sexta-feira, 5 de junho de 2026

TEMPO FECHADO NAS RELAÇÕES EUA-BRASIL

Artigo de Fernando Gabeira

As relações entre Brasil e Estados Unidos pareciam caminhar bem. De repente, o tempo fechou. As duas medidas emanadas de Washington — a classificação do PCC e do CV como organizações terroristas e um tarifaço adicional de 25 por cento — têm de ser analisadas com frieza.

No mesmo dia em que Jameson Green, o representante comercial, anunciava o tarifaço, Trump anunciou um novo embaixador para o Brasil, preenchendo uma lacuna desconfortável na relação entre os dois países. Agora temos com quem conversar num nível oficial um pouco mais alto.

Quando entram em ebulição, as relações Brasil-Estados Unidos não influenciam apenas a economia. Elas passam a ser a agenda principal das eleições.

Durante algum tempo, parecia aos candidatos que a proximidade com Donald Trump era um trunfo eleitoral. Agora, pelo menos um deles, Lula, terá de se distanciar e retomar o tom crítico que sempre teve em relação ao presidente dos EUA.

A classificação das organizações brasileiras como terroristas estava sendo combatida como ameaça à soberania nacional. Mas tudo isso é um pouco vago para a população mais pobre, sobretudo a que vive nas áreas ocupadas pelo crime. Tem-se debatido tudo: se a medida favorece Flávio ou Lula, que impacto terá no sistema financeiro; só não se debate um tema essencial: que diferença terá para os que vivem sob o jugo do crime organizado? Nenhuma. A própria ideia de asfixiá-lo economicamente não leva em conta que o lucro hoje é obtido mais pelo controle do território do que pelo tráfico. Eles vendem gás, detêm o transporte alternativo, exploram o gatonet (uma instalação clandestina para captar a TV a cabo), cobram taxa de proteção e até constroem prédios. Podem sobreviver mesmo sob asfixia financeira tradicional.

Esses aspectos são pouco debatidos porque não queremos encarar a falência do Estado nas periferias. Mesmo se os Estados Unidos quisessem resolver, iriam fracassar se usassem apenas uma solução militar. Fracassaram em inúmeras guerras assimétricas, daí a novidade na Venezuela: uma ação de comando e controle do petróleo, que era seu objetivo máximo. Também o era no Iraque, mas fizeram uma guerra desastrosa.

O argumento de que o Pix estava ameaçado acabou ganhando força com a decisão americana. Baseados na seção 301 de sua lei comercial, os americanos investem contra o Pix, afirmando que o sistema montado pelo Brasil é desleal com os concorrentes. O Pix é tão bem-sucedido, tão entranhado no cotidiano brasileiro, que, mesmo com mudanças, dificilmente perderá sua posição dominante.

Mas todo esse debate vai convergir na campanha nacional para a defesa do nacionalismo. A expressão “traidores da pátria” já foi usada contra Flávio e a família Bolsonaro. Enquanto o debate se limitava ao tema do crime organizado, a direita respondia com a acusação de que Lula protegia os criminosos.

O tema econômico agora vai dominar a discussão. Não há argumento que se sustente se não for em defesa do Brasil e na condenação do tarifaço. Lula recebeu de novo um presente político que subestimou acertadamente, apostando na negociação. Mas os americanos decidiram antes mesmo do prazo acordado na visita a Washington.

Isto mostra que as negociações devem prosseguir, mas não são mais o único caminho. Será preciso reativar o esforço comercial no mundo, abrir novas frentes, enfim, trabalhar com a hipótese de que os Estados Unidos já não serão o mesmo parceiro do passado.

Tempo para definir uma nova estratégia, contando com a possibilidade de um novo mandato. Certamente, essa medida vai aproximar mais o Brasil da China, mas o país não pode perder a perspectiva de autonomia e de equilíbrio nas relações com os EUA, apesar da passagem catastrófica de Trump.

Uma campanha eleitoral nem sempre é o momento para debater esses temas. As acusações recíprocas predominam sobre o diálogo. Mas é tempo de o Brasil ter uma visão estratégica de longo prazo, baseada nas nossas riquezas naturais, na transição energética, no desenvolvimento sustentável e no papel de líder mundial na questão ecológica.

Quando se sabe claramente o que se quer a longo prazo, esses sobressaltos na política externa ficam mais fáceis de serem absorvidos sem grandes traumas. E não existe disputa para saber quem é mais próximo de um presidente tóxico como Trump. Fica-se mais perto desse termo abstrato chamado soberania nacional.

O mesmo vale para a questão de segurança pública. Se estivéssemos endereçando o problema adequadamente, reconquistando centímetro por centímetro o território ocupado, a classificação americana seria apenas um exercício retórico.

Mesmo assim, nossos argumentos são ótimos. Os americanos reclamam, por exemplo, que o Pix esmaga os concorrentes. Na minha pesquisa preliminar, não encontrei um único concorrente que ofereça os serviços de pagamento gratuitos.

Quem sabe não evoluam para isso, se um dos seus objetivos principais é apenas acumular dados? A experiência brasileira é superior. A única forma inteligente de rivalizar com ela é imitá-la.

Na minha experiência, também se lucra com a humildade. A Suécia criou um número pessoal, cada um tem seu número no sistema administrativo. A Índia fez o mesmo e hoje economiza milhões de dólares nos pagamentos de ajuda social.

Artigo publicado no jornal Estadão em 05 / 06 / 2026

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quinta-feira, 4 de junho de 2026

CONGRESSO BENEFICIA ESTUPRADORES DE CRIANÇAS

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Em menos de 2 minutos Senado derrubou resolução do Conanda

Vítimas de estupro poderão ter gestação forçada enquanto seus abusadores continuarão impunes

Em sessão na terça-feira (2) que durou exatamente 100 segundos, o Senado aprovou um projeto que protege estupradores de crianças e adolescentes. Exagero eu dizer isso? Não para quem conhece a realidade dos abusos sexuais contra vulneráveis. Ao dificultar o acesso ao direito que crianças e adolescentes possuem há décadas de interrupção da gravidez em casos de violência sexual, o Senado facilita que crianças sejam mães.

Ao cancelar a resolução 258/2024 do Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente (Conanda), o Senado dificulta o atendimento a vítimas de violência sexual. Em outras palavras, senadores querem que a criança abusada não tenha acesso facilitado a serviço de saúde e assistência social caso seja estuprada.

Fora do mundo da fantasia bolsonarista, o que isso significa na prática é que crianças e adolescentes, muitas vezes sem terem a quem contar que foram violentadas, tenham que ser torturadas psicologicamente, carregando no ventre o fruto do abuso sexual.

Ao derrubar a resolução do Conanda, Damares Alves —relatora do projeto— quer que seja privilegiada a vontade não da criança, mas de pais, muitas vezes os estupradores. Segundo o IBGE, a maioria dos casos de violência sexual relatada por estudantes de 13 a 17 anos ocorreu no contexto familiar (só 23,2% foram cometidos por desconhecidos). Na prática, Damares quer que a criança/adolescente estuprada pergunte ao familiar ou conhecido estuprador se pode exercer seu direito de interrupção da gravidez resultante do estupro que ele praticou.

A aprovação do PDL do Estupro foi repleta de fake news.

O Conanda não criou um tipo de aborto; a hipótese está na lei. O Conanda não ignorou a vontade dos responsáveis; previu sua busca ativa, respeitada a autonomia da vítima em caso de abuso.

A violência sexual contra crianças e adolescentes triplicou na última década. Com o PDL, o Senado facilita que parte das 60 mil crianças e adolescentes que se tornam mães todos os anos seja submetida à violência de levar adiante uma gestação forçada, enquanto seus abusadores continuam impunes.

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INTERVENÇÃO DE DONALD TRUMP NAS ELEIÇÕES BRASILEIRAS COMEÇOU SEM TIRO NEM BOMBA

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Medidas de Trump mudam foco do debate para beneficiar Flávio e dificultar reeleição de Lula

Sem tiro nem bomba, os Estados Unidos iniciaram uma intervenção política no processo eleitoral brasileiro. Se o assunto da semana passada era a fortuna que Flávio Bolsonaro recebeu do Banco Master para financiar uma cinebiografia do pai, as manchetes agora se ocupam de decisões de Donald Trump que miram a popularidade de Luiz Inácio Lula da Silva – o principal concorrente de Flávio na disputa.

Parte da cúpula do Judiciário considera que a classificação de facções criminosas brasileiras como terroristas foi o primeiro passo na interferência dos EUA nas eleições deste ano, porque prende Lula a uma saia justa: se clamar pela soberania nacional, pode ser interpretado como defensor de bandido.

A sequência da intervenção veio com o anúncio do novo pacote de barreiras tarifárias ao Brasil. Trump conseguiu não apenas desviar a pauta do debate eleitoral, mas ameaçar o País com danos econômicos na reta final do governo Lula.

