Thomas Traumann,
O Globo
Em entrevista ao
editor de O GLOBO Thiago Prado, o bispo da Igreja Sara Nossa Terra Robson
Rodovalho comparou o candidato Flávio Bolsonaro com o personagem bíblico
Roboão, filho do rei Salomão e neto do rei Davi. No primeiro Livro dos Reis,
Roboão, ao assumir o trono, contraria os conselhos dos anciãos e decide manter
os altos impostos sobre as dez tribos no Norte, gerando uma guerra civil que
termina por dividir o reino entre Israel e Judá.
— (Roboão) presumiu que o reino já era dele sem precisar se
esforçar. Flávio precisa consolidar a sua própria liderança no segmento
(evangélico), ele não pode se considerar absoluto entre nós como foi o pai no
passado — alertou o bispo.
A crítica de Rodovalho é perspicaz. Sem os votos, o carisma
e a liderança de Jair
Bolsonaro, o senador Flávio Bolsonaro é um herdeiro que tenta comandar o
antipetismo apenas pela força do sobrenome. Arrogante, ele escuta os irmãos
Eduardo e Carlos, mas desdenha da madrasta Michelle e do presidente do PL,
Valdemar Costa Neto, e trata como obrigação o apoio do governador Tarcísio de
Freitas e do deputado Nikolas Ferreira.
Faltando menos
de 100 dias para o primeiro turno, a sua campanha não tem candidatos a
governador viáveis em Minas Gerais e Rio de Janeiro, não obteve o apoio de
nenhum partido fora o próprio PL, não arregimentou um único economista de
primeira linha e perde em todas as pesquisas para o presidente Luiz Inácio Lula
da Silva.
Os vídeos
de Michelle Bolsonaro divulgados na semana passada acusando o enteado
de maltratá-la, desobedecer a ordens do pai e fomentar uma onda de ódio nas
redes sociais são reflexos dessa crise de legitimidade. Gravados com
profissionalismo, os vídeos mostram a ex-primeira-dama usando o apoio do PL do
Ceará ao ex-inimigo Ciro Gomes como pretexto para se mostrar como a verdadeira
bolsonarista raiz da família. Michelle está se posicionando para herdar a
liderança do bolsonarismo, seja em uma eventual derrota de Flávio em outubro ou
até antes, na improvável hipótese de Jair decidir trocar de candidato neste
ano.
A reação do bolsonarismo aos vídeos foi pesada. Os irmãos
aumentaram a artilharia sobre a madrasta, mantiveram o acordo no Ceará e
concentraram ainda mais o poder na campanha. Eduardo Bolsonaro compartilhou
link para um vídeo com o título: “Dossiê: Michelle — As Notícias Desmentem”, no
qual um youtuber acusa a ex-primeira-dama de boicotar Flávio e de agir por
interesses pessoais em vez de priorizar a derrota do PT. Eduardo republicou
ainda outro vídeo do ex-deputado Alexandre Ramagem que acusa a ex-primeira-dama
de “birra” por não ter aceitado a decisão do marido sobre a candidatura do
enteado. O primeiro auxiliar de Eduardo, o blogueiro Paulo Figueiredo, acusou
Michelle de ser “tigrona com Flávio Bolsonaro e tchutchuca com (o ministro do
STF) Alexandre de Moraes”. Figueiredo critica até a forma como a
ex-primeira-dama chama o marido “galego”:
— Vocês não têm vontade de cortar um pouquinho os pulsos
toda vez que ela fala “meu galego”? Não soa fake? Principalmente se vocês
soubessem as coisas que eu sei — insinuou Figueiredo.
Deu certo. Levantamento da AP Exata Inteligência mostrou que
o episódio fez as menções positivas de Flávio nas redes sociais subirem ao
melhor patamar dos últimos 45 dias.
— Para o público geral, ficou consolidada a versão de que
“roupa suja se lava em casa” e que a Michelle colocou em risco a possibilidade
de a oposição derrotar Lula — diz Sergio Denicolli, da AP Exata. — Mas é
importante ressaltar: ela não se dirigiu ao eleitorado total. Sua intenção era
falar com as mulheres e com os evangélicos, e nesse segmento a imagem dela está
preservada.
