quarta-feira, 16 de setembro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO É INEXPERIENTE E HERDEIRO DE VISÃO GOLPISTA

Editorial Folha de S.Paulo

Merece escrutínio tentativa de se desvincular de relações com personagens envolvidos em atividades criminosas

Mais recentemente, veio à tona seu diálogo amistoso com Daniel Vorcaro e o pedido de milhões para o filme em homenagem ao pai

Desde que foi apontado pelo pai, Jair Bolsonaro, como candidato à Presidência, Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta questionamentos sobre as qualidades que possuiria para ocupar o cargo mais alto da República.

A escolha surpreendeu setores da direita não bolsonarista que buscavam um postulante mais experiente e reconhecido, caso de Tarcísio de Freitas (Republicanos), governador de São Paulo e bem avaliado no Estado.

Num contexto em que mais uma vez não despontou uma candidatura conservadora forte, Flávio, mesmo sem o apoio entusiasmado do centrão, tornou-se competitivo, beneficiado pela polarização. Pesquisas recentes apontam empate técnico com Lula em cenários de segundo turno.

Tais resultados não dissipam as dúvidas sobre o candidato; ao contrário, tornam seu exame necessário. Flávio não possui experiência em gestão relevante nem trajetória parlamentar que, por si, o credencie para a Presidência. Mais grave é o projeto político do qual se apresenta como herdeiro.

Jair foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por tentativa de golpe de Estado, enquanto Flávio promete indultar o pai e preserva o discurso de confronto institucional. Também é arriscada sua subserviência a Donald Trump, presidente dos EUA, em temas sensíveis como tarifas, terras raras e mudança climática.

Não se trata de atribuir a Flávio responsabilidades de seus familiares, mas de saber que compromisso efetivo com a democracia oferece uma candidatura que reivindica essa herança política.

Merece escrutínio, ainda, a tentativa de se desvincular das relações mantidas ao longo dos anos por seu círculo político com personagens posteriormente associados a atividades criminosas.

Quando deputado estadual, chegou a conceder a mais alta honraria da Assembleia Legislativa do Rio a um policial que estava preso sob acusação de homicídio e que, mais tarde, seria identificado como integrante de milícia. Sua vida pública também foi marcada pela investigação sobre um suposto esquema de "rachadinhas" em seu gabinete.

Mais recentemente, veio à tona seu diálogo amistoso com Daniel Vorcaro, do Banco Master, e o pedido de milhões para o filme em homenagem ao pai.

Nada disso, por óbvio, autoriza atribuir-lhe crimes que não foram provados. Mas é parte de sua biografia e não pode ser ignorado.

Antes de postular à Presidência, Flávio precisa demonstrar que está preparado para exercê-la —e que aceita sem ambiguidades os limites que a Constituição impõe a quem ocupa o poder.

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CORTE ABRE ESPAÇO PARA CRISE POLÍTICA INTERNA E EXTERNA

César Felício, Valor Econômico

Resultado converge para uma vitória de Pirro de Moraes, fragilizando como nunca a instituição

A degradação talvez absoluta - porque poço moral a princípio não tem fundo - do Supremo Tribunal Federal (STF) era previsível na sessão histórica de terça-feira (15). Tratava-se de um julgamento para abrir o inquérito contra um de seus pares, a pedido de outro. O entrevero não teve ganhadores dentro do STF e, dado que dificilmente haverá desfecho sobre as suspeitas que pesam contra Alexandre Moraes antes da eleição presidencial, poderá ter consequências políticas graves.

A indignação popular sempre tem sócios e cavadores na política. Aliados do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) se apressaram em convocatórias a movimentos de rua. Não faltaram referências ao Nepal, onde uma sublevação no ano passado levou ao incêndio de prédios governamentais e ao linchamento de autoridades. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva procurou demarcar distância. Na sabatina da Record, disse que ninguém pode fugir de julgamentos. A ala pró-Moraes, contudo, é composta pelos ministros indicados por ele neste mandato: Cristiano Zanin e Flávio Dino.

A oposição tende a se beneficiar de uma crise que favoreça um voto de ruptura, mas poderá errar a dose caso aposte em sanções vindas da Casa Branca. Uma ação do governo de Donald Trump contra os ministros do Supremo, com possíveis implicações ao sistema financeiro, abre uma brecha para a ala solidária a Moraes lançar mão do discurso soberanista. Não à toa esse foi o primeiro argumento do qual Dino lançou mão na sessão de terça para conseguir, como conseguiu, a suspensão do exame da petição que pode colocar Moraes como investigado.

No ringue do plenário talvez o maior perdedor tenha sido o presidente do STF, Edson Fachin, que teve a condução para a crise questionada por Dino. Não só não conseguiu submeter o pedido de inquérito à votação, como sequer concluiu o exame da questão de ordem do ministro Gilmar Mendes para que os casos de Moraes e de André Mendonça fossem examinados em conjunto.

Para quem já apareceu no noticiário como defensor do “Supremo Futebol Clube”, Dino apostou no banho de lama. Atuou para a instalação de um clima difuso de suspeição. Definiu o quadro atual como o “momento mais corrupto da história do Judiciário”. Depois, voltou ao tema. Ao fim, quando já havia pedido vista, em um bate-boca com Luiz Fux, disse que o colega era citado nas mensagens dos envolvidos no caso Master, o que o Fux negou.

Gilmar teve como alvo preferencial Mendonça. O destempero entre os dois foi o gatilho para o pedido de vista de Dino. O decano e o ministro que apresentou o pedido de investigação contra Moraes debatiam o envolvimento no caso Master do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Gilmar tachou o colega de “policialesco” e o acusou de “desfaçatez”. Mendonça, aos berros, retrucou: “A desfaçatez de Vossa Excelência, me respeite!”. Foi a deixa para Dino desmoralizar Fachin de vez: “Se Vossa Excelência vai ficar assistindo a isso, eu não vou. Faço um pedido de vista. Temos uma questão de ordem, não temos como deliberar. O clima é daí para pior e o país assistindo.”

Mendonça foi acusado por Gilmar e Moraes de usar inquéritos dos quais é relator para influenciar o quadro eleitoral. De modo indireto, a acusação foi acidentalmente reforçada por Kassio Nunes Marques, que, ao se declarar suspeito, afirmou: “Não tenho dúvidas de que este julgamento pode impactar as eleições.” Ele é presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e teve o filho citado no caso Master.

Em sua defesa, Moraes usou como argumento a má-fé do acusador e a alegada falta de provas em relação a seus vínculos com Daniel Vorcaro. Segue sem explicar o contrato de prestação de serviços de sua esposa com o ex-controlador do Master. Em gesto que deve compor a sua biografia, votou a favor de si mesmo, ao dar aval para a questão de ordem que tornava conexos o pedido de inquérito contra si e a representação por abuso de poder que apresentou contra Mendonça, com julgamento marcado para o dia 23. E Mendonça, para coroar o dia, também votou em causa própria, ao negar a questão de ordem e manter os processos separados. O resultado converge para uma vitória de Pirro de Moraes, fragilizando como nunca a instituição.

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INVESTIGAÇÃO TEM CHANCE, MAS DANO À IMAGEM DO STF ESTÁ DADO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Ao pedir desculpas à nação, Cármen Lúcia fez mais pela Corte do que os nove homens que passaram cinco horas a degradá-la

Aconteceu o riscado: questão de ordem, impedimentos, pedido de vista e a abertura de investigação do ministro Alexandre de Moraes com maioria favorável, mas adiada numa sessão cuja dramaticidade para a vida nacional foi resumida pelo pedido de desculpas da ministra Cármen Lúcia. O Supremo Tribunal Federal não voltará a se debruçar sobre o tema antes do segundo turno, mas o estrago está feito. E não é pequeno.

