terça-feira, 25 de agosto de 2026

DILEMA BRASILEIRO NA MARGEM EQUATORIAL

Artigo de Fernando Gabeira

O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da costa do Amapá e pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.

Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.

É preciso ver a contradição como do tipo não antagônico, dessas em que um dos polos não desaparece. Em suma, uma contradição que segue seu caminho, no caso explorando o petróleo e tendo rigorosa atenção com o meio ambiente. De um lado, a pressão dos políticos, como Davi Alcolumbre, que querem resultados rápidos; de outro a vigilância internacional sobre uma região que o próprio Brasil mostrou como essencial à saúde do planeta.

Tive a oportunidade de viajar pela região para documentar no Pará a área com os maiores manguezais do mundo. Escrevi também um texto para o belo livro de fotos de João Farkas sobre a Costa Norte. Os manguezais são impressionantes. Árvores de 30 metros, as pessoas saindo da mata com fieiras de enormes caranguejos. No restaurante da cidade de Bragança, o caranguejo era o principal prato.

]A região concentra 80% dos manguezais do Brasil. Até 2005, pensava-se que os maiores manguezais estavam na Índia e em Bangladesh. Um mapeamento por satélite revelou que a maior extensão está Costa Amazônica: aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados. Manguezais, sabe-se bem, são berçários marinhos e abrigam grande biodiversidade. São um pouco ignorados, mas sua riqueza não monetária é muito superior ao petróleo que possa ser encontrado ali.

Numa das viagens, cruzei o Amapá da capital até Oiapoque, simpática cidade de cerca de 30 mil habitantes. Há uma inscrição: “Aqui começa o Brasil”, porque é o extremo norte do país. Ela está à margem do Rio Oiapoque, diante da Guiana Francesa. A julgar pelas cidades litorâneas do Rio, como Macaé, o petróleo atrai muita gente, e grandes hotéis serão construídos. No entanto, não vi saneamento básico na cidade, e seu hospital é bastante precário. Fomos atingidos por uma intoxicação alimentar. Diante do quadro hospitalar, a saída foi a automedicação.

Oiapoque abriga hoje o centro veterinário construído pela Petrobras. Exigência do Ibama, o centro atenderá à fauna em caso de vazamento. O tema é um pouco vasto para só um artigo. Uma das linhas de debate pode ser a comparação com os resultados do pré-sal nas cidades litorâneas do Rio. Ele vai se esgotar, e a Margem Equatorial é a esperança de renovação. Será que a Região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O tema é vasto, mas a vantagem é que o tempo é generoso. Assim como em Oiapoque se diz que “aqui começa o Brasil”, aqui começa uma nova aventura com o petróleo.

Artigo publicado no jornal O Globo em 25 / 08 / 2026

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

CONVENÇÕES QUE JÁ NÃO DECIDEM

Lara Mesquita, Folha de S. Paulo

Cada vez mais a escolha dos candidatos tem passado longe das convenções

Decisões antes tomadas por uma instância coletiva ficam nas mãos de um pequeno grupo

Idas e vindas na definição de candidaturas ganharam destaque no noticiário recentemente. Dois exemplos são o senador mineiro Cleitinho, do Republicanos, cuja candidatura ao governo atravessou sucessivas reviravoltas, e o ex-prefeito de Maceió JHC (João Henrique Caldas), do PSDB, que ora concorreria ao Senado, ora ao governo. E as indefinições sobreviveram às convenções partidárias.

As convenções, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, deveriam ser o momento em que os partidos decidem não apenas se lançarão candidatos, mas quem serão eles.

A Lei das Eleições é clara: cabe às convenções a escolha dos candidatos. Mas o que vimos foram os partidos postergando essa decisão até 15 de agosto, data limite para registro das candidaturas. Mas como isso é possível?

Fui às atas das convenções partidárias. Descobri primeiro que, apesar de sua relevância, elas não estão disponíveis para download no portal de dados abertos da Justiça Eleitoral: é preciso acessá-las individualmente por estado, partido e eleição —alô, TSE. Com ajuda de pesquisadores, jornalistas e ferramentas de inteligência artificial, reuni as atas nacionais e estaduais de 2018, 2022 e 2026.

O que eu descobri? Analisando as convenções estaduais, com foco nos cargos majoritários estaduais, encontrei que, entre 2018 e 2026, a fatia de convenções que decidem não lançar candidato próprio ficou estável, o que mudou foi outra coisa: quem escolhe o nome dos candidatos. A delegação desta decisão à comissão executiva passou de 12% para 36% dos casos, esvaziando a convenção como instância de escolha dos candidatos. E esse recuo da convenção como instância decisória é mais frequente entre os partidos de centro e direita, como o Republicanos de Cleitinho e o PSDB de JHC. Em 2026, esses partidos delegaram a escolha em 46% dos casos, contra 29% entre os partidos de centro-esquerda e esquerda.

Em muitos casos, a delegação vai além da escolha de nomes ainda indefinidos. As atas autorizam a comissão executiva a rever decisões tomadas pela própria convenção, inclusive sobre candidaturas e coligações. Ou seja, a instância coletiva não apenas deixa de decidir, pode ter suas decisões completamente revistas.

O efeito é concentrar decisões antes tomadas por uma instância coletiva nas mãos de um pequeno grupo, quando não de um único dirigente. Mais uma mostra do distanciamento dos partidos da sociedade.

Cabe destacar que esse esvaziamento das instâncias de decisão coletivas conta com a chancela da Justiça Eleitoral. Pelo menos desde 2002 o TSE considera lícito que convenções deleguem à comissão executiva a escolha posterior dos candidatos, inclusive sem indicar nomes. O tratamento contrasta com o dado às comissões provisórias dos partidos, que muitas vezes substituem os diretórios. O STF derrubou a regra que permitia sua duração por até oito anos, por entender que órgãos compostos por dirigentes indicados, e não eleitos, poderiam minar a democracia interna.

Nos dois casos, o problema é semelhante, concentrar poder, retirando-o de instâncias coletivas. Só em um deles o Judiciário resolveu impor limites.

Um detalhe: em muitos partidos, a comissão executiva que recebe o poder de escolher os candidatos é ela própria nomeada por uma comissão provisória.

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domingo, 23 de agosto de 2026

O QUE NÃO TEM RESPOSTA, NEM NUNCA TERÁ

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A IA em breve nos permitirá fazer as perguntas mais indiscretas às nossas heroínas da literatura

'Diadorim, você fazia xixi em pé com os jagunços?' ou 'Capitu, o que você viu no Escobar?'

A IA (ou dona Iaiá, como a batizou o poeta e acadêmico Antonio Carlos Secchin) nos oferece uma nova oportunidade de nos metermos onde não fomos chamados. Segundo li, em breve poderemos "conversar" por meio dela com personagens da literatura e ouvir deles respostas a questões que seus autores deixaram em suspenso ao criá-los. Eis algumas possibilidades.

Eu faria a Diadorim, herói/heroína de "Grande Sertão: Veredas", algumas perguntas indiscretas, talvez até impróprias: "Diadorim, como você conseguiu se passar por homem durante tanto tempo no meio daqueles jagunços abrutalhados? Eles faziam xixi em pé no mato, em grupo, e davam as três pancadinhas. E você? E se eles, entre uma batalha e outra, te desafiassem para um xixi à distância? Como era na hora de tomar banho, com todo mundo se jogando nu no rio? E, com todo respeito, como você se virava quando estava naqueles dias?". Uma pergunta de cada vez, claro, para não dar chance a Diadorim de me engabelar.

Mas não sei se a maioria das pessoas irá primeiro a Diadorim. Ninguém resistirá a tentar espremer a personagem mais enigmática, cuja intimidade todos gostariam de invadir —a insuperável Capitu, de "Dom Casmurro"—, para fazer a pergunta fatal: "Capitu, você, afinal, traiu ou não o Bentinho, seu marido, com o Escobar?" Ninguém se conforma com que Machado de Assis tenha deixado essa dúvida no ar, gerando dezenas de especulações e até romances que se atreveram a recontar a história.

Nas garras da IA, Capitu seria crivada de perguntas: "Capitu querida, o Bentinho era mesmo um bolha, mas, pelo amor de Deus, o que você viu no Escobar?". Ou então: "O Brás Cubas, outro personagem de Machado, era muito melhor. Por que você não pulou de livro e foi ter um caso com ele? Na ficção, tudo é possível!".

