quinta-feira, 30 de abril de 2026

REJEIÇÃO DE MESSIAS É VITÓRIA DA BAIXA POLÍTICA

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Davi marcou a sabatina de indicado de Lula para 'matar'

Presidente do Senado esperava acordo para indicar Rodrigo Pacheco ao STF

Festa na oposição bolsonarista e frustração na base governista. A derrota histórica que o presidente do SenadoDavi Alcolumbre, impôs ao presidente Lula é um divisor de águas.

Davi acreditava que tinha um acordo de bastidores com Lula para indicar o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco para o Supremo Tribunal Federal após a indicação e aprovação do ex-ministro da Justiça Flávio Dino —hoje, o caçador de emendas parlamentares.

Davi nunca mudou de posição. Sempre foi contra Messias e avisou que tinha marcado a sabatina para "matar".

Convenceu os colegas de Senado de que essa era uma resposta altiva da Casa ao STF, que está em baixa na opinião pública e em uma crise com ministros envolvidos no escândalo do Master. Davi também tem ligações perigosas com o banco de Daniel Vorcaro e está incomodado com a ação da Polícia Federal no seu estado, o Amapá.

O governo que se virasse para conseguir os votos.

O presidente do Senado exortou a oposição: "Não me peçam para votar impeachment se perderem essa oportunidade." Em termos de resposta ao STF, rejeitar o nome de ministro é quase isso.

Dois fatores deixaram o senador indignado: a falta de sensibilidade para com Pacheco e o fato de Lula ter mandado a indicação sem combinar a data com ele.

Davi queria que Lula mandasse a indicação depois das eleições. Lula ignorou, assim como ignorou a sugestão do nome do Pacheco.

Do ponto de vista de Lula e do governo, é um revés forte em ano eleitoral e com uma pauta de projetos a ser aprovada no Congresso.

Mas é acima de tudo um monumento à baixa política, com o presidente do Senado querendo mostrar quem manda. Não tem nada a ver com valores, com orientações para ocupar uma cadeira na Suprema Corte.

Tem também oportunismo político dos governantes, com apreço pelo modelo de indicação de amigos para o Supremo. A única condição que deveria orientar a escolha seria optar por um jurista de boa qualidade. Virou agora ser alguém de confiança extrema do presidente de plantão.

A oposição sozinha não teria os votos para derrubar Messias.

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PODERÁ O STF TER UM MINISTRO ATEU ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Messias foi crucificado por briga entre o Planalto e o Senado

Suas afirmações sobre religião e STF parecem contraditórias; e são

Jorge Messias é um jurista competente. Foi um erro o Senado tê-lo rejeitado, numa derrota que tem o peso histórico de 132 anos.

Messias foi crucificado na disputa entre o presidente do Senado e o presidente da República, como uma demonstração de força de Alcolumbre de que, um, a eleição já começou e ela não está ganha e, dois, o impeachment dos ministros do STF –que requer apoio de 54 senadores– não está fora de questão.

A derrota de Messias é menos sobre Messias e mais sobre as eleições de 2026 e o ego de Alcolumbre. Se os senadores pensassem que Lula teria enorme vantagem nas eleições (o que não tem), e se Alcolunbre pensasse que bolsonaristas não seriam a principal força política do Senado em 2027 (devem ser), não valeria o desgaste. Acontece que nem a conduta de bom samaritano de Messias —colocando-se como terrivelmente evangélico e com dor de ofício pelas prisões do 8 de Janeiro– o salvou.

Falando em Messias, a sabatina trouxe à tona a questão de qual o papel da religião dos ministros do STF? Antes de ser rejeitado pelo plenário do Senado, Messias afirmou que "é possível interpretar a Constituição ‘com fé’, e não ‘pela fé’", que possui "respeito absoluto à laicidade", que "os princípios cristãos" o "acompanham" e que "há 40 anos" se vê como um "servo de Deus".

Se as afirmações de Messias sobre religião e STF parecem contraditórias entre si, é porque o são, intencionalmente: o candidato não almejou em ser coerente, mas, sim, em ser palatável a todos. Falhou.

Três reivindicações aqui se misturam. Primeiro, a demanda por representatividade: evangélicos, como cidadãos, podem ocupar postos de poder e já o fazem. Segundo, a demanda por liberdade de religião: evangélicos possuem o direito a exercer sua fé. Terceiro, a demanda por domínio: religiosos não podem usar de seu cargo público para impor princípios de sua fé àqueles que não compartilham de sua crença.

Poderá o STF ter um ministro ateu? Se essa pergunta soa tão absurda no dia de hoje, é porque não se sabe ainda até onde vai a extrema direita teocrática para impor o seu projeto.

Hoje soubemos que está disposta a jogar um século de história pela janela.

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NADA SERÁ COMO ANTES PARA LULA DEPOIS DA REJEIÇÃO DE MESSIAS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O resultado abala a liturgia da Presidência e tem impacto na autoridade de Lula. No presidencialismo, nomear ministros de cortes superiores é exercício de poder

A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado marca um ponto de inflexão na política brasileira e reposiciona a relação entre os Poderes. Mais do que um fracasso do indicado, é uma derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O resultado de 42 votos contrários, 34 favoráveis e uma abstenção revelou que o governo perdeu o controle de sua base no Senado. E cometeu graves erros de avaliação e condução das negociações, apesar das advertências do líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), aliado de Alcolumbre na política do Amapá.

A indicação ao STF sempre foi tratada como prerrogativa presidencial de alto prestígio, cuja aprovação dependia mais de rituais políticos do que de disputas abertas. Ao romper essa tradição, o Senado deixou de ser uma instância homologatória e assumiu protagonismo político explícito, com capacidade de veto efetivo sobre o Executivo. Desde quando Lula rejeitou o nome do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSB-MG), para o cargo, desconsiderando um pedido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), e indicou Messias, o advogado-geral da União, as relações do Palácio do Planalto com o Senado ficaram estremecidas.

Lula retardou ao máximo a indicação formal de Messias por causa disso, mas resolveu fazê-lo mesmo sem um acordo com Alcolumbre, por pressentir o perigo com a aproximação do processo eleitoral. Pagou para ver e perdeu a aposta. O dado mais relevante, porém, não está apenas no resultado, mas na engenharia política que o produziu: a convergência entre Alcolumbre e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sinaliza a formação de um novo eixo de poder dentro do Congresso.

Alcolumbre, que até então operava como mediador e, em muitos momentos, como anteparo institucional contra iniciativas mais agressivas da oposição, deslocou-se para uma posição de maior autonomia — ou mesmo de alinhamento tático com forças oposicionistas. Esse movimento rompe uma lógica de contenção que vinha permitindo ao governo administrar crises sem sofrer derrotas frontais. A partir de agora, cada votação relevante exigirá negociação real, concessões concretas e maior capacidade de articulação política.

O governo perde não apenas votos, mas previsibilidade. E, em política, a perda de previsibilidade costuma ser mais grave do que a perda episódica de maioria. Há também implicações diretas para o próprio STF. A rejeição de um indicado presidencial reabre o debate sobre os critérios de escolha e sobre o grau de politização da Corte. Nos últimos anos, consolidou-se a percepção de que o tribunal passou a desempenhar papel central na arbitragem de conflitos políticos, o que elevou o custo das indicações.

Ao barrar Messias, o Senado envia um recado ao Executivo, de que não aceitará indicações automáticas, e ao Supremo, de que sua composição passou a ser objeto de disputa política aberta. Lula tenta assimilar a derrota como um revés parlamentar e não uma ruptura definitiva. A seus auxiliares, disse que tinha o direito de indicar Messias e o Senado, de rejeitar.

Liturgia do cargo

Mas não é essa a leitura da oposição e dos aliados do Centrão que traíram o governo. Do ponto de vista histórico, o episódio é raro. Desde o início da República, ainda sob Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, não se registrava uma rejeição dessa natureza com impacto político comparável. Isso confere à derrota de Lula um caráter simbólico poderoso: ela representa não apenas um revés e quebra de um padrão institucional que atravessou diferentes regimes e conjunturas, mas fragilidade do projeto de reeleição, ou seja, perda de expectativa de poder.

Politicamente, o impacto é profundo. Lula construiu seu terceiro mandato com base em uma estratégia de recomposição de alianças amplas com o Centrão, buscando apoio nos estados para garantir governabilidade. A derrota expõe os limites dessa estratégia. Mostra que o chamado “centrão ampliado” não opera como base orgânica, mas como um conjunto de forças voláteis, que respondem a incentivos específicos e a correlações de força momentâneas.

