sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

PESSIMISMO ESTATÍSTICO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Feminicídio bate recordes, mas no cômputo geral há menos mulheres morrendo assassinadas

Série de mudanças na legislação faz com que dados sejam registrados de forma inconsistente

Pacto Nacional contra o Feminicídio, lançado na última quarta-feira pelo presidente Lula, tem todo meu apoio. Cada assassinato de mulher que ocorre é uma tragédia. Políticas racionais para tentar reduzir homicídios, de todos os gêneros, são intrinsecamente meritórias. Precisamos, porém, evitar que, no afã de travar o bom combate, tratemos mal os números.

Os feminicídios no Brasil até podem estar batendo recordes, mas há menos mulheres morrendo assassinadas, o que é uma ótima notícia. Para constatar isso não é preciso mais do que olhar o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a fonte principal desse tipo de estatística. Ali, a mesma tabela que registra o total de feminicídios traz também os homicídios intencionais contra mulheres somados com os feminicídios. As notas de rodapé explicam o motivo dessa decisão, que é manter a comparabilidade dos números diante das alterações na legislação.

Até 2015 não havia o tipo penal de feminicídio e em 2024 este passou a ser um crime autônomo. Os escrivães encarregados de preencher a papelada ainda hesitam, produzindo inconsistências. A melhor forma de reduzir o ruído é olhar para o dado mais amplo, isto é, os feminicídios somados aos assassinatos de mulheres cuja motivação exata não esteja tão clara. E aí o que observamos é uma tendência persistente de queda. De 2023 para 2024, a redução foi de 6,4%. No prazo mais dilatado de 2018 para 2024, a diminuição foi de 12,5%. Esse movimento está em linha com a redução geral de todos os assassinatos em curso no país.

Insistir no recorde dos feminicídios serve para chamar atenção para o problema, que é real, mas acaba contribuindo para criar um sentimento de pânico moral, que não costuma ser bom conselheiro na hora de elaborar políticas públicas. O pano de fundo, acredito, é o pessimismo metafísico que cerca as militâncias identitárias, que veem machismo, racismo, homofobia etc. como problemas insolúveis. Até podem ser, mas isso não impede que tenhamos feito progresso nessas questões.

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TERRAS RARAS, LULA E TRUMP

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Governo dos EUA organiza sistema de produção e comércio mundial de minerais críticos

Política do Brasil para o setor começa só agora e ainda tem de lidar com ofensiva americana

De 2024 para 2025, o valor da exportação brasileira de terras raras triplicou. Algo anda, mas do quase nada para muito pouco. O valor exportado foi de US$ 13,3 milhões. Um troco, dado o valor total das exportações nacionais, de R$ 349 bilhões.

Em quantidade, as exportações (785,3 toneladas) equivaleram a 1,2% das vendas chinesas. Ironia: 89,8% das exportações foram para a China; 8,4% para a França, 1,4% para a Espanha (contas baseadas nos dados da Secretaria de Comércio Exterior).

Terras raras não são nem serão pote de ouro no fim do arco-íris da economia brasileira —nem um potinho. Mas são oportunidade econômica e possível instrumento de força política internacional (e, assim, talvez para outros negócios).

Desde dezembro, Brasil e EUA negociam acerto sobre minerais críticosLuiz Inácio Lula da Silva voltou a falar do assunto, nesta quinta. Sem terras raras e subprodutos, a indústria de tecnologia avançada, militar e de transição energética para. Mas o valor do negócio não é grande.

Uma encrenca é que o Brasil vai entrar nesse negócio geoeconômico enquanto o governo dos EUA reorganiza a economia dos minerais críticos (terras raras incluídas) por meio de intervenção estatal e arranjo internacional, muita vez por meio de acordos políticos extraídos sob ameaça comercial ("tarifas") ou militar.

Nesta semana, Donald Trump anunciou o "Project Vault" (Projeto Cofre), que é mais do que a formação de um estoque de minerais críticos. É parte do plano de criar demanda regular desses produtos e garantir preços.

Assim, em tese diminui o risco de investir em minas —leva uns oito anos para fazer um projeto desses funcionar; uns cinco anos para criar uma fábrica de processamento (isso depois de aprender a tecnologia, quase toda chinesa). Para incentivar investimento, garantias são necessárias, ainda mais porque China tem poder sobre esses preços. O dinheiro para esse estoque regulador vem do Eximbank (oficial), US$ 10 bilhões, e de empresas (US$ 1,7 bilhões).

Não se trata de um Estado projetando um mercado, mas formatando e subsidiando um negócio crucial para a segurança econômica e militar —ou dele sendo sócio. Aliás, os EUA acabam de emprestar mais dinheiro para a Serra Verde, com opção de se associar a essa brasileira de capital americano-britânico, ora a produtora nacional de terras raras.

Trump 2 fez acordos com Japão, Austrália, Malásia, Tailândia, Vietnã, Camboja etc. Além de garantir acesso preferencial para empresas americanas (no caso de países menores), acertou planos de financiamento de parcerias de extração e processamento, de comércio, de garantia firme de compra de produção e de estabilização de preços. É política industrial até a medula, em acerto internacional.

O mundo já corre para dominar processamento de terras raras e produção de ímãs. Os EUA vão criando um sistema de produção que garanta a sua segurança e isole a China.

A encrenca é como o Brasil vai fazer sua produção e tourear potências; como fazer com que essa produção tenha sentido econômico. Nem sabemos ainda da viabilidade das nossas famosas reservas enormes de terras raras.

Precisamos investir em ciência (não ligamos para isso), talvez arrancar parcerias de pesquisa e investimento dos americanos. A estratégia nacional foi lançada neste janeiro. Mas está quase tudo por fazer em estudo de viabilidade dos recursos e de produção, impulso para pesquisa aplicada e plano geoeconômico.

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O FUTURO CHEGOU

Pablo Ortellado, O Globo

Novos robôs de IA facilitam a vida, mas trazem riscos

É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos

O leitor deve ter visto nesta semana a notícia fantástica de uma rede social feita apenas para robôs de inteligência artificial (IA). Nessa rede, eles discutem filosoficamente se têm consciência e, entre outras coisas, se organizam para se rebelar contra os humanos. No fim das contas, depois de muito susto, descobrimos que as postagens não são espontaneamente feitas pelos robôs, mas provavelmente brincadeiras de seus donos — que devem ter pedido para fazerem essas postagens distópicas a fim de fazer graça e gerar burburinho.

Mas, enquanto as postagens dos robôs não parecem espontâneas e autênticas, os robôs por trás delas são reais. Trata-se de um software que cria agentes de IA chamado OpenClaw. É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos.

Desde o revolucionário lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, temos visto melhorias incrementais a cada semestre e a esperança renovada de que estamos a um ano ou dois da inteligência artificial geral (IAG), estágio em que a IA se equipara ou supera a inteligência humana. Enquanto a IAG não vem, o que pode nos surpreender é a exploração plena do potencial das IAs que temos. É o que o OpenClaw nos entrega.

O software foi desenvolvido por um engenheiro austríaco para ser um assistente virtual baseado em IA. O OpenClaw faz aquilo que muita gente esperava de um assistente como a Alexa. Dá ao serviço de IA que o usuário já assina (ChatGPT, Claude ou Gemini) autorizações amplas para usar o computador por meio de uma interface de comando via WhatsApp. Além disso, guarda registros das interações, permitindo que aprenda persistentemente (ao contrário dos chats que “esquecem” o que se falou na sessão anterior).

Em apenas uma semana de uso, usuários relatam maravilhas. Você pode mandar uma mensagem de WhatsApp a seu robô e pedir para ele marcar um encontro com determinada pessoa. Com esse único comando, ele procura um restaurante comparando avaliações na internet, encontra um horário livre em seu calendário, manda mensagem convidando para jantar, faz a reserva no restaurante e depois marca o encontro no calendário. Tudo, automaticamente, com apenas um comando. Pode também soar um alarme no horário e pedir automaticamente um Uber para o restaurante.

Você pode pedir para ele encontrar documentos em seu computador, ler o conteúdo e criar um sistema de organização em pastas. Pode pedir para comparar preços e resenhas de produtos e fazer uma compra baseado no custo-benefício. Se você tem pacientes, ele pode abrir seu e-mail, responder a todos os interessados, marcar as consultas e bloquear sua agenda. Em resumo, tudo o que você consegue fazer num computador, ele pode fazer para você de maneira automática, rápida e eficiente. É realmente uma revolução.

