quinta-feira, 19 de março de 2026

'FESTINHAS' DE VORCARO SÃO DE INTERESSE PÚBLICO

Julia Duailibi, O Globo

Eventuais fotos e vídeos de políticos no celular de Vorcaro podem ser a única prova da relação promíscua entre ele e o poder

Entre os mitos da política, está que a vida privada de autoridades não é de interesse público. Um equívoco que, muitas vezes, serve apenas para acobertar conchavos, tráfico de informação e subornos praticados e recebidos pelos senhores do poder. Negociações pouco republicanas não ocorrem à luz do dia, mas em ‘festinhas’ privadas, jantares com belas mulheres, bate-papo em jatinhos e, reza a lenda, até em sauna dentro de banco na Faria Lima — no caso, o Banco Master. Envolvem, com certa frequência, casos extraconjugais patrocinados por uma camaradagem interessada em arrancar um naco do Estado. É nesses momentos que nascem as negociatas em torno de projetos de lei, licitações e troca de favores — e é justamente por isso que são de interesse público.

Na década de 60, a Inglaterra estarreceu-se diante do “Profumo Affair”, ou Caso Profumo, que mostrou como aventuras amorosas de uma autoridade não significam apenas aventuras amorosas de uma autoridade. Em plena Guerra Fria, o secretário de Guerra do Reino Unido, John Profumo, resolveu ter como amante uma modelo que se relacionava, também, com um adido naval e espião soviético. Não só Profumo caiu, como ajudou a derrubar o gabinete do conservador Harold Macmillan e a eleger os trabalhistas em 1964. No Brasil, o caseiro Francenildo denunciou festinhas numa mansão de Brasília envolvendo lobistas e o então ministro da Fazenda, Antonio Palocci. A importância do caso não estava nas garotas que frequentavam o local, mas nos negócios fechados lá.

Empresário pagando conta de amante de político, e amante de político lotada no serviço público não são histórias sobre sexo. São sobre poder, tráfico de informação e uso do público para fins (bem) privados. No escândalo Epstein, o ex-príncipe Andrew e o ex-embaixador do Reino Unido nos Estados Unidos rodaram, num primeiro momento, não pelos crimes sexuais, mas porque, nas festas com menores de idade, repassavam segredos de Estado. A literatura política está repleta de bunga-bungas à Berlusconi.

Brasília está em pânico com as imagens dos celulares de Vorcaro. O ministro André Mendonça determinou que todo o material referente a “aspectos da vida privada” seja retirado pela Polícia Federal (PF) da base de dados enviada à CPMI do INSS. A decisão do ministro vem na esteira do vazamento indevido de conversas íntimas do banqueiro com sua ex-namorada, mas pode ser usada para blindar políticos do Centrão flagrados em situações desabonadoras. A intimidade de Vorcaro e Martha Graeff não tem interesse público. Não deveria ter se tornado pública, e o Estado deve responder por isso. Mas são, sim, de interesse público as conversas dos dois sobre encontros com ministro do Supremo e presidentes de partido — ele chama Ciro Nogueira de “um dos grandes amigos de vida”.

Eventuais fotos e vídeos de políticos no celular de Vorcaro podem ser a única prova da relação promíscua entre ele e o poder. A PF deve ter cautela na supressão do material que devolverá à CPMI, preservando as mulheres que não tenham relação com os negócios desses senhores. As informações sobre os habitués das “festinhas” do banqueiro, no entanto, devem ser públicas.

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CADA UM NA SUA

Merval Pereira, O Globo

O escândalo do banco Master é uma ação suprapartidária, que move políticos de todos os quilates e partidos, mais uma vez para tentar estancar a sangria

Daniel Vorcaro é o único que pode esclarecer a barafunda em que se transformou o caso do Banco Master, maior escândalo financeiro do país até hoje, na definição do ministro da Fazenda, Fernando Haddad. Vorcaro, depois de um primeiro momento em que imaginou poder fazer uma delação premiada seletiva, já mandou dizer que está disposto a uma delação completa, sem poupar ninguém. Esse é o momento crucial dessas delações, em que o prisioneiro cai em si e constata estar diante de uma decisão definitiva: ou todos, ou nenhum. Tudo indica que ele tem condições de provar quem estava metido em seu esquema fraudulento.

Os danos colaterais, como as orgias em Trancoso só com estrangeiras “que não entendem o que estamos falando”, segundo declaração atribuída a um ministro frequentador dos bacanais vorcarianos, ficarão de lado, para os sites de fofocas e para os processos judiciais que por acaso surjam como consequência. O escândalo é uma ação suprapartidária, que move políticos de todos os quilates e partidos, mais uma vez para tentar estancar a sangria. Sendo incontrolável o desenrolar das investigações, cada lado quer usar um pedaço do caso que lhe convém com fins políticos, achando que pode render algum fruto eleitoral.

A turma do governo Lula busca alguma coisa que aponte para a oposição. No lado da oposição, querem jogar para o Supremo Tribunal Federal (STF), dando a entender que o mais grave é a acusação contra os dois ministros, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e a parte política é desimportante. Todos esses setores pressionam a Polícia Federal (PF). Uma ala do PT quer que o Centrão seja investigado; a direita quer saber qual a culpa do PT nessa história. Enquanto Toffoli e Moraes não derem explicações convincentes sobre seu envolvimento com Vorcaro, não haverá desfecho razoável para o caso.

Todos têm sua parte de razão. Ainda precisa ser explicado o contrato milionário, fora da curva, da mulher de Moraes com o Banco Master, que, a cada tentativa de esclarecimento, mais dúvidas levanta. Há os contatos frequentes de Moraes com Vorcaro, até mesmo horas antes da prisão deste, com a pergunta incriminadora: “Conseguiu bloquear?”. O mistério do resort Tayayá, que ninguém explica como a família Toffoli conseguiu dinheiro para construir. Nem por que foi vendido para um grupo ligado a Vorcaro.

A turma da direita, do Centrão, também tem explicações a dar. O senador Ciro Nogueira, classificado por Vorcaro de “amigo de vida”, apresentou uma proposta para quadruplicar o Fundo Garantidor de Créditos, que depois Vorcaro confessou ser a base de seu plano de negócios. Fez isso só por amizade? O presidente do União Brasil, Antonio Rueda, também aparece em diversos diálogos com Vorcaro. O PT da Bahia também precisa ser investigado. O senador petista Jaques Wagner foi quem indicou os contatos com o pessoal do Master, por meio de Augusto de Lima, que virou sócio de Vorcaro depois de ter lançado o CredCesta no governo petista.

Todos estão duplamente interessados no que sairá no final dessa conta, do ponto de vista eleitoral e criminal. Querem ganhar votos à custa dos erros dos outros, mas não querem ir para a cadeia. A PF também tem lados. Ligado a Lula, o diretor-geral Andrei Rodrigues está sob escrutínio dos policiais ligados ao Centrão. O ministro do STF André Mendonça proibiu que os investigadores da PF fizessem um relatório ao diretor-geral. Sigilo tão alto, dizem, é por temer que Andrei passe as informações a Lula, favorecendo um grupo em disputa. Mas Lula também é criticado por membros do PT, que querem que ele controle a PF por meio de Andrei.

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OS JUROS NO MEIO DAS TURBULÊNCIAS

Míriam Leitão, O Globo

Banco Central reduziu a Selic, mas de olho na guerra, que é inflacionária. O Tesouro recompra papéis para tranquilizar o mercado

Banco Central tinha um cenário quando escreveu a ata da reunião de janeiro. Nos últimos dias, esse cenário mudou. Isso levou à decisão de corte da Selic, em apenas 0,25 ponto percentual. A turbulência internacional tem um canal de transmissão direta para a economia. As empresas já estão refazendo seus cálculos sobre os custos diante dos novos preços dos combustíveis, principalmente diesel. A guerra de Donald Trump bateu na economia de forma rápida. Diante deste ambiente, o Copom cortou os juros, porque afinal eles estão muito altos, mas a redução foi em nível menor do que faria caso nada tivesse acontecido. A nova conjuntura forçou também o Tesouro a mudar a sua atuação no mercado de títulos públicos.

No comunicado após a reunião, o Banco Central disse que a guerra alterou o cenário, porque tem efeitos sobre “a cadeia de suprimentos global e os preços das commodities que afetam indiretamente a inflação”. Salientou que a incerteza aumentou e não se tem clareza “sobre a duração do conflito e de seus efeitos”. Por este motivo, decidiu dar início a um ciclo que chamou de “calibração da política monetária”. Admitiu que os juros têm estado por muito tempo em patamar contracionista, o que já desacelerou a atividade econômica. Haverá novos cortes na Selic, mas eles serão feitos “à luz de novas informações”. A mudança drástica no cenário afetou também a dívida pública.