Enfim, são perguntas válidas. Só não confio nas respostas da IA, uma idiota da objetividade, incapaz de competir com os escritores naquilo que caracteriza a verdadeira criação: o intangível, o mágico, o que não tem resposta, nem nunca terá.

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ANDRÉ MENDONÇA SERÁ O NOVO SERGIO MORO ?

Bernardo Mello Franco, O Globo

Relator dos casos Master e Lulinha, ministro do STF promete imparcialidade, mas vazamentos já influem na eleição

Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.

Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.

Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno.

Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes, subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o governo do pai dele.

Os escândalos devem servir de munição para as duas campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.

Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a “interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.

Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas sentenças.

Em declarações a um podcast de seu próprio instituto, Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e “imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.

Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou intimações para se explicar à polícia.

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A BARBÁRIE QUE UNE GARCIA LORCA, VICTOR JARA E HONESTINO

Dorrit Harazim, O Globo

É sempre melhor quando a Justiça redemocratizada se alia à História, claro. Mesmo que tardiamente

Três gerações depois do sombrio 18 de agosto de 1936, ainda é proibido esquecer. Passaram 90 anos desde o fuzilamento do poeta Federico García Lorca por falangistas de Granada. Seu corpo nunca foi encontrado. Segunda-feira passada, dia 17, a homenagem mais vibrante e desempoeirada ocorreu nas ruas de Madri, quando uma ruidosa centena de jovens artistas emergiu do Palácio de Velázquez carregando (com autorização do Ministério da Igualdade) uma pequena estátua de Lorca sorridente. Num misto de “procissão laica” com flashmob a que foram se juntando cidadãos comuns, o cortejo seguiu até a Plaza de Santa Ana, no Barrio de las Letras. Ali, cantaram, declamaram e dançaram aos pés da estátua oficial, em bronze e tamanho natural, do cultuado dramaturgo de “La Casa de Bernarda Alba”.

Uma imensa faixa com a conhecida estrofe de um poema de Lorca fez parte do cortejo: Quiero dormir un rato,/Um rato, un minuto, un siglo;/pero que todos sepan que no he muerto.

Recapitulando. Ao arrepio da ascensão do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália, o ano de 1936 começara na Espanha com a vitória eleitoral de uma Frente Popular que reuniu socialistas, comunistas, anarquistas e organizações operárias. Ficaram no poder por pouco tempo — menos de quatro meses. Em julho daquele ano, a efêmera República foi derrubada. A Guerra Civil de três anos que se seguiu, cujo horror foi imortalizado por Picasso em “Guernica”, causou a morte direta de cerca de 500 mil pessoas. A ditadura de Franco durou 36 anos, sua teia de cicatrizes ainda lateja, e a Espanha até hoje não conseguiu enterrar boa parte daqueles mortos.

Lorca foi preso e assassinado logo no primeiro mês, apesar de não ser filiado a nenhum partido de esquerda. As acusações contra ele, extraídas dos arquivos públicos, dizem o essencial:

— Se ignora sua filiação política, mas sua ideologia é francamente esquerdista [...] publicou várias poesias negando a existência de Deus [...] Conceitualização de sua vida privada: un invertido (homossexual).

Foi esse o pecado capital do cultuado poeta nacional que, à época do fuzilamento, tinha 38 anos e se preparava para assumir uma relação com um jovem de 19. O paradeiro exato de seu corpo continua desconhecido, apesar das periódicas escavações nas montanhas entre Viznar e Alfacar, salpicadas de valas comuns do horror falangista. Mesmo decorrido quase um século, é proibido esquecer. À falta de justiça, cabe à memória atravessar o tempo para alcançar novas gerações.

É sempre melhor quando a Justiça redemocratizada se alia à História, claro. Mesmo que tardiamente. Semanas atrás foi noticiada a captura do coronel reformado Nelson Haase Mazzei, um dos oito militares chilenos responsáveis pela morte sob tortura do cantor Victor Jara, 53 anos atrás. Haase integrava a notória Brigada Tejas Verdes quando os militares derrubaram o governo socialista de Salvador Allende, em 1973, inaugurando uma das ditaduras mais hediondas do hemisfério. Logo nos primeiros dias do golpe, o músico-ícone de 40 anos foi preso e submetido a torturas no Estádio de Chile (hoje rebatizado de Estádio Victor Jara). Seu corpo foi encontrado perto do principal cemitério de Santiago, com 44 perfurações de balas. Tinha as duas mãos quebradas e o crânio esmagado.

A bailarina britânica e ativista Joan Jara, viúva do cantor, morreu aos 96 anos, em 2023, sem ter podido presenciar esse ato final de justiça. Haase Mazzei, de 80 anos, havia conseguido fugir para o sul do país após ser condenado a 25 anos de prisão em 2023 com os demais implicados. Um deles, Hernán Chacón, suicidou-se aos 86 anos quando a polícia foi prendê-lo em sua residência. Outro, Pedro Barrientos, havia fugido para os Estados Unidos, onde viveu por 34 anos até ser extraditado e preso três anos atrás. Sua sentença será proferida em dezembro de acordo com o Código Penal chileno específico para os 17 anos de crimes da ditadura militar.

E o brasileiro Honestino? O estudante de geologia da UnB, militante da Ação Popular e líder da União Nacional dos Estudantes do Distrito Federal, tinha 26 anos em 1973 quando foi assassinado e “desaparecido” pelos órgãos da repressão militar brasileira. Foi “sumido” há 53 anos, portanto, com graus de crueldade não incomuns numa ditadura. No segundo mês sem notícias do filho, a mãe ouviu de militares que ele estava preso no Pelotão de Investigações Criminais da capital, ela poderia visitá-lo no dia de Natal. Família e amigos prepararam bolos, guloseimas. A mãe esperou seis horas em vão. Segundo depoimento do sobrinho de Honestino à Agência Brasil, “levaram-na para uma cela que estava cheia de sangue e disseram que o preso não estava mais lá”.

Por que falar de Honestino agora? Porque é preciso. Porque no Brasil, ao contrário do Chile e da Argentina, os crimes da repressão militar foram anistiados. Porque a cinebiografia “Honestino” está em cartaz nos cinemas do país, e é desalentador ver apenas três cidadãs idosas numa das sessões. Porque o filme e o caso dos desaparecidos deveriam estar nas televisões e em sessões grátis nas universidades. Porque já são duas as gerações de brasileiros que podem ter esquecido. Porque dependemos da memória dos ainda vivos.

Entre o poeta, o músico e o estudante, o denominador comum foi a barbárie.

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URGÊNCIA IGNORADA

Míriam Leitão, O Globo

O El Niño pode atingir o Brasil em plena campanha eleitoral, mas candidatos tratam a questão ambiental de forma superficial

A campanha eleitoral ignora o problema mais urgente da humanidade: a mudança do clima. A emergência climática atinge o mundo, ondas de calor rondam a Europa, o rio Danúbio seca, o Brasil é vulnerável em inúmeros pontos. E deve ser atingido nos próximos meses por eventos extremos do super El Niño. No entanto, tudo se passa como se esse fosse um tema lateral. O candidato Flávio Bolsonaro repete a mesma ideia fixa do pai e ameaça as entidades ambientalistas, alimentando a ideia da conspiração. O presidente Lula apresentou o plano mais robusto dos candidatos, mas fala vagamente sobre o mapa do caminho para a eliminação do combustível fóssil que defendeu na COP30. Também pudera.

A imagem mais emblemática desse começo da campanha é o presidente Lula de macacão da Petrobras e de mãos sujas de óleo chamando o petróleo de “passaporte para o futuro”. Ainda não se sabe se a descoberta de petróleo na Foz do Rio Amazonas será viável. Se for, a produção começará dentro de sete ou dez anos. Há especialistas alertando sobre os riscos, outros comemorando. A crítica é que a vida útil do poço Morpho, e de novos que surgirem, será no tempo em que o mundo precisará abandonar o combustível fóssil empurrado pelo aumento dos eventos climáticos extremos. Os que são a favor admitem que o uso do petróleo vai declinar enquanto o poço estiver em atividade, mas argumentam que daqui a 30 ou 40 anos o mundo ainda estará usando petróleo e o nosso tem teor menor de CO2.

