quarta-feira, 4 de março de 2026

DANIEL VORCARO É PRESO PELA PF EM SP

Isabela Leite, Márcio Falcão, Isabela Camargo, Bruno Tavares, g1, GloboNews e TV Globo

Daniel Vorcaro é preso pela PF em nova fase da operação sobre Banco Master

Banqueiro está na Superintendência da PF em SP. Investigação aponta esquema bilionário de fraudes financeiras envolvendo a venda de títulos de crédito falsos.

O banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, voltou a ser preso nesta quarta-feira (4) pela Polícia Federal em São Paulo em uma investigação que apura um esquema bilionário de fraudes financeiras. Procurada, a defesa dele ainda não se manifestou.

O cunhado dele, Fabiano Zettel, também era alvo de mandado de prisão e se entregou na Superintendência da PF. A defesa disse que "em que pese não ter tido acesso ao objeto das investigações, Fabiano está à inteira disposição das autoridades".

As prisões aconteceram como parte da terceira fase Operação Compliance Zero, que, segundo a PF, tem o objetivo de investigar a "possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos, praticados por organização criminosa".

A medida foi autorizada pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), em sua primeira ação como relator do caso, que assumiu no mês passado.

🔎 Segundo a PF, o esquema financeiro envolve a venda de títulos de crédito falsos pelo Banco Master. O nome da operação é uma referência à falta de controles internos nas instituições envolvidas para evitar crimes de gestão fraudulenta, lavagem de dinheiro e manipulação de mercado.

Vorcaro já havia sido preso em novembro do ano passado ao tentar embarcar para a Europa em um avião particular que sairia do aeroporto de Guarulhos, na Grande SP. Para a PF, não havia dúvidas de que ele iria fugir do país.

Havia um mandado de prisão preventiva contra Vorcaro, que já foi levado para a Superintendência da PF na capital paulista.

Além de Vorcaro e Zettel, também há outros dois mandados de prisão preventiva e 15 de busca e apreensão, expedidos pelo Supremo Tribunal Federal (STF), em São Paulo e Minas Gerais. As investigações contaram com o apoio do Banco Central do Brasil.

Também foram determinadas ordens de afastamento de cargos públicos e sequestro e bloqueio de bens, no montante de até R$ 22 bilhões, com o objetivo de interromper a movimentação de ativos vinculados ao grupo investigado e preservar valores potencialmente relacionados às práticas ilícitas apuradas.

CPI

Vorcaro era aguardado para depor nesta quarta à CPI do Crime Organizado, em Brasília. No entanto, o dono do Banco Master já havia sinalizado que iria comparecer apenas à Comissão de Assuntos Econômicos (CAE) do Senado.

O ministro André Mendonça tinha decidido na terça-feira (3) que a ida dele à CPI seria facultativa.

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terça-feira, 3 de março de 2026

IRANIANOS FICAM ENTRE A DITADURA LOCAL E O IMPERIALISMO AMERICANO

Artigo de Fernando Gabeira

A tática dos EUA é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais

Quem tem memória lembra bem a guerra do Iraque. Colin Powell foi à ONU com umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça. Agora, Donald Trump, de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à segurança do povo americano.

Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.

Neste momento em que todos buscam notícias e em que, como no início de guerras, elas são muito desencontradas, creio ser possível demonstrar um tipo de angústia que domina os iranianos. Eu intuía isso, mas escrevo agora baseado em depoimentos deles, postados no fim de semana passado. Um desses depoimentos diz:

— Como iraniano, posso afirmar que a situação não é mais apenas política, mas existencial. Caímos numa armadilha de duas estruturas em colapso, uma interna, outra externa.

O depoimento mostra que a esperança interna foi dissipada pela constante repressão às tentativas de reforma. Mas acentua aí o paradoxo: estão aterrorizados pelo colapso do regime injusto porque conhecem os resultados das intervenções ocidentais em países como Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão.

O depoimento afirma ainda que os iranianos não confiam nos Estados Unidos e em Israel. Não porque apoiem o regime repressor do Irã, mas porque sabem como os poderes imperiais tratam as nações “liberadas” do Oriente Médio.

O que aparece para muitos iranianos é um dilema entre a terrível repressão dos aiatolás e a alternativa oferecida pelos ocidentais, que não é liberação, mas colapso. Para eles, o país é refém de um regime, como se vivessem numa casa de ódio, aterrorizados pelo fogo exterior — pelo destino de seus vizinhos.

Essa visão interna do Irã nos ajuda a compreender como é difícil obter um dos objetivos de Trump: a mudança de regime. Uma chuva de bombas, inclusive algumas que atingem escolas e hospitais, não consegue mudar o regime, mesmo matando seu líder máximo, um homem velho e doente, cuja substituição já era preparada.

No fundo, a política externa de Trump usa o termo mudança de regime como retórica. A tática é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais, como na Venezuela. Trump inaugurou uma política de violência, baseada em intimidação, bombardeio e ações de comando. Mas tem uma limitação evidente: seus eleitores não perdoariam as botas no terreno, uma invasão real.

Alguns do movimento Make America Great Again já não apoiam nem a própria guerra do Irã, vista como de interesse apenas de Israel.

Artigo publicado no jornal O Globo em 03 / 03 / 2026

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RELAÇÕES PERIGOSAS

Merval Pereira, O Globo

A posição diplomática do Brasil é ideológica, com viés esquerdista de antiamericanismo, mas não tem sentido na vida real para o país

A política externa brasileira, no afã de mostrar-se independente dos Estados Unidos num anti-imperialismo infantiloide, se une a países como o Irã, que financia o terrorismo internacional, e se coloca em situações embaraçosas. Exemplo de como ser um vice-presidente leal é tarefa delicada, Geraldo Alckmin já ouviu em posição de sentido a Internacional Socialista no aniversário do PSB e apareceu numa foto ao lado de líderes de milícias que integram o autoproclamado “eixo da resistência”, aliança informal liderada pelo Irã. Na cerimônia de posse do presidente iraniano em 2024, em que representou o governo brasileiro, Alckmin ficou ao lado de representantes dos grupos terroristas Houthi, Jihad Islâmica, Hezbollah e Hamas, todos financiados pelo Irã.

A proximidade com o governo do Irã fez com que, em 2010, o governo Lula tentasse ser o mediador de um acordo sobre o programa nuclear iraniano em companhia da Turquia, depois rejeitado pelo governo do então presidente Barack Obama. O Brasil assumiu um risco diplomático desnecessário ao mediar o acordo, desprezado pelas potências ocidentais. Nossa posição de simpatizante do governo iraniano ficou marcada por esse fracasso diplomático e afastou politicamente o Brasil de seus aliados tradicionais no Ocidente. O consenso entre críticos era que a Declaração de Teerã não oferecia garantias sólidas e servia para postergar sanções contra o Irã, sem resolver a questão do enriquecimento de urânio.

Quando, algum tempo depois, os Estados Unidos acertaram um acordo nuclear com o Irã, o governo brasileiro tentou vender a narrativa de que havia sido traído por Obama, pois o acordo americano era semelhante ao proposto por Brasil e Turquia. Havia, no entanto, uma questão crucial: o acordo brasileiro permitia que o Irã continuasse a enriquecer urânio durante um “período de transição”, enquanto o americano proibia imediatamente. Provavelmente, esse foi um dos pontos de discórdia na tentativa de acordo antes dos ataques de Israel e Estados Unidos. O Irã não abre mão de seu programa nuclear, afirmando que ele tem finalidade pacífica. Mas a sistemática supervisão da Agência Internacional de Energia Atômica (AIEA) sempre foi dificultada.

O Brasil ter abandonado a neutralidade no episódio foi um erro não apenas diplomático, mas político, pois ficou marcado como governo de esquerda que não critica a ação terrorista do Irã. O Brasil tem seu próprio programa nuclear, faz enriquecimento de urânio, mas o abandonou para fins militares há muito tempo, ao assinar, no governo Fernando Henrique Cardoso, o Tratado de Não Proliferação de Armas Nucleares.

No caso atual, o país não deveria ter posição tão radicalmente contra os ataques dos Estados Unidos e Israel ao Irã, justamente pela posição iraniana de fomentar ataques terroristas pelo mundo por meio de milícias; seria bom que tivesse tido a cautela que os europeus tiveram. É claro que um ataque de um país a outro não pode ser normalizado, mas, tratando-se do Irã, há uma situação delicada diplomaticamente, que deveria ser ultrapassada no mínimo pela neutralidade.

Ao contrário, a posição diplomática do Brasil é ideológica, com viés esquerdista de antiamericanismo, mas não tem sentido na vida real para o país, ainda mais agora, momento em que ainda negociamos o tarifaço de Donald Trump. Nesse episódio, o governo brasileiro atua com bastante eficiência e cautela, sem abrir mão dos princípios do livre-comércio. Mas a proximidade com o governo do Irã não corresponde aos interesses brasileiros, enquanto com os Estados Unidos, apesar de toda a insanidade do governo Trump, ainda é fundamental para a economia brasileira.

