sábado, 26 de setembro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO DÁ DINHEIRO AOS 'PEIXES' DA MILÍCIA

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Espanta a naturalidade com que o miliciano se refere ao filho 01: nosso senador

Casos de desvio de emendas estão ligados à infiltração de bandidos na política

Ao lançar a campanha da reeleição, em agosto, Lula bateu duro no atual sistema de emendas parlamentares. O plano apresentado defende o estabelecimento de limites e controles e classifica as emendas impositivas como "grave distorção" que sequestra recursos do Executivo.

O tema, contudo, está submerso, intocável. A dinâmica da disputa contra o bolsonarismo impôs à campanha outros rumos de discussão —crise do STF, Lulinha, vazamentos do Master, interferência dos Estados Unidos, endividamento das famílias, escala 6x1, guerra contra a jogatina eletrônica.

O Congresso, que deverá ter baixa renovação, agradece o refresco. Prepara a proposta orçamentária de 2027 prevendo que, até 2030, o espaço disponível para emendas parlamentares crescerá em ritmo três vezes maior que as despesas escolhidas pelo Executivo. Não é mais uma farra, uma baderna institucional.

É preciso arranjar outra palavra para descrever a voracidade de deputados e senadores, os donos do país.
Apesar das denúncias na imprensa e de mais de cem inquéritos no STF, os casos de desvio de finalidade e corrupção se multiplicam. O mais recente aponta o senador Flávio Bolsonaro, um candidato a presidente da República campeão de escândalos.

O filho 01 mandou uma emenda de quase R$ 200 mil para Robson Calixto, o Peixe, miliciano condenado por envolvimento na morte de Marielle Franco. O dinheiro foi destinado a um projeto de escolinha de futebol no bairro da Taquara, área de influência do ex-deputado Chiquinho Brazão e do conselheiro do TCE Domingos Brazão —condenados pela morte da vereadora.

A convivência da família Bolsonaro com milícias não é novidade. Pelos diálogos coletados pela PF no celular do Peixe (gíria carioca usada para se referir a alguém de confiança), nota-se a naturalidade com que a transação é realizada: "Amiga, vê com o nosso senador se consegue nos ajudar".

Flávio Bolsonaro desenhou o mapa da mina: desvio de emendas e infiltração do crime organizado na política convergem para o mesmo ponto.

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OFENSIVA MILICIANA

Editorial CartaCapital

O que está em jogo nas eleições 

No domingo 4 os brasileiros irão às urnas escolher o próximo presidente da República. A estabilidade das pesquisas e o desinteresse transversal pela disputa dificultam a interpretação da vontade popular. Tudo é possível neste momento, inclusive uma definição ainda no primeiro turno, a depender da desidratação das variações do bolsonarismo que terão seus nomes nas urnas. Augusto Cury, Renan Santos, Romeu Zema e Ronaldo Caiado flertam cada vez mais com a irrelevância.

Após três semanas nas quais o único assunto no País parecia ser a crise no Supremo Tribunal Federal, abriu-se, na reta final da campanha, uma janela por onde adentram temas mais relevantes para o futuro, da soberania à sobrevivência das instituições. Enquanto o debate esteve interditado por uma manobra eleitoreira do ministro André Mendonça, do STF, os eleitores ficaram praticamente impedidos de analisar o currículo dos candidatos. No caso de alguns, da ficha corrida. Algo mudou.

Na segunda-feira 21, o site de ­CartaCapital trouxe à tona conversas via WhatsApp capturadas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro que indicam uma relação mais umbilical com o clã Bolsonaro. O fundador do Master, revelam as mensagens, se esforçou para esconder um jantar com Flávio Bolsonaro e o pai, Jair, quando este ainda não havia sido recolhido à penitenciária por tentativa de golpe. Vorcaro também pressionava, desde 2024, para o comparsa e cunhado Fabiano Zettel liberar as parcelas dos 134 milhões de reais para Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente. “O (­financiamento) mais importante disparado”, frisou.

Também retornou ao noticiário a notória ligação da família com as milícias. Na terça-feira 22, a revista Piauí noticiou a existência de emenda parlamentar do senador, no valor aproximado de 200 mil reais, para um projeto esportivo de ­Robson Calixto, vulgo Peixe, miliciano condenado por envolvimento na morte da vereadora Marielle Franco.

As novas informações enchem ainda mais o balaio de evidências de que Flávio Bolsonaro reproduziu o tipo de vínculo miliciano com o “irmãozão” banqueiro, a quem prometeu: “Estarei sempre contigo”. Não são só mensagens. Há fotos, inclusive ao lado de Sicário, o capanga de Vorcaro.

O candidato insiste na toada de não prestar esclarecimentos e seu esforço de esconder a verdade conta com o auxílio de tipos peculiares de milícias que fazem de Peixe um amador.

No Tribunal Superior Eleitoral, o ministro Kassio Nunes Marques nem se ruboriza ao exercer uma parcialidade escancarada. Na quarta-feira 23, o presidente do TSE mandou suspender um material que ligava o senador ao escândalo do Master (não foi o primeiro e provavelmente não será o último), mas manteve uma peça de campanha de Flávio Bolsonaro que associava a eleição de Lula em 2022 ao crime. Diante de um tribunal tão faccioso, não será surpresa se assistirmos a uma onda de desinformação na semana decisiva do primeiro turno.

As big techs também entram no jogo. Por conta própria e sem maiores explicações, o Instagram decidiu tirar do ar um vídeo didático de Fábio Porchat a respeito dos laços entre a Igreja da Lagoinha, o escândalo do Master e o candidato bolsonarista. A “reportagem” de Porchat, baseada em fatos inegáveis, havia alcançado o topo de visualizações em diferentes redes sociais.

Durante a Assembleia-Geral da ONU, Donald Trump mandou um recado, a Lula e a quem pretenda se interpor a seus projetos imperiais. Usará a força, se necessário, para tomar conta da América Latina, o quintal dos Estados Unidos. O presidente brasileiro se antecipou. “O Brasil não cabe no quintal de ninguém”, discursou, sob intensos aplausos.

Na busca pelo quarto mandato, Lula não enfrenta um simples adversário. Enfrenta milícias poderosas em uma ação articulada, no Brasil, nas cercanias e em Washington. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

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ENTRE COMPADRES

Editorial O Estado de S. Paulo

Na ONU, a presidente da Venezuela bajula Trump e promete eleições que não ocorrerão

Em discurso na Assembleia-Geral da ONU, a presidente cada vez menos interina da Venezuela, Delcy Rodríguez, afirmou que o país iniciou um “processo de transformação democrática para o seu renascimento” e que mantém diálogo com a oposição para a realização de eleições. Só faltou dizer quando.

Já o secretário de Estado americano, Marco Rubio, após encontrar-se com Delcy, disse que a realização de eleições livres na Venezuela segue sendo uma prioridade para os EUA. Antes, porém, segundo Rubio, o país precisa cumprir uma agenda de três fases, que vai da estabilização econômica ao estabelecimento de uma infraestrutura eleitoral. Sem isso, as eleições não podem acontecer, na avaliação de Rubio.

A verdade é que, passados mais de nove meses da controversa ação militar dos EUA em solo venezuelano que resultou na captura do ditador Nicolás Maduro, hoje confinado a uma prisão de Nova York, não há, a despeito do malabarismo retórico de Delcy e Rubio, nenhum sinal de que a população da Venezuela poderá escolher seu presidente em eleições livres e transparentes.

A relação entre Delcy e seu atual padrinho político, o presidente dos EUA, Donald Trump, parece cada vez mais sólida. Não à toa, em sua passagem pela ONU, em Nova York, Delcy não citou Maduro, seu outrora adorado líder, uma vez sequer.

Embora ninguém lamente o fim melancólico do autoritário Maduro, a não ser os que lucravam com sua ditadura, é evidente que o ocaso dele mostrou-se extremamente conveniente para sua ex-escudeira Delcy, bem como para Trump.

Para o presidente dos EUA, pouco importa se a atual cúpula no poder na Venezuela era partidária de Maduro e tenha promovido censura e repressão violentas. Desde que Delcy e seu entorno sigam entregando a Trump o que ele deseja – como o direito de os EUA explorarem mais de 65 bilhões de barris de petróleo venezuelano –, ela seguirá entronizada no poder bancada por Trump, sem que haja necessidade de eleições.

Enquanto isso, María Corina Machado, a vencedora do Prêmio Nobel da Paz de 2025 que é também o principal nome da oposição da Venezuela, segue no exílio. De acordo com um assessor dela, Corina foi impedida de voltar ao seu país de origem ao menos sete vezes.

Entre os opositores que vivem na Venezuela, a relação de compadrio entre Delcy e Trump tem provocado um raro momento de concordância. Tanto chavistas quanto oposicionistas avaliam que Delcy se ajoelhou a Trump, sacrificando os reais interesses dos venezuelanos.

Por ora, o grupo com maior força a pressionar para que uma data para a realização de eleições seja determinada vem justamente de membros do partido de Trump, o Republicano, da Flórida. Como esse Estado americano abriga parte significativa da diáspora venezuelana, congressistas da região entendem, corretamente, que as eleições precisam ocorrer.

Eles apoiam proposta de um senador republicano de Ohio, Bernie Moreno, de que o pleito seja realizado em 24 de julho, dia de nascimento de Simón Bolívar, líder da independência venezuelana. Como já não é possível falar de Venezuela independente, nada garante que o simbolismo se converta em realidade.

