segunda-feira, 25 de maio de 2026

CAMINHANDO COM O POVO


Apenas nove meses no cargo de prefeito de Sobral – pela segunda vez – Zé Prado já demonstrava que aquela seria sua grande administração. Com slogan “Administração Moderna – Caminhando com o Povo”, os sobralenses viram o progresso chegar em  todos os bairros e distritos.

Em 23 de setembro de 1989, Zé Prado vai ao distrito de Olho D´água, um dos mais populosos de Sobral, numa solenidade que reuniu a maioria da população, Olho D´água passa a ser Rafael Arruda. Para celebrar em grande estilo a nova nomenclatura do distrito, o então prefeito de Sobral (CE), José Parente Prado inaugura a primeira biblioteca. A biblioteca não existe mais.

Zé Prado era muito querido e admirado até por adversários que se rendiam a seu carisma e sua popularidade. Esse jeito popular, de conversar com todos e estar sempre ao lado da população dava a tônica de suas administrações, tornando-as inconfundíveis.  Prado tinha o dom de ouvir e nunca deixava ninguém sem uma resposta positiva. Ele não sabia dizer não.

Em 1992, para conversar com a população e ouvir as reivindicações, o então prefeito Zé Prado, participou do programa radiofônico de maior sucesso da zona norte do Ceará, “Programa Izaías Nicolau”. Clique aqui e ouça o trecho final desse bate-papo.

Após deixar o cargo de prefeito em 1992, Zé Prado disputou ainda duas campanhas políticas: em 1996, como candidato a vice-prefeito – quando lançou na política Marco Prado, o chocolate – na candidatura de seu filho, Marco Prado e para deputado estadual em 1998, dez meses antes de falecer.

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É ZÉ CONTRA ZÉ...

O ano era... 1988, Zé Prado concorre pela terceira vez a prefeitura de Sobral (CE), foi a campanha mais difícil de sua carreira política. Seu principal adversário era o administrador da Santa Casa de Misericórdia de Sobral, Padre José Linhares Ponte.

A candidatura de Zé Prado não tinha o apoio do recém “Governo das mudanças” e nem do governo municipal – apesar de ter como candidato a vice, Ricardo Barreto, sobrinho do prefeito Joaquim Barreto – as pesquisas de intenção de voto realizadas na cidade, Padre Zé liderava e a tendência nos distritos repetia a da sede.

A campanha era o 'verde' (Padre Zé) contra o 'azul' (Zé Prado), com o slogan “É Zé contra Zé. É Zé Prado que o povo quer”.  

Além  das cores que marcaram a campanha, uma personagem roubou a cena: a "Vaquinha", era atração indispensável nos comícios.

Apoiado principalmente pela pobreza, Zé Prado arregaçou as mangas da camisa e visitou todos os bairros e distritos de Sobral. Ele visitou até casa de eleitores adversários. 

Essa campanha foi agressiva, insultos surgiam dos quatro cantos da cidade contra Zé Prado; inúmeros adjetivos pejorativos brotavam a cada dia; ‘bagaceira’ era o mais frequente, mas Zé Prado sempre empenhou a bandeira branca às suas campanhas e nunca guardava mágoa ou rancor de ninguém.

O coração de Zé Prado parecia ser de manteiga ou pudim; nessa campanha, afirmou em entrevista que se sentia constrangido pelo fato de disputar com um padre. Zé Prado tinha um pensamento que jamais se deve mexer com um padre, pois acreditava em castigo divino.

A campanha do 'verde' contra o 'azul' chegou ao fim e para surpresa de todos, Zé Prado, o candidato da 'bagaceira' que não tinha o apoio dos  governos municipal e estadual, venceu a eleição, com maioria em 87% das urnas.

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AS MEMORÁVEIS MÚSICAS DAS CAMPANHAS

As campanhas de Zé Prado sempre foram embaladas com
belíssimas composições – versões de grandes sucessos musicais – todas feitas pelo compadre e fiel amigo, o poeta popular Pedro Lavandeira que sempre esteve ao lado da família Prado.

Com habilidade em transformar grandes clássicos da música em
jingle – espécie de paródia –  Pedro Lavandeira em três décadas deu
ritmo, alegria e sentido as campanhas políticas da família Prado.

Confira algumas das memoráveis músicas das campanhas de Zé
Prado, na voz de Pedro Lavandeira.







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domingo, 24 de maio de 2026

PL ESTÁ ENREDADO NOS MAUS LENÇÓIS DA FAMÍLIA BOLSONARO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A candidatura do primogênito do ex-presidente está em xeque, sentada na antessala da demolição

O partido que cresceu ao abrigo do clã, queda-se vendido em meio à incerteza sobre o que vem por aí

Jair Bolsonaro não é alguém que se caracterize por ter boas ideias. Uma delas, a de enfrentar a pandemia a golpes de negacionismo custou-lhe a reeleição; outra, a de montar uma rede de ilegalidades para ficar no poder, o levou à prisão. A mais recente, de fazer do primogênito candidato a presidente, está em xeque na antessala da demolição.

O projeto de criar um partido morreu antes de nascer, o que fez a turma da extrema se abrigar no PL que saiu de legenda mediana para o lugar de maior bancada na Câmara. A união vigorou como benção até agora, quando dá sinais de se transformar em maldição.

O PL está em péssimos lençóis. Pego em calças curtas pela intimidade de Flávio Bolsonaro com o "mermão" Daniel Vorcaro, o partido queda-se vendido nas versões desencontradas e na incerteza do que pode vir por aí.

A agremiação de Valdemar Costa Neto se vê na iminência de perder o bonde da Presidência. Mas não só. Assiste ao que se desenha como um efeito dominó em sua área de influência. O prócer do aliado PP, Ciro Nogueira, já se foi. Outros integram a fila da beira do abismo.

As adversidades mais visíveis localizam-se nos três maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, os estilhaços têm potencial para atingir Tarcísio de Freitas (Republicanos), cuja percepção do risco se materializa na solidariedade bem mais ou menos que o governador empresta ao enroscado Flávio.

Em Minas Gerais, o partido rivaliza com o PT na dificuldade de formação de palanque, mas é no Rio de Janeiro, berçário político da grei Bolsonaro, que o PL fica pior na fita.

Os planos do partido para o Rio deram errado. A Justiça não parece disposta a permitir que o presidente da Assembleia Legislativa assuma o Palácio Guanabara para completar o mandato interrompido de Cláudio Castro que, pego como cúmplice nas falcatruas da Refit, perdeu qualquer condição de concorrer ao Senado.

Nos demais estados, essa direita se divide entre o compasso de espera e os preparativos para o abandono do navio.

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FLÁVIO BOLSONARO NA CASA DE VORCARO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

A única conclusão que não ofende a lógica é que o senador foi discutir sua situação diante de um escândalo que os dois sabiam que seria gigante

Um acordo explicaria a tranquilidade com que o senador falava do Master

Flávio Bolsonaro foi visitar o dono do Banco Master. Poucos dias antes da visita, Daniel Vorcaro havia saído da cadeia com tornozeleira eletrônica. No dia seguinte à visita, segundo o jornalista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, Flávio foi anunciado como candidato à Presidência da República.

O que explica esse delivery de político golpista na casa de um banqueiro ladrão?

A única conclusão que não ofende os fatos nem a lógica é que Flávio foi a Vorcaro discutir sua situação diante de um escândalo que os dois sabiam que seria gigante.

Com toda probabilidade, Flávio foi ao encontro de Vorcaro já sabendo que seria candidato a presidente. A matéria de capa da Folha sobre o anúncio da candidatura (publicada no dia 6 de dezembro) registra que aliados do bolsonarismo já haviam sido avisados antes do anúncio oficial.

Flávio também sabia que estava envolvido até o pescoço no caso Master. Sabia que tinha recebido R$ 60 milhões dos R$ 130 milhões que Vorcaro lhe havia prometido. Sabia que havia trocado mensagens altamente comprometedoras com o chefe do esquema Master. Sabia que os governadores bolsonaristas haviam entregado bilhões de dinheiro público ao Banco Master. Sabia que seus aliados Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR) haviam apresentado projetos no Congresso para tentar salvar o banco, projetos que teriam quebrado a economia brasileira. Sabia que seu PL havia requerido urgência para o projeto que permitiria ao Congresso afastar diretores do BC que votassem contra o Master.

