segunda-feira, 11 de maio de 2026

A UTOPIA DE UM BRASIL SEM RACISMO

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

País seria uma das nações mais poderosas e desenvolvidas do mundo

Ponto de partida é a reparação depois da assinatura da Lei Áurea

A utopia de um Brasil sem racismo é meu exercício de ficção predileto. Já me peguei pensando nisso umas mil vezes. Acredito que seríamos uma sociedade muito melhor, mais justa e menos desigual se o Estado tivesse promovido reparação depois da assinatura da Lei Áurea, em 1888.

Hoje, 138 anos após a "abolição da escravatura" no último país das Américas a libertar os africanos escravizados, compartilho um vislumbre deste meu devaneio.

Imagino o Brasil como uma das nações mais poderosas e desenvolvidas do mundo. As cidades são planejadas, a economia é pujante e o índice de desenvolvimento humano (IDH) é dos mais elevados.

Com amplo acesso à educação de qualidade, as pessoas aprendem desde cedo a valorizar a contribuição de cada etnia na formação do nosso país. E ninguém se acha superior ao outro pela mera aparência física.

Temos incontáveis médicos, magistrados, engenheiros, arquitetos, empresários, professores, parlamentares, governadores, enfim, pessoas de todas as etnias, atuando em todas as áreas do conhecimento, e em quantidade proporcional à nossa composição demográfica. E todos (independentemente do gênero ou raça) são remunerados na mesma medida pelo desempenho de atividades iguais.

Nossa diversidade e riqueza de recursos naturais garantem uma enorme vantagem competitiva no mercado global. A extensão territorial é mais do que suficiente para que os brasileiros, em regra, tenham acesso à moradia digna, fora de zonas de risco ambiental.

A consciência crítica e cívica é elevada. Ninguém se contenta com pouco, pois a maioria conhece seus direitos constitucionais e rechaça tentativas de golpe ou embuste político que possam colocar em risco a democracia.

Pessoas negras, indígenas e LGBTQIAPN+ frequentam espaços de convívio social normalmente, sem qualquer importunação. E as forças policiais tratam a todos da mesma maneira.

Na minha utopia, a esperança de viver uma vida digna deixa de ser um sonho para se tornar a realidade da maioria dos brasileiros —que é negra.

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PALAVRAS NA PONTA DA LÍNGUA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Você vai dizer alguma coisa e, de repente, a palavra lhe escapa. O nome disso é letologia

Um dicionário com essas palavras teria de ser um volume de 500 páginas, todas em branco

Sabe aquela frase que você começa a dizer e, de repente, a palavra-chave lhe escapa e você não consegue se lembrar de jeito nenhum? Segundos antes, ela estava na ponta da língua, pronta para ser dita, e veio aquele bloqueio sem explicação. O poeta Antonio Carlos Secchin, meu amigo e colega da Academia Brasileira de Letras, descobriu o nome para isso: letologia —a incapacidade temporária de lembrar uma palavra. Vem do grego: lêthê, esquecimento, e logos, palavra. Letologia —grave bem para não esquecer.

Empolgado com o achado, Secchin está cogitando a criação de um "Grande Dicionário das Palavras na Ponta da Língua". Bem de acordo com o tema, seria um livro de 500 páginas em branco, contendo todas as palavras que nos fogem quando mais precisamos delas —no exato momento em que elas nos fogem e desaparecem. Sua ideia já teve o apoio de vários colegas. O escritor e diplomata Felipe Fortuna ofereceu-se para escrever o prefácio: duas páginas em branco, com agudas observações nas entrelinhas. Eu próprio prometi-lhe mandar o texto da contracapa: dez linhas com apenas os espaços entre as palavras.

Uma dificuldade será encontrar alguém para fazer a revisão. Sugeri a Secchin um revisor que conheço, com dez graus de astigmatismo. O lexicógrafo Ricardo Cavalieri, também da Academia, propôs uma versão em braille, com o que me ocorreu um vídeo do dicionário em libras. Os dicionários costumam ser um suplício para os consultores de vista cansada, mas este não terá esse problema. E, se editado em outros países, ninguém reclamará da tradução. Os chineses, inclusive, ficarão admirados com a semelhança entre o mandarim e o português.

Os críticos, ao resenhar o dicionário, se identificarão profundamente com ele, já que a maioria deles não tem nada a dizer. E os presenteados com o livro dirão que lhes faltam palavras para agradecer o mimo. Mais ainda se a dedicatória tiver sido escrita com tinta invisível.

Secchin planeja também uma edição eletrônica, para ser consultada em celulares sem memória.

 

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domingo, 10 de maio de 2026

FUZIL DE OLHOS VERDES

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Carmen Miranda serviu, sim, à Política da Boa Vizinhança. Ela e dezenas de astros americanos

Ao se apresentar para os soldados nos quartéis, ela era o Brasil lutando pela causa da liberdade

Em coluna recente (22/4), tentei desmentir a história repetida à exaustão de que Carmen Miranda foi para os EUA em 1939 nas asas da Política da Boa Vizinhança, uma arma americana na Segunda Guerra. Demonstrei que, naquele ano, a famigerada política ainda não estava em operação, que os EUA sequer tinham entrado na guerra (o que só aconteceria em dezembro de 1941) e que a guerra nem mesmo começara. Carmen foi contratada por seu talento e pelo dinheiro que renderia para o megaempresário dos teatros, Lee Shubert. A Broadway, então uma operação doméstica, exclusivamente nova-iorquina, não tinha o menor interesse pela guerra.

Um leitor observou que, depois, Carmen foi usada por Hollywood em filmes para agradar ao mercado latino-americano. Isto, sim, é verdade. Carmen foi a estrela dos filmes produzidos pela 20th Century-Fox em cenários "exóticos", como "Serenata Tropical" (1940), "Uma Noite no Rio" (1941), "Aconteceu em Havana" (1941), "Minha Secretária Brasileira" (1942) e o sensacional "Entre a Loura e a Morena" (1943).

E, assim como ela, seus colegas americanos naqueles filmes: Betty Grable, Alice Faye, Don Ameche, John Payne, Harry James, Benny Goodman. Todos superestelares, e nenhum deles perdeu pontos por "trabalhar para a Política da Boa Vizinhança". Foi o que eles fizeram, assim como Walt Disney, Orson Welles, Bing Crosby, o compositor Aaron Copland, o maestro Leopold Stokowski. Muitos até interromperam suas carreiras para lutar pelos EUA na Europa: Clark Gable, James Stewart, Tyrone Power, Henry Fonda, William Holden. Frank Sinatra não pôde ir —tinha um tímpano perfurado e podia não escutar o canhão.

Ao trabalhar naqueles filmes e se apresentar para soldados nos quartéis do país, Carmen era só mais uma artista a lutar pela causa dos Aliados. Suas armas eram o jeito esfuziante de cantar e dançar e de fuzilar com seus olhos verdes as últimas filas da plateia nos acampamentos.

E, quando fazia isto, todos sabiam que, ali, ela era o Brasil, ao lado dos que lutavam pela liberdade.

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FAZENDO E DESFAZENDO A CONSTITUIÇÃO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Livro conta a história da Carta dos EUA, que se destinava a regular o uso de terras

Adaptabilidade é ao mesmo tempo o ponto forte e a vulnerabilidade da Carta

Uma boa pedida para quem quer entender melhor o que acontece nos EUA é "The Making & Breaking of the American Constitution", do historiador Mark Peterson (Yale). Para Peterson, constituições são métodos para administrar a riqueza de um país, daí que ele começa sua obra sobre a história constitucional americana com a batalha de Hastings na Inglaterra de 1066. Gerir riqueza, tanto na Inglaterra do século 11 quanto nos EUA do 18, era regular o uso das terras agricultáveis.

Inicialmente, a Constituição inglesa, não escrita, se prestou bem para administrar as 13 colônias originais dos EUA. Até que deixou de funcionar. A população crescera, e os americanos queriam tomar as terras dos indígenas a oeste dos Apalaches, coisa que os ingleses haviam proibido. Junte a isso impostos que os contribuintes julgavam escorchantes e você obtém uma revolução.

Inicialmente, a Constituição escrita dos americanos funcionou. Até que deixou de funcionar. Deu certo enquanto se tratava de administrar um país agrário que podia se expandir de forma quase ilimitada. Mas, à medida que o país foi se industrializando e se tornando mais complexo, os limites daquele documento enxuto foram se revelando. Só que a Carta era e permanece muito difícil de modificar —maioria de 2/3 nas duas Casas e ratificação por 3/5 dos estados.

Os políticos logo descobriram que podiam forjar maiorias políticas e governar mesmo sem formalizar emendas. A Constituição funcionava porque não funcionava. Mas, à medida que o tempo passou, mais distorções foram se acumulando. Um exemplo? A Constituição dá apenas ao Congresso o poder de declarar guerras, mas desde Truman em 1950, todos os presidentes autorizaram o uso de força militar no exterior sem aval prévio do Congresso.

Essa adaptabilidade é tanto o ponto forte dos EUA, que sempre conseguiram se adequar a novos tempos, como seu ponto fraco, já que torna o país presa fácil para maiorias dispostas à depredação institucional.

