É o primeiro áudio conhecido de alguma autoridade cobrando
dinheiro diretamente de Vorcaro. O diálogo chegou como um tsunami à campanha do
pré-candidato do PL ao
Palácio do Planalto, balançou a República e caiu como uma bomba no mercado
financeiro.
O filho 01 do ex-presidente Jair
Bolsonaro cobra dinheiro do dono do Master, o brasileiro mais tóxico
do momento, de quem todos os políticos querem ficar a léguas de distância, para
pagar um filme que conta a história do pai.
É uma quantia astronômica. Vorcaro pagou R$
61 milhões para financiar o filme
"Dark Horse", e Flávio pediu mais. O total negociado chegou a R$
134 milhões, valor superior aos R$ 129 milhões do contrato de três anos firmado
pelo Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci de Moraes, mulher do
ministro do STFAlexandre
de Moraes.
É preço de produção cinematográfica digna de Hollywood.
Difícil imaginar que algum filme tenha custado tanto na história do cinema
nacional. Um crítico de cinema resumiu o quadro: nem que o Bolsonaro fosse todo
criado digitalmente, chegaria a um terço disso.
O filme "Ainda
Estou Aqui", tão criticado pelo bolsonarismo e que rendeu um Oscar, custou R$
45 milhões, de acordo com estimativas do setor.
O valor do negócio acertado chama atenção, levanta suspeitas
sobre lavagem de dinheiro para o financiamento de campanha e exige explicações
de Flávio Bolsonaro sobre o real destino dos recursos.
A resposta do senador, de que foi uma relação privada, e o
apelo a chavões do Bolsonarismo, como o uso da Lei Rouanet, não convenceu:
"Zero de dinheiro público. Zero de Lei Rouanet".
Pelo visto, Flávio prefere receber recursos de um banqueiro
acusado de crimes do que um incentivo tributário previsto numa lei em vigor.
Flávio Bolsonaro disse que não responde pelas pessoas com
quem tem proximidade
Por coincidência, todas essas pessoas tiveram problemas
com a lei envolvendo o seu nome
Um dos efeitos imediatos da Revolução
dos Cravos, que, em 1974, derrubou a ditadura que sepultava Portugal há 48
anos, foi a extinção da Pide (Polícia Internacional de Defesa do Estado), sua
odiosa polícia política infiltrada em todo o país. Eu trabalhava em Lisboa na
época e, como jornalista estrangeiro, devia estar na mira dos pides, como eram
chamados os agentes. Caído o regime, logo começou a caça a eles e a seus
informantes.
O novo governo instituiu uma recompensa a quem ajudasse a
pegá-los: 100 escudos por cabeça (o escudo era a moeda nacional, ainda não
existia o euro). O resultado é que as denúncias pulularam, a ponto de a Justiça
ter de adotar uma prática severa: "Se denuncias um pide, ganhas 100
escudos. Se denuncias dois pides, ganhas 200 escudos. Se denuncias três pides,
vais preso por conheceres pides demais." Ou seja, as pessoas respondem,
sim, por aqueles com quem têm proximidade.
O senador Flávio
Bolsonaro, pré-candidato à Presidência e já prevendo ser associado a
bandidos de todo tipo em sua carreira política, declarou "não poder
responder por quem tem proximidade com ele". Se os ditos bandidos fossem
apenas Fabrício
Queiroz, seu ex-chefe de gabinete e do esquema de arrecadação de
"rachadinhas", e o executado Adriano
Magalhães da Nóbrega, da milícia Escritório do Crime e a quem condecorou na
prisão, ele poderia tirar o corpo fora alegando ter sido "traído".
Mas os citados eram apenas os cabeças de núcleos envolvendo dezenas de
acusados, todos a seu serviço ou a de seu pai, patrono do complô.
Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados,
criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato
de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato
de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
Esses núcleos incluem assessores, policiais, advogados,
criminosos comuns e suas ex-esposas, mães e filhas, todos processados. O fato
de esses processos terem sido anulados por mutretas judiciais não apaga o fato
de que Flávio Bolsonaro conhece acusados demais.
Voa em jato de bet até paraíso fiscal e volta com mala
cheia por fora do raio-X
Vende aposentados de seu Estado em troca de relações
carnais com Banco Master
"O senhor sabe: centrão é onde manda quem é forte, com
as astúcias."
O centrão se transmutou. Funcionava como bloco invertebrado
da governabilidade num contrato de coalizão com o Poder Executivo, assumiu
papel de controlador do orçamento e de pulverização do dinheiro público. Em
2026, só quer manter esse controle, pouco importa quem se eleja. Nem que para
isso ameace
impeachment de ministro do STF e de presidente da República.
"Centrão é onde homem tem de ter a dura nuca e mão
quadrada."
Tornaram a separação de poderes
presidencialista numa espécie de parlamentarismo orçamentário extorsivo.
Inventaram voto censitário invertido em que a cidadania tem dificuldade de
eleger alguém que não capture dinheiro estatal. E não pagam, nem juridicamente,
nem eleitoralmente, pela perversão democrática.
"Centrão é isto: o senhor empurra para trás, mas de
repente ele volta a rodear o senhor dos lados."
Essa arquitetura foi desenhada para ser opaca e driblar o
fiscal. A hidráulica financeira irriga bases para garantir reeleição, em
prejuízo de políticas públicas universais. Tiram dinheiro e capacidade de
planejamento da saúde e da educação para comprar tratores e financiar ONGs de
aliados, instrumentos disfarçados de financiamento de campanha. Pois o fundo
eleitoral já não basta.
"Mas só se sai do centrão é tomando conta dele a
dentro."
As tentativas frustradas de o STF controlar a desordem, que
começaram sob a liderança de Rosa Weber, têm exposto as engenhosas formas de
desobediência parlamentar a decisões judiciais. Desobediência disfarçada em
jargão tecnocrático. É onde o STF reconhece sua fraqueza, onde late sem poder
morder.
"Centrão é isto, o senhor sabe: tudo incerto, tudo
certo. Tudo aqui é perdido, tudo aqui é achado. O centrão é uma espera enorme.
O centrão está em toda a parte."
Parlamentares se tornaram gestores de políticas públicas
paroquiais. A travessia do dinheiro começa na arrecadação de imposto e termina
na prefeitura aliada. O caminho entre origem e destino é uma vereda nublada,
impossível de rastrear e fiscalizar.
"O real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe
para a gente é no meio da travessia."
Seu localismo não tem nada a ver com a competência municipal
de promover o "interesse local", segundo o artigo 30 da Constituição.
O interesse é reeleitoral. O centrão nunca abraçou o projeto constitucional de
promoção de direitos e igualdade.
Em vez de mudar a Constituição, concentra esforços em
parasitar financiamento do Estado. Porque direitos e igualdade dependem de
orçamento. Se o centrão o captura, a promessa constitucional se esgota como
promessa. É estratégico deixá-la no papel, pelo menos alimenta a esperança.
"Centrão é quando menos se espera. Centrão é dentro da
gente." Já antecipava Guimarães Rosa, 70 anos atrás.
*Professor de direito constitucional da USP, é doutor em
direito e ciência política e membro do Observatório Pesquisa, Ciência e
Liberdade - SBPC
Ex-dono do Master sumiu com recursos de seus credores e
faz país pagar essa conta
Candidato em longa história de escândalos, mas ainda
assim tem cerca de 40% dos votos
Flávio
Bolsonaro é muito família. De família de golpista e de simpatizantes
do golpe. É muito amigo. Muito amigo do dinheiro vivo, da boca do caixa à
compra de casa grande. Foi amigo de uma família de milícias e de um pistoleiro.
Ainda assim, tem
perto de 40% nas pesquisas sobre a disputa da Presidência da
República.
Sabe-se agora que Flávio Bolsonaro é um dos tantos amigões
de Daniel
Vorcaro, chefe de máfia que era proprietária de banco, o Master. É
"irmão", parceiro eterno de papo reto: "Irmão, estou e estarei
contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma
luz! Abs!", escreveu
para Vorcaro quando pedinchava dinheiro, informação revelada pelo site
Intercept Brasil e confirmada em parte por este jornalista. Flávio Bolsonaro,
que escondeu a amizade, diz que não havia rolo. O silêncio vale ouro.
Ao menos pelo que se sabia até a noite
desta quarta (13), Flávio cobrava o dinheiro acertado com Vorcaro para
financiar uma hagiografia filmada de Jair
Bolsonaro. A proximidade com esse bom companheiro, "irmão", vai
pegar mal, enfim? Amizade com pistoleiro, golpista, miliciano etc., até agora
não causou aversão a boa parte da elite brasileira e a 40% do eleitorado.
É verdade que a campanha propriamente dita não começou.
Talvez então se refrescasse a memória de parte do povo. De qualquer modo, é
preciso lembrar desde já que o dinheiro do filme de promoção de Jair Bolsonaro
vinha dos fundos sujos de Vorcaro. Foram pelo menos R$ 61 milhões de um
orçamento, digamos, de R$ 134 milhões. A família Bolsonaro não faz miséria. Um
filme brasileiro premiado e reputado, "O
Agente Secreto", teria custado menos de R$ 50 milhões, segundo
informações levantadas por esta Folha.
