terça-feira, 14 de julho de 2026

UM NOVO VIÉS BOLSONARISTA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Se Jair Bolsonaro está com Flávio, problema dele; Michelle tem projeto, é ‘imparável’ e boa de briga

A dois meses e meio das eleições, impressiona a todos, e deixa a direita arrepiada, o racha profundo no coração do bolsonarismo, com lances de baixo nível

O único motivo da carta manuscrita e pública de Jair Bolsonaro foi desautorizar sua mulher, Michelle, e tomar partido do filho 01, Flávio, a quem chamou de “meu candidato e meu porta-voz”. Após semanas de dúvidas, o ex-presidente foi claro: está com Flávio, contra Michelle.

Imagine-se o ambiente numa casa em que o patriarca está doente, preso, de tornozeleira, e sua mulher rompeu com seus filhos e declarou independência política. E mais: uma casa que, durante 90 dias, vai ficar de portas fechadas para o primogênito, por decisão de Alexandre de Moraes, do STF.

Afora as questões pessoais e familiares, o que de fato interessa são os efeitos políticos. A dois meses e meio das eleições, impressiona todos, e deixa a direita arrepiada, o racha profundo no coração do bolsonarismo, com lances de baixo nível.

Após o vídeo em que se diz maltratada, desrespeitada, humilhada e “tratada como idiota” por Flávio, o que já foi um míssil contra a candidatura dele, Michelle mostra, com palavras e atos, que não ficou nisso. Com script pronto, que libera aos poucos, ela reúne mais munição e não tem limites nessa guerra.

Dos States, o 03, Eduardo Bolsonaro, e o blogueiro Paulo Figueiredo dividem suas energias entre jogar Trump contra o Brasil e empurrar as mulheres contra Flávio. O que esperavam atacando Michelle e suas aliadas pelas redes sociais? Votos femininos?

Depois de Michelle renunciar à presidência do PL Mulher, a senadora Damares Alves (DF), sua grande amiga e aliada, cai fora da campanha e da equipe sobre direitos humanos e assistência social do programa de governo de Flávio. Ela disse que continua com Flávio, mas deixou escapar um “ainda”. Ainda?

Michelle e Damares estão unidas no grupo “Imparáveis”, um novo viés bolsonarista, que mantém o sobrenome mágico, mas sem a confusão dos filhos e a fragilidade política das ex-mulheres do ex-presidente.

Rogéria Bolsonaro, mãe do 01, 02 e 03, perdeu uma eleição para vereadora, depois se lançou à Assembleia Legislativa e desistiu e agora compõe a polêmica chapa majoritária do PL no Rio, como suplente de senador.

Ana Cristina Vale, mãe do vereador Jair Renan, o 04, perdeu três eleições, inclusive em 2022, quando assumiu o nome “Cristina Bolsonaro” e comprou uma bela mansão no bairro mais rico de Brasília, para ter domicílio eleitoral no DF.

Se Rogéria e Ana Cristina não foram longe na política, Michelle se declara “imparável”, é boa de briga e traz para a direita uma velha bandeira da esquerda, contra misoginia e machismo. Além de reacender a pergunta: se Bolsonaro era “outsider” e crítico da política, por que a família inteira disputa mandato?

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

OS MINISTÉRIOS DA SAÚDE E DA FAZENDA ADVERTEM

Bruno Carazza, Valor Econômico

Efeitos sociais e econômicos das bets impõem desafio de restringir a atividade

É difícil encontrar hoje em dia quem não tenha conhecimento de pelo menos um caso de drama pessoal e familiar envolvendo o vício em bets. Também nos últimos tempos têm sido frequentes as queixas de empresários e executivos sobre os danos que as apostas têm causado aos seus negócios.

Em 2025, as bets arrecadaram quase R$ 37 bilhões, já descontados os valores pagos para os vencedores das apostas. Os dados são da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda - para quem não sabe, temos um órgão na área econômica, com o mesmo status da Receita Federal e do Tesouro Nacional, especializado em autorizar e fiscalizar bets. Segundo a SPA, 25,2 milhões de CPFs fizeram apostas no ano passado, utilizando, para isso, mais de 100 milhões de contas ativas nas empresas.

Além de dramas familiares, as bets se converteram numa tragédia econômica, pois drenam recursos do orçamento pessoal que antes eram destinados à aquisição de alimentos, bebidas, vestuário, lazer e outros bens e serviços. Elas também são responsáveis por agravar o problema do endividamento e da inadimplência, que em maio atingia 83,5 milhões de pessoas físicas negativadas no principal sistema de informações creditícias do país, o Serasa Experian.

Para conter excessos, na sexta-feira (10/7) o Ministério da Fazenda publicou uma portaria que traz novas regras para a publicidade das bets. Entre as medidas está a obrigatoriedade de publicar um alerta semelhante ao utilizado nos comerciais de cigarros. As mensagens variam, mas recorrem ao mesmo padrão: “O Ministério da Fazenda adverte: apostar pode causar dependência / faz você perder dinheiro / não é investimento”.

Haverá também vedações ao conteúdo dos anúncios, como sugestões de que podem ser fonte de renda ou gerar ganhos fáceis e a utilização de comentaristas que emulem análises técnicas para induzir apostas em determinados eventos, principalmente esportivos.

Embora louvável, a iniciativa do governo brasileiro ainda é bastante tímida em relação ao que outros países vêm adotando para combater os prejuízos sociais e econômicos provocados pela dependência em apostas online.

Itália, Países Baixos e Bélgica proibiram totalmente as propagandas de bets e ainda vedaram o patrocínio a clubes e eventos esportivos. Na Espanha e no Reino Unido, que têm as duas ligas de futebol mais poderosas do mundo, os clubes se comprometeram a limitar o espaço das marcas das empresas do setor nas camisas das equipes. A Austrália, por sua vez, proíbe a divulgação de odds durante os eventos esportivos.

Há medidas sendo tomadas também para reduzir o comprometimento da renda das pessoas com as apostas. A Alemanha, por exemplo, determinou que o teto pessoal de depósito deve levar em consideração todas as contas abertas por uma mesma pessoa em diferentes empresas, minimizando, assim, a realização de apostas simultâneas. A Espanha também está restringindo a distribuição de bônus de boas-vindas. Diversos países ainda proíbem o pagamento com cartão de crédito, para evitar que as apostas sejam um caminho para o superendividamento.

No caso dos cassinos online, as medidas vão desde a sua proibição (caso da Austrália) a exigências de pausas obrigatórias entre as jogadas, restrições a efeitos sonoros e estímulos visuais e imposição da exibição permanente e em destaque na tela do tempo em que a pessoa está logada e do dinheiro gasto na sessão.

Esse breve panorama internacional mostra o quanto o Brasil está atrasado na regulação das bets. Para muitos especialistas, porém, nenhuma medida seria tão benéfica quanto a total proibição dessa atividade. Alguns, inclusive, advogam que o país repita o que fez com os bingos, que foram colocados na ilegalidade mediante uma série de medidas legais e judiciais no início dos anos 2000.

Nos dias atuais, contudo, as circunstâncias são muito diferentes. De times de futebol às big techs e suas redes sociais, passando pelo mercado tradicional de publicidade e pelas celebridades e influenciadores digitais, as apostas movimentam muito dinheiro no país. Além disso, como comprovou o melancólico encerramento da CPI das Bets no Senado com a rejeição de seu relatório final, as empresas de apostas patrocinam uma bancada numerosa no Congresso Nacional para defender seus interesses.

A proibição total traz ainda o risco de deslocar todo esse mercado - que tem demanda e oferta, como qualquer outro - para o crime organizado, tal como acontece com a comercialização de drogas ilícitas, o jogo do bicho, os caça-níqueis e os próprios bingos clandestinos. Regular, nesse caso, seria melhor que proibir.

Nesse contexto, a única perspectiva para se mudar o drama social e econômico gerado pelas bets é seguir a estratégia da campanha nacional contra o tabagismo. Com pressão social, o governo e o Congresso aprovaram um conjunto de medidas que envolviam tributação, vedação à propaganda, publicidade negativa e restrições ao consumo que se mostrou bastante bem-sucedido.

Resta saber quem está disposto a fazer essa aposta contra interesses tão poderosos.

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O OCIDENTE ESTÁ DOBRANDO À DIREITA

Sergio Fausto, O Estado de S. Paulo

O mapa político europeu não está cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o ‘espírito do tempo’ – é clara

Olhe-se para a nossa vizinhança ou para a Europa, a extrema direita avança. Na América do Sul, nas três eleições ocorridas até aqui em 2026, venceram candidatos desse naipe político (Chile, Peru e Colômbia). A tendência é semelhante no velho continente.

