domingo, 5 de julho de 2026

SOBRAL, 253 ANOS !

A minha querida terra natal, Sobral, situada na região norte do Ceará comemora hoje, 5 de julho, 253 anos. Segundo dados do IBGE Censo 2023, a população sobralense está estimada em 203.023 mil habitantes. A 240 quilômetros de Fortaleza (capital do estado) é conhecida como a Princesa do Norte.

Um dos monumentos característicos da cidade, o Arco do Triunfo foi construído por iniciativa de Dom José Tupinambá da Frota, em 1953, como marco da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima à Sobral.

O blog Sou Chocolate e Não Desisto parabeniza Sobral e a todos que, a cada dia, com suor, dedicação e muito amor à esta cidade quente e acolhedora, contribuem para uma Sobral mais humana e próspera. Parabéns, Sobral, 253 anos !

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sábado, 4 de julho de 2026

FLÁVIO BOLSONARO FOI PARA A FRIGIDEIRA

Maria Inês Nassif, CartaCapital  

Michelle e Valdemar Costa Neto ganham mais se o filho 01 de Jair perder a eleição

O que está em jogo no lar bolsonarista não é quem vai disputar as eleições presidenciais de outubro – o príncipe ou a rainha, o peão ou o cavalo. Hoje, e depois do Escândalo Master, ninguém consegue definir o verdadeiro valor de face do bolsonarismo. O ex-capitão está na cadeia, cumprindo pena por golpe de Estado. A ideia de um líder forte, encantador de serpentes, sumiu atrás das grades. A reiterada exposição de suas fragilidades físicas desmonta a imagem do Mussolini jabuticaba, do super-herói que vai “livrar o País” de alguma coisa. Seu filho Flávio, autodenominado sucessor político do pai, registra nas pesquisas perdas crescentes entre eleitores antes cativos de Jair. Aquele que se nomeia candidato a presidente por direito de sucessão foi engolido pelo mar de lama do banco de Daniel Vorcaro e de uma relação antipatriótica com os Estados Unidos, a quem só falta pedir explicitamente que lidere um golpe de Estado no Brasil.

O legado político depositado no tabuleiro do xadrez da direita brasileira em 2026 é muito mais que Flávio ou mesmo Jair. O mais importante, para esse espectro, não é perenizar o bolsonarismo, mas um eleitorado conservador que deixou de ser apenas um aglomerado de fanáticos em torno de um líder e passou a reunir um contingente expressivo de simpatizantes, por adesão ideológica, em torno de partidos políticos.

O PL é o principal deles. Embora tenha crescido e se multiplicado a partir da adesão de Bolsonaro, o partido ganhou organicidade apesar dele. O construtor da máquina partidária que floresceu e frutificou nos últimos cinco anos foi o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. Michelle Bolsonaro é parte dessa engenharia política não como esposa de Jair, nem apenas como presidente do PL Mulher, mas pelas relações estreitas com igrejas evangélicas de diversas denominações. Hoje, o partido que era um sopro e vivia à margem do poder federal, qualquer que fosse ele, comendo as sobras, é a maior força de direita do País. Tem quase 1 milhão de filiados, fez uma bancada de 99 deputados federais em 2002, elegeu 516 prefeituras e 5 mil vereadores em 2024 e já começa a eleição deste ano com a vantagem de dez senadores eleitos em 2022, que têm mais quatro anos de mandato.

Flávio Bolsonaro cometeu o erro de trombar de frente com Michelle e Costa Neto. Impôs a sua candidatura como se fosse ordem do pai. Alijou ambos das decisões de campanha. Agiu como um miliciano: entrou no PL Nacional com um chute na porta e expulsou os donos. Patina agora nas pesquisas de opinião, carregando na testa o carimbo de beneficiá­rio de Vorcaro e de vendilhão da pátria. É o candidato que pediu, e conseguiu, dinheiro de Vorcaro e cujo irmão pediu ao governo norte-americano sanções contra o Brasil. É o senador que, agora, sem intermediários, diz que vai colocar à disposição dos EUA uma “equipe de transição” para decidir, se eleito, as relações do Império com o Brasil. Quando for iniciada oficialmente a campanha eleitoral, Flávio irá para as ruas carregando um desgaste do tamanho necessário para impedir uma vitória eleitoral.

O senador esticou tanto a corda que, para o PL, é mais vantagem que ele perca. O que Michelle tem feito, com a cumplicidade de Costa Neto, é jogá-lo às feras. Pode continuar candidato, mas não será presidente. Derrotado, terá a utilidade de puxar uma boa bancada federal, com o auxílio dos votos antipetistas, e sua liderança acabará no dia seguinte à derrota. A política regional, sob controle de Costa Neto, dará ao dirigente partidário uma base parlamentar sólida, com forte poder de negociação. O presidente do PL, um dos líderes mais longevos do Centrão, fará bom proveito disso.

O capital eleitoral evangélico também não cairá automaticamente no colo de Flávio. Ele se espalha por todos os partidos. O Republicano de Tarcísio de Freitas, inclusive, é considerado um partido de propriedade de Edir Macedo, líder único e inconteste da Igreja Universal do Reino de Deus, a maior do Brasil. Nas eleições passadas, definiu como prioridade eleger uma forte bancada federal, capaz de barrar as agendas de esquerda no Congresso. O presidente do partido, Marcos Pereira, nem sequer compareceu à reunião do pré-candidato com os líderes do Centrão no Congresso, logo depois de se autodeclarar candidato pelo PL. ­Silas Malafaia, o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ficou de costas para o filho de seu líder após as pesquisas eleitorais mostrarem a debandada de votos evangélicos ao candidato acusado de corrupção. “Não passo a mão na cabeça de corrupto de direita”, disse, selando o rompimento com Flávio. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

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PACOTE DE BONDADES

André Barrocal, CartaCapital

Em um esforço para melhorar a imagem, Lula faz um sprint final no lançamento de obras e programas de apoio

A campanha presidencial começa só em agosto, com o registro das candidaturas na Justiça e o início da propaganda eleitoral, mas a pré-campanha entra em nova fase. De 4 de julho em diante, exatos três meses antes de os brasileiros irem às urnas, os postulantes à reeleição ficam proibidos de inaugurar obras, contratar servidores ou fazer publicidade dos atos de gestão. Daí o presidente Lula ter se empenhado nos últimos dias nos derradeiros anúncios de novas medidas do governo. Agora, terá de combinar o expediente burocrático no Palácio do Planalto com atividades político-partidárias fora da agenda oficial, em particular à noite e nos fins de semana. Com palanques definidos em 24 estados, o petista dedicará parte do tempo a reuniões com candidatos a governador e senador que o apoiam e a gravar vídeos para eles, entre outras.

O que a máquina de publicidade governamental podia fazer pelo ibope de Lula está feito e se o resultado de hoje não é o dos melhores para quem tentará renovar o mandato, está um pouco melhor do que se via há dois ou três meses, tempos de angústia no petismo e sua militância diante das pesquisas. Para sorte do presidente, o principal rival, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, vive uma maré de más notícias iniciada com a revelação da intimidade financeira com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do finado Banco Master, engrossada pelo “tarifaço 2” de Donald Trump e, mais recentemente, pela briga em praça pública, ou melhor, em ágora digital com a madrasta Michelle.

Até a largada da propaganda eleitoral na internet, em 15 de agosto, e na tevê, 13 dias depois, caberá ao PT a tarefa de promover o presidente, em especial nas redes sociais. Estas são dominadas pela extrema-direita, razão para o filósofo Marcos Nobre apontar a existência de um “Partido Digital Bolsonarista”, título de um livro recém-lançado por ele e cinco coautores. Na sexta-feira 3, o PL promoveu no Rio de Janeiro um seminário de comunicação com, segundo as palavras do secretário-geral do partido, o senador Rogério Marinho, “grandes nomes da direita, influenciadores e especialistas”. Um encontro para alinhar discursos e reunir arsenal contra Lula e o PT.

Secretário nacional de comunicação do PT, Eden Valadares afirma que por ora nada muda na atuação petista nas redes, o padrão atual será mantido, “até porque ainda não pode pedir voto e a Copa do Mundo tem monopolizado as atenções”. A final da Copa será em 19 de julho, e um dia depois começa o período de convenções partidárias que, até 5 de agosto, definirão os candidatos a presidente. A do PT, em conjunto com legendas aliadas, será em 2 de agosto, em São Paulo, estado escolhido por ser o principal teatro de operações, berço de 21% do eleitorado.

