quinta-feira, 12 de março de 2026

A DOR HUMANA E O DANO ECONÔMICO

Míriam Leitão, O Globo

Conflito no Oriente Médio escala, com mortes de inocentes e efeitos econômicos que atingem diversos países

O The New York Times mostrou ontem um vídeo, com autenticidade verificada pelo próprio jornal, da escola para meninas no Irã atacada pelos Estados Unidos. A reportagem conta que uma investigação militar em andamento indica que o míssil Tomahawk foi disparado em direção ao colégio elementar por “dados desatualizados” dos alvos no Irã. Os gritos das mães procurando sobreviventes ficam no ouvido de quem assiste. Morreram 175 pessoas, a maioria meninas. Ontem, Israel escalou seus ataques contra o Líbano, nesta guerra que já virou uma tragédia humana e uma crise econômica.

Irã está respondendo com a estratégia de aumentar o custo econômico do conflito. O preço está sendo pago por todos os países, da região ou de fora dela, pelas empresas e pelos consumidores. A alta do petróleo é a consequência mais imediata, mas os efeitos são mais amplos e espalhados.

O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal, Ricardo Santin, afirmou que o fechamento do Estreito de Ormuz afeta as exportações brasileiras de carne de frango para todo o Oriente Médio, não só o Irã, bloqueando cerca de 70 mil toneladas dos itens. Parte da carga está sendo redirecionada para portos alternativos nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita e na Jordânia. O Oriente Médio compra 30% das exportações brasileiras do setor, e até agora entre 10% e 15% do volume já foram afetados. A produção não deve parar porque as empresas estão enviando a mercadoria para China, Europa e Japão, mas pagando taxas extras de US$ 3 mil a US$ 4 mil por contêiner. A região também compra 30% do milho brasileiro e 17% do açúcar.

Um levantamento feito para o blog pelo Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) mostrou que já foram atingidos vários alvos da estrutura de produção de petróleo e gás: uma refinaria no Kuwait, uma na Arábia Saudita, e uma no Bahrein, dois complexos industriais no Catar, uma refinaria e um terminal nos Emirados Árabes e dois portos em Omã. No dia 10, a petroleira estatal dos Emirados Árabes Unidos anunciou o fechamento do complexo de refino de Ruwais que tem capacidade de processamento de 922 mil barris/dia e tem plantas de petroquímicos, fertilizantes e gás natural. Em resposta, a estrutura de produção do Irã também está sendo atacada. Somando tudo, o que se tem hoje é dúvida sobre a capacidade de manutenção do fluxo de petróleo e derivados. Não apenas pela dificuldade do Estreito de Ormuz, mas porque a estrutura está sendo bombardeada.

Também têm sido atacadas usinas de dessalinização que são fundamentais numa região com muito poder econômico, mas escassez de água. Isso atinge diretamente a população. Os países do Golfo gostariam que o confronto acabasse, segundo tenho ouvido de analistas que acompanham a questão. Eles nada têm a ganhar e não estão interessados em se juntar ao esforço de guerra dos EUA e Israel.

Nos Estados Unidos, as contradições sobre os objetivos da guerra são cada vez maiores. A ideia de que foi iniciada porque ocorreria um ataque iminente do Irã às bases norte-americanas já foi derrubada. O secretário de Estado, Marco Rubio, disse que a iminência era derivada do fato de que Israel estava decidido a atacar o Irã e, portanto, as bases americanas seriam bombardeadas em resposta. Ou seja, Rubio está admitindo que os Estados Unidos são caudatários de Israel.

Israel, por sua vez, tem objetivos maximalistas. Quer derrubar o regime, acabar com a Guarda Revolucionária, interromper o programa nuclear. Quer a subserviência do Irã ou a sua fragmentação, e portanto fomenta a insurgência das minorias. O Irã está numa luta por sobrevivência como país e pela integridade territorial.

O ataque à escola elementar na cidade de Minab não poderia ter acontecido. Países signatários das convenções de Genebra assumem limites entre o que fazer e não fazer numa guerra. O Direito Internacional Humanitário não proíbe a guerra, mas coloca regras que as partes beligerantes devem seguir. O governo de Donald Trump feriu essas leis. O que o NYT informa é que, no passado, houve uma instalação da Guarda Revolucionária na área do colégio. Mas isso foi há dez anos. Mais de 100 meninas morreram por uma informação desatualizada. Essa é a dor humana. A econômica está batendo no bolso do consumidor americano. Mas não só. Até no Brasil onde a Petrobras segura o repasse, o preço do diesel está subindo e há temores de falta do produto.

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MORTE DE SICÁRIO NÃO É FATALIDADE

Julia Duailibi, O Globo

Ele deveria ser julgado. Além do mais, era um delator potencial. Por incompetência ou omissão, o Estado tem culpa nessa morte

Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o Sicário, morreu sob a custódia do Estado brasileiro, e esse não deveria ser um escândalo menor dentro dos tantos absurdos revelados pelo caso Master. É espantoso que um preso, com papel central na organização criminosa, tenha conseguido se matar dentro das dependências da polícia, numa cela monitorada, em tempo real, por essa mesma polícia. Sicário ainda deu uma chance aos agentes de plantão: atentou contra a vida não uma, mas duas vezes. Mesmo assim, ninguém, em tese, viu.

A morte de Sicário não é uma fatalidade como as autoridades querem fazer crer. Fatalidade seria se ele tivesse tido um infarto fulminante na PF. Não foi o que aconteceu. As imagens da cela, sem pontos cegos, como a própria polícia gosta de destacar, mostram que ele se enforcou e que não havia viv’alma disposta a impedi-lo.

Sicário era, segundo a investigação, o longa manus de Daniel Vorcaro, responsável por monitoramentos ilegais e outras delinquências promovidas pelo banqueiro. Um dos mais importantes arquivos vivos do caso Master se implode sob as barbas da polícia. Quem viu as imagens diz não haver dúvidas do enforcamento.

A câmera, instalada no corredor, filma a cela de frente. Ela mostra Sicário, vestindo uma camisa social, sentado na parte de baixo de um beliche de concreto. Ele se levanta e vai até o banheiro da cela, onde não há câmera. Volta do banheiro já com a camisa amarrada no pescoço, com um nó numa das mangas. A outra manga amarra na grade que dá ao corredor. A tentativa é inútil. Seus pés alcançam o chão. Ele tenta de novo, desta vez um pouco mais alto. É bem-sucedido. Sicário agoniza, sozinho, de costas para a câmera, cujas imagens, precisas, captam a tatuagem de seu corpo.

Em entrevista ao Fantástico, o chefe da PF em Minas, Richard Murad, disse que “as imagens ficam acessíveis aos plantonistas”, mas que “eles têm outras atribuições além de monitorar exclusivamente as imagens”. Murad disse ainda que a “equipe de plantão foi extremamente diligente”. Para a PF, tudo não levou cerca de dez minutos. Para quem assistiu às imagens, foi mais que isso. É preciso saber quanto tempo o corpo dele ficou pendurado até que alguém fosse socorrê-lo. Quantos homens estavam de plantão? Quais as atribuições mais relevantes dos agentes naquele dia? Qual o protocolo sobre o uso das câmeras? Quando há preso na cela, o circuito interno fica mesmo ao deus-dará, sem que ninguém veja as imagens em tempo real?

A investigação aberta sobre a morte de Sicário, se feita com isenção, deve responder a essas dúvidas. É dever do Estado proteger o preso, até de si mesmo. Já há jurisprudência consolidada nos tribunais sobre a responsabilidade objetiva do Estado em caso de suicídio de preso, de acordo com o artigo 37, parágrafo 6º, da Constituição. Em 2016, ao apreciar o tema 592 da repercussão geral, o STF disse: “Em caso de inobservância do seu dever específico de proteção, previsto no artigo 5º, inciso XLIX da Constituição, o Estado é responsável pela morte do detento”.

Sicário deveria estar vivo. Deveria ser julgado por seus crimes. Além do mais, era um delator potencial. Seja por incompetência ou omissão, o Estado tem culpa nessa morte.

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STF NA RINHA POLÍTICA

Merval Pereira, O Globo

Os próprios supremos deram razões para ser criticados e submetidos a uma ação de impeachment

A pesquisa Quaest divulgada ontem confirma o empate técnico no segundo turno das eleições presidenciais entre o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro, reafirmando a polarização ou calcificação da disputa, como define a própria Quaest. Com uma diferença importante: a calcificação se dá entre o representante do antipetismo e o lulismo, com a vantagem para os oposicionistas. Eles se unem em torno de qualquer dos nomes que vá para o segundo turno em desfavor do presidente Lula, que não tem, como demonstrado em 2018, representante que absorva integralmente seus votos.

Uma eventual derrota de Lula na eleição de outubro significará a potencial decadência do PT, que, assim como o brizolismo, não deixa sucessor. O partido, a exemplo do PDT, poderá continuar existindo, mas não será mais o mesmo. Também aconteceu com o PSDB, embora de maneira distinta. Depois de oito anos governando com Fernando Henrique Cardoso e o Plano Real, os tucanos se perderam sem uma liderança política que se impusesse. A última foi o ex-governador de Minas Aécio Neves, que por pouco não ganhou a eleição de Dilma. Depois da própria derrocada, Aécio hoje mantém controle do partido e trabalhou para impedir a fusão com o PSD de Kassab. Estava tudo acertado, o PSD daria o nome ao partido, e o tucano seria seu símbolo.

