sexta-feira, 12 de junho de 2026

ALCOLUMBRE IMITA EDUARDO CUNHA AO APOSTAR EM PAUTAS-BOMBA CONTRA O GOVERNO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Na mira de investigações, presidente do Senado investe contra os cofres públicos

Em clima de festa junina, Davi Alcolumbre acendeu o pavio e tapou os ouvidos. O presidente do Senado articulou a aprovação de três pautas-bombas na quarta-feira. Somadas, elas podem custar mais de R$ 200 bilhões aos cofres públicos.

No plenário, os senadores aprovaram a criação de mais uma linha de crédito rural. O pretexto foi socorrer produtores prejudicados por conflitos internacionais ou eventos climáticos extremos.

Segundo cálculos da Fazenda, o agrado aos ruralistas deve custar R$ 140 bilhões em dez anos. Um de seus principais defensores foi o governador gaúcho Eduardo Leite, que ensaiou concorrer ao Planalto como expoente do liberalismo.

A generosidade também se espalhou pelo corredor das comissões. A de Assuntos Sociais aprovou aumento de 275% no piso de médicos e cirurgiões-dentistas. A de Constituição e Justiça fez avançar proposta que reduz a idade de aposentadoria e concede benefício integral a agentes de saúde e combate a endemias. O impacto previsto é de R$ 30 bilhões para a União, sem contar os gastos extras de estados e municípios.

É necessário valorizar o serviço público, mas os senadores não parecem movidos apenas pelo senso de justiça. Pesaram o ano eleitoral, que costuma inspirar bondades com dinheiro público, e a cruzada de Alcolumbre contra o Planalto. O presidente do Senado havia insinuado um armistício após derrubar a indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal. Ignorado por Lula, resolveu voltar ao ataque.

Alcolumbre está nervoso. Sabe que pode ser atingido pela delação do empresário Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, envolvido num esquema de fraudes em combustíveis. E teme o avanço das investigações do caso Master, que engoliu R$ 400 milhões de aposentados e pensionistas do Amapá.

Sob pressão, o senador parece se inspirar no exemplo de Eduardo Cunha, que tentou usar as pautas-bombas para escapar da polícia na década passada. Para o ex-deputado, a festa não acabou bem.

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HORA DE VOLTAR A ATENÇÃO AOS REPUBLICANOS

Andrea Jubé, Valor Econômico

Se não perder nenhuma batalha, o partido poderá começar 2027 governando São Paulo e Minas Gerais, os Estados mais ricos do país

Por volta de 2023, quando Progressistas (PP) e União Brasil intensificaram o diálogo para criar a federação que, dois anos depois, se tornaria a maior força política do país, tentaram, à exaustão, atrair o Republicanos. Em conversas privadas, o presidente da legenda, deputado Marcos Pereira (SP), explicava a interlocutores que no jogo do poder, é melhor ser “cabeça de sardinha do que rabo de baleia”.

Um ano após o anúncio da super federação, que nasceu com 109 deputados federais e quase R$ 1 bilhão de fundo eleitoral (projeção com base em valores do pleito de 2024), a percepção de aliados de Pereira é de que ele não errou ao optar por investir no fortalecimento do Republicanos. Embora preserve o fundo bilionário, a federação PP-União encolheu para 98 deputados, e perdeu quadros relevantes, como o senador Efraim Filho (PB) que trocou o União pelo PL a fim de concorrer ao governo da Paraíba; e o ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado que deixou o União para disputar o Palácio do Planalto pelo PSD.

Num momento em que a polarização parece restringir a política brasileira ao embate entre PT e PL, é hora de prestar atenção no projeto de poder do Republicanos. No melhor cenário, se não perder nenhuma dessas batalhas, o partido poderá começar 2027 governando São Paulo e Minas Gerais, os Estados mais ricos do país, e com os maiores eleitorados. Deverá, ainda, reconduzir o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), para mais dois anos à frente da Casa. Lembrando que o cargo é o segundo na linha de sucessão da Presidência da República, logo depois do vice-presidente.

Toda eleição é uma estrada longa e sinuosa, mas as pesquisas servem de bússolas. Assim, há meses, o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos), que busca a reeleição, lidera a corrida para o governo de São Paulo. Da mesma forma, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) vem encabeçando os levantamentos sobre a disputa para o governo de Minas Gerais.

Há quem enxergue mais longe, para além de onde a vista alcança. Nas projeções para 2030, nos cálculos que consideram o pós-Lula e o fim da polarização, o Republicanos poderá estrear na corrida presidencial com um dos prováveis nomes mais competitivos: Tarcísio de Freitas. Para isso, antes, cabem duas ressalvas: se Tarcísio se reeleger em outubro, e se fizer uma ótima gestão no segundo mandato. “No pós-Lula, sem a polarização, vai se abrir um desenho mais claro para as forças de centro”, disse à coluna uma liderança do Republicanos.

Porém, muito antes que tantos projetos se materializem, há impasses a serem contornados, a começar pela divisão interna, em que uma ala atua para que o Republicanos formalize a aliança com o presidenciável do PL, senador Flávio Bolsonaro (RJ); enquanto outro grupo, que prefere fazer campanha para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, defende que o partido fique neutro no plano nacional.

Quem se opõe à aliança com o PL argumenta que caminhar com Flávio Bolsonaro não é bom para o Republicanos, que tem tudo para continuar crescendo nos próximos cinco anos. O cálculo é de que, se eleito, Flávio poderia ficar até oito anos no poder, e ainda abrir caminho para outro “Bolsonaro” sucedê-lo, enquanto Lula, se reeleito, só terá mais quatro anos no poder. “A vitória do Lula é muito melhor para o Tarcísio e para o Republicanos”, sustenta um aliado do governador. Ele defende que o foco da sigla nestas eleições seja ampliar a bancada federal, hoje com 43 integrantes, e se fortalecer nos Estados. A meta é eleger entre 50 e 55 deputados federais.

Segundo essa fonte, a ala que defende a aliança com Flávio, encabeçada pelos senadores Hamilton Mourão (RS) e Damares Alves (DF), lideranças do bolsonarismo, teve mais influência na virada do ano, mas perdeu fôlego com o desgaste do aliado. A aliança formal com o Republicanos é estratégica para o PL, porque ampliaria o tempo de propaganda eleitoral no rádio e na televisão, que mesmo em tempos de redes sociais, mantém relevância.

Em outra frente, um grupo maior, que contempla lideranças como Hugo Motta, o ex-ministro Silvio Costa Filho e o líder da bancada, deputado Augusto Coutinho (PE), militariam pela independência do Republicanos no pleito de outubro. Em seus Estados - Paraíba e Pernambuco, respectivamente - o partido marchará com o PT.

Mas o partido ainda enfrenta percalços em São Paulo e Minas, mesmo com o favoritismo de Tarcísio e de Cleitinho. No primeiro caso, o governador não tem um time expressivo de prefeitos do lado dele. Mas um aliado minimizou essa ausência. Relembrou que em 2022, ele tinha 9 prefeitos com ele, contra um esquadrão de 550 prefeitos junto com o então governador Rodrigo Garcia (PSDB). “Tarcísio não é um político tradicional, ele consegue se eleger sem os prefeitos com ele”, justificou.

Em Minas, o que se desenha é uma chapa pura: o candidato a vice de Cleitinho seria o ex-prefeito de Patos de Minas Luís Eduardo Falcão, também do Republicanos, ex-presidente da Associação Mineira de Municípios. A principal interrogação continua sendo o próprio candidato: há receio de que na última hora, Cleitinho recue. A principal aposta dos adversários, e o maior temor do Republicanos convergem para a conhecida instabilidade do senador mineiro.

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ALCOLUMBRE TERIA RECEBIDO R$ 155 MILHÕES DE VORCARO

Giovanna Estrela, Metrópoles

Alcolumbre teria recebido R$ 155 milhões de Vorcaro, diz revista

Valor teria sido depositado em conta secreta no exterior e, posteriormente, transferido ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre

A proposta de delação premiada apresentada pela defesa do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, fundador do Banco Master, inclui informações de repasses feitos ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP). Segundo reportagem publicada pela revista Veja nesta quinta-feira (11/6), Vorcaro teria repassado US$ 30 milhões ao senador (R$ 155 milhões na cotação atual).

O montante teria sido depositado em conta secreta no exterior e, posteriormente, transferido a Alcolumbre como contrapartida pelo apoio do parlamentar a uma demanda de interesse do Banco Master. A operação, ainda segundo a proposta de delação, teria sido intermediada por Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro.

Na noite desta quinta, o senador se manifestou sobre o caso, por meio de nota. Alcolumbre diz que as informações “são absolutamente falsas, não procedem” e que serão “enfrentadas com a máxima firmeza”.

