domingo, 17 de maio de 2026

DUPLA DA PESADA

Cleber Lourenço, ICL NOTÍCIAS

Castro e Flávio Bolsonaro sob graves suspeitas

A extrema direita brasileira atravessa uma das semanas mais turbulentas desde o início da pré-campanha presidencial. Em poucos dias, três frentes distintas de investigação e desgaste público atingiram nomes importantes do campo bolsonarista:  o senador Flávio Bolsonaro, hoje tratado como principal herdeiro eleitoral do pai, e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL).

Embora os casos não façam parte da mesma investigação, eles passaram a se acumular no mesmo ambiente político e produziram um efeito dominó dentro da direita. O resultado foi uma crise de narrativa. Flávio, que tentava transformar o caso Banco Master em desgaste exclusivo para o governo Lula, agora precisa responder sobre aliados envolvidos em operações policiais, suspeitas financeiras e negociações milionárias.

A primeira pancada no bolsonarismo veio com a quinta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 7 de maio. A ação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, teve como um dos alvos o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e aliado do clã..

Segundo a PF, a investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional relacionados ao Banco Master. A decisão autorizou buscas, bloqueio de R$ 18,85 milhões e medidas cautelares.

O ponto mais sensível para Ciro é a suspeita de que seu mandato parlamentar teria sido usado em favor de interesses do Banco Master. A investigação apura se uma emenda apresentada pelo senador para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos teria sido elaborada por pessoas ligadas ao banco. O caso ficou conhecido nos bastidores como “Emenda Master”.

A operação atingiu diretamente a imagem de Ciro como articulador do Centrão e peça importante da estratégia da direita para 2026. A defesa do senador nega irregularidades e afirma que ele está à disposição da Justiça.

A segunda frente da crise veio com os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, banqueiro preso na investigação do Banco Master. As mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostram Flávio negociando recursos para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro estrelado por Jim Caviezel.

O valor negociado chegou a cerca de R$ 134 milhões. Segundo os documentos revelados, ao menos R$ 61 milhões teriam sido direcionados ao projeto. A produtora responsável pelo filme nega ter recebido dinheiro de Vorcaro ou de empresas ligadas a ele.

O desgaste político aumentou porque Flávio inicialmente negou a informação. Depois da divulgação dos áudios, admitiu que buscou recursos com Vorcaro, mas afirmou que se tratava de investimento privado.

Em entrevista à GloboNews, o senador não conseguiu se explicar e deixou mais dúvidas que respostas.

As declarações abriram uma nova frente de questionamentos. Se o dinheiro foi realmente destinado ao filme, a produtora precisa explicar por que nega ter recebido recursos de Vorcaro. Se não foi para a produção, cresce a pressão sobre o destino efetivo dos valores.

A Polícia Federal apura se os recursos solicitados a Vorcaro foram de fato usados na produção ou se o filme pode ter servido como justificativa para outras movimentações financeiras. O caso também passou a envolver suspeitas sobre emendas parlamentares e verbas públicas ligadas à rede da produtora e levou o ministro Flávio Dino a pedir investigação.

Nesta sexta-feira (15), outra frente de desgaste atingiu o bolsonarismo. O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Refino, da Polícia Federal.

A investigação mira suspeitas de irregularidades envolvendo um grupo econômico do setor de combustíveis ligado ao empresário Ricardo Magro, dono da Refit. A ação foi autorizada pelo STF e apura ocultação patrimonial, evasão de recursos ao exterior e possíveis conexões com agentes públicos.

A operação contra Castro não é uma fase do caso Master, mas politicamente ampliou a sensação de cerco sobre a direita. Castro é do PL e foi uma das principais vitrines do bolsonarismo no Rio de Janeiro.

A Justiça determinou bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e suspensão das atividades econômicas das empresas investigadas. A defesa de Castro afirmou que ele colaborou com as buscas e disse desconhecer os fundamentos da decisão.

Os três episódios criaram uma crise simultânea para a extrema direita. Ciro Nogueira representa o elo com o Centrão. Flávio Bolsonaro representa o projeto presidencial da família Bolsonaro. Cláudio Castro representa uma das principais bases estaduais do PL.

Em menos de dez dias, os três passaram a ocupar manchetes relacionadas a operações policiais, áudios, suspeitas financeiras e decisões do STF. O problema para a direita deixou de ser apenas jurídico. Passou a ser político, eleitoral e policial.

A narrativa anticorrupção usada durante anos contra adversários perde força quando aliados de primeira linha precisam responder sobre banco investigado, financiamento milionário de filme, emendas parlamentares e operações da Polícia Federal.

A extrema direita entrou na semana tentando usar o caso Master contra Lula. Sai dela tendo que explicar Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Refit e Cláudio Castro.

Bookmark and Share

COMO O DINHEIRO DO BANCO MASTER RACHA O MITO BOLSONARISTA

Orlando Calheiros, The Intercept Brasil

Os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro desmoronam a fantasia de cruzada moral, ao revelar vínculos do clã Bolsonaro com o banqueiro mais tóxico do Brasil

Em seus textos, o filósofo francês Clément Rosset costumava ressaltar o aspecto particularmente cruel da realidade. Cabe ao leitor e leitora ter em mente que Rosset fazia isso mirando não o sentido sádico ou moral da palavra “cruel”, mas o aspecto bruto e incontornável que a própria ideia de realidade carrega consigo. 

Imagine algo que simplesmente “é”; algo que, independentemente da nossa vontade, jamais poderá ser outra coisa que si mesmo, sem sentido oculto, sem justiça superior ou qualquer possibilidade de compensação mística. 

Essa é a realidade em seu aspecto mais cru – cruel. É aterrorizante pensar nisso, especialmente porque a realidade vive à espreita, sempre em busca de uma oportunidade para se fazer presente em nossas vidas, ameaçando nossas fantasias reconfortantes, nossos mitos apaziguadores. Ameaçando as casinhas imaginárias que criamos para nos proteger, justamente, dos fatos que insistem em continuamente desabar sobre nossas cabeças. 

E por isso mesmo, quanto mais duros são os fatos, quanto maior a sua “crueldade”, maiores serão os esforços imaginativos e fabulatórios necessários para contê-los, para lhes emprestar algum sentido ou até mesmo para, no limite, negá-los. 

Tarefa hercúlea para impedir que a verdade atinja o eleitorado

E é exatamente isso que observamos após a divulgação dos áudios que mostram que, a despeito do que dizia Flávio Bolsonaro, ele e o banqueiro Daniel Vorcaro não apenas se conheciam, como compartilhavam intimidades, com direito a declarações de lealdade, e – digamos assim para evitar processos – “interesses de investimento”. 

Desde a divulgação dos áudios, a direita e a extrema direita se lançaram numa tarefa hercúlea para criar um verdadeiro castelo fantasmagórico que, imaginam desesperadamente, seja capaz de impedir que a crua (cruel) verdade caia sobre o eleitorado. 

E, até o momento, um castelo de areia literal seria mais eficaz nessa tarefa.

LEIA TAMBÉM:

Pois o fato, além de grave (cruel) em si mesmo, não surge  de forma isolada; soma-se a outros que, no passado, foram incapazes de transpor os muros da fantasia direitista. Mas que agora, reforçados pela intimidade de Flávio e Vorcaro, ganham novo fôlego e ameaçam o novo projeto de poder da família Bolsonaro. 

Suspeitas que há muito orbitavam o próprio filme “Dark Horse”. A começar pelo orçamento da produção: 24 milhões de dólares, o que faria dele o filme mais caro da história do cinema brasileiro.

