sexta-feira, 27 de março de 2026

A MORTE DO LIVREIRO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Quando morre um bom livreiro, são os livros os que perdem mais

Luiz Carlos encontrou para mim os livros mais impossíveis dos modernos de 1920

O melhor amigo de um leitor é um bom livreiro. Aquele que não só conhece o livro que você procura, mas, na falta deste, sabe indicar alternativas do mesmo autor ou de outro. Não que tenha lido esses livros, mas o convívio com tantos deles faz com que, pelos títulos, capas ou editoras, se torne um profissional à altura do produto com que trabalha. Entre esses profissionais, há um que admiro mais: o livreiro de sebo.

O livreiro comum conhece os livros que estão saindo. O de sebo conhece livros de todas as épocas, que costuma receber aos milhares de uma vez, do filho ou viúva de um colecionador. Aceita todos, não escolhe, e, no dia seguinte, já recebe outro lote igual. Catalogá-los, dar-lhes preço e botá-los nos escaninhos deveria ser o trabalho de uma equipe. Quase sempre ele o faz sozinho.

Tenho amigos entre esses livreiros por toda parte. Mas, nos últimos dez anos, um foi especial: Luiz Carlos Araújo, do sebo Mar de Histórias, em Copacabana. Para escrever meu livro "Metrópole à Beira-Mar", sobre o Rio moderno dos anos 1920, decidi que precisava ler a obra completa dos autores daquele tempo que, em minha opinião, já eram modernos —ou seja, escreviam de forma clara, adulta, objetiva, sem as firulas parnasianas ou os maneirismos modernistas. O problema é que, exceto por João do Rio e Manuel Bandeira, todos eram autores perdidos: Theo-Filho. Ronald de Carvalho, Carmen Dolores, Chrisanthème, Orestes Barbosa, Adelino Magalhães, Elysio de Carvalho, Agrippino Grieco. Pois, nos quatro anos que o trabalho me tomou, até 2019, Luiz Carlos encontrou-os um a um. Fez o mesmo com o material dos anos 1940 sobre a Segunda Guerra no Rio, que resultou em meu livro "Trincheira Tropical", de 2025.

Nesta segunda-feira (23), um enfarte levou Luiz Carlos, aos 66 anos. Não fomos apenas nós, seus clientes e amigos, que o perdemos. Quando morre um livreiro, são os livros os que mais perdem.

Na sexta, eu lhe escrevera desculpando-me por estar alugando-o a respeito de mais um livro impossível. Ele respondeu: "Deixa comigo, Ruy. Estamos juntos. Estamos vivos".

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O QUE SERIA UM BOLSONARISMO MODERADO ?

Fernando Luiz Abrucio*, Valor Econômico

A veracidade da metamorfose de Flávio Bolsonaro poderá ser comprovada pelo projeto de governo e de nação que ele construir e defender ao longo da campanha

Um dos grandes temas da eleição de 2026 tem a ver com um possível processo de metamorfose política. Ungido por seu pai e ex-presidente, Flávio Bolsonaro apresenta-se à sociedade brasileira como o bolsonarismo moderado. Desse modo, ganharia de duas maneiras: manteria o voto mais raiz dos bolsonaristas e ainda teria chances de angariar apoio de eleitores mais ao centro e independentes. Como marketing político, a ideia é muito boa. O problema é saber se isso pode ser verdade ou é uma mentira que esconde o verdadeiro perfil do candidato e do movimento político que o apoia.

Na superfície, Flávio Bolsonaro não tem a imagem rústica do pai, sendo menos agressivo no dia a dia e conseguindo se dar melhor com o Centrão. Parece ser menos ideológico que o irmão Eduardo e não consegue se vender como antissistema como Jair Messias ou mesmo Carlos, o brother mais parecido com o chefe da família. À primeira vista, está mais próximo de um político tradicional que os partidos de direita produzem regularmente e em profusão.

Ser mais moderado do que o pai também significa, comparativamente, ter menos carisma. Pode-se gostar ou não de Jair Bolsonaro, mas ele e Lula são, disparadamente, as duas maiores lideranças populares do país. A possível moderação não esconde um passado que poderá incomodar Flávio: sua passagem pela Assembleia Legislativa no Rio de Janeiro foi marcada tanto pelo escândalo das rachadinhas - um tipo de roubo de dinheiro público por meio do salário dos assessores -, como ainda pela relação muito próxima com líderes milicianos, a ponto de condecorar um dos mais famosos sicários do crime organizado local.

O passado de Flávio costeando comportamentos criminosos o incomodará muito na campanha presidencial, mas ele ainda poderá dizer que se tornou um moderado, como comprova sua atuação no Senado nos últimos anos. Percebe-se inclusive uma tentativa de se cercar de pessoas fora do padrão bolsonarista radical, embora a prova dos noves será se ele deixará de fazer sinalizações aos apoiadores mais extremistas. Tensões ocorrerão entre esses dois tipos de apoiadores, e sua palavra final será aguardada para ver o quanto um Bolsonaro pode ser capaz de moderar seus aliados.

A veracidade dessa metamorfose poderá ser comprovada pelo projeto de governo e de nação que ele construir e defender ao longo da campanha. Mais do que isso, sua moderação será testada na comparação com o governo do pai, de modo que se saiba o quanto Flávio é continuidade ou ruptura em relação a Jair. Para efetivamente ser um moderado, ele terá que reconstruir o bolsonarismo. É possível acreditar que um candidato abandonaria o ideário que orienta a maior parte do seu eleitorado?

Em poucas palavras, o Flávio moderado só poderá ser construído se abandonar o que o bolsonarismo significou quando esteve no poder. Há quatro elementos com os quais ele deverá se contrapor para mostrar que não é continuidade do extremismo do seu pai, embora se aproveite dos votos dele para, digamos, criar uma nova linha de atuação.

O primeiro teste de veracidade da moderação passa pelo campo das políticas públicas. Bolsonaro pai destruiu a maior parte das políticas públicas em seu governo. Houve fracassos na educação, que podem ser exemplificados pela redução drástica de alunos plenamente alfabetizados e pela descoordenação dos calendários escolares durante a pandemia, deixando milhões de alunos sem qualquer tipo de atividade pedagógica por meses. O negacionismo do governo foi criminoso durante a covid-19, sendo incapaz de evitar milhares de mortes e adiando a vacinação da população. O SUS nos salvou da tragédia bolsonarista, e Flávio precisa dizer que nunca concordou com isso.

E tem mais desastres nas políticas públicas. A fome e a pobreza aumentaram de forma expressiva durante a gestão de Jair Bolsonaro. A cultura foi abandonada e vilipendiada, ganhando um toque macabro com o discurso repetidor do nazismo de um gestor da área. A política antirracista foi ridicularizada por diversos assessores bolsonaristas. O desmatamento explodiu em níveis absurdos e o ministro do Meio Ambiente pediu para “passar a boiada”, isto é, acabar com toda a proteção ao meio ambiente brasileiro. Fomos atacados no exterior pelo descalabro da política ambiental.

Haveria mais dezenas de exemplos de um governo que se caracterizou - e é assim visto nos estudos internacionais - como um projeto deliberado de desconstrução do conjunto de políticas proposto pela Constituição de 1988, cujas engrenagens principais foram montadas por FHC e Lula em seus dois primeiros governos. O resultado do bolsonarismo foi a piora das decisões coletivas e a potencialização dos fatores que geram vulnerabilidades sociais. Foi incompetente porque era extremista.

A pergunta-chave para saber se Flávio Bolsonaro, neste ponto, é um moderado relaciona-se com a avaliação que tem do governo de seu pai. Se ele achar que foi tudo bem e que repetiria a maioria das coisas, esqueçam, eleitores, pois a metamorfose em prol da moderação é apenas um engodo produzido pelo marketing político. Repetir a estratégia de desconstrução do ideário da Constituição de 1988, enfraquecendo as políticas públicas, é um caminho extremista e redutor dos direitos dos brasileiros.

Um segundo elemento pode ser um bom termômetro do novo bolsonarismo moderado. O governo de Jair Bolsonaro não teve adversários, somente inimigos, que deveriam ser tratados como seres políticos inferiores ou, na versão mais extrema, “metralhados”. Um dos alvos principais dessa política do ódio foram os governadores do Nordeste, chamados de “cabeça chata” e que foram boicotados sistematicamente, inclusive na compra de insumos na pandemia - a briga política não foi interditada nem para evitar a morte terrível por covid-19.

Todos esses governadores tinham sido eleitos na mesma urna eletrônica que elegera o presidente Bolsonaro em 2018, mas nunca foram chamados para conversar e negociar na távola redonda que deve ser uma federação democrática. Pode-se retrucar que o Nordeste é o bastião da esquerda no Brasil e isso era esperado. Bom, se a maioria de suas governadorias for novamente conquistada por partidos que apoiarão o lulismo, o que é bastante provável, fica a pergunta ao moderado Flávio: como tratará os líderes escolhidos democraticamente pelos nordestinos? Almoçará com petistas para resolver os problemas da região?

Para que este tema não se torne apenas uma querela regional, vem outra pergunta: quem será o João Doria de Flávio Bolsonaro? É possível que governadores independentes ganhem no Sul e no Sudeste, gerando pretensões ao pleito presidencial de 2030. Conseguirão estabelecer um diálogo moderado com o bolsonarismo de Brasília?