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O AUMENTO DE NOVAS FONTES DE RENDA E O CONSUMO

Sergio Lamucci, Valor Econômico

Em comparação a 2019, há 21,6 milhões fontes adicionais de rendimento na economia, o que tem dado fôlego à demanda das famílias

O consumo das famílias tem um papel de destaque no crescimento da economia brasileira nos últimos anos, especialmente no período entre 2021 e 2024. Nesses quatro anos, avançou a uma média anual de 3,85%, acima dos 3,6% da média do PIB. Novas fontes de renda ajudam a explicar esse desempenho do consumo privado, cujo ritmo arrefeceu em 2025 e pode ter alguma reaceleração em 2026, mas sem voltar ao ritmo de 2021 a 2024, dado o nível elevado dos juros e do endividamento das famílias, que tem provocado o aumento da inadimplência. Nesse cenário, a demanda das famílias deve passar de um crescimento na casa de 1,5% no ano passado para 2% neste ano.

O economista-chefe da corretora Tullett Prebon, Fernando Montero, tem chamado a atenção para o salto nas novas fontes de rendimento de 2019 para cá. Nesses seis anos, surgiram 21,6 milhões fontes adicionais de renda, de acordo com levantamento de Montero. Em comparação a 2019, a economia tem mais 9,1 milhões de trabalhadores ocupados, mais 6 milhões de aposentados ou beneficiários de programas assistenciais, mais 5,5 milhões de beneficiários do Bolsa Família e mais 1 milhão de pessoas que recebem o seguro-desemprego (incluídos aí os pescadores que ganham o seguro-defeso). Montero faz a comparação com 2019 para tirar o impacto do auxílio emergencial dos anos da pandemia da covid-19, que começou em 2020.

Essa alta impressionante de fontes de rendimento é um dos fatores que sustentaram o crescimento mais forte após a pandemia. “Cada nova fonte de renda significa confiança para uma família e colateral [garantia] para um banco”, diz Montero. Nesse sentido, uma nova fonte de renda não é apenas mais renda, afirma ele.

Com um novo emprego ou um novo benefício previdenciário ou assistencial, a família tem maior disposição para consumir, por ter mais confiança. Ao mesmo tempo, a renda serve como garantia para empréstimos. Nessas 21,6 milhões de fontes adicionais de rendimentos desde 2019, é possível que haja pessoas recebendo mais de um deles ao mesmo tempo - alguém pode ter conseguido um novo emprego e ter se aposentado, por exemplo. Eles não são necessariamente excludentes.

No quarto trimestre de 2025, o total de trabalhadores ocupados chegou a 103 milhões, recorde na série histórica iniciada em 2012, refletindo a força do mercado de trabalho. Já o número de aposentados e pensionistas e beneficiários de programas assistenciais atingiu 41,6 milhões, e só não é maior porque há uma fila de cerca de 3 milhões de pessoas esperando benefícios do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

O Bolsa Família, por sua vez, tinha em dezembro 18,7 milhões de beneficiários. Depois de atingir 21,6 milhões em 2022, o número recuou nos últimos três anos, devido a uma revisão mais rigorosa do cadastro, que tem levado à redução de famílias formadas por apenas uma pessoa, por exemplo. Já o seguro-desemprego alcançou 7,7 milhões de pessoas. Somando todos esses itens, são quase 171 milhões de fontes de renda, 21,6 milhões a mais que em 2019 e 140 mil a mais do que em 2024 -nesse caso, um aumento pequeno.

Os grandes agregados de renda cresceram muito nos últimos anos, nota Montero. Na média dos três meses até dezembro de 2025, a chamada Renda Nacional Disponível Bruta das Famílias, em seu conceito restrito, ficou 5,5% acima da média do mesmo período de 2024, descontada a inflação. Se comparada com a média do quarto trimestre de 2019, o aumento acima da inflação foi de 20%, segundo números do Banco Central (BC). Nesse conceito, estão incluídos rendimentos do trabalho, benefícios previdenciários e transferências de programas sociais, excluindo recursos de aluguéis e aplicações financeiras e descontando os gastos com impostos. Na média dos últimos três meses de 2025, esse agregado atingiu R$ 607,3 bilhões.

Essas novas fontes de renda e o aumento dos rendimentos das famílias têm hoje como contraponto o que se passa no crédito, o que segura uma alta mais forte do consumo, segundo Montero. A inadimplência atingiu o recorde de 4,2% em janeiro. Além disso, o endividamento das famílias em dezembro de 2025 (dado mais recente disponível) foi equivalente a 49,7% da renda anual, próximo do recorde de 49,9% de julho de 2022. Para completar, há um aumento da participação de linhas de maior risco, como cheque especial e o rotativo do cartão de crédito.

Em resumo, esse impacto dos juros elevados sobre o crédito tende a frear em parte o consumo, ofuscando o efeito ainda positivo do mercado de trabalho sobre a renda. Com inadimplência em alta e o endividamento elevado se contrapondo à renda, o espaço para cortes da Selic pode ser maior do que se imagina, especialmente se o câmbio ficar comportado, avalia Montero. A inflexão dos juros, que deve começar com uma redução da taxa neste mês, ocorrerá num cenário em que as famílias estão mais endividadas.

Com isso, o consumo das famílias deve mostrar um crescimento mais modesto em 2025 e 2026 do que entre 2021 a 2024. Para o ano passado, o Bradesco estima uma expansão de 1,5% desse componente da demanda, esperando que o PIB tenha avançado 2,2%, números que serão conhecidos amanhã. Para 2026, o banco prevê um consumo das famílias crescendo 2,1%, acima do 1,5% projetado para o PIB. Além do impulso do mercado de trabalho, a isenção do Imposto de Renda (IR) para quem ganha até R$ 5 mil e o aumento acima da inflação do salário mínimo poderão dar fôlego para a demanda das famílias, na visão do Bradesco. Não é um ritmo desprezível, mas o impacto da renda encontra na situação do crédito um contraponto que tira parte do ímpeto do consumo, como aponta Montero.

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QUANDO A GUERRA IGNORA LIMITES: A URGÊNCIA DE REAFIRMAR O DIREITO INTERNACIONAL

Nasser Zakr*, Correio Braziliense

A estabilidade duradoura depende da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa

O direito internacional humanitário (DIH) representa o esforço mais consistente da comunidade internacional para preservar a dignidade humana em meio à guerra. Não impede conflitos, mas estabelece limites jurídicos claros e universais à condução das hostilidades. Seu propósito é essencial: proteger civis, restringir métodos e meios de combate e assegurar que, mesmo em cenários extremos, a humanidade permaneça como parâmetro mínimo de conduta entre Estados e demais atores armados.

O desafio contemporâneo não reside na ausência de normas. As convenções de Genebra e seus protocolos adicionais constituem um arcabouço jurídico sólido, amplamente ratificado e consolidado ao longo de décadas. A dificuldade está na aplicação efetiva, imparcial e consistente dessas regras diante de conflitos complexos, múltiplos grupos armados, tecnologias militares sofisticadas e operações híbridas, que ampliam a distância entre decisões operacionais e impactos humanitários.

Os conflitos atuais tendem a ser assimétricos, urbanos e prolongados. A distinção entre combatentes e civis tornou-se mais tênue, sobretudo em áreas densamente povoadas, onde infraestruturas essenciais se confundem com objetivos militares. Tecnologias de precisão coexistem com ataques cibernéticos e sistemas remotos de combate, submetendo princípios de distinção, proporcionalidade e necessidade militar a testes permanentes. A sofisticação tecnológica não elimina riscos para populações civis nem reduz a obrigação de cautela jurídica, reafirmando a necessidade de aplicação rigorosa do DIH.

Em diversos contextos, argumentos de segurança ou de combate a ameaças transnacionais têm sido utilizados para relativizar salvaguardas humanitárias. Embora respondam a perigos reais, a invocação recorrente e ampla de exceções enfraquece a previsibilidade e a autoridade da norma. A aplicação seletiva ou politizada do DIH compromete padrões civilizatórios consolidados ao longo do século 20. Ataques indiscriminados, deslocamentos forçados e restrições à assistência humanitária evidenciam a distância entre compromissos assumidos e sua implementação concreta.

Em um cenário de tensões regionais intensas e convulsões humanitárias recentes, civis enfrentam riscos elevados, afetando milhões de pessoas, incluindo deslocamentos forçados, interrupção de serviços essenciais e impactos sociais e econômicos de longo prazo. Esses desafios reforçam a urgência do cumprimento do DIH sem identificar países ou atores específicos, preservando neutralidade, relevância e universalidade e sublinhando o papel da comunidade internacional na defesa de padrões humanitários e na proteção de gerações futuras.

A responsabilização internacional continua central. Tribunais e mecanismos investigativos reafirmam que violações graves não podem ser naturalizadas nem tratadas como efeitos colaterais inevitáveis. Apesar de limitações políticas e operacionais, esses instrumentos sustentam que a proteção de civis não é mera recomendação moral, mas obrigação jurídica vinculante, reforçando a legitimidade e a credibilidade da ordem internacional.

A ONU permanece como espaço central de coordenação e supervisão multilateral. Resoluções, operações de paz, missões políticas e mecanismos de monitoramento buscam documentar violações e fortalecer a proteção de populações vulneráveis. Sua efetividade depende da convergência política entre Estados-membros, especialmente quando interesses estratégicos dificultam consensos no Conselho de Segurança, exigindo respostas coordenadas, firmes e sustentáveis para garantir segurança e dignidade a civis.

