A gente vive dizendo que o mundo anda estranho. Não pretendo
dissecar toda a estranheza do mundo, apenas afirmar que parte dela vem do
norte, onde vive o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. Quando não está
bombardeando o distante Irã, está insultando os repórteres que cobrem a Casa
Branca. É nossa ração quase diária de amargor.
Trump tem problemas cognitivos. Mas talvez essa seja a parte
mais amena de seu embate com a imprensa. Está ficando gagá, e sua sobrinha,
Mary Trump, psicóloga, acha que é Alzheimer, escorando-se no histórico
familiar, com base na doença do avô. É impossível diagnosticar dessa forma,
mesmo porque os escorregões de Trump não têm um padrão. Podem ser influenciados
pela agenda intensa.
Em maio deste ano, em discurso na Academia da Guarda
Costeira, ele tropeçou na palavra strength (força) e teve
dificuldades em pronunciar outras palavras. Em julho, durante a Cúpula da Otan,
cometeu três erros em dez minutos. O último deles é inesquecível. Referindo-se
ao Irã, chamou o país de República Islâmica do Japão. O inventário é longo.
Tropeçou nas palavras stock market (mercado de ações), anonymous (anônimo),
confundiu nomes de líderes estrangeiros e chamou o TikTok de TicTac.
Claro que isso traz uma discussão permanente sobre seu poder
cognitivo. Mas as coisas ficam pesadas mesmo quando os repórteres na Casa
Branca fazem perguntas diretas sobre suas incongruências, sobre o caso Epstein,
sobre o perdão a criminosos próximos à família. Quase diariamente, Trump chama
um repórter de estúpido, de pessoa horrível. Não contente em processar empresas
e ameaçar cancelar licenças de emissoras de TV, se esforça por humilhar os
outros.
Recentemente, em discurso no jantar dos correspondentes,
resolveu virar sua metralhadora verbal contra a repórter Kaitlan Collins, da
CNN. Ela seria premiada, e Trump a associou a fake news, dizendo que era uma
pessoa que nunca sorria. O que Collins faz com Trump para ele odiá-la? Apenas
faz perguntas diretas, ouve todos os insultos e registra tudo com acuidade:
Ao mesmo tempo que Trump se vangloria da grandeza da
América, diz que um país civilizado não pode ter a imprensa que os Estados
Unidos têm. Fica furioso com perguntas elementares. Um dia diz que os
dirigentes iranianos são racionais; no outro diz o contrário e os animaliza. No
meio dessas contradições, distribui insultos aos jornalistas que as apontam.
É desolador ver e ouvir tudo isso. Lembra-me um filme de
Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, em que um casal pede carona de carro e
passa um trecho da estrada brigando. Quando sai do carro, leva consigo todo o
astral pesado.
O problema é que a Casa Branca não pode sair do carro. Nem
os repórteres, presos a seu dever profissional, podem deixar Trump falando
sozinho. Estamos condenados às baixarias, e elas contribuem para a sensação de
estranheza do mundo. Sem falar na produção nacional ou mesmo nos algoritmos que
adoram uma baixaria.
Artigo publicado no jornal O Globo em 04 / 08 / 2026
♬ Nunca se cantou tanto Angela
Ro Ro (5 de dezembro de 1949 – 8 de setembro
de 2025) e nunca se escreveu e se falou tanto sobre a cantora, compositora e
pianista carioca falecida há um ano, aos 75 anos.
Enquanto Cida Moreira está em cena com o show “Me acalmo
danando – A música de Angela Ro Ro” e enquanto Ney Matogrosso prepara álbum com
as músicas da autora de canções como “Gota de sangue” (1979) e “Fogueira”
(1983), o jornalista e pesquisador musical Rodrigo Faour já trabalha na
biografia de Ro Ro.
Um dos jornalistas que mais entrevistou a cantora, Faour vem
contatando pessoas que conviveram e/ou trabalharam com Angela Ro Ro em busca de
histórias inéditas sobre a artista.
Faour é o autor de biografias de personalidades da música
brasileira como Angela Maria (1929 – 2018), Cauby Peixoto (1931 – 2016) e
Dolores Duran (1930 – 1959).
Lula lança sétima candidatura e faz tira-teima com a
História
Petista larga como favorito à reeleição, mas não tem
folga que esperava nas pesquisas
Luiz Inácio Lula da
Silva lança hoje sua sétima campanha à Presidência. Será um tira-teima com a
História. O petista foi derrotado nas primeiras três tentativas de chegar ao
Planalto, em 1989, 1994 e 1998. Venceu as outras três, em 2002, 2006 e 2022.
Aos 80 anos, o candidato à reeleição lembra pouco o
metalúrgico que enfrentou Fernando Collor no início da Nova República. O Lula
de 1989 falava em enfrentar a classe dominante e criar condições para o
socialismo. O de 2026 promete estabilidade, temperança e defesa das
instituições.
O petista já havia vestido o figurino “paz e amor” nas três
campanhas vitoriosas. Agora também se apresenta como antídoto ao radicalismo e
ao golpismo. “Não vou deixar a extrema direita voltar”, prometeu, na
quinta-feira.
Ele ainda planeja empunhar a bandeira da
soberania contra o intervencionismo americano. “Enquanto eu for presidente,
ninguém de fora vai meter o bedelho nas eleições brasileiras”, disse na quarta,
em ato que selou a reedição da chapa com Geraldo
Alckmin.
Apesar das múltiplas crises no front adversário, Lula larga
sem a vantagem que esperava ter nas pesquisas. O presidente estacionou no
patamar de 40% das intenções de voto. É favorito, mas não ostenta a folga
necessária para projetar uma vitória no primeiro turno.
Um dos desafios é melhorar a avaliação do governo. Segundo o
Datafolha, a gestão é aprovada por 49% e reprovada por 48%. Isso indica um
eleitorado tão polarizado quanto em 2002, quando o petista bateu Jair Bolsonaro
no photochart.
Lula já expressou frustração com o descompasso entre os
números do governo e os índices de popularidade. “A situação econômica é boa,
mas a percepção da sociedade ainda não é”, admitiu, em março.
O mal-estar com o custo de vida e o endividamento das
famílias não é o único problema à sua frente. A abertura de dois inquéritos
para apurar suspeitas de tráfico de influência do empresário Fábio Luís Lula da
Silva, o Lulinha, ameaça criar novos embaraços.
O presidente sabe que esta será sua última eleição. Para dar
tom épico ao início da campanha, voltará no dia 16 ao estádio da Vila Euclides,
em São Bernardo do Campo. Discursará no palco das greves de metalúrgicos que o
lançaram na política, há quase cinco décadas.
Se conquistar o inédito quarto mandato, ele ficará no poder
até os 85 anos. Além de cuidar do próprio legado, terá que escolher um sucessor
entre aliados que já buscam se posicionar para o pós-Lula, em 2030.
Um brasileiro na guerra
Nos 90 anos do início da Guerra Civil Espanhola (1936-39), o
jornalista Flavio Pinheiro resgatou a história de um combatente esquecido: o
catarinense Alberto Amílcar Besouchet.
Tenente do Exército e militante do Partido Comunista do
Brasil (PCB), ele desembarcou na Espanha para lutar nas Brigadas Internacionais
que defendiam o governo republicano contra as tropas golpistas de Franco. Num
tempo de autofagia na esquerda, foi executado por stalinistas que o acusaram de
trotskismo.
“Alberto é um mártir pouco conhecido de uma aventura
política arriscada, mas que valia um sonho”, escreve Pinheiro na newsletter Pasmado.
No Brasil, nem sempre basta a um jogador ser campeão do
mundo para continuar lembrado
Os gols de Amarildo, herói de 1962, valem menos que os 19
minutos de Vampeta em 2002
Deu no Globo. Amarildo, meia-esquerda da seleção na Copa do Mundo de
1962, no Chile, está internado há três anos no Hospital Copa Star. Tem 87 anos.
Sua saúde começou a decair em 2011, quando a radioterapia para um carcinoma de
laringe atingiu a região cerebral. O diagnóstico de Alzheimer veio em 2018. Desde então, Amarildo sofreu
três AVCs, está cego e é alimentado por sonda gástrica. Sua
internação é acompanhada por sua família e mantida por um plano de saúde da
CBF.
Alguns ex-jogadores, como Paulo Cezar,
Carlos Roberto e Luxemburgo, seus contemporâneos de Botafogo e Flamengo, o
visitam. Amarildo não está abandonado, mas esquecido. Ao falarem daquela Copa,
todos citam Garrincha, que de fato jogou por dois quando Pelé sofreu
a distensão na segunda partida, que o afastou pelo resto do torneio. Mas quem
entrou no lugar de Pelé foi um garoto de 22 anos, estreante na seleção e, de
cara, com o peso de substituir o maior do mundo.
Amarildo entrou contra a Espanha e fez os dois gols da
virada do Brasil por 2x1, levando a seleção à fase seguinte. Na final, contra a
Tchecoslováquia, foi ele quem, dois minutos depois de o Brasil tomar 1x0,
empatou o jogo e abriu o caminho para a vitória por 3x1 e o título. Três gols
em quatro partidas, uma raça que fez Nelson Rodrigues chamá-lo de "Possesso"
—possuído por uma força incontrolável— e, depois, uma bela carreira na Itália.
E então voltou para ser ignorado no Brasil.
