quarta-feira, 13 de maio de 2026
terça-feira, 12 de maio de 2026
DEBAIXO DESSE ANGU, TEM MUITO MASTER, E A REPÚBLICA JÁ SENTE O CORAÇÃO NA BOCA
Laços de Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro levantam dúvidas
Banco era o centro nervoso da bancarização do crime no
Brasil
Se havia dúvidas da ligação de Daniel
Vorcaro, preso nas dependências da Polícia Federal, em Brasília, com
políticos de alta patente, as incertezas caíram por terra com a revelação
das conexões do ex-dono do banco Master com
o senador Ciro Nogueira (PP-PI). E não deve
ser caso único, pela expectativa da proposta de delação premiada sob análise da
PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR). Por conta dela, a própria
República está na iminência de expelir o coração pela boca.
"Grandes amigos da vida", como rezam as mensagens
no celular de Vorcaro. Essa relação sugere que debaixo desse angu há caroço
grosso, dada a magnitude das transações e a bilateralidade criminosa que
compartilham. De um lado, propinas de até R$ 500 mil mensais; de outro, uso do
mandato em favor do ex-banqueiro. Uma promiscuidade presente no nosso
imaginário, mas jamais vista nesses termos.
A interferência legislativa nas negociatas
de Vorcaro, expressa
na "emenda Master", dentro da PEC 65/2023, abriria perigoso
precedente à economia se concretizada. Difícil acreditar que, pela oferta de
favores e jatinhos de luxo, os "serviços prestados" por Ciro Nogueira
se restrinjam a uma emenda rejeitada. É ingenuidade do colunista ou estamos diante
de algo maior?
"Namoro ou amizade?", diria minha centenária avó.
O certo é que os escândalos do banco Master, foco da Operação Compliance Zero,
configuram o maior esquema financeiro criminoso da nossa história
contemporânea.
Trocando em miúdos, a proposta de delação de Vorcaro, embora
considerada "fraca" pela PGR, carrega potencial de implosão
institucional. Se as provas dos celulares confirmarem o que se especula em
Brasília, não restará pedra sobre pedra nos três Poderes.
Revelará o que até os bobinhos já sabem: o banco Master não
era apenas uma instituição financeira, mas o coração pulsante da bancarização
do crime no Brasil.
O ALTO CUSTO DA GUERRA DE TRUMP
Conflito iniciado por Trump já fez o americano pagar US$
35 bi a mais com a alta dos combustíveis. Efeito atinge também a inflação
brasileira
O custo da guerra para os Estados Unidos não é apenas a
cifra anunciada de US$ 25 bilhões de despesas orçamentárias extras. Essa é a
ponta do iceberg, disse a professora de Harvard Linda Bilmes ao Financial
Times. É preciso fazer a conta dos gastos indiretos, como o aumento da despesa
com alimentos e com combustíveis, especialmente diesel. O conflito contra o Irã
é parte do cotidiano dos cidadãos norte-americanos.
Numa reportagem sobre os impactos mensuráveis, o FT afirma,
com base num estudo da Watson School of International and Public Affairs, da
Brown University, que o consumidor americano já pagou US$ 35 bilhões a mais com
combustíveis desde o início da ofensiva. Resultado da alta de 50% no galão de
gasolina e do reajuste do diesel. “Equivale a US$ 268 por família,
aproximadamente o valor de uma semana de compras de supermercado”.
As famílias lidam com isso de maneira
desigual, como sempre. O terço mais rico não mudou os hábitos, o terço mais
pobre cortou o consumo e recorre a caronas e ao transporte público. O querosene
de aviação subiu mais de 70%, o que está claramente afetando os preços das
passagens aéreas e foi uma das razões da falência de uma companhia aérea low
cost, a Spirit Airlines.
Há a perda do que não aconteceu. Não houve o corte de juros.
Antes da crise, a previsão era de dois cortes de 0,25 ponto percentual, pelo
menos. As reduções não foram feitas. E nem poderão ser, mesmo com a mudança do
presidente do Fed que será agora em maio, porque a inflação está em 3,5%, bem
acima da meta de 2%. A despesa dos juros mais altos do que estariam se não
fosse a guerra é calculada na matéria do Financial Times em US$ 200 bilhões.
Juros menores estimulam a demanda, portanto, há também a ausência do estímulo
que não ocorrerá.
Os fretes subiram de forma geral, até nas rotas que não
passam pelo Oriente Médio, elevando os custos de produção da cadeia industrial
e dos alimentos. Segundo a reportagem, os economistas estão prevendo que
demorará seis meses até os efeitos desse choque chegarem aos preços da comida.
Mas o valor do diesel, fretes mais altos e energia cara vão bater na inflação
de alimentos. Tudo pode ser pior porque há ainda os fertilizantes que ficam
mais caros e com menor oferta no mercado. Os países da região do Golfo são
grandes fornecedores do produto. “O preço dos fertilizantes nitrogenados –
muitos produzidos no Oriente Médio – subiu mais de 30% desde o início da
guerra”, diz o jornal inglês.
Todos os países estão sentindo em maior ou menor grau o
efeito do confronto em sua estrutura de preços. O Brasil, inclusive. A inflação
de abril, que será divulgada hoje, mostrará a pressão dos preços provenientes
da tensão geopolítica. Aqui, os combustíveis só não subiram tanto por dois
motivos: a decisão de subsidiar o diesel e a política da Petrobras de segurar o
reajuste da gasolina. Até que ponto isso é sustentável? Tanto o subsídio quanto
o represamento de preços da gasolina têm peso elevado no gasto direto ou na
receita que não vai entrar. Os juros aqui caíram, mas menos do que se projetava
antes do confronto.
Além dos devastadores reflexos deste conflito, que o
presidente Donald Trump iniciou intempestivamente e não sabe como terminar,
paira ainda o temor do El Niño. Vários especialistas avaliam que o fenômeno
climático poderá ser mais forte do que em anos anteriores. O resultado será
mais inflação. Cálculos da G5 Partners mostram que em anos com El Niño, a média
da inflação da alimentação no domicílio é de 11,6% contra 6,1% em anos sem esse
fenômeno.
No ano passado, a alta do real e a falta de eventos
climáticos extremos fizeram com que os alimentos registrassem alta de apenas
1,42%. Em 2026, só temos a valorização cambial jogando a favor.
Há nove semanas, o Boletim Focus vem aumentando a projeção
do IPCA e há quatro semanas a previsão para 2026 é de estouro do teto da meta,
o que piora o quadro para um governo que está disputando a reeleição. Ruim
também é o impacto da operação no Irã no eleitorado que estará votando para
renovar a Câmara dos Representantes e parte do Senado nos Estados Unidos. A
aprovação de Trump nunca foi tão baixa. Ele prometeu não iniciar novas guerras,
encerrar algumas, manter a inflação baixa e gasolina barata. Mas a realidade é
o oposto do que o seu eleitor estava esperando.
COM TRAFICANTES E AMANTES, RIO É UM CABARÉ EM CHAMAS
Em sete meses, três deputados da tropa bolsonarista foram
presos
Apesar das retaliações, governador interino não descansa
na faxina
Virou rotina. Em sete meses, três parlamentares do Rio foram
presos, entre eles o presidente da Alerj, Rodrigo
Bacellar, acusado pela Polícia
Federal de vazar uma operação contra o Comando Vermelho em que o alvo
era o deputado TH Joias. A bola da vez é Thiago Rangel, que desviou verbas da
Secretaria de Educação e concedeu cargos na pasta a pessoas indicadas por um
traficante, de acordo com as investigações.
Os três integravam a tropa bolsonarista que, desde 2019, se
especializou em aparelhar as instituições e depenar os cofres públicos,
aliando-se a organizações criminosas. Estas, livres para atuar, se agigantaram.
Rangel,
do Avante, é considerado um peixe pequeno no esquema de corrupção. Mas um
peixinho que tinha um Porsche último tipo guardado na garagem e cujo patrimônio
saltou de R$ 224 mil em 2020, quando se candidatou a vereador, para R$ 3
milhões em 2023, ano em que já era deputado. Segundo a Polícia Federal, sua
função era lavar dinheiro de propina por meio de uma rede de postos da
gasolina, além de liderar uma quadrilha que fazia ameaças a adversários na
região de Campos de Goytacazes.
Há pânico nos bastidores da política fluminense. Depois da
Secretaria de Educação, a operação Unha e Carne irá se concentrar no setor da
saúde, controlado há oito anos pelo deputado federal Doutor Luizinho, cupincha
do encrencadíssimo senador Ciro Nogueira.
Por diversas vezes Nogueira quis emplacar Luizinho como ministro da Saúde no
governo Lula. Não conseguiu.
O governador em exercício do Rio, desembargador Ricardo Couto,
continua limpando a máquina administrativa, sem se incomodar com chantagens e
retaliações. Na Segurança, quer dar autonomia à perícia criminal,
desvinculando-a da Polícia Civil, o que garante investigações independentes em
casos de letalidade policial.