Além disso, a articulação que levou à rejeição fortalece a oposição liderada por Flávio Bolsonaro, que passa a demonstrar capacidade de influenciar decisões estratégicas mesmo sem maioria formal. Isso já é resultado da expectativa de poder gerada pelos reiterados empates técnicos com Lula nas pesquisas de intenção de votos. Esse dado tem implicações diretas para o cenário eleitoral de 2026, pois indica que a oposição não apenas resiste, mas consegue impor derrotas relevantes ao governo no terreno institucional. Ou seja, passou à ofensiva no Congresso.

Outro aspecto é o enfraquecimento da autoridade de Lula. O resultado da votação abala a liturgia da Presidência e tem impacto na autoridade presidencial. Em sistemas presidencialistas, a capacidade de nomear ministros de cortes superiores é um dos instrumentos mais relevantes de poder. Ao ver sua indicação rejeitada, Lula sofre um desgaste que transcende o episódio específico e atinge sua imagem de liderança política de forma irremediável neste mandato.

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DERROTA DE MESSIAS VIRA O JOGO DA ELEIÇÃO

Malu Gaspar, O Globo

Com rejeição de Messias, Alcolumbre ajuda Flávio Bolsonaro a virar o jogo contra Lula

Ofensiva contra indicado do presidente teve ajuda de ministros do STF como Alexandre de Moraes

Um dia antes de o Senado Federal derrotar a indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) mandou um recado aos senadores da oposição bolsonarista. Se perdessem a oportunidade de derrubar o indicado de Lula no plenário, que não viessem lhe pedir para colocar em pauta um dos cerca de cem pedidos de impeachment de ministros que ele mantém engavetados. No dia seguinte, o mesmo Alcolumbre, conhecido por nunca atender o celular, passou o tempo todo ao telefone falando com qualquer parlamentar que tivesse condição de ajudá-lo. Nas conversas, variações do mesmo tema — faça seu papel que farei o meu —, terminando sempre com “hoje será um dia histórico”.

Com o primeiro vaticínio confirmado, dois novos passaram a ser ouvidos em Brasília. O primeiro: o governo “acabou”. Outro: o próximo passo é o impeachment de ministros do Supremo. É difícil cravar agora com 100% de certeza se tais previsões se confirmarão.

Um teste importante ocorre já hoje, quando o Congresso avalia o veto de Lula ao projeto que abre espaço à redução de pena dos condenados pelo 8 de Janeiro, aprovado em dezembro por ampla maioria. Há pouca dúvida de que o veto de Lula será derrubado. Isso, além de agravar a crise no governo, também fará aumentar a cotação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas bolsas de apostas para a campanha presidencial.

Se há algo mais que comprovado pela experiência, é que, assim como as piranhas da Amazônia, os políticos partem para o ataque quando sentem o cheiro de sangue. Outra máxima é que a perspectiva de poder atrai, e isso explica o movimento de alas do Centrão, sem as quais o nome de Messias nunca teria sido rejeitado no plenário.

Não é segredo para ninguém que Alcolumbre se lançou na disputa com o Palácio do Planalto depois que o presidente da República decidiu não indicar Rodrigo Pacheco (PSB-MG) à vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, ainda no ano passado. De lá para cá, ele nunca deixou de dizer que se sentiu traído pelo governo. Nos últimos dias, repetiu algumas vezes a interlocutores: “O que fizeram comigo não faço com ninguém”. E se mostrava decidido a mostrar a Lula quem manda de verdade.

Mas, pragmático, muito provavelmente teria cedido se achasse que teria mais a lucrar que a perder. Foi o que fez nestes três anos de governo, sempre lucrando. Se não fez agora, é porque chegou à conclusão de que o jogo eleitoral está virando e decidiu pular do barco antes que ele afundasse.

Daí o discurso propagado nos bastidores não só pelo próprio Alcolumbre, mas também pelos líderes da oposição, segundo o qual a derrota de Messias era o “impeachment possível”. O mesmo diagnóstico foi feito por ministros do governo que estavam no plenário na noite de ontem, ao afirmar que o candidato de Lula era julgado por crimes que não cometeu.

É aí que entra um outro xadrez: o do próprio STF. Por mais paradoxal que possa parecer, a vitória de Messias também não interessava ao maior aliado de Alcolumbre no Tribunal, Alexandre de Moraes. Para este, a nomeação de Messias poderia desequilibrar o jogo de forças no Supremo e dar ainda mais poder a André Mendonça, o relator do caso Master que se tornou seu principal antagonista na Corte.

Moraes sabe que tem muito a perder se as investigações sobre os esquemas de Daniel Vorcaro e o contrato de R$ 130 milhões de sua mulher com o Banco Master continuarem avançando. E não se furtou a mandar, ele mesmo, recados a senadores com processos ou inquéritos pendurados no STF, para que pensassem em seus próprios interesses ao apertar os botões no plenário.

Moraes obviamente não ignora que a derrota de Messias assanha a oposição a trabalhar por seu impeachment. Mas conta com a blindagem do amigo Alcolumbre, igualmente enrolado com o Master, entre outras coisas em razão do investimento de R$ 400 milhões que o fundo de pensão do Amapá, seu estado, fez em papéis do banco. Alcolumbre precisa de Moraes forte, por isso as chances de algum pedido de impeachment de ministro ser submetido ao plenário é menor que zero.

O que interessa para eles é o fato de a derrota de Messias lhes dar tempo para planejar os próximos passos. Certamente já planejaram como faturar com a grande ajuda que acabam de dar a Flávio ao humilhar Lula no plenário, de preferência encontrando uma forma de enterrar o caso Master no Supremo nos próximos meses. O problema em casos assim é sempre o mesmo: quem instala o caos nem sempre é capaz de controlá-lo. O jogo pode ter virado agora, mas ainda está muito longe de acabar.

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DUAS TRANSPARÊNCIAS

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

Autoridades que validam penduricalhos, ocultam negociatas e depois saem por aí fazendo pose de sacerdotes da transparência estão nos enganando

A imprensa cumpre seu papel quando dá transparência a paredes que os poderosos gostariam de manter opacas. Manchete de anteontem aqui no Estadão: Fazenda de SP pagou, em 1 mês, R$ 111 milhões em penduricalhos (28/4, A8). A reportagem de Felipe de Paula e Fausto Macedo abriu a planilha para o público, ou seja, tornou transparentes os tapumes que a escondiam. Um auditor sozinho recebeu R$ 513 mil. Líquidos. Num único mês. E este é apenas um dos muitos absurdos que se tornaram visíveis.

Também anteontem, um dos editoriais do jornal, Inação ante os supersalários (A3), deu visibilidade a outro fator deprimente: “Congresso mantém parado desde 2023 projeto que limita abusos no serviço público, enquanto avança com rapidez em propostas que ampliam benefícios e revela resistência a enfrentar privilégios”. As informações, detalhadas e precisas, foram apuradas pela reportagem deste matutino. De novo, ponto para o jornalismo e ponto para a transparência.

Fora isso, é bom tomar cuidado com a palavra. Há malversações de sentido em torno dela. Basta ver que os mesmos agentes que viabilizam os penduricalhos também se declaram campeões da transparência. Não podem ver um microfone na frente que já começam a escandir o substantivo feminino mais amado da temporada. Sim, é uma contradição. A transparência aberta pelo bom jornalismo os constrange, mas eles não passam recibo. Quando pegos no contrapé, emudecem no casulo de suas sacrossantas privacidades. Nenhuma vírgula sobre dinheiros vultosos que acumulam e regalias de que desfrutam. Logo em seguida, recompostos, desfiam sermões sem fim à causa sonora, pomposa e melíflua da transparência. Nessas horas, parece que alguém estatizou o cinismo. Repito: é bom tomar cuidado.

Na raiz dessa contradição mora um embaralhamento semântico. Há duas acepções de transparência se enroscando e se confundindo. De um lado, existe o significado republicano da palavra. Aí, a expressão “dar transparência” significa “dar publicidade” e “dar publicidade” quer dizer abrir os gabinetes do Estado para que a sociedade possa ver melhor o que se passa lá dentro. As divisórias, os biombos e os muros da máquina pública não podem ocultar o destino dos recursos públicos. Ao contrário, devem ser transparentes. Foi a isso que Rui Barbosa se referiu quando escreveu, lá se vai um século, que “aqueles que se consagram à vida pública, até à sua vida particular deram paredes de vidro”.