Um número ainda mais estranho diante do que foi apresentado até agora: apesar do elenco internacional e da campanha grandiloquente, nada visto até o momento parece justificar um investimento dessa magnitude.

Muito pelo contrário. As filmagens no Brasil foram atravessadas por denúncias de atrasos e calotes, cachês muito abaixo do padrão de mercado, comida estragada e até relatos de agressão física. O próprio Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo acionou o Ministério do Trabalho diante da quantidade de denúncias acumuladas.

E o resultado de toda essa epopeia milionária?

Até agora, um “teaser-trailer” composto basicamente por imagens de bastidores e takes inacabados, todos com uma inegável aparência amadora, e embalados ao som de Survivor, do grupo Destiny’s Child. Há, porém, um pequeno e delicioso detalhe final: a música teria sido utilizada sem autorização. Representantes jurídicos da cantora Beyoncé chegaram a tomar medidas legais para retirar o material do ar.

O que nos leva a uma pergunta crucial: como uma produção que afirma ter mobilizado milhares de dólares de empresários aparentemente não conseguiu pagar nem pelos direitos da própria trilha sonora? Estranho, no mínimo.

Tão estranho quanto o fato de uma ONG presidida pela produtora executiva do filme, Karina Ferreira da Gama, ter recebido mais de 100 milhões de reais da gestão de Ricardo Nunes para instalar pontos de Wi-Fi em comunidades da cidade de São Paulo, conforme denúncia do Intercept. E tudo isso apesar de a entidade não possuir histórico relevante na área de telecomunicações e dos pagamentos terem ocorrido antes mesmo da entrega final do serviço.

E a história não termina aí. A mesma Karina também aparece ligada a outra ONG que teria recebido ao menos 2,6 milhões de reais em emendas parlamentares de deputados bolsonaristas como Mario Frias, Bia Kicis e Marcos Pollon.

Como se denúncias dessa magnitude já não fossem suficientemente graves por conta própria, soma-se agora uma acusação ainda mais explosiva: a de que o filme teria sido financiado com dinheiro ligado ao banqueiro Daniel Vorcaro.

Um dinheiro que, ao contrário da narrativa repetida por Flávio Bolsonaro e seus aliados, não seria simplesmente “financiamento privado”, mas recursos que, segundo investigações da própria Polícia Federal, teriam origem em operações financeiras fraudulentas.

Propaganda política

E aqui pesa um elemento ainda mais inquietante: “Dark Horse”, como sugerem os trechos do roteiro e as imagens vazadas, é antes de tudo uma propaganda política. Uma obra inteiramente comprometida com a reescrita do passado e a reorganização da memória histórica para transformar Jair Bolsonaro e seus aliados em figuras não apenas heroicas, mas quase messiânicas. Enquanto isso, do outro lado, seus adversários políticos surgem reduzidos a caricaturas pueris: demônios irascíveis, “marxistas drogados”, criminosos e terroristas. 

Menos um filme do que uma cosmologia moral rudimentar, onde a política abandona qualquer pretensão de realidade para assumir a forma de guerra santa audiovisual. 

E talvez seja justamente aqui que a realidade, em seu aspecto mais cruel, volte a bater à porta. Pois toda essa mitologia construída por “Dark Horse” – esse esforço quase litúrgico para transformar Jair Bolsonaro e seus aliados em paladinos incorruptíveis de uma cruzada moral contra o “sistema” –  começa a desmoronar no instante em que o dinheiro entra em cena. 

O dinheiro é a própria realidade. 

E quando olhamos para ela, percebemos o que existe por trás da fantasia, da estética messiânica, dos discursos sobre patriotismo, Deus, família e liberdade. Aquilo que, justamente, o clã Bolsonaro jurou destruir: relações promíscuas com empresários, banqueiros e operadores políticos, esquemas nebulosos, verbas públicas suspeitas e figuras constantemente orbitadas por denúncias graves.

E talvez esse fosse o verdadeiro ponto de Rosset: a realidade é cruel porque ela sempre retorna.

Não importa quantos filmes sejam produzidos, quantos mártires sejam fabricados ou quantas guerras morais sejam encenadas. Em algum momento o real se faz presente. O dinheiro aparece. Os contratos aparecem. Os áudios aparecem. Os banqueiros aparecem.

Bookmark and Share

sábado, 16 de maio de 2026

MENTIRAS DEIXAM FLÁVIO BOLSONARO NU EM PRAÇA PÚBLICA

João Filho, The Intercept Brasil

Enquanto desfilava com camiseta atacando o governo, Flávio Bolsonaro atuava como parça de Vorcaro e recebia repasses milionários.

As reportagens do Intercept revelando a proximidade do clã Bolsonaro com o maior bandido do Brasil atingiram o bolsonarismo com requintes de crueldade. 

Os episódios que antecederam à publicação das reportagens e os que a sucederam parecem fazer parte de um roteiro escrito por alguém que odeia muito a família Bolsonaro. É cinema absoluto!

Há uma semana, Flávio Bolsonaro divulgou nota  cobrando “ampla apuração” do caso de  corrupção envolvendo o Banco Master. Ciro Nogueira, um dos maiores aliados da sua candidatura, tinha sido pego recebendo um mensalão de Vorcaro. Mas Flávio se fez de louco e manteve o personagem indignado. Como se não tivesse nada a ver com isso, o senador passou a desfilar com uma camisa estampada com os dizeres: “O Pix é do Bolsonaro. O Master é do Lula.” O cinismo e a desfaçatez foram ousados, o que faria o tombo ser ainda maior.

‘Militante’

Eis que o jornalismo trouxe à tona os fatos que o senador tentou esconder. Horas antes da #VazaFlavio ser publicada, o repórter do Intercept Thalys Alcântara perguntou para Flávio pessoalmente se ele negociou com Vorcaro pagamentos para a produção do filme sobre o seu pai. Flávio ficou desnorteado com a pergunta. Em um intervalo de 20 segundos, ele negou os pagamentos, gargalhou forçadamente, chamou o jornalista de “militante”, virou-se de costas e resmungou: “é dinheiro privado! é dinheiro privado”. 

O senador começou a resposta negando os pagamentos, quase teve uma síncope e terminou admitindo. Foi uma cena tão constrangedora que quase fiquei com pena do senador (mentira). 

Pouco tempo depois, o Intercept completou o drible da vaca e publicou conversas em que Flávio e Vorcaro se tratavam como grandes amigos. “Estou e estarei contigo sempre”, prometeu o senador para o maior ladrão do Brasil um dia antes dele parar na cadeia.

De lá pra cá, o senador não só omitiu essa intimidade com o banqueiro como negou de forma veemente qualquer relação com ele. Pior que isso: Flávio se apresentou como um dos maiores indignados com a lama do Banco Master. É um grau de cinismo alto demais até mesmo para os padrões de quem foi criado por Jair Bolsonaro. 

Encontro com JB na casa de D

O senador ficou nu em praça pública enquanto era coberto por uma pororoca de mentiras. Segundo a agência de checagem Aos Fatos, ele contou ao menos 12 mentiras sobre o caso antes da publicação da reportagem. Ninguém pode se dizer surpreso, já que Flávio é reconhecidamente um mentiroso contumaz desde os tempos em que desviava dinheiro do seu gabinete para financiar prédios das milícias no Rio de Janeiro. 

Na última quinta-feira, uma nova reportagem do Intercept revelou que a proximidade dos Bolsonaros com o mafioso era ainda maior do que se imaginava. Conversas privadas mostraram que Vorcaro topou receber Jair Bolsonaro em sua mansão em Brasília para “assistirem juntos” a um documentário, possivelmente “A colisão dos destinos”  sobre a trajetória do ex-presidente. A reunião tinha como objetivo pedir o apoio de Vorcaro para financiar a produção do longa “Dark Horse”. Não se sabe se a reunião aconteceu, mas se sabe que o Pix para o filme caiu.