Vorcaro não economiza nas amizades, como se sabe. Não
poupava hipérboles para a camaradagem, a fraternidade e a cumplicidade com seus
tantos amigos no poder. O senador Ciro Nogueira (PP-PI), por exemplo, é
um dos "grandes amigos de vida", escreveu Vorcaro, e
padrinho da imodéstia financeira do parlamentar, segundo acusação da Polícia
Federal. Como se sabe, de resto, Ciro Nogueira era candidato a vice de Flávio
Bolsonaro. Foi ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, um dos sultões do
centrão e do semipresidencialismo de avacalhação bolsonariano. Muito familiar.
É preciso lembrar o que é Vorcaro e de onde vinha o dinheiro
com que azeitava sua fraternidade e a propaganda midiática para manter vivo seu
banco zumbi e atacar desafetos. Recorde-se, pois, o que eram os fundos de onde
vinha o dinheiro do filme
sobre Jair Bolsonaro, "obra prima", "emocionante", disse
o filho candidato.
Vorcaro comprou, alugou ou presenteou figuras relevantes da
política e da elite brasileira. Tinha negócios ainda pouco esclarecidos com
empresários e financistas, participações
cruzadas em empresas. Montou esquemas complicados de sumiço dos
recursos que tirava de investidores, credores do suposto banco Master.
Tomava esse dinheiro emprestado sem ter meios de pagar —que sabia não ter como
pagar. Dezenas de bilhões em ativos que em tese poderiam ser utilizados para
honrar esses compromissos eram em parte pura fraude; outros não valiam fração
do que estava nos livros. Vorcaro sumiu com dezenas de bilhões de reais, conta
que em parte vai ser paga por quase todo mundo, por meio dos bancos que
financiam o fundo do seguro de crédito (FGC), cofre arrombado pela fraude
sistêmica que era o Master.
Estudo mostra a rápida erosão do soft power da grande
potência
Entre 68 países, EUA estão em 64°, à frente apenas de
Irã, Afeganistão, Coreia do Norte e Israel
Em pouco mais de um ano, Donald Trump abalroou
o conjunto de instituições que deram feição própria à ordem internacional
liberal, criada no segundo pós-Guerra e da qual os EUA foram avalista e
principal beneficiário.
Megalomaníaco, desorganizou o sistema de comércio com o
tarifaço e debilitou o FMI e o Banco
Mundial; paralisou o Conselho de Segurança, cerne das Nações Unidas; abandonou
o Acordo de Paris, dificultando ainda mais os já penosos esforços de mitigação
da crise climática. Enfraqueceu a Otan, pilar do
sistema de segurança europeu; destruiu o Nafta (Acordo de Livre Comércio da
América do Norte), substituindo a proveitosa cooperação comercial com o Canadá e
o México pela
ameaça à soberania dos vizinhos. Invadiu a Venezuela e sequestrou seu ditador,
retomando uma prática de intervenção armada na vizinhança que se imaginava
confinada ao passado. Estrangula Cuba, ao extremar
um cruel bloqueio econômico a fim de derrubar o regime castrista. Em parceria
com Israel,
a quem apoiou no massacre de Gaza, faz
agora guerra ao Irã, com consequências imprevisíveis —mas certamente nefastas—
para o Oriente
Médio e a economia mundial.
Se o saldo é negativo para o mundo, que se
tornou um lugar ainda mais inseguro, a aposta do titular da Casa Branca no uso
despudorado de seu poder econômico e militar devasta a reputação internacional
do país.
Pesquisa recente dá conta do desastre. Conduzida pela
empresa japonesa Nira Data, a pedido da Alliance of Democracies, leva o título
de "Democracy Perception Index 2026" e foi feita em 68
países. Nela, comparam-se as percepções e sentimentos do público não só sobre o
sistema democrático mas também sobre segurança e conflitos globais, além de
avaliação, uma a uma, das nações incluídas na amostra.
Quando se coteja a diferença entre percepções positivas e
negativas sobre cada país, os EUA ocupam a 64ª posição, à frente apenas de
Irã, Afeganistão, Coreia do
Norte e Israel.
Mas não é tudo. Há três anos, as opiniões positivas sobre a
potência do norte superavam com folga as negativas. O quadro se inverteu, com a
queda vertiginosa da aprovação a partir de 2025 —não por acaso, primeiro ano de
Trump 2.0.
O estudo capta um fenômeno de consequências duradouras: a
rápida erosão do soft power (poder brando), termo caro aos estudiosos das
relações internacionais. Designa a capacidade de um país de influenciar a
conduta de outros pela persuasão e mobilização de valores compartilhados em
lugar da coerção e da força bruta, conhecidos como instrumentos do hard power
(poder duro).
Países se tornam potências internacionais quando lançam mão
de uma combinação desses dois atributos. Têm recursos econômicos e militares
para coagir, mas não se impõem por muito tempo se não souberem atrair e
convencer outras nações dos valores que defendem.
O uso cínico e desabrido que Trump faz do imenso arsenal de
recursos de coerção está destruindo o muito de poder suave que os EUA
construíram. Essa é a tese defendida por Stephen Walt, professor da
Universidade Harvard, em artigo contundente publicado na revista Foreign
Policy: "The End of America’s Soft Power". Não poderia estar
mais certo.
*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e
Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e
Planejamento (Cebrap)
A revelação de que Daniel
Vorcaro negociou com Flávio
Bolsonaro (PL)
pagamentos de R$ 62 milhões para um filme sobre a vida de Jair
Bolsonaro usando uma empresa laranja deixou toda a direita
desnorteada. Na semana passada, o ex-ministro da Casa
Civil de Bolsonaro, Ciro Nogueira (PP),
recebeu a Polícia
Federal em casa em virtude da apuração que liga sua “emenda Master” a
contrapartidas generosas e milionárias.
Os dois episódios machucam a candidatura bolsonarista,
reforçam o rótulo “BolsoMaster” que o PT bolou
para martelar durante a campanha e dão um respiro aos ministros do Supremo
Tribunal Federal (STF)
atingidos pelo escândalo. Mas não garantem que Lula terá
sossego daqui para frente.
Um experiente observador de Brasília com
quem conversei outro dia definiu bem a situação ao dizer que Vorcaro comprou
todo mundo que estava à venda. Tinha “irmãos” e “amigos de vida” em todo o
espectro ideológico e em todos os níveis hierárquicos que importam nos três
Poderes. A investigação entrou no mundo político pela direita e pelo Centrão,
mas há denúncias para todos os gostos, e tudo o que puder ser explorado
politicamente será.
A dúvida do momento é sobre quanto os brasileiros se guiarão
por essas revelações para decidir o voto. A Genial/Quaest divulgada
ontem traz dois dados interessantes. O primeiro mostra que 54% não tomaram
conhecimento das investigações sobre Ciro Nogueira. O segundo, que desde março
subiu de 40% para 46% a quantidade de brasileiros para quem o escândalo
do Banco
Master afeta a todos — de Lula a Bolsonaro, passando pelo Congresso,
pelo Supremo e pelo Banco
Central.
Agora, porém, é o próprio candidato a presidente o afetado
por uma denúncia. E, pelo menos por enquanto, sabe-se que, enquanto Lula
recebeu Vorcaro no Palácio do Planalto numa reunião com testemunhas para uma
discussão em que, pelos relatos, não se comprometeu com nada, Flávio se
encontrou com ele a sós mais de uma vez, além de trocar mensagens cheias de
intimidade cobrando repasses de recursos e chamando o banqueiro de “irmão”.
A reportagem do Intercept Brasil que
revelou o caso ontem mostrou ainda que o dinheiro para o filme de Bolsonaro não
foi aportado como patrocínio aberto e transparente, e sim por meio de uma
empresa laranja. Não está claro como foram feitos os pagamentos, mas há nas
mensagens conversas em que se discute o envio de dólares a uma conta no
exterior cujo titular é o advogado de imigração de Eduardo Bolsonaro.
Fornecer uma explicação convincente e limpa para tudo isso é
bem difícil, mas a experiência mostra que os apoiadores fiéis da direita e da
esquerda costumam aceitar qualquer história que venha de seus mitos, por mais
furada que seja.
Só que a disputa deste ano tende a repetir a de 2022,
fortemente polarizada e decidida pelos “independentes” — que preferiam não ter
de votar nem em Lula e nem em Flávio, mas acabarão tendo de escolher entre um e
outro. É por esses votos que se dará a batalha de 2026, e seria ingenuidade
acreditar que o bolsonarismo não reagirá.
Prever quem vence a guerra é impossível a esta altura, mas é
fácil ver o potencial do caso Master para transformar a eleição de outubro numa
carnificina típica de Quentin Tarantino, para usar a metáfora cinematográfica.