“O senador Davi Alcolumbre jamais recebeu valores, no Brasil ou no exterior. Diante da gravidade das acusações e dos danos causados à sua honra e à sua trajetória pública, serão adotadas todas as medidas judiciais cabíveis, nas esferas cível e criminal, para que os responsáveis pelas acusações respondam por suas afirmações e apresentem as provas que dizem possuir”, diz trecho da nota.

As informações constam da segunda proposta de delação premiada apresentada pela defesa do ex-banqueiro, rejeitada pela Polícia Federal na quarta-feira (10/6), conforme noticiou o Metrópoles, na coluna de Igor Gadelha.

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COPA DO MUNDO, O JOGO DO TORCEDOR

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Durante aquelas semanas de 1998, não houvera na cidade de São Paulo nenhum crime, nem mesmo crime violento. O mesmo em outros lugares do país

Quando da Copa de 1998, resolvi fotografar os torcedores no Vale do Anhangabaú diante do telão. Não vi os jogos. Vi emoções e expressões.

Vi o inesperado. O centro da cidade, de lugar do desencontro tenso dos pedestres, desconfiados e antissociais, em questão de alguns minutos, tornara-se lugar de encontro. O centro de São Paulo era conhecido e temido pela ação dos chamados “trombadinhas”, as crianças e adolescentes que assaltavam transeuntes desatentos. Mas havia, também, os “trombadões” que assaltavam idosos e pessoas claramente vulneráveis.

O centro revelava sua face oculta. A suspeita de que as pessoas em situação de rua eram inimigos da sociabilidade civilizada e acolhedora revelava-se profundamente injusta. Comportavam-se como anfitriões, donos e conhecedores da rua. Conversavam com os forasteiros contentes com tanta gente diferente entrando em suas casas: a rua.

Pessoas em situação de rua enturmaram-se com os demais participantes da multidão. Inúmeras pessoas vindas dos bairros distantes, bairros ricos, madames bem-vestidas, bairros operários e de classe média. Vieram para ver a Copa e “ver o povo”. “São iguais a gente”, comentou uma grã-fina.

À medida que as partidas se desenvolviam, com seus momentos emocionantes de alegria ou de tristeza, manifestações claras de solidariedade e de apoio recíproco se multiplicaram. De repente um trombadão abraçado com uma madame. Ou uma pessoa em situação de rua, com um cachecol elegante ao redor do pescoço, seu traje de gala, levara num carrinho de supermercado seu gato de estimação. Explicou-me que quase tudo que conseguia como pedinte gastava com o gato. Veterinário, remédios, comida. O gato era o ser humano do tabique em que morava com o bicho. Seu alter ego.

Eu estava diante de um fenômeno sociológico pouco estudado numa das suas variantes mais inesperadas. O mundo invertido da sociabilidade de multidão. Gustave Le Bon, pioneiro no estudo do assunto, já havia constatado que a situação de multidão promove a emergência, em cada participante, de uma segunda e inesperada personalidade. O eu oculto do avesso.

Minha pesquisa, no Brasil, de 2.028 casos de linchamentos e tentativas de linchamento, mostrou-me que somos portadores de uma variante profunda da estrutura de personalidade que se manifesta em momentos sociais de medo ou de euforia, nas situações sociais de multidão. As pessoas se tornam irreconhecíveis se confrontadas com os padrões cotidianos de sociabilidade.

Uma indicação de mudança de personalidade e de comportamento apareceu nos relatórios policiais relativos aos dias da Copa. Durante aquelas semanas, não houvera na cidade de São Paulo nenhum crime, nem mesmo crime violento. O mesmo em outros lugares do país. Nem linchamentos, a que a situação de multidão é propícia. O primeiro linchamento ocorreu em outro estado poucas horas depois do fim da Copa, com a vitória da França sobre o Brasil por 3 x 0.

Na expectativa da vitória, uma sociedade como a nossa tem comparativamente poucos campos socialmente reconhecidos de afirmação de sua identidade. E insuficientes informações para motivos de orgulho nacional. A emoção da Copa aglutina monumentais emoções identitárias no Brasil pobre delas.

Não obstante haja todos os dias motivos, mas não motivações, para nos orgulharmos com o que muitos brasileiros altruisticamente fazem. Somos um povo criativo e capaz.

Algumas de nossas universidades estão em posições de destaque internacional nos índices de excelência, a USP reiteradamente em primeiro lugar. No entanto, o Brasil do noticiário cotidiano é outro, o dos corruptos e oportunistas. O país inteiro é colocado nas páginas policiais tal a força que a delinquência alcançou entre nós.

Os desafios e esforços do trabalho científico nas universidades brasileiras raramente viram manchete. Se os índices da USP caem um ou dois por cento em relação ao ano anterior, embora continue em primeiro lugar, é essa queda que tem destaque.

Aparentemente não sabemos a diferença entre uma descoberta científica e uma vitória em partida de futebol. Embora a universidade se refaça todo o tempo para ser melhor do que foi no ano anterior. O que a faz a primeira da lista latino-americana na formação de um número crescente de cientistas em todas as áreas de conhecimento.

Diferentemente de uma partida de futebol, isso não se dá por acaso. Pública, laica e gratuita, como a propôs seu fundador, Júlio de Mesquita Filho, a USP foi criada menos de meio século depois da abolição da escravatura, quando o Brasil era um país de analfabetos. Quando as grandes universidades do mundo tinham mais de 600 anos de fundação. Hoje a USP e outras universidades brasileiras competem com elas e são respeitadas.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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quinta-feira, 11 de junho de 2026

MÁS NOTÍCIAS PARA FLÁVIO BOLSONARO

Míriam Leitão, O Globo

O caso Master causou danos à campanha do filho do ex-presidente, mas sua atuação no caso das tarifas também trouxe um viés negativo

O presidente Lula comemorou ontem melhoras pontuais na avaliação geral do governo e em algumas políticas na pesquisa Genial/Quaest. Já o senador Flávio Bolsonaro amargou a má avaliação dos seus atos, palavras e estratégia. A pior notícia para o candidato da extrema direita não foi a maior distância em intenção de votos entre ele e Lula e sim a reprovação da sua conversa com Daniel Vorcaro, do financiamento do filme “Dark Horse”, e do uso do governo americano como parte da estratégia eleitoral. As tarifas foram vistas como prejudiciais às empresas brasileiras e 47% concordam com Lula quando ele acusa Flávio de ter pedido por novas tarifas.

Os ataques tarifários contra a economia brasileira têm sido comemorados pela família Bolsonaro desde o início. Eduardo Bolsonaro, no ano passado, agradeceu ao presidente Donald Trump e disse que os brasileiros compreenderiam “o remédio amargo, mas necessário”. Desta vez, Flávio tentou se desvencilhar e não conseguiu. Diante da pergunta “essas tarifas vão prejudicar a sua vida?”, 55% disseram que sim. Elas são prejudiciais ao país, além de injustas.

Entrevistei ontem o embaixador Maurício Lyrio que fez parte da negociação do Brasil contra as tarifas no ano passado e também da defesa na investigação da seção 301.

— É injusto que o Brasil seja penalizado com as tarifas. O Brasil em 16 anos acumulou déficits de US$ 450 bilhões. A filosofia da atual política comercial dos Estados Unidos é “já que eu tenho déficit com outros países, eu vou pôr tarifas para reequilibrar o comércio”. Só que o Brasil tem déficit. Penalizar o Brasil é um erro — disse o embaixador.

Lyrio lembrou que o intercâmbio entre os Brasil e Estados Unidos já foi 25% de todo o comércio brasileiro. Veio caindo e estava em 12%. No ano passado, pela primeira vez em décadas, o comércio com os norte-americanos foi menos de 10% do total que o Brasil transaciona com o mundo.

A classificação do PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas também é terreno pantanoso para o clã da extrema direita. A opinião pública está dividida sobre a decisão do governo americano. Até na direita bolsonarista 29% avaliam que os EUA não deviam ter tomado essa decisão. Ao todo, 47% acham que Flávio teve influência e 53% acreditam que vai prejudicar bancos e empresas brasileiras. Diante da pergunta sobre quem representa hoje o discurso do patriotismo e defesa dos interesses do Brasil, 47% dizem que é Lula e 37% dizem Flávio Bolsonaro. A bandeira verde e amarela, que os Bolsonaro tentaram monopolizar, está mudando de mãos.

A economia piorou por efeito da crise internacional mas, em várias políticas do setor, o presidente Lula vem colhendo discretas, porém consistentes melhoras. Um contingente maior de eleitores avalia que a economia piorou nos últimos 12 meses. Mas vem caindo. Em abril, eram 50%, agora são 44%.