Explicar o inexplicável

A #VazaFlávio foi trágica para o bolsonarismo. Enquanto algumas figuras expoentes da fauna bolsonarista largaram a mão de Flávio, outros entraram em desespero na tentativa de encontrar uma narrativa que explique o inexplicável. 

Cada um falou uma coisa diferente. Flávio admitiu que recebeu o dinheiro de Vorcaro para o filme, mas a própria produtora — endossada por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo — negou ter recebido qualquer centavo.


LEIA TAMBÉM:

Ninguém conseguiu explicar até agora onde foi parar a grana que Vorcaro deu pro Flávio. Parece que o filme realmente não recebeu os R$ 61 milhões combinados, já que, segundo o G1, há denúncias na produção de ”comida estragada, alimentação insuficiente, longas jornadas de trabalho e atrasos de pagamento”.

Cadê a grana?

Mas, afinal, onde está a grana do Vorcaro? A Polícia Federal suspeita que ela foi usada para financiar as despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, cuja atividade principal é conspirar contra o governo brasileiro.

O dinheiro prometido a Flávio teria sido transferido pela Entre Investimentos e Participações, empresa ligada a Vorcaro, a um fundo controlado por aliados de Eduardo e sediado no Texas, nos EUA. Trata-se da mesma empresa utilizada no financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro. Nunca foi tão fácil ligar os pontos.

A ligação carnal de Vorcaro com o bolsonarismo sempre foi límpida e clara. 

Por mais que a máfia tenha tragado diversos partidos e poderes para lama, o escândalo do Banco Master sempre foi essencialmente bolsonarista. A roubalheira do Vorcaro não seria possível sem a leniência do Banco Central sob o governo Bolsonaro e sem o apoio de Ciro Nogueira.

O maior bandido do Brasil doou milhões para campanhas bolsonaristas e investiu pesado em um filme panfletário sobre a vida de Jair Bolsonaro a ser lançado em ano de eleição. Será que Vorcaro é bolsonarista? Será?

Cinismo apoiando cinismo

Se antes já estava difícil para a grande imprensa sustentar a tese do “escândalo suprapartidário”, agora ficou ainda mais, certo? Errado. O powerpoint da GloboNews foi só um aperitivo. Poucas horas após a publicação da #VazaFlavio, Lauro Jardim estampou a seguinte manchete em sua coluna no O Globo: “Vorcaro também financiou filmes sobre Lula e Temer”.

Pronto! Foi servida a carniça para a urubuzada bolsonarista arrastar o principal adversário de Flávio para a sua lama. A apuração do jornalista se limitou a falas de “pessoas ligadas a Vorcaro”. Não há um mísero indício que sustente a manchete. Isso é tudo, menos jornalismo. Não há absolutamente nenhum indício de que Vorcaro financiou o filme sobre Lula. 

Dois dias depois, veio a capa da revista Veja, mostrando que a grande imprensa não está para brincadeira em ano eleitoral.

Num passe de mágica, conseguiram transformar uma hecatombe bolsonarista em suprapartidária. O cinismo de Flávio Bolsonaro agora está apoiado pelo cinismo da grande imprensa. A militância bolsonarista, que estava murcha e sem saída, recebeu a munição necessária para voltar a babar nas redes sociais.

Dessa vez, a narrativa não foi fabricada no computador do Carluxo, mas publicada pela Veja e por um jornalista do grupo Globo. 

Ora, ora. Parece que agora, sim, estamos diante do chamado “jornalismo militante”, não é mesmo? As verdades que o jornalismo sério revelou foram ofuscadas por um jornalismo empenhado em defender a candidatura da extrema direita.

Enquanto uma reportagem está embasada por provas irrefutáveis, as outras estão embasadas por amiguinhos anônimos do bolsonarista Daniel Vorcaro. Podem continuar forçando a barra, mas dificilmente vão conter a força avassaladora das verdades contidas na #VazaFlávio.

Enquanto uns jornalistas militam pela democracia e pela verdade, outros militam pelo candidato escolhido pelo maior ladrão do Brasil.

Bookmark and Share

SEM REGISTRO NA ANCINE

Cecília Olliveira, The Intercept Brasil

‘Dark Horse’: ‘produção hollywoodiana’ foi filmada no Brasil de modo irregular

O filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, “Dark Horse”, foi rodado no Brasil pela produtora Go Up Entertainment Ltda. sem que nenhuma das obrigações legais exigidas pela Agência Nacional do Cinema, a Ancine, tenha sido cumprida. A empresa responsável pelo longa-metragem operou sem registro da produção, sem contratos apresentados, sem comprovação de vistos de trabalho para seu elenco majoritariamente estrangeiro e sem o pagamento de direitos trabalhistas devidos a parte da equipe brasileira.

Reportagem exclusiva do Intercept Brasil revelou que o deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, assinou um contrato como produtor-executivo do filme e tinha poder sobre o dinheiro usado no projeto. Já o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, negociou repasses equivalentes a R$ 134 milhões para custear a produção do longa-metragem com o banqueiro Daniel Vorcaro – valor superior ao de muitos filmes ganhadores do Oscar.

No entanto, funcionários contratados no Brasil reclamaram de condições degradantes no set, de terem sido enganados quanto à verdadeira natureza do filme e até de agressão física, como relatou Revista Fórum em dezembro de 2025.

Em documento obtido pelo Intercept, a Ancine confirmou, em dezembro de 2025, que a Go Up jamais protocolou qualquer documentação em seus sistemas.

Pela instrução normativa nº 79, de 2008, da agência reguladora, toda obra audiovisual estrangeira filmada no Brasil — com exceção daquelas de natureza jornalística — deve ser realizada sob responsabilidade de uma produtora brasileira registrada na agência.

LEIA TAMBÉM:

A produtora não é mera intermediária. Antes de qualquer câmera ser ligada no território brasileiro, ela precisa comunicar previamente a produção à Ancine, enviando quatro documentos obrigatórios: o contrato firmado com a empresa estrangeira com responsabilidades, remuneração e prazo; a tradução do contrato quando em outro idioma; o plano provisório de filmagem com datas e locais; e as cópias das folhas de identificação do passaporte de cada profissional estrangeiro envolvido.

Só depois disso a Ancine emite o ofício que permite à representação diplomática conceder os vistos de trabalho adequados. Nada disso aconteceu com “Dark Horse”.

Como não houve protocolo, análise ou tramitação de documentos por parte da produtora, não havia documentação a ser disponibilizada pela agência.

Questionada, a Ancine afirmou, em nota enviada ao Intercept, que “as filmagens estrangeiras – obras e produções estrangeiras de produtoras estrangeiras – devem ser comunicadas” à agência. “Não existe tal obrigação na hipótese de obras brasileiras, ou mesmo estrangeiras, filmadas por produtoras brasileiras. No caso do filme em questão não houve qualquer comunicação ou autorização pela Ancine”, explica. 

A agência reguladora disse ainda que não houve pedido de registro para o lançamento comercial no Brasil e que, por isso, “não dispõe atualmente de informações sobre a produção, o financiamento ou os detalhes técnicos” de “Dark Horse”. A Ancine não sabe sequer se o filme pode ser classificado como obra brasileira ou estrangeira. O Intercept obteve com exclusividade o contrato de produção do longa, que é estrangeiro.

A pergunta e a resposta que expõem tudo

Em 9 de dezembro de 2025, foi protocolado na Ancine um pedido de acesso à informação questionando pontos específicos da legislação audiovisual sobre o filme “Dark Horse”. A solicitação pedia a íntegra da documentação enviada pela Go Up Entertainment para a autorização das filmagens. Citou a norma correta e descreveu com exatidão os documentos que deveriam existir.