A popularidade do presidente tem melhorado nas últimas semanas

Os próximos 90 dias até o pleito verão um “corpo a corpo” na luta por votos, e aí será possível mostrar à população lá na ponta, no mundo real, as realizações do governo e combater as “narrativas” que circulam nas redes sociais por obra da oposição que contam uma história negativa sobre Lula. É o que diz o secretário-geral do PT, Henrique Fontana. “Essa será a eleição mais importante e desafiadora das nossas vidas e, provavelmente, a mais disputada­”, afirma. E por que será mais acirrada do que o duelo de 2022 com Jair Bolsonaro? “Vamos enfrentar uma tentativa de interferência maior por parte dos Estados Unidos. Além disso, as ideias da extrema-direita ganham força com a crise gerada pelo capitalismo financeirizado e predatório, como vimos nas eleições recentes na Colômbia e no Peru.”

De quebra, o canhão financeiro do adversário está mais potente. O fundo público da eleição tem o mesmo tamanho da campanha passada, 4,9 bilhões de reais. Antes, o PT tinha vantagem sobre o PL: levou 503 milhões e os liberais, 288 milhões. Agora, é o contrário: 881 milhões a 615 milhões para o PL. Dificuldades políticas e financeiras somadas explicam o motivo de a futura campanha de Lula ser prioridade total na divisão interna no PT da verba do fundo, conforme um dos vice-presidentes do partido, Jilmar Tatto.

Para Fontana, mesmo com as restrições legais impostas pela legislação eleitoral, “o mais importante é o governo andar cada vez melhor”. A elevação da popularidade governamental é uma tendência durante campanhas. Foi assim com Bolsonaro em 2022. Segundo uma pesquisa Datafolha de junho, 49% desaprovam Lula e 48%, aprovam. No caso do governo, 38% têm uma avaliação negativa, 32% uma positiva e 29% uma regular. Na última semana sem restrições, Lula inaugurou obras, inclusive parciais, na Bahia e no Ceará, e participou, em Brasília, do anúncio da última grande medida oficial de potencial impacto nas urnas, o Desenrola Adimplentes.

O Desenrola é um programa de 2023, e que neste ano ganhou nova versão, destinado a tirar os endividados do sufoco. Propõe-se a facilitar a troca de dívida cara por uma mais barata, de juros mais baixos. Registre-se que parte da explicação para a corda no pescoço dos endividados é do governo, graças ao juro pornográfico do Banco Central, que com Lula saiu de 13,75% ao ano, chegou a 15% e agora está em 14,25%. O Desenrola Adimplentes segue a mesma lógica de substituir dívida pesada por outra menor, mas o público-alvo é diferente, microempreendedores individuais, não pessoas físicas, que ainda não entraram na lista dos caloteiros (essa lista abriga quem está com atrasos acima de três meses). Podem ser renegociados débitos de até 15 mil reais, com juro anual de 26%. As operações devem ser feitas basicamente pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. As instituições privadas não veem motivo para oferecer a facilidade a devedores que, bem ou mal, têm pagado os empréstimos.

No embalo do Desenrola Adimplentes, o governo botou na praça mais duas iniciativas de alívio creditício. Uma é para quem bancou a faculdade com o Fies, linha de crédito estudantil, pagou em dia três anos desse financiamento e agora possui, ou quer, um empreendimento próprio e precise de capital de giro. O juro é de 11% ao ano. O empréstimo, via bancos públicos sobretudo, será de até 80 mil para pessoas físicas e de até 180 mil para as jurídicas. Neste segundo caso, a empresa precisa ter ao menos um sócio com histórico de bom pagador. A outra iniciativa é para atender trabalhadores de carteira assinada. Estes poderão oferecer o FGTS como garantia em empréstimos do tipo “consignado”, aquele cujas parcelas são descontadas do salário. Por estar diante de uma forma de reaver o dinheiro em caso de calote do devedor, o banco pode baixar o juro dos empréstimos. Ao menos, é a expectativa oficial.

Um dia após o pacote de crédito, o governo lançou o tradicional e anual Plano Safra, de empréstimos subsidiados do Banco do Brasil ao campo. E o que se viu foi o de sempre: um caminhão de dinheiro para um setor que nunca está satisfeito e reclama. O plano tem 610 bilhões de reais, um recorde. São 16 bilhões a mais do que o anterior. O juro será de 9% a 12,5%. Antes, variava de 10% a 14%. Do valor total de crédito, 525 bilhões são para médios e grandes agropecuaristas e 85 bilhões, para a agricultura familiar. A CNA, maior entidade nacional de defesa dos fazendeiros, queria 622 bilhões. A fatia direcionada à turma de grande porte supera o que a confederação pedia (518 bilhões). “O anúncio trouxe poucas informações sobre a efetiva disponibilidade de recursos para os produtores rurais e incorporou instrumentos que tradicionalmente não integram o Plano Safra”, reclamou a entidade.

A bancada ruralista no Congresso, uma espécie de CNA com mandato parlamentar, reverberou as queixas. E criticou a ausência de Lula no anúncio da bolada para os grandes agropecuaristas. O presidente havia viajado ao Paraguai pela manhã, para participar de uma reunião de cúpula do Mercocul, e voltou a Brasília à tarde, a tempo de participar somente do anúncio do plano para a agricultura familiar. A realização de dois eventos distintos é uma marca das gestões petistas. Apesar da chiadeira, a bancada ruralista tenta arrancar do ministro da Fazenda, Dario Durigan, uma linha especial de crédito para produtores que tenham tido perdas causadas por crises climáticas e conflitos geopolíticos.

Lula conta com os percalços do principal adversário, Flávio Bolsonaro

O antipetismo e o conservadorismo do campo empurram-no ao apoio do anti-Lula da vez, mas a fase de Flávio Bolsonaro não é boa. A briga com a madrasta por causa de um vídeo divulgado por ela no fim de junho, a atacar a aliança do senador com Ciro Gomes no Ceará, rendeu novos capítulos. A ex-primeira-dama deixou o comando do PL Mulher, apesar do apelo do presidente do partido, Valdemar Costa Neto, para que a lavação de roupa suja familiar acontecesse entre quatro paredes. Michelle tem espalhado ainda que pode até não concorrer ao Senado pelo Distrito Federal.

Em meio à briga com a madrasta, Flávio tomou café da manhã com mulheres do PL em Brasília. O voto feminino é de novo um pepino para o bolsonarismo, daí o encontro servir de pretexto para fotos e vídeos que virassem notícia. Michelle boicotou o convescote e nada indica que em 15 de julho comparecerá ao lançamento de um plano de governo do enteado para as mulheres. Para piorar, um aliado do clã, Paulo Figueiredo, neto de general-ditador brasileiro e há tempos residente nos Estados Unidos para não prestar contas à Justiça brasileira, comentou nas redes sociais que “mulher vota estatisticamente muito mal”, principalmente “as solteiras”.

As mulheres compõem a maioria do eleitorado, 53% dos 158 milhões de votantes, 9 milhões a mais que os homens. São mais antipáticas ao bolsonarismo e simpáticas ao lulismo. A diferença nas preferências delas e deles é uma das formas de enxergar o favoritismo do presidente nas pesquisas. Entre as mulheres, Lula ganha de 44% a 26% de Flávio no primeiro turno e de 52% a 37% no segundo, segundo o Datafolha de junho. Como o “zero um” de Jair vai virar esse jogo é um mistério. 

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

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BOLSONARISMO 2.0

Pedro Serrano, CartaCapital

Associados ao trumpismo e com grande capacidade de mobilização, os discípulos de Bolsonaro dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios

A história humana não ocorre através de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao contrário, ela se revela por meio de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais da didática clássica. Na história vivida prevalece o caos.

É nesse cenário que podemos afirmar enfaticamente: o bolsonarismo está aparelhado para, de forma sedenta, reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las no curso do processo eleitoral, abrindo caminho para uma governabilidade de exceção.

As formas de autoritarismo do século XXI possuem, como constantemente reafirmamos, determinadas especificidades quando comparadas às manifestações do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as expressões dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de exceção em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um Estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção.

Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

A análise do autoritarismo líquido – assim intitulado por não se assumir como tal, não ser uniforme e minar, em intensidades variadas, os âmbitos da vida democrática – impõe aprofundado estudo dos fatores de desestabilização e de subversão dos direitos fundamentais e da democracia.

O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive de matriz neobolsonarista, enfraquecedoras do nosso pacto civilizatório.

O olhar para o futuro pressupõe, antes de mais nada, o reconhecimento dos nossos recentes fracassos, a insuficiência dos nossos manuais clássicos e a falibilidade das nossas instituições. Entretanto, sem que antes tenhamos enfrentado e desnudado o bolsonarismo, o mesmo vem se apresentando, praticamente às vésperas de um novo processo eleitoral, de forma cada vez mais sofisticada e poderosa.

Maior sofisticação, quando comparado ao que podemos chamar de bolsonarismo 1.0, é identificada, por exemplo, nos seus discípulos, inclusive nos governos estaduais. Com maior verniz, eles dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios. Ademais, maior poderio identifica-se, ainda, na capacidade de mobilização e associação ao trumpismo.

