quarta-feira, 10 de junho de 2026

GOVERNO TRUMP HUMILHA VISITANTES, E FIFA SE CALA SOBRE XENOFOBIA NA COPA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Entidade lavou as mãos após deportação de árbitro somali e humilhações à seleção do Irã

A bola ainda não rolou, mas o governo de Donald Trump já criou os primeiros embaraços para a Copa do Mundo. Na segunda-feira, o árbitro somali Omar Artan foi impedido de entrar nos Estados Unidos. Ontem o Irã informou que os ingressos destinados a seus torcedores foram cancelados.

Artan era um dos três árbitros africanos escalados para apitar na Copa. Eleito o melhor do continente em 2025, viu seu “maior sonho” ruir no aeroporto de Miami. Detido por 11 horas, foi obrigado a embarcar de volta para a Turquia, onde havia retirado o visto.

O chefe da força-tarefa da Casa Branca para o torneio, Andrew Giuliani, disse que a deportação foi “correta”. Ele é filho de Rudy Giuliani, preso por ajudar Trump na tentativa de roubar a eleição de 2020.

O caso do Irã é ainda mais espantoso. O país deve ser o único dos 48 participantes da Copa a jogar sem torcida. Sua cota de ingressos foi cancelada às vésperas da estreia. Quem comprou os bilhetes com antecedência será impedido de entrar no estádio, mesmo que tenha visto americano.

A seleção iraniana já havia sido submetida a outras humilhações. A equipe jogará em Los Angeles e Seattle na primeira fase, mas recebeu ordens para se hospedar no México. Os atletas terão que entrar e sair dos EUA a cada partida, correndo o risco de novas duras no caminho.

No sábado, o atacante Aymen Hussein, herói da classificação do Iraque, já havia levado uma prensa de sete horas no aeroporto de Chicago. O fotógrafo da seleção, Talel Salah, teve que embarcar de volta para casa.

Trump é um xenófobo convicto. Desde a primeira campanha, dedica-se a insultar e destilar racismo contra imigrantes de países que considera inferiores. No ano passado, chamou os somalis de “lixo”. Inflamados pelo discurso de ódio do presidente, os guardas da esquina fazem o resto do serviço.

Todo país é livre para estabelecer sua política migratória, mas quem não quer receber visitantes não deveria se candidatar a sediar a Copa.

É perda de tempo esperar uma reação da Fifa. Comandada por um notório lambe-botas de Trump, a entidade tem lavado as mãos a cada caso de abuso. Questionada sobre a deportação de Artan, alegou “não se envolver nos processos de imigração dos países-sede”.

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FALTAM IDEIAS E CORAGEM A CAIADO E ZEMA

Vera Magalhães, O Globo

Partidos, analistas políticos e candidatos se acostumaram a uma dinâmica pré-eleitoral que suprimiu de forma dramática, até aqui, qualquer discussão de fôlego sobre diferentes projetos estratégicos para o Brasil. Esse ritual mecanizado consiste em aguardar sempre a próxima pesquisa para, a partir de dados que têm oscilado pouco e confirmado a tendência a uma eleição polarizada, ditar o próximo post, a frase de efeito, a conclusão apressada e a estratégia de tiro curtíssimo. A ausência de aprofundamento e de consistência fica ainda mais gritante quando se olha para os postulantes a quebrar a tendência a que a eleição se decida entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Os dois nomes mais experientes nessa liga, os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema, têm percorrido os mesmos roteiros, aparecido nas mesmas agendas, disputado os mesmos chavões e, pior, se empenhado numa espécie de campeonato incompreensível para ver quem atua melhor como linha auxiliar do bolsonarismo.

Quando se sabe que a única chance de qualquer um deles avançar ao segundo turno é no lugar de Flávio, se torna ainda mais difícil entender a dificuldade que têm de se diferenciar, minimamente que seja, do discurso do filho de Jair. Afinal, “propostas” como o indulto ou a anistia ampla ao ex-presidente e a seus aliados são muito mais críveis e esperadas no filho que naqueles que dizem pretender que se vire a página da direita no país.

A condescendência da dupla com a atuação da família no episódio das novas tarifas anunciadas por Donald Trump em relação ao Brasil também salta aos olhos. Creditar tudo ao governo e a Lula é o discurso óbvio para o senador do PL, que corre o risco de ser responsabilizado por parte do eleitorado pelo revés comercial ao país e pela subserviência em relação ao governo dos Estados Unidos.

Mas falta coragem mínima a Caiado e a Zema para sequer fazer a distinção e mostrar como um governo de direita poderia, de forma soberana, defender os interesses do Brasil sem repetir a maneira como os Bolsonaros têm atuado desde que Eduardo se mudou para o Texas.

Existe clara demanda de setores do eleitorado por opções à repetição, pela terceira eleição consecutiva, de um confronto entre o bolsonarismo e o lulismo. As pesquisas mostram isso mês a mês, por meio de diferentes sondagens feitas pelos institutos. Mas não há repertório algum que faça com que se olhe para esses políticos e se enxergue neles um caminho com começo, meio e fim para o governo. O que de diferente fariam em relação a Lula e a Bolsonaro na área fiscal, no meio ambiente, nas relações internacionais e em outras áreas que justifique prestar atenção a suas proposições?

A cada entrevista ou postagem em redes sociais, a opção parece ser sempre por se mostrar opositores a Lula, algo óbvio, mas nunca como alternativas melhores que o outro nome da própria direita. O efeito que isso produz é o eleitor não ver chance de que eles cresçam na pesquisa — a única métrica, diante do deserto profundo de uma mísera ideia nova que seja. Assim, quem quer derrotar Lula segue tapando o nariz para aquilo que eventualmente rejeita no Bolsonaro. E as mesmas pesquisas mostram que a rejeição é alta.

A exceção a essa retranca política parece vir de Renan Santos, líder do Movimento Brasil Livre, pré-candidato pelo Missão e concorrente ao posto de outsider. Por não ter passado na política nem ter vinculação com o tal “sistema”, ele tem aproveitado melhor as deixas para fustigar Flávio em temas como o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme “Dark Horse”. Parece ter sido o único a entender uma lógica comezinha: a vaga em mínima disputa no segundo turno é a da direita, já que, neste ano, à esquerda, Lula não terá contendores.

Com militância digital conhecida e familiaridade com temas caros aos jovens e a setores conservadores da sociedade, ele tem chance de se destacar diante da mesmice e da falta de coragem de seus concorrentes da velha guarda cansada de guerra.

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A RÉGUA MORAL DOS EUA

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Episódios recentes reforçam o antiamericanismo mundo afora e expõem a arrogância de um governo que perdeu a mínima noção do que é régua moral e conduta ética

Três incidentes envolvendo os Estados Unidos e nações africanas chamaram a atenção. Mais do que isso: causaram repulsa, indignação, ojeriza. Para não ter que receber um cidadão americano infectado com o vírus ebola, os EUA planejam criar instalações de quarentena no Quênia. Detalhe 1: os centros de isolamento contemplarão tão somente aquelas pessoas nascidas nos Estados Unidos que apresentem sintomas da doença. Detalhe 2: com 58 milhões de habitantes, o Quênia não tem um caso sequer de infecção pelo ebola.

O segundo incidente ocorreu durante o desembarque da seleção senegalesa de futebol em solo norte-americano. Funcionários da Imigração inspecionavam os atletas como se fossem criminosos. Craques como Sadio Mane e Kalidou Koulibaly foram forçados a abrir os braços, tirar os tênis e passar por uma revista com detector de metal ainda na pista do aeroporto. Um tratamento degradante, humilhante e vexatório. O terceiro caso foi o veto à entrada em território norte-americano de um árbitro de futebol da Somália. Outro episódio, que não envolveu um africano, foi não menos vergonhoso: a proibição de venda de ingressos a cidadãos iranianos. 

Mais: os casos denotam a pretensa superioridade dos Estados Unidos e a discriminação racial e étnica absurda, típica do imperialismo colonialista que subjuga, oprime e explora. A ideia de enviar americanos infectados com o ebola para um país da África livre do surto, e não tratá-los em hospitais dentro dos Estados Unidos, é deprimente, ainda que nada surpreendente, ante a política de xenofobia do presidente Donald Trump.