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O GOVERNO LULA ACERTA AO PROIBIR AS BETS NO BRASIL ? SIM

Ione Amorim, Folha de S. Paulo

Rentabilidade se alimenta do risco, e apenas a regulação não acompanharia a escalada de danos

Jogo fica disponível 24 horas por dia e praticamente elimina barreiras físicas entre consumidor e produto

Até a proibição anunciada nesta sexta-feira (25) pelo governo Lula (PT), por meio de medida provisória, foram anos de operação de apostas online sem regras suficientes, seguidos por uma regulamentação que ainda estava em construção. Era como trocar a roda de um carro em movimento—e em alta velocidade.

Nesse período, os jogos e as apostas, as chamadas bets, se transformaram em um desafio socioeconômico, de proteção do consumidor e de saúde pública. Até que ponto é possível separar a rentabilidade desse mercado do comportamento que expõe permanentemente seus consumidores ao risco que a própria regulação pretende evitar?

Diferentemente do álcool e do tabaco, cujos graves danos levaram a sucessivas restrições à comercialização e à publicidade, o jogo online é imaterial, está disponível 24 horas por dia e praticamente elimina as barreiras físicas entre consumidor e produto. No mesmo celular estão a plataforma, o meio de pagamento, a publicidade e a possibilidade de realizar e repetir apostas em poucos segundos. Não há deslocamento, horário de fechamento ou necessidade de adquirir fisicamente um produto; a tecnologia suprimiu boa parte das barreiras que poderiam limitar seu consumo.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) alerta que a digitalização e a comercialização estão normalizando os jogos de azar e que o acesso facilitado amplia os riscos. Um dado é revelador: as perdas geradas por jogadores em níveis considerados prejudiciais respondem por cerca de 60% da receita do setor. Quanto desse mercado continuaria economicamente sustentável se conseguíssemos retirar de sua receita justamente as apostas associadas aos comportamentos que queremos prevenir?

A experiência do Reino Unido ajuda a dimensionar esse desafio. O país estabeleceu seu marco regulatório em 2005 e, duas décadas depois, continua aperfeiçoando mecanismos de proteção. Em 2026, decidiu implantar novas avaliações para identificar apostadores de alto gasto ou em dificuldades financeiras, recorrendo inclusive a informações oriundas do sistema de crédito. O país também substituiu as contribuições voluntárias da indústria por uma cobrança obrigatória para financiar pesquisa, prevenção e tratamento dos danos associados ao jogo.

A mudança revela outra dimensão do problema: regulamentar não significa apenas fiscalizar empresas. Significa construir e financiar estruturas capazes de identificar vulnerabilidades, acompanhar transformações tecnológicas, prevenir danos e tratar suas consequências permanentemente. A OMS também vem deslocando a discussão da responsabilidade individual para uma abordagem de saúde pública. Considera insuficientes as medidas voluntárias relacionadas ao "jogo responsável" e recomenda intervenções sobre o próprio mercado: restrições à disponibilidade, limites de perdas e número de apostas e o fim da publicidade, da promoção e do patrocínio esportivo e cultural.

É nesse ponto que a experiência internacional deve servir como alerta: se um país com duas décadas de experiência regulatória continua sofisticando seus instrumentos para acompanhar um mercado digital em transformação, qual estrutura institucional, tecnológica e fiscalizatória seria necessária para oferecer proteção equivalente em países com capacidades regulatórias tão distintas?

O Brasil encontra-se diante de uma escolha que ultrapassa a engenharia regulatória e o enfrentamento do superendividamento. Um mercado digital disponível 24 horas por dia, cuja rentabilidade mantém relação relevante com comportamentos que produzem dano, exige do Estado vigilância contínua e cada vez mais sofisticada.

Talvez seja necessário inverter a pergunta: em vez de discutir até onde a regulação consegue acompanhar esse mercado, precisamos discutir até onde estamos dispostos a permitir que ele avance.

*Economista, é consultora em serviços financeiros e endividamento do consumidor do Idec (Instituto de Defesa do Consumidor)

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A CIRANDA NÃO EXPLICADA DO CANDIDATO FLÁVIO BOLSONARO

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Fatos têm desmontado versões apresentadas pelo candidato do PL sobre a sua relação com Vorcaro e o filme 'Dark Horse'

Perguntas precisam ser respondidas, já que ele é investigado formalmente

Flávio Bolsonaro negou encontros, viagens e recursos recebidos de Daniel Vorcaro. Aí vêm os fatos e desmontam as imposturas do candidato do PL à cadeira de presidente da República nas eleições deste ano.

A mais recente delas foi a revelação, pela revista Piauí, de que o senador viajou da Flórida para Brasília em janeiro de 2025 em um jato executivo que tinha entre os cotistas Vorcaro e Willer Tomaz.

O primeiro é o maior fraudador do sistema bancário brasileiro. Já o segundo é alvo da Polícia Federal em investigação sobre fraudes contra aposentados do INSS.

Willer é amigo de Flávio, que tem como vice na chapa o deputado Alfredo Gaspar, que, por sua vez, foi relator da CPMI do INSS.

À época, a escolha de relator foi feita em uma articulação feita durante a madrugada e contou com o apoio de Rogério Marinho, hoje coordenador político da campanha do PL ao Palácio do Planalto.

Ao assumir a presidência da CPMI do INSS, o senador Carlos Viana contrariou o pacto original da cúpula do Congresso e designou diretamente Alfredo Gaspar para a relatoria.

Como relator, o hoje "vice-surpresa" da chapa do PL sabia que um dos alvos das investigações das fraudes contra os aposentados era amigo de Flávio.

Por ironia do destino, o avião de Vorcaro e Willer é o mesmo do qual o ministro do STF Alexandre de Moraes foi filmado desembarcando com a mulher em agosto do mesmo ano.

Descoberta a viagem, Flávio dobrou a aposta na amizade com Willer e ironizou: "Ainda bem que na época o avião era de Willer. Imagina se fosse agora, eu teria viajado no avião de Alexandre de Moraes."

A viagem coincidiu com as negociações para que Vorcaro financiasse o filme "Dark Horse".

O senador ainda não apresentou documentos detalhados sobre como o dinheiro foi aplicado no filme.

Ele é protegido por um modelo de campanha feito pelas redes sociais, sem o confronto direto com perguntas incômodas de jornalistas.

A poucos dias das eleições, há uma ciranda de perguntas sem respostas. Elas precisam ser respondidas, porque Flávio é hoje um candidato investigado.

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PAI DE VORCARO DEVE EXPLICAÇÕES

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Profusão de 'irmãos' de ex-banqueiro é resultado de parentesco fictício

Fenômeno é universal, mas, no Ocidente, tem algumas particularidades

A essa altura, quem deve explicações é Henrique Vorcaro, o pai de Daniel Vorcaro. A quantidade de "irmãos" do ex-banqueiro já identificados é sugestiva de intensa atividade extraconjugal. Cabe até uma investigação eclesiástica, pois a Igreja Batista da Lagoinha, da qual o patriarca dos Vorcaros é membro ativo, não encoraja o adultério.

Brincadeiras à parte, acho que cabem algumas reflexões sobre o parentesco fictício. A primeira observação é que se trata de um universal humano. O uso de análogos de irmão/irmã para referir-se a pessoas da mesma geração e tio/tia para gente mais velha é tão prevalente em algumas culturas, principalmente naquelas baseadas em estruturas de clã, que esses termos funcionam como pronomes de tratamento. É que nosso software mental e linguístico evoluiu no Pleistoceno, quando vivíamos em grupos familiares. Continuamos a usar essa programação, e as palavras que ela gera, mesmo depois que o mundo ficou maior que a família.

No Ocidente é um pouco diferente. Ao longo da Idade Média, a Igreja Católica se empenhou em quebrar a espinha dorsal da lógica dos clãs. Fez isso proibindo o casamento entre primos, mesmo primos distantes, e a poligamia. A consequência foi o fortalecimento da família nuclear, composta por pai, mãe e filhos. Isso os padres não previram, mas a mudança possibilitou o surgimento de uma ética universalista, calcada não mais em relações de parentesco, mas em regras comuns, que valem para todos.

A alteração teve impacto sobre o vocabulário. O uso do parentesco fictício não desapareceu, mas sofreu uma cisão. Por um lado, em contextos urbanos modernos, banalizou-se como um tique linguístico. Dizemos "irmão" ou "tio" a prestadores de serviços e desconhecidos, esvaziando as palavras de qualquer intimidade. Por outro, quando direcionados a conhecidos, esses termos voltam a ser uma escolha forte.

Denotam proximidade real e intencional, dada pelo copertencimento a círculos fechados como igrejas, guildas e até máfias nos casos mais extremos.

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POR QUE A APOSTA ELEITORAL DE LULA NO FIM DAS BETS PODE DAR EM NADA

Thaís Oyama, O Globo

Embora a ideia da extinção seja bem recebida, não chega a empolgar a ponto de definir um voto

‘Estou chocado! Chocado ao descobrir que há jogo neste lugar.’ No filme “Casablanca”, o capitão Renault, ele mesmo freguês da jogatina, simula surpresa diante da “descoberta” da existência de um cassino no Rick’s Café, e usa o pretexto para fechar o estabelecimento. Como o capitão Renault, o presidente Lula disse no último dia 18 estar “estarrecido” com o estrago que as bets estão fazendo no orçamento das famílias brasileiras, mesmo tendo tido quatro anos para perceber.