Flávio capitalizou com as medidas. Posou em foto ao lado de Trump na Casa Branca. Na semana passada, se contorcia diante das câmeras para explicar as suspeitas de ter se beneficiado do esquema de fraudes financeiras de Daniel Vorcaro.

Em suma: qualquer atitude dos EUA com impacto na economia ou na soberania brasileira agora interfere no processo eleitoral, ainda que o país de Trump siga poupando tiros e bombas até outubro.

Ao menos dois ministros – um do Supremo Tribunal Federal (STF) e outro do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) – consideram que os EUA podem incrementar a “intervenção soft” com outras medidas – como o financiamento de defensores de ideias alinhadas às de Trump e o incentivo a candidaturas de direita. Para esses ministros, Trump não está preocupado com o combate ao terrorismo, e sim com a subida de aliados ao poder na América Latina.

Um segundo ministro do TSE, também em caráter reservado, considera cedo para entender como os EUA podem interferir nas eleições brasileiras, mas tem como certo que Lula sai perdendo na primeira investida.

A coluna também ouviu outros dois ministros, um do STF e outro do TSE, que não estão preocupados com tentativas de influência dos EUA nas eleições deste ano. Eles consideram o Brasil imune a esse tipo de ameaça.

As pesquisas de opinião ainda não mediram as consequências para as candidaturas após a mudança de foco no debate eleitoral. Mas já é possível concluir que investigações criminais e estratégia política vão ditar o sobe e desce das campanhas. As propostas dos candidatos, mais uma vez, serão coadjuvantes nas eleições.

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quarta-feira, 3 de junho de 2026

A POLÍTICA DE HORROR DE TRUMP

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados

Nas últimas semanas, tive contato com duas histórias que me fizeram repensar como nós, enquanto humanidade, chegamos ao fundo do poço. Ambas deram origem a reels publicados no perfil do Correio Braziliense. A hondurenha Wendy Hernández foi presa quando se dirigia ao trabalho, na Flórida, e deportada para Honduras. O filho, de apenas 2 anos, ficou com o tio materno. Sozinho, sem a mãe, foi exposto a todo tipo de barbárie, incluindo queimaduras e abuso sexual. Ao ser detida, Wendy implorou para que o pequeno Orlin Josué fosse levado com ela. O ICE, a polícia da Imigração americana, não lhe deu ouvidos. O menino acabou morto.

A outra história envolve um garoto de 18 anos, filho de imigrantes mexicanos. Kevin González tratava um câncer agressivo na cidade americana de Chicago. Os pais, Isidoro e Norma, tentaram atravessar ilegalmente a fronteira para estar com o filho. Mas, foram presos no Arizona. O casal ficou recluso em um centro de imigração durante 30 dias. Nesse intervalo, Kevin, desenganado pelos médicos, retornou a Durango, no México. A família começou uma campanha para sensibilizar os Estados Unidos a libertarem os pais do jovem. Deportados, Isidoro e Norma conseguiram ter somente 24 horas ao lado de Kevin. O garoto morreu nos braços dos pais.

Longe de querer justificar o erro de imigrantes que tentam entrar de forma ilegal em outros países, vejo que o chamado país das liberdades tem promovido uma caçada de terror aos não documentados. São exatamente eles que ajudam a movimentar a economia dos Estados Unidos, ocupando postos de trabalho com mão de obra barata e, às vezes, pouco qualificada. O ICE invade empresas, aborda estrangeiros nas ruas, entra em igrejas. No caso de Wendy, parece não se importar em separar famílias. 

Um levantamento do think tank Brookings Institution revela que 145 mil crianças foram retiradas do convívio dos pais durante as detenções de imigrantes ilegais — 36% delas sequer tinham 6 anos de idade. Desse total, 22 mil ficaram sem a companhia de pai e mãe, depois que ambos foram presos. A maioria das crianças com pelo menos um dos pais presos pela Imigração é oriunda do México (54%). Guatemala e Honduras aparecem em seguida, com 25%. Fico imaginando o trauma para esses pequenos. O que dizer do trauma que carregarão pelo resto da vida? Isso quando não estão expostas a perigos ou ao risco de morte, como ocorreu com Orlin Josué. 

Os apelos dos amigos e familiares para que Isidoro e Norma fossem libertados, a fim de que pudessem conviver com Kevin pelo pouco tempo que lhe restava, parece não terem comovido as autoridades americanas. Pensem em quantas histórias de dor, sofrimento, medo e solidão não são tornadas públicas, não chegam à opinião pública... A política de tolerância zero adotada pelo governo Donald Trump é condenada por ativistas dos direitos humanos, mas também por especialistas em política americana. Trump sempre classificou os imigrantes como criminosos e marginais. Coloca no mesmo balaio de terroristas e traficantes aquelas pessoas que cometeram um erro em busca de uma vida melhor. 

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TARIFAÇO E FOTO COM FLÁVIO ESCANCARAM INTERFERÊNCIA DE TRUMP NO BRASIL

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ataque ao Pix mexe com bolso do eleitor e dá bandeira popular a Lula para acusar rival

Tudo aconteceu em menos de 24 horas. Na madrugada, o governo americano ameaçou baixar um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. Pouco depois, o secretário Marco Rubio comparou o Brasil a regimes autoritários e hostis aos Estados Unidos. Para arrematar, o presidente Donald Trump divulgou uma foto com Flávio Bolsonaro. Descreveu o senador como um “jovem inteligente que ama muito seu país”.

A mensagem de ontem foi clara: a Casa Branca fará o possível para interferir na corrida ao Planalto e dificultar a reeleição de Lula. A classificação de facções criminosas como terroristas, na semana passada, foi apenas o começo da ofensiva.

Trump nem se preocupou com as aparências. Autorizou a divulgação de um relatório capenga, repleto de mentiras e distorções, para justificar a proposta de uma nova sobretaxa de 25% sobre exportações. O documento chega a usar como pretexto o desmatamento da Amazônia, que despencou nos últimos anos.

O texto também faz uma série de ataques ao Pix, tachado de “irrazoável”, “injusto” e “discriminatório” contra empresas americanas. Como se razoável fosse obrigar os brasileiros a abrir mão de uma ferramenta gratuita para voltar a pagar juros e taxas a bandeiras de cartão de crédito.

O abuso da investida deu a Lula um mote poderoso para a campanha. Ao exibir um cartaz com a expressão “O Pix é do Brasil”, o presidente se apresentou como guardião do interesse nacional e defensor do bolso dos eleitores. De quebra, tachou o Zero Um e seus irmãos de “traidores” e “vendilhões da pátria”. Os petistas completaram o contra-ataque ao emplacar a expressão “Tariflávio” nas redes sociais.

O filho do capitão acusou o golpe e ensaiou um discurso defensivo. Disse ter pedido a Trump que não sobretaxasse as empresas brasileiras. Difícil acreditar. Há menos de um ano, o mesmo Flávio declarou que “patriotas de verdade” deveriam celebrar o primeiro tarifaço contra o Brasil. Apostava na sabotagem econômica para livrar o pai da cadeia.

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terça-feira, 2 de junho de 2026

UMA CHANCE PARA O RIO

Artigo de Fernando Gabeira

Quem mora no Rio e não pensa em se mudar precisa considerar a possibilidade que se abre de abolir a triste tradição de ver os governadores saindo do Palácio Guanabara para a cadeia.

As eleições nos dão uma chance, talvez a única, de nos livrarmos desse tipo de governo. É preciso eleger alguém que compreenda o potencial do Rio e queira também fazer algo decente por um estado que vem sendo saqueado ao longo do tempo.

Não tenho ilusões de que essa mudança possa ser feita da noite para o dia. O último governador conseguiu adaptar alguns setores da administração a sua perspectiva predadora. Isso é demonstrado na sonegação da Refit — até setores do meio ambiente foram cooptados para o crime. É possível que grande parte da administração tenha apodrecido.

É preciso um plano de trabalho cauteloso para avançar nesse campo minado. Caso contrário, haverá colapso. Da mesma forma, não será possível romper com todos na Assembleia Legislativa. É preciso manter contato com alguns para ir se livrando progressivamente da máfia. Do contrário, haverá paralisia.

Nesse ponto específico, a volta por cima depende parcialmente de nós. Temos de escolher bem os deputados, acompanhar o trabalho de quem elegemos. A própria imprensa, na medida em que se concentre nos deputados, poderá ajudar a minoria, com apoio da opinião pública, a evitar barbaridades e avançar alguns projetos indispensáveis.

O grande tema na recuperação é a segurança pública. Para que tenhamos um trabalho de excelência e profissionalismo, será preciso ir além do discurso de matar bandidos. O governador eleito terá de ser capaz de convencer a sociedade de que a segurança pública exige investimentos em salários, equipamento e formação.

