terça-feira, 16 de junho de 2026

A COPA JÁ NÃO É MAIS A MESMA

Artigo de Fernando Gabeira

Minha principal atividade nesta Copa é comprar figurinhas para o neto. Nem sempre foi assim. Nas muitas Copas que vivi, o clima não era tão tranquilo.

Em 1970, assisti à final entre Brasil e Itália refugiado na Argélia. Um grupo de asilados pensou em torcer contra o Brasil, porque a vitória fortaleceria a ditadura militar. Bastaram alguns minutos de jogo para que todos estivessem torcendo apaixonadamente pelo Brasil e se sentissem no paraíso com a goleada.

Ainda no Brasil, acompanhei o jogo Brasil e Tchecoslováquia numa solitária na prisão. Não havia rádio, não havia vizinhos nas outras celas, não havia nada. Só silêncio. Pelos gritos que vieram da rua, contei os gols do Brasil e concluí alegremente que vencemos por 4 a 0. Ilusão. Eles fizeram um gol que ficou perdido na barreira de silêncio. Poderiam ter feito dois, três, e eu não saberia.

As Copas, sobretudo no período da ditadura, sempre foram um tema político. João Saldanha foi uma espécie de herói para nós por ter resistido à pressão de Emílio Garrastazu Médici. Saldanha era o técnico da seleção, e o general Médici queria que ele convocasse Dadá Maravilha, centroavante do Atlético Mineiro. Saldanha respondeu: o presidente escolhe o ministério dele, eu escalo a minha seleção.

O mundo mudou. As Copas, que eram tema da política interna, são hoje problema geopolítico. Quando Estados Unidos, Canadá e México resolveram hospedar a Copa de 2026 em conjunto, pensavam em projetar uma América do Norte unida e aberta ao mundo. A América do Norte já não está tão unida. E a abertura ao mundo, sobretudo nos Estados Unidos, transformou-se em paranoia diante do estrangeiro.

Os primeiros signos desse novo momento histórico apareceram com a decisão de barrar a entrada do juiz da Somália Omar Abdulkadir Artan. Omar é considerado um dos grandes juízes do mundo, apesar de vir de um país pobre, sem grande tradição em futebol. Foi recebido como herói ao voltar para a Somália. A delegação de Senegal foi objeto de dura fiscalização ao entrar nos Estados Unidos. Não se sabe por que tanto rigor contra os africanos.

A Fifa tem aguentado tudo calada. A mesma Fifa que, no Brasil, fez e aconteceu, impôs regras como se o seu presidente fosse um imperador. Um jornal francês caricaturou Gianni Infantino como fantoche de Trump. Sua imagem depois dessa Copa dificilmente escapará disso. Mesmo antes, Infantino criou um prêmio da paz e entregou o troféu a Trump, algumas semanas antes de ele começar uma guerra contra o Irã.

Uma característica desta Copa é que um dos anfitriões está em guerra com um dos participantes (embora tenha sido anunciado um cessar-fogo). É uma experiência única bombardear um país enquanto a seleção nacional do país bombardeado disputa uma partida de futebol no campo do inimigo.

Os iranianos também pagam um preço por disputar a Copa. Ficarão concentrados em Tijuana e viajarão para os Estados Unidos apenas para jogar e voltar em seguida. Pensar que grandes disputas internacionais foram criadas para unir os povos… A verdade é que líderes como Donald Trump jamais permitirão que se alcance esse objetivo.

Artigo publicado no jornal O Globo em 16 / 06 / 2026

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FUTEBOL BRASILEIRO CORRE RISCO DE VIRAR MEME SEM GRAÇA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Copa virou negócio de trilhões e ao mesmo tempo uma brincadeira de criança

A esperança do time de Ancelotti está no banco de reservas

Com a Copa do Mundo politizada, agigantada (três países anfitriões, 48 seleções, 104 partidas e zebras à espreita) e multiplataformizada (no Brasil há uma disputa de segundos entre os canais de televisão e os de internet pelo menor delay), é impossível escapar aos memes virais. O futebol é um negócio de zilhões e ao mesmo tempo uma brincadeira de criança. Uma festa em que os convivas se sentem imediatamente afetados pela síndrome de Peter Pan.

Há de tolerar as subcelebridades e os bicões, os influencers que ocupam o espaço da cobertura jornalística, o boneco orelhudo que faz comentários sobre arbitragem, a divulgação em massa da jogatina eletrônica, os pachecos e os vira-latas, as WAGs (são as esposas dos jogadores, descobri recentemente), os boletins médicos acerca da panturrilha do mascote Neymar, os torcedores que vão ao estádio só para tirar selfies. Há de aturar o cinismo de Gianni Infantino, o presidente da Fifa, e há de aguentar a bufonaria de Donald Trump, que acha que a Copa é sua.

Felizmente, sua majestade, a bola, quando tratada com inteligência e intimidade, deixa a parafernália exibicionista em segundo plano. Foi o que vimos na estreia do Brasil contra o Marrocos, em que Ayyoub Bouaddi, de apenas 18 anos, controlou a partida, com movimentação e toques precisos no meio de campo. Como se fosse veterano. Um show de ritmo e simplicidade que escancarou as deficiências do time de Ancelotti, mal escalado, com falhas individuais, postura burguesa e gorda, lentidão de dar sono. Único momento a salvar do desastre: o golaço de Vinicius Junior.

Sem mudanças, a seleção não irá longe. Mexidas durante o desenrolar do torneio são tradição brasileira —e não vou citar as entradas de Pelé e Garrincha, em 1958, para não recair na covardia anacrônica. A esperança está no banco: Fabinho (quem diria), Danilo Santos, Luiz Henrique, Rayan, Endrick. Para driblar a amargura do colunista, que venham os gols, a alegria e, vá lá, os memes.

Olho na França, que se apresenta nesta terça (16). É o bicho-papão.

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EVANGÉLICOS ABANDONAM FLÁVIO BOLSONARO E MIGRAM PARA LULA

Juliano Spyer*, Folha de S. Paulo

Mentira sobre relação com Daniel Vorcaro espalhou desencanto pelo bolsonarismo

Flávio é visto por muitos como crente de fachada

Evangélicos podem ser protagonistas em mais uma eleição presidencial. Desta vez, para tirar a certeza de que Flávio Bolsonaro será o candidato da direita. A última coleta da Quaest, divulgada na semana passada, mostra o nome bolsonarista caindo nove pontos nesse segmento, de 61% para 52%.

Evangélicos representam um dos pilares eleitorais do bolsonarismo. Lideranças nacionais poderiam atuar para conter a sangria, mas continuam em silêncio —e têm motivos. Apostavam na dobradinha Tarcísio-Michelle e foram atropelados pela escolha de Flávio. Em seguida, a mentira sobre a relação com um ex-banqueiro que promovia orgias aumentou o constrangimento.

Flávio é visto por muitos como crente de fachada. Não se sabe ainda para onde foram os milhões pagos por Daniel Vorcaro para o filme "Dark Horse" e cresce a expectativa de que novas revelações contaminem quem pedir apoio a ele.

O escândalo do Banco Master também expôs uma denominação frequentada pelos Bolsonaros. Vorcaro tinha como braço direito o advogado Fabiano Zettel, seu cunhado e pastor da Igreja Batista da Lagoinha. Para complicar, igrejas são espaços em que informações correm pelo boca a boca, para evitar escândalo público. Nesse ambiente, já se multiplicam boatos sobre Flávio nas festas de Vorcaro.

Dos muitos motivos para a queda de Flávio entre evangélicos, a mentira sobre a relação com Vorcaro tem efeito simbólico mais poderoso. Pastores que eu ouvi notam o desencanto com o bolsonarismo se espalhando silenciosamente.

Por que, então, as lideranças não rompem com Flávio e buscam outro nome, como fez o Ministério Madureira da Assembleia de Deus ao declarar apoio a Caiado? Entendem que o movimento é inútil porque, neste momento, ele ainda aparece como provável representante da direita no segundo turno.

Vale perguntar, então, para onde esses votos estão indo. Os dois pré-candidatos que cresceram na pesquisa da Quaest entre evangélicos foram Lula e Renan Santos, que é presidente do MBL e fundador do partido Missão.

Lula continua muito rejeitado por esse segmento, mas o apoio ao petista subiu de 24% para 31%. Os pacotes do governo para setores empobrecidos chegam ao mesmo tempo em que lideranças como Silas Malafaia, conhecidas pelo policiamento contra a esquerda, se distanciam de Flávio.

Renan é o único que cresce entre as opções à direita. Num segundo turno hipotético com Lula, o apoio de entrevistados evangélicos a ele subiu de 40% para 43%. Zema perdeu dois pontos, indo para 48%, e Caiado ficou estável, em 49%.

Os avós paternos de Renan eram evangélicos, mas ele mantém distância desse campo. Religião e política só aparecem em suas declarações para atacar a Lagoinha como igreja de Vorcaro.

Muitos pastores ainda não anunciaram apoio a Flávio. Apesar da oportunidade, nenhum pré-candidato teve atitude semelhante à de Jair Bolsonaro: querer aparecer ao lado dos evangélicos e dar importância simbólica a esse grupo, mesmo sem ter adotado essa fé.