O Tesouro recomprou em torno de R$ 45 bilhões em títulos públicos, para evitar a espiral de alta dos juros futuros. Muita gente disse que é a maior compra da história. O economista Luis Felipe Vital, estrategista-chefe de Macro e Dívida Pública da Warren Investimentos, e que trabalhou 17 anos na Secretaria do Tesouro, explica que em termos nominais é a maior recompra. Porém, na pandemia, houve o mesmo movimento em volume muito maior, se a conta for trazida a valor presente. Ele considera que o Tesouro fez o que devia fazer.

— O mercado vinha há algum tempo esperando a queda dos juros, apostando que iria acontecer. Estava até demorando demais. Agora, veio o conflito no Oriente Médio, que é inflacionário via câmbio e via petróleo. Pressiona a inflação. Os dados que começaram a sair da atividade neste início de ano mostraram uma economia ainda aquecida. Diante disso, na sexta-feira, a visão de política monetária mudou. Várias casas alteraram as projeções. Quando muda a visão da política monetária, muda também a precificação de mercado — explica Luis Felipe.

O movimento de venda de títulos foi natural com os fundos e bancos querendo reduzir as perdas de suas posições anteriores. A curva DI, na parte mais curta e intermediária, subiu 60 pontos num dia, o que é muito alto. O mercado ficou disfuncional. Havia mais vendedores do que compradores de papéis da dívida pública, o que levou o Tesouro a realizar um leilão de recompra, repetido nos dias seguintes. Desta forma, deu parâmetros ao mercado, porque os preços estavam indo em espiral.

—E quanto isso preocupa o Tesouro? Vai deixar o Tesouro sem dinheiro? Não. Hoje o colchão de liquidez é de cerca de R$ 1 trilhão. Quem ganha com esse processo todo é o Tesouro, que conseguiu entrar e equilibrar o mercado, e na semana que vem já volta a se financiar normalmente — diz Vital.

As turbulências atingem também as empresas, que neste momento estão refazendo suas contas sobre o custo com a logística. Uma empresa ouvida ontem no Rio trabalha com um cenário de que terá um custo 45% maior com o transporte do seu produto. O cálculo é que o diesel que estava em R$ 5,31, antes da guerra, pode ficar no patamar de R$ 7,75.

O governo luta contra essa alta, que já está ocorrendo nos postos. Lançou na sexta-feira um plano de forte subsídio ao diesel. Zerou PIS e Cofins, e ainda criou uma subvenção para produtores e importadores de diesel. Ontem, abriu uma negociação com os Estados para a redução do ICMS incidente sobre o produto importado, prometendo compensar em parte o custo da renúncia fiscal. O secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Dario Durigan, promete fazer tudo “respeitando a neutralidade fiscal, e com um mínimo de intervenção”.

Em um ambiente contaminado pela disputa política será mais difícil ter o apoio dos governos estaduais. Por enquanto, o cenário é de incerteza e, por isso, o BC citou três vezes a palavra “cautela” no comunicado de ontem.

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GUERRA EXPÕE ELO VULNERÁVEL DO AGRO BRASILEIRO

Assis Moreira, Valor Econômico

Num mundo cada vez mais instável, a agricultura nacional depende em mais de 90% de fertilizantes importados

A guerra dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, e a retaliação iraniana na região, causam estragos também nos mercados globais de fertilizantes, elevando os preços e reduzindo a oferta em todo o setor agrícola mundial. Essa situação expõe um ponto crítico da agricultura brasileira.

Cerca de 25% a 30% das exportações mundiais de fertilizantes nitrogenados passam pelo estreito de Ormuz, que está bloqueado pelo Irã. O estreito liga efetivamente os mercados de fertilizantes da Ásia, América Latina e Europa à temperatura geopolítica do golfo Pérsico, como nota o Rabobank.

A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) não vê no momento risco de desabastecimento no país, apontando entrada regular de adubo pelos portos e oferta ainda disponível no mercado. O ponto de atenção, hoje, é preço e logística, mais do que falta física de produto, diz Maciel Silva, diretor técnico adjunto da entidade. Os preços da ureia já estão cerca de 39% mais altos do que antes da guerra.

Essa guerra de Donald Trump acrescentou um prêmio de risco geopolítico aos mercados globais de commodities agrícolas. E, nesse cenário, é difícil escapar da perplexidade diante da persistente e enorme dependência brasileira do mercado mundial de fertilizantes.

Em 2025, o Brasil importou cerca de 45,5 milhões de toneladas para um consumo total de 49,1 milhões de toneladas. Significa que 92% dos fertilizantes utilizados na agricultura brasileira vieram do exterior - bem mais que os 85% normalmente mencionados no setor. O pico da dependência ocorreu em 2024, quando as importações chegaram a 97% do total consumido no país, conforme o Rabobank.

A fatura da importação de adubo foi de US$ 15,5 bilhões no ano passado, mas já chegou a US$ 24,7 bilhões em 2022 em meio à invasão da Ucrânia pela Rússia, quando o preço da tonelada dobrou.

O grande setor da economia brasileira apresenta assim uma vulnerabilidade estratégica evidente. Uma explicação para a dificuldade de estruturar a resposta a esse calcanhar de Aquiles da agricultura nacional, segundo fontes, estaria em entraves regulatórios, inclusive relacionados à exploração de recursos na Amazônia.

Mas a questão que fica é de como foi possível os atores envolvidos deixarem a situação de dependência chegar a esse ponto. O mercado de fertilizantes tem um forte componente geopolítico, o que exige análise além dos fundamentos tradicionais de oferta e demanda, como nota Bruno Fonseca, especialista do Rabobank.

Os principais fornecedores do país em 2025 foram China (26%), Rússia (25%), Canadá (11%), Marrocos (5%) e Egito (4%). No entanto, o Brasil compra fertilizantes por todos os cantos do planeta, com cerca de 70 países fornecedores.

Vale observar a situação de China e Rússia, que respondem por cerca da metade do fertilizante consumido no Brasil. A Rússia, maior exportadora mundial, está em guerra com a Ucrânia e sob sanções internacionais. Embora os fertilizantes estejam formalmente excluídos dessas sanções, na prática os operadores econômicos seguem afetados. Bancos adotam “overcompliance”, com excesso de exigências para financiar embarques, o que entrava o fluxo comercial. E o ambiente de guerra é pesado, inclusive em Moscou, alvo de ataques de 250 drones, interceptados, no domingo passado. No caso brasileiro, o fornecimento russo tem ocorrido sem interrupções, mas em cenário normal haveria maior previsibilidade.

De seu lado, a China restringe periodicamente exportações como a ureia, para garantir o abastecimento de sua própria agricultura. Mesmo com preços elevados, como agora, não há expectativa de que Pequim retome plenamente essas vendas no curto prazo. A Índia, em todo o caso, insiste para o seu rival chinês flexibilizar as restrições.

Maciel Silva, da CNA, conta que em 2025 houve uma reacomodação nas estratégias de importação, com produtores brasileiros buscando melhor custo-benefício diante de preços altos, câmbio volátil e deterioração das relações de troca. A tendência é de continuidade dessa diversificação enquanto persistirem as incertezas, e evidentemente enquanto isso for possível.

Enquanto até agora não há interrupções significativas no abastecimento global de grãos, oleaginosas ou açúcar e a alta de preços parece frágil, no mercado de fertilizantes há pressões mais estruturais, observa o Rabobank. Um conflito prolongado no Oriente Médio pode restringir significativamente a oferta e sustentar preços elevados por mais tempo, com impactos sobre a produção agrícola, inflação e acesso a alimentos.

A deterioração da relação de troca pode encarecer o custo da próxima safra no Brasil, já que será necessário vender mais produto para adquirir a mesma quantidade de fertilizante, diz Maciel. Esses insumos representam entre 40% e 50% dos custos variáveis da produção de grãos, e qualquer oscilação de preços é rapidamente visível nos resultados do setor agrícola, diz o banco holandês. Para Bruno Fonseca, um conflito prolongado pode levar os preços a níveis inviáveis para muitos produtores.

