quarta-feira, 4 de novembro de 2026

NÃO ME DEIXES

Em 4 de novembro de 2003, Rachel de Queiroz fez sua última viagem. Raquel, a pioneira cearense – primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, 1977 – conhecida pelas belas histórias contadas em suas obras, o carinho que tinha pelas palavras, seja nas crônicas, nas peças de teatro ou nos romances, ela era uma mulher à frente do seu tempo. Na politica, Rachel de Queiroz enveredou, e teve uma vida intensa.

A consagrada carreira de escritora e jornalista, parte dos brasileiros já conhece, mas, na política é desconhecida pela maioria da população brasileira. Rachel se tornou membro do Partido Comunista ao lado de amigos de sua geração, uma turma politizada e ‘comunizada”, como relatou ela na autobiografia Tantos Anos, de 1998. Foi presa duas vezes.

Em 1931, após passar dois meses no Rio de Janeiro – tinha ido receber o Prêmio Graça Aranha, dado a O Quinze – Rachel volta ao Ceará, com credenciais do Partido Comunista, já politizada e com a missão de promover e reorganizar o Bloco Operário e Camponês, movimento político o qual ela tinha participado.

Rachel passou a fazer parte do Partido Comunista, mesmo sem ter feito uma ficha, assinado alguma ata. Aliás, não se podia deixar nenhum rastro de papéis, livros ou qualquer tipo de documento, a polícia era brutal e se pegasse algum vestígio, levava todos para a cadeia: às pessoas e os papéis. Com a chegada de Getúlio Vargas ao Rio, a polícia ficou mais feroz.

Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, os livros de Rachel de Queiroz foram proibidos e, num fato marcante, várias de suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de subversivos.

O desligamento do Partido Comunista aconteceu após ela ver censurado pelo próprio Partido o romance João Miguel. No romance João Miguel, ‘campesino’ bêbado, matava outro ‘campesino’. O aviso: só permitiria a publicação da obra, se Rachel fizesse as modificações apontadas pelo presidente do Partido Comunista. Segundo o Partido, a trama era carregada de preconceitos contra a classe operária.

Jamais se curvou as imposições feitas a sua obra, Rachel de Queiroz não aceitou as tais modificações exigidas pelo Partido Comunista, pegou o original que tinha datilografado e saiu em disparada, como relatado por ela no capítulo O Rompimento, da autobiografia Tantos Anos.

Em sua obra Caminho de Pedras (1937), Rachel trata desse momento político que viveu no Partido Comunista, porque fazer política na década de 20, ser comunista era muito perigoso. A ideia de comunismo era distorcida e alguém que ousasse se apresentar como comunista pagaria um preço alto, até com a própria vida.

Foi numa noite cheia de estrelas, dormindo em sua rede que Rachel de Queiroz faleceu em sua casa no Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 2003, longe de sua "Não Me Deixes".

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terça-feira, 3 de novembro de 2026

ENTRE MUROS E CAMINHOS

Jorge J. Okubaro, O Estado de S. Paulo

É preciso reforçar que a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população

Das dezenas de milhões de brasileiros que suspiraram com alívio e júbilo no momento em que se confirmou o resultado do segundo turno da eleição presidencial disputada em 25 de outubro, um grupo muito restrito teve motivos especiais para celebrar. Trata-se das pessoas que conheceram o que de pior a ditadura militar (19641985) praticou: as prisões arbitrárias, a perseguição política, a tortura, os assassinatos e os desaparecimentos de opositores do regime. Fora outros atributos naturais e familiares que o aproximam das milícias e dos grandes esquemas de corrupção, o candidato derrotado tem um especial, herdado do pai: o de admirar e exaltar as terríveis práticas da ditadura militar. É de ter um tipo desses no principal cargo da República que o País se livrou.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe assegura o inédito quarto mandato presidencial, é, por isso, uma vitória dos que querem um Brasil democrático. A igualmente inédita virada entre o primeiro e o segundo turno deveuse certamente à sua liderança e a seu carisma, mas foi impulsionada por outros fatores, um dos quais o fato de sua candidatura representar o bastião para conter o avanço da extrema direita. Por isso, a reeleição de Lula é muito maior do que um feito do PT ou da esquerda. Ela resultou do apoio de forças democráticas que rejeitaram a extrema direita.

É ilusório imaginar, porém, que com a derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo esteja liquidado. Não se pode esquecer que o candidato derrotado teve praticamente 60 milhões de votos. Foi apoiado por quase a metade dos eleitores que compareceram às urnas. Temporariamente, a oposição de extrema direita, até há pouco liderada por Bolsonaro, está sem um comando firme, mas ela tem condições de se recompor e exercer um papel de grande relevância ao longo do próximo governo, que tomará posse em 5 de janeiro. A partir de 2027, é importante frisar, o PL, partido de Bolsonaro, terá 28 senadores e 121 deputados federais, o que significa que deterá as maiores bancadas nas duas Casas do Congresso. Se suas lideranças parlamentares atuarem com competência, poderão impor grandes dificuldades à gestão do presidente Lula.

Além disso, o PL elegeu seis governadores. Outros eleitos por diferentes partidos integram o grupo bolsonarista. O exemplo mais óbvio é o do reeleito governador paulista, Tarcísio de Freitas, filiado ao Republicanos, mas considerado o provável sucessor de Flávio Bolsonaro na liderança dos bolsonaristas. Tarcísio deve disputar a função com a senadora eleita pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro.

Esse quadro dá a dimensão das dificuldades que o quarto governo Lula enfrentará. Em seus pronunciamentos após a vitória, Lula falou em governar de maneira diferente da que mostrou nos mandatos anteriores e de estar mais sintonizado com a população. É difícil saber o que isso significará na prática. Mas que mudança deve haver não há dúvida, para se alcançar uma gestão que preserve o que de importante foi feito no campo social e que saiba enfrentar os novos desafios. São desafios que parte do PT não vê, mas que estão moldando um novo mundo.

As rápidas mudanças tecnológicas geram novas formas de trabalho, às quais nem sempre os organismos estatais sabem reagir com a presteza e a eficácia necessárias para impedir danos a direitos e para capacitar o mundo do trabalho a responder às novas exigências. A questão ambiental terá de perder o tom de discurso político e merecer atenção científica adequada e políticas públicas eficientes. As mudanças sociais que ocorrem a partir das inovações nos sistemas de produção e distribuição de bens exigem nova visão do poder público sobre seu papel.

E continuam abertas questões que, para grande parte dos militantes do PT, só interessam ao grande capital, como a necessidade de ter as contas públicas organizadas. Mas há petistas preocupados com o tema. “A trajetória da dívida pública tem de ser sustentável em algum horizonte de tempo”, disse ao Estadão o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles, um dos nomes citados para ocupar o Ministério da Fazenda no novo governo. “Eu não costumo usar a palavra ajuste. Eu uso a palavra equilíbrio fiscal, justamente para demonstrar que são múltiplas as possibilidades de se buscar esse equilíbrio. Isso envolve corte de privilégios e de desperdício e não vai envolver, com o presidente Lula, qualquer prejuízo social, qualquer corte em programas sociais.”

São muitos os muros na rota do novo governo. Não há muitos caminhos para contorná-los. Espera-se que os escolhidos sejam os melhores. Há sensatez. Há, pelo menos no discurso, a disposição do presidente reeleito de incorporar a população na sua gestão. É preciso reforçar que, se de fato houver essa tentativa, a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população.

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ESQUERDA AGUARDA DERROTA DE TRUMP E FESTEJA VITÓRIA DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da disputa partidária americana

Donald Trump não está na cédula das eleições norte-americanas de hoje, mas seu governo está em julgamento. Os dois principais cenários desenhados pelas pesquisas representam derrotas políticas para a Casa Branca: perder a Câmara dos Representantes ou entregar também o Senado aos democratas. O segundo seria o pior dos mundos. A expressão "pato manco", usada para definir presidentes em fim de mandato e com influência declinante, ganharia conteúdo imediato. Trump conservaria poderes importantes, mas encontraria obstáculos para transformar suas decisões em políticas duradouras.

