sábado, 11 de julho de 2026

O CEARÁ NA CRISE BOLSONARISTA

Juliana Diniz*, O Povo

Enquanto Flávio Bolsonaro tenta arrefecer os ânimos, lançando o nome de Alcides Fernandes ao Senado, Michelle faz o oposto, anunciando a criação de um movimento próprio, intitulado "Imparáveis", o que só confirma o diagnóstico de que ela tem projeto pessoal de consolidação de sua liderança no campo da direita

A intensificação da crise em torno da pré-candidatura de Flávio Bolsonaro tem desestabilizado os cenários estaduais, como é o caso do Ceará. A vinda do filho de Bolsonaro à Fortaleza para apaziguar os ânimos é uma prova do esforço que a sigla tem mantido para garantir alguma coesão na disputa cearense.

Embora tenha vindo justamente para fortalecer o palanque local, a presença de Flávio produz um efeito político ambíguo, especialmente após a veiculação da notícia de que o PSDB não lançará chapa própria para disputa da presidência. Isso se dá porque, em terras cearenses, Ciro precisa administrar o incômodo de se aliar ao bolsonarismo sem ser, na origem, um bolsonarista convicto. Sua aliança eleitoral com o PL criou uma contradição que desagrada a gregos e troianos, porque, do lado do bolsonarismo, a desconfiança com seu nome é real e, no campo progressista, ficou um gosto agridoce de um pragmatismo radical difícil para uma parte dos ciristas históricos digerir.

A presença de Flávio Bolsonaro atrapalha uma estratégia de marketing que poderia superar esse impasse: a de manter distanciado o palanque local do nacional, evitando uma associação direta da imagem dos dois candidatos. Ciro Gomes poderia aparecer próximo de nomes como Capitão Wagner e Alcides Fernandes, sem precisar de um abraço público com um Bolsonaro. Sem candidatura do PSDB, a estratégia é menos viável.

A dissociação fica difícil, ao mesmo tempo em que a desconfiança interna ao campo é permanentemente alimentada por Michelle Bolsonaro, que sempre menciona o nome de Ciro ao se referir à crise com o enteado. O partido, no Estado, está conflagrado, e, também por isso, o palanque cearense é central na crise. É uma das causas mais manifestas do desconforto da ex-primeira dama em ver preterido o seu protagonismo, inclusive aquele voltado à construção de candidaturas de nomes ligados ao PL Mulher.

Enquanto Flávio Bolsonaro tenta arrefecer os ânimos, lançando o nome de Alcides Fernandes ao Senado, Michelle faz um movimento oposto, anunciando a criação de um movimento próprio, intitulado "Imparáveis", o que só confirma o diagnóstico de que a ex-primeira-dama tem um projeto pessoal muito claro de consolidação de sua liderança no campo da direita, ao mesmo tempo em que parece disposta a minar o capital dos enteados. Camilo Santana fez questão de ressaltar o que chamou de coerência de Michelle, aproveitando-se da desorganização bolsonarista para fragilizar ainda mais a pré-candidatura de Ciro Gomes.

Por mais que o grupo em torno de Ciro deseje o contrário, o que será da eleição local depende muito do desempenho da candidatura presidencial. Michelle e o PL o demonstram bem, e o foco no Ceará é a prova disso.

Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará (UFC)

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UMA NUVEM QUE PESA TONELADAS

Fabio Gallo, O Estado de S. Paulo

A IA está mudando a economia mundial, mas para isso usa uma quantidade gigantesca de capital

Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve: o termo usado era ‘nuvem’; descobrimos que a nuvem pesa milhões de toneladas de concreto, em data centers

Se alguém dissesse, poucos anos atrás, que a infraestrutura e os computadores usados para desenvolver a inteligência artificial (IA) consumiriam mais eletricidade do que todo o Japão, provavelmente pareceria exagero. Mas não é.

Segundo a Agência Internacional de Energia (IEA), os data centers dedicados à IA deverão consumir cerca de 945 TWh em 2030 – mais do que todo o consumo anual de eletricidade da terceira maior economia do mundo. Durante anos fomos levados a acreditar que a economia digital era leve. O termo usado era “nuvem” e imaginávamos algo virtual, quase sem peso.

A inteligência artificial está revelando o contrário. Descobrimos, agora, que a nuvem pesa milhões de toneladas de concreto. Não estamos falando apenas de algoritmos. Mas de usinas de energia, linhas de transmissão, data centers, sistemas de refrigeração, cabos submarinos. A IA deixou de ser apenas software. Tornou-se uma das maiores obras de infraestrutura econômica do século 21.

Um exemplo foi o anúncio da Meta, que vai investir US$ 9,1 bilhões no primeiro grande data center no Canadá, com potência de 1 gigawatt, expansível para 1,8 GW, e para isso precisará de uma usina própria movida a gás natural. Uma única instalação de IA já exige infraestrutura energética comparável à de uma cidade.

Até recentemente a pergunta era qual seria a produtividades trazida pela IA. Agora, surge outra, talvez mais incômoda: como essa infraestrutura será financiada – e se ela será capaz de gerar retorno compatível com o volume de capital que está absorvendo.

Em seu último relatório semestral, a OCDE afirma que a economia mundial ainda parte de uma base sólida com os investimentos em IA. Mas esse ponto precisa ser visto com cuidado. Diante da desaceleração global apontada pelo FMI, os investimentos em IA não eliminam os riscos nem impedem a perda de ritmo da economia. Funcionam como um dos principais amortecedores da desaceleração. E aqui surge um paradoxo.

O mesmo ciclo de investimentos que ajuda a manter a economia em movimento também pode se transformar em fonte de instabilidade financeira. Talvez estejamos diante de duas revoluções distintas. A primeira, é tecnológica. A segunda, financeira.

A IA já está transformando a economia mundial. Mas, para fazê-lo, exige uma quantidade gigantesca de capital físico e financeiro, antes que seus retornos estejam plenamente comprovados. Nesse momento, o entusiasmo costuma ser mais acelerado do que o cuidado de medir riscos. A IA mudará o mundo, com certeza. Mas isso nos traz uma pergunta: qual parte dessa infraestrutura permanecerá quando a euforia passar – e quem vai pagar a conta até lá?

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LINHAGENS DO ESTADO DE DIREITO

Oscar Vilhena Vieira*, Folha de S. Paulo

Chineses têm participado de maneira cada vez mais ativa na formulação do direito internacional

O Brasil também deveria adotar urgentemente um plano de consolidação de seu Estado de Direito

O Fórum Mundial de Juristas levou a Pequim, neste mês, mais de 500 especialistas e profissionais do direito de diversos países, com o objetivo de promover o intercâmbio de experiências entre diferentes linhagens do Estado de Direito.

O momento não poderia ser mais apropriado. Apesar da crescente interdependência econômica e vertiginosa interconexão tecnológica, temos assistido a um forte declínio da capacidade das instituições baseadas no direito (rule based institutions) em responder aos múltiplos desafios globais, que vão dos conflitos armados à crise climática, passando pelo comércio e o respeito aos direitos humanos.

Essa crescente desordem internacional, agravada pela gestão Trump, está diretamente relacionada à onda de autocratização nos diversos continentes. A ascensão de líderes populistas, nacionalistas ou mesmo extremistas, tem contribuído para fragilizar a autoridade do direito, não apenas no âmbito doméstico, mas também internacional.

O ideal de uma ordem democrática e global baseadas no direito, como um instrumento de estabilização de expectativas, contenção do exercício arbitrário do poder e construção de consensos, vai se esvanecendo em face de uma realidade política cada vez mais bruta. O mais grave é que essa ordem baseada no direito vem sendo atacada, e, em muitas circunstâncias, de forma contundente, por aqueles que a arquitetaram.

Nesse contexto, chama a atenção a forma como a China vem se apropriando da linguagem do Estado de Direito para consolidar o seu poder nos planos interno e internacional. Não se trata, evidentemente, de um transplante de ideais liberais —centrados na autonomia dos indivíduos e nos direitos e liberdades que os protegem— para o contexto chinês. Mas sim, de um plano de consolidação de um "Estado de Direito com características chinesas", enraizado nas tradições de centralização do poder, burocracia hierarquizada, além de "virtudes éticas" herdadas do confucionismo, que deve se "completar até 2035". Assim mesmo, com data marcada!

Em sua linhagem chinesa, o Estado de Direito é compreendido mais como uma ferramenta de governança —por meio de regras— econômica, política e social, do que como um regime político em que o poder se encontra limitado pelo direito. Nesse sentido, seria mais correto falar em rule by law, do que em rule of law.

