domingo, 6 de setembro de 2026

ORIGEM DA CRISE É O DESRESPEITO À CONSTITUIÇÃO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A responsabilidade não é do sistema; é de quem comanda e opera os Poderes ao arrepio das regras e rituais

A geração subsequente aos artífices da redemocratização foi incapaz de seguir os passos dos antecessores

Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria.

O enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte.

É preceito básico, pré-requisito essencial ao regime democrático. Aquele em nome de cuja retomada inscreveram-se as normas que passariam a valer depois de 21 anos de submissão do Legislativo e do Judiciário ao mando do Executivo hipertrofiado —a ditadura.

De lá para cá, o país sofreu e venceu solavancos que testaram a firmeza do desenho institucional de 1988. Não está conseguindo, no entanto, resistir à inaptidão da geração subsequente em seguir os passos dos arquitetos da redemocratização.

Em meio a autoritarismos, voluntarismos, populismos, usurpação de funções e agressão a ritos e regras, assistimos a uma deterioração de condutas cuja solução passa longe da culpa do aludido sistema ao qual se pedem reformas, na tentativa de fugir da responsabilidade que é de seus condutores e operadores.

O chefe do Executivo houve por bem se escorar em magistrados permeáveis a alianças no Judiciário, a fim de contornar dificuldades num Legislativo interesseiro e arisco. Alheios às consequências, entraram numa espiral descendente de desmoralização compartilhada.

A eleição presidencial se dá em ambiente de rejeição e desencanto; o Supremo Tribunal Federal vive um impasse de gravidade inédita e o Congresso não dispõe de lideranças com estatura institucional à altura do desafio.

O túnel é escuro e o poço sem fundo. A resposta em outros tempos esteve na política, que perdeu tônus e protagonismo quando decidiu se dedicar primordialmente aos negócios e terceirizar suas funções a juízes com pendores políticos e vocação para santos guerreiros.

Queira o bom senso que a saída não esteja em acertos para estancar a sangria com Supremo e com tudo.

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AS CORES DO CORAÇÃO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Se for crime usar a camisa do time adversário, muitos ilustres já deveriam ter pagado por isso

O que o garoto corintiano que pediu a camisa de Neymar levará desta experiência pela vida?

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida —profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância?

Se for crime vestir a camisa do adversário, muitas pessoas ilustres já deveriam ter pagado por isso. Em sua edição de 14 de julho de 1979, a revista Manchete abriu uma reportagem sobre Nelson Rodrigues e Zico com uma incrível foto de Paulo Scheuenstuhl, em que o dramaturgo, histórico torcedor do Fluminense, veste a camisa do Flamengo. Por sua vez, no dia 24 de março de 1993, Zico, símbolo do Flamengo, atuou no Maracanã com a camisa 9 do Vasco no jogo de despedida de seu grande amigo Roberto Dinamite. O mundo não acabou.

Flamengo e Vasco vivem uma das piores rivalidades do futebol brasileiro. Se o craque de um deles se passa para o outro, deveria ser excomungado, não? Não. O Flamengo já viu alguns de seus heróis usando as cores do inimigo —Andrade, Bebeto, Junior Baiano, Petkovic e, mais doloroso de todos, Rondinelli, o Deus da Raça—, mas perdoou-os, por sabê-los Flamengos. E, para gáudio rubro-negro, o Vasco teve de se curvar ao fato de que, em 1995, Romário, ao deixar o Barcelona eleito o maior jogador do mundo e voltar para o Rio, preferiu o Flamengo, onde fez também monumental carreira.

E quando um jogador não consegue jogar pelo clube para o qual secretamente torce? Gerson, o Canhotinha, revelou-se no Flamengo, foi ídolo do Botafogo e só em fim de carreira chegou ao seu time de coração, o Fluminense. Como ele, muitos outros.

Dias depois, o garoto posou com uma bandeira do Corinthians e a camisa de Neymar. Assim se faz.

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sábado, 5 de setembro de 2026

A MONGÓLIA SE ESPANTOU

José Renato Nalini, O Estado de S.Paulo

Estive na Mongólia, a participar da COP-17, a Convenção para o Combate à Desertificação promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esse destino estava ausente de minhas cogitações turísticas. Mas valeu a viagem. Fiquei impressionado com a distância, com a imensidão desse país nos confins asiáticos, a confrontar-se com a Rússia e com a China.

Tem a menor densidade populacional do planeta: cerca de 1,3 habitante por quilômetro quadrado. Sua capital – Ulaanbaatar – abriga metade dos mongóis, que totalizam pouco mais de 3 milhões. Ou seja: toda a Mongólia representa um quarto da população paulistana.

Participei de vários encontros que abordaram inúmeros temas. O mundo está preocupado com a escassez hídrica e com a crescente desertificação do planeta. Dentro da COP, houve discussões como a promovida pelo Fórum Asiático para o Meio Ambiente, a abordar a questão “Terra-Alimento-Clima: A Armadilha da Pobreza do Neo-Nexo no Sul Global”, que muito tem a ver com a situação brasileira. Também estive presente à iniciativa do Instituto Global de Crescimento Verde e Programa de Paisagens Multifuncionais, com o propósito de Restaurar a Terra, Restaurar a esperança: conectando a lacuna entre ciência, política e financiamento para a ação do Nexo do Rio.

Um dos pontos mais prestigiados foi a Iniciativa Global de Terras do G-20, ancorada nas evidências de que a restauração é mais do que urgente, oportunidade em que se lançou o Relatório de Conquistas Globais de Restauração de Terras no ano de 2026.

Houve um dia temático sobre financiamento para restauração de terras e resiliência à seca, durante o qual realizou-se um diálogo ministerial sobre abordagens inovadoras de investimento para essa inadiável tarefa. Muitas ideias foram expostas, inclusive com sugestões para integrar melhor as estruturas financeiras e mobilizar recursos em escala, pois é essencial a atuação da iniciativa privada. A dimensão e a complexidade da crise ambiental superam a capacidade do poder público, principalmente em países como o nosso, em que a desigualdade social, não raro, reclama tratamento de choque imediato e prioritário.

Ocorre que tudo converge para a necessidade de se encarar com seriedade o cataclismo climático. Íntima a conexão entre o maltrato à terra, a resiliência econômica, a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável, que não prescinde de aguda atenção para a saúde física e mental dos humanos.

A participação paulistana concentrou-se no dia temático sobre o nexo terra-água como base da resiliência. Além da abertura de alto nível do Dia da Água, com ênfase na seca e desertificação como risco sistêmico global, insistiu-se na demanda de maior compromisso político e ação integrada entre governo e sociedade. Houve troca de experiências e identificação de prioridades, com abertura de alternativas para explorar oportunidades de mobilização de recursos financeiros e pessoais de enfrentamento da crise hídrica global.

São Paulo apresentou-se no painel “Prevenindo a falência hídrica: Cidades, Operadoras e Bacias Hidrográficas na linha de frente da resiliência à seca”, com exposição do secretário de Mudanças Climáticas e o testemunho do coordenador da Operação Integrada de Defesa das Águas (Oida), o coronel da Polícia Militar Washington Luiz Gonçalves Pestana, que realiza as operações de salvação dos mananciais, sobretudo a Represa do Guarapiranga. A Oida foi objeto de intenso interesse por parte de todas as comitivas que participaram da sessão, inclusive do jovem prefeito da capital mongol, Byaruuzanyn Pürevdagva.

Razoável parcela dos interessados considerava inexistente qualquer problema de escassez hídrica no Brasil, tido sempre como detentor campeão de água doce. Ao tomar conhecimento da situação dos mananciais, sobretudo a represa do Guarapiranga, única abastecida com nascentes locais, ao lado de elogiar a municipalidade, que atua com regularidade a inibir as ocupações clandestinas, estranhou a aparente ausência de comoção por parte da sociedade civil.

É que a condição de insuficiência de água em quase todos os países é uma questão superior a qualquer política pública, já que pertinente à própria sobrevivência das criaturas. A responsabilidade pela preservação dos mananciais, protegidos na maior cidade brasileira por tríplice esfera normativa – federal, estadual e municipal – é de toda a sociedade.

Ressalvadas excepcionalíssimas reações, por parte de privilegiadas mentes sensíveis e conscientes do risco a que a humanidade se expôs, ao não cuidar da natureza, da qual faz parte, com o respeito que ela merece, prepondera um cruel desinteresse. Como se a não remota possibilidade de vir a faltar água para beber, a afetar milhões de humanos, não representasse o maior perigo já enfrentado pelas criaturas que se autodenominam racionais.

É paradoxal que o bicho-homem, o último animal a vir a habitar a Terra, e o único a se considerar provido de razão, seja o responsável pela eliminação da vida sobre o planeta que o acolheu e que dele não está a merecer o respeito devido.

Opinião por José Renato Nalini

Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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O STF EM RUÍNAS

Cláudio Couto, CartaCapital

Uma reforma das regras de funcionamento da Corte se impõe. Ela deve ser agenda importante da próxima legislatura, a despeito dos desdobramentos do atual escândalo que atinge o tribunal

O Supremo Tribunal Federal, não é de hoje, merece críticas severas ao comportamento de magistrados individualmente e da Corte como um todo. Antes mesmo da ascensão da ultradireita, com seus ataques à democracia em geral e ao STF em particular, estudiosos e analistas do funcionamento de nosso sistema judicial apontavam falhas graves, cuja remediação se impunha tanto para preservar a legitimidade das instituições do Estado Democrático de Direito, como para prover justiça efetivamente.

