terça-feira, 1 de setembro de 2026
segunda-feira, 31 de agosto de 2026
GOIÁS, O ESTADO QUE MAIS REFINA COCAÍNA NO PAÍS
Caiado quer levar ao Brasil o modelo em segurança de
Goiás, o estado que mais refina cocaína no país
Estado lidera o refino da droga no país e integra rota
controlada pelo PCC enquanto Ronaldo Caiado, do PSD, vende sua gestão como
modelo de segurança pública.
“Um paciente foi atropelado por um ônibus. Quais
são os pontos que você vai priorizar? Poxa, cara, eu nem examinei o doente.
Calma”. Foi essa a resposta de Ronaldo Caiado quando César Tralli e
Renata Vasconcellos, na sabatina
do Jornal Nacional desta terça-feira, pediram detalhes sobre o que
faria na Previdência.
Foi também a estratégia que ele repetiu ao longo de toda a entrevista: reclamou
dos jornalistas dizendo que “não
estamos aqui em uma mesa examinadora”, interrompeu, fugiu
das perguntas objetivas e delegou os detalhes a “melhores cabeças
do Brasil” que ainda não nomeou.
A ironia é que o candidato do PSD à Presidência da República se apresenta há
meses como alguém que já examinou o doente e traz o remédio pronto. O
nome do remédio é Goiás.
E Goiás é o estado que mais concentra laboratórios de
cocaína no Brasil. São 81 estruturas
identificadas entre janeiro de 2019 e julho de 2025, mais do que o
dobro do segundo colocado, o Amazonas, com 39.
O dado é do relatório Floresta em
Pó, publicado em outubro de 2025 pelo Instituto Fogo Cruzado em
parceria com outras organizações. O estudo mapeou 550 laboratórios no país e
mostra uma virada: o Brasil deixou de ser apenas rota de passagem da cocaína
para se tornar um dos principais lugares onde a droga é refinada,
movimentando cerca
de US$ 6 bilhões por ano.
Goiás está no centro dessa nova geografia. O estado concentra 44 laboratórios
de alta capacidade produtiva e integra a chamada Rota
Caipira, sob
domínio do PCC, que controla as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.
‘Modelo que deu certo’
Nada disso apareceu na sabatina. Nada disso aparece nas
convenções em que Caiado repete que “Goiás
é o modelo que deu certo”, que “Goiás,
hoje, é o estado que tem a maior segurança pública do Brasil” e
que “bandido
não se cria em Goiás”.
O plano
de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE,
ratifica a mesma narrativa em linguagem institucional: “a experiência de Goiás
mostra que esse cenário pode ser modificado”. O que a experiência de Goiás
mostra, se examinarmos o doente, quer dizer, os dados, é outra coisa.
Um estado que ocupa esse lugar na cadeia internacional do tráfico não é modelo
de segurança pública. É um hub logístico do narcotráfico.
E ninguém está fazendo a pergunta que ele deveria responder: se sua
gestão foi tão bem-sucedida contra o crime organizado, por que Goiás
lidera o refino de cocaína no país durante exatamente os seis anos em que ele
governou?
LEIA TAMBÉM:
- PM
promovido por Ronaldo Caiado matou delator do PCC
- Segurança
pública dominará 2026 e fará eleição virar disputa de poder sobre quem
mata e quem morre no Brasil
- PMs
sem câmera e até viaturas sem placa: quem vai parar a polícia de Caiado em
Goiás
O plano de governo, tanto quanto a entrevista de terça, não
oferece resposta. Oferece um catálogo de propostas que repete o repertório de
sempre, que vai de redução da maioridade penal a uso das
Forças Armadas contra facções.
Ele fala sobre enquadrar grupos armados como terroristas, incluindo milícias,
mas não resolveu a famosa “confraria
da morte”, conjunto de policiais de Anápolis que assassinou um desafeto
do governador e outras sete pessoas como queima de arquivo. A milícia se
enquadraria na tal proposta?
Hub goiano do refino
Dentre as propostas no plano do candidato, nenhuma toca no
elo que sustenta o hub goiano do refino: a arquitetura financeira que lava o
dinheiro da cocaína, as rotas rodoviárias que atravessam o estado sem
fiscalização efetiva, a infraestrutura rural que abriga os laboratórios.
Segurança pública contra o crime organizado se faz com
inteligência financeira, controle integrado de fronteiras, cooperação
internacional efetiva, desarticulação patrimonial das lideranças e políticas de
redução de danos que retirem o mercado consumidor das mãos das facções. Nada
disso está no centro da proposta de Caiado.
O centro da proposta é uma lei de terrorismo doméstico com regime prisional
próprio para facções, enquanto
o mesmo candidato promete anistia “ampla, geral e irrestrita” aos
condenados pelo 8 de Janeiro. Rigor máximo para uns crimes, perdão total para
outros. Que combate ao crime é esse?
Quando questionado, Caiado responde que não examinou o
doente. Quando não é questionado, apresenta o remédio. E o remédio é o estado
que virou plataforma de exportação de cocaína durante os seis anos em que ele
foi médico responsável.
MORRE CARLOS MONFORTE
Jornalista Carlos Monforte morre aos 77 anos
Monforte começou na Globo como repórter local, e passou
por telejornais como Jornal da Globo e Bom Dia São Paulo, além da GloboNews.
O jornalista Carlos Monforte morreu, nesta
segunda-feira (31), aos 77 anos. A informação foi confirmada à TV Globo pela
família do jornalista, que fazia tratamento contra um câncer. O velório
acontece nesta terça-feira (1º) em Brasília.
- De
Jornal Nacional ao Fantástico: relembre
a trejetória de Carlos Monforte
Formado pela Faculdade de Comunicação de Santos em
1972, Carlos Américo Aguiar Monforte passou pelos
jornais A Tribuna, de Santos, e Estado de São Paulo.
O jornalista começou a trabalhar na Globo em 1978. Foi
contratado como repórter local, mas logo começou a produzir reportagens para
o Jornal Nacional e para o Fantástico.
Na época, participou de coberturas importantes como as
greves de metalúrgicos no ABC Paulista. Em 1982, ele assumiu a editoria de
política do Jornal da Globo. No mesmo ano, virou editor e
apresentador do Bom Dia São Paulo.
Com a criação do Bom Dia Brasil, em janeiro de
1983, Carlos Monforte assumiu o cargo de editor-chefe e apresentador do
programa. Monforte esteve à frente do telejornal por nove anos.
Em 1998, Monforte atuou no Espaço Aberto, da
GloboNews. No final de 2000, assumiu o cargo de coordenador da GloboNews em
Brasília e foi apresentador do Jornal das Dez da capital federal.
O jornalista deixou a Globo em 2016.
DIVERSIDADE PERDE FORÇA NO MUNDO CORPORATIVO
Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar
lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela
A ideia de diversidade dos defensores da causa entrou numa
encruzilhada. Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e
convicção moral é terreno que nunca foi dela. Não é acusação, é constatação.
Nos conselhos de empresas e marcas de que participo, sempre busquei outro
caminho: diversidade na prateleira do investimento. E, se render, parte do
lucro volta para reinvestir.
Em 2025, 53% das companhias do S&P 100, as cem maiores
da Bolsa americana, mudaram a forma de registrar a diversidade nos relatórios.
Poucas encerraram as ações. Levaram a supervisão para a governança e baixaram a
visibilidade quando virou custo político. Ninguém tira do relatório o que dá
lucro.
A Parada do Orgulho de São Paulo foi de 11
patrocinadores em 2025 para quatro na edição de 30 anos. A Marcha do Orgulho
Trans não aconteceu, por falta de patrocínio. O primeiro corte caiu sobre quem
tem menos poder de barganha.
Sempre achei frágil o discurso da diversidade e fui mal
compreendido por isso. Ou talvez atrapalhasse a venda da narrativa. A palavra
virou pacote: mulher, pessoa preta, pessoa com deficiência, pessoa LGBTQIA+,
periferia, como se fosse uma experiência só. Não é. Cada trajetória tem
demanda, obstáculo e solução próprios. Empacotar não é ofensa, é reflexo da
imprecisão. Na vida social das causas, isso é fácil de administrar. Numa
empresa, imprecisão na gestão custa caro.
No setor público e no privado, causa não pode virar
departamento. Este serve para pontuar: a nota da empresa, a posição na Bolsa, o
mercado internacional. No público, a boa foto para o gestor e o cargo no
conselho para o representante. A causa se perde em representatividade sem força
política, decorativa e sazonal, sem perenidade na cultura corporativa nem
continuidade no ambiente estatal. Nada obriga o processo a chegar a salário,
promoção, orçamento, contrato e sociedade.
Se é para funcionar na lógica do negócio, que entremos no
plano de negócio. Se dou audiência, quero parte da receita. Da mesma forma, se
aumento o consumo e se atraio investimento, quero parte da receita. Se elejo
mandato, quero poder político e caneta com orçamento. Quero ser contratado como
serviço e contabilizado como investimento. E, se o discurso político que cita
nossas causas for sério, que apareça na divisão dos fundos eleitorais e nos
cargos de gestão. Se garanto receita, quero parte do lucro para reinvestir.
Repito: não sou gasto. Sou investimento.
A marca faz campanha com corpo preto e da favela, mas
contrata a produtora de sempre e paga ao criador menos que ao influenciador de
bairro nobre de mesmo alcance. A favela é locação, não fornecedora. Coadjuvante
da própria história.
O valor é gerado num lugar e realizado noutro. Na economia
criativa, setor que mais vende a própria pluralidade, pessoas negras são 42% da
força de trabalho, ante 55% do mercado nacional, e ali homem branco ganha R$
7,1 mil, mulher preta R$ 2,2 mil. A renda não acompanhou o trabalho.
O máximo que ocorre é uma onda George Floyd, e todo mundo
vira antirracista até ela passar ou até a próxima tragédia. Talvez seja hora de
dizer bye bye. Não para a diversidade, fato da vida brasileira, mas para a
palavra que junta gente diferente numa caixa só e para a caixa que só serve de
nota em planilha. Fica o que muda quem decide, quem fornece, quem lucra, quem
governa e quem reinveste. A diversidade não precisa estar na moda, e sim no
plano de negócio e no orçamento.