É preciso, porém, distinguir o favoritismo da sentença das urnas. As pesquisas finais do The New York Times/Siena mostram democratas numericamente à frente nos sete estados considerados decisivos para o Senado, inclusive Texas e Kansas, tradicionais fortalezas republicanas. O próprio instituto adverte que a maioria permanece em disputa. Há precedentes de subestimação do voto trumpista, cujos eleitores resistem mais a responder aos pesquisadores. O tamanho da onda azul dependerá de quem efetivamente for às urnas.

Custo de vida, combustíveis, insegurança econômica e os gastos da guerra no Irã formam o coquetel que corrói a promessa de prosperidade de Trump. A repressão migratória também tem efeitos colaterais: parte dos eleitores que apoiou o controle da fronteira rejeita operações que atingem trabalhadores, desorganizam famílias e retiram mão de obra das empresas. Entre os hispânicos, protagonistas do avanço republicano em 2024, há uma espécie de mea culpa.

Trump e Barack Obama protagonizam os polos nacionais desse confronto, embora o Partido Democrata reúna lideranças e correntes diversas. O presidente tenta converter a votação numa prova de fidelidade pessoal. O ex-presidente mobiliza a oposição para transformar o descontentamento em participação. Nos distritos e estados competitivos, entretanto, a disputa exige candidatos capazes de dialogar com valores religiosos e comunidades locais, cujas preocupações materiais podem atravessar fronteiras que pareciam intransponíveis.

É nesse ambiente que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva adquire significado internacional. A derrota de Flávio Bolsonaro frustrou a possibilidade de um alinhamento do maior país sul-americano com o projeto de poder associado a Trump. Nesse sentido, está sendo interpretada pela opinião pública mundial como uma derrota política do presidente norte-americano. Preserva a presença de um Brasil como uma das âncoras dos BRICS, empenhado em manter autonomia diplomática e interlocução com diferentes centros de poder. Uma vitória bolsonarista seria disruptiva do ponto de vista da política externa brasileira. 

Pragmatismo

Na Europa, a vitória de Lula ofereceu às esquerdas uma referência para enfrentar a sensação de inevitabilidade do avanço da extrema-direita. Seu valor é político e simbólico, pois mostra que mobilização social, alianças amplas e defesa das instituições podem produzir uma vitória do campo da democracia. Isso não significa que o eleitorado europeu reproduzirá o brasileiro, nem que protestos e campanhas tenham passado a obedecer a um impulso vindo de Brasília. Cada país tem seus próprios conflitos.

A derrota de Flávio, que está nos Estados Unidos, também favorece aos democratas norte-americanos. Defender a democracia exige respostas às condições de vida que alimentam a insatisfação popular. Quando a política perde contato com emprego, renda, preços e segurança, deixa um espaço que os adversários ocupam. A experiência brasileira foi uma combinação de defesa institucional e compromisso social. Essa não uma receita exportável, mas enfraquece a ideia de que a onda conservadora seja um destino.

O México ocupa posição particular nessa equação. A integração econômica com os Estados Unidos convive com pressões sobre imigração, segurança e comércio. A relação de "morde e assopra" decorre dessa interdependência: Washington ameaça, mas também precisa negociar. Para mexicanos e brasileiros, uma eventual derrota republicana pode ampliar os interlocutores no Congresso e criar obstáculos a iniciativas coercitivas. Não elimina, contudo, os instrumentos de pressão da Casa Branca nem dissolve interesses nacionais conflitantes.

Para Lula, um Trump enfraquecido oferece oportunidades e riscos. Uma Câmara democrata ampliaria a fiscalização, a perda do Senado dificultaria nomeações e elevaria o custo político de iniciativas do governo. Mas o presidente conservaria o veto e instrumentos executivos relevantes. Pressionado internamente, poderia procurar compensações na política externa e na sua nova doutrina de defesa nacional. O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da disputa partidária americana.

O fato é que a vitória brasileira e uma possível onda azul nos Estados Unidos podem marcar limites à projeção internacional de Trump, ancorada no seu poder militar e tecnológico. É precipitado anunciar seu esgotamento, diante da força de intervenção que ainda deterá. O Brasil precisa combinar firmeza na soberania, cautela diante das provocações e perseverança diplomática. Com Trump derrotado nas urnas, administrar as relações com os Estados Unidos não comporta soberba e continuará exigindo pragmatismo.

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PEC DA SEGURANÇA É O 1º CABO DE GUERRA PÓS-ELEIÇÃO

Danandra Rocha, Correio Braziliense

Matéria deve ser votada hoje no Senado. Principal confronto é relacionado a inclusão da redução da maioridade penal. Bolsonaristas não admitem deixar o tema para depois e aliados de Lula querem aprovação daquilo que veio da Câmara

O primeiro embate pós-eleições entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a oposição no Senado será por causa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. A matéria está prevista para ser analisada pelo Plenário da Casa hoje, a partir das 16h, em uma sessão que antecipa visões opostas sobre tema como combate ao crime organizado e redução da maioridade penal. Enquanto a base governista trabalha para aprovar o texto tal como foi aprovado pela Câmara dos Deputados, parlamentares bolsonaristas e associados de outros partidos além do PL forçam a incorporação à proposta mudanças que diminuem a idade de responsabilização penal.

A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), afirmou ao Correio que a expectativa do Palácio do Planalto é garantir a aprovação da PEC conforme a versão aprovada pelos deputados. Apesar de Lula ter afirmado, durante a campanha presidencial, ser favorável à redução da maioridade penal somente para crimes hediondos, a estratégia dos governistas consiste em rejeitar as emendas apresentadas pela oposição, especialmente aquelas que tratam do tema. A preocupação maior é evitar modificações no conteúdo da proposta, o que obrigaria o texto a retornar à Câmara e prolongaria a tramitação de uma das principais iniciativas do Palácio do Planalto na área da segurança pública.

A votação representa um teste para a articulação política do governo no Congresso em um cenário de polarização agravado com a fuga do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos. A oposição pretende aproveitar a discussão para pressionar o Planalto a assumir uma posição mais enfática sobre a responsabilização de adolescentes envolvidos em crimes violentos. Sobretudo, cobrará a afirmação de Lula na sabatina da Globo, no segujndo turno, quando disse: "Meu pensamento, enquanto cidadão brasileiro, todo e qualquer crime hediondo, sou favorável a diminuir a pena para crimes hediondos", afirmou.

Discussões separadas

Apesar da posição assumida pelo presidente quando disputava a reeleição, o governo tenta separar a discussão sobre o endurecimento das punições da proposta de alteração da maioridade penal. Os aliados do Palácio do Planalto pretendem manter a PEC focada na reorganização do sistema de segurança pública — a mudança na idade de responsabilização seria feita numa discussão específica. A posição, no entanto, não é consenso entre os próprios petistas, que enfrentam divergências internas deixar para depois a discussão de uma medida que tem respaldo na opinião pública.

O impasse já havia provocado o adiamento da análise da proposta no Senado. A PEC estava prevista para ser votada em 15 de outubro, mas foi retirada da pauta pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), diante da falta de entendimento entre governistas e oposicionistas. A divergência se concentrou nas emendas que alteram a maioridade, considerada pela oposição uma resposta necessária à escalada da violência, mas vista pelo governo como uma mudança que pode comprometer a aprovação da proposta principal.

A emenda apresentada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, propõe reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos como regra geral, e para 14 anos nos casos de crimes graves. O texto recebeu o apoio de outros parlamentares, como o próprio Flávio Bolsonaro. O líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), também apresentou um destaque para que a emenda seja votada separadamente, permitindo que os senadores se posicionem de forma específica sobre a mudança.

Os bolsonaristas e seus aliados sustentam que a alteração é necessária para endurecer a legislação diante de crimes cometidos por adolescentes. A posição da oposição encontra respaldo em levantamentos de opinião pública. Pesquisa Datafolha realizada em junho de 2026 apontou que 79% dos brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal. Outros 17% se declararam contrários à medida, enquanto 3% disseram não saber e 1% se declarou indiferente. O resultado é utilizado por defensores da proposta como argumento para pressionar o Congresso a avançar na discussão.

"Não podemos deixar de enfrentar uma questão fundamental: a maioridade penal. A oposição vai insistir na votação da emenda que prevê a redução de 18 para 16 anos como regra geral e para 14 anos em crimes graves, como homicídio, estupro, tráfico de drogas e terrorismo. Não podemos continuar permitindo que criminosos se aproveitem da legislação para recrutar menores e cometer crimes com a certeza da impunidade. Precisamos de uma legislação mais rigorosa, que dê uma resposta firme à criminalidade. Segurança pública exige coragem e responsabilidade", cobrou o senador Izalci Lucas (PL-DF), líder da oposição no Congresso.

