quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PAPAI, POR QUE VOCÊ VOTOU NO HITLER ?

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

No Dia das Crianças, livro de Didier Daeninckx vale para toda a família

A banalidade do voto, a responsabilidade e a cumplicidade na linguagem infantil

Em 5 de março de 1933, Otto, garoto de 5 anos, vê seus pais discutindo. A mãe repudiava o voto do pai no dia da eleição. O pai, com medo da crise econômica no país, aponta as promessas de emprego e prosperidade de seu candidato.

O líder prometia ordem e trabalho, o resto era menos importante. As ameaças, as propostas, o ódio, tudo era periférico. "Papai dizia que era preciso que as coisas mudassem."

Ao longo do livro, Otto testemunha os efeitos do regime apoiado por seu pai. Vizinhos desaparecem, livros queimados, censura, um primeiro campo de concentração para homossexuais, ciganos, judeus, pessoas com deficiência. Até que chega a tragédia familiar: nasce sua irmã, bebê com deficiência mental, alvo das políticas de eugenia do governo que seu pai ajudou a eleger.

A história ilustra o processo rápido e violento de radicalização pela perspectiva da família, pelos olhos de uma criança. Mostra a preocupação com conveniências imediatas do pai, rejeitadas pela mãe.

Ilumina a banalidade do voto que incentiva a força mais sociopática naquela comunidade. Não era um voto ideológico, apenas desespero e ressentimento, crente em soluções mágicas. O autoengano, a subestimação do risco, a cumplicidade. A miopia de curto prazo. O líder lhe deu uma explicação da crise, um culpado.

Otto nunca faz ao pai a pergunta do título ("Papai, Por Que Você Votou no Hitler?", de Didier Daeninckx, tradução de Julia Simões, Ed. Cecerelê). Ela ecoa no silêncio da casa, na sua incapacidade de entender e verbalizar a incongruência entre o voto do pai e o som ao redor.

Otto não julga, apenas sobrevive. E expõe a maior crueldade do voto extremista: atinge a família e deixa legado para o futuro. O pai, homem de bem, ignora sinais. Jornais também ignoram e não nomeiam o horror. Ele não sabia que poderia atingir a própria filha, cuja existência o regime não atribuía valor.

Analistas sabichões podem dizer que o livro não passa de um exemplo da "Lei de Godwin": à medida que uma discussão se estende, aumenta a probabilidade de surgir uma comparação com Hitler. Mike Godwin, que deu nome a essa "lei", se referia a abusos hiperbólicos, não à possibilidade de qualquer comparação com o nazismo. Ele próprio afirmou: "É ok comparar Trump com Hitler. Não me deixe impedi-lo".

Richard Hamilton, no livro "Quem Votou em Hitler?", mostrou que o voto no partido nazista crescia conforme aumentava o nível econômico. Milton Mayer, em "Eles Pensavam Que Eram Livres: Alemães Entre 1933-1945", mostra como cidadãos comuns vão ignorando perdas graduais nas liberdades até ser tarde demais.

A imagem viral que marca a comemoração do resultado eleitoral de domingo no Brasil foi a de um menino com camisa do Brasil dançando no capô de um carro segurando uma arma.

Essa a enormidade da barganha: você entra na mesa de negociação com pedido de ajuste fiscal. O outro lado promete atender, sem explicar como. Só cobra armar crianças, intimidar professores, jornalistas e artistas; descredibilizar médicos, discriminar homossexuais, desproteger mulheres; explodir o clima, enriquecer a família, legitimar a incivilidade gratuita e liberar recursos nacionais para país estrangeiro.

Ignorar a Constituição. E você diz sim, negócio fechado.

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MUITOS BOLSONAROS PARA UM BRASIL SÓ

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Dos 20 Bolsonaros que concorreram, 13 se elegeram ou ficaram como suplentes já no aquecimento

Hélio Negão, fiel Bolsonaro cenográfico, não pôde concorrer como Hélio Bolsonaro e perdeu

Foi a vitória de Deus, da pátria e da família Bolsonaro. Deus ainda terá de aguardar para saber com o que será aquinhoado —a promoção, talvez, da praça dos Três Poderes para a dos Quatro Poderes. A pátria nem imagina o que a espera, mas já decidiu que será bom para ela também. E a família já se garantiu —dos 20 Bolsonaros que concorreram às eleições, 1 aguarda o segundo turno e 13 se elegeram ou ficaram como suplentes, já no aquecimento para entrar em campo. As demais famílias brasileiras continuam onde estavam, vivendo através das redes sociais.

Jair Bolsonaro, sem sair de casa, provisoriamente atado a um pé de mesa por uma tornozeleira eletrônica, emplacou o filho Flávio Bolsonaro, na boca para a Presidência; a mulher, Michelle Bolsonaro, senadora; outro filho, Carlos Bolsonaro, também senador; mais um filho, Jair Renan Bolsonaro, deputado federal; e até um irmão, Renato Bolsonaro, também federal. Uma bancada que só não se reunirá para um churrasco familiar porque madrasta e enteados se odeiam e não será surpresa se ela partir para voo solo.

Rogéria Bolsonaro, ex-mulher de Jair Bolsonaro, ficou na suplência para federal no DF. Se Flávio Bolsonaro for presidente, fará de um deputado eleito o chefe do armário de vassouras do Planalto e abrirá a vaga para a sua mãe. E, suplentes como ela, mas para os Legislativos regionais, Eduardo Torres, irmão de Michelle Bolsonaro, e Marcelo Bolsonaro (primo de Jair Bolsonaro) e sua esposa, Valéria Bolsonaro. Os Bolsonaros são muitos para um Brasil só.

Vários Bolsonaros avulsos, parentes ou não, também se elegeram ou foram para o banco em disputas locais, como Fabiana Bolsonaro e Samanta Bolsonaro (SP), Jean Bolsonaro (RJ), Joel Bolsonaro (RS) e Fã do Bolsonaro (PR). Inapelavelmente derrotados, só Freitas Bolsonaro (ES), Helio Rodrigues Bolsonaro (TO), Renata Bolsonaro (SP), Rodrigo Bolsonaro (RN), Bolsonaro Sergipano (SE) e Bolsonaro da Shopee (MT).

Hélio Negão não pôde concorrer como Hélio Bolsonaro. Perdeu. Logo ele, fiel Bolsonaro cenográfico.

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FLÁVIO ASSUME O SOBRENOME AO REVELAR SEU PROGRAMA

Igor Gielow, Folha de S. Paulo

Plano de mudança constitucional, da lei penal e de mandato não havia sido mencionado em público

Fazer proposta é legítimo, mas levanta suspeita de ser mistura de golpismo bolsonarista e Trump 2.0

Quando chegou ao poder em 2019, Jair Bolsonaro prometia uma revolução contra o que chamava de sistema, um ente etéreo e útil como alvo de críticas por radicais à direita e à esquerda.

O deputado acreditava ser possível moldar a política brasileira a seu gosto apenas com os votos que recebera.

Politicamente, mostrou-se desdentado, amparado por uma amálgama de militares, aderentes de ideologias exóticas e boa vontade do dito mercado, enquanto isso foi lucrativo.

A debacle na pandemia mostrou a extensão de seu despreparo, e a crise militar de 2021 o colocou em uma rota de radicalização que explodiu no 7 de setembro daquele ano. Acuado pela reação à sua apoplexia golpista, Bolsonaro cedeu enfim ao centrão que tanto criticava.

Quase reelegeu-se com o novo arranjo, no qual seu chefe da Casa Civil Ciro Nogueira (PP), hoje mais conhecido por ser o político mais próximo de Daniel Vorcaro, era a estrela maior. Veio a trama golpista, seu fracasso e a ida de Bolsonaro para a prisão.

Lula (PT) começou o governo sob o signo do 8 de Janeiro e sua aliança com o Supremo ante um Congresso hostil, uma combinação eleitoralmente tóxica até aqui. Mas a turbulência provocada pelo Executivo cessou, sendo substituída só neste ano pela confusão no Judiciário.

Entra em cena o príncipe herdeiro do bolsonarismo, o primogênito Flávio. Sua campanha de primeiro turno foi marcada pela ausência de algo parecido com um programa de governo, e deu certo.

Bafejado pelo primeiro lugar na primeira rodada e pela nova configuração política do país, Flávio Bolsonaro enfim parece assumir seu sobrenome. Dois dias depois da votação, começou a falar como eleito e abrir o jogo acerca de forma mais concreta.

