quarta-feira, 28 de outubro de 2026

FLÁVIO FUJÃO

Mariliz Pereira Jorge, Folha de S. Paulo

Tique-taque soa como bomba-relógio; em fevereiro, senador fica sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos

País só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política pelo voto e pela lei

Fugiu, desapareceu, escafedeu-se. Para Flávio, o Bolsonaro mais corrupto, era isso ou cadeia o que restava. No domingo, derrotado, engrossou a voz para anunciar que pediria anulação do resultado. Na segunda, intimado a entregar os passaportes, gravou vídeo jurando patriotismo: jamais pensara em deixar o país. Na terça, segundo aliados, já está na Flórida com a família, com asilo garantido.

Motivos para o desespero não faltam. Alexandre de Moraes barrou os passaportes e o proibiu de falar com Willer Thomas, amigo investigado junto com ele por lavagem de dinheiro. Há no cangote do senador o inquérito do filme "Dark Horse" e fraudes relacionadas ao INSS. O tique-taque soa como bomba-relógio: em fevereiro, Flávio fica sem mandato, sem foro privilegiado, sem costas quentes pela primeira vez em 24 anos.

Nada é normal quando há um Bolsonaro na jogada. Na posse de 2019, Jair desfilou no Rolls-Royce com Carlos no banco de trás, feito um guarda-costas. Freud talvez explicasse, mas Margaret Mahler define melhor: simbiose, a fase psicanalítica em que o bebê não sabe onde ele termina e a mãe começa. Fomos governados por uma família que nunca cortou o cordão umbilical, nem entre si nem com a ideia torta de que o Estado é o quintal de casa.

O padrão da família é a fuga. Derrotado, Jair amargou 45 horas calado e voou para Orlando para não passar a faixa para Lula. Por pura birra, numa atitude antidemocrática, igualou-se a Floriano Peixoto e João Figueiredo, os únicos a faltarem à posse do sucessor. O resultado foi o 8 de janeiro. Hoje, o patriarca cumpre em casa os 27 anos de pena por tentativa de golpe.

Eduardo, refugiado nos EUA desde 2025, articulou de lá sanções e tarifaços contra Moraes e contra o país para livrar o pai da cadeia. Acabou condenado pelo STF por coação e cassado por faltas. A dinastia que se diz patriota trata o Brasil como uma casa de veraneio: usa, depreda e, quando chega a conta, some na calada da noite. O país só vai recuperar a sanidade quando essa família for varrida da política pelo voto e pela lei —justamente o que eles nunca respeitaram.

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MORRE ROBERTO MAYA

Do O Estado de S.Paulo

Morre Roberto Maya, ator, apresentador e dublador, aos 91 anos

Além de área artística, comunicador também esteve a frente do programa ‘Documento Especial’

Roberto Maya, ator, apresentador e dublador, morreu na última terça-feira, 27, aos 91 anos. A causa divulgada foi insuficiência respiratória, após o comunicador ser levado ao Hospital Beneficência Portuguesa de Campinas.

Nascido em 5 de janeiro de 1935, ele é lembrado como grande nome da comunicação. Em sua carreira, Maya atuou como apresentador do Documento Especial, programa jornalístico que ficou conhecido por suas reportagens investigativas e por debater diversos temas sociais.

O programa, que teve grande repercussão, ficou no ar de 1989 a 1998, passando por Manchete, SBT e Bandeirantes.

Maya cursou a Escola de Arte Dramática – EAD, na USP, além de ter aprimorado seu trabalho na rádio e na área de dublagem.

Ele também esteve presente em papéis de novela, como Paraíso Tropical, no filme Teus Olhos Castanhos, além de ter sido a voz de Shere Khan em Mogli - O Menino Lobo.

Maya estava aposentado desde 2016.

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terça-feira, 27 de outubro de 2026

O FUTURO DE UMA VIRADA HISTÓRICA

Artigo de Fernando Gabeira

Ainda é cedo para muitas conclusões. A extraordinária mobilização popular que tirou Lula de um segundo lugar no primeiro turno e lhe deu mais 10 milhões de votos no segundo certamente não será esquecida.

Um dos primeiros reflexos deve ser no quarto governo Lula. Ele mencionou algumas vezes que governará de forma diferente e ouvirá mais os outros. Essa abertura tem o potencial de enriquecer seu mandato, salvando-o das armadilhas burocráticas. A derrota da direita no segundo turno também serve para alterar seu destino político. Mesmo quando as pesquisas eram desfavoráveis a Lula, elas já revelavam uma variável crescente: crescia o medo entre os eleitores de uma volta da família Bolsonaro.

Se isso for interpretado corretamente, nunca mais teremos um Bolsonaro disputando uma eleição majoritária. A direita poderá se libertar dessa liderança. Isso não significa que ela desaparecerá. Apenas ocupará um lugar mais modesto, compatível com seu nível de radicalidade.

No discurso da vitória, Lula mencionou a questão digital, que teve grande papel na sua vitória. Usará as redes sociais para se comunicar e, possivelmente, todo o governo seguirá seu caminho. Com o tempo, o governo perceberá que o meio digital precisa dominar todas as suas instâncias. Não se trata apenas de melhorar a imagem de governantes. Trata-se principalmente de tornar mais fácil a vida de cidadãos e empresas que necessitam dos serviços públicos.

A adesão da campanha à disputa nas redes sociais mostrou também que houve avanço nesse campo. Isso graças ao trabalho de André Janones, cuja eficácia reconheço, apesar de divergir de seus métodos.

No discurso da vitória, Lula mencionou o sucesso no combate ao desmatamento, sinal de que fortalecerá sua política ambiental. A derrota de Flávio Bolsonaro pelo menos espantou o fantasma de perdermos décadas de trabalho para construir uma das melhores legislações ambientais do planeta.

O perigo ainda existe num Congresso dominado por negacionistas. Mas o antídoto está aí: a união da minoria eleita com boas intenções com a opinião pública mobilizada pode dar uma chance de resistência vitoriosa. Foi assim na lei que, de certa forma, ameaçava privatizar as praias. Nada está totalmente decidido no ano que entra. Haverá luta, mas ela acontecerá num novo contexto.

Lula não falou mais das emendas parlamentares usadas pelo Congresso. Disse apenas que lançaria mão delas para financiar o transporte gratuito aos fins de semana. Sabemos que isso não é fácil. Para atenuar o impacto negativo das emendas, serão necessárias a vigilância da Justiça e forças-tarefas da Polícia Federal. São quase R$ 60 bilhões, indispensáveis para um plano de governo. Quando esse problema será resolvido? A mobilização histórica e a própria eleição se enfraquecem se o governo central não pode usar o Orçamento de forma racional.

Finalmente, o discurso da vitória fala nos data centers que o Brasil poderia atrair. Precisamos de um ou outro. Mas o paraíso dos data centers seria um inferno para os moradores, porque eles usam energia e água em grande quantidade. A resistência a eles é grande tema político nos Estados Unidos.

Tudo isso pode esperar. O governo se prepara neste fim de ano, e o fim das eleições é um alívio. Inclusive para nós que estamos saudosos de novos temas.

Artigo publicado no jornal O Globo em 27 / 10 / 2026

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UFA !