AJUSTE EXIGE RECONSTRUIR ARQUITETURA FISCAL DO PAÍS
O problema já não é apenas produzir um resultado primário
melhor, mas limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos
parafiscais, baixar o prêmio de risco e devolver eficácia à política monetária
A situação das contas públicas do Brasil exige uma mudança
significativa na política fiscal a partir de 2027, num ambiente econômico e
político extremamente complexo. Há resistência a novos aumentos de impostos, o
cenário externo é mais adverso, com juros globais mais altos, e as taxas
internas na casa de 10% acima da inflação elevam os gastos financeiros do setor
público e prejudicam famílias e empresas endividadas. O ajuste precisa ser
amplo, focado nos gastos e liderado pelo Executivo, mas tem de contar com o
Congresso e com o Judiciário. Visto de hoje, porém, parece improvável que uma
agenda fiscal ambiciosa seja adotada pelo próximo presidente.
“O problema brasileiro já não é apenas
produzir um resultado primário melhor, mas sim reconstruir uma arquitetura
fiscal capaz de limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos
parafiscais [que não passam pelo Orçamento], baixar o prêmio de risco e
devolver eficácia à política monetária”, resume estudo da ARX Investimentos,
elaborado pelo economista-chefe da gestora, Gabriel Leal de Barros, com Cléo
Olimpio, Matheus Caliano e Eric Fernandes. O resultado primário não inclui
gastos com juros.
“A carga tributária foi recomposta em aproximadamente 2
pontos do PIB, a dívida bruta se aproxima de 85% do PIB, o déficit nominal [que
inclui gastos com juros] é de dois dígitos e o juro global é estruturalmente
mais alto”, dizem eles. “A estratégia de ajuste apoiada em receita chegou perto
de seu limite econômico e político.”
A sustentabilidade das contas públicas, observam os
economistas da ARX, “é gravemente afetada pela mecânica dos juros nominais
sobre o estoque da dívida pública”. Nos 12 meses até junho, os gastos com juros
do setor público alcançaram R$ 1,160 trilhão, ou 8,8% do PIB. A fotografia
fiscal, segundo o estudo, não é nada bonita, por combinar estoque, fluxo e
preço desfavoráveis.
“Em junho de 2026, a dívida bruta alcançou 81,9% do PIB, o
déficit primário acumulado em 12 meses ficou em 1,2% do PIB, a despesa nominal
de juros atingiu 8,8% do PIB e o déficit nominal chegou a 10% do PIB. Nossas
projeções apontam para uma dívida de 83,5% do PIB no fim deste ano. A
dificuldade não está em um único indicador, mas na combinação de déficit
primário, juro elevado e dívida crescente.”
A composição do ajuste é essencial. “Medidas de receita
melhoram o caixa rapidamente e podem ajudar na transição, mas seu efeito sobre
o juro estrutural é limitado quando o mercado entende que o gasto obrigatório
continuará crescendo acima do PIB potencial”, advertem eles. “Reformas fiscais
que tratam de indexação, elegibilidade e progressões funcionais produzem
economia mais lenta, porém mudam a inclinação da despesa. É essa alteração de
trajetória, e não apenas o número do primeiro ano, que interessa à parte longa
da curva de juros”, diz o estudo.
Na visão de Barros, o ideal seria um ajuste de 4 pontos
percentuais do PIB do resultado primário até o fim do próximo mandato, passando
de um déficit hoje na casa de 1% do PIB no acumulado em 12 meses para um
superávit de 3% do PIB em 2030. “O ajuste integral é o único caminho de mudança
de regime”, avalia ele, o que requer reforma administrativa, desindexar
benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, desatrelar gastos
de saúde e educação da receita, integrar benefícios sociais, rever incentivos
fiscais e retirar estímulos parafiscais, como a expansão do crédito por bancos
públicos e a utilização de fundos estatais. “O custo inicial é atividade mais
fraca; o benefício é reduzir simultaneamente o primário necessário [para
estabilizar e reduzir a dívida], o juro real e o risco de inflação. Apenas
nesse cenário, fiscal e monetário operam em harmonia”, afirma o estudo.
O relatório vê como possíveis outros quatro cenários: o
ajuste precário, o insuficiente, o quadro sem consolidação e o de ruptura. “O
cenário-base é o ajuste insuficiente; o melhor caso plausível é o ajuste
precário”, avaliam os economistas da ARX. “A política tende a produzir medidas
graduais, negociadas e permeadas por exceções. Reformas de gasto obrigatório
enfrentam grupos organizados e exigem convicção e capital político elevado”,
diz o estudo. “Já medidas de receita ou contenções temporárias de gasto oferecem
resultado imediato e menor conflito distributivo aparente. Essa assimetria
política explica por que o cenário economicamente desejável não é o mais
provável.” No caso do ajuste precário, a melhora do resultado primário seria de
2 a 2,5 pontos do PIB; no insuficiente, de 0,8 a 1,5 ponto do PIB.
Ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), Barros
diz que o ajuste integral é improvável pelas condições da economia política
corrente. “Além do desarranjo econômico, é imperativo resgatar a efetiva
harmonia entre os Poderes e o fim de privilégios, o que legitimaria a adoção de
medidas duras junto à sociedade; e, adicionalmente, há a imoralidade que muitas
situações representam, notadamente o descumprimento constitucional do teto
remuneratório do serviço público”, afirma Barros.
“Sem o enfrentamento rigoroso dos gastos obrigatórios e a
contenção dos mecanismos parafiscais, o país corre o risco de ingressar na
dominância fiscal, reduzindo significativamente a capacidade da taxa Selic de
conter a inflação”, nota o estudo, referindo-se à situação em que o agravamento
do desequilíbrio fiscal leva a um ponto em que elevar os juros faz os índices
de preços subirem, em vez de caírem. Altas da Selic deterioram a situação
fiscal, aumentando a aversão ao risco e pressionando o câmbio, o que alimenta a
inflação. É um risco que pode ser evitado, mas requer uma resposta fiscal
firme.
Para os economistas da ARX, há uma diferença entre
dominância fiscal fraca e plena. “Na forma fraca, o BC mantém a taxa de juro
necessária, mas enfrenta custo crescente e desinflação mais lenta. Na forma
plena, a trajetória da dívida condiciona diretamente a decisão monetária:
cortes ocorrem antes da reancoragem [das expectativas], medidas regulatórias
tentam conter o custo financeiro e o ajuste migra para câmbio e inflação.”
Mesmo a forma mais fraca, por óbvio, é altamente indesejável.
QUANDO A ELEIÇÃO VAI ENGRENAR ?
Só uma notícia bombástica ou a possibilidade de vitória
em primeiro turno de um dos candidatos podem despertar o eleitor da apatia
desta campanha
No sábado (29) começou o horário eleitoral gratuito no rádio
e na TV dos candidatos à Presidência da República. Numa campanha que parece ter
começado há meses, mas que ao mesmo tempo não engrenou, a propaganda eleitoral
é o ato que faltava para sentirmos o clima de eleição. Será?
Além de atingir dezenas de milhões de pessoas que assistem à
TV aberta e ouvem rádio, o horário eleitoral também serve para gerar conteúdo
para as redes sociais dos candidatos. Mas, pelo visto, a repercussão continua
limitada.
No dia da estreia, a equipe de Lula
publicou no Instagram um corte anunciando a sua primeira inserção. Quase 24
horas depois, a postagem tinha alcançado apenas 8.500 encaminhamentos e 12.200
comentários. Publicada pouco tempo depois na mesma rede, uma foto de Flávio
Bolsonaro segurando uma imagem do pai com a faixa presidencial tinha atingido
12,1 mil compartilhamentos e 7,4 mil manifestações escritas no post. São
números baixos de interação para o total de seguidores desses políticos: 14,9
milhões do petista e 11,4 milhões no perfil do candidato do PL.
Em 30 de julho, Lula compareceu ao videocast Inteligência
Ltda. para uma entrevista de duas horas. Até o momento, a publicação
contabiliza 1,2 milhão de visualizações no YouTube. Uma semana depois, em 7 de
agosto, Flávio Bolsonaro foi o convidado de outro programa de sucesso na rede,
o Market Makers. Com o mesmo tempo de duração, a conversa registra 239 mil
views.
Há quatro anos, Lula e Jair Bolsonaro protagonizaram uma
intensa disputa nas redes sociais com alternância de recordes de políticos
nesse tipo de programa. Segundo notícias da época, em dezembro de 2021 (bem
antes, portanto, do início do pleito) Lula atingiu 292 mil acessos simultâneos
ao aparecer no Podpah. Bolsonaro deu o troco no Flow, em 8 de agosto de 2022,
nas vésperas do início oficial da corrida eleitoral: 550 mil pessoas
acompanharam ao vivo uma entrevista que durou mais de cinco horas. No intervalo
de 48 horas, quase dez milhões de interessados haviam acessado a íntegra da
conversa no YouTube.
No auge do segundo turno e com a batalha dos videocasts
instaurada, em 18 de outubro de 2022 o petista atraiu mais de um milhão de
pessoas conectadas ao vivo no mesmo programa. Dois dias depois, Jair Bolsonaro
mobilizou um público de 1,75 milhão de espectadores simultâneos na sua
entrevista ao vivo no Inteligência Ltda.
A explicação para o aparente desinteresse na campanha
eleitoral deste ano pode estar na cristalização dos polos lulista e
bolsonarista entre os eleitores brasileiros. Está é a terceira ocasião em que
Lula e Bolsonaro se encontram direta ou indiretamente nas urnas, e desta vez
não há nenhuma opção à esquerda e aparentemente ninguém no pelotão de nanicos à
direita tem chances de decolar.
