É improvável que senadores aceitassem mudar uma regra
para dar vitória ao governo que acabaram de derrotar
O presidente se expõe a um enfrentamento que não tem
capital político nem amparo jurídico para bancar
Chama-se balão de ensaio a ideia plantada no noticiário
político de que o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) cogita
reapresentar ao Senado o
nome de Jorge Messias para
ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal
Federal.
No caso, um balão com muitos furos. O maior deles esbarra na
impossibilidade de os senadores examinarem duas vezes uma indicação na mesma
legislatura. Ato normativo da Mesa da Casa, em tese poderia ser revogado
mediante negociação entre as presidências da República e do Congresso.
E aí temos o segundo furo no balão. Davi
Alcolumbre (União-AP) e Lula não
estão exatamente em posição de boa vontade mútua, condição essencial à
construção exitosa de entendimentos.
As tentativas de recomposição feitas por intermediários
ainda não deram resultado, como observamos no distanciamento entre os dois na
posse de Kássio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior
Eleitoral.
Alcolumbre manda, mas o peso do seu comando é lastreado no
maior ou menor apoio que tenha de seus pares. Ainda que se dispusesse a atender
a conveniências do Palácio do Planalto, dependeria de sustentação no colegiado
para levar a ação adiante.
Eis, então, o terceiro furo a ser remendado: convencer os
senadores que acabaram de derrotar o governo a mudar uma regra para anular o
próprio gesto de contrariedade. Não é impossível, mas altamente improvável.
Considerando que o governo saiba de todos esses obstáculos,
a propagação da ideia de que haveria insistência na indicação atenderia a dois
possíveis propósitos: testar se houve mudança de clima depois da trombada das
conversas de Flávio
Bolsonaro (PL)
com Daniel
Vorcaro ou apenas marcar posição de autoridade de Lula na prerrogativa
de indicar juízes ao STF.
Ambas as hipóteses de frágil —para não dizer inexistente—
efeito prático. Se há outras intenções, por ora permanecem ocultas. Fato é que
Lula se expõe inutilmente a um enfrentamento que não tem capital político nem
amparo jurídico/institucional para bancar.
Condescendência com acusações e instabilidades ligadas ao
clã não se explica nem por dados econômicos e fiscais do governo de Jair
A forma como parte da elite econômica e política espera para
ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase
diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno
conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência
desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é
capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.
A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da
profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos
incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico
antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras
inconsistências.
Os quatro anos de mandato de Bolsonaro
trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já
senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de
rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo
Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais
compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo —
e tudo foi aceito.
A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência,
disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se
“passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando
de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava
de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.
Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem
precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a
quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do
cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo
ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se
a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas
de casa armadas de batom.
Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de
uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para
melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de
diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado
por tramar um golpe de Estado.
E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores
de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto
de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria
família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos
Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o
Brasil.
Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio
pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado
para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma
transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a
motociata siga.
É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal
complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo
do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse
acervo do “azarão” e sua prole.
O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não
explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente
excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira,
inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas
gestões petistas.
As pesquisas e as novas revelações (que não param de
aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura.
Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o
sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser
explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.
Luísa Marzullo, Letícia Pille e Lauriberto Pompeu / O Globo
Cúpula do PL vê prazo de 15 dias para avaliar viabilidade da
candidatura de Flávio após conversas com Vorcaro
Desconfiados das versões apresentadas pelo senador e com
medo de novos fatos, ala do partido já defende a busca por opções ao Planalto
Pressionado pelo próprio partido a explicar sua relação com
o banqueiro Daniel
Vorcaro, o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio
Bolsonaro, admitiu ontem mais um fato que havia sido omitido dos próprios
aliados. Além de pedir dinheiro ao banqueiro para uma cinebiografia de seu pai,
o ex-presidente Jair
Bolsonaro, o senador confirmou que fez uma visita ao dono do Banco Master
depois de ele ser preso, no fim do ano passado. À época, Vorcaro usava
tornozeleira eletrônica e estava impedido de deixar São Paulo. A nova revelação
abalou as bancadas do partido no Congresso e consolidou o entendimento, para
parte dos colegas, de que um acontecimento novo pode sepultar a candidatura do
senador.
Publicamente, integrantes do PL trataram o
caso apenas como um novo revés, mas as justificativas apresentadas foram
consideradas pouco plausíveis. Integrantes da cúpula avaliam que, de 10 a 15
dias, será o tempo para reavaliar se Flávio terá condições de prosseguir como
candidato e se as denúncias serão relevantes eleitoralmente.
‘Um ponto final’
Flávio sustenta que só foi ao encontro do dono do Master
para colocar um “ponto final” em questões relacionadas ao patrocínio do longa.
Como revelou o Intercept Brasil, Vorcaro autorizou o repasse de R$ 61 milhões
ao filme “Dark horse”, transferência investigada pela Polícia Federal (PF). A
mesma reportagem revelou áudios em que Flávio cobra parcelas atrasadas do
banqueiro.
— Fui, sim, até o encontro dele (Vorcaro). Ele estava
restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele — disse
Flávio, na manhã de ontem, minutos depois de o encontro ser revelado pelo
portal Metrópoles. — Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final
nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave
como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o
filme não correria risco.
O senador afirmou que o único assunto tratado com Vorcaro,
tanto por telefone quanto pessoalmente, foi o financiamento do filme. Segundo
relatos feitos ao GLOBO, a avaliação interna é que a candidatura de Flávio
passaria a ser considerada “inviabilizada” se aparecerem fatos que contradigam
a versão de que sua relação com o dono do Banco Master esteve restrita
exclusivamente ao longa.
A revelação da visita se junta a uma série de turbulências
que a campanha de Flávio vem enfrentando antes mesmo de vir à tona sua
proximidade com Vorcaro. A escolha de um ex-policial civil para chefiar a
comunicação havia irritado uma ala do PL. A postura do senador durante operação
que mirou Ciro Nogueira (PP-PI), há duas semanas, ajudou a afastar parte do
Centrão, que deve optar pela neutralidade na corrida presidencial. Após a
revelação da troca de áudios entre o senador e o banqueiro, versões desencontradas
do pré-candidato, de Eduardo
Bolsonaro e de produtores do projeto, como o deputado Mario
Frias (PL-SP) e a empresa Go Up, levantaram dúvidas sobre a veracidade
das informações.
Depois de passar os últimos dias em reuniões reservadas com
Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério
Marinho, Flávio reuniu ontem cerca de 70 deputados e senadores do partido
em Brasília. Aliados ainda demonstram incômodo com a condução política do caso
e com a forma como o senador reagiu publicamente às revelações.
Ao tentar reverter a situação para o seu eleitorado, o
pré-candidato chegou a divulgar o trailer do filme nas redes sociais.
Interlocutores próximos a Valdemar afirmam que cresceu na cúpula do partido a
avaliação de que o PL precisa começar a olhar opções caso novos desdobramentos
atinjam o filho do ex-presidente.