No PT, a possibilidade de alterar a idade de responsabilização penal não é consenso. Uma ala da legenda considera que o governo deveria apresentar uma alternativa capaz de absorver parte da demanda por maior rigor penal. Nesse contexto, o senador Camilo Santana (PT-CE), líder do partido na Casa, apresentou proposta que prevê a redução da maioridade para 16 anos exclusivamente nos casos de crimes hediondos. Outra parcela do partido sustenta que a redução da maioridade contraria a posição histórica da legenda e pode representar um retrocesso na política de proteção aos adolescentes.

A PEC exige o apoio de pelo menos 49 dos 81 senadores, o equivalente a três quintos da composição da Casa, em dois turnos de votação. Um calendário especial aprovado anteriormente permite que os parlamentares acelerem a tramitação e realizem as duas etapas no mesmo dia, mediante a quebra do intervalo regimental entre os turnos. A iniciativa busca viabilizar a conclusão da análise ainda hoje, embora a votação dependa do entendimento entre as lideranças.

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SONÂMBULOS DO AJUSTE FISCAL

Luiz Gonzaga Belluzzo, Valor Econômico

Nas recessões, e mais ainda nas depressões, a dívida pública invade os portfólios para garantir o valor e a liquidez da riqueza dos privados

Nas últimas semanas, antes e após as eleições, esquentou a refrega sobre a relação dívida/PIB entre catastrofistas e a turma do “senta-que-o-leão é manso”. Na visão dos catastrofistas, o risco fiscal está associado a uma trajetória “insustentável” da dívida pública. A elevada dívida dos governos, dizem por aí, vai culminar em um calote devastador. Digo devastador porque, se isso acontecer, vai desencadear a desvalorização da riqueza financeira que frequenta os balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos.

Em sua trajetória secular, o capitalismo abriu espaço para o surgimento e desenvolvimento de instituições encarregadas de administrar a moeda e os estoques direitos — títulos de dívida e ações — que, diria Keynes, nascem de seu incessante movimento de criação e apropriação do valor.

Começamos com a moeda. No afã de se apropriar da riqueza, as criaturas do mercado estão submetidas à soberania monetária do Estado. O Estado é o senhor da moeda, mas os bancos, sob a supervisão e o controle do Banco Central, são incumbidos de atender à demanda de crédito das gentes privadas. Esse sistema complexo, em sua evolução, engendrou essa forma de criar dinheiro para dar início ao jogo do mercado. Os bancos apresentam-se como os agentes particulares do senhor da riqueza universal. Universal, porque a forma inescapável que deve denominar e mediar todas as negociações, transações e, sobretudo, marcar o valor da riqueza registrada nos balanços.

Ao alegar endividamento excessivo do Estado, os senhores do mercado podem desatar uma corrida para o dólar

Os títulos de riqueza, públicos e privados, não estão separados, mas, sim, articulados em seu movimento conjunto com os ativos financeiros emitidos por bancos e empresas ditas produtivas. Títulos privados e públicos são negociados em mercados ditos secundários, em que se formam os preços e as taxas de remuneração dos papéis.

Para ser conciso, qualquer ativo de riqueza, como, por exemplo, uma fábrica ou uma plataforma de entrega de comida, é avaliado pela capacidade de gerar um valor monetário acrescentado. Assim também, e não por acaso, os valores que circulam nos mercados financeiros estão permanentemente ameaçados pela dimensão perversa que habita a alma dos mercados, sempre pronto a infernizar os que não conseguem assegurar, diante dos demais, a valorização monetária de seus ativos.

Não só as mercadorias têm de receber o carimbo monetário, mas também a situação patrimonial — devedora ou credora das empresas, bancos e demais instituições — deve estar registrada nos balanços. Os agentes privados do senhor da moeda estão permanentemente obrigados a manejar os riscos de crédito e de liquidez que afetam seu patrimônio líquido, a relação crucial entre ativos e passivos.

Os estudos sobre as relações entre crescimento da dívida privada e da dívida pública ao longo dos ciclos de expansão-contração das economias capitalistas mostram de forma cabal que nas expansões predomina o crescimento do endividamento privado e nas contrações eleva-se o endividamento público. Quando se acentuam as desconfianças dos mercados, a tigrada corre para os títulos públicos, avaliados como ativos seguros de última instância.

Nas recessões, e mais ainda nas depressões, a dívida pública invade os portfólios para garantir o valor e a liquidez da riqueza dos privados. Salvos da desvalorização dos ativos e das carteiras de dívida que carregavam, os bancos privados e outros intermediários financeiros salvaguardam seus patrimônios, incorporando títulos públicos aos seus balanços. O Estado, como gestor da moeda (e da dívida), susta uma desvalorização desastrosa da riqueza.

A crise de 2008 impôs aos governos manobras desesperadas de transformação dos passivos privados em débitos públicos. Os bancos centrais cuidaram de absorver ativos privados em seus balanços, enquanto os Tesouros se incumbiam da emissão de títulos públicos para sustentar a liquidez das carteiras de ativos dos bancos privados.

As crises de endividamento público estão invariavelmente associadas à tomada de empréstimos em moeda estrangeira. Essa foi a etiologia da crise fiscal e monetária dos emergentes nos anos 80 do século passado, entre esses o Brasil. A crise deflagrada no início dos anos 80 produziu efeitos devastadores sobre as finanças públicas e erodiu a soberania monetária dos países atingidos ao suscitar uma fuga sistemática das moedas nacionais.

Foi esta também a razão da hiperinflação alemã do início dos anos 20 do século passado. Esmagada pelas reparações de guerra que lhe foram impostas pelo Tratado de Versalhes, a economia alemã sucumbiu à impossibilidade de gerar as divisas necessárias para servir o que lhe fora imposto. A fuga sistemática do marco para o dólar e a libra, as moedas-reserva do Gold Exchange Standard, disparou a hiperinflação e a necessidade de resposta do Reichsbank e do Tesouro alemão.

Ao alegar endividamento excessivo do Estado brasileiro, os senhores do mercado, em seus poderes, podem desatar uma corrida para o dólar e, implicitamente, sinalizar uma dinâmica inflacionária semelhante à observada e sofrida nos anos 80.

A soberania monetária do Estado nacional não é um dom. É um exercício legítimo de poder que os mercados tentam solapar, ignorando que não podem sobreviver sem as relações, por certo conflitivas, com as instituições monetárias e fiscais do Estado. Os catastrofistas de mercado esperneiam para promover o ajuste fiscal.

Quem vai pagar a dívida? Consulto o economista francês Michel Aglietta: “A evolução da dívida pública depende de duas variáveis econômicas que não são responsabilidade direta da política fiscal. São a taxa média de juros reais paga na dívida pública e a taxa de crescimento da economia (e o crescimento das receitas fiscais). É da distância entre as tendências dessas duas variáveis que se vai determinar o sucesso ou o fracasso dos esforços de consolidação fiscal”.

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DEFINIÇÃO DE NOMES PARA A ESPLANADA

Andrea Jubé, Valor Econômico

Lula reúne aliados para avançar na definição de nomes para a Esplanada

Presidente tem reunião hoje com nomes como Rafael Fonteles, Camilo Santana e Alckmin

Pouco mais de uma semana após a vitória, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) volta a se reunir com o núcleo mais próximo da campanha, nesta terça-feira (3), para dar continuidade à formação do novo governo. Nos últimos dias, evoluíram as conversas com a cúpula do Congresso, a fim de garantir a governabilidade do Lula 4, bem como a confirmação de alguns nomes e de alguns espaços do PT e do PSB.

Ainda nesta terça-feira, Lula deve gravar o pronunciamento sobre a vitória, a ser transmitido em rede nacional de rádio e TV, que ele anunciou em um áudio enviado na semana passada no canal “Exército do Lula”, comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG). Ele agradecerá os mais de 64 milhões de votos, e reafirmará o compromisso com as promessas de campanha.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), o líder do PT no Senado e ex-ministro Camilo Santana (CE) e o senador eleito e ex-ministro Rui Costa (PT) retornam de seus Estados, onde passaram os últimos dias, para se encontrar com Lula. Fonteles e Camilo são cotados para o Ministério da Fazenda e para a Casa Civil, respectivamente. Também devem se somar à agenda o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), o ministro da Secretaria de Comunicação (Secom), Sidônio Palmeira, e o presidente do PT, Edinho Silva.