De acordo com a última pesquisa Quaest, a intenção de voto
em Lula no primeiro turno está no mesmo patamar de dezembro passado (39%). Ao
longo de todo o ano, Lula oscilou entre um mínimo de 36% e um máximo de 40%.
Enquanto isso, Flávio Bolsonaro subiu de 23% em dezembro de
2025 para 30% atualmente; nesse percurso, o máximo que atingiu foi 33%. Os
demais concorrentes, por sua vez, somaram entre 17% (dez/25) e 13% em agosto.
Como as principais alternativas a Lula e Bolsonaro são de direita, as
candidaturas anti-Lula contam com um teto que variou entre 40% e 46% das
intenções de voto.
Entre os dois lados, os determinados a anular, votar em
branco ou se abster caíram de 16% para 8% desde o fim de 2025. Já os indecisos
subiram de 5% para 10%.
Há, portanto, uma parcela significativa de 18% do eleitorado
que pode ser mobilizada para, inclusive, decidir a disputa no primeiro turno -
e os dois lados têm chances de liquidar a fatura em 4 de outubro, como vêm
alertando, há algum tempo, Cila Schulman e Maurício Moura do instituto de
pesquisas Ideia.
A briga pelo “50% mais um” dos votos válidos que daria
vitória a Lula ou a Flávio Bolsonaro já no primeiro turno depende i) da taxa de
comparecimento às urnas, ii) da rejeição e medos que cada um desses nomes
provoca no eleitor pendular e, finalmente, iii) da força do movimento a favor
do voto útil, principalmente no campo da direita.
Logo, a campanha deste ano só vai esquentar à medida que a
possibilidade de resolução da eleição em primeiro turno se tornar mais
concreta. Mas isso dificilmente ocorrerá antes dos dias que antecederem a
votação.
Até lá, seguiremos em compasso de espera. De um lado, Lula
se esquiva de participar de debates para não virar o alvo único dos ataques do
pelotão de adversários de direita. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro também não
quer se expor e ficar frente a frente com concorrentes que podem lhe roubar
votos preciosos no seu próprio eleitorado.
A política brasileira, porém, sempre reserva fortes emoções
para a reta final da votação. Neste ano em particular, com as investigações
sobre o Banco Master de Daniel Vorcaro e a fraude do Careca do INSS correndo em
paralelo, conteúdos explosivos ainda podem fazer esta campanha finalmente
despertar o interesse dos brasileiros.
SOCOS E CANIVETES EM SALA
A maioria dos professores brasileiros já sofreu violência
física ou verbal no ambiente escolar
'Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida
de nós?', pergunta uma das agredidas
Se quisermos fazer uma ideia do que espera o Brasil no
futuro, basta perguntar aos professores
do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas
informações de primeira mão —não raro, na forma de uma arma portada por aquela
mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes.
Em Planaltina (DF), um professor pediu a dois alunos de 17
anos que entregassem os celulares durante a aula. Os garotos se negaram e
tiveram seus aparelhos recolhidos. Terminada a aula, seguiram o
professor até o ponto de ônibus e o espancaram. Em Cuiabá, um
professor idoso levou rasteiras e pescoções de dois alunos que se negavam a se
sentar em seus lugares. Em João Pessoa, um professor foi agredido por um aluno
com um martelo por ter-lhe dado nota baixa em um exame.
Em Curitiba, uma aluna investiu a
palavrões, socos e pontapés contra uma pedagoga, provocando-lhe inchaços e
cortes no rosto. A estudante foi contida e sua mãe se recusou a ir à escola
para saber do ato da filha. Em Araçatuba (SP), um estudante com canivete tentou
avançar sobre seus colegas. Foi desarmado pela segurança e suspenso por três
dias. No dia seguinte, sua mãe foi ao colégio para forçar a diretora a
aceitá-lo em sala. Como esta não cedesse, agarrou e bateu a cabeça da diretora
contra uma janela.
Segundo pesquisa, 65,6% dos professores só do estado de São
Paulo já sofreram violência física
ou verbal no ambiente escolar. E no resto do país? Mesmo quem ainda não foi
vítima fica tenso —sabe que pode ser o próximo. Professores de cidades pequenas
têm medo de sair à rua e encontrar seus alunos.
Uma professora de São José dos Campos (SP) resumiu o terror
da situação. Depois de sobreviver a anos de balbúrdia, desrespeito e
xingamentos, um dia pediu água a um deles. O garoto lhe levou a água num copo
contendo vidro quebrado. "Ninguém merece passar por isso", ela disse,
chorando. "Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida da
gente? Quem cuida de quem cuida de nossas crianças?".
A IMPORTÂNCIA DO VOTO
O artigo "Votar" de Rachel de Queiroz foi
publicado na revista O
Cruzeiro, em 11 de Janeiro de 1947, com o objetivo de alertar os eleitores
de então, quanto a importância do voto, continua contemporâneo.
Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento
do complexo maquinismo político que se chama governo democrático, ou governo do
povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido
imediato. No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma
nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: governo do
povo. Porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O
GOVERNO.
Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um
inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma
simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o
indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de
tempo.
Escolhem-se pelo voto aqueles que vão modificar as leis
velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura
de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a
luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.
Escolhemos igualmente pelo voto aqueles que nos vão
cobrar impostos e, pior ainda, aqueles que irão estipular a quantidade desses
impostos. Vejam como é grave a escolha desses "cobradores". Uma vez
lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gota de sangue do
corpo, nos arrancar o último vintém do bolso.
E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhem-se não só
aqueles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se
escolhem aqueles que vão "fabricar" o dinheiro. Esta é uma das
missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos.
Pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o
mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Eles desandam a
emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel
sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero.
Não preciso explicar muito este capítulo, já que nós
ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter
moedeiros falsos no poder.
Escolhem-se nas eleições aqueles que têm direito de
demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo
burocrático. E, circunstância mais grave e digna de todo o interesse: dá-se aos
representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de todas as
fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias.
E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um
voto para o Sr. Fulaninho que lhes fez um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem
tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável,
parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio -
lembrem-se de que não vão proporcionar a esses sujeitos um simples emprego bem
remunerado.
Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão
fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem - e soldados são
homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe
dá o povo. Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos,
passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios
fossem.
Entregamos a esses homens tanques, metralhadoras,
canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa
mocidade, a eles presa por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se
virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o
seu amo e criador.
Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes. Votar não é
assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e
meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se
estivessem escolhendo uma noiva.
Porque, afinal, a mulher quando é ruim, dá-se uma surra,
devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o governo, quando é ruim, ele é que nos
dá a surra, ele é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da boca dos
nossos filhos e nos faz apodrecer na cadeia. E quando a gente não se conforma,
nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.
E agora um conselho final, que pode parecer um mau
conselho, mas no fundo é muito honesto. Meu amigo e leitor, se você estiver
comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para
sufragar este ou aquele candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente
a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez.
Lembre-se de que o voto é secreto.
Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem medo de dizer
não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha.
Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem medo, não se esqueça
de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra
dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a
consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno".
O RISCO BOLSONARO 2.0 ?
Legado institucional e multipartidarismo no Brasil
limitam aventuras autoritárias
Voltou a ganhar força a ideia de que a democracia brasileira
estaria novamente em perigo diante de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro.
O argumento é conhecido: em 2022, teríamos escapado por pouco porque alguns
militares se recusaram a embarcar numa aventura golpista. Agora haveria um
agravante: diferentemente do pai, Flávio encontraria Donald Trump na Casa
Branca.
O risco representado por líderes com inclinações iliberais
nunca deve ser desprezado. Berlucchi e Kellam, analisando governos democráticos
desde 1970, mostram que populistas no poder estão associados a maior erosão
democrática. Mas mostram também que a Presidência, por si só, não basta. A
capacidade de transformar intenção em erosão depende dos recursos e
constrangimentos encontrados pelo governante.
É aí que o caso brasileiro se torna
interessante. Kyriacou e Trivin demonstram que o impacto de governos populistas
depende fortemente do legado institucional que encontram. Onde existe uma
tradição robusta de Judiciário independente, burocracia imparcial e respeito às
regras, o dano produzido por populistas é muito menor. Instituições aprendem a
resistir. autoritárias diminui onde existe um legado de instituições capazes de
constranger o Executivo e aumenta quando o presidente dispõe de apoio partidário
coeso para seu projeto.
Pesquisa que desenvolvi com Negretto e Melo sobre 18
democracias latino-americanas chega a conclusão complementar. A vulnerabilidade
a investidas
O Brasil apresenta condições relativamente favoráveis nas
duas dimensões. Desde 1988, Congresso, Judiciário, Ministério Público, imprensa
e sociedade civil acumularam experiência e capacidade para impor limites ao
Executivo. Bolsonaro testou esses limites e fracassou. Depois de deixar o
poder, ele e vários de seus colaboradores ainda sofreram consequências
judiciais relevantes.
A segunda proteção vem de uma característica frequentemente
tratada como defeito: nosso multipartidarismo. Presidentes precisam construir
maiorias negociando com partidos heterogêneos. Isso torna proibitivo o custo
de coordenar e manter coesa uma coalizão em torno de um projeto autoritário.
Trump poderia oferecer respaldo político externo a um eventual governo
Bolsonaro. Mas não controla o Congresso brasileiro, os ministros do Supremo nem
elimina os incentivos do multipartidarismo.
Reconhecer isso não significa minimizar as eventuais
inclinações iliberais dos Bolsonaro. Significa reconhecer algo que os últimos
anos demonstraram: a democracia brasileira já foi submetida a um severo teste
de estresse – e mostrou-se resistente.
O BOBO DA CORTE E O FREIO NOS DENTES
No 'modo sobrevivência', a relação com a base parlamentar
e com o judiciário engendra erosão institucional disruptiva
Não nos depararemos com a morte da democracia, mas com
sua crescente degradação institucional
Na
sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou
Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do
centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não
controla o Orçamento".
A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula
quem se vitimiza como refém de um Congresso
que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como
incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia
institucional.