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Virada histórica de Lula sobre Flávio Bolsonaro reduz riscos para a democracia

Na economia, presidente terá de lidar com herança maldita que ele próprio criou

Entre a sabedoria das massas e a loucura das multidões, o Brasil se pautou, talvez excepcionalmente, pela primeira. A população preferiu reentronizar um Lula enfraquecido a entregar as chaves do Planalto a um Flávio Bolsonaro com representação reforçada no Legislativo. É uma atitude inteligente, considerando o histórico antidemocrático do bolsonarismo. Prova-o a recusa de Flávio em reconhecer de imediato que sofreu uma derrota por mais de 4 milhões de votos de diferença.

A ideia básica por trás do sistema de freios e contrapesos é não deixar que nenhum agente concentre poderes demais. Normalmente essa é uma tarefa distribuída entre diferentes instituições, mas nada impede que o eleitorado cumpra a função. Cumpriu. E muito oportunamente, quando se leva em conta que a cúpula do Judiciário nacional, que deveria constituir a linha de frente nessa tarefa, vive um enorme déficit de credibilidade e não cessa de cometer erros em série. No próprio dia da eleição, cometeu mais dois.

Em termos de votos, Lula deve um bom pedaço de sua histórica virada à redução, do primeiro para o segundo turno, do absenteísmo e dos brancos e nulos —um fenômeno raro. Basicamente, Lula foi reeleito porque pôde contar com os sufrágios de pessoas que ou se recusaram a apoiá-lo no primeiro escrutínio ou não consideraram importante fazê-lo. Não dá para confundir isso com um cheque em branco.

Se o resultado do pleito representa um grande alívio institucional, não tem efeitos tranquilizadores sobre os rumos da economia. Para reeleger-se, Lula deu rédeas ainda mais soltas à incontinência fiscal que caracterizou seu terceiro mandato. Enfrenta agora o duplo desafio de apresentar uma estratégia crível para lidar com o crescimento da dívida pública e tornar o inevitável estelionato eleitoral palatável para os que acreditaram em suas promessas.

Não sou muito otimista, mas, depois de domingo (25), não há como não reconhecer a extraordinária capacidade do presidente de dar a volta por cima quando tudo parece perdido.

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domingo, 25 de outubro de 2026

VIRADA HISTÓRICA

Kellen Barreto, Isabella Calzolari, Gustavo Garcia, g1 — Brasília

Em virada histórica, Lula derrota Flávio Bolsonaro e chega ao quarto mandato como presidente

Após forte mobilização nas ruas e nas redes, presidente superou derrota do 1º turno e venceu uma eleição acirrada. Petista terá pela frente forte oposição no Congresso e o desafio de equilibrar as contas públicas após ampliar gastos durante a campanha eleitoral.

Em uma eleição acirrada e marcada por uma virada inédita, Luiz Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito neste domingo (25) presidente da República e conquistou seu quarto mandato à frente do Palácio do Planalto.

Às vésperas de completar 81 anos, o que ocorrerá na próxima terça-feira (27), o petista se tornou, ao derrotar Flávio Bolsonaro (PL), o primeiro presidente da história do Brasil a ser eleito quatro vezes pelo voto popular.

A confirmação da vitória de Lula foi feita pelo sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às 21h08, quando 97% das urnas já tinham sido apuradas. Àquela altura, Lula tinha 51,74% e Flávio tinha 48,26%.

O quarto triunfo de Lula ocorre mais de duas décadas depois de chegar ao poder pela primeira vez, em 2002.

A virada histórica se deu após uma forte mobilização da campanha do petista, nas ruas e nas redes sociais.

No quarto mandato, Lula terá grandes desafios, como lidar com uma forte oposição no Congresso Nacional e equilibrar as contas públicas após ampliar benefícios durante campanha eleitoral e prometer reforçar programas sociais.

Um dos fundadores do PT, Lula foi eleito presidente em 2002, reeleito em 2006 e voltou ao Planalto em 2023, após vencer Jair Bolsonaro, pai de Flávio, nas eleições de 2022.

Sua trajetória também foi marcada por três derrotas presidenciais, condenações posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), 580 dias de prisão e o retorno à disputa eleitoral.

A nova vitória consolida Lula como o principal personagem da política brasileira no século 21. E garante ao petista mais quatro anos na chefia do Poder Executivo.

Depois de ficar atrás de Flávio no primeiro turno, 47% a 45% dos votos válidos, o petista protagonizou uma virada histórica na segunda etapa da disputa eleitoral.

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Quem é Luiz Inácio Lula da Silva?

Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no interior de Pernambuco. É o sétimo dos oito filhos do casal de lavradores Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como Dona Lindu.

O pai deixou Pernambuco quando Lula ainda era bebê e se mudou para o litoral paulista em busca de trabalho. Em dezembro de 1952, aos sete anos, Lula viajou com a mãe e os irmãos para São Paulo, em um caminhão pau de arara.

A família se instalou inicialmente no Guarujá, onde reencontrou Aristides, que já havia formado outra família e a dona Lindu acabou se separando do marido.

Em 1956, mãe e filhos se mudaram para a capital paulista, onde passaram a morar em um pequeno cômodo nos fundos de um bar.

Lula foi vendedor ambulante, engraxate e office boy, até conseguir emprego na Fábrica de Parafusos Marte.

Réplica da casa em que Lula passou a infância em Caetés, no Agreste de Pernambuco — Foto: San Costa/TV Globo

Aos 14 anos, ingressou na indústria e aos 18 anos concluiu o curso de torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai). Antes disso, aos 17 anos, perdeu o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho.

A vida pessoal de Lula também foi marcada por perdas familiares. Em 1969, casou-se com a operária Maria de Lourdes da Silva, que morreu gravida em 1971.

Em 1974, Lula se casou com Marisa Letícia, com quem viveu por mais de quatro décadas.

Lula e a 2ª esposa, Marisa Letícia, com os filhos Fábio Luiz, Sandro Luiz e Luiz Cláudio. — Foto: Instituto Lula

Lula e dona Marisa tiveram três filhos, Fábio Luís, Sandro Luís e Luís Cláudio. Lula também é pai de Marcos Cláudio, filho de Marisa de um relacionamento anterior, que foi adotado pelo petista, e de Lurian, fruto de outro relacionamento com Miriam Cordeiro.

Marisa acompanhou a ascensão política de Lula, desde o movimento sindical até a Presidência da República. Ela morreu em fevereiro de 2017, aos 66 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).

Em maio de 2022, Lula se casou pela terceira vez, com a socióloga Rosângela da Silva, conhecida como Janja. A cerimônia ocorreu em São Paulo, durante a campanha que levaria o petista de volta à Presidência da República.

Movimento sindical e PT

Luiz Inácio Lula da Silva fala durante uma assembléia com os metalúrgicos da Ford, em abril de 1984. Durante as décadas de 70 e 80, Lula dedicou-se intensamente à atividade sindical, como presidente do Sindicato dos Metalúrgicos do ABC — Foto: Clovis Cranchi/Estadão Conteúdo/Arquivo

Lula trabalhou na Indústria Villares, metalúrgica em São Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Ingressou no movimento sindical por influência do irmão José, chamado de Frei Chico.

Foi suplente, primeiro-secretário e presidente do Sindicato dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.

Reeleito presidente do sindicato, Lula ganhou visibilidade nacional pela liderança nas greves de metalúrgicos que paralisaram o ABC durante a ditadura militar (1964-1985). O governo ditatorial reagiu, e o sindicalista ficou 31 dias na cadeia em 1980, com base na antiga Lei de Segurança Nacional.

Também em 1980, Lula foi um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores (PT), junto com políticos, sindicalistas, intelectuais, lideranças rurais e religiosas. Dona Marisa, sua esposa na época, costurou a primeira bandeira do partido.

