quarta-feira, 24 de junho de 2026

SALVE SÃO JOÃO !

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DRIBLES DO ACASO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Aleatoriedade tem mais influência no futebol do que em outros esportes coletivos

Raridade do gol e abundância de eventos imprevistos estão entre as razões da diferença

O ser humano é um bicho esquisito. Como espécie, temos horror ao acaso. Inventamos as religiões precisamente para fingir que ele não existe. Mas, quando se trata de eleger um esporte, a maior parte do mundo civilizado fica com o futebol. E o que caracteriza o futebol é justamente expor-se muito mais ao acaso do que outros esportes coletivos. É o imponderável que dá sabor à coisa. No basquete, é altamente improvável que um time muito ruim vença um muito bom, mas, no futebol, zebras fazem parte da ordem natural dos acontecimentos.

Causou frisson em 2013 o lançamento do livro "Os Números do Jogo", em que Chris Anderson e David Sally, depois de analisar com rigor estatístico um sem-número de partidas, tiram uma série de conclusões interessantes. Um de seus achados é que, no futebol, o acaso explica 50% dos resultados, deixando os outros 50% para a habilidade dos jogadores e a estrutura tática.

Um jeito prático de ver isso é olhando para os prognósticos em casas de apostas. Ali por volta de 2013, os times favoritos venciam apenas 50% das vezes. No handebol, eram mais de 70%. Vários fatores conspiram para a imponderabilidade. Um dos principais é que o gol é um desfecho raro. Uma partida pode envolver até 4.000 eventos como chutes, dribles, passes, impedimentos. Os gols, normalmente, não passam de três. Quando um time mete quatro, já chamamos de goleada.

Outra forma intuitiva de visualizar isso é observando o desenvolvimento de uma jogada. É raro tudo sair como o armador planejou. Quase sempre, ocorre algum imprevisto, como uma interceptação, um rebote, um passe errado e outras patadas do acaso. É em cima dessa generosa estocasticidade que as jogadas se constroem.

Meu palpite é que gostamos do futebol porque ele imita a vida. As características humanas que mais nos interessam também são, pelas metanálises de genética comportamental, o resultado de um complexo jogo de interações entre genes (habilidades?) e ambiente não compartilhado (acaso?) numa razão próxima a 50/50.

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HOJE É DIA DE SÃO JOÃO E DE XANGÔ

O sincretismo religioso – reinterpretação de elementos de diferentes religiões – permite que este dia 24 de junho seja celebrado tanto pelo catolicismo quanto pelas religiões de matriz africana. Na data é comemorado o dia de São João Batista e também de Xangô.

Conhecido como “santo festeiro”, São João é apontado pelo catolicismo como parente de Jesus. Ele teria previsto a chegada de Cristo e o identificado como filho de Deus.

Já Xangô, considerado pelas religiões de matriz africana como “divindade da justiça”, era o rei governante da cidade de Oyó. Na Umbanda, o orixá é considerado líder maduro, conhecedor do mal e do bem.

Festa Junina

Considerada umas das mais antigas festas populares, a Festa Junina é marcada pela valorização de tradições de povos das diferentes regiões do país. Um de seus elementos mais marcantes, a fogueira, tem como origem a tradição pagã de comemorar o solstício de verão.

No Brasil, a festa conta com comidas típicas, jogos e brincadeiras, além da famosa quadrilha.

Xangô, Deus do fogo

Representado pelo fogo e pelas cores marrom e vermelho, as celebrações de Xangô também são marcadas pelas fogueiras.

A festividade do orixá da justiça também é caracterizada como “festa da fartura”. Durante as comemorações, o milho é um dos principais ingredientes na culinária.

Além disso, nos festejos são servidos pratos de gbègìrì, comida predileta de Xangô, que possui ingredientes como o quiabo, azeite de dendê e camarão.

Via Destaque Notícias Fonte: Portal Brasil de Fato (Foto:PMSJA)

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O HOMEM QUE VIROU CINEMA

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Alfredo Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE

Alfredo Bertini faleceu durante cirurgia de transplante de órgão no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, que ele idealizou e realizou anualmente desde 1996. Se esse fosse o roteiro de um filme, o diretor seria acusado de falsificar a realidade para servir ao drama; a crítica diria que a vida do personagem — economista, cinéfilo, escritor, filósofo, pai de família, agregador de amigos e realizador do festival — seria suficiente para dispensar esse recurso teatral; os assistentes da 30ª edição do Cine/PE sentiram a emoção de viverem a realidade mais surpreendente do que a ficção a que assistiam na tela. Na sua 30ª edição, Bertini foi mais do que o organizador do Cine/PE, foi seu principal personagem. 

Sua vida — desde a infância na Praia do Pina, em Recife, sua formação profissional, atuação na realização do Porto de Suape e no Ministério da Cultura, a produção de artigos, o pioneirismo no estudo da economia do audiovisual, a extraordinária capacidade de colecionar amigos — pode ser captada por um bom diretor, mas dificilmente alguém conseguiria reproduzir em tela a emoção coletiva vivida dentro do centenário Teatro Cinema do Parque naquelas noites da 30ª edição. Nos primeiros dias, todos estávamos voltados para o hospital esperando sua resistência e recuperação, sentindo a presença de Alfredo. Faleceu no instante em que se iniciava a exibição de um dos filmes de longa-metragem. Mas a notícia veio depois que a sessão terminou e as luzes se acenderam. Não houve anúncio bombástico nem choros públicos, apenas a dor de quem se sentia em dívida com o amigo que realizou o evento que nos reuniu no momento de sua partida.

Durante meses na lista de espera, ele aguardou por um fígado compatível. Nesse período, dialogou com amigos sobre a vida no corredor da vida que é a espera por um órgão. Falou sobre a realidade de nosso tempo, em que a ciência criou corredores para a vida sem abolir os corredores para a morte, seja pela guerra, pela penalidade jurídica, pela violência nas ruas ou pela pobreza. Manifestou com tristeza que o número de órgãos disponíveis aumentou em consequência do crescimento de morte de jovens em acidentes de trânsito, especialmente com motocicletas. Não deixou de refletir e compartilhar a ambiguidade existencial de sua sobrevivência depender da morte de outra pessoa. No conto Os dois corações, um jovem se conforma da falta de doador lembrando que tinha frágil coração biológico, mas sólido coração moral que lhe dava o privilégio de viver na era em que há técnicas para o transplante, mas ainda não ética para a doação automática. Bertini necessitava de um novo fígado, mas viveu até o último instante com aquele que recebeu no nascimento e usando plenamente sua capacidade moral de lutar por um Brasil melhor e por valores estéticos por um mundo mais belo, sobretudo pelo cinema.

Quem participa do mundo cinematográfico conhece a importância e a dificuldade para realizar um festival, ainda mais mantê-lo por 30 edições consecutivas. A escolha dos filmes, a agenda de atores, diretores e críticos, o transporte e o alojamento, sobretudo a engenharia financeira, são tarefas que parecem insuperáveis. Mas,  sem os festivais, os filmes não têm a divulgação de que precisam para chegar ao grande público. Sem o Cine/PE, dezenas de obras, longas e curtas-metragens, ficariam perdidas. Devemos a Bertini o lançamento de dezenas de filmes brasileiros, inclusive do novo cinema pernambucano, que hoje orgulha o Brasil.

Apesar do sentimento de dor, não havia a sensação de morte: ele continuava sendo a parte mais importante e presente do festival e continuará presente a cada ano, quando as futuras edições acontecerem. Ele era o condutor, mas o festival sempre foi resultado de uma equipe liderada também por Sandra Bertini, pelos filhos e por seus colaboradores. Foram eles que conseguiram levar adiante a 30ª edição, na qual o próprio autor, ao morrer, passou a integrar sua obra. Guardando o choro e sem reduzir o esforço, fizeram integralmente aquela edição, com a homenagem à atriz Claudia Abreu, e certamente darão continuidade ao festival. 

Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE, rebatizado como Festival Bertini do Cinema Brasileiro. Estará sempre presente porque virou ele próprio um filme, sobretudo se o cinema que abrigou o festival receber o nome de Cinema do Teatro do Parque Alfredo Bertini.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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SALVE SÃO JOÃO !

24 de Junho SÃO JOÃO BATISTA

São João Batista é uma das figuras mais importantes do cristianismo. Sua missão foi preparar o caminho para a chegada de Jesus, convidando o povo à conversão e ao batismo como sinal de arrependimento.

● O nascimento milagroso

Seus pais, Zacarias e Santa Isabel, já eram idosos e não conseguiam ter filhos. Um anjo anunciou a Zacarias que Isabel daria à luz um menino escolhido por Deus. Quando Maria visitou Isabel, o menino estremeceu de alegria no ventre da mãe, episódio conhecido como a Visitação.

● Sua missão

João viveu uma vida simples no deserto, pregando a conversão, a justiça e a humildade. Batizava as pessoas nas águas do rio Jordão e proclamava:

> "Preparai o caminho do Senhor."

Foi ele quem batizou Jesus, testemunhando a manifestação da Santíssima Trindade: o Filho nas águas, o Espírito Santo em forma de pomba e a voz do Pai.

● O martírio

João denunciou publicamente as injustiças do rei Herodes, que o mandou prender. Mais tarde, a pedido de Salomé e por influência de Herodíades, João foi decapitado, tornando-se mártir da fé.

● Por que sua festa é tão celebrada?

Na tradição católica, poucos santos têm comemorado o nascimento, e São João Batista é um deles, pois desde o ventre materno foi santificado pela presença de Jesus. Sua solenidade, em 24 de junho, lembra a alegria de seu nascimento e a esperança que ele trouxe ao povo.

Texto de Alento da Alma

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terça-feira, 23 de junho de 2026

POLÍCIA FEDERAL FAZ OPERAÇÃO CONTRA BANCO DE EDIR MACEDO

Isabela Leite, Léo Arcoverde, Bruno Tavares, GloboNews, TV Globo e g1 SP — São Paulo

PF faz operação contra fraudes no sistema financeiro e bloqueia até R$ 670 milhões em bens ligados ao Digimais

Operação Miragem cumpre nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. Investigação aponta manipulação de balanços, ocultação da situação financeira de instituição e operações supostamente ilegais.

A Polícia Federal realizou, na manhã desta terça-feira (23), a Operação Miragem para desarticular um esquema fraudulento voltado à prática de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, no âmbito da gestão do Banco Digimais.

Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo contra 10 empresas e 8 pessoas físicas, incluindo o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

🔎Fundado em 1981 como Banco Renner, o Digimais tornou-se um banco digital em 2020, quando passou ao controle integral de Edir Macedo. Hoje, tem foco em operações de crédito, especialmente financiamento de veículos (leia mais abaixo).

Macedo é um dos investigados na operação por ser proprietário do banco, mas, como reside no exterior, não foi solicitado mandado de busca e apreensão contra ele neste momento.

Segundo as investigações, o esquema envolvia a manipulação de balanços do banco, a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas para ocultar a verdadeira situação da instituição.

Procurado, o Banco Digimais informou que permanece à disposição para colaborar com a investigação. "A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes", disse em nota.

O escritório que defende o bispo Edir Macedo afirmou que não tiveram acesso aos autos da operação e “nada vai comentar, por se tratar de instituição financeira”.

A decisão judicial também autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, incluindo Macedo, além do sequestro e bloqueio de bens e valores de até R$ 670.348.945,70.

Segundo a Polícia Federal, durante as investigações foram analisados relatórios produzidos pelo Banco Central do Brasil que apontaram graves irregularidades na condução dos negócios pelos administradores da instituição financeira.

Os investigados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas, previstos na Lei nº 7.492/1986, que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

Em nota, a corretora ID CTVM, que é citada na operação, informou que, "sente-se no dever de esclarecer que a corretora adota rigorosos padrões de governança e esclarecerá as autoridades sobre suas atividades e comprovará a lisura das suas operações".

Entenda a investigação

As apurações indicam que o esquema envolvia a manipulação sistemática de balanços e resultados contábeis com o objetivo de ocultar a real situação econômico-financeira da instituição e aparentar solvência perante os órgãos de controle.

Ainda de acordo com a investigação, a prática teria permitido a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas no montante de centenas de milhões de reais.

Segundo a Polícia Federal, o Banco Digimais adotou práticas financeiras consideradas temerárias, análogas às do extinto Banco Master.

A PF também investiga operações financeiras supostamente ilegais realizadas em benefício da empresa controladora do banco, além da possível falsificação e manipulação de informações inseridas em sistemas oficiais de registro do órgão regulador.

O que é o Digimais?

O Banco Digimais foi fundado em 1981, em Porto Alegre (RS), com o nome de Banco Renner.

Inicialmente, atuou como financeira e, ao longo da década de 1980, expandiu suas operações para o crédito direto ao consumidor (CDC) voltado ao financiamento de veículos. Em 1991, passou a operar como banco múltiplo (instituição financeira autorizada a oferecer vários tipos de serviços bancários sob uma mesma estrutura).

Em 2009, o empresário e líder religioso Edir Macedo tornou-se acionista minoritário da instituição.

Anos depois, em 2018, o banco iniciou sua transformação digital e, em 2020, foi reestruturado para atuar como banco digital, adotando o nome Digimais.

Na mesma época, Macedo assumiu o controle integral da instituição ao adquirir a totalidade das ações.

Atualmente, o Digimais concentra sua atuação no mercado de crédito, com destaque para o financiamento de automóveis, além de oferecer produtos voltados ao varejo, como Certificado de Depósito Bancário (CDB) e fundos de investimento distribuídos por terceiros.

Nos últimos anos, o banco passou por mudanças relevantes em sua estrutura societária e de gestão.

Em janeiro de 2025, uma tentativa de venda do controle para o empresário Maurício Quadrado, do grupo BlueBank, acabou não sendo concluída.

Embora a operação tenha recebido aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o comprador desistiu do negócio alegando deterioração das condições de mercado.

Já em janeiro de 2026., Aldemir Bendine assumiu a presidência executiva (CEO) do Digimais após homologação do Banco Central.

Em abril de 2026, o BTG Pactual anunciou a assinatura de um acordo vinculante para adquirir o controle acionário do banco.

O valor da operação não foi divulgado, e a conclusão do negócio permanece condicionada à realização de um processo competitivo, à confirmação da proposta do BTG como vencedora e à obtenção das aprovações regulatórias necessárias, incluindo as do Banco Central e do Cade.

Enquanto a negociação segue em andamento, o Digimais enfrenta desafios financeiros e de governança.

A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota de crédito da instituição para “CCC(bra)”, um nível que indica elevado risco financeiro.

Na prática, a agência avaliou que o banco tem pouca margem de segurança para enfrentar dificuldades e que, caso sua situação piore, existe uma possibilidade real de não conseguir honrar seus compromissos financeiros.

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ONDE ESTÁ A MAGIA DO FUTEBOL BRASILEIRO ?

Artigo de Fernando Gabeira

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.

Mas ali, em 2004, já desfrutávamos glórias passadas. Em 2014, descobrimos perplexos que havia algo errado com nosso futebol. O placar de 7 a 1 passou a ser a medida nacional para uma derrota desastrosa. Sempre que algo sai errado, dizemos: perdemos de 7 a 1.

De lá para cá, no futebol, não conseguimos ainda dar a volta por cima. Às vezes, fico preso aos detalhes. Não temos mais laterais como antigamente. Cafu, Carlos Alberto, Roberto Carlos, o lendário Nilton Santos, só vemos os sobreviventes nos camarotes da Copa. Não são um retrato na parede, mas um rápido zoom das câmeras de TV.