O estado tem pouco recurso. Mas a importância da segurança pública no Rio tem dimensão internacional. Brasília precisa ter sensibilidade para o tema que se tornou um delicado item da política externa.

Mesmo antes disso, o sofrimento de milhões de fluminenses, alguns sem gozar a liberdade nas áreas ocupadas pelo crime organizado, já seria motivo mais que razoável para que os governos estadual, federal e municipal se unissem.

A devastação moral, as dívidas crescentes, a captura de setores da administração pelo crime, a insegurança urbana, tudo isso é motivo para que todos os setores vivos e criativos do Rio se unam e tentem uma volta por cima.

Sem a consciência de que temos uma chance e de que é preciso embarcar nela, dificilmente as coisas acontecerão entregues apenas ao domínio da política profissional.

O Rio chegou a este ponto porque grande parte das forças criativas considera que não vale a pena acompanhar esse espetáculo desagradável. Pois nossos olhos, nossa voz, nossa atenção podem ser o veículo adequado para que os políticos realizem pelo menos um trabalho razoável. Não há nada a perder, basta embarcar nessa última chance.

Artigo publicado no jornal O Globo em 02 / 06 / 2026

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O REPÓRTER QUE DESCOBRE QUALQUER COISA, ATÉ VACA FALANTE

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Livro narra trajetória de Luarlindo Ernesto, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje

Aos 82 anos, ele é capaz de desvendar o mistério do dinheiro investido no filme "Dark Horse"

No romance "O Piano e a Orquestra", de Carlos Heitor Cony, o narrador está obcecado por uma vaca. Uma vaca que fala em perfeito francês: "À votre service".

Ele só a encontrara uma vez, empacada no meio da estrada, e gostaria de revê-la e mergulhar de novo na doce alucinação. Só uma pessoa no mundo poderia ajudá-lo: o repórter policial Luarlindo, cuja fama era saber de tudo e ser capaz de descobrir qualquer coisa. Em troca de alguns chopes, o jornalista dá o serviço. A vaca se escondia no bairro do Lins de Vasconcelos, na zona norte do Rio de Janeiro.

Revelar o mocó da vaca falante foi moleza para Luarlindo. Veterano do Jornal do Brasil, O Globo, O Dia, sempre furando a concorrência, em seu currículo constam, além de três prêmios Esso, coberturas mais difíceis e traumáticas: a busca pela corpo da socialite Dana de Teffé, o incêndio do Gran Circus Norte-Americano em Niterói, a morte do detetive Milton Le Cocq, a caçada ao bandido Cara de Cavalo, as fugas cinematográficas do assaltante Lúcio Flávio, o surgimento dos esquadrões da morte, o sequestro do menino Carlinhos, o atentado a bomba no Riocentro, a captura do mafioso Tommaso Buscetta no Brasil.

Luarlindo Ernesto, que inspirou o personagem de Cony, acaba de ganhar uma biografia. Em "O Último Repórter dos Anos de Chumbo", Elenilce Bottari narra com rigor histórico os episódios da trajetória de Luar, como é conhecido, mas de maneira descontraída, como se fosse uma conversa de bar, com pitacos do próprio biografado: "Falei com o Buscetta, mas a única coisa que o italiano me disse foi: ‘A pronúncia do meu nome não é busqueta. É buceta mesmo’".

Aos 82 anos, Luarlindo mantém o faro de quem começou a trabalhar na Última Hora aos 14, quase de calças curtas, como foca do repórter sensacionalista Amado Ribeiro. Testemunha e agente das transformações no jornalismo, do auge da imprensa marrom ao caráter investigativo de hoje, se pautado pela chefia, ele é capaz de descobrir onde está escondida a grana do filme "Dark Horse".

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domingo, 31 de maio de 2026

FLÁVIO BOLSONARO É TERRORISTA ?

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Senador é aliado de Bacellar, apontado como chefe do núcleo político do CV, e se declarou irmão de Vorcaro

Discordo de quem acha que Flávio, CV e PCC são terroristas, mas respeito os argumentos

Flávio Bolsonaro é aliado de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A Polícia Federal considera Bacellar "o chefe do núcleo político do Comando Vermelho".

Ou seja: se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio é aliado de um importante líder terrorista.

Flávio Bolsonaro também já se declarou "irmão" de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O Master tinha relações tão próximas com a Reag Investimentos, acusada de lavar dinheiro do PCC, que, segundo matéria desta Folha de 28 de agosto de 2025, administrava o fundo que era dono da casa de Daniel Vorcaro.

Ou seja, se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio Bolsonaro ganhou R$ 60 milhões inexplicáveis de um sócio da turma que lavava dinheiro do grupo terrorista PCC.

Discordo do Departamento de Estado americano: embora o CV e o PCC de fato mantenham um reinado de terror nos territórios que ocupam, isso é diferente do que faz a Al Qaeda, ou do que fazia o IRA irlandês: CV e PCC não têm objetivos políticos ou ideológicos.

O único argumento realmente bom a favor da nova definição proposta pelo Departamento de Estado americano é justamente o conjunto de vínculos suspeitos entre o CV, o PCC e o bolsonarismo.

Afinal, o bolsonarismo realizou o único atentado terrorista incontestável de nossa história recente: a tentativa de explodir o aeroporto de Brasília na véspera de Natal de 2022, conduzida por um ex-assessor do ministério de Damares Alves e um comparsa. Um dos terroristas, inclusive, estava no Congresso no dia 30 de novembro de 2022, quando a bancada bolsonarista se reuniu para pedir golpe de Estado.

O atentado da véspera de Natal se encaixa muito melhor na definição tradicional de terrorismo do que as barbaridades perpetradas por CV e PCC. Os terroristas de Brasília buscavam, por métodos violentos dirigidos à população civil, criar um clima de caos que levasse a uma adesão dos militares à tentativa de golpe de Estado conduzida por Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro é o herdeiro da liderança do movimento que fez o atentado da véspera de Natal em 2022. Mesmo assim, sou generoso o suficiente para hesitar antes de chamar Flávio Bolsonaro de terrorista.

O que resta investigar é se Flávio e outros líderes bolsonaristas são criminosos comuns, como os do CV ou os do PCC.

As novas descobertas da Polícia Federal mostram que o dinheiro dos aposentados roubado pelo governo bolsonarista do Rio de Janeiro e transferido à quadrilha Banco Master chegava a quase R$ 4 bilhões. Ainda na semana passada, foi feito um acordo para fechar um rombo de R$ 6,5 bilhões do BRB que o governo bolsonarista do Distrito Federal deu para o Master.

Discordo de quem acha que Flávio Bolsonaro, o CV e o PCC são terroristas, mas respeito os argumentos de quem acha que são.

O que é indiscutível é que não podemos deixar Flávio usar essa polêmica para abafar um escândalo que tirou de cofres públicos administrados por bolsonaristas um mínimo de R$ 10 bilhões que poderiam ter sido usados para treinar e pagar o salário de um policial para patrulhar a rua em que você mora.

Ao invés disso, foram gastos com surubas de políticos de direita, uísque em evento de US$ 1 milhão e o filme do Bolsonaro.

*É doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de "PT, uma História"

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OS PATRIOTAS PELO AVESSO

Míriam Leitão, O Globo

O patriotismo histriônico e estigmatizado não tem nada a ver com o verdadeiro amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses do Brasil

Talvez o momento mais verdadeiro do nacionalismo da direita tenha ocorrido quando manifestantes bolsonaristas estenderam a bandeira norte-americana na Avenida Paulista em pleno dia da pátria brasileira. Eles se denominam “patriotas” e se cobrem de verde e amarelo, mas comemoram barreiras contra as exportações brasileiras, pedem intervenção americana nas eleições nacionais e, agora, tratam como uma vitória o que é um evidente risco para o país e suas instituições.

É um patriotismo pelo avesso. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chegou a colocar o boné com a marca “Make America Great Again” na época da posse de Donald Trump. Mas já estava claro para qualquer pessoa que, na visão trumpista, os Estados Unidos só podem ser grandes em detrimento de outros países. A conta não tardou muito, em abril do ano passado, o presidente norte-americano anunciou o tarifaço contra o mundo. O Brasil ficou com uma das maiores tarifas e elas feriram duramente as empresas do estado governado por Tarcísio. Foi o governo Lula que dissolveu a maior parte desse ônus para a economia brasileira.

O patriotismo histriônico e estigmatizado que berra, agarra a bandeira, militariza os símbolos nacionais em atos patéticos não tem nada a ver com o verdadeiro e sereno amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses dos que nasceram nesta terra ou a escolheram como sua.