Disse na terça-feira (6) que queria "redemocratizar o Brasil". Nesta quarta (7 ), sugeriu o que seria isso: reformar a política, o Judiciário, a Constituição, a lei penal e, de quebra, ver estendido o mandato presidencial às expensas da reeleição.

Fazer tais propostas é legítimo, e elas estavam citadas genericamente em seu plano de governo protocolado na Justiça Eleitoral. Mas o histórico golpista do bolsonarismo leva a suspeitas imediatas acerca das intenções de Flávio.

O que ele quer dizer por reforma do Judiciário, por exemplo? Até aqui, pelo proferido por ele e seus aliados, a prioridade é promover por meio de um Senado bolsonarista o impedimento de ministros que condenaram seu pai. Há também a ideia de reduzir competências e ritos internos.

Em relação ao mandato, é provável que apenas esteja acenando à necessidade de ter o trabalho de Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome certo do jogo federal de 2030, em São Paulo no segundo turno.

Ciente do seu DNA, o próprio candidato buscou fazer um "hedge". "Eu já vi gente começar a dizer: 'Ah, agora o Flávio, com esse Congresso com ampla maioria, ele vai fazer o que o pai dele não fez'. Vamos parar de mentir, vamos aterrissar no mundo real. Para de fazer torcida", disse.

Além de admitir a "torcida", o senador logo na sequência afirmou que apenas ele poderá governar com o novo Congresso, ainda mais à direita que o atual.

Se é óbvio que uma eventual vitória de Lula fará o petista encarar um cenário ainda mais conflituoso, a confluência dos raciocínios sugere que Flávio procura, sim, fazer mais do que o pai.

Modelo ele já tem: o ídolo Donald Trump, cuja trajetória Jair Bolsonaro sempre espelhou. O roteiro inclui primeiro mandato turbulento, derrota por pouco, insurgência golpista, condenação judicial e volta por cima nas urnas.

A diferença é que a regra do jogo no Brasil não permite que apenados sejam candidatos, então Jair foi de Flávio. Voltando a Trump, com o controle que deverá perder agora das duas Casas do Congresso, o americano desde então trabalha para desmontar o arcabouço institucional de seu país.

Até aqui, tal reforma não se mostrou coerente do ponto de vista interno, além de trazer caos ao resto do mundo.

Para saber o que poderia acontecer no Brasil no caso de eleição de Flávio, é preciso agora clareza acerca da sua proposta. O impacto presumido de seu enunciado é doméstico, mas não desconectado dos desígnios de Trump para a região.

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NADA DECIDIDO ATÉ O ELEITOR FALAR

Míriam Leitão, O Globo

A 17 dias da eleição, nada está definido. A distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o Lula

O país viverá os próximos 17 dias em emoção na intensidade máxima. A eleição não acabou, nem está definida, até porque o eleitor faz o que quer com o voto. O que tenho ouvido de especialistas é que a distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o presidente Lula. Para além dos cálculos dos políticos, há uma dúvida mais aguda: quais são as intenções de Flávio Bolsonaro em relação à democracia? A fala dele sobre usar a maioria conservadora e mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, assustou. E assustou exatamente por ele ser quem é e filho de quem é.

O ministro Celso de Mello considerou “grave e inquietante” a declaração do candidato. “A sociedade tem o direito de conhecer o alcance do projeto”. Em mensagem que me enviou, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, conhecido por seu saber jurídico, disse que “causa estranheza a promessa de ‘redemocratizar’ o Brasil, na medida em que nosso país vive, plenamente, sob regime democrático, com eleições competitivas, pluralismo político, oposição legítima e liberdade de crítica”. Ontem, Flávio tentou atenuar o que tinha dito. Disse que se referia a mudanças no Judiciário, maioridade penal e reforma tributária. Mas a dúvida permanece porque evidentemente, se fosse apenas uma PEC, ele não usaria a expressão “redemocratizar".

A campanha de Flávio Bolsonaro já se considera vitoriosa. Um observador do mundo político avalia que o otimismo tem ajudado a campanha bolsonarista porque deu ânimo e estímulo. Na campanha do presidente Lula, é preciso superar o desânimo inicial, que ficou estampado na primeira foto após o resultado, ter mais engajamento e mudanças de tom.

– Não acho pouco tempo para virar, existe caminho, precisa acertar na campanha. A diferença é pequena, se virar 1%, empatou. Porém, Lula precisa mudar o discurso, porque está com o discurso errado — disse esse observador.

Sobre a necessidade de um sinal para o centro, o que eu ouvi de um interlocutor é que, quando Lula se elegeu a primeira vez, tinha como vice o empresário José Alencar, que na época era do PL. O próprio PL era centro e não de extrema direita como agora. Depois, a presidente Dilma se elegeu com um vice-presidente do MDB, que também representava o centro. Na terceira vez, a aposta foi em Geraldo Alckmin por ter boa articulação no setor produtivo, mesmo após mudar do PSDB para o PSB. Mas a avaliação é que, durante o mandato, Lula não fez gestos para quem o apoiou na campanha de 2022. Na área econômica e fiscal, Lula teve, nos outros mandatos, pessoas como o então ministro Antonio Palocci e o presidente do Banco Central Henrique Meirelles para modular o discurso e controlar as medidas fiscais.

O mercado financeiro está dando um cheque em branco ao candidato Flávio Bolsonaro, aceitando pela fé, sem qualquer materialidade, que ele fará um ajuste fiscal. O candidato não se comprometeu com coisa alguma. Fez declarações vagas e anedóticas como “vou dar uma tesourada”, ou diminuir impostos sem dizer quais, cortar gastos sem especificar onde.

Na campanha de Lula já se vê algumas mudanças. Uma delas foi chamar os jovens digitais para “disputar a juventude”, como define Ana Elisa, deputada eleita por Minas Gerais. É preciso falar com todos os públicos, os eleitores que se distanciaram por raiva ou decepção, e que podem voltar. Os que não foram votar. O próprio Lula terá muito a fazer.

Flávio tem a seu favor a vantagem de ter chegado na frente na disputa do primeiro turno e ter recebido apoio dos derrotados. Mas Romeu Zema é um candidato que foi rejeitado até em Minas Gerais e terminou com quase traço. Ronaldo Caiado é um apoio pessoal, o PSD permanece neutro. O apoio do centrão é uma faca de dois gumes. Afinal, Flávio, que já está pessoalmente envolvido com casos de corrupção, terá ao seu lado políticos como Antonio Rueda, Ciro Nogueira e outros igualmente enrolados.

Lula tem contra si o peso da crise de imagem do STF, da qual ele tenta se afastar, só que não tem conseguido. Flávio Bolsonaro tem contra si o fato de que ele e sua família defenderam em inúmeras ocasiões o AI-5, a ditadura militar, a tortura, enalteceram o mais notório dos torturadores e, indo das palavras à ação, Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado. Agora, Flávio Bolsonaro fala em mudar a Constituição para “redemocratizar o Brasil”. Antes de seguir, é preciso pedir ao candidato que defina democracia.

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COM FLÁVIO, BRASIL VAI VIRAR A VENEZUELA OU A HUNGRIA ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

O segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso

Com Suprema Corte e Congresso governistas, não vai adiantar chorar o leite derramado

Cientistas políticos como Steven Levitsky apontam que o segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso.

Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a Constituição.

Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o mandato do presidente, no caso, o dele.

Foi assim na Hungria com Viktor Orbán, antes um político mediano e depois um autocrata que se embrenhou em alterar a Constituição, em 2011, reinventando a nação, inebriado com a supermaioria que ganhou em seu segundo mandato, eleição essa em que o tema da reforma constitucional nem sequer esteve em pauta.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os laços entre Orbán, que ficou 16 anos no poder, e a família Bolsonaro são amplamente documentados; com visitas mútuas, hospedagem em embaixada e apelidos afetuosos.

Flávio conhece bem o playbook autocrático, à esquerda na Venezuela de Nicolás Maduro e à direita na Hungria de Orbán. O manual é o mesmo. Mudar a Constituição para reduzir freios e contrapesos é um deles.

Dizem que ninguém dá a mínima para a Constituição, exceto alguns democratas de plantão. Pois deveriam: Orbán fez uso da queda do Estado de Direito para distribuir contratos públicos a seus amigos corruptos, algo que deveria preocupar o empresariado; também fez seus amigos monopolizarem a imprensa, algo que deveria preocupar o povo do doisladismo na mídia.