Pedi e recebereis, diz a Bíblia.

*Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

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segunda-feira, 15 de junho de 2026

BOLETIM MÉDICO

Do g1 MT

Cacique Raoni é internado na UTI com infecção grave em MT

Hospital informou que o estado de saúde do líder é considerado grave e requer acompanhamento ininterrupto da equipe multiprofissional.

O líder indígena Raoni Metuktire, de 94 anos, foi internado em estado grave na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Dois Pinheiros, em Sinop, a 503 km de Cuiabá. A informação foi divulgada pela unidade de saúde na manhã desta segunda-feira (15).

Segundo o boletim médico, Raoni deu entrada no hospital às 17h de domingo (14), após ser transferido de avião da região de Peixoto de Azevedo, onde reside. De acordo com familiares, o cacique começou a apresentar problemas de saúde na manhã de sábado (13) e, no domingo, o quadro se agravou.

Ao chegar ao hospital, os exames iniciais apontaram alterações na função renal e indicadores compatíveis com um processo infeccioso grave. A principal hipótese diagnóstica é de sepse com foco pulmonar, causada por uma pneumonia broncoaspirativa associada a episódios de vômito.

Raoni permanece internado na UTI sob monitoramento contínuo, recebendo hidratação venosa, antibióticos de amplo espectro e suporte intensivo.

O hospital informou que o estado de saúde do líder indígena é considerado grave e requer acompanhamento ininterrupto da equipe multiprofissional.

Histórico de internações

Em maio deste ano, Raoni foi internado no mesmo hospital após sentir fortes dores na barriga devido à uma hernia antiga, mas recebeu alta médica após dois dias de tratamento. Cinco dias depois, Raoni voltou a apresentar complicações de saúde e foi novamente para a UTI para tratar um quadro de pneumonia, onde permaneceu por mais sete dias.

Segundo a unidade de saúde, o líder indígena apresentava múltiplas comorbidades, entre elas Doença Pulmonar Obstrutiva Crônica (DPOC), cardiopatia com marcapasso implantado e insuficiência cardíaca.

Em setembro de 2022, ele chegou a ficar internado por cinco dias no hospital de Sinop, após ser diagnosticado com um problema cardíaco e passar por cirurgia para implante de marcapasso. Depois, passou alguns dias no município de Colíder até voltar para a aldeia.

Além disso, em julho de 2020, o cacique foi internado em um hospital de Colíder após ter passado mal. Ele chegou a ser transferido de avião para Sinop com complicações gastrointestinais e desidratação.

Em setembro do mesmo ano, foi novamente internado com diagnóstico de pneumonia pela equipe médica de sua aldeia, no Parque Indígena do Xingu. À época, recebeu alta médica nove dias depois. Ainda neste período, também apresentou um quadro depressivo após a morte da mulher dele, Bekwyjkà Metuktire.

Os feitos de Raoni

O líder indígena é uma das vozes mais influentes do Brasil na defesa dos indígenas e do meio ambiente. Ele iniciou seu ativismo em 1954, aprendeu português, e foi uma voz importante para o reconhecimento dos direitos dos povos indígenas na Constituição de 1988.

Veja a trajetória de Raoni:

🎬Raoni ganhou destaque internacional em 1977, quando um documentário sobre sua vida foi exibido no Festival de Cannes, na França;

🎸Em 1989, visitou 17 países durante uma turnê internacional ao lado do ex-baixista Sting da banda inglesa The Police;

🏰Em 2012, foi recebido pelo então presidente da França, François Hollande, no Palácio do Eliseu. Na ocasião, pediu pela preservação da Amazônia e dos povos que vivem na região;

📃Em 2020, recebeu o título de Doutor Honoris Causa pela Universidade do Estado de Mato Grosso (Unemat). O título é concedido a pessoas que possuem destaque na sua área de atuação ou que sejam personalidades respeitadas pelo trabalho com a sociedade;

🌳Em 2023, acompanhou o presidente Luis Inácio Lula da Silva (PT) ao subir a rampa do Palácio do Planalto;

Em 2024, entregou uma carta ao Papa Francisco, durante um encontro no Vaticano, em Roma, para falar sobre as mudanças e catástrofes climáticas;

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APOIO À CANDIDATURA DE FLÁVIO BOLSONARO JÁ SAI CARO A SEUS MANTENEDORES

Miguel de Almeida, O Globo

E se o filho de Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? E se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0?

E se Flávio Bolsonaro acabar derrotado? E se o filho do Jair se mostrar um cavalo paraguaio (aquele que sai na frente e não aguenta o trote)? Existem outras perguntas: e se ele ganhar? Fará um governo de revanche, na mesma linha do Trump 2.0? Terá autoridade para evitar que seu irmão, Eduardo, venda o Brasil aos americanos? Afinal, o negócio está claro: Trump ajuda Flávio na eleição e então cobra o preço. Depois do Pix (olha o Zelle aí...) e das terras-raras, devidamente elencadas, poderia ser a Amazônia. Ou a Petrobras.

O apoio à candidatura de Flávio já sai caro a seus mantenedores. Medidas como os tarifaços 1 e 2 e a classificação das agremiações criminosas PCC e CV como terroristas causam prejuízos financeiros às empresas. A começar pela turma do agro, que deve se perguntar: até quando a ojeriza a Lula compensa a sangria provocada pelos Bolsonaros? Entra na mesa a fatura posta pelo patriarca de Rio das Ostras ao escolher o filho e não o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas. Ele joga com os seus, não para seu grupo político.

Daí que o ungido traz defeitos de origem. Não tem ajudado. Sua imagem não tem a nitidez do pai, radical assumido, misógino e ignorante em matemática. Esperto ao menos: com vários casamentos no currículo, conseguiu arrebanhar os pastores evangélicos que, em troca, ganharam várias isenções fiscais. Ficou claro que preferem ter seu paraíso em vida e não depois da morte. Bolsonaro, ao contrário do filho, se mostrou autêntico: fez da escalada de horrores sua plataforma política — vide as saudações sinceras à bandidagem.

O filho, não. Age com a espontaneidade do caixa eletrônico. Diante da revelação de sua ligação com Vorcaro, de imediato tratou de negá-la. Para abraçá-la pouco depois. Melhor fez Valdemar Costa Neto ao admitir que o jovem Bolsonaro foi buscar a parte final do dinheiro ao visitar Vorcaro já em prisão domiciliar. É nessa admissão que a direita deixa seu jogo mais claro. O custo de face dos Bolsonaros mostra-se oneroso. São muitos imóveis comprados em pagamentos em espécie, variadas rachadinhas, muitas condecorações a milicianos e infinitos rastros para manter um sangue do meu sangue no exterior.

Valdemar, com a direita, faz cálculos. Até o momento, não está enroscado com as mesadas do Master. Ciro Nogueira, presidente do PP, está mais perto da Papuda que da doce Courchevel; Antonio Rueda, comandante do União Brasil, também tem o que temer. Valdemar sorri.

O cálculo: a derrota de Flávio soa melhor que uma hipotética vitória. Com a vitória, viriam corpos e fantasmas no armário bolsonarista — e a fatura americana. E o PT, Valdemar, que já foi seu aliado, sabe administrar melhor na oposição. O naufrágio do jovem senador significaria a transformação do capital político da família em somente uma franja na extrema direita. Portanto sem força para fazer biquinho e querer ditar os rumos da direita civilizada.

Quanto a Lula, friamente, será seu último mandato. Dentro de um governo premido pela urgência de um ajuste fiscal, atolado num déficit precificado em altos juros e na necessidade desagradável de realizar um novo aperto na Previdência. Como as tendências do PT se comportarão quando o aumento de aposentadorias e do salário mínimo ocorrer apenas pelo índice inflacionário?

Em 2030, Lula irá para casa, enquanto seus correligionários continuarão atrás de votos. Será um deus nos acuda, em que a direita espera ver o Lula 4 emparedado para executar reformas que evita encarar desde seu primeiro mandato, em 2003. É uma tese.

A disparada nos juros futuros exibe a desconfiança matemática sobre a próxima administração petista. Valdemar e a turma da Faria Lima observam o dado cru: pela primeira vez na História, o país ultrapassa a marca de R$ 1 trilhão em juros nominais num período de 12 meses. Em miúdos, no primeiro quadrimestre de 2026, são R$ 351,5 bilhões, ou perto de R$ 3 bilhões por dia. Dados do BC.

Sou paulistano e conheço políticos como Valdemar, que preferia Michelle, e não o filho de Jair. Ele sabe que a eleição de 2030 será a primeira sem Lula no tabuleiro. Depois de um governo difícil, a direita aposta num horizonte com um PT desmilinguido e o bolsonarismo atolado em processos criminais. Caso haja dúvidas, observe o entusiasmo de Tarcísio ao apoiar o Flávio. Não chamo aquilo de amor.