São muitos os riscos decorrentes da definição das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Uma das primeiras consequências práticas pode ser o enfraquecimento dos mecanismos atuais de cooperação no combate a essas quadrilhas. O Brasil perde interlocução com o FBI e o assunto passa para a alçada da CIA. Combater o tráfico de drogas e armas deixa de ser uma questão policial, em que organismos dos dois países podem trocar informações. O tema passa ser uma questão da segurança nacional americana, portanto, entregue aos espiões. A partir dessa decisão do governo americano, ficam legalmente permitidas missões de espionagem da CIA no Brasil, sem a anuência ou conhecimento do governo brasileiro.

Há ameaças econômicas também. Num mercado financeiro globalizado, bancos nacionais operam o tempo todo no mercado americano. Qualquer dúvida que paire sobre instituições brasileiras pode se transformar em limitação para as suas operações. Empresas também que tenham negócios com firmas americanas podem encontrar constrangimentos.

O senador Flávio Bolsonaro comemorou a decisão do governo Trump como uma vitória política. O ato é visto como uma tábua de salvação para uma candidatura que está em apuros pela revelação da intimidade que ele mantinha com o banqueiro corruptor Daniel Vorcaro. Como a decisão do governo americano ocorreu logo após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pode reivindicar autoria do atentado.

O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são de fato terríveis organizações, extremamente perigosas, que se expandem. Qualquer pessoa pode se sentir ameaçada pelo terror que elas espalham com suas ações e concluir que faz sentido defini-las como terroristas. Não é a definição em si o problema, e sim o que isso implica do ponto de vista legal.

Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador? Curiosamente, ele guarda silêncio sobre a organização criminosa que também aterroriza cidadãos do Rio de Janeiro. No passado recente, ele já elogiou, empregou e condecorou milicianos e seus familiares.

Há um fio que liga as patriotadas do governo militar e o comportamento dos líderes bolsonaristas. Tanto na ditadura quanto agora, a direita declara ser a detentora única do amor à pátria quando na verdade é capaz das maiores traições. Tanto o ataque ao patrimônio natural do país, quanto os acordos entreguistas que beneficiam outros países em detrimento do Brasil. Têm ainda em comum a devoção à potência estrangeira.

O assunto se presta a muita confusão, manipulação e falsidade. E é a essa tarefa que Flávio Bolsonaro está dedicado no momento. Ele está usando o sentimento natural de repúdio das pessoas contra as organizações criminosas, e tratando a decisão do governo americano como um serviço ao país. O que isso pode significar na prática, contudo, não lhe interessa. Flávio Bolsonaro continuará no seu show de bajulação ao presidente dos Estados Unidos. E chamará a isso patriotismo.

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A ESCALA E A URNA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Vitória contra escala 6x1 mostra que proximidade da eleição faz milagres

Proposta tirou esquerda da inércia, emparedou Centrão e deixou bolsonarismo sem saída

A proximidade da eleição faz milagres. Na quarta-feira, a Câmara aprovou o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Meses atrás, pouca gente em Brasília acreditava que a proposta iria adiante. Não só foi, como passou com folga: teve apoio de 95% dos deputados presentes.

O placar de 472 a 22 pode dar a impressão de que os parlamentares fizeram uma autocrítica e decidiram se irmanar em defesa da classe trabalhadora. Não foi bem isso. A derrubada da 6x1 é resultado de uma articulação rara, que tirou a esquerda da inércia, emparedou o Centrão e deixou o bolsonarismo sem saída.

O primeiro passo foi dado nas redes, onde um balconista de farmácia viralizou ao desabafar contra a rotina exaustiva. Rick Azevedo se elegeu vereador no Rio pelo PSOL e ofereceu uma nova bandeira ao campo progressista. A causa ganhou tração. Em março, o Datafolha informou que 71% dos brasileiros defendiam os dois dias de descanso semanal.

O Planalto aproveitou o embalo e anunciou o envio de um projeto com urgência constitucional, que precisaria ser votado em 45 dias. Sob pressão, o deputado Hugo Motta resolveu pautar as propostas de redução de jornada que já adormeciam em sua gaveta. Pensava na própria reeleição e no risco de ver seu grupo ser carimbado, mais uma vez, com a pecha de “inimigo do povo”.

A guinada do Centrão desnorteou os bolsonaristas. Com medo da derrota, eles passaram a bater cabeça em público. Tentaram atrasar a votação, propuseram uma transição de dez anos e, na última hora, lançaram o factoide da escala 4x3.

Nada colou, e parlamentares que demonizavam a proposta se viram premidos a endossá-la. Num discurso inusitado, Nikolas Ferreira, do PL, declarou voto a favor e vaticinou que o fim da 6x1 provocaria demissões em massa. “Esse dia vai ser maravilhoso”, acrescentou, sem corar. Em 2022, o jovem bolsonarista foi premiado por 1,47 milhão de mineiros com a maior votação do país.

Deputados que se mantiveram fiéis aos lobbies empresariais acusaram colegas da direita de traição. “São todos boca de mousse, não têm coragem de dizer não”, esbravejou Gilson Marques, líder do Novo. “Há muita gente que defende uma coisa no bastidor, mas na hora de colocar a digital não tem coragem”, reforçou Kim Kataguiri, do Missão.

Quando Motta abriu a sessão, quase todos já sabiam que a proposta seria aprovada com facilidade. Quem se surpreendeu devia estar desatento aos sinais emitidos por figuras como o chefão do PL, Valdemar Costa Neto. Em fevereiro, num jantar com grã-finos paulistas, o dono do partido de Bolsonaro havia prometido bloquear qualquer tentativa de acabar com a 6x1.

“Vamos trabalhar para não deixar votar. Vamos dar a vida para isso”, assegurou, sob aplausos. Passados três meses, ele se rendeu ao instinto de sobrevivência política. “Nós não podemos ser contra”, disse, na segunda-feira. “Se nós não aprovarmos a 6x1, o Lula ganha a eleição”, justificou-se.

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sábado, 30 de maio de 2026

HOJE A FESTA É NOSSA !

Olha onde chegamos ! Hoje, este blog completa 21 anos. Em 30 de maio de 2005 estreava esse blog político Sou Chocolate e Não Desisto. Um dos primeiros blogs de política do país, atrás apenas do blog do jornalista Ricardo Noblat que teve suas atividades iniciadas em abril de 2004.

Com 7.670 dias no ar, mais de 58 milhões de visitas dos seis continentes, a cada dia o blog tem se destacado na blogosfera. Nesses 20 anos, o blog Sou Chocolate e Não Desisto participou de alguns prêmios, entre eles o TopBlog, a maior premiação voltada para a blogosfera brasileira.

Desde a criação do Prêmio TopBlog em 2009, o nosso blog tem ficado entre os 100 blogs (2009, 2010, e 2012) mais votados na categoria política/pessoal pelo júri popular. Em 2011, em segundo lugar pelo júri acadêmico.  Em 2013 ficamos em terceiro lugar pelo júri popular. Neste ano, ficamos entre os 100 blogs mais votados pelo júri popular.

É uma honra ter o reconhecimento desse trabalho. A responsabilidade a cada dia aumenta.  Que venha os próximos 21 anos ! Obrigado a todos leitores e visitantes. Forte abraço.

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O PECADO DA ESCRAVIDÃO

Jamil Chade, CartaCapital

A primeira encíclica de Leão XIV une-se à posição da ONU na crítica ao neocolonialismo

Sem o carisma e a vitalidade de Francisco, o antecessor, o papa Leão XIV finalmente saiu da sombra e deu sentido ao seu pontificado. Na segunda-feira 25, o norte-americano ­Robert Prevost lançou a encíclica Magnifica ­Humanitas, que trata da salvaguarda dos seres humanos na era da Inteligência Artificial. O papa aproveitou a oportunidade para uma reparação histórica. “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, declarou, em referência à chancela da Santa Sé a séculos de escravidão. O reconhecimento papal deu-se dois meses depois de a Assembleia-Geral das Nações Unidas ter aprovado uma resolução na qual declara a escravatura como o maior crime contra a humanidade de todos os tempos.

Os dois enunciados não aconteceram por acaso. A declaração do Vaticano ocorre justamente num documento no qual o papa alertava para o impacto da IA e as novas formas de escravidão por conta da revolução digital e pela cobiça das grandes empresas do mundo por recursos naturais, uma vez mais depositados em solo de países que, nos últimos séculos, foram colônias. O pontífice foi claro sobre esse aspecto. Segundo ele, a Inteligência Artificial gera “novas formas de escravidão”, como a dos corpos “marcados, feridos e desgastados” daqueles que trabalham na extração dos “elementos de terras-raras” necessários para a tecnologia. Portanto, Leão XIV ressalta a importância do combate à escravidão moderna como mais um “teste decisivo para o discernimento ético” na transformação digital. Segundo ele, “a Igreja renova sua firme condenação a todas as formas de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas­” e não reagir a ou tolerar graves violações da dignidade humana significa tornar-se cúmplice. “Uma corrida por algoritmos cada vez mais poderosos e conjuntos de dados maiores, impulsionada pelo desejo de garantir o domínio geopolítico ou comercial”, denuncia na encíclica.