Às vezes penso que o calendário é o nosso problema. Muitos jogos. Talvez isso explique por que acho o futebol mais intenso na Europa. Será que é o cansaço que nos obriga a um jogo tão pouco vertical? Por que fazemos um gol e passamos a administrar o resultado? Somos devagar.

Na minha busca por respostas, às vezes, me volto aos cartolas que me parecem tão sospechosos, como aqueles políticos que pintam o cabelo e dão um beliscão no bumbum da secretária. Leio nas redes que o presidente da CBF levou a mulher e amante para a Copa, hospedando uma nos Estados Unidos, outra no México. Ele se submete ao mesmo rigoroso regime imposto por Trump ao time do Irã: joga nos Estados Unidos, mas dorme no México.

A Argentina continua brilhando. Seus cartolas não são melhores que os brasileiros. Não devemos descartar esse item, mas não podemos superestimá-lo. De qualquer forma, será necessário um esforço nacional para reerguer o futebol do Brasil. As empresas que faturam em cima da paixão deveriam destinar parte de seus investimentos a esse projeto. Quando começarmos a nos sentir como os neozelandeses sentem por sua seleção, a galinha dos ovos de ouro estará morta.

Talvez fosse pedir muito que o governo também se interessasse pelo assunto, embora seu papel seja secundário. As bets conseguiram monetizar a paixão. Grande parte dos impostos vai para os cofres públicos. Uma boa parte desse dinheiro deveria ser reinvestida no estímulo ao futebol. De talento, ruas, praias e becos estão cheios. O enigma é reencontrar a velha magia e nosso perdido soft power.

Artigo publicado no jornal O Globo em 23 / 06 / 2026

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O HOMEM APAGADO

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido.  Mas era tarde demais.

O homem apagado estava sem sinais vitais. Virou número, estatística, dado que provavelmente será usado para evitar novos apagamentos em unidades de saúde. No dia seguinte, ganhou identidade pelas autoridades: Vilmar da Silva, 49 anos. Antes de morrer, contou a um grupo de religiosos que não se alimentava havia 15 dias. Acredita-se que estivesse ali para se proteger do frio e para aliviar a sede. Dessa vez, parece ter sido ignorado. Até partir. 

Outros homens, mulheres e crianças apagados cobram o preço de sua mera existência mundo afora. Os palestinos sofrem apagamento quase diariamente. Bombardeios israelenses arrastaram para a morte dezenas de milhares de moradores da Faixa de Gaza. E o mundo se cala, parece acostumado à política de matança. Dia desses me deparei no Instagram com a história de um palestino assassinado em ataque aéreo enquanto buscava os convites de seu casamento. Quase diariamente, nós, jornalistas, recebemos fotos das agências de notícias em que pais e mães da Palestina se desesperam e se debruçam sobre os corpos dos filhos envoltos em mortalha. Assim como Vilmar, que morreu sobre uma cadeira de rodas na UPA de Recanto das Emas, retiraram-lhes o direito de viver. 

Mas não é preciso ir tão longe para ver homens anulados pela sociedade. Muitos de nós estamos presos ao individualismo, ao egoísmo, à busca do enriquecimento e da prosperidade. Nós nos preocupamos tanto conosco e não olhamos para o próximo, para o lado. Quantos filhos abandonam seus pais em asilos e os apagam da própria história? Tantas vezes, quando o fazem, levam meses ou anos sem uma visita. O idoso alimenta aquela esperança, irreal, a cada fim de semana. Do outro lado, muitos encontram silêncio, desprezo e esquecimento em vida. Também quantos pais ignoram a existência de seus filhos e não lhes oferecem o mínimo suporte afetivo e financeiro? Destroem a saúde psicológica de quem deveriam amar.

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade. Estão nos semáforos, nas portas dos supermercados, sob as pontes e os viadutos, lançados na sarjeta. Dependem unicamente da empatia alheia, que quase sempre inexiste. Quando o Estado lhes dá atenção, normalmente é para sepultá-las.

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segunda-feira, 22 de junho de 2026

LIÇÕES DE RESISTÊNCIA AO RACISMO

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Ritmo de transformação do Brasil é tímido demais, mesmo com políticas públicas de ação afirmativa

Professor e ativista Helio Santos propõe equidade racial como política central para o país

"No dia 14 de maio, eu saí por aí/ Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir/ Levando a senzala na alma, subi a favela/ Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci."

As estrofes iniciais da canção "14 de Maio", de Lazzo Matumbi, descrevem o pós-abolição e ilustram a construção dos alicerces de um dos países mais desiguais do planeta —o nosso.

Assim como a concentração de renda e de patrimônio no Brasil é branca, a pobreza também tem cor: é negra. Essa realidade é fruto da escolha política de um Estado-nação que optou pelo extermínio de povos nativos, substituição da mão de obra escravizada por imigrantes europeus e adoção de um modelo institucional de gestão que exclui e marginaliza negros.

O agronegócio brasileiro é um bom exemplo. Embora a maioria dos trabalhadores do campo seja negra, as grandes propriedades rurais pertencem aos brancos. Isso é fruto da Lei de Terras (1850), que impediu o acesso dos ex-escravizados à propriedade de terras no pós-escravidão.

Sim, a realidade nacional está mudando em razão de políticas públicas de ação afirmativa adotadas no fim do século 20 —após muita peleia dos movimentos sociais negros. Mas o ritmo dessa transformação é tímido demais frente ao tamanho dos problemas criados pelo racismo.

Militante histórico dos movimentos sociais negros, o professor e ativista Helio Santos está entre os que entendem que, apesar do êxito já conquistado, nossas políticas afirmativas ainda são insuficientes e precisam ser elevadas a outro patamar. Nesta terça-feira (23), ele lança o livro "14 de Maio – Lições de Resistência ao Racismo" (às 19h, no Itaú Cultural, na avenida Paulista, em São Paulo-SP).

Na obra, propõe a equidade racial como política central para o Brasil. "Precisamos radicalizar na democracia, o que implica reduzir drasticamente as desigualdades raciais, que são o principal obstáculo para o desenvolvimento nacional com sustentabilidade moral."

Concordo plenamente com ele. E você?

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PARABÉNS, MARCO PRADO !

E a segunda-feira (22) amanheceu achocolatado, hoje é dia de abraçar e parabenizar o ex-vereador de Sobral (CE), Marco Prado, o Chocolate.

O jovem político da família Prado desenvolveu um excelente trabalho quando esteve vereador na Câmara Municipal de Sobral.

Os sobralenses que acompanharam suas atividades parlamentares no legislativo sobralense se sentiram representados. O povo teve voz e vez.

A perseverança tem sido a marca desse político que não economiza esforços em defesa da população de Sobral.

Marco Prado demonstrou em suas ações que ainda é possível fazer politica com ética, competência e respeito.Chocolate, saúde, paz e felicidade. Parabéns, Marco Prado!

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domingo, 21 de junho de 2026

O NOVO POWERPOINT DO MASTER

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Para cada acusado de esquerda, surgem quatro ou cinco novos de direita

Desenhe o gráfico, pinte os direitistas de azul, os esquerdistas de vermelho, os juízes de preto, e me diga o que você vê

A operação contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), é uma boa oportunidade de revisar o PowerPoint do caso Master.

Em minha coluna de 28 de março, "O PowerPoint certo do Banco Master", propus separar, no gráfico, quem foi acusado de roubar com o Master, de tentar salvar o Master e de receber dinheiro do Master. O que mais descobrimos desde aquele dia?

Jaques Wagner é acusado de receber dinheiro do Master através de familiares. Além disso, a decisão que autorizou a operação menciona conversas com Augusto Lima (um dos operadores do esquema) que, caso confirmadas, devem deslocar o senador baiano da seção "recebeu dinheiro" para "tentou salvar o Master".