Em 2022, o governo Bolsonaro lançou o Plano Nacional de Fertilizantes, visando reduzir a dependência de importações de fertilizantes para 45% até 2050, mesmo com a perspectiva de duplicação da demanda. Mas a nova crise no Oriente Médio reforça a necessidade de o país acelerar essa estratégia para ter um mínimo de autonomia, num mundo mais perigoso e fornecedores e alianças mais instáveis e imprevisíveis.

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GOVERNO ENFRENTA A SERPENTE DE 2018

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

“Quem move o país são os caminhoneiros”. A frase com a qual o ministro dos Transportes, Renan Filho, abriu o comunicado sobre as medidas adotadas para o cumprimento da tabela do frete rodoviário deu o tamanho da necessidade de o governo manter a ponte com os caminhoneiros, cuja ameaça de uma paralisação, como a de 2018, é a mais contudente da temporada de riscos que corre a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Naquele ano, a paralisação de 11 dias atingiu de refinarias aos jogos do campeonato brasileiro. Houve suspensão de aulas em escolas e universidades e desabastecimento nos supermercados. O PIB perdeu mais de um ponto percentual, o Exército foi convocado para a desobstrução de estradas onde, do alto, se liam pedidos de intervenção militar. No ovo daquela serpente, estava em gestação o bolsonarismo.

Depois de acenar aos caminhoneiros, Renan Filho avançou contra grandes empresas que afirmou descumprirem a tabela do frete. Por meio da integração com as Fazendas estaduais, a ANTT passou a fazer autuações nos fretes declarados abaixo da tabela. Em quatro meses, as autuações passaram de 300 mensais para 40 mil, em janeiro deste ano, somando R$ 419 milhões em multas.

O anúncio das medidas foi precedido de um português inteligível para qualquer eleitor: “Não é anti-mercado, é cumprimento da lei”/ “Separamos o infrator eventual de quem faz da infração um modelo de negócios, como o devedor contumaz”/ “Descumprir a tabela do frete é como descumprir o salário mínimo”/ “Asseguramos a renda do caminhoneiro e a competitividade da economia punindo os 20% de infratores”.

As 15 mil empresas que, ao longo desses quatro meses, foram identificadas como contratantes de fretes abaixo da tabela terão sua licença para transportar suas mercadorias cassada. Quando? A medida provisória, a ser editada ainda esta semana, dirá se é pra já ou a partir do próximo descumprimento.

Entre as empresas atingidas estão algumas das maiores produtoras de grãos, alimentos, bebidas, celulose e combustível do país (BRF, Vibra, Raízen, Ambev, Cargill, Unilever, Nestlé e Eldorado). Em notas variadas, responderam que os contratos de transporte firmados contêm parcelas fixas e variáveis e estão baseados em preços de mercado.

A briga, de verdade, vai começar a partir da edição da MP com o detalhamento da medida. É seu texto, também, que vai determinar a reação dos caminhoneiros. O principal líder da categoria, Wallace Chorão, o mesmo que emergiu da greve de 2018, disse permanecerem em “estado de paralisação” enquanto não conhecerem o teor das medidas.

Aquelas anunciadas na quarta por Renan Filho foram discutidas na véspera com os ministros da Casa Civil (Rui Costa), Justiça (Wellington Lima e Silva), AGU (Jorge Messias) e Comunicação (Sidônio Palmeira). Os ministros da Agricultura (Carlos Fávaro) e da Indústria e Comércio (Geraldo Alckmin), que mais ouvirão reclamações dos setores produtivos a serem atingidos, não estavam presentes. Lula também não, mas ganhou um discurso do ministro que também lhe deu as mudanças que facilitaram a emissão e a renovação da CNH: “Se as grandes empresas têm compliance e compromisso ESG não terão problema em cumprir as novas regras”.

O tratamento de contumazes não é fortuito. Horas depois, ao anunciar as medidas discutidas com os secretários estaduais de Fazenda, o secretário-executivo Dario Durigan também associou devedores e infratores contumazes. Disse que as operações da Receita e da Polícia Federal em cima dos devedores contumazes de combustíveis elevaram a arrecadação dos Estados. E pediu para as fazendas estaduais enviarem as listas de devedores contumazes de ICMS de combustíveis à Receita para que esta arrecadação cresça ainda mais e compense uma renúncia fiscal destinada a enfrentar a pressão da guerra do Irã sobre os preços.

Depois de vir a público na semana passada cobrar dos Estados a retirada do ICMS sobre os combustíveis a exemplo do que fez o governo federal com o PIS/Cofins, o presidente recuou. Não queria repetir Jair Bolsonaro, que desonerou o ICMS à revelia dos Estados em 2022 e deixou a conta para o sucessor, mas avançou neste terreno. O futuro ministro da Fazenda anunciou que o governo daria uma subvenção de R$ 3 bilhões, ao longo de dois meses, aos Estados que abrissem mão da arrecadação de ICMS sobre combustíveis no período. Entre os seis Estados que não aderiram ao acordo, estão os dos presidenciáveis Tarcísio de Freitas (SP) e Ratinho Jr.(PR).

A força dos caminhoneiros, assim como aconteceu com outras políticas públicas, cresceu a partir dos subsídios para a compra de seus próprios veículos no governo Dilma Rousseff. Com isso, se autonomizaram, mas as flutuações de preço e frete passaram a incidir na sua capacidade de pagar o financiamento de seus caminhões. Em 2018, voltaram-se contra os petistas. Desta vez, o bolsonarismo dá gás ao movimento nas redes sociais, mas o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tem evitado se expor abertamente sobre o tema. Lula também. Tem que torcer para que a guerra e a tensão nas bombas de combustíveis se dissipem até o início de abril, quando seus porta-vozes, titulares da Esplanada, deixam Brasília para enfrentar a rinha eleitoral em seus Estados.

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quarta-feira, 18 de março de 2026

SE VORCARO QUISER FALAR

Elio Gaspari, O Globo

Uma delação do ex-banqueiro precisa levar a mares nunca navegados

A substituição do advogado Pierpaolo Bottini por seu colega José Luis Oliveira Lima na defesa de Daniel Vorcaro sinalizou que o dono do falecido banco Master caminha para uma delação premiada. Antes de ser preso, Vorcaro usava sua memória como arma.

Tentando falar com o ministro Fernando Haddad, ele mandou um recado curto e grosso: “Eu preciso falar para ele o que pode acontecer se algo acontecer comigo”. Haddad não o recebeu, e algo aconteceu com ele.

O instituto da delação premiada tem uma história de altos e baixos. Ela chegou ao pior momento com o ex-ministro Antonio Palocci. Ele falou em 2018 à Polícia Federal e deu tudo errado. Ela serviu apenas para o juiz Sergio Moro dar uma mãozinha ao candidato Jair Bolsonaro, que viria a nomeá-lo ministro da Justiça. Palocci atirou para todos os lados, mas nenhuma de suas pistas, ou maledicências, foi investigada direito pela Polícia Federal. Por exemplo: Palocci falou de um dinheiro líbio que havia sido mandado ao PT por meio de uma conta do marqueteiro Duda Mendonça, que vinha colaborando com as investigações. Ninguém perguntou a Mendonça se o depósito chegou a sua conta.

Lá atrás, quando Palocci anunciou sua disposição de falar, o Ministério Público sentiu o cheiro de queimado e não quis ouvi-lo. Vorcaro está numa prisão de segurança máxima, e não é preciso ser juiz para prever que ele tome uma pesada multa (coisa que a esta altura pagaria com gosto) e rale uma prisão duradoura (coisa que o levaria a cumprir a ameaça feita a Haddad).

Indo para uma delação de Vorcaro, é uma incógnita o que pode contar e provar. As relações perigosas que tinha com funcionários do Banco Central, parlamentares e magistrados são conhecidas. Algumas estão documentadas, outras não.

Falando, Vorcaro pode vir a ser uma valiosa testemunha para mostrar os mecanismos que rolam no escurinho de Brasília. Mesmo assim, o grande painel já é conhecido. Como sempre, o Tinhoso mora nos detalhes. Como eram remunerados os amigos de uma vida? Quais eram os pedidos e quais eram os oferecimentos?

Os investigadores não podem mais repetir o que o Ministério Público dos Estados Unidos fez com o financista Ivan Boesky em 1986. Espetaram-lhe um microfone na lapela, transformando-o num grampo ambulante. Mesmo assim, podem transformá-lo num colaborador por algum tempo, mostrando os caminhos das pedras. Para ficar no caso de Boesky, ele tomou uma multa de US$ 100 milhões e ralou dois anos e meio de cadeia. Michael Milken, que denunciou, pagou multa de US$ 200 milhões e indenizou suas vítimas com US$ 400 milhões, foi condenado a dez anos de prisão, acabou ralando 20 meses e mais tarde foi formalmente perdoado pelo presidente Donald Trump.