Porém tudo vem com risco. Há muito tempo as IAs têm capacidade para fazer esse tipo de coisa, mas as empresas nunca lançaram um produto assim porque não conseguiram resolver os problemas de segurança. O OpenClaw é um projeto comunitário de código aberto, sem garantias. O software é um test drive do futuro — em que você dirige um carro sem seguro e sem habilitação. Se você autoriza a IA a criar eventos no calendário, a ler e a escrever e-mails, a organizar arquivos e pastas no computador, a responder mensagens de texto, a fazer compras com seu cartão de crédito, qualquer erro pode ser fatal.

Além de simples erros (bugs), você pode pedir para a IA “limpar” o computador, pensando em se livrar de arquivos e programas que não usa, e ela entender que você quer formatar a máquina — e toda a sua vida digital desapareceria nesse equívoco semântico. Além disso, como a IA se relaciona com outras pessoas, inclusive as maliciosas, elas podem, na interação, persuadi-la a entregar dados, senhas e autorizações. Golpistas podem esconder mensagens em sites que só máquinas conseguem ler tentando tomar o controle de seu computador — técnica conhecida como “injeção de prompt”. Quanto mais poder você der à IA, mais fácil fica a sua vida, mas mais em risco você se põe.

A ideia de robôs tramando uma revolução parece fichinha perto de um assistente virtual decidindo, por conta própria, que o melhor custo-benefício para seu jantar de aniversário é um combo de esfihas do Habib’s. Ao entregar as chaves da casa à IA, o risco não é ela se tornar dominante, mas agir como um estagiário inocente e hiperativo com acesso ilimitado a sua conta bancária.

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OLHO NO OLHO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Presidente confirma encontro em março e ensaia novo tom sobre Venezuela e minerais críticos

Lula confirmou que vai à Casa Branca em março. Disse que espera ter uma conversa “olho no olho” com Donald Trump. O objetivo do governo brasileiro é zerar o tarifaço sobre as exportações para os Estados Unidos. Mas o encontro também deve tratar de outros temas espinhosos.

Na primeira semana do ano, os EUA invadiram a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro. A ação deixou dezenas de mortos e inaugurou a “Doutrina Donroe”, que restabelece a diplomacia do porrete na relação de Washington com a América Latina.

O Itamaraty condenou a intervenção militar, e Lula se disse “indignado” com a agressão ao país vizinho. Ontem o presidente mudou de tom e pareceu rifar Maduro, ao afirmar que ele “não é a preocupação principal”. “O que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não”, declarou, em entrevista ao UOL.

Na visão do Brasil, a situação de Cuba se tornou mais complicada que a da Venezuela. Há temor de um colapso humanitário na ilha, que sofre com apagões e falta de combustível após novas medidas americanas para endurecer o bloqueio.

Lula pretende defender a autodeterminação dos cubanos, mas seus conselheiros estão pessimistas com a possibilidade de uma distensão. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, deve suas votações na Flórida ao discurso agressivo contra o regime comunista.

Os dois presidentes também devem tratar do combate ao crime organizado. Trump tem citado o tráfico de drogas como pretexto para fazer novas ameaças de uso da força. No Brasil, políticos de direita pregam que facções criminosas sejam rotuladas de terroristas, o que abriria caminho à imposição de sanções ao país.

Lula tentará conduzir a conversa em outra direção. Deve pedir ajuda para enfrentar a sonegação de impostos e a lavagem de dinheiro. Num telefonema em dezembro, ele disse a Trump que o maior devedor brasileiro mora em Miami. Referia-se ao empresário Ricardo Magro, alvo de megaoperação recente contra fraudes em combustíveis.

Planalto e Itamaraty sabem que a Casa Branca está de olho nas terras raras. Há sete meses, Lula afirmou no palanque que “aqui ninguém põe a mão”. Ontem ele se mostrou mais disposto a negociar, e disse que o tema não é “proibido”. A ideia é condicionar o acesso aos minerais a investimentos para processá-los no Brasil.

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PRESA COM BOLSONARO, DIREITA DEIXA LULA SOZINHO NO PALANQUE

Vera Magalhães, O Globo

Presidente usa indefinição da oposição para largar na frente e tentar reverter insatisfação com seu governo

O terceiro mandato de Lula ainda carece de respaldo junto ao eleitorado. Um ano se passou desde que sua aprovação começou a sofrer uma erosão, que atingiu o ápice em meados de 2025. Desde então, ele apenas recuperou um patamar de zero a zero. Ainda assim, aproveita o momento de apagão da oposição para ocupar sozinho a vitrine eleitoral, e isso pode lhe garantir a dianteira necessária para vencer de novo, provavelmente em nova disputa acirrada, como a de quatro anos atrás.

O fundador do Ideia, Maurício Moura, observa que a pergunta na cabeça da população neste momento é se Lula merece continuar na Presidência. Ao responder diretamente a esse questionamento, 51% dizem que não, de acordo com a última pesquisa do instituto para o Meio.

Mas o que explica, então, que o petista lidere todos os cenários de primeiro e segundo turno? A falta de clareza quanto a quem será o adversário do lulismo em outubro parece garantir a Lula a dianteira, que ele vem procurando aproveitar usando todas as oportunidades possíveis para desfilar o que acredita serem as marcas da atual gestão capazes de carimbar seu passaporte para mais um mandato.

Até a abertura do ano judiciário foi palco para o presidente falar de reforma do Imposto de Renda (IR), de pleno emprego, da saída do Brasil do Mapa da Fome, da operação Carbono Oculto (olha a segurança pública aí...) e do novo produto em sua gôndola, o combate à violência contra a mulher, tentativa inteligente de se reconectar com o eleitorado feminino, fundamental para a vitória sobre Jair Bolsonaro em 2022.

O governo acredita que a economia funcionará, quando a campanha começar para valer, como trunfo, e não revés. Isso a despeito dos dados que mostram o aumento do peso da dívida sobre o PIB e a fragilidade do arcabouço fiscal e de as mesmas pesquisas apontarem avaliação negativa nessa seara.

Lula se vale não só da isenção do IR para quem recebe até R$ 5 mil, mas também da resiliência diante do tarifaço, do pleno emprego, de medidas que aliviaram o peso de energia e gás de cozinha para os mais pobres e de sua entrada tardia na defesa da redução da jornada de trabalho e na tentativa (ainda sem sucesso) de dialogar com os trabalhadores de aplicativos. São essas bandeiras que Sidônio Palmeira tem tratado de embalar de forma atraente na propaganda oficial, que deu uma guinada em termos de qualidade e eficiência desde a troca na comunicação.

A largada na frente, enquanto a oposição procura o próprio rabo desde que Jair Bolsonaro foi preso, é o tempo que os aliados do presidente julgam ser necessário para reverter a impressão das pesquisas de que ele já deu o que tinha que dar. Não se trata de trabalho fácil diante do cansaço natural da imagem de alguém que está há tanto tempo na estrada e enfrentou ao longo de duas décadas, desde a primeira vez que chegou ao Planalto, vários casos de corrupção, uma prisão e o impeachment de sua pupila.

Mas Lula entendeu cedo que precisa ter discurso também para o antipetismo que se cristalizou nesses episódios e é um dos seus flancos mais frágeis, com a segurança pública. Na entrevista que concedeu à jornalista Daniela Lima, do portal UOL, não se furtou a responder sobre os escândalos do Banco Master e do INSS. Ele parece concordar com os analistas que acreditam ser difícil furar a polarização já dada. Nesse cenário, tem de atrair novamente o contingente que lhe deu a vitória sobre Bolsonaro, mas está insatisfeito com seu governo.

Parece estar guardando munição para atingir Flávio, mais frágil e com menos fã-clube que o pai, apenas na hora certa, quando for tarde para trocá-lo por um candidato mais palatável ao centro.

— A pergunta que mais respondo fora do Brasil é: “Por que a oposição não quer ganhar as eleições?” — diz Maurício Moura.

A explicação parece clara: Bolsonaro levou a direita para a prisão consigo. Lula agradece.

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O ACESSO RELÂMPAGO

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Chama a atenção a facilidade com que Vorcaro chegou também ao mais alto cargo do Executivo

As datas não são precisas, mas impressiona a velocidade com que o banqueiro Daniel Vorcaro conseguiu acesso ao gabinete do presidente da República.

