quarta-feira, 15 de julho de 2026

O MERCADÃO DAS EMENDAS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Mercadão de emendas abre novos negócios para políticos sem mandato

STF vê 'privatização do orçamento' em repasses operados por Cunha e Valdemar

Eduardo Cunha foi cassado e preso, mas não largou o osso. Sem mandato desde 2016, o ex-deputado encontrou uma nova forma de roer o orçamento. Abocanhou emendas reservadas para parlamentares em exercício.

O contrabando foi descoberto pela Polícia Federal. Em ofício ao Supremo, os investigadores descreveram Cunha como “beneficiário direto de malfeitos”. O ministro Flávio Dino mandou bloquear R$ 6 milhões em bens do ex-deputado, que nega irregularidades.

A PF cruzou dados e identificou 21 emendas terceirizadas para Cunha. Ele destinou o dinheiro a pequenas cidades no interior de Minas Gerais, sua nova base eleitoral. Em diálogo com uma operadora do esquema, o fundador da Jesus.com se mostrou impaciente com prefeitos recrutados para a barganha. “Não aguento mais esses mineiros enrolados”, queixou-se.

O pai de Dani Cunha não está sozinho. O chefão do PL, Valdemar Costa Neto, também se assenhorou de emendas alheias. Sem mandato desde 2013, ele destinou ao menos R$ 119 milhões a aliados. Ontem o ex-deputado definiu a prática como a “coisa mais natural do mundo”. “Eu faço sugestão, o líder assina se quiser”, disse à GloboNews.

Num dos casos rastreados pela PF, uma emenda de um deputado do Rio de Janeiro pagou o cachê de uma dupla sertaneja no interior de São Paulo. O show de Thaeme & Thiago custou R$ 280 mil. A grana foi torrada em Guaimbê, município de 5,5 mil habitantes cuja prefeita é ligada a Valdemar.

Na última década, o Congresso avançou com fúria sobre os cofres federais. Os parlamentares criaram regras para morder fatias cada vez maiores do dinheiro dos impostos. A novidade é a usurpação de emendas por políticos sem mandato.

O ministro Dino define a prática como “privatização do orçamento público”. O Congresso criou um mercadão de emendas, em que parlamentares passaram a se sentir livres para negociar suas cotas no varejo. No domingo, o deputado Hugo Motta reclamou dos bloqueios e acusou o Supremo de “tentar criminalizar a atividade política”. Pupilo de Cunha, o presidente da Câmara conhece bem o que defende.

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A DIREITA ESTÁ ESFARELADA

Elio Gaspari, O Globo

Na segunda metade do século passado, a esquerda brasileira foi uma das mais divididas do mundo. Integrantes famosos de suas organizações geralmente passaram por três delas. Dilma Rousseff passou por quatro: Política Operária (Polop), Comando de Libertação Nacional (Colina), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), todas clandestinas. Hoje é a direita que se esfarela. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, potencial candidato ao Planalto, resolveu ficar de fora. Restou o bolsonarismo dinástico. Ao tempo dos Bragança, D. Pedro II se dava mal com o cunhado, o Conde D’Áquila, mas a rusga ficou circunscrita ao palácio. Hoje, Michelle Bolsonaro grava vídeo alfinetando Flávio Bolsonaro, que, por sua vez, tem o apoio do pai encarcerado.

Como ensina o repórter Octavio Guedes, eles se desentendem seguindo um roteiro de novelas de televisão, em capítulos sem vestígio de interesse público.

Da velha direita sobrou pouca coisa. Ronaldo Caiado e Romeu Zema ainda não conseguiram decolar. Flávio, por sua vez, arrisca ser abatido em voo.

O resultado desse esfarelamento está refletido nas pesquisas. O governo de Lula 3.0 é reprovado por um percentual maior que o dos que o aprovam, mas ele lidera as preferências eleitorais em todas as prévias.

A direita brasileira perfilou-se diante de Jair Bolsonaro em 2018, depois do terremoto provocado pela Operação Lava-Jato. Quatro anos depois e mais de 700 mil mortos na pandemia de Covid, uma parte considerável do voto conservador dispensou-o. Preservando-o, arriscou-se. Mantendo-se alinhada depois que o Supremo Tribunal Federal o encarcerou, dobrou a aposta. Acreditar que ela continuará alinhada depois que Bolsonaro assumiu, por necessidade, a posição de chefe de uma dinastia, exige que a aposta seja triplicada, o que parece ser improvável. Resultado: segundo o Datafolha, em junho, 19% daqueles que se dizem potenciais eleitores de Flávio Bolsonaro podem ser colocados à esquerda do espectro político, e 24% estariam à direita. (Só 3% dos que preferem Bolsonaro podem ser considerados de esquerda.) A conclusão provável é de que um pedaço da direita (leia-se conservadorismo) migrou.

Isso já aconteceu depois que, em 1981, a tigrada explodiu uma bomba no Riocentro, matando o sargento que a carregava no colo. Três anos depois, a campanha das Diretas teve o apoio de luminares do conservadorismo e até mesmo de alguns signatários do Ato Institucional nº 5, em 1968.

Lula busca essa direita. Não foi à toa que ele disse à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional que nunca foi esquerdista. Foi, e sempre será, uma “metamorfose ambulante”. (Palavras suas.)

A novela da famiglia Bolsonaro reflete perplexidade e, pelo lado dos eleitores, cansaço com a polarização. O arco antipetista de 2018 formado em torno de Bolsonaro se dissolveu.

Até agora, os candidatos de uma possível terceira via não sabem o que fazer com o voto bolsonarista e já se chegou à metade de julho. Pelo andar da carruagem, o rabo continuará correndo atrás do cachorro.

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RELEMBRANDO JERÔNIMO PRADO

Há 117 anos nascia Jerônimo Medeiros Prado. Nasceu em 15 de julho de 1909, no povoado de São Vicente, distrito de Jaibaras, Sobral (CE). Em 1932 Jerônimo Prado mudou-se para Sobral com a família e dar início a uma nova fase de sua vida, começa a ser comerciante.

Em 1940 Jerônimo Prado funda em Sobral a Brasil Oiticica, era a pioneira no comércio de oleaginosas da zona norte do Ceará. Com o sucesso da empresa, Jerônimo Prado mais uma vez se aventura e investe na cultura sobralense e cria o primeiro cinema da cidade, o Cine Alvorada, que se tornou referência cultural no Ceará.

Em 1966, Jerônimo Prado é eleito prefeito de Sobral, começa então a saga da família Prado na política sobralense como exemplo de boa gestora. De 1967 a 1971, Sobral foi administrada por Jerônimo Prado. Por meio da Lei Municipal número 214, de 23 de outubro de 1968 é criada a Universidade Vale do Acaraú – UVA. A Universidade se torna referência no ensino superior e cultural em Sobral e na zona norte do estado do Ceará.

Jerônimo Medeiros Prado, o início de um legado de respeito e perseverança ao lado do povo sobralense.

*15/07/1909

+17/10/2003

Abaixo, leia reportagem de 2015 de Thiago Alves, Cantinho da Saudade, do Correio da Semana, via Blog do Artemísio da Costa

Dentre os grandes líderes que Sobral já conheceu, o ex-prefeito Jerônimo Medeiros Prado foi o último a desaparecer. Em 2002, por ocasião do transcurso dos seus 93 anos, ele prestou histórica entrevista ao companheiro Artemísio da Costa (Poucas & Boas), em que falou sobre sua vida, sua história pessoal e política. Confira abaixo.

Através das mãos da parteira dona Maria da Cruz, Jerônimo Medeiros Prado veio ao mundo no dia 15 de julho de 1909, na localidade de São Vicente - Jaibaras, distrito de Sobral (CE). Eram seus pais Maria Raimunda de Souza Aguiar e José do Nascimento Prado. Sua escolaridade foi por pouco tempo, no ano de 1920, com as professoras Joana Prado e Nazaré Ferreira da Ponte.

Já aos 16 anos conseguiu seu primeiro emprego no comércio do Sr. José Rocha, no distrito de Jordão. Em 1932 tornou-se comerciante em Sobral, exercendo essa atividade profissional por muitos anos, desfrutando de elevado conceito. Em 1940, começou suas atividades de agropecuarista, que exerceu até perto do final de seus dias.

Em 28 de novembro de 1929 casou-se com Francisca Gomes Parente Prado, filha de José Inácio Gomes Parente e Leonília Gomes Parente. Dessa união nasceram oito filhos: Zilar (falecida), José Prado (falecido), Leda, Ivone, Marlene, Zulene, Yara, Regina Coeli.