É fundamental compreender as causas e as consequências do deslocamento do poder soberano do povo para aquele que toma para si a possibilidade de, inclusive mobilizando afetos públicos e em solapamento da verdade e da coesão social, decidir sobre a exceção. Trata-se do antídoto contra a gradual fragilização dos direitos fundamentais, dos espaços e dos sentidos da democracia e, por fim, da relação de pertencimento à sociedade.

Repita-se: o enfrentamento à gradual­ fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios de um autoritarismo de diluição do pacto civilizatório e da coesão social. Medo, ódio, ressentimento, decepção, raiva e angústia são, como nunca, capturados pelo soberano por meio de narrativas pretensamente racionais e legitimadoras da imposição de mecanismos de segregação e violência, em prejuízo da pluralidade e da tolerância.

Ainda que desejássemos, não temos fórmulas ou receitas para o enfrentamento do desafio ora apresentado. Uma das características do novo autoritarismo está exatamente em retroalimentar-se e de redesenhar-se diuturnamente, inclusive como estratégia de infiltração e de esvaziamento dos instrumentos democrático-sociais a ele contrários.

A reconstrução, bem como o olhar para o futuro, requer incondicional compromisso com a democracia e com os direitos fundamentais. O grande problema é que, sem que antes tenhamos cicatrizado as dores do bolsonarismo paterno, seus filhos e adeptos estão, como nunca, armados para a guerra. Estejamos em vigília. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

PALANQUES CAPENGAS NO SUDESTE

Vera Magalhães, O Globo

Lula e Flávio com problemas no Sudeste

Palanques capengas do petista em Minas e do filho de Bolsonaro no Rio indicam problemas na região mais disputada da eleição

A eleição de 2026 será um teste para a validade de vários axiomas tradicionais da política, como a importância da propaganda em rádio e TV, os efeitos da inteligência artificial e, no plano mais concreto, a centralidade da montagem de palanques regionais para fortalecer candidaturas presidenciais e, no limite, decidir uma disputa que tende a ser apertada.

Nesse quesito, o Sudeste brasileiro é o cenário em que as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro concentram as fichas. Mas, a menos de um mês do início formal da corrida eleitoral, ambos enfrentam problemas bastante sérios para largar com um time promissor e um discurso condizente em colégios importantes da região.

Os desdobramentos consecutivos da Operação Unha e Carne — que atingiu fortemente o grupo do ex-governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro — jogam uma dose enorme de imprevisibilidade para o comando bolsonarista “em casa”.

O grupo contava, na montagem da estratégia para a disputa no Rio, que, a esta altura, já estivesse no comando do governo por meio de uma eleição indireta. O atraso na definição dessa novela por parte do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral coincide com as graves revelações trazidas em capítulos pela Polícia Federal, que desnudam aspectos perturbadores da imbricação da política com o crime organizado no estado.

A campanha do até aqui favorito Eduardo Paes — que já teria o foco na pregação pela necessidade de sanear a estrutura do estado dessa infiltração — se fortalece a partir de indícios da proximidade que se mostra cada vez maior da gestão de Castro com diferentes modalidades da estrutura criminosa do Rio.

Para Flávio, o ex-governador e seu grupo se tornam aliados para lá de incômodos, levando para a campanha presidencial temas que ele gostaria de afastar e colocando em perspectiva a pregação cara à direita de que tem a solução para a segurança pública, problema apontado como mais grave pelos brasileiros em quase todas as pesquisas.

Para Lula, a dor de cabeça em termos de palanque capenga se localiza em Minas Gerais. Todas as tentativas de construir uma candidatura minimamente competitiva ao governo do estado que responde pelo segundo maior eleitorado do Brasil se revelaram tiros n’água.

Agora, o presidente passa pelo constrangimento de ver o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e a ex-prefeita de Contagem Marília Campos lavarem roupa suja em público diante da tentativa do partido de praticamente obrigá-la a abrir mão da candidatura ao Senado para ir para o sacrifício e disputar o governo.

Isso tudo depois que Rodrigo Pacheco deu de ombros aos apelos de Lula para que topasse a missão para lá de inglória diante da guinada política que fez nos últimos oito anos, resultando na desconfiança geral dos mineiros a respeito de que apito ideológico o ex-presidente do Senado toca, afinal.

Não que o time da direita esteja arrumadinho em Minas, longe disso. A indefinição do senador Cleitinho (Republicanos) — um estranhíssimo caso de favorito nas pesquisas que não decide logo se será candidato — e a dificuldade do governador Mateus Simões (PSD), substituto de Romeu Zema, de decolar tornam ainda nebuloso quem será o puxador de votos para Flávio e quanto ele terá de dividir espaço com os demais presidenciáveis da centro-direita (o próprio Zema e Ronaldo Caiado, que vem a ser do partido do governador).

Só São Paulo, o mais nevrálgico dos territórios do Sudeste, está com o roteiro da disputa bem definido entre Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição, e Fernando Haddad, recebedor da tão crucial quanto difícil incumbência de repetir a perfomance razoável de 2022, que assegurou a Lula um número de votos fundamental para vencer por pouco no país.

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MARATONA DE INAUGURAÇÕES

Bernardo Mello Franco, O Globo

Lula corre para entregar obras e chama lei eleitoral de 'papagaiada' 

Presidente faz maratona de inaugurações e reclama de limites ao uso da máquina

Aconteceu ontem em Luís Gomes, município de 9 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte. Na correria para entregar obras no limite do prazo legal, Lula inaugurou um túnel de irrigação sem uma gota d’água.

“Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”, perguntou, do alto do palanque. O presidente disse que programou a viagem para ver a água chegar, mas “houve um erro de cálculo”. “E esse erro de cálculo fez com que eu chegasse aqui e a água ainda não chegou”, justificou-se.

O atraso frustrou o petista, mas não constrangeu seus áulicos. O ministro Waldez Góes disse que o povo da cidade deveria “olhar para o céu e agradecer a Deus e a Lula”. O prefeito Carlos Augusto de Paiva, o Tututa, descreveu a visita presidencial como uma “dádiva”.

Na segunda parada, Lula pousou em Quixeramobim, no Ceará. Inaugurou um trecho da ferrovia Transnordestina, que havia prometido concluir em 2010. Em nova sessão de elogios, foi saudado pelo senador Camilo Santana como “o maior presidente da história deste país”.

O petista terminou o dia em Juazeiro do Norte, onde entregou ambulâncias e ônibus escolares. Por volta das 20h, reclamou que ainda não havia tido tempo para almoçar.

No discurso, enumerou feitos, comparou-se a Getúlio Vargas e perguntou se algum outro governante é “mais respeitado hoje no estrangeiro”. A claque não teve dúvidas. Empolgada, a prefeita de Brejo Santo, Gislaine Landim, estimulou o público a cantar o jingle de 1989: “Vamos lá: Lula lá, brilha uma estrela...”.

Nos últimos dias antes do chamado defeso eleitoral, o presidente fez uma maratona de viagens para inaugurar obras e lançar programas. Em clima de campanha, usou as cerimônias oficiais para elogiar a própria gestão, renovar o estoque de promessas e sugerir que merece mais um mandato.

Ao inaugurar o túnel sem água, ele se queixou da lei que proíbe novos anúncios oficiais nos três meses que antecedem a eleição. Definiu a regra, que limita o uso da máquina pública por candidatos à reeleição, como uma “papagaiada desgraçada”.

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SOBERANIA EM IA É MAIS IMPORTANTE QUE REGULAÇÃO

Pablo Ortellado, O Globo

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros

Uma reportagem publicada ontem no Financial Times revelou que a OpenAI, empresa por trás do ChatGPT, ofereceu uma participação de 5% ao governo americano. O objetivo é duplo. Com a participação direta do governo, a OpenAI espera diminuir obstáculos políticos e regulatórios trazidos pela administração Trump. Além disso, a oferta atende parcialmente a uma demanda da esquerda, que defende a nacionalização de metade das ações das grandes empresas de inteligência artificial para socializar os dividendos da automação (a proposta é do senador Bernie Sanders).

A proposta está ainda em fase inicial, mas deveria acender o alerta sobre a vulnerabilidade de nações como o Brasil — países que não detêm controle sobre a infraestrutura crítica em IA passam a depender da boa vontade do governo americano, que fica no comando direto do desenvolvimento e do acesso a uma tecnologia crítica. Dois outros incidentes recentes reforçam a preocupação.

Mesmo sem participação acionária, o governo Donald Trump proibiu a Anthropic, empresa por trás do Claude, de dar acesso a seu modelo Fable 5 a não americanos no começo de junho. A alegação para o controle de exportação foi que a tecnologia pode ser usada por atores estrangeiros maliciosos em ciberataques. A suspensão só foi revertida na terça-feira desta semana, depois de a Anthropic comprovar melhorias na segurança do produto e depois de crescer o temor de que não lançar o modelo no mercado global favoreceria concorrentes chinesas.