No meu PowerPoint de 28 de março, o PT da Bahia já estava na seção "roubou com o Master" pelas suspeitas envolvendo o CredCesta. Seria bom se a PF nos ajudasse a substituir a legenda pelo nome de pessoas concretas.

Já na direita a fila para entrar no PowerPoint é mais longa, e inclui peixes bem maiores.

O candidato a presidente da direita, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), agora domina o campo "recebeu dinheiro do Master", mas a dúvida é se não deve migrar para "roubou com o Master". Afinal, se Vorcaro lhe deu milhões, os governadores bolsonaristas deram bilhões (muito mais do que sabíamos em 28 de março) dos aposentados para o Master.

O mesmo raciocínio vale para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que a revista Veja acusa de receber R$ 150 milhões do Master. A previdência do Amapá, que colocou dinheiro dos aposentados no Master, é controlada por seus aliados.

Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, está na mesma: seus familiares receberam um empréstimo camarada do Master. Motta é autor de um projeto que obrigaria entidades de previdência privada a investir no mercado de estoques de carbono. Se o dinheiro tiver sido dado em troca do projeto, o deputado vai para a seção "roubou com o Master". Vorcaro queria essa aprovação porque inflava sua carteira de investimentos com um empreendimento picareta na Amazônia.

Filipe Barros (PL-PR) estava no PowerPoint em "tentou salvar o Master" por ter apresentado o projeto de lei que copiava a "Emenda Master", que Ciro Nogueira (PP-PI), hoje sabemos, recebeu pronta de Vorcaro. Pelo que já expliquei na última coluna, Eduardo Bolsonaro merece ter seu nome inscrito no PowerPoint ao lado do deputado paranaense.

Agora desenhe o gráfico, pinte os direitistas de azul, os esquerdistas de vermelho, os juízes de preto, e me diga o que você vê. Mude os critérios, se quiser: veja que lado ganhou mais dinheiro, que lado tem mais gente envolvida, o quanto os envolvidos são importantes para seu próprio lado.

O resultado será o mesmo. Para cada acusado de esquerda citado nas investigações, surgem quatro ou cinco novos acusados de direita, cada vez mais poderosos e movimentando cada vez mais dinheiro. Não é mais questão de saber quantos líderes da direita estão no PowerPoint do Master, mas qual deles não está.

Saudades de quando criticávamos a direita, de modo meio idiota, por só pensar em números, não em pessoas. Hoje em dia é difícil ensiná-los a contar bolinhas em um gráfico.

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sábado, 20 de junho de 2026

AMOR, FÉ E DEVOÇÃO POR MARIA BETHÂNIA

Flávia Oliveira, O Globo

Ela é intérprete de um Brasil que nos faz 'compreender a marcha e ir tocando em frente', como nos versos de Almir Sater que eternizou em disco de 1990, quando festejou um quarto de século de estrada

Parem os relógios, silenciem os telefones, suspendam a internet. Tomo emprestada a inspiração de W.H. Auden no poema “Funeral blues”, não para prantear uma morte, mas celebrar uma vida. Maria Bethânia fez 80 anos. Suspendamos o tempo para festejar a voz que há seis décadas canta como ninguém as brasilidades. Por um momento, não existem fraude Master nem dinheiro-vivo-mal-explicado; delação premiada nem tarifaço; Neymar machucado nem Endrick no banco; golpismo bolsonarista nem Lei da Dosimetria. Nada de mulheres violadas, crianças maltratadas, motociclistas desembestados, comunidades aterrorizadas.

A filha biológica de Dona Canô (1907-2012) e espiritual de Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), irmã de Caetano Veloso, cria do Recôncavo Baiano, cujo nome foi tirado de uma canção de Capiba na voz de Nélson Gonçalves, é mais um talento artístico-musical que os anos 1940 legaram ao Brasil. São da mesma década os octogenários Erasmo Carlos e Roberto Carlos, de 1941; Nara Leão, Nei Lopes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clara Nunes, Tim Maia, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, todos de 1942; Chico Buarque, de 1944; Elis Regina, Geraldo Azevedo, Ivan Lins e Raul Seixas, de 1945. Benza Deus!

Bethânia completou oito décadas de vida e saúde, corpo a serviço da palavra — lida e cantada. É leitora voraz, curadora exímia de prosa e verso — está aí seu “Caderno de poesias” (UFMG, 2015) a provar. De tão reverente à língua portuguesa, canta com crase. Se duvidar, preste atenção à interpretação de “Você perdeu” (Márcio Valverde e Nélio Rosa), no álbum “Tua” (2013): “Hoje a minha vida rima/E agradeço àquele adeus”. Juro.

Andei dizendo por aí que o 18 de junho deveria ser feriado. Na Bahia, onde Bethânia nasceu. Mas também no Rio de Janeiro, cidade/estado que escolheu para inaugurar, em 1965 (no espetáculo “Opinião”, de Augusto Boal), a carreira ora consolidada em 19 obras e 2.059 gravações cadastradas no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

Bethânia não é apenas a cantora da minha vida, mas a intérprete de um Brasil que nos faz “compreender a marcha e ir tocando em frente”, como nos versos de Almir Sater que eternizou em disco de 1990, quando festejou um quarto de século de estrada. É no país que ela canta que a gente acredita, insiste.

Em 2010, cruzou Brasil e Europa com a turnê “Amor, festa e devoção”, cenário formado por rosas vermelhas, em celebração aos 45 anos de ofício. Show e álbum ao vivo foram dedicados à mãe. As três palavras que deram nome ao projeto, ela contou no palco, eram os ensinamentos de Dona Canô para o bem viver.

O trio de substantivos também resume a contribuição de Bethânia ao país. Ela canta o amor, num repertório tão vasto quanto sincero. Vai de Roberto e Erasmo Carlos a Chico Buarque, de Caetano Veloso a Djavan, de Dominguinhos a Paulo Sérgio Valle, de Chico César a Gonzaguinha, de Ângela Ro Ro a Sueli Costa.

Visita as festas brasileiras, do litoral ao sertão. Vai do samba de roda ao sertanejo, do carnaval ao São-João, do forró à Sapucaí. Foi homenageada pela Estação Primeira de Mangueira em 1994, com Caetano, Gil e Gal Costa, os Doces Bárbaros. Em 2016, enredo concebido por Leandro Vieira, levou a escola ao campeonato.

É, além de festa, devoção, porque não há quem tenha vivido e cantado com tamanha intensidade e frequência a religiosidade brasileira. É mulher de novena, mandinga e vigília; de procissão e desfile. Em tempos de aguda intolerância e perseguição à fé alheia, escancara a fé nos orixás do candomblé e nos santos católicos. Filha de Iansã e devota de Nossa Senhora, ensina que a convivência respeitosa é, mais que possível, desejável.

Adentrou a profissão berrando “Carcará”, nos primeiros anos da ditadura militar. Gravou “Cálice”, hino de Chico Buarque e Gilberto Gil contra o arbítrio, no álbum “Álibi” (1978), ainda durante o regime. Três anos atrás, quando o Tribunal Superior Eleitoral condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, disparou de cima do palco, pés descalços, sílaba por sílaba: i-ne-le-gí-vel. Tem firmeza e coragem.

Maria Bethânia ganhou com Caetano, em fevereiro passado, aos 79, o Grammy de Melhor Álbum de Música Global. O reconhecimento veio pelo disco nascido da turnê dos dois irmãos, em 2025. Está viva e produtiva e forte e engajada e coerente, como sempre. O Brasil — de ontem, hoje, amanhã — precisa dela como nunca.