Em Portugal, o partido da extrema direita, o Chega, conquistou o segundo maior número de cadeiras da Assembleia da República nas eleições parlamentares de 2025. No Reino Unido, outro país que até recentemente parecia imune à ascensão da extrema direita, o Reform UK lidera todas as pesquisas de opinião.

Na Espanha, o longo ciclo de poder de Pedro Sánchez entrou em fase terminal. Quem cresce é o partido da extrema direita, o Vox. O partido tradicional da direita, o Partido Popular (PP), depende cada vez mais da extrema direita. Nas quatro Comunidades Autônomas em que houve eleições este ano, o PP só conseguiu obter maioria parlamentar depois de aceitar representantes e reivindicações do Vox na formação do governo. É um sinal do que deve ocorrer nas eleições marcadas para 2027. Nesse processo, a direita tradicional se aproxima do nacionalismo xenófobo e protofascista, normalizando-o.

Nos dois principais países europeus, a tendência de ascensão da extrema direita também é nítida. A AfD, Alternativa para a Alemanha, já é o segundo maior partido em número de cadeiras no Parlamento alemão, e as pesquisas indicam que seria o mais votado se as eleições fossem hoje. A perspectiva de a AfD integrar o governo federal dispara os alarmes dos órgãos encarregados da segurança nacional daquele país, pois são notórios os laços da extrema direita alemã com a Rússia. Relatório divulgado em junho pelo Departamento Federal de Proteção à Constituição mostra um aumento de 17% no número de pessoas consideradas extremistas de direita entre 2024 e 2025.

Na França, todas as pesquisas indicam Jordan Bardella ou Marine Le Pen na liderança para as eleições presidenciais de maio do próximo ano. Com apenas 30 anos, Bardella é considerado uma extensão de Marine Le Pen, a real líder do partido xenófobo Rassemblement National. Ela recém recuperou o direito de se candidatar em 2027, depois que a Justiça francesa reduziu sua pena por malversação de recursos.

O mapa político europeu não está cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o “espírito do tempo” – é clara. A hipótese de a extrema direita chegar ao poder na França se tornou provável e na Alemanha, plausível.

Sintoma disso é a discussão sobre uma eventual moderação da extrema direita, se essa hipótese se confirmar.

Foi o que ocorreu na Itália, sob a liderança de Giorgia Meloni, que há quatro anos exerce, em coalizão, o mandato de primeira-ministra, o mais longo desde 2005. Sem antagonizar com a União Europeia nem se aliar à Rússia, ela governa como uma política normal de direita, embora tenha raízes na extrema direita. O exemplo de Meloni pode influenciar um eventual governo presidido por Bardella ou Le Pen na França. O partido de Marine Le Pen já não é mais o que foi nos tempos de seu pai, Jean-Marie Le Pen, um negacionista do Holocausto. Assim como Meloni, Le Pen, a filha, afastou-se da Rússia e abandonou o projeto de retirar a França da União Europeia (UE). Difícil dizer o quanto essa moderação é puramente tática ou não. Na Alemanha, não há sinal dela. A AfD se mantém em oposição frontal à UE e defende a deportação em massa dos imigrantes, a mesma bandeira dos demais partidos europeus de extrema direita.

Embora não haja uma internacional de extrema direita formalmente constituída, os partidos, líderes e movimentos que a integram apoiam-se mutuamente. Dentro dessa rede, alguns dos donos das principais plataformas digitais do planeta ocupam um lugar estratégico. Não apenas pela capacidade quase infinita de aportar recursos a campanhas e candidatos, mas principalmente pelo poder exorbitante de que dispõe para amplificar ou reduzir seletivamente o alcance das informações e desinformações que transitam por essas plataformas, onde exércitos de robôs respondem por cerca da metade dos conteúdos disseminados. Alguns desses tecno-oligarcas se aliam à extrema direita, em geral, e a Trump, em particular, por oportunismo, outros têm convicções antidemocráticas autênticas, como Peter Thiel, adepto de uma tecno-monarquia absoluta. Em simbiose, a livre circulação de fake news e discursos de ódio nas mídias sociais alimenta a ascensão da extrema direita e enche os bolsos dos tecno-oligarcas.

É este o ambiente internacional que cerca a eleição de outubro no Brasil. Na América Latina, junto com o México, somos os únicos países a resistir à subserviência a Donald Trump, cujo desprezo pela democracia, inclusive a dos Estados Unidos, e pela soberania nacional de outros países é bem conhecido.

O ímpeto “disruptivo” do presidente dos Estados Unidos não irá se reduzir caso sofra um revés político nas eleições para o Congresso em novembro deste ano. Pode até mesmo se agravar.

Nesse contexto, é crucial derrotar o clã Bolsonaro, a versão tupiniquim dessa onda extremista que avança no Ocidente. •

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A FARRA DAS EMENDAS

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

O custo eleitoral difuso de ignorar a opinião pública sobre a farra das emendas

Emendas seguem impopulares, mas alimentam uma engrenagem política local sem custo eleitoral claro

Emendas Pix, de bancada, comissão ou mesmo as individuais dos parlamentares: o orçamento secreto pode estar morto no nome, mas a farra da destinação de dezenas de bilhões de reais com critérios obscuros pelo Congresso Nacional continua. Nunca foi algo popular como ideia, ainda que se argumente que quando o dinheiro chega na ponta, na forma de obras vistosas na base eleitoral, ajuda a eleger deputados e prefeitos – perpetuando os mesmos grupos de sempre no poder local e em Brasília. Uma pesquisa Genial/Quaest realizada no ano passado mostrou que 82% dos entrevistados associavam as emendas parlamentares à corrupção, duvidando que os recursos tivessem o destino correto.

Trata-se de uma desconfiança que repete a percepção que se tinha do orçamento secreto, criado em 2020 para salvar a relação do então presidente Jair Bolsonaro com o Congresso.

O uso turbinado e distorcido das chamadas emendas de relator sempre foi, corretamente, execrado pela opinião pública – tanto que ninguém queria assumir sua paternidade.

Na campanha presidencial de 2022, Lula afirmou que o orçamento secreto era pior que o

Mensalão, o grande escândalo do seu primeiro mandato. Mas nenhum outro governo pagou tanto em emendas parlamentares, com suas versões ocultas do orçamento secreto.

Recentemente, no limite do prazo permitido, Lula liberou o valor recorde de quase R$ 34 bilhões em repasses definidos pelos congressistas.

A classe política, da situação à oposição, escolheu ignorar a opinião da maioria dos brasileiros, que gostaria de ver o dinheiro dos seus impostos sendo aplicado em políticas públicas de forma técnica, coordenada e transparente. Quando figuras como os ex-deputados federais Eduardo Cunha e Valdemar Costa Neto (este presidente do PL, partido do presidenciável Flávio Bolsonaro) têm bens bloqueados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeita de influência indevida sobre a destinação de emendas parlamentares, não se pode culpar quem reage com um misto de satisfação – porque a realidade confirmou algo que já acreditava saber – e de justa indignação.

Mas quem paga o preço eleitoral dos escândalos com as emendas? Ninguém, na verdade. O Palácio do Planalto vai dizer que é refém de um sistema necessário para a governabilidade.

A oposição afirma que a Polícia Federal é seletiva nas investigações. Para o Centrão, o importante é que as emendas alimentem uma engrenagem de compra de alianças e apoios locais muito bem azeitada. Não há fim à vista para a farra das emendas, pois o seu custo político é difuso. •

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AMEAÇA DE MORTE

Bianca Mota, Camila Maia, O POVO

Vereadora de Fortaleza sofre nova ameaça de morte e cobra autoridades: "Vão esperar que eu morra?"

Adriana Gerônimo (Psol) disse que mensagens que a ameaçam citam endereços de familiares e dela mesmo; presidente da Câmara publicou nota de solidariedade e fez cobranças

A vereadora de Fortaleza e pré-candidata a deputada federal Adriana Gerônimo (Psol) informou, no último domingo, 12, ter recebido novas ameaças de morte e estupro. Em publicação nas redes sociais, a parlamentar afirma que recebeu um e-mail com detalhes, incluindo a descrição da arma que seria utilizada e a citação dos endereços de familiares e da residência dela.

Na postagem, Adriana afirmou que as ameaças voltaram a ocorrer e criticou a falta de identificação dos responsáveis. "Aconteceu de novo, hoje recebi mais um e-mail com uma grave ameaça de morte e estupro. Descrevem a arma que usarão e citam endereços de familiares e também o endereço da minha casa", explicou.

A vereadora completou: "Me querem morta e é revoltante que não consigam achar quem tanto deseja me matar. Vão esperar que eu morra pra circularem notas de pesar e exigir justiça?".

Presidente da Câmara manifesta apoio

Após a denúncia, o presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, o vereador Leo Couto (PSB), publicou uma nota de solidariedade à parlamentar. Na manifestação, ele defendeu a rápida identificação dos responsáveis e a adoção de medidas para garantir a segurança da vereadora."