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SILÊNCIO DE PEIXE FORA D'ÁGUA

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de 'moderado'

Se desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador

"Peixe morre pela boca" é velho ditado com aplicações novas na vida política. Disso é ilustrativo Bolsonaro 2.0, Flávio, filho 01 do ex-presidente encarcerado. Candidato à Presidência da República por mérito digital, logo, críptico, evita falar sobre programa político. Há razões, segundo o irmão 03: "Ele morde a isca com mais facilidade do que lambari em anzol de mosquito". Uma arrelia de quem pesca em águas turvas.

Mutismo tem suas vantagens. No início dos anos 90, Alberto Fujimori disputou com Mario Vargas Llosa a Presidência do Peru. Grande escritor e intelectual conservador, Vargas Llosa seduzia as elites "criollas" (descendentes de espanhóis) com cultos discursos. Fujimori preferia calar. Não que fosse desprovido de argumentos: agrônomo, professor, tinha ideias próprias sobre o agro peruano e planos para combater as guerrilhas do Sendero Luminoso e do Movimento Revolucionário Tupác Amaru, que assombravam o país. Sem o brilho de Vargas Llosa, porém, trocava falatório por encontros nos "pueblos libres", favelas locais, onde escutava calado as queixas de virtuais eleitores, em especial as "cholas", mulheres indígenas. Eleito, derrotou a guerrilha, reelegeu-se e terminou derrotado por corrupção em larga escala, massacres de civis inocentes e abuso de poder. Passou 16 anos na cadeia.

Conhecida, a história é oportuna pela coincidência da candidatura de Keiko Fujimori com a de Flávio Bolsonaro. Filhos de ex-presidentes com experiência prisional, ambos militam na extrema direita e avançam nas pesquisas. A diferença é que Keiko fala pelos cotovelos, surfando na maré dos desacertos presidenciais e da corrupção sistêmica em seu país. Na pequena política, o tempo é senhor da desrazão: ela espera que o eleitorado recorde o terror mortífero das guerrilhas urbanas, esquecendo o terror corrupto da era Fujimori.

Por manter a boca fechada, ao contrário do desbocado genitor, Flávio ostenta a marca de "moderado". Nos EUA, porém, tem dado corda à língua para assegurar que entregará tudo que seu mestre pedir: solo, subsolo, tudo mais. Aqui, ao falar do pai, debulha-se em choro, alheio a que "lágrimas não são argumentos". Não é aforismo textual, só que assim, em "Dom Casmurro" e "Quincas Borba", Machado de Assis desconfia das emoções convenientes: de salto alto, Bolsonaro 2.0 saltita e dança em surdina. Mas se lhe desata o nó na garganta, deita cobras e lagartos pela boca, incompatíveis com senso mínimo até de candidato a vereador do mesmo partido: uma vez eleito, disse, congelaria salários de aposentados. "Falta-lhe musculatura", sentenciou um líder pastoral.

Genes não são digitais, o que há mesmo é falta genética de cognição. O irmão mais novo, 04, foi descrito por um deputado-influencer como de "capacidade cognitiva menor que uma toupeira cega". Já o boquirroto 02 acusa esse deputado, não de falar mal, mas de "dirigir logaritmos" contra o clã. Lobista anti-Brasil, foragido, aspira ao Senado e ao Ministério do Exterior. Compreende-se, assim, que não seja nada inocente o silêncio de Flávio Bolsonaro: é treta de quem se cala, com amargos de boca, devido ao peso embaraçoso da carga.

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SÓ A PIZZA SALVA FLÁVIO BOLSONARO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Se investigação que pegou Ciro Nogueira se estender, vida do filho de Bolsonaro deve ficar difícil

Bolsonaristas querem salvar a si mesmos e a aliados de direita, mas que mão pesada caia sobre Moraes

Segundo a Polícia Federal, Ciro Nogueira (PP-PI), que Flávio Bolsonaro já considerou vice dos sonhos por sua fidelidade a Jair Bolsonaro quando foi seu ministro da Casa Civil, é ladrão. Ciro recebeu dinheiro do Banco Master para apresentar um projeto de emenda à Constituição que teria dado sobrevida à ciranda do Master, com custos incalculáveis para a economia brasileira.

Se você costuma ler essa coluna, já sabe de que projeto se trata. É a emenda 11 à PEC 65/2023, que é assunto aqui quase toda semana. Segundo a PF, ela foi escrita no Banco Master e entregue a Ciro em um envelope para ser apresentada ao Congresso.

A "Emenda Master" elevava a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito para quem perdesse dinheiro com banco quebrado, de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Ou seja, o que Ciro Nogueira fez, a mando de Daniel Vorcaro, foi tentar aumentar o seguro que eu e você pagaríamos a quem continuasse investindo no Master quando já estava claro que o banco era bichado.

O deputado Filipe Barros, do PL do Paraná, apresentou exatamente a mesma proposta, mas como projeto de lei (4395/2024). Barros pediu intervenção militar no Congresso Nacional em 30 de novembro de 2022 e hoje concorre a senador na chapa de Sergio Moro e Flávio Bolsonaro.

Se a investigação que pegou Ciro Nogueira se estender aos outros políticos que roubaram com o Master, tentaram salvar o Master com dinheiro público e/ou receberam dinheiro do Master, a vida de Flávio Bolsonaro deve ficar difícil nos próximos meses. A maioria é gente de direita.

Por exemplo, depois da operação da PF, foi cancelado o evento em que Tarcísio de Freitas receberia apoio público do PP à sua candidatura ao governo. O presidente do PP é Ciro Nogueira. Se as investigações forem até o fim, Tarcísio também vai ter que cancelar eventos com o PL, com o União Brasil e com seu próprio partido, o Republicanos, porque está todo mundo no rolo.

O próprio Tarcísio, é bom lembrar, teve como principal doador de campanha em 2022 Fabiano Zettel, cunhado e operador político de Daniel Vorcaro. Flávio Bolsonaro também terá cinco meses de vida social muito parada se deixar de se encontrar com direitistas envolvidos com o Master até a eleição.

Terá que parar de visitar o pai, inclusive: Jair Bolsonaro recebeu a maior doação eleitoral do ecossistema Master encontrada até agora. Ou seja: a direita só tem chances de vitória neste ano se o escândalo do Master acabar na mãe de todas as pizzas, na pizza comparada à qual todas as pizzas anteriores foram só pães de forma com um polenguinho em cima.

Considerando o quanto a direita é poderosa, é bem possível que a pizza venha. A dúvida é sobre o seu sabor. A direita tradicional torce por uma pizza X-tudão que livre todo mundo.

O bolsonarismo quer uma pizza só um pouco menos parruda: querem salvar a si mesmos, a seus aliados de direita, mas querem que a mão pesada da lei caia sobre Alexandre de Moraes.

A esquerda também gostaria de salvar alguns dos seus. Mas ao menos, pelo que se viu até agora, é muito menos gente. Se deixarmos de lado lealdades pessoais e nos ativermos apenas ao ponto de vista eleitoral, o ideal para a esquerda seria uma greve de pizzaiolos que durasse pelo menos até outubro.

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EUA E IRÃ DISPUTAM CABO DE GUERRA

Dorrit Harazim, O Globo

Os dois lados sabem que devem esperar o esgotamento gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário

A palavra hormuz deriva do nome de uma divindade suprema da Pérsia antiga, portadora de sabedoria, luz e bondade. Em tradução reducionista, “Senhor da Sabedoria”. No contexto da guerra desencadeada em fevereiro pelos Estados Unidos e Israel contra o Irã, é difícil encontrar qualquer vestígio dessas virtudes no estrangulamento duplo do Estreito de Ormuz. Tanto para o presidente americano Donald Trump como para o que restou da liderança decapitada do Irã, trata-se de uma guerra de usura — vence quem aguentar mais tempo o custoso fechamento do Estreito.

Oficialmente, continua em vigor um esquisitíssimo cessar-fogo assinado em 8 de abril passado. Suas duas semanas de validade, inicialmente previstas para reavaliação de parte a parte, já não têm prazo para acabar. É nesse ínterim poroso de violações pelos dois lados que se desenrola o atual cabo de guerra.

Em contraposição à vantagem geográfica do Irã sobre o estreito, os Estados Unidos precisaram alocar 15 mil soldados e um imponente arsenal bélico para garantir o bloqueio naval do adversário. Dias atrás, três navios-tanque vazios foram alvejados ao tentar buscar sua carga num porto iraniano. Segundo divulgação do U.S. Central Command, há atualmente 70 navios petroleiros impedidos de se aproximar ou de zarpar do Irã. Pouca coisa não é, pois a capacidade de transporte dessa carga interrompida é de mais de 166 milhões de barris, a um prejuízo estimado em US$13 bilhões. Entre ameaças de extinção do inimigo e estapafúrdias declarações de vitória antecipada, Trump só não obteve a ansiada autorização da Arábia Saudita e do Kuwait para usar suas bases e o espaço aéreo aliado caso queira voltar a atacar o Irã de forma tonitruante.

