quinta-feira, 14 de maio de 2026

FLÁVIO BOLSONARO, VORCARO E O FILME MAIS CARO DO BRASIL

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Conversa é o primeiro áudio conhecido de alguma autoridade cobrando dinheiro diretamente do dono do Master

O valor do negócio acertado chama atenção e exige explicações do Flávio sobre o real destino dos recursos

áudio divulgado pelo site Intercept Brasil com uma conversa entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro mostra uma relação indiscutivelmente próxima entre os dois.

É o primeiro áudio conhecido de alguma autoridade cobrando dinheiro diretamente de Vorcaro. O diálogo chegou como um tsunami à campanha do pré-candidato do PL ao Palácio do Planalto, balançou a República e caiu como uma bomba no mercado financeiro.

O filho 01 do ex-presidente Jair Bolsonaro cobra dinheiro do dono do Master, o brasileiro mais tóxico do momento, de quem todos os políticos querem ficar a léguas de distância, para pagar um filme que conta a história do pai.

É uma quantia astronômica. Vorcaro pagou R$ 61 milhões para financiar o filme "Dark Horse", e Flávio pediu mais. O total negociado chegou a R$ 134 milhões, valor superior aos R$ 129 milhões do contrato de três anos firmado pelo Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro do STF Alexandre de Moraes.

É preço de produção cinematográfica digna de Hollywood. Difícil imaginar que algum filme tenha custado tanto na história do cinema nacional. Um crítico de cinema resumiu o quadro: nem que o Bolsonaro fosse todo criado digitalmente, chegaria a um terço disso.

O filme "Ainda Estou Aqui", tão criticado pelo bolsonarismo e que rendeu um Oscar, custou R$ 45 milhões, de acordo com estimativas do setor.

O valor do negócio acertado chama atenção, levanta suspeitas sobre lavagem de dinheiro para o financiamento de campanha e exige explicações de Flávio Bolsonaro sobre o real destino dos recursos.

A resposta do senador, de que foi uma relação privada, e o apelo a chavões do Bolsonarismo, como o uso da Lei Rouanet, não convenceu: "Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet".

Pelo visto, Flávio prefere receber recursos de um banqueiro acusado de crimes do que um incentivo tributário previsto numa lei em vigor.

Na Faria Lima, esta quarta-feira (13) é chamada de Flávio's Day, com os juros futuros dando um pulo.

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PRÓXIMO DE BANDIDOS DEMAIS

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro disse que não responde pelas pessoas com quem tem proximidade

Por coincidência, todas essas pessoas tiveram problemas com a lei envolvendo o seu nome

Um dos efeitos imediatos da Revolução dos Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há 48 anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado), sua odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa na época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como eram chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus informantes.

O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100 escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides, vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem, sim, por aqueles com quem têm proximidade.

O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem apenas Fabrício Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de "rachadinhas", e o executado Adriano Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem condecorou na prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido "traído". Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo dezenas de acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.

Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.

Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados, criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.

P.S.: Esta coluna já estava escrita quando estourou a bomba do áudio de Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro ao acusado máster do país, Daniel Vorcaro —comovente pelo tom de voz em que quase lhe implora pela grana.

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GRANDE CENTRÃO: VEREDAS

Conrado Hübner Mendes*, Folha de S. Paulo

Voa em jato de bet até paraíso fiscal e volta com mala cheia por fora do raio-X

Vende aposentados de seu Estado em troca de relações carnais com Banco Master

"O senhor sabe: centrão é onde manda quem é forte, com as astúcias."

O centrão se transmutou. Funcionava como bloco invertebrado da governabilidade num contrato de coalizão com o Poder Executivo, assumiu papel de controlador do orçamento e de pulverização do dinheiro público. Em 2026, só quer manter esse controle, pouco importa quem se eleja. Nem que para isso ameace impeachment de ministro do STF e de presidente da República.

"Centrão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão quadrada."

Davi AlcolumbreHugo MottaArthur Lira e Ciro Nogueira são seus operadores de maior expressão no momento. Envolvidos em escândalos de aportes suspeitos de dinheiro de aposentados no Banco Master, de mesadas do Banco Master em troca de uma "Emenda Master", de viagem em jato de bet a paraíso fiscal de onde voltam de mala cheia por fora do raio-X, sua grande obra foram as emendas parlamentares.

Tornaram a separação de poderes presidencialista numa espécie de parlamentarismo orçamentário extorsivo. Inventaram voto censitário invertido em que a cidadania tem dificuldade de eleger alguém que não capture dinheiro estatal. E não pagam, nem juridicamente, nem eleitoralmente, pela perversão democrática.

"Centrão é isto: o senhor empurra para trás, mas de repente ele volta a rodear o senhor dos lados."

Essa arquitetura foi desenhada para ser opaca e driblar o fiscal. A hidráulica financeira irriga bases para garantir reeleição, em prejuízo de políticas públicas universais. Tiram dinheiro e capacidade de planejamento da saúde e da educação para comprar tratores e financiar ONGs de aliados, instrumentos disfarçados de financiamento de campanha. Pois o fundo eleitoral já não basta.

"Mas só se sai do centrão é tomando conta dele a dentro."

As tentativas frustradas de o STF controlar a desordem, que começaram sob a liderança de Rosa Weber, têm exposto as engenhosas formas de desobediência parlamentar a decisões judiciais. Desobediência disfarçada em jargão tecnocrático. É onde o STF reconhece sua fraqueza, onde late sem poder morder.

"Centrão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo certo. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado. O centrão é uma espera enorme. O centrão está em toda a parte."

Parlamentares se tornaram gestores de políticas públicas paroquiais. A travessia do dinheiro começa na arrecadação de imposto e termina na prefeitura aliada. O caminho entre origem e destino é uma vereda nublada, impossível de rastrear e fiscalizar.

"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia."

Seu localismo não tem nada a ver com a competência municipal de promover o "interesse local", segundo o artigo 30 da Constituição. O interesse é reeleitoral. O centrão nunca abraçou o projeto constitucional de promoção de direitos e igualdade.

Em vez de mudar a Constituição, concentra esforços em parasitar financiamento do Estado. Porque direitos e igualdade dependem de orçamento. Se o centrão o captura, a promessa constitucional se esgota como promessa. É estratégico deixá-la no papel, pelo menos alimenta a esperança.

"Centrão é quando menos se espera. Centrão é dentro da gente." Já antecipava Guimarães Rosa, 70 anos atrás.

*Professor de direito constitucional da USP, é doutor em direito e ciência política e membro do Observatório Pesquisa, Ciência e Liberdade - SBPC

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FLÁVIO BOLSONARO PEDIA DINHEIRO DOS FUNDOS SUJOS DO 'IRMÃO' VORCARO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Ex-dono do Master sumiu com recursos de seus credores e faz país pagar essa conta

Candidato em longa história de escândalos, mas ainda assim tem cerca de 40% dos votos

Flávio Bolsonaro é muito família. De família de golpista e de simpatizantes do golpe. É muito amigo. Muito amigo do dinheiro vivo, da boca do caixa à compra de casa grande. Foi amigo de uma família de milícias e de um pistoleiro. Ainda assim, tem perto de 40% nas pesquisas sobre a disputa da Presidência da República.

Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro é um dos tantos amigões de Daniel Vorcaro, chefe de máfia que era proprietária de banco, o Master. É "irmão", parceiro eterno de papo reto: "Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!", escreveu para Vorcaro quando pedinchava dinheiro, informação revelada pelo site Intercept Brasil e confirmada em parte por este jornalista. Flávio Bolsonaro, que escondeu a amizade, diz que não havia rolo. O silêncio vale ouro.

Ao menos pelo que se sabia até a noite desta quarta (13), Flávio cobrava o dinheiro acertado com Vorcaro para financiar uma hagiografia filmada de Jair Bolsonaro. A proximidade com esse bom companheiro, "irmão", vai pegar mal, enfim? Amizade com pistoleiro, golpista, miliciano etc., até agora não causou aversão a boa parte da elite brasileira e a 40% do eleitorado.

É verdade que a campanha propriamente dita não começou. Talvez então se refrescasse a memória de parte do povo. De qualquer modo, é preciso lembrar desde já que o dinheiro do filme de promoção de Jair Bolsonaro vinha dos fundos sujos de Vorcaro. Foram pelo menos R$ 61 milhões de um orçamento, digamos, de R$ 134 milhões. A família Bolsonaro não faz miséria. Um filme brasileiro premiado e reputado, "O Agente Secreto", teria custado menos de R$ 50 milhões, segundo informações levantadas por esta Folha.

