sábado, 15 de agosto de 2026

ELEIÇÕES DRAMÁTICAS

Murillo de Aragão, Veja

Tensão institucional e polarização elevam a temperatura do pleito

Finalmente, a campanha de verdade vai começar. Até agora foi o ensaio de um espetáculo desafinado, com protagonistas desastrados e enrolados nos cadarços dos próprios sapatos. A plateia se divide entre odiar um ou outro dos ponteiros — e torcer por uma terceira via que não consegue entrar em cena.

Como toda eleição presidencial, temos dramas em curso. Teme-se a transição; outros temem o continuísmo. Nesta eleição, porém, há camadas adicionais: tensão institucional, incerteza econômica, polarização, escândalos graves, questões geopolíticas e uma disputa intensa pelas narrativas.

O eleitor observa tudo com desconfiança. A rejeição aos principais nomes é elevada e amplia o contingente dos que decidirão por exclusão, não por adesão, e, provavelmente, na reta final de uma eleição que, salvo fatos novos, tende a ser muito disputada.

Porém, o quadro dado pode sofrer alterações. O improvável pode acontecer e ameaçar os favoritos, que já sofrem com elevada rejeição. Não é a tendência, mas é uma possibilidade.

As redes sociais, turbinadas pela inteligência artificial, ampliam sua influência sobre uma audiência fragmentada e cada vez menos leal a partidos. Os algoritmos viraram cabos eleitorais mais poderosos. A imprensa, que detinha o poder de agendamento e enquadramento, tem sua influência ofuscada.

Há também um componente singular. Flávio Bolsonaro concorre sob a sombra de um pai preso e inelegível e em meio a conflitos internos. Lula, do outro lado, enfrenta seu próprio teste de sucessão: pilota um governo sem marca, de rejeição elevada e com palanques estaduais pouco consistentes.

“O improvável pode acontecer e ameaçar os favoritos, que já sofrem com elevada rejeição”

O Judiciário ocupa posição incomum. STF e TSE seguem como árbitros, mas suas decisões integram o ambiente político que procuram regular. Somem-­se os escândalos que alcançam os Três Poderes — Banco Master, emendas parlamentares e a tragédia do INSS. Em um quadro onde as crises se sobrepõe, os eleitores têm dificuldade de separar o estrutural do episódico.

Mas quem vencer, seja quem for, herdará um país onde os Poderes não se reconhecem. Disputas institucionais prosseguirão, já que o relacionamento harmônico entre os Poderes da União está seriamente ferido. A governabilidade de 2027 pode se revelar mais difícil do que a disputa eleitoral de 2026.

Finalmente, temos o drama maior. Os dois passados em disputa não são equivalentes, mas se alimentam mutuamente. O lulismo evoca um ciclo de inclusão social cuja repetição parece improvável — e cujos vícios fiscais nunca foram enfrentados. O bolsonarismo evoca uma ruptura conservadora que terminou em erosão democrática, mas cuja base identitária permanece intacta.

Cada campo precisa do fantasma do outro para existir: sem o retrospecto lulista, o bolsonarismo perde inimigo; sem o retrospecto bolsonarista, o lulismo perde urgência. A polarização não é acidente — é a arquitetura que sustenta ambos.

O Brasil discute a eleição como se escolhesse entre dois futuros, quando a disputa continua organizada em torno de dois passados que se recusam a passar. Em outubro, o país escolherá um presidente. Mas estará decidindo, sobretudo, o que fazer com o próprio passado — e ainda não sabe como.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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LUTA PELO PODER

José Casado, Veja

Manifesto de chefes da PF mostra a dimensão da crise nos Três Poderes

Uma crise avança como rio de enchente pela Praça dos Três Poderes, em Brasília. Governo, Supremo Tribunal Federal e Congresso estão em conflito, enredados numa profusão de investigações criminais por corrupção com patrocínio e beneficiários políticos — fraudes bilionárias no Banco Master, no INSS e nas emendas parlamentares ao Orçamento, entre outras.

Esses múltiplos inquéritos já desenhavam contornos de uma liquefação, reafirmada em plena campanha eleitoral com o inédito manifesto dos chefes da Polícia Federal em 26 estados e no Distrito Federal.

É uma grande confusão institucional na qual predominam interesses privados dos dois candidatos mais destacados nas pesquisas sobre a disputa para a Presidência da República: Lula, que tem um dos filhos sob investigação nas maracutaias do INSS; e, Flávio Bolsonaro, que já confessou ter recebido dezenas de milhões de reais em transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por trapaças em série.

Na superfície, o manifesto dos delegados federais faz uma crítica velada — e sem mencionar a instituição — ao juiz André Mendonça, designado no Supremo para supervisionar os casos de maracutaias bilionárias no Banco Master e no INSS.

O juiz Mendonça é visto no Palácio do Planalto e na cúpula da Polícia Federal como um aliado do clã Bolsonaro, responsável por sua indicação ao STF em 2021. Meses atrás, ele proibiu investigadores dos casos Master e INSS de relatar resultados das apurações aos respectivos chefes sem a sua permissão.

A mensagem foi interpretada no governo pelo viés da suspeição do juiz em relação ao delegado Andrei Rodrigues, que recebeu de Lula o comando da PF em reconhecimento à fidelidade demonstrada na campanha eleitoral de 2022 contra Jair Bolsonaro.

Não se trata de um embate personalista. É reação institucional às revelações sobre interesses oligárquicos no controle da República.

“Manifesto de chefes da PF mostra a dimensão da crise nos Três Poderes”

O caso Master é exemplar. Com alguns juízes e familiares enlaçados na contabilidade do banco das fraudulências, o Supremo emitiu decisões acirrando conflitos até então encobertos com a Procuradoria-Geral da República, o Banco Central, a Receita, a PF e o Coaf.

No governo, culpa-se a Comissão de Valores Mobiliários, vinculada ao Ministério da Fazenda, de omissão no controle de fundos de investimentos do Master e associados, manipulados por facções do crime organizado.

No Congresso, onde o Master enriqueceu alguns e privilegiou outros com milionárias mordomias, criticam-se os erros e a letargia do governo em liquidar um banco pequeno com negócios de alto risco para o sistema financeiro.

Tornou-se memorável, também, a tentativa de ingerência de um órgão auxiliar do Legislativo, o Tribunal de Contas da União, capítulo anômalo na história de 800 liquidações já realizadas pelo Banco Central.

No documento da semana passada, os delegados federais sugerem uma percepção da Polícia Federal como núcleo de poder emergente na democracia republicana, cujas vulnerabilidades têm sido destacadas em sucessivos casos de corrupção com patrocínio e beneficiários políticos — mensalão, petrolão, Master, INSS, emendas, entre outros.

É difícil imaginar que um presidente, candidato à reeleição, tenha sido surpreendido por um manifesto político elaborado, discutido, coordenado e divulgado durante a campanha eleitoral por dirigentes do órgão policial federal.

A dúvida eventual, nesse caso, teria como consequência a hipótese de extrema incompetência no Palácio do Planalto. No entanto, os indícios são de que o presidente Lula e aliados têm zelado pelo controle do acervo da PF, reconhecido pelo potencial de infundir temor dentro e fora de Brasília.

Eleição presidencial no Brasil, vale lembrar, é sempre uma disputa selvagem por um poder quase imperial. O enredo dos 137 anos de regime republicano é recheado com uma série de subtramas brutais. Na teoria, o vencedor, eleito nas urnas, conquista o controle do Estado, com a possibilidade de influenciar a agenda, o mapa e o rumo da política e da economia. Na realidade, ele depende da legitimação diária do poder emprestado pelos eleitores.

A declaração política dos delegados federais não só dividiu a corporação como mostrou que o estuário da crise será o próximo governo, e não importa quem saia vencedor dos jogos vorazes da eleição presidencial.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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KEYNES E DESCARTES

Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

O inglês subverteu os modelos da “economia das certezas”, que engessam a capacidade de observar

Quem procura conhecimento, procura saber mais. Essa correlação só acontece se você procura conhecimento livre de dogmas, doutrinas e certezas. Saber mais requer algumas características: ceticismo, inconformismo e incomodação. A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem fim, exige ter mais dúvidas do que certezas. Sempre duvide das certezas ou verdades absolutas.

Hegel invocou René Descartes e disse que o pensador iluminista “começou do zero, do universal, do pensamento como tal, e que esse é um novo e absoluto começo.

“A afirmação de que o começo deve ser construído a partir do pensamento apenas ele expressou, dizendo que devemos duvidar de todas as coisas – de omnibus est dubitantur, não no ceticismo, como se devêssemos permanecer sempre em dúvida, na completa indecisão da mente.”

A dúvida cartesiana, ao contrário, significa que devemos renunciar a qualquer pressuposto ou ideia preconcebida, mas começar pelo pensamento como único início seguro.

O primeiro ponto, portanto, é que não devemos fazer pressuposições. Descartes­ afirma que “nossos sentidos são frequentemente enganados pelo mundo sensível e não devemos supor que a experiência é segura”.

John Maynard Keynes tem uma característica pessoal: a humildade e a autocrítica. Sem medo de errar, Keynes é seu principal crítico. Esse tom de personalidade de um pensador e filósofo moral como ele é condição necessária e suficiente para entender sua obra.

Rotular Keynes como apenas um ou mais um economista é um reducionismo da turba que prega verdades incontestes, não tem dúvidas e vive fantasiada de cientista algébrico. Típica forma de viver e pensar dos dogmáticos, crentes e doutrinários. Tudo o que Keynes nunca foi.