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

HORA DE JOGAR COM A CABEÇA NA COPA

Artigo de Fernando Gabeira

De um ponto de vista geopolítico, esta Copa do Mundo é um projeto frustrado. A Fifa optou por um caminho, a propósito, ampliando de 32 para 48 o número de participantes. Estados Unidos, México e Canadá, quando resolveram hospedar o torneio, pensavam em projetar a imagem de uma América do Norte unida, próspera e, até certo ponto, aberta para o mundo. Mas, no meio do caminho, havia a rígida política migratória de Donald Trump.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, ainda tentou bajular Trump com um prêmio da paz que ele mesmo inventou para compensar a frustração com a perda do Prêmio Nobel. Além da rígida política migratória, Trump decidiu entrar em guerra contra o Irã, um dos países que participam da Copa. Resultado: os ares da guerra foram transplantados para o campo esportivo. A seleção do Irã disputa jogos nos Estados Unidos, mas seus jogadores são obrigados a dormir no México. Dois deles nem sequer conseguiram entrar nos Estados Unidos, assim como alguns membros da delegação. Gianni Infantino foi visitar o time do Irã no vestiário, fez uma preleção edificante e ouviu os lamentos de um país que, neste aspecto esportivo, está sendo discriminado.

Os problemas não pararam aí. Na verdade, continuaram com a decisão americana de barrar um competente árbitro de futebol. Foi recebido como herói nacional ao voltar ao país. Isso apesar de Omar Artan vir de um país pobre, com pouca tradição esportiva. Nas suas divergências com a deputada Ilhan Omar, que nasceu na Somália, é muçulmana e democrata, Trump já se referiu a esse país africano como um lixo.

Outro país africano, Senegal, sofreu com a aduana americana. Os jogadores foram severamente inspecionados como se houvesse algum problema especial de segurança com os senegaleses. Eram africanos, só isso.

Diante de tantas atitudes de discriminação numa Copa que se pretende inclusiva, um jornal francês fez uma charge de Gianni Infantino, como se fosse um fantoche de Trump.

Quem não se lembra do rigor da Fifa para que o Brasil hospedasse a Copa do Mundo? Cento e quarenta e uma exigências, além de um Caderno de Encargo. Além de isenções de impostos, a entidade exigia vistos rápidos, assim como autorização de trabalho. O processo revelou uma Fifa dócil diante dos Estados Unidos e com um comportamento imperial diante do Brasil.

Em 2026, a Copa é para nós, brasileiros, um processo mais tranquilo. Não foi assim no tempo do governo militar, na Copa de 1970. Os generais, ávidos de popularidade, foram aconselhados a se meter com o futebol. Garrastazu Médici fazia embaixadinhas diante de fotógrafos. Muitos quadros de esquerda pensaram em torcer contra o Brasil para que a ditadura militar não capitalizasse a vitória. Na hora do jogo mesmo, os cálculos políticos desabavam e todos gritavam “vamos, Brasil”.

Um dos grandes nomes daquele período foi o técnico e jornalista João Saldanha. Os militares queriam que ele convocasse Dadá Maravilha, um jogador do Atlético Mineiro, para a seleção. João se recusou e disse que o presidente escalava seu ministério, mas ele é quem escolhia os jogadores da seleção.

Nos dias de hoje, o conflito está bem atenuado. Os candidatos usam a camisa amarela da seleção porque todos torcem para ela. O único argumento de Flávio Bolsonaro é o de que Lula usa a camisa durante a Copa do Mundo, e ele usa o ano inteiro. Mas de vez em quando levanta a bandeira dos Estados Unidos, diriam os adversários. O peso dos debates sobre a Copa do Mundo não é mais o mesmo porque nosso futebol decaiu, tem escassas chances de vitória final, daí a relativa frieza. As causas da decadência ainda não foram profundamente discutidas. Ainda temos grandes nomes no futebol europeu, alguns jovens promissores, mas aquele Brasil do passado não existe mais.

No momento, esboça-se uma crítica à CBF, mas é um problema de costumes. Segundo algumas notícias, o presidente da entidade teria levado a esposa e a amante para a Copa, hospedando uma no México e a outra nos Estados Unidos. Nesse enredo jornalístico, seu destino é parecido com o da delegação iraniana. Ele joga nos Estados Unidos e dorme no México, ou vice-versa, quem saberá de seus segredos.

A verdade é que, assim como a Copa não tem o impacto geopolítico imaginado há algum tempo, o futebol brasileiro perdeu um pouco de sua magia e da capacidade de ser uma dimensão do nosso soft power.

Não maravilhamos mais o mundo com a habilidade dos pés, mas sempre é tempo para achar talento em outras partes do corpo – o cérebro, por exemplo. Na verdade, se a performance do Brasil for desapontadora como foi sugerido na estreia, certamente abre-se o caminho para uma grande reformulação no futebol brasileiro, a começar pelo campeonato nacional, os processos de formação de base, uma maior introdução da tecnologia, enfim, elementos que estão presentes em seleções que nos desafiam e que, há apenas alguns anos, eram facilmente batidas pelo Brasil.

Toda essa energia que vemos, nascida do impulso comercial de ganhar dinheiro com a paixão do brasileiro por torcer pelo nosso time na Copa, precisa apoiar a renovação. A possibilidade de a fonte secar é muito grande.

Artigo publicado no jornal Estadão em 19 / 06 / 2026

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UMA COPA DO MEDO: 2006

José de Souza Martins*, Valor Econômico

A privatização da festa, com o pavilhão da cerveja e a intervenção da polícia criminalizara os moradores de rua preventivamente. São Paulo e o Brasil estavam se tornando a sociedade do medo

A crise política e social brasileira se manifesta de modo documental em acontecimentos como a Copa do Mundo. Os que mobilizam multidões, que são o refúgio e o disfarce da solidão de cada um numa sociedade em que o cidadão do contrato social é mera ficção e pressuposto.

Diversamente do que ocorre nos países civilizados, a multidão tem sido no Brasil a forma da visibilidade e da identidade social dos brasileiros como povo. Somos povo de vez em quando. Mesmo sendo ela manifestação das irracionalidades que escondem nossos defeitos e insuficiências: caso da covardia da afirmação violenta apenas quando ninguém está vendo, como no caso dos linchamentos noturnos.

As mudanças de comportamento da multidão entre 1998 e 2006 me sugeriram que um novo Brasil tinha surgido como consequência da manipulação política do medo que decorria da eleição de um governo de centro-esquerda em 2002. Quando Lula chegara ao poder. A perversidade das “fake news”, da manipulação de impressões superficiais a respeito do caráter dos diferentes e discordantes, se multiplicam e se difundem cada vez mais.

Fake news não é qualquer mentira. É mentira profissionalmente produzida. É mentira que a juízo do senso comum popular tem alta probabilidade de ser interpretada como verossímil. Nela a vítima não tem condições de provar sua inocência. É um tipo específico de mentira que ao mesmo tempo difama e condena sua vítima. Essa mentira é um crime que não está no Código Penal.

Fake news autorregenera quando se debilita. Vinte anos depois da Copa de 2006, não tem sido necessário criar novas mentiras para fragilizar os destinatários.

Não basta, portanto, a mulher de Nero ser honesta. Ela tem que provar que o é. Na lógica binária e polarizada o próprio antagonizador se beneficia do antagonismo por ele forjado. Nesse sentido, as esquerdas em geral criam e alimentam a contínua renovação do bolsonarismo. É uma “engenharia” diabólica porque ela é uma concepção de poder.

No Brasil atrasado, da polarização ideológica, só há no poder lugar para um personificador do bem, mesmo que falso. Quem inventa leva. Mesmo os honestos e competentes não têm chance. A vítima da satanização leva o que sobra mesmo que ela não tenha os atributos negativos a esse lugar reservado.

A mudança de comportamento da multidão da Copa é um indício social do mal e de sua difusão imperceptível.

