sábado, 24 de outubro de 2026

MOBILIZAÇÃO PROGRESSISTA SOBREVIVERÁ À ELEIÇÃO

Flávia Oliveira, O Globo

No segundo turno, o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das ruas

A campanha presidencial que amanheceu morna, anoitece fervendo. O pleito de 2026 já está na História como o mais disputado, sobressaltado, imprevisível e arriscado para o regime instituído pela Constituição de 1988. Amanhã, o Brasil escolhe entre democracia e autoritarismo, diversidade e supremacismo, avanço e retrocesso, soberania e subordinação, enfrentamento às desigualdades e salve-se quem puder. Não há meio-termo.

Depois de um primeiro turno tragado pela crise fratricida no Supremo Tribunal Federal (STF), as três semanas até o resultado final deixaram lampejos tanto sobre os projetos políticos em disputa quanto sobre os caminhos de mobilização e resistência pela sociedade civil. A totalização dos votos nas urnas não retirará do campo progressista o repertório amealhado de última hora, mas de vida útil duradoura. É dele que me ocupo nesta véspera do 25 de outubro, Dia da Democracia no Brasil. A efeméride foi instituída em honra e memória do jornalista Vladimir Herzog, torturado e assassinado por agentes da ditadura, em 1975.

Foi no segundo turno da eleição presidencial de 2026 que o Brasil reencontrou o vigor, a alegria e o engajamento de jovens estudantes, que andavam sumidos das praças, ruas, avenidas. A vitória de Flávio Bolsonaro sobre Lula, por 2 pontos percentuais, no primeiro turno não ativou apenas o modo sobrevivência de nomes do Centrão, que se bandearam para o lado do candidato do PL, e do presidente do Senado, Davi Alcolumbre, que ficou com o petista.

Na noite da segunda-feira 5 de outubro, alunos da Universidade Federal Fluminense marcharam por Niterói (RJ), num chamado democrático que ecoou Brasil afora. Voltaram às mesmas ruas no dia seguinte. Na quarta-feira, o centro da capital foi tomado por dezenas de milhares de estudantes que atenderam à convocação da União Nacional dos Estudantes (UNE) e de outras entidades.

A partir dali, nas capitais, em cidades médias e pequenas localidades, os jovens não saíram mais das ruas. E foram acompanhados de trabalhadores, aposentados, idosos, famílias, que se apresentaram para defender educação pública inclusiva e de qualidade, trabalho digno e bem remunerado, poder de compra, cultura e, claro, democracia. As manifestações numerosas e volumosas, mesmo sem a presença do candidato, mais que um trunfo da campanha de Lula, ressuscitaram na esquerda um meio de mobilização que, havia década, parecia exclusiva da direita.

Também na sequência à derrota no primeiro turno, comunidades de fãs de estrelas internacionais da música ofereceram perfis nas plataformas digitais à campanha petista. Foram tão relevantes para o impressionante ato pró-Lula na Avenida Paulista, em São Paulo, no domingo 11 de outubro, que o candidato não só compareceu, como agradeceu publicamente aos fandoms. Lula tornou-se político de um tempo em que manifestação política era obra de sindicatos e partidos.

A campanha pouco empolgante, algo embolorada, do PT no primeiro turno abriu espaço às incursões digitais de jovens parlamentares recém-eleitos, caso dos deputados Ana Elisa (PT-MG) e Guilherme Cortez (PSOL-SP); para aliados vitoriosos no Nordeste, aí incluídos o governador reeleito do Piauí, Rafael Fonteles, e o senador Camilo Santana, coordenador da campanha local no Ceará, Rui Costa e Jerônimo Rodrigues, senador e governador reeleito da Bahia, respectivamente. Podem vir dali os sinais de renovação de uma legenda refém das deliberações de seu maior líder.

Fica também a herança da mais bem-sucedida experiência digital da campanha de 2026, o “Exército do Lula”, obra do deputado André Janones (Rede-MG). A convocação, que bateu a marca de 10 milhões de “soldados”, horas antes do debate derradeiro entre Lula e Flávio, organizou como nunca antes o eleitorado petista e simpatizantes. Janones aglutinou, orientou e entusiasmou pessoas, num espelho à esquerda do que sempre fora monopólio, em participar, da extrema direita. O engajamento foi capaz de aturdir algoritmos e perturbar calejados influencers do campo conservador. Imprimiu aos integrantes os sensos de propósito, pertencimento, importância. Prova disso foi o aumento da relevância digital da campanha de Lula, atestado por indicador da Quaest. De tão incômodo, o canal quase foi censurado pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Seja quem for o próximo presidente, o campo progressista chega ao fim deste segundo turno com votos, régua e compasso. Para reivindicar. Para resistir.

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A DEMOCRACIA ESTÁ EM RISCO ? SIM

Oscar Vilhena Vieira*, Folha de S. Paulo

Só o voto nos separa desse precipício; ameaça inclui autocratização do regime e fragilização da nossa soberania

Freios e contrapesos estarão debilitados, e o cenário internacional se tornou mais hostil aos regimes constitucionais

A democracia brasileira corre um triplo risco nesta eleição presidencial: a autocratização do regime, com a fragilização do sistema de freios e contrapesos, a distorção das regras eleitorais e a erosão dos direitos humanos; o aprofundamento do processo de cupinização do Estado de Direito, com consequente esgarçamento do tecido social e brutalização da vida cotidiana; assim como a fragilização de nossa soberania, especialmente nos campos ambiental e digital.

Como nos anos 1930, com a ascensão do nazismo e do fascismo, as democracias liberais voltaram a estar submetidas a forte pressão de movimentos extremistas. Diferentes fatores têm contribuído para que partidos e lideranças, sobretudo de extrema direita, capturem as frustrações e o desejo de mudança em países tão distintos quanto Alemanha, Índia, França, El Salvador, Turquia ou Estados Unidos.

Imigração, desigualdade, corrupção, crescimento da criminalidade, precarização do trabalho, digitalização da vida e falta de perspectivas para as novas gerações, assim como ressentimento de determinados grupos sociais com a perda de status, são comumente lembrados como fontes de mal-estar.

A extrema direita tem sido hábil em transformar essas angústias em voto. O problema é que suas respostas aparentemente simples são, na maior parte das vezes, muito erradas. É uma ilusão achar que a extrema direita é capaz de oferecer soluções para temas como segurança, desigualdade ou mesmo controle das contas públicas.

O Brasil não tem passado ileso por essa maré montante de extremismo. Em 2018, elegeu como presidente um ex-militar de extrema direita. Mas de uma linhagem peculiar, que floresceu nas franjas da erosão política e institucional de seu estado, marcado pela expansão do tráfico de drogas e das milícias.

Destituído de maioria parlamentar, Bolsonaro pai abusou de suas prerrogativas para tentar subjugar a Constituição, desacreditar as urnas, flexibilizar o acesso às armas, promover uma agenda regressiva contra o meio ambiente e indígenas, além de uma agenda obscurantista no campo da saúde e educação.

Felizmente as instituições constitucionais e organizações da sociedade civil foram capazes de mitigar estragos, sobretudo em relação aos ataques à democracia. Derrotado nas urnas em 2022, ele tentou um golpe de Estado e terminou condenado.

A extrema direita retorna agora num contexto institucional muito distinto. Seu partido ampliou cadeiras no Parlamento, ainda que não tenha conquistado a maioria. Também expandiu o poder nos estados. As instituições de controle se deixaram contaminar e perderam muito de sua autoridade. Isso não significa que os interesses entrincheirados no Parlamento, nos tribunais e nos Estados não possam oferecer alguma resistência a arroubos autoritários. Mas os freios e contrapesos estarão debilitados. Além disso, o cenário internacional tornou-se mais hostil aos regimes constitucionais e à própria soberania dos Estados.

Embora muitos dos eleitores do clã Bolsonaro não comunguem do seu extremismo político, da cultura miliciana e do entreguismo, parecem cegos às consequências de suas escolhas. Seria importante que esses eleitores estivessem alerta para o fato de que bolsonarismo não é liberal —tampouco conservador.

Não representa o partido da lei, nem da ordem. Não é patriota. Muito menos promoverá a ética na gestão da coisa pública. Quem persegue esses valores está indo na direção errada.

A eventual conquista de um segundo mandato pela extrema direita, como em muitos outros países, ampliaria as ameaças sobre as estruturas da democracia liberal, degradaria os padrões de convivência democrática, pela naturalização da violência e do arbítrio, assim como fragilizaria nossa soberania, especialmente nos campos socioambiental, digital e de segurança.