A revista The Economist acaba de publicar
matéria intitulada: A grande democracia em que os parlamentares são mais
poderosos que o Executivo. A revista parte de um paradoxo. Na última década,
candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam
poder por meio do chamado executive aggrandizement: a expansão unilateral do
Executivo em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo
o Legislativo.
Mas isto não é novidade para os leitores desta coluna. Como
argumentamos em 2024, em "Por
Que a Democracia Brasileira Não Morreu?" (Cia. da Letras), escrito em
coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária, o
presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário. O
desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos
negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição
presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos
demais poderes.
A inversão histórica é extraordinária. O Executivo
brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em "His Majesty
the President of Brazil", publicado em 1936, o diplomata britânico Ernest
Hambloch descreveu o Congresso como "destituído de poderes vis-à-vis o
Executivo" e os tribunais como "invariavelmente flácidos, dependendo
demasiado do Executivo que os nomeia". O presidente da República
conservava poderes quase imperiais.
Mas o poder formal da Presidência nunca contou toda a
história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em "Razões da
Crise", de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e
ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial:
"Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com
maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal,
impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso
toma o freio nos dentes".
Escasso poder partidário é só parte da explicação, como
mostrei aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade
de gestão. No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar
e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a
morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos
três Poderes.
Isso não torna equivalentes um autocrata que captura as
instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais que abusam de
poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo produz
corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; o terceiro, a perda
de legitimidade e degradação institucional.
O AVANÇO DA EDUCAÇÃO ÉTNICO-RACIAL
Sei bem que a educação para equidade racial sempre foi um
'não assunto' nas nossas escola
Bastou o Estado agir com propósito para que essa situação
começasse a mudar
Agir com propósito impacta diretamente os resultados
alcançados em tudo o que se faz na vida. Quando se trata de políticas
públicas, não é diferente. Isso fica evidente ao observar o recente
avanço na implementação da Lei 10.639/2003, criada para incluir a
história e cultura afro-brasileira no currículo oficial da rede nacional de
ensino.
Analisando o cenário atual, a constatação óbvia é que a
implementação de políticas para educação das
relações étnico-raciais no Brasil só foi pra frente por conta da ação dos
movimentos sociais negros, o que levou o Ministério da Educação a assumir as
rédeas do processo —passados 21 anos da promulgação da lei, é bom lembrar. Mas
é aí que entra o propósito.
Para além da regulamentação legal, foi
instituída a coordenação federativa da política nacional de educação para as
relações étnico-raciais. Com isso, uma situação que estava estagnada começou a
mudar. O que se observa no Diagnóstico Equidade, estudo criado para acompanhar
as métricas nesse campo, é que essa política pública finalmente
"pegou" no país.
Conforme
noticiado pela Folha, o Índice Nacional de Educação para as
Relações Étnico-Raciais (Erer), mecanismo criado para acompanhar a
implementação da ação governamental, subiu de 47,7 para 54,2 pontos nas redes
estaduais e de 26,6 para 34,7 nas municipais (numa escala de 0 a 100) nos dois
últimos anos.
O Erer considera seis dimensões: formação de professores,
gestão escolar, material didático, financiamento, institucionalização e
avaliação e monitoramento. Os avanços mais expressivos ocorreram em estruturas
de gestão, planejamento e financiamento. De 2024 para 2026, o percentual de
redes municipais que declararam ter uma equipe própria para gerir políticas de
equidade racial passou de 15,1% para 40,7%.
Como mulher preta, mãe de dois filhos negros, sei bem que a
educação para equidade racial sempre foi um "não assunto" nas nossas
escolas. Bastou o Estado agir com propósito para que essa situação começasse a
mudar.
domingo, 30 de agosto de 2026
UM ACORDO ARRISCADO NA VENEZUELA
Trump quer ampliar produção de petróleo na Venezuela com
garantias para empresas dos EUA
Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos de
petróleo para companhias americanas no país latino-americano
Os Estados Unidos elaboraram um plano para tornar a
Venezuela sua fornecedora estratégica de petróleo. A iniciativa cria, na
prática, monopólio para empresas americanas sobre as maiores reservas de
petróleo do mundo, e busca lhes proporcionar segurança política, regulatória,
jurídica e financeira.
A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25
milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de
destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos
de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo
venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump
tenta endereçar.
O programa protege as receitas das vendas
de petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por
Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas,
reduzindo o controle da estatal PDVSA.
Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos para
companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura “controle
majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma definição
política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.
A Chevron já se prepara para ampliar suas operações. A SLB,
maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de petróleo do mundo,
moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.
LEGITIMIDADE. Mas Exxon e ConocoPhillips, expropriadas por
Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa provar que
contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que tribunais,
câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.
A guerra com o Irã deu nova relevância à estratégia. O
petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual muitas refinarias
da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante décadas, elas receberam
grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções, passaram a buscar
alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A retirada do mercado
desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do mesmo tipo no Golfo
Pérsico.
O plano tem boas chances de produzir aumento inicial da
oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar novamente perto
de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares,
infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.
Trump tenta exercer poder com política energética: retirar
petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O
maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de
colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.
FLÁVIO BOLSONARO MENTE E DISTORCE COM MAIS CONVICÇÃO QUE O PAI
Senador afrontou os fatos ao falar de golpe, escândalo do
Master e relação com miliciano
Flávio Bolsonaro deu uma nova contribuição à teoria de
Darwin. Mostrou-se mais assertivo que o pai ao mentir, distorcer e renegar o
que já disse. É a evolução da espécie.
Em entrevista à TV Globo, o candidato do PL fingiu
desconhecer os fatos que levaram o capitão à cadeia. Descreveu como “golpe da
Disney” a conspiração que destruiu as sedes dos Três Poderes e quase arrastou o
país para uma nova ditadura.
O senador ainda chamou de petista o ex-comandante da
Aeronáutica que, depois de votar em Jair Bolsonaro, recusou-se a manchar a
farda para impedir a alternância de poder.
Questionado sobre o pedido de R$ 134 milhões a Daniel
Vorcaro, Flávio descreveu o cambalacho como “relação privada”. “Não tem
absolutamente nada de irregular”, recitou. O senador simulou esquecer que
exerce cargo público e foi flagrado tomando dinheiro de um especialista em
corromper autoridades.
Também fingiu não saber que parte da
fortuna do banqueiro, a quem tratava como “irmão”, era subtraída de fundos de
previdência geridos por seus aliados. Só o governo do Rio, sob comando do
bolsonarista Cláudio Castro, enterrou mais de R$ 3 bilhões em papéis do Master.
Sem corar, Flávio definiu o filme sobre o pai, usado para
justificar as transferências de Vorcaro, como uma “obra-prima” do cinema. Para
quem já viu o trailer de “Dark Horse”, esta pode ter sido a maior das cascatas
da noite.
O Zero Um mentiu com convicção sobre Adriano da Nóbrega.
Disse ter condecorado o matador de aluguel com a Medalha Tiradentes porque o
considerava um “policial exemplar”, embora estivesse preso por homicídio.
Acrescentou que o homenageado teria matado um traficante — na verdade, executou
um guardador de carros que havia denunciado outros milicianos.
De volta às ruas, Adriano se tornou o mais notório
pistoleiro do Rio. Sua mulher e sua mãe foram empregadas no gabinete de Flávio
na Alerj. As duas recebiam sem trabalhar, mostraram as investigações do esquema
da rachadinha.
Instado a detalhar planos para a economia, o senador renegou
as medidas impopulares que seus coordenadores de campanha têm prometido em
jantares com donos de bancos e corretoras. Preferiu se refugiar em promessas
vagas como “combater a roubalheira” e reduzir o número de ministérios
Ele também desconversou sobre declarações em que negou o
aquecimento global e sustentou que o mundo passaria por um “resfriamento”. Por
pouco não sai do estúdio correndo para abraçar uma árvore.
Numa das primeiras propagandas como presidenciável, Flávio
usou inteligência artificial para encarnar o aviador de Tom Cruise em “Top
Gun”. Na entrevista aos apresentadores do JN, lembrou outro personagem:
Pinóquio, o boneco de madeira cujo nariz cresce a cada mentira.
Desde o fim do século XIX, pais leem a história escrita pelo
italiano Carlo Collodi para ensinar aos filhos o valor da honestidade. Avesso
aos livros, Jair poderia ter recorrido ao filme da Disney para educar o Zero Um
e seus irmãos.
DESESPERANÇA
Teremos a primeira eleição desde a redemocratização que
não traz nenhum traço de esperança ao eleitor.
O desânimo com a eleição presidencial deve-se a que ela é a
primeira desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao
eleitor. A primeira eleição direta depois da redemocratização, em 1989, trouxe
a novidade do “caçador de Marajás”, o então governador de Alagoas Fernando
Collor, contra os ícones da esquerda brasileira, Leonel Brizola de volta do
exílio, e o líder operário Lula, que enfrentara a ditadura militar com as
greves operárias de São Bernardo. Tudo era novidade, e os eleitores motivaram-se,
cheios de esperanças.
Deu tudo errado, com Collor cassado por corrupção. Não foi
preso na ocasião, mas está em prisão domiciliar atualmente, após reincidir no
erro, eleito senador depois de passar anos inelegível. A eleição de 1994 teve a
grande novidade até hoje no país, o Plano Real, que levou o ministro da Fazenda
Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto no primeiro turno. Acabar com
a hiperinflação foi o passo mais importante já dado no país, deixando de legado
um tripé macroeconômico que resiste até hoje como modelo de boa governança:
câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.
Reeleito também no primeiro turno em 1998,
FHC deu um passo que marcou negativamente seu segundo mandato: a desvalorização
do Real, que se tornara necessária. As diversas crises econômicas no mundo e no
Brasil levaram a que o candidato governista, o tucano José Serra não usasse a
continuidade do Plano Real como base para seu futuro governo. Lula, o líder do
PT, que já perdera três eleições presidenciais, surgiu como a esperança de
mudanças, e venceu a eleição e a desconfiança dos empresários escrevendo a “Carta
aos Brasileiros”.