A ideia de Daniel Vorcaro prestando um ou dez depoimentos pode não levar longe. Se ele quer mesmo colaborar com a Viúva, deve mostrar que é uma testemunha útil. Até sua prisão, colaborar era apenas uma ameaça. Agora, resta-lhe o caminho de provar que se tornou um colaborador verdadeiro, soltando fios suficientes para permitir que os investigadores entrem em mares nunca dantes navegados.

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A BANCADA DA PAPUDA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Na mira de três escândalos, congressistas já podem fundar a bancada da Papuda

Ao condenar dois deputados por desvio de emendas, Supremo avisou que "haverá outros"

No Brasil, os escândalos se sucedem com tanta velocidade que às vezes o novo trambique vem à tona antes que o anterior tenha sido elucidado.

Ontem o Supremo condenou dois deputados, um ex-deputado e outras cinco pessoas por corrupção passiva. Eles foram os primeiros réus a ser julgados por desvio de emendas do orçamento secreto.

Os parlamentares são Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil, ambos do PL. De acordo com a Procuradoria-Geral da República, eles cobravam propina para destinar recursos a municípios maranhenses.

O caso foi denunciado pelo prefeito de São José de Ribamar, que procurou a Polícia Federal após ser alvo de ameaças. Além de roubar verbas da Saúde, a quadrilha atuava de forma “virulenta e violenta”, destacou a ministra Cármen Lúcia.

A farra das emendas veio a público em 2021, quando o governo de Jair Bolsonaro montou o orçamento secreto para proteger o presidente do impeachment. O Congresso nunca mais devolveria a chave do cofre. O Supremo impôs regras de transparência, mas a dinheirama controlada pelos parlamentares continuou em disparada. Em 2026, deve chegar a R$ 61 bilhões.

O tribunal optou por não cassar os mandatos de Josimar Maranhãozinho e Pastor Gil. Condenados a menos de oito anos de prisão, eles terão direito a trabalhar e cumprir pena em regime semiaberto. Devem dividir o tempo entre o Congresso e a cadeia.

Ao votar pelas condenações, o ministro Flávio Dino lembrou que o caso não foi isolado. “Este é o primeiro, mas infelizmente haverá outros”, avisou, citando a existência de “dezenas” de inquéritos e ações penais em curso. Se a previsão se confirmar, pode faltar cela para abrigar toda a bancada da Papuda.

Como os ministros gostam de dizer, o tempo da Justiça não é o tempo da imprensa. O comércio das emendas mal começou a ser julgado e já parece notícia velha. Perdeu espaço para escândalos mais recentes, como a roubalheira no INSS e os desfalques bilionários do Banco Master.

Ontem a PF deflagrou uma nova operação contra a deputada Gorete Pereira, suspeita de embolsar verbas desviadas de aposentados. A parlamentar do MDB do Ceará teve mais sorte que os colegas do PL do Maranhão. A Procuradoria pediu sua prisão, mas o ministro André Mendonça preferiu calçá-la com uma tornozeleira eletrônica.

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PARABÉNS, MARTA SUPLICY !

Hoje é dia de parabenizar a querida ex-senadora, Marta Suplicy. Marta Teresa Smith de Vasconcelos, nasceu em São Paulo, 18 de março de 1945.

Formada em psicologia, Marta apresentou vários programa na tv brasileira, se destacou em seu primeiro programa, o TV Mulher da Rede Globo na década de 80.

Ex-deputada federal - 1995 /1999 - foi prefeita de São Paulo - 2001 / 2005 - e ministra do Turismo - 2007 /2008. Em 2010 foi eleita senadora, primeira mulher a representar São Paulo no Senado.

Perseverante e determinada, Marta Suplicy representa a força da mulher na política brasileira e sua contribuição tem sido de valor imensurável para uma sociedade mais justa e igualitária.

Parabéns, Marta!

Recomendo - O blog Sou Chocolate e Não Desisto recomenda a leitura do livro de Marta Suplicy Minha vida de prefeita - o que São Paulo me ensinou.

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terça-feira, 17 de março de 2026

HABERMAS E A IMPRENSA

Merval Pereira, O Globo

Habermas definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação

Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.

No texto “O valor da notícia”, ressalta que estudo sobre fluxos de comunicação mostra que, ao menos no âmbito da comunicação política, a imprensa de qualidade desempenha papel de “liderança”. O noticiário político de rádio e TV depende dos temas e das contribuições provenientes do que chama de jornalismo “argumentativo”. Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia, dizia Habermas.

O tema, sempre central em sua obra, levou-o a escrever um último livro intitulado “Uma nova mudança estrutural da esfera pública”, em que se dedica a analisar as consequências da comunicação digital na sociedade moderna. O filósofo francês Jean Baudrillard já advertia que “a desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos”. Pois Habermas registrou que as redes geram “ruídos incessantes em bolhas de opinião autossustentáveis”, levando a esfera pública a se fragmentar sob o domínio das big techs, que têm compromisso apenas com o lucro, provocando degeneração da democracia.

Para Habermas, a legitimidade da democracia depende da comunicação entre a sociedade civil e o centro de poder, deteriorada pelos ruídos da polarização estimulada pelas redes sociais. A importância de uma imprensa livre e profissional na produção de informação confiável é essencial para o funcionamento da esfera pública e da democracia, afirmava Habermas. O conceito de degradação da esfera pública pode ser aplicado a cenários como o uso indevido de canais de comunicação por figuras públicas para misturar interesses pessoais e privados, como acesso de familiares de políticos a redes sociais oficiais, ou os casos de corrupção como acompanhamos com o Banco Master, com diversas figuras públicas envolvidas.

Frequentemente o ambiente político brasileiro é afetado por ações estratégicas (focadas apenas no poder/sucesso individual ou partidário) em detrimento de uma ação comunicativa voltada para o entendimento mútuo, conceito central na obra de Habermas, referência para defender o jornalismo profissional e a democracia contra investidas populistas ou autoritárias. O filósofo alemão revelou, em artigos, seu temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade, segundo ele, até hoje desempenhou.

A tal ponto que Habermas chegou a sugerir que os governos democráticos deveriam subsidiar os jornais “de qualidade” para garantir que se encarreguem de continuar alimentando a esfera pública para o debate das grandes questões. A proposta tinha por base a tese de que uma imprensa livre é vital para uma sociedade democrática. A ideia não foi adiante, e o próprio Habermas admitiu que a possibilidade de manipulação desse estímulo oficial poderia interferir nesse debate, o deslegitimando.

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HABERMAS E A RECONSTRUÇÃO ÉTICA DA ECONOMIA

Giovanni Beviláqua*, Correio Braziliense

Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da Vida na economia.

A partida de Jürgen Habermas, em 14 de março de 2025, aos 96 anos, não representa apenas o fim da trajetória de um dos últimos gigantes da filosofia do século XX, mas marca o momento em que sua obra deixa de ser uma promessa teórica para se tornar uma necessidade prática urgente. Em um mundo fragmentado por crises de alteridade e pela tecnocracia asfixiante, Habermas nos legou a bússola da racionalidade comunicativa, uma ferramenta indispensável para quem busca repensar a economia a partir de sua base: os pequenos negócios e o desenvolvimento territorial.

O núcleo da provocação habermasiana reside na tensão dialética entre o "Sistema" e o "Mundo da Vida". Para o pensador, o Sistema — composto pelo mercado e pelo Estado — opera sob uma lógica instrumental, centrada na eficácia, no lucro e no poder. Já o Mundo da vida é o espaço da cultura, da identidade e da solidariedade, onde a linguagem serve ao entendimento e não apenas ao resultado. O grande drama da modernidade, segundo ele, é a "colonização do mundo da vida", um processo patológico onde a frieza dos números e a burocracia tentam silenciar as relações humanas espontâneas e os valores compartilhados.

Quando transpomos essa lente para a realidade brasileira, em especial para os pequenos negócios, a potência do pensamento de Habermas torna-se clara e profundamente transformadora. Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da vida na economia. Enquanto as grandes corporações operam sob o domínio da racionalidade instrumental pura, o pequeno empreendedor sobrevive e prospera por meio do agir comunicativo. Nesses espaços, o valor não se reduz à transação financeira; ele se expande na construção de confiança, na formação de reputação e no reconhecimento mútuo. É uma economia enraizada nos territórios, onde o diálogo é o ativo mais valioso e a intersubjetividade é a base da sustentabilidade do negócio.

