quinta-feira, 5 de novembro de 2026

'DARK HORSE', SÓ NA NUVEM; SE NÃO CHOVER

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O filme classificado por Flávio Bolsonaro como obra-prima ameaça não chegar aos cinemas

Parte do dinheiro da produção mandada para lavar no Texas poderá sustentar senador nos EUA

Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?

A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos —um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein;"Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" —Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.

Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro —tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.

E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.

E, com isso, só teremos o filme na nuvem —se não chover.

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NA INTENSIDADE DO TEMPO ATUAL

Míriam Leitão, O Globo

Derrota de Donald Trump reduz a instabilidade global, mas falta de horizonte fiscal leva Banco Central a frear corte da Selic

A decisão do Copom de manter os juros foi tomada no meio do maior bombardeio que o Banco Central independente já enfrentou. Diante da incerteza do tempo presente, manter os juros era o certo a fazer. O ruído dos últimos dias contra o BC torna mais pesado esse começo de um governo que foi consagrado por uma forte vitória nas urnas. O que houve no Brasil, na eleição, foi a reafirmação da democracia como valor e escolha política. O que houve nos Estados Unidos foi a reafirmação da democracia e da diversidade como valor. Num poema do novo livro de Geraldo Carneiro, há um verso que diz: “Amou o semelhante e o diverso”. Foi o que me veio à cabeça quando vi a impressionante representatividade que saiu das urnas americanas.

Alguém pode considerar essa coluna meio confusa já que comecei a falar de Copom, fui para a eleição brasileira, a americana e citei um poeta. Mas convenhamos está difícil na intensidade do tempo atual fazer um texto sobre um tema só. Eles se misturam e se conectam. O mundo é menos separado do que parece. Fui dormir na terça-feira embalada pelos primeiros sinais da onda azul e acordei sabendo que ela havia se transformado em tsunami. “O mar sempre o deixou pasmo de azul”, outro verso do mesmo poeta invadindo a minha coluna, que teria que ser econômica e não lírica.

Voltemos ao Copom. As projeções de inflação pioraram, o dólar subiu fortemente, o governo não explicou como vai incluir todas as promessas que fez, as decisões que tomou no orçamento e como será a trajetória das contas públicas. Vários dirigentes do PT mostraram que sonham com uma solução mágica para a queda dos juros, fazendo uso simplista de um pensamento complexo. O que fazer diante da incerteza? Parar de reduzir a Selic. Poderá cair, quem sabe, mais adiante. Há uma boa expectativa em relação ao pronunciamento que o presidente Lula fará no domingo sobre a questão fiscal. É mesmo necessário que o presidente apresente mais informações sobre o que pretende fazer. Isso ajudará a melhorar o ambiente.

A vitória democrata nos Estados Unidos tem relação diretamente com a economia. A guerra contra o Irã até agora aumentou o preço do petróleo, reduziu as reservas globais de óleo, tornou mais incerto o suprimento de fertilizantes e elevou a inflação. Além disso, com o seu poder absoluto nos primeiros dois anos, Trump impôs tarifas altas para o mundo inteiro. Contra nós, foram decretadas uma das maiores taxas, mesmo o Brasil sendo deficitário no comércio bilateral. Ele o fez por razões políticas. Agora, Trump terá limites e isso deve reduzir a incerteza econômica.

Mas o mais importante da derrota de Trump é a vitória da democracia. As instituições americanas estavam sob ataque nestes primeiros dois anos do segundo mandato. Os valores da diversidade pareciam estar sendo esmagados pelo supremacismo trumpista. E, de repente, houve uma chuva de diversas primeiras vezes. A primeira governadora negra da Geórgia; a primeira governadora latina no Texas; o primeiro senador muçulmano; a primeira governadora e a primeira senadora indígenas, o primeiro senador assumidamente gay; primeiro governador negro de Wisconsin. O jovem pastor presbiteriano progressista James Talarico no Texas é o primeiro senador democrata do estado desde 1988. As mulheres avançaram.

A lufada de ar fresco que veio dos Estados Unidos produziu queda de 9% no petróleo, deixando a cotação abaixo de US$ 100 em muito tempo. O dólar caiu aqui depois de ter subido por seis pregões seguidos numa alta de 9%. Para o Brasil, é bom ter queda de petróleo e de dólar, depois de movimentos tão negativos. A economia tem sempre suas urgências. A incerteza econômica aumentou de fato. E quem vê as realocações de ativos pode dar outro significado a esses versos. “A vida é veloz: de repente/ tudo o que era pré/ vira pós”. Certamente não era essa materialidade que estava na cabeça do poeta, quando escreveu o seu “Ensaios sobre o mar”.

Ao contrário do que se vê nas cotações tão instáveis, há mais certezas no mundo depois da eleição americana. O foco principal da instabilidade estará sob contenção democrata na próxima legislatura. E isso terá bons efeitos políticos, geopolíticos, econômicos e humanos. Assim quem sabe não será estranho ter versos na coluna de economia. “Amou o semelhante e o diverso/ o que não soube dizer em prosa/ virou verso”.

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O SONHO AMERICANO, A PERSEGUIÇÃO AOS HISPÂNICOS E A DERROTA DE TRUMP

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia

Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos.

London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles.

Essa história é bem contada em “Nós, o povo”, de Leo Huberman (1903-1968), uma interpretação da formação dos Estados Unidos pelo trabalho e pelas disputas em torno da riqueza. A imagem do país como um grande ímã de povos traduz a realidade de que sua expansão econômica foi inseparável da chegada de milhões de pessoas de diferentes nacionalidades, religiões, profissões, culturas e condições sociais.

“Gente branca, preta, amarela, de pele escura; católicos, protestantes, huguenotes, quakers, batistas, metodistas, unitarianos, judeus; espanhóis, ingleses, alemães, franceses, noruegueses, suecos, dinamarqueses, chineses, japoneses, holandeses, boêmios, italianos, austríacos, eslavos, poloneses, romenos, russos – e a lista está apenas começando; fazendeiros, mineiros, aventureiros, soldados, marinheiros, ricos, pobres, mendigos, ladrões, sapateiros, alfaiates, atores, músicos, ministros religiosos, engenheiros, escritores, cantores, cavadores de valas, industriais, açougueiros, padeiros e fabricantes de velas”, destaca Huberman.

Todos abriram caminhos, ergueram cidades e transformaram costumes. A diversidade da vida norte-americana resulta desse processo, cujo êxito decorre da tradução da identidade étnica pelo sonho de uma vida melhor. É um erro, porém, desconsiderar seus conflitos. A imigração voluntária não se confunde com o tráfico de africanos escravizados, assim como a expansão territorial não apaga a expropriação dos povos indígenas.

Na verdade, a hostilidade aos estrangeiros e as restrições raciais à entrada e à cidadania também fazem parte da trajetória dos Estados Unidos e suas elites, ingredientes incorporados por Trump à sua política. O estrangeiro sempre foi necessário à economia e, simultaneamente, apresentado como ameaça ao emprego, à segurança e à identidade nacional.

Efeito catalisador

Trump fez da imigração um instrumento de mobilização eleitoral contra o outro. Fechar as fronteiras passou a funcionar como resposta para inseguranças que nascem do custo de vida, das transformações no trabalho e da perda de perspectivas de ascensão social. A perseguição a imigrantes, porém, atingiu famílias e comunidades muito além daqueles sujeitos à deportação. Foi uma agressão ao que existe de mais profundo e antropológico no imaginário da formação do povo norte-americano.

As eleições de 3 de novembro expuseram os limites dessa estratégia. Os democratas reconquistaram o Senado e a Câmara, avançando sobre territórios republicanos. James Talarico venceu no Texas; Roy Cooper conquistou a vaga da Carolina do Norte; Sherrod Brown recuperou espaço em Ohio. Kansas também mudou de lado. Inflação, denúncias de corrupção, a guerra com o Irã e a brutalidade do governo contra os hispânicos produziram uma rejeição que atravessou fronteiras sociais e partidárias. Rompeu-se a confiança nas grandes promessas feitas por Trump.

O afastamento de eleitores hispânicos em redutos históricos de Trump integra esse quadro. Muitos nasceram nos Estados Unidos, em famílias estabelecidas há gerações; somente os cidadãos naturalizados podem votar nas eleições federais. Não existe um voto latino automático. Como em toda eleição, renda, religião, segurança e expectativas econômicas pesam nas escolhas. Mas acontece que a frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump representa uma ameaça à democracia. Prometeu prosperidade, entregou conflitos e insegurança.

Surgiram novos líderes democratas. Talarico simboliza a possibilidade de disputar um estado há décadas identificado com os republicanos. Jon Ossoff, na Geórgia, ampliou sua força. Em Michigan, Jocelyn Benson emergiu na disputa pelo governo, enquanto o progressista Abdul El-Sayed avançou para o Senado. A onda azul favoreceu diferentes correntes, entre as quais a socialista, mas os democratas moderados demonstraram maior capacidade de ampliar alianças.