Jerônimo Prado também atuou como primeiro agente da Brasil Oiticica, no período de 1950 até o encerramento de suas atividades neste município. Foi proprietário de fornecimento de frentes produtivas no período de 1958 a 1970. No ramo da diversão, foi sócio-proprietário (com João Anastácio Dias) no Cine Alvorada, de 1964 a 1995.

Jerônimo Prado ingressou na política na extinta União Democrática Nacional (UDN). Segundo ele, desde 1950 passou a dar continuidade ao trabalho do seu estimado amigo e chefe, Dr. José Saboya de Albuquerque.

Em 1963 foi candidato a prefeito de Sobral, mas não foi bem sucedido, apesar de ter obtido boa votação. Em 1966 candidatou-se novamente, sendo, dessa vez, eleito com expressiva votação, vencendo Joaquim Barreto Lima.

Contando com seu fiel aliado, Pe. José Palhano de Saboia, Jerônimo administrou a Sobral no período de 1967 a 1970.  Recordava que contou com grandes colaboradores, tais como: Dr. Luciano Arruda Coelho, Procurador do Município; Pe. Moésia Nogueira Borges, secretário de Educação; Engenheiro Washington, responsável pelo setor de Edificações, e com o Cônego Francisco Sadoc de Araújo, que foi primeiro Reitor da Fundação Universidade Vale do Acaraú (UVA), atualmente Universidade Estadual Vale do Acaraú.

Dentre suas principais realizações, Jerônimo Prado dava destaque para as seguintes obras: Construção do Estádio Plácido Aderaldo Castelo; construção do Centro Social Urbano (CSU); construção da Avenida do Estudante (hoje Dr. Guarany); construção e implantação do sistema de abastecimento de água da adutora de Jaibaras; Estação de tratamento de água; construção de 500 casas populares no bairro Sinhá Saboia; construção de dezenas de escolas; construção e reformas de praças. Mas garante que a principal foi a criação da hoje Universidade (UVA), com a imprescindível colaboração do Côn. Sadoc de Araújo e do Dr. Luciano Arruda, através da Lei Municipal nº 215, de 23 de outubro de 1968.  Também enalteceu a valorosa contribuição de Dom Walfrido Teixeira Vieira, bispo da Diocese de Sobral à época, que cedeu o prédio e as instalações do antigo Seminário da Betânia. Na entrevista fez questão de destacar um desses seus importantes colaboradores: “Sobre a UVA, o Sadoc foi tudo. Mesmo com poucos recursos ele fez tudo”.

Jerônimo Prado falava com orgulho do sucesso obtido como prefeito de Sobral. Afirmava que todos os seus projetos foram muito bem aceitos e as contas todas pagas. “Nunca houve uma denúncia. Durante a minha administração nunca houve injustiça para com os municípios”, dizia sempre. Citava, também, que política era uma coisa muito difícil: “O adversário não mede o que vai dizer; ele quer é ofender. Mas eu nunca fiz política com ofensas”.  O ex-prefeito relembrava que o Estado ajudava apenas com uma pequena verba para a Educação e que a maioria das obras era feita com recursos da prefeitura.

Sobre suas alegrias na vida, o ex-prefeito afirmava com convicção que uma foi ter saído da política sem nunca ter recebido nenhuma vantagem, e com seu nome respeitado: “Saí da política com o nome intacto, limpo. Não saí com ladrão”. Quando lhe foi indagado sobre a maior tristeza, respondeu, em lágrimas: “A morte do meu filho”. Referia-se ao também ex-prefeito José Parente Prado, falecido em Sobral, aos 66 anos, em 26 de maio de 1999.

Apesar da pouca escolaridade, Jerônimo Prado era conhecido por humildade, sua inteligência e perspicácia.  Era admirado pela maneira peculiar de ouvir mais para aprender sempre; falar pouco para errar menos e pensar muito antes de tomar uma decisão importante. Em 1993, ano da entrevista, ele já falava: “Antes se trabalhava muito para promover a sociedade e o Estado; hoje está tudo diferente: só se vê corrupção. Mas eu desejo ao povo de Sobral que seja muito feliz, sempre na nossa religião”.

Sobre ter vida longa, chegar aos 93 anos, em 2002, comentava: “Fazer 93 anos faz me sentir compensado porque até essa data, graças a Deus, não cheguei a cometer nenhuma indignidade”.

Jerônimo Medeiros Prado faleceu em Sobral, aos 94 anos, no dia 17 de outubro de 2003, acha-se sepultado no cemitério São José desta cidade. É lembrado em instituições que levam seu nome na sede e distritos e com um busto na (UVA). Jerônimo Medeiros Prado ainda dá nome a uma rua (bairro Dom José), a uma avenida (bairro Cidade Pedro Mendes Carneiro) e a um bairro, onde fica o condomínio Village Betânia, todos na cidade de Sobral.

Por Thiago Alves, Cantinho da Saudade, do Correio da Semana, via Blog do Artemísio da Costa

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terça-feira, 14 de julho de 2026

UM NOVO VIÉS BOLSONARISTA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Se Jair Bolsonaro está com Flávio, problema dele; Michelle tem projeto, é ‘imparável’ e boa de briga

A dois meses e meio das eleições, impressiona a todos, e deixa a direita arrepiada, o racha profundo no coração do bolsonarismo, com lances de baixo nível

O único motivo da carta manuscrita e pública de Jair Bolsonaro foi desautorizar sua mulher, Michelle, e tomar partido do filho 01, Flávio, a quem chamou de “meu candidato e meu porta-voz”. Após semanas de dúvidas, o ex-presidente foi claro: está com Flávio, contra Michelle.

Imagine-se o ambiente numa casa em que o patriarca está doente, preso, de tornozeleira, e sua mulher rompeu com seus filhos e declarou independência política. E mais: uma casa que, durante 90 dias, vai ficar de portas fechadas para o primogênito, por decisão de Alexandre de Moraes, do STF.

Afora as questões pessoais e familiares, o que de fato interessa são os efeitos políticos. A dois meses e meio das eleições, impressiona todos, e deixa a direita arrepiada, o racha profundo no coração do bolsonarismo, com lances de baixo nível.

Após o vídeo em que se diz maltratada, desrespeitada, humilhada e “tratada como idiota” por Flávio, o que já foi um míssil contra a candidatura dele, Michelle mostra, com palavras e atos, que não ficou nisso. Com script pronto, que libera aos poucos, ela reúne mais munição e não tem limites nessa guerra.

Dos States, o 03, Eduardo Bolsonaro, e o blogueiro Paulo Figueiredo dividem suas energias entre jogar Trump contra o Brasil e empurrar as mulheres contra Flávio. O que esperavam atacando Michelle e suas aliadas pelas redes sociais? Votos femininos?

Depois de Michelle renunciar à presidência do PL Mulher, a senadora Damares Alves (DF), sua grande amiga e aliada, cai fora da campanha e da equipe sobre direitos humanos e assistência social do programa de governo de Flávio. Ela disse que continua com Flávio, mas deixou escapar um “ainda”. Ainda?

Michelle e Damares estão unidas no grupo “Imparáveis”, um novo viés bolsonarista, que mantém o sobrenome mágico, mas sem a confusão dos filhos e a fragilidade política das ex-mulheres do ex-presidente.

Rogéria Bolsonaro, mãe do 01, 02 e 03, perdeu uma eleição para vereadora, depois se lançou à Assembleia Legislativa e desistiu e agora compõe a polêmica chapa majoritária do PL no Rio, como suplente de senador.

Ana Cristina Vale, mãe do vereador Jair Renan, o 04, perdeu três eleições, inclusive em 2022, quando assumiu o nome “Cristina Bolsonaro” e comprou uma bela mansão no bairro mais rico de Brasília, para ter domicílio eleitoral no DF.

Se Rogéria e Ana Cristina não foram longe na política, Michelle se declara “imparável”, é boa de briga e traz para a direita uma velha bandeira da esquerda, contra misoginia e machismo. Além de reacender a pergunta: se Bolsonaro era “outsider” e crítico da política, por que a família inteira disputa mandato?

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EMENDA VALDEMAR É FUNDO ELEITORAL PARALELO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

É claro que uma ferramenta legislativa disparadora de bilhões de reais – aplicada de maneira obscura e autoritária – chegaria às mãos de poderosos sem mandato parlamentar. Desenvolvimento natural da cultura de fachadas e laranjas que norteia a atividade pública entre nós.

Falo do orçamento secreto. Instrumento obscuro, que, assaltando o Orçamento da União, ergue ode à falta de transparência como meio de ação. Instrumento também autoritário, porque a favor do desequilíbrio de forças em anos eleitorais. Falo de um Valdemar Costa Neto. É claro que essa ferramenta – com potencial para ser fundo eleitoral paralelo – chegaria a Valdemar, proprietário de partido, proprietário das lideranças partidárias de seu partido, senhor dos servidores legislativos de seu partido e sócio dos donos do Congresso.