Fazia sentido Flávio se lançar candidato a presidente sabendo que logo estaria no centro do maior escândalo financeiro da história brasileira?

Sim, mas só se você aceitar a seguinte hipótese: Flávio Bolsonaro foi à casa do dono do Master propor um acordo. Vorcaro não abriria o bico sobre suas relações carnais com o bolsonarismo, e Flávio o salvaria quando fosse eleito presidente da República.

O acordo explicaria a tranquilidade com que Flávio falava do Master até ser pego pela polícia e denunciado pelo Intercept Brasil. Explicaria a tranquilidade com que Vorcaro propõe delações premiadas que não entregam ninguém, como se estivesse ganhando tempo contando com uma blindagem futura. Explicaria a atuação de Flávio para derrubar, junto com Alcolumbre e Moraes, a candidatura de Jorge Messias ao STF; explicaria o desespero do bolsonarismo para emplacar uma CPI do Master que só vá atrás dos membros do Supremo enrolados.

Ainda não há provas de que o acordo ocorreu. Mas desafio o leitor a me apresentar outra interpretação plausível da visita de Flávio Bolsonaro a Vorcaro, nas circunstâncias em que ela ocorreu. Se eu estiver errado sobre o que aconteceu naquele dia, a decisão de Flávio de se lançar candidato mesmo sabendo de seus vínculos com o Master me parece inexplicável.

Flávio, é claro, diz que não foi nada disso. Diz que foi encontrar Vorcaro pessoalmente para encerrar sua, digamos, parceria artística com o banqueiro peleleco. Se você acredita nisso, o Master tem uns CDBs para te vender.

Vai ficando claro o motivo de Flávio Bolsonaro tratar o dono do Master como irmão. Sua única chance de deixar de ser o filho mais enrolado com a Justiça seria Jair adotar Vorcaro.

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O RACHADÃO DOS BOLSONARO NO BRASIL EMBALADO PELO PANCADÃO DO DEBATE RUIM

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

A montanha de novos escândalos de Flávio pariu um rato nas intenções de voto

Discussão nacional segue ruim, entre planos 'Mais Coisinha' de Lula e barbárie da direita

A montanha de escândalos de Flávio Bolsonaro pariu um rato nas intenções de voto, como mostrou o Datafolha. A esta altura do campeonato eleitoral, era previsível. Falta alternativa para quem quer evitar Lula 4, entre outros motivos das profundezas da preferência pelos Bolsonaro. Faz tempo e até agora, o antilula tem uns 40% dos votos.

Não quer dizer que a situação não possa se alterar, para pior ou melhor, a depender do gosto do freguês eleitor. Os motivos deveriam ser óbvios e podem ser relevantes em disputa acirrada.

Faltam quatro meses para o primeiro turno, eternidade no tempo digital. Flávio é "muito bem" conhecido por um terço do eleitorado; não se sabe o que povo todo vai achar da personagem quando houver TV, debates e tiroteio mais feroz nas redes.

No vasto mundo do que se chama vagamente "economia" deve haver novidades, menores, mas que podem importar em disputa apertada. Pode haver efeito retardado dos pacotes eleitorais de Lula 3 ou escândalos no forno. Enfim, surtos de loucura podem se espalhar por mensagens e redes de modo rápido e imprevisível, ainda que provocado. A formatação das opiniões a respeito do que sejam fatos pode mudar de modo profundo e veloz.

Pouco se discute o que está em jogo. Parte minoritária do eleitorado teme a ameaça golpista. Parte pequena parece se ocupar de fato do que se chama vagamente de "moralidade" (aliás, a perda mais significativa de votos de Flávio ocorreu entre evangélicos). Quanto a apenas um aspecto da "economia", a mais ligada ao Estado, do que se trata?

A elite econômica quer menos imposto e "desregulamentação", desde que mantenha proteção comercial, juros subsidiados e outras rendas do Estado. Boa parte dos eleitores da direita desconfia do Estado, mas quer benefícios sociais engordados por Lula. A esquerda oficial acha que "colocou o pobre no Orçamento". Colocou, um tico mais, mas a redistribuição de renda é dominada por conversa ideológica. Em quatro governos de esquerda, o Estado continuou a redistribuir para cima, sob o mote do "desenvolvimento nacional" ou de acordos quaisquer (para nem falar das ineficiências associadas). Lula 3 continuou a dar dinheiro para ricos e empresas; dada a política macroeconômica ruim, dá juros gordos para credores do governo ("rentistas").

A apropriação da renda é majoritariamente (mais de 80%) definida pelo rendimento do trabalho (75%) e rendimentos financeiros, aluguéis etc. (deve ser mais, pois a renda de capital e ricos é subestimada nas pesquisas). A redistribuição via transferências sociais tem impacto menor e terá efeito marginalmente menor, dada a carga tributária, mas não só. A conta é imprecisa porque sabemos pouco do impacto da tributação sobre classes de renda.

esquerda acha que a situação melhora com transferências diretas (de resto ora um tanto ineptas), esquece de trabalho e produtividade; se ocupa ingenuamente de desigualdade e pouco fala de pobreza. O alto da direita quer manter seus favores e que o povo se vire. Gatos pingados pensantes à esquerda, à direita e, em especial, no minúsculo centro se ocupam de problemas socioeconômicos estruturais.

Essa é uma colherinha de chá do nosso mar de problemas. Do que falamos, porém? Do barbarismo inepto da extrema direita ou do último programa "Mais Coisinha" de Lula ou de como os rachadões dos Bolsonaro podem definir a eleição. Nem a democracia é valor geral. Não vai dar certo. De novo.

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UMA DEMANDA DE LIMPEZA ÉTICA

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Com os velhos caciques, o Rio de Janeiro era uma feitoria político-social; hoje, uma malfeitoria estrutural

Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão

"Malandro demais se atrapalha", rezam as rodas de brasilidade, onde sabedoria é experiência vivida. Isso se revela na profilaxia administrativa operada pelo governo interino do Rio de Janeiro. Pode-se rir ou chorar ao tomar conhecimento, por exemplo, de que o ex-governador Cláudio Castro tinha criado uma Subsecretaria de Gastronomia, com nada menos do que uma "Superintendência de Demandas Cotidianas". E dirigida por ninguém menos que Pazuello, o general-ministro bolsonarista da pandemia.

Malandro, porém, se atrapalha mesmo. Tantas fez e cargos inventou o ex-governador para multiplicar favores a prefeitos, legisladores e dono de refinaria que o pote de espertezas transbordou como vaso sanitário. Garantido pelo STF, o interino Ricardo Couto comanda uma reorganização que já limpou um terço das secretarias e cerca de 1.700 cargos comissionados. A maioria não precisava sequer comparecer ao trabalho. Inexistente, por sinal, como dita a lei da malandragem.

Em princípio, seria chover no molhado qualquer análise das engrenagens de um desgoverno, considerando-se que a corrosão da função pública transparece sem filtros no apodrecimento ético dos dirigentes. Podre, aliás, não é metáfora gratuita: assim o mercado financeiro chama papel sem nenhum valor. Cláudio Castro investiu neles R$ 1 bilhão do fundo de pensão do estado para ajudar o Banco Master.

Abismo chama abismo. Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão, com desenredo especial pelo oxímoro Castro: inelegível, mas aspirante ao Senado. Ele tornou mais visível o epílogo de um longo e ruinoso percurso político, não só no nível das finanças públicas, mas também das consequências sociais das gestões corruptas. A varredura atual é alvissareira, embora provisória e assediada por clãs, ávidos por uma marcha-a-ré.

Com os velhos caciques, o Rio era uma feitoria político-social. Hoje, uma malfeitoria estrutural. No balanço das governanças impolíticas, transparece um estado afetado por déficit fiscal insanável e pela voracidade de grupos em torno da apropriação dos recursos públicos. Não mais caciquismo político, e sim uma malandragem tóxica constituída por clãs, híbridos de famílias com delinquentes. Cargos oficiais são criados e canibalizados por interesses temporários. Uma subsecretaria de bem-comer e por que não uma superintendência de demandas gourmets? Malandro sugeriu, fez-se.

