sexta-feira, 28 de agosto de 2026

'DARK HORSE' , ESTRANGEIRO ONDE ?

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O verdadeiro produtor de um filme é aquele que o financiou e cujo nome nem sempre aparece

Se o filme sobre Bolsonaro for nacional, ele nos deve, sim, satisfações sobre seus custos

Flávio Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse" , filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência Nacional do Cinema) deu ao filme o registro de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra estrangeira"?

Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.

Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?

Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.

Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.

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TERAPIA DE GUICHÊ

José de Souza Martins*, Valor Econômico

O Brasil é, a seu modo, inovador na questão de filas e suas práticas correlatas. Somos criativos

Nossa sociedade gosta de filas e de esperas, provavelmente mais do que muitas outras. Um jeito de puxar conversa com o vizinho de fila e ocupar o tempo da espera para ser atendido com queixas e reclamações justamente contra filas e esperas. O típico assunto para matar tempo e falar sobre tema de falta de assunto.

Quase sempre, para pôr a culpa no funcionário do banco, da repartição pública ou do hospital pela lentidão no atendimento.

O Brasil é, a seu modo, inovador na questão de filas e suas práticas correlatas. Somos criativos. Quase sempre, nessas pequenas questões populares, o somos pelo avesso do que usualmente são os nativos de países desenvolvidos. A começar pelo fato de que sentimos compulsão de preencher o tempo vazio que é o de uma prática entre momentos de obrigação do trabalho.

Essa ocupação de desocupado até mesmo fica em nossa memória para sempre. Motivo de lembranças e de comentários ocasionais, de reforço de uma ocorrência nova que lembre antiga. Às vezes até como comentário educativo para filhos e netos.

Houve uma época, na adolescência, em que me cabia pagar na agência da prefeitura a conta de água de lá de casa todo mês. Lembro-me de detalhes de uma história de fila. Todos muito irritados na fila lenta, para pagar a conta de água racionada.

Um senhor à minha frente, quando lhe tocou a vez de ser atendido pelo caixa, que o conhecia, perguntou-lhe a que vinha: “Vim pagar o ronco da água”, respondeu agressivo. Quando se abria a torneira vinha somente um ronco pelo cano. De fato, paga-se pelo ronco, pois ainda não havia registros para medir a água consumida. Era uma mensalidade, com água ou sem água.

A conversação de fila tornava-se assim um fato político, onde quer que ocorresse.

Quando finalmente o serviço de água se tornou acessível a todos, ficou a frustração pela falta de assunto para a maledicência contra o governo, fosse ele o responsável ou não pelos problemas das queixas. Todos se vangloriando pelo fato do problema ter acabado como resultado das queixas e reclamações de fila. A queixa de fila era supostamente poderosa em si mesma.

A maledicência da prosa de fila vinha e vem ainda da cultura rústica de roça. Ninguém pode estar em presença de outra pessoa, parado, sem dirigir-lhe a palavra, ignorando-a. É esse entre nós profundo desrespeito. Além do que, sinal de soberba, coisa de gente metida a besta, que se acha superior aos outros. E frequentemente se acha mesmo.

Em nossas filas, onde ainda existem, ao chegar ao guichê ou à entrevista o cliente encaixando comentários pessoais no meio do atendimento. Para incluir assuntos tão descabidos e irrelevantes quanto a receita de um caldinho de peixe ótimo para curar falta de apetite. Ou xarope caseiro de guaco para curar tosse na hora do sono. É claro, sabemos desde sempre que chá de erva cidreira combate a insônia e xarope de maracujá resolve problemas cardíacos.

O sujeito vai ao hospital para fazer uma consulta e quem acaba ouvindo diagnóstico e receita é o médico, tratado como paciente do consulente impaciente.

Sempre que vou ao Hospital Universitário da USP para fazer meus exames periódicos de laboratório, em jejum, no final passo na lanchonete para o café da manhã. Numa das vezes, estava sentado perto de um médico, no trabalho desde muito cedo, que descera para tomar um lanche. Da outra ponta do salão, um sujeito grita: “Doutor! Mamãe está curada!”.

O médico levantou os olhos com expressão de indagação tentando lembrar-se quem era mamãe. “Lembra? O sr. viu os exames dela e diagnosticou que ela estava com câncer. Demos nela um banho de oração, refizemos os exames e o câncer sumiu.”

A fila e a espera, sua correlata, deram lugar a uma “medicina” paralela e popular, que chamo de “terapia de guichê”, em que o protagonista “se cura” do imenso buraco de fala que surgiu entre nós em decorrência do descompasso entre a reclusão da casa e o vazio da rua e dos estabelecimentos comerciais e de serviços em que a pessoa é apenas uma coisa que paga e recebe, que se coisifica na impessoalidade da relação.

É esse um dado da realidade social da alienação e do estranhamento entre a pessoa e o mundo em que vive. E, também, da anomia, situações e momentos em que a realidade parece destituída de regras sociais, embora as tenha no automatismo do silêncio.

Os recintos das filas e esperas se institucionalizaram entre nós de modo oposto ao que ocorreu em outros países. Aqui, parte dessa terapia se manifesta na cultura da burla de filas. Somos a favor das filas para burlá-las, especialmente em cinemas e teatros. Furar a fila é uma técnica de esperteza só nossa. O espertalhão se aproxima de algum conhecido, puxa conversa e vai ficando.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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MARGEM EQUATORIAL E TERRAS RARAS, NOVO FRONTS DE LUTA

Artigo de Fernando Gabeira

Oceano e terras raras, o progresso nos empurra para novas dimensões do debate ambiental no Brasil. Do fundo do mar, nas camadas do pré-sal, o País explora a riqueza do petróleo; do fundo do mar, quando o pré-sal se esgotar, o País vai tirá-lo na Margem Equatorial, próxima à foz do Rio Amazonas.

A nova frente de exploração do petróleo é delicada. O Brasil hospedou a COP-30 em Belém com o objetivo de mostrar a importância e a vulnerabilidade da Amazônia. O País se comporta como um líder na transição energética e um interlocutor indispensável nos esforços para combater e mitigar as mudanças climáticas. É uma contradição, portanto, explorar novas fontes de petróleo na Amazônia. Ocorre que a correlação de forças internas aponta irresistivelmente para a realização desse projeto. A única saída é considerar a contradição como não antagônica e levá-la adiante sem que um dos polos seja eliminado. A equação será explorar o petróleo com rigorosos cuidados ambientais. Se depender de políticos do tipo Alcolumbre, os cuidados vão para o espaço. Se depender da opinião internacional, o ideal seria deixar a Amazônia em paz.

Viajei algumas vezes para a região. Inclusive escrevi um texto para o belo livro de fotos de João Farkas, Costa Norte. O objetivo de uma das viagens foi documentar os manguezais da região, os maiores do mundo. Os manguezais são berçários da vida e hospedam uma grande biodiversidade. Lá na região, há árvores de até 30 metros. Vi muitas pessoas saindo do mato, com fieiras de enormes caranguejos. Na pequena cidade de Bragança, próxima do mangue, o cardápio no restaurante é basicamente caranguejo. Numa viagem ao Amapá, cruzei o Estado e visitei Oiapoque, onde há uma inscrição “aqui começa o Brasil”. Oiapoque é o lugar onde a Petrobras construiu um centro de apoio à fauna porque está mais próxima da área de exploração do petróleo. A cidade não tinha saneamento básico nem água corrente em todos os bairros. Vai passar por um grande crescimento, porque milhares se deslocarão para lá em busca de trabalho. Esse processo na Margem Equatorial servirá para colocarmos o oceano na agenda.

O Brasil está um pouco atrasado em relação à Austrália, por exemplo, na proteção à sua área costeira, ameaçada por inúmeros perigos, inclusive o da pesca predatória internacional. Demos um passo criando o Parque Nacional do Albardão, com um milhão de hectares, no extremo sul do País.

As terras raras são o grande tema econômico do momento. Não são tão raras assim, existem em abundância na China e no Brasil. Chamam-se raras porque, quando foram descobertas em Ytterby, na Suécia, ocorriam em minerais incomuns, difíceis de isolar um dos outros. No momento, americanos exploram as terras raras em Minaçu (Goiás), lugar que se celebrizou pela grande produção de amianto, algo que conseguimos proibir por lei, mas infelizmente ainda sobrevive por meio de artimanhas jurídicas. Empresas australianas estão se preparando para extrair terras raras em Poços de Caldas, Minas Gerais, sob vigilância e oposição de grande parte da cidade.

Vale a pena conhecer a pré-história das terras raras no Brasil. Há um livro da jornalista Tânia Malheiros que descreve a extração de areia monazítica no Brasil no período da 2.ª Guerra. A monazita contém tório, urânio, ilmenita, zirconita e terras raras. O tório e o urânio eram os metais mais procurados pelos americanos. Cientistas escapados do nazismo conseguiam separar os minerais na monazita, e contribuíram para a primeira instalação nuclear no Brasil, em Santo Amaro, bairro de São Paulo. Um dos donos da empresa era o poeta Augusto Frederico Schmidt.

