terça-feira, 28 de abril de 2026

TERRAS RARAS NÃO SÃO FARELO DE SOJA

Roberto Amaral, Carta Capital

Não se trata de panaceia de um projeto nacional, mas sua entrega ao capital estrangeiro tende a reafirmar a posição do Brasil como economia primário-exportadora

A ciência política, na sociedade globalizada pelo capitalismo monopolista, nos fala de uma soberania nacional relativa, fragmentada. O conceito cobra a revisitação da ciência política, tal sua fragilidade e imprecisão no quadro da ordem internacional em crise, quando as forças que contam — e são as potências nucleares — ferem de morte o multilateralismo, abandonam as mesas de negociações e adotam o baraço e cutelo — a guerra tour court — como ponto de partida e ponto de chegada do diálogo de uma só voz. Como o diálogo do cordeiro com o lobo, consagrado por Jean de La Fontaine.

A realidade de hoje é a de um mundo em guerra, aflito; um mundo de interrogações e receios, um presente de conflitos em série que nos faz temer o futuro. Até aqui, sugerindo-nos alívio, os senhores da guerra têm conseguido manter sob algum controle suas operações, e vêm mantendo mais ou menos circunscrito o teatro onde despejam bombas, matam civis, destroem cidades. Mas, ensina-nos a história, o rastilho de pólvora quase sempre realiza seu destino.

A guerra que os EUA, auxiliados pelas tropas do sionismo, promovem contra os palestinos, os libaneses e o povo iraniano — uma civilização de mais de 4 mil anos que Donald Trump, perigoso criminoso de guerra à solta, prometeu fazer retornar à idade da pedra — integra uma estratégia maior, bem mais complexa, porque cuida da disputa com a China em moldes que lembram a Guerra Fria dos tempos do confronto URSS-EUA. 

O conflito de hoje, porém, já pervade o mundo, caminhando por outros meios, atingindo a economia em escala planetária: inflação, queda do PIB, concentração de renda, aumento da pobreza. Na outra ponta, o extraordinário crescimento dos orçamentos bélicos, anunciando o breve futuro.

A guerra de hoje compreende, além do cardápio clássico, os inumeráveis recursos da “guerra híbrida” e o papel da “internacional neofascista” que, a partir da Casa Branca, lança mão de todos os instrumentos, meios e recursos disponíveis, quaisquer, legais ou não: embargos, boicote comercial, sequestro de bens e recursos monetários, sabotagens, assassinatos etc., para alcançar seus objetivos. 

A listagem não tem fim — e jamais nos esqueçamos dos préstimos da CIA e dos Marines.

Em nosso continente, que conheceu tantos golpes e ditaduras militares, já há o que registrar, e não é nada bom: a resistência ao imperialismo refluiu para os governos de centro-esquerda, hoje restritos, além do Uruguai, ao Brasil e à Colômbia, que enfrentarão eleições presidenciais desafiadoras no próximo semestre. Delas participará ativamente a internacional neofascista, comandada pela Casa Branca, instrumentalizando a guerra híbrida que desde sempre se abate sobre nossos países.

O conceito de “guerra híbrida” compreende os meios que visam a enfraquecer o adversário, sem necessariamente recorrer aos recursos convencionais. Opera influenciando decisões estratégicas, redefinindo alinhamentos geopolíticos, por exemplo, as pressões visando a afastar o Brasil do bloco dos “não alinhados”, lá atrás, e agora as restrições aos BRICS e o mau humor da Casa Branca olhando de viés para a presença da economia chinesa na América do Sul e entre nós.

No plano geral, conhecem-se as sanções econômicas, as políticas de desinformação e manipulação da opinião pública utilizando os meios de comunicação locais. Exemplos fornecidos pela conjuntura são o tarifaço de Trump e, em associação, as pressões pelo controle de nossas reservas de terras raras, como foram, em anos passados, as maquinações contra a Petrobras e o monopólio estatal do petróleo, a que devemos hoje nossa sobrevivência econômica. Mais recentemente, registre-se a sabotagem ao programa nuclear brasileiro. Há, sempre, interação entre atores externos e internos, como o sistema financeiro e as empresas de comunicação.

As dificuldades brasileiras visando à conquista do monopólio estatal do petróleo voltam à balha hoje, quando o país desperta para a necessidade estratégica de controle de recursos minerais críticos, como as terras raras, alvo dos interesses dos EUA e objeto do entreguismo larvar da direita brasileira. 

As discussões retomam o cantochão reacionário dos tempos da campanha em defesa da Petrobras. Naquele então, a direita combatia a solução estatal, que nos salvou, é preciso repetir; hoje, em nome de um neoliberalismo canhestro, rejeita a opção da estatal brasileira para a exploração das terras raras e, ao mesmo tempo, defende o caminho livre para empresas estrangeiras, sejam estatais, sejam simplesmente apoiadas pelos governos de seus países. 

A história mais uma vez se repete: permanecemos como fornecedores dos produtos primários de que as grandes potências carecem: seja o açúcar, seja o ouro e a prata, seja o algodão, seja o café, seja o minério in natura. Fornecedores de matéria-prima, nos conformamos como importadores de manufaturados; assim cresce o agronegócio exportador de alimentos não processados — frango, carne bovina, soja, milho etc. — enquanto a indústria brasileira de transformação vive anos de crise.

A exploração das terras raras no Brasil expõe um paradoxo incômodo. O país detém reservas abundantes e condições geológicas privilegiadas, mas segue ocupando posição periférica na produção e, sobretudo, no processamento industrial — muito atrás de potências como China, EUA e até economias emergentes que avançaram com estratégia e decisão.

Como observa Gilberto Sá (“Proposta para recriar uma cadeia industrial de terras raras no Brasil”), o potencial brasileiro é conhecido. O território reúne alguns dos maiores recursos de elementos terras raras (ETRs) do mundo, distribuídos em depósitos primários e secundários. Minas Gerais (Araxá, Poços de Caldas), Goiás (Catalão) e Amazonas (Pitinga) concentram ocorrências relevantes. Ali estão minerais que carregam o futuro tecnológico: neodímio, praseodímio, disprósio e térbio — insumos críticos para turbinas eólicas, veículos elétricos, eletrônicos avançados e sistemas de defesa. Em qualquer leitura séria do cenário global, trata-se de ativos estratégicos.

Ainda assim, o Brasil permanece à margem da cadeia de valor. E não por falta de capacidade, mas por ausência de decisão. Mais uma vez, o lobby de grandes grupos — nacionais e estrangeiros, frequentemente indistintos em seus interesses — pressiona para manter o país na condição subalterna de exportador de matéria-prima. Exportamos o minério bruto; importamos, a preço elevado, os produtos de alto valor agregado. Um padrão conhecido — e reiterado.

O momento internacional, no entanto, joga a favor de uma inflexão. A concentração da produção em poucos países e as tensões comerciais globais abriram espaço para a diversificação das cadeias de suprimento. O Brasil poderia, se quisesse, afirmar-se como ator soberano nesse mercado, escolhendo parceiros e definindo sua inserção com base em interesse nacional — sem alinhamentos automáticos. Mas, outra vez, hesita. Outra vez, corre o risco de perder o trem da história.

Não se trata de um salto no escuro. O país já esteve nesse caminho. Ao longo do século XX, o Brasil desenvolveu uma indústria estruturada em torno da monazita, produzindo concentrados de terras raras e dominando etapas relevantes do processamento. Houve capacidade instalada, pesquisa, inovação. Produziam-se compostos industriais e avançava-se nas técnicas de separação e purificação — num cenário em que poucos países detinham esse conhecimento.

Esse sistema foi desmontado. Indústrias foram fechadas, equipes dispersas, conhecimento acumulado dissipado. O que se perdeu não foi apenas produção, mas memória tecnológica.

Hoje, a fragilidade do setor não decorre de limitações técnicas, mas de descontinuidade estratégica. O país sabe fazer — mas deixou de fazer. Retomar esse caminho exige mais do que reconhecer o potencial: exige política de Estado, coordenação entre mineração, indústria e meio ambiente, e visão de longo prazo.

A experiência internacional é clara: liderança não nasce do acaso, resulta de planejamento persistente. O Brasil, repito, já demonstrou que pode trilhar esse percurso. O que está em jogo agora é saber se haverá vontade política para reconstruí-lo — ou se, mais uma vez, o país abrirá mão de transformar sua riqueza natural em soberania tecnológica e protagonismo próprio.

Hoje, o país se imola, incapaz de dar um passo à frente, que é a tomada pelo Estado da lavra, pesquisa, refinamento e aproveitamento de terras raras para seu próprio consumo, segundo seus interesses estratégicos, e não simplesmente atendendo às demandas de outros países carentes desse minério. Terras raras não podem ser tratadas como mais uma commodity, como o ferro-gusa que exportamos para a China, para dela depois importarmos lingotes e trilhos.

A tendência presente, lamentavelmente, é a abertura de nossas reservas para a exploração industrial e comercial internacional, muitas vezes predatória.