O futebol despreza
o passado. Não se fala mais, por exemplo, em Zizinho, o craque que, um dia,
Pelé sonhou ser. As duas Copas que consagrariam Zizinho, em 1942 e 1946, não
aconteceram, por causa da guerra. A de 1950, da qual ele foi eleito o maior
jogador, o Brasil perdeu —e, no Brasil, é obrigatório ser campeão mundial.
Zizinho, assim como Leônidas, Heleno, Ademir Menezes, Julinho, Zico, Sócrates,
Falcão e Junior, não foi.
Amarildo ajudou a dar o bi ao Brasil. Mas nem isso bastou.
Aos olhos de hoje, é menos lembrado do que Vampeta, "penta" por ter
jogado 19 minutos em 2002.
Identidade é algo que se manifesta pela consciência da
diferença de um indivíduo em relação ao outro
Essa negação da alteridade aos negros não é uma
exclusividade da imprensa
Cresci ouvindo causos sobre as incontáveis vezes em que
pessoas da minha família foram confundidas umas com as outras. As histórias
sobre essas reiteradas trocas de identidade acabavam sempre com o comentário
"muita gente acha que todo preto é igual".
Essa é uma situação que reflete uma das características
do racismo:
o apagamento de identidades negras. Coisa que alcança não só cidadãos comuns,
mas também figuras públicas, artistas, atletas, magistrados, intelectuais...
Foi o que aconteceu com a cientista da
computação Ana
Carolina Silva das Neves da Hora, a Nina da Hora, uma das principais referências do país quando
o assunto é tecnologia, inteligência artificial e inclusão digital.
Nina teve o nome incluído na listagem criada por um jornal
de circulação nacional ("101 brasileiros que constroem o futuro")
para marcar os 101 anos da publicação, destacando personalidades que ajudam a
antecipar o amanhã. Apesar disso, sua imagem foi confundida com a de outra
mulher negra, a pedagoga e escritora Lu Ain-Zaila.
O erro foi corrigido digitalmente, mas deixou impressa a
evidência de que o rosto, a trajetória e o legado de pessoas
negras são percebidos de maneira pasteurizada, resultando num
tratamento genérico de pretos e pardos, como se fossem todos iguais. Afinal,
identidade é algo que se manifesta pela consciência da diferença de um
indivíduo em relação ao outro.
Essa negação da alteridade aos negros não é uma
exclusividade da imprensa. Trata-se de algo presente em ambientes corporativos,
universidades, instituições públicas, eventos e num sem-número de situações nas
quais pessoas negras são confundidas com terceiros com os quais possuem somente
a negritude em
comum.
É o que Frantz Fanon batizou de "esquema epidérmico do
sistema colonial", numa referência às tentativas de redução do negro a uma
cor. Por isso hoje, pouco mais de um ano após a publicação da coluna "Negro pasteurizado", reafirmo neste espaço:
negro não é tudo igual.
Eleição será decidida por quem conseguir devolver ao
trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo
Por que tanta gente anda votando com raiva? A política
brasileira continua procurando a resposta nas estatísticas, quando ela está no
ônibus lotado, na fila do posto de saúde e na mesa de quem trabalha, mas não
fecha as contas. Quem olha apenas para os indicadores encontra motivos para
comemorar. O desemprego está em 5,4%. Mas basta conversar com quem dirige por
aplicativo, vende comida na rua, faz entregas de bicicleta ou acumula dois ou
três trabalhos para perceber que há outro Brasil, onde o emprego voltou, mas a
tranquilidade não.
Não é uma percepção subjetiva. O salário
mínimo é de R$ 1.621, enquanto o mínimo necessário, calculado pelo Dieese,
supera os R$ 8 mil. O trabalhador acorda cedo, corre o dia inteiro e, no fim do
mês, decide o que deixará de pagar. Não falta ocupação. Falta dignidade
econômica. É nesse espaço que nasce o ressentimento. Não de quem perdeu
privilégios, mas de quem faz tudo certo e continua ficando para trás. Antes de
ser ideológico, esse sentimento é humano. Quem se sente abandonado procura
alguém que demonstre compreender sua realidade.
A dona da mercearia emprega três pessoas, mas nunca
conseguiu crédito compatível com seu negócio. O mecânico sustenta duas famílias
e paga juros que comprometem sua renda. A costureira não consegue disputar
licitações porque os editais favorecem empresas maiores. O país repete que os
pequenos empreendedores movem a economia, mas lhes nega crédito, assistência
técnica, compras públicas e condições para crescer. Empurra todo o risco para
quem tem a menor margem de erro. Transforma sobrevivência em mérito e falência
em fracasso individual.
Ao mesmo tempo, desapareceram muitos dos espaços onde essas
dificuldades eram compartilhadas. O chão de fábrica perdeu importância, a
sindicalização encolheu, e milhões passaram a trabalhar sozinhos, na
informalidade ou conectados apenas por plataformas digitais. A organização
coletiva enfraqueceu, mas a angústia permaneceu.
A História mostra que, quando insegurança econômica,
enfraquecimento da representação e ausência de escuta caminham juntos,
discursos simplificadores encontram terreno fértil. Não porque apresentem os
melhores diagnósticos, mas porque oferecem respostas fáceis para angústias
reais. Em vez de competir para resolver o problema, os dois lados disputam quem
conta a melhor história. Um culpa a herança, o outro culpa a ideologia, mas
quase ninguém explica por que quem trabalha e produz riqueza continua pagando o
preço mais alto para permanecer de pé.
O brasileiro não rejeita a presença do Estado. Rejeita um
Estado que demora, humilha e não entrega. Quer crédito onde encontra
burocracia, assistência técnica onde recebe exigências e políticas públicas
construídas com quem conhece o problema porque vive nele. A favela e o Brasil
popular não são territórios à espera de soluções. São lugares onde elas nascem
diariamente, mas raramente chegam às mesas onde as decisões são tomadas.
A eleição deste ano será decidida por muito mais que
programas de governo ou estratégias de comunicação. Será decidida por quem
conseguir devolver ao trabalhador a sensação de que vale a pena acordar cedo,
trabalhar duro e acreditar que o amanhã pode ser melhor que hoje. Quando essa
esperança desaparece, nasce o ressentimento. E, quando ele encontra quem o
represente antes de encontrar quem o resolva, toda a democracia passa a
conviver com um problema maior que uma disputa eleitoral.
Profissionalização da base da burocracia pode coexistir
com a patrimonialização de seus centros de comando
Mas o que ainda se observa em nosso país são estruturas
patrimoniais e familistas
Temos assistido a uma erosão sustentada da capacidade de
Estado em nosso país. Em termos comparativos, nós tivemos uma trajetória
relativamente bem-sucedida, embora incompleta, de insulamento de certos setores
da administração pública em relação à política
partidária, ao familismo e ao patrimonialismo.
Uma das peças dessa trajetória tem sido a disseminação dos
concursos públicos. O Brasil foi o primeiro país na América Latina a instituir o concurso público (1936)
como forma de ingresso para carreiras no governo federal. Na área da
diplomacia, os concursos datam de 1919.
A China aparece
como a grande precursora. No início do século 11, as provas dos concursos já
eram copiadas para impedir que os examinadores reconhecessem a caligrafia dos
candidatos, e cada uma era avaliada por duas pessoas! Dois séculos depois,
centenas de milhares disputavam as seleções. A partir de meados do século 17, a
probabilidade de aprovação em cada etapa chegava a apenas 1 em 6.000.
O sistema sobreviveu, com poucas interrupções, até 1904. Foi
abandonado e reintroduzido em caráter experimental apenas em 1987, quando o
regime iniciou reformas econômicas e políticas. A ironia histórica é
iluminadora: o país que inventara os concursos abandonou-os para depois
retomá-los.
O Reino
Unido adotou princípios meritocráticos em 1855, mas a competição
realmente aberta só começou depois de 1870. Nos Estados Unidos, o Pendleton Act de 1883 instituiu o
acesso meritocrático e criminalizou os assessments (dízimo pago pelos
funcionários que eram nomeados pelos partidos, prática introduzida recentemente
entre nós). Inicialmente restrito a uma pequena parcela do funcionalismo
federal, o sistema alcançava 88% dos servidores em 1951. Na Argentina, a
primeira lei federal sobre concursos é de 1973, segundo o The Merit Project: A New Dataset on Civil Service
Examinations, 1789–2020, de Driscoll et al, (2015).
O concurso não implica em meritocracia e tem limitações
importantes. Tampouco produz um Estado competente. Leis podem coexistir com
patronagem, exceções e seleções fraudulentas. Onde não existem regras
impessoais de recrutamento, dificilmente existe burocracia meritocrática. O
concurso limita o patronato na entrada da burocracia, mas não controla a
seleção de seus dirigentes nem impede que redes familiares capturem as
instituições encarregadas de fiscalizá-la.
O que ainda se observa em nosso país, sobretudo no âmbito
subnacional, onde se concentram 90% dos vínculos públicos, são estruturas patrimoniais e
familistas. Elas se expressam das mais diversas formas: nomeações cruzadas ou
familismo despudorado nos três Poderes. E aqui há pouca distinção ideológica.
As nomeações de esposas de governadores para tribunais de contas —são oito casos recentes— são as mais escabrosas.
A degradação atual não consiste no desaparecimento dos
concursos, mas na expansão de redes políticas e familiares ao redor das
burocracias profissionais, neutralizando o universalismo formal que elas
deveriam proteger. Nas redes familiares que entrelaçam, por exemplo, advogados
e magistrados, e que ganharam escala inédita, o conflito de interesses é o
menor dos problemas.