O rumo da política externa poderá ser um terceiro medidor da moderação de Flávio Bolsonaro. O governo do pai levou o Brasil para o isolacionismo e gerou conflitos internacionais completamente desnecessários. Mas a realidade geopolítica se modificou com o segundo mandato de Trump - pelo menos até agora, antes das eleições de meio de mandato nos EUA. O trumpismo é a grande liderança das forças de extrema direita no mundo e só aceita submissão de liderados mundo afora. Chegando de novo ao poder, o bolsonarismo defenderá os interesses do Brasil, ou vai simplesmente fazer tudo o que o governo americano mandar?

Uma coisa é haver concordâncias ideológicas entre líderes e partidos de diversos países. Outra bem diferente é a pura subserviência, que é uma forma extremada de ser entreguista e antinacionalista. O bolsonarismo já mostrou em manifestações de massa recentes que a bandeira americana está acima da brasileira. Uma filiação automática e canina ao trumpismo faria com que Flávio Bolsonaro se afastasse da moderação, que exigiria capacidade de negociação e, ao mesmo tempo, poder de dizer não quando a defesa da soberania estiver em jogo. Em outras palavras, forças americanas poderão se instalar no país para combater o crime organizado? As reservas de terras raras só serão exploradas por empresas dos EUA?

O teste final do perfil moderado do bolsonarismo passa pela questão democrática. Aqui, as perguntas são bem diretas: qual a avaliação que Flávio Bolsonaro tem dos atos autoritários de Jair Messias Bolsonaro durante todo o seu mandato? Repreenderia alguns deles, inclusive aquelas manifestações em que estava junto com o pai?

Sua campanha presidencial passa, ademais, pela defesa de impeachments de ministros do STF. Melhorar a transparência do Supremo é uma demanda mais do que legítima da sociedade, mas o que bolsonaristas têm dito há alguns anos é outra coisa: quem foi eleito não pode ser limitado institucionalmente.

Em vez de republicanizar o país sem acabar com a independência do Judiciário, o bolsonarismo quer evitar o controle sobre o presidente e concentrar o poder em sua figura. O pai Bolsonaro pensava assim. O que pensa o filho Bolsonaro sobre os necessários freios e contrapesos ao Executivo federal?

Moderação não é só comer com garfo e faca, em vez de espirrar para todo lado o leite condensado no pão ou o frango. Moderação é uma forma de se fazer política vinculada a valores, tipos de políticas públicas, capacidade de defender o país e de respeitar a democracia.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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PROGRESSISTAS BUSCAM PUREZA E SE AFASTAM DE PESSOAS COMUNS

Pablo Ortellado, O Globo

Os setores populares que seguem sem entender inteiramente as novas regras morais vão acumulando o ressentimento cotidiano

O progressismo está no caminho errado. Convencido de que seus valores são tão evidentes que discuti-los seria rebaixar-se, trocou o convencimento pela interdição — censura nas mídias sociais, Direito Penal para os infratores. Enquanto se ocupa de purificar o mundo por meio de atos de força, as pessoas comuns seguem seu caminho influenciadas por quem ainda se dispõe a conversar com elas.

O progressismo está preso a uma armadilha moral. Sua desconexão com o mundo advém de ter sido tomado por um ativismo difuso, que vive em alarme permanente e não consegue mais enxergar gradação nas condutas, porque proporção e nuance são vistas como complacência ou como delito. O exagero é premiado, e a ponderação punida.

Essa cultura adotou diagnósticos grandiloquentes que não admitem contestação. Somos o país que mais mata travestis no mundo. Vivemos aumentos contínuos de feminicídios. Os meninos passam por surto sem precedentes de misoginia violenta motivada pelo masculinismo on-line. Não há base empírica sólida para nenhuma dessas afirmações. Carecemos de dados confiáveis sobre as mortes de travestis, não sabemos se o aumento dos feminicídios reflete crescimento real ou reclassificação melhor de homicídios, e as pesquisas são contraditórias quanto à eventual intensificação do machismo entre os mais jovens. Nenhuma dessas afirmações, porém, pode ser debatida. A mera proposição da discussão é vista como violação moral: “A quem interessa minimizar a transfobia e a misoginia?”.

A linguagem progressista também tem apagado a gradação dos problemas, fazendo uso de vocabulário que incorpora os menores aos maiores. Não conseguimos mais nomear o “machismo” — comportamentos que inferiorizam a mulher —porque a cultura política progressista passou a tratá-los como “misoginia”, o ódio às mulheres.

Hoje, no Google Trends, misoginia é oito vezes mais empregada que machismo, mesmo que comportamentos mais graves de violência contra a mulher sejam muito menos frequentes que os discriminatórios. Não temos mais vocabulário para distinguir a gravidade de fenômenos tão diferentes como mulheres assumirem mais tarefas domésticas e homens assassinarem mulheres — ambos são “misoginia”.

Mas não é só um problema de vocabulário. Também não conseguimos oferecer respostas graduadas diferentes ao fato de negros terem menor desempenho escolar e sofrerem ataques racistas nos estádios. Embora um seja efeito sistêmico e outro seja racismo explícito, um seja intencional e outro não intencional, não é mais moralmente aceitável tratá-los como ofensas de graus diferentes.

Exageros de diagnóstico e incapacidade de enxergar gradação na conduta são fruto de uma cultura militante que celebra a indignação, percebida como virtude e pureza moral, e pune a moderação, vista na melhor das hipóteses como complacência e, na pior, como envolvimento na prática delituosa.

Com diagnósticos inflados e incapacidade de ver gradação, as respostas são duras, sem nuance ou proporção. A esquerda, outrora campeã da liberdade de expressão, dedica grandes esforços para retirar da esfera pública ideias divergentes, seja porque não consegue separar violações graves de direitos humanos das violações menos graves ou porque não é capaz de distinguir as violações de direitos humanos de divergências ideológicas.

Debater a eficácia de cotas raciais na universidade passa a ser visto como racismo; defender papéis tradicionais de gênero, como fazem muitas religiões, é misoginia. Há grande pressão para esses discursos serem censurados e criminalizados. Há pouco empenho em debater e convencer.

Enquanto o progressismo segue numa espiral endógena para se tornar cada vez mais puro, o mundo segue seu caminho próprio, em parte se adaptando aos valores normativos progressistas, em parte os desprezando e se ressentindo.

Os setores populares que seguem sem entender inteiramente as novas regras morais vão acumulando o ressentimento cotidiano de ser acusados pelo progressismo de racistas, transfóbicos e misóginos. A expressão política desse ressentimento já é construída com os adversários do progressismo. A resposta não será nem nuance nem proporção. Será retrocesso.

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O ÚLTIMO CRIME DE CLÁUDIO CASTRO NO GOVERNO DO RIO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ex-governador será lembrado por secretários presos, apologia da matança e golpe da renúncia

Cláudio Castro desviou dinheiro público para comprar a reeleição. O veredito é do Tribunal Superior Eleitoral, que condenou o agora ex-governador por abuso de poder político e econômico.

O caso se arrastava desde a campanha de 2022, quando o UOL revelou a farra dos cargos secretos. O escândalo escancarou o uso ilegal da máquina, mas Castro conseguiu se reeleger no primeiro turno.

Depois de muitas delongas, o TSE marcou a conclusão do julgamento para terça-feira. O réu renunciou ao mandato na véspera, em manobra explícita para escapar da cassação.

A fuga do governador foi celebrada com choro e cantoria gospel no Palácio Guanabara. Fim melancólico para uma gestão marcada por crises, paralisia administrativa e denúncias de corrupção.

Castro era vereador em primeiro mandato quando se juntou ao azarão Wilson Witzel, em 2018. “Virei vice porque não tinha outro”, admitiria depois. Com a queda do ex-juiz, o pupilo do Pastor Everaldo virou governador. Sem força política, tornou-se refém da Assembleia Legislativa, ressuscitando a prática de lotear delegacias e batalhões de polícia entre deputados.

Num estado marcado por escândalos, o governo Castro será lembrado pela proximidade entre integrantes do primeiro escalão e o crime organizado. Quatro secretários ou ex-secretários foram em cana por ligação com traficantes e bicheiros.

O mais notório foi Rodrigo Bacellar, preso sob suspeita de vazar uma investigação da Polícia Federal contra o Comando Vermelho. O deputado foi cassado na terça pelo TSE. Também se beneficiou do esquema dos cargos secretos.

Na segurança pública, o ex-vice de Witzel reprisou a aposta no bangue-bangue. Ao se despedir, voltou a exaltar a operação que deixou 121 mortos na Penha e no Alemão, de longe a mais letal da história do estado.

Castro abandonou o cargo com outros recordes. Foi o primeiro governador eleito em mais de três décadas que não inaugurou uma única estação de metrô. Como legado aos passageiros, deixou a tarifa mais cara do país.

No domingo passado, o governador confraternizou com Eduardo Cunha numa quadra de escola de samba. Saiu de cena no dia seguinte, lançando o Rio de Janeiro numa crise institucional. Ao fugir da cassação, ele debochou da Justiça e roubou dos eleitores o direito de escolher seu sucessor. O golpe da renúncia foi o último crime de Castro.