Omite-se o Estado, avançam as multinacionais. É o caso da norte-americana USA Rare Earth, instrumento de política de Estado daquele país, recentemente reforçada com o acesso a USD 1,6 bilhão. Tudo tem sua causa e seu efeito: há poucos dias, a USA Rare Earth anunciou a compra da mineradora Serra Verde, localizada em Minaçu, Goiás, pela bagatela de USD 2,8 bilhões, com contrato de 15 anos, seguindo instruções da Casa Branca, preocupada em reduzir a dependência da China. Como informa o economista Diógenes Moura Breda (“Terrabras e as ideias verdadeiramente fora de lugar”, Carta Capital, 21/04/2026), a empresa adquirida “opera a mina Pela Ema, único depósito de argilas iônicas de terras raras fora da Ásia capaz de produzir em escala os quatro elementos utilizados para a fabricação de ímãs permanentes (neodímio, praseodímio, disprósio e térbio), aqueles utilizados em veículos elétricos, aerogeradores, equipamentos eletrônicos e de defesa”.

As riquezas do subsolo brasileiro — jazidas e recursos minerais — não constituem mercadoria qualquer: são patrimônio inalienável da Nação, pertencente à União, como consagra o artigo 176 da Constituição Federal. Às empresas mineradoras, inclusive às de capital estrangeiro, não se confere a propriedade dessas riquezas, mas apenas o exercício precário e condicionado de concessões de lavra. Tais concessões, nos termos do Código de Mineração, subordinam-se de forma estrita ao interesse público e aos imperativos da soberania nacional, podendo — e devendo — ser revogadas ou não renovadas sempre que contrariem os interesses superiores do país.

No caso das terras raras, em geral, e da mineradora Serra Verde em particular, está-se diante de ativos de inequívoco caráter estratégico, cujo controle não pode ser relegado às forças do mercado ou a decisões orientadas por interesses alheios ao desenvolvimento nacional. Trata-se de recursos decisivos para a autonomia tecnológica, a segurança econômica e a inserção soberana do Brasil no sistema internacional. Por isso, impõe-se sua submissão rigorosa a instrumentos de controle público, até que se institua um marco legal que as reconheça formalmente como minerais estratégicos e assegure, de modo efetivo, sua gestão sob primazia do interesse nacional.

Entretanto, o cenário que se delineia caminha em sentido inverso. Assiste-se, com crescente apreensão, ao avanço de um processo de alienação de um patrimônio que deveria ser resguardado como reserva constitucional da Nação — um patrimônio cujo potencial para alavancar a superação do subdesenvolvimento brasileiro é não apenas evidente, mas historicamente decisivo.

Não se trata, como sublinha Breda, de atribuir às terras raras o papel de panaceia de um projeto nacional — não o são. Mas tampouco se pode ignorar que sua entrega ao capital estrangeiro, em regime de exploração desregulada, tende a reafirmar, de forma quase inexorável, a posição do Brasil como economia primário-exportadora, subordinada na divisão internacional do trabalho.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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MORRE GIOVANNA KUPFER

Helena Schuster, Folha de S.Paulo

Morre Giovanna Kupfer, fundadora da Giovanna Baby, aos 79 anos

Filha de poloneses, ela nasceu em Roma e se mudou para São Paulo aos 14 anos

Marca foi criada em 1974 após empresária começar a produzir roupas para as filhas

Pelotas (RS) Morreu nesta segunda-feira (27), aos 79 anos, a empresária Jeanette Kupfer, mais conhecida como Giovanna Kupfer. Ela foi a fundadora da marca de cosméticos Giovanna Baby. A informação foi divulgada por uma de suas três filhas, a apresentadora Mariana Kupfer, em publicação nas redes sociais. A causa da morte não foi divulgada.

Filha de poloneses, Giovanna nasceu em Roma e morou nos Estados Unidos —em função do trabalho do pai, que fez parte de uma organização de assistência do pós-Guerra e da ONU (Organização das Nações Unidas)— antes de se mudar para São Paulo, aos 14 anos. No Brasil, ela estudou artes plásticas, área em que trabalhou como professora infantil.

Após o nascimento das duas primeiras filhas, largou as salas de aula e, diante da dificuldade de encontrar roupas do seu gosto para as meninas, passou a produzi-las em casa. Assim surgiu o projeto da Giovanna Baby, que foi fundada em 1974 inicialmente como uma marca de moda para crianças.

Foi ainda sob o comando de Giovanna que a empresa adotou o característico aroma de lavanda que continua nos produtos da marca até hoje.

"Você criou três filhas lindas, perdeu sua mãe aos 13 anos e passou a vida dedicada a criar uma marca e mudar o mundo. Sou muito grata por todos os seus ensinamentos, por tudo que fez pelas filhas. Seguiremos unidas e honraremos seu legado", disse a filha Mariana na publicação das redes sociais.

A marca foi vendida em 1998, após a falência da Giovanna Fábrica, que fazia os produtos da marca, em 1997. A Giovanna Baby seguiu sob nova direção e, com o passar dos anos, deixou a moda infantil e se consolidou no ramo de cosméticos.

A empresa, que hoje pertence à Pro Nova Cosméticos, lamentou a morte da fundadora.

"Giovanna foi responsável por dar origem a uma marca que conquistou espaço no mercado nacional, marcando gerações com sua proposta de cuidado e perfumação acessível. Sua iniciativa e espírito empreendedor permanecem como parte importante da história da empresa [...] Que sua memória siga viva na origem de tudo aquilo que continua a crescer, evoluir e inspirar", diz nota.

Atualmente a Giovanna Baby tem portfólio de mais de 510 produtos e está presente em mais de 20 mil pontos de venda em todo o país (incluindo farmácias, perfumarias e supermercados).

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MORRE SILVANO RAIA

Do g1 SP

Morre Silvano Raia, médico que fez 1º transplante de fígado da América Latina, aos 95 anos

Professor emérito da USP, Raia foi pioneiro na área de transplantes de órgãos e responsável por feitos históricos. Em março deste ano, ele liderou uma iniciativa da USP que resultou na clonagem do primeiro porco do Brasil e da América Latina.

O médico Silvano Raia, um dos maiores nomes da ciência e da medicina no Brasil, morreu aos 95 anos. A morte foi confirmada pela Academia Nacional de Medicina (ANM) nesta terça-feira (28). A causa não foi divulgada.

Professor emérito da Universidade de São Paulo (USP), Raia foi pioneiro na área de transplantes de órgãos e responsável por feitos históricos. Na década de 1980, realizou o primeiro transplante de fígado da América Latina, no Hospital das Clínicas da universidade, consolidando-se como referência mundial.

Foi autor da técnica de transplante de fígado com doador vivo — conhecida como transplante intervivos. O método ampliou significativamente as possibilidades de cirurgias, especialmente em crianças, e passou a ser utilizado em diversos países.

Em nota, a Academia Nacional de Medicina lamentou a morte do médico e destacou sua trajetória marcada por “excelência, inovação e dedicação inabalável ao ensino e à assistência médica”. Raia era membro titular da instituição desde 1991.

Nos últimos anos, o cirurgião se dedicava a pesquisas em xenotransplantes, técnica que utiliza órgãos de animais geneticamente modificados para transplantes em humanos.

Em março deste ano, liderou uma iniciativa da USP que resultou na clonagem do primeiro porco do Brasil e da América Latina, considerada um marco para a ciência nacional.

Reconhecido internacionalmente, Raia também foi membro fundador da Sociedade Latino-Americana de Hepatologia, que presidiu em 1968. No Brasil, presidiu a Sociedade Brasileira de Hepatologia entre 1982 e 1983 e participou de entidades como a Associação Paulista de Medicina e a Associação Médica Brasileira. Entre 1993 e 1995, foi secretário municipal de Saúde de São Paulo.

O presidente da Academia Nacional de Medicina, Antonio Egidio Nardi, afirmou que Raia foi um “líder incontestável da medicina no Brasil” e destacou seu legado. “Mais do que um grande cirurgião, foi um exemplo de compromisso com a ciência, com os pacientes e com o futuro da medicina brasileira”, disse.

O Ministério da Saúde também manifestou pesar e ressaltou a importância do médico para o desenvolvimento do sistema de transplantes no país. Segundo a pasta, Raia teve papel decisivo na estruturação e expansão da rede de transplantes no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS), contribuindo para ampliar o acesso da população a procedimentos de alta complexidade.

O velório acontece nesta terça-feira (28) das 15h às 20h no Teatro da Faculdade de Medicina (FM) da USP.

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O CASO MASTER, FLÁVIO BOLSONARO E O FATOR ZEMA

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Avanço de Zema sobre o STF reforça ‘rabo preso’ de Flávio Bolsonaro ou o ajuda a criar imagem de moderado?

Hipótese do crescimento competitivo de Zema não é a mais provável; tampouco deve ser descartada

Romeu Zema testa-desafia o projeto-fachada de moderação de Flávio Bolsonaro, ou lhe oferece-amplia as condições para que se venda como moderado? Seria jogo combinado, Zema avançando para que Flávio pudesse exibir reforçar a imagem de “Bolsonaro ponderado”? Esse Zema de texto radicalizado, que denuncia-enfrenta ministros do Supremo, forçará-obrigará “o Bolsonaro que não é louco” a se mexer e expor a própria natureza; ou, situando-se à direita do “Bolsonaro que come de garfo e faca”, empurraria-ajudaria Flávio a se mover para o centro?