Sucessivas reformas judiciais, adoção de "legislação científica" e o emprego cada vez mais extenso e sistemático de meios digitais, têm por objetivo reduzir a corrupção e o arbítrio de lideranças governamentais, assim como ampliar a igualdade, pela padronização da aplicação da lei em todo o território. As "questões sensíveis" permanecerão sob a jurisdição do Partido.

No plano internacional, além da expansão de seu poderio econômico, a China parece buscar ampliar sua influência propondo a coordenação política e a estabilização de expectativas, por meio do direito internacional e de instituições multilaterais. Não se trata, mais uma vez, de uma recepção passiva das instituições internacionais arquitetadas no pós-guerra. Os chineses têm participado de maneira cada vez mais ativa na formulação do direito internacional, na reformulação e criação de instituições multilaterais, que expressem suas ambições no campo comercial e geopolítico.

O que o Brasil poderia tirar dessa troca de experiências? Em primeiro lugar, que há um espaço de colaboração para atualização de regras e instituições internacionais. Em segundo, e mais auspicioso, o Brasil também deveria adotar urgentemente um plano de consolidação de seu Estado de Direito. Evidentemente que um Estado de Direito de linhagem democrática, tal como estabelecido pela Constituição.

*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)

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HONRA AO MÉRITO DOS FILHOS PRODÍGIOS DE MINISTROS DO STF

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Filho de Nunes Marques acumulou R$ 28 milhões com dois anos de carreira

Kevin Marques é prodígio congênito do direito, alguém cujas vocação causídica de berço e atividade advocatícia bem-sucedida não podem ser duvidadas por lhe ser o pai membro do STF. O talento, associado ao trabalho, cedo ou tarde – cedíssimo, aqui – resulta. Resultou em que, com dois anos de carreira, o filho de Nunes Marques tivesse acumulado quase R$ 28 milhões. Cumpre jornada referencial também a banca do filho de Luiz Fux.

O filho de Gilmar Mendes, a partir do negócio da família, o IDP, associou-se ao braço da CBF que vende cursos, parceria desde a qual, na prática, administraria a entidade. Esforço de profissionalização que logo impedirá que o samir-da-vez custeie viagens de moças com dinheiros da confederação.

O contrato é de 2023. E não haveria mesmo motivo para que o ministro se considerasse suspeito em 2024, ante ação relativa à CBF. Preferiu determinar que fosse suspensa a decisão que destituíra do cargo o então presidente da entidade. Uma coisa é a sociedade comercial do empreendimento familiar com a CBF; outra, o fundador do empreendimento julgar matéria sobre o presidente da entidade com que o negócio da família tem sociedade.

Diga-se, de volta a Kevin, que ele, aos 25 anos, tem cuidados que faltam a parentes de outros ministros. Não atua no STF. Prioriza o TRF-1, onde Nunes Marques teve toga até 2020, e a Justiça do Piauí, Estado de origem da família. Será maledicência supor que o pai, juiz no Supremo, mantenha influência sobre tribunal sediado em Brasília, ou sobre o Judiciário da terra da qual ascendeu.

Registre-se que o STF autoriza que parentes de ministros advoguem no STF, inclusive para empresas com processos sob os cuidados do ministro parente, desde que o processo em que atuem não esteja sob os cuidados do ministro parente. Foi assim que Dias Toffoli pôde tomar providências sobre a J&F, ainda que sua esposa fosse advogada do grupo. Suspendeu-lhe multa de R$ 10,3 bilhões.

Exalte-se a força da inspiração de – o valor da convivência com – um Alexandre de Moraes como agente impulsionador de portentos do direito, ainda que sem vínculos sanguíneos. Não haverá quem feche contrato de R$ 130 milhões com alguém porque casada com o juiz capaz de tirar o Twitter do ar.

Com escritório fundado em 2024, pouco depois de aprovado na OAB, Kevin não tardaria a representar clientes do tamanho da Refit, para quem, em 2025, conseguiu – no TRF-1 – liminar suspendendo a interdição da refinaria. Tampouco demoraria a ingressar no ramo da prestação de consultoria a consultorias, graças ao quê, entre 2024 e 2025, recebeu cerca de R$ 282 mil da consultoria do pai de seu sócio, a Consult – que, no mesmo período, recebera R$ 6,6 milhões do Master e R$11,3 milhões da JBS.

Naquela altura, os donos da JBS – tendo como advogada, aliás, a esposa de Dias Toffoli – eram parte em disputa bilionária, no STF, pela propriedade da Eldorado Celulose. Relator: Nunes Marques. •

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MORRE PEPPINO DI CAPRI

Da Folha de S.Paulo

Morre cantor e compositor Peppino Di Capri, do sucesso 'Champagne', aos 86 anos

Artista italiano foi um dos astros da música de seu país

Causa da morte ainda não foi divulgada por sua família

O cantor e compositor italiano Peppino di Capri morreu na manhã deste sábado, na ilha de Capri, na Itália, aos 86 anos. A notícia foi divulgada na própria rede social do artista, com uma fotografia e a legenda "tchau, Peppino". A causa da morte não foi divulgada pela família.

Nascido em julho de 1939 na mesma ilha onde morreu, Peppino foi um renomado cantor, pianista e compositor, se destacando-se como um dos grandes astros da música popular italiana do século 20. Ele ficou mundialmente famoso por clássicos românticos como "Champagne" e "Roberta" —sendo essa última a que deu início a uma onda de batismos de crianças com esse nome na Itália.

Peppino di Capri, nascido Giuseppe Faiella, esteve desde cedo em contato com o universo musical. Seu avô tinha uma banda na ilha de Capri e o seu pai, uma loja de discos, além de saber tocar vários instrumentos. Aos quatro anos, o cantor já se apresentava para os soldados aliados nas bases militares da ilha durante a Segunda Guerra Mundial.

Em 1953, ele formou o Duo Caprese e se apresentava nas boates de Capri ao lado do baterista e amigo Ettore Falconieri. Anos depois, a dupla participou do programa de auditório Primo Applauso, venceu a competição e ganhou um aparelho de televisão.

Em 1957, ele formou o grupo Capri Boys, uma banda inspirada nos roqueiros americanos, com Pino Amenta, Mario Cenci e Gabriele Varano. Após um contrato com gravadora milanesa Carish, o grupo passou a ser chamado de Peppino di Capri e i Suoi Rockers e emplacou sucessos como "Malatia", "Let Me Cry" e "Nun È Peccato".

Em dezembro de 1961, ainda com a banda, o artista lançou o twist, dança inspirada no rock, na Itália com a interpretação de "Let's Twist Again", música que vendeu 1 milhão de cópias e levou Peppino di Capri ao topo das paradas. Depois, se seguiram as canções "Don't Play That Song" e "St. Tropez Twist", assim como turnês pela Alemanha e pelos Estados Unidos.

Na época, Peppino di Capri apostava num arquétipo do cantor melódico italiano, mas que estava, ao mesmo tempo, voltado para o futuro. Ele, então, transmitia segurança ao mesmo passo que tinha uma áurea de travesso, se deixava fascinar pelo estilo rock sem deixar de ser o tipo de "namorado ideal" para a legião de fãs que o seguia.

Esse charme de seus primeiros tempos, somado a uma energia juvenil, o lançou em nmundo em rápida transformação e garantiu a ele um papel singular na música italiana. No auge da sua carreira, Peppino di Capri chegou a abrir os shows dos Beatles durante a turnê italiana da banda britânica, em 1965. O italiano foi um dos grandes responsáveis por levar o gosto pelo rock à Itália.

Uma década depois de fomada, a banda Peppino di Capri e i Suoi Rockers chegou ao fim, e Peppino di Capri decidiu seguir carreira solo.

O cantor também foi consagrado pelo Festival de Sanremo, principal concurso de música popular e evento cultural mais visto da televisão italiana. Ao todo, esteve presente em 15 edições do evento, levando o primeiro lugar apenas duas vezes —em 1973 com a música "Un Grande Amore e Niente Più" e depois, em 1976, com a "Non lo Faccio Più". Ele também ganhou o Festival da Canção Napolitana em 1970 com "Me Chiamme Ammore".

"Sentia que o melhor ainda estava por vir. Talvez seja justo que aconteça dessa forma para canções que têm um estilo clássico não ligado a uma dança ou a uma moda, algo que nos diverte só por um verão e depois irrita", disse em 1973 ao vencer o festival.

Naquele mesmo ano, Peppino di Capri lançou "Champagne", composta por Mimmo di Francia, Depsa e Sergio Iodice. Conhecida pelo refrão melancólico, a música teve inicialmente uma recepção morna. A fama veio depois, gradualmente, até se tornar um clássico na Itália, passando a integrar o repertório típico de casas noturnas e bares com piano.