Em novembro de 2024, Vorcaro foi chamado ao Banco Central para assinar um “termo de comparecimento”. Conforme revelado pelo Estadão, era uma espécie de alerta que dava a ele 180 dias para resolver os problemas de liquidez do Master.

Em dezembro daquele ano, portanto, cerca de um mês depois, ele chegava ao Planalto para uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um en controque não constava na agenda oficial, marcado pelo ex-ministro Guido Mantega. Lula diz que chamou para a reunião o chefe da Casa Civil, Rui Costa, e, naquela época, o quase presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Conforme apurou a coluna, quando Galípolo chegou à sala, os outros já estavam sentados e conversando. Ele estava ali a pedido de Lula para esclarecer as dúvidas do presidente.

No fim de 2024, o mercado já sabia do carrossel financeiro do Master, que vendia papéis de alto risco contando com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, e havia alertado o BC. O que ninguém imaginava é que a autoridade monetária estava nos calcanhares de Vorcaro.

Lula disse em entrevista ao portal UOL que Vorcaro afirmou no encontro que era “vítima de perseguição” dos concorrentes. O presidente afirmou ter garantido ao banqueiro que não haveria “posição política pró ou contra o Master, mas uma investigação técnica”.

Operadores políticos experientes “leram” a cena para a coluna. Vorcaro chegou ao Planalto graças a padrinhos políticos fortes. Oficialmente teria sido Mantega, mas é conhecida a relação de seus sócios com o PT da Bahia.

Tentou, portanto, chegar ao chefe para ameaçar o subordinado. Lula chamou Galípolo e, a se confirmar o relato do presidente sobre o encontro, o respaldou. Não há notícias de interferências do governo federal contra ou a favor da liquidação do Master.

Era conhecida a influência de Vorcaro junto ao Centrão, que montou uma “bancada” a seu favor, que tenta até agora barrar qualquer iniciativa mais concreta de investigação no Congresso. A imprensa revelou ainda os tentáculos do banqueiro no Judiciário. A facilidade com que ele chegou também ao mais alto cargo do Executivo é de assustar. •

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UMA INVEJA DANADA

José Sarney, Correio Braziliense

Na nossa geração da política disputada na internet, a inveja encontrou um terreno fértil. Ideias, à essa altura, levam desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam.

Inveja é coisa feia. E esse pecado mortal — Santo Agostinho dizia que é o pecado do diabo por excelência —, que é o desejo de ter o que outro tem, anda de mãos dadas com a avareza, que é o desejo de ter tudo. 

Muita gente tem inveja dos relógios, carros e fortuna dos outros. Eu, de minha parte, nunca tive. 

Na nossa geração da política disputada na internet, a inveja encontrou um terreno fértil: já que todos se expõem e mostram o que têm, o invejoso quer ter o que o outro tem, sejam votos, acessos, "likes" e, naturalmente, o sucesso e o dinheiro que andam juntos. Ideias, à essa altura, levam desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam. 

Não é que a inveja não estivesse na política há muito tempo, desde sempre as disputas tiveram em grande parte a inveja como motivo. Os vitoriosos políticos, no mais das vezes, tinham um episódio de violência ou de envenenamento no seu sucesso, que resultava, naturalmente, em eles assumirem o que era do outro. Esse é um campo em que o Império Romano dá show: quando, por exceção, Marco Aurélio foi sucedido por seu filho Cômodo, as coisas foram muito piores do que com a costumeira adoção do sobrevivente entre os vários candidatos.

Na frente do invejoso se colocam algumas opções, e vale selecionar todas: a avareza, como lembrei, o narcisismo, o egocentrismo. O primeiro objeto de exposição é uma moeda com sua cara, e se as com a cara de Augusto são multidão nas coleções numismáticas, o futuro dirá quantas moedas mostrarão o topete do Trump, que já providenciou a sua. Mas o imperador deixou também uma multidão de bustos e esculturas de corpo inteiro — é surpreendente que ele, que fizera César deus para poder se dizer divi filius, não tenha providenciado para que sobrevivesse pelo menos uma escultura do pai adotivo. 

Os artistas eram cooptados como os maiores divulgadores das belas (ai de quem quisesse ser realista) imagens dos poderosos. Estão aí as centenas de quadros de Napoleão, mão no casaco, que não nos deixam esquecer que ele também foi imperador. Depois, com o advento das massas e da fotografia, foram os retratos de seus heróis que desfilaram: Lênin, Stalin, Hitler, Mussolini, Hirohito, o Xá, Khomeini, Saddam Hussein e todos os que acreditam na autocracia, de um canto do mundo a outro. Outra variante é ter seu nome nas coisas, como o Trump, com inveja do Kennedy, fez com o Kennedy Center, que ele resolveu fechar porque os artistas não querem se apresentar no Donald J. Trump — John F. Kennedy Center for the Performing Arts.

Se o narcisismo é estampado, o egocentrismo leva também a achar que são os maiores. Um sapato com solado especial é um bom remédio para a altura, mas outros predicados são mais difíceis de enganar, de modo que o jeito é dizer que tem o maior tudo: bomba, prédio, depósito bancário, descaramento e por aí vai. Enquanto planejava restaurar o território russo ao esplendor do império soviético, o Vladimir Putin, há uns tempos, resolveu o problema colocando uma mesa em que se sentava à cabeceira e o interlocutor, do outro lado, tinha que usar um binóculo para vê-lo e um sistema de autofalantes e microfones para conversar, era humilhante. Esse truque, aliás, sempre foi usado, se sucedendo os estrados que mostravam a importância do mandão — ou até de autoridades regularmente eleitas, como os papas, que usavam até a sedes gestatoria nos ombros dos acólitos, até a época do Concílio Vaticano II, quando passaram a usar papamóvel. 

O Trump — que faz questão de que estejamos todos a falar dele, mesmo mal — tem duas manias, uma decorativa, outra arquitetônica. Nada de novo. O Franco, por inveja de Felipe II, que fizera o extraordinário Escorial, fez junto dele, no Valle de Cuelgamuros, que ele chamava de Valle de los Caídos, o horripilante memorial aos seus mortos na guerra civil, com o requinte de ser construído pelos presos políticos. O autocrata americano, além de encher de dourado o Salão Oval, diz ele que é seu Versailles, isto é, inveja do Roi-Soleil, Luís XIV, derrubou a East Wing da Casa Branca para lá fazer uma sala de baile tamanho família e, agora, quer fazer também o "Arc of Trump" diante do Lincoln Memorial, do outro lado do Rio Potomac; o detalhe é que tem que ser o maior do mundo, duas vezes e meio o Arco do Triunfo, por inveja de Napoleão!

Há inveja para todos os gostos!

*José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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DIA A DIA NA PAPUDINHA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

À falta de secretária, Bolsonaro deve ter uma agenda para organizar as reuniões diárias

Suas instalações são melhores que as de 99,9% da população carcerária. A quem cabe o 0,1%?

Meus fiéis leitores bolsonaristas não se conformam —quando escrevo sobre qualquer assunto que não Bolsonaro, eles se queixam. E com razão. Por razões sanitárias, só falo de Bolsonaro uma vez por semana e, mesmo assim, nem toda semana. Com isso, às vezes passo em branco sobre assuntos a seu respeito que mereceriam atenção. Omiti-me, por exemplo, há algumas semanas, quando Bolsonaro foi transferido para a Papudinha.

Ao ler no noticiário sobre suas novas e amplas acomodações —sala, quarto, cozinha, banheiro com box, área externa e lavanderia—, algo me chamou a atenção. Os cinco primeiros itens me pareceram razoáveis. Afinal, Bolsonaro precisa de uma sala para receber sua legião de visitas diárias: mulher, filhos, advogados, bispos, cúmplices. À falta de uma secretária, imagino que disponha de uma agenda para organizar suas reuniões. Nada também contra um fogão para fritar bolinhos, área para banho de sol etc. Mas por que uma lavanderia?

Terá Bolsonaro de lavar pessoalmente suas ceroulas, meias e cuecas? A Papudinha não disporá de encarregados desse serviço, tendo em conta inclusive a dignidade do ex-cargo do condenado? Nenhuma das reportagens me esclareceu. Se for assim, espero que, ao vê-lo dirigir-se ao tanque, munido de escovão e sabão de coco, os guardas lhe forneçam pelo menos um avental.