O Serviço de Informação ao Cidadão, ou SIC, encaminhou o pedido à Coordenação de Programas Internacionais de Cooperação e Intercâmbio — a unidade técnica responsável por fiscalizar exatamente esse tipo de produção. Dois dias depois, a unidade técnica respondeu: “Após consulta aos registros internos e aos sistemas administrativos desta Coordenação, verificou-se que não consta qualquer comunicação de filmagem estrangeira apresentada pela empresa GO UP ENTERTAINMENT LTDA referente ao projeto ‘THE DARK HORSE’”.

A conclusão foi assinada pelo coordenador Daniel Toledo Piza Tonacci. Não houve protocolo, tampouco análise ou tramitação de qualquer documento. Em 12 de dezembro do ano passado, o SIC emitiu a resposta oficial. 

A decisão recebeu uma classificação técnica de “informação inexistente”, pois não havia documentos para apresentar porque a produção, do ponto de vista regulatório, nunca existiu. O prazo para recorrer abriu e fechou sem que ninguém se manifestasse. Em 29 de dezembro de 2025, o processo foi arquivado definitivamente.

Calote aos trabalhadores

Em 14 de janeiro deste ano, munido da confirmação oficial da Ancine, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal, o Sindcine, protocolou denúncia formal, um pedido de informações e um requerimento de providências.

De acordo com o sindicato, houve “notícia consistente de contratações sem formalização adequada e pagamentos sem os parâmetros mínimos de regularidade”. A Go Up Entertainment não havia cumprido as obrigações contratuais assumidas com técnicos cinematográficos brasileiros. A Ancine disse que “os processos de apuração estão em curso, observando os prazos e ritos normativos” e que notificou a Go Up.

Notícia publicada pelo jornal O Globo em 14 de maio referenda as preocupações do sindicato. Ao menos 14 figurantes que trabalharam nas gravações de “Dark Horse” articulam ações judiciais contra a produção. Eles afirmam ter enfrentado condições degradantes no set, incluindo episódios de agressão, restrições ao uso de celular e banheiro e falta de informação prévia sobre o conteúdo político da obra. Os figurantes disseram ainda que só descobriram o tema do longa durante as filmagens.

O mesmo não aconteceu com profissionais em cargos mais altos. De acordo com fontes ouvidas pelo Intercept, ao saberem o teor do filme, muitos profissionais declinaram a proposta e isso inflacionou a produção. Para conseguir contratar esses profissionais, precisaram pagar bem mais que o valor de mercado. Com vergonha de participar, muitos não quiseram se identificar. Eles assinam a obra com nomes fictícios.

As denúncias coincidem com relatos recebidos pelo Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, o Sated-SP, que aponta problemas como atrasos de pagamento, alimentação imprópria para consumo e maus-tratos a atores e figurantes. Diante das queixas, o sindicato enviou representantes ao local das gravações.

Fundo de quintal Hollywoodiano

Bookmark and Share

AS FRAGILIDADES DE FLÁVIO BOLSONARO

Juliana Diniz, O Povo

Flávio é visto com desconfiança, não só por sua tentativa de parecer menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A revelação sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de Michelle

A divulgação do áudio com a voz do pré-candidato Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro foi o fato político mais importante da semana, não só pelo conteúdo das mensagens em si, mas pelos desdobramentos após a notícia ser veiculada. As manifestações constrangidas ou forçosamente indignadas dos aliados são reveladoras de um aspecto evidente da candidatura: sua fragilidade.

Embora Flávio Bolsonaro seja um candidato muito competitivo, sobretudo em razão do nome que carrega, a conjuntura que o ungiu é um campo minado: a direita conservadora nunca esteve tão fragmentada, e as reações ao áudio o demonstra bem. Romeu Zema afirmou que o áudio é um "tapa na cara do Brasil", dizendo ainda que é "preciso ter credibilidade para mudar o Brasil". Ronaldo Caiado, outro presidenciável, cobrou um posicionamento, dizendo que Flávio Bolsonaro deve explicações sobre as mensagens.

A rapidez das reações e o tom indignado mostram que o senso de oportunismo falou mais alto do que o cálculo dos custos de se bater de frente com a família. No passado, a simples ideia de ser considerado infiel pelo núcleo duro de Jair Bolsonaro suscitava o medo de políticos de direita cuja sobrevivência dependia do capital político angariado pelo bolsonarismo raiz. Essa dependência, hoje, parece mais tênue.

As causas são várias e convergentes. Existe uma disputa aberta pelo protagonismo e liderança dentro do campo. Flávio e Michelle Bolsonaro parecem traçar projetos distintos. A ex-primeira-dama resiste a ceder espaço, justamente por perceber a importância do seu nome, em termos eleitorais, para o êxito de qualquer candidatura à direita. Depois da prisão de Jair Bolsonaro, foi Michelle, e não um dos filhos, que personificou, no imaginário do eleitor bolsonarista, a identidade leal aos valores do grupo. Flávio, em contrapartida, é visto com desconfiança, não só por sua tentativa de parecer menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A revelação sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de Michelle. Para ela, chegou como um golpe de sorte.

Embora o desempenho da pré-candidatura bolsonarista tenha empolgado os seus articuladores e despertado o temor de uma virada em favor da direita, ainda há muita instabilidade no cenário. Longos meses nos afastam da eleição e, num cenário de polarização cristalizada, os resultados são tão imprevisíveis quanto cambiantes.

Não é possível afirmar que a revelação da semana tenha comprometido de forma definitiva a viabilidade de Flávio Bolsonaro, mas certamente deve evidenciar o quão frágil é a posição do filho do ex-presidente e, por consequência, de todos os aliados que vão para o tudo ou nada nesta eleição de recall. 

*Professora de Direito na UFCE.

Bookmark and Share

SEM MEIA CONVERSA ENTRE FLÁVIO BOLSONARO E VORCARO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

No que Vorcaro investia ao investir no filme sobre Bolsonaro?

Caso revela um senador da República que subordina o mandato a um acordo obscuro entre privados

“Flávio diz dinheiro privado, mas verba do Master vinha de operações do banco com dinheiro público”

Flávio Bolsonaro primeiro disse que era mentira, confrontado com a informação verídica de que pedira – e levara – dinheiros de Daniel Vorcaro para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro. Depois, ante a exposição de suas mensagens, teve de admitir a verdade; isso após seis meses de omissões e mentiras sobre suas relações com o miliciano comprador de burocratas e autoridades. Comportamento idêntico ao de Dias Toffoli: o ministro que, tendo sido sócio da rede vorcárica no tal hotel, ocultou a sociedade e permaneceu como relator do caso no STF.

A bateção bolsonarista de cabeças foi intensa e pública, até que Flávio plantasse a versão que ora prospera – a do “contrato de confidencialidade”. Não podia falar a respeito do lance porque impedido formalmente, o que o levaria a mentir, faz dois meses, declarando-se “sem nenhum contato pessoal” com o banqueiro. Um senador da República que subordina o contrato com a democracia representativa, o mandato, a um acordo entre privados que produzira o pagamento de cerca de US$ 10 milhões – por meio de empresa laranja metida com PCC e máfia italiana – a um fundo nos EUA gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.

Operação que deixaria de ser fedida – sob a suspeita de que haveria sobras de caixa – com a apresentação dos registros formais do fluxo de remessas-entradas da bufunfa toda, totalmente transferida à produtora do filme.