O país entrava na reta final da ditadura, com a abertura política "lenta e gradual" definida pelos militares, e ganhou alternativa de partido à esquerda.

A atuação de Lula também foi importante na criação da Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983. No ano seguinte, ele participou da campanha das Diretas Já, movimento que levou multidões às ruas para exigir a volta das eleições diretas para presidente da República.

A passagem do sindicalismo para a política eleitoral começou em 1982, quando Lula concorreu, sem sucesso, ao governo de São Paulo e ficou em quarto lugar. Quatro anos depois, em 1986, foi eleito deputado federal por São Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a Constituição de 1988.

Derrotas

Lula e Fernando Collor no debate presidencial de 2° turno em 1989. — Foto: Reprodução/Editoras Bloch

Em 1989, o petista estreou na corrida ao Planalto na primeira eleição direta para presidente desde 1960. Ele chegou ao segundo turno, porém foi derrotado por Fernando Collor de Mello, à época no PRN, que em 1992 renunciou e foi condenado em um processo de impeachment motivado por denúncias de corrupção.

Lula voltou a concorrer ao Planalto em 1994 e 1998, porém nas duas ocasiões foi derrotado por Fernando Henrique Cardoso (PSDB), candidato impulsionado pelo êxito do Plano Real no combate à inflação.

Mandatos

O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ergue os braços do presidente eleito e recém empossado Luiz Inácio Lula da Silva em cerimônia no Palácio do Planalto, em Brasília, em janeiro de 2003 — Foto: Ed Ferreira/Estadão Conteúdo/Arquivo

Em 2002, Lula foi eleito com 52,7 milhões de votos. Derrotou no segundo turno José Serra (PSDB), candidato governista. Em 1º de janeiro de 2003, tornou-se o primeiro operário a governar o Brasil.

Definiu como meta a redução da miséria e da desigualdade, aprimorou políticas sociais e lançou programas como Fome Zero, Bolsa Família e ProUni.

Em 2006, Lula recebeu 58,2 milhões de votos e venceu Geraldo Alckmin, que estava no PSDB, no segundo turno. Reeleito, lançou novos programas, com destaque para a política de habitação do Minha Casa, Minha Vida e para as obras de infraestrutura do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC).

Lula foi badalado no exterior, ao ponto de ser chamado de “o cara” pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.

Com aprovação recorde de 87%, o petista se despediu em 2010 tendo sido decisivo na vitória de Dilma Rousseff (PT), sua ex-ministra, na corrida presidencial.

Lula iniciou o terceiro mandato em 2023 depois de vencer Jair Bolsonaro no segundo turno com 60,3 milhões de votos.

O petista recriou ministérios extintos no governo anterior, como o da Cultura. Também ampliou a estrutura administrativa, que hoje tem 38 pastas, com a criação de novos ministérios, como os da Igualdade Racial e o dos Povos Indígenas.

Lula passou por algumas crises nos últimos quatro anos, como o escândalo de fraudes no INSS, com os descontos indevidos em aposentadorias e pensões no período de 2019 a 2024. O caso levou à troca do comando do instituto e o indiciamento de ex-dirigentes do órgão, além da substituição de Carlos Lupi no Ministério da Previdência Social.

Também viu o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), autorizar a Polícia Federal a realizar investigações sobre o suposto tráfico de influência de seu filho Fábio Luís da Silva, o Lulinha, no Ministério da Saúde e na Dataprev.

E, em junho, teve de retirar Jaques Wagner (PT-BA) da liderança do governo no Senado, após o parlamentar baiano ser alvo da Operação Compliance Zero, que apura um esquema de fraudes bilionárias praticadas pelo Banco Master.

Na área econômica e social, o governo conseguiu aprovar a reforma tributária no Congresso Nacional e ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda.

O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome e houve a ampliação de programas voltados à moradia e à transferência de renda, além da implementação de medidas para ampliar o acesso à saúde e para estimular investimentos.

Lula também precisou lidar com os reflexos de crises internacionais, como conflitos no Oriente Médio e a política tarifária adotada pelos Estados Unidos.

A condução das negociações comerciais e diplomáticas, que incluiu a resposta do governo brasileiro ao tarifaço norte-americano e os embates públicos com Donald Trump, foi um dos principais desafios do mandato.

Também no campo econômico, o presidente foi criticado por sua estratégia econômica, marcada pelo aumento dos gastos públicos e pelos ataques ao Banco Central em razão da taxa básica de juros.

Lula também voltou atrás de duas decisões recentemente na reta final das eleições.

O presidente articulou com o Congresso a aprovação do fim da taxa das blusinhas. No início de setembro, Lula sancionou a nova lei, que acaba com a cobrança de 20% de Imposto de Importação sobre compras internacionais de até US$ 50.

E, antes do primeiro turno, o petista anunciou a proibição total de apostas de quota fixa no país, as chamadas bets. A vedação inclui também jogos online e cassinos virtuais no país, como por exemplo, o "Jogo do Tigrinho".

Na reta final do terceiro mandato, Lula articulou a aprovação de uma mudança histórica na legislação trabalhista: o fim da escala 6x1.

O presidente participou, no Congresso Nacional, da sessão de promulgação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabeleceu uma jornada de cinco dias de trabalho para dois de descanso, uma das principais conquistas da agenda trabalhista de seu governo.

Na mesma sessão, também foi promulgada a PEC que estabelece aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às endemias.

Na cerimônia de promulgação das duas PECs, Lula esteve ao lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, aliado do governo, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre. Lula e Alcolumbre protagonizaram episódios de tensão ao longo do mandato, mas voltaram a estreitar a relação durante o período eleitoral.

Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais, Lula anunciou medidas de forte apelo popular, como o programa Prospera MEI, voltado aos microempreendedores individuais, e o reajuste do Bolsa Família.

As iniciativas foram adotadas em meio à disputa eleitoral e receberam críticas de adversários, que as classificaram como eleitoreiras.

A campanha no segundo turno também foi marcada por uma grande mobilização da equipe do presidente nas redes sociais, com o canal "Exército do Lula", coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), que contou com mais de 10 milhões de inscritos.

Escândalos

Em 2005 estourou o escândalo do mensalão. O então deputado e presidente do PTB, Roberto Jefferson, relatou em entrevista ao jornal "Folha de S.Paulo" um esquema de compra de apoio político no Congresso por meio de mesadas pagas a parlamentares de partidos da base de Lula.

O escândalo resultou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Correios e derrubou o ministro da Casa Civil, José Dirceu. O PT argumentava que o esquema se tratava de caixa dois, dinheiro não declarado à Justiça Eleitoral.

Ainda em 2005, Lula foi à televisão para um pronunciamento em cadeia nacional no qual se disse “traído”. Sem usar a palavra mensalão, admitiu que o partido e o governo tinham errado e deveriam pedir desculpas.

Como ex-presidente, Lula viveu altos e baixos. Superou um câncer na laringe e viu o Supremo Tribunal Federal (STF) condenar 28 dos 38 réus na ação penal do mensalão.

Em 2014, ele comemorou a reeleição de Dilma. No mesmo ano, começou a Operação Lava Jato, que descobriu esquema de desvio de recursos públicos nas gestões petistas por meio de contratos da Petrobras. O dinheiro irrigava doleiros, executivos, partidos e políticos.