Neste momento, somente o voto nos separa desse precipício.

*Professor da FGV Direito SP e colunista da Folha, é mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP; membro da Comissão Arns de Direitos Humanos

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ESQUELETOS NO ARMÁRIO REVELAM OS CRIMES DE FLÁVIO BOLSONARO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Esquema de lavagem de dinheiro vai de loja de chocolates a casa de apostas

O 'amigão' Willer Tomaz usou a mãe como laranja e dividiu conta bancária com filho 01

O caso das rachadinhas —movimentações atípicas de R$ 1,2 milhão na conta do assessor Queiroz— veio a público no fim de 2018, logo após a eleição de Bolsonaro. De lá para cá, é notável a evolução de investigações envolvendo o filho 01. Um enorme telhado de vidro, o qual, no entanto, se mostra inquebrantável aos olhos de seus eleitores.

Entre os 12 candidatos à Presidência, é o único que se beneficiou do esquema Vorcaro —pediu na caradura R$ 134 milhões ao banqueiro picareta. No rol de denúncias e suspeitas estão a compra da mansão de R$ 6 milhões, além de outras transações imobiliárias em dinheiro vivo, e a loja de chocolates utilizada para lavar R$ 1,6 milhão. Sua lavanderia, digo, seu escritório de advocacia, emitiu R$ 13,7 milhões em notas fiscais sem detalhar os serviços. A sede da banca do senador é sua casa. É administrada à distância por uma funcionária que mora na periferia de Brasília.

Surge agora uma descoberta que é uma condenação moral. A Polícia Federal solicitou ao STF abertura de inquérito para investigar se Flávio Bolsonaro é sócio oculto da BestBet, jogatina online licenciada no governo de Cláudio Castro.

A investigação contra lavagem de dinheiro tem como principal alvo o advogado Willer Tomaz, sócio ostensivo da BestBet, amigo íntimo do filho 01 e maior apostador do país. Em 2025, ele apostou R$ 5 bilhões e sacou quase R$ 200 milhões. A PF suspeita que se trate de uma simulação, não de apostas reais. Willer também é investigado por fraudes relacionadas ao INSS.

Os vínculos entre Flávio Bolsonaro e Willer Tomáz —que usava a mãe como laranja e tinha um bunker com máquina de contar dinheiro— passam pela broderagem com Vorcaro, conta bancária conjunta, festas, viagens de jatinho, apartamento usado na campanha eleitoral e a batalha judicial com o jogador Richarlison por uma ilha em Angra dos Reis. Máfia perde.

Jair Bolsonaro fez de tudo para barrar investigações sobre o filho. Eleito presidente, o 01 escapa de atos estranhos ao exercício da função. Não poderá ter o destino do pai.

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sexta-feira, 23 de outubro de 2026

'TRUMP, BOMBARDEIE O BRASIL'

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Os bolsonaristas sugeriram isso a Trump em São Paulo, mas ele nunca aceitará a ideia

Precisa dos nossos minerais críticos, que Flávio Bolsonaro já lhe garantiu se for eleito

No ato bolsonarista em São Paulo, no domingo (18), um objeto inflável em forma de míssil, de 3 metros de altura, desfilou pela avenida Paulista. Nele lia-se: "Trump nuke Brazil". "To nuke" é um verbo em inglês, significando destruir algo usando uma bomba nuclear. Era o que os bolsonaristas pediam a Donald Trump, que jogasse uma bomba no Brasil —claro que no Brasil "de Lula". Os americanos são craques em matar a distância, mirando alvos isolados com drones de alta precisão. Mas como conseguir isso com uma bomba feita para varrer milhões de uma sentada?

O objeto levava um recado a ser visto por Trump, para dizer-lhe que "os brasileiros" contam com ele para intervir nas eleições em favor de Flávio Bolsonaro. Ou, em caso de derrota, minar a nossa economia com tarifas, sanções e boicotes para implodir o governo Lula. Até aí Trump irá, mas é claro que ele jamais bombardeará o Brasil. Nosso subsolo é precioso demais —contém material "capaz de livrar os Estados Unidos da dependência dos minerais críticos da China".

Esta frase, dita há poucos dias, é de Flávio Bolsonaro, candidato à Presidência. Revela que, com ele, se eleito, o Brasil porá sua vital matéria-prima à disposição dos celulares e computadores dos Estados Unidos, ameaçados de pifar se a China lhes cortar a venda dos ditos minerais. Será uma contrapartida às atividades da Rockbridge Network, uma empresa americana suspeita de estar trabalhando na sua campanha, injetando milhões em doutrinação de jovens, infiltração em universidades, trabalho em igrejas, compra de jornalistas e benesses a políticos.

Nos primeiros anos 1960, as multinacionais americanas, ligadas a empresários brasileiros, estabeleceram aqui organizações parecidas: o Ibad (Instituto Brasileiro de Ação Democrática) e o Ipes (Instituto de Pesquisas e Estudos Sociais). Com esses nomes de fachada, elas financiaram a campanha que levou à ditadura em 1964.

Os objetivos são os mesmos e os métodos, mais eficientes. Os bolsonaristas podem recolher seu míssil inflável.

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ARMAÇÃO ILIMITADA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Armação policial para ligar criminosos ao PT repete enredo de 1989

Caso de suspeitos uniformizados em Piracicaba lembra manipulação do sequestro de Abilio Diniz

Aconteceu em Piracicaba, cidade do interior paulista onde Flávio Bolsonaro colheu 63% dos votos no primeiro turno. Policiais militares prenderam três jovens, incluindo um menor de idade, sob suspeita de tráfico de drogas. Antes de serem levados à delegacia, os três foram obrigados a vestir camisetas com o nome de Lula e a estrela do PT.

Parece 1989, mas ocorreu nesta quarta-feira, a quatro dias da eleição presidencial. Testemunhas ouvidas por diferentes órgãos de imprensa denunciaram a armação. De acordo com os relatos, nenhum dos suspeitos vestia roupas ou adereços políticos durante a abordagem. “Um estava todo de cinza, um de moletom azul e boné, e o outro estava de bermuda jeans e camiseta branca”, contou uma entrevistada.

A mãe do adolescente apreendido afirmou que um dos policiais deu um soco em sua outra filha, de 14 anos. A PM informou em nota que “os fatos serão analisados através de procedimentos apuratórios cabíveis”. Pelo histórico do governo do bolsonarista Tarcísio de Freitas, convém esperar sentado.

Há 37 anos, o segundo turno entre Lula e Fernando Collor concorreu pelas manchetes com o sequestro do empresário Abilio Diniz. Na véspera da eleição, a polícia de São Paulo cercou o cativeiro e disse ter apreendido material de propaganda do PT. A plantação ganhou o noticiário e deu o impulso final para a vitória da direita. A vítima do sequestro nunca comprou a lorota. Até o fim da vida, manteve relações amistosas com o candidato derrotado.

Na era da comunicação instantânea, as fake news ganharam alcance e velocidade. Ex-secretário de Tarcísio, o senador eleito Guilherme Derrite ajudou a amplificar a cascata. Até a tarde de ontem, o vídeo forjado contava mais de 9 milhões de exibições em seu perfil no Instagram. “Parabéns aos nossos policiais!”, comentou o aliado Flávio, com uma bandeirinha do Brasil. Diligente para censurar canais de WhatsApp, o presidente do TSE ainda não se manifestou sobre o caso.

Numa sociedade aprisionada em bolhas informacionais, até mentiras toscas, como a de uma gangue uniformizada com as cores de um partido, são capazes de influenciar o voto. O episódio também deveria servir de alerta sobre o risco de politização das forças de segurança — seja pela ação de governos, seja pelo fervor do guarda da esquina. Já aconteceu no passado recente.

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ALGUMAS HORAS PARA O FUTURO

Artigo de Fernando Gabeira

Faltam apenas algumas horas para a decisão. São duas visões antagônicas. O País será algo muito diferente com a vitória de um ou outro. Nossas vidas serão impactadas. É natural que seja uma semana tensa.

No meu caso, temo pelos anos dedicados à legislação ambiental. Ouço Flávio declarando sobre a Amazônia que os fazendeiros serão livres para fazer o que quiserem em suas terras. O pai dele também pensava assim. Mas é um delírio. Nenhuma terra está fora de uma região, de um país ou do próprio planeta. Se um rio passa em sua propriedade, você não pode nem represá-lo nem contaminá-lo sem prejudicar os que vivem à jusante. Não é possível atear fogo dentro de suas terras sem levar em conta a segurança das terras vizinhas. Quando se vive numa região tão especial como a Amazônia, por lei, não se pode desmatar livremente, apenas 20% da área.

