Os planos do presidente americano de uma guerra pontual e
rápida fracassou. O conflito se espalha e seu efeito é sentido pelo consumidor
americano
O plano de Donald Trump fracassou.
Ele pensou em uma intervenção cirúrgica no Irã e provocou uma
guerra, com contornos e desdobramentos imprevisíveis e da qual ele ainda não
sabe como sair. Achou que o conflito ficaria só no Irã, mas o país reagiu
atacando vários países da região. A economia enfrenta consequências ainda nem
calculadas inteiramente. O consumidor americano já está sentindo o forte efeito
na bomba. Ontem, o petróleo chegou a bater US$ 120 e depois cedeu, porém está
bem acima do patamar de antes da guerra de Trump.
Especialistas apontam aspectos diferentes
da crise global deflagrada pela guerra contra o Irã. A cada momento se tem
noção de uma nova complexidade. Trump improvisa sempre, numa sequência em que
cada fala não tem relação com a fala anterior. No meio do dia ontem, com o
petróleo disparando, ele disse que a guerra está perto do fim. Isso ajudou a
esfriar o ambiente de pânico no mercado de energia. No fim do dia de ontem, ele
declarou que sabia que o petróleo iria subir e que até havia subido menos do
que ele imaginara. Trump mente. Ele sabe que está correndo risco político pelo
peso da guerra no bolso do consumidor. Nos Estados Unidos,
quando o petróleo sobe o custo é imediatamente repassado para o preço na bomba.
— Lá é na veia, é just in time. O americano já está pagando
o custo da guerra, seja como contribuinte, seja como consumidor de combustíveis
— diz David Zylberstajn, professor da PUC.
A guerra em si está ganhando contornos cada vez mais
complexos, como explica o professor da USP Hussein Kalout, conselheiro
internacional do Cebri.
—Trump subestimou a capacidade do Irã de se defender e
retaliar. A diferença é que os Estados Unidos, como a maior superpotência
militar, apostaram que esses ataques levariam a uma rebelião interna, o que não
houve — diz o professor Kalout, que explica a resistência iraniana diante dos
ataques pelo fato de o país sempre ter se preparado para uma guerra contra os
Estados Unidos.
É o que acha também Uriã Fancelli, mestre em Relações
Internacionais pelas Universidades de Groningem e Estrasburgo. Ele diz que o
Irã está colocando em prática o que sempre preparou estrategicamente caso fosse
atacado, regionalizar o conflito.
— O que tem ficado claro para os países do Golfo é que
talvez a aliança não valha a pena porque não se viu os Estados Unidos saírem em
defesa direta dos países afetados pela guerra. Os Estados Unidos estão apenas
protegendo as suas bases. Os bombardeios têm ameaçado a infraestrutura civil
desses países, como as usinas de dessalinização no Catar, nos Emirados Árabes,
isso afeta as populações desses países que chegam a depender em até 90% do seu
abastecimento dessas usinas.
O Irã fez o que sempre ameaçou desde a guerra contra o
Iraque: fechou o Estreito de Ormuz. Para se ter uma ideia, David Zylberstajn
lembra que antes a média de navios passando pelo Estreito por dia era de 50.
Caiu a quase zero. Nos dias 4 e 5, nenhum navio passou. Se por um lado, isso
afeta a economia do mundo inteiro, por outro lado, o próprio Irã se estrangula,
ele pode ter desabastecimento de tudo que compra do mundo, e ele próprio não
está exportando petróleo, que é a fonte principal das suas receitas.
— Os iranianos não estão preocupados com isso, porque estão
numa guerra existencial. A prioridade é resistir. E como o Irã está sob
sanções, ele fez estoques de alimentos, de commodities para um período longo de
guerra — diz Hussein Kalout.
O mundo tem estoques de petróleo e ontem o G7, em reunião de
emergência, deu sinais de que pode vir a liberar parte deles para estabilizar
os preços. Os Estados Unidos também têm estoques. Mas quem está realmente
disposto a liberar o que guardou para emergências? A China que importava
petróleo da Venezuela e do Irã foi afetada pela guerra diretamente. E não é que
vai faltar apenas o petróleo para combustível.
— Vai piorar a situação de várias matérias-primas. O enxofre
é necessário para o ácido sulfúrico, que é usado na mineração de cobre e
cobalto. O gás natural é necessário para a produção de chips. Taiwan, por
exemplo, depende do gás de Omã, a Índia do gás do Catar. Os fertilizantes
também podem faltar. Não são apenas os 20% do petróleo que passam pelo Estreito
de Ormuz, são vários subprodutos que podem faltar — diz Zylbersztajn.
A guerra de Trump espalhou a incerteza pelo mundo, e esse é
o pior ambiente para a economia.


















