Kellen Barreto, Isabella Calzolari, Gustavo Garcia,
g1 —
Brasília
Em virada histórica, Lula derrota Flávio Bolsonaro e
chega ao quarto mandato como presidente
Após forte mobilização nas ruas e nas redes, presidente
superou derrota do 1º turno e venceu uma eleição acirrada. Petista terá pela
frente forte oposição no Congresso e o desafio de equilibrar as contas públicas
após ampliar gastos durante a campanha eleitoral.
Em uma eleição acirrada e marcada por uma virada inédita, Luiz
Inácio Lula da Silva (PT) foi reeleito
neste domingo (25) presidente da República e conquistou seu quarto mandato à
frente do Palácio do Planalto.
Às vésperas de completar 81 anos, o que ocorrerá na
próxima terça-feira (27), o petista se tornou, ao derrotar Flávio
Bolsonaro (PL),
o primeiro presidente da história do Brasil a ser eleito quatro vezes pelo voto
popular.
A confirmação da vitória de Lula foi feita
pelo sistema do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), às 21h08, quando 97%
das urnas já tinham sido apuradas. Àquela altura, Lula tinha 51,74% e
Flávio tinha 48,26%.
O quarto triunfo de Lula ocorre mais de duas décadas depois
de chegar ao poder pela primeira vez, em 2002.
A virada histórica se deu após uma forte mobilização da
campanha do petista, nas ruas e nas redes sociais.
No quarto mandato, Lula terá grandes desafios, como
lidar com uma forte oposição no Congresso Nacional e equilibrar
as contas públicas após ampliar benefícios durante campanha eleitoral e
prometer reforçar programas sociais.
Um dos fundadores do PT, Lula foi eleito presidente em 2002,
reeleito em 2006 e
voltou ao Planalto em 2023, após vencer Jair Bolsonaro, pai de Flávio, nas
eleições de 2022.
Sua trajetória
também foi marcada por três derrotas presidenciais, condenações
posteriormente anuladas pelo Supremo Tribunal Federal (STF), 580 dias de prisão
e o retorno à disputa eleitoral.
A nova vitória consolida Lula como o principal personagem da
política brasileira no século 21. E garante ao petista mais quatro anos na
chefia do Poder Executivo.
Depois
de ficar atrás de Flávio no primeiro turno, 47% a 45% dos votos válidos,
o petista protagonizou uma virada histórica na segunda etapa da disputa
eleitoral.
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Quem é Luiz Inácio Lula da Silva?
Lula nasceu em 27 de outubro de 1945, em Garanhuns, no
interior de Pernambuco. É o sétimo dos oito filhos do casal de lavradores
Aristides Inácio da Silva e Eurídice Ferreira de Mello, conhecida como Dona
Lindu.
O pai deixou Pernambuco quando Lula ainda era bebê e se
mudou para o litoral paulista em busca de trabalho. Em dezembro de 1952, aos
sete anos, Lula viajou com a mãe e os irmãos para São Paulo, em um caminhão pau
de arara.
A família se instalou inicialmente no Guarujá, onde
reencontrou Aristides, que já havia formado outra família e a dona Lindu acabou
se separando do marido.
Em 1956, mãe e filhos se mudaram para a capital paulista,
onde passaram a morar em um pequeno cômodo nos fundos de um bar.
Lula foi vendedor ambulante, engraxate e office boy, até
conseguir emprego na Fábrica de Parafusos Marte.
Réplica da casa em que Lula passou a infância em Caetés, no
Agreste de Pernambuco — Foto: San Costa/TV Globo
Aos 14 anos, ingressou na indústria e aos 18 anos concluiu o
curso de torneiro mecânico pelo Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial
(Senai). Antes disso, aos 17 anos, perdeu
o dedo mínimo da mão esquerda em um acidente de trabalho.
A vida pessoal de Lula também foi marcada por perdas
familiares. Em 1969, casou-se com a operária Maria de Lourdes da Silva, que
morreu gravida em 1971.
Em 1974, Lula se casou com Marisa Letícia, com quem viveu
por mais de quatro décadas.