Advogado acima de tudo, ele foi um destemido defensor de
presos políticos
Vem aí um grande livro. Será lançado no dia 26 uma reedição
de “Advocacia da liberdade — A defesa dos processos políticos”, do criminalista
Heleno Fragoso (1926-1985). Advogado acima de tudo, ele foi um destemido
defensor de presos políticos.
Preso em um arrastão intimidatório em 1970, Heleno Fragoso
contou alguns de seus casos. Defendia presos num regime que não tinha habeas
corpus e que casos políticos eram julgados em tribunais militares.
Passados quase 50 anos, é emblemática sua defesa dos
dirigentes dos Sindicatos dos Metalúrgicos de São Bernardo (Lula) e Santo André
(Benedito Marcilio) e de outros 11 sindicalistas pela deflagração da greve de
1980. Ela durou 41 dias e Lula passou 31 dias na cadeia. Fragoso entrou nesse
caso em sua reta final. Julgados no ano seguinte, quatro dirigentes foram
condenados a 3 anos e 6 meses, com direito a recorrer em liberdade. O primeiro
julgamento foi anulado no Superior Tribunal Militar e, em 1982, veio outro.
Fragoso e os demais advogados sustentavam que a Justiça Militar era
incompetente para julgar grevistas. Prevaleceram.
Heleno defende Niomar
O julgamento dos sindicalistas fez história, mas a
“Advocacia da liberdade” rememora dois casos que medem a onipotência de uma
ditadura. Heleno Fragoso defendeu o historiador Caio Prado Júnior e Niomar
Moniz Sodré Bittencourt (1916-2003), dona do falecido matutino Correio da
Manhã.
Em março de 1964, o Correio havia pedido a deposição de João
Goulart e em abril tornou-se um corajoso defensor das liberdades públicas. Em
novembro de 1968, Niomar havia sido uma das convidadas da rainha Elizabeth para
um coquetel no iate Britannia, fundeado na Baía da Guanabara. No dia 13 de
dezembro, veio o Ato Institucional nº 5 e os censores entraram na redação do
Correio.
Na tarde de 7 de janeiro, num novo arrastão, levaram Niomar
e Osvaldo Peralva, diretor da Redação. Ela ficou num depósito de presas comuns.
Só no final de mês foi-lhe concedida prisão domiciliar, num dos melhores
apartamentos do Rio, repleto de obras de arte. Niomar só ganhou a liberdade em
março de 1969 e foi absolvida pela Auditoria Militar em novembro.
Ela foi presa para mostrar que nem a dona do Correio da
Manhã estava fora do alcance da tigrada.
Heleno defende Caio Prado
A reedição de “Advocacia da liberdade” resgata uma
arbitrariedade premeditada para dar uma lição aos intelectuais brasileiros.
Sabe-se lá por que, o episódio é pouco lembrado. Trata-se da prisão, em 1970,
de Caio Prado Júnior, condenado a quatro anos e seis meses de prisão por uma
auditoria militar composta por um tenente-coronel, três capitães e pelo auditor
civil Nelson da Silva Machado Guimarães. Caio Prado saiu do prédio preso. Seu
recurso foi julgado no Superior Tribunal Militar em setembro de 1970 e ele teve
a pena reduzida para um ano e nove meses de detenção.
Heleno Fragoso recorreu ao Supremo Tribunal Federal e lá ele
foi absolvido por unanimidade.
Caio Prado Júnior (1907-1990), um dos maiores historiadores
brasileiros, passou 525 dias no Presídio Tiradentes e num quartel da PM,
dividindo a cela com um delegado preso por tráfico de drogas.
Qual foi o crime de Caio Prado?
Em 1967 (dois anos antes da denúncia), ele tinha dado uma
entrevista a estudantes paulistas que publicavam a revistinha Revisão. Não teve
qualquer repercussão mas, a certa altura ele dizia:
“Não devemos discutir a forma de luta, e sim começar a
lutar. Depois, são as contingências do momento que vão indicar que espécie de
luta se vai fazer. Se se dissesse, concretamente, que existem em São Paulo 30
ou 50 mil trabalhadores dispostos a pegar em armas e tomar o poder, é evidente
que nossa tarefa é arranjar armas para esses operários e ajudá-los a tomar o
poder. Mas não adianta programar a luta armada, se não existem os elementos
capazes de concretizá-la.”(...)
“Vocês, que são estudantes, veem a possibilidade de um grupo
de estudantes se armarem e se tornarem guerrilheiros? (...) Não acredito.”
“Como lembrou Alcides Carneiro, ministro civil do STM, que
ficou vencido no STM: ‘Quem incita não mostra dificuldades, e sim as
facilidades.’”
Em 1970, a oposição estava muda. O grito mais expressivo em
defesa de Caio Prado veio de 20 brasilianistas que publicaram uma carta no The
New York Times.
Só advogados como Heleno Fragoso defendiam o fiapo de
Direito que ainda existia.
Passado quase meio século, vale lembrar que a ditadura não
condenou Caio Prado nem prendeu Niomar por burrice. Quis dar um exemplo e deu.
Lulinha
Lulinha e a suas conexões com o Careca do INSS serão um
espinho no pé de Lulão nos próximos meses.
Por temperamento, Lulinha tem horror aos holofotes, mas no
clima emocional da campanha, levá-lo a depor será o sonho dos adversários.
Estilo chinês
A insistência com que o governo e empresários brasileiros
repetem que compensarão o fechamento parcial do mercado americano aumentando
seu comércio com a China incomoda Beijing.
Os chineses trabalham em silêncio e não gostam de ser
apresentados como alternativa aos Estados Unidos. Comem pela borda.
Eleição sem debate
A eleição de outubro está ameaçada por um enxugamento dos
debates. Lula e Flávio Bolsonaro sinalizam que pretendem ir a poucos debates.
Em agosto, os candidatos bem posicionados nas pesquisas
preferem não ir a debates. Se eles faltarem, e Ronaldo Caiado, Romeu Zema ou
Renan Santos romperem a barreira do dígito solitário por irem a debates,
poderão ter motivos para arrependimento.
Guerra do Paraguai
Lula perdeu a enésima oportunidade de ficar calado ao tratar
da Guerra do Paraguai. Isso não quer dizer que no século XIX o ditador Solano
Lopez não tenha invadido o Brasil e saqueado Combá em 1865.
Entre 1855 e 1864, quando começou a guerra, Solano Lopez
elevou o efetivo militar paraguaio e equipou sua marinha com canhoneiras. O
desorganizado Exército brasileiro começou a acautelar-se em 1864.
Em dezembro de 1864, tendo declarado guerra ao Brasil e à
Argentina, Solano Lopez achava que acabaria com a briga em oito meses.
Enganou-se.
Em 1866 Lopez começou a fuzilar as famílias de paraguaios
que considerava desertores, inclusive crianças.
Guerras não se ganham no replay.
Noves fora a arqueologia, Lula deve perceber que virou moda
atacá-lo, mau sinal.
São Paulo
A campanha de Tarcísio de Freitas trabalha com a
possibilidade de ele vir a ser reeleito no primeiro turno.
Por mais que essa hipótese seja atraente, ela pode ser um
fator de desmobilização, sobretudo em cidades do interior.
É importante entender que cada ato de violência política
contra mulheres faz parte de um projeto perigoso de retrocesso
A violência contra as mulheres na arena política, os
insultos usando imagens sexuais, o ataque que tem como alvo as jornalistas não
são fruto apenas dos maus modos ou da sordidez. São parte de um projeto. O
avanço das mulheres nas últimas décadas, o protagonismo, a autonomia exasperam
quem defende a visão extremada e obsoleta da supremacia dos homens. As pessoas,
de qualquer gênero, que preferem o futuro da igualdade e do respeito entre
grupos sociais precisam ter esse entendimento. Cada investida não é um ato
isolado. É o ronco de um projeto.
Não por acaso as mulheres jornalistas são alvos tão
frequentes. Elas avançaram de forma vigorosa nas últimas décadas nas redações
de todo o país e em todas as mídias. Não integram os partidos que se enfrentam
nas urnas, mas estão no meio do debate e incomodam por existir, por estarem
ali, por fazerem perguntas e terem ideias próprias. Para quem tem visão
retrógrada, a presença da mulher libera os instintos mais selvagens. E na
reação cometem crimes.
O cientista político Mark Lilla tem uma
expressão tão eloquente que é inescapável para explicar o fenômeno do
extremismo do pensamento reacionário: “mentes naufragadas”. Elas querem impor a
volta do passado que idealizam e que era nefasto por excluir grande parte da
sociedade: as mulheres, os negros, os indígenas, os que eles avaliam como
“diferentes”. Mas os diferentes chegaram e se impõem.
A reação contra o novo é comum na História e faz com que
antigos imigrantes reajam contra novos imigrantes. Um fenômeno já conhecido
pelos estudos sociais. A questão agora é de outra natureza. Há riscos concretos
de retrocesso. Eles, os seres do passado, se organizaram, se alavancam nas
redes sociais, sem limites e regulação, criam núcleos, agem de forma
coordenada, cometem crimes seriais. Quem vê um insulto isolado, como coisa de
um indivíduo abjeto, não vê a cena política inteira em que o avanço civilizatório
está em perigo.