Ocorre que um bloqueio naval não elimina de imediato o petróleo já em trânsito, nem o armazenado offshore, ainda menos o transportado por intermediários. Calejado por meio século de sanções econômicas por parte do Ocidente, o regime dos aiatolás costurou um razoável sistema de escoadouro por via terrestre através da Ásia Central. Ainda assim, o fechamento de seus portos dói. Segundo dados da Secretaria de Energia dos Estados Unidos, o Irã já reduziu sua produção em cerca de 400 mil barris por dia devido à limitação de armazenamento e redução forçada no 1,7 milhão de barris por dia que exportava até o mês passado.

A questão-chave se chama tempo. Os dois lados sabem que não devem esperar uma vitória rápida e decisiva, mas sim o esgotamento gradual dos recursos políticos, econômicos ou militares do adversário. Esses recursos são assimétricos. Em tese, o Irã precisa apenas de um drone militar barato para fazer explodir um petroleiro “não amigo” no Estreito de Ormuz, estremecendo as seguradoras mundiais. A vigilância dos Estados Unidos a tantos mares e oceanos de distância, em contraste, é custosa mesmo para a superpotência mundial.

Recentemente, o topetudo secretário da Defesa, Pete Hegseth, afirmou perante o Congresso que o custo da Operação Fúria Épica está em US$ 25 bilhões. Ridículo. Esse valor contempla apenas os mais de 2 mil mísseis Tomahawk e Patriot já despejados sobre o Irã, as missões aéreas dos aviões de guerra já efetuadas e todo o restante do equipamento militar e humano já empregado. Em artigo publicado no New York Times, Justin Wolfers, professor de políticas públicas e economia da Universidade de Michigan, aconselha os americanos a olhar para além do hoje, para quando os custos mais realistas tomam corpo — ele acredita que alcancem várias centenas de bilhões de dólares, quando não a casa do trilhão:

— Guerra é um inferno. E o inferno tem custo alto — conclui.

Tem mais. Na semana passada, um relatório confidencial da CIA endereçado à Casa Branca e revelado pelo Washington Post estima que o Irã será capaz de aguentar o bloqueio naval americano por 90 a 120 dias, talvez até mais, antes de sofrer um colapso econômico generalizado. Além disso, em franca contradição com as cifras aleatórias de Trump, o relatório avalia que o Irã ainda mantém ativos perto de 75% de seu estoque de lança-mísseis e 70% de seus mísseis — ante 18% ou 19% pelas contas do presidente.

O tempo político de Trump tampouco é infinito neste ano de eleições legislativas decisivas. Em novembro, o custo social da guerra e o preço da gasolina vão às urnas. Uma famosa frase atribuída a Arnold. J. Toynbee — “Civilizações morrem de suicídio, não por assassinato” — volta à atualidade neste ano dos 250 anos da Independência dos Estados Unidos. Veremos.

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O EXCESSO DE ESPERTEZA QUE PODE ENGOLIR CLÁUDIO CASTRO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ao manipular sucessão, ex-governador do Rio abriu caminho para desembargador promover devassa em sua gestão

A lição costumava ser repetida por políticos mineiros da velha guarda: a esperteza, quando é muita, vira bicho e engole o dono.

Cláudio Castro se julgou esperto ao negociar a renúncia do vice-governador eleito em sua chapa em 2022. Queria abrir caminho ao presidente da Assembleia Legislativa, que disputaria a eleição de outubro na cadeira de governador.

O vice saiu da fila, mas o presidente da Alerj acabou preso sob suspeita de favorecer o Comando Vermelho. Quando Castro renunciou para fugir da cassação, o estado caiu no colo do presidente do Tribunal de Justiça. Era o único na linha sucessória que não devia nada a ele.

O desembargador Ricardo Couto assumiu em 23 de março. Avisou que não faria mudanças drásticas porque esperava sair de cena em poucos dias. Mantido no cargo por decisão do Supremo, abandonou o estilo discreto e deu início a uma devassa na administração estadual.

Em sete semanas, já demitiu mais de 1.700 ocupantes de cargos comissionados e trocou 10 dos 35 secretários. Na sexta-feira, foi a vez do Detran. Couto exonerou o presidente, ligado ao ex-deputado Márcio Canella, e nomeou um ex-comandante do Bope.

O órgão de trânsito era tido como um dos maiores focos de corrupção do Rio. O governo interino recebeu relatos de fraudes em contratos e serviços, além de cobrança de propina a motociclistas reprovados em exames de direção.

O desembargador encontrou uma máquina partida ao meio. Metade do primeiro escalão pertencia ao ex-governador, que chegou a presentear um compadre com a Secretaria do Ambiente. Outra metade estava lotada entre aliados de Bacellar, que usava o governo para atender sua clientela na Alerj.

Para multiplicar os cargos, Castro criou até uma Subsecretaria de Gastronomia, subordinada à Casa Civil. O órgão era controlado pelo deputado Eduardo Pazuello, o general da pandemia. O cabide contava com uma pitoresca Superintendência de Demandas Cotidianas. Tudo foi extinto pelo governador em exercício.

A lógica da partilha política também dominava o Segurança Presente, que não estava sujeito ao comando das polícias. As equipes de patrulhamento eram indicadas por deputados, prefeitos, vereadores e apaniguados. Em Saquarema, quem mandava era Fabrício Queiroz, o notório operador da rachadinha de Flávio Bolsonaro na Alerj.

Ao transferir o programa para a Secretaria da PM, Couto se virou alvo de protestos. Em vídeo nas redes sociais, o deputado Alexandre Knoploch ameaçou usar “instrumentos” legislativos para reverter a medida pelo governador.

O parlamentar não é o único insatisfeito com as mudanças no Rio. Em encontro recente, Castro reclamou das demissões e perguntou se o governador em exercício se considerava seu amigo. Couto respondeu que sim, mas não se fez de rogado. “Se um dia você for preso, vou à cadeia levar cigarros”, ironizou. A esperteza, como ensinavam os mineiros, ainda pode engolir o dono.

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RELÓGIO CONTA AS HORAS PARA CIRO

Míriam Leitão, O Globo

Voltou-se contra Ciro Nogueira o “tic tac” que ele usava contra a esquerda. Caso Master o atingiu e afundou planos de Flávio Bolsonaro de tê-lo na vice

O senador Ciro Nogueira quando era ministro-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, naquela administração que preparava um golpe de Estado, começou a postar nas redes sociais uma mensagem enigmática imitando o som de um relógio. Tic, tac, tic, tac. Não se sabe tudo o que ele queria dizer com essa contagem do tempo. Agora, o relógio corre contra ele. Os indícios apresentados pela Polícia Federal, retirados do celular de Daniel Vorcaro, são robustos o suficiente para sustentar que Ciro recebeu vantagens indevidas e em troca usou seu mandato para lançar uma “bomba atômica” a favor do banqueiro.

O projeto do político do PP do Piauí marcava a diferença entre vida e morte do banco de Vorcaro. Não era apenas uma ajuda nos negócios. O texto, se aprovado, salvaria o Master da aguda crise de liquidez na qual se afundava. O centro do modelo de negócios do empresário era ter ativos de altíssimo risco e captar com produtos que pagavam alta rentabilidade. Os poupadores eram atraídos pela taxa de remuneração, mas evidentemente tinham o temor de que os títulos não fossem honrados. Aí entrava o uso do Fundo Garantidor de Créditos como o argumento final. Se o banco quebrar, o Fundo paga. Mas paga quanto? Até R$ 250 mil. Esse limite encurtava o horizonte das loucuras bancárias de Daniel Vorcaro. Subir para R$ 1 milhão de garantia dava a ele muito mais capacidade de captação.

O amigo da vida fez a proposta redentora. O deputado Filipe Barros (PL-PR) também apresentou projeto com o mesmo teor. No caso do senador, os indícios mostram que, mais do que defender um projeto do interesse do encrencado banqueiro, Ciro aceitou receber um texto feito por ele. “Saiu exatamente como mandei”, escreveu Vorcaro. Se a emenda 11 fosse aceita e aprovada, a vantagem para o dono do Master estaria na Constituição.

Ciro Nogueira foi leal a Jair Bolsonaro, atestou Flávio Bolsonaro, quando afirmou que gostaria de tê-lo como vice em sua chapa. “Tem todas as credenciais para ser o Ciro. O perfil do Ciro é nordestino, de um partido grande e forte. Tem ali a lealdade que ele sempre teve ao presidente Bolsonaro no ministério dele. Portanto, sem dúvida, hoje é um nome que está colocado”.

A quinta fase da Operação Compliance Zero é demolidora para o senador. Pelo que a Polícia Federal trouxe aos autos, a amizade dele com o controlador do banco liquidado era irrigada por muitas vantagens. Segundo a PF, Ciro comprou por R$ 1 milhão uma fatia de empresa de Vorcaro que valia R$ 13 milhões, e teria recebido pagamentos mensais de R$ 300 mil a R$ 500 mil. Ficou em Nova York em hotéis caros pagos por cartão do ex-dono do Master. Tinha uma firma sem funcionários com a qual fazia transações financeiras com empresas e fundos ligados ao banqueiro. Morava gratuitamente em imóvel de alto padrão.