Inconformados com a exoneração de mais de mil funcionários
fantasmas, deputados estaduais ameaçam divulgar uma lista de amantes de
desembargadores que também recebem sem trabalhar na Alerj. O cabaré está
pegando fogo.
É MELHOR NÃO SE ILUDIR COM A DELAÇÃO DE VORCARO
Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: “Vai
acabar em pizza, vai acabar em pizza.” Mas confesso que estou um pouco cético
sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da
República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para
começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para
recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de
mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a
descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa,
pois certamente não conta com um longo período de prisão.
Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro são os próprios
advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito lucrativo, para
os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e permanente que
precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas para a Corte,
faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada.
Detesto a expressão “acochambrar”. Para coisas feias,
palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de Alexandre de
Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro num hotel de
Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da proposta de
delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a delação e
comentou:
— Puxa vida, que coisa!
Ninguém pode provar que a conversa não foi superficial.
Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas na Faculdade
de Direito da Universidade de São Paulo.
Por uma tentativa de conhecer a delação premiada do
tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço. O advogado
de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu cliente. O
ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido, camarada? “Meu
caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de Brasília.”
A Polícia Federal trabalha firme e com competência. Mas será
difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso do senador Ciro
Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de ofício: a emenda
apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia de
ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou essa emenda nas
conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de Vorcaro na política
terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais duro, que envolve
ministros do Supremo, talvez não seja tocado.
Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer momento, nosso
destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar para quem? Você
fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma parte da esquerda
jurando que você é de extrema direita.
No entanto será preciso reclamar. O caso Master não pode dar
em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para cobrir 8 milhões de
quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes ilusões. O Brasil não é
fácil.
Artigo publicado no jornal O Globo em 11 / 05 / 2026
segunda-feira, 11 de maio de 2026
A UTOPIA DE UM BRASIL SEM RACISMO
País seria uma das nações mais poderosas e desenvolvidas
do mundo
Ponto de partida é a reparação depois da assinatura da
Lei Áurea
A utopia de um Brasil sem racismo é
meu exercício de ficção predileto. Já me peguei pensando nisso umas mil vezes.
Acredito que seríamos uma sociedade muito melhor, mais justa e menos desigual
se o Estado tivesse promovido reparação depois da assinatura
da Lei Áurea, em 1888.
Hoje, 138 anos após a "abolição da escravatura" no
último país das Américas a libertar os africanos escravizados, compartilho um
vislumbre deste meu devaneio.
Imagino o Brasil como uma das nações mais
poderosas e desenvolvidas do mundo. As cidades são planejadas, a economia é
pujante e o índice de desenvolvimento humano (IDH) é dos mais elevados.
Com amplo acesso à educação de qualidade, as pessoas
aprendem desde cedo a valorizar a contribuição de cada etnia na formação do
nosso país. E ninguém se acha superior ao outro pela mera aparência física.
Temos incontáveis médicos, magistrados, engenheiros,
arquitetos, empresários, professores, parlamentares, governadores, enfim,
pessoas de todas as etnias, atuando em todas as áreas do conhecimento, e em
quantidade proporcional à nossa composição demográfica. E todos
(independentemente do gênero ou raça) são remunerados na mesma medida pelo
desempenho de atividades iguais.
Nossa diversidade e riqueza de recursos naturais garantem
uma enorme vantagem competitiva no mercado global. A extensão territorial é
mais do que suficiente para que os brasileiros, em regra, tenham acesso à
moradia digna, fora de zonas de risco ambiental.
A consciência crítica e cívica é elevada. Ninguém se
contenta com pouco, pois a maioria conhece seus direitos constitucionais e
rechaça tentativas de golpe ou embuste político que possam colocar em risco a
democracia.
Pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+ frequentam espaços de
convívio social normalmente, sem qualquer importunação. E as forças policiais
tratam a todos da mesma maneira.
Na minha utopia, a esperança de viver uma vida digna deixa
de ser um sonho para se tornar a realidade da maioria dos brasileiros —que é
negra.
PALAVRAS NA PONTA DA LÍNGUA
Você vai dizer alguma coisa e, de repente, a palavra lhe
escapa. O nome disso é letologia
Um dicionário com essas palavras teria de ser um volume
de 500 páginas, todas em branco
Sabe aquela frase que você começa a dizer e, de repente, a
palavra-chave lhe escapa e você não consegue se lembrar de jeito nenhum?
Segundos antes, ela estava na ponta da língua, pronta para ser dita, e veio
aquele bloqueio sem explicação. O poeta Antonio
Carlos Secchin, meu amigo e colega da Academia Brasileira de
Letras, descobriu o nome para isso: letologia —a incapacidade temporária de
lembrar uma palavra. Vem do grego: lêthê, esquecimento, e logos, palavra.
Letologia —grave bem para não esquecer.
Empolgado com o achado, Secchin está
cogitando a criação de um "Grande Dicionário das Palavras na Ponta da
Língua". Bem de acordo com o tema, seria um livro de 500 páginas em
branco, contendo todas as palavras que nos fogem quando mais precisamos delas
—no exato momento em que elas nos fogem e desaparecem. Sua ideia já teve o
apoio de vários colegas. O escritor e diplomata Felipe Fortuna ofereceu-se para
escrever o prefácio: duas páginas em branco, com agudas observações nas
entrelinhas. Eu próprio prometi-lhe mandar o texto da contracapa: dez linhas
com apenas os espaços entre as palavras.
Uma dificuldade será encontrar alguém para fazer a revisão.
Sugeri a Secchin um revisor que conheço, com dez graus de astigmatismo. O
lexicógrafo Ricardo Cavalieri, também da Academia, propôs uma versão em
braille, com o que me ocorreu um vídeo do dicionário em libras. Os dicionários
costumam ser um suplício para os consultores de vista cansada, mas este não
terá esse problema. E, se editado em outros países, ninguém reclamará da
tradução. Os chineses, inclusive, ficarão admirados com a semelhança entre o mandarim
e o português.
Os críticos, ao resenhar o dicionário, se identificarão
profundamente com ele, já que a maioria deles não tem nada a dizer. E os
presenteados com o livro dirão que lhes faltam palavras para agradecer o mimo.
Mais ainda se a dedicatória tiver sido escrita com tinta invisível.
Secchin planeja também uma edição eletrônica, para ser
consultada em celulares sem memória.
domingo, 10 de maio de 2026
FALTAM SEIS MESES PARA A ELEIÇÃO. E AÍ ?
As coisas mudaram, mas nossas reflexões muitas vezes
permanecem presas a lógicas do passado. É hora de encarar a eleição de 2026
como o fenômeno novo que ela realmente é
A seis meses das eleições, é preciso compreender que o
pleito de 2026 não é apenas mais um capítulo na nossa cronologia democrática.
Embora possa parecer um processo rotineiro, o contexto atual é inédito. O mundo
político pós-pandemia não é o mesmo, apesar de insistirmos em olhá-lo como uma
continuação óbvia do passado. Isso é um fato para todo o mundo, e o Brasil não
é exceção. Para decifrar o que nos espera em outubro, proponho três pontos de
observação essenciais.
Em primeiro lugar, destaca-se a diversidade do campo
político. A ciência política descreveu, por muito tempo, a existência de uma
"direita envergonhada" no Brasil pós-redemocratização. Nos anos de
1990, poucos candidatos assumiam tal posição política, temendo a associação
imediata com o período iniciado em 1964. Éramos um país de esquerda e de um
vasto centro; a própria esquerda hoje deve olhar com nostalgia para a época em
que rotulava Fernando Henrique Cardoso — um social-democrata — como a face
da direita brasileira.
Hoje, essa direita não só perdeu a
vergonha, como se diversificou. Embora as pesquisas indiquem que Lula possa
sair na frente no primeiro turno, a margem estreita revela sintomas complexos.
No curto prazo, há uma fragmentação da oposição que favorece a dianteira
numérica do presidente; contudo, em um eventual segundo turno, a tendência é a
convergência majoritária desses votos em um único opositor. A longo prazo, o
cenário é ainda mais desafiador para a esquerda: enquanto esse campo não
apresenta um nome capaz de substituir Lula, a direita constrói quadros para
2026 e, com quase absoluta certeza, para 2030. A sucessão na esquerda ainda é
uma miragem no horizonte.
Em segundo lugar, assistimos ao fim da hegemonia do
"incumbente". Historicamente, quem detinha a caneta e a máquina
pública entrava na disputa com franco favoritismo. Essa regra está ruindo. No
mundo hiperconectado e veloz das redes sociais, a satisfação do eleitor é
volátil. A oposição consegue minar ganhos do governo com mais agilidade,
expondo problemas e apresentando alternativas com eficácia inédita. Ser o
detentor do cargo já não é a vantagem competitiva como era no passado.
Se, por um lado, essa competitividade é o sinal vital de uma
democracia saudável, por outro, ela gera uma lógica perigosa. Governos acuados
pela iminência da derrota podem adotar medidas desesperadas no último ano de
mandato. O ciclo de quatro anos tem se mostrado curto demais para o
planejamento de políticas de Estado perenes, empurrando o país para a
"política do varejo". Nesse cenário, parece ser mais do que nunca
importante a discussão sobre mandatos únicos e mais longos.