Essa perspectiva é revolucionária para a formulação de políticas públicas e para o desenvolvimento social. Habermas nos ensina, em sua obra monumental Direito e democracia, que a legitimidade de qualquer norma ou política depende da deliberação. No Brasil, contudo, ainda vivemos uma profunda exclusão comunicativa. A esfera pública econômica é frequentemente capturada por grandes interesses financeiros, enquanto os milhões de brasileiros que sustentam a economia real são tratados como meros destinatários de decisões tomadas em gabinetes distantes.

Uma sociedade verdadeiramente justa, inclusiva e próspera exige o que podemos chamar de justiça comunicativa. Isso significa reconhecer o pequeno empreendedor como um sujeito deliberativo legítimo. O desenvolvimento social não pode ser um pacote pronto entregue pelo Estado; ele deve ser o resultado de um consenso ético construído de baixo para cima, respeitando o capital social e simbólico de cada território. Quando falamos em acesso ao crédito, por exemplo, não estamos tratando apenas de liquidez financeira; estamos falando de autonomia. O crédito, sob a ótica habermasiana, deve ser um instrumento que fortalece o Mundo da vida, permitindo que o sujeito exerça sua capacidade de agir e transformar sua realidade, e não um mecanismo de pressão que aprofunda a colonização sistêmica.

Habermas nos instiga a pensar que a prosperidade não é um acúmulo solitário de capital, mas uma construção coletiva de sentidos e bem-estar. Uma economia plural é aquela que valoriza as muitas vozes de seus agentes e entende que o dinamismo econômico é indissociável do amadurecimento democrático. A racionalidade comunicativa nos oferece o caminho para uma gestão mais humana, onde a escuta e o entendimento mútuo superam a mera busca por resultados imediatistas e despersonalizados.

Honrar o legado de Habermas é trabalhar para que o Brasil real tenha não apenas o direito de produzir, mas o direito de falar e de ser ouvido. É acreditar que a reconstrução ética da economia brasileira passa pela valorização dos pequenos negócios como agentes de cidadania e racionalidade pública. Como ele mesmo defendia, a razão não se realiza no isolamento, mas no ruído produtivo do encontro entre iguais que buscam, por meio do diálogo, construir o mundo em que desejam viver. Que a nossa economia aprenda, finalmente, a ouvir a base que a sustenta.

*Giovanni Beviláqua — Doutor em economia pela Universidade de Brasília (UnB)

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OLHE PARA A LENTE DA VERDADE

Há exatos 17 anos morria em Brasília no Hospital Santa Lúcia, o deputado federal, Clodovil Hernandes, 71 anos. A morte cerebral foi anunciada pelo diretor do hospital, após 30 horas de ser encontrado desmaiado em sem seu apartamento, em Brasília. O texto abaixo é do Estadão de 2019, quando completou uma década sem Clodovil Hernandes.

Do Estadão

Em 17 de março de 2009, há exatamente 10 anos, morria o apresentador, estilista e deputado federal Clodovil Hernandes. Conhecido por sua personalidade forte, seus comentários ácidos e seu frequente envolvimento em polêmicas, Clodovil conquistou uma legião de fãs e outra de desafetos ao longo da carreira.

O estilista passou por quase todas as emissoras de TV aberta no Brasil, algumas das quais nem existem mais. Dono de uma personalidade forte, dificilmente conseguia se manter na mesma emissora por muito tempo - e colecionava inimigos por onde passava.

Na Globo, por exemplo, tinha desafetos com Marília Gabriela. Na RedeTV!, chegou a chamar Luisa Mell, então namorada de um diretor da emissora, de 'Rita Cadillac do futuro'. Na Band, fez críticas a Adriane Galisteu, envolvida com o patrocínio de seu programa.

"Comecei a fazer televisão com 20 anos. Fiz muito programa vespertino com a Janete Coutinho, aquelas mulheres, na Tupi. Fiz muitas vezes a Rede Record, que era o máximo à época, e tal, muitas entrevistas", afirmava Clodovil, em vida. "Saí brigado de todas as emissoras que trabalhei, mas é porque eu, burramente, defendia os interesses do proprietário", justificava.

Foi em 1977, no extinto 8 ou 800, da Globo, apresentado por Paulo Gracindo, que Clodovil teve uma de suas primeiras participações marcantes na televisão brasileira.

No programa, exibido nas noites de domingo, os participantes precisavam responder perguntas sobre um tema ou personalidade em busca do prêmio máximo de 800 mil cruzeiros. Clodovil escolheu Dona Beija, figura brasileira do século 19. E saiu vitorioso.

TV Mulher com Marília Gabriela (Globo)

Desde a estreia do TV Mulher, em 1980, até o ano de 1982, Clodovil possuía um quadro no programa em que dava dicas de estilo, desenhava modelitos e entrevistava nomes conhecidos do mundo da moda.

Posteriormente, ele passou também a ler cartas de telespectadoras para aconselhá-las sobre quais roupas usar em determinadas ocasiões.

O primeiro programa solo de Clodovil (Band)

Em 21 de março de 1983, às 21h, foi ao ar o primeiro programa solo de Clodovil, levando seu nome, na Bandeirantes.

"O público exigiu minha volta. Foram nove meses de conversação, até que eu me decidisse a fazer o programa, cuja proposta é levar ao público uma coisa bem brasileira", afirmava o apresentador, que estava longe das telas havia quase um ano.

No programa, Clodovil cantava, dançava e conversava com diversas personalidades sobre os mais variados temas.

Rede Manchete e a polêmica com Ulysses Guimarães

Em 23 de janeiro de 1984, Clodovil estreou na Rede Manchete, emissora que havia sido fundada há menos de um ano. Seu primeiro trabalho no canal foi participando do Manchete Shopping Show, divulgado como "um programa de atualidades, serviços e informação dirigido à mulher moderna [...]Um encontro diário com colunistas, gente famosa e convidados especiais".

Em 1985, apresentou o De Mulher para Mulher, exibido nas tardes da emissora. No ano seguinte, veio Clô Para Os Íntimos, investindo no formato ao qual já estava acostumado.

No programa, o apresentador conseguiu a presença de inúmeras personalidades da época, como Fernanda Montenegro, Myrian Rios, Luiz Carlos Barreto, Augusto Boal, Malcolm Roberts e Elizeth Cardoso.

Em 1988, porém, uma indisposição com o então presidente da Assembleia Nacional Constituinte realizada no Brasil, Ulysses Guimarães, custou seu cargo na emissora.

"Quando falei naquela época na televisão: 'Escuta aqui, isso é uma constituinte ou uma prostituinte?', o Ulysses Guimarães ligou pra Manchete e disse assim: "Tire esse viado filho de uma p*** do ar hoje!", relembrou Clodovil anos depois.

Retorno à Manchete

Em junho de 1992, Clodovil foi chamado para um retorno à Manchete. Pouco depois, em 13 de julho, estreou o Clodovil Abre O Jogo.

Com o bordão "Olhe para a tela da verdade e me diz", o programa era vendido bem ao estilo do apresentador: "Talk-show é talk-show. Mas sob o comando de Clodovil, é algo mais. É jogo aberto. Nada de meias palavras. Muito sincero e sempre surpreendente, o que Clodovil diz para as lentes faz da sua TV uma tela da verdade".

"Vocês querem que eu ponha o dedo nas feridas, mas não estou gostando muito desse papo de mandar abrir o jogo. Lavar roupa suja no meu programa? Vai virar O Povo na TV, é?", questionava à sua equipe durante as primeiras gravações.
A atração contava também com o pianista Ronaldo Pelicano, chamado de "Paixão" por Clodovil. Ele, porém, não gostava muito do apelido: "Não que eu ache chato, mas isso precisa ser reconversado, porque não quero ser apenas o 'Paixão do Clodovil'".

Com o programa gravado, Clodovil não escondia seu desapontamento com o fato: "Eu preferia que fosse ao vivo. Imagine se na vida real a gente para de repente para arrumar a luz?"

No primeiro semestre de 1993, Clodovil deixou novamente a emissora, e não poupou críticas. "Pior do que eu estava na Manchete? Cortaram os telefones por falta de pagamento, cheguei a fazer programa sem plateia porque não havia dinheiro para pagar os ônibus que traziam o público e nem o lanche".

A saída de Clodovil se deu em meio a uma disputa judicial sobre o canal, na qual a gestão de Hamilton de Lucas de Oliveira foi obrigada a devolver a emissora para Adolfo Bloch. Clodovil reclamava uma dívida de 115 mil dólares, à época.

