quinta-feira, 28 de maio de 2026

A MANSÃO DE EDUARDO BOLSONARO

Cecília Olliveira, Eduardo Goulart e Steven Monacelli, The Intercept Brasil

EXCLUSIVO: Eduardo Bolsonaro mora em casa de luxo de R$ 6 milhões no Texas

Eduardo Bolsonaro tem seus bens bloqueados pela justiça brasileira. Ele não diz publicamente se trabalha de forma remunerada nos Estados Unidos, apenas que “mora de aluguel” e tem dificuldade para pagar contas. Ao mesmo tempo, o deputado federal cassado no Brasil mora em uma mansão no Texas que oferece “uma vida de resort”, de acordo com anúncios imobiliários. 

Intercept Brasil localizou o refúgio luxuoso do filho de Jair Bolsonaro na cidade de Southlake, entre as comunidades mais ricas do país. E tocamos a campainha. Fomos recebidos pela esposa de Eduardo, a coach e influencer Heloísa Bolsonaro, que confirmou educadamente que sua família morava ali e se recusou a conceder uma entrevista.

Avaliada em torno de R$ 6 milhões, a casa já foi colocada para alugar por cerca de R$ 30 mil por mês, segundo anúncios imobiliários ativos até fevereiro deste ano. O luxo e os custos do imóvel evidenciam um alto padrão de vida e levantam dúvidas sobre como Eduardo se sustenta desde que se mudou para os Estados Unidos, em fevereiro de 2025. 

A Polícia Federal já investiga se o ex-deputado federal pelo PL de São Paulo está sendo bancado com o dinheiro sujo do banqueiro Daniel Vorcaro, de acordo com G1.

Na sua última prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, antes das eleições de 2022, Eduardo declarou um patrimônio de R$ 1,76 milhão, do qual R$ 1 milhão corresponde a um imóvel financiado. Ainda declarou R$ 160 mil de um imóvel quitado e R$ 600 mil depositados no banco que foram obtidos, segundo ele, pela venda de um curso online.

Em um vídeo publicado no Instagram em 17 de maio, Eduardo Bolsonaro negou ser dono de uma outra casa nos Estados Unidos, em Arlington, que foi o foco de várias reportagens na imprensa brasileira nas últimas semanas. Ele também afirmou que mora “de aluguel” e, inclusive, revelou que tem dificuldades para “honrar as parcelas” do financiamento de um imóvel “parcelado em décadas” no Brasil.

Em uma live com o amigo Paulo Figueiredo divulgada no mesmo dia 17, Eduardo afirmou que se mantém nos Estados Unidos com “renda passiva” e citou que recebeu R$ 2 milhões de uma campanha feita pelo pai. Jair Bolsonaro revelou, em junho de 2025, ter feito uma transferência via pix neste valor. 

O ex-deputado federal não citou na conversa, entretanto, outros repasses ou fontes de dinheiro nem explicou por que ele não conseguiria pagar as prestações da casa financiada no Brasil se recebeu R$ 2 milhões.

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O Intercept confirmou o endereço onde Eduardo vive em Southlake a partir de registros públicos do estado do Texas, dados comerciais de inteligência, do cruzamento de publicações da própria família Bolsonaro nas redes sociais e reportagem de campo. 

O próprio Eduardo Bolsonaro também ajudou a confirmar nossa apuração ao registrar um boletim de ocorrência na polícia após um repórter do Intercept ir até a residência para verificar a informação e pedir uma entrevista, na sexta-feira passada, 22.

Ao chegar até a mansão, em uma rua que tem acesso público e livre, ele caminhou pela calçada e tocou a campainha. Heloísa, esposa de Eduardo, abriu. O repórter informou que trabalhava para o Intercept, perguntou se o ex-deputado estava e se o casal estava disponível para uma entrevista. Após a negativa, agradeceu e foi embora.

Minutos depois, Eduardo acionou a polícia local alegando que um indivíduo estava batendo na porta e rondando a casa. Os policiais estiveram no local para atender o chamado.

No boletim de ocorrência, ao qual tivemos acesso, e em resposta ao Intercept, a polícia de Southlake informou que não há investigação aberta sobre o caso – ou seja, não houve crime. Nos Estados Unidos, o exercício livre da imprensa está garantido pela Primeira Emenda da Constituição. 

No entanto, o clã Bolsonaro e seus aliados passaram o fim de semana acusando falsamente o Intercept de crimes e proferindo ameaças em antecipação a esta reportagem.

O Intercept tentou um novo contato com Eduardo nesta quarta-feira, 27, para questioná-lo sobre os pontos citados nesta reportagem. Não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.

Mansão à beira lago foi alugada em fevereiro

A mansão onde mora Eduardo Bolsonaro pertence, desde 12 de setembro de 2019, ao Bunce Family Trust, um fundo familiar privado registrado em nome dos trustees, os administradores legais, Christopher Bunce e Natalie Bunce. O Intercept tentou contatá-los, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Trust, no direito dos Estados Unidos, é uma figura sem equivalente exato no Brasil, mas com lógica próxima à de uma holding familiar.

Até fevereiro passado, a mansão estava disponível para alugar e foi listada pela corretora Sotheby’s, conhecida pela atuação no segmento de imóveis de alto padrão. O valor anunciado era de 5.950 dólares por mês – cerca de R$ 30 mil mensais. Um anúncio em outra plataforma de locação informa que a casa foi alugada em 4 de fevereiro de 2026.

Anúncios imobiliários ativos até fevereiro deste ano mostram estrutura da mansão (Fotos: Homes.com/Reprodução)

Com quatro quartos e piscina, a mansão onde Eduardo mora no Texas tem 424 metros quadrados de área total construída em um terreno de 1.366 metros quadrados. Também desfruta de acesso a um clube com quadras de tênis e a uma lagoa.

No Zillow, o principal portal imobiliário dos Estados Unidos, a propriedade é avaliada em 1,22 milhão de dólares (mais de R$ 6 milhões) – quatro vezes maior do que a média do estado.

Eduardo vive fora do Brasil há mais de um ano

O paradeiro de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos é rodeado de mistério desde que ele saiu do país, em fevereiro de 2025, e começou a articular à distância medidas contra o Brasil – o que o tornou alvo de uma investigação aberta pelo Supremo Tribunal Federal, o STF. 

Os registros oficiais da Câmara dos Deputados mostram que Eduardo, então deputado pelo PL de São Paulo, entrou com pedidos de licença de 122 dias, em 20 de março do ano passado. A justificativa do afastamento foi por motivos médicos e para tratar de assuntos pessoais. 

Mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept mostram que, no dia 21 de março de 2025, uma mensagem escrita por Eduardo foi encaminhada por Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atualmente preso preventivamente em Brasília.

Neste registro, Eduardo dá orientações sobre como facilitar o envio de milhões de dólares aos Estados Unidos para a produção de “Dark Horse”. Na época, o ex-deputado já havia assinado um contrato como produtor-executivo do filme sobre a trajetória do pai, o que ocorreu em janeiro de 2024.

Eduardo disse a Miranda, de acordo com a mensagem, que a solução seria “enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual”. Também afirmou que o corretor de imóveis Altieris Santana – um dos controladores do fundo Havengate, juntamente com o advogado Paulo Calixto – estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira do filme. 

