Enquanto Flávio Bolsonaro tenta arrefecer os ânimos,
lançando o nome de Alcides Fernandes ao Senado, Michelle faz o oposto,
anunciando a criação de um movimento próprio, intitulado
"Imparáveis", o que só confirma o diagnóstico de que ela tem projeto
pessoal de consolidação de sua liderança no campo da direita
A intensificação da crise em torno
da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro tem desestabilizado os cenários
estaduais, como é o caso do Ceará. A vinda do filho de Bolsonaro à Fortaleza
para apaziguar os ânimos é uma prova do esforço que a sigla tem mantido para
garantir alguma coesão na disputa cearense.
Embora tenha vindo justamente para fortalecer
o palanque local, a presença de Flávio produz um efeito político ambíguo,
especialmente após a veiculação da notícia de que o PSDB não lançará chapa
própria para disputa da presidência. Isso se dá porque, em terras cearenses,
Ciro precisa administrar o incômodo de se aliar ao bolsonarismo sem ser, na
origem, um bolsonarista convicto. Sua aliança eleitoral com o PL criou uma
contradição que desagrada a gregos e troianos, porque, do lado do bolsonarismo,
a desconfiança com seu nome é real e, no campo progressista, ficou um
gosto agridoce de um pragmatismo radical difícil para uma parte dos ciristas
históricos digerir.
A presença de Flávio Bolsonaro atrapalha
uma estratégia de marketing que poderia superar esse impasse: a de
manter distanciado o palanque local do nacional, evitando uma associação direta
da imagem dos dois candidatos. Ciro
Gomes poderia aparecer próximo de nomes como Capitão Wagner e Alcides
Fernandes, sem precisar de um abraço público com um Bolsonaro. Sem candidatura
do PSDB, a estratégia é menos viável.
A dissociação fica difícil, ao mesmo tempo em que a
desconfiança interna ao campo é permanentemente alimentada por Michelle
Bolsonaro, que sempre menciona o nome de Ciro ao se referir à crise com o
enteado. O partido, no Estado, está conflagrado, e, também por isso, o palanque
cearense é central na crise. É uma das causas mais manifestas do
desconforto da ex-primeira dama em ver preterido o seu protagonismo,
inclusive aquele voltado à construção de candidaturas de nomes ligados ao PL
Mulher.
Enquanto Flávio Bolsonaro tenta arrefecer os ânimos,
lançando o nome de Alcides Fernandes ao Senado, Michelle faz um
movimento oposto, anunciando a criação de um movimento próprio, intitulado
"Imparáveis", o que só confirma o diagnóstico de que a
ex-primeira-dama tem um projeto pessoal muito claro de consolidação de sua
liderança no campo da direita, ao mesmo tempo em que parece disposta a minar o
capital dos enteados. Camilo Santana fez questão de ressaltar o que chamou de
coerência de Michelle, aproveitando-se da desorganização bolsonarista
para fragilizar ainda mais a pré-candidatura de Ciro Gomes.
Por mais que o grupo em torno de Ciro deseje o contrário, o
que será da eleição local depende muito do desempenho da candidatura
presidencial. Michelle e o PL o demonstram bem, e o foco no Ceará é a
prova disso.
Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade
Federal do Ceará (UFC)
A IA está mudando a economia mundial, mas para isso usa
uma quantidade gigantesca de capital
Durante anos fomos levados a acreditar que a economia
digital era leve: o termo usado era ‘nuvem’; descobrimos que a nuvem pesa
milhões de toneladas de concreto, em data centers
Se alguém dissesse, poucos anos atrás, que a infraestrutura
e os computadores usados para desenvolver a inteligência artificial (IA)
consumiriam mais eletricidade do que todo o Japão, provavelmente pareceria
exagero. Mas não é.
Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data
centers dedicados à IA deverão consumir cerca de 945 TWh em 2030 – mais do que
todo o consumo anual de eletricidade da terceira maior economia do mundo.
Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve. O termo
usado era “nuvem” e imaginávamos algo virtual, quase sem peso.
A inteligência artificial está revelando o
contrário. Descobrimos, agora, que a nuvem pesa milhões de toneladas de
concreto. Não estamos falando apenas de algoritmos. Mas de usinas de energia,
linhas de transmissão, data centers, sistemas de refrigeração, cabos
submarinos. A IA deixou de ser apenas software. Tornou-se uma das maiores obras
de infraestrutura econômica do século 21.
Um exemplo foi o anúncio da Meta, que vai investir US$ 9,1
bilhões no primeiro grande data center no Canadá, com potência de 1 gigawatt,
expansível para 1,8 GW, e para isso precisará de uma usina própria movida a gás
natural. Uma única instalação de IA já exige infraestrutura energética
comparável à de uma cidade.
Até recentemente a pergunta era qual seria a produtividades
trazida pela IA. Agora, surge outra, talvez mais incômoda: como essa
infraestrutura será financiada – e se ela será capaz de gerar retorno
compatível com o volume de capital que está absorvendo.
Em seu último relatório semestral, a OCDE afirma que a
economia mundial ainda parte de uma base sólida com os investimentos em IA. Mas
esse ponto precisa ser visto com cuidado. Diante da desaceleração global
apontada pelo FMI, os investimentos em IA não eliminam os riscos nem impedem a
perda de ritmo da economia. Funcionam como um dos principais amortecedores da
desaceleração. E aqui surge um paradoxo.
O mesmo ciclo de investimentos que ajuda a manter a economia
em movimento também pode se transformar em fonte de instabilidade financeira.
Talvez estejamos diante de duas revoluções distintas. A primeira, é
tecnológica. A segunda, financeira.
A IA já está transformando a economia mundial. Mas, para
fazê-lo, exige uma quantidade gigantesca de capital físico e financeiro, antes
que seus retornos estejam plenamente comprovados. Nesse momento, o entusiasmo
costuma ser mais acelerado do que o cuidado de medir riscos. A IA mudará o
mundo, com certeza. Mas isso nos traz uma pergunta: qual parte dessa
infraestrutura permanecerá quando a euforia passar – e quem vai pagar a conta
até lá?
Chineses têm participado de maneira cada vez mais ativa
na formulação do direito internacional
O Brasil também deveria adotar urgentemente um plano de
consolidação de seu Estado de Direito
O Fórum Mundial de Juristas levou a Pequim,
neste mês, mais de 500 especialistas e profissionais do direito de diversos
países, com o objetivo de promover o intercâmbio de experiências entre
diferentes linhagens do Estado de Direito.
O momento não poderia ser mais apropriado. Apesar da
crescente interdependência econômica e vertiginosa interconexão tecnológica,
temos assistido a um forte declínio da capacidade das instituições baseadas no
direito (rule based institutions) em responder aos múltiplos desafios globais,
que vão dos conflitos armados à crise climática, passando pelo comércio e o respeito
aos direitos
humanos.
Essa crescente desordem internacional, agravada pela gestão
Trump, está diretamente relacionada à onda de autocratização nos diversos
continentes. A ascensão de líderes populistas, nacionalistas ou mesmo
extremistas, tem contribuído para fragilizar a autoridade do direito, não
apenas no âmbito doméstico, mas também internacional.
O ideal de uma ordem democrática e global
baseadas no direito, como um instrumento de estabilização de expectativas,
contenção do exercício arbitrário do poder e construção de consensos, vai se
esvanecendo em face de uma realidade política cada vez mais bruta. O mais grave
é que essa ordem baseada no direito vem sendo atacada, e, em muitas
circunstâncias, de forma contundente, por aqueles que a arquitetaram.
Nesse contexto, chama a atenção a forma como a China vem se
apropriando da linguagem do Estado de Direito para consolidar o seu poder nos
planos interno e internacional. Não se trata, evidentemente, de um transplante
de ideais liberais —centrados na autonomia dos indivíduos e nos direitos e
liberdades que os protegem— para o contexto chinês. Mas sim, de um plano de
consolidação de um "Estado de Direito com características chinesas",
enraizado nas tradições de centralização do poder, burocracia hierarquizada,
além de "virtudes éticas" herdadas do confucionismo, que deve se
"completar até 2035". Assim mesmo, com data marcada!
Em sua linhagem chinesa, o Estado de Direito é compreendido
mais como uma ferramenta de governança —por meio de regras— econômica, política
e social, do que como um regime político em que o poder se encontra limitado
pelo direito. Nesse sentido, seria mais correto falar em rule by law, do que em
rule of law.
Sucessivas reformas judiciais, adoção de "legislação
científica" e o emprego cada vez mais extenso e sistemático de meios
digitais, têm por objetivo reduzir a corrupção e o arbítrio de lideranças
governamentais, assim como ampliar a igualdade, pela padronização da aplicação
da lei em todo o território. As "questões sensíveis" permanecerão sob
a jurisdição do Partido.