O Supremo não decepcionou a quem esperava um espetáculo deprimente. Um ministro (Alexandre de Moraes) alvo de uma notícia-crime se manifestou fartamente se deveria ou não ser investigado. Outro ministro, cujo traquejo político (Flávio Dino) permitiu armar a questão de ordem que dividiu o tribunal, levantou a bola para outro (Gilmar Mendes) trazer à lembrança a definição que lhe deu o ex-ministro Luís Roberto Barroso (“Vossa Excelência sozinho desmoraliza o tribunal”), azedar de vez o clima na Corte e provocar o pedido de vista.

O ministro André Mendonça comentava a manifestação do procurador-geral da República, Paulo Gonet, sobre quem não há suspeitas além da participação indevida em fórum promovido pelo banco Master. O clima ameno entre Gonet e Mendonça não impediu que o decano o aparteasse e, aos gritos, o acusasse de desfaçatez. De tão despropositado o momento em que se deu, não há conclusão possível senão a de jogo combinado por ter ficado claro que a tese de Fachin, pela investigação em separado de Moraes e Mendonça, prevaleceria com o voto de minerva do presidente da Corte.

Ainda que Dino, ao devolver a vista, vote pela junção das investigações e a questão fique empatada em 4x4, o voto de minerva de Fachin selará a derrota da questão de ordem. Por isso, o dueto Dino-Mendes parecia empenhado em questionar a autoridade de Fachin na condução da Corte e o fizeram do começo ao fim da sessão.

Ao pedir desculpas à nação, Carmen fez mais pela Corte do que todos os homens que a degradaram

Começaram pelo questionamento de Fachin da petição em tela ao acusá-lo de uma avocação que abriria terreno para arbitrariedades. Mendonça explicou que Fachin havia assumido a relatoria das mensagens entre Moraes e Vorcaro a seu pedido por estarem inseridas no contexto da investigação de togados que teria o mesmo escopo que suscitou o inquérito das fake news. O regimento permitiu que o ministro Dias Toffoli abrisse o inquérito de ofício e o repassasse a Moraes, mas a atribuição regimental é do presidente da Corte que, desta feita, resolveu assumi-lo. Não adiantou.

O questionamento permitiu que Moraes aludisse à decisão de Fachin de dar andamento ao pedido de investigação a despeito da manifestação da PGR pela nulidade do relatório da PF que o ensejou. O mesmo ministro que foi designado relator do inquérito das fake news a despeito de a PGR de então, Raquel Dodge, ter arquivado a representação, se valeu de uma PGR aliada para arguir no sentido contrário.

As chicanas não pararam aí. Ao pedir vista, Dino tratou de plantar a semente do que parece ser a aposta da turma de Moraes até a devolução do pedido de vista: o questionamento da autoridade de Fachin. O chute inicial foi dado no primeiro pedido de aparte quando Dino desafiou o presidente da Corte e seguiu até que Fachin, quando voltou a ter a palavra, leu o artigo do regimento que lhe faculta a prerrogativa de conceder o aparte. A dinâmica agressiva da sessão, porém, não permitiu que a norma regimental prevalecesse e, com isso, prevaleceu o procedimento consuetudinário, ou seja, a várzea.

Ao pedir vista, Dino deu o lance final da estratégia montada para corroer o poder de Fachin, que angariou apoio de centrais sindicais ao empresariado, de todos os matizes ideológicos para que prossiga na apuração dos fatos e na responsabilização dos envolvidos, e tem a prerrogativa do voto decisivo na abertura efetiva da investigação dos ministros.

Dino valeu-se da altercação de Gilmar com Mendonça não para repreendê-lo pelo chilique mas para cobrar Fachin: “Vossa excelência está assistindo isso há horas. Se vossa excelência vai assistir isso, eu não vou.” Não bastasse, Dino não foi capaz de ouvir calado a manifestação da ministra Cármen Lúcia e achou por bem aparteá-la para sugerir a Fachin que encaminhasse, para as devidas providências do presidente da República, as notícias que pipocaram durante a sessão de que os EUA voltariam a impor sanções aos ministros.

Cármen Lúcia, finalmente, retomaria a palavra. Deu um pito aqui e outro acolá, como aquele dirigido ao ministro Cristiano Zanin, que revelou ter acatado pedido de arquivamento da PGR contra um ministro. Estava ali, porém, para outra missão. Resumiu o sentimento de “consternação e tristeza” com o “mal estar cívico” provocado por aquele tribunal. Lamentou que o STF estivesse no eixo da discussão nacional a 20 dias das eleições e, ao pedir desculpas à nação, fez mais pela imagem da Corte do que todos os homens que ali passaram cinco horas a degradá-la. Mostrou-se envergonhada. Pudera.

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FLÁVIO BOLSONARO CRESCEU, E O PT TENTA ACORDAR

Elio Gaspari, O Globo

Com terras-raras e soberania, Lula arrisca perder a eleição

A pesquisa Quaest de segunda-feira caiu como uma bomba na campanha de Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o na simulação de um segundo turno (42% x 40%). A seco, esse número quer dizer pouca coisa. Está dentro da margem de erro, e eleição se ganha na urna. Flávio cresceu absorvendo o apoio de eleitores que, havia tempo, avaliavam negativamente Lula 3.0.

Era inevitável que a avaliação negativa migrasse para um adversário. Lula faz uma campanha chique, fala em terras-raras, soberania e escala 5x2. Ulysses Guimarães dizia que política externa só dá votos no Burundi. Quanto à escala, é uma promessa de uma vida melhor, mas é promessa.

A mesma pesquisa Quaest tentou saber para onde iriam os votos de quem preferia Ronaldo CaiadoRenan SantosAugusto Cury ou Romeu Zema. Juntos, eles somam 16% dos entrevistados. Num segundo turno, a maior fatia iria para Flávio.

Como era de esperar, na busca de responsáveis apontou-se para o ministro-chefe da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira. Contem outra, companheiros. Desde a fundação do PT, em 1980, o maestro dessa orquestra chama-se Lula.

Com o Supremo Tribunal Federal em chamas, Lula decidiu ficar fora das brigas e limitou-se a falar da necessidade de reformas na política e no Judiciário, o que não quer dizer coisa nenhuma.

Não se diga que Flávio eleva o nível do debate. Seu único capital é o sobrenome, encrencado por um filme milionário bafejado pelo dinheiro de Daniel Vorcaro. A abulia de Lula alimenta o antipetismo.

O historiador francês Claude Manceron (1923-1999) escreveu cinco magníficos volumes sobre a Revolução Francesa. No primeiro, tratou do ocaso do reino de Luís XV. Tendo reinado de 1715 a 1774, ele morreu de varíola, quando, segundo Manceron, havia saído de moda. Aquele Lula que passeia pelos palanques dominando plateias saiu de moda.

Lula 1.0 ou 2.0 poderia ter aberto as portas do Brasil para a jogatina (para arrecadar), mas, colocado diante das consequências, enfrentaria os problemas. No seu desenho original, o Bolsa Família era um monstrengo burocrático. Em poucas semanas Lula 1.0 deu-lhe uma nova cara, que está aí até hoje. Lula 3.0 limita-se a condenar a facilidade para quem aposta, e mais nada.

Isso não quer dizer que colocarão coisa melhor no lugar dele.

A melhor previsão do resultado da próxima eleição presidencial veio do banqueiro André (BTG Pactual) Esteves:

— A eleição será 51% a 49%, só não sabemos para quem.

A ideia de que Lula passaria um trator em Flávio virou fumaça, e ele está diante de um adversário favorecido pela indefinição.

A volta de Lula ao Planalto foi uma coisa tão espetacular que a aritmética ficou esquecida. Ele ganhou a eleição por uma margem de 0,9% (pouco mais de 2 milhões de votos de diferença). Dois anos depois, o candidato de Lula à Prefeitura de São Paulo foi batido por uma margem de mais de 1 milhão de votos. O eleitor mandava sinais, mas os poderosos de Brasília não ouviam.

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O STF, AS ELEIÇÕES E O FUTURO DO BRASIL

Vera Magalhães, O Globo

Ministros estão dispostos a tudo, inclusive a enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um deles seja simplesmente investigado

A melancólica sessão deste 15 de setembro no Supremo Tribunal Federal (STF) terá impacto decisivo nas urnas, e o resultado das eleições que se avizinham, tanto para a Presidência da República quanto para a composição do futuro Congresso, certamente contribuirá para uma mudança significativa no papel institucional do STF.