Uma concepção anárquica como a dos Bolsonaros pode não apenas levar a Amazônia a um ponto de não retorno, transformando a floresta numa savana, mas arrasar com o nosso comércio exterior. Todos os acordos comerciais dependem dessa cláusula ambiental. Mesmo os Estados Unidos, liderados por Trump, investigam o Brasil, acusando o País de desmatamento para justificar suas tarifas.

Portanto, as decisões de domingo podem nos levar a diferentes papéis no mundo: interlocutores no combate às mudanças climáticas ou vilões ambientais. De um ponto de vista da política mais ampla, nosso papel no mundo será diferente.

Flávio Bolsonaro propõe um alinhamento com os Estados Unidos. Mas não vai muito adiante. Uma boa relação com os norte-americanos é essencial. Mas é inegável que são dois países diferentes, com interesses específicos. Um exemplo: o Pentágono se prepara para comprar a empresa que explora terras raras em Goiás. Isso acontece num momento em que o Brasil apresenta uma importante restrição ao comércio de terras raras: a exigência de que sejam beneficiadas dentro do território. O projeto que define isso já foi aprovado no Congresso. É preciso ver se é aplicável às explorações de Minaçu, em Goiás, e Poços de Caldas, em Minas.

De qualquer maneira, há uma diferença entre um país totalmente alinhado com os Estados Unidos e um país amigo que concorda em muitos temas, mas mantém sua própria identidade política.

A direita no Brasil cresce na denúncia da corrupção. Mas será que, em caso de sua vitória, emergirá um país mais honesto? O candidato escolhido por ela sofre inúmeras acusações que vão desde rachadinha, passando por compra de mansão e outras situações confusas. Ele tem um perfil mais parecido com um clássico político do Centrão. Como evitar que se comporte como tal, uma vez na Presidência?

A escolha de um outro candidato vai impactar a política cultural. O fato de a maioria dos artistas e acadêmicos apoiar Lula tem sempre uma grande repercussão na cabeça dos Bolsonaros, que passam a antagonizar a ciência e a arte, como se fossem territórios inimigos. Essas diferenças culturais podem trazer situações dramáticas como se viveu na pandemia, e, de uma certa forma, ainda se vive no debate sobre a importância das vacinas.

Finalmente, as concepções de segurança pública são muito divergentes. A maioria aprova as teses mais repressivas da direita. Muito se falou na experiência de El Salvador, como se um país tão pequeno pudesse servir de modelo ao Brasil.

De qualquer forma, embora a retórica seja diferente, a política de segurança pública de Jair Bolsonaro não representou uma mudança qualitativa em relação às outras desenvolvidas no período da redemocratização. Isso revela a dificuldade do tema, a necessidade de compreendê-lo em todas as suas variáveis e encontrar uma política eficaz, algo que não aconteceu ao longo dessas décadas. O problema só se agrava e o próprio sistema penitenciário passou a ser uma complicação a mais, apesar de tanto dinheiro e energia para que fosse parte da solução.

As pessoas chegam às suas escolhas por múltiplos caminhos. Elas se diferem entre as que buscam soluções individuais e as que enfatizam soluções coletivas. Elas frequentam as redes sociais, onde não faltam argumentos, acusações e até mesmo insultos.

A esta altura, apesar do importante debate final, a sorte parece estar lançada. Na segunda-feira, saberemos que país teremos nos próximos quatro anos. Em função disso, teremos de repensar nossos destinos, buscar aqueles que estão em situação semelhante e redesenhar nossa trajetória. O consolo na democracia é que sempre teremos uma nova eleição. A alternância é a grande qualidade do sistema. Essa qualidade jamais poderá ser roubada.

Creio que os candidatos foram submetidos a grandes sessões de perguntas. Mas em todas elas, para início de conversa, deveria ser colocada a questão democrática. “Aceita o resultado das urnas e promete não tentar golpe em caso de ser derrotado?” A sociedade amadureceu, há mudança entre os militares, a conjuntura internacional também ainda é favorável à democracia. Experimentos que pareciam eternos, como na Hungria, onde Viktor Orbán conquistou o Congresso e o Judiciário, acabaram se mostrando frágeis e passageiros.

Artigo publicado no jornal Estadão em 23 / 10 / 2026

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quinta-feira, 22 de outubro de 2026

INDEFINIDA E NA RETA FINAL

Míriam Leitão, O Globo

Em uma campanha tão empatada a três dias da eleição, o debate da TV ganha ainda mais importância e pode ser determinante

Faltam três dias para a eleição e ela ainda está indefinida. Há números até desconcertantes, como o aumento dos indecisos na pesquisa espontânea entre a primeira e a segunda rodada da Quaest no segundo turno. Flávio Bolsonaro continua numericamente na frente, mas agora com apenas um ponto. Está com 52% de rejeição, um número que sempre foi considerado impeditivo para qualquer pessoa ser eleita presidente da República. Há dados bons para o presidente Lula como a queda de rejeição para 47%, e a melhora, ainda que lenta, de avaliação do governo. Contudo, o candidato à reeleição ainda não teve a virada numérica com a qual contava depois de todas as manifestações. Tudo torna o debate de amanhã ainda mais importante.

O país entra nestes dias finais com um alto grau de mobilização dos militantes dos dois lados, o que é uma boa notícia, quando se compara com o morno e aflitivo primeiro turno, em que os conflitos no Supremo Tribunal Federal pareciam ser mais importantes do que a disputa para o Executivo. Ao mesmo tempo, o aumento de indecisos na espontânea de 7% para 14% é um ineditismo. Entre mulheres, essa dúvida subiu em uma semana de 8% para 17%. E os dois candidatos perderam apoio nesse segmento. O eleitorado feminino pode ter reagido ao ambiente bélico no debate da Band, em que faltaram propostas e sobraram ofensas. Entre os pretos, o percentual de indecisos aumentou de 12% para 23%.

Houve outras alterações interessantes. Entre os mais jovens, de 16 a 34 anos, havia empate numérico entre os dois, 44% a 44%. Neste levantamento, Lula oscilou para baixo e Flávio subiu. O candidato do PL tem oito pontos de diferença. Em compensação, entre as pessoas de 35 a 59 anos, Lula conseguiu reduzir a diferença de sete pontos para um ponto. Caiu o medo de Lula entre pessoas com ensino superior e com renda acima de cinco salários mínimos. Mudanças assim salpicadas, permitiram essa aproximação. Nesta pesquisa, um ponto percentual separa Lula de Flávio Bolsonaro.

O que houve até agora foi uma mudança de temperatura da campanha petista. Se nos últimos anos, a capacidade de levar eleitores para a rua parecia ser muito superior entre os bolsonaristas, a esquerda se manifestou com mais desenvoltura. A campanha digital que desde 2018 parecia ser dominada pela extrema direita, passou a ser um território em disputa.

Nos últimos dias, as evidências das ligações estranhas entre o candidato do PL Flávio Bolsonaro e o advogado Willer Tomaz aumentaram. Ele é uma pessoa extremamente controversa, para dizer o mínimo. Investigado pelos desvios do INSS, já havia sido preso na operação Greenfield. É o maior apostador em bets, com movimentações que chegam a bilhões, dono de empresas no exterior de atividade nebulosa, contas compartilhadas com o senador, e parcerias com Daniel Vorcaro. O problema de todas essas suspeitas é que, se Flávio Bolsonaro for eleito presidente da República, as investigações sobre ele terão que ser interrompidas.

Na economia, agravam-se os riscos fiscais com a intensificação das sequências de bondades oferecidas pelos dois lados. Se o presidente Lula tem usado a caneta para anunciar medidas as mais variadas, que têm em comum o expansionismo fiscal, Flávio Bolsonaro não quis ficar atrás. A última do candidato do PL foi a promessa da volta do Perse. O programa de apoio ao setor cultural e de eventos na pandemia foi encerrado pelo governo Lula, quando as projeções indicavam que o gasto atingiria R$ 60 bilhões. A soma das bondades de lado a lado levam a um único resultado: aumento do risco fiscal do país em 2027.

Como se tudo isso fosse pouca confusão, o ministro André Mendonça chegou a preparar uma resolução que retiraria do ar, 48 horas antes da eleição, os canais de comunicação que usam aplicativos de mensagens. Isso depois de o Exército de Lula, canal criado e gerenciado pelo deputado André Janones, chegar a 7 milhões de participantes, superando em três vezes os que integram as fileiras da Tropa de Flávio. Diante das pressões, o TSE recuou.