Em 2026, comemoramos 90 anos não de sua única obra, mas da derradeira, a Teo­ria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.

Essa obra de 1936 não mudou só a forma de ver a economia como um todo, mas é um exercício sobre a forma de pensar e de conceber as relações constitutivas da assim chamada “ciência econômica

O que mais chama atenção nessa obra é, muito além de criar conceitos como a desutilidade marginal e uma de suas maiores sacadas, a eficiência marginal do capital e a incerteza incontornável que afeta as decisões dos agentes econômicos. Além de exímio matemático e estatístico, Keynes desenvolve a capacidade de criticar e suplantar as certezas que imobilizam a mente dos economistas ortodoxos.

A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem fim, exige duvidar das verdades absolutas

Ele inverte a ordem do processo de conhecimento abrigado nos modelos da “economia das certezas”. Modelos que engessam, inibem a capacidade de observar e desenvolver a criatividade dubitativa. A especialização dogmática é uma cruel inimiga do desenvolvimento das ideias: omnibus dubitator.

Keynes, em 1925, no artigo Am I a Liberal?­ expõe as desconfianças que impulsionam suas dúvidas:

“Agora, veja o meu próprio caso – onde cheguei neste teste negativo? Como eu poderia me tornar um conservador? Eles não me oferecem comida nem bebida – nem consolo intelectual nem espiritual. Eu não deveria ser divertido, animado ou edificado. Aquilo que é comum à atmosfera, à mentalidade, à visão de vida do – bem, não mencionarei nomes – não promove nem o meu interesse pessoal nem o bem público. Isso não leva a lugar nenhum; não satisfaz nenhum ideal; não está de acordo com nenhum padrão intelectual; nem sequer é seguro ou projetado para preservar, dos espoliadores, o grau de civilização que já alcançamos.

“Metade da sabedoria dos manuais de nossos estadistas baseia-se em suposições que antes eram verdadeiras ou parcialmente verdadeiras, mas que o são cada vez menos. Temos de inventar uma nova sabedoria para uma nova era. E, nesse ínterim, devemos, se quisermos fazer algum bem, parecer heterodoxos, problemáticos, perigosos e desobedientes àqueles que nos geraram”.

Keynes prossegue em seu propósito de escapar das velhas ideias: “Mudamos, sem perceber, nossa filosofia de vida econômica, nossas noções do que é razoável e do que é tolerável; e fizemos isso sem alterar nossa técnica ou nossas máximas de manual. Daí nossas lágrimas e problemas”.

Sua caminhada em direção à Teoria Geral evidencia traços de inconformismo e de uma busca incessante de conhecimento.

Ao introduzir as convenções como “fundamentos” das decisões dos detentores de riqueza em condições de incerteza radical, Keynes trouxe para o âmago da economia a complexidade e a precariedade da condição humana investida em sua existência capitalista: ela necessita de âncoras sociais e subjetivas para sua reprodução. A âncora que sustenta as ariscas subjetividades submetidas aos ditames do “amor ao dinheiro” está lançada, sim, na areia movediça das incertezas insuperáveis da vida humana. ­Keynes introduz, assim, na teoria econômica, as relações complexas entre Estrutura e Ação, entre papéis sociais e sua execução por indivíduos convencidos de sua liberdade e autodeterminação.

Diante da incerteza radical, os detentores de riqueza são compelidos a tomar decisões com base em convenções quanto às perspectivas da economia. Keynes sugere que as decisões individuais dos agentes só podem apoiar-se no que imaginam serem as opiniões dos demais.

As convenções desempenham, na economia monetária da produção, um papel especialmente importante na formação de preços dos ativos, reais e financeiros – que descontam seus rendimentos esperados à taxa monetária de juros submetida às oscilações da preferência pela liquidez. Na perspectiva keynesiana, essas decisões intertemporais não têm bases firmes, isto é, não há “fundamentos” que possam livrá-las da incerteza radical em que os proprietários de riqueza estão mergulhados.

No Capítulo XII da Teoria Geral, os concursos de beleza promovidos pelos jornais servem de exemplo para ilustrar a formação de convenções nos mercados de ativos. Os leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será entregue àquela cuja escolha estiver mais próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada participante, mas sim de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião dos demais. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

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CHANTAGEM E SEGUREDOS

André Barrocal, CartaCapital

O jogo de Luiz Antonio Lopes na denúncia de estupro de vulnerável contra Alfredo Gaspar, vice de Flávio

Está nas mãos de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, a decisão capaz de esclarecer uma acusação gravíssima contra o deputado Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas. O escolhido para ser vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro cometeu ou não estupro de vulnerável, ou seja, fez sexo com uma menor de 14 anos? Pelo artigo 217-A do Código Penal, esse crime é punível com prisão por um período de dez a 18 anos, e não importa que o acusado alegue ter havido consentimento da vítima. A Polícia Federal pede desde abril para investigar o caso. Antes de autorizar ou negar, Mendes quer ouvir o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e este requereu à PF diligências preliminares antes de se manifestar. No início de agosto, o juiz enviou a solicitação de ­Gonet à polícia e, também, àqueles que em março acionaram a PF, o deputado ­Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, e a senadora Soraya Thronicke, do PSB de Mato Grosso do Sul.

A permissão de Mendes para o inquérito pode esclarecer outra acusação, surgida nos últimos dias e que deixou Farias exposto, graças a um sujeito que o petista descreve como “picareta estelionatário”. Luiz Antônio Lopes é um bolsonarista fanático, extremista. Filiou-se ao PL de Flávio e Gaspar há pouco mais de três meses, sonha em trabalhar em um governo anti-Lula. Segundo ele, o deputado petista teria fabricado artificialmente, e com dinheiro, a denúncia de estupro contra ­Gaspar. Há pistas de que Lopes esteja ele próprio por trás da desventura do alagoano, que jura jamais ter tido relação sexual com menores. Prendê-lo e quebrar seus sigilos bancário e comunicacional seria um caminho para desfazer dúvidas e mistérios sobre quem mente e quem fala a verdade. Idem um teste de DNA de ­Gaspar e da filha do alegado estupro. Sim, pois do crime do então chefe do Ministério Público de Alagoas teria nascido uma menina hoje com 8 anos, cujo paradeiro teria sido, primeiro, Minas Gerais e, agora, a cidade de Vassouras, a 120 quilômetros do Rio.

Lopes tem uma sorveteria no ­Shopping Jardim Guadalupe, na Zona Norte da capital fluminense. Em redes sociais, em especial na Kwai, publica vídeos espantosos que revelam sua fixação por dois personagens. Um é Farias. O outro, o juiz algoz dos golpistas de 8 de janeiro de 2023. “Queremos Alexandre de Moraes preso e executado”, afirma em um vídeo. Sobre o magistrado, fez uma “promessa”: “Vou cortar a sua cabeça e desfilar com ela por toda Brasília fincada na ponta de uma baioneta”. Lopes é um dos insurrectos de 8 de janeiro, tinha estado em Brasília no dia. Segundo ele, Farias e a deputada Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná, teriam estado “pelos corredores” do poder na ocasião, afirmação destinada a alimentar a fake news de que a insurreição seria uma armação do lulismo. Outra mentira: a dupla petista e mais dois ex-deputados (Jean Willys, do PSOL, e Manuela D’Ávila, ex-PCdoB e hoje psolista) teriam sido os responsáveis pela facada em Bolsonaro em 2018. Farias, comenta Lopes em um vídeo, “vai comigo na minha urna, no meu caixão”.

Quanto às paixões político-partidárias do comerciante, há um vídeo exemplar: “Existe um plano aí, do próprio presidente, o nosso presidente Flávio, de me colocar no GSI”. O Gabinete de Segurança Institucional é o responsável pela segurança presidencial. Flávio é, claro, o filho “zero um” de Bolsonaro. Em 30 de abril, Lopes filiou-se ao PL do Rio, uma semana após dar à polícia da Câmara dos Deputados um depoimento contra Farias. Segundo ele, um assessor do petista teria pago para uma jovem chamada Marcela Maria Mendes passar-se por outra mulher perante uma jornalista. Marcela deveria contar que havia feito sexo com Gaspar aos 13 anos e que dessa relação havia nascido uma menina, hoje de 8 anos. Marcela deveria sumir após a entrevista, para que o relato não pudesse ser posto à prova por meio de um exame de DNA, por exemplo.

Uma jornalista da revista Piauí de fato entrevistou uma jovem que relatou o passado sexual de Gaspar. Foi na época da CPI do INSS, cujo relator era o deputado do PL. A história do alegado estupro veio à tona no último dia da comissão parlamentar de inquérito, 27 de março. Gaspar começou a ler o relatório, uma peça contra o governo Lula e favorável à gestão Bolsonaro. Farias irritou-se: “Eu não vou ficar perdendo tempo aqui”. Gaspar comentou em seguida, provocativamente, em alusão à menção do petista por delatores de uma empreiteira na Operação Lava Jato: “Deputado ‘lindinho’, deputado ‘lindinho’, não estamos falando de Odebrecht, calma”. O petista devolveu: “Seu estuprador!” Dali em diante foi o caos na CPI, que terminou com a rejeição do relatório de Gaspar.

