quarta-feira, 22 de julho de 2026

DESCULPA ANTECIPADA PARA A DERROTA

Fabiano Lana, O Estado de S.Paulo

Insinuação de Flávio Bolsonaro sobre fraude em urnas é desculpa antecipada para a derrota

Repetição do discurso de fraude parece refletir que não houve reflexão ou mudança de rota mesmo com as consequências dramáticas com o 8 de Janeiro

Cada força política parece ter seus dogmas. O petismo segue a acreditar em uma economia tocada pela força do Estado e a desconfiar do capitalismo liberal, por exemplo. De alguma maneira, nunca superou a queda do muro de Berlim, em 1989. O bolsonarismo tem outros axiomas. Um é o de que seria parte de uma guerra civilizacional planetária pelos valores da família e da pátria. Outro é que só perdeu as eleições de 2022 por causa de fraude nas urnas eletrônicas.

A fala de Flávio Bolsonaro, esta semana, quando se insinuou contra a credibilidade das urnas, em encontro com embaixadores, mostra que, em seu íntimo e no de seu grupo, não houve recuo de pensamento.

Essa convicção é tão forte no modo de ser da seita política que parece não ter havido reflexão ou mudança de rota mesmo com as consequências dramáticas. Entre elas, a inelegibilidade e mesmo a prisão por tentativa de golpe de Estado do líder Jair Bolsonaro.

Na fábula da tribo, o ex-presidente só tentou intervir no processo eleitoral porque Lula só teria sido eleito devido a uma burla nos sistemas eletrônicos. Fala-se de alteração do código fonte, de hackers, etc. etc. Não precisam de provas para acreditarem nisso. Centenas que tinham esse sugestionamento depredaram os prédios da Praça dos Três Poderes no fatídico 8 de janeiro de 2023.

Mais do que uma fé cega numa fraude, a prosa serve ao oportunismo político de ocasião. No seguinte sentido: em caso de possível derrota nas eleições presidenciais deste ano, já haverá um consolo no coração e algo para alimentar a chama do bolsonarismo em mais uma travessia do deserto da oposição. “Só perdemos porque mais uma vez fomos vítimas de fraude”, vão dizer, discretamente, nas conversas íntimas ou nos grupos de aplicativos.

O posicionamento de Flávio serve a esses propósitos internos, por mais que venham as consequências da justiça eleitoral – que aliás, seria apenas mais um braço do sistema que age para sufocá-los, segundo as teses que defendem.

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MORRE LUIZ CARLOS BARRETO

Roberta Pennafort, TV Globo, g1

Luiz Carlos Barreto, expoente do cinema brasileiro, morre no Rio aos 98 anos

Barretão foi um dos grandes nomes do Cinema Novo e participou de mais de 100 obras, seja como produtor ou diretor. Assinou os campeões de bilheteria ‘Dona Flor e Seus Dois Maridos’, ‘O Quatrilho’ e ‘O Que É Isso, Companheiro’.

Morreu nesta quarta-feira (22) o cineasta Luiz Carlos Barreto, aos 98 anos, um dos grandes nomes da história do cinema brasileiro. Sua atuação ajudou a mudar a forma como os filmes eram produzidos, financiados e distribuídos no país.

“Barretão” construiu uma trajetória de mais de 60 anos dedicada ao audiovisual, iniciada no Cinema Novo, com “Vidas Secas” e “Terra em Transe”. Entre as mais de 100 obras que dirigiu ou produziu estão os campeões de bilheteria “Dona Flor e Seus Dois Maridos”“O Quatrilho” e “O Que É Isso, Companheiro” — com esses 2 últimos, levou o Brasil ao Oscar.

“O cinema é uma coisa útil, e não uma coisa fútil”, costumava dizer Barretão.

Luiz Carlos Barreto estava internado desde segunda-feira (20) no Hospital Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio de Janeiro. Ele tratava uma infecção pulmonar decorrente de uma pneumonia.

O velório será realizado nesta quinta-feira (23), às 11h, no Palácio da Cidade, em Botafogo. Após a cerimônia, o corpo será cremado no Memorial do Caju.

O cineasta era casado há 71 anos com a também produtora Lucy Barreto. Ele teve 3 filhos, que seguiram a profissão: BrunoFábio Paula — Fábio morreu em 2019, após ficar em coma por 10 anos em decorrência de um acidente de carro no Rio, em 2009. Luiz Carlos também deixa 9 netos e 8 bisnetos.

De acordo com Paula, a saúde do pai vinha se deteriorando desde 2024, quando ele sofreu uma queda durante uma viagem ao Ceará.

Antes do cinema, o jornalismo

Luiz Carlos Barreto nasceu em Sobral, no Ceará, em 20 de maio de 1928.

O primeiro contato de Barreto com o mundo do cinema foi com Orson Welles, de “Cidadão Kane”, que viajou ao Ceará para filmar um documentário sobre jangadeiros que iriam até Getúlio Vargas pedir a regulamentação da profissão.

“Eu nem sonhava, tinha 12 anos de idade. Eu ia tomar meu banho de mar e, daqui a pouco, chega aquela equipe de gringos e se instala ali. Eu fiquei olhando, encantado”, disse Barreto em entrevista ao programa “Conversa com Bial”.

Mas, antes de se tornar um dos maiores produtores do país, trabalhou como fotógrafo da revista “O Cruzeiro”, experiência que ajudou a moldar seu olhar para a imagem e para as histórias brasileiras.

Como repórter-fotográfico, Barretão chegou a correspondente da publicação na Europa, onde clicou celebridades como Frank Sinatra, o presidente cubano Fidel Castro e a atriz Marylin Monroe.

Começo no Cinema Novo

Foi numa viagem à Bahia pela revista que conheceu Glauber Rocha, durante as filmagens de “Barravento”. O diretor, então, o convidou para trabalhar — e isso foi fundamental para o Cinema Novo.

🔎Cinema Novo foi um movimento cinematográfico brasileiro que surgiu no final dos anos 1950 e ganhou força nos anos 1960. Seu objetivo era mostrar a realidade social, política e econômica do Brasil, especialmente a pobreza, as desigualdades e os conflitos vividos pela população. O lema mais conhecido era “uma câmera na mão e uma ideia na cabeça” — mesmo sem muitos recursos financeiros, era possível fazer filmes importantes e transformadores, valorizando a criatividade e a reflexão crítica.

“O Glauber estava montando o ‘Barravento’ com o Nelson Pereira dos Santos e chegou para mim: ‘Você tem que fotografar o ‘Vidas Secas’, não é, Nelson?’. ‘Vocês estão malucos, eu não sei fotografar a não ser com a minha Leica”, narrou.

Segundo Barretão, Glauber insistiu. “‘Você vai fazer uma fotografia que ainda não foi feita no Nordeste. Todo filme, o Nordeste parece um jardim.’ Concordei com ele. ‘Eu quero mostrar a intensidade da luz, a luz como um personagem que destrói a plantação, que incomoda o homem’”, lembrou.Carreira de sucessos

Começava ali uma trajetória de produções que revolucionaram a linguagem audiovisual do país. Depois de “Vidas Secas”, em 1963, veio “Terra em Transe”, de Glauber, obra fundamental do Cinema Novo, em 1967.

Mas foi na produção que Barretão encontrou sua grande vocação. Tinha a capacidade de reunir talentos, viabilizar projetos e captar recursos para transformar grandes ideias em filmes que marcaram gerações.

Ao longo da carreira, esteve à frente de títulos históricos como “Garrincha, Alegria do Povo”, de Joaquim Pedro de Andrade; “Bye Bye Brasil”, de Cacá Diegues; e “Memórias do Cárcere”, adaptação da obra de Graciliano Ramos.

Seu maior sucesso de público foi “Dona Flor e Seus Dois Maridos”, estrelado por Sônia Braga, produzido por Lucy Barreto e dirigido por Bruno Barreto. O filme bateu recordes de bilheteria e permaneceu por mais de 3 décadas como a produção brasileira mais vista nos cinemas.

Outro fenômeno foi “Menino do Rio”, que levou multidões às salas de exibição e ajudou a consolidar um novo modelo de filme voltado para o público jovem.

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Família dedicada ao cinema

Barretão, Lucy, Bruno, Fábio e Paula criaram uma produtora de cinema, a LC Barreto, e tocaram mais de 150 filmes.

“O cinema é uma doença que, quando dá, dá na família inteira. Eu costumo dizer que a minha é a ‘Família Titanic’: se não der certo, vai pro fundo”, brincou.

Em vez do fundo, veio o topo. A família Barreto levou o Brasil 2 vezes ao Oscar: com “O Quatrilho”, dirigido por Fábio, e “O Que É Isso, Companheiro?”, de Bruno.