Nesse ambiente tenso e intenso, o debate da TV Globo amanhã torna-se ainda mais importante. Os candidatos terão que falar de propostas para o futuro do país, o que mais faltou nessa tumultuada campanha presidencial. Será a oportunidade para que os candidatos reduzam as dúvidas dos indecisos e tentem diminuir a alienação eleitoral. Isso definirá a eleição.

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quarta-feira, 21 de outubro de 2026

O CALVÁRIO DE UM CIDADÃO DE BEM

Bernardo Mello Franco, O Globo

Detido após importunar mulheres e disparar tiro em boate, deputado do PL é crítico do Bolsa Família, tentou banir pornografia e diz defender a 'moral cristã'

Marcelo Aguiar é um típico cidadão de bem. Dublê de cantor gospel e deputado estadual pelo PL de São Paulo, apresenta-se como um político devotado aos “valores cristãos”, à “defesa da família” e à “proteção das crianças”. “Minha trajetória é feita de canções, de fé, de luta e de esperança”, pontifica, em sua página oficial.

Casado e pai de dois filhos, o representante do povo se descreve como guardião dos “princípios da moral cristã”. “Sua atuação parlamentar é pautada por firmeza ética, preparo técnico e sensibilidade social”, assegura, falando de si mesmo na terceira pessoa.

Apesar da autoavaliação imodesta, o deputado ainda não se destacou pela produção legislativa. Seu projeto de lei mais célebre visa obrigar as operadoras de internet a bloquearem sites de pornografia para combater o que ele chama de vício em masturbação.

“Os jovens são mais suscetíveis a desenvolver dependência e já estão sendo chamados de autossexuais, pessoas para quem o prazer com sexo solitário é maior do que o proporcionado pelo método, digamos, tradicional”, justifica. O texto aguarda votação há dez anos.

No início do mês, Aguiar concedeu entrevista ao podcast Assembleianos de Valor. Ao lado do deputado federal Pastor Marco Feliciano, orientou irmãos de fé a apoiarem políticos como eles. “Quem votar na esquerda vai votar em quem não acredita na família, em quem quer destruir a religião”, praguejou.

O deputado-cantor também expôs uma visão negativa dos programas de transferência de renda. “Querem dar uma escravidão para o pobre”, repreendeu. “É isso o que a esquerda quer fazer com o pobre. Eles não querem fazer o pobre prosperar. Querem fazer o pobre ficar dependente do Bolsa Família”, arrematou.

Na madrugada desta segunda, Aguiar foi detido após disparar um tiro e causar pânico na casa noturna Santo Cupido. Segundo testemunhas e policiais ouvidos pelo G1, estava embriagado e importunava mulheres. O carro preto com placa oficial ficou estacionado na porta da boate. Cambaleando, o deputado chegou à delegacia amparado por dois PMs. Prestou depoimento e foi liberado sem teste de alcoolemia.

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PROSPERIDADE: FÁCIL DE VENDER, DIFÍCIL DE ENTREGAR

Vera Magalhães, O Globo

Flávio capta sentimento do eleitor que quer empreender, mas o explora com promessas vazias e de implementação duvidosa

A nova rodada da pesquisa Meio/Ideia, a última antes do segundo turno, traz uma chave para entender o voto em Flávio Bolsonaro e também um alerta para o dia seguinte caso o candidato do PL confirme seu favoritismo e vença a eleição: ela reside na promessa de prosperidade, essa palavra carregada de possibilidades, mas de difícil entrega.

A detalhe aparece numa pergunta nova: o que significa melhorar de vida para você? Para 43,3% dos entrevistados, é ter o próprio negócio, trabalhar por conta própria, enquanto apenas 32% sonham com carteira assinada e direitos trabalhistas. A direita percebeu essa aspiração antes da esquerda, tanto que vem trabalhando promessas para esse público pelo menos desde 2024.

A presença mais marcante do coach Pablo Marçal na campanha de Flávio no segundo turno, inclusive como preparador para o debate da Band, embute a ideia de que é preciso acenar a esse contingente. O truque do candidato de falar direto para a câmera e perguntar ao espectador se a vida dele melhorou ou piorou no governo Lula vai direto ao ponto, é a pergunta anterior à incluída na pesquisa.

Nesse grupo de aspirantes a empreendedor, Flávio aparece com 62,3%, segundo o Ideia. Dos que sonham com a CLT, 65,4% vão de Lula. Numa campanha praticamente empatada, esse recorte mostra uma bifurcação crucial para desenhar o que serão os próximos quatro anos do Brasil.

Principalmente porque Flávio promete que a vida dessas pessoas mudará radicalmente, rápido e sem que ninguém perca direitos, uma conta que, como todo mundo sabe, não fecha, mas ninguém entre os encastelados nos escritórios da Faria Lima parece muito preocupado em explicar aos clientes como fechará.

A mistura de linguajar de coach com o de pregador religioso que Flávio introjetou com base em muito media training, pôs em prática na entrevista da Globo e, principalmente, no debate é a receita do embuste: confie em mim que tudo dará certo.

Ao falar de um plano mirabolante de moratória nos boletos, ele misturou alhos com bugalhos, não foi questionado por Lula e não gerou nenhum pânico nos analistas de mercado sempre tão horrorizados com as decisões do governo do PT.

Esse papinho à Pablo Marçal costuma convencer aqueles que legitimamente sonham com o passaporte para a vida sem patrão. Assim como convenceu gente sem nenhum treinamento a escalar o Pico dos Marins, há alguns anos, e levou outro grupo de incautos a participar de um triatlo no Paraguai de onde muitos precisaram ser resgatados porque não conseguiam nadar em águas revoltas, Marçal está treinando um presidenciável para os debates e é candidatíssimo a virar ministro da Prosperidade.

Vender um amanhã maravilhoso, que só depende da sua vontade, é fácil. Com a ajuda das redes sociais, então, sopa no mel. O difícil é entregar a tal prosperidade num país complexo, desigual e profundamente dividido como o Brasil.

O segundo turno devolveu às ruas uma esquerda que parecia ter abdicado a elas desde o impeachment de Dilma Rousseff. Ressurgiu, sobretudo, o jovem de esquerda, cuja presença digital era menos perceptível que a do jovem de direita, talvez por ser menos estridente.

As manifestações do segundo turno foram engrossadas ainda por aquele eleitor de centro que se sentiu meio peixe fora d’água no governo Lula 3, mas que, ainda assim, entende que a volta do bolsonarismo ao poder é um risco para os direitos civis, a democracia, o meio ambiente e outros pilares civilizacionais.

Ainda que não consigam a virada em nome da qual saíram de casa, esses grupos não deixarão a arena pública, ainda mais porque, num Congresso com predomínio inédito das forças de direita, caberá em grande medida a eles puxar o tal freio que as instituições normalmente são responsáveis por operar.

Flávio, se eleito, terá em seu cangote os aspirantes a empreendedor cobrando a entrega rápida da prosperidade prometida, os beneficiários de programas sociais que prometeu não desassistir, o mercado que conta com a tesoura escondida no segundo turno e essa oposição revigorada dos exércitos digitais e das ruas. Não será o passeio que o salto alto dele e de seu entorno e a truculência que seus apoiadores já começam a demonstrar em atos violentos país afora parecem fazer crer.

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"TRUMP, ME MATE !"

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Fico pensando que tipo de patriota pede ao líder da maior potência do planeta para que realize um ataque nuclear contra o país onde vive.

Não foi essa frase, mas o sentido era o mesmo. Durante ato em apoio ao candidato da extrema-direita no Brasil, um apoiador teve a "ideia" de levar até a Avenida Paulista um míssil inflável no qual podia se ler a frase "Trump nuke Brazil". Algo como "Trump, jogue uma bomba nuclear no Brasil". A imagem me embrulhou o estômago. Fico pensando que tipo de patriota pede ao líder da maior potência do planeta para que realize um ataque nuclear contra o país onde vive. Tudo para demonstrar aversão ao presidente brasileiro.

A oposição logo tratou de culpar um "infiltrado". Fato é que o tal "míssil" deveria ter sido impedido de entrar na Paulista, e seu dono, levado para prestar depoimento na delegacia. Sim, porque aqui existe algo que transgride, viola a fronteira da liberdade de expressão.