A conduta politizada de certos magistrados, sua incontinência verbal, as relações promíscuas mantidas com interesses privados, a mudança casuística de posição em relação a julgados, o monocratismo, dentre outros vícios, são mazelas que duram quase três décadas. Tais problemas se exacerbaram a partir de 2012, quando se julgou o mensalão. A partir dali o protagonismo do tribunal se amplificou, transbordando do mero controle de constitucionalidade para a atuação na esfera criminal, que, embora fosse parte das atribuições do STF, não tinha a centralidade que ganhou a partir de então.

Tal âmbito de operação do tribunal foi especialmente importante durante os anos de Jair Bolsonaro, quando ameaças à democracia e a gestão catastrófica e negacionista da pandemia o converteram em baluarte na defesa do Estado de Direito e da saúde pública. Nisso foi crucial a proatividade do ministro Alexandre de Moraes perante as invectivas autoritárias do bolsonarismo, pondo freios à desinformação, à promoção de atos antidemocráticos, à sabotagem do processo eleitoral e, finalmente, à tentativa de golpe de Estado. Não à toa, Moraes converteu-se em inimigo preferencial do bolsonarismo e, por extensão, da ultradireita inteira, que, contudo, não antagonizou unicamente com esse integrante do tribunal. Outros magistrados e a Corte toda viraram desafetos.

Esse papel primordial do STF e de alguns de seus ministros fez com que certos magistrados perdessem o pudor de abusar do poder decisório e de expedientes excepcionais, que, embora tenham sido necessários numa conjuntura crítica de efetiva ameaça autoritária, não eram adequados noutra, em que tal risco se tornara bem menor. Exemplo claro é o recente episódio da quebra do sigilo da fonte de um jornalista maranhense, sob a alegação de que sua atuação ameaçava a incolumidade do ministro Flávio Dino e de seus familiares. Ironicamente, o mesmo tribunal e os mesmos juízes que atuaram de forma decisiva no combate ao autoritarismo, sob o pretexto de defesa do Estado Democrático de Direito, sentiram-se à vontade para perpetrar práticas autoritárias.

Isso é muito grave, pois condutas impróprias de ministros do STF solapam a legitimidade do tribunal e jogam água no moinho da campanha da ultradireita para eleger senadores dispostos a cassar o mandato de ministros da Corte. Se os extremistas tiverem sucesso nessa empreitada, não se preocuparão em corrigir os vícios do tribunal, mas em tolher sua capacidade de pôr freio aos vícios de outros atores relevantes da política nacional, principalmente eles próprios. E por condutas impróprias entendam-se não apenas os excessos autoritários de integrantes do tribunal, mas sua completa indiferença à compostura, ao reconhecimento de conflitos de interesse, à suspeição e às relações promíscuas com atores públicos e privados. Noutros termos, não é somente um problema democrático, mas republicano.

O evidente contubérnio de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro é a demonstração mais recente e cabal dessa impropriedade. Torna insustentável a permanência do magistrado na Corte, pois envenena de tal forma o funcionamento do tribunal e sua imagem pública que ameaça arruinar de vez qualquer vestígio de credibilidade que a Corte ainda tenha, comprometendo sua legitimidade. Contudo, Moraes não está nisso sozinho. A instrumentalização da investigação por André Mendonça para promover a luta intestina no tribunal, destruir inimigos e interferir no processo eleitoral também depõe contra sua conduta e não pode ser tolerada.

Uma reforma profunda das regras de funcionamento do STF se impõe. Ela deve ser uma agenda importante da próxima legislatura, independentemente dos desdobramentos do escândalo ­atual. A solução dessa crise profunda e a reconstrução das condições de legitimidade substantiva do tribunal não se dará apenas com o afastamento e a eventual punição daqueles que erraram. É preciso criar condições para que tais erros não se repitam futuramente. •

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

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TERRA ARRASADA

André Barrocal, CartaCapital

Mendonça instala uma crise no STF de olho na demolição da República

O Supremo Tribunal Federal foi arrastado para sua maior tormenta por dois de seus integrantes: André Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o capítulo mais agudo da crise terá um desfecho diante das câmeras de tevê ou se a solução será outra. Mendonça investigou Moraes às escondidas no caso Master e botou na praça todas as informações recebidas da Polícia Federal. Moraes está encrencado até o pescoço, graças à relação com Daniel Vorcaro, dono do finado banco. Ao ligar o ventilador na direção do colega, Mendonça praticamente exigiu que o STF realize uma sessão aberta para decidir o futuro do desafeto. Detalhe: Moraes assumirá o comando do Supremo daqui a um ano, se sobreviver até lá. Para o trivial Fachin, o tribunal vive um momento de “especial gravidade” e tanto a atuação de Mendonça quanto os indícios contra Moraes exigem resposta. Daí sua promessa de anunciar nos próximos dias “as medidas cabíveis e necessárias”, conforme declarou em nota pública. Uma saída que preserve “a integridade do Supremo”, “a autoridade de suas decisões” e “a confiança da sociedade na instituição”.

Ao partir para cima de Moraes, Mendonça incendiou a oposição às vésperas do Dia da Pátria, data que o bolsonarismo usou em outras ocasiões para malhar o Supremo e pretende repetir a dose neste ano. Muitas campanhas direitistas ao Senado, casa com poder para cassar ministros das altas Cortes, se escoram no discurso anti-STF. Não só o tribunal está em jogo, a eleição presidencial também. A guerra contra Moraes é o ápice de uma atuação de Mendonça a favor do clã Bolsonaro nas investigações sobre falcatruas do Master e sobre descontos indevidos em aposentadorias do INSS. O ministro deve a vaga no STF a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de cadeia por tentativa de golpe em um processo conduzido por Moraes. “É o mais ideológico” da Corte, anota um colega. Enquanto poupa Flávio Bolsonaro no inquérito sobre o filme Dark ­Horse, um capítulo do escândalo do Master, o “terrivelmente evangélico” parece empenhado em transformar Vorcaro em herói com uma delação premiada contra o lulismo. Uma forma de jogar no colo do governo um escândalo majoritariamente do Centrão e dos bolsonaristas, vide, entre outras, a participação decisiva dos ex-governadores Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro.

No fim de agosto, o gabinete de Mendonça recebeu Vorcaro, preso preventivamente desde março. Tomou-lhe um depoimento, a pedido do advogado de defesa. Uma das afirmações do interrogado foi de que topa acusar “pessoas do núcleo do atual governo”. A íntegra do depoimento foi vazada na quinta-feira 3. É o método lavajatista a pleno vapor a um mês da eleição. Busca-se pressionar as autoridades, via mídia, para que aceitem a delação de Vorcaro, alguém disposto a passar o Brasil a limpo. O relatório da PF sobre as relações de ­Moraes com Vorcaro dá plausibilidade à tese de que o banqueiro tem muito a falar.

Vorcaro foi preso duas vezes a pedido da PF e não conseguiu convencê-la a aceitar uma delação, nem teve mais sorte com a Procuradoria-Geral da República. Segundo fontes policiais, ele propôs um acordo inaceitável: reabrir o Master e pagar ao longo de anos, não de cara, uma multa de 40 bilhões de reais. Autorizada pelo Banco Central a funcionar no primeiro ano de Jair Bolsonaro, a instituição de Vorcaro foi fechada pelo BC no dia da primeira prisão dele, em novembro passado. A PF prepara-se para concluir as apurações principais do caso e incriminá-lo por gestão fraudulenta. Aí caberá à PGR acusá-lo, ou não, na Justiça. Um relatório do BC de outubro de 2025 aponta um golpe de 12 bilhões de reais do Master, com a venda ao BRB, banco estatal de Brasília, de uma carteira de crédito fajuta. É a maior fraude financeira da história brasileira.

O objetivo final da vandalização do STF parece ser atribuir ao governo Lula a exclusiva responsabilidade pelo escândalo do Banco Master

A delação de um parceiro de Vorcaro tem tudo para piorar a situação do banqueiro e para tornar mais improvável um acordo de delação. José Carlos Mansur é o dono de um fundo, a Reag, que o Master usava para lavar dinheiro. A Reag também se prestava à lavanderia do PCC. Os negócios com o Master injetaram recursos em uma empresa, a Super Empreendimentos, que depois compraria uma casa em Brasília onde seria instalado o QG de Vorcaro. Até 2024, a Super era dirigida por um cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Na eleição de 2022, Zettel foi um dos maiores financiadores de Bolsonaro, 3 milhões de reais. A delação de Mansur acaba de ser selada com o Ministério Público. Cabe a Mendonça, relator do caso Master, homologá-la. Idem com outra colaboração premiada encaminhada, conforme O Globo. E esta atinge envolvidos com o filme Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro bancada por Vorcaro.