Só uma investigação vai esclarecer os meandros da trama

No depoimento à polícia da Câmara, gravado em vídeo e disponível no ­YouTube, Lopes diz que a acusação feita na CPI contra Gaspar levou-o a cooptar Marcela para descobrir detalhes da trama contra o deputado de ­Alagoas. No início de março, antes do fim da CPI, a jovem teria conversado na praça de alimentação do shopping da sorveteria de Lopes com gente que aparentava não ser da comunidade local. O comerciante teria encarregado um funcionário da sorveteria, Rodrigo Freitas, de averiguar o que era aquela conversa. Detalhe: Freitas mora nos fundos da casa da avó de Marcela, conforme ­Lopes. O funcionário teria ouvido da vizinha o relato sobre se passar por outra. E contou a Lopes. Este diz que, após ter visto na mídia a acusação contra Gaspar, resolveu contratar Marcela para saber mais sobre ela ter sido paga para fingir. E até teria colocado a própria conta bancária à disposição de Marcela, para ela receber o dinheiro pela farsa.

O depoimento de Lopes foi enviado, em maio, ao Supremo, onde repousa o pedido da Polícia Federal para investigar a acusação de estupro contra Gaspar. O comerciante falou à Polícia Legislativa por obra do deputado. Marise Soares Pena, assessora do gabinete do alagoano, fez um Boletim de Ocorrência em 14 de abril, no qual dizia haver sido procurada por Lopes e que este sabia de uma trama contra Gaspar. Farias acusa a polícia da Câmara de tê-lo investigado ilegalmente, pois um parlamentar só pode ser alvo de apurações pela PF em processo no Supremo. A Câmara diz que, após a menção ao deputado petista no depoimento, mandou o caso ao STF e não tomou mais providências. A PF tem em mãos imagens de conversas por escrito, via celular, em que Lopes chantageia o petista e a senadora Thronicke. O print mostra a cobrança de 1 milhão de reais, aponta os dados bancários para depósito e cita Lopes. Sem o pagamento, “teremos 2 parlamentares muito enrolados”, afirma a mensagem. A PF tem ainda a cópia de um e-mail enviado ao gabinete da parlamentar que seria o pontapé inicial da chantagem.

Extorsão é crime punível com prisão de quatro a dez anos, conforme o artigo 158 do Código Penal. Será uma das linhas de investigação da PF, caso Gonet entenda que o caso merece apuração e Mendes concorde. Outra linha seria de “fraude processual”, delito previsto no artigo 347, com penas de três meses a dois anos. A “fraude” estaria caracterizada na tentativa de ocultar das autoridades o suposto estupro cometido por Gaspar. Na época da CPI, o deputado rebateu a denúncia ao contar a história de um primo. Este teria, aos 15 anos de idade, feito sexo com uma mulher de 21 e dessa relação nascido uma menina, Lourilene Pereira da Silva, reconhecida pelo pai após um teste de DNA em 2014. O deputado ofereceu à Procuradoria-Geral o próprio material genético, a fim de provar inocência no caso do alegado “estupro”.

A denúncia recebida em março pela PF não tem relação com Lourilene. O nome da vítima do estupro começa com a letra “J” e a filha dela, com a letra “E”. “J” teria sido doméstica na casa de Gaspar e, por ser menor quando da gravidez, coube à mãe dela registrar “E” em cartório. O nome completo de “E”, sua data e local de nascimento estão em posse da PF. Mãe e filha teriam sido retiradas de Alagoas após o nascimento de “E”, para não causar problemas a Gaspar. O primeiro destino teria sido Minas Gerais e o atual, Vassouras. “E” não frequenta escola, ela e a mãe viveriam de dinheiro enviado todo mês pelo deputado. Entre elas e ­Gaspar haveria um intermediário, Luiz Antônio Lopes. Seria esse o real papel de ­Lopes, não o de alguém que teria sabido da história por acaso, a partir de uma conversa acompanhada de longe na praça de alimentação de um shopping.

Segundo relatos em Brasília, Lopes teria tentado arrancar um extra de ­Gaspar, ao perceber a notoriedade do deputado durante a CPI do INSS. Teria sido ele a fazer chegar a jornalistas a informação sobre “E”. Depois de soprar à mídia, Lopes teria arrancado 70 mil reais de Gaspar e negociava o recebimento de mais 400 mil. Os pagamentos, caso verdadeiros e caso tenha havido “estupro de vulnerável” pelo deputado, caracterizariam o ilícito de “fraude processual”. E na hipótese de “L” e “E” serem mantidas escondidas contra a vontade, haveria mais um delito, sequestro mediante cárcere privado, punível com prisão de um a três anos, conforme o artigo 148 do Código Penal.

Nos últimos dias, Lopes disse a alguns jornalistas ser verdade a paternidade de Gaspar oriunda de estupro de vulnerável. Mas também insistiu na versão de que Farias teria fabricado a acusação contra o alagoano. Nos dois casos, não apresenta prova de nada, o que reforça a necessidade um inquérito policial para esclarecer tudo. ­CartaCapital tentou contato com o comerciante, mas não o localizou. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

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CANDIDATO A CAPITÃO DO MATO

Maria Inês Nassif, CartaCapital

Flávio Bolsonaro não procura voto, espera apenas que Trump tome o poder para ele, à força

Se a extrema-direita apostasse, de fato, na conquista do poder pelo voto, teria se imposto à família Bolsonaro e substituído o candidato às eleições presidenciais. Flávio é inepto e corrupto. Como o pai, confiou na débil Justiça fluminense e no socorro de uma ala do Ministério Público (e agora, na condescendência de um ministro do STF “terrivelmente evangélico”) para livrá-lo dos rigores da lei, embora sem conseguir apagar os rastros das atividades ilícitas. O último escândalo no qual aparece envolvido até o pescoço, o do Banco Master, ainda está quente. Também são indeléveis suas digitais nas negociações com o governo de Donald­ Trump para impor sanções ao Brasil e ameaçar a soberania do País.

Além da folha corrida, o filho de Jair não oferece nada ao eleitor. Escancarou um discurso misógino mesmo diante da evidência de que estará derrotado nas urnas se não quebrar o franco favoritismo do presidente Lula no eleitorado feminino. Escolheu como vice um homem que traz na bagagem uma denúncia por estupro de vulnerável. Fez discursos ameaçadores contra o seu próprio País e apoiou publicamente (e incentivou) as ameaças de Trump ao sistema eleitoral. Rompeu publicamente com a madrasta que, dizem, tem mais votos do que ele. Perdeu apoio entre evangélicos, segmento fundamental na eleição de seu pai em 2018 e na tessitura de um movimento de massas de perfil fascista que manteve Jair no poder e apoiou a tentativa de golpe quando o “mito” foi derrotado por Lula em 2022.

Flávio faz movimentos desagregadores no próprio partido. Tomou para si, como se propriedade sua fosse, uma máquina partidária que, embora tenha ganhado força e importância na esteira do bolsonarismo, constituiu-se nacional e regionalmente como uma legenda forte, com boa representação municipal e uma bancada expressiva no Congresso. É duvidoso que a tomada de assalto do PL de Valdemar Costa Neto dê ao candidato algo além do que financiamento eleitoral. Não existe uma relação orgânica da legenda com ele. O partido cristianizá-lo no meio de um processo eleitoral (jargão político para designar abandono do candidato pelo seu próprio partido, em favor de outro com maiores chances de vitória) não é uma hipótese implausível.

São enormes as evidências de que Flávio é um candidato fraco. Por que, então, se mantém candidato?

A candidatura é um projeto familiar, não apenas de poder, mas de sobrevivência. Estar no poder é a única proteção contra os processos que correm em várias instâncias judiciais contra seus integrantes. Um dos filhos, Eduardo, é foragido da Justiça. O pai está preso por tentativa de golpe de Estado. Carlos e Renan, candidatos, respectivamente, a senador e deputado­ federal por Santa Catarina, precisam de um mandato parlamentar para se proteger de futuras condenações. Flávio seria a tábua de salvação dele próprio. Em algum momento, algum juiz pode se perguntar por que ele compra tantos apartamentos em dinheiro vivo e os vende meses depois pelo triplo do preço.

Se hoje o único apoio inconteste de Flávio é o do governo Trump, e se a tendência eleitoral da família Bolsonaro, representada pelo senador, é a de declínio, e perder a eleição é a hipótese mais plausível no momento, se ele não exerce poder agregador sobre as outras candidaturas de direita, de cujos votos precisaria desesperadamente no segundo turno, se optou por uma candidatura do medo – ou ele, ou a intervenção dos EUA sobre as eleições brasileiras e um possível golpe no candidato com chances efetivas de vitória, o presidente Lula, se conseguiu a façanha de ser rejeitado inclusive pelo setor das Forças Armadas que apoiou a tentativa de golpe contra Lula em 8 de janeiro de 2023, é lógico que aposta na chegada ao poder por um golpe tipo Venezuela. Lula ganha, os EUA contestam a eleição e usam a força para tirá-lo do poder, e Flávio, o amigo do imperador do mundo, assume.

É esse o projeto de Flávio, Eduardo, Carlos, Jair Renan e Paulo Figueiredo, neto do ditador João Figueiredo. E, principalmente, de Jair, que não quer morrer na cadeia. É esse o projeto de Trump, que quer do Brasil petróleo, terras-raras e o que der para agregar não apenas à riqueza dos EUA, mas, principalmente, às próprias finanças. O mundo vive o imperialismo das plutocracias, do uso do poder militar para a concentração cada vez maior das riquezas do planeta nas mãos de poucos. Nesta nova divisão internacional existem os hiper-ricos, o poder militar concentrado nas mãos do país central do capitalismo e os capitães do mato, aqueles que fazem o serviço sujo de desviar a riqueza das nações para os bolsos dos donos do mundo.