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O DEBATE SOBRE REDUÇÃO DA MAIORIDADE PENAL PRECISA SER MAIS PROFUNDO

Irapuã Santana, O Globo

Falando apenas na redução da maioridade penal, o adolescente passa a ter possibilidade de ser punido de modo até mais brando

Na última semana, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) da Câmara aprovou a redução da maioridade penal de 18 para 16 anos. Com isso, esse debate apareceu novamente. As próximas eleições explorarão o medo, e ninguém quer que quem cometeu crimes permaneça impune. Mas o que a realidade nos diz a respeito?

Dados do Ipea revelam que quase 13% dos menores internados cometeram crimes gravíssimos contra a vida (8,75% dos homicídios). O sistema socioeducativo lida, portanto, com uma parcela de jovens altamente violentos, e a sociedade tem razão em exigir punição severa e proporcional para eles. Observando o quadro geral, porém, essa parcela corresponde a menos de 1% dos assassinatos que ocorrem no país.

Já é possível ver que o problema é mais profundo do que parece. Daí vem outra questão: será a medida de redução inconstitucional? A resposta é negativa, porque, embora a Constituição preveja proteção integral ao menor de idade, a definição de quem é essa pessoa, obviamente, pode mudar ao longo do tempo.

Outro argumento questiona se diminuir a maioridade penal, por si só, reduz a criminalidade. A resposta é novamente negativa. Ocorre que esse não deveria ser o ponto, porque, estatisticamente, todo intervalo curto de idade terá influência pequena no todo. Além disso, por mais que pareça irrelevante em relação à totalidade, uma vida ceifada não pode ser desprezada. Por esse motivo é preciso ter resposta institucional adequada aos delitos.

Hoje, depois de cometer uma infração, o menor tem como pena máxima três anos de acolhimento institucional, sem direito à progressão de regime. Em contrapartida, um adulto que comete um homicídio simples pode sair da cadeia depois de cumprir apenas um ano e meio de reclusão, porque poderá passar ao regime semiaberto ou aberto. Falando apenas na redução da maioridade penal, o adolescente passaria a ter possibilidade de ser punido de modo até mais brando.

Daí a importância de compreender exatamente o que está em jogo. Não é o crime ou o adolescente, mas seu medo, porque, caso a preocupação fosse realmente com a violência, o foco seria, antes de tudo, buscar mecanismos de aprimoramento das resoluções dos casos que chegam até a polícia. Como apontado pelo Instituto Sou da Paz, apenas 36% dos homicídios dolosos são solucionados. A título de comparação, a taxa de resolução na Europa é de 92%, e na África de 52%.

Portanto, o caminho concreto que devemos seguir vem do resultado do recrudescimento da penalidade, somado ao aumento da eficiência da Justiça Penal brasileira, visto que, numa análise de probabilidade, ainda é vantajoso pensar em cometer crimes no Brasil, porque as chances de ser preso são pequenas, e o tempo de punição está longe de ser razoável.

O debate precisa ser mais profundo para acabarmos com a sensação de insegurança e impunidade que atinge todos nós.

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PT CONSOLIDA ESTRATÉGIA PARA OS ESTADOS

Sofia Aguiar, Valor Econômico

Impasse continua em Roraima, Tocantins, Goiás e Minas, principal foco de preocupação da sigla

A pouco meses do primeiro turno das eleições de 2026, o PT já consolidou grande parte de sua estratégia nacional para a disputa dos governos estaduais, mas ainda enfrenta impasses em quatro unidades da federação. Entre elas, Minas Gerais desponta como um dos principais focos de preocupação da legenda. Segundo maior colégio eleitoral do país, o Estado é considerado peça-chave para o projeto de reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Na montagem de suas alianças regionais, o PT priorizou nomes próprios e já definiu dez pré-candidatos da legenda aos governos estaduais. A estratégia busca ampliar a presença da sigla nos Estados e fortalecer o palanque presidencial de Lula. Apesar disso, os cenários de Minas Gerais, Roraima, Tocantins e Goiás seguem indefinidos.

O caso mineiro é o mais complicado e considerado crucial. Durante meses, Lula trabalhou para convencer o senador Rodrigo Pacheco (PSB) a disputar o governo do Estado. Após meses negociando para lançar o parlamentar, Pacheco decidiu não disputar a anunciou a sua desistência de concorrer ao cargo.

A renúncia abriu uma espécie de crise interna no PT. Nos bastidores, aliados petistas admitem que o presidente deu “tempo demais” para Pacheco, e que já deveria ter se pensado em um “plano B” para o pleito, caso ele não concorresse. No entanto, duas semanas depois do anúncio do ex-presidente do Senado, o cenário do nome da esquerda em Minas continua uma incógnita e, até agora, Lula não despachou uma solução para o assunto.

Desde então, lideranças petistas passaram a discutir alternativas com o presidente nacional da legenda, Edinho Silva. As opções na mesa, neste momento, estão entre lançar um nome próprio ao Estado, apoiar uma eventual indicação do PSB ou construir aliança com um outro partido.

Para dar um “norte” a essa decisão a ser tomada, o diretório estadual do PT realizou uma consulta interna junto aos filiados. O resultado apontou menor apoio à hipótese de candidatura própria. O levantamento ainda não foi submetido à direção nacional, mas deverá ser discutido nos próximos dias com Edinho.

Embora o PSB fosse o partido de Pacheco, integrantes do PT rejeitam a ideia de que a aliança esteja automaticamente consolidada. Dentre os nomes cotados pela legenda do vice-presidente Geraldo Alckmin para disputar o governo estão o ex-procurador-geral de Justiça de Minas Gerais Jarbas Soares Júnior e o ex-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp) Josué Gomes da Silva. No entanto, no partido de Lula, ambos os nomes não são vistos como viáveis no atual cenário político mineiro.

Paralelamente, setores do PT passaram a defender uma composição com uma terceira sigla. A ex-prefeita de Contagem Marília Campos (PT), pré-candidata ao Senado, se reuniu com Edinho há cerca de duas semanas e defendeu a ele a construção de uma aliança entre PT e PSB com o MDB em torno da candidatura de Gabriel Azevedo (MDB), ex-presidente da Câmara Municipal de Belo Horizonte. A ideia defendida por ela é fazer uma “frente de centro” na disputa estadual.

A proposta foi discutida no início do mês em reunião entre Edinho, o presidente nacional do MDB, Baleia Rossi, e Gabriel Azevedo. Segundo interlocutores, o encontro foi considerado positivo, mas sem qualquer definição sobre eventual apoio.

No PT, a avaliação é que Gabriel Azevedo tem potencial de ampliar o alcance eleitoral de Lula em Minas, sobretudo caso consiga reunir apoios partidários relevantes. Integrantes da legenda também acreditam que uma eventual entrada mais direta de Lula na campanha pode impulsionar sua competitividade.

Para acomodar o PSB em uma eventual composição, Marília Campos também sugeriu reservar à legenda a segunda vaga na chapa ao Senado. Procurado, o PSB disse que há quadros relevantes para disputar o governo de Minas Gerais, mas que a prioridade do partido é reeleger Lula à Presidência. “O partido estará sempre aberto para montar a melhor composição”, afirmou.

Outro Estado que ainda depende de definição é Roraima. Isso porque o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) decidiu que haverá por lá uma eleição direta para a escolha do governador para um mandato-tampão. O pleito suplementar ocorrerá por conta da vacância no cargo, em razão da cassação do atual governador, Edilson Damião (União), vice que assumiu o posto após a renúncia do titular, Antonio Denarium, filiado ao Republicanos.

Para a disputa do mandato-tampão, o PT lançou a candidatura de Nelita Frank. Por conta disso, o partido pretende aguardar o resultado do pleito suplementar para definir sua estratégia para as eleições gerais de outubro de 2026, avaliando as alianças que serão construídas no novo governo estadual a ser formado nas próximas semanas. A eleição está marcada para 21 de junho.

Por fim, Tocantins e Goiás compartilham cenários semelhantes: ambos os diretórios já indicaram nomes para a disputa, mas ainda aguardam o aval da direção nacional. Em Tocantins, cresce a tendência de apoio ao vice-governador Laurez Moreira (PSD), embora o partido também mantenha diálogo com a ex-senadora Kátia Abreu. Já em Goiás, a indicação preliminar recaiu sobre o ex-deputado estadual Luis Cesar Bueno, mas a decisão ainda precisa ser ratificada pela executiva nacional.

Apesar das indefinições pontuais, o mapa eleitoral do PT para 2026 já está majoritariamente desenhado. Dos 23 Estados definidos, dez serão de candidaturas próprias da legenda. Os partidos que receberão apoios da legenda de Lula são o PSD (4), PSB (3), MDB (2), PDT (2), PP (1) e União Brasil (1).

Mesmo nos casos em que já há definição de alianças, ainda não está claro qual será o grau de envolvimento de Lula nas disputas estaduais. A tendência, neste momento, é que o presidente participe ativamente da campanha dos candidatos considerados prioritários, gravando materiais de propaganda e dividindo o palanque durante o período eleitoral.

