segunda-feira, 29 de junho de 2026

A 'OFERTA GENEROSA' DE FLÁVIO BOLSONARO A TRUMP

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Flávio Bolsonaro vai aos EUA negociar o preço da sua ‘generosa oferta’ a Trump

Por mais que Flávio e Eduardo digam que a ida a Washington é para defender o Brasil, evitar sanções e salvar o Pix, ninguém esquece que foram eles, os Bolsonaro, que criaram e ainda hoje insistem em manter todos esses problemas

A mensagem de Marco Rubio para Flávio Bolsonaro foi cheia de recados subliminares, mais grave do que parecia à primeira vista e pode transformar a ida de Flávio ao país para uma audiência pública com o Escritório de Comércio, no dia 6, em mais um tiro no pé. Ou em mais uma peça de marketing, não para a campanha dele, mas para a de Lula.

O que importa é que Rubio agradeceu “a generosa oferta” de Flávio de, se eleito, montar uma equipe de transição exclusiva entre Brasil e EUA. Soa como uma hipoteca. Trump interfere a seu favor nas eleições e ele “paga”, depois, entregando os interesses e a independência do Brasil às conveniências dele.

A ideia de hipoteca é reforçada pela própria personalidade de Trump e seu governo: o jogo em Washington hoje tem nome, “business”. O que importa não são alianças estratégicas entre nações soberanas, comércio legítimo e justo, valores, cooperação, direitos. Só os negócios.

Pior: que tipo de apoio os Bolsonaro esperam de Trump? Tarifaço, Lei Magnitsky, suspensão de vistos de autoridades, sanções com base na Seção 301 de Comércio e uso do PCC e CV como pretexto para ações no Brasil, além de intervenção nas eleições de outubro?

Por mais que Flávio e seu irmão Eduardo digam que a ida a Washington é para defender o Brasil, evitar as novas sanções e salvar o Pix, ninguém esquece que foram eles que criaram todos esses problemas, não para Lula, mas para produtores, exportadores, empregos e a economia do Brasil.

Ficou fácil colecionar material de campanha contra Flávio, com vídeos, áudios, mensagens e provas contra si produzidas pela família e aliados, incluindo as deixadas por Jair Bolsonaro. O vídeo em que ridiculariza pessoas morrendo por falta de ar na pandemia é imbatível.

A bola da vez é Michele, a nova queridinha da esquerda, ao acusar Flávio de a “humilhar, desrespeitar e maltratar”. Curioso é que ninguém duvidou, todo mundo assumiu como verdadeiro que Flávio seria capaz disso.

Como foi, aliás, de negar que Daniel Vorcaro financiasse o filme “Dark Horse”, às vésperas de o Intercept Brasil divulgar o áudio em que ele cobra “parcelas em atraso” do “Daniel”. A sua risadinha dizendo que era “mentira”, é tão forte, ou quase, quanto a gravação em que ele fala com o “Daniel”. O áudio envolve dinheiro, o vídeo confirma o caráter.

Quem mais concorre com Jair em gols contra e material para os adversários é Eduardo, o 03, achando que ajuda o irmão. Não é o que as pesquisas dizem, o Planalto avalia e os próprios aliados acham. A sensação é de que, quanto mais ele e Flávio se metem com Trump e submetem o Brasil aos EUA, mais munição dão a Lula.

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domingo, 28 de junho de 2026

MICHELLE CONTRA FLÁVIO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Ex-primeira-dama diz que senador a humilhou com rispidez e fez alianças com quem chamou a família de ladrões

Ao dizer que só age com concordância do marido, Michelle sugere que Flávio também desautoriza Jair

Depois do irmão Vorcaro, agora é a vez da madrasta Michelle atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro.

Michelle Bolsonaro gravou um vídeo dizendo que Flávio Bolsonaro a apunhalou pelas costas, a humilhou com sua rispidez e faz alianças com que já chamou ele e seu pai de ladrão e de nazista. Também protestou contra a exclusão de mulheres das chapas bolsonaristas para o Senado esse ano: Priscila Costa, preterida no Ceará depois da aliança com Ciro Gomes, e Carol de Toni, que perdeu a vaga de candidata ao Senado pelo PL em Santa Catarina para Carlos Bolsonaro. Ao dizer, repetidas vezes, que só agia em concordância com o marido, Michelle sugeriu fortemente que, quando Flávio a desautorizava, desautorizava Jair. Afinal, se ela só repete o que Jair diz, o vídeo de quarta-feira também deve ter sido feito com a bênção de Bolsonaro.

Flávio poderia ter respondido: "Cara madrasta, se eu descartasse quem acha que eu e meu pai somos ladrões e fascistas, só me sobrariam aliados burros. E por que diabos você pensou que esse movimento aqui da gente empoderaria mulheres? Achou que nosso problema com o feminismo eram só os peitos de fora em passeata? Qual a chance do Jair Renan arrumar um emprego se metade da população não estiver excluída da competição?".

Se você acha que eu exagero, assista ao vídeo de Paulo Figueiredo, o cúmplice de Eduardo Bolsonaro, em resposta a Michelle. A coisa começa com "mulher vota muito mal" (minuto 29:43), "principalmente mulheres solteiras" (29:58), passa por chamar Michelle e Damares de feministas (21:13), vai até "podem arrancar os pentelhos das calcinhas" (30:04) e conclui dizendo que "se vocês soubessem as coisas que eu sei" teriam vontade de cortar os pulsos quando Michelle chama Jair de "meu galego".

A ameaça "sei mais do que posso falar" foi mútua: a ex-primeira-dama tinha terminado seu vídeo dizendo que havia dito "quase tudo" que queria.

Michelle bateu onde dói: o desempenho de Flávio nas pesquisas é muito pior entre as mulheres (por isso o ódio de Figueiredo). O único ponto de entrada do candidato de extrema direita nesse eleitorado são as mulheres evangélicas, que têm Michelle em alta conta, e, em muitos casos, se identificam com as candidatas de direita que Michelle apoia.

Michelle Bolsonaro não teria gravado esse vídeo se achasse que Flávio vai ganhar a eleição. Foi um gesto de disputa pelo legado do Jair. O legado só estará em disputa se Flávio perder.

Michelle deve saber, inclusive, que a gangue dos zeros (zero um, zero dois, etc.) vai responsabilizá-la em caso de derrota. Como se Flávio não estivesse no centro do maior escândalo financeiro da história brasileira, como se Eduardo não tivesse conspirado por um tarifaço contra o Brasil, como se Jair, enfim.

Por isso a principal suspeita é que a jogada de Michelle tenha sido uma tentativa de se distanciar de uma candidatura que tem boas chances de perder, e, pior, de sair desmoralizada pelas revelações do caso Master. Se esse for o diagnóstico, faz sentido parar de nadar do lado do provável afogado e se resguardar para disputas futuras.

Não sabemos se Michelle fez seu vídeo para se distanciar de um Flávio prestes a ser derrotado. Mas se alguém mais já queria fazer isso, a crise na família Bolsonaro é uma oportunidade de ouro.

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FUGINDO PARA A FRONTEIRA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Antigamente, os bandidos americanos vinham se refugiar na South America, leia-se o Rio

Hoje é o contrário; nossos bandidos escapam da lei brasileira e se refugiam nos EUA

cinema americano clássico tinha uma fórmula infalível para evitar que seus vilões mais simpáticos fossem presos no fim do filme e pagassem por seus crimes. Era só filmá-los atravessando um marco —a fronteira— onde se via, ao lado de um pujante cacto e de um sujeito roncando sob um sombrero, uma placa dizendo "México". Ou seja, passando para o lado de lá, não apenas os bandidos americanos se viam livres da Justiça como se refugiavam num país habituado a abrigar bandoleiros e que os tratava muito bem. Os mexicanos, como é natural, se magoavam com aquilo.

Uma saída mais sofisticada era fazer com que os bandidos fugissem na cena final para a South America, leia-se o Rio, a única cidade que eles conheciam. Um dos primeiros e ainda o melhor filme a mostrar isso foi "O Homem que se Vendeu" ("The Great McGinty"), de 1940, de Preston Sturges. Trata de dois políticos, Brian Donlevy e Akim Tamiroff —um que nunca foi corrupto exceto por um minuto e outro que sempre foi, exceto também por um minuto—, que escapam da lei e vêm ser felizes como garçons num botequim carioca.

Referências ao Brasil como um paraíso para foragidos eram tão comuns no cinema que Ronald Biggs, autor do famoso assalto a um trem pagador inglês em 1963, acreditou nisso, veio para cá e se deu muito bem, queridíssimo em Santa Teresa. Tivemos também nazistas, mafiosos, ditadores e toda sorte de pilantras, nem tão queridos.

Mas isso foi naquele tempo. Hoje, o contrário é que não para de acontecer. Brasileiros com contas a ajustar com os tribunais, muitos já condenados, se escafedem e vão para os EUA —Flórida ou Texas—, onde vivem do dinheiro que recebem do Brasil e têm aberta proteção do governo americano. Os mais notórios, você sabe: Eduardo Bolsonaro, Alexandre Ramagem, Allan dos Santos. Mas há também influencers, foragidos do 8/1 e ex-agentes da PF particular de Bolsonaro.