Apesar de estar no governo, como o Congresso tem tendência crescentemente conservadora, o PT tem procurado no STF apoio institucional, movimento que o colocou indiretamente na crise que atinge a Corte. A percepção de que o governo Lula e o STF são a mesma coisa, mesmo que também a direita seja atingida pelos destroços do caso Master, se reflete nas pesquisas e comandará a eleição presidencial. Um Código de Ética não resolverá a crise do STF, mas poderia impor um constrangimento a mais para conter o comportamento dos ministros.

Hoje, estão protegidos por uma interpretação das leis que lhes permite ter atividades privadas, participar de viagens, fazer palestras. Um Código de Ética rigoroso, que exija declarar quem pagou as palestras e quanto receberam, já limitaria muito o campo para mal-entendidos. Não é à toa que a maioria dos ministros não aceita a obrigatoriedade de revelar o pagamento, porque alegam ser perigoso — uma desculpa esfarrapada. Um documento assinado por todos seria um obstáculo à farra que acontece. A importância do Código pode ser constatada de forma bastante simples: se ele não tivesse nenhuma serventia, todos assinariam.

Não querem assinar porque é um documento firmado pessoalmente; não é uma lei, que pode ser interpretada. O Código atenuaria o ambiente promíscuo que existe hoje, mas não acredito que saia. Eles não estão interessados em ser contidos por leis objetivas. O que existe hoje são leis interpretadas a favor deles. E, quando não dá para interpretar, como a participação em julgamentos em que escritórios de parentes estejam envolvidos, refazem a lei de acordo com os próprios interesses. O STF será claramente um dos pontos importantes na campanha eleitoral e, na sequência disso, é possível haver um governo de direita disposto a se vingar do STF promovendo um impeachment no Senado. E uma vingança cujos motivos foram dados pelos próprios ministros.

Enquanto a motivação era retaliação política pela prisão do ex-presidente Bolsonaro e dos envolvidos na intentona de janeiro de 2023, havia uma reação natural da sociedade a favor dos ministros. Agora, que os próprios supremos deram razões para ser criticados e submetidos a uma ação de impeachment, não há como evitar a exigência de uma investigação adequada ao escândalo que representam. Se, de um lado, os bolsonaristas tratam o ex-presidente como intocável, de outro, os supremacistas também se consideram da mesma estirpe, ou superiores. A sociedade que durma com um barulho desses.

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AVERSÃO AO GOVERNO PETISTA É RESISTENTE

Carlos Melo, O Globo

Tomados pelo autoengano de acreditarem-se portadores da verdade mais certa, governo e partido quedam-se blasés

Em fevereiro de 2025, pesquisa Datafolha apontava 41% de desaprovação ao governo Lula, para uma aprovação de 24%. Neste mês de março, os números apurados foram 40% de desaprovação para 32% que o aprovam. Na pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem, a desaprovação subiu de 49% em janeiro de 2025 para 51% neste mês; a aprovação caiu de 47% para 44%. Há resistente aversão ao governo petista de modo, talvez, intransponível. A Genial/Quaest mostra Lula (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) empatados nas intenções de voto para presidente num eventual segundo turno, ambos com 41%.

Em artigo publicado no GLOBO, em fevereiro de 2025, eu entendia se tratar de um “governo navegado pelo mar”, que “não tem senso de urgência, não articula relações com a sociedade”, não possui “poder de agenda, ideias modernas e inovadoras capazes de despertar esperanças para além da mesmice de políticas bem-sucedidas no passado; no geral, não há visão de futuro sintonizada com o presente em transformação”.

A despeito da imagem internacional positiva do presidente — e de números relativamente bons na economia —, na política doméstica Lula não tem aproveitado os sorrisos que, no último ano, a sorte lhe tem dirigido. Desculpa de todos os males, a comunicação não transpõe a resistência de amplos setores sociais. Empresários em geral, agronegócio em particular, jovens e evangélicos compõem um campo distante do cenário que os olhos do PT preferem mirar. Envolvido numa bolha, o governo parece estar a meio caminho do novo mundo e do velho Brasil real.

Mesmo eleitoralmente, rio em que deveria nadar sem dificuldade, o governo é moroso, se não displicente. Os palanques regionais estão em aberto, sem novidade nem alianças amplas a apresentar. Não há estratégia para disputas eleitorais no Congresso. Sobretudo para o Senado, espaço vital e alvo preferencial da oposição.

Tomados pelo autoengano de acreditarem-se portadores da verdade mais certa, governo e partido quedam-se blasés. Confundem como acertos seus os erros crassos de adversários desorientados, que acabaram por ajudar muito mais que a maioria dos aliados. Quando se crê que os presentes da fortuna serão aproveitados, Lula e companheiros procrastinam, deixam o tempo passar e a maré refluir. O mar leva de volta as oferendas que vieram dar na praia.

Não falta apenas estratégia; faltam estrategistas. O comando de campanha é estreito — posto que exista comando para além do instinto do presidente. Se é compreensível a prevenção quanto à voracidade patrimonialista do Centrão, não há aproximação com setores que dele se diferenciem e o isolem. Não há conexões e composição para além da esquerda: a arte da política. Antes, parece haver repulsa à atração e à composição; a morte da política.

É revelador o desfile da Acadêmicos de Niterói, que, ao pretender ajudar, atrapalhou. Não pelas acusações de campanha antecipada — coisa pouca diante das motociatas de Bolsonaro. Mas por reafirmar visão de mundo autocentrada de uma esquerda já nostálgica do brilho que teve um dia; ingenuamente encantada de si, de sua história e dos mitos que produz. Desprezando a multiplicidade do país, fecha portas que precisariam ser abertas. Quem sabe se levar, sabe que o mundo não é só aqui. Só que não.

Lula teve inúmeras chances de ampliar o governo e dialogar com a maioria do país: na eleição de 2022, na composição ministerial após a vitória; sobre os escombros deixados pelo 8 de Janeiro; por ocasião do tarifaço decretado por Donald Trump, quando poderia atrair setores produtivos reativos ao lulismo, estreitando laços em defesa da economia.

Mas o governo perde as chances que a sorte dá. Talvez por se considerar predestinado; talvez por ainda se crer capaz de vencer e governar sozinho. Autossuficiência que, com apoio do antibolsonarismo, pode até sobreviver à batalha eleitoral, mas que sucumbirá à previsível guerra do segundo mandato. Como os materiais, grupos políticos também sofrem fadiga. E se decompõem.

*Carlos Melo, cientista político, é professor do Insper
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GUINADA NA ECONOMIA

César Felício, Valor Econômico

A tendência desenhada pela pesquisa Genial/Quaest na quarta-feira (11) é inequívoca: o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) tornou-se, por ora, o favorito para vencer as eleições presidenciais de outubro e, mantidas as balizas atuais, já deve aparecer à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) nas simulações de segundo turno na próxima rodada. Todos os indicadores da pesquisa, tanto a de avaliação de governo quanto a de intenção de voto, são ruins para o atual chefe do Executivo.

A intenção de voto na simulação de segundo turno de Lula contra o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro cai há quatro rodadas consecutivas. Era 46% em dezembro, foi para 45% em janeiro, 43% em fevereiro e 41% agora. Flávio largou de 36%, ficou em 38% durante duas rodadas e agora foi para os mesmos 41%. A vantagem inicial de dez pontos percentuais do petista se liquefez durante o verão. A rejeição de Lula subiu dois pontos percentuais, passando de 54% para 56%. A de Flávio se manteve em 55%.

Na simulação de primeiro turno a vantagem de Lula sobre o pré-candidato do PL até cresceu de 6 para 7 pontos percentuais (37% a 30%) no cenário base, que inclui Ratinho Júnior (PSD), com 7%, Romeu Zema (Novo), com 3%, Renan Santos (Missão) e Aldo Rebelo (DC), com 1% cada. Mas nos cenários em que Ratinho é substituído pelos correligionários Ronaldo Caiado ou Eduardo Leite ou o quadro de concorrentes é enxugado, com a saída de Zema, Flávio cresce e encosta no petista. Ratinho Júnior e Zema tiram votos de Flávio, sobretudo nas regiões Sul e Sudeste. Na hipótese de eles não serem candidatos, uma ultrapassagem de Flávio sobre Lula ainda no primeiro turno é possível.

As más notícias para o presidente vêm sobretudo da pesquisa de avaliação de governo. Sua desaprovação voltou a subir, passando de 49% para 51% de fevereiro para março. Mas o mais preocupante para o Planalto é a taxa de aprovação, que ficou em 44%, o menor percentual desde julho. Todo o ganho que Lula teve depois que o presidente americano Donald Trump decidiu sancionar o Brasil com o apoio da família Bolsonaro desapareceu.