Esse grupo se reuniu pela última vez com Lula na manhã de quarta-feira (28), após a comemoração do aniversário do presidente na véspera, quando analisaram as consequências da fuga do candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), para os Estados Unidos, e a conjuntura nacional, em meio à movimentação dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para se reelegerem para o comando das Casas.

No dia seguinte ao segundo turno, Lula havia se reunido com Motta e Alcolumbre, quando alinharam o apoio do Palácio do Planalto à reeleição de ambos, a fim de assegurar a governabilidade durante o novo mandato, em uma aliança da esquerda com a parcela majoritária do Centrão. Lula sinalizou a Motta que pode manter o aliado dele, Gustavo Feliciano, no Ministério do Turismo. Sem partido, Feliciano é conterrâneo de Motta e foi indicado para a pasta, que está na cota do União Brasil, em um consórcio do presidente da Câmara com Alcolumbre.

Em paralelo, Lula avalia se aceita, ou não, a recomendação para indicar um quadro do Centrão para a Secretaria de Relações Institucionais (SRI), responsável pela interlocução com o Congresso, para montar um Planalto “plural” e arejar o diálogo com os parlamentares. O presidente foi criticado porque, no mandato atual, todos os ministros palacianos são petistas ou de esquerda, como Boulos.

O perfil ideal para a SRI, segundo fontes a par do assunto, seria o de um deputado, com mandato, fora do PT ou da esquerda. Nesse contexto, um nome ventilado é o do deputado Silvio Costa Filho (Republicanos-PE). Ele é próximo de Motta, e foi ministro da Secretaria de Portos e Aeroportos no terceiro mandato, com desempenho elogiado por Lula. Alas do Republicanos, entretanto, defendem que ele retorne à pasta.

Simultaneamente, como já mostrou o Valor, Lula alinhavou com Alcolumbre a indicação do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Rodrigo Pacheco, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Em abril, Alcolumbre foi um dos responsáveis pela articulação para que os senadores rejeitassem o nome do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o STF, justamente porque queria Pacheco na vaga. Agora, em retribuição a Alcolumbre, que pautou a votação do fim da escala 6x1, e deverá concluir a análise da proposta de emenda à Constituição (PEC) da segurança pública nesta semana, Lula encaminhará a indicação de Pacheco ao Supremo. A vaga do ex-senador de Minas Gerais no TCU caberá à bancada do MDB no Senado.

Lula também se comprometeu com Alcolumbre a manter um de seus principais aliados, o ex-governador do Amapá Waldez Góes, à frente do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional.

Em relação ao PT, Fonteles e Santana continuam liderando o time de “homens fortes” do novo governo. Apesar da manobra intrincada que envolve a renúncia ao segundo mandato de governador, Fonteles segue cotado para a Fazenda. Na segunda-feira (2), ele escreveu em uma postagem a mensagem “Viva o Equilíbrio Fiscal!!!” ao anunciar a permanência de no cargo de seu secretário de Fazenda, Emílio Joaquim de Oliveira Júnior.

Ele ainda pode emplacar seu aliado, o secretário Nacional de Segurança Pública, Francisco Lopes, na nova pasta da Segurança, que Lula deve criar assim que a PEC sobre o tema for aprovada no Congresso. O Piauí tem os melhores índices de combate à violência do Nordeste.

Camilo, por sua vez, é citado para a Casa Civil, enquanto Alexandre Padilha deve permanecer no Ministério da Saúde. A ex-ministra Gleisi Hoffmann, que não se elegeu senadora no Paraná, deverá assumir uma pasta. E o titular da SRI, José Guimarães, se não permanecer no cargo - na hipótese de Lula rejeitar a escolha de um nome do Centrão -, poderá ocupar outro espaço.

Os futuros papéis do senador eleito da Bahia Rui Costa e do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, derrotado na corrida pelo governo de São Paulo, estão indefinidos.

Quanto ao PSB, Alckmin é citado para a Fazenda ou para retornar à pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic). O presidente da sigla, João Campos, derrotado na disputa pelo governo de Pernambuco, deve ser ministro - provavelmente, da Ciência e Tecnologia. E o candidato derrotado a vice-governador de Minas Gerais na chapa de Patrus Ananias (PT), Jarbas Soares Júnior, aliado de Alckmin, deve ganhar um espaço no governo.

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COM QUEM SERÁ ?

Merval Pereira, O Globo

Lula precisa terminar uma vida política brilhante com um governo que ele pretende será “o melhor governo” que já fez.

A definição do quarto governo Lula sairá da escolha do próximo ministro da Fazenda, assim como a escolha de Antonio Palocci no primeiro mandato foi essencial para a manutenção do sistema econômico montado no governo de Fernando Henrique Cardoso, baseado no tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Colocar Henrique Meirelles, deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás, na presidência do Banco Central foi outra medida surpreendente que deu o rumo do governo. Tudo isso aconteceu porque Palocci, antigo prefeito de Ribeirão Preto, fundador do PT, tinha o respeito da máquina partidária do partido.

Nenhum dos coordenadores econômicos do PT, como Guido Mantega ou Aloizio Mercadante, foi cogitado neste primeiro momento. Somente quando Palocci teve que sair do governo, devido a acusações de corrupção, foi substituído por Mantega, que permaneceu no governo Dilma Rousseff, quando colocou em prática o que chamou de “nova matriz econômica”, perdendo o controle do equilíbrio fiscal e levando o país à maior crise financeira já ocorrida e ao impeachment do presidente Dilma Rousseff. Mantega terminou no staff do banqueiro bandido Daniel Vorcaro.

No segundo mandato de Dilma, diante da catástrofe econômica, a presidente foi obrigada a convidar para o ministério da Fazenda o economista Joaquim Levy, ligado à linha econômica que vigorava no governo Fernando Henrique Cardoso, para tentar recolocar o país na trilha do equilíbrio fiscal. Não durou um ano, boicotado pela máquina burocrática petista, que colocou em seu lugar o economista Nelson Barbosa. Esse rápido histórico demonstra que somente quando o ministro da Fazenda faz parte da máquina petista é possível fazer uma gestão que não seja boicotada internamente.

O ministro da Fazenda Fernando Haddad é um exemplo disso. Recebeu forte oposição interna, mas manteve-se no comando das ações com o apoio do próprio presidente Lula e de uma ala do partido. Tido como seu possível sucessor, Haddad sempre teve o respaldo do presidente, que o escolheu para representá-lo na eleição perdida em 2018 e, na recente eleição, aceitou ir para o sacrifício candidatar-se ao governo de São Paulo apenas para dar um palanque forte para a campanha da reeleição de Lula, sabendo que poderia, como aconteceu, perder já no primeiro turno para o governador Tarcisio de Freitas.

A escolha de Dario Durigan para continuar no cargo de ministro da Fazenda, que assumiu como segundo de Haddad, seria uma reafirmação da força daquele, e desencadearia uma forte reação interna a essa confirmação de Lula de que Haddad é o escolhido para seu sucessor. Ainda mais se Lula colocá-lo, como se especula, como Chefe do Gabinete Civil. Perguntado por jornalistas, Palocci, que ainda conhece bem o PT por dentro, acha que Durigan deveria ser mantido como ministro da Fazenda no quarto mandato de Lula.

Outro forte candidato, o governador eleito do Piauí, o petista Rafael Fonteles ganhou corpo dentro da estrutura petista ao se tornar o coordenador da campanha presidencial no segundo turno. Considerado um político eficiente e moderado, Fonteles vem dando vivas ao equilíbrio fiscal, tem bons resultados em sua gestão, tendo sido reeleito no primeiro turno. Aos 41 anos, faz parte da nova geração do PT que chega no momento em que Lula começa seu último mandato como presidente da República, o único eleito diretamente por quatro vezes. O partido precisa de renovação, e Lula precisa terminar uma vida política brilhante com um governo que ele pretende será “o melhor governo” que já fez.