Repudio, com absoluta veemência, as novas ameaças dirigidas à vereadora Adriana Gerônimo, marcadas por ataques homofóbicos, racistas e de violência sexual. Diante da repetição desses crimes, reafirmo meu total apoio à vereadora e cobrarei a rápida identificação e responsabilização dos autores, bem como a adoção de todas as medidas necessárias para garantir sua segurança e o pleno exercício de seu mandato", publicou o vereador nas redes sociais. 

Couto destacou ainda que, como presiddente da CMFOR, não aceitará quaisquer formas de violência. "Como presidente da Câmara de Fortaleza, reforço que não aceitaremos qualquer forma de violência, intimidação, discriminação ou discurso de ódio". 

Adriana Gerônimo está no segundo mandato como vereadora de Fortaleza. Mulher negra, mãe, LGBT, assistente social e ativista dos direitos humanos, iniciou a trajetória política nos movimentos comunitários da Capital.

Em 2020, foi eleita vereadora em mandato coletivo, o "Nossa Cara". No biênio 2023-2024, presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Fortaleza. Em 2024, foi reeleita para um mandato individual com 9.091 votos.

O que diz a SSPDSO

POVO entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública do Ceará (SSPDS) para saber que medidas já foram tomadas sobre o caso. Em nota, o órgão informou que a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) investiga denúncias de ameaças registradas contra a vereadora de Fortaleza e repassou orientações a ela, para seguir com a investigação.  

"O caso é acompanhado pela Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin). A PCCE orientou que a vítima comparecesse à delegacia especializada para repassar novas informações sobre os fatos e subsidiar as investigações", informou a SSPDS.

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A DANÇA DOS VICES

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S. Paulo

 Candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o mais competitivo

Normalmente, a escolha de vice-presidentes numa disputa eleitoral reveste-se de uma certa liturgia, principalmente por indicar a segunda pessoa em importância na hierarquia republicana, alguém que, no impedimento do presidente, vem a galgar o maior cargo nacional. Não se trata de uma opção qualquer na medida em que, precisamente, indica para a continuidade daqueles que mantêm o poder durante o mandato estipulado. Não é, neste sentido, fruto do acaso.

Ademais, essa escolha obedece a critérios políticos, dentre os quais: 1) representatividade partidária, ampliando a coligação eleitoral; 2) potencial na captação de novos eleitores; 3) influência na arrecadação de recursos; 4) não comprometimento com a corrupção; 5) vir de uma região ou Estado que seja capaz de agregar maior votação; e 6) ser de uma religião ou de sexo que faça a diferença na disputa, apontando para um determinado público.

Assinale-se que, na recente história republicana três vicepresidentes assumiram o poder, sendo os casos de Itamar Franco, vice de Fernando Collor de Mello, José Sarney, vice de Tancredo Neves, e Michel Temer, vice de Dilma Rousseff. Todos tinham representatividade parlamentar, nomes públicos reconhecidos, carreira pública, força eleitoral, exímios articuladores, estando particularmente qualificados para o cargo. Itamar Franco foi o patrono do Plano Real, que mudou a história do Brasil. Foram excelentes presidentes em momentos de crise. O vice-presidente Marco Maciel, por outro lado, é um exemplo de vice que, não tendo assumido, não deixou de ser uma importante figura republicana.

Sob o prisma atual, porém, o quadro é constrangedor, com exceção da candidatura do presidente Lula. O atual presidente, repetindo a chapa anterior, escolhe um governador reconhecido, que fez toda a sua carreira no PSDB e de confissão católica, adepto do Opus Dei, embora se apresente como de “esquerda”, seja lá o que isso signifique nesse contexto. Sou tentado a recorrer a Ortega y Gasset: “Ser da esquerda, assim como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: na verdade, ambas são uma forma de hemiplegia (paralisia parcial) moral”. Em todo o caso, podese dizer que o presidente Lula e o PT fizeram o dever de casa, o que não é o caso de seus oponentes. Conseguiram, neste sentido, olhar para fora de sua bolha, visando aos eleitores em geral.

Flávio Bolsonaro, que se apresenta como o seu contendor mais direto, está cada vez mais refém de suas próprias trapalhadas e das que não sabe evitar. Seu comprometimento com Vorcaro, na arrecadação de recursos para um filme, sua submissão à política americana quando seu irmão foi um dos instigadores do tarifaço aos produtos brasileiros e, agora, o rompimento público com sua madrasta, mostram uma candidatura atordoada. Esse último rompimento, aliás, é de grande significação, visto que afasta de si o público feminino e evangélico, vital para a sua vitória. E a escolha de vice cai dentro desse redemoinho. Os nomes aventados, homem ou mulher, não apresentam nenhuma representatividade, podendo ser mesmo desconhecidos para o grande público, retirando-lhe qualquer relevância eleitoral e não lhe conferindo ampliação partidária. Permanece dentro de sua própria bolha.

Ronaldo Caiado, apesar de ter escolhido um vice muito reconhecido por suas habilidades de articulação, Gilberto Kassab, terminou por fazer uma opção dentro de seu próprio partido, não dando um passo que deveria ser decisivo para a ampliação eleitoral. As razões apresentadas, seja de unificação partidária, seja de captação de recursos, não são de natureza a mudar o quadro propriamente eleitoral, que deveria ser a sua maior preocupação. Para uma candidatura que precisa avançar para se consolidar, preocupações como unidade partidária e captação de recursos já deveriam ter sido equacionadas, na procura de novos aliados.

Quadro semelhante expõe a candidatura de Renan Santos. Sem fundo partidário e eleitoral, e até agora sem uma significativa captação de recursos, carente de tempo de rádio e televisão, além de não ter nenhuma coligação partidária atrás de si, a sua escolha de vice tampouco segue os critérios adotados. A opção, também dele, de uma pessoa desconhecida do público em geral, sem demérito de sua pessoa, não é de natureza a alavancar a sua candidatura.

O mesmo se pode dizer da candidatura de Romeu Zema ao cogitar escolher um empresário amigo seu, amplamente desconhecido e de seu próprio Estado. Convém assinalar uma verdade básica: candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o candidato mais competitivo.

Note-se que não estou fazendo nenhum juízo de valor ou moral sobre essas pessoas, mas tão somente assinalando as dificuldades apresentadas, segundo uma liturgia de poder que deveria ser outra. E quem souber fazer essa lição se posiciona à frente das pesquisas eleitorais. •

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COMO O CONGRESSO DA UNE CAIU EM 1968

Miguel de Almeida, O Globo

Polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador

O dia mal amanhecera em 12 de outubro de 1968, um sábado, quando 150 policiais surgiram na mata a 25km do centro de Ibiúna, interior de São Paulo. Caía uma chuva intermitente. A lama na estrada íngreme fizera a tropa abandonar as viaturas no caminho principal. Percorreram 10km a pé. Quando avistaram o acampamento, deram tiros para o alto aos gritos:

— Não reajam, vamos atirar para matar.

Cercaram as barracas de lona e prenderam 800 jovens. Era o final melancólico do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Ali se reuniam delegados de faculdades de todo o país para eleger a nova diretoria da UNE e discutir teses e estratégias para o movimento estudantil. Desde o golpe de 1964, era uma movimentação vigiada e reprimida pelos militares. Com a classe política acuada por prisões e cassações, e os sindicatos mais combativos sob intervenção, os universitários e secundaristas se mostravam a vanguarda militante da oposição. O governo dos generais proibiu as reuniões políticas e procurava assustar a população com a iminência de uma hipotética tomada de poder pelos comunistas. Nada mais canastrão. Buscava-se recuperar a democracia, extinta com a derrubada do presidente João Goulart.

Jason Tércio reconstrói os embates com a polícia, até o arrastão final, em “Sitiados – A saga do Congresso de Ibiúna em 1968”. Foram vários confrontos, com prisões e manifestantes feridos — o mais grave, semanas antes do encontro da UNE, ficou conhecido como Batalha da Rua Maria Antônia. A briga ocorreu entre os alunos do Mackenzie, onde nascera a milícia do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), e da Faculdade de Filosofia da USP, à esquerda no espectro político. O estudante José Carlos Guimarães, 20 anos, morreu baleado na cabeça. Do Mackenzie também foram jogados frascos com ácido sulfúrico, que atingiram vários universitários. Embora testemunhas afirmassem que o tiro partira do telhado do Mackenzie, a polícia à época não identificou o autor. No período democrático, um integrante do CCC e agente do Deops foi responsabilizado pelo assassinato.