O bloqueio efetivo da exportação do Fable 5, ainda que por preocupações de segurança possivelmente razoáveis, mostra que, se os Estados Unidos controlarem o mercado da IA de ponta, podem tratar empresas nacionais e estrangeiras de forma não isonômica.

O último incidente preocupante foi revelado em fevereiro. Reportagem do Wall Street Journal revelou que funcionários da OpenAI não acionaram a polícia quando tiveram ciência de que um jovem, em conversa com o ChatGPT, planejava o ataque a uma escola. A ameaça não relatada à polícia terminou num massacre que deixou mortas cinco crianças de 12 e 13 anos.

Mais que falta de agilidade em acionar a polícia, o incidente revelou que a OpenAI, desde agosto de 2025, vinha escaneando conversas dos usuários para identificar crimes. A infraestrutura que faz varredura nas conversas procurando crimes violentos é a mesma que identifica segredos industriais, pesquisas científicas de ponta ou planejamento estratégico de governos. Como as revelações de Edward Snowden em 2013 mostraram, o risco de usar uma tecnologia como essa para espionagem não é especulativo, ainda mais se a empresa for diretamente controlada pelo governo americano.

Esses incidentes mostram que a posição de países como o Brasil pode ser muito vulnerável e que construir soberania é estrategicamente mais importante que regular a IA — afinal, a capacidade de garantir o acesso à tecnologia precede a definição de como ela deve ser usada.

O Brasil não pode aspirar ao controle vertical de toda a cadeia da IA, como faz a China, que pretende criar aplicações, modelos próprios, data centers e uma indústria nacional de chips. Mas pode fazer movimentos que tornem sua posição menos desfavorável.

Temos de deixar de ser meros usuários de modelos estrangeiros e passar a operar e adaptar modelos abertos em infraestrutura própria — o que nos protege da ingerência de americanos e chineses. Isso implica ter data centers domésticos com chips potentes e tratar os acervos públicos brasileiros — jurídicos e de saúde — como ativos estratégicos.

A posição diplomática do Brasil é um trunfo, pois manter laços fortes simultaneamente com Estados Unidos e China dá acesso tanto aos chips avançados ocidentais quanto aos modelos abertos chineses, que rivalizam com os americanos a uma fração do custo.

Nada disso, porém, se sustenta sem tratar a soberania tecnológica como política de Estado, acima da polarização. A direita precisa ser lembrada de que, antes de aliados ideológicos de Trump, são brasileiros. E a esquerda, de que foi o progressista Barack Obama que espionou a Petrobras e a Presidência da República.

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A DURA REALIDADE AONDE A POLÍTICA NÃO CHEGA

Artigo de Fernando Gabeira

 Alguma coisa está errada e muitos só vão perceber quando ouvirem o barulho dos tiros ou o domínio territorial do crime chegar às suas cidades

Às vezes, as coisas muito próximas são universais. Hesito em escrever sobre o que vejo no cotidiano no Rio de Janeiro, mas não deveria: é algo importante para o País e com grande possibilidade de espalhar-se por todos os cantos.

Encontrei na rua uma amiga e perguntei se estava tudo bem: “Perto de minha casa, apareceu uma cova com 20 mortos. Sempre procuro sair às cinco da manhã para evitar tiroteios, mas, às vezes, precaução não adianta”. Ela vive numa favela chamada Rio das Pedras, dominada por uma milícia acossada pelo tráfico de drogas que quer o domínio do território.

No mesmo dia, encontrei, acidentalmente, um homem que empurrava sua bicicleta na feira. Ele vinha da Muzema, uma comunidade que fica no início da Barra da Tijuca. Lá em casa, disse ele, o tiroteio é quase toda noite: a área é dominada pelo Comando Vermelho.

Assim vivem milhões de pessoas no Rio. No território dominado, quem manda é o crime organizado, que vende gás, controla o transporte alternativo e inclusive escolhe algumas meninas para serem suas amantes. O preço da recusa é a morte ou então a mudança precipitada do lugar.

O crime organizado tem uma grande influência política. Ele define quais candidatos podem entrar em sua área. Considerando que controla metade da cidade, ajuda a definir a bancada de eleitos.

A penetração no tecido político é evidente: os últimos governadores foram presos, assim como deputados e um presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

O que é mais doloroso é examinar o conjunto de políticas que visam a solucionar o problema e constatar que nenhuma delas consegue trazer uma esperança real.

O que não significa que essas políticas não sejam desejáveis. A PEC da Segurança que está parada no Senado parte de um princípio fundamental: a unificação das forças federais e estaduais no combate ao crime organizado. Isso pode aumentar a eficácia da segurança pública, mas não responde à questão básica: a reconquista permanente do território ocupado, hoje um fenômeno que se exportou para o Nordeste.

Da mesma forma, a iniciativa americana de definir dois grupos como terroristas e partir para uma guerra de destruição é bastante limitada. Nas condições existentes, a eliminação de um grupo dará lugar a outro e eles vão se suceder enquanto as condições político-sociais prevalecerem.

O combate e a morte de alguns criminosos servem apenas para atenuar, na opinião pública, essa sensação de ineficácia. O verdadeiro projeto nunca aparece e ele, certamente, passa pela presença do Estado nessas áreas com os seus serviços essenciais funcionando.

A resposta para a inexistência de um projeto de liberação permanente das áreas ocupadas é falta de dinheiro e pessoal. Se não há dinheiro em orçamentos tão generosos como o brasileiro, então não há solução.

Se somos incapazes de definir a soberania nacional sobre nossos territórios, ficaremos reduzidos a uma guerra assimétrica. E elas nunca são favoráveis ao lado mais forte. Graças às condições favoráveis de que desfrutam no território, esses grupos vão sobreviver mesmo com as campanhas repressivas. No Rio, obtêm armamentos modernos, se empossam da tecnologia e já estão em plena guerra de drones.

Muitos especialistas falam em ir atrás do dinheiro do crime organizado e enfraquecê-lo a partir da drenagem de seus recursos. É uma ótima tática.

Na vida cotidiana, entretanto, o crime organizado produz seu rendimento pela simples exploração do território: venda de gás, transporte alternativo, taxas de segurança. Tudo isso tem muita importância e, às vezes, rende mais do que o próprio tráfico de drogas.

Os Estados Unidos optaram pela guerra para evitar que a droga entre em seu território. Nessa nova versão da muitas vezes fracassada guerra às drogas, bombardeiam barcos no Pacífico e no Caribe. O tráfico de drogas é um grande problema nas suas relações com o México.

Com um sério trabalho de inteligência é possível reduzir o trânsito da droga pelo território brasileiro. Mas ver barcos bombardeados e supor que estamos atacando o verdadeiro problema no Brasil é fugir da realidade.

Por isso, com todo o respeito que tenho por especialistas, não acredito muito em soluções que ignorem o clamor de milhões de pessoas, que querem andar livres, escolher livremente o que compram, proteger suas filhas dos predadores do crime, conversar com candidatos que não precisem de licença para entrar na favela.

Sei que esse futuro ainda está distante. Não deveríamos esquecer esses milhões de brasileiros nos territórios ocupados quando falamos orgulhosamente de soberania nacional. Alguma coisa está errada e muitos só vão perceber quando ouvirem o barulho dos tiros ou o domínio territorial do crime chegar às suas cidades. O alarme soa alto, mas ainda é muito pouco ouvido.

Candidatos à Presidência e aos governos dos Estados deveriam ser questionados seriamente sobre a liberação territorial no Brasil. No mínimo, por solidariedade aos milhões de oprimidos. •

Artigo publicado no jornal O Estado de S. Paulo em 03 / 07 / 2026

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REVÉS PARA A LUTA DAS MULHERES

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Enfraquecimento político de Michelle Bolsonaro é revés para luta das mulheres

Se deixar a política, ex-primeira-dama repetirá o roteiro de muitas: entram na vida pública graças a um familiar, sofrem violência de gênero e se afastam quando não tem mais serventia aos homens

Na conversa que tiveram com Michelle Bolsonaro, a senadora Damares Alves e a governadora Celina Leão custaram a demover a ex-primeira-dama da decisão de deixar completamente a política.

Michelle havia acabado de comunicar a Valdemar Costa Neto, presidente do PL, que renunciaria não só à presidência do PL Mulher, como também não concorreria ao Senado pelo DF e se desfiliaria do partido.

Ela estava afastada do núcleo decisório da campanha à Presidência do enteado Flávio Bolsonaro, encontrava dificuldades para emplacar aliadas como candidatas e vinha sendo atacada nas redes por pessoas próximas do também enteado Eduardo Bolsonaro.