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COMISSÃO DA MULHER NA CÂMARA TEM HOMEM ACUSADO DE AMEAÇAR DEPUTADAS

Ana Gabriela Oliveira Lima, ICL

Éder Mauro (PL-PA) tem no currículo episódios de machismo e uma acusação de ameaça contra mulheres deputadas

(Folhapress) — A Comissão de Defesa dos Direitos da Mulher na Câmara dos Deputados tem dois homens como titulares: Eli Borges (PL-TO) e Éder Mauro (PL-PA). O segundo tem no currículo episódios de machismo e uma acusação de ameaça contra mulheres deputadas.

Na suplência, há sete homens, segundo dados da Câmara desta quarta-feira (25). Além deles, figurava como suplente até a segunda (23) o deputado Mauricio Marcon (PL-RS), cassado em 2024 pelo TRE-RS (Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Sul) por fraude na cota de gênero. Ainda em exercício, ele aguarda julgamento de recurso no TSE (Tribunal Superior Eleitoral).

A comissão despertou a atenção pública em razão da eleição de uma mulher trans, a deputada federal Erika Hilton (PSOL-SP), como presidente, há duas semanas.

Deputada federal Erika Hilton. (Foto: Lula Marques/Agência Brasil)

O episódio gerou resistência de grupos da direita e da esquerda, sob o argumento de que Hilton não poderia representar mulheres cis, aquelas que têm a identidade de gênero igual ao sexo de nascimento.

A participação de homens na comissão não gerou a mesma celeuma. Éder Mauro é um dos deputados que já geraram nota de repúdio da Secretaria da Mulher da Câmara. Em um episódio de 2021, durante reunião da CCJ (Comissão de Constituição e Justiça), ele disse à deputada Maria do Rosário (PT-RS) que ela precisava de um médico e de remédio para “parar de falar”.

Em outro episódio, no mesmo ano, uma manifestação sua foi lida como ameaça por parte dos parlamentares. Em reunião virtual da CCJ, durante entrevero com Maria do Rosário e Fernanda Melchionna (PSOL-RS), ele disse que, como delegado, já matou muito.

“E vou dizer mais, senhoras deputadas de esquerda: eu, infelizmente, já matei sim, não foram poucos, não, foi muita gente. Tudo bandido. Eu queria que vocês estivessem aqui, fisicamente, para a gente poder discutir olhando olho no olho. Vão dormir e esqueçam de acordar.”

“Esse cidadão tem um histórico de desrespeito, de agressões verbais, de violência política de gênero contra as mulheres”, afirma Melchionna. “A participação dele na Comissão da Mulher é para obstruir as pautas importantes para as brasileiras. Ele é a expressão dessa masculinidade tóxica da extrema direita.”

A reportagem contatou Éder Mauro para comentar o assunto, mas ele não respondeu à reportagem.
Constando como suplente no site da Câmara até segunda-feira (23), Mauricio Marcon foi cassado em 2024 pelo TRE-RS por fraude à cota de gênero. A ação ainda está em tramitação no TSE. Há dois votos pela cassação, mas o processo está parado em razão de pedido de vista do ministro André Mendonça.

O TRE-RS entendeu ter havido fraude à cota de gênero na composição dos deputados federais do Podemos, partido pelo qual Marcon se elegeu nas eleições de 2022. O tribunal identificou falta de destinação de percentuais mínimos de tempo de televisão para mulheres e pessoas negras.

Segundo o parlamentar, a participação na Comissão da Mulher fazia parte de uma estratégia para fazer oposição à chapa única encabeçada por Hilton, mas ele pediu recentemente para sair do órgão.

Sobre o processo que pode levar à cassação, a assessoria dele afirma ter sido “expressamente reconhecido que o deputado (então candidato, à época dos fatos) não teve absolutamente nenhuma vinculação ou ingerência com respeito aos fatos julgados”, que seriam de responsabilidade do Podemos.

“Também é importante notar que qualquer narrativa que busque colocar o deputado numa posição de alguma forma oposta às mulheres é apenas isso, uma narrativa.”

Já o Pastor Eurico (PL-PE), também na suplência, é autor de um projeto para revogar a lei 12.845, sobre o atendimento obrigatório e integral às pessoas vítimas de violência sexual em hospitais e na assistência social.

Segundo a justificativa do projeto, a lei alvo do pedido de revogação teria como “principal objetivo introduzir o aborto no Brasil”, embora o termo não apareça na norma.

As comissões na Câmara analisam propostas legislativas e promovem debates com a participação da sociedade. Há 30 delas permanentes, como a da Mulher, além das temporárias e das mistas, com deputados e senadores.

São atribuições da Comissão da Mulher, por exemplo, investigar denúncias de ameaça e violação de direitos, em especial de vítimas de violência.

O critério para escolher os membros das comissões permanentes passa pela proporcionalidade partidária. A indicação dos nomes é feita pelos líderes dos partidos, que definem quais deputados ocuparão as vagas nas bancadas, com posterior designação formal pelo presidente da Câmara.

O regimento interno da Casa não determina que os integrantes da comissão devam se encaixar nas identidades por elas tratadas. Assim, não é preciso ser mulher para compor a Comissão de Mulheres ou ser parte de um grupo minoritário para participar da Comissão de Direitos Humanos, Minorias e Igualdade Racial.

A deputada Chris Tonietto (PL-RJ), que apresentou recurso para anular a votação que levou à posse de Hilton, reconhece que a participação de homens na comissão nunca foi vedada, nem mesmo na liderança.

“Trata-se de um espaço institucional do Parlamento, e o diálogo com parlamentares homens sempre fez parte da construção de políticas públicas. No entanto, é importante fazer uma distinção clara: participar do debate é diferente de conduzir a pauta”, afirmou. “Fui contra a eleição de Erika Hilton, em síntese, por um motivo: Erika Hilton não representa as mulheres brasileiras e suas dores.”

Para Hilton, “os ataques à minha presidência e o silêncio em relação a esses graves casos de violência contra a mulher [envolvendo um titular da comissão] demonstram a farsa da direita”, diz.

“A presença de homens com histórico de violência contra as mulheres na comissão é o sintoma de que nossos direitos estão em cheque e de como as pautas e agendas das mulheres são disputadas e às vezes sequestradas por setores que só querem barrar os avanços para a proteção de todas as mulheres.”

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RIO É LABORATÓRIO DA MEXICANIZAÇÃO DA POLÍTICA

Vera Magalhães, O Globo

Degradação escancarada pelo 'apagão' na linha sucessória, mostra risco de não conter infiltração do crime nas instituições públicas

O Brasil assiste com estupefação a um dos capítulos mais lamentáveis da profunda degradação da política fluminense. O Rio de Janeiro tem sido, há décadas, um laboratório macabro da captura de governos (estadual e municipais), legislativos, partidos e polícias pelo crime.

O apagão na linha sucessória do Estado acontece em decorrência de alguns dos muitos escândalos da história recente do Rio.

O governo está vago porque o vice-governador Thiago Pampolha foi nomeado para uma vaga vitalícia no Tribunal de Contas do Estado para abrir caminho para o então presidente da Assembleia, Rodrigo Bacellar, assumir o governo quando Cláudio Castro renunciasse ao posto para disputar o Senado.

Acontece que o que parecia um plano perfeito ruiu diante da cassação de ambos por abuso de poder econômico nas eleições de 2022, no chamado caso da folha de pagamento secreta da Fundação Ceperj. Não fosse o suficiente, Bacellar chegou a ser preso e é investigado sob a acusação de vazar dados de investigações para integrantes do Comando Vermelho. Que combo!

O que se assiste desde então é um show de horrores em termos de insegurança jurídica. Quem fica à mercê de sucessivas reviravoltas, todas elas incompreensíveis, é a população, que terá de ir às urnas em outubro depois de meses em que tudo pode acontecer, dado o grau de esgarçamento das relações entre os principais grupos políticos do Estado e de tudo que está em jogo na disputa eleitoral.

Na verdade, ninguém tem a menor ideia de quem será o governador em outubro nem de como ele chegará ao Palácio Guanabara.

Uma disputa de vida ou morte pelo poder, como essa a que se assiste, só de justifica quando se sabe que as diversas facções criminosas que agem em todo o Brasil, mas exercem domínio territorial e populacional no Rio de forma mais explícita e consolidada que no resto do país, há tempos compreenderam que a ocupação de mandatos e de postos-chave na estrutura dos três Poderes é fundamental para assegurar seu predomínio e sua quase inviolabilidade.

Não parece haver, dada a dificuldade de até mesmo os tribunais superiores tentarem impor alguma ordem nessa barafunda, possibilidade de que as eleições que se aproximam consigam representar uma mudança significativa nos preocupantes rumos da política fluminense.

Pior: a depender das decisões dos próximos dias, o risco concreto é de exacerbação da infiltração das estruturas públicas, com consequências dramáticas não só para o Rio, mas para o Brasil, que se vê às voltas com a diversificação e a sofisticação constantes dos métodos e das atividades dessas facções criminosas.

Na teoria, o quadro dramático do Rio até poderia justificar uma intervenção federal para o estabelecimento de regras minimamente objetivas para a escolha do governador-tampão que vai comandar o Estado até as eleições gerais.