Qualquer mudança, porém, teria que passar pelo crivo do
ex-presidente, que está em prisão domiciliar, onde mantém diálogo frequente com
Flávio.
No caso de a candidatura não se viabilizar, hoje três
figuras aparecem como principais possibilidades: Michelle Bolsonaro, a
senadora Tereza
Cristina (PP-MS) e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da
pré-campanha de Flávio. Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado
da família, Silas Malafaia resume o ambiente da pré-campanha.
— A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver
comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto,
estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se
não tiver, vamos com Flávio.
Outros preferem fazer defesa enfática do candidato do PL à
Presidência.
— Não existe nenhuma chance de Flávio ser substituído — diz
Marinho.
Os últimos acontecimentos geraram desconforto inclusive
entre aliados da família Bolsonaro. O influenciador Paulo Figueiredo, próximo
de Eduardo, afirmou publicamente que a oposição enfrenta um problema de
“comunicação e política”. Já Eduardo admitiu em uma transmissão ao vivo que o
grupo demorou a reagir justamente para evitar contradições.
A ordem agora dentro do PL é reorganizar o discurso e evitar
que Flávio fique acuado. O entorno do senador defende ampliar agendas públicas,
reforçar viagens pelo país e intensificar encontros com empresários. Ele viaja
para São Paulo hoje, onde deve ter encontros com a Faria Lima.
Desculpas e cobranças
Durante a reunião com parlamentares do PL, Flávio pediu
desculpas por não ter explicado antes detalhes da relação com Vorcaro, afirmou
diversas vezes que “não há mais nada” além da negociação envolvendo o filme e
tentou convencer os colegas de que a crise pode ser superada politicamente.
Flávio ouviu cobranças e parte dos presentes queria entender se Flávio já havia
contado tudo o que sabia ou se o partido ainda corre risco de ser surpreendido.
Flávio também tentou sustentar a tese de que jamais teria
deixado registros tão explícitos em mensagens e áudios se acreditasse estar
diante de algo ilegal. Para integrantes do PL, essa passou a ser a principal
linha de defesa construída pelo entorno bolsonarista: a de que houve erro
político e imprudência, mas não consciência de eventual irregularidade.
Mais tarde, em evento da Marcha dos Prefeitos, que ocorre em
Brasília, o presidenciável decidiu alegar que estava sendo “perseguido”, mas
sem explicar em detalhes o encontro que teve com o dono Master.
Direita diz que vai esperar um mês de pesquisas antes de
pensar em alianças
Gente do PL diz que candidatura está no lucro, pois
cresceu cedo e tem gordura
A candidatura de Flávio
Bolsonaro está no "lucro", diz gente do PL, partido do
senador fluminense. O que quer dizer? Que o pré-candidato teve um desempenho
melhor do que o esperado no início da pré-campanha, que empatou com o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas "muito
precocemente" e, por isso, "está muito bem-posicionado".
Quase a cada dia surgem versões novas do relacionamento de
Vorcaro com os Bolsonaro e a
produção do filme de propaganda de Jair. Mais importante, ainda não sabemos
como o tutu foi gasto e quais instrumentos foram utilizados para fazer o
trânsito do dinheiro e das justificativas de quanto passou em cada conta,
fundo, empresa. Teve sobra de caixa? Superfaturamento de custos de transação do
tráfego dos recursos ou outros? Não é por acaso que gente como Vorcaro usa
"fundo do fundo do fundo" para sumir com dinheiro.
Flávio Bolsonaro disse que vai apresentar as contas "em
trinta dias", como aqueles prazos de esclarecimentos de acidente de avião,
queda de ponte ou apagão. O vencimento da promessa seria em 18 de junho véspera
do jogo do Brasil com o Haiti na Copa.
O pessoal do PL acredita que a "espuma da narrativa vai
passar" até por causa disso, Copa, festa junina e, principalmente, porque
apareceriam más notícias econômicas para o governo Lula: taxas de juros altas
por mais tempo, criação de emprego "caindo".
Flávio
Bolsonaro vai participar da Marcha para Jesus em São Paulo, no início de junho. "Vai
mostrar", diz gente do PL, que não perdeu apoio de evangélicos, vários
irritados com o escândalo Vorcanaro, assim como a dita "direita
limpinha" e influencer (que, no entanto, faz menos de uma semana não se
importava com o histórico de sujidades dos Bolsonaro).
O
pessoal do centrão mal quer falar do assunto. Algumas lideranças dizem
que prejuízos locais já estão dados. Alianças difíceis se tornaram inviáveis,
mas não seriam lá tantas. Outros dizem que não há informação para falar ou
agir. Isto é, vão esperar para ver até onde vai a onda atual de mentiras de Flávio
Bolsonaro e "um mês de pesquisas" (para medir o tamanho do estrago).
Mais importante, não haveria o que fazer porque não há alternativa visível, nem
para agregar o antipetismo, e porque acordos não haviam sido fechados. Por fim,
parte menor do centrão iria com Lula 4 mesmo, por conveniências regionais, e
uma outra parte, menos comprometida com a extrema direita, pode mudar de barco
a depender do grau de conveniência —expectativa de poder, desempenho nas
pesquisas dos presidenciáveis ou o próprio desempenho do político, embora o
escândalo novo de Flávio dificulte o cálculo do vira-casaca.
O motivo principal da inação, porém, é a falta de
alternativa.
"Nada ficou provado contra mim", diz João
Caldas, barrado pela Lei da Ficha Limpa em 2022; ex-deputado compara novo
pré-candidato a Neymar
Morreu por falta de votos a candidatura de Aldo Rebelo ao
Planalto. Sem alcançar 1% nas pesquisas, o ex-comunista foi rifado pelo
Democracia Cristã. O presidente da sigla, João Caldas, recorre ao futebol para
explicar a decisão: “Seu time está perdendo e tem um perna de pau em campo.
Você deixa ele lá ou chama o Neymar, que está no banco?”.
O Neymar do DC é Joaquim
Barbosa, o ex-ministro do Supremo. A exemplo do atacante do Santos, seu
maior trunfo é o passado. O auge da popularidade foi em 2012, no julgamento do
mensalão.
Há oito anos, Barbosa ensaiou disputar a
Presidência pelo PSB. Desistiu alegando razões pessoais. “Ele viu que tinha
gente puxando o tapete. Aqui isso não vai acontecer. Joaquim é uma
u-na-ni-mi-da-de”, diz Caldas, recitando uma sílaba por vez.
O DC era o partido de Eymael, nanico que disputou seis
eleições presidenciais. Sua aposentadoria abriu caminho para Caldas,
ex-deputado alagoano. Em quatro décadas na política, ele já passou por PMDB,
PMN, PL, PSDB, PEN e União Brasil. Convenceu-se de que o eleitor não dá a
mínima para o troca-troca.