O futuro repete o passado. O avanço do processo tecnológico e o desenvolvimento da IA recolocaram o acesso aos recursos no centro da diplomacia e das canhoneiras. Governos como o dos Estados Unidos declaram abertamente o intento de anexar territórios. Há três meses, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, alertou, na cúpula da União Africana, para a ameaça de uma “nova forma de colonialismo” em curso. “Não deve mais acontecer de rochas, solo e poeira serem exportados da África sem serem beneficiados.”

A defensiva dos países em desenvolvimento ocorre num momento em que magnatas, Donald Trump e a extrema-direita articulam uma operação sofisticada para desqualificar qualquer expansão de direitos ou o reconhecimento do custo da escravidão. Um dos passos fundamentais tem sido o de tentar reescrever a história e impedir que os atos do passado sejam tratados como crimes. Só assim, alegam observadores, haverá um espaço supostamente legítimo para perpetuar a exploração de terras e populações.

Em contraponto, magnatas, os EUA e a extrema-direita exaltam o passado colonial

Nos EUA, Trump assinou um decreto no qual dita que museus apenas terão recursos públicos se “glorificarem” a história do país. Empresas que estabelecem cotas raciais foram proibidas de ter contratos com o governo federal. Em fevereiro, o governo abriu um processo contra a Nike por suposta “discriminação contra empregados brancos”.

O racismo também foi institucionalizado na política externa. Quando Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, no fim de 2025, uma frase se destacava: “Apagamento civilizacional”. Especificamente em relação à Europa, o documento alertava que “as políticas migratórias que estão transformando o continente” fazem parte de uma série de tendências que ameaçam torná-lo “irreconhecível em 20 anos ou menos”. Para diplomatas, o supremacismo branco estava instaurado de forma oficial.

Asfixiar a agenda do movimento negro passou a ser também um projeto regional. Dias antes de o papa lançar sua encíclica, os bastidores da diplomacia apontavam para uma manobra reveladora. Com a ameaça de retirar o visto de autoridades, chantagens e pressão sobre os países mais pobres da região, o governo Trump e a aliança ultraconservadora na América Latina conseguiram barrar um projeto de Brasil e Colômbia em defesa da população negra do hemisfério. O objetivo era a criação de uma Declaração Interamericana dos Direitos das Pessoas Afrodescendentes, tema que deveria estar na agenda da Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos marcada para o fim de junho, no Panamá.

Um dos instrumentos de Trump foi ativar a aliança de governos ultraconservadores, como Argentina, Chile e Paraguai. A operação também passou pelo Caribe, região que possui grande população afrodescendente. O Departamento de Estado ameaçou retirar o visto de autoridades, caso esses países não aderissem ao esforço para enterrar o projeto. Os embaixadores do Haiti, Jamaica e Belize foram alvo de ultimatos. Outros países menores da região receberam recados de que a insistência em levar a declaração à assembleia seria encarada como afronta aos EUA. Diante da debilidade­ de vários desses governos, a pressão surtiu efeito. O embaixador norte-americano, Leandro Rizzuto, disse a interlocutores de diversos países que não admitiria que o tema dos direitos dos afrodescendentes conste da agenda do evento.

O êxito da Casa Branca em asfixiar o projeto foi interpretado como um sinal da força da aliança de extrema-direita na região, do poder de pressão dos EUA e da existência de um plano de sufocar a agenda progressista em direitos humanos. Se até agora a pauta ultraconservadora de Trump e o fim da agenda de diversidade eram uma realidade interna, a operação diplomática da Casa Branca revela que a estratégia é a de abafar também o avanço dos direitos das minorias no continente.

Em discurso perante os delegados da OEA, o representante da Colômbia alertou: a decisão era “uma mensagem profundamente desanimadora aos mais de 200 milhões de afrodescendentes nas Américas”. Para Bogotá, “o silêncio, a inação e o adiamento” da defesa dos direitos da população negra “perpetuam dinâmicas de exclusão e racismo”. A perpetuação não é, portanto, um acidente. •

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

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O VALE=TUDO DO PROJETO DE PODER BOLSONARISTA

Flávia Oliveira, O Globo

À espreita do Brasil, estão o risco de intervenção, inclusive militar, dos Estados Unidos e sanções econômico-financeiras

Não há limite para o projeto de poder do bolsonarismo. Vale duvidar das urnas eletrônicas, minar a credibilidade de autoridades e do sistema eleitoral, confrontar Legislativo, Judiciário e até a ciência. Vale tramar golpe de Estado e assassinato de presidente e vice eleitos, bem como de ministro do Supremo Tribunal Federal. Vale incitar nação estrangeira a aplicar tarifas, abrir investigação contra o Brasil por concorrência desleal e impor sanções a personalidades da República. Agora, vale também buscar classificação de organizações criminosas, caso de PCC e Comando Vermelho, como terroristas e sujeitar o país a graves retaliações econômicas e financeiras pela maior economia do planeta, segundo maior parceiro comercial brasileiro.

O empreendimento bolsonarista para desestabilizar economicamente o Brasil em proveito da própria família começou há pouco mais de um ano. E não cessa. Após encontro com os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro, filhos do ex-presidente condenado por golpe de Estado, e Paulo Figueiredo, neto do último general ditador, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou que o país qualificou as duas facções transnacionais brasileiras como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT, na sigla em inglês). No próximo dia 5 de junho, as designará como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). O par de ações representa uma guinada nas relações bilaterais, ameaça a soberania brasileira e impõe riscos às operações de empresas e bancos.

Em nota horas depois do anúncio, festejado pelo senador e pré-candidato à Presidência, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que reúne os maiores especialistas do país na área, alertou sobre os impactos na soberania e autonomia do Brasil; na economia e no sistema financeiro; nos mecanismos de cooperação regional e internacional. As organizações que integram a rede Pacto pela Democracia advertiram sobre a possibilidade de “sanções, pressão diplomática indevida e interferência em assuntos internos brasileiros”.

Os agentes econômicos temem que, se aplicada, a retaliação a bancos, corretoras e meios de pagamento, Pix incluído, traga prejuízos ou inviabilize comércio exterior, fluxo de investimentos e turismo para o Brasil; eleve custos financeiros e de seguros; desvalorize o real; pressione risco país e taxa de juros; restrinja acordos com organizações multilaterais, como o BID. Não é exagero. Tudo isso pode acontecer, a depender da disposição de Donald Trump e sua trupe.

A Colômbia sofreu implicações de 1997 a 2021, período em que vigorou a classificação pelos Estados Unidos das Farc como organizações terroristas. A União Europeia fez o mesmo entre 2002 e 2017. O Líbano ainda convive com efeitos no câmbio, nos juros e nos investimentos, em decorrência da designação do Hezbollah. Em julho passado, os Estados Unidos impuseram sanções a dois grandes bancos e uma corretora de valores do México, acusados de movimentação financeira de cartéis de drogas.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, destacou que o “ato eleitoral” do governo americano pode prejudicar a economia do Brasil. Ele já foi procurado por empresários e banqueiros temerosos. O promotor Lincoln Gakiya, do MPSP, maior autoridade do país no enfrentamento ao PCC, já havia afirmado que a mudança imposta pelos Estados Unidos mais atrapalha que ajuda no combate ao crime organizado. Isso porque o compartilhamento regular de informações de Polícia Federal e MP brasileiros e DEA e FBI deve cessar, em razão da classificação sigilosa imposta por CIA e Pentágono nos assuntos de defesa.

É curioso como os filhos de Bolsonaro, em nome da disputa eleitoral, agiram por medidas que Jair Bolsonaro, quando presidente da República, não reivindicou. Governado por bolsonaristas desde 2018, o Rio de Janeiro viu milícias e facções do tráfico se expandirem até o Legislativo. Aliado de Flávio Bolsonaro e do ex-governador Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, está preso por envolvimento com o CV. O próprio Flávio ainda não conseguiu esclarecer as condições contratuais nem o caminho do dinheiro que Daniel Vorcaro, a pedido do senador, destinou à cinebiografia de Bolsonaro pai. O escândalo do Banco Master alcança fundos de investimento suspeitos de lavagem de dinheiro do PCC.

À espreita do Brasil, estão o risco de intervenção, inclusive militar, dos Estados Unidos e sanções econômico-financeiras. E hipótese remota, quase inexistente, de eficácia no combate às facções. Especialistas são unânimes em afirmar que o crime não arrefeceu, para ficar em dois exemplos, nem na Colômbia nem no México, em razão das retaliações impostas pelos americanos.