Por último, vemos um velho problema brasileiro ganhando
contornos ainda mais relevantes. Enquanto pelo menos uma parte da população já
se preocupa com as eleições presidenciais de outubro de 2026, praticamente não
se discute a eleição para o Senado (são duas vagas este ano!) e para as Câmaras
de deputados federais e estaduais. Isso pode ser mais do mesmo, porque já é
conhecido no Brasil como o eleitor não entende o sistema proporcional de lista
aberta e seus cálculos e não se importa com esses cargos, pois acredita que
estamos em um sistema presidencialista clássico.
O paradoxo é que o presidente da República tem cada vez
menos força. Na prática, vivemos um semipresidencialismo que urge ser debatido.
Nunca o Legislativo teve tanto protagonismo. Recentemente, derrubou vetos e
barrou indicação ao STF (algo praticamente inédito na história brasileira).
Claro que essas sempre foram atribuições do Congresso, mas agora os
parlamentares se sentem menos dependentes do Executivo e se tornam
protagonistas com mais frequência. Atualmente, vale mais ser um influente líder
de bancada do que um ministro de Estado, já que administra fatias vultosas do
Orçamento via emendas parlamentares (de todos os tipos). O Congresso hoje não
apenas legisla, mas "executa" políticas públicas diretamente nos
municípios e estados. Enquanto os líderes partidários já entenderam a
importância estratégica da eleição ao Senado, visando, inclusive, confrontar o
STF, a população segue focada exclusivamente no cargo majoritário. Um erro
ainda mais perigoso no contexto atual.
Em suma, as coisas mudaram, mas nossas reflexões muitas
vezes permanecem presas a lógicas do passado. Temos agora uma direita
multifacetada — reacionária, conservadora ou liberal — que transcende o rótulo
de "bolsonarista". O governante perdeu seu conforto natural no
processo de reeleição, e o Legislativo saiu da sombra do Executivo. É hora de
encarar 2026 como o fenômeno novo que ele realmente é.
*Daniel A. de Azevedo — professor de geografia
política do Departamento de Geografia da Universidade de Brasília (UnB)
FUZIL DE OLHOS VERDES
Carmen Miranda serviu, sim, à Política da Boa Vizinhança.
Ela e dezenas de astros americanos
Ao se apresentar para os soldados nos quartéis, ela era o
Brasil lutando pela causa da liberdade
Em coluna
recente (22/4), tentei desmentir a história repetida à exaustão de
que Carmen
Miranda foi para os EUA em 1939 nas asas da Política da Boa
Vizinhança, uma arma americana na Segunda Guerra. Demonstrei que, naquele ano,
a famigerada política ainda não estava em operação, que os EUA sequer tinham
entrado na guerra (o que só aconteceria em dezembro de 1941) e que a guerra nem
mesmo começara. Carmen foi contratada por seu talento e pelo dinheiro que
renderia para o megaempresário dos teatros, Lee Shubert. A Broadway, então uma
operação doméstica, exclusivamente nova-iorquina, não tinha o menor interesse
pela guerra.
Um leitor observou que, depois, Carmen foi
usada por Hollywood em filmes para agradar ao mercado latino-americano. Isto,
sim, é verdade. Carmen foi a estrela dos filmes produzidos pela 20th
Century-Fox em cenários "exóticos", como "Serenata
Tropical" (1940), "Uma Noite no Rio" (1941), "Aconteceu em
Havana" (1941), "Minha Secretária Brasileira" (1942) e o
sensacional "Entre a Loura e a Morena" (1943).
E, assim como ela, seus colegas americanos naqueles filmes:
Betty Grable, Alice Faye, Don Ameche, John Payne, Harry James, Benny Goodman.
Todos superestelares, e nenhum deles perdeu pontos por "trabalhar para a
Política da Boa Vizinhança". Foi o que eles fizeram, assim como Walt
Disney, Orson Welles, Bing Crosby, o compositor Aaron Copland, o maestro
Leopold Stokowski. Muitos até interromperam suas carreiras para lutar pelos EUA
na Europa: Clark Gable, James Stewart, Tyrone Power, Henry Fonda, William Holden.
Frank Sinatra não pôde ir —tinha um tímpano perfurado e podia não escutar o
canhão.
Ao trabalhar naqueles filmes e se apresentar para soldados
nos quartéis do país, Carmen era só mais uma artista a lutar pela causa dos
Aliados. Suas armas eram o jeito esfuziante de cantar e dançar e de fuzilar com
seus olhos verdes as últimas filas da plateia nos acampamentos.
E, quando fazia isto, todos sabiam que, ali, ela era o
Brasil, ao lado dos que lutavam pela liberdade.
FAZENDO E DESFAZENDO A CONSTITUIÇÃO
Livro conta a história da Carta dos EUA, que se destinava
a regular o uso de terras
Adaptabilidade é ao mesmo tempo o ponto forte e a
vulnerabilidade da Carta
Uma boa pedida para quem quer entender melhor o que acontece
nos EUA é "The Making & Breaking of the American Constitution",
do historiador Mark Peterson (Yale). Para Peterson, constituições são métodos
para administrar a riqueza de um país, daí que ele começa sua obra sobre a
história constitucional americana com a batalha de Hastings na Inglaterra de
1066. Gerir riqueza, tanto na Inglaterra do século 11 quanto nos EUA do 18, era
regular o uso das terras agricultáveis.
Inicialmente, a Constituição inglesa,
não escrita, se prestou bem para administrar as 13 colônias originais dos EUA.
Até que deixou de funcionar. A população crescera, e os americanos queriam
tomar as terras dos indígenas a oeste dos Apalaches, coisa que os ingleses
haviam proibido. Junte a isso impostos que os contribuintes julgavam
escorchantes e você obtém
uma revolução.
Inicialmente, a Constituição escrita dos americanos
funcionou. Até que deixou de funcionar. Deu certo enquanto se tratava de
administrar um país agrário que podia se expandir de forma quase ilimitada.
Mas, à medida que o país foi se industrializando e se tornando mais complexo,
os limites daquele documento enxuto foram se revelando. Só que a Carta era e
permanece muito difícil de modificar —maioria de 2/3 nas duas Casas e
ratificação por 3/5 dos estados.
Os políticos logo descobriram que podiam forjar maiorias
políticas e governar mesmo sem formalizar emendas. A Constituição funcionava
porque não funcionava. Mas, à medida que o tempo passou, mais distorções foram
se acumulando. Um exemplo? A Constituição dá apenas ao Congresso o poder de
declarar guerras, mas desde Truman em 1950, todos os presidentes autorizaram o
uso de força militar no exterior sem aval prévio do Congresso.
Essa adaptabilidade é tanto o ponto forte dos EUA, que
sempre conseguiram se adequar a novos tempos, como seu ponto fraco, já que
torna o país presa fácil para maiorias dispostas à depredação institucional.
SILÊNCIO DE PEIXE FORA D'ÁGUA
Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado
genitor, Flávio ostenta a marca de 'moderado'
Se desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela
boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador
"Peixe morre pela boca" é velho ditado com
aplicações novas na vida política. Disso é ilustrativo Bolsonaro 2.0, Flávio,
filho 01 do ex-presidente encarcerado. Candidato à Presidência da República por
mérito digital, logo, críptico, evita falar sobre programa político. Há razões,
segundo o irmão 03: "Ele morde a isca com mais facilidade do que lambari
em anzol de mosquito". Uma arrelia de quem pesca em águas turvas.
Mutismo tem suas vantagens. No início dos
anos 90, Alberto Fujimori disputou com Mario
Vargas Llosa a Presidência do Peru. Grande escritor e intelectual
conservador, Vargas Llosa seduzia as elites "criollas" (descendentes
de espanhóis) com cultos discursos. Fujimori preferia calar. Não que fosse
desprovido de argumentos: agrônomo, professor, tinha ideias próprias sobre o
agro peruano e planos para combater as guerrilhas do Sendero Luminoso e do
Movimento Revolucionário Tupác Amaru, que assombravam o país. Sem o brilho de
Vargas Llosa, porém, trocava falatório por encontros nos "pueblos
libres", favelas locais, onde escutava calado as queixas de virtuais
eleitores, em especial as "cholas", mulheres indígenas. Eleito,
derrotou a guerrilha, reelegeu-se e terminou derrotado por corrupção em larga
escala, massacres de civis inocentes e abuso de poder. Passou 16 anos na
cadeia.
Conhecida, a história é oportuna pela coincidência da candidatura
de Keiko Fujimori com a de Flávio
Bolsonaro. Filhos de ex-presidentes com experiência prisional, ambos
militam na extrema direita e avançam
nas pesquisas. A diferença é que Keiko fala pelos cotovelos, surfando na
maré dos desacertos presidenciais e da corrupção sistêmica em seu país. Na
pequena política, o tempo é senhor da desrazão: ela espera que o eleitorado
recorde o terror mortífero das guerrilhas urbanas, esquecendo o terror corrupto
da era Fujimori.
Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de "moderado". Nos EUA, porém, tem dado corda à língua para assegurar que entregará tudo que seu mestre pedir: solo, subsolo, tudo mais. Aqui, ao falar do pai, debulha-se em choro, alheio a que "lágrimas não são argumentos". Não é aforismo textual, só que assim, em "Dom Casmurro" e "Quincas Borba", Machado de Assis desconfia das emoções convenientes: de salto alto, Bolsonaro 2.0 saltita e dança em surdina. Mas se lhe desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador do mesmo partido: uma vez eleito, disse, congelaria salários de aposentados. "Falta-lhe musculatura", sentenciou um líder pastoral.
Genes não são digitais, o que há mesmo é falta genética de cognição. O irmão mais novo, 04, foi descrito por um deputado-influencer como de "capacidade cognitiva menor que uma toupeira cega". Já o boquirroto 02 acusa esse deputado, não de falar mal, mas de "dirigir logaritmos" contra o clã. Lobista anti-Brasil, foragido, aspira ao Senado e ao Ministério do Exterior. Compreende-se, assim, que não seja nada inocente o silêncio de Flávio Bolsonaro: é treta de quem se cala, com amargos de boca, devido ao peso embaraçoso da carga.
SÓ A PIZZA SALVA FLÁVIO BOLSONARO
Se investigação que pegou Ciro Nogueira se estender, vida
do filho de Bolsonaro deve ficar difícil
Bolsonaristas querem salvar a si mesmos e a aliados de
direita, mas que mão pesada caia sobre Moraes
Segundo a Polícia
Federal, Ciro Nogueira (PP-PI), que Flávio
Bolsonaro já considerou vice dos sonhos por sua fidelidade a Jair
Bolsonaro quando foi seu ministro da Casa Civil, é ladrão. Ciro
recebeu dinheiro do Banco Master para
apresentar um projeto
de emenda à Constituição que teria dado sobrevida à ciranda do Master,
com custos incalculáveis para a economia brasileira.
Se você costuma ler
essa coluna, já sabe de que projeto se trata. É a emenda 11 à PEC 65/2023,
que é assunto aqui quase toda semana. Segundo a PF, ela foi escrita no Banco
Master e entregue a Ciro em um envelope para ser apresentada ao Congresso.
A "Emenda Master" elevava a
cobertura do Fundo Garantidor de Crédito para quem perdesse dinheiro com banco
quebrado, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Ou seja, o que Ciro Nogueira fez, a
mando de Daniel
Vorcaro, foi tentar aumentar o seguro que eu e você pagaríamos a quem
continuasse investindo no Master quando já estava claro que o banco era
bichado.
O deputado Filipe Barros, do PL do Paraná,
apresentou exatamente a mesma proposta, mas como projeto de lei (4395/2024).
Barros pediu intervenção militar no Congresso
Nacional em 30 de novembro de 2022 e hoje concorre a senador na chapa
de Sergio
Moro e Flávio Bolsonaro.
Se a investigação que pegou Ciro Nogueira se estender aos
outros políticos que roubaram com o Master, tentaram salvar o Master com
dinheiro público e/ou receberam dinheiro do Master, a vida de Flávio Bolsonaro
deve ficar difícil nos próximos meses. A maioria
é gente de direita.
Por exemplo, depois da operação da PF, foi cancelado o evento
em que Tarcísio
de Freitas receberia
apoio público do PP à sua candidatura ao governo. O presidente do PP é
Ciro Nogueira. Se as investigações forem até o fim, Tarcísio também vai ter que
cancelar eventos com o PL, com o União Brasil e com seu próprio partido, o
Republicanos, porque está todo mundo no rolo.
O próprio Tarcísio, é bom lembrar, teve como principal
doador de campanha em 2022 Fabiano
Zettel, cunhado e operador político de Daniel Vorcaro. Flávio
Bolsonaro também terá cinco meses de vida social muito parada se deixar de se
encontrar com direitistas envolvidos com o Master até a eleição.
Terá que parar de visitar o pai, inclusive: Jair Bolsonaro
recebeu a maior doação eleitoral do ecossistema Master encontrada até agora. Ou
seja: a direita só tem chances de vitória neste ano se o escândalo do Master
acabar na mãe de todas as pizzas, na pizza comparada à qual todas as pizzas
anteriores foram só pães de forma com um polenguinho em cima.
Considerando o quanto a direita é poderosa, é bem possível
que a pizza venha. A dúvida é sobre o seu sabor. A direita tradicional torce
por uma pizza X-tudão que livre todo mundo.
O bolsonarismo quer uma pizza só um pouco menos parruda: querem salvar a si mesmos, a seus aliados de direita, mas querem que a mão pesada da lei caia sobre Alexandre de Moraes.
A esquerda também gostaria de salvar alguns dos seus. Mas ao menos, pelo que se viu até agora, é muito menos gente. Se deixarmos de lado lealdades pessoais e nos ativermos apenas ao ponto de vista eleitoral, o ideal para a esquerda seria uma greve de pizzaiolos que durasse pelo menos até outubro.
EUA E IRÃ DISPUTAM CABO DE GUERRA
Os dois lados sabem que devem esperar o esgotamento
gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário
A palavra hormuz deriva do nome de uma
divindade suprema da Pérsia antiga, portadora de sabedoria, luz e bondade. Em
tradução reducionista, “Senhor da Sabedoria”. No contexto da guerra
desencadeada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra
o Irã, é
difícil encontrar qualquer vestígio dessas virtudes no estrangulamento duplo do
Estreito de Ormuz. Tanto para o presidente americano Donald Trump como
para o que restou da liderança decapitada do Irã, trata-se de uma guerra de
usura — vence quem aguentar mais tempo o custoso fechamento do Estreito.
Oficialmente, continua em vigor um esquisitíssimo
cessar-fogo assinado em 8 de abril passado. Suas duas semanas de validade,
inicialmente previstas para reavaliação de parte a parte, já não têm prazo para
acabar. É nesse ínterim poroso de violações pelos dois lados que se desenrola o
atual cabo de guerra.
Em contraposição à vantagem geográfica do
Irã sobre o estreito, os Estados Unidos precisaram alocar 15 mil soldados e um
imponente arsenal bélico para garantir o bloqueio naval do adversário. Dias
atrás, três navios-tanque vazios foram alvejados ao tentar buscar sua carga num
porto iraniano. Segundo divulgação do U.S. Central Command, há atualmente 70
navios petroleiros impedidos de se aproximar ou de zarpar do Irã. Pouca coisa
não é, pois a capacidade de transporte dessa carga interrompida é de mais de
166 milhões de barris, a um prejuízo estimado em US$13 bilhões. Entre ameaças
de extinção do inimigo e estapafúrdias declarações de vitória antecipada, Trump
só não obteve a ansiada autorização da Arábia Saudita e do Kuwait para usar
suas bases e o espaço aéreo aliado caso queira voltar a atacar o Irã de forma
tonitruante.
Ocorre que um bloqueio naval não elimina de imediato o
petróleo já em trânsito, nem o armazenado offshore, ainda menos o transportado
por intermediários. Calejado por meio século de sanções econômicas por parte do
Ocidente, o regime dos aiatolás costurou um razoável sistema de escoadouro por
via terrestre através da Ásia Central. Ainda assim, o fechamento de seus portos
dói. Segundo dados da Secretaria de Energia dos Estados Unidos, o Irã já
reduziu sua produção em cerca de 400 mil barris por dia devido à limitação de
armazenamento e redução forçada no 1,7 milhão de barris por dia que exportava
até o mês passado.
A questão-chave se chama tempo. Os dois lados sabem que não
devem esperar uma vitória rápida e decisiva, mas sim o esgotamento gradual dos
recursos políticos, econômicos ou militares do adversário. Esses recursos são
assimétricos. Em tese, o Irã precisa apenas de um drone militar barato para
fazer explodir um petroleiro “não amigo” no Estreito de Ormuz, estremecendo as
seguradoras mundiais. A vigilância dos Estados Unidos a tantos mares e oceanos
de distância, em contraste, é custosa mesmo para a superpotência mundial.
Recentemente, o topetudo secretário da Defesa, Pete Hegseth,
afirmou perante o Congresso que o custo da Operação Fúria Épica está em US$ 25
bilhões. Ridículo. Esse valor contempla apenas os mais de 2 mil mísseis
Tomahawk e Patriot já despejados sobre o Irã, as missões aéreas dos aviões de
guerra já efetuadas e todo o restante do equipamento militar e humano já
empregado. Em artigo publicado no New York Times, Justin Wolfers, professor de
políticas públicas e economia da Universidade de Michigan, aconselha os
americanos a olhar para além do hoje, para quando os custos mais realistas
tomam corpo — ele acredita que alcancem várias centenas de bilhões de dólares,
quando não a casa do trilhão:
— Guerra é um inferno. E o inferno tem custo alto — conclui.