Há disso tudo noutras regiões, mas o Rio virou laboratório de graves patologias sociais. Primeiro, a síndrome dos territórios, demarcados por milhares de barricadas e defendidos com armas de guerra e mercenários de know-how ucraniano. Bicheiros, milicianos, traficantes e policiais dão-se as mãos ou se engalfinham ante o pano de fundo cenográfico da mídia que envelopa a cidade. Depois, o tecido social criminogênico que, desde "zonas de influência" ilegalistas, favorece o recrutamento para a bandidagem e a malignidade dos clãs políticos, cujos rebentos almejam no Estado-nação o status de malandros federais.

É desanimador. Mas, como no mito, Hércules limpou com rios as estribarias do rei, a sujeira moral e cívica acumulada no Rio poderia ser lavada em urnas reais. Quando a sociedade civil acordasse.

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'DARK HORSE' ABALA FLÁVIO BOLSONARO NA DIREITA

Bruno Boghossian*, Folha de S. Paulo

Filho de Bolsonaro perde apoio em grupos evangélicos, no Sul e entre bolsonaristas que se declaram moderados

Senador mantém competitividade e continua recebendo votos de eleitores antipetistas em embate direto com Lula

O caso "Dark Horse" não derrubou Flávio Bolsonaro (PL), mas pode ter provocado um abalo em sua pré-candidatura justamente nos segmentos em que o filho de Jair Bolsonaro deposita suas fichas para tentar se diferenciar do pai e superar a derrota da eleição de 2022.

Os números da primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a revelação dos diálogos de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro apontam que o escândalo não causou mais do que um soluço dentro do núcleo mais bolsonarista do eleitorado, que costuma defender o clã mesmo em seus momentos difíceis.

É um conjunto de eleitores numeroso o suficiente para reforçar a ideia de que ele está consolidado como candidato competitivo e também para, ao que tudo indica até aqui, amenizar especulações de que ele deveria ser substituído imediatamente por outro nome de direita na corrida presidencial deste ano.

Os números da pesquisa espontânea, em que o entrevistado cita seu candidato preferido antes mesmo de ler uma lista de nomes, costuma ser o indicador usado para medir o humor de eleitores fiéis. Neste ponto, Flávio passou praticamente ileso pelo caso, oscilando de 18% para 17% das intenções de voto.

A má notícia para o filho de Bolsonaro apareceu em segmentos que também são parte da base eleitoral da direita, mas que têm uma relação mais volátil com o bolsonarismo.

Os resultados captados pelo Datafolha mostram problemas para Flávio em determinados grupos evangélicos, na região Sul, entre jovens adultos e –o que é mais significativo– entre bolsonaristas que se descrevem como moderados.

Este último segmento é formado por eleitores que se declaram bolsonaristas, mas se posicionam na segunda posição de uma escala que vai de 1 a 5 —em que o primeiro estrato é formado por bolsonaristas fiéis, o ponto central é de eleitores não alinhados, e o quinto grupo é formado por petistas fiéis.

Nesse grupo de bolsonaristas que se declaram moderados, Flávio foi de 53% para 40% das intenções de voto em uma semana. É um segmento pouco numeroso, representando cerca de 5% do total de entrevistados, mas que é alvo do senador e que pode fazer a diferença numa eleição apertada.

Entre eleitores evangélicos, base importante do bolsonarismo e sensível a escândalos morais, Flávio estava com 49% e agora aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno. Ali, sua rejeição era de 28% e está em 34%.

No Sul, a queda foi maior, de 48% para 35%. Entre eleitores de 25 a 34 anos de idade, que representam uma boa parcela da população cronicamente online, o baque foi de 11 pontos percentuais.

A pré-campanha de Flávio entra agora numa fase de avaliação de danos e de riscos. Eventuais novas revelações poderiam manter a ferida aberta e provocar uma lenta sangria de eleitores contrariados com sua relação fraterna com Vorcaro.

Para tirar o senador do jogo, porém, seria necessário um movimento em massa de eleitores de direita para nomes como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) ou Renan Santos (Missão). Até agora, nenhum deles mostrou capacidade de convencer os bolsonaristas de que são opções mais viáveis do que Flávio.

Uma das razões para isso é o fato de que o filho de Bolsonaro ainda é um forte depositário do antipetismo, o que o leva a reter votos de eleitores de direita mesmo sendo alvo de questionamentos.

Esse, aliás, foi um fator que parece ter amortecido o tropeço de Flávio na simulação de segundo turno do Datafolha. Enquanto no primeiro turno o filho de Bolsonaro aparece nove pontos atrás de Lula (PT), no embate direto ele consegue ficar a quatro pontos do petista.

*Diretor da Sucursal de Brasília da Folha. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

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LULA ATRAI 29% DO ELEITORADO DE CENTRO, CONTRA 20% DE FLÁVIO BOLSONARO

Fábio Zanin, Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra que eleitor moderado se fragmenta; terceira via patina no segmento

Candidatos vêm tentando suavizar a imagem atrás dos votos centristas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece mais bem posicionado do que Flávio Bolsonaro (PL) para receber o votos dos eleitores de centro, mostra a pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (22).

Ao mesmo tempo, os pré-candidatos que se apresentam como "terceira via" ainda patinam no segmento dos brasileiros mais moderados.

Numa escala ideológica de 1 (extrema esquerda) a 7 (extrema direita) dos pesquisados, aqueles que estão no nível 4 (centro) dão a Lula 29% das intenções de voto, contra 20% a Flávio.

O senador vem tentando se colocar como um candidato moderado, diferente do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas os números mostram que o sucesso tem sido limitado até o momento.

Ronaldo Caiado, que pertence ao PSD, partido que se define como de centro, obtém apenas 6% neste segmento. O ex-governador de Goiás fez carreira na direita, mas é outro que vem tentando moderar o discurso e busca ampliar seu apelo eleitoral.

Candidato do Avante, o escritor best-seller Augusto Cury é quem tem se definido mais abertamente como candidato de centro. O Datafolha mostra algum êxito na estratégia, pois ele atinge 6% entre os eleitores deste segmento. No total do eleitorado, conseguiu 2%.

Outros pré-candidatos, como Renan Santos (Missão), com 5%, e Romeu Zema (Novo), com 4% também obtêm índices modestos no segmento mais centrista do eleitorado.

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CHINA SE BENEFICIA DAS CRISES DOS EUA

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

A cúpula Xi Jinping-Vladimir Putin e os últimos movimentos de Donald Trump em relação ao Irã e a Cuba ampliaram os ganhos estratégicos da China em sua disputa por hegemonia com os EUA.

O presidente americano se vê obrigado a ceder discretamente nas negociações com o Irã, conforme se intensificam as pressões econômicas e políticas decorrentes do choque de energia causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A manutenção de um programa nuclear pacífico iraniano agora está sobre a mesa de negociações.

Para compensar a visível derrota, Trump volta a pressionar Cuba, cuja mudança de regime ele vê como um fruto ao alcance da mão – o que Binyamin Netanyahu o fez acreditar sobre o Irã.

O diretor da CIA, John Ratcliffe, reuniu-se em Havana no dia 14 com o coronel Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro e responsável pela segurança do veterano líder revolucionário, com o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas, e o diretor da inteligência cubana, Ramón Romero Curbelo.

A missão de Ratcliffe era convencê-los a abandonar o socialismo e a condição de plataforma de espionagem de China e Rússia. Três dias depois, o site Axios revelou, com base em inteligência americana, que Cuba desde 2023 adquiriu mais de 300 drones iranianos e russos para empregar contra alvos americanos.

Trump passou então a apostar na intervenção de forças especiais, sob o pretexto de capturar os denunciados pela Justiça da Flórida na derrubada de duas avionetas civis tripuladas por americanos em 1996: Raúl Castro, de 94 anos, e cinco ex-pilotos e militares cubanos.

A expectativa dos americanos é que sirva de incentivo para um racha no regime, levando ao poder militares pragmáticos dispostos a aceitar as condições dos EUA, como fizeram os venezuelanos.

As energias da projeção de poder americano estão sendo dispersas por caprichos político-ideológicos de Trump. Para castigar Friedrich Merz, para quem o Irã está “humilhando” os EUA, Trump ordenou a retirada de 5 mil dos 36 mil soldados americanos da Alemanha.

Quando o secretário da Defesa Pete Hegseth suspendeu o envio de 5 mil soldados para a Polônia, Trump o mandou rever a decisão, para premiar o presidente polonês, Karol Nawrocki, que segue a corrente conservadora, anti-europeia e antiimigração liderada pelo presidente americano. Não é um bom critério de alocação de forças militares.