"Que mal fiz para o pessoal da Manchete para eles me tratarem assim? [...] É o segundo calote que levo. No primeiro, me puseram na rua sem nada. E depois estamparam na capa da [revista] Amiga que eu estava com aids. Eles usam a desgraça para ganhar dinheiro".

Clodovil Abre o Jogo na Rede OM / CNT

Em 23 de maio de 1993, Clodovil estreou na Rede OM, que pouco depois passaria a se chamar CNT (Central Nacional de Televisão), rede que chegou a contar com o locutor Galvão Bueno em sua equipe de contratados naquela época.

O nome de seu programa continuou como Clodovil Abre o Jogo. Além disso, também passou a apresentar um programa semanal, o Em Noite de Gala.

Clodovil afirmava que, mesmo com "várias" propostas de SBT, Record e Bandeirantes, havia optado pela emissora por conta do pedido de uma antiga cliente sua, a mãe de José Carlos Martinez, dono da rede - além, é claro, de uma proposta financeira mais vantajosa. "A emissora é pequena porque não tem grandes estrelas", dizia.

Em janeiro de 1994, enquanto fazia uma viagem a Paris, a emissora trocou toda a equipe de produção de seu programa. Em novembro daquele mesmo ano, chegou ao fim o contrato de Clodovil na CNT. A emissora entrou com uma ação pedindo rescisão por justa causa por "desrespeito à hierarquia e sucessivos desentendimentos com a casa".

"Ele gerou tanta confusão que acabou tornando insustentável a sua permanência. Chegava tarde para as gravações e não era raro vê-lo destratar técnicos ou mesmo convidados", afirmava José Carlos Martinez à época.

O ponto final foi uma entrevista com Adriane Galisteu. Nela, Clodovil questionou se Ayrton Senna, que havia sido seu namorado até a sua morte, meses antes, seria gay. "A ofensa a um ídolo nacional não podia ser tolerada", justificava Martinez.

Clodovil, por sua vez, alegava que a demissão era uma retaliação contra suas reclamações por salários atrasados, estimados entre mais de R$ 100 mil, incluindo cachês publicitários. O apresentador chegou a dar uma entrevista ao jornal O Globo criticando a direção da emissora cerca de três semanas antes de ser despedido. "Nunca deixamos de pagar religiosamente o salário de R$ 40 mil", garantia Martinez.

Clodovil com Bala na Agulha na Rede Mulher
Em agosto de 1995, Clodovil foi contratado pela Rede Mulher para apresentar o Clodovil com Bala na Agulha, com formato elaborado por Eduardo Sidney, ex-redator da Escolinha do Professor Raimundo.

A expectativa dos diretores da rede, à época, um canal acessível apenas para quem tivesse TV a cabo ou antena parabólica, o que reduzia bastante o alcance de seus programas, era que o nome de Clodovil impulsionasse a audiência. "O fato de poucos assistirem não me impede de manter a qualidade", afirmava.

No programa, Clodovil fazia entrevistas e falava sobre moda e temas polêmicos. Seus atritos com o canal começaram antes mesmo de sua contratação. O então superintendente da Rede Mulher, Percival Palesel, chegou a anunciar sua estreia. Clodovil, porém, negava a existência de um contrato: "Por enquanto é tudo conversa. Sou um produto caro".

Clodovil conseguia levar seus programas a conquistar até três pontos de audiência na contagem da época, o que era significativo, uma vez que a emissora estava acostumada ao 'traço'.

Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.

"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.

Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.

Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.

Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".

A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.

Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.

O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.

"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.

Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.

Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.

Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".

Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.

"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.

Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.

Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.

Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".

A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.

Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.

O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.

"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.

Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.

Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.

Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".

O programa contava com a presença da personagem Mamãe Mídia (Lourdes Rosa), sua 'secretária', além de um ajudante de palco e um bizarro fantoche de uma câmera de vídeo afeminada chamada Pink Pintosa - talvez uma tentativa de entrar no embalo do sucesso de Louro José, de Ana Maria Braga, e de Xaropinho, do Ratinho.

orém, em novembro, o clima mudou. Ao receber Roberto Justus, então noivo de Adriane Galisteu, Clodovil sugeriu que ela "iria cair de paraquedas nas joias da futura sogra". O detalhe é que uma sopa vendida por Galisteu era a principal patrocinadora do programa.
A Band alegou que Clodovil foi "ofensivo a um patrocinador" e encerrou a atração. Clodovil, à época, afirmava que a Band se recusava a pagar os custos de sua demissão e ameaçou levar o caso à Justiça.

Volta à Rede Mulher e briga com Edir Macedo
Em 1999, o apresentador retornou à Rede Mulher à frente do Clodovil. A ideia era recriar um clima inspirado na praia de Ubatuba, onde morava, semelhante à Ilha da Fantasia (seriado da década de 1960).

"A primeira coisa que pergunto é se a entrevista é com você ou sobre você. Receberei todo tipo de pessoa", planejava o apresentador, que garantia que deixaria seus convidados à vontade.

Para fechar os programas, o jargão: "Fale qualquer coisa que sempre teve vontade, mas nunca teve coragem."

O Clodovil, que ia ao ar diariamente às 21h50, estreou em 22 de março daquele ano, mas durou menos de um mês. Em 15 abril, a emissora foi adquirida pela Rede Família, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, que também é proprietário da Record TV.

Os novos donos pareceram não ter gostado muito da imagem de Clodovil ligada ao canal, o que gerou desavenças. Em 19 de abril, o apresentador foi demitido. "Edir Macedo me processou por difamação, mas ganhei. Ele recorreu e vou ganhar de novo, a não ser que o processo caia nas mãos de um juiz comprado. Quero mandar um recado para esse senhor", criticava Clodovil em entrevista a Luciana Gimenez na RedeTV! em setembro de 2002.

"Sr. Edir Macedo, vou responder pela minha vida diante de Deus e o senhor também. Eu só quero ver como o senhor vai se comportar por ter vendido o nome de Deus em benefício próprio. Nem que passasse fome trabalharia na Record. Minha forma de encarar Deus é diferente da deles. Não tenho uma misericórdia fingida. Vender religião com uma proposta comercial por trás, em nome de Deus, é o que eles fazem", criticava, de forma incisiva.

Anos depois, Clodovil falou sobre sua saída da emissora em entrevista a Xuxa Meneghel: "Fui mandado embora da Rede Mulher porque a Igreja Universal comprou a emissora, achou que eu não era conveniente pro comportamento da igreja e me mandou embora no mesmo dia. Mas, claro, mostrou todos os programas que estavam gravados, né? Porque aí era questão de dinheiro e isso é uma outra história..."

Gravação de piloto no SBT
Pouco depois, em maio de 1999, Clodovil chegou a gravar o piloto de um programa no SBT. A emissora pretendia criar o TeleShow, semelhante ao Vídeo Show, da Globo, mostrando os bastidores da casa com apresentação de Márcia Golschmidt, Otávio Mesquita, Marcelo Augusto e Sonia Abrão. A ideia, porém, não foi para a frente.

"O quadro do Clodovil será um dos principais. Ele já pensou em alguns sofás vermelhos para cenário, onde vai fazer suas entrevistas", afirmou Sonia Abrão ao Estado, à época.

Segundo a Folha, ele teria exigido um camarim separado dos outros apresentadores durante uma gravação.

Em 2001, Clodovil esteve entre os principais nomes pedidos pelo público para participar da 2ª edição da Casa dos Artistas no SBT, mas não chegou a participar do reality.

'Passeio' pela Globo

Em entrevista ao Estado, em 2003, Clodovil falou sobre a emissora: "A grande verdade é que todo artista quer trabalhar na Globo. Pensei bem e concluí que o meu talento é meu título de nobreza e eu sou eu em qualquer lugar."

Anos antes, em agosto de 1999, Clodovil deu um "passeio" pela rede Globo e participou de diversos programas da casa, apesar de não ter sido contratado. Para o Zorra Total, gravou o quadro Rosto a Rosto, exibido em 14 de agosto, no qual era entrevistado por Alberto Roberto, clássico personagem de Chico Anysio. Ele ainda participou do quadro Fernandinho e Ofélia, estrelado por Lucio Mauro e Cláudia Rodrigues, que foi ao ar em 4 de setembro.

Não foi a primeira vez que Chico e Clô se encontraram na TV. Onze anos antes, em 1988,  ele participou de esquetes do Chico Anysio Show, quando foi 'entrevistado' pela personagem Neide Taubaté.