“O povo não escolhe partido, escolhe candidato. O Collor foi
eleito pelo PRN e o Bolsonaro pelo PSL”, lembra. Questionado se Barbosa também
usaria o figurino de salvador da pátria, ele desconversa: “Nada a ver. O
Joaquim é preparadíssimo!”.
Segundo Caldas, o ex-ministro teria o perfil certo para
pilotar uma República desgovernada. “Qual é a lei que vale no Brasil? Só a do
jogo do bicho, onde vale o escrito”, ironiza. “O país está uma bagunça, e ele
vai botar ordem na bagunça”, promete.
Apesar do entusiasmo, o Ancelotti do DC não sabe dizer se
seu Neymar tiraria votos de Lula ou
de Flávio
Bolsonaro. “Aí eu teria que ser um palpiteiro. Mas, quando a gente mostra a
foto dele, o povo vibra como se fosse gol”, empolga-se.
Doze anos depois de pendurar a capa preta de ministro,
Barbosa ainda tem a imagem associada à condenação dos mensaleiros. “Tem uma
turma aí com medo dele, né?”, provoca Caldas. O presidente do DC diz não
integrar esse time, embora já tenha sido condenado por corrupção no escândalo
da máfia dos sanguessugas.
Em 2022, ele tentou virar suplente de senador e foi barrado
pela Lei da Ficha Limpa. “Fui vítima de acusações levianas. Nada ficou provado
contra mim”, discursa. Por via das dúvidas, o ex-deputado não deve ser
candidato em outubro. “Meu projeto agora é trabalhar nas costuras. Vou virar um
office boy de luxo”, anuncia.
As campanhas de Zé Prado eram marcadas por vários
jingles/paródias que se tornaram memoráveis, entre eles: Falam de Mim, Andar com Fé, Vai Vai Vai Vai... Mas
entre tantos que se destacaram, um virou o hino da carreira política
pradista: Bandeira
Branca.
Conhecida na voz magnifica de Dalva de Oliveira, a música
ganhou uma versão feita pelo poeta popular Pedro Lavandeira, amigo fiel e
compadre de Zé Prado. Quando o clima ficava quente na campanha, Prado pedia
para o compadre Lavandeira cantar Bandeira Branca.
Próxima quarta-feira, 26 de maio, completa 27 anos que José
Parente Prado faleceu. Para lembrar a trajetória política desse líder, o
blog Sou Chocolate e Não Desisto realiza a 17ª edição da
“Semana Bandeira Branca”.
Um dos maiores líderes políticos do Ceará, Zé Prado foi
secretário municipal, deputado estadual por três legislaturas e duas vezes
prefeito de Sobral (CE).
A “Semana Bandeira Branca” terá fotos, jingles, vídeos e
postagens com histórias que marcaram as campanhas políticas de Zé Prado.
Paulo Motoryn, Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker
e Mauricio Moraes, The Intercept Brasil
ÁUDIO: Mario Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a
filme sobre Jair Bolsonaro
Essa é uma edição especial da newsletter Cartas Marcadas,
assinada por boa parte dos autores da investigação que chacoalhou o Brasil nos
últimos dias. A proposta inicial do mês de maio é que esse espaço seria
dedicado apenas a reportagens sobre a tramitação da escala 6×1.
Fizemos isso nas primeiras duas semanas, nos debruçando
sobre o lobby empresarial que usa a extrema direita para atravancar a proposta.
Mas, no meio do caminho, veio um turbilhão. O Intercept Brasil publicou o
maior furo jornalístico do país desde as revelações da Vaza Jato:
as mensagens secretas que colocam a família Bolsonaro no centro do escândalo do
Banco Master, de Daniel Vorcaro.
É claro que não abriremos mão de nossa cobertura da urgente
luta dos milhões de trabalhadores que suportam o desumano regime 6×1. Mas
faremos uma pausa porque sabemos que a nossa audiência anseia por mais
informações sobre a relação do bolsonarismo com o Banco Master.
Portanto, resolvemos mudar os planos e, nesta semana,
brindar os leitores com mais um capítulo de nossa investigação: o áudio e as
mensagens de texto que revelam a proximidade de mais um líder da extrema
direita no Congresso com Daniel Vorcaro. Vamos aos fatos.
Pouco menos de uma hora após o horário em que estava
previsto um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro,
e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, no dia 11 de dezembro de 2024, em
Brasília, o deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, enviou um áudio
ao banqueiro agradecendo pelo apoio ao filme “Dark Horse”.
Na gravação, obtida com exclusividade pelo Intercept, Frias
afirma que o longa sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita
gente”, será “muito importante para o nosso país” e pede autorização para
informar Vorcaro sobre o andamento da produção.
O registro mostra intimidade entre Frias e Vorcaro, algo que
o deputado vem tentando esconder. Na semana passada, após o Interceptrevelar
que o senador Flávio Bolsonaro havia
negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme “Dark
Horse”, Frias disse que o banqueiro não
havia dado “um único centavo” para o longa-metragem.
Cerca de 20 horas depois, o deputado emitiu outra nota e
disse que havia “uma
diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”. Ele
destacou apenas que Vorcaro ou o Banco Master não haviam aparecido como
investidores. A postura demonstra um distanciamento entre os dois – uma versão
que um áudio e mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept desmontam.
O conteúdo indica que, além de produtor-executivo de “Dark
Horse”, o ex-secretário especial de Cultura de Jair Bolsonaro atuava
diretamente na articulação do filme financiado pelo banqueiro, que viria a ser
investigado pela maior fraude bancária da história do país.
Na gravação, enviada por WhatsApp para Vorcaro em 11 de
dezembro de 2024, às 18h24, Frias diz: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer
com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá?
Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?”
Imediatamente depois, Vorcaro responde: “Eu to numa ligação te chamo em
seguida”. Frias diz “Blz” e, às 19h06, os dois se falam por ligação de voz
durante cerca de 2 minutos.
Como já apontamos no início do texto, o agradecimento veio
menos de uma hora após o horário previsto para o encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro, naquele dia, na residência do banqueiro em Brasília.
Segundo mensagens reveladas pelo Intercept, a reunião foi organizada por Thiago
Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para tratar do financiamento do
filme biográfico internacional sobre Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro participava de uma reunião da Comissão de
Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ, no Senado naquele dia e deixou a sua
cadeira por volta de 17h30, no horário em que havia sido marcado o encontro. Só
voltou às 18h, o que indica que uma possível participação na reunião teria
ocorrido de forma remota ou em outro local. O Intercept não conseguiu confirmar
se o encontro, de fato, ocorreu.
Na sequência do áudio, Frias mandou novas mensagens ao
banqueiro. Em 15 de dezembro de 2024, o deputado enviou uma captura de tela a
Vorcaro que exibe uma troca de mensagens entre ele e o diretor Cyrus Nowrasteh,
revelando negociações preliminares para a produção de uma obra sobre “um homem
comum que se tornou presidente por um milagre”.
No diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator
Jim Caviezel sobre o projeto, alertando, contudo, que o astro fará duas
perguntas: “1) Posso ler o roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?”.Frias
respondeu que o ator “será imortalizado por esse papel”.
Abaixo do print, Frias escreveu para Vorcaro:
“Milagres só são possíveis quando a fé”, “Esse é um desses milagres” e “Vai ser
a maior super produção de uma história brasileira”. Aparentemente, na primeira
frase, o parlamentar quis dizer “quando há fé”.
Em 22 de dezembro de 2024, houve outra conversa entre o
deputado e Vorcaro. O banqueiro disse, às 10h19, que estava na igreja e
prometeu chamá-lo quando saísse. Frias não se conteve e, uma hora e 16 minutos
depois, antes mesmo que Vorcaro avisasse que estava disponível, escreveu que o
filme seria “o grande milagre”, capaz de tocar “milhões de pessoas em todo
mundo”, e teria “um papel histórico imprescindível para as futuras gerações”.
Disse ainda que o longa-metragem sobre o ex-presidente era uma “questão de
justiça divina”, ao que Vorcaro respondeu, às 11h40: “Tenho certeza disso”. “JB
precisa ter sua verdadeira história revelada”, acrescentou Mario Frias. Em
outra mensagem, afirmou: “2026 é do Brasil” e depois, frisou: “Deus te abençoe
meu Brother”.
As mensagens mostram que a relação entre Frias e Vorcaro ia
além de um contato protocolar entre um potencial investidor e um produtor. O
deputado também chamava o banqueiro de “meu irmão”, fazia elogios em tom
religioso e demonstrava acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.
Frias, que foi produtor-executivo de “Dark Horse” e
peça-chave na articulação da obra com o banqueiro investigado pela maior fraude
bancária do país, passou a propagar mentiras nas redes sociais, na tentativa de
descredibilizar as reportagens do Intercept.
Como revelamos no
último sábado, o parlamentar compartilhou, no dia 14 de maio, publicações
falsas alegando que o Intercept teria recuado sobre as cifras do filme sobre a
vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por
Frias expõe uma rede de desinformação financiada e estruturalmente ligada ao
PL, partido do deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner
Leandro de Lima, secretário parlamentar do também deputado federal André
Fernandes, do PL do Ceará e tesoureiro da sigla no estado.
Já a página Hora Brasília é registrada em nome de uma
empresa de Hugo Alves dos Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo
Eustáquio. A firma de comunicação atuou nas eleições de 2024 como fornecedora
de duas campanhas do PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador, em
Atibaia, no interior de São Paulo. Foi nessa cidade que Fabrício Queiroz,
ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi
preso, em 2020, na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederik
Wassef, num desdobramento da investigação que apurava o esquema de rachadinhas
na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Outro lado
Após a publicação da primeira reportagem da série, a defesa
de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas
afirmou que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre
idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo
os advogados, Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em
nome do banqueiro.
A defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas
conversas privadas decorria da “dimensão artística e cultural do projeto”.
Procuramos Mario Frias nesta terça-feira, 19, por meio de sua assessoria. Não
houve resposta até a publicação desta reportagem.
O PL também foi procurado, mas não respondeu. O espaço segue
aberto.
A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada, mas informou que
ele não vai se manifestar.
Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com
opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras
eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era
mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.
Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu
eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes,
fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas.
Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase
meteórica, pois não se reelegeu.
Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu
algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube
encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas
mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais
intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os
sentimentos que Bolsonaro mobilizou.
A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular
e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período
democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre
afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova
York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram
as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na
realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.
A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos.
Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa
esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente
não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale,
pois será seu último mandato.
Movimentos como a transição energética podem ser continuados
em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das
mudanças climáticas.
Uma aceitação maior da revolução digital na prática do
governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do
mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um
ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais
recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.
É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de
gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha
para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do
populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu
discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.
Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será
essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de
o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.
A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas
medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer
novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.
Artigo publicado no jornal O Globo em 19 / 05 / 2026
A extrema direita brasileira atravessa uma das semanas mais turbulentas desde o início da pré-campanha presidencial. Em poucos dias, três frentes distintas de investigação e desgaste público atingiram nomes importantes do campo bolsonarista: o senador Flávio Bolsonaro, hoje tratado como principal herdeiro eleitoral do pai, e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL).
Embora os casos não façam parte da mesma investigação, eles passaram a se acumular no mesmo ambiente político e produziram um efeito dominó dentro da direita. O resultado foi uma crise de narrativa. Flávio, que tentava transformar o caso Banco Master em desgaste exclusivo para o governo Lula, agora precisa responder sobre aliados envolvidos em operações policiais, suspeitas financeiras e negociações milionárias.
A primeira pancada no bolsonarismo veio com a quinta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 7 de maio. A ação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, teve como um dos alvos o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e aliado do clã..
Segundo a PF, a investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional relacionados ao Banco Master. A decisão autorizou buscas, bloqueio de R$ 18,85 milhões e medidas cautelares.
O ponto mais sensível para Ciro é a suspeita de que seu mandato parlamentar teria sido usado em favor de interesses do Banco Master. A investigação apura se uma emenda apresentada pelo senador para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos teria sido elaborada por pessoas ligadas ao banco. O caso ficou conhecido nos bastidores como “Emenda Master”.
A operação atingiu diretamente a imagem de Ciro como articulador do Centrão e peça importante da estratégia da direita para 2026. A defesa do senador nega irregularidades e afirma que ele está à disposição da Justiça.
A segunda frente da crise veio com os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, banqueiro preso na investigação do Banco Master. As mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostram Flávio negociando recursos para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro estrelado por Jim Caviezel.
O valor negociado chegou a cerca de R$ 134 milhões. Segundo os documentos revelados, ao menos R$ 61 milhões teriam sido direcionados ao projeto. A produtora responsável pelo filme nega ter recebido dinheiro de Vorcaro ou de empresas ligadas a ele.
O desgaste político aumentou porque Flávio inicialmente negou a informação. Depois da divulgação dos áudios, admitiu que buscou recursos com Vorcaro, mas afirmou que se tratava de investimento privado.
Em entrevista à GloboNews, o senador não conseguiu se explicar e deixou mais dúvidas que respostas.
As declarações abriram uma nova frente de questionamentos. Se o dinheiro foi realmente destinado ao filme, a produtora precisa explicar por que nega ter recebido recursos de Vorcaro. Se não foi para a produção, cresce a pressão sobre o destino efetivo dos valores.
A Polícia Federal apura se os recursos solicitados a Vorcaro foram de fato usados na produção ou se o filme pode ter servido como justificativa para outras movimentações financeiras. O caso também passou a envolver suspeitas sobre emendas parlamentares e verbas públicas ligadas à rede da produtora e levou o ministro Flávio Dino a pedir investigação.