O delator, neste caso, é Antônio Carlos Freixo Júnior, alvo em janeiro de uma batida da PF. Conhecido como “mineiro”, fazia chegar aos Estados Unidos os repasses de Vorcaro para o filme. Em 5 de fevereiro do ano passado, Vorcaro e Zettel trocaram mensagens sobre a produção e o patrocínio, conforme revelado, em maio, pelo Intercept Brasil. Zettel dizia que a área de câmbio do Master estava “criando caso”. Vorcaro autorizou “mandar a grana”, por meio de “quem paga lá fora”. Zettel perguntou se poderia pedir ao “Minas” para enviar, ou seja, a Freixo Jr. À época, Eduardo Bolsonaro já havia se autoexilado no Texas, a fim de conspirar para que o governo Trump impusesse medidas prejudiciais ao Brasil, na esperança de livrar o pai da cadeia. Convertido em réu no STF por “coação no curso do processo”, foi condenado a quatro anos em um processo relatado por Moraes. A delação de “mineiro” é uma chance de descobrir se Vorcaro pagou o complô de Eduardo. Fontes da PF são céticas quanto ao auxílio do governo norte-americano no rastreio da verba depositada no Heavengate, o fundo localizado nos EUA que era o destino dos recursos transferidos por Vorcaro. Motivo do ceticismo: os laços do bolsonarismo com o trumpismo.

Em setembro de 2025, o Heavengate recebeu um extra de 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, de acordo com um relatório do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. Na semana anterior, Flávio Bolsonaro havia cobrado o banqueiro. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, dizia o senador. “É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” O senador insiste que a relação entre Vorcaro e o filme só envolve dinheiro privado, ou seja, nada antiético. Será? Ao chegar à beira do abismo, em 2024, o Master lambuzou-se em verba pública para tentar se safar. O fundo de pensão dos servidores do Rio injetou cerca de 3 bilhões de reais no banco, na gestão Castro. E o BRB, 12 bilhões, sob Ibaneis. Karina Ferreira da Gama, a dona da produtora do filme, a GoUp, pede para ser investigada sob supervisão do Mendonça. Idem o deputado Mário Frias, do PL, secretário de Cultura no governo Bolsonaro, roteirista da cinebiografia do capitão e autor do envio de dinheiro de emendas parlamentares a uma ONG de Gama. Essa ONG, o Instituto Conhecer Brasil, é alvo da Polícia Civil de São Paulo por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura paulistana. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira vê “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Daí os advogados da produtora acionarem Mendonça para que ele retire de São Paulo a investigação e puxe para si em Brasília. Frias é alvo de um inquérito no Supremo, aos cuidados de Flávio Dino, por ter financiado o instituto com emenda parlamentar. Seu advogado pediu a Fachin que transfira o inquérito para Mendonça. Tanto o deputado quanto Gama parecem, digamos, confiar em Mendonça.

Quando o assunto é Dark Horse, o filho “Zero Um” não tem do que reclamar do “terrivelmente evangélico”. O processo não tem gerado notícias. Há, porém, um recurso no Supremo capaz de fazer tudo passar às mãos de outro magistrado. Após a divulgação do áudio de Flávio a Vorcaro, o deputado ­Lindbergh Farias, do PT, requereu ao STF uma nova investigação do senador. A solicitação foi a Moraes, pois, à época, o ministro era o relator da ação penal de “coação” contra Eduardo. Moraes não aceitou a relatoria e remeteu a bola a Fachin. Este entendeu que o tema se relacionava ao caso Master e mandou o pedido a Mendonça. Cabe a este liberar o recurso para o plenário do Supremo resolver a controvérsia sobre a relatoria.

Depois de expor a relação de Vorcaro com Moraes, o gabinete de Mendonça tornou pública a proposta do banqueiro de delatar “pessoas do núcleo do atual governo”

Por que Moraes se esquivou de supervisionar o processo sobre Dark Horse? Segundo informações em Brasília, o juiz não queria entrar na berlinda associado a Vorcaro. O relatório encomendado por Mendonça a delegados da PF do caso Master explica o receio. Moraes e o banqueiro estiveram juntos várias vezes desde o fim de 2023. O que falaram nas conversas não se sabe. Mas as trocas de mensagens escritas entre eles são comprometedoras para Moraes, mesmo que a PF tenha conseguido descobrir apenas o que Vorcaro dizia. Os dois usavam um método peculiar nas mensagens. Em vez de escreverem o texto no ­WhatsApp, redigiam no aplicativo “bloco de notas”, faziam uma foto da “nota”, a enviavam ao outro e em seguida a apagavam do WhatsApp, forma de não deixar rastros. O que Vorcaro não sabia é que as fotos ficavam armazenadas em um lugar oculto no celular, e foi a esse “esconderijo” que a PF chegou ao apreender o telefone dele em novembro.

Ao se observarem as mensagens em conjunto e cotejá-las com os acontecimentos, a conclusão inescapável é de que Vorcaro contratou o escritório da esposa de Moraes para ter serviços prestados pelo próprio togado. E que o combinado foi entregue. Descobrir a existência de investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das missões do juiz. Procurar autoridades que pudessem salvar a pele do banco e de seu dono era outra. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o procurador-geral, Paulo Gonet, parecem ter sido acionados por Moraes. Dois deles, afirma uma autoridade em Brasília, receberam mensagens de Moraes nas quais o ministro dizia que Vorcaro era “sério”. Situação que configura, em tese, crimes como advocacia administrativa, favorecimento pessoal, tráfico de influência e obstrução de Justiça.

O primeiro contrato de Vorcaro com o escritório de Viviane Barci de Moraes ocorreu em janeiro de 2024. Em 30 de dezembro de 2023, o banqueiro e o ministro haviam se encontrado na estância turística de Campos do Jordão, no que parece ter sido o tête-à-tête inicial. A reunião tinha sido intermediada por Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro. Foi Faria quem passou o telefone do togado a Vorcaro durante os preparativos do encontro. Duas semanas após a reunião, Moraes examinou o contrato que a esposa selaria com o banqueiro. Há registro de que ele alterou o documento antes da assinatura. O acordo era de 3 milhões de reais mensais, por três anos. Outro, de 50 milhões, a ser pago com cotas de empresas proprietárias de um helicóptero e de um avião, foi celebrado em maio de 2025.

O ano passado marcou a ­ruína do Master. Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez na noite de 17 de novembro, uma segunda-feira, no aeroporto de Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para o exterior. Na antevéspera, 15 de novembro, um sábado, ele havia procurado Moraes. Em uma das mensagens, dizia: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” No minuto seguinte, prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.

No meio do tiroteio, veio à tona que o ministro Mendonça também manteve contatos com Daniel Vorcaro

As mensagens resumem a natureza da relação entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de novembro, fato desconhecido na ocasião das mensagens. Galípolo é o presidente do BC. Paulo é Gonet, o procurador-geral. E Andrei, o diretor da PF. Em 16 de novembro, Vorcaro e Moraes acertaram uma reunião às 2 da tarde. Depois dela, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Não houve atraso. A PF o algemou no dia seguinte e desde então resiste às suas propostas de delação. Em uma das últimas mensagens a Moraes no dia da prisão, ele indagou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por “bloquear”, leia-se “melar” a operação policial a caminho.

Mendonça tornou público o relatório encomendado à PF e assinou um despacho no qual afirma que o “caminho inevitável” é o plenário do Supremo decidir “de forma pública e transparente, em sessão presencial” o que fazer. Tradução: se Moraes será investigado. É mais uma tacada do tipo lavajatista, de usar a opinião pública para pressionar o Judiciário, ao estilo de Sergio Moro, cuja postura Mendonça tem mimetizado ao orientar a mira da PF nos inquéritos do Master e do INSS. A correlação de forças no Supremo não permite antecipar o desfecho, na hipótese de julgamento plenário. A realização ou não dessa sessão depende de Fachin.

Gonet pediu ao tribunal a anulação do relatório policial encomendado por Mendonça. Segundo ele, há duas nulidades por trás do documento. Uma é que o juiz abriu uma investigação por conta própria, sem ser provocado pela PF ou pelo Ministério Público. A outra é que a produção do relatório deveria ter sido discutida no plenário do STF. Há um complicador na posição do procurador. Ele próprio é atingido pelo relatório policial. Além das citações a seu nome em conversas entre Vorcaro e Moraes, aparece como alguém das relações do banqueiro. A ponte entre eles era o advogado Ciro Rocha Soares, que intermediou um convite para Gonet participar de um evento jurídico em Londres, em 2025, organizado por Moraes e patrocinado por Vorcaro. O banqueiro topava bancar as despesas do procurador-geral e de um filho dele, Pedro Gonet. O evento, cuja primeira edição aconteceu em 2024, foi cancelado.

Soares foi intermediário de um encontro de Mendonça com Vorcaro, em março do ano passado, época em que o caso Master ainda não tinha vindo à tona, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn. A reunião ocorreu na sede do instituto do juiz, o Iter, em São Paulo. O Iter é um flanco exposto do togado, por causa de contratos com órgãos públicos. Um deles: 1,2 milhão de reais pagos por um consórcio municipal paulista, o Cioste, presidido por um prefeito que injetou dinheiro no Master na hora do aperto do banco, conforme revelado, em abril, por CartaCapital. O acordo foi feito quatro meses após a conversa de Mendonça e Vorcaro. Outro contrato chamativo: 518 mil reais com a Secretaria de Segurança Pública do Rio, de maio passado. Cláudio Castro, governador do estado até janeiro, é investigado no escândalo do Master. A PF pediu uma batida contra ele, e Mendonça autorizou justamente em maio. Não permitiu, porém, que fosse vasculhado o escritório de advocacia de Castro, onde o ex-governador guardaria documentos incriminadores.