Se houvesse um debate eleitoral deste nível, de pró e contra a exploração de petróleo em nova fronteira, ou da viabilidade de um mapa do caminho da descarbonização, seria excelente. Mas, na verdade, os documentos de campanha dos candidatos têm propostas rasas ou fazem ameaças a quem tenta resistir ao avanço da degradação ambiental. O presidente Lula deu uma declaração que é uma contradição em si mesma, quando disse que o petróleo na Amazônia era o passaporte para o futuro, mas que ele não desistiria da sua luta para que “um dia a gente não precise usar o combustível fóssil”.

O programa de Flávio Bolsonaro promete acelerar o pagamento por serviços ambientais para o produtor que preserva a vegetação nativa, que passará a ser tratado como “parceiro e não como suspeito”. O problema dessa ideia é que a lei obriga o proprietário de terra a manter uma reserva, que varia de tamanho conforme o bioma. Pagá-lo para cumprir a lei não faz sentido. O programa de Bolsonaro diz que vai exigir transparência de financiadores e projetos das ONGs que recebam recursos internacionais e judicializam ações contra a União, “porque onde há dinheiro estrangeiro movendo decisões sobre o território brasileiro há riscos ao interesse nacional, sobre os quais o cidadão brasileiro deve estar informado”. O que o passado nos mostra é que um Bolsonaro no poder significa a deliberada destruição ambiental para “passar a boiada”.

A verdadeira ameaça ao interesse nacional é o grau descontrolado de destruição ambiental e não quem se mobiliza e se organiza para tentar proteger os recursos que sustentam a vida como a água, as matas e o ar limpo. Alimentar a teoria da conspiração em torno de instituições não governamentais é velho truque da direita, para encobrir crimes ambientais.

O candidato Romeu Zema fala em atrair investimento privado para o “monitoramento ambiental”. Se é para substituir o trabalho público do INPE é uma ameaça. Fora isso já existem instituições não governamentais processando dados de satélites. O que seria esse investimento privado?

O candidato Ronaldo Caiado diz em seu programa que “a política ambiental deixará de ser campo de polarização entre permissividade e punição indiscriminada”. Com falas assim fingindo ter propostas equilibradas entre interesses diversos, os candidatos da direita, na verdade, escondem apoio a projetos concretos, que já tramitam com o objetivo de desmontar o arcabouço de proteção ambiental do país.

O presidente Lula chega a essa eleição com números animadores de queda do desmatamento. Tanto o Deter quanto o Prodes trazem dados provando que o terceiro mandato de Lula levou o desmatamento da Amazônia ao seu nível mais baixo. E que em outros biomas também há queda das taxas de destruição. Mas o que preocupa é a ausência de qualquer debate sobre o tema ambiental e climático que representa para a humanidade nada menos do que uma ameaça existencial.

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sábado, 22 de agosto de 2026

LARGADA ACIRRADA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Levantamento divulgado nesta sexta-feira, o primeiro desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto

Com a campanha ao Palácio do Planalto oficialmente em curso desde o último fim de semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em vantagem em um eventual embate direto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas começa a corrida à reeleição pressionado pela piora da avaliação de seu governo. Pesquisa Datafolha divulgada ontem, a primeira desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto de Lula, Flávio e de outros aspirantes à Presidência. A imagem negativa do governo petista, no entanto, supera neste momento a percepção positiva, e o levantamento sugere um aumento do desgaste da gestão que é incomum em períodos eleitorais.

No cenário de primeiro turno, Lula aparece hoje com 39% das intenções de voto, e Flávio tem 33%. Essa diferença já chegou a ser de 10 pontos percentuais, em junho, embora os cenários não sejam diretamente comparáveis por mudanças na lista de candidatos. Ambos estão muito à frente do segundo pelotão, que tem um empate técnico entre Ronaldo Caiado (PSD), que oscilou positivamente, com 5%; Renan Santos (Missão), com 4%; Romeu Zema (Novo), com 3%; e Augusto Cury (Avante), 2%.

Curva distinta

Em um hipotético segundo turno, Lula aparece com 47% contra 43% de Flávio. Em julho, na última vez em que o instituto havia testado esse cenário, os percentuais eram similares (48% a 43%). Nesse meio-tempo, porém, o percentual dos entrevistados que avaliaram o governo Lula como “ruim” ou “péssimo” subiu de 38% para 41%, enquanto o percentual de “ótimo” e “bom” oscilou de 32% para 33%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos.

Em agosto de 2022, numa etapa semelhante da campanha, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) tinha 30% de ótimo e bom, e 43% de ruim e péssimo, segundo o Datafolha. Embora seu saldo à época fosse pior que o de Lula atualmente, Bolsonaro vinha numa trajetória de melhora constante de avaliação, segundo a pesquisa. Em maio daquele ano, Bolsonaro tinha 48% de ruim e péssimo, e 25% de ótimo e bom. No caso de Lula, esses percentuais há três meses eram, respectivamente, de 39% e de 30%.

A melhora na avaliação de Bolsonaro há quatro anos, que se estendeu para o decorrer da campanha, veio a reboque de medidas de consideradas “eleitoreiras” à época, como a liberação de empréstimos consignados para beneficiários do Bolsa Família — e o aumento do benefício de R$ 400 para R$ 600 por família — e a redução compulsória de tributos, inclusive estaduais, sobre combustíveis. Essas medidas injetaram recursos na economia às vésperas da eleição, mas deixando buracos no orçamento para o mandato seguinte.

Lula também vem investindo em um “pacote de bondades” para aquecer a economia, com medidas que incluem facilitação de crédito para compra de automóveis e renegociação de dívidas de pessoas físicas e jurídicas.

Embora essas medidas venham sendo acompanhadas por oscilações positivas no índice de “ótimo” e “bom” do governo, nos últimos dias Lula passou a sofrer com o desgaste pelo avanço de investigação da Polícia Federal sobre uma suposta prática de tráfico de influência envolvendo um de seus filhos, Fabio Luis, conhecido como Lulinha (leia mais na página 6). Além do avanço da avaliação negativa de 38% para 41% neste mês, o Datafolha também identificou que o percentual dos que desaprovam o governo chegou a 50%, e hoje está numericamente acima da aprovação, que é de 47%. Esta é a maior distância desde maio, quando havia 51% de desaprovação e 45% de aprovação. Desde então, os índices vinham praticamente iguais, com a aprovação ligeiramente acima (49% a 48%) em julho.

Na série histórica do Datafolha, Flávio registrou uma queda de intenções de voto em maio, quando veio à tona seu pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, do Banco Master, sob pretexto de financiar um filme em homenagem ao pai. Desde então, apesar das oscilações na avaliação do governo Lula, o filho de Bolsonaro não conseguiu retomar o patamar de igualdade com o petista. Até abril, segundo os levantamentos, Flávio aparecia com índice de rejeição ligeiramente abaixo ao de Lula, e vinha encurtando a distância para o petista em um eventual segundo turno — o placar, à época, era de 46% para o atual presidente contra 45% para o opositor.

Desde o chamado “caso Dark horse”, porém, Flávio aparece estacionado com 43% das intenções de voto em um embate direto com Lula, com uma desvantagem que oscila de quatro a cinco pontos no período. Além disso, a rejeição do eleitorado a Flávio, conforme o levantamento do Datafolha, segue numericamente superior à de Lula: 46% dizem não votar de jeito nenhum no candidato do PL, ante 45% que dizem o mesmo sobre o petista.

O Datafolha também testou um cenário de primeiro turno com Pablo Marçal, que se apresentou como candidato pelo PRTB, embora esteja inelegível. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu nesta semana a participação de Marçal em debates e o acesso a recursos dos fundos eleitoral e partidário. Ao ser testado com os demais candidatos, ele marcou 2% na pesquisa.

Avaliação das campanhas

Apesar do desempenho na aprovação, o resultado trouxe certo alívio para a campanha à reeleição de Lula, que temia sofrer impacto nas intenções de voto por causa do caso Lulinha. A campanha de Flávio, por sua vez, avalia que o desgaste ainda vai atingir o petista e aposta no início do horário eleitoral, na próxima sexta-feira, para ampliar a exposição do tema.

Mesmo com desempenhos tímidos no primeiro turno, Caiado, Renan e Zema registram um patamar não muito distante do alcançado por Flávio quando são testados em simulações de segundo turno contra Lula. Nessas quatro hipóteses, o atual presidente bate em um teto, atualmente, de 47% a 48%, assim como no embate direto com o filho de Bolsonaro. Caiado chega a marcar 40% ao ser testado diretamente contra Lula, enquanto Renan e Zema ficam dez pontos atrás do petista.