O sentido republicano da palavra é o que vale tanto para a prática do jornalismo quanto para o conceito de democracia. Quanto mais forte é o regime democrático, mais os palácios dos Poderes da República têm “paredes de vidro” – e mais a intimidade dos cidadãos é respeitada. Quando o totalitarismo leva a melhor, o Estado fica opaco e a intimidade dos cidadãos, exposta.

(Na década de 1980, Mikhail Gorbachev criou a Glasnost para varrer o totalitarismo da União Soviética e desativar o Estado opaco do stalinismo, que violava a privacidade de todo mundo. Deu errado, você sabe. Gorbachev caiu e a carcaça stalinista ficou. Putin que o diga. Em tempo: Glasnost, em russo, quer dizer transparência.)

Passo agora à segunda acepção da palavra. Eu a chamo de acepção demagógica.

Agora, a transparência deixa de ser um meio racional para garantir que os assuntos públicos sejam expostos ao público na justa medida e se converte em virtude absoluta. Pessoas, empresas, igrejas, times de futebol, partidos políticos ou tribunais só vão para o céu se pregarem a transparência com fervor. O que vale é a propaganda. O que vale é o melodrama. Só é bom quem não esconde nada, nem de si, nem de ninguém.

Por óbvio, estamos diante de uma empulhação. Ninguém é transparente por inteiro. Não há como ser transparente por inteiro. Nelson Rodrigues tinha razão: “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”. O convívio social exige alguma opacidade exterior, assim como a saúde psíquica exige um pouco de opacidade interior.

A transparência demagógica ignora o óbvio. Vive de montar circos e de encenar atrações vazias e pirotécnicas. Ser supostamente “transparente” vale mais do que ser íntegro, respeitoso ou decente. Trump e Bolsonaro se beneficiam dessa mentalidade: pronunciam atrocidades e são aplaudidos porque são “sinceros” e “autênticos”. A língua solta, chula e estúpida vira um trunfo moral.

A propósito, acaba de sair um livro que é uma aula preciosa sobre a matéria: Contra a transparência, do jornalista Hamilton dos Santos (Editora Iluminuras). Erudito, elegante e didático, o autor ensina: “Fazemo-nos sujeitos no mundo escondendo o que há por trás da máscara – segredo para os outros, mistério para nós mesmos. Nós existimos porque nosso rosto é opaco.” Pobre de quem não sabe disso.

As autoridades que validam penduricalhos (com rebotalhos), ocultam negociatas (com mamatas) e depois saem por aí fazendo pose de sacerdotes da transparência do Estado Democrático de Direito – a gente conhece o estilo – estão nos enganando. A transparência deles suja a democracia.

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AUTORIDADES A BORDO DO BONDE DO TRIGRINHO É UM ESCÁRNIO

Julia Duailibi, O Globo

Ministros do STF, deputados e senadores continuam aceitando caronas em jatinhos de empresários

Dois deputados federais, um senador da República e o presidente da Câmara dos Deputados pegaram carona no jatinho de um empresário do ramo das bets em meio a uma CPI que investigava justamente esse mesmo empresário do ramo das bets. Enquanto colegas trabalhavam em Brasília para tentar descobrir se Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, havia cometido lavagem de dinheiro, dissimulação patrimonial ou evasão de divisas, os quatro parlamentares acharam que tudo bem embarcar no avião dele, que tinha como destino o Caribe.

A viagem aconteceu em abril de 2025, quando Fernandin OIG já havia prestado depoimento aos senadores e estava na mira do Congresso — ou de parte dele — por suspeita de usar marketing e serviços digitais para encobrir recursos vindos de jogos de azar não regulados. Isso, por si só, já seria um escândalo para qualquer homem público. Mas tornou-se um escárnio por se tratar daqueles que estão entre os mais poderosos do Congresso: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).

Na CPI, o influenciador foi questionado sobre seu envolvimento, especificamente, com o jogo do Tigrinho. Negou qualquer vinculação, mas as investigações apontaram “movimentações atípicas e possíveis práticas ilícitas”. A análise bancária mostrou aporte de R$ 50 milhões num banco, mas o empresário do jatinho disse possuir apenas um imóvel de R$ 110 mil. O relatório final disse que havia “elementos suficientes” para apontar dissimulação de recursos do empresário, suspeitos de vir do jogo ilegal. O relatório final, da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), propôs o indiciamento, mas o documento não foi aprovado pela maioria dos senadores da comissão.

Os deputados e senadores que estavam no tour, no entanto, parecem não ter se preocupado com os indícios levantados pelos colegas. A viagem só se tornou pública porque cinco bagagens que estavam no avião de Fernandin furaram a fiscalização e não passaram pelo raio-X na chegada ao Brasil. Entraram no país sabe-se lá com o que dentro. Imagens do inquérito aberto pela Polícia Federal, sob suspeita de descaminho e prevaricação de um auditor da Receita, mostram que o piloto teve autorização para passar mochilas, caixas e sacolas por fora do raio-X.

O que temos de concreto até agora é a carona recebida pelos parlamentares, comum no jogo político. Escândalo após escândalo, ministros do Supremo, deputados e senadores continuam aceitando caronas em jatinhos de empresários, que prestam tais gentilezas não pela cor dos olhos das autoridades, mas pelo interesse que seus negócios têm com elas. A literatura política está recheada de exemplos. Dois recentes: Dias Toffoli indo a jogo de futebol com advogado do caso Master e Nikolas Ferreira em campanha com jatinho de Vorcaro.

Se uma funcionária da Receita não tivesse registrado que bagagens do voo não haviam sido fiscalizadas, a carona seria desconhecida do público. Nesse sentido, os quatro não tiveram sorte. Talvez a história mude no STF, que pode resolver, em ano de eleição, arquivar a investigação.

 

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O AVISO DA DERROTA DE MESSIAS

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

STF vê derrota de Messias no Senado como aviso sobre impeachment de ministros

Rejeição ao nome do advogado-geral representa revés não apenas à ala do Supremo que apoiou a candidatura, mas ao tribunal como instituição

A rejeição histórica do Senado ao nome de Jorge Messias foi interpretada de duas formas por integrantes do Supremo Tribunal Federal. A primeira é a desmoralização do governo Lula perante o Congresso. A segunda é que o Senado enviou à Corte um recado: se hoje a Casa tem maioria para descartar um candidato a ministro, amanhã terá poder suficiente para afastar quem já compõe o tribunal.

Na avaliação de um ministro que falou sob condição de anonimato, a votação da indicação de Messias foi uma demonstração de força do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da direita – que, juntos, somam 42 votos. Outro ministro viu a derrota como um alerta de que, em 2027, quando a bancada da direita tende a ser maior no Congresso, integrantes do tribunal correm sério risco de sofrerem impeachment.

Um terceiro ministro acredita que a representação do senador Alessandro Viei r a (MDB-SE) à PGR contra o ministro Gilmar Mendes contribuiu para o resultado da votação. Na visão desse ministro, prevaleceu o espírito de corpo no Senado em reação ao arquivamento do pedido de investigação a Gilmar.

O mesmo ministro contou que conversou ontem com senadores e não havia indicação de que Messias seria rejeitado, embora houvesse uma concordância geral no sentido de que a aprovação seria difícil. No dia anterior, ministros estavam preocupados com a situação do candidato.

O primeiro a se manifestar publicamente sobre a rejeição a Messias foi André Mendonça, o principal cabo eleitoral do advogado-geral da União para a vaga no STF. No X, ele escreveu que respeitava a decisão do Senado, mas ponderou: “O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo”.

O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que o tribunal “reafirma seu respeito à prerrogativa constitucional do Senado” e reconhece “que a vida republicana se fortalece quando divergências são tratadas com elevação, urbanidade e responsabilidade pública”.

Flávio Dino e Alexandre de Moraes, que estão no setor mais articulado politicamente do STF, não se mexeram para ajudar Messias. Por outro lado, Mendonça, Nunes Marques, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin atuaram perante os senadores para abrir caminho para o candidato. 

O grupo de apoiadores não teria conseguido furar o principal entrave ao advogado-geral: Alcolumbre. Agora, a derrota de Messias não será amargada apenas pelo governo, mas pelo STF como um todo, e não só pela ala que vestiu a camisa do advogado-geral na campanha.