Se Flávio decidir fazer o que quiser com a Constituição —de alterar regras eleitorais para favorecê-lo a acabar com casamento entre pessoas do mesmo sexo—, quem irá pará-lo? Ninguém.

Maduro e Orbán mostraram que, com Suprema Corte e Congresso governistas, não adianta chorar o leite derramado.

Cabe à imprensa cobrar de Flávio o que ele quer dizer com "alterar a Constituição para democratizá-la".

Normalizar esse discurso beira o proselitismo futebolístico de uma torcida organizada com a bola na cara do gol.

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A METAMORFOSE DAS DIREITAS

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Ascensão do PL vai consolidando a liderança da extrema direita

Sigla está servindo à ambição eleitoral dos políticos de direita

O exercício da Presidência não assegurou a Lula a mesma porcentagem de eleitores que lhe entregou as chaves do Palácio do Planalto há quatro anos. A diferença entre o número de votos recebidos por Lula e Flávio Bolsonaro é muito próxima da que levou o presidente ao segundo turno contra o pai do candidato do PL. Apenas inverteram-se as posições de chegada.

Entre 2022 e agora, o líder petista perdeu eleitores em todo o país. Usando dados preliminares do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o cientista político Marco Faganello (CPESP-FGV) mostrou que a sangria foi de 3,4 milhões de votos, espalhados por 98% dos municípios brasileiros. Praticamente todos, exceto as capitais dos estados.

Diante desse quadro, muitos passaram a falar numa avalanche da direita. Se ocorreu, porém, faltou combinar com o Congresso. Ali, o PT e os pequenos partidos de esquerda conservaram praticamente o mesmo total de cadeiras. Na Câmara de 2022, o PT tinha 65; na próxima legislatura passará a ocupar 70.

O PSOL ganhou um representante; o PSB perdeu dois; o PDT quatro; e o PCdoB ficou sem nada. No Senado, o PT continuará com nove, o PSB foi de seis para quatro, o PDT perdeu um senador e a Rede manteve seu único representante. Em suma, no Legislativo, as esquerdas, PT à frente, continuaram em minoria, como sempre.

A mudança significativa, embora não sendo uma avalanche, ocorreu no território das forças de direita. Especialmente nas duas casas, em virtude do notável crescimento do PL; por outro lado, minguaram tanto a centro direita (MDB e PSDB) quanto a direta pragmática (PSD, União Brasil, PP e Republicanos). A destra, aliás, sempre dominou o Congresso —mesmo quando, em seu segundo mandato, Lula quase alcançou a unanimidade junto à opinião pública. De fato, a composição do Legislativo espelha o Brasil real, conservador ou reacionário, mas sempre meio tosco; aquele país que a elite brasileira urbana e educada tem dificuldade de enxergar.

A ascensão do PL, transformado em legenda do bolsonarismo, vai consolidando a liderança da extrema direita. Ela não só expressa a vontade dos eleitores como resulta de uma escolha das elites partidárias.

Foi delas a decisão de aceitar, tacitamente, a imposição da candidatura do filho ungido pelo pai e de não apostar seriamente em alternativas promissoras —e mais moderadas. Houve cálculo político nessa escolha.

A vitória de Bolsonaro em 2018 deu aos partidos de direita a possibilidade de disputar eleições presidenciais com um candidato próprio, dotado de apelo popular e capacidade de mobilização de seguidores nas ruas e nas redes. Apelo popular forte o suficiente para indicar um sucessor, no caso de mesmo sobrenome. Esse o charme do populismo de extrema direita, que sempre faltou às raposas do centrão.

Em seu livro mais recente, "O País Dividido", o cientista político Jairo Nicolau sugere a possibilidade de o PL, ocupado pela ultradireita, tornar-se um partido com mais corpo e ideologia que as legendas que servem à ambição eleitoral dos políticos de direita. É uma possibilidade real, especialmente se o segundo turno presidencial consagrar o herdeiro do presidente golpista.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O DILEMA DA CAMPANHA: FARIA LIMA OU POVÃO ?

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Há na área econômica do governo sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas ‘bondades’ neste segundo turno

Há na área econômica do governo federal sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas “bondades” neste segundo turno eleitoral. Primeiro, porque não há nada pronto para ser anunciado. Segundo, porque uma medida sacada da cartola a essa altura do campeonato, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida pela Presidência da República, poderia até ser malvista, ao passar um clima de “fazer o diabo para ganhar a eleição”.

Mesmo assim, ninguém jura que não haverá novas medidas daqui até o dia 25 de outubro. A postura nos bastidores da equipe econômica é de colaboração.

A hesitação entre lançar ou não mais “bondades” reflete um dilema que corre entre estrategistas da campanha de Lula em relação a temas econômicos: fazer um aceno para os agentes de mercado ou falar ao povão. O presidente precisa se aproximar dos dois grupos, mas agradar a um quase sempre é desagradar ao outro.

O rumor em torno da nomeação do vice-presidente Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato de Lula seria um aceno para o mercado.

Atualmente no PSB, Alckmin cumpriu quatro mandatos como governador de São Paulo sendo integrante do PSDB, o partido que liderou o Plano Real e que levou as contas federais para o azul.

Na manhã desta terça-feira, Alckmin ligou para o titular da pasta da Fazenda, Dario Durigan, para negar planos de substituição.

Ainda que não seja com um ministro da Fazenda de histórico fiscalista, Lula precisa dar algum sinal ao mercado, avalia-se nos bastidores da equipe econômica.

Conquistar a Faria Lima é algo que o entorno de Lula considera missão impossível. A euforia que tomou conta dos mercados neste pós-eleição mostra duas coisas, interpretam integrantes do governo: que existe por lá uma clara opção política em favor de Flávio Bolsonaro e que dólar, juros e bolsa não refletem apenas os fundamentos da economia.

Ainda assim, comenta-se que Lula precisa dar um sinal em direção ao ajuste fiscal. Pelo menos para desfazer a má impressão gerada pela declaração que deu em Curitiba no mês passado, chamando de “babaquice” a perseguição de superávits (saldos positivos) nas contas públicas.

Detalhar os planos em desenvolvimento para o ajuste fiscal, porém, é algo que contraria o outro grupo que Lula precisa buscar: a população de baixa renda. Ajustar as contas envolveria desacelerar o ritmo de crescimento de despesas, inclusive programas sociais. Isso vai na direção contrária à que a campanha já começa a explorar, que é o suposto risco de interrupção desses programas caso Flávio vença e promova um “tesouraço”.

Outro tema que opõe os dois grupos é o fim da escala 6x1: trabalhadores querem, empresários não. Flávio classificou o debate de “oportunista”.

Enquanto se busca uma estratégia para os temas econômicos na campanha, o foco pode estar em outros pontos. Por exemplo, segurança pública e políticas de apoio à mulher. Além de reforço da campanha nas redes sociais.

CBS
As campanhas não tratarão disso, mas um tema incontornável este ano é a entrada em vigor da reforma tributária. No dia 1º de janeiro de 2027, começa a ser cobrada a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), em substituição ao Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (PIS/Cofins). A dúvida é se as empresas estarão prontas para a mudança.

Dados da Receita Federal dão um retrato de como está a preparação. No momento, está em curso um teste de emissão de notas fiscais já informando um valor simbólico da CBS e do Imposto sobre Bens e Serviços.

Por um lado, 72,3% dos documentos fiscais emitidos destacam os novos tributos. Em outro recorte, porém, 61,6% dos emissores de notas fiscais ainda não cumprem, ou cumprem apenas em parte, essa formalidade.

Se o novo sistema estivesse em vigor, essas empresas que não completaram sua adaptação não conseguiriam emitir notas fiscais. Só estão conseguindo fazê-lo porque a Receita flexibilizou as exigências até o final deste ano.

Grandes empresas já estão prontas a operar no novo sistema, informa Adriano Subirá, presidente do Comitê Tributário Brasileiro (CTB). O problema é que os fornecedores delas não estão. “Se não consigo emitir uma nota, eu não consigo enviar insumos, e aí posso parar uma linha de produção”, diz. Assim, pode haver um efeito dominó na economia. “É um ambiente de cooperação: se todo mundo chegar junto, todo mundo ganhou, mas se alguém ficar para trás, todo mundo perdeu”.