Nunca se tratou de filho pedindo dinheiro para produção sobre o pai. Experimentasse você pedir dinheiro a Vorcaro para bancar homenagem a papai. Era um senador da República, filho de ex-presidente e cotado como candidato à Presidência, alguém influente sobre essa escolha; alguém a ser agradado. Vide Ciro Nogueira, de oposição também, cujo mandato foi, segundo a PF, instrumentalizado a serviço de interesses vorcáricos.

Estamos ante uma questão ainda – ainda – de natureza político-comunicacional, sob a qual a pergunta decisiva permanece a mesma. O que Vorcaro contratava, ao contratar o escritório de advocacia? O que comprava, ao comprar parte do resort?

Pode Flávio fazer essas perguntas? No que Vorcaro investia, ao investir no filme?

Existe o padrão vorcárico de estabelecimento de relações. Inexiste a hipótese de que alguém acreditasse – em novembro de 2025, à véspera da prisão do cara – em que o dinheiro “privado” de Vorcaro fosse limpo, proveniente que era de traficâncias com fundos de pensão e da venda de créditos fraudulentos.

Flávio fala como se suas conversas com o sujeito fossem restritas a dezembro de 2024. Começaram em dezembro de 24; se intensificaram em 2025, à medida que a situação do Master se degradava, chegando àqueles termos íntimos (“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente.”) depois de as investigações sobre o banco se tornarem públicas, o que ocorrera entre agosto e setembro de 25.

Naquele momento, o senador da República deveria ter feito cessar o contrato-contato e revelado a existência do acordo e as razões por que o encerrava. Prevaleceu o homem de negócios.

Bookmark and Share

A GARGALHADA DE FLÁVIO BOLSONARO ELEVA A MENTIRA A UM NOVO PATAMAR DE CINISMO

Thaís Oyama, O Globo

A mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade

A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la.

— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.

Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.

— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.

Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos antes:

— O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai — disse, agora consternado e cândido.

A negativa de Flávio, e sua gargalhada cenográfica, levaram a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece importar cada vez menos no Brasil.

Na reunião de emergência com sua equipe de campanha após o episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada mais aparecerá contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61 milhões que recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up, dizem os responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar num fundo nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu pedir dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que o desembolso era para isso mesmo.

Diante de tantos e escrachados descalabros, a candidatura de Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia é reavaliá-la na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles à possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto.

Sobre o primeiro, um político próximo diz que Jair não tem “condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a mulher candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um critério único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz de levar mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem a R$ 1 bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio apenas se a hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um elemento radioativo em vez de puxador de bancada.

Na mesma linha, especialistas em pesquisas de opinião avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos não mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma parcela do voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema, Ronaldo Caiado ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a engolir o que Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as contas por vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que ele sabe disso.

Bookmark and Share

FURACÃO QUE VARREU FIGURAS DA DIREITA INFLUENCIARÁ PESQUISAS

Flávia Oliveira, O Globo

Levantamentos recentes dão pistas sobre o interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master

É certo que o furacão que varreu figuras da direita brasileira neste maio influenciará a posição do eleitorado em consultas vindouras sobre o pleito de outubro. Afinal, não é todo dia que um mandachuva do Centrão é alvo de operação da Polícia Federal, por suspeita de pôr o mandato de senador a serviço do protagonista da maior fraude bancária da História. Tampouco é sempre que um senador içado pelo pai a presidenciável é descoberto em relações financeiras e amistosas com o mesmo ex-banqueiro. Nem que um ex-governador tornado inelegível por fraudar o processo eleitoral sofre busca e apreensão por favorecimento ao maior sonegador de impostos da República.

Está por vir a safra de pesquisas pós-revelações do envolvimento de Ciro Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, preso desde março; e de Cláudio Castro com Ricardo Magro, dono da Refit, ora incluído na lista vermelha da Interpol. Mas levantamentos recentes dão pistas sobre o interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master. Na pesquisa Quaest de março, 38% do eleitorado declarou que evitaria votar em candidato envolvido no caso; 29% levariam as investigações em consideração. Nada menos que dois terços dos brasileiros relacionam o tema à corrida político-eleitoral deste ano.

Na consulta divulgada nesta semana — antes de o áudio e as mensagens de Flávio e o contrato de Eduardo Bolsonaro com a produção do filme biográfico sobre o ex-presidente, pai deles, tornarem-se públicos pelas reportagens do Intercept Brasil —, a Quaest informou que 46% dos brasileiros acreditam que o escândalo afeta negativamente dos governos Bolsonaro e Lula ao Congresso, do STF ao Banco Central. Dois meses atrás, a proporção estava em 40%.

Felipe Nunes, diretor da empresa de pesquisa, antevê três eixos de impacto político dos episódios. Uma hipótese, diz, é consolidar a percepção de escândalo sistêmico, de responsabilidade coletiva, difusa. É cenário que tanto pode beneficiar um outsider, movido pela antipolítica, o famoso “candidato contra tudo que está aí”, quanto fermentar o desalento, multiplicando a proporção dos votos brancos e nulos, além da abstenção.

— Por outro lado, se a percepção do eleitor mudar na direção do bolsonarismo, quem pode se beneficiar é o presidente da República — diz Nunes.

Na pesquisa da semana, a Quaest já detectara recuperação de popularidade e de intenções de voto no pré-candidato à reeleição, na esteira do lançamento do Novo Desenrola Brasil e da reunião de três horas com Donald Trump, na Casa Branca.

Pré-candidatos da direita acenaram, de imediato, à base bolsonarista. O mais ferino foi Romeu Zema (Novo-MG), ex-governador de Minas Gerais, que chamou de imperdoável o áudio de Flávio cobrando repasses de Vorcaro. Foi atacado sem piedade até por correligionários. Cauteloso, o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) se apresentou como alternativa ao herdeiro de Bolsonaro, sob o manto do antipetismo. Renan Santos (Missão-SP), fundador do MBL, é a encarnação do antissistema.

A corrupção desde março aparece como o segundo maior problema do país na pesquisa Quaest, com 18%. Mas, entre eleitores autodeclarados de direita, bolsonaristas ou não, ambos com 34%, está no topo. É cenário capaz de movimentar as intenções de voto, na medida em que integrantes da família Bolsonaro e nomes relevantes da base de apoio estejam envolvidos com as fraudes do Banco Master, que avançou até sobre os fundos de pensão de servidores dos estados do Rio de Janeiro, do Amapá, além de fundações municipais.

A violência é a principal preocupação dos brasileiros (31%). Lidera também entre lulistas (36%) e não lulistas (29%), bem como no eleitorado independente (31%), tido como fiel da balança no pleito, até aqui novamente polarizado entre Lula e a família Bolsonaro. O governo lançou um programa de enfrentamento ao crime organizado nesta semana. Lula prometeu combate ao tráfico de armas, asfixia financeira das facções, integração com estados, cooperação internacional. Prometeu criar o Ministério da Segurança Pública, se o Congresso aprovar a PEC da Segurança, empacada há meses.

Mas não necessariamente a preocupação que brasileiros expressam com violência se relaciona ao crime organizado. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública encomendou ao Datafolha uma pesquisa sobre medo do crime. De 13 episódios de violência enumerados, em 11 mais de metade dos entrevistados manifestou temor. A lista contém de golpe financeiro por internet e celular (83,2%) a roubo a mão armada (82,3%); de ser vítima de bala perdida (77,5%) a ter a casa invadida ou arrombada (76,1%); de ser vítima de agressão sexual (66,2%) a ser agredido por preferência política ou ideológica (59,6%).