A recepção vergonhosa aos jogadores do Senegal para a Copa do Mundo, um evento que prega a união entre os povos e a harmonia entre as torcidas, deveria merecer a máxima condenação da comunidade internacional e da Fifa, organizadora do principal torneio de futebol do planeta. O mínimo que se deveria esperar era um pedido de desculpas contundente da Casa Branca para o Senegal, a União Africana e a Fifa. Fosse no Brasil, vexames assim não aconteceriam jamais. Somos uma nação que acolhe e abre os braços para visitantes de todo o mundo. Sem preconceito. 

Os incidentes citados acima apenas reforçam o antiamericanismo mundo afora e expõem a arrogância de um governo que perdeu a mínima noção do que é régua moral e conduta ética. Em Nayuki, a 180km da capital queniana, Nairóbi, e local onde os Estados Unidos construirão a famigerada instalação de quarentena, centenas de pessoas saíram às ruas para protestar. Foram recebidas à bala, a golpes de cassetete e a gás lacrimogêneo. Um civil foi morto durante o confronto com a polícia. 

Proponho um exercício mental: imagine que, de repente, os Estados Unidos queiram improvisar um centro de infectados por ebola em uma região administrativa do DF para enviar cidadãos contaminado. Ainda que houvesse um acordo entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca, seria algo no mínimo questionável do ponto de vista ético e moral, não é?

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AS LIÇÕES DO "TERRORAÇO"

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Com a ilusão de que isso reduzirá a violência dos batedores de carteira das esquinas e dos corredores do Estado, o povo aceita a vergonha de sermos um país associado ao terrorismo e, consequentemente, perdermos parte de nossa soberania

Além da vergonha nacional, a inclusão do Brasil entre os países que abrigam grupos terroristas nos impõe algumas lições.A primeira é reconhecer que fracassamos na luta contra o crime. Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e outras facções são apenas a face mais ostensiva da violência que caracteriza a sociedade brasileira: desigualdade, pobreza, analfabetismo, batedores de carteira nas esquinas, assaltantes nos corredores do Estado por meio de supersalários, penduricalhos, desperdícios, privilégios e ostentação.

A segunda lição é que, durante décadas, deixamos de fazer o dever de casa: construir uma sociedade harmônica, sobretudo por meio de uma educação básica de qualidade para todos. Há 60 anos, Darcy Ribeiro nos alertava que ou fazíamos escolas ou teríamos de fazer prisões. Preferimos outras prioridades e não implantamos um sistema nacional de educação pública com máxima qualidade e absoluta equidade.

A terceira lição é que, com a ilusão de que isso reduzirá a violência dos batedores de carteira das esquinas e dos corredores do Estado, o povo aceita a vergonha de sermos um país associado ao terrorismo e, consequentemente, perdermos parte de nossa soberania. Duzentos anos depois de conquistarmos a independência, corremos o risco de aceitar a perda de soberania em troca da promessa de paz nas ruas.

A quarta lição nos ensina que os defensores da submissão não são apenas um ou outro político, mas também seus partidos e correligionários. A disputa eleitoral está concentrando a crítica pelo servilismo em apenas um candidato à Presidência, mas deve alcançar todos os políticos antipatriotas e seus partidos. Dois séculos depois de declararmos nossa independência de Portugal, poderemos ter uma eleição entre partidos que defendem a submissão do Brasil à vontade de um governo estrangeiro e partidos que defendem a cooperação internacional com preservação da soberania nacional. Além dos candidatos à Presidência da República, há dezenas de candidatos aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas que adotam posições contrárias aos interesses e à independência do Brasil.

A quinta lição é que transferir para um governo estrangeiro a luta contra o PCC e o CV representa um retrocesso aos tempos coloniais ou ao período da ditadura militar, quando um embaixador brasileiro em Washington afirmou que "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Mesmo reconhecendo o fracasso dos governos federal e estaduais no combate à violência urbana e ao crime organizado — com parlamentares que empregam criminosos, convivem com milícias, elogiam e condecoram bandidos ou recebem financiamento eleitoral de organizações criminosas —, a perda de soberania afeta negativamente todos os brasileiros. 

Ao integrarmos o conjunto de países associados ao terrorismo, os turistas poderão hesitar em visitar nossas cidades ao lembrarem que temos grupos comparáveis ao Boko Haram, à Al-Qaeda ou ao Hamas. Ficaria legitimada, ainda que improvável, a hipótese de bombardear morros do Rio de Janeiro para eliminar terroristas, da mesma forma que Gaza e Líbano são bombardeados sob esse argumento. A suspeita de que um banco ou outra empresa mantenha relações com o crime organizado poderá levar seus dirigentes a perderem o visto de ingresso nos Estados Unidos ou até mesmo serem mortos legalmente sob a legislação norte-americana. Da mesma forma, caso haja suspeita de que alguns dos iates ancorados na Baía de Botafogo transportem drogas, os órgãos de defesa dos Estados Unidos poderão sentir-se autorizados a atacá-los, como fazem com embarcações no litoral colombiano. Também poderiam sequestrar cidadãos brasileiros suspeitos de envolvimento com grupos classificados como terroristas: advogados que os defendem, operadores financeiros que movimentem seus recursos, dirigentes de bancos onde sejam depositados lucros oriundos do crime, juízes que tenham proferido sentenças favoráveis ou parlamentares que tenham empregado ou condecorado integrantes dessas organizações.

A sexta lição é que, na disputa entre os "partidos da soberania" e os "partidos da submissão", o Brasil precisa que os eleitores rejeitem candidatos vinculados a partidos contrários à nossa independência. Em 2025, o tarifaço de Trump nos uniu; em 2026, o "terroraço" deve nos unir em defesa da soberania nacional, baseada na cooperação internacional, jamais na submissão ao governo de outra nação.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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terça-feira, 9 de junho de 2026

RELAÇÃO BRASIL-EUA: LIMITES DA AMIZADE

Artigo de Fernando Gabeira

Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.

Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.

É nesse contexto que temos de analisar alguns movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.

Embora seja um discurso muito eficaz de campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros, dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para dar verniz legal a sua determinação.

Há muita coisa injusta nas razões que punem o Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.

É evidente que tudo isso será processado pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente da China, os americanos podem passar por várias fases.

Nem a devoção da família Bolsonaro nem a química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades. Sempre ajudam.

Artigo publicado no jornal O Globo em 09 / 06 / 2026

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A RELEVÂNCIA DE 'A NOBREZA DO AMOR '

Preto Zezé, O Globo

Sem negar a história, a novela apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos

Nos conselhos empresariais, consultorias e ambientes de decisão, costumo defender uma ideia simples: toda transformação relevante começa por um diagnóstico honesto dos problemas e pela construção de soluções para não repetir os mesmos erros. Mas existe uma segunda etapa igualmente importante: reconhecer avanços, celebrar conquistas e tornar visíveis as mudanças alcançadas. Uma sociedade amadurece quando aprende com seus erros e transforma seus acertos em referência para o futuro.

Faço essa reflexão porque ela ajuda a olhar para a televisão brasileira. Durante décadas, a teledramaturgia ajudou a construir o imaginário nacional e também refletiu os limites de cada época. A presença negra existia, mas muitas vezes condicionada a lugares estreitos. O problema nunca foram o humor, o romance ou os personagens populares. O problema era a limitação das possibilidades. Personagens negros podiam emocionar, divertir e marcar gerações, mas raramente ocupavam a complexidade reservada aos protagonistas.

Reconhecer esse passado não significa negar a importância da televisão brasileira. Significa compreender o caminho que nos trouxe até aqui e perceber que mudanças importantes têm acontecido. É por isso que “A nobreza do amor” merece atenção. Sua relevância não está apenas em colocar uma princesa africana no centro da trama, mas em registrar uma mudança de tempo.

O aspecto mais interessante da obra é ampliar o repertório simbólico oferecido ao público. Os personagens negros aparecem associados ao amor, à beleza, ao poder, à estratégia política, aos sonhos e aos dilemas universais da condição humana. Durante muito tempo, a discussão foi garantir presença. Agora começamos a discutir amplitude e complexidade.

A novela não faz da pluralidade apenas um tema. Aparece na própria criação, no encontro entre pesquisa histórica, referências da diáspora africana, dramaturgia popular, estética contemporânea e diferentes formas de interpretar a experiência negra. A história não ignora desigualdades nem conflitos históricos. Apenas recusa a ideia de que esses sejam os únicos lugares possíveis para seus personagens.

Há também um aspecto que merece destaque. E aqui nem falo apenas do elenco, que reúne novos e já consolidados talentos. A riqueza da obra está no encontro de diferentes saberes, experiências e repertórios. Muitas das melhores narrativas surgem quando trajetórias diferentes colaboram sem que uma precise apagar a outra. A pluralidade fortalece a criação.