José Guimarães não era o primeiro aluno morto pela ditadura. Em março daquele ano, um soldado matou à queima-roupa Edson Luís, 18 anos, durante protesto estudantil pela melhoria da comida no Restaurante Calabouço, no Rio. Ao assassinato seguiram-se protestos — peças teatrais foram suspensas em solidariedade, e passeatas percorreram as ruas centrais da cidade. Na missa de sétimo dia, a cavalaria da polícia cercou a Candelária e atacou a sabre quem saía da cerimônia, numa guerra campal com bombas de gás lacrimogêneo. Na igreja encontravam-se cerca de 600 pessoas.

O Congresso da UNE não deixava de ser um desafio à ditadura. Os líderes estudantis — principalmente José Dirceu, Vladimir Palmeira e Luís Travassos — eram vigiados pela polícia. As cenas lembravam filmes de James Bond. Dirceu, depois de namorar uma militante, descobriu se tratar de espiã (codinome: “Maçã Dourada”) colocada em sua cama pela repressão. Mesmo assim, mantiveram a ideia de realizar o encontro para eleger a nova diretoria da entidade. Ao contrário dos anteriores, seria maior — com 800 delegados de todo o Brasil. Brincavam com a sorte.

Com o auxílio de um frei dominicano — Tito — e de Therezinha Zerbini, casada com o general legalista Euryale Zerbini, os estudantes conseguiram emprestado um sítio em Ibiúna. Apesar de a operação ser tratada em sigilo, com uso de senhas e divulgação de locais e datas falsas, a polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador, Miguel Góes (existem outras versões, várias inventadas pelos delegados). Góes desconfiou ao ver pessoas armadas (eram estudantes) na propriedade e avisou o delegado. Informado, o governador Abreu Sodré autorizou a batida policial. Até então, o presídio Tiradentes jamais havia recebido tantos presos políticos de uma única vez. Logo em dezembro de 1968, a ditadura baixou o AI-5, o mais duro golpe contra as liberdades civis.

Perguntei a três personagens envolvidos na trama: por que o Congresso caiu?

— Na sexta, soube que o Deops já sabia do encontro. Os líderes foram avisados de madrugada. Preferiram esperar amanhecer para discutir a informação — conta Paulo de Tarso Venceslau, economista.

— Foi ingenuidade colocar 800 pessoas naquele lugar — lembra Fausto Nilo, poeta e arquiteto.

— Erro de planejamento da organização — diz Xico Chaves, artista plástico.

Em setembro de 1969, José Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Palmeira seguiram para o exílio, trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado por guerrilheiros (o estudante Paulo de Tarso entre eles) da Aliança Libertadora Nacional e do MR-8.

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BRASIL NÃO PODE VIVER ASFIXIA DIGITAL

Irapuã Santana, O Globo

Equilibrar a necessária governança da internet sem criar mais dificuldades para o crescimento da produtividade é um desafio

Desde o ano passado, diversos debates sobre o projeto do Novo Código Civil têm atraído a atenção do mundo jurídico. A nova lei causa impacto na vida de todo mundo, porque regerá a forma como acordos privados são feitos diariamente. Quando fazemos sinal para um ônibus no ponto, celebramos um contrato de transporte. Se pegamos um carrinho do supermercado para fazer as compras, surge um contrato de comodato, e por aí vai.

O código atual foi publicado em 2002, mas começou a ser elaborado em 1975, na ditadura militar. Ele era recém-nascido, mas parecia Benjamin Button. Para relembrarmos, a internet era discada, os celulares eram usados apenas para ligações e SMS, YouTube, Facebook e Instagram nem sonhavam em surgir, e o finado Orkut só viria a aparecer em 2004.

Em 2025, quando o projeto foi apresentado, a vida havia se tornado completamente diferente. Precisamos de ajustes, já que temas como multiparentalidade e herança digital precisam ser regulados. A questão, portanto, passa a ser como isso deverá ocorrer. É justamente nesse ponto que se destaca uma parte da lei completamente nova, chamada “Livro de Direito Digital” (art. 2.027 e subsequentes).

É evidente o grande esforço da comissão de juristas que elaborou o anteprojeto para harmonizar a legislação civil com as complexidades da internet, inspirando-se em discussões avançadas, como o modelo europeu. Porém essa proposta gera efeitos econômicos prejudiciais relevantes para o país. Um estudo coordenado pela professora Luciana Yeung, do Insper, calcula que o custo da adaptação ao novo marco regulatório variará de R$ 13,5 bilhões a R$ 25,7 bilhões logo no primeiro ano. O primeiro alerta técnico está na realocação de recursos produtivos para o compliance, porque a exigência de auditorias independentes periódicas demandará cerca de R$ 10,3 bilhões do setor privado.

Ao cruzar as novas obrigações com dados de demografia empresarial do IBGE, estima-se que incidirá um custo fixo anual de R$ 100 mil para grandes corporações, R$ 50 mil para médias e R$ 10 mil para pequenas empresas. Na prática, é um dinheiro que deixa de financiar inovação e engenharia para custear burocracia preventiva, não necessariamente essencial.

Isso nem é o mais perigoso. Segundo o relatório, projeta-se que a insegurança interpretativa inicial sobre como as novas regras serão aplicadas, em razão do uso de termos vagos — como “patrimônio digital”, “descumprimento sistemático” e “plataformas de grande alcance” —, poderá gerar retração de 1% a 5% nos aportes em tecnologia e inovação no Brasil. Isso significa que o país poderá deixar de receber até R$ 15,3 bilhões em investimentos.

O prazo de funcionamento da comissão instituída para estudar e debater o projeto do novo código foi recentemente prorrogado até 22 de dezembro. Portanto, este é o momento de levantar questionamentos difíceis, mas necessários, que consideram o cálculo dos efeitos das regras. Precisamos enfrentar o desafio de equilibrar a necessária governança da internet sem criar ainda mais dificuldades para o crescimento da produtividade nacional, estagnada há tantas décadas.

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O BANCO CENTRO ENTRE DELFOS E ULISSES

Alex Ribeiro, Valor Econômico

Para parte dos analistas, BC é refém da transparência que promoveu no período recente

O ex-presidente do Banco Central Arminio Fraga vai ajudar o Federal Reserve (Fed) a rever sua comunicação, dentro de uma força-tarefa criada pelo seu chairman, Kevin Warsh, para avaliar seu arcabouço mais amplo de política monetária. As conclusões podem ajudar também o BC brasileiro, que tem se visto às voltas com questões semelhantes.

Um bom ponto de partida para uma discussão nos trópicos é um texto para discussão do ex-diretor de Política Econômica do BC Fábio Kanczuk. Sua opinião vale, em especial, porque ele estava na cabine de comando na única vez que o Brasil chegou ao limite da baixa de juros, na pandemia, e teve que lançar mão da comunicação para cumprir a meta.

Kanczuk vê vantagens em o BC comunicar o que vai fazer no futuro, mas acha que o instrumento só deve ser usado se o mercado for maduro o suficiente para entendê-lo. Antes de entrar na sua visão, porém, é preciso dar um contexto das discussões.

Um BC deve se comunicar bem porque só controla a taxa de juros de curtíssimo prazo - no Brasil, a Selic -, mas o que move o crédito e as engrenagens da economia é a taxa de longo prazo, que é determinada pelas forças de mercado.

Warsh é contra falar muito sobre as intenções futuras. Sua principal crítica é que o mercado fica muito dependente dos sinais do BC e preguiçoso para ajustar os juros de acordo com a evolução do cenário.

Então, grosso modo, há duas escolas diferentes. De um lado, tem o estilo mais fechado, cujo maior exemplo é o ex-presidente do Fed Alan Greenspan nos anos 1990. Ele dizia que, depois que assumiu o cargo, aprendeu a falar com grande incoerência.

De outro lado, tem o estilo que comunica mais as intenções futuras, que marcou o ex-presidente do Fed Ben Bernanke. Ele viveu períodos de crise financeira com juros perto de zero e, para evitar que ocorresse uma deflação, teve que ser cada vez mais transparente sobre manter os juros baixos no futuro.

Kanczuk, no seu texto, afirma que a discussão é particularmente complicada porque a expressão “forward guidance” é usada para designar dois instrumentos diferentes. Um deles segue a analogia de Ulisses, que, na Odisseia, pede para ser amarrado a um mastro de navio para não ceder aos encantos das sereias. Da mesma forma, o Banco Central se amarra a uma promessa futura para os juros, seguindo um curso, a menos que uma condição previamente estabelecida se concretize, como a inflação ou o desemprego passarem de determinado nível.

Foi precisamente o que Kanczuk, à frente do BC, fez em 2020, quando não era possível mais cortar os juros para cumprir a meta de inflação sem colocar em risco a estabilidade financeira. Hoje, com a Selic em 14,25% ao ano, não haveria necessidade disso.