Não há dúvida de que a coragem do ex-governador de Minas Gerais – o cronista se refere à percepção do eleitor – perturbe, fira mesmo, o sistema de crenças-valores bolsonarista, erguido sobre a propriedade do confronto conflito e constituído sob o monopólio do discurso antissistema; daí por que o bolsonarismo de extração eduardista já se lance contra a ameaça Zema. Flávio Bolsonaro solta – já soltou – os seus cachorros. Quanto a ele próprio: morderá? Poderá não morder? Poderá terceirizar a mordida? Porque não se trata somente de Zema percebido como o que não tem rabo preso nem telhado de vidro. Trata-se, por oposição, de o senador encaixotado como com rabo preso e sob telhado de vidro. Jogo combinado?

É grande a pressão para que morda; para que dê satisfação sanguínea a uma militância forjada na beligerância e incomodada com o candidato – o mitinho, filho do mito – que presta “apoio” e se posiciona a reboque do representante da linha auxiliar Partido Novo. A ver, a propósito, se não estaria Zema afinal trabalhando por subir o preço do que era, até faz pouco, apoio banal e aliança quase automática. A ver também se terá lastro individual para sustentar a persona até as urnas. A carga para que Flávio reaja aumentará – desafiará a manutenção da máscara de paz e amor – caso Zema cresça nas pesquisas e se acerque dos 10%.

Não é a hipótese mais provável – a do crescimento competitivo de Zema. Tampouco deve ser possibilidade descartada. Por uma razão: o caso Master, cuja geração de instabilidade-imprevisibilidade, a mesma que derrubara Lula da condição de reeleito e dera a Flávio Bolsonaro o privilégio de se beneficiar da crise mesmo jogando parado, agora tornou Romeu Zema – também graças ao marqueteiro Gilmar Mendes – o pauteiro do debate público eleitoral, capaz de tirar o bolsonarismo da zona de conforto. Ninguém imaginava.

Ninguém compreendeu e explora a natureza do caso Master como a equipe de Zema. Este é o fator Zema: menos a sua capacidade atual de concorrer à Presidência com chances de vencer; e mais a forma influente como a sua campanha leu e reage materialmente ao mercado de desejos eleitorais. A série de filmetes satíricos sobre “os intocáveis de Brasília” é primor de aplicação concentrada dos sentimentos difusos do brasileiro que decidirá a eleição em 2026. O caso Master desafia jogos combinados e abre a fenda a partir da qual o imponderável – o Zema pauteiro, por exemplo – exercita-se.

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MORRE LUCIANA NOVAES

Do g1 Rio

Morre Luciana Novaes, ex-vereadora do Rio eleita após ser vítima de bala perdida; prefeito decreta luto oficial

Tetraplégica após ser baleada em universidade, ela foi vereadora por 3 mandatos e teve atuação na defesa de pessoas com deficiência e vítimas da violência.

A ex-vereadora do Rio de Janeiro Luciana Novaes (PT) morreu nesta segunda-feira (27). O prefeito Eduardo Cavaliere (PSD) decretou luto oficial de três dias em uma edição extra do Diário Oficial à noite.

Luciana estava internada e, segundo a assessoria, sofreu uma “intercorrência súbita e grave, compatível, segundo informações médicas, com rompimento de aneurisma cerebral”, com “piora crítica de seu quadro neurológico”.

Na sequência, entrou no protocolo de morte cerebral, um conjunto de exames que confirmam a parada total e irreversível das funções do cérebro, condição em que o paciente é considerado morto por lei.

Luciana era assistente social e tinha 42 anos. Ela ficou tetraplégica após ser atingida por uma bala perdida em 2003, no campus da Universidade Estácio de Sá, no Rio Comprido, Zona Norte do Rio de Janeiro.

Depois do incidente, Luciana se formou em Serviço Social e se pós-graduou em Gestão Governamental. Ela se elegeu vereadora pelo PT por 3 mandatos, o primeiro em 2016, tornando-se a primeira pessoa tetraplégica a ocupar uma cadeira na Câmara Municipal carioca. Em 2023, ela retornou à Câmara Municipal como suplente.

As pautas de Luciana Novaes eram fortemente orientadas pela sua vivência pessoal como mulher com deficiência e vítima de violência urbana. Ela foi presidente da Comissão dos Direitos da Pessoa com Deficiência na Câmara e autora da Lei 8.781/2025, que institui a Política Municipal de Rotas Acessíveis do Rio, pela locomoção a pessoas com deficiência, mobilidade reduzida e idosos.

Também foi autora de projetos que garantiram vagas prioritárias em escolas próximas para alunos com deficiência e processos avaliativos que respeitam as necessidades de estudantes com deficiência intelectual.

Luciana defendia ainda os direitos dos idosos, inclusão de pessoas em situação de rua, transparência e combate à corrupção e superação da pobreza e desigualdade.

Repercussão

A Câmara Municipal divulgou uma nota lamentando a morte da ex-vereadora.

“O presidente da Câmara Municipal do Rio de Janeiro, Carlo Caiado (PSD), manifesta profundo pesar pelo falecimento da parlamentar, uma mulher que transformou a própria dor em propósito e fez da sua trajetória um exemplo permanente de luta, coragem e amor ao próximo”, diz o texto.

“Luciana foi mais do que uma parlamentar atuante. Foi símbolo de perseverança e superação. Mesmo diante de uma das maiores adversidades que alguém pode enfrentar, encontrou forças para reconstruir sua vida e se dedicar ao serviço público com dignidade, sensibilidade e compromisso com quem mais precisa”, prosseguiu.

“Ao longo de sua atuação, deixou um legado consistente de quase 200 leis, sempre voltadas para a inclusão, a defesa das pessoas com deficiência, dos idosos e da população em situação de vulnerabilidade. Sua voz firme e sua escuta generosa fizeram diferença na vida de milhares de cariocas, olhando não apenas para a cidade, mas para cada indivíduo que precisava ser visto, acolhido e respeitado.”

“Sua história, marcada por fé, resiliência e propósito, seguirá inspirando gerações. Luciana mostrou, na prática, que limites não definem destinos quando há vontade de transformar o mundo ao redor”, emendou.

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A UNIVERSIDADE SÓ MUDA QUANDO O CUSTO DE NÃO MUDAR SE TORNA INSUSTENTÁVEL


João Pereira Coutinho*, Folha de S. Paulo

Universidade Yale fez diagnóstico sombrio sobre o estado da instituição.

Não é de admirar que 70% afirmem que a universidade está "no caminho errado".

Houve um tempo em que o mundo olhava com admiração para a universidade. Esse mundo está desaparecendo.

Um relatório recente da Universidade Yale faz um diagnóstico sombrio sobre o estado da instituição. As conclusões do estudo podem ser aplicadas, sem esforço, a outros países que enfrentam problemas semelhantes.

Basicamente, há uma queda de confiança dos americanos no ensino superior. Em 2014, 57% confiavam no sistema; em 2024, o número desceu para 36% —um mínimo histórico. Não é de admirar que 70% afirmem que a universidade está "no caminho errado".

Três razões explicam esses números: custo, admissões e conformidade ideológica. A inflação das notas também contribui para o desânimo: classificações máximas para talentos mínimos são uma praga que corrói qualquer pretensão de seriedade intelectual. Mas não vamos nos perder nisso.

Imaginemos, antes, um pai de família que sonha em dar ao filho uma educação de excelência. Confrontado com a realidade, pergunta-se: vale a pena pagar mensalidades altíssimas quando o retorno, em certas áreas científicas, nem sequer está garantido?

Vale a pena confiar num processo de admissão opaco e injusto, que muitas vezes favorece os mais ricos ou os filhos de ex-alunos influentes?

E quem, em sã consciência, enviaria o filho para centros de doutrinação agressiva onde o ressentimento antiocidental ocupa o lugar do conhecimento? Pior: ambientes em que a liberdade de expressão pode ser uma sentença de morte acadêmica?

O relatório, em tom nostálgico, cita o historiador C. Vann Woodward, professor da casa, que defendia: a universidade existe para garantir "o direito de pensar o impensável, discutir o indizível e desafiar o indiscutível". Risadas?

Hoje, o aluno médio de Yale e de outras instituições espalhadas pelo Ocidente olha para essas palavras como um "convite para uma decapitação" —obrigado, Nabokov. No caso, a sua.

Em Yale, quase um terço dos estudantes não se sente livre para expressar as suas opiniões —o dobro de há uma década. O desconforto é ainda maior entre os estudantes mais conservadores.

É compreensível: nos Estados Unidos, professores que se identificam como democratas superam os republicanos numa proporção de cerca de 10 para 1. Em Yale, pode chegar a 30 para 1.

Diante de um diagnóstico tão severo, os autores propõem, sem surpresa, uma reversão das más práticas: defender a liberdade de pensamento, promover o pluralismo interno, tornar o sistema de admissões mais transparente, e assim por diante. A ideia é esperar que a mudança venha de dentro, antes que seja tarde demais.

É uma ideia interessante, porém romântica: a universidade raramente muda por vontade própria. A história ensina o contrário: ela só muda quando o custo de não mudar se torna insustentável.

Na Idade Média, a universidade era um prolongamento da igreja, servindo um mundo em que a visão religiosa era dominante. Quando esse mundo passou a exigir juristas ou administradores para a edificação do Estado moderno, a velha escolástica cedeu espaço a estudos mais pragmáticos do direito.

As grandes navegações ibéricas revalorizaram a matemática e a física —antecâmara da revolução científica dos séculos 17 e 18. A universidade, relutantemente, adaptou-se.