Houve muita discussão nacional sobre a exportação dos minerais e, inclusive, se criou, para variar, uma CPI no Congresso. O governo acabou encampando a Orquiza e passou a tocar o negócio com o nome de Usam Nuclemon, subsidiária da holding Nuclebrás. O livro de Tânia Malheiros conta a história dos trabalhadores atingidos pela radiação. Começaram a trabalhar antes de Hiroshima e Nagasaki, antes do desastre de Goiânia, não tinham consciência do perigo para sua vida.

As terras raras passaram hoje a simbolizar o objeto de desejo da indústria civil e militar. Servem para ímãs, telas de smartphones e TV e também para equipamentos militares. A empresa que extrai terras raras em Goiás está para ser comprada por outra ligada ao Pentágono.

Por outro lado, a regulamentação brasileira foi aprovada na Câmara e adormece no Senado. A exploração está se dando à margem do Rio Tocantins, onde está a represa da Serra da Mesa, maior reservatório brasileiro em volume de água doce. Em Poços de Caldas as terras raras serão exploradas por australianos, sob vigilância crítica. No planalto de Poços de Caldas há uma unidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que abriga entre 12 mil e 15 mil toneladas de resíduos radioativos, além de antigas estruturas de processamento de urânio. A extração de terras raras num lugar já traumatizado, sobretudo em Minas, que conheceu as tragédias de Mariana e Brumadinho, será delicada. Assim como será delicado explorar petróleo na Amazônia. Novos fronts numa luta já tão vasta.

Artigo publicado no jornal Estadão em 28 / 08 /2026

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

RELEMBRANDO DOM HELDER CÂMARA

27 anos sem Dom Helder Camara: relembre a trajetória do líder religioso, marcada pela caridade e luta por direitos humanos, na reportagem abaixo do g1 publicado nos 25 anos da morte de Dom Helder Camara. 

Beatriz Castro, TV Globo, g1

25 anos sem Dom Helder Camara: relembre a trajetória do líder religioso, marcada pela caridade e luta por direitos humanos

Arcebispo emérito de Olinda e Recife é tema de uma série de reportagens especiais da TV Globo.

Religioso, poeta e humanista. Os títulos, apesar de justos, são insuficientes para traduzir quem foi Dom Helder Camara. O “Dom da Paz”, como é conhecido, morreu no dia 27 de agosto de 1999, há 25 anos, mas seu legado segue vivo até hoje nas obras sociais e projetos fundados por ele (veja vídeo acima).

Um dos líderes religiosos, mais relevantes da história do país, Dom Helder teve um trabalho marcante na luta por direitos humanos, sendo um exemplo de caridade e humildade. Também fundou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foi bispo auxiliar no Rio de Janeiro e comandou a Arquidiocese de Olinda e Recife por 21 anos.

Para celebrar a história de Dom Helder Camara, a TV Globo preparou uma série especial de reportagens sobre a vida e trajetória do religioso. Aqui no g1, você vai conferir quem foi o arcebispo, o legado social e religioso dele e o processo de beatificação em andamento que corre no Vaticano.

Quem foi Dom Helder

Helder Pessoa Camara nasceu em Fortaleza, no dia 7 de fevereiro de 1909, numa família simples e numerosa. Era o 11º dos 13 filhos do jornalista e bibliotecário João e da professora da educação infantil Adelaide.

A vocação religiosa de Dom Helder se revelou desde muito cedo, graças à mãe. Helder cresceu frequentando missas aos domingos e dias santos. Teve aulas de catecismo e gostava de brincar de celebrar missas como um padre. Ainda na infância, teve a certeza do que queria fazer no resto da vida e, aos 14 anos, entrou no seminário.

“Desde pequeno, eu dizia: ‘Quero ser padre, quero ser padre’. Talvez eu nem soubesse direito o que era ser padre. Um dia, meu pai chegou e disse: ‘Meu filho, sempre [...] escuto você dizer que quer ser padre. Você sabe o que é ser padre?’. [...] Ele apresentou o retrato de um padre que eu achei uma coisa lindíssima, formidável. Quando ele terminou, eu disse: ‘Meu pai, é um padre assim que eu quero ser’. Pois bem, ele disse: ‘Deus te abençoe’”, contou Dom Helder em entrevista ao Bom Dia Pernambuco de 15 de agosto de 1991.

O religioso precisou de uma autorização especial do Vaticano para se ordenar padre aos 22 anos, já que não tinha a idade mínima exigida de 24 anos. Segundo o padre e historiador Tiago Oliveira Gomes, o início da trajetória do cearense como sacerdote foi influenciada pela formação conservadora no seminário.

“Ele se envolve muito nestes dois campos de atuação, educação e mundo operário, defendendo a visão católica daquela época. Ele se aproxima do integralismo e vai desagradando algumas pessoas”, declarou o estudioso.

Fundado em 1932 pelo jornalista Plínio Salgado, o integralismo foi um movimento nacionalista de extrema-direita que pregava a defesa da tradição da família e dos valores militares. Segundo o escritor, teólogo e padre Marcelo Barros, apesar do envolvimento inicial, Dom Hélder se afastou do movimento e, por vezes, precisou justificar sua mudança de pensamento.

“Ele disse: meu filho, quem tem inteligência muda, eu estou aberto a mudanças permanentemente. Eu soube mudar. O grande problema na vida é quando a gente não sabe mudar”, contou o padre Marcelo Barros em entrevista à TV Globo.

Acervo preservado

Líder da Igreja Católica em Pernambuco por mais de duas décadas (1964–1985), Dom Helder Camara foi um poeta com vasta produção, tendo escrito mais de 7 mil poesias (veja vídeo acima).

"Tinha a poesia nas suas veias, no seu sangue, na sua pele. Dom Helder conversava conosco de modo poético. Vivia como poesia, se movia, ria, andava poeticamente", afirmou o padre e teólogo Marcelo Barros.

O acervo do arcebispo reúne mais de 220 mil páginas, que estão tombadas a partir de um decreto do governo do estado. O material reúne cartas, crônicas, mensagens e discursos reunidos em mais de 300 caixas.

A preservação desse conteúdo, no entanto, foi ameaçada após o local onde estava guardado o acervo ter sido invadido em 2020. Equipamentos foram quebrados e roubados do instituto que protegia as obras.

A partir de então, foi iniciado um processo que está sendo mantido em sigilo para organização, limpeza e, posteriormente, digitalização. Segundo o historiador do Instituto Dom Helder Camara (Idhec), Felipe Xavier, o religioso tinha o costume de anotar tudo o que pensava: "É por isso que nós temos esse grande acervo", contou.

Outras instituições também fazem parte da salvaguarda do legado literário do Dom da Paz. A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) é parceira no projeto do Idhec, tendo digitalizado 120 mil páginas e feito o tratamento de 16 mil fotos que contam a história de parte do século 20 no estado.

De acordo com a superintendente de digitalização e gestão documental da Cepe, Simone Farias, as imagens do acervo passaram a ter uma maior nitidez. "Quando a gente fala em serviço de digitalização é preservar a informação além do tempo", afirmou.

Segundo a coordenadora do curso de história da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Maria do Rosário da Silva, o material ficará à disposição de todos para que pesquisadores e pessoas que admiram a história do arcebispo "possam ter acesso de forma democrática, já que ela fica disponível como um acervo digital", diz.

Com os 25 anos da morte do religioso, o desafio é construir um novo centro de documentação para guardar todos os arquivos em segurança. De acordo com o Idhec, o terreno já foi comprado, e a nova sede do Centro de Documentação (Cedoc) tem previsão de começar a ser construída ainda em 2024.

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A ULTRADIREITA PÔS A POLÍTICA EXTERIOR NA URNA

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Interferência externa é possibilidade considerada e divide a opinião pública

Metade dos eleitores vê chance de países estrangeiros se intrometerem na disputa

Uma enorme bandeira dos EUA, estendida na horizontal, cobria parte do minguado público presente no comício de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, no ensolarado domingo (16), na praia de Copacabana. Impossível adivinhar os motivos de quem teve a iniciativa.

Nas atuais circunstâncias, não deixa de parecer um gesto de júbilo pelas manifestações explícitas de apoio do governo Trump ao candidato da extrema direita —e, talvez, do desejo de que elas prossigam sob outras formas, mais diretas e continuadas.

A interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais brasileiras é uma possibilidade real. O uso político das tarifas, a tentativa de enviar funcionários para verificar a integridade do sistema eletrônico de votação e a crescente crispação nas relações diplomáticas parecem anunciar a intenção de influir no resultado das urnas e de criar um clima favorável à sua contestação, caso o PT leve a melhor.

O que se viu até agora não tem paralelo na história recente das relações EUA-Brasil, baseadas no pragmatismo e na negociação das diferenças. Guarda semelhança com a atuação americana nas nossas eleições parlamentares de 1962, em plena Guerra Fria. Foi quando jorraram dólares para que organizações de direita financiassem candidatos ao Congresso.