Para tanto, não pode arriscar perder o controle da situação econômica. A ideia de colocar o vice-presidente Geraldo Alckmin no ministério da Fazenda é outra saída em direção ao centro político e ao equilíbrio fiscal. Por todos esses aspectos, também pela necessidade de montar uma aliança formal com o Centrão para tentar superar pela política a supremacia oposicionista no Congresso, a escolha será decisiva para o futuro do Lula 4.

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PAÍS À FLOR DA PELE DISCUTE OS JUROS

Míriam Leitão, O Globo

Lula precisa cumprir as promessas e ajustar as contas públicas. Queda do juros deve vir pela conquista de credibilidade fiscal

O país viveu uma eleição de emoções radicais e estamos todos à flor da pele. Havia muito em jogo. Temos agora a chance de em quatro anos construir uma barreira contra o risco antidemocrático. O Brasil não pode ficar pendurado no abismo a cada eleição. Há muitas variáveis nessa equação, uma delas é a economia com suas emergências, volatilidades e tarefas inescapáveis. Hoje começa a reunião do Copom mais difícil dos últimos tempos.

O mercado mudou suas previsões. Agora a maioria dos bancos acredita que os juros serão mantidos. Na política o assunto é discutido de forma incandescente. Na prática, todos os ativos pioraram muito e talvez a decisão do BC seja de fato manter a Selic.

É hora de o governo jogar água na fervura do debate econômico interno. A escolha do caminho tem que ser racional. Não há tempo para experimentações, não se pode correr o risco de errar. O extremismo de direita está sonhando com uma crise econômica para desestabilizar o governo.

Os atos de Flávio Bolsonaro após a derrota, não reconhecer o resultado e escrever as versões insanas da carta golpista, provam que a direita bolsonarista permanece sendo o que sempre foi: antidemocrática. Ele sabe que perdeu, mas afirmar que houve fraude é, de novo, usar a mentira como método. Como o pai, Flávio tenta minar a confiança no processo eleitoral. Desta vez, ele ficou falando sozinho, felizmente. De Miami, gravou um vídeo dizendo que pode haver eleição antes de 2030. Esta é a esperança dele: que haja uma crise.

O presidente Lula não pode descumprir promessas. Mas como ajustar contas públicas se ele garantiu manter todos os programas sociais e ampliá-los? É que nunca houve esse conflito, pelo contrário. Inflação alta, como a História nos ensinou, não é compatível com inclusão social. Não por acaso foi depois do Real que as políticas de inclusão ganharam força e densidade. Existem porém escolhas a serem feitas. A redução forçada dos juros seria um tiro pela culatra.

O país precisa encontrar o caminho de diminuir essa escorchante taxa de juros. No momento, o Banco Central está escrevendo a sua terceira carta em 20 meses de descumprimento da meta de inflação. Mudar a meta para os juros caírem seria a falsa solução porque elevaria o índice.

Pode-se dizer que o candidato derrotado repetiu todas as promessas que o presidente Lula fez durante a campanha, portanto também não indicava ajuste. Mesmo assim o mercado virou de ponta cabeça quando o presidente foi reeleito. Os bancos apostavam que o outro candidato faria um estelionato eleitoral e sabem que Lula não fará isso. Agora Lula precisa encontrar o caminho estreito entre cumprir as promessas e indicar como fará o equilíbrio fiscal.

A maior parte do crescimento da dívida é resultado dos juros altos. Inequívoco. O problema é que eles têm que cair não por decreto, por alguma fórmula mirabolante, por negacionismo fiscal, mas sim a partir da credibilidade da política econômica e fiscal. O presidente precisa escolher para a Fazenda alguém que conquiste confiança e que saiba que não há ilusionismo possível neste momento.

O que houve no segundo turno foi tão intenso que vamos demorar a entender inteiramente. Foi um movimento, não foi apenas uma campanha. Tudo precisou dar certo para que dez milhões de votos a mais fossem entregues ao presidente Lula. A vitória não teve uma causa, teve muitas. A esperança aflorou nos jovens, a lembrança foi ativada nos idosos, o medo da volta dos passados, recente e remoto, assombrou milhões, a corrida pela virada foi espontânea, alegre, cívica.

Quando todos ainda comemoravam, os mercados despencaram e os economistas fizeram alertas. A economia é mesmo uma estraga prazeres. Na semana passada, o real foi a moeda que mais perdeu valor no mundo. Caiu 8,43%, a segunda maior desvalorização foi do peso colombiano, queda de1,49%, a terceira, o won da Coreia do Sul, perdendo 0,82%. O Brasil foi totalmente fora da curva.

Este é um momento delicado. O país precisa consolidar a vitória da democracia e não frustrar as expectativas dos eleitores é parte disso. Contudo, precisa também afastar os temores da economia, num ambiente internacional cheio de incertezas. Ontem foi um dia bom, de queda da cotação do petróleo. Mas dúvidas pairam sobre os preços das supervalorizadas ações das big techs. Se o ambiente internacional mudar, será uma variável a mais na complexa equação econômica do Brasil.

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DESAFIO ECONÔMICO PEDE PASSAGEM

Artigo de Fernando Gabeira

A fuga de Flávio Bolsonaro e o rescaldo emocional da campanha ocuparam a cena pós-eleitoral. Mas não devem sobreviver por muitos dias. Ao se intitular “presidente eleito” do Brasil, Flávio repetiu aquele venezuelano, Juan Guaidó, que também se declarou presidente e saiu pelo mundo para cair num profundo esquecimento. Flávio terá menos fôlego ainda, porque as eleições brasileiras gozam de crédito internacional muito grande.

No front interno, as constantes ameaças de demissão dos petistas porque votaram em Lula são uma espécie de assédio eleitoral retardado e não devem vingar. A temperatura baixará com o tempo. O que deve surgir com muita força no horizonte é uma discussão concreta sobre a política econômica do novo governo. Isso, sim, diz respeito ao futuro e merece reflexão positiva.

A expectativa de um ajuste fiscal severo deve se frustrar. Lula nunca prometeu isso na campanha e, baseado num discurso que fez na Espanha, suponho que não acredita em tal caminho. Muitos observadores consideram que o declínio da social-democracia na Europa aconteceu exatamente porque ela se rendeu aos argumentos neoliberais nesse campo, abrindo enorme espaço ao populismo de direita.

No caso brasileiro, um ajuste muito severo pode ser entendido como estelionato eleitoral, abrindo espaço à oposição de direita e, ao mesmo tempo, desencantando os eleitores de esquerda.

Mas a falta de uma política econômica bem-sucedida pode suscitar forte inflação, com duros reflexos para os mais vulneráveis. Isso abalaria a esperança de milhares de eleitores que votaram precisamente na esperança de proteção aos mais pobres.

Que alternativa resta? Um ajuste fiscal que não prejudique os pobres. Não é fácil, embora seja possível enxugar a máquina do Estado e obter alguns recursos dessa decisão. Lula se mostrou interessado na comunicação digital. Está a um passo, portanto, de se abrir à ideia de um Estado inteligente, em que, com menos recursos, é possível manter um bom nível de eficácia.

Mas o enxugamento da máquina não basta. A equação é complexa e não repetirei algumas medidas conhecidas, como o fim dos supersalários, porque, apesar de necessário, não resolve. Não tenho condições de oferecer uma saída para o problema. Assim como não tinha no período de inflação intensa, resolvido com a formulação do Plano Real.

As condições são diferentes, o partido no poder é outro, mas, certamente, capaz de unir seus economistas para encontrar uma saída original, fugindo assim da decadência vivida pela social-democracia e dos ataques da oposição de direita.

O Brasil é o tipo de país complexo e criativo que pode encontrar soluções internacionalmente inéditas. No caso do combate ao controle das redes pela direita, teve grande êxito e exportou seu modelo para outros partidos de esquerda.

A questão econômica é um desafio específico. O capitalismo é um sistema muito difícil de cavalgar. Os grupos no poder são constantemente sacudidos e costumam perder as eleições. Lula foi salvo pela mobilização no segundo turno e pelo medo da volta dos Bolsonaros.