O cronista, então, lembra que Hugo Motta tentou emplacar nova categoria de emenda. Seria a “emenda de líder partidário”, destinada, na prática, a dar aos valdemares controle sobre emendas parlamentares. O troço não prosperaria. Não formalmente. Prosperaria por fora, como pacto entre partidos no Congresso. Está vigente. O “puxadinho Valdemar”.

Chegamos à dupla, talvez tripla, camada de proteção para que poderosos não eleitos possam decidir, manipulando prerrogativa da representação política, o paradeiro de porções crescentes do Orçamento com base em seus interesses privados. Chegamos ao momento em que denunciar essa transgressão será chamado de “criminalização da política”. Por Motta, cujo Estado está entre os maiores beneficiados pelas “emendas de liderança partidária”.

Chegamos a Valdemar e ao momento em que presidentes de comissões legislativas e líderes partidários no Parlamento, afinal laranjas, têm os mandatos instrumentalizados e servem de biombos para que os donos de partidos – os donos das lideranças – possam se apropriar do destino de emendas. Fundo eleitoral paralelo. A verdadeira criminalização da política.

O orçamento secreto, perversão das emendas parlamentares que depreda o princípio da eficiência na administração pública, transitou – evoluiu – bem do governo Bolsonaro, quando teve origem, ao governo Lula, no curso do qual se sofisticaria, hoje baseado e multiplicando camadas de disfarce, variados os laranjas, sobre as emendas de comissão.

A partir das emendas de comissão, abrigo forte, a criatividade seria ilimitada. Presidente

de comissão, líder partidário – as fachadas eleitas, dupla fachada de submissão, para que um Valdemar, sem mandato, pudesse ter mandato sobre emendas parlamentares.

Governo vai, governo vem – e os donos do Congresso continuam os mesmos. Aqueles, poucos liras, que apadrinham – autorizam, abençoam – os patronos das emendas, os vips do orçamento secreto. Não houve 8 de janeiro capaz de abalar essa verdadeira força de permanência, direito adquirido dos parlamentares. O orçamento secreto é estável. Estáveis também, os valdemares. •

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VERGONHA E PREJUÍZO

Jorge J. Okubaro, O Estado de S. Paulo

É preciso agir com sensatez para reduzir os estragos que um político em dificuldades eleitorais é capaz de produzir

Coordenador em São Paulo da ainda incerta campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), o governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) tem procurado manter distância adequada da disputa pelo Palácio do Planalto. Carioca que mal sabia seu local de votação em 2022, quando foi eleito para o cargo, Tarcísio, como informou o Estadão, tenta evitar que sua imagem seja turvada pelas crises que assombram Flávio Bolsonaro.

Nisso o governador paulista está certo. Aproximar-se demasiadamente do filho do expresidente da República, atualmente cumprindo pena em prisão domiciliar, pode prejudicar a pretensão política de Tarcísio, candidato à reeleição. Presunçoso, arrogante e apontado como envolvido em nebulosas transações financeiras com o dono do extinto Banco Master, Flávio Bolsonaro parece não se cansar, por palavras e atos por ele mesmo decididos, de demonstrar como é extenso seu despreparo e como é incontrolável seu desejo de bajular Donald Trump.

Sua vexaminosa e reveladora participação – ao lado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, cassado pela Câmara dos Deputados, condenado por coação a autoridades do Supremo Tribunal Federal (STF) e refugiado nos Estados Unidos – em audiência realizada na semana passada em Washington pelo Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos (USTR) é apenas o exemplo mais recente. Houve muitos outros e decerto muitos haverá.

Em julho do ano passado, os dois irmãos Bolsonaro comemoraram a decisão de Trump de impor inicialmente uma sobretaxa de 50% sobre os produtos brasileiros, o que dificultaria de maneira aguda a presença de bens nacionais no mercado norte-americano. Na semana passada, o précandidato presidencial pelo PL tentou tardia e parcialmente consertar o desserviço que havia prestado à economia brasileira há um ano, quando agradeceu a Trump pela imposição da sobretaxa. Na audiência da USTR, Flávio Bolsonaro disse que esse seria “o pior momento possível para agir” e pediu o adiamento da imposição de novas sobretaxas a produtos brasileiros.

O senador não o fez para defender interesses brasileiros. Fê-lo por interesse eleitoral. No seu entender, haveria desgastes à sua campanha, pela inevitável associação das tarifas de Trump ao papel que ele e seu irmão tiveram anteriormente na decisão da Casa Branca.

Estragos econômicos associados à desastrada atuação dos dois irmãos em Washington desde o início do governo Trump, porém, já são registrados. Pesquisa divulgada pela Câmara Americana de Comércio para o Brasil (Amcham) mostra que, em razão da sobretaxa trumpista, a participação dos Estados Unidos no comércio exterior brasileiro, embora ainda expressiva, desceu ao seu menor nível em dez anos.

Em média, desde 1997, a participação norte-americana nas exportações brasileiras no primeiro semestre tem ficado acima de 10%, o que mantém os Estados Unidos como o segundo maior parceiro comercial do Brasil. No período, a maior fatia absorvida pelo mercado norte-americano foi a de 13,7% do total das exportações brasileiras, registrada em 2019. No primeiro semestre de 2026, a participação caiu para 9,4%. No primeiro semestre de 2025, antes da vigência das sobretaxas trumpistas, tinha sido de 12,1%.

Relatório da Secretaria de Comércio Exterior do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços mostra que as exportações para os Estados Unidos diminuíram 13,0% entre o primeiro semestre de 2025 e igual período deste ano. O presidente da Amcham, Abrão Neto, diz que o comércio bilateral “atravessa um período de forte pressão”, o que reforça a necessidade de negociações entre os dois países, para se evitar a aplicação de novas tarifas decorrentes de investigações com base na Seção 301 da lei de comércio de 1974. Trata-se de uma medida criada pelo Congresso norte-americano para permitir a investigação de países cujas práticas comerciais sejam consideradas prejudiciais ao comércio ou a empresas dos Estados Unidos.

Neste caso, ao contrário das encenações eleitorais de Flávio Bolsonaro, trata-se de coisa séria. O prazo para a conclusão das investigações da Seção 301 termina amanhã. Reuniões técnicas entre representantes dos governos brasileiro e norte-americano sucederam-se nos últimos dias. Mas, como ressalvou há dias o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosas, questões políticas foram evitadas nas negociações.

É preciso agir com sensatez para reduzir os estragos que um político em dificuldades eleitorais é capaz de produzir. Como bem observou o Estadão em editorial (Flávio Bolsonaro desserve o Brasil, 9/7, A3), “Flávio Bolsonaro envergonhou os brasileiros” ao usar os poucos minutos que tinha (na audiência da USTR) para atacar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e para sugerir que os Estados Unidos esperem a eleição para negociar com o novo presidente, que seria ele próprio. A vergonha não pode converter-se em prejuízo econômico para o País.

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IDEOLOGIA E RELIGIÃO NÃO EVITAM CORRUPÇÃO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

EUA e Israel planejavam instalar Mahmoud Ahmadinejad no poder no Irã

Ex-presidente linha-dura estava na lista de pagamentos do Mossad, segundo NYT

Ideologia e religião imunizam seus portadores contra a corrupção? Até existem indivíduos tão dedicados a uma causa ou ideia –pense num Savanarola, por exemplo— que seu fanatismo os blinda de tentações terrenas. Mas a literatura mostra que, no agregado, nenhuma das duas funciona como barreira de proteção. Ao contrário até, é nos países mais religiosos, que são também os mais pobres e institucionalmente frágeis, que encontraremos maiores taxas de corrupção.

Um caso ainda em desenvolvimento ilustra bem essa história. Trump e Netanyahu erraram feio ao atacar o Irã, mas seu plano inicial era menos desvairado do que pode parecer. Eles tinham preparado um esquema de substituição de liderança que seguia o modelo da ação dos EUA na Venezuela.

A crer numa série de reportagens do "New York Times", a Delcy Rodríguez persa seria ninguém menos do que o ex-presidente Mahmoud Ahmadinejad (2005-13) que se revelou uma liderança particularmente linha-dura, acelerando o programa nuclear do país, reprimindo dissidentes com violência e exibindo uma retórica fortemente antiocidental. Ele prometia eliminar o Estado judeu. Segundo o jornal, Ahmadinejad estava na lista de pagamentos do Mossad, ao qual fornecia informações. A ideia era instalá-lo no poder depois do assassinato do aiatolá Ali Khamenei. Uma série de falhas, porém, fez com que o plano desandasse. Ahmadinejad estaria hoje em prisão domiciliar no Irã.