Mas seria politicamente inviável para Lula aventar essa possibilidade, que, segundo aliados do presidente, de fato nem passa pela sua cabeça.

Já são muitos os obstáculos políticos para a montagem de palanques para o petista, e a região Sudeste é um dos campos mais minados que ele tem a enfrentar.

Soma-se a isso o caráter explosivo do tema da segurança pública e, dentro dele, o capítulo do enfrentamento das facções criminosas, com a tensão trazida pela ideia dos Estados Unidos de classificá-las como grupos terroristas, e tem-se um caminhão de motivos para o Planalto ficar o mais longe possível da conflagração vivida no Rio.

Pode até ser estrategicamente mais prudente, mas não será possível ao poder central se manter por mais muito tempo omisso enquanto as coisas se deterioram na Guanabara.

Como laboratório, o Rio tem sido muito rápido em exportar suas chagas. Elas já estão disseminadas pelo mapa do Brasil e com bases sólidas em Brasília. O grande perigo que corremos é que as eleições de outubro deflagrem uma nova etapa no processo de mexicanização das nossas instituições.

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CONDENADO POR ESTUPRO DE VULNERÁVEL

Do g1 Pará — Belém

Bruno Mafra, da Bruno e Trio, é condenado por estupro de vulnerável no Pará

Decisão unânime do Tribunal de Justiça do Pará negou o recurso da defesa. Advogados do artista afirmam que vão recorrer e alegam violações no processo.

O Tribunal de Justiça do Estado do Pará (TJPA) manteve, por unanimidade, a condenação do cantor Bruno Mafra, da banda Bruno e Trio, por estupro de vulnerável continuado contra duas crianças.

Segundo a denúncia, os crimes ocorreram entre 2007 e 2011, quando as vítimas tinham 5 e 9 anos de idade, e veio a público em 2019 quando o caso foi denunciado.

O processo corre sob sigilo e teve julgamento em segunda instância na quinta-feira (26) pela 1ª Turma de Direito Penal.

Bruno foi condenado a 32 anos de prisão em regime inicial fechado por estupro de vulnerável continuado. Ele não está preso e se manifestou nas redes sociais alegando inocência. A defesa dele diz que vai recorrer e alega violações no processo (veja mais abaixo).

Segundo a relatora do caso, a desembargadora Rosi Gomes, os relatos das vítimas foram consistentes e descreveram abusos que envolviam isolamento, manipulação psicológica, exibição de pornografia e atos libidinosos, incluindo sexo oral, ocorridos pelo menos três vezes.

Os depoimentos foram corroborados por familiares, como a mãe, a avó materna e um tio, além de um laudo sexológico que confirmou a materialidade do crime. A defesa pedia a absolvição por insuficiência de provas, mas o recurso foi negado.

Durante o julgamento, os magistrados expressaram preocupação com a frequência de casos de estupro de vulnerável cometidos por pais e parentes. Um dos julgadores mencionou estatísticas alarmantes de violência sexual contra crianças dentro de casa, destacando a gravidade social e os impactos geracionais desses crimes.

A decisão dos desembargadores valorizou a palavra das vítimas como prova fundamental em crimes sexuais, conforme jurisprudência do Superior Tribunal de Justiça (STJ).

O processo tramitou com sigilo apenas em relação às vítimas, permitindo a publicidade do nome do réu, conforme as regras do Conselho Nacional de Justiça (CNJ).

Outro lado

Em nota, o escritório Filipe Silveira, responsável pela defesa do cantor, informou que o processo ainda está em curso e que serão adotadas as medidas recursais cabíveis. A defesa sustenta a existência de "relevantes violações ao devido processo legal, com potencial comprometimento da validade jurídica dos atos processuais e da própria decisão proferida".

Os advogados também registraram preocupação com a divulgação de informações de um processo que tramita sob sigilo, "circunstância que, em tese, exige rigorosa observância das restrições legais de acesso e divulgação".

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DO MUNDO AO MASTER, A CRISE EM ANO ELEITORAL

Artigo de Fernando Gabeira

As investigações sobre o Banco Master não devem acabar com a delação de Daniel Vorcaro. Elas continuarão sob o escrutínio de forças poderosas que querem anulá-la. Nessa lógica, causa apreensão o confronto entre o ministro André Mendonça e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), em torno da prorrogação da Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS).

A Comissão ficou duas semanas sem ouvir ninguém, achou que poderia convocar a ex-noiva de Vorcaro, Martha Graeff, em Miami, um sonho impossível, e decidiu continuar seu trabalho além do prazo. Em princípio, com todas as assinaturas necessárias, o adiamento seria burocrático. Mas Davi Alcolumbre precisava concordar e se há algo que não quer ver pela frente, é a CPMI funcionando.

Os deputados e senadores decidiram recorrer a André Mendonça e involuntariamente abrem mais um flanco na solidez do trabalho do ministro. O tema será discutido no plenário do STF, onde as condições não são favoráveis a Mendonça. Independentemente do resultado, é uma exposição desnecessária. Talvez tenha vindo também da CPMI uma outra atitude que enfraqueceu o trabalho sobre o Banco Master: a divulgação dos diálogos íntimos de Vorcaro. Um dos observadores mais severos dessas investigações é o ministro Gilmar Mendes. Ele considerou a divulgação dos diálogos uma barbárie institucional. Num outro momento, Gilmar Mendes criticou André Mendonça. Apesar de concordar com a prisão de Vorcaro, Gilmar discordou da argumentação de Mendonça para justificá-la.

O caminho para investigar o Master não é tranquilo no Supremo. Dois ministros, Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, estão envolvidos. O próprio Gilmar fez malabarismos jurídicos para evitar a quebra do sigilo da Maridt, empresa de Dias Toffoli, e também a quebra de sigilo do Fundo Arleen, que comprou parte do resort de Toffoli.

Tudo isso indica que o caso Master terá mais dificuldades do que a própria Lava Jato, fulminada pelo Supremo. As dificuldades institucionais não param aí. A Procuradoria-Geral da República não parece muito empolgada. Relutou em decretar a prisão preventiva de Vorcaro, pois não a considerava urgente. Pior ainda: informada de que Vorcaro estava tendo acesso a dados confidenciais da instituição, nada fez para reprimi-lo.

No Tribunal de Contas, o quadro não é menos desolador. Um ministro chamado Jhonatan Jesus, oriundo do Centrão na Câmara, suspeitou que o Banco Central foi precipitado em liquidar o Master. Até hoje, ele suspeita, apesar do relatório dos próprios técnicos do tribunal. Está apenas jogando em sintonia com seus pares do Centrão que queriam aprovar um projeto para demitir funcionários do Banco Central. Algo puramente intimidatório. Ou mesmo o senador Ciro Nogueira, que apresentou uma emenda elevando de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos para pessoas lesadas por bancos falidos como o Master.

Todo esse processo segue com a grande expectativa em torno de delação de Vorcaro. Mas uma delação nunca é tudo. Novas investigações precisam ser feitas, outras, concluídas. O trabalho vai desembocar no período eleitoral, num país ainda polarizado.

Se fosse apenas isso, já estaríamos numa situação complicada. Num mundo estranho, liderado por um homem tão imaturo quanto Trump, restam poucas esperanças. Ele assumiu prometendo acabar com guerras, tentou ganhar o Prêmio Nobel, contentou-se, finalmente, com um prêmio da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e partiu para uma guerra sem sentido, uma vez que os objetivos não são claros. O Irã já tinha perdido anos de trabalho nuclear com os bombardeios de junho, o Hezbollah estava em retirada e não havia no horizonte ameaça contra os Estados Unidos. A ideia de que o povo iraniano, massacrado pelo regime, iria para as ruas tomar o poder é muito ingênua.

De qualquer forma, a guerra que já se prolonga por quatro semanas e traz prejuízos para todos. Alguns países, como a Eslovênia, já estão racionando a gasolina. No Brasil, temos um aumento no preço do diesel, que leva o governo a planejar um subsídio de R$ 1,20 por litro para evitar também uma inflação de alimentos – que é ruim para todos, principalmente para quem disputa eleições. O ideal seria uma avaliação mais completa da conjuntura internacional para avaliarmos como navegaremos na crise. Mas estamos num estado de paixão que impede esse distanciamento. Avançamos como se o mundo não existisse ou fosse um espaço previsível com desequilibrados como Donald Trump dando as cartas.

Será um ano complicado no Brasil. Nesse contexto, é praticamente impossível falar em posições nacionais ou em algum tipo de consenso que nos faça sentir menos o impacto da crise internacional. Mesmo porque, com todo o desequilíbrio, há quem ainda acredite nos projetos de Trump. Houve até quem achou razoável aquele absurdo tarifaço, que o próprio contrapeso institucional anulou. Possivelmente, ache a guerra contra o Irã uma boa ideia, apesar desses resultados negativos.

