Viagem de Lula tem vários objetivos: manter canal aberto,
avançar no combate ao crime e responder a pressões comercias
O governo brasileiro quer, na visita do presidente Lula a
Washington, “manter o diálogo de alto nível e tratar muito concretamente temas
que formem uma agenda positiva”. Foi o que ouvi de pessoa próxima ao
presidente. Parece simples, mas é difícil no atual contexto. Mais do que algum
acordo, o objetivo é manter o canal de diálogo presidencial, apesar de todas as
diferenças. Além disso, o Brasil tem o desejo de que avance a cooperação na
área de combate ao crime organizado.
Houve um momento na terça-feira em que a Casa Branca ainda
não havia confirmado oficialmente a reunião, mas inúmeros funcionários
envolvidos no encontro, inclusive o cerimonial, tratavam com suas contrapartes
no Brasil. Aqui decidiu-se continuar os preparativos. Só no fim do dia veio a
confirmação. A conversa estava prevista havia tempos, nunca chegou a ter data e
foi sendo adiada por causa da guerra.
O presidente Lula chegará lá com uma
proposta concreta de acordo bilateral de combate ao crime organizado, que
amplia as trocas de informações entre agências governamentais envolvidas no
enfrentamento ao narcotráfico e lavagem de dinheiro. Por isso, integram a
comitiva o ministro da Fazenda, Dario
Durigan, o da Justiça, Wellington Lima e Silva, e o diretor-geral da
Polícia Federal, Andrei Rodrigues.
Em uma entrevista ontem ao “Bom Dia, Ministro”, programa
produzido pelo próprio governo, Durigan disse que recentemente foi feita uma
parceria do Ministério da Fazenda e da Polícia Federal com a Aduana americana.
E que isso está estreitando o intercâmbio de dados como, por exemplo, o raio-x
dos milhares de contêineres que saem de lá e vêm para o Brasil. Segundo ele, de
maio de 2025 a abril deste ano, o país apreendeu, vindo dos Estados Unidos,
mais de meia tonelada de armas e equipamentos bélicos. Acrescentou que os
americanos têm sido informados sobre as drogas sintéticas que chegam aqui para
que possam fazer o rastreio. É essa cooperação que se quer intensificar.
A comitiva brasileira vai com a intenção de dar respostas às
questões que têm sido levantadas pela investigação da seção 301 da lei
comercial americana. Só sobre desmatamento foram feitas 80 perguntas. O
governo Donald Trump nunca
teve preocupação ambiental, mas esse pode ser um caminho para impor tarifas ao
Brasil com o pretexto de que a devastação reduziu custo de produção e levou à
concorrência desleal que querem provar.
Entrevistei ontem, na GloboNews, o cientista ambiental Raoni
Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele afirmou que, apesar da
queda de 50% no desmatamento, o que ocorreu em governos anteriores se tornou
uma das fragilidades do país no comércio.
A China, explicou Rajão, identificou como um dos seus
problemas o fato de depender 80% de soja importada. Decidiu aumentar o volume
local produzido e investir em novas formas de produção de proteína animal que
dependam menos do grão.
— Eles estão projetando reduzir em cerca de 25% a quantidade
de soja brasileira que compram até 2030. Enquanto isso, o Brasil, nas suas
projeções lineares, olha os últimos dez anos e acha que os próximos dez anos
serão iguais. Por isso, projeta um aumento de exportações de 30%. A gente vai
desmatando, derrubando a Moratória da Soja para plantar mais soja que não vai
ser comida pelos chineses.
A Moratória da Soja foi um pacto, muito bem-sucedido, entre
produtores e compradores para evitar o cultivo do grão em área de desmatamento
recente. Foi encerrada na prática por pressão de sojicultores ligados ao
desmatamento, mas ainda se discute na Justiça. O que Rajão explica é que, como
a China comprará menos, deverá escolher de quem vai importar o produto. E um
dos critérios de análise será evitar soja de desmatamento. Se houver um acordo
entre EUA e China, um dos pontos será aumentar a compra da commodity nos
Estados Unidos.
Mesmo que o governo norte-americano não seja sincero quando
faz 80 perguntas sobre a questão ambiental no Brasil, o país deveria se
preocupar com o fato de que, tanto nos EUA quanto na China, o desmatamento pode
ser usado como pretexto para sanções comerciais.
Cada ponto da agenda entre Trump e Lula se desdobra em
várias outras questões. O presidente brasileiro viajou com objetivo de fazer
acordo contra o crime organizado e fortalecer o comércio. Mas o principal é o
de manter o diálogo presidencial e, assim, neutralizar a tentativa da oposição
de usar a pressão americana como uma de suas armas na disputa eleitoral.

