Peppino di Capri representou a Itália no festival Eurovision em 1991. O cantor interpretou "Comme è Ddoce 'o Mare", uma balada romântica escrita em dialeto napolitano, e terminou a competição em sétimo lugar. Essa foi a primeira vez em que o país enviou à competição uma canção não cantada em italiano.

A vida amorosa do artista esteve entrelaçada com sua produção musical. O primeiro casamento foi com Roberta Stoppa, que o acompanhou durante os anos de seu maior sucesso artístico e, segundo o próprio cantor relatou em várias entrevistas, foi responsável por sugestões de estilo que se tornariam sua marca como as famosas jaquetas com acabamento metálico. Foi para ela que Peppino dedicou a canção "Roberta", que se tornaria uma das mais famosas de seu repertório.

Numa crise no relacionamento com Stoppa, entretanto, o cantor conheceu quem viria a ser sua segunda mulher, Giuliana Gagliardi, que se tornou sua companheira na maturidade e no renascimento profissional, permanecendo ao seu lado por mais de 40 anos. Para ela, a canção dedicada foi "Un Grande Amore e Niente Più", com a qual venceu o Festival de Sanremo.

O trabalho musical de Peppino foi lembrado nas telas de cinema com a cinebiografia "Champagne", lançada no ano passado. O longa acompanha as mais de seis décadas de carreira do artista e tem Francesco Del Gaudio no papel principal, interpretando Peppino.

Entre suas lembranças mais marcantes, Del Gaudio lembra a primeira exibição privada do filme para o cantor. "Ele desabou em lágrimas durante as cenas dedicadas à guerra, quando ainda era criança. Aquelas imagens tocaram uma parte muito profunda e dolorosa de sua história pessoal. É assim que me lembro dele, com muita ternura", disse o ator.

Peppino di Capri realizou dezenas de apresentações no Brasil ao longo de sua carreira, marcadas por shows lotados em capitais, aparições na TV e público emocionado e cantante.

Sua última aparição nos palcos aconteceu há cerca de um ano. Apesar da saúde já debilitada, Peppino di Capri ofereceu ao público uma interpretação de "Champagne" na Certosa di San Giacomo, na ilha de Capri, durante um evento cinematográfico.

O funeral será realizado na tarde deste domingo, na antiga Catedral de Santo Stefano, na Piazzetta di Capri. O cantor deixa três filhos, Igor, com Roberta Stoppa, e Edoardo e Dario, que teve com Giuliana Gagliardi.

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E POR FALAR EM SAUDADE

Eduardo Affonso, O Globo

É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais

Quem melhor que uma cardiologista para falar de saudade — essa palavra branca que, peixe, se evade e pode até desencadear a síndrome do coração partido? Foi o que fez Stephanie Rizk, em sua coluna no GLOBO, em 6 de julho. Ali ela diz que a saudade não é invenção sentimental, mas “uma tecnologia antiga de sobrevivência”. Deve ser por isso que a saudade no meu peito ainda mora. Peço: leva eu, sodade, eu também quero ir. E essa saudade enjoada não vai embora.

Saudade é palavra triste quando se perde um grande amor (saudade de você debaixo do meu cobertor). É arrumar o quarto do filho que já morreu (não sei quem tem mais saudade: se a saudade, se sou eu).

Essa presença da ausência de alguém, de algum lugar, de algo, enfim, seria uma forma ancestral de nos empurrar de volta aos vínculos (diz que é verdade, que ainda você pensa muito em mim). Um processo que “nos devolve ao presente com mais coragem” e “dá contorno ao dia”. Aí a gente tem saudade da Amélia — aquilo, sim, é que era mulher. Saudade de Itapuã, da Maria, da Bahia, dos tempos da Panair.

Rizk defende que não é o caso de tentar acabar com a saudade (não a afogue nos copos de um bar), mas de saber o que fazer com ela. Talvez a própria saudade faça um samba em seu lugar. Diz que “Não se pode dizer que saudade mata”. Será? A saudade é dor pungente. Se eu não mato a saudade — é, deixa estar —, a saudade mata a gente, morena. É mal de amor, é dor que dói demais. Dói como um barco, que aos poucos descreve um arco e evita atracar no cais.

“A saudade tem uma delicadeza que a diferencia da solidão.” Sim: solidão é o carrasco sombrio, e a saudade a vergasta. Ambas vêm do latim solitas (isolamento, desamparo), que deu em soledade e solitário. Daí que ter saudade até que é bom, melhor que caminhar vazio. E quem foge da saudade, preso por um fio, se afoga noutras águas, mas no mesmo rio.

Fernando Pessoa supôs que só portugueses consigam senti-la bem, porque têm uma palavra para dizer que a têm. Não é verdade. Alemães têm Sehnsucht; galegos, morriña; espanhóis, añoranza. Romenos a sentem ainda melhor: sentem dor. Mineiros e cabo-verdianos a chamam sodade: dos bailes no clube da esquina, de ter visto muita coisa — menos a felicidade.

Saudade é o som do tempo que ressoa, a luz que sobra da pessoa. É o pior tormento, é pior que o esquecimento, pior que se entrevar. Demorada, “deixa de ser apenas uma experiência emocional e passa a conversar com o sistema imunológico, hormonal e cardiovascular”. Diz Rizk que ela “pode ferir, mas também pode costurar”. Sei não. Para ter felicidade, é preciso que a saudade vá bater noutro lugar.

Contra a dor da saudade — receitam os poetas —, o remédio é cantar.

(Obrigado, Alventino Cavalcanti, Antônio Almeida, Ary Barroso, Ataulfo Alves, Braguinha, Carlinhos Lyra, Cecília Meireles, Chico Buarque, Chico César, Cuca Roseta, Djavan, Dorival Caymmi, Fernando Brant, Gilberto Gil, Hermano Silva, Hermínio Giménez, Humberto Teixeira, José Augusto, José Fortuna, Joubert de Carvalho, Laércio Alves, Lupicínio Rodrigues, Luiz Gonzaga, Mário Lago, Max Nunes, Milton Nascimento, Moska, Ney Azambuja, Pablo Neruda, Paulo César Pinheiro, Paulo Gesta, Paulo Sérgio Valle, Peninha, Pinheirinho Júnior, Ronaldo Bôscoli, Sueli Costa, Tavito, Tito Madi, Tito Neto, Vanessa Rangel e Vinícius de Moraes.)

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BRASIL É TERRITÓRIO HOSTIL A MENORES

Flávia Oliveira, O Globo

Maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até morte violenta subiram na faixa de zero a 17 anos

O Brasil precisou de uma lei para punir o castigo físico a crianças e, mais de uma década depois, ainda convive com a chaga que atravessa séculos e gerações. Causou indignação nesta semana a agressão de um pai contra a filha, de 3 aninhos, em via pública no Paraná. Tudo registrado por uma câmera de segurança. A menininha vinha com o (ir)responsável e o irmão. Chorava. Em reprimenda, recebeu no rosto o chute que a levou ao chão. Um morador, testemunha da brutalidade, correu para repreender o criminoso; foi repelido. A mãe da pequena procurou a polícia, ao assistir à cena numa rede social. O genitor está preso agora, sob suspeita de também ter atacado o enteado, de 5 anos. No Rio Grande do Sul, um missionário americano, há nove anos no país, espancou até a morte o filho, também de 3 anos, como castigo por não ter recebido um bom-dia.

O par de crimes produziu comoção, como se casos isolados fossem. Não são. O Brasil é um território hostil aos menores. Uma evidência está na quantidade de leis destinadas a assegurar direitos e proteção aos miúdos. Neste julho, o Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA) completa 36 anos. No início da semana, no Senado, uma audiência pública organizada pela Comissão de Direitos Humanos constatou que o desafio que se apresenta às autoridades, mais que elaborar, é fazer valer a legislação.

Avolumam-se os casos de violência, a despeito de o arcabouço legal ter evoluído, tanto em prol de crianças quanto de mulheres, caso das leis Maria da Penha, da importunação sexual e do feminicídio. Além do ECA, hoje também em recém-sancionada versão para coibir violações por meio digital, a Lei Menino Bernardo, de 2014, qualificou e agravou penas para castigos físicos, tratamento cruel e degradante na educação de meninos e meninas. Bernardo Boldrini, órfão de mãe, negligenciado pelo pai, chegou a pedir a um juiz para mudar de família. Acabou assassinado pela madrasta, numa trama nefasta que envolveu o próprio irmão, uma amiga e o pai do menino. O crime apressou a aprovação do texto, originalmente batizado de Lei da Palmada.

Até hoje, não é incomum ouvir em conversa de bar, almoços de família e na babel das redes sociais muxoxos dos que naturalizam tapas, surras, bofetões de caráter pedagógico. Muita gente por estas bandas cresceu — e sobreviveu — apanhando. Assim sedimenta-se a cultura de, como diz o ditado, “o que não mata fortalece”. E as ocorrências, em vez de arrefecerem, recrudescem.