A interferência externa é uma possibilidade também considerada pela opinião pública —e a divide. Segundo pesquisa do Datafolha publicada no domingo (23), metade dos eleitores acredita que há chance de países estrangeiros se intrometerem na disputa brasileira. E quase 1/5 (18%) não vê problema nisso.

A aceitação da ingerência externa varia muito conforme a opção política do entrevistado. Entre os que dizem preferir o filho de Jair Bolsonaro, essa porcentagem é 3,5 vezes a dos tendentes a votar em Lula. Da mesma forma, a porcentagem de bolsonaristas declarados que não se incomodam com que outros países tentem influir no pleito é o triplo da dos petistas e pouco menos do que a dos declarados independentes.

Por outro ângulo, os dados confirmam que a radicalização de posições, impulsionada pela ascensão da extrema direita, colocou a política internacional na agenda eleitoral.

Até a segunda década deste século, questões de política externa não faziam parte do rol de temas que diferenciavam os candidatos majoritários e vertebravam a competição por votos. Foi o populismo de direita que as transformou em divisores de opinião e em indicadores de identidade política —mesmo quando não eram questões centrais na política exterior brasileira. Assim, o relacionamento com a Venezuela ou com Cuba ganhou, nas críticas aos governos petistas, dimensão —e espaço— que nunca teve na agenda do Itamaraty.

A retórica perante os Estados Unidos variou conforme o ocupante da Casa Branca. Foi de alegre subserviência com Trump-1, desapareceu do discurso durante o governo Biden e agora volta a ocupar lugar central na agenda bolsonarista.

Mais uma vez, não se trata de desenhar uma política bilateral que contemple o respeito e os ganhos mútuos. O que se busca, como sempre, é o interesse da família Bolsonaro acima de tudo e a qualquer preço.

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QUEM COMANDA O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ?

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

A troca de comando no Supremo Tribunal Federal (STF) está prevista para setembro de 2027 – mas, na prática, a transição já começou. Alexandre de Moraes, o próximo presidente, tem representado a Corte em encontros com chefes do Executivo e do Legislativo, além de promover reuniões com lideranças do Judiciário.

Moraes abriu a semana conduzindo uma audiência pública com presidentes de tribunais de todo o País para discutir combate ao crime organizado. Também chamou integrantes do Ministério da Justiça, da Procuradoria-Geral da República (PGR), da OAB e de prefeituras. O ministro convocou as reuniões por ser relator de ações que contestam a Lei Antifacção. Edson Fachin, o presidente do STF, compareceu como convidado.

No recesso de julho, quando foi presidente interino do tribunal, Moraes foi ao Planalto participar da cerimônia de sanção de leis voltadas à proteção das mulheres. Depois do evento, aceitou o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para tomar um café.

Há duas semanas, Moraes abriu as portas de sua própria casa, em Brasília, para receber Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União BrasilAP).

O jantar, que não estava na agenda de ninguém, serviu para reaproximá-los – e, de quebra, conectar Moraes a ambos.

Moraes corre o risco de sofrer impeachment em 2027 e quer se cacifar com Alcolumbre e Lula. Se o senador for mantido no comando da Casa, pode impedir a abertura do processo, como tem feito. Se Lula for reeleito, pode dar uma mãozinha nesse sentido. Lula, por sua vez, precisa ampliar a base de apoio no STF – especialmente com André Mendonça no encalço de Lulinha em meio à campanha eleitoral.

Moraes sinalizou que está disposto a colaborar. Em julho, mandou sortear entre os ministros da Corte novos inquéritos sobre Lulinha, embora o primeiro já estivesse com Mendonça. Uma das fatias da investigação foi parar no gabinete de Flávio Dino, aliado de Moraes.

Na semana passada, a PGR recomendou que as investigações sobre Lulinha relatadas por Mendonça seguissem para a primeira instância. Não fez o mesmo com o inquérito relatado por Dino.

Mendonça reagiu às investidas discretamente. Em um encontro de juízes evangélicos, reclamou que o cargo traz “limitações pessoais, pressões e momentos difíceis”. E confessou que, muitas vezes, pediu a Deus “uma vida mais normal”.

Fachin tem uma carta na manga. A aposta é que, até o fim do mandato, ele encerre o inquérito das fake news, de relatoria de Moraes. Na avaliação de uma ala do STF, o caso alimenta a polarização política do País.

Em tese, o fim do inquérito representaria perda dos poderes de Moraes. O plano funcionaria, não fosse por um detalhe: quando assumir a presidência do Supremo, ele poderá instaurar um novo inquérito nos mesmos moldes e repetir, assim, o feito de Dias Toffoli em 2019.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

POR QUE CANDIDATOS DE DIREITA BUSCAM CONFRONTO NO CAMPUS ?

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

Denúncia, provocação, reação e vídeo compõem um método político moldado pelas redes

A guerra cultural encontrou nos campi um cenário ideal para gerar indignação e engajamento

Na quinta-feira, dia 20, o deputado estadual Diego Castro, do PL, entrou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia com o kit básico desse tipo de ação política: seguranças, alguém encarregado de filmar e um roteiro na cabeça.

Filmou, retirou adesivos eleitorais, fez discursos, encenou sua revolta diante da câmera e de estudantes que correram para o espetáculo. E, como se diz no futebol, "esperou o contato, o contato veio", na sequência prevista: berros, dedos na cara, empurrões, boletins de ocorrência, notas de repúdio, reportagens e vídeos para as redes. No dia seguinte, um influenciador que se apresenta como Heitor Bolsonaro voltou ao local, também com o celular ligado, à procura de adesivos, placas de banheiro e reação.

É tentador descrever os episódios como "confusões". Não são. Confusão é aquilo que ninguém planejou e todos prefeririam que não tivesse acontecido. Esse tipo de confronto em universidades públicas é uma ação política com método, repertório e incentivos conhecidos no Brasil há pelo menos uma década.

O método começa pela escolha do flagrante. É preciso encontrar algo capaz de indignar a audiência: propaganda, pichações, banheiros, palavras de ordem, símbolos progressistas, qualquer material que possa ser apresentado como prova de que a universidade foi capturada pela esquerda ou transformada em território de reprodução ideológica. O objetivo é voltar com imagens que confirmem uma narrativa pronta.

A locação não é escolhida ao acaso. Quem produz esse gênero de conteúdo raramente vai pescar imagens nas áreas de engenharia ou na medicina. Prefere humanidades e artes, onde encontra a combinação ideal entre material visual, antagonismo ideológico e alta probabilidade de reação. Para o corte, indiferença é fracasso. Gritos, cercos e agressões são o que se busca.

A característica decisiva é que, embora corporal, essa ação política é inteiramente digital. O conflito não é simplesmente filmado porque aconteceu, mas acontece para ser filmado. Gritos na cara, sopapos e exibição de macheza destinam-se menos ao adversário presente do que à audiência ausente, que verá depois apenas cortes de 30 segundos.

Não é preciso imaginar combinação entre os atores: todos conhecem o roteiro. O provocador sabe quais botões apertar, a militância sabe o que se espera e cumpre o papel. Ligadas as câmeras, começa a ação política. Se a coisa terminar em alguma violência, melhor para a narrativa.

É aí que o mercado da indignação moral faz sua mágica. O mesmo acontecimento produz duas narrativas antagônicas e dois vencedores. De um lado, a épica do cidadão de direita cercado pela horda intolerante de "vagabundos maconheiros marxistas" que domina a universidade pública; do outro, os estudantes de esquerda que enfrentaram com bravura mais uma "incursão fascista".

Um lado corta a cena em que é cercado e agredido e confirma o autoritarismo da esquerda. O outro corta a cena em que o adversário recua e confirma a força da resistência antifascista. Cada público recebe uma prova para reafirmar suas crenças.

Até o pós-jogo integra a coreografia. Boletins de ocorrência, notas de repúdio e reportagens jornalísticas deixam de ser consequências e se tornam suítes do produto original. Voltam às redes como certificados externos de importância e alimentam novas exibições de virtude.

A esquerda estudantil conhece bem esse repertório. Quando a iniciativa é sua, o mecanismo se inverte. Um convidado considerado intolerável é cercado, interrompido ou expulso. O tumulto oferece um espetáculo de força interna. Centros acadêmicos e diretórios estudantis, cada vez menores e menos representativos, encontram nesses confrontos uma oportunidade de demonstrar relevância.

É um jogo de ganha-ganha. O influenciador ganha conteúdo, seguidores e capital político. O candidato demonstra coragem diante da sua base eleitoral. A militância estudantil confirma o heroísmo da resistência ao fascismo. Todos se valorizam dentro do próprio grupo.

Talvez só haja um perdedor: a universidade. Para milhões que jamais pisaram num campus público, a instituição existe através desses cortes. Não aparecem laboratórios, pesquisa, formação profissional ou extensão, mas paredes pichadas, gritos, socos, slogans e militantes. Quando a universidade precisa defender legitimidade e orçamento diante de uma sociedade e de um Congresso cada vez menos simpáticos a ela, servir de locação para a guerra cultural é um péssimo negócio.

