileira tem mostrado resistência, mas resistência não significa invulnerabilidade. Das três alternativas, o Brasil historicamente optou por acordos. A questão é saber se ainda existem lideranças capazes de construir o entendimento.

Publicado em VEJA de 1º de maio de 2026, edição nº 2993

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PROGRAMA DE GOVERNO E ELEIÇÕES

Marcus Pestana, Congresso em Foco

Em tese, nossas escolhas deveriam corresponder à nossa identidade com as ideias do candidato. O programa de governo seria a bússola a guiar a construção de nossas preferências. Afinal, eleição é momento de avaliar o passado, dar balanço no presente e projetar o futuro.

No parlamentarismo europeu, as ideias valem mais do que o carisma dos candidatos. O presidencialismo cria espaço para a predominância de lideranças com forte apelo popular em detrimento das diretrizes programáticas. Não é à toa que, na América presidencialista, emergem políticos que são muito maiores que seus respectivos partidos como Lula, Bolsonaro, Trump e Milei.

A última vez, nestas terras tropicais, que uma ideia venceu eleição foi nos idos de 1994 e 1998, quando o Plano Real levou FHC ao Planalto, e não o contrário. Claro que os líderes carismáticos traduzem ideias e valores. Lula representa a ideia de justiça para os mais pobres. Bolsonaro, o antipetismo. Mas o projeto de futuro é eclipsado pelas paixões e rejeições despertadas. Se lembrarmos bem, a discussão programática foi marginal nas eleições de 2018 e 2022. Os programas de governo assumem papel periférico e caráter quase ornamental. Alguns bordões, extraídos das pesquisas de opinião, traduzem algumas poucas ideias capazes de captar apoios e votos.    

E o pior, nem sempre as palavras ditas são coerentes com a prática anterior. Algo como confessou o poeta em seu belo “Fado Tropical”: “Se trago as mãos distantes do peito, é que há distância entre intenção e gesto”. Os candidatos procuram mascarar esse vazio entre discurso e objetivos futuros, e que não obrigatoriamente são avalizadas pelas atitudes passadas.

O PT fez um Congresso e soltou um manifesto que traduz a essência da candidatura Lula. Falou em reforma política e eleitoral, mas não foi uma prioridade em seus 18 anos no poder. Mencionou vagamente uma mudança autocorretiva no Poder Judiciário, sem falar como fazer. Imagina mudar as emendas parlamentares, mas o tema foi acomodado nos últimos quatro anos. Desistiu de sua saga contra a autonomia do Banco Central. Acenou para o centro político, propondo uma” concertação social”, mas as últimas escolhas e gestos não apontaram na direção da amplitude ideológica. Defendem o fortalecimento do investimento público como fator indutor do desenvolvimento, entretanto expandiram o gasto corrente obrigatório, sufocando o investimento. Falam em reforma administrativa, mas não estimularam o debate do projeto sobre o tema, do deputado Pedro Paulo (PSD/RJ). É inevitável perceber certo descompasso entre intenção e gesto.

Já Flávio Bolsonaro, está jogando parado e evitando temas polêmicos, que lhe tirem votos. Abortou o anunciado lançamento do programa de governo. Uma forma de fugir da explicação sobre tesouraço no gasto público, desvinculações e desindexações orçamentárias, redução do Estado, aumento de sua eficiência e redução de tributos. E, principalmente, adiar o encontro com dois temas cruciais e inevitáveis, já que herança política genética: a gestão da pandemia e a tentativa de ruptura da ordem democrática.

Os dois lideram as pesquisas. Estão chegando no debate Caiado, Zema, Aldo Rebelo e Renan Santos. Tomara que o confronto de ideias e programas predomine.

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MANUAL REACIONÁRIO

Jamil Chade, CartaCapital

O Projeto 2025 extrapola as fronteiras dos EUA e rege a extrema-direita global

Em 27 de fevereiro do ano passado, funcionários da Usaid, a agência internacional de cooperação dos Estados Unidos, tiveram 15 minutos para recolher os pertences pessoais dos escritórios onde alguns haviam trabalhado por décadas. Cada um teria de levar as próprias caixas de papelão. A agência não as forneceria. Foram escoltados, como criminosos. Aos prantos, os funcionários esvaziaram as mesas e o prédio. No fundo, sem saber, apagavam as luzes de um mundo que se desfazia.

Apesar dos problemas e das suspeitas de encobrir operações de espionagem da CIA, a Usaid, por meio de seus programas, evitou mais de 90 milhões de mortes nos últimos 20 anos ao combater doenças graves. O fechamento da agência interrompeu os programas globais de saúde e a assistência humanitária financiados pelos EUA em todo o mundo.

Não se tratou apenas de mais um gesto irresponsável de Donald Trump. Depois de implementar de forma inédita uma agenda ultraconservadora nos EUA, o governo do republicano ampliava a ofensiva para exportar pelo planeta a ideologia de extrema-direita, com o apoio de grupos políticos em diversas partes do globo. Desmontar a forma pela qual os norte-americanos interagiam com governos estrangeiros foi o primeiro passo. A etapa seguinte visava substituir esse modelo por uma operação de imposição de uma nova agenda.

Um estudo do Global Project Against Hate and Extremism (Projeto Global Contra o Ódio e o Extremismo) rede de pesquisadores sediada nos Estados Unidos, desvela um plano meticuloso, bilionário e ambicioso para alterar a ordem mundial e transformar o movimento de extrema-direita no novo status quo. “As instituições criadas para promover a democracia, os direitos humanos e a cooperação internacional estão sendo desafiadas por uma rede emergente construída em torno do nacionalismo religioso, da retórica supremacista branca e de alianças ideológicas”, descrevem os pesquisadores.