Nos filmes do diretor, é comum os personagens matarem uns aos outros no final,
e quem fica vivo nem sempre é o herói da história.
Amigos de Nunes Marques dão pista sobre atuação do
ministro no TSE e no STF
Relações políticas do ministro dá à direita esperança nas
eleições e resignação no Supremo
Celebridades da música, ministros de Cortes superiores,
advogados que circulam por tribunais de Brasília, políticos de diferentes
matizes. Esse era o público que lotou a festa da posse de Kassio Nunes Marques
na presidência do Tribunal Superior Eleitoral. Mas nem todo mundo estava lá.
Dos outros nove ministros do Supremo Tribunal Federal,
apenas dois compareceram: André Mendonça, que tomou posse como vice-presidente
da Corte Eleitoral, e Gilmar Mendes. É pouco e destoa de posses anteriores de
integrantes do STF.
Da lista de convidados, é possível constatar que o ministro
tem perfil mais político que jurídico. As amizades mais fiéis, aquelas que
prestigiaram o evento, dão uma pista sobre o que esperar dele à frente do TSE e
no Supremo.
O pré-candidato Flávio Bolsonaro (PL)
estava na área vip. Também foram abraçar Nunes Marques nomes de peso do
Centrão: o presidente do União Brasil, Antonio Rueda, e o ex-presidente da
Câmara Arthur Lira (PP-AL). No salão de festas, corria a informação de que o
senador Ciro Nogueira (PP-PI), investigado no escândalo do Banco Master, havia
confirmado presença. Por fim, não apareceu. A esquerda foi representada pela
solitária presença do deputado Orlando Silva (PCdoB-SP).
Nunes Marques é um produto do Centrão. Chegou ao STF pelas
mãos de Jair Bolsonaro, a partir da ajuda de Flávio e Ciro Nogueira. Com essa
bagagem, tem o desafio de comandar a eleição presidencial em um país
politicamente cindido.
Mas não é só isso. No STF, ele foi sorteado relator da ação
de revisão criminal de Bolsonaro. Na prática, seria um novo julgamento para o
ex-presidente, que foi condenado por tramar um golpe de Estado.
Gente próxima de Nunes Marques aposta que ele não estaria
disposto a facilitar a vida de Bolsonaro. A ação não deve dar em nada, mesmo
porque não haveria maioria no plenário do STF para isso. O ex-presidente deve
contar apenas com os votos de Mendonça e Luiz Fux.
Já no TSE, a família Bolsonaro pode ter mais esperança. O
ministro defende que a Corte tenha postura discreta no processo eleitoral e
libere o palco para a política. Para aliados de Bolsonaro, a Justiça Eleitoral
dificultou o caminho do capitão até o Planalto em 2022, quando o tribunal era
comandado por Alexandre de Moraes.
Um dos motivos para essa avaliação foi Moraes ter baixado
uma norma às vésperas da eleição para conter fake news na internet. Setores da
direita leram como uma forma de silenciar campanhas. Nunes Marques quer que o
TSE jogue parado, sem criar regras até outubro. Na leitura da direita,
significa uma porta aberta para Flávio chegar ao poder.
Não podemos controlar conflitos internacionais, mas
devemos reduzir seus impactos por meio de políticas de Estado, consistentes e
duradouras
De cada dez habitantes da Terra, um consome alimentos
produzidos no Brasil. Poucos, porém, têm consciência do complexo processo
envolvido desde a produção até a comida chegar às suas mesas. Nesse ciclo, há
um fator crítico: o fertilizante, cujo abastecimento global sofre forte impacto
causado pela prolongada crise geopolítica enfrentada pela humanidade. Para o
Brasil, que importa quase todo o adubo que consome, o cenário é muito
desafiador.
Fertilizantes são o alimento da planta e, portanto, um elo
essencial da cadeia do agronegócio, que tem sido a âncora do crescimento do
nosso país. Lideramos as exportações globais de soja, açúcar, café, suco de
laranja, carne bovina e de frango, celulose e fumo. Este ano, também assumimos
a liderança no comércio do algodão e mantivemos a segunda posição com o milho e
o etanol.
Até os anos de 80, o produtor brasileiro
apenas olhava com admiração para as máquinas, tecnologias e métodos empregados
na Europa e nos Estados Unidos. Hoje, nosso agro opera com o que há de
mais avançado. Adaptamos ciência e inovação às condições tropicais. Em algumas
culturas, já colhemos até três safras anuais. A antiga “safrinha” de milho
tornou-se uma robusta “safrona”, com tendência de crescimento. Tudo isso com
ganhos contínuos de produtividade, produzindo mais sem o proporcional aumento
de áreas agricultáveis, preservando matas nativas.
É assim que vamos cumprindo o vaticínio de que seríamos o
celeiro de um mundo que, segundo a Organização das Nações Unidas (ONU),
precisará alimentar 3 bilhões de pessoas a mais nas próximas décadas, na
esteira da expansão demográfica. O Brasil tem imenso potencial para dobrar sua
safra, com a mesma área cultivada, mantendo-se protagonista no atendimento à
demanda global.
Para isso, além de fertilizantes, precisa solucionar alguns
gargalos crônicos: falta de crédito, dificuldades nas garantias, endividamento
crescente do produtor, juros elevados, encarecimento de insumos, seguro rural
insuficiente, logística cara e oscilações cambiais que corroem as receitas em
reais das exportações.
Os fertilizantes são um fator crítico, pois, segundo a
Associação Nacional para Difusão de Adubos (Anda), 93% do que utilizamos em
2025 vieram do exterior. Num mundo de conflitos e restrição do fornecimento por
parte de alguns países, como a China, isso é um fator de vulnerabilidade.
Afinal, oferta restrita e demanda forte resultam em aumento de preços, como na
pandemia ou nos embargos à Belarus e na guerra entre Rússia e Ucrânia. Agora,
há o agravante dos confrontos no Oriente Médio.
Guerras impactam a oferta e desorganizam cadeias inteiras.
Fretes marítimos e seguros encarecem e as rotas ficam mais longas e inseguras.
Cada fechamento do Estreito de Ormuz paralisa centenas de navios. Para o
Brasil, isso tem implicações diretas, pois o pico de consumo de fertilizantes
ocorre nos meses de julho a setembro, com o início do plantio da próxima safra
de 2026-2027.
Em exíguo espaço de tempo, foi realizada uma operação
logística epopeica, num cenário internacional já muito difícil, agravado por
nossos antigos problemas internos, como portos saturados, estradas precárias e
armazenamento insuficiente. Assim, ampliar a produção doméstica de
fertilizantes é urgente. Isso exige acelerar licenças ambientais, menos
impostos, mais segurança jurídica, investir em infraestrutura e criar condições
para atrair capital e tecnologia. Ao mesmo tempo, precisamos facilitar e garantir
processos funcionais nas importações.
No caso dos nitrogenados (N), o desafio é ainda maior, pois
nosso custo do gás natural, essencial para produzilos, é muito superior ao de
outros países. A iniciativa da Petrobras, de investir em quatro plantas, apenas
atenderá até 20% da demanda. Nem mesmo a importação do combustível argentino de
Vaca Muerta será solução estrutural. A redução do preço é a questão.
Nos fosfatados (P), a demanda por minerais usados em
tecnologias como baterias de carros elétricos tem elevado o preço de insumos
compartilhados com a indústria de fertilizantes. O enxofre é um exemplo,
saltando de US$ 100 por tonelada, em janeiro de 2024, para mais de US$ 1 mil
nesta semana. Precisa-se de 400 quilos para produzir uma tonelada de
fertilizante fosfatado. No potássio (K), importamos 99% do que consumimos. É
premente ampliar a produção nacional de NPK, mas o Plano Nacional de
Fertilizantes não gera resultados na velocidade devida. Seu êxito depende
decisões políticas e de coordenação institucional.
Até aqui, não faltou adubo para colhermos safras recordes,
graças à conhecida resiliência e capacidade brasileira de improvisar e superar
crises, mas é temerário ter apenas essas virtudes de nossa gente como bases de
uma estratégia decisiva para a inclusão social, balança comercial, geração de
empregos, produção de alimentos e commodities. Não podemos controlar conflitos
internacionais, mas devemos reduzir seus impactos por meio de políticas de
Estado, consistentes e duradouras.
A situação que se escancara diante dos nossos olhos é de
outra natureza: uma agressão despropositada contra nossa autonomia, nossa
tradição e nosso modo de vida
Em licença-prêmio, eu estava fora do Brasil. Recebi relatos
de docentes e estudantes da minha universidade. Foi aflitivo acompanhar, de
longe, tamanho ultraje contra a Universidade de São Paulo (USP).
Vou aos fatos. Na madrugada de domingo, por volta de quatro
da manhã, policiais militares fantasiados de Swat arrancaram de dentro da
reitoria, à força, alunas e alunos que tinham ocupado o prédio dois dias antes.