E a política diante do maremoto? Flávio Bolsonaro pede a renúncia de Moraes, outros opositores querem o impeachment do juiz via Senado. Quem tem o poder de abrir o processo de cassação é o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Na quarta-feira 2, o senador comentou no plenário: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa, para fazer um filme, e agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”. Foi uma alusão à cobrança de Flávio a Vorcaro. “A maior aliança da República hoje é do Davi com o Alexandre”, afirma um ministro de Lula. O juiz promoveu a reconciliação do senador com o presidente da República, ao oferecer um jantar no início de agosto. O petista conversou com alguns magistrados do Supremo nos últimos dias e está decidido a lavar as mãos no entrevero. O coordenador da campanha à reeleição, Edinho Silva, divulgou um vídeo após falar com Lula. Nele diz que “o sistema apodreceu” e que “ninguém está acima da lei, seja cidadão comum, um governante, um parlamentar, ou até um integrante do Poder Judiciário”.

A conferir se o lavajatismo vai triunfar mais uma vez. 

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

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AUGUSTO CURY E OS ÓRFÃOS

Aldo Fornazieri, CartaCapital

Candidato do Avante salta e toma espaço que Zema e Caiado não foram competentes para ocupar

Nos últimos dias, as eleições presidenciais ganharam um grau maior de incerteza, introduzido pelo candidato Augusto Cury. Antes disso, as pesquisas indicavam – e os analistas juravam – que não havia luz fora da polarização entre Lula e Flávio Bolsonaro. A incerteza se restringia a um porcentual de 5% a 6% de eleitores pendulares, capazes de aproximar ou de distanciar um pouco as curvas de intenção de voto entre os dois polos. Uma incerteza maior só viria no segundo turno.

O salto de Cury nas redes sociais e nas intenções de voto, ocupando o terceiro lugar, carreou essa incerteza para dentro do primeiro turno. Os analistas dizem que esse crescimento é espuma e que logo vai murchar. Mas o grau de incerteza pode aumentar ainda por conta de novas revelações sobre Flávio Bolsonaro e sobre o imbróglio Lulinha. Há que se indagar também acerca dos efeitos eleitorais que a granada lançada pelo ministro André Mendonça contra Alexandre de Moraes poderá produzir. A prudência, assim, recomenda que é preciso esperar para ver melhor as movimentações do eleitorado, que é o senhor das eleições.

O que importa averiguar aqui é se existe ou não um espaço para um eventual crescimento mais consistente de Augusto Cury. Os recortes de algumas pesquisas mostram que sim. Um dos elementos a ser visto para responder a essa indagação consiste em olhar o porcentual de indecisos.

A pesquisa sobre a intenção de voto espontânea da Quaest de agosto mostra que Lula aparece com 25%, Flávio com 19% e os outros candidatos somam 3%. Os indecisos são 51%. O número é muito significativo, indicando que, em tese, podem ocorrer oscilações importantes a depender dos desempenhos das campanhas e de fatos contingentes. Outro ponto importante a ser verificado é se existe um eleitor potencial para um possível crescimento de Cury ou outro candidato de centro. Uma segmentação ideológica do eleitor feita pela Quaest, em pesquisa de junho, mostra que ele se articula em três pilares: 1/3 de eleitores de esquerda, majoritariamente lulistas; 1/3 de eleitores de direita, afinados com o bolsonarismo; e 1/3 de eleitores independentes, que não possuem um posicionamento ideológico rígido.

escolhas dos eleitores independentes se definem pelo pragmatismo econômico, pela sensibilidade do bolso, inflação de alimentos, qualidade dos serviços públicos e segurança. São mais céticos com a política e sensíveis a discursos antipolítica. Esses eleitores tendem a adiar a definição de voto para a última semana e até para o dia das eleições. O grupo se compõe principalmente por mulheres e eleitores do Sudeste e por eleitores de esquerda e direita que não se identificam com Lula e Flávio. Uma pesquisa do ­Datafolha divulgada em julho também traz a segmentação ideológica dos eleitores: 15% se declaram de direita; 29% de centro-direita; 17% de centro; 26% de centro-esquerda; e 13% de esquerda.

Já uma pesquisa BTG/Nexus divulgada em agosto mostra que 36% dos eleitores se dizem cansados com a polarização política. Numa segmentação educacional, a pesquisa mostra que 52% dos que têm ensino superior se dizem cansados e desconfortáveis com a polarização; 33% dos que têm ensino médio se dizem incomodados e 28% com o ensino fundamental apontam para a saturação. Do total, 17% sentem conforto com a polarização.

Os 51% de indecisos na pesquisa espontânea e os 33% de independentes das pesquisas Quaest, os 29% de eleitores de centro-direita e os 17% de centro captados pelo Datafolha e os 36% de eleitores cansados com a polarização mostrados pela ­Nexus confirmam que há um espaço político e eleitoral potencial para o crescimento de um candidato de centro à margem da polarização. O limite desse crescimento será definido pelas campanhas, suas circunstâncias, virtudes, defeitos e ardis.

Romeu Zema e Ronaldo Caiado se revelaram incompetentes para ocupar esse espaço potencial. Se apresentaram como candidatos de direita, subpolos do bolsonarismo. Augusto Cury, com todas as suas precariedades, buscou ocupar de forma mais efetiva o espaço da despolarização, onde estão os eleitores política e ideologicamente órfãos. Foram esmagados pela ascensão do bolsonarismo que engoliu o PSDB e quase todo o Centrão.

Cury, com um discurso conciliador, pacificador, acolhedor e com o perfil de homem afetuoso que escuta as pessoas, suas dores e reclamos, capaz de humanizar o capitalismo com seu “coração social”, projeta um simbolismo político orientado para atrair os órfãos da política e de líderes políticos. Até onde Cury pode ir ou quando pode colapsar não se sabe. O que é evidente é que existe um espaço disponível para ser ocupado. •

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

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QUERO TUDO JÁ

Miguel Reale Júnior, O Estado de S. Paulo

Sob o signo do eficientismo dos tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto sistema de governo

Vivemos na época da pressa, da urgência, quando tudo deve ser prestado de imediato, sob pena de ser descartado, em demora incompatível com a instantaneidade proporcionada pelas novas conquistas da tecnologia.

Este processo avoluma-se desde o último quartel do século passado. Em matéria publicada em 31 de maio de 1976, no jornal Correio do Povo de Porto Alegre, recortada e guardada por dona Julieta Bento Hofmeister, avó materna de minha mulher, transcreve-se a última entrevista de Heidegger, então falecido na semana anterior.

Heidegger ali afirmava: “A filosofia chegou a seu fim. Seu papel foi ocupado agora pelas ciências. O lugar da filosofia foi ocupado pela cibernética”. E perquiria: “A pergunta decisiva é saber que sistema político, se é que existe algum, está à altura da época da técnica. Não tenho resposta a esta pergunta. Não estou convencido de que seja a democracia”.

Também nos anos 70 do século passado já prenunciavam Lidia Ravera e Marco Radice (Porci con le ali, 1976) a atmosfera da impaciência querendo se ter imediatamente o que se aspira. Conforme o sociólogo Giorgio Triani (Il futuro è adesso, 2013), desde então instaura-se o império do instante gerando a excitação de não se admitir espera para satisfação urgente de todos os desejos, na velocidade do afluxo das informações em quantidade colossal. A aceleração resulta na mentalidade do “voglio tutto subito”.

A inovação contínua surge de vereda, deteriora o conhecimento de ontem e reduz o tempo da estabilidade das informações (Hartmut Rosa, Alienação e aceleração). Pronta, também, há de ser a reação à informação recebida, gestada sem reflexão, impulsionada pela emoção e pelo instinto. Nada é adiado, sem perda de tempo, em fluxo rápido.

Tinha, portanto, razão Heidegger: “Tudo caminha e este funcionamento deriva em mais funcionamento”. Agora, no início do segundo quartel do novo século, com o avanço tecnológico verifica-se que efetivamente o funcionamento gerou mais funcionamento. Assim, hoje, os desejos são logo satisfeitos: a informação vem num instante e se acumula; a compra por internet traz o produto nas mãos do consumidor no mesmo dia; a reunião de negócios realiza-se logo via Zoom; o Uber chega em dois minutos; os filmes estão nas diversas plataformas; os textos são disponibilizados ao advogado, sem imprecisões de linguagem, em segundos; petição não terá erros, malgrado o causídico domine menos a língua portuguesa.

Este assustador “mundo novo” suscita a grave indagação de Heidegger: qual o sistema político que lhe é compatível? A democracia casa-se com este modo urgente da vida, como duvidava o filósofo alemão?

A democracia é o sistema de governo no qual as decisões transitam por um processo de discussão dos prós e contras, de avaliação, visando ser a escolha fruto do convencimento extraído do debate. A solução na democracia será sempre demorada, pensada, não bastando ser o caminho mais eficiente, pois não deve ferir direitos fundamentais, a serem preservados.

Martin Schulz, político alemão que presidiu o Parlamento Europeu, em entrevista de 12 de agosto passado, na Folha de S. Paulo (p. A33), após registrar que vivemos em alta aceleração, pondera: “A democracia é uma forma de governo muito lenta. Quando se quer que todos opinem e discutam um tema, é preciso tempo – tempo do qual não dispomos nessa época de aceleração”.