O plano é ambicioso, meticuloso e movimenta bilhões de dólares, descrevem pesquisadores norte-americanos

A ofensiva é construída por meio de iniciativas diplomáticas, redes transnacionais de ONGs e apoio financeiro condicionado a governos aliados. A “Internacional Reacionária” usa como base o Projeto 2025, agenda que pauta o segundo governo Trump e está enraizada no nacionalismo cristão. Para os ideólogos do projeto, os Estados Unidos devem ser governados de acordo com uma interpretação ultraconservadora da doutrina cristã. “Estamos no processo da segunda Revolução Americana, que permanecerá sem derramamento de sangue se a esquerda permitir”, afirmou Kevin Roberts, presidente da ­Heritage Foundation e mentor da iniciativa.

A teologia do 2025 baseia-se no Gênesis­ 1:28: “Crescei e multiplicai-vos, enchei a Terra e sujeitai-a”, incluídos todos os seres vivos. Os nacionalistas cristãos entendem esse “domínio” como um mandato divino para o controle das instituições sociais – governo, educação, mídia, família, religião, artes e negócios. “Sob essa visão de mundo, a igualdade de gênero é uma rebelião contra a ordem divina. Leis que protegem minorias são perseguição aos fiéis. O pluralismo atrapalha a obra de Deus. E qualquer um que discorde não está apenas errado, está fazendo o trabalho de Satanás”, diz o estudo.

Ao assumir o poder, portanto, a extrema-direita iniciou um desmonte das estruturas de soft power dos EUA. A prática da democracia, o apoio aos direitos humanos e o financiamento da assistência humanitária foram substituídos por iniciativas destinadas a promover uma coalizão global centrada na oposição ao direito ao aborto, à igualdade LGBTQ+, a programas de igualdade para mulheres e meninas e na definição de família segundo uma interpretação nacionalista cristã. Para permitir a exportação da ideologia, as reformas foram profundas. No mesmo dia de sua posse, Trump reclassificou milhares de servidores de carreira como ocupantes de cargos políticos que podem ser demitidos sem justa causa. Russell Vought, autor de um dos capítulos do Projeto 2025, foi nomeado como chefe do Escritório de Administração e Orçamento e passou a implementar seu próprio plano. “Essa purga de pessoal viabiliza diretamente a agenda nacionalista cristã global”, disse Vought. “Diplomatas de carreira que negociaram acordos internacionais de direitos humanos por décadas estão sendo substituídos por indicados políticos. Sua principal qualificação? Lealdade à ideologia nacionalista cristã e à cruel agenda do Projeto 2025.”

Segundo o estudo da rede de pesquisadores, um instrumento central para implementar a agenda global é a Declaração de Consenso de Genebra, iniciativa promovida ainda durante o primeiro mandato de Trump e que afirma não existir um direito internacional ao aborto e promove uma definição de família limitada ao casamento heterossexual. Sob Jair Bolsonaro, o Brasil foi um dos principais laboratórios dessa iniciativa, interrompida no terceiro mandato do presidente Lula. Com a volta de Trump ao poder, a coalizão foi expandida e reúne atualmente 40 países, muitos governados por lideranças autocráticas e cujas violações de direitos humanos estão amplamente documentadas. Por meio dessa ideia, os EUA ditam uma espécie de cartilha a ser seguida para garantir o retrocesso nos direitos das mulheres e nas proteções LGBTQ+, ao mesmo tempo que desafiam as normas internacionais de direitos humanos criadas nos últimos 30 anos.

Em entidades como a ONU, o Unicef, braço das Nações Unidas dedicado à infância, e a Organização Mundial da Saúde, a coalizão tenta bloquear as diretrizes que tratam da expansão de direitos ou fazem pressão contra qualquer financiamento destinado a atender uma agenda progressista. O governo Trump ainda abandonou 66 entidades internacionais e cortou 380 milhões de dólares em contribuições.

Um dos focos da exportação da ideologia reacionária é a América Latina. Segundo o levantamento, de acordos de deportação a ataques à igualdade de gênero e aos direitos reprodutivos “a região tornou-se um laboratório para uma poderosa agenda internacional que prioriza o fortalecimento de alianças com atores autoritários dispostos a marginalizar a proteção internacional dos direitos humanos”. O estudo acrescenta: “As vitórias eleitorais de José­ Antonio Kast no Chile, Nasry Asfura em Honduras e Rodrigo Paz na Bolívia em 2025 reforçaram a capacidade de Trump de expandir sua agenda política na região. Eles se juntaram a um grupo de líderes já alinhados com o movimento MAGA, incluindo Javier Milei na Argentina, Nayib Bukele em El Salvador, Daniel Noboa no Equador e Santiago Peña no Paraguai”.

Na América Latina e na África, o projeto está a todo vapor, com resultados visíveis

A linguagem do Projeto 2025 apontava nessa direção. A estratégia introduziu o termo “re-hemisferização”, que envolve a transferência da produção industrial para mais perto dos Estados Unidos, em países da América Central e do Sul. Ao assumir o segundo mandato, Trump de fato reforçou a perspectiva do “Hemisfério Ocidental” e, pela região, líderes alinhados com o republicano começaram a adotar políticas ultraconservadoras. “A Argentina ilustra como essa transição do plano para a política se desenrolou. O presidente Javier Milei anunciou a retirada do país da Organização Mundial da Saúde, ecoando propostas apresentadas pelo Projeto 2025”, disse o levantamento. “Sob a liderança de Milei, a Argentina passou a retroceder nos direitos das mulheres e da comunidade LGBTQ+. O governo restringiu o acesso à terapia hormonal para menores transgêneros e anunciou planos para remover o feminicídio do Código Penal, apesar do alarmante aumento de casos documentado por observatórios feministas. Essa agenda restritiva ganhou força em 2025, ao mesmo tempo que a dependência econômica da Argentina em relação ao governo Trump se aprofundou.”