O desafio democrata é transformar a rejeição a Trump numa maioria duradoura. O novo Congresso poderá conter iniciativas e investigar abusos, mas Trump permanece na Casa Branca. E o trumpismo conserva suas raízes, ancorado no movimento MAGA (Make America Great Again) e no “supremacismo branco” de anglo-saxões e nórdicos.

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PATO MANCO

Merval Pereira, O Globo

A derrota de Trump e a vitória de Lula significam a mesma coisa

A derrota de Donald Trump, demolidora, instalou em Washington um novo foco de poder que altera não apenas a política interna dos Estados Unidos, como a internacional. Os três maiores países do continente americano — Canadá, Brasil e México — são os que enfrentaram os arroubos autoritários de Trump nestes dois primeiros anos de governo. O sonhado “quintal” dos Estados Unidos não voltará a ser a nossa região, e certamente a fraqueza de Trump poderá gerar uma força adicional nos países do nosso entorno.

Ela mostra que um ciclo se fecha. A tendência é que a direita — que dominava a política internacional a partir da vitória de Trump e de sua influência nas eleições — se enfraqueça. É claro que os Estados Unidos continuam sendo o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e que Trump tem mais dois anos de mandato. A única indicação é que talvez seja mais fácil negociar com o gigante fragilizado.

Do nosso ponto de vista interno, ao grupo bolsonarista que se refugia nos Estados Unidos, capitaneado agora pelo derrotado Flávio Bolsonaro, caberá conviver com um governo que terá problemas maiores a resolver do que cair na rede de intrigas e fofocas que eles montam. A fragilização de Marco Rubio, secretário de Defesa dos Estados Unidos, fará com que os canais que o ligam à Casa Branca estejam fortemente obstruídos. A derrota nas eleições faz Trump perder força na liderança mundial, mas temo que ele perca também a cabeça e acelere algumas medidas.

É preciso ver o que acontecerá com o Brasil, porque acredito que todas as taxações serão derrubadas pelo novo Congresso americano, e Trump procurará algum meio de retaliar. Talvez, tendo crises mais sérias para tratar agora que o Congresso está dominado pelos democratas, se esqueça de perseguir todo mundo e pense mais em salvar-se da crise que criou para si próprio.

Será um período difícil para o mundo, porque não se sabe qual será o comportamento de Trump sem a perspectiva de poder. Tratá-lo como “pato manco”, gíria americana para definir um político que não tem mais cargo a aspirar, nem expectativa de poder, será mexer com seu ego gigantesco. Sua primeira reação foi surpreendentemente civilizada, talvez tentando se convencer de que a derrota não foi dele, que seu nome não estava na cédula, como salientou. Mas o próprio Trump pediu que os eleitores votassem como se estivesse, e a resposta não foi boa para ele.

Com seu enfraquecimento, a direita mundial, amplamente baseada em sua liderança, ficará atordoada num primeiro momento. Mas é muito claro que a tendência do pêndulo político favorece a centro-esquerda no mundo. A movimentação popular e arregimentação de apoios por meio dos novos meios de comunicação que aconteceu na eleição brasileira, dando a vitória a Lula, é um fato relevante, e os americanos que não são de extrema direita têm razão de comemorar a vitória do brasileiro como da democracia sobre os extremistas.

A derrota de Trump é a vitória do multilateralismo e da democracia. Mostra que não foi por acaso que o Brasil viveu essa onda e que o país está conectado com a necessidade de equilíbrio democrático e de tomar decisões com a maior amplitude possível. O Congresso, agora dominado pelos democratas, provavelmente mudará a direção do apoio no âmbito da Otan, e não apenas na guerra da Ucrânia. A guerra do Irã, considerada por todos como um dos principais motivos da derrota, terá outra configuração, em busca de acordo que permita a normalização do comércio internacional e a queda do preço do petróleo, refletido duramente sobre a inflação americana. Interessante constatar que a derrota de Trump e a vitória de Lula significam a mesma coisa, mesmo guardadas as devidas proporções de cada uma.

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NÃO EXISTE CARTA BRANCA NO LULA 4

Julia Duailibi, O Globo

Apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula

Não tem Palocci 2, Posto Ipiranga ou carta branca para quem assumir a economia no Lula 4. Aviso aos navegantes que, apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula. Isso significa que o próximo governo não pretende fazer um “cavalo de pau na economia”, nos moldes do que ocorreu em 2003, segundo definiu à época o então capitão do time, José Dirceu.

Lula quer fazer de Lula 4 algo mais impactante que Lula 3, mas a toada que desenha por enquanto é a mesma. Com exceção de uma ou outra medida de viés mais agressivo, a ideia é não mexer nos compromissos da campanha. Por isso Lula 4 não deve ser o que o mercado quer nem o que parte dos economistas vê como caminho obrigatório para interromper a trajetória de crescimento da relação dívida/PIB e levar à queda dos juros.

No momento, o ajuste em discussão prevê busca pelo centro da meta de superávit (0,5% do PIB em 2027 e 1,5% em 2030); manter de maneira permanente o gatilho que exclui determinadas receitas do cálculo dos gastos com saúde — hoje permitido apenas em caso de déficit; maior flexibilidade para bloquear ou contingenciar; corte de gastos tributários e o famoso pente-fino das despesas. Será apresentado um Projeto de Lei Complementar, em negociação também com a cúpula do Congresso, que pavimentará o caminho para enviar o Orçamento de 2027, agora readequado às promessas da campanha.

A notícia do colunista Lauro Jardim de que Lula se encontraria com o economista André Lara Resende alimentou a expectativa de que o presidente pudesse buscar uma nova abordagem à questão fiscal. Em artigo de setembro, o economista propôs uma faixa fixa para a Selic, levando em consideração meta de inflação e PIB potencial. A taxa de juros atual seria cortada gradualmente, e as reservas internacionais seriam usadas para evitar a depreciação cambial. As conclusões de ALR animaram o entorno do presidente, pois colocam o foco no patamar dos juros, e não nos gastos primários. Aliados mais próximos de Lula, no entanto, não o veem aderindo à pressão por alguma medida que force a derrubada dos juros. É verdade que ele deixou a turma fazer barulho com a ideia, já que a discussão engaja sua base mais à esquerda.

Lula pretende conversar com diferentes economistas nos próximos dias e fazer um pronunciamento no final de semana dizendo que tem compromisso com a questão fiscal, mas também com os mais pobres, exatamente o discurso que usou no palanque eleitoral.

Quando definir o nome que tocará a economia, não haverá a carta branca, tão almejada pelo mercado. Só a compra quem lê o Lula de hoje pelo retrovisor do Lula 1. Fernando Haddad, com toda a moral que tinha com Lula, não a conseguiu. Basta lembrar que, no final de 2024, Haddad trabalhou para que o anúncio do ajuste fiscal não fosse feito no mesmo dia que a divulgação das medidas de isenção do Imposto de Renda. Não conseguiu, e o mercado reagiu mal. Por que agora com Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí e cotado para a Fazenda, seria diferente? Até onde se sabe, a influência de Fonteles, ou de qualquer um que aparecer para assumir o cargo de ministro, sobre Lula ainda é menor que a de Haddad. Não haverá Posto Ipiranga.

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quarta-feira, 4 de novembro de 2026

COMANDO DO CONGRESSO E MINISTRO DA FAZENDA DEFINIRÃO NOVO GOVERNO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A convergência com Centrão pelo controle do Congresso não elimina os conflitos sobre o Orçamento, a distribuição de cargos e o alcance das políticas públicas

A agenda legislativa na ordem do dia depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também tem como objetivo político a manutenção de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) nos comandos da Câmara e do Senado, respectivamente. A votação de propostas de grande repercussão social, como a PEC da Segurança Pública, aprovada nessa terça-feira, e a regulamentação do fim da escala 6 x 1, a negociação de espaços no futuro ministério e as articulações para preencher vagas em tribunais integram a construção da maioria que deverá sustentar o quarto mandato de Lula. Nesse sentido, a governabilidade dependerá do Centrão.

Logo após o segundo turno, Lula sinalizou apoio à recondução de Motta e Alcolumbre, para impedir que a reorganização do Congresso fosse comandada pela oposição bolsonarista. Em contrapartida, espera encontrar disposição para aprovar matérias que permitam apresentar resultados antes mesmo da posse. O fim da escala 6 x 1 e emenda constitucional da segurança pública são agendas de amplo apelo popular que o Centrão tem oportunidade da faturar politicamente.

Leia também: Lula comemora aprovação da PEC da Segurança e reforça criação de ministério

Entretanto, é um engano acreditar que se trata de uma adesão programática do Centrão ao quarto mandato de Lula, cujo projeto ainda não está suficientemente explicitado. Trata-se de uma aliança de conveniência conjuntural entre forças com bases eleitorais, prioridades e ambições próprias, que não confiam plenamente umas nas outras. A convergência pelo controle do Congresso não elimina os conflitos sobre o Orçamento, a distribuição de cargos e o alcance das políticas públicas. A eleição das mesas diretoras é apenas a primeira prova dessa composição entre Lula, Motta e Alcolumbre. O xis da questão serão as decisões que distribuem custos em vez de benefícios.