Ao longo de 21 anos de Correio, tive contato com os efeitos de um bombardeio atômico. Entrevistei sobreviventes do ataque a Hiroshima, além de um dos homens que lançaram a bomba sobre a cidade japonesa. Os depoimentos de quem escapou com vida naquela manhã de 6 de agosto de 1945, uma segunda-feira, descrevem cenas dantescas. Fui à casa de Toshie Shoji, aqui em Brasília. Falei com Takashi Morita, que vivia em São Paulo, onde faleceu aos 100 anos, em 2024. As entrevistas foram feitas em 2005, no 60º aniversário do ataque nuclear. Dez anos depois, escutei Kunihiko Bonkohara, então com 85 anos, e Junko Waranabe, 82.

Os hibakushas me contaram sobre feridos tentando matar a sede, causada pela radiação, em rios da cidade cobertos de corpos. Falaram da chuva preta tomada pela radiação, das pessoas pulverizadas pela explosão, da destruição, do horror. Também em 2005 entrevistei Theodore "Dutch" Van Kirk, um dos tripulantes do bombardeiro Enola Gay. Seis décadas depois, ele me garantiu que não sentia remorso nem arrependimento e que faria tudo de novo.

Talvez por desconhecimento histórico, aliado a uma dose de sandice e fanatismo, o manifestante do míssil inflável desejasse ver o próprio país queimando como Hiroshima. Algo como: "Trump, me mate!". Tentei encontrar sentido figurado naquela mensagem escrita no tal míssil. Não consegui. Parece um desejo genuíno de submissão — em sua versão extrema e extremista — aos EUA. A aversão a um político não deveria ser licença para a ignorância. Também me parece contraditório que bandeiras de Israel e dos EUA desfilem em meio a protestos de "patriotas". Parece contrassenso. Tenho procurado lógica nisso. Sinceramente, em vão.

Soberania é inegociável. Assim como a proteção de um país contra a ameaça de agressões externas. Espero que, qualquer que seja a voz proclamada pelas urnas, no próximo domingo, o futuro do Brasil continue a ser ditado pelos brasileiros. Que nenhuma liderança política apoie qualquer tipo de intervenção dos EUA em nossa nação.

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SUS PADRÃO EINSTEIN É MENTIRA DE FLÁVIO BOLSONARO

Elio Gaspari, O Globo

Mentir faz parte, mas candidato exagerou

Flávio Bolsonaro anunciou no debate da Band que no seu governo “o SUS vai ser padrão Einstein”. Nunca na história das campanhas eleitorais um candidato prometeu semelhante maluquice. Mentira deliberada, desrespeitosa para quem a ouviu, produto da ignorância de quem não sabe o que são o Sistema Único de Saúde e o padrão do Hospital Israelita Albert Einstein, em São Paulo. Ou sabe, o que é pior.

Bolsonaro associa sua patranha ao fato de ter anunciado que o médico Claudio Lottenberg, ex-presidente do Einstein, será seu ministro da Saúde. Uma coisa é uma coisa, e outra coisa é outra coisa. Esse tipo de associação equivale a prometer prosperidade “padrão BTG” para todos os brasileiros porque o banqueiro André Esteves, cujo patrimônio é estimado em R$ 66 bilhões, será o ministro da Fazenda.

A comunidade judaica de São Paulo investiu bilhões no Einstein, e seu padrão só é acessível aos planos de saúde mais caros. Imaginar que esse padrão possa ser replicado no SUS é algo próximo de prometer o elixir da longa vida ou a pomada da juventude.

Para compensar os incentivos fiscais concedidos a entidades filantrópicas, o Einstein presta alguns serviços assistenciais de alta qualidade, nada a ver com a generalização para toda a população.

Semelhante promessa desclassifica a opinião que o candidato tem do discernimento do eleitorado. Quem acredita num SUS com padrão Einstein precisa ser um idiota. Se Flávio quer pescar nessas águas, superestima a capacidade dos brasileiros de ser enganados. Seu pai, por ignorante na matéria, acreditou por muito tempo no milagre da cloroquina. Flávio não acredita num SUS/Einstein. Mente, confiando na tolerância dos eleitores. Com décadas de atividade profissional, o doutor Lottenberg se vê convidado ao Ministério da Saúde numa plataforma de propaganda enganosa. Mau começo.

A menos que alguém esteja pensando em transferir à rede privada alguns procedimentos de alta complexidade (e remuneração), sucateando o que fica abaixo.

O que o SUS precisa é de financiamento, para que um presidente possa se orgulhar de seu próprio padrão, que é melhor do que supõe a sabedoria convencional. Durante a pandemia da Covid-19, quando os planos privados tentaram não cobrir os custos de testes e de vacinas, o SUS imunizou, de graça, dezenas de milhões de pessoas.

O debate da Band teve poucos bons momentos. Os piores foram os lances de Flávio macaqueando a grosseria de Donald Trump no segundo debate de 2016, colocando-se atrás de Hillary Clinton, balançando o corpo e fazendo umas poucas caretas. Flávio abusou dessa coreografia, roubando a cena enquanto Lula falava.

O truque funcionou, mas, como ensinava Tancredo Neves, esperteza, quando é muita, come o dono. A astúcia gerou um atrito da equipe de Lula com os organizadores do debate, mas o estrago já estava feito.

Tudo indica que no debate da Globo, na sexta-feira, essa malandragem não será permitida. Infelizmente, nenhuma emissora do mundo pode impedir um candidato de mentir.

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terça-feira, 20 de outubro de 2026

MENTIRAS DO BOLSONARISMO NA ECONOMIA

Míriam Leitão, O Globo

Flávio Bolsonaro copia propostas de Lula e diz que fará muito mais. Mas nas reuniões com a Faria Lima, promete tudo o oposto

Na economia, essa campanha virou uma disputa de quem faz mais populismo fiscal. Flávio Bolsonaro copia as proposta de Lula e aumenta ainda mais as despesas. Lula prometeu que o Tesouro compraria dívidas velhas dos endividados exigindo dos credores um desconto. Flávio pegou carona na proposta e disse que vai comprar também, mas vai congelar a dívida restante das pessoas físicas por seis meses, e, das pessoas jurídicas, por um ano. Qual a diferença entre os dois caminhos econômicos? Lula está fazendo propostas elaboradas por sua equipe, depois de estudos. Pode-se discordar, mas tem lógica. Flávio Bolsonaro está copiando tudo o que Lula anuncia, elevando as ofertas numa espécie de leilão de populismo.

As propostas de Lula são expansionistas. As de Flávio são uma cópia improvisada das de Lula e ainda mais expansionistas. Só que ele está prometendo ao mercado financeiro um corte de gastos de R$ 200 bilhões. Outra diferença é que Lula apresentou um saco de bondades com a intenção de cumprir. E isso se vê até pela delimitação mais precisa da população alvo da política pública. Flávio Bolsonaro está propondo sem ter feito os estudos prévios porque está pegando carona no que o seu oponente disse.

Lula propôs a compra de carteiras das dívidas, mas estabeleceu métodos e limites. Serão dívidas bancárias e não bancárias de até 10 mil reais no valor original. As dívidas atingidas pelo programa são as de mais de dois anos e de menos de quatro anos e meio. O Tesouro vai fazer um leilão para que os credores ofereçam descontos, mas avisará que quer pelo menos 90% de desconto. Com essa delimitação, o universo de dívidas será de R$ 150 bilhões e o custo total deve ficar em torno de R$ 15 bilhões.

Flávio Bolsonaro repetiu Lula no debate da Band e disse que ele também vai comprar a dívida. Mas fará mais. Vai congelar a dívida remanescente.“Você não vai pagar boleto nenhum, seis meses congelado, sua dívida parada e você que é pessoa jurídica esse prazo é de um ano, um ano sem pagar os boletos das suas dívidas atrasadas”. Ficará uma parte para ser paga. “A sua parcela que você pagava R$ 100, R$ 200, vai chegar a R$ 20 e a R$ 30”. Mas isso será refinanciado pela Caixa.

Essa proposta é evidentemente mentirosa, além de confusa. Como Flávio Bolsonaro não delimita nada, o valor ou o tempo da dívida, a conta vai ao infinito. A proposta genérica é para atrair todos os endividados. O montante da dívida total em atraso é R$ 592 bilhões e o universo dos endividados é de 84 milhões de pessoas.

Ao mercado, ele garante que cortará R$ 200 bilhões no primeiro ano. Em certos momentos, diz que o dinheiro virá da redução dos supersalários. O governo Lula propôs esse corte e o Congresso se recusou a analisar a proposta. O Judiciário entrou para diminuir os exageros, mas na prática elevou o teto. Mesmo se fosse o limite anteriormente fixado, e fosse possível acabar da noite para o dia, o governo não conseguiria economizar nem 10% do que está prometendo.