O caso de El Salvador é emblemático. O presidente Nayib Bukele alinhou-se às prioridades políticas do Projeto 2025 e tornou-se um modelo para candidatos extremistas da América Latina, seduzidos por uma política de combate à criminalidade que atropela os mais básicos direitos humanos e pelo maior presídio do mundo, no qual cabem 40 mil detentos. “Essas prioridades incluem a oposição aos direitos LGBTQ+ e das mulheres, bem como o apoio à proibição total do aborto”, observam os pesquisadores. Organizações nos EUA defenderam o arcabouço legal salvadorenho em tribunais internacionais e grupos norte-americanos, entre eles o Moms for Liberty, integrantes do Conselho Consultivo do Projeto 2025, influenciaram as políticas educacionais de Bukele. O país centro-americano tornou-se ainda um campo de testes para as políticas repressivas de deportação do governo Trump.

Outro destaque é o papel desempenhado pelo Paraguai, apontado como um “laboratório para políticas contrárias aos direitos das mulheres”. Antes mesmo de Trump voltar ao poder, Assunção vinha adotando políticas destinadas a desacelerar o progresso das mulheres e da comunidade LGBTQ+. As iniciativas incluem a proibição de termos como “igualdade de gênero” em instituições educacionais, a oposição ao casamento entre pessoas do mesmo sexo e a representação pública do país­ como uma “ilha de conservadorismo”. O aborto não é permitido nem mesmo nos casos de estupro. A única exceção legal é quando a vida da gestante está em risco.

Com essas credenciais, o Paraguai tem buscado cada vez mais relevância internacional nas redes alinhadas a Trump. “Ao sediar eventos de grande repercussão, como a CPAC e o Foro Madrid, o país tornou-se um ponto de encontro para líderes da extrema-direita da América Latina, Europa e Estados Unidos”, descreve o estudo. O presidente Santiago Peña também tenta impressionar a base mais radical de Trump. “Enquanto o Paraguai existir, haverá pessoas que dirão, em alto e bom som, ao mundo: não ao aborto livre, não a ideias alternativas de família e não a experimentos sociais radicais”, afirmou em uma das reuniões.

A unidade da UE é posta em xeque por legendas como o Vox, na Espanha, e a AfD, na Alemanha. Com Kast , o pinochetismo renasce no Chile.

A influência de lideranças norte-americanas contrárias aos direitos humanos sobre as políticas paraguaias tem se tornado cada vez mais evidente. O Institute for Women’s Health (IWH), comandado por Valerie Huber, anunciou que a entidade e o governo Peña iriam implementar projetos conjuntos. Huber foi a arquiteta do Consenso de Genebra e secretária de Família de Trump no primeiro mandato.

Na Guatemala, a parceria entre a mesma IWH e o governo local envolveu o desenvolvimento de cartilhas para pais e professores. “O casamento”, define o material, “é um compromisso para toda a vida entre um homem e uma mulher” e que “a única maneira 100% eficaz de evitar a gravidez na adolescência é esperar até o casamento para ter relações sexuais.”

A extrema-direita norte-americana igualmente avança no continente africano. O Burundi tem se associado a organizações ligadas ao Projeto 2025 para promover políticas que enfatizam a abstinência. Em Uganda, a aproximação com os EUA coincide com a aprovação de uma das leis anti-LGBTQ+ mais agressivas do mundo, que inclui a imposição da pena de morte em certas situa­ções. A estratégia envolve, porém, muito mais que um convencimento acerca de certas posições que os reacionários gostam de chamar de “valores”. Em dezembro último, o presidente do Quênia, William Ruto, e o secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, assinaram um acordo de 2,5 bilhões de dólares para o país africano se tornar um modelo para a Estratégia Global de Saúde “América Primeiro”. Trata-se de uma aliança que tem se espalhado por todo o continente e envolve pactos bilaterais projetados para substituir instituições multilaterais como a OMS. Se, pelo acordo, o país africano é obrigado a adotar os princípios ultraconservadores dos EUA, o pacto também foi visto como uma oportunidade para o governo local garantir que não houvesse qualquer compromisso de promoção da democracia ou de direitos humanos.

A extrema-direita dos EUA age para moldar a Europa à sua imagem e semelhança

O governo Trump ofereceu a continuação dos tratados tarifários com os africanos, na condição de que eles adotassem suas políticas sociais antidireitos. “Em dezembro, o Quênia reafirmou rapidamente seu alinhamento e sua retórica de ‘família natural’ e conquistou o direito de ter suas tarifas de 42% reembolsadas retroativamente”, aponta o documento. “Os EUA não subsidiarão mais a indústria manufatureira africana, a menos que essa produção seja acompanhada de total fidelidade ideológica.”

De acordo com o estudo, a agenda antimulher e anti-LGBTQ+ dos Estados Unidos espalhou-se pela África – cerca de 20 países passaram a subscrever a Declaração de Genebra. A investigação descobriu que o auxílio externo e a diplomacia dos EUA foram usados para “pressionar os países a assinar” os tratados. Em alguns casos, como o do Sudão, a assinatura da declaração “coincidiu com a remoção da lista de países terroristas dos EUA e com o aumento da ajuda ou do comércio”.