O Intercept entrou em contato com Altieris Santana, Paulo Calixto, Thiago Miranda e a defesa de Daniel Vorcaro. Não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Daniel Vorcaro se comprometeu a pagar R$ 134 milhões para financiar o filme “Dark Horse”. Os registros obtidos pelo Intercept confirmam que pelo menos R$ 61 milhões foram enviados entre janeiro e maio de 2025.

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quarta-feira, 27 de maio de 2026

CLÁUDIO CASTRO MIROU BRASÍLIA, MAS ESTÁ MAIS PERTO DE TERMINAR EM BANGU

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ex-governador foi alvo de duas operações da PF em 12 dias; decisão aponta 'vínculo estreito' com Vorcaro

As manhãs já foram mais tranquilas no condomínio de Cláudio Castro na Barra da Tijuca. Pela segunda vez em menos de duas semanas, o ex-governador do Rio acordou com batidas na porta. Era a Polícia Federal.

No dia 15, Castro foi despertado por uma operação que apurou favorecimentos à Refit. A refinaria que não refina pertence ao foragido Ricardo Magro, apontado como o maior sonegador de impostos do país. Ontem os agentes voltaram em busca de provas de um esquema com o Banco Master, do presidiário Daniel Vorcaro.

Na decisão, o ministro André Mendonça apontou “vínculo pessoal estreito” entre Castro e o banqueiro preso. Os dois mantinham uma rotina de “encontros frequentes” no Brasil e no exterior. A cada conversa, sugere o inquérito, os aposentados do estado ficavam um pouco mais pobres.

Ao ordenar as buscas, o ministro do Supremo citou um “almanaque de irregularidades” que permitiu o derrame de dinheiro do Rioprevidência nas contas de Vorcaro. Até aqui, sabia-se que o fundo havia enterrado quase R$ 1 bilhão no Master. Agora apareceram — ou melhor, desapareceram — outros R$ 2 bilhões.

As investigações da Refit e do Master descrevem o mesmo modus operandi. O governador se aproximava de empresários suspeitos, que passavam a ser presenteados com favores bilionários da gestão estadual. A diferença estava na fonte do butim. Um esquema desfalcou o Fisco. O outro assaltou aposentados e pensionistas.

Além de alegar inocência, os advogados de Castro disseram ver “motivação política” para atingi-lo. A tese omite que as operações foram autorizadas pelos ministros Mendonça e Alexandre de Moraes, líderes de alas rivais no Supremo.

Ontem o ex-governador recebeu a PF numa cobertura avaliada em R$ 4 milhões. Uma evolução e tanto para quem declarou patrimônio de R$ 194 mil na última eleição. Depois de renunciar para fugir da cassação, o bolsonarista sonhava ressurgir em Brasília como senador. Agora parece mais perto de outra mudança. Da Barra para Bangu.

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PASSAGEM DE BASTÃO CIVILIZATÓRIO

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Trata-se do início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais

O mundo assistiu à passagem do bastão de superpotência mundial das mãos do líder americano para o líder chinês. Isso era previsível desde que a República Popular da China começou a mostrar os resultados das reformas iniciadas há 50 anos por Deng Xiaoping: a adoção da eficiência produtiva e do empreendedorismo capitalista, sem perder a perspectiva do interesse nacional, com uma estratégia social de longo prazo, sem instabilidade política nem descontinuidade a cada eleição. Outras transições semelhantes já ocorreram: da Grécia para Roma; da Espanha e de Portugal para a Inglaterra; e desta para os Estados Unidos, compartida com a URSS devido ao poder nuclear. Diferentemente, a mudança atual não ocorre apenas de uma nação para outra, mas de um tipo de poder para outro: além da China, a primazia mundial será exercida por outros países e por empresas internacionais.

Em Pequim, maio de 2026, houve mais do que uma "armadilha de Tucídides" entre uma potência ascendente e outra decadente; houve o início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais. Não por acaso, ao lado de Trump estavam CEOs de empresas de alta tecnologia.

O bastão ainda passou de um país a outro, mas começou também a passar de uma era civilizatória para outra: Xi e Trump representam um tempo em que o mapa-múndi era composto por países, cada um com sua cor; mas hoje cada país é um pedaço do mundo cujos donos já não são os políticos, embora estes ainda mantenham poder para iniciar guerras, sem, contudo, desenvolvê-las ou sustentá-las sem o apoio dos novos "donos do planeta".

A China pode ser o país cujo estilo político parece melhor preparado para combinar presidentes e CEOs, porque sua cultura política, moldada há mais de 2.000 anos, inclusive por um educador chamado Confúcio, permite a combinação da eficiência e ambição privadas, com os propósitos da ambição coletiva nacional. Um pequeno livro, A cortina de ouro, publicado em 1995 pela antiga Paz e Terra, levantava essa hipótese ao afirmar que o mundo começava a ter "donos da Terra": não mais banqueiros, industriais, proprietários de minas ou comerciantes de commodities, mas criadores de patentes e investidores em alta tecnologia digital, informática, medicinal, espacial, logística.

Nesses 30 anos, o mundo testemunhou a confirmação dessa previsão: a Nasa passou a concorrer com empresas privadas, e é possível que a primeira viagem tripulada a Marte não seja realizada por países, mas por empresas. A rede de satélites que controla o fluxo de informações é privada; a epidemia da covid foi enfrentada graças a vacinas produzidas por empresas privadas que dominam a produção de fármacos e equipamentos médicos; a produção e a distribuição de alimentos estão sob controle de grandes conglomerados, assim como as operações de logística que movem o mundo. A grande revolução da inteligência artificial (IA) será conduzida por empresas, utilizando governos e países, mas com o controle fora das mãos daqueles que ocupam o poder político. O presidente da Fifa conseguiu impor a Trump a recepção dos jogadores do Irã para a Copa do Mundo, e a marca Nike aparece com tanta visibilidade na camisa do Brasil quanto o próprio nome do país.

Tudo indica que o mundo atravessa a passagem do bastão não apenas de uma nação para outra, mas também a consolidação de um novo tipo de poder: o das empresas detentoras de capital, especialmente do capital do conhecimento, em um mundo no qual cada país deixou de ser uma unidade isolada e passou a integrar o conjunto global. Nesse contexto, o poder deixa de ser exercido exclusivamente por políticos em nome de governos nacionais e passa a ser controlado por grupos organizados em empresas, com vantagem para a China, que encontrou o caminho para equilibrar a eficiência de curto prazo do mercado com os interesses de longo prazo da nação.

A passagem do bastão ocorreu entre Trump e Xi, dos Estados Unidos para a China, mas também de um modelo civilizatório para outro. A armadilha contemporânea vai além daquela formulada por Tucídides, citada por Xi durante a reunião: transfere também o bastão dos presidentes nacionais para os "donos da Terra". A "geopolítica" passa o bastão para um tempo de "ecotecnogeopolítica", da era da abundância para uma era de escassez devido aos limites ecológicos e fiscais.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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terça-feira, 26 de maio de 2026

MORRE ANTONIO SALIM CURIATI

Do g1 SP — São Paulo

Antonio Salim Curiati, ex-prefeito de SP e ex-deputado federal, morre aos 98 anos

Parlamentar iniciou sua trajetória política na década de 1960 e participou da Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988. Curiati morreu na segunda (25).

O ex-prefeito de São Paulo Antonio Salim Curiati morreu na segunda-feira (25), aos 98 anos. A informação foi compartilhada pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Curiati também foi deputado estadual e, como deputado federal, participou da Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988.