Relatório enviado há dias ao STF pela PM do DF informou que, na semana passada, Bolsonaro teve assistência religiosa a cargo de um deputado-pastor, fez cinco sessões de fisioterapia, leu zero livros e recebeu quatro médicos —imagino que um para lhe tirar a temperatura; outro, a pressão; o terceiro para mandá-lo dizer "33"; e o último para receitar-lhe um copo d’água para soluços. Tanta assistência médica torna inexplicável sua campanha para voltar à prisão domiciliar —em casa, teria tantos médicos à disposição?

Como já se disse, a Papudinha fornece a Bolsonaro instalações melhores do que a de 99,9% da população carcerária brasileira. Eu gostaria de saber a quem cabe o 0,1% restante.

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CONGRESSO PÕE LULA NUM DILEMA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Quando os penduricalhos chegarem à sua mesa, presidente terá escolha difícil entre vetar ou sancionar

Mais difícil será explicar o que faziam o PT e companhia no acordo de privilégios que o governo diz ignorar

presidente da República tem pela frente uma escolha difícil. Quando o pacote de privilégios aprovado no Congresso Nacional chegar à sua mesa para sanção ou veto, ele precisará decidir entre se indispor com o Legislativo, além de boa parte do funcionalismo, e ficar mal na foto eleitoral.

A dificuldade maior nem é essa. Antes disso, será necessário explicar a presença do PT e companhia no acordo que viabilizou uma votação simbólica —sem a identificação do voto— de surpresa, no meio da tarde do segundo dia do novo ano legislativo, e que, entre outras desigualdades, cria penduricalhos salariais e institui a escala 3x1 de trabalho para uma casta de servidores públicos.

Isso enquanto Executivo e Legislativo fazem cara de paisagem à tramitação de uma proposta de reforma administrativa que busca conter privilégios, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defende o fim dos supersalários e o governo faz da escala de cinco dias de trabalho por dois de folga para o setor privado uma bandeira de campanha.

Francamente, Luiz Inácio da Silva (PT) estará diante de um dilema e tanto. Ou bem sanciona a manobra de privilégios, jogando fora o discurso da justiça social, ou veta a pilantragem e quebra o acordo de boa vizinhança que incluiu a oferenda de um instituto federal de educação na cidade de Patos (PB), administrada pelo pai do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos).

Será uma boa oportunidade para Lula desvendar ao público o real significado do slogan "Congresso inimigo do povo". Até lá, fica a seguinte impressão: o dito serve para afetar antagonismo nos palanques e exortar as plateias a escolher parlamentares fiéis ao governo. Mas não é para ser levado a sério quando o pragmatismo manda que se alimentem as boquinhas.

Seja qual for a saída encontrada por Lula, uma coisa é certa: nem ele nem os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado deram a menor pelota ao que ouviram no dia anterior do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, sobre a urgência da autocorreção dos Poderes. Não entenderam nada.

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

NÃO EXISTEM MOCINHOS NO CASO MASTER

Julia Duailibi, O Globo

Era muita gente pedindo pelo banco. Vorcaro criou uma rede de contatos considerável

O salvador da pátria é figura valorizada no imaginário brasileiro, mas, no caso envolvendo o Master, está difícil encontrar alguém que se encaixe no papel. O avanço das investigações aponta para, na melhor das hipóteses, um misto de omissão e incompetência, em meio a uma estrutura normativa falha. Na pior, a atuação em defesa de interesses privados, os de Vorcaro. Como o mundo é complexo, e não existem heróis na política (engana-se quem acha que este é um caso só técnico), o final da novela deverá apontar para uma combinação das duas hipóteses.

Sob as barbas das autoridades fiscalizadoras, Vorcaro teceu negócios com base em, entre outras engenharias, precatórios lançados com valores acima dos praticados no mercado e empréstimos suspeitos que alimentavam fundos em looping. A partir de 2023, com o Banco Central (BC) sob Campos Neto, as operações suspeitas passam a despertar rejeição dos operadores mais prudentes — ou mais bem informados.

O BC, no entanto, tocou a bola de lado. Em outubro de 2023, diante das reclamações de outros bancos, editou a resolução 346, que impunha regras para diminuir a exposição a precatórios, uma das operações mais suspeitas do Master. Mas havia um senão:

— O tratamento previsto neste artigo não se aplica aos precatórios expedidos (...) até a data-base de 30 de junho de 2023.

A regra não valia para trás. Foi um baita fôlego para o Master. A farra dos CDBs também correu solta até quase o Natal de 2023, quando a resolução 5.114 do Conselho Monetário Nacional limitou ao patrimônio líquido do banco emissões com garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Os olhares mais atentos já viam problemas de solvência — não só de liquidez — desde 2024. Mas somente em novembro Vorcaro foi chamado no BC para apresentar um plano de sobrevivência, segundo Alex Ribeiro, do Valor Econômico. Àquela altura, o Master apresentava também falhas no recolhimento dos compulsórios e, meses depois, já em 2025, os bilhões declarados em créditos repassados ao BRB já exalavam cheiro ruim. Apesar da situação insustentável, o BC ainda autorizou, em junho de 2025, a transferência do controle do Banco Voiter, de Vorcaro, ao empresário baiano e ex-sócio Augusto Lima, também alvo da Polícia Federal (PF). Com a decisão, na prática, um ativo do Master saiu protegido de uma eventual liquidação. Em setembro, diante de todo esse cenário, o BC vetou a venda do Master ao BRB, apesar da posição contrária do diretor de fiscalização.

Se mercado, BC, FGC, Ministério Público e PF já sabiam, por que o BC esperou até novembro, quando veio a operação da PF que prendeu Vorcaro, para liquidar o banco? Os defensores da demora alegam que a liquidação seria traumática, que se buscava uma solução de mercado e que havia preocupação com o FGC.

A variável política pode explicar a demora do BC, que estava sob pressão. Era muita gente pedindo pelo Master. Vorcaro criou uma rede de contatos considerável. Do Congresso ao STF, passando pela Bahia e aportando no Planalto. Lula o recebeu quando Galípolo era diretor do BC. A liquidação ocorreu apenas depois de Vorcaro parar nas páginas policiais. Tanto que, a partir daí, o presidente do BC pediu investigação interna para saber se houve omissão na fiscalização. Não dava mais para o BC tocar a bola de lado.

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MASTER: EM BRASÍLIA, O CARNAVAL É A SENHA DO ACORDÃO

Malu Gaspar, O Globo

A volta das férias do Legislativo nesta semana foi assombrada pela fraude do Banco Master. Nos corredores e gabinetes, a maior parte das conversas era sobre como abafar o caso e impedir a instalação de comissões de inquérito. São quatro os pedidos só na Câmara dos Deputados. Mas, da esquerda à extrema direita, quase todo mundo tem motivo para querer evitar uma investigação sobre os esquemas de Daniel Vorcaro. Nos tempos áureos, dizia-se que a bancada do Master era maior que a de muitos partidos, sem contar que vários de seus integrantes ainda tinham poder para arrastar os votos de outros, como Ciro Nogueira, do PP, ou Antonio Rueda, do União Brasil.

O networking de Vorcaro e seu sócio Augusto Lima também alcançava o Supremo Tribunal Federal (STF), governos estaduais de variadas linhas ideológicas, a Esplanada dos Ministérios e o Palácio do Planalto. Toda essa gente passou os últimos dias em confabulações sobre como trocar as meias sem tirar o sapato, evitando a instalação de uma CPI sem ter de arcar com o desgaste diante da sociedade.

Hugo Motta (Republicanos-PB) saiu-se com um argumento burocrático. Disse que tinha de respeitar a fila de cerca de 15 pedidos de CPI e que, portanto, os deputados teriam de decidir sobre as outras antes de pensar em abrir a do Master.

“A Câmara tem de obedecer a essa ordem cronológica e tem de obedecer regimentalmente ao funcionamento de cinco CPIs ao mesmo tempo”, declarou.

Balela. O regimento realmente estabelece o limite de cinco comissões ao mesmo tempo, e a questão do respeito à fila vem de uma resposta a uma questão de ordem dada há mais de 20 anos pelo presidente da Câmara de então. Depois disso, em 2021, o próprio STF, ao ordenar a instalação da CPI da Covid, decidiu que, para criar CPIs, é preciso “unicamente” preencher três critérios: reunir o mínimo de assinaturas necessárias, haver um fato determinado e prazo de duração. E nada mais. Quando quer, Motta dá seu jeito, até porque sempre tem um artigo do regimento ou uma jurisprudência a que se possa recorrer.