Reafirmar o DIH não significa ignorar preocupações legítimas de segurança. Significa reconhecer que proteger civis e limitar meios de combate não constitui obstáculo à segurança, mas condição de sua legitimidade. A estabilidade duradoura depende não apenas da dissuasão, mas da observância coerente de normas compartilhadas que preservem a dignidade humana mesmo em contextos de violência intensa.

Mesmo diante da guerra, a humanidade do outro permanece como parâmetro mínimo que distingue contenção de barbárie. Defender esse princípio não é gesto retórico, mas condição indispensável para que o direito cumpra sua função civilizatória. A observância consistente das normas humanitárias não apenas protege vidas, mas reforça a credibilidade da ordem internacional e sustenta a legitimidade do multilateralismo. Preservar esses limites é imperativo ético, político e estratégico: é o que garante que, mesmo nos cenários mais extremos, a guerra não se transforme em total ausência de civilidade.

 *Nasser Zakr — advogado especializado em direito internacional e direitos humanos, com carreira na ONU e atuação em missões de paz e mediação diplomática

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CONTRA OS ATAQUES AMERICANOS, IRÃ AMEAÇA AS BOMBAS DE GASOLINA NOS EUA

Humberto Saccomandi, Valor Econômico

Reação de Teerã sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais poderá lhe doer: nas urnas

Donald Trump se vangloriou dos preços baixos dos combustíveis nos EUA, no seu recente discurso sobre o Estado da União. Isso mostra como a gasolina barata é um ativo precioso para o presidente, especialmente num período de campanha eleitoral. A reação do Irã ao ataque americano sinaliza que o país já começou a usar o petróleo como arma, ameaçando Trump onde mais lhe poderá doer, nas urnas. A guerra pode logo se tornar uma disputa entre o que causa mais dano: as bombas americanas que estão caindo no Irã ou o preço subindo nas bombas de gasolina dos EUA.

O preço do petróleo tipo Brent subiu mais de 6,68% nesta segunda-feira. Mas já aumentou cerca de 22% desde meados de janeiro, quando Trump começou a ameaçar o Irã. Nos EUA, mudanças nos preços do petróleo costumam ser repassadas rapidamente aos consumidores. Os preços do gás natural, outra importante commodity energética exportada pelo Oriente Médio, também tiveram forte alta ontem. As bolsas pelo mundo caíram, pelo temor de que o conflito se agrave e afeta a economia global.

A cotação do petróleo é possivelmente a principal ferramenta de pressão à disposição do governo iraniano. Como o país pode influenciar esse preço? Principalmente de duas maneiras. A primeira é ameaçando fechar o Estreito de Ormuz, por onde passam diariamente cerca de 20% do petróleo consumido globalmente. A segunda é ameaçando a estrutura petrolífera dos países vizinhos.

Em junho de 2025, quando os EUA e Israel atacaram o Irã, o país reagiu timidamente, indicando que não desejava uma escalada do conflito. E, sobretudo, Teerã evitou usar o petróleo como arma. A cotação disparou, até atingir o pico de US$ 77,55 o barril, mas caiu rapidamente logo em seguida.

Desta vez está sendo diferente. Segundo o Maritime Trade Operations Centre do Reino Unido, três navios foram atacados na região, sendo que dois deles foram atingidos. Ninguém assumiu a autoria dos ataques, mas o Irã alertou navios a não tentaram cruzar o Estreito de Ormuz. O tráfego estaria paralisado.

Além disso, Teerã atacou com mísseis e drones vários países da região: Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Kuait, Catar, Bahrein e Iraque (Curdistão). São todos produtores de petróleo e/ou gás natural. Assim, o governo iraniano demonstrou ser capaz de atingir alvos nesses países. A destruição de instalações petrolíferas vitais, como centrais de processamento e terminais de exportação, poderia convulsionar o mercado de petróleo por um bom tempo.

Com esses ataques, o Irã aglutina os países árabes vizinhos contra si, o que é um risco. Porém, faz também com que esses países sofram economicamente e pressionem os EUA a encerrar a operação militar contra Teerã. O espaço aéreo e aeroportos do Golfo Pérsico foram fechados. Milhares de voos estão sendo cancelados. Vários governos pelo mundo estão recomendando que seus cidadãos deixem a região.

Países que dependem de energia importada, como os europeus, a China e a Índia, também vão sofrer com o petróleo e o gás mais caros. Eles certamente buscarão demover o governo americano de continuar com os ataques ao Irã por muito tempo.

Mas o foco principal dos iranianos deve ser as bombas de gasolina nos EUA. A economia é o tema mais importante das eleições deste ano para o Congresso americano, em especial a crise do custo de vida (affordability é a palavra do momento no país). Altas nos combustíveis são rapidamente repassadas aos preços de produtos e serviços, o que pode gerar um repique da inflação. Uma alta da inflação ameaçaria a redução dos juros.

O preço da gasolina está em alta desde janeiro nos EUA, revertendo tendência de queda que vinha de setembro. Parte desse aumento é sazonal, mas a alta do petróleo também vem ajudando a puxar preços. O galão de gasolina superou ontem US$ 3 dólares, pela primeira vez desde novembro. O preço continua abaixo do de um ano atrás, mas analistas preveem que deve continuar subindo.

Nada disso melhorará o humor dos eleitores americanos, cuja maioria já desaprova a condução da economia por Trump. Segundo pesquisa Reuters/Ipsos do fim de semana, 43% dos americanos condenaram o ataque ao Irã, 27% aprovaram e 30% não tinham opinião. Esses indecisos podem se voltar contra Trump caso os preços dos combustíveis subam.

Os EUA buscam declaradamente uma troca do regime iraniano. Já o Irã parece ameaçar Trump com uma troca no comando do Congresso americano. Washington pode estar apostando que os iranianos não ousarão ir às últimas consequências ou que não terão armamento suficiente para isso. Teerã vai tentar nestes dias demonstrar o contrário, que o regime acuado fará qualquer coisa para se manter no poder. Quem vai piscar primeiro?

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A ÚNICA META DO STF É PARAR DE PIORAR

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Lula resiste à pressão da Corte sobre a PF e ministros se inquietam com a mudança interna no pêndulo do poder

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva nunca rompeu com Emílio Odebrecht. Os desdobramentos do envolvimento de seu filho Fábio Luís Lula da Silva com Antonio Carlos Camilo Antunes, o “careca do INSS”, sugerem que, além daquelas da Lava-Jato, Lula também colheu lições da relação entre Emílio e seu filho, Marcelo Odebrecht.

Corria o segundo semestre de 2016 quando a Odebrecht começou a negociar o acordo de delação premiada. Marcelo queria ser o primeiro dos 77 delatores pela simples razão de que a primazia, num acordo cujo ativo mais valioso é a informação, lhe daria vantagem. Emílio não permitiu. O filho ameaçou implodir tudo, Emílio pagou pra ver, manteve-o no fim da fila e a delação seguiu seu curso.

Não foi o único embate. Marcelo queria ter um representante no acordo de leniência, mas Emílio não aceitou. Não abria mão do controle sobre todo o processo, da delação à leniência. Emílio desconfiava de que a personalidade do filho, que reputava imperial, impediria o processo de seguir seu curso.

O Brasil não é a Odebrecht, mas ecos deste episódio começaram a aparecer, dez anos depois, quando, em dezembro de 2025, Lula chamou o filho mais velho duas vezes ao Palácio da Alvorada. A conversa seria relatada pelo próprio presidente, quase dois meses depois, ao UOL: “Olhei no olho do meu filho e disse: Só você sabe a verdade. Se você tiver alguma coisa, vai pagar o preço. Se não tiver, se defenda.”

Lula começava ali a operação de contenção de danos daquilo que aconteceria um mês depois, a quebra de sigilo de seu filho pela Polícia Federal e o pedido de seus achados pela CPI do INSS. Segundo Luiz Vassalo e Aguirre Talento, do Estadão, Lulinha estaria, pela primeira vez, disposto a assumir a viagem que teria feito a Portugal, com as despesas pagas por Antunes, para perscrutar a parceria com uma fábrica de cannabis medicinal que não prosperou.

Não saberia das relações de Antunes com o INSS e nunca teria recebido dinheiro dele. Esta informação poderá ser verificada na quebra de sigilo. Até mesmo pela CPI. A base governista tenta evitá-la porque teme a espetacularização e prefere que a investigação seja concentrada na ação relatada por André Mendonça, cuja atuação no caso é elogiada pela defesa do filho do presidente, pela PF e por ministros deste governo. Fábio Luís mora na Espanha e, segundo sua defesa, faz “consultorias” para se manter no país.

Este parece ter sido o segundo capítulo da operação que se desenrola a partir não apenas do pedido da CPI mas também da postura errante do Supremo Tribunal Federal ante as investigações da Polícia Federal sobre o banco Master. É uma maneira de o presidente anunciar, a quem interessar possa, que, assim como seu filho vai responder por seus atos, todo mundo, inclusive os ministros do STF, também podem fazê-lo.