Segundo informações da Alesp, o parlamentar era médico, filho de imigrantes e iniciou sua trajetória política na década de 1960.

Assumiu seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa em 1967 e, ao todo, exerceu dez mandatos como deputado estadual. Em 2016, tornou-se o primeiro parlamentar paulista a receber o Colar de Honra ao Mérito Legislativo.

Foi prefeito de São Paulo entre 14 de maio de 1982 e 14 de março de 1983.

Ao longo de sua vida pública, ocupou os cargos de secretário estadual da Promoção Social, entre 1979 e 1982; secretário municipal da Família e Bem-Estar Social, entre 1993 e 1994; e secretário municipal de Assuntos Comunitários, entre 1995 e 1998.

Em 2014, foi eleito para seu décimo mandato como deputado estadual, último cargo público de sua trajetória política.

"Neste momento de dor, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo manifesta solidariedade aos familiares, amigos e admiradores de Antonio Salim Curiati, reconhecendo sua contribuição à política e à vida pública paulista", destacou a Alesp.

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SEMANA NO CONGRESSO FOI DE CAUSAR REVOLTA

Artigo de Fernando Gabeira

Quando você olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão de mãos dadas

Chego a Brasília, e o carro desliza por longas avenidas vazias de gente. Fiz esse trajeto durante 16 anos. Ele termina num lugar onde os hotéis estão próximos uns dos outros. De seu quarto de hotel, você parte para o Congresso, um imenso ringue onde se ataca, se defende, às vezes se insulta e se é insultado, tomando rios de café em copinhos de plástico. Volta para o hotel sem saber direito o que produziu. Toma uma sopa. Amanhã recomeça.

Essas lembranças me ocupavam no caminho até que encontrei uma amiga, jornalista, com décadas de experiência em Brasília. Perguntei se estava tudo bem, e ela me respondeu: parece que vivo noutro planeta. Fiquei preocupado, pois, quando uma antiga moradora de Brasília se sente noutro planeta, o homem comum deve se sentir noutra galáxia.

Mais uma vez, os deputados aprontaram. Resolveram neutralizar a fiscalização do desmatamento por satélite. Ela é efetiva em 90% do território amazônico. Não se pode multar ninguém nem embargar nada baseado apenas nos dados de satélite. É preciso encontrar o dono das terras e notificá-lo. Isso significa que terá tempo para concluir o desmatamento ou fugir, se for o caso.

As maiores barbaridades estavam reservadas para as questões partidárias e eleitorais. Para começar, a proibição de gastar dinheiro nos períodos eleitorais caiu. Agora é possível doar bens, valores ou benefícios para turbinar campanhas. A semana foi chamada também de “liberou geral”. A minirreforma eleitoral praticamente blindou os partidos políticos em suas falcatruas. A multa máxima que podem pagar será de R$30 mil, eles que movimentam bilhões do fundo partidário. Ainda assim, poderão pagar a multa com o mesmo dinheiro público que malbarataram. Partidos endividados, ao se fundirem com outros, terão as dívidas perdoadas. Agora é possível o disparo maciço de propaganda pela internet, mesmo sem consentimento do eleitor.

Tudo isso divulgado pela imprensa me trouxe uma preocupação ao falar do assunto. Minha pergunta é esta: eles fazem barbaridades, nós protestamos, e a vida segue na mesma. Como se as barbaridades e nossos protestos fizessem parte do mesmo sistema, uns legitimando as outras.

Há alguma esperança? Honestamente, é preciso admitir que a sociedade terá de subir uma montanha para se liberar dessa gente que se move unicamente no sentido de se perpetuar no poder. Tudo é feito para que possam usar mais dinheiro e ganhar todas as eleições, deixando espaço mínimo para a renovação. É preciso renovação de qualidade, pois, quando você olha o quadro de votações dessas medidas indecentes, esquerda, direita e centro estão unidos, de mãos dadas.

Quando deixei Brasília, no fim de semana, o aeroporto estava cheio. Uma pequena multidão nervosa parecia, como eu, buscar uma pausa desse espaço asfixiante. A funcionária diante dos detectores de metal gritava: “Quem tem marca-passo, por aqui, por aqui”. Em poucos minutos, com ou sem marca-passo, estávamos nos ares, pensando no fim de semana, almoços, jogão no Maracanã, todas essas pequenas alegrias da enorme prisão em que vivemos, dominados por aquela gente a fazer o que quer de nossas leis, imersos num mundo revelado pelo escândalo do Master. Não sou mais menino. Sei o preço da revolta. Mas pagamos um preço enorme ao nos acomodarmos. Onde está o caminho?

Artigo publicado no jornal O Globo em 26 / 05 / 2026

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ZÉ PRADO - 27 ANOS DE SAUDADE

Com a Semana Bandeira Branca, de 20 a 26 de maio, os leitores do blog Sou Chocolate e Não Desisto conheceram um pouco a trajetória política de José Parente Prado, mais conhecido como Zé Prado.  Confira: Bandeira Branca, o hinoA primeira campanhaO sucessorO PipocãoVai,vai,vai,vai...ninguém segura não ! As memoráveis músicas das campanhasÉ Zé contra Zé... e Caminhando com o povo.

Memória - Em 11 de julho de 1932, nasce em Sobral (CE), José Parente Prado, filho do ex-prefeito de Sobral Jerônimo Medeiros Prado e Francisca Gomes Parente Prado. Em continuidade aos passos do pai, Zé Prado ingressa na política em 1972, sendo eleito prefeito de Sobral. Eleito prefeito de Sobral por duas vezes, deputado estadual por três legislaturas, Zé Prado casou com dona Maria do Socorro Barroso Prado; tiveram três filhos: Ricardo Prado, Marco Prado e José Inácio.

Um dos políticos mais respeitados e admirados em Sobral - zona norte – e no Ceará, Zé Prado sempre esteve empenhado no bem-estar do povo sobralense e do Ceará; respeitou o rico e esteve sempre em defesa do pobre, esse jeito simples, amigo e companheiro de fazer política cativou até adversários, que se rendiam a um abraço do “Zé dos Pobres”, como era conhecido pela população sobralense.

Zé Prado era um filho muito dedicado aos pais, jamais tomava uma decisão sem antes ir à casa de Jerônimo Prado e dona Frascisquinha Prado na Praça do Patrocínio, no centro de Sobral, para receber as bênçãos. Quando viajava, no caminho ligava várias vezes para sua esposa, Socorro Prado, a conversa se estendia por longos minutos.

Suas administrações sempre foram pautadas pelo respeito ao povo e abraçando o progresso. Foi um dos responsáveis pelo desenvolvimento de Sobral com obras como o terminal rodoviário (deputado Manuel Rodrigues), centro comercial; entre tantas outras que fez na Princesa do Norte (Sobral).

Quando indagado qual era sua maior obra, sem hesitar Zé Prado respondia: “É ser amigo do povo. É respeitar o povo e receber dele o respeito. Essa é a minha melhor obra”. Zé Prado não sabia dizer não para um pobre. O rico, sempre era tratado com gentileza e respeito.

Sempre empenhado pelo progresso de Sobral, José Parente Prado era íntegro, autêntico e de uma gentileza ímpar. Um grande administrador. O povo sempre confiou nele. É por essas e tantas outras qualidades que jamais será esquecido. Um exemplo a ser seguido.