Há uma analogia grega para o outro tipo de forward guidance. Às vezes o banco central fala como o Oráculo de Delfos, compartilhando sua leitura da economia e do futuro. “O guidance délfico não é um mastro”, diz Kanczuk. “Um plano de voo pode ser alterado - e, na verdade, deve ser alterado quando as condições meteorológicas mudam. O objetivo não é prometer que o avião atravessará uma tempestade apenas porque a rota original assim previa.”

Esse estilo de forward guidance é útil por duas razões principais. Primeiro, com ele o Banco Central consegue influenciar a curva de juros de prazo mais longo do mercado e, assim, afetar as condições de crédito. Segundo, o Banco Central dá pistas sobre como poderia reagir de acordo com o que vier a acontecer no futuro.

Na última década, o Banco Central do Brasil ampliou muito sua transparência: publicou seus modelos de projeção de inflação em detalhes, deu mais abertura à sua avaliação de cenários e aos riscos que vê no horizonte. Abriu tanto que parte dos analistas econômicos acha que ficou prisioneiro.

Kanczuk argumenta, no texto, que a publicação do modelo de projeção não é a mesma coisa que um forward guidance e, portanto, não limita a discricionariedade da ação do BC. Uma característica às vezes ignorada é que o modelo é condicional.

Ele é alimentado por insumos que são pressupostos, não uma certeza - como a taxa de câmbio, os preços das commodities, os preços administrados, as condições externas e a política fiscal. Também exige decisões sobre quais choques são temporários e quais são persistentes. Nele, vai uma boa dose de julgamento, e o Banco Central tem que pesar a todo tempo um cenário central em relação aos inúmeros cenários alternativos. “Um modelo condicional não elimina a discricionariedade”, diz Kanczuk. “Ele organiza a discricionariedade.”

O ex-diretor do BC acha que a discussão pertinente não é, exatamente, se o forward guidance é bom ou ruim - é, na verdade, se o Banco Central deve se mover para aprofundar ou não o forward guidance délfico. Para ele, a resposta depende do quanto o mercado está maduro para diferenciar se o BC está se amarrando no mastro ou se está apenas passando um plano de voo. Quando não entende, o BC pode sofrer danos à credibilidade.

Um fato curioso - não discutido no estudo - é que o BC sob a chefia de Gabriel Galípolo apanhou recentemente por outro motivo: o mercado queria que ele fosse Ulisses, quando o máximo que poderia ser é uma imagem desbotada de Delfos.

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O TEOREMA DE BUSCETTA: 'MOB LAWYERS' E FACÇÕES JUDICIAIS

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Caso Master e escândalo do Rio de Janeiro revelam estrutura de proteção institucional ao crime

Integrantes da própria comunidade jurídica atuam em múltiplos níveis em casos de corrupção

É assustador assistir à crescente interpenetração entre a corrupção política e a criminalidade violenta em nosso país. Referindo-se ao escândalo Master, o ministro André Mendonça afirmou: "Aqui há contornos de máfia. Há contornos de crime organizado, mafioso... Não é simplesmente um crime de colarinho branco. É mais do que isso. Não são simplesmente atores ... que praticaram fraudes, corrupção, lavagem de dinheiro e crimes contra o sistema financeiro".

Mais assustadores, porém, são os indícios do envolvimento de atores individuais e institucionais do próprio sistema de Justiça. Estendem-se a advogados e ao que podemos chamar de facções judiciais. Não estamos falando de advogados "pombos-correio" de organizações criminosas. Falamos de estruturas, em diferentes graus de institucionalização, voltadas à proteção dessas organizações.

Na literatura sobre a máfia, os "mob lawyers" —advogados que deixam de ser meros defensores de criminosos para se tornarem componentes da própria arquitetura de proteção da organização— tornaram-se personagens emblemáticos. A figura paradigmática é Tom Hagen, de "O Poderoso Chefão". Hagen não é simplesmente o advogado que aparece quando um Corleone é acusado. Ele é o "consigliere".

Mas o que caracteriza uma organização mafiosa não é a existência de "mob lawyers". O verdadeiro perigo não está na corrupção individual, mas na formação de redes coordenadas de proteção institucional. Antes de Tommaso Buscetta —um dos "capi" da Cosa Nostra, preso no Brasil e depois transformado em "pentito" (arrependido)— a máfia era vista como uma multiplicidade de grupos locais, delitos, relações clientelísticas e episódios de violência. O salto produzido por suas revelações ao juiz Giovanni Falcone foi mostrar que fatos aparentemente desconectados faziam parte de uma mesma estrutura organizada, dotada de coordenação, divisão de funções e mecanismos de proteção mútua. Essa mudança de perspectiva ficou conhecida como teorema de Buscetta. A expressão, inicialmente cunhada de forma pejorativa pela defesa dos acusados para contestar a tese da existência de uma estrutura coordenada, acabou sendo usada para designar essa rede de coordenação e proteção.

É esse padrão emergente que os escândalos do Master e do Estado do Rio de Janeiro parecem revelar: coordenação, penetração em instituições do sistema de Justiça, estruturas de vigilância e espionagem, além de um braço armado. Soma-se a isso uma atuação tentacular voltada à influência sobre a esfera pública, por meio do controle de empresas de mídia, da cooptação de jornalistas e da mobilização de redes sociais.

O que singulariza o caso brasileiro nos casos de corrupção é o papel desempenhado por membros da própria comunidade jurídica. Sua atuação ocorre em múltiplos níveis: na defesa perante os tribunais, na ocupação de posições estratégicas no aparelho de Estado e na mobilização organizada de lobby judicial voltado a influenciar a produção legislativa, as nomeações para cargos do sistema de Justiça e a formação da opinião pública. A recorrência de atores presentes em escândalos anteriores, como a Lava Jato, sugere que esses episódios talvez não sejam eventos isolados, mas manifestações sucessivas de redes que se sobrepõem e se reconfiguram ao longo do tempo.

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ANTIRRACISMO É JOGO DE GANHA-GANHA

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Ações voltadas à promoção da equidade étnico-racial produzem efeito benéfico à sociedade brasileira como um todo

Falar sobre medidas de enfrentamento ao racismo e seus efeitos perversos e injustos ainda é algo visto como chororô ou mimimi

O que podemos fazer para que o Brasil seja mais justo? Essa indagação é feita no início do livro "Guia da Gestão Pública Antirracista", publicação escrita de maneira colaborativa por cinco importantes pesquisadores (Clara Marinho, Ellen da Silva, Giovani Rocha, Karoline Belo e Michael França), que se debruçaram sobre o tema numa imersão na Universidade de Oxford, em 2024.

Para além de questionar práticas carregadas de preconceito e discriminação adotadas no setor público, que resultam em exclusão de um segmento específico da população brasileira, a obra joga luz sobre o óbvio que muitos ainda não aceitam: "Ao erguer aqueles marginalizados, não apenas corrigimos injustiças, mas levantamos uma nação inteira", afirmam os pesquisadores.

É sobre isso.

Inúmeros indicadores mostram que a precariedade econômico-financeira alcança e afeta os brasileiros brancos e negros de maneiras distintas. Não é para menos, posto que a origem das nossas desigualdades é de cunho étnico-racial. Não é segredo que este é um país que historicamente discrimina, criminaliza e exclui a maioria negra —56% do povo (IBGE).

Esse é um cenário que foi forjado a partir de escolhas e decisões tomadas pelo Estado —que, é bom lembrar, nada mais é do que um conjunto de pessoas investidas em cargos públicos (senadores, deputados, governadores, prefeitos, vereadores, servidores...) dotados de poder para decidir os rumos da vida em sociedade.

Contudo, falar sobre medidas de enfrentamento ao racismo e seus efeitos perversos e injustos ainda é algo visto como "chororô, mimimi..." por uma porção de gente que insiste em dizer que políticas públicas adotadas contra essa deformação moral e cívica chamada de racismo são privilégio.

Na realidade, ações voltadas à promoção da equidade étnico-racial produzem efeito benéfico à sociedade brasileira como um todo. Coisa que faz do antirracismo um jogo de ganha-ganha. E remete a outra questão: o Brasil quer ser um país mais justo e igualitário?

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QUER SER EMPREGADO DE UM ROBÔ ?

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Robôs já são capazes de fazer tudo, exceto pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana

Para isso, uma empresa de IA criou um serviço para eles: Rent a Human, ou Alugue um Humano

Estava demorando. Depois de aprender a fazer em microssegundos operações que levariam uma eternidade para um humano, os robôs estão se aventurando agora naquelas que são naturais para nós, mas, por enquanto, inalcançáveis para eles. Exemplo: "Hei, Robby, me traz um café!".

Para tanto, o robô precisará saber identificar as portas e gavetas certas do armário, abri-las e reunir os apetrechos: coador, filtro, pó de café, colher, xícara e açúcar ou adoçante. Feito isso, terá de aprender a abrir o saco de pó sem rasgá-lo, pôr a água para ferver, despejá-la sem molhar seus eletrodos, encher a xícara, mexer com a colherinha e, no caso de adoçante em cubinhos, desfazer o invólucro —façanha de respeito mesmo para humanos. Até agora, os robôs estão fracassando. Como são mais cérebro do que corpo, e ainda por cima eletrônico, não têm muito jeito com as mãos.