Segundo depoimentos de todas as testemunhas, houve agressões gratuitas e
descabidas. A desocupação se deu a tapas e pontapés. Em vídeos e fotografias
que os manifestantes conseguiram fazer, vemos, num corredor polonês, cassetetes
espancando jovens desarmados. Foi um ritual de aviltamento, sujeição e sadismo,
com bombas de efeito moral, ou imoral. “Dezenas de estudantes foram feridos”,
declarou à rádio CBN o aluno Gabriel Borges, do Diretório Central dos
Estudantes. Segundo ele, “alguns tiveram de ser hospitalizados com fratura no
braço, fratura no nariz”. Houve quatro prisões, ainda que por poucas horas.
Desde o fim da ditadura militar, não é a
primeira vez que uma coisa desse tipo acontece.
Não é nem a segunda ou a terceira. Vira e mexe, a
brutalidade das patentes faz da universidade o seu alvo preferencial. Em 2017,
numa tarde em que o Conselho Universitário deveria se reunir, na Cidade
Universitária, houve outro espetáculo de estupidez. Esse eu vi. Membro do
conselho, eu estava lá. Centenas de estudantes protestavam em torno das grades
da reitoria. A tropa chegou. Eu e alguns colegas tentamos conversar com o
oficial no comando. Inutilmente. Alunos meus sofreram cortes na cabeça. Eu os
vi correr ensanguentados.
Agora foi pior. A pretexto de promover a reintegração de
posse do edifício, os coturnos pisotearam o saber e, para não deixar dúvidas,
pisotearam também as formalidades jurídicas. Em comunicados públicos, coletivos
estudantis asseguraram que não viram nenhum mandado com os policiais. Entre
docentes, o desconforto é ainda maior. Departamentos e unidades divulgaram
comunicados rechaçando a truculência.
Reações vieram. Ao menos isso. Na segunda-feira, no centro
da cidade, uma manifestação estudantil diante da sede do Conselho de Reitores
das Universidades Estaduais Paulistas (Cruesp) – essa entidade de nome
estranho, que soa como “cruela cruel”, constituída pelas reitorias das três
universidades públicas paulistas – expressou sua inconformidade – e recebeu da
polícia a sordidez costumeira.
Na terça-feira, este jornal noticiou: Alunos de Medicina da
USP aderem à greve e deixam de atender no HC. A tensão ganha dimensões mais
fortes, sem pacificação à vista.
Nessas horas, sempre aparece quem queira jogar a culpa nos
estudantes. Tenhamos cuidado. Claro que podemos ter reservas em relação a
certos métodos do movimento estudantil. Eu mesmo – que, na reta dos 20 anos,
fiz piquetes, assembleias, ocupações e passeatas – tenho os meus senões. Em
mais de uma ocasião, divergi publicamente de algumas condutas. Tudo nessa
matéria é passível de debate, mas o que está em pauta é algo muito mais grave e
mais premente. A situação que se escancara diante dos nossos olhos é de outra
natureza: uma agressão despropositada contra nossa autonomia, nossa tradição e
nosso modo de vida. Nossas alunas e nossos alunos podem por vezes se exceder,
mas, se agora apanham das autoridades, a culpa definitivamente não é deles.
Eles são vítimas, apenas vítimas. A USP em sua totalidade é vítima. Se não
enxergarmos esse fato simples e cristalino não teremos entendido nada.
A infâmia fardada que se abateu sobre a nossa instituição
destroça todos os ideais que, há séculos, inspiram as melhores universidades do
mundo. A comunidade acadêmica tem total consciência disso. Tanto é assim que,
ainda no domingo, a própria reitoria, em nota oficial, reclamou de não ter sido
avisada com antecedência da ação policial. Além disso, a nota condenou a
brutalidade: “A USP repudia que a violência substitua o diálogo, a pluralidade
de ideias e a convivência democrática como forma de avanço de pautas e solução
de controvérsias”. Agora, cabe ao governo apurar os abusos cometidos e punir os
responsáveis. Um insulto tão covarde, perpetrado na escuridão da noite, dentro
do nosso prédio mais solene, deve ser examinado à luz do dia.
É verdade que o governador parece ter outra opinião. Dando
respaldo à pancadaria, ele declarou que a universidade “não pode ser um espaço
de baderna” (Folha de S. Paulo, edição online, 12/5). Ora, a baderna só se
instalou no câmpus quando a mão armada do Estado foi até lá para esbofetear a
geração a quem dedicamos nosso trabalho e nossa vida. Se o governador acredita
que a disciplina da caserna pode dar jeito nas nossas escolas, está errado. A
disciplina da caserna aniquila o sentido da palavra universidade.
O que nos atropela agora é um projeto de poder opressivo e
criminoso. O autoritarismo late para a cultura, as artes, as ciências, a
justiça, o conhecimento e a informação. O ato ignominioso da Polícia Militar,
no domingo, Dia das Mães, é parte desse projeto obscurantista. Não pode ficar
assim. Bem vale uma greve.
Solucionar o problema fiscal passará por um pacto pela dívida pública que vai exigir do governo um amplo esforço de reconstruir sua credibilidade nesse tema, mas também uma maior boa vontade do mercado que adquire essa dívida
No artigo de abril, propus uma reflexão sobre um tema que dificilmente ocupará o debate eleitoral de 2026, mas certamente ocupará a agenda do próximo governo: trata-se da dívida pública e a sua contínua expansão. O último dado da Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) ultrapassa a casa dos 80% do PIB. Há aproximadamente um mês, quando escrevi o texto anterior, ele se encontrava em 79,4%. Em suma, a DBGG deve continuar se expandindo no horizonte próximo.
Duas perguntas devem ser levantadas sobre essa questão: primeiramente, quais as causas de uma trajetória de endividamento público tão insustentável? Em segundo lugar, como corrigir essa trajetória. Este artigo focará na primeira pergunta.
Alguns economistas vão dizer que a causa de o endividamento público crescer de forma tão contundente são os desequilíbrios fiscais. Será? Entre 2023 e 2025, o deficit primário da União diminuiu de 2,4% para 0,4% do PIB. Em três anos, um esforço fiscal de 2% do PIB foi verificado no Orçamento — esperava-se que isso influenciasse a trajetória de crescimento do endividamento público.
Uma explicação recorrente dada por economistas do mercado é que a piora fiscal não tem sido observada pelo lado do resultado primário, mas, sim, pela trajetória "insustentável" do gasto público. Mais uma vez, olhemos para os dados. De fato, a despesa pública saltou em termos reais de R$ 2,118 trilhões em janeiro de 2023 para R$ 2,439 trilhões em janeiro deste ano. Uma expansão real de pouco mais de R$ 300 bilhões. Entretanto, ao se comparar com o dado da despesa primária em proporção do PIB, a oscilação foi muito modesta — o gasto público saltou de 18,4% do PIB para 19,1% do PIB no período. Isso é, tem-se uma variação de pouco mais de meio por cento do PIB no triênio.
Sob qualquer perspectiva que se olhe, parece difícil sustentar a hipótese de que uma expansão de oito pontos percentuais do PIB em três anos esteja sendo explicada por um deficit que foi reduzido em dois pontos do PIB no período. Tão pouco pode-se creditar essa dinâmica ao fato de a despesa pública ter avançado meros 0,6% do PIB no mesmo período. Em suma, embora o problema fiscal exista no Brasil, ele tem sido sobredimensionado no debate público e, seguramente, não é a causa da trajetória recente de expansão do endividamento público.
Isso posto, voltemos à primeira pergunta: o que explica esse endividamento. Uma resposta definitiva sobre esse tema requer uma investigação mais aprofundada; mas, aparentemente, esse comportamento parece estar associado ao custo de rolagem da DBGG. Uma curiosidade observada nos dados é que a taxa implícita de juros média da DBGG entre 2023 e 2026 foi de 11%. A taxa implícita de juros é uma boa proxy do custo de rolagem da dívida, uma vez que condensa em um único número as despesas com juros e encargos com o saldo da dívida.
Como dito, a taxa implícita média no triênio iniciado em 2023 foi de 11%. Permaneceu nesse patamar mesmo durante aquele curto período entre agosto de 2023 e setembro de 2024, quando o Banco Central (BC) reduziu a Selic de 13,75% para 10,5%, indicando que o custo de rolagem da dívida pública praticamente não absorveu o afrouxamento monetário experimentado no país naquele período. Isso lança incertezas adicionais sobre o problema; uma vez que o BC volta a implementar um ciclo de afrouxamento monetário, parece que isso não irá reverberar sobre o custo de financiamento do governo.
Em resumo, o custo implícito da dívida do governo manteve-se imutável em torno de 11% ao ano em termos nominais. Esse valor não cedeu à evidente melhora do resultado primário que foi citada acima, tão pouco respondeu a ciclos, ainda que curtos, de afrouxamento da política monetária. Ademais, nada garante que uma nova rodada de esforço fiscal que leve a economia de um deficit de 0,4% do PIB para um superavit de 2% do PIB (esforço fiscal de 2,4% no total) produza qualquer impacto relevante na relação dívida/PIB se o custo de rolagem da dívida não tem respondido ao fiscal.