Essa mudança aparece na maneira como a África é apresentada. Por muito tempo, a imagem do continente oferecida ao público brasileiro esteve associada quase sempre à escravidão, à pobreza ou aos conflitos. “A nobreza do amor” amplia essa lente. Sem negar a história, apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos.

Isso importa porque imaginários têm consequências concretas. Uma sociedade também se transforma pelas histórias que conta sobre si mesma e pelas possibilidades que aprende a enxergar.

As novelas sempre foram um espelho do país. Mas alguns espelhos fazem mais que refletir. Talvez a verdadeira nobreza dessa história esteja aí: ampliar possibilidades, renovar imaginários e mostrar um Brasil mais complexo e mais interessante do que aquele que aprendemos a enxergar durante muito tempo.

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sábado, 6 de junho de 2026

UMA SEMANA DEVASTADORA PARA A PROTEÇÃO À INFÂNCIA

Flávia Oliveira, O Globo

O que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização - o avesso do cuidado

Foi uma semana devastadora para quem acredita, como reza o provérbio africano, que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. A frase diz respeito à atribuição compartilhada por família, comunidade, escola, Estado, para garantir vida saudável, confortável, digna a meninas e meninos, Brasil e mundo afora. Neste limiar de junho, o que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização — o avesso do cuidado, enfim.

No domingo passado, Bento Bezze, de 12 anos, foi vítima de um tiro disparado por criminosos na quadra do condomínio onde morava na Pavuna, Zona Norte carioca. Festejava a Primeira Comunhão de uma amiguinha; morreu nos braços do irmão, um ano mais velho. O Instituto Fogo Cruzado já contou, neste ano, duas dezenas de crianças e adolescentes alvejados por disparos de arma de fogo no Grande Rio. Em uma década, foram 778 menores baleados.

Não é por acaso que, na pesquisa Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ser atingido por bala perdida, com 77,5% de menções, é o sexto entre 13 pavores da população em relação à violência. O primeiro, não muito distante, é ser alvo de golpe financeiro via internet ou celular (83,2%). Na mesma consulta, 13,1% dos brasileiros disseram que já tiveram parente ou conhecido assassinado, num total de 21,9 milhões de pessoas. Um em dez (9,7%), cerca de 16,1 milhões, foi vítima ou soube de alguém atingido por bala perdida. A proporção aumenta entre quem se declara negro e na população de baixa renda, predominantemente preta e periférica.

Na terça-feira, o Senado deu seu quinhão em desfavor das meninas do Brasil, ao sustar a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que orienta a interrupção legal de gestação em menores de idade. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), concluiu a votação do relatório da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra da Família e dos Direitos Humanos, em menos de dois minutos. Não autorizou apartes e orientou os colegas favoráveis ao projeto a permanecer imóveis, ato que ratifica a votação simbólica, sem digitais.

De uma só vez, o Congresso restringiu o acesso a um direito previsto em lei desde 1940. Tirou proteção a meninas e adolescentes, portanto. No Brasil, o aborto é permitido em caso de estupro, risco de vida para a gestante e feto anencéfalo — neste caso, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Sexo com menores de 14 anos é estupro. A resolução do Conanda regulava procedimentos: do treinamento de profissionais para identificar e lidar com situações de violência sexual à assistência integral às vítimas. A última edição do Atlas da Violência, referente a 2024, identificou 29.135 notificações de violência sexual contra crianças de 5 a 14 anos; na faixa etária de 15 a 19, foram 6.869 casos. Entre as vítimas, 86,7% são meninas.

De tão recorrente e naturalizada a violência contra a infância em território nacional, uma estelionatária de 37 anos se passou por uma adolescente de 12, traumatizada por abusos e violência sexual. Conseguiu enganar, por 14 meses, a família que a abrigou em Santa Catarina, depois de aplicar o mesmo golpe em outros cinco estados (PR, MG, RJ, GO e CE).

Em pleno feriado de Corpus Christi, o Rio amanheceu com o veredito do caso Henry Borel, o menino de 4 aninhos morto, em 2021, em decorrência das agressões cometidas pelo padrasto, o então vereador Doutor Jairinho. O assassino foi condenado a 43 anos, nove meses e 20 dias pela barbárie. À mãe do menino, Monique Medeiros, foi concedido o perdão judicial pela presidente do II Tribunal do Júri do Rio, Elizabeth Machado Louro.

Para justificar a decisão, a juíza evocou a “reação desproporcional e desmesurada da sociedade em geral” contra a acusada; citou discriminação de gênero influenciada pela cultura patriarcal, misoginia, massacre em redes sociais e ataques praticados por agentes da custódia e detentas. Elizabeth Louro não errou ao mencionar a violência recorrente e o ódio contra mulheres no ambiente virtual. Mulheres são agredidas diuturnamente. Monique foi, sim, atacada.

Mas o que estava em julgamento era seu envolvimento na morte da criança que, como mãe, ela tinha o dever de proteger. Os jurados consideraram que a ré praticou, contra o filho único, tortura por omissão e homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A juíza extinguiu a pena por assassinato e condenou a mãe a um ano e quatro meses por tortura. Monique deixou a prisão na tarde do julgamento. Foi liberada por já ter cumprido a pena.

O Ministério Público do Rio apresentou recurso ao TJ-RJ solicitando anulação do perdão, aumento da pena e cumprimento em regime fechado. Juristas não descartam a hipótese de novo julgamento, em razão da desclassificação (troca) pelo júri do crime de homicídio doloso por culposo. O promotor Fábio Vieira alega que a juíza alterou, na sala de sentença, uma das perguntas sobre o crime, o que pode ter provocado a mudança de opinião dos jurados. Ainda está por vir o desfecho de mais este crime que comoveu o país.

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SOMOS 213 MILHÕES EM AÇÃO CRITICANDO O UNIFORME DO ESCRETE CANARINHO

Eduardo Affonso, O Globo

O traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso

Lá se foi o Brasil, pela sexta vez, rumo ao hexa. E, em vez de nos dedicarmos a pintar asfalto, pendurar bandeirola e tirar do armário a vuvuzela, somos 213 milhões em ação criticando o uniforme do escrete canarinho. Cansados de ser especialistas em logística naval no Estreito de Ormuz, em definição de “grupo terrorista” e em escala 6 x 1, viramos fashionistas. Tudo porque o traje social da seleção divide opiniões: há quem ache feio, há quem ache horroroso.

É que você, torcedor ingrato, não capta as referências e não entende que, em moda, o resultado é o de menos — o que importa é o conceito.

Sim, parece que os jogadores estão de pijama — uma forma de nos lembrar que é preciso continuar sonhando em ser campeões. Mesmo numa disputa em que também estejam Espanha, França, Inglaterra, Argentina e Portugal. Sem contar Alemanha, Holanda, Bélgica, Noruega, Colômbia e meia dúzia de outros sérios candidatos a nos mandar pra cama mais cedo.

Sim, lembram internos do sistema prisional — o que sugere uma crítica subliminar à demora em políticos, juízes e gestores públicos serem agraciados com tornozeleiras eletrônicas ou introduzidos no ambiente carcerário.

Dir-se-ia tratar-se de enfermeiros — uma forma empática e sutil de mostrar que estarão ao lado do Neymar na lesão e na entorse, na queda e na contusão. Ou talvez sejam técnicos de laboratório de análises clínicas, reforçando a ideia de que todos ali darão o sangue pela vitória.

A fatiota pode também evocar uma convenção da firma, daquelas com treinamento de liderança, imersão em coaching e palestras sobre mindset, protagonismo e metas disruptivas para o terceiro trimestre. Pode e deve, porque é exatamente disso que se trata.

A foto oficial, no avião, parece ter sido feita numa oficina mecânica? Parece. A ideia daquela modelagem desconstruída, com o caban sem estruturas internas ou ombreiras, é nos dar a sensação de que a seleção passou por um processo de alinhamento e balanceamento, talvez até de cambagem. Que nada os freará no ataque e que têm tração suficiente para evitar o arrefecimento na defesa. Que a direção do elenco será firme e não haverá problema de suspensão.

(Caso você, como eu, esteja sendo apresentado neste momento ao mundo da alfaiataria, caban é uma espécie de casaco, ali entre o blazer e o jaleco, só que mais metido a besta. É o que os jogadores estão vestindo, no lugar do bom e velho paletó.)

