segunda-feira, 20 de julho de 2026

OLHA LÁ NO ALTO DO HORTO

Há exatos 92 anos, a população de Juazeiro do Norte, no Ceará, dava adeus a Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. Nascido em 24 de março de 1844, Crato (CE), Padre Cícero faleceu em 20 de julho de 1934, em Juazeiro do Norte. Carismático, Padre Cícero ou “Padim Ciço”, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará e da Região Nordeste do Brasil.

Padre Cícero, foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o povoado foi elevado a cidade. Voltou ao poder, em 1914, quando o governador Marcos Rabelo foi deposto. No final da década de 1920, o Padre Cícero começou a perder a sua força política, que praticamente acabou depois da Revolução de 1930. Seu prestígio como santo milagreiro, porém, aumentaria cada vez mais.

Em 1° de novembro de 1969 no alto do Horto, em Juazeiro do Norte foi erguido uma estátua (a terceira maior do mundo) em homenagem ao Padre Cícero Romão Batista. Em 22 de março de 2001 “Padim Ciço” foi eleito o cearense do século.

A trajetória religiosa e política de Padre Cícero é relatada na excelente biografia Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, do jornalista Lira Neto. A obra é primorosa, resultado trabalho intenso de dez anos de pesquisa, baseada em documentos raros e inéditos tornam a biografia a mais completa obra sobre a vida do mais amado e controvertido religioso que o Brasil já teve, Padre Cícero, para os romeiros e fiéis, o “Padim Ciço”.

Clique aqui e ouça a música Viva meu Padim, composta pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga e João Silva para homenagear Padre Cícero. A canção tem a participação especial de Benito di Paula. 

Leia mais sobre Padre Cícero

Lira Neto, via Aventuras na História

Um padre que viveu sob o signo da controvérsia e morreu proscrito, condenado pelo Santo Ofício. Esse foi sacerdote brasileiro Cícero Romão Batista, acusado no fim do século 19 de proclamar falsos milagres, de incentivar o fanatismo popular e de se beneficiar financeiramente da devoção extremada de seus milhões de seguidores.

Em decorrência das acusações de que era um rebelde, um desobediente à hierarquia católica e um semeador de fanatismos, ele foi alvo de um inquérito eclesiástico que terminou por proibi-lo de rezar missas, de confessar fiéis e de ministrar sacramentos como o batismo e o matrimônio. Tornou-se, então, um pária da fé. Apesar de idolatrado pelos cerca de 2,5 milhões de peregrinos que acorrem todos os anos à cidade cearense de Juazeiro do Norte para reverenciar sua memória, Cícero foi um padre maldito, renegado pela Igreja Católica.

Fazedor de milagres

Toda a história pessoal de Cícero Romão Batista está permeada de mistérios, ambiguidades e contradições. Amado e odiado em igual medida por seus contemporâneos, depois de morto - e talvez ainda mais a partir daí - ele continua a provocar sentimentos idênticos de adoração e repulsa.

Nascido na cidade cearense do Crato em 1844, ordenado padre em 1870, Cícero viveu e cresceu na confluência de dois mundos. De um lado, o universo mágico do misticismo sertanejo, no qual a crença em lobisomens, almas penadas e mulas-sem-cabeça convivia com a festiva devoção aos santos padroeiros e com as advertências apocalípticas dos profetas populares, que pregavam o fim dos tempos. Do outro lado, o mundo da fé ritualizada, da disciplina clerical e da submissão cristã com a qual foi educado e doutrinado no seminário. Com um pé no maravilhoso, outro na ascese, Cícero protagonizou uma biografia acidentada, recheada de episódios mirabolantes que mais parecem beirar a ficção.

Entretanto, até os 45 anos de idade, sua vida nada teve de extraordinária. Em 1889, Cícero era um simples padre de aldeia, rezando missa numa minúscula capelinha do então povoado do Juazeiro, a 600 quilômetros de Fortaleza, quando um fenômeno misterioso chamou a atenção dos sertanejos, da Igreja e da imprensa. Ao ministrar a comunhão a uma beata - a humilde costureira e doceira Maria de Araújo -, a hóstia consagrada teria se transformado em sangue. "Não posso duvidar, porque vi muitas vezes", escreveu Cícero a dom Joaquim José Vieira, bispo do Ceará.

Os jornais abriram manchetes para noticiar o fenômeno e os sertanejos caíram de joelhos diante do proclamado milagre. A Igreja, porém, acusou Cícero e a beata de fraude. "Se Maria de Araújo recebe realmente provas do céu, que as vá gozando só, sem perturbar a boa ordem da diocese", desdenhou o bispo Vieira.

Fato ou embuste, o caso é que o padre e seus adeptos evocaram em sua defesa uma série de fenômenos mais ou menos semelhantes, devidamente chancelados pelo Vaticano sob a classificação genérica de "milagres eucarísticos". Mas uma frase atribuída ao então reitor do Seminário da Prainha, o padre Pierre-Auguste Chevalier, revelaria a dificuldade do clero tradicional em aceitar as manifestações da fé popular: "Jesus Cristo não iria sair da Europa para fazer milagres no sertão do Brasil", teria tripudiado o francês.

Chefe político

O episódio da hóstia que diziam se transformar em sangue rendeu a Cícero a admiração dos milhares de peregrinos, que desde então não nunca pararam de chegar a Juazeiro para testemunhar a suposta maravilha. Mas também significou para o padre uma longa via-crúcis de indisposições perante as autoridades eclesiásticas da época.

Banido pelo clero, Cícero passou a ocupar a posição de mártir no imaginário coletivo, ao mesmo tempo que começou a desfrutar de uma enorme notoriedade e de um imenso poder junto ao povo mais simples do sertão, vítimas históricas da seca e do descaso governamental. Aquela gente, sem perspectivas, sem dinheiro e sem chão, cada vez mais se identificava com o sacerdote que nunca foi propriamente um grande orador, mas em compensação sabia falar a mesma língua deles, chamando-os de "amiguinhos", ouvindo-lhes as queixas, distribuindo prédicas e conselhos.

Moralista severo, Cícero pregava contra os amancebados, os festejos pagãos e o desregramento das famílias. Numa terra em que imperava a lei do punhal e do bacamarte, seu lema mais famoso conclamaria os pecadores ao arrependimento: "Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou não mate mais", costumava dizer.

Quando não pôde mais celebrar batismos, ele próprio aceitou apadrinhar inúmeras crianças, vindo daí o título de "padrinho padre Cícero", que na corruptela da linguagem popular resultou Padim Pade Ciço.

"Em cada casa um oratório, em cada quintal uma oficina", pregava ele, atraindo trabalhadores, agricultores e artesãos de todo o Nordeste, que passaram a se fixar e aos poucos transformaram o arrabalde em um importante centro manufatureiro. O povoado virou cidade autônoma e, em 1911, Cícero foi nomeado o primeiro prefeito de Juazeiro. Líder religioso, tornou-se também chefe político, igualmente polêmico e contraditório. Ao mesmo tempo que pregava aos "náufragos da vida", como se referia aos menos favorecidos, estabeleceu alianças com as elites poderosas.

A Santa Sé delibera

Entre 2001 e 2006, uma comissão multidisciplinar de estudos se debruçou sobre a vasta documentação relativa ao padre, em arquivos do Brasil e do Vaticano. Coordenada pelo bispo do Crato, dom Fernando Panico, tal comissão foi composta por especialistas de várias áreas do conhecimento: antropologia, filosofia, história, psicologia, sociologia e teologia. A finalidade era trazer à luz novos documentos que servissem para tentar responder a uma questão que sempre acompanhou o nome de Cícero: quem afinal foi esse homem, acusado de espertalhão por muitos, aclamado como visionário por outros tantos?

O relatório final da comissão foi entregue em maio de 2006 na Santa Sé. Junto, uma coleção de 11 volumes reunia as transcrições das centenas de cartas trocadas entre os principais personagens da história do padre. Um volume à parte levava cerca de 150 mil assinaturas de populares em prol da reabilitação, às quais se somava um abaixo-assinado no qual se lia o nome de 253 bispos brasileiros favoráveis à causa. Em complemento à papelada, a carta de dom Fernando ao papa: "Venho com toda esperança e humildade suplicar a Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o padre Cícero Romão Batista, libertando-o de qualquer sombra e resquício das acusações por ele sofridas",

Em setembro de 2008, a igreja de Nossa Senhora das Dores - o templo que Cícero construiu em Juazeiro e no qual depois se viu impedido de rezar missa - foi elevado pelo Vaticano à categoria de basílica. Com isso, o brasão de Bento XVI foi sintomaticamente colocado à porta de entrada, bem à vista dos romeiros que chegam para louvar o Padim. No templo em que o padre está enterrado, a capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, também em Juazeiro, foi autorizada a instalação de um vitral multicolorido em que se destaca a imagem de Cícero, ao lado de outros santos oficiais.