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ACORDO DÁ ALÍVIO IMEDIATO, MAS ESTÁ LONGE DE RESOLVER O PROBLEMA NUCELAR IRANIANO

Humberto Saccomandi, Valor Econômico

Os termos do acordo parecem atender as principais demandas de Teerã, como o fim do bloqueio americano

Estados Unidos e Irã parecem ter finalmente chegado a um acordo preliminar de cessar-fogo. É uma excelente notícia para o mundo, pois deve atenuar a pressão sobre o preço do petróleo, o que já começou. Faltam, porém, detalhes importantes sobre o que foi acordado. E muita coisa ainda pode dar errado até a próxima sexta-feira, data prevista para assinatura do pacto. Além disso, nada garante que a questão central, o futuro do programa nuclear do Irã, será resolvida nos próximos 60 dias. Ou seja, há o risco de o confronto ser retomado em breve.

O presidente dos EUA, Donald Trump, afirmou que o estreito de Ormuz, por onde passam 20% do gás e do petróleo consumido no planeta, será reaberto a partir de sexta-feira, sem cobrança de pedágio. Isso fez a cotação do petróleo tipo Brent cair para cerca de US$ 83 na abertura do pregão eletrônico na Ásia, o menor valor desde o início de março. Mas ainda bem acima dos cerca de US$ 60 do começo do ano.

O acordo parece contemplar as principais demandas de Teerã, como o fim do bloqueio e das sanções americanas à venda de petróleo iraniano, a liberação de US$ 25 bilhões em ativos iranianos congelados, o adiamento da discussão sobre o seu programa nuclear e talvez até a criação de um fundo para reconstruir infraestrutura destruída na guerra.

Ainda assim, o regime iraniano terá de lidar com um país muito danificado e uma economia abalada pelo conflito. A guerra abafou o dissenso interno, mas ele pode ressurgir rapidamente, numa sociedade empobrecida.

Para Trump, o acordo traz benefícios, mas também riscos. A menos de cinco meses das eleições para o Congresso, ele deverá reduzir o preço dos combustíveis nos EUA, o que é importante, especialmente às vésperas da temporada de férias e do início do verão, quando o consumo aumenta. Mas o preço dificilmente voltará logo ao patamar de antes da guerra. E a inflação deverá continuar subindo nos próximos meses, devido ao efeito de repasse de preços ainda em andamento.

O presidente terá também de explicar ao público americano por que quebrou sua promessa de não iniciar novas guerras e gastou centenas de bilhões de dólares (projeção de custo de longo prazo) no ataque ao Irã sem atingir o objetivo inicial, que era acabar com a ameaça do programa nuclear iraniano.

Trump afirmou que retomará os ataques se um acordo nuclear não for negociado em 60 dias. Mas ele já recuou de ameaças e estendeu prazos antes. Isso pode ocorrer novamente, e os americanos talvez não tenham um acordo final até as eleições de novembro. Teerã não dá nenhum sinal de que vai abdicar de seu programa nuclear. Pelo contrário. Na ótica iraniana, ele certamente é mais importante hoje do que antes da guerra.

Já houve expectativas frustradas de acordo antes. E muita coisa pode dar errada até sexta-feira. Há detalhes que ainda precisam ser negociados. E há a questão de Israel e o Líbano.

Tanto o Irã como os EUA confirmaram que o acordo estende o cessar-fogo ao Líbano. Israel, porém, afirmou que não faz parte desse acordo. Ou seja, deixou aberta a porta para continuar atacando o grupo Hezbollah (apoiado pelo Irã) em território libanês. Ontem mesmo houve um ataque a Beirute, o que fez Trump criticar publicamente, em termos duros, o premiê Benjamin Netanyahu.

Israel sai do conflito sem ter atingido o objetivo estratégico de acabar com a ameaça nuclear iraniana. E sem a garantia de que isso ocorrerá nas negociações nos próximos meses. O Irã poderá agora se rearmar e rearmar o Hezbollah. E Netanyahu pode estar se indisposto com um dos poucos aliados que lhe restaram nos EUA. Ele ficará marcado por ter convencido Trump a entrar numa guerra que poderá custar aos republicanos a maioria no Congresso americano nas eleições de novembro. E por insistir na guerra, mesmo quando o presidente americano estava disposto a encerrá-la.

E se não houver acordo definitivo em 60 dias? Teerã parece apostar que Trump, que hesitou em continuar a guerra agora, estará ainda menos disposto a retomar o conflito na reta final da campanha eleitoral americana. E, se os republicanos perderem a maioria no Congresso, Trump terá de pedir autorização aos congressistas para reiniciar a guerra. Há uma chance grande de o regime iraniano conseguir enrolar e protelar essa negociação, o que possivelmente é o seu objetivo desde o início.

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UM GOLPE À REPUTAÇÃO DOS EUA

Oliver Stuenkel, O Estado de S. Paulo

O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas o compromisso de continuar negociando

Há mais de cem dias, a maior potência do mundo entrou em guerra contra o Irã para eliminar o programa nuclear iraniano, destruir suas capacidades militares e derrubar o regime. Nenhum desses objetivos foi atingido. Pelo contrário: não há sinais de que o Irã tenha interrompido seu programa nuclear; suas forças seguem atacando os vizinhos e o regime, antes fragilizado, passou por uma renovação e radicalização.

Quem parece acuado não é Teerã, mas Washington. Ontem, em seu aniversário de 80 anos, Donald Trump anunciou que o acordo estava concluído, autorizou a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do bloqueio aos portos iranianos. O entendimento, mediado por Paquistão e Catar, prevê a assinatura na Suíça e estende por 60 dias o cessar-fogo.

Mas o anúncio, mais do que encerrar a crise, expõe a posição em que os EUA se enfiaram: uma superpotência que ditou ultimatos, mas dependeu de mediadores para amarrar um texto cujos termos centrais ficaram adiados para uma negociação que apenas começa.

Tudo isso é notável por dois motivos. Primeiro: os EUA haviam negociado um acordo nuclear com o Irã em 2015 (sob Obama), antes de Trump rasgá-lo em 2018. Segundo: a guerra impôs um custo. Como escreveu Robin Wright na revista

The New Yorker: “A guerra custou US$ 28 bilhões, a vida de 13 americanos e de milhares de iranianos, o fechamento de Ormuz, a interrupção do fornecimento global de energia, uma crise econômica que atingiu centenas de milhões no mundo e um dano possivelmente irreversível à reputação dos EUA.”

QUEDA. Além de perceber que está com influência limitada sobre Teerã, Trump enfrenta dificuldades de controlar Israel e Hezbollah, atores-chave no conflito. Ontem, um ataque israelense a Beirute quase descarrilou o acordo e obrigou Trump a declarar que o ataque “não deveria ter acontecido”.

Que o entendimento tenha sobrevivido a esse episódio não apaga o fato de que TelAviv demonstrou, mais uma vez, poder de veto informal sobre qualquer diálogo entre EUA e Irã.

Internamente, a guerra deu força aos radicais da Guarda Revolucionária, que não temem continuar ou até intensificar o conflito que os levou ao centro do poder. O que está sobre a mesa não é um tratado de paz, mas, segundo a revista The Economist, um compromisso de continuar negociando: a trègua estendida de 60 dias, a reabertura gradual do estreito, à medida que o Irã remove as minas, princípios gerais sobre o programa nuclear e um alívio de sanções condicionado e faseado, com os detalhes adiados.

Foi Trump quem mais recuou. Por exemplo, a entrega do urânio enriquecido, antes inegociável, deu lugar à aceitação de que o Irã dilua o material e fique com ele. O resultado mais relevante, porém, não envolve o Irã, mas os aliados dos EUA no Golfo, que absorveram danos de uma guerra que não pediram e se deram conta de que ter uma base americana não os protegeu. Pelo contrário, tornou-os alvos do Irã.

Ao perceber que os EUA não estavam dispostos a protegêlo, o Catar tentou negociar um acordo com o Irã, oferecendo suspender a produção de gás em troca do compromisso iraniano de não atacar suas principais instalações de energia.

RISCO. Daí decorre a lição para empresas e investidores: o petróleo disparou com a destruição da oferta e depois recuou diante da expectativa de acordo, num vaivém que não foi episódio isolado, mas sintoma de um novo regime de risco – a volatilidade veio para ficar. Contratos futuros, seguros e reservas amortecem choques, mas não substituem o fluxo físico. Prêmios de seguro e fretes, enquanto isso, viraram custo permanente.

Há, contudo, um beneficiário da instabilidade: ao tornar imprevisíveis os preços do petróleo, a guerra acelerou a corrida por energia limpa, e países castigados pela escassez passaram a enxergar painéis solares, baterias e veículos elétricos chineses como rota de fuga.

Para Trump, sobra um caminho amargo: oferecer concessões para destravar um estreito cuja travessia, antes da guerra, ninguém precisava negociar, enquanto a questão nuclear fica para depois. Para o mundo, a herança é mais duradoura. Qualquer que seja o desenho final do cessar-fogo, o risco geopolítico elevado da energia virou um custo fixo.

*Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de relações internacionais da FGV-SP

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O POPULISMO BOLSONARISTA

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Como o populismo bolsonarista incentiva o populismo lulista

À medida que as eleições se aproximam, os políticos deixam de lado reformas de longo prazo e passam a se dedicar a medidas imediatistas de apelo popular garantido

O ciclo político-eleitoral nas democracias obedece a um padrão: à medida que as eleições se aproximam, os políticos deixam de lado reformas de longo prazo e passam a se dedicar a medidas imediatistas de apelo popular garantido. O orçamento público é o alvo preferencial. Governos não apenas gastam mais em ano eleitoral, como direcionam os recursos para programas mais vistosos e eleitoralmente atraentes, em detrimento de investimentos estruturais. Lula está botando centenas de bilhões de reais na rua com esse propósito – e os congressistas não querem ficar atrás, basta ver o avanço de pautas-bomba distributivistas (que favorecem nichos eleitorais como categorias profissionais e igrejas, mas não o todo da sociedade).

A produção de leis também costuma aumentar nos meses anteriores a uma eleição. Entram em pauta propostas que dificilmente ganhariam tração na metade dos ciclos político-legislativos, quando as discussões técnicas são menos desprezadas. O projeto do fim da escala 6x1, por exemplo, abraçado pelo governo Lula e aprovado na Câmara, não leva em conta possíveis impactos – para empresas e trabalhadores – que vão na contramão do que se pretende alcançar. Pelo lado da oposição, voltam as tentativas, patrocinadas pelo PL de

Jair Bolsonaro, de aprovar a redução da maioridade penal, sem que se preste atenção às experiências internacionais decepcionantes nesse sentido. Não há evidência consistente de que a redução da maioridade penal produza diminuição sustentável da criminalidade.

Há algo inédito na política brasileira que acaba turbinando o oportunismo pré-eleitoral. Pela primeira vez, temos um governo do PT que enfrenta uma oposição populista. Na Europa, cientistas políticos vêm há alguns anos estudando o que acontece quando um grupo político que está no poder é desafiado por uma forte oposição populista – ou seja, dedicada ao discurso de “o povo versus a elite” e a explorar soluções aparentemente simples para temas com alta carga emocional. Uma das conclusões é que o político incumbente, que busca manter-se no cargo, se torna mais condescendente com medidas de apelo populista, ainda que subótimas do ponto de vista prático. Se ele próprio já tinha tendências populistas, o efeito é isso se agravar. O resultado é o avanço de leis demagógicas e um leilão de benesses que nenhum dos dois lados pode vencer sem destruir o que resta do equilíbrio fiscal e de bom senso nas políticas públicas.

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CRIME E SOBERANIA

Denis Lerrer Rosenfield*, O Estado de S. Paulo

O Brasil – somos obrigados a reconhecer – já perdeu parte de sua soberania para as organizações criminosas

A recente decisão americana de designar como organizações terroristas as organizações criminosas como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), de caráter transnacional, tem suscitado uma grande celeuma, como se o Brasil estivesse a ponto de perder a sua soberania.

As declarações espalhafatosas do presidente Lula aumentaram ainda mais a confusão, com um demagogo falando em função do processo eleitoral em curso, em vez de um estadista procurando defender os interesses nacionais. A palavra soberania foi a mais utilizada, como se estivéssemos na iminência de uma invasão militar americana. Um completo disparate.

Os EUA não fizeram nenhuma ameaça, tendo tomado uma decisão conforme as suas próprias leis, punindo financeiramente empresas e entidades, mesmo órgãos governamentais, que façam negócios com o crime organizado. A denominação de “terrorista” permite, segundo a lei americana, que eles façam operações militares em águas internacionais e exerçam pelo Departamento do Tesouro forte pressão sobre os países coniventes com o crime organizado. Uma vez que essas organizações alcançaram uma dimensão internacional, o seu combate passa por uma grande potência que possa exercer tais ações ou por uma agência internacional que possa cumprir esse tipo de medida. Ora, a Organização das Nações Unidas (ONU) e agências congêneres têm tido uma extrema complacência, senão cumplicidade, com o terror islâmico, tornando impossível que delas se possa esperar algo. Os EUA assumiram para si essa missão, frente à inércia generalizada.

O discurso lulista de defesa da soberania é para lá de enviesado ideologicamente. Seus exemplos são o ataque relâmpago à Venezuela, sem invasão e ocupação nenhumas, terminando com o sequestro e prisão de seu ditador. Maduro e, antes, seu predecessor Chávez foram parceiros do tráfico de drogas e, sobretudo, cruéis repressores de seu próprio povo. Assassinatos e torturas se multiplicaram sob o seu domínio, acompanhados da destruição de todas as instituições democráticas. Eleições são lá uma farsa, apesar do fato de Lula já ter considerado aquele regime como mais democrático do que o brasileiro. Foi sim omisso e cúmplice dessa forma de terror exercida sobre os venezuelanos. A soberania dos povos, lema caro à esquerda, foi literalmente pisoteada pelo “socialismo do século 21”, tão ao gosto dos esquerdistas. Frente democrática supostamente defendida aqui nas eleições brasileiras, abolição da democracia e dos direitos humanos lá.

O Brasil – somos obrigados a reconhecer – já perdeu parte de sua soberania para as organizações criminosas. Há todo um território nacional que funciona à parte do Estado, sobre o qual não exerce ele nenhum domínio. O narcotráfico ocupa e domina as favelas brasileiras, sendo o Rio de Janeiro apenas o exemplo mais eloquente. As instituições estatais lá nem guardam mais a fachada, reconhecendo, de fato, uma força paramilitar que chega a ultrapassar a capacidade de ação das polícias estaduais, algumas já invadidas e infiltradas por essas organizações. Os rios da Amazônia são igualmente controlados pelos narcotraficantes, sendo utilizados para o transporte internacional de drogas. O Estado tampouco comparece no cumprimento de suas funções. Cria-se, portanto, uma situação de progressiva perda da soberania nacional. Cabe a singela pergunta: o que fizeram os governos petistas em 20 anos de exercício do poder?

Torna-se evidente que a retomada desses territórios não poderá ser feita pelas polícias estaduais e pela Polícia Federal, por carecerem de efetivos, meios e armamentos para empreenderem esse tipo de ação. Ademais, em algumas, conforme assinalado, há uma clara infiltração do crime organizado, chegando, mesmo, a exercer forte influência em tribunais e poderes legislativos. O Estado brasileiro encontra-se em franco processo de enfraquecimento. A questão que deverá ser enfrentada, goste-se ou não, é a do enfrentamento propriamente militar, pois só as Forças Armadas têm preparo e armamento adequados para esse combate. E trata-se verdadeiramente disto: de um combate militar. Apenas no seu término, poderão as polícias, devidamente preparadas e depuradas, voltar a controlar os seus territórios, com o Estado também finalmente presente em instituições sanitárias, de saúde e educacionais.

Beira uma comédia de péssima qualidade o presidente Lula, num dos seus arroubos verborrágicos, considerar os criminosos como “nossos”, querendo contrapor-se ao presidente Trump. “Nossos criminosos”: só se forem “dele”! Ato falho ou não, tal discurso expõe não apenas uma “tolerância excessiva”, mas uma verdadeira “condescendência” com aqueles que desrespeitam a soberania nacional. Mostra igualmente uma falta de respeito com as populações das favelas e dos ribeirinhos amazônicos que vivem – e sobrevivem – sob o jugo de organizações criminosas, que compartilham, assim, vários aspectos das organizações terroristas, embora não tenham uma ideologia própria.

*Professor de Filosofia na UFRGS.

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FISCAL COMPLICA A DECISÃO DO COPOM

Alex Ribeiro, Valor Econômico

O Brasil está em uma onda de sorte porque a deterioração fiscal não está se transmitindo pela taxa de câmbio, como costuma ocorrer, devido sobretudo ao comportamento do dólar nos mercados internacionais

Não é só a guerra no Oriente Médio e os efeitos de El Niño que dificultam a vida do Banco Central - também há a política fiscal fora do lugar. O presidente Lula disse na semana passada que o ministro da Fazenda, Dario Durigan, “flexibilizou o bolso” e “não tem tanta dificuldade de liberar um dinheirinho”. O Congresso mergulha numa pauta-bomba.

Como o Comitê de Política Monetária (Copom) do BC deve reagir em reunião nesta semana? Ninguém sabe ao certo: o mercado está dividido entre uma taxa Selic parada em 14,5% ao ano e o corte para 14,25% ao ano.

Os manuais de economia dizem que, nessa situação, caberia ao Banco Central estimar os impactos que a política fiscal terá na inflação e tomar as medidas para garantir que a meta de inflação seja cumprida no horizonte relevante de política monetária.

A má notícia é que dois canais de transmissão da política fiscal para a inflação - o estímulo à demanda e a deterioração das expectativas de inflação - podem se mostrar mais fortes na situação atual, quando a economia sofre os choques de oferta causados pela guerra e pelo El Niño. A boa notícia, ainda que bastante instável, é que o canal do câmbio está temporariamente desconectado do restante do sistema, o que torna mais difícil a leitura tradicional da política monetária

Os participantes do mercado estão dando atenção, em especial, ao canal da demanda agregada. Neste ano de eleição, o governo está colocando dinheiro na mão da população, seja com corte de impostos, seja com aumento do salário mínimo, seja com crédito subsidiado.