Quase foi atleta olímpico

O apelido “Barretão” veio do escritor Nelson Rodrigues, amigo de toda a vida e companhia nos estádios. Luiz Carlos era apaixonado pelo Flamengo — e jogava bem.

“Eu era considerado craque. Era juvenil do Flamengo e fui convocado para a seleção que ia disputar a Olimpíada de Londres, em 1948. Éramos 30 atletas”.

Na época era o governo que financiava a delegação, e não tinha dinheiro para mandar todo mundo. “Então fomos cortados, e eu perdi a minha oportunidade de ser um campeão olímpico.”

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TAL PAI (JAIR BOLSONARO), TAL FILHO (FLÁVIO), AMBOS GOLPISTAS

Do Blog do Noblat, Metrópoles

Em caso de derrota, o senador parece estar pronto para não reconhecer o resultado das urnas

Em 2023, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) condenou Jair Bolsonaro à inelegibilidade por oito anos. O motivo foi uma reunião promovida por ele com embaixadores estrangeiros no Palácio da Alvorada. Na ocasião, a menos de três meses da eleição de 2022, Bolsonaro fez afirmações falsas e distorcidas sobre o processo eleitoral brasileiro, pondo em dúvida sua lisura.

Transmitido ao vivo pela TV Brasil, seu discurso pode ser resumido em quatro pontos principais:

Ataques às urnas eletrônicas: Afirmou, sem apresentar provas, que o sistema de votação eletrônica não era seguro nem auditável.
Inquérito da Polícia Federal: Utilizou dados distorcidos de uma investigação de 2018 sobre a invasão de um hacker ao sistema do TSE para sugerir que o processo eleitoral poderia ser adulterado.

Críticas ao Judiciário: Acusou ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e do TSE — nominalmente Edson Fachin, Luís Roberto Barroso e Alexandre de Moraes — de parcialidade e de tentarem favorecer o candidato Lula.

Voto impresso: Defendeu a necessidade de adotar o voto impresso para garantir a transparência do pleito.

Nesta terça-feira (21), em Brasília, ao participar de um evento com diplomatas estrangeiros, o senador Flávio Bolsonaro espalhou informações falsas a respeito das urnas eletrônicas. Ele mencionou um relatório da CIA e pediu aos diplomatas que enviem o maior número possível de observadores internacionais para fiscalizar as eleições de outubro próximo.

— Há poucos dias, por coincidência, houve uma denúncia por parte do governo americano de suspeitas de fraudes em processo eleitoral eletrônico, em especial na Venezuela. […] Muitas dessas máquinas que são utilizadas nas eleições brasileiras são da mesma… Têm a mesma origem dessa empresa venezuelana — disse Flávio.

E foi adiante:

— O pedido que eu faço a todos aqui — não estou questionando o sistema de votação brasileiro — é que todos os países possam mandar a maior quantidade de observadores possível para as nossas eleições, como sempre fazem, e pessoas que tenham conhecimento sobre essa tecnologia e [sobre] como o Brasil pode ter eleições mais seguras e transparentes.

A empresa venezuelana atende pelo nome de Smartmatic. Em 2020, o TSE declarou, em nota, que a companhia nunca vendeu ao Brasil urnas ou softwares aqui utilizados, apesar de ter fornecido outros serviços, como o treinamento de pessoal para realizar suporte técnico e operacional

No mesmo evento, Flávio comentou sobre a reunião de Bolsonaro com embaixadores, afirmando que o pai está inelegível e preso por ter manifestado “uma preocupação com a transparência e a segurança do nosso sistema eleitoral”, para que os embaixadores “levassem esse cenário de preocupação para os seus países”.

Para Flávio, o Brasil não tem segurança jurídica, o que afastaria os investimentos estrangeiros. Ele voltou a repetir que o STF persegue seu pai e criticou a corporação: “Hoje nós temos uma Polícia Federal brasileira em que parte dela está aparelhada para continuar perseguições políticas aos opositores de Lula”.

Bolsonaro pai, segundo Flávio, “mesmo sem nenhuma prova, foi condenado pelos seus próprios inimigos a 27 anos de prisão, sob acusação de tentativa de golpe de Estado, quando já não estava mais no governo e quando tinha feito toda a transição pacífica para o governo seguinte”. Completou dizendo: “Uma das razões de o presidente Jair Bolsonaro não concorrer neste ano às eleições é porque ele está preso após ser vítima de uma grande farsa por parte de alguns no Poder Judiciário.”

O sangue golpista que corre nas veias do pai é o mesmo que irriga as veias de Flávio e dos seus irmãos. Em caso de derrota, Flávio parece estar pronto para não reconhecer os resultados das urnas.

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A DEMOCRACIA DEGENERADA

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Embora faça gestos para beneficiar parcelas excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios

Em A oligarquia dos Poderes: e a crise da democracia, Joaquim Falcão nos oferece um livro que fará parte do cânone das obras de interpretação do Brasil neste momento de nossa história. Ao mesmo tempo defende e aponta os defeitos da democracia brasileira, apropriada por uma oligarquia que usa o Estado para obter benefícios para seus grupos e parentes. Falcão faz uma espécie de autópsia de como nossa democracia é usada por oligarquias — sejam escravocratas, latifundiários, usineiros, advogados, políticos, juízes, banqueiros, industriais, sindicalistas — que se sucedem sem respeitos aos interesses do povo ou da nação. Ele explicita que a legalidade foi criada e é usada para beneficiar oligarcas, seus grupos e famílias, por meio de manipulações das leis e dos orçamentos que elaboram e operam em benefício próprio.

Com robusta base analítica, lucidez, conhecimento e coragem, o autor mostra a ossatura histórica de nosso sistema político e expõe com tal crueza as entranhas das instituições que nos permite usar o termo degenerada como adjetivo para qualificar nossa democracia. Essa é a impressão que permanece ao longo de uma leitura que deslumbra pelo estilo e assusta pelo conteúdo, desferindo verdadeiros tapas na consciência do leitor brasileiro.

Com estilo leve, mas conteúdo rigoroso e conhecimento profundo, Joaquim Falcão define as características da "democracia originária importada, cujas adaptações a tornaram oligárquica politicamente e degenerada socialmente". Sustenta que as seis intenções originais não sobreviveram no Brasil: pluralidade dos Poderes, independência dos Poderes, freios e contrapesos, existência de uma palavra final, eleições gerais, livres e periódicas e, sobretudo, a necessária adesão social, sem a qual a democracia carece de justificativa ética e de sustentação política.

Embora faça gestos para beneficiar parcelas excluídas da população, nossa democracia nega a adesão social. Mantém a renda concentrada, a desigualdade social, o analfabetismo e uma educação básica sem qualidade nem equidade, ao mesmo tempo em que preserva privilégios como supersalários, isenções fiscais, penduricalhos, aposentadorias especiais, benesses e subsídios e, sobretudo, um sistema de segregação educacional. É um sistema de privilégios construído graças ao que o autor chama de conluio entre grupos e "parentela".

Cada capítulo permite ver a imoralidade política e a maldade social da elite oligárquica que dirige o país nos Três Poderes ao longo da história, inclusive no quase meio século desde a redemocratização e a promulgação da Constituição de 1988. De tempos em tempos, essa democracia degenerada promove uma falsa adesão social: condecora alguns plebeus com títulos de nobreza sem romper os privilégios aristocráticos. É como se, em vez de abolir a senzala, alguns escravos fossem escolhidos para morar na casa-grande. É o que ocorre com as cotas sociais para dar ingresso de alguns pobres no ensino superior sem que os filhos do povo sejam todos alfabetizados e colocados no mesmo sistema nacional de educação básica com qualidade e equidade.

Ao ler os capítulos sobre como se constrói a práxis oligárquica do conluio e da parentela, o leitor sente um misto de indignação e vergonha ao perceber que somos parte desse conluio e ao refletir sobre como regenerar a democracia. O livro terá papel fundamental para o futuro se os seus leitores se lembrarem que também são eleitores: responsáveis, culpados e capazes de romper a oligarquia dos poderosos, enfrentando a principal causa da degeneração — a desigualdade como a educação separa os filhos do povo dos filhos da elite para perpetuar a democracia oligárquica brasileira.

O pequeno livro de ficção Jogados ao mar transmite essa realidade em um capítulo no qual uma médica, militante no seu sindicato e em um partido de esquerda, demite sua empregada doméstica porque ela reivindicava que seus filhos estudassem na mesma escola que os filhos da patroa. Tanto quanto os trabalhadores brancos na África do Sul, ela faz parte da oligarquia.