José Parente Prado faleceu em 26 de maio de 1999, vítima de infarto, no Hospital Dr. Estevam, em Sobral (CE). Deixou esposa, filhos, Pai (Jerônimo Prado faleceu em 17 de outubro de 2003), irmãs, netos, parentes e amigos. Saudade do “Zé dos Pobres”.

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ALÉM DE VORCARO, FLÁVIO BOLSONARO TEME MAIS ESCÂDALOS NO RIO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Candidatura bolsonarista dá como certa a prisão de Cláudio Castro

Polícia Federal apura infiltração de múltiplos grupos criminosos no estado

Com as provas obtidas pela Operação Unha e Carne, a Polícia Federal não tem dúvida: Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —atualmente preso por ter obstruído a Justiça e vazado informações para o Comando Vermelho—, exerceu papel central na estrutura de poder do estado, com mais influência do que o ex-governador Cláudio Castro, a quem pretendia suceder para dar continuidade ao esquema de corrupção.

De acordo com documentos enviados ao Supremo Tribunal Federal, Bacellar interferiu diretamente na escolha de cargos do primeiro escalão durante o tempo —quase seis anos— em que Castro ocupou o Palácio Guanabara. O homem forte da Alerj nomeou os titulares das secretarias de Fazenda, Educação e Assistência Social e das polícias Militar e Civil.

Desde que o cargo lhe caiu no colo, após o afastamento de Wilson Witzel, seu antigo chefe, Castro se comportou como um boneco nas mãos de Flávio Bolsonaro —que também mandava e desmandava no governo— e aceitou dividir a cadeira e a caneta com Bacellar, aproveitando para ir de jatinho, em viagens custeadas pelo estado, para eventos como o Carnaval de Salvador e a corrida de Fórmula 1 em São Paulo.

Castro, contudo, não abdicou de manobrar a máquina. Jogou fora R$ 2,6 bilhões do Rioprevidência ao investir em fundos controlados por Daniel Vorcaro, o "irmãozão" de Flávio. A PF acusa o ex-governador de facilitar operações fraudulentas da refinaria Refit, de Ricardo Magro, maior sonegador de impostos do país. As investigações indicam que agentes públicos recebiam R$ 300 mil por mês para falsificar declarações fiscais.

Na tradicional galeria de governadores fluminenses presos, falta o retrato de Cláudio Castro, o qual, dizem, já está com a moldura pronta. Enfraquecida pelo caso Dark Horse, a campanha presidencial do filho 01 tenta evitar uma contaminação. Tarefa difícil. Bacellar era o candidato ao governo; Castro, ao Senado. Desde 2018, tudo o que acontece na política corrompida do Rio passa por Flávio Bolsonaro.

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segunda-feira, 25 de maio de 2026

NEYMAR NÃO É SÓ FUTEBOL

Preto Zezé, O Globo

Ele talvez funcione como espelho de um Brasil profundamente contraditório: talentoso e inseguro

A discussão sobre Neymar nunca foi só futebol. Talvez por isso provoque reações tão intensas e contraditórias. Há quem o veja como o último grande gênio do futebol brasileiro e há quem o transforme no retrato de tudo aquilo que incomoda no país: excesso de exposição, celebridade permanente, marketing, individualismo e hiperpersonalização. Talvez a força simbólica dele esteja justamente aí. Nunca coube numa definição simples, porque o próprio Brasil também nunca coube.

O futebol brasileiro sempre funcionou como mais que esporte. Para as classes populares, principalmente, foi durante décadas uma espécie de reserva emocional de autoestima coletiva. Num país marcado por desigualdade, racismo estrutural e sensação histórica de atraso diante do centro do mundo, o futebol criava um raro território de superioridade simbólica. A seleção era um dos poucos momentos em que o povo se sentia olhando o mundo de frente.

Por isso nossos craques nunca foram apenas atletas. Pelé, Garrincha, Romário, Ronaldo, Ronaldinho e agora Neymar ocuparam um espaço muito maior que o campo. Organizavam o imaginário popular. O menino da favela via neles não só fama ou dinheiro, mas a possibilidade de transformar criatividade em potência mundial. O drible brasileiro sempre carregou algo além da técnica. Era quase uma linguagem cultural. Uma forma de improvisar diante da dureza da vida. Um gesto de liberdade de um povo acostumado a sobreviver em estruturas rígidas e violentas.

Uma geração inteira aprendeu a gostar de futebol vendo Neymar jogar. Não viu Pelé ao vivo, não viveu Garrincha e era criança quando Ronaldo e Ronaldinho ainda encantavam o mundo. Neymar foi o primeiro grande craque totalmente atravessado pela era digital brasileira. O cabelo mudava e virava tendência no dia seguinte. A chuteira colorida, a firula, a dança depois do gol, o drible curto repetido em câmera lenta nos celulares das escolas — tudo isso ajudou a formar o imaginário de milhões de meninos que tentavam reproduzir aquele gesto impossível nos campinhos de terra espalhados pelo país. Neymar ocupou a memória afetiva, a linguagem popular e a imaginação coletiva.

Isso importa porque o drible brasileiro nunca foi apenas recurso técnico. O drible sempre carregou uma dimensão cultural, quase como uma resposta simbólica de um povo historicamente colocado em posição de submissão. Havia naquele corpo improvisando diante da dureza do mundo uma afirmação de liberdade, irreverência e criatividade popular. Talvez por isso o Brasil produza uma relação tão emocional com seus craques. Eles não representam apenas vitórias esportivas. Representam a possibilidade de existir com beleza e potência mesmo num país acostumado a negar dignidade a grande parte do seu povo.

O Brasil quer do craque algo quase impossível: espontaneidade sem excesso, irreverência sem descontrole, ousadia sem conflito, genialidade sem humanidade. Neymar foi transformado em patrimônio nacional antes mesmo de concluir sua formação emocional.

E, ainda assim, resistiu como personagem central do futebol brasileiro. Não porque seja perfeito, mas exatamente porque nunca foi. Neymar talvez funcione como espelho de um Brasil profundamente contraditório: talentoso e inseguro, criativo e desorganizado, sedutor e vulnerável ao mesmo tempo.

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CAMINHANDO COM O POVO


Apenas nove meses no cargo de prefeito de Sobral – pela segunda vez – Zé Prado já demonstrava que aquela seria sua grande administração. Com slogan “Administração Moderna – Caminhando com o Povo”, os sobralenses viram o progresso chegar em  todos os bairros e distritos.

Em 23 de setembro de 1989, Zé Prado vai ao distrito de Olho D´água, um dos mais populosos de Sobral, numa solenidade que reuniu a maioria da população, Olho D´água passa a ser Rafael Arruda. Para celebrar em grande estilo a nova nomenclatura do distrito, o então prefeito de Sobral (CE), José Parente Prado inaugura a primeira biblioteca. A biblioteca não existe mais.

Zé Prado era muito querido e admirado até por adversários que se rendiam a seu carisma e sua popularidade. Esse jeito popular, de conversar com todos e estar sempre ao lado da população dava a tônica de suas administrações, tornando-as inconfundíveis.  Prado tinha o dom de ouvir e nunca deixava ninguém sem uma resposta positiva. Ele não sabia dizer não.

Em 1992, para conversar com a população e ouvir as reivindicações, o então prefeito Zé Prado, participou do programa radiofônico de maior sucesso da zona norte do Ceará, “Programa Izaías Nicolau”. Clique aqui e ouça o trecho final desse bate-papo.