Lula e a 2ª esposa, Marisa Letícia, com os filhos Fábio
Luiz, Sandro Luiz e Luiz Cláudio. — Foto: Instituto Lula
Lula e dona Marisa tiveram três filhos, Fábio Luís, Sandro
Luís e Luís Cláudio. Lula também é pai de Marcos Cláudio, filho de Marisa de um
relacionamento anterior, que foi adotado pelo petista, e de Lurian, fruto de
outro relacionamento com Miriam Cordeiro.
Marisa acompanhou a ascensão política de Lula, desde o
movimento sindical até a Presidência da República. Ela morreu em fevereiro de
2017, aos 66 anos, após sofrer um acidente vascular cerebral (AVC).
Em maio de 2022, Lula se casou pela terceira vez, com a
socióloga Rosângela da Silva, conhecida como Janja. A cerimônia ocorreu em São
Paulo, durante a campanha que levaria o petista de volta à Presidência da
República.
Movimento sindical e PT
Luiz Inácio Lula da Silva fala durante uma assembléia com os
metalúrgicos da Ford, em abril de 1984. Durante as décadas de 70 e 80, Lula
dedicou-se intensamente à atividade sindical, como presidente do Sindicato dos
Metalúrgicos do ABC — Foto: Clovis Cranchi/Estadão Conteúdo/Arquivo
Lula trabalhou na Indústria Villares, metalúrgica em São
Bernardo do Campo, na região do ABC paulista. Ingressou no movimento sindical
por influência do irmão José, chamado de Frei Chico.
Foi suplente, primeiro-secretário e presidente do Sindicato
dos Metalúrgicos de São Bernardo do Campo e Diadema.
Reeleito presidente do sindicato, Lula ganhou visibilidade
nacional pela liderança nas greves de metalúrgicos que paralisaram o ABC
durante a ditadura militar (1964-1985). O governo ditatorial reagiu, e o
sindicalista ficou 31 dias na cadeia em 1980, com base na antiga Lei de
Segurança Nacional.
Também em 1980, Lula foi um dos fundadores do Partido dos
Trabalhadores (PT), junto com políticos, sindicalistas, intelectuais,
lideranças rurais e religiosas. Dona Marisa, sua esposa na época, costurou a
primeira bandeira do partido.
O país entrava na reta final da ditadura, com a abertura
política "lenta e gradual" definida pelos militares, e ganhou
alternativa de partido à esquerda.
A atuação de Lula também foi importante na criação da
Central Única dos Trabalhadores (CUT), em 1983. No ano seguinte, ele participou
da campanha das Diretas Já, movimento que levou multidões às ruas para exigir a
volta das eleições diretas para presidente da República.
A passagem do sindicalismo para a política eleitoral começou
em 1982, quando Lula concorreu, sem sucesso, ao governo de São Paulo e ficou em
quarto lugar. Quatro anos depois, em 1986, foi eleito deputado federal por São
Paulo e participou da Assembleia Nacional Constituinte, que promulgou a
Constituição de 1988.
Derrotas
Lula e Fernando Collor no debate presidencial de 2° turno em
1989. — Foto: Reprodução/Editoras Bloch
Em 1989, o petista estreou na corrida ao Planalto na
primeira eleição direta para presidente desde 1960. Ele chegou ao segundo
turno, porém foi derrotado por Fernando Collor de Mello, à época no PRN, que em
1992 renunciou e foi condenado em um processo de impeachment motivado por
denúncias de corrupção.
Lula voltou a concorrer ao Planalto em 1994 e 1998, porém
nas duas ocasiões foi derrotado por Fernando
Henrique Cardoso (PSDB),
candidato impulsionado pelo êxito do Plano Real no combate à inflação.
Mandatos
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso ergue os braços do
presidente eleito e recém empossado Luiz Inácio Lula da Silva em cerimônia no
Palácio do Planalto, em Brasília, em janeiro de 2003 — Foto: Ed
Ferreira/Estadão Conteúdo/Arquivo
Em 2002, Lula foi eleito com 52,7 milhões de votos. Derrotou
no segundo turno José Serra (PSDB), candidato governista. Em 1º de janeiro de
2003, tornou-se o primeiro operário a governar o Brasil.
Definiu como meta a redução da miséria e da desigualdade,
aprimorou políticas sociais e lançou programas como Fome Zero, Bolsa Família
e ProUni.