A oito dias da eleição, cabeça a cabeça com o adversário Flávio Bolsonaro, Lula resolveu que cabe ao Estado proteger adultos de si mesmos e determinou em Medida Provisória (MP) a proibição total das apostas on-line no Brasil. Pela abrangência e pela pressa, a MP ameaça desorganizar mercados como futebol e publicidade, provocar disputas judiciais bilionárias e empurrar apostadores ao mercado clandestino dos jogos, além de elevar a já bastante elevada insegurança jurídica no país. Lula, porém, parece apostar que o apoio popular à proibição — superior a 70% — vá superar esses custos na eleição.

Funcionará? Até agora, nada parecido funcionou.

Lula ampliou a isenção do IR, abriu crédito a motoristas de aplicativo e táxi, expandiu o Minha Casa, Minha Vida e já está na segunda edição do Desenrola. Nenhuma dessas iniciativas se traduziu em ganho eleitoral visível. No caso do IR, a resposta do eleitor foi particularmente frustrante para o Planalto. Uma análise da pesquisa Datafolha mostrou que, mesmo depois da entrada em vigor da isenção, a aprovação do presidente estagnou, e sua intenção de voto caiu na faixa de renda beneficiada.

E por que isso ocorre? Duas explicações ajudam a entender. A primeira é de ordem econômica. Lula não se cansa de dizer, inclusive aos assessores, que considera ser este o seu melhor governo. Tem números a seu favor. Se as projeções para 2026 se confirmarem, o PIB terá crescido, em média, 2,7% ao ano neste mandato. O desemprego, de 8% em 2023, caiu a 5,3% no trimestre encerrado em julho. Nada disso, porém, impede que o brasileiro sinta que seu dinheiro acaba antes do mês. Apenas 10% da população, segundo a Quaest, tem a sensação de que sua capacidade de compra melhorou, e isso guarda relação direta com o endividamento. O pagamento de dívidas já consome quase 30% da renda das famílias. As bets agravam o aperto.

Ocorre que proibir apostas não quita dívidas — nesse sentido, a MP é apenas uma promessa. E, no contexto em que se dá, arrisca ser recebida com a mesma descrença que deu origem à piada que circula na internet — segundo a qual Lula resolveu distribuir Mounjaro para o povo perder a vontade de comer picanha.

— Do ponto de vista eleitoral, o fim das bets pode ter vindo tarde demais para o presidente — diz o economista Maurício Moura, fundador do Instituto Ideia.

A segunda razão para a falta de entusiasmo do eleitor com as medidas econômicas do governo é de natureza política. Pesquisas apontam que, mesmo entre simpatizantes de Lula, há cansaço diante da perspectiva de continuidade dele no poder.

— Hoje, Lula não aparece como esperança de futuro, mas de manutenção. O voto nele é o voto de quem não quer trocar o certo pelo duvidoso — diz Renato Meirelles, presidente do Instituto Locomotiva.

Ele afirma que, em grupos de pesquisa focados nos eleitores independentes, embora a ideia da extinção das bets seja bem recebida, não chega a empolgar a ponto de definir um voto.

— As pessoas estão exaustas — diz.

É esse sentimento que pode não apenas frustrar mais uma tentativa de última hora de fazer Lula subir nas pesquisas, como tornar realidade um dos maiores temores da campanha do presidente: o aumento da abstenção — que, historicamente, tende a ser maior entre os eleitores mais pobres, base eleitoral do petista.

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VIVEREMOS DO LEGADO DEMOCRÁTICO DE ZUENIR VENTURA

Flávia Oliveira, O Globo

Democracia e Zuenir são substantivos que não apenas cabem na mesma frase. São sinônimos

Zuenir Ventura formou gerações — sim, no plural — de jornalistas e inspirou outras tantas — aqui, eu me incluo. Ele partiu serenamente aos 95 anos, deixando órfãos seus filhos biológicos, Mauro e Elisa, e uma legião de velhos amigos, colegas de ofício, fontes, leitores... A existência longa, de quase um século, alicerçou a impressão de eternidade. O velório, na Academia Brasileira de Letras (ABL), onde ocupava a cadeira 32, antes ocupada por Ariano Suassuna, foi marcado por uma espécie de luto ao quadrado. Havia tristeza, saudade pela ausência, agora física, do Mestre Zu. E uma baita apreensão cívica pela democracia, de novo, sob ameaça.

Democracia e Zuenir são substantivos que não apenas cabem na mesma frase. São sinônimos. O presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva, disse que o professor, jornalista e escritor “não se calou frente à censura imposta pelo regime autoritário” e “sempre lutou pela redemocratização”. O Instituto Vladimir Herzog (IVH) escreveu que ele foi, além da ABL, imortal também “da imprensa brasileira, da luta democrática e da memória deste país”. Zu e Vlado foram colegas na revista Visão, no início dos anos 1970. Juntos reportaram o vazio cultural decorrente da ditadura. Míriam Leitão contou que ele esteve ao lado de Clarice Herzog na luta para responsabilizar o Estado pelo assassinato de Herzog, sob tortura, nas dependências do DOI-Codi, em São Paulo, em outubro de 1975.

— Ao longo de mais de seis décadas de jornalismo, Zuenir cultivou uma curiosidade incansável e um olhar atento para compreender o Brasil em suas muitas camadas e contradições — continuou o IVH em nota.

Afonso Borges, jornalista, gestor cultural e amigo dos Venturas, disse que a despedida de Zuenir deveria servir para restaurar neste Brasil de institucionalidade despedaçada o conceito de ética. Eu me lembrarei de Zuenir como o jornalista reconhecido e premiado por defender os direitos humanos num dos países que mais matam defensores. Em 1989, recebeu o Prêmio Vladimir Herzog, o mais respeitado da área, pela série de reportagens “O Acre de Chico Mendes”, no Jornal do Brasil. Em 2008, ele recebeu troféu da Organização das Nações Unidas (ONU) por ter sido um dos cinco profissionais de imprensa que mais contribuíram para a defesa dos direitos humanos no Brasil nas três décadas anteriores.

O país é território hostil aos que defendem direitos humanos. No ano passado, as organizações Terra de Direitos e Justiça Global informaram no relatório “Na linha de frente” que, no biênio 2023-2024, foram registrados 486 episódios de violência contra pessoas que atuam, principalmente, pela proteção ao meio ambiente e pelo direito à terra. O Conselho Indigenista Missionário (Cimi) contou, no ano passado, 1.276 investidas contra povos originários: 897 relativos à omissão e morosidade da demarcação de territórios, 169 conflitos e 210 invasões.

A Anistia Internacional apontou em seu relatório anual “um cenário de graves e sistemáticas violações de direitos humanos” no Brasil. Mencionou a violência policial como ponto crítico e crescente, assassinato de líderes indígenas, escalada de feminicídios, racismo e LGBTfobia, além das desigualdades agravadas pela crise climática. Quatro décadas atrás, quando pousou no Acre para apurar a morte de Chico Mendes, Zuenir trabalhava contra as chagas que se estendem ao século XXI. Líder dos seringueiros e ativista pela Floresta Amazônica, Chico Mendes tombou com um tiro de escopeta no peito, disparado pelo filho de um fazendeiro, Darci Alves Pereira, a mando do pai, Darly Alves da Silva.

Anos depois, passou temporada em Vigário Geral, na Zona Norte carioca, para acompanhar a comunidade traumatizada com a chacina que vitimou 21 moradores em agosto de 1993. Da imersão nasceu “Cidade partida”, obra que ancorou o debate sobre segregação, violência urbana, desigualdade e identidade num Rio de Janeiro que, ex-capital federal, se habituara a debater mais o Brasil que os próprios problemas. É livro essencial para quem abraça ou refuta a tese da urbe fraturada.

Zuenir inventariou a geração de estudantes que enfrentou a ditadura, após a instauração do Ato Institucional Número 5, o mais brutal do regime. “1968, o ano que não terminou” ganhou o Prêmio Jabuti, o mais importante da literatura brasileira, e inspirou a série “Anos rebeldes”, sucesso da TV Globo nos anos 1990.

Zuenir encarou a miséria e a brutalidade. E nos contou com texto preciso e abordagem sensível. Nunca deixou de denunciar barbaridades. Tampouco esvaziou-se de esperança, perdeu o brilho no olhar, tirou o sorriso dos lábios, soltou a mão dos amigos.

Desse legado viveremos.

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AS ELEIÇÕES E O RISCO DE DESMONTE NA CULTURA

Juliana Diniz, O Povo

A proposta de Ciro Gomes é bem coerente com o perfil mais à direita que incorporou nestas eleições. O eleitor conservador vê o investimento em cultura como desperdício, sente uma desconfiança que muitas vezes se confunde com o anti-intelectualismo

Sabemos que nem toda promessa de campanha deve ser levada a sério, mas a possibilidade de que a ideia desastrosa de um candidato seja levada adiante em caso de vitória demanda nossa preocupação real. Eu me refiro à declaração de Ciro Gomes sobre a promessa de destinar os recursos que atualmente mantêm o Instituto Mirante para as pastas de segurança e saúde.

O instituto é responsável pela gestão dos equipamentos culturais do estado. Pinacoteca, Museu da Imagem e do Som, Centro Cultural do Cariri, Estação das Artes, Kuya - Centro de Design do Ceará e o Mercado AlimentaCE são alguns dos equipamentos geridos pela organização social criada em 2021. Os equipamentos pertencem à Secretaria de Cultura, mas todas as ações realizadas por eles são geridas e executadas pelo instituto, num modelo de descentralização administrativa que, muitas vezes, traz mais celeridade e eficiência para o trabalho do estado.