Hei, uma ideia: que tal filmes brasileiros sobre os nossos patriotas de araque e golpistas que vão se esconder debaixo da gravata de Trump?

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UM DESTINO TÃO FUNESTO

Muniz Sodré*, Folha de S. Paulo

Episódio chocante na ponte do Esqueleto, em Limeira (SP), provoca reflexão

Detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal

Há algo de funesto, isto é, de mau augúrio e desastroso, no incidente da ponte do Esqueleto em Limeira (SP), quando três homens assistidos por um técnico levantaram nos braços uma jovem para lançá-la "em aviãozinho" do alto de 40 metros. Seria uma experiência de rope jump, em que grossas cordas sustentam a pessoa no ar. Só que, contra toda a razão, esqueceram de amarrar as cordas. "Horribile visu", medonho de contemplar, o chocante episódio provoca uma reflexão.

Sujeitos à acusação de homicídio, os instrutores, perplexos consigo mesmos, alegam ter sofrido um apagão, nenhum deles notou a ausência das amarras de segurança. Inexplicável assomo de inconsciência: um fenômeno análogo ao do pai ou mãe que esquece o bebê num automóvel trancado enquanto faz compras num supermercado. Com uma diferença gritante: na ponte, eram várias pessoas. A atenção que se deveria prestar à segurança competia com a câmera GoPro fixada no corpo da jovem. Só quem estava fora do circuito imediato desse holofote pôde perceber e avisar que faltavam as cordas.

Não há como se eximir de culpa. Mas detrás de uma aberração individual pode haver uma microestrutura, que funciona pela obliteração despercebida da razão e da atenção, normalizando o anormal. Pertinente é a metáfora de Engels de que "olhar apenas para o indivíduo seria o mesmo que observar a árvore e não considerar o bosque" (em "Do Socialismo Utópico ao Socialismo Científico"). Em "bosques" implausíveis, mas verossímeis, se expande a aura popular da anestesia perceptiva e do descaso.

Divisa-se assim um pequeno paradigma extensivo à generalidade do corpo social. De fato, essa aberração de comportamento evoca o blecaute perceptivo e moral que acomete as massas dessensibilizadas de sua espoliação pelas gestões incivis dos mecanismos de Estado ou de imposição das dinâmicas de sujeição social e psíquica pelas políticas neoliberais.

Outro não é o quadro atual, em que o senso comum assiste bestificado à desagregação institucional e à fragmentação do laço social por efeito da indiferença das elites ao território e do cinismo como marcador da ética social imediata. O apagão sensível e moral em instituições como o Congresso, o Judiciário e os blocos partidários tem consequências ainda não plenamente avaliadas sobre o corpo social. A dinâmica da necropolítica, orientada para a destruição da vida comum e o extermínio dos descartáveis, não aparece nas macroanálises noticiáveis.

Além do evidente sofrimento da família pelo sacrifício banal de uma filha, depreende-se da imagem do episódio nas redes uma metáfora descritiva da atualidade: o país a caminho de um voo instagramável sobre o abismo, sem cordas de sustentação, carregado por sujeitos de um apagão adverso. É o senador, o deputado, o juiz, o executivo eleito, quando submersos no vórtex escabroso da corrupção. Esse grupo inclui o cidadão anestesiado. A analogia é consistente, levando-se em conta que, fora do blecaute da consciência, houve quem gritasse pelas cordas. Espera-se que esse grito possa repercutir nas urnas eleitorais.

*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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SINAL DE ALERTA NAS AMERICANAS

Elio Gaspari, O Globo

Movimento da Polícia Federal indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa

A ida da Polícia Federal aos marqueses da rede varejista Americanas, bem como o bloqueio de até R$ 54 bilhões de seus bens, indicam que pode estar sendo reaberto o caso da fraude praticada na empresa.

Quando os holofotes estavam voltados para a rede e a empresa era vista como “terra arrasada”, um banqueiro chamado Daniel Vorcaro armava sua rede de notáveis para salvar seu banco. Organizava farofas com hierarcas e festas com jovens eslavas.

A sabedoria convencional ensina que o escândalo seguinte abafa a roubalheira anterior. Nesse caso, o banco Master abafaria o caso da Americanas. A ação da PF desmentiu essa urucubaca.

A fraude da Americanas mobilizou várias equipes de investigadores e produziu a maior pizzaria dos últimos tempos. Chegaram ao ponto de criar uma CPI que não ouviu ninguém relevante e não apontou para vivalma. Exageraram na exibição do próprio poderio. Soberba.

Só não haviam domesticado a Polícia Federal. Má ideia.

Quando o caso do banco Master começou, urdiu-se uma vacina judicial. Levaram a farinha, o queijo e os tomates. Iam ligar o forno e, sem estridência, alguém pôs na pizza contratos de advocacia e um resort de granfinos no Paraná. O tempero azedou a pizza.

O canalha e o tribunal

O nível de uma banda do Supremo Tribunal Federal chegou a tal ponto que merece atenção um ensinamento do advogado americano Roy Cohn (1927-1986):

“Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz.”

Como promotor, Cohn foi o braço direito do senador Joseph McCarthy na caça às bruxas dos anos 50. Como advogado foi um temível litigante e teve como cliente e discípulo um jovem empresário chamado Donald Trump.

Em setembro chegará às livrarias sua biografia, escrita pelo craque Kai (Oppenheimer) Bird. Seu título diz tudo:

“Um canalha americano.”

Mendonça não é Moro

Não custa repetir: André Mendonça não é Sergio Moro. Seu único projeto é sair inteiro do Supremo Tribunal.

Conversa difícil

A conversa de Lula com o senador Jaques Wagner que resultou no seu afastamento da liderança do governo foi das mais difíceis de seus 80 anos.

Maggie Haberman

Chegou às livrarias nos Estados Unidos o novo livro da repórter Maggie Haberman. É “Regime Change”, desta vez, com seu colega Jonathan Swan. Destrincha o primeiro ano do governo de Donald Trump. Resulta um presidente vingativo, egocêntrico e mercurial. Na sua Casa Branca o bilionário Elon Musk passou de gênio a doido.

Num de seus melhores momentos eles descrevem a subserviência pós-eleitoral de Mark Zuckerberg, que o havia banido de sua rede, e de Jeff Bezos. Bezos reclamou dos jornalistas do seu Washington Post, e um dos filhos de Zuckerberg escreveu uma carta a Trump dizendo que ele levará os EUA a uma era de ouro.

Puxa-saco é parte da vida, mas presidente tripudiando com a exibição das mensagens que eles lhe mandaram é novidade.

O último livro de Haberman foi uma biografia de Trump. Chama-se “Vigarista”.

Trump e o Irã

Em outubro passado, o comentarista Tucker Carlson alertou-o para o risco de se meter com o Irã, tema da agenda de Benjamin Netanyahu.

“Não vamos fazer isso”, respondeu Trump.

“Ótimo. Porque a única coisa que pode implodir seu governo é uma guerra com o Irã. Essa é uma armadilha de seus inimigos. Essa gente o odeia. Depois que você entra, é difícil sair. Estropia sua presidência“.

Deu no que deu.

Maduro

Haberman e Swan contam que no dia 21 de novembro o bilionário brasileiro Joesley Batista esteve com Trump e Marco Rubio (seu canal seria Melania, a mulher do presidente). Eterno desconfiado, Trump conduziu a conversa em espanhol para testar a proficiência de Joesley com o idioma.

Batista foi a Caracas e sugeriu a Maduro que renunciasse. Nada feito.

Trump tentou de novo, mandando Tucker Carlson a Maduro. O ditador venezuelano ofereceu ao intermediário americano provas de que as urnas da eleição de 2020 nos Estados Unidos estavam viciadas. Não colou, o recado de Trump era claro: vamos tomar seu país e seu petróleo.

Com a frota americana ao largo, Maduro tentou negociar. Trump oferecia-lhe a carta do exílio. A essa altura, o secretário de Estado Marco Rubio já tinha posto uma coleira na vice-presidente Delcy Rodríguez. O secretário de Estado diz que ela é séria, porém corrupta.

Na véspera do Natal, Trump tinha três opções: Maduro seria mandado para o Qatar, para a Turquia ou para a cadeia. No dia 3 de janeiro Maduro e sua mulher foram sequestrados e estão presos nos Estados Unidos.

A prioridade de Rubio

Marco Rubio credenciou-se para ocupar a Secretaria de Estado com a ideia de que os Estados Unidos perdem muito tempo com a Europa e o Oriente Médio enquanto deveriam ser mais ativos na América Latina.

A encalacrada em que Trump se meteu com o Irã indica que Rubio não foi ouvido por seu chefe, mas já já ele arruma outra encrenca por aqui.

Alexandre e Alcolumbre

Pode vir a ser perda de tempo supor que o próximo Senado votará o impedimento do ministro Alexandre de Moraes. A amizade do doutor com o senador Davi Alcolumbre é uma barreira quase intransponível.

Como a sede é muita, escolherão outra vítima.

Vorcaro na Papudinha

Instalado numa cela da Papudinha, Daniel Vorcaro terá mais clima para refletir sobre a qualidade de sua delação. A cada semana que passa, a Polícia Federal e o Ministério Público precisam menos dela.