Os planos da Casa Branca incluem moldar a Europa à sua imagem e, por extensão, erradicar políticas progressistas. Por anos, a extrema-direita norte-americana olhou para a Hungria de Viktor Orbán como referência. Mas, com a derrota nas recentes eleições parlamentares, o foco do movimento é o de dar apoio a forças políticas de oposição. Vista como bastião de posições liberais, a Europa precisa ser “contida” por meio de uma guerra cultural. “Isso protegerá a extrema-direita americana, enfraquecerá o liberalismo na Europa e nos Estados Unidos e prejudicará o projeto europeu como um todo”, avalia o estudo. A nova Estratégia de Segurança Nacional de Washington planeja “restaurar a identidade ocidental da Europa” e salvá-la do “apagamento civilizacional”.

Segundo os pesquisadores, o Projeto 2025 defende a interferência na política interna europeia por meio do apoio a “partidos patrióticos” de extrema-direita, uma intervenção antes impensável nos assuntos internos de um aliado. Desde que voltou ao poder, Trump e aliados têm feito exatamente isso. A ordem é apoiar, de todas as maneiras possíveis, grupos como o Vox, da Espanha, Chega, de Portugal, e a AfD, da Alemanha, entre outras facções extremistas, fascistas e neonazistas do continente. Parte da estratégia centra-se na exigência de que empresas europeias e prefeituras abandonem iniciativas de diversidade, caso queiram manter alguma relação com os EUA.

A constatação dos pesquisadores é de que, para além das fronteiras dos Estados Unidos, a base mais radical do trumpismo tem construído uma infraestrutura global para a expansão de sua ideologia. Isso implica adoção de leis, redes de financiamento e pressão política. “Onde, antes, as instituições governamentais dos EUA promoviam os direitos humanos, agora organizações privadas promovem o nacionalismo cristão”. Conclusão: o projeto é global. “Todo o sistema pós-Segunda Guerra Mundial está sendo desmantelado. As proteções aos direitos humanos, definidas por consenso internacional, estão sendo substituídas por ‘direitos naturais’ definidos por doutrinas religiosas. A promoção da democracia é substituída pela defesa da ‘família natural’. A assistência humanitária está sendo substituída pela conformidade ideológica”.

As mesmas redes que remodelam as instituições norte-americanas constroem, de forma ativa, alianças internacionais, estratégias jurídicas e estruturas políticas destinadas a consolidar essa agenda em todo o mundo. “A criminalização de pessoas LGBTQ+, os papéis de gênero obrigatórios, o controle reprodutivo, a fusão entre Igreja e Estado – tudo isso está retornando e conta com os recursos do governo mais poderoso do mundo”, conclui o estudo. 

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

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MAUS PERDEDORES

Aldo Fornazieri, CartaCapital

Desde o fim da Segunda Guerra Mundial, os EUA insistem na força bruta e acumulam derrotas

Donald Trump sempre exalta o poderio dos EUA e classifica seus inimigos como perdedores. Já chamou os iranianos de loucos, bastardos e animais. Se tivesse senso crítico, perceberia que seu próprio país carrega um vexatório histórico de derrotas militares. Desde a Segunda Guerra Mundial, os norte-americanos não venceram nenhuma guerra, mesmo com as tropas mais bem equipadas do planeta.

Na guerra das Coreias, os EUA não perderam nem venceram. Há um consenso, entre os especialistas, de que saíram derrotados do Vietnã. Não sabiam como travar um conflito não convencional. Os vietnamitas adotaram uma estratégia de desgaste, usando táticas de guerrilha, com emboscadas e armadilhas, contrabalançando o poderio dos norte-americanos.

Os vietnamitas tinham conhecimento do terreno, apoio popular e determinação política para se defender das potências agressoras. A trilha “Ho Chi Min” garantiu apoio logístico e abastecimento contínuo de armas e recursos do Norte para o Sul. As bandeiras da resistência e da unificação deram aos nativos grande vantagem, implicando desmoralização das tropas norte-americanas, que se retiraram em 1973.

Houve também uma humilhante e desmoralizadora retirada no Afeganistão em 2021, após 20 anos de guerra. O general Mark Milley, chefe do Estado-Maior Conjunto, reconheceu que a campanha “foi um fracasso estratégico”, com o ­custo de mais de 2 trilhões de dólares e 5 mil norte-americanos mortos. A saída caótica de Cabul foi marcada pelo desespero, lembrando a queda de Saigon, no Vietnã.

No Iraque, os EUA travaram uma guerra convencional motivada pela mentirosa alegação de haver, por lá, “armas de destruição em massa”. Elas jamais foram encontradas. Sadam Hussein foi deposto, mas os norte-americanos saíram politicamente derrotados. Os EUA não conseguiram constituir um governo “democrático, estável e alinhado”, resultando em um caos interno que persiste até hoje.

Com o passar do tempo, o custo da intervenção ultrapassou 6 trilhões de dólares. Sem compreender a estrutura social e cultural iraquiana, a principal falha estratégica consistiu em não ter um planejamento pós-ocupação. O Iraque continua instável, com insurgências civis e crescente influência do Irã.

Além das evidências históricas, a tese de que os EUA são militarmente incompetentes leva em conta suas capacidades tecnológicas e financeiras. O país tem a maior receita de defesa do mundo, superando a soma dos orçamentos de todos as outras nações. Tem cerca de 800 bases militares espalhadas pelo planeta e uma capacidade ímpar de projeção de poder por porta-aviões e outros equipamentos.

A Heritage Foundation sustenta que a prontidão das forças norte-americanas é fraca e marginal, com dificuldade de vencer conflitos regionais importantes e, simultaneamente, manter a presença global. O esgotamento de estoques de armas é recorrente e vem se manifestando agora, contra o Irã.

O princípio orientador das forças armadas norte-americanas é o do uso da força bruta em detrimento da inteligência. A síntese desse paradoxo se expressa na afirmação: “Excelência operacional e incompetência estratégica”. No governo Trump, essa verdade encontrou sua plenitude.

No livro The Cost of Loyalty: ­Dishonesty, Hubris, and Failure in the U.S. Military (Bloomsbury, 2020), Tim Bakken faz uma crítica devastadora às forças armadas dos EUA. Os gastos militares são absurdos, a presença em 800 bases espalhadas por 70 países é injustificável e esse poder é sustentado por uma sociedade fechada e por um princípio de lealdade que gera derrotas, incompetência e massacre de inocentes. Ele propõe que as tropas norte-americanas sejam reintegradas à sociedade civil, que deve controlá-las.

No fim de março, Tobin Harshaw, editor sênior da Bloomberg Opinion, publicou um artigo resgatando um livro de 1976 de Norman Dixon, intitulado A Psicologia da Incompetência dos Militares, onde são analisados grandes desastres em campos de batalha da história britânica. A obra mostra que eles seguiram um padrão consistente e repetitivo de decisões ruins.Os homens que decidiam sobre as guerras tinham duas características: acreditavam que ela se resume à força bruta, não à inteligência, e eram anti-intelectuais radicais, contrários à educação acadêmica.

Pete Hegseth, atual secretário da Guerra dos EUA, e Trump têm essas características. São dois lunáticos, misóginos, egocêntricos, fanáticos, ignorantes, sem experiência de Estado e sem conhecimento de história política e militar. Hegseth sustenta que a campanha contra o Irã é uma cruzada, uma guerra santa. Ele associa o conflito ao ­Armagedon­, ao fim dos tempos e ao retorno de Jesus. O grande perigo no momento é que o maior poderio militar do planeta está sob o comando de pessoas enlouquecidas. •

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

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"VERDADES" EFÊMERAS

Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, CartaCapital

O País tem câmbio flutuante, conta de capital aberta, metas de inflação, mas os modelitos não ligam câmbio e juros

A economia é uma (vá lá) ciência difícil. Keynes dizia que os requerimentos exigidos do bom economista eram muitos: ele deveria combinar os talentos de “matemático, historiador, estadista e filósofo na medida certa. Deve entender os aspectos simbólicos e falar com palavras correntes. Deve ser capaz de integrar o particular quando se refere ao geral e tocar o abstrato e o concreto com o mesmo voo do pensamento. Deve estudar o presente à luz do passado e tendo em vista o futuro. Nenhuma parte da natureza do homem deve ficar fora da sua análise. Deve ser simultaneamente desinteressado e pragmático: estar fora da realidade e ser incorruptível como um artista, estando, embora noutras ocasiões, tão perto da terra como um político”.

A economia é um sistema ­complexo. Autor do livro Decoding ­Complexity: ­Uncovering Patterns of Economic ­Complexity, James Glattfelder escreve no preâmbulo:

“A característica dos sistemas complexos é que o Todo exibe propriedades que não podem ser deduzidas das Partes individuais. Em suma, a teoria da complexidade investiga como o comportamento macro decorre da interação entre os elementos do sistema”.

Isto significa que é crucial a identificação dos elementos do sistema econômico, mas, sobretudo, são decisivos os supostos que definem a natureza das relações entre esses elementos. Sim, relações, e não as “coisas” isoladas, tal como prefere a economia, outrora chamada de vulgar.

A metafísica e a epistemologia da corrente dominante ocultam a ontologia do econômico, uma visão da estrutura e das conexões da sociedade mercantil capitalista. Para esse paradigma, a sociedade em que se desenvolve a ação econômica é constituída pela agregação de indivíduos, articulados entre si por nexos externos.

As teorias econômicas convencionais estão encharcadas de indagações binárias do tipo “é isto ou aquilo?” Peço ao leitor que permita aos modestos economistas invocar um filósofo da estatura de Hegel para arrostar esse viés metodológico. Na Introdução à Ciência da Lógica, o mestre de Iena asseverou:

“Quando as formas são tomadas como determinações fixas e, consequentemente, em sua separação uma da outra, não como uma unidade orgânica, elas são formas mortas e o espírito que anima sua vida, a unidade concreta, não reside nelas… O conteúdo das formas lógicas nada mais é senão o fundamento sólido e concreto dessas determinações abstratas; e o ser substancial dessas abstrações é usualmente buscado fora delas”.

Adverte o economista Brad Delong: aos economistas do mainstream não lhes faltam dados, mas os dados estão sendo forçados por uma narrativa mecânica a se encaixarem nas categorias predefinidas nos manuais de econometria.

Aos leitores que tiveram a paciência de chegar até aqui, o método de testar hipóteses em econometria tem seu valor, desde que tenha relevância para compreender relações econômicas. Não basta escolher uma variável independente e outra dependente, o que determina a simplória correlação entre as variáveis. É importante lembrar que correlação não implica causalidade, mas nossos doutores omitem essa informação.

Estatística deixa de ser a probabilidade de um evento ocorrer ou não, e alta correlação deixa de ser porcentual de chance de uma variável depender da outra.

Nessa confraria de “Amantes da Ciência Triste”, basta a grife de um ou de uma economista de banco, indicando que realizou a pesquisa de dados, acompanhada da assinatura de um economista de prestigiosa universidade. Assim, replicam-se num movimento de translação e de rotação de dados que não significam nada.