O clima estava ruim desde quando Michelle expôs a divergência sobre o apoio a Ciro Gomes (PSDB-CE), mas piorou. O vídeo em que acusa Flávio de “humilhá-la” e “maltratá-la” ficou pronto por dias, enquanto ela orava por um sinal se deveria publicá-lo. A resolução veio quando aumentou a pressão para que a vice-presidente do PL Mulher, Priscila Costa, desistisse do Senado no Ceará.

Damares e Celina só conseguiriam convencer Michelle a se manter na vida pública quando apelaram para a responsabilidade com suas seguidoras. As duas argumentaram que a saída do PL seria contraditória. Ela havia se dedicado a pregar que partido político, mesmo conservador, também era um espaço da mulher, mas agora se distanciaria dele.

Michelle foi uma primeira-dama discreta, mas entrou na política na reta final da derrotada campanha de Jair Bolsonaro à Presidência em 2022. Tomou gosto.

Na presidência do PL Mulher, percorreu o País angariando mulheres para se tornarem vereadoras e prefeitas. Dava palestras, produzia cartilhas e material ensinando a gravar vídeos. Conhecia as diretoras estaduais e rastreava candidatas com maior potencial de voto.

Junto com Damares, que fazia o mesmo no Republicanos, incentivava mulheres ditas “comuns” a trazerem causas que defendiam em ONGs e igrejas para dentro da estrutura partidária. Tudo com uma pitada religiosa, já que diziam que essas mulheres eram “alicerçadas” por Cristo.

O futuro político de Michelle é incerto. Seus aliados acham que vão convencê-la a se candidatar ao Senado e que o PL não abrirá mão de uma eleição certa. Mas, por enquanto, ela está de novo restrita ao lar e ao marido enfermo.

Se deixar a política, repetirá o roteiro de muitas. Entram na vida pública graças a um familiar, sofrem violência de gênero e se afastam quando não têm mais serventia aos homens. É possível concordar ou discordar dela, mas seu enfraquecimento político é um revés para a luta das mulheres.

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UMA DEFESA DA INEFICIÊNCIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Na regulação de produtos viciantes, como drogas e bets, é preciso evitar estímulos ao uso

Isso significa limitar a publicidade e cuidar para que empresas não consigam expandir mercados

Falar mal da propaganda de bets na CazéTV se tornou uma unanimidade nacional. Não vou, em nome de uma suposta liberdade de expressão comercial, defender o direito dos jovens locutores de convidar telespectadores a fazerem uma fezinha, mas acho importante apontar o dedo para outros atores, mais especificamente para o Congresso Nacional. Desde 2024 está claro que a publicidade das bets se tornou um problema. Desde 1930 sabemos que em 2026 haveria uma Copa do Mundo, evento midiático em que empresas ligadas a futebol, como bets e cervejarias, se esbaldam.

Tramitam no Parlamento vários projetos de lei que limitam um pouco mais seriamente a publicidade de bets, mas eles não foram aprovados a tempo. E não foram porque o Congresso não quis. Suspeito que operem aqui os mesmos interesses que fazem com que a lei brasileira que disciplina a propaganda de bebidas alcoólicas exclua a cerveja, a bebida alcoólica mais consumida no país, do rol de bebidas alcoólicas para fins de publicidade. Essa situação bizarra perdura há 30 anos.

E a propaganda é só um aspecto do desafio maior que é regular a indústria de produtos potencialmente viciantes. O dilema das autoridades aqui é assegurar que cada adulto possa, se quiser, consumir drogas ou fazer apostas recreativamente, mas sem incentivar tais comportamentos. Uma primeira decorrência é que as empresas não podem ser muito eficientes. Devem ser capazes de satisfazer a demanda, mas não queremos que ampliem vendas ou abram novos mercados —o que vai um pouco contra o espírito do capitalismo.

Uma solução seria estatizar, colocando a proverbial ineficiência do setor público para jogar a nosso favor. Se a Narcobrás (Narcóticos do Brasil) e a Embrassino (Empresa Brasileira de Cassinos) tivessem um desempenho parecido com o dos Correios, não teríamos com o que nos preocupar. Mas, como acho que nem o PT criaria essas estatais, precisamos cuidar para que todas as empresas que atuam nesses setores fiquem para sempre pequenas e com baixo poder de fogo.

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EMPURRADOS PARA O DIGITAL

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Quando o idoso se vê indefeso diante da tela, o Estado lava as mãos e o joga para a família

O atendimento presencial é garantido pelo Estatuto do Idoso. O Brasil finge ignorar isso

É outro vídeo que recebi, este de meu amigo Luiz Fernando Janot. Não sabemos quem o escreveu ou interpretou. Mas sabemos que cada cena e cada palavra que contém são verdadeiras. As imagens mostram idosos em bancos e hospitais, tentando conviver com seu pior inimigo: o smartphone. O texto, na voz de uma mulher, diz:

"Quando uma tecnologia não respeita a biologia humana ela não é inovação. É o descaso fantasiado de modernidade. E a punição para quem não consegue passar pela barreira da tela é o abandono. Agências vazias, portas fechadas e a recusa de um atendimento presencial.

"O Brasil é o segundo país mais avançado do mundo digitalmente. Mas de que adianta o sistema ser brilhante se ele negligencia e isola a sua própria população? Hoje somos 35 milhões de idosos no Brasil. Em quatro anos, seremos 41 milhões, quase 18% da população. Mas as empresas e o Estado estão empurrando todo mundo para o digital. E, quando o idoso não consegue, o Estado lava as mãos e joga nos ombros dos familiares uma responsabilidade que deveria ser das instituições.

"Estão esquecendo que o atendimento presencial e humano é garantido no Estatuto do Idoso. Há milhões de brasileiros sem acesso à internet ou com limitações físicas severas que tornam impossível o uso de aplicativos. E não é só para pagar uma conta ou acessar o banco. O agendamento de uma consulta médica pelo SUS passa pela mesma barreira"

O texto conclui com um apelo que deveria ser levado em consideração pelas autoridades e por todos nós: "Esse vídeo não é só um desabafo. É um manifesto. O atendimento humano presencial e capacitado não pode ser um favor. É um direito do cidadão, independentemente da idade ou do status social. É preciso que os bancos atentem para o fim social que têm. Eles têm que atender ao interesse da sociedade. Faço aqui um apelo direto aos órgãos do governo, às associações de classe, às comissões dos direitos dos idosos. Unam-se a nós nessa cobrança. Compartilhem esse manifesto. Não podemos aceitar a exclusão e o silêncio".

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CARTA DE FLÁVIO BOLSONARO A TRUMP É TIRO NO PÉ QUE FAVORECE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Ao pedir apenas o adiamento da punição, e não sua imediata revogação, Flávio legitima a sanção norte-americana. Passa a mensagem de que o tarifaço pode ser aceitável

A carta enviada por Flávio Bolsonaro a Donald Trump, pedindo o adiamento por 180 dias do tarifaço contra produtos brasileiros, eleitoralmente é um tiro no próprio pé para o pré-candidato do PL, além de muito tóxica para as negociações diplomáticas do Brasil com a Casa Branca. O senador atropelou a linha de negociação conduzida pelo Itamaraty e pelo Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), deslocou o contencioso do terreno técnico para o palanque eleitoral e mostrou falta de coesão política do país na defesa dos interesses brasileiros que estão em jogo.

O candidato de oposição entregou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de bandeja, a bandeira da soberania na campanha eleitoral. Repetiu o mesmo equívoco de seu irmão Eduardo, que vive nos Estados Unidos e comemorou o tarifaço como se fosse uma grande vitória da oposição. Deu errado. Lula estancou a queda e voltou a subir nas pesquisas eleitorais. Em vez de enfraquecer o governo, a carta de Flávio reforça a narrativa oficial de que a família Bolsonaro atua para internacionalizar a crise política brasileira e instrumentalizar interesses externos contra o próprio país.

Mas a crise tarifária com os EUA tem bases mais objetivas do que eleitorais. Nasce de um contencioso comercial complexo, decorrente da disputa comercial com a China e da reestruturação das cadeias globais de valor. Os Estados Unidos concluíram, em junho, a investigação aberta com base na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974, mecanismo que permite a Washington retaliar parceiros quando considera que eles adotam práticas comerciais “desleais” ou “desarrazoadas”.

No caso brasileiro, o USTR (Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) reuniu no mesmo balaio comércio digital e o funcionamento do Pix; decisões judiciais envolvendo plataformas digitais; tarifas preferenciais no âmbito do Mercosul e de acordos com Índia e México; acesso ao mercado de etanol; propriedade intelectual; combate à corrupção; e desmatamento ilegal. O governo brasileiro reagiu com prudência. Um documento de 29 páginas, assinado pelo chanceler Mauro Vieira, tecnicamente, rebate ponto a ponto as acusações norte-americanas e sustenta que boa parte da agenda levantada por Washington não diz respeito a comércio, mas a opções regulatórias, institucionais e soberanas do Estado brasileiro.