O Brasil tem o desafio de combater o crime e a violência desmedida de PCC, CV e demais grupos armados espalhados pelo país — 88 ao todo, segundo o Ministério da Justiça. Há de haver coordenação entre instâncias de governo, cooperação com outros países, inteligência e estratégias de asfixia financeira das facções, retomada de territórios dominados, presença do Estado nas comunidades. São medidas que prescindem da intervenção dos Estados Unidos, que ameaça não o governo Lula, mas todo e qualquer presidente que o Brasil venha a ter enquanto vigorarem as medidas.

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MORRE VIRGILDÁSIO DE SENNA

Yuri Abreu, A TARDE

Virgildásio de Senna morre aos 102 anos

Ele foi gestor da capital baiana entre 1963 e 1964, mas foi afastado pela ditadura militar

O ex-prefeito de SalvadorVirgildásio de Senna, morreu neste sábado, 30, aos 102 anos. Segundo a família, que confirmou o óbito, ele está sendo sepultado no Cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação.

Senna foi chefe do Executivo soteropolitano entre 1963 e 1964, quando teve o mandato interrompido pela ditadura militar. Ele ainda chegou a ser deputado federal por dois mandatos consecutivos, entre 1º de fevereiro de 1983 e 31 de janeiro de 1991.

Natural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, ele se formou engenheiro pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na política, foi filiado aos seguintes partidos: PTB (atual PRD), MDB e PSDB.

Já no funcionalismo público, atuou no Serviço de Obras da Secretaria da Educação da Bahia entre 1948 e 1951; como superintendente de Urbanização da Capital, em Salvador (1959); e secretário municipal de Viação e Obras Públicas do prefeito Heitor Dias Pereira (1959-1961).

Vereador e sobrinho lamenta

Em nota publicada em seu perfil nas redes sociais, o vereador de Salvador, Téo Senna (PSDB), lamentou a morte do tio. Ele destacou "a trajetória marcada pela retidão de caráter, competência administrativa e dedicação à nossa cidade e ao nosso país".

"Sua vida atravessou gerações inspirando homens e mulheres da vida pública a exercerem seus mandatos com equilíbrio, firmeza, lucidez e respeito às pessoas. Que Deus o receba em Sua infinita misericórdia. Seu exemplo permanecerá vivo na memória de Salvador e na história da Bahia", acrescentou Téo Senna.

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O JOGO DE FLÁVIO BOLSONARO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Trump dá sua contribuição à agenda de Flávio Bolsonaro, à qual Lula terá dificuldade de contrapor

Não é fácil aplicar a defesa clássica da soberania nacional diante do discurso bolsonarista de libertar o brasileiro de um ‘governo paralelo’

Não desfazendo da obstinação do bolsonarismo eduardista por estabelecer relações na Casa Branca, a conta do acesso de Flávio Bolsonaro ao primeiro escalão da administração Trump – sobretudo a Marco Rubio e J.D. Vance – não fechará sem a variável lobby-de-algum-grupo-econômico-pesado.

Isto parece ser condição fundamental para se chegar ao presidente dos EUA: ter o apoio de bilionários de cujos investimentos o governo, donde o projeto de poder trumpista, dependa. Lula tem os seus empresários abridores de portas em Washington. Está explícito. Nem sempre será, talvez porque os de Flávio – o cronista especula – sejam financiadores do Partido Republicano e do movimento MAGA. Atenção a isso.

Atenção também às consequências de terem os dois principais postulantes à Presidência se lançado a uma competição por exibir, como ativo eleitoral, o que tiraria a melhor fotografia com Donald Trump; a quem assim convidaram às eleições brasileiras. A primeira interferência – por ora de natureza político-eleitoral – está feita.

A foto de Flávio representou ao mesmo tempo o marco de uma posição – em prol de o governo americano declarar terroristas PCC e CV – e uma aposta: a de que o faria antes das eleições. A declaração veio no dia seguinte à sua última reunião na Casa Branca, encontro vendido como tendo o tema por centro. O ato é contribuição direta à agenda-campanha bolsonarista, associado Lula a gestões formais contrárias à reclassificação, doravante pressionado a se posicionar a respeito.

Não será fácil. Porque já está ligado o moedor discursivo eleitoral, os argumentos técnicos tornados pretexto para “proteger bandido”. Não será fácil. Porque não é fácil aplicar à questão corrente a defesa clássica da soberania nacional. O caso das tarifas baixadas contra o País tinha poucas nuances. O presidente deitou e rolou então, os Bolsonaro como “entreguistas” etc. Agora é mais complexo. Flávio fala em “libertar você” – o brasileiro – “do governo paralelo”.

Há uma batalha pela captura da percepção do indivíduo-eleitor. Uma disputa entre soberania macro – a defesa dos interesses pátrios contra a interferência estrangeira – e soberania micro, aquela cuja inexistência é atestada no mundo real, na experiência das ruas, lá onde as gentes, sob coação permanente de um Estado marginal, não têm o direito de ir e vir, territórios cada vez maiores sob controle das facções.

Não é fácil se opor – no Brasil, num ano eleitoral, sendo a segurança assunto decisivo – ao que fez o governo Trump. Porque posta está a armadilha da contradição. Afinal, o discurso atual de Lula – contra o magnata morador de Miami cuja operação no mercado financeiro serviria à lavagem transnacional de recursos do crime organizado – é consistente com o objeto da nova diretriz americana.

Ante a evidência de que os governos locais, federal incluído, não conseguem resolver o problema da segurança pública, o cidadão será tentado pelo desejo de testar solução radical inédita. É isso que Flávio Bolsonaro quer instrumentalizar.

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A NOVA ABOLIÇÃO

André Barrocal, CartaCapital

A despeito da pressão empresarial, a Câmara aprova o fim da escala 6×1. O Senado tende a corroborar

O fim do trabalho escravo no Brasil, último país a abolir a prática, foi seguido por cerca de quatro décadas de expedientes laborais inclementes: 12 horas diárias, 14 horas, 16 horas. Getúlio Vargas, nos anos 1930 e 1940, impôs limites: 8 horas por dia e 48 por semana. Era o início da chamada escala 6 por 1. Passaram-se mais quatro, cinco décadas e a Constituição que enterrou a ditadura reduziu a carga semanal para 44 horas. E agora, 38 anos depois, o Brasil está à beira de outro passo histórico para dar mais tempo livre àqueles que o carregam nas costas. Os deputados acabam de aprovar a jornada de 40 horas por semana, realidade na Europa desde o século passado, sem corte de salário. Basta o endosso dos senadores, e as pistas indicam que eles não vão nadar contra a maré, para a mudança constitucional entrar em vigor de forma escalonada: 42 horas em 60 dias e 40 horas, em um ano. Será a abolição da escala 6 por 1.

A menos de seis meses das eleições, a aprovação na Câmara foi um passeio, apesar do “terrorismo patronal”, para usar as palavras do secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, e do festival de hipocrisia do PL, o partido dos Bolsonaro e empresários. Placares finais: 471 a 22 na primeira votação e 461 a 19, na segunda. “É um momento único, de vitória efetiva da classe trabalhadora. Uma conquista sem concessão para o outro lado. Fizemos história”, diz o deputado Alencar Santana, do PT paulista, presidente da comissão especial que preparou o texto. “Nossa elite patronal é predatória (…) Eles compraram a imprensa, pagaram comentaristas para pregarem a destruição da nossa economia se o trabalhador tivesse direito de descansar dois dias na semana sem diminuição do salário”, afirmou o deputado Otoni de Paula, bolsonarista arrependido do PSD do Rio de Janeiro, durante a deliberação na comissão.

Ao longo da discussão, a autodenominada mídia profissional deu voz e destaque a análises catastrofistas sobre as consequências da jornada menor. O argumento é basicamente um só, a redução obrigará as empresas a contratar mais trabalhadores, para manter o nível de negócios e de lucro, as admissões significarão custos mais altos e estes serão repassados aos preços, ou seja, virá inflação. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, foi explícito a respeito. A Confederação Nacional do Comércio traduziu o alegado desastre com a cifra de 122 bilhões de reais em perdas no setor. A Folha de S.Paulo estampou em fevereiro que o impacto no PIB será negativo em 6%.

“É um momento único, de vitória efetiva da classe trabalhadora”, comemora o deputado Alencar Santana

O terrorismo, note-se, sempre acompanha avanços civilizacionais e trabalhistas no Brasil. Recorde-se a manchete de O Globo na época da criação do 13°, no golpeado governo de João Goulart, em 1962: “Considerado desastroso para o país­ um 13º mês de salário”.