Tem mais. Na semana passada, um relatório confidencial da
CIA endereçado à Casa Branca e revelado pelo Washington Post estima que o Irã
será capaz de aguentar o bloqueio naval americano por 90 a 120 dias, talvez até
mais, antes de sofrer um colapso econômico generalizado. Além disso, em franca
contradição com as cifras aleatórias de Trump, o relatório avalia que o Irã
ainda mantém ativos perto de 75% de seu estoque de lança-mísseis e 70% de seus
mísseis — ante 18% ou 19% pelas contas do presidente.
O tempo político de Trump tampouco é infinito neste ano de
eleições legislativas decisivas. Em novembro, o custo social da guerra e o
preço da gasolina vão às urnas. Uma famosa frase atribuída a Arnold. J. Toynbee
— “Civilizações morrem de suicídio, não por assassinato” — volta à atualidade
neste ano dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos. Veremos.
O EXCESSO DE ESPERTEZA QUE PODE ENGOLIR CLÁUDIO CASTRO
Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio abriu caminho
para desembargador promover devassa em sua gestão
A lição costumava ser repetida por políticos mineiros da
velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono.
Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar a renúncia do
vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho ao presidente
da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na cadeira de
governador.
O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso
sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para
fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça.
Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.
O desembargador Ricardo Couto assumiu em 23
de março. Avisou que não faria mudanças drásticas porque esperava sair de cena
em poucos dias. Mantido no cargo por decisão do Supremo, abandonou o estilo
discreto e deu início a uma devassa na administração estadual.
Em sete semanas, já demitiu mais de 1.700 ocupantes de
cargos comissionados e trocou 10 dos 35 secretários. Na sexta-feira, foi a vez
do Detran. Couto exonerou o presidente, ligado ao ex-deputado Márcio Canella, e
nomeou um ex-comandante do Bope.
O órgão de trânsito era tido como um dos maiores focos de
corrupção do Rio. O governo interino recebeu relatos de fraudes em contratos e
serviços, além de cobrança de propina a motociclistas reprovados em exames de
direção.
O desembargador encontrou uma máquina partida ao meio.
Metade do primeiro escalão pertencia ao ex-governador, que chegou a presentear
um compadre com a Secretaria do Ambiente. Outra metade estava lotada entre
aliados de Bacellar, que usava o governo para atender sua clientela na Alerj.
Para multiplicar os cargos, Castro criou até uma
Subsecretaria de Gastronomia, subordinada à Casa Civil. O órgão era controlado
pelo deputado Eduardo Pazuello, o general da pandemia. O cabide contava com uma
pitoresca Superintendência de Demandas Cotidianas. Tudo foi extinto pelo
governador em exercício.
A lógica da partilha política também dominava o Segurança
Presente, que não estava sujeito ao comando das polícias. As equipes de
patrulhamento eram indicadas por deputados, prefeitos, vereadores e
apaniguados. Em Saquarema, quem mandava era Fabrício Queiroz, o notório
operador da rachadinha de Flávio Bolsonaro na Alerj.
Ao transferir o programa para a Secretaria da PM, Couto se
virou alvo de protestos. Em vídeo nas redes sociais, o deputado Alexandre
Knoploch ameaçou usar “instrumentos” legislativos para reverter a medida pelo
governador.
O parlamentar não é o único insatisfeito com as mudanças no
Rio. Em encontro recente, Castro reclamou das demissões e perguntou se o
governador em exercício se considerava seu amigo. Couto respondeu que sim, mas
não se fez de rogado. “Se um dia você for preso, vou à cadeia levar cigarros”,
ironizou. A esperteza, como ensinavam os mineiros, ainda pode engolir o dono.
RELÓGIO CONTA AS HORAS PARA CIRO
Voltou-se contra Ciro Nogueira o “tic tac” que ele usava
contra a esquerda. Caso Master o atingiu e afundou planos de Flávio Bolsonaro
de tê-lo na vice
O senador Ciro Nogueira quando
era ministro-chefe da Casa Civil de Jair
Bolsonaro, naquela administração que preparava um golpe de Estado, começou
a postar nas redes sociais uma mensagem enigmática imitando o som de um
relógio. Tic, tac, tic, tac. Não se sabe tudo o que ele queria dizer com essa
contagem do tempo. Agora, o relógio corre contra ele. Os indícios apresentados
pela Polícia Federal, retirados do celular de Daniel
Vorcaro, são robustos o suficiente para sustentar que Ciro recebeu
vantagens indevidas e em troca usou seu mandato para lançar uma “bomba atômica”
a favor do banqueiro.
O projeto do político do PP do Piauí
marcava a diferença entre vida e morte do banco de Vorcaro. Não era apenas uma
ajuda nos negócios. O texto, se aprovado, salvaria o Master da aguda crise de
liquidez na qual se afundava. O centro do modelo de negócios do empresário era
ter ativos de altíssimo risco e captar com produtos que pagavam alta
rentabilidade. Os poupadores eram atraídos pela taxa de remuneração, mas
evidentemente tinham o temor de que os títulos não fossem honrados. Aí entrava
o uso do Fundo Garantidor de Créditos como o argumento final. Se o banco
quebrar, o Fundo paga. Mas paga quanto? Até R$ 250 mil. Esse limite encurtava o
horizonte das loucuras bancárias de Daniel Vorcaro. Subir para R$ 1 milhão de
garantia dava a ele muito mais capacidade de captação.
O amigo da vida fez a proposta redentora. O deputado Filipe
Barros (PL-PR) também apresentou projeto com o mesmo teor. No caso do senador,
os indícios mostram que, mais do que defender um projeto do interesse do
encrencado banqueiro, Ciro aceitou receber um texto feito por ele. “Saiu
exatamente como mandei”, escreveu Vorcaro. Se a emenda 11 fosse aceita e
aprovada, a vantagem para o dono do Master estaria na Constituição.
Ciro Nogueira foi leal a Jair Bolsonaro, atestou Flávio
Bolsonaro, quando afirmou que gostaria de tê-lo como vice em sua chapa.
“Tem todas as credenciais para ser o Ciro. O perfil do Ciro é nordestino, de um
partido grande e forte. Tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente
Bolsonaro no ministério dele. Portanto, sem dúvida, hoje é um nome que está
colocado”.
A quinta fase da Operação Compliance Zero é demolidora para
o senador. Pelo que a Polícia Federal trouxe aos autos, a amizade dele com o
controlador do banco liquidado era irrigada por muitas vantagens. Segundo a PF,
Ciro comprou por R$ 1 milhão uma fatia de empresa de Vorcaro que valia R$ 13
milhões, e teria recebido pagamentos mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil. Ficou
em Nova York em hotéis caros pagos por cartão do ex-dono do Master. Tinha uma
firma sem funcionários com a qual fazia transações financeiras com empresas e
fundos ligados ao banqueiro. Morava gratuitamente em imóvel de alto padrão.
Os diálogos são inequívocos. Leo Serrano, um operador de
Vorcaro: “Só uma pergunta rápida: eh pros meninos continuarem pagando conta dos
restaurantes Ciro/Flávia até sábado?”. Vorcaro: “Sim. Depois leva meu cartão
para St.Barths”. O primo do banqueiro, atualmente preso, Felipe Vorcaro: “Oi,
Daniel, é para seguir com pagamento de 300 k para o pessoal que investiu na
BRGD”. Vorcaro: “Sim”. A BRGD é a empresa de Vorcaro na qual Ciro adquiriu
participação. Essa pergunta foi feita outras vezes por Felipe. Daniel Vorcaro
sempre disse sim: “tem que enviar, muito importante”. Vorcaro, em novembro de
2025: “Caro eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”. Felipe Vorcaro:
“Vou ver se dou um jeito aqui. Vamos continuar com os 500k ou pode ser os
300k?”.
Ciro Nogueira tem muito a explicar: diálogos no celular,
documentos que confirmam a investigação, provas de que ele retribuiu com a
“instrumentalização do seu mandato parlamentar”, como diz a decisão do
ministro André
Mendonça que autorizou a busca e apreensão nos endereços do senador.
Há consequências concretas desta fase da Compliance Zero.
Ficam afastadas as dúvidas sobre foro, com o senador investigado o assunto é
mesmo da alçada do Supremo Tribunal Federal. O impacto do caso Master sobre a
extrema direita é direto. A delação premiada de Vorcaro pode não ser
homologada. Como publiquei no blog, investigadores dizem que o atual cenário é
de não aceitação, porque até agora ele não trouxe “nada de produtivo para o
processo”, como me foi dito. A chapa dos sonhos de Flávio Bolsonaro não vai se
materializar. O relógio continuará contando as horas, mas contra o senador Ciro
Nogueira.
GONET E O CANTO DAS SEREIAS NO MASTER
A dúvida que ainda paira é se ele estará disposto a
escalar as apurações em Brasília
Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo
Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na
“Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia
que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para
sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto
ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a
tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o
chefe do Ministério
Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de
cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet
enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu
propósito?