Nesta sexta-feira (15), outra frente de desgaste atingiu o bolsonarismo. O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Refino, da Polícia Federal.
A investigação mira suspeitas de irregularidades envolvendo um grupo econômico do setor de combustíveis ligado ao empresário Ricardo Magro, dono da Refit. A ação foi autorizada pelo STF e apura ocultação patrimonial, evasão de recursos ao exterior e possíveis conexões com agentes públicos.
A operação contra Castro não é uma fase do caso Master, mas politicamente ampliou a sensação de cerco sobre a direita. Castro é do PL e foi uma das principais vitrines do bolsonarismo no Rio de Janeiro.
A Justiça determinou bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e suspensão das atividades econômicas das empresas investigadas. A defesa de Castro afirmou que ele colaborou com as buscas e disse desconhecer os fundamentos da decisão.
Os três episódios criaram uma crise simultânea para a extrema direita. Ciro Nogueira representa o elo com o Centrão. Flávio Bolsonaro representa o projeto presidencial da família Bolsonaro. Cláudio Castro representa uma das principais bases estaduais do PL.
Em menos de dez dias, os três passaram a ocupar manchetes relacionadas a operações policiais, áudios, suspeitas financeiras e decisões do STF. O problema para a direita deixou de ser apenas jurídico. Passou a ser político, eleitoral e policial.
A narrativa anticorrupção usada durante anos contra adversários perde força quando aliados de primeira linha precisam responder sobre banco investigado, financiamento milionário de filme, emendas parlamentares e operações da Polícia Federal.
A extrema direita entrou na semana tentando usar o caso Master contra Lula. Sai dela tendo que explicar Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Refit e Cláudio Castro.
A notícia foi confirmada pela Portela, a escola de samba
de coração do compositor. Noca integrava a ala de compositores desde os anos
1960.
Morreu neste domingo (17), o sambista e compositor Osvaldo
Alves Pereira, o Noca da Portela, aos 93 anos. O velório será aberto ao público
na quadra da Portela na terça-feira (19), das 8h às 14h.
Noca internou, no último dia 30 de abril com infecção
urinária em um hospital em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. Neste período,
Noca recebeu visitas dos netos que passavam o tempo com o com ele cantando
músicas da coletânea Flores em Vida, lançada em homenagem ao compositor.
A partir do sábado (9), o sambista sofreu uma piora no
quadro de saúde. Segundo as netas por adquirir pneumonia no hospital.
Desde o dia 10 de maio estava no Centro de Tratamento
Intensivo (CTI), da unidade. A causa da morte não foi informada.
Noca deixa dois filhos, sete netos e três bisnetos. A
Portela, escola de coração do sambista, decretou três dias de luto.
Mineiro de Leopoldina, Noca mudou-se criança para o Rio de
Janeiro. A relação com a música começou com o estudo de violão e teoria musical
na Ordem dos Músicos do Rio de Janeiro.
Nos anos 1960, foi levado pelo cantor e compositor Paulinho
da Viola para a Portela.
Compôs sambas-enredo e várias músicas de sucesso, gravadas
por cantores consagrados, como Virada, na voz de Beth Carvalho.
O compositor integrou o Trio ABC da Portela, ao lado de
Picolino e Colombo, e deixou sua marca em obras como “Portela Querida”,
defendida por Elza Soares, e no samba-enredo “O Homem de Pacoval”, de 1976.
Noca venceu sete vezes a disputa de samba-enredo na Portela,
marca que o coloca como um dos maiores vencedores da história da agremiação.
Entre seus sambas vitoriosos estão “Recordar é viver”, de
1985, “Gosto que me enrosco”, de 1995, “Os olhos da noite”, de 1998, e
“ImaginaRIO, 450 Janeiros de uma Cidade Surreal”, de 2015.
Algumas passagens da vida e carreira de Noca da Portela:
Anos
1960 ingressou na ala de compositores da Portela a convite de Paulinho da
Viola;
Na
Portela, foi compositor de 7 sambas-enredo;
Em
2006, foi nomeado Secretário Estadual de Cultura do Rio de Janeiro,
pela governadora Rosinha Garotinho, permanecendo no cargo até 1° de
janeiro de 2007;
Em
2008, foi candidato a vereador pelo PSB;
Em
2017, aos 84 anos, lançou o disco "Homenagens" com belas
composições entre as quais “Cabidela” em homenagem a Portela;
Em
2025 foi lançada em sua homenagem a "Coleção Flores Em
Vida", que contou com a participação de grandes nomes da música
brasileira
Sambistas homenageiam Noca
A notícia da morte de Noca da Portela levou sambistas e
artistas a prestarem homenagem ao compositor:
"Meu amigo de longa data, vá com Deus, grande Noca
da Portela. Seu legado será lembrado eternamente, não só no samba, mas na
cultura do nosso país. Que Deus conforte o coração de toda a família. Vá com
Deus, meu irmão", Neguinho da Beija-flor.
"Mais uma estrela no céu de Madureira. Vá em paz meu
amigo. Por aqui vamos seguindo com nossa Portela", a sambistaTia
Surica.
"Hoje, infelizmente, nos despedimos do nosso mestre
Noca, uma voz eterna da Portela, um grande poeta que transformou sentimentos em
canções e deixou sua marca na história do nosso samba", o músico Mauro
Diniz.
A Portela postou uma mensagem em sua página oficial sobre o
falecimento do sambista:
"Com profundo pesar, o G.R.E.S. Portela comunica o
falecimento do nosso eterno baluarte Noca da Portela.
Mineiro de origem, Noca chegou ao Rio de Janeiro ainda na
infância e construiu uma trajetória marcante no samba. No fim dos anos 60, a
convite de Paulinho da Viola, ingressou na ala de compositores da Majestade do
Samba.
Na Portela, ele é compositor de sete sambas-enredo, sendo
um dos maiores vencedores de disputas da escola. Entre suas obras eternizadas
estão os sambas de 1995 e 2015, verdadeiros clássicos do Carnaval.
Figura querida e sempre presente em nossa quadra, Noca
fará muita falta para toda a Família Portelense.
Em nome da presidência do G.R.E.S. Portela, ficam
decretados 3 dias de luto oficial.
Enviamos todo o nosso carinho e solidariedade aos
familiares, amigos e admiradores deste grande artista.
Em breve iremos divulgar informações de velório e
sepultamento.
Os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro desmoronam
a fantasia de cruzada moral, ao revelar vínculos do clã Bolsonaro com o
banqueiro mais tóxico do Brasil
Em seus textos, o filósofo francês Clément Rosset
costumava ressaltar o aspecto particularmente cruel da realidade. Cabe ao
leitor e leitora ter em mente que Rosset fazia isso mirando não o sentido
sádico ou moral da palavra “cruel”, mas o aspecto bruto e incontornável que a
própria ideia de realidade carrega consigo.