A edição mais recente do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, com estatísticas consolidadas de 2024, apurou aumento nos registros de maus-tratos, lesão corporal dolosa em ambiente doméstico e até de morte violenta na faixa etária de zero a 17 anos. Naquele ano, foram 2.356 assassinados, crescimento de 3,7% sobre 2023. Pouco mais de 10% das vítimas (253) tinha até 11 anos. Entre crianças de zero a 4 anos, os pesquisadores contaram 8.055 casos de maus-tratos, alta de 6,8%, e 2.204 de agressões físicas (+7,9%). No universo de menores de idade, houve, respectivamente, 33.269 e 20.575 ocorrências. É como, pelo Censo 2022, molestar toda a população de Novo Progresso (PA) e espancar Caravelas (BA) inteirinha.

A naturalização da violência física como método de correção e disciplina, especialmente na primeira infância, explica a escalada de casos, escreveu o pesquisador Cauê Martins, doutor em sociologia pela USP. As situações de maus-tratos predominam nas (supostas) relações de cuidado e disciplinas de crianças; as lesões corporais se acentuam na adolescência. Até os 9 anos, meninos apanham mais; a partir dos 10, as meninas. Os agressores são pessoas da família em 93% dos casos. Há concentração de ocorrências nos dias úteis, compatível com castigos aplicados no ambiente doméstico e associados às rotinas escolar e laboral. O perigo, tal qual nos registros de abuso sexual e estupro de vulneráveis, não mora ao lado, mas dentro de casa.

A violência sexual bateu recorde em 2024, com 87.545 vítimas. Praticamente oito em dez tinham menos de 14 anos, e dois terços dos casos aconteceram em casa. Também crescem no país as violações cometidas ou tramadas via internet — sobretudo contra meninas, com agressores igualmente menores de idade. Os crimes vão de injúria e difamação a submissão, constrangimento ou estupro coletivo. Na Zona Sudoeste do Rio, estudantes do Colégio Cruzeiro, com mensalidade de R$ 3 mil a R$ 5 mil, são investigados por catalogar numa plataforma digital por categorias sexuais 65 alunas de 14 e 15 anos. Três anos atrás, um grupo do Colégio Santo Agostinho, na Barra da Tijuca, foi acusado de usar um programa de inteligência artificial para criar, depois espalhar, imagens íntimas de duas dezenas de adolescentes. Infância e adolescência brasileiras estão feridas em corpo e alma.

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RELEMBRANDO ZÉ PRADO

Memória – Se estivesse vivo, Zé Prado completaria hoje 94 anos. Em 11 de julho de 1932, nasce em Sobral (CE), José Parente Prado, filho do ex-prefeito de Sobral Jerônimo Medeiros Prado e Francisquinha Gomes Parente Prado. Em continuidade aos passos do pai, Zé Prado ingressa na política em 1972.

Eleito prefeito de Sobral por duas vezes, deputado estadual por três legislaturas. Casado com dona Maria do Socorro Barroso Prado; tiveram três filhos: Ricardo Prado, Marco Prado e José Inácio.

Zé Prado torna-se um dos políticos mais respeitado e admirado em Sobral - zona norte – e no Estado do Ceará. Sempre empenhado no bem-estar do povo sobralense e do Ceará respeitou o rico e esteve sempre em defesa do pobre.

Com jeito simples, amigo e companheiro de fazer política, ele cativou até adversários, que se rendiam a um abraço do “Zé dos Pobres”, como era conhecido pela população sobralense.

José Parente Prado faleceu em 26 de maio de 1999, vítima de infarto, no Hospital Dr. Estevão, em Sobral (CE). Deixou esposa, filhos, Pai (faleceu em 2003), irmãs, netos, parentes e amigos!

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sexta-feira, 10 de julho de 2026

LIÇÕES DA COPA

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do engano e da ilusão

Não ganhar a Copa do Mundo de 2026 estava no destino de todas as seleções que dela estão participando, menos no de uma, a que a vencerá. Desta vez não seremos nós. Como não fomos em várias Copas anteriores. No esporte, ganhar não é uma certeza, como perder também não o é.

A incerteza em tudo na vida é uma derrota. Essa é uma das mais fortes concepções do senso comum do povo brasileiro. Um povo que até hoje não se tornou um povo de verdade, a não ser na mera formulação jurídica. Somos um conjunto disperso de diversidades que não se juntam nem se encontram.

Tudo é feito para nos dividir, a começar da política e dos poderes. É uma de nossas características antropológicas de nascimento. Mero ajuntamento de escravidões em nome de uma iníqua concepção de riqueza e de acumulação de riqueza, estamos divididos e separados por essas escravidões que não terminam nem se supera. Mesmo onde ela já não existe está lá, na mentalidade que persiste e insiste. Não sabemos lidar e vivenciar a liberdade possível, o direito que deveria assegurá-la. Somos vítimas de nossas conquistas, que supomos grandes mesmo quando as apequenamos.

Riobaldo, em “Grande sertão: veredas”, de Guimarães Rosa, antropologicamente diz: “O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

Rosa colheu concepções populares sobre a vida nas situações mais inesperadas da realidade brasileira. De “Os sertões”, de Euclides da Cunha, incorporou a lógica dos jagunços e sertanejos, carregada de certezas indecisas, nas respostas aos interrogatórios truculentos de oficiais do Exército. “E eu, sei?”

Foi contestação frequente nas perguntas baseadas unicamente em pressupostos militares, como se as vítimas fossem de teóricos da guerra. Como a jagunça que, após essa resposta a um oficial, foi ali mesmo degolada à vista do próprio Euclides da Cunha.

Resposta de quem está no meio da travessia, nem na saída de um partir nunca nem na chegada de um nunca chegar. A síntese de Riobaldo é sociológica e explicativa do que não somos, sendo para não ser. A realidade é processo, movimento, mesmo no caminhar calculado, como numa partida de futebol.

O único brasileiro jogador de futebol que ganhou sempre e sempre se superou foi Pelé. Começou adolescente, jogando pelo Santos, no primeiro estádio brasileiro de futebol, num jogo em Paranapiacaba, no Alto da Serra, em São Paulo, com o apelido de “Gasolina”, porque era preto.

Venceu o racismo e os racismos. Ganhou vida própria, com identidade própria. Diferentemente do que tantos fizeram, os que se entregaram às tentações fáceis da fama e do dinheiro, superou-se cada dia e todos os dias.

Foi ministro do governo FHC. Fez parte da equipe do governo em visita oficial à Inglaterra. A rainha cumprimentou protocolarmente o presidente brasileiro e, antes de cumprimentar os ministros, perguntou: “Onde está o famoso Pelé?”.

Julgamo-nos vitoriosos já antes do jogo. Vitoriosos do engano e da ilusão. Porque as verdadeiras vitórias do povo brasileiro, e são muitas, nos vários campos de atividade e da vida, são de todos nós. Mas desde criancinhas somos ensinados que são dos outros, dos que mandam e dos que podem. Somos um povo que está sempre devendo favores a quem tem poder de mandar e de enganar.

O futebol foi uma das poucas sobras de êxitos possíveis, que capturamos, aperfeiçoando a cópia, no futebol de várzea. Cada terreno baldio, em todas as regiões, foi ocupado como lugar de afirmação identitária de uma prática em que se ganha podendo perder.

Aprendemos a ganhar, mas não a perder. Temos dificuldade para compreender que perder é parte constitutiva do ganhar. Se não há a possibilidade de perder, não há a possibilidade do futebol. Como de nenhum outro esporte.

A única versão do futebol em que só se podia ganhar ocorreu entre os índios Terena. Um aluno de pós-graduação em antropologia, da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, decidiu fazer seu mestrado sobre essa população indígena.

Entre os apetrechos de seu equipamento levou uma bola de futebol, para mostrar o uso aos anfitriões. Ensinou-lhes a jogar, organizou dois times. Para sua surpresa, os 22 índios dos dois times não se enfrentavam, jogavam juntos. O adversário era a bola, contra a qual todos jogavam. Ela era a caça. Ali o futebol era impossível porque sociedade desprovida da concepção de competição, de vitória e de derrota. A bola perdeu.