Esse fenômeno merece uma investigação acadêmica de maior profundidade. No entanto, dado que esse custo de rolagem é um preço fixado a partir de um equilíbrio no mercado de títulos, em que o governo emite títulos de dívida e o mercado os compra, parece haver uma cobrança desproporcional dos detentores da dívida pública para demandar esses papéis. Isso pode estar relacionado com uma crença generalizada nesses segmentos, porém pouco respaldada em dados, de que a política fiscal em curso é insustentável.
Se essa hipótese tiver fundamento, solucionar o problema fiscal passa por uma reversão profunda dessa crença e uma revisão do estado de expectativas dos agentes, particularmente daqueles que adquirem a dívida do Tesouro. Em suma, solucionar o problema fiscal passará por um pacto pela dívida pública que vai exigir do governo um amplo esforço de reconstruir sua reputação e credibilidade nesse tema, mas também uma maior boa vontade do mercado que adquire essa dívida.
*Benito Salomão — professor do Instituto de Economia e Relações Internacionais e do Programa de Pós-Graduação em Economia da Universidade Federal de Uberlândia.
O sinal de que os demais candidatos sentiram cheiro de
animal ferido na floresta veio do ex-governador mineiro Romeu Zema, o candidato
do Novo
A divulgação do áudio da conversa entre o senador Flávio
Bolsonaro e o banqueiro Daniel Vorcaro pode representar o início de um processo
de desconstrução da imagem do principal candidato da oposição ao presidente
Luiz Inácio Lula da Silva, que busca a reeleição. Independente da natureza
jurídico do caso, que ainda não é investigado formalmente pela Polícia Federal,
o episódio abre uma guerra de narrativas entre lulistas e bolsonaristas com
capacidade de alterar o empate técnico entre ambos registrado por sucessivas
pesquisas de opinião.
O trecho da conversa divulgado pelo portal Intercept Brasil
é devastador porque mostra afetividade entre o candidato oposicionista e o
personagem central do escândalo Master. “Irmão, estou e estarei contigo sempre,
não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”,
afirmou Flávio a Vorcaro. Protagonista de um escândalo de grandes proporções,
envolvendo corrupção, lavagem de dinheiro, lobby político e prejuízos
bilionários ao BRB, o banqueiro se tornou uma companhia muito tóxica.
Em campanhas altamente polarizadas, a
eleição costuma ser decidida não pela adesão apaixonada, mas pela rejeição
relativa. É nesse terreno que o caso pode produzir estragos duradouros. A
linguagem informal, afetuosa e quase íntima destrói a tentativa inicial de
enquadrar o episódio como um contato protocolar de captação privada de recursos
culturais. Em marketing político, a forma frequentemente pesa mais do que o
conteúdo. O eleitor comum não faz distinções sofisticadas entre financiamento
privado, lobby ou tráfico de influência quando percebe proximidade excessiva
entre políticos e empresários envolvidos em escândalos.
Verdadeira bomba, a divulgação da conversa pegou Flávio
Bolsonaro de surpresa. “De onde você tirou essa informação? É mentira”,
respondeu a jornalistas após visita ao presidente do STF, ministro Edson
Fachin, questionado a veracidade da gravação. Quando a mídia repercutiu o fato,
constatando a autenticidade do diálogo, o senador mudou a estratégia e admitiu
ter solicitado patrocínio ao banqueiro, embora negasse irregularidades.
Na nota divulgada posteriormente, Flávio tentou construir
uma linha de defesa baseada na legalidade formal da operação: “Zero de dinheiro
público. Zero de Lei Rouanet”. Também afirmou que não ofereceu vantagens, não
intermediou negócios com o governo e não recebeu recursos pessoais.
Politicamente, contudo, a defesa possui limitações. O problema não é o aspecto
jurídico; é a reputação.
Gordura pra queimar
A oposição bolsonarista construiu nos últimos anos um
discurso assentado na denúncia das relações promíscuas entre Estado e
empresários, que acusa o PT de corrupção sistêmica. Quando Flávio Bolsonaro
aparece associado a um banqueiro investigado em escândalos financeiros, o dano
simbólico é inevitável; entre outras coisas, exuma também o escândalo das
rachadinhas de quando era deputado na Assembleia Legislativa fluminense.
Como consequência prática, a conversa anula a estratégia de
“astroturfing” que Flávio Bolsonaro vinha utilizando contra Lula, desde que
entrou em empate técnico nas pesquisas. Astroturfing é o termo usado no
marketing para criar uma espécie de efeito manada, no qual um movimento de
apoio é criado como se fosse um posicionamento espontâneo dos eleitores. O
termo vem da grama sintética AstroTurf, simbolizando que o apoio é “fake”. Essa
estratégia é muito comum nos Estados Unidos.
O sinal de que os demais candidatos sentiram cheiro de
animal ferido na floresta não veio do Palácio do Planalto, veio do
ex-governador de Minas Romeu Zema, o candidato do Novo à Presidência. “Flávio
Bolsonaro, ouvir você cobrando dinheiro do Vorcaro é imperdoável. É um tapa na
cara dos brasileiros de bem. Não adianta nada criticar as práticas de Lula e do
PT e fazer a mesma coisa”, declarou.
Zema inaugura uma disputa aberta dentro do campo
oposicionista pelo eleitor conservador moderado e antipetista fatigado da
polarização. O ex-governador Ronaldo Caiado, candidato do PSD, também tirou uma
casquinha: “Tudo que envolve Master e cifras milionárias precisa ser tratado
com total transparência com a população”.
Herdeiro natural do capital político do pai, Flávio
Bolsonaro aparece tecnicamente empatado com Lula nas pesquisas de segundo
turno. O levantamento da Genial/Quaest, divulgado nessa quarta-feira, mostra
Lula com 42% e Flávio com 41%. No primeiro turno, Lula aparece com 39% e Flávio
com 33%. Esses números revelam um quadro de polarização extrema, mas existe um
grande contingente de eleitores em trânsito.
É justamente nesse segmento que a pesquisa revela, segundo o
cientista político Felipe Nunes, que houve melhora significativa da avaliação
do governo Lula entre os independentes. O saldo negativo nesse grupo caiu de
-16 para -5 pontos percentuais. Em outras palavras: os eleitores menos
ideológicos começam a reduzir sua rejeição ao governo Lula. Entretanto, Flávio
ainda tem muita gordura para queimar e, mesmo assim, chegar ao segundo turno.
Candidato bolsonarista tropeça na suspeita de corrupção,
quesito mais valorizado pela direita
Que a pré-candidatura do senador Flávio
Bolsonaro (PL-RJ) era de papel já se sabia. O que não se imaginava era
que incinerasse tão cedo. A quase cinco meses do primeiro turno, ainda há tempo
de seu partido emplacar outro nome. Michelle? É o estepe natural,
até porque sempre pareceu menos vulnerável como candidata - e menos previsível
como presidente - que o enteado.
Para pôr em pé uma candidatura, a ex-primeira-dama
enfrentaria a dificuldade de encabeçar o mesmo combo de interesses reunidos em
torno do senador - do marido ao Centrão, passando por investidores cuja
frustração com a reportagem do “The Intercept”, na tarde desta quarta, fizeram
balançar bolsa e câmbio.
Oferece, por outro lado, maior
competitividade eleitoral que o enteado, a entrada num eleitorado superior, em
8,4 milhões, ao masculino e a lealdade de um segmento (evangélico) que, na
largada, tem 27% do colégio eleitoral do país. A decisão estará, em grande
parte, nas mãos do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, do líder
do partido no Senado, Rogério Marinho (RN), que hoje é
coordenador da campanha presidencial do PL e, principalmente, do
ex-presidente Jair Bolsonaro.
Michelle, porém, assumiria a candidatura de um bloco
trincado pelas relações dos enteados com o Master. As percepções de
um importante dirigente partidário, colhidas no calor da repercussão dos
diálogos entre o senador e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, são de
que pesam contra Flávio Bolsonaro a afronta ao decoro e a
suspeita de lavagem de dinheiro.
A primeira deriva da mentira do senador de que não conhecia
o ex-banqueiro quando os diálogos reproduzidos na reportagem revelam que não
apenas se frequentavam como se tratam por “irmãos”.
A segunda vem das pistas que indicam depósitos de Vorcaro
num fundo ligado ao ex-deputado Eduardo Bolsonaro no Texas.
Além disso, avalia este dirigente, os valores mencionados - um pedido de R$ 134
milhões que teria resultado em pagamentos de R$ 61 milhões - para a finalização
de um filme sobre o ex-presidente é muito superior ao praticado no mercado de cinema.
O que se está a sugerir é que os irmãos Bolsonaro, mais do
que um filme quase cinco vezes mais caro que “O Agente Secreto”, pretenderam se
valer da proximidade com o ex-banqueiro para fazer caixa. A suspeita faz do
senador Ciro Nogueira (PP-PI) um eterno aprendiz.