Os brigões saem cantando vitória, porque a conta fica toda para a instituição.

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PERIGO DO "TRIÂNGULO DAS BERMUDAS" (SP, MG E RJ) DESAFIAM LULA E FLÁVIO BOLSONARO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Os três estados concentram parcela decisiva do eleitorado e podem engolir qualquer vantagem construída no restante do país. O equilíbrio nacional está assentado em grandes assimetrias

“Um dia de cada vez”, máxima consagrada pelos Alcoólicos Anônimos, aplica-se sob medida às campanhas dos dois candidatos que polarizam a eleição presidencial: Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteia a reeleição, e Flávio Bolsonaro, herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. A sucessão de fatos negativos produz oscilações nas pesquisas e obriga os marqueteiros das duas campanhas a ter menos ansiedade com o futuro e mais atenção aos problemas do presente, sobretudo àqueles aparentemente pequenos, mas capazes de assumir grandes proporções.

Ao menos provisoriamente, a crise entre Flávio e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, foi superada, com reflexos imediatos nas pesquisas em favor do enteado. Agora, é Lula quem está na berlinda. Seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e antigos auxiliares envolvidos em investigações relacionadas à atuação de uma lobista fragilizam a agenda social de Lula como defensor das camadas de menor renda.

 

Flávio, porém, também enfrenta vulnerabilidades próprias e não pode imaginar que os desgastes do adversário sejam suficientes para lhe garantir a vitória. As pesquisas nacionais mostram uma eleição muito apertada. No levantamento Datafolha divulgado na semana passada, Lula aparece com 39% e Flávio com 33% no primeiro turno. Numa simulação de segundo turno, o petista vence por 47% a 43%, diferença situada no limite da margem de erro. A rejeição dos dois é praticamente igual: 45% dizem que não votariam em Lula, e 46%, em Flávio. O cenário confirma que a polarização está consolidada, mas não significa que o resultado esteja definido.

A disputa presidencial, entretanto, não será decidida apenas pelos números nacionais. É aí que o “Triângulo das Bermudas” formado por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, por analogia, justifica o apelido. Na navegação, é uma região famosa no Atlântico Norte associada a lendas de desaparecimentos inexplicáveis de navios e aviões, compreendida entre a Flórida (Estados Unidos), as Ilhas Bermudas e Porto Rico.

Os três estados concentram parcela decisiva do eleitorado brasileiro e podem engolir qualquer vantagem construída no restante do país. O equilíbrio nacional está assentado em duas grandes assimetrias regionais. Lula conserva ampla vantagem no Nordeste, enquanto Flávio lidera no Sul. Segundo o Datafolha, numa eventual disputa de segundo turno, o petista vence por 61% a 30% entre os nordestinos, enquanto o candidato do PL supera Lula por 50% a 38% no Sul. No Sudeste, há empate técnico. Isso significa que uma redução da vantagem de Lula no Nordeste ou de Flávio no Sul pode alterar o resultado nacional.

São Paulo continua sendo o principal problema de Lula. A nova pesquisa Quaest mostra empate entre Lula e Flávio, com 30% para cada um no primeiro turno, mas o Datafolha aponta vantagem do candidato do PL por 47% a 42% numa simulação de segundo turno. Uma derrota petista por cinco pontos no maior colégio eleitoral do país seria administrável, desde que Lula mantenha larga superioridade no Nordeste. Uma abertura maior, porém, poderia comprometer sua reeleição.

Palanques regionais

O palanque paulista favorece Flávio. O governador Tarcísio de Freitas lidera a disputa pela reeleição com 40%, contra 27% de Fernando Haddad. No segundo turno, Tarcísio venceria por 47% a 30%. A dúvida é se o governador vencer no primeiro turno, o que fará no segundo. Em tese, oferece a Flávio uma estrutura política robusta, apoio empresarial, capilaridade municipal e uma vitrine administrativa. Haddad, o candidato de Lula, carrega rejeição elevada e ainda precisa provar que pode reduzir a hegemonia da direita no interior paulista.

Minas Gerais apresenta desafio diferente. Lula e Flávio estão tecnicamente empatados, com pequena vantagem numérica para o presidente. O estado tem uma tradição de acompanhar o vencedor nacional e funciona como uma espécie de síntese política e social do país. É grande demais para ser compensado por outro colégio eleitoral e diversificado demais para ser conquistado inteiramente.

O problema é que nenhum dos dois presidenciáveis dispõe, até agora, de um palanque estadual confiável. Cleitinho Azevedo lidera a disputa pelo governo, mas procura preservar um perfil independente e popular. Pode receber votos de eleitores bolsonaristas sem sair do muro. Ao mesmo tempo, o campo governista não conseguiu consolidar um nome capaz de unificar a base de Lula e polarizar a eleição estadual. Essa indefinição transforma Minas no estado mais perigoso para os dois lados. Em Minas, mais do que em São Paulo, a ausência de uma engenharia política sólida pode custar a Presidência.

No Rio de Janeiro, ocorre uma aparente contradição. Flávio disputa em casa, conta com a força histórica do bolsonarismo e aparece numericamente à frente de Lula, embora em situação de empate técnico. Ao mesmo tempo, o favorito ao governo é Eduardo Paes, aliado de Lula, que lidera com 37%, contra 14% de Douglas Ruas, candidato do PL. Num eventual segundo turno, Paes venceria Ruas por 50% a 20%.

Paes oferece a Lula um palanque forte, mas ambíguo. Precisa do apoio presidencial e das forças de centro-esquerda, porém evita colar no petismo para não perder eleitores conservadores. Flávio enfrenta o problema inverso: é forte na eleição presidencial, mas seu candidato ao governo ainda não acompanha esse desempenho. O “Triângulo das Bermudas” pode neutralizar a vantagem nordestina do presidente ou conter o avanço oposicionista no Sul.

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CARGOS DE QUE NÃO PRECISAMOS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Suplente de senador é posição que passa quase totalmente despercebida pelo eleitor

Isso dá margem a arranjos familiares ou para recompensar doadores de campanha

Michelle Bolsonaro designou o irmão para ocupar o posto de primeiro suplente na chapa que ela encabeça para uma das vagas de senador pelo Distrito Federal. Bia Kicis, que concorrerá à segunda vaga pelo mesmo PL da ex-primeira-dama, pôs o filho. Helder Barbalho, que pretende tornar-se senador pelo Pará, escolheu o pai, o eterno Jader Barbalho.

Arranjos familiares desse tipo são corriqueiros em eleições para o Senado. Também é comum ver financiadores de campanha galgados à posição de suplente. É um investimento que pode "se pagar", quando se considera que, na atual legislatura, 20 suplentes já chegaram a exercer, ainda que momentaneamente, o mandato. O suplente substitui o titular em caso de morte, afastamento, renúncia ou cassação.

O mecanismo tem sua lógica. Determinar desde a origem quem são os "vices" dos senadores é uma forma de economizar recursos. O mandato de oito anos é longo, então não são pequenas as chances de substituição fazer-se necessária. O problema é que esse sistema exige mais recursos atencionais do que o eleitor mediano é capaz de oferecer.

No Brasil, eleições para o Executivo e para o Legislativo são casadas, e são as primeiras que mobilizam as atenções. Falamos muito da disputa presidencial, um pouco dos pleitos para governador, e as legislativas, que talvez sejam até mais importantes, ficam a reboque. Não é exagero afirmar que o eleitor escolhe seu candidato a senador só quando sai de casa para votar. Em 2018, Dilma Rousseff liderava todas as pesquisas de intenção de voto para o Senado por Minas, mas ficou em quarto lugar.

Se nem nos senadores o eleitor presta muita atenção, o que não dizer dos pobres deputados estaduais? Nesse contexto, os suplentes de senador se tornam menos que curiosidades abstratas. Eles ficam tão cognitivamente escondidos que concorrer como suplente é um bom jeito de "fazer passar a boiada".

Não vou tão longe a ponto de defender o descasamento entre eleições para o Executivo e para o Legislativo, mas poderíamos ao menos extinguir os suplentes.

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CANDIDATOS NO OLIMPO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Candidatos fogem de confronto e encerram entrevistas ao ouvir questões incômodas

Flávio Bolsonaro estava à vontade. Escoltado por Paulo Skaf, desfilou pelos salões da Fiesp como novo escolhido do empresariado paulista. O senador esbanjou bom humor até se deparar com um grupo de repórteres. Mudou de semblante ao ouvir uma pergunta sobre o caso “Dark horse”, que revelou suas relações com Daniel Vorcaro.

“Gente, olha só... vocês vão parar no tempo?”, reagiu, sem disfarçar a irritação. “Não adianta, vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula é que deve explicações. Vão cobrar explicações dele”, ordenou, antes que uma assessora encerrasse a entrevista.

O candidato do PL engrossou com os jornalistas na noite de segunda-feira. Na manhã de terça, foi a vez de Lula abandonar uma coletiva após ser questionado sobre os rolos do filho Fábio Luís. O presidente havia caminhado até os repórteres ao fim da cerimônia do Dia do Soldado. Falou o que quis sobre soberania e investimentos em Defesa. Ao ouvir uma pergunta sobre Lulinha, deu as costas e bateu em retirada.