Flávio Bolsonaro disse no debate da Band o seguinte: “O simples fato de Flávio Bolsonaro virar do primeiro para o segundo turno na frente, a taxa de juros futuros já caiu 2%. Com essa dívida que o atual governo está deixando de R$ 11 trilhões, se você fizer uma conta rápida, com Flávio Bolsonaro presidente da República, muito rapidamente você já vai ter um espaço no orçamento de R$ 200 bilhões. Sabe o que eu vou fazer com isso? Eu vou ajudar você a pagar a sua dívida”.

Isso é uma heresia econômica e monetária. Não se usa a “economia” com o custo menor da dívida pública para ampliar gastos. Se Lula falasse algo assim seria crucificado na Faria Lima.

A estratégia de Flávio é a seguinte: fugir das perguntas pela tangente, repetir à exaustão propostas na segurança pública que não resolvem o problema mas parecem efetivas, partir para o ataque quando é confrontado com os muitos indícios de corrupção dele e da família Bolsonaro, copiar todas as propostas econômicas de Lula, dizendo que fará o mesmo e muito mais. Nas reuniões, a portas fechadas no mercado financeiro, ele diz o oposto do que diz em público. É manipulação populista.

Criando confusão nos debates, nas entrevistas e nas postagens, Flávio Bolsonaro escapa da pior questão que pesa sobre ele: o risco real que ele representa para a democracia, por tudo o que já disse e por tudo que o bolsonarismo sempre defendeu.

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O QUE VEM DEPOIS DE TANTA EMOÇÃO

Artigo de Fernando Gabeira

Minha menina: o Brasil vive sua última semana de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do passado.

Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.

Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas. Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El Niño vem pesado com seus eventos extremos.

Os últimos dias são interessantes também pelo esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos, votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6×1, sem dúvida um avanço civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.

O governo tem tido vitórias no Parlamento. O dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.

Se um dia fosse escrever a história desta campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet. Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem dizendo em quem votarão.

Lembra aquele português que fomos visitar no Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito esse tipo de cálculo.

Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.

O que não significa caminho tranquilo para a esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o rumo da História.

Não importa o resultado, depois da emoção da reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades cotidianas. Elas serão um grande termômetro.

Artigo publicado no jornal O Globo em 20 / 10 / 2026

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A CRISE HISTÓRICA E O APARECIMENTO DOS 'MONSTROS'

Roberto Amaral*, Carta Capital

“Com a ‘marcha sobre Roma’ [1922], que pressiona a monarquia, os fascistas chegam ao governo, com a nomeação de Mussolini para a chefia do gabinete. Começa para o PCI [Partido Comunista Italiano]um período de ilegalidade de fato. No Partido, como Trotski recordará em 1932, ninguém admitia a possibilidade de uma ditadura fascista ‘salvo Gramsci’.” (“Cronologia da vida de A. Gramsci”. In:Cadernos do Cárcere, vol. 1.Civilização Brasileira, 2004).

Em texto com data provável de 1930, Antonio Gramsci observa o fenômeno crise histórica para afirmar que seu caráter está, precisamente, no fato de que o “velho morre e o novo não consegue nascer: nesse interregno verificam-se os mais variados fenômenos mórbidos”. Ou, na versão mais conhecida (retirada da tradução francesa), “o velho mundo está morrendo, o novo tarda a aparecer e, nesse claro-escuro, surgem os monstros”.

O autor de Cadernos do Cárcere está, evidentemente, a refletir sobre a Europa de então. Sua Itália já estava sob o jugo fascista (desde 1922), e na Alemanha o nazismo avançava marchando com botas de sete léguas. Hitler, como é sabido, conquistaria a chancelaria em 1933. O que se segue, inclusive entre nós, é história consabida, e nada edificante.

O “claro-escuro” gramsciano precisa o intervalo histórico entre os estertores da velha ordem, quando ela perde a capacidade de reprodução, e uma nova ordem sucessora ainda não conseguiu impor-se. Karl Marx (prefácio à Contribuição à crítica da economia política, 1859) explica como, em determinada etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção. Quando isso ocorre, as relações de produção deixam de cumprir com seu papel de fator de desenvolvimento e passam a atuar como entraves.

A crise de hegemonia, em sentido gramsciano — descendente da análise marxista do bonapartismo —, ocorre quando a classe dominante não consegue mais construir um consenso em torno de seu projeto. O Estado (“um comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa”) perde a capacidade de representar como interesses universais da sociedade os interesses particulares do capital. É o momento em que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”.

Entra em crise a capacidade de a classe dominante exercer sua liderança ideológica (“as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”) sobre a sociedade, essencial para o exercício do mando; a ordem burguesa vê diluírem-se as condições necessárias de funcionamento e legitimação. O momento seguinte é o de falência de sua capacidade de constituição de uma ordem alternativa, necessária para intentar sua sobrevida, ainda que em outros termos.

 

A crise de autoridade e de hegemonia abre espaço para fenômenos políticos reacionários, e a desagregação da ordem política favorece a adesão a soluções patológicas, dentre as quais a mais significativa é a via totalitária ou autoritária, por definição regressiva.

Ela não carece de ação revolucionária e pode mesmo realizar-se nos marcos da legalidade formal, como é, no caso brasileiro, a ameaça presente do neofascismo. De outra parte, nossa história é fecunda em exemplos de alteração da ordem para que a ordem permaneça a mesma. Neste sentido, é exemplar o golpe de Estado da madrugada de 1º de abril de 1964. Em 1889, o golpe da Proclamação da República também serviu para manter no poder a ordem do latifúndio arcaico, que sobreviveria até pelo menos 1930.

A classe dominante perde a adesão das grandes massas, e sua hegemonia (desconsiderada a análise respeitante a qualquer sorte de legitimidade) é posta em xeque. Quando isso ocorre, a ordem passa a depender da força coercitiva do Estado, à qual se associa a instrumentalização dos partidos e de forças sociais, inclusive movimentos religiosos e organizações políticas mobilizados em defesa do statu quo, ou do recuo histórico, como se observa, entre nós, no bolsonarismo e em setores da direita evangélica.

A ordem vigente entra em crise, mas conserva ainda forças para impedir que uma nova ordem emerja e, frente ao impasse, a desagregação política abre o largo espaço por onde trafegam as soluções autoritárias e messiânicas. Foi assim, na Argentina eamSão sempre exemplos históricos a ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha.

Foi em ambiente de crise que emergiram as formações totalitárias do século passado, percorrendo os caminhos abertos pelo fracasso da social-democracia. Não só na Europa como na América Latina, e entre nós, com o Estado Novo, que derrogou a Constituição democrática de 1934, tentativa frustrada de normatizar o movimento de 1930. Em 1946 o cel. Perón é eleito na Argentina. Outro exemplo, em nosso Continente, para ficarmos em poucos, é oferecido pelo Peru. Em 1990 Alberto Fujimori é eleito Presidente, para, em 1992, com apoio das Forças Armadas, comandar um autogolpe e impor uma ditadura que sobreviveria até 2000.

Esse quadro certamente ajuda a explicar a erosão democrática que percorre o mundo no desdobramento da crise estrutural do capitalismo,  e que chega de forma quase avassaladora ao nosso continente, tocada a partir da Casa Branca, acicatada pelos impasses que se colocam para sua hegemonia, mesmo no mundo ocidental. A crise geopolítica é ainda alimentada pelo esgotamento de sua economia, ponto de partida para a crise política, da qual o trumpismo é a mais evidente consequência. Este é o caráter ostensivo da crise do capitalismo, que hoje, mais do que nunca, depende de sua liderança, não só política e econômica, mas, antes de tudo, de sua salvaguarda militar. Sua agressividade não deve ser tributada à patologia de seu presidente.

Não é esta, porém, a única via que a história registra como alternativa à crise de hegemonia.

Com Marx, sabemos que as contradições não produzem necessariamente uma crise terminal do capitalismo. A história vem demonstrando, à saciedade, os recursos desse sistema para administrar suas contradições/seus conflitos, reorganizar a produção, conquistar novos mercados, alterar as relações de trabalho (aprofundando a exploração de que se nutre) e, saltando para a política, alterar a atuação do Estado. Por isso mesmo, a crise do capitalismo, que também pode ser vista como fenômeno a ele imanente, não significa, ipso facto, seu fim.

É prudente não confundir determinismo histórico com fatalismo: as condições históricas revelam a crise, mas não a resolvem. Não basta que a sociedade produza desigualdade, que o Estado seja instrumento de opressão dos interesses das classes subalternizadas pelo capital; essas são condições necessárias, mas não suficientes para a luta de classes. Gramsci nos dirá que a crise não consiste simplesmente no fato de que o velho perdeu força. Consiste também em que o novo não adquiriu capacidade suficiente para substituí-lo. As contradições do capitalismo, tão bem identificadas por Marx, se convertem em crise de direção, mas essa crise não conduz necessariamente a uma alternativa emancipatória.