No plano internacional, além da expansão de seu poderio
econômico, a China parece buscar ampliar sua influência propondo a coordenação
política e a estabilização de expectativas, por meio do direito internacional e
de instituições multilaterais. Não se trata, mais uma vez, de uma recepção
passiva das instituições internacionais arquitetadas no pós-guerra. Os chineses
têm participado de maneira cada vez mais ativa na formulação do direito
internacional, na reformulação e criação de instituições multilaterais, que
expressem suas ambições no campo comercial e geopolítico.
O que o Brasil poderia tirar dessa troca de experiências? Em
primeiro lugar, que há um espaço de colaboração para atualização de regras e
instituições internacionais. Em segundo, e mais auspicioso, o Brasil também
deveria adotar urgentemente um plano de consolidação de seu Estado de Direito.
Evidentemente que um Estado de Direito de linhagem democrática, tal como
estabelecido pela Constituição.
*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela
Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de
"Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)
Filho de Nunes Marques acumulou R$ 28 milhões com dois anos
de carreira
Kevin Marques é prodígio congênito do direito, alguém cujas
vocação causídica de berço e atividade advocatícia bem-sucedida não podem ser
duvidadas por lhe ser o pai membro do STF. O talento, associado ao trabalho,
cedo ou tarde – cedíssimo, aqui – resulta. Resultou em que, com dois anos de
carreira, o filho de Nunes Marques tivesse acumulado quase R$ 28 milhões.
Cumpre jornada referencial também a banca do filho de Luiz Fux.
O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o
IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na
prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo
impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da
confederação.
O contrato é de 2023. E não haveria mesmo
motivo para que o ministro se considerasse suspeito em 2024, ante ação relativa
à CBF. Preferiu determinar que fosse suspensa a decisão que destituíra do cargo
o então presidente da entidade. Uma coisa é a sociedade comercial do
empreendimento familiar com a CBF; outra, o fundador do empreendimento julgar
matéria sobre o presidente da entidade com que o negócio da família tem
sociedade.
Diga-se, de volta a Kevin, que ele, aos 25 anos, tem
cuidados que faltam a parentes de outros ministros. Não atua no STF. Prioriza o
TRF-1, onde Nunes Marques teve toga até 2020, e a Justiça do Piauí, Estado de
origem da família. Será maledicência supor que o pai, juiz no Supremo, mantenha
influência sobre tribunal sediado em Brasília, ou sobre o Judiciário da terra
da qual ascendeu.
Registre-se que o STF autoriza que parentes de ministros
advoguem no STF, inclusive para empresas com processos sob os cuidados do
ministro parente, desde que o processo em que atuem não esteja sob os cuidados
do ministro parente. Foi assim que Dias Toffoli pôde tomar providências sobre a
J&F, ainda que sua esposa fosse advogada do grupo. Suspendeu-lhe multa de
R$ 10,3 bilhões.
Exalte-se a força da inspiração de – o valor da convivência
com – um Alexandre de Moraes como agente impulsionador de portentos do direito,
ainda que sem vínculos sanguíneos. Não haverá quem feche contrato de R$ 130
milhões com alguém porque casada com o juiz capaz de tirar o Twitter do ar.
Com escritório fundado em 2024, pouco depois de aprovado na
OAB, Kevin não tardaria a representar clientes do tamanho da Refit, para quem,
em 2025, conseguiu – no TRF-1 – liminar suspendendo a interdição da refinaria.
Tampouco demoraria a ingressar no ramo da prestação de consultoria a
consultorias, graças ao quê, entre 2024 e 2025, recebeu cerca de R$ 282 mil da
consultoria do pai de seu sócio, a Consult – que, no mesmo período, recebera R$
6,6 milhões do Master e R$11,3 milhões da JBS.
Naquela altura, os donos da JBS – tendo como advogada,
aliás, a esposa de Dias Toffoli – eram parte em disputa bilionária, no STF,
pela propriedade da Eldorado Celulose. Relator: Nunes Marques. •
Morre cantor e compositor Peppino Di Capri, do sucesso
'Champagne', aos 86 anos
Artista italiano foi um dos astros da música de seu país
Causa da morte ainda não foi divulgada por sua família
O cantor e compositor italiano Peppino
di Capri morreu na manhã deste sábado, na ilha de Capri, na Itália, aos 86
anos. A notícia foi divulgada na própria rede social do artista, com uma
fotografia e a legenda "tchau, Peppino". A causa da morte não foi
divulgada pela família.
Nascido em julho de 1939 na mesma ilha onde morreu, Peppino
foi um renomado cantor, pianista e compositor, se destacando-se como um dos
grandes astros da música popular
italiana do século 20. Ele ficou mundialmente famoso por clássicos românticos
como "Champagne" e "Roberta" —sendo essa última a que deu
início a uma onda de batismos de crianças com esse nome na Itália.
Peppino di Capri, nascido Giuseppe Faiella, esteve desde
cedo em contato com o universo musical. Seu avô tinha uma banda na ilha de
Capri e o seu pai, uma loja de discos, além de saber tocar vários instrumentos.
Aos quatro anos, o cantor já se apresentava para os soldados aliados nas bases
militares da ilha durante a Segunda
Guerra Mundial.
Em 1953, ele formou o Duo Caprese e se apresentava nas
boates de Capri ao lado do baterista e amigo Ettore Falconieri. Anos depois, a
dupla participou do programa de auditório Primo Applauso, venceu a competição e
ganhou um aparelho de televisão.
Em 1957, ele formou o grupo Capri Boys, uma banda inspirada
nos roqueiros americanos, com Pino Amenta, Mario Cenci e Gabriele Varano. Após
um contrato com gravadora milanesa Carish, o grupo passou a ser chamado de
Peppino di Capri e i Suoi Rockers e emplacou sucessos como "Malatia",
"Let Me Cry" e "Nun È Peccato".
Em dezembro de 1961, ainda com a banda, o artista lançou o
twist, dança inspirada no rock, na Itália com a interpretação de "Let's
Twist Again", música que vendeu 1 milhão de cópias e levou Peppino di
Capri ao topo das paradas. Depois, se seguiram as canções "Don't Play That
Song" e "St. Tropez Twist", assim como turnês pela Alemanha e
pelos Estados
Unidos.
Na época, Peppino di Capri apostava num arquétipo do cantor
melódico italiano, mas que estava, ao mesmo tempo, voltado para o futuro. Ele,
então, transmitia segurança ao mesmo passo que tinha uma áurea de travesso, se
deixava fascinar pelo estilo rock sem deixar de ser o tipo de "namorado
ideal" para a legião de fãs que o seguia.
Esse charme de seus primeiros tempos, somado a uma energia
juvenil, o lançou em nmundo em rápida transformação e garantiu a ele um papel
singular na música italiana. No auge da sua carreira, Peppino di Capri chegou a
abrir os shows dos Beatles durante
a turnê italiana da banda britânica, em 1965. O italiano foi um dos grandes
responsáveis por levar o gosto pelo rock à Itália.
Uma década depois de fomada, a banda Peppino di Capri e i
Suoi Rockers chegou ao fim, e Peppino di Capri decidiu seguir carreira solo.
O cantor também foi consagrado pelo Festival de Sanremo,
principal concurso de música popular e evento cultural mais visto da televisão
italiana. Ao todo, esteve presente em 15 edições do evento, levando o primeiro
lugar apenas duas vezes —em 1973 com a música "Un Grande Amore e Niente
Più" e depois, em 1976, com a "Non lo Faccio Più". Ele também
ganhou o Festival da Canção Napolitana em 1970 com "Me Chiamme
Ammore".
"Sentia que o melhor ainda estava por vir. Talvez seja
justo que aconteça dessa forma para canções que têm um estilo clássico não
ligado a uma dança ou a uma moda, algo que nos diverte só por um verão e depois
irrita", disse em 1973 ao vencer o festival.
Naquele mesmo ano, Peppino di Capri lançou
"Champagne", composta por Mimmo di Francia, Depsa e Sergio Iodice.
Conhecida pelo refrão melancólico, a música teve inicialmente uma recepção
morna. A fama veio depois, gradualmente, até se tornar um clássico na Itália,
passando a integrar o repertório típico de casas noturnas e bares com piano.
Peppino di Capri representou a Itália no festival Eurovision
em 1991. O cantor interpretou "Comme è Ddoce 'o Mare", uma balada
romântica escrita em dialeto napolitano, e terminou a competição em sétimo
lugar. Essa foi a primeira vez em que o país enviou à competição uma canção não
cantada em italiano.