A montagem do ministério faz parte da mesma negociação. A possível permanência de Gustavo Feliciano, no Turismo, e de Waldez Góes, na Integração e Desenvolvimento Regional, sinaliza a preservação de espaços vinculados aos presidentes do Congresso. A hipótese de entregar a Secretaria de Relações Institucionais a um parlamentar do Centrão, como Silvio Costa Filho, vai além da acomodação partidária: significaria trazer para dentro do Planalto um representante das forças com as quais o governo precisará negociar diariamente.

Mas essas conjecturas não se traduziram ainda em convites formais — são especulativas. A presença de um integrante do Centrão no comando da articulação política, entretanto, pode inverter a mão das negociações, com um representante exclusivo das demandas parlamentares dentro do Executivo. O desafio será encontrar alguém capaz de levar as prioridades presidenciais ao Congresso e incorporar à ação governamental reivindicações legítimas dos aliados.

Riscos políticos

As conversas sobre a indicação de Rodrigo Pacheco ao Supremo Tribunal Federal e sua eventual sucessão no Tribunal de Contas da União revelam a mudança de paradigma e a extensão dos compromissos que estão sendo tecidos por Lula com seus aliados no Centrão. A indicação de integrantes do STF e outras cortes superiores com base em critérios exclusivamente políticos tornou-se mais problema do que solução. São escolhas duradouras, que ultrapassam o calendário do próximo governo. Por isso mesmo, precisam ser justificadas por critérios públicos de qualificação e independência. Quando aparecem apenas como contrapartidas entre autoridades, alimentam a percepção de que as instituições se tornaram peças de um acordo de conservação do poder e, por isso mesmo, vetores de crise, como aconteceu com o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições.

Lula precisa construir uma maioria ampla heterogênea e duradoura. Os bolsonaristas não são cachorro morto. A derrota eleitoral e a fuga de Flávio Bolsonaro provocaram desorganização e disputas de liderança, mas não dissolveram suas bases sociais, suas redes de mobilização ou sua presença parlamentar. Tampouco todos os eleitores do candidato derrotado podem ser tratados como integrantes de um bloco extremista. A boa política sugere ao governo separar as duas oposições: a que representa setores democráticos descontentes com o governo, que buscam uma alternativa de centro-direita para 2030, e a extrema-direita representada pelo clã Bolsonaro.

É aí que a sucessão da Câmara e do Senado será decisiva. Uma aliança com o centro pode reduzir a capacidade de comando do bolsonarismo sobre a direita e assegurar o funcionamento institucional. Mas o isolamento dos radicais não pode servir de justificativa para interditar adversários ou alterar regras eleitorais conforme as conveniências dos vencedores. O direito ao dissenso é um dos pilares da democracia. A própria estabilidade institucional do governo depende da existência de oposição responsável, conforme as regras do jogo democrático.

O caráter do governo Lula, porém, não será dado apenas pela incorporação de integrantes do Centrão ao governo. A chave é a escolha do novo ministro da Fazenda. Seja Rafael Fonteles, Geraldo Alckmin ou outro nome cogitado até agora, Lula precisa expressar uma orientação compreensível. Não basta anunciar compromisso com o equilíbrio das contas. Recuperar a confiança exige enfrentar a trajetória da dívida, melhorar a qualidade do gasto e negociar prioridades compatíveis com os recursos disponíveis. Mas é justamente aí que surge o risco de estelionato eleitoral.

Leia mais: Governo prioriza PEC da Segurança, bets, CBS e Orçamento até o fim do ano

Lula não poderá agradecer os votos, reafirmar suas promessas e, logo depois, apresentar uma política econômica que transfira aos beneficiários dessas promessas todo o custo do ajuste. Também não poderá fingir que as restrições fiscais desapareceram com a vitória. Precisará explicar escolhas, estabelecer prazos, rever privilégios e repartir sacrifícios, inclusive entre os grupos com maior capacidade de pressão.

A maioria que Lula busca construir deverá responder a essa contradição. Motta e Alcolumbre terão de demonstrar se o compromisso inclui compartilhar responsabilidades ou apenas assegurar posições. Governabilidade duradoura exige mais do que votos para eleger as mesas diretoras e distribuir ministérios. Exige condições para governar sem desmentir o mandato recebido. Se o acordo preservar os aliados e frustrar os eleitores, o bolsonarismo encontrará o combustível para sua recuperação.

Vale a pena ler de novo:

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NÃO ME DEIXES

Em 4 de novembro de 2003, Rachel de Queiroz fez sua última viagem. Raquel, a pioneira cearense – primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, 1977 – conhecida pelas belas histórias contadas em suas obras, o carinho que tinha pelas palavras, seja nas crônicas, nas peças de teatro ou nos romances, ela era uma mulher à frente do seu tempo. Na politica, Rachel de Queiroz enveredou, e teve uma vida intensa.

A consagrada carreira de escritora e jornalista, parte dos brasileiros já conhece, mas, na política é desconhecida pela maioria da população brasileira. Rachel se tornou membro do Partido Comunista ao lado de amigos de sua geração, uma turma politizada e ‘comunizada”, como relatou ela na autobiografia Tantos Anos, de 1998. Foi presa duas vezes.

Em 1931, após passar dois meses no Rio de Janeiro – tinha ido receber o Prêmio Graça Aranha, dado a O Quinze – Rachel volta ao Ceará, com credenciais do Partido Comunista, já politizada e com a missão de promover e reorganizar o Bloco Operário e Camponês, movimento político o qual ela tinha participado.

Rachel passou a fazer parte do Partido Comunista, mesmo sem ter feito uma ficha, assinado alguma ata. Aliás, não se podia deixar nenhum rastro de papéis, livros ou qualquer tipo de documento, a polícia era brutal e se pegasse algum vestígio, levava todos para a cadeia: às pessoas e os papéis. Com a chegada de Getúlio Vargas ao Rio, a polícia ficou mais feroz.

Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, os livros de Rachel de Queiroz foram proibidos e, num fato marcante, várias de suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de subversivos.

O desligamento do Partido Comunista aconteceu após ela ver censurado pelo próprio Partido o romance João Miguel. No romance João Miguel, ‘campesino’ bêbado, matava outro ‘campesino’. O aviso: só permitiria a publicação da obra, se Rachel fizesse as modificações apontadas pelo presidente do Partido Comunista. Segundo o Partido, a trama era carregada de preconceitos contra a classe operária.

Jamais se curvou as imposições feitas a sua obra, Rachel de Queiroz não aceitou as tais modificações exigidas pelo Partido Comunista, pegou o original que tinha datilografado e saiu em disparada, como relatado por ela no capítulo O Rompimento, da autobiografia Tantos Anos.

Em sua obra Caminho de Pedras (1937), Rachel trata desse momento político que viveu no Partido Comunista, porque fazer política na década de 20, ser comunista era muito perigoso. A ideia de comunismo era distorcida e alguém que ousasse se apresentar como comunista pagaria um preço alto, até com a própria vida.

Foi numa noite cheia de estrelas, dormindo em sua rede que Rachel de Queiroz faleceu em sua casa no Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 2003, longe de sua "Não Me Deixes".

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terça-feira, 3 de novembro de 2026

ENTRE MUROS E CAMINHOS

Jorge J. Okubaro, O Estado de S. Paulo

É preciso reforçar que a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população

Das dezenas de milhões de brasileiros que suspiraram com alívio e júbilo no momento em que se confirmou o resultado do segundo turno da eleição presidencial disputada em 25 de outubro, um grupo muito restrito teve motivos especiais para celebrar. Trata-se das pessoas que conheceram o que de pior a ditadura militar (19641985) praticou: as prisões arbitrárias, a perseguição política, a tortura, os assassinatos e os desaparecimentos de opositores do regime. Fora outros atributos naturais e familiares que o aproximam das milícias e dos grandes esquemas de corrupção, o candidato derrotado tem um especial, herdado do pai: o de admirar e exaltar as terríveis práticas da ditadura militar. É de ter um tipo desses no principal cargo da República que o País se livrou.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe assegura o inédito quarto mandato presidencial, é, por isso, uma vitória dos que querem um Brasil democrático. A igualmente inédita virada entre o primeiro e o segundo turno deveuse certamente à sua liderança e a seu carisma, mas foi impulsionada por outros fatores, um dos quais o fato de sua candidatura representar o bastião para conter o avanço da extrema direita. Por isso, a reeleição de Lula é muito maior do que um feito do PT ou da esquerda. Ela resultou do apoio de forças democráticas que rejeitaram a extrema direita.