A verdade é que o Ceará viveu na última década um florescimento muito significativo na área. A própria lista dos equipamentos mencionados no parágrafo anterior é um resultado disso. Com mais recursos sendo destinados, a pasta ganhou corpo e produziu entregas importantes que fortaleceram a economia criativa no estado e o investimento em talentos locais.

Um exemplo que ilustra bem foi a indicação do filme Feito Pipa para representar o Brasil no Oscar. Produzido e filmado no Ceará, o filme é o fruto do investimento em formação técnica na área do audiovisual cearense.

A proposta tão ameaçadora de Ciro Gomes é bem coerente com o perfil mais à direita que ele incorporou nestas eleições. O eleitor conservador vê o investimento em cultura como desperdício, sente uma desconfiança profunda que muitas vezes se confunde com o anti-intelectualismo, e acredita que faz mais sentido gastar com a polícia do que com políticas de promoção das artes em geral. Ao ameaçar cortar o dinheiro do Mirante, o candidato falou ao seu eleitorado na linguagem que ele festeja.

O que o cearense precisa avaliar é se vale a pena abrir mão do desenvolvimento ímpar que vivemos na cultura, tão superlativo quando comparamos o exemplo cearense com os estados vizinhos do Nordeste, em nome de uma proposta motivada pelas desavenças pessoais do candidato com o senador Camilo Santana. Afinal, a melhor forma de matar um museu é retirar/diminuir sensivelmente o seu financiamento ou desmontar sua gestão.

As políticas de cultura educam para a vida, cuidam, promovem o talento, fortalecem a economia e nos tornam mais humanos e sensíveis. Elas são um patrimônio nosso, que transformam o nosso cotidiano e alimentam nosso potencial para a vida. Abrir mão do direito à fruição da arte é uma temeridade irresponsável e infeliz.

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DESAFIOS NA ERA DIGITAL

Pedro Serrano, CartaCapital

As profundas mudanças causadas pelas novas formas de comunicação exigem mecanismos mais eficazes para salvaguardar o Estado Democrático de Direito

Ao traçarmos uma linha evolutiva do pensamento jurídico ao longo do último século, fica evidente que a era digital representa um marco histórico não apenas nas formas como as pessoas interagem: as transformações digitais também trouxeram novos desafios para a proteção dos direitos fundamentais na contemporaneidade. Em retrospectiva, a aplicação clássica do Direito, como ciência isolada, através da visão de puristas como Hans Kelsen, perdeu espaço no período pós-Segunda Guerra Mundial. Naquele tempo de reconstrução, não era mais plausível o entendimento de que o Direito caminharia fundado em critérios estritamente objetivos, autônomos e neutros em relação aos valores morais e à política, conforme defendia Kelsen.

Foi nesse contexto do pós-Guerra que surgiram Constituições muito mais preocupadas com as garantias essenciais dos indivíduos e centradas na dignidade humana. O ordenamento jurídico passou a ser influenciado e até mesmo conduzido por intensas disputas políticas, ideológicas e morais. Nessa medida, esse novo constitucionalismo explicitou a incapacidade do positivismo ortodoxo de outrora de dar conta das dimensões morais e políticas que o Direito passava a abarcar. Abriu-se, assim, caminho para um conceito de Direito enquanto prática social, não como texto. A Constituição passou a ser a lei suprema do Estado, assumindo uma posição jurídica de vértice do sistema.

É chegado o momento de uma evolução desse modelo. O fenômeno da globalização, intensificado a partir dos anos 1990 e capitaneado pelas rédeas do poder econômico, trouxe novos e inexoráveis paradigmas ao exercício do Direito. A questão é que , sobretudo com os avanços tecnológicos mais recentes, as interações se expandiram por territórios cujas delimitações fogem ao alcance da capacidade normativa das Constituições formais. Conceitos como os de unidade, completude e congruência extrapolam os domínios das funções estatais e ficam à mercê de sistemas organizados, de natureza privada, que, por sua vez, são guiados pelas imposições do capital financeiro.

A gradual fragilização dos direitos fundamentais, dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade nos leva a refletir sobre o poder global das redes digitais que, valendo-se do desenvolvimento tecnológico e da inovação, reformulou as condições e possibilidades das relações humanas. Na era digital, a comunicação ampliada dificulta a proteção da intimidade, da privacidade, da honra e da imagem. Para enfrentar abusos e crimes, o Direito busca criar medidas legais que impeçam essas práticas.

Um exemplo brasileiro é a Lei nº 15.123, de 24 de abril de 2025, que, para combater práticas como a dos deepfakes (manipulações de imagens e sons da vítima), determina um aumento de pena para o crime de violência psicológica contra a mulher quando cometido com o uso de Inteligência Artificial ou outros recursos tecnológicos. Evidentemente que leis desse tipo se conectam em essência a princípios constitucionais. As profundas mudanças socioeconômicas causadas pelas novas formas de comunicação exigem também mecanismos mais eficazes para salvaguardar o Estado Democrático de Direito.

Nessa busca, cabe destacar iniciativas como a obra Constitucionalismo Político e a Ameaça do ‘Mercado Total’, de Emilios Christodoulidis, professor de Teoria do Direito na Universidade de Glasgow, na Escócia, e que morreu em fevereiro deste ano. O autor vale-se da nomenclatura “Constituição Política” para distingui-la das chamadas formas de “constitucionalismo de mercado”, as quais procuram subordinar as expectativas normativas da Constituição e, inclusive, as expressões da vontade democrática às exigências do poder econômico. Em outras palavras, a obra realiza, de forma inovadora, uma incursão nos desafios impostos pelo mundo globalizado para as Constituições, bem como para os chamados princípios do constitucionalismo político, severamente desafiados pelo poder de mercado e pelas aspirações dele derivadas. A proposta é usar o próprio Direito como instrumento político e democrático de resistência e de proteção do trabalho humano diante da precarização promovida pela lógica neoliberal. Esse cenário exige legislações que não sejam apenas conjuntos rígidos de regras voltadas ao consenso ou ao mercado. Elas devem permitir disputas políticas e participação popular, enfrentando as limitações impostas pelo sistema financeiro global.

A exemplo de Christodoulidis, cabe-nos desbravar novas possibilidades de regular pelo Direito as relações humanas mediadas pelas tecnologias. Afinal, não há “terra sem lei” e, quando o Direito não as estabelece, prevalecem as leis do capital. •

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

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DE TOCQUEVILLE ÀS BIG TECHS

Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

As plataformas digitais solapam os ideais de igualdade nos Estados Unidos celebrados pelo chanceler francês

As turbulências trumpistas que assolam a sociedade e a política do Grande Irmão do Norte recomendam uma ­revisita a Alexis de ­Tocqueville. Ele escreveu na Introdução de seu livro, o clássico Democracia na América: “Entre os novos objetos que, durante minha estada nos Estados Unidos, chamaram ­minha atenção, nenhum me impressionou tanto quanto a igualdade de condições. Descobri sem dificuldade a influência ­prodigiosa exercida por esse primeiro ­fato no andamento da sociedade; ele confere ao espírito público uma certa direção, um certo curso às leis; aos governantes, novas máximas; aos governados, hábitos particulares”.

Na era Trump, o espírito público celebrado por Tocqueville transfigurou-se no poder privado das big techs. Peter Thiel argumentou que “talvez se pudesse realmente mudar o mundo unilateralmente – sem precisar constantemente convencer as pessoas, implorar e implorar para pessoas que nunca concordariam com você – por meios tecnológicos… a tecnologia é uma alternativa incrível à política”.

Rachel Leigang, correspondente do jornal The Guardian nos Estados Unidos, entrevistou norte-americanos revoltados com suas condições de vida. Brian Leeland, eleitor democrata de 79 anos de Detroit, confessou à jornalista que não aguenta mais. Ademais, declarou-se frustrado com a forma como a mídia dos EUA cobre esta era política conturbada. ­Leeland não está só em sua cruzada contra os abusos e malfeitos de Trump.

Os eleitores não têm condições de pagar por assistência médica ou creche. Os preços dos alimentos e da gasolina continuam a subir, enquanto os mais ricos continuam a enriquecer. Agricultores e pequenos empresários enfrentam tarifas e uma guerra comercial. Moradores de pequenas cidades protestam contra a instalação de data centers. Eles não querem que os EUA se envolvam em guerras no exterior. Os direitos das mulheres e o acesso ao aborto estão em retrocesso.

Em artigo recente no Substack, o ex-secretário do Trabalho Robert Reich não trepidou em afirmar que a força mais poderosa na política norte-americana é a fúria anti-establishment contra um sistema visto como manipulado contra o trabalhador comum. A Inteligência Artificial tornou-se o exemplo perfeito. Até recentemente, ambos os partidos evitavam criticar as elites corporativas ricas que financiavam suas campanhas. Na natureza, como na política, não se morde a mão que alimenta. Nos estertores de seu mandato, Joe Biden não hesitou, porém, em denunciar que uma oligarquia se formava na América, “de extrema riqueza, poder e influência, que literalmente amea­ça toda a nossa democracia, nossos direitos e liberdades básicos, e uma chance justa de todos progredirem”. Biden disse estar “igualmente preocupado” com uma emergente “tecno-oligarquia”.