Aquele look desestruturado remete, ainda, às nossas instituições cada vez menos democráticas, ao desequilíbrio entre os podres poderes da República, ao tariflávio e ao rombo bilionário dos Correios.

Por isso, antes de reclamar do problemático uniforme, pense que a CBF poderia ter contratado a Balenciaga, e nossa pátria de chuteiras estaria embarcando de chinelo de dedo, bermuda destroyed e camiseta regata de campanha eleitoral, carregando seus pertences numa sacola de plástico de supermercado. Tudo a um custo muitíssimo maior.

Melhor acreditar que o pior que poderia acontecer já aconteceu — no uniforme, não em campo. E agora é bola pra frente, futebol é uma caixinha de surpresas, treino é treino e jogo é jogo, são 11 contra 11, é vencer ou vencer, empatar fora de casa é um bom resultado, o importante é competir e vamos correr atrás do prejuízo.

Vai, Brasa!

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sexta-feira, 5 de junho de 2026

BOLSONAROS SÃO SOLDADOS DO TRUMPISMO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

Família atua como parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita

A movimentação política dos irmãos Bolsonaro em busca do apoio do governo Trump para enfraquecer o governo brasileiro, por meio da destruição da economia do país, é mais do que um plano para ganhar as eleições presidenciais. Esse objetivo se submete a outro maior: garantir a hegemonia da extrema direita no continente. E as duas dimensões anteriores se vinculam a um projeto mais forte que comanda ambas: a política trumpista de intervenção na política latino-americana. Flávio Bolsonaro é um soldado nesta história, não o comandante.

É preciso compreender essas três dimensões da relação entre o bolsonarismo e o trumpismo. Boa parte da cobertura jornalística deu a impressão de que Flávio e Eduardo Bolsonaro mudaram a cabeça de Washington. Sem dúvida que eles pressionaram e tentaram gerar um timing adequado para a designação do Comando Vermelho e do PCC como organizações terroristas. Mas eles não comandam o pacote completo da política trumpista para a América Latina. Em vez disso, adaptam-se erraticamente ao projeto de Trump para a região, já que Flávio Bolsonaro foi escolhido como candidato oficial do governo americano à Presidência do Brasil.

A maior prova disso é que, embora soubessem que Trump ainda preparava mais maldades ao Brasil, Eduardo e Flávio não tinham total consciência do projeto de retaliação comercial, que envolveu diretamente o ataque ao extremamente popular Pix e a setores econômicos nacionais que apoiaram o bolsonarismo recentemente, mas que agora poderão perder riqueza graças à aliança entre a família Bolsonaro e o governo americano.

Por isso, após comemorar a definição de terrorismo para o crime organizado brasileiro, Flávio Bolsonaro ficou atônito e teme um efeito político similar ao do tarifaço do ano passado. Ele e seu irmão são cúmplices nessa tramoia, porém, em grande medida ocupam esse papel porque aceitaram ser liderados de forma subserviente pelo governo americano, que quer definir os rumos do Brasil. Neste sentido, são traidores da pátria que esperam ter benefícios políticos diretos tornando-se marionetes do trumpismo.

Ainda é cedo para dizer quais serão todos os efeitos dessa aliança de subordinação. Só que se houver de fato consequências econômicas do novo tarifaço, ainda mais com pressão para acabar com o Pix, Flávio perderá uma parte dos eleitores de direita, mas não numa parcela tão grande que permita a ascensão de Caiado e Zema, pois estes se contentam em ficar como linhas de apoio envergonhado ao bolsonarismo. O problema maior é outra conta: nunca mais recuperarão a maior parcela dos votos dos independentes, favorecendo claramente a candidatura de Lula.

Flávio chegaria, assim, ao segundo turno com poucas chances de vitória, a não ser que haja intervenção maior do governo americano na política brasileira. Essa última hipótese parece absurda, mas ela passa pela cabeça dos irmãos, sobretudo Eduardo, que é o grande ideólogo da família e que pretende recuperar em algum momento a cidadania brasileira, mesmo que a vida americana tenha tido um financiamento invejável para um fugitivo político.

Uma pergunta se impõe aqui: por que Flávio Bolsonaro trocou um plano que estava dando certo por outro tão incerto e que lhe imprime uma visão sórdida de traidor da pátria? Afinal, o projeto do Bolsonaro moderado, que tomava vacina e não falava palavrões, tinha fortalecido sua candidatura. Desde que fora lançado e adotou esse figurino, o Zero Um crescera nas pesquisas, tanto no primeiro como no segundo turno. Eleitores da direita não bolsonarista migraram nas pesquisas em peso para ele, que também estava abocanhando grande parte dos independentes, inclusive muitos que tinham votado em Lula em 2022. Parecia que ele conseguiria realizar a revanche do pai.

O estouro do escândalo de suas relações promíscuas com Daniel Vorcaro parece ser o fato principal. E muitas revelações ainda podem surgir dessa história envolvendo o enrolado caso de financiamento do filme “Dark Horse”, inclusive um “videozinho”, como o próprio Flávio já profetizou. O flanco da corrupção não para por aí, porque cada vez mais será conhecido o funcionamento da cleptocracia montada pelos bolsonaristas no governo do Rio, e esse lamaçal tem grandes chances de alcançar a família Bolsonaro.

Falcatruas e relações não republicanas com o mundo da política e do crime já eram conhecidas por muitos que acompanham as peripécias da família Bolsonaro desde a década de 1990. Mas o mais visado entre eles era justamente Flávio, conhecido pela rachadinha e pela contratação ou condecoração de milicianos, fatos de sua época como deputado estadual da Alerj. Mesmo assim, a aposta no bolsonarismo moderado estava ganhando tração eleitoral. Decerto que o tamanho do escândalo envolvendo sua irmandade com Vorcaro pegou muita gente de surpresa, especialmente os eleitores independentes que começavam a acreditar no novo Flávio.

Sem querer tirar o peso dos escândalos na mudança de estratégia da família Bolsonaro, talvez fosse impossível manter até o final da eleição o perfil pretensamente moderado porque isso não corresponde ao âmago do bolsonarismo. Em algum momento isso viria à tona, mesmo que de forma menos desastrosa, desde que as conversas íntimas com Vorcaro apareceram na mídia. É preciso voltar às três dimensões enunciadas no primeiro parágrafo: a nacional, a internacional e a da geopolítica trumpista para a América Latina.

No plano nacional, o bolsonarismo é marcado por ser a face da extrema direita local, defensora da ditadura militar e de seus torturadores, da tentativa de golpe de Estado, do uso de um discurso agressivo para destruir inimigos e ex-amigos pelas redes sociais, e dos motes que lhe davam maior popularidade: Deus, pátria, família e liberdade. O patriotismo das manifestações de rua, todos com camisas da seleção, era o espetáculo principal de sua ideologia. Fechando o enredo estava Jair Bolsonaro, um líder popular que odiava as instituições democráticas.

Parte desse roteiro se perdeu no meio do caminho, principalmente com o fracasso do 8 de janeiro e pelo julgamento e posterior prisão de Jair. Sobraram os filhos para sucedê-lo, mas Eduardo foi para os EUA para tentar dar um golpe de fora para dentro, ao passo que Flávio teria o papel de segurar o leme na política interna, tornando-se, ao final, o herdeiro da dinastia com a candidatura presidencial. Há a figura ascendente de Michele, mas ela não chefiará o clã enquanto o marido estiver vivo.

Toda essa história política e familiar dos Bolsonaros não se esgota nas suas relações com o Brasil. E aqui entra a segunda dimensão que sempre esteve presente: o bolsonarismo faz parte de um movimento global maior, que podemos chamar de Internacional de Extrema Direita, que atua em várias partes do mundo, principalmente nas Américas e na Europa. Um grupo político de combate à democracia e de defesa de um reacionarismo enorme frente a temas como imigração, família, religião e contra discursos progressistas de minorias, como as mulheres e os negros.

A Internacional da Extrema Direita teve como grande baluarte Steve Bannon, um dos principais inspiradores da visão política de Trump. Continua forte na Europa, com desempenhos impressionantes como recentemente nas eleições locais no Reino Unido, mas tem tido dificuldades por conta das mudanças geopolíticas, como a guerra na Ucrânia e os conflitos cada vez maiores com os EUA. Daí que hoje o principal impulso a esse movimento vem da política trumpista, particularmente no âmbito da América Latina. Essa é a terceira dimensão que afeta o bolsonarismo profundo e constitui o farol da família Bolsonaro.