Houve redução do percentual de pessoas que dizem ter visto mais notícias negativas que positivas. O Novo Desenrola é considerado uma boa ideia por 50% dos entrevistados e má ideia por apenas 25%. Recuou de 28% para 23% o percentual dos que dizem ter muitas dívidas e subiu de 27% para 30% o dos que afirmam não ter dívidas. No segmento dos eleitores com renda até dois salários mínimos caiu de 32% para 23% os que dizem ter muitas dívidas. A isenção do imposto de renda está sendo mais sentida pela população. No segmento até dois salários mínimos, 17% diziam em abril ter sentido o efeito da isenção, em maio, 25% e agora 32%.

Na intenção de votos do primeiro turno, Lula está na frente tanto no voto feminino, quanto no masculino. O atual presidente tem vantagem de três pontos entre os homens e de 17 pontos entre as mulheres. Ganha em todas as faixas etárias e, na escolaridade, perde apenas entre os eleitores com ensino superior. Nos eleitores com ensino fundamental, está 23 pontos na frente. Na simulação de segundo turno, entre eleitores independentes, Lula melhorou oito pontos desde a última pesquisa.

O grande estrago para Flávio Bolsonaro foi o caso Master: 65% avaliam que o senador errou ao pedir financiamento a Vorcaro para o filme sobre Jair Bolsonaro. As conversas entre ambos despertaram suspeitas em 60% dos entrevistados. Além disso, 58% acreditam que o senador pode estar escondendo envolvimento ilegal no caso e 62% consideram que ele sabia do envolvimento de banqueiro em corrupção. Definitivamente, o retrato é ruim para Flávio Bolsonaro.

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MÃO PARADA NO AR

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Às vezes, por educação ou reflexo, apertamos a mão de pessoas que desprezamos

No fim do ano, tive o prazer de recusar a minha ao então governador Cláudio Castro

Num evento de fim de ano aqui no Rio, alguém me alertou para uma pessoa que acabara de adentrar o recinto: o então governador Cláudio Castro, institucionalmente convidado. Vi quando ele cruzou o salão, parando de mesa em mesa e oferecendo sua mão aos participantes de cada grupo. Todos lhe retribuíram, não sei se por educação ou reflexo. De repente, Castro —sem parentesco com o colunista— estava diante de minha mesa.

Éramos cinco, eu na quinta cadeira. Castro estendeu a mão a cada um de meus colegas, que a apertaram com ou sem gosto. Dali a pouco, ela estava apontada na minha direção, à espera do correspondente gesto. Mas, com ar casual, não me mexi, apenas olhei para cima e para os lados, e, como se ela fosse invisível, deixei sua mão suspensa no vazio. Castro, político malandro, não passou recibo —recolheu-a e se dirigiu à mesa seguinte. Com certeza, não era a primeira vez que lhe acontecia. Mas era a minha primeira, e com que prazer.

Já apertei mãos ilustres —Guimarães Rosa, Pixinguinha, Donga, João da Baiana, Pelé, Carlos Drummond, Nelson Rodrigues, Kim Novak, James Stewart, Tony Bennett, Tom Jobim, Juscelino, Tônia Carrero, Di Cavalcanti— e, com a maioria deles, troquei mais de duas palavras. Apertei mãos menos dignas também, ou pelo dito reflexo ou por não poder fugir. Desta vez, tive tempo para premeditar a ofensa. Não foi preciso encarar Castro ou desacatá-lo. A indiferença já era suficiente.

Cláudio Castro, oriundo de Santos (SP) e sem vida política no Rio, é um dos nossos ex-governadores que, com justiça, se viram às voltas com a lei. Seu antecessor foi o também repelente Wilson Witzel, oriundo de Jundiaí (SP) e também desconhecido do eleitor fluminense. Antes deles, Anthony Garotinho, Rosinha Garotinho, Sérgio Cabral e Luiz Fernando Pezão igualmente nos envergonharam.

Sim, é um recorde vergonhoso para um estado. Não sei como são as coisas nos demais. Mas, no Rio de Janeiro, é bom saber que nossos corruptos são investigados, julgados, condenados e, às vezes, presos.

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CONTRA A REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Facções criminosas serão as maiores beneficiadas com a medida

Hoje, 11 mil adolescentes infratores já sofrem privação de liberdade

Qual a melhor alternativa para um adolescente de 16 anos que roubou um celular na rua? Alternativa 1: ser preso para crescer no crime nas prisões brasileiras, onde a taxa de reincidência pode chegar a 50%. Alternativa 2: sofrer internação em unidades socioeducativas com reincidência de menos da metade das prisões.

Nesta quarta (10), a CCJ do Congresso mostrou preferir a alternativa 1: fornecer mão de obra para o crime em vez de investigar infrações graves e favorecer a reabilitação de adolescentes.

O problema com a PEC da redução da maioridade penal é que, além de inconstitucional, a proposta é estúpida e contraintuitiva. Aqui uso o termo "estúpida" no seu sentido lexical: falta à medida discernimento sobre seu impacto. Parte do Congresso finge não ver que os maiores beneficiados pela redução da maioridade penal são, pasme, as facções criminosas. PCC e Comando Vermelho controlam presídios em todos os estados, para onde seus empregados de 16 e 17 anos seriam enviados para escolher entre morrer ou delinquir.

Proponentes da PEC da redução da maioridade penal defendem que se trata de uma medida dura contra o crime. A afirmação, no entanto, é mentira.

Hoje, adolescentes entre 12 e 17 anos já sofrem privação de liberdade (são 11 mil adolescentes infratores no país, ante 960.976 adultos privados de liberdade). A CCJ garantiu, de um lado, o combate a um problema imaginário —uma multidão de homicidas adolescentes contumazes que não existe— e, de outro, assegurou prisões ainda mais abarrotadas como escolas do crime.

O anseio por mais segurança por parte da população é real e deve ser respondido. A redução da maioridade penal não faz isso.

Na terça (9), o Sou da Paz lançou uma pesquisa em que elenca cinco prioridades para a área de segurança, como fortalecer as polícias, mais inteligência para combater o crime organizado e reduzir roubos de celulares, retirar armas ilegais de circulação e proteger meninas e mulheres.

Pôr na cadeia adolescentes de 16 anos não é uma das soluções para a segurança, mas a continuação do seu declínio.

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O PARTIDO CLANDESTINO DA EXTREMA DIREITA

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

Acima de tudo e acima de todos, é um fenômeno de organização profissional: um partido amarrado por uma disciplina férrea

Acontece nas famílias mais fofas. Na sua também, pode admitir. Aos poucos, meio assim do nada, vai aparecendo lá um sobrinho amuado, uma tia falastrona ou um primo de segundo grau com sintomas esquisitos. Primeiro, discretos. Depois, desinibidos. Até que, num dia aleatório, numa terça-feira à tarde, num feriado modorrento ou numa noite de domingo, o quadro fica patente e escarrapachado. O cidadão ou a cidadã assume de vez o seu bolsonarismo extremofrênico. Aí, é tarde demais.

Nos primeiros surtos, há quem tente argumentar. E o desmazelo com a covid-19? O familiar em questão desconversa. E o contrabando de joias? Fake news. E o apoio aos torturadores? Olhos baços se desviam na direção do teto. Só resta desistir. Não tem cura. Por favor, não vá falar do Banco Master. É perigoso, pode gerar reações inamistosas. Na dúvida, não arrisque. E nunca, em hipótese alguma, fale disso na frente das crianças. Exorcismo não funciona.

No princípio, há uns dez anos, a eclosão de casos tinha contornos de epidemia aguda, que logo evoluiu para uma pandemia fora de controle. As pessoas infectadas são distintas umas das outras, mas, de repente, todas assumem trejeitos idênticos, num mimetismo crônico, num automatismo intrigante. O bolsonarismo é pura repetição robotizada.

Até na hora de disfarçar o indisfarçável, os tipos seguem condutas iguais. Todos eles organizam o WhatsApp da turma da escola, aquela que se formou há 20, 40 ou 60 anos. Todos eles disparam mensagens de autoajuda intercaladas com uns videozinhos de amor à cerveja. Depois vem lá, subreptícia, uma ode a Donald Trump. Nenhuma surpresa. O protocolo é invariavelmente o mesmo, copiado, previsível e sufocante.

Então você se questiona: mas de onde vem todo esse acervo de tolices meticulosamente editadas para o celular, em escala industrial? De onde vem tanto mau gosto? Quem abastece as torrentes de sandices? Quem são os fornecedores? Onde ficam os estoques de patacoadas? E mais: como os difusores do contágio conseguem atuar de forma tão coesa? O que explica tanta uniformidade no bojo de alucinação que acomete milhões? Como sujeitos tão diferentes assumiram um padrão de comportamento tão unificado (e tão desagradável)? O que transformou o fanatismo fascista nessa poderosa tropa digital?