O adiamento da CBS, porém, seria “o pior dos mundos”, avalia Ângelo de Angelis, sócio da ACF Consultores. “A insegurança jurídica explodiria”, afirma. “Por outro lado, temos muitos problemas operacionais.” Para adiar o início da cobrança da CBS seria preciso alterar a Constituição.

Questionada, a Receita informou que “continua trabalhando na implementação da reforma tributária conforme o previsto”.

O que fazer diante do atraso das empresas nos preparativos para recolhimento da CBS é uma decisão a ser tomada ainda em 2026, qualquer que seja o resultado das urnas. A virada de ano promete ser agitada.

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terça-feira, 6 de outubro de 2026

O PODER DO VOTO SOBRE A TOGA

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Resultado eleitoral no Rio mostra o efeito rebote da intervenção judicial

Nas primeiras falas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e no resultado eleitoral do Rio, há um mapa de 2º turno. O comandante da avalanche do PL nas eleições majoritárias e proporcionais disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro, caso o filho se eleja, será reabilitado para disputar a Presidência da República.

As perspectivas de reabilitação do ex-presidente, as ambições da senadora eleita Michelle Bolsonaro (DF) e a maiúscula votação do deputado federal Nikolas Ferreira (MG) deixam claro que, nem tão cedo, o PL pretende ceder o manche para a direita tradicional. Ainda que o senador Flávio Bolsonaro (PL) cumpra sua promessa de pôr fim à reeleição, não parecerá disposto, se eleito, a entregar o poder para que outro aventureiro lance mão.

Não se trata de um cenário confortável para outros partidos que têm projeto de poder, como o Republicanos do governador reeleito Tarcísio de Freitas ou o PSD da governadora reeleita Raquel Lyra. Junte-se a isso o Senado e a Câmara, em que, tirando o Novo, amasiado com o bolsonarismo, toda a direita se deu mal e está acrescentado outro ingrediente do incômodo. Some-se ainda uma votação em que Lula manteve seu tamanho nas capitais e grandes cidades, mas perdeu espaço nos grotões do agronegócio, e se tem uma rota para 2º turno.

Em nenhum lugar, porém, estão concentradas tantas lições desta primeira rodada quanto no Rio. No berço do bolsonarismo, a política enfrentou o rebote da sombra do Judiciário sobre a vontade do eleitor. O candidato do PL ao governo, Douglas Ruas, passou à frente para o 2º turno com uma campanha em que buscou, com sucesso, se distanciar do ex-governador Cláudio de Castro e de seu antecessor na Presidência da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar.

A pergunta que os engenheiros da ruína do ex-prefeito Eduardo Paes fazem hoje é se isso teria sido possível se Ruas tivesse podido assumir o governo do Estado com a renúncia de Castro e disputasse, no cargo, a reeleição. Teria a máquina nas mãos mas também todo o desgaste decorrente da herança que o desgoverno bolsonarista impõe, há oito anos, sobre o Estado.

Ricardo Couto, o ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio que, graças ao Supremo Tribunal Federal, foi mantido no cargo durante as eleições por um pedido de vista, tomou medidas saneadoras amplamente aplaudidas pela imprensa, pelo empresariado e por uma classe média que viu o Rio ser entregue às luzes da tecnocracia judicial.

Paes associou-se à gestão de Couto mostrando-se como mais apto para dar continuidade ao saneamento iniciado por Couto enquanto exibia como as alianças de Ruas com Castro e Bacellar vulnerabilizariam o Palácio da Guanabara frente ao crime organizado. Deixou em segundo plano aquele que, da direita à esquerda, se reconhece como seu maior ativo eleitoral, as entregas de sua gestão.

Enquanto isso, Douglas Ruas apresentava-se como o parlamentar da Baixada Fluminense, que entende os dramas do povo e, com humildade, propõe-se a enfrentá-los. Some-se a isso a insatisfação que o saneamento promovido por Couto promoveu na rede de empregos e cabos eleitorais mobilizada pela Assembleia Legislativa e foi aberto o terreno para o candidato do PL avançar.

Ruas ganhou na Baixada e Paes, na capital. As duas regiões têm eleitorado equivalente. A vitória de Ruas em Campos dos Goytacazes não apenas desempatou a disputa como também comprovou o papel cumprido pelo terceiro colocado, Anthony Garotinho (Republicanos), cuja família domina a política na região.

Inelegível por oito anos pela Lei da Ficha Limpa em condenação confirmada pelo STF em 2025, Garotinho conseguiu registrar sua candidatura e disputou todo o 1º turno em meio a uma guerra de liminares sobre a validade deste registro. Nesta segunda, Garotinho desistiu do recurso ao TSE.

A campanha de Paes, que, até aqui, tentou invalidar sua candidatura para garantir vitória no 1º turno, acabou surpreendida pela liderança de Ruas. Agora entrou na guerra das liminares para que esta decisão seja prorrogada e o 2º turno possa acontecer.

Este efeito rebote da imersão do Judiciário na política fluminense acabou, paradoxalmente, aproximando o drama vivido por Paes e Lula. Ainda que Paes tenha sido mais proativo em convocar a toga para a arena eleitoral, Lula também enfrentou revezes decorrentes da simbiose entre sua gestão e o STF.

Algumas propostas de reforma do Judiciário que já começam a chegar ao PL não apenas reduzem o STF a uma Corte Constitucional, e não recursal, como também impõem limite a mandatos vigentes, o que dispensaria até o impeachment de ministros. Lula também deverá avançar numa reforma do Judiciário neste 2º turno por inevitável. Até aqui, se limitou a dizer que formará um conselho de notáveis para filtrar suas indicações.

A reforma conterá o único poder capaz de por freio à hipertrofia do Legislativo? Certamente. As contas criteriosas de Lara Mesquita (FGV-SP), porém, colocam um freio na percepção de que as emendas garantem a vitaliciedade dos parlamentares. Dos 414 que tentaram a reeleição, 71% conseguiram, a mesma proporção de 2002. E no Senado? O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), teve aliados derrotados nas duas vagas e no governo do Estado.

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LULA REVÊ ESTRATÉGIA PARA RECUPERAR ELEITORES

Sofia Aguiar, Lucas Borges Teixeira, Cristiane Agostinee Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Decepcionado com o resultado do primeiro turno, o “day after” da contagem dos votos serviu para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dar início a um freio de arrumação de olho na reeleição. Uma das principais preocupações da campanha é rever as estratégias para recuperar eleitores de São Paulo, Minas Gerais e dos Estados da região Nordeste, com o objetivo de melhorar o desempenho do petista. Em outra frente, a comunicação da campanha é pressionada a mudar e é vista como uma das responsáveis pela performance aquém do esperado nas urnas no domingo (4).

Com o intuito de renovar a estratégia para os próximos 20 dias, Lula realizou, na segunda-feira (5), reuniões com o grupo político de seu governo e candidatos derrotados, vitoriosos e que ainda concorrem ao segundo turno, além de integrantes do núcleo duro da campanha.

Em um dos encontros, o presidente admitiu que precisa falar mais e fazer mais mobilização. Segundo ele, é preciso “fazer mais rádio, mais selfie, conversar mais e arrumar tempo para fazer campanha”. Nesse sentido, afirmou que é importante participar dos debates nesta segunda etapa - o que não fez no primeiro turno - “porque é tête-à-tête”, em referência a um embate direto com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que conquistou mais votos que o petista nas urnas.

De acordo com Lula, um dos focos será trabalhar para reverter a alta abstenção da primeira etapa da eleição, e apontou que houve um prejuízo por estar “carregando nas costas a promiscuidade que ficou estabelecida” no Supremo Tribunal Federal (STF).

Também disse que, nos próximo dias, “teremos que colocar para fora o que deveríamos ter colocado no ano inteiro, o que está por trás da eleição”. Em uma das frentes, ele explorou o discurso do medo e disse que seu adversário pode acabar com as políticas sociais.

Auxiliares do presidente responsabilizam a comunicação pelo resultado do primeiro turno. Eles afirmam que Lula demorou muito para entrar nos assuntos que se relacionam com o cidadão e “perdeu muito tempo” tratando de pautas de difícil entendimento, como terras raras e soberania. Eles voltam a citar que, enquanto isso, Flávio insistia no preço dos alimentos.

As críticas ao ministro da Secretaria de Comunicação (Secom), Sidônio Palmeira, e ao marqueteiro Raul Rabelo não foram poupadas. Segundo pessoas envolvidas com a campanha, coube aos dois insistir nesse tom, programando um debate “mais republicano”, sem tantos ataques ao adversário.