O segundo governo Trump é mais do que uma forma política de extrema direita. É expansionista, beligerante e intervencionista. Para a América Latina, o modelo geopolítico é a tentativa de reavivar a Doutrina Monroe - a América para os (norte-)americanos. O Brasil e o México são os maiores obstáculos a esse projeto, seja pela força política e econômica de ambos, seja em razão de suas lideranças presidenciais, que não abaixaram a cabeça e nem querem entregar o país como deseja a família Bolsonaro.

Os Bolsonaros sustentam suas ideias e projeto de poder não só no território nacional. Eles têm seus alicerces principais fora do Brasil, seja na Internacional da Extrema Direita, seja cada vez mais na sua ligação subserviente com o governo Trump. A família Bolsonaro é soldada do trumpismo, e fará tudo para agradá-lo, a fim de ter o apoio do governo americano, das mais diferentes formas, para a eleição presidencial brasileira.

Flávio Bolsonaro foi chamado inicialmente de preposto do pai. Mas hoje se percebe, depois do tour em Washington pago com dinheiro público brasileiro e das decisões do governo Trump contra o Brasil, que no momento é Eduardo Bolsonaro o verdadeiro chefe da estratégia política do clã bolsonarista. Acabou-se o bolsonarismo moderado e restou a extrema direita pura comandada pelo trumpismo.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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TEMPO FECHADO NAS RELAÇÕES EUA-BRASIL

Artigo de Fernando Gabeira

As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington — a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas e um tarifaço adicional de 25 por cento — têm de ser analisadas com frieza.

No mesmo dia em que Jameson Green, o representante comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países. Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.

Quando entram em ebulição, as relações Brasil-Estados Unidos não influenciam apenas a economia. Elas passam a ser a agenda principal das eleições.

Durante algum tempo, parecia aos candidatos que a proximidade com Donald Trump era um trunfo eleitoral. Agora, pelo menos um deles, Lula, terá de se distanciar e retomar o tom crítico que sempre teve em relação ao presidente dos EUA.

A classificação das organizações brasileiras como terroristas estava sendo combatida como ameaça à soberania nacional. Mas tudo isso é um pouco vago para a população mais pobre, sobretudo a que vive nas áreas ocupadas pelo crime. Tem-se debatido tudo: se a medida favorece Flávio ou Lula, que impacto terá no sistema financeiro; só não se debate um tema essencial: que diferença terá para os que vivem sob o jugo do crime organizado? Nenhuma. A própria ideia de asfixiá-lo economicamente não leva em conta que o lucro hoje é obtido mais pelo controle do território do que pelo tráfico. Eles vendem gás, detêm o transporte alternativo, exploram o gatonet (uma instalação clandestina para captar a TV a cabo), cobram taxa de proteção e até constroem prédios. Podem sobreviver mesmo sob asfixia financeira tradicional.

Esses aspectos são pouco debatidos porque não queremos encarar a falência do Estado nas periferias. Mesmo se os Estados Unidos quisessem resolver, iriam fracassar se usassem apenas uma solução militar. Fracassaram em inúmeras guerras assimétricas, daí a novidade na Venezuela: uma ação de comando e controle do petróleo, que era seu objetivo máximo. Também o era no Iraque, mas fizeram uma guerra desastrosa.

O argumento de que o Pix estava ameaçado acabou ganhando força com a decisão americana. Baseados na seção 301 de sua lei comercial, os americanos investem contra o Pix, afirmando que o sistema montado pelo Brasil é desleal com os concorrentes. O Pix é tão bem-sucedido, tão entranhado no cotidiano brasileiro, que, mesmo com mudanças, dificilmente perderá sua posição dominante.

Mas todo esse debate vai convergir na campanha nacional para a defesa do nacionalismo. A expressão “traidores da pátria” já foi usada contra Flávio e a família Bolsonaro. Enquanto o debate se limitava ao tema do crime organizado, a direita respondia com a acusação de que Lula protegia os criminosos.

O tema econômico agora vai dominar a discussão. Não há argumento que se sustente se não for em defesa do Brasil e na condenação do tarifaço. Lula recebeu de novo um presente político que subestimou acertadamente, apostando na negociação. Mas os americanos decidiram antes mesmo do prazo acordado na visita a Washington.

Isto mostra que as negociações devem prosseguir, mas não são mais o único caminho. Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes, enfim, trabalhar com a hipótese de que os Estados Unidos já não serão o mesmo parceiro do passado.

Tempo para definir uma nova estratégia, contando com a possibilidade de um novo mandato. Certamente, essa medida vai aproximar mais o Brasil da China, mas o país não pode perder a perspectiva de autonomia e de equilíbrio nas relações com os EUA, apesar da passagem catastrófica de Trump.

Uma campanha eleitoral nem sempre é o momento para debater esses temas. As acusações recíprocas predominam sobre o diálogo. Mas é tempo de o Brasil ter uma visão estratégica de longo prazo, baseada nas nossas riquezas naturais, na transição energética, no desenvolvimento sustentável e no papel de líder mundial na questão ecológica.

Quando se sabe claramente o que se quer a longo prazo, esses sobressaltos na política externa ficam mais fáceis de serem absorvidos sem grandes traumas. E não existe disputa para saber quem é mais próximo de um presidente tóxico como Trump. Fica-se mais perto desse termo abstrato chamado soberania nacional.

O mesmo vale para a questão de segurança pública. Se estivéssemos endereçando o problema adequadamente, reconquistando centímetro por centímetro o território ocupado, a classificação americana seria apenas um exercício retórico.

Mesmo assim, nossos argumentos são ótimos. Os americanos reclamam, por exemplo, que o Pix esmaga os concorrentes. Na minha pesquisa preliminar, não encontrei um único concorrente que ofereça os serviços de pagamento gratuitos.

Quem sabe não evoluam para isso, se um dos seus objetivos principais é apenas acumular dados? A experiência brasileira é superior. A única forma inteligente de rivalizar com ela é imitá-la.

Na minha experiência, também se lucra com a humildade. A Suécia criou um número pessoal, cada um tem seu número no sistema administrativo. A Índia fez o mesmo e hoje economiza milhões de dólares nos pagamentos de ajuda social.

Artigo publicado no jornal Estadão em 05 / 06 / 2026

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CONGRESSO BENEFICIA ESTUPRADORES DE CRIANÇAS

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Em menos de 2 minutos Senado derrubou resolução do Conanda

Vítimas de estupro poderão ter gestação forçada enquanto seus abusadores continuarão impunes

Em sessão na terça-feira (2) que durou exatamente 100 segundos, o Senado aprovou um projeto que protege estupradores de crianças e adolescentes. Exagero eu dizer isso? Não para quem conhece a realidade dos abusos sexuais contra vulneráveis. Ao dificultar o acesso ao direito que crianças e adolescentes possuem há décadas de interrupção da gravidez em casos de violência sexual, o Senado facilita que crianças sejam mães.

Ao cancelar a resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o Senado dificulta o atendimento a vítimas de violência sexual. Em outras palavras, senadores querem que a criança abusada não tenha acesso facilitado a serviço de saúde e assistência social caso seja estuprada.

Fora do mundo da fantasia bolsonarista, o que isso significa na prática é que crianças e adolescentes, muitas vezes sem terem a quem contar que foram violentadas, tenham que ser torturadas psicologicamente, carregando no ventre o fruto do abuso sexual.

Ao derrubar a resolução do Conanda, Damares Alves —relatora do projeto— quer que seja privilegiada a vontade não da criança, mas de pais, muitas vezes os estupradores. Segundo o IBGE, a maioria dos casos de violência sexual relatada por estudantes de 13 a 17 anos ocorreu no contexto familiar (só 23,2% foram cometidos por desconhecidos). Na prática, Damares quer que a criança/adolescente estuprada pergunte ao familiar ou conhecido estuprador se pode exercer seu direito de interrupção da gravidez resultante do estupro que ele praticou.

A aprovação do PDL do Estupro foi repleta de fake news.

O Conanda não criou um tipo de aborto; a hipótese está na lei. O Conanda não ignorou a vontade dos responsáveis; previu sua busca ativa, respeitada a autonomia da vítima em caso de abuso.

A violência sexual contra crianças e adolescentes triplicou na última década. Com o PDL, o Senado facilita que parte das 60 mil crianças e adolescentes que se tornam mães todos os anos seja submetida à violência de levar adiante uma gestação forçada, enquanto seus abusadores continuam impunes.