Na verdade, a negociação conduzida pelo Itamaraty não se limita a uma briga tarifária, questiona o alcance da Seção 301 e o direito de os Estados Unidos transformarem divergências em matéria de política interna brasileira, como a regulação de plataformas, a estrutura do Pix, decisões do STF e o combate ao desmatamento, em razões para sanções econômicas. O Brasil, nas conversas com a Casa Branca, tenta isolar os litígios comerciais das disputas políticas e ideológicas. Ou seja, defende uma política de Estado. Sua atuação é institucional e preserva canais de diálogo, ao discutir cada item da pauta em bases técnicas e evitar a contaminação pela polarização eleitoral.

Implosão diplomática

Nesse sentido, a carta de Flávio implode o esforço diplomático brasileiro. O senador pede que as tarifas não sejam aplicadas agora, mas só depois das eleições presidenciais. Ou seja: em vez de afirmar que as tarifas são injustas, indevidas ou lesivas ao interesse bilateral, ele argumenta que a sua adoção imediata poderia beneficiar Lula politicamente. A essência do apelo é eleitoral, não comercial. “As tarifas propostas entregariam ao atual governo brasileiro precisamente a vitória política que ele vem arquitetando”, escreveu para sustentar que a medida “recompensaria o atual governo brasileiro”.

Ao pedir apenas o adiamento da punição, e não sua imediata revogação, Flávio legitima a sanção norte-americana. Esse é o “xis” do problema. Passa a mensagem de que o tarifaço pode ser aceitável — desde que aplicado num momento politicamente conveniente à oposição. Ou seja, tira o tapete da diplomacia brasileira, quando o Itamaraty tenta convencer Washington de que a escalada tarifária é inadequada, desproporcional e fundada em premissas equivocadas.

Flávio sinalizou aos norte-americanos que o problema não é o mérito da retaliação, mas o seu timing eleitoral. A carta, assim, enfraquece a tese brasileira de que a medida é injustificável e reforça a percepção de que o litígio comercial virou peça de uma disputa interna pelo poder. De certa forma, Lula percebeu a oportunidade e subiu o tom contra seu adversário.

“Pedir que o tarifaço contra o nosso país seja adiado para depois das eleições é mais uma atitude de traidores da Pátria. Nunca houve e não há qualquer justificativa para tarifaço, agora ou depois”, escreveu nas redes sociais.

Classificou a carta como “inaceitável” e criticou o “entreguismo” da família Bolsonaro, ao afirmar que o clã quer submeter o Brasil a interesses norte-americanos. Ao conectar a carta ao Pix e ao Mercosul, Lula transformou o episódio numa peça de campanha sobre soberania, desenvolvimento e defesa do interesse nacional. O presidente vinha “jogando parado”, ao valorizar a liturgia do cargo, administrar a máquina pública e evitar antecipar o embate central de 2026.

A carta de Flávio ofereceu um atalho para Lula ocupar o terreno do nacionalismo econômico sem abdicar do cosmopolitismo e do multilateralismo. Pode ser que um objetivo subjacente do filho 01 de Jair Bolsonaro tenha sido mudar a agenda de sua campanha da crise com Michele Bolsonaro para a política externa. Porém, na prática, deu ao presidente a possibilidade de falar como defensor da pátria.

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DEPOIS DA ELEIÇÃO OU NO DIA DE SÃO NUNCA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

O novo grito de guerra em Brasília é: que tal deixar para depois das eleições?

Carta com pedido de Flávio Bolsonaro sobre adiamento de tarifaço dos EUA é um desastre

A carta do senador Flávio Bolsonaro para o governo Trump, via Escritório de Comércio (ou USTR), é um desastre para o próprio Flávio, sob todos os pontos de vista, político, diplomático, até moral. Quer dizer que um novo tarifaço agora não pode, porque é bom para o presidente Lula, mas, depois das eleições, depende de quem ganhar?

O importante para o candidato não é se é bom ou mau para o Brasil e os brasileiros, o que vale é se é bom ou mau para ele e o bolsonarismo, dane-se o resto. Aliás, foi assim em cada passo do bolsonarismo para se aproximar de Trump e se distanciar do Brasil.

O então deputado Eduardo Bolsonaro articulou o primeiro tarifaço, de 50%, para tentar salvar o pai, Jair, no Supremo, apesar do evidente estrago que isso produziria na economia do País. Aliás, como produziu, até que Lula e Trump abrissem um diálogo institucional, agora rebaixado a troca de cartas.

Depois, o próprio Flávio assumiu a articulação do novo tarifaço, com base na Seção 301 de Comércio, tanto que o anúncio de Washington saiu dias depois do encontro dele com Trump. Aquele, em que ele aparece nas fotos de pé, com Trump ao lado, sentado.

O novo capítulo, às vésperas de Flávio participar de uma audiência pública nos EUA, é a carta para o USTR, que, num resumo livre, pode ser lida assim: desculpem, foi mal, mas fizemos uma besteira atrás da outra e deu tudo errado.

Citando pesquisas, ele diz que novas tarifas dariam “vitória política” para o governo Lula e “puniriam a economia americana e os próprios brasileiros”. Alguma surpresa? É como se ele não tivesse nada a ver com isso, mas foi o próprio Flávio quem se vangloriou de ter conseguido as medidas – que, aliás, atingem o Pix.

Michelle Bolsonaro também quer parar o tempo e já avisou que não vai mexer uma palha na campanha do enteado. E depois? Depende do resultado?

No campo oposto, as investigações do escândalo contra velhinhos e velhinhas do INSS, que esbarram em Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, andam meio paradas. Só depois das eleições, também? Dependendo de quem ganhe?

E a delação de Daniel Vorcaro, que pode detonar Flávio, o ex-líder do governo Lula Jaques Wagner, o ex-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro Ciro Nogueira, o ministro do STF Alexandre de Moraes e um punhado de governadores? Depois das eleições? Será?

Em alguns desses casos, as consequências realmente dependem de quem ganhe. Em outros, que envolvem direita e esquerda, governo e oposição, nem em novembro, nem em 2027, nem em 2028... Só no Dia de São Nunca?

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REJEIÇÃO DO PL À URGÊNCIA DO PROJETO DA MISOGINIA PÕE EM XEQUE DISCURSO DE MICHELLE EM DESFESA DAS MULHERES

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Dos 158 votos contrários ao regime de urgência de votação, mais da metade (83) vieram do PL

A votação da urgência do PL da misoginia na Câmara dos Deputados na noite de quarta-feira (1) colocou em xeque o discurso da ex-primeira-dama, Michelle Bolsonaro, de eleger uma bancada no PL pautada pela defesa das mulheres. Dos 158 votos contrários ao regime de urgência de votação, mais da metade (83) vieram do PL.

Das 11 deputadas do partido que se manifestaram na votação, 10 o fizeram pela rejeição da urgência, entre elas Caroline de Toni (SC), cuja postulação ao Senado levou Michelle a confrontar o enteado Carlos Bolsonaro.

O PL da misoginia é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB) e foi aprovado por unanimidade na Casa com o voto, inclusive, da senadora Damares Alves (DF-Republicanos), principal aliada da ex-primeira-dama no Congresso Nacional. Na Câmara, a relatoria foi da deputada Tabata Amaral (PSB-SP).

O texto equipara a misoginia aos crimes de preconceito de raça, cor e religião e a define por conduta que “exteriorize ódio ou aversão ás mulheres”. E também dobra a pena se o crime for decorrente de violência doméstica.

O projeto ganhou tração depois que o feminicídio alcançou o recorde histórico em 2025 com 1.568 mulheres assassinadas, um aumento de 4,7% de casos em relação ao ano anterior, sendo 80% dos casos cometidos pelo atual ou ex-companheiro da vítima.

O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-DF), comprometeu-se com a votação do projeto antes do recesso parlamentar. Com a urgência, a votação foi marcada para terça-feira (7). O placar da votação da urgência (293 x 158) sugere aprovação. O que chama atenção na tramitação é a postura das parlamentares do PL aliadas de Michelle.

Se o projeto enfrenta mais resistência do que o ECA Digital, se deve à unidade do apelo das bancadas evangélica, da bala e da “liberdade de expressão” nas redes. Na votação do projeto que transplantou para a esfera digital o Estatuto da Criança e do Adolescente, as duas últimas bancadas eram contrárias mas não tiveram o apoio dos pastores, que sofreram pressão de fiéis, temerosas com o assédio sobre seus filhos nas redes sociais.