Flávio é candidato a capitão do mato. 

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

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AINDA SOBRE A LAVA JATO

Pedro Serrano, CartaCapital

A operação vestiu-se da aparência de um processo penal comum, mas com conteúdo material de caráter tirânico com fim imediato de destruição da democracia brasileira

Recentemente, o Conselho Nacional de Justiça aplicou, por unanimidade, a pena de disponibilidade pelo prazo de 60 dias aos desembargadores federais lavajatistas do Tribunal Regional Federal da 4ª Região, isso por descumprirem decisões de lavra do Supremo Tribunal Federal que determinavam a suspensão de ações penais. A vulgarmente conhecida Operação Lava Jato, sob pretexto de combater a corrupção, acarretou efeitos nefastos para os direitos fundamentais, à dignidade e à liberdade de muitas pessoas, consoante inclusive reconhecido por instâncias do Judiciário brasileiro e mesmo pelas Nações Unidas.

A Lava Jato foi, sem sombra de dúvida, um dos maiores escândalos da história do Estado brasileiro e da mais nefasta manifestação – desde a ditadura militar de 1964 – do poder de persecução do Estado. Muito além de violar formalismos procedimentais ou de manifestar, simplesmente, uma interpretação rigorosamente punitivista de normas jurídicas, a Lava Jato fulminou a própria relação que se estabelece entre o Estado e os indivíduos em termos civilizatórios, subverteu a nossa democracia constitucional e destruiu, irreversivelmente, mercados estruturantes da economia brasileira. Com efeito, o poderio de persecução penal estatal fulminou empresas brasileiras e, consequentemente, fontes de emprego e renda, fazendo tábula rasa para os princípios constitucionais nortea­dores da ordem econômica que garantem o livre exercício de atividades econômicas e reconhecem que a empresa é uma legítima fonte de redução de desigualdades, de valorização do trabalho e de busca do pleno emprego. Ao contrário de alegados êxitos na recuperação de valores, o punitivismo estatal da Lava Jato causou severos desarranjos na economia brasileira, atrofiando cadeias produtivas de diversos setores estratégicos. É nessa terra arrasada pós-Lava Jato que o Estado brasileiro possui o dever de, além de rever a política de combate à corrupção, executar políticas públicas de planejamento e de incentivos fomentadoras do desenvolvimento.

A Lava Jato manifestou-se sob a aparência de um processo penal comum, mas com conteúdo material de caráter político-tirânico com fim imediato de eliminação de inimigos da vida pública e com fim imediato de destruição da democracia brasileira. Muito além de pontuais violações ao devido processo legal, bem como à imparcialidade da jurisdição e dos deveres impostos aos membros do Ministério Público, a Lava Jato enquadrou-se como uma severa manifestação patológico-sistêmica e de exceção, o que é muito distinto do erro judicial, do solipsismo, do ativismo ou de qualquer manifestação de decisionismo voluntarista.

A história humana não ocorre através de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao contrário, ela se revela através de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais da didática clássica. Na história vivida prevalece o caos, razão pela qual não custa relembrar que a Lava Jato representou um dos mais severos momentos de ruptura com o pacto de civilidade que nossa Constituição representa, ao passo que os riscos de retrocesso ainda são inequivocamente presentes. O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios das novas formas de autoritarismo enfraquecedoras do nosso pacto civilizatório. O olhar para o futuro pressupõe, antes de mais nada, o reconhecimento dos nossos recentes fracassos, a insuficiência dos nossos manuais­ clássicos e a falibilidade das nossas instituições. É fundamental compreender, diuturnamente, as causas e as consequências do deslocamento do poder soberano do povo para aquele que toma para si a possibilidade de, inclusive mobilizando afetos públicos e em solapamento da verdade e da coesão social, decidir sobre a exceção. Trata-se do antídoto contra a gradual fragilização dos direitos fundamentais, dos espaços e dos sentidos da democracia e, por fim, da relação de pertencimento à sociedade, desafio constante e contínuo. As dores da Lava Jato seguem inoculadas. 

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

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OS SONHOS NÃO ENVELHECEM, A ESPERANÇA NÃO APAGOU

Marcus Pestana, Congresso em Foco

Não tenho dúvidas, o melhor ambiente para a condução dos destinos do mundo é a democracia. Mas ela, humana, carrega as contradições que são próprias de nossa natureza: virtudes e pecados, sentimentos generosos e perversos. Talvez, seja a política a atividade que melhor encarna a complexidade e os mistérios da existência humana. Há um lado nobre convivendo com traços abjetos. Solidariedade ao lado de ambições desmedidas. Fome de liberdade e justiça disputando espaço com a corrupção. Vontade de melhorar a vida de todos, lado a lado, ao egoísmo, ao patrimonialismo e à manipulação.

Quando aos 16 anos, em 1976, em plena ditadura, iniciei minha militância social e política, tudo era sonho. Não havia liberdade. As desigualdades eram alarmantes. A vontade de participar na vida pública surgia a partir de uma utopia, uma visão de mundo, um projeto de sociedade. A política só fazia sentido se abrisse porta para a mudança. Havia teoria, coração, projeto, sonho, esperança.

Minha geração estudantil conquistou todos os seus objetivos políticos: anistia ampla, constituinte livre e soberana, eleições diretas para presidente. Acabamos com a hiperinflação e o estrangulamento externo, construímos o SUS, universalizamos o ensino básico, consolidamos a democracia, tão testada. Mas, 41 anos depois da redemocratização, o Brasil continua um copo meio cheio, meio vazio. Fracassamos no combate à corrupção, na qualidade da educação, no saneamento, na moradia. Entregamos parcela do nosso território para o crime organizado. O Brasil continua absurdamente desigual e não saltou – como era nossa ideia – do time de países emergentes para padrões de nação desenvolvida. Não superamos a armadilha da renda média. O crescimento da economia, das últimas décadas, parece uma montanha russa. Picos exuberantes, recessões alarmantes.

A política mudou. Quando me elegi vereador, aos 22 anos, tudo era sonho e poesia. Minha campanha não tinha dinheiro, era estudante, só ideias e vontade de lutar. Fui depois deputado estadual e federal, secretário de planejamento e de saúde, ministro em exercício de dois ministérios. Tudo só fazia sentido em nome do projeto original. Em 2019, fui convocado a reassumir meu mandato federal.  Não quis. Não era mais meu mundo, polarização nas redes, radicalismo ao invés do diálogo, estrutura e dinheiro ao invés de utopias, demagogia e populismo no lugar de formulação e discussão sérias e profundas. Confesso, foi expressão de meu pessimismo, que conservo até hoje.

Vinte dias atrás, marquei um almoço com um grande amigo em Brasília. Não acreditei. Do alto de seus 82 nos e a partir de uma trajetória marcante e reconhecida, o Cristovam me falou que era candidato a deputado federal. Seus olhos brilhavam de esperança. Sonhando com a radicalização da democracia e uma educação universalizada de qualidade, a partir de um sistema nacional de educação. Minha primeira reação: você é louco, o ambiente é hostil para pessoas como nós. E ele, ex-reitor da UNB, ex-governador e ex-senador, ex-ministro da Educação, que tanto fez, só me falava dos sonhos futuros. Aí vi que ali, em um octogenário, estava encarnado aquele menino de 16 anos em Juiz de Fora.

O que Cristovam Buarque estava me dizendo essencialmente é que os sonhos não envelhecem – Ave, Márcio Borges! – e que a esperança ainda está no ar.

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AO CONFIAR MAIS EM BALAS QUE EM URNAS, POLÍTICOS CONSERVADORES SE TORNAM ALVO DE VIOLÊNCIA

Angela Alonso*, Folha de S. Paulo

Ocorrências são tão velhas quanto a República, mas governos de direita abrem campo com estímulo a armas

De 2003 a 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados

A saída acabou sendo mais momentosa que o debate. Foi quando o prefeito chamou na chincha o candidato ao governo do partido adversário. Aconteceu em São Paulo e não esquentou mais porque as respectivas equipes entraram apartando.

Na presidencial, Flávio Bolsonaro decidiu-se por slogan que ressoa o de Lula e alude à arminha do pai: "A esperança virou medo". Medo da criminalidade, que Jair Bolsonaro e seu pupilo Tarcísio de Freitas tinham prometido conter.

Como ficaram na promessa, o tema ficou na agenda e outros se lançam ao posto de solucionador-mor da República. A violência está no programa de Ronaldo Caiado, velho de guerra de 1989, como Lula. Em um de seus arroubos juvenis (já desafiou o Bananinha para luta livre), Kim Kataguiri propôs nada menos que uma bomba atômica.

Flávio B. e Caiado miram a dimensão social e Kataguiri, a Internacional da violência em suas agendas políticas. O entrevero entre Fernando Haddad e Ricardo Nunes alude à outra: a relação violenta dos políticos entre si.

Ataques mortais a políticos por outros políticos ou terceiros incomodados com suas ações é fenômeno internacional e de longa duração. No Brasil, de um janeiro a outro entre 2003 e 2023, houve 1.228 ataques a políticos e ativistas e 760 assassinatos consumados. Políticos são a maior parte desse bolo: 63,1% dos casos. Embora o levantamento para os últimos anos esteja em andamento, o problema não desapareceu.

O candidato que tematiza o medo tem medo ele próprio: segundo a revista Oeste, Flávio B. acumula 2.000 ameaças. Fiel ao pai, adotou colete e foge da Polícia Federal. Recusou esta polícia, mas recorreu à do Senado e triplicou sua segurança.