A oligarquia sabe que, mais do que a manipulação das leis ou o uso de militares como fantoches, a permanência de seu poder decorre da recusa em oferecer aos próprios filhos a mesma escola destinada aos filhos do povo. A democracia degenerada separa desde o nascimento seus filhos dos filhos do povo — esse é o berço contínuo da desigualdade e segregação. A regeneração da democracia brasileira passa pela adoção de um sistema nacional sem oligarquia escolar, todos com a mesma chance para desenvolver seu talento.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)  

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DEMOCRACIAS REPETEM ERRO AO IGNORAR AMEAÇA AUTORITÁRIA

Rui Tavares, Folha de S. Paulo

Há 90 anos, regimes autoritários apoiaram Franco, mas países democráticos abandonaram República Espanhola

Trump não deverá acabar o ano sem interferir nas duas maiores eleições do seu continente

Há 90 anos por estes dias, Barcelona se preparava para receber os Jogos Olímpicos operários e antifascistas em alternativa aos Jogos Olímpicos organizados pelos nazistas em Berlim. Não aconteceu porque eclodiu a Guerra Civil da Espanha.

Em vez do grande evento esportivo, os trabalhadores e os seus sindicatos, nos quais predominavam os anarquistas, saíram às ruas para impedir a tomada de poder pelos fascistas. Durante uma década e meia tinham visto país após país cair em ditadura —ItáliaAlemanhaPortugal mesmo ali ao lado, a própria Espanha na década anterior com Primo de Rivera, e desta vez disseram: "¡No pasarán!" ("Não passarão").

É difícil ter hoje em dia uma noção da enormidade que foi esse grito de coragem. Não só pela primeira vez os trabalhadores reagiram em defesa da democracia pegando em armas como, em muitos casos, tomaram conta de uma economia que, nos centros urbanos, era complexa, sofisticada e industrializada.

Conseguiram fazê-lo e ainda organizar uma resistência que durou três anos. E conseguiram fazê-lo não numa ditadura, mas num ambiente pluralista e diverso.

Tudo isso era demais não só para os fascistas, salazaristas e nazis, que apoiaram Franco, mas também para Stálin, que preferiu perder a guerra atacando a esquerda pelas costas a ver nascer do outro lado da Europa uma alternativa socialista que lhe fugisse ao controle autoritário.

Mas isso estaria ainda no futuro. Veio a guerra e perdeu-se a guerra, e depois veio a Guerra Mundial. Ao passo que os regimes autoritários apoiaram Franco, os democratas deixaram abandonada a República Espanhola.

Na França governava havia pouco tempo a Frente Popular, liderada por socialistas e apoiada por sindicatos. Nestes mesmos dias há noventa anos, o assunto no país era o direito dos operários de ter férias —duas semanas, com salário, imposto por lei.

As férias europeias são em agosto e, por esses dias, os jornais de direita reagiam, entre o espanto e o desprezo, às multidões que aprendiam a pegar o trem para ir, pela primeira vez, ver o mar.

O responsável era um jovem de 36 anos chamado Léo Lagrange, subsecretário de Estado para o esporte e o lazer, que tinha negociado com as empresas ferroviárias privadas descontos de até 40% para as passagens vendidas aos operários.

Num jornal das esquerdas, na mesma página que noticiava a alegria dos operários franceses, aparecia uma foto da Espanha com a seguinte legenda: "Em Espanha, apenas uma certeza: cadáveres nas ruas".

França e Espanha davam, então, duas faces de um futuro alternativo para as democracias: ou conseguiam resolver a "questão social" melhorando a vida das massas ou pereceriam.

Mas a lição essencial é uma que não pode ficar esquecida hoje. A Espanha republicana naufragou não porque não conseguiu gerir a economia ou a resistência nem combinar a liberdade e as políticas públicas de emancipação, mas, sim, porque os autoritários se juntaram, e as democracias não a ajudaram.

Esta semana, ao ver no palco da Fifa um Trump que não queria sair de cena e que não vai acabar o ano sem interferir nas duas maiores eleições do seu continente (Brasil e EUA), pensei: será que as democracias não aprenderam a lição de 90 anos atrás?

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FLÁVIO BOLSONARO NÃO CONSEGUE UNIR A DIREITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

PL tem dificuldades para atrair outros partidos para uma aliança formal

Se não trouxer nem o Republicanos, Flávio terá menos tempo de TV que Lula

Finda a Copa começam as eleições. A candidatura de Flávio Bolsonaro (PL) enfrenta problemas. Um forte indício disso é o tempo de TV. A menos que o PL consiga trazer o Republicanos para uma aliança, o Bolsonaro pequeno terá menos espaço no rádio e na TV do que Lula. Ele ficará com 4 minutos e 20 segundos por bloco de propaganda contra 5 minutos e 32 segundos do petista. Se Lula não foi capaz de forjar uma aliança que vá além da esquerda, Flávio não conseguiu nem unir a direita, que é majoritária no Congresso.

A dificuldade do PL para atrair outras legendas se deve a uma grande mudança na paisagem política. Até o início dos anos 2010, fazia grande diferença para um partido apostar no cavalo certo, isto é, no candidato presidencial que se sagraria vencedor. Integrar a coalizão governista desde o início dava muito mais acesso a ministérios, cargos e verbas. O agigantamento das emendas parlamentares somado ao financiamento público de campanhas mudou o cálculo dos partidos, principalmente o daqueles sem marca ideológica muito saliente.

Para estes, o grande objetivo é fazer cadeiras na Câmara, que é o critério principal para ter acesso aos fundos partidários. E a melhor receita para isso é manter-se neutro para dar aos candidatos a deputado a maior liberdade possível para montar suas parcerias localmente. No Nordeste, por exemplo, pode valer a pena, mesmo para uma candidatura conservadora, estar ao lado de Lula e não de Bolsonaro.

Não chega a ser um divórcio entre Executivo e Legislativo, mas eles passaram a dormir em quartos separados. É uma situação que aumenta os custos da governabilidade. Presidentes até conseguem apoio para seus projetos prioritários, mas precisam negociá-lo caso a caso e com sobretaxa.

Não penso que seja um arranjo muito sustentável, especialmente porque o Parlamento vai abocanhando cada vez mais verbas e comprimindo a parte do Orçamento disponível para investimentos. A exemplo do nó fiscal, é um problema que teremos de abordar mais ou menos logo.

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A LARGADA DE FLÁVIO BOLSONARO

Bernardo Mello Franco, O Globo

A três dias de lançar candidatura, Flávio Bolsonaro está atrasado

Presidenciável do PL ainda não tem vice e não sabe que partidos vão apoiá-lo

Flávio Bolsonaro está atrasado. A três dias do lançamento oficial da candidatura, o senador continua cercado de incógnitas. Ainda não tem vice e não sabe que partidos vão apoiá-lo.

O plano era repetir o palanque do pai em 2022: atrair o Republicanos e o PP, hoje federado ao União Brasil. A sigla ligada à Igreja Universal preferia Tarcísio de Freitas, rifado pelo capitão. Agora apresenta uma fatura extensa e não tem pressa para fechar negócio.

O apoio da federação União-PP parece ainda mais distante. Antes descrito como “vice dos sonhos”, Ciro Nogueira está ressentido. Julga que Flávio o deixou ao relento após a revelação da mesada de Daniel Vorcaro. Na mira da polícia, o senador voltou a cortejar Lula. Sua prioridade é a própria reeleição no Piauí.

O impasse partidário também atrasa a definição da chapa do Zero Um. Até aqui, ele só definiu que terá uma mulher como vice. Busca reduzir a rejeição do eleitorado feminino, que já preocupava antes da briga com a madrasta.

A economista Daniella Marques desponta como preferida, mas não tem a bênção dos bispos do Republicanos. Além disso, está longe de empolgar o PL. Nas palavras de Valdemar Costa Neto, ela pode agradar a Faria Lima, mas “não tem voto”.

No PP, a opção natural seria a senadora Tereza Cristina, que diz não ter interesse na vaga. A insistência do candidato em chamá-la de “vozinha”, por uma suposta semelhança física com sua avó, parece não ter ajudado. Restam as deputadas Simone Marquetto e Clarissa Tércio, as duas com o mesmo perfil: religiosas e fervorosas na causa antiaborto.

Se não fechar alianças, Flávio terá que improvisar uma solução caseira no PL. Neste caso, são cotadas as deputadas Julia Zanatta e Bia Kicis — ambas distantes do “bolsonarismo moderado” que os marqueteiros tentavam vender.

Além das incertezas no palanque, o presidenciável enfrenta outro problema: o fantasma de novas revelações do caso Master. Depois da publicação dos diálogos com Vorcaro, ele admitiu que pode ser atingido pelo vazamento de ao menos um “videozinho”. Pelo tom do aviso, deve ter motivo para se preocupar.