Vorcaro não economiza nas amizades, como se sabe. Não poupava hipérboles para a camaradagem, a fraternidade e a cumplicidade com seus tantos amigos no poder. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, é um dos "grandes amigos de vida", escreveu Vorcaro, e padrinho da imodéstia financeira do parlamentar, segundo acusação da Polícia Federal. Como se sabe, de resto, Ciro Nogueira era candidato a vice de Flávio Bolsonaro. Foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, um dos sultões do centrão e do semipresidencialismo de avacalhação bolsonariano. Muito familiar.

É preciso lembrar o que é Vorcaro e de onde vinha o dinheiro com que azeitava sua fraternidade e a propaganda midiática para manter vivo seu banco zumbi e atacar desafetos. Recorde-se, pois, o que eram os fundos de onde vinha o dinheiro do filme sobre Jair Bolsonaro, "obra prima", "emocionante", disse o filho candidato.

Vorcaro comprou, alugou ou presenteou figuras relevantes da política e da elite brasileira. Tinha negócios ainda pouco esclarecidos com empresários e financistas, participações cruzadas em empresas. Montou esquemas complicados de sumiço dos recursos que tirava de investidores, credores do suposto banco Master. Tomava esse dinheiro emprestado sem ter meios de pagar —que sabia não ter como pagar. Dezenas de bilhões em ativos que em tese poderiam ser utilizados para honrar esses compromissos eram em parte pura fraude; outros não valiam fração do que estava nos livros. Vorcaro sumiu com dezenas de bilhões de reais, conta que em parte vai ser paga por quase todo mundo, por meio dos bancos que financiam o fundo do seguro de crédito (FGC), cofre arrombado pela fraude sistêmica que era o Master.

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DONALD TRUMP CONTRA OS ESTADOS UNIDOS

Maria Hermínia Tavares*, Folha de S. Paulo

Estudo mostra a rápida erosão do soft power da grande potência

Entre 68 países, EUA estão em 64°, à frente apenas de Irã, Afeganistão, Coreia do Norte e Israel

Em pouco mais de um ano, Donald Trump abalroou o conjunto de instituições que deram feição própria à ordem internacional liberal, criada no segundo pós-Guerra e da qual os EUA foram avalista e principal beneficiário.

Megalomaníaco, desorganizou o sistema de comércio com o tarifaço e debilitou o FMI e o Banco Mundial; paralisou o Conselho de Segurança, cerne das Nações Unidas; abandonou o Acordo de Paris, dificultando ainda mais os já penosos esforços de mitigação da crise climática. Enfraqueceu a Otan, pilar do sistema de segurança europeu; destruiu o Nafta (Acordo de Livre Comércio da América do Norte), substituindo a proveitosa cooperação comercial com o Canadá e o México pela ameaça à soberania dos vizinhos. Invadiu a Venezuela e sequestrou seu ditador, retomando uma prática de intervenção armada na vizinhança que se imaginava confinada ao passado. Estrangula Cuba, ao extremar um cruel bloqueio econômico a fim de derrubar o regime castrista. Em parceria com Israel, a quem apoiou no massacre de Gaza, faz agora guerra ao Irã, com consequências imprevisíveis —mas certamente nefastas— para o Oriente Médio e a economia mundial.

Se o saldo é negativo para o mundo, que se tornou um lugar ainda mais inseguro, a aposta do titular da Casa Branca no uso despudorado de seu poder econômico e militar devasta a reputação internacional do país.

Pesquisa recente dá conta do desastre. Conduzida pela empresa japonesa Nira Data, a pedido da Alliance of Democracies, leva o título de "Democracy Perception Index 2026" e foi feita em 68 países. Nela, comparam-se as percepções e sentimentos do público não só sobre o sistema democrático mas também sobre segurança e conflitos globais, além de avaliação, uma a uma, das nações incluídas na amostra.

Quando se coteja a diferença entre percepções positivas e negativas sobre cada país, os EUA ocupam a 64ª posição, à frente apenas de Irã, AfeganistãoCoreia do Norte e Israel.

Mas não é tudo. Há três anos, as opiniões positivas sobre a potência do norte superavam com folga as negativas. O quadro se inverteu, com a queda vertiginosa da aprovação a partir de 2025 —não por acaso, primeiro ano de Trump 2.0.

O estudo capta um fenômeno de consequências duradouras: a rápida erosão do soft power (poder brando), termo caro aos estudiosos das relações internacionais. Designa a capacidade de um país de influenciar a conduta de outros pela persuasão e mobilização de valores compartilhados em lugar da coerção e da força bruta, conhecidos como instrumentos do hard power (poder duro).

Países se tornam potências internacionais quando lançam mão de uma combinação desses dois atributos. Têm recursos econômicos e militares para coagir, mas não se impõem por muito tempo se não souberem atrair e convencer outras nações dos valores que defendem.

O uso cínico e desabrido que Trump faz do imenso arsenal de recursos de coerção está destruindo o muito de poder suave que os EUA construíram. Essa é a tese defendida por Stephen Walt, professor da Universidade Harvard, em artigo contundente publicado na revista Foreign Policy: "The End of America’s Soft Power". Não poderia estar mais certo.

*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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MASTER: DIÁLOGOS ENTRE FLÁVIO BOLSONARO E VORCARO SÃO PRENÚNCIO DA CARNIFICINA ELEITORAL

Malu Gaspar, O Globo

A revelação de que Daniel Vorcaro negociou com Flávio Bolsonaro (PL) pagamentos de R$ 62 milhões para um filme sobre a vida de Jair Bolsonaro usando uma empresa laranja deixou toda a direita desnorteada. Na semana passada, o ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP), recebeu a Polícia Federal em casa em virtude da apuração que liga sua “emenda Master” a contrapartidas generosas e milionárias.

Os dois episódios machucam a candidatura bolsonarista, reforçam o rótulo “BolsoMaster” que o PT bolou para martelar durante a campanha e dão um respiro aos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) atingidos pelo escândalo. Mas não garantem que Lula terá sossego daqui para frente.

Um experiente observador de Brasília com quem conversei outro dia definiu bem a situação ao dizer que Vorcaro comprou todo mundo que estava à venda. Tinha “irmãos” e “amigos de vida” em todo o espectro ideológico e em todos os níveis hierárquicos que importam nos três Poderes. A investigação entrou no mundo político pela direita e pelo Centrão, mas há denúncias para todos os gostos, e tudo o que puder ser explorado politicamente será.

A dúvida do momento é sobre quanto os brasileiros se guiarão por essas revelações para decidir o voto. A Genial/Quaest divulgada ontem traz dois dados interessantes. O primeiro mostra que 54% não tomaram conhecimento das investigações sobre Ciro Nogueira. O segundo, que desde março subiu de 40% para 46% a quantidade de brasileiros para quem o escândalo do Banco Master afeta a todos — de Lula a Bolsonaro, passando pelo Congresso, pelo Supremo e pelo Banco Central.

Agora, porém, é o próprio candidato a presidente o afetado por uma denúncia. E, pelo menos por enquanto, sabe-se que, enquanto Lula recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto numa reunião com testemunhas para uma discussão em que, pelos relatos, não se comprometeu com nada, Flávio se encontrou com ele a sós mais de uma vez, além de trocar mensagens cheias de intimidade cobrando repasses de recursos e chamando o banqueiro de “irmão”.

A reportagem do Intercept Brasil que revelou o caso ontem mostrou ainda que o dinheiro para o filme de Bolsonaro não foi aportado como patrocínio aberto e transparente, e sim por meio de uma empresa laranja. Não está claro como foram feitos os pagamentos, mas há nas mensagens conversas em que se discute o envio de dólares a uma conta no exterior cujo titular é o advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.

Fornecer uma explicação convincente e limpa para tudo isso é bem difícil, mas a experiência mostra que os apoiadores fiéis da direita e da esquerda costumam aceitar qualquer história que venha de seus mitos, por mais furada que seja.

Só que a disputa deste ano tende a repetir a de 2022, fortemente polarizada e decidida pelos “independentes” — que preferiam não ter de votar nem em Lula e nem em Flávio, mas acabarão tendo de escolher entre um e outro. É por esses votos que se dará a batalha de 2026, e seria ingenuidade acreditar que o bolsonarismo não reagirá.