Artigo publicado no jornal Estadão em 27 / 03 / 2026

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STF REVOGA DECISÃO DE MENDONÇA E ANULA PRORROGAÇÃO DA CPMI DO INSS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Gilmar Mendes liderou a reação dos colegas. E fez reprimenda pública aos deputados que acompanham no plenário da Corte o julgamento sobre a prorrogação

Por 8 votos a 2, o Supremo Tribunal Federal (STF) decidiu contra a prorrogação da CPMI do INSS, derrubando a liminar do ministro André Mendonça que havia determinado prazo de 60 dias para que o Congresso viabilizasse a continuidade dos trabalhos. A conclusão do julgamento pelo plenário ampliou ainda mais a derrota do ministro André Mendonça e consolidou, de forma inequívoca, o isolamento do relator do caso Master entre os colegas. Somente o ministro Luiz Fux votou com Mendonça.

Além dos votos já conhecidos, a formação final da maioria reforçou o entendimento predominante de que a prorrogação de uma CPMI é matéria interna do Legislativo. A posição de Mendonça, acompanhada apenas por Luiz Fux, foi superada por um bloco amplo e heterogêneo de ministros, incluindo Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Nunes Marques, Dias Toffoli, Cármen Lúcia, Gilmar Mendes e Edson Fachin.

O ministro Gilmar Mendes liderou a reação dos colegas. E fez uma reprimenda pública aos deputados que acompanham no plenário da Corte o julgamento sobre a prorrogação da CPMI do INSS. O decano mencionou que conversas íntimas de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, foram vazadas “para festejo geral”. Ele classificou o episódio como “deplorável, lamentável e criminoso”.

Em aparte ao ministro Flávio Dino, Gilmar destacou que a quebra de sigilos sem fundamentação é inconstitucional: “É muito curioso, ministro Dino, esse aspecto, porque se invoca esse poder de autoridade judicial, e é bom que os parlamentares que estão aqui possam escutar isso. A Autoridade judicial decide com fundamento”, disse.

O resultado não apenas confirma a rejeição da tese de Mendonça, como amplia o significado político da derrota. O relator não conseguiu sequer preservar uma posição minoritária mais robusta, ficando restrito a um apoio isolado. Isso sinaliza perda de capacidade de articulação e baixa adesão de seus pares em temas de alta sensibilidade, como no caso do Banco Master.

Com essa decisão, perde eficácia qualquer tentativa de prorrogação da CPMI, que contrariava o entendimento do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União), como fez ontem o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG), que chegou a anunciar a continuidade dos trabalhos.

Agora, o relatório final da CPMI será lido e, se possível, votado nesta sexta-feira, podendo haver uma reunião extraordinária neste sábado caso haja pedido de vista. “O relatório será lido amanhã e eu espero também ser votado amanhã mesmo”, afirmou o senador, ressaltando que o documento representa, em sua avaliação, “um dos mais robustos já produzidos por uma CPMI” no país.

Caso Master

O parecer elaborado pelo relator Alfredo Gaspar (PL-AL), reúne mais de 5 mil páginas e propõe 227 indiciamentos, consolidando um dos maiores levantamentos recentes sobre fraudes no INSS. As investigações apontam um esquema bilionário de irregularidades em crédito consignado, atingindo aposentados e pensionistas e revelando falhas estruturais no sistema de controle.

Entretanto, a CPMI avançou sobre conexões com o caso do Banco Master, ampliando o alcance político das apurações. Esse entrelaçamento elevou o grau de sensibilidade do tema, pois passou a envolver não apenas operadores financeiros, mas possíveis interlocuções com agentes públicos e estruturas institucionais, entre os quais parlamentares e ministros do STF.

A decisão do STF, nesse contexto, muda o eixo das investigações. Ao barrar a prorrogação da CPMI, a Corte reduziu o protagonismo do Congresso e reforçou o papel do Judiciário na condução dos desdobramentos. Também sinaliza uma preocupação clara com os efeitos institucionais da exposição pública de agentes públicos, sobretudo após críticas contundentes de ministros a vazamentos de informações sigilosas.

O principal efeito político do julgamento, porém, recai sobre Mendonça. Seu voto defendia a preservação do direito da minoria parlamentar de investigar, argumento que, embora juridicamente consistente, foi derrotado por uma maioria expressiva. O placar de 8 a 2 cristaliza seu isolamento e indica que, em temas de grande repercussão, como é o caso Master, sua capacidade de formar maioria é limitada.

Mendonça atua como relator de processos ligados ao caso Banco Master, um dos mais sensíveis em curso no Supremo, em substituição ao ministro Dias Toffoli, que renunciou à relatoria por ser um dos citados nos vazamentos. A falta de apoio demonstrada no plenário é uma “enquadrada” em Mendonça, que terá muita dificuldade para sustentar decisões que envolvam ampliação do alcance investigativo ou compartilhamento de provas.

No plano institucional, o Supremo conteve o avanço de uma investigação parlamentar que havia ultrapassado a esfera política e começado a afetar diretamente o ambiente institucional. Ao centralizar o controle das apurações, o STF reafirmou sua autoridade, mas também aumentou o grau de exposição e de desgastes que sofre em razão do escândalo. O placar de 8 a 2 revela a formação de uma ampla maioria no Supremo disposta a blindar seus integrantes e o governo, contra os vazamentos de informações, e contingenciar as investigações.

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INTELIGÊNCIAS

José Eli da Veiga*, Valor Econômico

Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica

Sistemas algorítmicos exercem cada vez mais influência em decisões judiciais, políticas públicas, campanhas eleitorais, rotinas administrativas e no próprio funcionamento da esfera pública em geral. Mas não parecem alterar o contraste entre os pavores e os entusiasmos relativos à inteligência artificial (IA).

Segundo alguns conceituados analistas, sistemas de IA tendem a destruir instituições cívicas capitais. Corroer a expertise, prejudicar decisões e isolar as pessoas umas das outras. Contra os desejáveis níveis de transparência, cooperação e responsabilidade, há quem garanta que a IA é um “câncer”.

Numa economia baseada em intensa extração de dados comportamentais, a IA não apenas organiza informações, mas antecipa, direciona e molda condutas humanas. Decisões que antes pertenciam ao espaço da política e da deliberação pública são substituídas por mecanismos opacos de modulação algorítmica, concentrados nas mãos de gigantescas plataformas privadas.

Além disto, é uma infraestrutura pesada, dependente de recursos naturais, trabalho humano precarizado e escolhas políticas. Na qual os algoritmos reproduzem e ampliam desigualdades — raciais, socioeconômicas e geopolíticas —, além de introduzir novas assimetrias de poder.

No extremo oposto, não falta quem veja na IA uma oportunidade decisiva de fortalecimento institucional. Enfatizando que ela aumentará substancialmente a capacidade produtiva e administrativa de Estados e organizações.

Para eles, o problema não estaria na tecnologia em si, mas na forma como seus ganhos são distribuídos. Instituições bem desenhadas poderiam usar sistemas inteligentes para melhorar políticas públicas, ampliar o acesso a serviços e liberar servidores humanos de tarefas repetitivas.

Mas também há quem prefira rejeitar a alternativa. Pois a IA seria uma tecnologia “plástica”, com efeitos que dependem dos incentivos econômicos, das regras institucionais e do grau de controle democrático. Sem regulação, tende a concentrar poder e renda, mas, com adequada gestão, pode favorecer participação, transparência e inovação institucional.

A ideia-chave desta espécie de “caminho do meio” é que os impactos da IA não estarão predeterminados por linhas de código. Mas, sim, pelas decisões coletivas que definirem quem controla os sistemas, com quais objetivos e sob quais mecanismos de responsabilização.

Não é outra a postura que mais pode estimular o pragmatismo: botar tamanha controvérsia em banho-maria de fogo baixíssimo, para melhor investigar as dinâmicas evolutivas de empresas que já façam uso dos sistemas algorítmicos.

Foi o que fez um time de 14 profissionais dedicados a este tipo de prática, cujas principais conclusões podem ser sintetizadas em meia dúzia de afirmações.

Isolada, a IA tende a gerar ganhos pontuais de eficiência. Mas, se incorporada a uma boa estratégia, pode redefinir o papel das empresas na economia e na sociedade. Ela só funciona bem se integrada a uma visão mais ampla de sustentabilidade, propósito e regeneração.

O comportamento empresarial contemporâneo precisa superar a lógica extrativista. Em um contexto de crise climática, desigualdade social e instabilidade econômica, modelos regenerativos — capazes de restaurar recursos naturais, fortalecer comunidades e criar valor de longo prazo — deixam de ser periféricos e passam a ser centrais.

Nesta perspectiva, a IA funciona como catalisadora: ao ampliar a capacidade analítica e preditiva das organizações, permite decisões mais informadas, responsáveis e voltadas a objetivos socioambientais.

Muitas empresas aplicam soluções de IA dissociadas da cultura organizacional, da governança e da diversidade, o que limita os seus melhores efeitos. Não terão êxito sem integração entre tecnologia, pessoas e valores, além de lideranças capazes de traduzir dados em boas decisões econômica e sociais.

No fundo, a IA tende a dar um novo sentido ao termo “estratégia”. Em vez de planos rígidos e lineares, as organizações precisam operar com aprendizagem contínua, adaptação e visão de longo prazo. E há empresas de diferentes setores usando inteligência artificial para inovar, reduzir riscos e reposicionar os seus negócios em direção a uma economia mais sustentável.

Em suma, não se trata apenas de usar inteligência artificial, mas de convertê-la em “inteligência estratégica”, colocando a tecnologia a serviço de um modelo de desenvolvimento menos vulnerável, versátil, ético e regenerativo.