Pela primeira vez desde o início da série, a desaprovação de Lula no eleitorado feminino ultrapassou a aprovação. O governo é rejeitado por 48% das mulheres e aprovado por 46%. O dado é relevante porque o eleitorado feminino é um dos pontos de fragilidade do bolsonarismo. O relatório da pesquisa infelizmente não traz o cruzamento da intenção de voto por gênero, mas a debilidade de Flávio neste segmento foi detectada em outros levantamentos. No eleitorado que se diz independente do lulismo e do bolsonarismo, fatia que corresponde a um terço do total, a aprovação de Lula esvazia como um balão. Cai há cinco rodadas. Era 43% há seis meses e agora é 33%.

Foram muitas as notícias negativas em relação a Lula nos últimos dias, sendo uma, a das suspeitas de envolvimento do filho Fábio Luiz Lula da Silva no escândalo do INSS, potencialmente letal. Mas a pesquisa mostra uma fraqueza estrutural: a percepção de que o desempenho da economia piorou cresceu de 43% para 48% e atingiu a pior marca desde setembro. Isso depois de semanas em que o governo despejou milhões de reais em propaganda sobre o aumento da isenção do Imposto de Renda para a faixa de R$ 5 mil.

Uma pesquisa alarmante como essa pode levar o presidente Lula a dois movimentos. O primeiro, que começa a se desenhar, é o de começar a bater em Flávio. Parecia nítido para muitos observadores de que Lula e seu entorno poupavam o pré-candidato do PL, possivelmente por vê-lo como um adversário mais frágil do que seria o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). O segundo é de avançar o sinal no terreno fiscal. Bolsonaro pai melhorou sua intenção de voto em 2022 depois do calote nos precatórios e da aprovação, pelo Congresso, de gastos na área social mesmo em período eleitoral. Ele perdeu a eleição, mas certamente não por ser gastador.

O Congresso tem infligido derrotas à esquerda e ao governo, mas na área social, e em um ano eleitoral, tende a ser mais leniente. Lula possivelmente irá constatar que apostar suas fichas na rejeição de Flávio não será suficiente para reelegê-lo.

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O RECUO DE TOFFOLI E O AVANÇO DA CRISE MASTER À DIREITA

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Ministro reconhece suspeição no caso Master que avança sobre o União Brasil

A crise do Supremo Tribunal Federal ganha panos quentes com a decisão do ministro Dias Toffoli de se declarar suspeito para a relatoria do mandado de segurança pela instalação da CPI do Master na Câmara dos Deputados e para o julgamento da Segunda Turma que vai se manifestar sobre a prisão de Daniel Vorcaro, dono do banco.

Por quanto tempo, não se sabe, até porque o ministro Alexandre de Moraes, nomeou, para seu gabinete, o delegado da Polícia Federal Fábio Schor, seu braço direito nos inquéritos do golpe e das ‘fake news’, e o Fórum de Lisboa, popularmente conhecido como “Gilmarpalooza”, já está anunciado para os primeiros dias de junho. Abre-se, pelo menos, a perspectiva de que os holofotes do caso venham a ser partilhados com a política.

Não há dúvida, no entorno do presidente, de que sua popularidade e intenção de voto têm pago a conta do escândalo do Master pela condição de “representante máximo do status quo”, como disse o presidente do PT, Edinho Silva, ao Valor.

A informação de que o ex-prefeito de Salvador e secretário-geral do União, Antonio Carlos Magalhães Neto, recebeu R$ 3,6 milhões do Master e do Reag, começa espalhar, à direita, o estrago promovido pelo escândalo.

A informação saiu de um relatório do Coaf ao qual O Globo teve acesso. O conselho, que monitora movimentações financeiras suspeitas, é subordinado ao Banco Central e seus relatórios são compartilhados no Sistema Eletrônico de Informações, do governo federal. Enquanto foi relator do caso, Toffoli determinou que os relatórios fossem compartilhados unicamente com seu gabinete. Ao substituí-lo, o ministro André Mendonça restabeleceu o fluxo determinado por lei.

Já se sabe que os fundos de previdência de prefeituras e governos lesados pelo Master, os contatos na agenda de Vorcaro, os parlamentares que apresentaram projetos em seu benefício e aqueles a quem faz referência nas mensagens de WhatsApp conhecidas, são, majoritariamente, de partidos de direita. O depósito na conta de ACM Neto, porém, é o primeiro duto comprovado do escoamento, para a política, do rombo de R$ 60 bilhões aberto pelo banco. Outros virão.

Ex-prefeito de Salvador e pré-candidato do partido ao governo da Bahia, ACM Neto foi um dos maiores entusiastas, no DEM, da fusão com o PSL, partido pelo qual Jair Bolsonaro elegeu-se em 2018. Da fusão, nasceu o União, que recebeu o terceiro maior quinhão do fundo partidário (R$ 107 milhões) em 2025. O partido cresceu tanto que virou uma agremiação amorfa. Abarca de Milton Leite, o ex-presidente da Câmara paulistana ao presidente do Senado, Davi Alcolumbre (AP), passando pelo relator da PEC da Segurança, Mendonça Filho (PE), e pelo senador Sergio Moro (PR).

ACM Neto passou a secretário-geral desta massa amorfa, cedendo a presidência a Antonio Rueda, egresso do PSL. Ao assumir o União, Rueda disse que gostaria de comandá-lo como uma empresa. Se a delação da máfia dos combustíveis vier a ser aceita, como mostraram Breno Pires e Arthur Guimarães na Piauí, se saberá o quanto Rueda ajudou também os negócios do crime organizado.

No ano passado, ACM Neto deu mais um passo, avalizando a federação entre o União e o PP do senador Ciro Nogueira (PI), requerida, mas ainda não avalizada pelo TSE. O escândalo do Master deriva, em parte, da retranca imposta ao aparato de controle da corrupção, do Ministério Público ao STF, a partir da invalidação da Lava-Jato. E Ciro Nogueira personifica, como poucos, esta retranca. Pelo papel exercido no impeachment de Dilma Rousseff, pela formatação do poder do Centrão no Congresso e pelo papel assumido no governo Jair Bolsonaro.

O presidente do PP forma com Rueda a dupla que, potencialmente, mais tem chance de ser atingida pelas duas maiores investigações em curso na República, a do Master e a da máfia dos combustíveis. A despeito da proximidade de ACM Neto com a dupla, é na sua vizinhança que se deve procurar a origem do depósito.

O ex-prefeito é vizinho e amigo de Augusto Lima, ex-sócio de Vorcaro. Na nota em que justifica o depósito, Neto o atribui à prestação de serviços de sua consultoria na “análise da agenda político-econômica nacional”. Correligionários a definiram com uma frase: “Igual à nota da Vivi”. Reputaram-na tão pouco convincente quanto a nota da mulher do ministro Alexandre de Moraes, Viviane Barci, para justificar o contrato de advocacia de R$ 129 milhões com o Master.

No União, a avaliação é que este depósito será mais danoso a ACM Neto do que a proximidade do PT baiano com Lima. Isso porque esta relação foi construída por dois ex-governadores, o senador Jaques Wagner (PT) e ministro da Casa Civil, Rui Costa, na privatização da Empresa Baiana de Alimentos, dona de supermercados populares. Esta operação originou o Credcesta, cartão consignado associado ao Master quando Augusto Lima se juntou a Vorcaro. Quando o governador e candidato à reeleição, Jerônimo Rodrigues, assumiu a Bahia, em 2023, esta relação havia se diluído.

O impacto político do Master mal começou. O futuro da CPI agora está nas mãos do ministro Cristiano Zanin. O depósito na conta de ACM Neto mostrará se o impacto regional sobre as campanhas dos envolvidos com o banco, em todo o país, dará, ao caso, concretude capaz de neutralizar o estrago generalizado sobre o Estado e sobre seu chefe.

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PESQUISA QUAEST CRAVA FLÁVIO COMO PRINCIPAL ADVERSÁRIO DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A roda da história parece girar para trás: Trump no poder, governos de direita nas vizinhanças e o caso Master desgasta as instituições políticas, inclusive o Supremo

Contra os prognósticos iniciais de que seria o único candidato incapaz de derrotar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições — ao contrário, por exemplo, do governador de São Paulo, Tarcísio Freitas (Republicanos), que era o “pule de dez” da Faria Lima e do agronegócio —, a pesquisa Genial Quaest, divulgada ontem, mostra o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) em empate numérico com o petista no segundo turno: 41% de intenções de votos para cada um.

Meses atrás, isso era impensável. Flávio era considerado, pelo Palácio do Planalto e mesmo pela maioria da oposição, o adversário mais fácil de derrotar. Agora, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro é o mais difícil. Com isso, a polarização entre lulismo e bolsonarismo volta a ocupar o centro do cenário político, como em 2022, e reduz o espaço para alternativas de terceira via. As razões principais são a mudança de conjuntura política e o comportamento recente de cada candidato. Ou seja, a velha dialética entre a Fortuna e a Virtú.

Uma das lições de Maquiavel é sobre os príncipes que têm dificuldade para se manter no poder quando as circunstâncias mudam. Em 2022, foi o caso de Bolsonaro. Em 2018, um episódio imprevisto havia desequilibrado a campanha eleitoral: a facada que levou em Juiz de Fora (MG). O atentado reduziu a rejeição que sofria em certos segmentos, que o demonizavam, e reforçou o sebastianismo salvacionista de quem já era considerado um “mito”.