Após deixar o cargo de prefeito em 1992, Zé Prado disputou ainda duas campanhas políticas: em 1996, como candidato a vice-prefeito – quando lançou na política Marco Prado, o chocolate – na candidatura de seu filho, Marco Prado e para deputado estadual em 1998, dez meses antes de falecer.

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É ZÉ CONTRA ZÉ...

O ano era... 1988, Zé Prado concorre pela terceira vez a prefeitura de Sobral (CE), foi a campanha mais difícil de sua carreira política. Seu principal adversário era o administrador da Santa Casa de Misericórdia de Sobral, Padre José Linhares Ponte.

A candidatura de Zé Prado não tinha o apoio do recém “Governo das mudanças” e nem do governo municipal – apesar de ter como candidato a vice, Ricardo Barreto, sobrinho do prefeito Joaquim Barreto – as pesquisas de intenção de voto realizadas na cidade, Padre Zé liderava e a tendência nos distritos repetia a da sede.

A campanha era o 'verde' (Padre Zé) contra o 'azul' (Zé Prado), com o slogan “É Zé contra Zé. É Zé Prado que o povo quer”.  

Além  das cores que marcaram a campanha, uma personagem roubou a cena: a "Vaquinha", era atração indispensável nos comícios.

Apoiado principalmente pela pobreza, Zé Prado arregaçou as mangas da camisa e visitou todos os bairros e distritos de Sobral. Ele visitou até casa de eleitores adversários. 

Essa campanha foi agressiva, insultos surgiam dos quatro cantos da cidade contra Zé Prado; inúmeros adjetivos pejorativos brotavam a cada dia; ‘bagaceira’ era o mais frequente, mas Zé Prado sempre empenhou a bandeira branca às suas campanhas e nunca guardava mágoa ou rancor de ninguém.

O coração de Zé Prado parecia ser de manteiga ou pudim; nessa campanha, afirmou em entrevista que se sentia constrangido pelo fato de disputar com um padre. Zé Prado tinha um pensamento que jamais se deve mexer com um padre, pois acreditava em castigo divino.

A campanha do 'verde' contra o 'azul' chegou ao fim e para surpresa de todos, Zé Prado, o candidato da 'bagaceira' que não tinha o apoio dos  governos municipal e estadual, venceu a eleição, com maioria em 87% das urnas.

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AS MEMORÁVEIS MÚSICAS DAS CAMPANHAS

As campanhas de Zé Prado sempre foram embaladas com
belíssimas composições – versões de grandes sucessos musicais – todas feitas pelo compadre e fiel amigo, o poeta popular Pedro Lavandeira que sempre esteve ao lado da família Prado.

Com habilidade em transformar grandes clássicos da música em
jingle – espécie de paródia –  Pedro Lavandeira em três décadas deu
ritmo, alegria e sentido as campanhas políticas da família Prado.

Confira algumas das memoráveis músicas das campanhas de Zé
Prado, na voz de Pedro Lavandeira.







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domingo, 24 de maio de 2026

PL ESTÁ ENREDADO NOS MAUS LENÇÓIS DA FAMÍLIA BOLSONARO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A candidatura do primogênito do ex-presidente está em xeque, sentada na antessala da demolição

O partido que cresceu ao abrigo do clã, queda-se vendido em meio à incerteza sobre o que vem por aí

Jair Bolsonaro não é alguém que se caracterize por ter boas ideias. Uma delas, a de enfrentar a pandemia a golpes de negacionismo custou-lhe a reeleição; outra, a de montar uma rede de ilegalidades para ficar no poder, o levou à prisão. A mais recente, de fazer do primogênito candidato a presidente, está em xeque na antessala da demolição.

O projeto de criar um partido morreu antes de nascer, o que fez a turma da extrema se abrigar no PL que saiu de legenda mediana para o lugar de maior bancada na Câmara. A união vigorou como benção até agora, quando dá sinais de se transformar em maldição.

O PL está em péssimos lençóis. Pego em calças curtas pela intimidade de Flávio Bolsonaro com o "mermão" Daniel Vorcaro, o partido queda-se vendido nas versões desencontradas e na incerteza do que pode vir por aí.

A agremiação de Valdemar Costa Neto se vê na iminência de perder o bonde da Presidência. Mas não só. Assiste ao que se desenha como um efeito dominó em sua área de influência. O prócer do aliado PP, Ciro Nogueira, já se foi. Outros integram a fila da beira do abismo.

As adversidades mais visíveis localizam-se nos três maiores colégios eleitorais do país. Em São Paulo, os estilhaços têm potencial para atingir Tarcísio de Freitas (Republicanos), cuja percepção do risco se materializa na solidariedade bem mais ou menos que o governador empresta ao enroscado Flávio.

Em Minas Gerais, o partido rivaliza com o PT na dificuldade de formação de palanque, mas é no Rio de Janeiro, berçário político da grei Bolsonaro, que o PL fica pior na fita.

Os planos do partido para o Rio deram errado. A Justiça não parece disposta a permitir que o presidente da Assembleia Legislativa assuma o Palácio Guanabara para completar o mandato interrompido de Cláudio Castro que, pego como cúmplice nas falcatruas da Refit, perdeu qualquer condição de concorrer ao Senado.

Nos demais estados, essa direita se divide entre o compasso de espera e os preparativos para o abandono do navio.

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FLÁVIO BOLSONARO NA CASA DE VORCARO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

A única conclusão que não ofende a lógica é que o senador foi discutir sua situação diante de um escândalo que os dois sabiam que seria gigante

Um acordo explicaria a tranquilidade com que o senador falava do Master

Flávio Bolsonaro foi visitar o dono do Banco Master. Poucos dias antes da visita, Daniel Vorcaro havia saído da cadeia com tornozeleira eletrônica. No dia seguinte à visita, segundo o jornalista Igor Gadelha, do portal Metrópoles, Flávio foi anunciado como candidato à Presidência da República.

O que explica esse delivery de político golpista na casa de um banqueiro ladrão?

A única conclusão que não ofende os fatos nem a lógica é que Flávio foi a Vorcaro discutir sua situação diante de um escândalo que os dois sabiam que seria gigante.

Com toda probabilidade, Flávio foi ao encontro de Vorcaro já sabendo que seria candidato a presidente. A matéria de capa da Folha sobre o anúncio da candidatura (publicada no dia 6 de dezembro) registra que aliados do bolsonarismo já haviam sido avisados antes do anúncio oficial.

Flávio também sabia que estava envolvido até o pescoço no caso Master. Sabia que tinha recebido R$ 60 milhões dos R$ 130 milhões que Vorcaro lhe havia prometido. Sabia que havia trocado mensagens altamente comprometedoras com o chefe do esquema Master. Sabia que os governadores bolsonaristas haviam entregado bilhões de dinheiro público ao Banco Master. Sabia que seus aliados Ciro Nogueira (PP-PI) e Filipe Barros (PL-PR) haviam apresentado projetos no Congresso para tentar salvar o banco, projetos que teriam quebrado a economia brasileira. Sabia que seu PL havia requerido urgência para o projeto que permitiria ao Congresso afastar diretores do BC que votassem contra o Master.

Fazia sentido Flávio se lançar candidato a presidente sabendo que logo estaria no centro do maior escândalo financeiro da história brasileira?

Sim, mas só se você aceitar a seguinte hipótese: Flávio Bolsonaro foi à casa do dono do Master propor um acordo. Vorcaro não abriria o bico sobre suas relações carnais com o bolsonarismo, e Flávio o salvaria quando fosse eleito presidente da República.