Ao contrário deles, qualquer criança já nasce sabendo segurar um objeto com o polegar. Logo conseguirá executar os 27 movimentos de que, segundo a ciência, a mão é capaz e, em pouco tempo, servirá um competente café. Posso garantir isso porque, há pouco, até eu, analfabeto na cozinha, fui capaz dessa proeza —digo, servir um café. Donde os robôs estão tentando chegar aonde as crianças e eu já chegamos.

Enquanto não chegam lá, os robôs, cientes de suas limitações, resolveram agir. Uma empresa de IA nos EUA acaba de criar um serviço, Rent a Human —Alugue um Humano—, para desempenhar missões ainda supercomplexas para eles, como fazer truques com cartas de baralho, pinçar um pelo encravado ou descascar uma banana. Já há até sites com anúncios classificados em que humanos oferecem seus serviços profissionais para robôs, cada qual descrevendo sua especialidade.

Ao saber disso, comecei a preparar um currículo para o caso de ter de me colocar na praça. Passei a vida me esforçando para escrever com clareza, objetividade e verdade. Mas, se preciso for, sou capaz também de simular uma tese de pós-doc, um poema-piada ou um texto da IA.

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O FUTURO NÃO É DESTINO

Tostão, Folha de S. Paulo

Seleção e os times brasileiros priorizam as estocadas, os lances individuais e a pressa de chegar ao gol

Existe uma carência de bons laterais, falta um craque no meio campo e na posição de centroavante

Neste momento de decepção, de mais um fracasso da seleção brasileira, pois criamos uma enorme expectativa muito acima da realidade, surgem os discursos românticos, ilusórios, perdidos no tempo, de que o futebol brasileiro precisa voltar às origens, aos anos 60 e 70, e passar a jogar o futebol arte, de dribles, improvisações, sem disciplina tática. Dribles é que não faltam. Precisamos associa-los ao jogo coletivo, de mais trocas de passes e de domínio da bola e do jogo. A seleção brasileira e os times brasileiros priorizam as estocadas, os lances individuais e a pressa de chegar ao gol.

Outro discurso equivocado é o de que temos muitos craques, mas faltam estratégias mais eficientes. Precisamos melhorar a maneira de jogar e aumentar o número de craques. Há muitos bons jogadores, alguns especiais, como Vinicius Junior, porém, existe uma carência de bons laterais, falta um craque no meio campo e na posição de centroavante.

O futebol brasileiro necessita de uma grande mudança no planejamento, na execução do que foi programado e na formação de atletas. O antigo chavão de que no Brasil nasce um craque em cada esquina já era. Quem não se prepara, não sabe fazer.

Casemiro, que teve grandes momentos em sua carreira, nos clubes e na seleção, certamente estará fora das próximas convocações. O Brasil precisa de mais leveza no meio campo, de meio-campistas que atuam de uma intermediaria a outra, que marcam e iniciam os ataques com ótimos passes.

O ideal no futebol é unir e alternar as precisas trocas de passes e o talento do meio campo da Espanha com a agressividade, a habilidade, velocidade e técnica dos atacantes da França.As duas seleções farão uma das semifinais, um jogaço. A Espanha não se afoba, não muda o seu jeito de jogar nas dificuldades. Contra a Bélgica, continuou trocando muitos passes até sair o gol da vitória por 2x1.

Quando escrevo que não há mais motivos para dividir o meio campo entre os camisas 5, 8 e 10 enfatizo que eles não precisam ter posições fixas nem uma única função. Mas, quando uma equipe possui um craque como Olise da França, que joga da intermediaria para o gol, é uma grande vantagem. Os craques são mais importantes do que o desenho tático.

Receio que no futuro, a história conte que havia um país do futebol que tinha um rei, Pelé, e um grande número de craques fenomenais que jogavam o futebol bonito, espetacular e eficiente. O mundo parava para ver o Brasil atuar. Porém, por causa da desorganização, da ganância, da incompetência, da corrupção, dos otimistas prepotentes, da globalização e da evolução dos outros países, o futebol brasileiro tornou-se igual a tantos outros e abaixo das principais potências. É preciso reagir. O futuro não é destino. O futuro é o que será construído.

Participei, com 19 anos, de um período ainda pior da seleção brasileira, a desclassificação na primeira fase da Copa de 1966 após o Brasil ser campeão em 1958 e 1962. Alguns jogadores presentes em 1966 fizeram parte da seleção de 1970 que encantou o mundo.

Jovens, como Rayan, Endrick, além de Estevão e Rodrygo, contundidos, têm grandes chances de brilhar em 2030.

Após a eliminação em 1966, Carlos Drummond de Andrade,o poeta maior, na bela poesia: "Aos atletas", escreveu: "...a hora dura do esporte, sem a qual não há premio que conforte, pois perder é tocar alguma coisa mais além da vitória, é encontrar-se naquele ponto onde começa tudo a nascer do perdido, lentamente".

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MORRE ALCIDES BERNAL

Nadine Lopes, Débora Ricalde, g1 MS

Alcides Bernal: morre ex-prefeito de Campo Grande preso acusado de matar auditor

Causa da morte não foi divulgada. A defesa alegava que Alcides Bernal tinha problemas cardíacos e pedia prisão domiciliar. Ele foi preso preventivamente após matar o servidor público Roberto Carlos Mazzini.

O ex-prefeito Alcides Bernal morreu na madrugada desta segunda-feira (13), na Santa Casa de Campo Grande, aos 60 anos. Ele estava preso no Presídio Militar desde 24 de março, acusado de matar o servidor público Roberto Carlos Mazzini durante uma disputa pela posse de um imóvel.

A causa da morte não foi divulgada até o momento. Bernal havia sido internado no dia 30 de junho, após passar mal no Presídio Militar, onde estava preso. Na ocasião, passou por um procedimento cardíaco. Conforme a defesa, exames identificaram uma série de lesões no coração. Após receber alta, ele retornou ao presídio.

Neste fim de semana, o ex-prefeito voltou a passar mal e foi levado novamente para a Santa Casa. A nova internação aconteceu um dia após a Justiça negar o pedido de prisão domiciliar. Ao g1, o advogado de defesa Ricardo Machado informou que Bernal desmaiou no Presídio Militar. Ao chegar ao hospital, ele foi encaminhado para a Unidade de Terapia Intensiva (UTI) devido ao estado de saúde.

Bernal será velado no Cemitério Jardim das Palmeiras a partir das 11h desta segunda-feira (13). O sepultamento está previsto para as 16h, no mesmo local.

“Ele começou com cateterismo, mas depois foi submetido a uma angioplastia coronariana. E dessa angioplastia, ele foi submetido depois a outra angioplastia, quando foi colocado os stents nele”, disse a defesa.

A defesa afirmou ainda que apresentou diversos pedidos de prisão domiciliar para Bernal em razão dos problemas cardíacos que ele já enfrentava, inclusive antes da cirurgia realizada no fim de junho. Segundo o advogado, o ex-prefeito era um paciente cardíaco de alto risco.

Ainda conforme a defesa, um ofício do próprio Presídio Militar informava que a unidade não tinha condições adequadas para manter Bernal devido ao estado de saúde dele.

"Houve uma alerta da defesa ao Poder Judiciário desde o início do processo de que ele possuía doença grave, foi alertado essa semana que ele não poderia retornar ao presídio, fizemos um pedido de domiciliar, fizemos um pedido adendo, de uma questão temporária de ele retornar para casa, isso não aconteceu. Ficou com certeza um sentimento de frustração", afirmou.

Preso por homicídio

Segundo as investigações, Roberto Carlos Mazzini e um chaveiro estavam em uma residência, na Rua Antônio Maria Coelho, quando foram surpreendidos por Bernal. O imóvel havia pertencido ao ex-prefeito, foi levado a leilão judicial e arrematado por Roberto Carlos Mazzini.

Bernal era acusado de atirar duas vezes contra o servidor e fugir sem prestar socorro. Horas depois, ele se apresentou à polícia e permaneceu preso no Presídio Militar de Campo Grande.

No dia 30 de junho, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) negou o habeas corpus que pedia a liberdade do ex-prefeito. A decisão foi tomada menos de uma semana após o Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS) determinar que ele fosse submetido a julgamento pelo Tribunal do Júri.

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Trajetória política

Alcides Bernal era natural de Corumbá, advogado, radialista e político. Em 2004, foi eleito vereador em Campo Grande e presidiu a Comissão Permanente de Transporte e Trânsito. Em 2008, foi reeleito e passou a comandar a Comissão Permanente de Defesa do Consumidor. Já em 2010, foi eleito deputado estadual.