A vida amorosa do artista esteve entrelaçada com sua
produção musical. O primeiro casamento foi com Roberta Stoppa, que o acompanhou
durante os anos de seu maior sucesso artístico e, segundo o próprio cantor
relatou em várias entrevistas, foi responsável por sugestões de estilo que se
tornariam sua marca como as famosas jaquetas com acabamento metálico. Foi para
ela que Peppino dedicou a canção "Roberta", que se tornaria uma das
mais famosas de seu repertório.
Numa crise no relacionamento com Stoppa, entretanto, o
cantor conheceu quem viria a ser sua segunda mulher, Giuliana Gagliardi, que se
tornou sua companheira na maturidade e no renascimento profissional,
permanecendo ao seu lado por mais de 40 anos. Para ela, a canção dedicada foi
"Un Grande Amore e Niente Più", com a qual venceu o Festival de
Sanremo.
O trabalho musical de Peppino foi lembrado nas telas de
cinema com a cinebiografia "Champagne", lançada no ano passado. O
longa acompanha as mais de seis décadas de carreira do artista e tem Francesco
Del Gaudio no papel principal, interpretando Peppino.
Entre suas lembranças mais marcantes, Del Gaudio lembra a
primeira exibição privada do filme para o cantor. "Ele desabou em lágrimas
durante as cenas dedicadas à guerra, quando ainda era criança. Aquelas imagens
tocaram uma parte muito profunda e dolorosa de sua história pessoal. É assim
que me lembro dele, com muita ternura", disse o ator.
Peppino di Capri realizou dezenas
de apresentações no Brasil ao longo de sua carreira, marcadas por
shows lotados em capitais, aparições na TV e público emocionado e cantante.
Sua última aparição nos palcos aconteceu há cerca de um ano.
Apesar da saúde já debilitada, Peppino di Capri ofereceu ao público uma
interpretação de "Champagne" na Certosa di San Giacomo, na ilha de
Capri, durante um evento cinematográfico.
O funeral será realizado na tarde deste domingo, na antiga
Catedral de Santo Stefano, na Piazzetta di Capri. O cantor deixa três filhos,
Igor, com Roberta Stoppa, e Edoardo e Dario, que teve com Giuliana Gagliardi.
É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco,
que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais
Quem melhor que uma cardiologista para falar de saudade —
essa palavra branca que, peixe, se evade e pode até desencadear a síndrome do
coração partido? Foi o que fez Stephanie Rizk, em sua coluna no GLOBO, em 6 de
julho. Ali ela diz que a saudade não é invenção sentimental, mas “uma
tecnologia antiga de sobrevivência”. Deve ser por isso que a saudade no meu
peito ainda mora. Peço: leva eu, sodade, eu também quero ir. E essa saudade
enjoada não vai embora.
Saudade é palavra triste quando se perde um grande amor
(saudade de você debaixo do meu cobertor). É arrumar o quarto do filho que já
morreu (não sei quem tem mais saudade: se a saudade, se sou eu).
Essa presença da ausência de alguém, de algum lugar, de
algo, enfim, seria uma forma ancestral de nos empurrar de volta aos vínculos
(diz que é verdade, que ainda você pensa muito em mim). Um processo que “nos
devolve ao presente com mais coragem” e “dá contorno ao dia”. Aí a gente tem
saudade da Amélia — aquilo, sim, é que era mulher. Saudade de Itapuã, da Maria,
da Bahia, dos tempos da Panair.
Rizk defende que não é o caso de tentar
acabar com a saudade (não a afogue nos copos de um bar), mas de saber o que
fazer com ela. Talvez a própria saudade faça um samba em seu lugar. Diz que
“Não se pode dizer que saudade mata”. Será? A saudade é dor pungente. Se eu não
mato a saudade — é, deixa estar —, a saudade mata a gente, morena. É mal de
amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco
e evita atracar no cais.
“A saudade tem uma delicadeza que a diferencia da solidão.”
Sim: solidão é o carrasco sombrio, e a saudade a vergasta. Ambas vêm do
latim solitas (isolamento, desamparo), que deu em soledade e
solitário. Daí que ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio. E quem
foge da saudade, preso por um fio, se afoga noutras águas, mas no mesmo rio.
Fernando Pessoa supôs que só portugueses consigam senti-la
bem, porque têm uma palavra para dizer que a têm. Não é verdade. Alemães
têm Sehnsucht; galegos, morriña; espanhóis, añoranza.
Romenos a sentem ainda melhor: sentem dor. Mineiros e
cabo-verdianos a chamam sodade: dos bailes no clube da esquina, de
ter visto muita coisa — menos a felicidade.
Saudade é o som do tempo que ressoa, a luz que sobra da
pessoa. É o pior tormento, é pior que o esquecimento, pior que se entrevar.
Demorada, “deixa de ser apenas uma experiência emocional e passa a conversar
com o sistema imunológico, hormonal e cardiovascular”. Diz Rizk que ela “pode
ferir, mas também pode costurar”. Sei não. Para ter felicidade, é preciso que a
saudade vá bater noutro lugar.
Contra a dor da saudade — receitam os poetas —, o remédio é
cantar.
(Obrigado, Alventino Cavalcanti, Antônio Almeida, Ary
Barroso, Ataulfo Alves, Braguinha, Carlinhos Lyra, Cecília Meireles, Chico
Buarque, Chico César, Cuca Roseta, Djavan, Dorival Caymmi, Fernando Brant,
Gilberto Gil, Hermano Silva, Hermínio Giménez, Humberto Teixeira, José Augusto,
José Fortuna, Joubert de Carvalho, Laércio Alves, Lupicínio Rodrigues, Luiz
Gonzaga, Mário Lago, Max Nunes, Milton Nascimento, Moska, Ney Azambuja, Pablo
Neruda, Paulo César Pinheiro, Paulo Gesta, Paulo Sérgio Valle, Peninha, Pinheirinho
Júnior, Ronaldo Bôscoli, Sueli Costa, Tavito, Tito Madi, Tito Neto, Vanessa
Rangel e Vinícius de Moraes.)
Maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico
e até morte violenta subiram na faixa de zero a 17 anos
O Brasil precisou de uma lei para punir o castigo físico a
crianças e, mais de uma década depois, ainda convive com a chaga que atravessa
séculos e gerações. Causou indignação nesta semana a agressão de um pai contra
a filha, de 3 aninhos, em via pública no Paraná. Tudo registrado por uma câmera
de segurança. A menininha vinha com o (ir)responsável e o irmão. Chorava. Em
reprimenda, recebeu no rosto o chute que a levou ao chão. Um morador,
testemunha da brutalidade, correu para repreender o criminoso; foi repelido. A
mãe da pequena procurou a polícia, ao assistir à cena numa rede social. O
genitor está preso agora, sob suspeita de também ter atacado o enteado, de 5
anos. No Rio Grande do Sul, um missionário americano, há nove anos no país,
espancou até a morte o filho, também de 3 anos, como castigo por não ter
recebido um bom-dia.
O par de crimes produziu comoção, como se
casos isolados fossem. Não são. O Brasil é um território hostil aos menores.
Uma evidência está na quantidade de leis destinadas a assegurar direitos e
proteção aos miúdos. Neste julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA)
completa 36 anos. No início da semana, no Senado, uma audiência pública
organizada pela Comissão de Direitos Humanos constatou que o desafio que se
apresenta às autoridades, mais que elaborar, é fazer valer a legislação.
Avolumam-se os casos de violência, a despeito de o arcabouço
legal ter evoluído, tanto em prol de crianças quanto de mulheres, caso das leis
Maria da Penha, da importunação sexual e do feminicídio. Além do ECA, hoje
também em recém-sancionada versão para coibir violações por meio digital, a Lei
Menino Bernardo, de 2014, qualificou e agravou penas para castigos físicos,
tratamento cruel e degradante na educação de meninos e meninas. Bernardo
Boldrini, órfão de mãe, negligenciado pelo pai, chegou a pedir a um juiz para
mudar de família. Acabou assassinado pela madrasta, numa trama nefasta que
envolveu o próprio irmão, uma amiga e o pai do menino. O crime apressou a
aprovação do texto, originalmente batizado de Lei da Palmada.
Até hoje, não é incomum ouvir em conversa de bar, almoços de
família e na babel das redes sociais muxoxos dos que naturalizam tapas, surras,
bofetões de caráter pedagógico. Muita gente por estas bandas cresceu — e
sobreviveu — apanhando. Assim sedimenta-se a cultura de, como diz o ditado, “o
que não mata fortalece”. E as ocorrências, em vez de arrefecerem, recrudescem.
A edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança
Pública, com estatísticas consolidadas de 2024, apurou aumento nos registros de
maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até de morte
violenta na faixa etária de zero a 17 anos. Naquele ano, foram 2.356
assassinados, crescimento de 3,7% sobre 2023. Pouco mais de 10% das vítimas
(253) tinha até 11 anos. Entre crianças de zero a 4 anos, os pesquisadores
contaram 8.055 casos de maus-tratos, alta de 6,8%, e 2.204 de agressões físicas
(+7,9%). No universo de menores de idade, houve, respectivamente, 33.269 e
20.575 ocorrências. É como, pelo Censo 2022, molestar toda a população de Novo
Progresso (PA) e espancar Caravelas (BA) inteirinha.
A naturalização da violência física como método de correção
e disciplina, especialmente na primeira infância, explica a escalada de casos,
escreveu o pesquisador Cauê Martins, doutor em sociologia pela USP. As
situações de maus-tratos predominam nas (supostas) relações de cuidado e
disciplinas de crianças; as lesões corporais se acentuam na adolescência. Até
os 9 anos, meninos apanham mais; a partir dos 10, as meninas. Os agressores são
pessoas da família em 93% dos casos. Há concentração de ocorrências nos dias
úteis, compatível com castigos aplicados no ambiente doméstico e associados às
rotinas escolar e laboral. O perigo, tal qual nos registros de abuso sexual e
estupro de vulneráveis, não mora ao lado, mas dentro de casa.
A violência sexual bateu recorde em 2024, com 87.545
vítimas. Praticamente oito em dez tinham menos de 14 anos, e dois terços dos
casos aconteceram em casa. Também crescem no país as violações cometidas ou
tramadas via internet — sobretudo contra meninas, com agressores igualmente
menores de idade. Os crimes vão de injúria e difamação a submissão,
constrangimento ou estupro coletivo. Na Zona Sudoeste do Rio, estudantes do
Colégio Cruzeiro, com mensalidade de R$ 3 mil a R$ 5 mil, são investigados por
catalogar numa plataforma digital por categorias sexuais 65 alunas de 14 e 15
anos. Três anos atrás, um grupo do Colégio Santo Agostinho, na Barra da Tijuca,
foi acusado de usar um programa de inteligência artificial para criar, depois
espalhar, imagens íntimas de duas dezenas de adolescentes. Infância e
adolescência brasileiras estão feridas em corpo e alma.
Memória – Se estivesse vivo, Zé Prado completaria hoje 94 anos. Em 11 de julho de
1932, nasce em Sobral (CE), José Parente Prado, filho do ex-prefeito de Sobral
Jerônimo Medeiros Prado e Francisquinha Gomes Parente Prado. Em continuidade
aos passos do pai, Zé Prado ingressa na política em 1972.
Eleito prefeito de Sobral por duas vezes, deputado estadual
por três legislaturas. Casado com dona Maria do Socorro Barroso Prado; tiveram
três filhos: Ricardo Prado, Marco Prado e José
Inácio.
Zé Prado torna-se um dos políticos mais respeitado e
admirado em Sobral - zona norte – e no Estado do Ceará. Sempre empenhado no
bem-estar do povo sobralense e do Ceará respeitou o rico e esteve sempre em
defesa do pobre.
Com jeito simples, amigo e companheiro de fazer política,
ele cativou até adversários, que se rendiam a um abraço do “Zé dos Pobres”,
como era conhecido pela população sobralense.
José Parente Prado faleceu
em 26 de maio de 1999, vítima de infarto, no Hospital Dr. Estevão, em
Sobral (CE). Deixou esposa, filhos, Pai (faleceu
em 2003), irmãs, netos, parentes e amigos!
Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do
engano e da ilusão
Não ganhar a Copa do Mundo de 2026 estava no destino de
todas as seleções que dela estão participando, menos no de uma, a que a
vencerá. Desta vez não seremos nós. Como não fomos em várias Copas anteriores.
No esporte, ganhar não é uma certeza, como perder também não o é.
A incerteza em tudo na vida é uma derrota. Essa é uma das
mais fortes concepções do senso comum do povo brasileiro. Um povo que até hoje
não se tornou um povo de verdade, a não ser na mera formulação jurídica. Somos
um conjunto disperso de diversidades que não se juntam nem se encontram.
Tudo é feito para nos dividir, a começar da
política e dos poderes. É uma de nossas características antropológicas de
nascimento. Mero ajuntamento de escravidões em nome de uma iníqua concepção de
riqueza e de acumulação de riqueza, estamos divididos e separados por essas
escravidões que não terminam nem se supera. Mesmo onde ela já não existe está
lá, na mentalidade que persiste e insiste. Não sabemos lidar e vivenciar a
liberdade possível, o direito que deveria assegurá-la. Somos vítimas de nossas
conquistas, que supomos grandes mesmo quando as apequenamos.
Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa,
antropologicamente diz: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe
para a gente é no meio da travessia”.
Rosa colheu concepções populares sobre a vida nas situações
mais inesperadas da realidade brasileira. De “Os sertões”, de Euclides da
Cunha, incorporou a lógica dos jagunços e sertanejos, carregada de certezas
indecisas, nas respostas aos interrogatórios truculentos de oficiais do
Exército. “E eu, sei?”
Foi contestação frequente nas perguntas baseadas unicamente
em pressupostos militares, como se as vítimas fossem de teóricos da guerra.
Como a jagunça que, após essa resposta a um oficial, foi ali mesmo degolada à
vista do próprio Euclides da Cunha.
Resposta de quem está no meio da travessia, nem na saída de
um partir nunca nem na chegada de um nunca chegar. A síntese de Riobaldo é
sociológica e explicativa do que não somos, sendo para não ser. A realidade é
processo, movimento, mesmo no caminhar calculado, como numa partida de futebol.
O único brasileiro jogador de futebol que ganhou sempre e
sempre se superou foi Pelé. Começou adolescente, jogando pelo Santos, no
primeiro estádio brasileiro de futebol, num jogo em Paranapiacaba, no Alto da
Serra, em São Paulo, com o apelido de “Gasolina”, porque era preto.
Venceu o racismo e os racismos. Ganhou vida própria, com
identidade própria. Diferentemente do que tantos fizeram, os que se entregaram
às tentações fáceis da fama e do dinheiro, superou-se cada dia e todos os dias.
Foi ministro do governo FHC. Fez parte da equipe do governo
em visita oficial à Inglaterra. A rainha cumprimentou protocolarmente o
presidente brasileiro e, antes de cumprimentar os ministros, perguntou: “Onde
está o famoso Pelé?”.
Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do
engano e da ilusão. Porque as verdadeiras vitórias do povo brasileiro, e são
muitas, nos vários campos de atividade e da vida, são de todos nós. Mas desde
criancinhas somos ensinados que são dos outros, dos que mandam e dos que podem.
Somos um povo que está sempre devendo favores a quem tem poder de mandar e de
enganar.
O futebol foi uma das poucas sobras de êxitos possíveis, que
capturamos, aperfeiçoando a cópia, no futebol de várzea. Cada terreno baldio,
em todas as regiões, foi ocupado como lugar de afirmação identitária de uma
prática em que se ganha podendo perder.
Aprendemos a ganhar, mas não a perder. Temos dificuldade
para compreender que perder é parte constitutiva do ganhar. Se não há a
possibilidade de perder, não há a possibilidade do futebol. Como de nenhum
outro esporte.
A única versão do futebol em que só se podia ganhar ocorreu
entre os índios Terena. Um aluno de pós-graduação em antropologia, da Faculdade
de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, decidiu fazer seu mestrado
sobre essa população indígena.
Entre os apetrechos de seu equipamento levou uma bola de
futebol, para mostrar o uso aos anfitriões. Ensinou-lhes a jogar, organizou
dois times. Para sua surpresa, os 22 índios dos dois times não se enfrentavam,
jogavam juntos. O adversário era a bola, contra a qual todos jogavam. Ela era a
caça. Ali o futebol era impossível porque sociedade desprovida da concepção de
competição, de vitória e de derrota. A bola perdeu.
Fico pensando no monumental Mané Garrincha, um índio
fulni-ô, de Pernambuco. Fala-se muito no seu futebol desconcertante.
Desconcertante por quê? Muito provavelmente porque Garrincha jogava futebol, um
esporte inglês, com “sotaque” terena, lógica terena. O adversário não podia
entender-lhe o jogo.
*José de Souza Martins é sociólogo. Professor
Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar,
da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador
Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra
as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros
livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).