Artigo publicado no jornal O Globo em 03 / 11 / 2026

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

NOSSA SENHORA APARECIDA, ROGAI POR NÓS

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Campanha eleitoral de 2026 mostra racismo cada vez mais escancarado no Brasil

PEC da redução da maioridade penal é exemplo mais revelador da situação

A campanha eleitoral de 2026 foi bastante reveladora a respeito do quanto o racismo, essa deformação moral que se instalou na sociedade brasileira, está arraigado e cada vez mais escancarado no Brasil. Para refrescar a memória, cito alguns atos e fatos marcantes.

Teve homem branco conduzindo homem negro acorrentado (vestido de vermelho e carregando um tridente) durante uma manifestação da extrema direita no RJ. Além da clara associação com a escravização, será que se tratava também de uma alusão a Exu, orixá de matriz africana?

Teve parlamentar branca estalando chicote rua afora para comemorar a vitória eleitoral, em SC. Até os mais distraídos são capazes de associar essa atitude aos castigos físicos impingidos aos negros escravizados durante séculos.

Contudo, o exemplo mais revelador diz respeito à PEC (proposta de emenda constitucional) que reduz a maioridade penal. Para espanto de muita gente (o que me inclui), a iniciativa foi defendida pela oposição e pela situação na corrida à Presidência da República.

Como se sabe, a esmagadora maioria dos adolescentes que se encontram no sistema socioeducativo brasileiro é negra, pobre, vive em situação de vulnerabilidade social e tem baixa escolaridade. Essa combinação os deixa mais expostos à violência e à criminalidade, o que torna evidente o impacto de natureza étnico-racial da PEC em questão.

E nada indica que reduzir a maioridade penal implica queda da criminalidade ou aumento da segurança pública. A criminalidade juvenil representa uma fração bem pequena dos crimes cometidos no país. Adolescentes respondem por menos de 1% dos crimes e por 0,5% dos homicídios e tentativas de homicídio no Brasil (Instituto Sou da Paz).

Para piorar, a inserção de adolescentes no sistema penitenciário junto de adultos facilitaria o recrutamento de menores por facções criminosas. Concluo pedindo que Nossa Senhora Aparecida, uma santa preta, padroeira do Brasil, que também não foi poupada durante a eleição, rogue por nós.

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BOLSONARISTAS ENROLAM JORNAIS COM ROTEIRO TÍPICO DE STEVE BANNON

Ombudsman, Folha de S. Paulo

Estratégia para despistar fuga expõe armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, do complicado declaratório em off

Vaivém sobre itinerário e trapalhadas de carta golpista de Flávio Bolsonaro repetem receituário do ideólogo de Donald Trump

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça (27), quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.

Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".

Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".

Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.

Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.

O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.

Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.

O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".

A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.

Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".

Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.

Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.

O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".

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LULA E O MERCADO

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S. Paulo

Decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade produzem consequências nefastas para a sociedade

O governo Lula e os petistas em geral padecem de uma grave enfermidade. Desconhecem como controlar o mercado, acreditando que o Estado é uma espécie de demiurgo que tudo pode dominar. Têm uma crença desmedida em suas ações, como se elas obedecessem, em seus efeitos, à sua vontade. Ocorre que decisões baseadas numa compreensão inadequada ou falsa da realidade, como se o mercado fosse constituído por relações pessoais e não por regras impessoais, produzem consequências nefastas para a sociedade. A política, quando bem pensada e conduzida, deveria corresponder a ideias fundadas na racionalidade econômica.

O mercado funciona segundo regras que possuem uma autonomia própria, semelhante a leis que regulam os fenômenos naturais. A política não tem o condão de dominar essas leis, embora possa influir em seu funcionamento ou em seu mau funcionamento. E em nosso mundo, tal modo de funcionamento não vigora em nível apenas nacional, mas também internacional. Um evento de quebra de um grande banco na Europa ou nos EUA afeta diretamente o sistema financeiro e logo econômico em nosso próprio país. As pessoas e as empresas atuam nesse processo, apesar de não poderem alterar as suas regras. Podem, isso sim, extrair lucros e dividendos, se souberem deles bem se aproveitar, podendo igualmente padecerem prejuízos e perdas se delas se afastarem.

O governo Lula vive numa ficção. Por exemplo, estabelece um arcabouço fiscal para, em momento seguinte, o desobedecer, estabelecendo exceções que seguem uma determinação jurídica e política. Dirão imediatamente que tal exceção estaria contemplada nas regras do arcabouço, seguindo uma determinação legal. São precatórios, despesas variadas, subsídios e favorecimentos múltiplos que caracterizam o que chamam de política de governo. É como se tudo que fosse legalizado dessa maneira estivesse justificado. Em consequência, estabelece-se como regra geral a gastança desordenada como a que observamos no processo eleitoral, como se tudo fosse possível, como se sua única consequência fosse a vitória eleitoral, quando o que foi criado foi a desordem financeira e econômica. Festejam a vitória desfazendo o País. É um champanhe com veneno.

Acontece que a farra ou a embriaguez paga o seu preço.

A dívida pública cresce, uma vez que segue suas próprias regras, independentemente da decisão legal que a embasou. E para financiar a dívida crescente, é necessário ter compradores que acreditem na capacidade de pagamento do Estado assim endividado. Quanto menor credibilidade tiver, maior será o juro cobrado e o crédito para empresas e pessoas, aumentando o prêmio de risco e fazendo disparar o dólar, os juros imediatos e os de longo prazo. Logo, o Estado terá um custo crescente para o financiamento da dívida, a taxa Selic sofrerá suas consequências mantendo-se elevada, a inflação será pressionada e assim por diante. De nada adianta, diante de tal quadro, simplesmente afirmar que tudo foi legal.

Note-se o efeito imediato da vitória de Lula. Queda vertiginosa da Bolsa, alta do dólar, juros futuros elevados e prêmios de risco maiores. E tudo isso ocorre independentemente do que tal empresário ou banqueiro disser, porque também ele deve necessariamente seguir as regras de mercado, sob pena de falir. Um governo que transmite insegurança jurídica e menospreza a economia de mercado não pode pretender que outros acreditem nas narrativas que apresenta, a exemplo da célebre afirmação de Lula de que todo gasto é investimento. As regras da contabilidade e da matemática vão para o espaço.

Outro exemplo dessa encenação canhestra é a crença de que basta uma conversa com a “Faria Lima” para que tudo volte ao normal. Lula envia um ministro para apaziguar os seus interlocutores como se tudo estivesse, então, resolvido. A premissa é completamente falsa, visto que relações pessoais de ministros com lideranças empresariais e financeiras não têm a faculdade de alterar as regras impessoais do mercado. Por mais importante que seja uma empresa, ela não deixa de ser um agente econômico e financeiro que está destinado a seguir as regras de mercado, sob pena de naufragar se não o fizer. São agentes de leis e regras que os ultrapassam e sobre as quais não exercem nenhum controle.

Claro que se poderia aduzir que o mercado é uma construção histórica, diferente de um fenômeno natural, que poderia consequentemente ser alterado ou revolucionado para utilizar um vocabulário esquerdizante. A proposta seria a abolição da economia de mercado, com o Estado tudo determinando, inclusive a vida pessoal de cidadãos tornados servos. A história não aconselha tal opção, a menos que queiramos seguir os exemplos comunistas, como a ex-União Soviética, Camboja, Coreia do Norte e Cuba. Sociedades miseráveis, opressivas e liberticidas. Se essa não for a escolha, mais sábio seria seguir as regras de uma economia livre.

Lula e o PT têm um encontro marcado com o mercado, embora finjam que nada de grave está por vir.

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ENFRENTAMENTO ÀS BIG TECHS

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Perda de maioria legislativa não seria o maior incentivo para Trump se aproximar de Lula

Bravata de Lula contra as plataformas digitais é uma demonstração de como ainda há elementos capazes de manter as tensões entre Brasil e Estados Unidos em alta

No discurso após sua reeleição, no domingo, dia 25, o presidente Lula prometeu regular as plataformas digitais, que teriam servido de instrumento para uma “intromissão” externa na eleição brasileira. Trata-se, antes de tudo, de levantar uma bandeira cara à esquerda mundial, que defende a aprovação de leis para evitar que o poder das novas tecnologias fique concentrado nas mãos de grandes corporações privadas — insistindo na velha lógica da disputa sobre quem tem o controle dos meios de produção.