Não é só na presidencial que a violência se esgueira.

As deputadas Gleice Jane (PT-MS), em Dourados, e Lívia Duarte (PSOL-PA), em Belém, foram ameaçadas de morte, respectivamente, em dezembro de 2025, por Zap, e em fevereiro de 2026, por email. Tampouco é só misoginia. Lívia é a primeira deputada negra da Alepa (Assembleia Legislativa do Estado do Pará), o que, a própria apontou, adenda outra camada.

Mas os homens e os brancos, sendo maioria na política, são também os mais visados. O vereador de São Paulo Adrilles Jorge (União Brasil) registrou ameaça em abril. O deputado Cafu Barreto (PSD-BA) ganhou áudio aterrorizador em Ibititá, na Bahia. No Paraná, o deputado federal Toninho Wandscheer (PP) e seus filhos Alisson, deputado estadual (Solidariedade), e Tiago, secretário municipal de Fazenda Rio Grande, registraram B.O. em julho.

Nem quem tem arma escapa: a deputada federal Coronel Fernanda (PL-MT) encontrou em sua caixa de entrada, em junho, email com detalhes de sua rotina e a advertência: "Sei onde você mora".

A PF corre atrás. Anunciou operação nacional para assegurar a integridade física dos presidenciáveis, aumentando em cerca de 53% o contingente mobilizado (de 300 para 458 agentes). Mas enxuga gelo.

A variedade de estados atesta que a questão suplanta o nível local, abrange políticos municipais quanto estaduais e ronda a Presidência. Resolver conflitos políticos à bala é fato tão notório quanto nacional.

E não é específico desta conjuntura. A violência contra políticos é tão velha quanto a República: o primeiro civil na Presidência, Prudente de Morais, quase morreu de bala. E atinge a todos os partidos. Contudo, governos de direita abrem mais campo para ocorrências ao liberarem armas ou incentivarem seu uso. No levantamento citado, a média anual de assassinatos políticos mais que dobrou entre o primeiro governo Lula e o de Bolsonaro.

O fenômeno deve muito ao discurso de políticos conservadores de estímulo à resolução direta dos conflitos políticos, desprezando as mediações institucionais. Confiando mais nas balas que nas urnas, são eles próprios, muitas vezes, as vítimas delas.

*Professora titular do Departamento de Sociologia da USP e pesquisadora do Cebrap (Centro Brasileiro de Análise e Planejamento)

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LULA, A ÚLTIMA VALSA

Demétrio Magnoli, Folha de S. Paulo

A campanha do presidente tornou-se o guarda-chuva sob o qual articula-se a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está

No terceiro mandato, o reformismo brando de Lula dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista

PT veste vermelho, quando concorre para marcar posição, alternando às cores nacionais quando crê no triunfo. Lula vestiu branco, sob o fundo de uma bandeira verde-amarela, na convenção de lançamento de sua sétima candidatura presidencial. "Lulinha porreta", como se exibiu? Não: isso foi dirigido à militância. O sétimo Lula é o candidato da "ordem".

"Ordem", aí, com aspas. O certo é candidato do status-quo, ou seja, da desordem institucional. Sua campanha tornou-se o guarda-chuva sob o qual se articula a paz entre o Congresso e o STF, para que tudo permaneça como está.

Desde que Jair ungiu Flávio, delineia-se a reeleição de um presidente assombrado por crônica rejeição majoritária, que resiste às "bondades eleitorais" oferecidas às custas do endividamento público. As conexões de Flávio com o Master e sua submissão absoluta à Casa Branca foram lidas pela direita como atestado de óbito.

Daí, seguiram-se a retração de Tarcísio de Freitas à fortaleza paulista e a confirmação das candidaturas especulativas de Caiado e Zema, que sonham herdar a base eleitoral bolsonarista na hipótese de implosão do pretendente bolsonarista. Mas, sobretudo, o centrão extraiu do cenário a conclusão lógica de que deve concentrar seus esforços na apropriação do tesouro depositado no cofre das emendas parlamentares.

União Brasil, PP e Republicanos, principais partidos do centrão, assim como o MDB, declararam neutralidade no plano nacional e "flexibilidade" nas disputas estaduais. Hugo Motta, presidente da Câmara, fez suas contas antes de pronunciar o veredicto: "Lula é o presidente que converge com aquilo que pensamos ser o melhor para o país". Tudo indica que Alcolumbre, seu colega do Senado, siga na mesma direção.

O "país" mencionado por Motta não é o Brasil das ruas, mas um Brasil oficial vergado pelo desequilíbrio institucional. Seu objetivo é conservar a inflação de poderes do Congresso –isto é, o sequestro legalizado da prerrogativa de desviar recursos públicos para as bases dos parlamentares. Sob um governo Lula 4, isso solicita uma reconciliação com o STF, cuja maioria alinha-se ao presidente.

O STF reagiu à operação golpista de Jair Bolsonaro pela ampliação de seu próprio poder. Os juízes supremos gostaram e, passada a situação excepcional, prosseguiram a escalada. Censuram ilegalmente, indiciam arbitrariamente, ameaçam o sigilo de fontes jornalísticas, legalizam rendas abusivas do Judiciário, protegem seus colegas das investigações policiais no caso Master. Hoje, precisam evitar uma retaliação do Congresso que emanará das urnas. Lula, Alcolumbre e Motta surgem como intermediários na costura de um pacto de elites: as emendas em troca dos poderes excessivos dos juízes de capa preta.

O "Lulinha da dona Lindu" nunca foi de esquerda, algo que ele mesmo admite. No terceiro mandato, seu reformismo brando dissolveu-se em mera irresponsabilidade fiscal populista. Sua campanha atual, valsa derradeira, baseia-se em duas negativas: não ao autoritarismo dos Bolsonaro, em nome da democracia; não ao neoimperialismo de Trump, em nome da bandeira auriverde. Dois "nãos", nenhum "sim".

"Vai ter briga com emenda parlamentar", prometeu Lula no palanque da convenção. Esqueça: aos 80, o fiador do pacto das instituições representa uma ordem imune à mudança e carente de amparo popular.

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2027, A HORA DA VERDADE

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Quem quer que vença a eleição presidencial terá de lidar com o problema fiscal

Não ser claro sobre as dificuldades à frente é uma forma de estelionato eleitoral

Se as análises de economistas não estão erradas, 2027 terá algo de hora da verdade. Não importa quem vença a eleição presidencialterá de lidar com o nó fiscal em que o país se enredou.

A fórmula que Lula encontrou para promover índices de crescimento confortáveis com baixo desemprego não é sustentável. Ela se baseou em estímulos ao consumo e expansão de gastos públicos. A prodigalidade do Executivo, sancionada e reproduzida pelo Legislativo, impacta nos juros. Para conter a inflação, o Banco Central precisa manter taxas reais em níveis elevados, o que tem efeito sobre a dívida pública. Pelas projeções, sob Lula 3, a dívida bruta do governo aumentará em 11 pontos percentuais, chegando a 83% do PIB.

O eleito poderia ficar tentado a apenas tocar o barco sem grandes mudanças na política econômica. Não funcionaria. Os números estão à vista de todos. Se o governo não acenar com um ajuste convincente, o mercado o promoverá por conta própria, jogando o dólar nas alturas e cobrando prêmios ainda maiores para comprar títulos do Tesouro. Esse ajuste "selvagem" tende a ser pior do que um planejado.

É aí que entra a política. Espero que os petistas inteligentes tenham aprendido algo com o ocaso de Dilma Rousseff. Toda campanha envolve algum estelionato eleitoral. Mas, se você o levar muito longe, pagará um preço político bem mais elevado quando precisar corrigir os rumos. Assim, por prudência aristotélica, Lula já deveria estar moldando o discurso para uma virada na política.

A dificuldade é que seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, que teria menor dificuldade para abraçar uma agenda econômica ortodoxa, evita detalhar as medidas de ajuste que adotaria, sugerindo que benefícios sociais e aposentadorias permaneceriam intocados. E aí, numa clássica armadilha de Nash, como Bolsonaro silencia sobre esses pontos, Lula também se cala.

É ruim para o país, que em 2027, além de lidar com as asperezas de um ajuste, terá de enfrentar as consequências de um estelionato eleitoral de moderado a forte.

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FIM DA CREDIBILIDADE DE UMA SUPERPOTÊNCIA

Fareed Zakaria, Washington Post / O Estado de S. Paulo

Trump trata promessas como blefes; os aliados estão reagindo criando alternativas

As potências entram em declínio quando os países deixam de organizar o mundo em torno delas

Na semana passada, um pequeno terremoto geopolítico abalou o Oriente Médio. A Arábia Saudita e a Turquia – duas nações que mantiveram uma hostilidade aberta uma em relação à outra durante grande parte da última década – comprometeram-se a entrar em guerra em defesa uma da outra. Juntamente com o Paquistão, elas assinaram o Acordo de Defesa Conjunta de Meca, declarando, ao estilo da Otan, que um ataque a uma delas seria considerado um ataque a todas.

O Paquistão e a Arábia Saudita mantêm, há muito tempo, laços estreitos em matéria de segurança. Mas a Arábia Saudita e a Turquia têm sido rivais regionais acirrados, entrando em conflito por causa do Catar, do Egito, da Irmandade Muçulmana e, de forma mais explosiva, do assassinato de Jamal Khashoggi em Istambul, pelo qual o líder turco, Recep Tayyip Erdogan, pareceu culpar diretamente o príncipe herdeiro saudita, Mohamed bin Salman.

