domingo, 16 de agosto de 2026

A ÚLTIMA DEMOCRACIA

Vagner Gomes*, Voto Positivo

Dedico aos alunos José Gabriel, Cassiano Salvador e Vanderson Braga, da Rede Estadual de ensino, que me ajudaram a pensar na necessidade de elaborar esse texto.

"Por outro lado, a missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. E nesse caso o rei ou soberano também faz delas uma lei para si mesmo, com o que se sujeita, não ao doutor ou apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus, e a seu Filho Jesus Cristo, de maneira tão imediata como o fizeram os próprios apóstolos." (Thomas Hobbes – Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.)

O filme A Última Casa atingiu o nível de milhões de expectadores ao redor de um mundo em que, assim como a casa em ruínas da família Delgado, a Democracia está com riscos de desabar em muitos casos. A volta da incerteza sobre a Democracia está acompanhando as incertezas sobre o futuro da humanidade. O suspense está no ar e percebemos que esse é o gênero que muito tem animado o olhar dos jovens na atualidade. Muito diverso do suspense-denúncia da ganância do “livre mercado” que observamos em dois filmes de Steven Spielberg: “Tubarão” (1975) e “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros” (1993). Nesses dias de iliberalismo político observamos os jovens testando suas ansiedades em filmes de roteiros sombrios, como que se estivessem antevendo um tragédia que não se sentem capazes de evitar. Isso exposto, nos faz pensar de como o filme “A Odisseia” (2026) ganhou um profundo silêncio entre os jovens.

Não podemos deixar despercebido que a família Delgado é resultado do enlace de imigrantes nos Estados Unidos onde Jason (nome que nos faz lembrar a sequência de filmes de terror “Sexta-feira 13”, iniciada em 1980) é um Engenheiro desempregado que está “afogado” em dívidas. Greta Lee – celebrizada por sua atuação no filme romântico “Vidas Passadas” (2023) – faz a personagem materna do filme, e pouco se sabe dela além de sua capacidade em cuidar dos seus familiares com o reaproveitamento das sementes. Não há nenhuma menção de como os dois se conheceram. Isso não é importante num mundo em que as relações sociais foram transferidas para as telas dos smartphones. Os dois filhos vivem a clássica relação do irmão mais velho e a irmã mais nova, mas o evento que faz iniciar a trama os faz repensar essa relação ao longo do filme.

Trata-se de uma desolada classe média norte-americana em que os vizinhos não se comunicam e a Casa seria um refúgio de segurança e manifestação de seu individualismo. Nessa sociedade fragmentada, o sistema político funciona como se fosse um condomínio de casas, mantendo a sociedade isolada. E o evento que causa pânico na família Delgado aprisiona todos no isolamento como se fosse uma forma de manter a resistência. Nos primeiros momentos aparece uma frase das “Teorias Conspiratórias”: “Isso é coisa do Governo”. Mas uma criança diz: “Parece que querem nos punir”. Como se houvesse uma divindade nos julgando em algum lugar.

O confinamento social nos reinsere a inversão do “Mito da Caverna” de Platão (428 A.C. – 347 a.C.). Segundo o filósofo grego, presos acorrentados numa caverna achavam que as sombras refletidas na parede da mesma eram monstros reais. No filme, as sombras eram monstros reais enquanto que a família estava presa numa fantasia de harmonia. “Vamos sobreviver”. Como se esse fosse o legado futuro da humanidade que desfere um arrepio diante das palavras como Democracia e tolerância política. Além disso, muitos na juventude não reconhecem na sabedoria e no método científico uma oportunidade de sair do confinamento de suas realidades. Os jovens desejam os vazios de sabedoria dos pátios escolares ao contrário da persistência da “pesca” de animais, que Jason empreende no filme em uma sequência de experiências. Temos um debate sobre o conteúdo que se deve estudar numa realidade atípica, ou seja, “vamos aprender algo que vocês precisam saber para o usarem no futuro”: limpar peixes.

Os pescadores foram convidados para seguir Jesus Cristo. E o engenheiro revela que um dia foi um pescador. O peixe está na simbologia do cristianismo assim como a compaixão. Os dois elementos estão no filme de uma forma que talvez poucos tenham percebido, uma vez que uma leitura sobre um filme nos faz muito pensar sobre os malefícios que desejam para o sistema democrático, principalmente através de atalhos por experiências de “democraduras” (perfis autoritários com legitimidade no voto).

Neste sentido, provavelmente essa seja a explicação da aparição do Leviatã no filme. Então, o livro de Tomas Hobbes (1588 – 1679) emerge das profundezas do mar de nossas considerações como se estivesse a clamar por mais atenção. Hobbes escreveu Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil (1651) em plena Guerra Civil Inglesa, o que nos instiga a pensar sobre um contexto de muitas conjecturas sombrias no debate do sistema político. Dividido em quatro partes, nos chama a atenção que a Terceira Parte se chame “Do Estado Cristão” que antecede “Do Reino das Trevas”. Uma suposta explicação para um desfecho do filme numa bela crítica aqueles que observam pontos positivos numa suposta “democracia imediata e polarizante”.

*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e professor de História na Rede Estadual de Ensino no Rio de Janeiro.

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UM CACIQUE CONTRA TEMPESTADES

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Acordo entre Prefeitura do Rio e Fundação Cacique Cobra Coral desperta troll das redes sociais

Pretensão à racionalidade absoluta é contradição em todo fiel religioso

Publicado no Diário Oficial, um acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Cacique Cobra Coral despertou o troll das redes sociais. No caso, a trollagem é máscara pública do senso comum quando se trata do sobrenatural popular, fora do escopo oficial. Para o melhor juízo, é perfeitamente natural o sobrenatural da religião (católica, evangélica, islâmica), não qualquer outro que se candidate à crença. O "creio porque é absurdo", relativo à ressurreição de Cristo, vigora até hoje, desde a sua sugestão por Tertuliano (155-220). Absurdo ("ineptus", em latim), com o sentido de não racional, tem dono teológico.

Mas não é propriedade consensual, tamanha a diversidade da fé. Quando 86% dos eleitores brasileiros opinam numa pesquisa recente que um candidato à Presidência deveria acreditar em Deus, se a resposta não é preconceituosa, vale para a divindade de todas as crenças. O acordo oficializado é, na verdade, renovação de um convênio de administrações anteriores do Instituto Geotécnico da Prefeitura com a organização mística. Desde 1931, a fundação oferece prestação gratuita de serviços que amenizariam a fúria dos elementos naturais, como tempestades e inundações. Isso, por ação sobrenatural de uma entidade denominada Cacique Cobra Coral, incorporado pela médium Adelaide Scritori.

Até aqui, o absurdo já arrepia as belas almas, senão o discurso cientificista que rege a formação do senso comum. O plus é que esse convênio não é exclusivo do Rio, por ser longa a lista de instituições, no Brasil e no exterior, que sempre solicitaram os préstimos do Cacique Cobra Coral. Ela inclui a realeza britânica, observatórios de prestígio, centros militares e administrações estatais. Os EUA e a Argentina mantinham acordos que acabam de ser cancelados pela fundação, como retaliação pela animosidade contra os brasileiros. O cacique é nacionalista.

"E agora, José?", perguntaria Drummond. "Sobrenatural de Almeida pede a palavra", responderia Nelson Rodrigues. Era um personagem, entidade invisível a cargo do absurdo no futebol. Explicar o inexplicável, tal o desafio que essa invenção literária hoje compartilharia com adeptos reais dos prodígios do cacique. O personagem jornalístico jamais chegou ao teatro de Nelson, mas há algo de teatral na atitude pública desses adeptos: a hipocrisia. É palavra complexa. "Hypokrites", no teatro grego da Antiguidade, era o ator que expressava, por meio da máscara de um personagem, sentimentos alheios à sua pessoa real. Hoje se aplica a quem finge certos valores e age de forma contrária. Ou então, quem diz o que não pensa, como no troll.

É o caso dos atores sociais que apelam aos serviços do Cacique Cobra Coral, enquanto o denegam publicamente. São reféns do embaraço ocidentalista presente em toda crença no sobrenatural, seja qual for a divindade: o cruzamento entre mito e história. Por isso, acredite quem quiser, sem culpa. O que aqui está em questão não é a veracidade do fenômeno, mas a contradição de todo fiel religioso que se pretenda absolutamente racional. Corajoso, no mínimo, é o ato da prefeitura: recusou oficialmente a hipocrisia oficial.

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LIXÃO DE CACARECOS EM ÓRBITA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Começou com o humilde Sputnik em 1957; hoje há mais de 1 milhão de objetos no espaço

Uma arruela de 2 centímetros, voando a 28 mil quilômetros por hora, pode esburacar uma nave

Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" —o único som que emitia— era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites.

Em 1959, um deles caiu no galinheiro de Oscarito, no filme "O Homem do Sputnik", dirigido por Carlos Manga, talvez a melhor chanchada da Atlântida. No Carnaval de 1961, em "A Lua é dos Namorados", marchinha de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, Ângela Maria protestou com "Lua, ó Lua/ Querem te passar pra trás/ Lua, ó Lua/ Querem te tirar a paz".

Em 1965, Pery Ribeiro e Leny Andrade intitularam "Gemini V", missão tripulada da Nasa que ficou uma semana no espaço, um dos shows mais vibrantes da chamada Space Age. E, em 1967, Gilberto Gil fez coro à angústia de "A Lua é dos Namorados" com a marcha bossa nova "Lunik 9", sonda soviética que pousara na Lua e enviava fotos para a Terra.