A ideologia não evitou que o ex-presidente iraniano se aproximasse dos israelenses. A combinação de dinheiro com a perspectiva de reaver o poder foi uma tentação grande demais.

Não é um caso isolado. Os Wittgenstein, família de origem judaica que detinha uma das maiores fortunas da Europa no entre guerras, gastaram a maior parte de seu patrimônio subornando nazistas para salvar a vida de duas irmãs que haviam ficado na Áustria. O decreto que as isentava de ir para os campos de extermínio foi assinado pelo próprio Führer. Até Hitler abrandou seu antissemitismo por algumas toneladas de ouro.

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FLÁVIO DINO PUXA UM NOVO FIO DE FRAUDES NA MEADA DAS EMENDAS

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Dirigentes dos partidos deixaram papel administrativo para avançar sobre atribuições legislativas

Quem controla a distribuição das verbas públicas tem poder de mando sobre deputados e senadores

descoberta da Polícia Federal sobre a captura de emendas ao Orçamento em proveito de Valdemar Costa Neto vai além de prejuízo que o presidente do PL possa causar à candidatura presidencial do partido, na figura de Flávio Bolsonaro.

Diz respeito, sobretudo, ao poder dos dirigentes partidários em relação à distribuição de verbas públicas. Fala-se em uso "irregular", mas o que se tem nos apontamentos da PF é o relato de uma ilegalidade das mais graves, que traduz o alcance do controle dos comandos dos partidos sobre as atribuições do Legislativo.

O mando de fora do campo regulamentar evidenciou-se também na decisão do ministro Flávio Dino sobre o ex-deputado Eduardo Cunha (Republicanos-MG) que, assim como Valdemar, teve bloqueados seus milhões em contas e bens adquiridos com dinheiro destinado a emendas de uso exclusivo —e atualmente abusivo— de parlamentares.

A influência dos burocratas de partidos aumentou muito desde que as campanhas eleitorais passaram a ser financiadas por dinheiro público. Recursos que neste ano vão à casa dos R$ 6 bilhões se somados os fundos partidário e eleitoral.

Verbas controladas pelas cúpulas das legendas, que deixaram o papel de estrutura administrativa para assumir a primazia exclusiva na distribuição do dinheiro para as campanhas de deputados e senadores.

Com isso, dirigentes como Valdemar Costa Neto concentram um poder enorme sobre parlamentares e funcionários de gabinetes. Ingerência que se estende a Eduardo Cunha, cuja atuação, segundo a polícia, teria autorização do presidente da Câmara, Hugo Motta.

Esse é um dos aspectos das exorbitâncias decorrentes do financiamento usado com total desrespeito ao público. Não será surpresa se o ministro do Supremo que há dois anos —desde agosto de 2024— está no encalço dos desvios de emendas, decidir estender as investigações às direções dos demais partidos com representação no Congresso. Ali Flávio Dino deve achar farto material para encorpar a empreitada.

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MORAES PROÍBE BOLSONARO DE VER O FILHO, E FLÁVIO SE APROXIMA DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O ministro do STF criou um fato político que reforça a narrativa de perseguição construída pelo bolsonarismo desde a condenação do ex-presidente

A decisão do ministro Alexandre de Moraes de suspender por 90 dias as visitas do senador Flávio Bolsonaro ao ex-presidente Jair Bolsonaro, na percepção dos estrategistas de campanha, mais favorece do que prejudica o parlamentar na disputa pela Presidência da República, num momento em que o candidato do PL se beneficia da carta de seu pai defendendo sua candidatura.

Na decisão, o ministro entendeu que o senador utilizou o direito de visita para burlar a proibição imposta ao pai de utilizar redes sociais por intermédio de terceiros, porém a medida interfere diretamente na dinâmica da campanha presidencial e pode alterar a disputa pelos eleitores independentes. Moraes criou um fato político que reforça a narrativa de perseguição construída pelo bolsonarismo desde a condenação do ex-presidente. Por isso, favorece a candidatura de Flávio, no momento de interrupção de sua trajetória de queda.

Nas últimas semanas, a campanha de Flávio enfrentou seu momento mais delicado. A crise com ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro, marcada por troca de acusações nas redes sociais e sua renúncia à Presidência do PL Mulher, expôs profunda divisão no coração do bolsonarismo: a família do ex-presidente da República. A divulgação da carta manuscrita de Jair Bolsonaro, lida pelo filho durante transmissão nas redes sociais, reunifica a militância conservadora e reafirmar Flávio como seu herdeiro político.

Em resposta, Moraes proibiu novas visitas do senador durante 90 dias, determinou que a defesa esclareça se Bolsonaro tinha conhecimento da divulgação da carta e encaminhou ao Ministério Público Eleitoral a apuração de eventual propaganda eleitoral antecipada. Sob o ponto de vista jurídico, a decisão é coerente com a interpretação de que a visita foi utilizada para produzir material político em desacordo com as restrições impostas ao ex-presidente.

Entretanto, sob a ótica eleitoral, seus efeitos podem ser exatamente opostos àqueles pretendidos. Fornece ao bolsonarismo a imagem de um filho impedido pela Justiça de visitar o pai em prisão domiciliar. Esse tipo de episódio costuma produzir mobilização emocional entre os eleitores já identificados com uma liderança política e, sobretudo, reduzir resistências entre simpatizantes menos engajados. Mesmo no STF, alguns ministros avaliam que Moraes deu um drible a mais.

A pesquisa BTG Pactual/Nexus, divulgada nesta segunda-feira, reforça essa percepção. Lula lidera a disputa presidencial, mas sua vantagem voltou a diminuir. No principal cenário estimulado de primeiro turno, o presidente aparece com 40% das intenções de voto contra 34% de Flávio Bolsonaro. Na pesquisa espontânea, Lula registra 35%, enquanto o senador alcança 24%. Entre março e junho, Flávio havia caído de 38% para 33%, enquanto Lula permanecia entre 41% e 42%. Agora, o senador volta a crescer para 34%, interrompendo a trajetória de queda, ao mesmo tempo em que Lula recua para 40%.

Pontos fortes e fracos

Mesmo dentro da margem de erro de dois pontos percentuais, esses números encerram uma tendência que favorecia muito o presidente Lula. Os dados segmentados mostram a força e a vulnerabilidade do presidente, que mantém enorme vantagem entre as mulheres, de 45% a 30%, uma diferença de 15 pontos percentuais.

Entre os homens, entretanto, ocorre um empate invertido: Flávio registra 38%, contra 34% do presidente. O petista continua dominante entre os idosos, obtendo 47% entre os eleitores com mais de 60 anos, enquanto Flávio alcança apenas 28%. Também lidera amplamente entre os brasileiros com ensino fundamental e entre os beneficiários do Bolsa Família, grupo no qual abre impressionantes 33 pontos de vantagem: 58% contra apenas 25% do senador. Regionalmente, o Nordeste continua sendo seu principal reduto, concentrando 30% dos chamados “lulistas convictos”.

Flávio, por sua vez, consolida sua força entre os homens, os evangélicos e parte significativa da classe média. Entre os evangélicos, lidera por expressivos 45% a 29%, uma diferença de 16 pontos percentuais. Também mantém vantagem entre os eleitores de ensino médio e apresenta forte desempenho entre os bolsonaristas históricos. Nada menos que 68% declaram voto no senador, enquanto apenas 16% migram para Lula. A transferência de capital político do ex-presidente para o filho permanece elevada: entre os eleitores que votaram em Jair Bolsonaro no segundo turno de 2022, 72% continuam apoiando Flávio.

Lula sofre com o desgaste natural de quem governa. Sua aprovação encontra-se rigorosamente empatada com a desaprovação, ambas em 47%, enquanto a avaliação negativa supera a positiva. Além disso, sua rejeição permanece elevada: 46% afirmam que não votariam nele de jeito nenhum. Flávio, porém, enfrenta rejeição ainda maior, de 50%, o que limita seu potencial de crescimento entre os eleitores moderados. Por ora, nem Lula nem Flávio têm margem confortável para ampliar sua base convencendo os adversários; a disputa será decidida principalmente pelos segmentos independentes. Quatro em cada 10 brasileiros não estão vinculados a um dos polo, são sensíveis aos acontecimentos da campanha.

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A ALMA PERDIDA NA COPA

Artigo de Fernando Gabeira

Um desastre nem sempre tem uma causa única. A Argentina não chorará por nós, seu grande vizinho e rival

Quando era menino, jogávamos futebol num campo improvisado. Um dia, chegou um circo perto do campo. Um ator veio nos ver jogar. Chamava-se Raul e trabalhava todas as noites. O circo encenava um dramalhão ao som de uma música de Vicente Celestino:

Disse um campônio à sua amada/ Minha idolatrada, diga o que quer. A amada pedia o coração da mãe do campônio. E, todas as noites, Raul aparecia com o coração num prato. Fora disso, era um bom cara.