O acordo explicaria a tranquilidade com que Flávio falava do Master até ser pego pela polícia e denunciado pelo Intercept Brasil. Explicaria a tranquilidade com que Vorcaro propõe delações premiadas que não entregam ninguém, como se estivesse ganhando tempo contando com uma blindagem futura. Explicaria a atuação de Flávio para derrubar, junto com Alcolumbre e Moraes, a candidatura de Jorge Messias ao STF; explicaria o desespero do bolsonarismo para emplacar uma CPI do Master que só vá atrás dos membros do Supremo enrolados.

Ainda não há provas de que o acordo ocorreu. Mas desafio o leitor a me apresentar outra interpretação plausível da visita de Flávio Bolsonaro a Vorcaro, nas circunstâncias em que ela ocorreu. Se eu estiver errado sobre o que aconteceu naquele dia, a decisão de Flávio de se lançar candidato mesmo sabendo de seus vínculos com o Master me parece inexplicável.

Flávio, é claro, diz que não foi nada disso. Diz que foi encontrar Vorcaro pessoalmente para encerrar sua, digamos, parceria artística com o banqueiro peleleco. Se você acredita nisso, o Master tem uns CDBs para te vender.

Vai ficando claro o motivo de Flávio Bolsonaro tratar o dono do Master como irmão. Sua única chance de deixar de ser o filho mais enrolado com a Justiça seria Jair adotar Vorcaro.

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O RACHADÃO DOS BOLSONARO NO BRASIL EMBALADO PELO PANCADÃO DO DEBATE RUIM

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

A montanha de novos escândalos de Flávio pariu um rato nas intenções de voto

Discussão nacional segue ruim, entre planos 'Mais Coisinha' de Lula e barbárie da direita

A montanha de escândalos de Flávio Bolsonaro pariu um rato nas intenções de voto, como mostrou o Datafolha. A esta altura do campeonato eleitoral, era previsível. Falta alternativa para quem quer evitar Lula 4, entre outros motivos das profundezas da preferência pelos Bolsonaro. Faz tempo e até agora, o antilula tem uns 40% dos votos.

Não quer dizer que a situação não possa se alterar, para pior ou melhor, a depender do gosto do freguês eleitor. Os motivos deveriam ser óbvios e podem ser relevantes em disputa acirrada.

Faltam quatro meses para o primeiro turno, eternidade no tempo digital. Flávio é "muito bem" conhecido por um terço do eleitorado; não se sabe o que povo todo vai achar da personagem quando houver TV, debates e tiroteio mais feroz nas redes.

No vasto mundo do que se chama vagamente "economia" deve haver novidades, menores, mas que podem importar em disputa apertada. Pode haver efeito retardado dos pacotes eleitorais de Lula 3 ou escândalos no forno. Enfim, surtos de loucura podem se espalhar por mensagens e redes de modo rápido e imprevisível, ainda que provocado. A formatação das opiniões a respeito do que sejam fatos pode mudar de modo profundo e veloz.

Pouco se discute o que está em jogo. Parte minoritária do eleitorado teme a ameaça golpista. Parte pequena parece se ocupar de fato do que se chama vagamente de "moralidade" (aliás, a perda mais significativa de votos de Flávio ocorreu entre evangélicos). Quanto a apenas um aspecto da "economia", a mais ligada ao Estado, do que se trata?

A elite econômica quer menos imposto e "desregulamentação", desde que mantenha proteção comercial, juros subsidiados e outras rendas do Estado. Boa parte dos eleitores da direita desconfia do Estado, mas quer benefícios sociais engordados por Lula. A esquerda oficial acha que "colocou o pobre no Orçamento". Colocou, um tico mais, mas a redistribuição de renda é dominada por conversa ideológica. Em quatro governos de esquerda, o Estado continuou a redistribuir para cima, sob o mote do "desenvolvimento nacional" ou de acordos quaisquer (para nem falar das ineficiências associadas). Lula 3 continuou a dar dinheiro para ricos e empresas; dada a política macroeconômica ruim, dá juros gordos para credores do governo ("rentistas").

A apropriação da renda é majoritariamente (mais de 80%) definida pelo rendimento do trabalho (75%) e rendimentos financeiros, aluguéis etc. (deve ser mais, pois a renda de capital e ricos é subestimada nas pesquisas). A redistribuição via transferências sociais tem impacto menor e terá efeito marginalmente menor, dada a carga tributária, mas não só. A conta é imprecisa porque sabemos pouco do impacto da tributação sobre classes de renda.

esquerda acha que a situação melhora com transferências diretas (de resto ora um tanto ineptas), esquece de trabalho e produtividade; se ocupa ingenuamente de desigualdade e pouco fala de pobreza. O alto da direita quer manter seus favores e que o povo se vire. Gatos pingados pensantes à esquerda, à direita e, em especial, no minúsculo centro se ocupam de problemas socioeconômicos estruturais.

Essa é uma colherinha de chá do nosso mar de problemas. Do que falamos, porém? Do barbarismo inepto da extrema direita ou do último programa "Mais Coisinha" de Lula ou de como os rachadões dos Bolsonaro podem definir a eleição. Nem a democracia é valor geral. Não vai dar certo. De novo.

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UMA DEMANDA DE LIMPEZA ÉTICA

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Com os velhos caciques, o Rio de Janeiro era uma feitoria político-social; hoje, uma malfeitoria estrutural

Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão

"Malandro demais se atrapalha", rezam as rodas de brasilidade, onde sabedoria é experiência vivida. Isso se revela na profilaxia administrativa operada pelo governo interino do Rio de Janeiro. Pode-se rir ou chorar ao tomar conhecimento, por exemplo, de que o ex-governador Cláudio Castro tinha criado uma Subsecretaria de Gastronomia, com nada menos do que uma "Superintendência de Demandas Cotidianas". E dirigida por ninguém menos que Pazuello, o general-ministro bolsonarista da pandemia.

Malandro, porém, se atrapalha mesmo. Tantas fez e cargos inventou o ex-governador para multiplicar favores a prefeitos, legisladores e dono de refinaria que o pote de espertezas transbordou como vaso sanitário. Garantido pelo STF, o interino Ricardo Couto comanda uma reorganização que já limpou um terço das secretarias e cerca de 1.700 cargos comissionados. A maioria não precisava sequer comparecer ao trabalho. Inexistente, por sinal, como dita a lei da malandragem.

Em princípio, seria chover no molhado qualquer análise das engrenagens de um desgoverno, considerando-se que a corrosão da função pública transparece sem filtros no apodrecimento ético dos dirigentes. Podre, aliás, não é metáfora gratuita: assim o mercado financeiro chama papel sem nenhum valor. Cláudio Castro investiu neles R$ 1 bilhão do fundo de pensão do estado para ajudar o Banco Master.

Abismo chama abismo. Essa é a saga ominosa de 30 anos de governos cariocas finalizados na prisão, com desenredo especial pelo oxímoro Castro: inelegível, mas aspirante ao Senado. Ele tornou mais visível o epílogo de um longo e ruinoso percurso político, não só no nível das finanças públicas, mas também das consequências sociais das gestões corruptas. A varredura atual é alvissareira, embora provisória e assediada por clãs, ávidos por uma marcha-a-ré.