O impensável aparece a cada dia. Recentemente comentei aqui
os movimentos pelo fim do voto da mulher. Pareceria só uma esquisitice tempos
atrás, hoje é ameaça real. A ideia em si de um voto por família, com o homem da
casa escolhendo por todos, é uma proposta que atinge o coração da democracia e
da autonomia das pessoas. Os jovens então teriam seus votos suprimidos já que
pertencem ao núcleo familiar? A estratégia é ir comendo os direitos pelas
bordas. Há uma versão mitigada desse absurdo tendo adeptos, a de propor voto
facultativo para as mulheres. E há quem até, em nome da liberdade, diga que
isso é bom. O voto permaneceria sendo obrigatório para os homens. Não é uma
proposta inocente. É o começo da revogação das vitórias que as sufragistas
colheram há um século.
A virulência dos ataques que já caíram sobre tantas colegas
da imprensa tem um propósito. Não há sofisticação alguma na estratégia. É o uso
da força bruta para calar as mulheres. O recurso às imagens sexuais como parte
da infâmia também não é ocasional. Integra a estratégia dos ataques.
Elas são sempre as vítimas da violência sexual nas guerras
de submissão. Foi essa também uma das formas de tortura durante a ditadura
militar no Brasil. Os estupros digitais se normalizam na sociedade
hiperconectada de agora. E não vai adiantar, para os mais sensíveis e cansados,
saírem das redes. Seria deixá-los vencer nesta arena.
Este é momento de extremo perigo para quem tem um outro
sonho feliz de sociedade. Para quem acredita que vitórias se acumulam levando a
novas vitórias. É inevitável render-se às evidências. Há um movimento sinistro
que avança, disposto a revogar o conquistado, anular progressos e usar todas as
armas espúrias e deletérias para alcançar seus propósitos.
A minha geração é sonhadora. Sonhamos com o fim da ditadura
e vimos o amanhecer. Marchamos com as mulheres e avançamos. Invadimos espaços
fechados e abrimos as janelas para renovar o ar. Decidimos quebrar barreiras
entre grupos sociais e muitas vezes foi difícil nos entendermos, mas o diálogo
foi curativo. Encaramos fraturas cristalizadas na História do país e pensamos
em políticas para superá-las. Admiramos alguns frutos brotando nas árvores que
plantamos. Mas nunca foi fácil. Pagamos um preço alto para sobreviver ao tempo
mais sombrio. Por isso, não podemos deixar de avisar aos mais jovens que o
inimigo está ativo, avança, tem planos e métodos.
Já está ficando claro que a economia, seja qual for o
presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit
público.
Sempre tivemos uma base de cerca de 40% dos eleitores que
escolheram votar contra Lula nas eleições presidenciais de que participou desde
1989. Com candidatos como Collor ou Aécio Neves, esse número subiu, e não havia
extrema-direita nessas disputas. Com o surgimento de Bolsonaro, a retórica foi
estressada e a essa massa de votantes antilulistas agregou-se uma atuação
violenta, tanto física quanto verbal, e antidemocrática, o país ficou
claramente dividido.
A eleição de 2026 pode ser a última com essa característica,
pois Lula, se eleito, já estará com 85 anos em 2030, e não poderá se candidatar
a um quinto mandato. Bolsonaro, sem a anistia que seus aliados prometem, estará
fora da disputa política e terá constatado que não basta indicar um candidato
para vencer. No PT, não há sinais de que o pós-Lula trará algum líder do seu
tamanho, e assim como os partidos que Brizola criou - PTB e PDT - não são
forças políticas relevantes hoje, o PT pode continuar existindo, mas não terá
importância política. O mesmo aconteceu com o PSDB, que hoje não é o mais
pálido reflexo da época de Fernando Henrique Cardoso.
A eleição de 2030 pode ser o recomeço de um
ciclo partidário, e seria bom que o Congresso a ser eleito este ano não se
preocupasse apenas com as emendas parlamentares, e fizesse uma reforma geral
que incluísse a partidária, necessária a que o país retome a possibilidade de
fazer parte de um mundo democrático civilizado, com regras claras e contenções,
que hoje parecem não existir, inclusive no Judiciário e no Executivo.
Já está ficando claro que a economia, seja qual for o
presidente eleito, necessitará de uma ampla reforma para conter o déficit
público. O cotidiano nos mostra que também no plano social teremos que fazer
mudanças mais profundas, pois já não bastam benefícios que não mudam a
estrutura da sociedade, que continua desigual em níveis inaceitáveis. A começar
pela educação, base de qualquer mudança estrutural que se pretenda fazer no
país.
É surpreendente que sucessivos governos não consigam
melhorar o nível educacional de nosso ensino, que deveria ser o ponto principal
de qualquer governo. É exemplar desse descaso a campanha presidencial que fez o
ex-ministro Cristovam Buarque em 2006, jocosamente apelidado de “candidato de
uma nota só” porque tratava basicamente da questão educacional, que obteve
apenas 2,4% dos votos. Vinte anos depois, a situação continua sem solução,
apesar dos avanços que já tivemos, desde o acesso à escola até o financiamento
do ensino fundamental e básico. Os resultados de nossos estudantes nos testes
internacionais continuam sendo lastimáveis em comparação com outros países.
Não se ouvem propostas dos candidatos para um projeto de
futuro para o país, problemas antigos continuam a nos assombrar, novos surgem,
o imediatismo da política ditando as retóricas populistas dos candidatos.
Segurança pública e corrupção são a bola da vez, assim como já foram a saúde, a
educação. Flavio Bolsonaro não consegue montar sua chapa para a eleição de
outubro, e fica claro que as dificuldades do candidato continuam. Todos os
acontecimentos recentes o prejudicam e neutralizam a capacidade do bolsonarismo
de mobilizar apoios.
Se, apesar de tudo, Flavio se mostrar resiliente e capaz de
chegar ao segundo turno com competitividade, vai atrair os apoios que se negam
agora. O problema é que ninguém acredita que ele possa chegar bem. Lula, com a
novidade de o filho estar sendo investigado pela Polícia Federal, com o apoio
do ministro do Supremo André Mendonça, pode perder votos, os independentes
serem estimulados a voltar para a direita. Está tudo indefinido e, na
indefinição, Flavio perde para Lula, que além da sua história, tem a máquina
pública a seu favor e vai abusar do poder de ser incumbente, como todos fazem.
Até agora, Flavio tem demonstrado pouca firmeza, sem conseguir apoio dentro de
sua gente. Se tivesse conseguido Teresa Cristina para vice, estaria de volta ao
jogo.
Luiz Gonzaga nasceu em 13 de Dezembro de 1912,
na Fazenda Caiçara, em Exu, distante 603 Km da Capital Pernambucana. Segundo
dos nove filhos da união do casal Januário José dos Santos e Ana
Batista de Jesus(Santana), veio ao mundo dividido entre a enxada e a
sanfona.
Foi observando seu pai animando bailes e consertando velhas
sanfonas, que lhe desperta a curiosidade por tal instrumento. Certa vez seu pai
encontrava-se na roça e sua mãe na beira do rio, o mesmo pegou uma velha
sanfona e começou a tocar. Santana, que não queria que o filho trilhasse o
mesmo caminho do pai, dava-lhe puxões de orelha que nada adiantavam.
Luiz seguia em frente, acompanhando seu pai em diversos
forrós, revezando-se com ele na sanfona e ganhando seus primeiros trocados. Um
belo dia Januário foi pego de surpresa quando o Srº Miguelzinho, dono de um
forró, pediu para que Gonzaga tocasse, este havia acordado com um outro tocador
que não apareceu. A salvação foi convidar o então menino Gonzaga que já
mostrara suas habilidades no mesmo terreiro, sem a anuência de seus pais. Fez
muito sucesso. E por aquelas “bandas” era conhecido por Luiz de Januário.
Assim o Forró rolou solto ao longo da noite, Gonzaga sentia-se feliz,
empolgado, era a primeira vez que tocava com o consentimento da mãe. Com o
passar da noite, começou a sentir seus olhos arderem, a cabeça pesar, foi então
que pediu para deitar na rede e de tão menino que era, ainda fez xixi enquanto
dormia. Daí então passou a acompanhar Januário em festas de mais
responsabilidades, revezavam-se entre toques e cochilos. Santana a princípio
relutava, mas deixou-se levar pelos dois mil réis que o principiante tocador
ganhava em suas “empreitadas”.
Assim cresceu Gonzaga: ajudando o pai na roça e na sanfona,
acompanhando Santana às feiras do Exu, fazendo pequenos serviços para os
fazendeiros da região, sendo protegido pelo Cel. Manuel Aires de Alencar, homem
bondoso e respeitado até por seus inimigos. Gonzaga era bem tratado pelos Aires
de Alencar, tanto que suas primeiras escritas e leituras foram ensinamentos das
filhas do Coronel.
A primeira sanfona
Foi o próprio Coronel Aires quem realizou o grande sonho de
Gonzaga: possuir sua primeira sanfona. Tal instrumento custava a importância de
cento e vinte mil réis, Gonzaga tinha só a metade, a outra o próprio Coronel
adiantou, quantia esta paga mais tarde com o fruto do seu trabalho de
sanfoneiro. O primeiro dinheiro ganho com a nova sanfona foi no casamento de
Seu Dezinho, na Ipueira, onde ganhou vinte mil réis. Tal convite viera aumentar
sua fama, começa ali a ser um respeitado sanfoneiro na região.