As respostas podem não estar apenas na psicologia social ou nas enfermarias psiquiátricas. Talvez a medicina tenha pouco a dizer, por mais que a proliferação dos desvarios carregue tantos indícios de demência clínica. Agora, pistas valiosas nos chegam da Ciência Política. É ela quem tem as lentes que nos deixam ver o lado de dentro do monstrengo que, antes, só conseguíamos observar pelo lado de fora.

No furor das massas hipnotizadas, no abominável histrionismo de extrema direita, dentro daquele feixe caudaloso de desvios comportamentais, mora um bicho inesperado. A sanha de ódio surdo que atropela as boas maneiras domésticas tem por trás de si o arcabouço e a essência de um – pode acreditar – partido político muito bem azeitado.

O bolsonarismo não é só um amontoado de milícias digitais em transe, assim como não é apenas um movimento de redes sociais animadas por influencers ensandecidos. Esse negócio não é só um sucesso de comunicação. Acima de tudo e acima de todos, é um fenômeno de organização profissional: um partido amarrado por uma disciplina férrea. Pior ainda, é um partido na clandestinidade: sua atuação é pública, mas sua máquina é secreta. O partido do bolsonarismo nunca se registrou na Justiça Eleitoral e não presta contas a ninguém. Age como um aparelho influente e centralizado, mas diferentemente das siglas partidárias normais, não tem existência oficial nem personalidade jurídica.

O conceito – inédito e desconcertante – está muito bem exposto e defendido no livro organizado pelos cientistas políticos Marcos Nobre e Ana Cláudia Teixeira, do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap). Título: Partido Digital Bolsonarista. Tratase de “um partido autêntico e não de um conjunto de episódios de atuação mais ou menos coordenada nas redes”, ainda que não caiba “nas definições habituais encontradas no debate público e na literatura especializada sobre o que seja um partido”. A análise se apoia numa pesquisa sólida, que se estendeu por três anos, e em bases teóricas depuradas.

Os organizadores avisam que o estudo ainda é “exploratório, incipiente e preliminar”. O que eles descortinam, contudo, joga uma luz pioneira sobre um aparato bilionário que se escondia nas trevas. O Partido Digital Bolsonarista aprendeu a se valer de todas as plataformas disponíveis na internet para desenvolver uma “dinâmica partidária” própria, com “mecanismos de coordenação” típicos do mundo digital, “não dos partidos convencionais”.

Em linguagem simples, quase jornalística, a obra explica muita coisa, inclusive as abduções teleguiadas daquele seu parente distante, ou mesmo próximo. O livro pode ser acessado e baixado, gratuitamente, no site do Cebrap.

Vale a leitura. 

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quarta-feira, 10 de junho de 2026

GOVERNO TRUMP HUMILHA VISITANTES, E FIFA SE CALA SOBRE XENOFOBIA NA COPA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Entidade lavou as mãos após deportação de árbitro somali e humilhações à seleção do Irã

A bola ainda não rolou, mas o governo de Donald Trump já criou os primeiros embaraços para a Copa do Mundo. Na segunda-feira, o árbitro somali Omar Artan foi impedido de entrar nos Estados Unidos. Ontem o Irã informou que os ingressos destinados a seus torcedores foram cancelados.

Artan era um dos três árbitros africanos escalados para apitar na Copa. Eleito o melhor do continente em 2025, viu seu “maior sonho” ruir no aeroporto de Miami. Detido por 11 horas, foi obrigado a embarcar de volta para a Turquia, onde havia retirado o visto.

O chefe da força-tarefa da Casa Branca para o torneio, Andrew Giuliani, disse que a deportação foi “correta”. Ele é filho de Rudy Giuliani, preso por ajudar Trump na tentativa de roubar a eleição de 2020.

O caso do Irã é ainda mais espantoso. O país deve ser o único dos 48 participantes da Copa a jogar sem torcida. Sua cota de ingressos foi cancelada às vésperas da estreia. Quem comprou os bilhetes com antecedência será impedido de entrar no estádio, mesmo que tenha visto americano.

A seleção iraniana já havia sido submetida a outras humilhações. A equipe jogará em Los Angeles e Seattle na primeira fase, mas recebeu ordens para se hospedar no México. Os atletas terão que entrar e sair dos EUA a cada partida, correndo o risco de novas duras no caminho.

No sábado, o atacante Aymen Hussein, herói da classificação do Iraque, já havia levado uma prensa de sete horas no aeroporto de Chicago. O fotógrafo da seleção, Talel Salah, teve que embarcar de volta para casa.

Trump é um xenófobo convicto. Desde a primeira campanha, dedica-se a insultar e destilar racismo contra imigrantes de países que considera inferiores. No ano passado, chamou os somalis de “lixo”. Inflamados pelo discurso de ódio do presidente, os guardas da esquina fazem o resto do serviço.

Todo país é livre para estabelecer sua política migratória, mas quem não quer receber visitantes não deveria se candidatar a sediar a Copa.

É perda de tempo esperar uma reação da Fifa. Comandada por um notório lambe-botas de Trump, a entidade tem lavado as mãos a cada caso de abuso. Questionada sobre a deportação de Artan, alegou “não se envolver nos processos de imigração dos países-sede”.

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FALTAM IDEIAS E CORAGEM A CAIADO E ZEMA

Vera Magalhães, O Globo

Partidos, analistas políticos e candidatos se acostumaram a uma dinâmica pré-eleitoral que suprimiu de forma dramática, até aqui, qualquer discussão de fôlego sobre diferentes projetos estratégicos para o Brasil. Esse ritual mecanizado consiste em aguardar sempre a próxima pesquisa para, a partir de dados que têm oscilado pouco e confirmado a tendência a uma eleição polarizada, ditar o próximo post, a frase de efeito, a conclusão apressada e a estratégia de tiro curtíssimo. A ausência de aprofundamento e de consistência fica ainda mais gritante quando se olha para os postulantes a quebrar a tendência a que a eleição se decida entre Lula e Flávio Bolsonaro.

Os dois nomes mais experientes nessa liga, os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema, têm percorrido os mesmos roteiros, aparecido nas mesmas agendas, disputado os mesmos chavões e, pior, se empenhado numa espécie de campeonato incompreensível para ver quem atua melhor como linha auxiliar do bolsonarismo.

Quando se sabe que a única chance de qualquer um deles avançar ao segundo turno é no lugar de Flávio, se torna ainda mais difícil entender a dificuldade que têm de se diferenciar, minimamente que seja, do discurso do filho de Jair. Afinal, “propostas” como o indulto ou a anistia ampla ao ex-presidente e a seus aliados são muito mais críveis e esperadas no filho que naqueles que dizem pretender que se vire a página da direita no país.

A condescendência da dupla com a atuação da família no episódio das novas tarifas anunciadas por Donald Trump em relação ao Brasil também salta aos olhos. Creditar tudo ao governo e a Lula é o discurso óbvio para o senador do PL, que corre o risco de ser responsabilizado por parte do eleitorado pelo revés comercial ao país e pela subserviência em relação ao governo dos Estados Unidos.

Mas falta coragem mínima a Caiado e a Zema para sequer fazer a distinção e mostrar como um governo de direita poderia, de forma soberana, defender os interesses do Brasil sem repetir a maneira como os Bolsonaros têm atuado desde que Eduardo se mudou para o Texas.

Existe clara demanda de setores do eleitorado por opções à repetição, pela terceira eleição consecutiva, de um confronto entre o bolsonarismo e o lulismo. As pesquisas mostram isso mês a mês, por meio de diferentes sondagens feitas pelos institutos. Mas não há repertório algum que faça com que se olhe para esses políticos e se enxergue neles um caminho com começo, meio e fim para o governo. O que de diferente fariam em relação a Lula e a Bolsonaro na área fiscal, no meio ambiente, nas relações internacionais e em outras áreas que justifique prestar atenção a suas proposições?

A cada entrevista ou postagem em redes sociais, a opção parece ser sempre por se mostrar opositores a Lula, algo óbvio, mas nunca como alternativas melhores que o outro nome da própria direita. O efeito que isso produz é o eleitor não ver chance de que eles cresçam na pesquisa — a única métrica, diante do deserto profundo de uma mísera ideia nova que seja. Assim, quem quer derrotar Lula segue tapando o nariz para aquilo que eventualmente rejeita no Bolsonaro. E as mesmas pesquisas mostram que a rejeição é alta.

A exceção a essa retranca política parece vir de Renan Santos, líder do Movimento Brasil Livre, pré-candidato pelo Missão e concorrente ao posto de outsider. Por não ter passado na política nem ter vinculação com o tal “sistema”, ele tem aproveitado melhor as deixas para fustigar Flávio em temas como o financiamento de Daniel Vorcaro ao filme “Dark Horse”. Parece ter sido o único a entender uma lógica comezinha: a vaga em mínima disputa no segundo turno é a da direita, já que, neste ano, à esquerda, Lula não terá contendores.