Há quem, corretamente, alerte para o risco de exagerar na dose da regulação, permitindo ao Estado praticar censura ou inibir a inovação.

Há, também, duas mensagens com destinatários externos na promessa de Lula. São eles o presidente americano Donald Trump e os chefes das big techs, as grandes empresas digitais, que incentivaram a adoção de tarifas de importação e outras estratégias de pressão contra o Brasil. A mensagem para Trump pode ser resumida assim: a derrota de Flávio Bolsonaro é também sua derrota; isso significa que há um limite para sua influência no Brasil e o melhor é buscar nossa colaboração pela via da negociação.

Já a mensagem para Mark Zuckerberg, da Meta, e seus colegas é a seguinte: vocês também perderam — vamos manter o Pix, nossas leis de comércio eletrônico e decisões concorrenciais — e agora vem o troco.

A bravata de Lula contra as plataformas digitais (era mesmo necessário levantar essa lebre no dia da vitória?) é uma demonstração de como ainda há elementos capazes de manter as tensões entre Brasil e Estados Unidos em alta. Há uma tentação de enxergar a eleição legislativa da próxima terça-feira, nos Estados Unidos, como o grande divisor de águas na relação bilateral, como se uma eventual vitória dos democratas pudesse forçar Trump a mudar de postura e buscar uma aproximação com Lula. Mesmo com maioria, a oposição no Congresso teria capacidade limitada de bloquear a política externa de Trump.

Como no caso da regulação das plataformas digitais, uma agenda à qual ele se opõe em todo o mundo, o que de fato vai pautar os próximos passos do presidente americano em relação ao Brasil é, primeiro, o reconhecimento de que Lula será seu interlocutor obrigatório pelos próximos anos, e, segundo, a avaliação sobre se a estratégia de pressão está funcionando ou não. Apesar dos sinais dúbios, a resposta para a primeira questão parece ser sim.

A segunda depende muito de como o governo Lula vai agir daqui para frente. Manter o tom de confronto depois de superada a fase de campanha não é o melhor caminho.

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QUANDO EU ME CHAMAR SAUDADE

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domingo, 1 de novembro de 2026

ALÍVIO DEMOCRÁTICO

Rodrigo Nunes*, Folha de S. Paulo

Lula 4 dá fôlego à democracia, mas extrema direita não foi embora com Flávio

Um governo apenas de normalização institucional é muito pouco contra ameaças que nos assombram

Será indispensável manter mobilização social e ousadia para emparedar bolsonarismo

[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar para 2030 desde já.

Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.

Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após escapar por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como segue crescendo.

Embora o salto à frente de Flávio Bolsonaro no primeiro turno não fosse esperado, tudo mais nos resultados daquele dia não deveria ser surpresa.

Malgrado a derrota na disputa presidencial de 2022, o voto bolsonarista continuou se ampliando e capilarizando desde 2018, conforme se pôde observar nas três últimas eleições, com a consolidação de sua presença no Congresso, nos governos e legislativos estaduais, nas prefeituras e câmaras de vereadores.

Em vez de uma virada de maré, o triunfo de Lula quatro anos atrás foi a recaptura do último bastião que ainda não estava plenamente nas mãos da extrema direita.

Se aquela eleição viu um dos melhores presidentes da história do Brasil bater o pior por uma margem mínima, 2026 obrigou Lula a correr atrás do resultado contra um candidato que não é o político mais expressivo nem de sua própria família —e o reconduziu ao governo para quatro anos sob o cerco permanente de um adversário hostil e empoderado.

Nas últimas semanas, um termo circulou para caracterizar esse cenário: haveria uma revolução de extrema direita em curso no país. Por um lado, tratar-se-ia de uma revolução cultural, visível, por exemplo, no avanço de todo um universo de valores e referências associados ao agronegócio ao longo da fronteira agrícola em expansão no interior do Brasil.

Uma revolução cultural também no modo como a extrema direita soube dar forma aos desejos e frustrações dos atletas da viração nas cidades grandes e médias: motoboys, motoristas de aplicativo, aspirantes a influencers e outros trabalhadores em situação permanente de sub e multiemprego que se identificam com a promessa de um mundo em que menos regulação e impostos possam impulsionar seus voos pessoais.

Revolução cultural, finalmente, no crescimento das igrejas evangélicas nas periferias e na ascensão dos empreendedores políticos: influenciadores digitais que fizeram da agitação de extrema direita uma carreira lucrativa e que, em muitos casos, lograram converter em votações estrondosas seu considerável capital midiático.

Mas o termo se justificaria sobretudo porque é a extrema direita que tem sabido melhor do que ninguém encarnar um desejo de ruptura que paira no ar há algum tempo —uma mistura de desencanto com as promessas da democracia e da modernidade, indiferença a instituições vistas como elitistas e corruptas, um sentimento de que as coisas não podem seguir como estão e uma dificuldade profunda de imaginar como elas poderiam ser diferentes.

Trata-se de uma revolta que acaba por ser extremamente conformista, na medida em que não se traduz em projetos coletivos de combate à explosão da concentração de poder econômico e político das últimas décadas, mas na aposta em figuras que prometem um ambiente mais desregulado de competição de todos contra todos. Isso, contudo, não a torna menos urgente para quem adere a ela.

Revolução ou Aceleração?

Todos os elementos dessa análise estão corretos —e, no entanto, a palavra "revolução" não deixa de causar ruído. Não porque ela seja privilégio exclusivo da esquerda ou porque tenha um conteúdo determinado, mas porque falta à ascensão da extrema direita uma característica que parece essencial ao conceito: a de ir a contrapelo do atual estado de coisas.

Em cada um dos pontos acima, é possível dizer que o sucesso da extrema direita vem menos de sua capacidade de andar na contramão da história e mais de sua aptidão para navegar os ventos favoráveis das quase duas décadas de crise permanente que vieram na esteira da debacle financeira de 2008.

A internalização do empreendedorismo de si mesmo —aquilo que Verónica Gago chamou de "neoliberalismo desde baixo"— não é um fenômeno recente, mas o resultado cumulativo de cinco décadas de reformas neoliberais que reformataram o mundo em que vivemos.

O advento da plataformização e das redes digitais contribuiu para acelerar este processo, bem como o da colonização da política pela economia da atenção que fez crescer exponencialmente o poder das big techs, inclusive aquele de intervir diretamente em eleições, ao mesmo tempo que abria aos empreendedores políticos um mercado gigante de instrumentalização da raiva, do ressentimento e do ódio.

Neste processo, também as igrejas evangélicas funcionaram menos como inovadoras do que como organismos especialmente adaptados a um novo mundo que se formava.

Ocupando espaços deixados pela ausência do Estado e pela retirada da Igreja Católica de áreas mais pobres, elas ofereciam apoio a indivíduos expostos a condições cada vez mais hostis e uma mensagem adequada às circunstâncias, de esforço e salvação individuais.

Durante um tempo, os desejos despertados por essa reformatação da vida social e da subjetividade puderam se projetar em cenários de expansão: a globalização e a abertura ao capital internacional, bolhas especulativas como a da internet e a do mercado imobiliário. Com o estouro desta última, a situação mudou no mundo todo.

No Brasil, o fim do ciclo das commodities em 2015 fez com que mesmo alguns dos pilares do sucesso petista se voltassem contra o partido. Em 2026, o voto bolsonarista cresceu no Nordeste junto com a fronteira de um agronegócio que, desde 2018, se realinhou à extrema direita.

A expansão do crédito, que possibilitou a "inclusão pelo consumo" no início do século, virou endividamento em massa e fez com que a melhora dos indicadores macroeconômicos do terceiro governo Lula não se traduzisse na vida de muita gente.

Também a promoção do empreendedorismo popular, parte importante do repertório lulista nos tempos de prosperidade, virou-se contra o PT quando as condições mudaram. Não apenas a culpa pela piora recaiu sobre o partido, como este perdeu a batalha discursiva em torno de quais haviam sido as causas dos tempos de vacas gordas.

Em vez de as políticas redistributivas serem percebidas como aquilo que aquecera o mercado interno e tornara possível empreender, elas viraram as vilãs que tiravam dos busca-vidas para dar a quem não queria trabalhar. 

É possível compreender essa mudança de vento global examinando a transformação do imaginário em torno dessa figura-chave de nosso tempo, o empreendedor.