Os diálogos são inequívocos. Leo Serrano, um operador de Vorcaro: “Só uma pergunta rápida: eh pros meninos continuarem pagando conta dos restaurantes Ciro/Flávia até sábado?”. Vorcaro: “Sim. Depois leva meu cartão para St.Barths”. O primo do banqueiro, atualmente preso, Felipe Vorcaro: “Oi, Daniel, é para seguir com pagamento de 300 k para o pessoal que investiu na BRGD”. Vorcaro: “Sim”. A BRGD é a empresa de Vorcaro na qual Ciro adquiriu participação. Essa pergunta foi feita outras vezes por Felipe. Daniel Vorcaro sempre disse sim: “tem que enviar, muito importante”. Vorcaro, em novembro de 2025: “Caro eu no meio dessa guerra atrasou dois meses Ciro?”. Felipe Vorcaro: “Vou ver se dou um jeito aqui. Vamos continuar com os 500k ou pode ser os 300k?”.

Ciro Nogueira tem muito a explicar: diálogos no celular, documentos que confirmam a investigação, provas de que ele retribuiu com a “instrumentalização do seu mandato parlamentar”, como diz a decisão do ministro André Mendonça que autorizou a busca e apreensão nos endereços do senador.

Há consequências concretas desta fase da Compliance Zero. Ficam afastadas as dúvidas sobre foro, com o senador investigado o assunto é mesmo da alçada do Supremo Tribunal Federal. O impacto do caso Master sobre a extrema direita é direto. A delação premiada de Vorcaro pode não ser homologada. Como publiquei no blog, investigadores dizem que o atual cenário é de não aceitação, porque até agora ele não trouxe “nada de produtivo para o processo”, como me foi dito. A chapa dos sonhos de Flávio Bolsonaro não vai se materializar. O relógio continuará contando as horas, mas contra o senador Ciro Nogueira.

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GONET E O CANTO DAS SEREIAS NO MASTER

Thiago Bronzatto*, O Globo

A dúvida que ainda paira é se ele estará disposto a escalar as apurações em Brasília

Quando assumiu a Procuradoria-Geral da República, Paulo Gonet costumava comparar o desafio do cargo ao de Ulisses na “Odisseia”. Na volta a Ítaca, o herói quis ouvir o canto das sereias, mas sabia que, seduzido pela melodia, poderia perder a razão e se lançar ao mar. Para sobreviver, pediu aos marinheiros que vedassem seus ouvidos com cera, enquanto ficaria amarrado ao mastro da embarcação. A estratégia permitiu que a tripulação atravessasse ilesa a zona de perigo. Inspirado nessa história, o chefe do Ministério Público Federal (MPF) dizia que teria de se manter atado à missão de cumprir seu dever, sem distrações. Passados dois anos e quatro meses, Gonet enfrenta um dilema: ser enredado por vozes políticas ou se manter firme em seu propósito?

No escândalo do Banco Master, Gonet tem diante de si o seu maior desafio. Caberá a ele avaliar as provas colhidas na investigação e a proposta de colaboração premiada do banqueiro Daniel Vorcaro — que poderão provocar um abalo sísmico em Brasília. No entanto sua disposição em mexer em vespeiros políticos tem sido questionada tanto pela Polícia Federal como pelo ministro André Mendonça, responsável pelo caso no Supremo Tribunal Federal (STF). Por trás dessa desconfiança, está o fato de Gonet ter rejeitado pedidos de apurações e suspeições dos ministros Alexandre de Moraes e Dias Toffoli, que mantiveram relação lucrativa com Vorcaro.

Na avaliação do procurador-geral, não há elementos para investigar o aporte milionário orquestrado por Vorcaro num resort de Toffoli nem o contrato de R$ 130 milhões entre o Master e o escritório da advogada Viviane Barci, mulher de Moraes, para defender interesses do banco em Brasília. Se Gonet entende que faltam indícios mínimos de irregularidades, o relator do caso na Corte, André Mendonça, tem dito a pessoas próximas que considera graves os fatos envolvendo Moraes.

Esse descompasso também ficou evidente na prisão de Vorcaro. Mendonça discordou de Gonet, que pediu mais tempo para analisar o caso e não viu a mesma urgência em interromper a atuação do banqueiro, suspeito de manter uma milícia particular para dar uma surra em um jornalista e invadir sistemas de órgãos públicos. Colocar o dono do Master na Papuda provocaria consequências incontornáveis. Por isso, o procurador-geral afirmou que não podia agir de modo imponderado.

A posição garantista de Gonet foi um ingrediente considerado determinante para ele ser alçado ao posto pelo presidente Lula e receber a bênção de Moraes e do decano do Supremo, Gilmar Mendes, de quem já foi sócio. Respeitado pelo saber jurídico, o procurador-geral desempenhou papel central nas denúncias que levaram à inelegibilidade e à condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro por tramar um golpe contra as instituições. Sabendo que sua cadeira pode projetá-lo para uma vaga do STF, também entende que colecionar inimizades com integrantes da cúpula dos Poderes Judiciário e Legislativo poderia dinamitar pontes importantes. Ainda mais depois de a dupla Moraes e Davi Alcolumbre, presidente do Senado, ter minado o caminho do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo.

Ao acolher o pedido da PF para investigar o senador Ciro Nogueira, expoente do Centrão, Gonet deu uma amostra de que pode avançar no terreno político. A dúvida que ainda paira é se estará disposto a escalar as apurações em Brasília. No passado, a figura do procurador se submetia às vontades do soberano e era a voz jurídica do poder. No Brasil, com a Constituição de 1988, o MPF ganhou mais autonomia e passou a ser o guardião da ordem jurídica e do interesse público.

Essa é a régua que medirá Gonet no caso Master. Sua tarefa não é agradar a ministros ou preservar alianças. Também não é substituir prudência por heroísmo. É exigir provas com lastro, recusar pressões e tratar poderosos e adversários com o mesmo padrão. Em Brasília, o canto das sereias costuma vir disfarçado de cautela, amizade, conveniência ou mesmo expectativa de poder. O desafio de Gonet será permanecer amarrado à sua missão para evitar um desvio de rota.

*Thiago Bronzatto é diretor da sucursal do GLOBO em Brasília

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sábado, 9 de maio de 2026

ESTRANHOS TEMPOS MÓBIDOS

Roberto Amaral*, Carta Capital

“O Brasil tem um enorme passado pela frente.”
Millôr Fernandes

Com Antonio Gramsci aprendemos que “a crise [política] consiste precisamente no fato de que o velho morre e o novo não pode nascer; neste interregno, verifica-se uma grande variedade de sintomas mórbidos”. Trazendo a formulação do autor de Cadernos do cárcere para os tempos de hoje, talvez seja permitida a ousadia de afirmar que, em nosso caso, o novo não pode nascer (ou é impedido de nascer) porque o velho permanece vivo, prometendo uma história regressiva. Este velho, hoje, é o neofascismo revisitado — novas palavras, novos meios — mas sempre regressivo, anistórico, autoritário.


São os estranhos tempos mórbidos, estes nossos.

A história presente — um presente mirando o caos, sem ensejar a visão de futuro imediato — pode ser vista como “ponto morto” (tempo sem promessa de avanço ou recuo) e já foi descrita como “intervalo histórico”. Nada obstante as tensões, sua característica não é, quase nunca, a mobilização social. Trata-se de tempo de espera, indefinido, sem caráter. Está aberto a soluções regressivas (por sinal, é este, hoje, o cenário dominante na América do Sul), que podem construir a ruptura democrática ou a continuidade autoritária, jamais a revolução, projeto que comoveu as grandes massas no século passado.

Este espaço em aberto, ainda não identificado nem classificado, é rico na proposição de impasses. É o quadro da ordem internacional na corrida para o imponderável, que pode ser, até, a grande guerra na qual apostam — ou parecem apostar — os EUA, deixando no seu rastro o avanço quase planetário da extrema-direita, causa ou efeito da regressão mundial das mobilizações populares, filha da crise do trabalho e, como decorrência inevitável, filha da crise do sindicalismo e dos partidos de esquerda, nomeadamente dos partidos socialistas e comunistas ocidentais. 

E sempre incumbe lembrar a lamentável e exemplar exaustão do PCI e do PCF, atingidos de morte pela debacle da URSS, em cuja sequência os partidos comunistas que detinham o poder no Leste Europeu logo saíram de cena, e as insurgências revolucionárias foram aplacadas. Nesse sentido, aproximam-se Europa e América do Sul com seus governos de direita, sob a regência dos EUA em guerra pela conquista do mundo. 

A aventura nazifascista dos anos 30-40 do século passado mina qualquer sorte de surpresa.

Atribui-se a Mark Twain a boutade segundo a qual “a história não se repete, mas rima”. De outra parte, podemos dizer que, no Brasil, ela é recorrente. Em qualquer hipótese, será sempre um óbvio rodrigueano afirmar que o processo político é conduzido pelas alterações das circunstâncias históricas. Com ele trabalhamos. A cada alteração da correlação de forças — sobre a qual atuam os homens e as instituições — corresponde uma nova etapa histórica. É  consabido.