O primeiro amor
Casamento? Gonzaga só pensava nisso. Comprou até aliança.
Queria casar com Nazinha, filha do Seu Raimundo Milfont,
um importante da cidade. O pai da moça ao tomar conhecimento das intenções do
aprendiz de sanfoneiro, não permitiu o namoro. “Um diabo que não trabalha, não
tem roça, não tem nada, só vive puxando fole”. Gonzaga não hesitou, indignado,
comprou uma peixeira, tomou umas truacas (cachaça), quis brigar, quis matar,
mas acabou levando outra surra de Santana. Dessa vez fugiu triste para o mato,
mas com uma ideia fixa na cabeça: entrar para o Exército.
Gonzagão ganha o mundo
Dizendo que ia a uma festa, deixou a terra natal rumo ao
Crato, no Ceará, cidade maior e mais próspera, onde vendeu a sanfona e pegou o
trem para Fortaleza, alistando-se em seguida. Com a Revolução de 1930, o
batalhão de Gonzaga percorreu muitos Estados até chegar à cidade de Juiz de
Fora, em Minas Gerais. Ali, conheceu outro sanfoneiro, Domingos Ambrósio, o
grande amigo que lhe ensinara os ritmos mais populares do Sul: valsas, fados,
tangos, sambas. Gonzaga tirou de letra. Em 1939 deu baixa no Exército e seguiu
para São Paulo e em seguida para o Rio de Janeiro. Passou então, a
apresentar-se em bares da zona do meretrício carioca, nos cabarés da Lapa e em
programas de calouros, sempre tocando músicas estrangeiras. Em uma dessas
apresentações, um grupo de estudantes cearenses chamou-lhe a atenção para o
erro que estava cometendo: por que não tocava músicas de sua terra, as que
Januário lhe ensinara? Luiz seguiu o conselho e passou a tocar e compor músicas
do Sertão Nordestino. Foi no programa do Ary Barroso que Gonzaga recebera
calorosos aplausos pela execução do Vira e Mexe, música de sua autoria,
proporcionando ao até então desconhecido Gonzaga o seu primeiro contrato pela
Rádio Nacional, no Rio de Janeiro.
Seus amores
Na solidão da cidade grande, distante de sua família e do
seu pé-de-serra, Gonzaga não dispunha de ninguém que dele cuidasse. Apesar de
estar morando com seu irmão Zé, demonstrava vontade em construir seu próprio
lugar, sua própria família. Teve diversos amores o mais conhecido foi com a
corista carioca Odaléia Guedes, em meados do ano de 1945, tendo-a
conhecida já grávida, assumindo e registrando como seu filho Luiz
Gonzaga do Nascimento Júnior – Gonzaguinha. Apesar de ser bastante exigente
Gonzaga finalmente encontra o que procurava, Em 1948 conhece a
pernambucana Helena Cavalcanti, tornando-a sua secretária
particular e mais tarde sua companheira. Tal união estendeu-se até perto de sua
morte. Não tiveram filhos biológicos, pois Gonzaga era estéril. Adotaram uma
menina, Rosa Maria (Rosinha).
Mas perto do final da vida, já separado de Helena, Gonzagão assumiu Edelzuíta
Rabelo, também pernambucana de São José do Egito, que foi sua companheira
até a sua morte.
O sucesso
O apogeu do Baião perpassou a segunda metade da década de 40
até a primeira metade da década de 50, época na qual Gonzaga consolida-se como
um dos artistas mais populares em todo território nacional. Tal sucesso é
devido principalmente à genialidade musical da “Asa Branca” (composição
dele com Humberto Teixeira), um hino que narra toda trajetória do
sofrido imigrante nordestino.
Quando olhei a terra ardendo
Qual fogueira de São João
Eu perguntei a Deus do céu, ai
Por que tamanha judiação.
Luiz Gonzaga – Humberto Teixeira
A partir de 1953 Gonzaga passou a apresentar-se trajado com
roupas típicas do Sertão Nordestino: chapéu (inspirado no famoso
cangaceiro Virgulino Ferreira, O Lampião, de quem era
admirador), gibão e outras peças características da indumentária do vaqueiro
nordestino. Alia-se a esta imagem a presença de sua inconfundível Sanfona
Branca – A Sanfona do Povo. Com o surgimento de novos padrões na
música popular brasileira, o apogeu do Baião começa a apresentar sinais de
declínio, apesar disso, Gonzaga não cai no esquecimento, pelo menos para o
público do interior, principalmente no Nordeste. Todavia, foi o próprio
movimento musical juvenil da Década de 60 – notadamente Gilberto Gil e Caetano
Veloso, este último e depois Gonzaguinha regravando ambos o sucesso Asa Branca,
responsáveis pelo ressurgimento do nome Gonzaga no cenário musical do país. Em
março de 1972 em show realizado no Teatro Tereza Rachel, no Rio de Janeiro,
marca o reaparecimento de Gonzaga para as plateias urbanas. Nessa época retorna
às paradas de sucesso como “Ovo de Codorna” cuja autoria é do nordestino
Severino Ramos.
A volta pra casa
Após longo período de atividade profissional, cerca de 35
anos, é chegada a hora de retornar à sua terra natal. Em Exu, dá início à
construção do tão sonhado Museu do Gonzagão, localizado às margens
da BR-122, dentro do Parque Aza Branca (escrevia desta forma
por pura superstição, embora soubesse do erro ortográfico). Lá se encontra o
maior acervo de peças pertencentes ao Rei do Baião: suas principais sanfonas,
inclusive a que tocou para o Papa, em Fortaleza; suas vestimentas; seus discos
de ouro; troféus; diplomas; títulos; fotos e presentes a ele ofertados ao longo
de sua brilhante carreira. Além do Museu, o Parque abriga também o Mausoléu da
família, lanchonete, grande palco de shows, várias suítes para acolhimento de
visitantes, a casa de Vovô Januário, lojinha de souvenir e a casa grande de
onde Gonzaga observava a sua pequena Exu.
O adeus
O legado do Rei do Baião, Luiz Gonzaga,
encontrou seu epílogo em 2 de agosto de 1989. Aos 76 anos, Gonzagão faleceu
no Hospital Santa Joana, em Recife, Pernambuco, vítima de complicações
decorrentes de um câncer de próstata e um quadro de parada cardiorrespiratória.
A notícia de sua morte comoveu o Brasil, marcando o fim de uma
era, mas consolidando sua obra como um pilar fundamental da música
nordestina e da cultura brasileira. Seu corpo foi velado com honras na
Assembleia Legislativa de Pernambuco e, em seguida, sepultado em sua terra
natal, Exu, deixando um vazio no coração dos fãs, mas um tesouro musical que
ressoa até hoje, celebrando a identidade e as tradições do Nordeste.
Em 1º de agosto de 1941, nascia Ney Matogrosso, um dos
artistas mais marcantes da música brasileira. Cantor, ator, diretor e
iluminador, ele construiu uma carreira reconhecida pela originalidade, pela
potência vocal e por performances que desafiaram padrões estéticos e
artísticos.
Nascido em Bela Vista (MG), Ney ganhou projeção nacional
como integrante do grupo Secos & Molhados, entre 1971 e 1974. Ao lado da
banda, ajudou a renovar a música popular brasileira com uma mistura de rock,
MPB, poesia e teatralidade. Em 1975, iniciou sua carreira solo com o álbum
"Água do Céu – Pássaro", consolidando um estilo único que atravessa
gerações.
Ao longo de sua trajetória, interpretou canções de grandes
compositores brasileiros, como Chico Buarque, Cartola, Rita Lee, Tom Jobim e
muitos outros. Seus espetáculos ficaram conhecidos pela intensa expressão
corporal, figurinos elaborados, maquiagem marcante e uma presença de palco
inconfundível.
Além da carreira como cantor, Ney Matogrosso também atuou
como diretor e iluminador de espetáculos, assinando projetos importantes, como
os shows Ideologia, de Cazuza, e Paratodos, de Chico Buarque.
Com mais de cinco décadas de carreira, Ney Matogrosso
permanece como um dos maiores nomes da cultura brasileira, influenciando
artistas de diferentes gerações e reafirmando seu lugar na história da música
nacional.
No artigo anterior visitamos a primeira concepção sobre o
futuro presente na obra de Edgar Morin: a inevitabilidade da morte e os efeitos
de sua recusa na transformação do Homo Sapiens em Homo Sapiens-Demens.
Aqui, abordamos a segunda das três noções de futuro que destacamos na obra do
filósofo francês, que recentemente nos deixou (20/05/2026): o futuro como
incerteza, cuja dimensão tem crescido com o surgimento da policrise após a
década de 1970.
A imprevisibilidade do futuro é um tema central em toda a
obra do filósofo francês, constituindo um dos estímulos à compreensão e
relevância do pensamento complexo. Para ele, a história não é linear, mas um
processo cheio de desvios e imprevistos. E os estudos prospectivos erram ao
considerar que o futuro é a simples realização das tendências dominantes do
presente. “A concepção simplista crê que passado e presente são conhecidos, que
os fatores da evolução são conhecidos, que a causalidade é linear e, portanto,
o futuro é previsível” (Où va le monde. Paris, Éditions de L’Herne,
2007, p. 12)[1]. Ledo
engano.