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A FORÇA DE ALCOLUMBRE E DO SENTIMENTO ANTI-STF

Ricardo Corrêa *, O Estado de S. Paulo

Lula e Messias são lembrados, da pior forma, da força de Alcolumbre e da insatisfação com STF atual

Falta de empenho do presidente do Senado e desejo de traçar uma linha de autoridade sobre quem entra na Corte liquidaram as chances do advogado-geral da União

Lula insistiu, bateu o pé, manteve o nome de Jorge Messias, mesmo diante de todos os alertas que recebeu e da pressão que sofria para ir por outro caminho. E perdeu. Perdeu sendo relembrado, da pior forma, da força do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. E da insatisfação do Congresso atual com o Supremo Tribunal Federal (STF).

Lula nunca teve base confortável, mas conseguia se virar no Senado, sempre com o auxílio de Alcolumbre. Sem ele, percebeu que não tem nem maioria simples dos parlamentares na Casa. Se, depois de quatro meses empurrando a indicação com a barriga, o presidente do Senado aceitou pautar a indicação do petista, na melhor das hipóteses, não moveu uma palha sequer para ajudar. Lavou as mãos para, agora, poder dizer: “Na próxima, me ouça”.

Alcolumbre preferia Rodrigo Pacheco, indicado por Lula como pré-candidato ao governo de Minas, a despeito de sua notória preferência por uma vaga ao STF. Quem conhece Lula aposta que isso não mudará. Outro nome será proposto, que não Pacheco. Mas a pressão no Parlamento vai aumentar e os custos de uma segunda derrota podem ser ainda mais pesados para o Planalto.

Mesmo sem Alcolumbre, porém, a aprovação de Messias, em outras circunstâncias, era possível. André Mendonça, da mesma forma, não contou com o apoio de Alcolumbre e, na ocasião, Bolsonaro sofria do mesmo mal que Lula. Mas foi aprovado, mesmo diante de divisões no plenário.

O que mudou de lá para cá? O principal é a insatisfação do Congresso com o STF. As posturas de Gilmar Mendes, Flávio Dino, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, sobretudo, avançando sobre o Parlamento, galvanizaram um sentimento negativo que acabou desaguando em Messias.

LINHA TRAÇADA. Com ministros desautorizando CPIs, interpretando leis e mirando em parlamentares, o Congresso reagiu não apenas a Lula, mas também à Corte. Com impeachments de ministros travados por Alcolumbre, quis traçar uma linha para dizer que, de agora em diante, só entra na Corte quem o Parlamento verdadeiramente quiser. Sobretudo em um momento em que não apenas as prerrogativas, mas emendas e orçamento secreto, estão em debate.

Quando Lula anunciou Messias, o presidente resolveu pagar para ver ao enfrentar o desejo de Alcolumbre, com olhos em batalhas no STF. Pesou na balança de Lula a eventual discussão sobre a impositividade de emendas ao Orçamento em um possível quarto mandato. E Lula perdeu.

*Coordenador de política do Estadão em SP.

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DESASTROSA PARA LULA, DERROTA GERA DÚVIDA SOBRE CAPACIDADE DE REAÇÃO DO GOVERNO

Fábio Zanini, Folha de S. Paulo

Messias enfrentou sentimento anti-STF, calendário eleitoral e hostilidade de Alcolumbre

Ao presidente, resta agora tentar alguma medida de impacto antes da eleição, como fim da escala 6x1

A derrota por larga margem na indicação de Jorge Messias para o STF (Supremo Tribunal Federal) deixa dúvidas sobre a capacidade de reação do governo Lula e abre perspectivas sombrias para a campanha eleitoral que se avizinha.

Messias foi vítima do fato de ter sido escolhido na hora errada. Como mostrou a sabatina para lá de cortês na Comissão de Constituição e Justiça, o indicado não desperta resistências de caráter pessoal. É educado, afável e tem jogo de cintura política.

Por diversas vezes na longa sessão, buscou estabelecer relação de empatia, mesmo com os mais barulhentos opositores. Não se abalou nem com as provocações do verborrágico Magno Malta (PL-ES).

A Eduardo Girão (Novo-CE), um ultraconservador de costumes, disse que tinha respeito pela causa que ele defende, da vida desde a concepção. "Assistolia fetal é abominável", disse o sabatinado ao senador.

O indicado, no entanto, remou contra a maré –não, uma mas três simultaneamente, e a pororoca no fim o derrubou.

A mais intensa onda era a do sentimento anti-STF, que vive uma das maiores crises de sua história, certamente a pior desde a redemocratização.

Se não é possível neste momento punir Alexandre de Moraes, como querem os bolsonaristas, ou Dias Toffoli e Gilmar Mendes, como desejam inclusive setores de centro, Messias deu para o gasto.

Sem ter relação direta com o inquérito das fake news ou o caso Master, ele pagou pato, como se sua rejeição fosse uma espécie de impeachment genérico de membros da corte.

Também sofreu as consequências do calendário eleitoral. A cinco meses do primeiro turno de uma disputa apertadíssima, sua derrota virou um troféu importante para os antilulistas.

Embora obviamente não seja determinante para o resultado eleitoral em si, dá uma injeção de ânimo na oposição e aumenta exponencialmente a crise no governo, que perde credibilidade e qualquer condição de ditar a agenda política.

Se até Dilma Rousseff, uma presidente com aversão ao jogo político, conseguiu aprovar a indicação de Edson Fachin para o STF em 2015, às portas do impeachment, o que dizer de um fracasso de Lula?

A imagem que fica é de um governo paralisado, sem articulação política, com um presidente em fim de carreira.

Por fim, e ainda mais distante da alçada direta de Messias, houve o fator Davi Alcolumbre. O indicado teve o azar de pegar pela frente um presidente do Senado com uma agenda de obstrução a seu nome, para dizer o mínimo.

O fracasso tem alguns sócios, além do Executivo e do novo ministro. Fachin perdeu um aliado na luta interna para criar um manual de conduta para os membros da corte.

André Mendonça, que atuou fortemente para diminuir resistências entre conservadores, seguirá como o solitário representante terrivelmente evangélico no STF. Jamais saberemos que tipo de aliança ele poderia formar com seu irmão de fé originário da esquerda.

Quanto a Lula, sobram agora dúvidas sobre como conseguirá aprovar alguma agenda positiva antes do início da campanha, como o fim da escala 6x1 e o programa de redução do endividamento.

Pior ainda, sua biografia agora inclui ter se juntado a Floriano Peixoto como presidente que teve um indicado para o STF rejeitado pelo Senado.

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UMA NOITE DE DERROTAS GRAVES DE LULA, NA POLÍTICA E ECONOMIA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Enterro da nomeação de Messias também anima forças da direita que querem dominar o STF

Imprevidência e conversa velha na política e na economia prejudicam projeto Lula 4

atropelamento do governo no Senado foi tamanho e tão cheio de significados que o destino cinzento das taxas de juros no Brasil ficou parecendo um assunto acadêmico ou menor. Se alguém ainda se lembra, nesta quarta (29) o Banco Central diminuiu a Selic de 14,75% para 14,5%, mas deu indícios de que o gato dos cortes de juros está subindo no telhado.

Taxa de juros não é assunto acadêmico ou menor, claro, embora seja conversa muito mais tediosa. Os dois assuntos, porém, são derrotas sérias do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e sinais de mais riscos, político-institucionais e econômicos.

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), mostrou quem manda no cercado político-politiqueiro. Mostrou de modo terminal, sob Lula 3, quão pequeno era o poder de articulação e compreensão políticas do governismo. Difícil saber que coisa o presidente vai poder aprovar no Congresso se não estender o tapete da humilhação para Alcolumbre. Se tentar retaliação, como prometiam petistas na noite de quarta, talvez não consigam aprovar nem presente eleitoral de agrado dos senadores ou ouro para o Amapá.

Além dos problemas políticos lulianos, a derrota enorme da nomeação de Jorge Messias para o Supremo é sinal de que turbulências maiores virão. Está certo que a rejeição de Messias é, em primeiro lugar, uma rasteira no governo Lula; é vingança de Alcolumbre; é reação de quem tem medo de investigação da PF, de inquérito de Flávio Dino; de quem quer emendas. Mas não apenas.

Trata-se de demonstração de que é possível reunir força política suficiente para bulir com nomes do Supremo. No momento, é força bastante para fazer o adversário eleitoral passar o vexame histórico de não conseguir nomear um ministro. Mais adiante, pode ser força para conter o STF ou decapitar ministros, por bons e maus motivos, com boas ou más intenções (a maioria má).