Assessorado por Antônio Palocci no ministério da Fazenda,
que coordenou sua campanha e o plano de governo, Lula tomou medidas corajosas.
Chamou para dirigir o Banco Central o banqueiro Henrique Meirelles, que acabara
de se eleger deputado federal pelo PSDB de Goiás. Manteve as diretrizes
econômicas do governo anterior e teve êxito ao unir os programas sociais do
governo tucano em um só programa, o Bolsa Família, de sucesso indiscutível até
hoje. Os problemas com a corrupção surgiram a partir de metade de seu governo,
com o escândalo do mensalão.
Lula pela primeira vez declarou-se traído, pediu desculpas
na televisão, e viu seus principais aliados sendo presos, inclusive José
Dirceu, o homem forte do Planalto na ocasião. Os escândalos seguidos não
impediram que ele, extremamente popular, fosse reeleito e depois elegesse a
ministra Dilma Rousseff para sucedê-lo. Mas, diante dos escândalos que se
seguiram, como o petrolão desvendado pela Operação Lava-Jato, Lula estourou o
orçamento para eleger sua sucessora, que governou com uma situação econômica deteriorada
acentuada por sua própria visão de que “gasto é vida”.
Dilma quase perdeu para Aécio Neves, do PSDB, na reeleição,
devido à crise econômica, mas acabou impedida pelo Congresso devido à própria
incapacidade de negociação parlamentar e a uma política econômica desastrada. O
PMDB preparou-se para assumir o governo com um programa chamado “Ponte para o
Futuro”, lançado quando Dilma ainda governava. O vice Michel Temer assumiu o
governo com esse plano, que agradava aos empresários e a grande parte da classe
média, farta da crise econômica e da corrupção petista.
Mas foi abatido pelo escândalo da gravação de uma conversa
quase clandestina com o empresário Joesley Batista, em que trataram aos
sussurros de uma operação para manter o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha
calado na prisão. O deputado federal do baixo clero Jair Bolsonaro surgiu em
meio a esse caos, com Lula na cadeia por corrupção. Vendeu a imagem de um líder
antissistemas e de combate à corrupção, e a maioria comprou. Governou
planejando um golpe de Estado que lhe desse poderes ditatoriais, e fez com que
Lula, que a esta altura já estava fora da cadeia, por uma decisão do STF
considerada por muitos teratológica, ou no mínimo excêntrica, se tornasse o
grande salvador da democracia brasileira. Hoje, não há auspícios a serem
esperados.
DEMOCRACIA EM QUESTÃO
A questão democrática segue em jogo nesta eleição, com
candidatos minimizando o 8 de janeiro e defendendo governos autoritários
Dos cinco entrevistados no Jornal Nacional, até sexta, a
apenas um não foi preciso fazer perguntas sobre democracia. Dois subestimaram o
ataque aos Três Poderes de 8 de janeiro, um apresentou uma proposta de
extremismo autoritário e o quarto é filho de ex-presidente que tentou o golpe.
Romeu Zema disse
que houve apenas “vandalismo”. Ronaldo
Caiado prometeu anistia, e não condenou em momento algum os graves
atos de conspiração de Jair
Bolsonaro. Renan Santos quer
um “banho de sangue”, regime de exceção em favelas e descumprimento de ordem
judicial. Flávio Bolsonaro nega todos os fatos, prometeu indulto, e ameaçou
enquadrar o Supremo Tribunal Federal. O presidente Lula ficou
como o defensor solitário do regime que o Brasil conquistou com tantas lutas e
dores.
A questão democrática permanece presente.
Era para os líderes políticos terem entendido a história recente do país, se
unido no essencial, a defesa do regime democrático, e divergido apenas nos
projetos de governo. Porque assim se pode fazer bons debates eleitorais e uma
boa escolha.
Todos eles se disseram democratas, e depois vieram os
senões. O ex-governador de Minas Romeu Zema, além de negar a conspiração da
qual se tem farta comprovação, alimentou a dúvida sobre a urna eletrônica, o
ponto do qual partiu Jair Bolsonaro. Segundo Zema, ele confia na urna, “mas ela
pode ser melhorada se tiver o voto impresso”. A mesma lenga-lenga do governo
anterior na sua tentativa de minar a confiança no sistema eleitoral brasileiro.
Zema disse que “não existe na história da humanidade, uma
tentativa de golpe ou um golpe de Estado que tenha sido um movimento de
vandalismo e depredação”. O ex-governador demonstra não ter entendido que
aquele atentado de 8 de janeiro foi parte de uma conspiração ampla que teve
envolvimento de militares de alta patente, plano impresso no Planalto para
matar o presidente e o vice, ameaça de atentado a bomba em aeroporto. Defendeu
a estranha teoria de que “quem fez, idealizou, mas não levou adiante, não cometeu
crime”. Ou seja, os criminosos não cometeram crime porque o golpe fracassou.
Não custa lembrar que Zema em 2023 definiu a Conjuração Mineira como “um golpe
à coroa portuguesa”. Ah, Minas, que já teve fama de ter políticos argutos.
Ronaldo Caiado prometeu dar anistia “ampla, geral e
irrestrita” para os golpistas sob o argumento de que assim vai pacificar o
país. Mas em nenhum momento sequer reconhece que eles cometeram crime.
Perguntado, o candidato fugiu da pergunta como tem feito em todas as
entrevistas dessa campanha. Nunca condenou os gravíssimos casos que a ação
penal trouxe aos autos. Portanto, Caiado não apenas defende a anistia, ele
nunca reconheceu que houve os crimes que o país viu.
Renan Santos usou sua eloquência e treino em defesa do
presidente Nayib Bukele de El Salvador. Aliás, nesta eleição a meca da direita
parece ser o pequeno país da América Central onde direitos humanos têm sido
desrespeitados e regras democráticas foram arquivadas em nome do combate ao
crime. Suas ideias esquisitas, como a de ter a bomba atômica para ser
respeitado pelos vizinhos e pelo mundo, ou a de impor um estado de exceção
apenas nas favelas, são apresentadas como se fossem criativas e inteligentes.
Flávio Bolsonaro foi, claro, o maior defensor da ideia de
que não houve golpe, e sim “uma farsa armada para tirar Jair Bolsonaro da vida
pública”. Acusou o STF de perseguição ao seu pai. “Não queira ser julgado pelo
seu inimigo”, disse ele, falando de Alexandre de Moraes, mas ele foi condenado
pelos votos dos ministros da primeira turma. Moraes foi apenas o relator. E
tanto os fatos trazidos pela investigação da Polícia Federal quanto a denúncia
da Procuradoria Geral são eloquentes. Entre as muitas mentiras de Flávio, uma
foi acusar o brigadeiro Baptista Jr de ser lulista. O militar foi nomeado por
Jair Bolsonaro, exatamente quando o então presidente demitiu toda a cúpula das
Forças Armadas. Ou seja, era então pessoa de confiança de Bolsonaro.
As mentiras, as falsificações sobre eventos recentes, as
tentativas de subestimar o que ocorreu, a defesa aberta de governantes
autoritários: tudo isso foi o que se viu durante essa semana de entrevistas de
quatro em cinco entrevistados. Pode-se criticar Lula por outras declarações, ou
por falta de uma proposta crível de ajuste fiscal, mas ele não precisou ser
perguntado sobre democracia.
CARLOS LACERDA E SUA MÁQUINA DO ÓDIO
Resultado de anos de pesquisas, livro responde perguntas
que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da
política brasileira por décadas
Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do
repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o
golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de
pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma
figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.
Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi
comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.
Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio
Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do
presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.
Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl
Marx e Friedrich Engels? Não.
Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28
anos e ele 17 incompletos.
Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a
direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a
esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde
estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três
dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.
Jornalista de grande talento, tinha
raciocínio rápido, escrita clara e dedos velozes. Em 1934, lendo “São
Bernardo”, viu em Graciliano Ramos um grande romancista.
O general De Gaulle chamava-o de “demolidor de presidentes”.
Demolia tudo que tinha por perto, inclusive o próprio pai: “demagogo de merda”.
Feroz adversário de Getúlio Vargas, foi um mobilizador de
vivandeiras e o caricaturista Lan eternizou-o como Corvo. Lacerda tinha uma
escolta de oficiais, nove dos quais da Força Aérea. (Havia alguns do Exército,
entre eles Emílio Garrastazu Médici.)
Nas primeiras horas do dia 5 de agosto de 1954, o major
Rubens Vaz escoltava-o de volta ao seu apartamento da Rua Tonelero, em
Copacabana. Dois pistoleiros atiraram e morreu o major. Dezenove dias depois,
às portas da deposição, Getúlio Vargas se matou. Em cerca de 40 páginas Mário
Magalhães conta esses dois episódios, com a minúcia e clareza de um repórter
policial.
Afora um breve epílogo, o volume termina com a partida do
“matador de Getúlio” para o exílio dos Estados Unidos. Lacerda defendia um
regime de exceção para que Vargas não fosse eleito em 1950, não tomasse posse
em 1951 e não governasse a partir daí. Ao fim, perdeu.
Em 1955, o presidente morto elegeu Juscelino Kubitschek. O
general Henrique Lott, ministro da Guerra, derrubou dois presidentes na noite
de 11 de novembro e garantiu-lhe a posse. O vencedor de 1954 teve que deixar o
país.
Magalhães reconstrói os primeiros 41 anos dessa vida
contorcida num período tumultuado. Espremendo-se o legado desse Lacerda sobra
um sujeito inteligente e combativo, para pouco, quase nada. Em 1934, aos 20
anos, ele tentou se matar. Prevaleceu em 1954 e fracassou em 1955. Teria mais
triunfos e fracassos até 1977, quando a morte física pegou-o aos 63 anos.