Os ministros optaram por implodir a ordem vigente para evitar a singela abertura de uma investigação a respeito da conduta de um dos seus. Mas há sério risco de que sejam, eles próprios, os principais atingidos por essa decisão de radicalização.

Os avisos já vinham sendo dados há dias, semanas até. Mas a ferocidade com que o grupo de ministros mais próximo de Alexandre de Moraes se lançou à tarefa de dilapidar a autoridade de Edson Fachin durante quase sete horas de sessão pegou a todos de surpresa.

O ápice foi a decisão de Flávio Dino, ele próprio autor da questão de ordem que monopolizou toda a sessão, de pedir vista da petição, a tal “PET” a que aludiram durante horas, tendo, para isso, de voltar atrás por ora no próprio voto pela análise em conjunto dos casos de Moraes e André Mendonça.

Diante da evidência de que a questão de ordem produziria um empate e, a partir disso, poderia de novo caber a Fachin decidir o caminho a seguir, optou-se pelo plano B que esteve o tempo todo no horizonte: empurrar a decisão para depois das eleições. A ala “alexandrina” do STF apontou ação político-eleitoral de André Mendonça pelos métodos e pela escolha da data próxima ao 7 de Setembro para investir contra Moraes. O timing adotado pelo relator do Master de fato autoriza essa imputação.

Mas, com o espetáculo que promoveram na sessão de ontem, provavelmente esses ministros contribuíram de maneira mais decisiva para reforçar o discurso anti-STF que vem sendo entoado de forma oportunista pelo candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, ele próprio investigado pelo mesmo STF desde julho, por ter recebido milhões de Daniel Vorcaro e não ter explicado a destinação desses recursos.

Para a estratégia de Lula de se desvencilhar da crise do STF e do destino de Moraes, o protagonismo de Dino, indicado por ele e seu ex-ministro da Justiça, não ajuda em nada. Para leigos que não entendem a linguagem por vezes pernóstica e sempre inacessível dos ministros, o que restou do papelão de ontem é uma conclusão simples: os ministros estão dispostos a tudo, inclusive a enterrar a imagem do tribunal, para evitar que um deles seja até mesmo investigado.

Diante da decisão ostensiva por não deliberar, que deve levar, por um mínimo de coerência, a que se adie também na semana que vem a necessária apuração a respeito da conduta e dos procedimentos de Mendonça, a eleição acontecerá com esse imenso elefante espalhado na sala.

A depender do ânimo do eleitor perplexo e atordoado com tanto tumulto processual —razão por que a ministra Cármen Lúcia pediu desculpas tardias e pouco convincentes depois de um silêncio sepulcral durante todo o show de horrores —, os ministros podem deparar com uma composição de Executivo e Legislativo que os leve a discutir, na marra e completamente divididos, o que se recusam a tratar agora.

É extremamente grave e preocupante que a eleição tenha como um dos vetores principais uma ameaça explícita de reforma do Judiciário por vias tortas, a partir de um sentido de revanche e vingança. Mas é inegável que foi o próprio STF que mais contribuiu para essa situação, ao misturar de forma irresponsável a conduta pessoal de seus ministros com a respeitabilidade da própria Corte.

A depender do resultado de outubro, a reforma adiada do STF e a adoção de um simples Código de Conduta podem dar lugar ao emparedamento de um dos Poderes da República. Que não terá a coesão sequer para se contrapor a isso.

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HEMORRAGIA SUPREMA

Bernardo Mello Franco, O Globo

'Leviano', 'mentiroso', 'golpista': STF não decide nada e expõe vísceras na TV

Ministros travam guerra para proteger aliados, não para preservar a instituição

Leviano. Mentiroso. Golpista. Sem noção. Pixuleco eleitoral. Os insultos foram disparados no plenário do Supremo Tribunal Federal. Por mais de sete horas, ministros atacaram ministros, em guerra transmitida ao vivo pela TV.

O presidente Edson Fachin imaginou que a sessão de ontem pudesse dar início a um processo de depuração. Deu-se outra coisa: o tribunal expôs suas vísceras e nada decidiu sobre o pedido para investigar o ministro Alexandre de Moraes. As suspeitas sobre André Mendonça também ficaram intocadas. Por decisão de Fachin, foram deixadas para a semana que vem, sem garantia de solução.

O presidente abriu os trabalhos com um apelo à serenidade. “A divergência é legítima. O confronto pessoal, não”, pontificou. Belas palavras, mas era difícil esperar que fossem convencer alguém a baixar as armas.

Para as duas alas que disputam o controle do Supremo, a duelo entre Moraes e Mendonça virou uma luta por sobrevivência. Nessa lógica, proteger aliados parece mais importante do que preservar a instituição.

Moraes foi defendido por três escudeiros: Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. Mendonça contava com o apoio de Luiz Fux e Kassio Nunes Marques, que se enfraqueceram com as menções a seus filhos no celular de Daniel Vorcaro. Sem tropa, Fachin assistiu à pancadaria de braços cruzados.

O caso de Kassio não surpreendeu ninguém, mas agravou o descrédito da Corte. O ministro foi exposto em diálogos sobre viagens, valores e “meninas”. Seu filho Kevin, jovem prodígio da advocacia, apareceu ao lado da anotação “500 mil mês”. Kassio negou irregularidades, declarou-se impedido e pediu para sair.

Moraes adotou a tática de trocar a defesa pelo ataque. Não esclareceu as mensagens de Vorcaro e o contrato milionário da mulher, mas voltou a acusar Mendonça de estar a serviço do bolsonarismo. O relator do caso Master tentou engrossar a voz, mas não conseguiu explicar por que blindou aliados no tribunal e escondeu o inquérito contra Flávio Bolsonaro.

O pedido de vista de Dino interrompeu o julgamento sem estancar a crise no Supremo. Em meio à barafunda, Fachin fez um desabafo sobre os ofícios “hemorrágicos” que se avolumam em seu gabinete. Pelo que se viu ontem, a sangria vai continuar.

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STF VIROU PARTE DA DISPUTA ELEITORAL DE 2026

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

Aversão à corte transforma demanda por investigação e punição em questão eleitoral

Crise ocupa espaço das campanhas e transforma ministros em personagens da eleição

Já tivemos eleições presidenciais em que os cidadãos chegaram às urnas sob o impacto de grandes escândalos políticos, investigações policiais e controvérsias judiciais que dominavam o noticiário, como em 2006 e 2014.

Já tivemos eleição em que o candidato que liderava as pesquisas acabou preso e foi impedido de disputar a Presidência. Já tivemos campanha presidencial que transcorreu sob bombardeio incessante de fake news, e o próprio noticiário alimentava o desprezo pela política institucional.

Já houve até mesmo campanha em que o titular do cargo declarava abertamente que as urnas eletrônicas não eram confiáveis e que, portanto, não se comprometia a aceitar o resultado do pleito.

Em todas essas ocasiões, porém, restava um ponto relativamente fixo. Quando partidos, candidatos e militantes produziam confusão, a Justiça Eleitoral e, no limite, o Supremo Tribunal Federal eram para onde se olhava para saber quais eram as regras, resolver contendas e conter abusos e injustiças. Podia-se discordar de decisões e detestar ministros, mas o STF ainda era o fiador institucional do processo.

Em 2026, essa posição está confusa. A instituição que deveria funcionar como ponto de solução das controvérsias passou a produzir parte importante delas. Nas últimas semanas, produziu tanto barulho que quase não se ouviram as campanhas.

Quem está ainda prestando atenção no que dizem os candidatos sobre governos futuros, com tantas mensagens, relatórios e vazamentos que mostram como a teia de corrupção e tráfico de influência construída em torno de Daniel Vorcaro alcança, de algum modo, boa parte dos membros da Corte?

Ou quando as ações dos ministros são lidas como manobras políticas, parte de estratégias de retaliação interna e tentativas de influenciar as eleições? O STF já não aparece apenas no fim das contendas, mas no começo e no centro delas.