Com o ex-presidente incomunicável, Flávio Bolsonaro disse ao
jornalista Claudio Dantas que o pai não sabia do vídeo e que “ficou tão
chateado que se recusou a assistir ao noticiário, mesmo com toda a repercussão
do caso na TV”. Na sexta-feira (26), em Goiânia, Flávio Bolsonaro minimizou as
críticas da madrasta e definiu o episódio como “página virada”. Acredite quem
quiser.
Na quarta-feira (1º), o candidato promove em Brasília um
encontro com “mulheres conservadoras”. Mesmo que Michelle participe e pose para
uma foto com o enteado, o estrago está feito.
A grande vantagem do bolsonarismo sobre a esquerda era a sua
organização, coesão e respeito à hierarquia. Nas redes, nas ruas e no
Congresso, o bolsonarismo se consolidou como um movimento político por saber
disseminar uma visão de mundo única, que dava direção, palavras de ordem e
coerência para os militantes.
Essa organização manteve a base unida mesmo em momentos de
contradição, como a defesa da reabertura das empresas durante a epidemia da
Covid, o discurso antissistema enquanto Bolsonaro entregava metade do governo
para o Centrão, a campanha de desconfiança sobre as urnas eletrônicas com o PL
elegendo a maior bancada do Congresso, a tentativa de golpe dos que defendiam a
democracia, a condenação do ex-presidente e o descarte de Tarcísio de Freitas
para a escolha de Flávio como candidato. Qualquer um que desafiasse a
hierarquia era punido, como foi o governador João Doria e o general Freire
Gomes. Até os vídeos de Michelle Bolsonaro.
Os vídeos desorganizam a base, racham a coesão interna e
colocam em dúvida a hierarquia. Flávio Bolsonaro não foi apenas acusado de
desrespeitar a mulher que cuida de seu pai doente. Foi acusado de contrariar as
ordens expressas do pai sobre o Ceará e ter incentivado os ataques à madrasta.
Se a milionária relação de Flávio Bolsonaro com o banqueiro preso Daniel
Vorcaro provocou dúvidas sobre sua ética, os vídeos de Michelle atingiram sua
legitimidade como o sucessor de Jair Bolsonaro.
Na pesquisa Genial/Quaest de junho, Flávio Bolsonaro já
estava perdendo
votos entre mulheres e evangélicos, dois segmentos nos quais Michelle é
mais forte que ele. Segundo a pesquisa, depois da divulgação da doação dos R$
61 milhões de Vorcaro a Flávio, a vantagem de Lula entre as mulheres na
simulação de segundo turno saltou de 5 pontos percentuais em abril para 14
pontos percentuais em junho. Entre os evangélicos, onde Lula tem seus piores
números, o escândalo Vorcaro fez a vantagem de Flávio Bolsonaro cair de 36
pontos percentuais em maio para 21 pontos em junho.
O voto feminino é um conhecido problema para o bolsonarismo.
Como mostra Jairo Nicolau no livro “Um país dividido”, foram as mulheres que
levaram Lula de volta ao Planalto. Depois de obter 53% dos votos femininos em
2018, Jair Bolsonaro caiu para 42% em 2022 graças à sua conduta na epidemia da
Covid, à defesa da liberação de armas e às seguidas posturas misóginas. Flávio,
que vinha ganhando tração por se apresentar como um Bolsonaro vacinado, foi
jogado pela madrasta para o mesmo nicho masculino do pai.
O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, percebeu a largura
da fenda aberta pelo conflito. Em entrevista à repórter Kelly Mattos, da Rádio
Gaúcha, no aeroporto de Miami, ele elogiou o trabalho de Michelle (“O que ela
fez pelo PL Mulher não tem preço”), fez um meio elogio a Flávio (“ele tá com a
eleição quase empatada com o Lula”) e colocou a eleição em outro patamar:
— Se nós não nos entendermos, nós perderemos a eleição e
quem vai pagar é o Bolsonaro — disse o dirigente. A declaração é um apito de
cachorro: a vitória de Flávio não é dele, mas um veículo para a liberdade de
Jair.
Como sempre repete Valdemar, as chances de Flávio Bolsonaro
ser eleito presidente dependem do empenho de três pessoas: o governador
Tarcísio de Freitas, o deputado Nikolas Ferreira e Michelle Bolsonaro. Os dois
primeiros ficaram neutros na disputa familiar. A terceira entrou para disputar
com Flávio o espólio da família no caso de derrota em outubro. O reino está
dividido.