Em 2015, finalmente, o perdão se tornou 100% oficial. O bispo Dom Fernando Pânico, declarou sua reabilitação em 13 de dezembro. Esse é o primeiro passo para uma posterior beatificação, ou seja, o reconhecimento canônico de que o homem Cícero Romão Batista teria vivido na plenitude das virtudes cristãs, sendo um "bem-aventurado", resultou na consequente autorização para o culto público a seu nome. Devido às milhares de graças que os romeiros dizem ter alcançado por intercessão do padre Cícero - cegos que teriam voltado a ver, aleijados que andaram novamente, loucos que teriam recuperado o juízo -, o caso, ainda pode evoluir da simples beatificação para a efetiva canonização, quando então ele seria elevado à honra dos altares de toda a Igreja. Esse processo burocrático, como ocorreu com Frei Galvão (1739-1822), o primeiro santo nascido no Brasil e durou vários anos.

Santo sertanejo

A polêmica trajetória de Padre Cícero

1844: Cícero Romão Batista nasce na cidade do Crato (CE).

1870: Cícero é ordenado padre, apesar das reservas do reitor do seminário, que o julgava um aluno "teimoso" e "dono de ideias confusas".

1872: Sem ter recebido nenhuma paróquia, o jovem padre aceita o convite de moradores para rezar a missa de Natal no pequeno povoado de Juazeiro, vizinho ao Crato. Segundo ele, um sonho faz com que continue a morar ali para sempre. Jesus teria pedido a Cícero que "tomasse conta" dos pobres do local.

1889: 1 de março, sexta-feira da Quaresma, o padre Cícero oferece a comunhão à beata Maria de Araújo e a hóstia se transforma em sangue. O fenômeno teria ocorrido por semanas seguidas, até 15 de agosto, dia da Ascensão de Nossa Senhora. Os paninhos manchados de sangue são adorados como relíquias sagradas. O milagre vira notícia na imprensa de todo o país.

 1891: O bispo do Ceará, dom Joaquim José Vieira, censura Cícero e o monsenhor Monteiro por proclamarem milagres ainda não investigados pela Santa Sé. Cria uma comissão de inquérito eclesiástico, formada pelos padres Francisco Antero e Clycério da Costa Lobo. A ordem é desmascarar um possível embuste.

1892: O padre Antero viaja ao Vaticano em defesa de Cícero. O Santo Ofício examina o caso. Em agosto, o bispo cearense proíbe Cícero de rezar missas, pregar aos fiéis, confessar e ministrar sacramentos.

 1894: o Santo Ofício condena os fatos como "prodígios vãos e supersticiosos. Os padres adeptos do milagre se retratam. Menos Cícero.

1898: Cícero vai ao Vaticano se defender. É interrogado e depois recebido pelo papa Leão XIII. O Santo Ofício absolve Cícero das censuras, desde que ele guarde silêncio sobre o caso. O padre jura submissão, mas segue suspenso das ordens sacerdotais. Os paninhos sujos de sangue são roubados da matriz do Crato e desaparecem por vários anos.

1908: Atraído por notícias da existência de uma valiosa mina de cobre na região, chega a Juazeiro um baiano misterioso: Floro Bartolomeu. Médico, rábula e garimpeiro, ele passa a ser o principal braço político de Cícero.

1909: Começa a circular O Rebate, primeiro jornal de Juazeiro, fundado para defender a tese da emancipação do povoado em relação ao Crato. Floro Bartolomeu é um dos editores.

1910: Morre misteriosamente o professor José Marrocos, um ex-seminarista que exerce grande influência sobre Cícero. Floro é acusado de tê-lo envenenado, mas nunca se prova nada a esse respeito.

1911: Juazeiro se emancipa. Cícero, filiado ao Partido Republicano Conservador, é nomeado primeiro prefeito do novo município. Permanecerá quase duas décadas no cargo, sendo reeleito seguidamente. Na data da posse, sela um pacto de paz com os principais coronéis da região, no qual todos prometem parar as animosidades mútuas.

1913: Em acordo com o governo federal e com o aval de Cícero, Floro viaja ao Rio de Janeiro para tramar a queda do então presidente (cargo igual ao de governador) do Ceará, Franco Rabelo. De volta, Floro depõe as autoridades municipais e instala uma Assembleia estadual paralela para caracterizar a duplicidade de poderes e provocar uma intervenção federal.

1914: O governo estadual reage. Manda tropas para atacar Juazeiro. Cícero segue o conselho de um sobrevivente de Canudos e pede aos moradores que cavem um fosso gigantesco em torno da cidade: o "Círculo da Mãe de Deus". Com isso, o ataque fracassa. Juazeiro parte para a ofensiva. Comandado por Floro, um exército de jagunços e cangaceiros toma o Crato e várias outras cidades cearenses, cercando Fortaleza. O governo federal decreta a intervenção no Ceará. Cícero é nomeado vice-presidente do estado.

1916: A Santa Sé declara que Cícero, aos 72 anos, por ainda alimentar o "fanatismo", está excomungado. Mas ele jamais saberia disso. Temendo pela saúde do velho padre, o bispo do Crato, Quintino Rodrigues, evita aplicar a excomunhão e exige dele uma retratação pública. O Santo Ofício revê a pena, mas mantém suspensas as ordens sacerdotais.

1926: A Coluna Prestes entra no Ceará. Cícero escreve carta aberta a Prestes, conclamando-o à rendição. Floro tem a ideia de convocar Lampião para integrar o chamado "Batalhão Patriótico", organizado para dar combate à Coluna. É quando o cangaceiro recebe a patente de capitão e passa a assinar "Capitão Virgulino". No mesmo ano, Cícero é eleito deputado federal, mas não assume o cargo, por causa da idade avançada.

1930: Vitória da revolução que leva Getúlio Vargas à Presidência da República. Cícero escreve uma carta aberta ao povo, classificando os revolucionários de "mensageiros de Satanás".

1934: Morre Cícero Romão Batista. No testamento, ele deixa a maior parte dos bens para a Igreja. Após o falecimento do padre, os paninhos manchados de sangue reaparecem em poder de uma beata. Por ordens do novo bispo do Crato, de acordo com o que determinara o Santo Ofício, eles são destruídos e queimados.

2001: O cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, reabre o processo que culminou na suspensão de Cícero.

2005: Ratzinger é eleito papa. No ano seguinte, recebe a documentação de uma comissão interdisciplinar de estudos que sugere a anistia, post-mortem, do padre.

2015: O padre Cícero é perdoado das punições impostas e reconciliado com a Igreja Católica. O processo de beatificação passa a ser possível.

Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto, Companhia das Letras, 2009

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domingo, 19 de julho de 2026

MORRE CELSO LUNGARETTI

Leonardo Zvarick, g1 SP — São Paulo

Jornalista e ex-guerrilheiro Celso Lungaretti morre em SP aos 75 anos

Preso e torturado pelo regime militar, dedicou-se à militância política e ativismo em defesa dos direitos humanos. Nos últimos anos, escreveu o segundo volume do livro autobiográfico "Náufrago da Utopia".

Morreu neste sábado (18) o jornalista Celso Lungaretti, ex-militante da luta armada contra a ditadura militar, aos 75 anos. Ele estava internado havia 21 dias no HCor, em São Paulo, depois de quebrar o fêmur direito num acidente doméstico. Passou por uma cirurgia corretiva no início do mês, mas acabou não resistindo às complicações pós-operatórias.

Nascido em São Paulo, em 6 de outubro de 1950, participou do movimento estudantil e ingressou ainda muito jovem na resistência ao regime militar. Preso em 1970, foi submetido a torturas e carregou por décadas as marcas físicas e emocionais daquele período.

Formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), construiu uma trajetória que reuniu jornalismo, militância política e ativismo em defesa dos direitos humanos. Em 2005, publicou o livro Náufrago da Utopia: vencer ou morrer na guerrilha aos 18 anos, no qual revisitou sua experiência na luta armada e refletiu sobre os sonhos, erros e tragédias daquele período histórico. O título daria nome também ao blog que manteve por quase 20 anos como espaço de análise política e debate público.

Uma das passagens mais marcantes de sua trajetória foi a acusação de ter delatado aos militares, quando preso em 1970, a localização de um acampamento da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no Vale do Ribeira, episódio que o acompanhou por décadas. A versão difundida entre antigos militantes e em parte da literatura sobre a luta armada atribuía a Lungaretti a responsabilidade pela descoberta, pelo Exército, da área de treinamento comandada por Carlos Lamarca.

Lungaretti sempre rejeitou essa interpretação e fez da defesa de sua versão dos fatos uma das principais batalhas de sua vida pública. Segundo ele, as informações obtidas por seus torturadores se referiam a um primeiro local de treinamento que havia sido abandonado pela organização dois meses antes por motivos de segurança.

O acampamento efetivamente cercado pelas forças militares funcionava em uma área próxima, da qual ele não tinha conhecimento. Para Lungaretti, conforme relatou em diversas entrevistas, sua responsabilização serviu para encobrir falhas de segurança cometidas pela própria VPR e transferir a culpa pelo fracasso da operação a um militante que já estava preso e não podia se defender.