No escândalo do Banco Master,
Gonet tem diante de si o seu maior desafio. Caberá a ele avaliar as provas
colhidas na investigação e a proposta de colaboração premiada do
banqueiro Daniel
Vorcaro — que poderão provocar um abalo sísmico em Brasília. No
entanto sua disposição em mexer em vespeiros políticos tem sido questionada
tanto pela Polícia Federal como pelo ministro André
Mendonça, responsável pelo caso no Supremo Tribunal Federal (STF).
Por trás dessa desconfiança, está o fato de Gonet ter rejeitado pedidos de
apurações e suspeições dos ministros Alexandre
de Moraes e Dias
Toffoli, que mantiveram relação lucrativa com Vorcaro.
Na avaliação do procurador-geral, não há elementos para
investigar o aporte milionário orquestrado por Vorcaro num resort de Toffoli
nem o contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório da advogada
Viviane Barci, mulher de Moraes, para defender interesses do banco em Brasília.
Se Gonet entende que faltam indícios mínimos de irregularidades, o relator do
caso na Corte, André Mendonça, tem dito a pessoas próximas que considera graves
os fatos envolvendo Moraes.
Esse descompasso também ficou evidente na prisão de Vorcaro.
Mendonça discordou de Gonet, que pediu mais tempo para analisar o caso e não
viu a mesma urgência em interromper a atuação do banqueiro, suspeito de manter
uma milícia particular para dar uma surra em um jornalista e invadir sistemas
de órgãos públicos. Colocar o dono do Master na Papuda provocaria consequências
incontornáveis. Por isso, o procurador-geral afirmou que não podia agir de modo
imponderado.
A posição garantista de Gonet foi um ingrediente considerado
determinante para ele ser alçado ao posto pelo presidente Lula e receber a
bênção de Moraes e do decano do Supremo, Gilmar
Mendes, de quem já foi sócio. Respeitado pelo saber jurídico, o
procurador-geral desempenhou papel central nas denúncias que levaram à
inelegibilidade e à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tramar um
golpe contra as instituições. Sabendo que sua cadeira pode projetá-lo para uma
vaga do STF, também entende que colecionar inimizades com integrantes da cúpula
dos Poderes Judiciário e Legislativo poderia dinamitar pontes importantes.
Ainda mais depois de a dupla Moraes e Davi
Alcolumbre, presidente do Senado, ter minado o caminho do advogado-geral da
União, Jorge
Messias, ao Supremo.
Ao acolher o pedido da PF para investigar o senador Ciro Nogueira,
expoente do Centrão, Gonet deu uma amostra de que pode avançar no terreno
político. A dúvida que ainda paira é se estará disposto a escalar as apurações
em Brasília. No passado, a figura do procurador se submetia às vontades do
soberano e era a voz jurídica do poder. No Brasil, com a Constituição de 1988,
o MPF ganhou mais autonomia e passou a ser o guardião da ordem jurídica e do
interesse público.
Essa é a régua que medirá Gonet no caso Master. Sua tarefa
não é agradar a ministros ou preservar alianças. Também não é substituir
prudência por heroísmo. É exigir provas com lastro, recusar pressões e tratar
poderosos e adversários com o mesmo padrão. Em Brasília, o canto das sereias
costuma vir disfarçado de cautela, amizade, conveniência ou mesmo expectativa
de poder. O desafio de Gonet será permanecer amarrado à sua missão para evitar
um desvio de rota.
*Thiago Bronzatto é diretor da sucursal do GLOBO em
Brasília
sábado, 9 de maio de 2026
ESTRANHOS TEMPOS MÓBIDOS
“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”
– Millôr Fernandes
Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.
São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.
A história presente — um presente mirando o caos, sem ensejar a visão de futuro imediato — pode ser vista como “ponto morto” (tempo sem promessa de avanço ou recuo) e já foi descrita como “intervalo histórico”. Nada obstante as tensões, sua característica não é, quase nunca, a mobilização social. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem caráter. Está aberto a soluções regressivas (por sinal, é este, hoje, o cenário dominante na América do Sul), que podem construir a ruptura democrática ou a continuidade autoritária, jamais a revolução, projeto que comoveu as grandes massas no século passado.
Este espaço em aberto, ainda não identificado nem classificado, é rico na proposição de impasses. É o quadro da ordem internacional na corrida para o imponderável, que pode ser, até, a grande guerra na qual apostam — ou parecem apostar — os EUA, deixando no seu rastro o avanço quase planetário da extrema-direita, causa ou efeito da regressão mundial das mobilizações populares, filha da crise do trabalho e, como decorrência inevitável, filha da crise do sindicalismo e dos partidos de esquerda, nomeadamente dos partidos socialistas e comunistas ocidentais.
E sempre incumbe lembrar a lamentável e exemplar exaustão do PCI e do PCF, atingidos de morte pela debacle da URSS, em cuja sequência os partidos comunistas que detinham o poder no Leste Europeu logo saíram de cena, e as insurgências revolucionárias foram aplacadas. Nesse sentido, aproximam-se Europa e América do Sul com seus governos de direita, sob a regência dos EUA em guerra pela conquista do mundo.
A aventura nazifascista dos anos 30-40 do século passado mina qualquer sorte de surpresa.
Atribui-se a Mark Twain a boutade segundo a qual “a história não se repete, mas rima”. De outra parte, podemos dizer que, no Brasil, ela é recorrente. Em qualquer hipótese, será sempre um óbvio rodrigueano afirmar que o processo político é conduzido pelas alterações das circunstâncias históricas. Com ele trabalhamos. A cada alteração da correlação de forças — sobre a qual atuam os homens e as instituições — corresponde uma nova etapa histórica. É consabido.
A etapa de hoje conjuga a crise do capitalismo (um sistema global financeirizado e oligopolista) à expansão do imperialismo norte-americano. Vivemos o rescaldo da frustração contemporânea das promessas e esperanças dos governos de centro-esquerda e sociais-democratas nestas primeiras décadas do século, decaídos na armadilha do neoliberalismo: ajuste fiscal, regime de metas de inflação, câmbio flutuante (implicando maior exposição aos fluxos financeiros internacionais, reduzindo a margem de manobra das políticas econômicas nacionais), contenção dos gastos sociais indispensáveis etc. Uma política econômica no contrapelo de promessas e compromissos de campanha. Seu efeito óbvio, na esteira da desilusão social, foi preparar o terreno para a ascensão de governos de direita e extrema-direita.
Alguns meros indicadores: os governos de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Michelle Bachelet, sucedidos como foram, e ainda de François Hollande, abrindo o espaço que seria ocupado pelo avanço de Marine Le Pen; e, nos pouco auspiciosos termos de nosso processo político, as dificuldades do atual governo Lula e o temor de grave retrocesso político-histórico nas eleições de outubro próximo.
Como sempre, a desilusão social, agora como nas primeiras décadas do século passado, na Europa e no mundo, abre um vazio político prontamente ocupado pela direita, como foi o caso das eleições de Javier Milei e Jair Bolsonaro, que emergiu da insignificância política para a liderança da extrema-direita brasileira.
A crise das experiências de centro-esquerda nestas primeiras décadas do nosso século revela um desvio político-ideológico. Eleitos sob o signo da mudança, nossos governos submeteram-se (por força das contingências ou despreparo estratégico) aos marcos do neoliberalismo. O que se se segue, são suas consequências. E as consequências sempre vêm depois, como lembrava o eçaniano Conselheiro Acácio.
É preciso registrar que a ameaça neofascista emerge em um mundo no qual as insurgências proletárias, socialistas revolucionárias, de um modo geral, estão em recesso, e a humanidade já não dispõe, como dispôs no passado (os anos de confronto com o Eixo), do concurso da URSS e de uns EUA comprometidos nalguma medida, como estavam naquele então, com promessas democráticas. Ante o colapso da Europa, foram esses países que ganharam para nós a guerra. Hoje, as novas circunstâncias históricas nos lembram que a URSS já não existe e que os EUA, na guerra sem limite de meios pela conservação da liderança mundial, ameaçada, são o farol e o motor do novo fascismo.
No Brasil, a extrema-direita cresce ineditamente (anos-luz para além dos sonhos do integralismo nos anos 1930, namorando o Estado Novo e tentando desestabilizá-lo, como em 1938) como movimento de massas, oferecendo base popular à construção do projeto regressista. Nada justifica a alegativa de supressas, pois a onda que inundou a praia em 2018 já se vinha anunciando desde o difícil processo eleitoral de 2014 e a reeleição de Dilma Rousseff, com os desdobramentos conhecidos e a infâmia do impeachment farsesco.
É nesse limiar que, do baixo ou baixíssimo clero, emerge e se fortalece o “bolsonarismo”, que passa a oferecer base popular para o neofascismo tupiniquim, em marcha, a partir principalmente do governo títere do vice perjuro, feito presidente pela tramoia da cassação do mandato da presidente.
A regressão, fenômeno político posto em forma por um sem-número de causas e concausas, tanto conhece os efeitos da crise da esquerda de um modo geral, quanto da falência do neoliberalismo, do qual nossos governos não lograram fugir ou resistir, vencido o discurso programático pela realpolitik, que impõe todas as concessões necessárias como contrapartida da pura e simples conservação do governo, ainda quando o poder escapa das mãos do governante.