Como efeito disso, consolidou-se nas últimas semanas um sentimento anti-STF que já não se restringe ao clássico ódio bolsonarista ao Supremo. No caso, misturam-se indignação com os privilégios de casta que tanto irritam os brasileiros, suspeita de corrupção e de tráfico de influência, repulsa à sensação de impunidade dos ministros envolvidos e aversão à concentração de poder.

E isso leva a um imperativo moral social que, em geral, tem consequências imprevisíveis: algo precisa ser feito, alguém precisa ser punido. O que inclui um novo requisito do eleitor: a escolha do próximo presidente, do próximo Senado ou de ambos tem que levar em conta expectativas de ajuste na instituição e punição de ministros.

Assim, a corte se converteu simultaneamente em parte e em prêmio da competição eleitoral.

É parte porque todo ato dos ministros começa a ser traduzido para a linguagem da campanha. Quem ganha com isso? Por que decidiu isso agora? A divulgação de determinada informação prejudica quem? A suspeita pode ser improcedente, mas o fato decisivo é que ela se tornou plausível para parte importante do eleitorado. Quando cada despacho é interpretado como movimento num tabuleiro eleitoral, a autoridade do árbitro muda de natureza.

É parte também porque os próprios ministros passam a ser distribuídos pelo público em campos políticos. Já não se pergunta apenas o que pensa determinado candidato sobre o Supremo. Pergunta-se quais ministros estariam próximos dele, quais seriam seus adversários, quem seria protegido, investigado, afastado ou fortalecido com sua vitória.

A eleição presidencial é, assim, sobrecarregada com uma eleição imaginária paralela entre facções políticas do STF.

E o Supremo é prêmio porque o vencedor de outubro terá poder sobre o futuro da corte. Indicações para vagas, relações com o Senado, pressões por impeachment, mudanças nas regras de funcionamento do tribunal e reformas constitucionais entram no cálculo eleitoral.

A propaganda poderia assumir a forma de uma promoção: vote em um candidato e leve junto o afastamento de um determinado ministro; vote em outro e dê ao seu campo político três novas cadeiras no Supremo; ganhe a Presidência e leve, de quebra, a possibilidade de controlar o STF.

É uma inversão extraordinária. Durante anos, quando a política brasileira parecia enlouquecer, olhava-se para o Supremo esperando que alguém ainda estivesse cuidando das regras.

Em 2026, quando todos olham para o STF, já não é para perguntar apenas quem fará cumprir a lei. É também para saber do lado de que juiz está cada um dos candidatos, quem poderá derrubar certos juízes e quem ficará com o tribunal depois da eleição.

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A SESSÃO DO FIM DO MUNDO NO STF

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

Qualquer que seja o desfecho, não há vencidos nem vencedores: a Corte está à deriva

A lavação de roupa suja que marcou a sessão de ontem no Supremo Tribunal Federal (STF) escancarou uma guerra fratricida entre homens de toga. Sem prazo para terminar, o reality show do “fim do mundo” tem como pano de fundo não apenas a eleição presidencial, mas também a estratégia de cada grupo para dar as cartas do poder. Qualquer que seja o desfecho da crise deste Setembro Negro, porém, não há vencidos nem vencedores: a Corte está à deriva.

Convocada para decidir se o ministro do STF Alexandre de Moraes deveria ser alvo de investigação, após a Polícia Federal apresentar relatório com mensagens comprometedoras trocadas entre ele e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, a sessão mostrou uma escalada de discussões ásperas, que ganharam memes nas redes sociais.

Sob pressão, o presidente do STF, Edson Fachin, voltou a ser chamado de “Frachin”. Apelidado por uma ala do Congresso de “trinca dos infernos”, o trio formado por Moraes, Gilmar Mendes e Flávio Dino teve o auxílio de Cristiano Zanin na tentativa de unir as diligências sobre as relações ilícitas de magistrados com Vorcaro. Queria que o escrutínio sobre a conduta suspeita de Moraes ocorresse juntamente com a avaliação a respeito das ações de André Mendonça no caso Master. Mas, como o placar expôs o racha na Corte e terminou empatado em 4 a 4, Dino pediu vista, o que pode empurrar a investigação sobre Moraes para depois das eleições.

Entre muitos “data venia” e “Vossa Excelência” aqui e acolá, os homens de toga exibiram as entranhas de uma Corte que perdeu a credibilidade. “Eu não me perdi, mas experimentei a perdição”, resumiu Cármen Lúcia, citando Clarice Lispector. Única mulher ali, ela chegou a pedir desculpas pelo “constrangimento” que o STF impõe ao País.

Durante a sessão, Mendonça disse haver uma “PF paralela” e bateu boca com Moraes; Gilmar, por sua vez, afirmou que até a máfia tinha ética. “É o momento mais corrupto da história do Judiciário”, insistiu Dino ao prever que o STF enfrentará “uma crise por semana”.

A manutenção do conflito preocupa a campanha do presidente Lula. A 18 dias das eleições, e vendo Flávio Bolsonaro (PL) avançar no jogo, Lula tenta descolar sua imagem da encrenca que envolve Moraes.

“O nosso adversário não é o Supremo”, disse à coluna o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira. Na prática, porém, a crise pode não apenas influenciar o resultado das eleições como ressuscitar a pressão pelo impeachment de ministros da Corte. Moraes tenta se blindar para assumir o comando do STF, daqui a um ano. Até lá, no entanto, o tribunal viverá uma nova temporada: a do “salve-se quem puder”.

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O JUIZ É O LOBO DO JUIZ

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Ministros parhttps://www1.folha.uol.com.br/colunas/helioschwartsman/2026/09/o-juiz-e-o-lobo-do-juiz.shtmltiram para guerra de guerrilhas e embolaram tudo

Deixar de investigar um dos seus causa dano reputacional à corte

Não foram o cabo e o soldado que fecharam o STF. São os próprios ministros que parecem empenhados em inviabilizá-lo.

A tarefa que a corte tinha diante de si não era das mais complexas. Deveriam definir se há indícios suficientes para investigar o ministro Alexandre de Moraes por seu relacionamento com Daniel Vorcaro. É difícil sustentar que não haja. Há um contrato atipicamente lucrativo entre o escritório da família de Moraes e o Banco Master e houve dezenas de mensagens suspeitas entre o juiz e o banqueiro fraudador. Investigar não significa condenar. Se Moraes é de fato inocente como alega, sua reputação teria mais a ganhar com uma investigação que o exonerasse do que com um arrastão anulatório.

Ministros, em vez de se ater à questão fundamental, preferiram apostar no tumulto, entregando-se a uma guerra de guerrilhas na qual se puseram a expor passos em falso e até mesmo podres uns dos outros, complementados por vazamentos para a imprensa. Do ponto de vista do interesse público, é ótimo que tudo seja discutido e que tudo venha à tona. Do ponto de vista do STF, é péssimo que isso ocorra num contexto MAD, o acrônimo inglês para "destruição mútua assegurada", usado para descrever conflitos nucleares. Ministros saem machucados, mas é a imagem da corte que é devastada. É inafastável a sensação de que o que move os magistrados são interesses particulares e não a busca da justiça.

O caminho a seguir não é segredo. Todo mundo que aparece de forma comprometedora nos celulares de Vorcaro precisa ser investigado. Abusos que André Mendonça tenha cometido e o viés político que ele introduziu no processo devem ser investigados. Mas me parece um erro juntar tudo para só depois avançar. Estamos tratando do início de uma investigação, não de condenação ao patíbulo. Não produziria tão cedo nenhum efeito irreversível. Mas cada oportunidade que o STF perde de mostrar que é capaz de aplicar a um dos seus o que vale para todos é um passo a mais que ele dá rumo ao suicídio institucional.

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CRISE NO STF CRIA RARO CLIMA DE UNIÃO NACIONAL

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A cobrança por correção no Supremo faz diferentes segmentos sociais falarem um mesmo idioma

Adiar o enfrentamento da chaga não anula o fato de que metade da corte está sob algum tipo de suspeição

São raros os momentos em que a sociedade em seus diferentes segmentos se mostra unânime frente a questões de ordem institucional e/ou a problemas que afetem a vida da coletividade.