O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, é um dos poucos colaboradores deste governo que despacham com o presidente sem testemunhas. A proximidade motiva a cobrança, vinda da Corte, para que o presidente contenha a PF. Ou pelo menos tente, como o fez o antecessor, Jair Bolsonaro, que teve três diretores-gerais na instituição.

Durante o “Rumos 2026”, do Valor, indagado sobre as investigações sobre o filho do presidente, Andrei Rodrigues disse que investigaria quem preciso fosse, que ele escolheu os 14 diretores da PF e os 27 superintendentes, que não há interferência política nem “japonês da federal”, numa referência velada a Newton Ishii, o agente da PF que ganhou fama na Lava-Jato e acabou condenado e afastado da PF por envolvimento numa quadrilha de facilitação de contrabando na fronteira entre Brasil e Paraguai.

Desde que entregou o relatório sobre o ministro Dias Toffoli ao presidente do STF, Edson Fachin, Andrei Rodrigues tem sido alvo de reclamações na Corte. Toffoli, que foi afastado da relatoria do caso Master com a concordância unânime de seus colegas, estaria a pressionar Fachin pela abertura de um inquérito contra Andrei e pelo afastamento dos policiais federais envolvidos na produção daquele relatório.

Como Toffoli tem sido sucessivamente blindado pelos colegas, tanto na responsabilidade pelo vazamento da reunião fechada dos dez togados, quanto na convocação de seus irmãos pela CPI do crime organizado e na quebra de sigilo da empresa da família, a abertura de um inquérito contra a PF pode ter parecido um desdobramento natural, mas o gabinete de Fachin nega qualquer pedido do gênero.

A pressão contra a PF não resolve todos os problemas do STF porque a Corte agora tem um problema interno cuja solução não parece evidente. André Mendonça proibiu o compartilhamento de informações hierarquia acima da PF, mas a dinâmica de uma corporação que depende de autorização superior para a liberação de efetivos e recursos envolvidos numa investigação, coloca limites nesta vedação.

O ministro Gilmar Mendes fez malabarismo para proibir o acesso da CPI ao sigilo da Maridt, mas não terá como interferir no uso que Mendonça vier a fazer desta e de outras informações sobre colegas envolvidos com o Master.

Lula enfrentará a artilharia contra o filho, e o STF, a campanha de candidatos ao Senado movida pela caça aos togados. Na véspera desta campanha, os ministros assistem ao pêndulo do poder se mover dentro da Corte. É este o motor da crise que um togado define numa frase: “A única meta possível para 2026 é parar de piorar.”

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APOSTA DE TRUMP NA GUERRA DO IRÃ

Míriam Leitão, O Globo

O presidente norte-americano posa de vencedor no conflito com o Irã e aposta que a população deixará questões internas em segundo plano na eleição

Não há no mundo falta de petróleo. O que é previsível, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, é uma crise logística no escoamento do Oriente Médio, que pode fazer com que os países não tenham acesso ao petróleo e gás. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o fluxo, o que afeta muito mais a Ásia. A Índia, por exemplo, depende drasticamente do gás natural liquefeito do Catar, que ontem suspendeu o fornecimento. O Catar é a Arábia Saudita do GNL, e seu gás é escoado por navios.

Quem explica é o especialista David Zylbersztajn, professor do Departamento de Energia da PUC. Ele avalia que, neste momento, ninguém se atreveria a optar por esse caminho.

—Há, no Estreito, duas vias para navios, uma que vai, outra que volta, cada uma com três quilômetros. Então para bombardear um petroleiro é a coisa mais simples do mundo. Não precisa de grande sofisticação. O Irã não precisa colocar navios ou uma força militar. De onde está, pode bombardear. É um caminho muito estreito. Quem tem um petroleiro não o colocará em risco. A insegurança contra a integridade do navio faz com que o transportador não passe por lá — explica Zylbersztajn.

O conflito decorrente da morte de Ali Khamenei pelo ataque americano-israelense encontra o mundo super ofertado de petróleo. O barril tinha caído a níveis de US$ 60. Na última segunda-feira, havia subido para US$ 71 já com as trombetas da guerra soando. Ontem, a cotação do petróleo avançou e pode manter a trajetória de alta nos próximos dias. O Citibank projeta um nível de US$ 90, mas segundo Zylbersztajn o preço não deve se sustentar.

— Esse petróleo da segunda-feira, ou da terça-feira, é de papel. É um preço especulativo. Nos dias seguintes, muita gente vai ganhar dinheiro por que vendeu na alta e vai comprar mais barato. A oferta de petróleo tem crescido três vezes mais do que a demanda.

Nas últimas décadas, a produção de petróleo se espalhou pelo mundo. Os Estados Unidos têm seu próprio petróleo e gás. O Brasil se tornou um exportador, tanto que ontem a ação da Petrobras subiu. Não é mais aquele mundo que dependia totalmente do Oriente Médio, como nas crises dos anos 1970 do século passado.

Mesmo assim, o conflito adicionou muita incerteza à economia global. O presidente Donald Trump fala que a duração do ataque pode ser de quatro ou cinco semanas. Isso é o suficiente para fazer um grande estrago. O mundo não é mais tão dependente quanto já foi, mas o problema logístico é o suficiente para afetar a economia de diversas formas.

Do ponto de vista político, o Irã está isolado externamente e enfraquecido internamente, lembra o embaixador Rubens Ricupero. Ele avalia que os Estados Unidos estão experimentando uma nova estratégia, primeiro com a Venezuela e agora com o Irã, que é remover o líder. A diferença é que enquanto no país latino, Trump não mexeu com o regime, e no Irã, este era o objetivo declarado.

—A morte do líder não significa automaticamente a queda do regime. No Irã não se tem uma oposição organizada, houve movimentos espontâneos de protesto que mostraram a impopularidade do regime, que só consegue se manter na base da repressão. Pode ser que tenha chegado a hora desse regime que está no poder há 47 anos. Diante do poderio americano, ninguém pode reagir. Na região, eles estão totalmente isolados. Os vizinhos são quase todos hostis — diz o embaixador.

A situação do presidente norte-americano também não é tão fácil. Numa guerra há sempre o imponderável. Ele não consegue marcar a data do fim do confronto. A alta do petróleo afetará o preço interno que, nos Estados Unidos, segue automaticamente a cotação internacional. Trump disse que não iniciaria uma nova guerra e está fazendo o oposto do que prometeu. Garantiu que derrubaria a inflação e está elevando o preço do combustível na bomba. As eleições de meio de mandato podem ser um acerto de contas desse eleitor com Trump. Por outro lado, conseguiu prender Maduro e matar Khamenei. E, na visão de Ricupero, o próximo alvo pode ser Cuba, que neste momento está vivendo uma aguda escassez de tudo. Trump joga com a aposta de que o eleitor esquecerá seu envolvimento nos arquivos de Jeffrey Epstein, seu desrespeito à Constituição dos Estados Unidos, os assassinatos de americanos pela sua polícia migratória. Neste momento, todos os olhos estão no Irã e Trump posa de vencedor.

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MARCELO CERQUEIRA, ADVOGADO DE PRESOS POLÍTICOS E DEPUTADO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O ex-parlamentar foi um dos principais advogados de perseguidos da ditadura militar do Rio de Janeiro e protagonizou no Congresso a campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela

A história da redemocratização brasileira não pode ser contada sem referência a Marcelo Cerqueira, um dos mais combativos advogados e parlamentares do período autoritário. Militante da causa democrática, notabilizou-se por sua atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e pela presença destacada na campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, que percorreu o país conclamando a sociedade à reconciliação nacional.

Conheci Cerqueira na campanha eleitoral de 1978, quando foi candidato a deputado federal pelo MDB, a convite do falecido dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Antônio Ribeiro Granja, com apoio no Rio de Janeiro, em Niterói e na Baixada Fluminense. Fez dobradinha com o deputado estadual Alves de Brito (MDB), que concorria à reeleição. Lembro-me de seu principal panfleto de campanha, intitulado “Dá-lhe, povo”, inspirado no lendário jóquei Luiz Rigoni.

Formado em direito, Cerqueira construiu sua trajetória na interseção entre a advocacia e a política. Não era apenas de um advogado militante, mas um jurista atento às garantias constitucionais e aos limites do poder punitivo. Ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), ingressou no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) pelas mãos do falecido cineasta Leon Hirszman (Cinco Vezes Favela, Eles Não Usam Black-Tie, entre outros).

No final dos anos 1960, ganhara a confiança da cúpula do PCB, sobretudo Granja, ao transportar em seu fusca, coberto por cachos de banana, o cadáver do ex-tenente do Exército Ivan Ribeiro, que falecera de infarto, em plena reunião do clandestino Comitê Central do Partidão, em Itaguaí (RJ). Levado para a Santa Casa da Misericórdia, o médico Isnard Teixeira, outro dirigente comunista, emitiu o atestado de óbito e entregou o corpo à família, para que tivesse um enterro digno.