A arte de governar se confunde com a arte da conciliação, regra irrevogável de nossa história política, projeto da classe dominante para se manter no poder. É a chave para entender o Brasil e o drama de hoje. Certamente o mal de origem, para lembrar Manoel Bonfim.
O drama da esquerda reformista, ante o recesso da esquerda socialista, no Brasil e não só aqui, é o preço cobrado à adoção da conciliação como estratégia, e não como tática, como ela é recepcionada no jogo da política. Autonomizada, elevada ao plano de sujeito, jamais serviu seja para o avanço dos interesses das grandes massas, seja para a consolidação democrática, processo que jamais se conclui em país permanentemente à espera de um futuro que, dele, desgraçadamente, mais se afasta, quanto dele mais intenta aproximar-se.
Seja como for, a política de conciliação como projeto de nação parece já ter dado os poucos frutos que poderia oferecer e se apresenta, hoje, esgotada, devendo ser declarada perempta.
A difícil eleição de Lula em 2022, a intentona de janeiro de 2023, a difícil sustentação político-parlamentar do governo (exposta em sucessivas derrotas na Câmara e no Senado) não devem ser vistas como fatos isolados e muito menos como fenômenos “fora da curva”. Nesse contexto é que devemos considerar a rejeição, pelo Senado, ao procurador Jorge Messias, indicado pelo presidente da República para uma vaga no STF. Trata-se de fato institucionalmente grave, é verdade, no entanto, não deve ser visto, isoladamente, como mais uma “crise”, senão como estilhaço da grande crise republicana de nossos dias.
Ponto final de uma trama de forças convergentes, nenhuma crise é um fato em si, historicamente isolável; jamais é um episódio, mas sempre um processo. Conquanto grave do ponto de vista institucional, a má conduta do Senado não configura nem ponto de partida nem ponto de chegada.
Na história, águas passadas movem moinhos.
Vejamos.
Ainda lendo Gramsci, sabemos que o momento crítico não inaugura a crise, apenas torna visível aquilo que já se vinha acumulando nas profundezas da estrutura social, muitas vezes imperceptíveis aos sonares dos cientistas sociais: tensões latentes, fissuras no consenso, deslocamentos silenciosos. Nesse sentido, nenhuma transformação política se explica por um fator isolado, senão pela lenta e muitas vezes imperceptível alteração da correlação de forças entre as classes, que redefine os limites do possível.
As rupturas não irrompem como acidentes súbitos, nem se deixam atribuir a um evento singular, próprio; respondem ao desfecho de um desgaste progressivo e cumulativo das formas de direção política, quando a hegemonia (no sentido gramsciano) se rarefaz e o comando já não logra organizar, nem intelectual nem politicamente, o conjunto social. É quando, sem se dar por si, o sistema “envelhece”, o que, em texto anterior, denominei “fadiga de materiais”. Nosso discurso e nosso projeto permanecem coerentes com os marcos de sua origem, mas as circunstancias politicas se alteraram.
Já é tempo de a esquerda (e o nosso governo) ter consciência — para daí agir — de que as eleições de outubro podem significar mudanças mais profundas do que a simples troca da regência do Planalto.
***
Isso é natural? – Entre os elementos mais perturbadores da atual quadra histórica destaca-se a naturalização do absurdo. Senão, vejamos: o atual líder do regime estadunidense apoia um genocídio, sequestra um chefe de Estado (assassinando, para tal, cerca de 100 pessoas), fabrica uma guerra que – para além do morticínio inaceitável – desestabiliza a geopolítica global, utiliza tarifas como arma e distribui achaques e insultos até mesmo aos aliados mais tradicionais. Apesar disso tudo, livre de qualquer sanção, é agraciado com o “Prêmio da Paz” da FIFA e tratado com subserviência: por exemplo, a próxima reunião do G7 (prevista para ocorrer em Évian-les-Bains, na França) teve sua data alterada, pois em 14 de julho Trump organizará um evento de artes marciais na Casa Branca. Não bastasse, os EUA sediarão, em dezembro, a próxima cúpula de líderes do G20 – foro que Washington cuida de esvaziar –, em local que consiste numa verdadeira explosão semiótica: o complexo hoteleiro e clube de golfe Trump National Doral, em Miami, Flórida. Mais que nunca, lembremos o pedido insistente de Bertold Brecht: “Nunca digam – isso é natural! – diante dos acontecimentos de cada dia.”
A ida ao bunker – Nesse contexto, a recente visita do presidente Lula à Casa Branca, cujos elementos ainda não são de todo conhecidos, apresenta sinais diversos, contraditórios entre si, abertos a diversas interpretações. Se o meneio que o chefe de Estado brasileiro precisa fazer a um líder como Trump reflete o cenário distópico dos nossos dias, é certo também que a aparente urbanidade com que se desenrolou o encontro oferta boas lições à extrema-direita nativa e aos jornalões que lhe servem de retaguarda tática, sempre cobrando covardia do governo do Brasil – caso especial de O Globo. Neste sentido, Lula foi cirúrgico ao declarar, na entrevista após o encontro, na Embaixada brasileira: “Não se pode exigir uma guerra contra o crime organizado enquanto o principal mercado consumidor, financeiro e de armamentos do hemisfério continuar a alimentar a estrutura empresarial [do crime].” Resta, contudo, saber se essa firmeza e altivez se estenderam aos diálogos com os norte-americanos sobre outros temas sensíveis, como o dos minerais estratégicos.
*Com a colaboração de Pedro Amaral.
sexta-feira, 8 de maio de 2026
PF COLOCA MASTER PERTO DE FLÁVIO BOLSONARO
Escândalo do Master: Ação da PF contra Ciro torna tóxica
aliança com PP-União Brasil para a eleição
PF cumpriu mandado de busca e apreensão na casa do
senador Ciro Nogueira, em operação que apura caso Master
Políticos à esquerda e à direita ouvidos pela coluna
acreditam que a Polícia Federal apenas começou a puxar o fio das relações entre
o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e os partidos do Centrão.
Atingido ontem pela 5.ª fase da Operação Compliance Zero, o
senador Ciro Nogueira (PPPI) é o parlamentar com maior proximidade com Vorcaro,
mas está longe de ser o único.
Estão sendo aguardados com ansiedade em Brasília os próximos
desdobramentos das investigações. O ministro do Supremo Tribunal Federal André
Mendonça demonstrou que não tem qualquer comprometimento com grupos partidários
ao autorizar a operação.
A ação contra Nogueira também cai como uma
bomba na pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Torna
mais difícil uma aliança do PL com a federação PP-União Brasil.
Perseguida pelos assessores mais pragmáticos do senador, a
aliança era uma forma de garantir tempo de TV, Fundo Partidário e prefeitos
fazendo campanha em todo o País. Agora, tornou-se tóxica.
O PT já resgatou das redes sociais um vídeo de Flávio
citando Nogueira como possível vice. É uma forma de aumentar a rejeição do
candidato. E a base bolsonarista fica cada vez mais revoltada com a proximidade
de seu líder com políticos supostamente corruptos.
A situação fica ainda pior porque a ligação direta de
Nogueira com Vorcaro ajuda a minimizar o impacto do escândalo do Banco Master
para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o aproxima perigosamente do
candidato da oposição.
Lula vinha pagando o preço nas pesquisas de intenção de voto
por sua associação com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes. O Planalto e
o STF caminharam de mãos dadas no inquérito do golpe e até em questões
econômicas.
E o escritório da esposa de Moraes foi pego em um contrato
muito mal explicado de R$ 129 milhões com o Master. Só que agora é Nogueira,
ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, que foi flagrado recebendo viagens
e mesada de R$ 300 mil de Vorcaro.
A situação é tão delicada para
Flávio que o pré-candidato soltou nota extremamente
cautelosa sobre a operação da PF em que nem sequer menciona Nogueira. Diz
apenas que considera os fatos “graves”, que “devem ser apurados com rigor”,
“respeitando o devido processo legal”.
As pesquisas já demonstram uma consolidação do voto e uma
sociedade polarizada entre aqueles que desejam um quarto mandato de Lula e os
que querem tirá-lo do poder. Para os analistas, a vitória está nas mãos de 4% a
5% de eleitores de centro, para os quais o envolvimento com Vorcaro pode pesar.
VIDA E MORTE DAS UNIVERSIDADES
É a multiplicidade de funções e interesses que faz com
que as universidades se mantenham e floresçam
Em artigo recente, os economistas David Cutler e Edward
Glaeser tratam de explicar como as universidades têm sido capazes de existir
por mais de mil anos e o papel importante que elas desempenharam e ainda
desempenham em várias partes do mundo (How Have Universities Survived for
Nearly a Millennium, NBER Working Paper 35079, 2026).