Bolsonaristas e a direita dura ou extrema em geral fazem campanha para eleger bancada dominante no Senado. O objetivo sabido é o de ter números para votar o impeachment de ministros do STF ou de formar uma barreira contra qualquer indicação que não seja do agrado dessa turma. O sacrifício de Messias vai animar esse projeto. O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), candidato a Bolsonaro Segundo, dizia exatamente isso na noite de quarta, depois da votação que enterrou Jorge Messias.

Tal situação deve-se em parte à imprevidência e à inabilidade políticas de Lula 3. Além da desarticulação no Congresso, o governo esqueceu que havia voltado ao poder com apoio de centristas minoritários, mas com certa relevância social e política. Dar uns ministérios e cargos para gente desgarrada do centrão não resolveu tais problemas. Agora, centristas mais vocais e influentes ou esse bloco minoritário de eleitores está entre muito decepcionado e fulo com Lula. Para piorar, o governo não teve nada dizer de novo ao eleitorado.

A desconexão com a realidade, soberba, resultou em outra imprevidência. A má administração da política macroeconômica, responsabilidade de Lula, acabou por resultar em taxas de juros mais altas. A guerra vai impedir que mesmo a baixa antes prevista da Selic venha a ocorrer. Era pouca, mas se quebrou. O comunicado do Banco Central desta quarta indica que o caldo azeda. As projeções e negócios do mercado indicam taxas altas a perder de vista. Foi uma noite de derrotas para o lulismo.

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AS BASES HISTÓRICAS DO BOLSONARISMO

Fernando de la Cuadra, LATINOAMERICANO

As últimas consultas de intenção de voto para as próximas eleições presidenciais arrojaram uma leve venda para o presidente Lula -que foi à reeleição- na primeira volta. Após os estudos da empresa Nexus/BTG, o atual governador obteve pela primeira vez os 41% dos sufrágios seguidos pelo senador Flávio Bolsonaro com os 36% das preferências. Distantes deles se encontraram com os ex-governadores Romeu Zema (Partido Novo) e Ronaldo Caiado (PSD), com os 4% e os 3% das intenções de voto, respectivamente.

Em relação a uma provável segunda volta, o presidente Lula aparece com uma pequena venda - praticamente em um empate técnico - entre ele (46%) e o filho do prefeito de Jair Bolsonaro (45%), porcentagens muito semelhantes aos obtidos nas consultas realizadas em fevereiro e março.

Como ya registramos recentemente (As articulações da direita para ganhar as próximas eleições), chamamos a atenção de que o candidato do bolsonarismo obtém bons resultados, quando os meios de comunicação insistem em apoiar o que denomina como uma “Terceira Via”, com o argumento de que é urgente acabar com a polarização que durante tanto tempo ele estaria fazendo a convivência interna e a formulação de um projeto nacional que permita sair da crise que o mundo enfrenta atualmente. Os esforços para lançar um candidato de direita moderadamente se mostraram completamente frustrados com a persistência de um eleitorado que se inclina pelo radicalismo de extrema direita, a pesar do descalabro que foi o governo de Bolsonaro. Para o espanto de quem ainda se levanta e acredita na possibilidade de uma Terceira Via, o atual cenário político se apresenta até o momento como uma repetição do quadro desenhado em 2022, com um eleitorado dividido entre o lulismo e o bolsonarismo.

Para tentar entender a capacidade de recomposição do bolsonarismo, depois de seus principais representantes fortes processados ​​​​e encarcelados pela justiça brasileira, você pode recorrer às próprias bases da história sociopolítica e cultural do país que foram definidas por um exemplo estrutural que conecta a esclavitud, o movimento integralista (baixa influência nazista), as ditaduras militares e fenômenos contemporâneos de um pensamento neofascista cristalizado no bolsonarismo, com alguns períodos de interlúdios democráticos caracterizados por sua enorme fragilidade e inestabilidade.

Em todo este processo, o que foi mantido estável é a impronta autoridade do Estado, com uma democracia amenazada permanentemente por arremetidas autoritárias. Para o caso do integralismo, este movimento autocrático, conservador e cristão se inspirou fortemente em elementos do nazifascismo imperante na Europa nos últimos anos, especialmente por uma mistura ideológica representada pelo fascismo italiano, pelo nazismo alemão, pelo franquismo espanhol e pelo salazarismo português. No entanto, a presença de um forte catolicismo abordou os integralistas sobre todos os ideários de Franco e Salazar, especialmente pela liderança exercida por seu principal mentor, Plinio Salgado, um católico fervoroso.

O movimento integralista dos anos treinta parou definitivamente sepultado com a derrota do Terceiro Reich nazista em 1945. Nesse momento se incubou no Brasil uma grande esperança de avanço da democracia e das liberdades civis e políticas. No entanto, para surpresa de muitos, o movimento integralista foi reorganizado sob a caudillaje de Plinio Salgado, que a pesar de tratar de encubrir seu pasado fascista e tentar aparecer como defensores do Estado democrático de direito, nos hechos continuaram mantendo suas banderas reacionárias de um projeto retrógrado, autoritário e anticomunista.

As atividades e o pensamento integralista tiveram efeitos concretos na trajetória política nacional. O principal deles foi a geração de condições para insuflar o Golpe de Estado que foi deflagrado em 1964. É dito que, desde 1962, quando rompeu com o governo progressista de João Goulart, os integralistas contribuíram de diversas maneiras para seu derrocamento, acusando-o de comunista e traidor através de seu veículos de imprensa. O importante papel desempenhado pelo integralismo no período 1945-1964 tornou-se compreensível quando se observa que seu discurso anticomunista foi assumido por setores importantes da vida política e, especialmente, pelas Forças Armadas. Assim, o integralismo expressou, de forma mais radical, as restrições a serem impostas à vida democrática do país, aquelas que foram aprovadas e respaldadas pelos grupos econômicos e pelas elites políticas dominantes.

O Golpe de Estado de 31 de março de 1964 consagra a continuidade do ideário fascista e autoritário, provocando paralelamente a derrota do projeto político nacional-popular-estatista que liderou João Goulart, encerrando a experiência republicana que começou com o fim do Estado Novo em 1945. Como ya apuntábamos, este golpista arremetida não foi um raio que caiu em um céu azul, mas que resultou de um conjunto de condições que se perpetuaram ao longo da história do Brasil desde os tempos da Colônia.

O processo de redemocratização que se instalou a partir de 1985 não realizou um exercício de memória para questionar os anos da ditadura, mas bem optou pelo esquecimento e pela manutenção da governança em contraposição à ameaça do caos e da desordenação. Essas perguntas serão arrastradas por todo o processo democrático, mantendo incubada a larva do autoritarismo e as formas neofascistas que ressurgirão novamente com a crise sistêmica durante o governo de Dilma Rousseff, e o que aconteceu no impeachment da obrigatoriedade terá resultado mais trágico e concreto.

Em sua declaração a favor da derrubada da presidente Dilma Rousseff, Bolsonaro dedicou seu voto a um torturador e criminoso reconhecido que atuou durante a ditadura militar, o Coronel Brilhante Ustra. Naquele momento, o diputado Bolsonaro demonstrou sem dúvida alguma sua filiação incondicional às ideias fascistas. Assim também o atual bolsonarismo se alimenta dessa matriz despótica e antidemocrática que traça o itinerário sociopolítico brasileiro e que declara abertamente e sem pudor sua nostalgia pelos tempos da ditadura.

Por isso mesmo, o grande desafio que encerrou esta nova contienda eleitoral consistiu em manter as conquistas sociais que melhoraram a vida da prefeitura do povoado e aprofundar a adesão democrática da cidade, contendo e enfrentando o incesante bombardeio de mentiras difusas pelas redes e pelos meios de comunicação controlados pela direita e pelos extremos direita. Dichos setores aspiram a impor novamente um modelo autocrático representado por outro membro deste estirpe nefasto que, por uma parte, se alimenta do descontentamento, do incertidumbre e do meio dos eleitores, mas que fundamentalmente se assiente nas bases ideológicas esclavistas, elitistas e discriminadoras dos grupos dominantes e seus desprezíveis y oportunistas sirvientes internos.