Morre o ex-senador e jornalista Cid Carvalho, aos 90 anos
Político também atuou como professor na UFC e integrou a
Academia Cearense de Letras e a Academia Fortalezense de Letras
Morreu nesta sexta-feira, 10, o ex-senador da República,
professor, advogado, jornalista e radialista Cid Sabóia de Carvalho,
aos 90 anos. A causa da morte não foi divulgada.
Natural de Fortaleza, foi graduado em Direito pela
Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor da mesma instituição nas áreas
de Direito, Ciências Jurídicas, Ciências Econômicas, Filosofia e do Curso
de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na mesma
instituição.
Também foi membro do Instituto do Ceará, da Academia
Cearense de Letras e da Academia Fortalezense de Letras, além de ter sido
presidente da Associação Profissionais dos Cronistas Desportivos do Estado do
Ceará.
É filho do poeta, escritor, professor, jornalista e advogado
Jáder de Carvalho.
Nesta sexta-feira, a Universidade Federal do
Ceará manifestou solidariedade aos familiares, amigos, colegas e ex-alunos
de Cid e reconheceu a contribuição do político à universidade e ao
Ceará.
“Na UFC, exerceu o magistério na Faculdade de Direito e
também lecionou em áreas como Ciências Econômicas, Filosofia, Comunicação e
Ciências Jurídicas, contribuindo de maneira expressiva para a formação de
sucessivas gerações de estudantes. Sua relação com a universidade foi marcada
pelo compromisso com o ensino, pela erudição e pela presença constante no
debate intelectual e público do Ceará”.
A Academia Cearense de Direito lamentou a morte do advogado
pelas redes sociais: “Nós, da ACED, estamos consternados e lamentamos a perda
desse honroso Jurista que deixava notável em suas publicações e atividades a
sua cultura lastreada na educação, moralidade e sentimentos cristão”.
A Federal Cearense de Futebol (FCF) informou que, em
homenagem ao político, o presidente da Federação, Mauro Carmélio, decretou um
minuto de silêncio em todos os jogos deste fim de semana e determinou a
bandeira da entidade permaneça hasteada a meio-mastro durante uma semana.
Trajetória política
Na política, Cid Carvalho foi procurador junto ao Conselho
de Contas do Município. Em 1986, foi eleito para o Senado Federal e integrou a
bancada do PMDB na Casa.
De acordo com o Senado Federal, na Assembleia Nacional
Constituinte, Cid participou das Comissões ou Subcomissões: da Ordem Social; do
Sistema Financeiro; do Sistema Tributário, Orçamento e Finança; dos Negros,
Populações Indígenas, Deficientes e Minorias.
Trajetória na comunicação
Cid também é referência na área da comunicação, com
passagens por veículos como Rádio Uirapuru, Rádio Assunção, Rádio Dragão
do Mar e, mais recentemente, pelo Grupo Cidade de Comunicação.
O Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce) também
destacou a atuação e o legado do jornalista na comunicação cearense.
“Filiado ao Sindjorce sob o nº 424 desde 1º de novembro de
1979, Cid Carvalho tinha 90 anos e construiu uma trajetória marcada pelo
compromisso com o jornalismo cearense. Iniciou sua carreira em 1948, aos 12
anos, como comentarista político e esportivo nas rádios Uirapuru e Assunção
[...] Além de filiado, integrou uma das gestões da Comissão Estadual de
Ética do sindicato, contribuindo para o fortalecimento dos princípios éticos da
profissão e para a valorização do exercício responsável do jornalismo”.
Políticos lamentam a morte do jornalista
Pelas redes sociais, o prefeito Evandro Leitão (PT)
também lamentou a morte de Cid e destacou que o ex-senador deixa um “legado de
grande reconhecimento no jornalismo e na vida pública”.
“Soube com pesar do falecimento do ex-senador da República,
jornalista e advogado Cid Saboia de Carvalho, grande expoente da Comunicação no
Ceará. Ele deixa um legado de grande reconhecimento no jornalismo e na vida
pública. Meu abraço de solidariedade aos familiares, amigos e admiradores. Que
Deus o receba!”, escreveu.
O ex-senador Tasso Jereissati (PSDB)
relembrou a atuação de Cid como “um árduo defensor das liberdades
democráticas”.
“Lamento profundamente o falecimento de Cid Carvalho,
ex-senador, advogado e jornalista de destaque que honrou o Estado do Ceará.
Como profissional da comunicação, ele emprestou sua voz inconfundível ao
jornalismo e à utilidade pública, destacando-se também como um árduo defensor
das liberdades democráticas. Meus sentimentos e solidariedade à família e aos
amigos”.
O deputado estadual De Assis Diniz (PT)
comentou sobre a trajetória de Cid na luta contra a ditadura militar.
“O Ceará perde um cidadão exemplar e um político do mais
alto quilate. Faleceu o ex-senador, advogado, poeta, jornalista e radialista
Cid Sabóia de Carvalho, nesta sexta-feira (10), aos 90 anos. Construiu seu nome
a partir de luta ferrenha contra a ditadura militar, sendo inclusive
perseguido. Depois, uma carreira pública sólida e sem máculas. Sem dúvida,
deixará muitas saudades, mas seu legado permanecerá vivo nos corações e mentes
de seus familiares, amigos e admiradores. Cid Carvalho, presente!”.
Morre Jonas Muniz, primeiro prefeito de Cruz (CE) e gestor por
seis mandatos
O ex-prefeito de Cruz (CE), Jonas Muniz, morreu aos 82 anos,
em São Paulo, onde tratava um câncer. Primeiro prefeito do município após a
emancipação política, ele marcou a história da cidade ao exercer seis mandatos
à frente da administração municipal.
Ao longo de décadas de vida pública, Jonas Muniz consolidou
sua liderança como uma das principais referências políticas da Região Norte do
Ceará. Sua gestão foi marcada por projetos voltados ao desenvolvimento do
município e pelo fortalecimento da administração pública local.
A morte de Jonas Muniz provoca grande comoção entre
familiares, amigos, lideranças políticas e moradores de Cruz, que se despedem
de um dos personagens mais importantes da história política do município.
Na chance que teve para defender os exportadores
brasileiros, o senador privilegiou seus interesses pessoais em Washington e
provou ser indigno da confiança do setor produtivo nacional
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à
Presidência, transformou em comício a audiência promovida pelo Escritório do
Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para
ouvir argumentos técnicos contra a adoção de tarifas americanas a produtos
brasileiros. Em vez de defender o Brasil com ponderações adequadas àquele
fórum, Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos
que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral, o presidente Luiz
Inácio Lula da Silva, e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição
para então negociar com um novo presidente – isto é, ele –, que será muito mais
alinhado ao presidente Donald Trump.
Com isso, Flávio perdeu a chance de provar que está
interessado em servir o Brasil – coisa que a família Bolsonaro, afinal, jamais
fez. A reação do setor produtivo não poderia ser outra: ao Estadão/Broadcast,
empresários presentes à audiência classificaram como “deslocada” e
“constrangedora” a atuação de Flávio Bolsonaro.
Enquanto autoridades e empresários adotaram o tom pragmático
que a situação exigia, Flávio discursou sobre regulação de big techs, corrupção
no Brasil e Pix – temas irrelevantes para o propósito daquele fórum. Para
comprovar que seu interesse não era defender os exportadores brasileiros, e sim
apenas fustigar Lula, Flávio apresentou-se ao lado de seu irmão Eduardo
Bolsonaro, deputado cassado que está homiziado nos Estados Unidos conspirando
dia e noite contra o Brasil e que havia defendido entusiasticamente a adoção de
tarifas americanas. Nada mais precisava ser dito.
Não foram necessários mais do que cinco minutos para que
Flávio Bolsonaro provasse, de uma vez por todas, que é indigno da confiança do
setor produtivo nacional. Houve premeditação. O senador tinha objetivos muito
bem definidos ao viajar aos Estados Unidos – e nenhum deles remotamente ligado
à defesa dos produtores industriais e agrícolas do País, muito menos dos
empregos de milhões de brasileiros.
O objetivo mais evidente da viagem de Flávio Bolsonaro era
provar para sua própria bolha de apoiadores e correligionários que ainda é a
melhor opção da oposição para desafiar Lula. O PL marcou para o próximo dia 25
a convenção que deve confirmar o nome que representará o partido na eleição de
outubro. Até lá, o senador precisa desesperadamente convencer sua própria base
de que, a despeito dos muitos rolos em que está metido e das inúmeras
trapalhadas de sua campanha, é o nome com mais chances de derrotar o incumbente.
A tarefa é árdua: Flávio Bolsonaro não goza da confiança de parte de seus
correligionários, e o desgaste chegou até o seio familiar, como se viu no vídeo
publicado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.