O problema é que tudo que se manda para o espaço, exceto os humanos, fica por lá e, nesses quase 70 anos, o cinturão de cacarecos em órbita chegou a níveis dramáticos. Estima-se que haja hoje 1 milhão de objetos de até 10 cm em órbita, voando a 28 mil quilômetros por hora, e dezenas de milhares maiores do que isso. Só que o choque de uma arruela de 2 cm contra uma nave pode furar o revestimento desta e provocar despressurização. Colisões geram mais detritos e estes, ainda mais poluição.

O homem não se contenta em emporcalhar as terras, os mares e a atmosfera. Manda sua sujeira até para o espaço e periga fazer de nós o galinheiro do Oscarito.

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MESMO SE FLÁVIO BOLSONARO PERDER, DIREITA MASTER DEVE GANHAR TODO O RESTO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, caso foi o petrolão da direita

Público pode achar que Lulinha fazendo lobby na Saúde é comparável ao maior escândalo financeiro do Brasil

As forças políticas que roubaram com o Master, tentaram salvar o Master e receberam dinheiro do Master devem ser as grandes vencedoras da eleição deste ano.

Talvez não consigam eleger Flávio Bolsonaro presidente. Mas devem ganhar o resto. E, mesmo se Lula vencer, terá que fazer acordos com eles.

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, o Banco Master foi o petrolão da direita. A prevalência de direitistas entre os envolvidos é esmagadora. A direita roubou muito mais com o Master, ganhou muito mais dinheiro do Master e tentou salvar o Master praticamente sozinha.

Se algum jornalista ou político de direita quiser discutir esses números em público, será um prazer.

Infelizmente, a democracia brasileira não tem sistema imunológico para lidar com esses fatos. Direitistas específicos podem ser denunciados e presos, mas ninguém com poder, inclusive na mídia, está disposto a denunciar a direita quando isso de fato ameaça a hegemonia conservadora no sistema político brasileiro.

E se a imprensa não fizer, quem fará? O Congresso, que é dominado pela direita porque fizemos nossa transição democrática com a classe política herdada da ditadura? O Judiciário, que tem gente grande envolvida com o Master e sabe que sua melhor chance de sobreviver é ajudar a direita a matar a investigação? Desde o impeachment de Dilma Rousseff sabemos que a direita tem mais poder para abafar escândalos do que a esquerda.

A direita não vai pagar preço nenhum por ter causado a maior fraude do sistema financeiro brasileiro. Os direitistas que perderem seus cargos por seu envolvimento com o Master devem ser substituídos por outros candidatos dos partidos que bancaram o Master.

O caso mais emblemático deve ser o Distrito Federal. A conta da operação bolsonarista para salvar o Master com o BRB mal começou a chegar. Há um risco real de Brasília ficar sem seringas nos hospitais e sem merenda nas escolas. Mesmo assim, os bolsonaristas do Distrito Federal devem conquistar as duas vagas para o Senado em disputa este ano.

O público brasileiro foi exposto a uma visão tão difusa dos culpados do Master que pode perfeitamente achar que Lulinha fazendo lobby por canabidiol no Ministério da Saúde é comparável ao que a direita fez durante o maior escândalo financeiro da história brasileira.

É possível que Augusto Lima, responsável pelo único braço do esquema Master ligado ao PT (a Bahia), faça uma delação premiada. Se acontecer, o público conhecerá mais detalhes sobre o único braço do esquema em que o PT está envolvido (a Bahia). Isso seria bom, se os outros braços do esquema, responsáveis por desvios incomparavelmente maiores, tivessem sido apresentados ao público com a associação correspondente à direita.

Sem essa informação, o público pode acabar associando o Master ao PT. Nesse cenário, a direita ganhará todos os cargos em disputa este ano como recompensa por ter cometido a maior fraude bancária de nossa história.

Como brasileiro de esquerda que defendeu a Lava Jato e passou anos pedindo uma autocrítica do PT, só posso dizer que me sinto feito de palhaço. São justamente os grandes justiceiros de 2016 que hoje mentem que o caso Master "não tem ideologia". Sim, estou falando de Moro e de Dallagnol. Mas não só deles.

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CUBA É TROFÉU PARA OS EUA

Dorrit Harazim, O Globo

País é a tentação fundamental para todo ocupante da Casa Branca desde que os barbudos de Fidel Castro tomaram o poder

Dias atrás, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, mostrou-se satisfeito por ser inquirido sobre Cuba. Era, finalmente, uma ocasião de ostentar musculatura fácil, mudar o foco da desconcertante humilhação que vem sofrendo há seis meses com a exasperante guerra sem heróis contra o Irã.

— Todas as opções estão na mesa, o que inclui opções militares, e seria sensato por parte de Cuba prestar atenção às declarações do presidente Trump sobre as prerrogativas estratégicas dos americanos — respondeu. — Com certeza [Cuba] não é páreo para os Estados Unidos... Estou animado com as muitas opções que temos.

Vestia uma camiseta verde-oliva que deixava à mostra o “We the People” da Constituição tatuado em letras garrafais no antebraço direito.

Imagem, para Hegseth, é crucial. Apesar de estar no comando do Pentágono e rebatizá-lo de Departamento de Guerra, ele conta com pouco mais do que sua estampa para sobreviver no cargo até o fim do mandato de Trump, em 2028. A audácia do rapto e substituição de Nicolás Maduro na calada da noite, na Venezuela, lhe rendeu bons louros graças à indiferença do mundo diante de violação tão gritante da ordem internacional. Mas, de resto, nada mais parece funcionar para Hegseth — nem no Irã, nem no Oriente Médio, nem com seus éditos sobre o baixo nível de testosterona nas casernas. Até o presidente Trump vem dando mostra de exasperação com seu protegido.

É nesse panorama que Cuba se apresenta de forma tentadora também para Hegseth. O “também”, no caso, importa, pois tem gente mais graúda de olho nesse troféu. Antes de tudo, Cuba é a tentação fundamental para todo ocupante da Casa Branca desde que os barbudos de Fidel Castro tomaram o poder na ilha em 1959. Já são 13 os presidentes americanos consecutivos, de Dwight Eisenhower a Donald Trump (seis democratas e sete republicanos), que tentaram remover, isolar ou mudar estruturalmente o regime cubano. Alternaram-se apenas as abordagens táticas — de tentativas de assassinato e operações clandestinas a décadas de asfixiamento econômico e alguma diplomacia na era Barack Obama. Trump, que já prometeu acabar com duas guerras em 24 horas e está atolado em três, deposita no almejado retorno de Cuba à esfera de influência dos Estados Unidos a chance de conseguir o que a História certamente lhe negará — ser chamado de estadista.

O secretário de Estado, Marco Rubio, tem interesses mais terrenos: se conseguir colocar as mãos em Cuba em tempo hábil, suas chances como presidenciável republicano em 2028 dão um salto de catapulta. A ponto de empalidecer seu concorrente mais imediato, o atual vice-presidente J.D. Vance, cuja esfera de poder passa ao largo do Hemisfério Ocidental idealizado por Trump.

Com esse pano de fundo, merece atenção um relatório divulgado duas semanas atrás pelo Departamento de Estado de Rubio. “Cuba, a Capital Comunista do Século XXI”, diz o título. O preâmbulo não é menos alarmado:

— O ataque de Cuba aos Estados Unidos nunca foi, em sua essência, uma disputa sobre política econômica, soberania ou mesmo posse de um determinado território. Foi uma revolução contra a própria civilização ocidental — travada, em parte, pelo método inédito e insidioso de persuadir os filhos do Ocidente a se voltar contra sua própria herança. Essa é a campanha que Castro lançou em 1959, e é a campanha que seus herdeiros estão travando.

Ao longo de 99 páginas, o relatório afirma que “mesmo com sua economia à beira do colapso, o objetivo fundamental do regime cubano permanece sendo a revolução marxista hemisférica capaz de apagar os Estados Unidos da face da Terra”. Não fica muito claro como ela se daria. Isso porque, “um dos maiores, mais sofisticados e perigosos vetores de influência estrangeira hostil na História moderna americana” são, segundo o documento, as ONGs, organizações ativistas, redes ideológicas e grupos de fachada cubanos. Dos tumultos antirracistas decorrentes do assassinato a frio de George Floyd à explosão do ativismo pró-Palestina nos campi universitários, tudo tem ligação “de alguma forma, à influência cubana” e sua “revolução existencial contra os Estados Unidos”. Caramba!

Philip Agee foi agente da CIA por nove anos na década de 1960. Nascido na Flórida de Rubio (cujos pais cubanos emigraram antes da revolução), morreu na Havana de Fidel Castro em 2008, execrado pela agência por ter publicado um catatau autobiográfico de quase 700 páginas narrando sua vida de espião. “Dentro da ‘Companhia’: Diário da CIA”, publicado no Brasil pelo Círculo do Livro em 1974, tornou-se um clássico. A avaliação de Agee dos motivos que levam os Estados Unidos a precisar estrangular Cuba foi feita em entrevista ao programa de TV “Alternative View” e data dos anos 1970:

— Se Cuba, um país pobre, conseguisse demonstrar que é capaz de oferecer cuidados de saúde melhores e outros avanços sociais, isso representaria uma ameaça à narrativa dos Estados Unidos sobre a superioridade de seu modelo. Muitos americanos poderiam olhar para Cuba e pensar: “Se eles conseguem fazer isso com uma renda per capita de US$ 2.000/US$ 2.500, enquanto a nossa é de US$ 22.500, que problemas existem em nosso próprio sistema?

Continua valendo.