Um dia, depois do jogo, ele disse para o nosso time:

— Vocês jogaram com alma. Aprendam isto: tudo o que fizerem na vida, façam com alma.

Lembrei-me dele vendo o jogo da Argentina. Eles perdiam por 2 a 0, faltavam pouco menos de 20 minutos. Viraram para 3 a 2 e ainda choraram ao comemorar a vitória. Isso é alma.

Ela não aparece apenas nas vitórias. O time de Cabo Verde tem alma. Vem de um arquipélago de 530 mil habitantes, compete pela primeira vez, empata com uma campeã do mundo, a Espanha; dá um tremendo trabalho à outra campeã, a Argentina.

O nome do goleiro, Vozinha, já é um indício de emoção. Quando o lateral faz um gol, dispensa abraços, corre para a arquibancada e dá um beijo na amada.

Pensando no Brasil, pergunto-me onde perdemos a nossa alma. Foi na tática passiva do técnico? Foi na declaração do craque de que deveria estar de férias, mas era obrigado a jogar o Mundial de Clubes? Ou foi nessa tóxica mistura de cartolas e ministros do STF?

Um desastre nem sempre tem uma causa única. A Argentina não chorará por nós, seu grande vizinho e rival. O Brasil virou apenas uma lembrança. Temos de sair em busca da alma perdida. Lamento também por Bangladesh: todos aqueles olhos brilhando sem perceber que o Brasil que admiram não existe mais. Somos apenas um pedaço de história no futebol e um país do futuro que jamais chegou.

É muito arriscado estabelecer uma relação entre o futebol e o país. A Noruega foi mais longe que a Suécia. Isso significa alguma diferença nacional? Não creio. Dentro dos seus limites, ambos vão bem e orgulham seus habitantes.

O Brasil vive um momento especial. Há um escândalo no ar, sem as consequências que teria em outros países. O embate político não promete um futuro desejável.

Aqui na nossa província, quase todo dia um político é preso, uma nova roubalheira é descoberta. Sentimos que somos governados por bandidos e, o que é pior, estamos naturalizando essa aberração. Da mesma forma que convivemos em silêncio com a ocupação armada do território urbano pelo tráfico e pela milícia.

Pode ser que estejamos perdendo a alma, lentamente, fora do campo também. Nesse caso, o trabalho para recuperá-la é muito amplo, transcende a formação de um time competitivo.

É algo mais parecido com a lição do ator Raul. Não se trata apenas de fazer as coisas com alma, mas de ter orgulho de ser brasileiro. Não creio que seja tão difícil assim. Vivemos tempos complicados, com o avanço de tendências autoritárias, mas temos tudo para achar um caminho, mesmo nessa loucura do mundo. Mas, antes, temos de voltar a ter alma.

Artigo publicado no jornal O Globo em 14 / 07 / 2026

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AVATAR

Merval Pereira, O Globo

Os Bolsonaros estão conseguindo manter acesa a campanha eleitoral para a Presidência da República em torno de seus problemas

Em política há uma máxima que diz que o importante é estar no centro da discussão, não necessariamente vencê-la. É uma vertente maximizada daquela outra máxima: “falem mal, mas falem de mim”. Menos glamurosa que a de Ferreira Gullar:

— Não quero ter razão, quero é ser feliz.

É mais que isso. É controlar o debate político, como fazem os grandes armadores dos times de futebol, que ditam o ritmo do jogo, aceleram ou desaceleram as jogadas de acordo com o interesse do seu time. Pois os Bolsonaros estão controlando a campanha eleitoral para a Presidência da República, conseguindo mantê-la acesa em torno de seus problemas, de suas questões, transformando brigas familiares em tema de debate político que inunda as redes sociais e as conforma em nichos da direita, dando pouco espaço para a esquerda se expandir.

Pode ser que as próximas pesquisas eleitorais mostrem que a queda do senador Flávio Bolsonaro é inexorável, e que a estratégia não deu certo. Mas, até agora, está funcionando, ele aparece como competitivo no segundo turno. À falta do carisma do personagem principal, o ex-presidente Jair Bolsonaro, seu fantoche, vai se movendo à sua sombra, passando ao eleitor uma imagem política frágil que, paradoxalmente, fortalece o significado final, que é a volta ao poder do ex-presidente por meio de seu avatar.

Vejamos o caso da carta que Jair escreveu aos eleitores reafirmando que o filho Flávio é o seu único representante na corrida presidencial. Foi um golpe astucioso, pois não quebrou as regras da prisão preventiva literalmente, embora as tenha quebrado efetivamente. O ministro Alexandre Moraes saiu-se bem da armadilha. Se tivesse devolvido Bolsonaro pai para a Papuda, corria o risco de ver sua saúde piorar e tornar-se o “assassino espiritual” do líder popular da direita brasileira, com repercussão internacional. Tanto que preferiu punir o candidato, privando-o dos conselhos do pai por 90 dias. Teoricamente, terá de disputar debates eleitorais e enfrentar as urnas eletrônicas no primeiro turno sem a orientação direta do pai. Claro que receberá instruções por interpostas pessoas, mas perderá o calor humano do apoio de seu mentor.

O que está em disputa hoje, no entanto, é diferente do que aconteceu em 2018, quando Fernando Haddad entrou na última hora na disputa presidencial no lugar de Lula. Até mesmo máscaras de Lula foram fabricadas para a derradeira tentativa de ligar o nome de Haddad à pessoa de Lula. Já o senador Flávio Bolsonaro não precisa disso. Tem o sobrenome a sustentá-lo, uma segunda pele a lembrar ao eleitor que quem está ali é o pai, não o candidato. Essa duplicidade faz com que fique mais restrita a possibilidade de ampliar o eleitorado para o centro, pois a imagem de Flávio como um “Bolsonaro vacinado” vai se esvaindo com o passar do tempo, e fica a do pai, que sustenta a votação da direita a favor do filho.

Assim como lutar contra Lula já foi uma inutilidade, diante da imagem icônica que já teve, hoje tentar destruir Flávio parece inútil diante da marca Bolsonaro impressa em sua testa. Votar em Flávio vai muito além de votar na extrema direita, é votar pela anistia de Jair, é apoiar sua volta à política para manipular o filho; assim como Lula manipularia Dilma se tivesse sido nomeado chefe do Gabinete Civil, manobra que o ministro Gilmar Mendes inviabilizou na época em que ainda era lavajatista.

O presidente Lula envia sinais contraditórios para o eleitorado que decidirá as eleições, segundo os analistas de pesquisas. Pretenderia reeditar o candidato da união nacional, com um programa econômico mais equilibrado, que permita ao país sair desse crescimento medíocre de 2% ao ano. Já o avatar Flávio procura um nome de peso para ser o seu “posto Ipiranga”, mas está difícil encontrar quem se disponha a isso. Esses dois movimentos podem ser os definitivos para arrebanhar votos no centro democrático.

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LONGEVIDADE NÃO PODE SER OLHADA SÓ COM LENTES FISCALISTAS

Pedro Cafardo, Valor Econômico

Transição demográfica implica custos, mas também pode gerar riqueza

Acabou a Copa do Mundo para o Brasil e o próximo grande evento aqui, muito mais importante, são as eleições de outubro. Os temas em debate destacam segurança, soberania, inflação, educação e corrupção. Nenhum dos pré-candidatos, porém, disse até agora uma única palavra sobre como pretende lidar com uma questão crucial: o envelhecimento da população brasileira.

No ano 2000, o número de pessoas com mais de 60 anos no país, 15 milhões, representava 8,7% da população. Atualmente, os idosos são 33 milhões, 15% da população - a ONU considera uma sociedade envelhecida quando esse índice ultrapassa 14%.

O tema é importante e não pode ser olhado simplesmente através de lentes fiscalistas, tendência dominante no país. Foi às livrarias no mês passado a obra “A (difícil) decisão de envelhecer”, do jornalista e pesquisador Jorge Félix, mestre em economia política e doutor em ciências sociais. É um livro provocativo, que merece ser lido por pré-candidatos sérios e seus assessores, que aborda o tema a partir de aspectos econômicos, políticos, sociais, éticos, filosóficos e culturais.

Jorge Félix reuniu e atualizou artigos que publicou nos últimos anos, inclusive no Valor, para mostrar a relevância de um tema que está sendo relegado a um segundo plano no país. Ele observa que o interesse das empresas de tecnologia no envelhecimento é uma das maiores tendências de negócios no mundo. Cita como exemplo a recente aquisição da Nest Labs Inc., empresa de automação residencial, pelo Google, por US$ 3,2 bilhões. A Nest indica a entrada do Google no bilionário mercado da teleassistência, espécie de coração da economia da longevidade.