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O PT E SEU PROGRAMA SEM FUTURO

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Documento apresentado pelo PT em seu congresso não faz jus ao partido real

Não se sabe bem de onde veio a inspiração que animou os autores

O Partido dos Trabalhadores acaba de realizar seu 8° Congresso Nacional, no qual aprovou o documento "Construindo o futuro: manifesto do PT para seguir transformando o país". Trata-se de peça programática com a ambição de apresentar um mapa das mudanças que a maior agremiação de esquerda propõe ao Brasil. Em princípio, deveria também nortear as campanhas eleitorais deste ano.

O texto tem três partes. A primeira é uma diatribe contra o capitalismo neoliberal. Os quatro longos parágrafos iniciais descrevem os malefícios que o sistema produziu. Mas não é clara a alternativa proposta ao capitalismo destrutivo. Seria alguma forma de capitalismo domesticado, à semelhança do praticado pelas social-democracias? Ou um tipo ainda desconhecido de socialismo compatível com a democracia e as liberdades individuais?

A segunda parte contém uma defesa pormenorizada do muito que o governo Lula efetivamente fez para recuperar o país do descalabro promovido durante a gestão da extrema direita —no plano da economia; da redistribuição; do meio ambiente; da cultura e das políticas sociais.

Finalmente, vêm as propostas, mais nacional-desenvolvimentistas do que social-reformadoras. O documento fala em "diretrizes de um novo projeto de desenvolvimento nacional", assentado em três eixos: a reconstrução do Estado como indutor do desenvolvimento; a aceleração do crescimento econômico com redistribuição de renda, riqueza e patrimônio; a transição produtiva, tecnológica e ambiental guiada pelo princípio da soberania nacional. A seguir, aparecem enfileiradas, sem distinção de importância, sete reformas: política e eleitoral; tributária; tecnológica; do Judiciário; administrativa; agrária; e da comunicação. Chama a atenção a falta de referência ao tema da proteção social, como se não houvessem mudanças a fazer na saúde, na educação, na assistência social, na previdência ou na legislação trabalhista.

Não se sabe bem de onde veio a inspiração que animou os autores. Não há de ter sido da consulta às ruas, nas quais pesquisas de opinião têm mostrado reiteradamente que a segurança pública —ignorada no texto— e o atendimento à saúde, seguidos do custo de vida, constituem as principais preocupações da população. Tampouco parece vir do contato com a vida real dos pobres nas cidades, com suas aspirações de estabilidade e ascensão social, sua preocupação com a educação dos filhos e com protegê-los da vizinhança cotidiana do crime.

Por fim, mas não menos importante, parece não ter vindo da enorme experiência acumulada pelos bons quadros do partido, formados em quase 18 anos no exercício da Presidência, governos estaduais, prefeituras e casas legislativas. Essa vivência poderia acrescer sensibilidade para as questões de eficiência da máquina pública, de restrições fiscais, de melhoria da qualidade e da implementação das políticas governamentais.

Em "Construindo o futuro" há pouco que oriente um partido de esquerda democrático, sintonizado com os desafios presentes e capaz de oferecer uma visão progressista de futuro.

De fato, a imagem projetada pelo documento não faz jus ao partido real, aos milhares de quadros que formou e aos governos que encabeçou —e encabeça.

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LULA PODE DOBRAR APOSTA E ESCOLHER UMA MULHER NEGRA PARA STF

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Depois de rejeitar um evangélico, Senado teria que arcar com o ônus duplo de negar a vaga também a uma mulher negra

O presidente da República colecionou mais um “nunca antes na história do país” com a derrota da indicação do ministro da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal. As excepcionalidades viraram o novo normal. Nunca, ou, pelo menos, desde a redemocratização, não se via um governo tão minoritário no Executivo. Nem tampouco um presidente do Senado trabalhando tão abertamente contra uma indicação presidencial.

Nenhuma das excepcionalidades, porém, foi mais determinante para o desfecho da noite desta quarta do que aquelas que dominam o STF. Nunca houve um ministro do Supremo cuja esposa firmou contrato de R$ 130 milhões com banqueiro pilantra. Nunca houve togado dono de resort. Nem ministro que chama senador de miliciano, processa outro por um voto e está sentado há cinco meses em cima de liminar sobre as regras para o Senado dar um basta em tudo isso.

A votação da indicação de Messias se deu no curso de uma campanha em que o impeachment de ministro do Supremo subiu no palanque e atrai hoje o voto de seis de cada dez eleitores que vão às urnas em outubro escolher dois candidatos ao Senado.

Para combater o discurso que a oposição agora vai exibir, o de que mandou um recado contra os desmandos no Supremo, Lula, a julgar pelo discurso do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, vai jogar de volta para o Senado a explicação pela rejeição de um evangélico. Já há quem advogue que Lula dobre a aposta, indicando uma mulher negra, como Adriana Cruz, juíza federal do Rio, que atua em vara especializada em lavagem de dinheiro, integrou o gabinete do ex-ministro Luis Roberto Barroso e participa do Observatório de Direitos Humanos do CNJ.

A rejeição de um indicado evangélico, a julgar pela sabatina, será justificada pelos senadores com o parecer da AGU contra a norma do Conselho Federal de Medicina sobre aborto. Dirão, como já o fizeram, que Messias é “mais petista que evangélico”. O que dirão, no entanto, de uma juíza negra sem serviços prestados a governos do PT? A dupla rejeição vitimizaria Lula e sua pauta.

Se o presidente ficar acuado nesta indicação acabará por dar razão aos bolsonaristas que, ao longo da sabatina de Messias, justificaram o voto contrário alegando que a indicação deveria se dar no próximo governo, depois de os eleitores terem a oportunidade de se manifestar. Lula abriria espaço para os bolsonaristas copiarem estratégia republicana no governo Barack Obama. Em março do último ano de seu governo, Obama indicou Merrick Garland para a Suprema Corte. A indicação acabou por expirar sem ser votada e o preenchimento da vaga coube ao primeiro governo de Donald Trump que começaria ali sua bem-sucedida estratégia para fazer a maioria da Corte.

Ao contrário de Mitch McConnel, senador republicano e artífice da derrota de Obama, Davi Alcolumbre nunca assumiu abertamente a estratégia para derrotar o presidente. Montou um jogo de bastidores em que trabalhou, até o último minuto, para assegurar votos contrários a Messias. Conseguiu que PP, PSDB, PSD e Republicanos se juntassem ao PL. Estava tão seguro de seu mapa de votos que distribuiu ovos na cesta governista com a declaração do senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG), seu ex-candidato à vaga, em favor de Messias. E ainda cantou, segundos antes, o resultado da votação para o senador, Jaques Wagner (PT-BA).

Ao contrário de Obama, que fez a indicação no último ano de seu segundo mandato, Lula é candidato à reeleição. Se Alcolumbre sentar em cima de uma nova indicação, como o presidente do Senado já sinalizou que fará, oferecerá uma oportunidade para Lula capitalizar esta rejeição. Será um risco calculado. No limite, o adiamento favoreceria a vitimização do presidente, mas não afetaria Alcolumbre, que tem mais quatro anos a cumprir do seu atual mandato. E, a partir da mobilização pela derrota de Messias, com prestígio recuperado junto à bancada bolsonarista, voltaria a acalentar os planos de se reeleger à Presidência da Casa. Para coroar sua estratégia só resta a derrubada dos vetos de Lula ao PL da Dosimetria nesta quinta.

Se não há dúvidas dos louros a serem colhidos por Alcolumbre nesta derrota de Lula, há de se matizar se o presidente, de fato, estava tão determinado assim em emplacar Messias no Supremo. Ao discutir com o presidente do Senado o nome de seu AGU no ano passado, Lula ignorou seus apelos. Mandou o nome para o Senado e viajou. O gelo que se seguiu só foi quebrado dias atrás com o discurso entusiasmado de Alcolumbre na cerimônia que deu posse a Guimarães na SRI. Era um despiste. Uma hora antes daquele evento, o presidente do Senado encontrou o ministro do governo Lula com mais trânsito com a oposição e lhe disse que Messias não seria aprovado.

O presidente, portanto, estava ciente das dificuldades, mas delegou as investidas, a começar pela liberação de emendas que não evitou a traição dos senadores. Um sinal de que Lula não se envolveu pessoalmente foi o jantar, na véspera da sabatina, para a ex-presidente Dilma Rousseff, no Palácio da Alvorada. Ao longo desta quarta, muitos senadores disseram nunca ter recebido um convite para conversar com o presidente em quaisquer dos palácios. Se Lula ignorou tantos sinais porque já tem um plano B, é o que resta saber - e convencer.