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A HORA E A VEZ DA DIPLOMACIA

Míriam Leitão, O Globo

Em meio a tensões com diversos parceiros, o Brasil terá que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas vezes, ser o único adulto na sala

A decisão do governo brasileiro de iniciar um processo pela Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos foi tomada basicamente para não desmoralizar a lei, segundo fontes do governo. Ela foi criada exatamente para defender o Brasil em casos como esse, em que os países adotem medidas unilaterais e injustificadas. A lei existe, precisa ser acionada. Mas isso é bem diferente de retaliar os Estados Unidos, o que seria um tiro no pé.

— Não pode ser uma lei para inglês ver porque ignorá-la serviria de incentivo a novas medidas contra o Brasil, venham de onde vierem. Mas se vamos adotar as medidas de reciprocidade é outra história — explica essa fonte.

Entre empresas, associações de classe do setor produtivo, embaixadores especializados no assunto e professores de política internacional há um quase consenso de que teria um efeito bumerangue. As tarifas que subissem iriam prejudicar o consumidor brasileiro com alta dos preços, que rebateriam na inflação. Além de prejudicar ainda mais os negócios do país com os Estados Unidos.

O que se ouve no governo é que o processo tem prazos longos exatamente para tentar abrir espaço para a negociação com os Estados Unidos, tendo alguma coisa para fortalecer a posição do Brasil.

— Estaremos na mesa com algum instrumento do nosso lado. É importante ter recursos de ação e um mínimo de equilíbrio de forças para se buscar um acordo.

Esta é a estratégia do país, usar a lei para que ela não se desmoralize, aproveitar os prazos amplos para encontrar algum caminho de negociação, tendo um instrumento na mão.

A conversa com especialistas mostra que se o governo realmente quiser retaliar será desastroso. O embaixador José Alfredo Graça Lima, com uma enorme especialização no assunto, afirma que a retaliação não faz sentido do ponto de vista econômico, comercial e eleitoral. Ele acha que não haverá ganho eleitoral nenhum se a medida causar mais prejuízos às empresas, além dos que estão enfrentando com o tarifaço em si. O diplomata admite que acionar a lei pode ser a estratégia para abrir o caminho da negociação.

— A questão é o que o Brasil vai oferecer nessa negociação. Se ele não tiver um ás na manga, o movimento será inócuo — diz Graça Lima que já foi o principal negociador comercial brasileiro e hoje é vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

O embaixador avalia que, das questões apresentadas pelos Estados Unidos no processo da seção 301 da Lei de Comércio, o único ponto que pode ser discutido é a tarifa cobrada pelo Brasil no etanol americano. Porque sobre o Pix não tem uma conversa possível. E os americanos têm ignorado os avanços brasileiro contra o desmatamento.

Durante todo o período em que se deu a “investigação” americana, os negociadores brasileiros relataram que perguntavam diretamente o que eles queriam. E não obtinham resposta. No caso do desmatamento, o Brasil mostrava os dados provando que o país está colhendo este ano os menores números de desmatamento desde o início do monitoramento. Eles ignoravam as evidências estatísticas de que o problema estava sendo enfrentado por este governo. Aliás, no período Bolsonaro, as taxas de desmate aumentaram. Os negociadores então perguntavam se eles queriam mais investimentos em prevenção, fortalecimento do Ibama, mais recursos do BNDES, o que atenderia às preocupações deles. E jamais receberam resposta. Porque, evidentemente, o governo Trump nunca teve interesse real em proteção ambiental no Brasil.

O governo Lula precisará recorrer a toda a tradição, habilidade e conhecimento acumulado da diplomacia brasileira na reta final deste mandato. Há conflitos com vários parceiros. Os Estados Unidos tomaram medidas contra o país que são desleais e ferem abertamente as leis de comércio internacional. O presidente argentino atacou o presidente brasileiro de forma insultuosa diversas vezes. A China, nosso principal parceiro, estabeleceu uma cota para a compra de carne que já se esgotou, deixando produtores brasileiros sem destino para as exportações. No caso chinês é protecionismo, no argentino é provocação, no americano é agressão que tem, entre outras, motivações eleitorais. O Brasil terá que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas vezes, ser o único adulto na sala. Esta é a hora da diplomacia.

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UM RETRATO DO LOBBY DAS BETS EM BRASÍLIA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Oxfam alerta para 'avanço predatório' da jogatina e 'captura' de instâncias decisórias

Ernildo Júnior debutou no mundo das apostas num salão de sinuca em Campina Grande, no interior da Paraíba. Hoje voa de jatinho, circula entre celebridades e comanda uma das maiores bets do país.

Na quinta-feira, o dono da Pixbet se viu na mira da Polícia Federal. Ele e o advogado Nelson Willians foram os principais alvos da Operação Arena, que apura um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio com conexão em Curaçao.

Sócio do cantor Wesley Safadão e dono de uma Lamborghini, o empresário paraibano é um dos novos magnatas da jogatina online, liberada no Brasil desde 2018. Um relatório inédito da Oxfam mostra como as casas de apostas capturaram a renda de milhões de famílias, agravando o endividamento e a concentração de riqueza.

“O avanço predatório das bets drena a renda das famílias das periferias brasileiras, transformando o orçamento da subsistência e do consumo essencial em lucro financeiro privado e gerando um endividamento em massa que penaliza fortemente os mais vulneráveis”, afirma o documento “Um retrato das desigualdades brasileiras: poder, privilégio e a captura da democracia”, que será divulgado na quarta-feira.

O relatório alerta para a influência das bets na política, com forte lobby em Brasília para blindar as empresas de impostos e fiscalização. Entre 2023 e 2024, as casas de apostas participaram de ao menos 78 reuniões oficiais com ministros e secretários do governo federal, segundo levantamento da ONG Fiquem Sabendo.

Depois a pressão se transferiu para o Congresso, onde parlamentares barraram a tentativa da Fazenda de elevar a taxação do setor de 12% para 18% e enterraram uma CPI sem relatório final e sem indiciamentos.

“O encerramento da CPI das Bets sem qualquer responsabilização prática ou indiciamento, a despeito das claras evidências de envolvimento ligando influenciadores digitais, artistas e agentes do alto escalão político às empresas do setor, revela a profundidade com que esses oligopólios digitais capturaram o núcleo decisório do Estado”, afirma a Oxfam.

Para a organização fundada no Reino Unido, a regulação frouxa abriu caminho para “a evasão legalizada de bilhões de reais em rendimentos que deveriam irrigar o fundo público e financiar políticas de proteção social”. “Trata-se de uma dinâmica perversa de socialização de perdas e privatização absoluta de superlucros”, resume.

O relatório conclui que o poder corporativo das bets atua “de forma circular e regressiva”. “Asfixia o orçamento doméstico na base ao mesmo tempo em que financia campanhas e estruturas de lobby permanentes para vetar qualquer tentativa de controle ou taxação progressiva.”

Alvo da operação desta quinta, Ernildo Júnior se destaca pela atuação aberta na política. É próximo ao presidente do União Brasil, Antonio Rueda, que ofereceu a legenda para ele emplacar um funcionário como prefeito de sua cidade natal, Serra Branca. O eleito responde pelo apelido de Alexandre Pixbet.

Neste ano, o barão da jogatina já anunciou apoio a cinco candidatos na Paraíba. Sua aposta para o Senado é Nabor Wanderley, ex-prefeito de Patos e pai do presidente da Câmara, Hugo Motta.

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OS VENTOS DA POLÍTICA

Merval Pereira, O Globo

É grave a informação do jornalista Caio Junqueira de que setores do STF pressionaram partidos do Centrão a não aderirem à candidatura de Flavio Bolsonaro

O Supremo Tribunal Federal (STF) continua no centro dos debates eleitorais, num péssimo sinal de que se tornou um partícipe importante do jogo político nacional. A direita, que engole a candidatura de Flavio Bolsonaro por não ter alternativa melhor para tentar derrotar Lula, circula nas redes o perigo de um quarto governo do petista pela possibilidade de que ele possa vir a indicar mais quatro ministros para o STF, dominando assim a maioria do plenário onde atualmente se decidem as questões fundamentais do país.

Já foram decididas pelo Presidente da República, quando o Executivo mandava e desmandava. Já foi o Legislativo o dono do jogo, especialmente no período em que o então presidente Jair Bolsonaro, preocupado com a preparação de tentativa de golpe, delegou ao Legislativo as decisões. Veio daí a consolidação das emendas parlamentares como fonte de poder, e o aumento inacreditável dessa receita que sangra os cofres públicos e enfraquece o governo eleito pelo povo.

Agora o Supremo, com vários inquéritos contra políticos, especialmente do Centrão, manipula os cordéis políticos a seu bel prazer. Por isso é grave a informação do jornalista Caio Junqueira de que a manobra dos partidos do Centrão de se anunciarem neutros na eleição presidencial se deve também a uma pressão de setores do STF a favor de Lula, com ameaças de que os inquéritos contra parlamentares andariam mais rápido se eles apoiassem o candidato de oposição Flavio Bolsonaro.

A pesquisa Quaest encomendada pelo Grupo Globo divulgada na sexta-feira, que mostra um empate técnico entre Lula e Flávio no segundo turno, revela um comportamento do eleitor bastante fluído, voltando a uma situação em que a avaliação do incumbente voltou a cair, apesar de todos os programas sociais anunciados atabalhoadamente para respeitar o prazo legal. Não dá para cravar a vitória de um ou outro, justamente porque os dois são cancelados na mesma proporção por mais da maioria do eleitorado. Temos então candidatos que são aceitos como tais por menos da metade dos eleitores, e desses, cerca de dez por cento se diz disposto a não votar. Se não fosse obrigatório o voto no Brasil, provavelmente teríamos uma ida às urnas com índices baixíssimos.