Segundo a Unicamp, a redução da jornada é capaz de levar à abertura de 4,5 milhões de vagas. Seria a quantidade necessária para preservar o nível da atividade empresarial. O desemprego está nos menores patamares, 5,8%, ou 6,3 milhões de trabalhadores, daí os sindicatos acumularem força para reivindicar aumento salarial. Dos 102 milhões de empregados, 37 milhões cumprem jornada de 44 horas por semana e serão favorecidos, conforme o governo. O alívio tem potencial para proporcionar a Lula mais dividendos eleitorais do que a isenção do Imposto de Renda a salários de até 5 mil reais. Aqueles 37 milhões de trabalhadores correspondem a 23% do eleitorado. A isenção total de imposto beneficiou 10 milhões e a parcial (salários de 5 mil a 7,5 mil), 5 milhões. Eis a razão do impacto diminuto da medida até aqui na popularidade presidencial. Pouca gente foi premiada, 9% dos eleitores.

Entre os assalariados, Lula não tem larga vantagem sobre Flávio Bolsonaro em intenção de voto. No grupo com carteira assinada, vence por 36% a 33% no primeiro turno e perde de 47% a 41% no segundo, de acordo com uma pesquisa recente do Datafolha. No caso dos sem-carteira, sai-se melhor: ganha por 44% a 30% no turno inicial e de 50% a 37%, na volta seguinte. Entre os que se declaram “empresários”, muda tudo: 51% a 20% para o filho de Bolsonaro no primeiro turno e 68% a 25% depois. Entre os autônomos e profissionais liberais, o senador também é o preferido e conta com rejeição inferior. Essas três categorias (empresários, assalariados e autônomos) somam metade da amostra do Datafolha. A outra metade é composta de servidores públicos, desempregados, aposentados, donas de casa e estudantes. Nesses estratos, Lula triunfa em todos.

O presidente foi decisivo para a aprovação da redução da jornada pelos deputados. Abraçou a bandeira e tremulou-a no pronunciamento do Natal passado e do 1° de Maio. Há algumas semanas, enviou ao Congresso uma lei destinada a encurtar a jornada. Esses lances dobraram o chefe da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, que inicialmente tinha má vontade com a ideia, por ser um aliado do empresariado. O presidente e o deputado reuniram-se na antevéspera da votação e acertaram os detalhes finais do texto, como a transição escalonada. Pelo que se ouve na Câmara, Motta dobrou-se por algumas razões. Estava em dívida com o governo após tirar das mãos de Lula e dar à oposição a Lei Antifacção e de comandar a aprovação de pena menor para golpistas condenados. Ele torce, no mínimo, pela neutralidade do petista na eleição ao Senado na Paraíba. Seu pai, Nabor Wanderley, quer uma das duas­ vagas, mas o PT inclina-se por rivais.

O texto aprovado na Câmara nasceu de uma proposta de 2019 do deputado Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais, e de outra de 2025 da deputada ­Erika Hilton­, do PSOL de São Paulo. Ambas fixavam a jornada semanal em 36 horas e foram alteradas pelo relator, deputado Leo Prates, do Republicanos da Bahia. A jornada de 40 horas não valerá para quem recebe salário acima de duas vezes e meia o teto de aposentadoria do INSS (cerca de 21 mil reais). Há mais excepcionalidades. Funcionários terceirizados do setor público terão um ano para que seus contratos sejam renegociados. E uma lei futura terá de definir regras específicas para micro e pequenas empresas, a fim de atenuar o impacto. A nova jornada vai valer dois meses após a aprovação definitiva no Congresso. Como o recesso parlamentar começa em meados de julho, a expectativa é de vigência em setembro, reta final da campanha eleitoral.

Numa sinuca de bico diante de uma proposta de apelo popular tão perto da eleição, o PL deu um show de cinismo. O partido defende a remuneração por horas trabalhadas, lógica parecida com aquela do motorista de Uber. A medida foi proposta pelo deputado gaúcho Mauricio Marcon no ano passado e é defendida por Flávio Bolsonaro. Depois a legenda engrossou a tentativa de segurar por dez anos a redução da jornada, foi quem mais deu apoio a uma emenda apresentada pelo deputado gaúcho Sérgio Turra, do PP, que permitia em alguns casos expedientes de até 52 horas semanais. Por fim, o líder da bancada na Câmara, Sóstenes Cavalcante­, do Rio, resolveu fazer o contrário: defender em plenário uma jornada ainda menor, de quatro dias de trabalho por semana. Queria constranger os governistas. Fez o anúncio ao mesmo tempo que o líder da legenda no Senado e coordenador da pré-campanha de Flávio, o potiguar Rogério Marinho, chamava de “muito ruim” e “desastre” o fim da escala 6 por 1.

No discurso, o PL se disse contra. Na votação…

Em desfaçatez ninguém superou, no entanto, o deputado mineiro Nikolas Ferreira. Ele encampou a alegação patronal de que a mudança na jornada quebrará o País, por isso dizia que era contra a redução, embora afirmasse, veja bem, ser a favor. No dia da votação, gravou um vídeo para as redes sociais, no qual proclamava ser este o mais importante da sua vida. Repetia os argumentos empresariais e terminava por declarar apoio à escala 4 por 3, pregava inclusive sua vigência imediata, sem carências. “Que a quebradeira comece antes das eleições”, comentou, “a gente quer mostrar que, quando der merda, a culpa é deles (governistas, petistas).”

E no Senado? Abandonados por ­Motta, os patrões fizeram lobby com ­Davi ­Alcolumbre, o presidente do Senado. Uma comitiva liderada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, foi ao senador do União Brasil do Amapá pedir que não haja a votação. A avaliação nos corredores da Casa é que a redução da jornada tem apelo popular demais para ser boicotada. Dois terços dos senadores ficam sem mandato neste ano, muitos tentarão renová-lo em outubro. Pouco antes da votação na Câmara, o senador-empresário Oriovisto Guimarães, do Podemos do Paraná, tinha dito na sessão plenária que a proposta era um “absurdo” e vai “provocar desemprego”. E rogava a Alcolumbre para não a colocar em votação. O discurso seguinte, de Cleitinho Azevedo, do Republicanos de Minas, cobrava o oposto. “Não é uma pauta ideológica”, afirmou, “vamos parar de hipocrisia.” O amapaense ficou quieto. Nos bastidores, as pistas são de que ele não criará dificuldade para a votação.

Lula está em guerra fria com Alcolumbre­, após a fatídica derrota no Senado de um indicado para o Supremo Tribunal Federal, em abril. Os dois devem conversar nos próximos dias pela primeira vez desde aquele episódio, e o assunto será justamente a mudança na jornada laboral. O senador mandou ao petista, via emissários, o recado de que topa a reconciliação. Segundo um governista a par das negociações, o presidente da República só tem a ganhar com o papo. Ou arranca de Alcolumbre o apoio à jornada menor ou estará de novo numa posição antagônica ao Congresso, o poder mais mal avaliado nas pesquisas. A votação célere no Senado seria até pior para Lula, pois tiraria do petista a possibilidade de usar a bandeira para arrastar militantes às ruas na campanha. O chefe do PL, Valdemar ­Costa Neto, comentou publicamente na antevéspera da votação na Câmara: “Se não aprovarmos, o Lula ganha as eleições”. 

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

BRUNO E A JORNADA 6X1

José Sarney*, Correio Braziliense

A verdade é que eu também sou a favor, como o meu bisneto, do fim da jornada 6 x 1 não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social

Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:

— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de trabalho de cinco dias?

Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade, alcançando todas as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.

No Japão, o uso do ensino pela televisão visa, sobretudo, equalizar o nível de aprendizagem das classes. Assim, os alunos que não acompanham o ritmo regular, apresentando algum atraso no aprendizado, são matriculados em turmas que utilizam métodos visuais, de modo a acelerarem o aprendizado e alcançarem o nível da classe da qual foram retirados.

Na verdade, comecei a divagar e já me desviava da curiosidade de meu bisneto, que percebeu minha esquiva ao não querer impor-lhe uma posição. Ele insistiu:

— Meu bisavô, o senhor não respondeu à minha pergunta. Diga-me se o senhor é contra ou a favor da diminuição do tempo de trabalho para cinco dias.

Eu, então, repliquei. 

— Pois bem, se você quer saber, não é para orientar-se, mas para conhecer minha opinião. Então, me diga primeiro: qual é a sua?

Ele retrucou: — Eu sou a favor.

— Por quê?

— Porque é mais justo. 

— O que é ser justo?

— Trabalhar menos — ele respondeu. 

Vi, então, que sua opinião era simplista, sem entrar, em razão da sua pouca idade, no âmago da questão.

A verdade é que eu também sou a favor, não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social.