Anos atrás, vimos unidade no anseio pela retomada do regime democrático e assistimos de novo coesão nacional no apoio ao combate à inflação.

Agora, vemos personalidades dos mundos jurídico, empresarial, cultural, político e brasileiros ditos comuns —donos da nobre credencial de cidadãos— juntos na expectativa de que o Supremo Tribunal Federal aplique aos seus os critérios da legalidade válidos para todos, de modo a não perder a legitimidade para julgar quem ou o que quer seja.

Inédito é que tal união ocorra justamente em período eleitoral e ainda mais numa quadra de categórica divisão do país entre duas forças políticas. Cisão que em boa medida se reflete no ambiente idealmente imparcial do STF.

Sintomático, portanto, que no clima de acirramento político-eleitoral os diferentes grupos sociais falem o mesmo idioma nos seguintes tópicos: perplexidade diante do desarranjo que assola a corte; repulsa a condutas de magistrados; demanda pela adoção dos melhores procedimentos de correção; uma enorme desconfiança de que o tribunal vai decepcionar e procurar alguma forma de acomodação.

Dessa coincidência de visões na opinião pública depreende-se que não estamos diante de algo que possa se confundir com a disputa eleitoral em curso.

Fazer essa junção é deslocar para outro campo o cerne do assunto em tela: a contaminação da corte suprema de Justiça por práticas questionáveis, quando não ilícitas, que precisam ser passadas a limpo.

Adiar o enfrentamento dessa chaga para depois do pleito não fará desaparecer o fato de que hoje temos metade da corte sob algum tipo de desconfiança.

A mais grave recai sobre o ministro Alexandre de Moraes, que não terá autoridade para daqui a um ano assumir a presidência do Supremo se não estiver acima de qualquer suspeita.

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COM METADE DO STF SOB SUSPEITA, CAMPANHA DE IMPEACHMENTS GANHA FORÇA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Ministros dizem que existe 'PF paralela' e se acusam de crimes graves ao vivo

Há cada vez mais excelências suspeitas e não se decide método para investigá-las

A guerra no STF vai continuar. A demolição institucional e moral do sistema de Justiça também. A campanha a favor de impeachment das excelências supremas vai ganhar força, assim como as candidaturas ao Senado que querem cortar cabeças no Supremo.

Há indícios, mais ou menos escandalosos, de que quatro ministros estariam envolvidos com Daniel VorcaroAlexandre de MoraesDias ToffoliKassio Nunes Marques e André MendonçaLuiz Fux está sob risco.

Dado que os supremos não conseguem ou querem decidir como devem investigar a si mesmos, o que vai acontecer com esses ministros em estado de suspeição ou putrefação política? Não vai haver consequência? O que vai fazer a Procuradoria-Geral? A Polícia Federal terá de ficar inerte?

Mais grave, como se fosse possível, Fux e Mendonça disseram existir uma "PF paralela". Como a "Abin paralela" de Jair Bolsonaro? Eles têm indícios de que existe grupo clandestino na PF? Isso é subversão, no mínimo.

Gilmar Mendes e Flávio Dino disseram que Edson Fachin estava à beira de "restabelecer" um monstrengo, o poder do STF de chamar para si caso de qualquer instância, criado em 1969 e maquiado em 1977, quando Ernesto Geisel tentava prolongar a ditadura.

Esse monstro, a tal "avocatória", além de autoritário, abriria "uma avenida de corrupção no Judiciário", que está corrompido como nunca se viu, afirmou Dino, de resto. Até o voto de Mendonça, às 17h15, ninguém havia defendido Fachin, isolado e perdido.

Nunes Marques disse que era "isento", mas daria o fora de uma votação que teria implicação político-eleitoral: tinha de manter sua isenção no TSE. Mas Kassio votou com Mendonça para decapitar a direção da PF e disse na terça coisas que podem ser usadas por advogados para libertar Vorcaro.

Gilmar Mendes disse que Mendonça estava "a serviço de um grupo político que quis dar um golpe neste país" (o bolsonarismo) e de manipular a PF, secundado por Moraes.

Quanto à eleição, neste momento os riscos de danos continuam maiores para Luiz Inácio Lula da Silva, a depender do tamanho da sujeira que possa ser descoberta sobre outros ministros do STF.

A comoção contra o "sistema" favorece Flávio Bolsonaro. A maioria larga dos revoltados antissistêmicos já vota no candidato das direitas e da extrema direita. No entanto, o resultado da batalha desta terça vai passar a impressão ou certeza de chicana, oportunismo, diversionismo e cinismo no STF, em especial por causa de Moraes.

Os nem-nem, que em 2022 estiveram com Lula contra Bolsonaro, podem debandar. A tendência já está evidente entre pessoas mais públicas do minúsculo centro. Pode ser o caminho desse grupo inteiro.

"Pode". A luta mortal vai continuar. Desde a manhã, ao longo desta terça, vazavam indícios que associam Mendonça e Nunes Marques a Vorcaro. Além de mais vazamentos, pode haver batidas policiais, determinadas pelos próprios ministros.

A depender de qual lixo vai ser revirado, e como, o "outro lado" (qualquer lado) pode ser ainda mais coberto de imundície, com ou sem razão, o que pode mudar votos.

As excelências se insultaram, como é de praxe desde 2009. Injúria, calúnia e difamação no STF estão perto da maioridade legal. Os ministros se acusaram de crimes, de criar "ambiente de máfia", de "máfia sem ética", de mentir, de manipular processo, de "falta de noção" em liminar, de "indecência", de "desfaçatez", de "covardia".

É. Fim.

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JULGAMENTO EXPÕE DIVISÕES NO STF SEM APONTAR SOLUÇÃO PARA CRISE

Ricardo Balthazar, Folha de S. Paulo

Discussão põe em xeque autoridade e procedimentos adotados por Fachin

Sessão amplia incertezas em torno de investigação sobre conduta de Moraes

Na véspera do julgamento realizado pelo Supremo Tribunal Federal nesta terça-feira (15), o ministro Edson Fachin anunciou o roteiro que seguiria na condução dos trabalhos como se estivesse se preparando para mais uma sessão rotineira da corte que preside. Ele se enganou.

A confusão começou 45 minutos após o início da sessão, assim que ele concluiu a leitura do seu relatório. O ministro Flávio Dino pediu a palavra. Fachin sugeriu que esperasse um pouco e pediu que ministros que se julgassem impedidos de votar se manifestassem. Dois o fizeram.

Dias Toffoli estava no meio das suas explicações quando Dino o interrompeu. Fachin o lembrou de esperar a vez, invocando sua autoridade como presidente do STF. Dino disse que ele não tinha poderes para impedi-lo de falar e seguiu em frente. Fachin protestou, mas logo silenciou.

Nas horas que se seguiram, o roteiro proposto por Fachin foi posto de lado, e os aliados do ministro Alexandre de Moraes transformaram a sessão convocada para analisar as relações dele com o banqueiro Daniel Vorcaro num debate sobre a atuação do presidente do Supremo.

Em vez de discutir as mensagens encontradas pela Polícia Federal no telefone de Vorcaro e o contrato milionário do Banco Master com o escritório de advocacia da mulher de Moraes, os ministros passaram o dia discutindo os procedimentos de Fachin para gerir a crise no tribunal.

Metade do plenário se alinhou com ele para analisar primeiro o caso de Moraes e depois as suspeitas sobre seu acusador, André Mendonça. A outra metade ficou com a alternativa sugerida por Gilmar Mendes, para julgar num único processo todos os citados no caso Master.

A votação se aproximava do fim quando Dino, que já tinha votado para apoiar a proposta de Gilmar, pediu vistas para analisar melhor o caso. Luiz Fux e Cármen Lúcia, que ainda não tinham votado, seguiram Fachin e Mendonça, mas a manobra de Dino deixou tudo indefinido.