Com militância digital conhecida e familiaridade com temas caros aos jovens e a setores conservadores da sociedade, ele tem chance de se destacar diante da mesmice e da falta de coragem de seus concorrentes da velha guarda cansada de guerra.

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A RÉGUA MORAL DOS EUA

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Episódios recentes reforçam o antiamericanismo mundo afora e expõem a arrogância de um governo que perdeu a mínima noção do que é régua moral e conduta ética

Três incidentes envolvendo os Estados Unidos e nações africanas chamaram a atenção. Mais do que isso: causaram repulsa, indignação, ojeriza. Para não ter que receber um cidadão americano infectado com o vírus ebola, os EUA planejam criar instalações de quarentena no Quênia. Detalhe 1: os centros de isolamento contemplarão tão somente aquelas pessoas nascidas nos Estados Unidos que apresentem sintomas da doença. Detalhe 2: com 58 milhões de habitantes, o Quênia não tem um caso sequer de infecção pelo ebola.

O segundo incidente ocorreu durante o desembarque da seleção senegalesa de futebol em solo norte-americano. Funcionários da Imigração inspecionavam os atletas como se fossem criminosos. Craques como Sadio Mane e Kalidou Koulibaly foram forçados a abrir os braços, tirar os tênis e passar por uma revista com detector de metal ainda na pista do aeroporto. Um tratamento degradante, humilhante e vexatório. O terceiro caso foi o veto à entrada em território norte-americano de um árbitro de futebol da Somália. Outro episódio, que não envolveu um africano, foi não menos vergonhoso: a proibição de venda de ingressos a cidadãos iranianos. 

Mais: os casos denotam a pretensa superioridade dos Estados Unidos e a discriminação racial e étnica absurda, típica do imperialismo colonialista que subjuga, oprime e explora. A ideia de enviar americanos infectados com o ebola para um país da África livre do surto, e não tratá-los em hospitais dentro dos Estados Unidos, é deprimente, ainda que nada surpreendente, ante a política de xenofobia do presidente Donald Trump.

A recepção vergonhosa aos jogadores do Senegal para a Copa do Mundo, um evento que prega a união entre os povos e a harmonia entre as torcidas, deveria merecer a máxima condenação da comunidade internacional e da Fifa, organizadora do principal torneio de futebol do planeta. O mínimo que se deveria esperar era um pedido de desculpas contundente da Casa Branca para o Senegal, a União Africana e a Fifa. Fosse no Brasil, vexames assim não aconteceriam jamais. Somos uma nação que acolhe e abre os braços para visitantes de todo o mundo. Sem preconceito. 

Os incidentes citados acima apenas reforçam o antiamericanismo mundo afora e expõem a arrogância de um governo que perdeu a mínima noção do que é régua moral e conduta ética. Em Nayuki, a 180km da capital queniana, Nairóbi, e local onde os Estados Unidos construirão a famigerada instalação de quarentena, centenas de pessoas saíram às ruas para protestar. Foram recebidas à bala, a golpes de cassetete e a gás lacrimogêneo. Um civil foi morto durante o confronto com a polícia. 

Proponho um exercício mental: imagine que, de repente, os Estados Unidos queiram improvisar um centro de infectados por ebola em uma região administrativa do DF para enviar cidadãos contaminado. Ainda que houvesse um acordo entre o Palácio do Planalto e a Casa Branca, seria algo no mínimo questionável do ponto de vista ético e moral, não é?

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AS LIÇÕES DO "TERRORAÇO"

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Com a ilusão de que isso reduzirá a violência dos batedores de carteira das esquinas e dos corredores do Estado, o povo aceita a vergonha de sermos um país associado ao terrorismo e, consequentemente, perdermos parte de nossa soberania

Além da vergonha nacional, a inclusão do Brasil entre os países que abrigam grupos terroristas nos impõe algumas lições.A primeira é reconhecer que fracassamos na luta contra o crime. Primeiro Comando da Capital (PCC), Comando Vermelho (CV) e outras facções são apenas a face mais ostensiva da violência que caracteriza a sociedade brasileira: desigualdade, pobreza, analfabetismo, batedores de carteira nas esquinas, assaltantes nos corredores do Estado por meio de supersalários, penduricalhos, desperdícios, privilégios e ostentação.

A segunda lição é que, durante décadas, deixamos de fazer o dever de casa: construir uma sociedade harmônica, sobretudo por meio de uma educação básica de qualidade para todos. Há 60 anos, Darcy Ribeiro nos alertava que ou fazíamos escolas ou teríamos de fazer prisões. Preferimos outras prioridades e não implantamos um sistema nacional de educação pública com máxima qualidade e absoluta equidade.

A terceira lição é que, com a ilusão de que isso reduzirá a violência dos batedores de carteira das esquinas e dos corredores do Estado, o povo aceita a vergonha de sermos um país associado ao terrorismo e, consequentemente, perdermos parte de nossa soberania. Duzentos anos depois de conquistarmos a independência, corremos o risco de aceitar a perda de soberania em troca da promessa de paz nas ruas.

A quarta lição nos ensina que os defensores da submissão não são apenas um ou outro político, mas também seus partidos e correligionários. A disputa eleitoral está concentrando a crítica pelo servilismo em apenas um candidato à Presidência, mas deve alcançar todos os políticos antipatriotas e seus partidos. Dois séculos depois de declararmos nossa independência de Portugal, poderemos ter uma eleição entre partidos que defendem a submissão do Brasil à vontade de um governo estrangeiro e partidos que defendem a cooperação internacional com preservação da soberania nacional. Além dos candidatos à Presidência da República, há dezenas de candidatos aos governos estaduais, ao Senado, à Câmara dos Deputados e às Assembleias Legislativas que adotam posições contrárias aos interesses e à independência do Brasil.

A quinta lição é que transferir para um governo estrangeiro a luta contra o PCC e o CV representa um retrocesso aos tempos coloniais ou ao período da ditadura militar, quando um embaixador brasileiro em Washington afirmou que "o que é bom para os Estados Unidos é bom para o Brasil". Mesmo reconhecendo o fracasso dos governos federal e estaduais no combate à violência urbana e ao crime organizado — com parlamentares que empregam criminosos, convivem com milícias, elogiam e condecoram bandidos ou recebem financiamento eleitoral de organizações criminosas —, a perda de soberania afeta negativamente todos os brasileiros. 

Ao integrarmos o conjunto de países associados ao terrorismo, os turistas poderão hesitar em visitar nossas cidades ao lembrarem que temos grupos comparáveis ao Boko Haram, à Al-Qaeda ou ao Hamas. Ficaria legitimada, ainda que improvável, a hipótese de bombardear morros do Rio de Janeiro para eliminar terroristas, da mesma forma que Gaza e Líbano são bombardeados sob esse argumento. A suspeita de que um banco ou outra empresa mantenha relações com o crime organizado poderá levar seus dirigentes a perderem o visto de ingresso nos Estados Unidos ou até mesmo serem mortos legalmente sob a legislação norte-americana. Da mesma forma, caso haja suspeita de que alguns dos iates ancorados na Baía de Botafogo transportem drogas, os órgãos de defesa dos Estados Unidos poderão sentir-se autorizados a atacá-los, como fazem com embarcações no litoral colombiano. Também poderiam sequestrar cidadãos brasileiros suspeitos de envolvimento com grupos classificados como terroristas: advogados que os defendem, operadores financeiros que movimentem seus recursos, dirigentes de bancos onde sejam depositados lucros oriundos do crime, juízes que tenham proferido sentenças favoráveis ou parlamentares que tenham empregado ou condecorado integrantes dessas organizações.

A sexta lição é que, na disputa entre os "partidos da soberania" e os "partidos da submissão", o Brasil precisa que os eleitores rejeitem candidatos vinculados a partidos contrários à nossa independência. Em 2025, o tarifaço de Trump nos uniu; em 2026, o "terroraço" deve nos unir em defesa da soberania nacional, baseada na cooperação internacional, jamais na submissão ao governo de outra nação.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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terça-feira, 9 de junho de 2026

O CAMINHO DO DINHEIRO

Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Mauricio Moraes, The Intercept Brasil

EXCLUSIVO: Planilha e comprovante bancário mostram como Vorcaro enviou dinheiro aos EUA para financiar ‘Dark Horse’

Desde a publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, um dos esforços de aliados do senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, tem sido convencer o público de que as revelações não se sustentam. Uma das vozes na tentativa de deslegitimar o nosso trabalho tem sido a do comentarista Paulo Figueiredo.