Em recente e agudo livro (A oligarquia dos poderes e a crise da democracia), Joaquim Falcão bem diz que na era da velocidade, com “a disponibilidade tecnológica, a democracia é decidida quase diariamente no ontem: o movimento chega antes do pensamento”.

A eficiência alcança, portanto, posto primordial. Na busca de respostas a exigências de modo rápido, a preservação de direitos fundamentais é relegada a plano inferior. O que importa é a criação de ferramentas que produzam resultados e satisfaçam demandas por vezes inventadas pela própria indústria da tecnologia.

Duas manifestações, em especial, acendem a luz amarela anunciando grave perigo à frente: o cientista político canadense de origem chinesa Dan Wang atribui o maior desenvolvimento chinês em face dos Estados Unidos por ser este um país de advogados, sendo a China um país de engenheiros. O risco está em se concluir que o respeito a direitos emperraria a execução de programas que engenheiros colocam em prática, razão pela qual poderiam ser minimizados procedimentos e controles de sua proteção em favor do avanço tecnológico.

Elon Musk, o trilionário da avançada tecnologia, em entrevista à revista The Economist, prediz: a época do Estado-nação já passou. O mundo pertence a algumas corporações, como SpaceX, Meta, Amazon, Google, etc., que devem se reunir periodicamente para decidir o destino do mundo: o que proibir ou permitir.

Assim, sob o signo do eficientismo dos tecnocratas que conformam a sociedade, a democracia esfarela-se enquanto sistema de governo no qual, primordialmente, se consagram e respeitam os direitos fundamentais frente ao poder.

Repito o que dissera em outro artigo, talvez de modo ingênuo: “Iluministas do mundo uni-vos”.

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O LADO DE VORCARO NA DISPUTA PRESIDENCIAL

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Da cadeia, ex-banqueiro continua dando as cartas; ele quer a nulidade do processo do caso Master

Estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco investigação sobre o filme 'Dark Horse'

Da cadeia, Daniel Vorcaro continua dando as cartas. Ele quer a nulidade do processo do caso Master. O ex-banqueiro caminha a passos largos para conseguir que seja colocado em suspeição todo o inquérito contra ele.

Na intimidade das mensagens trocadas pelo celular, Vorcaro é "amigo, Dani, irmãozão, mermão". Em público, os mesmos que o tratam com palavras amorosas nada sabem. Não são amigos.

O deputado Nikolas Ferreira, que se autoproclama "homem de família", entrou nessa lista. Pediu que Vorcaro ajudasse seu ex-assessor de gabinete a liberar "um ativo de minério". Maracutaia.

Vorcaro muda de advogados como quem troca de roupa. Diz que vai falar, não conta nada, volta atrás, sinaliza com nova delação, engana e segue segurando os cordões das marionetes ao sabor de quem mais o ajudar a alcançar seu propósito.

advogado da hora é Daniel Bialski, que já prestou serviços ao ex-governador Cláudio Castro, a Michelle Bolsonaro no caso das joias sauditas e à ex-deputada Carla Zambelli.

Em Brasília, Bialski é conhecido por ter boa relação com André Mendonçarelator do caso Master no STF (Supremo Tribunal Federal) e ex-ministro de Bolsonaro.

A disputa eleitoral apertada e o STF em chamas ajudam Vorcaro. A última dele foi dar um depoimento ao gabinete de Mendonça dizendo que sofreu tortura psicológica, maus-tratos e ameaças veladas na prisão para não relatar fatos ligados à Polícia Federal.

O depoimento, gravado em vídeo, foi dado a um juiz auxiliar da equipe do ministro. O alvo era o chefe da PF, Andrei Rodrigues.

Os vazamentos pinçados dão aos advogados a chance de pedir a nulidade. A estratégia acaba favorecendo o presidenciável Flávio Bolsonaro por colocar em risco a apuração sobre o filme "Dark Horse".

Ao tirar o sigilo parcial do caso, Mendonça não estaria agindo de forma proposital? O episódio lembra a atitude do ex-juiz Sérgio Moro, que divulgou grampo de ligação entre Lula e Dilma Rousseff.

Não nos esquecemos: Vorcaro é o maior fraudador da história do sistema financeiro do país. Quem ainda acredita nele?

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QUANDO TODO MUNDO ESTÁ CERTO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

André Mendonça está certo em cobrar investigação sobre Alexandre de Moraes

E Moraes aponta problemas reais em ações de Mendonça à frente do inquérito

André Mendonça está certo e Alexandre de Moraes está certo —e é por isso que o STF vive a mais grave crise de sua história.

O relator do caso Master tem razão ao sustentar que o relacionamento de Moraes com Daniel Vorcaro precisa ser investigado. Não dá para cravar que Moraes tenha cometido crimes —só a investigação poderia determiná-lo—, mas, no plano ético, a situação do ministro é insustentável. O conflito de interesses está provado. A família de Moraes auferiu dezenas de milhões de reais com um contrato com o banco Master totalmente fora dos padrões de mercado e que não poderia ter motivações republicanas. Era dever do ministro perceber isso.

Moraes, bem a seu estilo, reagiu à investida de Mendonça partindo para o ataque. Sacou o infindável inquérito das fake news para acusar o colega de abuso de autoridade, improbidade e, estranhamente, de crime de responsabilidade, que está fora da alçada do Judiciário. Pediu a abertura de investigação. Há razões para a suspeita. Na supervisão do inquérito, Mendonça forçou a mão, abandonando a inércia que deveria caracterizar a posição do magistrado e fazendo as vezes de investigador —com viés político. Numa daquelas ironias da história, Moraes acusa Mendonça de ter recorrido a expedientes de que ele próprio se utilizou com prodigalidade.

A solução menos traumática para o STF seria investigar todos os ministros sobre os quais haja suspeitas e livrar-se dos que tenham cometido delitos ou desvios éticos. Difícil. Eu apostaria mais na pizza. Moraes já indicou pontos que poderão produzir nulidades que livrariam até o próprio Vorcaro. Mesmo que o tribunal faça a coisa certa, sua credibilidade já sofreu um abalo do qual não se recuperará tão cedo.

A legitimidade da Justiça depende de suas decisões serem percebidas pela sociedade, se não como justas, ao menos como minimamente impessoais e tecnicamente embasadas. Os últimos acontecimentos escancaram que elas com muita frequência são motivadas por interesses pessoais e com inspiração política.

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EM MOMENTOS DE CRISE, A SOBERBA É MÁ CONSELHEIRA

Oscar Vilhena Vieira, Folha de S. Paulo

É fundamental fortalecer o colegiado do STF em detrimento de seus membros

E os mandatos na corte não deveriam ultrapassar 12 ou 16 anos

Ao completar 135 anos, o Supremo Tribunal Federal vive a mais grave crise de sua história. E não foram poucas.

A autoridade do tribunal sempre foi contestada por setores autoritários da vida brasileira, que desrespeitaram suas decisões, violaram suas prerrogativas, aposentaram ministros e, mais recentemente, vandalizaram sua sede. O que torna a crise atual mais grave que as anteriores é que às ameaças externas se somam os ataques internos, que colocam em risco a sobrevivência não apenas da instituição mas da própria Constituição.

Não será fácil superar a presente crise pela qual passa o Supremo, se é que ela será um dia superada. O termo crise, em sua origem, designa não apenas o risco de perecimento de um organismo ou instituição mas um momento crucial, em que decisões precisam ser tomadas com vistas à correção de rumos e reestabelecimento da normalidade. A soberba apenas nos aproximará do precipício.

Embora o corredor pareça estar cada vez mais estreito, os que têm compromisso com a democracia e com a liberdade das futuras gerações estão compelidos a construir alternativas que favoreçam a revitalização de nossa democracia constitucional.

Dois movimentos parecem indispensáveis neste momento. O primeiro deles é a apuração dos fatos que aprofundaram a crise nos últimos dias. Ao intimar colegas e demais autoridades envolvidas no imbróglio para se explicarem, assim como acenar com o fim do inquérito das fake news, o presidente do Supremo, Edson Fachin, deu um passo essencial em direção à responsabilização daqueles que eventualmente tenham violado a lei. A última palavra será, no entanto, do colegiado. Afinal, a ele cabe acertar ou errar em último lugar.

Um segundo movimento necessário para superar a crise é apresentar e implementar reformas no âmbito da jurisdição constitucional que contribuam para ampliar a imparcialidade, a integridade e a consistência do tribunal, como têm sugerido inúmeros setores da sociedade brasileira. A adoção de um código de ética é a primeira delas.

A realidade é que o Supremo se tornou uma instituição muito poderosa. Nas suas mãos foram concentradas as funções de corte constitucional, tribunal de últimos recursos e tribunal penal de primeira instância para altas autoridades. Isso precisa mudar. É necessário separar essas funções. Sobretudo, é preciso afastar do Supremo a competência para processar e julgar penal um número inaceitável de autoridades —isso tem sido o principal responsável por contaminar politicamente a jurisdição constitucional brasileira.