Quando perguntaram ao ex-ministro grego Yanis Varoufakis sobre o déficit democrático na União Europeia e nos Estados Unidos, ele soltou uma gargalhada e disse: “Déficit democrático? Não se tem democracia. A democracia real supõe que os cidadãos não só elejam como também tenham participação nas decisões diretamente mediante a construção de acordos sociais. Na verdade, estamos vivendo um período, no mundo inteiro, onde a democracia não é uma democracia, é uma oligarquia financeira e midiá­tica que manda no mundo”.

Biden, nos estertores do mandato, denunciou o surgimento de uma “tecno-oligarquia” que ameaça a democracia

Enquanto isso, os republicanos de Trump direcionaram sua fúria populista contra imigrantes, LGBTs, negros e latinos, “comunistas”, muçulmanos, os chamados líderes “progressistas”, “elites costeiras”, “mulheres sem filhos que têm gatos” e outros bodes expiatórios. Aqui cumpre relembrar as palavras de Franklin Delano Roosevelt no Congresso do Partido Democrata, em 1936. O pai do New Deal discursou sobre as ameaças da oligarquia financeira para a sociedade: “Era natural e talvez humano que os príncipes privilegiados dessa nova dinastia econômica, sedentos por poder, tentem alcançar o controle do próprio governo. Eles criaram um novo despotismo e o embrulharam nos vestidos de sanções legais. Em seu serviço, novos mercenários procuraram regimentar o povo, seu trabalho e sua propriedade”.

A diatribe de Franklin Delano sobre os ricos e poderosos prosseguiu: “Novos impérios foram construídos a partir do controle das forças materiais. Mediante o novo uso das corporações, dos bancos e da riqueza financeira, da nova maquinaria da indústria e da agricultura, do trabalho e do capital – nada disso sonhado pelos fundadores da pátria –, a estrutura da vida moderna foi totalmente convertida ao serviço da nova realeza. Não havia lugar nos seios da nova nobreza para abrigar os milhares de pequenos negócios e comerciantes que desejavam fazer um uso sadio do sistema americano de livre iniciativa e busca do lucro”.

O governo Roosevelt contou com a preciosa participação de Ferdinand ­Pecora, conselheiro da Comissão do Senado que investigava os banqueiros envolvidos na crise de 1929. A estratégia de ­Pecora era personalizar os abusos que levaram a economia ao colapso, e ele começou pelo topo. Sua primeira testemunha foi Charles E. Mitchell, presidente e diretor executivo do National City Bank, hoje Citibank, na época a maior e mais prestigiosa instituição financeira do ­país. ­Mitchell era considerado intocável. ­Quando ­Pecora terminou de pressioná-lo, ­Mitchell renunciaria em desgraça e faria um acordo para encerrar uma ­acusação criminal por sonegação fiscal, pagando uma multa de 1 milhão de dólares.

A política econômica de Roosevelt significou a vitória do indivíduo-cidadão sobre o individualismo selvagem daqueles que enriqueceram à farta nos ciclos anteriores de prosperidade. O cidadão-trabalhador não deveria mais ficar à mercê das idiossincrasias do mercado, dos caprichos do processo de concorrência.

Nos Estados Unidos da era Trump, o comportamento decepcionante dos rendimentos da maioria reafirma a importância do encolhimento dos sindicatos, sobretudo a redução no número de sindicalizados, o crescimento do trabalho em tempo parcial e a título precário e a destruição dos postos de trabalho mais qualificados na indústria de transformação, sob o impacto da concorrência chinesa.

O lento crescimento da renda das famílias de classe média padeceu as dores do aumento das horas trabalhadas e, portanto, do tempo livre disponível para fruir as benesses da vida social. Não resta sequer a ilusão de que a maior desigualdade foi compensada por maior mobilidade das famílias e dos indivíduos, desde os níveis mais baixos até os mais elevados da escala de renda e riqueza. 

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

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DEMOCRACIA EM PERIGO

Leonardo Avritzer e Carmen Leitão*, CartaCapital

Entre a erosão interna e a coerção externa

Desde o pós-Guerra, os Estados Unidos reivindicaram um papel central na defesa internacional da democracia e dos direitos humanos. Ao longo das décadas, combinaram a participação na construção de instituições multilaterais com instrumentos próprios de avaliação e de pressão sobre outros países, como os relatórios de direitos humanos do Departamento de Estado. A esse repertório somaram-se as sanções da Lei Magnitsky e, em outra frente, as designações de organizações estrangeiras como terroristas, com efeitos para além das fronteiras norte-americanas.

Essa trajetória nunca esteve isenta de seletividade e de contradições entre os princípios proclamados e os interesses de Washington. Sob Donald Trump, o problema assume uma dimensão adicional: a erosão democrática articula-se à instrumentalização de recursos diplomáticos, econômicos, para constranger instituições e decisões soberanas de outros países. Instrumentos apresentados como proteção dos direitos e da segurança internacional são mobilizados para fragilizar a própria democracia. Não se trata, portanto, apenas da perda de credibilidade de uma potência que defendeu a democracia e se apresenta como sua guardiã, mas da conversão de seu poder em vetor de erosão democrática. É essa convergência entre regressão interna e coerção externa que torna o caso norte-americano relevante para a América Latina e para o Brasil.

Os indicadores recentes dimensionam esse processo. O relatório The Global ­State of Democracy 2026, de The ­International Institute for Democracy and Electoral ­Assistance, descreve esse momento: 98 países, 57% de todos os analisados, re­cuaram, entre 2020 e 2025, em ao menos um fator que mede a democracia. A liberdade de expressão caiu em 42 e a ­liberdade de imprensa, em 39. Em 2025, pelo décimo primeiro ano consecutivo, houve mais retrocessos do que avanços. O dado mais inquietante encontra-se no lugar de onde a regressão agora se irradia em uma escala nunca vista na história: os Estados Unidos, centro excepcional de poder econômico, tecnológico e narrativo.

A deterioração norte-americana é explícita e multidimensional, e envolve quedas significativas no acesso à justiça, igualdade econômica, Parlamento efetivo, imprensa, partidos livres e independência judicial. Portanto, não se trata de uma transgressão democrática isolada nem de uma oscilação trivial. A regressão democrática nos EUA tem cruzado fronteiras e registra tentativas de influência na Argentina, Colômbia e Honduras. O Brasil chega a esse teste em condições mais favoráveis do que seus vizinhos, embora ainda seja vulnerável. O International IDEA registra avanços em oito fatores entre 2020 e 2025, enquanto o V-Dem classifica o Brasil como um caso de “U-turn” democrático, caracterizado pela interrupção e reversão do processo anterior de autocratização, iniciadas em 2022. Apesar disso, o V-Dem situa o País numa zona cinzenta entre a democracia eleitoral e a liberal. A melhora revela que a regressão, embora interrompida, não foi plenamente superada.

O processo brasileiro resistirá se nenhuma potência puder transformar o voto em instrumento de barganha ou de dominação

O componente igualitário brasileiro ocupa apenas a 81ª posição no V-Dem. Igualdade política, bem-estar, segurança pessoal e expressão seguem como intermediários no IDEA. Violência política, ataques a defensores de direitos, racismo e desigualdades de gênero e de território restringem quem consegue falar, ser ouvido na disputa pública. Nesta perspectiva, a democracia também é violada quando a pobreza, o medo e a ausência de serviços reduzem a liberdade. SUS, educação, proteção social, ciência e política ambiental são, por isso, infraestrutura democrática central para o Brasil.

Nas eleições deste ano, 13 candidaturas foram registradas, embora a disputa esteja concentrada entre Lula e Flávio Bolsonaro. O que é preciso perguntar a todos(as) os(as) candidatos(as): que limites aceitam quando governam e que garantias reconhecem quando perdem?

O presidente Lula propõe um Estado social e desenvolvimentista, com foco na redução das desigualdades, no fortalecimento do SUS e da educação pública, na reindustrialização, na transição ecológica e na política externa multilateral. Sua potência democrática reside na reconstrução das capacidades públicas e dos canais participativos. Para ele, a governabilidade não significa opacidade orçamentária, tolerância a velhas práticas de coalizão ou dependência excessiva do Judiciário. Portanto, democracia social, controle institucional e devido processo precisam avançar juntos, para que o Brasil melhore ainda mais seus indicadores de democracia liberal no V-Dem e possa servir de exemplo em uma das regiões nas quais a democracia está sob ataque.

O senador Flávio Bolsonaro oferece continuidade renovada do bolsonarismo, com ênfase no endurecimento penal, na redução da maioridade penal para crimes graves, em escolas cívico-militares, em cortes de gastos sociais, na revisão fiscal e em limites ao STF. Reformar decisões monocráticas ou acabar com privilégios são pautas consideradas legítimas no espectro político-ideológico em que se apoia. É alto o risco de combiná-las com hostilidade à imprensa, ambiguidade quanto à derrota eleitoral, segurança de exceção e apoio a pressões estrangeiras sobre as instituições brasileiras. O teste objetivo inclui, como questões: Reconhecerá o resultado auditado? Recusará violência e tutela militar? Concederá ao adversário as garantias que reclama para si? E, principalmente, aceitará a posição de intermediário nos interesses dos Estados Unidos na região?