Décadas depois, documentos militares e revisões historiográficas ajudaram a reabrir o debate. Em 2004, o historiador Jacob Gorender, referência nos estudos sobre a esquerda armada, reconheceu publicamente que Lungaretti fornecera informações sobre uma área já desativada e que não tinha conhecimento do acampamento onde Lamarca e seus companheiros realizavam treinamentos quando ocorreu a Operação Registro. A manifestação foi recebida por Lungaretti como uma reparação tardia para uma acusação que considerava uma das maiores injustiças de sua vida.

Nos últimos anos, dedicou-se à elaboração de Náufrago da Utopia 2, no qual procurou sistematizar as lições políticas e pessoais extraídas de sua trajetória. A obra estava concluída e em fase de edição.

Ao refletir recentemente sobre o legado que gostaria de deixar "aos companheiros que virão", destacou a luta pela própria anistia e a campanha em defesa da libertação do escritor italiano Cesare Battisti, condenado por assassinatos cometidos na década de 1970, durante período conhecido como "anos de chumbo" na Itália [Battisti viveu no Brasil entre 2004 e 2018, quando fugiu para a Bolívia antes de ser capturado e extraditado para a Itália, onde cumpre pena de prisão perpétua desde 2019].

"É por eles todos que eu quero ser lembrado: como quem ousou lutar batalhas dificílimas e geralmente vencê-las, provando que nós, revolucionários, não podemos nos conformar jamais com as injustiças e, se travarmos as lutas até o fim, temos sempre a possibilidade de dar a volta por cima", escreveu no final de junho no blog Náufrago da Utopia.

Celso Lungaretti deixa a esposa Nadja e as filhas Luana e Laura. O corpo dele será velado na próxima terça-feira (21) no Cemitério São Pedro, na Zona Leste da capital paulista.

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

TARIFAÇO É DECLARAÇÃO DE GUERRA COMERCIAL AO BRASIL

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A relação entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada à polarização ideológica norte-americana. A derrota do presidente brasileiro em 2026 passou a ser vista como objetivo por Trump

James Monroe nasceu no condado de Westmoreland, na Virgínia, então uma das 13 colônias da Inglaterra, no dia 28 de abril de 1758. Filho de um juiz, cresceu num clima de agitação por uma pátria livre. Com 16 anos, interrompeu os estudos para lutar pela independência do país. Recebeu de George Washington o posto de capitão.

Formado em direito e apadrinhado por Thomas Jefferson, em 1782, com 24 anos, foi eleito deputado na Virgínia. Fez parte do Congresso Continental, sendo um dos responsáveis pela aprovação da Constituição americana. Em 1790, elegeu-se senador. Em 1794, foi nomeado embaixador na França por George Washington.

De volta aos Estados Unidos, James Monroe foi eleito governador da Virgínia, em 1779, deixando o mandato em 1802. Nesse mesmo ano, designado pelo presidente Thomas Jefferson, negociou a compra dos territórios da foz do Rio Mississippi com a França e a Espanha. A seguir, foi eleito o quinto presidente dos Estados Unidos, o último da “Dinastia da Virgínia”. Seu mandato ficou conhecido como a “Era dos Bons Sentimentos”: o país prosperou, a Flórida foi adquirida da Espanha, e o Brasil teve sua independência reconhecida pelos EUA em 1824.

Declarada em 1823, a chamada Doutrina Monroe repudiava a intervenção ou a recolonização europeia no continente americano, expressa na máxima “A América para os americanos”. Originalmente, era um alerta às potências europeias para que não tentassem restaurar seus impérios coloniais no continente americano. Com o passar das décadas, a doutrina foi reinterpretada, ampliada e transformada em instrumento da hegemonia norte-americana.

Diferentes governos norte-americanos ampliaram seu alcance para justificar intervenções políticas, econômicas e militares. Dois séculos depois, agora rebatizada de “Doutrina Trump”, Monroe continua projetando sua sombra sobre as relações entre Washington e a América Latina.

No artigo A Longa Sombra de Monroe: o Trumpismo e a Restauração da Primazia Hemisférica, Flávio Contrera e Paulo Cesar Gregorio (Lua Nova, 126) sustentam que o movimento político liderado por Donald Trump resgatou essa tradição, adaptada à rivalidade contemporânea com a China e à disputa pelo controle da América Latina. O trumpismo seria uma tentativa de reafirmar sua primazia regional por meio de pressão econômica, alinhamentos políticos seletivos e contenção geopolítica e militar.

Autonomia relativa

A tensão com o governo Lula ocorre nessa perspectiva. A guerra comercial, as chantagens tarifárias e a politização da relação bilateral não são apenas ocasionais. Fazem parte de uma visão estratégica do movimento Maga e de lideranças republicanas como Marco Rubio, secretário de Estado, segundo a qual a América Latina deve ocupar posição subordinada à geopolítica de Washington.

A causa é a ascensão da China. Na América do Sul, Pequim tornou-se grande parceiro comercial, financiador de infraestrutura e investidor em setores estratégicos. Para os nacionalistas na Casa Branca, essa expansão representa uma ameaça direta aos Estados Unidos. Como maior economia da América Latina, integrante do Brics, o Brasil ocupa posição central nessa disputa ao manter relações simultâneas com Estados Unidos, China, União Europeia, Oriente Médio e África.

A autonomia relativa do Brasil incomoda àqueles que sonham com a volta ao século XIX. Não por acaso, ocorre a convergência entre pressões comerciais e disputas políticas domésticas. A relação entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada à polarização ideológica que marca o cenário norte-americano. A derrota de Lula em 2026 passou a ser vista como parte de um reposicionamento geopolítico mais amplo da América do Sul.

Essa percepção ajuda a explicar a aproximação explícita de setores conservadores norte-americanos com o clã Bolsonaro e outras lideranças da direita brasileira. A intenção não é apenas influenciar o debate interno do país, mas fortalecer atores considerados mais alinhados à estratégia hemisférica do movimento Maga.

Entretanto, o Brasil não é mais o país vulnerável do passado. Possui uma economia diversificada, o setor agrícola mais competitivo do mundo, reservas internacionais robustas e uma ampla rede de parceiros comerciais. Evidentemente, pressões econômicas vindas dos Estados Unidos podem produzir custos relevantes. Mas a capacidade brasileira de resistir é muito maior do que em outros momentos históricos. O comércio com os Estados Unidos representa apenas 2% do nosso PIB.

Entretanto, isso não significa que uma guerra comercial prolongada seja desejável. Pelo contrário. A escalada das retaliações produziria perdas significativas, reduziria investimentos, aumentaria incertezas e comprometeria décadas de integração econômica. Nenhum dos dois países tem interesse objetivo em ruptura comercial. O desafio do governo brasileiro neste momento é equilibrar firmeza e pragmatismo na eventual adoção da Lei de Reciprocidade.

A defesa da soberania nacional tende, sim, a ocupar lugar central na narrativa eleitoral de Lula. Diante das pressões externas e da associação de Flávio Bolsonaro ao campo político alinhado ao trumpismo, o Planalto vê na defesa da soberania nacional um eixo poderoso de mobilização política. Entretanto, o governo precisa evitar uma guerra comercial de desfecho imprevisível.

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FLÁVIO BOLSONARO AGORA TENTA SE DESCOLAR DE TARIFAS QUE INCENTIVOU

Bernardo Mello Franco, O Globo

Senador simula indignação com medida de Trump, mas pesquisa mostra que só 30% acreditam em sua versão sobre ataque americano

Depois de um mês de ameaças, o governo americano baixou um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. O secretário Marco Rubio não disfarçou o teor político da medida. Num tuíte pouco diplomático, atacou o presidente Lula e disse que ele teria colocado “o próprio ego” à frente das negociações.

É curioso um subordinado de Donald Trump criticar o ego alheio, mas o pior ficou para as justificativas. A Casa Branca voltou a reclamar do Pix, de decisões judiciais que contrariaram big techs e até do desmatamento da Amazônia, que caiu pela metade nos últimos três anos.

O trumpismo tem um projeto. Quer restaurar o poder de mando sobre a América do Sul, numa versão reciclada da Doutrina Monroe. Nos últimos anos, sete países da região elegeram presidentes de direita ou extrema direita alinhados ao republicano. O Brasil é o próximo terreno dessa batalha.

Desde o tarifaço de 2025, o Itamaraty se empenhava em aparar arestas e distensionar as relações com os Estados Unidos. O esforço culminou na visita de Lula a Trump, no início de maio. Passados dois meses, a alardeada química entre os dois presidentes evaporou. Quem quiser entender a mudança deve observar os movimentos recentes de Flávio Bolsonaro.

O candidato do PL fez promessas em série ao governo americano. Em público, acenou com acesso privilegiado a terras-raras, tarifa zero sobre o etanol e até uma “equipe de transição” para anotar pedidos da Casa Branca. Talvez seja preciso esperar pela divulgação de documentos reservados, daqui a algumas décadas, para saber o que ele barganhou em privado.

O estrago para a economia brasileira já está contratado. A questão é saber quem o eleitor vai responsabilizar pelos prejuízos. Na primeira rodada de sobretaxas, Lula empunhou a bandeira da soberania e se recuperou nas pesquisas. O movimento pode se repetir com o novo tarifaço, abrindo mais uma frente de desgaste para Flávio.