Ao todo, 96% dos brasileiros manifestaram algum medo; quatro em dez sofreram alguma violência. As respostas carregam assimetrias de gênero, raça e classe. Entre as mulheres, é maior o medo de violência por companheiros ou ex, consistente com a escalada de violência doméstica e dos feminicídios, e de circular nas ruas após o anoitecer. Ricos temem perder patrimônio; pobres e pretos, a vida. Cerca de 40% vivem em áreas dominadas por grupos armados; 13% já tiveram familiar ou conhecido assassinado. Compreender o que os brasileiros temem é essencial ao debate político-eleitoral de 2026, sob o risco de as receitas dos candidatos produzirem, em vez de esperança, mais desconfiança e desalento.

Bookmark and Share

O CREPÚSCULO DOS PREFIXOS

Eduardo Affonso, O Globo

Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem escalas, à ultradireita

Há dois prefixos de origem latina que, depois de séculos de excelentes serviços prestados ao idioma, encaram um fim melancólico.

Ultra era, na juventude, um exagerado, um extremista. Onde quer que se encostasse, passava do limite. Se “super” indicava algo acima do normal (vide supermercado, superlativo) e “hiper” levava tudo a um nível ainda mais elevado ou mais intenso (hipermercado, hipertensão), “ultra” era outro patamar — ao infinito e além (tanto que nunca existiram ultramercado nem ultratireoidismo).

A radiação com energia superior à da luz visível era a ultravioleta. As ondas sonoras com frequências superiores ao limite de audição humana eram o ultrassom. Enquanto o Super-Homem beirava 1,90 metro e, talvez, 100 quilos, o Ultraman tinha 40 metros de altura e 30 mil toneladas.

Ultra excedia o que quer que fosse. Tente pensar na distância que há entre secreto (aquele seu caso extraconjugal) e ultrassecreto (a cartela de vacinação do presidente antivax, a agenda da primeira-dama).

As definições de ultra nos dicionários, entretanto, estão ultrapassadas. Agora basta acreditar na biologia, seguir as regras gramaticais ou ficar com um pé atrás em relação a uma novidade e você é ultraconservador. Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem escalas, à ultradireita. E não é preciso se exceder: um reles questionamento já é considerado um ultraje. Se bobear, nec plus ultra não será mais o ápice de nada, só algo mediano — e olhe lá.

O mesmo aconteceu com trans. Desde uns 700 a.C. o prefixo significa “além de”, “através de”, “do outro lado”. A Gália além dos Alpes era a Gália Transalpina (a “do lado de cá”, do ponto de vista dos romanos, era a Cisalpina). Daí serem transexuais os que estavam “do lado de lá” de um sexo e cruzaram a fronteira.

Isso até resolverem que “mulher trans é mulher”. O que, convenhamos, é um oximoro: exceto na superposição quântica, não se pode estar lá e cá simultaneamente. Trans é quem nasceu com um sexo e fez uma transição (não necessariamente cirúrgica) para o sexo oposto. Mulheres trans têm, sem dúvida, os mesmos direitos das mulheres — mas, se fossem mulheres, não precisariam do prefixo que traduz mudança, travessia.

Ele serve para os transatlânticos — que, por um desses mistérios insondáveis, também cruzam o Pacífico, o Índico etc. Para a Transamazônica, aquele atoleiro que insiste em impedir que se atravesse a Amazônia. O próprio verbo transportar indica que se leva alguma coisa de um lugar a outro. E, se mulher trans é mulher, então não existe transfobia, só misoginia.

Tá legal, eu aceito o argumento de que a língua é dinâmica, mas um pouco de ortodoxia na semântica vai bem. Ou de agora em diante trânsfuga não precisa mudar de lado, transeunte pode estar parado, a transformação deixa igual e “transgênico é orgânico” pode vir a ser o novo mote do agro.

Se a tendência não for revertida a tempo, é provável que os Estados Unidos, ao ganharem sua primeira Copa do Mundo, neste ano, já se possam declarar pentacampeões, empatando conosco. E daqui a pouco os prefixos aparecerão no final das palavras. Como não reclamamos quando rebaixaram o ultra e neutralizaram o trans, ninguém poderá dizer nada.

Bookmark and Share

UM MUNDO SEM ROTEIRO

Fabio Gallo, O Estado de S. Paulo

Empresas antes eram premiadas por eficiência, agora os troféus são pela resiliência

Resiliência, porém, custa caro por obrigar a manter estoques altos, operar com fornecedores redundantes, fábricas duplicadas, ter excesso de liquidez, gastar com hedge e ter cadeias mais curtas

Nas últimas décadas, as empresas aprenderam a tomar decisões em um mundo muito competitivo, mas com um script relativamente previsível. Tínhamos globalização crescente, capital barato, cadeias eficientes, tecnologia avançando, porém de forma incremental.

O problema do mundo atual não é apenas o risco, mas agora é preciso decidir em um mundo imprevisível – acima do que poderíamos admitir como normalidade. E o custo da incerteza não aparece no balanço como despesa operacional. Mas está em toda parte: investimentos adiados, contratações suspensas, caixa parado e decisões que nunca saem do PowerPoint.

O capitalismo sempre conviveu e calculava o risco de suas decisões. Mas saímos de uma situação de risco mensurável para uma ambiguidade permanente. Mesmo sendo algo sensível, vale olhar alguns dados para que essas afirmações não pareçam desprovidas de realidade factual.

O Economic Policy Uncertainty Index Global (EPU) em 2025 atingiu um dos maiores níveis da história. Este indicador mede frequência de notícias relacionadas simultaneamente a economia, política e incerteza em mais de 20 países e centenas de jornais, referência para o Fed, FMI e Banco

Central Europeu. O EPU em ambiente de normalidade econômica fica no nível de 100, na crise de 2008 estava em torno de 200, na pandemia foi a 450 e em 2025 atingiu o índice 350.

O índice atual, além de estar mais de três vezes acima da média histórica, permanece elevado por período muito mais longo que choques anteriores. Isso mostra que a incerteza se mostra estrutural. Quanto maior o índice, maior são os impactos negativos. Índice maior, menor o nível de investimentos, maior o volume de caixa preservado, maior o prêmio de risco e menor o crescimento.

Outros dados são encontrados no relatório “The Cost of Policy Uncertainty on Investment” da Câmara de Comércio Internacional (ICC), que informa que a incerteza política/econômica retirou cerca de US$ 202 bilhões em investimentos corporativos globais em 2025. Em um cenário de agravamento, as perdas podem atingir US$ 380 bilhões em 2026.

Segundo Oxford Economics, a incerteza reduziu o crescimento global esperado em cerca de 0,4 ponto porcentual. O problema da incerteza não é apenas destruir riqueza, mas impedir que ela seja criada. Se antes as empresas eram premiadas por eficiência, agora o são por resiliência. Resiliência, porém, custa caro porque as obriga a manter estoques altos, operar com fornecedores redundantes, fábricas duplicadas, manter excesso de liquidez, gastar com hedge e ter cadeias mais curtas. O custo do mundo sem roteiro talvez não esteja só nas crises já vividas – mas no futuro que deixa de ser construído.

Bookmark and Share

CHINA, EUA E BRASIL

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Trump e Xi Jinping conversam em Pequim. O dólar nunca esteve tão baixo. O ouro conseguiu extraordinária valorização nos mercados globais. E as consequências são percebidas no interior da Amazônia, com o garimpo ilegal

Donald Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, e os brasileiros tentam antecipar o que será combinado entre os dois grandes da economia mundial. Juntos, eles significam 40% do comércio internacional. Desde Barack Obama, o governo dos Estados Unidos age no sentido de conter o veloz desenvolvimento econômico dos chineses. Na era Trump, os norte-americanos aumentaram muito suas tarifas específicas para produtos daquele país. Pequim respondeu na mesma medida. Também elevou tarifas. 