O torcedor de rua da Copa de 2006 foi um ser diferente da situação das acolhedoras pessoas em situação de rua na Copa de 1998. Uma fábrica de cervejas patrocinava o telão e “privatizara” a encosta que vai do Theatro Municipal até o Vale do Anhangabaú. Ali construíra uma arquibancada vermelha com cadeiras para seus clientes, cerveja à vontade. O acesso ao vale estava controlado pela Polícia Militar, a área recintada com separadores.

Eu levei a ampliação do retrato que fizera tempos antes de “seu” Carlos, pessoa em situação de rua, num bate-papo na rua Líbero Badaró a propósito do edifício Sampaio Moreira, que eu estava fotografando. Encontrei-o num dos canteiros de meio do Anhangabaú, devidamente cercado, onde foram recolhidos e confinados os moradores de rua do Centro da cidade.

De anfitriões em 1998, eram agora prisioneiros do medo oficial que neles via os antissociais que não eram nem se tornaram. O sensacionalismo noticioso aparentemente neles descobrira o tema de agentes do medo. A privatização da festa, com o pavilhão da cerveja e a intervenção da polícia, os criminalizara preventivamente. São Paulo e o Brasil estavam se tornando a sociedade do medo.

Pouco tempo depois da Copa de 2006, um outro fato grave ocorreu na cidade de São Paulo que confirmava a indústria do medo. A companhia do Metrô decidira abrir uma nova linha, Linha Laranja, que iria da pobre Vila Brasilândia à estação São Joaquim, atravessando a cidade. Uma das estações seria a de Higienópolis, bairro de classe média alta.

Apesar dos numerosos apoiadores da construção dessa estação, que facilitaria a vida de muitos que ali trabalhavam, especialmente domésticas e empregados do comércio, ergueu-se um clamor de moradores do bairro chique contra a construção da estação.

Era justificado por sua suposta desnecessidade. Já que havia algumas outras estações na região, a mais próxima a 600 metros de distância do bairro. Uma senhora explicou que sua empregada doméstica preferia tomar três conduções para vir ao trabalho a tomar o metrô. Só faltou dizer que ela preferia vir a cavalo. Uma cidadã foi direto ao ponto: alegava que “Higienópolis era um bairro tão tradicional que não seria legal vir essa gente diferenciada que vai trazer problemas de segurança, de assalto. Vai ser uma praça de maconheiros, de usuários de drogas”.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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SOBERBA É O MOTOR DA HISTÓRIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Polícia Federal avança em investigações sobre o Master por causa de celulares apreendidos

Por excesso de confiança, criminosos juntam eles mesmos as provas que poderão condená-los

Apesar de não haver ainda nenhuma delação premiada envolvendo o caso Master, a PF vem avançando a passos largos nas investigações. O senador Jaques Wagner, petista de escol e ex-governador da Bahia, foi tragado para o centro do escândalo. Um pouco antes, descobrimos que Hugo Motta, o presidente da Câmara, também foi paparicado por Daniel Vorcaro, tendo usufruído de uma daquelas viagens nababescas bancadas pelo ex-banqueiro.

Sobrou até para a própria PF, pois ficamos sabendo que as organizações Master pagavam mesada de R$ 400 mil a um grupo de agentes e ex-agentes que se encarregavam de informar a família Vorcaro do andar das investigações. E essa é só uma versão muito sucinta de revelações dos últimos dias.

Antes disso, o caso Master já provocara abalos ainda mais profundos. A credibilidade do STF escoou pelo ralo com detalhes do relacionamento de Vorcaro com ministros da corte. Flávio Bolsonaro pode ter perdido de véspera a eleição com o áudio em que pede milhões de dólares ao mecênico ex-banqueiro para financiar o filme Dark Horse.

Como a PF avançou tanto se ninguém ainda recorreu à delação premiada? A resposta está nos celulares apreendidos. Esses aparelhinhos se tornaram a perdição de criminosos, que se encarregam eles próprios de produzir e armazenar as provas que irão mais tarde condená-los. E às vezes até se gabam de seus feitos.

Não dá para dizer que seja só ignorância. Ao menos em instantes críticos, os suspeitos recorreram a sistemas de criptografia e outros estratagemas para evitar a autoincriminação. Mas, por uma combinação de autoconfiança excessiva com falta de familiaridade com a tecnologia, não tiveram sucesso. Deixaram de observar até procedimentos básicos para delinquentes, como desabilitar o backup automático.

Qual é o motor da história? Para Hegel, era o Espírito Absoluto; para Marx, a luta de classes. Penso que a hýbris, a soberba, explica muito mais, do naufrágio do Titanic à campanha russa de Napoleão, passando pelas indiscrições de Daniel Vorcaro.

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O SINGELO ASSASSINO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O psicopata condenado a 43 anos de prisão foi chamado pela imprensa de Dr. Jairinho

Seria como se os assassinos da menina Isabella Nardoni fossem tratados por Aninha e Alex

Há dias, terminou no Rio o julgamento do assassinato do menino Henry Borel, torturado e morto aos quatro anos em 2021 por seu padrasto, o ex-vereador e médico Jairo Souza Santos, sob a omissão de sua própria mãe, Monique Medeiros. Ele pegou 43 anos de prisão; ela, a quem se devia a proteção do filho, 1 ano e quatro meses, e mesmo assim a juíza a mandou para casa. É quase intolerável saber a que essa criança foi submetida durante um mês inteiro até sua morte. Apesar disso, durante todo o processo, Jairo Souza Santos foi chamado pela imprensa por seu meigo apelido de "Dr. Jairinho". Tal tratamento provoca revolta ou asco?

Em 1992, também no Rio, a atriz Daniella Perez, 22 anos, foi assassinada por seu colega Guilherme de Pádua e pela mulher dele, Paula Thomaz. Ainda insuspeito, Pádua, incrivelmente, juntou-se ao luto da família. Não me ocorre que tenha sido tratado por "Gui" no noticiário, como Daniella talvez o fizesse. Em 2002, em São Paulo, Suzanne von Richthofen urdiu com o namorado Daniel Cravinhos e o irmão deste, Cristian, a morte de seus pais enquanto dormiam. Nem por isso Suzanne tornou-se Suzy.

Também em 2002, numa favela carioca, o jornalista Tim Lopes foi capturado, torturado e morto pelo traficante Elias Pereira da Silva e seus cúmplices. O corpo foi coberto de pneus, a que se jogou combustível e se pôs fogo, num processo chamado de "micro-ondas". Elias era famoso como "Elias Maluco", não como Eli.

Em 2008, também em São Paulo, Isabella Nardoni, cinco anos, foi agredida pela madrasta, Anna Carolina, e atirada do 6º andar por seu pai, Alexandre Nardoni. Por sorte, eles não se tornaram o casal Aninha e Alex, como os amigos deviam chamá-los. E, em 2012, igualmente em São Paulo, o executivo Marcos Matsunaga foi morto com um tiro por sua mulher, Elize. Teve o corpo dividido em sete partes e estas, levadas em malas e espalhadas pela região de Cotia. Mas Elize continuou Elize, não Ize.

Já o psicopata Jairo Souza Santos foi reduzido ao singelo diminutivo "Jairinho".

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quinta-feira, 18 de junho de 2026

MARIA BETHÂNIA, 80 ANOS

Do Blog do Mauro Ferreira, Pop & Arte, g1

Maria Bethânia chega aos 80 anos com a altivez intacta do canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria

 MARIA BETHÂNIA 80 ANOS

Nascida em 18 de junho de 1946, Maria Bethânia chega hoje aos 80 anos com trajetória inatacável, pautada pela altivez do canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria.

Movido pela espiritualidade que rege a artista, espécie de divindade no panteão da MPB com quem (quase) ninguém ousa mexer, esse canto atinge os rincões mais profundos do Brasil sem deixar de cantar as dores de amores comuns a toda a gente do campo ou da cidade.