Então, o que os uniu? Donald Trump – ou, melhor dizendo, a confiança cada vez menor dos dois países nele e em sua palavra. A guerra com o Irã tem sido uma aula magistral sobre como desperdiçar credibilidade. Vale lembrar que tanto a Arábia Saudita quanto o Catar receberam garantias de segurança de Trump apenas no ano passado. Mas a palavra dele é tão confiável para seus aliados no exterior quanto era para seus banqueiros em Nova York.

Trump declarou repetidamente que um acordo com Teerã estava a apenas alguns dias de ser fechado. Em meados de junho, uma contagem registrou pelo menos 38 declarações de que um acordo estava próximo ou de que o Irã o desejava desesperadamente.

No entanto, nesta semana, uma fonte iraniana disse à Reuters que as negociações não haviam feito “absolutamente nenhum progresso”. O mundo aprendeu a tratar seus anúncios na rede social como uma mistura de fato e ficção, assim como alguns dos vídeos gerados por IA que ele publica.

INSTÁVEL. O mesmo padrão é visto na Europa. Em maio, Trump anunciou que 5 mil soldados americanos deixariam a Alemanha e sugeriu que mais cortes estavam por vir. O Pentágono cancelou um plano de envio de cerca de 4 mil soldados para a Polônia. Dias depois, Trump anunciou que mais 5 mil soldados iriam para a Polônia.

Às vezes, ele ameaça não defender a Europa contra a Rússia; outras vezes, diz que o fará. Imagine ser um ministro da Defesa europeu tentando elaborar um plano militar de dez anos com base nisso.

Trump declarou nesta semana que os EUA tinham “controle total” do Estreito de Ormuz. No entanto, dados de rastreamento de navios registraram apenas 14 embarcações transitando em um único dia recentemente, em comparação com mais de 130 por dia antes da guerra. Isso não é simplesmente uma questão de estilo presidencial ou retórica. Toca no cerne do poder americano.

CREDIBILIDADE. Durante oito décadas, os EUA construíram algo tão poderoso quanto porta-aviões e esquadrões de caças F-35: credibilidade. Os aliados acreditavam que os compromissos americanos perdurariam de um governo para o outro.

Os adversários compreendiam que as ameaças americanas, embora às vezes exageradas, tinham peso real. O sistema não era perfeito. Washington quebrou promessas e cometeu erros. Mas havia uma presunção de que os EUA eram um ator previsível e as palavras do presidente tinham significado.

Trump trata promessas e ameaças como se estivesse jogando um grande jogo de blefe. Mas a imprevisibilidade é algo muito diferente em uma aliança do que em uma negociação imobiliária. Se os aliados não conseguem saber se as tropas chegarão ou partirão, se as tarifas aumentarão ou diminuirão, se um acordo assinado hoje será válido amanhã, eles não se tornam mais obedientes. Eles se tornam mais independentes.

Os países estão criando estratégias de segurança. A Dinamarca escolheu o sistema de defesa aérea franco-italiano SAMP/T em vez do americano Patriot. O Canadá está reconsiderando suas compras de F-35. Os governos europeus estão investindo em suas próprias indústrias de armamento.

A Coreia do Sul tornou-se o segundo maior fornecedor de armas para os países europeus da Otan e está ajudando a equipar a defesa aérea do Golfo com sistemas mais baratos que os Patriots. O banco central holandês transferiu serviços essenciais de nuvem para um provedor europeu, a fim de reduzir a dependência da tecnologia americana. E agora Arábia Saudita, Turquia e Paquistão estão construindo sua própria arquitetura de segurança.

Nenhuma dessas medidas, por si só, representa uma ruptura com Washington. Mas elas demonstram uma perda cada vez maior de confiança na palavra dos EUA. O mesmo está acontecendo com as ameaças americanas.

Se Washington ameaça aplicar tarifas, obtém concessões e depois volta a ameaçar com tarifas, os governos concluem que ceder não traz segurança. Parafraseando o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, no início deste ano, se os países esperam que a obediência garanta segurança, isso não vai acontecer. Portanto, a resposta racional é construir alternativas.

Até mesmo Bibi Netanyahu não levou muito a sério as propostas de Trump, rejeitando de forma seca e sumária o plano de 15 pontos do presidente americano para o território da Faixa Gaza nesta semana. Ele já viu muitos planos de Trump anunciados com grande alarde, que depois são rapidamente esquecidos. Lembra-se do plano da Riviera de Gaza?

É assim que as grandes potências entram em declínio – não necessariamente por meio de alguma derrota dramática, mas à medida que outros, discretamente, deixam de organizar o mundo em torno delas.

PALAVRA DO PRESIDENTE. Os EUA continuam imensamente poderosos. Possuem as forças armadas mais fortes do mundo, tecnologias de ponta, vastos mercados de capitais, alianças formidáveis e o dólar. Mas a credibilidade também é um ativo, acumulado meticulosamente ao longo de gerações e surpreendentemente fácil de esgotar e desperdiçar.

Durante a crise dos mísseis cubanos, o presidente John F. Kennedy enviou o ex-secretário de Estado, Dean Acheson, a Paris para informar Charles de Gaulle sobre a descoberta de mísseis nucleares soviéticos em Cuba. Acheson levou fotografias de reconhecimento para comprovar o caso.

De Gaulle, que dificilmente poderia ser considerado um súdito dos EUA, dispensou as imagens com um gesto. Ele disse que não precisava das provas. A palavra do presidente dos EUA era suficiente. Essa cena é inimaginável hoje em dia.

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O QUE DEVO A NEY MATOGROSSO

Eduardo Affonso, O Globo

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa

Foi há 53 anos, num agosto como este. Num tempo em que 53 anos levavam mais de meio século para passar. (Era cedo para o garoto de 14 anos, que amava Chico e Elton John, descobrir que há segundos que não acabam nunca e décadas que somem sem que se saiba aonde foram parar.)

Ele estava naquele estágio — depois do gibi e antes do jornal, já com o beijo e ainda sem o orgasmo — que, por falta de um CID apropriado, chamam de adolescência. E tudo à sua volta — casa, pai, desejo, Deus, escola, comida, paisagem — atendia pelo nome de “interior de Minas”, que era, a um tempo, geografia e metáfora.

Foi quando alguém sem rosto, só máscara, surgiu cantando seus mortos, seus caminhos tortos, sua alma cativa. Uma cabeça anônima, servida em prato de papel-alumínio, entre pão e vinho, feijão e cebolas. E lá no fundo azul, na noite mineira, uma voz lhe iluminou a mente e ali fez uma dança, uma festa.

Era um o que chegava do colégio das Irmãs Sacramentinas, de uma longínqua 8ª série do extinto Primeiro Grau; outro o que, fechado no quarto e diante do toca-discos, tomava a até então desconhecida mescalina de si mesmo e se abria a sinestesias de rock rondó vira toada balada folk blues.

“O patrão nosso de cada dia” lhe deu uma senha — a etimologia — para infinitas conexões: pai e patrão, frutos da mesma árvore. “As andorinhas” sinalizaram que a poesia estava por um fio — qualquer fio. A “Rosa de Hiroshima” ardia, ferida cálida. E, acima de tudo, de todos, leve, muito leve, aquele bicho indefinível — entre o saci e a fada, o homem e o lobisomem. Seco, molhado, fazendo cena, um treco assim. Não importava que letras e músicas fossem de outros: ali eram dele, eram ele. Pelo modo como cantava, como olhava, como se movia — envolto em tempestade, a primavera entre os dentes.

O menino não sabia de nada — ou quase nada. Não chegara a hora de falar — então escutava. Antecipava o instante de o vinho quente do coração lhe subir à cabeça. De ter consciência para ter coragem. De crescer, assumir pecados, romper tratados, trair os ritos. Com 14 anos e o peso de quatrocentas mortes, soltava o ar no fim de cada faixa: Eu só sei de mim, só sei de mim, só sei de mim.

Aquele disco, aquela voz — aquela ousadia — deram ao menino mudo, inexato, uma aérea esperança, uma clave de sol. Mas nada o faria imaginar-se, cinco décadas depois, num agosto como aquele, ainda ouvindo, com igual assombro, essas canções. Não mais girando em torno de si mesmas na vitrola; vindas de uma nuvem, num fluxo contínuo, a voz voando através de palavras ainda por inventar: wireless, streaming, bluetooth. Ventos de outro Norte, movendo novos moinhos.

O breve hiato que separa o garoto, em 1973, depositando a agulha no vinil e este homem de 2026 com fones sem fio é exatamente a mesma imensa distância que havia entre ele e seus avós, em 1920, a ouvir foxtrotes e maxixes no gramofone, em discos de goma-laca, 78 rotações.

Nesses 53 anos, perdeu pai, mãe, Minas; jurou mentiras, seguiu sozinho. No centro da própria engrenagem, inventou a contramola que resiste.

Enquanto escrevo, ele retorna à casa azul, no Rosário, à direita de quem atravessa a ponte. Fecha a porta do quarto. Abre o encarte. Leva o cabeçote até a penúltima faixa do lado A. E Ney — leve pluma, muito leve, leve — pousa. O Ney que lhe segredou, há meio século (ou há um segundo?) que o que importa é não estar vencido.