Somem-se a isso sua relação de “irmão” com Daniel Vorcaro, a
quem Flávio Bolsonaro pediu de viva voz cerca de R$ 134 milhões, e o passado
para lá de suspeito do senador, que envolve prática de “rachadinhas”, suspeita
de lavagem de dinheiro por meio de loja de chocolates, compra de imóveis em
dinheiro vivo e ligações com milicianos do Rio de Janeiro. É nesse contexto de
fragilidade política que o senador foi a Washington para tentar reconstruir, à
força de fotos e “cortes” para as mídias sociais, uma viabilidade eleitoral que
os fatos vêm corroendo dia após dia.
Enquanto os Bolsonaros prejudicam o Brasil para seus
propósitos pessoais, os diplomatas, líderes setoriais e técnicos brasileiros
continuam empenhados em tentar minimizar os danos das tarifas que provavelmente
serão adotadas contra o País. É isso o que fazem os que têm genuíno interesse
em ajudar o Brasil. E aqui cabe o registro de que, na embaraçosa foto de Flávio
e Eduardo Bolsonaro na sessão do USTR, aparece ao lado deles um constrangido
embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do
Comércio, com décadas de atuação na diplomacia comercial. Ele estava lá a
trabalho. Já os Bolsonaros só queriam atrapalhar.
Noblat expõe o "VAR da política" que pegou Zé
Trovão e forçou um recuo constrangedor nas redes após fala sobre Bolsonaro
No programa do Noblat desta terça-feira (7), a análise
política examina a “impressionante” reviravolta na base aliada do ex-presidente
Jair Bolsonaro, destacando as declarações do deputado federal Zé Trovão
(PL-SC).
Conhecido por seu perfil “Bolsonaro raiz”, o parlamentar
surpreendeu ao afirmar em entrevista que o silêncio de Bolsonaro após a derrota
eleitoral de 2022 foi um ato “covarde”, pois acabou resultando na prisão de
milhares de “apoiadores inocentes” (golpistas) que aguardavam uma reação do
líder nos acampamentos em frente aos quartéis.
Os jornalistas ironizam o desespero do deputado que, diante
da imensa repercussão correu às redes sociais para fazer um vídeo de
desmentido. No entanto, o programa expõe o “VAR da política” ao exibir o áudio
original, comprovando que ele de fato se referiu à Bolsonaro como covarde. Zé
Trovão acabou fazendo um vídeo tentando recuar ao jurar lealdade de forma
constrangedora.
Tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio
reconhecessem que a política externa havia se tornado uma área sensível
Até hoje reverbera na comunidade diplomática a declaração de
Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte
(Otan), chamando o presidente Donald Trump de “papai”.
Aconteceu durante a cúpula da Aliança Atlântica em Haia, em
meados de 2025. Rutte já vinha sendo alvo de críticas por não poupar elogios ao
americano, a quem chamava de “querido Donald”, mas naquele momento foi além.
Em um instante de descontração flagrado pelas câmeras, os
dois conversam animadamente e Trump comenta a reprimenda que dera na véspera em
Israel e Irã: para o republicano, os dois países do Oriente Médio se
comportavam como crianças no pátio de uma escola. Com um palavrão, afirmou que
eles não tinham noção do problema que estavam criando. E o europeu então
emendou, concordando que em algumas ocasiões “papai” precisava usar uma
linguagem mais dura.
Rutte tentou depois se explicar. Argumentou
que usou a palavra “papai” porque às vezes ouvia líderes europeus questionando
se os Estados Unidos permaneceriam na Otan, o que lhe soava como uma criança
pequena perguntando ao pai se ele ainda ficaria com a família. Mas o estrago já
estava dado, a ponto de nos bastidores diplomatas passarem a usar as expressões
“daddy diplomacy” e “daddism” para qualificar a política externa daqueles que
bajulam Trump com o objetivo de conter danos.
A história voltou a circular nos últimos dias, com o avanço
das investigações comerciais conduzidas pelo Escritório do Representante
Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), impulsionando as
discussões sobre política externa nesta etapa preliminar da campanha eleitoral.
Há tempos isso não acontecia, o que inclusive levou o senador Flávio Bolsonaro
(PL-RJ) a tentar reposicionar-se nessa arena.
Fruto de pressão bolsonarista por questões políticas, o
tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio reconhecessem que a
política externa havia se tornado uma área sensível para sua campanha.
Flávio, aliás, chegou a cogitar seu irmão Eduardo para o
Itamaraty. Teve que modular o discurso. Nos últimos meses, reuniu-se com os
presidentes dos Estados Unidos, Argentina e Chile, por exemplo, para demonstrar
uma capacidade de interlocução com o exterior que o seu pai não manteve quando
presidente. Por outro lado, ainda não conseguiu reduzir o peso da ala mais
radical do bolsonarismo entre seus articuladores internacionais e busca mitigar
os efeitos negativos do memorando apresentado na semana passada ao próprio
USTR, no âmbito da Seção 301, por meio do qual argumenta que a aplicação de uma
tarifa de 25% deve ser adiada para depois das eleições. Para ele, a cobrança
acabaria por beneficiar Lula.
Pode-se dizer, contudo, que pelo menos este é o primeiro
documento assinado pelo principal pré-candidato da oposição com pistas sobre
sua política externa.
O presidente dos EUA é o primeiro líder de um país desde
Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua seleção (a
Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa)
Podemos chamar de toque de Midas às avessas. Donald
Trump adora ouro. No entanto, tudo o que ele toca, desde espelhos d'água
até alianças dos Estados Unidos, parece virar outra coisa. Sua última
incursão foi na Copa do Mundo. Um torneio que vinha se mostrando um
inesperado sucesso desandou depois de Trump ligar para a Fifa, que, em
seguida, anulou a suspensão por um jogo de Folarin Balogun, uma
das estrelas americanas. Os EUA, de qualquer forma, perderam por 4 a 1
da Bélgica.
A intervenção de Trump na Fifa, comparada a seu ímpeto
incansável para multiplicar a fortuna da família ou a seus atos
de guerra ou paz, poderia ser classificada como apenas uma nota
de rodapé. Ainda assim, é possível apostar com tranquilidade que esteve entre
suas atitudes de maior visibilidade no palco mundial.
Boleiros estão acostumados a decisões
discutíveis dos árbitros. A ocasião anterior em que um cartão
vermelho foi revertido em uma Copa por pressão dos altos
escalões foi em 1962, no Chile, anos antes do nascimento do atual presidente
da Fifa, Gianni Infantino. Trump é o primeiro líder de um país
desde Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua
seleção (a Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa).
A opinião pública mundial também voltou suas atenções para
Infantino, que é uma espécie de sósia de Trump no mundo dos esportes. Um grupo
ativista apresentou uma denúncia, em estilo de ação coletiva, contra a Fifa por
violar as próprias regras de neutralidade política.
O presidente suíço-italiano da Fifa já compareceu à posse de
Trump, alugou escritórios na Trump Tower em Nova York, concedeu a ele o
primeiro Prêmio da Paz da Fifa — depois de fazer lobby, sem sucesso,
para que Trump ganhasse o Nobel da Paz — e esteve envolvido no Conselho da
Paz de Trump. Nenhuma outra figura do esporte foi convidada. Infantino
apareceu na primeira reunião dessa entidade com um boné vermelho do movimento
Maga.
Amizades com autocratas que gostam de presentear
A característica mais marcante compartilhada por ambos é a
preferência por autocratas e a má relação com sociedades baseadas no Estado de
Direito. Da mesma forma que Trump prefere lidar com países governados por
famílias, em especial no Golfo Pérsico, Infantino também transita em
círculos similares. Trump recebeu do Catar um avião Boeing avaliado
em US$ 400 milhões. Infantino viaja pelo mundo em um avião fornecido pelo mesmo
emirado.
Ele também tem um gosto especial por desfiles em comboios
oficiais. A Nova Zelândia recusou seu pedido para que um fosse realizado
durante a Copa do Mundo feminina de 2023; a cidade de Vancouver também disse
"não" quando foi sede de uma reunião da Fifa em abril. Os leitores
podem imaginar quais países concedem tal privilégio a Infantino. Ele passou por
cima do processo seletivo da Fifa para assegurar que a Arábia
Saudita fosse a única candidata à sede da Copa do Mundo de 2034 (o Catar
recebeu a de 2022).