A teleassistência, diz o autor, significa para a economia do século XXI o que a indústria automobilística significou para o século XX. A robótica no mundo tem hoje como maior mercado o envelhecimento. Modelos de robôs móveis assistentes como Care-O (Alemanha), Romeo (França), PR2 (Califórnia), Robear (Japão) e Giraff Plus (Itália) são os novos produtos de exportação do planeta, como foram os automóveis no século passado.

É preciso enxergar o fenômeno do envelhecimento muito além da Previdência, em que o tema está erroneamente confinado, sempre ampliado pelas lentes do terrorismo fiscal. Um exemplo marcante é o do Chile, onde o olhar fiscalista e neoliberal dos anos 1980, sob a ditadura de Augusto Pinochet e com apoio da Escola de Chicago, privatizou a Previdência. Três décadas depois, houve um desastre social: 1,2 milhão de pessoas estavam sem Previdência, 8% da população à míngua na velhice e o Estado teve que desprivatizar o setor em 2008, no governo de Michele Bachelet. Ainda hoje, o Chile ocupa o segundo lugar no ranking da desigualdade entre os 35 países-membros da OCDE.

Isso não quer dizer que se deva ignorar o problema fiscal. O Estado terá de rever sua política para ter uma arrecadação muito mais eficiente, progressiva e equânime. Em português claro, adotar um sistema tributário que taxe menos os pobres e mais os ricos, o contrário do que ocorre atualmente, não apenas no Brasil: trata-se de um desafio global.

Nas palavras do autor, o mundo vive hoje duas transformações radicais: a mudança climática, com eventos ambientais extremos, e a mudança demográfica, com eventos sociais extremos. E o país precisa estar preparado para enfrentar as duas.

A transição demográfica, se por um lado implica custos, por outro, pode gerar riqueza. Na União Europeia, o investimento em educação e pesquisa na área do envelhecimento já aparece como prioridade nos documentos oficiais. O objetivo é dominar o setor da gerontecnologia, a tecnologia para cuidados de pessoas idosas, com produtos de alto valor agregado e um filão de reindustrialização a partir da nova cesta de consumo das famílias.

O alerta do livro, além de ressaltar a óbvia relevância social do tema, é para a importância dessa economia da longevidade. Enquanto o envelhecimento passa por aqui despercebido, a Europa subsidia fortemente a pesquisa e o desenvolvimento de suas empresas e setores estratégicos. O risco, escreve o pesquisador, é o Brasil descobrir a economia da longevidade muito tarde, quando suas empresas já estarão velhas para competir no mercado global.

Félix faz uma crítica severa ao subdimensionamento do tema por grande parte dos economistas, que estariam viciados em uma premissa falsa: como o país terá menos crianças, por causa da queda da taxa de fecundidade, é injustificável a manutenção do investimento com recursos orçamentários nos níveis atuais. Outra premissa, desumana, é que o investimento em ensino e alfabetização de adultos deve ser abandonado porque tem baixa taxa de retorno. As duas conclusões, observa, são estritamente fiscalistas e cometem o erro vulgar de posicionar a atuação do Estado parelha à da iniciativa privada, o que leva a educação a ser submetida a um ROI (Return on Investment).

As duas assertivas, segundo Félix, formam um consenso entre economistas de várias escolas. Porém, não é porque os economistas concordam que eles estão certos, diz o autor, citando Barry Eichengreen, historiador econômico americano, professor em Berkeley.

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NOVA PRAÇA ONZE É PENSADA PARA TURISTAS, NÃO PARA MORADORES

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Projeto de revitalização privilegia a especulação imobiliária e atinge toda a cidade

Atual prefeito, Eduardo Cavaliere segue os passos de seu tutor, o xará Paes

A maquete é linda. Modelo de uma cidade-evento, de uma cidade pensada para o turismo, não para seus moradores. O prefeito do Rio, Eduardo Cavaliere, assinou a lei que autoriza o Projeto Praça Onze Maravilha, com mudanças numa área de 2,5 milhões de metros quadrados próxima ao centro da cidade.

Com prazo de conclusão em 2032, o plano prevê o investimento de R$ 1,75 bilhão, "100% privado", por meio de concessões, PPPs e de instrumentos urbanísticos que privilegiam a especulação imobiliária, com influência em todos os bairros da capital.

Ali fica o Sambódromo, atração carnavalesca cujas calçadas do entorno serão ampliadas após a demolição do viaduto 31 de Março. Inaugurado nos anos 1970, no regime militar, o elevado destruiu o machadiano Catumbi, transformado de residencial em bairro de passagem e —como o vizinho Rio Comprido, onde se construiu o não menos danoso viaduto Paulo de Frontin— esquecido por décadas pelo poder público.

O abandono sistemático dos dois bairros permitiu e acelerou o crescimento de favelas nos morros da região, depois invadidas e dominadas pelo tráfico de drogas. Favelas que desaparecem, como se não existissem, nas maquetes da praça 11 maravilhosa.

O que consta no texto da lei é a desapropriação de imóveis, incluindo parte do casario antigo, substituído por conjuntos habitacionais; 37 mil unidades "tamanho ovo" no prazo de 25 anos. "Imensos blocos de concreto ocupando todos os espaços", diz o samba de Paulinho da Viola. "Amor à Natureza" é de 1975, mas, em sua denúncia, continua atual.

Cavaliere segue os passos do seu xará e tutor, Eduardo Paes, candidato ao governo estadual. A exemplo do Porto Maravilha e do Reviver Centro, empresários ligados ao novo projeto terão um "bônus urbanístico" para aplicar em outros investimentos, sobretudo na mais valorizada zona sul.

Um incentivo à onda de demolição dos predinhos de Ipanema, Leblon e Lagoa, que estão dando lugar a monstrengos de 17 andares, cujos cubículos são comprados por estrangeiros.

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segunda-feira, 13 de julho de 2026

OS MINISTÉRIOS DA SAÚDE E DA FAZENDA ADVERTEM

Bruno Carazza, Valor Econômico

Efeitos sociais e econômicos das bets impõem desafio de restringir a atividade

É difícil encontrar hoje em dia quem não tenha conhecimento de pelo menos um caso de drama pessoal e familiar envolvendo o vício em bets. Também nos últimos tempos têm sido frequentes as queixas de empresários e executivos sobre os danos que as apostas têm causado aos seus negócios.

Em 2025, as bets arrecadaram quase R$ 37 bilhões, já descontados os valores pagos para os vencedores das apostas. Os dados são da Secretaria de Prêmios e Apostas do Ministério da Fazenda - para quem não sabe, temos um órgão na área econômica, com o mesmo status da Receita Federal e do Tesouro Nacional, especializado em autorizar e fiscalizar bets. Segundo a SPA, 25,2 milhões de CPFs fizeram apostas no ano passado, utilizando, para isso, mais de 100 milhões de contas ativas nas empresas.

Além de dramas familiares, as bets se converteram numa tragédia econômica, pois drenam recursos do orçamento pessoal que antes eram destinados à aquisição de alimentos, bebidas, vestuário, lazer e outros bens e serviços. Elas também são responsáveis por agravar o problema do endividamento e da inadimplência, que em maio atingia 83,5 milhões de pessoas físicas negativadas no principal sistema de informações creditícias do país, o Serasa Experian.

Para conter excessos, na sexta-feira (10/7) o Ministério da Fazenda publicou uma portaria que traz novas regras para a publicidade das bets. Entre as medidas está a obrigatoriedade de publicar um alerta semelhante ao utilizado nos comerciais de cigarros. As mensagens variam, mas recorrem ao mesmo padrão: “O Ministério da Fazenda adverte: apostar pode causar dependência / faz você perder dinheiro / não é investimento”.

Haverá também vedações ao conteúdo dos anúncios, como sugestões de que podem ser fonte de renda ou gerar ganhos fáceis e a utilização de comentaristas que emulem análises técnicas para induzir apostas em determinados eventos, principalmente esportivos.

Embora louvável, a iniciativa do governo brasileiro ainda é bastante tímida em relação ao que outros países vêm adotando para combater os prejuízos sociais e econômicos provocados pela dependência em apostas online.

Itália, Países Baixos e Bélgica proibiram totalmente as propagandas de bets e ainda vedaram o patrocínio a clubes e eventos esportivos. Na Espanha e no Reino Unido, que têm as duas ligas de futebol mais poderosas do mundo, os clubes se comprometeram a limitar o espaço das marcas das empresas do setor nas camisas das equipes. A Austrália, por sua vez, proíbe a divulgação de odds durante os eventos esportivos.