E continuou se adaptando com o Iluminismo, o modelo humboldtiano —que privilegia a produção, não apenas a transmissão, de conhecimento— até chegarmos à rivalidade da Guerra Fria, motor de avanços científicos e tecnológicos do século 20.

Posso não ter simpatias marxistas, mas há momentos em que a "estrutura", de fato, condiciona a "superestrutura". Não foi o amor à verdade que agitou a rigidez dogmática das universidades. Foi o mundo ao redor. Esse mundo continua falando —e hoje tem dúvidas sobre o custo, a transparência e o papel da universidade.

Quando essas dúvidas se traduzirem em perda real de alunos, redução de financiamento, desvalorização dos diplomas e concorrência de novos modelos de formação, a universidade será novamente obrigada a se repensar.

Mais uma vez, não será por amor ao debate livre que os docentes mais fanáticos mudarão de atitude. Será quando os próprios salários estiverem em risco. Nada promove mais a tolerância do que a intolerância da conta bancária.

Os problemas que o relatório de Yale identifica são, ironicamente, possibilidades de salvação. As universidades não sobrevivem apenas pelas suas virtudes, mas também pelos seus vícios. Quando estes se tornam caros demais para ignorar, entra em cena a velha lei darwinista: adaptação —ou extinção.

*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa

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CHOQUE ZEMA X GILMAR INAUGURA CAMPANHA

Artigo de Fernando Gabeira

São evidentes os sinais de que a campanha começou. Lula ironiza Trump porque sabe que o presidente americano será um bom cabo eleitoral para ele e um transtorno para o adversário. No capítulo das polêmicas, o debate Romeu Zema x Gilmar Mendes teve grande destaque. Zema é azarão, a julgar pelas pesquisas. Mas tem um marqueteiro audacioso, que fez animação criticando os ministros do STF. Gilmar saiu para o debate, dando entrevistas a jornalistas, sem escolher os mais camaradas. O resultado foi uma grande exposição do ministro e, provavelmente, um ligeiro avanço de Zema nas pesquisas.

Gilmar expôs muitos aspectos de sua personalidade que não eram tão conhecidos. Começou por criticar a maneira como Zema falava, “algo parecido com o português”. O ministro chegou a pensar que era o idioma falado em Timor-Leste. Zema pode ser complicado, mas fala com um sotaque mineiro. Suponhamos que uma ou outra palavra não seja usual. Mas, com base nessa premissa, consideraríamos o “Grande Sertão” de Guimarães Rosa um verdadeiro atentado.

Parece que os mineiros gostam de brincar com as palavras. Outro dia vi nas redes uma linda jovem mineira ensinando xingamentos: estrupício, energúmeno, marmota e songamonga. Quando cobri a Farra do Boi, ritual hoje proibido, notei que os moradores do litoral falavam também com forte sotaque, marcado pela colonização açoriana em Santa Catarina. No Rio Grande do Sul, conheci um dialeto de origem italiana falado por todos na cidade. Era o talian. Alguns sinais de trânsito na cidade de Serafina Corrêa também eram nesse dialeto.

A diversidade aconselha a não se escudar no português castiço. Mas esse foi apenas um detalhe na longa exposição de Gilmar. Ele reclamou que o Brasil tem 180 milhões ou 200 milhões de juristas, reproduzindo aquela frase de que o país tem 200 milhões de técnicos de futebol. Isso acontece porque somos apaixonados por futebol, e muitas vezes a pressão sobre o técnico acabou levando a soluções bem-sucedidas. Qual é o problema de termos 200 milhões de juristas? O tema deveria ser proibido para os não especializados?

Gilmar não só aconselhou a investigar Zema, como afirmou defender que o inquérito das fake news dure até depois das eleições. É uma certa superestimação dos poderes de Alexandre de Moraes, acossado pelo escândalo do Master. Se a Polícia Federal for acionada para defender o Supremo de ataques, corre o risco de ser soterrada pela demanda. As críticas ao Supremo são inevitáveis. As mais duras, sem dúvida, virão da direita, mas a esquerda também propõe uma reforma do Judiciário.

A proposta de levar o inquérito das fake news até as eleições, sem dúvida, é o aspecto mais grave da temporada de entrevistas de Gilmar. Tem um viés intimidativo que acaba revelando uma posição autoritária, sugerida pelo elitismo no idioma e pela crítica à participação popular nas decisões jurídicas.

Sou um desses 200 milhões de juristas. Achei um absurdo o inquérito das fake news quando foi aberto. Foi uma reação ao trabalho da Receita, que investigava as contas das mulheres de Gilmar e Toffoli. Protestei contra a censura à revista Crusoé e pedi que Moraes e Toffoli renunciassem aos seus cargos. Era um pedido ingênuo, mas considerava muito grave o desrespeito à liberdade de expressão. Se tivessem ouvido aquele apelo, pelo menos não estariam tão enroscados como agora.

Artigo publicado no jornal O GLOBO em 28 / 04 / 2026

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VIOLÊNCIA POLÍTICA É CONSTANTE NA HISTÓRIA DOS EUA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Trump sobrevive a terceiro atentado em menos de dois anos

Fim precípuo da democracia é prevenir episódios de violência

Em menos de dois anos, Donald Trump já sobreviveu a três tentativas de assassinato. Nas duas mais recentes, a da Flórida em setembro de 2024 e a deste fim de semana em Washington, os serviços de segurança conseguiram impedir o perpetrador de disparar contra o republicano, mas, na da Pensilvânia em julho de 2024, foram as forças do acaso que salvaram Trump. A bala de fuzil passou raspando por sua cabeça.

Os EUA são um país em que a violência política corre solta. Quatro presidentes foram assassinados no exercício de suas funções: Lincoln, em 1865, Garfield, em 1881, McKinley, em 1901, e Kennedy, em 1963. Se considerarmos os casos de presidentes, ex-presidentes e candidatos a presidente que sobreviveram a ataques, a lista de ocorrências passa dos 15. O exemplo mais notório é o de Ronald Reagan, gravemente ferido num atentado em 1981.

Apesar de a violência política ser um elemento constitutivo da história americana, tudo aponta para um recrudescimento do fenômeno nos últimos anos. Relatório do BDI, um centro de pesquisa ligado à Universidade Princeton, mostrou um aumento de 30% nos incidentes de violência política entre 2024 e 2025. No mesmo período, a polícia legislativa contou um aumento de 58% nas ameaças contra congressistas.

O suspeito de sempre é a polarização afetiva, à qual podemos acrescentar um outro mal da modernidade que é a extrema facilidade que as pessoas têm para radicalizar a si mesmas na internet. Até alguns anos atrás, para tornar-se um radical era em geral preciso integrar-se fisicamente a um grupo radical.

É uma deterioração preocupante, se considerarmos que o fim precípuo da democracia é justamente evitar a violência política. A democracia muda o cálculo dos riscos. Enquanto ela vigora, sai mais em conta para quem perde uma eleição passar um tempo na oposição do que tentar resistir pela força e talvez deflagrar uma guerra civil. Daí a gravidade de atitudes como as de Trump em 6/1/21 e de Bolsonaro em 8/1/23 de estorvar a transferência pacífica do poder.

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CRISE INSTITUCIONAL NO RIO COMPLICA FLÁVIO BOLSONARO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Filho 01 inverte a realidade e culpa STF por crimes cometidos por bolsonaristas

Contra o governador interino, Alerj quer quadruplicar as despesas com emendas

A presença do desembargador Ricardo Couto no Palácio Guanabara, com ações para moralizar a máquina pública e impedir que ela continue a ser usada para fins eleitorais, é uma espinha na garganta do grupo bolsonarista que desde 2019 domina o Rio de Janeiro e um entrave inesperado para as pretensões presidenciais do filho 01.

Sem a máquina e a adesão fisiológica de prefeitos do interior, o desempenho de Flávio Bolsonaro no colégio eleitoral do Rio, com 13 milhões de pessoas, fica em xeque. Outra dificuldade é o favoritismo de Eduardo Paes ao governo estadual, favoritismo embalado pelas pesquisas, pelo apoio de segmentos evangélicos e pelo fato de Douglas Ruas, principal adversário no pleito, ser pouco conhecido da população. Em 2022, Bolsonaro ganhou de Lula no reduto que o viu nascer, mas a diferença foi mais estreita se comparada a 2018, quando o candidato petista era Fernando Haddad.

Por falta de argumentos, Flávio Bolsonaro se aproveita do mau momento do STF para desacreditar Couto, atual dono da caneta. Joga a responsabilidade pelo vácuo de poder no colo de ministros que estariam, segundo ele, atuando para favorecer Lula.

O Supremo nada tem a ver com o gangsterismo na política fluminense. Aluno esforçado do pai, o senador nega a verdade, usando um recurso mais velho que o rascunho da Bíblia: acuse outra pessoa pelo crime que eu cometi.

O que detonou a crise institucional foi a prisão do ex-presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, por envolvimento com o Comando Vermelho, e a renúncia do ex-governador Cláudio Castro, numa manobra para escapar da cassação no TSE.

Em represália às medidas de austeridade do governador interino —cortar gastos, auditar contratos e limitar a 10% os cargos comissionados—, a Alerj quer mudar a Constituição Estadual para quadruplicar as despesas com emendas impositivas. Neste ano, o valor deve ficar em R$ 370 milhões. Se a proposta for aprovada, passaria a R$ 1,5 bilhão. Ou seja: restringiria o poder do Executivo, a exemplo do que faz o Congresso Nacional.