Imagine algo que simplesmente “é”; algo que,
independentemente da nossa vontade, jamais poderá ser outra coisa que si mesmo,
sem sentido oculto, sem justiça superior ou qualquer possibilidade de
compensação mística.
Essa é a realidade em seu aspecto mais cru – cruel. É
aterrorizante pensar nisso, especialmente porque a realidade vive à espreita,
sempre em busca de uma oportunidade para se fazer presente em nossas vidas,
ameaçando nossas fantasias reconfortantes, nossos mitos apaziguadores.
Ameaçando as casinhas imaginárias que criamos para nos proteger, justamente,
dos fatos que insistem em continuamente desabar sobre nossas cabeças.
E por isso mesmo, quanto mais duros são os fatos, quanto
maior a sua “crueldade”, maiores serão os esforços imaginativos e fabulatórios
necessários para contê-los, para lhes emprestar algum sentido ou até mesmo
para, no limite, negá-los.
Tarefa hercúlea para impedir que a verdade atinja o
eleitorado
E é exatamente isso que observamos após a divulgação
dos áudios que mostram que, a despeito do que dizia Flávio
Bolsonaro, ele e o banqueiro Daniel Vorcaro não apenas se conheciam, como
compartilhavam intimidades, com direito a declarações de lealdade, e – digamos
assim para evitar processos – “interesses de investimento”.
Desde a divulgação dos áudios, a direita e a extrema direita
se lançaram numa tarefa hercúlea para criar um verdadeiro castelo
fantasmagórico que, imaginam desesperadamente, seja capaz de impedir que a crua
(cruel) verdade caia sobre o eleitorado.
E, até o momento, um castelo de areia literal seria mais
eficaz nessa tarefa.
Pois o fato, além de grave (cruel) em si mesmo, não
surge de forma isolada; soma-se
a outros que, no passado, foram incapazes de transpor os muros da
fantasia direitista. Mas que agora, reforçados pela
intimidade de Flávio e Vorcaro, ganham novo fôlego e ameaçam o novo
projeto de poder da família Bolsonaro.
Suspeitas que há muito orbitavam
o próprio filme “Dark Horse”. A começar pelo orçamento da produção: 24
milhões de dólares, o que faria dele o filme mais caro da história do cinema
brasileiro.
Um número ainda mais estranho diante do que foi apresentado até agora: apesar
do elenco internacional e da campanha grandiloquente, nada visto até o momento
parece justificar um investimento dessa magnitude.
Muito pelo contrário. As filmagens no Brasil foram atravessadas
por denúncias de atrasos e calotes, cachês muito abaixo do padrão de
mercado, comida estragada e até relatos de agressão física. O próprio Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo
acionou o Ministério do Trabalho diante da quantidade de denúncias acumuladas.
E o resultado de toda essa epopeia milionária?
Até agora, um “teaser-trailer”
composto basicamente por imagens de bastidores e takes inacabados, todos com
uma inegável aparência amadora, e embalados ao som de Survivor, do grupo
Destiny’s Child. Há, porém, um pequeno e delicioso detalhe final: a música
teria sido utilizada sem autorização. Representantes
jurídicos da cantora Beyoncé chegaram a tomar medidas legais para
retirar o material do ar.
O que nos leva a uma pergunta crucial: como uma produção que
afirma ter mobilizado milhares de dólares de empresários aparentemente não
conseguiu pagar nem pelos direitos da própria trilha sonora? Estranho, no
mínimo.
Tão estranho quanto o fato de uma ONG
presidida pela produtora executiva do filme, Karina Ferreira da Gama,
ter recebido mais de 100 milhões de reais da gestão de Ricardo Nunes para
instalar pontos de Wi-Fi em comunidades da cidade de São Paulo, conforme
denúncia do Intercept. E tudo isso apesar de a entidade não possuir histórico
relevante na área de telecomunicações e dos pagamentos terem ocorrido antes
mesmo da entrega final do serviço.
E a história não termina aí. A mesma Karina também aparece
ligada a outra ONG que teria recebido ao menos 2,6 milhões de reais em emendas
parlamentares de deputados bolsonaristas como Mario Frias, Bia Kicis e Marcos
Pollon.
Como se denúncias dessa magnitude já não fossem
suficientemente graves por conta própria, soma-se agora uma acusação ainda mais
explosiva: a de que o filme teria sido financiado com dinheiro ligado ao
banqueiro Daniel Vorcaro.
Um dinheiro que, ao contrário da narrativa repetida por Flávio Bolsonaro e seus
aliados, não seria simplesmente “financiamento privado”, mas recursos que,
segundo investigações da própria Polícia Federal, teriam origem em operações
financeiras fraudulentas.
Propaganda política
E aqui pesa um elemento ainda mais inquietante: “Dark
Horse”, como sugerem os trechos do roteiro e as imagens vazadas, é antes de
tudo uma propaganda política. Uma obra inteiramente comprometida com a
reescrita do passado e a reorganização da memória histórica para transformar
Jair Bolsonaro e seus aliados em figuras não apenas heroicas, mas quase
messiânicas. Enquanto isso, do outro lado, seus adversários políticos surgem
reduzidos a caricaturas pueris: demônios irascíveis, “marxistas drogados”,
criminosos e terroristas.
Menos um filme do que uma cosmologia moral rudimentar, onde
a política abandona qualquer pretensão de realidade para assumir a forma de
guerra santa audiovisual.
E talvez seja justamente aqui que a realidade, em seu
aspecto mais cruel, volte a bater à porta. Pois toda essa mitologia construída
por “Dark Horse” – esse esforço quase litúrgico para transformar Jair Bolsonaro
e seus aliados em paladinos incorruptíveis de uma cruzada moral contra o
“sistema” – começa a desmoronar no instante em que o dinheiro entra em
cena.
O dinheiro é a própria realidade.
E quando olhamos para ela, percebemos o que existe por trás
da fantasia, da estética messiânica, dos discursos sobre patriotismo, Deus,
família e liberdade. Aquilo que, justamente, o clã Bolsonaro jurou destruir:
relações promíscuas com empresários, banqueiros e operadores políticos,
esquemas nebulosos, verbas públicas suspeitas e figuras constantemente
orbitadas por denúncias graves.
E talvez esse fosse o verdadeiro ponto de Rosset: a
realidade é cruel porque ela sempre retorna.
Não importa quantos filmes sejam produzidos, quantos
mártires sejam fabricados ou quantas guerras morais sejam encenadas. Em algum
momento o real se faz presente. O dinheiro aparece. Os contratos aparecem. Os
áudios aparecem. Os banqueiros aparecem.
Enquanto desfilava com camiseta atacando o governo,
Flávio Bolsonaro atuava como parça de Vorcaro e recebia repasses milionários.
As reportagens do Intercept revelando a proximidade do clã Bolsonaro
com o maior bandido do Brasil atingiram o bolsonarismo com requintes de
crueldade.
Os episódios que antecederam à publicação das reportagens e
os que a sucederam parecem fazer parte de um roteiro escrito por alguém que
odeia muito a família Bolsonaro. É cinema absoluto!