Muitos já vinham dizendo que a campanha tinha “fé” de que tudo “daria certo” e demorava por articular e até fazer o uso da máquina. Eles citam, por exemplo, que o reajuste do Bolsa Família, feito a 17 dias da eleição, só terá efeito prático para o segundo turno, dado que o primeiro pagamento será feito no dia 19 de outubro. Se era para entrar neste atrito, recebendo críticas pelo impacto fiscal das medidas, que o fizesse com tempo o bastante para colher os louros antes, argumentam.

Para essa segunda fase, o governo estuda o que pode ser adotado, visando atingir parte do eleitorado, e a área econômica do governo federal está em compasso de espera quanto à estratégia que será adotada. Segundo fontes, é possível correr e lançar novas “bondades”, se assim for decidido. Por ora, no entanto, não há nenhuma medida pronta para ser lançada.

Aliados de Lula passaram a citar o nome de Alckmin como um possível ministro da Fazenda

Há dúvidas, contudo, se o anúncio de novas ações, a essa altura da disputa, produzirá o ganho de votos de que Lula necessita. Além do Bolsa Família, o Desenrola 3.0 só deve ser colocado na rua em novembro, com os contratos de renegociação sendo assinados somente em janeiro.

Para além da estratégia de comunicação, outra das principais frentes de atuação será a de reconquistar votos de Lula que foram perdidos no domingo. Nesse desenho, aparecem São Paulo e Minas Gerais - maiores colégios eleitorais do país - e a região Nordeste, onde o presidente costuma ter melhor desempenho.

No Nordeste, um dos objetivos será conseguir o apoio daqueles que não votaram no primeiro turno, especialmente dos eleitores mais pobres que se abstiveram. Assim como em 2022, Lula venceu nos nove Estados, com mais de 50% dos votos, mas teve uma votação inferior em relação à disputa passada, no primeiro turno. Mesmo nos três Estados em que o governador é do PT e foi reeleito domingo (Bahia, Ceará e Piauí), Lula teve menos votos.

Nos diretórios petistas, há uma cobrança por mais material de campanha e estrutura para divulgação da candidatura de Lula. No primeiro turno, a propaganda de Lula foi basicamente produzida pelas equipes estaduais, do governador e dos candidatos a deputados e ao Senado.

Em outra frente, no Sudeste, a equipe petista já trabalhava com uma derrota no primeiro turno em São Paulo, mas não esperava um cenário tão adverso. O petista teve 1,7 milhão de votos a menos do que recebeu em 2022. Já em Minas, a expectativa era, ao menos, levar a disputa para o segundo turno, o que não aconteceu. Lula perdeu 600 mil votos no Estado.

Diante desse cenário, em São Paulo, a aposta é aumentar a participação do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e explorar sua interlocução com diferentes grupos políticos para ampliar os apoios à chapa. A estratégia remete à adotada em 2022, quando economistas declararam apoio a Lula. Aliados do petista passaram a citar o nome de Alckmin como um possível ministro da Fazenda, se o presidente for reeleito, em aceno ao mercado.

Agora, porém, a intenção é que Alckmin, além de ampliar sua presença no Estado, algo que já ocorreu no primeiro turno, adote um discurso mais incisivo e faça críticas mais diretas a Flávio.

Entre os desafios da campanha para ampliar a votação nesses Estados está manter a base mobilizada e convencer o eleitor a ir votar no segundo turno. Dos nove Estados do Nordeste, oito resolveram a eleição para governador domingo. No Sudeste, tanto as disputas ao governo de São Paulo quanto Minas também acabaram com derrotas dos candidatos do PT.

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'HÁ DUAS QUESTÕES CENTRAIS EM JOGO: EM PRIMEIRO LUGAR, A DEMOCRACIA'

Sérgio Abranches, Valor Econômico

Há, para mim, duas questões centrais em jogo. Em primeiro lugar, a democracia. O ponto, digamos, mais profundo de risco à democracia é a negação da tentativa de golpe de 2022 por Flávio Bolsonaro.

A crise no STF completou o processo de esgarçamento institucional. O presidencialismo de coalizão está paralisado com o desequilíbrio nas relações Executivo/Legislativo. O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita. E a crise no STF atinge a capacidade de mediação e resolução de conflitos entre os dois Poderes.

O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita.

O segundo tema crucial é a preparação do país para a travessia na longa transição estrutural global iniciada pela revolução digital. Trata-se de uma metamorfose global que mudará significativamente a política e a economia na construção da sociedade digital. Cada país terá que encontrar o seu caminho, enfrentando as dificuldades da transição e se aproveitando das oportunidades de mudança nos padrões de produção, consumo, trabalho, educação e representação política. A começar por saber usar e controlar a IA, nosso desafio imediato.

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DIREITA AVANÇA, CONGRESSO MUDA E ESTADOS PESAM NO SEGUNDO TURNO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Caiado e Zema sinalizam oposição ao PT; Cury e Renan não orientam eleitores. Flávio busca novas adesões e Lula votos no Sudeste

O primeiro turno deu a Flávio Bolsonaro mais do que a dianteira na disputa presidencial. Entregou ao candidato do PL palanques fortalecidos, a maior bancada da Câmara e um avanço expressivo no Senado. Lula preservou sua fortaleza nordestina, mas precisará ampliar suas fronteiras eleitorais para vencer em 25 de outubro. A eleição também revela uma mudança na composição da classe política: lideranças mais jovens, familiares de políticos tradicionais e personagens projetados pelas redes sociais ganham espaço, combinando renovação geracional e continuidade de correntes ideológicas e oligarquias conservadoras no poder.

A geografia mostra o desafio. Lula venceu em todos os estados do Nordeste, acumula um saldo de aproximadamente 11 milhões de votos. Bahia, Pernambuco e Ceará produziram diferenças superiores a 3,2 milhões, 1,8 milhão e 1,8 milhão, respectivamente. Nas demais regiões, entretanto, Flávio somou cerca de 13 milhões de votos de vantagem. A força nordestina permanece indispensável ao petista, mas o resultado demonstra que ela precisa ser acompanhada de maior competitividade nos grandes colégios eleitorais do Sudeste.

 

São Paulo deu a maior vantagem a Flávio: 3,4 milhões de votos. Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo também contribuíram para sua liderança. Os três maiores estados do Sudeste concentram mais de 40% do eleitorado brasileiro, tornando pequenas alterações proporcionalmente relevantes para o resultado nacional. No Sul, especialmente Paraná e Santa Catarina, diferenças superiores a 1,8 milhão de votos reforçaram a vantagem do senador. Para se reeleger, Lula precisa reduzir essas perdas enquanto preserva sua mobilização no Nordeste.

A nova Câmara traduz esse deslocamento. O PL elegeu 121 deputados, contra 97 em 2022, enquanto o PT conquistou 70 cadeiras. União Brasil e PP somaram 87; o PSD, 43; o Republicanos, 41; e o MDB, 36. O bolsonarismo amplia sua capacidade de organizar a agenda legislativa, disputar o comando da Casa e pressionar o Executivo. Entretanto, o PL permanece distante de uma maioria própria: os partidos do Centrão (União Brasil, PP, PSD e Republicanos) continuam indispensáveis à construção de coalizões.

Essa composição mostra que a eventual eleição Flávio facilitaria a relação entre o Planalto e o Congresso e a aprovação de uma agenda política dura de direita, com um ajuste fiscal em V, como propõem os ultraliberais. Para Lula, mostra que sua eventual reeleição começará sob condições mais difíceis de negociação no quarto mandato, na política, e um contingenciamento forte nas políticas sociais devido ao deficit público.

Jovem guarda

No Senado, a mudança é ainda mais significativa. O PL elegeu 19 senadores e chegará a 28 representantes, diante de nove do PT. A bancada bolsonarista ganha força para disputar a presidência da Casa e influenciar decisões sobre autoridades e tribunais. Esse resultado aumenta o poder de pressão sobre o Supremo, mas não assegura ao partido capacidade de decidir sozinho. O impeachment de Alexandre de Moraes pode ser uma consequência imediata.