A primeira dificuldade de pensar o futuro é
supor que conhecemos o presente, simplesmente porque nele estamos. Sem dúvida,
o presente contém, potencialmente, os futuros prováveis, como me ensinou
Claudio Porto: “O presente é grávido de muitos futuros”. O presente contém o
futuro em formas microscópicas que se desenvolvem sutilmente e são ainda
invisíveis. “A evolução não obedece nem às leis nem a um determinismo
preponderante. A evolução não é nem mecânica nem linear”, nos previne Morin (p.
18). Por concluir: “a realidade social é multidimensional”. E algumas dimensões
podem dominar em um determinado momento, mas, como existe uma rotatividade das
dominâncias, uma outra pode dominar em outro momento. Afinal, os fenômenos
sociais são multicausais. “A causalidade é uma policausalidade onde não apenas
as inter-retroações se intercombinam e se intercombatem, mas, também, todo
processo autônomo produz sua própria causalidade, sofrendo as determinações
exteriores, ou seja, comporta uma auto-exo-causalidade complexa” (p. 19).
O livro ilustra de múltiplas maneiras as dificuldades dos
estudos prospectivistas. Um dos exemplos é o estudo de Jean Baechler[2]. O
discípulo de Raymond Aron, ex-presidente da Académie des Sciences
Morales et Politiques, mostra, segundo Morin, que “o capitalismo não foi
resultado do desenvolvimento das forças produtivas do mundo feudal. Ele
apareceu como um parasita na sociedade feudal” (p. 20). O resíduo, uma
minúscula contracorrente que se tornou corrente dominante.
O devir para Morin é de uma “prodigiosa complexidade”.
Afinal, “a história inova… ela muda de trilho, se descarrilha: a contracorrente
suscitada pela corrente se mistura com esta corrente e, derrotando-a, torna-se
a corrente” (p. 21). Tudo está em movimento: “basta uma pequena inflexão
inicial, um fraco deslocamento… para que o curso (da história) seja desviado”
(p. 21). O estudioso do futuro é desprovido dos meios de previsão, pois “a
evolução dificilmente decorre de um processo provável de um determinado presente”
(p. 22). Ele não conhece as inovações que ainda não surgiram, não conhece os
processos microscópicos que vão ter um acelerado desenvolvimento, não sabe
prever os efeitos das inumeráveis inter-retroações que constituem a verdadeira
causalidade complexa, não percebe as permutações de finalidades que marcam os
processos futuros (p. 23).
Isso quer dizer que “um princípio de incerteza irredutível
afeta o futuro” (p. 24). E este reconhecimento foi um dos grandes legados da
década de 1970 com suas crises e confirmado pelas décadas seguintes, com a
queda da URSS, a invenção dos PCs, da internet, da IA. Afinal, é o crescimento
da crise civilizacional, que se esboça nos anos 1970 e se desenvolve nas
décadas seguintes em uma policrise, que impulsiona o crescimento da incerteza
no mundo atual.
E o filósofo francês se perguntava: “Como trabalhar com esta
incerteza?” e responde: “Interrogando este século (XX) que se agoniza” (p. 26).
O século XX é aquele que inventou os antibióticos e as vacinas, salvando vidas,
mas também no qual o homem desenvolveu a capacidade de se autodestruir com a
bomba atômica. Venceu o totalitarismo, mas instalou o império das
desigualdades, aumentando-as, e conservou os germes da destruição da
democracia. Produziu a riqueza ao preço da crescente degradação da natureza, provocando
as mudanças climáticas com seus eventos climáticos extremos, cada vez mais
intensos e frequentes. Tornou-se o século das crises, pois o desenvolvimento
capitalista tem na crise sua forma de existência.
As crises da década de 1970 levou a sociedade humana a uma
policrise: econômica, social, política, moral e ambiental. Não como um conjunto
autônomo e separado de crises específicas, mas de crises que se contrapõem, se
complementam e se inter-relacionam. O século XX, ao mesmo tempo que viu se
desenvolverem as forças produtivas de forma nunca vista na história da
humanidade, nos revelou seus limites naturais. Mostrando, assim, que o
desenvolvimento capitalista é inseparável da destruição, repleto de bondades e
maldades, de inclusão e exclusão, de reconhecimento e negação. E que o
progresso convive com o regresso, o avanço convive com o recuo.
O progresso técnico produz bens maravilhosos e, ao mesmo
tempo, a dependência crescente dos humanos, com o aumento de sua fragilidade,
como sinalizou Harari[3].
Permite-nos acessar um universo de informações e, simultaneamente, nos mergulha
em uma enorme ignorância. Controla doenças e cria doenças.
Acrescentaríamos que, no século XXI, ao mesmo tempo que o
progresso ergue a barreira das nações aos processos migratórios, cria uma
mentalidade ecológica e planetária. O desenvolvimento econômico-financeiro
globalizado, ao mesmo tempo que padroniza e esmaga as culturas, alimenta
resistências culturais locais. Enquanto a democracia liberal é vilipendiada,
criam-se movimentos de renovação democrática. Os contrários convivem, opõem-se
e se mesclam.
É preciso abandonar a ideia de um desenvolvimento infinito,
de um progresso sem limites. Abandonar a concepção de um progresso simples e
linear. O caminho criado pelo progresso nos conduz a um futuro que pode ser
abominável ou esplendoroso. A civilização e a barbárie convivem em um mesmo
espaço e tempo. Morin já dizia em 1958, no seu livro Autocritique (p.
227), que a civilização não passa de uma frágil película sobre a barbárie.
Morin não quer que desistamos de pensar o futuro. Seria
abdicar do presente. Apenas não devemos ter a expectativa de “adivinhá-lo”.
Pois pensar o futuro, ter um projeto, é parte da essência humana. Tentar
controlar o futuro é um desvario. Futuros se descortinam no horizonte, que pode
ser o da barbárie como o de uma nova civilização. Todas essas alternativas
estão contidas na nossa contemporaneidade.
Pleno de incerteza, o futuro deve ser enfrentado adotando-se
os princípios do pensamento complexo. As incertezas não podem deixar de ser
enfrentadas, não podem nos paralisar se quisermos construir um futuro melhor. E
nós podemos.
[1] Este
livro é um extrato de outro publicado em 1981 – Pour sortir du XXe
siècle. Paris: Fernand Nathan, cap 3. Existe uma versão em português, mas
aqui apresentam-se traduções livres do autor, e o número das páginas de
referências são do original francês.
[2] Jean
Baechler (1937-2002). Les origines du capitalisme. Paris:
Gallimard, 1971 (republicado em dois volumes em 1995 pela mesma editora)
[3] Yuval
Noah Harari. Sapiens: uma breve história da humanidade. São Paulo:
Cia das letras, 2020.
*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II
da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento
Sustentável/UnB (2007/2011).
A política externa dos candidatos a presidente da República
deve ter uma influência secundária na decisão dos eleitores, preocupados, antes
de tudo, com os grandes problemas e desafios internos do Brasil. Mesmo assim,
os partidos de oposição têm, reiteradamente (quase sempre com razão), criticado
as posições do presidente Lula da Silva orientadas pela sua simpatia e
convergência ideológica com países considerados de esquerda, incluindo algumas
ditaduras. Além da inclinação exagerada do governo Lula pelo BRICS, bloco cheio
de governos autocráticos, os casos mais emblemáticos foram a tolerância de Lula
com a invasão da Ucrânia pela Rússia e o apoio explícito que dava aos governos
autoritários da Venezuela. Nos dois últimos anos, contudo, a política externa do
governo Lula tem demonstrado independência e evitado as decisões orientadas
pelas afinidades ideológicas. O presidente Lula ainda repete os discursos
anti-imperialistas carregados de populismo que, no entanto, não tem definido a
política externa brasileira, conduzida de forma competente pelo Itamaraty.
No outro extremo da polarização político-eleitoral, o
senador Flávio Bolsonaro se apresenta, de fato, como o candidato de Donald
Trump e, mais diretamente, do Secretário de Estado, Marco Rúbio, com as suas
agressões comerciais ao Brasil e os ataques verbais ao presidente Lula. Além do
desastroso e incompetente presidente dos Estados Unidos, que interfere,
sistematicamente nos assuntos internos do Brasil, Flávio conta com dois outros
aliados nada recomendáveis para um candidato a presidente do Brasil. Na Convenção
do PL-Partido Liberal, Flávio Bolsonaro recebeu o apoio do primeiro-ministro de
Israel, Benjamin Netanyahu, um comprovado criminoso de guerra e acusado por
corrupção em Israel. Você é um “grande campeão do Brasil (….) e eu sei que vai
levar o Brasil a voos cada vez mais altos”, afirmou Netanyahu através de vídeo
apresentado na Convenção.
Mais bombástica e impactante foi a performance do presidente
da Argentina, Javier Milei, distribuindo grosserias e impropérios contra o
governo e o presidente Lula. A simples participação de Milei num evento
político-eleitoral, defendendo a candidatura de um dos contendores, viola o
princípio de respeito à soberania das nações. Mais grave ainda porque, em vez
de se limitar a elogiar o seu candidato (ou não tinha o que elogiar?), o
discurso performático de Milei foi uma peça recheada de agressões ao presidente
da República e a um ministro do Supremo Tribunal Federal. O que se pode esperar
de um candidato a presidente da República que dá sinais claros de subserviência
e adesão incondicional ao império do Norte, um candidato que conta como grandes
aliados externos, um devastador do futuro do planeta (Trump), um criminoso de
guerra (Netenyahu) e um desequilibrado (El Loco Milei)?