Fico pensando no monumental Mané Garrincha, um índio fulni-ô, de Pernambuco. Fala-se muito no seu futebol desconcertante. Desconcertante por quê? Muito provavelmente porque Garrincha jogava futebol, um esporte inglês, com “sotaque” terena, lógica terena. O adversário não podia entender-lhe o jogo.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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MORRE CID CARVALHO

Taynara Lima, O POVO

Morre o ex-senador e jornalista Cid Carvalho, aos 90 anos

Político também atuou como professor na UFC e integrou a Academia Cearense de Letras e a Academia Fortalezense de Letras

Morreu nesta sexta-feira, 10, o ex-senador da República, professor, advogado, jornalista e radialista Cid Sabóia de Carvalho, aos 90 anos. A causa da morte não foi divulgada.

Natural de Fortaleza, foi graduado em Direito pela Universidade Federal do Ceará (UFC) e professor da mesma instituição nas áreas de Direito, Ciências Jurídicas, Ciências Econômicas, Filosofia e do Curso de Comunicação Social, com habilitação em Jornalismo, na mesma instituição.

Também foi membro do Instituto do Ceará, da Academia Cearense de Letras e da Academia Fortalezense de Letras, além de ter sido presidente da Associação Profissionais dos Cronistas Desportivos do Estado do Ceará.

É filho do poeta, escritor, professor, jornalista e advogado Jáder de Carvalho.

Nesta sexta-feira, a Universidade Federal do Ceará manifestou solidariedade aos familiares, amigos, colegas e ex-alunos de Cid e reconheceu a contribuição do político à universidade e ao Ceará.

“Na UFC, exerceu o magistério na Faculdade de Direito e também lecionou em áreas como Ciências Econômicas, Filosofia, Comunicação e Ciências Jurídicas, contribuindo de maneira expressiva para a formação de sucessivas gerações de estudantes. Sua relação com a universidade foi marcada pelo compromisso com o ensino, pela erudição e pela presença constante no debate intelectual e público do Ceará”.

A Academia Cearense de Direito lamentou a morte do advogado pelas redes sociais: “Nós, da ACED, estamos consternados e lamentamos a perda desse honroso Jurista que deixava notável em suas publicações e atividades a sua cultura lastreada na educação, moralidade e sentimentos cristão”.

A Federal Cearense de Futebol (FCF) informou que, em homenagem ao político, o presidente da Federação, Mauro Carmélio, decretou um minuto de silêncio em todos os jogos deste fim de semana e determinou a bandeira da entidade permaneça hasteada a meio-mastro durante uma semana. 

Trajetória política

Na política, Cid Carvalho foi procurador junto ao Conselho de Contas do Município. Em 1986, foi eleito para o Senado Federal e integrou a bancada do PMDB na Casa.

De acordo com o Senado Federal, na Assembleia Nacional Constituinte, Cid participou das Comissões ou Subcomissões: da Ordem Social; do Sistema Financeiro; do Sistema Tributário, Orçamento e Finança; dos Negros, Populações Indígenas, Deficientes e Minorias.

Trajetória na comunicação

Cid também é referência na área da comunicação, com passagens por veículos como Rádio Uirapuru, Rádio Assunção, Rádio Dragão do Mar e, mais recentemente, pelo Grupo Cidade de Comunicação.

O Sindicato dos Jornalistas do Ceará (Sindjorce) também destacou a atuação e o legado do jornalista na comunicação cearense.

“Filiado ao Sindjorce sob o nº 424 desde 1º de novembro de 1979, Cid Carvalho tinha 90 anos e construiu uma trajetória marcada pelo compromisso com o jornalismo cearense. Iniciou sua carreira em 1948, aos 12 anos, como comentarista político e esportivo nas rádios Uirapuru e Assunção [...] Além de filiado, integrou uma das gestões da Comissão Estadual de Ética do sindicato, contribuindo para o fortalecimento dos princípios éticos da profissão e para a valorização do exercício responsável do jornalismo”.

Políticos lamentam a morte do jornalista

Pelas redes sociais, o prefeito Evandro Leitão (PT) também lamentou a morte de Cid e destacou que o ex-senador deixa um “legado de grande reconhecimento no jornalismo e na vida pública”.

“Soube com pesar do falecimento do ex-senador da República, jornalista e advogado Cid Saboia de Carvalho, grande expoente da Comunicação no Ceará. Ele deixa um legado de grande reconhecimento no jornalismo e na vida pública. Meu abraço de solidariedade aos familiares, amigos e admiradores. Que Deus o receba!”, escreveu. 

O ex-senador Tasso Jereissati (PSDB) relembrou a atuação de Cid como “um árduo defensor das liberdades democráticas”.

“Lamento profundamente o falecimento de Cid Carvalho, ex-senador, advogado e jornalista de destaque que honrou o Estado do Ceará. Como profissional da comunicação, ele emprestou sua voz inconfundível ao jornalismo e à utilidade pública, destacando-se também como um árduo defensor das liberdades democráticas. Meus sentimentos e solidariedade à família e aos amigos”.

O deputado estadual De Assis Diniz (PT) comentou sobre a trajetória de Cid na luta contra a ditadura militar. 

“O Ceará perde um cidadão exemplar e um político do mais alto quilate. Faleceu o ex-senador, advogado, poeta, jornalista e radialista Cid Sabóia de Carvalho, nesta sexta-feira (10), aos 90 anos. Construiu seu nome a partir de luta ferrenha contra a ditadura militar, sendo inclusive perseguido. Depois, uma carreira pública sólida e sem máculas. Sem dúvida, deixará muitas saudades, mas seu legado permanecerá vivo nos corações e mentes de seus familiares, amigos e admiradores. Cid Carvalho, presente!”.

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MORRE JONAS MUNIZ

Do Programa do Rubão

Morre Jonas Muniz, primeiro prefeito de Cruz (CE) e gestor por seis mandatos

O ex-prefeito de Cruz (CE), Jonas Muniz, morreu aos 82 anos, em São Paulo, onde tratava um câncer. Primeiro prefeito do município após a emancipação política, ele marcou a história da cidade ao exercer seis mandatos à frente da administração municipal.

Ao longo de décadas de vida pública, Jonas Muniz consolidou sua liderança como uma das principais referências políticas da Região Norte do Ceará. Sua gestão foi marcada por projetos voltados ao desenvolvimento do município e pelo fortalecimento da administração pública local.

A morte de Jonas Muniz provoca grande comoção entre familiares, amigos, lideranças políticas e moradores de Cruz, que se despedem de um dos personagens mais importantes da história política do município.

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quinta-feira, 9 de julho de 2026

FLÁVIO BOLSONARO DESSERVE O BRASIL

Editorial O Estado de S.Paulo

Na chance que teve para defender os exportadores brasileiros, o senador privilegiou seus interesses pessoais em Washington e provou ser indigno da confiança do setor produtivo nacional

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, transformou em comício a audiência promovida pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) para ouvir argumentos técnicos contra a adoção de tarifas americanas a produtos brasileiros. Em vez de defender o Brasil com ponderações adequadas àquele fórum, Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros ao usar os poucos minutos que tinha para atacar seu adversário na disputa eleitoral, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição para então negociar com um novo presidente – isto é, ele –, que será muito mais alinhado ao presidente Donald Trump.

Com isso, Flávio perdeu a chance de provar que está interessado em servir o Brasil – coisa que a família Bolsonaro, afinal, jamais fez. A reação do setor produtivo não poderia ser outra: ao Estadão/Broadcast, empresários presentes à audiência classificaram como “deslocada” e “constrangedora” a atuação de Flávio Bolsonaro.

Enquanto autoridades e empresários adotaram o tom pragmático que a situação exigia, Flávio discursou sobre regulação de big techs, corrupção no Brasil e Pix – temas irrelevantes para o propósito daquele fórum. Para comprovar que seu interesse não era defender os exportadores brasileiros, e sim apenas fustigar Lula, Flávio apresentou-se ao lado de seu irmão Eduardo Bolsonaro, deputado cassado que está homiziado nos Estados Unidos conspirando dia e noite contra o Brasil e que havia defendido entusiasticamente a adoção de tarifas americanas. Nada mais precisava ser dito.

Não foram necessários mais do que cinco minutos para que Flávio Bolsonaro provasse, de uma vez por todas, que é indigno da confiança do setor produtivo nacional. Houve premeditação. O senador tinha objetivos muito bem definidos ao viajar aos Estados Unidos – e nenhum deles remotamente ligado à defesa dos produtores industriais e agrícolas do País, muito menos dos empregos de milhões de brasileiros.

O objetivo mais evidente da viagem de Flávio Bolsonaro era provar para sua própria bolha de apoiadores e correligionários que ainda é a melhor opção da oposição para desafiar Lula. O PL marcou para o próximo dia 25 a convenção que deve confirmar o nome que representará o partido na eleição de outubro. Até lá, o senador precisa desesperadamente convencer sua própria base de que, a despeito dos muitos rolos em que está metido e das inúmeras trapalhadas de sua campanha, é o nome com mais chances de derrotar o incumbente. A tarefa é árdua: Flávio Bolsonaro não goza da confiança de parte de seus correligionários, e o desgaste chegou até o seio familiar, como se viu no vídeo publicado por sua madrasta, Michelle Bolsonaro.