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segunda-feira, 27 de abril de 2026

REDISTRIBUIR HORIZONTE

Preto Zezé, O Globo

Parte do eleitorado já não fala do lugar clássico da exclusão, mas da sensação de bloqueio: melhorou sem consolidar

A queda recente da popularidade do presidente Lula costuma ser atribuída a problemas de comunicação, desgaste ou insatisfação econômica. Tudo isso pesa, mas talvez não explique o essencial. Há sinais de descompasso mais profundo entre a linguagem política forjada no ciclo da inclusão social e uma sociedade marcada por precarização, endividamento e novas aspirações.

Por décadas, o lulismo respondeu a uma demanda concreta de acesso — a consumo, universidade, crédito e direitos — e produziu mudanças reais. Mas parte do país passou a organizar suas expectativas em outro registro. Muitos que ascenderam não encontraram estabilidade: o diploma não garantiu inserção compatível, o trabalho se fragmentou, e a vida passou a ser administrada entre informalidade, aplicativos, múltiplas rendas e insegurança.

Isso ajuda a entender um mal-estar que não se resume à renda ou à fadiga de governo. Há frustração de promessa. Uma parte do eleitorado já não fala do lugar clássico da exclusão, mas da sensação de bloqueio: melhorou sem consolidar, ascendeu sem estabilizar. É uma experiência ainda pouco compreendida.

Esse eleitor não é só precarizado; é também aspiracional. Pesquisas como o Sonho da Favela revelam que o horizonte popular não é só proteção, mas prosperidade, autonomia, conforto e reconhecimento. O motoboy que financia a moto, a manicure que parcela material, o entregador que troca de celular não apenas consomem; afirmam, a seu modo, dignidade. Parte do campo progressista errou ao ler essa aspiração como simples captura do mercado, quando ela é, muitas vezes, linguagem de reconhecimento.

Milton Santos já apontava que os circuitos populares não estão fora, mas dentro do capitalismo. Isso ajuda a entender por que, para muitos trabalhadores, a vida é mais atravessada pelo boleto que pelo sindicato, mais mediada pelo algoritmo que por formas tradicionais de organização. Se antes a fábrica era espaço central de disputa, a tela do celular tornou-se, em muitos sentidos, nova porta de fábrica. Ali se organizam trabalho, consumo, informação e imaginação política.

Como sugere Maurizio Lazzarato, a dívida não é apenas mecanismo financeiro, mas forma de governo da vida. O endividamento organiza condutas, medos e expectativas; não é só uma conta a pagar, mas um modo de administrar o futuro.

Isso se cruza com a ética da prosperidade, frequentemente mal lida. Mais que linguagem moral, ela funciona, para muitos autônomos e precarizados, como gramática econômica de sobrevivência, alcançando experiências que a linguagem sindical nem sempre capta. Em certos momentos, o campo progressista perdeu escuta ao falar mais para corrigir do que para compreender.

A queda nas pesquisas talvez expresse esta tensão: não só desaprovação conjuntural, mas ansiedade diante de um horizonte incerto. Em contextos de instabilidade, promessa e reconhecimento podem mobilizar tanto quanto redistribuição.

O desafio do lulismo parece menos de base e mais de imaginação política. Não se trata de deixar sua tradição social, mas de atualizá-la diante da mudança na vida popular. Parte do eleitorado já não quer só inclusão, quer perspectiva. Num país onde o endividamento organiza a sobrevivência e o medo do declínio se espalha, governar não é só redistribuir renda, mas redistribuir horizonte. Governos se desgastam também quando deixam de produzir expectativa — e expectativa segue sendo matéria-prima da política.

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sábado, 25 de abril de 2026

SOB CASTRO, PALÁCIO GUANABARA VIROU UM PUXADINHO BOLSONARISTA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Horas antes de sua condenação, ex-governador destinou R$ 730 milhões a prefeitos aliados

Ex-ministro da Saúde, general Pazuello ensinou a 'logística' da multiplicação de cargos

Cláudio Castro é um desmemoriado. No tempo recorde de um mês, esqueceu que no dia 24 de março o TSE o condenou por uso indevido da máquina pública nas eleições de 2022.

Castro faz caras e bocas de coitadinho. Reclama do governador interino, o desembargador Ricardo Couto, que promove uma faxina no Palácio Guanabara, transformado pelo antigo ocupante num enorme comitê eleitoral bolsonarista, com ramificações no crime organizado —a crise institucional explodiu com a prisão do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar, candidato governista à sucessão acusado de envolvimento com o Comando Vermelho.

Castro renunciou para evitar a cassação e, agora, inelegível, se faz de vítima. Não lembra que, horas antes de sua condenação, mandou retirar R$ 730 milhões do Fundo Soberano, espécie de poupança feita com os royalties do petróleo para ser utilizada em projetos de infraestrutura de longo prazo, e destiná-los a 16 prefeituras do interior, todas administradas por aliados políticos. Couto determinou o bloqueio do dinheiro.
Responsável pela liberação de parte do fundo —R$ 250 milhões—, a Secretaria das Cidades não fez qualquer detalhamento para o uso da verba. Na ocasião, a pasta era comandada pelo deputado Douglas Ruas, candidato dos Bolsonaros ao governo do Rio de Janeiro.

A vassoura do desembargador desentoca aqueles que se fingem de mortos. Por trás da Subsecretaria de Gastronomia, criada em julho de 2025, estava o deputado federal Eduardo Pazuello, ex-ministro da Saúde no governo Bolsonaro. General tido como craque em logística, Pazuello empregou sua especialidade para realizar uma proeza. Chefiada por um empresário do ramo, a subsecretaria nasceu de um único cargo de assessor da Imprensa Oficial que se multiplicou em 12 cabides de emprego.

Além de três secretarias extintas, o número de exonerados que ocupavam cargos de "confiança" passa de 600. A maioria sequer deixava o paletó pendurado na cadeira. Não tinha senha de acesso ao sistema nem usava crachá. Uma milícia camuflada.

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NÃO SERÁ TRIVIAL LULA NEGAR AJUDA AO BRB

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Quando governadora do DF formalizar pedido de aval do Tesouro a empréstimo, presidente será forçado a decidir

Licença é semelhante à que o Tesouro concedeu aos Correios, estatal com histórico de corrupção e má gestão

Não será trivial para o presidente Lula negar o aval do Tesouro Nacional ao empréstimo de R$ 6,6 bilhões que o governo do Distrito Federal pleiteia junto ao Fundo Garantidor de Crédito para salvar o BRB em pleno ano eleitoral.

O senso comum leva a pensar que cabe ao BRB, que se meteu nas falcatruas do Master, sair dessa encrenca sozinho, sem impor ônus à União e ao contribuinte, ou sofrer intervenção do Banco Central.

Afinal, a governadora Celina Leão é adversária política do PT (Jair Bolsonaro venceu em quase todo o DF nas eleições de 2022), fazendo todo o sentido Lula ficar bem longe do caso.

Só que deixar quebrar o banco da capital federal, onde o presidente vive e trabalha, não é uma engenharia política fácil.

Na hora em que a governadora do PP formalizar o pedido de aval ao presidente, como ela planeja com apoio de lideranças políticas e votos a oferecer no Congresso, Lula será forçado a decidir. É sim ou não.

Num primeiro momento, o aval do Tesouro não exige dinheiro da União. Esse risco só acontece em caso de calote do GDF (Governo do Distrito Federal). A garantia federal tornaria a negociação mais rápida e com custo menor diante do seguro da União.

Acontece que as finanças do GDF estão tão ruins, com nota de crédito baixa, que pelas regras atuais o Tesouro teria que abrir uma exceção.

Uma licença especial do mesmo tipo que o Ministério da Fazenda liberou para viabilizar o empréstimo de R$ 12 bilhões aos Correios, estatal também com histórico de corrupção e má gestão.

Lula 3 defende que os Correios são uma empresa importante para o país, com milhares de empregados, e não podem quebrar. Celina dirá que o BRB é também relevante para a economia de Brasília, com 9,5 milhões de clientes.

Ela preparou o terreno ao afirmar ter a impressão de que o governo federal quer deixar o BRB quebrar.

O aval é o caminho mais rápido para o banco, que não tem tempo a perder e sofre com uma severa crise de liquidez. Uma operação sem a garantia demoraria muito tempo, seis meses talvez.

O impasse será decidido quando a temperatura aumentar.

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CANDIDATOS EM DESFILE

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Este é o momento em que as coisas não são exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a opinião pública

A campanha eleitoral começa a aparecer no horizonte político brasileiro. De várias maneiras. O ex-governador Romeu Zema, de Minas Gerais, candidatíssimo, abriu o verbo e atacou sem meias palavras os poderes dos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Alguns deles, por sua vez, continuaram a exibir argumentos em momento que, dia a dia, se torna mais tenso. O governo Trump, que não perde oportunidade de cometer deslizes, despacha policial brasileiro de volta para casa. O presidente Lula enxerga no episódio momento especial para retaliar. Manda retirar credenciais de policial norte-americano que estava em Brasília. Brigar com Washington rende votos no Brasil.