O salto qualitativo entre a passividade e a consciência política, ponte para a luta de classe, não resulta, automaticamente, naturalmente, deterministicamente, da existência proletária: é fruto do processo social. O avanço político se realiza quando as classes subalternas – avançando sobre as reivindicações econômicas,  que no entanto desempenham essencial papel pedagógico --- entendem que seus interesses, aparentemente particulares, devem se tornar interesses de outros grupos subalternizados. É quando, retomamos Gramsci, o proletariado se vê capaz de elaborar um projeto político para toda a sociedade e disputar a hegemonia; é quando os sindicatos se legitimam e se politizam.

A crise política brasileira de nossos dias contagia a institucionalidade e se debruça sobre o Poder Judiciário, no qual a cidadania não sabe se com ele pode contar para a defesa de seus direitos. Mas nada é mais contundente do que os números do pleito de 4 de outubro passado, de que resultou a formação de um Congresso majoritariamente de direita, apto a romper com o pacto social que nos deu a Constituição liberal de 1988 e, assim, jogar por terra as conquistas sociais amealhadas pela sociedade ao longo de sua história republicana. Ademais, e mais facilmente do que em 2016, poderá decretar o impeachment do futuro Presidente. Lula, reeleito, corre o risco de governar sob esta verdadeira espada de Dámocles. 
 
Se a direita abocanhar a Presidência da República, terá sob suas rédeas,  os três poderes da República, o que nem mesmo a ditadura militar, de que o bolsonarismo é herdeiro, logrou alcançar. Porque, além do Executivo e do Congresso, controlará o Poder Judiciário, de fio a pavio: o próximo Presidente indicará, em seu mandato, pelo menos quatro novos ministros para o STF. Poderão ser mais quatro ministros “terrivelmente evangélicos” que se juntarão aos seus dois péssimos espécimes que já lá estão. A soma mostra seis ministros em um colegiado de onze!

O novo  Congresso é fruto da crise de representação, que põe em risco a República. Ela resulta da percepção da classe dominante de que o projeto de centro-esquerda, representado pelos governos liderados pelo PT, cobra concessões que ela não está disposta a fazer. Justiça seja feita à Faria Lima: desde 2013 ela dá mostras de insatisfação, sinais que nos recusámos a identificar, mesmo depois do golpe parlamentar que depôs a presidente Dilma Rousseff, e ainda mesmo depois das eleições de 2018!

Mesmo após a dificílima eleição de Lula em 2022, nos revelámos incapazes de construir “uma nova maioria”, como reclama Marcio Pochmann, e assim se explicam nossas dificuldades de enfrentar o avanço da onda reacionária.
Este foi o preço cobrado pelo “pacto de conciliação”, inarredavelmente conservador.

De um lado, perfila-se a classe dominante para impor sua vontade, primeiro pelo voto. Conquistado o pódio, avançará sobre a ordem democrática e os direitos sociais e fará deste país uma extensão do poder imperial de Washington.
As classes subalternas brasileiras ainda não se encontram em condições de construir uma alternativa de hegemonia. A resistência à ditadura, a luta pelas Diretas Já, as greves do ABC, a reconstitucionalização liberal, configuram momentos de festejada politização, que, no entanto, vive o risco de ser  posta a pique pela avalanche da direita.

Mas há algo de novo a registrar, e muito precioso: o verdadeiro levante popular que, nos últimos 15 ou 20 dias, tomou as ruas de todo o país, em defesa da democracia, neste transe reorientada pela necessidade histórica de reeleger o presidente Lula, o dique que a sociedade pode construir para conter a ameaça neofascista.

Este levante é, por si só, o fato mais notável desta quadra, e o que mais ressalta é o caráter inusitado de sua espontaneidade. Desapartada dos partidos, ou independentemente deles, a juventude veio às ruas numa mobilização que, entre nós, superou os idos de 1968, empolgou o país, animou o que talvez possamos chamar de “alma nacional” e possivelmente definirá o pleito.

A emergência dos jovens na política, pondo por terra a apatia em que parecia adormecida a sociedade, traz de volta a esperança, pois revela um alto nível de politização que perdurará para além do pleito, indicando a construção de uma nova sociedade, disposta a construir sua história.

Não estamos mais, passivos, condenados a assistir à emergência dos monstros.

***

Os Trumps parecem uma família boazinha do subúrbio perto do clã Bolsonaro — Sob esse título (Gegen den Bolsonaro-Clan wirken die Trumps wie eine brave Vorstadtfamilie!), a revista alemã Sternpublicou, em 27/09/2026, extensa reportagem sobre o clã Bolsonaro e o processo eleitoral brasileiro. O professor Pedricto Rocha preparou um resumo da matéria, também repercutida por Luiz Carlos Azenha. Com sarcasmo, a revista considera “especialmente grotesca” a pretensão de Flávio Bolsonaro, herdeiro político do clã, de apresentar-se como “inimigo do sistema”, quando sua trajetória sempre esteve vinculada à política familiar. A reportagem aborda a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, as relações com milícias armadas e o esquema das “rachadinhas”, além do enriquecimento da família, que teria transformado a política em negócio lucrativo, acumulando patrimônio por meio de salários públicos, verbas de gabinete e transações suspeitas, incluindo a aquisição de 51 imóveis com dinheiro vivo. Para a Stern, a eventual volta do clã ao poder representaria um constrangimento internacional para o Brasil. A revista retrata Flávio Bolsonaro como figura politicamente incapaz, sem ideias próprias ou projeto a oferecer ao país.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

NÃO SEI VOCÊS

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas

Não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos

Não sei vocês, mas entendo que estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas. Em poucos dias iremos definir se queremos um governo que se caracteriza pela defesa dos interesses coletivos e pela priorização do bem-estar social ou um governo associado ao autoritarismo, ao culto à personalidade, à perseguição de minorias e ao desprezo pelo meio ambiente.

Não sei vocês, mas a escolha certa me parece óbvia para quem preza a democracia, a liberdade de expressão, o direito à divergência, o livre pensamento, a justiça social, a equidade de gênero e de raça, a educação pública, a proteção previdenciária e uma série de direitos e garantias conquistados com muita luta e articulação coletiva ao longo de décadas.

Não sei vocês, mas acredito que precisamos centrar esforços para manter viva a Nova República, período que começou com o término dos 21 anos de ditadura militar, uma época caracterizada pelo autoritarismo, pela censura à imprensa, pela restrição de direitos políticos, pela perseguição, repressão e tortura de opositores, pela criação de órgãos de controle e por golpes institucionais.

Não sei vocês, mas creio que não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos. Devemos isso em respeito aos que, num passado recente, pagaram com a vida para que hoje pudéssemos ir às urnas para expressar nossa soberania por meio do voto. Devemos isso a nós mesmos. Devemos isso especialmente às próximas gerações.

Não sei vocês, mas numa sociedade extremamente injusta e desigual como a brasileira, é imprescindível contar com leis trabalhistas, com salário mínimo, com negociação coletiva, com direitos previdenciários, com ações afirmativas, com proteção ao meio ambiente, com um Estado que proteja direitos e module relações econômicas absolutamente díspares –entre outras coisas.

Não sei vocês, mas para mim liberdade, equidade e justiça social são valores maiores e mais relevantes que o gosto ou desgosto por qualquer partido político.

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SEM BALA DE PRATA

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir rejeição dos que pretende atrair

Um bom desempenho em um debate na TV não costuma ser a bala de prata para vencer uma eleição presidencial. Não foi diferente no debate Band/Estadão de ontem.

No balanço geral, Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir a rejeição do eleitorado que pretende conquistar. Passou sua mensagem com mais clareza, usou melhor o jogo de câmeras (por exemplo, ao se posicionar atrás de Lula, com expressão de desaprovação, enquanto o presidente falava) e administrou melhor o tempo à sua disposição. Nos embates diretos com tema livre entre os dois, porém, o senador foi tão evasivo nos questionamentos de Lula que passava a impressão de que qualquer assunto lhe era demasiadamente espinhoso – até aqueles que não deveriam ser. Qual era a dificuldade de explicar por que votou assim ou assado em determinada matéria no Congresso Nacional?