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terça-feira, 21 de julho de 2026

TARIFLÁVIO É APELIDO PERFEITO PARA QUEM TEM CULPA NO CARTÓRIO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Sanção econômica dos EUA escancara interferência nas eleições

Além de Lula, adversários da candidatura bolsonarista são Trump, Master e Michelle

O período de Copa do Mundo, quando geralmente se espera um refresco nas maquinações políticas, foi devastador para a campanha de Flávio Bolsonaro. Primeiro veio o vídeo da ex-primeira-dama Michelle, horas antes de a seleção brasileira enfrentar a Escócia (acabou vencendo por 3 a 0 e dando uma falsa esperança aos torcedores).

O filho 01 disse que "hoje é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece". Quem dera. Michelle abriu um buraco na candidatura do enteado, afastando o voto evangélico e, sobretudo, o feminino.

Com o time da CBF já eliminado do Mundial, duas bombas explodiram uma atrás da outra. Em 15 de julho —logo após ser revelada a foto em que Flávio aparece inteiramente à vontade, sem camisa e de óculos escuros, ao lado do "Sicário", operador da máfia de Daniel Vorcaro—, Donald Trump decidiu taxar produtos do Brasil em 25%, tornando o país o mais tarifado pelos Estados Unidos no planeta, atrás apenas da China.

"Tariflávio". Sem motivo ou culpa no cartório, um apelido não pega nem se propaga tão facilmente. Vira-lata como o pai, Flávio Bolsonaro esteve nos EUA para pedir que a chantagem político-econômica só entrasse em vigor após as eleições. Quem dera.

O recorte da pesquisa Quaest mostra que a maioria dos brasileiros atribui ao 01 a responsabilidade pelo tarifaço 2.0. Questionados sobre quem teria motivado a sanção (se Flávio, para prejudicar o governo federal, como acusa Lula, ou se o próprio Lula, ao provocar Trump, como alega Flávio), 51% concordam com a versão petista e 30% com a bolsonarista.

Motivado por delírios imperiais, Trump ataca o Brasil, com menos exportações, perda de empregos, pressão sobre o dólar, inflação. Declara guerra contra o Pix, acusando o Banco Central de prejudicar os provedores de serviços de pagamento eletrônico dos EUA. A resposta de Gabriel Galípolo, presidente do BC, não poderia ser mais didática: "Seria como dizer que, ao fazer saneamento básico, você prejudicou quem vende água em caminhão-pipa". Mandou bem, em bom português.

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UM PRESIDENTE DE MÃOS ATADAS

Artigo de Fernando Gabeira

Acabou a Copa do Mundo; agora, nosso tema comum é a eleição. É preciso afirmar algo tão inconveniente agora quanto foi dizer que, com aquele time, o Brasil não ia longe, apesar da fanfarra comercial do “rumo ao hexa”.

Depois de muito debate e emoção, o presidente que escolhermos chegará ao poder de mãos quase atadas. Ele simplesmente não terá dinheiro para executar suas promessas. A causa disso é muito simples: o Congresso sequestrou parte do Orçamento. Ele gasta cerca de R$ 61 bilhões por ano só em emendas parlamentares. Sobra pouco para o governo.

Orçamento é um tema muito chato. É uma quantidade abstrata de recursos, que a gente costuma pensar como o dinheiro do governo. No fundo, todos sabemos que governo não tem dinheiro, exceto o que recebe de todos nós. Já temos tanta dor de cabeça com as contas do nosso dia a dia. Por que se preocupar com o que gasta o governo?

Há coisas, no entanto, que precisam ser conhecidas. Nas democracias ocidentais, todo o dinheiro arrecadado com impostos é usado pelos governos eleitos. Deputados e senadores apenas fiscalizam.

No Brasil, o Congresso abocanhou uma grande parte desse dinheiro. O resultado é uma irracionalidade nos gastos. Cada deputado gasta de acordo com suas necessidades eleitorais. Há muita redundância e corrupção.

Os deputados queriam que esse dinheiro que gastam fosse secreto. Daí o surgimento do famoso orçamento secreto, que o STF combate até hoje. Dinheiro público precisa de transparência.

Apesar de muita interferência legal, ainda agora soubemos que R$ 1,3 bilhão foi destinado sem que se soubessem os autores. São emendas de comissão. As comissões são uma réplica dos ministérios: Comissão de Educação, Saúde, Transporte. Por que gastam dinheiro de uma forma diferente dos ministérios? Por que não racionalizar?

O Congresso não abre mão desse poder. O resultado não é só dispersão e irracionalidade. Há coisas do arco da velha, como dizíamos no passado. Foi descoberto agora que pessoas que não são deputados manipulam algumas verbas. Valdemar Costa Neto destinou R$ 119 milhões; Eduardo Cunha, R$ 6 milhões.

A expressão “não deputados” é muito vaga. Não se trata da vizinha aposentada ou de um arcebispo. Ambos não são deputados. Costa Neto e Cunha foram presos, em momentos diferentes, por corrupção.

Por aí, é possível ver a seriedade com que o Congresso trata o Orçamento sequestrado. É tão grande o problema que a PF só consegue investigar alguns casos, pois não tem capacidade de fiscalizar quase 600 pessoas distribuindo ou embolsando dinheiro pelo país. Há casos fantásticos de cidades em que quase todo mundo arrancou os dentes ou fraturou os dedos. O Tribunal de Contas da União chegou a investigar cem casos e encontrou irregularidades em 82 deles.

O país que terá um novo presidente terá de se resignar com a falta de dinheiro. Só nas eleições, os partidos vão gastar R$ 5 bilhões. Os argumentos afirmam que são gastos com a democracia. Na verdade, a parte do leão são gastos antidemocráticos.

Encarar essa realidade ou se resignar? Até o momento, apesar de os jornais noticiarem e a PF trabalhar, existe certa passividade em torno do sangramento contínuo do dinheiro público, isto é, sempre lembrando, do dinheiro do nosso bolso.

De que adianta apenas escolher um candidato a presidente, sem equacionar esse problema?

Artigo publicado no jornal O Globo em 21 / 07 / 2026

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segunda-feira, 20 de julho de 2026

OLHA LÁ NO ALTO DO HORTO

Há exatos 92 anos, a população de Juazeiro do Norte, no Ceará, dava adeus a Cícero Romão Batista, o Padre Cícero. Nascido em 24 de março de 1844, Crato (CE), Padre Cícero faleceu em 20 de julho de 1934, em Juazeiro do Norte. Carismático, Padre Cícero ou “Padim Ciço”, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará e da Região Nordeste do Brasil.

Padre Cícero, foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o povoado foi elevado a cidade. Voltou ao poder, em 1914, quando o governador Marcos Rabelo foi deposto. No final da década de 1920, o Padre Cícero começou a perder a sua força política, que praticamente acabou depois da Revolução de 1930. Seu prestígio como santo milagreiro, porém, aumentaria cada vez mais.

Em 1° de novembro de 1969 no alto do Horto, em Juazeiro do Norte foi erguido uma estátua (a terceira maior do mundo) em homenagem ao Padre Cícero Romão Batista. Em 22 de março de 2001 “Padim Ciço” foi eleito o cearense do século.

A trajetória religiosa e política de Padre Cícero é relatada na excelente biografia Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, do jornalista Lira Neto. A obra é primorosa, resultado trabalho intenso de dez anos de pesquisa, baseada em documentos raros e inéditos tornam a biografia a mais completa obra sobre a vida do mais amado e controvertido religioso que o Brasil já teve, Padre Cícero, para os romeiros e fiéis, o “Padim Ciço”.

Clique aqui e ouça a música Viva meu Padim, composta pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga e João Silva para homenagear Padre Cícero. A canção tem a participação especial de Benito di Paula. 

Leia mais sobre Padre Cícero

Lira Neto, via Aventuras na História

Um padre que viveu sob o signo da controvérsia e morreu proscrito, condenado pelo Santo Ofício. Esse foi sacerdote brasileiro Cícero Romão Batista, acusado no fim do século 19 de proclamar falsos milagres, de incentivar o fanatismo popular e de se beneficiar financeiramente da devoção extremada de seus milhões de seguidores.

Em decorrência das acusações de que era um rebelde, um desobediente à hierarquia católica e um semeador de fanatismos, ele foi alvo de um inquérito eclesiástico que terminou por proibi-lo de rezar missas, de confessar fiéis e de ministrar sacramentos como o batismo e o matrimônio. Tornou-se, então, um pária da fé. Apesar de idolatrado pelos cerca de 2,5 milhões de peregrinos que acorrem todos os anos à cidade cearense de Juazeiro do Norte para reverenciar sua memória, Cícero foi um padre maldito, renegado pela Igreja Católica.

Fazedor de milagres

Toda a história pessoal de Cícero Romão Batista está permeada de mistérios, ambiguidades e contradições. Amado e odiado em igual medida por seus contemporâneos, depois de morto - e talvez ainda mais a partir daí - ele continua a provocar sentimentos idênticos de adoração e repulsa.