A esta altura, sua transferência para um regime de prisão domiciliar é pouco mais que um sonho de noite de inverno.

Bolsonaro x Bolsonaro

Que grande novela dariam as brigas passadas, presentes e futuras da família Bolsonaro.

Ganha um fim de semana em Miami quem souber um só tema de política pública que os divide. É puro Nelson Rodrigues.

Gordon no Planalto

Atribui-se ao escritor Otto Lara Resende uma frase cruel, disparada durante o governo do marechal Castello Branco (1964-1967):

“Chega de intermediários, Lincoln Gordon para presidente da República.”

Gordon, um professor de Harvard, era o embaixador americano e não achava a menor graça na piada. Seu senso de humor era limitado.

Já o adido militar, general Vernon Walters, era uma piada ambulante. Renomado poliglota, dizia: “Eu falo sete idiomas e não penso em nenhum.”

Quando falavam que ele urdiu a deposição do presidente João Goulart, respondia:

“Se eu entendesse o Brasil, não teria comprado um apartamento no Panorama Palace Hotel.”

O prédio, construído numa encosta de Ipanema, nunca ficou pronto.

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A FALA DE MICHELLE E SEUS REFLEXOS

Míriam Leitão, O Globo

Ela deixa claro que veio para ficar na política e pode se tornar plano B para o PL ou apoio para Flávio. Seja o que for, sai mais forte

A mensagem de Michelle Bolsonaro foi um ato de campanha, bem pensado e bem realizado. É um plano de contingência da extrema direita e de Jair Bolsonaro. O que falou, os símbolos da linguagem corporal, a caneta na mão, a edição de imagens de suporte, a leitura em tom de conversa revelam a minuciosa arquitetura de marketing político. Michelle é a melhor comunicadora da família e tem pontos reais de conexão com os evangélicos. Atrai também a atenção das mulheres, o eleitorado mais arredio ao bolsonarismo. A primeira reação de Flávio Bolsonaro foi a pior possível, a de menosprezo. Mulheres de qualquer lado político já sofreram atos semelhantes.

Não se improvisa uma fala de 27 minutos que tinha coerência e mensagens diretas e indiretas harmônicas e objetivos evidentes. Quando ela disse “meu futuro político está nas mãos de Deus”, estava, ao mesmo tempo, informando que tem projeto político próprio e levantando a ideia, cara aos evangélicos, de uso das pessoas “escolhidas” para “desígnios divinos”. Ela manipula com maestria todos os símbolos da religiosidade evangélica e, em certa medida, também a protestante tradicional. Esse eleitorado não é o suficiente para levá-la a planos maiores, mas é um bom reduto. Não há banho no rio Jordão, de última hora, que supere o fato de que ela fala a mesma língua dos crentes e é vista como fiel verdadeira.

Michelle nada faria sem a aprovação do marido Jair Bolsonaro e sem o conhecimento do presidente do PLValdemar Costa Neto, em conveniente viagem ao exterior. Ela usou a estrutura do partido do qual é uma dirigente. O nome do ex-presidente foi usado deliberadamente e de três formas. Era Jair, ou “o meu galego”, ou “o meu marido”. Ela informou explicitamente que ele sabia de tudo.

Jair Bolsonaro precisa de que? De que seja eleito alguém que aprovará seu indulto. Ele confia apenas em familiar de sangue, por isso escolheu o seu primogênito. Ainda que Flávio Bolsonaro tenha um volume considerável de intenção de votos, herdado do bolsonarismo e de grupos simpatizantes, ele pode não conseguir superar as dificuldades do envolvimento com o caso Master, e outros eventos que o levem ao derretimento. Para o bolsonarismo, toda a extrema direita e o Partido Liberal é estratégico ter um plano de contingência. As candidaturas só serão homologadas em agosto.

Michelle nada tem a perder com esta exposição. Respondeu à dúvida mais frequente sobre ela, e que Flávio Bolsonaro apresentou de forma ríspida: “Você chegou ontem na política”. Ao rebater essa dúvida, a fala foi coberta por imagens de suas mobilizações em diversos pontos do Brasil.

Quando explicou o xadrez político do Ceará ela quis exibir capacidade de articulação. Por outro lado, mostrou-se como uma esposa zelosa que não aceita uma ofensa feita ao marido e nem mesmo esquece a ofensa aos filhos do marido. Por isso, destacou por duas vezes a fala do Ciro que chamou os enteados de “ovos de serpente nazistóides”.

Ao rejeitar o pragmatismo, que faz com que o inimigo de ontem seja o aliado de hoje, ela passa a mensagem antipolítica. Ao mesmo tempo todo o subtexto da fala de Michelle traz o recado de que ela veio para a política para ficar. Foram muitas as falas que remetiam às causas fundamentalistas para fidelizar o eleitorado conservador. Elogiou o senador Eduardo Girão com imagens de fetos, declarando que ele foi aliado de primeira hora “na defesa da vida”.

Quando criticou os enteados, tanto Eduardo quanto Flávio, ela disse, ao mesmo tempo: “já liberei o perdão”. Assim não se coloca como rancorosa, mas como ofendida com capacidade de perdoar.

A primeira reação de Flávio ao dizer “hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece” só aumentou a força do que Michelle tinha dito, de que ele a humilhara e a desprezava. Depois ele veio com um pedido de desculpas enviesado, no estilo “se o fiz em algum momento, mais uma vez, peço desculpas”. Ela de novo foi mais esperta. “Uma nova história será escrita com verdade, clareza e respeito”, disse.

Michelle Bolsonaro ficou mais forte com esse episódio e Flávio se enfraqueceu. Muitos cenários se abrem: o de Michelle ser o plano B, ou o do perdão público ao enteado, com a entrada dela na campanha para fortalecê-lo. Parecerá magnânima e venderá de novo a ideia de que sua prioridade é a família. O ato foi tudo, exceto um desabafo impulsivo. Terá desdobramentos e consequências.

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DE LACERDA A FLÁVIO, WASHINGTON RONDA A POLÍTICA BRASILEIRA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica

Desde a crise que culminou no golpe militar de 1964, dificilmente um político brasileiro expôs de forma tão explícita sua interlocução com autoridades dos Estados Unidos durante uma disputa política interna quanto o senador e pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL). Entretanto, o circunstâncias históricas são distintas. O mundo já não vive a Guerra Fria, o Brasil é uma democracia consolidada e as relações entre Brasília e Washington são marcadas por intensa interdependência econômica. Ainda assim, os acontecimentos recentes recolocaram em debate a influência externa sobre os rumos da política brasileira.

O episódio ganhou dimensão eleitoral após a visita de Flávio a Washington. Ali, reuniu-se com integrantes do governo Donald Trump, incluindo o secretário de Estado Marco Rubio, o vice-presidente J.D. Vance e o próprio presidente norte-americano. O encontro antecedeu duas decisões relevantes: a classificação do Comando Vermelho (CV) e do Primeiro Comando da Capital (PCC) como organizações terroristas pelo governo dos EUA e a manutenção do processo que poderá resultar na imposição de tarifas de 25% sobre produtos brasileiros.

Em carta enviada a Flávio, Rubio agradeceu o apoio recebido na classificação das facções criminosas e escreveu que os Estados Unidos reconhecem que "a violência e as sofisticadas redes criminosas dessas facções ameaçam a segurança de cidadãos honestos em todo o nosso hemisfério compartilhado". Acrescentou que Washington atua para atingir "as redes financeiras, de drogas e de armas" dessas organizações.

Rubio deixou claro que permanecem "divergências substanciais" entre os dois países nas áreas de comércio digital, sistemas de pagamento eletrônico, propriedade intelectual, acesso ao mercado de etanol, combate ao desmatamento ilegal e tarifas preferenciais. Mas agradeceu a Flávio pela "generosa oferta de colocar uma equipe de transição à nossa disposição caso o senhor seja eleito".

presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem elevado o tom com a Casa Branca: "Nós somos muito grandes, temos muita história. E nós não podemos aceitar o tratamento que os Estados Unidos deram ao Brasil nesta semana". Acrescentou que "ninguém pode dizer que o Brasil se negou a negociar com os Estados Unidos" e classificou Marco Rubio como "um latino-americano frustrado". Dias depois, reforçou o discurso de defesa da soberania nacional ao afirmar que o Brasil precisa estar preparado para um mundo mais instável: "Eu não quero guerra, mas também não quero ser pego de surpresa".

Há algumas semanas, Lula esteve na Casa Branca. Foi uma tentativa de reconstruir a relação bilateral com Trump. O encontro foi considerado cordial pelos dois governos e procurou reduzir tensões comerciais e geopolíticas. Entretanto, a manutenção da investigação comercial conduzida pelo USTR (singla em inglês do Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos) e do chamado tarifaço demonstrou que a aproximação política não alterou as prioridades econômicas de Washington.

Ofensiva de direita

Figura chave nas atuais relações Brasil-EUA , Rubio é filho de imigrantes cubanos e defensor de uma política externa dura para a América Latina. Mantém intensa interlocução com lideranças de extrema-direita e conservadoras do Brasil. Entretanto, sua carta também evidencia que os governos dos EUA mudam, mas os interesses estratégicos permanecem. Ao agradecer a Flávio, confirmou a continuidade das medidas comerciais contra o Brasil.