A democracia exige compromisso com o resultado, transparência nos contatos externos, proteção a jornalistas, rastreabilidade da publicidade digital, controle civil das forças armadas e devido processo legal. Exige também soberania democrática e digital, o direito da sociedade de decidir sem coerção e regulando as formas de comunicação pública independentemente dos interesses das grandes plataformas defendidas pelo governo Trump. ­Protegê-la­ demanda multilateralismo, diversificação comercial e redução das desigualdades que expõem as pessoas ao medo e à desinformação. Esta é a principal questão em jogo hoje. Os Estados Unidos, em sua crise de hegemonia, mudaram a forma como eles se relacionam com seus aliados. A democracia brasileira resistirá se nenhuma potência puder transformar o voto brasileiro em instrumento de barganha ou de dominação. 

*Leonardo Avritzer é professor titular aposentado da UFMG. Carmem Leitão é professora da Universidade Federal do Ceará e vice-presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Publicado na edição n° 1432 de CartaCapital, em 30 de setembro de 2026.

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SINAIS TROCADOS E PAÍS DIVIDIDO

Murillo de Aragão,Veja

Pesquisas indicam espaço para novo movimento por voto útil

A dez dias da eleição, os institutos parecem discutir entre si. A AtlasIntel dá a Lula 45,8% contra 43,4% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e ainda o mantém à frente no segundo, por 47,7% a 47,4%. A Quaest registra Lula com 37% e Flávio com 33%, mas inverte no segundo turno: 42% a Flávio e 41% a Lula. Tudo dentro da margem de erro, com ressalva relevante: no início do mês, a mesma Quaest ainda concedia 7 pontos de vantagem ao presidente.

A série histórica ajuda a entender o momento. Nas últimas cinco eleições, o Datafolha feito a dez dias do pleito chegou perto do resultado obtido pelo candidato do PT. Lula tinha 49% em 2006 e fez 48,6%; Dilma marcava 46% em 2010 e acabou com 46,9%; Lula aparecia com 47% em 2022 e alcançou 48,4%. Com seus adversários, ocorreu algo diferente. Alckmin passou de 31% para 41,6% em 2006, Aécio de 18% para 33,5% em 2014, Bolsonaro de 28% para 46% em 2018 e de 33% para 43,2% em 2022. Na véspera do segundo turno de 2022, Lula tinha 52% contra 38% e acabou vencendo por apenas 50,9% a 49,1%. Em boa medida, esse movimento decorre do voto útil.

O mesmo fenômeno começa a aparecer na Quaest. Ronaldo Caiado, Renan Santos e Augusto Cury somam 13% das intenções de voto, e mais de 40% de seus eleitores admitem mudar. Entre os apoiadores de Caiado, a disposição para trocar de candidato passou de 41% para 52% em uma semana. Entre os de Renan, de 47% para 51%. Cury permanece estável, em 41%. Zema, com 1%, é a exceção: entre seus eleitores, a disposição para mudar caiu 19 pontos, chegando a 42%. A terceira via começa a perder eleitores, ainda que isso não apareça integralmente nas intenções de voto.

“Caiado, Renan e Cury somam 13% das intenções de voto e mais de 40% admitem mudar de candidato”

Já nas duas principais candidaturas, o eleitorado parece cada vez mais consolidado. Entre os eleitores de Lula, 86% afirmam que a decisão é definitiva, 8 pontos a mais em uma semana. Entre os de Flávio, são 82%, 10 pontos a mais. Há pouco espaço disponível, e boa parte dele está em candidaturas à direita. Para Flávio, o caminho passa por antecipar a migração, insistir no custo de vida e focar no Sudeste.

Parte da divergência entre os institutos pode estar no método. A AtlasIntel faz recrutamento digital e tende a encontrar um eleitor mais engajado e com voto definido. Já a Quaest, com entrevistas presenciais, alcança também um eleitor menos mobilizado, que ainda admite rever sua escolha. É precisamente nesse contingente que está uma das principais incógnitas dos próximos dez dias.

A eleição está em aberto. A experiência das eleições anteriores mostra que o candidato do PT costuma chegar à reta final relativamente próximo do que indicavam as pesquisas, enquanto seus adversários, em várias ocasiões, cresceram de maneira expressiva nos últimos dias. A Quaest sugere que existe novamente um contingente de eleitores disposto a migrar, desta vez concentrado principalmente em candidaturas à direita. Se essa movimentação ocorrer, mesmo que em menor proporção, Flávio pode chegar ao primeiro turno em situação mais apertada com Lula do que algumas leituras de pesquisas sugerem. A dez dias da votação, os números permitem falar em disputa acirrada. O favoritismo de Lula deu lugar à incerteza.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014

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DESALENTO

José Casado, Veja

No segundo turno, talvez o eleitor descubra o que governo e oposição querem fazer com o país

Pedro Paulo Soares Pereira é um rebelde da periferia paulistana. Por trapaças da história, aos 56 anos o Mano Brown, do grupo de rap Racionais MC’s, passou a suspeitar que tenha virado um conservador.

Não perde o humor: — Vocês sabem que pega bem, pega muito bem, pra um rapper ser um defensor do sistema e do presidente? — disse numa conversa recente com outro poeta, Nei Lopes, e a cantora e atriz Thalma de Freitas.

— É realmente o fim do mundo! — ela replicou, rindo.

Pedro Paulo zombava do próprio personagem, que fala em versos de um Brasil onde perdedores disputam a sobrevivência com desamparados: — Sei lá, em algum momento, o Mano Brown foi um cara que tinha o pensamento da revolução e hoje é um conservador. “Tamo” lutando pra manter a situação, de novo… É onde nós “tamo”. Fazendo força pra eleger o que já tá eleito, de novo. Quer dizer, olha o lugar que nós “tamo”, velho. O que sobra pra molecada? Nos contestar. Não (ir) votar ou votar no cara da direita só pra atacar a posição dos velhos. Eu vejo essa molecada, que é muito religiosa, que tá falando em se casar… Olha, que loucura! Tá entendendo? Eles estão especialmente conservadores…

Efeito da erosão política, comentou, da longa permanência no poder: — Desmontou o senso de classe, enfraqueceu a ideologia, o próprio poder… Ali, já no quarto governo de esquerda, ali antes da Dilma (Rousseff) sofrer o golpe, já “senti” um projeto de continuidade na esquerda. Então, falei: isso não vai dar certo. Cheguei a comentar com o meu amigo (Eduardo) Suplicy. Eu falei: “Você não acha que tá na hora de dar uma alternada no poder, não?”. Isso tem dez, não, catorze anos, mano… A Dilma nem tinha caído… E aconteceu essa coisa de manter o poder… A manutenção do poder custou o poder, custou a base.

É a eleição do desalento, sob inédito clima de apatia. Até a semana passada, ao menos quatro em cada dez eleitores jovens (da faixa de 16 a 24 anos) diziam não ter escolhido um candidato à Presidência, situação nunca vista por pesquisadores como Mauricio Moura, do Instituto Ideia, desde a redemocratização.

“No segundo turno, talvez o eleitor descubra o que governo e oposição querem fazer com o país

Assim, depois de 37 anos como candidato constante do Partido dos Trabalhadores, Lula vai às urnas no próximo domingo (4/10) sem ter conseguido encantar os mais novos com seu projeto para um quarto mandato.

É novidade porque, como lembrou Moura em conversa com a repórter Bianca Gomes, essa fatia do eleitorado era a “linha de frente” de Lula e do PT nas eleições — “sempre foi assim, de 1989 até 2002, quando ele ganhou com 80% do voto dos jovens”.

Se o governo não produziu empatia, a oposição se mostrou inepta. Permanece fragmentada, sem bússola e sem rumo. Jair Bolsonaro, preso e inelegível, escolheu um dos filhos parlamentares para ser o candidato do Partido Liberal. O sobrenome conhecido levou o primogênito à liderança nas pesquisas, entre os oposicionistas, mas não conseguiu sair da solidão eleitoral a que a extrema direita acabou relegada pelos antigos aliados.

Flávio Bolsonaro, além disso, segue encalacrado num enredo recheado de suspeitas em parceria com o “irmão” Daniel Vorcaro, antigo dono do Banco Master, que acaba de completar seis meses em prisão preventiva por maracutaias bilionárias no mercado financeiro.

Até agora, governo e oposição não conseguiram apresentar ao eleitorado um projeto nacional viável, uma proposta coerente e consistente de esperança de progresso individual, de melhoria da vida nas cidades cada vez mais violentas e de resgate do país da estagnação, depois de quatro décadas aprisionado na economia de baixa renda.

A soma dos fracassos contribuiu para a falta de engajamento durante a campanha e a razão do embaraço na reta final: duas semanas antes da eleição, quase metade (46%) da massa de eleitores com idade entre 16 a 59 anos dizia nas pesquisas ainda não ter se preocupado em escolher candidato a presidente, como mostrou a Quaest. Eles são donos de sete em cada dez votos disponíveis. Somam 120 milhões de pessoas num eleitorado de 158 milhões.

Entre os interessados, com voto já definido, Lula e Flávio seguiam concentrando 84% das intenções de voto para o primeiro turno, ocasionalmente empatados, e com os demais dividindo os 10% restantes.

Mantido esse quadro, haverá segundo turno na eleição presidencial — talvez, então, seja possível ao eleitor descobrir o que governo e oposição planejam fazer com o país e com o seu bolso até 2030.

Publicado em VEJA de 25 de setembro de 2026, edição nº 3014

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PRECISAMOS CONVERSAR SOBRE O STF

Marcus Pestana, Congresso em Foco

É inacreditável o que está ocorrendo. Nossa Suprema Corte, o STF, virou assunto de botequim. Inconcebível que o impeachment de ministros do STF tenha virado o principal assunto da campanha de 2026, em clima de Cruzeiro X Atlético ou de Fla X Flu. Há temas envolvendo nossa organização econômica e social e a inserção do Brasil numa realidade global turbulenta muito mais importantes.