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INTERVENÇÃO DE DONALD TRUMP NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS COMEÇOU SEM TIRO NEM BOMBA

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Medidas de Trump mudam foco do debate para beneficiar Flávio e dificultar reeleição de Lula

Sem tiro nem bomba, os Estados Unidos iniciaram uma intervenção política no processo eleitoral brasileiro. Se o assunto da semana passada era a fortuna que Flávio Bolsonaro recebeu do Banco Master para financiar uma cinebiografia do pai, as manchetes agora se ocupam de decisões de Donald Trump que miram a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva – o principal concorrente de Flávio na disputa.

Parte da cúpula do Judiciário considera que a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas foi o primeiro passo na interferência dos EUA nas eleições deste ano, porque prende Lula a uma saia justa: se clamar pela soberania nacional, pode ser interpretado como defensor de bandido.

A sequência da intervenção veio com o anúncio do novo pacote de barreiras tarifárias ao Brasil. Trump conseguiu não apenas desviar a pauta do debate eleitoral, mas ameaçar o País com danos econômicos na reta final do governo Lula.

Flávio capitalizou com as medidas. Posou em foto ao lado de Trump na Casa Branca. Na semana passada, se contorcia diante das câmeras para explicar as suspeitas de ter se beneficiado do esquema de fraudes financeiras de Daniel Vorcaro.

Em suma: qualquer atitude dos EUA com impacto na economia ou na soberania brasileira agora interfere no processo eleitoral, ainda que o país de Trump siga poupando tiros e bombas até outubro.

Ao menos dois ministros – um do Supremo Tribunal Federal (STF) e outro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – consideram que os EUA podem incrementar a “intervenção soft” com outras medidas – como o financiamento de defensores de ideias alinhadas às de Trump e o incentivo a candidaturas de direita. Para esses ministros, Trump não está preocupado com o combate ao terrorismo, e sim com a subida de aliados ao poder na América Latina.

Um segundo ministro do TSE, também em caráter reservado, considera cedo para entender como os EUA podem interferir nas eleições brasileiras, mas tem como certo que Lula sai perdendo na primeira investida.

A coluna também ouviu outros dois ministros, um do STF e outro do TSE, que não estão preocupados com tentativas de influência dos EUA nas eleições deste ano. Eles consideram o Brasil imune a esse tipo de ameaça.

As pesquisas de opinião ainda não mediram as consequências para as candidaturas após a mudança de foco no debate eleitoral. Mas já é possível concluir que investigações criminais e estratégia política vão ditar o sobe e desce das campanhas. As propostas dos candidatos, mais uma vez, serão coadjuvantes nas eleições.

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

A POLÍTICA DE HORROR DE TRUMP

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados

Nas últimas semanas, tive contato com duas histórias que me fizeram repensar como nós, enquanto humanidade, chegamos ao fundo do poço. Ambas deram origem a reels publicados no perfil do Correio Braziliense. A hondurenha Wendy Hernández foi presa quando se dirigia ao trabalho, na Flórida, e deportada para Honduras. O filho, de apenas 2 anos, ficou com o tio materno. Sozinho, sem a mãe, foi exposto a todo tipo de barbárie, incluindo queimaduras e abuso sexual. Ao ser detida, Wendy implorou para que o pequeno Orlin Josué fosse levado com ela. O ICE, a polícia da Imigração americana, não lhe deu ouvidos. O menino acabou morto.

A outra história envolve um garoto de 18 anos, filho de imigrantes mexicanos. Kevin González tratava um câncer agressivo na cidade americana de Chicago. Os pais, Isidoro e Norma, tentaram atravessar ilegalmente a fronteira para estar com o filho. Mas, foram presos no Arizona. O casal ficou recluso em um centro de imigração durante 30 dias. Nesse intervalo, Kevin, desenganado pelos médicos, retornou a Durango, no México. A família começou uma campanha para sensibilizar os Estados Unidos a libertarem os pais do jovem. Deportados, Isidoro e Norma conseguiram ter somente 24 horas ao lado de Kevin. O garoto morreu nos braços dos pais.

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados. São exatamente eles que ajudam a movimentar a economia dos Estados Unidos, ocupando postos de trabalho com mão de obra barata e, às vezes, pouco qualificada. O ICE invade empresas, aborda estrangeiros nas ruas, entra em igrejas. No caso de Wendy, parece não se importar em separar famílias. 

Um levantamento do think tank Brookings Institution revela que 145 mil crianças foram retiradas do convívio dos pais durante as detenções de imigrantes ilegais — 36% delas sequer tinham 6 anos de idade. Desse total, 22 mil ficaram sem a companhia de pai e mãe, depois que ambos foram presos. A maioria das crianças com pelo menos um dos pais presos pela Imigração é oriunda do México (54%). Guatemala e Honduras aparecem em seguida, com 25%. Fico imaginando o trauma para esses pequenos. O que dizer do trauma que carregarão pelo resto da vida? Isso quando não estão expostas a perigos ou ao risco de morte, como ocorreu com Orlin Josué. 

Os apelos dos amigos e familiares para que Isidoro e Norma fossem libertados, a fim de que pudessem conviver com Kevin pelo pouco tempo que lhe restava, parece não terem comovido as autoridades americanas. Pensem em quantas histórias de dor, sofrimento, medo e solidão não são tornadas públicas, não chegam à opinião pública... A política de tolerância zero adotada pelo governo Donald Trump é condenada por ativistas dos direitos humanos, mas também por especialistas em política americana. Trump sempre classificou os imigrantes como criminosos e marginais. Coloca no mesmo balaio de terroristas e traficantes aquelas pessoas que cometeram um erro em busca de uma vida melhor. 

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TARIFAÇO E FOTO COM FLÁVIO ESCANCARAM INTERFERÊNCIA DE TRUMP NO BRASIL

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ataque ao Pix mexe com bolso do eleitor e dá bandeira popular a Lula para acusar rival

Tudo aconteceu em menos de 24 horas. Na madrugada, o governo americano ameaçou baixar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Pouco depois, o secretário Marco Rubio comparou o Brasil a regimes autoritários e hostis aos Estados Unidos. Para arrematar, o presidente Donald Trump divulgou uma foto com Flávio Bolsonaro. Descreveu o senador como um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

A mensagem de ontem foi clara: a Casa Branca fará o possível para interferir na corrida ao Planalto e dificultar a reeleição de Lula. A classificação de facções criminosas como terroristas, na semana passada, foi apenas o começo da ofensiva.

Trump nem se preocupou com as aparências. Autorizou a divulgação de um relatório capenga, repleto de mentiras e distorções, para justificar a proposta de uma nova sobretaxa de 25% sobre exportações. O documento chega a usar como pretexto o desmatamento da Amazônia, que despencou nos últimos anos.

O texto também faz uma série de ataques ao Pix, tachado de “irrazoável”, “injusto” e “discriminatório” contra empresas americanas. Como se razoável fosse obrigar os brasileiros a abrir mão de uma ferramenta gratuita para voltar a pagar juros e taxas a bandeiras de cartão de crédito.

O abuso da investida deu a Lula um mote poderoso para a campanha. Ao exibir um cartaz com a expressão “O Pix é do Brasil”, o presidente se apresentou como guardião do interesse nacional e defensor do bolso dos eleitores. De quebra, tachou o Zero Um e seus irmãos de “traidores” e “vendilhões da pátria”. Os petistas completaram o contra-ataque ao emplacar a expressão “Tariflávio” nas redes sociais.

O filho do capitão acusou o golpe e ensaiou um discurso defensivo. Disse ter pedido a Trump que não sobretaxasse as empresas brasileiras. Difícil acreditar. Há menos de um ano, o mesmo Flávio declarou que “patriotas de verdade” deveriam celebrar o primeiro tarifaço contra o Brasil. Apostava na sabotagem econômica para livrar o pai da cadeia.

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terça-feira, 2 de junho de 2026

IMORALIDADE TRIBUTÁRIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

É preocupante a aprovação, na Câmara, de PEC que amplia imunidade de igrejas a impostos

Entidades assistenciais ligadas a templos e que concorrem com iniciativa privada também seriam beneficiadas

O Brasil não vai dar certo. Falta-nos o sentido de comunidade. Se um dia já circulou por aqui a ideia de que os custos para a manutenção do Estado precisam ser divididos de forma mais ou menos equânime entre todos, pessoas e instituições, essa é uma noção que foi abandonada.