Lula e Flávio são muito diferentes, mas têm adotado táticas semelhantes. Querem fazer campanha no olimpo, a salvo do escrutínio e do contraditório. Por isso, fogem de entrevistas longas, sabatinas e debates. Preferem falar em ambientes controlados, onde não precisam enfrentar temas incômodos.

O presidente passou a abrir o palácio a youtubers e influenciadores que só faltam lhe pedir autógrafo. O senador reeditou as lives em que o pai pregava para a bolha da extrema direita. No domingo, os dois se uniram no boicote ao debate da Band. Usaram desculpas variadas: a presença de nanicos, o risco de pegadinhas, o formato previamente aceito por seus próprios assessores.

O mau comportamento dos presidenciáveis já foi imitado por candidatos a governador. Eduardo Paes e Sergio Moro também faltaram aos primeiros debates no Rio e no Paraná. Esconderam-se atrás da liderança nas pesquisas, descrevendo como estratégia o que foi apenas soberba e desrespeito ao eleitor.

Se pudessem, Lula e Flávio se limitariam a recitar discursos e gravar peças de propaganda. Os dois só confirmaram presença na bancada do Jornal Nacional, onde falarão nos próximos dias, porque sabem que o custo da ausência seria maior.

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LULA TENTA MUDAR DE ASSUNTO

Vera Magalhães, O Globo

Os conselheiros da campanha petista sabem que o presidente não tem muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida

O vento virou, e o favoritismo que vinha sendo atribuído a Lula desde o escândalo “Dark Horse” e os entreveros na família Bolsonaro se esvaiu diante das revelações das andanças de Lulinha por gabinetes estrelados de Brasília. Levado de volta ao incômodo tema da corrupção às vésperas do início da campanha na TV, e sem ter mais como se esquivar de debates e sabatinas como fez até aqui, o petista busca desesperadamente mudar de assunto. O irônico é ter de contar com o Congresso, que já está em ritmo de letargia eleitoral, para ter alguma boa notícia para apresentar ao eleitor.

Soa um tanto a desespero achar que notícias pontuais ou ainda por vir — como o fim da taxa das blusinhas ou a abolição da escala de trabalho de 6 dias por 1 de folga — operarão aquilo que bilhões despejados em medidas desde o ano passado não conseguiram: uma melhora substantiva na aprovação do governo, indicador considerado fundamental por especialistas em pesquisas para que o presidente possa sonhar com uma corrida um pouco mais tranquila ao quarto mandato. Mas é exatamente este o clima para os lados do PT: temor diante da escassez de cartas na manga.

O cientista político Maurício Moura, do Instituto Ideia, observa que todas as vitórias de Lula até aqui se deram com um discurso que vendia otimismo: de bonança econômica em 2002 e em 2006 (a ponto de, naquela reeleição, nem os escândalos do mensalão e dos aloprados serem capazes de abalar a popularidade do incumbente) e de defesa da democracia há quatro anos.

Agora, o que foi apresentado ao eleitor, de isenção de Imposto de Renda a sucessivos programas de renegociação de dívidas, foi recebido com um entusiasmo apenas momentâneo, mas não suficiente para talhar a imagem de um governo exitoso, capaz de fazer jus àquela maré de otimismo dos anos 2000.

A própria narrativa da preservação da democracia, em que Lula investiu depois do 8 de Janeiro e que imaginava prevalecer após a condenação de Jair Bolsonaro, perdeu força depois que os ministros do Supremo Tribunal Federal mais atuantes nesses casos foram colhidos pelo furacão Master, levando com eles a imagem da instituição.

Diante desse panorama, em que a aprovação de seu governo permanece em patamares rigorosamente iguais à reprovação, e, mês após mês, a rejeição pessoal de Lula grita números proibitivos, cresce no entorno presidencial o medo do que pode acontecer num segundo turno contra Flávio Bolsonaro — que, vejam só, era tido como adversário dos sonhos até ontem.

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Os conselheiros da campanha petista sabem que Lula não tem muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida e passaram a reforçar junto a candidatos nos estados e a cabos eleitorais na ponta das cidades a ideia de um mutirão para garantir a vitória já em primeiro turno. Os bons números do presidente no Sudeste, mostrados pela Quaest, foram celebrados como essenciais para o sucesso dessa estratégia.

Nesse esforço de sprint final, qualquer catadão de boas notícias passa a ser visto como o combustível que você coloca com os trocados da carteira só para o veículo chegar ao destino. O fim da escala 6 x 1 será embalado na propaganda da TV, de que Lula tem a maior fatia, como epílogo da história que seus marqueteiros tentarão contar: de um governo que atuou para os mais pobres, contra os bilionários matreiros.

É por isso que a ênfase no discurso contra o alto preço dos alimentos, tendo a picanha como símbolo maior, é visto como notícia com potencial de estrago igual ou maior que as traficâncias de Lulinha, Marcola e companhia. Nada mais fatal para a tentativa de vender esperança com um personagem tão desgastado quanto Lula que a evidência de que ele prometeu algo muito concreto — a volta do churrasco e da cerveja—, e isso nunca chegou à mesa do eleitor que agora é chamado a conduzi-lo ao Planalto pela quarta vez, para perfazer 16 anos no poder, algo inédito numa democracia ainda tão jovem.

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

DILEMA BRASILEIRO NA MARGEM EQUATORIAL

Artigo de Fernando Gabeira

O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da costa do Amapá e pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.

Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.

É preciso ver a contradição como do tipo não antagônico, dessas em que um dos polos não desaparece. Em suma, uma contradição que segue seu caminho, no caso explorando o petróleo e tendo rigorosa atenção com o meio ambiente. De um lado, a pressão dos políticos, como Davi Alcolumbre, que querem resultados rápidos; de outro a vigilância internacional sobre uma região que o próprio Brasil mostrou como essencial à saúde do planeta.

Tive a oportunidade de viajar pela região para documentar no Pará a área com os maiores manguezais do mundo. Escrevi também um texto para o belo livro de fotos de João Farkas sobre a Costa Norte. Os manguezais são impressionantes. Árvores de 30 metros, as pessoas saindo da mata com fieiras de enormes caranguejos. No restaurante da cidade de Bragança, o caranguejo era o principal prato.

]A região concentra 80% dos manguezais do Brasil. Até 2005, pensava-se que os maiores manguezais estavam na Índia e em Bangladesh. Um mapeamento por satélite revelou que a maior extensão está Costa Amazônica: aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados. Manguezais, sabe-se bem, são berçários marinhos e abrigam grande biodiversidade. São um pouco ignorados, mas sua riqueza não monetária é muito superior ao petróleo que possa ser encontrado ali.

Numa das viagens, cruzei o Amapá da capital até Oiapoque, simpática cidade de cerca de 30 mil habitantes. Há uma inscrição: “Aqui começa o Brasil”, porque é o extremo norte do país. Ela está à margem do Rio Oiapoque, diante da Guiana Francesa. A julgar pelas cidades litorâneas do Rio, como Macaé, o petróleo atrai muita gente, e grandes hotéis serão construídos. No entanto, não vi saneamento básico na cidade, e seu hospital é bastante precário. Fomos atingidos por uma intoxicação alimentar. Diante do quadro hospitalar, a saída foi a automedicação.

Oiapoque abriga hoje o centro veterinário construído pela Petrobras. Exigência do Ibama, o centro atenderá à fauna em caso de vazamento. O tema é um pouco vasto para só um artigo. Uma das linhas de debate pode ser a comparação com os resultados do pré-sal nas cidades litorâneas do Rio. Ele vai se esgotar, e a Margem Equatorial é a esperança de renovação. Será que a Região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O tema é vasto, mas a vantagem é que o tempo é generoso. Assim como em Oiapoque se diz que “aqui começa o Brasil”, aqui começa uma nova aventura com o petróleo.

Artigo publicado no jornal O Globo em 25 / 08 / 2026

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

POR QUE O DEBATE DA BAND FOI O PIOR DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DESDE 1989

Bernardo Mello Franco, O Globo

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, encontro será lembrado por um vice dormindo enquanto seu candidato falava

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, o debate da Band foi possivelmente o pior encontro de presidenciáveis já transmitido pela TV brasileira.

À frente nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro já haviam informado que não compareceriam. No domingo, Romeu Zema surpreendeu ao se juntar ao boicote.

Dos seis convidados, restaram três, que por pouco não se reduziram a dois.

O psiquiatra Augusto Cury já estava na portaria da Band quando deixou repórteres perplexos ao avisar que daria meia-volta para casa. “Vocês não percebem a minha mágoa?”, perguntou.

Minutos depois, ele desistiu da desistência e se juntou a Ronaldo Caiado e Renan Santos no estúdio. Eles se acomodaram num cenário melancólico, com três púlpitos vazios.

Apesar do esforço da emissora, não havia muito o que extrair dali. Os nanicos pareciam mais interessados em criticar os favoritos do que em apresentar propostas para justificar suas candidaturas.