Em 2006, Lula recebeu 58,2 milhões de votos e venceu Geraldo
Alckmin, que estava no PSDB, no segundo turno. Reeleito, lançou novos
programas, com destaque para a política de habitação do Minha Casa,
Minha Vida e para as obras de infraestrutura do Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC).
Lula foi badalado no exterior, ao ponto de ser chamado de “o
cara” pelo então presidente dos Estados Unidos, Barack Obama.
Com aprovação recorde de 87%, o petista se despediu em 2010
tendo sido decisivo na vitória de Dilma Rousseff (PT), sua ex-ministra, na
corrida presidencial.
Lula iniciou o terceiro mandato em 2023 depois de vencer
Jair Bolsonaro no segundo turno com 60,3 milhões de votos.
O petista recriou ministérios extintos no governo anterior,
como o da Cultura. Também ampliou a estrutura administrativa, que hoje tem 38
pastas, com a criação de novos ministérios, como os da Igualdade Racial e o dos
Povos Indígenas.
Lula passou por algumas crises nos últimos quatro anos, como
o escândalo de fraudes no INSS, com os descontos indevidos em aposentadorias e
pensões no período de 2019 a 2024. O caso levou à troca do comando do instituto
e o indiciamento de ex-dirigentes do órgão, além da substituição de Carlos Lupi
no Ministério da Previdência Social.
Também viu o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal
Federal (STF), autorizar a Polícia Federal a realizar investigações sobre o
suposto tráfico de influência de seu filho Fábio Luís da Silva, o Lulinha, no
Ministério da Saúde e na Dataprev.
E, em junho, teve de retirar Jaques Wagner (PT-BA) da
liderança do governo no Senado, após o parlamentar baiano ser alvo da Operação
Compliance Zero, que apura um esquema de fraudes bilionárias praticadas pelo
Banco Master.
Na área econômica e social, o governo conseguiu aprovar a
reforma tributária no Congresso
Nacional e ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda.
O Brasil voltou a sair do Mapa da Fome e houve a ampliação
de programas voltados à moradia e à transferência de renda, além da
implementação de medidas para ampliar o acesso à saúde e para estimular
investimentos.
Lula também precisou lidar com os reflexos de crises
internacionais, como conflitos no Oriente Médio e a política tarifária adotada
pelos Estados Unidos.
A condução das negociações comerciais e diplomáticas, que
incluiu a resposta do governo brasileiro ao tarifaço norte-americano e os
embates públicos com Donald
Trump, foi um dos principais desafios do mandato.
Também no campo econômico, o presidente foi criticado por
sua estratégia econômica, marcada pelo aumento dos gastos públicos e pelos
ataques ao Banco Central em razão da taxa básica de juros.
Lula também voltou atrás de duas decisões recentemente na
reta final das eleições.
O presidente articulou com o Congresso
a aprovação do fim da taxa das blusinhas. No início de setembro, Lula
sancionou a nova lei, que acaba com a cobrança de 20% de Imposto de Importação
sobre compras internacionais de até US$ 50.
E, antes do primeiro turno, o petista
anunciou a proibição total de apostas de quota fixa no país, as chamadas bets.
A vedação inclui também jogos online e cassinos virtuais no país, como por
exemplo, o "Jogo do Tigrinho".
Na reta final do terceiro mandato, Lula articulou a
aprovação de uma mudança histórica na legislação trabalhista: o fim da escala
6x1.
O presidente participou, no Congresso Nacional, da sessão de
promulgação da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que estabeleceu
uma jornada de cinco dias de trabalho para dois de descanso, uma das principais
conquistas da agenda trabalhista de seu governo.
Na mesma sessão, também foi promulgada a PEC que estabelece
aposentadoria especial para agentes comunitários de saúde e de combate às
endemias.
Na cerimônia de promulgação das duas PECs, Lula esteve ao
lado do presidente da Câmara, Hugo Motta, aliado do governo, e do presidente do
Senado, Davi Alcolumbre. Lula e Alcolumbre protagonizaram episódios de tensão
ao longo do mandato, mas voltaram a estreitar a relação durante o período
eleitoral.
Às vésperas do segundo turno das eleições presidenciais,
Lula anunciou medidas de forte apelo popular, como o programa Prospera MEI,
voltado aos microempreendedores individuais, e o reajuste do Bolsa Família.