Porém, Pequim fez mais: começou a vender seus títulos do tesouro norte-americano. Os chineses chegaram a deter cerca de US$ 1trilhão investidos naquele título. Hoje, possuem cerca de US$ 700 bilhões naquele papel. Uma das consequências desse movimento de xadrez financeiro foi a queda do valor do dólar em todo mundo. O dólar nunca esteve tão baixo. Os chineses inundaram o mercado com os títulos do Tesouro norte-americano e começaram a utilizar sua moeda, o renminbi, em seus negócios internacionais. Foi outro violento ataque ao dólar.

No sentido inverso, o ouro  conseguiu extraordinária valorização. Os bancos centrais de diversos países perceberam a queda do valor do dólar. Passaram a fazer reservas em ouro. A consequência no Brasil foi curiosa: explodiu o comércio do ouro por toda a Amazônia. A Polícia Federal (PF) e o Exército não conseguem controlar a lavra e a pesquisa do vil metal.  Os números são eloquentes: a medida do ouro é chamada de onça troy, que equivale a 32g do metal. Seu preço hoje está na faixa de   US$ 4.600 a US$ 4.800, o que, com o dólar em torno de R$ 5, resulta em R$ 23 a 25 mil. Trata-se de mercado internacional. O metal tem esse valor em Itaituba, no interior da Amazônia, ou em Amsterdã, na Holanda. 

A evolução do preço do ouro nos últimos anos supera o de qualquer ação na Bolsa de Valores. Em 2021, era de US$ 1.829. Hoje, passou de US$ 4.800, com forte aceleração nos últimos dois anos. Valorização de 170% em cinco anos. Ótimo negócio. Em termos práticos, quem comprou ouro em 2020 praticamente dobrou o capital em dólares. 

A estimativa da Agência Nacional de Mineração (ANM) é de que saem do país, sem pagar imposto, 15 a 20 toneladas de ouro por ano, com valor aproximado de R$ 5,5 bilhões/ano. Grande parte não aparece como contrabando clássico, mas é esquentado com documentos falsos. É mercado bilionário, comparável a outros grandes crimes econômicos no Brasil. Os compradores do ouro brasileiro no exterior são, em geral, atores formais do mercado global, não contrabandistas diretos. 

Na Suíça, funciona o maior centro mundial de refino de ouro. O metal é vendido para bancos, joalherias e investidores. Em Londres, opera o centro financeiro global do ouro, Dubai tornou-se grande hub para ouro de origem africana e sul-americana. Índia, grande consumidor de ouro em joias. China compra ouro para investimento e para indústria. O chinês médio costuma fazer reserva financeira em ouro para se sustentar na idade provecta. Antes era o dólar, agora é o ouro. Além desses, há compradores no Canadá e nos Estados Unidos. 

Tudo começa com o garimpo ilegal, na Amazônia, em terras indígenas, e o posterior esquentamento com documentos falsos. Não existe um comprador criminoso único. O sistema envolve empresas brasileiras, refinarias internacionais e multinacionais. O garimpo, especialmente o ilegal no Brasil, raramente é autônomo. Em muitos casos, há financiadores por trás, que bancam a operação e ficam com a maior parte do lucro. Esses financiadores aparecem em diferentes níveis da cadeia: há empresários e redes logísticas, donos de pistas de pouso clandestinas, aviões, balsas e rotas de transporte. Funcionam como infraestrutura do garimpo. Facções e redes ilegais atuam em várias áreas: controle territorial, segurança armada e lavagem de dinheiro.

O garimpo ilegal no Brasil é financiado por rede econômica estruturada, que inclui investidores locais, empresas de compra de ouro, logística ilegal, crime organizado e demanda internacional. Ou seja: não é uma atividade isolada de trabalhadores pobres. É negócio organizado e altamente lucrativo. O garimpeiro recebe entre R$ 1.500 e R$ 4.000 por mês. A situação típica é trabalho pesado, renda instável e o risco de procurar durante semanas e não achar nada.

A consequência desse comércio é que a densa floresta na Amazônia esconde 2.837 pistas de pouso irregulares — ou seja, não têm cadastro junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Quase 814 delas estão dentro de terras indígenas ou unidades de conservação. São números do Ministério da Defesa. A rede de infraestrutura para pesquisa, lavra e venda do ouro está em crescimento, porque opera junto com o narcotráfico. Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, mas as consequências são percebidas no interior da Amazônia.

Bookmark and Share

O RESGATE DA CONFIAÇA

Oscar Vilhena Vieira*, Folha de S. Paulo

Em matéria judicial, não apenas as ações, mas também as aparências importam

Quando o Judiciário deixa de ser percebido como árbitro imparcial, o Estado democrático de Direito ingressa em um processo silencioso de erosão

A autoridade do Poder Judiciário, em uma democracia constitucional, depende da confiança dos cidadãos. Sem a percepção de imparcialidade, independência e integridade dos tribunais, até decisões juridicamente corretas passam a ser vistas como expressões de interesses políticos ou influências privadas. Quando isso ocorre, a própria estabilidade democrática se fragiliza.

Esse entendimento levou democracias contemporâneas a tratar a ética judicial como questão estrutural. Os Princípios de Bangalore, organizados em 2001 sob os auspícios das Nações Unidas, consolidaram a ideia de que a legitimidade do Judiciário depende não apenas da integridade efetiva dos magistrados, mas também da confiança social em sua conduta. Em matéria judicial, portanto, não apenas as ações, mas também as aparências importam.

Os cidadãos tendem a aceitar decisões desfavoráveis quando acreditam que foram produzidas por procedimentos imparciais, baseados na análise objetiva dos fatos e na correta aplicação do direito. Quando essa convicção se deteriora, instala-se um ambiente de insegurança institucional e oportunismo, no qual prevalecem tentativas de capturar o sistema de Justiça para obtenção de benefícios indevidos, por atores corruptos e autoritários, como temos testemunhado no Brasil.

Não por acaso, cortes constitucionais vêm adotando parâmetros mais rigorosos de transparência e autocontenção. Nos Estados Unidos, a necessidade de preservar sua credibilidade institucional levou à adoção de regras éticas pela Suprema Corte. Na Alemanha, o Tribunal Constitucional também adotou código de conduta voltado à proteção da imagem de imparcialidade e da prevalência do interesse institucional sobre conveniências pessoais.

A integridade dos magistrados e a imparcialidade de suas decisões integram a própria ideia de Estado de direito. A sociedade precisa conhecer com clareza hipóteses de impedimento, suspeição e de conflitos de interesses. Relações de amizade íntima, vínculos familiares ou proximidade com atores envolvidos em processos relevantes produzem zonas de desconfiança que corroem a autoridade das cortes.

O adequado comportamento extrajudicial dos magistrados também é essencial. Em uma esfera pública marcada pela polarização política e pela hiperexposição digital, a preservação do distanciamento dos interesses em disputa e a autocontenção tornaram-se essenciais à autoridade da Justiça.

Nesse contexto, regras sobre participação em eventos patrocinados por interessados em litígios, manifestações político-partidárias ou circulação em ambientes potencialmente comprometedores deixaram de ser questões periféricas. Tornaram-se parte central da proteção da autoridade judicial.

A autoridade do Judiciário repousa menos na coerção do que no reconhecimento pelos indivíduos e instituições da correção dos seus procedimentos. Esse reconhecimento depende da crença coletiva de que os tribunais atuam segundo critérios imparciais, transparentes e juridicamente consistentes. Quando o Judiciário deixa de ser percebido como árbitro imparcial e passa a ser visto como ator político ordinário, o Estado democrático de Direito ingressa em um processo silencioso de erosão.