Trump comemora a eleição de governos de direita na América Latina, na expectativa de que isso contenha a presença comercial da China. Estabeleceu-se um cinturão conservador nas fronteiras do Brasil, agora formado por Argentina, Paraguai, Bolívia, Peru e Colômbia. A comparação com 1964 é inevitável.

Naquele contexto de radicalização ideológica provocado pela Guerra Fria, o então governador do antigo estado da Guanabara, Carlos Lacerda, o principal líder civil da oposição ao presidente João Goulart, em diversas viagens aos EUA encontrou-se com autoridades norte-americanas, empresários e formadores de opinião para denunciar o governo brasileiro como incapaz de conter o avanço do comunismo.

Sua intensa articulação internacional transformou-se num dos elementos da crise política que desembocaria no golpe militar de 31 de março de 1964. João Goulart ainda tentou neutralizar essa ofensiva. Em abril de 1962, visitou Washington e reuniu-se com o presidente John F. Kennedy. O objetivo era compatível com a democracia e preservar o apoio financeiro norte-americano, mas não eliminou a crescente desconfiança da Casa Branca em relação ao seu governo.

Documentos posteriormente desclassificados revelaram que o governo Lyndon Johnson preparou a Operação Brother Sam, um plano de apoio logístico aos militares brasileiros caso houvesse resistência ao golpe: navios com combustível, munições e equipamentos foram deslocados para a costa brasileira. A rápida queda do governo Goulart tornou desnecessário seu emprego.

O caso brasileiro não foi isolado. Ao longo das décadas de 1950, 1960 e 1970, a CIA também participou de golpes na Argentina, na Bolívia, no Chile, no Paraguai, no Uruguai e no Peru.  A história parece querer se repetir, só não sabemos ainda se como farsa ou como tragédia.

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INFLAÇÃO DESAFIA TRUNFO DO EMPREGO

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Governo entra na campanha com emprego alto, mas inflação elevada

O governo fechou o primeiro semestre com uma notícia animadora – desemprego menor do que o de um ano antes – e uma preocupante, embora positiva – prévia da inflação mensal em queda, mas com taxa anual, 4,8%, ainda acima do teto da meta. Se a produção continuar em alta, mesmo com a expansão econômica perto de 2%, uma taxa medíocre para um país emergente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva poderá lucrar na busca pela reeleição. Falta saber como o governo reagirá se a alta de preços continuar superando com folga a meta oficial, 3% em 12 meses com tolerância de até 4,5%.

Se a inflação seguir corroendo o orçamento familiar, distorcendo o gasto público e engordando a dívida federal, uma resposta convencional poderá incluir um aperto nas finanças do governo. É difícil, no entanto, apostar numa reação desse tipo, quando o presidente da República está buscando mais uma reeleição.

Do lado oficial, a ação mais provável no rumo do ajuste continua sendo cautela maior na política monetária, com o Banco Central (BC) mantendo juros elevados e limitando, portanto, os empréstimos e o investimento privado em obras, máquinas e equipamentos. O presidente da República poderá fazer cara feia, mas tem procurado aceitar sem muita reclamação a prudência do BC. No entanto, será uma surpresa se entrar de fato no jogo da austeridade, especialmente quando está empenhado na caça aos votos.

O custo da austeridade poderá ser tanto maior para o governo, politicamente, quanto pior for seu efeito no mercado de trabalho. A desocupação no trimestre encerrado em maio ficou em 5,6%; foi ligeiramente inferior ao do período de março a abril (5,8%) e bem menor do que o de um ano antes, 6,2%. Além disso, foi o melhor resultado para esse período na série iniciada em 2012.

A população desocupada, 6,1 milhões de pessoas, também foi quase igual à do trimestre dezembro-fevereiro, 6,2 milhões, e 9,3% menor do que a de um ano antes. A população ocupada, 102,7 milhões, aumentou 0,5% no trimestre e 0,8% em um ano. O nível de ocupação, 58,6% das pessoas em idade de trabalhar, aumentou 0,2 ponto porcentual no trimestre.

A relativa estabilidade em relação aos primeiros meses do ano pode ser sazonal, mas a mínima histórica talvez indique uma tendência estrutural de “aquecimento e expansão”, observou o analista William Kratochwill, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Isso dependerá principalmente do ritmo da atividade econômica, embora outros fatores, como alterações na legislação do trabalho, também possam afetar o emprego no curto prazo. Quanto aos negócios, deverão continuar avançando, mas algumas projeções indicam perda de ritmo. Segundo o boletim Focus divulgado na segunda-feira passada, o Produto Interno Bruto (PIB) deve crescer 1,98% em 2026 e 1,70% em 2027. O governo tem estimado um avanço em torno de 2%, muito próximo da mediana estimada no setor financeiro. O PIB aumentou 1,1% no primeiro trimestre e 2% em 12 meses. A produção da agropecuária cresceu 7,5% no período de um ano, a da indústria expandiu-se 1,3% e a dos serviços avançou 1,8%.

Não há, por enquanto, perspectiva de crescimento muito diferente da média registrada nos últimos anos. O aumento da capacidade produtiva depende do investimento de capital em recursos físicos, como instrumentos produtivos, infraestrutura e outras construções. O capital humano – mão de obra disponível e qualificada para as atividades necessárias – também é fundamental e depende, naturalmente, das somas aplicadas em educação e treinamento.

O valor investido em capital físico no trimestre inicial deste ano equivaleu a 16,5% do PIB, segundo o IBGE. Ficou abaixo do registrado um ano antes, 17,6%, e continuou muito inferior ao observado em outras economias emergentes, frequentemente iguais e até superiores a 18%. Até em alguns países desenvolvidos a taxa do investimento em relação ao PIB tem superado a do Brasil, segundo estatísticas do Fundo Monetário

Internacional (FMI).

Juros altos dificultam e desestimulam o investimento privado em meios de produção. Mesmo com o recente corte de 0,25 ponto porcentual, os juros básicos, agora fixados em 14,25%, permanecem elevados e o Banco Central terá dificuldade para decidir novos cortes enquanto houver muita insegurança quanto a um ajuste sustentável das finanças públicas. Crédito mais barato poderia ser um grande facilitador do crescimento da atividade e do emprego produtivo. Mas crédito e investimento dependem, para crescer, do capital disponível, de seu custo, das condições políticas e das perspectivas econômicas de médio e, se possível, de longo prazo.

As condições políticas têm sido estáveis no País, e sem risco aparente de retrocesso e de contaminação externa. A decisão de mobilizar e aplicar capitais depende basicamente do custo do dinheiro e do cenário de médio e, se possível, de longo prazo. O dinheiro continua caro, com juros básicos de 14,25%, e taxa real – descontada a inflação prevista – acima dos padrões internacionais e dependente de uma gestão mais prudente, e por enquanto imprevista, das finanças do governo.

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O DITO PELO NÃO DITO

Merval Pereira, O Globo

A estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está na base das fake News.

Outro dia, em palestra da Academia Brasileira de Letras (ABL), o filólogo acadêmico Ricardo Cavaliere dissertou sobre a filosofia da linguagem que, no final do século XIX, na chamada “virada linguística”, definiu que nosso saber não está restrito aos domínios da mente, “pois o conteúdo cognitivo que acumulamos no decorrer da vida é moldado pela linguagem”. Os estudos da filosofia da linguagem destacam dois tipos de linguagem, baseados na “pressuposição” e na “implicatura”.

A primeira, parte do princípio de que os interlocutores têm o mesmo conhecimento. Se na argumentação você usa um pressuposto equivocado para defender uma tese, pode fazê-lo de má-fé, só para ganhar a discussão, ou por ignorância. Se seu interlocutor conhece o assunto, verá logo que você está errado. Mas, se, ao contrário, ele não tiver essa informação, você pode ganhar uma discussão com base num equívoco, por má-fé ou ignorância. Não pude evitar lembrar de discussões políticas em que o ardil geralmente está presente.

O mais famoso deles é a disputa entre o General Dutra e o Brigadeiro Eduardo Gomes pela presidência em 1954. O Brigadeiro, em um comício, disse que não precisava dos votos “desta malta de desocupados que apoia o ditador”. Segundo relato da historiadora Alzira Alves de Abreu, o getulista Hugo Borghi descobriu no dicionário que “malta”, além de significar “bando ou súcia”, o que já era ofensivo, também denominava trabalhadores que levavam suas marmitas nas linhas férreas, o que atingia mais diretamente os eleitores pobres. Daí a pressuposição de que o brigadeiro, um candidato da elite, estava menosprezando os marmiteiros, os pobres, foi um passo, e o general Dutra venceu uma eleição perdida.

Essa estratégia de trabalhar com um mundo falsamente compartilhado está também na base das fake News. “Assim, o mundo em que vivo é o mundo que a linguagem torna factível”, ressalta Cavaliere. Ao lado da noção de pressuposição, vige no âmbito da filosofia da linguagem a noção de implicatura, lembra o filólogo, “uma formulação linguística não dita, ou, mais especificamente, dita pelo não dito”. A implicatura recorre a referentes que devem estar na órbita dos dialogantes e, se não existirem no plano cognitivo do outro, conduz a um drama discursivo que se denomina “mal-entendido”. Por isso a filosofia da linguagem é uma das ciências mais estudadas, e utilizadas, no mundo jurídico, onde cada vez mais as interpretações das leis são mais importantes do que o texto legal em si.