Havia, também, um cenário internacional favorável, com Donald Trump na Presidência dos Estados Unidos e outros líderes de direita no poder em países importantes da América Latina e da Europa. Todos surfavam a crise das democracias representativas e o aprofundamento das desigualdades provocadas pela globalização. A situação em 2022, quando Lula se elegeu, já era completamente diferente, ainda mais por causa do democrata Joe Biden na Presidência dos EUA e do negacionismo de Bolsonaro na pandemia.

Linhas divisórias

Entretanto, agora, a roda da história parece girar para trás: Trump voltou ao poder, governos de direita emergem nas vizinhanças e o caso Master impõe um enorme desgaste das instituições políticas, inclusive o Supremo Tribunal Federal (STF). No caso de Lula, na campanha eleitoral, a principal vantagem continua sendo sua posição institucional. Como presidente da República, dispõe da visibilidade do cargo, capacidade de mobilização do Estado e uma base social historicamente consolidada. Mesmo com desgaste recente, Lula mantém uma base eleitoral sólida — especialmente entre eleitores de menor renda, no Nordeste e entre os beneficiários de políticas sociais. O fato de 42% dos entrevistados considerarem o presidente mais moderado que seu próprio partido mostra que, se quiser, tem capacidade de ampliação política. Mas pode ser que não dê mais tempo.

A desaprovação do governo chegou a 51%, enquanto a aprovação caiu para 44%, o pior índice desde julho de 2025. A queda de cinco pontos nas intenções de voto desde dezembro também aponta um elemento simbólico importante: pela primeira vez, o medo da continuidade de Lula no poder (43%) supera, ainda que por margem mínima, o receio da volta do bolsonarismo (42%). A narrativa do “risco autoritário” pode deixar de ser o principal divisor de águas eleitoral em 2022.

Outro ponto crítico para Lula é o eleitorado independente, segmento que costuma decidir eleições competitivas, no qual Flávio aparece à frente, com 32% contra 27%. Essa diferença sinaliza dificuldade em dialogar com setores mais voláteis do eleitorado, especialmente no Sudeste e entre a classe média urbana. Lula estava até agora como aquele príncipe prudente que pensava jogar parado contra o príncipe desafiante.

Já o senador apresenta uma trajetória inversa. Sua principal força reside na reunificação do campo bolsonarista. O crescimento de cinco pontos percentuais desde dezembro indica que o eleitorado conservador voltou a se mobilizar. Mesmo inelegível e preso após condenação relacionada à trama golpista, o ex-presidente permanece como referência simbólica com densidade eleitoral.

Flávio se beneficia diretamente desse capital político, mas procura se apresentar como mais moderado do que o pai: o Bolsonaro que tomou a vacina. Seu avanço entre eleitores independentes é relevante. O crescimento de seis pontos nesse segmento indica que parte do eleitorado que rejeita Lula começa a enxergar nele uma possibilidade de derrotar o petista. O senador deixa de ser um fenômeno de base ideológica para se tornar uma candidatura competitiva nacionalmente.

Por outro lado, Flávio também enfrenta fragilidades estruturais. A principal delas é a alta rejeição do bolsonarismo. O fato de 48% dos entrevistados afirmarem que ele não é mais moderado que seu partido indica que sua imagem ainda está fortemente associada ao núcleo duro do bolsonarismo. Isso limita sua capacidade de ampliar alianças políticas para conquistar setores moderados do eleitorado, bem como ressalta a dependência em relação à imagem de Bolsonaro, cuja agenda passa pela anistia dos golpistas do 8 de janeiro e o alinhamento automático com Trump.

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O AMIGO DA CORTE E O BAJULADOR DE MINISTRO

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

Manual prático para ajudar o STF ou proteger o centrão supremocrático

O amigo da corte tenta imaginar como estancar o sangramento, seja por aposentadoria ou sanção jurídica

Ser ministro do STF é exercer função pública, não ostentar estilo de vida. O cargo permite vida privada com o privilégio e o conforto do topo da pirâmide social brasileira. Só não permite o luxo extrativista, os cortejos oligárquicos e gangsteristas, o empreendedorismo familiar.

A carreira de ministro vem com muito poder, prerrogativa e prestígio, só pede não agredir a instituição. E não paga o suficiente para vestir-se de ouro. Não por moralismo. Não só por razões éticas ou estéticas, mas por razões legais compatíveis com a realidade socioeconômica brasileira.

O que é ética, estética e legalidade para quem se regozija em degustação de uísque e charuto patrocinado por banqueiro em Londres? No "Fórum Jurídico Brasil de Ideias", em 2024, quem teve a grande ideia foi Daniel Vorcaro, o rei do camarote da fraude bancária. Por que não financiar noite de álcool e fumaça com autoridades públicas por US$ 640 mil?

Fomos acostumados a ouvir anedotas da vulgaridade magistocrática. E ficamos moralmente anestesiados, juridicamente preguiçosos, politicamente paralisados. A prática foi se aprofundando, e muitos enriquecendo na conjunção patrimonialista. O JusPorn Awards só olhava.

Neste mês, a instituição chegou mais perto do precipício a partir das notícias da relação de ministros do STF com o Carminha da Faria Lima, artífice do previsível escândalo financeiro. Não porque a promiscuidade foi nova, não porque conflitos de interesses não convivam com ministros há muitos anos. Mas porque ficou bem desenhadinho aonde a indiferença a conflitos de interesses pode chegar. Virou esquete do Porta dos Fundos.

Em circunstâncias assim, o que faz o amigo da corte? Amigo na acepção genuína da palavra, feita de cuidado, franqueza e liberdade crítica: aponta o erro, pede compostura, propõe debate sobre código de ética, defende saídas institucionais de responsabilização individual que preservem a confiança na justiça e a institucionalidade do STF.

E o que faz o bajulador de ministro? Nega qualquer irregularidade, defende honorário faraônico pago pelo banqueiro para trabalho jurídico não sabido e sem complexidade. Acusa de lavajatista o jornalista que reporta fatos, classifica de "inimigo da corte" quem critica decisão do STF.

O amigo da corte está preocupado com o que vai sobrar de legitimidade ao STF para defender a Constituição dos inimigos à espreita. O sucesso do extremismo bolsonarista depende da implosão do obstáculo constitucional e da masterização da constitucionalidade.

O bajulador de ministro prefere deixar o tribunal sangrar, enterrar sujeira em cova rasa e se encontrar em Lisboa como se nada. Financia álcool e fumaça para que o fluxo de honorários desse pacto de bajulação lucrativa não se interrompa.

O amigo da corte não é remunerado. Reconhece que o dano autoinfligido por ministro à sua autoridade é irreversível e contamina o sistema de justiça. Entende só restar à instituição do tribunal a redução de danos, alguma solução rápida. O que está provado é grave o suficiente.

O amigo da corte não é ingênuo a ponto de esperar espírito público voluntário numa hora dessas. Mas tenta imaginar alguma forma de estancar o sangramento. Seja por aposentadoria ou por sanção jurídica. Qualquer coisa que não a adulação.

O bajulador de ministro não é amigo da corte. Nem o centrão supremocrático.

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COMANDO VERMELHO E PCC SÃO TERRORISTAS ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Objetivo de Trump é fazer da América Latina o seu quintal

Definição não trará mais segurança, mas maior militarização

A consequência prática da eventual designação pelo governo Trump das facções criminosas PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas estrangeiras é tão incerta quanto o próprio regime trumpista. Se o fizer, os EUA colocarão sobre o Brasil o símbolo de alvo de sua artilharia legal, diplomática e militar; se vai atirar ou não, são outros 500, o que dependerá da habilidade da diplomacia brasileira. Por partes, portanto.

Do ponto de vista interno. Trump conseguiria facilmente na lei dos EUA justificar —como fez com cartéis da Venezuela e México— que PCC e CV são organizações terroristas estrangeiras, por sua atuação transnacional, por promover ou endossar atos de terror e ameaçar a segurança dos EUA. O impacto legal dessa designação seria facilitar a punição como crime federal nos EUA do apoio material ao PCC e ao CV, restrições de viagens a quem esteja a eles associado e elevar sanções financeiras. Em parte, essas medidas são redundantes, porque já se aplicam a organizações criminosas transnacionais.

É nesse ponto que difere o impacto no Brasil. Se Trump definir PCC e CV como terroristas, isso em nada vincula a lei brasileira, que qualifica essas facções como criminosas, mas não terroristas. Na lei brasileira, terroristas —além de gerar terror social— são motivados por xenofobia e discriminação religiosa ou étnico-racial. A razão para isso é que expandir o conceito de terrorismo, como fazem os EUA, não resulta em maior segurança, mas, sim, em maior militarização.

PCC e CV podem e devem ser combatidos como organizações criminosas transnacionais, e isso não muda, com ou sem a designação dos EUA. O que Trump quer é menos cooperar com o combate ao narcotráfico (cujo destino na região são, em grande medida, os próprios EUA), mas, sim, designar a América Latina como seu quintal, ameaçando usar a força. Erra quem pense que isso signifique melhor combate ao crime.

Quando explodirem bombas por drones americanos no porto de Santos, ou ocuparem a Amazônia Legal, o cheiro não será de segurança, mas de pólvora e intervenção.