As condições econômicas pós-2008 —explosão do subemprego, aceleração da concentração de renda, inflação de ativos financeiros— fizeram com que desaparecesse a perspectiva de uma progressão linear entre poupança e investimento em formação, por um lado, e a mobilidade social, pelo outro.

Com isso, a ética protestante do êxito mediante o trabalho duro sofreu uma inflexão. Quando o sonho da casa própria ou de ter filhos se torna tão distante que não há um caminho natural até ele, cresce a busca por atalhos: soluções mágicas como bets, criptomoedas ou o sonho de virar coach ou influencer, caminhos que elegem um caso de sucesso em cada dezena ou centena de milhar.

Até o otimismo de nossos tempos tem um quê de desesperado. Isso implica que, se é essencial à esquerda saber ouvir as aspirações dos que querem brilhar, ela não pode contentar-se com acolhê-las em seus próprios termos, sem questionar as (im)possibilidades estruturais de sua realização ou articular a necessidade de uma outra economia, sustentável e mais igualitária, onde outros tipos de sonho encontrem outras condições de se realizar.

Em boa medida, a guinada à extrema direita no mundo todo pode ser entendida como aquilo que acontece com os desejos despertados pelo neoliberalismo quando suas promessas de boa vida se tornam cada vez mais difíceis de realizar: eles azedam.

Trata-se de uma política para "um tempo de expectativas decrescentes", potencializado pelo espectro da crise ambiental, quando perceber o mundo como um jogo de soma zero se torna cada vez mais natural.

Se as condições não parecem poder mudar, a não ser para pior, e redistribuir a renda concentrada no topo não parece possível, só resta a quem está na base da pirâmide competir entre si —empurrando para fora do jogo minorias, imigrantes, ou quem quer que esteja do lado mais fraco da corda.

É por conta desta continuidade com o atual estado de coisas que, sem menosprezar a força galvanizante da extrema direita, parece mais adequado falar não em revolução, mas em instrumentalização e aceleração da desintegração social produzida por 50 anos de neoliberalismo, incluindo as já quase duas décadas de sua sobrevida zumbi pós-2008.

Alimentando-se das forças liberadas por essa desintegração, a extrema direita as direciona na direção do colapso: da democracia e do universalismo liberais, da legalidade, da capacidade estatal, do meio ambiente e até mesmo da soberania indivisível —como se vê no avanço de atores soberanos não estatais como milícias e narcotráfico, que tinham um representante direto nessas eleições em Flávio Bolsonaro, agora foragido das investigações criminais que pesam sobre ele.

Emancipação em Tempos de Expectativas Decrescentes

Pensar o ascenso da extrema direita como continuação e aceleração de tendências existentes também nos ajuda a entender todas as vantagens estruturais que ela aparenta possuir.

Vantagens do ponto de vista da mensagem, que está em continuidade com o momento histórico de horizontes reduzidos, a gramática moral dominante e a experiência vivida de muita gente; e vantagens do ponto de vista organizacional, já que ela se acha mais capilarizada no tecido social e encontra nas plataformas digitais um terreno mais favorável ao tipo de política que propõe.

Vantagem, finalmente e sobretudo, porque, apesar do discurso antissistema, sua prática está em perfeita continuidade com os interesses de elites domésticas e globais que decidiram pisar no acelerador da concentração de riqueza às custas da democracia, do meio ambiente e da imensa maioria da população mundial.

Mais do que qualquer coisa, a quarta vitória de Lula significa comprar tempo. Tempo para a democracia, afastando o risco de tomada do Judiciário que um Executivo e Legislativo em mãos bolsonaristas representava.

Tempo para o meio ambiente, diante do fato de que mais quatro anos de um Bolsonaro na Presidência certamente poria a Amazônia numa trajetória irreversível de savanização, com um impacto fortíssimo sobre o aquecimento global.

Tempo para serviços públicos como saúde e educação, afastando por ora a ameaça de cortes e privatização. Tempo para proteger as instituições e a vida pública da infiltração cada vez maior pelo crime organizado.

Mas é preciso ter sobre essa vitória a clareza que faltou em 2022: por ora, estamos apenas comprando tempo. Lula 3 foi um governo de normalização, o que não deixava de ser bem-vindo após quase dez anos de anormalidade constante; mas, em um mundo em que a tendência natural das coisas favorece a extrema direita, agir como se estivéssemos em tempos normais é um grande erro.

Quando as coisas vão longe demais em uma direção, as medidas capazes de realmente corrigir seu curso não podem deixar de parecer radicais.

Por isso, será indispensável manter ao longo dos próximos quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno para garantir que Lula 4 tenha não apenas a chance de existir, mas de fazer o que é preciso para começar a reverter o cenário em que a aceleração da desintegração opera e a extrema direita cresce.

Isso significa sustentar tanto a mobilização popular quanto a ousadia que o governo federal assumiu na reta final das eleições, quando uma série de medidas até então tidas como impossíveis subitamente se tornaram imparáveis —com a proibição das bets, o reajuste do Bolsa Família, a redução da jornada de trabalho e a PEC da Tarifa Zero.

A estas precisarão se somar, o quanto antes, a regulação das big techs e o combate ao sequestro do orçamento por emendas parlamentares nada transparentes.

Acima de tudo, a esquerda será obrigada a enfrentar a questão fundamental que o sucesso da extrema direita em capitalizar em cima da desintegração traz à tona: o que significa articular um projeto emancipatório em tempos de expectativas decrescentes?

Como podem os desejos, as esperanças e as aspirações atualmente depositados na extrema direita serem transformados e redirecionados para uma alternativa à altura do desafio de combater a desigualdade em um mundo que se aproxima perigosamente do colapso ambiental?

A vitória improvável sobre o bolsonarismo, Donald Trump, o crime organizado e o Vale do Silício tornou-se uma fonte de esperança e entusiasmo ao redor do mundo —uma espécie de equivalente, na política eleitoral, ao que foi o Vietnã.

A impressionante mobilização que tornou isso possível virou um caso de estudo sobre como vencer a extrema direita nas urnas, além de ter posto uma pulga atrás da orelha da maioria de direita no Congresso, que certamente viu ali a possível emergência de uma força capaz de reorganizar a correlação de forças pós-eleições.

Contudo, é preciso lembrar que foi preciso uma figura do porte de Lula para bater o bolsonarismo em 2022 e 2026 —o que significa que a preparação para 2030, quando ele já não poderá se candidatar, começa desde já.

Mas é preciso estar atento para não confundir estratégia eleitoral com estratégia política. Uma coisa, evidentemente importante, é construir candidaturas fortes para a Presidência e o Legislativo nas próximas eleições.

Nomes novos que despontaram com força neste último ciclo, como Érika Hilton e Ana Elisa, não só oferecem esperança como apontam alguns caminhos.

Outra coisa, condição imprescindível para o sucesso da primeira, é compor uma base social em condições não apenas de eleger tais candidaturas, mas de emparedar aqueles que tentarão emparedar o governo, gerando a demanda e as oportunidades para que este consiga ir além.

Isso não se fará apenas com mais influenciadores de esquerda, como muitos pareceram concluir após o primeiro turno, mas também com organização analógica e o esforço para elaborar um programa capaz de atualizar o lulismo para condições muito diferentes.

Neste sentido, há uma lição muito forte a se aprender com este segundo turno. Iniciativas vindas de fora do quartel-general de campanha, tais como o Exército do Lula e o projeto Revelando, foram decisivas nesta virada.

Elas, por sua vez, não teriam produzido os mesmos efeitos sem a tenacidade de milhões de pessoas que dedicaram seu tempo, dentro e fora das redes, para correr atrás de um resultado improvável.

Não foi o PT, nem foi Lula, mas sim a ecologia que se constituiu em torno deles que venceu a eleição.

Se Lula, com esse triunfo, inscreveu seu nome em definitivo nas páginas da história brasileira, é a sua imagem nessa reta final que oferece a lição mais potente para o que virá agora: a de um indivíduo extraordinário, de trajetória extraordinária, mas que precisou de um povo extraordinário para carregá-lo até a linha de chegada.

*Professor da Universidade de Essex e da PUC-Rio. Autor de "Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em Transição" e "Nem Vertical Nem Horizontal: uma Teoria da Organização"

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