São justificativas bem circunstanciadas destes seis entendimentos que constituem a riqueza reflexiva do livro “Inteligência Estratégica — Como IA e Regeneração Transformam os Negócios” (Exame/Saint Paul).

Quase todo o conteúdo é de produção coletiva, apresentado em capítulos em coautoria com a organizadora Regina Magalhães. Consultora em inovação e sustentabilidade, Regina é doutora em ciência ambiental (Procam-USP), teve formações executivas no MIT e Stanford e ocupou posições de liderança na Microsoft, Johnson Controls, Schneider Electric e IFC.

*José Eli da Veiga é professor sênior do Instituto de Estudos Avançados da USP.

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CPIs TENTAM EXPOR O SUPREMO E OS MINISTROS DÃO O TROCO

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Comissões vêm fustigando a Corte, com vazamentos de informações e pedidos de quebra de sigilo

Prevaleceu o espírito de corpo.

Independentemente das teses jurídicas defendidas, o que se viu no plenário do Supremo Tribunal Federal ontem foi uma irritação dos ministros com parlamentares que comandam Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs).

Nas últimas semanas, as CPIs vêm fustigando o tribunal, com vazamentos de informações à imprensa e pedidos de quebra de sigilo. Os ministros viram no pedido de liminar para a prorrogação da CPI do INSS a oportunidade de dar o troco.

Foram oito votos a dois contra a prorrogação. Com a exceção do relator André Mendonça, que concedeu a liminar, e do ministro Luiz Fux, todos os demais votaram contra.

Coube ao decano Gilmar Mendes as críticas mais duras e diretas. “O problema maior é a falta total de escrúpulo, porque se divulgam dados confiados exatamente na certeza da impunidade. Foi o que ocorreu agora. Pessoas adultas já velhas, com mais de 60 anos, entrando na sala da CPI com óculos para depois ficar contando coisas. Isso é indigno para o Parlamento.”

Ele se referia a vazamentos da CPI do INSS, cujos servidores efetivamente descumprem a lei. Teve muita fofoca circulando por aí sobre a vida do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, mas também saíram de lá muitas informações de interesse público.

Foi graças ao trabalho da imprensa que se soube das conversas entre o ministro Alexandre de Moraes e Vorcaro no dia em que o banqueiro foi preso – diálogos ainda não explicados pelo ministro.

A CPI do Crime Organizado também está nos calcanhares do Supremo com pedidos de quebra de sigilo da Maridt, que pertence ao ministro Dias Toffoli, e do fundo Arleen. O fundo Arleen, do ecossistema de Vorcaro, comprou a participação da Maridt num resort de luxo no Paraná. Ambos os pedidos foram derrubados por Gilmar.

Para negar a prorrogação da CPI do INSS, os ministros criaram jurisprudência diferente entre abrir CPIs e prorrogar CPIs. Nas palavras de Moraes, abrir CPIs seria direito da minoria, já prorrogar CPIs fica nas mãos da maioria. E o prazo de duração da comissão deve ser seguido.

Davi Alcolumbre, portanto, pode continuar quieto e simplesmente não ler o pedido da prorrogação da CPI do INSS, o que significa que os trabalhos se encerram amanhã.

Caberá à Polícia Federal esclarecer os descontos indevidos nas contas dos aposentados e, principalmente, as ligações entre Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, com o Careca do INSS.

Irritado com o comportamento dos parlamentares, o Supremo comprou o desgaste junto à opinião pública. Quem respira aliviado, por enquanto, é o Palácio do Planalto.

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STF AMENIZOU, MAS NÃO ACABOU COM OS PRIVILÉGIOS

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Até que o Congresso resolva fazer valer a Constituição, ficam valendo os penduricalhos ditos aceitáveis

O problema é que os parlamentares têm zero disposição de mexer nas regalias da casta à qual pertencem

Daquilo que deu para entender do juridiquês castiço falado por ministros do Supremo Tribunal Federal na decisão sobre os penduricalhos salarias no serviço público, temos que as regalias continuam.

Amenizadas, mas estão lá na permissão a que sejam pagos adicionais até 70% do teto estabelecido por lei, divididos em dois blocos de 35%. Afora a linguagem, as contas também soam complicadas. Mas, para a compreensão de quem paga a conta, a coisa é clara: ficam legalizados pagamentos acima do teto constitucional de R$ 46,3 mil, que agora passa dos R$ 78 mil.

No afã de se recuperar dos danos de reputação, o STF se dispôs a dar um jeito na farra. Em duas decisões liminares os ministros Flávio Dino e Gilmar Mendes deram a impressão de que a ideia seria acabar com os tais badulaques. Ilusão desfeita no plenário, cioso —como deve ser— na observância da "segurança jurídica".

Verbas extras asseguradas por institutos legais criados ao longo de anos em que o assunto esteve distante do escrutínio público ficam, portanto, garantidas. A menos, assentou o tribunal, que o Congresso venha a instituir novo regramento para fazer valer o dito no texto original da Constituição de 1988.

Transferida a questão para o foro adequado do Legislativo, vão-se os absurdos mais escandalosos, mas ficam os puxadinhos tidos como palatáveis. E pelo que se depreende da disposição do Parlamento em mexer na casta da qual faz parte, a chance é zero de se ter uma solução moral e legalmente aceitável.

O argumento dos legisladores é que esse não é assunto para ano eleitoral. Mera manobra protelatória. Na verdade, no fervilhar da campanha seria o momento ideal, pois é quando os dependentes de votos são levados a ouvir a voz das ruas.

Alguma dúvida sobre o que pensa a maioria sobre sustentar privilégios de uma minoria? Pois é, por isso, para que fique tudo como está, decidem deixar passar a temporada de demandas até que se inicie o período de cobranças sobre o governo prestes a começar. Ou recomeçar.

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VIOLAÇÕES JURAMENTADAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Parlamentares aprovam norma que sabem ser inconstitucional

Por cálculo político, autoridades deixam o erro passar

Se a tolerância está se tornando artigo raro no debate público, ela abunda em meios políticos. E eu falo aqui da pior das tolerâncias, que é a tolerância com o erro.

No Brasil, todas as autoridades eleitas, para tomar posse, juram cumprir e defender a Constituição. Idêntico compromisso é exigido de certas autoridades não eleitas, incluindo ministros do STF. Há situações em que surgem dúvidas legítimas em relação ao que o constituinte quis estabelecer, mas também há casos em que o texto da Lei Maior é anormalmente cristalino. É o que ocorre com o artigo 15, que diz que os direitos políticos de presos só podem ser suspensos após condenação penal definitiva.

A clareza do dispositivo não impediu deputados e senadores de aprovarem a Lei Antifacção, cujo artigo 13-A retira o direito de voto de presos provisórios, se houver indícios de que tenham ligação com organizações criminosas. Os parlamentares que aprovaram isso violaram seu compromisso de zelar pela Constituição. Quem vir aí quebra de decoro não estará materialmente errado.

E há mais. A equipe jurídica do Planalto identificou a inconstitucionalidade, mas o presidente Lula preferiu lavar as mãos e não vetou o malfadado artigo (vetou outros). Até entendo as razões. Imagino que a direita do TikTok já tinha prontos os vídeos que colocaria no ar acusando Lula de pôr assassinos e estupradores para votar se ele o tivesse feito. Mas, institucionalmente, o presidente errou. Se a inconstitucionalidade é patente, ele teria de vetar.

A questão inevitavelmente chegará ao STF. Quero crer que os ministros farão o que a Carta determina, mas, se o clima entre a corte e o Congresso estiver muito pesado, não me parece impossível que os magistrados se furtem a julgar.

É triste quando o cálculo político imediatista se sobrepõe ao que deveriam ser consensos inegociáveis do sistema democrático. Se você discorda de algum dispositivo constitucional, há regras para modificá-lo. Elas não incluem gambiarras legislativas nem cegueiras seletivas.

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'O BRASIL NÃO ESTÁ DIVIDIDO, ESTÁ CANSADO'

Andrea Jubé, Valor Econômico

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva acredita - e ele está certo - que a prova de que um assunto caiu na boca do povo é se virou conversa de bar. Foi o que ele afirmou em evento de lançamento do programa “Acredita”, de oferta de crédito para micro e pequenos empreendedores. “Nós precisamos transformar o ‘Acredita’ em assunto de mesa de bar, é preciso que as pessoas saibam que ele existe”, defendeu, em discurso de 18 de outubro de 2024.

Dois anos antes, a tese soou exagerada. Em março de 2022, em um evento da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (Uerj), Lula disse que os brasileiros resolveriam a guerra da Rússia com a Ucrânia numa mesa de bar. “[Essa guerra] seria resolvida aqui no Brasil numa mesa tomando cerveja, se não na primeira, na segunda. Ia até acabar as garrafas para um acordo de paz.”

De fato, segundo pesquisas qualitativas (encomendadas por um político influente em sua base eleitoral), o que realmente caiu na boca do povo e está circulando nas mesas de bar é o rombo de R$ 52 bilhões no Fundo Garantidor de Crédito (FGC) provocado pela crise do Banco Master, que envolveu autoridades de todos os Poderes. A prisão do ex-banqueiro Daniel Vorcaro, os diálogos dele com a ex-namorada Martha Graeff e a agenda de contatos chegaram aos botecos, aos restaurantes com estrela Michelin, aos pontos de ônibus, às corridas de aplicativos, em suma: há tempos um escândalo político e financeiro não alcançava os brasileiros com tamanha amplitude, sem distinção de renda ou classe social.