Outra medida fundamental seria fortalecer o colegiado em detrimento dos membros do tribunal. Decisões monocráticas deveriam ser absolutamente excepcionais e de vida curta. O faroeste caboclo que a nação testemunha bestificada é fruto dessa fragmentação perniciosa.

Por fim, não podemos esquecer que o desenho institucional, por si, não dá conta dos desafios de uma instituição com tamanhas responsabilidades. Afinal, todas as instituições são habitadas por pessoas e seu desempenho depende do comportamento dos ocupantes. O processo de condução de ministros precisa ser qualificado, para garantir ilibada reputação, notável saber e, se possível, maior diversidade. Os mandatos não deveriam ultrapassar 12 ou 16 anos.

Como acentuava Rui Barbosa, "a autoridade da Justiça é moral e sustenta-se pela moralidade de suas decisões".

Recuperar a autoridade do Supremo não será tarefa fácil, mas, neste momento, é a mais importante tarefa de quem defende o Estado de Direito.

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STF FUTEBOL CLUBE NUNCA FALHOU COM MORAES, PORQUE MORAES NUNCA FALHOU COM ELE

Thaís Oyama, O Globo

O poder do ministro cresceu num ambiente em que cada heterodoxia sua recebia guarida de parte da sociedade

Exposto em conversas indefensáveis com o hoje presidiário Daniel Vorcaro, o ministro Alexandre de Moraes sacou do coldre o inquérito das fake news e apontou-o para a cabeça do seu colega de Corte, André Mendonça, mergulhando o Supremo numa crise nunca vista. Ministros do STF se disseram perplexos. Democratas se abanaram. O presidente Lula apressou-se em afetar indignação.

Ninguém duvida de que a crise é abissal. Mas tanta surpresa não se justifica. Alexandre de Moraes não acordou um dia transformado em Alexandre de Moraes. Tampouco virou sozinho o que é.

Nessa transmutação, o inquérito das fake news é apontado como a origem da audácia aparentemente sem limites de Moraes. Menos lembrado é o episódio que o gerou. No dia 8 de fevereiro de 2019, a imprensa publicou que a Receita Federal fazia análises preliminares sobre a variação no patrimônio do ministro Gilmar Mendes e de sua então mulher, Guiomar Mendes. No dia 25, revelou-se que também a então mulher do ministro Dias Toffoli, Roberta Rangel, constava da lista de 133 contribuintes selecionados pela peneira da Equipe Especial de Programação de Combate a Fraudes Tributárias. As informações, protegidas por sigilo fiscal, foram vazadas irregularmente. Os ministros se enfureceram e, no dia 26 de fevereiro, a Receita informou não ter encontrado indícios que justificassem investigações contra Gilmar, Guiomar Mendes e Roberta Rangel.

Essa foi a gênese do inquérito das fake news — nascido no dia 14 de março daquele ano. Embora o STF estivesse sob ataque — bolsonaristas pediam seu fechamento, e ministros eram ameaçados —, a cronologia e o objeto que Moraes conferiu à investigação revelam que ele surgiu menos da proclamada defesa da democracia que de um impulso de autopreservação: resguardar ministros e familiares dos efeitos da divulgação ilegal de informações patrimoniais que atingiam um ministro e as mulheres de dois integrantes da Corte — ambas advogadas, como Viviane Barci de Moraes, a mulher de Moraes. A própria portaria inaugural do inquérito definia como objeto “notícias fraudulentas (fake news), denunciações caluniosas, ameaças e infrações (...) que atingem a honorabilidade e a segurança do Supremo Tribunal Federal, de seus membros e familiares”.

Cinco dias depois, Moraes decidiu ampliar-lhe o escopo. No novo rol de crimes a ser investigados pelo doravante imortal 4.781, Moraes incluiu o vazamento de informações e documentos sigilosos destinado a atribuir ou insinuar a prática de ilícitos por integrantes do STF — fundamentos que agora invocou na destemperada tentativa, contida por Edson Fachin, de vingar-se do colega Mendonça.

A partir daí, a história é conhecida: à sombra do inquérito das fake news, Moraes censurou uma reportagem da revista Crusoé que mencionava Toffoli; suspendeu apurações da Receita sobre 133 dos 134 contribuintes selecionados e ordenou o afastamento de dois auditores; determinou que o Fisco rastreasse acessos aos dados de ministros e de cerca de cem parentes; e quebrou o sigilo da fonte de um jornalista que publicara reportagens sobre familiares do colega Flávio Dino.

O poder de Moraes cresceu num ambiente em que cada heterodoxia sua recebia guarida de parte da sociedade não apenas em nome da excepcionalidade do combate ao golpismo, mas, da parte do STF, em nome do corporativismo também. O STF Futebol Clube nunca falhou com Moraes porque Moraes nunca falhou com ele.

Diz-se que o poder absoluto corrompe absolutamente. Antes disso, porém, o poder excessivo costuma produzir algo mais banal — a perda de medida. O “posso porque preciso” de Moraes transformou-se pouco a pouco em “posso porque posso”.

Moraes não nasceu ontem, o Brasil o viu crescer. A prosperarem os acordos que se avistam, ele se tornará presidente da Corte no ano que vem e, nessa condição, o rosto da Justiça brasileira. Essa aberração, os ministros ainda podem poupar ao país.

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É PRECISO RECONSTRUIR, E NÃO IMPLODIR A DEMOCRACIA

Flávia Oliveira, O Globo

Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo

Uma pergunta se impõe, ao fim da semana — mais uma — desastrosa. A quem interessa a implosão da democracia? Às brasileiras e aos brasileiros, certamente, não. Em uma década, o país impôs impeachment à única mulher já eleita presidente da República; enfrentou e puniu tentativa de golpe de Estado. Agora, flerta novamente com o abismo. Quem foi para o feriado da Independência sem uma ruga de preocupação está mal informado. O risco é crescente e difuso: parte do golpismo continuado da extrema direita bolsonarista; cruza a ameaça de interferência estrangeira pelos Estados Unidos de Donald Trump no processo eleitoral; passa pela disputa fratricida entre os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça no Supremo Tribunal Federal (STF); esbarra no escândalo financeiro protagonizado por Daniel Vorcaro e sua teia; cruza com um Legislativo ensimesmado. Por fim, encontra o desencanto da população com um sistema político carcomido e desprovido de representatividade.

A democracia brasileira nunca chegou ao patamar sonhado por quem nela acredita. Mas abandoná-la não tornará o país melhor. Um regime alquebrado é para ser curado, não aniquilado. A receita é expulsar o agressor, não abrigá-lo. Quatro anos atrás, perto das eleições, pesquisa Quaest revelava que 58% dos brasileiros se declaravam muito interessados no pleito. O embate entre Jair Bolsonaro, o presidente golpista, e Luiz Inácio Lula da Silva produziu engajamento. No mês passado, a proporção estava em 36%; na quarta passada, no primeiro levantamento de setembro, o percentual oscilou um ponto percentual para cima. Pouco ou nada interessados somavam 63% em agosto, 62% agora, como se a democracia segura estivesse. É um desinteresse espantoso, a um mês da escolha de presidente, 54 senadores, 513 deputados federais, 27 governadores e todos os integrantes das assembleias estaduais.

Felipe Nunes, diretor da Quaest, conta que interesse no pleito é variável usada pelos pesquisadores para avaliar abstenção. Quanto menos engajado, maior a probabilidade de não comparecer à votação. Desencanto é resposta natural de um eleitorado que não se enxerga no leque de candidaturas, não se comove com a campanha, desconfia do sistema. É também combustível para mais fragmentação e/ou ascensão de outsiders e candidatos a autocratas. Contra a ameaça à democracia, radicalizá-la, como ensina Sueli Carneiro, filósofa, escritora, ativista. Há que elevar a participação política, reivindicar inclusão, repelir o autoritarismo, exigir dos candidatos seriedade, obediência à Constituição, planos concretos para os problemas que nos atormentam.

Já que viraram moda na política — e até no Supremo — as referências bíblicas e as mensagens religiosas, trago contribuição da mitologia iorubá, também parte de nossas origens. Oxaguiã é orixá relacionado a progresso, inovação, reconstrução. É divindade que rejeita o comodismo. Inventou o pilão para preparar, mais rapidamente e em maior quantidade, seu prato predileto, o inhame pilado, e repartir com a comunidade, conta o professor e babalorixá Márcio de Jagun.

É também ele que faz do conflito evolução. Luiz Antonio Simas, historiador, escritor e pesquisador das afrobrasilidades, lembra que um itan (narrativa sagrada) dos mais populares trata da demolição, repetidamente, por Oxaguiã do palácio de Ogum como forma de obrigar o povo a reconstruí-lo melhor. É coisa de quem não se conforma com a mediocridade nem com a acomodação; de quem não tolera a resignação nem o comodismo.

— Se esse caminho vem como irê (positividade), é um marco de reconstrução, do fazer melhor. Se a tendência é de negatividade, dá para dizer que o comportamento de destruição e reconstrução está se tornando obsessivo — completa.

Na consulta espontânea sobre intenção de voto, quatro em dez entrevistados (42%) pela Quaest se disseram indecisos; no Datafolha, 26%. Num instituto e no outro, há muita gente por decidir. Quase metade do eleitorado (45%) diz que o principal motivo para escolher o candidato é a qualidade das propostas. A proporção pouco varia entre mulheres e homens, pobres e ricos, católicos e evangélicos, brancos e negros, mais ou menos escolarizados, morador de uma região ou outra. Os eleitores estão quase tão preocupados com promessas quanto indecisos sobre o candidato. Tudo somado devia nutrir o debate, germinar o entusiasmo, jamais abrir mão da democracia e deixar que vençam aqueles que a desprezam. No Judiciário, no Legislativo ou no Executivo.