Cerqueira foi um dos principais advogados de presos políticos do Rio de Janeiro, ao lado de Humberto Jansen, Alcione Barreto e Modesto da Silveira, que também se elegeria deputado federal em 1978. Outra de suas proezas foi impedir a transferência do ex-líder bancário José Raymundo da Silva da Polícia do Exército para a Casa da Morte, em Petrópolis, no começo dos anos 1970, ao se postar à porta do quartel, na Rua Barão de Mesquita, para interceptar a viatura que o transportava e denunciar sua prisão.

Deputado federal, transformou a tribuna da Câmara em espaço de resistência institucional. Ali, denunciou arbitrariedades, criticou o cerceamento das liberdades públicas e defendeu a restauração do Estado de Direito. Num contexto em que o Congresso funcionava sob vigilância e sob a ameaça constante de cassações, sua voz assumiu especial significado político.

No final da década de 1970, o regime militar ensaiava uma abertura “lenta, gradual e segura” e a bandeira da anistia ampla, geral e irrestrita tornou-se o eixo de mobilização da sociedade civil. Comitês de anistia se espalharam pelo país, articulando familiares de presos e desaparecidos, estudantes, sindicalistas, artistas, advogados e parlamentares. Marcelo Cerqueira esteve entre os protagonistas dessa articulação. Ao lado de Teotônio — então senador pela Arena —, percorreu estados, participou de comícios e audiências públicas, dialogou com movimentos sociais e contribuiu para dar densidade jurídica e política à reivindicação.

Parceria

A parceria entre ambos simbolizava a amplitude do movimento: um advogado e deputado comunista e um senador conservador dissidente da Arena convergiam na defesa da reconciliação nacional. A anistia seria um passo decisivo para a redemocratização do país. O esforço culminaria na aprovação da Lei 6.683, de 1979, durante o governo do general João Figueiredo.

Embora marcada por controvérsias, sobretudo pela extensão da anistia aos agentes do Estado acusados de tortura, a lei abriu caminho para o retorno de exilados, a libertação de presos políticos e a reorganização partidária, preparando o terreno para a transição democrática. Na votação da anistia, Cerqueira faria um discurso antológico: “Não se faz Nuremberg com Hitler no poder”. A referência ao Tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes do nazismo após a derrota da Alemanha na II Guerra Mundial, era uma resposta às vozes que, ainda sob o regime, defendiam a punição exemplar dos responsáveis pela repressão.

Cerqueira não relativizava a gravidade das violações, mas advertia que o contexto político, com os militares no comando do Estado, não oferecia condições institucionais para um julgamento imparcial e efetivo. Seu argumento era realista, reconhecia a correlação de forças e a necessidade de avançar passo a passo na transição, porém estratégico, pois a anistia foi o instrumento possível naquele momento para desmontar o aparato dos sequestros, torturas e assassinatos e restaurar as liberdades.

Em termos históricos, o episódio condensava o dilema da relação da sociedade com às Forças Amadas: como conciliar memória, verdade e responsabilização com a necessidade de assegurar uma passagem pacífica para a democracia? Ao evocar Nuremberg, convenceu a maioria da oposição de que não havia outra opção.

Cerqueira estava tetraplégico desde janeiro de 2016, em razão de uma queda em seu apartamento, em Copacabana. Faleceu no sábado, aos 87 anos, de pneumonia e infecção generalizada. Seu corpo foi cremado ontem, no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro, em cerimônia que reuniu familiares e uma legião de admiradores e amigos.

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ATAQUE A TEERÃ LEVANTA DISCUSSÃO SOBRE USO DE IA EM GUERRA

Pedro Doria, O Globo

É provável que os Estados Unidos tenham usado inteligência artificial para ter certeza da localização do aiatolá

Quão legítimo é o uso de inteligência artificial numa guerra? Da semana passada para cá, essa discussão veio para o centro do debate político americano. E, pela primeira vez, o Vale do Silício rachou. Mais que isso. O CEO da Anthropic, Dario Amodei, disse “não” ao governo Donald Trump. Nunca um líder havia dito “não” para esta Casa Branca, bem pelo contrário. No último ano e pouco, houve um festival de homenagens, elogios e até troféus dados ao presidente por CEOs da alta tecnologia. Ainda assim, mesmo tendo havido ruptura formal, a tecnologia da Anthropic fez parte do arsenal americano neste ataque ao Irã. Em quê? Ainda não sabemos.

Das três principais companhias de IA — na lista ainda estão OpenAI e Google —, a Anthropic era a principal fornecedora do Pentágono, o Departamento de Guerra americano. Mas mantinha uma posição clara, devidamente registrada em contrato, a respeito dos limites de uso. Sua IA, o Claude, não poderia ser usada em campo de batalha, nem para ajudar a definir alvos para uso letal à distância. Além disso, a Anthropic não queria sua tecnologia em armas autônomas, que definem alvos e atacam, sem participação de humanos na decisão. E, naturalmente, veto completo para vigilância em massa de cidadãos americanos. (Que seria ilegal, diga-se.)

Esses usos diversos se dividem em dois grupos. A IA, no estado atual, já seria bastante útil para agilizar a tomada de decisões durante uma batalha. Assim como para processar dados que levem à definição dos alvos ideais para ataques à distância — um ataque desses matou o aiatolá Ali Khamenei durante o fim de semana. Definir quem está onde, num país tão fechado quanto o Irã, depende de espiões, naturalmente. E Teerã se tornou a cidade com mais espiões por habitante do mundo nestes últimos anos. Mas não só. A informação precisa ser confirmada. Para isso se conta com dados de satélite, fotografias, conversas interceptadas. É uma massa de informação que, com um modelo particularmente bom de processamento de dados como o Claude, é imensamente facilitada sem perder precisão. Não sabemos se os Estados Unidos usaram a IA para ter certeza da localização do aiatolá no momento do ataque. É bastante provável que sim.

Outra coisa bastante distinta é o uso desses modelos para armas autônomas. Um drone que levante voo, vá a algum canto, selecione onde atacar — e puxe o gatilho por conta própria. Dispare sem que um ser humano participe da conversa, entenda por que a IA decidiu tal coisa e corrobore se é mesmo para disparar. Inteligências artificiais falham. Falham feio. Vidas humanas não deveriam estar “nas mãos” de modelos como os que temos hoje.

É preciso compreender a natureza da Anthropic. Amodei e seu time estavam na equipe que desenvolveu o GPT 1 e, principalmente, o 2. Foi essa a primeira versão a deixar claro que IAs eram capazes de sustentar conversas tal qual seres humanos. Esse núcleo de engenheiros deixou a OpenAI por ter a impressão de que a empresa era relapsa com questões éticas e de segurança. De que punha a velocidade de desenvolvimento na frente. Todo o branding da Anthropic se baseia na ideia de que a segurança, de que responsabilidade ética são princípios essenciais. De que humanos estarão sempre no comando. Quando o Pentágono exigiu a remoção de determinadas cláusulas, o comando da empresa se viu perante uma decisão existencial. Ou rompia com seus princípios fundadores, ou dizia “não” ao governo Trump. Disse “não”.

A OpenAI disse “sim”. Segundo o CEO Sam Altman, o governo não usará o GPT para vigilância em massa de cidadãos americanos nem para armas autônomas. Então, qual é a diferença? Que fronteira a Anthropic se recusou a ultrapassar, mas a OpenAI topou? É possível que a diferença esteja nas firulas jurídicas, na maneira como as palavras se arranjam nas frases e abrem espaço a interpretações diversas. Os dois CEOs sabem, perfeitamente, quem é Donald Trump. Que ele é imprevisível. Que toma decisões no rompante, com frequência irresponsavelmente.

Os Estados Unidos não ordenaram um ataque militar que culmina com a morte de um chefe de Estado no pós-guerra. Operações da CIA, nos anos 1960, houve. Mas eram secretas, nada assumido. Que se deixe claro: Khamenei era um dos piores ditadores do mundo. Só nos últimos cinco anos, a ONU e a Anistia Internacional documentaram estupros em série contra manifestantes, homens e mulheres, presos nas cadeias iranianas. Uma das vítimas tinha 12 anos. Chibatadas seguidas de choques elétricos. Em janeiro deste ano, o governo ordenou que se abrisse fogo, de metralhadoras, contra passeatas. Morreram por baixo 30 mil pessoas. São raras as ditaduras que abrem fogo aberto contra passeatas. Nas que tivemos aqui na América Latina, nenhuma fez isso. Ainda assim, o assassinato de um chefe de Estado é uma linha que não se cruza impunemente. Abre a porteira para que se faça de novo, de novo e de novo. Ainda mais quando os critérios de tomada de decisão não estão claros.

A inteligência artificial que os Estados Unidos desenvolvem estará nas mãos de um governo que toma decisões graves sem objetivo claro e sem permissão do Congresso? Por que o Pentágono quis extirpar do contrato a proibição de uso para espionagem em massa de cidadãos americanos?

Essa conversa apenas começou.

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segunda-feira, 2 de março de 2026

O SUPREMO RISCO DE OS HERÓIS VIRAREM VILÕES

Bruno Carazza, Valor Econômico

Supersalários, contrato com escritório de familiares, transações milionárias e blindagem corporativista criam caldo de cultura para revolta

Passados mais de dez anos, até hoje se discute por que um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus levou milhões de pessoas às ruas de todo o país em junho de 2013.