Prever quem vence a guerra é impossível a esta altura, mas é fácil ver o potencial do caso Master para transformar a eleição de outubro numa carnificina típica de Quentin Tarantino, para usar a metáfora cinematográfica. Nos filmes do diretor, é comum os personagens matarem uns aos outros no final, e quem fica vivo nem sempre é o herói da história.

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PISTAS SOBRE A ATUAÇÃO DE NUNES MARQUES

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Amigos de Nunes Marques dão pista sobre atuação do ministro no TSE e no STF

Relações políticas do ministro dá à direita esperança nas eleições e resignação no Supremo

Celebridades da música, ministros de Cortes superiores, advogados que circulam por tribunais de Brasília, políticos de diferentes matizes. Esse era o público que lotou a festa da posse de Kassio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Mas nem todo mundo estava lá.

Dos outros nove ministros do Supremo Tribunal Federal, apenas dois compareceram: André Mendonça, que tomou posse como vice-presidente da Corte Eleitoral, e Gilmar Mendes. É pouco e destoa de posses anteriores de integrantes do STF.

Da lista de convidados, é possível constatar que o ministro tem perfil mais político que jurídico. As amizades mais fiéis, aquelas que prestigiaram o evento, dão uma pista sobre o que esperar dele à frente do TSE e no Supremo.

O pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL) estava na área vip. Também foram abraçar Nunes Marques nomes de peso do Centrão: o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e o ex-presidente da Câmara Arthur Lira (PP-AL). No salão de festas, corria a informação de que o senador Ciro Nogueira (PP-PI), investigado no escândalo do Banco Master, havia confirmado presença. Por fim, não apareceu. A esquerda foi representada pela solitária presença do deputado Orlando Silva (PCdoB-SP).

Nunes Marques é um produto do Centrão. Chegou ao STF pelas mãos de Jair Bolsonaro, a partir da ajuda de Flávio e Ciro Nogueira. Com essa bagagem, tem o desafio de comandar a eleição presidencial em um país politicamente cindido.

Mas não é só isso. No STF, ele foi sorteado relator da ação de revisão criminal de Bolsonaro. Na prática, seria um novo julgamento para o ex-presidente, que foi condenado por tramar um golpe de Estado.

Gente próxima de Nunes Marques aposta que ele não estaria disposto a facilitar a vida de Bolsonaro. A ação não deve dar em nada, mesmo porque não haveria maioria no plenário do STF para isso. O ex-presidente deve contar apenas com os votos de Mendonça e Luiz Fux.

Já no TSE, a família Bolsonaro pode ter mais esperança. O ministro defende que a Corte tenha postura discreta no processo eleitoral e libere o palco para a política. Para aliados de Bolsonaro, a Justiça Eleitoral dificultou o caminho do capitão até o Planalto em 2022, quando o tribunal era comandado por Alexandre de Moraes.

Um dos motivos para essa avaliação foi Moraes ter baixado uma norma às vésperas da eleição para conter fake news na internet. Setores da direita leram como uma forma de silenciar campanhas. Nunes Marques quer que o TSE jogue parado, sem criar regras até outubro. Na leitura da direita, significa uma porta aberta para Flávio chegar ao poder.

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SETOR DE FERTILIZANTES E O DESENVOLVIMENTO

José Serra, O Estado de S. Paulo

Não podemos controlar conflitos internacionais, mas devemos reduzir seus impactos por meio de políticas de Estado, consistentes e duradouras

De cada dez habitantes da Terra, um consome alimentos produzidos no Brasil. Poucos, porém, têm consciência do complexo processo envolvido desde a produção até a comida chegar às suas mesas. Nesse ciclo, há um fator crítico: o fertilizante, cujo abastecimento global sofre forte impacto causado pela prolongada crise geopolítica enfrentada pela humanidade. Para o Brasil, que importa quase todo o adubo que consome, o cenário é muito desafiador.

Fertilizantes são o alimento da planta e, portanto, um elo essencial da cadeia do agronegócio, que tem sido a âncora do crescimento do nosso país. Lideramos as exportações globais de soja, açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e de frango, celulose e fumo. Este ano, também assumimos a liderança no comércio do algodão e mantivemos a segunda posição com o milho e o etanol.

Até os anos de 80, o produtor brasileiro apenas olhava com admiração para as máquinas, tecnologias e métodos empregados na Europa e nos Estados Unidos. Hoje, nosso agro opera com o que há de mais avançado. Adaptamos ciência e inovação às condições tropicais. Em algumas culturas, já colhemos até três safras anuais. A antiga “safrinha” de milho tornou-se uma robusta “safrona”, com tendência de crescimento. Tudo isso com ganhos contínuos de produtividade, produzindo mais sem o proporcional aumento de áreas agricultáveis, preservando matas nativas.

É assim que vamos cumprindo o vaticínio de que seríamos o celeiro de um mundo que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU), precisará alimentar 3 bilhões de pessoas a mais nas próximas décadas, na esteira da expansão demográfica. O Brasil tem imenso potencial para dobrar sua safra, com a mesma área cultivada, mantendo-se protagonista no atendimento à demanda global.

Para isso, além de fertilizantes, precisa solucionar alguns gargalos crônicos: falta de crédito, dificuldades nas garantias, endividamento crescente do produtor, juros elevados, encarecimento de insumos, seguro rural insuficiente, logística cara e oscilações cambiais que corroem as receitas em reais das exportações.

Os fertilizantes são um fator crítico, pois, segundo a Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), 93% do que utilizamos em 2025 vieram do exterior. Num mundo de conflitos e restrição do fornecimento por parte de alguns países, como a China, isso é um fator de vulnerabilidade. Afinal, oferta restrita e demanda forte resultam em aumento de preços, como na pandemia ou nos embargos à Belarus e na guerra entre Rússia e Ucrânia. Agora, há o agravante dos confrontos no Oriente Médio.

Guerras impactam a oferta e desorganizam cadeias inteiras. Fretes marítimos e seguros encarecem e as rotas ficam mais longas e inseguras. Cada fechamento do Estreito de Ormuz paralisa centenas de navios. Para o Brasil, isso tem implicações diretas, pois o pico de consumo de fertilizantes ocorre nos meses de julho a setembro, com o início do plantio da próxima safra de 2026-2027.

Em exíguo espaço de tempo, foi realizada uma operação logística epopeica, num cenário internacional já muito difícil, agravado por nossos antigos problemas internos, como portos saturados, estradas precárias e armazenamento insuficiente. Assim, ampliar a produção doméstica de fertilizantes é urgente. Isso exige acelerar licenças ambientais, menos impostos, mais segurança jurídica, investir em infraestrutura e criar condições para atrair capital e tecnologia. Ao mesmo tempo, precisamos facilitar e garantir processos funcionais nas importações.

No caso dos nitrogenados (N), o desafio é ainda maior, pois nosso custo do gás natural, essencial para produzilos, é muito superior ao de outros países. A iniciativa da Petrobras, de investir em quatro plantas, apenas atenderá até 20% da demanda. Nem mesmo a importação do combustível argentino de Vaca Muerta será solução estrutural. A redução do preço é a questão.

Nos fosfatados (P), a demanda por minerais usados em tecnologias como baterias de carros elétricos tem elevado o preço de insumos compartilhados com a indústria de fertilizantes. O enxofre é um exemplo, saltando de US$ 100 por tonelada, em janeiro de 2024, para mais de US$ 1 mil nesta semana. Precisa-se de 400 quilos para produzir uma tonelada de fertilizante fosfatado. No potássio (K), importamos 99% do que consumimos. É premente ampliar a produção nacional de NPK, mas o Plano Nacional de Fertilizantes não gera resultados na velocidade devida. Seu êxito depende decisões políticas e de coordenação institucional.

Até aqui, não faltou adubo para colhermos safras recordes, graças à conhecida resiliência e capacidade brasileira de improvisar e superar crises, mas é temerário ter apenas essas virtudes de nossa gente como bases de uma estratégia decisiva para a inclusão social, balança comercial, geração de empregos, produção de alimentos e commodities. Não podemos controlar conflitos internacionais, mas devemos reduzir seus impactos por meio de políticas de Estado, consistentes e duradouras.

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QUANDO A FARDA ESTAPEIA A BECA

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

A situação que se escancara diante dos nossos olhos é de outra natureza: uma agressão despropositada contra nossa autonomia, nossa tradição e nosso modo de vida

Em licença-prêmio, eu estava fora do Brasil. Recebi relatos de docentes e estudantes da minha universidade. Foi aflitivo acompanhar, de longe, tamanho ultraje contra a Universidade de São Paulo (USP).