A disputa pela soberania nacional, por exemplo, que deverá ser um dos temas mais debatidos, diante do avanço da política externa americana na América Latina, pode ser um trunfo para Lula, mas não a ponto de aglutinar o apoio decisivo dos chamados eleitores independentes. Na eleição de 2022, o ambiente era outro. Termináramos um governo que se esforçou ao máximo para reverter a ordem vigente, culminando com uma tentativa de golpe gestada diuturnamente durante o governo. Lula tinha um papel talhado pela sua imagem de líder popular: defensor da democracia, capaz de fazer um governo de união nacional para resistir aos ataques.

Assim como é difícil para Flavio Bolsonaro hoje convencer que ele é o membro da família mais equilibrado e democrático, é difícil também para Lula insistir nessa história de união nacional, que não se concretizou em seu terceiro governo. O PT continuou sendo hegemônico na formação do estado brasileiro, e a linha populista de governo levou ao perigo de uma crise econômica grave, como já aconteceu com o governo Dilma, conforme alertou o economista Armínio Fraga.

A política externa continuou com uma clara tendência à esquerda, o que leva a que o apoio do governo americano de Trump aos Bolsonaro seja visto por parte da elite de direita como uma compensação às ações do governo brasileiro. Numa região que, neste momento, tende à direita, pode crescer entre os independentes a ideia de que essa onda direitista é o melhor. Na América Latina, há 12 países governados pela direita, sendo que só na América do Sul temos 7.

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O DESAFIO DE LULA

Sergio Fausto, O Estado de S. Paulo

O ajuste fiscal é um meio para defender objetivos que são caros a Lula e fundamentais para o Brasil

Lula se apresenta como defensor da soberania nacional e dos mais pobres. Acumulou credenciais para tanto. Se quiser preservá-las, terá de imprimir novo rumo à política fiscal, na hipótese de vir a ser reeleito. O atual levará o País, cedo ou tarde, a uma crise econômica. Um outro caminho é possível.

A genuína preocupação de Lula com os mais pobres é inquestionável. Trata-se de uma marca dos seus três mandatos, não de oportunismo eleitoral. Com Lula na Presidência, a pobreza se reduziu de maneira importante. É uma obra coletiva, erguida sobre as bases estabelecidas pelo Plano Real.

Suas credenciais na defesa da soberania nacional se reforçaram no último ano. Fora excessos retóricos desnecessários, conduziu bem a reação às arbitrárias medidas adotadas pelos Estados Unidos para forçar o Brasil a seguir as ordens ditadas pela nova doutrina de segurança nacional do governo americano.

É abundante a evidência histórica de que crises econômicas atingem de maneira desproporcional os mais pobres.

As razões são claras: quanto mais pobre a pessoa, mais vulnerável ela é a quedas abruptas da atividade econômica e menores as reservas financeiras de que dispõe para fazer frente à consequente perda de renda.

Perdas na renda corrente de famílias pobres podem lançá-las à pobreza extrema. O seguro-desemprego e programas como o Bolsa Família amortecem a violência da queda, mas apenas parcial e temporariamente, sobretudo para os que não estão no mercado formal de trabalho, a maioria entre os mais pobres. Recessões prolongadas tendem a provocar danos duradouros nas trajetórias de vida de indivíduos e famílias pobres, entre outras razões porque com frequência obrigam crianças e adolescentes a abandonar a escola para ajudar no sustento da família.

Não menos abundante é a evidência histórica de que crises econômicas fragilizam a soberania nacional. Temos um exemplo claro num país vizinho. O recorrente desequilíbrio macroeconômico da Argentina ao longo de muitas décadas, com momentos dramáticos de perda de acesso ao crédito externo e aversão à moeda nacional, reduziu drasticamente a autonomia que o país tem para fazer escolhas. A subordinação de Javier Milei a Donald Trump não se explica apenas pelas afinidades ideológicas entre ambos.

Não é preciso ser economista para saber que a política fiscal no Brasil está descalibrada e dificulta o trabalho do Banco Central na condução da política monetária. A curva de juros, cada vez mais empinada nos prazos de vencimento mais longos, reflete em larga medida o tamanho da desconfiança do “mercado” na disposição do futuro governo de fazer o “ajuste fiscal necessário”. Essa desconfiança se aplica aos dois principais concorrentes à Presidência, mas sobretudo a Lula.

O “mercado” tem vieses, mas a desconfiança que expressa por meio da curva de juros cria uma realidade objetiva. Não raro exagera, cobrando um prêmio de risco excessivo. Por exemplo, a situação fiscal do Brasil seria tão pior que a do México para explicar uma taxa real de juros duas vezes superior em títulos de prazos semelhantes? Exageros à parte, o governo Lula dá motivos de sobra para a desconfiança do “mercado”, a despeito dos esforços do ex-ministro Fernando Haddad.

Em 2026, ano de eleições, a expansão do gasto e a criação de novas despesas futuras se aceleraram, com o Executivo e o Congresso competindo em matéria de prodigalidade fiscal. É verdade que, em 2022, com a adoção da PEC Kamikaze pelo governo Bolsonaro, em desesperada tentativa de se reeleger, foi também grande o aumento do gasto. Mas é igualmente verdade que a relação dívida/PIB está hoje em nível mais alto do que há quatro anos e o custo médio da dívida atinge níveis recordes. Reverter essa dinâmica insustentável requer que a política fiscal pise no freio para que o Banco Central faça o movimento contrário.

A sincronia correta desses dois movimentos é crucial para que o crescimento da economia se acelere mais à frente, sem comprometer o controle sobre a inflação. Só assim será possível ao País escapar do ciclo vicioso da crônica piora fiscal, reduzir o custo de capital e destravar o investimento privado. Em infraestrutura, ele cresceu expressivamente neste governo, e poderá crescer ainda mais no próximo, com uma redução sustentável da taxa real de juros de longo prazo. Nesse cenário, poderemos colher as oportunidades da transição ecológica, na linha apontada pelo recém-lançado estudo Brazil’s investment-led growth in the ecological transition, elaborado por Luiz Awazu Pereira da Silva e coautores.

Dada a deterioração das expectativas, é indispensável que o compromisso com o ajuste fiscal venha primeiro. Quanto antes, melhor. E que seja estabelecido em bases duradouras. É possível fazer um ajuste com maior equidade, mas não mais deixar à margem os mecanismos que impulsionam automaticamente o gasto social, em particular a indexação de benefícios sociais e previdenciários ao salário mínimo.

O ajuste fiscal não é um fim em si mesmo, mas um meio para defender valores e objetivos que são caros ao presidente Lula e fundamentais para o Brasil. 

*Diretor-Geral da Fundação FHC, é membro do Gacint-USP

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ASTÚCIA DO POVO NAS URNAS ELEÔNICAS É O MAIS IMPONDERÁVEL NAS ELEIÇÕES

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O número elevado de indecisos nas pesquisas espontâneas revela que a maioria da sociedade ainda não transformou simpatia ou rejeição em decisão eleitoral

Nos dicionários, astúcia é o mesmo que artimanha, esperteza, malícia e sagacidade. Na política, quase sempre tem um significado negativo, porque é uma das características dos políticos para enganar o eleitor. Entretanto, há uma grande diferença entre a astúcia do povo e astúcia dos políticos. A primeira se baseia no bom senso. Já a segunda recorre ao senso comum para atingir objetivos a qualquer preço, muitas vezes obscuros. Não existe momento em que esses atributos sejam mais utilizados do que as eleições.

O folclorista capixaba Hermógenes Lima Fonseca, advogado, contador e pesquisador da cultura, viveu até 1996, quando morreu aos 80 anos em Vila Velha (ES), aos pés do Convento da Penha, um dos mais antigos no Brasil. Ele sofreu influências de baianos e mineiros, além da forte atração dos cariocas, que consagraram Roberto Carlos, Nara Leão, Sérgio Sampaio e Rubem Braga. Hermógenes dizia que “o povo astucia as coisas”.

Esse vem sendo o fator mais imponderável das eleições brasileiras desde a redemocratização. Ao que tudo indica, neste ano não será diferente. O dado mais importante das pesquisas eleitorais recentes talvez não esteja na distância entre Luiz Inácio Lula da Silva e Flávio Bolsonaro, mas na revelação da pesquisa espontânea de que a maioria dos eleitores ainda não sabe em quem votar.

Na mais recente Genial/Quaest, Lula aparece com 38% no primeiro turno, contra 31% de Flávio, enquanto Caiado e Renan Santos têm 4%, Zema 2% e Augusto Cury 2%. No segundo turno, Lula marca 43% contra 40% de Flávio: empate técnico, considerando a margem de erro de dois pontos percentuais. Os institutos, porém, apresentam diferenças importantes. A CNT/MDA registra Lula com 42,4% e Flávio com 28,7% no primeiro turno e 48% a 39,1% no segundo. BTG/Nexus aponta 40% a 35% no primeiro e 47% a 44% no segundo.

Não se sabe a verdadeira dimensão do favoritismo de Lula. Nossa história recente está cheia de viradas eleitorais. O número elevado de indecisos nas pesquisas espontâneas revela que uma parcela considerável da sociedade ainda não transformou simpatia, rejeição ou preferência ideológica em decisão eleitoral. Nesse cenário, a experiência recomenda prudência ao projetar o comportamento observado na pesquisa estimulada.

O exemplo clássico é 1994. Lula começou aquele ciclo eleitoral como favorito, mas o Plano Real, lançado durante o governo Itamar Franco, alterou radicalmente o ambiente econômico e social. A estabilização da moeda transformou Fernando Henrique Cardoso, ministro da Fazenda identificado com o Real, no candidato da estabilidade. FHC ultrapassou Lula e venceu no primeiro turno.