No Domingão do Faustão que foi ao ar em 8 de agosto, conversou ao vivo com o apresentador durante quase uma hora.

Segundo a edição da Istoé Gente de 21 de fevereiro de 2000, os dois apresentadores eram amigos. "Há um ano, ele [Faustão] soube que Clodovil enfrentava uma fase financeira difícil e não hesitou. Mandou imediatamente um buquê de flores ao estilista, algumas notas graúdas presas por um grampo de ouro, que, somadas, chegavam a R$ 40 mil, e um cartão escrito à mão: 'Não é dinheiro. É um presente de um amigo.'"

Anos depois, Clodovil ainda fez uma participação na novela O Clone, exibida entre 2001 e 2002, em que aparecia com seu cachorrinho no colo durante a inauguração de uma boate na trama.

Frente e Verso: mais um retorno de Clodovil à CNT
Em março de 2000, a CNT / Gazeta pretendia contar com o apresentador, conforme afirmava Silvio Alimari, criador do programa Mulheres e superintendente-geral da Gazeta: "Queremos o Clodovil conosco. As negociações com ele estão bastante adiantadas."

No mesmo ano, Clodovil ainda chegou a apresentar um prêmio ao lado de Max Fivelinha no VMB da MTV.

A expectativa era de que seu programa estreasse ainda em dezembro, mas foi adiado para janeiro de 2001, quando foi ao ar o Frente e Verso, exibidos às terças e quartas-feiras, às 22h. A convidada de seu primeiro programa foi Vera Loyola com sua cadela, Pepezinha.

Questionado se sentia falta de estar em uma grande emissora, Clodovil era contraditório: "Não tenho saudade de nada. Para que serve estar em uma emissora com uma audiência enorme se ninguém está interessado no que eu estou dizendo? É claro que eu queria estar em uma emissora maior. Mas não me chamam. Outro dia fui ao Domingão do Faustão e dei um ibope de mais de 40 pontos. Ainda assim, ninguém me chamou para voltar", complementava.

Mulheres

Em 1º de maio de 2001, Clodovil passou a apresentar o Mulheres, da TV Gazeta, ao lado de Cristina Rocha, com quem apresentou o programa até fevereiro de 2002. No início de setembro de 2002, foi demitido da emissora, que, à ocasião, dispensou mais da metade de seus artistas.

Dias depois, Clodovil foi cotado para apresentar o Bom Dia Mulher na RedeTV!. Porém, antes de a possibilidade se concretizar, participou do Falando Francamente e, em entrevista a Sonia Abrão, insinuou que não queria dividir a apresentação do programa com Solange Frazão e Solange Couto.

Irritada com as declarações, a direção da RedeTV! encerrou as negociações, que já contava até com um pré-contrato assinado com o apresentador. Elas foram retomadas posteriormente, e, um ano depois, as coisas foram diferentes.

A Casa É Sua e a chegada de Ofrásia

Cerca de um ano depois, em novembro de 2003, o apresentador fechou contrato com o canal, substituindo Leonor Corrêa, irmã de Faustão, no A Casa É Sua. "O público está cansado daquela porcaria que se tornou a TV à tarde. A programação vespertina estava cheirando mal, só explorando a violência, crimes, escândalos. Não venham me dizer que os programas mostram a realidade. Toda casa tem esgoto e privada, mas também tem sala, dormitório, living e jardim. Mas o que a gente enfatiza é o esgoto. É gente que não vê a beleza, por isso que as pessoas aceitaram bem meu programa", afirmava à época.

Entre os quadros do programa estavam o Hora das Flores, em que oferecia um arranjo de flores a uma personalidade, o Moda & Estilo, o Fuxico na Cozinha e o De Frente com o Espelho. Foi no A Casa É Sua que Clodovil passou a conviver com sua fiel escudeira Ofrásia (Vida Vlatt).

Em seus primeiros momentos no canal, o apresentador continuava ferino, como sempre. "É um entra e sai nesse estúdio, parece a Rua Direita" e "Gente, eles fazem cara de retardado, é a APAE aqui?" foram algumas das frases ditas por ele durante as gravações.

"Me perguntaram se eu já não tinha loucos demais na emissora. O que eu espero é que o Clodovil lute por audiência. Admitiremos qualquer posicionamento dele, desde que ele demonstre garra ao trabalho", afirmava o então vice-presidente da RedeTV!, Marcelo Carvalho.

Na RedeTV!, Clodovil ficou marcado por uma briga com os integrantes do programa Pânico, por quem se dizia perseguido.

Em 29 de março de 2004, outro fato inusitado: após se atrapalhar com uma tesoura e fazer um corte profundo em seu dedo durante o programa ao vivo, Clodovil sumiu de cena durante uma hora para ir até um hospital, levar três pontos e, em seguida, retornar elegantemente ao ar.

Em 14 de janeiro de 2005, Clodovil foi demitido por meio de um fax enviado pela direção da emissora. Desta vez, ele havia chamado a apresentadora Luisa Mell, à época namorada de Amilcare Dallevo Jr., presidente da emissora, de "Rita Cadillac do futuro".

À época, o comentário não chegou a ir ao ar, já que seu programa era pré-gravado.

Em 2008, Clodovil disse ter saudades do período que passou na emissora: "Foi quase um ano de alegria. Eu ia com alegria pra televisão, uma vontade de chegar logo na emissora. Fui posto pra fora de lá por uma amante de uma das pessoas de lá, fazer o quê?"

Por Excelência, o último programa de Clodovil

Em 2007, já como deputado federal, Clodovil apresentou seu último programa na TV, o Por Excelência.

Após sofrer um AVC, porém, acabou se afastando das gravações e teve seu contrato rescindido pela emissora, "tendo em vista o período em que o apresentador absteve-se de gravar o programa".

"Seu impedimento permanente, por mais de um mês e meio, causado pela enfermidade a qual foi acometido, importou na rescisão contratual", informou comunicado divulgado pela TVJB, à época.

As imitações de Clodovil na TV

Por conta de sua personalidade forte, era comum ver humoristas imitando o jeito de Clodovil. Durante sua participação no Domingão do Faustão, em 1999, o apresentador falou sobre o tema. "Primeiro, pra ser imitado, é preciso que a gente exista. Um Zé Mané qualquer por aí não será imitado, ninguém nem sabe que ele existe. Me sinto reverenciado toda vez que os artistas me imitam, ou melhor, tentam me imitar".

E prosseguiu: "Toda pessoa que faz uma caricatura, faz com tintas fortes. É preciso que seja assim, porque, se não, não tem graça. Se fosse idêntico... Mas queria que vocês soubessem que tenho um lema de vida: exijo que as pessoas riam comigo, mas que não riam de mim."

Porém, nem sempre tudo foram flores. Clodovil já teve divergências com humoristas que o imitavam ao longo da vida, como Wellington Muniz, o Ceará, do Pânico, e Agildo Ribeiro, que criou o personagem Clô Clô em Planeta dos Homens.

Clodovil chegou a entrar na Justiça após Agildo aparecer interpretando o personagem em um comercial de TV, em novembro de 1981. No ano seguinte, em 23 de maio, o Fantástico promoveu um encontro para fazer as pazes entre os dois.

"Não me dou com o personagem, a caricatura do Clodovil, que é uma coisa bem triste, né? Mas me dou com o Agildo. Engraçado é você, o outro [imitação] é triste", afirmou o estilista ao comediante, à época.

Diversos outros nomes também chegaram a imitar Clodovil na TV, como Tom Cavalcante, Zé Américo, Pedro Manso e Diego Varejon.

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A SEDUÇÃO DE VORCARO

Artigo de Fernando Gabeira

Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida do qual não poderiam mais se afastar

A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.

Volto a essa festa de que participaram Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, entre outros, para reafirmar uma intuição que já expressei em livro e debates pelo Brasil. No meu entender, a política brasileira se degradou no momento em que dependeu de caras campanhas pela televisão. Até então, os eleitores financiavam os candidatos com sorteios, festas onde se cobrava um pouco mais pela caipirinha. Essa forma mais ingênua foi superada quando se precisou de muito dinheiro para pagar marqueteiros e suas superproduções televisivas.

O convívio com empresários que mantinham negócios com o governo ou gostariam de ter passou a ser um dado da realidade. Para vencer, era importante ter dinheiro, e muito, e a relação com os eleitores foi relativizada. Políticos que eram funcionários públicos com salário apenas digno para alguém da classe média começaram a emular seus interlocutores milionários. O caso mais típico foi Sérgio Cabral, com origem modesta, mas que, de repente, passou a debater a qualidade dos mais caros restaurantes europeus e desejou abertamente um helicóptero igual ao de Eike Batista, bilionário na época.