Nascido na cidade cearense do Crato em 1844, ordenado padre em 1870, Cícero viveu e cresceu na confluência de dois mundos. De um lado, o universo mágico do misticismo sertanejo, no qual a crença em lobisomens, almas penadas e mulas-sem-cabeça convivia com a festiva devoção aos santos padroeiros e com as advertências apocalípticas dos profetas populares, que pregavam o fim dos tempos. Do outro lado, o mundo da fé ritualizada, da disciplina clerical e da submissão cristã com a qual foi educado e doutrinado no seminário. Com um pé no maravilhoso, outro na ascese, Cícero protagonizou uma biografia acidentada, recheada de episódios mirabolantes que mais parecem beirar a ficção.

Entretanto, até os 45 anos de idade, sua vida nada teve de extraordinária. Em 1889, Cícero era um simples padre de aldeia, rezando missa numa minúscula capelinha do então povoado do Juazeiro, a 600 quilômetros de Fortaleza, quando um fenômeno misterioso chamou a atenção dos sertanejos, da Igreja e da imprensa. Ao ministrar a comunhão a uma beata - a humilde costureira e doceira Maria de Araújo -, a hóstia consagrada teria se transformado em sangue. "Não posso duvidar, porque vi muitas vezes", escreveu Cícero a dom Joaquim José Vieira, bispo do Ceará.

Os jornais abriram manchetes para noticiar o fenômeno e os sertanejos caíram de joelhos diante do proclamado milagre. A Igreja, porém, acusou Cícero e a beata de fraude. "Se Maria de Araújo recebe realmente provas do céu, que as vá gozando só, sem perturbar a boa ordem da diocese", desdenhou o bispo Vieira.

Fato ou embuste, o caso é que o padre e seus adeptos evocaram em sua defesa uma série de fenômenos mais ou menos semelhantes, devidamente chancelados pelo Vaticano sob a classificação genérica de "milagres eucarísticos". Mas uma frase atribuída ao então reitor do Seminário da Prainha, o padre Pierre-Auguste Chevalier, revelaria a dificuldade do clero tradicional em aceitar as manifestações da fé popular: "Jesus Cristo não iria sair da Europa para fazer milagres no sertão do Brasil", teria tripudiado o francês.

Chefe político

O episódio da hóstia que diziam se transformar em sangue rendeu a Cícero a admiração dos milhares de peregrinos, que desde então não nunca pararam de chegar a Juazeiro para testemunhar a suposta maravilha. Mas também significou para o padre uma longa via-crúcis de indisposições perante as autoridades eclesiásticas da época.

Banido pelo clero, Cícero passou a ocupar a posição de mártir no imaginário coletivo, ao mesmo tempo que começou a desfrutar de uma enorme notoriedade e de um imenso poder junto ao povo mais simples do sertão, vítimas históricas da seca e do descaso governamental. Aquela gente, sem perspectivas, sem dinheiro e sem chão, cada vez mais se identificava com o sacerdote que nunca foi propriamente um grande orador, mas em compensação sabia falar a mesma língua deles, chamando-os de "amiguinhos", ouvindo-lhes as queixas, distribuindo prédicas e conselhos.

Moralista severo, Cícero pregava contra os amancebados, os festejos pagãos e o desregramento das famílias. Numa terra em que imperava a lei do punhal e do bacamarte, seu lema mais famoso conclamaria os pecadores ao arrependimento: "Quem bebeu não beba mais, quem roubou não roube mais, quem matou não mate mais", costumava dizer.

Quando não pôde mais celebrar batismos, ele próprio aceitou apadrinhar inúmeras crianças, vindo daí o título de "padrinho padre Cícero", que na corruptela da linguagem popular resultou Padim Pade Ciço.

"Em cada casa um oratório, em cada quintal uma oficina", pregava ele, atraindo trabalhadores, agricultores e artesãos de todo o Nordeste, que passaram a se fixar e aos poucos transformaram o arrabalde em um importante centro manufatureiro. O povoado virou cidade autônoma e, em 1911, Cícero foi nomeado o primeiro prefeito de Juazeiro. Líder religioso, tornou-se também chefe político, igualmente polêmico e contraditório. Ao mesmo tempo que pregava aos "náufragos da vida", como se referia aos menos favorecidos, estabeleceu alianças com as elites poderosas.

A Santa Sé delibera

Entre 2001 e 2006, uma comissão multidisciplinar de estudos se debruçou sobre a vasta documentação relativa ao padre, em arquivos do Brasil e do Vaticano. Coordenada pelo bispo do Crato, dom Fernando Panico, tal comissão foi composta por especialistas de várias áreas do conhecimento: antropologia, filosofia, história, psicologia, sociologia e teologia. A finalidade era trazer à luz novos documentos que servissem para tentar responder a uma questão que sempre acompanhou o nome de Cícero: quem afinal foi esse homem, acusado de espertalhão por muitos, aclamado como visionário por outros tantos?

O relatório final da comissão foi entregue em maio de 2006 na Santa Sé. Junto, uma coleção de 11 volumes reunia as transcrições das centenas de cartas trocadas entre os principais personagens da história do padre. Um volume à parte levava cerca de 150 mil assinaturas de populares em prol da reabilitação, às quais se somava um abaixo-assinado no qual se lia o nome de 253 bispos brasileiros favoráveis à causa. Em complemento à papelada, a carta de dom Fernando ao papa: "Venho com toda esperança e humildade suplicar a Vossa Santidade que se digne reabilitar canonicamente o padre Cícero Romão Batista, libertando-o de qualquer sombra e resquício das acusações por ele sofridas",

Em setembro de 2008, a igreja de Nossa Senhora das Dores - o templo que Cícero construiu em Juazeiro e no qual depois se viu impedido de rezar missa - foi elevado pelo Vaticano à categoria de basílica. Com isso, o brasão de Bento XVI foi sintomaticamente colocado à porta de entrada, bem à vista dos romeiros que chegam para louvar o Padim. No templo em que o padre está enterrado, a capela de Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, também em Juazeiro, foi autorizada a instalação de um vitral multicolorido em que se destaca a imagem de Cícero, ao lado de outros santos oficiais.

Em 2015, finalmente, o perdão se tornou 100% oficial. O bispo Dom Fernando Pânico, declarou sua reabilitação em 13 de dezembro. Esse é o primeiro passo para uma posterior beatificação, ou seja, o reconhecimento canônico de que o homem Cícero Romão Batista teria vivido na plenitude das virtudes cristãs, sendo um "bem-aventurado", resultou na consequente autorização para o culto público a seu nome. Devido às milhares de graças que os romeiros dizem ter alcançado por intercessão do padre Cícero - cegos que teriam voltado a ver, aleijados que andaram novamente, loucos que teriam recuperado o juízo -, o caso, ainda pode evoluir da simples beatificação para a efetiva canonização, quando então ele seria elevado à honra dos altares de toda a Igreja. Esse processo burocrático, como ocorreu com Frei Galvão (1739-1822), o primeiro santo nascido no Brasil e durou vários anos.

Santo sertanejo

A polêmica trajetória de Padre Cícero

1844: Cícero Romão Batista nasce na cidade do Crato (CE).

1870: Cícero é ordenado padre, apesar das reservas do reitor do seminário, que o julgava um aluno "teimoso" e "dono de ideias confusas".

1872: Sem ter recebido nenhuma paróquia, o jovem padre aceita o convite de moradores para rezar a missa de Natal no pequeno povoado de Juazeiro, vizinho ao Crato. Segundo ele, um sonho faz com que continue a morar ali para sempre. Jesus teria pedido a Cícero que "tomasse conta" dos pobres do local.

1889: 1 de março, sexta-feira da Quaresma, o padre Cícero oferece a comunhão à beata Maria de Araújo e a hóstia se transforma em sangue. O fenômeno teria ocorrido por semanas seguidas, até 15 de agosto, dia da Ascensão de Nossa Senhora. Os paninhos manchados de sangue são adorados como relíquias sagradas. O milagre vira notícia na imprensa de todo o país.

 1891: O bispo do Ceará, dom Joaquim José Vieira, censura Cícero e o monsenhor Monteiro por proclamarem milagres ainda não investigados pela Santa Sé. Cria uma comissão de inquérito eclesiástico, formada pelos padres Francisco Antero e Clycério da Costa Lobo. A ordem é desmascarar um possível embuste.

1892: O padre Antero viaja ao Vaticano em defesa de Cícero. O Santo Ofício examina o caso. Em agosto, o bispo cearense proíbe Cícero de rezar missas, pregar aos fiéis, confessar e ministrar sacramentos.

 1894: o Santo Ofício condena os fatos como "prodígios vãos e supersticiosos. Os padres adeptos do milagre se retratam. Menos Cícero.