O Produto Interno Bruto (PIB) do primeiro trimestre veio particularmente forte, com avanço de 1,1%, e o destaque foi o consumo das famílias, ainda resiliente. Desde o começo do ano, os economistas aumentaram a sua projeção para o PIB deste ano, de 1,8% para 1,91%. Mas reviram um pouco para baixo as projeções para 2027, de 1,8% para 1,7%.

A combinação desses números indica que a alta do PIB, na visão do mercado, será temporária. A política monetária é claramente restritiva e está fazendo efeito. A expansão fiscal, junto com o ambiente internacional negativo, está levando a um aperto adicional nas condições financeiras, ainda que esse aperto nem sempre se traduza imediatamente em desaceleração da demanda.

Mesmo que o impulso fiscal se arrefeça mais adiante, o estrago que está sendo feito agora na inflação é relevante. Quando a economia está aquecida, os repasses do aumento de combustíveis e alimentos a outros preços da economia costumam ser mais fortes.

O fiscal fora do lugar também acaba potencializando os efeitos da guerra e de El Niño nas expectativas de inflação. Pelo livro-texto, choques como esses são temporários e não deveriam afetar a inflação no longo prazo, se a política monetária não estiver frouxa.

Mas, no mundo real, os choques de oferta estão afetando as expectativas - fenômeno que, recentemente, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, chamou de “memória muscular”. Desde a pandemia, foram muitos choques que elevaram a inflação - e os mercados, que não são inteiramente racionais, às vezes agem mais por reflexo do que por deduções lógicas.

Para o Banco Central, no fim das contas, não importa o motivo da desancoragem da inflação - ela é um problema porque pode levar à profecia autorrealizada de reajustes, com riscos de uma espiral de preços e salários.

Deve-se lembrar que os novos choques atingiram o Brasil quando as expectativas de inflação de longo prazo já estavam desancoradas, sobretudo por questões fiscais. A nova onda de medidas adotada pelo governo Lula e a pauta-bomba do Congresso só agravam a situação.

O Brasil, porém, está tendo uma onda de sorte porque a deterioração fiscal não está se transmitindo pela taxa de câmbio, como costuma ocorrer. Isso se deve sobretudo ao comportamento do dólar nos mercados internacionais.

Galípolo tem mencionado esse fenômeno ultimamente, embora não tenha estabelecido o elo com a questão fiscal. Muita gente vinha dizendo que, com as políticas erráticas de Trump, os investidores iriam se desfazer de suas posições nos Estados Unidos - numa tese que foi chamada de “sell America”.

Mas os retornos nos Estados Unidos, que seguem sendo a economia mais produtiva e o epicentro da inteligência artificial, são irresistíveis. Até oportunidades com retorno bastante incerto, como o IPO da SpaceX, atraem legiões de investidores estrangeiros. Mas esses investidores têm tomado o cuidado de proteger suas posições em dólares com operações de hedge, já que a moeda americana se tornou menos confiável sob a administração Trump.

Enquanto esse quadro perdurar, o Brasil pode ir se safando com a sua má situação fiscal. Mas esse é um equilíbrio altamente instável. E, como todo equilíbrio desse tipo, ele pode se reverter rapidamente caso o dólar volte a cumprir o seu papel tradicional de ativo de proteção em momentos de estresse. Os Estados Unidos, no caso de uma crise mais grave, continuam sendo o porto mais seguro da economia mundial.

O grau de desequilíbrio fiscal do Brasil também importa - a piora no ambiente não é contínua e gradual, ela ocorre em saltos. Isso ficou claro há alguns dias, quando o juro o câmbio andaram juntos.

O mercado está de olho no que será a política fiscal após as eleições - o que torna ainda menos trivial a resposta da política monetária, cujos efeitos sobre a atividade e inflação aparecem com defasagens.

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BACEN PRECISA DE AUTONOMIA, MAS AQUI É BRASIL

Bruno Carazza*, Valor Econômico

Proposta de autonomia financeira do Banco Central é importante, mas dá cheque em branco desnecessário para instituição

Deve ir a plenário do Senado nos próximos dias, em fase final de votação, a PEC nº 65/2023, que dá autonomia financeira, orçamentária e administrativa ao Banco Central. A proposta tem méritos e é justificável em muitos aspectos. Porém, pode se converter em mais um exemplo de medida tomada sem que se dimensionem seus impactos e, no futuro, lamentaremos suas consequências irreversíveis.

Desde 2021 a autoridade monetária já dispõe de autonomia operacional, que inclui mandatos para sua diretoria. Caso a PEC seja aprovada, o Bacen não mais se vinculará a nenhum ministério e não será subordinado hierarquicamente a ninguém.

Isso significa ingerência total sobre seu orçamento, não mais se sujeitando aos contingenciamentos impostos pelo Ministério da Fazenda. O órgão também terá liberdade para contratar pessoal e dispor sobre a sua remuneração, tendo um regime jurídico especial, sem equivalente nos três Poderes.

A direção do Banco Central, boa parte de seu corpo técnico e representantes do mercado apoiam a proposta. Justificam que o orçamento do Bacen vem sendo estrangulado nos últimos anos - de fato, entre 2015 e 2024 houve uma queda real de 36% no montante para investimentos e custeio, enquanto as despesas subiram consideravelmente, principalmente depois da criação do Pix.

Também teria havido uma diminuição de 20% no corpo de servidores na última década. Em contrapartida, o número de bancos, fintechs e afins a serem fiscalizadas cresceu 30%.

São problemas reais, que realmente comprometem o exercício das competências institucionais do Banco Central, principalmente em relação à sua missão de zelar pela estabilidade e pela eficiência do sistema financeiro. Incluem-se aí as atividades de fiscalização bancária e a manutenção do Pix e de outros sistemas, como os de reservas bancárias, de liquidação e custódia de títulos públicos, de registro das operações de câmbio, gestão de reservas internacionais, entre outros.

Questiona-se, porém, se a PEC é a medida mais apropriada para sanar esses desafios. Ou se a autonomia financeira e administrativa seria como dar um arsenal nuclear para aplacar as queixas de que a polícia não tem equipamentos para combater a criminalidade: além de ser possível resolver o problema com soluções mais pontuais, os riscos de abusos irreversíveis no futuro são imensos.

Se o que dificulta a atuação do Banco Central hoje é a ausência de fontes perenes de recursos financeiros e de pessoal para a fiscalização e a operação do Pix e outros sistemas, poderíamos pensar na criação de uma taxa (não um tributo) sobre as instituições financeiras, com vinculação da sua aplicação em investimentos para seu contínuo aprimoramento. Poderia também ser estabelecido um fluxo periódico de concursos para repor servidores aposentados e que peçam exoneração, tal qual é feito para a diplomacia, por exemplo.

Ao se conferir autonomia financeira, orçamentária e administrativa para o Banco Central, porém, abriremos mais uma frente de abusos e irresponsabilidade fiscal, tal qual já acontece no Judiciário, Legislativo, Ministério Público e Defensorias Públicas em todo o Brasil - entidades que já gozam de independência semelhante.

Os defensores do projeto argumentam que ele contém uma série de travas que evitarão que a mudança se converta numa fonte de supersalários para seus funcionários.

Ora, o que não falta no Brasil são travas fiscais. Temos diversos tetos, limites e vedações na Constituição, na Lei de Responsabilidade Fiscal, no arcabouço fiscal e na Lei de Diretrizes Orçamentárias que são totalmente inócuos para conter o mau uso do dinheiro público e sua apropriação pelas corporações públicas e privadas.

Nada nos leva a crer que os técnicos do Bacen, dotados de total independência, agirão de modo diferente do praticado por juízes, promotores e advogados públicos, criando penduricalhos e turbinando pagamentos extrateto.

Outro argumento utilizado pelo Banco Central é que a proposta alinhará o Brasil às melhores práticas internacionais. Bem, a autonomia orçamentária e financeira do Judiciário também o coloca entre as instituições mais avançadas do mundo nesse quesito, mas ela não veio acompanhada de uma prestação jurisdicional mais rápida e com menos insegurança jurídica - muito pelo contrário.

Aliás, a questão das entregas é um ponto sobre o qual a PEC silencia. A troco de quê virá a autonomia orçamentária e administrativa? Quais serão as consequências, por exemplo, se o Bacen não cumprir reiteradamente a meta de inflação? Vai continuar enviando uma simples cartinha de desculpas pra sociedade ou seus dirigentes perderão o cargo? E quando os seus servidores, turbinados com penduricalhos, continuarem falhando na fiscalização de futuros bancos Master, o que poderemos fazer?

No Brasil, adoramos dotar corporações com superpoderes sem lhes cobrar maiores responsabilidades. E em vez de criar Homens Aranhas para nos proteger, acabamos presos nas suas teias de interesses corporativistas.