Desta vez, as três bancadas movem-se juntas pelo temor dos pastores de que passagens da Bíblia que mencionam a sujeição das mulheres aos maridos viessem a ser incorporadas no escopo das condutas a serem criminalizadas. O deputado Ottoni de Paula (PSD-RJ) relatou um acordo que teria havido entre a bancada evangélica e a relatora para a inclusão do texto: “São asseguradas as liberdades de consciência e de crença, bem como o livre exercício dos cultos religiosos e suas liturgias, nos termos do art. 5 da Constituição Federal”. Nem assim, Ottoni e os demais integrantes da bancada evangélica votaram pela urgência.

Na discussão da noite de quarta, parlamentares como Julia Zanatta (PL-SC) disseram que apoiadores do PL da misoginia haviam votado contra o aumento de pena para feminicídio. O aumento de pena de 30 para até 40 anos para o crime, no entanto, foi votado pelo Congresso em 2024 com apoio de todos os partidos. O aumento de pena não impediu que mais mulheres tenham sido assassinadas em 2025 do que em qualquer outro ano da história.

A discussão parece ter mobilizado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na tarde de quinta (2), durante discurso em Luis Gomes (RN), onde esteve para a inauguração de um túnel, Lula lembrou o Pacto Nacional contra o Feminicídio e defendeu o endurecimento de penas para o feminicídio embora a pena de 40 anos já seja a máxima prevista no Código Penal.

O PL da Misoginia é de autoria da senadora Ana Paula Lobato (PSB) e foi aprovado por unanimidade na Casa com o voto, inclusive, da senadora Damares Alves (DF-Republicanos), principal aliada da ex-primeira-dama no Congresso Nacional. Na Câmara, a relatoria foi da deputada Tabata Amaral (PSB-SP).

O texto equipara a misoginia aos crimes de preconceito de raça, cor e religião e a define por conduta que “exteriorize ódio ou aversão às mulheres”. Acrescenta ainda que se o crime for decorrente de violência doméstica e família a pena é dobrada.

O projeto ganhou tração depois que o feminicídio alcançou o recorde histórico em 2025 com 1568 mulheres assassinadas, um aumento de 4,7% de casos em relação ao ano anterior, sendo 80% dos casos cometidos pelo atual ou ex-companheiro da vítima.

O presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-DF) se comprometeu com a votação do projeto antes do recesso parlamentar. Com a urgência, a votação foi marcada para a próxima terça, 7. O placar da votação da urgência (293 x 158) sugere aprovação. O que chama atenção na tramitação é a postura das parlamentares do PL aliadas de Michelle Bolsonaro.

Se o projeto enfrenta mais resistência do que o ECA Digital se deve à unidade do apelo das bancadas evangélica, da bala e da “liberdade de expressão” nas redes. Na votação do projeto que transplantou para a esfera digital o Estatuto da Criança e do Adolescente, as duas últimas bancadas eram contrárias mas não tiveram o apoio dos pastores, que sofreram pressão de fiéis, temerosas com o assédio sobre seus filhos nas redes sociais, pela aprovação.

Desta vez, as três bancadas se movem juntas pelo temor dos pastores de que passagens da bíblia que mencionam a sujeição das mulheres aos maridos, viessem a ser incorporadas no escopo das condutas a serem criminalizadas. O deputado Ottoni de Paula (PSD-RJ) relatou um acordo que teria havido entre a bancada evangélica e a relatora para a inclusão do texto: "São asseguradas as liberdades de consciência e de crença, bem como o livre exercício dos cultos religiosos e suas liturgias, nos termos do art. 5º da Constituição Federal". Nem assim, Ottoni e os demais integrantes da bancada evangélica votaram pela urgência.

Na discussão da noite desta quarta, parlamentares como Julia Zanatta (PL-SC) disseram que apoiadores do PL da Misoginia haviam votado contra o aumento de pena para feminicidio. O aumento de pena de 30 para até 40 anos para o crime, no entanto, foi votado pelo Congresso em 2024 com apoio de todos os partidos. O aumento de pena não impediu que mais mulheres fossem assassinadas em 2025 do que em qualquer outro ano da história.

A discussão parece ter mobilizado o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na tarde desta quinta, durante discurso em Luis Gomes (RN), onde esteve para a inauguração de um túnel, Lula lembrou o Pacto Nacional contra o Feminicídio e defendeu o endurecimento de penas para o feminicídio embora a pena de 40 anos já seja a máxima prevista no Código Penal.

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AS PRIMEIRAS PROVAS DE QUE O RJ ESTÁ NO RUMO DE SER O PRIMEIRO NARCOESTADO DO BRASIL

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Com prisão de ex-presidente da Alerj e de bicheiro, surgem mais provas de domínio do crime

Governo e Legislativo eram comandados por PL e parte do centrão, mas corrupção é mais extensa

Tráfico de drogas e de armas, lavagem de dinheiro, Comando Vermelho (CV), Terceiro Comando Puro (TCP), Amigo dos Amigos (ADA), policiais corruptos, bicheiros, padrinhos bandidos do Carnaval, roubança de dinheiro público e seus agregados políticos de direita arruínam o poder estadual do Rio de Janeiro —note-se, porém, que políticos de vários partidos podem estar na lista da mesada do crime.

Talvez o crime já tenha se infiltrado no comando de outros estados. Não o sabemos. No caso do Rio, temos as primeiras evidências de um narcoestado no Brasil. O termo "narco" talvez seja limitado para descrever o poder de organizações criminosas diversas sobre Legislativo, Executivo e Judiciário fluminenses. O problema, de qualquer modo, é aterrorizante, e tem conexão federal, por meio do PL, o partido do senador Flávio Bolsonaro, e de ramos do centrão.

Qual a novidade? A nova prisão de Rodrigo Bacellar, nesta quinta. Esse sujeito foi secretário de Governo do ex-governador Cláudio Castro (PL) e presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) de 2023 a 2025. Foi preso quando era deputado estadual pelo União Brasil, embora tivesse sido reeleito pelo PL. Até julho de 2025, era o pré-candidato de Flávio Bolsonaro e de Cláudio Castro ao governo do estado do Rio. Castro é inelegível, condenado por abuso de poder.

Bacellar foi apenas formalmente preso de novo. Já estava em Bangu 8 desde março, acusado de tentar ajudar o deputado estadual Thiego Raimundo dos Santos Silva (então MDB) a fugir da polícia e de atrapalhar uma operação contra o CV. Esse deputado, vulgo TH Joias, era joalheiro, vendendo adereços para celebridades populares, como jogadores de futebol e gente da música. Quando deixou a suplência para assumir cadeira na Alerj, em 2024, já havia sido preso preventivamente e condenado a 14 anos por lavagem de dinheiro e de operar com CV, TCP e ADA etc.

Segundo a polícia, foi avisado por Bacellar de que seria alvo de operação da PF, em setembro de 2025. Em dezembro, Bacellar foi por isso preso, para ser liberado por um tempo por votação da Alerj (42 votos a 21). TH Joias nomeou gente das facções para cargos na Alerj. Ainda lavaria dinheiro e faria câmbio de milhões para chefões do tráfico. Aproximou-se da política por meio de Marcos Falcon, presidente da Portela e candidato a vereador no Rio pelo PP quando foi assassinado em seu escritório de campanha, em 2016.

Além de Bacellar, foram presos nesta quinta Adilson Oliveira Coutinho Filho, o Adilsinho ("represo"), e o pastor Márcio Poncio (Igreja da Nuvem), fabricante de cigarros e integrante de uma família de influencers novelescos. Adilsinho é patrono do Salgueiro, bicheiro, dono de caça-níqueis, traficante de cigarros e acusado de chefiar gangue de homicídios. Segundo a polícia, lava dinheiro para o tráfico e tinha planilhas de pagamento de subornos e doações eleitorais para políticos. Em sessão do Supremo de abril deste ano, o ministro Gilmar Mendes disse ter ouvido da PF que 32 ou 34 deputados estaduais do Rio (de um total de 70) receberiam "mesada" de bicheiros, atualmente chefes de gangues com negócios variados. Outros secretários de Cláudio Castro caíram, acusados de corrupção ou também de envolvimento com o crime organizado; um desembargador foi preso.

Há mais. Não cabe aqui. O resumo da ópera é que o comando político do Rio foi tomado pelo crime e o país todo corre esse risco.

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

O PASTOR QUE ESCONDIA DINHEIRO NO ARMÁRIO E OS ESCÂNDALOS NA GAVETA DO BOLSONARISMO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

PF investiga deputado federal Sóstenes Cavalcante, que segue líder dos bolsonaristas

Excesso de barracos na direita talvez abafe o caso do dinheirão vivo sem origem justificada

Jaques Wagner (PT-BA) foi saído da liderança do governo no Senado por suspeitas de fazer negócio com gente vorcarenta. Levou uns dias até cair. Talvez pelo odor de santidade, digamos, o pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do seu partido na Câmara, resiste faz meses, desde que a Polícia Federal achou um saco de dinheiro no flat brasiliense desse deputado federal, em dezembro do ano passado.