Creio que Vorcaro intuitivamente compreendeu isso. Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida de que não poderiam mais se afastar. Toffoli, com seu resort, já estava ganho para essa nova vida. Moraes, com o contrato milionário da mulher com o Master, mansão cara e viagens a Dubai, também já tinha acesso às altas esferas de consumo. Hugo Motta certamente avança de bom grado para esse mundo.

No entanto o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, são apenas funcionários públicos. Eram os mais vulneráveis a esse mundo fantástico de uísque e charuto caríssimos, clubes luxuosos. Certamente,Vocaro contava agradar seus amigos milionários e seduzir aqueles que viviam numa esfera mais próxima das pessoas comuns.

É muito difícil o antídoto para esse tipo de sedução, excluída, é claro, a vigilância sobre a evolução da riqueza. No entanto há certas ironias nisso tudo. Vorcaro alugou o Hotel Four Seasons em Taormina, na Sicília, para dar uma festa milionária. Antes dele, o mesmo hotel foi cenário de uma série de TV chamada “The white lotus”. O tema da série era exatamente o vazio e o tédio da vida das grandes fortunas que transitavam por ali.

Mas não podemos contar com essa verdade profunda. Ficar muito rico ainda é um sonho majoritário, muito mais sedutor que servir humildemente ao país. Daí a força dos Vorcaros da vida.

Artigo publicado no jornal O Globo em 17 / 03 / 2026

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MORRE BEITA PEREIRA

Danilo Casaletti, O Estado de S.Paulo

Morre mãe de Ney Matogrosso, dona Beita, aos 103 anos

Causa da morte não foi divulgada. O cantor avisou que alguns shows podem ser cancelados nos próximos dias

A mãe do cantor Ney Matogrosso, dona Beita, morreu nesta terça-feira, 17, aos 103 anos. A informação foi confirmada pelo perfil oficial do cantor nas redes sociais. A causa da morte não foi divulgada.

“Nos últimos meses, o corpo já mostrava o cansaço da caminhada...e hoje, ela descansou”, diz a a postagem. “Que seu descanso seja leve e que o coração encontre a serenidade nesse adeus”, diz outro trecho do texto.

Beita de Souza Pereira morava com Ney no apartamento do cantor no Leblon, na zona sul do Rio de Janeiro. Em declarações recentes, Ney afirmou que, por vezes, a mãe já não o reconhecia mais. Ele também contou que até os 100 anos a matriarca o ajudava a cuidar de seu sítio em Saquarema, no interior do Rio.

Estadão apurou que dona Beita, apesar da idade, não apresentava problemas graves de saúde, mas que, devido a quedas de pressão, nos últimos tempos, precisou de atendimento médico.

Em junho de 2024, quando Dona Beita completou 102 anos, Ney postou uma foto da mãe em seu perfil no Instagram e escreveu na legenda: “Minha mãe com 102!!!”.

Tanto no livro Ney Matogrosso: A Biografia, do jornalista Julio Maria, quanto no filme Homem com H, de Esmir Filho, Beita é retratada como uma mulher forte, que sempre apoiou o filho.

Com o pai, o militar Antônio Matogrosso Pereira, no entanto, o cantor teve uma relação difícil, sobretudo na infância e na adolescência.

A mensagem postada no perfil oficial de Ney avisa que algumas apresentações podem ser canceladas. Na agenda do cantor, o próximo show está marcado para o dia 21 de março, em Juiz de Fora, Minas Gerais. Há ainda datas para abril no Paraná e Rio Grande do Sul.

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segunda-feira, 16 de março de 2026

AMOR, LUTA E LUTO - NO TEMPO DA DITADURA

Maria do Socorro Diógenes, Ateliê Editorial

Amor, Luta e Luto tem por objetivo mostrar um recorte do período da ditadura civil-militar de 1964 a 1985, principalmente durante a fase mais violenta, a fase das prisões, das torturas, dos assassinatos e dos desaparecimentos dos opositores.

Denuncia o brutal assassinato de Ramires Maranhão do Valle, ex-companheiro da autora, um jovem pernambucano morto aos 23 anos, no Rio de Janeiro em 1973.

Tomamos conhecimento de como eram as ações dos grupos revolucionários de oposição à ditadura, além de mostrar a difícil vida dos militantes na clandestinidade.

A autora nos conta sua própria experiência em uma prisão no Recife, denunciando os horrores das torturas sofridas juntamente com os companheiros de luta.

De leitura envolvente, com vocabulário simples e tocante ao mesmo tempo, a obra narra a experiência dolorosa de vida, a entrega total da autora ao ideal de liberdade e justiça.

Capa: Juliana de Araújo

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domingo, 15 de março de 2026

DIREITA PODE GANHAR ELEIÇÃO POR TER QUEBRADO UM BANCO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Quando Toffoli ou Moraes protegem Vorcaro, quem escapa da cadeia é a direita brasileira

STF só chegou no final do escândalo

Do jeito que as coisas vão, há boas chances de a direita brasileira ganhar a Presidência como recompensa por ter quebrado um banco.

Ah, dirá o leitor, tem gente de esquerda enrolada no Master. Bom, tinha muito mais gente de direita no petrolão do que tem gente de esquerda no Banco Master. É um escândalo de Faria Lima e igreja evangélica, dois ambientes com poucos esquerdistas.

Dos 18 entes federativos (estados e municípios) que aplicaram dinheiro de aposentados no Banco Master, 17 eram governados pela direita. Vamos colocar aí a turma do PT da Bahia, que tinha um esquema com um sócio do Vorcaro? Ok, 18 a 2. Entre esses, quem, por larga margem, colocou mais dinheiro de aposentados no Master? Cláudio Castro, direita, R$ 1 bilhão.

Quem deu um rombo estimado entre R$ 8 bi e R$ 15 bilhões no Banco de Brasília para tentar salvar o Master? Ibaneis Rocha, direita. Quem tentou quadriplicar a cobertura do FGC, isto é, destruir nosso sistema financeiro, para salvar o Master? Ciro Nogueira (Emenda 11 à PEC 65/2023), direita, e Filipe Barros (PL 4395/2024), direita.

Em setembro de 2025, enquanto o Banco Central decidia o futuro do Master, que partidos assinaram o pedido de urgência (Req. 3651/2025) para um projeto antigo (PLP 39/21) que permitia ao Congresso derrubar diretores do Banco Central? PP, direita, PL, direita, Republicanos, direita, União Brasil, direita, MDB, vá lá, centro, e, ok, o PSB de esquerda. Quem assinou nota de apoio a Toffoli quando ele deixou a relatoria do Master? PP, direita, e União Brasil, direita.

Os políticos apoiados pela Igreja da Lagoinha, enfiada até o pescoço no escândalo Master, eram de que lado? Direita, incluído aí Nikolas Ferreira, direita. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, dividia suas doações de campanha igualmente entre direita e esquerda, como fazia, por exemplo, o cartel das empreiteiras? Não: Zettel é o maior doador individual das campanhas de Tarcísio de Freitas, direita, e Jair Bolsonaro, direita.

Na esquerda temos, além do já citado PT da Bahia: Guido Mantega, atuando desavergonhadamente como lobista, organizou uma reunião de Vorcaro com Lula e Galípolo. Não há registro de nada que Lula tenha feito por Vorcaro, antes ou depois da reunião. Galípolo foi o presidente do Banco Central que liquidou o Master. Ricardo Lewandowski tinha um contrato de advocacia com Vorcaro que passou para seu filho quando virou ministro da Justiça de Lula, o que é imoral. De qualquer maneira, a Polícia Federal, sob comando de Lewandowski, prendeu Vorcaro.

A conta pode ser revisada à luz de novas informações, mas, até aqui, há muito mais gente de direita do que de esquerda envolvida no caso Master. Se ponderarmos os casos pelo que cada indivíduo de fato fez pelo Master, seja roubando com ele, seja tentando impedir que ele fosse liquidado, seja tentando salvá-lo com dinheiro público, o padrão é mais claro ainda.

Por que isso é importante?

A atuação do STF no caso Master foi desastrosa, mas o tribunal só chegou no escândalo no final. Quem estava lá desde o início eram os direitistas. Que já crescem nas pesquisas porque o público não foi informado de que, quando Toffoli ou Moraes protegem Vorcaro, quem escapa da cadeia é a direita brasileira.

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