É ilusório imaginar, porém, que com a derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo esteja liquidado. Não se pode esquecer que o candidato derrotado teve praticamente 60 milhões de votos. Foi apoiado por quase a metade dos eleitores que compareceram às urnas. Temporariamente, a oposição de extrema direita, até há pouco liderada por Bolsonaro, está sem um comando firme, mas ela tem condições de se recompor e exercer um papel de grande relevância ao longo do próximo governo, que tomará posse em 5 de janeiro. A partir de 2027, é importante frisar, o PL, partido de Bolsonaro, terá 28 senadores e 121 deputados federais, o que significa que deterá as maiores bancadas nas duas Casas do Congresso. Se suas lideranças parlamentares atuarem com competência, poderão impor grandes dificuldades à gestão do presidente Lula.

Além disso, o PL elegeu seis governadores. Outros eleitos por diferentes partidos integram o grupo bolsonarista. O exemplo mais óbvio é o do reeleito governador paulista, Tarcísio de Freitas, filiado ao Republicanos, mas considerado o provável sucessor de Flávio Bolsonaro na liderança dos bolsonaristas. Tarcísio deve disputar a função com a senadora eleita pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro.

Esse quadro dá a dimensão das dificuldades que o quarto governo Lula enfrentará. Em seus pronunciamentos após a vitória, Lula falou em governar de maneira diferente da que mostrou nos mandatos anteriores e de estar mais sintonizado com a população. É difícil saber o que isso significará na prática. Mas que mudança deve haver não há dúvida, para se alcançar uma gestão que preserve o que de importante foi feito no campo social e que saiba enfrentar os novos desafios. São desafios que parte do PT não vê, mas que estão moldando um novo mundo.

As rápidas mudanças tecnológicas geram novas formas de trabalho, às quais nem sempre os organismos estatais sabem reagir com a presteza e a eficácia necessárias para impedir danos a direitos e para capacitar o mundo do trabalho a responder às novas exigências. A questão ambiental terá de perder o tom de discurso político e merecer atenção científica adequada e políticas públicas eficientes. As mudanças sociais que ocorrem a partir das inovações nos sistemas de produção e distribuição de bens exigem nova visão do poder público sobre seu papel.

E continuam abertas questões que, para grande parte dos militantes do PT, só interessam ao grande capital, como a necessidade de ter as contas públicas organizadas. Mas há petistas preocupados com o tema. “A trajetória da dívida pública tem de ser sustentável em algum horizonte de tempo”, disse ao Estadão o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles, um dos nomes citados para ocupar o Ministério da Fazenda no novo governo. “Eu não costumo usar a palavra ajuste. Eu uso a palavra equilíbrio fiscal, justamente para demonstrar que são múltiplas as possibilidades de se buscar esse equilíbrio. Isso envolve corte de privilégios e de desperdício e não vai envolver, com o presidente Lula, qualquer prejuízo social, qualquer corte em programas sociais.”

São muitos os muros na rota do novo governo. Não há muitos caminhos para contorná-los. Espera-se que os escolhidos sejam os melhores. Há sensatez. Há, pelo menos no discurso, a disposição do presidente reeleito de incorporar a população na sua gestão. É preciso reforçar que, se de fato houver essa tentativa, a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população.

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ESQUERDA AGUARDA DERROTA DE TRUMP E FESTEJA VITÓRIA DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da disputa partidária americana

Donald Trump não está na cédula das eleições norte-americanas de hoje, mas seu governo está em julgamento. Os dois principais cenários desenhados pelas pesquisas representam derrotas políticas para a Casa Branca: perder a Câmara dos Representantes ou entregar também o Senado aos democratas. O segundo seria o pior dos mundos. A expressão "pato manco", usada para definir presidentes em fim de mandato e com influência declinante, ganharia conteúdo imediato. Trump conservaria poderes importantes, mas encontraria obstáculos para transformar suas decisões em políticas duradouras.

É preciso, porém, distinguir o favoritismo da sentença das urnas. As pesquisas finais do The New York Times/Siena mostram democratas numericamente à frente nos sete estados considerados decisivos para o Senado, inclusive Texas e Kansas, tradicionais fortalezas republicanas. O próprio instituto adverte que a maioria permanece em disputa. Há precedentes de subestimação do voto trumpista, cujos eleitores resistem mais a responder aos pesquisadores. O tamanho da onda azul dependerá de quem efetivamente for às urnas.

Custo de vida, combustíveis, insegurança econômica e os gastos da guerra no Irã formam o coquetel que corrói a promessa de prosperidade de Trump. A repressão migratória também tem efeitos colaterais: parte dos eleitores que apoiou o controle da fronteira rejeita operações que atingem trabalhadores, desorganizam famílias e retiram mão de obra das empresas. Entre os hispânicos, protagonistas do avanço republicano em 2024, há uma espécie de mea culpa.

Trump e Barack Obama protagonizam os polos nacionais desse confronto, embora o Partido Democrata reúna lideranças e correntes diversas. O presidente tenta converter a votação numa prova de fidelidade pessoal. O ex-presidente mobiliza a oposição para transformar o descontentamento em participação. Nos distritos e estados competitivos, entretanto, a disputa exige candidatos capazes de dialogar com valores religiosos e comunidades locais, cujas preocupações materiais podem atravessar fronteiras que pareciam intransponíveis.

É nesse ambiente que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva adquire significado internacional. A derrota de Flávio Bolsonaro frustrou a possibilidade de um alinhamento do maior país sul-americano com o projeto de poder associado a Trump. Nesse sentido, está sendo interpretada pela opinião pública mundial como uma derrota política do presidente norte-americano. Preserva a presença de um Brasil como uma das âncoras dos BRICS, empenhado em manter autonomia diplomática e interlocução com diferentes centros de poder. Uma vitória bolsonarista seria disruptiva do ponto de vista da política externa brasileira. 

Pragmatismo

Na Europa, a vitória de Lula ofereceu às esquerdas uma referência para enfrentar a sensação de inevitabilidade do avanço da extrema-direita. Seu valor é político e simbólico, pois mostra que mobilização social, alianças amplas e defesa das instituições podem produzir uma vitória do campo da democracia. Isso não significa que o eleitorado europeu reproduzirá o brasileiro, nem que protestos e campanhas tenham passado a obedecer a um impulso vindo de Brasília. Cada país tem seus próprios conflitos.

A derrota de Flávio, que está nos Estados Unidos, também favorece aos democratas norte-americanos. Defender a democracia exige respostas às condições de vida que alimentam a insatisfação popular. Quando a política perde contato com emprego, renda, preços e segurança, deixa um espaço que os adversários ocupam. A experiência brasileira foi uma combinação de defesa institucional e compromisso social. Essa não uma receita exportável, mas enfraquece a ideia de que a onda conservadora seja um destino.

O México ocupa posição particular nessa equação. A integração econômica com os Estados Unidos convive com pressões sobre imigração, segurança e comércio. A relação de "morde e assopra" decorre dessa interdependência: Washington ameaça, mas também precisa negociar. Para mexicanos e brasileiros, uma eventual derrota republicana pode ampliar os interlocutores no Congresso e criar obstáculos a iniciativas coercitivas. Não elimina, contudo, os instrumentos de pressão da Casa Branca nem dissolve interesses nacionais conflitantes.

Para Lula, um Trump enfraquecido oferece oportunidades e riscos. Uma Câmara democrata ampliaria a fiscalização, a perda do Senado dificultaria nomeações e elevaria o custo político de iniciativas do governo. Mas o presidente conservaria o veto e instrumentos executivos relevantes. Pressionado internamente, poderia procurar compensações na política externa e na sua nova doutrina de defesa nacional. O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da disputa partidária americana.

O fato é que a vitória brasileira e uma possível onda azul nos Estados Unidos podem marcar limites à projeção internacional de Trump, ancorada no seu poder militar e tecnológico. É precipitado anunciar seu esgotamento, diante da força de intervenção que ainda deterá. O Brasil precisa combinar firmeza na soberania, cautela diante das provocações e perseverança diplomática. Com Trump derrotado nas urnas, administrar as relações com os Estados Unidos não comporta soberba e continuará exigindo pragmatismo.

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PEC DA SEGURANÇA É O 1º CABO DE GUERRA PÓS-ELEIÇÃO

Danandra Rocha, Correio Braziliense

Matéria deve ser votada hoje no Senado. Principal confronto é relacionado a inclusão da redução da maioridade penal. Bolsonaristas não admitem deixar o tema para depois e aliados de Lula querem aprovação daquilo que veio da Câmara

O primeiro embate pós-eleições entre o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e a oposição no Senado será por causa da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) da Segurança Pública. A matéria está prevista para ser analisada pelo Plenário da Casa hoje, a partir das 16h, em uma sessão que antecipa visões opostas sobre tema como combate ao crime organizado e redução da maioridade penal. Enquanto a base governista trabalha para aprovar o texto tal como foi aprovado pela Câmara dos Deputados, parlamentares bolsonaristas e associados de outros partidos além do PL forçam a incorporação à proposta mudanças que diminuem a idade de responsabilização penal.