Há uma semana, Flávio Bolsonaro divulgou nota cobrando “ampla apuração” do
caso de corrupção envolvendo o Banco Master. Ciro Nogueira, um dos maiores aliados da sua
candidatura, tinha sido pego recebendo um mensalão de Vorcaro. Mas Flávio se
fez de louco e manteve o personagem indignado. Como se não tivesse nada a ver
com isso, o senador passou a desfilar com uma camisa estampada com os dizeres:
“O Pix é do Bolsonaro. O Master é do Lula.” O cinismo e a desfaçatez
foram ousados, o que faria o tombo ser ainda maior.
‘Militante’
Eis que o jornalismo trouxe à tona os fatos que o senador
tentou esconder. Horas antes da #VazaFlavio ser publicada, o repórter do
Intercept Thalys Alcântara perguntou
para Flávio pessoalmente se ele negociou com Vorcaro pagamentos
para a produção do filme sobre o seu pai. Flávio ficou desnorteado com a
pergunta. Em um intervalo de 20 segundos, ele negou os pagamentos, gargalhou
forçadamente, chamou o jornalista de “militante”, virou-se de costas e
resmungou: “é dinheiro privado! é dinheiro privado”.
O senador começou a resposta negando os pagamentos, quase
teve uma síncope e terminou admitindo. Foi uma cena tão constrangedora que
quase fiquei com pena do senador (mentira).
Pouco tempo depois, o Intercept completou o drible da vaca e
publicou conversas em que Flávio e Vorcaro se tratavam como grandes amigos.
“Estou e estarei contigo sempre”, prometeu o senador para o maior ladrão do
Brasil um dia antes dele parar na cadeia.
De lá pra cá, o senador não só omitiu essa intimidade com o
banqueiro como negou de forma veemente qualquer relação com ele. Pior que isso:
Flávio se apresentou como um dos maiores indignados com a lama do Banco Master.
É um grau de cinismo alto demais até mesmo para os padrões de quem foi criado
por Jair Bolsonaro.
Encontro com JB na casa de D
O senador ficou nu em praça pública enquanto era coberto por
uma pororoca de mentiras. Segundo a agência de checagem Aos Fatos, ele contou ao menos 12 mentiras sobre o
caso antes da publicação da reportagem. Ninguém pode se dizer surpreso, já que
Flávio é reconhecidamente um mentiroso contumaz desde os tempos em que desviava
dinheiro do seu gabinete para financiar prédios das milícias no Rio de
Janeiro.
Na última quinta-feira, uma nova reportagem do Intercept revelou que a proximidade dos
Bolsonaros com o mafioso era ainda maior do que se imaginava. Conversas
privadas mostraram que Vorcaro topou receber Jair Bolsonaro em sua mansão em
Brasília para “assistirem juntos” a um documentário, possivelmente “A colisão
dos destinos” sobre a trajetória do ex-presidente. A reunião tinha como
objetivo pedir o apoio de Vorcaro para financiar a produção do
longa “Dark Horse”. Não se sabe se a reunião aconteceu, mas se sabe que o Pix
para o filme caiu.
Explicar o inexplicável
A #VazaFlávio foi trágica para o bolsonarismo. Enquanto
algumas figuras expoentes da fauna bolsonarista largaram a mão de Flávio,
outros entraram em desespero na tentativa de encontrar uma narrativa que
explique o inexplicável.
Cada um falou uma coisa diferente. Flávio admitiu que
recebeu o dinheiro de Vorcaro para o filme, mas a própria produtora — endossada
por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo — negou ter recebido qualquer centavo.
Ninguém conseguiu explicar até agora onde foi parar a grana
que Vorcaro deu pro Flávio. Parece que o filme realmente não recebeu os R$ 61
milhões combinados, já que, segundo
o G1, há denúncias na produção de ”comida estragada, alimentação
insuficiente, longas jornadas de trabalho e atrasos de pagamento”.
Cadê a grana?
Mas, afinal, onde está a grana do Vorcaro? A Polícia
Federal suspeita que ela foi usada para financiar as
despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, cuja atividade principal é conspirar
contra o governo brasileiro.
O dinheiro prometido a Flávio teria sido transferido pela Entre Investimentos e Participações,
empresa ligada a Vorcaro, a um fundo controlado por aliados de Eduardo e
sediado no Texas, nos EUA. Trata-se da mesma empresa utilizada no financiamento
do filme sobre Jair Bolsonaro. Nunca foi tão fácil ligar os pontos.
A ligação carnal de Vorcaro com o bolsonarismo sempre foi
límpida e clara.
Por mais que a máfia tenha tragado diversos partidos e
poderes para lama, o escândalo do Banco Master sempre foi essencialmente
bolsonarista. A roubalheira do Vorcaro não seria possível sem a leniência do
Banco Central sob o governo Bolsonaro e sem o apoio de Ciro Nogueira.
O maior bandido do Brasil doou milhões para campanhas bolsonaristas e investiu
pesado em um filme panfletário sobre a vida de Jair Bolsonaro a ser lançado em
ano de eleição. Será que Vorcaro é bolsonarista? Será?
Cinismo apoiando cinismo
Se antes já estava difícil para a grande imprensa sustentar
a tese do “escândalo suprapartidário”, agora ficou ainda mais, certo? Errado. O
powerpoint da GloboNews foi só um aperitivo. Poucas horas após a publicação da
#VazaFlavio, Lauro Jardim estampou a seguinte manchete em sua coluna no O Globo: “Vorcaro também financiou
filmes sobre Lula e Temer”.
Pronto! Foi servida a carniça para a urubuzada bolsonarista arrastar o
principal adversário de Flávio para a sua lama. A apuração do jornalista se
limitou a falas de “pessoas ligadas a Vorcaro”. Não há um mísero indício que
sustente a manchete. Isso é tudo, menos jornalismo. Não há absolutamente nenhum
indício de que Vorcaro financiou o filme sobre Lula.
Dois dias depois, veio a capa da revista Veja, mostrando que
a grande imprensa não está para brincadeira em ano eleitoral.
Num passe de mágica, conseguiram transformar uma hecatombe
bolsonarista em suprapartidária. O cinismo de Flávio Bolsonaro agora está
apoiado pelo cinismo da grande imprensa. A militância bolsonarista, que estava
murcha e sem saída, recebeu a munição necessária para voltar a babar nas redes
sociais.
Dessa vez, a narrativa não foi fabricada no computador do Carluxo, mas
publicada pela Veja e por um jornalista do grupo Globo.
Ora, ora. Parece que agora, sim, estamos diante do chamado “jornalismo
militante”, não é mesmo? As verdades que o jornalismo sério revelou foram
ofuscadas por um jornalismo empenhado em defender a candidatura da extrema
direita.