Renan Santos mostrou a que veio ao exibir duas fraldas com os nomes de Lula e Flávio. Ao longo do debate, despejou falas misóginas e xingou eleitores dos adversários. Chegou a ser repreendido por Cury, que se disse espantado com sua agressividade.

Também estreante em eleições, o psiquiatra se mostrou uma metralhadora de chavões de autoajuda embrulhada num exótico terno verde. Faltou explicar o que faz na corrida presidencial.

Ronaldo Caiado não soube aproveitar o fato de ser o único presente com experiência política. Gastou a maior parte do tempo descrevendo Goiás como um paraíso nos trópicos. A imagem do vice cochilando enquanto ele falava resume sua participação no debate.

Difícil criticar Gilberto Kassab pela soneca. Quem resistiu uma hora e meia diante da TV é que merecia uma medalha.

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CONVENÇÕES QUE JÁ NÃO DECIDEM

Lara Mesquita, Folha de S. Paulo

Cada vez mais a escolha dos candidatos tem passado longe das convenções

Decisões antes tomadas por uma instância coletiva ficam nas mãos de um pequeno grupo

Idas e vindas na definição de candidaturas ganharam destaque no noticiário recentemente. Dois exemplos são o senador mineiro Cleitinho, do Republicanos, cuja candidatura ao governo atravessou sucessivas reviravoltas, e o ex-prefeito de Maceió JHC (João Henrique Caldas), do PSDB, que ora concorreria ao Senado, ora ao governo. E as indefinições sobreviveram às convenções partidárias.

As convenções, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, deveriam ser o momento em que os partidos decidem não apenas se lançarão candidatos, mas quem serão eles.

A Lei das Eleições é clara: cabe às convenções a escolha dos candidatos. Mas o que vimos foram os partidos postergando essa decisão até 15 de agosto, data limite para registro das candidaturas. Mas como isso é possível?

Fui às atas das convenções partidárias. Descobri primeiro que, apesar de sua relevância, elas não estão disponíveis para download no portal de dados abertos da Justiça Eleitoral: é preciso acessá-las individualmente por estado, partido e eleição —alô, TSE. Com ajuda de pesquisadores, jornalistas e ferramentas de inteligência artificial, reuni as atas nacionais e estaduais de 2018, 2022 e 2026.

O que eu descobri? Analisando as convenções estaduais, com foco nos cargos majoritários estaduais, encontrei que, entre 2018 e 2026, a fatia de convenções que decidem não lançar candidato próprio ficou estável, o que mudou foi outra coisa: quem escolhe o nome dos candidatos. A delegação desta decisão à comissão executiva passou de 12% para 36% dos casos, esvaziando a convenção como instância de escolha dos candidatos. E esse recuo da convenção como instância decisória é mais frequente entre os partidos de centro e direita, como o Republicanos de Cleitinho e o PSDB de JHC. Em 2026, esses partidos delegaram a escolha em 46% dos casos, contra 29% entre os partidos de centro-esquerda e esquerda.

Em muitos casos, a delegação vai além da escolha de nomes ainda indefinidos. As atas autorizam a comissão executiva a rever decisões tomadas pela própria convenção, inclusive sobre candidaturas e coligações. Ou seja, a instância coletiva não apenas deixa de decidir, pode ter suas decisões completamente revistas.

O efeito é concentrar decisões antes tomadas por uma instância coletiva nas mãos de um pequeno grupo, quando não de um único dirigente. Mais uma mostra do distanciamento dos partidos da sociedade.

Cabe destacar que esse esvaziamento das instâncias de decisão coletivas conta com a chancela da Justiça Eleitoral. Pelo menos desde 2002 o TSE considera lícito que convenções deleguem à comissão executiva a escolha posterior dos candidatos, inclusive sem indicar nomes. O tratamento contrasta com o dado às comissões provisórias dos partidos, que muitas vezes substituem os diretórios. O STF derrubou a regra que permitia sua duração por até oito anos, por entender que órgãos compostos por dirigentes indicados, e não eleitos, poderiam minar a democracia interna.

Nos dois casos, o problema é semelhante, concentrar poder, retirando-o de instâncias coletivas. Só em um deles o Judiciário resolveu impor limites.

Um detalhe: em muitos partidos, a comissão executiva que recebe o poder de escolher os candidatos é ela própria nomeada por uma comissão provisória.

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domingo, 23 de agosto de 2026

O QUE NÃO TEM RESPOSTA, NEM NUNCA TERÁ

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A IA em breve nos permitirá fazer as perguntas mais indiscretas às nossas heroínas da literatura

'Diadorim, você fazia xixi em pé com os jagunços?' ou 'Capitu, o que você viu no Escobar?'

A IA (ou dona Iaiá, como a batizou o poeta e acadêmico Antonio Carlos Secchin) nos oferece uma nova oportunidade de nos metermos onde não fomos chamados. Segundo li, em breve poderemos "conversar" por meio dela com personagens da literatura e ouvir deles respostas a questões que seus autores deixaram em suspenso ao criá-los. Eis algumas possibilidades.

Eu faria a Diadorim, herói/heroína de "Grande Sertão: Veredas", algumas perguntas indiscretas, talvez até impróprias: "Diadorim, como você conseguiu se passar por homem durante tanto tempo no meio daqueles jagunços abrutalhados? Eles faziam xixi em pé no mato, em grupo, e davam as três pancadinhas. E você? E se eles, entre uma batalha e outra, te desafiassem para um xixi à distância? Como era na hora de tomar banho, com todo mundo se jogando nu no rio? E, com todo respeito, como você se virava quando estava naqueles dias?". Uma pergunta de cada vez, claro, para não dar chance a Diadorim de me engabelar.

Mas não sei se a maioria das pessoas irá primeiro a Diadorim. Ninguém resistirá a tentar espremer a personagem mais enigmática, cuja intimidade todos gostariam de invadir —a insuperável Capitu, de "Dom Casmurro"—, para fazer a pergunta fatal: "Capitu, você, afinal, traiu ou não o Bentinho, seu marido, com o Escobar?" Ninguém se conforma com que Machado de Assis tenha deixado essa dúvida no ar, gerando dezenas de especulações e até romances que se atreveram a recontar a história.

Nas garras da IA, Capitu seria crivada de perguntas: "Capitu querida, o Bentinho era mesmo um bolha, mas, pelo amor de Deus, o que você viu no Escobar?". Ou então: "O Brás Cubas, outro personagem de Machado, era muito melhor. Por que você não pulou de livro e foi ter um caso com ele? Na ficção, tudo é possível!".

Enfim, são perguntas válidas. Só não confio nas respostas da IA, uma idiota da objetividade, incapaz de competir com os escritores naquilo que caracteriza a verdadeira criação: o intangível, o mágico, o que não tem resposta, nem nunca terá.

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ANDRÉ MENDONÇA SERÁ O NOVO SERGIO MORO ?

Bernardo Mello Franco, O Globo

Relator dos casos Master e Lulinha, ministro do STF promete imparcialidade, mas vazamentos já influem na eleição

Em abril de 2020, Sergio Moro deixou o Ministério da Justiça atirando. Acusou o então presidente Jair Bolsonaro de interferir na Polícia Federal para blindar o filho Flávio, investigado no escândalo da rachadinha. Para o lugar de Moro, o capitão escalou um auxiliar mais discreto, que chefiava a Advocacia-Geral da União. Era André Mendonça, que se notabilizaria por usar o cargo para abrir inquéritos contra críticos e opositores do chefe.

Em seis anos, Moro reatou com o bolsonarismo, virou senador e agora disputa o governo do Paraná pelo PL. Seu substituto na Justiça foi alçado a ministro do Supremo Tribunal Federal. Hoje é relator de dois casos com potencial para influir no resultado da eleição.

Estão nas mãos de Mendonça o caso Master, que arranhou a imagem de Flávio Bolsonaro, e dois inquéritos do caso Lulinha, que ameaça os planos do presidente. As investigações parecem andar em ritmos diferentes. Uma não produz fatos novos desde maio, quando o site The Intercept Brasil revelou a intimidade do senador com Daniel Vorcaro. A outra ocupa o noticiário com vazamentos em série, pautando a eleição a seis semanas do primeiro turno.

Ninguém deve se sair bem dessas histórias. Flávio foi flagrado pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro preso por aplicar golpes, subornar políticos e atuar como chefe de máfia. Fábio Luís, o Lulinha, recebia favores e mordomias da lobista Roberta Luchsinger, que buscava negócios com o governo do pai dele.

Os escândalos devem servir de munição para as duas campanhas, como é próprio da política. A questão é saber se o árbitro vai apitar o jogo com imparcialidade, sem vestir a camisa de um dos times.

Mendonça não costuma dar entrevistas, mas seu gabinete fala pelos cotovelos. Na quinta-feira, soube-se que a Procuradoria-Geral da República pediu o envio do caso Lulinha à primeira instância. Argumentou que a investigação não cita autoridades com foro privilegiado, o que justificaria a permanência no Supremo. Assim que o pedido veio a público, Mendonça fez circular a informação de que vai recusá-lo. A informação foi atribuída a “interlocutores” do ministro — método de divulgação judicial que fez escola na Lava-Jato.