Embora o placar pareça resolvido, fica tudo em suspenso até que Dino devolva o processo ao plenário. Pelas regras do tribunal, ele tem pelo menos 90 dias para fazê-lo. Votos poderão ser revistos quando ele o fizer. Haverá novos debates para decidir a quem o empate favorecerá.

Fachin marcou para o próximo dia 23 outro julgamento, em que deverão ser analisadas as suspeitas sobre a atuação de Mendonça, acusado por Moraes e seus aliados de agir com parcialidade, com o objetivo de tumultuar o processo eleitoral a semanas do primeiro turno.

Se o julgamento de Mendonça for mantido, terá tudo para se transformar em palco para outro confronto entre as duas alas em que o tribunal se dividiu. Se for adiado, para esperar que Dino devolva o caso de Moraes ao plenário, ou por outra razão qualquer, o tumulto só aumentará.

Vazamentos de mensagens com potencial para incriminar outros integrantes do STF, incluindo Fux e Kassio Nunes Marques, que se declarou impedido e se retirou da sessão desta terça, começaram a se multiplicar antes do julgamento e certamente se repetirão nos próximos dias.

Ignorando os apelos de Fachin, que pediu serenidade ao abrir a sessão, a maioria preferiu tratar os adversários com ofensas e ironias. Interrupções se tornaram frequentes depois que Fachin reconheceu que Dino podia falar sem sua licença se outro colega lhe desse a palavra.

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, que defende a nulidade do relatório da PF que expôs as mensagens de Vorcaro e Moraes, onde o próprio Gonet também é citado, só rompeu o silêncio durante a sessão para trocar gentilezas com Mendonça, que o isentou de suspeitas.

Uma das questões que o julgamento desta terça deixou em aberto é o destino do parecer do procurador. Para Moraes, o plenário da corte não pode abrir investigação sobre as suspeitas que pesam contra ele sem que exista um pedido do Ministério Público Federal.

Único integrante do tribunal a pedir desculpas pelo espetáculo oferecido à arquibancada, Cármen Lúcia sugeriu que poderá devolver o parecer de Gonet com recomendação para que analise melhor os indícios reunidos pelo relatório da PF em vez de engavetá-lo sumariamente.

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TEATRO NO SUPREMO EXPÕE DISFUNÇÃO E IMPACTO ELEITORAL

Igor Gielow, Folha de S. Paulo

Ação de grupo pró-Moraes é eficaz em adiar a crise, mas apenas a agravará salvo um acordão improvável

Lula tende a ser mais prejudicado pelo tamanho público de Moraes, mas é Flávio o enrolado com o Master

Foi pesarosa a única manifestação de Cármen Lúcia na turbulenta sessão em que seria discutida a abertura de investigação sobre a relação entre seu colega Alexandre de Moraes e o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

Antes de votar acerca da questão de ordem que dominou o dia, ela se desculpou à população por não evitar o teatro desfiado pelos ministros ante um cenário que, se era bastante previsível, foi franco em termo de declarações do que ela chamou de "torcidas e lados".

Teatro, pois as jogadas do dia, mesmo as menos esperadas, se encadearam de forma lógica e reveladora do "modus operandi" de Brasília.

O vazamento do envolvimento sugerido de parentes de ministros com a Vorcarosfera abateu de saída Kassio Nunes Marques, amparado numa alegação de que não poderia se meter naquele assunto enquanto presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Luiz Fux, de casca mais grossa, seguiu desafiador, negando quaisquer irregularidades de seu filho. Mas a baixa nas hostes associadas ao bolsonarismo foi decisiva para o empate que se desenhou na análise do pedido de Gilmar Mendes para que o caso do aliado Moraes fosse analisado com o do rival André Mendonça.

Com o cenário colocado, coube a Gilmar, que lembrou seus momentos mais inflamados em debates ao longo dos anos no STF, fazer a provocação final a Mendonça. Ele reagiu, e isso deu a deixa para que Flávio Dino pedisse vista em nome de uma decência que não havia transparecido na sessão.

A jornada foi dura, com o diferencial histórico de que dois dos presentes se acusam de práticas que podem ser criminosas. O que se viu foi um Supremo em desagregação, simbolizada de saída pelo aparato de segurança inédito sem ameaça externa.

Parece ínfima a chance de que a vista de Dino, de resto o mais loquaz do grupo pró-Moraes, vá fazer mais do que postergar a crise na corte. Ninguém imagina Gilmar e Mendonça debatendo um habeas corpus que seja no futuro visível.

Notável foi como a boiada eleitoral que passava recebeu nomes, ou quase. O evidente entrelaçamento do ritmo processual de Mendonça acerca das relações no mínimo impróprias de Moraes com Vorcaro foi desfiado várias vezes.

Em princípio, isso é pior para Lula (PT), que apostou seu terceiro mandato em uma associação tácita com Moraes, que simboliza a nêmesis de Jair Bolsonaro e os seus. Mesmo tentando se ver distante do magistrado, agora é tarde.

A questão não são os convertidos. Como mostrou o Datafolha da semana passada, 85% não mudaram de voto devido às revelações contra Moraes, e 86% se mantiveram inamovíveis após as acusações contra Mendonça.

O diabo está no impacto potencial sobre as casas decimais pendulares que parecem a caminho de decidir esta eleição. Como o ódio a Moraes injetou um ânimo antes inaudito na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), resta saber se a reverberação terá o condão de captar parte desse eleitorado.

Nesse sentido, a vista de Dino não traz garantia alguma de que a crise irá amainar até o segundo turno; ao contrário, ela tenderá a ocupar todo o noticiário, obrigando mudanças de tática eleitoral que ainda não foram vistas no campo do PT.

Para Lula, há o consolo de que a manutenção da temperatura alta poderá ensejar o aparecimento de mais detalhes do relacionamento próximo de Flávio com Vorcaro, em especial do tortuoso caminho do dinheiro que teria financiado o filme "Dark Horse".

Para o Supremo, ao fim, a crise se resume no olhar cansado da ministra Cármen, que sintetiza o desgaste institucional descrito ao longo da sessão. Não parece haver caminho fácil para contornar o beco a que chegou devido à sua disfunção de base, calcada no isolamento de seus membros.

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terça-feira, 15 de setembro de 2026

A BATALHA DO SUPREMO E A EXAUSTÃO DO ELEITOR

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

A sessão desta terça não é a de um processo judicial mas de uma disputa política

Em uma semana, o grupo formado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, transformou o clima de linchamento em praça pública deste último num ambiente em que também pairam suspeitas de partidarismo na atuação do ministro André Mendonça.

Vem daí a aposta de que agirão no limite para evitar que a sessão desta terça siga o rito anunciado: leitura do relatório do caso pelo presidente do STF, manifestação da Procuradoria-Geral da República, defesa de Moraes e a apresentação do primeiro voto, de Edson Fachin, que também é do relator. Este é o rito para uma corte judicial. O que se verá nesta terça é uma sessão política.

Ao acolher todos os pedidos de quebra de sigilo, Fachin tentou equilibrar sua decisão de deixar a investigação de Mendonça proposta por Moraes, para a sessão do dia 23, mas acabou franqueando prerrogativas que são suas.

Já esticou mais a corda do que pretendia, como na decisão de avocar a troca de mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro, mas o fez, na avaliação de Oscar Vilhena (FGV), um dos arregimentadores da carta de apoio a Fachin divulgada neste domingo, para proteger a integridade do tribunal.

Não há muita dúvida de que o presidente do STF se manifestará pela abertura da investigação. Conta, para isso, com manifestos tão amplos quanto aqueles que, em 2022, se opuseram ao golpismo.

Entre os signatários da carta deste domingo, estão presidentes de todas as centrais sindicais, da CUT à UGT, e um rol que vai de André Lara Resende a Marcos Mendes, de Cristina Pinotti a Luiz Felipe Alencastro, de Josué Gomes da Silva a Luis Stuhlberger. São pessoas que se colocariam em lados opostos em quase tudo, mas subscreveram uma carta pela apuração dos fatos e pela responsabilização dos que violaram a lei e a dignidade de seus cargos.