Somem-se a isso sua relação de “irmão” com Daniel Vorcaro, a quem Flávio Bolsonaro pediu de viva voz cerca de R$ 134 milhões, e o passado para lá de suspeito do senador, que envolve prática de “rachadinhas”, suspeita de lavagem de dinheiro por meio de loja de chocolates, compra de imóveis em dinheiro vivo e ligações com milicianos do Rio de Janeiro. É nesse contexto de fragilidade política que o senador foi a Washington para tentar reconstruir, à força de fotos e “cortes” para as mídias sociais, uma viabilidade eleitoral que os fatos vêm corroendo dia após dia.

Enquanto os Bolsonaros prejudicam o Brasil para seus propósitos pessoais, os diplomatas, líderes setoriais e técnicos brasileiros continuam empenhados em tentar minimizar os danos das tarifas que provavelmente serão adotadas contra o País. É isso o que fazem os que têm genuíno interesse em ajudar o Brasil. E aqui cabe o registro de que, na embaraçosa foto de Flávio e Eduardo Bolsonaro na sessão do USTR, aparece ao lado deles um constrangido embaixador Roberto Azevêdo, ex-diretor-geral da Organização Mundial do Comércio, com décadas de atuação na diplomacia comercial. Ele estava lá a trabalho. Já os Bolsonaros só queriam atrapalhar.

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MAIS UM DEPUTADO ALIADO CHAMA BOLSONARO DE COVARDE

Do Blog do Noblat, Metrópoles

Noblat expõe o "VAR da política" que pegou Zé Trovão e forçou um recuo constrangedor nas redes após fala sobre Bolsonaro

No programa do Noblat desta terça-feira (7), a análise política examina a “impressionante” reviravolta na base aliada do ex-presidente Jair Bolsonaro, destacando as declarações do deputado federal Zé Trovão (PL-SC).

Conhecido por seu perfil “Bolsonaro raiz”, o parlamentar surpreendeu ao afirmar em entrevista que o silêncio de Bolsonaro após a derrota eleitoral de 2022 foi um ato “covarde”, pois acabou resultando na prisão de milhares de “apoiadores inocentes” (golpistas) que aguardavam uma reação do líder nos acampamentos em frente aos quartéis.

Os jornalistas ironizam o desespero do deputado que, diante da imensa repercussão correu às redes sociais para fazer um vídeo de desmentido. No entanto, o programa expõe o “VAR da política” ao exibir o áudio original, comprovando que ele de fato se referiu à Bolsonaro como covarde. Zé Trovão acabou fazendo um vídeo tentando recuar ao jurar lealdade de forma constrangedora.

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RELAÇÕES EXTERIORES NO CENTRO DA CAMPANHA

Fernando Exman, Valor Econômico

Tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio reconhecessem que a política externa havia se tornado uma área sensível

Até hoje reverbera na comunidade diplomática a declaração de Mark Rutte, secretário-geral da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), chamando o presidente Donald Trump de “papai”.

Aconteceu durante a cúpula da Aliança Atlântica em Haia, em meados de 2025. Rutte já vinha sendo alvo de críticas por não poupar elogios ao americano, a quem chamava de “querido Donald”, mas naquele momento foi além.

Em um instante de descontração flagrado pelas câmeras, os dois conversam animadamente e Trump comenta a reprimenda que dera na véspera em Israel e Irã: para o republicano, os dois países do Oriente Médio se comportavam como crianças no pátio de uma escola. Com um palavrão, afirmou que eles não tinham noção do problema que estavam criando. E o europeu então emendou, concordando que em algumas ocasiões “papai” precisava usar uma linguagem mais dura.

Rutte tentou depois se explicar. Argumentou que usou a palavra “papai” porque às vezes ouvia líderes europeus questionando se os Estados Unidos permaneceriam na Otan, o que lhe soava como uma criança pequena perguntando ao pai se ele ainda ficaria com a família. Mas o estrago já estava dado, a ponto de nos bastidores diplomatas passarem a usar as expressões “daddy diplomacy” e “daddism” para qualificar a política externa daqueles que bajulam Trump com o objetivo de conter danos.

A história voltou a circular nos últimos dias, com o avanço das investigações comerciais conduzidas pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês), impulsionando as discussões sobre política externa nesta etapa preliminar da campanha eleitoral. Há tempos isso não acontecia, o que inclusive levou o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) a tentar reposicionar-se nessa arena.

Fruto de pressão bolsonarista por questões políticas, o tarifaço fez com que até mesmo aliados próximos de Flávio reconhecessem que a política externa havia se tornado uma área sensível para sua campanha.

Flávio, aliás, chegou a cogitar seu irmão Eduardo para o Itamaraty. Teve que modular o discurso. Nos últimos meses, reuniu-se com os presidentes dos Estados Unidos, Argentina e Chile, por exemplo, para demonstrar uma capacidade de interlocução com o exterior que o seu pai não manteve quando presidente. Por outro lado, ainda não conseguiu reduzir o peso da ala mais radical do bolsonarismo entre seus articuladores internacionais e busca mitigar os efeitos negativos do memorando apresentado na semana passada ao próprio USTR, no âmbito da Seção 301, por meio do qual argumenta que a aplicação de uma tarifa de 25% deve ser adiada para depois das eleições. Para ele, a cobrança acabaria por beneficiar Lula.

Pode-se dizer, contudo, que pelo menos este é o primeiro documento assinado pelo principal pré-candidato da oposição com pistas sobre sua política externa.

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TRUMP LEVA A FIFA DE VOLTA AOS TEMPOS DE MUSSOLINI

Edward Luce, Financial Times / Valor Econômico

O presidente dos EUA é o primeiro líder de um país desde Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua seleção (a Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa)

Podemos chamar de toque de Midas às avessas. Donald Trump adora ouro. No entanto, tudo o que ele toca, desde espelhos d'água até alianças dos Estados Unidos, parece virar outra coisa. Sua última incursão foi na Copa do Mundo. Um torneio que vinha se mostrando um inesperado sucesso desandou depois de Trump ligar para a Fifa, que, em seguida, anulou a suspensão por um jogo de Folarin Balogun, uma das estrelas americanas. Os EUA, de qualquer forma, perderam por 4 a 1 da Bélgica.

A intervenção de Trump na Fifa, comparada a seu ímpeto incansável para multiplicar a fortuna da família ou a seus atos de guerra ou paz, poderia ser classificada como apenas uma nota de rodapé. Ainda assim, é possível apostar com tranquilidade que esteve entre suas atitudes de maior visibilidade no palco mundial.

Boleiros estão acostumados a decisões discutíveis dos árbitros. A ocasião anterior em que um cartão vermelho foi revertido em uma Copa por pressão dos altos escalões foi em 1962, no Chile, anos antes do nascimento do atual presidente da Fifa, Gianni Infantino. Trump é o primeiro líder de um país desde Benito Mussolini, em 1934, a intervir publicamente a favor de sua seleção (a Itália, então fascista, era a anfitriã e ganhou a Copa).

A opinião pública mundial também voltou suas atenções para Infantino, que é uma espécie de sósia de Trump no mundo dos esportes. Um grupo ativista apresentou uma denúncia, em estilo de ação coletiva, contra a Fifa por violar as próprias regras de neutralidade política.

O presidente suíço-italiano da Fifa já compareceu à posse de Trump, alugou escritórios na Trump Tower em Nova York, concedeu a ele o primeiro Prêmio da Paz da Fifa — depois de fazer lobby, sem sucesso, para que Trump ganhasse o Nobel da Paz — e esteve envolvido no Conselho da Paz de Trump. Nenhuma outra figura do esporte foi convidada. Infantino apareceu na primeira reunião dessa entidade com um boné vermelho do movimento Maga.

Amizades com autocratas que gostam de presentear

A característica mais marcante compartilhada por ambos é a preferência por autocratas e a má relação com sociedades baseadas no Estado de Direito. Da mesma forma que Trump prefere lidar com países governados por famílias, em especial no Golfo Pérsico, Infantino também transita em círculos similares. Trump recebeu do Catar um avião Boeing avaliado em US$ 400 milhões. Infantino viaja pelo mundo em um avião fornecido pelo mesmo emirado.

Ele também tem um gosto especial por desfiles em comboios oficiais. A Nova Zelândia recusou seu pedido para que um fosse realizado durante a Copa do Mundo feminina de 2023; a cidade de Vancouver também disse "não" quando foi sede de uma reunião da Fifa em abril. Os leitores podem imaginar quais países concedem tal privilégio a Infantino. Ele passou por cima do processo seletivo da Fifa para assegurar que a Arábia Saudita fosse a única candidata à sede da Copa do Mundo de 2034 (o Catar recebeu a de 2022).