Há medidas sendo tomadas também para reduzir o comprometimento da renda das pessoas com as apostas. A Alemanha, por exemplo, determinou que o teto pessoal de depósito deve levar em consideração todas as contas abertas por uma mesma pessoa em diferentes empresas, minimizando, assim, a realização de apostas simultâneas. A Espanha também está restringindo a distribuição de bônus de boas-vindas. Diversos países ainda proíbem o pagamento com cartão de crédito, para evitar que as apostas sejam um caminho para o superendividamento.

No caso dos cassinos online, as medidas vão desde a sua proibição (caso da Austrália) a exigências de pausas obrigatórias entre as jogadas, restrições a efeitos sonoros e estímulos visuais e imposição da exibição permanente e em destaque na tela do tempo em que a pessoa está logada e do dinheiro gasto na sessão.

Esse breve panorama internacional mostra o quanto o Brasil está atrasado na regulação das bets. Para muitos especialistas, porém, nenhuma medida seria tão benéfica quanto a total proibição dessa atividade. Alguns, inclusive, advogam que o país repita o que fez com os bingos, que foram colocados na ilegalidade mediante uma série de medidas legais e judiciais no início dos anos 2000.

Nos dias atuais, contudo, as circunstâncias são muito diferentes. De times de futebol às big techs e suas redes sociais, passando pelo mercado tradicional de publicidade e pelas celebridades e influenciadores digitais, as apostas movimentam muito dinheiro no país. Além disso, como comprovou o melancólico encerramento da CPI das Bets no Senado com a rejeição de seu relatório final, as empresas de apostas patrocinam uma bancada numerosa no Congresso Nacional para defender seus interesses.

A proibição total traz ainda o risco de deslocar todo esse mercado - que tem demanda e oferta, como qualquer outro - para o crime organizado, tal como acontece com a comercialização de drogas ilícitas, o jogo do bicho, os caça-níqueis e os próprios bingos clandestinos. Regular, nesse caso, seria melhor que proibir.

Nesse contexto, a única perspectiva para se mudar o drama social e econômico gerado pelas bets é seguir a estratégia da campanha nacional contra o tabagismo. Com pressão social, o governo e o Congresso aprovaram um conjunto de medidas que envolviam tributação, vedação à propaganda, publicidade negativa e restrições ao consumo que se mostrou bastante bem-sucedido.

Resta saber quem está disposto a fazer essa aposta contra interesses tão poderosos.

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O OCIDENTE ESTÁ DOBRANDO À DIREITA

Sergio Fausto, O Estado de S. Paulo

O mapa político europeu não está cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o ‘espírito do tempo’ – é clara

Olhe-se para a nossa vizinhança ou para a Europa, a extrema direita avança. Na América do Sul, nas três eleições ocorridas até aqui em 2026, venceram candidatos desse naipe político (Chile, Peru e Colômbia). A tendência é semelhante no velho continente.

Em Portugal, o partido da extrema direita, o Chega, conquistou o segundo maior número de cadeiras da Assembleia da República nas eleições parlamentares de 2025. No Reino Unido, outro país que até recentemente parecia imune à ascensão da extrema direita, o Reform UK lidera todas as pesquisas de opinião.

Na Espanha, o longo ciclo de poder de Pedro Sánchez entrou em fase terminal. Quem cresce é o partido da extrema direita, o Vox. O partido tradicional da direita, o Partido Popular (PP), depende cada vez mais da extrema direita. Nas quatro Comunidades Autônomas em que houve eleições este ano, o PP só conseguiu obter maioria parlamentar depois de aceitar representantes e reivindicações do Vox na formação do governo. É um sinal do que deve ocorrer nas eleições marcadas para 2027. Nesse processo, a direita tradicional se aproxima do nacionalismo xenófobo e protofascista, normalizando-o.

Nos dois principais países europeus, a tendência de ascensão da extrema direita também é nítida. A AfD, Alternativa para a Alemanha, já é o segundo maior partido em número de cadeiras no Parlamento alemão, e as pesquisas indicam que seria o mais votado se as eleições fossem hoje. A perspectiva de a AfD integrar o governo federal dispara os alarmes dos órgãos encarregados da segurança nacional daquele país, pois são notórios os laços da extrema direita alemã com a Rússia. Relatório divulgado em junho pelo Departamento Federal de Proteção à Constituição mostra um aumento de 17% no número de pessoas consideradas extremistas de direita entre 2024 e 2025.

Na França, todas as pesquisas indicam Jordan Bardella ou Marine Le Pen na liderança para as eleições presidenciais de maio do próximo ano. Com apenas 30 anos, Bardella é considerado uma extensão de Marine Le Pen, a real líder do partido xenófobo Rassemblement National. Ela recém recuperou o direito de se candidatar em 2027, depois que a Justiça francesa reduziu sua pena por malversação de recursos.

O mapa político europeu não está cristalizado. Mas a direção dos ventos – alguém diria o “espírito do tempo” – é clara. A hipótese de a extrema direita chegar ao poder na França se tornou provável e na Alemanha, plausível.

Sintoma disso é a discussão sobre uma eventual moderação da extrema direita, se essa hipótese se confirmar.

Foi o que ocorreu na Itália, sob a liderança de Giorgia Meloni, que há quatro anos exerce, em coalizão, o mandato de primeira-ministra, o mais longo desde 2005. Sem antagonizar com a União Europeia nem se aliar à Rússia, ela governa como uma política normal de direita, embora tenha raízes na extrema direita. O exemplo de Meloni pode influenciar um eventual governo presidido por Bardella ou Le Pen na França. O partido de Marine Le Pen já não é mais o que foi nos tempos de seu pai, Jean-Marie Le Pen, um negacionista do Holocausto. Assim como Meloni, Le Pen, a filha, afastou-se da Rússia e abandonou o projeto de retirar a França da União Europeia (UE). Difícil dizer o quanto essa moderação é puramente tática ou não. Na Alemanha, não há sinal dela. A AfD se mantém em oposição frontal à UE e defende a deportação em massa dos imigrantes, a mesma bandeira dos demais partidos europeus de extrema direita.

Embora não haja uma internacional de extrema direita formalmente constituída, os partidos, líderes e movimentos que a integram apoiam-se mutuamente. Dentro dessa rede, alguns dos donos das principais plataformas digitais do planeta ocupam um lugar estratégico. Não apenas pela capacidade quase infinita de aportar recursos a campanhas e candidatos, mas principalmente pelo poder exorbitante de que dispõe para amplificar ou reduzir seletivamente o alcance das informações e desinformações que transitam por essas plataformas, onde exércitos de robôs respondem por cerca da metade dos conteúdos disseminados. Alguns desses tecno-oligarcas se aliam à extrema direita, em geral, e a Trump, em particular, por oportunismo, outros têm convicções antidemocráticas autênticas, como Peter Thiel, adepto de uma tecno-monarquia absoluta. Em simbiose, a livre circulação de fake news e discursos de ódio nas mídias sociais alimenta a ascensão da extrema direita e enche os bolsos dos tecno-oligarcas.

É este o ambiente internacional que cerca a eleição de outubro no Brasil. Na América Latina, junto com o México, somos os únicos países a resistir à subserviência a Donald Trump, cujo desprezo pela democracia, inclusive a dos Estados Unidos, e pela soberania nacional de outros países é bem conhecido.

O ímpeto “disruptivo” do presidente dos Estados Unidos não irá se reduzir caso sofra um revés político nas eleições para o Congresso em novembro deste ano. Pode até mesmo se agravar.

Nesse contexto, é crucial derrotar o clã Bolsonaro, a versão tupiniquim dessa onda extremista que avança no Ocidente. •

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A FARRA DAS EMENDAS

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

O custo eleitoral difuso de ignorar a opinião pública sobre a farra das emendas

Emendas seguem impopulares, mas alimentam uma engrenagem política local sem custo eleitoral claro

Emendas Pix, de bancada, comissão ou mesmo as individuais dos parlamentares: o orçamento secreto pode estar morto no nome, mas a farra da destinação de dezenas de bilhões de reais com critérios obscuros pelo Congresso Nacional continua. Nunca foi algo popular como ideia, ainda que se argumente que quando o dinheiro chega na ponta, na forma de obras vistosas na base eleitoral, ajuda a eleger deputados e prefeitos – perpetuando os mesmos grupos de sempre no poder local e em Brasília. Uma pesquisa Genial/Quaest realizada no ano passado mostrou que 82% dos entrevistados associavam as emendas parlamentares à corrupção, duvidando que os recursos tivessem o destino correto.

Trata-se de uma desconfiança que repete a percepção que se tinha do orçamento secreto, criado em 2020 para salvar a relação do então presidente Jair Bolsonaro com o Congresso.

O uso turbinado e distorcido das chamadas emendas de relator sempre foi, corretamente, execrado pela opinião pública – tanto que ninguém queria assumir sua paternidade.