1898: Cícero vai ao Vaticano se defender. É interrogado e depois recebido pelo papa Leão XIII. O Santo Ofício absolve Cícero das censuras, desde que ele guarde silêncio sobre o caso. O padre jura submissão, mas segue suspenso das ordens sacerdotais. Os paninhos sujos de sangue são roubados da matriz do Crato e desaparecem por vários anos.

1908: Atraído por notícias da existência de uma valiosa mina de cobre na região, chega a Juazeiro um baiano misterioso: Floro Bartolomeu. Médico, rábula e garimpeiro, ele passa a ser o principal braço político de Cícero.

1909: Começa a circular O Rebate, primeiro jornal de Juazeiro, fundado para defender a tese da emancipação do povoado em relação ao Crato. Floro Bartolomeu é um dos editores.

1910: Morre misteriosamente o professor José Marrocos, um ex-seminarista que exerce grande influência sobre Cícero. Floro é acusado de tê-lo envenenado, mas nunca se prova nada a esse respeito.

1911: Juazeiro se emancipa. Cícero, filiado ao Partido Republicano Conservador, é nomeado primeiro prefeito do novo município. Permanecerá quase duas décadas no cargo, sendo reeleito seguidamente. Na data da posse, sela um pacto de paz com os principais coronéis da região, no qual todos prometem parar as animosidades mútuas.

1913: Em acordo com o governo federal e com o aval de Cícero, Floro viaja ao Rio de Janeiro para tramar a queda do então presidente (cargo igual ao de governador) do Ceará, Franco Rabelo. De volta, Floro depõe as autoridades municipais e instala uma Assembleia estadual paralela para caracterizar a duplicidade de poderes e provocar uma intervenção federal.

1914: O governo estadual reage. Manda tropas para atacar Juazeiro. Cícero segue o conselho de um sobrevivente de Canudos e pede aos moradores que cavem um fosso gigantesco em torno da cidade: o "Círculo da Mãe de Deus". Com isso, o ataque fracassa. Juazeiro parte para a ofensiva. Comandado por Floro, um exército de jagunços e cangaceiros toma o Crato e várias outras cidades cearenses, cercando Fortaleza. O governo federal decreta a intervenção no Ceará. Cícero é nomeado vice-presidente do estado.

1916: A Santa Sé declara que Cícero, aos 72 anos, por ainda alimentar o "fanatismo", está excomungado. Mas ele jamais saberia disso. Temendo pela saúde do velho padre, o bispo do Crato, Quintino Rodrigues, evita aplicar a excomunhão e exige dele uma retratação pública. O Santo Ofício revê a pena, mas mantém suspensas as ordens sacerdotais.

1926: A Coluna Prestes entra no Ceará. Cícero escreve carta aberta a Prestes, conclamando-o à rendição. Floro tem a ideia de convocar Lampião para integrar o chamado "Batalhão Patriótico", organizado para dar combate à Coluna. É quando o cangaceiro recebe a patente de capitão e passa a assinar "Capitão Virgulino". No mesmo ano, Cícero é eleito deputado federal, mas não assume o cargo, por causa da idade avançada.

1930: Vitória da revolução que leva Getúlio Vargas à Presidência da República. Cícero escreve uma carta aberta ao povo, classificando os revolucionários de "mensageiros de Satanás".

1934: Morre Cícero Romão Batista. No testamento, ele deixa a maior parte dos bens para a Igreja. Após o falecimento do padre, os paninhos manchados de sangue reaparecem em poder de uma beata. Por ordens do novo bispo do Crato, de acordo com o que determinara o Santo Ofício, eles são destruídos e queimados.

2001: O cardeal Joseph Ratzinger, prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, reabre o processo que culminou na suspensão de Cícero.

2005: Ratzinger é eleito papa. No ano seguinte, recebe a documentação de uma comissão interdisciplinar de estudos que sugere a anistia, post-mortem, do padre.

2015: O padre Cícero é perdoado das punições impostas e reconciliado com a Igreja Católica. O processo de beatificação passa a ser possível.

Padre Cícero: Poder, Fé e Guerra no Sertão, Lira Neto, Companhia das Letras, 2009

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domingo, 19 de julho de 2026

MORRE CELSO LUNGARETTI

Leonardo Zvarick, g1 SP — São Paulo

Jornalista e ex-guerrilheiro Celso Lungaretti morre em SP aos 75 anos

Preso e torturado pelo regime militar, dedicou-se à militância política e ativismo em defesa dos direitos humanos. Nos últimos anos, escreveu o segundo volume do livro autobiográfico "Náufrago da Utopia".

Morreu neste sábado (18) o jornalista Celso Lungaretti, ex-militante da luta armada contra a ditadura militar, aos 75 anos. Ele estava internado havia 21 dias no HCor, em São Paulo, depois de quebrar o fêmur direito num acidente doméstico. Passou por uma cirurgia corretiva no início do mês, mas acabou não resistindo às complicações pós-operatórias.

Nascido em São Paulo, em 6 de outubro de 1950, participou do movimento estudantil e ingressou ainda muito jovem na resistência ao regime militar. Preso em 1970, foi submetido a torturas e carregou por décadas as marcas físicas e emocionais daquele período.

Formado pela Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP), construiu uma trajetória que reuniu jornalismo, militância política e ativismo em defesa dos direitos humanos. Em 2005, publicou o livro Náufrago da Utopia: vencer ou morrer na guerrilha aos 18 anos, no qual revisitou sua experiência na luta armada e refletiu sobre os sonhos, erros e tragédias daquele período histórico. O título daria nome também ao blog que manteve por quase 20 anos como espaço de análise política e debate público.

Uma das passagens mais marcantes de sua trajetória foi a acusação de ter delatado aos militares, quando preso em 1970, a localização de um acampamento da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) no Vale do Ribeira, episódio que o acompanhou por décadas. A versão difundida entre antigos militantes e em parte da literatura sobre a luta armada atribuía a Lungaretti a responsabilidade pela descoberta, pelo Exército, da área de treinamento comandada por Carlos Lamarca.

Lungaretti sempre rejeitou essa interpretação e fez da defesa de sua versão dos fatos uma das principais batalhas de sua vida pública. Segundo ele, as informações obtidas por seus torturadores se referiam a um primeiro local de treinamento que havia sido abandonado pela organização dois meses antes por motivos de segurança.

O acampamento efetivamente cercado pelas forças militares funcionava em uma área próxima, da qual ele não tinha conhecimento. Para Lungaretti, conforme relatou em diversas entrevistas, sua responsabilização serviu para encobrir falhas de segurança cometidas pela própria VPR e transferir a culpa pelo fracasso da operação a um militante que já estava preso e não podia se defender.

Décadas depois, documentos militares e revisões historiográficas ajudaram a reabrir o debate. Em 2004, o historiador Jacob Gorender, referência nos estudos sobre a esquerda armada, reconheceu publicamente que Lungaretti fornecera informações sobre uma área já desativada e que não tinha conhecimento do acampamento onde Lamarca e seus companheiros realizavam treinamentos quando ocorreu a Operação Registro. A manifestação foi recebida por Lungaretti como uma reparação tardia para uma acusação que considerava uma das maiores injustiças de sua vida.

Nos últimos anos, dedicou-se à elaboração de Náufrago da Utopia 2, no qual procurou sistematizar as lições políticas e pessoais extraídas de sua trajetória. A obra estava concluída e em fase de edição.

Ao refletir recentemente sobre o legado que gostaria de deixar "aos companheiros que virão", destacou a luta pela própria anistia e a campanha em defesa da libertação do escritor italiano Cesare Battisti, condenado por assassinatos cometidos na década de 1970, durante período conhecido como "anos de chumbo" na Itália [Battisti viveu no Brasil entre 2004 e 2018, quando fugiu para a Bolívia antes de ser capturado e extraditado para a Itália, onde cumpre pena de prisão perpétua desde 2019].

"É por eles todos que eu quero ser lembrado: como quem ousou lutar batalhas dificílimas e geralmente vencê-las, provando que nós, revolucionários, não podemos nos conformar jamais com as injustiças e, se travarmos as lutas até o fim, temos sempre a possibilidade de dar a volta por cima", escreveu no final de junho no blog Náufrago da Utopia.

Celso Lungaretti deixa a esposa Nadja e as filhas Luana e Laura. O corpo dele será velado na próxima terça-feira (21) no Cemitério São Pedro, na Zona Leste da capital paulista.

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sábado, 18 de julho de 2026

NA CORDA BAMBA

Paulo Motoryn, The Intercept Brasil

Flávio balança, mas a extrema direita não cai

Cartas Marcadas

Cartas Marcadas é uma newsletter semanal que investiga a ascensão da extrema direita, as ameaças à democracia e os bastidores do poder em Brasília.

Há poucos meses, o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, parecia reunir as condições para liderar a extrema direita na corrida presidencial. Era o herdeiro político mais evidente do bolsonarismo, contava com a força eleitoral do sobrenome e aparecia como o nome capaz de manter unido um campo político que perdeu Jair Bolsonaro para a prisão, mas não perdeu seu poder de engajamento.