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sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O TESTAMENTO INACABADO DE GETÚLIO VARGAS

José de Souza Martins*, Valor Econômico

O discurso-testamento de 1951 falava em social-democracia e em protagonismo dos trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder

No primeiro 1º de maio após seu retorno à Presidência da República, em 1951, depois da deposição em 1945 e 15 anos de poder e de ter sido novamente eleito presidente em 1950, Getúlio Vargas pronunciou um significativo discurso no Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro.

A memória de Getúlio Vargas tem sido desfigurada e manipulada para nele ressaltar o ditador, que ele foi no Estado Novo, de 1937 a 1945. Ele foi um estadista peculiar, de um país atrasado, em que uma minoria de pessoas esclarecidas, como Roberto Simonsen, fundador da Fiesp, tinha clareza de que o Brasil tinha possibilidade de diferençar-se do que fora até 1929.

Havia, difusa, entre nós, uma ideologia nacionalista e desenvolvimentista que vislumbrava a necessidade política de que o país se desvencilhasse das amarras da economia colonial dos ciclos sucessivos - pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café.

Já nos anos 1920 e praticamente desde o fim da escravidão várias regiões do Brasil haviam começado a desenvolver a indústria de bens de consumo para o mercado interno. E, também, nos interstícios dessa industrialização, uma indústria de bens de capital como seções complementares à de bens de consumo.

O clima de guerra da década de 1930, o desencadeamento da guerra em 1939 e a entrada dos americanos na guerra em 1941 definiram uma conjuntura de possibilidades para o desenvolvimento industrial brasileiro. Em 1942 foi instalada a Base Aérea americana de Natal. Através de um esquema de apoio e cooperação, os militares brasileiros tiveram a perspicácia de evitar uma ocupação militar americana do Nordeste. Em 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira, que entrou na guerra na Itália, em 1944.

Nesse clima de disponibilidade americana para negociar e de demora brasileira para entrar no campo de batalha, Getúlio conseguiu dos americanos os meios para instalação da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda. Base para alicerçar o Brasil industrial.

Em 1932, os paulistas haviam se rebelado contra Getúlio na Revolução Constitucionalista e perderam. De grande lucidez política, Getúlio tinha clara consciência de que sem São Paulo o Brasil não superaria a crise de 1929. A indústria se tornara inevitável como saída para o Brasil.

A salvação da economia estava no mercado interno. O discernimento do ministro da Fazenda de Getúlio, o paulista José Maria Whitaker, exportador de café e banqueiro, como se vê em seu relatório de 1933, implantou a política de compra e queima dos estoques de café, de modo a fazer da crise um instrumento do fluxo de renda com o qual os fazendeiros pagavam os colonos que assim podiam comprar os produtos de consumo que não havia como importar sem moeda forte. Consumindo produtos da indústria brasileira. Quando a guerra terminou, o Brasil já estava industrializado.

O temor americano de uma potência industrial latino-americana no quintal de casa foi sutilmente combatido por meio da proximidade e aliança entre militares brasileiros e americanos firmada durante a guerra, cilada para o projeto personificado por Vargas.

No discurso de 1951, Getúlio dirigiu-se aos trabalhadores em defesa da proposta nacionalista. O projeto nacional de um Brasil livre e autônomo, industrializado e desenvolvido, estava ameaçada. Sua deposição em 1945 fora o sinal evidente disso. Como foram evidentes os pretextos e os objetivos.

Getúlio começou com o pausado e solene “Trabalhadores do Brasil!”, que estabelecia uma conexão automática com a massa de seus ouvintes, ao vivo ou pelo rádio. Ele conseguia fazer da massa sua coadjuvante. Ele se antecipava na definição de objetivos sociais da política do Estado, com a particularidade de nela sempre ter presente metas de emancipação da classe trabalhadora.

Getúlio retomava o que não era um outro e novo discurso, mas o discurso interrompido por sua deposição, o discurso de um projeto de nação com o protagonismo da classe trabalhadora. O discurso-testamento falava em social-democracia e em protagonismo dos trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder.

Uns dias antes do suicídio de Getúlio, em 1954, foi criada a Diocese de Santo André no âmago da região industrial de São Paulo. O novo bispo, Dom Jorge Marcos de Oliveira, veio para transformar os operários católicos em protagonistas da história social.

Lá na Vila Carioca, ao lado da Favela de Heliópolis, onde morava e jogava futebol de várzea, em campinhos que eu também conheci, Lula tampouco tinha ideia de que ele era o escolhido do projeto histórico-social pelo qual Getúlio morrera. Nem Dom Jorge teve oportunidade de ver o poder abrir-se para o protagonismo dos trabalhadores.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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OS IRMÃOS CARA DE PAU, O SUPREMO E A AGENDA DE LULA NO CONGRESSO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A tensão deixou de envolver apenas dois ministros: as gravações arrastaram para o centro do palco o STF, a PGR e a própria PF

Cenas antológicas de “Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers)”, comédia musical dirigida por John Landis em 1980, parecem ter sido filmadas para servir de metáfora à atual crise política brasileira. Jake e Elwood Blues, interpretados por John Belushi e Dan Aykroyd, respectivamente, reúnem uma antiga banda para levantar o dinheiro necessário à salvação do orfanato católico onde foram criados. Acreditam estar numa “missão divina”, embora sejam perseguidos pela polícia, por neonazistas, por uma ex-noiva vingativa e por uma banda de música country.

No Bob’s Country Bunker, os músicos sobem ao palco protegidos por uma tela de arame, atrás da qual continuam tocando enquanto garrafas são atiradas pela plateia. Mais tarde, no grande concerto do Palace Hotel Ballroom, o espetáculo prossegue em meio à presença de policiais, rivais e adversários dispostos a capturar os irmãos. A confusão toma conta do salão, mas a banda não interrompe a música. O repertório se adapta às circunstâncias, o ritmo é mantido e o público dança em meio ao caos.

É mais ou menos o que está acontecendo no Congresso. Enquanto o Supremo Tribunal Federal mergulha numa crise sem precedentes por causa das revelações do Caso Master, Câmara e Senado tentam manter a música tocando. A orquestra parlamentar executa uma pauta negociada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) que é pura música para os eleitores: a chamada “taxa das blusinhas”, além do fim da escala 6 x 1.

Do outro lado da Praça dos Três Poderes, porém, voam garrafas e cadeiras. O ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a investigação, elas teriam sido trocadas com o ministro Alexandre de Moraes em momentos críticos das apurações sobre o Master. Os registros mencionam o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e sugerem tentativas do ex-baqueiro de obter informações ou proteção diante do avanço das investigações.

Moraes reagiu e questiona Mendonça por permitir uma apuração capaz de atingi-lo sem autorização prévia do Plenário. Mendonça, por sua vez, pediu que a Corte analisasse publicamente o caso. Gonet entrou na disputa para sustentar que o relator não tinha competência para investigar um colega do Supremo e pediu a anulação dos elementos relacionados a Moraes. A tensão deixou de envolver apenas dois ministros: as gravações arrastaram para o centro do palco o STF, a PGR e a própria PF. O presidente da Corte, Edson Fachin, parece perdido diante de uma crise sem precedentes no Supremo.

Mensagens, encontros e relações pessoais precisam ser examinados no devido processo legal. Entretanto, a tentativa de anular as provas antes do esclarecimento completo dos fatos, em vez de dissipar, amplia as suspeitas. A Corte que exigiu transparência e rigor quando investigou políticos, empresários, militares e manifestantes será capaz de adotar os mesmos critérios quando as dúvidas alcançam seus integrantes? Esse é a questão.

Segue o baile

É inevitável a politização do episódio. Candidatos de oposição passaram a exigir o afastamento de Moraes, enquanto aliados do governo cobram a retirada integral do sigilo da investigação. A eventual colaboração premiada de Vorcaro — ainda dependente de negociação, formalização e homologação — assombra autoridades de diferentes Poderes e partidos. O banqueiro construiu uma rede de relações que atravessava fronteiras ideológicas. Por isso, quase todos têm interesse em descobrir o que ele sabe, mas muitos não querem que seja divulgado.

É nesse ambiente que o Congresso atua como a orquestra que toca freneticamente durante o conflito generalizado. A Câmara e o Senado aprovaram a toque de caixa o fim da chamada “taxa das blusinhas”, imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. O texto preserva a cobrança do ICMS pelos estados e estabelece avaliações periódicas dos efeitos da isenção sobre emprego, arrecadação, comércio e indústria nacionais. É uma medida de forte apelo popular, principalmente entre consumidores de baixa renda.

A pauta avançou graças a um acordo de Lula com Motta e Alcolumbre. O governo revogou uma taxa que ele próprio havia criado, mas pretende apresentar a decisão como demonstração de sensibilidade social. O que importa é o consumidor voltar a comprar produtos baratos no exterior sem o imposto federal.