“Começaram com o Intercept dizendo que eram 134 milhões do Vorcaro pro filme. Caiu para 61 milhões no Metrópoles. Depois, 2 milhões no Globo. Já já vocês vão descobrir que NÃO TEM dinheiro do Vorcaro no filme”, escreveu o aliado da família Bolsonaro no X, em 13 de maio.

A tese de discrepância nos valores ganhou força a partir de postagens falsas compartilhadas por parlamentares e páginas bolsonaristas, alegando que o Intercept teria recuado das informações, “pedido desculpas” ou admitido não possuir provas de que Daniel Vorcaro financiou o filme “Dark Horse”, a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Isso já foi amplamente refutado.

A alegação é mentirosa por vários motivos, mas o mais importante deles é que a primeira reportagem da nossa série sempre distinguiu dois números importantes para entender a negociata: os 24 milhões de dólares (R$ 134 milhões, em valores convertidos pela cotação da época) negociados por Flávio Bolsonaro com Vorcaro para financiar o filme; e os 10,6 milhões de dólares (equivalentes, naquele período, a R$ 61 milhões) efetivamente pagos.

Uma semana depois, em 20 de maio, Figueiredo questionou se o trabalho do Intercept revelaria, de fato, “transações financeiras”. E acrescentou: “Se não vierem (como Flávio jura e como eu acredito, até o momento), a credibilidade voltará aos poucos”. Pois bem: a edição desta semana da newsletter Cartas Marcadas traz documentos inéditos que comprovam de maneira irrefutável que houve repasses financeiros.

Planilha detalha fluxo de pagamentos

Além de mensagens, o Intercept teve acesso a planilhas, contratos, comprovantes bancários e registros financeiros que permitem reconstruir parte do caminho percorrido pelo dinheiro para bancar “Dark Horse”.

O primeiro documento é uma planilha intitulada “Funding Schedule”, apresentada nas conversas como o cronograma de financiamento do projeto. O arquivo registra uma operação de quase 24 milhões de dólares — o equivalente a R$ 134 milhões na cotação da época — e detalha tanto os aportes previstos quanto os valores efetivamente recebidos pelo fundo ligado à produção.

O cronograma previa 14 desembolsos entre janeiro de 2025 e janeiro de 2026. As duas primeiras parcelas foram de 2 milhões de dólares cada, inicialmente previstas para 20 e 25 de janeiro de 2025, mas efetivamente pagas em 13 de fevereiro e em 24 de março, segundo a planilha.

As outras 12 foram fixadas em 1,66 milhão de dólares cada – a primeira delas também foi paga em 24 de março, outras duas em 25 de abril e mais uma em 29 de maio. Ao final do cronograma, o total recebido indica uma soma de 10,6 milhões de dólares.

Essa tabela sobre os pagamentos foi encaminhada em 7 de agosto de 2025 pelo empresário Thiago Miranda a Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, acompanhada da observação: “Duas em atraso e está para vencer a terceira agora em agosto”. Miranda recebeu uma resposta curta de Vorcaro: “Segunda fazemos duas”.

A mensagem é relevante porque sugere que novos desembolsos estavam sendo discutidos naquele momento, o que pode significar que o valor efetivamente pago tenha ultrapassado os 10,6 milhões de dólares.

Um cronograma semelhante havia sido encaminhado pelo próprio Daniel Vorcaro ao pastor Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro do banqueiro, meses antes, em 12 de março de 2025. Segundo mensagens obtidas pelo Intercept, Vorcaro enviou o documento e deu duas orientações: “precisa me ajudar controlae isso” e “tem que pagar a segunda e a terceira”.


Zettel respondeu logo em seguida: “Vou pra cima do Mineiro. Passei o fluxo pra ele. Achei que ele tava fazendo”. O “Mineiro” citado na troca de mensagens seria Antônio Carlos Freixo Júnior, executivo ligado à Entre Investimentos e Participações, empresa que fez a transferência bancária.

Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver uma conexão entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo registros obtidos pelo Intercept, Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.

Comprovante bancário detalha operação

Outro documento que chama atenção é o comprovante da primeira transferência internacional da operação, emitido pelo sistema SWIFT, utilizado por instituições financeiras para operações entre diferentes países. 

O registro é datado de 13 de fevereiro de 2025 e confirma a remessa de 2 milhões de dólares ao Havengate Development Fund LP, controlado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Segundo o comprovante, a operação teve como remetente a Entre Investimentos e Participações Ltda. O pagamento foi processado por meio do Banco BS2 e destinado a uma conta do Havengate vinculada ao JPMorgan Chase Bank. O comprovante contém os códigos de identificação da transferência, os dados das instituições envolvidas, as referências da operação e os registros de liquidação exigidos pelo sistema financeiro internacional.

O extrato registra o que seria a primeira transferência internacional para financiar “Dark Horse” e demonstra o funcionamento na prática da operação descrita nas mensagens.


Esse comprovante, inclusive, consta em uma série de mensagens trocadas entre Zettel e Vorcaro sobre dificuldades para concluir a operação. Em 5 de fevereiro, Zettel informou ao banqueiro que o câmbio do Banco Master estava criando obstáculos para a transferência destinada ao filme.

Durante a conversa, os dois discutiram alternativas para viabilizar o envio dos recursos ao exterior e acabaram decidindo recorrer à estrutura da Entre Investimentos e Participações Ltda, empresa que aparece como remetente no comprovante de transferência bancária.

Embora a Entre Investimentos e Participações e Vorcaro neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes, documentos obtidos pelo Intercept e reportagens publicadas por Metrópoles e Estadão sobre investigações em curso indicam haver uma uma conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro.

Menos de dez dias depois, em 14 de fevereiro, Zettel encaminhou a Vorcaro o comprovante emitido pela rede SWIFT acompanhado de uma única palavra: “Filme!”. A mensagem foi enviada um dia após a liquidação da operação de 2 milhões de dólares destinada ao Havengate Development Fund LP, exatamente a transferência cuja realização vinha sendo discutida nas conversas anteriores.


Outro lado

O Intercept entrou em contato com Paulo Calixto, Thiago Miranda e  Antônio Carlos Freixo Júnior. Também procuramos as defesas de Fabiano Zettel e Daniel Vorcaro, que estão presos. Não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

O Grupo Entre, em nota, informou que “realiza suas operações em conformidade com as normas e regulamentações aplicáveis ao setor financeiro”. Também disse que a empresa tem “compromisso com a integridade, a transparência e o cumprimento” da lei e está “à disposição das autoridades competentes sempre que necessário”.


Os documentos revelados nesta edição estão longe de encerrar a história. Pelo contrário. Eles ajudam a responder algumas das perguntas levantadas desde a publicação da primeira reportagem da série Vaza Flávio, mas também abrem novas frentes de investigação sobre a origem dos recursos, o papel desempenhado por cada personagem envolvido na operação e o destino final de parte do dinheiro movimentado.

A equipe do Intercept segue investigando e cruzando informações com documentos públicos, registros empresariais e novas fontes. Esse trabalho já permitiu localizar documentos inéditos que não faziam parte das primeiras reportagens e que lançam nova luz sobre as relações financeiras, empresariais e políticas reveladas pelo caso. 

Como sempre, a apuração também depende da colaboração de leitores, fontes e denunciantes. Se você possui documentos, mensagens, contratos, gravações, planilhas ou qualquer informação relevante relacionada a esta investigação — ou a qualquer outro tema de interesse público —, entre em contato com o Intercept por meio dos canais disponíveis em nosso site. Todas as orientações para envio seguro de informações estão disponíveis aqui.

Até semana que vem!

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RELAÇÃO BRASIL-EUA: LIMITES DA AMIZADE

Artigo de Fernando Gabeira

Nunca me senti confortável com a importância que a imprensa dá à proximidade dos candidatos com Trump. Tanto a fidelidade canina da família Bolsonaro como a química que o uniu a Lula enfraquecem uma análise mais fria sobre interesses dos dois países.

Compreendo que Lula tenha certo orgulho da simpatia de Trump. Afinal, o poder de sedução atravessou barreiras ideológicas confirmando seu prestígio internacional. Na hora do vamos ver, a situação se revela com toda a crueza. Ao apresentar sua política para o continente, os Estados Unidos fizeram uma grande reunião na Flórida. Foi lançado o Escudo das Américas, aliança contra o crime organizado e imigração ilegal. O Brasil ficou de fora, assim como Colômbia e México. Em discurso no Congresso, Marco Rubio nomeou os países que não se alinhavam com a política americana. Entre eles estava o Brasil.