Mais um eloquente exemplo disso foi dado pelos deputados na semana passada, quando aprovaram uma emenda constitucional que amplia para níveis absurdos a imunidade tributária das igrejas. Pela PEC, que ainda precisa passar pelo Senado, o poder público fica impedido de cobrar impostos sobre tudo o que elas possuem, pelos serviços que contratam e até por itens que consomem. É isso mesmo, templos não pagariam um centavo de imposto seja sobre os jatinhos que compram para espalhar a palavra de Deus, seja sobre a comida com que saciam a fome de seus ministros, do pão ázimo ao caviar.

E fica pior. Os deputados não se limitaram a ampliar o rol das isenções. Também as estenderam para entidades assistenciais ligadas a igrejas, como creches, escolas, comunidades terapêuticas, hospitais. No limite, até um banco operado por instituição clerical ficaria livre de tributos. O risco de perdição das contas públicas só não é imediato porque a PEC exige a elaboração de uma lei complementar para regulamentar a matéria.

Não é só de imoralidade tributária que estamos falando. A extensão dos benefícios a entidades vinculadas a igrejas introduz graves distorções concorrenciais. Uma escola ligada a religiosos teria custos transubstancialmente menores do que os de um colégio particular. Se todos os agentes econômicos agirem racionalmente, eles se converterão em entidades religiosas ou se associarão a uma. Como já demonstrei no passado com a criação de uma igreja, fazê-lo é muito fácil e barato.

A prosperar essa lógica, em pouco tempo o poder público não teria mais de quem cobrar tributos. O lado bom é que isso limitaria o poder de congressistas de torrar com emendas parlamentares. Dizem que Deus escreve certo por linhas tortas.

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RENAN SANTOS E A REVOLTA DOS LASCADOS DA DIREITA

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Líder do partido Missão e do MBL tem 6,9% das intenções de voto no primeiro turno

Ele traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa

Neste ano, um nome ainda desconhecido da maioria dos brasileiros roubou o protagonismo de Lula e Flávio Bolsonaro. Se sobreviver à campanha, Renan Santos, líder do partido Missão e do MBL, terá se tornado um político influente —e talvez presidente da República.

Renan defende causas impopulares, mas o caso Master abriu para ele uma avenida de oportunidades para se apresentar ao eleitor.

Um banqueiro vive como príncipe, tendo desviado R$ 60 bilhões e aliciado para a operação aliados nos três Poderes. Enquanto isso, o país se vê travado pela polarização, há uma sensação geral de insegurança e milhões de brasileiros recorrem a aplicativos de transporte e entrega para trabalhar.

Rosto desconhecido do brasileiro comum até o ano passado, Renan atingiu em maio 6,9% das intenções de voto no primeiro turno, isolado em terceiro lugar, segundo a pesquisa Atlas Intel/Bloomberg. Como?

Renan e seus aliados vêm sendo testados em ameaças, cancelamentos e ataques bolsonaristas, especialmente desde que o MBL defendeu o voto nulo na eleição de 2022. Essa experiência impulsionou a coleta de quase 600 mil assinaturas para a fundação do partido —e treinou o atual pré-candidato a se comunicar com clareza e contundência sobre seus planos para o Brasil.

Outra arma do Missão é a coesão da militância. O movimento vende assinaturas da Valete —a segunda revista de cultura em número de assinaturas no país, depois da Piauí. Dali emergem diagnósticos e propostas do partido. Esse espaço de debate forma quadros articulados, que influenciam amigos e parentes.

Renan tem uma personalidade original: é músico competente, tem uma banda chamada Limão Rosa, é fã de Ayrton Senna e Bob Dylan e traz o DNA da nova direita de dizer o que pensa, doa a quem doer.

Sua campanha navega a favor dos algoritmos das redes. Oferece comentários políticos diários em lives, e a militância é estimulada a fazer cortes desse material —um esforço remunerado pelo YouTube.

Renan está viajando de carro pelo país, e o movimento transforma entrevistas em rádios e o registro de problemas locais em conteúdo que circula nacionalmente.

Ele tem propostas polêmicas. Prega medidas radicais de enfrentamento ao crime organizado, denuncia o balcão de negócios do centrão e defende a desobediência ao Supremo para resgatar as prerrogativas do Executivo.

Em live recente, Eduardo Bisotto, uma das vozes da pré-campanha, católico, fumante, desbocado e analista político experiente, apresentou o movimento como "a direita dos fodidos". Eles têm o perfil do antigo militante de esquerda: jovem, urbano, com formação universitária, movido pelo idealismo.

O Missão entende que seu caminho para a glória passa por participar dos debates na TV. E, se serve de paralelo o exemplo colombiano —que levou ao segundo turno o candidato sem experiência política e com propostas radicais de enfrentamento ao crime organizado—, a banda Limão Rosa, com o vocalista presidente, pode encabeçar o show de posse no Brasil. Depois disso, estaremos em águas inexploradas.

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UMA CHANCE PARA O RIO

Artigo de Fernando Gabeira

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Não tenho ilusões de que essa mudança possa ser feita da noite para o dia. O último governador conseguiu adaptar alguns setores da administração a sua perspectiva predadora. Isso é demonstrado na sonegação da Refit — até setores do meio ambiente foram cooptados para o crime. É possível que grande parte da administração tenha apodrecido.

É preciso um plano de trabalho cauteloso para avançar nesse campo minado. Caso contrário, haverá colapso. Da mesma forma, não será possível romper com todos na Assembleia Legislativa. É preciso manter contato com alguns para ir se livrando progressivamente da máfia. Do contrário, haverá paralisia.

Nesse ponto específico, a volta por cima depende parcialmente de nós. Temos de escolher bem os deputados, acompanhar o trabalho de quem elegemos. A própria imprensa, na medida em que se concentre nos deputados, poderá ajudar a minoria, com apoio da opinião pública, a evitar barbaridades e avançar alguns projetos indispensáveis.

O grande tema na recuperação é a segurança pública. Para que tenhamos um trabalho de excelência e profissionalismo, será preciso ir além do discurso de matar bandidos. O governador eleito terá de ser capaz de convencer a sociedade de que a segurança pública exige investimentos em salários, equipamento e formação.

O estado tem pouco recurso. Mas a importância da segurança pública no Rio tem dimensão internacional. Brasília precisa ter sensibilidade para o tema que se tornou um delicado item da política externa.

Mesmo antes disso, o sofrimento de milhões de fluminenses, alguns sem gozar a liberdade nas áreas ocupadas pelo crime organizado, já seria motivo mais que razoável para que os governos estadual, federal e municipal se unissem.

A devastação moral, as dívidas crescentes, a captura de setores da administração pelo crime, a insegurança urbana, tudo isso é motivo para que todos os setores vivos e criativos do Rio se unam e tentem uma volta por cima.

Sem a consciência de que temos uma chance e de que é preciso embarcar nela, dificilmente as coisas acontecerão entregues apenas ao domínio da política profissional.

O Rio chegou a este ponto porque grande parte das forças criativas considera que não vale a pena acompanhar esse espetáculo desagradável. Pois nossos olhos, nossa voz, nossa atenção podem ser o veículo adequado para que os políticos realizem pelo menos um trabalho razoável. Não há nada a perder, basta embarcar nessa última chance.

Artigo publicado no jornal O Globo em 02 / 06 / 2026

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O REPÓRTER QUE DESCOBRE QUALQUER COISA, ATÉ VACA FALANTE

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Livro narra trajetória de Luarlindo Ernesto, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje

Aos 82 anos, ele é capaz de desvendar o mistério do dinheiro investido no filme "Dark Horse"

No romance "O Piano e a Orquestra", de Carlos Heitor Cony, o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês: "À votre service".

Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.

Revelar o mocó da vaca falante foi moleza para Luarlindo. Veterano do Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, sempre furando a concorrência, em seu currículo constam, além de três prêmios Esso, coberturas mais difíceis e traumáticas: a busca pela corpo da socialite Dana de Teffé, o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, a morte do detetive Milton Le Cocq, a caçada ao bandido Cara de Cavalo, as fugas cinematográficas do assaltante Lúcio Flávio, o surgimento dos esquadrões da morte, o sequestro do menino Carlinhos, o atentado a bomba no Riocentro, a captura do mafioso Tommaso Buscetta no Brasil.