A Operação Lava-Jato, por exemplo, vem sendo muito usada atualmente pelos que estão sendo investigados no escândalo do Banco Master. O senador Jaques Wagner disse que a foto dos dólares da Polícia Federal foi “escandalosa”, e comparou-a a outras, da Lava Jato. A foto é escandalosa, não o volume de dólares achado em sua casa. Defesa tão frágil passa pelo pressuposto de que muita gente não sabe o que foi a maior operação de combate à corrupção do país, e que foi aniquilada por decisão de ministros do STF, os mesmos que agora querem acabar com as investigações do Master.

No debate entre os ministros do Supremo Gilmar Mendes e André Mendonça no julgamento da prisão de Daniel Vorcaro, as acusações de má conduta são recíprocas, mas a referência de um a outro magistrado não ocorre na realidade factual, senão no plano da linguagem, já que nenhum dos dois se refere diretamente ao outro. A referência se faz por implicaturas:

Gilmar: “Devemos combater a criminalidade, mas é preciso que haja métodos constitucionais para fazer isto. É fundamental que haja”.

Implicatura: André Mendonça descumpriu a constituição para manter Vorcaro preso.

André Mendonça: “O que eu não vou admitir é tentativa de desacreditar a atuação seja minha, como relator, seja dos investigadores”.

Implicatura: Gilmar Mendes deseja taxar de inconstitucional minha decisão pela prisão de Vorcaro.

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MAMDANI PEGA CARONA NA COPA

Dorrit Harazim, O Globo

Enquanto não entrega as mercadorias que o elegeram, o prefeito de Nova York vai surfando nas ondas da sorte no esporte

Para o prefeito de Nova York, Zohran Mamdani, a semana passada foi uma goleada de sabor duplo. Pegou todo mundo de surpresa, a começar pelo próprio alcaide. Começou na terça-feira, com eleições primárias de seu Partido Democrata para saber quem disputará as legislativas de novembro próximo. E terminou com a vitória do Equador sobre a Alemanha, que ele teve o faro político de saudar muito antes de o jogo começar.

Com menos de seis meses à frente da prefeitura, Mamdani conseguiu eleger os três candidatos que endossara com teimosia vigorosa. Todos integram o movimento progressista, ou populista de esquerda, do próprio burgomestre, e o resultado desorganizou o imobilismo suicida em que o partido chafurda desde que perdeu a Casa Branca em 2024. O prefeito de 34 anos adotou vários pitacos do veterano socialista Bernie Sanders. O recado foi claro: na cidade mais democrata do país, ser centrista e acomodado já não basta; convém querer chacoalhar a inércia do partido. Segundo recado: na cidade de maior população judaica fora de Israel (entre 12% e 13%), tampouco basta ser judeu para garantir os votos da comunidade. Isso porque ela está irremediavelmente cindida, e a linha de separação se chama Gaza. Ou Benjamin Netanyahu.

Tome-se o exemplo do imenso 10º Distrito Eleitoral da cidade, onde um em cada quatro moradores é judeu. Dan Goldman, atual ocupante da cadeira, está em seu segundo mandato, teve atuação marcante no encaminhamento do processo de impeachment de Trump, em 2019, mas sempre manifestou apoio quase incondicional a Israel. O progressista Brad Lander, também judeu, seu oponente democrata no tal 10º Distrito, qualifica de genocídio a destruição de Gaza por parte de Israel. Foi eleito. Pela primeira vez, a dissociação de judaísmo e sionismo se manifestou nas urnas numa parte do mundo — e venceu. Pouca coisa não é.

Para um prefeito muçulmano cheio de pose como Zohran Kwame Mamdani, que nasceu na África de pais indianos, por isso não pode cobiçar a Casa Branca, a jornada política está apenas começando. Tem pela frente uma penca de promessas de campanha a cumprir, entre elas o polêmico congelamento dos aluguéis sociais por um período de dois anos, além de creches e gratuidade em ônibus municipais.

Enquanto não entrega as mercadorias que o elegeram, vai surfando nas ondas da sorte no esporte. Embora nada tivesse a ver com a épica vitória dos Knicks na final do campeonato americano de basquete, semanas atrás, tratou de capitalizar a euforia da cidade com esse primeiro título em 53 anos. Com a população em estado de graça, terá conseguido cravar na memória da cidade que o prefeito naquele dia de êxtase coletivo se chamava Mamdani.

Seu segundo gol ocorreu na manhã de quinta-feira. Já se tornou rotina ele começar o dia falando aos nova-iorquinos no Morning Pitch em dias de jogos no estádio MetLife. Na série de vídeos curtos voltada para a Copa do Mundo, o prefeito informa os moradores sobre logística de transporte, previsões do tempo, dicas de restaurantes típicos das seleções em campo etc. Tem por slogan “Você nos dedica cinco minutos, e nós lhe entregamos a Copa do Mundo”.

Pois bem, no vídeo daquela manhã Mamdani dedicou poucos segundos à Alemanha e praticamente metade do tempo para exaltar a gloriosa La Tri do Equador. Assim como já havia se referido à Democracia Corintiana de Sócrates na manhã da estreia do Brasil, desta vez alongou-se em referências históricas ao lateral direito Ulises de la Cruz, detalhou as origens humildes do artilheiro Valencia e deixou claro aos 220 mil equatorianos nova-iorquinos que eles mereciam vencer. Escolheu bem. Considerando que Nova York tem algo como 250 mil residentes de origem germânica, foi uma aposta mais global — quanto mais perto do afunilamento final, mais os torcedores do Sul Global se juntam numa alegria como se fossem um só time.

Pelo menos foi assim quando o Brasil conquistou o tetracampeonato em 1994, nos Estados Unidos, e um arco-íris de camisetas e adereços do antigo Terceiro Mundo tomou conta de Nova York.

Bons tempos aqueles!

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FARRAS, CARONAS E PATACOADAS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Farras, caronas e patacoadas: a estratégia de defesa dos enrolados no caso Master

Políticos seguem mesma cartilha: normalizar o anormal e atacar a investigação

O senador Jaques Wagner se diz indignado com a operação da Polícia Federal que expôs sua proximidade com Augusto Lima, sócio de Daniel Vorcaro. Em entrevista, o ex-governador da Bahia acusou os investigadores de armarem uma “patacoada” para prejudicá-lo. “Fica-se criminalizando qualquer tipo de relacionamento. Óbvio que de vez em quando eu pego carona. O que a polícia tem que comprovar, e não vai, é a relação de troca”, disse à Folha de S.Paulo.

Além das caronas aéreas, a PF descobriu que Wagner pediu a Lima que comprasse um apartamento de R$ 2,5 milhões para sua filha. Depois da operação, o senador disse que planejava reembolsar o empresário. “Eu sei que é nebuloso, que todo mundo vai... mas objetivamente, está no meu nome?”, defendeu-se. “O caminho dos corruptos não é esse de fazer um sexo explícito”, prosseguiu.

Wagner confirmou que recorreu ao sócio de Vorcaro em busca de ingressos para a neta assistir a um show de Taylor Swift nos Estados Unidos. De acordo com a investigação, os bilhetes de camarote custaram R$ 63 mil. “Estão achando que ele ele me comprou porque arrumou dois ingressos. Eu poderia pedir coisa mais importante, né?”, desconversou o petista. O argumento ecoa o discurso de outras autoridades flagradas na teia do Banco Master.

Na semana anterior, o deputado Hugo Motta admitiu que voou no jatinho de Vorcaro para Portugal, onde participou do convescote anual do ministro Gilmar Mendes. Segundo a PF, ele e o senador Ciro Nogueira se hospedaram num hotel cinco estrelas de Lisboa. Tudo pago pelo dono do Master. “Não vejo também problema nenhum. Ele não me pediu nada em troca”, disse Motta à CNN Brasil.

O presidente da Câmara já conhecia a generosidade do banqueiro. Antes do Gilmarpalooza, foi convidado para uma boca livre em Nova York, com direito a degustação de uísque e charutos ao custo de R$ 5 milhões. Segundo a PF, Motta também pediu a Vorcaro que liberasse um empréstimo de R$ 22 milhões à empresa da cunhada. Questionado, ele se limitou a dizer que a transação ocorreu “dentro da legalidade”.

Quando as investigações revelaram que Flávio Bolsonaro pediu R$ 61 milhões ao dono do Master, a pretexto de financiar um filme sobre o pai, o senador também negou irregularidades. “Não tem absolutamente nada de errado”, disse. Onipresente nas farras e viagens de Vorcaro, Ciro Nogueira tem preferido evitar entrevistas. Em março, sua assessoria afirmou que ele “não mantém nem nunca manteve qualquer conduta inadequada”.

Os políticos enrolados no esquema do Master parecem seguir a mesma estratégia de defesa. Todos tentam dar ar de normalidade a relações anormais, como se não houvesse problema em pedir e receber favores, mordomias e outras benesses de endinheirados.