A operação avançou sob a condução de Sergio Moro, juiz da 13ª Vara Criminal de Curitiba. A Lava Jato gerou delações premiadas, devolução de parte do dinheiro desviado, prisões de empreiteiros e políticos e influenciou no impeachment de Dilma, em 2016. A cassação marcou a saída do PT do Planalto após 13 anos no poder.

Em 2017, Lula foi condenado por Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do triplex em Guarujá (SP). A condenação, a primeira de um ex-presidente por crime comum no Brasil, foi confirmada no ano seguinte no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), a segunda instância de Justiça Federal. Para três desembargadores Lula recebeu propina da construtora OAS por meio do triplex e de reformas no imóvel.

O petista negava os crimes e se dizia vítima de perseguição. Travou uma batalha nos tribunais nos últimos anos. Como o STF tinha entendimento de que era possível cumprir a pena após condenação em segunda instância, Lula foi preso em 7 de abril de 2018. Ele foi levado para uma sala na sede da Polícia Federal em Curitiba, onde ficou encarcerado por 580 dias.

No mesmo ano, teve a candidatura à Presidência barrada pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com base na Lei da Ficha Limpa.

Em 2019, Lula deixou a prisão após o STF decidir que a execução da pena só pode ocorrer após o trânsito em julgado.

Dois anos depois, em 2021, o ministro Edson Fachin anulou as condenações relacionadas à Lava Jato, devolvendo ao petista os direitos políticos e tornando-o elegível novamente.

Em 2011, Lula foi diagnosticado com câncer na laringe, e superou a doença após o segundo mandato na Presidência.

Ao longo do terceiro mandato, o petista também enfrentou desafios relacionados à saúde.

Em 2023, Lula foi submetido a uma cirurgia no quadril para tratar dores provocadas por artrose. Em 2024, sofreu uma queda no banheiro do Palácio da Alvorada, que o levou a cancelar compromissos internacionais.

Em 2025, apresentou um quadro de labirintite e, em 2026, passou pela retirada de uma lesão cancerígena no couro cabeludo, seguida de sessões de radioterapia.

O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da Silva (PT) acena para eleitores no entorno da Escola Estadual Dr. João Firmino Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo — Foto: ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO

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MORRE OSWALDINHO DO ACORDEON

Do Blog do Mauro Ferreira, Pop & Arte, g1

Morre Oswaldinho do Acordeon, mestre da sanfona que expandiu o forró em fusões com jazz, blues e música erudita

♫ OBITUÁRIO

♬ A morte de Oswaldinho do Acordeon neste domingo, 25, aos 72 anos, tira de cena um dos grandes instrumentistas do universo da música nordestina rotulada genericamente como forró. Um músico virtuoso que se tornou referência no toque da sanfona. O falecimento do artista foi anunciado em rede social pelo sanfoneiro Rodolfo Forte, amigo de Oswaldinho, e também pelo radialista Orlando Camboim. Ambos não revelaram a causa da morte do músico.

“Adeus, mestre Oswaldinho do Acordeon. Você e sua música seguem em nossos corações”, lamentou Chico César ao repostar a notícia da morte do sanfoneiro. “Hoje se foi um dos maiores sanfoneiros que esse país já conheceu. Vai fazer falta", sentenciou o guitarrista Nelson Faria.

Nascido em Duque de Caxias (RJ), município da Baixada Fluminense (RJ), Oswaldo de Almeida e Silva (5 de junho de 1954 – 25 de outubro de 2026) foi cantor, compositor e acordeonista reconhecido pela técnica. Ás da sanfona, Oswaldinho expandiu os limites da música nordestina com a fusão de ritmos da região com gêneros musicais como rock, jazz, blues e música erudita.

Filho do sanfoneiro baiano conhecido como Pedro Sertanejo (1927 – 1997), Oswaldinho cresceu ao som da sanfona, instrumento que aprendeu a tocar de forma autodidata com o incentivo do pai e com o convívio com Luiz Gonzaga (1912 – 1989), Dominguinhos (1941 – 2013) e Sivuca (1930 – 2006), habituais frequentadores da casa de Pedro Sertanejo.

Com Dominguinhos e Sivuca, a propósito, Oswaldinho formou um trio de ouro para a gravação do álbum “Cada um belisca um pouco”, lançado em 2004 pela gravadora Biscoito Fino.

O início foi precoce. Com nove anos, em 1963, Oswaldinho debutou no mercado fonográfico como convidado de disco do pai, difusor do forró na cidade de São Paulo (SP), onde fixou residência com a família após viver no Rio de Janeiro.

Aos 12 anos, em 1966, Oswaldinho lançou o primeiro single e, desde então, se tornou referência do acordeom ao longo dos 60 anos de carreira fonográfica, tendo se aperfeiçoado no toque do instrumento com aulas com diversos professores. Oswaldinho tirava inclusive efeitos da sanfona.

Os primeiros álbuns do artista foram lançados na década de 1970. “Fantástico Oswaldo Silva” (1973), “Só quero um xodó” (1974) e “Oswaldinho” (1975) foram editados pela gravadora Tropicana, especializada na edição de discos de artistas nordestinos.

“Forró pop” (1977), “Lágrimas de namorados” (1978) e “Natureza” (1979) foram lançados na sequência via Copacabana, companhia fonográfica nacional. Já o álbum que abriu as portas dos festivais europeus para o artista, “Forró in concert”, foi lançado em 1981 pela gravadora Continental.

Títulos de álbuns posteriores, como “Asa branca blues” (2002) e “Forró chorado” (2011), exemplificaram a habilidade de Oswaldinho do Acordeon para fundir ritmos nordestinos com outros gêneros, expandindo as fronteiras do forró e o universo musical da sanfona com mix de técnica e versatilidade. Enfim, um mestre, como o instrumentista era reconhecido no meio musical.

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sábado, 24 de outubro de 2026

MOBILIZAÇÃO PROGRESSISTA SOBREVIVERÁ À ELEIÇÃO

Flávia Oliveira, O Globo

No segundo turno, o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das ruas

A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado, sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo.

Depois de um primeiro turno tragado pela crise fratricida no Supremo Tribunal Federal (STF), as três semanas até o resultado final deixaram lampejos tanto sobre os projetos políticos em disputa quanto sobre os caminhos de mobilização e resistência pela sociedade civil. A totalização dos votos nas urnas não retirará do campo progressista o repertório amealhado de última hora, mas de vida útil duradoura. É dele que me ocupo nesta véspera do 25 de outubro, Dia da Democracia no Brasil. A efeméride foi instituída em honra e memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado por agentes da ditadura, em 1975.

Foi no segundo turno da eleição presidencial de 2026 que o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das praças, ruas, avenidas. A vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula, por 2 pontos percentuais, no primeiro turno não ativou apenas o modo sobrevivência de nomes do Centrão, que se bandearam para o lado do candidato do PL, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que ficou com o petista.

Na noite da segunda-feira 5 de outubro, alunos da Universidade Federal Fluminense marcharam por Niterói (RJ), num chamado democrático que ecoou Brasil afora. Voltaram às mesmas ruas no dia seguinte. Na quarta-feira, o centro da capital foi tomado por dezenas de milhares de estudantes que atenderam à convocação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de outras entidades.

A partir dali, nas capitais, em cidades médias e pequenas localidades, os jovens não saíram mais das ruas. E foram acompanhados de trabalhadores, aposentados, idosos, famílias, que se apresentaram para defender educação pública inclusiva e de qualidade, trabalho digno e bem remunerado, poder de compra, cultura e, claro, democracia. As manifestações numerosas e volumosas, mesmo sem a presença do candidato, mais que um trunfo da campanha de Lula, ressuscitaram na esquerda um meio de mobilização que, havia década, parecia exclusiva da direita.