É nesse contexto que temos de analisar alguns movimentos da política em relação ao nosso país. Um deles, a classificação de terrorismo imposta a PCC e Comando Vermelho. Não foi uma decisão importante para uma política de Estado. Vinha sendo avaliada havia muito tempo. Mas a oportunidade de sua oficialização deu uma pequena ajuda ao pré-candidato Flávio Bolsonaro, sem dúvida preferido dos americanos. A preferência explícita acabou trazendo grande desgaste a Flávio quando se anunciaram novas tarifas.

Embora seja um discurso muito eficaz de campanha, as tarifas não foram feitas para a família Bolsonaro. Não se pode analisá-las sob essa ótica de quarteirão, como se fossem obra dos Bolsonaros, dos Morales, dos Bertrands, dos Millers, dos Johnsons. Elas são uma política global de Trump. Já foram tentadas de forma autoritária e anuladas pela Suprema Corte. Agora, Trump volta à carga, usando a seção 301 de uma lei comercial para dar verniz legal a sua determinação.

Há muita coisa injusta nas razões que punem o Brasil. Uma delas é a denúncia de trabalho forçado, algo muito combatido num governo de esquerda, assim como o desmatamento. Os americanos não parecem muito preocupados com precisão nem coerência. Tanto que, no caso da carne, abrem uma exceção. Se o trabalho forçado é para produzir carne, então tudo bem.

É evidente que tudo isso será processado pelas narrativas eleitorais. Mas o Brasil precisa manter um olhar frio e uma prática profissional para atenuar o impacto das medidas e compreender a realidade americana como ela é. Nessa luta planetária contra o poder ascendente da China, os americanos podem passar por várias fases.

Nem a devoção da família Bolsonaro nem a química entre Trump e Lula são proteções estratégicas. Precisamos discutir caminhos, e eles estão um pouco ofuscados no valor cultural da amizade, algo que cultivamos no Brasil. Entre países, não há amigos, apenas interesses. Não significa que devamos abandonar o bom humor e a abertura para novas amizades. Sempre ajudam.

Artigo publicado no jornal O Globo em 09 / 06 / 2026

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segunda-feira, 8 de junho de 2026

A RELEVÂNCIA DE 'A NOBREZA DO AMOR '

Preto Zezé, O Globo

Sem negar a história, a novela apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos

Nos conselhos empresariais, consultorias e ambientes de decisão, costumo defender uma ideia simples: toda transformação relevante começa por um diagnóstico honesto dos problemas e pela construção de soluções para não repetir os mesmos erros. Mas existe uma segunda etapa igualmente importante: reconhecer avanços, celebrar conquistas e tornar visíveis as mudanças alcançadas. Uma sociedade amadurece quando aprende com seus erros e transforma seus acertos em referência para o futuro.

Faço essa reflexão porque ela ajuda a olhar para a televisão brasileira. Durante décadas, a teledramaturgia ajudou a construir o imaginário nacional e também refletiu os limites de cada época. A presença negra existia, mas muitas vezes condicionada a lugares estreitos. O problema nunca foram o humor, o romance ou os personagens populares. O problema era a limitação das possibilidades. Personagens negros podiam emocionar, divertir e marcar gerações, mas raramente ocupavam a complexidade reservada aos protagonistas.

Reconhecer esse passado não significa negar a importância da televisão brasileira. Significa compreender o caminho que nos trouxe até aqui e perceber que mudanças importantes têm acontecido. É por isso que “A nobreza do amor” merece atenção. Sua relevância não está apenas em colocar uma princesa africana no centro da trama, mas em registrar uma mudança de tempo.

O aspecto mais interessante da obra é ampliar o repertório simbólico oferecido ao público. Os personagens negros aparecem associados ao amor, à beleza, ao poder, à estratégia política, aos sonhos e aos dilemas universais da condição humana. Durante muito tempo, a discussão foi garantir presença. Agora começamos a discutir amplitude e complexidade.

A novela não faz da pluralidade apenas um tema. Aparece na própria criação, no encontro entre pesquisa histórica, referências da diáspora africana, dramaturgia popular, estética contemporânea e diferentes formas de interpretar a experiência negra. A história não ignora desigualdades nem conflitos históricos. Apenas recusa a ideia de que esses sejam os únicos lugares possíveis para seus personagens.

Há também um aspecto que merece destaque. E aqui nem falo apenas do elenco, que reúne novos e já consolidados talentos. A riqueza da obra está no encontro de diferentes saberes, experiências e repertórios. Muitas das melhores narrativas surgem quando trajetórias diferentes colaboram sem que uma precise apagar a outra. A pluralidade fortalece a criação.

Essa mudança aparece na maneira como a África é apresentada. Por muito tempo, a imagem do continente oferecida ao público brasileiro esteve associada quase sempre à escravidão, à pobreza ou aos conflitos. “A nobreza do amor” amplia essa lente. Sem negar a história, apresenta também uma África ligada à cultura, aos afetos, à sofisticação, à política e à construção dos próprios destinos.

Isso importa porque imaginários têm consequências concretas. Uma sociedade também se transforma pelas histórias que conta sobre si mesma e pelas possibilidades que aprende a enxergar.

As novelas sempre foram um espelho do país. Mas alguns espelhos fazem mais que refletir. Talvez a verdadeira nobreza dessa história esteja aí: ampliar possibilidades, renovar imaginários e mostrar um Brasil mais complexo e mais interessante do que aquele que aprendemos a enxergar durante muito tempo.

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domingo, 7 de junho de 2026

FLÁVIO BOLSONARO CONTRA O PIX

Celso Rocha de Barros*, Folha de S. Paulo

Bolsonarismo conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição

Graças à influência da quinta coluna bolsonarista, uma parte expressiva da população brasileira dará razão a Trump

Com a ajuda da Casa Branca, o bolsonarismo tornou-se o único movimento político que conseguiu aumentar os impostos dos brasileiros estando na oposição.

Para piorar, o "Tariflávio" de Trump incluiu uma ameaça explícita ao Pix: é como se Trump tivesse dado a Lula uma versão anabolizada do vídeo de Nikolas Ferreira do ano passado —e agora a ameaça ao Pix é real.

Para não deixar dúvida de que o bolsonarismo pretende matar o Pix por ordem de Trump, Eduardo Bolsonaro gravou vídeo sugerindo que o Brasil negociasse com os Estados Unidos a adoção do Zelle, um sistema de pagamentos americano que é mais lento, exige que se abra conta em um grande banco americano (que compensa nas tarifas a "gratuidade" do sistema) e tem uso muito mais restrito.

De qualquer forma, a aversão dos filhos de Bolsonaro aos mecanismos de pagamento automático é conhecida. Na hora de comprar seus imóveis, nunca usaram o Pix, nunca usaram o Zelle, sempre preferiram pagar em dinheiro vivo.

No dia do Tariflávio, Trump postou a imagem de Flávio na Casa Branca com elogios ao candidato.

Foi notável, porque Trump não tinha postado nada no dia da visita dos irmãos Bolsonaro. Até o Tariflávio, Trump tinha encarado a foto como um compromisso social inútil.

Com o Tariflávio, Trump lembrou que os bolsonaristas tinham, afinal, uma utilidade: reduzir o poder de reação do Brasil a uma evidente ameaça à sua soberania. Graças à influência da quinta coluna bolsonarista, uma parte expressiva da população brasileira dará razão a Trump, ou, ao menos, reagirá com muito menos indignação do que reagiria se a direita brasileira fosse dirigida por brasileiros.

A quinta coluna bolsonarista também serve como instrumento de pressão contra o governo brasileiro. É como se Trump dissesse a Lula: se você não topar me entregar as riquezas brasileiras, eu posso bancar esse puxa-saco que me entrega tudo. E ele não está tão atrás de você assim nas pesquisas.

O Tariflávio não vai quebrar o Brasil, mas deve causar prejuízos nos setores mais afetados. Brasileiros vão perder emprego, empresas brasileiras podem falir, porque os direitistas brasileiros entregaram a liderança de seu movimento para a Casa Branca.

Flávio Bolsonaro aceitou entregar o Pix e a saúde de nossa indústria em troca de uma foto com Trump que fizesse o público esquecer do Banco Master.

Mas o que deveríamos nos perguntar é o seguinte: o encontro com Trump foi pago com dinheiro roubado pelo Master? Foi pago com outros desvios cometidos pelos bolsonaristas?

O lobby é permitido por lei nos Estados Unidos. Há empresas especializadas em vender acesso às autoridades americanas. Os irmãos Bolsonaro utilizaram serviços como esses para ter acesso à Casa Branca? Lobistas americanos são muito, muito caros.

Ou seja: é perfeitamente possível a hipótese de que os irmãos Bolsonaro tenham comprado o direito de ir até a Casa Branca trair o Brasil com dinheiro roubado pelo Master de aposentados do Rio de Janeiro, com dinheiro que a Prefeitura de São Paulo deu para a produtora de "Dark Horse".