*Bruno Carazza é professor associado da Fundação Dom Cabral e autor de “O País dos Privilégios (volume 1) e “Dinheiro, Eleições e Poder”, ambos pela Companhia das Letras

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QUANDO VAMOS ENCARAR O BRASIL QUE ENVELHECEU ?

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Quando a pirâmide etária se inverte a coisa mais sensata a fazer é encarar a realidade e se preparar para a velhice

Somos, segundo a ONU, a sexta nação com maior quantidade de idosos no planeta

Numa sociedade que cultua e idolatra a juventude, envelhecimento é assunto tabu. Mas quando a pirâmide etária se inverte rumo ao predomínio dos idosos em relação aos jovens, a coisa mais sensata a fazer é encarar a realidade e se preparar para a velhice.

O número de pessoas com 60 anos ou mais já supera o número de jovens entre 15 e 24 anos (IBGE). Somos, segundo a ONU, a sexta nação com maior quantidade de idosos no planeta. Ou seja: o Brasil envelheceu!

Antes que alguém diga que "os 60 são os novos 40" (rsrsrsrs), eu afirmo: não são não! Assim como há coisas que só a idade nos dá, há outras tantas que ela nos tira. E olha que eu considero o envelhecimento uma dádiva da vida.

Individualmente, acredito que um bom caminho é tentar se preparar física e emocionalmente para manter o maior domínio possível das funções motoras e das faculdades cognitivas durante a velhice. Essa sempre me pareceu a coisa certa (e a melhor) a se fazer.

Coletivamente, entendo que precisamos de políticas públicas que garantam dignidade e proteção aos idosos. Envelhecer é um fenômeno biopsicossocial que impacta as pessoas de formas muito distintas. E, apesar de a "padronização da velhice" ser uma tendência da sociedade, é preciso considerar uma série de fatores diferentes. A intersecção de gênero e raça é um deles.

Meu ciclo de amizades é composto majoritariamente por cinquentões como eu. É gente que, por óbvio, não só está distante da juventude, mas também bastante próxima de ingressar na velhice, e tem manifestado certa inquietação com a maneira como o envelhecimento é tratado em nosso país.

Conversava sobre isso com um amigo querido, de quem ouvi o seguinte: "Envelhecer é continuar a amar, a ter desejos e sonhos, mas constatar diariamente que o tempo para desfrutar de todas essas coisas diminuiu. Cada amigo, parente ou amor que parte aumenta a noção de urgência".

É sobre isso. O Brasil envelheceu e o tempo é um ativo que não podemos mais desperdiçar. Quando vamos nos preparar para a velhice?

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SÓ NÃO GOSTA DO MARCO DO FOMENTO QUEM NÃO FAZ CULTURA

Margareth Menezes*, Folha de S. Paulo

Estamos migrando de um controle meramente formalista e burocrático para uma sistemática orientada a resultados

O objetivo é um só: usar bem os recursos públicos para que a cultura brasileira floresça em todos os seus tons e cores

O debate público sobre o fomento à cultura é, e deve ser, constante. É um reflexo da vitalidade de um setor que pulsa em cada canto do nosso país, gerando emprego, renda e, acima de tudo, identidade.

Recentemente, a imprensa trouxe à tona discussões sobre a prestação de contas no Ministério da Cultura (MinC), ecoando preocupações legítimas sobre a gestão dos recursos públicos. É fundamental, contudo, que essa discussão seja pautada pela verdade dos fatos e pelo reconhecimento dos avanços que estamos implementando.

É preciso, antes de tudo, contextualizar. O passivo de prestações de contas que o MinC enfrenta hoje não é uma criação da gestão atual. É um desafio histórico, acumulado ao longo de décadas, sob diferentes governos e regras. A desestruturação e o desmonte do Ministério da Cultura em períodos anteriores agravaram essa situação, deixando um legado de processos represados e equipes insuficientes.

Chegamos para reverter esse cenário, não para ignorá-lo.

Nesse contexto, o MinC tem liderado uma verdadeira virada de paradigma no modelo de controle do fomento cultural. Com a autorização legal da lei 14.903, de 2024, aprovada pelo Congresso Nacional, estamos migrando de um controle meramente formalista e burocrático para uma sistemática orientada a resultados. Essa abordagem não é uma invenção isolada; ela se alinha a um modelo consolidado por legislações como a lei 13.019, de 2014 (Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil), a Lei Paulo Gustavo (Lei 14.148, de 2021) e o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (lei 13.243, de 2016). Todas essas normativas convergem para a importância de focar na efetividade da entrega do objeto e não apenas na conferência exaustiva de papéis.

É crucial desmistificar a ideia de que o foco em resultados significa abrir mão da análise financeira. Pelo contrário. A legislação é clara: a análise financeira permanece um procedimento crucial nos casos em que a execução do projeto não é efetivamente comprovada. O que muda é o método. Em vez de exigir a apresentação prévia de notas fiscais em dezenas de milhares de processos —uma exigência que, na prática, gerava filas e não impedia desvios—, concentramos a energia da fiscalização onde ela é mais eficaz: no controle prévio à liberação dos recursos, no monitoramento concomitante à execução e na avaliação dos resultados por objeto.

A documentação fiscal não desaparece; ela permanece exigível e verificável, sob a lógica da proporcionalidade e da boa-fé. O agente cultural é obrigado a guardar toda a documentação de execução física e financeira por cinco anos, à disposição dos órgãos de controle, e a rejeição das contas acarreta a devolução dos recursos, proporcional à inexecução verificada e com correção monetária, além da suspensão do direito de celebrar novos instrumentos de fomento.

Os resultados dessa nova abordagem já são visíveis. Em 2025, o MinC analisou mais de 11 mil prestações de contas, um recorde histórico, reduzindo o passivo para 10.077 casos pendentes, o menor patamar desde 2010. Nosso compromisso é afastar o risco de novas prescrições e, mais importante, liberar nossas equipes para se concentrarem em ações que realmente previnem e combatem ilícitos. Isso significa menos burocracia e mais cultura chegando à ponta.

As observações dos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), são sempre bem-vindas e contribuem para o aprimoramento contínuo de nossas políticas. O diálogo permanente com essas instituições é parte essencial de nossa gestão, garantindo que o rigor no uso do dinheiro público caminhe lado a lado com a realidade da produção cultural em um país de dimensões continentais. Não se trata de ausência de controle, mas de um controle mais inteligente, moderno e eficaz.

No fim das contas, o objetivo é um só: usar bem os recursos públicos para que a cultura brasileira floresça em todos os seus tons e cores, vibrante e acessível a todas as pessoas do país. Como bem disse o grande Gilberto Gil, quando ministro da Cultura: "Quem faz cultura é a sociedade e não o Estado".

Cabe a nós, no MinC, garantir as condições e a transparência para que essa cultura aconteça. E, quem não entende essa premissa, talvez ainda não tenha compreendido a verdadeira essência do fomento cultural.

*Ministra da Cultura

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O PAÍS DIVIDIDO TAMBÉM NO COMPARECIMENTO ELEITORAL

Lara Mesquita*, Folha de S. Paulo

Sanções eleitorais ajudam a explicar por que a participação cresce com a escolaridade

Punições afetam mais a classe média escolarizada, para quem passaporte, concurso e CPF regularizado importam diretamente

A obrigatoriedade do voto no Brasil talvez funcione menos como instrumento de inclusão democrática do que como filtro burocrático de classe. Essa é uma das conclusões mais provocativas do novo livro de Jairo Nicolau"O País Dividido: Duas Décadas de Eleições Presidenciais no Brasil".

Nicolau usa dados de comparecimento, abstenção e justificativa de ausência para recolocar a discussão sobre voto obrigatório. No debate brasileiro, a defesa do voto facultativo costuma vir acompanhada de um argumento elitista: a democracia melhoraria se eleitores mais pobres deixassem de votar. A ciência política, por sua vez, parte da premissa oposta: o voto obrigatório impediria a exclusão dos mais pobres das urnas. Seria, portanto, um instrumento para mitigar o risco de que a desigualdade econômica se traduza também em desigualdade política.

Nicolau nos mostra que o Brasil frustra essa expectativa. Mesmo sob voto obrigatório, o comparecimento cresce quase linearmente com a escolaridade. A diferença de participação entre analfabetos e eleitores com diploma universitário chega a 37 pontos percentuais.

A explicação não está na mobilização política nem na consciência cívica. A multa por ausência, de R$ 3,51, sem reajuste desde 1993, perdeu capacidade de coerção. O que pesa são as sanções associadas à falta de quitação eleitoral: dificuldade para tirar ou renovar passaporte ou tomar posse em concurso público, por exemplo.

Essas punições afetam mais a classe média escolarizada, para quem passaporte, concurso e CPF regularizado importam diretamente. Para os mais pobres, a ameaça é menos concreta. Quem falta a três eleições seguidas sem justificar nem pagar multa pode ter o título cancelado. Para muitos, porém, essa é uma punição quase invisível no cotidiano.