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A NOVA AGENDA SOCIAL DE VORCARO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Todas as propriedades de Daniel Vorcaro são cinemascópicas, de milhares de metros quadrados

Mas seus domínios neste momento espalham-se por uma cela de 9 metros quadrados na Papuda

Um histórico milionário paulistano vendeu sua mansão na avenida Paulista para uma construtora por uma fábula e, como não queria sair dali, exigiu também um apartamento ocupando toda a cobertura do prédio que seria levantado no lugar. Sua mulher estrilou: "Mas, Fulano, vamos ter de nos espremer em 1.000 metros quadrados???". Mostra que Ernest Hemingway não estava de todo certo ao responder à pergunta de F. Scott Fitzgerald sobre a diferença entre os ricos e os pobres. "Os ricos têm mais dinheiro", disse Hemingway. Não só isso —precisam de mais espaço.

O ex-banqueiro Daniel Vorcaro gosta de espaço. É uma marca de seus muitos imóveis —são panorâmicos, cinemascópicos. Vorcaro tem, por exemplo, uma mansão em Orlando, na Flórida, com 3.500 metros quadrados, tomando boa parte do condomínio Isleworth, no valor de R$ 180 milhões. Como se dá bem na Flórida, tem outra menor, mas mais chique, em Miami, com 1.900 metros quadrados, valendo R$ 460 milhões.

Por seus negócios com os poderes da República, Vorcaro precisa de instalações à altura em Brasília. Sua casa no Lago Sul tem 1.700 metros quadrados e mais 4.300 metros quadrados de área privativa —ele não gosta de vizinhos enxeridos. À guisa de pied-à-terre em São Paulo, espreme-se num apartamento de 999 metros quadrados no Itaim Bibi. Mas, naturalmente, a joia da coroa é sua casa em Trancoso (BA), com 12 suítes e cinco bangalôs, num terreno de 40 mil metros quadrados, no valor de R$ 300 milhões.

Para os grandes eventos, Vorcaro é exigente. Seu noivado, num palácio do século 2° d.C., na Villa Adriana, em Roma, custou-lhe R$ 21 milhões. E uma big festa, que teria acontecido em Taormina, na Sicília, foi orçada em R$ 200 milhões, incluindo o cachê do Coldplay e reservas no hotel San Domenico Palace (originalmente um convento do século 14).

Tudo isso para dizer que os domínios de Vorcaro neste momento espalham-se por uma cela de 9 metros quadrados na Papuda e sua agenda social compõe-se de 22 horas de isolamento. Mas, com duas horas de banho de sol, já dá para pegar um bronze.

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O QUE CABE À SUPREMA CORTE

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Escândalo do Banco Master causa estrago à legitimidade do STF

Corte precisa de solução que escape à defesa corporativista dos colegas de toga

As operações do Banco Master são um caso clássico daquilo que os economistas chamam de "rent seeking". O termo descreve o comportamento de todos quantos busquem ganhos econômicos via acesso privilegiado a quem tem poder de decisão sobre políticas públicas. Na prática, a busca de vantagens por meios políticos geralmente envolve corrupção e se aproveita de oportunidades que nenhum desenho institucional é capaz de bloquear completa e definitivamente.

O que já se sabe das falcatruas de Daniel Vorcaro —e ainda não é tudo— traz à luz uma extensa e espalhada teia de acesso aos núcleos de decisão no governo e nos demais Poderes da República. Mas, à diferença de outros escândalos notáveis, desta vez a bomba não rebentou nem no Palácio do Planalto nem no Congresso Nacional —embora atinja alguns deputados. Explodiu em cheio, ali sim, no Supremo Tribunal Federal.

Não há como exagerar o estrago provocado na legitimidade da corte, de que depende a eficácia de seu papel de guardiã da Constituição —logo, das instituições democráticas. E o momento não poderia ser pior.
A eleição presidencial promete disputa acirrada. A última pesquisa Datafolha mostra não apenas empate entre Lula e Flávio Bolsonaro no segundo turno. Revela ainda que pelo menos um dos três pré-candidatos da direita —Ratinho Jr.— está perto de empatar com o atual presidente.

Seja qual for o candidato da destra a romper a barreira do primeiro turno, petismo e antipetismo novamente racharão o eleitorado —e a decisão, como em 2014 e 2022, será por pouco, muito pouco. A competição feroz exigirá muito do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) para assegurar lisura à disputa. E mais ainda do STF, pois é possível que os resultados venham a ser contestados, como foram, com timidez, em 2014, e com golpismo explícito, em 2022.

Nem é preciso lembrar o desempenho do TSE e do STF na garantia das eleições livres e, a seguir, no cumprimento da vontade da maioria. E, muito especialmente, no julgamento de Bolsonaro e seus cúmplices que tentaram, primeiro, deslegitimar o processo de escolha e, depois, revertê-lo por meio do golpe de Estado.

Não por acaso, a trama autoritária assentou-se, desde sempre, no ataque ao Supremo, retratado como poder sem freios, inimigo das liberdades individuais. Não é gratuito que, agora, o bolsonarismo volte a apresentar a corte como poder corrupto e sem limites. Sob impacto das revelações do caso Master, o discurso bolsonarista tende a ganhar força redobrada, dadas as evidências de envolvimento de um juiz nos negócios de Vorcaro e as suspeitas que pairam sobre outro.

Como sugeriu o colega Marcus André Melo em sua coluna desta semana, cabe distinguir entre corrupção individual e decisões do STF quando tratou de defender a democracia de seus inimigos. Essa distinção não interessa à extrema direita que desdenha das instituições representativas. Ela só pode ser crível se a própria corte for capaz de realizá-la, buscando uma solução que escape à defesa corporativista dos colegas de toga.

Não há outra forma de recuperar a autoridade e a legitimidade perdidas e tão necessárias à proteção da democracia.

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quarta-feira, 11 de março de 2026

ALDO REBELO QUER SER O PADRE KELMON DE FLÁVIO BOLSONARO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Em 2022, Jair Bolsonaro teve a ajuda de um candidato laranja. Era Kelmon Souza, um baiano que se dizia padre pela Igreja Ortodoxa do Peru. Em 2026, Flávio Bolsonaro deve contar com outro adversário de mentirinha. É Aldo Rebelo, ex-ministro dos governos Lula e Dilma.

Aldo é um caso curioso de metamorfose política. Após quatro décadas no PCdoB, trocou a foice e o martelo pela motosserra. Renegou o passado de esquerda e virou porta-voz de latifundiários, garimpeiros e desmatadores da Amazônia.

Para ser aceito no novo clube, passou a atacar o Supremo e defender anistia aos golpistas. Foi recompensado com uma boquinha na gestão de Ricardo Nunes, o prefeito bolsonarista de São Paulo.

Em janeiro, o ex-ministro se lançou pré-candidato ao Planalto. Até aqui, não foi capaz de empolgar as massas. Ele aparece em último lugar em todos os cenários testados pelo Datafolha, com 2% das intenções de voto. Fica atrás até de Renan Santos, o youtuber do MBL.

Fora do páreo, Aldo parece cumprir tarefa como linha auxiliar do bolsonarismo. Na semana passada, usou uma entrevista para fazer ataques a Lula (“amargurado”), Marina Silva (“uma tragédia”) e o PSOL (“atrapalha qualquer governo”).

Instado a apresentar propostas, ele sugeriu aumentar o número de ministros do Supremo. A ideia não é boa nem nova. Já foi testada pela ditadura para subjugar o Judiciário e facilitar a tomada de medidas de exceção.

Deputado por seis mandatos, Aldo chegou à presidência da Câmara como substituto de Severino Cavalcanti. Sua carreira parlamentar é mais lembrada por lances folclóricos, como as tentativas de proibir o uso de palavras estrangeiras e de criar o Dia Nacional do Saci. Há quatro anos, ele tentou voltar à tona como senador por São Paulo. Terminou em sétimo lugar, com 1% dos votos.

Rejeitado nas urnas, o Policarpo Quaresma das Alagoas também tem penado para estacionar num partido. Desde que saiu do PCdoB, já rodou por PSB, Solidariedade, PDT e MDB. Agora aproveitou a aposentadoria do veterano José Maria Eymael para se filiar ao Democracia Cristã.

Em 2022, Kelmon causou espanto ao ir aos debates de batina e crucifixo. Terminou a eleição com o apelido de “padre de festa junina”. Mais discreto, Aldo adotou outro figurino para o papel de candidato laranja. Tem circulado de paletó e chapéu-panamá.

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TRUMP PISCOU

Zeina Latif, O Globo

País poderá sair pior do que entrou no conflito, e com o risco de abrir espaço para mais avanço chinês globalmente e de colher mais enfraquecimento do dólar no mundo.

As repercussões do conflito no Oriente Médio são tão severas, inclusive para os EUA, que causa espanto a ofensiva americana, especialmente porque havia negociações em curso com o Irã, na esteira do ataque de 2025. Enquanto isso, autoridades do país persa já externaram o objetivo de elevar o custo econômico da guerra para estimular o recuo dos agressores, até porque não ficou clara a razão para a ação dos EUA.

Uma interpretação inevitável é que fragilizar a economia chinesa fez parte do cálculo dos EUA. A mesma leitura seria possível na investida contra a Venezuela, pelo fornecimento de petróleo à China, com a diferença de que ações mais efetivas de influência dos EUA na produção e venda do petróleo, como intencionado por Trump, não seriam viáveis no Irã.

Na guerra comercial entre os países, em que a China está na dianteira na corrida da tecnologia digital e de transição energética, os EUA parecem querer deter o dinamismo da economia rival.

De fato, a China tem muito a perder no conflito: a fonte de combustível mais barato (13% da importação vem do Irã); o canal crescente de exportações, especialmente desde o expressivo encolhimento do mercado americano; o investimento no Oriente Médio, sendo a China o maior investidor em dessalinização da água na região; e o aumento do risco de crédito, como aqueles relacionados a refinarias e à produção e ao transporte de commodities.

Segundo o New York Times, as exportações chinesas ao Oriente Médio cresceram quase o dobro das exportações para o resto do mundo em 2025. O mesmo vale para o investimento chinês. Há custos imediatos para a China, contornáveis em um país sem eleições, mas há também para os EUA, e talvez bastante relevantes, não apenas no curto prazo, mas também em uma perspectiva de longo prazo.

Nos efeitos mais imediatos, há o impacto nas bombas de gasolina, que é automático nos EUA — o preço da gasolina já subiu em média quase 17%, e o do diesel, 24% —, podendo respingar em outros preços e abalar a frágil confiança do consumidor. O mau humor dos mercados adiciona riscos, inclusive pela importância da bolsa na poupança das classes médias — cerca de dois terços dos americanos de renda média têm investimento na bolsa.

Os negócios do país no Oriente Médio também são impactados, e há riscos para a agropecuária do Hemisfério Norte, com plantio em breve, por conta do aumento de custos, já que o golfo persa é fonte dominante de insumos agrícolas — a região responde por mais de um terço da ureia e quase um quarto da amônia no mundo, com escoamento por Ormuz, e a alternativa de fornecimento pela China ficou inviável por conta de restrições à exportação impostas para proteger o país de choques geopolíticos.

Quanto ao mercado de trabalho, não que o conflito possa impactá-lo severamente, mas ele não vem em bom momento, inclusive com revisões para baixo na geração de vagas.

Os custos para os cofres americanos agravam o quadro fiscal. O Departamento de Orçamento do Congresso vem alertando para a deterioração fiscal na gestão Trump, que já havia herdado números preocupantes de Joe Biden. O déficit primário para 2026 está previsto em 2,6% do PIB, e o nominal (inclui pagamento de juros), em 5,8% do PIB, isso antes da guerra.

Enquanto isso, o Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais, em Washington DC, estima que a guerra está custando cerca de US$ 891,4 milhões por dia e demandará a suplementação de recursos ao Congresso.

No caso de um conflito prolongado, que esgote estoques estratégicos de insumos, a própria produção de chips e outros produtos intensivos em tecnologia ficaria comprometida. Há grande dependência de Taiwan e Coreia do Sul, além da China, em insumos que passam pelo Estreito de Ormuz. E na complexa e pulverizada cadeia de produção do setor, prejudica-se também o abastecimento de empresas nos EUA, como Apple e Nvidia.

Todo esse contexto poderá pesar nas eleições do Congresso em novembro.

Em uma perspectiva de mais longo prazo, trata-se de mais um fator a enfraquecer a liderança global dos EUA. Passada a tempestade, o país poderá sair pior do que entrou no conflito, e com o risco de abrir espaço para mais avanço chinês globalmente e de colher mais enfraquecimento do dólar no mundo.

Trump, sem grande surpresa, dá sinais de recuo nessa guerra desnecessária aos interesses americanos.

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NA POLÍTICA, O DIA DA MULHER CONTINUA FRUSTRANTE

Fernando Exman, Valor Econômico

Machismo é uma constante nas relações parlamentares

Como de costume, o Congresso volta a reunir-se nesta época do ano para tentar obter alguma vantagem eleitoral do Dia Internacional da Mulher. Sempre perto do dia 8 de março fazem um mutirão para a aprovação de medidas voltadas ao eleitorado feminino, das quais, no mérito, não há quem discorde. São iniciativas importantes para combater a violência, o feminicídio e promover programas de saúde especialmente voltados às mulheres. Mas é preciso olhar além da espuma.

Entre interrupções e ameaças, o machismo é uma constante nas relações parlamentares. Serão relativamente poucas as candidatas aos governos estaduais e, no plano nacional, depois de muitos anos a eleição presidencial não terá um nome de mulher na urna.

Não é exclusividade do Brasil. Relatório recente da União Interparlamentar (UIP), organização internacional fundada em 1889 que reúne Poderes Legislativos de 183 países, revela que a partir de janeiro de 2026 as mulheres vieram a ocupar apenas 27,5% das cadeiras nos 49 Parlamentos que passaram por renovação, um leve aumento em comparação à taxa de 27,2% apurada um ano antes. Segundo a entidade, a oscilação positiva repete o ritmo observado em 2024, registrando assim o crescimento mais lento desde 2017 pelo segundo ano consecutivo.

Houve ainda queda na presença feminina em postos de comando nos Congressos mundo afora. A proporção de presidentes de Casas Legislativas caiu de 23,7% para 19,9%, num total de 54. “Dos 75 novos presidentes de Parlamento nomeados ou eleitos em 2025, apenas 12 eram mulheres (16%).”

O continente americano lidera em representação feminina, com 35,6% das vagas parlamentares para as mulheres, à frente dos 32,3% observados na Europa. Na região, países como México e Bolívia alcançaram a paridade de gênero, segundo a pesquisa, quando considerados parlamentos unicamerais ou Câmaras dos Deputados.

O Brasil, contudo, está bem abaixo da média. A bancada feminina da Câmara é de 16,9% dos 513 deputados, com 87 integrantes. No Senado elas ocupam 16 das 81 cadeiras. Ou seja, 19,7% do total.

Um momento importante nessa gaveta da história da política nacional ocorreu durante a CPI da covid, em 2021, quando nenhuma senadora foi indicada pelos partidos políticos como titular ou suplente da comissão parlamentar de inquérito que estava sendo instalada para investigar a conduta do governo federal durante a pandemia. Para garantir espaço e voz às parlamentares, mudou-se o regimento interno do Senado para criar a bancada feminina, o que garantiu às senadoras as mesmas prerrogativas dos líderes de partidos ou blocos.

Lamentavelmente, essa espécie de boicote à atuação parlamentar não parece ser um fato isolado no Brasil, o que por si só já seria grave. Segundo o relatório da UIP, a presença de mulheres em comissões parlamentares é maior naqueles colegiados que tratam de igualdade de gênero, juventude e direitos humanos. Ela é menor nas comissões que tratam de relações exteriores, defesa e finanças.

Especialistas em pesquisas de opinião têm apontado que um desafio dos principais pré-candidatos a presidente será reduzir a abstenção do eleitorado feminino. Para eles, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) tem vantagem em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL) entre as mulheres em geral, ao passo que uma maior presença de mulheres evangélicas no dia da votação pode beneficiar, pelo menos em tese, o candidato da oposição.

É um fator que não deve ser menosprezado. Estudo divulgado em 2024 pelo Departamento Intersindical de Assessoria Parlamentar (Diap) mostra que os votos nominais dados por mulheres nas eleições para a Câmara em 2022 foram substancialmente menores do que os dos homens em todas as unidades da federação. De acordo com o Diap, 79% dos votos nominais naquele ano para deputados federais (82.972.980) foram registrados por eleitores do sexo masculino, enquanto apenas 21% (22.153.638) por eleitoras.

Mas, além de incertezas em relação ao tamanho e à representatividade da bancada feminina, a próxima eleição pode carregar a marca adicional de não ter uma candidata a presidente da República. Desde a redemocratização, isso ocorreu apenas nas disputas de 1994 e 2002.

A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro chegou a sonhar com a possibilidade de concorrer. Aliás, foi incentivada por correligionários a pensar que poderia fazê-lo: recebeu recursos e estrutura do PL para percorrer o país e, depois da prisão do ex-presidente Jair Bolsonaro, acreditou que poderia ser a escalada para compor a principal chapa da direita na corrida ao Palácio do Planalto.

Com a escolha do enteado, recolheu-se tanto a ponto de hoje aliados de Flávio estarem preocupados com o prejuízo que sua ausência na campanha pode gerar. De qualquer forma, sua mobilização pelo PL Mulher acabará sendo útil para os objetivos do presidente do partido, Valdemar Costa Neto, de ampliar a bancada da legenda na Câmara dos Deputados e no Senado Federal. Muitos dizem na oposição que este, na verdade, sempre foi o plano. No máximo, acrescentam, Michelle cairia bem como vice em uma eventual chapa encabeçada por Tarcísio de Freitas.

Se uma reviravolta não acontecer nos grandes partidos nem uma candidata for lançada por uma legenda nanica, aliás, tudo indica que essa discussão vai acabar se limitando a como uma vice mulher pode promover a candidatura de um homem no eleitorado feminino. Ainda é muito pouco.

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terça-feira, 10 de março de 2026

A CORRUPÇÃO VOLTA DE FORMA NOVA E INTENSA COM A QUEBRA DO MASTER

Artigo de Fernando Gabeira

No momento, estamos imersos num escândalo. Nem sequer temos tempo de pensar noutros temas que pedem passagem. Como a defesa nacional, diante de um mundo dominado pela força bruta. Ou mesmo as mudanças no universo do trabalho, ditadas pela ascensão da inteligência artificial.