Também na sequência à derrota no primeiro turno, comunidades de fãs de estrelas internacionais da música ofereceram perfis nas plataformas digitais à campanha petista. Foram tão relevantes para o impressionante ato pró-Lula na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo 11 de outubro, que o candidato não só compareceu, como agradeceu publicamente aos fandoms. Lula tornou-se político de um tempo em que manifestação política era obra de sindicatos e partidos.

A campanha pouco empolgante, algo embolorada, do PT no primeiro turno abriu espaço às incursões digitais de jovens parlamentares recém-eleitos, caso dos deputados Ana Elisa (PT-MG) e Guilherme Cortez (PSOL-SP); para aliados vitoriosos no Nordeste, aí incluídos o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o senador Camilo Santana, coordenador da campanha local no Ceará, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, senador e governador reeleito da Bahia, respectivamente. Podem vir dali os sinais de renovação de uma legenda refém das deliberações de seu maior líder.

Fica também a herança da mais bem-sucedida experiência digital da campanha de 2026, o “Exército do Lula”, obra do deputado André Janones (Rede-MG). A convocação, que bateu a marca de 10 milhões de “soldados”, horas antes do debate derradeiro entre Lula e Flávio, organizou como nunca antes o eleitorado petista e simpatizantes. Janones aglutinou, orientou e entusiasmou pessoas, num espelho à esquerda do que sempre fora monopólio, em participar, da extrema direita. O engajamento foi capaz de aturdir algoritmos e perturbar calejados influencers do campo conservador. Imprimiu aos integrantes os sensos de propósito, pertencimento, importância. Prova disso foi o aumento da relevância digital da campanha de Lula, atestado por indicador da Quaest. De tão incômodo, o canal quase foi censurado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Seja quem for o próximo presidente, o campo progressista chega ao fim deste segundo turno com votos, régua e compasso. Para reivindicar. Para resistir.

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A DEMOCRACIA ESTÁ EM RISCO ? SIM

Oscar Vilhena Vieira*, Folha de S. Paulo

Só o voto nos separa desse precipício; ameaça inclui autocratização do regime e fragilização da nossa soberania

Freios e contrapesos estarão debilitados, e o cenário internacional se tornou mais hostil aos regimes constitucionais

A democracia brasileira corre um triplo risco nesta eleição presidencial: a autocratização do regime, com a fragilização do sistema de freios e contrapesos, a distorção das regras eleitorais e a erosão dos direitos humanos; o aprofundamento do processo de cupinização do Estado de Direito, com consequente esgarçamento do tecido social e brutalização da vida cotidiana; assim como a fragilização de nossa soberania, especialmente nos campos ambiental e digital.

Como nos anos 1930, com a ascensão do nazismo e do fascismo, as democracias liberais voltaram a estar submetidas a forte pressão de movimentos extremistas. Diferentes fatores têm contribuído para que partidos e lideranças, sobretudo de extrema direita, capturem as frustrações e o desejo de mudança em países tão distintos quanto Alemanha, Índia, França, El Salvador, Turquia ou Estados Unidos.

Imigração, desigualdade, corrupção, crescimento da criminalidade, precarização do trabalho, digitalização da vida e falta de perspectivas para as novas gerações, assim como ressentimento de determinados grupos sociais com a perda de status, são comumente lembrados como fontes de mal-estar.

A extrema direita tem sido hábil em transformar essas angústias em voto. O problema é que suas respostas aparentemente simples são, na maior parte das vezes, muito erradas. É uma ilusão achar que a extrema direita é capaz de oferecer soluções para temas como segurança, desigualdade ou mesmo controle das contas públicas.

O Brasil não tem passado ileso por essa maré montante de extremismo. Em 2018, elegeu como presidente um ex-militar de extrema direita. Mas de uma linhagem peculiar, que floresceu nas franjas da erosão política e institucional de seu estado, marcado pela expansão do tráfico de drogas e das milícias.

Destituído de maioria parlamentar, Bolsonaro pai abusou de suas prerrogativas para tentar subjugar a Constituição, desacreditar as urnas, flexibilizar o acesso às armas, promover uma agenda regressiva contra o meio ambiente e indígenas, além de uma agenda obscurantista no campo da saúde e educação.

Felizmente as instituições constitucionais e organizações da sociedade civil foram capazes de mitigar estragos, sobretudo em relação aos ataques à democracia. Derrotado nas urnas em 2022, ele tentou um golpe de Estado e terminou condenado.

A extrema direita retorna agora num contexto institucional muito distinto. Seu partido ampliou cadeiras no Parlamento, ainda que não tenha conquistado a maioria. Também expandiu o poder nos estados. As instituições de controle se deixaram contaminar e perderam muito de sua autoridade. Isso não significa que os interesses entrincheirados no Parlamento, nos tribunais e nos Estados não possam oferecer alguma resistência a arroubos autoritários. Mas os freios e contrapesos estarão debilitados. Além disso, o cenário internacional tornou-se mais hostil aos regimes constitucionais e à própria soberania dos Estados.

Embora muitos dos eleitores do clã Bolsonaro não comunguem do seu extremismo político, da cultura miliciana e do entreguismo, parecem cegos às consequências de suas escolhas. Seria importante que esses eleitores estivessem alerta para o fato de que bolsonarismo não é liberal —tampouco conservador.

Não representa o partido da lei, nem da ordem. Não é patriota. Muito menos promoverá a ética na gestão da coisa pública. Quem persegue esses valores está indo na direção errada.

A eventual conquista de um segundo mandato pela extrema direita, como em muitos outros países, ampliaria as ameaças sobre as estruturas da democracia liberal, degradaria os padrões de convivência democrática, pela naturalização da violência e do arbítrio, assim como fragilizaria nossa soberania, especialmente nos campos socioambiental, digital e de segurança.

Neste momento, somente o voto nos separa desse precipício.

*Professor da FGV Direito SP e colunista da Folha, é mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP; membro da Comissão Arns de Direitos Humanos

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ESQUELETOS NO ARMÁRIO REVELAM OS CRIMES DE FLÁVIO BOLSONARO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Esquema de lavagem de dinheiro vai de loja de chocolates a casa de apostas

O 'amigão' Willer Tomaz usou a mãe como laranja e dividiu conta bancária com filho 01

O caso das rachadinhas —movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão na conta do assessor Queiroz— veio a público no fim de 2018, logo após a eleição de Bolsonaro. De lá para cá, é notável a evolução de investigações envolvendo o filho 01. Um enorme telhado de vidro, o qual, no entanto, se mostra inquebrantável aos olhos de seus eleitores.

Entre os 12 candidatos à Presidência, é o único que se beneficiou do esquema Vorcaro —pediu na caradura R$ 134 milhões ao banqueiro picareta. No rol de denúncias e suspeitas estão a compra da mansão de R$ 6 milhões, além de outras transações imobiliárias em dinheiro vivo, e a loja de chocolates utilizada para lavar R$ 1,6 milhão. Sua lavanderia, digo, seu escritório de advocacia, emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais sem detalhar os serviços. A sede da banca do senador é sua casa. É administrada à distância por uma funcionária que mora na periferia de Brasília.

Surge agora uma descoberta que é uma condenação moral. A Polícia Federal solicitou ao STF abertura de inquérito para investigar se Flávio Bolsonaro é sócio oculto da BestBet, jogatina online licenciada no governo de Cláudio Castro.