JK tirou o país da mediocridade
Com Lacerda nas livrarias e a campanha presidencial na rua,
o livro de Mário Magalhães é como um salto do passado no presente. Lacerda
cavalgava o moralismo, combatendo o “mar da lama” do governo de Getúlio. Era
pouco mais que um exagero.
Juscelino Kubitschek tomou posse em 1956 prometendo 50 anos
e 5 e uma nova capital no Planalto Central. Com um sorriso inesquecível e um
otimismo contagiante, entregou quase tudo o que prometeu, mais uma economia
envenenada pela inflação.
No epílogo do seu “Lacerda”, Mário Magalhães salta de 1955
para Lisboa, em 1966, quando eram dois proscritos da ditadura e pensavam que,
juntos, podiam ir a algum lugar. Foram a lugar algum. Passado meio século,
pode-se medir o legado dos dois.
Deus os havia poupado da mediocridade.
Lacerda deu ao Rio água e a alma do Aterro, concebida pela
doidivanas Lota de Macedo Soares. Tisnou-se defendendo a ditadura que o
mastigou. JK fez estradas e hidrelétricas, mas seu pedestal é o compromisso com
as liberdades democráticas e a fé no “monstro”.
Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura
nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, JK estava num almoço quando lhe
perguntaram o que aconteceria no Brasil.
— O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está
em todos os lugares.
Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa,
e prosseguiu:
— Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você
imaginar.
— Que monstro?
— A opinião pública.
Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o
monstro carregou-o nos ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá, ocorreu a
maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart, em 1964.
Corrupção e candidatos
A corrupção é e será um tema central da campanha eleitoral.
Ela o era ao tempo de Lacerda e JK.
Em 1960, cavalgando uma vassoura, Jânio Quadros elegeu-se
presidente. Um ano depois, tentou dar um golpe de maluco e foi-se embora.
Em 1964, instalou-se a ditadura das propostas de Lacerda.
Cinco anos depois, terroristas roubaram um cofre na casa da
namorada do ex-governador paulista Ademar de Barros.
A senhora disse que o cofre estava vazio, e os generais
acreditaram.
Tinha 2,5 milhões de dólares; 22,75 milhões em dinheiro de
hoje.
Renan e sua bomba
Renan Santos parece excêntrico ao dizer que o Brasil deve
ter uma bomba atômica, mas a verdade é que, desde 1945, sempre houve alguém no
governo trabalhando por ela. Às vezes, tinha poder e, às vezes, pensava que
tinha.
O campeão da ideia de uma política nuclear foi o almirante
Álvaro Alberto (1889-1976), primeiro presidente do Conselho Nacional de
Pesquisas, que empresta seu nome à usina de Angra.
Em 1951, o Conselho de Segurança Nacional discutia a
construção de um reator nuclear. (Só no ano seguinte Israel criou sua Comissão
de Energia Atômica.)
Em julho de 1954, um grupo de cientistas alemães montou e
testou três centrífugas para enriquecer urânio. O Brasil havia pedido licença
para importá-las, e os Estados Unidos a haviam negado. Álvaro Alberto foi em
frente, e elas estavam prontas para embarque no porto de Hamburgo quando foram
apreendidas.
As centrífugas acabaram vindo em 1956, mas só começaram a
funcionar em 1970, quando Israel já era uma potência nuclear desde 1966 ou
1967.
Maus ventos
Em poucas semanas a economia nacional levou os trancos das
recuperações judiciais da Braskem e das Casas Bahia. Em seguida, foi para a UTI
a rede de lojas Habib’s.
Na terça-feira, pela segunda vez, a Justiça decretou a
falência da Oi, que chegou a ser a maior operadora de telefonia fixa do país.
Ela surgiu no festim privatista de 1998, com o nome de Telemar. No BNDES era
conhecida como Telegang. No final do século passado foi uma das “campeãs”
nacionais. Sobreviveu por dez anos na UTI da recuperação judicial.
SOBREVIVER É PROVA DE RESISTÊNCIA EM GAZA
Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio,
cenas do cotidiano emanavam perda, identidade
Na semana passada morreu o pintor e escultor palestino
Sliman Mansour. Vivera 79 anos. Até o fim, ano após ano, década após década,
ele repetia um mesmo mantra:
— A solução de dois Estados independentes, um para a
Palestina, outro para Israel, se dará um ano depois da minha morte.
A depender do Estado de Israel, essa fantasia precisa ser
enterrada. Mansour fazia parte da geração de artistas gerados na primeira
intifada dos anos 1970, que buscou uma linguagem visual para retratar o
significado da memória — da memória do que é ser palestino. Um pé de oliveira
adquiria a força-símbolo de terra e continuidade, Jerusalém ora representava
pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade,
resistência. Mansour foi quem mergulhou mais fundo nessa busca. Uma colheita na
primavera, um vilarejo rural, duas palestinas tocando flauta — a resistência em
sua obra é implícita.
Seu quadro mais icônico, “Camel of
hardship”, de 1973, até hoje adorna um sem-número de lares palestinos mundo
afora, em forma de pôster. A obra mostra uma figura humana em andrajos, curvada
sob o peso de um imenso fardo preso à testa por uma corda, e dentro do fardo
está a cidade de Jerusalém, com o Domo da Rocha em destaque. É o retrato de um
povo que continua a carregar no corpo pátria e memória, identidade e cultura, o
sonho do retorno. O restante da tela é um espaço vazio e abstrato, sem
horizonte claro. Vale a pena conferi-lo na internet.
A partir de outubro de 2023, com a saúde já declinante,
Sliman Mansour não conseguiu mais tirar os olhos de Gaza:
— Todas as imagens que me vêm à mente são horrendas. Algumas
delas não consigo apagar de mim.
Sua linguagem tornou-se mais abstrata para que a memória, a
dor, a beleza e a resistência pudessem perdurar. Para ele, permanecer enraizado
sempre foi o ato de resistência maior.
É precisamente contra esse enraizamento no chão, contra a
resistência existencial dos palestinos que Israel luta por uma solução final.
Tome-se o raciocínio do general reformado Giora Eiland, que serviu por 33 anos
nas Forças de Defesa de Israel (FDI), condensado em entrevista recente para a
emissora de rádio 103FM:
— Israel não tem interesse em ver Gaza reconstruída. É
melhor para nós que a Faixa permaneça destruída por várias gerações... Eles nos
atacam quando têm esperança, não quando estão desamparados, portanto, quanto
maior a desesperança e a destruição, melhor.
Apesar do seu linguajar exterminador, Eiland nem é
considerado ultraextremista no panorama atual da política israelense — ele
apoia um eclético bloco partidário contrário ao primeiro-ministro Benjamin
Netanyahu, curiosamente descrito como de centro.
— Gaza se tornará um lugar onde nenhum ser humano poderá
viver — acrescentou.
Israel está doente de si mesmo. Avi Dichter, de 73 anos, é
filho de sobreviventes do Holocausto. Já foi chefe do Serviço de Segurança
Interna do país e hoje ocupa o cargo de ministro da Agricultura e Segurança
Alimentar.
— Conquistaremos Gaza e não deixaremos um só palestino vivo
— prometeu.
Sua colega de gabinete May Golan, ministra da Igualdade
Social, é de outra geração, tem apenas 40 anos, mas certezas igualmente
consolidadas.
— Eu me sinto pessoalmente orgulhosa das ruínas de Gaza —
declarou ela em plenário do Knesset dois anos atrás, quando o número de civis
mortos pela ação militar israelense ainda não tinha chegado a 30 mil. Hoje já
são mais de 73.400.
— Gaza e sua gente precisam ser queimados. Toda criança
nascida neste minuto em Gaza já nasce terrorista. Não podemos viver com essas
criaturas perto de nós. — ecoou o ex-ministro da Educação Nissim Vaturi em
fevereiro de 2025.
— Não restarão árabes na Faixa de Gaza — concluiu a voz mais
engajada na anexação definitiva de toda a Palestina ocupada.
— Vamos fazer pelo Estado o que o Estado não pode fazer —
explicou, referindo-se a forçar os 2,2 milhões de palestinos entulhados em Gaza
a abandonar um chão tornado estéril.
Não que o Estado judaico esteja em compasso de espera enquanto adia o máximo possível a fase 2 do claudicante cessar-fogo em Gaza, instituído pela Casa Branca dez meses atrás. Ainda nesta semana, por ordem do ministro da Defesa, Israel Katz, a população do enclave foi informada de que as FDI poderiam alvejar qualquer criança ou adulto que soltasse uma pipa pelos céus do território. Alguns desses brinquedos de papel colorido haviam sido detectados pelos serviços de segurança em mãos infantis e considerados “atos de guerra”. Como justificativa foi citado o precedente de 2018, quando palestinos de fato lançaram balões e pipas contendo material incendiário por ocasião de uma marcha de protesto no enclave.
Hoje, as crianças de Gaza que soltam pipas sem explosivos sobre sua terra arrasada talvez servissem de tema para uma última obra de Sliman Mansour. Pelo simples fato de terem sobrevivido, são resistentes.
DALVA DE OLIVEIRA, A RAINHA DA VOZ
Dalva de Oliveira de voz afinada, e bela, considerada a
Rainha da Voz ou o rouxinol brasileiro, sua extensão vocal ia do Contralto ao
Soprano.
Segundo a revista Rolling Stone, Dalva de Oliveira foi considerada
uma das maiores vozes da música brasileira de todos os tempos.
Biografia de Dalva de Oliveira
Dalva de Oliveira (1917-1972) foi uma cantora brasileira que
fez sucesso nos anos 30, 40 e 50. Com uma extensão vocal que ia do contralto ao
soprano, recebeu o apelido de “Rouxinol do Brasil”.
Dalva de Oliveira, nome artístico de Vicentina de Paula
Oliveira, nasceu em Rio Claro, interior do Estado de São Paulo, no dia 5 de
maio de 1917. Era filha mais velha de Mário de Oliveira, um carpinteiro, e da
portuguesa Alice do Espírito Santo.