Os brasileiros têm uma rivalidade histórica com a Argentina
que se expressa de forma intensa no futebol, embora reflita também a
concorrência dos orgulhos nacionais, a empáfia dos brasileiros diante da
soberba dos argentinos, que se acham os europeus da América (mesmo já tendo
perdido a majestade). Durante a Copa do Mundo, o confronto futebolístico ganhou
conotações políticas com a criação e difusão, pelos brasileiros, de um
estereótipo negativo do povo argentino. “Torço contra a Argentina porque os argentinos
são racistas” foi a frase mais comum ouvida ao longo do campeonato mundial.
Os brasileiros tornaram-se, de repente, zelosos fiscais do
racismo alheio, condenando o racismo dos argentinos, como se o preconceito
racial tivesse sido erradicado no Brasil. Não faltam testemunhos de
manifestações racistas de parte dos argentinos, e não apenas no futebol. Da
mesma forma, não se pode ignorar a persistência do racismo no Brasil e em
vários outros países, bastando lembrar os atos racistas sofridos por vários
jogadores brasileiros nos campeonatos europeus, como Vinicius Junior.
Entretanto, é totalmente insensata a
tentativa de provar o racismo dos argentinos pela ausência de negros na seleção
de futebol, como insinuaram, ou mesmo afirmaram, alguns. A “seleção (da
Argentina) não teve negros, nem mestiços, o que não aconteceu com nenhum país
da velha Europa”, comentou Clemente Rosas em artigo publicado na semana passada
nesta Revista (“Há racismo no Brasil?”), como se tivesse havido um critério
racista na convocação dos jogadores, com o técnico e a FAF – Federação
Argentina de Futebol fazendo uma triagem racial. Os mestiços Maradona, Tevez e
Di Maria estavam nas seleções passadas e, nesta de 2026, ao menos Leandro
Paredes tem ancestralidade indígena.
Não se pode atribuir ao racismo a composição quase
exclusivamente branca da seleção argentina, da mesma forma que o grande número
de negros nas seleções europeias (especialmente na França) não indica a
ausência de racismo nesses países, logo, antigas potências colonialistas, que
exploraram e dizimaram populações negras na África.
A seleção nacional de futebol tende a refletir a formação
social dos países, de modo que o predomínio de brancos no selecionado da
Argentina reflete, em última instância, a limitada presença de negros e
afrodescendentes na população argentina. A população negra na Argentina
representa apenas 0,7% da população total, de acordo com o Censo de 2022, sendo
2,9% descendentes de povos originários. A França é um país europeu, mas, de
acordo com estimativas independentes e de institutos de pesquisa (o Censo francês
não qualifica por raça ou cor), teria cerca de 6% de cidadãos de origem
africana, proporcionalmente muito mais que a Argentina.
Como o racismo não explica a composição branca da seleção da
Argentina, a crítica estereotipada que os brasileiros formaram da Argentina
passa a denunciar o racismo originário que criou esta sociedade quase sem
negros. A Argentina seria quase branca porque teria dizimado a população negra
e descendente de escravos. Esta é uma meia verdade e, no que é certo, está
longe de ter sido crime exclusivo dos argentinos. De fato, ao longo do século
XIX, o Estado da Argentina promoveu o embranquecimento da população com
políticas e medidas em nada diferentes das implementadas no Brasil: utilização
dos negros como bucha de canhão nas guerras, especialmente na Guerra do
Paraguai, abandono dos descendentes de escravos nas periferias das cidades e,
mais significativo, a atração de grande massa de imigrantes brancos da Europa.
O Estado brasileiro não foi menos racista que o argentino,
mas o resultado medido pela participação de afrodescendentes e mestiços no
total da população dos dois países foi completamente diferente. No Brasil,
10,2% da população se declara preta e 45,3% se declara parda (conceitos do
IBGE), sendo, portanto, 53,5% de não brancos (importante lembrar que pardos não
são apenas afrodescendentes, incluindo também os descendentes dos povos
originários). O que explica o fato de políticas semelhantes terem levado a resultados
tão distintos? Primeiro, porque o tráfico de escravos africanos foi muito maior
para o Brasil que para a Argentina (vieram mais de quatro milhões para o Brasil
e cerca de 200 mil para a Argentina).
O tráfico de escravos africanos foi bem mais significativo
na colonização portuguesa (no Brasil) do que representou para os espanhóis no
restante do continente americano. Do total de africanos escravizados na
América, 38,5% foram explorados pela colônia portuguesa (Brasil), sendo apenas
17,8% distribuídos nas colônias espanholas (incluindo a Argentina). Os
espanhóis preferiam escravizar os nativos que se adequavam às características
da ocupação econômica das suas colônias na América.
De acordo com o IBGE, mais de quatro milhões de africanos
foram trazidos para o Brasil, vinte vezes mais que o fluxo de escravos levados
para a Argentina (cerca de 200 mil). Numa conta aproximada, até porque os
censos não cobrem o período anterior, em 1853, quando foi abolida a escravidão
na Argentina, os 200 mil africanos que entraram no país ao longo dos séculos
representavam 16,6% da população total. No primeiro Censo Demográfico do
Brasil, realizado em 1872, o percentual de pessoas classificadas como pretas
era de 19,7% e as consideradas pardas representavam 38,3% do total de
brasileiros.
A diferença no tamanho do tráfico de africanos decorre, por
outro lado, das características da exploração econômica no Brasil e nos outros
países da América. No Brasil, além da mineração, também relevante nas colônias
espanholas, os escravos negros foram explorados, principalmente, na produção em
larga escala das plantations, muito diferente da atividade pecuária que
constituiu a base da economia da Argentina.
A Argentina traficou 20 vezes menos escravos negros que o
Brasil, mas recebeu uma quantidade de europeus quase tão grande quanto a de
brancos que formaram o povo brasileiro. Essa diferença da proporção entre
negros e imigrantes europeus explica o grau alcançado no chamado
embranquecimento da população nos dois países. Com uma população relativamente
pequena de afrodescendentes (e descendentes dos povos originários) – foram
trazidos apenas 200 mil africanos –, o fluxo da imigração europeia para a
Argentina ao longo dos séculos XIX e XX pode ter chegado a mais de três milhões
de pessoas, 15 vezes mais que o tráfico de escravos africanos. Para o Brasil,
estima-se que as levas de imigração de europeus alcançaram cerca de 5 milhões,
quase o mesmo número de escravos negros trazidos pelo tráfico (mais de quatro
milhões). Desta forma, foi a enorme diferença na proporção entre escravos e
imigrantes europeus (muitas vezes menor na Argentina) que levou à distinta
composição étnico-racial dos dois países.
Nada do que foi exposto acima nega a existência de racismo
na Argentina, da mesma forma que não inocenta o Brasil dessa prática
desprezível. Mas pode ajudar a compreender melhor as especificidades da
formação econômica e social da Argentina e do Brasil, de modo a evitar as
generalizações e os estereótipos que deturpam e prejudicam as relações entre as
duas nações.
*Economista com mestrado em sociologia, foi jornalista da
Deutsche Welle (de 1975/1979) e correspondente da IstoÉ na Alemanha (1977) e
professor titular da FCAP/UPE (de 1982/2014), atualmente é consultor em
planejamento estratégico com base em cenários e desenvolvimento regional e
local, é sócio da Factta-Consultoria, Estratégia e Competitividade
O esquema que sabota o processo democrático é difundido
por Trump
O alinhamento golpista se revela nas mentiras de Flávio
sobre urnas eletrônicas
Como diria um velho caudilho dos pampas, Donald Trump está
costeando o alambrado. Em seu segundo mandato como presidente dos Estados
Unidos, nomeou negacionistas eleitorais para postos-chave, alterou regras
para dificultar o voto popular e afastou funcionários que desmascararam suas
teorias de conspiração sobre o pleito de 2020.
Para lançar dúvidas acerca das eleições legislativas
de novembro —as pesquisas indicam que os democratas terão maioria—, usa a
derrota de seis anos atrás diante de Joe
Biden para afirmar que as votações no país não são legítimas. Claro,
só aquelas que ele não vence.
No show do bufão delirante e obcecado em
não passar para a história como um perdedor, vale tudo: acusar sem provas a
China e até a Venezuela de terem interferido no processo eleitoral
norte-americano. Durante um jantar com correspondentes estrangeiros na Casa Branca, no fim de julho, disse que pretende disputar
um novo mandato, o que a Constituição dos
EUA não permite: "Estou ficando muito bom em concorrer à Presidência. Fiz
isso três vezes e fui muito bem na segunda". Alguns jornalistas observaram
que ele falou em tom de brincadeira. Pois sim.
Autocrata é autocrata, pouco importa se se apresenta como de
esquerda ou de direita. Em sua sabotagem do processo democrático, o Senhor
Laranja está ficando igual a Daniel Ortega, o ditador da Nicarágua,
que avisou: "Não haverá mais eleições aqui", usando de absoluta
sinceridade, palavra que inexiste no dicionário trumpista. No embalo, o
presidente de El
Salvador, Nayib
Bukele —aliado de Trump e queridinho de políticos brasileiros—, em
busca do terceiro mandato, já adota medidas para abolir a alternância de poder.
No Brasil, o filho 01, à testa de uma candidatura oca, copia
o manual da extrema direita. É um alinhamento golpista, que reedita a mentira
sobre urnas eletrônicas e, ao mesmo tempo, improducente —52% dos brasileiros, segundo o Datafolha, acreditam que,
com as sanções que prejudicam o país, Trump quer ajudar o bolsonarismo.