Com os velhos caciques, o Rio era uma feitoria político-social. Hoje, uma malfeitoria estrutural. No balanço das governanças impolíticas, transparece um estado afetado por déficit fiscal insanável e pela voracidade de grupos em torno da apropriação dos recursos públicos. Não mais caciquismo político, e sim uma malandragem tóxica constituída por clãs, híbridos de famílias com delinquentes. Cargos oficiais são criados e canibalizados por interesses temporários. Uma subsecretaria de bem-comer e por que não uma superintendência de demandas gourmets? Malandro sugeriu, fez-se.

Há disso tudo noutras regiões, mas o Rio virou laboratório de graves patologias sociais. Primeiro, a síndrome dos territórios, demarcados por milhares de barricadas e defendidos com armas de guerra e mercenários de know-how ucraniano. Bicheiros, milicianos, traficantes e policiais dão-se as mãos ou se engalfinham ante o pano de fundo cenográfico da mídia que envelopa a cidade. Depois, o tecido social criminogênico que, desde "zonas de influência" ilegalistas, favorece o recrutamento para a bandidagem e a malignidade dos clãs políticos, cujos rebentos almejam no Estado-nação o status de malandros federais.

É desanimador. Mas, como no mito, Hércules limpou com rios as estribarias do rei, a sujeira moral e cívica acumulada no Rio poderia ser lavada em urnas reais. Quando a sociedade civil acordasse.

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'DARK HORSE' ABALA FLÁVIO BOLSONARO NA DIREITA

Bruno Boghossian*, Folha de S. Paulo

Filho de Bolsonaro perde apoio em grupos evangélicos, no Sul e entre bolsonaristas que se declaram moderados

Senador mantém competitividade e continua recebendo votos de eleitores antipetistas em embate direto com Lula

O caso "Dark Horse" não derrubou Flávio Bolsonaro (PL), mas pode ter provocado um abalo em sua pré-candidatura justamente nos segmentos em que o filho de Jair Bolsonaro deposita suas fichas para tentar se diferenciar do pai e superar a derrota da eleição de 2022.

Os números da primeira pesquisa do Datafolha feita integralmente após a revelação dos diálogos de Flávio com o banqueiro Daniel Vorcaro apontam que o escândalo não causou mais do que um soluço dentro do núcleo mais bolsonarista do eleitorado, que costuma defender o clã mesmo em seus momentos difíceis.

É um conjunto de eleitores numeroso o suficiente para reforçar a ideia de que ele está consolidado como candidato competitivo e também para, ao que tudo indica até aqui, amenizar especulações de que ele deveria ser substituído imediatamente por outro nome de direita na corrida presidencial deste ano.

Os números da pesquisa espontânea, em que o entrevistado cita seu candidato preferido antes mesmo de ler uma lista de nomes, costuma ser o indicador usado para medir o humor de eleitores fiéis. Neste ponto, Flávio passou praticamente ileso pelo caso, oscilando de 18% para 17% das intenções de voto.

A má notícia para o filho de Bolsonaro apareceu em segmentos que também são parte da base eleitoral da direita, mas que têm uma relação mais volátil com o bolsonarismo.

Os resultados captados pelo Datafolha mostram problemas para Flávio em determinados grupos evangélicos, na região Sul, entre jovens adultos e –o que é mais significativo– entre bolsonaristas que se descrevem como moderados.

Este último segmento é formado por eleitores que se declaram bolsonaristas, mas se posicionam na segunda posição de uma escala que vai de 1 a 5 —em que o primeiro estrato é formado por bolsonaristas fiéis, o ponto central é de eleitores não alinhados, e o quinto grupo é formado por petistas fiéis.

Nesse grupo de bolsonaristas que se declaram moderados, Flávio foi de 53% para 40% das intenções de voto em uma semana. É um segmento pouco numeroso, representando cerca de 5% do total de entrevistados, mas que é alvo do senador e que pode fazer a diferença numa eleição apertada.

Entre eleitores evangélicos, base importante do bolsonarismo e sensível a escândalos morais, Flávio estava com 49% e agora aparece com 42% das intenções de voto no primeiro turno. Ali, sua rejeição era de 28% e está em 34%.

No Sul, a queda foi maior, de 48% para 35%. Entre eleitores de 25 a 34 anos de idade, que representam uma boa parcela da população cronicamente online, o baque foi de 11 pontos percentuais.

A pré-campanha de Flávio entra agora numa fase de avaliação de danos e de riscos. Eventuais novas revelações poderiam manter a ferida aberta e provocar uma lenta sangria de eleitores contrariados com sua relação fraterna com Vorcaro.

Para tirar o senador do jogo, porém, seria necessário um movimento em massa de eleitores de direita para nomes como Ronaldo Caiado (PSD), Romeu Zema (Novo) ou Renan Santos (Missão). Até agora, nenhum deles mostrou capacidade de convencer os bolsonaristas de que são opções mais viáveis do que Flávio.

Uma das razões para isso é o fato de que o filho de Bolsonaro ainda é um forte depositário do antipetismo, o que o leva a reter votos de eleitores de direita mesmo sendo alvo de questionamentos.

Esse, aliás, foi um fator que parece ter amortecido o tropeço de Flávio na simulação de segundo turno do Datafolha. Enquanto no primeiro turno o filho de Bolsonaro aparece nove pontos atrás de Lula (PT), no embate direto ele consegue ficar a quatro pontos do petista.

*Diretor da Sucursal de Brasília da Folha. É mestre em ciência política pela Universidade Columbia (EUA).

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LULA ATRAI 29% DO ELEITORADO DE CENTRO, CONTRA 20% DE FLÁVIO BOLSONARO

Fábio Zanin, Folha de S. Paulo

Pesquisa mostra que eleitor moderado se fragmenta; terceira via patina no segmento

Candidatos vêm tentando suavizar a imagem atrás dos votos centristas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aparece mais bem posicionado do que Flávio Bolsonaro (PL) para receber o votos dos eleitores de centro, mostra a pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (22).

Ao mesmo tempo, os pré-candidatos que se apresentam como "terceira via" ainda patinam no segmento dos brasileiros mais moderados.

Numa escala ideológica de 1 (extrema esquerda) a 7 (extrema direita) dos pesquisados, aqueles que estão no nível 4 (centro) dão a Lula 29% das intenções de voto, contra 20% a Flávio.

O senador vem tentando se colocar como um candidato moderado, diferente do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), mas os números mostram que o sucesso tem sido limitado até o momento.

Ronaldo Caiado, que pertence ao PSD, partido que se define como de centro, obtém apenas 6% neste segmento. O ex-governador de Goiás fez carreira na direita, mas é outro que vem tentando moderar o discurso e busca ampliar seu apelo eleitoral.

Candidato do Avante, o escritor best-seller Augusto Cury é quem tem se definido mais abertamente como candidato de centro. O Datafolha mostra algum êxito na estratégia, pois ele atinge 6% entre os eleitores deste segmento. No total do eleitorado, conseguiu 2%.

Outros pré-candidatos, como Renan Santos (Missão), com 5%, e Romeu Zema (Novo), com 4% também obtêm índices modestos no segmento mais centrista do eleitorado.

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CHINA SE BENEFICIA DAS CRISES DOS EUA

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

A cúpula Xi Jinping-Vladimir Putin e os últimos movimentos de Donald Trump em relação ao Irã e a Cuba ampliaram os ganhos estratégicos da China em sua disputa por hegemonia com os EUA.