O presidente do Senado Federal adotou postura mais discreta e malandra, como é do seu estilo. Ele mesmo um dos personagens enrolados com o Master, em razão dos R$ 400 milhões que o fundo de pensão do Amapá enterrou em letras financeiras do banco, Davi Alcolumbre (União-AP) repetiu várias vezes a mesma resposta a quem lhe pediu que liberasse uma investigação sobre o Master: “Vamos deixar isso para depois do carnaval”.

Deixar para depois do carnaval virou mantra. A própria defesa de Vorcaro recorreu ao expediente para ganhar tempo e ver se, até o final da folia, se produz um acordão.

Conseguiu, numa triangulação com o ministro Dias Toffoli — outro enrolado com o Master até a tampa —, adiar para o final do mês o depoimento à CPI do INSS que tinha sido marcado para hoje. Nos bastidores, Toffoli e Alexandre de Moraes, o melhor amigo de Vorcaro no Supremo, também mexeram seus pauzinhos, mandando recados aos parlamentares que porventura estejam interessados em aprovar uma CPI.

Toda essa movimentação mostra que o bloco do Master está afiado e bem ensaiado, mas não é garantia absoluta de vitória. Ainda estão por ser discutidos no Senado mais de dez requerimentos propostos pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) noutra CPI em andamento, a do crime organizado.

Os pedidos são ousados — incluem convocar para depor Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre e dona de um contrato de R$ 130 milhões com o Master, e quebrar o sigilo bancário de seus escritórios de advocacia —, mas a votação é aberta. Acaba de ser criado, ainda, um grupo de trabalho liderado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) que não tem poder de CPI, mas pode ajudar a manter o caso vivo até depois do carnaval.

Além disso, os inquéritos da PF continuam, assim como a auditoria do Banco Central sobre quem falhou no caso do Master. Nada impede que algum fato novo reedite o roteiro da CPI do 8 de Janeiro. Nem o governo Lula queria a comissão, temendo que contaminasse as eleições municipais, mas ela acabou se tornando inevitável depois que revelações sobre possíveis omissões do Planalto nos fatos daquele dia atraíram o interesse do bolsonarismo.

Em Brasília, o acordão é a regra, mas o imponderável por vezes se impõe, e nesse caso do Master os imponderáveis têm se multiplicado. Enquanto os blocos desfilam, as engrenagens do escândalo se movimentam. A ressaca pós-carnaval é certa, mas ainda não dá para cravar com segurança que cabeças vão doer.

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BRASÍLIA ENTRE DOIS MEDOS

Míriam Leitão, O Globo

Caso Banco Master: temor de acordão para abafar investigações e da escalada de conflito entre os poderes

Em Brasília, se teme um “acordão” que abafe de alguma forma as investigações do Banco Master. Em Brasília, se teme o aumento de conflito entre poderes por causa do Master. Ontem, o senador Renan Calheiros fez uma ameaça explícita a Gabriel Galípolo, afirmando que um ex-presidente do Banco Central saiu do Senado preso. “É evidente que não queremos que isso aconteça de novo”, mas “Galípolo precisa ajudar a comissão”. Dito isso, o parlamentar foi para o Banco Central se reunir com ele. Ouviu que, do ponto de vista bancário, deveria ser uma liquidação simples e que a causa de tanta atenção ao tema sugere que é um problema criminal. Renan saiu dizendo que vai querer todas as informações, inclusive as sigilosas.

O Master era apenas um banco pequeno em que o banqueiro optou por tecer uma enorme rede de contatos com políticos e o mundo jurídico achando que, com isso, blindaria seus negócios perigosos e fraudulentos. O banco é pequeno, mas a investigação é grande. E terá desdobramentos.

O temor do “acordão” é curioso porque contém um dilema chamado Dias Toffoli. Ele definitivamente não é o ministro indicado para este caso e já provou isso tentando interferir de forma tão direta no rumo das investigações. E também pelo óbvio conflito de interesses. Por outro lado, se as informações forem depuradas seletivamente, deixando expostas apenas as acusações contra outros atores de menor relevância, pode ser o caminho da pizzaria.

A investigação abre novas abas a cada dia. No inquérito do Banco Regional de Brasília (BRB), que acabou de ser instaurado, o Banco Central tinha indícios dessa circulação de dinheiro envolvendo Daniel Vorcaro, Maurício Quadrado, Nelson Tanure e João Carlos Mansur. Dinheiro que ia para os fundos da Reag e às vezes voltava em CDBs ou como capital.

O que aconteceu agora é que uma auditoria interna da nova direção do BRB identificou uma série de compras de ações fracionadas que paravam estrategicamente abaixo do limite de 5% a partir do qual é preciso identificar o comprador. E se isso levar à comprovação de que se tentava comprar escondido uma participação no BRB, pode-se caracterizar formação de quadrilha.

O caso do grupo Fictor já vinha avançando pela Polícia Federal de São Paulo. Um inquérito da Delegacia de Repressão à Corrupção e Crimes Financeiros (Delecor) que apura a lavagem de dinheiro foi enviado ao Ministério Público e agora aguarda-se a denúncia. A instituição pediu recuperação judicial por não ter conseguido honrar algumas centenas de milhões de reais em dívidas. Como poderia assumir o Master com R$ 80 bilhões de passivo? Aumentam as certezas de que a proposta de compra era mais uma fraude.

Tudo são abas que se abrem e se conectam. O que eu ouvi em Brasília é que o fim do recesso trouxe também o “cheiro de acordão”. E que passaria pela volta para a primeira instância. E acordo pra quê? “Pra não investigar”, me disse uma fonte. Só poderia voltar se houvesse a certeza de que a investigação não levará a nomes com prerrogativa de foro. O problema é que o processo foi feito invertido: teria que ter investigado na primeira instância e depois, se fosse encontrada alguma autoridade, ir para o STF. Esse seria o caminho normal. Mas Toffoli interrompeu, chamou tudo para o seu gabinete, colocou sigilo, e agora pode devolver.

O BRB terá que fazer uma travessia mantendo a credibilidade. O banco está bem, é sólido e tem ativos de fácil liquidez e carteiras que poderia vender para se capitalizar. Mas tem que apresentar o balanço do ano passado até o fim de março, fazer uma provisão de mais de R$ 5 bilhões, e decidir como realizar um aporte de capital do controlador. E sem ruído de imagem.

No meio de tudo isso, o senador Renan Calheiros, presidente da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, apresentou ontem o plano de trabalho para um grupo que vai investigar a quebra do Master. Disse que é dever da comissão “vasculhar o pântano” do banco e “suas ramificações”. Em seguida, dirigiu suas baterias contra o presidente do Banco Central insinuando que ele poderia sair preso do Senado, como ocorreu com o ex-presidente Francisco Lopes, se não ajudar a comissão a “destrinchar o que houve”. Vai também inquirir por escrito o presidente Lula por ter tido um encontro com Vorcaro. Calheiros é da base do governo. Imagina se não fosse. Ele é quem tem que explicar por que tanto nervosismo.

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REPORTAGENS INCOMPREENDIDAS

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

A crítica à imprensa é sempre bem-vinda: ajuda a aguçar a sensibilidade cívica do público e qualifica a informação. Coisa distinta são os ataques autoritários contra jornalistas

Um rumorejo arrevesado espreita as melhores redações deste país. A cobertura da ruína do Banco Master, um escândalo com carradas de cifrões, talvez o maior da história bancária dos nossos pobres trópicos, deflagrou azedumes sortidos que põem em dúvida a função insubstituível dos repórteres: apurar o que está acontecendo nas órbitas do poder. O caso adquire relevância porque parte dos queixumes vem de setores que guardam compromissos reais com a causa democrática, normalmente mais propensos a valorizar e defender a vigilância exercida pelos bons jornais.

O mal-estar, disperso e descosido, alastra-se em modulações ora estridentes, ora balbuciantes, sem unidade aparente. Os argumentos, no entanto, parecem ser os mesmos, ainda que com roupagens repaginadas conforme a ocasião. Aponto aqui os três mais chamativos.

A primeira alegação afirma que as reportagens enfeixam uma campanha articulada nas sombras para desmoralizar o Supremo Tribunal Federal (STF). As notícias sobre o surrupio de R$ 40 bilhões teceriam um complô com o objetivo de desacreditar a instituição que resistiu à tentativa de golpe de Estado e, mais ainda, julgou e condenou os criminosos.