Existe uma sensação de que algo importante pode acontecer na esteira do escândalo. Velhos marinheiros se lembram da Lava-Jato. Falava-se em passar o país a limpo, e as expectativas se frustraram; a própria operação foi enterrada no governo Bolsonaro.

A corrupção volta de forma nova e intensa com a quebra do Banco Master. É preciso, de novo, conter as expectativas e corrigir erros do passado, como a divulgação de diálogos íntimos. Quando se trata de político envolvido em escândalo, não há muito o que fazer. Uma vez expostos, dificilmente vencem de novo as eleições. Pelo menos essa foi a experiência da CPI dos Sanguessugas, parlamentares que superfaturavam a compra de ambulâncias.

Mas como proceder quando suspeitas recaem sobre ministros do Supremo? Um longo relatório da Polícia Federal (PF) foi enviado à Corte denunciando a ação de Dias Toffoli. Numa reunião já histórica, o STF respaldou Toffoli, e um ministro chegou a classificar o relatório de “lixo”.

Telefones periciados pela PF sugerem que Alexandre de Moraes falou muitas vezes com Vorcaro. Moraes nega, apesar do contrato de R$ 130 milhões do Banco Master com o escritório de sua mulher. Relatórios e perícias da PF foram usados para o STF condenar centenas de pessoas. No momento em que os ministros são suspeitos, esse trabalho não vale. É descartado.

Como avançar nessas circunstâncias? Seria preciso investigar a ação dos ministros a partir dos dados da PF. Ela não avançará sozinha. No entanto o procurador é próximo dos ministros e não criará nenhum inquérito contra eles. Resta o Senado, mas a maioria dos senadores é muito prudente para iniciar um processo de impeachment. Será então que a sociedade está inteiramente desamparada, a ponto de não esperar nada?

Tenho falado na proposta de emenda constitucional do jurista Walter Maierovitch, que renova o Supremo garantindo o direito dos atuais ministros. Eles ficariam em disponibilidade, mas um novo STF poderia surgir com regras mais rígidas ou mesmo mandatos.

Mas essa proposta também tem probabilidade reduzida de ser aprovada. Na verdade, estamos num impasse, e não há outro caminho, exceto esperar investigações sérias e uma possibilidade de delação premiada de Daniel Vorcaro para que o processo seja concluído com êxito.

Não haverá grandes cataclismos. Apenas uma ponta de esperança de alguma reforma que o grande escândalo do Master pode inspirar.

Será necessário também definir como os milhares de aposentados podem ser ressarcidos do golpe. Se contarmos o rombo nas previdências do Rio e do Amapá, se levarmos em conta o assalto àqueles descontos ilegais no INSS, os mais velhos foram as grandes vítimas da sequência de escândalos.

Artigo publicado no jornal O Globo em 10 / 03 / 2026

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A CRISE GLOBAL QUE TRUMP CRIOU

Míriam Leitão, O Globo

Os planos do presidente americano de uma guerra pontual e rápida fracassou. O conflito se espalha e seu efeito é sentido pelo consumidor americano

O plano de Donald Trump fracassou. Ele pensou em uma intervenção cirúrgica no Irã e provocou uma guerra, com contornos e desdobramentos imprevisíveis e da qual ele ainda não sabe como sair. Achou que o conflito ficaria só no Irã, mas o país reagiu atacando vários países da região. A economia enfrenta consequências ainda nem calculadas inteiramente. O consumidor americano já está sentindo o forte efeito na bomba. Ontem, o petróleo chegou a bater US$ 120 e depois cedeu, porém está bem acima do patamar de antes da guerra de Trump.

Especialistas apontam aspectos diferentes da crise global deflagrada pela guerra contra o Irã. A cada momento se tem noção de uma nova complexidade. Trump improvisa sempre, numa sequência em que cada fala não tem relação com a fala anterior. No meio do dia ontem, com o petróleo disparando, ele disse que a guerra está perto do fim. Isso ajudou a esfriar o ambiente de pânico no mercado de energia. No fim do dia de ontem, ele declarou que sabia que o petróleo iria subir e que até havia subido menos do que ele imaginara. Trump mente. Ele sabe que está correndo risco político pelo peso da guerra no bolso do consumidor. Nos Estados Unidos, quando o petróleo sobe o custo é imediatamente repassado para o preço na bomba.

— Lá é na veia, é just in time. O americano já está pagando o custo da guerra, seja como contribuinte, seja como consumidor de combustíveis — diz David Zylberstajn, professor da PUC.

A guerra em si está ganhando contornos cada vez mais complexos, como explica o professor da USP Hussein Kalout, conselheiro internacional do Cebri.

—Trump subestimou a capacidade do Irã de se defender e retaliar. A diferença é que os Estados Unidos, como a maior superpotência militar, apostaram que esses ataques levariam a uma rebelião interna, o que não houve — diz o professor Kalout, que explica a resistência iraniana diante dos ataques pelo fato de o país sempre ter se preparado para uma guerra contra os Estados Unidos.

É o que acha também Uriã Fancelli, mestre em Relações Internacionais pelas Universidades de Groningem e Estrasburgo. Ele diz que o Irã está colocando em prática o que sempre preparou estrategicamente caso fosse atacado, regionalizar o conflito.

— O que tem ficado claro para os países do Golfo é que talvez a aliança não valha a pena porque não se viu os Estados Unidos saírem em defesa direta dos países afetados pela guerra. Os Estados Unidos estão apenas protegendo as suas bases. Os bombardeios têm ameaçado a infraestrutura civil desses países, como as usinas de dessalinização no Catar, nos Emirados Árabes, isso afeta as populações desses países que chegam a depender em até 90% do seu abastecimento dessas usinas.

O Irã fez o que sempre ameaçou desde a guerra contra o Iraque: fechou o Estreito de Ormuz. Para se ter uma ideia, David Zylberstajn lembra que antes a média de navios passando pelo Estreito por dia era de 50. Caiu a quase zero. Nos dias 4 e 5, nenhum navio passou. Se por um lado, isso afeta a economia do mundo inteiro, por outro lado, o próprio Irã se estrangula, ele pode ter desabastecimento de tudo que compra do mundo, e ele próprio não está exportando petróleo, que é a fonte principal das suas receitas.

— Os iranianos não estão preocupados com isso, porque estão numa guerra existencial. A prioridade é resistir. E como o Irã está sob sanções, ele fez estoques de alimentos, de commodities para um período longo de guerra — diz Hussein Kalout.

O mundo tem estoques de petróleo e ontem o G7, em reunião de emergência, deu sinais de que pode vir a liberar parte deles para estabilizar os preços. Os Estados Unidos também têm estoques. Mas quem está realmente disposto a liberar o que guardou para emergências? A China que importava petróleo da Venezuela e do Irã foi afetada pela guerra diretamente. E não é que vai faltar apenas o petróleo para combustível.

— Vai piorar a situação de várias matérias-primas. O enxofre é necessário para o ácido sulfúrico, que é usado na mineração de cobre e cobalto. O gás natural é necessário para a produção de chips. Taiwan, por exemplo, depende do gás de Omã, a Índia do gás do Catar. Os fertilizantes também podem faltar. Não são apenas os 20% do petróleo que passam pelo Estreito de Ormuz, são vários subprodutos que podem faltar — diz Zylbersztajn.

A guerra de Trump espalhou a incerteza pelo mundo, e esse é o pior ambiente para a economia.

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segunda-feira, 9 de março de 2026

PF CUMPRE ORDEM DEPTISÃO CONTRA ALIADO DE FLÁVIO BOLSONARO EM INVESTIGAÇÕES SOBRE CV

Juliana Dal Piva, ICL NOTÍCIAS

Gutemberg Fonseca, secretário de Defesa do Consumidor, diz que foi ele quem indicou Alessandro Pitombeira Carracena

A Polícia Federal cumpriu uma nova ordem de prisão, nesta segunda-feira (9), contra o ex-Secretário Estadual de Esportes do Rio de Janeiro, Alessandro Pitombeira Carracena, durante a Operação Anomalia, que é mais uma das fases das investigações que apuram  um núcleo criminoso que atuava na negociação de vantagens indevidas e na venda de influência para favorecer os interesses do Comando Vermelho, uma das maiores facções criminosas do Rio de Janeiro.

A coluna apurou que Carracena foi indicado ao órgão para o governo Cláudio Castro pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). É a segunda ordem de prisão: ele já estava detido por outra acusação neste mesmo caso. No entanto, o secretário do Consumidor Gutemberg Fonseca , outro aliado de Flávio, afirma que foi ele quem indicou Carracena ao governo. Em nota, o senador negou a indicação de Carracena, mas não falou de sua relação com Gutemberg Fonseca.

O ex-secretário é advogado e já ocupou também os cargos de diretor de operações em autarquia municipal; foi presidente do Fundo Especial de Ordem Pública da cidade do Rio; presidente do Conselho Administrativo da Guarda Municipal da capital; e integrante do Gabinete de Crise da cidade durante o período da pandemia.