Quando são pegos com a boca na botija, eles acusam a PF de “espetacularização”. “Eu acho que o chefe da Polícia Federal tem que tomar conta”, disse Wagner. Na reunião com Lula, o senador desfiou um rosário de queixas contra os investigadores. Mas foi ele quem perdeu o cargo de líder do governo.

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O BARRACO DE MICHELLE E O ROLO MASTER DE WAGNER CONTAM COMO O PAÍS FUNCIONA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

No meio do sururu dos Bolsonaro pode se ver um plano novo para a direita extrema no Brasil

Caso Vorcaro explicita podres do STF, da finança, da política e da operação real do poder

Um assunto político da semana foi o vídeo de Michelle Bolsonaro, que armou salseiro novo na extrema direita. Pode ter relevância nesta eleição apertada, pois ameaça tirar votos de Flávio Bolsonaro. Além do mais, Michelle pode vir a ter posição política maior do que já tem por causa de seu status na família irreal dos Bolsonaro e de seu apelo de palco gospel. Tem presença virtual eficaz e militância real.

Que figura nacional viaja pelo país a organizar células de base, de resto com mulheres, com um comitê político de comando majoritariamente feminino? Que lideranças nacionais de esquerda, que quase inexistem, têm tamanha organização digital e agregam militantes no chão de fábrica político? Mesmo quem não gosta do que diz Michelle deveria prestar atenção ao que ela faz, um plano de entrincheirar a direita. A querela de Michelle com os Bolsonaro é "pop", porém, por misturar fofoca, novela, barraco familiar, BBB e pinimba de influenciadores, paixões nacionais.

Outro assunto da semana, Jaques Wagner, teve também apelo sensacional, inclusive por servir à contagem de gols contra que direita e esquerda marcam por se envolver com gangue. O Master, porém, é mais: um fato social total do mundo dominante, para dizê-lo com sarcasmo.

Nesta semana ficou mais evidente o interesse de ministros do Supremo de, no mínimo, conter danos do processo contra Daniel Vorcaro, por interesse pessoal e por alianças no Congresso. Já vimos isso antes, o acordão que acabou por enterrar a Lava Jato ou, mais importante, provas de corrupção sistêmica de parte graúda da elite econômica e que ia muito além do PT.

O lavajatismo foi muitas coisas. Além de fraude processual e parte do movimento para acabar com o PT, era uma das revoltas contra um sistema político podre e impermeável. Perdeu, entre outros motivos, porque a política politiqueira ocupou o espaço deixado pela repressão provisória do lulismo-petismo. Partidos dos mais envolvidos na corrupção deste século, como PL e PP, foram ao centro do poder com Jair Bolsonaro. Aí valeram-se do enfraquecimento do Executivo, se apropriaram de mais recursos (fundos, emendas, favores empresariais), ampliaram bancadas, currais e a prestação de serviços ao poder econômico. Pode acontecer de novo.

O caso Master é também tentativa de normalizar o que se pode chamar de corrupção contratual ou cordial: contratos para lobby nebulosamente corrupto e favores bandidos chamados de amizade. Vorcaro e políticos, da direita à esquerda, assim justificam seus rolos.

Evidencia também a institucionalização da finança bandida. O Master se valia de um sistema de fintechs, fundos secretos e fraudulentos, de liberalização financeira tosca e de falta de instrumentos de fiscalização disso tudo, pois o Estado é fraco, por captura e falta de recursos no lugar certo. Esse sistema continua vivo, se reorganiza e está no centro de operações de facções, de sonegação e evasão de divisas, de fundos políticos corruptos, tráfico de drogas, armas, combustíveis, ouro e madeira, grilagem, desmatamento etc.

Pela lente de aumento do Master a gente vê a ruína do STF, o poder renovado do centrão direitão, a compra empresarial do Congresso, a infraestrutura financeira do crime, aluguel de poderosos por contrato, corrupção cordial e o padrão de acordões e perseguições políticas vigente desde 2015.

O caso Master e até o de Michelle contam um tanto de como o país funciona.

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sábado, 27 de junho de 2026

LUZES TENEBROSAS

Elimar Nascimento*, Revista Será?

Ideias estapafúrdias sempre existiram. Em geral, de vida restrita e curta. Assombram, porém, quando ganham relevância, adesões e capacidade de influência. É o caso da corrente político-ideológica denominada por seus próprios autores de neorreacionária.

Descrever e analisar essa corrente é o objeto do livro Lumières Sombres: Comprendre la pensée néoréactionnaire, de Arnaud Miranda, jovem cientista político francês, publicado este ano pela Gallimard. O livro é interessante pela sistematização das informações e valor das reflexões, além do enquadramento dessa corrente político-ideológica na história do pensamento político ocidental.

As ideias dos neorreacionários, segundo o autor, podem ser assim resumidas:

1. Os direitos humanos e os valores da Revolução Francesa de fraternidade e igualdade devem ser repudiados: os humanos não são iguais, os homens brancos são superiores às mulheres, aos negros, aos amarelos e aos mestiços. Os pobres não devem ser objeto de qualquer política pública, aliás, conceito que deve ser abolido.

2. A democracia liberal é a responsável pelo declínio do Ocidente porque não permite o pleno desenvolvimento do capital. Deve ser substituída por uma monarquia feudo-tecnológica, abolindo-se assim o voto.

3. O Estado democrático deve ser substituído por um Estado-empresa, dirigido por um CEO: os humanos serão seus sócios ou clientes.

4. As divergências não deverão ser resolvidas pelo voto; os insatisfeitos têm o direito de sair e criar outro Estado.

5. A inovação tecnológica em geral, e a internet, a IA e as redes sociais, em particular, não devem ter qualquer regulamentação: todas as expressões são aceitas.

A estratégia também é estranha, mas coerente. Os três pilares (denominados de A Catedral) da democracia devem ser transfigurados e dominados: as universidades, a grande imprensa e a burocracia do Estado. Para isso, é preciso mudar radicalmente as universidades: cortar seus financiamentos e conspurcar sua imagem. Atacar a grande imprensa ou simplesmente comprá-la. Reduzir ao máximo a burocracia, incluindo os altos escalões.

Para alcançar o objetivo de destruir a democracia, é preciso desenvolver uma guerra intelectual em busca da hegemonia cultural, conceito importado de Antonio Gramsci. Embate a ser travado fora do espaço público, arena desfavorável, mas nas redes sociais.

Aliás, foi nelas que emergiu a corrente neorreacionária, por meio de pequenos artigos (memes e figuras da cultura pop) escritos por ideólogos sob pseudônimo, o principal dos quais Curtis Yarvin (Mencius Moldbug), engenheiro, desenvolvedor de software, empresário e blogueiro. Em seu blog Unqualified Reservations, que escreveu entre 2007 e 2014, defendia o retorno da escravidão, a supremacia branca, o fim dos direitos humanos e da democracia, considerada um regime fracassado e totalitário como Matrix. O movimento neorreacionário é para ele o red pill, ou seja, a pílula vermelha que mostra a realidade por debaixo da democracia. Influenciou pessoas como Elon Musk, J. D. Vance, Steve Bannon e Peter Thiel. É dele a ideia de criar um organismo especial (DOGE) para desmontar a burocracia que Trump adotou e nomeou Musk seu dirigente, que terminou por fracassar e levar à sua renúncia. Como é de Yarvin a ideia de tornar Gaza um balneário de ricos no Mediterrâneo, assim como, a retirada dos Estados Unidos da guerra da Ucrânia e da Europa, defendida pelo vice-presidente americano.

O livro mais importante do movimento, porém, foi escrito por um britânico, ex-professor universitário (Universidade de Warwick), ex-esquerdista, que vive hoje em Xangai. The Dark Enlightenment, escrito por Nick Land, além das ideias supracitadas, defende o aceleracionismo como forma de tornar a humanidade eterna, fundindo-a com a IA, e inaugurando a nova era: a do transhumanismo E também defende o racismo biológico. Utiliza aparato filosófico, citando Michel Foucault, Félix Guattari, Gilles Deleuze e Carl Schmitt, entre outros.

A relevância dos neorreacionários está relacionada à sua linguagem performática, ao uso de redes sociais e de figuras da cultura pop. Mas, também, à adesão e ao financiamento de empresários, particularmente do Vale do Silício, que partilham de sua defesa do aceleracionismo e do Estado-empresa, e à adesão de parte de suas proposições pelo governo Trump.

Arnaud alerta, desde o início do livro, que o neorreacionarismo é uma cultura de internet que se exprime sobretudo por meio de plataformas digitais, em linguagem marcadamente pop. Trata-se de uma constelação de atores, na medida em que seus autores não têm uma convergência sobre a totalidade das ideias e proposições. Sete são os personagens selecionados para desenhar esta constelação neorreacionária, que escrevem em blogs normalmente com pseudônimo: Curtis Yarvin, Nick Land, Spandrell, Bronze Age Pervert (Costin Vlad Alamariu), Zero HP Lovecraft, Peter Thiel e Marc Andreessen.