O segundo argumento, que é um prolongamento do primeiro, sustenta que o alvo seria o próprio Lula. O descalabro do Banco Master configuraria, então, um factoide agigantado cuja finalidade seria vincular o presidente da República com os malfeitos e, assim, implodir suas chances de reeleição. Já o terceiro pressuposto identifica um vício originário: as fontes ocultas das redações seriam agentes do Centrão, que deram de falar em off com a intenção maquiavélica de enfraquecer o STF e derreter o capital político de Lula.

Pode haver elementos de verdade em cada um dos três? Eu não recusaria a possibilidade in limine, mas tendo a desconfiar de um juízo que reduza todo o jornalismo profissional de que dispomos a um coletivo de ingênuos ou, mais ainda, de propagandistas alienados. Sejamos razoáveis. Com seus inúmeros defeitos, os profissionais de imprensa no Brasil são um pouco melhores do que isso. Fora o que, não são iguais entre si. Aliás, um dos problemas com o azedume em curso reside justamente na generalização chapada, como se todas as redações fossem uma coisa só, unificadas sob um comando único e inalcançável aos olhos.

É evidente que, em qualquer grande cobertura, equipes diferentes podem pecar pelas mesmas falhas procedimentais. Durante a Lava Jato, por exemplo, repórteres de várias redações negligenciaram do mesmo modo o dever de não acreditar piamente nas fontes que cultivavam (ou que os cultivavam) na polícia e no Judiciário. Isso acontece e pode acontecer de novo, mas não parece ser o caso desta vez. Ademais, não há indícios convincentes de que esteja em marcha uma ação orquestrada das empresas de mídia para deixar o Centrão feliz da vida.

A crítica à imprensa é sempre bem-vinda: ajuda a aguçar a sensibilidade cívica do público e qualifica a informação. Coisa distinta são os ataques autoritários contra jornalistas, como os que foram perpetrados durante o governo Bolsonaro. Não nos esqueçamos da gritaria covarde, impulsionada pessoalmente pelo então presidente, que insultava o jornalismo pátrio com cartazes em que se lia o palavrão “Globo-Lixo” – um eco da expressão Lügenpresse (imprensa mentirosa), alardeada pelos seguidores de Adolf Hitler. Os questionamentos atuais não têm nada a ver com isso. São legítimos e de boa-fé. Devem ser levados a sério por quem leva a sério o debate público.

Subsistem, contudo, dois senões nos discursos contrários à cobertura das falcatruas do Master: os postulados distorcidos pelo exagero, como vimos nos três argumentos principais, e os desvios de método. Quanto a estes, digo apenas que não se deve medir a imprensa pelas réguas partidárias – nunca dá certo. Jornalismo e política são territórios reciprocamente independentes, por mais que se camuflem um no outro. O jornalismo se ocupa dos pontos de partida; a política, dos pontos de chegada.

Explico-me. Se algo funciona mal na sociedade ou no Estado, a reportagem vai lá e investiga. Seu papel é esmiuçar as disfunções. As consequências que a apuração acarretar serão resolvidas em outra esfera, que se situa além das redações: a política. O jornalismo sinaliza um fato (ponto de partida) – a sociedade politicamente organizada encaminha as soluções (ponto de chegada). O que aconteceu ali de fato? Isso quem responde é o jornalismo. Aonde tudo isso nos levará e como chegaremos lá? Essa resposta só pode vir da (boa) política.

Em suma, imprensa e política tendem a constituir campos separados, a despeito dos tais vasos comunicantes, às vezes espúrios, que os vinculam. Se os desdobramentos de uma série de reportagens não favorecem as aspirações de um determinado recorte político, isso não quer dizer as redações tenham trabalhado sem critérios objetivos. Não necessariamente. Portanto, não vale desqualificar o repórter só porque os acontecimentos que ele traz à luz não corroboram nossas predileções doutrinárias. •

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PARA ALEMÃO VER

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Corte Constitucional da Alemanha tem regras contrárias aos hábitos de ministros do STF

Do que se sabe até agora sobre o código de ética para o Supremo Tribunal Federal (STF), dois pontos se destacam. O primeiro: não é para agora. O mais provável é que seja aprovado, com alguma sorte, no fim do ano, depois das eleições. O segundo: as regras com potencial de conquistar maioria de votos devem ser mais genéricas do que anseia a opinião pública.

Edson Fachin tem como parâmetro o código de conduta da Corte Constitucional da Alemanha, mas são poucos os tópicos com chance de serem replicados no Supremo. Nos bastidores, a aposta dos ministros é que a versão brasileira contenha itens sobre transparência, imparcialidade e neutralidade. Afinal, quem seria contrário a esses princípios em uma República?

Mas, como se diz por aí, o diabo mora nos detalhes. Os trechos mais específicos do código alemão teriam pouca aderência por aqui. Um exemplo é a regra que autoriza os magistrados a serem remunerados por palestras e presença em eventos, desde que seja público quem pagou e quanto o juiz embolsou.

Segundo o site do tribunal alemão, em 2024, apenas a vice-presidente do tribunal, Doris König, recebeu por participação em conferências. Em um ano, embolsou dez mil euros, o equivalente a R$ 62 mil. No STF, vários ministros participam de eventos e recebem por eles. Nem os valores nem as fontes pagadoras são públicos. Em caráter reservado, os ministros contam que recebem, em média, R$ 50 mil por palestra.

Outra norma que não deve pegar no Brasil é a proibição para ministros aposentados advogarem na Corte. Há também uma quarentena que impede os ministros de prestarem consultoria sobre temas que analisaram como juízes por até um ano depois de terem deixado o tribunal.

Por outro lado, o código alemão traz regras tão subjetivas que podem até serem adotadas no STF. Uma delas diz que os juízes só devem aceitar presentes ou benefício em contexto social, e somente se isso não deixar dúvida sobre sua integridade pessoal e independência. Quem admitiria que voar em um avião particular comprometeria sua própria idoneidade de julgador?

Fachin tem votos da maioria numérica, mas enfrenta a resistência de uma minoria barulhenta no STF. Insistiu na ideia do código por ter a opinião pública a seu lado – o que, por vezes, pode ser mais decisivo do que o apoio dos colegas. Na Alemanha, antes da aprovação do código, houve um ano e meio de debates. No Brasil, integrantes do Supremo querem adiar a votação para depois das eleições de outubro. Até lá, é possível que a pressão externa murche e seja mais fácil aprovar um código de conduta para o Supremo que não diga muito além dos princípios que regem a República.

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PELO FIM DAS ISCOLAS SÍVICOS-MILITÁRIS


Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Erro de grafia no quadro escolar foi protagonizado por monitor do modelo cívico-militar

Ensino cívico-militar apenas ensina alunos a respeitar autoridade sem questioná-la

Nesta semana, alunos de uma escola estadual de Caçapava, no interior de São Paulo, aprenderam, além de comandos militares, a escrever errado as palavras "descansar" e "continência" —na lousa, viam "descançar" e "continêcia".

O erro de grafia no quadro escolar, capturado em vídeo, foi protagonizado por um dos monitores do modelo cívico-militar, no primeiro dia de implementação do programa. Nem os comandos militares, nem os erros de grafia caem no Enem, há de ser registrado.

A resposta da pasta estadual de Educação diante do vexame foi pior que o episódio em si. Para a secretaria estadual, os monitores não atuarão em sala de aula, mas, sim, no reforço da disciplina, do respeito e dos valores cívicos. Ou seja, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) retira 208 policiais militares da aposentadoria e paga uma bolsa-PM de R$ 301,70 por dia para que estes, entre outras coisas, controlem o corte de cabelo dos alunos, fiscalizem seus uniformes, os organizem em filas e os façam cantar o Hino Nacional.

Parte dos familiares é a favor das escolas cívico-militares. A razão, em geral, é a disciplina escolar. Mas é importante separar o joio do trigo.

Professores tampouco são a favor de um ambiente escolar em que a desordem impere. Mas coisa bem diferente é gastar R$ 17 milhões ao ano para que militares, em geral sem educação superior, executem funções para as quais não têm formação. Tarcísio precisa explicar aos pais de alunos mais pobres por que prefere gastar R$ 17 milhões com militares do que com o futuro de seus filhos.

O ensino cívico-militar serve apenas para amedrontar alunos e ensiná-los a respeitar autoridade sem questioná-la, habilidade esta útil apenas para formar a mão de obra barata de ditaduras.