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'PARA FLABIA, FIDEL CASTRO'

Flávia Oliveira, O Globo

O regime que ele inaugurou ainda resiste, agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump

Fidel Castro (1926-2016) completaria 100 anos na última quinta-feira, 13 de agosto. Líder da Revolução Cubana (1959), ícone da resistência ao boicote econômico dos Estados Unidos, que se estende desde então, foi inequívoca personalidade histórica do século XX. Jovem jornalista, fui a Havana, encontrei Fidel. O enredo começou em meados de 1999, quando o então presidente cubano veio ao Brasil para a Cimeira do Rio de Janeiro, reunião de chefes de Estado de América Latina, Caribe e União Europeia. De olho em potenciais investidores brasileiros, Fidel desafiou o então presidente da Federação das Indústrias do Rio (Firjan), Eduardo Eugenio Gouvêa Vieira, a levar à ilha uma delegação de empresários. Desafio aceito, partimos, eu pelo GLOBO, quatro meses depois.

O grupo incluía representantes da Brascuba, joint venture entre a Souza Cruz e a estatal cubana de cigarros, e da Petrobras. Eram, à época, as únicas empresas nacionais com negócios em Cuba. No grupo, outros empresários, jornalistas — entre os quais os saudosos Sérgio Leitão (1945-2015) e Arnaldo César (1950-2022) — e o embaixador Afonso Arinos de Mello Franco (1930-2020), já eleito para a Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

A delegação brasileira foi convidada a jantar com Fidel. Punto Cero era o nome dado pelo serviço de inteligência ao complexo residencial onde o presidente viveu, por décadas, até morrer, em novembro de 2016. Era tido como uma espécie de bunker, em área remota de Havana, protegida por fortíssimo aparato de segurança. Não foi permitida entrada com bolsa, mochila ou pasta. Gravador e câmera, nem pensar. Ao apertar minha mão, perguntou se eu era cubana — tal como uma negra cubana poderia ser brasileira, pensei eu.

Eduardo Eugenio se lembra de um Fidel bem-humorado, que fez troça com as duas centenas de ameaças ou tentativas de assassinato que sofrera pelos Estados Unidos; e com a falta de imaginação dos vizinhos. Para o líder, segundo o ex-Firjan, Coca-Cola e Pepsi, Chevrolet e Ford eram a mesma coisa. Lembro de o presidente ter debochado do bipartidarismo americano, em que o povo era obrigado a escolher invariavelmente entre um democrata e um republicano. Ditador havia 40 anos, defendia as eleições diretas em que os cubanos escolhiam os delegados de bairros, espécie de vereadores.

O jantar, à moda Fidel, foi longo. Não durou menos de quatro, cinco horas. O comandante tratou de um tudo. Repórter de economia, guardei a preocupação explícita, algo ameaçadora, com os riscos da exploração de petróleo no mar azul-turquesa da ilha. Na ocasião, Cuba experimentava uma onda de investimentos espanhóis no setor hoteleiro, via crescer a atividade turística.

— Fiz muitas recomendações ao nosso ministro de Energia. Vamos deixar a torre por uns cinco ou oito meses e avaliar se os turistas não terão medo de vê-la a 3,5 quilômetros da praia — disparou o líder, sobre a perfuração que a Petrobras faria na província de Ciego de Ávila, no ano seguinte.

A resistência de Fidel foi o assunto principal da reportagem que escrevi na volta. Demarco Epifanio, gerente-geral do projeto cubano da Braspetro, subsidiária da Petrobras, contou que o governo local nunca deixou de demonstrar cautela com o meio ambiente.

— Cuba não tem lei de petróleo, mas de meio ambiente. Temos o desafio de conciliar nossa boa técnica a uma operação segura, que não cause danos — afirmava, 27 anos atrás.

A Petrobras não encontrou petróleo em Cuba na primeira rodada de pesquisa e prospecção, no ano 2000, durante o governo de Fernando Henrique Cardoso. Oito anos depois, segundo mandato de Luiz Inácio Lula da Silva, voltou a assinar com a Cupet para explorar blocos em águas profundas no Golfo do México. Em 2011, sem resultados positivos, deixou novamente o país.

Fidel morreu há uma década, o regime que inaugurou ainda resiste, agora sob asfixia brutal do governo de Donald Trump. A crise energética é aguda; a humanitária, gravíssima. Em plena emergência climática, Super El Niño batendo à porta, o debate acerca de preservação ambiental e combustíveis fósseis, que Fidel apontava há quase 30 anos, é atualíssimo. Ainda ontem, a Petrobras anunciou descoberta de petróleo na Foz do Amazonas, a 175 quilômetros da costa do Amapá.

Ao fim do jantar, ele posou para fotos com os convidados. Os registros do fotógrafo oficial chegaram ao Rio quase um ano depois. Do palácio, saímos, cada um, com uma caixa de charutos Cohiba Lanceros autografada pelo presidente. Nunca deixei ninguém fumar os “puros”, mofados há tempos. Protegido numa embalagem de acrílico, guardo intacto o presente, ainda embrulhado no papel cinza, em que se lê: “Para Flabia, Fidel Castro”.

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sexta-feira, 14 de agosto de 2026

UMA DEFESA NACIONAL DE PORTÕES FECHADOS

Artigo de Fernando Gabeira

Falar de defesa nacional como um indivíduo não especialista é um pouco de ousadia. No entanto, é democrático que um tema dessa dimensão possa ser discutido pelo maior número de gente possível.

Esta semana, recebi um artigo que escrevi em O Pasquim criticando, quem diria, o velho Tancredo Neves. Ele havia passado pela Itália e anunciado que na Presidência iria fortalecer a produção bélica no Brasil, que, naquela época, já rendia US$ 3 bilhões em exportações. Minha crítica baseava-se no fato de que o tema era muito restrito ao poder, não havia uma discussão pública sobre o tema. Mas era, também, uma discordância em relação à produção de armas para exportar. O mundo naquele momento parecia rumar para a paz, havia um maior respeito das leis e convenções internacionais.

Mais tarde, como deputado, apresentei projeto proibindo a exportação pelo Brasil das bombas de fragmentação. Havia uma campanha mundial contra elas, inclusive com a participação da princesa Diana. Essas bombas nem sempre explodem, e ficam no terreno como uma ameaça permanente, inclusive contra crianças. O projeto foi rejeitado duas vezes, sempre em nome dos empregos que a produção dessas bombas promove.

As coisas têm mudado e, com elas, mudam também minhas ideias sobre defesa. O ministro José Múcio disse recentemente algo que merece reflexão. Segundo ele, estamos tão mal equipados militarmente que, em caso de invasão americana, seria melhor abrir os portões. Discordo dessa frase, mas tenho um grande carinho pelo ministro, com quem estive na Câmara dos Deputados.

Acho que ainda há tempo de fortalecer a defesa nacional a ponto de dissuadir qualquer tipo de invasão. Naturalmente, isso implica investimentos pesados em algumas áreas que hoje fortalecem a ideia de dissuasão: drones e mísseis. Existe um projeto de construção de mísseis pela indústria brasileira que necessita de uma inversão agora de R$ 400 milhões e, no total, de R$ 1,5 bilhão. Infelizmente, apesar da retórica de Lula também ter mudado, esse dinheiro não aparece. O atraso em projetos desse tipo, creio, acaba dando sentido à frase de José Múcio.

A situação deveria ser completamente distinta. A frase que deveria ser dita é esta: sim, temos condições de nos defender, desde que compreendamos a urgência e a amplitude dessa tarefa.

Creio que países como a Finlândia e a Suécia, vizinhos de Vladimir Putin, já disseram isso há algum tempo, e se preparam cotidianamente para dissuadir. No caso da Suécia, a indústria civil nacional também avalia o que fazer, como atuar em tempo de guerra.

Talvez o presidente Lula ainda não tenha compreendido todos os aspectos dessa grande tarefa, embora já tenha manifestado curiosidade e pedido estudos sobre o tema.

O Congresso passa por cima da discussão sobre defesa nacional como se ela fosse exclusividade dos militares, e aí está o grande equívoco. A defesa nacional depende dos soldados e de uma estrutura profissional. Mas ela precisa ser ajudada por toda a sociedade, o aparato econômico de todas as entidades nacionais. Sem uma liderança efetiva que mobilize a sociedade, dificilmente teríamos algo como a resistência na 2.ª Guerra Mundial, ou mesmo a vitória dos vietnamitas contra os invasores, franceses ou americanos. Essa preparação não tem nada que ver com pânico ou traços de paranoia. Ela precisa ser discreta, bem planejada, de forma que os atores saibam ao menos precisamente o seu lugar. Não há paranoia na Suécia, apenas um trabalho permanente, como têm os japoneses diante de possíveis desastres ambientais.

Arrisco a avançar um pouco no tema, com base na experiência. A defesa da Amazônia, por exemplo, dependerá de mísseis e drones em grande quantidade e de qualidade. No entanto, o Exército tem na Amazônia uma das melhores escolas de guerrilha do mundo. Por que não potencializá-la e formar também moradores da região? Há sempre o medo de que se voltem contra o governo. Mas é preciso administrar os riscos e constituir uma grande força de reserva sob o controle nacional. Se constituirmos uma grande barreira de mísseis e drones, presença nos rios e uma parte da população preparada para a resistência, a vida não será fácil para o invasor.

Tudo isso pode parecer meio delirante, fora da realidade. Mas é preciso discutir. A ideia de que o tema não importa ou mesmo de que é preciso ter apenas as Forças Armadas, sem questionar sua eficácia, na dissuasão não é adequada sobretudo para nossos tempos. E o problema central é que a tomada de consciência tardia pode nos custar muito.