Assim como Trump, Infantino é quem faz tudo em seu espetáculo. Os vice-presidentes da Fifa não foram consultados sobre o prêmio criado às pressas para Trump em dezembro. “O mundo é um lugar mais seguro [graças a Trump]”, disse Infantino ao entregar a medalha de ouro. Os dois também aprovam Vladimir Putin, que concedeu a Infantino a Ordem da Amizade da Rússia após o país ter sido a sede Copa do Mundo de 2018.

Cada um fomenta seu próprio culto à personalidade. “Somos testemunhas de uma nova era”, diz uma nova inscrição no troféu da Copa. “A era de ouro do futebol de clubes [...] Inspirada pelo presidente da Fifa, Gianni Infantino”"

Pra lá da "linha vermelha"

E ambos são repudiados pelos mesmos países. A Uefa, entidade que rege o futebol europeu, acusou a Fifa de ter cruzado uma “linha vermelha” ao anular a suspensão de Balogun.

Na Europa e no Canadá, as ações de Trump costumam causar desconcerto. Não houve, entretanto, um coro de condenações europeias quando agentes de Trump deportaram um árbitro somali, proibiram a seleção do Irã de passar a noite em solo americano e atrasaram vistos e a entrada de jogadores do Senegal, Haiti e Iraque. Esse tipo de tratamento, infelizmente, já era esperado.

Embora a maioria das pessoas do mundo tenha tomado conhecimento das manobras de Trump na Fifa, o grosso da indignação veio de outros países ocidentais — somados a alguns solitários progressistas americanos que censuraram a interferência dele. Por sua vez, a maioria dos americanos, inclusive muitos críticos de Trump, desta vez, pareceu satisfeita com a distorção das regras. No fim das contas, a jogada de Trump revelou-se inútil. Agora, os americanos “hifenizados” [aqueles que têm origem estrangeira] já podem torcer por suas outras seleções.

Trump e Infantino sabem instintivamente algo que seus críticos muitas vezes esquecem — as pessoas são capazes de perdoar muita coisa se você conseguir mantê-las entretidas. Não ligue para hipocrisias sobre o futebol unir povos ou promover a paz; o confronto entre seleções nacionais é uma guerra por outros meios.

Se os EUA tivessem derrotado a Bélgica com a ajuda do pé direito de Balogun, haveria muitas vaias do outro lado do Atlântico. Trump prejudicou seriamente o “soft power” dos EUA. No entanto, para o resto do mundo, essa indignação é apenas mais do mesmo. Os EUA sempre fizeram o que puderam e os países menores sempre sofreram o que tiveram de sofrer.

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O QUE É, O QUE É

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FERIADO CÍVICO

Revolução Constitucionalista de 1932 completa 94 anos hoje. É o maior feriado cívico do Estado de São Paulo, onde os paulistas homenageiam os combatentes da Revolução Constitucionalista de 1932, que ficou conhecida como Guerra Paulista.

Com o rompimento da chamada “política do café com leite”, em 1929, entres os Estados de Minas Gerais e São Paulo, desencadeou a Revolução de 1932.

Em reação ao fim da política do café com leite, os estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul lideraram o movimentou que culminou no Golpe de 1930.

Os paulistas saíram derrotados do embate, mas não se pode dizer que foi em vão; em 1934 sob pressão social o governo de Getúlio Vargas criou uma nova Constituição Federal.

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

YRUMP PRECISAVA APARECER NA FESTA DO FUTEBOL

Elio Gaspari, O Globo

Ele deu um jeito, entrou na Copa, saiu dias depois

O presidente americano Donald Trump deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. No primeiro mandato, produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia. De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo, e a encrenca com Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira passada, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic, da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que, até então, não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

Até aí, seria o jogo jogado, com um torcedor contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que anulasse a suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de poderosos, e Infantino deu a Trump um inédito Prêmio da Paz depois que ele, com suas guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja, estendeu a encrenca às federações de futebol europeias.

Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump assumiu seu estilo. Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve falta e que, pelos antecedentes, Claus é “muito suspeito”. Puro Trump. Fez a acusação sem uma migalha de argumento.

Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para contestar a honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun, nem se exibe o vídeo.

Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais americanos, mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava:

— Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz.

Os juízes, àquela altura, eram Infantino e alguns cartolas da Fifa. Bingo. (Em setembro, chega às livrarias americanas uma biografia de Cohn, com o seguinte título: “Um canalha americano”.)

A realidade paralela, que Trump cultiva e manipula, explica a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia inaugural do certame teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do Monte Rushmore, onde estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores. Ele precisava entrar naquela festa.

Entrou defendendo um atleta negro e admirado, parte de uma seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump que da malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que significava um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e talvez ache que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr seu retrato. Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.

Na noite de segunda-feira, sem telefonemas, os deuses do futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi mandada para casa.

Futebol, jogado dentro das quatro linhas, ainda é coisa séria.

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A DERROTA DO BRASIL PODE INFLUENCIAR A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL ?

Bernardo Mello Franco, O Globo

A cada quatro anos, uma mesma pergunta se repete na política

A pergunta é repetida a cada quatro anos: o desempenho do Brasil na Copa do Mundo influencia a eleição presidencial? Os candidatos parecem apostar que sim. Na dúvida, tentam pegar carona na torcida pela seleção.

Desde a estreia contra Marrocos, todos os presidenciáveis se exibiram com a amarelinha. Lula gravou vídeo para incentivar o “querido Ancelotti”. Flávio Bolsonaro apelou à inteligência artificial para mostrar afinidade com Neymar. Ronaldo Caiado disse que os noruegueses “vivem embaixo do gelo” e jamais ganhariam do Brasil. Entrou numa fria.

O senso comum sugere que uma boa performance do escrete canarinho favorece quem está no poder. Uma eliminação vexatória, como a deste ano, ajudaria a encher a bola da oposição.

Na prática, a teoria é outra. Em 1998, o Brasil perdeu de 3 a 0 para a França e Fernando Henrique Cardoso se reelegeu no primeiro turno. Em 2002, a seleção conquistou o penta e a esquerda chegou ao Planalto.

Em 2006, 2010 e 2014, o brasileiro amargou desclassificações precoces e votou na situação. Mesmo depois do 7 a 1. Em 2018, caímos diante da Bélgica, mas não há evidências que liguem o gol de Kevin De Bruyn à súbita ascensão de Jair Bolsonaro. A Copa de 2022 não conta: foi disputada em novembro, depois da eleição.

Em artigo recente para o Journal of Global South Sport Studies, da Universidade de Massachussets, o pesquisador Marco Bettine mostra que a performance no Mundial não determina o resultado da urna, embora possa influir no humor do eleitorado.

O professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP também aponta uma crise no mito da pátria em chuteiras. Ele enumera fatores que diluíram a identificação do brasileiro com a seleção: o sequestro da amarelinha por uma facção política, os sucessivos escândalos na CBF, a revoada dos melhores jogadores para as ligas europeias.

Se alguém ainda duvidava, o fiasco de domingo escancarou que não somos mais o país do futebol. No máximo, o país das bets.

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OS ACENOS DOS EMISSÁRIOS DE LULA AO MERCADO

Vera Magalhães, O Globo

Ministros e estrategistas do PT refutam comparações entre gastos eleitoreiros de petista e Bolsonaro e usam má fase de Flávio para se aproximar da Faria Lima

Os dissabores da pré-campanha de Flávio Bolsonaro deram a Lula uma condição rara tratando-se do incumbente numa eleição presidencial: jogar no contra-ataque, no erro do adversário. O intervalo proporcionado pela Copa e a sucessão de crises no Q.G. bolsonarista têm sido usados para tentar reverter uma das rejeições mais consolidadas ao petista, a do mercado financeiro.

Os emissários de Lula nessas conversas, entre os quais um dos mais loquazes é o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan —que, diga-se, joga com aquela disposição de quem veio do banco e quer garantir lugar no time titular—, procuram desmontar com dados as comparações entre as medidas do atual governo e as de Jair Bolsonaro no período eleitoral.

Existe um incômodo com o que auxiliares e estrategistas de campanha de Lula enxergam como “forçação de barra” para mostrar equivalência entre o pacote anunciado por Lula desde o fim de 2025 e o sprint de Bolsonaro a partir da PEC Kamikaze, no começo do segundo semestre de 2022.

Nas conversas, esses interlocutores de Lula dizem a gestores, banqueiros e analistas de bancos que o presidente não aumentou nem aumentará o Bolsa Família, como Bolsonaro fez com o Auxílio Emergencial e como as redes bolsonaristas ficam ventilando.