O presidente do Progressistas pretendeu dissimular o ato de
ofício configurado na proposta de elevação da cobertura do Fundo Garantidor de
Crédito, a “emenda Master”, com sua reapresentação. O pré-candidato do
PL não pediu a renovação do patrocínio do Master ao filme do pai. Limitou-se a
insistir na CPI do Master para repisar a tese de que é o PT
que resiste à investigação.
A
rodada desta quarta da Genial/Quaest trouxe uma prévia do estrago
potencial desta revelação sobre as relações de Flávio Bolsonaro com Vorcaro. A
principal preocupação do eleitor é a violência (31%), seguida, com folga, pela
corrupção (18%). Na direita, porém, os dois problemas estão empatados. O
“governo Bolsonaro”, que aparece como o quarto “culpado” pelo escândalo do
Master, corre o risco de subir de patamar.
Nas notas e vídeos divulgados na tarde de quarta, Flávio
Bolsonaro sugeriu que vai cair atirando no PT da Bahia, cujo senador, Jaques
Wagner, deu a cara à tapa na tribuna dizendo que seu pecado foi privatizar
uma rede de supermercados populares posteriormente revendida ao Master.
Se o senador petista tem um depósito na conta de sua enteada a esclarecer,
contra o pré-candidato bolsonarista à Presidência resta o pedido de dinheiro às
vésperas da liquidação do banco e da primeira prisão de Vorcaro.
Não bastasse o desgaste a ser angariado na tentativa de
ampliar ao centro, Flávio Bolsonaro tende a se deteriorar no
próprio nicho da direita, abrindo espaço para Michelle. Perde
a credibilidade de criticar Alexandre de Moraes pelo contrato do
escritório da esposa do ministro com Vorcaro porque, na verdade, concorreu pelo
dinheiro do ex-banqueiro.
A ex-primeira-dama, se consolidada como candidata, não
teria, porém, uma avenida desimpedida. A pesquisa da semana mostra que o
presidente Luiz Inácio Lula da Silva recuperou terreno junto
às mulheres, segmento mais receptivo às políticas públicas do que o dos homens.
Uma delas, aliás, a desoneração do Imposto de Renda até
cinco salários mínimos, que parecia ter se desmanchado no ar, deu, finalmente,
o ar de sua graça. Na pesquisa divulgada nessa quarta, eleitores de todas as
faixas de renda, mas, especialmente aqueles ganham até dois salários mínimos,
finalmente registraram um impacto positivo da isenção no patamar de oito pontos
percentuais.
O potencial de recuperação do eleitorado feminino que, nos
últimos meses, se distanciou de Lula ainda deve crescer com o Desenrola
2, programa de renegociação de dívidas majoritariamente aprovado, e com o
fim da “taxa das blusinhas” que, definida em medida provisória na noite
de terça, ainda não teve seu impacto medido em pesquisas.
Desnecessário para uns, ante o provável desmanche de Flávio
Bolsonaro, o fim da “taxa das blusinhas” pode acabar por criar, para outros,
uma capa de gordura necessária a Lula face à chegada de Michelle no pedaço.
Senador passou por rachadinhas e relações com a milícia,
e aí está, competitivo nas pesquisas
O que realmente interessa no filmegate envolvendo Flávio
Bolsonaro e Daniel Vorcaro é o tamanho do impacto que o escândalo terá nas
intenções de voto no pré-candidato à Presidência pelo PL. A conversa entre
Flávio e Vorcaro já causou estrago na largada. Fez preço ontem, com o Ibovespa
fechando em queda de 1,8%, e o dólar subindo 2,3%. Site de bets fora do país
mostrou diminuição das apostas numa vitória do senador, e a curva de juros
futuros estressou. O dia foi chamado de “segundo Flávio Day”, em referência ao
“Flávio Day” original, em dezembro, quando o lançamento de sua candidatura
causou estrago por desbancar Tarcísio de Freitas, o preferido do mercado.
O mercado já estava de mau humor com
resultados da pesquisa Quaest, que mostrou alguma recuperação na aprovação de
Lula, e com as medidas eleitoreiras de impacto fiscal, como o fim da taxa das
blusinhas. O auge foi o áudio constrangedor do senador da República cobrando
dinheiro do banqueiro enrolado — e, sim, tem dinheiro público na teia de
Vorcaro com os recursos que ele tomou dos fundos de Previdência. A Faria Lima
viu Lula mais fortalecido e estrilou.
É fato que a campanha de Flávio já sangra e sangrará por um
bom tempo, mas a questão aqui é se ela tem musculatura eleitoral suficiente
para resistir. Flávio tem hoje os votos da extrema direita e pode perder
intenção de voto entre esse grupo, muito suscetível ao discurso do político
antissistema — perdão pela contradição em termos. Romeu Zema, do Novo, e Renan
Santos, do Missão, já sacaram isso e foram para cima. O ex-governador de Minas
fez sucesso com esse eleitorado ao criticar o STF, coisa que Flávio não pode
fazer porque, entre outras encrencas, tenta se mostrar moderado. Flávio também
pode ter alguma dificuldade com o público de centro, que representa um terço do
eleitorado e é pendular: uma hora flerta com a direita, outra com a esquerda.
Flávio está na luta por esse eleitor mais desconfiado, e as relações mal
explicadas com Vorcaro certamente não o ajudam.
Pode até ser que não se comprove nenhum ato de ofício de
Flávio a favor de Vorcaro, nos moldes do seu aliado, o senador Ciro Nogueira,
que, segundo a Polícia Federal, teria ganhado mesada em troca da emenda que
favorecia o banco. Mas os adversários saberão explorar bem o caso, com pedidos
de criação de CPI, investigação e cassação. Além disso, Flávio não conseguiu
até agora explicar a relação com Vorcaro, e isso será um fantasma. As
investigações da Polícia Federal mostram que Vorcaro se aproximava dos poderosos
em troca de vantagens e proteção. Por óbvio, o financiamento ao filme sobre
Jair Bolsonaro se dá nesse contexto, e não por interesse pela cultura nacional.
A encrenca é grande, mas vale cautela na análise. Flávio tem
um considerável telhado de vidro, mas até hoje foi resistente. Passou por
rachadinhas e relações com a milícia, e aí está, competitivo nas pesquisas.
Sangrará, mas também terá tempo para se recuperar. Em tempos de polarização,
contará com a ajuda de muito eleitor louco para esquecer.
A revelação das conversas entre Flávio Bolsonaro e
Vorcaro pode representar um plot twist num processo eleitoral que promete ser
de muita emoção
A notícia do financiamento de Daniel
Vorcaro ao senador Flávio
Bolsonaro é uma bomba com poder de implodir sua pré-campanha. E tem
essa força pelo volume de dinheiro para o financiamento do filme sobre Jair
Bolsonaro, pelos abundantes diálogos em que Flávio Bolsonaro cobra Vorcaro,
pela exibição de intimidade com o banqueiro das falcatruas, pelas mensagens de
visualização única e pela incapacidade do senador de reagir quando tudo foi
revelado. Ele deu resposta fraca. Na verdade não seria um filme sobre um
personagem qualquer, mas sim uma peça da campanha eleitoral.
O dia de ontem foi efervescente. Seus
desdobramentos serão fundamentais para esta campanha, que está chegando num
ponto decisivo. O episódio deve afetar o eleitor independente e pode impactar
também os da direita não bolsonarista. Se Flávio Bolsonaro desidratar, pode
haver troca de candidato, dizem os analistas. Contudo, a janela da
desincompatibilização se fechou, não poderá ser o governador de São Paulo que
era o plano B do bolsonarismo. Por exclusão, o nome de Michelle
Bolsonaro voltou a ser falado. Ela teria que enfrentar a desconfiança
do seu próprio marido, que quer como candidato um parente sanguíneo. O nome
dela não foi testado pelas últimas pesquisas.
Faltam quatro meses e 20 dias para as eleições, mas ainda
57% estão indecisos diante do quadro eleitoral, segundo a pesquisa
Genial/Quaest divulgada ontem, antes do incêndio na campanha de Flávio
Bolsonaro. Na espontânea, quando não há a apresentação do nome de possíveis
candidatos, esse é o percentual dos que ainda não se decidiram.
A pesquisa mostrou uma melhora importante do
presidente Lula.
O saldo negativo entre os que o aprovam e os que o desaprovam caiu de 9% para
3%. A principal alta foi entre eleitores que se dizem independentes. Lula
melhorou em todos os segmentos, e recuperou a aprovação entre mulheres e
eleitores de renda média.
Para a maioria dos brasileiros o pleito ainda não começou,
mas está diminuindo o percentual de indecisos. Há duas pesquisas eram 69%, 12
pontos a mais do que o da pesquisa atual. Entre os independentes, 80% ainda não
se decidiram. O país permanece com polaridades definidas. Entre os que votaram
em Bolsonaro, 90% desaprovam o governo Lula, entre os que votaram em Lula 83%
aprovam.