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IMPACTO DA GUERRA SE ESPALHA NA ECONOMIA

Míriam Leitão, O Globo

O efeito da guerra na economia vai além do petróleo e já pressiona a produção de chips e o setor de alimentos, com a queda na oferta de fertilizantes

O impacto da guerra na economia vai muito além do petróleo. Está ameaçando a produção de chips e afetando o setor de alimentos ao reduzir a oferta de fertilizantes. A escassez de insumos agrícolas chegou a algumas economias e em dois meses atingirá o Brasil. A inflação reflete este cenário nos preços, todas as projeções subiram, e por isso, o Banco Central tomou a decisão de fazer apenas um corte de 0,25 ponto percentual, mesmo os juros estando tão altos.

Quando a guerra começou, o Brasil já tinha plantado a sua safra, portanto os produtores brasileiros respiraram aliviados. O Oriente Médio tem um percentual grande na oferta mundial de fertilizantes e de matérias-primas usadas nos insumos agrícolas. A safra americana estava sendo plantada e enfrentou os estilhaços. Só que agora o nosso prazo começou também a se esgotar, como explica o economista José Roberto Mendonça de Barros, a quem perguntei quando a conta vai chegar.

—Não vai demorar muito, porque uma parte dessa folga se esgotou nesses dois meses.

O Brasil diversificou suas compras e importa de diferentes origens. Isso ajuda, mas não resolve.

— Não dependemos essencialmente de ninguém. Para cada um dos três elementos, nós temos vários fornecedores. A soja não precisa de nitrogênio, mas o milho e o trigo precisam e nisso o Oriente Médio é muito importante, porque produz 40% do nitrogênio do mundo. O enxofre é importante para fazer o ácido sulfúrico, que é o que prepara o fertilizante fosfatado. Está faltando enxofre, porque o Oriente Médio tem uma parte bastante relevante nisso. A Rússia é um importante fornecedor de potássio, mas ela tem sua própria guerra. Nós não temos muito mais tempo, porque se passaram dois meses. Tem mais um mês. Mas os preços aumentaram, esse é o ponto. O choque de custos já ocorreu, agora resta saber se vai ter o choque de suprimento — explicou Mendonça de Barros.

A data de plantio é uma janela, e por este motivo, o agronegócio ainda não está no sufoco. Há esses dois problemas: o custo aumentou e há risco de faltar produto, se a guerra continuar. Na MB Agro, o cálculo é que a inflação de alimentos que estava prevista para ser 2,5%, agora deve ficar em 5%. E pode ser mais, se a guerra não terminar logo.

O professor Felippe Serigati, da FGV Agro, acrescenta um ponto de preocupação com o agro este ano. O risco de antecipação do El Ninõ.

— As primeiras estimativas eram de que o fenômeno se abateria sobre o Brasil no fim do terceiro trimestre. As probabilidades de que chegue antes, durante o terceiro trimestre, vêm aumentando. Isso afeta a safra de inverno. O El Niño representa seca no cerrado e aumento de chuvas no sul. Se ele chegar antes vai diminuir o tempo em que o agronegócio atua com o chamado clima neutro.

O agronegócio nos preocupa pelo tamanho do setor na economia, mas há outros gargalos que estão se formando por causa da guerra, explica Mendonça de Barros.

— No primeiro mês do fechamento do Estreito de Ormuz, os preços subiram, mas o sistema continuou operando. A partir do segundo mês, além do choque de preços que aconteceu, começa a ter problemas de suprimento.

Falta combustível, falta produto para a cadeia longa da petroquímica, mas falta também o gás hélio.

—O gás hélio é usado nas foundries, as fábricas de chips, e 30% da oferta mundial sai do Catar. Os estoques de petróleo da Coréia do Sul tendem a cair a níveis insustentáveis durante o mês de maio. A primeira coisa que muitos países fazem é proibir a exportação. A China está bloqueando exportação de fertilizantes, para defender o mercado interno. A Suécia está estudando racionamento — diz Mendonça de Barros.

Falei ontem com uma alta fonte de um país árabe produtor de petróleo, que me disse que, até agora, a produção caiu entre sete a nove milhões de barris por dia. Mas ele tem uma visão diferente da dos analistas. Acha que quando a guerra terminar é possível restabelecer a produção em semanas, e não em meses. E que os países da OPEP decidiram aumentar a produção assim que a logística for restabelecida.

É isso que o Banco Central quis dizer com há incerteza sobre “duração, extensão e desdobramentos” do conflito no Oriente Médio. E o fato de que os impactos do conflito “na cadeia de suprimentos global” afetam a inflação no Brasil. Por isso reduziu os juros em apenas metade de meio ponto e falou em “serenidade e cautela”.

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quarta-feira, 29 de abril de 2026

A GUERRA ESQUECIDA DO IRÃ APARECE EM INFLAÇÃO E JUROS MAIORES E TURVA 2027

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Em vez de terminar o ano em horríveis 12%, Selic deve ficar acima de terríveis 13%

Pessoas e empresas vão ficar com a corda financeira no pescoço por mais tempo

Os preços voltaram a aumentar, grosso modo por causa de alimentos que por vezes apanham do tempo desfavorável nesta época e por causa de combustíveis —é guerra. A gente esqueceu a guerra, mas a guerra ainda vai nos lembrar de que ela existe.

Logo antes da guerra, previa-se que a taxa básica de juros, a Selic, definida pelo Banco Central, cairia para 12% no final do ano, ainda horrível. Agora, a mediana dessas projeções de economistas compiladas pelo BC (Boletim Focus) está em 13%. Os colegas desses economistas, os que lidam com dinheiro grande, ora negociam a Selic a uns 13,5% no final do ano. Juros reais além de 6% até 2029.

Essas diferenças de taxas e preços não vão mudar a história da economia do país. Não mudam nem a perspectiva de médio prazo (para lá de uns dois anos). Mas vão prejudicar a retomada de um crescimento medíocre melhorzinho, aumentar ainda mais a dívida pública e manter mais pessoas e empresas com a corda dos juros no pescoço.

A taxa de câmbio ("preço do dólar") pode até ajudar. Mas não tanto quanto em 2025. De resto, previsões de câmbio no curto prazo são muito furadas, até porque o valor das moedas depende de decisões dos donos do dinheiro grande do mundo, inescrutáveis.

Nesta quarta (29), afora surpresa enorme, o BC deve diminuir a Selic de 14,75% para 14,5%. No ano, restarão mais cinco reuniões de definição da taxa básica. Para se chegar a 13%, como está na previsão dos economistas do Focus, seriam necessários quatro cortes de 0,25 ponto percentual mais um de 0,5 ponto percentual, pois. Difícil.

O BC teria de ignorar os prováveis efeitos da eleição brasileira no dólar ou outros solavancos financeiros. No mínimo, teria de contar com a sorte de que os efeitos da guerra sobre preços não se tornem ainda piores.

Teria de esperar que a alta de combustíveis não se espalhe para outros preços e que outros aumentos de custos provocados pela guerra não sejam lá graves (petroquímicos, fertilizantes, etc.).

Teria de contar ao menos com o prosseguimento da desaceleração gradual da atividade econômica, de agora em diante com impacto mais decisivo na inflação de serviços.

Teria de esperar que, com esse cenário não tão ruim, as expectativas de inflação parassem de inchar, pelo menos. Ou, então, considerar que o inchaço das expectativas seja um calombo temporário —ou ignorá-lo, tentando dar explicação razoável para tal atitude. Claro, se a atividade econômica no Brasil passasse a cair pelas tabelas, rápido, a coisa mudaria de figura. Mas é o caso de "só é bom se for ruim".

Antes da guerra, previa-se que o IPCA terminaria o ano em 3,91%; agora, em 4,86%. Para 2027, previam-se 3,79%; agora, 4%. Para 2028, preveem-se 3,61%. Daqui a uns dois meses, 2028 será o ano relevante para o BC, aquele momento em que, teoricamente, a política monetária (de juros) estaria fazendo mais efeito. A meta do BC é de IPCA em 3%.

Em uma perspectiva racional, Donald Trump teria de se livrar desta guerra logo. Entendidos em Casa Branca dizem que gostaria de solução antes de se encontrar com Xi Jinping na China, em meados de maio. Para que assim seja, terá de aceitar termos do Irã: derrota. Difícil.