Em 2018, a caneta de Moro desequilibrou a eleição presidencial em favor de Bolsonaro. Depois de prender o candidato que liderava as pesquisas, o juiz interrompeu as férias para impedir o cumprimento de uma decisão que mandava soltá-lo. A seis dias do primeiro turno, divulgou uma delação de alto impacto contra o PT. O titular da 13ª Vara Federal de Curitiba desfrutava uma imagem de herói, depois demolida pela anulação de suas sentenças.

Em declarações a um podcast de seu próprio instituto, Mendonça prometeu conduzir todos os inquéritos com “rigor técnico” e “imparcialidade”, por entender que corrupção “não tem cor partidária”. Bonitas palavras, mas melhor seria demonstrá-las na prática.

Nesta quinta, Flávio disse considerar seu envolvimento no caso Master uma “página virada”. O candidato do PL tem razões para se sentir protegido. Desde que as conversas com Vorcaro vieram à tona, nada lhe aconteceu. Ele permanece a salvo de novos vazamentos, operações de busca ou intimações para se explicar à polícia.

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A BARBÁRIE QUE UNE GARCIA LORCA, VICTOR JARA E HONESTINO

Dorrit Harazim, O Globo

É sempre melhor quando a Justiça redemocratizada se alia à História, claro. Mesmo que tardiamente

Três gerações depois do sombrio 18 de agosto de 1936, ainda é proibido esquecer. Passaram 90 anos desde o fuzilamento do poeta Federico García Lorca por falangistas de Granada. Seu corpo nunca foi encontrado. Segunda-feira passada, dia 17, a homenagem mais vibrante e desempoeirada ocorreu nas ruas de Madri, quando uma ruidosa centena de jovens artistas emergiu do Palácio de Velázquez carregando (com autorização do Ministério da Igualdade) uma pequena estátua de Lorca sorridente. Num misto de “procissão laica” com flashmob a que foram se juntando cidadãos comuns, o cortejo seguiu até a Plaza de Santa Ana, no Barrio de las Letras. Ali, cantaram, declamaram e dançaram aos pés da estátua oficial, em bronze e tamanho natural, do cultuado dramaturgo de “La Casa de Bernarda Alba”.

Uma imensa faixa com a conhecida estrofe de um poema de Lorca fez parte do cortejo: Quiero dormir un rato,/Um rato, un minuto, un siglo;/pero que todos sepan que no he muerto.

Recapitulando. Ao arrepio da ascensão do nazismo na Alemanha e do fascismo na Itália, o ano de 1936 começara na Espanha com a vitória eleitoral de uma Frente Popular que reuniu socialistas, comunistas, anarquistas e organizações operárias. Ficaram no poder por pouco tempo — menos de quatro meses. Em julho daquele ano, a efêmera República foi derrubada. A Guerra Civil de três anos que se seguiu, cujo horror foi imortalizado por Picasso em “Guernica”, causou a morte direta de cerca de 500 mil pessoas. A ditadura de Franco durou 36 anos, sua teia de cicatrizes ainda lateja, e a Espanha até hoje não conseguiu enterrar boa parte daqueles mortos.

Lorca foi preso e assassinado logo no primeiro mês, apesar de não ser filiado a nenhum partido de esquerda. As acusações contra ele, extraídas dos arquivos públicos, dizem o essencial:

— Se ignora sua filiação política, mas sua ideologia é francamente esquerdista [...] publicou várias poesias negando a existência de Deus [...] Conceitualização de sua vida privada: un invertido (homossexual).

Foi esse o pecado capital do cultuado poeta nacional que, à época do fuzilamento, tinha 38 anos e se preparava para assumir uma relação com um jovem de 19. O paradeiro exato de seu corpo continua desconhecido, apesar das periódicas escavações nas montanhas entre Viznar e Alfacar, salpicadas de valas comuns do horror falangista. Mesmo decorrido quase um século, é proibido esquecer. À falta de justiça, cabe à memória atravessar o tempo para alcançar novas gerações.

É sempre melhor quando a Justiça redemocratizada se alia à História, claro. Mesmo que tardiamente. Semanas atrás foi noticiada a captura do coronel reformado Nelson Haase Mazzei, um dos oito militares chilenos responsáveis pela morte sob tortura do cantor Victor Jara, 53 anos atrás. Haase integrava a notória Brigada Tejas Verdes quando os militares derrubaram o governo socialista de Salvador Allende, em 1973, inaugurando uma das ditaduras mais hediondas do hemisfério. Logo nos primeiros dias do golpe, o músico-ícone de 40 anos foi preso e submetido a torturas no Estádio de Chile (hoje rebatizado de Estádio Victor Jara). Seu corpo foi encontrado perto do principal cemitério de Santiago, com 44 perfurações de balas. Tinha as duas mãos quebradas e o crânio esmagado.

A bailarina britânica e ativista Joan Jara, viúva do cantor, morreu aos 96 anos, em 2023, sem ter podido presenciar esse ato final de justiça. Haase Mazzei, de 80 anos, havia conseguido fugir para o sul do país após ser condenado a 25 anos de prisão em 2023 com os demais implicados. Um deles, Hernán Chacón, suicidou-se aos 86 anos quando a polícia foi prendê-lo em sua residência. Outro, Pedro Barrientos, havia fugido para os Estados Unidos, onde viveu por 34 anos até ser extraditado e preso três anos atrás. Sua sentença será proferida em dezembro de acordo com o Código Penal chileno específico para os 17 anos de crimes da ditadura militar.

E o brasileiro Honestino? O estudante de geologia da UnB, militante da Ação Popular e líder da União Nacional dos Estudantes do Distrito Federal, tinha 26 anos em 1973 quando foi assassinado e “desaparecido” pelos órgãos da repressão militar brasileira. Foi “sumido” há 53 anos, portanto, com graus de crueldade não incomuns numa ditadura. No segundo mês sem notícias do filho, a mãe ouviu de militares que ele estava preso no Pelotão de Investigações Criminais da capital, ela poderia visitá-lo no dia de Natal. Família e amigos prepararam bolos, guloseimas. A mãe esperou seis horas em vão. Segundo depoimento do sobrinho de Honestino à Agência Brasil, “levaram-na para uma cela que estava cheia de sangue e disseram que o preso não estava mais lá”.

Por que falar de Honestino agora? Porque é preciso. Porque no Brasil, ao contrário do Chile e da Argentina, os crimes da repressão militar foram anistiados. Porque a cinebiografia “Honestino” está em cartaz nos cinemas do país, e é desalentador ver apenas três cidadãs idosas numa das sessões. Porque o filme e o caso dos desaparecidos deveriam estar nas televisões e em sessões grátis nas universidades. Porque já são duas as gerações de brasileiros que podem ter esquecido. Porque dependemos da memória dos ainda vivos.

Entre o poeta, o músico e o estudante, o denominador comum foi a barbárie.

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URGÊNCIA IGNORADA

Míriam Leitão, O Globo

O El Niño pode atingir o Brasil em plena campanha eleitoral, mas candidatos tratam a questão ambiental de forma superficial

A campanha eleitoral ignora o problema mais urgente da humanidade: a mudança do clima. A emergência climática atinge o mundo, ondas de calor rondam a Europa, o rio Danúbio seca, o Brasil é vulnerável em inúmeros pontos. E deve ser atingido nos próximos meses por eventos extremos do super El Niño. No entanto, tudo se passa como se esse fosse um tema lateral. O candidato Flávio Bolsonaro repete a mesma ideia fixa do pai e ameaça as entidades ambientalistas, alimentando a ideia da conspiração. O presidente Lula apresentou o plano mais robusto dos candidatos, mas fala vagamente sobre o mapa do caminho para a eliminação do combustível fóssil que defendeu na COP30. Também pudera.

A imagem mais emblemática desse começo da campanha é o presidente Lula de macacão da Petrobras e de mãos sujas de óleo chamando o petróleo de “passaporte para o futuro”. Ainda não se sabe se a descoberta de petróleo na Foz do Rio Amazonas será viável. Se for, a produção começará dentro de sete ou dez anos. Há especialistas alertando sobre os riscos, outros comemorando. A crítica é que a vida útil do poço Morpho, e de novos que surgirem, será no tempo em que o mundo precisará abandonar o combustível fóssil empurrado pelo aumento dos eventos climáticos extremos. Os que são a favor admitem que o uso do petróleo vai declinar enquanto o poço estiver em atividade, mas argumentam que daqui a 30 ou 40 anos o mundo ainda estará usando petróleo e o nosso tem teor menor de CO2.