Pesquisa não é profecia

Em 2002, Ciro Gomes chegou a ameaçar José Serra na disputa pela vaga no segundo turno. A campanha eleitoral, porém, expôs suas fragilidades, Serra recuperou terreno e terminou enfrentando Lula, que venceu a eleição. Em 2006, Lula parecia ameaçado pelo escândalo do mensalão e Geraldo Alckmin conseguiu levá-lo ao segundo turno. O desfecho foi surpreendente: Alckmin recebeu menos votos no segundo turno do que no primeiro, Lula foi reeleito.

A maior volatilidade ocorreu em 2014. Após a morte de Eduardo Campos, Marina Silva assumiu a candidatura do PSB e disparou. No fim de agosto, o Datafolha mostrava Marina com 50% contra 40% de Dilma Rousseff no segundo turno. Poucas semanas depois, o cenário havia mudado.

Em setembro, Dilma tinha 36%, Marina 33% e Aécio Neves apenas 15% no primeiro turno. Na espontânea, expressivos 29% estavam indecisos. Aécio ultrapassou Marina, chegou ao segundo turno empatado com Dilma, com 51% contra 49% dos votos válidos de Dilma, que virou novamente e foi reeleita. Houve três eleições dentro de uma.

A mais surpreendente foi a eleição de 2018, o atentado contra Jair Bolsonaro alterou sua dinâmica e reduziu sua participação presencial. Fernando Haddad havia assumido a candidatura petista com a inelegibilidade e prisão de Lula. Em poucas semanas, mudou tudo. O “azarão” Bolsonaro foi eleito. Mesmo em 2022, quando a polarização Lula-Bolsonaro já estava consolidada, a eleição foi decidida no segundo turno por apenas 1,8 ponto percentual: Lula obteve 50,90% dos votos válidos, contra 49,10% de Bolsonaro.

A campanha eleitoral de 2026 começa oficialmente neste domingo. Há incertezas na economia, na qual inflação, emprego, renda, juros e percepção sobre o custo de vida podem modificar a avaliação do governo. Nos escândalos políticos que atinjam candidatos, familiares ou aliados. Na interferência de Donald Trump e das tarifas norte-americanas. No desempenho dos candidatos no horário eleitoral e nos debates. O mais imponderável, porém, como diria o “Mestre Armojo”, é a astúcia do povo, graças às urnas eletrônicas, que garantem o voto direto, secreto e universal e o princípio da alternância de poder, pilares da democracia brasileira.

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A COALIZÃO ANTICARTÉIS DE TRUMP

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

Cinco países da América Latina aceitaram o emprego de militares dos EUA em seus territórios para combater o crime organizado. Eles fazem parte de um grupo de 19 países que aderiram à Coalizão Anticartéis das Américas. O presidente Donald Trump tem mantido posição ambígua em relação à possibilidade de intervenção militar sem autorização de governos.

Os países que já assinaram a autorização são Guatemala, Honduras, Jamaica, Colômbia e Equador. Do total de 19 países, apenas dois não estão sob governos de direita: Guatemala e Bahamas.

A Colômbia aderiu depois da posse do presidente Abelardo de la Espriella, no dia 7.

Seu antecessor, Gustavo Petro, rejeitava ação militar americana, da mesma forma que a presidente do México, Claudia Sheinbaum. Mesmo assim, Trump se negou a responder se poderia ou não ordenar ações militares nos dois países.

A coalizão tem origem em uma reunião de cúpula realizada em março na Flórida. A tese da ação militar americana é apoiada pela designação de narcotraficantes como terroristas.

Em 28 de maio, o Departamento de Estado incluiu o PCC (Primeiro Comando da Capital) e o Comando Vermelho nessa lista, composta por 12 grupos da América Latina. A medida foi adotada logo depois de o senador Flávio Bolsonaro, agora candidato à Presidência, entregar em Washington um dossiê defendendo a designação.

Em vídeo divulgado na quinta-feira, em que aparece com uma camiseta da unidade de selva do exército americano, e cercado de militares, o secretário de Defesa Pete Hegseth avisa que os narcotraficantes serão tratados como o Estado Islâmico e a Al-Qaeda.

O Comando Sul conduziu desde setembro ao menos 59 bombardeios contra barcos no Caribe e no Pacífico, provenientes de Venezuela, Colômbia e Equador, deixando 196 mortos. Segundo relatos de moradores, havia pescadores entre eles. Nenhuma evidência foi apresentada pelo Pentágono de que se tratava de criminosos.

Os documentos de Estratégia de Segurança e de Defesa dos EUA preveem a concentração de forças militares nas Américas, para fazer frente à influência chinesa e projetar poder na região.

Na hipótese de eleição de Flávio Bolsonaro, o Brasil deverá ser incluído na coalizão, e talvez na lista menor dos países que aceitam o emprego de forças americanas em seu território. O senador comentou no X, em 23 de outubro, um post de Hegseth, mostrando um ataque contra uma embarcação.

Ele escreveu em inglês: “Que inveja! Ouvi dizer que há barcos como este aqui no Rio de Janeiro, na Baía de Guanabara, inundando o Brasil de drogas. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?” •

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COITADO DO FLÁVIO DINO

Elio Gaspari, O Globo

Constituição Federal diz que é 'resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional'. Pode ser um exagero, mas está lá

Depois que a casa caiu, a decisão de se vasculhar equipamentos eletrônicos de jornalistas parece ser de responsabilidade difusa. O ministro Flávio Dino, do STF, disse que está sofrendo “agressões e injustiças” ao ser vinculado à ilegalidade essencial do procedimento. O artigo 5º da Constituição Federal, no seu inciso XIV, diz que “é assegurado a todos o acesso à informação e resguardado o sigilo da fonte, quando necessário ao exercício profissional.” Pode ser um exagero, mas está lá.

Na tipologia dos comportamentos existe a figura do coitadinho profissional. Seja qual for a conduta criticada, tudo resulta da má-fé do outro. Dino entrou num enredo da política maranhense criando um problema federal, constitucional, porque achou que podia se defender valendo-se de uma arma eficaz, porém tóxica. O mais incrível é que funcionou por cinco meses, e se a irmandade do Supremo não acordar, acaba associado a coitadinhos profissionais de todas as espécies. A decisão irá ao plenário do tribunal.

Aos fatos:

Na política maranhense há de tudo. Dino tem 37 anos de vida pública honrada e é perseguido por um blogueiro. No início deste ano, o blogueiro Luís Pablo noticiou que Dino e familiares seus usavam uma caminhonete blindada do Tribunal de Justiça maranhense em suas movimentações.

No dia 4 de março, o ministro Alexandre de Moraes atendeu a um pedido da Polícia Federal, acompanhado pelo Ministério Público, e determinou a apreensão de celulares, computadores, tablets, documentos e outros dispositivos eletrônicos que possam auxiliar na investigação. A decisão também permitia a análise do conteúdo armazenado nos aparelhos, inclusive dados guardados em serviços de armazenamento em nuvem.

À época, a decisão foi condenada por entidades jornalísticas. Palavras ao vento, estava aberto o precedente. A apreensão desses equipamentos de qualquer jornalista expõe suas conexões e, com isso, suas fontes.

Passaram-se seis meses e a diligência deu o resultado desejado e previsto. A proteção constitucional do sigilo da fonte foi para o espaço. Era o que a PF, o MP, Moraes e Dino queriam.

A fonte seria Raimundo Cutrim, ex-secretário de governo do Maranhão. Cutrim está em prisão domiciliar determinada por Flávio Dino desde julho, por causa de outras atividades. As quizilas da política maranhenses têm de tudo, nunca precisaram atropelar a Constituição por decisão monocrática de um ministro do Supremo.

Seu advogado pergunta: “Investigam um jornalista que faz denúncia, investiga o advogado que o orienta, a fonte... E não investigam a denúncia? É muito estranho”. Põe estranho nisso.

A essa altura, Dino explica que nunca usou veículos do Tribunal de Justiça de forma irregular, pois um convênio dá transporte e segurança aos ministros do STF em trânsito pelo Estado. Tudo nos conformes. O problema de Pindorama está nos conformes dos hierarcas. No Império, nos conformes, magistrados conseguiam para seus serviços negros contrabandeados que, pela lei, seriam libertos. Tudo legal.

Há meses, o distinto público é bombardeado por notícias dando conta de que o Supremo Tribunal Federal combate os penduricalhos da magistratura. As associações de juízes sustentam que cada um deles é legal, e é. Semelhante bizarrice tem a mesma origem que a decisão de apreender equipamentos de jornalistas.

Do folclore maranhense

O cacique maranhense Vitorino Freire (1908-1977) odiava José Sarney e era um arsenal de frases e piadas. Foi ele quem levou para o anedotário político a expressão que “jabuti não sobe em árvore, alguém pôs ele lá”.

Hoje ele é nome de município, porém pouco lembrado. Para se ter uma ideia do seu estilo, aqui vai um.

Certo dia, Vitorino visitou o ministro do Exército, general Sylvio Frota com um pote de doce e disse:

“General, aqui vai um doce de jaca lá do Maranhão, sugiro que o deixe na sua sala de jantar, num lugar bem visível, porque o Sarney anda dizendo que o senhor é diabético.”

Frota não era diabético, nem Sarney dizia que era.

Em 1968, depois da edição do AI-5, Vitorino e outros 20 senadores protestaram num telegrama ao presidente Costa e Silva.

A iniciativa caiu mal e 34 assinaram uma carta ao presidente Médici louvando a edição do Ato.