As dobradinhas do PL no Distrito Federal, no Mato Grosso do Sul, no Rio de Janeiro, em Rondônia e em Santa Catarina proporcionaram esse grande avanço. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, Carlos Jordy e Carlos Portinho, Carlos Bolsonaro e Carol de Toni ampliam a rede de mobilização do partido. A presença de Michelle e Carlos no Senado, somada à candidatura presidencial de Flávio, mostra como o bolsonarismo distribui seu protagonismo por novos mandatos e preserva a centralidade da família.

A Câmara confirma a mudança geracional: 183 eleitos exercerão seu primeiro mandato. Isso não permite concluir que houve rejuvenescimento generalizado, mas indica uma troca relevante de representantes, com jovens políticos despontando com grande votação e alguns veteranos líderes políticos encerrando a carreira com derrotas acachapantes. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos com mais de três milhões de votos, exemplificam a força de lideranças jovens cuja projeção passa pelas redes sociais. Sua votação fortalece bancadas e amplia sua influência sobre a linguagem e as prioridades da direita. São lideranças com perfil de extrema-direita que estão pautando narrativas e comportamentos políticos.

Ao mesmo tempo, a ascensão de filhos, irmãos e cônjuges de políticos tradicionais torna evidente que a renovação pode reproduzir estruturas antigas. O processo combina sucessão familiar, máquinas locais e mobilização digital. Para a esquerda, envelhecida, o desafio envolve formar lideranças capazes de disputar esses espaços sem depender exclusivamente do prestígio de Lula e da geração que construiu o PT.

O segundo turno nos estados prolonga essa disputa. Caiado negocia com Kassab; Zema sinaliza oposição ao PT; Cury e Renan Santos deixam seus eleitores sem orientação. Flávio tentará transformar o avanço territorial e parlamentar em novas adesões. Lula precisará convencer parte do centro e recuperar votos no Sudeste, mostrar que a vitória legislativa da direita não encerrou a disputa presidencial. A rejeição e o medo serão o grande divisor de águas do segundo turno.

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DIFÍCIL, MAS LULA PODE VIRAR SE MUDAR A ROTA E SOUBER JOGAR

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Se nunca houve reviravolta entre os dois turnos, nunca a distância do primeiro para o segundo lugar foi tão pequena

A dúvida é se o presidente terá força e discernimento bastantes para corrigir os erros a tempo de ganhar

O desempenho da direita impressionou, mas não o suficiente para consolidar a impressão de que a eleição esteja resolvida, Jair Bolsonaro indultado e os golpistas anistiados.

É verdade que não há registro de virada do segundo sobre o primeiro colocado de um turno a outro, e é fato também que nunca a distância foi tão estreita.

Foram menos de dois pontos percentuais de diferença. Dianteira que a oposição tem motivo para comemorar, mas que o governo tem condição de inverter nas próximas três semanas se souber disputar com competência os cerca de 8% dados aos demais candidatos.

Posta a bola no chão, fica a lição de que a subestimação do adversário é péssima conselheira. Isso valeu para Luiz Inácio da Silva (PT), que desde o início menosprezou a oponente, e vale agora para Flávio Bolsonaro (PL), que será imprudente se desdenhar da capacidade de reação de Lula, decorrente do susto.

O choque de realidade ficou evidente no semblante de decepção dos aliados e na aparente calma da manifestação do presidente logo após a confirmação do resultado do primeiro turno. Lula mediu palavras, procurou se ater aos limites da normalidade a fim de ganhar tempo e não se precipitar sobre o que fazer.

 

O petista acostumou-se a colher vitórias em sua trajetória, mas também a enfrentar adversidades e superar obstáculos.

Nas piores horas, soube pisar no freio e redirecionar a rota. Daí ter sido eleito depois de três derrotas, reeleito no meio da tempestade do mensalão e voltado à Presidência depois de parecer que a prisão na Lava Jato seria o fim de carreira.

Lula ignorou orientações, deixou-se tomar pelo ressentimento, deu espaço à figura antipatizada de Janja, reduziu os eleitores a devedores de gratidão, ignorou a demanda por progresso e bem-estar, deu prioridade a temas alheios aos reais interesses do país e, diante disso, preferiu o culto à própria personalidade.

Pode produzir uma guinada na direção? Pode, resta saber se terá força e discernimento bastantes para dar conta do recado.

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VENTOS DA DIREITA, UM CONVITE À HUMILDADE

Artigo de Fernando Gabeira

Aconteceu. Independentemente do resultado do segundo turno, o grande fato político é a vitória da direita no Senado, que, desde já, anuncia um ano de crises institucionais com o STF.

Aconteceu, e não creio que se possam culpar apenas os erros de campanha. A performance do governo teve peso. A frente que venceu em 2022 não foi capaz de crescer após as eleições, não soube se expandir para setores ainda não conquistados.

Escrevi alguns artigos mencionando minhas dúvidas aqui e ali. Mas às vezes as críticas são muito mal recebidas, e o velho argumento de que criticar é favorecer o adversário continua sendo dominante.

Para começar, acho que o tratamento judicial dado aos presos do 8 de Janeiro foi rigoroso demais. As sentenças foram muito longas, não houve avaliação individual de culpa.

O bolsonarismo se valeu da ideia de perseguição política e cresceu na condição de vítima. Creio que, em Santa Catarina, num desses discursos de campanha, Lula afirmou ser candidato para manter Bolsonaro na cadeia.

Esses discursos inflamados animam a militância, mas não trazem crescimento na sociedade. Identificar-se tão completamente com as decisões do Supremo não era um bom caminho, mesmo porque, adiante, o STF cairia em desgraça com o caso Master e se transformaria em vilão nacional.

Não pretendo me fixar nesse ponto, mas política de frente é algo distinto do que foi desenvolvido no Brasil. Frente significa trabalho comum e formulação comum. O PT tem uma indiscutível propensão hegemônica. Agrega, distribui cargos, mas quer o monopólio nas questões essenciais, como política externa.

Houve erros de interpretação dos ventos de direita que sopram no mundo. É difícil entendê-los, porque em cada país sopram de um jeito especial. No meu entender, a corrupção tem papel no Brasil. Mas é desconcertante para essa interpretação ver a vitória parcial de Flávio Bolsonaro. Ele tem os mesmos problemas de um político convencional, enriquecendo silenciosamente ao longo de seus mandatos.

O vento que soprou no Senado, de certa forma, atinge a Câmara. No caso específico do Rio de Janeiro, houve muitas baixas entre deputados de esquerda, uma estranha lista dos mais votados e a derrota parcial de quem parecia favorito, Eduardo Paes.

É difícil interpretar esse tsunami depois de um longo fim de semana de trabalho. Precisaremos de mais tempo, flexibilidade e abertura para entender melhor o que se passa no Brasil. Precisamos também de mais tolerância no debate. Não dá para avançar quando se pune o exercício do pensamento com agressões morais.

Detesto enfoques do tipo “bem que avisei”. No meu caso, avisei muito timidamente. Poderia ter feito mais, porque minha vida também estava em jogo. Dediquei anos à legislação ambiental, e ela será a primeira vítima.

Diziam no passado que a esquerda só se une na prisão. Ela tem uma excelente oportunidade de se unir nessa derrota parcial. Os anos que virão, com um Congresso dominado, serão difíceis. Deveríamos superar a arrogância, a lacração e nos tratarmos com a fraternidade dos outros tempos. Sabemos menos que pensamos, podemos menos que imaginamos, não sei mais o que falta para nos aplicarmos uma boa dose de humildade.

Artigo publicado no jornal O Globo em 06 / 10 / 2026

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BRASIL MARCHA À DIREITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Virada de Lula no segundo turno não é impossível, mas é bem difícil

País se junta a outras nações em onda de ultradireita

A direita fez barba, cabelo e bigode nestas eleições. Se o futuro é contingente, não dá para descartar uma virada de Lula contra Flávio Bolsonaro no segundo turno, mas ela é improvável. Os menos de dois pontos percentuais que separam o petista de seu adversário podem não parecer muita coisa, mas os eleitores de Renan Santos, Augusto Cury e Ronaldo Caiado, que ficaram órfãos, tendem a ter um perfil mais conservador. Difícil imaginar que migrem para Lula em desproporção tal que compense e supere a diferença.

É claro que o imponderável pode dar as caras. Eleitores sempre podem mudar de ideia. Imagino até que os serviços de "opposition research" do petismo tenham guardado algum vazamento suculento contra Flávio. Tudo é possível, mas nada aponta um caminho muito fácil para a virada.