Ontem o senador ensaiou uma cambalhota discursiva para tentar se descolar do amigo americano. Em vídeo divulgado nas redes, fingiu espancar a tela e bradou que a culpa era de Lula, e não dele. A julgar pelos números da Quaest, apenas 30% dos eleitores parecem dispostos a acreditar nesse teatro.

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TRUMP COMO CABO ELEITORAL DE LULA

Vera Magalhães, O Globo

Novo tarifaço não só dá ao petista chance de reforçar discurso de defesa da soberania como pode possibilitar edição de medidas no período vedado pela lei eleitoral

Parte da recuperação de Lula nas pesquisas se deveu a uma série de medidas adotadas por ele no período pré-eleitoral, mas o presidente também se beneficiou, desde 2025, de decisões do governo dos Estados Unidos e de crises na campanha de Flávio Bolsonaro nas quais soube surfar. O tarifaço 2.0 de Donald Trump dá a ele mais uma janela de oportunidade.

Desta vez, a agressividade adotada por Marco Rubio em sua postagem nas redes sociais, quando tentou imputar a Lula, sem dados, a responsabilidade pela decisão arbitrária do governo americano, permite ao petista não só repetir o discurso da soberania nacional, mas sair como o moderado na discussão.

Por isso, o tom do governo está sendo calculado — pelo menos até Lula resolver sair do script e falar de improviso, o que é considerado um risco pelo entorno do presidente.

Coube a Geraldo Alckmin, ao Itamaraty e aos ministros a primeira reação ao ataque de Rubio. E o vice-presidente, que já havia sido peça fundamental na construção e execução de estratégia de enfrentamento ao primeiro tarifaço, foi muito feliz nas suas falas: criticou as medidas sem atacar pessoalmente Trump ou Rubio, driblou a tentação de ir ao palanque com Flávio Bolsonaro e fez um aceno que pode ser valioso à chapa do PT para o setor produtivo.

Flávio Bolsonaro fez o oposto. Diante de dados da pesquisa Genial/Quaest e de levantamentos internos da campanha que mostram prejuízos ao pré-candidato do PL com a associação com a Casa Branca de Trump e o tarifaço, resolveu vociferar que a “culpa é do Lula”. E fez isso mais uma vez sem condenar veementemente a adoção de tarifas contra o Brasil, poupando o republicano de críticas.

Todos os dados do recorte específico da Quaest sobre o assunto são desastrosos para Flávio: além de 42% dizerem que as tarifas aumentam sua vontade de votar em Lula e 51% culparem o senador do PL pelas sanções, nada menos que 48% dos entrevistados dizem ter hoje uma opinião desfavorável aos Estados Unidos (em outubro de 2023, 56% manifestavam opinião favorável ao país).

Ou seja: ser amigão de Trump e Rubio, que Flávio insiste em exibir como trunfo, é, na verdade, mais um revés para sua para lá de tumultuada pré-campanha. Ronaldo Caiado e Romeu Zema perceberam isso e saíram da posição em que estavam, de culpar apenas Lula pelas relações conflituosas com os Estados Unidos, e passaram a atribuir parcela da responsabilidade ao bolsonarismo.

Por fim, outro presente dado a Lula de bandeja pelo combo bolsotrumpista é a possibilidade de soltar mais uma série de bondades eleitorais, driblando inclusive o período de defeso da lei eleitoral.

A cúpula do Congresso informou a coluna que uma medida provisória com medidas para compensar os setores atingidos pelo novo tarifaço teria trânsito fácil nas duas Casas, a despeito das recentes rusgas do governo com Davi Alcolumbre, com o argumento de que existe uma situação excepcional, causada pelos Estados Unidos, e que os três Poderes têm de defender a economia brasileira. A manifestação do Supremo Tribunal Federal mostra que o Judiciário tende a ir na mesma direção.

Num momento em que Lula retoma o favoritismo, os ataques a partir de Washington dão a ele a chance de construir pontes com setores do empresariado, posar de moderado quando é visto como radical historicamente, recompor suas relações atribuladas com o Legislativo e fazer aquilo que mais gosta: bondade eleitoral.

O discurso do Ministério da Fazenda é que o governo não cometerá populismo eleitoral tendo o tarifaço como justificativa, mas em outros prédios da Esplanada a comparação entre os ataques dos Estados Unidos — que podem ainda atingir o Pix antes das eleições — e a pandemia já era feita ontem como forma de explicar a excepcionalidade de medidas que podem ser anunciadas.

Nada na forma como 2026 começou permitia prever que Lula fosse ter seu caminho tão facilitado pelos erros da direita e pela interferência externa dos Estados Unidos na eleição. Donald Trump vai se convertendo num poderoso cabo eleitoral para a esquerda.

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SEQUESTRO DO ORÇAMENTO E PASSIVIDADE NACIONAL

Artigo de Fernando Gabeira

O Orçamento brasileiro está fora de controle. Isso quer dizer que não se sabe como é usado todo o dinheiro arrecadado com impostos. O mais interessante é que esse descontrole é vivido com uma grande indiferença. As notícias da semana dão conta da principal origem desse descontrole: as emendas parlamentares. Num só dia, ficamos sabendo que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se conhecessem os autores das emendas. Ficamos sabendo também que Valdemar Costa Neto manipulou a remessa de R$ 119 milhões, sem ser deputado. Da mesma forma, Eduardo Cunha, que foi cassado, dirigiu R$ 6,5 milhões para cidades mineiras, de onde pretende ressurgir como candidato.

R$ 1,3 bilhão foram as chamadas emendas de comissão. Um espanto. O que são as comissões senão réplicas parlamentares dos ministérios? Comissão de educação, de saúde, de transportes. Elas existem para formular e fiscalizar políticas. Quem as executa são os ministérios.

O Brasil é talvez o único país do mundo onde o governo não domina o gasto do Orçamento. Tem de dividi-lo com o Congresso, que usa o dinheiro de forma aleatória, basicamente para garantir a reeleição de deputados. Uma irracionalidade.

A tentativa de corrigir algumas aberrações vem de longe, do tempo do chamado orçamento secreto, criado por Arthur Lira, no governo Bolsonaro. A então presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministra Rosa Weber, tentou intervir. Afinal, orçamento secreto é inconstitucional. As despesas públicas têm de ser transparentes. O que se viu depois disso foi uma briga de gato e rato, o Congresso sempre achando uma fórmula de não atender às corretas exigências de Rosa Weber.

As chamadas emendas de comissão foram um dos caminhos para se manter o anonimato em torno da autoria. Na verdade, são uma forma de dividir o dinheiro entre os deputados que compõem a comissão. Esse tipo de emenda foi denunciado pelo deputado Glauber Braga, que acabou recebendo uma suspensão de seis meses, em parte pelo seu comportamento, mas principalmente por denunciar o mecanismo. O que dizer do controle de Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha de parte do Orçamento? Atribui-se a uma articulação deles com uma funcionária chamada Mariângela Fialek. Mas é uma simples funcionária. Jamais destinaria milhões sem a autorização de seus chefes, Arthur Lira e Hugo Motta.

Não há saída no horizonte. A Polícia Federal (PF) investiga, o Supremo processa. Mas tanto a PF como o Supremo não podem abarcar a extensão do problema. Suas atuações são pontuais, pedagógicas, como se isso pudesse mesmo intimidar os deputados.

No Rio de Janeiro, a situação é mais clara politicamente. O Estado é governado por bandidos, sendo que os bandidos armados ocupam metade do território urbano. Não há mistério. Apenas a vida que segue, como se isso fosse natural. Certamente, uma investigação científica irá mais longe na compreensão dessa naturalização e passividade diante do sequestro do Orçamento. Os políticos usam o dinheiro sem critério, porque dinheiro público parece algo abstrato, existe para gastar mesmo. Essa indiferença se estende também às pessoas comuns. Afinal, por que protestar por um dinheiro que não é seu, é apenas uma grande fortuna que pertence a todos? É o chamado cofre da viúva, feito para ser violado sem pudor.

As coisas estão feitas para durar. O dinheiro que os deputados usam serve para sua reeleição. Não haverá espaço para a renovação, sobretudo se as campanhas presidenciais monopolizarem a atenção. Os mesmos deputados seguirão usando o Orçamento da forma que quiserem, elegendo presidentes que se comprometem com a divisão do butim. Os deputados serão substituídos pelos seus filhos, amigos de fé, assessores e a tradição de gastar parte do Orçamento seguirá tempo afora.

Pode ser uma visão pessimista, abrandada apenas pela possibilidade de eleger alguns bons deputados nas metrópoles. Mas serão incapazes de fazer algo sem amplo apoio da opinião pública. Não tenho medo de parecer pessimista ao saber que, mesmo sem mandato, pessoas como Valdemar Costa Neto e Eduardo Cunha estão manipulando o Orçamento nacional. Acho simplesmente o fim da picada, mas me impressiono muito com a pouca repercussão. Será que os candidatos à Presidência se conformam com tudo o que vemos por aí? Será que pretendem ser presidentes pela metade, sem os recursos necessários para cumprir seus programas de campanha?