Diferentemente de Lula e Flávio, o índice de rejeição ao trio fica em torno de 15%, segundo o Datafolha. Mas o levantamento indica um cenário de difícil rompimento da atual polarização.

A pesquisa foi contratada pela TV Globo e pelo jornal Folha de S. Paulo, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-04496/2026. O Datafolha entrevistou mais de 2 mil pessoas em todo o país, entre terça e quarta-feira.

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SEM O CLAMOR DAS RUAS, CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO SE REDUZ ÀS RUAS

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Fiasco do ato inaugural em Copacabana reforça estratégia no digital

Primeira tentativa deu errado: sunga branca de Flávio B foi desaprovada por seguidores

Flávio Bolsonaro soma aproximadamente 17,6 milhões de seguidores em suas redes sociais. Mesmo sem postar há 13 meses, o pai tem 67,2 milhões; a prisão quase não alterou o número. No mundo digital o filho do peixe continua a ser um peixinho.

Daí que a campanha bolsonarista, tentando repetir o terremoto que abalou as redes em 2018 e afastar o incômodo com o desempenho tímido do senador, se esforça para fazer com que a tropa de aliados replique os posts. O primeiro a ser intimado a participar do esquema foi o deputado Nikolas Ferreira (44,2 milhões de seguidores).

Curiosamente, o governo de Donald Trump acaba de acusar o Brasil de promover censura depois de o antigo Twitter anunciar mudanças em seu algoritmo para as eleições de 2026. Conforme acertado com o TSE, a plataforma deixará de recomendar, na aba "Para Você", publicações de candidatos não seguidos pelos usuários. A regra, no entanto, não impede o acesso às postagens. Onde está a censura, cara pálida?

A nova fase de Flávio Bolsonaro nas mídias começou de maneira estranha. No pior estilo trumpista, ele publicou um vídeo usando inteligência artificial. O candidato moderado aparece transfigurado, à beira de uma piscina, usando apenas uma sunga branca, faixa presidencial atravessada no peito musculoso de havaiano de filme e uma lata de bebida na mão.

Quem viu, quis desver. Nem a seita entendeu a mensagem enigmática que o 01 desejava passar. Um aceno à machosfera? Um convite à brodagem? Uma referência velada às surubas de Daniel Vorcaro? Boa parte dos seguidores reclamou, exigindo mais "decoro" de quem representa o conservadorismo. A publicação foi excluída.

O reforço no digital busca apagar a impressão negativa do ato em Copacabana, com menos de 9.000 pessoas e sem as presenças no palanque de Nikolas Ferreira, da ex-primeira-dama Michelle e do pastor Silas Malafaia (que também não organizará a manifestação de 7 de setembro). Falta à campanha de Bolsonaro filho o que o lugar-comum da política define como clamor das ruas.

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JOGOS DE PODER

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Pela lei e pela lógica, inquéritos contra Lulinha deveriam estar na primeira instância

A tendência, porém, é ministros do STF manterem as investigações sob sua guarda

Pelo que foi vazado até aqui, as suspeitas contra Fábio Luís Lula da Silva, o popular Lulinha, ganharam embaraçosa materialidade. Não acho que o caso levará muitos petistas a desistir de votar em Lula, mas poderá custar votos entre eleitores desalinhados, que tendem a ser decisivos num eventual segundo turno. O que serve de consolo para a campanha de Lula é que seu principal adversário, Flávio Bolsonaro, também está envolvido em suspeitas e muito mais diretas —não é mesmo, irmão Vorcaro?

Mas não é o quadro eleitoral que eu gostaria de discutir hoje e sim o STF. Pela letra fria da legislação, os inquéritos contra Lulinha não deveriam estar sob supervisão da corte, mas sim de um juiz de primeira instância. Nem Lulinha nem seus cossuspeitos têm prerrogativa de foro especial. A própria PGR, que teve acesso a todo o papelório, já recomendou que o caso seja remetido à primeira instância, mas, ao que tudo indica, André Mendonça e Flávio Dino, os ministros do STF que controlam as investigações, irão mantê-las sob sua guarda.

O argumento de que "pode ser" que pessoas com foro venham a ser implicadas é problemático. Em termos estritamente lógicos, não podemos descartar que o papa esteja envolvido. Mas isso obviamente não nos autoriza a transferir o caso para o âmbito do direito canônico. Num sistema funcional de foro especial, inquéritos ficam sob a guarda do juiz natural e só sobem na hipótese de envolvimento constatado de autoridade. As provas até então coletadas, é igualmente óbvio, precisariam ser preservadas.

Por que então o STF não segue a lei nem a lógica? Inquérito é poder, e, da Lei de Ferro das Oligarquias à Escolha Pública, há toda uma família de teorias da ciência política que tentam explicar por que elites, depois que se envolvem em jogos políticos, não apenas não abrem mão de poder como tentam expandi-lo. Em algum sentido, lutam pela própria sobrevivência.

O triste é que, quanto mais os Poderes se aprofundam nessa disputa, menos funcional a República vai se tornando.

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sexta-feira, 21 de agosto de 2026

LEGADOS AO VENTO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

No Brasil, é um erro morrer; assim que encerram o velório, o artista começa a ser esquecido

Tom Jobim, Cazuza, Cartola, Drummond, Guimarães Rosa e Clarice são das poucas exceções

Todo dia morre um artista ou intelectual –jovem ou velho, famoso ou quase, de qualquer ramo. Consternado, vou à internet, às TVs e às reportagens e ouço ou leio a infalível declaração: "Perdemos Fulano, mas seu legado jamais será esquecido". Será? Antes cêsse, mas não ésse, penso eu. Será esquecido, sim, e esse esquecimento começará assim que encerrarem o velório, e o jornal com seu obituário for forrar a gaiola do papagaio. No Brasil, é um erro morrer.

E não importa o tamanho do morto. Exemplo? De 1930 a 1960, ninguém mais presente, poderoso e influente na música popular do que Ary Barroso (1903-1964). E dava razões para isso: fora o primeiro sambista a ficar famoso, o principal abastecedor de Carmen Miranda e Francisco Alves e fixador de gêneros como o samba dolente ("Faceira", 1931), o samba-canção ("Maria", 1934), o samba de Carnaval ("Foi Ela", 1935), o samba dramático ("Na Batucada da Vida", 1935), o samba baiano ("Na Baixa do Sapateiro", 1938), o samba-exaltação ("Aquarela do Brasil", 1939) e muitas outras variantes. Como compositor de piano, tinha uma orquestra nos dedos.

Não só. Foi também o primeiro compositor brasileiro a ser chamado por Hollywood; o mais ouvido locutor esportivo de seu tempo; sinônimo do Flamengo, do qual foi cartola secreto; descobridor de talentos em seu programa de auditório; inspirador da bossa nova (Tom Jobim e João Gilberto o adoravam); e, embora provocasse ciúmes até em Villa-Lobos, dizia-se, com orgulho, um sambista. Pois, com tudo isso, Ary está esquecido.

Estou falando de Ary Barroso, mas poderia citar outros compositores, cantores, atores, escritores, pintores ou bailarinos de calibre equivalente, no masculino ou feminino, cujo "legado" –a obra que deixaram-- está há muito fora dos palcos, das telas, das prateleiras, das páginas dos livros e da memória do Brasil. Você poderá citar outros.

Em compensação, Tom Jobim, Cartola, Cazuza, Carlos Drummond, Guimarães Rosa, Clarice Lispector e Tarsila do Amaral nunca morreram. Por enquanto.

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A FARSA DE PABLO MARÇAL

Bernardo Mello Franco, O Globo

Coach subiu no picadeiro para ajudar Flávio Bolsonaro e promover seus próprios negócios; registro deve ser negado pelo TSE

A nova aventura de Pablo Marçal está com os dias contados. Inelegível até 2032, o coach registrou a candidatura a presidente nos últimos minutos do prazo. Conseguiu tumultuar a disputa, mas deve ser barrado pelo TSE.

Com milhões de seguidores nas redes sociais, Marçal tem a receita para bagunçar o coreto. Em seis dias de campanha, berrou palavrões, insultou jornalistas e chorou num podcast.