A despeito de tudo isso e dos 13 ex-ministros do STF que estarão perfilados na primeira fila da Corte, Fachin terá dificuldade de atravessar o mar de preliminares para chegar a seu voto. Na condição de investigado, Moraes teria que se afastar da Corte, desfalcando sua turma no confronto com a de Mendonça. As decisões tomadas por Dino no domingo e nesta segunda podem ser lidas como uma tentativa de mostrar que, se a turma de Moraes ficar desfalcada, a do outro lado agirá para dar vitória ao candidato do PL à Presidência e senador Flávio Bolsonaro.

Dino fez isso com a decisão que abriu o sigilo do “Dark Horse” e, principalmente, com a desta segunda que autorizou operação de busca e apreensão em imóveis do deputado federal, Cezinha de Madureira (PL-SP). A partir da quebra de sigilo da ex-assessora da Câmara, Mariângela Fialek, alvo de outra operação no âmbito das emendas parlamentares, mostrou como o deputado agia, supostamente a soldo, para influenciar decisões em tribunais superiores.

A decisão expõe a articulação de Cezinha para a visita do banqueiro Daniel Vorcaro ao instituto de Mendonça, em São Paulo, já reconhecida pelo ministro, e a aposta do deputado e de Fialek de que a pressão sobre o ministro Kassio Nunes resultaria em votos favoráveis aos seus clientes. Da busca e apreensão nos imóveis do deputado poderão chegar a um outro caso, o do Master.

Há relatos de que o deputado chegou a despachar, em São Paulo, no escritório de Daniel Bialski, um dos mis recentes advogados de Daniel Vorcaro. Bialski é advogado da Assembleia de Deus e de um de seus principais pastores, Samuel Ferreira, se diz amigo do deputado, mas nega que tenha cedido o escritório a Cezinha.

A quebra de sigilo já autorizada e ainda em curso, dos pagamentos efetuados por Vorcaro, concretizará a transformação do Master de caso criminal em comissão da verdade, dada a amplitude de personagens, da política e do Judiciário, a serem atingidos. O imperativo eleitoral faria prevalecer o esclarecimento sobre o que aconteceu e quem esteve envolvido, em detrimento da possibilidade de se processarem punições de um caso tão amplo.

A distopia escancarada pela disputa política em curso no STF é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado se distanciar de Moraes (“Quem quiser ficar rico não pode ir para o STF”) e tem adotado um discurso mais agressivo contra Flávio Bolsonaro associando-o mais diretamente ao Master. Lula queria transformar esta campanha num plebiscito sobre seu governo, mas foi convencido de que não tinha alternativa. A Quaest desta segunda, porém, mostrou que não tem se beneficiado nem de uma nem de outra investida.

A despeito disso, petistas que estão na linha de frente da eleição, como a ex-prefeita de Contagem (MG) e candidata que lidera a disputa ao Senado em seu Estado, Marilia Campos (PT), não vê alternativa. Os programas e obras do governo foram, paulatinamente, sendo apropriadas pela oposição. E, assim, a associação de Lula com feitos de seu governo, diz, já esbarrou no teto.

A crítica mais pesada a Flávio também tem um limite porque o eleitor bolsonarista, na avaliação de quem está todo dia na rua pedindo voto, não acredita na honestidade do senador do PL mas desgosta da conciliação do petismo com corruptos. Daí porque não restaria alternativa a Lula senão se afastar de Moraes. A dúvida é sobre o impacto, sobre um eleitor já exausto pelo endividamento, de uma sucessão de decisões confusas e conflituosas deste caso.

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SUPREMO DIRÁ, SE O BRASIL TEM, OU NÃO, UM TRIBUNAL DE CONFIANÇA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Acusações, postergações e acordos de ocasião não devolvem ao STF a reputação derretida

A pior escolha será os ministros se esconderem sob o frágil biombo de proteção à democracia

De gente com larga experiência adquirida na vida, e autoridade conferida pela lei maior, espera-se que enxergue com clareza o que se passa à sua volta, avalie as circunstâncias e daí tome a melhor decisão. Requisitos básicos à função do julgador.

Não é o que se vê prevalecer nas atitudes de ministros do Supremo Tribunal Federal ativos nos embates internos e passivos ante o imperativo de recuperação da credibilidade da corte. Descontada a hipótese de surto coletivo de carência de percepção, a indiferença ao ponto central da crise só pode ser proposital.

Ocorre que fugir do problema com acusações, cobranças, sessões secretas e postergações diversas não devolve ao STF a reputação derretida. A primeira e imediata resposta a ser dada pelo colegiado ao público é se o Brasil tem uma corte suprema digna de confiança.

A sugestão de adiamento, por ora rechaçada pelo presidente Edson Fachin, sinaliza que haverá solicitação de vista na sessão marcada para esta terça-feira (15) para examinar indicativos, apurados pela Polícia Federal, de relações impróprias entre o ministro Alexandre de Moraes e o fraudador master Daniel Vorcaro.

Tudo pode acontecer nessa reunião. O melhor será o colegiado mostrar-se arguto à demanda do bom senso e seguir o caminho da investigação rigorosa e transparente.

O pior será a repetição do ocorrido no exame da conduta de Dias Toffoli como relator do caso Master, quando a escolha foi atuar em prol do "Supremo futebol clube", nas palavras do ministro Flávio Dino.

As escaramuças patrocinadas pelo ativismo político-judicial não aconselham expectativas otimistas. Ao contrário, indicam preferência pela vereda tortuosa dos obstáculos processuais em detrimento da estrada reta do esclarecimento dos fatos —saída em tese mais simples.

Tal solução se complica quando se enreda nos interesses de autoproclamadas divindades refratárias ao exercício da impessoalidade e do desprendimento, deixando o tribunal ao sabor das tormentas que por ali vicejam.
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O JULGAMENTO DE XANDÃO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Catimba da bancada gilmarmendista e guerra dos rabos-presos querem afogar o Supremo

Pesca probatória, empilhamento de terabytes, blitz de suspeições e blindagem a serviço de que nada seja julgado

A bancada gilmarmendista catimba. Quer transformar em “Julgamento de Xandão”, como se sessão derradeira de processo penal, o que seria deliberação sobre se Alexandre de Moraes deve ser investigado. Catimba-se porque Moraes não pode ser investigado – o que significaria sabermos o que respondeu a Vorcaro, o que compartilhou com ele. Não pode. Então: blitz e blindagem.

Cada um a seu modo, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e o próprio Moraes (que Xandão talvez já tivesse mandado afastar) investem no afogamento do Supremo – o propósito da batalha de petições por meio das quais sucessivamente exigem informações tão volumosas quanto estranhas ao objeto definido por Edson Fachin para o julgamento: se os dados disponíveis sobre as relações entre Moraes e Vorcaro, a todos os integrantes do tribunal formalmente entregues, seriam suficientes para que o ministro fosse investigado. São suficientes? Você sabe a resposta.

(Para que não se chegue à pergunta, chamarão a tese de Gonet sobre a nulidade do relatório da PF em que é citado – saudoso da “máquina” Vorcaro, saudoso talvez do clube do uísque vorcárico em Londres.)

Moraes deve ser investigado? A bancada gilmarmendista trabalha para que nem sequer se chegue a essa arguição; para que o Plenário não debata as mensagens em que Vorcaro, à antevéspera de ser preso, discutia conteúdo judicial sigiloso – a própria ordem de prisão, talvez – com ministro do STF, a quem consultava sobre se deveria fugir do país. (Vigente então o contrato – a R$ 3 milhões líquidos por mês – entre Master e o escritório de advocacia da mulher do juiz. “O careca não pode atrasar”.)

De petição em petição, sob o texto oportunista de que se junte tudo sobre o caso Master ao processo, a bancada empilha terabytes para que nada seja investigado. Pedem milhares e milhares de documentos, que nada têm a ver com a matéria a ser julgada, para depois algum pedir vista. Muita coisa para examinar e pouco tempo... Vista!