Os dados da eleição de 2022 evidenciam essa assimetria. Entre os eleitores que faltaram ao primeiro turno, apenas 17% daqueles com ensino fundamental incompleto justificaram a ausência. O índice sobe para 31% entre os que completaram o ensino médio e chega a 47% entre os universitários. São estes que recorrem ao e-Título para evitar as sanções do Estado.

O comportamento por idade reforça a hipótese. Jovens de 16 e 17 anos e idosos acima de 70, dispensados da obrigação, comparecem menos. Mas os jovens de 18 a 29 anos, já sujeitos à obrigatoriedade, registram a maior abstenção entre as faixas obrigadas a votar.

Para Nicolau, a variável decisiva não é a idade, mas a escolaridade. São as condições sociais do eleitor que definem se as sanções burocráticas terão efeito prático sobre sua vida.

Se essa leitura estiver correta, o debate sobre o fim da obrigatoriedade precisa ser refeito. O temor de que o voto facultativo entregaria as urnas a uma elite ilustrada ignora que essa elite já é quem mais comparece, justamente porque é ela que mais tem a perder quando fica em débito com a Justiça Eleitoral.

A defesa tradicional do voto obrigatório sempre se apoiou numa imagem invertida da realidade: sem ele, os de baixo desapareceriam das urnas e os de cima votariam sozinhos. Para os defensores dessa visão, os dados reunidos por Nicolau sugerem algo mais incômodo: livres das sanções, talvez os eleitores mais escolarizados sejam os primeiros a abandonar as urnas.

*Professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ

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GILBERTO FREYRE E O 'FOOT-BALL MULATO'

Marcus André Melo*, Folha de S. Paulo

Para ele, nossos triunfos deviam-se a termos abandonado a restrição a negros que vigia também no Itamaraty

O autor argumenta que o futebol criara as condições para, finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros

Gilberto Freyre são atribuídos alguns mitos populares. Mas a tese de que a superioridade do futebol brasileiro se deve à miscigenação —ou, mais precisamente, ao "mulatismo"— não está entre eles. Provavelmente deveria estar. Em artigo intitulado "Foot-ball mulato", em sua grafia original, denotando as origens inglesas ainda muito presentes, Freyre escreveu: "Uma das condições dos nossos triunfos este ano me parecia a coragem que afinal tivéramos completa de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos alguns, é certo; mas grande número de pretilhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros".

O contexto era a Copa do Mundo de 1938, quando o país ficou em terceiro lugar e Leônidas foi eleito o melhor jogador. Era também o início da ditadura do Estado Novo que viria a persegui-lo e a confiscar sua correspondência.

Freyre, que viria a ser consagrado como o pai do mito da democracia racial, faz dura crítica ao racismo do Estado brasileiro: "a escolha de jogadores brasileiros para os encontros internacionais andou por muito tempo obedecendo ao mesmo critério do Barão do Rio Branco quando senhor todo-poderoso do Itamaraty. Nada de pretos nem de mulatos chapados, só brancos ou então mulatos tão claros que parecessem brancos. Ou, quando muito, caboclos, deviam ser enviados ao estrangeiro mulatos do tipo do ilustre Domício da Gama, a quem Eça de Queiroz costumava chamar na intimidade de mulato cor-de-rosa".

Na senda aberta por Freyre, Mário Filho produziu, quase dez anos depois, uma obra-prima, "O Negro no Futebol Brasileiro" (1947). No prefácio da obra, Freyre acrescenta um argumento novo: o futebol permitiu a sublimação —sim, ele foi pioneiro em mobilizar conceitos freudianos entre nós— de elementos irracionais e primitivos de nossa cultura, domesticando-os. E especula sobre o que teria acontecido com o samba, a capoeiragem e a malandragem. Seu vaticínio quanto ao cangaceirismo é profético, mas em sentido oposto ao que imaginou: "o cangaceirismo teria provavelmente evoluído para um gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub-Chicago de Al Capones ítalo-brasileiros".

Mário Filho descreve a transformação ocorrida. O futebol não alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. "Os ídolos do futebol, todos brancos. Quando muito, morenos. Preto só entrava no escrete uma vez na vida e outra na morte. E quando um branco que devia jogar estava fora, doente ou coisa que o valha. Então o preto podia jogar."

E, mostrando que foi muito mais do que um cronista esportivo, arrematava: "O mulato e o preto eram, assim, aos olhos dos clubes finos, uma espécie de arma proibida. Não um revólver, uma navalha. Se nenhum grande clube puxasse a navalha, os outros podiam continuar lutando de florete".

Freyre argumenta que o futebol criara as condições para, finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros, como o dionisíaco Leônidas. Seu antípoda, Domingos, que jogava sem floreios, era "uma espécie de inglês desgarrado nos trópicos, como Machado de Assis" —mas, ainda assim, "tinha alguma coisa de concentradamente brasileiro", de "mulatismo". Freyre escreveu essas linhas em 1947, antes de surgirem Pelé e Garrincha.

*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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A ELEIÇÃO E A LICENÇA PARA GASTAR

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

Políticos, na situação ou na oposição, parecem considerar um direito inalienável gastar dinheiro público para ganhar eleições

Os preços do diesel e da gasolina caíram em maio, na comparação com abril. É o que mostra o IPCA, índice oficial de inflação, medido pelo IBGE. Considerando apenas esses dados, se poderia dizer que deram certo as medidas do governo de zerar impostos e conceder subsídios aos combustíveis. Os consumidores deveriam estar satisfeitos, dando votos ao governante que distribuiu as bondades, no caso o presidente Lula. Será?

Nessa junção de economia e política, as coisas nem sempre são o que parecem. Tome-se o caso do óleo diesel. Em maio, depois das medidas postas em prática pelo governo, o preço caiu exatos 2,34%. Ocorre que, nos meses anteriores, a alta havia sido bem maior — 13,90% em março, mais 4,46% em abril, acumulando quase 19%.

O caminhoneiro, se notou a pequena queda de maio, estará mais convencido de que o diesel continua caro. O índice de inflação pode ter caído, mas o produto ainda é caro. E o governo federal gasta mais de R$ 30 bilhões em renúncia fiscal e pagamento de subsídios para agradar à categoria dos caminhoneiros, normalmente mais alinhada à direita.

No caso dos subsídios à gasolina, os números são menores, mas o enredo é o mesmo. Preços em alta em março e abril, o governo se assusta e baixa medidas que levam a uma pequena queda em maio. O combustível continua caro. No total, essas medidas podem custar até R$ 40 bilhões, dependendo do período em que sejam aplicadas.

Considerando as demais políticas aplicadas pelo governo — de aumento de gastos e concessão de crédito subsidiado —, o kit eleitoral para este ano já passa dos R$ 200 bilhões. E subindo. A mais recente medida prevê R$ 4 bilhões em crédito barato para entregadores de aplicativos comprarem motos. E não é certo que isso se traduza em votos. Mesmo porque há outros atores gastando.

Senadores e deputados já não têm muita preocupação com a despesa pública. Quando veem Lula abusando do Orçamento com objetivos claramente eleitorais, encontram aí um bom motivo para buscar seu pedaço. Só na semana passada, o Congresso encaminhou a votação de bondades que podem custar outros R$ 200 bilhões aos cofres públicos.

O governo reclama do que chama de “bomba fiscal”. Tem razão. Mas só parcialmente. Somando os gastos eleitorais do Executivo, só os mais recentes, mais as despesas previstas no Congresso, temos uma superbomba que passa dos R$ 400 bilhões. E tudo bem?

Parece que nos acostumamos a esse tipo de coisa. Nas análises políticas e econômicas independentes, a gente sempre encontra a tese de que ano eleitoral é isso mesmo, um momento de gastança. Políticos, estejam no Executivo ou no Legislativo, na situação ou na oposição, parecem considerar um direito inalienável — esse de gastar dinheiro público para ganhar suas eleições. É ingenuidade esperar algum controle do Judiciário. Lá, eles estão mais preocupados com seus penduricalhos.

Está aí o maior problema da economia brasileira: o desajuste fiscal, o crescimento da despesa sempre acima da receita. Todo ano, o Orçamento fecha no vermelho, obrigando o governo a tomar mais dinheiro emprestado para tapar os buracos. Resultado: a dívida pública já bate nos 80% do PIB, e subindo. Está muito acima dos países emergentes com grau de investimento concedido pelas agências de classificação de risco.

O atual governo Lula tem aumentado seus gastos na faixa de mais de 5% ao ano, descontada a inflação. Um governo no vermelho e com dívida alta tem de pagar juros elevados para se financiar. Esse juro alto, como a taxa básica atual de 14,5%, torna-se referência para todo o mercado. E um empecilho ao crescimento sustentado.

Em julho de 1994, o real entrou em circulação. E o Brasil se livrou da hiperinflação que nos assolava havia anos. Por um breve momento no governo FHC e no Lula 1, houve algum ajuste fiscal. Depois, tudo desandou. Verdade que houve um brevíssimo ajuste no governo Temer, mas foi um ponto fora da curva. E assim estamos hoje diante do maior desafio: equilibrar as contas públicas. Desgraçadamente, não há consenso político nessa direção.

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