O segredo, dizem eles, está na combinação entre uma
cooperativa de professores, com autonomia substancial sobre ensino e pesquisa e
entidades externas de financiamento e controle – igreja, governos, filantropos,
empresários, doadores. Eles têm interesses diferentes, mas que convergem. Os
professores querem um lugar onde tenham liberdade para exercitar sua
curiosidade, desenvolver e expor suas ideias sem se preocupar com de onde vem o
dinheiro, e os controladores querem um lugar para onde possam mandar seus jovens
e os melhores profissionais sejam formados. Cada um precisa ceder um pouco. Os
professores precisam gastar tempo dando aulas e não exagerar em suas
liberdades, a ponto de os controladores cortarem seus recursos; e os
controladores precisam se cuidar para não forçar os professores a fazer o que
não querem, matando a galinha de ovos de ouro.
Com o tempo, as universidades foram
crescendo e se transformando pelos dois lados, instalando laboratórios e
infraestrutura de pesquisa, organizando museus e atividades culturais, entrando
em competições esportivas e desenvolvendo pesquisas de interesse civil e
militar. É essa multiplicidade de funções e interesses que faz com que as
universidades se mantenham e floresçam.
Como às vezes acontece, os economistas redescobrem e
organizam de forma elegante ideias que já eram conhecidas entre cientistas
sociais que estudaram essas questões. Um deles, Burton R. Clark, desenvolveu um
modelo também simples e elegante da coordenação das universidades que ficou
conhecido como o “Triângulo de Clark” (Clark, B. R., The Higher Education
System: Academic Organization in Cross-National Perspective, University of
California Press, 1983).
Nesse modelo, as universidades contemporâneas vivem dentro
de um triângulo (três vértices): o governo, a corporação acadêmica e o mercado
– formado pelos estudantes e empresas que contratam seus serviços. Cada um puxa
e pressiona para seu lado e as universidades se aproximam de um ou outro
vértice conforme a força de cada um. O interessante desse modelo é que ele
permite entender como as universidades podem ser diferentes conforme o país e
se transformar ao longo do tempo, movendo-se conforme varia a força de cada
polo. E, tal como Cutler e Glaeser, mostra que as melhores e mais duradouras
universidades são as que conseguem não ser dominadas por nenhum dos polos,
aproveitando as vantagens e recursos de cada um. Universidades autônomas não
são as que controladas por suas corporações internas, mas as que têm capacidade
de se movimentar dentro do triângulo buscando onde possam maximizar os
diferentes interesses sem perder a força vital de seus professores.
Nessas movimentações, muitas instituições criadas para fins
práticos acabam se tornando mais acadêmicas, num processo conhecido como
academic drift ou deriva acadêmica. Um autor inglês, Jonathan Harwood, explica
esse processo pela hierarquia de status que existe no campo acadêmico, que dá
mais prestígio e recursos para os cientistas que fazem pesquisa básica do que
para os que se dedicam ao ensino ou a trabalhos aplicados (Understanding
Academic Drift: On the Institutional Dynamics of Higher Technical and Professional
Education, Minerva, 48, 2010). Esses desvios de função podem ter resultados
positivos, por exemplo, em centros de pesquisa em agricultura que se envolveram
em pesquisas acadêmicas sobre genética e acabaram por revolucionar o
campo das ciências agrárias; ou negativos, como parece ter
ocorrido com os antigos centros federais de educação tecnológica brasileiros,
que, ao serem elevados à condição de institutos universitários em 2008, se
transformaram, de boas escolas técnicas, em instituições que hoje se dedicam
sobretudo a formar bacharéis e professores do ensino médio como tantas outras.
Muitas instituições, no entanto, nem sobrevivem nem se
transformam, simplesmente decaem. Quem, olhando para a América Latina,
descreveu esse mecanismo meio século atrás foi o economista Albert Hirschman
(Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in
Firms, Organizations, and States, Harvard University Press,
1970). Quando instituições perdem eficiência e estão sujeitas às regras do
mercado, as pessoas se afastam delas e elas desaparecem. Quando elas são
públicas e desempenham funções indispensáveis, as pessoas protestam, os
governos vêm em seu socorro e elas renascem.
O pior é quando elas são públicas, mas perdem o monopólio
para outros concorrentes. Elas não morrem, mas definham. Os exemplos de
Hirschman eram as antigas ferrovias, sufocadas pelas rodovias. Os exemplos
atuais podem ser tanto os Correios quanto muitas universidades públicas da
região, cujas greves e protestos se arrastam e cada vez menos se ouvem.
*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências
PROFESSORES SE REBELAM CONTRA INTOLERÂNCIA NA UNIVERSIDADE
A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a
perspectivas plurais
Um grupo de professores lançou nesta semana um manifesto em
defesa do pluralismo, da neutralidade institucional e da liberdade acadêmica
nas universidades brasileiras. O manifesto busca enfrentar o cerceamento à
liberdade acadêmica que se tornou rotineiro nas instituições.
Em maio de 2021, o reitor da UFPB desligou a TV UFPB do
programa Univerciência, uma rede de universidades e emissoras públicas
nordestinas. A decisão ocorreu após professores, no lançamento do programa,
terem criticado a falta de investimento nas universidades e homenageado Paulo
Freire. O reitor justificou o desligamento alegando “falta de afinidade” com as
pautas e os trabalhos desenvolvidos.
Em fevereiro de 2023, estudantes da
Faculdade de Direito da USP organizaram um abaixo-assinado para tentar impedir
o retorno de Janaina Paschoal ao cargo de professora, após um período exercendo
o mandato de deputada estadual. Os alunos disseram que ela não era mais
“bem-vinda” à faculdade e a classificaram como persona non grata, alegando que
sua atuação política era incompatível com os valores democráticos da
instituição.
Em maio de 2025, a direção do Centro de Ciências Biológicas
e da Saúde do Mackenzie interveio na programação da Semana de Psicologia
organizada pelos estudantes. A instituição proibiu termos que considerou
sensíveis nos títulos das mesas, desconvidou debatedores e impôs a mediação de
professores. Pelo menos uma apresentação com temática LGBT+ foi proibida.
Em outubro de 2025, um seminário na USP sobre mulheres em
situação de vulnerabilidade foi interrompido após movimentos sociais e
diretórios estudantis protestarem contra a presença de entidades que congregam
comunidades terapêuticas, acusadas de maus-tratos. A interrupção aconteceu
depois de manifestantes intimidarem participantes e destruírem mesas e
materiais na porta do auditório.
Os casos são muito mais numerosos: pesquisadores da
Sociologia da UFF identificaram mais de uma centena nos últimos anos (os
exemplos citados aqui vêm de uma prévia desse estudo). A universidade tem
deixado de acreditar que temas difíceis e controversos devem ser enfrentados
com investigação rigorosa, evidências empíricas e análise ponderada. Vamos,
pouco a pouco, nos acostumando a conviver com censura e intimidação movidos
pelo sentimento de fazer justiça.
A comunidade acadêmica está perdendo a liberdade de debater,
ensinar e pesquisar. Segundo pesquisa do Instituto Sivis, quase metade (48%)
dos estudantes de ensino superior brasileiro afirma já ter se autocensurado em
sala de aula. Para o público, a universidade — sobretudo a universidade pública
— vai se tornando não mais um lugar de formação profissional e pesquisa de
excelência, mas de militância. Segundo pesquisa da More in Common, 59% dos
brasileiros confiam pouco ou não confiam na universidade pública, e 54%
acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de
qualidade.
Nossas universidades têm feito pouco para proteger a
liberdade acadêmica. Muitas vezes, as instituições alegam questões de segurança
para cancelar eventos que deveriam ser protegidos do assédio de quem quer
impedir o debate. Não é suficiente a direção não se somar aos censores, ela
precisa ativamente defender a liberdade de debater e ensinar. Também precisa
preservar a neutralidade institucional. Se autoriza palestras de políticos de
esquerda, precisa autorizar palestras de políticos de direita — e vice-versa.
Da mesma forma, deve evitar posicionamentos sobre temas controversos que
sinalizem a existência de uma ortodoxia oficial.
É preciso mudar nossa cultura institucional e orientá-la ao
pluralismo de perspectivas. Nas ciências sociais e nas humanidades, precisamos
nos esforçar para incorporar ao currículo perspectivas liberais e conservadoras
que fazem parte do cânone das disciplinas. Em certas áreas da administração, da
economia e do Direito, perspectivas progressistas estão ausentes ou
sub-representadas.
A pluralidade contribui para um ambiente epistemologicamente
saudável. A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a perspectivas
plurais, porque o confronto entre abordagens distantes permite identificar
pressupostos, vieses e erros que tendem a passar despercebidos dentro de um
mesmo horizonte intelectual.
Nos últimos anos, temos visto muitas críticas vindas de fora
da universidade. Agora, começa a surgir um movimento de reforma vindo de
dentro. Nas primeiras 24 horas após o lançamento do manifesto, assinaram o
texto 350 docentes de 94 instituições, de 24 estados brasileiros. Parece que
podemos começar a vislumbrar uma universidade onde as divergências não são mais
enfrentadas com intimidação e hostilidade, mas pelo confronto estimulante de
ideias.


