Este é o momento em que as coisas não são exatamente como aparentam ser. Há um jogo maior no sentido de impressionar a opinião pública. O candidato da extrema-direita é o senador Flávio Bolsonaro, nascido em Resende, estado do Rio de Janeiro, em abril de 1981, filiado ao Partido Liberal, formado em direito pela Universidade Cândido Mendes. O pai dele, Jair, foi presidente da República, disputou a reeleição e perdeu. Depois, tentou o golpe de Estado. O ex-presidente nunca enganou ninguém. Elogiou torturadores, disse que as forças da repressão deveriam ter matado mais gente no Brasil e fez apologia pública do retorno ao tempo do Ato Institucional número 5. 

Ninguém deve duvidar da sinceridade do ex-presidente, que cumpre prisão domiciliar em Brasília. Ele não mudou. Faz constantes visitas a médicos e hospitais com objetivo de sensibilizar a opinião pública com sua propalada saúde frágil. Seu filho Flávio tornou-se candidato à Presidência da República por uma indicação solitária do pai, que apontou na sua direção sem qualquer consulta a partido ou correligionários. Foi ato pessoal, impositivo. Eu quero, eu posso, eu mando. Flávio é candidato sem programa, sem apoio de boa parte de seu partido, que não participou do processo de seleção e escolha do candidato.

Flávio não pode falar. Nem deve. Se repetir as falas do pai, vai perder votos. Ele não consegue nem anunciar projetos que eventualmente se choquem com os objetivos paternos. Além disso, o candidato cometeu seus pecadilhos, maiores ou menores, ao longo de sua discreta experiência política. Antes de se eleger senador, exerceu quatro mandatos consecutivos na famosa Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), quando homenageou milicianos, é acusado de montar um sistema de rachadinhas e comandou loja de chocolates em shopping da Zona Oeste que mantinha peculiar faturamento constante. Além disso, há a mal explicada operação de crédito no BRB — Banco de Brasília — para aquisição de mansão no Lago Sul, na capital federal. 

Os outros candidatos são menos conhecidos e ainda não movimentam as massas. Ronaldo Caiado, nascido em Anápolis em setembro de 1949, é médico, formado no Rio de Janeiro, com especialização em ortopedia e traumatologia pela Universidade Federal do  Rio de Janeiro (UFRJ), professor universitário, fluente em inglês e francês, produtor rural que começou a ganhar notoriedade ao presidir a União Democrática Ruralista (UDR) entre 1986 e 1989, período de intensos debates sobre reforma agrária no Brasil. Ele não esconde sua posição política. É rival do Partido dos Trabalhadores. Foi deputado federal por Goiás desde 1991 até 2015. Senador por seu estado e governador a partir de 2018, reeleito em 2022. 

Ronaldo Caiado fala abertamente de seus projetos. Defende a privatização de empresas estatais, a redução do estado, ajuste fiscal, o incentivo ao agronegócio, o feroz combate ao crime organizado, acena com anistia ampla e irrestrita a todos condenados pela tentativa de golpe institucional no início do governo Lula. Ele propõe a pacificação do país, em ato semelhante ao do presidente Juscelino Kubitschek, mineiro que foi senador por Goiás. JK perdoou os militares que tentaram o golpe de Estado contra ele. A candidatura de Caiado divide a direita e os conservadores.

Romeu Zema é uma novidade, que, não por acaso, pertence ao Partido Novo. Mineiro de Araxá, nascido em outubro de 1964, nunca se envolveu com política antes. Foi governador de Minas Gerais em dois mandatos consecutivos e, agora, olha para a Presidência da República. Seu currículo é simples. Possui graduação em administração de empresas pela Fundação Getulio Vargas, em São Paulo. Iniciou sua carreira no Grupo Zema, empresa familiar fundada pelo avô em Minas Gerais. Atuou em várias áreas da companhia até se tornar presidente do grupo, que atua no varejo, consórcios, serviços financeiros e energia. É conhecido como um administrador voltado para eficiência e redução de custos. Sua atuação em Minas Gerais privilegiou o ajuste fiscal, controle de gastos, privatizações e melhoria do ambiente de negócios. 

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o pretendente com maiores chances de vitória, embora sua rejeição no eleitorado ultrapasse os 50%. Não menciono os demais que, neste momento, não parecem ter boas possibilidades de vencer. Lula, ao contrário, com seus mais de 80 anos, viaja, exibe boa saúde, fala sobre tudo que lhe vem à cabeça. É um vencedor. Já ganhou três eleições e emplacou um poste chamado Dilma Rousseff. Disputa sua quarta e última eleição. Tem chances de vitória, empurrado pelo Partido dos Trabalhadores, com suas tintas de esquerda e sindicalismo radical. Suas ideias políticas estão solidamente plantadas nos anos setentas, do século passado, quando havia guerra fria e a revolução em Cuba incendiava as mentes da juventude na América do Sul. Ele tem dificuldade em lidar com a globalização. 

Os principais nomes são esses. As discussões de agora nem sempre revelam suas verdadeiras intenções. O que está em jogo é o poder. Vale tudo para conseguir acesso à cadeira presidencial.

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NOVÍSSIMO DICIONÁRIO DE CARIOQUÊS

Eduardo Affonso, O Globo

Graças aos investimentos maciços na linguagem, a cidade não tem mais mendigos, apenas pessoas em situação de rua

Outono: Espécie de verão fora de época; definição aplicável também ao inverno e à primavera.

Faixa de pedestre: Pintura decorativa feita no asfalto para que os pedestres tenham o que admirar enquanto aguardam que um deus ex-machina providencie a redução do trânsito.

Amendoeira: Árvore fetiche da cidade, cantada em prosa e verso, que tem a dupla vantagem de fornecer frutos de escasso valor nutritivo para a fauna nativa e causar danos permanentes a calçadas, muros e tubulações. Só é removível quando desaba, durante um vendaval, destruindo fiação, veículos e tudo o mais que houver à sua volta.

Barra da Tijuca: Cruza de Brasília com Miami, com mais engarrafamentos que a primeira e menos segurança que a segunda; situa-se nas proximidades do Rio de Janeiro.

pertencente a todos, disponível para ser privatizada pelo primeiro que tomar posse; vide trechos das praias da Barra da Tijuca defronte aos hotéis.

Ciclovia: Pista exclusiva para motonetas, motocicletas, atletas, skates, patins, patinetes, carrinhos de bebê, tutores e seus pets — e até ciclistas.

Caixa de som: Forma de democratização de gêneros musicais subalternizados, levando funk, reggaeton, sertanejo, sofrência etc. a quem quer que esteja nas praias, praças, ciclovias, academias, quadras de esportes ou no transporte coletivo. O sistema é inclusivo, buscando atingir, por meio do excesso de decibéis, mesmo pessoas com reduzida capacidade auditiva.

Fone de ouvido: Peça de ficção que, se um dia vier a ser inventada, permitirá que alguém consiga ouvir o que quiser sem que todos no seu entorno sejam obrigados a compartilhar essa experiência.

Vizinho: Pessoa que dorme com a televisão ligada e, se morar no apartamento de cima, arrasta móveis altas horas da noite; também fala ao celular no elevador, tem caixa de som e é disruptivo em relação aos limites da própria vaga de estacionamento.

Pit bull: Cão dócil, de índole incompatível com o uso de focinheira, cujo tutor considera a coleira como item facultativo; é a prova de que não é o cachorro que se parece com o dono, mas o dono que se parece com o cachorro.

Lei do silêncio: Lenda urbana, assim como as inscrições fenícias na Pedra da Gávea e o destino das vigas da Perimetral.

1746: Espécie de confessionário telefônico; número para o qual o cidadão liga a fim de contar um segredo que jamais deverá chegar ao ouvido das autoridades competentes.

Mendigo: Espécie erradicada da paisagem urbana, graças aos investimentos maciços feitos na linguagem; a cidade agora tem apenas pessoas em situação de rua — milhares e milhares delas —, todas voltadas à ocupação criativa de pontos de ônibus e imóveis abandonados, ao upcycling de caixotes e caixas de papelão e à ressignificação de carrinhos de supermercado como peças de mobiliário. São um modelo de vida em contato com a natureza, economia de água e substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis de energia, com seus veículos movidos a tração humana.

Governador: Futuro presidiário que, até o trânsito da sentença em julgado, ocupa o mais alto posto do Executivo estadual.

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O TRABALHO QUE MATA

Flávia Oliveira, O Globo

Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta

A Organização Internacional do Trabalho (OIT), em relatório apresentado no início da semana, jogou luz sobre mazela pouco diagnosticada, mas muito sentida (na pele) por pessoas ocupadas mundo afora. Por ano, aproximadamente, 840 mil perdem a vida em decorrência dos riscos psicossociais da labuta. Mais que viver para trabalhar, mulheres e homens morrem por trabalhar. Penam com doenças cardiovasculares e perturbações mentais, incluindo autoextermínio, provocadas por jornadas exaustivas, insegurança no emprego, exigências descabidas, bullying e assédio, entre outras formas de violência.

Às vésperas do Dia Mundial da Segurança e Saúde no Trabalho, terça-feira que vem, a OIT põe o dedo numa ferida de impacto não apenas humanitário, mas também econômico-financeiro. As perdas estimadas com os riscos psicossociais equivalem a 1,4% do Produto Interno Bruto (PIB) global, a cada ano. Tudo resultado de como as atividades laborais são concebidas, organizadas e geridas num mundo assentado em flexibilização e informalidade.