Não se descortina como os neorreacionários alcançarão o poder para implantar suas ideias. O inverso é mais provável e coerente com sua estratégia: contaminar os grandes líderes de direita. Por isso, abdicam de criar um partido e se ocupam de criar plataformas digitais para alcançar sobretudo empresários e jovens, os decisores do futuro.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

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O FIM DO SONHO

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

O parlamento cubano aprovou o maior pacote de reformas econômicas desde que Fidel Castro tomou o poder, em 1959. O sonho libertário que varreu a América Latina virou utopia

Caiu um muro ideológico na América Latina. As repercussões foram discretas, ninguém comemorou, nem chorou, mas o forte simbolismo da revolução cubana no imaginário político do continente virou passado, lembrança e história. O parlamento reunido em Havana, no início deste mês, aprovou o maior pacote de reformas econômicas desde que Fidel Castro tomou o poder, em 1959. Foram 176 medidas destinadas a enfrentar a grave crise econômica do país, marcada por escassez de produtos, apagões, inflação e queda da produção. 

As principais medidas têm por objetivo ampliar o setor privado. Empresas particulares poderão crescer além de 100 empregados. O mesmo cidadão poderá possuir mais de uma empresa. Apareceu a liberdade para contratação de trabalhadores. O capital estrangeiro poderá participar diretamente de empresas privadas cubanas. Setores como agricultura, turismo, sistema financeiro e mercado cambial serão abertos a investidores nacionais e estrangeiros. Trata-se de profunda revolução dentro dos anteriores sólidos conceitos socialistas de Cuba. Fidel está se remexendo no túmulo. 

Os cubanos descobriram agora o que os chineses perceberam décadas atrás: enriquecer é glorioso, sentença de Deng Xiao Ping que abriu o caminho do capitalismo de Estado e transformou a China na segunda maior economia do mundo. No espaço de algumas décadas, os chineses retiraram da pobreza cerca de 500 milhões de pessoas. São os novos consumidores que permitiram o desenvolvimento de fornecedores antes pouco atuantes, como os da América Latina e, em especial, do Brasil.

Outro exemplo de sucesso nessa área é o Vietnã, país que foi massacrado pelas forças armadas dos Estados Unidos. Os vietnamitas resistiram com soldados de pés descalços e soluções criativas. Obrigaram o invasor, derrotado, a abandonar o país. Morreram mais de 50 mil norte-americanos naquela guerra. O Vietnã do Sul não existe mais e Saigon, antiga capital, foi rebatizada como Ho Chi Min, nome do comandante geral das forças do Vietnã do Norte. O governo do país privatizou empresas estatais, admitiu a livre concorrência, entrou para Organização Mundial do Comércio e estabeleceu relações diplomáticas com os Estados Unidos. 

Os cubanos, depois de muitas hesitações, decidiram copiar os dois modelos de capitalismo de Estado. Empresas estatais poderão ser transformadas em sociedades de capital aberto. Além disso, bancos privados serão liberados para atuar no mercado interno do país. O governo anuncia também a intenção de reduzir os subsídios generalizados da economia, conceder autonomia para governos locais e reduzir a centralização das decisões econômicas em Havana.

O regime comunista cubano incendiou corações e mentes em toda América Latina. No continente, a guerra fria foi particularmente dura, porque o governo de Havana admitia a intenção de exportar sua revolução. Ernesto Che Guevara, o número dois do regime, foi preso e morto nas selvas da Bolívia, quando comandava a tentativa de promover a revolução comunista naquele país. Os serviços secretos norte-americanos localizaram o argentino/cubano, o prenderam e o mataram a sangue frio. Guevara passou a ser símbolo da revolução em todo mundo. 

O sistema comunista conseguiu alguns sucessos em Cuba. A medicina passou a ser disponível a todos e a educação também chegou aos cidadãos. Porém, o fracasso na condução da economia contaminou o esforço inicial. A má gestão política e estratégica levou o país a depender da ajuda da União Soviética. Quando o comunismo naufragou em Moscou, a economia cubana entrou em declínio. Obteve ajuda significativa da Venezuela, com petróleo a preços subsidiados, mas depois que os norte-americanos sequestraram Nicolás Maduro, ex-homem forte em Caracas, a ajuda terminou. E o dinheiro acabou. O país ficou sem energia elétrica, sem combustíveis, sem emprego e sem uma economia razoável.

A fuga de pessoas do país foi significativa. Apenas para o Brasil, em 2025, foram 75.599 pedidos de refúgio, aumento de 10,9% em comparação com o ano anterior. Os cubanos conseguem vistos para visitar a Guiana (ex-inglesa) e de lá atravessam a fronteira com Roraima, onde reivindicam a condição de refugiados. O forte embargo econômico que os Estados Unidos impuseram ao governo da ilha tem responsabilidade na queda do regime. Explica muito, mas não explica tudo. O sistema criado por Fidel Castro foi responsável pelo alto nível de concentração de poder, perseguição e morte sistemática de opositores e a péssima gestão do país. 

O sonho libertário que varreu a América Latina virou utopia. Desfez a face heroica do regime desenhada pelo filósofo Jean Paul Sartre em seu famoso livro Furacão sobre Cuba, que incendiou o imaginário da juventude no continente. Tudo isso virou história. 

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MICHELLE BOLSONARO E O VOTO FEMININO

Juliana Diniz*, O Povo

Preterida em muitas decisões, a ex-primeira-dama tem encontrado dificuldades para emplacar os nomes ao senado construídos a partir da mobilização do PL Mulher. No Ceará, essa dificuldade é bastante visível: o nome de Priscila Costa, preferido de Michelle, disputa com Alcides Fernandes o espaço na chapa

Tenho insistido na importância estratégica de Michelle Bolsonaro nas eleições presidenciais deste ano. Ao contrário dos filhos do ex-presidente, a ex-primeira-dama foi capaz de construir uma imagem pública consistente, justamente pela coerência entre suas movimentações e o discurso conservador que o bolsonarismo proclama. Menos pragmática e mais ideológica, Michelle tem sido capaz de manter um capital político valioso em uma eleição que será decidida voto a voto.

O vídeo publicado em suas redes sociais poucas horas antes do último jogo do Brasil prova que a ex-primeira-dama não só tem muita consciência de seu papel, como está disposta a disputar publicamente a liderança da extrema-direita. A peça, preparada com cuidado, mostra uma Michelle magoada com o tratamento reservado a ela pelos enteados, e expõe o racha interno que marca o movimento bolsonarista desde que Jair Bolsonaro foi preso e se retirou da cena pública.

A política que se manifesta no vídeo não é uma ativista inflamada e descompensada, tampouco encarna um ar de domesticidade de esposa. Com uma caneta na mão, voz pausada e um mapa do PL Mulher sobre a mesa, Michelle mostra um extremo conforto ao personificar uma imagem de força, fazendo questão de indicar que há um trabalho de articulação em curso, com foco no eleitorado feminino evangélico e na construção de candidaturas de mulheres nos diferentes estados.

Esse é um ponto da crise. Preterida em muitas decisões, a ex-primeira-dama tem encontrado dificuldades para emplacar os nomes ao senado construídos a partir da mobilização do PL Mulher. No Ceará, essa dificuldade é bastante visível: o nome de Priscila Costa, preferido de Michelle, disputa com Alcides Fernandes o espaço na chapa. Todo o grupo alinhado a Ciro Gomes insiste no nome de Fernandes, enquanto Michelle mostra rejeição não só ao candidato ao senado como ao próprio Ciro, que foi detalhadamente citado do vídeo.

A análise política mais especializada continua a subestimar Michelle Bolsonaro, insistindo no seu papel marginal ou na hipótese de que ela faz parte de um jogo articulado por nomes nos bastidores do mundo evangélico e do próprio PL. Considero essa uma leitura misógina e míope. Por tudo que a ex-primeira-dama apresenta em sua performance, no seu cálculo político, na sua capacidade de mostrar força e bagunçar o tabuleiro, podemos considerá-la parte dos principais atores políticos da eleição de 2026.

Um dos estratos mais valiosos do eleitorado nacional deste ano é o das mulheres evangélicas. Sem esse voto, Flávio não se elege. Se formos atentos, notaremos que o mapa sobre a mesa de Michelle é um sinal claro de que ela, mais do que o enteado, é a líder desse campo tão precioso.

*Professora de Direito, UFCE

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CABO VERDE, 'NHA CRETCHEU'

Eduardo Affonso, O Globo

Não sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes, além do futebol, ousam proporcionar: a chance de vitória do mais fraco

Copa do Mundo não é bem um evento destinado a quitar dívida histórica, fazer o acerto de contas entre colonizadores e colonizados ou reencenar, catarticamente, a vitória de Davi sobre Golias. Mas percebo que não sou o único a torcer por aquilo que poucos esportes, além do futebol, ousam proporcionar: a possibilidade de vitória do mais fraco.

Basta sair a lista das seleções classificadas, e já começo a embandeirar o coração com as cores de países onde nem imaginava haver estádios, gandulas, finta e catimba. Em 2026, os candidatos naturais seriam Curaçao e Haiti, mas como resistir a Cabo Verde, em sua estreia na competição?