Lula, por sua vez, fez uma salada de assuntos, de tal maneira que, a determinada altura, deu a sensação de estar apenas listando temas combinados no treinamento com os assessores, mas sem conseguir dar contexto para que os espectadores entendessem onde ele queria chegar. Mencionou vários escândalos que afetam diretamente Flávio, mas, diante do silêncio ou das evasivas do adversário, perdia a oportunidade de explicar para os eleitores o que estava por trás daquelas acusações.

Flávio usou e abusou das frases prontas para lacração: “O seu nariz está crescendo, Lula, cuidado” e “Você que está em casa, em quem acha que o ladrão da sua bolsa ou do seu celular vai votar?” foram algumas delas. Lula, por sua vez, usou e abusou da lembrança da desgraça que foi o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Este chegou a manifestar incômodo com essa insistência, como se quisesse se desvencilhar da imagem do ex-presidente.

O pior momento do debate foi quando Lula e Flávio entraram em uma espiral fútil de acusações mútuas de corrupção. Nenhum dos dois esclareceu nada. A melhor defesa era o ataque. Mais importante do que negar uma suspeita sobre si próprio era mostrar que o outro era ainda mais enrolado com pessoas e atividades impróprias. Em uma campanha em que a lacração foi mais valorizada pelos candidatos do que a discussão de propostas factíveis para os problemas do País, as atuações de Lula e Flávio nesse debate acabaram se provando apenas uma extensão dessa estratégia.

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domingo, 18 de outubro de 2026

MORRE BENITO DI PAULA

Do Blog  Pop & Arte do Mauro Ferreira, g1

Benito Di Paula morre em São Paulo, aos 84 anos, e deixa obra inovadora no segmento do samba

♫ OBITUÁRIO

♬ Um dos cantores e compositores mais populares do Brasil nos anos 1970, Benito Di Paula morreu na noite deste domingo, 18 de outubro, aos 84 anos. O artista faleceu no Hospital 9 de julho, em São Paulo (SP), em decorrência de complicações de um câncer. O artista lutava contra a doença há cerca de um ano. Ainda não há informações sobre o velório e o enterro do cantor.

Cantor, compositor e músico fluminense, Benito Di Paula nasceu Uday Velloso (28 de novembro de 1941 – 18 de outubro de 2026) na cidade de Nova Friburgo (RJ) e foi criado no Rio de Janeiro (RJ). Mas o Brasil já o conheceu como Benito Di Paula a partir dos anos 1970, década em que o artista fez sucesso nacional com um samba diferente, esquema novo.

Benito Di Paula jamais se considerou um sambista da dinastia de Martinho da Vila e Paulinho da Viola, cantores e compositores que também obtiveram grande sucesso na década de 1970 no segmento do samba. Benito sempre se rotulou publicamente como sambeiro e como pianeiro.

Foi no toque percussivo do piano que Benito Di Paula fazia a própria batucada com um suingue brasileiro que, de certa forma, antecipou o pagode paulista que seria propagado nos anos 1990 por grupos como Raça Negra com arranjos cheios de teclados. E o fato é que o sambeiro pianeiro imprimiu assinatura singular na música do Brasil.

Diplomado na escola noturna das boates, território onde constatou que o manuseio das teclas do piano surtia efeito de batucada, Benito Di Paula marcou época nos palcos dos auditórios dos programas de TV com o informal visual de gala composto por anéis, casacas, colares, gravatas borboletas, pulseiras e, claro, os cabelos longos e outrora cacheados. Quem viveu no Brasil ao longo dos anos 1970 lembra da figura de Benito.

O cantor debutou no mercado fonográfico em 1967 e lançou em 1971 o primeiro álbum, “Benito Di Paula” (1971), ao qual se sucedeu o segundo, “Ela” (1972), apresentado um ano depois com o primeiro sucesso do artista, “Violão não se empresta a ninguém” (1972).

Contudo, o reinado de Benito Di Paula começou de fato em 1973 com dolente samba-canção, “Retalhos de cetim”, apresentado em single blockbuster naquele ano de 1973.

“Retalhos de cetim” foi o ponto de partida para o sucesso de obra que – calcada no mix do piano tocado pelo artista com instrumentos de percussão – rendeu sucessivos hits até 1984, mas sobretudo no período que foi de 1973 a 1977.

Nesse período, foi impossível ignorar “Charlie Brown” (1974), “Beleza que é você mulher” (1974), “Bandeira do samba” (1975), “Como dizia o mestre” (1975), “Vai ficar na saudade” (1975), “Tudo está no seu lugar” (1976), “Do jeito que a vida quer (1976, samba dos versos confessionais “...É que meu samba me ajuda na vida / Minha dor vai passando esquecida”), “Assobiar e chupar cana” (1977) e “Proteção às borboletas” (1977).

Apresentadas ao longo de quatro anos, no já mencionado período de 1973 a 1977, auge da carreira de Benito, essas músicas atestaram o talento do compositor para fazer samba descolado da matriz do gênero, ainda que a assumida maior influência do sambeiro tenha sido a obra do bamba Ataulfo Alves (1909 – 1969).

Lançados em discos editados pelo cantor na gravadora Copacabana, na qual Benito permaneceu até 1980 e para a qual voltou brevemente em 1987 e em 1992, esses sucessos da década de 1970 já são suficientes para garantir a imortalidade de Benito Di Paula na galeria dos criadores da música do Brasil.

Contudo, o cantor ainda emplacou eventuais hits na primeira metade da década de 80. “Ah! Como eu amei”, música dos irmãos Jota Vellozo e Nei Vellozo, garantiu a Benito bom lugar nas playlists de 1981. Parceria de Benito com Márcio Brandão Carneiro, “Amigo do sol amigo da lua” tocou bem nas rádios em 1984.

“Amigo do sol amigo da lua” foi o último sucesso de Benito Di Paula, ainda que o cantor tenha continuado a lançar álbuns com regularidade até 1996, ano em que apresentou “Baileiro sem repercussão. Desde então alijado do mercado fonográfico pela máquina das gravadoras, Benito Di Paula apresentou somente mais dois álbuns com músicas inéditas, “A felicidade é nossa” (2017) e o relativamente recente “O infalível zen” (2021), disco com o qual celebrou 80 anos.

Nos últimos anos, a obra inovadora de Benito Di Paula passou por processo de reavaliação e gerou tributos. Contudo, o aval mais importante, o do público, sempre foi dado de imediato a esse cantor, compositor e instrumentista que deixa o nome gravado na história da música popular do Brasil ao morrer a um mês de completar 85 anos.

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sábado, 17 de outubro de 2026

INCOMPETÊNCIA OU PERVERSIDADE ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Em menos de um mês, PM paulista mata terceira pessoa em aparente surto psicótico

É assustador que cúpula da polícia não consiga fazer agentes seguirem protocolo

Às vezes eu me pergunto se o governador Tarcísio de Freitas e a cúpula da segurança pública de São Paulo são apenas incompetentes ou se têm também maldade no coração. Só neste mês, que mal passou da metade, já se registraram três casos de cidadãos em aparente surto psicótico mortos pela PM. Em dois deles, os policiais dispararam mais de 20 vezes contra as vítimas.

Falei em incompetência porque as circunstâncias desses óbitos estão em total desacordo com o protocolo da PM para a abordagem de suspeitos, notadamente daqueles que se imagina estarem sob estresse psíquico. A primeira providência deveria ter sido acionar o Samu. A tentativa de usar armamentos menos letais antes dos tiros também teria sido obrigatória. Mesmo que os suspeitos representassem ameaça real à vida dos policiais ou de terceiros, os agentes falharam. O método Giraldi, adotado em SP, jamais autoriza descarregar a arma contra o suspeito. Será que os comandantes não conseguem treinar seu pessoal para seguir a regra que a própria instituição desenhou?

Falei em maldade porque ninguém fora do espectro do sadismo ou da psicopatia pode considerar aceitável que pessoas morram porque a polícia não consegue comportar-se como ela mesma acha que deveria.

Se fossem casos isolados, até daria para deixar passar. Mas o que não falta são histórias escabrosas recentes envolvendo a PM que ainda ocorrem num contexto de persistente aumento nos óbitos por intervenção policial.

Para piorar o quadro, a psicologia moral sugere que o ser humano já vem de fábrica com mecanismos que inibem sua disposição de infligir danos em seus semelhantes. Não se trata, por óbvio, de uma trava absoluta, mas cérebros saudáveis sentem repulsa emocional em provocar dor em terceiros. Uma das formas de reverter essas inibições é submeter a tropa a uma cultura que valorize o policial matador. Que os PMs estejam mergulhados nela é compreensível, embora lamentável. Que o governador e outras autoridades chancelem essa cultura de morte é imperdoável.

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