Para chegar ao número de mortes, os pesquisadores cruzaram duas fontes de evidência. Primeiro, reuniram dados sobre a ocorrência global dos cinco principais fatores de risco psicossocial no trabalho: pressão excessiva; desequilíbrio entre esforço e recompensa; insegurança na contratação; longas jornadas; bullying e assédio. Na sequência, identificaram como esses fatores aumentam a probabilidade de condições graves de saúde, entre as quais doenças cardiovasculares e transtornos mentais. Por fim, relacionaram aos indicadores de mortalidade da Organização Mundial da Saúde (OMS) e ao estudo Global Burden of Disease (Carga Global de Doenças, em tradução livre), que quantifica perda de saúde por enfermidades, lesões e fatores de risco.

Além de quase 1 milhão de mortes, a OIT estimou 45 milhões de anos de vida saudável perdidos por trabalhadores de todo o planeta. Longas jornadas estão associadas a males do coração e acidente vascular cerebral. Estima-se que um terço (35%) das pessoas ocupadas trabalhem mais de 48 horas por semana. Ao longo da carreira, um em cada quatro trabalhadores (23%) sofreu ao menos um episódio de assédio; 18% foram vítimas de violência psicológica.

Em publicação da entidade, Manal Azzi, da área de Políticas e Sistemas de Segurança e Saúde no Trabalho, afirmou que “os riscos psicossociais estão se tornando um dos desafios mais significativos no mundo moderno do trabalho”. Assim, o enfrentamento ao problema é essencial tanto para proteger a saúde física e mental dos trabalhadores quanto para fortalecer a produtividade, o desempenho das empresas e o desenvolvimento sustentável dos países.

O relatório merece atenção particular num Brasil com quase 40 milhões de trabalhadores na informalidade — a despeito do desemprego na mínima histórica — e em pleno debate sobre redução de jornada para implantação do regime de dois dias de folga por cinco de trabalho. Há um par de PECs protocoladas no Congresso Nacional para alterar a legislação que, desde 1988, fixou em 44 horas a carga semanal. Dias atrás, o governo apresentou Projeto de Lei de teor assemelhado pedindo urgência na tramitação. O fim da escala 6x1 tornou-se plataforma de campanha do presidente Lula pelo quarto mandato. O empresariado, de modo geral, resiste à mudança, sob o argumento de aumento de custos e perda de produtividade na economia.

— A economia brasileira foi erigida por pessoas escravizadas que nunca descansavam, morriam cedo e eram substituídas por outras, traficadas a baixo custo. Até hoje, parte do país acredita que precisamos explorar mais nossos trabalhadores para conseguir competir, mas foi com dois dias de descanso que os Estados Unidos aumentaram a produtividade nos anos 1940. Aqui, a maioria já descansa dois dias, mas isso não foi garantido para todos. Precisa ser. A economia não quebrará, como não quebra com aumentos do salário mínimo de custo similar, nem quebrou em 1988, quando a jornada máxima foi reduzida de 48 para 44 horas semanais. O mesmo foi dito quando se quis acabar com a escravidão ou estabelecer outros direitos trabalhistas, que ajudaram a modernizar e fortalecer a economia, melhorando a saúde da população — argumenta Marcos Hecksher, pesquisador do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea).

Um ano atrás, o Ministério do Trabalho anunciou a inclusão dos riscos psicossociais no Programa de Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, após diálogos com representantes de trabalhadores e empregadores. O primeiro ano foi de adaptação. A previsão é que, a partir do fim do mês que vem, as normas passem a ser inspecionadas, com possibilidade de autuação. A OIT mencionou no relatório a decisão brasileira.

O estudo da organização também aponta que jornadas com dois dias seguidos de descanso favorecem o desligamento cognitivo. Isso significa que o trabalhador pode usar um dia para descansar e outro para lazer e/ou atividades pessoais. As pausas podem reduzir diagnóstico de burnout, já classificado como doença laboral, e de outros males. Sem falar que, no capitalismo, mais tempo para viver também implica horas adicionais de consumo de mercadorias e serviços. Urge fazer das facilidades do mundo moderno e digitalizado não apenas meio de lucratividade exagerada, mas ferramenta de bem-estar. Em vez de pulsão de morte, impulso à (boa) vida.

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UM CASE DO SUPREMO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Gilmar Mendes botou o bloco na rua para defender – não o STF – a bancada de que é líder no Supremo. Quer reafirmar quem governa o tribunal; e sobretudo socorrer o senador-togado Delegado Xandão, o que equivale a proteger o instrumento de que não podem prescindir – o inquérito xandônico das fake news.

Não será exagero depreender, do conjunto concentrado de entrevistas, que o problema do STF, segundo o decano, seria a presidência de Fachin, cuja campanha por código de ética alimentaria o vilipêndio à Corte. Sempre se chega a este mesmo lugar, o do 8 de janeiro permanente, em que, golpe à espreita, mesmo modestas tentativas de autocorreção sobre as práticas dos ministros serão ataques aos nossos salvadores.

A estratégia – por meio da qual Mendes e time comunicam inexistir autoridade para investigá-los – consiste em investir na pessoalidade, com uísques, charutos, contratos e sociedades, na hora de ser político e empresário, e, quando cobrados acerca das relações estabelecidas, sobrepor a impessoalidade. E então Moraes, Dias Toffoli, Nunes Marques etc. tornam-se o próprio Supremo. E assim a apuração sobre a conduta do indivíduo vira ataque à instituição, donde a reação via inquérito onipresente e infinito.

O bicho veio para ficar, faz sete anos – e Mendes diz em “alto e bom som”: “Vai acabar quando terminar”, ativo pelo menos até as eleições, dedicado à forja de delitos futuros, para punir aqueles políticos, inclusive parlamentares no exercício de suas prerrogativas, que decidirem pedir votos criticando (“perseguindo!”) ministros do Supremo, recorrendo de repente à tradição satírica do discurso político no Brasil – esse crime. O inquérito anunciado como foice sobre a cabeça da atividade político-eleitoral; admitido por arma-ameaça na mão de juízes incapazes de lidar com os reveses do debate público em que se meteram e em que interferem; inquérito instrumentalizado como mecanismo autoritário de controle.

É em socorro a isso que Mendes se move e expõe. Ele, intermediário, não tem respostas sobre as relações de Moraes com Vorcaro. Moraes, agente, não pode responder sobre suas relações com Vorcaro. Trata-se de grande diferença, a mesma que explica por que tem sido o decano a apregoar um pacote de medidas – já o chama de pacto republicano – que, fechando o Estreito de Ormuz investigativo, fulminará as possibilidades de que poderosos de verdade sejam punidos neste país.

Não foi a imprensa que transformou o caso Master em “um case” do STF. Não foi a imprensa que criou o contrato do banco com o escritório Barci de Moraes. Não foi a imprensa que criou a mensagem em que o dono do Master, no dia em que seria preso, perguntava a Moraes se conseguira bloquear algo. Não foi a imprensa que criou a sociedade hoteleira entre Toffoli e a rede vorcárica, tampouco tendo criado os meses em que, mesmo assim, o ministro se manteve relator do caso Master.

Não será por obra da imprensa que as investigações sobre o Master, caminhando em várias frentes, estejam bloqueadas na porção relativa às tessituras vorcáricas com ministros do STF.

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O QUE UM EDITORIAL NÃO DIZ

Vanessa Ribeiro Mateus*, O Estado de S. Paulo

Os magistrados brasileiros não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo

O debate sobre o regime remuneratório da magistratura e do Ministério Público resultou, nos últimos dias, em ataques infundados, que desviam a atenção dos verdadeiros problemas do Poder Judiciário. Defende-se a extinção de pagamentos legítimos, como se um juiz com o salário cortado pudesse, de repente, oferecer melhores serviços. Os magistrados brasileiros, ao contrário do propagado, não têm privilégios, tampouco são os mais bem pagos do mundo: a remuneração é simplesmente compatível com a responsabilidade da função – que incide sobre o futuro das pessoas – e com a demanda por justiça num país de conflitos sociais permanentes.

Julgar acarreta um custo pessoal elevadíssimo. Exemplo de fácil visualização é o dos juízes que lidam com o crime organizado. Ameaças à vida e à integridade física tornaram-se rotineiras, com duros impactos sobre a família do magistrado. Soma-se a isso a apreensão gerada pelas decorrências de uma sentença. Quem impõe a prisão de um agressor de mulheres, a obrigatoriedade do fornecimento de um remédio ou a oferta de um leito de Unidade de Terapia Intensiva (UTI) não pode errar, nem se deixar influenciar pelos interesses e pressões das partes.

A magistratura exige incontáveis renúncias. Ainda que as filas dos concursos estejam cheias, as togas estão vazias: cerca de 18% dos cargos de juiz seguem desocupados – sobretudo nas regiões mais afastadas dos grandes centros –, de acordo com o Justiça em Números 2025, do Conselho Nacional de Justiça (CNJ). O dado desmonta a narrativa de que os vencimentos são desproporcionais à prática do mercado para profissionais de igual excelência: se o valor fosse efetivamente elevado, então as vagas estariam todas preenchidas.

O fato é que muitos juízes estão deixando o serviço público para obter maiores ganhos na iniciativa privada. E a consequência dessa campanha orquestrada contra a magistratura será o enfraquecimento da prestação jurisdicional, com o agravamento da fuga de quadros e o esvaziamento de comarcas – com prejuízo direto aos cidadãos, que deixam de receber atendimento.

Essa realidade não apareceu em editorial publicado pelo Estadão ( Judiciário insaciável, 13/4, A3). O texto fugiu da discussão dos reais gargalos da Justiça e exagerou no retrato do que é exceção. O número de magistrados investigados por venda de sentenças no Brasil, por exemplo, dentro de um universo de 18 mil, pode ser contado nos dedos; no entanto, surgiu distorcido como ilustração do comportamento geral. Vale para a magistratura o que vale para os jornalistas, os empresários e qualquer outra classe: os erros de um indivíduo não representam a totalidade.

Semelhante falseamento foi a tônica da descrição das prerrogativas dos magistrados. Diferentemente do que afirmou o jornal, nenhum juiz pode definir a própria remuneração, e muito menos “criar benefícios por decreto”. A lei que fixa o subsídio é aprovada por deputados federais e senadores e submetida ao presidente da República. Nenhum magistrado tem a caneta no processo legislativo.

Da mesma forma, o CNJ, responsável pelo controle externo do Judiciário, dispõe de autonomia para regulamentar decisões do Supremo Tribunal Federal (STF). Sob a presidência do ministro Edson Fachin, o colegiado acertou ao compatibilizar as determinações com a necessidade de preservação da independência judicial. Não houve recriação do auxílio-moradia, que jamais foi julgado inconstitucional e prosseguirá reservado somente a hipóteses excepcionais, de caráter indenizatório. Também não houve reinstituição da “assistência pré-escolar”, apenas se evitou a penalização da maternidade, para que as mulheres possam assumir posições de relevância, inclusive as mães de filhos pequenos.

A pior das ilações, entretanto, foi a de que as “corporações” da magistratura e do Ministério Público são corruptas. Ora, se há “desvio de finalidade”, “locupletamento” e “apropriação de recursos públicos”, é dever do jornal nomear os envolvidos e descrever as situações, de modo que possam responder perante a lei. Insinuações de ilegalidades, se não comprovadas, servem só à destruição de reputações – o que é ainda mais grave quando praticado por meio da deturpação da liberdade de imprensa.

Nunca é demais lembrar que os membros do Judiciário agora atacados eram, até pouquíssimo tempo atrás, incensados como defensores do Estado de Direito, incumbidos de salvaguardar a Nação da ameaça do autoritarismo. Apenas naquele momento as garantias que asseguram a imparcialidade das decisões judiciais contra as pressões políticas e econômicas eram bem-vindas?

Ao substituir a análise pela generalização – por meio de uma escolha de palavras que não é fortuita –, a publicação deixou de focar no que realmente importa: o acesso da população a uma Justiça efetiva e independente. Não se trata de estilo, mas de uma opção retórica que parece orientada para finalidades específicas, que precisam ser compreendidas para reconduzirmos o debate a um plano racional e produtivo. Se o ruído dos adjetivos superar a clareza dos fatos, o cidadão permanecerá desinformado.

*Presidente da Associação dos Magistrados Brasileiros (AMB)

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MORRE JOSÉ FREJAT

Ester Lima, TV Globo, g1

José Frejat, pai do cantor Frejat e ex-deputado, morre aos 102 anos no Rio

Ele estava internado com uma pneumonia. O ex-deputado teve uma trajetória marcada pela resistência política.

O ex-deputado federal José Frejat morreu aos 102 anos neste sábado (25), no Rio. Ele estava internado com uma pneumonia e não resistiu. O político era pai do cantor Frejat. A informação foi confirmada pela assessoria do artista.

José Frejat teve uma trajetória marcada pela resistência política. Foi presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), fundador do Movimento Nacionalista Brasileiro (MNB) e um dos nomes importantes na luta pelas Diretas Já.

Ele também era advogado e ex-procurador da Fazenda.

O velório será realizado às 13h30 deste domingo (26), no Cemitério São João Batista, em Botafogo. O sepultamento está previsto para as 15h30.

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TEMPOS MOVEDIÇOS

Marco Aurélio Nogueira*, O Estado de S. Paulo

O mundo exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia

A derrota eleitoral de Viktor Orbán na Hungria, em 12 de abril de 2026, mostrou que governantes autoritários também são, um belo dia, alcançados pela fadiga de material.

Depois de 16 anos sucessivos no poder, o primeiro-ministro “iliberal” foi esmagado nas urnas. Do interior de seu círculo sombrio, marcado por dissidências e silêncios forçados, irrompeu Péter Magyar, flexível o suficiente para organizar uma coalizão política aberta ao centro.

Somado às patacoadas seriais de Donald Trump no mundo, o afastamento de Orbán quebrou uma das joias da coroa da extrema direita global. Não se sabe o que decorrerá disso, mas o fato mostra que a vida segue, driblando padrões tidos como fixos.

A situação mundial segue complexa e imprevisível. Está impulsionada por duas determinações perturbadoras.

A primeira é que o sistema internacional permanece sem instituições que o organizem e atenuem a defesa encarniçada de interesses econômicos e geopolíticos nacionais. As grandes potências deixam seus exércitos de prontidão porque são movidas pela destruição de “inimigos” fabricados, que, pelos azares da história, ocupam territórios ricos e/ou estratégicos. Em nome disso, dão-se ao direito de exterminar populações que, a rigor, nem sequer se beneficiam da riqueza de suas terras. O multilateralismo desapareceu e a Organização das Nações Unidas (ONU) pouco pode fazer para conter a dança macabra das superpotências. A cooperação entre os governos é reduzida, o que dificulta a resolução de problemas planetários comuns.

A segunda é que a insatisfação e a indignação se espalharam. Seja no plano político-social, seja no plano moral, os cidadãos de cada país estão saturados emocionalmente. Suas organizações políticas não os abrigam. Seus governos não os agradam. A vida vivida está cheia de dificuldades. Se olharem para além de suas janelas, veem massacres e guerras que se estendem no tempo. Ucrânia, Rússia, Gaza, Irã, Israel. Uma bola de fogo que ziguezagueia pelos continentes.

Com isso, as sociedades nacionais inflam-se de desentendimentos. Sobressaltadas, indignadas e refratárias a diálogos racionais, as pessoas ficam prontas para aderir à primeira caravana populista e/ou de extrema direita que despontar no cenário. Podem assumir a xenofobia e atacar estrangeiros e imigrantes; podem abraçar o racismo para entrar em atrito com africanos e muçulmanos; podem acreditar no supremacismo branco e concluir que os caucasianos estão sendo “substituídos” por outras cores de pele; podem virar fanáticos religiosos para combater tudo o que não integre suas bíblias e seus credos fundacionais. Afundadas num turbilhão de insatisfações, tendem a apoiar candidatos “alternativos”, que prometem novos amanhãs e falam em repor o que se perdeu. Foi assim na Hungria. Foi assim na eleição de Trump e de Bolsonaro. Poderá ser assim no Brasil.

Há muita raiva contra as elites, os governos e os políticos. É um problema associado à estima social. A raiva pode se voltar contra os efeitos da globalização, os imigrantes, o desemprego, a exploração, a igualdade de gênero, mas se alimenta sobretudo da sensação de que os governantes não olham para as pessoas. Políticas públicas fracassam e não há uma ideia sólida de bem comum, solidariedade e justiça.

Os tempos são movediços, marcados por revoluções provocadas pela globalização, pela tecnologia, pelo capitalismo baseado em dados, pelas lutas identitárias. Tudo gira em alta velocidade. Fatos se acumulam em sucessão frenética e são esquecidos dias depois. Desinformações avançam a galope. Imagens falam mais alto do que palavras, captam a atenção no instante.

A emergência da inteligência artificial (IA) alterou o modo como agimos, pensamos, aprendemos e compreendemos o mundo. Ela simula nossas habilidades, altera nossos mecanismos de cognição, amortece nossa vontade de pesquisar. Seduz. Seus aplicativos ficam cada vez mais fáceis de usar. Poderá ela melhorar a qualidade de vida? Há oportunidades e avanços, riscos e incógnitas.

Estaríamos numa “era de Trumps” destemperados e megalomaníacos? O presidente norte-americano agride e bagunça o mundo, mas suas condições de reprodução não estão claras. Terminará como mais um retrato na parede da Casa Branca? Ou espalhará sementes por outras plagas? Ocorre o mesmo com a extrema direita: até onde ela chegará?

Sem democracia, os cidadãos não conseguem defender sua privacidade em consonância com a pluralidade social. A democracia é um regime de negociações, entendimentos e civilidade. Seu foco é abrir espaços para todos, processar conflitos e reivindicações tendo em vista o bem-estar de uma comunidade.

Os tempos pedem entendimentos. A indignação precisa virar força política. É importante ganhar eleições e derrotar a extrema direita, mas isso só terá desdobramentos efetivos se houver uma agenda política positiva, que construa consensos em torno das reformas necessárias.

O mundo é um feixe de contradições, riscos e possibilidades. Ele exige que saibamos pensar, agir e dialogar, articulando a luta pelo que é comum com a luta pela democracia.

* Professor titular de teoria política da UNESP

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