Além de Carracena, estão sendo cumpridos três mandados de prisão preventiva e três de busca e apreensão na cidade do Rio, além de medidas cautelares diversas, como afastamento do exercício de função pública. As ordens judiciais foram expedidas pelo Supremo Tribunal Federal (STF). Um dos presos é o delegado federal Fabrizio José Romano.

Os elementos de prova colhidos indicam que os investigados estruturaram uma associação criminosa voltada para a prática de crimes contra a administração pública e para o favorecimento de interesses atrelados ao tráfico de drogas.

A ação integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, instituída em cumprimento ao Acórdão da ADPF 635, que visa assegurar a atuação uniforme e coordenada da PF na produção de inteligência e de repressão aos principais grupos criminosos violentos no estado do Rio de Janeiro, com foco especial na desarticulação de suas conexões com agentes públicos e políticos.

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Em novembro do ano passado, a PF obteve diálogos, na Operação Zargun, que demonstraram  como o Comando Vermelho tentava influenciar o policiamento no Rio por meio de contatos com Gutemberg Fonseca. Em um diálogo, Gabriel Dias de Oliveira, o Índio do Lixão, apontado pela PF como integrante do CV, relatou a Carracena que esteve com Gutemberg Fonseca para apresentar demandas e pedir “cobertura política”.

Nota do secretário Gutemberg Fonseca:
O advogado Alessandro Pitombeiro Carracena foi indicado por mim para exercer uma função técnico-jurídica na Secretaria de Estado de Defesa do Consumidor, com base em critérios profissionais e em sua formação na área jurídica. Trata-se de uma indicação de caráter estritamente técnico. Ressalto ainda que o senador Flávio Bolsonaro não participou dessa indicação. Carracena foi exonerado do cargo em janeiro de 2025, portanto muito antes de qualquer investigação de que tenhamos tomado conhecimento.

Conheço Carracena há mais de 20 anos. Nosso primeiro contato ocorreu quando eu ainda atuava como árbitro de futebol. À época, ele passou a prestar serviços como advogado para mim e para minha família.

Em relação às menções ao meu nome em mensagens atribuídas ao investigado Gabriel Dias de Oliveira, conhecido como “Índio do Lixão”, esclareço que tomei conhecimento desse conteúdo apenas por meio da imprensa. Desconheço completamente a vida pessoal e o histórico do referido investigado.

Como figura pública, participo regularmente de agendas institucionais e eventos em diversas regiões do estado, inclusive em comunidades e áreas socialmente vulneráveis, o que naturalmente implica contato com inúmeras pessoas, muitas vezes sem qualquer conhecimento prévio sobre quem são ou de que contexto vêm. Caso tenha ocorrido algum eventual contato em eventos públicos, este teria sido meramente circunstancial, sem qualquer tipo de relação pessoal, proximidade ou ciência sobre eventual envolvimento ilícito.

Cabe destacar, inclusive, que nas próprias mensagens divulgadas o investigado afirma que “não teve êxito comigo” e que “se não é de coração, deixa pra lá”, o que reforça que não houve qualquer tipo de atendimento de pedido ou estabelecimento de relação.

Reforço que não houve qualquer tipo de proximidade, relação pessoal ou atendimento de pedido por minha parte.

Nota do senador Flávio Bolsonaro:

O senador Flávio Bolsonaro não indicou o ex-Secretário Estadual de Esportes do Rio de Janeiro, Alessandro Pitombeira Carracena. Trata-se de mais uma mentira para tentar manchar sua reputação.

A posição de Flávio Bolsonaro é de combate ao crime organizado e às facções, atuando, inclusive, para que elas sejam nomeadas como aquilo que realmente são: narcoterroristas.

Diferentemente de Lula, que tem feito lobby para proteger esses grupos.

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domingo, 8 de março de 2026

OS FANTASMAS QUE NOS REGEM

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Mente-se na religião, no direito, na política e na economia, e quanto maior a mentira, maior a sedução

Limite é atingido quando se democratiza o grande absurdo na fantasmagoria do cotidiano

"Eu não acredito em fantasmas, não porque sejam invisíveis, mas porque são visíveis demais." Embora esta frase atribuída a Nietzsche não se encontre em nenhum de seus escritos, é bastante coerente com seu pensamento, em que realidade é terra e corpo. Outro tipo de "fantasma" foi abordado por Roland Barthes numa das críticas das mitologias pequeno-burguesas, em meados do século passado. Dessa vez eram os óvnis, também visíveis demais, porque nos relatos eram imaginados como duplos dos humanos. Se existissem, ironizava ele, deveriam ter um Estado, classe dirigente, forças armadas, um papa e as heresias.

Semanas atrás, Obama e Trump enrolaram-se com esse assunto. Obama declarou em entrevista que extraterrestres são reais, embora não tenha visto nenhum. Causou comoção, pois é óbvio que em dois mandatos presidenciais teve acesso a informações sigilosas. Dias depois, desmentiu-se. Trump, ávido por abafar o vazamento dos arquivos de Epstein (a ponto de precipitar uma guerra desastrosa), valeu-se da deixa para prometer a verdade sobre os aliens. Ordenaria a quem de invisível que abrisse o bico ao público, e não se falou mais nisso. Uma mentira atrás da outra.

O nó da questão está hoje amarrado no digitalismo. De celular na mão, são bilhões de olhos vigilantes. Na internet, terra onde a ficção ganha vida, são diários imagens e relatos ambíguos de contatos com as falanges desses supostos "fantasmas", que Carl Jung via como um mito do inconsciente coletivo (em "Um Mito Moderno de Coisas Vistas no Céu", 1958). Seria uma busca por totalidade ou uma maneira de preencher no imaginário, ao modo das civilizações ancestrais, o espaço contemporâneo, descrito pelo pensamento moderno como vazio e neutro. Pois "a alma não conhece sem fantasia" (Aristóteles, "Sobre a Alma").

Razão não faltava ao monstro que disse ser verdadeira uma mentira mil vezes repetida. Ou que se repete porque tem um fundo de verdade. A práxis racional da modernidade não é uma tranquila linha reta, opera por movimentos complexos e, às vezes, contraditórios. Há muita coisa absurda em que não se pode sequer pensar, porque não se pode fazer a experiência. Outras são objeto de crença. Deus, indetectável por estar além da razão, levou o teólogo Tertuliano (século 3) a decretar: "Creio porque é absurdo". Vive-se ainda hoje sob esse império, conviver com a verdade 24 horas por dia seria talvez insuportável. Mente-se na religião, no direito, na política e na economia. Maior a mentira, maior a sedução.

Quando então a mentira é denunciada como nociva? Quando ela democratiza o grande absurdo na fantasmagoria do cotidiano: aparições, milagres, curas espirituais, óvnis. Perturbativa, a internet mescla atordoamento com paranoia, mas provoca questões: há zonas de sombra entre o céu e a terra. Por que Obama acorreu tão célere a desmentir a mentira? Por que Trump deixou escapar que a mentira tem verdade? Covardia ou fantasmas de razão não identificados? Só nos resta cantar um tango argentino: "É tudo mentira..." ("Yira, Yira", de Carlos Gardel).

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ENQUANTO ISRAEL DORMIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Livro faz necropsia das falhas de segurança que permitiram ataque do Hamas

Excesso de confiança na tecnologia e erros políticos são dois destaques

"While Israel Slept", dos jornalistas Yaakov Katz e Amir Bohbot, é um livro de necropsia. Os autores examinam ao microscópio os erros dos serviços de segurança e do governo que possibilitaram o ataque terrorista do Hamas de 7 de outubro de 2023.

Israel tem o mais poderoso exército e os mais eficientes serviços de inteligência da região e ainda assim foi surpreendido pelo grupo palestino, que era considerado, tanto pelos militares como pelos políticos, o menos ameaçador dos três principais inimigos do país (os outros dois são o Irã e o Hezbollah). Como isso foi possível?

O livro não oferece uma resposta única porque a explicação está na famosa cadeia de falhas. Duas das mais flagrantes são o excesso de confiança na tecnologia e a leitura política equivocada. Os israelenses acreditaram erroneamente que a cerca de proteção hi-tech em torno de Gaza impediria qualquer infiltração. Também acreditaram que, apesar da retórica belicosa do Hamas, o Estado judeu e o grupo palestino haviam alcançado um "modus vivendi". Israel não interferia na administração de Gaza e vinha permitindo que o Hamas recebesse mais dinheiro de países árabes, além de conceder mais permissões de trabalho para a população local atravessar a fronteira.

Não é que os israelenses nunca tenham recebido informações que contraditassem essa visão. Alguns analistas entenderam o que estava para ocorrer e repassaram a informação, mas os escalões superiores estavam tão convencidos de que a sua visão era a correta que ignoraram tudo o que a contrariasse.

O livro é bem detalhista. Mostra como os serviços de inteligência para Gaza foram aos poucos desativados (eles continuaram a funcionar bem no Líbano e no Irã, onde Israel realizou operações secretas com sucesso), as rivalidades entre as diferentes unidades militares e agências civis. Conta também como os israelenses deram corda para o Hamas em seus primórdios, achando que os religiosos seriam um contraponto benigno à OLP de Iasser Arafat. Se arrependimento matasse...

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