Nesse cenário, a insistência dos ministros Edson Fachin e Luiz Philippe Vieira de Mello Filho na necessidade de adoção de regras mais rígidas de conduta, na ampliação da transparência, no aperfeiçoamento dos mecanismos de controle e na eliminação de privilégios —aqui com a colaboração do ministro Flávio Dino— tem sido fundamental.

O Judiciário brasileiro possui inúmeras outras deficiências —da morosidade aos elevados custos, passando pelo litígio predatório, pela insegurança jurídica e pelas dificuldades de acesso dos mais pobres. Todas essas deficiências demandam reformas amplas e consistentes. Nenhuma delas, porém, prescinde da urgente necessidade de se resgatar a confiança da sociedade na integridade e na imparcialidade da Justiça.

*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)

Bookmark and Share

A RELAÇÃO ÍNTIMA ENTRE OS BOLSONAROS E VORCARO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Filho 01 e empresário trambiqueiro tinham um pacto: 'Estarei contigo sempre'

03 pode ter usado dinheiro sujo do Master para tramar contra o Brasil nos EUA

No fim de abril, com as duas derrotas impostas a Lula no Congresso em menos de 24 horas —rejeição de Jorge Messias ao STF e derrubada do veto ao projeto de lei da dosimetria—, Flávio Bolsonaro subiu nas tamancas. "O governo acabou", disse.

O otimismo não era um reflexo das pesquisas —que apontavam o bolsonarista e o petista tecnicamente empatados no segundo turno—, mas sim de um acordo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, carregando a certeza de que os fisiológicos do centrão iriam abraçar a candidatura do filho 01. Logo depois, num discurso a empresários de Santa Catarina, Flávio garantiu que ficaria no poder no mínimo por dois mandatos e que, com sua ascensão, a esquerda seria insignificante durante 40 anos.

Não demorou e a tamanca, de péssima qualidade, se desfez no asfalto, ao som de um velho samba de Billy Blanco, "A Banca do Distinto": "A vaidade é assim/ Põe o bobo no alto/ E retira a escada/ Fica por perto esperando sentada/ Mais cedo ou mais tarde/ Ele acaba no chão".

Flávio acreditava que todos eram tontos, menos ele. Há dois meses, quando o seu nome apareceu na agenda de Daniel Vorcaro, ele afirmou que nunca teve contato com o dono do Master, trambiqueiro responsável pelo maior escândalo bancário do país. Aos poucos, porém, a teia de relações íntimas e secretas ganha visibilidade.

O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e integrante do grupo que mandava "quebrar os dentes" de desafetos, foi o maior doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Marcelo Lopes, o marqueteiro que trabalha com Flávio, consta como um dos estrategistas do plano de ataques coordenados contra o Banco Central. Vice dos sonhos, o senador Ciro Nogueira está mergulhado na lama até o pescoço.

Pelas conversas reveladas pelo Intercept Brasil, sabe-se que havia um pacto entre o 01 e Vorcaro –"Fala, irmãozão", "Estarei contigo sempre"–, permitindo que a família Bolsonaro se lambuzasse com o dinheiro sujo do empresário. Parte dos R$ 134 milhões pode ter bancado o 03 nos EUA.

Bookmark and Share

A PARTIDARIZAÇÃO DA BACTÉRIA

Cláudio Couto, CartaCapital

Na visão dos bolsonaristas, a Pseudomonas aeruginosa é um micro-organismo de esquerda

Durante os últimos anos, nos acostumamos a testemunhar repetidos factoides criados pela ultradireita, seja o bolsonarismo, sejam outros grupos extremistas, como o MBL. Por vezes tais episódios ocorrem no âmbito de interações humanas diretas, como em provocações e assédios a desafetos ideológicos, sempre registrados em vídeos que possam ser replicados no mundo virtual. Assim, provocadores e assediadores se apresentam como justiceiros em defesa da moralidade pública e vítimas do que seria a intolerância de seus alvos, pegos em armadilhas quando reagem a agressões sofridas. O esculacho no mundo real torna-se lacração no virtual, excitando seguidores, que podem dar vazão a seus instintos mais primitivos.

Noutras ocasiões, os episódios têm lugar somente no mundo virtual pela disseminação de desinformação, tanto na forma de mentiras puras e simples quanto por insinuações e distorção de fatos, apresentados descontextualizadamente ou interpretados de forma descabida, porém conveniente à narrativa extremista. Exemplo disso foi a campanha do ­deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a fiscalização de movimentações do PIX acima de certo valor, medida necessária para combater a lavagem de dinheiro pelo crime organizado. Em vídeo disseminado nas redes, o deputado insinuava que o governo taxaria transferências e bisbilhotaria movimentações financeiras dos cidadãos. O impacto foi tão negativo para o governo Lula que levou o presidente a determinar o cancelamento da medida, decerto agradando ao extremismo de direita e ao crime organizado, que se abraçaram.

O último factoide da ultradireita brasileira foi produzido no contexto de uma fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre a Química Amparo, fabricante dos produtos de limpeza da marca Ypê. Técnicos da agência identificaram que os itens eram fabricados em precárias condições de higiene e lotes de uma série de produtos estariam contaminados pela bactéria Pseudomonas aeruginosa­, micro-organismo muito resistente a antibióticos. Cidadãos com baixa imunidade ou ferimentos poderiam ser vítimas, caso manipulassem produtos contaminados, correndo o risco de infecções que, em alguns casos, poderiam ser graves e até mesmo levar a óbito.

O que seria apenas uma ação técnica rotineira, de um órgão cuja missão inclui justamente identificar tais riscos e tomar as devidas providências, tornou-se um cavalo de batalha ideológico para disseminar teorias da conspiração, segundo as quais a empresa química seria alvo de perseguição política. Como seus controladores apoiaram financeiramente a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro em 2022, além de promover assédio eleitoral contra funcionários (acarretando condenação pela Justiça do Trabalho), políticos, influenciadores e mesmo cidadãos comuns de ultradireita iniciaram campanha em defesa da companhia, alegando que a medida da Anvisa seria retaliação do governo Lula contra o bolsonarismo de seus dirigentes. Ao que parece, para bolsonaristas e assemelhados, a Pseudomonas aeruginosa é de esquerda.

Este episódio explicita o modus ­ ­operandi da ultradireita no Brasil e alhures. A lógica do movimento requer a ativação constante de sua base social e a partidarização de tudo que favoreça tal objetivo, promovendo guerras culturais. Por isso, nem sequer bens de consumo escapam à dinâmica e qualquer coisa que pareça passível de ideologização, assim será. Ocorreu com os chinelos Havaianas, com o biscoito Bis e, agora, com os produtos Ypê. A contrapartida, além do pânico moral criado, é promover produtos concorrentes daqueles identificados com a esquerda, punindo as marcas ideologicamente desalinhadas, bem como premiar os identificados com a direita. Não à toa, houve até quem se filmasse bebendo detergente no gargalo.

A construção dessas dinâmicas e teo­rias da conspiração funda-se em afetos, identidades e crenças. A emotividade ideológica, a identificação com um grupo político e os credos prévios levam a aceitar certas narrativas e importam mais que a consideração racional de fatos. Foi assim durante a pandemia com o negacionismo em relação ao perigo do vírus ou às mortes por ele causadas – houve quem acreditasse que caixões eram recheados com pedras e tijolos para simular os óbitos – e com a prescrição do “tratamento precoce”. Portanto, este evento, embora inserido na campanha eleitoral, não se restringe a ela. Integra uma dinâmica constante da ultradireita, inclusive quando no governo, como vimos no quadriênio presidencial bolsonarista. 

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Bookmark and Share