Essa discussão tomou conta do país. Mas devo confessar que o debate realizado pelo Correio Braziliense foi o mais abrangente de todos: foram bons e competentes os debatedores ao dissecar os prós e contras das posições. O ministro Gilmar Mendes foi brilhante em suas conclusões de que "o desafio está menos em escolher entre proteção social e dinamismo econômico e mais em compatibilizar os dois setores".

Penso que o Projeto de Emenda Constitucional nº 221/19, aprovado pela Câmara dos Deputados, demonstra a capacidade de articulação e o prestígio do presidente Hugo Motta ao reduzir a resistência a apenas 19 votos contrários. E o resultado mostra que as premissas do ministro Gilmar Mendes foram plenamente recepcionadas, ou seja, o equilíbrio entre o social e o econômico prevaleceu.

A proposta inicialmente buscava a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, mas avançou no Congresso como base para a instituição da jornada de 40 horas semanais, com dois dias de repouso remunerado (fim da escala 6x1), alterando o ar. 7º, XIII e XV, da Constituição Federal. 

Nenhum assunto debatido recentemente teve tanta participação da comunidade e da mídia, nem seminários com tamanha amplitude de debatedores, quanto este.

Recordo que, quando comecei a implantar o sistema digital e a internet no Senado Federal, falei que um dia o desenvolvimento da informatização nos levaria de volta à democracia direta, aquela que, nos primórdios do regime democrático, era o sistema praticado em Atenas.

O nosso grande historiador João Lisboa — que Capistrano de Abreu, seu concorrente como escritor desse gênero literário, considerava o melhor historiador do país e dono da melhor escrita — tem um livro, intitulado Jornal de Timon, em que se dedica às eleições na Antiguidade. Nele, estuda os diversos métodos eleitorais, desde o Palmômetro (Aplausômetro), aquele sistema de aferição de resultados pela intensidade das palmas na praça pública, até outras formas que buscavam a democracia direta. A internet, no futuro, fará isso.

Mas, para responder ao meu bisneto Bruno, manifesto minha opinião de que sou favorável à diminuição dos dias de trabalho, como já ocorre em muitos países.

Assim, vou encerrar este artigo e gozar de um pouco de preguiça que eu não conhecia durante toda a vida, mas de que agora desfruto em minha velhice, porque ninguém é de ferro.

*José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras 

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BOIA LANÇADA PÓR TRUMP PODE VIRAR ÂNCORA E AFUNDAR FLÁVIO BOLSONARO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ao classificar facções criminosas como terroristas, Casa Branca cria riscos para economia e soberania brasileiras; candidato do PL já pediu bombas na Guanabara

Com o barco ameaçando fazer água, Flávio Bolsonaro remou até Washington para pedir socorro a Donald Trump. A direita festejou a foto do senador na Casa Branca. A questão é saber se ela servirá como boia ou como âncora para suas ambições presidenciais.

A viagem rendeu um alívio momentâneo ao Zero Um. A imagem com Trump cumpriu a tarefa de desviar as atenções do escândalo do Master. Pela primeira vez em duas semanas, Flávio apareceu nas manchetes sem a companhia do “irmão” Daniel Vorcaro.

O problema, para o senador, é que a foto no Salão Oval logo deixará de ser novidade. E a associação que ele tanto buscou pode vir a atrapalhá-lo na campanha.

No ano passado, Trump impôs um tarifaço de 60% aos produtos brasileiros. Foi uma chantagem explícita: ao anunciar a punição, ele cobrou o arquivamento dos processos contra Jair Bolsonaro. O resultado não foi bem o esperado. Em vez de encerrar os casos, o Supremo mandou o capitão para a cadeia. Lula engrenou um discurso nacionalista e reconquistou pontos nas pesquisas.

Ontem a Casa Branca anunciou a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Reivindicada por Flávio, a medida arrisca causar efeitos mais nocivos que o tarifaço. À economia e à soberania nacional.

O anúncio do Departamento de Estado marca o início da interferência americana no processo eleitoral do Brasil. No limite, pode servir de pretexto para ações militares unilaterais. Sob a alegação de combater o “narcoterrorismo”, o governo Trump tem atacado embarcações estrangeiras no Pacífico e no Caribe. Flávio se diz patriota, mas já disse torcer por um bombardeio americano à Baía de Guanabara.

Ao bajular o presidente americano, o candidato do PL também mostra ignorar sua fama de pé-frio. Desde que voltou ao poder, o republicano acumula derrotas ao tentar eleger aliados em países como Canadá, Austrália, Romênia e Hungria. Em outubro, saberemos se o trumpismo terá mais sorte por aqui.

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REGIME REPRESENTATIVO DE QUÊ ?

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no quê estou votando

Teoricamente, o regime político brasileiro é um regime representativo. Mas exatamente de quê? Ou, de quem? Monitoro os políticos do Legislativo para descobrir, no que falam e no que fazem, a quem e o que estão representando. Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no que estou votando. Qual é a causa política e social que quero ver representada em meu voto?

A eleição é aqui uma armadilha bem montada por interesses que não são os meus, políticos, econômicos, religiosos. E até mesmo os do crime organizado. Ou seja, na representação política brasileira, quem menos conta é o candidato e menos ainda o eleitor. Entre o voto e o poder estão os misteriosos “eleitores” invisíveis que precisam se ocultar para mandar.

Hoje as candidaturas são entre nós meramente indiciais. Quem se prepara para votar, semanas antes da eleição, não busca nas listas nomes que lhe digam alguma coisa quanto ao que seja propriamente a busca da representação política. Buscam indícios de alguém que corresponda ao representante procurado.

Os partidos funcionam como grupos organizados de interesses, geralmente outros e até mesmo inconfessáveis, que usurparam a representação política para representar e defender interesses que não são políticos nem são os da consciência política dos eleitores.

Esse embaralhamento de valores e possibilidades atinge, hoje, intensamente o campo das religiões. Há mais igrejas do que interesses a serem representados em nome da fé. Dentro de alguns partidos há mais que um partido e nada tem a ver com a sigla que os identifica.

Não somos pluralistas, somos despistados e despistáveis. Vítimas da semicidadania, manipulada, servil. Porque temos sido privados, cada vez mais, de referência identitária para nos defendermos como o que julgamos ser.

Somos um povo carneiril, que se acha esperto e não sabe a diferença entre o esperto e o espertalhão, o que é negócio e o que é corrupção, o que é trabalho livre e o que é escravidão.

Acreditamos em Papai Noel e achamos que o pastor da igreja é o dono de Deus, o que ele diz, diz em nome do Senhor e é expressão da vontade de Deus. Quando prega que ter fé nada significa se eu não provar que a tenho e só a provarei com o dízimo.

Quanto maior o dízimo, especialmente se for mais do que os 10% do salário que ganho com o suor do meu rosto, se for vintízimo, trízimo, o que me colocará, no mínimo, quando chegar minha hora, diante da porta do céu. Bater nela e conseguir que São Pedro a abra já são outros tostões. Se a palavra do pastor que vai por aí significa alguma coisa, significa que Deus é um negociante e até mesmo que está à venda.

Em vez de as neorreligiões do negócio negarem o ócio, negam a fé. A religiosidade das novas religiões é a da espera, pague o dízimo e espere. São antipolíticas porque meramente eleitorais. Se você elege alguém de sua igreja, indicado pelo pastor ou pelo próprio candidato pastor, sua representação política está garantida. Porque ela é a representação do pastor e da igreja, não a sua. Você vota para se calar e se conformar, para concordar com o que não sabe o que é.

Estamos em face de um imenso sistema de bandalheiras e nos comportamos como se isso fosse natural. “Isso já está nos planos de Deus”, explicou-me alguém há muito tempo. Deus dissemina a corrupção, a bandalheira, o deboche político para testar a fé de suas ovelhas. O anômalo é normal.

No nascimento da República, em 1889, algumas restrições republicanas foram feitas quanto a quem tem direito eleitoral, quem pode votar. Não podiam votar as praças de pré, porque pessoas sob ordens e comando de terceiros, sem vontade própria. Os membros das ordens monásticas tampouco podiam votar porque sujeitos de obediência. Os analfabetos também não, pelo não acesso à informação. Hoje, algumas religiões dessa linha cerceadora podem existir e eleger.

O pressuposto republicano era o de que o discernimento é a condição fundamental para ser eleitor e cidadão, para ser politicamente representado e até mesmo representante.

Os tenentes das revoluções tenentistas dos anos 1920, que chegaram ao poder com Getúlio Vargas e a Revolução de Outubro de 1930, incluíam no seu programa a ditadura por tempo definido até que todo o povo estivesse alfabetizado e, portanto, preparado para discernir criticamente sobre sua representação política. De maneira muito suspeita, no golpe de Estado de 1964 cassaram os políticos de esquerda que estavam mais do que preparados para representar politicamente os que neles votaram e pouparam os oportunistas e corruptos que lhes seriam dóceis e úteis.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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