O retrato que a pesquisa trouxe mostra que a direita não
conseguiu se descolar da extrema direita e ganhar musculatura. Ronaldo
Caiado e Romeu Zema não
têm desempenho relevante em intenção de voto, continuam em torno de 4%. Isso é
resultado da incapacidade da direita buscar o centro e se afastar das pautas
radicais dos bolsonaristas.
Esta semana a oposição ameaçou votar a PEC da Anistia, mas
ficou claro que ela sabe que está jogando para a sua plateia. O PL da
Dosimetria surgiu exatamente por não haver condições políticas e jurídicas de
aprovar uma anistia. “Anistia agora é chance zero, a menos que a extrema
direita ganhe a eleição. Neste cenário, o Congresso aprova em semanas, mas
teríamos um debate dificílimo no Supremo”, me disse uma autoridade que
acompanha esse tema de perto.
A decisão do ministro Alexandre
de Moraes de suspender a aplicação da dosimetria não quer dizer
rejeição à lei propriamente dita. A maioria do STF vê com muito boa vontade a
ideia de manter o que o Congresso decidiu, a redução das penas. A suspensão foi
apenas uma decisão técnica, porque existe arguição de inconstitucionalidade
sobre a PEC, e isso precisa ser julgado.
O roteiro do Brasil não economiza na emoção e por isso a
eleição ocorrerá com a Justiça Eleitoral sendo comandada pelos dois ministros
indicados pelo ex-presidente, que era inimigo da urna eletrônica e estimulou
entre seus seguidores a dúvida sobre o processo eleitoral. A posse no tribunal
foi um retrato da tensa diversidade política brasileira, com o detalhe do
caprichoso roteirista de colocar bem próximas a mulher do condenado e a mulher
do juiz que o condenou, Michelle Bolsonaro e Viviane Barci de Moraes. Nenhuma
das duas vive tempos fáceis.
O ministro Kassio
Nunes Marques poderá dormir tranquilo em um ponto: sua presidência não
será atacada, solapada, difamada como foi a presidência de Alexandre de Moraes,
na eleição de 2022. Isso não acontecerá pelo simples motivo de que o presidente
atual, Lula da Silva, acredita no processo eleitoral brasileiro. Mas é certo
que esta eleição será de muitas emoções, revelações e desafios. Ontem foi dia
de reviravolta ou de um plot twist no roteiro.
Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Laís Martins, Andrew
Fishman, Cecília Olliveira, Leandro Becker e Mauricio Moraes
ÁUDIO: Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro R$ 134
milhões para bancar filme sobre Jair
“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia
conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o
senador Flávio
Bolsonaro, do PL do
Rio de Janeiro, ao dono do Banco Master, Daniel Vorcaro,
em uma mensagem enviada pelo WhatsApp em
16 de novembro de 2025.
Um dia após a mensagem de Flávio, Vorcaro foi preso enquanto
tentava fugir do país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$
47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. No dia seguinte, 18 de
novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.
A frase escrita pelo hoje pré-candidato à Presidência da
República é parte de uma série de registros que indicam a existência de uma
negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de
dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a
produção de “Dark
Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.
Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept
Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61
milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências —
haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para
financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.
Os registros incluem um cronograma de desembolso, um
comprovante bancário e cobranças relacionadas às parcelas previstas para a
produção. Não há evidências nas mensagens de que Vorcaro tenha feito os outros
oito pagamentos previstos para o projeto.
O envolvimento de Vorcaro foi negociado diretamente por
Flávio Bolsonaro, mas teve outros intermediários, como o irmão e deputado
federal cassado Eduardo Bolsonaro,
do PL de São Paulo, e o deputado federal Mario Frias,
também do PL paulista, que foi secretário da Cultura no governo Bolsonaro.
As conversas privadas e os documentos de Vorcaro revelam os
profundos laços financeiros e a estreita relação entre o clã Bolsonaro e o
banqueiro que se tornou o homem mais radioativo de Brasília. Flávio já havia
negado tais conexões, da sua família e da extrema direita, chegando a dizer que
isso era uma “narrativa falsa que o Lula tem
criado”.
Quando foi noticiado,
em março deste ano, que o cunhado de Vorcaro – o pastor Fabiano
Zettel – havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha
presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse
à CNN que isso aconteceu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma
contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”.
“Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da
direita”, afirmou o
senador. Em evento da pré-campanha em João Pessoa, na Paraíba, dois dias antes,
ele classificou
o caso como um “grande esquema de roubalheira que está dando nojo
a todo o país”.
Na manhã desta quarta-feira, 13, Flávio Bolsonaro foi
questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao
filme e respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida,
deu uma gargalhada e se retirou de onde concedia entrevista à imprensa, próximo
ao Supremo Tribunal Federal, o STF – antes, o senador havia se reunido com o
ministro Edson Fachin, presidente da corte.
Flávio já havia sido contatado sobre o assunto – por
telefone, WhatsApp e e-mail, mas não retornou até a publicação da reportagem. A
defesa de Daniel Vorcaro foi acionada, mas não houve resposta. Eduardo
Bolsonaro também não respondeu aos questionamentos enviados pelo Intercept. O
espaço segue aberto e, caso haja resposta, o texto será atualizado.
Em nota enviada ao Intercept após a publicação da
reportagem, a defesa do deputado federal Mario Frias confirmou os contatos
entre o parlamentar e Vorcaro, mas disse que as mensagens “refletem apenas uma
relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado
da iniciativa”.
Também destacou que Frias não exerceu papel de articulador
político ou financeiro em nome de Vorcaro. Ainda negou qualquer uso do mandato
parlamentar para “promoção de lobby privado ou favorecimento empresarial”.
O advogado do deputado informou, ainda, que, na época da
troca de mensagens, Vorcaro era conhecido como um empresário do mercado
financeiro e “não havia qualquer informação pública que indicasse eventual
irregularidade financeira” atribuída ao banqueiro. “Conversas privadas
envolvendo exibição de conteúdo audiovisual ou encontros sociais entre pessoas
públicas e empresários não configuram irregularidade”, destacou a defesa do
parlamentar.
Sobre o filme, a defesa pontuou que Frias participou do
desenvolvimento criativo e institucional do projeto audiovisual e que “o
entusiasmo manifestado nas mensagens privadas decorre da dimensão artística e
cultural do projeto, considerado por sua equipe como uma produção inédita
dentro do cinema nacional independente”.
Vorcaro bancou filme do clã Bolsonaro
Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2
milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos
analisados pelo Intercept indicam que pelo menos parte do dinheiro foi
transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria
com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no
Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.
Os registros ainda sinalizam a participação direta nas
operações de outros dois intermediários: o empresário Thiago Miranda – fundador
e sócio do Portal Leo Dias –, e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal
como o principal operador financeiro de Vorcaro.
As mensagens obtidas pelo Intercept abrangem o período de
dezembro de 2024 a novembro de 2025 e incluem diálogos do banqueiro com
diversos interlocutores. O conteúdo do vazamento foi verificado por meio de
cruzamento de informações contidas nos diálogos com dados públicos e sigilosos.
Entre os elementos que confirmaram a autenticidade do material estão dados
bancários e telefônicos, inquéritos policiais, registros do Congresso
Nacional e de redes sociais.
De acordo com as conversas a que tivemos acesso, o
relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a
produção internacional do filme contava com um intermediário no fim de 2024 e,
no ano seguinte, evoluiu para uma interlocução direta, marcada por cobranças
para a liberação de dinheiro, tratativas operacionais e demonstrações de
proximidade pessoal.
As conversas também indicam que Daniel Vorcaro acompanhava
pessoalmente o andamento dos pagamentos e atribuía prioridade ao filme em
relação a outros compromissos financeiros.
O Intercept entrou em contato por e-mail com advogados do
ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não obteve retorno até a publicação desta
reportagem.
‘Flavio está ciente de tudo’
A primeira aproximação registrada pelas conversas obtidas
pelo Intercept ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago
Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, organizou um encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro em Brasília.
Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao
banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente e do SBT $$” [uma
possível referência ao canal de televisão SBT], acrescentando que “Flavio está
ciente de tudo”.
Thiago Miranda e Leo Dias foram contatados para comentar as
trocas de mensagens. Até a publicação da reportagem, não houve resposta. O
espaço segue aberto e, caso haja retorno, o texto será atualizado.
O SBT, por sua vez, respondeu que, “nunca teve qualquer tipo
de contrato com o Banco Master” e que “o produto CredCesta, vinculado ao Grupo
Master, fez ações comerciais de fevereiro a dezembro de 2024 em programa do
SBT” e que “a relação do SBT com o Banco Master foi a mesma que com todos os
seus anunciantes, com estritamente a comercialização de espaços publicitários”.
A reunião foi marcada, segundo os registros, para 11 de
dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro em Brasília. Naquele dia, Flávio
Bolsonaro participou de uma reunião deliberativa na Comissão de Constituição,
Justiça e Cidadania, a CCJ. O vídeo disponível no canal do Senado no YouTube
mostra que, por volta das 17h30, ele recebe um
telefonema, se levanta e sai da sala.