A etapa de hoje conjuga a crise do capitalismo (um sistema global financeirizado e oligopolista) à expansão do imperialismo norte-americano. Vivemos o rescaldo da frustração contemporânea das promessas e esperanças dos governos de centro-esquerda e sociais-democratas nestas primeiras décadas do século, decaídos na armadilha do neoliberalismo: ajuste fiscal, regime de metas de inflação, câmbio flutuante (implicando maior exposição aos fluxos financeiros internacionais, reduzindo a margem de manobra das políticas econômicas nacionais), contenção dos gastos sociais indispensáveis etc. Uma política econômica no contrapelo de promessas e compromissos de campanha. Seu efeito óbvio, na esteira da desilusão social, foi preparar o terreno para a ascensão de governos de direita e extrema-direita.

Alguns meros indicadores: os governos de Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Michelle Bachelet, sucedidos como foram, e ainda de François Hollande, abrindo o espaço que seria ocupado pelo avanço de Marine Le Pen; e, nos pouco auspiciosos termos de nosso processo político, as dificuldades do atual governo Lula e o temor de grave retrocesso político-histórico nas eleições de outubro próximo.

Como sempre, a desilusão social, agora como nas primeiras décadas do século passado, na Europa e no mundo, abre um vazio político prontamente ocupado pela direita, como foi o caso das eleições de Javier Milei e Jair Bolsonaro, que emergiu da insignificância política para a liderança da extrema-direita brasileira.

A crise das experiências de centro-esquerda nestas primeiras décadas do nosso século revela um desvio político-ideológico. Eleitos sob o signo da mudança, nossos governos submeteram-se (por força das contingências ou despreparo estratégico) aos marcos do neoliberalismo. O que se se segue, são suas consequências. E as consequências sempre vêm depois, como lembrava o eçaniano Conselheiro Acácio.

É preciso registrar que a ameaça neofascista emerge em um mundo no qual as insurgências proletárias, socialistas revolucionárias, de um modo geral, estão em recesso, e a humanidade já não dispõe, como dispôs no passado (os anos de confronto com o Eixo), do concurso da URSS e de uns EUA comprometidos nalguma medida, como estavam naquele então, com promessas democráticas. Ante o colapso da Europa, foram esses países que ganharam para nós a guerra. Hoje, as novas circunstâncias históricas nos lembram que a URSS já não existe e que os EUA, na guerra sem limite de meios pela conservação da liderança mundial, ameaçada, são o farol e o motor do novo fascismo.

No Brasil, a extrema-direita cresce ineditamente (anos-luz para além dos sonhos do integralismo nos anos 1930, namorando o Estado Novo e tentando desestabilizá-lo, como em 1938) como movimento de massas, oferecendo base popular à construção do projeto regressista. Nada justifica a alegativa de supressas, pois a onda que inundou a praia em 2018 já se vinha anunciando desde o difícil processo eleitoral de 2014 e a reeleição de Dilma Rousseff, com os desdobramentos conhecidos e a infâmia do impeachment farsesco. 

É nesse limiar que, do baixo ou baixíssimo clero, emerge e se fortalece o “bolsonarismo”, que passa a oferecer base popular para o neofascismo tupiniquim, em marcha, a partir principalmente do governo títere do vice perjuro, feito presidente pela tramoia da cassação do mandato da presidente. 

A regressão, fenômeno político posto em forma por um sem-número de causas e concausas, tanto conhece os efeitos da crise da esquerda de um modo geral, quanto da falência do neoliberalismo, do qual nossos governos não lograram fugir ou resistir, vencido o discurso programático pela realpolitik, que impõe todas as concessões necessárias como contrapartida da pura e simples conservação do governo, ainda quando o poder escapa das mãos do governante. 

A arte de governar se confunde com a arte da conciliação, regra irrevogável de nossa história política, projeto da classe dominante para se manter no poder. É a chave para entender o Brasil e o drama de hoje. Certamente o mal de origem, para lembrar Manoel Bonfim.

O drama da esquerda reformista, ante o recesso da esquerda socialista, no Brasil e não só aqui, é o preço cobrado à adoção  da conciliação como estratégia, e não como tática, como ela é recepcionada no jogo da política. Autonomizada, elevada ao plano de sujeito, jamais serviu seja para o avanço dos interesses das grandes massas, seja para a consolidação democrática, processo que jamais se conclui em país permanentemente à espera de um futuro que, dele, desgraçadamente, mais se afasta, quanto dele mais intenta aproximar-se.

Seja como for, a política de conciliação como projeto de nação parece já ter dado os poucos frutos que poderia oferecer e se apresenta, hoje, esgotada, devendo ser declarada perempta.

A difícil eleição de Lula em 2022, a intentona de janeiro de 2023, a difícil sustentação político-parlamentar do governo (exposta em sucessivas derrotas na Câmara e no Senado) não devem ser vistas como fatos isolados e muito menos como fenômenos “fora da curva”. Nesse contexto é que devemos considerar a rejeição, pelo Senado, ao procurador Jorge Messias, indicado pelo presidente da República para uma vaga no STF. Trata-se de fato institucionalmente grave, é verdade, no entanto, não deve ser visto, isoladamente, como mais uma “crise”, senão como estilhaço da grande crise republicana de nossos dias.

Ponto final de uma trama de forças convergentes, nenhuma crise é um fato em si, historicamente isolável; jamais é um episódio, mas sempre um processo. Conquanto grave do ponto de vista institucional, a má conduta do Senado não configura nem ponto de partida nem ponto de chegada.

Na história, águas passadas movem moinhos.

Vejamos.

Ainda lendo Gramsci, sabemos que o momento crítico não inaugura a crise, apenas torna visível aquilo que já se vinha acumulando nas profundezas da estrutura social, muitas vezes imperceptíveis aos sonares dos cientistas sociais: tensões latentes, fissuras no consenso, deslocamentos silenciosos. Nesse sentido, nenhuma transformação política se explica por um fator isolado, senão pela lenta e muitas vezes  imperceptível alteração da correlação de forças entre as classes, que redefine os limites do possível. 

As rupturas não irrompem como acidentes súbitos, nem se deixam atribuir a um evento singular, próprio; respondem ao desfecho de um desgaste progressivo e cumulativo das formas de direção política, quando a hegemonia (no sentido gramsciano) se rarefaz e o comando já não logra organizar, nem intelectual nem politicamente, o conjunto social. É quando, sem se dar por si, o sistema “envelhece”, o que, em texto anterior, denominei “fadiga de materiais”. Nosso discurso e nosso projeto permanecem coerentes com os marcos de sua origem, mas as circunstancias politicas se alteraram. 

Já é tempo de a esquerda (e o nosso governo) ter consciência — para daí agir — de que as eleições de outubro podem significar mudanças mais profundas do que a simples troca da regência do Planalto. 

***

Isso é natural? – Entre os elementos mais perturbadores da atual quadra histórica destaca-se a naturalização do absurdo. Senão, vejamos: o atual líder do regime estadunidense apoia um genocídio, sequestra um chefe de Estado (assassinando, para tal, cerca de 100 pessoas), fabrica uma guerra que – para além do morticínio inaceitável – desestabiliza a geopolítica global, utiliza tarifas como arma e distribui achaques e insultos até mesmo aos aliados mais tradicionais. Apesar disso tudo, livre de qualquer sanção, é agraciado com o “Prêmio da Paz” da FIFA e tratado com subserviência: por exemplo, a próxima reunião do G7 (prevista para ocorrer em Évian-les-Bains, na França) teve sua data alterada, pois em 14 de julho Trump organizará um evento de artes marciais na Casa Branca. Não bastasse, os EUA sediarão, em dezembro, a próxima cúpula de líderes do G20 – foro que Washington cuida de esvaziar –, em local que consiste numa verdadeira explosão semiótica: o complexo hoteleiro e clube de golfe Trump National Doral, em Miami, Flórida. Mais que nunca, lembremos o pedido insistente de Bertold Brecht: “Nunca digam – isso é natural! – diante dos acontecimentos de cada dia.”

A ida ao bunker – Nesse contexto, a recente visita do presidente Lula à Casa Branca, cujos elementos ainda não são de todo conhecidos, apresenta sinais diversos, contraditórios entre si, abertos a diversas interpretações. Se o meneio que o chefe de Estado brasileiro precisa fazer a um líder como Trump reflete o cenário distópico dos nossos dias, é certo também que a aparente urbanidade com que se desenrolou o encontro oferta boas lições à extrema-direita nativa e aos jornalões que lhe servem de retaguarda tática, sempre cobrando covardia do governo do Brasil – caso especial de O Globo. Neste sentido, Lula foi cirúrgico ao declarar, na entrevista após o encontro, na Embaixada brasileira: “Não se pode exigir uma guerra contra o crime organizado enquanto o principal mercado consumidor, financeiro e de armamentos do hemisfério continuar a alimentar a estrutura empresarial [do crime].” Resta, contudo, saber se essa firmeza e altivez se estenderam aos diálogos com os norte-americanos sobre outros temas sensíveis, como o dos minerais estratégicos.

*Com a colaboração de Pedro Amaral.