Na confraria de “Amantes da Ciência Triste”, basta a grife de um economista de banco

Vamos nos valer de André Lara Resende: “No caso dos economistas da escola majoritária, a neoclássica marginalista, a realidade foi preterida em favor dos modelos matematicamente formalizados. Há décadas, toda a pesquisa acadêmica se desenvolve no âmbito do modelo canônico de referência. O processo de reificação, de tomar o modelo pela realidade, tornou-se o ponto de partida da reflexão acadêmica em economia. Pequenas variações arbitrárias são inseridas no modelo de referência, para conseguir produzir resultados específicos, quando alguns aspectos da realidade que insistem em não se submeter à teoria precisam ser incorporados. Pouco importa que o debate acadêmico aconteça num universo conceitual­ paralelo, numa linguagem inacessível à grande maioria. Ao contrário, é a inacessibilidade aos não iniciados, a linguagem pretensamente científica, que confere autoridade aos habilitados para falar pelo grupo, para pautar a mídia e garantir a permanência das ideias professadas”.

A concorrência entre os cursos de Economia assume os modos de corrida frenética entre os que usam mais econometria, e faz mais pesquisa de dados e testes de hipóteses desprovidos de conceitos, sem considerar a vida econômica-social de mulheres e homens. O novo é travestido do velho abrigado nos métodos marginalistas do século XIX, agora, com uso (sofisticado?) de softwares e Inteligência Artificial.

O real vem se valorizando desde março de 2025. Desde 1999, o Brasil adota regime de câmbio flutuante, conta de capitais totalmente aberta e regime de meta de inflação. Nos modelitos, a taxa de câmbio não está relacionada às taxas de juro. Indagamos: a relação câmbio/juros teria a ver com captação de Bonds de empresas nacionais e do Tesouro Nacional em moeda estrangeira no exterior? Não tem relação com investimento direto produtivo? Não tem relação com o diferencial entre a taxa de juros americana e a brasileira? Não tem relação com operação de carry trade?

“A economia não é uma ciência, é uma religião com vários deuses e várias igrejas.” (Delfim Netto) 

Publicado na edição n° 1411 de CartaCapital, em 06 de maio de 2026.

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CONGRESSO CONFIRMA TRADIÇÃO GOLPISTA

Flávia Oliveira, O Globo

O bolsonarismo, em conluio com o Centrão, viabilizou um próximo golpe

Sem surpresa. Com duas palavras, o historiador Carlos Fico resumiu a mobilização robusta do bolsonarismo e aliados para demolir, mais que o veto integral de Lula à Lei da Dosimetria, o arcabouço legal de proteção ao Estado Democrático de Direito, aprovado pelo mesmo Congresso Nacional e sancionado em 2021 por Jair Bolsonaro, o ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe e outros crimes. Quem venceu anteontem — de novo — foi a tradição brasileira de tratorar a democracia.

— De acordo com a tradição republicana, o Congresso Nacional se posiciona beneficiando responsáveis por tentativa de golpe de Estado. Sempre foi assim, desde 1905 — escreveu Fico numa rede social.

Ele é professor titular da UFRJ, especialista em História do Brasil República, autor de “História do Brasil contemporâneo” (2015) e “Utopia autoritária brasileira” (2025), entre outras obras.

Numa tabela que tornou pública, enumerou 15 golpes (tentados ou consumados) e pronunciamentos militares. Na meia dúzia que fracassou (1902, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961), houve anistia. A sétima, o Legislativo pavimentou ontem, ao restabelecer a vigência do PL 2162/2023, que reduz tempo de prisão e facilita a progressão de regime dos condenados pela trama golpista de 2022-2023, incluindo Bolsonaro, três generais e um almirante. O Legislativo ressuscitou um projeto que fere os princípios constitucionais da impessoalidade, da proporcionalidade e da isonomia. E que foi sancionado mesmo sem passar pela Câmara após alterações do Senado.

Toda a reputação internacional que o Brasil conquistou nos últimos anos por punir quem atentou contra a democracia está em xeque. A legislação prevê que, nos crimes com violência ou grave ameaça, os condenados têm de cumprir ao menos 25% (primários) e 30% (reincidentes) em regime fechado. A Lei da Dosimetria abre exceção para os ataques ao Estado Democrático de Direito (Título XII do Código de Processo Penal). Estes ficam sujeitos a 1/6 da pena.

Não é só. A anistia branda de anteontem — ainda há parlamentar defendendo a plena — também pôs fim ao concurso material (soma integral das penas) nos crimes de golpe tentado e abolição violenta do Estado Democrático. Em lugar, passará a valer o concurso formal (punição de um crime e adição de 50% da pena do outro). Em atos de multidão, a pena cairá em até dois terços. É um baita incentivo a reunir aliados em acampamentos e atacar os Poderes se o resultado nas urnas não agradar. O bolsonarismo, em conluio com o Centrão, viabilizou um próximo golpe.

Mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram nocauteados o STF e boa parte de um Brasil que se dispôs a defender a democracia, a ponto de identificar, denunciar, julgar e condenar os golpistas do 8 de Janeiro de 2023 e seus líderes. De 1.402 responsabilizados, 111 ainda estão detidos e 55 em prisão domiciliar. A maioria esmagadora da Câmara e do Senado agiu em prol de Jair Bolsonaro e seu grupo, ainda que 54% do eleitorado, segundo o Datafolha, se declarem contra a anistia.

Um Congresso francamente punitivista alivia autores de crimes contra a democracia. Uma aliança entre Davi Alcolumbre, presidente do Senado, Flávio Bolsonaro, senador escolhido sucessor pelo pai condenado e preso, e até Alexandre de Moraes, ministro do STF, segundo a colunista do GLOBO Malu Gaspar, sepultou a entrada de Jorge Messias no Supremo. O advogado-geral da União foi indicado por Lula e recebeu apoio escancarado de André Mendonça, o ministro terrivelmente evangélico de Bolsonaro, hoje relator do caso Master e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Lula foi derrotado por adversários políticos, mas também perdeu por trocar institucionalidade por lealdade pessoal nas indicações ao STF. Pode ganhar votos e enriquecer a biografia, se fizer do revés um ato político de aceno à própria base. Sempre que agiu assim, se impôs. Basta lembrar dos projetos de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, taxação dos mais ricos, PEC da Blindagem e até no enfrentamento ao tarifaço dos Estados Unidos.