As imagens mostram Flávio voltando a se sentar na sua
cadeira poucos
minutos depois das 18h, o que sugere que uma possível participação na
reunião poderia ter ocorrido de forma remota ou em outro local.
Pouco menos de uma hora após o horário previsto para o
encontro, às 18h24, as mensagens obtidas pelo Intercept mostram que Mario Frias
enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto. Frias afirmou
que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o
país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.
Nos meses seguintes, as mensagens indicam avanço das
negociações. No início de 2025, Miranda e Flávio pressionam Vorcaro para
destravar os contratos e iniciar os aportes.
No dia 20 de janeiro, Miranda encaminhou a Vorcaro uma
captura de tela em que um número atribuído a Flávio Bolsonaro pedia que o
jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo. Horas
depois, Vorcaro respondeu a Miranda, na época CEO do Portal Leo Dias: “Vou
atras aqui”.
As conversas mostram que o cronograma de pagamentos passou a
ser acompanhado diretamente pelo banqueiro e por Fabiano Zettel, apontado nas
mensagens como responsável pela operacionalização jurídica e financeira do
aporte. Entramos em contato com o advogado de Zettel, Celso Vilardi, mas ele
não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.
No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme
teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de
dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro
um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi
diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2
milhões de dólares.
Ainda em janeiro, no dia 28, Vorcaro demonstrou preocupação
com os atrasos nos repasses financeiros e afirmou que o projeto cinematográfico
era prioridade absoluta ao definir o pagamento como “o mais importante
disparado”. E deu uma ordem: “Nao pode falhar mais”.
As mensagens também revelam dificuldades operacionais para a
remessa internacional dos recursos. Em fevereiro, Zettel relatou sucessivas
recusas do setor de câmbio do Banco Master para realizar a operação e que
informações de cadastro eram “meio estranhas”. Vorcaro, então, orientou que o
pagamento fosse realizado “via entre”, uma referência à empresa Entre
Investimentos e Participações.
Embora o Grupo Entre Investimentos e Participações e Vorcaro
neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes,
processos judiciais e administrativos obtidos pelo Intercept evidenciam uma
conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro. Em março de 2026,
após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da Entrepay, uma
empresa que pertencia ao Grupo, autoridades passaram a investigar a suspeita de
que Vorcaro atuaria como dono
oculto da empresa.
Segundo matérias publicadas por Metrópoles e Estadão,
investigadores avaliam que Antônio Carlos Freixo Júnior — executivo ligado ao
Grupo Entre e identificado nas mensagens do vazamento obtido pelo Intercept
como Mineiro — funcionaria como operador de interesses do banqueiro dentro da
companhia.
Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver
uma ligação entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo os registros,
Fabiano Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o
banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo
na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.
O Intercept enviou mensagem por WhatsApp e telefonou para
Antônio Carlos Freixo Júnior, mas não obteve retorno até a publicação desta
reportagem.
Dias depois, em 14 de fevereiro de 2025, Zettel encaminhou
ao banqueiro o comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de
dólares para o Havengate Development Fund LP, identificado nas mensagens como o
fundo ligado à produção do filme. A Entre Investimentos e Participações aparece
no registro como a remetente do valor.
O Grupo Entre, controlador da Entre Investimentos e
Participações, também foi contatado pela reportagem. No entanto, não houve
retorno até a publicação.
Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o
fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados
Unidos, e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto
PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.
Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à
companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo
endereço comercial em Dallas.
Os documentos desta segunda firma apontam o corretor de
imóveis Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo
Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo
endereço comercial utilizado pelo Havengate.
Em março de 2025, de acordo com os registros obtidos pelo
Intercept, Vorcaro voltou a cobrar a quitação das parcelas ainda pendentes. Em
uma mensagem enviada no dia 12 daquele mês, ele encaminhou um cronograma de
desembolsos indicando que apenas a primeira parcela havia sido paga até então.
O documento previa seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro
e maio de 2025.
Em contato telefônico, Altieris Santana se recusou a prestar
informações à reportagem, indicando Paulo Calixto como representante legal.
Paulo Calixto, por sua vez, não respondeu aos contatos telefônicos, por e-mail
e via mensagem feitos pelo Intercept.
Crise do Master atrapalha ‘Dark Horse’
No dia 21 de março, o nome de Eduardo Bolsonaro apareceu
pela primeira vez nas conversas a que tivemos acesso. Thiago Miranda encaminhou
a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Eduardo sugere
alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA – e informa que
Altieris Santana, controlador do fundo Havengate, estaria disponível para
reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.
No contato com a reportagem do Intercept, Altieris Santana
se recusou a comentar a relação com o filho do ex-presidente ou a intermediação
dos pagamentos. O Intercept também questionou por e-mail o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.
O cronograma de financiamento do filme coincidiu com a
tentativa fracassada de Vorcaro de vender o Master para o Banco
de Brasília, o BRB, e com a crescente atenção das autoridades, que
culminaria na sua prisão. Ao longo do segundo semestre de 2025, as mensagens
indicam aumento da pressão financeira sobre Vorcaro e uma intensificação do
contato direto com Flávio Bolsonaro.
Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro a imagem de uma
tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a qual 10,6
milhões de dólares já haviam sido transferidos de um total previsto de 23,9
milhões de dólares. Vorcaro respondeu: “segunda fazemos duas”, e Miranda
afirmou estar “monitorando essa reta final”.
A reportagem do Intercept telefonou para Miranda e enviou
questionamentos a ele por WhatsApp, mas não obteve resposta até a publicação
desta reportagem.
Pouco depois, em 8 de setembro, alguns dias antes de Jair
Bolsonaro ser condenado pela trama golpista, Flávio Bolsonaro enviou um áudio
diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de
paralisação da produção do filme.
Na gravação, o senador diz que havia preocupação com o
atraso nos pagamentos a profissionais internacionais envolvidos na produção.
“Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel [ator que interpreta Jair
Bolsonaro no filme], num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras, pô,
renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”,
afirmou Flávio.
Flávio também disse que o não cumprimento dos compromissos
financeiros poderia comprometer contratos, elenco, direção e toda a equipe do
longa. “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não
honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”, declarou.
Na resposta, Vorcaro pediu desculpas, afirmou que a semana
anterior havia sido muito difícil para ele e prometeu resolver a situação até o
dia seguinte. Na mesma noite, os dois fizeram uma ligação telefônica de cerca
de dois minutos e meio, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept.
Cinco dias antes dessas mensagens entre Flávio e Vorcaro, o
BRB anunciou que o Banco Central havia reprovado
a venda do Master.
‘Tudo isso só está sendo possível por causa de vc’
As conversas seguintes mostram a manutenção do contato
frequente entre ambos. Ainda em setembro, Flávio e Vorcaro realizaram quatro
ligações e marcaram encontros presenciais em São Paulo.
Em uma troca de mensagens no dia 17, Vorcaro perguntou
“14:30?”, ao que Flávio respondeu: “Blz”. Em outubro, as cobranças se
intensificaram novamente. No dia 22, Flávio informou que as filmagens já
estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado “no limite”. O senador
afirmou que, caso o apoio financeiro não pudesse continuar, seria necessário
avisar para que a equipe buscasse “outro caminho”. O banqueiro o tranquilizou:
“Deixa comigo”.
No mesmo dia, Flávio convidou Vorcaro para um jantar em São
Paulo com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em 2 de novembro. O
banqueiro sugeriu realizar o encontro em sua própria residência e que poderia
reorganizar sua agenda para comparecer, pois “tinha uma viagem”. Flávio
sugeriu, mais tarde, a data de 6 de novembro. Não há confirmação, nos
registros, se o jantar de fato ocorreu.
Enviamos questionamentos para Nowrasteh e Caviezel, mas não
houve resposta até o momento de publicação.
No dia 7 de novembro, após enviar a Vorcaro um vídeo de
visualização única, Flávio escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está
sendo possível por causa de vc”. Vorcaro responde: “Que demais”. Em seguida,
diz: “Ficou perfeito”.
Em dezembro de 2025, o Intercept
revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil,
havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar
um contrato de Wi-Fi público sem concluir entregas previstas. Desde março, o
Ministério Público está investigando o contrato. A origem do dinheiro que
custeou a super produção permanecia, no entanto, uma incógnita. Enviamos
questionamentos para Gama, mas não houve resposta até a publicação. O espaço
segue aberto.
O protagonista Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do
filme “Dark Horse” para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição
presidencial que Flávio Bolsonaro espera vencer. O site oficial do filme, no
entanto, não confirma que a produção tem data para chegar ao Brasil.
Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa,
Angélica Neiva, André Garavatti, Bianca Pyl, Eduardo Lima, Rafaela Silva,
Samantha Prado, Sarah Germano e Thalys Alcântara
Atualização: 13 de maio de 2026, 16h29 O texto foi atualizado para incluir as respostas da defesa do deputado
federal Mario Frias, do PL de SP, aos questionamentos do Intercept.