Entretanto, o fim da escala 6 x 1 está a meio caminho. A proposta reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas, assegura dois dias de descanso e proíbe a redução salarial. O tema enfrenta objeções empresariais e da oposição, que alertam para o aumento dos custos de contratação, sobretudo no comércio, na gastronomia, na saúde, na logística e nos serviços de funcionamento contínuo.

Para contornar essas resistências, o MDB propôs uma PEC paralela com transição gradual, negociação coletiva, ampliação do banco de horas e mecanismos de compensação. Mesmo assim, a aprovação da proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) representa uma vitória de Lula. Às vésperas da eleição, poucos parlamentares desejam explicar aos eleitores por que votaram contra mais tempo de descanso para os trabalhadores.

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POLÍTICA NÃO É UM MUNDO PARALELO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

O momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse

As eleições constituem o principal instrumento para que os políticos ouçam, dialoguem e respondam à sociedade. Isso não quer dizer que os governantes e representantes também não tenham de prestar contas ao longo de seus mandatos. Ocupar um cargo eletivo sempre envolve ser monitorado e responsabilizado por seus atos. Mas é no processo eleitoral que os cidadãos têm mais força para listar as prioridades e buscar soluções para os problemas públicos. O que estamos vendo em 2026, infelizmente, é um uso muito insatisfatório e reduzido desse momento estratégico da democracia.

O Brasil passou por muitas transformações positivas desde o início da redemocratização. Nesta lista estariam o acesso universal à saúde, a expansão da educação para camadas sociais que tinham sido alijadas ou expulsas das escolas, a criação de políticas que reduziram a pobreza, a estabilização da economia com o Plano Real, bem como a adoção de programas para proteger o meio ambiente e minorias sociais, como negros, mulheres e indígenas. Tudo isso só foi possível porque houve eleições, com participação dos cidadãos, pressões de organizações da sociedade e apresentação de propostas por candidatos competindo entre si.

A eleição de 2026 tem toda a estrutura para ser o terreno de construção de melhores políticas públicas frente aos diversos problemas que o país terá de enfrentar nos próximos quatro anos. Entretanto, até agora, o debate e as disputas eleitorais têm sido pobres em ideias, fugindo dos principais problemas que vão afligir o próximo presidente e o Congresso Nacional. Trata-se de um pleito em que a política está rodando em torno de si mesma, quase num mundo paralelo.

A explicação para esse comportamento no plano dos concorrentes ao Legislativo resume-se a uma palavra da ciência política: oligarquização. Essa é a característica mais marcante do sistema político brasileiro iniciada pelo comando de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara Federal e que foi lapidada nos últimos dez anos por uma série de reformas institucionais. Quem entrou no clube dos eleitos nos últimos anos dificilmente sairá do jogo, e quem está fora começa a corrida eleitoral em grande desvantagem.

Entre as medidas que produziram a oligarquização, destacam-se, primeiramente, a ampliação gigantesca do tamanho das emendas parlamentares, que se tornaram menos transparentes e dominadas por uma pequena elite política, formada pelos cardeais do Congresso Nacional e alguns presidentes de partidos. Soma-se a isso o crescimento enorme dos Fundos Partidário e Eleitoral, comandados pelas cúpulas das agremiações partidárias, definindo assim os pouco donos do dinheiro e vencedores dentro das legendas. Também pode ser agregada aqui a redução do tempo de campanha, o que cria uma barreira de entrada para os que estão fora desse sistema oligárquico, diminuindo a competição eleitoral.

O predomínio da oligarquização política torna mais difícil o debate sobre as disputas legislativas, ainda mais no sistema eleitoral brasileiro, em que voto proporcional por lista aberta enfileira nomes e mais nomes sem que o eleitor saiba claramente as propostas partidárias. A vinculação do voto às benesses locais clientelistas ficou mais poderosa nos últimos dez anos, num retrocesso em relação aos avanços que tínhamos conseguido com a criação de normas mais objetivas e impessoais para o acesso às políticas públicas, especialmente a partir do governo Fernando Henrique.

As eleições majoritárias - Senado, governadorias e Presidência da República - fornecem melhores condições para um debate além do clientelismo localista ou do voto ligado a identidades religiosas ou profissionais. Não obstante, o contexto importa muito, e a grande maioria do eleitorado brasileiro hoje está dividida entre a polarização e o cansaço, mostram as pesquisas qualitativas.

A maioria do eleitorado, cerca de 70%, abraçou o comportamento polarizado, e dentro destes a maior parcela discute cada vez menos as questões nacionais a fundo, e espera saber o que seu lado fala sobre o assunto. Entre os que estão cansados, há um forte sentimento de desânimo, o que leva tais eleitores a procurar mais um perfil fora das brigas e escândalos recentes do que propostas concretas - isso explica o crescimento nas últimas semanas de Augusto Cury.

A lógica da guerra das rejeições entre os dois líderes das pesquisas é mais um ponto que dificulta o debate de ideias. Evidentemente que a sociedade precisa saber tudo sobre os candidatos, com destaque para suas condutas éticas. A questão é que as respostas para tais escândalos tendem a ser mais objetivas quando feitas por apurações independentes. Sabendo que o outro lado também tem telhados de vidro, Flávio Bolsonaro e Lula continuarão discutindo os erros do outro para aumentar a rejeição alheia, fator que deve ser decisivo numa eleição em que os independentes e indecisos, verdadeiros fiéis da balança, tendem a anular ou escolher o menos rejeitado entre os dois.

No conjunto dos candidatos, outro problema tem dificultado o debate: a adoção de paradigmas equivocados de políticas públicas. O apoio à política de segurança pública em El Salvador é um desses casos. Sem analisar o funcionamento efetivo do modelo, presidenciáveis têm abraçado integralmente o que mal conhecem. Mas o que importa aqui é criar um discurso salvacionista, em que as impressões valem mais do que as evidências. Seria muito mais importante analisarem os números brasileiros, as experiências subnacionais mais bem-sucedidas, como Niterói e Rio Grande do Sul, em vez de propor algo estranho às nossas singularidades.

A fragilidade do diagnóstico dos acertos e erros do passado também enfraquece o debate público. Algumas discussões e propostas sobre juros ou Bolsa Família ignoram o que já conhecemos sobre tais temas. Vale mais dizer que será feita uma mudança grande mesmo que o diagnóstico seja pobre e equivocado. Neste campo, o apoio à anistia de Bolsonaro é uma amnésia perigosíssima porque poderá abrir portas para golpes no futuro, jogando uma pá de cal na democracia.

Sabe-se que políticos, em muitas democracias, tendem a evitar os temas espinhosos que exigem soluções que desagradarão a parte importante do eleitorado. Políticos brasileiros não fogem dessa regra. Porém, é igualmente verdadeiro que quem promete o céu e entrega o ajuste logo no início do mandato, especialmente levando-se em conta que os resultados positivos do processo demandam algum tempo, pode ter dificuldades de governabilidade. Por isso, o pragmatismo político indica que é melhor não fugir do diagnóstico e ser mais honesto com o eleitorado. Há espaço eleitoral para dizer que uma repactuação do problema fiscal trará ganhos para todos. Todavia, a pobreza do debate prefere o silêncio ou o populismo.

Mais problemático é o fato de que a maioria dos candidatos não está discutindo a fundo propostas apresentadas por organizações da sociedade para resolver os problemas do país e estabelecer um projeto de futuro ao país. Participei de algum modo de proposições feitas pela Todos Pela Educação, pelo Iedi e pelo Derrubando Muros, que podem ter defeitos, mas apresentam um conjunto rico de diagnósticos e prognósticos que está sendo ignorado pelos principais presidenciáveis. Citei tais documentos e poderia falar de outros posicionamentos setoriais muito interessantes que foram publicados recentemente e que não foram nem citados pelos programas de governo.

Por culpa da grande maioria dos políticos e também de boa parte da cobertura da imprensa, o debate eleitoral está muito distante de uma radiografia precisa dos problemas e de modelos baseados em evidências que construam soluções exequíveis. Seria muito mais interessante confrontar as ideias dos candidatos com as propostas formuladas por várias entidades da sociedade civil. E se concordarem com tais propostas ou com parcela delas, os candidatos à Presidência da República poderiam se comprometer e assinar compromissos que deixariam mais claro o que farão se vencerem as eleições.

Naquilo em que haja polêmica ou concordância parcial em relação às propostas da sociedade civil, o diálogo com os presidenciáveis poderia gerar um cardápio de soluções, dentro do qual as linhas ideológicas dos candidatos optariam por ficar um pouco mais à esquerda ou à direita. De todo modo, sair das meras generalidades ou de mitos equivocados sobre políticas públicas seria um passo muito positivo para usar a democracia como um meio potente de melhorar o país. Até agora, estamos distantes disso, e o mundo paralelo da política prevalece no debate eleitoral. O problema é que o distanciamento do que é efetivamente relevante nos trará uma conta bem pesada nos próximos quatro anos.

Para os eleitores fora da polarização, a eleição de 2026 parece caminhar pela escolha de quem é menos pior. Evitar um caminho mais equivocado ou perigoso para o Brasil é uma justificativa legítima e correta do voto. Mas o momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse. O papel da sociedade é aumentar o sarrafo, o máximo possível, pressionando para que projetos estruturados de país sejam, no mínimo, discutidos e levados em conta pelos presidenciáveis.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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