O presidente anunciou o nome de Messias para o STF no último 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, desprezando o clamor de anos da sociedade civil por uma jurista preta. Tem o condão de restituir uma fração da representatividade que falta ao Supremo e, ao mesmo tempo, empurrar para a oposição o custo político-eleitoral de boicotar a chegada da primeira ministra negra à Corte. Há nomes de altíssima qualidade, com mais de 35 anos, reputação ilibada e notório saber jurídico, como exige a Constituição.

Talvez Lula não saiba, mas as negras brasileiras atuam na Justiça há muito tempo. Em 1770, uma escravizada do interior do Piauí denunciou ao governador da capitania, em carta, maus-tratos, separação da família, trabalho forçado e interdição da fé. O Conselho Federal da OAB, em 2022, reconheceu o documento como a petição inaugural do país. A primeira advogada do Brasil era negra, leal aos direitos humanos, à liberdade e se chamava Esperança (Garcia).

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MORRE RAIMUNDO RODRIGUES PEREIRA

Do g1 Rio

Jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morre no Rio aos 85 anos

Um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira, Raimundo foi uma figura central na resistência democrática durante o período da ditadura militar no país.

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu na manhã deste sábado (2), no Rio, aos 85 anos. Um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira, Raimundo foi uma figura central na resistência democrática durante a ditadura militar no país. O corpo do jornalista será cremado no domingo (3), no Cemitério da Penitência, no Caju.

Pernambucano de Exu, Raimundo construiu uma trajetória marcada pela defesa de um jornalismo crítico e independente, voltado, segundo suas próprias palavras, à “elevação do padrão material e cultural do povo”.

Ao longo da carreira, ele passou por veículos de grande prestígio, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade das reportagens e pela profundidade das análises. Foi, no entanto, na chamada imprensa alternativa que consolidou seu papel histórico.

Luta pela democracia

Durante a ditadura militar no Brasil, período marcado por censura e repressão, integrou uma geração de jornalistas que enfrentou o autoritarismo com informação, análise crítica e defesa da democracia.

Fundado em 1975, o jornal Movimento tornou-se um dos principais símbolos dessa resistência. Sob a liderança de Raimundo, o veículo ganhou destaque ao denunciar abusos do regime e ao construir uma narrativa crítica em defesa das liberdades democráticas. Mais do que um jornal, o Movimento funcionou como espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas pela repressão.

A atuação do periódico ocorreu sob forte pressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em diversas edições, espaços em branco evidenciavam a interferência do regime e a limitação à liberdade de imprensa. Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como instrumento de transformação social.

Em uma fase posterior da carreira, criou o projeto “Retrato do Brasil”, voltado à interpretação da realidade nacional, reunindo reportagens aprofundadas e análises estruturais sobre o país.

Raimundo deixa um legado que se confunde com a própria história da resistência democrática no Brasil. O jornal Movimento permanece como símbolo de um período em que exercer o jornalismo exigia coragem e compromisso com a informação.

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VETO A MESSIAS EXPÕE CRISE INSTITUCIONAL

Juliana Diniz*, O Povo (CE)

Quem mais perdeu com o episódio não foi o governo, foi o STF. A demonstração de força do Senado Federal demonstra para os ministros que os parlamentares estão à vontade para confrontar a corte, esbravejando, para quem quiser ouvir: e agora, quem será o próximo? Ouso dizer que o próximo a que se referem não espera a sabatina, mas a perda da toga em exercício

O Senado Federal rejeitou o nome de Jorge Messias para o cargo de ministro do Supremo Tribunal Federal. Embora a desaprovação seja juridicamente possível, sua ocorrência é rara em razão de seu significado político. Ela representa mais do que um desacordo entre poderes, algo corriqueiro em uma democracia: é uma interdição agressiva, que revela disposição de enfrentamento e agravamento de crise. Vamos entender melhor essas nuances.

A indicação para a cúpula do Poder Judiciário é sobretudo política. Os pressupostos normativos previstos na Constituição Federal são bastante minimalistas e vagos, dando para o chefe do Executivo, a quem cabe a indicação, uma margem importante de discricionariedade. Por sua politicidade, as indicações costumam seguir uma ritualística não escrita, baseada em costumes historicamente repetidos, que se desenrolam nos bastidores.

Quando um presidente aponta uma preferência, há um primeiro movimento político: a conquista da anuência do tribunal. A corte precisa assentir com o indicado, através de gestos e palavras sutis, quase veladas. Uma vez "aprovado" o nome, uma segunda etapa se dá nas múltiplas visitas que o indicado deve fazer aos senadores: ali, porta a porta, o nome vai sendo ungido, de modo que a sabatina e a votação acabam por ser, historicamente, momentos mais simbólicos do que decisórios. A aprovação se deu antes, a portas fechadas, em acordos de "cavalheiros", considerando que as mulheres em geral ficam de fora desse jogo.

O episódio que testemunhamos durante a semana é resultado de uma subversão de toda essa prática que, há mais de cem anos, funcionava no sistema político brasileiro. Especula-se uma ala do STF conspirou contra o nome, acompanhada pelo presidente do Senado Federal, que abertamente manifestou seu empenho em impor a derrota ao presidente da República.