Assim como Trump, Infantino é quem faz tudo em seu
espetáculo. Os vice-presidentes da Fifa não foram consultados sobre o prêmio
criado às pressas para Trump em dezembro. “O mundo é um lugar mais seguro
[graças a Trump]”, disse Infantino ao entregar a medalha de ouro. Os dois
também aprovam Vladimir Putin, que concedeu a Infantino a Ordem da
Amizade da Rússia após o país ter sido a sede Copa do Mundo de 2018.
Cada um fomenta seu próprio culto à personalidade. “Somos
testemunhas de uma nova era”, diz uma nova inscrição no troféu da Copa. “A era
de ouro do futebol de clubes [...] Inspirada pelo presidente da Fifa, Gianni
Infantino”"
Pra lá da "linha vermelha"
E ambos são repudiados pelos mesmos países. A Uefa,
entidade que rege o futebol europeu, acusou a Fifa de ter cruzado uma “linha
vermelha” ao anular a suspensão de Balogun.
Na Europa e no Canadá, as ações de Trump
costumam causar desconcerto. Não houve, entretanto, um coro de condenações
europeias quando agentes de Trump deportaram um árbitro somali, proibiram
a seleção do Irã de passar a noite em solo americano e atrasaram
vistos e a entrada de jogadores do Senegal, Haiti e Iraque.
Esse tipo de tratamento, infelizmente, já era esperado.
Embora a maioria das pessoas do mundo tenha tomado
conhecimento das manobras de Trump na Fifa, o grosso da indignação veio de
outros países ocidentais — somados a alguns solitários progressistas americanos
que censuraram a interferência dele. Por sua vez, a maioria dos americanos,
inclusive muitos críticos de Trump, desta vez, pareceu satisfeita com a
distorção das regras. No fim das contas, a jogada de Trump revelou-se inútil.
Agora, os americanos “hifenizados” [aqueles que têm origem estrangeira] já podem
torcer por suas outras seleções.
Trump e Infantino sabem instintivamente algo que seus
críticos muitas vezes esquecem — as pessoas são capazes de perdoar muita coisa
se você conseguir mantê-las entretidas. Não ligue para hipocrisias sobre o
futebol unir povos ou promover a paz; o confronto entre seleções nacionais é
uma guerra por outros meios.
Se os EUA tivessem derrotado a Bélgica com a ajuda do pé
direito de Balogun, haveria muitas vaias do outro lado do Atlântico. Trump
prejudicou seriamente o “soft power” dos EUA. No entanto, para o resto do
mundo, essa indignação é apenas mais do mesmo. Os EUA sempre fizeram o que
puderam e os países menores sempre sofreram o que tiveram de sofrer.
A Revolução
Constitucionalista de 1932 completa 94 anos hoje. É o maior feriado
cívico do Estado de São Paulo, onde os paulistas homenageiam os combatentes da
Revolução Constitucionalista de 1932, que ficou conhecida como Guerra Paulista.
Com o rompimento da chamada “política do café com leite”, em
1929, entres os Estados de Minas Gerais e São Paulo, desencadeou a Revolução de
1932.
Em reação ao fim da política do café com leite, os estados
de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul lideraram o movimentou que
culminou no Golpe de 1930.
Os paulistas saíram derrotados do embate, mas não se pode
dizer que foi em vão; em 1934 sob pressão social o governo de Getúlio Vargas
criou uma nova Constituição Federal.
Ele deu um jeito, entrou na Copa, saiu dias depois
O presidente americano Donald Trump deu um jeito, arrumou
uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa
do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de
2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. No
primeiro mandato, produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia. De volta
à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo, e a encrenca
com Claus é um estudo de caso de sua essência.
Na quarta-feira passada, o centroavante Folarin Balogun
pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic, da seleção da Bósnia. Depois de ver
o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que
aceitava a decisão.) Trump contou que, até então, não sabia o que significava a
apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo
seguinte, contra a Bélgica.
Até aí, seria o jogo jogado, com um
torcedor contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados
Unidos decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que
anulasse a suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de
poderosos, e Infantino deu a Trump um inédito Prêmio da Paz depois que ele, com
suas guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja, estendeu a
encrenca às federações de futebol europeias.
Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump assumiu seu estilo.
Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve falta e que, pelos
antecedentes, Claus é “muito suspeito”. Puro Trump. Fez a acusação sem uma
migalha de argumento.
Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para contestar a
honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun, nem se exibe o
vídeo.
Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais americanos,
mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava:
— Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz.
Os juízes, àquela altura, eram Infantino e alguns cartolas
da Fifa. Bingo. (Em setembro, chega às livrarias americanas uma biografia de
Cohn, com o seguinte título: “Um canalha americano”.)
A realidade paralela, que Trump cultiva e manipula, explica
a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia inaugural do certame
teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do Monte Rushmore, onde
estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores. Ele
precisava entrar naquela festa.
Entrou defendendo um atleta negro e admirado, parte de uma
seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump que da
malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que significava
um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e talvez ache
que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr seu retrato.
Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.
Na noite de segunda-feira, sem telefonemas, os deuses do
futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi mandada para
casa.
Futebol, jogado dentro das quatro linhas, ainda é coisa
séria.
A cada quatro anos, uma mesma pergunta se repete na
política
A pergunta é repetida a cada quatro anos: o desempenho do
Brasil na Copa do Mundo influencia a eleição presidencial? Os candidatos
parecem apostar que sim. Na dúvida, tentam pegar carona na torcida pela
seleção.
Desde a estreia contra Marrocos, todos os presidenciáveis se
exibiram com a amarelinha. Lula gravou vídeo para incentivar o “querido
Ancelotti”. Flávio Bolsonaro apelou à inteligência artificial para mostrar
afinidade com Neymar. Ronaldo Caiado disse que os noruegueses “vivem embaixo do
gelo” e jamais ganhariam do Brasil. Entrou numa fria.
O senso comum sugere que uma boa
performance do escrete canarinho favorece quem está no poder. Uma eliminação
vexatória, como a deste ano, ajudaria a encher a bola da oposição.
Na prática, a teoria é outra. Em 1998, o Brasil perdeu de 3
a 0 para a França e Fernando Henrique Cardoso se reelegeu no primeiro turno. Em
2002, a seleção conquistou o penta e a esquerda chegou ao Planalto.
Em 2006, 2010 e 2014, o brasileiro amargou desclassificações
precoces e votou na situação. Mesmo depois do 7 a 1. Em 2018, caímos diante da
Bélgica, mas não há evidências que liguem o gol de Kevin De Bruyn à súbita
ascensão de Jair Bolsonaro. A Copa de 2022 não conta: foi disputada em
novembro, depois da eleição.
Em artigo recente para o Journal of Global South Sport
Studies, da Universidade de Massachussets, o pesquisador Marco Bettine mostra
que a performance no Mundial não determina o resultado da urna, embora possa
influir no humor do eleitorado.
O professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da
USP também aponta uma crise no mito da pátria em chuteiras. Ele enumera fatores
que diluíram a identificação do brasileiro com a seleção: o sequestro da
amarelinha por uma facção política, os sucessivos escândalos na CBF, a revoada
dos melhores jogadores para as ligas europeias.
Se alguém ainda duvidava, o fiasco de domingo escancarou que
não somos mais o país do futebol. No máximo, o país das bets.
Ministros e estrategistas do PT refutam comparações entre
gastos eleitoreiros de petista e Bolsonaro e usam má fase de Flávio para se
aproximar da Faria Lima
Os dissabores da pré-campanha de Flávio Bolsonaro deram a
Lula uma condição rara tratando-se do incumbente numa eleição presidencial:
jogar no contra-ataque, no erro do adversário. O intervalo proporcionado pela
Copa e a sucessão de crises no Q.G. bolsonarista têm sido usados para tentar
reverter uma das rejeições mais consolidadas ao petista, a do mercado
financeiro.
Os emissários de Lula nessas conversas, entre os quais um
dos mais loquazes é o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan —que, diga-se,
joga com aquela disposição de quem veio do banco e quer garantir lugar no time
titular—, procuram desmontar com dados as comparações entre as medidas do atual
governo e as de Jair Bolsonaro no período eleitoral.
Existe um incômodo com o que auxiliares e
estrategistas de campanha de Lula enxergam como “forçação de barra” para
mostrar equivalência entre o pacote anunciado por Lula desde o fim de 2025 e o
sprint de Bolsonaro a partir da PEC Kamikaze, no começo do segundo semestre de
2022.
Nas conversas, esses interlocutores de Lula dizem a
gestores, banqueiros e analistas de bancos que o presidente não aumentou nem
aumentará o Bolsa Família, como Bolsonaro fez com o Auxílio Emergencial e como
as redes bolsonaristas ficam ventilando.