Sóstenes disse que a dinheirama viria da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). Eram R$ 467,8 mil em notas de cem, juntadas em um saco plástico achado em um guarda-roupa. Não caberia tudo em roupas de baixo, decerto. A polícia e parte do Supremo suspeitam que o dinheiro seria resultado de desvios de verba parlamentar.

A extrema direita, a direita, boa parte da dita e velha opinião pública mais vocal ou o evangelismo político-partidário parecem querer que o caso fique dentro do armário. Sóstenes não causa sensação maior nem depois de a Polícia Federal seguir umas pistas, como etiquetas dos maços de tutu, e chegar a mais amigos do dinheiro vivo, ao que parece parceiros do deputado. É uma turma dona de empresas esquisitas, de gente que costuma sacar milhões em notas de reais. Quem sabe sejam apenas aquelas pessoas excêntricas amalucadas, que desconfiam de bancos e gostam de depósitos no colchão ou no armário. Ou gente em quem a polícia não deve confiar.

Sóstenes já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica. Formou-se em teologia. É pastor evangélico. É de uma Assembleia de Deus. É amigo de Silas Malafaia. Foi contra o isolamento sanitário na Covid-19. Defende a "vida" (é contra a interrupção voluntária da gravidez) e armas, família e bons costumes, apesar de ter esse costume de guardar dinheiro no saco dentro do armário. É um bolsonarista ferrabrás.

Pode ser que o caso de Sóstenes ainda não tenha causado escândalo maior por causa do congestionamento de podres, mumunhas e salseiros na direita extrema. Há, por exemplo, o barraco que envolve Flávio Bolsonaro com Michelle Bolsonaro, dita "Firmo" pelos inimigos íntimos. A madrasta dos filhos de Bolsonaro diz temer a revelação de mais mutretas do enteado e reposta vídeos que tratam das cafajestadas de políticos, empresários e outros nas bandalhas de Daniel Vorcaro. Está dizendo "não mexam comigo", respondendo a ameaças veladas de bolsonaristas que a detestam.

Há ainda o ajudante de ordens de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos a dizer que "mulher vota mal". Segundo esse sujeito, um Paulo Figueiredo, mulher não "vota errado porque é burra ou inferior, mas sim porque uma ideologia demoníaca, marxista, está destruindo a cabeça delas: o feminismo", como disse a Monica Bergamo, nesta Folha.

O excesso de vexames pode ser uma explicação circunstancial para a tolerância com bandalheiras bolsonaristas. O fato maior é que Flávio Bolsonaro tem enorme ficha corrida, processos ensacados no armário, amizade fraterna com Vorcaro e relações históricas com milicianos. Bolsonaristas estavam no comando do poder político estadual do Rio de Janeiro até o início deste ano, mandando em governo e Assembleia Legislativa (Alerj) infiltrados pelo crime, pela corrupção policial, por facções como o Comando Vermelho, que talvez domine ou dominasse a Alerj. Não tem causado escândalo terminal que essa turma tenha um projeto de comandar o governo da República. Sóstenes inclusive.

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A NOVA GUERRA SANTA

Ruy Castro*, Folha de S. Paulo

Michelle e Fernanda Bolsonaro brigam à base de capítulos e versículos da Bíblia

Resta saber se Flávio Bolsonaro sobreviveria a uma sabatina por pastores com Ph.D

É uma guerra santa, em que as contendoras, cada qual com uma Bíblia como munição, disputam o monopólio da Verdade. As armas são os capítulos e versículos de autoria dos influencers apostólicos. O campo de batalha, os bazares e covis das redes sociais. Em combustão, o ódio embutido em palavras como "amor", "alegria" e "mansidão". Por trás das duas generalas, exércitos de fiéis equipados com as novas tábulas, os smartphones, despejando insultos nada evangélicos contra uma ou outra. O botim, algo nunca previsto nas Escrituras: uma candidatura à Presidência do Brasil.

Ambas as litigantes são Bolsonaros de cartório: Michelle, 44 anos, mulher do Bolsonaro original, ex-primeira-dama e potencial parlamentar, e Fernanda, idade não sabida, mulher do presidenciável Flávio Bolsonaro e cirurgiã-dentista. Donde Michelle Bolsonaro é madrasta de Flávio Bolsonaro e sogra torta de Fernanda Bolsonaro. Se os Bolsonaros não se entendem nem entre si, como entenderão o Brasil?

Na semana passada, Michelle azedou o vinho familiar ao publicar nas redes sociais um vídeo em que, citando os Salmos, acusou Flávio Bolsonaro de maltratá-la, humilhá-la e apunhalá-la com seus sabidos machismo, grossura e arrogância. Fernanda, por sua vez, também em postagens, contra-atacou com Provérbios para defender seu marido. O começo das hostilidades revelou uma paridade de armas: ambas conhecem a fundo a Bíblia. Cite uma frase de Jó ou Malaquias e elas lhe dirão os números do capítulo e versículo. Ou dê-lhes esses números e elas recitarão os textos a que correspondem. A pergunta é: Flávio Bolsonaro –que há pouco definiu as eleições como "uma luta contra o Mal", com ele no papel do Bem-- será também tão conhecedor do Verbo como tenta parecer?

Eu, se fizesse parte de seu rebanho eleitoral, só votaria nele depois de vê-lo rigorosamente sabatinado por pastores com Ph.D Queria ouvi-lo citar de memória João 14:16 e 15:12. Ou Marcos 12:31, Salmos 23:1 e Efésios 4:29.

Spoiler: são algumas das citações mais queridas da Bíblia.

*Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras

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O GALEGO TINHA RAZÃO

Julia Duailibi, O Globo

Lula acha denúncias contra Jaques Wagner uma grande bobagem

Demissão do amigo Galego ocorre como algo protocolar, cujo objetivo principal era estancar a crise

O presidente Lula fez ontem um elogio ao senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do seu governo no Senado. Em viagem à Bahia, Lula o chamou de irmão, o abraçou e posou no palanque a seu lado, uma semana depois de ele deixar o posto. Com seu gesto, o presidente mostrou o que realmente acha das denúncias apresentadas pela Polícia Federal, envolvendo os favores prestados a Wagner por um empresário que manteve conexões com o Master: uma grande bobagem.

Galego, como o senador é chamado por Lula, tinha razão, portanto, quando, semanas atrás, deu uma declaração dizendo achar que Lula não o demitiria e que o próprio presidente enfrentou problemas mais graves, como a prisão na Operação Lava-Jato. O abraço público dos dois ontem foi a comprovação de que Wagner sabia do que estava falando. No mérito, Lula não deu muita bola para as denúncias, e a preocupação dele sempre foi com o uso eleitoral delas pelos adversários.

Nesse contexto, a demissão de Wagner ocorre como algo protocolar, cujo objetivo principal era estancar a crise e dar ao presidente discurso para responder quando confrontado sobre o assunto na eleição. Aliás, o próprio senador cantou essa bola, dando a entender que Lula não havia comprado muito a história da PF sobre os favores pedidos ao empresário. Em entrevista a Catia Seabra, da Folha de S.Paulo, depois da saída do cargo de líder, Wagner revelou que, no dia de sua demissão, Lula disse a ele que o “conhecia há 48 anos”, mas que agora teria de desmontar a “história” que “construíram” contra ele.

A postura de Lula em relação a Wagner descredibiliza as investigações da PF, ainda que elas não devam ser uma condenação prévia. A Justiça é quem dará a palavra final sobre se houve corrupção no pedido de Wagner ao empresário para que ele comprasse um apartamento de R$ 2,4 milhões para a filha do senador. Mas, uma vez que Wagner já está fora mesmo da liderança do governo e que a crise parece um pouco mais estancada, o mais conveniente para Lula agora foi ignorar as denúncias contra o aliado e tentar ajudar na reeleição dele ao Senado.

Além disso, assim como a maioria dos políticos brasileiros, Lula tende a normalizar as relações entre público e privado. Casos potenciais de corrupção são tratados pela nossa classe política como simples demonstração de amizade. Ninguém compra apartamento para filha de senador só para ser boa gente. Assim como nenhum empresário banca filme sobre vida de político pelo interesse no cinema nacional. Quando Daniel Vorcaro atende ao pedido do pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e paga milhões para, como foi alegado, produzir “Dark Horse”, também age em troca de acesso ou blindagem.

Na nossa cultura política, o anormal é viajar em voo comercial ou ter de pegar financiamento imobiliário no banco para comprar um apartamento para a filha. Os favores privados fazem parte do jogo, e quem cobra prestação de contas sobre isso está a serviço dos adversários políticos. Ao abraçar Galego no palanque, Lula não deu só uma demonstração de amizade em relação a ele. Deixou claro que também considera ter havido uma “patacoada” da PF, expressão usada por Wagner em relação à operação de que foi alvo.

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