Daron Acemoglu e James Robison em seu best seller “POR QUE AS NAÇÕES FRACASSAM” argumentam que o sucesso ou o fracasso de uma país depende da qualidade das instituições, onde há instituições inclusivas, que promovem a participação da população e a inovação, e instituições extrativas, que concentram o poder em uma elite dominante. O livro resultou no Prêmio Nobel de Economia para Acemoglu e Robison, em 2024.

O escândalo do Master e as consequências na imagem externa do STF e na convivência interna na Corte, dinamitaram a sua credibilidade, já questionada antes, junto à sociedade brasileira. A última pesquisa GLOBO/Quaest, de setembro, revelou que 56% dos brasileiros afirmam não confiar no STF, 30% confiam pouco e 9% confiam muito.

A sessão do STF, do último 15 de setembro, tendo como pauta a abertura de investigação sobre as relações entre o Ministro Alexandre Moraes e Daniel Vorcaro, foi a gota d’água. Transmitida ao vivo pela TV Justiça e outros canais, foi acompanhada por centenas de milhares de brasileiros, fora a repercussão jornalística e nas redes sociais posterior. Só a CNN teve a maior audiência de sua história com 450 mil espectadores. Os mecanismos de transmissão ao vivo, criados em nome da transparência, colocaram a nu a fratura exposta nas relações entre os ministros, a radicalização do debate e o distanciamento em relação às expectativas da população. Hoje, o brasileiro comum sabe escalar os dez magistrados de nossa mais alta Corte como escalava a seleção brasileira, em plena Copa. Nos EUA, se um dos nove integrantes da Suprema Corte entrar em um shopping, provavelmente não será reconhecido. Aqui a hostilidade popular é crescente.

Mas como diria o “grande filósofo contemporâneo” Dadá Maravilha, o Peito de Aço: “Não me venham com a problemática, que eu tenho a solucionática”. Fora a equivocada percepção difundida de que a função mais importante de um senador da República é cassar ministros do STF, é preciso reconhecer que a presente crise impõe uma profunda reforma do nosso Judiciário.

A vantagem da democracia é permitir, diante de crises, que se vá formando consensos em torno de soluções, e elas apontam, no caso do STF, para seis medidas: 1. Mandato de 10 anos para não permitir a perpetuação de posições de poder; 2. Impedimento que parentes atuem, direta ou indiretamente, em favor de clientes com processos na Corte;  3. Fim das decisões monocráticas sobre assuntos relevantes envolvendo grandes interesses, resgatando o princípio da colegialidade; 4. Mudanças nos critérios e no processo de nomeação de ministros, fortalecendo a exigência de notório conhecimento e experiência e idade mínimas, quem sabe, com uma lista tríplice vinda do presidente da República para o Senado decidir; e, 5. Aprovação de um Código de Ética para regular as relações dos ministros com interesses econômicos, políticos e sociais.

Vamos apostar no sucesso ou no fracasso? Ou, pior, no caos absoluto? 

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A FALTA QUE FAZ UMA CAUSA COMUM

Marco Aurélio Nogueira*, O Estado de S. Paulo

O País está pedindo uma macrorreforma institucional, tema que não surge em nenhuma das campanhas

A oito dias das eleições, o quadro da disputa está congelado. A eleição será, mais uma vez, decidida no photochart, com Lula e Flávio Bolsonaro batendo cabeça na reta final.

Atordoado com tantos escândalos e tanta falta de sinalização, o eleitorado não sabe para onde o País irá. Desaprova o governo de Lula, mas não aprova Bolsonaro com ênfase. Tende a rejeitar quem mais o assusta ou incomoda. Voto defensivo, não programático, o que rebaixa a qualidade da disputa. Faltando ideias e propostas claras, sobram manobras eleitoreiras e jogos de cena. Bolsonaro é impulsionado pelo antipetismo, Lula pela “economia do afeto”, como fala o historiador Alberto Aggio.

Há medo do continuísmo esgotado de Lula e medo do autoritarismo perverso e mal organizado do bolsonarismo.

Os candidatos são completamente diferentes entre si. O governo Lula não é bem avaliado. Sua campanha pela reeleição é pífia, inexpressiva. Mas ele tem conseguido olhar para os mais pobres e resistir ao autoritarismo, sem transigir com a democracia. Já Bolsonaro surge inclinado para a extrema direita, “patriótica” para uns, “entreguista” para outros, sempre com tintas autoritárias e poucas ideias. Fala em “acabar com o sistema”, mas sua meta é aprisionar e desnervar a democracia.

Se a escolha é defensiva, o que mais importa é defender a democracia. A que existe por aqui está sendo sabotada pelas manobras de um Legislativo incapaz de conter seus excessos e de um Executivo incapaz de ordenar o sistema de benefícios que corrói as finanças públicas. Tais benefícios, dirigidos às grandes maiorias pobres, tornaram-se com o tempo objeto de cobiça e disputa, chegando até a pessoas que a eles não fazem jus.

O Estado brasileiro está emparedado pelo patrimonialismo histórico, pelo corporativismo e pela baixa densidade do republicanismo. Agentes privados, articulados por cima (na política) e por baixo (nos interesses particulares e familiares) aproveitam-se da dispersão e da desatenção da população para impulsionar a criação de inúmeras brechas na gestão pública e orçamentária. Abusam de gastos mal justificados, embolsam parte deles, multiplicam beneficiários de programas sociais, exploram até o osso a falta de consciência cívica da população e o atrito entre os Poderes do Estado.

A polarização política e ideológica dá sua contribuição, ao esvaziar a possibilidade de melhores debates e negociações. Ela também funciona por cima e por baixo, produzindo desentendimentos paralisantes, por vezes artificiais. Quando há excesso de “afetos”, também surgem muitos “desafetos”: pessoas que não se sentem incluídas ou que invejam os incluídos. Além disso, benefícios institucionalizados viram direitos, passam a pesar menos nas decisões eleitorais. A polarização se infiltra nesse ambiente.

A crise do Supremo Tribunal

Federal (STF) deixou evidente que a cultura baseada no favor e nas relações pessoais atingiu o âmago do Estado, escancarando-o para a venalidade e a corrupção. Hoje, a Corte se degradou. Mas, a rigor, tudo o que está instituído claudica e bloqueia qualquer avanço. O sistema não está mais funcionando a contento.

O País está pedindo uma macrorreforma institucional, tema que não surge em nenhuma das campanhas. O assunto não é eleitoralmente rentável, mas deveria estar na pauta. Bolsonaro se diz de oposição, mas nada fala a respeito de reformas. Joga atabalhoadamente no ataque. Lula deveria “despetizar” e ampliar sua campanha, de modo a torná-la declaradamente plural e firmemente embebida de saber técnico e científico. O PT está disposto a entregar seus anéis?

Chegou a hora de exigirmos uma reforma ampla e profunda, algo que mexa com os arranjos cômodos que se instalaram entre nós. Precisamos de uma causa comum. Não bastará eleger um presidente que proteja a democracia, pois ele governará comendo o pão que o diabo amassou, arando um terreno onde todos os ratos são pardos. E terá pela frente uma sociedade desorganizada, encharcada de uma indignação passiva, de informações contraditórias e de desigualdades, sem lideranças com envergadura política e apoio social.

Os venenos da polarização viraram matéria gasosa, estão na corrente sanguínea da sociedade. Continuarão a nos intoxicar mesmo depois de fechadas as urnas.

Reformas são processuais. Demandam tempo, ideias, consensos, negociações. O atual sistema está com a língua de fora, mas os interesses que o corroem podem mantêlo vivo por aparelhos. Precisará ser pressionado e confrontado com uma nova e vigorosa ideia de país. Crises e fins de ciclos também abrem janelas de oportunidades. Onde estarão as frestas pelas quais descortinaremos um novo futuro? Necessitamos de normas universais, instituições zelosas de suas funções, equalização dos poderes, contenção dos interesses e dos beneficiários de apoios estatais não sustentáveis.

Ainda não temos o combustível necessário para projetar uma reforma desse porte. Carecemos de articulações democráticas, lideranças consistentes e uma causa comum como guia.

*Professor titular de teoria política da Unesp

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MORRE DOM PEDRO FEDALTO

Do g1 PR

Morre aos 100 anos Dom Pedro Fedalto, Arcebispo Emérito de Curitiba

Dom Pedro Fedalto criou 74 novas paróquias, ordenou 74 padres diocesanos e acolheu diversas congregações religiosas femininas e masculinas na Arquidiocese de Curitiba.

Morreu na tarde deste sábado (26) o Arcebispo Emérito de Curitiba, Dom Pedro Fedalto, aos 100 anos. A causa da morte não foi divulgada.

À frente da Arquidiocese de Curitiba, Dom Pedro Fedalto criou 74 paróquias, ordenou 74 padres diocesanos e incentivou a atuação de diversas congregações religiosas femininas e masculinas.

Em comunicado oficial, a arquidiocese confirmou a morte do religioso e informou que as celebrações do fim de semana serão dedicadas à memória do arcebispo.

O prefeito de Curitiba, Eduardo Pimentel, lamentou a morte do religioso e disse que decretará luto oficial de três dias na capital paranaense.