Vou aos fatos. Na madrugada de domingo, por volta de quatro da manhã, policiais militares fantasiados de Swat arrancaram de dentro da reitoria, à força, alunas e alunos que tinham ocupado o prédio dois dias antes. Segundo depoimentos de todas as testemunhas, houve agressões gratuitas e descabidas. A desocupação se deu a tapas e pontapés. Em vídeos e fotografias que os manifestantes conseguiram fazer, vemos, num corredor polonês, cassetetes espancando jovens desarmados. Foi um ritual de aviltamento, sujeição e sadismo, com bombas de efeito moral, ou imoral. “Dezenas de estudantes foram feridos”, declarou à rádio CBN o aluno Gabriel Borges, do Diretório Central dos Estudantes. Segundo ele, “alguns tiveram de ser hospitalizados com fratura no braço, fratura no nariz”. Houve quatro prisões, ainda que por poucas horas.

Desde o fim da ditadura militar, não é a primeira vez que uma coisa desse tipo acontece.

Não é nem a segunda ou a terceira. Vira e mexe, a brutalidade das patentes faz da universidade o seu alvo preferencial. Em 2017, numa tarde em que o Conselho Universitário deveria se reunir, na Cidade Universitária, houve outro espetáculo de estupidez. Esse eu vi. Membro do conselho, eu estava lá. Centenas de estudantes protestavam em torno das grades da reitoria. A tropa chegou. Eu e alguns colegas tentamos conversar com o oficial no comando. Inutilmente. Alunos meus sofreram cortes na cabeça. Eu os vi correr ensanguentados.

Agora foi pior. A pretexto de promover a reintegração de posse do edifício, os coturnos pisotearam o saber e, para não deixar dúvidas, pisotearam também as formalidades jurídicas. Em comunicados públicos, coletivos estudantis asseguraram que não viram nenhum mandado com os policiais. Entre docentes, o desconforto é ainda maior. Departamentos e unidades divulgaram comunicados rechaçando a truculência.

Reações vieram. Ao menos isso. Na segunda-feira, no centro da cidade, uma manifestação estudantil diante da sede do Conselho de Reitores das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) – essa entidade de nome estranho, que soa como “cruela cruel”, constituída pelas reitorias das três universidades públicas paulistas – expressou sua inconformidade – e recebeu da polícia a sordidez costumeira.

Na terça-feira, este jornal noticiou: Alunos de Medicina da USP aderem à greve e deixam de atender no HC. A tensão ganha dimensões mais fortes, sem pacificação à vista.

Nessas horas, sempre aparece quem queira jogar a culpa nos estudantes. Tenhamos cuidado. Claro que podemos ter reservas em relação a certos métodos do movimento estudantil. Eu mesmo – que, na reta dos 20 anos, fiz piquetes, assembleias, ocupações e passeatas – tenho os meus senões. Em mais de uma ocasião, divergi publicamente de algumas condutas. Tudo nessa matéria é passível de debate, mas o que está em pauta é algo muito mais grave e mais premente. A situação que se escancara diante dos nossos olhos é de outra natureza: uma agressão despropositada contra nossa autonomia, nossa tradição e nosso modo de vida. Nossas alunas e nossos alunos podem por vezes se exceder, mas, se agora apanham das autoridades, a culpa definitivamente não é deles. Eles são vítimas, apenas vítimas. A USP em sua totalidade é vítima. Se não enxergarmos esse fato simples e cristalino não teremos entendido nada.

A infâmia fardada que se abateu sobre a nossa instituição destroça todos os ideais que, há séculos, inspiram as melhores universidades do mundo. A comunidade acadêmica tem total consciência disso. Tanto é assim que, ainda no domingo, a própria reitoria, em nota oficial, reclamou de não ter sido avisada com antecedência da ação policial. Além disso, a nota condenou a brutalidade: “A USP repudia que a violência substitua o diálogo, a pluralidade de ideias e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução de controvérsias”. Agora, cabe ao governo apurar os abusos cometidos e punir os responsáveis. Um insulto tão covarde, perpetrado na escuridão da noite, dentro do nosso prédio mais solene, deve ser examinado à luz do dia.

É verdade que o governador parece ter outra opinião. Dando respaldo à pancadaria, ele declarou que a universidade “não pode ser um espaço de baderna” (Folha de S. Paulo, edição online, 12/5). Ora, a baderna só se instalou no câmpus quando a mão armada do Estado foi até lá para esbofetear a geração a quem dedicamos nosso trabalho e nossa vida. Se o governador acredita que a disciplina da caserna pode dar jeito nas nossas escolas, está errado. A disciplina da caserna aniquila o sentido da palavra universidade.

O que nos atropela agora é um projeto de poder opressivo e criminoso. O autoritarismo late para a cultura, as artes, as ciências, a justiça, o conhecimento e a informação. O ato ignominioso da Polícia Militar, no domingo, Dia das Mães, é parte desse projeto obscurantista. Não pode ficar assim. Bem vale uma greve.

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UM PACTO PELA DÍVIDA PÚBLICA

Benito Salomão*, Correio Braziliense

Solucionar o problema fiscal passará por um pacto pela dívida pública que vai exigir do governo um amplo esforço de reconstruir sua credibilidade nesse tema, mas também uma maior boa vontade do mercado que adquire essa dívida

No artigo de abril, propus uma reflexão sobre um tema que dificilmente ocupará o debate eleitoral de 2026, mas certamente ocupará a agenda do próximo governo: trata-se da dívida pública e a sua contínua expansão. O último dado da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) ultrapassa a casa dos 80% do PIB. Há aproximadamente um mês, quando escrevi o texto anterior, ele se encontrava em 79,4%. Em suma, a DBGG deve continuar se expandindo no horizonte próximo.

Duas perguntas devem ser levantadas sobre essa questão: primeiramente, quais as causas de uma trajetória de endividamento público tão insustentável? Em segundo lugar, como corrigir essa trajetória. Este artigo focará na primeira pergunta.

Alguns economistas vão dizer que a causa de o endividamento público crescer de forma tão contundente são os desequilíbrios fiscais. Será? Entre 2023 e 2025, o deficit primário da União diminuiu de 2,4% para 0,4% do PIB. Em três anos, um esforço fiscal de 2% do PIB foi verificado no Orçamento — esperava-se que isso influenciasse a trajetória de crescimento do endividamento público.

Uma explicação recorrente dada por economistas do mercado é que a piora fiscal não tem sido observada pelo lado do resultado primário, mas, sim, pela trajetória "insustentável" do gasto público. Mais uma vez, olhemos para os dados. De fato, a despesa pública saltou em termos reais de R$ 2,118 trilhões em janeiro de 2023 para R$ 2,439 trilhões em janeiro deste ano. Uma expansão real de pouco mais de R$ 300 bilhões. Entretanto, ao se comparar com o dado da despesa primária em proporção do PIB, a oscilação foi muito modesta — o gasto público saltou de 18,4% do PIB para 19,1% do PIB no período. Isso é, tem-se uma variação de pouco mais de meio por cento do PIB no triênio.

Sob qualquer perspectiva que se olhe, parece difícil sustentar a hipótese de que uma expansão de oito pontos percentuais do PIB em três anos esteja sendo explicada por um deficit que foi reduzido em dois pontos do PIB no período. Tão pouco pode-se creditar essa dinâmica ao fato de a despesa pública ter avançado meros 0,6% do PIB no mesmo período. Em suma, embora o problema fiscal exista no Brasil, ele tem sido sobredimensionado no debate público e, seguramente, não é a causa da trajetória recente de expansão do endividamento público.

Isso posto, voltemos à primeira pergunta: o que explica esse endividamento. Uma resposta definitiva sobre esse tema requer uma investigação mais aprofundada; mas, aparentemente, esse comportamento parece estar associado ao custo de rolagem da DBGG. Uma curiosidade observada nos dados é que a taxa implícita de juros média da DBGG entre 2023 e 2026 foi de 11%. A taxa implícita de juros é uma boa proxy do custo de rolagem da dívida, uma vez que condensa em um único número as despesas com juros e encargos com o saldo da dívida.

Como dito, a taxa implícita média no triênio iniciado em 2023 foi de 11%. Permaneceu nesse patamar mesmo durante aquele curto período entre agosto de 2023 e setembro de 2024, quando o Banco Central (BC) reduziu a Selic de 13,75% para 10,5%, indicando que o custo de rolagem da dívida pública praticamente não absorveu o afrouxamento monetário experimentado no país naquele período. Isso lança incertezas adicionais sobre o problema; uma vez que o BC volta a implementar um ciclo de afrouxamento monetário, parece que isso não irá reverberar sobre o custo de financiamento do governo.

Em resumo, o custo implícito da dívida do governo manteve-se imutável em torno de 11% ao ano em termos nominais. Esse valor não cedeu à evidente melhora do resultado primário que foi citada acima, tão pouco respondeu a ciclos, ainda que curtos, de afrouxamento da política monetária. Ademais, nada garante que uma nova rodada de esforço fiscal que leve a economia de um deficit de 0,4% do PIB para um superavit de 2% do PIB (esforço fiscal de 2,4% no total) produza qualquer impacto relevante na relação dívida/PIB se o custo de rolagem da dívida não tem respondido ao fiscal.

Esse fenômeno merece uma investigação acadêmica de maior profundidade. No entanto, dado que esse custo de rolagem é um preço fixado a partir de um equilíbrio no mercado de títulos, em que o governo emite títulos de dívida e o mercado os compra, parece haver uma cobrança desproporcional dos detentores da dívida pública para demandar esses papéis. Isso pode estar relacionado com uma crença generalizada nesses segmentos, porém pouco respaldada em dados, de que a política fiscal em curso é insustentável.

Se essa hipótese tiver fundamento, solucionar o problema fiscal passa por uma reversão profunda dessa crença e uma revisão do estado de expectativas dos agentes, particularmente daqueles que adquirem a dívida do Tesouro. Em suma, solucionar o problema fiscal passará por um pacto pela dívida pública que vai exigir do governo um amplo esforço de reconstruir sua reputação e credibilidade nesse tema, mas também uma maior boa vontade do mercado que adquire essa dívida.

*Benito Salomão — professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia.

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GRAVAÇÃO DE CONVERSA COM VORCARO ABALA CANDIDATURA DE FLÁVIO BOLSONARO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O sinal de que os demais candidatos sentiram cheiro de animal ferido na floresta veio do ex-governador mineiro Romeu Zema, o candidato do Novo

A divulgação do áudio da conversa entre o senador Flávio Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro pode representar o início de um processo de desconstrução da imagem do principal candidato da oposição ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição. Independente da natureza jurídico do caso, que ainda não é investigado formalmente pela Polícia Federal, o episódio abre uma guerra de narrativas entre lulistas e bolsonaristas com capacidade de alterar o empate técnico entre ambos registrado por sucessivas pesquisas de opinião.

O trecho da conversa divulgado pelo portal Intercept Brasil é devastador porque mostra afetividade entre o candidato oposicionista e o personagem central do escândalo Master. “Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, afirmou Flávio a Vorcaro. Protagonista de um escândalo de grandes proporções, envolvendo corrupção, lavagem de dinheiro, lobby político e prejuízos bilionários ao BRB, o banqueiro se tornou uma companhia muito tóxica.

Em campanhas altamente polarizadas, a eleição costuma ser decidida não pela adesão apaixonada, mas pela rejeição relativa. É nesse terreno que o caso pode produzir estragos duradouros. A linguagem informal, afetuosa e quase íntima destrói a tentativa inicial de enquadrar o episódio como um contato protocolar de captação privada de recursos culturais. Em marketing político, a forma frequentemente pesa mais do que o conteúdo. O eleitor comum não faz distinções sofisticadas entre financiamento privado, lobby ou tráfico de influência quando percebe proximidade excessiva entre políticos e empresários envolvidos em escândalos.

Verdadeira bomba, a divulgação da conversa pegou Flávio Bolsonaro de surpresa. “De onde você tirou essa informação? É mentira”, respondeu a jornalistas após visita ao presidente do STF, ministro Edson Fachin, questionado a veracidade da gravação. Quando a mídia repercutiu o fato, constatando a autenticidade do diálogo, o senador mudou a estratégia e admitiu ter solicitado patrocínio ao banqueiro, embora negasse irregularidades.

Na nota divulgada posteriormente, Flávio tentou construir uma linha de defesa baseada na legalidade formal da operação: “Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet”. Também afirmou que não ofereceu vantagens, não intermediou negócios com o governo e não recebeu recursos pessoais. Politicamente, contudo, a defesa possui limitações. O problema não é o aspecto jurídico; é a reputação.

Gordura pra queimar

A oposição bolsonarista construiu nos últimos anos um discurso assentado na denúncia das relações promíscuas entre Estado e empresários, que acusa o PT de corrupção sistêmica. Quando Flávio Bolsonaro aparece associado a um banqueiro investigado em escândalos financeiros, o dano simbólico é inevitável; entre outras coisas, exuma também o escândalo das rachadinhas de quando era deputado na Assembleia Legislativa fluminense.

Como consequência prática, a conversa anula a estratégia de “astroturfing” que Flávio Bolsonaro vinha utilizando contra Lula, desde que entrou em empate técnico nas pesquisas. Astroturfing é o termo usado no marketing para criar uma espécie de efeito manada, no qual um movimento de apoio é criado como se fosse um posicionamento espontâneo dos eleitores. O termo vem da grama sintética AstroTurf, simbolizando que o apoio é “fake”. Essa estratégia é muito comum nos Estados Unidos.

O sinal de que os demais candidatos sentiram cheiro de animal ferido na floresta não veio do Palácio do Planalto, veio do ex-governador de Minas Romeu Zema, o candidato do Novo à Presidência. “Flávio Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do PT e fazer a mesma coisa”, declarou.

Zema inaugura uma disputa aberta dentro do campo oposicionista pelo eleitor conservador moderado e antipetista fatigado da polarização. O ex-governador Ronaldo Caiado, candidato do PSD, também tirou uma casquinha: “Tudo que envolve Master e cifras milionárias precisa ser tratado com total transparência com a população”.

Herdeiro natural do capital político do pai, Flávio Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com Lula nas pesquisas de segundo turno. O levantamento da Genial/Quaest, divulgado nessa quarta-feira, mostra Lula com 42% e Flávio com 41%. No primeiro turno, Lula aparece com 39% e Flávio com 33%. Esses números revelam um quadro de polarização extrema, mas existe um grande contingente de eleitores em trânsito.

É justamente nesse segmento que a pesquisa revela, segundo o cientista político Felipe Nunes, que houve melhora significativa da avaliação do governo Lula entre os independentes. O saldo negativo nesse grupo caiu de -16 para -5 pontos percentuais. Em outras palavras: os eleitores menos ideológicos começam a reduzir sua rejeição ao governo Lula. Entretanto, Flávio ainda tem muita gordura para queimar e, mesmo assim, chegar ao segundo turno.

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DESMANCHE DE FLÁVIO BOLSONARO ABRE AVENIDA (ESBURACADA) PARA MICHELLE

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Candidato bolsonarista tropeça na suspeita de corrupção, quesito mais valorizado pela direita

Que a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) era de papel já se sabia. O que não se imaginava era que incinerasse tão cedo. A quase cinco meses do primeiro turno, ainda há tempo de seu partido emplacar outro nome. Michelle? É o estepe natural, até porque sempre pareceu menos vulnerável como candidata - e menos previsível como presidente - que o enteado.

Para pôr em pé uma candidatura, a ex-primeira-dama enfrentaria a dificuldade de encabeçar o mesmo combo de interesses reunidos em torno do senador - do marido ao Centrão, passando por investidores cuja frustração com a reportagem do “The Intercept”, na tarde desta quarta, fizeram balançar bolsa e câmbio.

Oferece, por outro lado, maior competitividade eleitoral que o enteado, a entrada num eleitorado superior, em 8,4 milhões, ao masculino e a lealdade de um segmento (evangélico) que, na largada, tem 27% do colégio eleitoral do país. A decisão estará, em grande parte, nas mãos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, do líder do partido no Senado, Rogério Marinho (RN), que hoje é coordenador da campanha presidencial do PL e, principalmente, do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Michelle, porém, assumiria a candidatura de um bloco trincado pelas relações dos enteados com o Master. As percepções de um importante dirigente partidário, colhidas no calor da repercussão dos diálogos entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, são de que pesam contra Flávio Bolsonaro a afronta ao decoro e a suspeita de lavagem de dinheiro.

A primeira deriva da mentira do senador de que não conhecia o ex-banqueiro quando os diálogos reproduzidos na reportagem revelam que não apenas se frequentavam como se tratam por “irmãos”.

A segunda vem das pistas que indicam depósitos de Vorcaro num fundo ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro no Texas. Além disso, avalia este dirigente, os valores mencionados - um pedido de R$ 134 milhões que teria resultado em pagamentos de R$ 61 milhões - para a finalização de um filme sobre o ex-presidente é muito superior ao praticado no mercado de cinema.

O que se está a sugerir é que os irmãos Bolsonaro, mais do que um filme quase cinco vezes mais caro que “O Agente Secreto”, pretenderam se valer da proximidade com o ex-banqueiro para fazer caixa. A suspeita faz do senador Ciro Nogueira (PP-PI) um eterno aprendiz.

O presidente do Progressistas pretendeu dissimular o ato de ofício configurado na proposta de elevação da cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, a “emenda Master”, com sua reapresentação. O pré-candidato do PL não pediu a renovação do patrocínio do Master ao filme do pai. Limitou-se a insistir na CPI do Master para repisar a tese de que é o PT que resiste à investigação.

A rodada desta quarta da Genial/Quaest trouxe uma prévia do estrago potencial desta revelação sobre as relações de Flávio Bolsonaro com Vorcaro. A principal preocupação do eleitor é a violência (31%), seguida, com folga, pela corrupção (18%). Na direita, porém, os dois problemas estão empatados. O “governo Bolsonaro”, que aparece como o quarto “culpado” pelo escândalo do Master, corre o risco de subir de patamar.

Nas notas e vídeos divulgados na tarde de quarta, Flávio Bolsonaro sugeriu que vai cair atirando no PT da Bahia, cujo senador, Jaques Wagner, deu a cara à tapa na tribuna dizendo que seu pecado foi privatizar uma rede de supermercados populares posteriormente revendida ao Master. Se o senador petista tem um depósito na conta de sua enteada a esclarecer, contra o pré-candidato bolsonarista à Presidência resta o pedido de dinheiro às vésperas da liquidação do banco e da primeira prisão de Vorcaro.

Não bastasse o desgaste a ser angariado na tentativa de ampliar ao centro, Flávio Bolsonaro tende a se deteriorar no próprio nicho da direita, abrindo espaço para Michelle. Perde a credibilidade de criticar Alexandre de Moraes pelo contrato do escritório da esposa do ministro com Vorcaro porque, na verdade, concorreu pelo dinheiro do ex-banqueiro.

A ex-primeira-dama, se consolidada como candidata, não teria, porém, uma avenida desimpedida. A pesquisa da semana mostra que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recuperou terreno junto às mulheres, segmento mais receptivo às políticas públicas do que o dos homens.

Uma delas, aliás, a desoneração do Imposto de Renda até cinco salários mínimos, que parecia ter se desmanchado no ar, deu, finalmente, o ar de sua graça. Na pesquisa divulgada nessa quarta, eleitores de todas as faixas de renda, mas, especialmente aqueles ganham até dois salários mínimos, finalmente registraram um impacto positivo da isenção no patamar de oito pontos percentuais.

O potencial de recuperação do eleitorado feminino que, nos últimos meses, se distanciou de Lula ainda deve crescer com o Desenrola 2, programa de renegociação de dívidas majoritariamente aprovado, e com o fim da “taxa das blusinhas” que, definida em medida provisória na noite de terça, ainda não teve seu impacto medido em pesquisas.

Desnecessário para uns, ante o provável desmanche de Flávio Bolsonaro, o fim da “taxa das blusinhas” pode acabar por criar, para outros, uma capa de gordura necessária a Lula face à chegada de Michelle no pedaço.

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SANGRIA DE FLÁVIO BOLSONARO É DÚVIDA ATÉ ELEIÇÃO

Julia Duailibi, O Globo

Senador passou por rachadinhas e relações com a milícia, e aí está, competitivo nas pesquisas

O que realmente interessa no filmegate envolvendo Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro é o tamanho do impacto que o escândalo terá nas intenções de voto no pré-candidato à Presidência pelo PL. A conversa entre Flávio e Vorcaro já causou estrago na largada. Fez preço ontem, com o Ibovespa fechando em queda de 1,8%, e o dólar subindo 2,3%. Site de bets fora do país mostrou diminuição das apostas numa vitória do senador, e a curva de juros futuros estressou. O dia foi chamado de “segundo Flávio Day”, em referência ao “Flávio Day” original, em dezembro, quando o lançamento de sua candidatura causou estrago por desbancar Tarcísio de Freitas, o preferido do mercado.

O mercado já estava de mau humor com resultados da pesquisa Quaest, que mostrou alguma recuperação na aprovação de Lula, e com as medidas eleitoreiras de impacto fiscal, como o fim da taxa das blusinhas. O auge foi o áudio constrangedor do senador da República cobrando dinheiro do banqueiro enrolado — e, sim, tem dinheiro público na teia de Vorcaro com os recursos que ele tomou dos fundos de Previdência. A Faria Lima viu Lula mais fortalecido e estrilou.

É fato que a campanha de Flávio já sangra e sangrará por um bom tempo, mas a questão aqui é se ela tem musculatura eleitoral suficiente para resistir. Flávio tem hoje os votos da extrema direita e pode perder intenção de voto entre esse grupo, muito suscetível ao discurso do político antissistema — perdão pela contradição em termos. Romeu Zema, do Novo, e Renan Santos, do Missão, já sacaram isso e foram para cima. O ex-governador de Minas fez sucesso com esse eleitorado ao criticar o STF, coisa que Flávio não pode fazer porque, entre outras encrencas, tenta se mostrar moderado. Flávio também pode ter alguma dificuldade com o público de centro, que representa um terço do eleitorado e é pendular: uma hora flerta com a direita, outra com a esquerda. Flávio está na luta por esse eleitor mais desconfiado, e as relações mal explicadas com Vorcaro certamente não o ajudam.

Pode até ser que não se comprove nenhum ato de ofício de Flávio a favor de Vorcaro, nos moldes do seu aliado, o senador Ciro Nogueira, que, segundo a Polícia Federal, teria ganhado mesada em troca da emenda que favorecia o banco. Mas os adversários saberão explorar bem o caso, com pedidos de criação de CPI, investigação e cassação. Além disso, Flávio não conseguiu até agora explicar a relação com Vorcaro, e isso será um fantasma. As investigações da Polícia Federal mostram que Vorcaro se aproximava dos poderosos em troca de vantagens e proteção. Por óbvio, o financiamento ao filme sobre Jair Bolsonaro se dá nesse contexto, e não por interesse pela cultura nacional.

A encrenca é grande, mas vale cautela na análise. Flávio tem um considerável telhado de vidro, mas até hoje foi resistente. Passou por rachadinhas e relações com a milícia, e aí está, competitivo nas pesquisas. Sangrará, mas também terá tempo para se recuperar. Em tempos de polarização, contará com a ajuda de muito eleitor louco para esquecer.

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REVIRAVOLTA NA ELEIÇÃO

Míriam Leitão, O Globo

A revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro pode representar um plot twist num processo eleitoral que promete ser de muita emoção

A notícia do financiamento de Daniel Vorcaro ao senador Flávio Bolsonaro é uma bomba com poder de implodir sua pré-campanha. E tem essa força pelo volume de dinheiro para o financiamento do filme sobre Jair Bolsonaro, pelos abundantes diálogos em que Flávio Bolsonaro cobra Vorcaro, pela exibição de intimidade com o banqueiro das falcatruas, pelas mensagens de visualização única e pela incapacidade do senador de reagir quando tudo foi revelado. Ele deu resposta fraca. Na verdade não seria um filme sobre um personagem qualquer, mas sim uma peça da campanha eleitoral.

O dia de ontem foi efervescente. Seus desdobramentos serão fundamentais para esta campanha, que está chegando num ponto decisivo. O episódio deve afetar o eleitor independente e pode impactar também os da direita não bolsonarista. Se Flávio Bolsonaro desidratar, pode haver troca de candidato, dizem os analistas. Contudo, a janela da desincompatibilização se fechou, não poderá ser o governador de São Paulo que era o plano B do bolsonarismo. Por exclusão, o nome de Michelle Bolsonaro voltou a ser falado. Ela teria que enfrentar a desconfiança do seu próprio marido, que quer como candidato um parente sanguíneo. O nome dela não foi testado pelas últimas pesquisas.

Faltam quatro meses e 20 dias para as eleições, mas ainda 57% estão indecisos diante do quadro eleitoral, segundo a pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem, antes do incêndio na campanha de Flávio Bolsonaro. Na espontânea, quando não há a apresentação do nome de possíveis candidatos, esse é o percentual dos que ainda não se decidiram.