Se, como os liberais, o leitor crê que o alvo da educação é formar os melhores profissionais para o mercado, deve pensar que o foco precisa estar na inovação e na excelência individual, não na subserviência. E se, como os progressistas, vê a educação como caminho para a liberdade, sabe que aquilo que liberta as pessoas é o pensamento crítico, não um cassetete sobre suas cabeças.

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NÃO É FÁCIL A VIDA DE EX-PRESIDENTE PARA LIRA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O deputado mandou e desmandou na engenharia das emendas, organizou, arbitrou conflitos e fez da Presidência da Câmara um contrapoder que rivalizou com Planalto

O deputado Arthur Lira (PP-AL), considerado ainda o parlamentar mais poderoso da Câmara, atrás apenas de Hugo Motta, o atual presidente da Casa, que ungiu ao cargo, começa a viver uma espécie de “inferno astral” semelhante à de outros antecessores. Para quem já mandou e desmandou na distribuição de emendas parlamentares, é no mínimo constrangedor ser acareado pela Polícia Federal (PF) com o deputado José Rocha (União Brasil-BA), que o acusa de manipular emendas de comissão em benefício próprio.

A acareação pode virar uma enorme dor de cabeça para Lira, por causa da Operação Transparência, que teve como alvo a ex-assessora da Presidência da Câmara Mariangela Fialek, conhecida como Tuca. Na ocasião, agentes da PF cumpriram mandados de busca e apreensão no antigo gabinete da servidora e em sua residência, recolhendo celulares, computador e anotações. O material apreendido está em análise. Ela foi apontada por Rocha como a responsável operacional pela distribuição de emendas por ordem de Lira.

A vida depois do poder raramente é gentil com ex-presidentes da Câmara dos Deputados. A cadeira concentra prerrogativas decisivas – controle da pauta, mediação entre Executivo e Legislativo, distribuição de cargos e, sobretudo, influência sobre o Orçamento –, mas esse poder se transformar rapidamente em retrato na parede. É desse lugar ambíguo que Arthur Lira começa a experimentar seu próprio “efeito Orloff”, assim como já aconteceu com alguns de seus antecessores. Dois deles, cujos mandatos sobreviveram até agora, hoje estão na planície e não têm nenhum poder de influência nas decisões da Casa: Aécio Neves (PSDB-MG) e Arlindo Chinaglia (PT).

Outros passaram por situação muito pior, como os deputados Severino Cavalcanti (PP-PE), que renunciou ao cargo por causa do escândalo do “Mensalinho”, em 2005, e Eduardo Cunha (MDB-RJ), que também renunciou ao cargo, em janeiro de 2016, depois de dois meses de afastamento no bojo da Operação Lava-Jato. Mesmo assim, teve seu mandato cassado, no dia 12 de setembro de 2016, pelo plenário da Câmara dos Deputados, por 450 votos a favor, 10 contrários e 9 abstenções, em virtude de quebra de decoro parlamentar, considerando que o ex-deputado teria mentido à CPI da Petrobras ao negar, durante depoimento em março de 2015, ser titular de contas bancárias na Suíça.

Durante quatro anos, Lira foi o centro de gravidade da política parlamentar. Mandou e desmandou na engenharia das emendas, organizou maiorias, arbitrou conflitos e fez da Presidência da Câmara um contrapoder que rivalizou com o Planalto. Ao ungir Hugo Motta para sucedê-lo, tentou prolongar a influência além do mandato. Mas o tempo político tem dinâmica própria; fora do comando da Casa, o poder se dissipa com rapidez surpreendente.

O constrangimento simbólico da Operação Transparência está na decisão que autoriza a Polícia Federal a colocar Lira frente a frente com o deputado José Rocha, no âmbito da investigação sobre a destinação de emendas do antigo orçamento secreto, a cargo do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino. Para quem sempre defendeu a centralidade do Parlamento na alocação de recursos, a acareação é uma inversão de papéis. A condição de investigado devolve o parlamentar à planície institucional.

O ciclo mudou

O ministro Flávio Dino recolocou o tema das emendas no centro do debate constitucional. Nesta semana, autorizou os deputados Dr. Flávio (PL-RJ) e Missionário José Olímpio (PL-SP), a redefinir a destinação de recursos apresentados por parlamentares afastados ou sem presença institucional, como no caso dos ex-deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ), respectivamente, ambos residindo nos Estados Unidos. Ambos perderam seus mandatos, o primeiro por se ausentar da Casa, o segundo por ter sido condenado no julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro. Mesmo assim, suas emendas ao Orçamento haviam sido aprovadas.

É nesse ambiente que o “inferno astral” de Lira ganha densidade política. A investigação aponta a ex-assessora como peça operacional do esquema de desvio de verbas provenientes de emendas do chamado “orçamento secreto”. O orçamento secreto, proibido pelo STF, era a engrenagem que permitia ao presidente da Câmara funcionar como distribuidor de poder territorial.

A história recente mostra mesmo que o destino dos ex-presidentes da Câmara costuma ser ingrato. A exceção foi Michel Temer (MDB-SP), que presidiu a Câmara, foi vice-presidente e assumiu a Presidência com o impeachment de Dilma Rousseff(PT). Lira ainda dispõe de capital político, articulação e mandato. Mas a acareação, as investigações e o novo ambiente institucional indicam que o ciclo mudou. 

O “Efeito Orloff” é uma expressão popular no Brasil, derivada de um comercial de vodca dos anos 80 com o slogan “eu sou você amanhã”. A expressão já foi muito usada por economistas, para descrever a tendência de o Brasil repetir, com certo atraso, crises econômicas ou políticas vivenciadas por outros países, tradicionalmente a Argentina, sugerindo que “o que aconteceu com eles, acontecerá conosco”. A campanha publicitária da vodca Orloff mostrava um homem conversando com sua versão do futuro, bem-disposto por não ter tido ressaca.

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DOIS DISCURSOS, O MESMO TOM

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Canadá e Brasil mostram papel dos países de poder médio na crise da ordem internacional

Lula anuncia suave mudança na estratégia de privilegiar coalizões Sul-Sul

Dois importantes pronunciamentos passaram batido pelo noticiário da imprensa nacional, submersa nos infindáveis desdobramentos do Banco Master e na descrição de cada movimento do xadrez da eleição presidencial. Em 20 de janeiro, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, discursou em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Oito dias depois, foi a vez de Lula falar na abertura do Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, no Panamá. Ambos trataram dos desafios implicados na desordem mundial produzida pela desenfreada prepotência de Donald Trump.

Carney foi taxativo: o mundo não está passando por uma transição, mas por uma ruptura da ordem internacional. A grande potência não se considera sujeita a qualquer restrição imposta por regras previamente acordadas.

Segundo ele, essa não é uma crise resultante da globalização em si, mas do fato de que os EUA "começaram a usar a integração econômica como arma, as tarifas como alavancas de poder, a infraestrutura financeira como coerção e as cadeias de suprimento como vulnerabilidades a serem exploradas". Ou seja, a Casa Branca trumpista exacerbou o uso da infraestrutura da globalização como instrumento de poder e agressão, tendência já observada pelos cientistas políticos norte-americanos Henry Farrell e Abraham Newman no livro "Underground empire: How America weaponized the world economy" (o império subterrâneo: como a América instrumentalizou a economia mundial), ainda sem edição em português.

Tendo enumerado as medidas que o Canadá estava tomando para aumentar sua autonomia estratégica, o primeiro-ministro reconheceu os limites e perigos da empreitada: "Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável". Terminou depositando na atuação conjunta das chamadas potências médias, entre as quais incluiu seu próprio país —e poderíamos inscrever o nosso—, a esperança de deter o uso da força bruta e os efeitos da crua rivalidade entre as grandes potências, de forma a construir um mundo mais cooperativo e resiliente.

De certa forma, o discurso do presidente Lula seguiu o mesmo diapasão. Depois de listar as ações que tornariam o país menos vulnerável às incertezas internacionais, enfatizou a necessidade de buscar o que possa lastrear uma ação regional concertada e de estabelecer parcerias positivas dentro e fora da região. Falou no respeito à pluralidade de opções e na superação das divergências ideológicas.

Palavras são palavras; arriscam perder-se com o tempo. Mas, neste caso, parecem anunciar uma suave mudança na estratégia internacional do governo, que tem privilegiado as coalizões Sul-Sul, no plano global, e as relações com países ideologicamente próximos, no âmbito regional. O esforço por concluir o acordo Mercosul-União Europeia e os acenos a recém-eleitos presidentes de direita no Chile e na Bolívia são outros indícios da correção de rumos. Atestam o senso político do governo e o entranhado pragmatismo de nossa política externa.