Seu pai que era músico nas horas vagas, tocava clarinete e
organizava serenatas com seus amigos músicos. Com oito anos Dalva ficou órfã de
pai e em busca de trabalho, sua mãe mudou-se para São Paulo levando as quatro
filhas. Em São Paulo, trabalhou como governanta e colocou as filhas em um
internato.
Em 1934, a família mudou-se para o Rio de Janeiro.
Dalva passou a frequentar o Cine Pátria onde conheceu e logo
iniciou um namoro com Herivelto Martins, que trabalhava ao lado de
Francisco Sena formando o dueto Preto e Branco.
Dalva ingressou no grupo e passou a se apresentar
como “Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco”. Em 1936, Francisco
faleceu sendo substituído por Nilo Chagas. Em 1937 lançaram “O Trio
de Ouro”, nome dado por César Ladeira. Nesse mesmo ano, Dalva e Herivelto se
casaram. Dessa união nasceu, Peri, que se tornou um grande cantor conhecido
como Pery Ribeiro e Ubiratan.
Com o trio, Dalva gravou diversas músicas de sucesso, entre
elas: “Ceci e Peri”, “Batuque no Morro”, “Adeus Estácio”, “Lamento Negro” e “Lá
na Mangueira”. Em 1947, com a separação do casal, o trio se desfez. Era o
início de uma longa batalha judicial pela guarda dos filhos, que acabaram sendo
levados para um internato.
Em 1950, Dalva retomou a carreira solo e em 1951 lançou as
músicas “Tudo Acabado”, “Olhos Verdes” e “Ave Maria do Morro”. Em 1952 recebeu
o título de “Rainha do Rádio”.
Ainda em 1952, em uma excursão a Buenos Aires, Dalva
conheceu o ator Tito Climent, que se tornou seu empresário e mais tarde seu
segundo marido. Morando em Buenos Aires, o casal adotou Dalva Lúcia Oliveira
Climent. Em 1963 o casal se separou e Dalva retornou ao Brasil,
perdeu a guarda da filha e passou a morar sozinha em seu casarão no Rio de
Janeiro. Todos os anos ela dava um tempo em sua agenda e recebia seus
filhos na sua casa durante as férias escolares do mês de janeiro.
Em 1965, Dalva sofreu um grave acidente automobilístico, ao
lado de seu namorado, Manuel Nuno, modesto rapaz, vinte anos mais jovem que
ela, sendo obrigada a dar um tempo na carreira.
No fim dos anos 60, Dalva casou-se com Manuel e
comemorou com uma festa em sua mansão. Dalva de Oliveira, que fez grande
sucesso com as músicas “Bandeira Branca”, “Ave Maria do Morro”, “Tudo Acabado”,
“Errei Sim”, “Hino ao Amor”, “Estão Voltando as Flores”, entre outras, foi
considerada uma das maiores vozes da música brasileira.
Dalva de Oliveira faleceu no Rio de Janeiro, no dia 30 de
agosto de 1972.
Texto de Dilva Frazão, E-biografia
sábado, 29 de agosto de 2026
'PROGRAMA DE PARCERIA'
Flávio Bolsonaro oferece assessoria e faz influenciadores
lucrarem com ataques a Lula
“Se eu fosse petista, eu tinha ganhado um bicho desse?”.
A influenciadora Dady Santos, do Rio Grande do Norte, fez a pergunta a seus
seguidores no Instagram após apresentar o armário de cozinha que diz ter
recebido do dono de um restaurante de Brasília. A casa sem reboco também
ganhou, nas últimas semanas, uma televisão e a reforma completa do banheiro.
Ela atribui sua “chuva de bençãos” nominalmente a “Flavinho” Bolsonaro.
Dady Santos viralizou depois que o então pré-candidato à
Presidência pelo PL e as redes bolsonaristas compartilharam um vídeo seu
atacando o governo Lula, em julho. Não demorou para que os novos seguidores
começassem a mandar presentes e até a contribuir em uma vaquinha que ela passou
a divulgar.
Flávio Bolsonaro tem emprestado sua visibilidade nas redes
para impulsionar perfis que postam conteúdos criticando a gestão de Lula, do
PT. Mas isso é só parte da estratégia de sua campanha para alimentar a
propaganda nas redes: descobrimos que o PL promete assessoria e até encontros
com o candidato para ajudar influenciadores de direita a “fazer o feed virar”,
estimulando a produção de conteúdo político disfarçado de engajamento
espontâneo — o que pode lhe causar problemas com a Justiça Eleitoral.
No centro dessa rede está o site Direita Já. A iniciativa é
similar à da plataforma Porta-Voz do Lula, criada pelo PT para incentivar a
campanha pela reeleição do presidente. A diferença é que, em vez de fornecer
apenas conteúdo para a militância distribuir, a iniciativa do PL está
prometendo consultoria para quem participar do seu “programa de creators [criadores]”,
voltado especificamente para influenciadores.
“Mais de 200 parceiros já recebem briefings semanais,
conteúdo exclusivo antes de virar público e suporte direto da nossa equipe de
produção”, diz a página, que foi registrada como um dos sites oficiais da
campanha de Flávio Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.
A campanha de Flávio não divulga quem são os 200
influenciadores beneficiados pelo programa de criadores nem é transparente
sobre quais briefings envia para orientar a produção de conteúdo. Mas essa rede
de influenciadores tem um alcance combinado de 50 milhões de pessoas, segundo o
próprio Direita Já. Só consegue fazer parte dela quem já possui perfis com
amplo alcance.
Além desse grupo restrito, o site oferece conteúdos como
cards e textos de propaganda eleitoral prontos para baixar e distribuir nas
redes. Também dá acesso ao grupo de WhatsApp em que as propagandas estão
formatadas para compartilhar nesse aplicativo. Conteúdos sugerindo que a
economia do país está em crise ou relacionando o governo Lula a casos de
corrupção estão entre os mais disponibilizados para o público geral.
A legislação eleitoral permite que qualquer pessoa
compartilhe conteúdo de campanha por conta própria em suas redes. “O problema
começa quando existe uma contrapartida em troca da publicação”, explica a
advogada Carla Maria Nicolini, membro da Academia Brasileira de Direito
Eleitoral e Político, a Abradep.
“Não precisa ser um pagamento em dinheiro vindo da campanha
para configurar irregularidade”, acrescenta a especialista, esclarecendo que
qualquer benefício com valor de mercado pode vir a ser interpretado como
vantagem econômica pela Justiça Eleitoral. Isso inclui o fornecimento de
produtos e serviços e até mesmo a divulgação, já que a visibilidade é um ativo
valioso para quem busca viver do trabalho nas redes sociais.
LEIA TAMBÉM:
- Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro R$ 134
milhões para bancar filme sobre Jair
- Vorcaro tratou pagamento a filme de Bolsonaro como
prioridade após cobrança de Flávio
- Planilha
e comprovante bancário mostram como Vorcaro enviou dinheiro aos EUA para
financiar ‘Dark Horse’
Mas a investigação do Intercept Brasil constatou
que as vantagens de atuar nas redes em defesa da candidatura de Flávio
Bolsonaro vão além da possibilidade de receber suporte da equipe de campanha.
Influenciadores de direita têm relatado nas redes um aumento expressivo no seu
número de seguidores após terem conteúdos compartilhados por políticos.
Perfis de pessoas comuns estão se tornando virais, e o
resultado é o que se espera da fama: oportunidades para monetizar o feed.
Recebimento de presentes, organização de vaquinhas, links para a venda de
produtos e até convites para eventos e viagens estão hoje chegando para
criadores de conteúdo que criticam o governo e apoiam Flávio Bolsonaro.
É nesses pontos que a monetização da estrutura de
influenciadores construída pelo PL deve ser alvo de embates jurídicos durante a
campanha.
“Quando [o influenciador] passa a lucrar com isso de
qualquer maneira, o conteúdo deixa de ser apoio orgânico e passa a se sujeitar
às regras e às penalidades da propaganda paga”, explica Nicolini. “Em última
análise, a prática pode configurar uso indevido dos meios de comunicação,
sujeitando os responsáveis e beneficiários às penas de multas, cassação do
registro ou diploma, se comprovada a gravidade da conduta e sua influência no
resultado do pleito”, acrescenta.
A estratégia de Flávio Bolsonaro não começou agora. Em vídeo publicado no
YouTube no final de maio, o deputado federal e candidato ao Senado por
Goiás Gustavo Gayer, do PL, garante que o cadastro no Direita Já oferece aos
influenciadores acesso a um “grupo diferenciado”. “Você já vai ter uma
assessoria, você poderá ser convidado a participar de eventos para poder gravar
um vídeo com Bolsonaro, com Flávio Bolsonaro ou com os principais candidatos do
seu estado”, diz o parlamentar, que coordena a comunicação do PL.
Na gravação, Gayer apresenta o site como a ferramenta que
“estava faltando para a gente voltar a vencer o jogo”. Na época em que publicou
o vídeo, as pesquisas mostravam queda nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro
após a divulgação, pelo Intercept, duas semanas antes, de
áudio do senador negociando um repasse de R$ 134 milhões com o
ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso no escândalo do Banco Master.
“Estava faltando uma articulação, uma espécie de mobilização
centralizada, uma ferramenta que pudesse ajudar as pessoas a terem acesso a
conteúdo, a entrar nos grupos do WhatsApp, a saber o que postar, como contrapor
as mentiras do governo e do PT”, diz Gayer.
Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro
disse que “a reportagem tenta estabelecer uma relação inexistente e fantasiosa
entre apoio espontâneo, produção independente de conteúdo, compartilhamento nas
redes sociais com supostas vantagens econômicas”.
Citou, ainda, que o TSE “reconhece a licitude da veiculação
de propaganda em canais e perfis de pessoas naturais” e “admite atos de
mobilização destinados a ampliar organicamente mensagens nas redes, mencionando
expressamente o compartilhamento simultâneo de materiais distribuídos aos
participantes, a convocação para eventos virtuais e presenciais e a utilização
de hashtags”.