Pode ser que vivamos até um futuro em que os governos se conformem em governar sem plano. Governar por governar, o poder pelo poder, até nos chocarmos com o grande iceberg.

A alternativa é tentar fazer uma bancada de deputados que dê a mínima possibilidade de luta; é criar uma força-tarefa que fiscalize, de fato, o uso do dinheiro e tentar progressivamente adaptar o Brasil ao mundo, onde governos executam e deputados legislam e também fiscalizam o governo. Como ocorre nos outros países democráticos.

Só para começar, precisamos descartar as lendas urbanas, como essa de que o dinheiro é mal usado por causa de uma mulher chamada Mariângela. Como se não bastasse o desastre político-financeiro, ainda vivemos uma grande deficiência cognitiva.

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo em 17 / 07 / 2026

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TARIFAÇO RUIM PARA FLÁVIO BOLSONARO, BOM PARA LULA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Lula faz do limão uma limonada e é o único a ganhar com o tarifaço dos EUA, mais um erro de Flávio

Planalto e Itamaraty já tinham pronta a reação diplomática e de comunicação à decisão

Flávio Bolsonaro, o Brasil, os EUA e a relação centenária entre os dois países, suas empresas e sociedades perdem com o novo tarifaço, político e calcado em dados falsos, imposto pelo governo Trump com a equivocada intenção de favorecer a direita brasileira. No fim, quem ganha? O presidente Lula, como o próprio Flávio previu, mas tarde demais.

Planalto e Itamaraty já tinham pronta a reação diplomática e de comunicação, com manifestação dura do chanceler Mauro Vieira e uma entrevista com os principais expoentes do governo, com três focos: “soberania nacional”, “mentiras dos EUA” e apoio aos setores atingidos.

Do outro lado, Flávio adicionou mais um erro incompreensível à sua coleção, ao reproduzir nota do secretário de Estado Marco Rubio a favor do tarifaço e contra Lula. Ou seja, apoiou o agressor, com quem se identifica ideologicamente, em vez de defender o agredido: o Brasil.

Rubio culpou Lula pelo tarifaço, dizendo que ele “agiu de má-fé e colocou seu próprio ego à frente de um acordo do bem-estar do povo brasileiro”. Na mesma linha, a Fiesp de Paulo Skaf responsabilizou Lula e seu governo, por “ruídos diplomáticos desnecessários, críticas personalistas, discursos eleitorais e desalinhamento político com Washington”.

Tudo isso é verdade, mas dos dois lados. E, mesmo com o “desalinhamento político”, as negociações foram intensas e envolveram diferentes áreas do governo. Segundo Mauro Vieira, foram 30 reuniões presenciais, por internet ou por telefone, desde o ano passado.

A versão do governo é de que a decisão dos EUA foi política, já estava tomada independentemente das negociações e é cheia de erros sobre Pix, desmatamento, comércio. Por quê? Para tentar favorecer a direita na disputa eleitoral.

O tarifaço, porém, só piora a situação de Flávio, que tentou consertar pedindo o adiamento para depois das eleições, mas era tarde, ele já estava decidido na cabeça de Trump. E Flávio ainda não se deu conta do quanto o irmão Eduardo e o amigão Paulo Figueiredo atrapalham. Deviam fazer como Carlos, o 02: sumir de cena.

Antes do anúncio de Washington, 51% dos pesquisados pela Quaest atribuíam a culpa a Flávio e 30%, a Lula. Depois, como divulgou o UOL, foram 7 milhões de menções e interações com o termo “Tariflávio” no X, no Instagram e no TikTok, em menos de 24 horas. Ruim para Flávio, bom para Lula, que teve índice maior de aprovação do que desaprovação pela primeira vez desde 2024 e recuperou pontos em segmentos refratários a ele na Quaest. O primeiro erro de Flávio, aliás, foi o tarifaço de 2025. Um erro que se repete, na pior hora da sua candidatura.

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LULA SE CERCOU DE PASSADO PARA VENDER O FUTURO

Andrea Jubé, Valor Econômico

Última campanha eleitoral do presidente começará na Vila Euclides, no lugar onde iniciou sua trajetória política

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva enfrenta uma contradição. Prestes a completar 81 anos em 27 de outubro, dois dias após o segundo turno das eleições, ele já tem a retórica contra o etarismo: “Tenho compromisso com Deus para viver até 120 anos de idade”, tem reiterado. Mas o desafio vai além: implica pregar o futuro e vender esperança aos brasileiros após quatro décadas de vida pública, três mandatos presidenciais e alta rejeição.

A mais recente rodada da pesquisa Genial/Quaest, divulgada na quarta-feira (14), mostrou que 50% dos entrevistados conhecem e não votariam em Lula. Este dado atesta o cansaço de metade do eleitorado com o líder petista. Porém, mesmo diante desse obstáculo, o presidente decidiu caminhar rumo ao quarto mandato embalado de passado. Eis o paradoxo.

Os principais coordenadores da campanha lulista são quadros que o acompanham há mais de 40 anos, desde a fundação do PT, e que participaram dos mandatos anteriores, como o ex-ministro Gilberto Carvalho, responsável pela agenda; o ex-presidente do Sebrae Paulo Okamotto, que cuida dos comitês regionais e das redes sociais; o ex-presidente da Petrobras José Sérgio Gabrielli, que elabora o programa de governo; o ex-prefeito de Diadema José de Filippi Júnior, tesoureiro.

Um aliado observou à coluna que Lula restringiu o círculo de pessoas autorizadas a orbitarem no seu entorno, principalmente, após os 580 dias em que ficou preso nas dependências da Polícia Federal em Curitiba (PR). Desde então, ele tem guardado na memória os nomes de quem permaneceu do seu lado nos dias amargos. A nova geração é minoria no time, com destaque para o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), o ex-ministro da Educação Camilo Santana (PT) e a vereadora e pré-candidata a deputada federal Luna Zarattini - quadro da novíssima geração do PT, ela se elegeu em 2024, com mais de 100 mil votos, ficando entre os dez mais votados para a Câmara Municipal de São Paulo.

Outro aceno ao passado é a escolha do estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), para o lançamento da campanha em 16 de agosto. Segundo uma fonte do PT, Lula quer começar a última campanha eleitoral no lugar onde iniciou sua trajetória política.

A Vila Euclides é o cenário de imagens icônicas do jovem líder sindical. No dia 13 de março de 1979, Lula liderou a histórica assembleia dos metalúrgicos de São Bernardo, Diadema, Santo André e São Caetano. Naquela data, cerca de 60 mil trabalhadores ocuparam o gramado e as arquibancadas para ouvir o colega de fábrica.

Sem palanque ou sistema de som, ele subiu sobre uma mesa de escritório, com um megafone à mão. As palavras dele eram repetidas em coro pelos mais próximos, e repassadas até chegar aos que estavam atrás. Sob forte repressão e intervenção do governo nos sindicatos, a meta era obter 78,1% de reajuste. Ao fim, alcançou-se 63%. Foi a maior conquista salarial daquele período.

Nesse contexto, no entanto, um dado da última Quaest chamou a atenção. Foi a primeira rodada em que a aprovação do governo Lula superou a desaprovação, desde dezembro de 2024. Essa reação foi puxada, justamente, pelos eleitores mais jovens, de 16 a 34 anos. Nessa faixa etária, a aprovação ao governo cresceu cinco pontos percentuais, de 43% para 48%.

Contemplar esse público é, especialmente, desafiador, a começar pela taxa de desemprego. Entre jovens de 18 a 24 anos, ela é de 13,8% - mais que o dobro da média nacional, que é de 5,8%. Entre adolescentes de 14 a 17 anos, chega a 25,1%. Além disso, é a geração que rejeita a CLT.

Luna Zarattini disse à coluna que Lula “se aproxima da juventude e aponta o Brasil do futuro quando aborda os problemas reais da vida do jovem”. Ela cita como exemplo a defesa do fim da escala de trabalho 6x1, porque “o jovem quer trabalho decente”, e a criação de oportunidades na educação com os Institutos Federais. “O presidente sabe que a democracia sem a participação da juventude é incompleta. As pesquisas recentes mostram que os posicionamentos políticos firmes do presidente seja em relação a avanços nos direitos ou na defesa da democracia e soberania contra a intervenção dos EUA demonstram para juventude o projeto de Brasil que defendemos”, afirmou.

Outro aliado considera equivocado interpretar a escolha da Vila Euclides para lançamento da campanha como uma aposta no passado. Trata-se, segundo ele, de apostar na emoção como fator de decisão do voto. Ele convidou a coluna a imaginar a cena. Com a voz embargada, Lula se voltará à multidão presente para afirmar que, após 47 anos de vida pública e três mandatos de presidente, sempre comprometido com a democracia, ele vem pedir o voto e a confiança dos brasileiros pela última vez para que possa completar o seu legado.

Se em 1979, Lula falou para 60 mil pessoas na Vila Euclides, o público do lançamento da última campanha lulista deverá girar em torno de 15 mil, capacidade máxima do local. No passado, as multidões também ocuparam as ruas no entorno do estádio.

Sem dúvida, Lula tem o direito de resgatar sua história para dialogar com o presente. Errado será criar um museu de velhas novidades.