O discurso de Mark Carney indica que entendimentos com democracias do norte, na defesa de regras civilizadas de convívio internacional, são também possíveis.

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FALANDO FRANCAMENTE !

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

JULGAMENTO DE BOLSONARO E GENERAIS NO STM SERÁ TESTE DE DEMOCRACIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A questão é simples e existencial: a hierarquia e a disciplina, em regime democrático, exigem lealdade constitucional ou podem coexistir com a ruptura planejada?

O julgamento das representações por indignidade ou incompatibilidade para o oficialato do ex-presidente Jair Bolsonaro e quatro oficiais-generais condenados pela trama golpista, pelo Superior Tribunal Militar, não será apenas o desdobramento da decisão penal do Supremo Tribunal Federal: será um teste de estresse do pacto civil-militar da Constituição de 1988, um teste para a democracia. O STM não revisará culpa, provas ou tipificação criminal — isso já foi afirmado pelo Supremo —, mas se a natureza dos crimes e o papel desempenhado por cada oficial tornam moralmente incompatível a permanência no corpo de oficiais.

A questão básica é a seguinte: não se trata de “repunir”, mas de decidir se quem conspirou contra a ordem constitucional pode continuar ostentando posto e patente, com os símbolos, prerrogativas e benefícios que a carreira militar concentra. O caso é inédito pelo fato de se tratar de um ex-presidente e três generais de Exército, além de um almirante; e porque o tipo de delito, crime contra a democracia, nunca foi julgado pelo STM. A história brasileira registra anistias, acomodações e reintegrações de militares golpistas. A questão é simples e existencial: a hierarquia e a disciplina, em regime democrático, exigem lealdade constitucional ou podem coexistir com a ruptura planejada?

Leia tambémMP Militar pede expulsão de Bolsonaro das Forças Armadas

Os cinco réus chegam ao STM com situações distintas. Bolsonaro será examinado como capitão da reserva, mas inevitavelmente também como ex-chefe de Estado, alguém que dispôs da máquina presidencial e do prestígio do cargo para tensionar as instituições. Walter Braga Netto, general de Exército, aparece como o elo mais visível entre o bolsonarismo político e a engrenagem militar do governo, figura central do núcleo duro e, por isso mesmo, frequentemente apontado nos bastidores como o “caso mais fácil” de punição. Terá muita dificuldade de sustentar, no plano moral, que tudo não passou de um “erro de avaliação” ou de retórica.

Augusto Heleno, também general de Exército, é uma espécie de emblema do bolsonarismo fardado, com capital simbólico interno e trajetória que o torna referência para segmentos mais ideológicos, mas talvez seja absolvido por causa da idade e de não ter o mesmo nível de participação operacional na tentativa de golpe. Paulo Sérgio Nogueira, general de Exército e ex-ministro da Defesa, carrega o peso institucional de ter ocupado a ponte entre governo e Alto Comando, numa fase em que a ambiguidade e o silêncio também tiveram custo para a democracia. Almir Garnier Santos, almirante e ex-comandante da Marinha, tem a posição hierárquica mais delicada: até onde o comandante de uma Força pode ir em condescendência, adesão ou tolerância a um projeto de ruptura constitucional sem macular irreversivelmente a honra do oficialato?

Os juízes

Há um componente político inevitável ao julgamento: a escolha dos relatores e revisores, ministros com trajetórias, indicações e estilos que, embora não definam o resultado, moldam a cadência e a narrativa do julgamento. No caso de Bolsonaro, o relator é Carlos Vuyk de Aquino, brigadeiro da Aeronáutica visto como tranquilo, legalista e pouco dado a arroubos. A revisora é Verônica Abdalla Sterman, ministra civil.

A leitura predominante é que o perfil de Aquino favorece uma condução “quadrada”, isto é, mais aderente ao texto constitucional e ao dever de preservar a credibilidade institucional do tribunal, o que pode tornar a condenação moral mais provável se ele entender que crime contra a democracia é, por si, incompatível com o oficialato. A ministra Verônica, recentemente integrada à Corte, segue o mesmo figurino.

Já Garnier terá como relatora a própria Verônica Abdalla, com revisão do ministro Guido Amin Naves. E é justamente neste ponto que entra a ambivalência: o general Guido Amin se apresenta como moderno e institucional, mas seu comportamento sugere conservadorismo e sensibilidade corporativa. No processo de Paulo Sérgio, o relator é José Barroso Filho, com revisão do ministro Flávio Marcus Lancia Barbosa, um general recém-chegado, fechado, com postura percebida como conservadora. Um voto dele, sobretudo se ancorado na defesa da corporação, pode puxar o plenário para uma leitura mais branda do nexo entre crime político e indignidade.

No caso de Heleno, o relator é Celso Luiz Nazareth e o revisor Péricles Aurélio Lima de Queiroz, ex-aliado de Bolsonaro, o que pode aumentar a chance de voto que condena o fato criminal, mas relativiza-se a mancha moral, com base em serviços prestados, biografia, “contexto” ou gradação de culpa. Por fim, Braga Netto terá como relator o próprio Flávio Marcus Lancia, ex-aliado de Bolsonaro, e como revisor Artur Vidigal de Oliveira, combinação que torna o caso ainda mais interessante: o relator, percebido como conservador, pode ficar entre duas pressões opostas — a corporativa, para evitar o precedente de cassar generais, e a institucional, para não permitir que a impunidade se transforme em licença para novas aventuras. De todos os réus, Braga Neto é considerado um “grande traidor” pelos demais generais.

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Entretanto, o plenário será o verdadeiro campo decisório. O tribunal tem 15 ministros, mas a presidente do STM, ministra Maria Elizabeth Rocha, vota apenas em caso de empate — sempre a favor do réu. Entre os militares, há a percepção de que três ou quatro tendem ao bolsonarismo. Entre os civis, ao menos um seria alinhado. E dois novos ministros-generais, recém-empossados, são descritos como esfinge.

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JUSTIÇA QUE TARDA

Bernardo Mello Franco, O Globo

STM pode punir Bolsonaro com 38 anos de atraso

Para driblar corporativismo da Justiça Militar, procurador afirma que capitão traiu "prática da camaradagem" na caserna

Depois de perder o poder e a liberdade, Jair Bolsonaro pode perder também a patente de capitão. O Superior Tribunal Militar (STM) abriu processo para apurar se o ex-presidente violou as leis castrenses. Se condenado, ele será declarado indigno para o oficialato e expulso das Forças Armadas.

Para o procurador Clauro Roberto de Bortolli, Bolsonaro mostrou descaso pelos “preceitos éticos mais básicos” da vida militar. Ele afirmou que o capitão atentou contra a probidade, a lealdade e a disciplina ao liderar uma tentativa de golpe após a derrota nas urnas.

A acusação sustenta que a gravidade dos atos do ex-presidente é “incontroversa” e ficou comprovada no processo criminal que o levou para a cadeia. É tudo verdade, mas a Justiça Militar está 38 anos atrasada.

Em junho de 1988, o mesmo STM julgou Bolsonaro por tramar atentados em quartéis. Além de atacar o comando do Exército, o capitão havia elaborado um plano para explodir bombas em instalações militares como protesto pelo aumento de salários.

Em janeiro daquele ano, um conselho de justificação o considerou culpado por ter praticado atos contra “a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”. Cinco meses depois, o STM ignorou as provas e absolveu o aspirante a terrorista por 9 votos a 4.

Inocentado, Bolsonaro ficou livre para se lançar na política. Candidatou-se a vereador e iniciou a escalada que o levaria ao Planalto. O general Ernesto Geisel se referiu ao caso das bombas ao descrever o capitão como um “mau militar”, em depoimento ao CPDOC da Fundação Getulio Vargas.

O ex-presidente não foi o único beneficiado pelo corporativismo do STM. Num país com longo histórico de quarteladas, o tribunal nunca puniu oficiais golpistas. Agora terá que julgar cinco. Além de Bolsonaro, serão processados três generais e um almirante que tramaram contra a democracia.

Numa tentativa de sensibilizar os ministros, o procurador Bortolli não se limitou a enumerar os crimes cometidos pela quadrilha. Também acusou Bolsonaro e seus comparsas de traírem a “prática da camaradagem”. Apesar de se dizerem patriotas, eles ordenaram ataques aos colegas de farda que se recusaram a embarcar no golpe.

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