A investigação contra lavagem de dinheiro tem como principal alvo o advogado Willer Tomaz, sócio ostensivo da BestBet, amigo íntimo do filho 01 e maior apostador do país. Em 2025, ele apostou R$ 5 bilhões e sacou quase R$ 200 milhões. A PF suspeita que se trate de uma simulação, não de apostas reais. Willer também é investigado por fraudes relacionadas ao INSS.

Os vínculos entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomáz —que usava a mãe como laranja e tinha um bunker com máquina de contar dinheiro— passam pela broderagem com Vorcaro, conta bancária conjunta, festas, viagens de jatinho, apartamento usado na campanha eleitoral e a batalha judicial com o jogador Richarlison por uma ilha em Angra dos Reis. Máfia perde.

Jair Bolsonaro fez de tudo para barrar investigações sobre o filho. Eleito presidente, o 01 escapa de atos estranhos ao exercício da função. Não poderá ter o destino do pai.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

'TRUMP, BOMBARDEIE O BRASIL'

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Os bolsonaristas sugeriram isso a Trump em São Paulo, mas ele nunca aceitará a ideia

Precisa dos nossos minerais críticos, que Flávio Bolsonaro já lhe garantiu se for eleito

No ato bolsonarista em São Paulo, no domingo (18), um objeto inflável em forma de míssil, de 3 metros de altura, desfilou pela avenida Paulista. Nele lia-se: "Trump nuke Brazil". "To nuke" é um verbo em inglês, significando destruir algo usando uma bomba nuclear. Era o que os bolsonaristas pediam a Donald Trump, que jogasse uma bomba no Brasil —claro que no Brasil "de Lula". Os americanos são craques em matar a distância, mirando alvos isolados com drones de alta precisão. Mas como conseguir isso com uma bomba feita para varrer milhões de uma sentada?

O objeto levava um recado a ser visto por Trump, para dizer-lhe que "os brasileiros" contam com ele para intervir nas eleições em favor de Flávio Bolsonaro. Ou, em caso de derrota, minar a nossa economia com tarifas, sanções e boicotes para implodir o governo Lula. Até aí Trump irá, mas é claro que ele jamais bombardeará o Brasil. Nosso subsolo é precioso demais —contém material "capaz de livrar os Estados Unidos da dependência dos minerais críticos da China".

Esta frase, dita há poucos dias, é de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência. Revela que, com ele, se eleito, o Brasil porá sua vital matéria-prima à disposição dos celulares e computadores dos Estados Unidos, ameaçados de pifar se a China lhes cortar a venda dos ditos minerais. Será uma contrapartida às atividades da Rockbridge Network, uma empresa americana suspeita de estar trabalhando na sua campanha, injetando milhões em doutrinação de jovens, infiltração em universidades, trabalho em igrejas, compra de jornalistas e benesses a políticos.

Nos primeiros anos 1960, as multinacionais americanas, ligadas a empresários brasileiros, estabeleceram aqui organizações parecidas: o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Com esses nomes de fachada, elas financiaram a campanha que levou à ditadura em 1964.

Os objetivos são os mesmos e os métodos, mais eficientes. Os bolsonaristas podem recolher seu míssil inflável.

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ARMAÇÃO ILIMITADA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Armação policial para ligar criminosos ao PT repete enredo de 1989

Caso de suspeitos uniformizados em Piracicaba lembra manipulação do sequestro de Abilio Diniz

Aconteceu em Piracicaba, cidade do interior paulista onde Flávio Bolsonaro colheu 63% dos votos no primeiro turno. Policiais militares prenderam três jovens, incluindo um menor de idade, sob suspeita de tráfico de drogas. Antes de serem levados à delegacia, os três foram obrigados a vestir camisetas com o nome de Lula e a estrela do PT.

Parece 1989, mas ocorreu nesta quarta-feira, a quatro dias da eleição presidencial. Testemunhas ouvidas por diferentes órgãos de imprensa denunciaram a armação. De acordo com os relatos, nenhum dos suspeitos vestia roupas ou adereços políticos durante a abordagem. “Um estava todo de cinza, um de moletom azul e boné, e o outro estava de bermuda jeans e camiseta branca”, contou uma entrevistada.

A mãe do adolescente apreendido afirmou que um dos policiais deu um soco em sua outra filha, de 14 anos. A PM informou em nota que “os fatos serão analisados através de procedimentos apuratórios cabíveis”. Pelo histórico do governo do bolsonarista Tarcísio de Freitas, convém esperar sentado.

Há 37 anos, o segundo turno entre Lula e Fernando Collor concorreu pelas manchetes com o sequestro do empresário Abilio Diniz. Na véspera da eleição, a polícia de São Paulo cercou o cativeiro e disse ter apreendido material de propaganda do PT. A plantação ganhou o noticiário e deu o impulso final para a vitória da direita. A vítima do sequestro nunca comprou a lorota. Até o fim da vida, manteve relações amistosas com o candidato derrotado.

Na era da comunicação instantânea, as fake news ganharam alcance e velocidade. Ex-secretário de Tarcísio, o senador eleito Guilherme Derrite ajudou a amplificar a cascata. Até a tarde de ontem, o vídeo forjado contava mais de 9 milhões de exibições em seu perfil no Instagram. “Parabéns aos nossos policiais!”, comentou o aliado Flávio, com uma bandeirinha do Brasil. Diligente para censurar canais de WhatsApp, o presidente do TSE ainda não se manifestou sobre o caso.

Numa sociedade aprisionada em bolhas informacionais, até mentiras toscas, como a de uma gangue uniformizada com as cores de um partido, são capazes de influenciar o voto. O episódio também deveria servir de alerta sobre o risco de politização das forças de segurança — seja pela ação de governos, seja pelo fervor do guarda da esquina. Já aconteceu no passado recente.

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ALGUMAS HORAS PARA O FUTURO

Artigo de Fernando Gabeira

Faltam apenas algumas horas para a decisão. São duas visões antagônicas. O País será algo muito diferente com a vitória de um ou outro. Nossas vidas serão impactadas. É natural que seja uma semana tensa.

No meu caso, temo pelos anos dedicados à legislação ambiental. Ouço Flávio declarando sobre a Amazônia que os fazendeiros serão livres para fazer o que quiserem em suas terras. O pai dele também pensava assim. Mas é um delírio. Nenhuma terra está fora de uma região, de um país ou do próprio planeta. Se um rio passa em sua propriedade, você não pode nem represá-lo nem contaminá-lo sem prejudicar os que vivem à jusante. Não é possível atear fogo dentro de suas terras sem levar em conta a segurança das terras vizinhas. Quando se vive numa região tão especial como a Amazônia, por lei, não se pode desmatar livremente, apenas 20% da área.

Uma concepção anárquica como a dos Bolsonaros pode não apenas levar a Amazônia a um ponto de não retorno, transformando a floresta numa savana, mas arrasar com o nosso comércio exterior. Todos os acordos comerciais dependem dessa cláusula ambiental. Mesmo os Estados Unidos, liderados por Trump, investigam o Brasil, acusando o País de desmatamento para justificar suas tarifas.

Portanto, as decisões de domingo podem nos levar a diferentes papéis no mundo: interlocutores no combate às mudanças climáticas ou vilões ambientais. De um ponto de vista da política mais ampla, nosso papel no mundo será diferente.