Sete assinaram os dois, inclusive Vitorino.

Médici guardou poucos papéis, entre eles esses dois documentos.

Fake news e o STF

A decisão do ministro Edson Fachin de levar ao plenário a decisão monocrática de apreender celulares, computadores e tablets de um blogueiro será um teste de vida ou morte para o inquérito das fake news.

Sob o controle do ministro Alexandre de Moraes, essa sucessão de devassas já completou sete anos e se ninguém se incomodar, chegará aos dez.

O sigilo da fonte e Trump

Donald Trump aborreceu-se porque repórteres noticiaram que sua segurança detectou falhas na segurança no Boeing de 400 milhões de dólares que ele ganhou da família real do Qatar. Queria saber as fontes, interrogou repórteres e seus familiares, mas não recorreu à apreensão de seus equipamentos. A Constituição americana não assegura o sigilo das fontes, assegura a liberdade de expressão e, com ela, põe fora da lei as tentativas de inibi-la.

No Brasil, por decisão monocrática do ministro Alexandre de Moraes, a Constituição blindou o sigilo da fonte, mas ele liberou o conteúdo de equipamentos eletrônicos de jornalistas. Deu no que deu.

Num caso de choque em torno das fontes de uma reportagem de Judith Miller, do New York Times, ela ficou 85 dias na cadeia.

Em 2003, Miller escreveu que a ditadura iraquiana de Saddam Hussein tinha um arsenal de armas químicas e de destruição em massa. Fonte? Zero. O caso foi investigado e Miller recusou-se a revelá-la. Ela também não identificou quem lhe passou o nome de uma agente clandestina da Central Intelligence Agency. A fonte teria cometido um crime.

Miller teve ampla solidariedade e o apoio do publisher do Times.

As armas químicas e de destruição em massa eram uma invenção de Ahmed Chalabi, ex-ministro iraquiano e fonte de Judith Miller.

O Times reconheceu que algumas de suas reportagens estavam erradas e livrou-se dela em 2005.

Jornalista premiada, sua cobertura das armas de Saddam deu-lhe o estrelato e o declínio.

Cruz eleitoral

Pela primeira vez em 30 anos a importação de calçados superou a exportação. Virou pó um quarto da receita vinda dos calçados vendidos para os estados.

Os candidatos da bancada brasileira de Donald Trump ganharam mais um peso para carregar em outubro.

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CONFRARIA DE INTERESSES SE UNE A LULA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Comandantes do Congresso, centrão e parte do STF jogam fichas na reeleição de olho em garantias

Kassab disse alto o nome de um jogo perceptível, mas que estava sendo jogado com discrição

Gilberto Kassab (PSD) revelou um segredo de polichinelo quando disse que "o centrão está com Lula". Quem não sabia disso passou a desconfiar a partir das digitais do Palácio do Planalto nas declarações de neutralidade de partidos como PPUnião BrasilRepublicanos, Podemos e MDB.

A certeza veio pela voz do ministro das Relações Institucionais, José Guimarães (PT), na saída do segundo encontro entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Davi Alcolumbre (União) depois de três meses sem se falarem.

"O Davi está absolutamente sintonizado com a reeleição de Lula", disse Guimarães, dando mais destaque ao apoio eleitoral que ao efeito que a retomada da convivência entre os presidentes da República e do Congresso venha a ter sobre o bom andamento dos trabalhos legislativos.

Dois dias antes, o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos), se declarara em igual sintonia quanto à recondução de Lula para o quarto mandato.

Kassab abriu o jogo. Deu sujeito, verbo e predicado ao enunciado do roteiro que o mundo da política localizado do centro à direita vinha escrevendo sobre o futuro da candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) com alguma discrição: não dar camisa à família para os planos de 2030.

E não é só o centrão. Há parte do Supremo Tribunal Federal também na jogada, como se viu com nitidez na iniciativa dos ministros Alexandre de Moraes e Cristiano Zanin de atuar como políticos na reaproximação entre Lula e Alcolumbre.

Uma combinação de interesses para 2027. A aposta de contar com um resultado das urnas ainda indefinido pode ser arriscada, mas é o que fazem esses personagens em busca de garantias recíprocas.

Os presidentes da Câmara e do Senado colocam suas fichas no apoio de Lula reeleito para a recondução aos cargos a partir de fevereiro; os ministros do STF enxergam aí chance de se manter a barreira a processos de impeachments.

Já o centrão teve boa vida, não acredita em promessas de "guerra" contra emendas e não vê razão para mudar.

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sábado, 15 de agosto de 2026

ELEIÇÕES DRAMÁTICAS

Murillo de Aragão, Veja

Tensão institucional e polarização elevam a temperatura do pleito

Finalmente, a campanha de verdade vai começar. Até agora foi o ensaio de um espetáculo desafinado, com protagonistas desastrados e enrolados nos cadarços dos próprios sapatos. A plateia se divide entre odiar um ou outro dos ponteiros — e torcer por uma terceira via que não consegue entrar em cena.

Como toda eleição presidencial, temos dramas em curso. Teme-se a transição; outros temem o continuísmo. Nesta eleição, porém, há camadas adicionais: tensão institucional, incerteza econômica, polarização, escândalos graves, questões geopolíticas e uma disputa intensa pelas narrativas.

O eleitor observa tudo com desconfiança. A rejeição aos principais nomes é elevada e amplia o contingente dos que decidirão por exclusão, não por adesão, e, provavelmente, na reta final de uma eleição que, salvo fatos novos, tende a ser muito disputada.

Porém, o quadro dado pode sofrer alterações. O improvável pode acontecer e ameaçar os favoritos, que já sofrem com elevada rejeição. Não é a tendência, mas é uma possibilidade.

As redes sociais, turbinadas pela inteligência artificial, ampliam sua influência sobre uma audiência fragmentada e cada vez menos leal a partidos. Os algoritmos viraram cabos eleitorais mais poderosos. A imprensa, que detinha o poder de agendamento e enquadramento, tem sua influência ofuscada.

Há também um componente singular. Flávio Bolsonaro concorre sob a sombra de um pai preso e inelegível e em meio a conflitos internos. Lula, do outro lado, enfrenta seu próprio teste de sucessão: pilota um governo sem marca, de rejeição elevada e com palanques estaduais pouco consistentes.

“O improvável pode acontecer e ameaçar os favoritos, que já sofrem com elevada rejeição”

O Judiciário ocupa posição incomum. STF e TSE seguem como árbitros, mas suas decisões integram o ambiente político que procuram regular. Somem-­se os escândalos que alcançam os Três Poderes — Banco Master, emendas parlamentares e a tragédia do INSS. Em um quadro onde as crises se sobrepõe, os eleitores têm dificuldade de separar o estrutural do episódico.

Mas quem vencer, seja quem for, herdará um país onde os Poderes não se reconhecem. Disputas institucionais prosseguirão, já que o relacionamento harmônico entre os Poderes da União está seriamente ferido. A governabilidade de 2027 pode se revelar mais difícil do que a disputa eleitoral de 2026.

Finalmente, temos o drama maior. Os dois passados em disputa não são equivalentes, mas se alimentam mutuamente. O lulismo evoca um ciclo de inclusão social cuja repetição parece improvável — e cujos vícios fiscais nunca foram enfrentados. O bolsonarismo evoca uma ruptura conservadora que terminou em erosão democrática, mas cuja base identitária permanece intacta.

Cada campo precisa do fantasma do outro para existir: sem o retrospecto lulista, o bolsonarismo perde inimigo; sem o retrospecto bolsonarista, o lulismo perde urgência. A polarização não é acidente — é a arquitetura que sustenta ambos.

O Brasil discute a eleição como se escolhesse entre dois futuros, quando a disputa continua organizada em torno de dois passados que se recusam a passar. Em outubro, o país escolherá um presidente. Mas estará decidindo, sobretudo, o que fazer com o próprio passado — e ainda não sabe como.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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LUTA PELO PODER

José Casado, Veja

Manifesto de chefes da PF mostra a dimensão da crise nos Três Poderes

Uma crise avança como rio de enchente pela Praça dos Três Poderes, em Brasília. Governo, Supremo Tribunal Federal e Congresso estão em conflito, enredados numa profusão de investigações criminais por corrupção com patrocínio e beneficiários políticos — fraudes bilionárias no Banco Master, no INSS e nas emendas parlamentares ao Orçamento, entre outras.

Esses múltiplos inquéritos já desenhavam contornos de uma liquefação, reafirmada em plena campanha eleitoral com o inédito manifesto dos chefes da Polícia Federal em 26 estados e no Distrito Federal.

É uma grande confusão institucional na qual predominam interesses privados dos dois candidatos mais destacados nas pesquisas sobre a disputa para a Presidência da República: Lula, que tem um dos filhos sob investigação nas maracutaias do INSS; e, Flávio Bolsonaro, que já confessou ter recebido dezenas de milhões de reais em transações obscuras com o antigo dono do Banco Master, preso por trapaças em série.

Na superfície, o manifesto dos delegados federais faz uma crítica velada — e sem mencionar a instituição — ao juiz André Mendonça, designado no Supremo para supervisionar os casos de maracutaias bilionárias no Banco Master e no INSS.

O juiz Mendonça é visto no Palácio do Planalto e na cúpula da Polícia Federal como um aliado do clã Bolsonaro, responsável por sua indicação ao STF em 2021. Meses atrás, ele proibiu investigadores dos casos Master e INSS de relatar resultados das apurações aos respectivos chefes sem a sua permissão.

A mensagem foi interpretada no governo pelo viés da suspeição do juiz em relação ao delegado Andrei Rodrigues, que recebeu de Lula o comando da PF em reconhecimento à fidelidade demonstrada na campanha eleitoral de 2022 contra Jair Bolsonaro.

Não se trata de um embate personalista. É reação institucional às revelações sobre interesses oligárquicos no controle da República.

“Manifesto de chefes da PF mostra a dimensão da crise nos Três Poderes”

O caso Master é exemplar. Com alguns juízes e familiares enlaçados na contabilidade do banco das fraudulências, o Supremo emitiu decisões acirrando conflitos até então encobertos com a Procuradoria-Geral da República, o Banco Central, a Receita, a PF e o Coaf.

No governo, culpa-se a Comissão de Valores Mobiliários, vinculada ao Ministério da Fazenda, de omissão no controle de fundos de investimentos do Master e associados, manipulados por facções do crime organizado.

No Congresso, onde o Master enriqueceu alguns e privilegiou outros com milionárias mordomias, criticam-se os erros e a letargia do governo em liquidar um banco pequeno com negócios de alto risco para o sistema financeiro.

Tornou-se memorável, também, a tentativa de ingerência de um órgão auxiliar do Legislativo, o Tribunal de Contas da União, capítulo anômalo na história de 800 liquidações já realizadas pelo Banco Central.

No documento da semana passada, os delegados federais sugerem uma percepção da Polícia Federal como núcleo de poder emergente na democracia republicana, cujas vulnerabilidades têm sido destacadas em sucessivos casos de corrupção com patrocínio e beneficiários políticos — mensalão, petrolão, Master, INSS, emendas, entre outros.

É difícil imaginar que um presidente, candidato à reeleição, tenha sido surpreendido por um manifesto político elaborado, discutido, coordenado e divulgado durante a campanha eleitoral por dirigentes do órgão policial federal.

A dúvida eventual, nesse caso, teria como consequência a hipótese de extrema incompetência no Palácio do Planalto. No entanto, os indícios são de que o presidente Lula e aliados têm zelado pelo controle do acervo da PF, reconhecido pelo potencial de infundir temor dentro e fora de Brasília.

Eleição presidencial no Brasil, vale lembrar, é sempre uma disputa selvagem por um poder quase imperial. O enredo dos 137 anos de regime republicano é recheado com uma série de subtramas brutais. Na teoria, o vencedor, eleito nas urnas, conquista o controle do Estado, com a possibilidade de influenciar a agenda, o mapa e o rumo da política e da economia. Na realidade, ele depende da legitimação diária do poder emprestado pelos eleitores.

A declaração política dos delegados federais não só dividiu a corporação como mostrou que o estuário da crise será o próximo governo, e não importa quem saia vencedor dos jogos vorazes da eleição presidencial.

Publicado em VEJA de 14 de agosto de 2026, edição nº 3008

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KEYNES E DESCARTES

Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

O inglês subverteu os modelos da “economia das certezas”, que engessam a capacidade de observar

Quem procura conhecimento, procura saber mais. Essa correlação só acontece se você procura conhecimento livre de dogmas, doutrinas e certezas. Saber mais requer algumas características: ceticismo, inconformismo e incomodação. A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem fim, exige ter mais dúvidas do que certezas. Sempre duvide das certezas ou verdades absolutas.

Hegel invocou René Descartes e disse que o pensador iluminista “começou do zero, do universal, do pensamento como tal, e que esse é um novo e absoluto começo.

“A afirmação de que o começo deve ser construído a partir do pensamento apenas ele expressou, dizendo que devemos duvidar de todas as coisas – de omnibus est dubitantur, não no ceticismo, como se devêssemos permanecer sempre em dúvida, na completa indecisão da mente.”

A dúvida cartesiana, ao contrário, significa que devemos renunciar a qualquer pressuposto ou ideia preconcebida, mas começar pelo pensamento como único início seguro.

O primeiro ponto, portanto, é que não devemos fazer pressuposições. Descartes­ afirma que “nossos sentidos são frequentemente enganados pelo mundo sensível e não devemos supor que a experiência é segura”.

John Maynard Keynes tem uma característica pessoal: a humildade e a autocrítica. Sem medo de errar, Keynes é seu principal crítico. Esse tom de personalidade de um pensador e filósofo moral como ele é condição necessária e suficiente para entender sua obra.

Rotular Keynes como apenas um ou mais um economista é um reducionismo da turba que prega verdades incontestes, não tem dúvidas e vive fantasiada de cientista algébrico. Típica forma de viver e pensar dos dogmáticos, crentes e doutrinários. Tudo o que Keynes nunca foi.

Em 2026, comemoramos 90 anos não de sua única obra, mas da derradeira, a Teo­ria Geral do Emprego, do Juro e da Moeda.

Essa obra de 1936 não mudou só a forma de ver a economia como um todo, mas é um exercício sobre a forma de pensar e de conceber as relações constitutivas da assim chamada “ciência econômica

O que mais chama atenção nessa obra é, muito além de criar conceitos como a desutilidade marginal e uma de suas maiores sacadas, a eficiência marginal do capital e a incerteza incontornável que afeta as decisões dos agentes econômicos. Além de exímio matemático e estatístico, Keynes desenvolve a capacidade de criticar e suplantar as certezas que imobilizam a mente dos economistas ortodoxos.

A busca pelo conhecimento tem começo, mas não tem fim, exige duvidar das verdades absolutas

Ele inverte a ordem do processo de conhecimento abrigado nos modelos da “economia das certezas”. Modelos que engessam, inibem a capacidade de observar e desenvolver a criatividade dubitativa. A especialização dogmática é uma cruel inimiga do desenvolvimento das ideias: omnibus dubitator.

Keynes, em 1925, no artigo Am I a Liberal?­ expõe as desconfianças que impulsionam suas dúvidas:

“Agora, veja o meu próprio caso – onde cheguei neste teste negativo? Como eu poderia me tornar um conservador? Eles não me oferecem comida nem bebida – nem consolo intelectual nem espiritual. Eu não deveria ser divertido, animado ou edificado. Aquilo que é comum à atmosfera, à mentalidade, à visão de vida do – bem, não mencionarei nomes – não promove nem o meu interesse pessoal nem o bem público. Isso não leva a lugar nenhum; não satisfaz nenhum ideal; não está de acordo com nenhum padrão intelectual; nem sequer é seguro ou projetado para preservar, dos espoliadores, o grau de civilização que já alcançamos.

“Metade da sabedoria dos manuais de nossos estadistas baseia-se em suposições que antes eram verdadeiras ou parcialmente verdadeiras, mas que o são cada vez menos. Temos de inventar uma nova sabedoria para uma nova era. E, nesse ínterim, devemos, se quisermos fazer algum bem, parecer heterodoxos, problemáticos, perigosos e desobedientes àqueles que nos geraram”.

Keynes prossegue em seu propósito de escapar das velhas ideias: “Mudamos, sem perceber, nossa filosofia de vida econômica, nossas noções do que é razoável e do que é tolerável; e fizemos isso sem alterar nossa técnica ou nossas máximas de manual. Daí nossas lágrimas e problemas”.

Sua caminhada em direção à Teoria Geral evidencia traços de inconformismo e de uma busca incessante de conhecimento.

Ao introduzir as convenções como “fundamentos” das decisões dos detentores de riqueza em condições de incerteza radical, Keynes trouxe para o âmago da economia a complexidade e a precariedade da condição humana investida em sua existência capitalista: ela necessita de âncoras sociais e subjetivas para sua reprodução. A âncora que sustenta as ariscas subjetividades submetidas aos ditames do “amor ao dinheiro” está lançada, sim, na areia movediça das incertezas insuperáveis da vida humana. ­Keynes introduz, assim, na teoria econômica, as relações complexas entre Estrutura e Ação, entre papéis sociais e sua execução por indivíduos convencidos de sua liberdade e autodeterminação.

Diante da incerteza radical, os detentores de riqueza são compelidos a tomar decisões com base em convenções quanto às perspectivas da economia. Keynes sugere que as decisões individuais dos agentes só podem apoiar-se no que imaginam serem as opiniões dos demais.

As convenções desempenham, na economia monetária da produção, um papel especialmente importante na formação de preços dos ativos, reais e financeiros – que descontam seus rendimentos esperados à taxa monetária de juros submetida às oscilações da preferência pela liquidez. Na perspectiva keynesiana, essas decisões intertemporais não têm bases firmes, isto é, não há “fundamentos” que possam livrá-las da incerteza radical em que os proprietários de riqueza estão mergulhados.

No Capítulo XII da Teoria Geral, os concursos de beleza promovidos pelos jornais servem de exemplo para ilustrar a formação de convenções nos mercados de ativos. Os leitores são instados a escolher os seis rostos mais bonitos entre uma centena de fotografias. O prêmio será entregue àquela cuja escolha estiver mais próxima da média das opiniões. Não se trata, portanto, de apontar o rosto mais bonito na opinião de cada participante, mas sim de escolher o rosto que mais se aproxima da opinião dos demais. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

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CHANTAGEM E SEGUREDOS

André Barrocal, CartaCapital

O jogo de Luiz Antonio Lopes na denúncia de estupro de vulnerável contra Alfredo Gaspar, vice de Flávio

Está nas mãos de Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, a decisão capaz de esclarecer uma acusação gravíssima contra o deputado Alfredo Gaspar, do PL de Alagoas. O escolhido para ser vice na chapa presidencial de Flávio Bolsonaro cometeu ou não estupro de vulnerável, ou seja, fez sexo com uma menor de 14 anos? Pelo artigo 217-A do Código Penal, esse crime é punível com prisão por um período de dez a 18 anos, e não importa que o acusado alegue ter havido consentimento da vítima. A Polícia Federal pede desde abril para investigar o caso. Antes de autorizar ou negar, Mendes quer ouvir o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e este requereu à PF diligências preliminares antes de se manifestar. No início de agosto, o juiz enviou a solicitação de ­Gonet à polícia e, também, àqueles que em março acionaram a PF, o deputado ­Lindbergh Farias, do PT do Rio de Janeiro, e a senadora Soraya Thronicke, do PSB de Mato Grosso do Sul.