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TARIFAÇO INDICA QUE OBJETIVOS DE TRUMP VÃO ALÉM DE INTERFERIR EM POLÍTICA DO BRASIL

César Felício, Valor Econômico

Movimentos dos EUA vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região

novo tarifaço decretado pelo presidente americano Donald Trump contra o Brasil claramente tem potencial de beneficiar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva na corrida eleitoral. Essa correlação foi mencionada pelo próprio senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em sua exposição no início do mês no Congresso americano e evidentemente não é desconhecida da Casa Branca.

A opção de fazê-lo, e fazê-lo agora, e de forma a vinculá-lo diretamente a Lula, como deixou claro a postagem do secretário de Estado Marco Rubio nas redes sociais, indica que seu objetivo vai além de questões políticas conjunturais brasileiras. O que tudo indica é que está em curso uma confrontação de fôlego maior, para os próximos anos. A postagem de Rubio torna improvável um aperto de mãos entre Lula e Trump como houve em outubro do ano passado. Ele responsabilizou nominalmente o presidente brasileiro. Queimou os galeões.

A pressão contra Lula ocorre no mesmo ano em que os Estados Unidos intervêm militarmente na Venezuela, reforça o bloqueio econômico contra Cuba e criam condições para uma ação direta contra México e Brasil, em nome de combate a grandes cartéis do crime organizado. O ex-secretário de Assuntos Estratégicos da Presidência Hussein Kalout lembra ainda de outros componentes, como o projeto de instalação de uma base militar no Paraguai, que vão compondo uma espécie de avanço na América Latina que potencialmente estabelecem um cerco à maior economia da região. O Brasil, na visão dele, é o verdadeiro alvo da doutrina Donroe. O objetivo seria cortar a autonomia de voo de um país emergente que, ao flertar com a China e com a União Europeia, quebra a unipolaridade almejada por Washington para o Hemisfério Ocidental.

Ao comparecer ao Congresso dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro fez uma manobra de alto risco. Ele lá compareceu oficialmente para falar contra um tarifaço que era mais do que provável, mas usou na ocasião de argumentos políticos, e não técnicos. Em vez de se distanciar, reforçou o vínculo com um presidente francamente hostil ao governo brasileiro que age para prejudicar a economia do país. Tal estratégia só reverteria em ganho para Flávio se ele fosse alçado a uma posição negociadora, o que não se deu.

O tarifaço americano de agora também é mais perigoso para Lula do que foi o do ano passado. Quando Trump sancionou o Brasil pela primeira vez, exatamente há um ano, estabeleceu como alvo preferencial o Judiciário brasileiro, o que não alijava Lula do papel de mediador. Desta vez nada indica que as sanções não entrarão efetivamente em vigor. Caso os prejuízos à economia desçam para o cotidiano do eleitor antes de outubro, não há narrativa política que possa contrabalançar. O eleitor tende a cobrar medidas concretas para resolver o estrago.

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quinta-feira, 16 de julho de 2026

LULA NÃO ENTREGARÁ O QUE TRUMP DESEJA, O FIM DO PIX, APESAR DO TARIFAÇO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A ofensiva contra o Brasil não deve ser examinada apenas como uma disputa sobre alíquotas, etanol, plataformas digitais ou acesso a mercados. Trata-se de um choque institucional

Representantes do governo dos Estados Unidos informaram ao Itamaraty que a decisão sobre a aplicação de novas tarifas sobre produtos brasileiros já foi tomada. Somente após a divulgação da decisão, porém, o governo brasileiro analisará o teor do anúncio, para definir qual será a sua reação. Mais ou menos como naquele refrão do samba Malandragem Dá Um Tempo ( "Vou apertar, mas não vou acender agora"), de autoria de Adelzonilton, Moacyr Bombeiro e Popular PA, imortalizado pelo sambista Bezerra da Silva e músico letrado, que tocava violão clássico em orquestras e era notável percussionista.

Entre as possibilidades em discussão no Palácio do Planalto, o acionamento da Lei da Reciprocidade Econômica não está descartado, mas a prioridade é a continuidade das negociações diplomáticas com os americanos pelo Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços. Deixando o samba de lado, a ofensiva tarifária de Donald Trump contra o Brasil não deve ser examinada apenas como uma disputa sobre alíquotas, etanol, plataformas digitais ou acesso a mercados. Trata-se de um choque institucional.

O economista Douglass North (Nobel de 1993), estudioso da institucionalidade da economia, mostrou que o funcionamento da economia mundial e do comércio entre os países depende das "regras do jogo": normas formais, convenções e mecanismos de cumprimento que reduzem a incerteza, protegem contratos e diminuem os custos de transação. Quando Donald Trump transforma tarifas em instrumento discricionário de pressão política, não altera somente o preço das mercadorias. Muda os incentivos de governos, bancos e empresas e estimula a criação de estruturas capazes de reduzir a dependência em relação ao poder que passou a ameaçá-los.

A investigação norte-americana sobre o comercio Brasil-Estados Unidos misturou Pix, etanol, plataformas digitais, propriedade intelectual, desmatamento e acordos tarifários. Tudo para justificar uma sobretaxa de 25% sobre milhares de produtos brasileiros. Cerca de 4,2 mil itens e US$ 15 bilhões em exportações podem ser atingidos. Entretanto, o tarifaço deve preservar exceções para produtos relevantes à própria economia dos Estados Unidos, sinal de que a medida obedece a uma seleção política de custos e benefícios. Na verdade, a relação bilateral é superavitária para os norte-americanos, o que contradiz a justificativa apresentada por Trump, pois os Estados Unidos mantêm posição comercial favorável diante do Brasil.

North nos ajuda a compreender por que o tarifaço é mais grave do que uma retaliação convencional. As relações comerciais produtivas dependem da confiança de que as regras não serão modificadas arbitrariamente depois que investimentos e cadeias produtivas estiverem organizados. Tarifas unilaterais elevam o custo de medir riscos, renegociar contratos, financiar exportações, contratar seguros e substituir fornecedores. Ou seja, bagunça as operações das empresas e a economia dos países.

O Pix é nosso

Em vez de reduzir incertezas, a política dos Estados Unidos passa a produzi-las e transforma o acesso ao maior mercado do mundo em concessão revogável pela vontade presidencial. Entretanto, Trump não tem apoio unânime das empresas norte-americanas. Muitas dependem de insumos brasileiros e pressionam por exceções, porque a tarifa funciona como imposto sobre suas próprias cadeias de produção.

O problema se amplia porque a ofensiva não se limita ao comércio de bens. Entre os impasses apresentados por Washington estão o Pix, a abertura do mercado ao etanol norte-americano e uma moratória de quatro anos para tributos e multas de plataformas digitais. O Brasil considera esses pontos inegociáveis e sustenta que o Pix é uma infraestrutura pública aberta a instituições nacionais e estrangeiras, comparável ao FedNow dos próprios Estados Unidos.

Não há a menor possibilidade de o Brasil acabar com o Pix por exigência de Trump. Hoje, é o principal meio eletrônico de pagamento do país em número de operações, com mais de 170 milhões de usuários, custos inferiores aos dos cartões e participação superior à metade das transações no segundo semestre de 2025. Classificá-lo como "prática desleal" equivale a converter uma inovação destinada a reduzir custos de transação em infração comercial porque ela diminui a renda de intermediários privados.

Há dois aspectos importantes a considerar. O primeiro é de natureza econômica. Apesar de ser o segundo parceiro do Brasil, o comércio com os Estados Unidos, que movimentou US$ 36,4 bilhões no primeiro semestre, representa apenas 2% do PIB brasileiro. Ou seja, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem cacife para não entregar o que Trump está querendo. O segundo é eleitoral: por mais que Flávio Bolsonaro tenha se esforçado para ser interlocutor da Casa Branca e obter o adiamento do aumento de tarifas, sua viagem a Washington para se encontrar com o secretário de Estado, Marco Rubio, foi uma espécie de "me engana, que eu gosto". Isto é, pura figuração. Na prática, o que fez foi entregar a bandeira da soberania nacional para Lula nas eleições.

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EM DECADÊNCIA

Merval Pereira, O Globo

Pesquisa abre necessariamente um momento de reflexão sobre a viabilidade da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência

A pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem abre necessariamente um momento de reflexão no bolsonarismo e no próprio PL sobre a viabilidade da candidatura do senador Flávio Bolsonaro à Presidência da República. A pesquisa, amplamente favorável ao presidente Lula, tem sinais claros de queda acentuada nas preferências por Flávio, mesmo entre os evangélicos. O que facilita a permanência da candidatura do filho do ex-presidente é que nenhum candidato da direita se beneficiou da queda, restando ainda a esperança de que o aumento dos indecisos possa ser revertido ao longo da campanha. Lula abriu vantagem fora da margem de erro, e a queda da inflação, junto com o crescimento da economia — pequeno, mas persistente — leva uma situação de estabilidade à sua campanha.