Hoje, o cenário é bem diferente. A candidatura de Flávio atravessa seu momento mais difícil. Desde maio, ela foi atingida por uma sucessão de crises que se alimentam mutuamente. A nossa série Vaza Flávio revelou documentos, áudios e mensagens que colocaram o senador no centro de um escândalo de grandes proporções – que ele, até agora, não conseguiu explicar de forma convincente.

Ao mesmo tempo, Michelle Bolsonaro rompeu o silêncio e passou a fazer críticas públicas ao enteado, aprofundando divisões que antes eram tratadas apenas nos bastidores. Rumores de que novos vazamentos podem vir à tona aterrorizam a campanha do Zero Um. E, como se tudo isso não bastasse, a relação de Flávio Bolsonaro e seus aliados com o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil também pesa contra o senador.

Nenhum desses fatores, isoladamente, explica o que está havendo com a campanha eleitoral bolsonarista. Mas, juntos, ajudam a entender por que aquele que parecia ser o nome natural da extrema direita enfrenta, hoje, dificuldades que poucos imaginavam no início do ano.

Isso não significa, porém, que a eleição esteja decidida. Pesquisas são fotografias de um momento. Ainda faltam meses de campanha, debates, propaganda eleitoral, alianças e acontecimentos capazes de alterar o humor dos eleitores. A política brasileira já produziu reviravoltas grandes demais para que o resultado seja tratado como definitivo.

Ao mesmo tempo, há outro risco: acreditar que uma eventual derrota de Flávio Bolsonaro será, por si só, o fracasso do projeto político da extrema direita. Não será.

A extrema direita avança

O bolsonarismo nunca dependeu exclusivamente de Jair Bolsonaro ou de sua família. Ao longo dos últimos anos, esse movimento consolidou uma base eleitoral resiliente, formou novos quadros, ampliou sua presença em governos estaduais, no Congresso, nas redes sociais e na sociedade civil.

Embora Flávio tenha caído nas pesquisas eleitorais, um outro candidato conservador passou a crescer. Como escrevi na edição passada desta newsletter, Renan Santos, do Partido Missão, ganhou força como referência para parte da direita radical. 

O campo continua em movimento, procurando novos porta-vozes para um eleitorado que, em grande medida, permanece mobilizado. Talvez o maior erro seja, portanto, imaginar que toda essa disputa se resume ao Palácio do Planalto.

No ano passado, meu colega Leandro Becker coordenou a série de reportagens Senado no Alvo, mostrando como a extrema direita trata a renovação do Senado como uma prioridade estratégica. O objetivo é ampliar a capacidade de influenciar a indicação de ministros para os tribunais superiores, julgar autoridades, analisar pedidos de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal e moldar, por muitos anos, o funcionamento das principais instituições da República.

A Câmara dos Deputados também continuará sendo um espaço decisivo para bloquear ou aprovar reformas, pautar costumes, restringir direitos e impor derrotas a qualquer governo eleito nas urnas. Ao mesmo tempo, a disputa pelos governos estaduais poderá ampliar ainda mais a influência da direita sobre as polícias, os orçamentos e as máquinas administrativas.

Em outras palavras: perder a Presidência não significa, necessariamente, que a extrema direita fracassará com seu projeto de poder. Dependendo da composição do Congresso, poderemos assistir a novos ataques ao STF, ao avanço de propostas contra direitos reprodutivos das mulheres e a uma pressão institucional permanente sobre qualquer governo eleito. 

É duro, mas é real: uma vitória de Lula pode coexistir com uma derrota política para a esquerda.

É justamente por isso que resisto às leituras apressadas desta eleição. Há motivos para quem se opõe ao bolsonarismo enxergar algum alívio diante das dificuldades enfrentadas por Flávio Bolsonaro. Seria estranho fingir que não há diferenças entre um cenário em que sua candidatura lidera as pesquisas e outro em que ela enfrenta uma crise profunda.

Mas alívio não é o mesmo que tranquilidade. O verdadeiro teste para a democracia brasileira não será apenas descobrir quem ocupará a cadeira de presidente em janeiro de 2027. Será medir até onde um projeto político autoritário continuará expandindo sua influência sobre as instituições que produzem as regras do jogo muito depois do fim da campanha.

Estamos de olho

É por isso que, nos próximos meses, continuaremos acompanhando não apenas a corrida presidencial, mas também aqueles que disputam o controle do Congresso, dos estados e dos espaços de poder onde muitas das decisões mais importantes são tomadas longe dos holofotes. São muitas cartas marcadas que podem – e vão – fazer muita diferença.

E, como sempre, contamos também com quem acompanha nosso trabalho. Muitas das melhores investigações começam com um documento, uma denúncia ou uma informação enviada por um leitor. Em uma eleição como esta, continuar revelando o que os poderosos prefeririam manter escondido talvez seja mais importante do que nunca.

Portanto, se você conhece uma história que merece ser investigada, tem acesso a documentos de interesse público ou acredita que há algo importante acontecendo longe dos holofotes, envie uma mensagem pela nossa página de fontes.

Até a próxima! E, até lá, cuide-se — e conte com a gente para continuar iluminando o que alguns preferem manter no escuro.

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sexta-feira, 17 de julho de 2026

TARIFAÇO É DECLARAÇÃO DE GUERRA COMERCIAL AO BRASIL

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A relação entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada à polarização ideológica norte-americana. A derrota do presidente brasileiro em 2026 passou a ser vista como objetivo por Trump

James Monroe nasceu no condado de Westmoreland, na Virgínia, então uma das 13 colônias da Inglaterra, no dia 28 de abril de 1758. Filho de um juiz, cresceu num clima de agitação por uma pátria livre. Com 16 anos, interrompeu os estudos para lutar pela independência do país. Recebeu de George Washington o posto de capitão.

Formado em direito e apadrinhado por Thomas Jefferson, em 1782, com 24 anos, foi eleito deputado na Virgínia. Fez parte do Congresso Continental, sendo um dos responsáveis pela aprovação da Constituição americana. Em 1790, elegeu-se senador. Em 1794, foi nomeado embaixador na França por George Washington.

De volta aos Estados Unidos, James Monroe foi eleito governador da Virgínia, em 1779, deixando o mandato em 1802. Nesse mesmo ano, designado pelo presidente Thomas Jefferson, negociou a compra dos territórios da foz do Rio Mississippi com a França e a Espanha. A seguir, foi eleito o quinto presidente dos Estados Unidos, o último da “Dinastia da Virgínia”. Seu mandato ficou conhecido como a “Era dos Bons Sentimentos”: o país prosperou, a Flórida foi adquirida da Espanha, e o Brasil teve sua independência reconhecida pelos EUA em 1824.

Declarada em 1823, a chamada Doutrina Monroe repudiava a intervenção ou a recolonização europeia no continente americano, expressa na máxima “A América para os americanos”. Originalmente, era um alerta às potências europeias para que não tentassem restaurar seus impérios coloniais no continente americano. Com o passar das décadas, a doutrina foi reinterpretada, ampliada e transformada em instrumento da hegemonia norte-americana.

Diferentes governos norte-americanos ampliaram seu alcance para justificar intervenções políticas, econômicas e militares. Dois séculos depois, agora rebatizada de “Doutrina Trump”, Monroe continua projetando sua sombra sobre as relações entre Washington e a América Latina.

No artigo A Longa Sombra de Monroe: o Trumpismo e a Restauração da Primazia Hemisférica, Flávio Contrera e Paulo Cesar Gregorio (Lua Nova, 126) sustentam que o movimento político liderado por Donald Trump resgatou essa tradição, adaptada à rivalidade contemporânea com a China e à disputa pelo controle da América Latina. O trumpismo seria uma tentativa de reafirmar sua primazia regional por meio de pressão econômica, alinhamentos políticos seletivos e contenção geopolítica e militar.

Autonomia relativa

A tensão com o governo Lula ocorre nessa perspectiva. A guerra comercial, as chantagens tarifárias e a politização da relação bilateral não são apenas ocasionais. Fazem parte de uma visão estratégica do movimento Maga e de lideranças republicanas como Marco Rubio, secretário de Estado, segundo a qual a América Latina deve ocupar posição subordinada à geopolítica de Washington.

A causa é a ascensão da China. Na América do Sul, Pequim tornou-se grande parceiro comercial, financiador de infraestrutura e investidor em setores estratégicos. Para os nacionalistas na Casa Branca, essa expansão representa uma ameaça direta aos Estados Unidos. Como maior economia da América Latina, integrante do Brics, o Brasil ocupa posição central nessa disputa ao manter relações simultâneas com Estados Unidos, China, União Europeia, Oriente Médio e África.