Enquanto isso, Xi dispensava a Putin o mesmo tratamento que havia dado a Trump uma semana antes: ouviu os pleitos, mas não atendeu a maioria deles. O líder chinês demonstrou que não depende nem da energia russa nem dos chips americanos.

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ENTRE ESCÂNDALOS E BAIXO CRESCIMENTO

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Bandidos atrapalham, mas o pior está mesmo na economia insegura longa duração

Milhões de Vorcaro, vexames de um candidato, doações eleitorais, influenciadora ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e pressões de Trump contra Cuba encheram o noticiário da semana no País, deixando em segundo, terceiro ou quarto plano as necessidades de um Brasil ainda atolado na estagnação. A economia brasileira cresceu 2,3% no ano passado, com expansão de 11,7% na agropecuária, 1,8% nos serviços e 1,4% na indústria, um setor sem o dinamismo observado nas três décadas finais do século passado. Além disso, o avanço de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) marcou uma forte perda de impulso em relação ao ano anterior, quando o crescimento chegou a 3,4%.

Entre 2016 e 2025, a economia brasileira teve resultados negativos em 2016 e 2020, com variação de -3,3% em cada um desses anos. Crescimento acima da casa dos 3% só ocorreu em 2021 (4,8%) e 2024 (3,4%). No ano passado, o Brasil caiu da décima para a décima primeira posição entre as maiores economias do mundo, perdendo a posição para a Rússia.

Essa ultrapassagem é vista com cautela por alguns economistas e atribuída a variações cambiais. Mas a perda de impulso da economia nacional é indiscutível, assim como sua dificuldade para crescer, de forma sustentável, acima da faixa de 1,5% a 2% ao ano. Essa dificuldade é explicável, em grande parte ou mesmo principalmente, pelo insuficiente investimento produtivo, isto é, pela escassa aplicação de recursos em máquinas, equipamentos, infraestrutura e instalações – sem contar as condições ainda insatisfatórias da formação de capital humano.

Enquanto outros emergentes aplicam entre 20% e 24% do PIB na formação de capital físico, o Brasil raramente investe mais que 18% e nem sempre atinge essa porcentagem. A distância fica bem maior quando se tomam exemplos de países como China e Índia, com taxas acima de 30% de acordo com o informe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No ano passado, o investimento brasileiro ficou em 16,8% do PIB, segundo informação recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano anterior, a taxa havia chegado a 16,9%. Juros altos podem explicar, mas apenas em parte, o baixo investimento produtivo do setor privado. Convém levar em conta, além do custo do capital, a insegurança de uma economia instável e pouco orientada por planos e programas de

Mas o volume insatisfatório se completa com a participação medíocre do setor público, atribuível em parte a deficiências administrativas e a desperdício de recursos. O investimento governamental, em todos os níveis de poder, pode ser prejudicado por interesses políticos tanto pessoais quanto partidários. O dinheiro enviado às bases de parlamentares federais, por meio de emendas orçamentárias, pode ser empregado de forma pouco produtiva para o País ou mesmo para a região.

Esse tipo de investimento fragmenta o dinheiro disponível em aplicações desconectadas de qualquer plano regional e principalmente nacional. Uma revisão do conceito de emenda orçamentária poderia, talvez, aumentar a produtividade do dinheiro federal, sem eliminar o direito de participação individual dos parlamentares na destinação de recursos. Valeria a pena, provavelmente, examinar como funciona o sistema de emendas nos Estados Unidos e nas grandes democracias europeias. Não tem sentido converter em fator de desperdício a participação dos parlamentares na destinação de recursos da União.

Um processo orçamentário mais eficiente e mais eficaz poderia resultar em relevantes ganhos sociais e econômicos. Numa economia em desenvolvimento e ainda marcada por graves desigualdades entre classes e regiões, o uso mais produtivo do dinheiro público é crucial tanto para o crescimento do PIB quanto para a melhora das condições de milhões de famílias e pessoas.

A noção de “uso mais produtivo” é política e moralmente discutível, mas vale a pena, com certeza, propor o debate e examinar como se decide o emprego de meios públicos em economias mais avançadas, menos desiguais e com melhores condições de desenvolvimento individual e familiar. Seria uma oportunidade – vale a pena insistir – para se repensar, por exemplo, a dimensão e as formas de uso das emendas parlamentares. Talvez fosse possível, nesse debate, tornar mais clara, por exemplo, a distinção entre emenda orçamentária, de fato, e direito de uso de recursos públicos para objetivos mais particulares do que sociais.

Orçamento, no entanto, é assunto pouco discutido e escassamente acompanhado, no Brasil, mesmo por pessoas com razoável educação. Verbas orçamentárias saem do bolso dos cidadãos e resultam de seu esforço produtivo e, muitas vezes, de seus sacrifícios. Mas a maioria das pessoas parece pouco se preocupar, no dia a dia, com esses detalhes. Enquanto os contribuintes olham para outro lado, ocupantes de postos públicos, em todos os Poderes, ficam mais sossegados para usar o dinheiro dos cidadãos como quiserem – com ou sem benefício para quem produz, paga impostos e enfrenta os piores efeitos quando a inflação sobe, a economia emperra ou os dois desastres se combinam.

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A SEMANA DA INSENSATEZ

Míriam Leitão, O Globo

Em uma das semanas mais sombrias do Legislativo, Congresso impõe agenda de destruição ambiental e institucional

A pesquisa eleitoral chegou na sexta-feira mostrando os efeitos do abalo sísmico que atingiu o candidato da extrema direita e os dias se passaram com notícias sucessivas em torno de Daniel Vorcaro. Neste contexto, o Congresso passou a semana impondo ao país a agenda Bolsonaro no governo Lula. Na área ambiental, a Câmara aprovou medidas que reduzem o tamanho de uma estratégica floresta nacional, transferem para o Ministério da Agricultura atribuições do Ministério do Meio Ambiente, diminuem o alcance da tecnologia como parte da vigilância ambiental e abrem a porta para a destruição de campos naturais em todos os biomas.

O meio ambiente não foi o único alvo da Câmara. Numa das semanas mais sombrias do Legislativo, os deputados perdoaram as próprias dívidas eleitorais, renegociaram em 15 anos os débitos por descumprimento de leis eleitorais a serem pagos e se permitiram o disparo de mensagens em massa para assediar o eleitor. Derrubaram vetos do presidente Lula para assim permitir repasses a municípios em ano eleitoral. Autorizaram doações de bens, valores ou benefícios pela administração pública em época eleitoral. Ou seja, liberam o uso de recursos dos cofres públicos para a compra de votos. Nada disso é aceitável e certamente será derrubado no Supremo Tribunal Federal, mas cabem duas perguntas: será proibido a tempo de evitar os estragos? E, com que cara de pau o Congresso legisla em causa própria?

Era a denominada “semana do agro” e foi a da demolição ambiental. Atiraram contra a integridade dos biomas, o poder dos órgãos reguladores, o uso das ferramentas de tecnologia de defesa da floresta. O atentado em massa contra o meio ambiente foi feito no pressuposto de que fosse do interesse do agronegócio. Pode até ser comemorado pelo setor, mas fere diretamente seus interesses. Primeiro, porque desequilíbrios climáticos atingem quem depende do clima para produzir. Segundo, porque em qualquer competição por mercados no mundo atual, o critério de desempate será o respeito ao meio ambiente. País que rasga leis ambientais enfraquece a competitividade dos próprios produtores.

Há um mistério no Brasil. O secretário extraordinário do controle do desmatamento do Ministério do Meio Ambiente, André Lima, diz que o desmatamento ilegal ocorre em 1% dos imóveis rurais. “Ou seja, 99% não desmata ilegalmente, segundo dados do Ministério do Meio Ambiente e do Serviço Florestal Brasileiro”. Então por que mesmo todo o esforço legislativo é para favorecer o desmatador e o infrator? É irracional que o agronegócio mobilize sua bancada no parlamento para defender o criminoso.

O caso da Floresta de Jamanxim é emblemático. A unidade de conservação foi criada como parte do projeto de pavimentação da BR-163. Na época, o sonho era ter uma rodovia sustentável, que não fosse indutora do desmatamento. Foram demarcadas várias unidades de conservação ao longo da rodovia. Desde o começo, a floresta foi alvo de grilagem, desmatamento e invasões. Os invasores usavam o argumento de que estavam lá antes da criação da Floresta Nacional e pediram a redução do tamanho da Unidade de Conservação. O governo Michel Temer fracassou quando tentou fazer exatamente o que foi aprovado agora: transformar parte da Floresta Nacional em Área de Proteção Ambiental (APA).