A líder do governo no Senado, Teresa Leitão (PT-PE), afirmou ao Correio que a expectativa do Palácio do Planalto é garantir a aprovação da PEC conforme a versão aprovada pelos deputados. Apesar de Lula ter afirmado, durante a campanha presidencial, ser favorável à redução da maioridade penal somente para crimes hediondos, a estratégia dos governistas consiste em rejeitar as emendas apresentadas pela oposição, especialmente aquelas que tratam do tema. A preocupação maior é evitar modificações no conteúdo da proposta, o que obrigaria o texto a retornar à Câmara e prolongaria a tramitação de uma das principais iniciativas do Palácio do Planalto na área da segurança pública.

A votação representa um teste para a articulação política do governo no Congresso em um cenário de polarização agravado com a fuga do senador e presidenciável Flávio Bolsonaro (PL-RJ) para os Estados Unidos. A oposição pretende aproveitar a discussão para pressionar o Planalto a assumir uma posição mais enfática sobre a responsabilização de adolescentes envolvidos em crimes violentos. Sobretudo, cobrará a afirmação de Lula na sabatina da Globo, no segujndo turno, quando disse: "Meu pensamento, enquanto cidadão brasileiro, todo e qualquer crime hediondo, sou favorável a diminuir a pena para crimes hediondos", afirmou.

Discussões separadas

Apesar da posição assumida pelo presidente quando disputava a reeleição, o governo tenta separar a discussão sobre o endurecimento das punições da proposta de alteração da maioridade penal. Os aliados do Palácio do Planalto pretendem manter a PEC focada na reorganização do sistema de segurança pública — a mudança na idade de responsabilização seria feita numa discussão específica. A posição, no entanto, não é consenso entre os próprios petistas, que enfrentam divergências internas deixar para depois a discussão de uma medida que tem respaldo na opinião pública.

O impasse já havia provocado o adiamento da análise da proposta no Senado. A PEC estava prevista para ser votada em 15 de outubro, mas foi retirada da pauta pelo presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), diante da falta de entendimento entre governistas e oposicionistas. A divergência se concentrou nas emendas que alteram a maioridade, considerada pela oposição uma resposta necessária à escalada da violência, mas vista pelo governo como uma mudança que pode comprometer a aprovação da proposta principal.

A emenda apresentada pelo senador Rogério Marinho (PL-RN), líder da oposição, propõe reduzir a maioridade penal de 18 para 16 anos como regra geral, e para 14 anos nos casos de crimes graves. O texto recebeu o apoio de outros parlamentares, como o próprio Flávio Bolsonaro. O líder do PL no Senado, Carlos Portinho (RJ), também apresentou um destaque para que a emenda seja votada separadamente, permitindo que os senadores se posicionem de forma específica sobre a mudança.

Os bolsonaristas e seus aliados sustentam que a alteração é necessária para endurecer a legislação diante de crimes cometidos por adolescentes. A posição da oposição encontra respaldo em levantamentos de opinião pública. Pesquisa Datafolha realizada em junho de 2026 apontou que 79% dos brasileiros são favoráveis à redução da maioridade penal. Outros 17% se declararam contrários à medida, enquanto 3% disseram não saber e 1% se declarou indiferente. O resultado é utilizado por defensores da proposta como argumento para pressionar o Congresso a avançar na discussão.

"Não podemos deixar de enfrentar uma questão fundamental: a maioridade penal. A oposição vai insistir na votação da emenda que prevê a redução de 18 para 16 anos como regra geral e para 14 anos em crimes graves, como homicídio, estupro, tráfico de drogas e terrorismo. Não podemos continuar permitindo que criminosos se aproveitem da legislação para recrutar menores e cometer crimes com a certeza da impunidade. Precisamos de uma legislação mais rigorosa, que dê uma resposta firme à criminalidade. Segurança pública exige coragem e responsabilidade", cobrou o senador Izalci Lucas (PL-DF), líder da oposição no Congresso.

No PT, a possibilidade de alterar a idade de responsabilização penal não é consenso. Uma ala da legenda considera que o governo deveria apresentar uma alternativa capaz de absorver parte da demanda por maior rigor penal. Nesse contexto, o senador Camilo Santana (PT-CE), líder do partido na Casa, apresentou proposta que prevê a redução da maioridade para 16 anos exclusivamente nos casos de crimes hediondos. Outra parcela do partido sustenta que a redução da maioridade contraria a posição histórica da legenda e pode representar um retrocesso na política de proteção aos adolescentes.

A PEC exige o apoio de pelo menos 49 dos 81 senadores, o equivalente a três quintos da composição da Casa, em dois turnos de votação. Um calendário especial aprovado anteriormente permite que os parlamentares acelerem a tramitação e realizem as duas etapas no mesmo dia, mediante a quebra do intervalo regimental entre os turnos. A iniciativa busca viabilizar a conclusão da análise ainda hoje, embora a votação dependa do entendimento entre as lideranças.

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SONÂMBULOS DO AJUSTE FISCAL

Luiz Gonzaga Belluzzo, Valor Econômico

Nas recessões, e mais ainda nas depressões, a dívida pública invade os portfólios para garantir o valor e a liquidez da riqueza dos privados

Nas últimas semanas, antes e após as eleições, esquentou a refrega sobre a relação dívida/PIB entre catastrofistas e a turma do “senta-que-o-leão é manso”. Na visão dos catastrofistas, o risco fiscal está associado a uma trajetória “insustentável” da dívida pública. A elevada dívida dos governos, dizem por aí, vai culminar em um calote devastador. Digo devastador porque, se isso acontecer, vai desencadear a desvalorização da riqueza financeira que frequenta os balanços de bancos, fundos, gestoras de ativos.

Em sua trajetória secular, o capitalismo abriu espaço para o surgimento e desenvolvimento de instituições encarregadas de administrar a moeda e os estoques direitos — títulos de dívida e ações — que, diria Keynes, nascem de seu incessante movimento de criação e apropriação do valor.

Começamos com a moeda. No afã de se apropriar da riqueza, as criaturas do mercado estão submetidas à soberania monetária do Estado. O Estado é o senhor da moeda, mas os bancos, sob a supervisão e o controle do Banco Central, são incumbidos de atender à demanda de crédito das gentes privadas. Esse sistema complexo, em sua evolução, engendrou essa forma de criar dinheiro para dar início ao jogo do mercado. Os bancos apresentam-se como os agentes particulares do senhor da riqueza universal. Universal, porque a forma inescapável que deve denominar e mediar todas as negociações, transações e, sobretudo, marcar o valor da riqueza registrada nos balanços.

Ao alegar endividamento excessivo do Estado, os senhores do mercado podem desatar uma corrida para o dólar

Os títulos de riqueza, públicos e privados, não estão separados, mas, sim, articulados em seu movimento conjunto com os ativos financeiros emitidos por bancos e empresas ditas produtivas. Títulos privados e públicos são negociados em mercados ditos secundários, em que se formam os preços e as taxas de remuneração dos papéis.

Para ser conciso, qualquer ativo de riqueza, como, por exemplo, uma fábrica ou uma plataforma de entrega de comida, é avaliado pela capacidade de gerar um valor monetário acrescentado. Assim também, e não por acaso, os valores que circulam nos mercados financeiros estão permanentemente ameaçados pela dimensão perversa que habita a alma dos mercados, sempre pronto a infernizar os que não conseguem assegurar, diante dos demais, a valorização monetária de seus ativos.

Não só as mercadorias têm de receber o carimbo monetário, mas também a situação patrimonial — devedora ou credora das empresas, bancos e demais instituições — deve estar registrada nos balanços. Os agentes privados do senhor da moeda estão permanentemente obrigados a manejar os riscos de crédito e de liquidez que afetam seu patrimônio líquido, a relação crucial entre ativos e passivos.

Os estudos sobre as relações entre crescimento da dívida privada e da dívida pública ao longo dos ciclos de expansão-contração das economias capitalistas mostram de forma cabal que nas expansões predomina o crescimento do endividamento privado e nas contrações eleva-se o endividamento público. Quando se acentuam as desconfianças dos mercados, a tigrada corre para os títulos públicos, avaliados como ativos seguros de última instância.

Nas recessões, e mais ainda nas depressões, a dívida pública invade os portfólios para garantir o valor e a liquidez da riqueza dos privados. Salvos da desvalorização dos ativos e das carteiras de dívida que carregavam, os bancos privados e outros intermediários financeiros salvaguardam seus patrimônios, incorporando títulos públicos aos seus balanços. O Estado, como gestor da moeda (e da dívida), susta uma desvalorização desastrosa da riqueza.

A crise de 2008 impôs aos governos manobras desesperadas de transformação dos passivos privados em débitos públicos. Os bancos centrais cuidaram de absorver ativos privados em seus balanços, enquanto os Tesouros se incumbiam da emissão de títulos públicos para sustentar a liquidez das carteiras de ativos dos bancos privados.

As crises de endividamento público estão invariavelmente associadas à tomada de empréstimos em moeda estrangeira. Essa foi a etiologia da crise fiscal e monetária dos emergentes nos anos 80 do século passado, entre esses o Brasil. A crise deflagrada no início dos anos 80 produziu efeitos devastadores sobre as finanças públicas e erodiu a soberania monetária dos países atingidos ao suscitar uma fuga sistemática das moedas nacionais.