Flávio Bolsonaro propõe um alinhamento com os Estados Unidos. Mas não vai muito adiante. Uma boa relação com os norte-americanos é essencial. Mas é inegável que são dois países diferentes, com interesses específicos. Um exemplo: o Pentágono se prepara para comprar a empresa que explora terras raras em Goiás. Isso acontece num momento em que o Brasil apresenta uma importante restrição ao comércio de terras raras: a exigência de que sejam beneficiadas dentro do território. O projeto que define isso já foi aprovado no Congresso. É preciso ver se é aplicável às explorações de Minaçu, em Goiás, e Poços de Caldas, em Minas.

De qualquer maneira, há uma diferença entre um país totalmente alinhado com os Estados Unidos e um país amigo que concorda em muitos temas, mas mantém sua própria identidade política.

A direita no Brasil cresce na denúncia da corrupção. Mas será que, em caso de sua vitória, emergirá um país mais honesto? O candidato escolhido por ela sofre inúmeras acusações que vão desde rachadinha, passando por compra de mansão e outras situações confusas. Ele tem um perfil mais parecido com um clássico político do Centrão. Como evitar que se comporte como tal, uma vez na Presidência?

A escolha de um outro candidato vai impactar a política cultural. O fato de a maioria dos artistas e acadêmicos apoiar Lula tem sempre uma grande repercussão na cabeça dos Bolsonaros, que passam a antagonizar a ciência e a arte, como se fossem territórios inimigos. Essas diferenças culturais podem trazer situações dramáticas como se viveu na pandemia, e, de uma certa forma, ainda se vive no debate sobre a importância das vacinas.

Finalmente, as concepções de segurança pública são muito divergentes. A maioria aprova as teses mais repressivas da direita. Muito se falou na experiência de El Salvador, como se um país tão pequeno pudesse servir de modelo ao Brasil.

De qualquer forma, embora a retórica seja diferente, a política de segurança pública de Jair Bolsonaro não representou uma mudança qualitativa em relação às outras desenvolvidas no período da redemocratização. Isso revela a dificuldade do tema, a necessidade de compreendê-lo em todas as suas variáveis e encontrar uma política eficaz, algo que não aconteceu ao longo dessas décadas. O problema só se agrava e o próprio sistema penitenciário passou a ser uma complicação a mais, apesar de tanto dinheiro e energia para que fosse parte da solução.

As pessoas chegam às suas escolhas por múltiplos caminhos. Elas se diferem entre as que buscam soluções individuais e as que enfatizam soluções coletivas. Elas frequentam as redes sociais, onde não faltam argumentos, acusações e até mesmo insultos.

A esta altura, apesar do importante debate final, a sorte parece estar lançada. Na segunda-feira, saberemos que país teremos nos próximos quatro anos. Em função disso, teremos de repensar nossos destinos, buscar aqueles que estão em situação semelhante e redesenhar nossa trajetória. O consolo na democracia é que sempre teremos uma nova eleição. A alternância é a grande qualidade do sistema. Essa qualidade jamais poderá ser roubada.

Creio que os candidatos foram submetidos a grandes sessões de perguntas. Mas em todas elas, para início de conversa, deveria ser colocada a questão democrática. “Aceita o resultado das urnas e promete não tentar golpe em caso de ser derrotado?” A sociedade amadureceu, há mudança entre os militares, a conjuntura internacional também ainda é favorável à democracia. Experimentos que pareciam eternos, como na Hungria, onde Viktor Orbán conquistou o Congresso e o Judiciário, acabaram se mostrando frágeis e passageiros.

Artigo publicado no jornal Estadão em 23 / 10 / 2026

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

INDEFINIDA E NA RETA FINAL

Míriam Leitão, O Globo

Em uma campanha tão empatada a três dias da eleição, o debate da TV ganha ainda mais importância e pode ser determinante

Faltam três dias para a eleição e ela ainda está indefinida. Há números até desconcertantes, como o aumento dos indecisos na pesquisa espontânea entre a primeira e a segunda rodada da Quaest no segundo turno. Flávio Bolsonaro continua numericamente na frente, mas agora com apenas um ponto. Está com 52% de rejeição, um número que sempre foi considerado impeditivo para qualquer pessoa ser eleita presidente da República. Há dados bons para o presidente Lula como a queda de rejeição para 47%, e a melhora, ainda que lenta, de avaliação do governo. Contudo, o candidato à reeleição ainda não teve a virada numérica com a qual contava depois de todas as manifestações. Tudo torna o debate de amanhã ainda mais importante.

O país entra nestes dias finais com um alto grau de mobilização dos militantes dos dois lados, o que é uma boa notícia, quando se compara com o morno e aflitivo primeiro turno, em que os conflitos no Supremo Tribunal Federal pareciam ser mais importantes do que a disputa para o Executivo. Ao mesmo tempo, o aumento de indecisos na espontânea de 7% para 14% é um ineditismo. Entre mulheres, essa dúvida subiu em uma semana de 8% para 17%. E os dois candidatos perderam apoio nesse segmento. O eleitorado feminino pode ter reagido ao ambiente bélico no debate da Band, em que faltaram propostas e sobraram ofensas. Entre os pretos, o percentual de indecisos aumentou de 12% para 23%.

Houve outras alterações interessantes. Entre os mais jovens, de 16 a 34 anos, havia empate numérico entre os dois, 44% a 44%. Neste levantamento, Lula oscilou para baixo e Flávio subiu. O candidato do PL tem oito pontos de diferença. Em compensação, entre as pessoas de 35 a 59 anos, Lula conseguiu reduzir a diferença de sete pontos para um ponto. Caiu o medo de Lula entre pessoas com ensino superior e com renda acima de cinco salários mínimos. Mudanças assim salpicadas, permitiram essa aproximação. Nesta pesquisa, um ponto percentual separa Lula de Flávio Bolsonaro.

O que houve até agora foi uma mudança de temperatura da campanha petista. Se nos últimos anos, a capacidade de levar eleitores para a rua parecia ser muito superior entre os bolsonaristas, a esquerda se manifestou com mais desenvoltura. A campanha digital que desde 2018 parecia ser dominada pela extrema direita, passou a ser um território em disputa.

Nos últimos dias, as evidências das ligações estranhas entre o candidato do PL Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz aumentaram. Ele é uma pessoa extremamente controversa, para dizer o mínimo. Investigado pelos desvios do INSS, já havia sido preso na operação Greenfield. É o maior apostador em bets, com movimentações que chegam a bilhões, dono de empresas no exterior de atividade nebulosa, contas compartilhadas com o senador, e parcerias com Daniel Vorcaro. O problema de todas essas suspeitas é que, se Flávio Bolsonaro for eleito presidente da República, as investigações sobre ele terão que ser interrompidas.

Na economia, agravam-se os riscos fiscais com a intensificação das sequências de bondades oferecidas pelos dois lados. Se o presidente Lula tem usado a caneta para anunciar medidas as mais variadas, que têm em comum o expansionismo fiscal, Flávio Bolsonaro não quis ficar atrás. A última do candidato do PL foi a promessa da volta do Perse. O programa de apoio ao setor cultural e de eventos na pandemia foi encerrado pelo governo Lula, quando as projeções indicavam que o gasto atingiria R$ 60 bilhões. A soma das bondades de lado a lado levam a um único resultado: aumento do risco fiscal do país em 2027.