O canto de Bethânia educa porque, através dele, versos de poetas como Fernando Pessoa e Clarice Lispector escaparam dos nichos literários e chegaram aos ouvidos do grande público interpretados por uma cantora que também nos pega pela palavra. Educa por transitar pela estrada de um sertão que resiste aos vícios e hits da industrialização. Por conduzir o público do Brasil às rodas da cidade natal de Santo Amaro da Purificação (BA), norte do canto da artista.

A força motriz de Bethânia também vem da voz da mãe, Claudionor Vianna Telles Velloso (1907 – 2012), a Dona Canô, a que está em tudo que Bethânia canta, das louvações aos santos e orixás aos sambas-canção da era do rádio.

Bethânia não vai na onda. Bethânia traz a onda, aponta o que ninguém via, propõe que se atente para um compositor. O que seria de Roberto Mendes e de outros grandes compositores de Santo Amaro sem a voz-guia de Bethânia a mostrar uma obra que, sem a projeção nacional da intérprete, talvez tivesse ficado conhecida somente em redutos locais?

O canto de Bethânia também comove porque a voz grave sabe transitar entre a delicadeza e a dramaticidade com inteligência rara.

Admiradora de Dalva de Oliveira, estrela da era do rádio, Maria Bethânia embute alta carga de teatralidade no canto. Esta é a marca da artista desde que, em fevereiro de 1965, a debutante subiu ao palco de teatro do bairro carioca de Copacabana para alçar um voo sem volta pelo Brasil a partir do canto de “Carcará”.

Contudo, dona do dom e das emoções, também sabe baixar os tons se assim lhe convém para ruminar mágoas, solidões, ressentimentos ou vinganças. Mas quando sempre canta nas alturas, com as veias abertas para a emoção, os olhos imponentes nos olhos embevecidos das plateias.

Avessa a rótulos e a modismos, Maria Bethânia atravessou seis décadas de carreira com fidelidade a si mesma. Lutou para ser Maria Bethânia e, quando cedeu, como no caso da sugestão do executivo Marcos Maynard para que gravasse em 1993 um álbum com canções de Roberto Carlos, o fez sem baixar a cabeça, com a habitual imponência.

E fez assim porque todas as canções do Roberto, do mano Caetano Veloso, dos Chicos (tanto o Buarque como César, ambos recorrentes nos repertórios da intérprete), de Gonzaguinha, de Arnaldo Antunes e de Adriana Calcanhotto – entre outros compositores – pareceram feitas para ela. Mesmo quando não foram.

E é comovente a entrega de Bethânia a cada canção. Ela depura a palavra através do canto que, em cena, abafa arranjos e instrumentistas virtuosos. Todas as atenções e olhos são para a intérprete.

Por fim, o canto de Maria Bethânia inebria porque tem algo de sobrenatural ali. Mais do que um canto em si, parece haver uma energia poderosa quando Bethânia solta a voz e se entrega, palavra por palavra, à magia do palco, com o brilho dos olhos que nunca arrefeceu em 63 anos de carreira iniciada ainda em Salvador (BA).

Maria Bethânia é tão grande como a Mangueira que celebrou a existência da Menina de Oyá no desfile campeão do Carnaval de 2016, por ocasião dos 70 anos da artista. Estação primeira da música brasileira neste 2026 em que já não há a presença física da maioria das grandes cantoras de MPB surgidas nos anos 1960, Maria Bethânia carece de explicação, assim como a Mangueira. Embora a gente tente buscar alguma para celebrar, no dia dos 80 anos da cantora, essa força sobrenatural que ainda parece longe de secar.

Leia outros textos sobre os 80 anos de Maria Bethânia:

Maria Bethânia 80 anos: conheça oito álbuns menos ouvidos (mas nem por isso menos relevantes...) da cantora

Maria Bethânia 80 anos: conheça 80 gravações que atestam a grande força da intérprete em seis décadas de disco

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TRUMP GAGÁ

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Não será surpresa se, numa dessas em que cochila em eventos, ele cair da cadeira

Que sua influência sobre nós se dilua antes de ele vestir a cueca por cima das calças

Donald Trump completou 80 anos neste domingo (14), anunciando em tom imperial o fim de uma guerra interesseira que ele próprio começou e perdeu. Os observadores viram nisso mais um sintoma da iminente gagaíce de Trump, manifesta em seu comportamento abilolado, marcado por atitudes sem nexo, declarações que faz e desfaz em questão de horas e sintomas de que já não é quem ele simula ser. O fato de ter sido fotografado cochilando em recentes eventos públicos preocupa a Casa Branca –temem que, numa dessas, ele caia da cadeira.

Sua jequice e megalomania, que não são de hoje, estão atingindo dimensões mamutianas. Trump botou sua carantonha em passaportes, selos e documentos oficiais. Ameaça assinar as cédulas de dólar –sua assinatura, por sinal, ainda está por ser estudada por psiquiatras. Quer botar seu nome em instituições e monumentos históricos. Vai construir uma torre de 60 andares em Miami para comportar sua biblioteca presidencial --em comparação, a biblioteca de George Washington, recém-inaugurada em Mount Vernon, Virginia, com milhares de livros e documentos inestimáveis do século 18, contenta-se com um prédio de três andares. E acaba de rebaixar a Casa Branca a um mafuá de MMA.

A saúde geral de Trump também periclita. Tem 22 médicos à sua volta, o que deve dizer alguma coisa. Toma remédios para o coração, a pressão e o colesterol, sofre de insuficiência venosa crônica e sabe-se que vive com os tornozelos e pés inchados. Informantes com acesso à balança de seu banheiro íntimo disseram ao The New York Times que ele ganhou sete quilos nos últimos tempos. Sua dieta diária consiste de Big Macs, frango frito e quilômetros de macarrão, mandados para dentro com Coca Diet.

Com tudo isso, Trump continua a ser o fiel da nossa balança. Flávio Bolsonaro quer que ele quebre o Brasil com seus tarifaços e, assim, o eleja presidente. O governo, por sua vez, precisa adulá-lo para impedir isso.

Roga-se que esse dilema se resolva antes de Trump começar a usar a cueca por cima das calças.

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MENDONÇA VIRA 'LÍDER DA MINORIA' NO STF

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Com apenas dois aliados, Mendonça assume posto de ‘líder da minoria’ no STF

Mesmo com delação de Daniel Vorcaro rejeitada, ministro mostrou em julgamento que não vai aliviar para autoridades nas investigações sobre o Banco Master

André Mendonça pode até integrar uma ala minoritária no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas ideias que defende e pelos votos que profere. Mas, na última terça-feira, saiu da sessão da Segunda Turma consolidado como líder da minoria na Corte, para pegar emprestado um termo do Congresso Nacional.

Por três votos a um, o colegiado confirmou a decisão do relator das investigações sobre o Banco Master de manter presos o pai e o primo de Daniel Vorcaro. Com apenas quatro ministros votantes, Mendonça só precisava de dois aliados para sair vencedor.

O relator contou com uma dose de sorte. No Supremo, Mendonça tem dois apoiadores fiéis, que concordam com ele em matéria penal: Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Coincidentemente, os dois integram a Segunda Turma.

Depois que Dias Toffoli se declarou impedido para julgar o caso Master, o caminho de Mendonça rumo à maioria ficou menos tortuoso. Apenas Gilmar Mendes defendeu que os investigados fossem transferidos para a prisão domiciliar. Nas sessões de turma, Gilmar costuma fazer uma dobradinha com Toffoli. Desta vez, ficou isolado.