Foi esta também a razão da hiperinflação alemã do início dos anos 20 do século passado. Esmagada pelas reparações de guerra que lhe foram impostas pelo Tratado de Versalhes, a economia alemã sucumbiu à impossibilidade de gerar as divisas necessárias para servir o que lhe fora imposto. A fuga sistemática do marco para o dólar e a libra, as moedas-reserva do Gold Exchange Standard, disparou a hiperinflação e a necessidade de resposta do Reichsbank e do Tesouro alemão.

Ao alegar endividamento excessivo do Estado brasileiro, os senhores do mercado, em seus poderes, podem desatar uma corrida para o dólar e, implicitamente, sinalizar uma dinâmica inflacionária semelhante à observada e sofrida nos anos 80.

A soberania monetária do Estado nacional não é um dom. É um exercício legítimo de poder que os mercados tentam solapar, ignorando que não podem sobreviver sem as relações, por certo conflitivas, com as instituições monetárias e fiscais do Estado. Os catastrofistas de mercado esperneiam para promover o ajuste fiscal.

Quem vai pagar a dívida? Consulto o economista francês Michel Aglietta: “A evolução da dívida pública depende de duas variáveis econômicas que não são responsabilidade direta da política fiscal. São a taxa média de juros reais paga na dívida pública e a taxa de crescimento da economia (e o crescimento das receitas fiscais). É da distância entre as tendências dessas duas variáveis que se vai determinar o sucesso ou o fracasso dos esforços de consolidação fiscal”.

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DEFINIÇÃO DE NOMES PARA A ESPLANADA

Andrea Jubé, Valor Econômico

Lula reúne aliados para avançar na definição de nomes para a Esplanada

Presidente tem reunião hoje com nomes como Rafael Fonteles, Camilo Santana e Alckmin

Pouco mais de uma semana após a vitória, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) volta a se reunir com o núcleo mais próximo da campanha, nesta terça-feira (3), para dar continuidade à formação do novo governo. Nos últimos dias, evoluíram as conversas com a cúpula do Congresso, a fim de garantir a governabilidade do Lula 4, bem como a confirmação de alguns nomes e de alguns espaços do PT e do PSB.

Ainda nesta terça-feira, Lula deve gravar o pronunciamento sobre a vitória, a ser transmitido em rede nacional de rádio e TV, que ele anunciou em um áudio enviado na semana passada no canal “Exército do Lula”, comandado pelo deputado André Janones (Rede-MG). Ele agradecerá os mais de 64 milhões de votos, e reafirmará o compromisso com as promessas de campanha.

O governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles (PT), o líder do PT no Senado e ex-ministro Camilo Santana (CE) e o senador eleito e ex-ministro Rui Costa (PT) retornam de seus Estados, onde passaram os últimos dias, para se encontrar com Lula. Fonteles e Camilo são cotados para o Ministério da Fazenda e para a Casa Civil, respectivamente. Também devem se somar à agenda o vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB), o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (Psol), o ministro da Secretaria de Comunicação (Secom), Sidônio Palmeira, e o presidente do PT, Edinho Silva.

Esse grupo se reuniu pela última vez com Lula na manhã de quarta-feira (28), após a comemoração do aniversário do presidente na véspera, quando analisaram as consequências da fuga do candidato derrotado à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL), para os Estados Unidos, e a conjuntura nacional, em meio à movimentação dos presidentes da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), para se reelegerem para o comando das Casas.

No dia seguinte ao segundo turno, Lula havia se reunido com Motta e Alcolumbre, quando alinharam o apoio do Palácio do Planalto à reeleição de ambos, a fim de assegurar a governabilidade durante o novo mandato, em uma aliança da esquerda com a parcela majoritária do Centrão. Lula sinalizou a Motta que pode manter o aliado dele, Gustavo Feliciano, no Ministério do Turismo. Sem partido, Feliciano é conterrâneo de Motta e foi indicado para a pasta, que está na cota do União Brasil, em um consórcio do presidente da Câmara com Alcolumbre.

Em paralelo, Lula avalia se aceita, ou não, a recomendação para indicar um quadro do Centrão para a Secretaria de Relações Institucionais (SRI), responsável pela interlocução com o Congresso, para montar um Planalto “plural” e arejar o diálogo com os parlamentares. O presidente foi criticado porque, no mandato atual, todos os ministros palacianos são petistas ou de esquerda, como Boulos.

O perfil ideal para a SRI, segundo fontes a par do assunto, seria o de um deputado, com mandato, fora do PT ou da esquerda. Nesse contexto, um nome ventilado é o do deputado Silvio Costa Filho (Republicanos-PE). Ele é próximo de Motta, e foi ministro da Secretaria de Portos e Aeroportos no terceiro mandato, com desempenho elogiado por Lula. Alas do Republicanos, entretanto, defendem que ele retorne à pasta.

Simultaneamente, como já mostrou o Valor, Lula alinhavou com Alcolumbre a indicação do ministro do Tribunal de Contas da União (TCU), Rodrigo Pacheco, para o Supremo Tribunal Federal (STF). Em abril, Alcolumbre foi um dos responsáveis pela articulação para que os senadores rejeitassem o nome do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o STF, justamente porque queria Pacheco na vaga. Agora, em retribuição a Alcolumbre, que pautou a votação do fim da escala 6x1, e deverá concluir a análise da proposta de emenda à Constituição (PEC) da segurança pública nesta semana, Lula encaminhará a indicação de Pacheco ao Supremo. A vaga do ex-senador de Minas Gerais no TCU caberá à bancada do MDB no Senado.

Lula também se comprometeu com Alcolumbre a manter um de seus principais aliados, o ex-governador do Amapá Waldez Góes, à frente do Ministério da Integração e Desenvolvimento Regional.

Em relação ao PT, Fonteles e Santana continuam liderando o time de “homens fortes” do novo governo. Apesar da manobra intrincada que envolve a renúncia ao segundo mandato de governador, Fonteles segue cotado para a Fazenda. Na segunda-feira (2), ele escreveu em uma postagem a mensagem “Viva o Equilíbrio Fiscal!!!” ao anunciar a permanência de no cargo de seu secretário de Fazenda, Emílio Joaquim de Oliveira Júnior.

Ele ainda pode emplacar seu aliado, o secretário Nacional de Segurança Pública, Francisco Lopes, na nova pasta da Segurança, que Lula deve criar assim que a PEC sobre o tema for aprovada no Congresso. O Piauí tem os melhores índices de combate à violência do Nordeste.

Camilo, por sua vez, é citado para a Casa Civil, enquanto Alexandre Padilha deve permanecer no Ministério da Saúde. A ex-ministra Gleisi Hoffmann, que não se elegeu senadora no Paraná, deverá assumir uma pasta. E o titular da SRI, José Guimarães, se não permanecer no cargo - na hipótese de Lula rejeitar a escolha de um nome do Centrão -, poderá ocupar outro espaço.

Os futuros papéis do senador eleito da Bahia Rui Costa e do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, derrotado na corrida pelo governo de São Paulo, estão indefinidos.

Quanto ao PSB, Alckmin é citado para a Fazenda ou para retornar à pasta do Desenvolvimento, Indústria e Comércio (Mdic). O presidente da sigla, João Campos, derrotado na disputa pelo governo de Pernambuco, deve ser ministro - provavelmente, da Ciência e Tecnologia. E o candidato derrotado a vice-governador de Minas Gerais na chapa de Patrus Ananias (PT), Jarbas Soares Júnior, aliado de Alckmin, deve ganhar um espaço no governo.

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COM QUEM SERÁ ?

Merval Pereira, O Globo

Lula precisa terminar uma vida política brilhante com um governo que ele pretende será “o melhor governo” que já fez.

A definição do quarto governo Lula sairá da escolha do próximo ministro da Fazenda, assim como a escolha de Antonio Palocci no primeiro mandato foi essencial para a manutenção do sistema econômico montado no governo de Fernando Henrique Cardoso, baseado no tripé câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário. Colocar Henrique Meirelles, deputado federal eleito pelo PSDB de Goiás, na presidência do Banco Central foi outra medida surpreendente que deu o rumo do governo. Tudo isso aconteceu porque Palocci, antigo prefeito de Ribeirão Preto, fundador do PT, tinha o respeito da máquina partidária do partido.

Nenhum dos coordenadores econômicos do PT, como Guido Mantega ou Aloizio Mercadante, foi cogitado neste primeiro momento. Somente quando Palocci teve que sair do governo, devido a acusações de corrupção, foi substituído por Mantega, que permaneceu no governo Dilma Rousseff, quando colocou em prática o que chamou de “nova matriz econômica”, perdendo o controle do equilíbrio fiscal e levando o país à maior crise financeira já ocorrida e ao impeachment do presidente Dilma Rousseff. Mantega terminou no staff do banqueiro bandido Daniel Vorcaro.