Se a tese de que não vamos abrir os portões é válida, precisamos nos preparar para ela aqui e agora. As eleições são uma oportunidade para questionar não apenas os candidatos à Presidência, como também os que pretendem ocupar o Congresso. Até que ponto podemos contar com eles para que assumam suas responsabilidades e parem de empurrar o tema com a barriga, como se o mundo não tivesse mudado?

Continuaremos tendo a luta pela paz como o fundamento de nossa política externa, mediando, dentro das possibilidades, todos os conflitos para que sejam solucionados com o diálogo. A capacidade de dissuasão não é contraditória com nossa política de paz. Ao contrário, ela é seu complemento ideal.

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo em 14 / 08 / 2026

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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL NA EDUCAÇÃO

Simon Schwartzman*, O Estado de S. Paulo

A depender de como ela é usada, a IA pode ajudar a melhorar os resultados e reduzir desigualdades não só no acesso às informações, mas também na aprendizagem

A professora passa um trabalho para casa, o aluno pede ao Claude ou outro programa de inteligência artificial (IA) que faça para ele, e entrega tudo certinho e bem feito. A professora desconfia, manda fazer um trabalho semelhante em sala de aula, e ele não consegue. Conclusão: com a inteligência artificial as pessoas podem até ficar mais espertas, mas ficam mais burras, aprendem menos. Certo?

Não necessariamente. Antigamente, para fazer multiplicações, era necessário saber de cor a tabuada, e, para números maiores, saber as regras de multiplicação por grade ou coluna. Hoje, com as calculadoras, quase ninguém mais decora tabuada e qualquer um consegue fazer as contas em segundos. Ficamos todos mais burros em aritmética ou ganhamos ao abandonar uma metodologia antiga e substituí-la por uma tecnologia moderna?

É isso, numa escala muito maior, que faz a inteligência artificial. Em um de seus usos mais comuns, ela substitui o trabalho rotineiro de buscar, organizar e comparar informações, que antes era feito indo às bibliotecas e consultando manuais ou relatórios de agências de governo, depois passou a ser feito fazendo buscas na internet, e agora se pode fazer simplesmente pedindo ao programa de IA que faça o trabalho de busca e organização das informações para nós. O tempo e o esforço que gastávamos fazendo os cálculos e pesquisando os dados hoje podem ser utilizados para identificar as questões que queremos entender ou pesquisar e interpretar os resultados.

Substituir a educação tradicional, baseada no ensino de conjuntos limitados de informações e rotinas de trabalho, por outra em que os conteúdos estão quase sempre disponíveis na ponta dos dedos não é nada trivial. Isso não se resolve, como às vezes se pensa, substituindo o ensino dos conteúdos pelo ensino de habilidades e competências genéricas, pela simples razão de que habilidades e competências não existem em abstrato, dissociadas de seus conteúdos. Um médico de hoje, por exemplo, que tem à sua disposição um enorme arsenal de instrumentos de diagnóstico e intervenção, precisa saber muito mais sobre o corpo humano e seus processos do que os de gerações atrás, que dependiam de um conjunto muito menor de informações.

Sempre haverá, com qualquer tecnologia, os que não conseguirão entender o problema a ser resolvido ou não saberão se os resultados obtidos respondem ou não ao que se pretende. Mesmo para estes, os recursos da inteligência artificial permitem concluir tarefas que antes não conseguiriam. E os resultados serão muito melhores para os que a usam bem, com a facilidade de poder questionar as respostas, voltar atrás, reinterpretar as questões e testar vários caminhos com muito mais presteza e flexibilidade do que quando só conseguíamos, no máximo, repetir as fórmulas ou seguir as rotinas que aprendíamos na escola.

Duas pesquisas recentes trataram de ver como a inteligência artificial pode afetar a educação, e nos ajudam a ver suas possibilidades e limitações. Em uma delas, feita na Argentina, os pesquisadores recrutaram 1.174 adultos e pediram que resolvessem uma tarefa simulando uma situação de trabalho: receber um e-mail do chefe relatando um problema numa empresa, analisar um relatório com dados e responder por escrito diagnosticando a causa e propondo uma solução. Metade dos participantes podia usar um assistente de IA para ajudar em qualquer parte da tarefa – interpretar os dados, pensar no diagnóstico ou redigir a resposta –, a outra metade não. O que eles viram foi que, sem IA, quem tinha mais escolaridade teve nota bem superior à de quem tinha menos. Com IA, essa diferença encolheu cerca de 75%. A ferramenta beneficiou todo mundo, mas ajudou proporcionalmente mais quem tinha menos escolaridade. Numa segunda etapa, o teste foi feito desta vez sem IA para ninguém. Nela, quem tinha tido acesso à ferramenta na etapa anterior teve desempenho semelhante ao de quem não tinha tido acesso, e, entre os participantes com menor escolaridade, os que haviam usado IA antes saíram um pouco à frente. Isso sugere que o ganho não veio só de “colar” da IA: parte do aprendizado permaneceu mesmo sem a ferramenta.

Em outra pesquisa, feita com alunos de Matemática na Turquia, os estudantes foram divididos em três grupos em uma prova: os que tinham de trabalhar sozinhos, os que podiam buscar a resposta num sistema de IA e os que podiam usar a IA como tutor para ajudar no trabalho. Os que usaram a IA se saíram muito melhor, mas, numa segunda prova sem a IA, os que a usaram para copiar os resultados se saíram pior e os que usaram o sistema de tutoria mantiveram bons resultados.

Juntos, os dois estudos sugerem uma lição importante para quem se preocupa com o uso da inteligência artificial na educação ou no trabalho: ela pode ajudar a melhorar os resultados e reduzir as desigualdades não somente no acesso às informações, mas também na aprendizagem, porém isso depende não só da disponibilidade dos instrumentos, mas sobretudo de como ela é usada: se ela estimula a que as pessoas continuem pensando, ou se transforma num substituto completo do raciocínio.

São pesquisas como essas que, aos poucos, vão nos mostrando as dificuldades e as grandes oportunidades que as novas ferramentas de inteligência artificial nos trazem.

*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

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ANTIPESTISMO VISCERAL ALIMENTA O SERVILISMO A DONALD TRUMP

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Simpatias de brasileiros ao americano concentram-se no bolsonarismo, mas não apenas

Viés ideológico embasa atitudes antinacionais e trânsfugas diante de ameaças ao Brasil

Embora possa causar algum espanto, parcela considerável de brasileiros vê com simpatia o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que vem atacando o país com tarifas comerciais disparatadas e pressões políticas com vistas a interferir nas eleições.

Os apoiadores mais despudorados filiam-se à direita truculenta bolsonarista. Mas há também, talvez mais velados, simpatizantes provenientes de setores liberais conservadores e defensores das pautas das big techs. Entre esses, gente que frequentou boas escolas, teve acesso a leituras e a situação econômica privilegiada. Atestam, em seu transfugismo, quão invertebrados podem ser certos representantes das elites brasileiras.

Parece prevalecer uma espécie de reacionarismo atávico, hoje atualizado por um tipo visceral de antipetismo, que se sobrepõe ao senso de nação —um adesismo equivocado, de viés ideológico, sem altivez.

Mais uma vez, para não deixar dúvidas sobre os propósitos de Trump, o Departamento de Estado dos EUA, comandado pelo diligente e vingativo Marco Rubio, postou vídeo no qual o embaixador no Panamá, Kevin Marino Cabrera, detalha o surgimento da doutrina Monroe, em 1823, quando Washington manifestou-se a favor da independência de países latino-americanos e do afastamento das metrópoles europeias.

O post veio com a frase "o domínio americano no Hemisfério Ocidental jamais será questionado novamente" –proferida por Trump após a captura de Nicolás Maduro, o ex-ditador da Venezuela, ora substituído pela ditadora fantoche Delcy Rodríguez. O norte-americano, como se sabe, defende a doutrina Donroe, trocadilho infame que sintetiza seus interesses imperialistas em nosso continente, onde encontra o referido apoio entreguista.

Trump exerce o poder como um Átila pós-liberal. Onde pisa, a democracia, o multilateralismo e o bom senso morrem. Instituições que mediavam querelas internacionais perderam sentido, na prática não existem mais.

Em seu admirável mundo bárbaro, endossa a disputa entre potências de perfil autocrático —Rússia e China— com autonomia sobre suas áreas de influência. Apoia o projeto Grande Israel para regrar o Oriente Médio, de preferência em sintonia com ditaduras amigas, como a Arábia Saudita —enquanto a Europa é vista como mera frescura para os fracos.

A imposição de taxas no comércio exterior funciona como arma para impor a superpotência e também serve para ajudar no financiamento do Estado, substituindo os impostos não cobrados dos grandes empresários americanos.

Seria como se Lula, se pudesse, num argumento por absurdo, tentasse buscar recursos fiscais impondo barreiras externas para compensar seus gastos públicos e o custo tributário das isenções.

Em ano eleitoral, o Brasil torna-se uma vítima preferencial do republicano, que acredita estar punindo Lula e favorecendo seus aliados extremistas. Recente pesquisa Datafolha, aliás, mostrou que para 52% dos brasileiros Trump atua para favorecer a candidatura de Flávio Bolsonaro, cuja família e seguidores batem continência para a bandeira dos EUA.

O clássico livro "Raízes do Brasil", de Sérgio Buarque de Hollanda, já chega aos 90 anos, mas ainda vale em boa medida seu diagnóstico: somos ainda hoje uns desterrados em nossa terra.

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