Ele reapareceu a bordo de um factoide: declarou R$ 7 bilhões em patrimônio. Depois de ganhar as manchetes, alegou erro ao preencher um formulário. Quem o conhece identificou mais uma pegadinha para causar polêmica e reforçar a imagem de novo rico.

Marçal já deixou claro que a candidatura é uma farsa. Ele subiu no picadeiro para promover seus negócios e ajudar Flávio Bolsonaro, beneficiário dos ataques a Lula e Renan Santos.

Para o Ministério Público, a chapa foi arquitetada sobre duas fraudes. Além de estar com os direitos políticos suspensos, o coach forjou uma filiação ao PRTB com data retroativa. Bons tempos em que a sigla só era notada pela figura exótica de Levy Fidelix, o bigodudo do aerotrem.

Ontem o TSE proibiu Marçal de usar recursos públicos e participar de debates. A decisão unânime indica que a candidatura de mentirinha já subiu no telhado. Mesmo assim, ele ainda pode ter duas ou três semanas para encenar a farsa e pedir doações a incautos.

O candidato-coach é produto de uma era em que a política se confunde cada vez mais com o entretenimento. Suas presepadas geram engajamento e votos, como se viu na última eleição para a Prefeitura de São Paulo.

A seu modo, Marçal deve repetir a passagem-relâmpago de Silvio Santos pela corrida presidencial de 1989. O homem do baú entrou na disputa a 15 dias do primeiro turno. Chegou a ameaçar o favoritismo de Fernando Collor, mas foi barrado pelo TSE por irregularidades no registro partidário.

As semelhanças terminam no lançamento de última hora e no uso de uma legenda de aluguel. Diante do que se vê hoje, a candidatura de Silvio teve a inocência de um programa de calouros.

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DIFERENÇAS NA CAMPANHA ELEITORAL

José de Souza Martins*, Valor Econômico

A mera consciência partidária dos eleitores bolsonaristas de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder

No domingo dia 16, os partidos políticos começaram suas campanhas eleitorais de 2026. Mais do que a eleição para a presidência, as eleições para as duas casas do Congresso decidirão o destino político do país. A direita há décadas optou por aumentar sua representação nas duas casas e governar o Brasil indiretamente por meio do Legislativo, emparedando a Presidência da República. O poder político foi desfigurado pela concepção de que o Brasil tem um partido só, o de uma família.

A mera consciência partidária dos eleitores que a seguem de algum modo arrastou a esquerda para dentro de sua lógica bipolar de poder. O PT, em particular, caiu na armadilha. O que não deixou para a esquerda senão fazer política fora dos marcos do que é propriamente democracia direta e eleitoral.

Nessa lógica, não é estranho que os evangélicos fundamentalistas estejam sendo aparelhados para declarar que o Brasil cristão ou diferente ou indiferente quanto à crença, mas não evangélico, não é o país deles, mas um país inimigo. Eles não votam pela representação política, mas pela intervenção religiosa nas instituições políticas.

O aspecto mais importante da vitória da direita no Legislativo e da vitória da esquerda no Executivo, em 2022, foi a libertação do centro da relação de subserviência ao bolsonarismo. As eleições serão um teste da hipótese.

A centro-direita chega a estas eleições de 2026 sem a necessidade de perfilhar e assumir os débitos políticos de Bolsonaro e sua família. Os do personalismo dos Bolsonaros e sua incompetência para lidar com questões como a pandemia e várias outras questões pendentes da desordem e das decisões erradas de seu governo (2019-2022).

Um indício nesse sentido foi a fala poderosa de Gilberto Kassab, do PSD, candidato a vice-presidente, na chapa de Caiado, aos empresários em São Paulo, incluídos os do agronegócio e seu poder na política do interior, quando declarou que a chance de Bolsonaro nesta eleição é zero. E que o centro está com Lula. Esclareça-se: com Lula para que derrote os Bolsonaros.

Os Bolsonaros são produto de uma “fabricação” política, com base sociologicamente imperfeita e incorreta naquilo que Erving Goffman caracteriza como manipulação de impressões.

É possível definir alguém a partir de impressões sociais que ela pode causar intencionalmente nos outros. Mas as impressões não existem a partir de suposições gratuitas e fake news. Elas dependem de atributos de personalidade de quem é objeto da intenção. Poderia haver, ainda, o outro lado sociológico da questão Bolsonaro.

Max Weber explica que o carisma não se transfere de uma pessoa a outra. Bolsonaro, aliás, não tem carisma. Tem popularidade manipulada, o que torna mais complicada a transferência do atributo de pai para filho.

Na manifestação de Copacabana, foi montada toda uma encenação em que imagens e falas do ex-presidente da República, agora em cumprimento de longa pena e, portanto, legalmente impedido dessas manifestações, atuou eleitoralmente em favor do filho. O candidato nessa inauguração de campanha mostrou que depende significativamente de que o eleitorado o considere cópia e expressão do pai. Não é improvável o efeito bumerangue dessa operação.

Nesta campanha os Bolsonaros terão maior visibilidade. E, portanto, também a terão seus erros e defeitos, com forte probabilidade que a unificação das identidades no nome “Bolsonaro” unifique também os atributos negativos dos membros da família. A campanha refabricará o chamado clã.

A que se deve acrescentar o agravamento decorrente de atributos falsos e frágeis, como a manipulação bolsonarista da religião e a superficialidade de suas demonstrações de fé. Um palavrão de baixíssimo calão, gritado por uma vereadora bolsonarista, contra Lula, no ato de Copacabana, tem nesses casos a função desconstrutiva da teatralidade precária do restante.

A manifestação do Rio foi diferente do aspecto não amadorístico da manifestação do PT em São Bernardo do Campo. Lula não se apresentou sozinho, mas acompanhado de candidatos a outras funções e de outros partidos. Foi pluralista. Em um lugar histórico da luta dos brasileiros contra a ditadura militar.

As esquerdas têm uma história de sofrimento pela pátria, de luta pela liberdade e muito concreta por um país soberano e livre, por benefícios sociais na área da saúde e da educação.

O PT e seu candidato têm uma história consolidada e propriamente de luta pela democracia no Brasil. Tem uma história propriamente política e brasileira. O que é bem diferente de ter suposta influência extralegal sobre governante de potência estrangeira. O que se confirma nos atos fiscais antipatrióticos contra o Brasil.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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CONTO DO VIGÁRIO LIBERAL

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Partido Missão se declara liberal, mas abraça posições iliberais

Credulidade da Faria Lima em relação à sigla é inquietante

Sempre que vejo "Faria Lima" como sujeito de título noticioso que não seja sobre trânsito, fico desconfiado. Utilizar o nome da avenida paulistana como metonímia para "mercado financeiro" é arriscado, entre outras razões porque o tal de mercado não é uno. Reúne desde operadores de day trade até operários que investem o dinheiro de seus fundos de pensão, sem mencionar a viúva aposentada e eventuais clones de Daniel Vorcaro.

Mesmo ciente da diversidade e dos limites da figura de linguagem, fiquei preocupado ao ler reportagens sugerindo que a "Faria Lima" está se enamorando da candidatura presidencial de Renan Santos, do partido Missão, que me parece ainda menos confiável do que o Mounjaro paraguaio. Algum descompasso entre o ideário de uma sigla e suas propostas concretas é sempre esperado, mas, no caso do Missão, as incongruências foram esticadas até o ponto de colapso da identidade.

O problema de base é que o partido, no artigo 1º, § 2 de seu estatuto, afirma ter "caráter liberal" (e é provavelmente isso que encantou a "Faria Lima"), mas não há muito como conciliar o beabá da cartilha liberal com o que a sigla defende. O modelo de segurança pública que eles propõem flerta abertamente com as ideias e práticas de Nayib Bukele. Só que não há meio de confundir o regime salvadorenho com uma democracia liberal. Aquilo é um Estado autoritário que pratica violações sistemáticas a direitos humanos.

Ainda que restrinjamos o liberalismo do Missão ao plano econômico —o que já configuraria transgressão às visões mais holísticas de liberalismo—, fica difícil pacificar a doutrina clássica com a defesa do nacionalismo e até com um certo desenvolvimentismo. Nada disso deveria surpreender muito, considerando que o embrião do Missão, o movimento MBL, ganhou visibilidade tentando censurar uma apresentação artística.