Assim como acontece na química, certos fenômenos históricos são fruto de uma energia acumulada que, a partir de uma faísca ou descarga elétrica, ultrapassa um ponto crítico e se precipita numa reação abrupta e violenta, abalando todo o sistema que parecia em equilíbrio.

Na quinta (26), o ministro Gilmar Mendes proferiu discurso em comemoração aos 135 anos do Supremo. Das onze páginas lidas em plenário, foram feitos uma reconstituição histórica da atuação do STF desde a proclamação da República, uma autoelogiosa pregação sobre sua atuação nos últimos anos e, por fim, um ataque àqueles que, na sua visão, criticam injustamente as práticas da Corte.

É inegável o papel que os ministros do Supremo tiveram ao afirmar a autonomia dos governadores e prefeitos contra a atitude negacionista do governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19.

Da mesma forma, o STF não se curvou ao medo das fardas e dos tanques e, de forma inédita, condenou um ex-presidente e seus auxiliares de alta patente nas Forças Armadas por tentativa de golpe de Estado.

Por terem “literalmente, salvado milhares de vidas” e ao evitarem “a debacle da democracia brasileira”, os ministros do STF deveriam, no entender do ministro, ser tratados com “maior parcimônia” pela imprensa brasileira.

“Caso um alienígena chegasse ao Brasil e acompanhasse apenas o noticiário dos últimos dias, ele provavelmente imaginaria que todos os problemas do país se restringem ao Supremo, e que essa seria a única instituição brasileira a merecer aprimoramentos”, considerou Gilmar Mendes.

Para o decano do STF, “um profundo senso de dever público (...) guia a atuação de cada um de seus integrantes”, que exercem seu trabalho “com altivez e integral dedicação - muitas vezes sob um custo pessoal altíssimo e pesados sacrifícios individuais em prol do país”.

Também não haveria por que questionar a conduta de seus colegas de Corte: “a impessoalidade e independência que caracterizam nossa atuação não se dobram a pressões e interesses de qualquer natureza”, assegurou.

Quem lê essas palavras deve se questionar, isso sim, em que planeta vive Gilmar Mendes. Afinal, os acontecimentos dos últimos meses exigem esclarecimentos sobre dois dos membros do Supremo - mas as decisões tomadas pelos seus pares vão na direção oposta, da defesa corporativista dos colegas sob suspeita.

Quando investigações policiais (e não uma imprensa ressentida, como insinuou Gilmar Mendes) revelam que um réu fazia pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões para o escritório da esposa e dos filhos de um ministro e o mesmo acusado realizou aportes de R$ 35 milhões num empreendimento que tinha outro ministro e seus irmãos como sócios, é urgente que as duas autoridades venham a público demonstrar que essas relações não são o que toda a sociedade desconfia: pagamento de propina em troca de proteção judicial.

Ao silêncio constrangedor dos ministros se soma a cumplicidade na resposta que o STF tem dado aos casos.

Afastar Dias Toffoli da relatoria do processo do Master não elimina as dúvidas sobre as suas relações com Daniel Vorcaro. Pior ainda foi a decisão de Gilmar Mendes de vetar a quebra de sigilo fiscal e bancário da empresa do ministro pela CPMI do Crime Organizado.

Aliás, o mesmo Gilmar Mendes que no discurso de 135 anos do STF louvou o habeas corpus como “escudo universal contra qualquer violência ou coação por ilegalidade ou abuso de poder” usou do mesmo instrumento para travar uma investigação parlamentar sobre uma possível ilegalidade ou abuso de poder praticada por seu colega.

Na mesma preleção, Gilmar Mendes também destacou - numa fala de improviso, não registrada no discurso oficial - “a importância histórica do inquérito das fake news”. Esse mesmo expediente, de tão questionada legalidade, foi usado pelo mesmo ministro Alexandre de Moraes para constranger, com uma investigação policial, servidores da Receita Federal acusados de pesquisar dados sobre integrantes do STF e seus parentes.

Enquanto a mancha da suspeição se espalha sobre todo o STF, entidades da sociedade se mobilizam. Na semana passada a OAB pediu publicamente o fim do inquérito das fake news. Hoje, diversas entidades se reúnem na Faculdade de Direito da USP para proclamar que “ninguém está acima da lei”.

É preciso que o STF se mova antes que seja tarde demais. Um caldo de cultura, fermentado com notícias diárias sobre supersalários na magistratura, se forma contra o Poder Judiciário brasileiro.

As eleições de outubro para o Senado terão como principal tema a necessidade de fazer o impeachment de ministros do STF. E a população brasileira está a ponto de aderir a qualquer populista que se levantar à direita com uma motoserra ou à esquerda com eleições diretas para a escolha de juízes, como aconteceu na Argentina e no México.

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PT AGUARDA ALIANÇAS COM PARTIDOS PARA ANUNCIAR PALANQUES

Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico

Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem anunciado acordos nos Estados

Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.

A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.

A avaliação interna é que Lula precisa ter segurança quanto às indicações e à consolidação dos palanques antes de qualquer anúncio. Por isso, o processo não deve ser acelerado, mesmo com Flávio tornando públicos seus apoios. A expectativa é que o desenho geral com a chancela petista seja fechado entre o fim de abril e o começo de maio.

Segundo fontes, a definição do presidente precisa ser amplamente alinhada, de modo a evitar brechas para críticas de aliados ou episódios de fogo-amigo. A estratégia é blindar a montagem das chapas para preservar inclusive a imagem de Lula, que tentará reeleição.

Aliados do chefe do Executivo minimizam o documento divulgado na semana passada com os cotados por Flávio no cenário de aliança nos Estados. As fontes avaliam que alguns dos nomes que estão nos papéis do senador não estarão no palanque de Lula, como a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD). Ela deve concorrer contra o prefeito de Recife, João Campos (PSB).

Outro motivo para Lula não ter pressa é a federação formada por União Brasil e Progressistas. Os partidos têm como objetivo aumentar suas bancadas no Congresso e, para isso, não podem ficar fechados contra Lula, principalmente no Nordeste. Dessa maneira, o PT articula individualmente cada Estado, o que acaba adiando a conclusão o processo de construção das chapas.

“Lula está tentando trabalhar com presidentes de partidos, no âmbito nacional, alianças e neutralidades numa tentativa de obter um efeito cascata para chegar aos Estados”, afirmou uma fonte do PT.

Apesar da cautela adotada, interlocutores da sigla reconhecem que o impasse em Estados estratégicos está travando o processo. Um dos exemplos é o maior colégio eleitoral do país, São Paulo. Nos últimos meses, Lula negocia para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, saia como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. No cenário, tido como “ideal” pelos petistas, as ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (MDB) seriam as candidatas ao Senado. Marina negocia voltar ao PT para concorrer e Simone poderá se filiar ao PSB.

O presidente também acompanha de perto, segundo aliados, a tentativa do PL de emplacar André do Prado, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, como vice do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que tentará a reeleição. A aposta é que, se confirmado o movimento, a saída do atual vice-governador, Felício Ramuth (PSD), abra as portas para a legenda comandada por Gilberto Kassab não entrar de cabeça na campanha de reeleição do governador paulista e, consequentemente, não trabalhar para Flávio no Estado.

Em Minas Gerais, apesar de as negociações com o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) estarem avançadas para que ele saia como nome ao governo apoiado por Lula, petistas dizem que ainda falta uma confirmação pública do parlamentar para caminhar com as indicações para os demais postos. Isso porque, segundo interlocutores, bater o martelo em torno do candidato à gestão mineira é peça fundamental para destravar tanto a escolha do vice quanto do Senado.

Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL), líder da oposição no Senado, afirmou ao Valor que a ideia é acelerar o processo de escolha dos palanques estaduais. “Onde não for possível, vamos aguardar. Existem várias ações que precisam ser implementadas e que naturalmente vão ficar muito mais fáceis se a gente for definindo os palanques estaduais”, disse.

Para ele, eventuais dificuldades de composição, como no caso de Santa Catarina, onde a chapa para reeleição do governador Jorginho Mello (PL) terá Carol de Toni e Carlos Bolsonaro ao Senado, todos do PL, excluindo o senador Esperidião Amin (PP), se justificam pelo crescimento da legenda. “Se nós fôssemos um partido como o PT, que só tem a cabeça e não tem corpo, não teríamos essa dificuldade. Teríamos a possibilidade de fazer uma negociação bem mais confortável em cada Estado da federação”, comentou.

Marinho vê com naturalidade que partidos, como o União Brasil e o PP, acomodem seus apoios nos Estados ao lado tanto de Flávio quanto de Lula, a depender da circunstância local.

“Isso cai para os dois lados e é absolutamente normal. Na hora em que as definições acontecerem, você só precisa fazer uma conta de somar e acertar mais do que errar. O Flávio tem sido muito aberto nesse processo de composição”, declarou.

Sobre a questão da disputa pela vice de Tarcísio poder afastar eventualmente o PSD de Flávio, Marinho argumenta que a legenda de Kassab tem candidatura à Presidência e, por isso, eventuais costuras ficam para o segundo turno. “A circunstância da campanha é quem vai dizer como os partidos vão se comportar”, disse.