Em 2012, foi eleito prefeito de Campo Grande e permaneceu no cargo até 2014, quando teve o mandato cassado. Na época, era filiado ao Partido Progressistas (PP).

Dos 29 vereadores, 23 votaram a favor da cassação por irregularidades em contratos emergenciais. Com a decisão, ele perdeu o mandato, e o vice-prefeito, Gilmar Olarte, assumiu a prefeitura.

A denúncia foi apresentada por dois empresários à Câmara Municipal em 30 de setembro de 2013. Eles apontaram contratações emergenciais sem justificativa. A denúncia foi aceita, e uma comissão processante foi criada para investigar o caso.

No processo, Bernal afirmou que não havia provas de irregularidades. Durante a votação, usou a tribuna para se defender e disse que agiu para proteger o interesse público.

Em 2015, voltou ao cargo por decisão do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS). Por dois votos a um, os desembargadores determinaram o retorno em agosto daquele ano, um ano e cinco meses após a cassação. Ele permaneceu até o fim do mandato, em 2016.

Após a decisão, afirmou que "a Justiça pode tardar, mas não falha", em entrevista ao g1. Ele concorreu à reeleição em 2016, mas não chegou ao segundo turno, ficando de fora por 2.630 votos.

Com a decisão, Bernal perdeu o mandato de prefeito, e o vice-prefeito, Gilmar Olarte (PP), assumiu o comando da administração municipal.

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PAULISTAS QUEREM CHAMAR A POLÍCIA

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Segurança pública exige mais policiamento. A resposta é simples, mas cara e de difícil implementação

Está em andamento um amplo debate sobre segurança pública no país. Muitas ideias estão na mesa, como a criação de um ministério específico e variados projetos de leis e emendas constitucionais. Tratam de redefinição de crimes, aumento de penas, nova classificação das facções e assim por diante. Não são discussões inúteis, mas a população se preocupa com coisas bem mais simples.

O Datafolha obteve uma boa amostra em pesquisa feita com moradores do estado de São Paulo, divulgada na semana passada. O instituto perguntou: qual o maior problema de segurança pública? Resposta majoritária: a falta de policiamento efetivo nas ruas. Assim responderam 20% dos paulistas.

A análise de outras respostas mostra que a demanda por mais policiamento é, de longe, a principal: 11% dos entrevistados disseram que se preocupam mais com os assaltos nas ruas e no trânsito. Outros 4% consideram que o maior problema está no despreparo da polícia e, pois, na má qualidade do serviço prestado. Para 3%, faltam investimentos no aparelho de segurança e não se valoriza o policial. E 2% dos paulistas responderam simplesmente: falta polícia. Tudo somado, chegamos a uma expressiva maioria de 40% que querem a polícia mais eficiente e presente nas ruas.

A preocupação tem um ligeiro viés político. Tanto os eleitores do governador Tarcísio de Freitas quanto os de Fernando Haddad colocam a falta de polícia nas ruas como principal problema. Mas, ao contrário do que diria muita gente, os eleitores do petista são os mais preocupados: 25%, ante 19% dos que optam pelo governador. É interessante. Na pauta política, a proposta de colocar mais policiamento ostensivo aparece associada à direita. Mas são os eleitores da esquerda, pelo menos em São Paulo, que mais se queixam da falta de polícia.

A denúncia dos excessos da polícia é um tema associado à esquerda. Mas não dá voto. Apenas 2% dos entrevistados pelo Datafolha colocaram a violência policial como principal problema de segurança. Tudo considerado, a pesquisa confirma o que muitos especialistas sustentam. Segurança pública exige mais policiamento.

A resposta é simples, mas cara e de difícil implementação. Isso porque não basta contratar mais policiais e distribuí-los pelas cidades. É preciso treinar o pessoal, pagar bons salários e oferecer equipamentos, desde armas até material de investigação de crimes como tráfico de drogas.

Na pesquisa, 11% dos entrevistados colocaram o tráfico como maior problema de segurança. E apenas 6% citaram as facções. Compreende-se. No dia a dia, as pessoas querem sair às ruas sem medo de assaltos. Querem circular falando ao celular, usando seus relógios e alianças de casamento. Para isso, querem ter a segurança de que há policiais por perto. E preparados.

O crime organizado praticado pelas facções é um problema grave para a sociedade. O combate também exige mais policiamento — mas de organização complexa. É preciso articular as atividades de segurança nos três níveis — federal, estadual e municipal.

E aqui caímos num debate rasteiro. À direita, se pede uma polícia “dura”, capaz de executar bandidos e suspeitos. À esquerda, prevalece a desconfiança em relação à polícia, combinada à tese de que a criminalidade é uma questão social, decorrente da desigualdade. Daí resultam políticas igualmente ineficientes. Ou uma polícia violenta ou falta de polícia. Em qualquer caso, prevalece entre os cidadãos a sensação de insegurança. Não se confia na polícia. Muitos a temem.

As respostas políticas têm fracassado. A qualquer evento mais grave, logo aparecem propostas para mudar a legislação de modo a aumentar a pena para determinados crimes. Na pesquisa, apenas 6% dos entrevistados disseram que o maior problema de segurança está na legislação. De algum modo, os cidadãos sabem que não adianta ter uma lei rigorosa se não há polícia eficiente para prevenir e capturar os criminosos. Falta também um Judiciário capaz de processar e julgar em tempo razoável.

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domingo, 12 de julho de 2026

ESTADISTAS E GOVERNANTES DE TURNO

Pedro S. Malan, O Estado de S. Paulo

Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis

“Como alguém se torna o que é” foi o subtítulo do livro de Nietzsche, Ecce Homo (1889 e publicado em 1908). Caberia perguntar como um país se torna o que é, como passo indispensável para vislumbrar seus futuros possíveis ou desejáveis. Afinal, como afirmou Eduardo Giannetti, “na vida das nações, não menos que na dos indivíduos, os primeiros momentos imprimem ao que está nascendo traços de teimosa permanência”.

Os norte-americanos comemoraram, poucos dias atrás, os 250 anos de sua Declaração de Independência. Historiadores não deixaram de notar que a Declaração de 1776 não deve ser confundida com a ratificação da Constituição, que só veio a acontecer 13 anos depois, em 1789. Simon Schama escreveu artigo memorável sobre o tema, publicado em caderno especial do Financial Times (FT), em que explora a relação entre a declaração e a Constituição com foco nas visões dos founding fathers, cujos compromissos, conflitos e contradições ainda hoje são relevantes para entender não só como os EUA se tornaram o que são hoje, como também o que pode vir a ser seu futuro.

Na mesma edição do FT, o historiador Francis Fukuyama chama atenção para duas extraordinárias proposições da Declaração da Independência. “Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas: que todos os homens são criados iguais, que são dotados pelo seu Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade”. E “os governos derivam os seus justos poderes do consentimento dos governados”.

Fukuyama nota que a Constituição de 1789 não menciona nem igualdade nem democracia, mas prevê uma ampla separação de poderes que impediria um Estado controlador com autoridade tirânica, e um complexo arranjo federalista que conferiu aos 13 Estados iniciais importantes poderes – aptos a permitir a preservação da escravidão nos Estados do sul por mais de oito décadas, até a guerra civil dos anos 1860. Foi um arranjo importante para que o país viesse a “se tornar o que é”, como foram as extraordinárias expansões territoriais para o oeste (até o Pacífico), para o sul até a definição da fronteira atual com o México, para o norte com o Canadá e com a compra do Alasca aos russos em 1867.

O Brasil teve uma espécie de Constituição outorgada, o “Regimento de Tomé de Souza” (1548), na qual o rei Dom João III definia as atribuições do governador-geral do Brasil. Um de seus dispositivos remete às origens, não apenas do patrimonialismo brasileiro, como talvez também do nosso truncado e peculiar tipo de “federalismo” futuro. “Em cada uma das capitanias, praticareis, tanto com o capitão dela, com o provedor-mor de minha fazenda e alguns homens principais da terra, a maneira que se terá na governança e segurança dela”.

Séculos depois, em 2004, um arguto observador da história brasileira assim sintetizou uma marca do passado que veio assumindo “teimosa permanência”, relevância e atualidade entre nós. “Da Colônia à República, é com o governo que quase sempre foram feitos os melhores negócios. Não é de hoje que boa parte da elite vem sendo formada na crença de que o segredo da prosperidade é estabelecer sólidas relações com o Estado. Vender para o Estado, comprar do Estado, ser financiado pelo Estado, apropriar-se de patrimônio do Estado, receber doações do Estado, transferir passivos para o Estado, repassar riscos para o Estado e conseguir favores do Estado”. (Balcão de negócios, Rogério Werneck, Estadão, 07/05/2004).