Gilmar, porém, não facilitou para Mendonça. Fez críticas quanto à condução das investigações e comparou os métodos aos da Lava Jato. No fim, o relator falou mais alto. Alegou que não prendia ninguém para forçar acordo de delação e defendeu sua posição com a voz empostada de pastor evangélico. Aproveitou para falar do caso Master como nunca tinha feito antes em público. Revelou que a defesa “perdeu o pudor” ao propor uma delação seletiva. “Falaram na minha cara isso. Eu disse: ‘Não faço questão de delação. Agora, delação seletiva? Comigo, não!’”

Gilmar representa um grupo do Supremo insatisfeito com o rumo das investigações do Master. Alexandre de Moraes e Toffoli fazem coro ao colega. Os dois tiveram ligações com Vorcaro expostas ao longo das investigações. Mas, como relator do escândalo do Master, Mendonça pode abdicar da maioria numérica dos ministros do Supremo. Ter vitória garantida na Segunda Turma é suficiente, porque é lá que as questões referentes ao Banco Master serão julgadas.

Não satisfeito com a votação na turma, Mendonça mirou a aprovação da opinião pública ao divulgar, pouco antes do julgamento, novas provas da investigação que reforçavam a necessidade de manter o pai e o primo de Vorcaro atrás das grades.

Ou seja: o ministro está disposto a incomodar colegas do STF e a classe política em meio ao período eleitoral. A recusa à delação de Vorcaro fez Brasília respirar aliviada por apenas um dia. O clima tenso voltou a assombrar os três Poderes a partir do julgamento de terça-feira.

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COPOM SEGUE EXPECTATIVA

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

Por decisão unânime, o Copom cortou os juros básicos (Selic) em 0,25 ponto porcentual, para 14,25% ao ano. Confirmou, assim, as previsões dos analistas.

Desta vez, a sintonia com o mercado pode ter sido a principal razão desse corte. Esta diretoria do Banco Central (BC) já deu sinais de que não só procura formar as expectativas, como também, em caso de alguma falta de clareza, costuma segui-las.

O dado mais importante é o de que a inflação voltou a dar seus pinotes. Os números de maio mostraram que, no período de 12 meses, a inflação saltou para 4,72%, acima do teto da meta, que é 4,5%. Foi o suficiente para que o mercado, sondado pela Pesquisa Focus, projetasse a inflação do ano para 5,3%. É indicação de que o BC teria de acionar sua política de juros para voltar a conduzir a inflação para a meta.

Isso não é tudo. É preciso saber quais forças vêm empurrando a inflação para cima. Dois são seus principais fatores. Há a alavanca de custos, que tem a ver com a alta do petróleo e de insumos de produção provocada pela Guerra do Irã. Se o acordo entre Estados Unidos e Irã está para reabrir imediatamente o Estreito de Ormuz, então, por esse lado, a inflação perderá boa parte de sua força.

A outra alavanca da inflação tem natureza de demanda. É aumento do consumo em ritmo superior à capacidade de oferta, acionado pela brutal gastança do governo, que injeta recursos na economia destinados a azeitar o consumo e, com ele, a boa vontade do eleitor. Os números mostram forte alta dos serviços e um mercado de trabalho apertado por escassez de mão de obra em setores chave da economia.

Além de turbinar o rombo fiscal e a dívida pública, esse despejo de moeda na economia pelo governo federal trabalha contra o BC, que se empenha em retirar dinheiro da economia por meio de sua política monetária. O comunicado divulgado logo após a reunião do Copom é, como sempre, discreto sobre esse jogo contra, mas suficientemente enfático ao denunciar essas pressões fiscais.

Os diretores do Copom não ousaram antecipar os próximos passos, porque o nível de incerteza continua alto. Não há segurança de que as hostilidades no Oriente Médio terminarão. O governo de Israel vem demonstrando insatisfação com esse acordo e poderá aumentar os ataques ao Líbano, com objetivo de neutralizar o Hezbollah, força por meio da qual o Irã vem terceirizando sua guerra contra Israel.

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PARTIDOS PEDEM MANUTENÇÃO DE TETO DE GASTOS NAS ELEIÇÕES

Andrea Jubé, Valor Econômico

Presidentes dos principais partidos políticos se uniram para encaminhar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um pedido para que o teto de gastos com as campanhas eleitorais não seja reajustado neste ano. Não prosperou, entretanto, o movimento de algumas siglas para tentar reservar um volume maior de recursos para as candidaturas de deputados federais, estaduais e distritais.

Cabe à corte eleitoral editar uma resolução estabelecendo os limites das despesas dos candidatos nas eleições, e a expectativa é de que o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, acolha a reivindicação dos dirigentes. Procurado pelo Valor, o ministro respondeu, por meio da assessoria, que recebeu o pleito das legendas, mas que o mesmo ainda está sendo analisado.

De acordo com dirigentes ouvidos pelo Valor, há uma preocupação com o encarecimento das campanhas, em contraponto aos recursos disponíveis. Sob pressão da opinião pública, o Congresso destinou ao fundo eleitoral, no Orçamento de 2026, o mesmo valor de R$ 4,9 bilhões fixado para o pleito de 2022, sem correção pela inflação ou outro índice. Partidos com as maiores bancadas recebem as maiores fatias do fundo. Os três principais beneficiados entre 30 legendas são o PL com R$ 881 milhões; o PT com R$ 615 milhões; e o União Brasil com R$ 526 milhões.

No entanto, em 2022, o TSE decidiu que o teto de gastos das campanhas seria o mesmo de 2018, porém, atualizado pela inflação do período. Desde a proibição do financiamento privado das campanhas, os candidatos se valem de recursos públicos para arcar com as despesas da corrida pelos votos, que podem sair do fundo eleitoral, do fundo partidário, de recursos próprios ou doações de pessoas físicas.

Em conversas privadas, entretanto, candidatos queixam-se da limitação de recursos e da elevação dos gastos. Por exemplo, as campanhas de deputados federais, que têm o mesmo limite em todo o país, foram fixadas em até R$ 2,5 milhões em 2018. Com a atualização desse valor pelo IPCA, esse limite subiu para até R$ 3,1 milhões em 2022. Na prática, contudo, apenas candidatos selecionados pelas cúpulas partidárias, com maiores chances de vitória - como os que disputam a reeleição -, recebem das legendas o teto de gastos.

TSE editará resolução estabelecendo limites das despesas dos candidatos

A campanha para presidente da República também ficou mais cara de 2018 para 2022, com o limite de despesas atualizado de R$ 105 milhões para até R$ 133,3 milhões - considerados os gastos no primeiro e no segundo turnos. As candidaturas para os governos estaduais e para o Senado têm os valores estabelecidos proporcionalmente à população. Dessa forma, o postulante ao governo de São Paulo poderá gastar até R$ 26,6 milhões nos dois turnos, considerados os valores de 2022; já o candidato ao governo do Distrito Federal obedecerá ao teto de R$ 10,6 milhões (em dois turnos).

Não houve consenso entre os dirigentes sobre o pleito de postulantes às vagas proporcionais (deputados federais, estaduais e distritais) por mudanças na fórmula de distribuição dos recursos entre os candidatos de cada sigla. Há queixas de que, depois da dedução dos valores que são reservados às candidaturas de mulheres, negros e pardos, aqueles que vão concorrer para governador, senador ou a presidente ficam com uma parcela muito maior do total remanescente do que os candidatos ao Legislativo. Pela lei, no mínimo 30% dos recursos do fundo eleitoral devem ser repassados às candidaturas femininas, e 30% se destinam aos candidatos negros e pardos.

Na quarta-feira (17), Nunes Marques se reuniu com presidentes de partidos, que assinaram um pacto para garantir a integridade das eleições deste ano. O documento contempla medidas para ampliar o diálogo e a cooperação entre a Justiça Eleitoral e os partidos. O texto enumera ações contra a desinformação, o uso responsável da inteligência artificial (IA) e fortalecimento da confiança nas eleições. A assessoria do TSE ressaltou que o pleito para não elevar os tetos das campanhas é anterior, e não foi debatido nesse encontro.

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