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O MUNICÍPIO É O PROTAGONISTA

Preto Zezé, O Globo

Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade

Em ano eleitoral, o foco se volta para políticas públicas concretas, e não apenas para candidatos. A intenção é analisar experiências que possam se tornar parte de uma agenda de Estado contínua, pois é no município que a política se torna realidade, impactando diretamente a vida das pessoas. O debate sobre desenvolvimento no Brasil, geralmente centrado em Brasília e nos estados, raramente considera o município como protagonista. Maricá, no Rio de Janeiro, desafia essa lógica.

A cidade usa os royalties do petróleo como ferramenta de reorganização estrutural, buscando se posicionar como centro de inovação social e econômica. Maricá desenvolveu o maior ecossistema integrado de políticas sociais do país, incluindo a Renda Básica de Cidadania (com a Moeda Social Mumbuca, que atende 32 mil famílias), a Tarifa Zero no transporte, o Restaurante Popular e o Passaporte Universitário.

O diferencial está na interconexão dessas políticas. A moeda social fortalece a economia local, a mobilidade amplia o acesso ao trabalho, e a educação qualifica a população. As transferências de renda são vistas como ponte para a autonomia, não como dependência. A estratégia reconhece a importância da economia informal e dos pequenos empreendedores, resultando na abertura de novas empresas e na busca pela diversificação produtiva, com projetos como o Porto de Maricá e o complexo hoteleiro Maraey, que somam bilhões em investimentos e preparam a cidade para o futuro pós-royalties.

A vitória da União de Maricá — que ganhou a Série Ouro e desfilará no Grupo Especial do Rio em 2027 — é exemplo do sucesso do investimento contínuo em cultura e economia criativa, gerando visibilidade, renda e fortalecendo a identidade local. O carnaval é tratado como cadeia produtiva, uma política pública bem-sucedida que projeta a marca da cidade e reforça o sentimento de comunidade.

Maricá investiu na integração com as forças policiais estaduais, no monitoramento por câmeras inteligentes e na regulamentação do porte de arma para a Guarda Municipal, tratando segurança pública como infraestrutura essencial ao desenvolvimento econômico. O turismo também foi reposicionado como política de Estado, com foco na diversificação e na inserção global.

A continuidade dessas políticas ao longo do tempo criou um ambiente de previsibilidade social e segurança jurídica, algo raro no Brasil. A população, o comércio e os investidores se beneficiam do cenário estável. Maricá funciona como laboratório de transição entre proteção social e desenvolvimento econômico, entre subsídio e crescimento.

Para construir uma agenda pública que realmente reduza desigualdades, é preciso olhar para as cidades. O futuro do desenvolvimento brasileiro pode estar mais próximo do municipalismo do que se imagina. Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade.

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domingo, 1 de março de 2026

OPERAÇÃO SABOTAGEM

Bernardo Mello Franco, O Globo

Sem força para derrotar proposta em ano eleitoral, partidos pedem apoio a empresários para impedir votação

A direita decidiu cerrar fileiras contra o fim da escala 6x1. Na semana que passou, três presidentes de partido atacaram a ideia de mudar a lei para que todo trabalhador tenha direito a dois dias de descanso por semana. As falas revelam mais sobre a mentalidade da turma do que sobre o mérito da proposta.

O chefão do União Brasil, Antonio Rueda, definiu a mobilização como “um desatino”. “É muito danosa para a economia e o setor produtivo”, decretou, sem mencionar os trabalhadores. O dono do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o fim da escala 6x1 seria “uma bomba” e se solidarizou com a classe dirigente: “Não é fácil para os empresários que já reclamam dos nossos impostos e tudo mais”.

Em jantar com endinheirados em São Paulo, os dois políticos prometeram se empenhar para impedir a mudança. “A gente tem que ter inteligência e segurar essa votação”, afirmou Rueda. “Vamos trabalhar para não deixar votar. Vamos dar a vida para isso”, empolgou-se Valdemar, sob aplausos da plateia.

Num acesso de sinceridade, a dupla admitiu que a única forma segura de barrar a proposta é sabotar sua tramitação. “Se puser em pauta, é muito difícil não passar”, reconheceu o dono do PL. “Se for a plenário, vai ser avassaladora (a aprovação)”, emendou o capo do União Brasil.

Com a experiência de quem renunciou a dois mandatos de deputado para não ser cassado, Valdemar avisou que o debate na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara será “uma guerra”. Faltou dizer que do outro lado estarão trabalhadores desarmados, que não administram verbas milionárias do fundo partidário e só vão a jantares de bacanas na condição de garçons.

As vítimas da escala 6x1 costumam ralar muito e receber pouco. Ganham a vida em ofícios como como balconista, caixa de supermercado, motorista de ônibus, frentista e auxiliar de limpeza. Sem perspectiva de melhorar a renda, esses trabalhadores passaram a sonhar com mais tempo para descansar e conviver com a família. É uma demanda justa, mas há quem prefira tratá-la com desprezo.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, declarou que “ócio demais faz mal”. “A população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar”, desdenhou. Deputado e bispo da Igreja Universal, ele comanda o partido do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Desde que o tema entrou na pauta, nas eleições de 2024, entidades patronais repetem previsões apocalípticas sobre o fim da escala 6x1. Trombeteiam um futuro de quebradeira, demissões em massa e derretimento do PIB. O terrorismo econômico não tem surtido efeito nas pesquisas, o que talvez explique a mudança de discurso dos últimos dias.

No jantar com os grã-finos paulistas, Valdemar conclamou o lobby empresarial a impor sua força em Brasília. “Temos que trabalhar para não deixar votar de jeito nenhum. Pedir a pressão dos empresários em cima de seus deputados”, disse, enfatizando as quatro letras do pronome possessivo.

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sábado, 28 de fevereiro de 2026

MORRE DENNIS CARVALHO

Do g1 Rio

Dennis Carvalho, ator e diretor, morre aos 78 anos no Rio

Um dos nomes mais influentes da televisão brasileira estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio.

O ator e diretor Dennis Carvalho, um dos nomes mais influentes da televisão brasileira, morreu na manhã deste sábado (28), no Rio de Janeiro, aos 78 anos.

Entre muitos programas de sucesso, Dennis dirigiu as novelas Vale TudoDancin DaysFera FeridaO Dono do MundoCelebridade Paraíso Tropical. Como ator, também teve papéis em produções marcantes como Roque Santeiro, Brega e Chique entre outras.

Dennis estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. A unidade de saúde confirmou o falecimento do diretor. A causa da morte não foi divulgada.

"O Hospital Copa Star confirma com pesar o falecimento de Dennis de Carvalho neste sábado e se solidariza com a família, amigos e fãs por essa irreparável perda. O hospital também informa que não tem autorização da família para divulgar mais detalhes."

Em dezembro de 2022, Dennis foi internado com septicemia – infecção generalizada. Alguns dias depois ele teve alta hospitalar após evolução positiva em seu quadro clínico.

O corpo do ator e diretor será velado em um cemitério na Zona Portuária do Rio na manhã deste domingo (1º), em uma uma cerimônia de despedida reservada exclusivamente à família e amigos próximos.

Dennis Carvalho teve trajetória marcada por sucessos tanto diante das câmeras quanto nos bastidores.

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Início da carreira

A relação de Dennis com a televisão começou em meados da década de 1960. Ele passou pela TV Paulista e pela TV Tupi antes de chegar à TV Globo, em 1975. Na emissora, foi contratado inicialmente para atuar na novela “Roque Santeiro”, cuja exibição acabou proibida pela censura na época.

Foi em “Locomotivas” (1977), interpretando o personagem Netinho, que teve a primeira experiência como diretor, conduzindo cenas nas semanas finais da trama. A partir dali, consolidou uma carreira dupla que marcaria sua trajetória artística.

No seriado “Malu Mulher” (1979), deu vida a Pedro Henrique e aprofundou sua vocação para a direção. Dennis costumava lembrar que aproveitava os intervalos das gravações para aprender com o diretor Daniel Filho, acompanhando de perto o trabalho técnico nos estúdios.

Diretor de sucessos

Ao longo das décadas seguintes, Dennis Carvalho dirigiu algumas das produções mais emblemáticas da teledramaturgia brasileira.

Sua parceria com o autor Gilberto Braga resultou em obras como “Vale Tudo” (1989), “Anos Rebeldes” (1992) e “Celebridade” (2003). Os trabalhos são considerados marcos da televisão por abordarem temas políticos e sociais e promoverem inovações na linguagem de direção.

Dennis também esteve à frente de novelas como “Babilônia” (2015) e “Segundo Sol” (2018), além de ter participado de inúmeros outros projetos na TV Globo.

Conhecido pelo estilo firme nos estúdios, popularizou bordões como “Fora, Vídeo Show!” e o característico “Silêncio!”, ao iniciar gravações.

Formador de diretores

Além dos trabalhos autorais, Dennis Carvalho foi reconhecido como um dos principais formadores de diretores da emissora. Diversos profissionais que hoje ocupam posições de destaque na dramaturgia passaram por sua equipe e destacam a influência dele na formação técnica e artística.

Seu método de trabalho combinava rigor técnico e criatividade. Ao mesmo tempo, colegas ressaltam o bom humor nos bastidores, marcado por brincadeiras com elenco e equipe.