Analistas de muitos bancões esperam "normalização" do tráfego por Hormuz a partir de maio. Estão otimistas, como parece ser o caso dos mercados financeiros americanos (basta olhar preços e taxas por lá). Ainda assim, a situação do petróleo ficaria apertada até setembro, por aí.

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A QUEM INTERESSA O ENFRAQUECIMENTO DO SUPREMO ?

Georges Abboud*, Folha de S. Paulo

Cada vez que ecoa uma crítica vazia à corte, a Folha se posiciona ao lado dos segmentos mais nefastos da sociedade

Boa parte das críticas ao STF é ressentimento e lobbies político-econômicos poderosos

Qualquer leitor que se informe pela mídia neste ano de 2026 terá uma certeza: o problema do Brasil é o Supremo Tribunal Federal (STF). O culpado único pela existência do crime organizado, pelo escândalo do banco Master e pela crise miliciana do Rio de Janeiro.

A despeito de termos um presidencialismo desconfigurado; um Congresso Nacional que movimenta sem controle dezenas de bilhões em emendas impositivas; redes sociais disseminando fake news e misoginia sem regulação; do endividamento de praticamente todos os estados da Federação e das famílias brasileiras; do aumento do crime organizado e das milícias —nada disso interessa: só importa criticar o STF.

Queria crer que esta Folha não entrou nessa empreitada, embora três editoriais recentes tenham me deixado perplexo.

primeiro ("Cabe ao TSE decidir sobre vácuo de poder no Rio", 18/4) afirma que a eleição no estado é problema do Tribunal Superior Eleitoral. Esquece a Folha que casos relevantes do TSE são objetos de recurso no Supremo. E a corte eleitoral teve, à época, mais de uma oportunidade para publicar um acórdão que definisse uma solução —e isso não ocorreu, restando ao STF solucionar o problema.

segundo ("Ameaça de Gilmar Mendes a senador é desproporcional", 18/4) diz que seria desproporcional o ministro pedir investigação contra Alessandro Vieira (MDB-SE), uma vez que seria errado punir um senador por voto ou opinião. Trata-se, novamente, de desinformação. Não se pretende punir um discurso, voto ou projeto de lei do senador. Ocorre que ele era relator da CPI do Crime Organizado e concluiu pelo indiciamento do ministro em razão de um habeas corpus que ele havia dado.

Ou seja, o senador fez mais pelo golpismo do que boa parte dos condenados do 8 de janeiro.

Em nosso sistema, a CPI e seus membros possuem poder jurisdicional, obviamente, mas esse poder não pode ser abusado. Logo, o pedido de investigação não é por causa de voto ou discurso: é porque o senador extrapolou o seu poder jurisdicional tentando indiciar um juiz em razão de um habeas corpus.

Tenho convicção de que a Folha não teria produzido editorial se à época tivesse clareza da diferenciação técnica entre indiciar e proferir um voto na condição de parlamentar.

Por fim, há o terceiro editorial: "Um Supremo mais contido defenderá melhor a democracia" (15/4). Curioso que esse editorial não tenha sido publicado no final de 2022. Vou indicar para a Folha e seus leitores alguns grupos que adorariam que a Suprema Corte fosse mais contida:

1 - Políticos que se esbaldam com as emendas parlamentares e não querem rastreabilidade adorariam enfraquecer a fiscalização que o STF tem promovido sob relatoria de Flávio Dino;

2 - Agentes que lucram com a desregulação das plataformas digitais. Na omissão dos demais Poderes, foi a corte que impôs um mínimo de regulação, inclusive para possibilitar combater temas como pedofilia e misoginia;

3. Racistas e homofóbicos: afinal, na última década, a maior parte das regras protetivas para minorias vulneráveis partiu da própria Suprema Corte;

4 - Misóginos também ficariam felizes, pois foi o tribunal que, sob a relatoria de Dias Toffoli, proibiu que homens fossem inocentados por praticar feminicídio a pretexto de defenderem sua honra;

5 - Setores econômicos que obtiveram derrotas tributárias acima de R$ 100 bilhões em teses fixadas no STF, como a constitucionalidade da CSLL (Contribuição Social sobre o Lucro Líquido) e a incidência de Pis/Cofins sobre receitas financeiras;

6 - Negacionistas, em especial, os antivacinas: foi o STF que assegurou calendário de vacinação na pandemia de Covid-19;

7 - Obviamente, os golpistas de toda ordem: estes talvez sejam os mais ressentidos com o Supremo. Afinal, nunca na história do Brasil eles haviam sido sequer julgados;

8 - Por fim, há os setores da mídia profissional que designamos de "colunismo anti-Supremo" (viúvos do lavajatismo). Estes somente adquiriram o mínimo de visibilidade e relevância quando passaram a atacar o STF mediante retórica inflamada e pouco informativa.

Acreditem: a democracia constitucional brasileira nunca correu risco por causa do STF. Boa parte das críticas à corte não são feitas em prol do bem do Brasil —em sua maioria são ressentimento e lobbies político-econômicos poderosos, travestidos de crítica especializada ou jornalística.

Continuo sendo leitor deste jornal. Entretanto, sempre que a Folha ecoa uma crítica vazia ao Supremo, a sua escolha editorial, além de desinformar o leitor, faz com que se coloque ao lado dos segmentos nacionais mais nefastos da sociedade e da política.

*Professor de direito constitucional da PUC-SP e do IDP (Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa)

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QUEM QUER DINHEIRO ?

Roberto DaMatta*, O Estado de S. Paulo

Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui, é mais fácil enriquecer entrando na turma certa

Se o capitalismo financeiro é ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume usando ambos para enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos funcionários do Estado

Perguntava um fulgurante Silvio Santos, para ouvir do auditório um sonoro “EU” de maravilhada expectativa, porque o apresentador jogava notas de dinheiro em forma de aviãozinho para a plateia. O programa virava um espaço encantado pelo milagre de ver alguém distribuindo o que deveria ser entesourado, e o público testemunhava um rico capaz de transformar sovinice em generosidade.

Os tais “ricos”, como revela o dr. Michel Alcoforado no livro Coisa de Rico, formam uma categoria particular. Pois um dos poderes dos ricos é dar dinheiro para os outros, em vez de colocá-lo num cofre, como manda a tradição das sociedades patrimonialistas, nas quais cada estamento detém um tipo de riqueza. Nelas, o dinheiro enriquece, não enobrece, mas todo mundo aspira a “ficar rico” como revela essa epidemia de sites de apostas, as loterias e o brasileiríssimo jogo do bicho, por mim estudado com Elena Soárez, que, só Deus sabe por que, continua proibido.

Ganhar dinheiro pela sorte sempre foi um sonho nas sociedades aristocráticas fundadas na desigualdade, concebida como uma realidade do mundo.

Não preciso lembrar que esse foi o nosso caso. Formados que fomos com e pela escravidão, quando havia o indigno direito de ter gente proprietária de gente.

Quanto mais iníquas as diferenças, mais se desvaloriza o trabalho a ser realizado por escravizados e por “gente sem eira nem beira”. Em tal sistema, o dinheiro é muito mais símbolo de luxo e onipotência do que um instrumento de progresso e um símbolo de trabalho. Afinal, o ideal das malandragens é enriquecer sem trabalhar!

Como apontou Max Weber, trabalhar para viver e não viver para o trabalho, como ocorreu na América puritana, não é o nosso caso. Daí a ambiguidade em querer ser rico e, ao mesmo tempo, negar que se é rico. Como pensar que o trabalho enriquece, se ele era coisa de escravizados negros e marginais? Ganhar dinheiro pelo trabalho é burrice. Aqui é mais fácil enriquecer, como ensina o Master, entrando numa turma com o poder de manipular regras, com o privilégio de não precisar honrá-las.

Em matéria de corrupção, a nossa modernidade revela a sofisticação de roubar usando bancos. Se o capitalismo financeiro é ladrão e as leis nada valem, nós atingimos o cume, usando ambos para enriquecer. Não há dúvida de que roubar dos bancos com um banco e em sociedade com magistrados é um avanço na velha roubalheira da sociedade pelos altos funcionários do Estado.

No capitalismo, todos querem dinheiro, mas, como adverte Câmara Cascudo no seu Dicionário do Folclore Brasileiro, “dinheiro dado pelo diabo, pelo saci-pererê – e eu acrescento, por banqueiros – deve ser benzido, sob pena de desaparecer ou transformar-se em folhas secas”. Ou em desmoralização nacional com o absurdo suporte de supremos negacionismos.

*Antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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