Todos que participaram diretamente da derrota fizeram um movimento ousado, muito arriscado, com consequências difíceis de prever. Acredito que é cedo, muito cedo, para anunciar que o governo está acabado. 2026 é um ano instável, com muitas frentes de acontecimentos difíceis de controlar: uma eleição polarizada entre lideranças carismáticas, um escândalo que envolve metade da República, um STF deslegitimado sob desconfiança massiva da população. A crise é sistêmica e não há, por hora, vencedores iminentes.

Quem mais perdeu com o episódio não foi o governo, foi o STF. A demonstração de força do Senado Federal demonstra para os ministros que os parlamentares estão à vontade para confrontar a corte, esbravejando, para quem quiser ouvir: e agora, quem será o próximo? Ouso dizer que o próximo a que se referem não espera a sabatina, mas a perda da toga em exercício.

*Professora de Direito da UFCE.

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SEM AGILIDADE, LULA TOMA RASTEIRA ATRÁS DE RASTEIRA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Petista não percebe o caminhão de gente contra ele; e não são só bolsonaristas

Com Executivo e Judiciário nas cordas, há desequilíbrio entre os Poderes

Marco temporal das terras indígenas, saidinhas de presos, flexibilização do licenciamento ambiental, IOF, redução de penas a condenados no 8 de Janeiro invalidando a Lei Antifacção. A lista de derrotas do governo impressiona pela falta de articulação e reação. Até a reforma tributária, considerada a maior conquista de Lula 3, teve alguns pontos desconsiderados. Se o presidente não contava com o veto a Jorge Messias na indicação ao STF, podia ao menos se precaver da rasteira. Do jeito que foi desferido, o golpe o deixou estatelado faltando cinco meses para as eleições.

Em seu terceiro mandato, Lula se mostra alheio à realidade. Míope e com a percepção amarrada a um passado sem volta, demora a perceber que há em Brasília um caminhão de gente contra ele. Não são só bolsonaristas. No complô, há até quem use toga.

Na tarde de quarta-feira (29), enquanto Messias era sabatinado após meses na geladeira, um mapa elaborado pelo governo, sob a responsabilidade do senador Jaques Wagner, confiava na barganha de cargos e emendas e na escrita de 132 anos sem recusa de uma indicação presidencial. O levantamento não podia estar mais errado: previa o apoio do centrão, de parte da oposição e da bancada evangélica ao nome do advogado-geral da União.

As contas beiravam o delírio, apontando 49 votos favoráveis —no placar final, o indicado somou 34.

Na sabatina, Jorge Messias cumpriu seu papel à risca. Mais realista que o Planalto e temendo a reprovação, disse ser contra o aborto, sem sequer citar os casos em que a Constituição o permite. E que só pediu as prisões do 8/1 "por dever do cargo". Ao se declarar evangélico, chorou: "Aqui vos fala um servo de Deus".

Enquanto o espetáculo seguia na CCJ do SenadoDavi Alcolumbre ligava para seus colegas pedindo que votassem contra Messias, com a promessa de que não pautaria uma nova indicação do presidente.

O combate entre os Poderes nunca esteve tão quente. O Executivo e o Judiciário não saem das cordas; o Legislativo empurra e acotovela.

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BOLSONARISMO AO LADO DE MORAES

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Enquanto os eleitores brigam nas ruas, o bolsonarismo se uniu ao maior algoz do ex-presidente Jair Bolsonaro

O enredo da novela, que já estava confuso, se transformou numa salada geral

Enquanto os eleitores brigam nas ruas, o bolsonarismo se uniu ao maior algoz do ex-presidente Jair Bolsonaro, o ministro do STF Alexandre de Moraes, para derrubar a indicação de Messias sob a bênção do presidente do Senado, Davi Alcolumbre.

No dia seguinte da votação, a derrota embalou a derrubada do veto ao projeto da Dosimetria, que reduz as penas dos condenados por golpe de Estado, incluindo Bolsonaro. A CPI do Master, defendida pela oposição, foi enterrada.

Cobra, periquito, lagarto, tem de tudo no meio dessa votação, como definiu o senador Cid Gomes. O enredo da novela, que já estava confuso, se transformou numa salada geral.

Traição, vingança, intimidação, conspiração, conchavos para as próximas eleições e dinheiro de campanha. Tem também o medo das investigações do Master.

Rodrigo Pacheco, preterido por Lula na indicação ao STF e o nome preferido de Moraes e Gilmar Mendes, deu uma de bonzinho, mas votou contra Messias e agora sinaliza que não será candidato ao governo de Minas.

Davi, Moraes e importantes aliados do senador na campanha presidencial, como o senador Ciro Nogueira, têm muito a perder com o avanço das investigações.

O papel de Jaques Wagner, líder do governo, é um episódio à parte por ser um político com ligações com o Master. O vídeo do abraço dado em Davi fala mais do que qualquer desculpa pela derrota.

Os ministros Nunes Marques e André Mendonça, responsável pelo processo Master, ligaram pedindo voto para Messias. O argumento colocado à mesa foi que o AGU era mais próximo das posições deles do que as de Dias ToffoliFlávio Dino e Moraes, e que a sua aprovação ajudaria na correlação de forças interna.

Mas Nunes Marques também tem familiar envolvido com Vorcaro. Messias, por outro lado, deixou de incluir o sindicato do irmão de Lula dos pedidos de bloqueio de recursos em fraudes do INSS.

A rejeição foi uma demonstração de força da união do bolsonarismo com Moraes. O que ninguém sabe é se Mendonça vai querer proteger os chegados, e se Davi e Moraes vão conspirar juntos por um novo nome ao STF.

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