O eleitor de direita que não é bolsonarista raiz não tem para onde correr, e poderia voltar no segundo turno. O fato de estar isolado como o único candidato que pode ser competitivo diante do presidente Lula dificulta a definição sobre uma eventual substituição, e mantém o senador do Rio como a escolha possível para a direita. No entanto, são grandes as chances de Flávio aparecer envolvido em novas confusões nas investigações tanto do Banco Master quanto do crime organizado que dominava a política do Rio até a intervenção branca do presidente do Tribunal de Justiça do estado, desembargador Ricardo Couto.

Ontem foi divulgada uma foto dele ao lado do Sicário, apontado pela Polícia Federal como responsável por planejar ataques contra adversários de Daniel Vorcaro. O gestual dos dois demonstra intimidade, sendo que Sicário, que morreu na cadeia, faz o gesto da “arminha” com as mãos, num apoio declarado ao bolsonarismo. A esperança de Gilberto Kassab de que o candidato de seu partido, o ex-governador Ronaldo Caiado, crescesse à medida que Flávio caísse nas pesquisas não se confirmou, por enquanto.

Ter Michelle Bolsonaro como companheira de chapa do PSD seria uma saída para a crise da direita, mas enquanto Flávio continuar confirmando que é o que tem mais votos, mesmo caindo, dificulta uma negociação, até mesmo por falta de outro candidato competitivo. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, a esta altura deve estar apreciando de longe a derrocada da família Bolsonaro, pois, pelo andar da campanha, ele deve se reeleger, até mesmo no primeiro turno, e Flávio deve perder. Com isso, cairá no colo dele a liderança da direita para a eleição de 2030, ficando os Bolsonaros confinados a um núcleo extremista que não terá peso na decisão final.

A direita poderá então assumir seu papel divergente em relação ao PT sem se perder nas provocações dos extremistas, e ampliando seu eleitorado para o centro, que é o que está fazendo o presidente Lula mais uma vez, para derrotar o bolsonarismo. A pesquisa Quaest mostra que num eventual segundo turno, todos os candidatos da direita perdem para Lula na mesma proporção, tirando de Flávio a vantagem teórica de ser o único que empatava tecnicamente com Lula. O eleitor que permanece na direita dá o mesmo peso para Caiado, Zema, Renan Santos ou Flávio, o que pode fazer com que, em próximas pesquisas, um desses apareça como a alternativa ao senador, se ele continuar a cair.

Os independentes, que se tornaram indecisos diante dos permanentes escândalos envolvendo Flávio, podem ir para qualquer desses candidatos da direita, mudando o perfil da eleição. Nada indica, porém, até o momento, que isso vá acontecer, pois até agora tentaram diversas maneiras de reagir a Flávio sem dar certo. Caiado tentou mostrar-se equilibrado, evitando criticar o bolsonarismo. Zema foi agressivo contra Flávio. Renan Santos vende uma imagem de direita, um misto de Milei e Bukele, que assusta e atrai muitos eleitores.

Nenhuma estratégia dessas deu certo, e Flávio permanece como a alternativa, mas cada vez menos competitivo. Mesmo se não acontecer mais nada daqui para frente, sua fragilidade como candidato é evidente, e é possível prever que não será páreo para Lula nos debates, como seu pai foi.

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PAUTA-BOMBA, POPULISMO E IRRESPONSABILIDADE

Felipe Salto, O Estado de S. Paulo

A responsabilidade fiscal é um princípio basilar da Constituição federal de 1988. Não se trata de ser a favor de Estado mínimo, de cortes de gastos unilaterais ou coisa que o valha. Na verdade, a ideia da responsabilidade é simples: não se pode gastar sem apresentar a fonte de financiamento. O equilíbrio intertemporal das contas públicas é condição inescapável para a prosperidade e o desenvolvimento integrado da nação. Hoje, o Congresso trabalha contra esse princípio e, portanto, contra o País.

As lideranças do Legislativo têm se arvorado na missão de prejudicar a vida do Poder Executivo, diuturnamente, apreciando e aprovando pautas com efeito fiscal relevante e permanente. A mais recente pautabomba aprovada foi o regime diferenciado de aposentadoria para agentes de saúde.

A saber, a proposta resgata a integralidade e a paridade, dois conceitos extintos na reforma da Previdência Social de 2019. O Senado aprovou, nesta semana, o texto da PEC, após já ter sido apreciado pela Câmara. Como se trata de Proposta de Emenda à Constituição, não cabe veto. A matéria vai à promulgação.

Os efeitos da medida aprovada podem chegar a quase R$ 30 bilhões em dez anos. Além disso, abre-se um precedente perigoso, dado que outras categorias do serviço público poderão demandar o mesmo tratamento especial. Pode-se colocar em risco o avanço da reforma, discutida e amadurecida por diferentes governos, vale lembrar.

Não à toa, a responsabilidade fiscal está contemplada desde 1988 na Constituição, tendo sido reforçada por emendas constitucionais, como no caso da inserção do artigo 113 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias. A Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF – Lei Complementar n.º 101) deriva desse espírito constitucional e existe para limitar o viés deficitário dos governos e do Congresso.

Afinal, quem é contra mais recursos para a saúde, a educação, a segurança, a Defesa, a Previdência, a assistência social, etc.? Quando se discute nesses termos, sem a presença da restrição orçamentária como norte, mergulha-se de cabeça no populismo barato. Na verdade, bem custoso ao erário.

A súmula vinculante proposta pelo ministro Gilmar Mendes, sobre a qual escrevi neste espaço (A súmula vinculante da responsabilidade fiscal, 2/7, A5), é urgente. Somente um entendimento mais consolidado vindo do Supremo Tribunal Federal (STF) poderá ajudar a controlar a sanha gastadora do Congresso.

O caso da desoneração da folha de salários foi um dos mais emblemáticos. Derrubou-se veto presidencial à prorrogação da desoneração, mas não se apresentou o custo, tampouco a medida compensatória.

Demandado, o STF entrou no tema e a jurisprudência criada, a ser cristalizada na súmula da responsabilidade fiscal, deveria servir como anteparo ao populismo dos parlamentares, sobretudo em ano eleitoral. O fato de se ter pautado o tema dos agentes de saúde é, por si só, sintomático. Um Congresso que tomou conta de 20% a 25% das despesas não obrigatórias do Orçamento, como se fosse uma extensão do Poder Executivo, também avança, sem dó, sobre a responsabilidade fiscal para criar benesses em período de eleições.

Não se deve eximir o governo das críticas a medidas expansionistas, mas o foco do descontrole fiscal está, hoje, no Legislativo. As medidas do Executivo, nesses três anos e meio, têm sido acompanhadas de compensações. Pode-se discordar do mérito, além de se fazer, como eu faço, ponderações sobre o uso de fundos públicos e recursos extraorçamentários para turbinar políticas parafiscais. Mas não se pode acusar o atual governo de ter piorado ou perdido o controle da situação das contas.

O déficit recebido pelo governo Lula, na esteira de precatórios caloteados e dívidas com os governadores, foi reduzido para 0,48% do Produto Interno Bruto (PIB), no ano passado, devendo terminar o ano corrente em 0,4% do PIB, pelas minhas projeções. Por outro lado, o déficit total ou nominal, quando incluídos os juros da dívida, deve encerrar o ano em 9% do PIB, com dívida acima de 83% do PIB.

O que se deve buscar é a continuidade e o aprofundamento do ajuste fiscal. O lado das despesas precisará ser tratado com vigor. As indexações, as vinculações, os subsídios, os gastos tributários e as emendas parlamentares têm de ser debatidos para que o País retome superávits primários, colaborando para juros menores. Só assim a dívida poderá estacionar no futuro próximo.

Na presença de um Congresso irresponsável, tudo isso pode escoar pelo ralo. O rigor dos órgãos de controle com o Executivo deve se estender ao Legislativo. Se este, hoje, toma decisões a toque de caixa, sem respeitar os dispositivos constitucionais e legais que obrigam à responsabilidade fiscal, isto é, à transparência quanto ao custo das medidas e à devida previsão de medidas compensatórias, então deve sofrer as consequências.

A aprovação de pautas-bomba, na esteira do populismo eleitoral e da irresponsabilidade fiscal, é danosa à democracia. Transmite a ideia de que o dinheiro dá em árvore, de que não existe limite para gastar. Passou da hora de o Congresso parar de trabalhar contra o País.

*É EONOMISTA-CHEFE DA WARREN INVESTIMENTOS, FOI SECRETÁRIO DA FAZENDA E PLANEJAMENTO DO ESTADO DE SÃO PAULO (2022)

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SEQUÊNCIA DE AMEAÇAS

Bianca Mota, O POVO

Vereadora sofre 3ª ameaça em um mês; Polícia diz que mensagens vieram de provedor no exterior

Segundo a corporação, já foi solicitada cooperação jurídica internacional para obter informações que permitam identificar os responsáveis pelas ameaças

A vereadora de Fortaleza Adriana Gerônimo (Psol) denunciou, na quarta-feira, 15, ter recebido novas ameaças de morte direcionada a ela e à família. No mesmo dia, a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) informou ter identificado que as mensagens enviadas à parlamentar partiram de um provedor sediado fora do Brasil.