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sexta-feira, 8 de maio de 2026

PF COLOCA MASTER PERTO DE FLÁVIO BOLSONARO

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Escândalo do Master: Ação da PF contra Ciro torna tóxica aliança com PP-União Brasil para a eleição

PF cumpriu mandado de busca e apreensão na casa do senador Ciro Nogueira, em operação que apura caso Master

Políticos à esquerda e à direita ouvidos pela coluna acreditam que a Polícia Federal apenas começou a puxar o fio das relações entre o ex-banqueiro Daniel Vorcaro e os partidos do Centrão.

Atingido ontem pela 5.ª fase da Operação Compliance Zero, o senador Ciro Nogueira (PPPI) é o parlamentar com maior proximidade com Vorcaro, mas está longe de ser o único.

Estão sendo aguardados com ansiedade em Brasília os próximos desdobramentos das investigações. O ministro do Supremo Tribunal Federal André Mendonça demonstrou que não tem qualquer comprometimento com grupos partidários ao autorizar a operação.

A ação contra Nogueira também cai como uma bomba na pré-campanha do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência. Torna mais difícil uma aliança do PL com a federação PP-União Brasil.

Perseguida pelos assessores mais pragmáticos do senador, a aliança era uma forma de garantir tempo de TV, Fundo Partidário e prefeitos fazendo campanha em todo o País. Agora, tornou-se tóxica.

O PT já resgatou das redes sociais um vídeo de Flávio citando Nogueira como possível vice. É uma forma de aumentar a rejeição do candidato. E a base bolsonarista fica cada vez mais revoltada com a proximidade de seu líder com políticos supostamente corruptos.

A situação fica ainda pior porque a ligação direta de Nogueira com Vorcaro ajuda a minimizar o impacto do escândalo do Banco Master para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o aproxima perigosamente do candidato da oposição.

Lula vinha pagando o preço nas pesquisas de intenção de voto por sua associação com o ministro do Supremo Alexandre de Moraes. O Planalto e o STF caminharam de mãos dadas no inquérito do golpe e até em questões econômicas.

E o escritório da esposa de Moraes foi pego em um contrato muito mal explicado de R$ 129 milhões com o Master. Só que agora é Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Jair Bolsonaro, que foi flagrado recebendo viagens e mesada de R$ 300 mil de Vorcaro.

A situação é tão delicada para

Flávio que o pré-candidato soltou nota extremamente cautelosa sobre a operação da PF em que nem sequer menciona Nogueira. Diz apenas que considera os fatos “graves”, que “devem ser apurados com rigor”, “respeitando o devido processo legal”.

As pesquisas já demonstram uma consolidação do voto e uma sociedade polarizada entre aqueles que desejam um quarto mandato de Lula e os que querem tirá-lo do poder. Para os analistas, a vitória está nas mãos de 4% a 5% de eleitores de centro, para os quais o envolvimento com Vorcaro pode pesar.

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VIDA E MORTE DAS UNIVERSIDADES

Simon Schwartzman*, O Estado de S. Paulo

É a multiplicidade de funções e interesses que faz com que as universidades se mantenham e floresçam

Em artigo recente, os economistas David Cutler e Edward Glaeser tratam de explicar como as universidades têm sido capazes de existir por mais de mil anos e o papel importante que elas desempenharam e ainda desempenham em várias partes do mundo (How Have Universities Survived for Nearly a Millennium, NBER Working Paper 35079, 2026).

O segredo, dizem eles, está na combinação entre uma cooperativa de professores, com autonomia substancial sobre ensino e pesquisa e entidades externas de financiamento e controle – igreja, governos, filantropos, empresários, doadores. Eles têm interesses diferentes, mas que convergem. Os professores querem um lugar onde tenham liberdade para exercitar sua curiosidade, desenvolver e expor suas ideias sem se preocupar com de onde vem o dinheiro, e os controladores querem um lugar para onde possam mandar seus jovens e os melhores profissionais sejam formados. Cada um precisa ceder um pouco. Os professores precisam gastar tempo dando aulas e não exagerar em suas liberdades, a ponto de os controladores cortarem seus recursos; e os controladores precisam se cuidar para não forçar os professores a fazer o que não querem, matando a galinha de ovos de ouro.

Com o tempo, as universidades foram crescendo e se transformando pelos dois lados, instalando laboratórios e infraestrutura de pesquisa, organizando museus e atividades culturais, entrando em competições esportivas e desenvolvendo pesquisas de interesse civil e militar. É essa multiplicidade de funções e interesses que faz com que as universidades se mantenham e floresçam.

Como às vezes acontece, os economistas redescobrem e organizam de forma elegante ideias que já eram conhecidas entre cientistas sociais que estudaram essas questões. Um deles, Burton R. Clark, desenvolveu um modelo também simples e elegante da coordenação das universidades que ficou conhecido como o “Triângulo de Clark” (Clark, B. R., The Higher Education System: Academic Organization in Cross-National Perspective, University of California Press, 1983).

Nesse modelo, as universidades contemporâneas vivem dentro de um triângulo (três vértices): o governo, a corporação acadêmica e o mercado – formado pelos estudantes e empresas que contratam seus serviços. Cada um puxa e pressiona para seu lado e as universidades se aproximam de um ou outro vértice conforme a força de cada um. O interessante desse modelo é que ele permite entender como as universidades podem ser diferentes conforme o país e se transformar ao longo do tempo, movendo-se conforme varia a força de cada polo. E, tal como Cutler e Glaeser, mostra que as melhores e mais duradouras universidades são as que conseguem não ser dominadas por nenhum dos polos, aproveitando as vantagens e recursos de cada um. Universidades autônomas não são as que controladas por suas corporações internas, mas as que têm capacidade de se movimentar dentro do triângulo buscando onde possam maximizar os diferentes interesses sem perder a força vital de seus professores.

Nessas movimentações, muitas instituições criadas para fins práticos acabam se tornando mais acadêmicas, num processo conhecido como academic drift ou deriva acadêmica. Um autor inglês, Jonathan Harwood, explica esse processo pela hierarquia de status que existe no campo acadêmico, que dá mais prestígio e recursos para os cientistas que fazem pesquisa básica do que para os que se dedicam ao ensino ou a trabalhos aplicados (Understanding Academic Drift: On the Institutional Dynamics of Higher Technical and Professional Education, Minerva, 48, 2010). Esses desvios de função podem ter resultados positivos, por exemplo, em centros de pesquisa em agricultura que se envolveram em pesquisas acadêmicas sobre genética e acabaram por revolucionar o

campo das ciências agrárias; ou negativos, como parece ter ocorrido com os antigos centros federais de educação tecnológica brasileiros, que, ao serem elevados à condição de institutos universitários em 2008, se transformaram, de boas escolas técnicas, em instituições que hoje se dedicam sobretudo a formar bacharéis e professores do ensino médio como tantas outras.

Muitas instituições, no entanto, nem sobrevivem nem se transformam, simplesmente decaem. Quem, olhando para a América Latina, descreveu esse mecanismo meio século atrás foi o economista Albert Hirschman (Exit, Voice, and Loyalty: Responses to Decline in

Firms, Organizations, and States, Harvard University Press, 1970). Quando instituições perdem eficiência e estão sujeitas às regras do mercado, as pessoas se afastam delas e elas desaparecem. Quando elas são públicas e desempenham funções indispensáveis, as pessoas protestam, os governos vêm em seu socorro e elas renascem.

O pior é quando elas são públicas, mas perdem o monopólio para outros concorrentes. Elas não morrem, mas definham. Os exemplos de Hirschman eram as antigas ferrovias, sufocadas pelas rodovias. Os exemplos atuais podem ser tanto os Correios quanto muitas universidades públicas da região, cujas greves e protestos se arrastam e cada vez menos se ouvem. 

*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

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PROFESSORES SE REBELAM CONTRA INTOLERÂNCIA NA UNIVERSIDADE

Pablo Ortellado, O Globo

A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a perspectivas plurais

Um grupo de professores lançou nesta semana um manifesto em defesa do pluralismo, da neutralidade institucional e da liberdade acadêmica nas universidades brasileiras. O manifesto busca enfrentar o cerceamento à liberdade acadêmica que se tornou rotineiro nas instituições.

Em maio de 2021, o reitor da UFPB desligou a TV UFPB do programa Univerciência, uma rede de universidades e emissoras públicas nordestinas. A decisão ocorreu após professores, no lançamento do programa, terem criticado a falta de investimento nas universidades e homenageado Paulo Freire. O reitor justificou o desligamento alegando “falta de afinidade” com as pautas e os trabalhos desenvolvidos.

Em fevereiro de 2023, estudantes da Faculdade de Direito da USP organizaram um abaixo-assinado para tentar impedir o retorno de Janaina Paschoal ao cargo de professora, após um período exercendo o mandato de deputada estadual. Os alunos disseram que ela não era mais “bem-vinda” à faculdade e a classificaram como persona non grata, alegando que sua atuação política era incompatível com os valores democráticos da instituição.

Em maio de 2025, a direção do Centro de Ciências Biológicas e da Saúde do Mackenzie interveio na programação da Semana de Psicologia organizada pelos estudantes. A instituição proibiu termos que considerou sensíveis nos títulos das mesas, desconvidou debatedores e impôs a mediação de professores. Pelo menos uma apresentação com temática LGBT+ foi proibida.