Se houvesse um debate eleitoral deste nível, de pró e contra a exploração de petróleo em nova fronteira, ou da viabilidade de um mapa do caminho da descarbonização, seria excelente. Mas, na verdade, os documentos de campanha dos candidatos têm propostas rasas ou fazem ameaças a quem tenta resistir ao avanço da degradação ambiental. O presidente Lula deu uma declaração que é uma contradição em si mesma, quando disse que o petróleo na Amazônia era o passaporte para o futuro, mas que ele não desistiria da sua luta para que “um dia a gente não precise usar o combustível fóssil”.

O programa de Flávio Bolsonaro promete acelerar o pagamento por serviços ambientais para o produtor que preserva a vegetação nativa, que passará a ser tratado como “parceiro e não como suspeito”. O problema dessa ideia é que a lei obriga o proprietário de terra a manter uma reserva, que varia de tamanho conforme o bioma. Pagá-lo para cumprir a lei não faz sentido. O programa de Bolsonaro diz que vai exigir transparência de financiadores e projetos das ONGs que recebam recursos internacionais e judicializam ações contra a União, “porque onde há dinheiro estrangeiro movendo decisões sobre o território brasileiro há riscos ao interesse nacional, sobre os quais o cidadão brasileiro deve estar informado”. O que o passado nos mostra é que um Bolsonaro no poder significa a deliberada destruição ambiental para “passar a boiada”.

A verdadeira ameaça ao interesse nacional é o grau descontrolado de destruição ambiental e não quem se mobiliza e se organiza para tentar proteger os recursos que sustentam a vida como a água, as matas e o ar limpo. Alimentar a teoria da conspiração em torno de instituições não governamentais é velho truque da direita, para encobrir crimes ambientais.

O candidato Romeu Zema fala em atrair investimento privado para o “monitoramento ambiental”. Se é para substituir o trabalho público do INPE é uma ameaça. Fora isso já existem instituições não governamentais processando dados de satélites. O que seria esse investimento privado?

O candidato Ronaldo Caiado diz em seu programa que “a política ambiental deixará de ser campo de polarização entre permissividade e punição indiscriminada”. Com falas assim fingindo ter propostas equilibradas entre interesses diversos, os candidatos da direita, na verdade, escondem apoio a projetos concretos, que já tramitam com o objetivo de desmontar o arcabouço de proteção ambiental do país.

O presidente Lula chega a essa eleição com números animadores de queda do desmatamento. Tanto o Deter quanto o Prodes trazem dados provando que o terceiro mandato de Lula levou o desmatamento da Amazônia ao seu nível mais baixo. E que em outros biomas também há queda das taxas de destruição. Mas o que preocupa é a ausência de qualquer debate sobre o tema ambiental e climático que representa para a humanidade nada menos do que uma ameaça existencial.

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sábado, 22 de agosto de 2026

LARGADA ACIRRADA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Levantamento divulgado nesta sexta-feira, o primeiro desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto

Com a campanha ao Palácio do Planalto oficialmente em curso desde o último fim de semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece em vantagem em um eventual embate direto contra o senador Flávio Bolsonaro (PL), mas começa a corrida à reeleição pressionado pela piora da avaliação de seu governo. Pesquisa Datafolha divulgada ontem, a primeira desde a definição das candidaturas, mostra uma relativa estabilidade nas intenções de voto de Lula, Flávio e de outros aspirantes à Presidência. A imagem negativa do governo petista, no entanto, supera neste momento a percepção positiva, e o levantamento sugere um aumento do desgaste da gestão que é incomum em períodos eleitorais.

No cenário de primeiro turno, Lula aparece hoje com 39% das intenções de voto, e Flávio tem 33%. Essa diferença já chegou a ser de 10 pontos percentuais, em junho, embora os cenários não sejam diretamente comparáveis por mudanças na lista de candidatos. Ambos estão muito à frente do segundo pelotão, que tem um empate técnico entre Ronaldo Caiado (PSD), que oscilou positivamente, com 5%; Renan Santos (Missão), com 4%; Romeu Zema (Novo), com 3%; e Augusto Cury (Avante), 2%.

Curva distinta

Em um hipotético segundo turno, Lula aparece com 47% contra 43% de Flávio. Em julho, na última vez em que o instituto havia testado esse cenário, os percentuais eram similares (48% a 43%). Nesse meio-tempo, porém, o percentual dos entrevistados que avaliaram o governo Lula como “ruim” ou “péssimo” subiu de 38% para 41%, enquanto o percentual de “ótimo” e “bom” oscilou de 32% para 33%. A margem de erro da pesquisa é de dois pontos.

Em agosto de 2022, numa etapa semelhante da campanha, o então presidente Jair Bolsonaro (PL) tinha 30% de ótimo e bom, e 43% de ruim e péssimo, segundo o Datafolha. Embora seu saldo à época fosse pior que o de Lula atualmente, Bolsonaro vinha numa trajetória de melhora constante de avaliação, segundo a pesquisa. Em maio daquele ano, Bolsonaro tinha 48% de ruim e péssimo, e 25% de ótimo e bom. No caso de Lula, esses percentuais há três meses eram, respectivamente, de 39% e de 30%.

A melhora na avaliação de Bolsonaro há quatro anos, que se estendeu para o decorrer da campanha, veio a reboque de medidas de consideradas “eleitoreiras” à época, como a liberação de empréstimos consignados para beneficiários do Bolsa Família — e o aumento do benefício de R$ 400 para R$ 600 por família — e a redução compulsória de tributos, inclusive estaduais, sobre combustíveis. Essas medidas injetaram recursos na economia às vésperas da eleição, mas deixando buracos no orçamento para o mandato seguinte.

Lula também vem investindo em um “pacote de bondades” para aquecer a economia, com medidas que incluem facilitação de crédito para compra de automóveis e renegociação de dívidas de pessoas físicas e jurídicas.

Embora essas medidas venham sendo acompanhadas por oscilações positivas no índice de “ótimo” e “bom” do governo, nos últimos dias Lula passou a sofrer com o desgaste pelo avanço de investigação da Polícia Federal sobre uma suposta prática de tráfico de influência envolvendo um de seus filhos, Fabio Luis, conhecido como Lulinha (leia mais na página 6). Além do avanço da avaliação negativa de 38% para 41% neste mês, o Datafolha também identificou que o percentual dos que desaprovam o governo chegou a 50%, e hoje está numericamente acima da aprovação, que é de 47%. Esta é a maior distância desde maio, quando havia 51% de desaprovação e 45% de aprovação. Desde então, os índices vinham praticamente iguais, com a aprovação ligeiramente acima (49% a 48%) em julho.

Na série histórica do Datafolha, Flávio registrou uma queda de intenções de voto em maio, quando veio à tona seu pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, do Banco Master, sob pretexto de financiar um filme em homenagem ao pai. Desde então, apesar das oscilações na avaliação do governo Lula, o filho de Bolsonaro não conseguiu retomar o patamar de igualdade com o petista. Até abril, segundo os levantamentos, Flávio aparecia com índice de rejeição ligeiramente abaixo ao de Lula, e vinha encurtando a distância para o petista em um eventual segundo turno — o placar, à época, era de 46% para o atual presidente contra 45% para o opositor.

Desde o chamado “caso Dark horse”, porém, Flávio aparece estacionado com 43% das intenções de voto em um embate direto com Lula, com uma desvantagem que oscila de quatro a cinco pontos no período. Além disso, a rejeição do eleitorado a Flávio, conforme o levantamento do Datafolha, segue numericamente superior à de Lula: 46% dizem não votar de jeito nenhum no candidato do PL, ante 45% que dizem o mesmo sobre o petista.

O Datafolha também testou um cenário de primeiro turno com Pablo Marçal, que se apresentou como candidato pelo PRTB, embora esteja inelegível. O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) proibiu nesta semana a participação de Marçal em debates e o acesso a recursos dos fundos eleitoral e partidário. Ao ser testado com os demais candidatos, ele marcou 2% na pesquisa.

Avaliação das campanhas

Apesar do desempenho na aprovação, o resultado trouxe certo alívio para a campanha à reeleição de Lula, que temia sofrer impacto nas intenções de voto por causa do caso Lulinha. A campanha de Flávio, por sua vez, avalia que o desgaste ainda vai atingir o petista e aposta no início do horário eleitoral, na próxima sexta-feira, para ampliar a exposição do tema.

Mesmo com desempenhos tímidos no primeiro turno, Caiado, Renan e Zema registram um patamar não muito distante do alcançado por Flávio quando são testados em simulações de segundo turno contra Lula. Nessas quatro hipóteses, o atual presidente bate em um teto, atualmente, de 47% a 48%, assim como no embate direto com o filho de Bolsonaro. Caiado chega a marcar 40% ao ser testado diretamente contra Lula, enquanto Renan e Zema ficam dez pontos atrás do petista.

Diferentemente de Lula e Flávio, o índice de rejeição ao trio fica em torno de 15%, segundo o Datafolha. Mas o levantamento indica um cenário de difícil rompimento da atual polarização.

A pesquisa foi contratada pela TV Globo e pelo jornal Folha de S. Paulo, e está registrada no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) sob o protocolo BR-04496/2026. O Datafolha entrevistou mais de 2 mil pessoas em todo o país, entre terça e quarta-feira.

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