Segundo a corporação, já foi solicitada cooperação jurídica internacional para obter informações que permitam identificar os responsáveis pelas ameaças. O caso segue em investigação pela Delegacia de Repressão aos Crimes Cibernéticos (DRCC), com apoio da Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin).

Posicionamento da parlamentar

Em comunicado divulgado nas redes sociais, Adriana afirmou que a nova ameaça foi direcionada a ela e aos familiares. A parlamentar informou que o caso foi comunicado às forças de segurança e que medidas de proteção já foram adotadas.

"É urgente que as autoridades identifiquem e responsabilizem quem está por trás desses ataques (...) não aceitaremos isso de forma alguma", diz trecho da nota.

A vereadora também afirmou esperar uma apuração rápida para interromper a sequência de ameaças e garantir a segurança dela e da família.

"A nova ameaça já foi comunicada às forças de segurança e medidas de proteção já foram tomadas, mas esperamos uma apuração rápida e rigorosa para interromper esse ciclo de violências e garantir a integridade da parlamentar e de sua família", afirmou na publicação.

Polícia pediu cooperação internacional

Em nota, a Polícia Civil informou que as investigações identificaram que as mensagens foram enviadas por meio de um provedor sediado no exterior.

Diante disso, o órgão solicitou cooperação jurídica internacional para viabilizar o acesso às informações necessárias para a identificação dos suspeitos.

"A PCCE ressalta que diligências e oitivas continuam sendo realizadas com o objetivo de elucidar o caso", informou a corporação, acrescentando que novas informações serão divulgadas "no momento oportuno", para não comprometer as investigações.

Sequência de ameaças

Pelo menos três episódios com ameaças foram denunciada por Adriana Gerônimo em aproximadamente um mês.

No último domingo, 12, a vereadora revelou ter recebido um e-mail com ameaças de morte e estupro. Segundo a parlamentar, a mensagem fazia referência à arma que seria utilizada e citava o endereço da residência dela e de familiares.

Na ocasião, a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social (SSPDS) informou que a investigação estava sendo conduzida pela Decrin e orientou a vereadora a apresentar as novas informações à delegacia especializada para subsidiar as apurações.

"O caso é acompanhado pela Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin). A PCCE orientou que a vítima comparecesse à delegacia especializada para repassar novas informações sobre os fatos e subsidiar as investigações", informou a SSPDS.

Elmano se posiciona

Na terça-feira, 14, o governador Elmano de Freitas (PT) também se manifestou sobre o caso e afirmou ter determinado uma apuração rápida.

"Determinei às nossas Forças de Segurança que adotem todo o rigor necessário para identificar e entregar à Justiça o autor das ameaças contra a vereadora Adriana Gerônimo (Psol). Nossa Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin) está investigando o caso", escreveu em uma rede social.

O petista acrescentou: "É inadmissível qualquer forma de violência, especialmente a violência de gênero e política. Nosso compromisso é com a defesa da democracia".

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MORRE RENATO MACHADO

Do g1 Rio

Renato Machado, referência do telejornalismo brasileiro, morre aos 83 anos no Rio

Jornalista morreu na manhã desta quinta-feira (16) na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul da capital fluminense.

O jornalista Renato Machado, ex-apresentador do Bom Dia Brasil, morreu na manhã desta quinta-feira (16), aos 83 anos, na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada.

Um dos principais nomes do telejornalismo brasileiro, Renato Machado construiu uma carreira de mais de quatro décadas na TV Globo, onde também apresentou o Jornal da Globo e o RJTV, integrou a bancada do Jornal Nacional e atuou como correspondente internacional e repórter especial.

Entre 1996 e 2010, ele foi apresentador e editor-chefe do Bom Dia Brasil, período em que ajudou a reformular o telejornal. Ao lado de Leilane Neubarth e, posteriormente, de Renata Vasconcellos, adotou um formato mais dinâmico, com maior interação entre os apresentadores, entradas ao vivo de repórteres e comentaristas e um uso mais amplo do estúdio.

Trajetória

A trajetória de Renato Machado no jornalismo começou em 1969, como repórter do Jornal do Brasil. Treze anos depois, ingressou na TV Globo, onde participou da cobertura da Guerra das Malvinas, um de seus primeiros grandes trabalhos na emissora.

Em 1983, tornou-se correspondente em Londres. De lá, acompanhou fatos históricos como os atentados terroristas em Paris, em 1986, e o desastre nuclear de Chernobyl. De volta ao Brasil, em 1988, passou a atuar como repórter especial da TV Globo.

Em 1990, Renato deixou a Globo para trabalhar na TV Manchete. Lá, ele cobriu a Guerra do Golfo. No ano seguinte, em 1991, ele voltou à TV Globo. Nos cinco anos seguintes, foi repórter especial e cobriu o impeachment de Fernando Collor e a morte do piloto Ayrton Senna.

Em depoimento ao Memória Globo, Renato Machado definiu o telejornalismo como um aprendizado permanente. "Para ser telejornalista é necessário um acúmulo de conhecimento. É saber curiosidades sobre grua, tráfego de câmera, enquadramento, cores, texto, edição. É uma troca. Um universo de aprendizado que, a cada dia, você vê que você erra", disse.

Correspondente internacional

Em setembro de 2011, Renato Machado voltou ao posto de correspondente internacional da TV Globo em Londres. De lá, participou da cobertura de acontecimentos marcantes, como os ataques terroristas ao jornal francês Charlie Hebdo, em 2015, os 95 anos de Nelson Mandela e a crise econômica na Grécia.

Na Europa, também teve espaço para explorar uma de suas grandes paixões: os vinhos. Em 2014, produziu para o Jornal Hoje uma série sobre a região da Provença, na França, em que percorreu aspectos da produção da bebida, além de histórias ligadas à culinária, ao comportamento e à cultura local.

“Nossa última matéria é a minha favorita, porque falamos sobre vinho. A Provença é uma região produtora de vinhos e também é corredor de um vento famoso que vem dos Alpes, o mistral. Esse vento sopra algumas vezes por ano e é gelado: as pessoas sempre levam um casaco, caso ele apareça. Entre as particularidades dele está a característica de afastar o vento quente e limpar as vinícolas, conservar melhor a uva”, disse Renato na época.

Nos últimos anos, Renato continuou compartilhando o interesse pelo universo dos vinhos nas redes sociais. Sobre a reportagem na Provença, destacou a relação entre a bebida, o território e as características da região, como o mistral, vento frio que sopra dos Alpes e ajuda a preservar as vinícolas.

Em janeiro de 2016, Renato Machado passou o posto de correspondente em Londres para a repórter Cecília Malan.

Ele retornou ao Rio de Janeiro como repórter especial do Globo Repórter. Entre seus trabalhos mais marcantes no programa está a edição “A arte como passaporte”, de 2016, na qual mostrou como a oportunidade de aprender música e dança pode transformar a vida de famílias pobres no Brasil. O programa foi indicado ao Emmy Internacional na categoria atualidade. Ele deixou a Globo em novembro de 2021.

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O BRASIL VIVE HOJE UM QUADRO DE FEUDELISMO FISCAL

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Termo foi cunhado há seis anos pela procuradora Élida Graziane e virou realidade

Emendas funcionam como vassalagem, em troca de lealdade e proteção entre agentes políticos

O Brasil já vive um quadro de feudalismo fiscal. O termo foi cunhado há seis anos por Élida Graziane, especialista em contas públicas e procuradora do Ministério Público de Contas do Estado de São Paulo.

Na época, a previsão era um alerta para os riscos no futuro. Mas o que era um prognóstico se transformou em realidade rapidamente.

Nos últimos tempos, assistimos sem reação à adoção de medidas populistas, aprovação de pautas-bomba, negociatas com emendas, aumento de penduricalhos para servidores, de benefícios fiscais e tantos outros mecanismos de captura de recursos públicos.

Cada setor querendo o seu quinhão. Em ano eleitoral, tudo se acelera. É terra arrasada.

Os agentes públicos e privados capturam os recursos públicos como se fossem seus feudos. Os senhores feudais de hoje, na qualidade de proprietários do poder de determinar leis e regras, aproveitam para decidir quem terá mais privilégios e recursos.

As emendas reforçam o sistema, que funciona por meio de laços de fidelidade, como a vassalagem, em troca de lealdade e proteção.

A aprovação da PEC que cria uma aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde, que vai na direção contrária à da reforma da previdência, a briga pela distribuição de emendas, a resistência às restrições aos penduricalhos são resultados do feudalismo.

novo penduricalho, aprovado nesta quarta-feira (15) pelo TCU (Tribunal de Contas da União) —uma gratificação para servidores da Câmara, do Senado e da própria corte que ocupam cargos de direção e chefia— é do mesmo naipe.

Não há como projetar o futuro das contas públicas no Brasil, porque estamos aprisionados ao curtíssimo prazo. Não adianta ficar discutindo regra fiscal, medidas de ajuste, corte de benefícios e despesas se não definimos prioridades.

Somos um país sem concepção de futuro. Vivemos em meio a uma superposição de regras fiscais que convivem com burlas e indícios de corrupção.

O feudalismo fiscal cobra da sociedade, depois, mais impostos e juros altos.

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