As iniciativas foram adotadas em meio à disputa eleitoral e
receberam críticas de adversários, que as classificaram como eleitoreiras.
A campanha no segundo turno também foi marcada por uma
grande mobilização da equipe do presidente nas redes sociais, com o canal
"Exército do Lula",
coordenado pelo deputado André Janones (Rede-MG), que contou com mais de 10
milhões de inscritos.
Escândalos
Em 2005 estourou o escândalo do mensalão. O então deputado e
presidente do PTB, Roberto Jefferson, relatou em entrevista ao jornal
"Folha de S.Paulo" um esquema de compra de apoio político no
Congresso por meio de mesadas pagas a parlamentares de partidos da base de
Lula.
O escândalo resultou na Comissão Parlamentar de Inquérito
(CPI) dos Correios e derrubou o ministro da Casa Civil, José Dirceu. O PT
argumentava que o esquema se tratava de caixa dois, dinheiro não declarado à
Justiça Eleitoral.
Ainda em 2005, Lula foi à televisão para um pronunciamento
em cadeia nacional no qual se disse “traído”. Sem usar a palavra mensalão,
admitiu que o partido e o governo tinham errado e deveriam pedir desculpas.
Como ex-presidente, Lula viveu altos e baixos. Superou um
câncer na laringe e viu o Supremo Tribunal Federal (STF) condenar 28 dos 38
réus na ação penal do mensalão.
Em 2014, ele comemorou a reeleição de Dilma. No mesmo ano,
começou a Operação Lava Jato, que descobriu esquema de desvio de recursos
públicos nas gestões petistas por meio de contratos da Petrobras. O dinheiro
irrigava doleiros, executivos, partidos e políticos.
A operação avançou sob a condução de Sergio Moro, juiz da
13ª Vara Criminal de Curitiba. A Lava Jato gerou delações premiadas, devolução
de parte do dinheiro desviado, prisões de empreiteiros e políticos e influenciou
no impeachment de Dilma, em 2016. A
cassação marcou a saída do PT do Planalto após 13 anos no poder.
Em 2017, Lula foi
condenado por Moro por corrupção passiva e lavagem de dinheiro no caso do
triplex em Guarujá (SP). A condenação, a primeira de um ex-presidente
por crime comum no Brasil, foi confirmada
no ano seguinte no Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), a
segunda instância de Justiça Federal. Para três desembargadores Lula recebeu
propina da construtora OAS por meio do triplex e de reformas no imóvel.
O petista negava os crimes e se dizia vítima de perseguição.
Travou uma batalha nos tribunais nos últimos anos. Como o STF tinha
entendimento de que era possível cumprir a pena após condenação em segunda
instância,
Lula foi preso em 7 de abril de 2018. Ele foi levado
para uma sala na sede da Polícia Federal em Curitiba, onde ficou encarcerado
por 580 dias.
No mesmo ano, teve a candidatura à Presidência barrada pelo
Tribunal Superior Eleitoral (TSE)
com base na Lei da Ficha Limpa.
Em 2019, Lula deixou a prisão após o STF decidir que a
execução da pena só pode ocorrer após o trânsito em julgado.
Dois anos depois, em 2021, o ministro
Edson Fachin anulou as condenações relacionadas à Lava Jato, devolvendo
ao petista os direitos políticos e tornando-o elegível novamente.
Em 2011, Lula foi diagnosticado com
câncer na laringe, e superou a doença após o segundo mandato na
Presidência.
Ao longo do terceiro mandato, o petista também enfrentou
desafios relacionados à saúde.
Em 2023, Lula foi submetido a uma cirurgia
no quadril para tratar dores provocadas por artrose. Em 2024, sofreu
uma queda no banheiro do Palácio da Alvorada, que o levou a cancelar
compromissos internacionais.
Em 2025, apresentou
um quadro de labirintite e, em 2026, passou pela retirada
de uma lesão cancerígena no couro cabeludo, seguida de sessões de
radioterapia.
O presidente e candidato à reeleição Luiz Inácio Lula da
Silva (PT) acena para eleitores no entorno da Escola Estadual Dr. João Firmino
Correia de Araújo, em São Bernardo do Campo, na Grande São Paulo — Foto:
ROBERTO SUNGI/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO