Fernando Luiz Abrucio,
Valor Econômico
É preciso tratar dos problemas de diversos grupos sociais
que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas
instituições
Os defensores da democracia começaram 2026 com uma grande
vitória: a eleição de Antonio Sérgio Seguro em Portugal, que bateu o candidato
da extrema direita. Estabeleceu-se o que muitos chamam de cordão sanitário
contra os antidemocratas, algo essencial quando há o risco da vitória de
autoritários - no caso português, de um partido como o Chega, cujo racismo
explícito atinge nossos compatriotas que moram por lá.
Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se
numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado.
Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma
agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o
curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou
para o Brasil.
A necessidade de uma agenda positiva não significa que os
instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a
governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao
poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.
De um lado, porque a luta contra o ideário
autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os
Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje
estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no
qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente
as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria
ingenuidade, no mínimo.
O modelo reativo, por outro lado, também tem um potencial de
buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas para a valorização
das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro ao se analisar os
três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm sido utilizados: a
vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção contra a extrema
direita e a mobilização social, tomada como resistência e construção de novas
formas de comunicação política.
No caso dos processos eleitorais, o discurso contra os
partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos,
especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não
engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem
acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no
Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se
formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os
eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de
lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.
O uso de instituições políticas para evitar o autoritarismo
de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o Legislativo,
sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o segundo tipo de
resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria parlamentar e
parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os democratas ganharem a
eleição congressual de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump perderá parte
de seu vigor autoritário.
Além disso, promotores e juízes, responsáveis por garantir
direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma maioria eleitoral
momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como contrapesos a
autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso brasileiro é
paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro Alexandre de
Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.
A estratégia de usar o arcabouço institucional como
mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que compõe o regime
democrático; porém, num contexto de contestação da democracia, tal ferramenta
não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais instituições
precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o argumento de que
alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa ser barrado por
quem não tem o mesmo suporte.
A disputa entre o voto e as instituições contramajoritárias,
vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão democrática. Depois dos
totalitarismos ocidentais, a ciência política do pós-guerra reforçou a
necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de ocasião para evitar
quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é fundamental construir a
legitimidade institucional de quem arbitra a disputa política - em outras
palavras, a crença de que as instituições não têm credibilidade suficiente, ou mesmo
subvertem a vontade popular, é um grande risco à democracia contemporânea.
O último tipo de resistência às tendências antidemocráticas
atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser feita
cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a imprensa e
várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua, geralmente
organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população. É o que
está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e
autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo nazista
por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.
Resistências antidemocráticas que apenas mobilizem e
sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas têm força bem
menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando apoio inclusive
em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos autoritários. Isso
significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência civil vai além da
metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser acrescentado o de
encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana, no mundo que vai além
da disputa política partidária, gerando novas formas de comunicação e
convencimento.
Analisando o conjunto de resistências às forças
antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é fundamental e
predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva, capaz de
revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos
sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e
suas instituições.
A construção da agenda positiva passa, primeiramente, pelo
reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios democratas têm
enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se transformou a
política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos principais
elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os diferentes.
Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças antidemocráticas,
com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar autoritariamente seu
eleitorado, mas também se deve lembrar que setores centristas liberais e de
centro-esquerda ou esquerda agarraram-se demasiadamente em suas certezas e são
incapazes de adaptar suas propostas e argumentos às angústias de parcelas
crescentes do eleitorado.
Não seria possível defender a globalização ou o combate às
desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou pelo menos de
seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações tecnológicas
presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter maior
participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente racista e
tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam estar na
lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social almejada.
A revitalização democrática presente no debate e mobilização
social tem de chegar à política para aumentar sua potência contra os
antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são inescapáveis.
A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a vida de muitas
pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a democracia. Aqui, há
um problema comunicacional grave, uma disputa de narrativas na qual ações
governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto tais para os corações e
mentes de muita gente.
Parte da dificuldade de realçar as qualidades da democracia
e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em vícios dos
políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são vistos
como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse segundo
ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael Sandel,
vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que comandam a
sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo democrático e
vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que sequestrou o bem
comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades sobre um fosso
social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas últimas décadas.
A descoberta de pautas populares que não estão sendo
atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de fundo mais
relevante aos que querem defender a democracia para além das vitórias
eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na frente, mesmo
que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a longevidade dos
regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os descontentes,
superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que realce o quão positiva
pode ser a democracia.