A pesquisa mostrou uma melhora importante do presidente Lula. O saldo negativo entre os que o aprovam e os que o desaprovam caiu de 9% para 3%. A principal alta foi entre eleitores que se dizem independentes. Lula melhorou em todos os segmentos, e recuperou a aprovação entre mulheres e eleitores de renda média.

Para a maioria dos brasileiros o pleito ainda não começou, mas está diminuindo o percentual de indecisos. Há duas pesquisas eram 69%, 12 pontos a mais do que o da pesquisa atual. Entre os independentes, 80% ainda não se decidiram. O país permanece com polaridades definidas. Entre os que votaram em Bolsonaro, 90% desaprovam o governo Lula, entre os que votaram em Lula 83% aprovam.

O retrato que a pesquisa trouxe mostra que a direita não conseguiu se descolar da extrema direita e ganhar musculatura. Ronaldo Caiado e Romeu Zema não têm desempenho relevante em intenção de voto, continuam em torno de 4%. Isso é resultado da incapacidade da direita buscar o centro e se afastar das pautas radicais dos bolsonaristas.

Esta semana a oposição ameaçou votar a PEC da Anistia, mas ficou claro que ela sabe que está jogando para a sua plateia. O PL da Dosimetria surgiu exatamente por não haver condições políticas e jurídicas de aprovar uma anistia. “Anistia agora é chance zero, a menos que a extrema direita ganhe a eleição. Neste cenário, o Congresso aprova em semanas, mas teríamos um debate dificílimo no Supremo”, me disse uma autoridade que acompanha esse tema de perto.

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender a aplicação da dosimetria não quer dizer rejeição à lei propriamente dita. A maioria do STF vê com muito boa vontade a ideia de manter o que o Congresso decidiu, a redução das penas. A suspensão foi apenas uma decisão técnica, porque existe arguição de inconstitucionalidade sobre a PEC, e isso precisa ser julgado.

O roteiro do Brasil não economiza na emoção e por isso a eleição ocorrerá com a Justiça Eleitoral sendo comandada pelos dois ministros indicados pelo ex-presidente, que era inimigo da urna eletrônica e estimulou entre seus seguidores a dúvida sobre o processo eleitoral. A posse no tribunal foi um retrato da tensa diversidade política brasileira, com o detalhe do caprichoso roteirista de colocar bem próximas a mulher do condenado e a mulher do juiz que o condenou, Michelle Bolsonaro e Viviane Barci de Moraes. Nenhuma das duas vive tempos fáceis.

O ministro Kassio Nunes Marques poderá dormir tranquilo em um ponto: sua presidência não será atacada, solapada, difamada como foi a presidência de Alexandre de Moraes, na eleição de 2022. Isso não acontecerá pelo simples motivo de que o presidente atual, Lula da Silva, acredita no processo eleitoral brasileiro. Mas é certo que esta eleição será de muitas emoções, revelações e desafios. Ontem foi dia de reviravolta ou de um plot twist no roteiro.

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quarta-feira, 13 de maio de 2026

'ESTOU E ESTAREI CONTIGO SEMPRE'

Do The Intercept Brasil

Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Laís Martins, Andrew Fishman, Cecília Olliveira, Leandro Becker e Mauricio Moraes

ÁUDIO: Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro R$ 134 milhões para bancar filme sobre Jair

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, ao dono do Banco MasterDaniel Vorcaro, em uma mensagem enviada pelo WhatsApp em 16 de novembro de 2025.

Um dia após a mensagem de Flávio, Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. No dia seguinte, 18 de novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.

A frase escrita pelo hoje pré-candidato à Presidência da República é parte de uma série de registros que indicam a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.

Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro. 

Os registros incluem um cronograma de desembolso, um comprovante bancário e cobranças relacionadas às parcelas previstas para a produção. Não há evidências nas mensagens de que Vorcaro tenha feito os outros oito pagamentos previstos para o projeto.

O envolvimento de Vorcaro foi negociado diretamente por Flávio Bolsonaro, mas teve outros intermediários, como o irmão e deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, e o deputado federal Mario Frias, também do PL paulista, que foi secretário da Cultura no governo Bolsonaro.

As conversas privadas e os documentos de Vorcaro revelam os profundos laços financeiros e a estreita relação entre o clã Bolsonaro e o banqueiro que se tornou o homem mais radioativo de Brasília. Flávio já havia negado tais conexões, da sua família e da extrema direita, chegando a dizer que isso era uma “narrativa falsa que o Lula tem criado”. 

Quando foi noticiado, em março deste ano, que o cunhado de Vorcaro – o pastor Fabiano Zettel – havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse à CNN que isso aconteceu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”. 

“Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”, afirmou o senador. Em evento da pré-campanha em João Pessoa, na Paraíba, dois dias antes, ele classificou o caso como um “grande esquema de roubalheira que está dando nojo a todo o país”.

Na manhã desta quarta-feira, 13, Flávio Bolsonaro foi questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao filme e respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida, deu uma gargalhada e se retirou de onde concedia entrevista à imprensa, próximo ao Supremo Tribunal Federal, o STF – antes, o senador havia se reunido com o ministro Edson Fachin, presidente da corte.

Flávio já havia sido contatado sobre o assunto – por telefone, WhatsApp e e-mail, mas não retornou até a publicação da reportagem. A defesa de Daniel Vorcaro foi acionada, mas não houve resposta. Eduardo Bolsonaro também não respondeu aos questionamentos enviados pelo Intercept. O espaço segue aberto e, caso haja resposta, o texto será atualizado.

Em nota enviada ao Intercept após a publicação da reportagem, a defesa do deputado federal Mario Frias confirmou os contatos entre o parlamentar e Vorcaro, mas disse que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”.

Também destacou que Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em nome de Vorcaro. Ainda negou qualquer uso do mandato parlamentar para “promoção de lobby privado ou favorecimento empresarial”.

O advogado do deputado informou, ainda, que, na época da troca de mensagens, Vorcaro era conhecido como um empresário do mercado financeiro e “não havia qualquer informação pública que indicasse eventual irregularidade financeira” atribuída ao banqueiro. “Conversas privadas envolvendo exibição de conteúdo audiovisual ou encontros sociais entre pessoas públicas e empresários não configuram irregularidade”, destacou a defesa do parlamentar.

Sobre o filme, a defesa pontuou que Frias participou do desenvolvimento criativo e institucional do projeto audiovisual e que “o entusiasmo manifestado nas mensagens privadas decorre da dimensão artística e cultural do projeto, considerado por sua equipe como uma produção inédita dentro do cinema nacional independente”.

Vorcaro bancou filme do clã Bolsonaro

Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2 milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos analisados pelo Intercept indicam que pelo menos parte do dinheiro foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

Os registros ainda sinalizam a participação direta nas operações de outros dois intermediários: o empresário Thiago Miranda – fundador e sócio do Portal Leo Dias –, e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como o principal operador financeiro de Vorcaro.

As mensagens obtidas pelo Intercept abrangem o período de dezembro de 2024 a novembro de 2025 e incluem diálogos do banqueiro com diversos interlocutores. O conteúdo do vazamento foi verificado por meio de cruzamento de informações contidas nos diálogos com dados públicos e sigilosos. Entre os elementos que confirmaram a autenticidade do material estão dados bancários e telefônicos, inquéritos policiais, registros do Congresso Nacional e de redes sociais.

De acordo com as conversas a que tivemos acesso, o relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a produção internacional do filme contava com um intermediário no fim de 2024 e, no ano seguinte, evoluiu para uma interlocução direta, marcada por cobranças para a liberação de dinheiro, tratativas operacionais e demonstrações de proximidade pessoal.

As conversas também indicam que Daniel Vorcaro acompanhava pessoalmente o andamento dos pagamentos e atribuía prioridade ao filme em relação a outros compromissos financeiros.

O Intercept entrou em contato por e-mail com advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

‘Flavio está ciente de tudo’

A primeira aproximação registrada pelas conversas obtidas pelo Intercept ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, organizou um encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro em Brasília. 

Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente e do SBT $$” [uma possível referência ao canal de televisão SBT], acrescentando que “Flavio está ciente de tudo”. 

Thiago Miranda e Leo Dias foram contatados para comentar as trocas de mensagens. Até a publicação da reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto e, caso haja retorno, o texto será atualizado.

O SBT, por sua vez, respondeu que, “nunca teve qualquer tipo de contrato com o Banco Master” e que “o produto CredCesta, vinculado ao Grupo Master, fez ações comerciais de fevereiro a dezembro de 2024 em programa do SBT” e que “a relação do SBT com o Banco Master foi a mesma que com todos os seus anunciantes, com estritamente a comercialização de espaços publicitários”.