A autonomia relativa do Brasil incomoda àqueles que sonham com a volta ao século XIX. Não por acaso, ocorre a convergência entre pressões comerciais e disputas políticas domésticas. A relação entre o governo Lula e a Casa Branca foi subordinada à polarização ideológica que marca o cenário norte-americano. A derrota de Lula em 2026 passou a ser vista como parte de um reposicionamento geopolítico mais amplo da América do Sul.

Essa percepção ajuda a explicar a aproximação explícita de setores conservadores norte-americanos com o clã Bolsonaro e outras lideranças da direita brasileira. A intenção não é apenas influenciar o debate interno do país, mas fortalecer atores considerados mais alinhados à estratégia hemisférica do movimento Maga.

Entretanto, o Brasil não é mais o país vulnerável do passado. Possui uma economia diversificada, o setor agrícola mais competitivo do mundo, reservas internacionais robustas e uma ampla rede de parceiros comerciais. Evidentemente, pressões econômicas vindas dos Estados Unidos podem produzir custos relevantes. Mas a capacidade brasileira de resistir é muito maior do que em outros momentos históricos. O comércio com os Estados Unidos representa apenas 2% do nosso PIB.

Entretanto, isso não significa que uma guerra comercial prolongada seja desejável. Pelo contrário. A escalada das retaliações produziria perdas significativas, reduziria investimentos, aumentaria incertezas e comprometeria décadas de integração econômica. Nenhum dos dois países tem interesse objetivo em ruptura comercial. O desafio do governo brasileiro neste momento é equilibrar firmeza e pragmatismo na eventual adoção da Lei de Reciprocidade.

A defesa da soberania nacional tende, sim, a ocupar lugar central na narrativa eleitoral de Lula. Diante das pressões externas e da associação de Flávio Bolsonaro ao campo político alinhado ao trumpismo, o Planalto vê na defesa da soberania nacional um eixo poderoso de mobilização política. Entretanto, o governo precisa evitar uma guerra comercial de desfecho imprevisível.

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FLÁVIO BOLSONARO AGORA TENTA SE DESCOLAR DE TARIFAS QUE INCENTIVOU

Bernardo Mello Franco, O Globo

Senador simula indignação com medida de Trump, mas pesquisa mostra que só 30% acreditam em sua versão sobre ataque americano

Depois de um mês de ameaças, o governo americano baixou um novo tarifaço sobre produtos brasileiros. O secretário Marco Rubio não disfarçou o teor político da medida. Num tuíte pouco diplomático, atacou o presidente Lula e disse que ele teria colocado “o próprio ego” à frente das negociações.

É curioso um subordinado de Donald Trump criticar o ego alheio, mas o pior ficou para as justificativas. A Casa Branca voltou a reclamar do Pix, de decisões judiciais que contrariaram big techs e até do desmatamento da Amazônia, que caiu pela metade nos últimos três anos.

O trumpismo tem um projeto. Quer restaurar o poder de mando sobre a América do Sul, numa versão reciclada da Doutrina Monroe. Nos últimos anos, sete países da região elegeram presidentes de direita ou extrema direita alinhados ao republicano. O Brasil é o próximo terreno dessa batalha.

Desde o tarifaço de 2025, o Itamaraty se empenhava em aparar arestas e distensionar as relações com os Estados Unidos. O esforço culminou na visita de Lula a Trump, no início de maio. Passados dois meses, a alardeada química entre os dois presidentes evaporou. Quem quiser entender a mudança deve observar os movimentos recentes de Flávio Bolsonaro.

O candidato do PL fez promessas em série ao governo americano. Em público, acenou com acesso privilegiado a terras-raras, tarifa zero sobre o etanol e até uma “equipe de transição” para anotar pedidos da Casa Branca. Talvez seja preciso esperar pela divulgação de documentos reservados, daqui a algumas décadas, para saber o que ele barganhou em privado.

O estrago para a economia brasileira já está contratado. A questão é saber quem o eleitor vai responsabilizar pelos prejuízos. Na primeira rodada de sobretaxas, Lula empunhou a bandeira da soberania e se recuperou nas pesquisas. O movimento pode se repetir com o novo tarifaço, abrindo mais uma frente de desgaste para Flávio.

Ontem o senador ensaiou uma cambalhota discursiva para tentar se descolar do amigo americano. Em vídeo divulgado nas redes, fingiu espancar a tela e bradou que a culpa era de Lula, e não dele. A julgar pelos números da Quaest, apenas 30% dos eleitores parecem dispostos a acreditar nesse teatro.

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TRUMP COMO CABO ELEITORAL DE LULA

Vera Magalhães, O Globo

Novo tarifaço não só dá ao petista chance de reforçar discurso de defesa da soberania como pode possibilitar edição de medidas no período vedado pela lei eleitoral

Parte da recuperação de Lula nas pesquisas se deveu a uma série de medidas adotadas por ele no período pré-eleitoral, mas o presidente também se beneficiou, desde 2025, de decisões do governo dos Estados Unidos e de crises na campanha de Flávio Bolsonaro nas quais soube surfar. O tarifaço 2.0 de Donald Trump dá a ele mais uma janela de oportunidade.

Desta vez, a agressividade adotada por Marco Rubio em sua postagem nas redes sociais, quando tentou imputar a Lula, sem dados, a responsabilidade pela decisão arbitrária do governo americano, permite ao petista não só repetir o discurso da soberania nacional, mas sair como o moderado na discussão.

Por isso, o tom do governo está sendo calculado — pelo menos até Lula resolver sair do script e falar de improviso, o que é considerado um risco pelo entorno do presidente.

Coube a Geraldo Alckmin, ao Itamaraty e aos ministros a primeira reação ao ataque de Rubio. E o vice-presidente, que já havia sido peça fundamental na construção e execução de estratégia de enfrentamento ao primeiro tarifaço, foi muito feliz nas suas falas: criticou as medidas sem atacar pessoalmente Trump ou Rubio, driblou a tentação de ir ao palanque com Flávio Bolsonaro e fez um aceno que pode ser valioso à chapa do PT para o setor produtivo.

Flávio Bolsonaro fez o oposto. Diante de dados da pesquisa Genial/Quaest e de levantamentos internos da campanha que mostram prejuízos ao pré-candidato do PL com a associação com a Casa Branca de Trump e o tarifaço, resolveu vociferar que a “culpa é do Lula”. E fez isso mais uma vez sem condenar veementemente a adoção de tarifas contra o Brasil, poupando o republicano de críticas.

Todos os dados do recorte específico da Quaest sobre o assunto são desastrosos para Flávio: além de 42% dizerem que as tarifas aumentam sua vontade de votar em Lula e 51% culparem o senador do PL pelas sanções, nada menos que 48% dos entrevistados dizem ter hoje uma opinião desfavorável aos Estados Unidos (em outubro de 2023, 56% manifestavam opinião favorável ao país).

Ou seja: ser amigão de Trump e Rubio, que Flávio insiste em exibir como trunfo, é, na verdade, mais um revés para sua para lá de tumultuada pré-campanha. Ronaldo Caiado e Romeu Zema perceberam isso e saíram da posição em que estavam, de culpar apenas Lula pelas relações conflituosas com os Estados Unidos, e passaram a atribuir parcela da responsabilidade ao bolsonarismo.

Por fim, outro presente dado a Lula de bandeja pelo combo bolsotrumpista é a possibilidade de soltar mais uma série de bondades eleitorais, driblando inclusive o período de defeso da lei eleitoral.

A cúpula do Congresso informou a coluna que uma medida provisória com medidas para compensar os setores atingidos pelo novo tarifaço teria trânsito fácil nas duas Casas, a despeito das recentes rusgas do governo com Davi Alcolumbre, com o argumento de que existe uma situação excepcional, causada pelos Estados Unidos, e que os três Poderes têm de defender a economia brasileira. A manifestação do Supremo Tribunal Federal mostra que o Judiciário tende a ir na mesma direção.

Num momento em que Lula retoma o favoritismo, os ataques a partir de Washington dão a ele a chance de construir pontes com setores do empresariado, posar de moderado quando é visto como radical historicamente, recompor suas relações atribuladas com o Legislativo e fazer aquilo que mais gosta: bondade eleitoral.

O discurso do Ministério da Fazenda é que o governo não cometerá populismo eleitoral tendo o tarifaço como justificativa, mas em outros prédios da Esplanada a comparação entre os ataques dos Estados Unidos — que podem ainda atingir o Pix antes das eleições — e a pandemia já era feita ontem como forma de explicar a excepcionalidade de medidas que podem ser anunciadas.

Nada na forma como 2026 começou permitia prever que Lula fosse ter seu caminho tão facilitado pelos erros da direita e pela interferência externa dos Estados Unidos na eleição. Donald Trump vai se convertendo num poderoso cabo eleitoral para a esquerda.

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