O que me inquieta no flerte da "Faria Lima" com o Missão é pensar que meus modestos investimentos podem estar nas mãos de gente que cai muito facilmente em contos do vigário.

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A FORÇA E A FRAQUEZA DO STATUS QUO BRASILEIRO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

É preciso discutir o dilema imposto pela necessidade de reformas em um ambiente em que muitos com poder resistem às mudanças

Um grande dilema vai marcar o início do próximo quadriênio (2027-2030). De um lado, o país precisará fazer reformas econômicas, administrativas e político-institucionais para não entrar numa grave crise, o que inviabilizaria o mandato do novo presidente num momento de incerteza internacional e aumento da desconfiança do eleitorado. Por outro, os atores que representam o status quo atual tendem a continuar fortes, especialmente os congressistas sob a hegemonia do Centrão, e mesmo o Judiciário, que tem perdido popularidade, ainda tem muita capacidade de resistir à mudança.

O enfrentamento desse dilema é a questão mais importante após a eleição, mas já deveria ser discutido desde já, pois a sociedade precisa saber dessa dificuldade política e dos custos de não resolvê-la. Ainda mais porque os principais presidenciáveis pouco falam da realidade que enfrentarão no ano que vem, seja a das políticas públicas, seja a da complexa governabilidade.

A herança das políticas públicas de Lula III tem coisas boas e ruins. A política ambiental foi retomada depois da hecatombe bolsonarista. O sucateamento do SUS realizado pelo governo anterior foi estancado, com algumas novidades, como o uso inteligente da telemedicina como instrumento para combater as desigualdades territoriais. O MEC voltou a ter protagonismo, com diversos avanços importantes, com destaque para a política federativa de colaboração com os estados e municípios na alfabetização, com impacto no desempenho escolar já no presente quadriênio.

Outras medidas positivas poderiam ser destacadas, realçando que o principal mérito governamental foi reconstruir parcelas do Estado que tinham sido destruídas pelo bolsonarismo - algo que poderá se repetir no próximo quadriênio. Mas a fórmula lulista de governo já não tem a efetividade dos dois primeiros mandatos de Lula. O mundo e o Brasil mudaram, e há novos desafios, que exigem agendas e estratégias renovadas.

Três exemplos podem ilustrar esse desgaste na fórmula lulista de governar. O primeiro é a incapacidade de gerar um novo ciclo de desenvolvimento para além do modelo baseado na ampliação da renda e, sobretudo, do crédito. O país tem de construir mais riquezas aumentando a produtividade e o investimento. Não se trata mais, como na ditadura militar, de reclamar da falta de combate às desigualdades, porque o lulismo efetivamente levou adiante o modelo da Constituição de 1988 e teve uma herança bendita de FHC para criar várias políticas redistributivas de recursos e de oportunidades, um dos seus maiores méritos. Só que se o crescimento se tornar insustentável nos planos fiscal e monetário, já não há mais coelho na cartola que empurre por mais anos o ajuste institucional das contas públicas.

Em segundo lugar, novas agendas e atores surgiram nos últimos anos, de modo que o mundo das políticas públicas se tornou mais complexo. Parte dos grupos emergentes são, inclusive, derivados do sucesso da fórmula lulista de governar, e é preciso readequar as políticas públicas para esse novo cenário. Tão relevante quanto dialogar, entender e descobrir novas soluções para os novos atores é incorporar uma lista de temas que não eram centrais no lulismo. O apoio às mulheres da classe C que vivem nos eixos metropolitanos vai exigir um arsenal de políticas sociais diferentes. Mais importante ainda, a política de segurança pública tem de ganhar maior centralidade na ordem de prioridades lulista.

Aliás, um erro fatal foi não ter criado, desde o início do mandato, um ministério específico para essa questão, o que evitaria a narrativa de que a esquerda acredita que o problema da violência é apenas uma questão social. Isso já não é verdade faz algum tempo e nem a direita tem sido efetiva no assunto - basta ver o fracasso da política de segurança do governador Tarcísio de Freitas, com a explosão de feminicídios e dos roubos ou furtos de celulares. Entretanto, mesmo tendo ao final do governo proposto legislações importantes como a lei Antifacção e a PEC do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), a demora em colocar a temática em maior evidência custou credibilidade eleitoral ao presidente Lula.

Fechando a lista de exemplos, o lulismo não tem sido capaz de renovar boa parte de suas lideranças. É verdade que novos nomes com grande talento surgiram, como o governador do Piauí, Rafael Fonteles, e figuras do governo federal como Fernando Haddad e Camilo Santana foram bem-sucedidas em vários pontos reformistas e vão além da agenda passadista de boa parte do petismo.

Entretanto, a renovação precisa ser maior, incorporando novas lideranças sociais e se aproximando mais do povo. Cresci na periferia de São Paulo entre as décadas de 1970 e 1980, e na época as comunidades eclesiais de base estavam por toda parte. Vários dos políticos petistas que ascenderiam mais tarde ao poder estavam constantemente, como dizia Mário Covas, sujando o pé no barro - e hoje estão muito distantes de uma boa parte das camadas populares. Isso para não falar da escassez de lideranças de centro-esquerda no mundo das redes sociais.

A dificuldade de ir além do modelo lulista dos dois primeiros mandatos também se deveu ao novo cenário político. Nele, estiveram presentes uma oposição forte e com uma estratégia contra as instituições, um Congresso revigorado nos poderes, mas não nas responsabilidades, além de um sistema de Justiça que teve fraturas no meio do caminho entre seu papel central na defesa da democracia e o corporativismo de suas lideranças e da magistratura, algo que está sendo rechaçado pela sociedade. Ao conturbado cenário interno somou-se a desordem e perseguição externa provocada pelo governo Trump, que nos atingiu com o tarifaço e com a ameaça de intervir na eleição presidencial de 2026.

O cenário não será menos conturbado no próximo mandato presidencial. Aí voltamos ao dilema das necessidades imperiosas da mudança versus o poder do status quo. Em relação ao primeiro ponto, um ajuste fiscal e da estrutura de governança administrativa vai ser necessário logo no início do mandato. O ponto nevrálgico é que as dívidas dos cidadãos e do governo se tornaram insuportáveis, e com a Selic nas alturas o problema tende a se agravar muito rapidamente. Bom, então por que não se reduz numa tacada só a taxa de juros? Já se fez isso antes, e os resultados não foram, digamos, muito bons.

Na verdade, se o próximo presidente conseguir reformular o arcabouço fiscal para que ele seja crível por anos em sua tarefa de estancar o crescimento da dívida pública, por meio de reformas na lógica orçamentária, nos gastos com os penduricalhos da elite do setor público e na redução das renúncias tributárias, seria até possível recalibrar a meta de inflação, que de fato é irrealista para nossas condições. O casamento desses dois componentes seria positivo, mas depende antes de um projeto de longo prazo de reforma do Estado, que o torne sadio financeiramente e efetivo na provisão dos serviços públicos.

O problema está no descasamento da urgência da reforma com a defesa do status quo de quem é mais forte no sistema atual. Um exemplo diz tudo: a redução do número de concorrentes à Câmara Federal em 2026 em comparação ao passado recente. A oligarquização é hoje um traço marcante na seleção dos deputados federais. A soma de emendas parlamentares bilionárias e sem paralelo no mundo com os amplos recursos de campanha nas mãos dos partidos tem dificultado muito a renovação congressual. Ora, as reformas teriam que passar, em alguma medida, pela redução dos recursos que favorecem os que vão continuar com hegemonia em Brasília.

Há outros vencedores dos últimos anos que podem ser atingidos por reformas no próximo governo. O sistema de Justiça se fortaleceu, com alguns impactos positivos para salvaguardar a ordem constitucional, mas com efeitos negativos para o controle republicano de seus comportamentos e rendimentos. Também há os grupos lobistas que reforçaram seus interesses e seus laços com a elite dos congressistas. O caso do setor elétrico é paradigmático aqui, com poucos jogadores obtendo altos rendimentos em detrimento dos consumidores e da sustentabilidade do setor.

A questão é que se nada ou pouco for feito, a crise virá. O tamanho dela ainda é controverso, mas com certeza vai impactar vários atores sociais e a popularidade do novo presidente. A economia ficará pior do que neste ano, o que se junta a um cenário geopolítico bem difícil, além dos possíveis efeitos climáticos do El Niño. O quanto o status quo irá resistir à perda geral de bem-estar? Se a resiliência do atraso for o saldo líquido do jogo político, a crise do sistema político já será sentida fortemente nas eleições municipais de 2028, ou até antes, com o crescimento de outsiders, o que seria a antessala de um processo incontrolável de recomposição do poder.