— Uma Floresta Nacional é terra de domínio público e é exclusiva para manejo florestal não madeireiro. Não se permite corte raso, desmatamento. A APA é uma proteção muito frágil, voltada para a área urbana. Ela convive com exploração econômica e até com cidade, 80% de Brasília é APA — explicou André Lima.

E o que o Congresso fez agora? A Floresta do Jamanxim tem uma área de 1,302 milhão de hectares, e pelo projeto fica reduzida a 814 mil, uma queda de 37%. A APA terá cerca de 486,4 mil hectares. Ou seja, as fazendas que se instalaram lá poderão continuar criando seus bois em terra pública. Até o ex-governador do Pará Helder Barbalho, que sediou a COP, estava em Brasília comemorando como vitória essa derrota para o meio ambiente do Brasil.

Uma outra medida devastadora é a que permite a exploração econômica dos campos naturais, que dominam o Pampa e o Pantanal, mas ocorrem em todos os biomas, inclusive a Amazônia. A proposta se for aprovada no Senado coloca em risco imediato 48 milhões de hectares de vegetação. Que insensatez é esta, Brasil?

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UM PRESIDENTE, DOIS BRASIS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Livro mostra transformações do Brasil em 20 anos de eleições presidenciais

País que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002, afirma cientista político Jairo Nicolau

O Brasil que elegeu Lula em 2022 era bem diferente do que elegeu Lula em 2002. A conclusão é do cientista político Jairo Nicolau, que analisa duas décadas de disputas presidenciais em “O país dividido”.

O livro cruza dados e esquadrinha pesquisas para examinar as mudanças no perfil e no comportamento do eleitor. “Para onde quer que olhemos, veremos profundas transformações”, resume o professor do CPDOC da Fundação Getulio Vargas.

Em 20 anos, o eleitorado ficou mais velho, mais escolarizado e mais feminino. Ao mesmo tempo, uma revolução tecnológica mudou a forma de receber notícias e acompanhar campanhas. O horário eleitoral na TV perdeu importância, e milhões de brasileiros passaram a se informar — ou a se desinformar — pelas redes sociais.

Outras coisas não mudaram tanto. Nas seis eleições analisadas, o PT sempre esteve no segundo turno: venceu com Lula (2002, 2006, 2022) e Dilma (2010, 2014) e perdeu uma única vez com Haddad (2018). Já o campo antipetista mudou de cara. Nas primeiras quatro disputas, o PSDB liderou a direita com Serra (2002 e 2010), Alckmin (2006) e Aécio (2014). Nas últimas duas, foi destronado por Bolsonaro.

O autor faz uma ressalva: os tucanos tinham pouco em comum com o capitão. “O PSDB sempre foi reconhecido por suas posições moderadas e democráticas, enquanto Bolsonaro se notabilizou pelo discurso antidemocrático.”

Nicolau liga a ascensão do bolsonarismo à aposta em temas morais, como identidade de gênero e casamento homoafetivo. Isso induziu um deslocamento do grupo religioso que mais cresce no país. “Os evangélicos votaram majoritariamente no PT até 2010 e depois migraram para a direita, consolidando-se como um dos pilares de apoio a Bolsonaro em 2018 e 2022”, anota.

O professor afirma, no entanto, que o eleitorado é mais complexo do que sugere o rótulo genérico de “país conservador”. Um exemplo: a maioria rejeita a legalização das drogas e do aborto, mas aceita o casamento e a adoção por casais homoafetivos.

A demografia também ajuda a entender as urnas. Nas últimas duas eleições, cresceu a distância entre o voto feminino e o masculino. As mulheres apoiaram mais o PT, e os homens aderiram em peso a Bolsonaro. No corte por raça, os pretos votaram mais na esquerda, e os brancos, na direita. A escolha dos pardos tendeu a acompanhar o resultado geral da eleição.

O cientista político evita avançar o sinal na interpretação dos dados. Ao examinar a votação por escolaridade, assinala a migração para a direita dos eleitores com ensino médio, mas evita cravar uma razão para o fenômeno. “Só pesquisas qualitativas mais detalhadas poderão responder”, pontua.

O livro mostra que fazer boas perguntas pode ser mais produtivo que repetir as teses da moda. Na visão de Nicolau, faltam elementos para afirmar que o país estaria rachado em duas metades cristalizadas e irreconciliáveis. “A polarização brasileira pode ser mais episódica, personalizada e potencialmente reversível”, alerta.

Para ele, não há garantia de que a dinâmica das últimas eleições se repetirá de 2030 em diante. “Em outras palavras: quanto dessa divisão deriva da força das figuras de Lula e Bolsonaro — e quanto sobreviverá na ausência delas?”, questiona.

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FANTASMAS DO PASSADO

Merval Pereira, O Globo

Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo “o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita, verdadeira, dele mesmo

Todo governo “faz o diabo” para continuar no poder, como já admitiu a ex-presidente Dilma Rousseff, e essa é uma das várias razões para que a reeleição seja muito contestada, tanto aos governos regionais quanto à presidência da República. Lula, assim como Bolsonaro fez, está fazendo “o diabo” com o dinheiro público, e se arrisca a receber uma herança maldita, verdadeira, dele mesmo. Já a eleição para a Câmara e o Senado obedece a uma outra concepção. Quase ninguém lembra em que candidato votou na última eleição, e o que funciona mesmo são as máquinas eleitorais regionais que, na maioria das vezes, não coincidem com quem está no comando nacional.

Mesmo que o partido do presidente da República eleja as maiores bancadas, dificilmente conseguirá uma maioria no Congresso que lhe permita governar sem grandes problemas. A coalizão partidária surge como uma maneira de unir partidos em torno do vencedor nacional, mas quando esse presidente eleito tem mais prestígio popular que parlamentar, ou ele abre mão de parte de seus poderes, ou vai ser chantageado politicamente a cada decisão importante que quiser implementar. O presidente da República é visto pela população como o grande chefe político do país, mas, ao votar, não consegue fazer a ligação desse ato com a consequência dele advinda.

Recentemente, o Congresso conseguiu, depois de anos de um trabalho persistente, avocar para si uma parte importante do orçamento, e está livre do controle do Presidente da República. Por isso, ao contrário do parlamentarismo, o presidente hoje já não tem os poderes de antigamente, embora o voto continue sendo personalíssimo. O que está acontecendo hoje no país é exemplar dessa situação anômala.

Os dois mais populares líderes políticos, o presidente Lula e o ex-presidente Bolsonaro, e também os mais rejeitados, disputam mais uma vez a presidência da República. Com Lula na cadeia e Fernando Haddad como candidato do PT contra Jair Bolsonaro, este último venceu a eleição. Em seguida, com Lula já devolvido à vida partidária por decisão do Supremo Tribunal Federal, Bolsonaro foi derrotado. Agora, a situação se inverte e Bolsonaro, preso, coloca seu filho para disputar a presidência com Lula. Não é uma sequência animadora, mais parecemos uma republiqueta de banana revezando seus populistas preferidos.

Na prática, porém, as instituições democráticas vêm funcionando razoavelmente bem, embora, mais frequentemente do que seria razoável, elas tratem mais dos interesses pessoais de seus membros do que do interesse da Nação. Mas, tentemos ser otimistas, e pensemos na possibilidade de uma saída para nossos graves problemas a partir da próxima eleição. Se Lula aproveitar essa brecha que surgiu com o escândalo do Banco Master caindo no colo do bolsonarismo, poderia encaminhar uma solução pragmática para a condução econômica, e colocar em prática um verdadeiro governo de união nacional.

Mas é difícil que o PT aceite uma ampliação do espaço político de quem considera inimigo. Nem mesmo na dificuldade absurda, como aconteceu no segundo governo de Dilma Rousseff, quando ela teve que convocar Joaquim Levy para o ministério da Fazenda, o PT aceitou perder alguns anéis e acabou perdendo os dedos, com o impeachment da presidente. Já a situação do escolhido pelo clã Bolsonaro parece mais complicada com a revelação do diálogo entre ele e Vorcaro, e a falta de explicações sobre onde foi parar o dinheirão para supostamente financiar uma hagiografia de seu pai.