Ao cotejar as medidas de um e outro presidente para conter a alta dos combustíveis, os aliados de Lula dizem que, agora, todas foram negociadas com os governadores e feitas com prazo, diferentemente de Bolsonaro e Paulo Guedes, que tomaram a decisão compulsória de suspender o ICMS dos combustíveis, além disso, deixada para o governo seguinte desarmar. Por fim, entram na prancheta das comparações os precatórios. Lula não fez nenhuma “pedalada” com o pagamento dessas decisões judiciais para pagamento de dívidas.

Com essa preleção, ministros de Lula também têm procurado os presidentes da Câmara, do Senado e do STF para tentar evitar que prossiga a pauta-bomba. Nessas conversas, são colocados em perspectiva os custos de medidas dos programas eleitoreiros de Lula, como o Desenrola 2, e as bondades que o Congresso ameaça fazer a produtores rurais e diversas carreiras do funcionalismo, por meio da votação de regimes especiais de aposentadoria.

O governo deixou avisado que judicializará, para evitar que a agenda de Davi Alcolumbre prossiga, e busca de novo o aval do STF ao reunir jurisprudência, na forma de súmulas recentes da Corte que mostram a inconstitucionalidade das medidas pretendidas.

A tentativa de se mostrar fiscalmente responsável já é uma vacina de Lula para a principal cobrança do mercado. A roupagem da austeridade não se sustenta, no entanto, quando se analisam as exceções ao arcabouço fiscal ao longo dos anos e a escalada dos gastos obrigatórios, herança mais explosiva que o atual presidente deixará para si mesmo ou para quem vencê-lo nas urnas.

Ainda assim, o discurso será que as medidas de 2025-2026 atingiram públicos específicos, enfrentaram contingências como tarifaço e guerras e são coerentes com a plataforma eleitoral de enfrentar distorções tributárias e governar para os mais pobres. Isso tudo com impacto menor que as medidas de Bolsonaro.

Lula sabe que não será o suficiente para torná-lo palatável ao mundo financeiro e que terá de prometer enfrentar o crescimento do gasto obrigatório caso seja reeleito. Isso vem sendo trabalhado na elaboração do plano de governo de um eventual Lula 4.0, mas não se deve esperar que se comprometa com o fim da política de valorização real do salário mínimo, desvinculações constitucionais ou uma nova reforma da Previdência — justamente a pauta que o mercado arredio a ele quer ver.

Esses pombos-correio sobrevoam a Faria Lima apresentando Lula como alguém que já se mostrou confiável, lembrando o legado fiscal de Bolsonaro e plantando temor na instabilidade e no despreparo demonstrados por Flávio nessa fase de crise. Se vai colar, o fim da Copa e o início para valer da campanha mostrarão.

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SEM MICHELLE, QUEM CONVENCE A TATIANA ?

Renato Meirelles, O Globo

Disputa de 2026 passa pela mulher que trabalha por conta própria e ainda não foi conquistada por nenhum dos dois lados

Na coluna passada escrevi que o voto feminino em 2026 não cabe numa personagem só. Há Dona Maria do Socorro, aposentada no sertão de Pernambuco, que vota olhando para a rede pública que sustenta a casa. Há Vera, em Suzano, cuidadora em tempo integral da mãe acamada, que carrega todo mundo sem que ninguém pergunte quem cuida dela. E há Tatiana, de 33 anos, que faz sobrancelha na garagem em Mauá, paga MEI, racha o aluguel com o marido motorista de app, fecha as contas no susto e se ofende quando alguém trata ela como coitada.

É pela porta da Tatiana que a crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro entra no jogo. Não porque briga familiar decida voto de país. Política brasileira já tem novela demais. O ponto é outro. Michelle não era só a mulher de Jair no palanque. Era uma das poucas vozes capazes de suavizar a imagem de uma direita que, para muita eleitora, chega sempre pela bronca, pela guerra e pela masculinidade em campanha permanente. O Datafolha mostrou Lula vencendo Flávio entre as mulheres por 52% a 37% no segundo turno. Outras pesquisas apontam na mesma direção. Flávio já largava atrás. O vídeo de Michelle não criou o problema. Deu rosto a ele.

Falo agora de mais uma personagem. Sônia tem 47 anos, mora em Praia Grande, é auxiliar de enfermagem no plantão da noite e coordena um grupo de mulheres da igreja aos sábados. Entrou no PL Mulher ano passado. Semana passada cancelou a reunião de julho. Não sabe o que dizer para as mulheres que ela mesma convocou. Sônia é o pedaço menos comentado da crise. Sem Michelle, Flávio não perde só eleitoras. Perde também as militantes que conquistariam eleitoras. Campanha não é só televisão, marqueteiro e corte de vídeo. É a mulher que puxa conversa depois do culto. É a cabeleireira que comenta política enquanto faz escova. É a mãe do grupo da escola que segura a discussão quando alguém pergunta se aquele candidato respeita mulher.

Michelle era a chave dessa corrente. Sem ela, a militante bolsonarista continua existindo, mas entra na conversa com uma mala mais pesada. Antes podia dizer, olha a Michelle, ela está com ele. Agora precisa explicar por que Michelle se sentiu desrespeitada, por que gravou, por que rompeu. Em política, quem começa explicando crise interna já perdeu. Tatiana não está esperando aula de ideologia. Quer saber quem entende a vida dela. Segurança sem virar pancadaria. Família sem mandar mulher calar. Empreendedorismo sem fingir que pagar MEI é dormir tranquila. A resposta de Flávio não pode se limitar a vice mulher, camiseta de pai de menina ou pacote de propostas femininas. Ajuda, mas não substitui confiança. E confiança, diferente de programa, não se contrata em dois meses. Vale o aviso para o lulismo também. Quem trata os 52% entre mulheres como cofre lacrado vai errar de novo. Tatiana não é lulista por natureza. Vota em Lula por comparação, por receio, por memória. Não assinou fidelidade com ninguém. A crise com Michelle machuca Flávio porque desmonta a engrenagem que corrigiria sua maior fraqueza. O desafio não é chegar na eleitora. É chegar por uma voz em que ela confie. Em 2026 não bastará ter mulher no palanque. Vai precisar ter mulher na corrente de confiança. O voto de Tatiana não nasce em gabinete de partido. Nasce na conversa de quem fecha o mês no susto e procura alguém que entenda o tamanho do corre dela.

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ESCOLHA DE DOIS SENADORES MUDA A LÓGICA DO VOTO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Pleitos que renovam 2/3 do Senado costumam eleger mais influencers e outsiders

Preferências ideológicas tendem a prevalecer apenas na definição do primeiro nome

"De cabeça de juiz e fralda de neném, ninguém sabe o que vem" é um ditado popular entre advogados para designar o elemento de incerteza inerente a decisões judiciais. Poderíamos acrescentar um terceiro item ao provérbio: urnas em eleições de duas vagas para o Senado.

Desde que a Constituição de 1946 reduziu os mandatos de senadores de nove para oito anos e manteve o número de três representantes por estado, alternamos pleitos em que o eleitor vota em dois candidatos e aqueles em que escolhe apenas um nome. Pode parecer um mero detalhe, uma caprichosa imposição da aritmética sobre o processo eleitoral, mas ele tem consequências importantes não apenas sobre a estratégia dos partidos para forjar alianças e definir candidaturas mas principalmente sobre a psicologia do eleitor.

Em pleitos que renovam 2/3 do Senado, como o deste ano, o eleitor tende a utilizar critérios diferentes para a escolha do primeiro e do segundo candidatos. A primeira opção costuma ser mais ideológica, em linha com o voto para presidente e/ou governador. Cumprido o dever para com a tribo, o sujeito se sente livre para fazer o que quiser do segundo escrutínio. O limite é a imaginação. Muita gente opta simplesmente por não votar. A proporção ajustada de votos brancos e nulos para o Senado sobe consideravelmente em pleitos de duas vagas.

Outros recorrem a atalhos cognitivos. Eleições plurinominais (em que se escolhe mais de um candidato) são as que costumam consagrar influencers, outsiders, porta-estandartes de bancadas temáticas e outros tipos exóticos. Alguns cidadãos tentam balancear o próprio voto. Assim, se escolheram um postulante muito radical para a primeira vaga, poderão tentar "compensar" optando por um moderado para a segunda. Outros vão pelo caminho de menor resistência, ficando com um candidato de baixa rejeição mesmo que nem o conheçam. Em suma, é tanta gente votando de acordo com estratégias tão diferentes que pode sair qualquer coisa, como ocorre com a cabeça do juiz ou a bunda do bebê.

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