Estes levantamentos mostraram que as pessoas até aprenderam os nomes de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). O único deles com a imagem preservada seria André Mendonça, relator do caso Master na Corte, e responsável pela prisão de Vorcaro e demais envolvidos nas denúncias.

Uma conclusão é de que a crise recai, especialmente, sobre o governo porque a população entende que o presidente da República é o responsável por nomear os ministros do STF, o presidente do Banco Central (BC), o diretor-geral da Polícia Federal (PF), entre outras autoridades. Neste cenário, os brasileiros buscam um líder que tenha autoridade para conduzir o Brasil para longe deste lamaçal, e para um caminho de prosperidade, sem violência e corrupção.

Para o presidente do Instituto Locomotiva, Renato Meirelles, os efeitos do escândalo Master recaem não apenas sobre o governo, mas sobre todos. “Se recai sobre todo mundo, a perspectiva de que todo mundo é igual, aumenta”, alertou. Acrescentou que esta conjuntura estimula o sentimento antissistema. “Sempre quem está no governo sofre mais se o ambiente generalizado é um ambiente de crítica ao sistema, porque o governo é sistema”, completou.

Para Meirelles, que é especialista em comportamento e opinião pública, não é o caso de afirmar que a população brasileira está rachada. “O Brasil não está dividido, está cansado”, alegou. “Cansado é diferente de dividido, vamos entrar na eleição com o eleitor cansado, inclusive das brigas [das eleições] de 2022 e 2018.”

Diante disso, os líderes das pesquisas, Lula e o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) conseguem se colocar como a solução que os brasileiros cansados buscam? Não há resposta por enquanto. Para Meirelles, Flávio não conseguirá encarnar o “antissistema” como Jair Bolsonaro, porque tem esqueletos no armário, que ainda serão explorados, e não tem a virulência do pai. Quanto a Lula, ainda está operando no modo “institucional”. Somente o “Lula em campanha” poderá dar esta resposta.

Além do impacto eleitoral do escândalo Master, Meirelles pondera que a realidade econômica, como sempre, também influenciará o voto. Observa que não adianta o governo exaltar dados da inflação ou do Produto Interno Bruto (PIB) porque a macroeconomia não importa, e sim, a microeconomia. E segundo ele, as pessoas estão se endividando com novas “necessidades” como apostas em “bets”, canetas emagrecedoras e compras em marketplaces internacionais (como Shein e Shopee), que não geram empregos no Brasil.

Ainda assim, Meirelles acredita que na questão da economia, o governo atuará para criar uma “sensação de que as coisas estão melhorando”. Há programas de crédito em gestação, e a expectativa é de que o dinheiro volte a circular, movimentando, principalmente, o varejo, com o Dia das Mães, dos Pais e das crianças no radar.

O presidente do Locomotiva sustenta que pelo menos 30% do eleitorado está em disputa. Esta é a parcela dos brasileiros que se mostram dispostos a mudar de ideia quanto à avaliação do governo. Ou seja, quem acha ruim hoje pode ter outra opinião à frente, e vice-versa.

“Política é ciência humana, os aspectos relativos à definição do voto não são cartesianos”, observou. Por exemplo, como estará a saúde do Bolsonaro? Como o eleitor reagirá quando Lula disser que estará pedindo o seu voto pela última vez?

Meirelles sustenta que a máquina pública continua sendo uma vantagem. “A reeleição foi feita para reeleger, e a derrota de Bolsonaro [em 2022] foi a exceção da exceção.” Isso ainda torna Lula favorito. Mas adverte que será uma disputa tão acirrada quanto a anterior, que “será dada no segundo turno, com dois, três pontos de diferença”. Como no “photo finish” das corridas de cavalos.

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quinta-feira, 26 de março de 2026

UM ESTRANHO NO NINHO

 

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

O Banco Central brasileiro destoou do tom de preocupação de outros BCs com os efeitos da guerra

Os investidores correram para refazer suas apostas para a trajetória de juros nas maiores economias do mundo depois que os bancos centrais deixaram um recado mais duro do que o esperado sobre os riscos para a inflação com a alta nos preços dos combustíveis, em razão do conflito no Oriente Médio. Mas um deles destoou desse tom de preocupação: o BC brasileiro.

É verdade que a decisão do Copom, iniciando o ciclo de corte de juros com redução mais suave da taxa Selic, de 15% para 14,75%, veio em linha com a projeção do mercado. É verdade também que o Copom admitiu que os riscos para a inflação se intensificaram após o início da guerra no Irã. E ainda reafirmou a postura de “serenidade e cautela”.

Mesmo assim, manteve o balanço de riscos para a inflação exatamente igual ao da reunião anterior, antes da crise no Oriente Médio e da alta no preço do petróleo, com o barril do Brent ainda próximo de US$ 100. Para a surpresa de muitos, o Copom destacou que “os indicadores do final de 2025 mostraram desaceleração na atividade econômica”. A visão de consenso é outra: de evidente reaceleração da economia no primeiro trimestre de 2026. Além disso, a projeção de inflação para o horizonte relevante da política monetária (terceiro trimestre de 2027) passou de 3,2% para 3,3%, enquanto a expectativa era de revisão para, no mínimo, 3,4%. A ata da reunião não veio muito diferente do comunicado.

Já o Banco Central Europeu, que manteve inalterada a taxa básica, elevou a projeção de inflação em 2026 de 1,9% para 2,6%. Sua estimativa para o núcleo da inflação em 2027 passou de 1,9% para 2,2%, indicando o risco de a alta no custo de energia se propagar para outros preços. Na Inglaterra, o banco central manteve a taxa parada, mas alertou que “estava pronto para agir”. Os investidores já precificam três altas de juros na Zona do Euro e na Inglaterra até o fim do ano.

No Japão, o BC sugeriu que pode elevar os juros em abril. Na Austrália, aliás, o BC subiu sua taxa pelo segundo mês consecutivo e sinalizou mais aperto adiante. Nos EUA, o Federal Reserve deu maior ênfase aos riscos à inflação com a alta do petróleo, levando o mercado a praticamente eliminar as apostas de corte de juros em 2026.

Mesmo que no Brasil a Selic siga em nível restritivo, o Copom não fez qualquer menção do risco de pausa no ciclo de corte de juros se a situação no Golfo Pérsico piorar ou o preço do petróleo ficar elevado por muito tempo. Pelo contrário: deixou aberta a porta para acelerar o corte para 0,50 ponto porcentual na próxima reunião.




https://www.estadao.com.br/politica/marcelo-godoy/farra-na-seguranca-assembleia-aprova-projeto-que-cria-delegados-sem-delegacia-e-promocao-automatica/

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PÁGINAS DE FOFOCA NO ATAQUE

Do ICL NOTÍCIAS

Perfis de fofoca nas redes com milhões de seguidores atacam governo Lula e promovem Tarcísio

Páginas publicam inúmeras postagens com críticas ao governo Lula e exaltando políticos de direita e extrema direita

Vários perfis de fofoca nas redes sociais com muitos milhões de seguidores têm se dedicado com afinco a uma tarefa que nada tem a ver com as histórias de bastidores dos astros e estrelas da TV. Fugindo completamente ao estilo esperado para esse tipo de conteúdo, essas páginas publicam muitas postagens com críticas ao governo Lula e exaltando políticos de direita e extrema direita, em especial o governador de São Paulo, Tarcísio de Feitas (Republicanos).

Muitos desses perfis foram notícia no fim de 2025 por terem sido flagrados fazendo campanha a favor do banco de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central, que acabara de liquidar o Master. A campanha foi alvo de investigação da Polícia Federal.

É o mesmo modus operandi dos ataques a Lula e elogios aos políticos de direita.

Uma das páginas principais a seguir esse roteiro é a Alfinetei, que tem mais de 25 milhões de seguidores no Instagram. O perfil é a 46ª conta brasileira mais seguida no Instagram, estando no mesmo patamar de famosos como o Padre Fábio de Melo, a atriz Grazi Massafera e a cantora Simaria.

O perfil no Instagram é patrocinado pela 7games.bet, site de apostas que pertence a Fernando Oliveira de Lima, CEO da One Internet Group (OIG), um dos responsáveis pela popularização do jogo do Tigrinho no Brasil. Ele é amigo do senador Ciro Nogueira (PP-PI), opositor ao governo e que fez parte do governo de Jair Bolsonaro.

Em um rápido passeio pelo perfil Alfinetei é possível ver várias postagens que nada têm a ver com fofoca sobre famosos. Em uma das publicações recentes, o perfil compartilha um vídeo com o título: “Influenciador detona governo Lula: ‘Governo miserável, maldito e sem vergonha’. O post, que conta com mais de 114,2 mil curtidas e 10 mil comentários, divulga a logotipo da 7games.bet.