O texto de Werneck ajuda a entender como o Brasil se tornou o que é, o que inclui fenômenos como: mensalão, petrolão, Lava Jato, o extraordinário desenvolvimento dos tentáculos do narcotráfico para muito além do mundo das drogas. Para não falar do contubérnio da “Vorcarosfera” e suas redes de tenebrosas transações milionárias. Em linguagem nietzschiana, nos tornamos o que somos. Como vislumbrar saídas?

Elas sempre existem. Mas sua viabilidade pressupõe a existência, na sociedade e na política, de pessoas com espírito cívico, postura, compostura, conhecimento da história do País, da região e do mundo. Com visão de longo prazo, e não apenas de um governo da hora, preocupado com as próximas eleições.

Isso se aplica ao Brasil como a qualquer país que pretenda ter protagonismo na cena global. Mas nenhum país consegue ser relevante globalmente se não for considerado como tal em seu tabuleiro regional.

O saudoso Marcos Azambuja ensinou: “Há muito tempo nos atribuímos a condição de global player, ou seja, um país que tem fichas e interesses em todas as mesas. Por anunciar essa pretensão, quando primeiro a formulamos, estávamos sendo fiéis àquele otimismo profético que é parte da retórica brasileira e ingrediente essencial de nossas sempre adiadas, mas nunca abandonadas esperanças”. Para que essas esperanças pudessem um dia tornar-se realidade, Azambuja sempre insistiu que “o Brasil precisaria oferecer garantias de que seu comportamento seria sempre, como norma, responsável e construtivo”. Observação que se aplica a qualquer país de expressão econômica e geopolítica. Inclusive, e, especialmente, nos dias que correm, aos EUA e àquilo que essa grande nação está se tornando, sob a presidência de Donald Trump.

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A DEMOCRACIA OLIGÁRQUICA

Elio Gaspari, O Globo

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, livro de Joaquim Falcão expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam

Terminada a Copa, virá a campanha eleitoral, e o professor Joaquim Falcão mandou para as livrarias um grande livrinho (254 páginas). Chama-se “A oligarquia dos Poderes e a crise da democracia”.

Bem escrito, bem-humorado e entristecedor, expõe as mazelas do atual regime brasileiro, capturado por uma oligarquia dos três Poderes que se alimentam, blindam e preservam. O Brasil teve 3.866 Propostas de Emendas à Constituição, 819 estão em tramitação e 136 foram aprovadas. Afinal, “o Brasil não gosta da sua Constituição”.

Falcão está de bem com a vida, pernambucano de velhas raízes, parece-se mesmo com os sábios viscondes do Império. Ele expõe as mazelas em parágrafos curtos, dissecando cada poder oligárquico, começando pelo Judiciário, com seus humores e parentelas.

Fala Falcão: “Existe um mal-estar social que varia em intensidade e qualidade. Às vezes se transforma em violência social, rural e urbana. Insoluções da política estatal produzem violência que o Estado Democrático de Direito não consegue conter. Nem justificar. Nem esclarecer. Abrem espaço, por exemplo, para 120 mortos de uma só vez no Rio de Janeiro, em outubro de 2025. Tudo com aparência de que foi ato estatal legal e democrático”. É desse caldo que deriva a força do crime.

Desde 1950 foram apresentadas 129 denúncias contra ministros do Supremo Tribunal, todas arquivadas. Enquanto isso, vários ministros tinham e têm parentes advogando nos tribunais superiores. Do outro lado do balcão, mais de cem réus da Lava-Jato foram resgatados por decisões do ministro Dias Toffoli. Ele teria deixado voluntariamente a relatoria do Caso Master, você acredita nisso?

Diz Falcão:

“Estaríamos na pré-oligarquia, numa monarquia judicial, onde autoridades dos três Poderes vestem-se, precipitadamente, com a toga dos imperadores, a desfilar na avenida e pedir o aplauso popular das arquibancadas para suas fantasias”.

O problema começou a adquirir suas feições atuais em 1891, quando Rui Barbosa importou o modelo americano de democracia. Não funcionou, virou parolagem. Como ensinou Raymundo Faoro: “Aqui se constroem instituições e depois inventam o povo”.

Os vícios oligárquicos estão nos três Poderes, e Falcão os põem na mesa. O deputado Chiquinho Brazão foi preso por ter sido acusado de mandar matar a vereadora Marielle Franco, mas a Câmara cassou-o porque faltou, e faltou porque preso estava. É o truque da “harmonia da discordância”.

Depois do Festival de Besteiras que assolava o país, Joaquim Falcão ensaia um Festival de Absurdos que a oligarquia patrocina.

A moda da rua

No final do ano que vem, a New York Historical fará uma inusitada exposição de fotografias, a “Nós nos vestimos para Bill”. Bill foi William Cunningham (1929-2016). Ele entendia de moda e de fotografia. Num mundo em que modelos e fotógrafos circulavam em salões do andar de cima, ele vestiu uma jaqueta azul, subiu numa bicicleta com uma Nikon e passou a publicar uma coluna no New York Times, cujo título dizia tudo: “Na rua”.

Cunningham tornou-se um marco da cidade. Fotografava estilos, elegâncias e tendências enquanto caminhavam, esperavam um táxi ou esperavam que o sinal abrisse. Um dia fotografou a atriz Greta Garbo sem perceber quem era. Podiam ser pobres, ricas, jovens ou velhas.

Nos anos 60, Cunningham publicou a fotografia de uma anônima morena esguia caminhando numa rua da cidade. Era a brasileira Carmen Mayrink Veiga, figura cativa nas listas das dez mais elegantes de Pindorama.

Nada tinha de paparazzo. Entre suas amigas esteve Jacqueline Kennedy. Em 1963, ela mandou-lhe um Balenciaga vermelho e ele tingiu de preto. Ela usou no funeral do marido.

Brasil-EUA

Com as relações do Brasil com os Estados Unidos atravessando uma turbulência medíocre, com personagens de segunda, chega a ser um bálsamo ir ao livro “A Monarquia e a República: aspectos das relações entre Brasil e Estados Unidos durante o Império”, do diplomata Marcelo Rafaelli. Foi editado pela Fundação Alexandre de Gusmão, cuja livraria eletrônica oferece tesouros gratuitos.

Rafaelli consultou quatro arquivos e bibliotecas brasileiras, dois americanos e mais dois ingleses. Foram milhares de despachos que retratam diplomatas profissionais defendendo os interesses de seus país, explicando e até mesmo enrolando-se (Dois ministros americanos mataram-se).

Tempos curiosos. Os Estados Unidos combatiam o contrabando de negros e vendiam barcos aos traficantes. O Brasil declarava-se neutro diante da Guerra da Secessão (1861-1965), mas dava boa vida aos rebeldes. Em 1864, um navio da União sequestrou um vapor rebelde na baía de Salvador (Como registrou o ministro americano James Webb em 1861 “os grandes proprietários de escravos que governam o país, cujas simpatias estão todas com nossos rebeldes”).

Em 1826, os americanos já tinham um olho gordo na Amazônia, mas D. Pedro II só abriu o rio à navegação 40 anos depois, num hábil exercício de enrolação na defesa da soberania nacional.

Os americanos tiveram no Rio muitos diplomatas encrenqueiros. O primeiro, Condy Raguet, já em 1826. O mais virulento foi Henry Wise, que chegou em 1844 e foi mandado embora por D. Pedro. Na Guerra Civil, ele chegou a general das tropas do Sul e perdeu suas terras.

Wise prenunciava os Estados Unidos do século XXI e em 1846 escreveu:

“A verdade, repito, é que este povo precisa de uma lição, e, se necessário, uma lição severa, para fazê-los respeitar os direitos e a liberdade pessoal dos estrangeiros residentes neste país.

Eles estão completamente mimados pela indulgência até agora (recebida), e em particular por aquela do Governo britânico.

(...) Numa palavra, deve-se fazer este povo respeitar-nos. Eles são ignorantes, insolentes e possuidores de um falso senso de dignidade”.

A percepção dos diplomatas americanos deixou a desejar. Em 1826, Raguet duvidava de nova nação, em 1889, o representante americano achava que, enquanto D. Pedro vivesse, o regime não sofreria sobressaltos, e em 1930, depois da eleição de Júlio Prestes, o embaixador tirou férias.

Marcelo Rafaelli concluiu com uma afirmação que vale para o Itamaraty, mas caducou para a Casa Branca e para uma banda teatral da política brasileira:

“A única monarquia duradoura do continente americano e aquela que se tornara uma das duas mais poderosas, ricas e influentes repúblicas do mundo (a outra sendo a França) tinham mantido, durante 65 anos, relações que — excetuados uns poucos casos de desentendimento, devidos mais a problemas de personalidade do que a divergências de fundo — foram marcados por cordialidade e mútuo respeito”.

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