A reunião foi marcada, segundo os registros, para 11 de dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro em Brasília. Naquele dia, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião deliberativa na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ. O vídeo disponível no canal do Senado no YouTube mostra que, por volta das 17h30, ele recebe um telefonema, se levanta e sai da sala

As imagens mostram Flávio voltando a se sentar na sua cadeira poucos minutos depois das 18h, o que sugere que uma possível participação na reunião poderia ter ocorrido de forma remota ou em outro local.

Pouco menos de uma hora após o horário previsto para o encontro, às 18h24, as mensagens obtidas pelo Intercept mostram que Mario Frias enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto. Frias afirmou que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.

Nos meses seguintes, as mensagens indicam avanço das negociações. No início de 2025, Miranda e Flávio pressionam Vorcaro para destravar os contratos e iniciar os aportes.

No dia 20 de janeiro, Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Flávio Bolsonaro pedia que o jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo. Horas depois, Vorcaro respondeu a Miranda, na época CEO do Portal Leo Dias: “Vou atras aqui”.

As conversas mostram que o cronograma de pagamentos passou a ser acompanhado diretamente pelo banqueiro e por Fabiano Zettel, apontado nas mensagens como responsável pela operacionalização jurídica e financeira do aporte. Entramos em contato com o advogado de Zettel, Celso Vilardi, mas ele não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.

No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2 milhões de dólares.

Ainda em janeiro, no dia 28, Vorcaro demonstrou preocupação com os atrasos nos repasses financeiros e afirmou que o projeto cinematográfico era prioridade absoluta ao definir o pagamento como “o mais importante disparado”. E deu uma ordem: “Nao pode falhar mais”.

As mensagens também revelam dificuldades operacionais para a remessa internacional dos recursos. Em fevereiro, Zettel relatou sucessivas recusas do setor de câmbio do Banco Master para realizar a operação e que informações de cadastro eram “meio estranhas”. Vorcaro, então, orientou que o pagamento fosse realizado “via entre”, uma referência à empresa Entre Investimentos e Participações.

Embora o Grupo Entre Investimentos e Participações e Vorcaro neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes, processos judiciais e administrativos obtidos pelo Intercept evidenciam uma conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro. Em março de 2026, após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da Entrepay, uma empresa que pertencia ao Grupo, autoridades passaram a investigar a suspeita de que Vorcaro atuaria como dono oculto da empresa.

Segundo matérias publicadas por Metrópoles e Estadão, investigadores avaliam que Antônio Carlos Freixo Júnior — executivo ligado ao Grupo Entre e identificado nas mensagens do vazamento obtido pelo Intercept como Mineiro — funcionaria como operador de interesses do banqueiro dentro da companhia.

Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver uma ligação entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo os registros, Fabiano Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.

O Intercept enviou mensagem por WhatsApp e telefonou para Antônio Carlos Freixo Júnior, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Dias depois, em 14 de fevereiro de 2025, Zettel encaminhou ao banqueiro o comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de dólares para o Havengate Development Fund LP, identificado nas mensagens como o fundo ligado à produção do filme. A Entre Investimentos e Participações aparece no registro como a remetente do valor.

O Grupo Entre, controlador da Entre Investimentos e Participações, também foi contatado pela reportagem. No entanto, não houve retorno até a publicação.

Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados Unidos, e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas.

Os documentos desta segunda firma apontam o corretor de imóveis Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço comercial utilizado pelo Havengate.

Em março de 2025, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept, Vorcaro voltou a cobrar a quitação das parcelas ainda pendentes. Em uma mensagem enviada no dia 12 daquele mês, ele encaminhou um cronograma de desembolsos indicando que apenas a primeira parcela havia sido paga até então. O documento previa seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro e maio de 2025.

Em contato telefônico, Altieris Santana se recusou a prestar informações à reportagem, indicando Paulo Calixto como representante legal. Paulo Calixto, por sua vez, não respondeu aos contatos telefônicos, por e-mail e via mensagem feitos pelo Intercept.

Crise do Master atrapalha ‘Dark Horse’

No dia 21 de março, o nome de Eduardo Bolsonaro apareceu pela primeira vez nas conversas a que tivemos acesso. Thiago Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Eduardo sugere alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA – e informa que Altieris Santana, controlador do fundo Havengate, estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.

No contato com a reportagem do Intercept, Altieris Santana se recusou a comentar a relação com o filho do ex-presidente ou a intermediação dos pagamentos. O Intercept também questionou por e-mail o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.

O cronograma de financiamento do filme coincidiu com a tentativa fracassada de Vorcaro de vender o Master para o Banco de Brasília, o BRB, e com a crescente atenção das autoridades, que culminaria na sua prisão. Ao longo do segundo semestre de 2025, as mensagens indicam aumento da pressão financeira sobre Vorcaro e uma intensificação do contato direto com Flávio Bolsonaro.

Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro a imagem de uma tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a qual 10,6 milhões de dólares já haviam sido transferidos de um total previsto de 23,9 milhões de dólares. Vorcaro respondeu: “segunda fazemos duas”, e Miranda afirmou estar “monitorando essa reta final”.

A reportagem do Intercept telefonou para Miranda e enviou questionamentos a ele por WhatsApp, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Pouco depois, em 8 de setembro, alguns dias antes de Jair Bolsonaro ser condenado pela trama golpista, Flávio Bolsonaro enviou um áudio diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de paralisação da produção do filme.

Na gravação, o senador diz que havia preocupação com o atraso nos pagamentos a profissionais internacionais envolvidos na produção. “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel [ator que interpreta Jair Bolsonaro no filme], num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou Flávio.

Flávio também disse que o não cumprimento dos compromissos financeiros poderia comprometer contratos, elenco, direção e toda a equipe do longa. “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”, declarou.

Na resposta, Vorcaro pediu desculpas, afirmou que a semana anterior havia sido muito difícil para ele e prometeu resolver a situação até o dia seguinte. Na mesma noite, os dois fizeram uma ligação telefônica de cerca de dois minutos e meio, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept.

Cinco dias antes dessas mensagens entre Flávio e Vorcaro, o BRB anunciou que o Banco Central havia reprovado a venda do Master. 

‘Tudo isso só está sendo possível por causa de vc’

As conversas seguintes mostram a manutenção do contato frequente entre ambos. Ainda em setembro, Flávio e Vorcaro realizaram quatro ligações e marcaram encontros presenciais em São Paulo.

Em uma troca de mensagens no dia 17, Vorcaro perguntou “14:30?”, ao que Flávio respondeu: “Blz”. Em outubro, as cobranças se intensificaram novamente. No dia 22, Flávio informou que as filmagens já estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado “no limite”. O senador afirmou que, caso o apoio financeiro não pudesse continuar, seria necessário avisar para que a equipe buscasse “outro caminho”. O banqueiro o tranquilizou: “Deixa comigo”.

No mesmo dia, Flávio convidou Vorcaro para um jantar em São Paulo com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em 2 de novembro. O banqueiro sugeriu realizar o encontro em sua própria residência e que poderia reorganizar sua agenda para comparecer, pois “tinha uma viagem”. Flávio sugeriu, mais tarde, a data de 6 de novembro. Não há confirmação, nos registros, se o jantar de fato ocorreu.

Enviamos questionamentos para Nowrasteh e Caviezel, mas não houve resposta até o momento de publicação.

No dia 7 de novembro, após enviar a Vorcaro um vídeo de visualização única, Flávio escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. Vorcaro responde: “Que demais”. Em seguida, diz: “Ficou perfeito”.

Em dezembro de 2025, o Intercept revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil, havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público sem concluir entregas previstas. Desde março, o Ministério Público está investigando o contrato. A origem do dinheiro que custeou a super produção permanecia, no entanto, uma incógnita. Enviamos questionamentos para Gama, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.

O protagonista Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do filme “Dark Horse” para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial que Flávio Bolsonaro espera vencer. O site oficial do filme, no entanto, não confirma que a produção tem data para chegar ao Brasil.

Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa, Angélica Neiva, André Garavatti, Bianca Pyl, Eduardo Lima, Rafaela Silva, Samantha Prado, Sarah Germano e Thalys Alcântara

Atualização: 13 de maio de 2026, 16h29
O texto foi atualizado para incluir as respostas da defesa do deputado federal Mario Frias, do PL de SP, aos questionamentos do Intercept.

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