O mesmo modelo de publicação pode ser visto em diferentes posts da página. Em outra, o perfil compartilho um vídeo de outro “influenciador” que critica o governo do presidente Lula pela cobrança do IPVA, o  imposto sobre a propriedade de veículos automotores, que é de responsabilidades dos governos estaduais. O post também conta com o patrocínio da 7games.bet, de Fernando Oliveira de Lima.

Em uma das publicações, a Alfinetei reproduz o print de uma publicação de um usuário da rede social “X”, o antigo Twitter, criticando o programa Gás do Povo, do governo federal, que distribui gás de cozinha gratuitamente para às famílias de baixa renda. O post, assim como os outros, também divulga a mesma casa de apostas.

Outra página que reproduz esse tipo de conteúdo é a Babadeira, com 2,7 milhões de seguidores no Instagram. A página tem algo em comum com a Alfinetei: ambas contam com o mesmo “embaixador” na legenda, a 7games.bet, de Fernando Oliveira de Lima.

Em uma publicação recente, o “Babadeira” publicou uma imagem afirmando que “Flávio Bolsonaro deve derrotar Lula de forma história em 2026”. Em outro post, o perfil escreveu, em tom depreciativo, que o presidente Lula “chama atenção por não ter nenhum curso superior”.

No ICL Notícias – 1ª edição desta quinta-feira (26), o jornalista Leandro Demori comentou sobre as publicações dessas páginas. “Isso chega em todo mundo, o cara que está indignado em casa porque foi sacaneado com IPVA, o maluco andando no meio da rua dizendo que o governo Lula é isso ou aquilo e aí, está lá a 7games.bet, do Fernandinho OIG e o Ciro Nogueira, que estão envolvidos nessa história toda”, disse.

Por outro lado, a Alfinetei e outas páginas fazem publicações enaltecendo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de outros políticos de direita e extrema direita. Em uma das publicações, a página compartilhou um vídeo publicado nas redes de Tarcísio em que o governador rebate à propaganda de ano novo da marca Havaianas.

No título, o perfil destaca uma fala em que Tarcísio afirma que, em São Paulo, vai “começar o ano com o pé direito”. Na legenda da publicação, há referências à obra do primeiro trecho do Rodoanel Norte. A postagem conta com mais de 53,3 mil likes e 3 mil comentários.

O modus operandi é repetido por outras páginas, como a Otariano. Em uma publicação, o perfil também faz propaganda da entrega da obra do primeiro trecho do Rodoanel Norte, na região metropolitana de São Paulo. Em destaque, está uma foto do governador Tarcísio de Freitas.

A obra do Rodoanel também apareceu na página Fofoquei, que tem mais de 7 milhões de seguidores no Instagram. A publicação também conta com uma foto de Tarcísio em destaque.

Em outra publicação, a Aflinetei publicou o reencontro do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) com as famílias, com “EM FAMÍLIA” em destaque.

“Até onde eu sei, isso não é permito no Instagram. A gente, do ICL, sofre, muitas vezes, quando a gente faz algum documentário que tem uma linha mais política. Quando a gente quer promover os nossos documentários, como o do caso Master, o Instagram muita vezes bloqueia, alegando que é propaganda política, e a gente nem pode recorrer. Eu quero perguntas pro Instagram: O vídeo de um cara que se diz influenciador em uma conta verificada, a empresa sabe quem são os donos, como o Instagram permite que tenha uma bet de um cara investigado, brother do Ciro Nogueira, fazer esses posts?”, analisou o jornalista Leandro Demori.

“É a mesma cepa de conta contratada pelo Vorcaro para bater em seus desafetos. O Vorcaro contratou influenciadores de política. A Alfinetei está envolvida no escândalo do Banco Master”, salientou Demori.

Publicações impactam debate público, diz analista de redes

O analista de redes Pedro Barciela comentou sobre esses tipos de publicações por páginas de fofoca. Segundo ele, o fenômeno já produz efeitos concretos no debate público e vem se consolidando há meses.

“Isso já impacta. A verdade é que esse processo vem tomando forma há alguns bons meses, para dizer o mínimo. E ele espelha algo que aconteceu em 2022, que o bolsonarismo se incomodava bastante: a proximidade entre perfis de fofoca e não polarizados com a campanha do Lula, naquele momento. Eles perceberam que aquilo gerava engajamento e passaram a explorar esse tipo de estratégia”, comentou.

Barciela destaca, no entanto, que há novos elementos no cenário atual, incluindo indícios de uso coordenado dessas páginas para campanhas específicas. “Só que agora há indícios diferentes. Existem páginas, como Babadeira e Alfinetei, por exemplo,  sobre as quais já há denúncias de que foram, no mínimo, contactadas para campanhas pagas de ataque ao Banco Central, naquele contexto recente. Há posts patrocinados, o que caracteriza propaganda. É algo bastante significativo”

Em um monitoramento feito na semana passada com os posts no Instagram e Facebook que mais geraram interações citando Flávio Bolsonaro, Barciela identificou que quatro dos cinco principais eram do Alfinetei. Apenas um era do perfil do próprio Flávio.

“Isso dá uma dimensão do impacto. Quando você olha dados diários ou semanais, isso não fica tão evidente. Mas ao analisar um período mais longo, de dois a três meses, fica claro o peso que essas páginas têm para impulsionar determinados atores políticos”, salientou.

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DERRADEIRO GOLPE

Merval Pereira, O Globo

Castro demonstrou má-fé nesse derradeiro gesto de governo, para tentar, com uma votação indireta para o governo do estado, eleger um correligionário na Alerj que o ajudaria na campanha a senador.

A tentativa do ex-governador do Rio Cláudio Castro de escapar da punição renunciando um dia antes da decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sobre a cassação de seu mandato se parece em tudo, menos no resultado, com a do ex-presidente Collor, que, apesar de ter renunciado, foi cassado pelo Congresso Nacional. O então presidente, no entanto, tinha um vice-presidente que assumiu o posto e, no caso do Rio de Janeiro, houve tripla vacância, pois o vice-governador e o presidente da Alerj não estão em condições de assumir por questões legais.

Castro demonstrou má-fé nesse derradeiro gesto de governo, para tentar, com uma votação indireta para o governo do estado, eleger um correligionário na Alerj que o ajudaria na campanha a senador. Mas foi considerado inelegível pelo TSE e disputará a eleição sub judice. O deputado Douglas Ruas, candidato de Castro ao governo do estado, poderá se candidatar a um segundo mandato caso vença a eleição indireta para o mandato-tampão, enfrentando o ex-prefeito Eduardo Paes.

O estado do Rio de Janeiro, mais uma vez, vive uma situação esdrúxula e chega a mais um ciclo eleitoral sem ter resolvido seus dilemas mais profundos. Vive, há décadas, contínua deterioração fiscal, institucional e social que não pode ser explicada apenas por crises conjunturais, ciclos econômicos adversos ou mudanças de governo. O problema do Rio é estrutural e, como tal, exige decisões políticas de longo prazo que têm sido sistematicamente adiadas.

A sucessão de escândalos de corrupção, a fragilidade crônica das finanças públicas, o avanço do crime organizado sobre territórios e serviços, a baixa qualidade das políticas públicas e a dependência excessiva das rendas do petróleo formam um quadro de vulnerabilidade que, há muito, se retroalimenta. O estado parece funcionar sempre no limite da emergência, incapaz de planejar o futuro. Afinal, mal consegue administrar o presente.

Nesse contexto, o livro “Um renascer para o Estado do Rio de Janeiro” (Editora Lux) — organizado por Fabio Giambiagi, Marco Aurelio Cardoso e Guilherme Tinoco, com artigos analíticos de 27 especialistas — surge como contribuição relevante ao debate público. A obra, a ser lançada hoje, não traz atalhos fáceis, mas reúne diagnósticos rigorosos e propostas factíveis para romper o ciclo de improvisação que marca a história recente fluminense.

Violência e (in)segurança, finanças estaduais, fragilidades institucionais, concessões públicas, royalties, economia criativa, mobilidade urbana, saúde e educação. O diagnóstico é amplo e incômodo. Praticamente nenhuma política pública relevante escapa do radar dos autores. Os organizadores do livro ressaltam que a sequência de fracassos político-administrativos do estado do Rio não é recente. Desde a fusão do antigo Estado da Guanabara com o restante do território fluminense, em 1975, consolidou-se um sistema de governança marcado por concentração de poder, baixa coordenação federativa e uso recorrente do orçamento como instrumento de acomodação de interesses.

O resultado foi a expansão desordenada de gastos, incentivos fiscais pouco transparentes e uma estrutura estatal capturada, em diferentes momentos, por coalizões políticas de curto prazo. A dependência das receitas do petróleo é talvez o maior símbolo dessa armadilha. Royalties e participações especiais passaram a financiar despesas permanentes, em vez de investimentos estruturantes. Agora, diante da transição energética global e da economia de baixo carbono, o que antes era conforto tornou-se risco. O declínio do estado não é inexorável, mas o livro ressalta que a reversão depende de escolhas políticas claras e custosas. A obra se coloca como leitura estratégica num ano em que os brasileiros escolherão presidente, governador e parlamentares. Sem enfrentamento da corrupção, sem reequilíbrio fiscal permanente, sem diversificação econômica e sem recuperação da capacidade do estado de impor regras, qualquer promessa de retomada será apenas retórica eleitoral.

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