Em outubro de 2025, um seminário na USP sobre mulheres em situação de vulnerabilidade foi interrompido após movimentos sociais e diretórios estudantis protestarem contra a presença de entidades que congregam comunidades terapêuticas, acusadas de maus-tratos. A interrupção aconteceu depois de manifestantes intimidarem participantes e destruírem mesas e materiais na porta do auditório.

Os casos são muito mais numerosos: pesquisadores da Sociologia da UFF identificaram mais de uma centena nos últimos anos (os exemplos citados aqui vêm de uma prévia desse estudo). A universidade tem deixado de acreditar que temas difíceis e controversos devem ser enfrentados com investigação rigorosa, evidências empíricas e análise ponderada. Vamos, pouco a pouco, nos acostumando a conviver com censura e intimidação movidos pelo sentimento de fazer justiça.

A comunidade acadêmica está perdendo a liberdade de debater, ensinar e pesquisar. Segundo pesquisa do Instituto Sivis, quase metade (48%) dos estudantes de ensino superior brasileiro afirma já ter se autocensurado em sala de aula. Para o público, a universidade — sobretudo a universidade pública — vai se tornando não mais um lugar de formação profissional e pesquisa de excelência, mas de militância. Segundo pesquisa da More in Common, 59% dos brasileiros confiam pouco ou não confiam na universidade pública, e 54% acreditam que a universidade pública promove mais ideologia do que ensino de qualidade.

Nossas universidades têm feito pouco para proteger a liberdade acadêmica. Muitas vezes, as instituições alegam questões de segurança para cancelar eventos que deveriam ser protegidos do assédio de quem quer impedir o debate. Não é suficiente a direção não se somar aos censores, ela precisa ativamente defender a liberdade de debater e ensinar. Também precisa preservar a neutralidade institucional. Se autoriza palestras de políticos de esquerda, precisa autorizar palestras de políticos de direita — e vice-versa. Da mesma forma, deve evitar posicionamentos sobre temas controversos que sinalizem a existência de uma ortodoxia oficial.

É preciso mudar nossa cultura institucional e orientá-la ao pluralismo de perspectivas. Nas ciências sociais e nas humanidades, precisamos nos esforçar para incorporar ao currículo perspectivas liberais e conservadoras que fazem parte do cânone das disciplinas. Em certas áreas da administração, da economia e do Direito, perspectivas progressistas estão ausentes ou sub-representadas.

A pluralidade contribui para um ambiente epistemologicamente saudável. A formação dos estudantes se enriquece quando exposta a perspectivas plurais, porque o confronto entre abordagens distantes permite identificar pressupostos, vieses e erros que tendem a passar despercebidos dentro de um mesmo horizonte intelectual.

Nos últimos anos, temos visto muitas críticas vindas de fora da universidade. Agora, começa a surgir um movimento de reforma vindo de dentro. Nas primeiras 24 horas após o lançamento do manifesto, assinaram o texto 350 docentes de 94 instituições, de 24 estados brasileiros. Parece que podemos começar a vislumbrar uma universidade onde as divergências não são mais enfrentadas com intimidação e hostilidade, mas pelo confronto estimulante de ideias.

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A SORTE DE CIRO NOGUEIRA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ação contra Ciro Nogueira rompe blindagem de políticos e ameaça bancada do Master

Pelas provas citadas por André Mendonça, chefão do PP não pode reclamar da sorte

Demorou, mas a Polícia Federal enfim bateu à porta de Ciro Nogueira. O senador estava na mira desde o início do escândalo do Master. Numa mensagem célebre, Daniel Vorcaro o descreveu como um dos “grandes amigos de vida”.

Para o ministro André Mendonça, a relação extrapolava a “mera amizade”. De acordo com as investigações, Ciro recebia mesada de até R$ 500 mil. Além disso, usava o cartão do banqueiro para pagar voos internacionais, hotéis de luxo e restaurantes estrelados.

Ciro deixou rastros da dobradinha. Foi dele a proposta de elevar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito. Um incentivo e tanto para bancos que fraudam o sistema financeiro com títulos sem lastro.

O texto assinado pelo senador já havia sido apelidado de “emenda Master”. Agora sabe-se que foi redigido por funcionários do banco e depositado num envelope em nome de Ciro. “Saiu exatamente como mandei”, festejou Vorcaro. O diálogo atesta a captura do cargo público para fins particulares.

Sempre falante, o chefão do PP passou o dia em silêncio depois de ser acordado pela polícia. Seus advogados disseram que ele “repudia qualquer ilação de ilicitude”.

Ciro já foi conhecido como o príncipe do baixo clero. Habilidoso, virou presidente de partido e se projetou como um dos maiores articuladores do Centrão. Nos últimos anos, costurou a aliança do grupo com o bolsonarismo. Foi chefe da Casa Civil de Jair e era cotado como candidato a vice de Flávio. Animado, o senador chegou a definir o arranjo como “chapa dos sonhos”.

Para a bancada do Master, a operação de ontem pode ter sido o início de um pesadelo. A PF ainda não havia encostado em políticos que alugaram seus mandatos ao trambiqueiro da Faria Lima. A fila é extensa e suprapartidária. Além de congressistas, deve pegar governadores que despejaram dinheiro de aposentados nos fundos de Vorcaro.

Pela quantidade de provas citadas por Mendonça, Ciro teve sorte. O senador pode ter perdido algumas horas de sono, mas poderá compensá-las em casa. E sem tornozeleira eletrônica.

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O TEMPO PRÓPRIO DE MINAS

Vera Magalhães, O Globo

Estado, um dos mais cruciais para definir a eleição presidencial, assiste a indefinições à esquerda e à direita, que dificultam traçar um prognóstico

Minas Gerais ocupa um lugar singular na política brasileira porque reúne três características decisivas: é o segundo maior colégio eleitoral do país, tem um eleitorado social e regionalmente muito heterogêneo e, historicamente, costuma reproduzir o comportamento médio do eleitor brasileiro.

Por isso, cientistas políticos frequentemente descrevem Minas como uma espécie de “microcosmo do Brasil”, ou nossa versão de “estado-pêndulo”. Reúne regiões com perfil econômico, cultural e ideológico muito diferentes e oscilou da esquerda à direita ao longo dos últimos ciclos presidenciais.

O norte do estado e o Vale do Jequitinhonha têm características próximas ao Nordeste, o Triângulo Mineiro dialoga com o agronegócio do Centro-Oeste, o sul sofre influência econômica, cultural e política de São Paulo, e a Zona da Mata é historicamente ligada ao Rio.

Esse mosaico faz com que o estado funcione como termômetro nacional. Não por acaso, desde a redemocratização, quem venceu em Minas venceu também a eleição presidencial em todo o país. Desde 2014, a coincidência entre o resultado mineiro e o nacional foi especialmente impressionante.

Tal centralidade talvez explique, para além da mítica “desconfiança” dos mineiros, a demora na definição de candidaturas por lá neste ano, que tem aumentado a ansiedade na direita e na esquerda.

Lula precisa vencer em Minas para compensar prováveis derrotas no resto do Sudeste. A última rodada da Quaest em dez estados ainda lhe dá pequena vantagem, na margem de erro, mas acende uma luz amarela pela alta desaprovação do estado a seu mandato.

Por enquanto, Lula e o PT vivem em compasso de espera para saber se Rodrigo Pacheco assumirá a empreitada de ser o candidato lulista em Minas. O senador quer usar o tempo ao limite. Aliados dele lembram que apenas na última semana da inscrição de candidaturas em 2018 ele se definiu pelo Senado, e agora não teria por que se apressar. Em relação à aparente falta de vontade de Pacheco de se lançar à empreitada, um profundo conhecedor de seu histórico lembra que a vontade nasce da oportunidade. E essa depende de articulações que passam pelo próprio Lula para montar uma aliança que vá além do PT.

O plano B que cresceu nos últimos dias é o ex-presidente da Fiesp Josué Gomes da Silva, cuja única ligação com a política vem de ser filho do vice de Lula nos dois primeiros mandatos, José Alencar. Na mesma toada mineiríssima, Josué se filiou ao mesmo PSB de Pacheco, mas recorre a uma citação do pai para não negar nem confirmar quando lhe perguntam se será candidato:

— Em época de guerra, boato é como terra.

A indefinição não é exclusividade do campo lulista. Apesar de liderar a corrida em todos os institutos, o senador Cleitinho Azevedo (Republicanos) ainda não crava que será candidato. Seu maior revés a administrar é uma disputa com o deputado Nikolas Ferreira (PL) para ver quem é a principal liderança da direita no estado.

Romeu Zema (Novo), que deixou o governo num momento de baixa avaliação, também enfrenta a contingência de estar no terceiro lugar “em casa”. Sair consagrado de Minas era condição mínima para emplacar uma candidatura que já padece da dificuldade de contar com um partido nanico e muita pressão dos aliados por aderir a Flávio Bolsonaro.