Como se tudo isso fosse pouca confusão, o ministro André Mendonça chegou a preparar uma resolução que retiraria do ar, 48 horas antes da eleição, os canais de comunicação que usam aplicativos de mensagens. Isso depois de o Exército de Lula, canal criado e gerenciado pelo deputado André Janones, chegar a 7 milhões de participantes, superando em três vezes os que integram as fileiras da Tropa de Flávio. Diante das pressões, o TSE recuou.

Nesse ambiente tenso e intenso, o debate da TV Globo amanhã torna-se ainda mais importante. Os candidatos terão que falar de propostas para o futuro do país, o que mais faltou nessa tumultuada campanha presidencial. Será a oportunidade para que os candidatos reduzam as dúvidas dos indecisos e tentem diminuir a alienação eleitoral. Isso definirá a eleição.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O CALVÁRIO DE UM CIDADÃO DE BEM

Bernardo Mello Franco, O Globo

Detido após importunar mulheres e disparar tiro em boate, deputado do PL é crítico do Bolsa Família, tentou banir pornografia e diz defender a 'moral cristã'

Marcelo Aguiar é um típico cidadão de bem. Dublê de cantor gospel e deputado estadual pelo PL de São Paulo, apresenta-se como um político devotado aos “valores cristãos”, à “defesa da família” e à “proteção das crianças”. “Minha trajetória é feita de canções, de fé, de luta e de esperança”, pontifica, em sua página oficial.

Casado e pai de dois filhos, o representante do povo se descreve como guardião dos “princípios da moral cristã”. “Sua atuação parlamentar é pautada por firmeza ética, preparo técnico e sensibilidade social”, assegura, falando de si mesmo na terceira pessoa.

Apesar da autoavaliação imodesta, o deputado ainda não se destacou pela produção legislativa. Seu projeto de lei mais célebre visa obrigar as operadoras de internet a bloquearem sites de pornografia para combater o que ele chama de vício em masturbação.

“Os jovens são mais suscetíveis a desenvolver dependência e já estão sendo chamados de autossexuais, pessoas para quem o prazer com sexo solitário é maior do que o proporcionado pelo método, digamos, tradicional”, justifica. O texto aguarda votação há dez anos.

No início do mês, Aguiar concedeu entrevista ao podcast Assembleianos de Valor. Ao lado do deputado federal Pastor Marco Feliciano, orientou irmãos de fé a apoiarem políticos como eles. “Quem votar na esquerda vai votar em quem não acredita na família, em quem quer destruir a religião”, praguejou.

O deputado-cantor também expôs uma visão negativa dos programas de transferência de renda. “Querem dar uma escravidão para o pobre”, repreendeu. “É isso o que a esquerda quer fazer com o pobre. Eles não querem fazer o pobre prosperar. Querem fazer o pobre ficar dependente do Bolsa Família”, arrematou.

Na madrugada desta segunda, Aguiar foi detido após disparar um tiro e causar pânico na casa noturna Santo Cupido. Segundo testemunhas e policiais ouvidos pelo G1, estava embriagado e importunava mulheres. O carro preto com placa oficial ficou estacionado na porta da boate. Cambaleando, o deputado chegou à delegacia amparado por dois PMs. Prestou depoimento e foi liberado sem teste de alcoolemia.

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PROSPERIDADE: FÁCIL DE VENDER, DIFÍCIL DE ENTREGAR

Vera Magalhães, O Globo

Flávio capta sentimento do eleitor que quer empreender, mas o explora com promessas vazias e de implementação duvidosa

A nova rodada da pesquisa Meio/Ideia, a última antes do segundo turno, traz uma chave para entender o voto em Flávio Bolsonaro e também um alerta para o dia seguinte caso o candidato do PL confirme seu favoritismo e vença a eleição: ela reside na promessa de prosperidade, essa palavra carregada de possibilidades, mas de difícil entrega.

A detalhe aparece numa pergunta nova: o que significa melhorar de vida para você? Para 43,3% dos entrevistados, é ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria, enquanto apenas 32% sonham com carteira assinada e direitos trabalhistas. A direita percebeu essa aspiração antes da esquerda, tanto que vem trabalhando promessas para esse público pelo menos desde 2024.

A presença mais marcante do coach Pablo Marçal na campanha de Flávio no segundo turno, inclusive como preparador para o debate da Band, embute a ideia de que é preciso acenar a esse contingente. O truque do candidato de falar direto para a câmera e perguntar ao espectador se a vida dele melhorou ou piorou no governo Lula vai direto ao ponto, é a pergunta anterior à incluída na pesquisa.

Nesse grupo de aspirantes a empreendedor, Flávio aparece com 62,3%, segundo o Ideia. Dos que sonham com a CLT, 65,4% vão de Lula. Numa campanha praticamente empatada, esse recorte mostra uma bifurcação crucial para desenhar o que serão os próximos quatro anos do Brasil.

Principalmente porque Flávio promete que a vida dessas pessoas mudará radicalmente, rápido e sem que ninguém perca direitos, uma conta que, como todo mundo sabe, não fecha, mas ninguém entre os encastelados nos escritórios da Faria Lima parece muito preocupado em explicar aos clientes como fechará.

A mistura de linguajar de coach com o de pregador religioso que Flávio introjetou com base em muito media training, pôs em prática na entrevista da Globo e, principalmente, no debate é a receita do embuste: confie em mim que tudo dará certo.

Ao falar de um plano mirabolante de moratória nos boletos, ele misturou alhos com bugalhos, não foi questionado por Lula e não gerou nenhum pânico nos analistas de mercado sempre tão horrorizados com as decisões do governo do PT.

Esse papinho à Pablo Marçal costuma convencer aqueles que legitimamente sonham com o passaporte para a vida sem patrão. Assim como convenceu gente sem nenhum treinamento a escalar o Pico dos Marins, há alguns anos, e levou outro grupo de incautos a participar de um triatlo no Paraguai de onde muitos precisaram ser resgatados porque não conseguiam nadar em águas revoltas, Marçal está treinando um presidenciável para os debates e é candidatíssimo a virar ministro da Prosperidade.

Vender um amanhã maravilhoso, que só depende da sua vontade, é fácil. Com a ajuda das redes sociais, então, sopa no mel. O difícil é entregar a tal prosperidade num país complexo, desigual e profundamente dividido como o Brasil.

O segundo turno devolveu às ruas uma esquerda que parecia ter abdicado a elas desde o impeachment de Dilma Rousseff. Ressurgiu, sobretudo, o jovem de esquerda, cuja presença digital era menos perceptível que a do jovem de direita, talvez por ser menos estridente.

As manifestações do segundo turno foram engrossadas ainda por aquele eleitor de centro que se sentiu meio peixe fora d’água no governo Lula 3, mas que, ainda assim, entende que a volta do bolsonarismo ao poder é um risco para os direitos civis, a democracia, o meio ambiente e outros pilares civilizacionais.

Ainda que não consigam a virada em nome da qual saíram de casa, esses grupos não deixarão a arena pública, ainda mais porque, num Congresso com predomínio inédito das forças de direita, caberá em grande medida a eles puxar o tal freio que as instituições normalmente são responsáveis por operar.

Flávio, se eleito, terá em seu cangote os aspirantes a empreendedor cobrando a entrega rápida da prosperidade prometida, os beneficiários de programas sociais que prometeu não desassistir, o mercado que conta com a tesoura escondida no segundo turno e essa oposição revigorada dos exércitos digitais e das ruas. Não será o passeio que o salto alto dele e de seu entorno e a truculência que seus apoiadores já começam a demonstrar em atos violentos país afora parecem fazer crer.

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