A sociedade deve, uníssona, em legítima defesa, proteger
a infância e a juventude da malvadeza digital
A inteligência artificial (IA), que tantos benefícios tem
trazido e trará, pode, no entanto, colocar em risco a mais importante parcela
da sociedade: nossas crianças e nossos adolescentes. Tim Wright, dirigente no
Reino Unido da Agência Nacional de Combate ao Crime, observa: “As ferramentas
de inteligência artificial estão se tornando mais poderosas, mais acessíveis e
mais fáceis de usar, e estamos vendo criminosos explorá-las para atingir
crianças de novas maneiras. Imagens podem ser manipuladas para criar conteúdo
sexualizado sem o conhecimento da criança ou dos pais.”
Esse perigo está presente na possibilidade
de se forjar, por IA, cena dificilmente contestada, com imagem de determinada
adolescente que fala à câmera e pratica ato sexual com homem adulto. Essa
imagem destruidora para a moça e sua família gera vergonha, medo e insegurança
absoluta. Daí o alerta de Kerry Smith, CEO da Internet Watch Foundation (IWF),
sobre como avanços tecnológicos podem ser usados para “devastar a vida de uma
criança”.
Por essa razão, a proteção à criança no universo online
tornou-se urgente: relatório recentíssimo de especialistas da
União Europeia (Segurança das Crianças Online) propõe o
acesso às redes sociais só para maiores de 13 anos; há poucos dias a França
proibiu o acesso às redes sociais a menores de 15 anos. A IWF verificou em
2025, no Reino Unido, o aumento de 260% de imagens e vídeos gerados por IA com
cenas de abuso sexual infantil, apresentados com efetivo realismo.
Entre nós, é crescente o número de crianças e adolescentes
com acesso à internet, como revela a recente pesquisa do Comitê Gestor da
Internet no Brasil (CGI.br), por seu departamento Núcleo de Informação e
Coordenação do Ponto BR (NIC.br), intitulada TIC Kids Online Brasil 2025. A
pesquisa, voltada à verificação do acesso à internet por crianças e
adolescentes, aponta que 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de
internet, o que corresponde a 24 milhões de pessoas, com significativo
crescimento nas classes D e E, e na área rural.
São 8% os usuários de internet de 9 a 17 anos que relatam
ter tido contato com imagens ou vídeos de conteúdo sexual online. Entre os
usuários de 11 a 17 anos, 20% receberam mensagem ou solicitação com conteúdo
sexual.
Maior a gravidade, ao se alcançar, com o surgimento da IA,
técnica apurada, sendo cada vez mais fácil produzir falsidades e cada vez mais
difícil detectá-las.
Verificar o falso tem se revelado impossível. Hany Farid,
professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, reconhecido especialista
na detecção de falsidade, em entrevista de primeira página no New York Times
(24/6), reconhece já não distinguir foto real de criação digital, voz real de
clone gerado por IA, ou vídeo real de um fabricado.
O professor Hany Farid denunciou: “A tecnologia está sendo
usada como arma contra nós”. Perguntado por aluno se a criação de deep fakes é
fácil e barata enquanto a constatação é cara e difícil, respondeu com
constrangedor sim e completou: “Estamos bem ferrados”.
Apesar dos obstáculos probatórios, deve-se aprimorar a
repressão penal aos abusos, mas a prioridade cumpre ser a prevenção com
controles pelos fornecedores de produtos ou serviços de tecnologia da
informação, com capacitação dos pais, professores e cuidadores para saberem
lidar com as artimanhas da IA, conscientes dos imensos perigos, aprendendo a
enfrentar a questão junto às crianças e adolescentes.
A sociedade já realiza trabalho essencial pelos canais de
denúncia de abuso sexual na internet, instituídos pelo SaferNet e pela IWF,
duas entidades privadas voltadas à proteção de infantes e jovens.
Temos agora aparato legal que permite com urgência enfrentar
a árdua tarefa de conscientização de pais e professores e de aprendizagem pelos
infantes e jovens para não caírem na armadilha dos perversos. Este aparato é
formado pelo Eca Digital, Lei n.º 15.211/25 e pelos Decretos 11.856/23 e
12.573/26, que estatuíram respectivamente a Política Nacional de Cibersegurança
e a Estratégia Nacional de Cibersegurança, nos quais se
ressalta o objetivo de prevenção graças à educação digital, visando à proteção
da incolumidade física e psíquica de crianças e adolescentes.
Ressalto a cartilha publicada pelo Ministério Público do Rio
Grande do Sul em conjunto com a IWF, contendo recomendações aos pais e
professores de como abordar a questão do abuso sexual via internet com filhos e
alunos.
Igualmente importante o convênio assinado pelo Conselho
Nacional do Ministério Público (CNMP) com a SaferNet Brasil, permitindo ao
Ministério Público o acesso aos dados das denúncias anônimas recebidas por esse
canal (www.denuncie.org.br) unindo esforços para prevenir e combater o abuso
sexual infanto-juvenil.
Estamos diante de um imenso desafio. A sociedade deve,
uníssona, em legítima defesa, proteger a infância e a juventude da malvadeza
digital que toma diversas formas, justificando-se só permitir aos menores de 15
anos (início do ensino médio) acesso à internet de modo restrito. •
Renovado em dois terços, o Senado arbitrará entradas e,
possivelmente, saídas de juízes do Supremo
Até agora, o conjunto das pesquisas estaduais aponta um
claro favoritismo da direita e da centro-direita na corrida deste ano ao
Senado. A projeção mais abrangente disponível estima que, juntas, as duas
forças políticas poderão reunir pelo menos 40 das 81 cadeiras a partir de 2027
— uma a menos, apenas, da maioria absoluta. Valdemar
Costa Neto, com o otimismo regulamentar dos caciques, declarou que só seu
PL poderá eleger em outubro 20 novos senadores. Somados aos oito atuais que, em
sua conta, permanecerão no partido e no Senado, eles formarão uma bancada de 28
parlamentares. Pela projeção, basta ao PL conquistar 13 votos na centro-direita
para reunir os 41 necessários à eleição do presidente da Casa. O presidente do
Senado é o único com poder de dar início a processos de impeachment de
ministros do Supremo.
Isso significa que esta eleição deverá
afetar os três Poderes. Além de definir o nome que comandará o Executivo,
poderá redesenhar a cúpula do Judiciário por meio de um Senado que, renovado em
dois terços, arbitrará entradas e — possivelmente — saídas de ministros do
Supremo. O PL sempre deixou claro que era seu objetivo na eleição ao Senado
formar uma bancada favorável ao impeachment de magistrados — em especial,
Alexandre de Moraes.
É à luz desse cenário que se conclui estarem apenas no
início as escaramuças entre Flávio Bolsonaro — como o pai, sempre pronto a
testar os limites da lei — e Moraes, ávido para ampliar as fronteiras entre sua
jurisdição e a da Justiça Eleitoral, como se viu na semana passada, quando se
apressou em cobrar de Bolsonaro explicações sobre o vídeo produzido pela
campanha do filho.
O embate interessa aos dois. Para Flávio, Moraes é o algoz
do bolsonarismo — o inimigo número 2. Antagonizá-lo é uma maneira eficiente de
eletrizar a tropa, sobretudo quando se está vários pontos atrás do inimigo
número 1 nas pesquisas. Para Moraes, o grupo de Flávio é aquele que, ao
elegê-lo como adversário, transformou-o em “herói da democracia”. Confrontar o
bolsonarismo é a melhor forma de preservar os apoios conquistados no campo
oposto.
No caso do vídeo deepfake de Bolsonaro, a campanha de Flávio
esticou a corda com o TSE e continuará esticando até quando o tribunal
permitir. Fará isso não só porque a imagem de Bolsonaro é o principal ativo
eleitoral de Flávio — senão o único, dirão alguns. Resultados de pesquisas que
circulam por outra campanha, mas que certamente são de conhecimento da equipe
dele, revelam que a piora na imagem do primogênito de Bolsonaro, a partir do
caso “Dark Horse”, foi curiosamente acompanhada da subida na popularidade de
Bolsonaro pai. Flávio vira pó sem seu cabo eleitoral e entusiasta maior (senão
o único, diriam alguns).
Se Flávio vencer, poderá indicar três ministros ao
STF. Lula já
tem de preencher o lugar de Luís
Roberto Barroso, que Jorge
Messias não conseguiu ocupar. Se reeleito, terá as vagas abertas pela
aposentadoria de Luiz Fux, Cármen
Lúcia e Gilmar
Mendes. Ao fim desse ciclo, o petista terá feito 14 nomeações ao Supremo ao
longo da carreira presidencial e poderá ter escolhido sete dos 11 ministros em
atividade. Em termos de influência sobre a renovação da Corte, Lula só compete
consigo mesmo. Nos dois primeiros mandatos, indicou oito ministros, e sete
deles chegaram a ficar simultaneamente no tribunal.
Dependendo dos nomes escolhidos, uma vitória petista poderia
fortalecer politicamente Moraes e seus aliados dentro do Supremo. A eventual
mudança na correlação de forças na Corte, porém, não mudaria a aritmética das
urnas nem dissiparia a ameaça vinda do Senado. Daqui em diante, portanto,
convém acrescentar à leitura dos embates entre Flávio e Moraes duas pressões
permanentes: Flávio precisa esticar a corda; Moraes precisa sobreviver.