O presidente americano se vê obrigado a ceder discretamente nas negociações com o Irã, conforme se intensificam as pressões econômicas e políticas decorrentes do choque de energia causado pelo fechamento do Estreito de Ormuz. A manutenção de um programa nuclear pacífico iraniano agora está sobre a mesa de negociações.

Para compensar a visível derrota, Trump volta a pressionar Cuba, cuja mudança de regime ele vê como um fruto ao alcance da mão – o que Binyamin Netanyahu o fez acreditar sobre o Irã.

O diretor da CIA, John Ratcliffe, reuniu-se em Havana no dia 14 com o coronel Raúl Guillermo Rodríguez Castro, neto de Raúl Castro e responsável pela segurança do veterano líder revolucionário, com o ministro do Interior, Lázaro Álvarez Casas, e o diretor da inteligência cubana, Ramón Romero Curbelo.

A missão de Ratcliffe era convencê-los a abandonar o socialismo e a condição de plataforma de espionagem de China e Rússia. Três dias depois, o site Axios revelou, com base em inteligência americana, que Cuba desde 2023 adquiriu mais de 300 drones iranianos e russos para empregar contra alvos americanos.

Trump passou então a apostar na intervenção de forças especiais, sob o pretexto de capturar os denunciados pela Justiça da Flórida na derrubada de duas avionetas civis tripuladas por americanos em 1996: Raúl Castro, de 94 anos, e cinco ex-pilotos e militares cubanos.

A expectativa dos americanos é que sirva de incentivo para um racha no regime, levando ao poder militares pragmáticos dispostos a aceitar as condições dos EUA, como fizeram os venezuelanos.

As energias da projeção de poder americano estão sendo dispersas por caprichos político-ideológicos de Trump. Para castigar Friedrich Merz, para quem o Irã está “humilhando” os EUA, Trump ordenou a retirada de 5 mil dos 36 mil soldados americanos da Alemanha.

Quando o secretário da Defesa Pete Hegseth suspendeu o envio de 5 mil soldados para a Polônia, Trump o mandou rever a decisão, para premiar o presidente polonês, Karol Nawrocki, que segue a corrente conservadora, anti-europeia e antiimigração liderada pelo presidente americano. Não é um bom critério de alocação de forças militares.

Enquanto isso, Xi dispensava a Putin o mesmo tratamento que havia dado a Trump uma semana antes: ouviu os pleitos, mas não atendeu a maioria deles. O líder chinês demonstrou que não depende nem da energia russa nem dos chips americanos.

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ENTRE ESCÂNDALOS E BAIXO CRESCIMENTO

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Bandidos atrapalham, mas o pior está mesmo na economia insegura longa duração

Milhões de Vorcaro, vexames de um candidato, doações eleitorais, influenciadora ligada ao Primeiro Comando da Capital (PCC) e pressões de Trump contra Cuba encheram o noticiário da semana no País, deixando em segundo, terceiro ou quarto plano as necessidades de um Brasil ainda atolado na estagnação. A economia brasileira cresceu 2,3% no ano passado, com expansão de 11,7% na agropecuária, 1,8% nos serviços e 1,4% na indústria, um setor sem o dinamismo observado nas três décadas finais do século passado. Além disso, o avanço de 2,3% do Produto Interno Bruto (PIB) marcou uma forte perda de impulso em relação ao ano anterior, quando o crescimento chegou a 3,4%.

Entre 2016 e 2025, a economia brasileira teve resultados negativos em 2016 e 2020, com variação de -3,3% em cada um desses anos. Crescimento acima da casa dos 3% só ocorreu em 2021 (4,8%) e 2024 (3,4%). No ano passado, o Brasil caiu da décima para a décima primeira posição entre as maiores economias do mundo, perdendo a posição para a Rússia.

Essa ultrapassagem é vista com cautela por alguns economistas e atribuída a variações cambiais. Mas a perda de impulso da economia nacional é indiscutível, assim como sua dificuldade para crescer, de forma sustentável, acima da faixa de 1,5% a 2% ao ano. Essa dificuldade é explicável, em grande parte ou mesmo principalmente, pelo insuficiente investimento produtivo, isto é, pela escassa aplicação de recursos em máquinas, equipamentos, infraestrutura e instalações – sem contar as condições ainda insatisfatórias da formação de capital humano.

Enquanto outros emergentes aplicam entre 20% e 24% do PIB na formação de capital físico, o Brasil raramente investe mais que 18% e nem sempre atinge essa porcentagem. A distância fica bem maior quando se tomam exemplos de países como China e Índia, com taxas acima de 30% de acordo com o informe do Fundo Monetário Internacional (FMI).

No ano passado, o investimento brasileiro ficou em 16,8% do PIB, segundo informação recente do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). No ano anterior, a taxa havia chegado a 16,9%. Juros altos podem explicar, mas apenas em parte, o baixo investimento produtivo do setor privado. Convém levar em conta, além do custo do capital, a insegurança de uma economia instável e pouco orientada por planos e programas de

Mas o volume insatisfatório se completa com a participação medíocre do setor público, atribuível em parte a deficiências administrativas e a desperdício de recursos. O investimento governamental, em todos os níveis de poder, pode ser prejudicado por interesses políticos tanto pessoais quanto partidários. O dinheiro enviado às bases de parlamentares federais, por meio de emendas orçamentárias, pode ser empregado de forma pouco produtiva para o País ou mesmo para a região.

Esse tipo de investimento fragmenta o dinheiro disponível em aplicações desconectadas de qualquer plano regional e principalmente nacional. Uma revisão do conceito de emenda orçamentária poderia, talvez, aumentar a produtividade do dinheiro federal, sem eliminar o direito de participação individual dos parlamentares na destinação de recursos. Valeria a pena, provavelmente, examinar como funciona o sistema de emendas nos Estados Unidos e nas grandes democracias europeias. Não tem sentido converter em fator de desperdício a participação dos parlamentares na destinação de recursos da União.

Um processo orçamentário mais eficiente e mais eficaz poderia resultar em relevantes ganhos sociais e econômicos. Numa economia em desenvolvimento e ainda marcada por graves desigualdades entre classes e regiões, o uso mais produtivo do dinheiro público é crucial tanto para o crescimento do PIB quanto para a melhora das condições de milhões de famílias e pessoas.

A noção de “uso mais produtivo” é política e moralmente discutível, mas vale a pena, com certeza, propor o debate e examinar como se decide o emprego de meios públicos em economias mais avançadas, menos desiguais e com melhores condições de desenvolvimento individual e familiar. Seria uma oportunidade – vale a pena insistir – para se repensar, por exemplo, a dimensão e as formas de uso das emendas parlamentares. Talvez fosse possível, nesse debate, tornar mais clara, por exemplo, a distinção entre emenda orçamentária, de fato, e direito de uso de recursos públicos para objetivos mais particulares do que sociais.

Orçamento, no entanto, é assunto pouco discutido e escassamente acompanhado, no Brasil, mesmo por pessoas com razoável educação. Verbas orçamentárias saem do bolso dos cidadãos e resultam de seu esforço produtivo e, muitas vezes, de seus sacrifícios. Mas a maioria das pessoas parece pouco se preocupar, no dia a dia, com esses detalhes. Enquanto os contribuintes olham para outro lado, ocupantes de postos públicos, em todos os Poderes, ficam mais sossegados para usar o dinheiro dos cidadãos como quiserem – com ou sem benefício para quem produz, paga impostos e enfrenta os piores efeitos quando a inflação sobe, a economia emperra ou os dois desastres se combinam.

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