Aliás, se "Dark Horse" tiver mesmo sido um veículo para corrupção e traição ao Brasil, a história de sua produção contará a vida de Jair Bolsonaro muito melhor do que o roteiro do filme.

*Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de "PT, uma História"

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sábado, 6 de junho de 2026

DANIEL VORCARO PROPÕE ACORDO DE DELAÇÃO SELETIVO E ESCULACHADO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Quantas chances a Procuradoria-Geral da República e a Polícia Federal darão ao banqueiro do Master?

Daniel Vorcaro tem esculachado – sob novos graus de esculacho – a já esculachada colaboração premiada brasileira, cuja matriz a serviço do interesse público está posta em xeque novamente, pela preponderância da má-fé de um corruptor obstrutor da Justiça que opera os recursos de uma concessão excepcional do Estado para proteger o próprio patrimônio; também a sua porção imaterial...

Quantas chances lhe darão Procuradoria-Geral da República e Polícia Federal? Quantas, se as investigações estão lá na frente – capazes já de lhe prescindir da palavra – e o tipo insiste em gerir a negociação como instrumento de defesa de mão única, protelatório, com contrapartida debochante e plantador de condições para nulidades?

Será o caso de lembrar que os senhores que comandam as instituições portas de entrada para o acordo, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, sentaram-se à mesa do clube do uísque londrino de Vorcaro, em abril de 2024, com os delatáveis Alexandre de Moraes e Dias Toffoli. Hugo Motta estava lá. Clube do uísque vorcárico cuja versão nova-iorquina, de maio daquele ano, teria Ciro Nogueira, Cláudio Castro e o onipresente Motta.

(Será o caso de lembrar a mensagem de Vorcaro à noiva, em março de 2025, poucos dias antes do anúncio do memorando de entendimento para a compra do Master pelo BRB: “Acabou chegando hugo e ciro aqui para falarem com alexandre”.)

Confrarias que tanto impõem nomes incontornáveis, cujas ausências em propostas de delação redefiniriam o conceito de escárnio, quanto explicam a essência peculiar da colaboração premiada à brasileira. Colaboração premiada à brasileira, exposta no contrato firmado por Mauro Cid, cuja delação foi reformada até entregar – não será crença inverossímil – o que Xandão queria. Ninguém – da inteligência jurídica influente – reclamou; ninguém, entre os virtuosos defensores monopolistas do estado democrático de direito. Era um golpista, afinal.

Com Vorcaro, consideradas as relações do sujeito em (a partir de) Brasília e a natureza de seus golpes (cuja prosperidade dependeu desses relacionamentos), as reações são diferentes, em disputa o controle sobre a delação seletiva do cara; sobre a capacidade de lhe denunciar a delação seletiva. Dado – admitido – que a delação será seletiva, lançada está a campanha por não estar nela; no que formará a plantação na imprensa de ministros do Supremo preocupados com a carga pública para que o banqueiro entregue ministros do Supremo.

Disputa-se o benefício da mentira. O benefício de fazer prevalecer o texto segundo o qual a invisibilidade do “elefante pintado de azul” (apud Flávio Dino), que engordava charutando pela Praça dos Três Poderes, derivaria da incompetência dos fiscais – e não de estarem todas as turmas sobre o bicho Master.

Para (por ora) a tranquilidade geral do sistema de poder no Brasil, Vorcaro, amante do cinema e da hotelaria nacionais, parece insistir – no que seria mais uma oferta de acordo – na tese de que distribuía milhões a autoridades, com ou sem contrato, “por amizade”. Os gonets querem acreditar.

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UMA SEMANA DEVASTADORA PARA A PROTEÇÃO À INFÂNCIA

Flávia Oliveira, O Globo

O que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização - o avesso do cuidado

Foi uma semana devastadora para quem acredita, como reza o provérbio africano, que é preciso uma aldeia inteira para educar uma criança. A frase diz respeito à atribuição compartilhada por família, comunidade, escola, Estado, para garantir vida saudável, confortável, digna a meninas e meninos, Brasil e mundo afora. Neste limiar de junho, o que se viu foi brutalidade, desatenção, abandono, revitimização — o avesso do cuidado, enfim.

No domingo passado, Bento Bezze, de 12 anos, foi vítima de um tiro disparado por criminosos na quadra do condomínio onde morava na Pavuna, Zona Norte carioca. Festejava a Primeira Comunhão de uma amiguinha; morreu nos braços do irmão, um ano mais velho. O Instituto Fogo Cruzado já contou, neste ano, duas dezenas de crianças e adolescentes alvejados por disparos de arma de fogo no Grande Rio. Em uma década, foram 778 menores baleados.

Não é por acaso que, na pesquisa Datafolha para o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, ser atingido por bala perdida, com 77,5% de menções, é o sexto entre 13 pavores da população em relação à violência. O primeiro, não muito distante, é ser alvo de golpe financeiro via internet ou celular (83,2%). Na mesma consulta, 13,1% dos brasileiros disseram que já tiveram parente ou conhecido assassinado, num total de 21,9 milhões de pessoas. Um em dez (9,7%), cerca de 16,1 milhões, foi vítima ou soube de alguém atingido por bala perdida. A proporção aumenta entre quem se declara negro e na população de baixa renda, predominantemente preta e periférica.

Na terça-feira, o Senado deu seu quinhão em desfavor das meninas do Brasil, ao sustar a resolução do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda) que orienta a interrupção legal de gestação em menores de idade. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), concluiu a votação do relatório da senadora Damares Alves (Republicanos-DF), ex-ministra da Família e dos Direitos Humanos, em menos de dois minutos. Não autorizou apartes e orientou os colegas favoráveis ao projeto a permanecer imóveis, ato que ratifica a votação simbólica, sem digitais.

De uma só vez, o Congresso restringiu o acesso a um direito previsto em lei desde 1940. Tirou proteção a meninas e adolescentes, portanto. No Brasil, o aborto é permitido em caso de estupro, risco de vida para a gestante e feto anencéfalo — neste caso, por decisão do Supremo Tribunal Federal (STF). Sexo com menores de 14 anos é estupro. A resolução do Conanda regulava procedimentos: do treinamento de profissionais para identificar e lidar com situações de violência sexual à assistência integral às vítimas. A última edição do Atlas da Violência, referente a 2024, identificou 29.135 notificações de violência sexual contra crianças de 5 a 14 anos; na faixa etária de 15 a 19, foram 6.869 casos. Entre as vítimas, 86,7% são meninas.

De tão recorrente e naturalizada a violência contra a infância em território nacional, uma estelionatária de 37 anos se passou por uma adolescente de 12, traumatizada por abusos e violência sexual. Conseguiu enganar, por 14 meses, a família que a abrigou em Santa Catarina, depois de aplicar o mesmo golpe em outros cinco estados (PR, MG, RJ, GO e CE).

Em pleno feriado de Corpus Christi, o Rio amanheceu com o veredito do caso Henry Borel, o menino de 4 aninhos morto, em 2021, em decorrência das agressões cometidas pelo padrasto, o então vereador Doutor Jairinho. O assassino foi condenado a 43 anos, nove meses e 20 dias pela barbárie. À mãe do menino, Monique Medeiros, foi concedido o perdão judicial pela presidente do II Tribunal do Júri do Rio, Elizabeth Machado Louro.

Para justificar a decisão, a juíza evocou a “reação desproporcional e desmesurada da sociedade em geral” contra a acusada; citou discriminação de gênero influenciada pela cultura patriarcal, misoginia, massacre em redes sociais e ataques praticados por agentes da custódia e detentas. Elizabeth Louro não errou ao mencionar a violência recorrente e o ódio contra mulheres no ambiente virtual. Mulheres são agredidas diuturnamente. Monique foi, sim, atacada.

Mas o que estava em julgamento era seu envolvimento na morte da criança que, como mãe, ela tinha o dever de proteger. Os jurados consideraram que a ré praticou, contra o filho único, tortura por omissão e homicídio culposo, quando não há intenção de matar. A juíza extinguiu a pena por assassinato e condenou a mãe a um ano e quatro meses por tortura. Monique deixou a prisão na tarde do julgamento. Foi liberada por já ter cumprido a pena.

O Ministério Público do Rio apresentou recurso ao TJ-RJ solicitando anulação do perdão, aumento da pena e cumprimento em regime fechado. Juristas não descartam a hipótese de novo julgamento, em razão da desclassificação (troca) pelo júri do crime de homicídio doloso por culposo. O promotor Fábio Vieira alega que a juíza alterou, na sala de sentença, uma das perguntas sobre o crime, o que pode ter provocado a mudança de opinião dos jurados. Ainda está por vir o desfecho de mais este crime que comoveu o país.

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