"Dom Pedro chegou aos 100 anos de vida deixando um legado que atravessa gerações. Foram mais de sete décadas de sacerdócio e 33 anos à frente da Arquidiocese de Curitiba, sempre com fé, serenidade e uma simplicidade que fazia dele alguém próximo de todos", disse o político

A missa de corpo presente ocorre na próxima segunda-feira (28) às 10h, seguida do sepultamento na Catedral Basílica.

Dom Pedro Fedalto liderou a Arquidiocese de Curitiba por 33 anos

Natural de Campo Largo, na Região Metropolitana, Dom Pedro Fedalto é filho de casal de imigrantes italianos e nasceu em 11 de agosto de 1926.

Aos 14 anos, ele ingressou no Seminário Menor São José, em Curitiba, onde permaneceu até completar 20 anos. Após sair do local, Dom Pedro Fedalto cursou Filosofia e Teologia em São Paulo.

Aos 27 anos, ele foi ordenado padre na Catedral Nossa Senhora da Luz dos Pinhais. Dois dias depois, celebrou a primeira missa solene na Capela de Nossa Senhora do Carmo, na Colônia Antônio Rebouças, na localidade onde nasceu.

Em 1971, Dom Pedro Fedalto tomou posse como o quarto arcebispo metropolitano de Curitiba, cargo que ocupou por mais de 33 anos.

Ao longo da trajetória religiosa, o religioso se encontrou pessoalmente com quatro papas: Paulo VI, João Paulo II, Bento XVI e Francisco. Durante os 100 anos de vida, Dom Pedro Fedalto acompanhou o pontificado de nove papas.

Autoridades lamentaram a morte do religioso

Pelas redes sociais, o governador do Paraná, Ratinho Junior, reconheceu que Dom Pedro manteve uma vida dedicada à fé e ao cuidado com as pessoas.

"Recebi com tristeza a notícia do falecimento de Dom Pedro Fedalto, Arcebispo Emérito de Curitiba. Aos 100 anos, deixa uma vida dedicada à fé e ao cuidado com as pessoas. Minha solidariedade à família, aos amigos e a toda a comunidade católica. Que Deus conforte o coração de todos", declarou.

Eduardo Pimentel, prefeito de Curitiba, reforçou que a história do arcebispo se confunde com a história da capital e da igreja paranaense. Confira na íntegra:

"Curitiba perdeu hoje um dos grandes homens da sua história. Em respeito à memória de Dom Pedro Fedalto e a tudo o que ele representou para a nossa cidade, vou decretar luto oficial de 3 dias em Curitiba. Dom Pedro chegou aos 100 anos de vida deixando um legado que atravessa gerações. Foram mais de sete décadas de sacerdócio e 33 anos à frente da Arquidiocese de Curitiba, sempre com fé, serenidade e uma simplicidade que fazia dele alguém próximo de todos. Sua história se confunde com a história da nossa cidade e da Igreja no Paraná. Encontrou quatro Papas e foi ele quem recebeu São João Paulo II naquela visita inesquecível a Curitiba, em 1980. Há pouco mais de um mês, tive a graça de estar ao seu lado na celebração dos seus 100 anos. Recebi sua bênção naquele dia e guardarei esse momento para sempre. Hoje, Curitiba está de luto. Mas também profundamente agradecida pelos 100 anos de uma vida dedicada a Deus, às pessoas e à nossa cidade. Minha solidariedade à família, aos amigos, à Arquidiocese e a todos os fiéis. Que Deus o receba em seus braços."

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sexta-feira, 25 de setembro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO SAI DA ZONA DE CONFORTO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Depois de represadas, revelações sobre Flávio Bolsonaro e a ‘Turma do KN’ saem aos borbotões

Quando se pensa que já se viu de tudo e que o mais grave sobre o escândalo Master já tinha vazado, novas revelações sobre Flávio Bolsonaro e a “turma do KN”, que estavam represadas no STF e nos órgãos de investigação, começam a surgir aos borbotões e, tal como as suspeitas sobre Alexandre de Moraes, não têm resposta.

“Irmão” de Vorcaro, a quem visitava e mandava mensagens, inclusive para pedir R$ 134 milhões, Flávio tem empresas que dividem endereço e contador com as do “Careca do INSS”, que dispensa apresentações, e fez safáris na África do Sul com o deputado Weverton Rocha e o advogado e “amigão” Willer Tomaz, ambos metidos nas fraudes do... INSS.

Ah! Willer Tomaz comprou de Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, o apartamento usado por Flávio na pré-campanha à Presidência em São Paulo. Numa estranha aritmética comercial, Zettel comprou o imóvel por R$ 5,5 milhões e, meses depois, em fevereiro deste ano, vendeu para Tomaz por R$ 3,5 milhões. Muita generosidade.

Depois de jurar que nem conhecia Vorcaro e ser atropelado pelo áudio pedindo dinheiro, Flávio foi pego em nova mentira. Negou ter usado aviões do banqueiro, mas voltou com a família de Miami no mesmo jato em que Moraes voou com sua mulher de Brasília para o Rio, um Legacy do qual Vorcaro é sócio.

Para piorar, o Grupo Entre, usado por Vorcaro para enviar uma parcela de R$ 60 milhões para o filme Dark Horse, é também investigado por lavar dinheiro do PCC, o que joga suspeitas sobre vínculos do “irmão” Vorcaro com o crime organizado.

O STF também está mal-assombrado. Assim como Dark Horse custa mais caro do que

Ainda Estou Aqui e O Agente Secreto, juntos!, a “turma do KN”, citada nas mensagens de Vorcaro, fez um acordo com o banqueiro por mais do que o dobro dos valores que envolvem Flávio e Moraes, somados!.

Quem é KN? Para a PF, é o ministro do STF Kassio Nunes Marques, metido em caminhos, ou desvios, que levam a Vorcaro. Um deles é um contrato da “turma do KN” que poderia chegar a R$ 427 milhões. O contrato com o escritório de advocacia da família Moraes era de R$ 130 milhões e o empréstimo para Dark Horse, de R$ 134 milhões.

Os valores da “turma do KN” também foram com o escritório de uma advogada, Camilla Ramos, mas ela é casada, não com um ministro do STF, mas com um desembargador do TRF-1, Newton Ramos, que já trabalhou num gabinete de Nunes Marques e é amigão do ministro para toda vida – ou toda obra.

Mais que um banco, o Master era fábrica de dinheiro, companhia de aviação e produtora de festas e filmes. E por que tantas informações sobre Flávio foram represadas por tanto tempo?

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DISPUTA PODE SER A MAIS ACIRRADA

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Diferença do porcentual de votos entre Lula e Flávio é ainda menor do que a da eleição de 2022

A disputa entre o presidente Luiz Inácio da Silva, que tenta a reeleição, e o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, pode ser a mais acirrada e polarizada da história do Brasil desde 1994. Pelo menos é isso que indicam as pesquisas eleitorais até agora. De acordo com a mais recente pesquisa Quaest, a diferença entre as intenções de voto dos dois candidatos é de apenas 4,7 pontos porcentuais, com Lula atingindo 43,5% dos votos válidos no primeiro turno, e Flávio com 38,8%.

Neste momento, a distância é ainda menor que a já disputadíssima eleição de 2022, quando Lula ficou com 48,3% dos votos válidos no primeiro turno e Jair Bolsonaro com 43,2% – uma diferença de 5,2 pontos porcentuais.

Também nunca foi tão alta a soma de votos dos candidatos: Lula e Flávio chegam juntos a 69,6% das intenções de voto no primeiro turno. Em 2018, quando Jair Bolsonaro enfrentou Fernando Haddad, a distância foi muito mais larga: 16,7 pontos porcentuais no primeiro turno.

Até essa polarização exacerbada da sociedade brasileira entre Lula e alguém com sobrenome Bolsonaro, as eleições mais disputadas ocorreram em 2006 e em 2014. Em 2006, Lula terminou o primeiro turno 7 pontos à frente de Geraldo Alckmin. Também

em 2014, a disputa foi quente com Dilma Rousseff superando Aécio Neves por 8 pontos.

Na outra ponta, Fernando Henrique Cardoso venceu Lula por ampla margem já nos primeiros turnos de 1994 e 1998. Foram, respectivamente, 27,2 e 21,3 pontos porcentuais de diferença.

A polarização é a principal explicação para o acirramento da disputa. A sociedade brasileira se dividiu entre seus dois principais líderes políticos recentes: Lula e Bolsonaro – ou, no caso, Flávio, filho que foi ungido por ele. Os Bolsonaro são vistos hoje por uma parcela da população com os únicos capazes de derrotar o lulismo.

De acordo com Guilherme Russo, diretor de inteligência da Quaest, o desempenho apenas razoável do governo Lula também ajuda a explicar o fenômeno. O governo não empolga o suficiente para ganhar uma dianteira confortável de Flávio, mas também não é um desastre que permita o crescimento do adversário.

Outra explicação é o desinteresse dos grandes partidos nas candidaturas presidenciais. Com exceção do PSD, nenhuma outra agremiação relevante se animou a lançar seus quadros na corrida para o Planalto. De olho no fundão eleitoral, mobilizaram todos os seus esforços e recursos nas corridas para a Câmara dos Deputados e para o Senado.

Graças a todos esses números e análises, os especialistas dizem que é impossível prever o que vai acontecer no dia 4 de outubro. Pelo menos até agora. Faltam alguns dias para a eleição e um escândalo de última hora pode mudar esse quadro.

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