Toda essa indefinição dificulta usar os dados para traçar um prognóstico a respeito do que acontecerá em Minas em outubro. Em 2022, o segundo turno mostrou vantagem ainda mais apertada para Lula sobre Jair Bolsonaro que no conjunto do Brasil. O presidente precisaria, no mínimo, repetir esse “empate” para prevalecer sobre o filho do antigo adversário. E, para isso, precisará colocar a mão na massa de forma mais dedicada do que vem fazendo até agora.

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O QUE O SENADO VOTOU FORAM OS LIMITES DE SEU PODER

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Não era o destino de Jorge Messias que estava em julgamento, e sim o STF e o presidente da República

Entretido no trabalho, eu estava apenas ouvindo de longe a transmissão do resultado da votação do nome do indicado pelo presidente da República para o STF, Jorge Messias. Tive a impressão de que já ouvira aquela voz dizendo mais ou menos a mesma coisa, muitos anos antes. Aos poucos a conexão se fez.

Era a voz do senador Auro Soares de Moura Andrade, um criador de gado na região de Andradina (SP), presidente do Senado Federal. Advogado formado pela USP.

Numa moda de viola de Tião Carreiro, “Rei do gado”, era exaltado pela suposta humildade de boiadeiro e pelas virtudes de caráter daí decorrentes. A moda de viola virou tema de disputa com outra moda, de Teddy Vieira, “Rei do café”, em alusão a outro fazendeiro famoso e milionário, de Ribeirão Preto. Presidia o Senado, portanto, um personagem da saga do latifúndio, herói de modas de viola.

Moura Andrade, na tarde de 25 de agosto de 1961, recebeu uma inesperada carta, um bilhetinho, como eram chamados, do presidente da República, Jânio da Silva Quadros, havia sete meses no poder. Alegava pressões que lhe dificultavam governar. Renunciava, pois, ao mandato.

Com notável rapidez, Andrade deu encaminhamento ao pedido de Jânio, convocou o Congresso e pôs o documento em votação. Em menos de uma hora a renúncia estava aceita.

A voz enfática, clara e prepotente que eu imaginava estar ouvindo, vinda lá do passado, dissera: “Declaro vaga a Presidência da República”. Ausente o vice, na China em viagem oficial, convocava para assumi-la o presidente da Câmara dos Deputados, Ranieri Mazzilli. Começava o longo tormento da cassação de Goulart e do golpe de 1º de abril de 1964. A anomalia de origem que de vários modos afeta nossas instituições políticas até hoje.

Alcolumbre, originário de um estado distante dos centros de decisão, presidente atual do Senado, anunciou a derrota do indicado pelo presidente da República para o STF com a mesma enfática euforia e imponência de seu antecessor de pouco mais de meio século, em relação à renúncia do então presidente.

O episódio de agora expressa e documenta o que de fato é uma crise institucional grave, em que Jorge Messias foi indevidamente usado e sacrificado pela República inescrupulosa, independentemente das ideologias e partidos em confronto. Não era o seu destino que estava em julgamento, e sim o STF e o presidente da República.

Não se tratou apenas da rejeição do indicado. Na reunião prévia para que a comissão do Senado decidisse se acataria ou não o nome para que o plenário o votasse, o nome foi aprovado. Sabendo todos que seria rejeitado. O próprio Alcolumbre viabilizou a abertura da armadilha para que nela caísse o governo e não necessariamente o candidato.

A mídia daria no dia seguinte um panorama da movimentação de Alcolumbre para barrar o nome do indicado na votação decisiva. É quase impossível não ter percebido que tudo foi tramado para fazer da votação uma impugnação do presidente da República, um impeachment brando. A sessão do Senado de vários modos pode ter sido uma tentativa de continuar o golpe de 8 de janeiro de 2023. A trama parece maior do que se pensa.

O senador Randolfe Rodrigues sugeriu, em entrevista, que os impasses institucionais são viabilizados pela pulverização no governo Bolsonaro, abúlico e omisso. Entregou o poder ao ministro da Economia. Deixou o restante ao Congresso Nacional, que se fragmentou em disputas de fatias com o Executivo. Múltiplas trocas de votos, de favores e de recursos para alimentar as bases provinciais da representação política. Um retrocesso na estrutura das instituições políticas. Um debilitamento grave da democracia em favor de uma multiplicidade de focos de poder pessoal e local. O poder central declina.

Não poucos dos que têm opinado sobre essa crise indicam seus efeitos colaterais e mesmo o rebote sobre seus autores. Que existirão independentemente das más intenções que envenenam o sistema político brasileiro. Parece que tudo decorre de que há muita gente alarmada com as investigações sobre o caso do Banco Master. Os que não terão como dormir em paz depois do que significa politicamente a rejeição da indicação para o STF. Como não teriam como dormir em paz se o indicado tivesse sido aprovado.

O que o Senado votou foram os limites de seu poder e os indícios de sua própria vulnerabilidade. Porque as irregularidades praticadas no poder acabam escapando pelo meio dos dedos dos que as praticam. O “Você sabe com quem está falando?” como afirmação de autoridade e intimidação dá certo durante certo tempo, mas não todo o tempo. O poderoso acaba acordando um dia para a realidade das instituições, e com o meirinho a bater à porta de sua casa: “Tem gente?”.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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EM MENOS DE 24 HORAS, PRESIDENTE LULA RESURGE DAS CINZAS

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Operação da PF e visita à Casa Branca ajudam a reverter ideia de que o governo morreu

Com menos de uma semana de vida, a ideia de que o “governo acabou” com a derrota da indicação do ministro da Advocacia Geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal morreu precocemente em três lances: a operação da Polícia Federal, a visita do presidente Luiz Inácio Lula da Silva à Casa Branca e a aprovação do marco regulatório dos minerais críticos.

A decisão do ministro André Mendonça que teve o senador e presidente do PP, Ciro Nogueira (PI) como alvo coloca na fila o presidente do União, Antonio Rueda, e, finalmente, o presidente do Senado e capitão da derrota do Messias, Davi Alcolumbre (União-AP).

A ideia de que a operação pode vir a unir ainda mais o Centrão em torno do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e de uma proposta de anistia abrangente tampouco para em pé. Já há indícios suficientes de que as operações do Master que lavaram o dinheiro do crime organizado nos combustíveis passaram pelos personagens em questão. Uma anistia do gênero atingiria o PCC e o CV? Vai fazer um tremendo sucesso como plataforma eleitoral.

A operação começou a mostrar os atos de ofício dos rolos conhecidos daquele que foi chefe da Casa Civil do governo Jair Bolsonaro e “vice dos sonhos” do pré-candidato do PL à Presidência, como o próprio Flávio Bolsonaro chegou a declarar. A ação trouxe as digitais da atuação de Ciro nas brechas abertas pelo governo do qual foi o principal operador político: da mesada de até R$ 500 mil recebida por aquele que é apontado como o cabeça do maior rombo financeiro da história até a condição de signatário de propostas legislativas de interesse do Master.

Ciro abre a fila por sua atuação não apenas no Master, vide a presença do banco no fundo de Previdência do Amapá, mas na sua intersecção com os devedores contumazes do setor de combustíveis, cuja lavagem de dinheiro passou pelos fundos operados por Daniel Vorcaro. Os vínculos entre Ciro, Rueda e Alcolumbre com os empresários do setor de combustíveis que se valeram desta lavagem vão desde a sonegação contumaz até o uso desses canais pelo crime organizado.

A preocupação é tanta que, poucos minutos depois de deflagrada a operação, a residência oficial de Alcolumbre se encheu de aliados. Flávio Bolsonaro, porém, deu um jeito de se afastar de Ciro Nogueira. Em nota, disse esperar que haja uma “ampla apuração”.

Já a visita de Lula aos Estados Unidos acontece num momento de derrota do bolsonarismo na retaguarda trumpista. A ausência do secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, no encontro entre Lula e Donald Trump de quinta-feira (7) é sinal de que o canal mais forte do bolsonarismo com o governo americano não está dando as cartas na relação Brasil-EUA.

A ala ideológica da Casa Branca e do Departamento de Estado ficaram de fora num encontro destinado a aparar arestas concretas no comércio bilateral. Ofereceu a Lula a foto de que precisa para contestar a versão, divulgada pelo bolsonarismo, de que a não-extradição do ex-deputado Alexandre Ramagem sinaliza a torcida de Trump pela eleição de Flávio Bolsonaro.

A aprovação do marco regulatório da exploração dos minerais críticos e estratégicos na noite de quarta na Câmara dos Deputados mostrou ainda que o Centrão não tem o poder de obstruir nem o Congresso quando questões de interesse nacional — e empresarial — estão em jogo. Foi uma vitória que mostrou uma abertura de Lula à centro-direita no Congresso, a mesma da qual se afastou na indicação de Messias, isolando os votos contrários do Psol e do PCdoB, que se agarraram à criação de uma estatal para o setor.

Se o Centrão apostou na perda de perspectiva de poder de Lula, faltou embutir no cálculo as manhas do roteirista do realismo fantástico da política brasileira, que colocou na relatoria do inquérito do Master um ministro indicado por Jair Bolsonaro e que escanteou o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, nas investigações. Qualquer aposta sobre outubro enquanto este inquérito estiver aberto terá o valor de um CDB do Master.

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