Cabo Verde é um Brasilin, chei di ligria, chei di cor. Passei lá um carnaval, com direito a desfile de escola de samba, em Mindelo, e baile animado por marchinhas (“Cidade maravilhosa”, inclusive) e coladeiras. A Fifa não se enganou tanto assim ao situar a terra de Vozinha em Minas Gerais: quem conhece Cabo Verde não esquece jamais.

Não esquece a cachupa pobre (cozido de milho, feijão, mandioca, banana, couve e peixe), o grogue (aguardente de cana ainda mais forte que a cachaça), a morna (parente da nossa modinha). E se emociona depois ao reconhecer a doçura da mazurca cabo-verdiana na cena final de “Fale com ela” (Almodóvar tem ouvido apurado) ou a voz dolente de Cesária Évora no tango “Ausência”, de “Underground” (Emir Kusturica parece querer trazer a desoladora paisagem do país — só rotcha i mar — para a Bósnia destruída pela guerra, assim como Walter Salles para o Brasil pós-Collor, em “Terra estrangeira”).

O que Cabo Verde tem de árido (não há um único rio perene), o povo tem de hospitaleiro. Tanto que precisou inventar uma palavra para essa simpatia, essa afetuosidade. O adjetivo “amorável” virou morabe e fez-se morabeza: a arte do sorriso, da amabilidade, da gentileza. Da mesma raiz de saber e sabor, os cabo-verdianos criaram sabura: a sabedoria de ter prazer com as coisas simples, a delícia de viver com leveza, com alegria.

Percorri o arquipélago — ilhas do Sal, Santiago, São Vicente, Santo Antão — de avião, de barco, de carona, a pé. Aceitando convites para um café, uma garapa. Fotografando a pelada de meninos descalços numa ribeira seca, ouvindo histórias da repressão política, da tortura e da censura durante o regime marxista — uma época certamente sem morabeza e sem sabura alguma. E que não deixou sodade.

Tentei estudar o idioma local, mas nem era necessário. Na aldeia de São Pedro, a dona do bar reagiu, incrédula, quando pedi uma cerveja:

— Bô tá falá sima un novela!

Sim, para ela eu não falava a língua geral do Agualusa ou a língua brasileira do Marcos Bagno, mas aquele dialeto que ela ouvia na televisão: eu estava a falar que nem novela. Aprendi só o mais importante: nha cretcheu (querer + tcheu, que significa “muito”), uma forma de dizer minha querida, meu bem-amado (ama-se, por lá, em linguagem neutra).

Em campo, os “tubarões azuis” não se intimidaram com a Espanha nem com o Uruguai. E mostraram que não se deve subestimar um time cujos craques atendem por Sidny, Diney, Pico, Jamiro, Gilson, Ryan, Kevin, Jovane, Dailon e Vozinha.

Nesta Copa, por mais que torça pela escalação do Endrick, pela artilharia do Vini Jr. e pelo hexa, sou Cabo Verde desde criancinha.

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O CHOQUE RICARDO COUTO NO RIO

Marlon Cecilio de Souza*, O Globo

Se a agenda de reorganização for mantida, estado poderá iniciar um novo ciclo administrativo sem parte das pesadas heranças

Há momentos em que um governo parece condenado a apenas administrar a decadência. O Rio de Janeiro viveu boa parte das últimas décadas sob essa sensação. Crises fiscais, sucessivos escândalos políticos, estruturas administrativas inchadas, disputas de poder e uma população cada vez mais descrente na capacidade do Estado de entregar resultados. Por isso, a passagem de Ricardo Couto pelo Palácio Guanabara tem provocado algo raro: um choque de gestão que muitos classificam como surpreendentemente “apolítico”.

Em pouco mais de três meses, o governador interino passou a ocupar o centro do debate público não por grandes discursos ou projetos eleitorais, mas pela atuação cirúrgica sobre a máquina estatal. Exonerações em massa, auditorias internas, revisão de contratos, redução de estruturas administrativas e um discurso centrado na recuperação da capacidade operacional do Estado passaram a dominar a agenda fluminense.

Talvez chame mais a atenção que Couto tenha encontrado uma estrutura parlamentar cuja influência sobre áreas estratégicas do governo havia se consolidado ao longo de décadas. Não se trata de arranjo exclusivo do Rio. Governos dependem de maioria legislativa para governar. No entanto, no caso fluminense, a ocupação de cargos comissionados e a influência sobre secretarias e órgãos da administração direta e indireta atingiram níveis que frequentemente ultrapassavam a lógica administrativa e passavam a integrar a própria engenharia política do poder.

As auditorias promovidas pela atual gestão revelaram estruturas consideradas excessivamente inchadas. Mais de 3 mil exonerações já aconteceram desde março, atingindo praticamente todas as secretarias estaduais. Somente na Casa Civil e na Secretaria de Governo, duas das pastas mais influentes dos últimos anos, centenas de cargos foram eliminados. Estimativas divulgadas pelo próprio governo apontam para uma economia superior a R$ 200 milhões até o fim de 2026, com potencial de impacto ainda maior nos exercícios seguintes. Ao mesmo tempo, programas como o Segurança Presente passaram a ser revisados para reduzir critérios de expansão associados a interesses políticos locais e priorizar indicadores técnicos.

Os desafios, entretanto, permanecem enormes. A relação entre Executivo e Assembleia Legislativa segue marcada por desconfiança e disputas de espaço. Setores políticos que perderam influência resistem ao enxugamento. Ainda assim, boa parte das medidas administrativas implementadas até aqui depende apenas do Poder Executivo, permitindo que a reestruturação avance mesmo diante de um ambiente político hostil.

Paralelamente, Couto tenta construir pontes com Brasília. O governo estadual intensificou negociações com a União para viabilizar investimentos, ampliar margens fiscais e defender os interesses fluminenses na discussão sobre a divisão dos royalties do petróleo. Também foram iniciados estudos técnicos voltados à recuperação dos sistemas de trem e metrô, historicamente marcados por problemas de gestão e falta de investimentos. Na educação, medidas como a ampliação da carga horária de professores e novos concursos públicos buscam recompor áreas estratégicas que sofreram anos de desgaste.

Tudo isso ocorre em meio ao delicado processo de recuperação fiscal do estado. A credibilidade da máquina pública, abalada por sucessivas crises, talvez seja hoje um ativo tão importante quanto qualquer indicador econômico.

Independentemente das preferências políticas de cada cidadão, existe um fato difícil de ignorar: o próximo governador encontrará um cenário potencialmente diferente daquele herdado por muitos de seus antecessores. Se a atual agenda de reorganização for mantida, o Rio poderá iniciar um novo ciclo administrativo sem parte das pesadas heranças que durante anos limitaram a capacidade de ação dos governos estaduais.

O dever de casa ainda está longe de concluído. Mas, pela primeira vez em muito tempo, há sinais de que alguém decidiu enfrentar as engrenagens do problema em vez de apenas administrar suas consequências.

*Marlon Cecilio de Souza é mestre em economia e especialista em política e sociedade

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BOLSONAROS SE SUPERAM NA AUTOSSABOTAGEM

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Membros do clã fazem ações que com frequência vão contra seus próprios interesses

Vídeo de Michelle, ainda que possa beneficiá-la, prejudica candidatura da família à Presidência

Já é proverbial a capacidade dos Bolsonaros de sabotar a si mesmos.

Jair, o "pater familias", antecipou a própria prisão ao, por alegada curiosidade, pocar a tornozeleira eletrônica que usava como alternativa menos gravosa ao encarceramento. Poderá agora perder o benefício da domiciliar humanitária porque resolveu mandar consertar uma arma da qual, na condição de presidiário, nem deveria ter posse. Recuando um pouco mais no tempo, vale lembrar que foi o próprio Planalto que providenciou a filmagem da reunião ministerial de 22 de abril de 2020, a qual, ao escancarar a verdadeira natureza do governo Bolsonaro, marcou o início do ocaso da administração.

Eduardo, o Bananinha, tentando mobilizar seus relacionamentos internacionais para ajudar o pai, deflagrou o primeiro tarifaço de Trump contra o Brasil, medida que acabou ajudando Lula a recuperar-se nas pesquisas de intenção de voto.

Flávio, o Primogênito, no que muitos descrevem como uma tentativa de lavar dinheiro, criou o que deve ser a única loja de chocolates do mundo cristão que fatura menos na Páscoa do que em outras épocas do ano.

Diante desse histórico, não é surpreendente que Michelle Bolsonaro, a Esposa, a pretexto de defender-se da rispidez de Flávio, tenha desferido um formidável golpe contra a candidatura familiar justamente quando a campanha parecia estabilizar-se após o tsunami do caso Master.

Cabe aqui um parêntese. Robert Trivers demonstrou que nem os interesses da mãe e do bebê coincidem sempre. É possível que o vídeo de Michelle, apesar de prejudicar os interesses do clã (ou justamente por isso), resulte em benefício pessoal para a ex-primeira-dama. Nesse caso, ela teria escapado à maldição da autossabotagem atávica, o que se explica pelo fato de ela não ser parente consanguínea de Jair. "It runs in the family".

Não me queixo. Se os Bolsonaros fossem só um pouco menos incompetentes, Jair talvez não tivesse fracassado na tentativa de golpe, hipótese em que eu provavelmente nem estaria escrevendo estas linhas.

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