Caso haja uma crise, o que é bem provável, o status quo precisará entregar os anéis para não perder os dedos. O que ainda não sabemos, e deveria ser discutido pragmaticamente pelos presidenciáveis e pela sociedade, é quantos anéis são necessários para construir um caminho mais seguro para o futuro do país.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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EU PREFIRO SER ESSA METAMORFOSE AMBULANTE

Dilva Frazão, Ebiografia

Biografia de Raul Seixas

Raul Seixas (1945-1989) foi um cantor, compositor, guitarrista e produtor brasileiro, um dos mais importantes nomes do rock no Brasil. Entre suas músicas destacam-se: Maluco Beleza, Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás, Mosca na Sopa e Ouro de Tolo.

Raul Santos Seixas nasceu em Salvador, Bahia, no dia 28 de junho de 1945. Era filho de Raul Varela Seixas, engenheiro de estradas de ferro, e de Maria Eugênia Santos Seixas.

Com sete anos iniciou no curso primário. Em 1957 ingressou no Colégio São Bento, mas foi reprovado na 2ª série por três anos. Foi então mandado para o curso interno do Colégio Marista, mas só completou a 3ª série.

Raul gostava de ler os livros da biblioteca de seu pai e criva suas próprias histórias desenhando os personagens nos cadernos da escola. Gostava de música, mas seu sonho era ser escritor.

Na adolescência ele ficava horas ouvindo as músicas de Elvis Presley e de Little Richard. Em 1959, junto com o amigo Waldir Serrão, fundou o fã clube “Elvis Rock Club”.

Os Panteras

Já integrado à cena do Rock em Salvador, em 1962, Raul entrou para a formação da banda “Os Panteras”, formado por Mariano Lanat, Eládio Gilbraz e Carleba.

 Em 1963 a banda se apresentou no programa “Escada de Sucesso” na TV Itapuã. Em 1967 o grupo aceitou o convite de Jerry Adriane para ir ao Rio de Janeiro. No ano seguinte gravaram o primeiro e único disco “Raulzito e Os Panteras”.

No Rio de Janeiro, “Os Panteras” passam por grandes dificuldades para divulgar o disco e com o apoio do cantor tocam como banda de apoio. Fase que ele mais tarde descreve na música “Ouro de Tolo”.

Com o fracasso da banda, o grupo voltou para Salvador. Ainda em 1968, Raul conheceu o diretor da CBS, que mais tarde o convidou para ser produtor da gravadora.

Aos poucos suas músicas foram gravadas por cantores da Jovem Guarda, entre eles, Jerry Adriane, Odair José e Renato e Seus Blue Caps.

Depois de alguns lançamentos mal sucedidos, em 1970, Raul participou do Festival Internacional da Canção com “Let Me Sing, Let Me Sing”, defendida pelo próprio Raul, e “Eu Sou Eu e Nicuri é o Diabo”, defendida por Lena Rios & Os Lobos.

Suas músicas chegaram à final e a partir daí, seu nome começou a se destacar. Foi então contratado pela gravadora Philips. Conheceu o escritor Paulo Coelho que mais tarde se tornou seu parceiro musical.

Primeiros sucessos

Em 1973, Raul Seixas lançou seu primeiro disco Kring-ha, Bandolo! que fez sucesso com as músicas Ouro de Tolo, Mosca na Sopa, Metamorfose Ambulante e Al Capone.

Em 1974, Raul Seixas, junto com Paulo Coelho, criou a “Sociedade Alternativa”, um conceito de sociedade livre inspirada no ocultista Aleister Crowley, que foi tema do disco “Gita”, lançado no mesmo ano.

No mesmo ano, Raul e Paulo foram presos pelo Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) e exilados nos Estados Unidos.

De volta ao Rio de Janeiro, em 1975, Raul lançou “Novo Aeon”, que fez sucesso com a música Tenta Outra Vez composta também em parceria com Paulo Coelho.

Em 1976 lançou Eu Nasci Há 10 Mil Anos Atrás, um grande sucesso. Nos anos seguintes, Raul lançou O Dia Em Que a Terra Parou, no qual se destacou a música Maluco Beleza e também a faixa título.

Ainda na década de 70, Raul lançou os discos: Por Quem Os Sinos Dobram e Mata Virgem, ambos em (1979).

Década de 80

Em 1980, Raul gravou o disco Abre-te Sésamo, porém logo depois ficou sem gravadora e mergulhou no álcool e nas drogas, sem perspectiva de novas gravações.

Em 1982, faz um show na praia do Gonzaga, em Santos e no mesmo ano apresentou-se drogado para realizar um show em Caieiras, São Paulo.

No ano seguinte, foi convidado para gravar um disco pelo Estúdio Eldorado. No mesmo ano, lançou Raul Seixas, no qual se destacou o sucesso O Carimbador Maluco, e lhe deu o disco de ouro e um show na televisão.

Em 1984 lançou Metrô Linha 743. Depois de três anos sem gravar, lançou Uah-Bap-Lu-Bap-Lah-Béin-Bum! (1987). No ano seguinte lançou A Pedra do Gênesis.

Em 1989 realizou diversas apresentações pelo país, em companhia do roqueiro Marcelo Nova, o que resultou em seu último disco, A Panela do Diabo.

No dia 21 de agosto de 1989, dois dias após o álbum chegar ao mercado, Raul foi encontrado morto em sua cama, no apartamento em São Paulo.

Raul Seixas faleceu em São Paulo, no dia 21 de agosto de 1989, com apenas 44 anos, vítima do álcool e das drogas..

Casamentos e filhas

Raul teve três filhas, Simone Andrea Wisner Seixas,Scarlet Vaquer Seixas e Viviane Costa Seixas, fruto de seus casamentos com Edith Wisner Seixas (1967 a 1974), Glória Vaquer (1975 a 1978) e Angela Affonso Costa (1979 a 1985), respectivamente.

Frases de Raul Seixas

"Só há amor quando não existe nenhuma autoridade".

"Do materialismo ao espiritualismo é uma simples questão de esperar esgotarem-se os limites do primeiro".

"Somos prisioneiros da vida e temos que suportá-la até que o último viaduto nos invada pela boca adentro e viaje eternamente em nossos corpos".

"A arte de ser louco é jamais cometer a loucura de ser um sujeito normal".

"Quero a certeza dos loucos que brilham. Pois se o louco persistir na sua loucura, acabará sábio".

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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

OS BOLSONAROS SÃO DIFERENTES, VOCÊ SABE

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Para Flávio Bolsonaro, o 'sistema é podre' e o Brasil 'olha com nojo para Brasília'

A família se proclama 'antissistema', mas faz parte dele há quase 40 anos

Flávio Bolsonaro disse em Copacabana, no domingo (16), que o Brasil "olha com nojo para Brasília". O que Brasília terá achado disso? Ele estava se referindo aos políticos. Os Bolsonaros são diferentes, você sabe. Não são políticos. O sistema é "podre". Eles são "antissistema". Mas vejamos o que cada um fez ou faz na vida.

1 - Jair Bolsonaro. Sete mandatos como deputado federal (1990, 94, 98, 2002, 06, 10 e 14). Presidente eleito em 2018, derrotado em 2022. Atual presidiário condenado a 27 anos por tentativa de golpe de Estado. 2 - Flávio Bolsonaro. Filho 01 de Bolsonaro. Quatro mandatos como deputado estadual pelo Rio (2002, 06, 10 e 14). Atual senador e candidato à Presidência da República.

3 - Carlos Bolsonaro. Filho 02. Sete mandatos como vereador pelo Rio (2000, 04, 08, 12, 16, 20 e 24). No primeiro, concorreu contra a própria mãe e a derrotou. Chamado de "vereador federal" por passar mais tempo em Brasília do que no Rio. Candidato a senador por Santa Catarina, para onde se mudou em 2025 a fim de conseguir domicílio eleitoral. 4 - Eduardo Bolsonaro. Filho 03. Três mandatos como deputado federal por São Paulo (2016, 20 e 24). Cassado por abandono do cargo e condenado a quatro anos de prisão por coação judicial. Foragido nos EUA, dedica-se a pregar medidas econômicas contra o Brasil.