Para se recuperar, Flavio Bolsonaro fez uma movimentação audaciosa, e conseguiu ser convidado por Trump para ir a Washington. A visita de Lula a Donald Trump foi vista como um sucesso da relação dos dois. Trump elogiou Lula depois do encontro e foi por água abaixo a tese de que se ele ganhasse, os EUA ficariam contra o Brasil. A candidatura de Flavio Bolsonaro foi atingida, mas não inviabilizada. Não há sinais de que outros candidatos da direita tenham se beneficiado da fragilidade de Flavio. Mas há muito mais fantasmas a aparecer para assombrar ambos os candidatos.

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A DIFÍCIL ARTE DA FRENTE AMPLA

Luiz Sérgio Henriques, O Estado de S. Paulo

Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista, uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da ampla coalizão democrática

Um mergulho no imaginário das esquerdas, em plena modernidade, permite identificar a questão recorrente de alianças e frentes. Com quais aliados contar para reformar o capitalismo, segundo os socialistas, ou para derrubá-lo, segundo os comunistas? A relação entre esses dois irmãos-inimigos atravessou boa parte do século passado, apontando o caminho seja de derrotas fragorosas, seja de momentos de resistência e avanço.

O feroz antagonismo entre os irmãos assumiu tons retóricos contundentes. Por um lado, os comunistas eram acusados de ser adeptos de soluções violentas, inviáveis no Ocidente político; os socialistas, por seu turno, não passariam de traidores da revolução, quando não de fraudulenta ala “social” do fascismo.

Esse confronto, que facilitaria a ascensão do fascismo e do nazismo, só teria um primeiro remédio com as frentes populares dos anos 30. É que, além de unificar os dois ramos do movimento operário, elas se abriram a outras tradições incontornáveis, como o catolicismo político, o socialismo liberal e o republicanismo. Quanto mais amplas, maior o potencial democrático, prefigurando as forças aliadas vitoriosas na guerra que se seguiria.

Situações desse tipo não se limitavam a uma parte do mundo. Sob outras formas, mostravam-se também num Brasil em processo de modernização. Os anos 30, entre nós, viram o confronto entre integralistas e comunistas – sob o olhar implacável de Vargas. Inserida no amplo guarda-chuva da Aliança Nacional Libertadora, a esquerda comunista contribuiria para “o maior movimento popular do País, o mais charmoso e encantador”, segundo Ruy Castro, cuidadoso biógrafo da vida cotidiana de um Brasil em mutação (Trincheira tropical, Companhia das Letras). Encerrada em si mesma, tomando a nuvem por Juno, aquela esquerda se perderia numa aventura militarista nascida para fracassar.

Três décadas depois, a modernização inconclusa ganharia impulso com uma segunda ditadura, não casualmente chamada de “o Estado Novo da União Democrática Nacional (UDN)”. Liberais e democratas, até alguns que apoiaram o regime no momento inicial, coerentemente se afastaram, fiéis ao seu compromisso doutrinário.

Entre os opositores mais declarados, duramente perseguidos, se renovaria a estratégia de frente – o imaginário dos anos 30 era, efetivamente, duro de morrer. E os comunistas do Partido Comunista Brasileiro (PCB), talvez marcados a ferro e fogo pela memória do putsch de 1935, logo formularam a ideia de uma frente ampla, pacífica e democrática. O regime haveria de ser derrotado pela política, não pelas miragens da guerrilha urbana ou da guerra popular prolongada.

A formulação era exata, como foi comprovado pela tortuosa marcha dos fatos, mas a força que a apresentara vivia um declínio irreversível. Havia sabedoria na “moderação na adversidade”, bem como na convicção de que buscar o centro político não implicava fazer a política de um centro sem alma. A ação prática era a mais adequada, mas tinha como limite a visão de mundo própria de quem nascera sob o signo da revolução dos sovietes e dele não se libertara. Ficou, no entanto, uma semente frágil – a ideia de que a democracia “burguesa” devia perder de vez o adjetivo desabonador e, ao contrário, afirmarse como “valor universal” ou “permanente”.

Quase quatro décadas à frente, a estrutura do mundo – e do nosso país – tomou rumos inesperados, eis que a História costuma ser dama inconstante. Vivemos agora no coração da pós-modernidade ou da hipermodernidade. Discussão conceitual à parte, o fato é que entre os especialistas, com raras exceções, generalizou-se o tema da “recessão democrática” e da corrosão interna de algumas das mais tradicionais sociedades abertas.

No nosso canto do mapa, é certo que, em 2018, o Brasil “dobrou à direita”, para usar a expressão de Jairo Nicolau, e ainda hoje se vê às voltas não com uma direita democrática – fundamental para a normal alternância de forças no poder –, mas com outra que se convencionou chamar de “iliberal” ou “antiliberal”.

Essa qualificação revela que o alvo bem nítido dos distintos autoritarismos contemporâneos são os variados mecanismos propriamente liberais que limitam a concentração autocrática do mando. A soberania popular, toscamente invocada (“só o povo é supremo”), encarna-se contraditoriamente na figura do líder com permissão para atropelar todas as regras (“eu autorizo”), inclusive procedimentos eleitorais. O demos, aqui, é massa de indivíduos controlados pelo alto – uma circunstância que faz lembrar os acontecimentos de um século atrás.

Mais uma vez, e por toda parte, a esquerda pós-comunista, uma mancha ainda indecisa de tendências díspares, depara-se com o enigma da ampla coalizão democrática. Para decifrá-lo, deve ter a ambição de assimilar criticamente os pontos fortes do liberalismo. Fincar pé nas próprias verdades e fechar-se ao debate/embate com essa e outras correntes significa comportar-se como alma bela. Mais do que isso, significa desistir da reconstrução de um horizonte comum, composto de luta e conciliação, afirmação de interesses particulares e preocupação com a casa de todos. 

*Tradutor e ensaísta, coeditor das ‘Obras’ de Gramsci no Brasil

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JOGOS NADA OLÍMPICOS EM LAS VEGAS

Dorrit Harazim, O Globo

Atletas se submeteram a um intensivão de treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico

Começa hoje em Las Vegas um experimento humano criado por um punhado de venture capitalists obcecados em retardar a finitude da vida — no caso, a deles em primeiro lugar. Batizado por seus fundadores de Enhanced Games (algo como jogos aprimorados, ou turbinados), o experimento em forma de competição esportiva reúne 50 atletas de alto rendimento que disputarão provas de atletismo, natação e levantamento de peso. Mas apenas as modalidades mais extremas e cintilantes desses esportes: a corrida de 100m rasos, os 50m e 100m nados livre e borboleta e o levantamento de até 510 quilos. Tudo movido a um inédito regime de doping declarado, com premiação milionária aos atletas-cobaias.

Para os financiadores do projeto, trata-se de acelerar a expansão da economia, com suas startups voltadas à extensão da vida, embrulhar o pacote num espetáculo esportivo macho alfa e levar os espectadores a consumir os milagrosos produtos que haverão de ser anunciados.

Ao longo dos últimos três meses, 37 dos 50 atletas admitidos para a competição se submeteram a um intensivão de treinos e doping individualizados, sob supervisão de um corpo médico contratado pela organização. Confinados num resort cinco estrelas em Abu Dhabi, voluntariam seus corpos para o experimento com testosterona, esteroides anabolizantes, drogas de crescimento como HGH e EPO, moduladores metabólicos, hormônios, estimulantes como Adderall — tudo o que é proibidíssimo em olimpíadas, mundiais ou pela sempre fraudada ética da competição limpa.

O que leva um atleta de alto rendimento a participar desse evento quando sabe que estará automaticamente barrado de qualquer olimpíada ou competição esportiva convencional? O dinheiro. Além do dinheiro, a chance de compensar os muitos anos de treino inglório. E a permanente suspeita de doping não detectado, ou detectado tardiamente, em determinadas delegações.

Tome-se o exemplo do nadador greco-búlgaro Kristian Gkolomeev. Em três olimpíadas recentes (Londres, Rio, Japão), ele quase chegou ao pódio nos 50m nado livre. Treinou mais quatro anos para Paris 2024, mas novamente perdeu a medalha de bronze por 0,03 segundo. Estava com 30 anos, um filho pequeno e diante de uma vitória cada vez mais fugidia. Fez as contas e percebeu que, somados seus rendimentos com o esporte ao longo de 14 anos, ganhou menos do que se tivesse trabalhado num McDonald’s.

Pois bem, em fevereiro de 2025, Gkolomeev havia se juntado à turma do Enhanced Games e nadou turbinado por um coquetel medicamentoso, enfiado num maiô inteiro de poliuretano, que reduz o atrito na água e está proibido desde 2010 pela Federação Internacional de Natação (Fina). Longe dos holofotes e da homologação oficial, bateu o recorde mundial que já durava 16 anos por 0,02 segundo. Foi recompensado com um cheque de US$ 1 milhão. De lá para cá, o mesmo recorde foi novamente batido, sem doping, pelo australiano Cameron McEvoy em evento na China não homologado pela Fina. Não recebeu um tostão.

A expectativa maior em Las Vegas estará na prova outrora considerada a mais pura, bela, clara, primal, universalmente compreensível e intuitiva a qualquer bípede: a corrida de 100m rasos. O jamaicano Usain Bolt fez dela uma arte, transformou-a em cultura, imortalizou-a na marca de 9s58, com seu corpo estalando de sadio. Para o australiano Aron D’Souza, um dos fundadores do Enhanced Games, o queixo do mundo haverá de cair quando ficar provado que o Übermensch em produção nos laboratórios das startups é melhor que o ser humano natural.

Quem mais está na origem do experimento? O cavernoso Peter Thiel, é claro, com sua obsessão transumanista que tantas vezes já se revelou anti-humanista. E Donald Trump Jr., sempre à espreita de um novo negócio, além do rei da biotecnologia alemã Christian Angermayer, e do príncipe saudita Khaled bin Alwaleed Al Saud. Cripto brothers também não haverão de faltar, assim como a Big Pharma, de olho em novas fronteiras de pesquisa. Bryan Johnson, outro multimilionário associado aos Enhanced Games, sustenta que, aos 48 anos, consegue manter a mesma idade biológica de seus anos de juventude. Será o comentarista da transmissão, sob medida para vender o sonho da juventude eterna e da virilidade indomável. Só faltou Elon Musk, cujos 14 filhos foram gerados para garantir a reprodução de seus genes. Em suma, o retrato da elite que comanda o mundo de hoje.

O show de encerramento do experimento estará a cargo da banda The Killers. Tudo a ver.

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QUEM SERÁ O JAIR DE 2026 ?

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Jair Bolsonaro foi beneficiário dos escândalos em 2018, quem será o dos escândalos de Flávio em 26?

Mesmo atualizados, os valores atribuídos ao triplex de Lula e ao empréstimo de Aécio não chegam aos pés dos milhões de Flávio

A inflação dos escândalos de presidenciáveis disparou de forma estratosférica em menos de dez anos, se comparados os valores envolvidos na prisão de Lula e nos pesadelos de Aécio Neves com os atuais de Flávio Bolsonaro, que mente, desmente e insiste na pré-candidatura à Presidência, mas abre uma janela de oportunidades para a direita tradicional.

Lula passou 580 dias preso no Paraná por um triplex no Guarujá que não estava em seu nome e onde não morava, nunca tinha morado e nunca iria morar. Por quanto o imóvel foi leiloado na Operação Lava Jato? Por R$ 2,2 milhões.

Já a mansão de Flávio Bolsonaro em Brasília, com 1,1 mil m2, deixa um cheiro de dúvida sobre a origem do dinheiro e vem no rastro dos mais de 100 imóveis adquiridos pela família, 51 deles pagos em dinheiro vivo. Quanto custou? R$ 6 milhões.

Detalhes: a casa teve empréstimo com juros e prazos praticamente inéditos do... BRB, agora no fundo do poço por negócios suspeitos com o Banco Master, e, sabe-se lá por que (ou será que se sabe?), o registro da compra foi num cartório na periferia pobre da capital.

Aécio, então senador e presidenciável, caiu em desgraça, arrastou junto o PSDB e o centro e beneficiou Jair Bolsonaro em 2018, com a gravação em que pedia um “empréstimo” a Joesley Batista, da JBS, para pagar advogados.

Jair Bolsonaro foi beneficiário dos escândalos em 2018; quem será o das denúncias em 2026?

Quanto? R$ 2 milhões.

Agora, Flávio Bolsonaro é gravado pedindo ao “mermão” Daniel Vorcaro uns trocados para dar de presente um filme-apologia ao papai Jair, com o título “Dark Horse” que pode soar como “cavaleiro da escuridão”. Quanto mesmo? R$ 134 milhões.

O valor é maior do que os dos premiadíssimos “Ainda Estou Aqui” e “O Agente Secreto” – somados! E foi parar nas mãos da produtora Go Up Entertainment, da jornalista Karina Ferreira da Gama, que, segundo a coluna de Malu Gaspar, nunca fez um filme no Brasil ou no exterior. E o ator americano esquisitão com peruca de camelô?

Mesmo atualizando os valores, os R$ 2,2 milhões do triplex de Lula não chegam aos R$ 6 milhões da mansão de Flávio e os R$ 2 milhões de Aécio estão a anos luz dos R$ 134 milhões do “Dark Horse”. A candidatura de Flávio se mantém de pé?

Os escândalos de Lula, Aécio e, de quebra, a rápida e hiper dimensionada fala de Michel Temer para Joesley – “Mantém isso aí, viu?”, que quase lhe custou o mandato – desnortearam o eleitorado, oito anos atrás. A situação se inverteu.

Se as denúncias contra o centro decidiram 2018 em favor de Bolsonaro, as de Flávio viram trunfo de Lula, dividem a direita e deixam 2026 em aberto. Jair foi beneficiário dos escândalos de 2018, quem será o dos escândalos do 01 em 2026?

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VAI, VAI, VAI, VAI... NINGUÉM SEGURA NÃO !

O ano era ... 1986,  Zé Prado já consagrado como líder político, mais uma vez concorre a uma vaga na Assembleia Legislativa do Ceará.

As campanhas de Zé Prado eram marcadas por alguns pontos primordiais, como: respeito, honestidade e alegria. Até seus adversários o respeitavam.

Zé Prado era todo simples e isso servia como uma ponte entre ele, o homem do sertão e o da cidade que se identificavam com o “Zé dos pobres”.

A alegria ficava sob a responsabilidade do amigo fiel e compadre, Pedro Lavandeira que comandava o Pipocão e emocionava a todos com suas músicas feitas para as campanhas de Zé Prado. Um dos maiores sucessos da campanha de 1986, foi o jingle Vai, vai, vai, vai ninguém segura não!

Para as centenas de fãs e eleitores pradistas, até hoje essas músicas nos levam a uma doce saudade das campanhas pradista, sob a batuta do maestro Pedro Lavandeira.

A vitória de Zé Prado como deputado mais votado na zona norte do estado representou para o ‘povão’ – que sempre esteve ao lado dele – como chuva no roçado do agricultor, uma extrema felicidade.

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O PAÍS DIVIDIDO


Da Companhia das Letras

SOBRE O LIVRO

Uma radiografia das forças que moldaram o comportamento eleitoral no país nos últimos vinte anos de eleições presidenciais e nos trouxeram à polarização atual. Ao longo de duas décadas, o Brasil se transformou demográfica e socialmente, com mudanças que refletiram de maneira profunda nas urnas.

Contextualizando a história política nacional no período, o cientista político Jairo Nicolau analisa o que mudou no perfil do eleitorado; quem deixou de comparecer às urnas; as alterações nas bases sociais de votação do PT e da direita ao longo do tempo; o papel da religião e dos valores morais nas disputas; e a evolução da polarização, que ganhou centralidade no debate.

Como diz o autor, "o Brasil que elegeu Lula em 2022 não era o mesmo que o elegeu em 2002. Entender essas transformações não resolve os debates sobre o futuro da democracia brasileira, mas oferece um ponto de partida empiricamente fundamentado para essas discussões."

"Há resultados esperados, como a inclinação dos evangélicos à direita; outros surpreendentes, como a inegável preferência das mulheres, hoje maioria do eleitorado, pela centro-esquerda. O texto, embora alimentado por muita estatística, tem clareza e simplicidade, próprias da competência. Mais um belo livro do mestre Jairo." - Maria Hermínia Tavares de Almeida

 

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sábado, 23 de maio de 2026

COMO O JAIR DE 'DARK HORSE', FLÁVIO BOLSONARO ESTÁ A ESPERA DE UM MILAGRE

Angela Alonso, Folha de S. Paulo

Filme financiado por Vorcaro propagandeia liberalismo radical, embaralha fatos e ficções e esquece o filho 04

Manifestações pró-Mito são a única referência ao 8 de Janeiro; não espere oração para pneu nem patriota do caminhão

Flávio B. deve estar pedindo misericórdia aos céus. Depois dos chocolates, malogrou no cinema e periclita na política. O perrengue da vez veio de Raleigh, na Carolina do Norte, a terra escravista da qual o roteiro de "Dark Horse" é assinado.

O título alude àqueles tempos por repetir o de livro sobre o reformista James Garfield. Levado à Presidência graças ao racha no Partido Republicano (que fez a abolição) em 1881, levou bala no primeiro ano de governo. Seu assassinato virou série da Netflix. Já a facada em Bolsonaro deu filme. A semelhança acaba aí. Nos dois casos, há um azarão, mas o segundo faz também jus ao apelido juvenil: Cavalão.

É um filme descomplicado, mas faz vários serviços. Propagandeia um liberalismo radical. Jair-ator pragueja contra "socialistas, trabalhistas, comunistas": "Vou deixar você em paz —e proteger você— para que o que você construiu não seja roubado". Programa anti-Estado, prática patrimonialista: "Dark Horse" veio do mesmo mundo do qual saíram as festas de Daniel Vorcaro, regadas a prosecco e recursos públicos. Ali, políticos bolsonaristas e empresários fizeram amizades e negócios. Por que não um filme?

O enredo é nacionalista, mas o "a Amazônia é nossa" vem redigido em inglês e por estrangeiros. A conjuntura nacional se reduz à meia dúzia de eventos na abertura: fim da ditadura, "levantes comunistas/socialistas", eleição e prisão de Lula, derrota na Copa do Mundo por 7 a 1, eleição de Bolsonaro.

A política é tripartite: há o "Far Left Progressives" ("vermelhos"), o "Ruling Party" (corrupto) e o antissistema. Os "socialistas radicais" aparecem na tramoia para matar Bolsonaro.

É um filme pró-família, mas família à moda do Jair. Flashbacks constroem sua persona de "alto e bonito", sedutor e desbocado. Sua origem é clã de machos. Desenha-se um capitão que prende traficante (e minimiza-se sua ida para a reserva do Exército). Depois, vem o casamento romântico com a "linda" Michelle e se materializa o pai rigoroso, mas amoroso, de Laura e três zeros (esqueceram o 04!).

Bolsonaro é um escolhido de Deus. Além das preces do casal e de seguidores, há uma senhora humilde que provê pílulas salvadoras. Assim se explica o "milagre" da sobrevivência pós-atentado. Nas paredes do hospital estão "Pietà" e "A Ressurreição de Lázaro". No hospital, Bolsonaro, como Lázaro, se levanta e anda até os braços do povo, enquanto os planejadores do atentado são mortos.

É uma drama de inadvertidos efeitos cômicos. Há a peruca fora de lugar do protagonista, o "papai" de Carluxo salpicado no enredo e uma mescla de português e espanhol: a milagreira se chama Dolores, o bandido toma "cerveza" e, em vez do "seu Jair" da averiguadora da tornozeleira, temos o "senhor Bolsonaro".

A narrativa embaralha fatos e ficções. Amaina, sem negar, o politicamente incorreto, como o ataque a Maria do Rosário. O preconceito some na cordialidade —amigo de um negro, simpático com enfermeiro gay.

A fabulação cresce ao longo do roteiro, desclassificando os inimigos: a imprensa é inescrupulosa e esquerdista, o "Ruling Party" é quem arma complôs para matar o Mito. Tecem-se suspeitas sobre o resultado eleitoral de 2022. Um possível ministro do STF calvo e um empresário-traficante (o mesmo preso pelo capitão) mancomunam-se. É a apoteose da teoria da conspiração.

A única referência à tentativa de golpe de Estado são manifestações pró-Mito "em todo o Brasil, em sua maioria pacíficas". A sentença do STF condenando Bolsonaro vem no final. Não se espere mais que isso sobre o 8 de Janeiro, nada de oração para pneu nem patriota do caminhão.

"Dark Horse" é maniqueísta como o bolsonarismo: há bons e maus, fortes e fracos, nós e eles. Bolsonaro é pintado como vítima do "sistema" à espera de um novo milagre. Mas quem agora precisa dele é o 01. A santa Dolores não opera livramentos na vida real, e a "linda" Michelle já encomendou a alma do enteado: "Pergunta para o Flávio".

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FLÃVIO BOLSONARO, ENTRE A POLÍCIA E A POLÍTICA

Demétrio Magnoli, Folha de S. Paulo

Colapso da narrativa anticorrupção é a ameaça mais grave à candidatura

Com Vorcaro como fonte provável das revelações, corrida eleitoral se abre para o inesperado

Desde a divulgação de seus pactos com Vorcaro, Flávio Bolsonaro enfrenta um duplo dilema. Numa ponta, a investigação policial e judicial; na outra, o colapso de uma narrativa política. No crítico estado atual do STF, o segundo representa ameaça mais grave.

Provocada, a PGR autorizou a PF a seguir o dinheiro. Tudo ali é suspeito: os valores multimilionários associados ao filme; o papel dos dois irmãos na gerência da transação; o trajeto alegado da grana, via um fundo gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro; o suposto sigilo contratual absoluto sobre a participação do Master no patrocínio da obra. Crimes possíveis: lavagem de recursos do Master e financiamento da aventura americana do 03.

Das rachadinhas a Hollywood, Flávio percorreu um longo caminho financeiro sem sair de seu lugar ético. Contudo, a verdade completa depende da quebra dos sigilos bancário, fiscal e telemático do 01 e do 03. A PGR solicitará? O STF dará esse passo?

Flávio não está sozinho nos negócios nebulosos com Vorcaro. A rede estende-se pela elite política, da direita à esquerda, e alcança ministros do STF. A PGR e o próprio tribunal ignoraram olimpicamente as transações suspeitas de Toffoli e Moraes com o Master e seu emaranhado de fundos intermediários. Como quebrar os sigilos de um candidato à presidência sem, ao menos, deflagrar uma investigação formal sobre os ilustres juízes de capa preta?

No registro político, o cenário é outro. Os R$ 61 milhões repassados por Vorcaro à irmandade dos Bolsonaro destinavam-se a comprar proteção, não a financiar um filme do gênero hagiográfico. "Estou e estarei contigo sempre" –a promessa de Flávio ao escroque configura um contrato mafioso. À sua sombra, desaba a campanha bolsonarista, apoiada na equação "o Pix é nosso; o Master é deles".

Uma entrevista à GloboNews escancarou as mentiras de Flávio sobre suas relações com Vorcaro. As perguntas devastadoras partiram da jornalista Malu Gaspar, aquela mesma que se tornara alvo da difamação da rede petista pelo "crime" de expor o contrato do Master com a esposa-sócia de Moraes. Os efeitos não tardaram.

Duas pesquisas oferecem pistas sobre a derrocada. O Datafolha anterior aos áudios indicava empate numérico no segundo turno. Já a sondagem Atlas/Intel, imediatamente posterior, indicou 48,9% para Lula contra 41,8% para Flávio. O eleitorado tem memória curta? Talvez, mas será lembrado de cada palavra do candidato mentiroso ao longo da campanha. Suspeito que, com a sedimentação da história, desapareça a hipótese de triunfo da candidatura do 01 num segundo turno.

A família golpista encontra-se na encruzilhada. Pode seguir a seta que aponta a via da derrota a fim de conservar seu monopólio sobre a direita. Nessa hipótese, preservaria o padrão de polaridade que interessa aos dois polos e congela a política nacional, prendendo o futuro na caverna do passado. Alternativamente, pode curvar-se à pressão dos aliados políticos e, imitando a noiva proverbial, lançar aos ares o cobiçado manto do anti-Lula.

A lógica sugere que a fonte original das revelações divulgadas pelo Intercept Brasil é o próprio Vorcaro. Da prisão, o financista piramidal ensaia sua vingança e emite um alerta para os "traidores". Avisa que tem mais balas na agulha. A corrida eleitoral abriu-se para o inesperado.

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