Luarlindo Ernesto, que inspirou o personagem de Cony, acaba de ganhar uma biografia. Em "O Último Repórter dos Anos de Chumbo", Elenilce Bottari narra com rigor histórico os episódios da trajetória de Luar, como é conhecido, mas de maneira descontraída, como se fosse uma conversa de bar, com pitacos do próprio biografado: "Falei com o Buscetta, mas a única coisa que o italiano me disse foi: ‘A pronúncia do meu nome não é busqueta. É buceta mesmo’".

Aos 82 anos, Luarlindo mantém o faro de quem começou a trabalhar na Última Hora aos 14, quase de calças curtas, como foca do repórter sensacionalista Amado Ribeiro. Testemunha e agente das transformações no jornalismo, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje, se pautado pela chefia, ele é capaz de descobrir onde está escondida a grana do filme "Dark Horse".

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segunda-feira, 1 de junho de 2026

A MAIS NOVA STARTUP DA DIREITA DISPONÍVEL NA PRATELEIRA PARTIDÁRIA

Miguel de Almeida, O Globo

O Missão critica o sistema, mas nasceu dentro dele. No início, o PT também

Jair Bolsonaro tentou e não conseguiu criar seu próprio partido. Semelhante ao que as tendências de esquerda (Convergência etc.) fizeram no PT, teve de fazer um “entrismo” no PL e conviver sob o teto de Valdemar Costa Neto. A turma do MBL chegou lá em novembro passado e pôs na praça o Missão, a mais nova startup da direita disponível na prateleira partidária.

— Somos mais capazes que ele — diz sobre Bolsonaro Renan Santos, presidente do Missão e candidato à Presidência. — Ele é um homem fraco e um traidor. É um mérito que respeitamos.

O leitor certamente já ouviu falar de Romeu Zema e de Ronaldo Caiado, personagens da política regional. Mas dificilmente ouviu algo sobre Renan Santos. Exceto que as pesquisas eleitorais o colocam em empate técnico com os dois ex-governadores. Na Atlas/Bloomberg, a pontuação do novato Missão tem humilhado máquinas poderosas do PSD de Kassab e do volúvel Novo.

— O Novo é o PCdoB do PL — alfineta Renan.

E não sem razão: o candidato do partido, Romeu Zema, recebe puxões de orelha em público sempre que critica Flávio Bolsonaro.

O nascimento do Missão se dá à luz do escândalo do Banco Master. Ocupa o espaço dinamitado na direita. Com suas mesadas e rodadas de uísque, o caso Master exalou a necrose do universo político. Os bolsonaristas, desde sempre, estiveram na vizinhança de casos de corrupção: das rachadinhas à compra de imóveis com dinheiro vivo e funcionários-fantasmas — um prontuário parrudo.

Mesmo com tantos esqueletos, o eleitorado parece tapar o nariz para as malfeitorias. Como disse Zema: “Gambá cheira gambá”. Os índices de Flávio escondem um escândalo moral: para perdoar crimes, se dizem antipetistas. Reconheço: uma parte é ideológica; outra veste a carapuça do personagem Macunaíma, aquele sem nenhum caráter de que falava Mário de Andrade.

O acordão da direita em torno das corrupções mostra o estrago feito pela família Bolsonaro. É nesse espaço que caminha a candidatura de Renan Santos. Além de marcar em torno de 3% a 4% nos diversos institutos, traz embutido outro número que atesta o colapso dos partidos de direita: pontua cerca de 24% entre eleitores de 16 a 24 anos e 11% entre 25 e 35 anos.

— O PSOL é um partido; o PT corrupto é outro partido — tem dito Renan para marcar a diferença. — O restante são legendas. Essa direita é um bando de puxa-sacos do Bolsonaro.

Ator novo na disputa partidária, o discurso do Missão repete o mantra de ser antissistema. Os alvos são o PT no governo e toda a direita abraçada ao bolsonarismo. Na oposição, ironiza que a única plataforma dos candidatos seja o perdão a Bolsonaro. Daí a análise de que as agremiações políticas atuais só encantem os mais velhos. O Missão é um grito geracional dos jovens, segundo o candidato.

Isso é interessante. O partido é um spin-off partidário do MBL, movimento que ajudou a engrossar as manifestações de rua que, a partir de 2013, levaram ao impeachment de Dilma Rousseff. Nasceu nas redes sociais conectado a uma juventude desconectada da política institucional. Em momentos diversos, esteve próximo a João Doria e a Bolsonaro.

O partido sustenta-se no universo digital, nos cursos de formação, numa revista e na plataforma inserida em seu “Livro amarelo”. Não difere em atuação de agremiações da nova direita europeia, como o Vox espanhol. Não joga para o momento, mas para o futuro. Embora a direita radical tenha ojeriza a Antonio Gramsci, o Missão surge ancorado em seus conceitos: disputar a hegemonia cultural. Guerrear contra o que parece natural — viver com medo do crime organizado, nos dias de hoje.

Não por acaso, a principal plataforma do Missão é a proposta radical de guerra ao crime. Defende o uso do Direito Penal do Inimigo. Aquele que desrespeita reiteradamente as leis é inimigo declarado. Desde que seja considerado inimigo, deixa de estar na mesma cobertura legal, já que abandonou o pacto social. Deve, assim, ter julgamento imediato, diferente do que reza o Código Penal. O novo arcabouço não visa à ressocialização, mas à punição. A periculosidade do criminoso determina a rapidez de sua retirada da sociedade. Vem daí a defesa do presidente de El Salvador, Nayib Bukele, criticado por suas constantes violações de direitos humanos.

À direita no espectro, o Missão sabe escandalizar em busca de engajamento. Coloca-se contra a ideia de criminalização da misoginia no ambiente digital. Em defesa das mulheres, prefere aumentar a pena do pai que não paga pensão e se ausenta da educação do filho. Desamparado é mão de obra para o crime.

O Missão critica o sistema, mas nasceu dentro dele. No início, o PT também se disse puro. Até o mensalão.

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domingo, 31 de maio de 2026

MORRE WIANEY PINHEIRO

Do g1 SP

Morre aos 77 anos Wianey Pinheiro, ex-chefe de redação da TV Globo

Profissional teve passagens por jornais, agências de notícias e pela TV Globo, onde ocupou cargos de chefia no jornalismo; causa da morte não foi divulgada.

O jornalista Francisco Wianey Pinheiro morreu neste domingo (31), em São Paulo, aos 77 anos. A causa da morte não foi divulgada.

O velório será realizado nesta segunda-feira (1º), a partir das 9h, no Cemitério Vila Mariana, na Rua Batista Caetano. O sepultamento está previsto para 13h.

Nascido em 1949, Wianey se formou em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de São Paulo (PUC-SP) e iniciou a carreira na imprensa antes mesmo de concluir a faculdade.

Ao longo da trajetória profissional, trabalhou nos jornais Gazeta, Gazeta Esportiva, Diário da Noite, Jornal da Tarde e na agência France Press. Também atuou na Folha de S.Paulo, onde foi repórter, chefe do Departamento de Informação e Comunicação das Sucursais e diretor da sucursal do Rio de Janeiro.

Entre as coberturas marcantes de sua carreira está a morte do ex-presidente Juscelino Kubitschek, em 1976, quando participou da produção de uma edição especial da Folha de S.Paulo.

No início da década de 1980, ingressou na TV Globo, onde trabalhou inicialmente no Bom Dia São Paulo e passou por telejornais como Jornal Hoje, Jornal Nacional e Jornal da Globo.

Na emissora, também ocupou cargos de comando no jornalismo. Foi chefe do Centro de Produção de Notícias (CPN), estrutura responsável pela integração da produção jornalística da rede.

Atuou como chefe nacional de redação do jornalismo e no trabalho de ajustes dos departamentos de jornalismo das emissoras afiliadas. Em 1989, assumiu ainda a editoria regional de São Paulo.

Durante sua passagem pela emissora, acompanhou coberturas de fatos marcantes da história política brasileira, como o atentado do Riocentro, em 1981, as eleições estaduais de 1982, a campanha das Diretas Já, em 1984, e a morte de Tancredo Neves, em 1985.

Após deixar a Globo, atuou na extinta TV Manchete e, posteriormente, fundou a GW Comunicação, produtora voltada para marketing político e comunicação corporativa.

Dentre seus principais trabalhos estão as duas campanhas de Mário Covas ao Governo do Estado de São Paulo, em 1994 e 1998; as de Geraldo Alckmin à Prefeitura, em 2000, e ao Governo do Estado, em 2002; e a eleição de José Serra à Prefeitura de São Paulo, em 2004.

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