Ao longo da carreira, Dennis Carvalho atuou e dirigiu produções que marcaram gerações de telespectadores. Sua contribuição ajudou a moldar a linguagem da novela brasileira e consolidou padrões estéticos e narrativos que influenciaram a televisão nas décadas seguintes.

A morte do artista encerra uma trajetória de mais de cinco décadas dedicadas à dramaturgia nacional. Ele deixa familiares, amigos, colegas de profissão e um legado considerado fundamental para a história da TV no Brasil.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O CONGRESSO É RESPONSÁVEL POR NOSSO FUTURO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

O fortalecimento do Legislativo nos últimos dez anos não produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país

A eleição presidencial já está na rua e vem a pergunta que não quer calar: qual é o plano de governo dos principais candidatos? Será muito importante cobrar os presidenciáveis para que tenham uma plataforma consistente, centrada nos principais problemas do país e voltada para uma construção de uma agenda congruente com os desafios do século XXI. Porém, de nada adianta construir um bom projeto nacional se o Congresso Nacional não acompanhar esse processo, pois uma enorme frustração virá no dia seguinte ao da posse presidencial. Não há como almejar um futuro com essa dissociação.

Aqui está uma das maiores fissuras do sistema político brasileiro: eleitos de forma muito fragmentada e, em sua maior parte, com propostas localistas ou muito voltadas a grupos de interesses específicos, os congressistas em geral não têm uma visão ampla sobre os problemas e possíveis soluções do país. Pode-se retrucar que isso caberia aos partidos políticos. Só que no atual modelo institucional as legendas partidárias não congregam seus candidatos em torno de um programa coerente que enfrente os principais desafios do Brasil.

Em outras palavras, o individualismo míope da maioria dos deputados e senadores não se deve apenas à sua eleição orientada por temas paroquiais ou com grande restrição temática. Ele se relaciona fortemente com partidos que juntam pessoas em torno de ideais muito vagos e contra grupos adversários, mas não conseguem nem desejam ter uma proposta crível de país que possa ser cobrada pela sociedade.

As agremiações partidárias, salvo raras exceções, têm preferido aumentar o seu bolo no financiamento público, o que significa ter de procurar políticos com mais votos, e no máximo criam uma diferenciação genérica dentro da polarização política maior, ainda dominada pela oposição entre lulistas e bolsonaristas.

Sem reduzir significativamente o divórcio entre a eleição presidencial e a representação parlamentar nacional, o Brasil terá muitas dificuldades para enfrentar os problemas do presente e, sobretudo, para construir um projeto de futuro. A elite da classe política é responsável por essa anomalia, contudo ela só sairá de sua posição cômoda caso a sociedade cobre uma transformação dos candidatos e das instituições.

O primeiro passo é organizar a sociedade, em todo o país, para acompanhar mais as campanhas a deputado federal e a senador, independentemente da coloração partidária. Evidente que é essencial monitorar as eleições do ponto de vista do uso dos recursos públicos, como algumas ONGs já fazem e devem continuar fazendo. Só que é fundamental ampliar o foco para a cobrança em torno de temas essenciais ao país, sobretudo em relação ao nosso futuro. O papel de estimulador de debates de questões centrais, inclusive de conteúdo polêmico, deve ser exercido pela sociedade civil e a mídia. Obviamente que os candidatos precisam falar com seu público local para obter votos, mas os projetos no Congresso Nacional vão muito além dos temas paroquiais ou corporativos.

A capacidade de expandir além do local as campanhas ao Legislativo nacional é o grande desafio. Sempre haverá mais espaço para as questões regionais, ainda mais numa federação tão grande, heterogênea e desigual. Isso se amplificou com o crescimento da importância das emendas parlamentares, que ganharam uma dimensão de muitos milhões para cada deputado e senador individualmente. Eis aqui mais um dos efeitos deletérios do aumento desmedido do emendismo no orçamento federal: a piora da qualidade do debate eleitoral. A nação ficou mais longe do interesse dos candidatos à reeleição para o Congresso.

O reforço do localismo convive ainda com múltiplas formas de organização de interesses específicos. São evangélicos, sindicalistas, defensores do agro, ambientalistas, feministas, a bancada da bala, entre outros. É bastante legítimo que grupos busquem defender as questões que representam. O problema é quando o Legislativo e os partidos se transformam apenas em aglomerados de posições fragmentadas que praticamente só falam sobre seus temas. O recrudescimento do isolacionismo temático é outro ponto de piora na democracia brasileira recente.

Na última década, algumas associações da sociedade civil procuraram atrair políticos de vários partidos por meio de cursos e palestras que apresentavam diagnósticos e prognósticos mais amplos sobre o Brasil. Houve alguns resultados interessantes, mas o impacto foi bem menor do que o imaginado inicialmente. Há ainda a formação realizada em movimentos sociais, universidades e fundações partidárias, porém, novamente, com efeitos pequenos na quebra das visões localistas e de isolacionismo temático.

Toda essa movimentação para qualificar e ampliar o foco dos candidatos ao Legislativo também não teve muito impacto na capacidade de gerar maior conversa entre os diferentes. Este é um outro mecanismo que obriga os parlamentares a não ficarem somente num individualismo míope derivado de sua expressão local ou temática. Ao contrário do que almeja o modelo democrático, o último quadriênio mostrou um Congresso mais conflagrado, incluindo a “tomada da Mesa da Câmara”, que foi a Bastilha da extrema direita. O comportamento beligerante aumentou tanto quanto a dificuldade de pensar conjuntamente o país, num cenário em que se veta mais do que se constroem novas soluções.

O fato é que o fortalecimento do Congresso Nacional nos últimos dez anos, tornando-o um Poder mais forte e com maior capacidade de barganha junto ao Executivo, não produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país. Não é o Congresso de Ulysses Guimarães, e sim o dos presidentes do sindicato dos congressistas. Nos seus piores momentos, houve muita aprovação de medidas que continuam reforçando o poder dos parlamentares, por vezes inclusive transformando-os em uma casta acima da sociedade.

Sim, tem havido votações e reformas importantes, como a tributária. Contudo, são medidas fragmentadas demais, por vezes contraditórias e sem uma visão sistêmica, que interligue os assuntos na resolução dos problemas da sociedade brasileira. Esse último ponto é um grande obstáculo para o enfrentamento dos desafios do século XXI, uma vez que as temáticas que vão definir o futuro não são monotemáticas. As questões climática, demográfica, da primeira infância, do uso da tecnologia para aumentar a eficiência governamental e a competitividade do país, entre outras, precisam de um olhar mais amplo, intersetorial e com perspectiva de atuação temporal de longo prazo para serem devidamente planejadas e equacionadas. Como esperar de um Congresso cada vez mais localista e isolacionista temático uma postura adequada aos desafios complexos que temos pela frente?

O Congresso Nacional, ademais, não é apenas o somatório dos partidos e representantes que ocupam suas cadeiras parlamentares. É possível escolher algumas temáticas complexas e essenciais ao futuro do país, de modo a produzir um debate maior com a sociedade, realizar estudos mais profundos - a equipe técnica de ambas as Casas é excelente - e propor diagnósticos que ancorem mudanças legislativas mais sistêmicas e voltadas ao longo prazo.

Um bom exemplo de uma construção institucional mais ampla foi o diagnóstico que a Assembleia Legislativa do Ceará produziu, em 2004, sobre a situação da alfabetização de suas crianças. O resultado desse estudo foi fundamental para a criação futura, em 2007, do Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), política pública extremamente bem-sucedida e que tornou o estado referência na alfabetização no país.

Ora, por que o próximo Congresso Nacional não escolhe dois ou três temas estratégicos ao Brasil e faz um grande diagnóstico, com ampla participação da sociedade e de especialistas, para garantir um futuro melhor a todos nós? Isso traria efeitos extremamente positivos ao país e à própria imagem dos congressistas, vistos nas pesquisas de opinião como políticos que majoritariamente só pensam em si.

De todas as medidas que podem mudar o individualismo míope que predomina entre os congressistas, a mais importante passa por mudar a lógica atual dos partidos. A combinação da ampliação do emendismo com o crescimento vertiginoso do financiamento público gerou o recrudescimento das oligarquias partidárias, que nunca foram tão poderosas como agora em qualquer momento da redemocratização. Neste cenário, as legendas são máquinas de buscar votos dominadas por elites pouco controladas e transparentes. Alguns desses dirigentes, ressalte-se, estão no centro do escândalo do Banco Master, embora poucos eleitores saibam disso e ainda há poucas chances de punição ao modelo patrimonialista que cultivaram.

O espaço de pressão da sociedade junto às campanhas ao Legislativo e a discussão sobre o Congresso Nacional ter uma visão institucional mais voltada ao longo prazo são peças relevantes para mudar o individualismo míope dos parlamentares. No entanto, sem mexer com os incentivos que dominam o sistema partidário-eleitoral atual, será muito difícil termos partidos e congressistas que pensem para além de uma representação isolacionista e sem diálogo com os diferentes. O futuro do país precisa de um outro modelo de congressista, pois o presidente, quem quer que seja, não dará conta sozinho dos desafios do século XXI.

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