Enquanto uma reportagem está embasada por provas
irrefutáveis, as outras estão embasadas por amiguinhos anônimos do bolsonarista
Daniel Vorcaro. Podem continuar forçando a barra, mas dificilmente vão conter a
força avassaladora das verdades contidas na #VazaFlávio.
Enquanto uns jornalistas militam pela democracia e pela
verdade, outros militam pelo candidato escolhido pelo maior ladrão do Brasil.
‘Dark Horse’: ‘produção hollywoodiana’ foi filmada no Brasil
de modo irregular
O filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, “Dark
Horse”, foi rodado no Brasil pela produtora Go Up Entertainment Ltda. sem que
nenhuma das obrigações legais exigidas pela Agência Nacional do Cinema, a
Ancine, tenha sido cumprida. A empresa responsável pelo longa-metragem operou
sem registro da produção, sem contratos apresentados, sem comprovação de vistos
de trabalho para seu elenco majoritariamente estrangeiro e sem o pagamento de
direitos trabalhistas devidos a parte da equipe brasileira.
Reportagem exclusiva do Intercept Brasil revelou que o
deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, assinou um
contrato como produtor-executivo do filme e tinha poder sobre o dinheiro usado
no projeto. Já o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, negociou
repasses equivalentes a R$ 134 milhões para custear a produção do
longa-metragem com o banqueiro Daniel Vorcaro – valor superior ao de muitos
filmes ganhadores do Oscar.
No entanto, funcionários contratados no Brasil reclamaram de
condições degradantes no set, de terem sido enganados quanto à verdadeira
natureza do filme e até de agressão física, como relatou Revista Fórum em
dezembro de 2025.
Em documento obtido pelo Intercept, a Ancine confirmou, em
dezembro de 2025, que a Go Up jamais protocolou qualquer documentação em seus
sistemas.
Pela instrução normativa nº 79, de 2008, da agência
reguladora, toda obra audiovisual estrangeira filmada no Brasil — com exceção
daquelas de natureza jornalística — deve ser realizada sob responsabilidade de
uma produtora brasileira registrada na agência.
A produtora não é mera intermediária. Antes de qualquer
câmera ser ligada no território brasileiro, ela precisa comunicar previamente a
produção à Ancine, enviando quatro documentos obrigatórios: o contrato firmado
com a empresa estrangeira com responsabilidades, remuneração e prazo; a
tradução do contrato quando em outro idioma; o plano provisório de filmagem com
datas e locais; e as cópias das folhas de identificação do passaporte de cada
profissional estrangeiro envolvido.
Só depois disso a Ancine emite o ofício que permite à
representação diplomática conceder os vistos de trabalho adequados. Nada disso
aconteceu com “Dark Horse”.
Como não houve protocolo, análise ou tramitação de
documentos por parte da produtora, não havia documentação a ser disponibilizada
pela agência.
Questionada, a Ancine afirmou, em nota enviada ao Intercept,
que “as filmagens estrangeiras – obras e produções estrangeiras de produtoras
estrangeiras – devem ser comunicadas” à agência. “Não existe tal obrigação na
hipótese de obras brasileiras, ou mesmo estrangeiras, filmadas por produtoras
brasileiras. No caso do filme em questão não houve qualquer comunicação ou
autorização pela Ancine”, explica.
A agência reguladora disse ainda que não houve pedido de
registro para o lançamento comercial no Brasil e que, por isso, “não dispõe
atualmente de informações sobre a produção, o financiamento ou os detalhes
técnicos” de “Dark Horse”. A Ancine não sabe sequer se o filme pode ser
classificado como obra brasileira ou estrangeira. O Intercept obteve com exclusividade o contrato de produção do longa,
que é estrangeiro.
A pergunta e a resposta que expõem tudo
Em 9 de dezembro de 2025, foi protocolado na Ancine um
pedido de acesso à informação questionando pontos específicos da legislação
audiovisual sobre o filme “Dark Horse”. A solicitação pedia a íntegra da
documentação enviada pela Go Up Entertainment para a autorização das filmagens.
Citou a norma correta e descreveu com exatidão os documentos que deveriam
existir.
O Serviço de Informação ao Cidadão, ou SIC, encaminhou o
pedido à Coordenação de Programas Internacionais de Cooperação e Intercâmbio —
a unidade técnica responsável por fiscalizar exatamente esse tipo de produção.
Dois dias depois, a unidade técnica respondeu: “Após consulta aos registros
internos e aos sistemas administrativos desta Coordenação, verificou-se que não
consta qualquer comunicação de filmagem estrangeira apresentada pela empresa GO
UP ENTERTAINMENT LTDA referente ao projeto ‘THE DARK HORSE’”.
A conclusão foi assinada pelo coordenador Daniel Toledo Piza
Tonacci. Não houve protocolo, tampouco análise ou tramitação de qualquer
documento. Em 12 de dezembro do ano passado, o SIC emitiu a resposta
oficial.
A decisão recebeu uma classificação técnica de “informação
inexistente”, pois não havia documentos para apresentar porque a produção, do
ponto de vista regulatório, nunca existiu. O prazo para recorrer abriu e fechou
sem que ninguém se manifestasse. Em 29 de dezembro de 2025, o processo foi
arquivado definitivamente.
Calote aos trabalhadores
Em 14 de janeiro deste ano, munido da confirmação oficial da
Ancine, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do
Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato
Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal, o Sindcine,
protocolou denúncia formal, um pedido de informações e um requerimento de
providências.
De acordo com o sindicato, houve “notícia consistente de
contratações sem formalização adequada e pagamentos sem os parâmetros mínimos
de regularidade”. A Go Up Entertainment não havia cumprido as obrigações
contratuais assumidas com técnicos cinematográficos brasileiros. A Ancine disse
que “os processos de apuração estão em curso, observando os prazos e ritos
normativos” e que notificou a Go Up.
Notícia publicada pelo jornal O Globo em 14 de maio
referenda as preocupações do sindicato. Ao menos 14 figurantes que trabalharam
nas gravações de “Dark Horse” articulam ações judiciais contra a produção. Eles
afirmam ter enfrentado condições degradantes no set, incluindo episódios de
agressão, restrições ao uso de celular e banheiro e falta de informação prévia
sobre o conteúdo político da obra. Os figurantes disseram ainda que só
descobriram o tema do longa durante as filmagens.
O mesmo não aconteceu com profissionais em cargos mais
altos. De acordo com fontes ouvidas pelo Intercept, ao saberem o teor do filme,
muitos profissionais declinaram a proposta e isso inflacionou a produção. Para
conseguir contratar esses profissionais, precisaram pagar bem mais que o valor
de mercado. Com vergonha de participar, muitos não quiseram se identificar.
Eles assinam a obra com nomes fictícios.
As denúncias coincidem com relatos recebidos pelo Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, o
Sated-SP, que aponta problemas como atrasos de pagamento, alimentação imprópria
para consumo e maus-tratos a atores e figurantes. Diante das queixas, o
sindicato enviou representantes ao local das gravações.