Já especulando um pouco, eu diria que os recados das urnas foram tão inequivocamente direitistas que, se essa ala tivesse apresentado um candidato presidencial menos ruim do que o pequeno Bolsonaro, teria liquidado a fatura no primeiro turno. Em 20 das 27 unidades federativas a disputa se resolveu em primeiro escrutínio, com amplo predomínio da direita.

Se aplicarmos ao Brasil o princípio da mediocridade, segundo o qual o país nada tem de excepcional ou único que o distinga de outras nações, então os resultados nem são assim tão surpreendentes.

Observamos hoje no mundo a superposição de dois fenômenos relativamente novos. O primeiro é o forte crescimento da ultradireita, que afeta não apenas países periféricos mas também os centrais (Trump, AfD, Le Pen, Chega). O segundo é a transformação da vantagem do incumbente numa espécie de maldição.

Levantamento de Steven Levitsky mostrou que, desde a pandemia, os incumbentes perderam 40 de 54 eleições (74%) em democracias ocidentais analisadas. O próprio Bolsonaro original perdeu uma.

Vamos descobrir nas próximas semanas se Lula, que já deu improváveis voltas por cima, conseguirá uma nova façanha ou se vai encerrar sua carreira perdendo para "o pior dos Bolsonaros".

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A VOLTA DE UM PASSADO QUE NUNCA EXISTIU

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A extrema direita transforma em glórias os crimes que se cometeram para garanti-las

E é um passado ainda mais perigoso, porque promete um futuro que também nunca existirá

Em sessão recente na Academia Brasileira de Letras, meu colega, o escritor João Almino, levantou uma importante questão: a estratégia da extrema direita, que, "sob uma capa superficial de defesa da liberdade, da família, dos costumes, da tradição, da ordem, da religião, da nação, da civilização ou da própria democracia, adota um discurso de regresso ao passado". E que passado é esse? Um que nunca existiu e muito menos foi vivido por aqueles que o defendem.

Um passado não só fictício como perigoso, porque transforma em supostas glórias os crimes que se cometeram para garanti-las e faz com que eles, os crimes, sejam vistos com naturalidade e anseio. Na Europa, isso se manifesta no atual controle pela extrema direita de países como Itália, Suécia, Hungria e Polônia e no crescimento dela na França, Espanha, Áustria e, inacreditavelmente, Alemanha. Que tais países estejam à beira de uma nova onda nazifascista já é suficientemente incompreensível –para que lutaram os avós desse pessoal entre 1932 e 1945? Mas, na Alemanha, é chocante –nenhum outro foi mais algoz e vítima de si mesmo.

Os argumentos dos extremistas europeus são os mesmos que Mussolini e Hitler usaram para se impor: crise econômica, nacionalismo, antiglobalização, xenofobia, pureza racial (luta contra a imigração) e a "volta à verdadeira essência da nação" —como se uma suposta essência fosse possível de determinar.

No Brasil, a receita bolsonarista adota a maioria desses ingredientes, enfatizando o papel da religião, com Jesus Cristo, como diz Almino, "rebaixado a cabo eleitoral". Há também uma nostalgia da ditadura civil-militar –nostalgia que, para existir, precisa negar o que a sustentou por 21 anos: proibição de eleições, empobrecimento político de duas gerações, censura, prisões, tortura, exílio de seus melhores cérebros (de imediato acolhidos pelos EUA e pela Europa) e um falso "milagre econômico".

Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá.

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domingo, 4 de outubro de 2026

OS SAFRAS, HISTÓRIA DE UM BANCO

Elio Gaspari, O Globo

Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram a empresa com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime

Está nas livrarias “Os Safras — Uma história”, do repórter Robson Viturino. Conta a trajetória do banco Safra. Tremenda história. Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram um banco com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime, no qual morreu Edmond.

Em 2015, José Safra era o banqueiro mais rico do mundo. Batia os Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setúbal e Moreira Salles. Tudo isso com um jeito simples e discreto, em pouco mais de 50 anos.

José morreu em 2020 sempre apagando suas pegadas, salvo na filantropia. Seu banco financiou tucanos e petistas, ajudou a criar o Cebrap, que em 1969 acolheu professores demitidos da USP (ouvindo o ministro Delfim Netto). Reservados, os Safra eram banqueiros ao velho estilo, em um mundo que não existe mais, o de contas numeradas na Suíça.

Viturino foi aos segredos dos Safra, não a todos, mas aos que fazem de seu livro um trabalho revelador. No coração dos mistérios está a morte de Edmond, em dezembro de 1999, em Mônaco. Minado pelo Mal de Parkinson, ele estava na sua cobertura quando temeu ser sequestrado e trancou-se com uma enfermeira num banheiro. Um enfermeiro ateou fogo a um cesto de lixo e os dois morreram asfixiados pela fumaça.

Viturino não decifra o mistério, mas mostra a moldura. Uma amostra:

“Muito se falaria do momento em que José e Moise apareceram na sinagoga Hekhal Haness e cadeiras tiveram de ser levadas a eles — através da sinagoga, já que seus nomes não constavam da lista de convidados —, tudo sob o olhar gélido de reprovação da viúva. (...) No enterro de Edmond no cemitério de Veyrier, José e Moise tiveram que abrir caminho às cotoveladas no cortejo para poder carregar o caixão do irmão.”

Isso. Os dois irmãos davam-se mal, muito mal, com Lily Safra. Ela viria a se tornar a mulher mais rica do mundo. Em 2008, Lily negociou a Villa Leopolda, onde dava festas com Edmond, por 530 milhões de dólares, o maior valor de um imóvel desde a Idade da Pedra.

José afastou-se dos negócios de Edmond antes de sua morte. Depois, José e Moise separaram-se. Hoje os dois bancos, Safra e J. Safra, estão nas duas calçadas da Avenida Paulista, esquina com Rua Augusta.

Moise morreu em 2014 e José, em 2020, aos 82 anos. A briga propagou-se na geração seguinte, até que uma paz foi selada em 2014. Mas o mundo dos bancos era outro. O Safra havia sido multado em 10 milhões de dólares e reconheceu seus malfeitos. José passava mais tempo no exterior, temendo ser preso. Mas os bancos continuam de pé.

A volta de ‘Je suis brésilien’

A vulgaridade e o nouveaurichisme das farofas de Daniel Vorcaro com hierarcas da República mostram que o tempo passa e os vícios persistem, com menos talento. Na segunda metade da década de 1860, a ópera bufa “La vie parisienne”, do compositor francês Jacques Offenbach, fez enorme sucesso na Europa. Nela havia uma ária que prenunciava os farofeiros do século XXI, chamava-se “Je suis brésilien“.

Ele cantava:

“Eu sou brasileiro, tenho ouro

E venho do

Rio de Janeiro

Mais rico hoje do que antes.

Paris, retorno para você.

Duas vezes,

eu já vim

Tinha ouro na minha mala

Diamantes na minha camisa

Quanto tudo isso durou?

O tempo de ter duzentos amigos

E de amar quatro ou cinco amantes

Seis meses de galantes bebedeiras

E mais nada,

ô Paris, Paris!

Em seis meses, você me tirou

Tudo.

(...)

E venho, para que você me roube

Tudo que roubei lá embaixo”

Em 1867, estava na plateia o boêmio Juca Paranhos, filho do Visconde do Rio Branco e pai do futuro Barão.

O “Brasileiro” de Offenbach pode estar na origem do termo “rastaquera”.

O tesouro de Vorcaro

Depois de meses de tratativas, a colaboração de Daniel Vorcaro continua na estaca zero. Apesar disso, o conteúdo armazenado em seus celulares prova, à saciedade, a extensão de suas conexões.

O cunhado do finório, Fabiano Zettel, revelou que em outubro de 2025 foi ao exterior e escondeu um ervanário. Nas suas palavras:

“O Banco Central deu três semanas para o Daniel reformular o banco, senão ele vai ser liquidado. Eu fui lá (no exterior), escondi um dinheiro, porque se der tudo errado e der uma merda danada e tudo meu for bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo as coisas. Agora, eu estou no Brasil e confio em falar isso pra você. Lá eu não podia falar isso por telefone”.

Seriam bilhões de reais, talvez 20. Com calma, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal têm como achar esse tesouro.

Itamaraty em perigo

De todas as propostas de Flávio Bolsonaro, a mais tóxica veio na semana passada. Ele já anunciou que seu irmão Eduardo será o chanceler de seu governo e que ele fará “uma faxina” nos quadros da diplomacia...