Ao cotejar as medidas de um e outro presidente para conter a
alta dos combustíveis, os aliados de Lula dizem que, agora, todas foram
negociadas com os governadores e feitas com prazo, diferentemente de Bolsonaro
e Paulo Guedes, que tomaram a decisão compulsória de suspender o ICMS dos
combustíveis, além disso, deixada para o governo seguinte desarmar. Por fim,
entram na prancheta das comparações os precatórios. Lula não fez nenhuma
“pedalada” com o pagamento dessas decisões judiciais para pagamento de dívidas.
Com essa preleção, ministros de Lula também têm procurado os
presidentes da Câmara, do Senado e do STF para tentar evitar que prossiga a
pauta-bomba. Nessas conversas, são colocados em perspectiva os custos de
medidas dos programas eleitoreiros de Lula, como o Desenrola 2, e as bondades
que o Congresso ameaça fazer a produtores rurais e diversas carreiras do
funcionalismo, por meio da votação de regimes especiais de aposentadoria.
O governo deixou avisado que judicializará, para evitar que
a agenda de Davi Alcolumbre prossiga, e busca de novo o aval do STF ao reunir
jurisprudência, na forma de súmulas recentes da Corte que mostram a
inconstitucionalidade das medidas pretendidas.
A tentativa de se mostrar fiscalmente responsável já é uma
vacina de Lula para a principal cobrança do mercado. A roupagem da austeridade
não se sustenta, no entanto, quando se analisam as exceções ao arcabouço fiscal
ao longo dos anos e a escalada dos gastos obrigatórios, herança mais explosiva
que o atual presidente deixará para si mesmo ou para quem vencê-lo nas urnas.
Ainda assim, o discurso será que as medidas de 2025-2026
atingiram públicos específicos, enfrentaram contingências como tarifaço e
guerras e são coerentes com a plataforma eleitoral de enfrentar distorções
tributárias e governar para os mais pobres. Isso tudo com impacto menor que as
medidas de Bolsonaro.
Lula sabe que não será o suficiente para torná-lo palatável
ao mundo financeiro e que terá de prometer enfrentar o crescimento do gasto
obrigatório caso seja reeleito. Isso vem sendo trabalhado na elaboração do
plano de governo de um eventual Lula 4.0, mas não se deve esperar que se
comprometa com o fim da política de valorização real do salário mínimo,
desvinculações constitucionais ou uma nova reforma da Previdência — justamente
a pauta que o mercado arredio a ele quer ver.
Esses pombos-correio sobrevoam a Faria Lima apresentando
Lula como alguém que já se mostrou confiável, lembrando o legado fiscal de
Bolsonaro e plantando temor na instabilidade e no despreparo demonstrados por
Flávio nessa fase de crise. Se vai colar, o fim da Copa e o início para valer
da campanha mostrarão.
Disputa de 2026 passa pela mulher que trabalha por conta
própria e ainda não foi conquistada por nenhum dos dois lados
Na coluna passada escrevi que o voto feminino em 2026 não
cabe numa personagem só. Há Dona Maria do Socorro, aposentada no sertão de
Pernambuco, que vota olhando para a rede pública que sustenta a casa. Há Vera,
em Suzano, cuidadora em tempo integral da mãe acamada, que carrega todo mundo
sem que ninguém pergunte quem cuida dela. E há Tatiana, de 33 anos, que faz
sobrancelha na garagem em Mauá, paga MEI, racha o aluguel com o marido
motorista de app, fecha as contas no susto e se ofende quando alguém trata ela
como coitada.
É pela porta da Tatiana que a crise entre
Michelle e Flávio Bolsonaro entra no jogo. Não porque briga familiar decida
voto de país. Política brasileira já tem novela demais. O ponto é outro.
Michelle não era só a mulher de Jair no palanque. Era uma das poucas vozes
capazes de suavizar a imagem de uma direita que, para muita eleitora, chega
sempre pela bronca, pela guerra e pela masculinidade em campanha permanente. O
Datafolha mostrou Lula vencendo Flávio entre as mulheres por 52% a 37% no
segundo turno. Outras pesquisas apontam na mesma direção. Flávio já largava
atrás. O vídeo de Michelle não criou o problema. Deu rosto a ele.
Falo agora de mais uma personagem. Sônia tem 47 anos, mora
em Praia Grande, é auxiliar de enfermagem no plantão da noite e coordena um
grupo de mulheres da igreja aos sábados. Entrou no PL Mulher ano passado.
Semana passada cancelou a reunião de julho. Não sabe o que dizer para as
mulheres que ela mesma convocou. Sônia é o pedaço menos comentado da crise. Sem
Michelle, Flávio não perde só eleitoras. Perde também as militantes que
conquistariam eleitoras. Campanha não é só televisão, marqueteiro e corte de vídeo.
É a mulher que puxa conversa depois do culto. É a cabeleireira que comenta
política enquanto faz escova. É a mãe do grupo da escola que segura a discussão
quando alguém pergunta se aquele candidato respeita mulher.
Michelle era a chave dessa corrente. Sem ela, a militante
bolsonarista continua existindo, mas entra na conversa com uma mala mais
pesada. Antes podia dizer, olha a Michelle, ela está com ele. Agora precisa
explicar por que Michelle se sentiu desrespeitada, por que gravou, por que
rompeu. Em política, quem começa explicando crise interna já perdeu. Tatiana
não está esperando aula de ideologia. Quer saber quem entende a vida dela.
Segurança sem virar pancadaria. Família sem mandar mulher calar.
Empreendedorismo sem fingir que pagar MEI é dormir tranquila. A resposta de
Flávio não pode se limitar a vice mulher, camiseta de pai de menina ou pacote
de propostas femininas. Ajuda, mas não substitui confiança. E confiança,
diferente de programa, não se contrata em dois meses. Vale o aviso para o
lulismo também. Quem trata os 52% entre mulheres como cofre lacrado vai errar
de novo. Tatiana não é lulista por natureza. Vota em Lula por comparação, por
receio, por memória. Não assinou fidelidade com ninguém. A crise com Michelle
machuca Flávio porque desmonta a engrenagem que corrigiria sua maior fraqueza.
O desafio não é chegar na eleitora. É chegar por uma voz em que ela confie. Em
2026 não bastará ter mulher no palanque. Vai precisar ter mulher na corrente de
confiança. O voto de Tatiana não nasce em gabinete de partido. Nasce na
conversa de quem fecha o mês no susto e procura alguém que entenda o tamanho do
corre dela.
Pleitos que renovam 2/3 do Senado costumam eleger mais
influencers e outsiders
Preferências ideológicas tendem a prevalecer apenas na
definição do primeiro nome
"De cabeça de juiz e fralda de neném, ninguém sabe o
que vem" é um ditado popular entre advogados para designar o elemento de
incerteza inerente a decisões judiciais. Poderíamos acrescentar um terceiro
item ao provérbio: urnas
em eleições de duas vagas
para o Senado.
Desde que a Constituição de 1946 reduziu os mandatos de
senadores de nove para oito anos e manteve o número de três representantes por
estado, alternamos pleitos em que o eleitor vota em dois candidatos e aqueles
em que escolhe apenas um nome. Pode parecer um mero detalhe, uma caprichosa
imposição da aritmética sobre o processo eleitoral, mas ele tem consequências
importantes não apenas sobre a estratégia dos partidos para forjar alianças e
definir candidaturas mas principalmente sobre a psicologia do eleitor.
Em pleitos que renovam 2/3
do Senado, como o deste ano, o eleitor tende a utilizar critérios
diferentes para a escolha do primeiro e do segundo candidatos. A primeira opção
costuma ser mais ideológica, em linha com o voto para presidente e/ou
governador. Cumprido o dever para com a tribo, o sujeito se sente livre para
fazer o que quiser do segundo escrutínio. O limite é a imaginação. Muita gente
opta simplesmente por não votar. A proporção ajustada de votos brancos e nulos
para o Senado sobe consideravelmente em pleitos de duas vagas.
Outros recorrem a atalhos cognitivos. Eleições plurinominais
(em que se escolhe mais de um candidato) são as que costumam consagrar influencers,
outsiders, porta-estandartes de bancadas temáticas e outros tipos exóticos.
Alguns cidadãos tentam balancear o próprio voto. Assim, se escolheram um
postulante muito radical para a primeira vaga, poderão tentar
"compensar" optando por um moderado para a segunda. Outros vão pelo
caminho de menor resistência, ficando com um candidato de baixa rejeição mesmo
que nem o conheçam. Em suma, é tanta gente votando de acordo com estratégias
tão diferentes que pode sair qualquer coisa, como ocorre com a cabeça do juiz
ou a bunda do bebê.