A permissão de Mendes para o inquérito pode esclarecer outra acusação, surgida nos últimos dias e que deixou Farias exposto, graças a um sujeito que o petista descreve como “picareta estelionatário”. Luiz Antônio Lopes é um bolsonarista fanático, extremista. Filiou-se ao PL de Flávio e Gaspar há pouco mais de três meses, sonha em trabalhar em um governo anti-Lula. Segundo ele, o deputado petista teria fabricado artificialmente, e com dinheiro, a denúncia de estupro contra ­Gaspar. Há pistas de que Lopes esteja ele próprio por trás da desventura do alagoano, que jura jamais ter tido relação sexual com menores. Prendê-lo e quebrar seus sigilos bancário e comunicacional seria um caminho para desfazer dúvidas e mistérios sobre quem mente e quem fala a verdade. Idem um teste de DNA de ­Gaspar e da filha do alegado estupro. Sim, pois do crime do então chefe do Ministério Público de Alagoas teria nascido uma menina hoje com 8 anos, cujo paradeiro teria sido, primeiro, Minas Gerais e, agora, a cidade de Vassouras, a 120 quilômetros do Rio.

Lopes tem uma sorveteria no ­Shopping Jardim Guadalupe, na Zona Norte da capital fluminense. Em redes sociais, em especial na Kwai, publica vídeos espantosos que revelam sua fixação por dois personagens. Um é Farias. O outro, o juiz algoz dos golpistas de 8 de janeiro de 2023. “Queremos Alexandre de Moraes preso e executado”, afirma em um vídeo. Sobre o magistrado, fez uma “promessa”: “Vou cortar a sua cabeça e desfilar com ela por toda Brasília fincada na ponta de uma baioneta”. Lopes é um dos insurrectos de 8 de janeiro, tinha estado em Brasília no dia. Segundo ele, Farias e a deputada Gleisi Hoffmann, do PT do Paraná, teriam estado “pelos corredores” do poder na ocasião, afirmação destinada a alimentar a fake news de que a insurreição seria uma armação do lulismo. Outra mentira: a dupla petista e mais dois ex-deputados (Jean Willys, do PSOL, e Manuela D’Ávila, ex-PCdoB e hoje psolista) teriam sido os responsáveis pela facada em Bolsonaro em 2018. Farias, comenta Lopes em um vídeo, “vai comigo na minha urna, no meu caixão”.

Quanto às paixões político-partidárias do comerciante, há um vídeo exemplar: “Existe um plano aí, do próprio presidente, o nosso presidente Flávio, de me colocar no GSI”. O Gabinete de Segurança Institucional é o responsável pela segurança presidencial. Flávio é, claro, o filho “zero um” de Bolsonaro. Em 30 de abril, Lopes filiou-se ao PL do Rio, uma semana após dar à polícia da Câmara dos Deputados um depoimento contra Farias. Segundo ele, um assessor do petista teria pago para uma jovem chamada Marcela Maria Mendes passar-se por outra mulher perante uma jornalista. Marcela deveria contar que havia feito sexo com Gaspar aos 13 anos e que dessa relação havia nascido uma menina, hoje de 8 anos. Marcela deveria sumir após a entrevista, para que o relato não pudesse ser posto à prova por meio de um exame de DNA, por exemplo.

Uma jornalista da revista Piauí de fato entrevistou uma jovem que relatou o passado sexual de Gaspar. Foi na época da CPI do INSS, cujo relator era o deputado do PL. A história do alegado estupro veio à tona no último dia da comissão parlamentar de inquérito, 27 de março. Gaspar começou a ler o relatório, uma peça contra o governo Lula e favorável à gestão Bolsonaro. Farias irritou-se: “Eu não vou ficar perdendo tempo aqui”. Gaspar comentou em seguida, provocativamente, em alusão à menção do petista por delatores de uma empreiteira na Operação Lava Jato: “Deputado ‘lindinho’, deputado ‘lindinho’, não estamos falando de Odebrecht, calma”. O petista devolveu: “Seu estuprador!” Dali em diante foi o caos na CPI, que terminou com a rejeição do relatório de Gaspar.

Só uma investigação vai esclarecer os meandros da trama

No depoimento à polícia da Câmara, gravado em vídeo e disponível no ­YouTube, Lopes diz que a acusação feita na CPI contra Gaspar levou-o a cooptar Marcela para descobrir detalhes da trama contra o deputado de ­Alagoas. No início de março, antes do fim da CPI, a jovem teria conversado na praça de alimentação do shopping da sorveteria de Lopes com gente que aparentava não ser da comunidade local. O comerciante teria encarregado um funcionário da sorveteria, Rodrigo Freitas, de averiguar o que era aquela conversa. Detalhe: Freitas mora nos fundos da casa da avó de Marcela, conforme ­Lopes. O funcionário teria ouvido da vizinha o relato sobre se passar por outra. E contou a Lopes. Este diz que, após ter visto na mídia a acusação contra Gaspar, resolveu contratar Marcela para saber mais sobre ela ter sido paga para fingir. E até teria colocado a própria conta bancária à disposição de Marcela, para ela receber o dinheiro pela farsa.

O depoimento de Lopes foi enviado, em maio, ao Supremo, onde repousa o pedido da Polícia Federal para investigar a acusação de estupro contra Gaspar. O comerciante falou à Polícia Legislativa por obra do deputado. Marise Soares Pena, assessora do gabinete do alagoano, fez um Boletim de Ocorrência em 14 de abril, no qual dizia haver sido procurada por Lopes e que este sabia de uma trama contra Gaspar. Farias acusa a polícia da Câmara de tê-lo investigado ilegalmente, pois um parlamentar só pode ser alvo de apurações pela PF em processo no Supremo. A Câmara diz que, após a menção ao deputado petista no depoimento, mandou o caso ao STF e não tomou mais providências. A PF tem em mãos imagens de conversas por escrito, via celular, em que Lopes chantageia o petista e a senadora Thronicke. O print mostra a cobrança de 1 milhão de reais, aponta os dados bancários para depósito e cita Lopes. Sem o pagamento, “teremos 2 parlamentares muito enrolados”, afirma a mensagem. A PF tem ainda a cópia de um e-mail enviado ao gabinete da parlamentar que seria o pontapé inicial da chantagem.

Extorsão é crime punível com prisão de quatro a dez anos, conforme o artigo 158 do Código Penal. Será uma das linhas de investigação da PF, caso Gonet entenda que o caso merece apuração e Mendes concorde. Outra linha seria de “fraude processual”, delito previsto no artigo 347, com penas de três meses a dois anos. A “fraude” estaria caracterizada na tentativa de ocultar das autoridades o suposto estupro cometido por Gaspar. Na época da CPI, o deputado rebateu a denúncia ao contar a história de um primo. Este teria, aos 15 anos de idade, feito sexo com uma mulher de 21 e dessa relação nascido uma menina, Lourilene Pereira da Silva, reconhecida pelo pai após um teste de DNA em 2014. O deputado ofereceu à Procuradoria-Geral o próprio material genético, a fim de provar inocência no caso do alegado “estupro”.

A denúncia recebida em março pela PF não tem relação com Lourilene. O nome da vítima do estupro começa com a letra “J” e a filha dela, com a letra “E”. “J” teria sido doméstica na casa de Gaspar e, por ser menor quando da gravidez, coube à mãe dela registrar “E” em cartório. O nome completo de “E”, sua data e local de nascimento estão em posse da PF. Mãe e filha teriam sido retiradas de Alagoas após o nascimento de “E”, para não causar problemas a Gaspar. O primeiro destino teria sido Minas Gerais e o atual, Vassouras. “E” não frequenta escola, ela e a mãe viveriam de dinheiro enviado todo mês pelo deputado. Entre elas e ­Gaspar haveria um intermediário, Luiz Antônio Lopes. Seria esse o real papel de ­Lopes, não o de alguém que teria sabido da história por acaso, a partir de uma conversa acompanhada de longe na praça de alimentação de um shopping.

Segundo relatos em Brasília, Lopes teria tentado arrancar um extra de ­Gaspar, ao perceber a notoriedade do deputado durante a CPI do INSS. Teria sido ele a fazer chegar a jornalistas a informação sobre “E”. Depois de soprar à mídia, Lopes teria arrancado 70 mil reais de Gaspar e negociava o recebimento de mais 400 mil. Os pagamentos, caso verdadeiros e caso tenha havido “estupro de vulnerável” pelo deputado, caracterizariam o ilícito de “fraude processual”. E na hipótese de “L” e “E” serem mantidas escondidas contra a vontade, haveria mais um delito, sequestro mediante cárcere privado, punível com prisão de um a três anos, conforme o artigo 148 do Código Penal.

Nos últimos dias, Lopes disse a alguns jornalistas ser verdade a paternidade de Gaspar oriunda de estupro de vulnerável. Mas também insistiu na versão de que Farias teria fabricado a acusação contra o alagoano. Nos dois casos, não apresenta prova de nada, o que reforça a necessidade um inquérito policial para esclarecer tudo. ­CartaCapital tentou contato com o comerciante, mas não o localizou. •

Publicado na edição n° 1426 de CartaCapital, em 19 de agosto de 2026.

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