No segundo mandato de Dilma, diante da catástrofe econômica, a presidente foi obrigada a convidar para o ministério da Fazenda o economista Joaquim Levy, ligado à linha econômica que vigorava no governo Fernando Henrique Cardoso, para tentar recolocar o país na trilha do equilíbrio fiscal. Não durou um ano, boicotado pela máquina burocrática petista, que colocou em seu lugar o economista Nelson Barbosa. Esse rápido histórico demonstra que somente quando o ministro da Fazenda faz parte da máquina petista é possível fazer uma gestão que não seja boicotada internamente.

O ministro da Fazenda Fernando Haddad é um exemplo disso. Recebeu forte oposição interna, mas manteve-se no comando das ações com o apoio do próprio presidente Lula e de uma ala do partido. Tido como seu possível sucessor, Haddad sempre teve o respaldo do presidente, que o escolheu para representá-lo na eleição perdida em 2018 e, na recente eleição, aceitou ir para o sacrifício candidatar-se ao governo de São Paulo apenas para dar um palanque forte para a campanha da reeleição de Lula, sabendo que poderia, como aconteceu, perder já no primeiro turno para o governador Tarcisio de Freitas.

A escolha de Dario Durigan para continuar no cargo de ministro da Fazenda, que assumiu como segundo de Haddad, seria uma reafirmação da força daquele, e desencadearia uma forte reação interna a essa confirmação de Lula de que Haddad é o escolhido para seu sucessor. Ainda mais se Lula colocá-lo, como se especula, como Chefe do Gabinete Civil. Perguntado por jornalistas, Palocci, que ainda conhece bem o PT por dentro, acha que Durigan deveria ser mantido como ministro da Fazenda no quarto mandato de Lula.

Outro forte candidato, o governador eleito do Piauí, o petista Rafael Fonteles ganhou corpo dentro da estrutura petista ao se tornar o coordenador da campanha presidencial no segundo turno. Considerado um político eficiente e moderado, Fonteles vem dando vivas ao equilíbrio fiscal, tem bons resultados em sua gestão, tendo sido reeleito no primeiro turno. Aos 41 anos, faz parte da nova geração do PT que chega no momento em que Lula começa seu último mandato como presidente da República, o único eleito diretamente por quatro vezes. O partido precisa de renovação, e Lula precisa terminar uma vida política brilhante com um governo que ele pretende será “o melhor governo” que já fez.

Para tanto, não pode arriscar perder o controle da situação econômica. A ideia de colocar o vice-presidente Geraldo Alckmin no ministério da Fazenda é outra saída em direção ao centro político e ao equilíbrio fiscal. Por todos esses aspectos, também pela necessidade de montar uma aliança formal com o Centrão para tentar superar pela política a supremacia oposicionista no Congresso, a escolha será decisiva para o futuro do Lula 4.

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PAÍS À FLOR DA PELE DISCUTE OS JUROS

Míriam Leitão, O Globo

Lula precisa cumprir as promessas e ajustar as contas públicas. Queda do juros deve vir pela conquista de credibilidade fiscal

O país viveu uma eleição de emoções radicais e estamos todos à flor da pele. Havia muito em jogo. Temos agora a chance de em quatro anos construir uma barreira contra o risco antidemocrático. O Brasil não pode ficar pendurado no abismo a cada eleição. Há muitas variáveis nessa equação, uma delas é a economia com suas emergências, volatilidades e tarefas inescapáveis. Hoje começa a reunião do Copom mais difícil dos últimos tempos.

O mercado mudou suas previsões. Agora a maioria dos bancos acredita que os juros serão mantidos. Na política o assunto é discutido de forma incandescente. Na prática, todos os ativos pioraram muito e talvez a decisão do BC seja de fato manter a Selic.

É hora de o governo jogar água na fervura do debate econômico interno. A escolha do caminho tem que ser racional. Não há tempo para experimentações, não se pode correr o risco de errar. O extremismo de direita está sonhando com uma crise econômica para desestabilizar o governo.

Os atos de Flávio Bolsonaro após a derrota, não reconhecer o resultado e escrever as versões insanas da carta golpista, provam que a direita bolsonarista permanece sendo o que sempre foi: antidemocrática. Ele sabe que perdeu, mas afirmar que houve fraude é, de novo, usar a mentira como método. Como o pai, Flávio tenta minar a confiança no processo eleitoral. Desta vez, ele ficou falando sozinho, felizmente. De Miami, gravou um vídeo dizendo que pode haver eleição antes de 2030. Esta é a esperança dele: que haja uma crise.

O presidente Lula não pode descumprir promessas. Mas como ajustar contas públicas se ele garantiu manter todos os programas sociais e ampliá-los? É que nunca houve esse conflito, pelo contrário. Inflação alta, como a História nos ensinou, não é compatível com inclusão social. Não por acaso foi depois do Real que as políticas de inclusão ganharam força e densidade. Existem porém escolhas a serem feitas. A redução forçada dos juros seria um tiro pela culatra.

O país precisa encontrar o caminho de diminuir essa escorchante taxa de juros. No momento, o Banco Central está escrevendo a sua terceira carta em 20 meses de descumprimento da meta de inflação. Mudar a meta para os juros caírem seria a falsa solução porque elevaria o índice.

Pode-se dizer que o candidato derrotado repetiu todas as promessas que o presidente Lula fez durante a campanha, portanto também não indicava ajuste. Mesmo assim o mercado virou de ponta cabeça quando o presidente foi reeleito. Os bancos apostavam que o outro candidato faria um estelionato eleitoral e sabem que Lula não fará isso. Agora Lula precisa encontrar o caminho estreito entre cumprir as promessas e indicar como fará o equilíbrio fiscal.

A maior parte do crescimento da dívida é resultado dos juros altos. Inequívoco. O problema é que eles têm que cair não por decreto, por alguma fórmula mirabolante, por negacionismo fiscal, mas sim a partir da credibilidade da política econômica e fiscal. O presidente precisa escolher para a Fazenda alguém que conquiste confiança e que saiba que não há ilusionismo possível neste momento.

O que houve no segundo turno foi tão intenso que vamos demorar a entender inteiramente. Foi um movimento, não foi apenas uma campanha. Tudo precisou dar certo para que dez milhões de votos a mais fossem entregues ao presidente Lula. A vitória não teve uma causa, teve muitas. A esperança aflorou nos jovens, a lembrança foi ativada nos idosos, o medo da volta dos passados, recente e remoto, assombrou milhões, a corrida pela virada foi espontânea, alegre, cívica.

Quando todos ainda comemoravam, os mercados despencaram e os economistas fizeram alertas. A economia é mesmo uma estraga prazeres. Na semana passada, o real foi a moeda que mais perdeu valor no mundo. Caiu 8,43%, a segunda maior desvalorização foi do peso colombiano, queda de1,49%, a terceira, o won da Coreia do Sul, perdendo 0,82%. O Brasil foi totalmente fora da curva.

Este é um momento delicado. O país precisa consolidar a vitória da democracia e não frustrar as expectativas dos eleitores é parte disso. Contudo, precisa também afastar os temores da economia, num ambiente internacional cheio de incertezas. Ontem foi um dia bom, de queda da cotação do petróleo. Mas dúvidas pairam sobre os preços das supervalorizadas ações das big techs. Se o ambiente internacional mudar, será uma variável a mais na complexa equação econômica do Brasil.

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DESAFIO ECONÔMICO PEDE PASSAGEM

Artigo de Fernando Gabeira

A fuga de Flávio Bolsonaro e o rescaldo emocional da campanha ocuparam a cena pós-eleitoral. Mas não devem sobreviver por muitos dias. Ao se intitular “presidente eleito” do Brasil, Flávio repetiu aquele venezuelano, Juan Guaidó, que também se declarou presidente e saiu pelo mundo para cair num profundo esquecimento. Flávio terá menos fôlego ainda, porque as eleições brasileiras gozam de crédito internacional muito grande.

No front interno, as constantes ameaças de demissão dos petistas porque votaram em Lula são uma espécie de assédio eleitoral retardado e não devem vingar. A temperatura baixará com o tempo. O que deve surgir com muita força no horizonte é uma discussão concreta sobre a política econômica do novo governo. Isso, sim, diz respeito ao futuro e merece reflexão positiva.

A expectativa de um ajuste fiscal severo deve se frustrar. Lula nunca prometeu isso na campanha e, baseado num discurso que fez na Espanha, suponho que não acredita em tal caminho. Muitos observadores consideram que o declínio da social-democracia na Europa aconteceu exatamente porque ela se rendeu aos argumentos neoliberais nesse campo, abrindo enorme espaço ao populismo de direita.

No caso brasileiro, um ajuste muito severo pode ser entendido como estelionato eleitoral, abrindo espaço à oposição de direita e, ao mesmo tempo, desencantando os eleitores de esquerda.

Mas a falta de uma política econômica bem-sucedida pode suscitar forte inflação, com duros reflexos para os mais vulneráveis. Isso abalaria a esperança de milhares de eleitores que votaram precisamente na esperança de proteção aos mais pobres.