O posicionamento frisa que a lei define “limites claros, que
são observados” pela campanha de Flávio Bolsonaro e acusa a reportagem de
querer favorecer o PT.
A campanha ainda afirma que “o projeto Direita Já é uma
iniciativa de mobilização e relacionamento com apoiadores”, que “o Intercept
quer impedir Flávio Bolsonaro de repostar conteúdos de cidadãos comuns”,
confirmando que isso gera um aumento de seguidores, mas considerando que “o
ilícito só existe na cabeça e na vontade da esquerda, mas não na lei”. Leia
aqui a nota na íntegra.
A campanha de Flávio Bolsonaro não explicou como é o suporte
que sua equipe oferece aos influenciadores cadastrados no Direita Já, não
esclareceu se pagou viagens para a participação em eventos nem se orientou
sobre a produção de conteúdos similares com críticas aos preços nos
supermercados e ao governo Lula.
Gustavo Gayer e o PL não responderam até a publicação desta
reportagem. O espaço segue aberto. Também questionamos a influenciadora Dady
Santos sobre o apoio de Flávio e do PL. Ela respondeu que não recebeu nada.
“Ganhei nada de políticos, não. Ganhei de alguns seguidores meus”, disse.
‘O homem fala com nóis’
Embora o PL não torne público quem faz parte do grupo
exclusivo de influenciadores, nas redes sociais é possível identificar perfis
de cidadãos comuns — como microempreendedores e autodeclarados “pobres de
direita” — que compartilham vídeos com o candidato e atribuem esses encontros
aos conteúdos que publicam.
“Eu pensava que tava velho, cara, que não era pra rede
social. Seis meses e dez dias postando… […] O presidente do Brasil, você sabe,
né? Flávio Bolsonaro. Hoje [tô] super alegre. O homem me convidou para tomar um
café da manhã no dia 3, 9 horas da manhã, e botou no convite: ‘influenciador
digital Zig.Sport’”, celebrou o comerciante Gilberto Fernandes, de Duque de
Caxias, no Rio de Janeiro, que está no Instagram como @zig_na_voz.
No alto do vídeo que publicou em 30 de junho, é exibida a
imagem de um cartaz do 3ª Seminário de Comunicação do Partido Liberal,
realizado no ExpoRio Cidade Nova, que ofereceu palestras, oficinas e um espaço
para experimentações com inteligência artificial para comunicadores de direita.
O perfil de Fernandes já compartilhou conteúdos
disponibilizados na plataforma Direita Já, como uma produção feita com IA
intitulada “A trajetória obscura de Lulinha”. Mas o tema preferido de seus
vídeos são denúncias de lojas que estariam fechando ou demitindo porque Lula
estaria “quebrando o país”. Com 86,7 mil seguidores em 26 de agosto de 2026, o
bolsonarista aproveita a exposição para tentar monetizar com a oferta de
produtos e cursos sobre empreendedorismo.
No dia 24 de julho, o influenciador postou um vídeo ao lado
de Flávio Bolsonaro, no qual se apresentou como camelô e ouviu do senador que
“o governo massacra vocês”. No encontro, Fernandes entregou ao candidato um
boné com o número 22 que vende em seu Instagram. Na conclusão, o comerciante
pediu voto em Flávio — apelo que a legislação eleitoral proíbe que seja feito
antes do início oficial da campanha, em 16 de agosto.
O encontro foi postado por Fernandes um dia antes da
Convenção Nacional do PL em São Paulo, evento no qual foi formalizada a
candidatura do filho de Bolsonaro à Presidência. O comerciante esteve no ato,
segundo ele, após receber um telefonema do próprio candidato o convidando. “Meu
amigo, o presidente do Brasil, um cara simples, chamou um cara simples, igual
você, para a convenção dele em São Paulo”, celebrou no dia 21 de julho.
“Agora você tem um amigo que te representa junto ao futuro
presidente do Brasil, porque o homem fala com nóis”, reforçou em outro vídeo,
uma semana depois, citando outros influenciadores bolsonaristas. “Tu viu o que
o homem fez, né? Comigo, com o Preto de Direita…”, afirmou, antes de se
oferecer para fazer a ponte entre seus seguidores e o candidato do PL.
Com 273 mil seguidores em uma de suas contas no Instagram, o
influenciador Danilo Miguel de Sousa Pereira, que se apresenta como Preto de
Direita, fez diversas publicações em parceria com Zig na Voz. Ambos aparecem
juntos em vídeo gravado em 24 de julho no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, no
qual Pereira alega estar a caminho de São Paulo e atribui a seus seguidores a
oportunidade, exibindo uma passagem de avião. “De comunidade pra rede social,
da rede social pro Santos Dumont, do Santos Dumont ao encontro do meu futuro
presidente, Flávio Bolsonaro”, comemora.
No mesmo dia em que desembarcou em São Paulo, o
influenciador de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, postou um vídeo ao lado do
candidato do PL. “Nós estamos passando sufoco quando a gente vai no mercado.
Está terrível, terrível, terrível, não estamos aguentando. E eu vim diretamente
falar com o homem pra que ele possa dar o recado pra você que está sofrendo
também”, diz Pereira, antes de passar o microfone ao senador.
Em sua fala, Flávio culpou os gastos governamentais pela
inflação. “Preto de Direita, fechamento nosso!”, comentou o ex-deputado federal
Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, na publicação no Instagram, que teve quase
50 mil curtidas até dia 26 de agosto de 2026.
O Intercept perguntou a Danilo Pereira e a Gilberto
Fernandes sobre a assessoria recebida de Flávio e do PL e quem custeou as
passagens de avião e o hotel em que se hospedaram em São Paulo para participar
da Convenção Nacional do PL. Não houve resposta até a publicação da reportagem.
O espaço segue aberto.
‘Aqui sua picanha’
Atribuir ao governo Lula o endividamento das famílias e
afirmar que o custo de vida está aumentando são temas presentes em diversos
discursos de Flávio Bolsonaro na corrida à Presidência. Também aparecem em
cards produzidos pelo PL e disponíveis para compartilhamento na plataforma
Direita Já.
Nos feeds dos “pobres de direita”, o ataque à atual gestão
multiplica-se em vídeos similares, nos quais os influenciadores mostram notas
de compras que teriam acabado de fazer no supermercado e lamentam que, hoje, o
dinheiro não rende.
No dia 12 de agosto, Flávio Bolsonaro compartilhou um desses
vídeos. Mas o conteúdo, publicado por uma influenciadora de Belo
Horizonte, era
enganoso. Na gravação, a consumidora dizia ter gasto R$ 626 no
supermercado levando “só o básico”, sem comprar nenhuma peça de carne.
Agências de checagem, como o Estadão
Verifica, consultaram a íntegra da nota fiscal no portal da Secretaria
de Estado de Fazenda de Minas Gerais e verificaram que a compra incluía mais de
6 quilos de diferentes tipos de carne vermelha.
Outra influenciadora que também costuma publicar vídeos
reclamando dos preços é Kelle Cristina, do perfil no Instagram @kelledireita.
“Você acha isso aqui normal?”, pergunta, em vídeo publicado no dia 14 de
agosto, no qual tira de sacolas de supermercado diferentes tipos de carne,
citando o preço de cada uma. “Eu não quero mais viver com esse governo”, afirma
no vídeo.
A criadora de conteúdo participou do Seminário de
Comunicação do PL e postou conteúdos com Flávio Bolsonaro na ocasião. Em outro
vídeo, de 24 de julho, atribui a um apelo do presidenciável o aumento no seu
número de seguidores, que hoje somam 630 mil. “O Flávio Bolsonaro, ele
simplesmente (…) pediu às pessoas, aos seguidores dele lá: ‘Segue a
Kelle”, relatou, dizendo que, desde que foi compartilhada nas redes pelo
senador, foi “abraçada” por muitas pessoas de direita.
Procurada pelo Intercept, Kelle Cristina disse que
participou do evento do PL após “um convite de uma amiga” e que nunca recebeu
nenhum tipo de ajuda ou dinheiro para fazer seus conteúdos e roteiros. “Eu
gravo do fundo do meu coração, da minha alma”.
A influenciadora confirmou que ser repostada por Flávio
Bolsonaro a ajudou a ganhar muitos seguidores, “mas ele não me pediu nada em
troca”. “Eu tô ganhando mais seguidores pelo conteúdo que eu crio e [porque] eu
não divulgo casa de aposta, então meus seguidores gostam muito do meu
trabalho”, afirma.
“Flávio Bolsonaro me ajudou repostando meu vídeo e com isso
eu ganhei muitos seguidores, mas eu já tinha me posicionado porque eu fui
enganada pelo PT”, disse também a influenciadora, que se diz decepcionada com o
governo Lula.
Outro influenciador que registra em suas redes um encontro
com o presidenciável e também grava vídeos reclamando dos preços nos
supermercados é Jonas Cosme, autointitulado “Favelado de Direita”. Seu perfil
faz propaganda para diversos políticos do PL do Rio de Janeiro.
Em um desses conteúdos, de 4 de julho, Cosme segura uma
abóbora no setor de hortifruti de um supermercado enquanto exibe um cartaz com
uma ilustração de Lula mostrando o dedo médio sob a frase “Aqui sua
picanha”.
A piada coincide com uma declaração que o coordenador da
campanha de Flávio, Rogério Marinho, fez em entrevista à Jovem Pan News em maio
e que voltou a destacar em suas redes em julho: “Lula prometeu picanha e
cervejinha, mas entregou abóbora, inflação e carestia”. Nós procuramos Cosme e
o questionamos sobre o tema e se recebeu assessoria de Flávio e sua equipe, mas
não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.
Além da trend dos preços dos alimentos, notícias da
recuperação judicial das Casas Bahia e pedidos para que eleitores não troquem
seu voto pelo vale-gás oferecido pelo programa federal Gás do Povo também se
repetem nos perfis de outros influenciadores periféricos que se encontraram com
Flávio ou tiveram publicações curtidas ou compartilhadas por membros do clã
Bolsonaro.

