5 - Jair Renan Bolsonaro. Filho 04. Vereador desde 2024 por Balneário Camboriú (SC). 6 - Michelle Bolsonaro. Terceira mulher de Bolsonaro. Líder partidária e candidata a senadora pelo Distrito Federal. 7 - Rogéria Bolsonaro. Primeira mulher de Bolsonaro, mãe de Flávio, Carlos e Eduardo. Vereadora pelo Rio em 1992 e 96. Candidata a deputada federal. 8 - Renato Bolsonaro. Irmão de Bolsonaro. Foi candidato a vereador e a prefeito de Registro (SP) e Miracatu (SP) em 1996, 98, 2000, 04, 08, 12, 16 e 24. Perdeu todas. 9 - Percy Bolsonaro. Pai de Bolsonaro. Filiado nos anos 1960 ao MDB de Eldorado (SP), partido contra a ditadura militar, e monitorado pelo extinto SNI (Serviço Nacional de Informações) por exercício ilegal da medicina.

Não falei que os Bolsonaros eram diferentes?

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A SOLIDÃO DE FLÁVIO BOLSONARO

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Incentivos institucionais e cálculo político explicam a neutralidade da direita pragmática

Coligações de partidos não definem as escolhas do eleitor, mas têm importantes efeitos indiretos

Aberta a temporada eleitoral, a candidatura de Flávio Bolsonaro vive um paradoxo. Ele é o preferido dos que jogam no campo antipetista. Pesquisa após pesquisa o situa perto —às vezes até empatado— com o presidente Lula. Na sondagem de agosto da Quaest, tem 30% das preferências, contra 39% do incumbente que pleiteia a reeleição. Ao mesmo tempo, o filho do ex-presidente amarga notável isolamento das lideranças do vasto campo das direitas.

Flávio Bolsonaro não logrou construir coligação eleitoral e terminou lançado apenas pela sua legenda, o PL (Partido Liberal). Desde 1989, é a primeira vez que um candidato competitivo não se apoia numa coligação. Até seu pai, um inimigo declarado do "sistema", teve a seu lado, além do PSL (Partido Social Liberal), o pequeno PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). O filho tampouco conseguiu atrair um vice com luz própria, capaz de somar algo a uma disputa que se prevê acirrada. E o alagoano Alfredo Gaspar (PL), político de projeção apenas local, chega à campanha sob o peso de ter de se defender de graves denúncias sobre seu comportamento na vida privada.

Sintomáticas são também as atitudes da direita pragmática. Espertas, as agremiações que formam o chamado "centrão" —Movimento Democrático Brasileiro (MDB), União Brasil, Partido Progressistas (PP) e Republicanos (PR)— se refugiaram numa posição oficial de neutralidade na disputa nacional, sem lançar candidatos próprios ao governo, nem apoiar formalmente qualquer dos concorrentes ao Palácio do Planalto no primeiro turno.

Incentivos institucionais e cálculo político explicam a neutralidade. Os generosos recursos dos fundos eleitoral e partidário poderão ser totalmente empregados no que mais interessa na hora do vamos ver, porque lhes acresce poder: as eleições para o Congresso Nacional e, a depender das circunstâncias, para os governos estaduais. Já a neutralidade confere flexibilidade política à escolha das coligações subnacionais. Ali onde o PT é forte, não haverá por que hostilizar seu candidato à Presidência. Por trás de tudo, a certeza de que o vitorioso sempre dependerá do apoio das forças majoritárias no Parlamento.

A existência e a amplitude das coligações estão longe de ser os determinantes maiores do voto. Este resulta de um conjunto de fatores que incidem de diferentes formas sobre diferentes tipos de eleitor e incluem também a existência de identificação do votante com um partido; simpatia pelo candidato; e a própria campanha eleitoral e seus múltiplos recursos de persuasão. Os cientistas políticos concordam que as coligações partidárias têm ainda importantes efeitos indiretos. Multiplicam os recursos para campanhas; trazem tempo e dinheiro para a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV e para a comunicação nas redes sociais; asseguram capilaridade em todo o território; e sinalizam a existência de apoios que fazem a candidatura —e um futuro governo— parecer politicamente viáveis.

Assim, não será à toa que, no chocho comício inaugural da campanha de Bolsonaro-2, domingo passado (16/8), em Copacabana, seja mais fácil contar quem não foi. Por lá não se viram políticos conhecidos, nem bolsonaristas notórios. Prova viva da solidão política do candidato da extrema direita.

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DIPLOMA NÃO É DOCUMENTO

Merval Pereira, O Globo

Quem faz blogs e se diz jornalista, mas não é, pode ser processado pela lei penal, por injúria, difamação ou qualquer outro crime

A exigência de diploma para jornalistas foi imposta por decreto da Junta Militar em 1969 e vigorou durante 40 anos no Brasil, até que o Supremo Tribunal Federal (STF) a revogou, em 2009, considerando que a proibição de exercer a profissão violava a liberdade de expressão e de informação. Na primeira ocasião, a obrigatoriedade agradava aos que tinham faculdades de jornalismo e atuavam em um mercado de trabalho controlado pelo oficialismo governamental: ministérios, secretarias, sindicatos e associações chapas-brancas.

Mas a exigência tinha também o sentido de controlar quem podia ser jornalista, pois o registro era dado pelo governo, a ditadura militar. Hoje, a situação é mais complexa por causa das redes sociais, que inundam os usuários de informações nem sempre fidedignas, sem o controle de qualidade exigido pelo jornalismo profissional. É uma situação diferente da que tínhamos quando se decidiu que não era preciso ter diploma.

Comecei a trabalhar há 60 anos, quando não se precisava ter diploma. A falta dele não me impediu de ser visiting scholar na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, considerada a melhor faculdade de jornalismo do mundo. Ganhei também uma bolsa para estudar na Universidade Stanford, na Califórnia, da John S. Knight Foundation — cuja base era a política internacional, no momento em que ruía a União Soviética e o Japão parecia no caminho de dominar o mundo —, um programa de aperfeiçoamento para jornalistas de várias partes do planeta, sem que me exigissem diploma. Nos Estados Unidos, e em vários outros países, não há obrigatoriedade de graduação em faculdade de jornalismo, embora nada impeça de cursá-las quem quiser.

Muitos jornalistas têm blogs, mas outros só têm blogs pessoais e nunca trabalharam em jornalismo. Não é o caso do blogueiro maranhense Luís Pablo, jornalista registrado que trabalha há muitos anos. A ligação entre a retomada da proposta de obrigatoriedade do diploma e o caso do Maranhão é praticamente direta, mas equivocada.

O sigilo da fonte jornalística não pode ser quebrado por ninguém, por maior que seja seu cargo na República. Justamente para impedir que as autoridades atuem para constranger ou prejudicar o jornalista que deu a informação indesejada pelas autoridades. Como dizia Millôr Fernandes: “Notícia é tudo o que os governantes não querem que seja publicado. O resto é secos e molhados”. A imprensa nasceu no século XV, com a prensa de tipos móveis inventada por Gutenberg, para dar condições à sociedade civil de se contrapor à força do Estado absolutista e legitimar suas reivindicações no campo político, denunciando abusos dos governantes.

Talvez seja necessário fazer uma distinção entre jornalista e os que dão opinião em blogs nas redes. O jornalista tem todo o apoio da legislação e não pode ser atingido pela tentativa de controle da informação ou da fonte. Mas, ao mesmo tempo, não se pode ficar sujeito a que qualquer um abra seu próprio blog, se diga jornalista e comece a caluniar e atingir outras pessoas. É um assunto que terá de ser discutido em algum momento, mas, enquanto isso não acontece, a fonte é preservada com todos os direitos pela Constituição, e o jornalista não pode ser pressionado por questões políticas.

Evidente que os ministros do STF trazem de volta o tema para dizer que não quebraram o sigilo da fonte de um jornalista — e não violaram a Constituição —, mas sim de alguém que não tem a responsabilidade que um jornalista precisa ter. Não é o caso, porém, do jornalista maranhense. Quem faz blogs e se diz jornalista, mas não é, pode ser processado pela lei penal, por injúria, difamação ou qualquer outro crime, sem que haja necessidade de burlar a Constituição ou de criar exigências como o diploma.

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