Que alternativa resta? Um ajuste fiscal que não prejudique os pobres. Não é fácil, embora seja possível enxugar a máquina do Estado e obter alguns recursos dessa decisão. Lula se mostrou interessado na comunicação digital. Está a um passo, portanto, de se abrir à ideia de um Estado inteligente, em que, com menos recursos, é possível manter um bom nível de eficácia.

Mas o enxugamento da máquina não basta. A equação é complexa e não repetirei algumas medidas conhecidas, como o fim dos supersalários, porque, apesar de necessário, não resolve. Não tenho condições de oferecer uma saída para o problema. Assim como não tinha no período de inflação intensa, resolvido com a formulação do Plano Real.

As condições são diferentes, o partido no poder é outro, mas, certamente, capaz de unir seus economistas para encontrar uma saída original, fugindo assim da decadência vivida pela social-democracia e dos ataques da oposição de direita.

O Brasil é o tipo de país complexo e criativo que pode encontrar soluções internacionalmente inéditas. No caso do combate ao controle das redes pela direita, teve grande êxito e exportou seu modelo para outros partidos de esquerda.

A questão econômica é um desafio específico. O capitalismo é um sistema muito difícil de cavalgar. Os grupos no poder são constantemente sacudidos e costumam perder as eleições. Lula foi salvo pela mobilização no segundo turno e pelo medo da volta dos Bolsonaros.

Artigo publicado no jornal O Globo em 03 / 11 / 2026

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segunda-feira, 2 de novembro de 2026

NOSSA SENHORA APARECIDA, ROGAI POR NÓS

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Campanha eleitoral de 2026 mostra racismo cada vez mais escancarado no Brasil

PEC da redução da maioridade penal é exemplo mais revelador da situação

A campanha eleitoral de 2026 foi bastante reveladora a respeito do quanto o racismo, essa deformação moral que se instalou na sociedade brasileira, está arraigado e cada vez mais escancarado no Brasil. Para refrescar a memória, cito alguns atos e fatos marcantes.

Teve homem branco conduzindo homem negro acorrentado (vestido de vermelho e carregando um tridente) durante uma manifestação da extrema direita no RJ. Além da clara associação com a escravização, será que se tratava também de uma alusão a Exu, orixá de matriz africana?

Teve parlamentar branca estalando chicote rua afora para comemorar a vitória eleitoral, em SC. Até os mais distraídos são capazes de associar essa atitude aos castigos físicos impingidos aos negros escravizados durante séculos.

Contudo, o exemplo mais revelador diz respeito à PEC (proposta de emenda constitucional) que reduz a maioridade penal. Para espanto de muita gente (o que me inclui), a iniciativa foi defendida pela oposição e pela situação na corrida à Presidência da República.

Como se sabe, a esmagadora maioria dos adolescentes que se encontram no sistema socioeducativo brasileiro é negra, pobre, vive em situação de vulnerabilidade social e tem baixa escolaridade. Essa combinação os deixa mais expostos à violência e à criminalidade, o que torna evidente o impacto de natureza étnico-racial da PEC em questão.

E nada indica que reduzir a maioridade penal implica queda da criminalidade ou aumento da segurança pública. A criminalidade juvenil representa uma fração bem pequena dos crimes cometidos no país. Adolescentes respondem por menos de 1% dos crimes e por 0,5% dos homicídios e tentativas de homicídio no Brasil (Instituto Sou da Paz).

Para piorar, a inserção de adolescentes no sistema penitenciário junto de adultos facilitaria o recrutamento de menores por facções criminosas. Concluo pedindo que Nossa Senhora Aparecida, uma santa preta, padroeira do Brasil, que também não foi poupada durante a eleição, rogue por nós.

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BOLSONARISTAS ENROLAM JORNAIS COM ROTEIRO TÍPICO DE STEVE BANNON

Ombudsman, Folha de S. Paulo

Estratégia para despistar fuga expõe armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, do complicado declaratório em off

Vaivém sobre itinerário e trapalhadas de carta golpista de Flávio Bolsonaro repetem receituário do ideólogo de Donald Trump

"O jornalista precisa investigar. Ficar ouvindo fontes sem apurar é burrice. Flávio Bolsonaro não fugiu sozinho, a imprensa ajudou." A mensagem de um leitor resume outras manifestações críticas ao que teria sido o papel dos veículos de comunicação na estratégia montada para que o senador do PL saísse do Brasil, após a Polícia Federal pedir e o ministro Alexandre de Moraes permitir a apreensão do passaporte do candidato derrotado no segundo turno da eleição presidencial.

Se alguém não seguiu os fatos, aí vai: tudo começou à 1h da madrugada da terça (27), quando o site argentino Infobae afirmou que Flávio partiria para os EUA em um jato particular que decolaria às 2h de Porto Iguaçu. A partir daí, a fuga e algumas histórias sobre a fuga se desenrolaram paralelamente.

Logo nas primeiras horas do "Big Brother Flávio", o coordenador da campanha presidencial, o senador Rogério Marinho (PL-RN), negou que o candidato tivesse deixado o país. Um piloto afirmou à Folha que Flávio estaria na lista de passageiros do avião das 2h. Aliados do senador declararam que ele havia fugido do Brasil para a Flórida e a PF estaria fazendo rastreamento nos pontos de fronteira "para verificar se a informação é verdadeira".

Cerca de duas horas depois, outro texto do jornal cravava que Flávio "já" estaria "a caminho" dos EUA e que o nome na lista da madrugada era "um despiste".

Já à 1h02 da quarta (28), a Folha noticiou que Flávio "estava escondido na Argentina e acaba de decolar para os EUA, diz canal argentino", atribuindo a informação ao canal de TV C5N. Às 2h06, porém, publicou que ele já estaria desembarcando nos EUA, "diz jornal". A informação era do Financial Times.

Quando o senador pousou em Miami às 10h23, com fotos e vídeos, viu-se que o canal argentino estava certo. O avião era o Gulfstream G400 de matrícula LV-JQW, o mesmo que o Infobae havia revelado que o levaria.

O vaivém não ficou bom para os jornais brasileiros e nem para alguns dos veículos gringos. A estratégia do "despiste" mostra também as armadilhas do jornalismo declaratório e, mais ainda, desse declaratório em "off": os "aliados", o "entorno" e outros coletivos usados para passar recados via imprensa.

Alguns se insurgiram contra as fontes, mas a responsabilidade pelas publicações sempre é dos jornalistas, é claro. O Globo conta que Eduardo Bolsonaro capitaneou mentiras e desinformação para ajudar na fuga do irmão e que teria sido o ex-policial militar André Porciuncula a fonte que disse a jornalistas que o senador já estava, antes de decolar, em voo para Miami.

O ex-PM, aliás, apareceu em reportagem da Folha sobre o que seria o Ministério da Cultura de Mário Frias. Vale lembrar que vários leitores criticaram a frequência e a estridência dos textos pós-primeiro turno que especulavam sobre a composição do "eventual governo Flávio".

A confusão não se resumia às fontes anônimas ou quase anônimas. Estava também no contexto e no próprio sigilo da decisão sobre o passaporte, revelada pelo candidato derrotado no vídeo da segunda-feira (26) em que afirmou que não sairia do país.

Se a patacoada de Flávio Bolsonaro está longe de ser esclarecida, permanecem também nebulosas questões envolvendo PF e STF, como "PF apontou risco risco concreto de Flávio Bolsonaro fugir do país ao pedir apreensão de passaporte a Moraes" e "restrições sobre passaportes não fazem de Flávio Bolsonaro foragido, diz PF".

Saiu barata também a reação de correligionários de Flávio. O governador Tarcísio de Freitas, que estava acompanhando a apuração com o candidato do PL, foi um dos integrantes da cúpula da campanha que se disseram surpresos com a fuga. Em entrevista ao Estado, porém, Tarcísio afirmou que aconselhou Flávio a não sair do Brasil, embora continuasse negando que soubesse do plano.

Mobilizando o noticiário com seu itinerário, Flávio Bolsonaro se manteve no centro das atenções ao longo de toda a semana da vitória de Lula (PT). Quando seu desembarque poderia ter arrefecido a conversa, veio a carta que combinava a forma trapalhona com o fundo de teor golpista.

O sucesso midiático dos erros, recuos e justificativas para eles ("ChatGPT") mostram como a estratégia "flood the zone" de Steve Bannon continua valendo para a carta e a fuga. O ideólogo trumpista que agora insiste na vitória de Flávio e na narrativa de "fraude" foi quem orientou, ainda durante o primeiro mandato de Trump, abandonar o Partido Democrata como adversário: "O partido de oposição é a mídia. E a mídia, porque é burra e preguiçosa, só pode focar em uma coisa por vez. Tudo que precisamos fazer é inundar o terreno. Todo dia nós jogamos três coisas. Eles vão morder uma, e conseguiremos fazer as nossas coisas. Bang, bang, bang".

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