Para que nada seja investigado, estão agora mesmo fazendo pesca probatória no celular de Vorcaro, em busca de subsídios para constranger-intimidar inimigos no tribunal. A guerra dos rabos-presos. Quantas arguições de suspeição teremos?

Chicanas à parte, os ministros do STF todos já têm as provas de que André Mendonça dispunha quando remeteu a Fachin o material sobre as relações entre Moraes e Vorcaro – e é com fundamento nelas que o caso precisa ser julgado. Não se trata de apreciação final de ação penal sobre ministro do Supremo. Bem antes, trata-se de avaliar se se abrirá investigação sobre ministro do Supremo – algo para o que, assim é para os mortais, bastaria um conjunto de indícios capaz de formar juízo de mera possibilidade.

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PT ERRA COM EVANGÉLICOS PELA TERCEIRA ELEIÇÃO CONSECUTIVA

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Escolha de Janja como porta-voz expõe a falta de afinidade do partido com o segmento  

Quaest apresentou Flávio Bolsonaro pela primeira vez à frente. Se Lula for derrotado em outubro, uma parte da responsabilidade será do PT, que, pela terceira vez, terá perdido a oportunidade de dialogar com os 26,9% de evangélicos brasileiros.

Nada mudou no desempenho do PT desde a derrota de Fernando Haddad em 2018. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 8 de setembro, aponta que Flávio Bolsonaro abriu 18 pontos sobre Lula entre evangélicos no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, Flávio marca 58%, e o presidente, 31%.

Quais foram os pecados do partido em relação a evangélicos? A direção não tem afinidade nem simpatia pelo segmento e permite que ele seja tratado de maneira amadora. Não existe um nome no partido com poder de decisão para ser cobrado por seu desempenho.

O PT tem o Setorial Inter-religioso e o Núcleo de Evangélico do PT (Nept) como interfaces para dialogar com esse grupo. O trabalho dos dois é discreto e sem ousadia. Neste momento, eles distribuem santinhos eletrônicos, que são imagens com mensagens como "Sou evangélico e voto em Lula" e "Fé não tem partido".

Há também a Frente Evangélicos pelo Estado de Direito, um coletivo de pastores e teólogos progressistas com acesso ao presidente e à primeira-dama. Representam igrejas pequenas e são mais influentes no Rio de Janeiro. Por esses motivos, sua mensagem não chega ao crente comum espalhado pelo país.

O nome mais conhecido e de confiança do presidente para lidar com evangélicos é um católico. Ex-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto de Carvalho já trabalhou para representar Lula e costurar diálogos institucionais do governo com grandes pastores e suas denominações.

O maior exemplo do amadorismo do PT para lidar com o segmento é a atuação da primeira-dama, Janja da Silva, como porta-voz informal da campanha para dialogar com mulheres evangélicas.

Janja é feminista —um termo rejeitado em igrejas, inclusive por mulheres— e se apresenta como representante das religiosidades de matriz afro, o grupo politicamente mais distante do movimento evangélico.

Apesar disso, Janja aparece cantando um jingle de inspiração gospel desde o lançamento da campanha, em agosto. E, na semana passada, pegou carona no debate sobre o ministro André Mendonça para chamar Lula de "verdadeiro ungido de Deus".

É um vocabulário que ela não domina, e o gesto soa oportunista e eleitoreiro. Essas aparições públicas, falando como se fosse crente, dão origem a material negativo espalhado pela candidatura adversária.

Na semana passada, o Datafolha registrou que a crise no STF não muda o voto da maioria dos eleitores. A menos que surja algo muito grave, teremos Flávio e Lula no segundo turno, com eleitores evangélicos escolhendo o vencedor.

O que resta ao PT é esperar que haja alguma denúncia que exponha seu adversário no quesito moral. É a única coisa que, a esta altura do campeonato, desestimularia evangélicos a votar nele nesta eleição.

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ALÉM DE BETS, BRASILEIROS ELEGEM CANETAS EMAGRECEDORAS

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Uso das seringas supera o negacionismo que prejudica a cobertura vacinal no país

Medicamentos revolucionários para obesidade viram objeto de desejo e alvo do crime organizado

Esqueça o futebol, os candidatos ao Planalto e os ministros do STF. O que entusiasma os brasileiros são as canetas emagrecedoras e as apostas eletrônicas.

O curioso é que as canetas são canetas apenas no nome. Na verdade são seringas preenchidas com medicamentos injetáveis. O uso delas, no entanto, consegue superar o medo, a desconfiança e o preconceito que envolve injeções e agulhas e o negacionismo que, promovido de maneira criminosa pelo governo Bolsonaro no período da pandemia, ainda prejudica a cobertura vacinal no país.

Vendidos sob diversos nomes comerciais, as drogas semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida são uma revolução no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Retardam o esvaziamento do estômago e prolongam a sensação de saciedade por horas, tirando a vontade de beliscar. Estudos clínicos apontam sua alta eficácia, com reduções médias de 15% e 20% do peso corporal e, em alguns casos, de até 30%, nível associado ao da cirurgia bariátrica.

Um dos segmentos mais expressivos da indústria farmacêutica —entre maio de 2025 e maio de 2026 movimentou R$ 13,3 bilhões—, elas vendem como pão quente. O medicamento não é barato. Uma caixa de Mounjaro (com quatro canetas para um mês de tratamento) custa em média R$ 1.400. Com a aprovação pela Anvisa de cinco novas canetas à base de semaglutida após a queda da patente da molécula e a incorporação de dois genéricos de liraglutida no mercado brasileiro, os preços devem cair, mas não no curto prazo.

Enquanto isso, o crime organizado fatura em cima do objeto de desejo da população. Aumentaram as operações da Polícia Federal para combater a produção de canetas emagrecedoras em farmácias clandestinas. Até estudantes de medicina servem de mulas, cooptados para fazer contrabando na fronteira com o Paraguai. Os produtos sem registro na Anvisa são promovidos por influenciadores, atrizes, cantores e ex-BBBs. O esquema é semelhante ao utilizado pelas bets.

Quem compra as canetas fajutas não tem medo de virar jacaré.

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MORRE AMELINHA TELES

Marília Barbosa — São Paulo, g1

Morre Amelinha Teles, escritora torturada na ditadura militar, aos 81 anos

Ativista foi presa em 1972 e perseguida pelo DOI-Codi de São Paulo; filhos, de 4 e 5 anos à época, também foram sequestrados e testemunharam as torturas

A escritora e militante feminista Amelinha Teles morreu aos 81 anos de idade. A morte da ativista, uma das vítimas da ditadura militar (1964-1985), foi divulgada por amigos nas redes sociais nesta terça-feira (15) (veja abaixo).

O velório de Amelinha Teles será realizado na quarta-feira (16), das 11h às 16h, na Reitoria da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), na Rua Sena Madureira, 1500, em São Paulo.

Segundo a União de Mulheres de São Paulo, da qual a escritora era diretora, o sepultamento será no mesmo dia, com saída da Unifesp para o Cemitério da Vila Formosa.

Maria Amélia de Almeida Teles nasceu em Contagem (MG) e militou no Partido Comunista do Brasil (PCdoB). Durante a ditadura, tornou-se uma das vozes de denúncia contra a repressão do regime militar.

Em 1972, Amelinha foi presa e torturada no DOI-Codi de São Paulo pelo major do Exército Carlos Alberto Brilhante Ustra. Naquele período, seu marido, César Augusto Teles, e seu companheiro de militância Carlos Nicolau Danielli também foram levados ao órgão de repressão.

Amelinha testemunhou o assassinato de Danielli. Seus dois filhos, que tinham 4 e 5 anos na época, também foram sequestrados e obrigados a assistir às torturas sofridas pelos pais.

A ativista integrou a Comissão de Familiares de Mortos e Desaparecidos e também registrou suas experiências e reflexões em livros.

Entre as obras publicadas por Amelinha estão "Contos da Cela Três", que reúne memórias escritas em 1973 durante o período em que esteve presa; "Breve História do Feminismo no Brasil"; e "O Que São os Direitos Humanos das Mulheres?".

Veja as homenagens a seguir:

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