Pindorama já provou esse veneno. Em 2019, seu pai nomeou o diplomata Ernesto Araújo para o cargo. Sua gestão foi desastrosa mesmo para os padrões do ex-capitão, e ele teve que substituí-lo em 2021. Para o lugar foi o embaixador Carlos França que restabeleceu o estilo da Casa.

Veio a eleição, Bolsonaro foi derrotado, e a tradição prevaleceu. França foi mandado para a embaixada no Canadá, onde exerce sua função como um profissional correto. O canibalismo é estranho à vida do Itamaraty.

Em 1964, deposto João Goulart, seu chanceler, Araújo Castro, foi mandado para Atenas. Em 1985, terminada a ditadura, o chanceler Ramiro Guerreiro foi nomeado pelo presidente José Sarney para negociar a dívida externa.

O Brasil tem uma diplomacia respeitada porque não tem lugar para canibais. O Barão do Rio Branco dava-se mal com o Visconde de Cabo Frio, diretor-geral do Ministério. Esperou que morresse, o que se deu em 1907.

Os Bolsonaro deveriam ler “O mundo em que vivi”, as memórias do embaixador Pio Corrêa (1918-2013), um verdadeiro e destemido conservador.

O Judiciário na semana da Criação

Se o Judiciário brasileiro estivesse presente na Semana da Criação, ele obrigaria o Pai Eterno a:

1º dia: Deus criaria a luz, mas manteria nas trevas os processos envolvendo magistrados.

2º dia: Deus criaria o firmamento, separando uma área para os gabinetes e casas dos magistrados.

3º dia: Deus criaria as plantas e os pomares dos magistrados que teriam safras contínuas.

4º dia: Deus criaria os astros, com prioridade para familiares de magistrados e tribunais superiores e seus familiares.

5º dia: Deus encheria os mares com peixes e as águas dos magistrados com salmões.

6º dia: Deus criaria os animais e o ser humano, com imortalidade e juventude eterna para os magistrados.

7º dia: Deus descansaria, com direito a férias retroativas.

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NÃO IMPORTA QUEM VENÇA, O CENTRÃO VAI MANDAR E O STF ESTARÁ EM MAUS LENÇÓIS

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

É bastante improvável que a eleição presidencial feche já no primeiro turno; as incertezas e tensões vão persistir para além da noite de domingo

Nunca antes na história deste País as eleições chegam ao fim tão indefinidas, tensas e com o Supremo Tribunal Federal roubando a cena, soterrado por erros e críticas. Ganhe quem ganhar a Presidência, as únicas certezas são que o Judiciário estará na mira e que o Centrão vai continuar poderoso, dominando o Legislativo e controlando o Executivo.

Quem ganha neste domingo? É certo que o “segundo pelotão”, com Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Renan Santos, mal deve chegar a 10% dos votos válidos e só dois candidatos têm chance de vitória, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. No mais, tudo continua incerto.

Nada é impossível, mas é bastante improvável que a eleição presidencial feche já no primeiro turno. Logo, as incertezas e tensões vão persistir e as fakenews vão continuar pipocando para além da noite de domingo, quando os resultados devem ser anunciados pouco depois das 21h, como em 2022.

O segundo turno é “uma nova eleição”, logo, as pesquisas, os especialistas e a mídia, além das campanhas de Lula e Flávio, continuarão mobilizados, atolados em dúvidas sobre quem vencerá e temerosos de novas intervenções políticas do Supremo e do próprio TSE, como as que derrubaram o último debate.

Atenção, porém: essas intervenções podem vir tanto a favor de Lula quanto de Flávio e não vão começar pelo Judiciário, mas pelo Congresso. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, anunciou que vai iniciar a análise do fim da escala 6X1 na terça-feira, bem no início do segundo turno.

Como essa é uma das cartas na manga pró Lula, desde que ele fez as pazes com Alcolumbre, depois de meses de muxoxos, conclui-se que a decisão é boa para o presidente, que disputa o quarto mandato, e ruim para Flávio, eleito pelo pai, Jair Bolsonaro, como seu sucessor político.

Se já é esse sufoco todo, imagine-se como será o segundo turno, com o eleitorado já desanimado, descrente, desmobilizado e sem praticamente metade dos palanques estaduais, já que uma dúzia de governadores devem eleitos em primeiro turno.

A expectativa é de guerra de acusações, facknews aos montes, Supremo se metendo, TSE indo para um lado ou outro, Centrão entrando de mau jeito e uma disputa feroz pelos votos do “segundo pelotão”, já derrotado. E não poderiam faltar as igrejas. Não só as evangélicas, majoritariamente pró Flávio, mas também a Católica, que entrou na campanha de Lula.

É nesse clima de radicalização, crise entre as instituições e envolvimento religioso, que o primeiro turno vai chegando ao fim e o segundo já vai começar. O pós-eleição, como o novo governo será melhor? Nem Nossa Senhora sabe.

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EM QUEM VOCÊ VAI VOTAR EM 2030 ?

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Mais do que candidatos, faltam novas forças e coalizões sociais para renovar a política

Até agora, grupos que apareceram no cenário político apoiam projetos reacionários

Na véspera do primeiro turno deste 2026, pelas mídias sociais se viam cartazes criados por IA dos candidatos a presidente de 2030: Flávio Dino, ministro do STF, contra Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. Sim, 2030 começou faz tempo. Não prestamos atenção.

Os próximos anos serão de dificuldades econômicas. A depender do resultado de 2026, é possível que venham a ser também de angústia política, sendo incertas as condições de disputa da eleição de 2030, se com degradação democrática maior ou total.

Sabe-se que Luiz Inácio Lula da Silva não vai disputar o cargo de presidente em 2030. Nas direitas, caso o bolsonarismo defina a candidatura principal, está longe de certo que Tarcísio ou equivalente seja o candidato. Ainda que apareçam presidenciáveis pela esquerda, no momento é difícil acreditar que o PT adote candidato de fora.

Ao menos desde 2002, o PT é o centro da política partidária. Alguma variante de antipetismo definiu a outra força maior. Desde 1994, o PT mais e mais se limitou a lulismo e Lula. Lideranças escasseiam faz tempo.

Além do mais, as forças sociais organizadas que se amalgamaram no partido estão fracas ou se foram. Por exemplo, sindicatos de trabalhadores industriais, de bancos, de estatais, de servidores públicos. Ou o forte movimento social de base, que brigava por posto de saúde, um poste de luz, um ponto de ônibus que não ficasse a uma hora de caminhada, água, paz, terra, casa ou pão, mesmo na rica São Paulo.

Foram-se ou são mínimas e órfãs forças sociais que lideraram o PSDB até sua morte, entre 2014 e 2018, uma elite mais ilustrada ou patrícia e agregados ricos melhores, boa parte da tecnocracia e da academia mais capaz. PT e PSDB foram filhos de uma história do desenvolvimento que poderia ter sido, mas não foi, centrada em São Paulo, entre 1950 e 1990, e que morreu por aí.

Outras forças sociais que nasceram nas margens desse país, pelos 1970, estão fortes e articuladas. O evangelismo ganhou mais força nas periferias desse país falhado. O agro nasceu nas marchas para o Oeste, com pesquisa universitária e financiamento da agricultura estatais; ficou enorme com a China. Polícias, militares e seguranças se tornaram força política em um país precário e violento.

Organizações de mulheres, negros, indígenas e tanta gente oprimida mais não criaram grande coalizão política; acham representação pontual no envelhecido PT ou em partido pequeno. A Grande Insatisfeita, a pequena classe média que ficou grande nos anos petistas, se vê travada por crescimento baixo e escola ruim. Está em revolta, mas parece inorgânica. Vota "contra o que está aí", contra o PT na maior parte. O pobre dos benefícios sociais, eleitor de Lula, mas bem menos do PT, também é desarticulado.

O "empresariado" é dominado pela finança ou pelo controlador via finança da grande empresa, ou está em serviços e comércio. Não há motor de desenvolvimento por aí, via novo padrão de investimento ou projeto que não seja pagar menos imposto e receber subsídio estatal. O resto é imenso centrão, partido do extrativismo estatal puro.

É um mapa sumário e precário. Mas indica falta de forças sociais para dar carne e osso a projeto político que não seja reacionário ou de extração de benesses. Política e movimento social não são a mesma coisa, mas é difícil haver renovação política sem novas forças ou coalizões sociais. O voto em 2030 pode ser também desanimador.

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