Na campanha presidencial de 2022, Lula afirmou que o orçamento secreto era pior que o

Mensalão, o grande escândalo do seu primeiro mandato. Mas nenhum outro governo pagou tanto em emendas parlamentares, com suas versões ocultas do orçamento secreto.

Recentemente, no limite do prazo permitido, Lula liberou o valor recorde de quase R$ 34 bilhões em repasses definidos pelos congressistas.

A classe política, da situação à oposição, escolheu ignorar a opinião da maioria dos brasileiros, que gostaria de ver o dinheiro dos seus impostos sendo aplicado em políticas públicas de forma técnica, coordenada e transparente. Quando figuras como os ex-deputados federais Eduardo Cunha e Valdemar Costa Neto (este presidente do PL, partido do presidenciável Flávio Bolsonaro) têm bens bloqueados pelo Supremo Tribunal Federal (STF), por suspeita de influência indevida sobre a destinação de emendas parlamentares, não se pode culpar quem reage com um misto de satisfação – porque a realidade confirmou algo que já acreditava saber – e de justa indignação.

Mas quem paga o preço eleitoral dos escândalos com as emendas? Ninguém, na verdade. O Palácio do Planalto vai dizer que é refém de um sistema necessário para a governabilidade.

A oposição afirma que a Polícia Federal é seletiva nas investigações. Para o Centrão, o importante é que as emendas alimentem uma engrenagem de compra de alianças e apoios locais muito bem azeitada. Não há fim à vista para a farra das emendas, pois o seu custo político é difuso. •

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AMEAÇA DE MORTE

Bianca Mota, Camila Maia, O POVO

Vereadora de Fortaleza sofre nova ameaça de morte e cobra autoridades: "Vão esperar que eu morra?"

Adriana Gerônimo (Psol) disse que mensagens que a ameaçam citam endereços de familiares e dela mesmo; presidente da Câmara publicou nota de solidariedade e fez cobranças

A vereadora de Fortaleza e pré-candidata a deputada federal Adriana Gerônimo (Psol) informou, no último domingo, 12, ter recebido novas ameaças de morte e estupro. Em publicação nas redes sociais, a parlamentar afirma que recebeu um e-mail com detalhes, incluindo a descrição da arma que seria utilizada e a citação dos endereços de familiares e da residência dela.

Na postagem, Adriana afirmou que as ameaças voltaram a ocorrer e criticou a falta de identificação dos responsáveis. "Aconteceu de novo, hoje recebi mais um e-mail com uma grave ameaça de morte e estupro. Descrevem a arma que usarão e citam endereços de familiares e também o endereço da minha casa", explicou.

A vereadora completou: "Me querem morta e é revoltante que não consigam achar quem tanto deseja me matar. Vão esperar que eu morra pra circularem notas de pesar e exigir justiça?".

Presidente da Câmara manifesta apoio

Após a denúncia, o presidente da Câmara Municipal de Fortaleza, o vereador Leo Couto (PSB), publicou uma nota de solidariedade à parlamentar. Na manifestação, ele defendeu a rápida identificação dos responsáveis e a adoção de medidas para garantir a segurança da vereadora."

Repudio, com absoluta veemência, as novas ameaças dirigidas à vereadora Adriana Gerônimo, marcadas por ataques homofóbicos, racistas e de violência sexual. Diante da repetição desses crimes, reafirmo meu total apoio à vereadora e cobrarei a rápida identificação e responsabilização dos autores, bem como a adoção de todas as medidas necessárias para garantir sua segurança e o pleno exercício de seu mandato", publicou o vereador nas redes sociais. 

Couto destacou ainda que, como presiddente da CMFOR, não aceitará quaisquer formas de violência. "Como presidente da Câmara de Fortaleza, reforço que não aceitaremos qualquer forma de violência, intimidação, discriminação ou discurso de ódio". 

Adriana Gerônimo está no segundo mandato como vereadora de Fortaleza. Mulher negra, mãe, LGBT, assistente social e ativista dos direitos humanos, iniciou a trajetória política nos movimentos comunitários da Capital.

Em 2020, foi eleita vereadora em mandato coletivo, o "Nossa Cara". No biênio 2023-2024, presidiu a Comissão de Direitos Humanos da Câmara Municipal de Fortaleza. Em 2024, foi reeleita para um mandato individual com 9.091 votos.

O que diz a SSPDSO

POVO entrou em contato com a Secretaria da Segurança Pública do Ceará (SSPDS) para saber que medidas já foram tomadas sobre o caso. Em nota, o órgão informou que a Polícia Civil do Estado do Ceará (PCCE) investiga denúncias de ameaças registradas contra a vereadora de Fortaleza e repassou orientações a ela, para seguir com a investigação.  

"O caso é acompanhado pela Delegacia de Repressão aos Crimes por Discriminação Racial, Religiosa ou Orientação Sexual (Decrin). A PCCE orientou que a vítima comparecesse à delegacia especializada para repassar novas informações sobre os fatos e subsidiar as investigações", informou a SSPDS.

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A DANÇA DOS VICES

Denis Lerrer Rosenfield, O Estado de S. Paulo

 Candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o mais competitivo

Normalmente, a escolha de vice-presidentes numa disputa eleitoral reveste-se de uma certa liturgia, principalmente por indicar a segunda pessoa em importância na hierarquia republicana, alguém que, no impedimento do presidente, vem a galgar o maior cargo nacional. Não se trata de uma opção qualquer na medida em que, precisamente, indica para a continuidade daqueles que mantêm o poder durante o mandato estipulado. Não é, neste sentido, fruto do acaso.

Ademais, essa escolha obedece a critérios políticos, dentre os quais: 1) representatividade partidária, ampliando a coligação eleitoral; 2) potencial na captação de novos eleitores; 3) influência na arrecadação de recursos; 4) não comprometimento com a corrupção; 5) vir de uma região ou Estado que seja capaz de agregar maior votação; e 6) ser de uma religião ou de sexo que faça a diferença na disputa, apontando para um determinado público.

Assinale-se que, na recente história republicana três vicepresidentes assumiram o poder, sendo os casos de Itamar Franco, vice de Fernando Collor de Mello, José Sarney, vice de Tancredo Neves, e Michel Temer, vice de Dilma Rousseff. Todos tinham representatividade parlamentar, nomes públicos reconhecidos, carreira pública, força eleitoral, exímios articuladores, estando particularmente qualificados para o cargo. Itamar Franco foi o patrono do Plano Real, que mudou a história do Brasil. Foram excelentes presidentes em momentos de crise. O vice-presidente Marco Maciel, por outro lado, é um exemplo de vice que, não tendo assumido, não deixou de ser uma importante figura republicana.

Sob o prisma atual, porém, o quadro é constrangedor, com exceção da candidatura do presidente Lula. O atual presidente, repetindo a chapa anterior, escolhe um governador reconhecido, que fez toda a sua carreira no PSDB e de confissão católica, adepto do Opus Dei, embora se apresente como de “esquerda”, seja lá o que isso signifique nesse contexto. Sou tentado a recorrer a Ortega y Gasset: “Ser da esquerda, assim como ser da direita, é uma das infinitas maneiras que o homem pode escolher para ser um imbecil: na verdade, ambas são uma forma de hemiplegia (paralisia parcial) moral”. Em todo o caso, podese dizer que o presidente Lula e o PT fizeram o dever de casa, o que não é o caso de seus oponentes. Conseguiram, neste sentido, olhar para fora de sua bolha, visando aos eleitores em geral.

Flávio Bolsonaro, que se apresenta como o seu contendor mais direto, está cada vez mais refém de suas próprias trapalhadas e das que não sabe evitar. Seu comprometimento com Vorcaro, na arrecadação de recursos para um filme, sua submissão à política americana quando seu irmão foi um dos instigadores do tarifaço aos produtos brasileiros e, agora, o rompimento público com sua madrasta, mostram uma candidatura atordoada. Esse último rompimento, aliás, é de grande significação, visto que afasta de si o público feminino e evangélico, vital para a sua vitória. E a escolha de vice cai dentro desse redemoinho. Os nomes aventados, homem ou mulher, não apresentam nenhuma representatividade, podendo ser mesmo desconhecidos para o grande público, retirando-lhe qualquer relevância eleitoral e não lhe conferindo ampliação partidária. Permanece dentro de sua própria bolha.

Ronaldo Caiado, apesar de ter escolhido um vice muito reconhecido por suas habilidades de articulação, Gilberto Kassab, terminou por fazer uma opção dentro de seu próprio partido, não dando um passo que deveria ser decisivo para a ampliação eleitoral. As razões apresentadas, seja de unificação partidária, seja de captação de recursos, não são de natureza a mudar o quadro propriamente eleitoral, que deveria ser a sua maior preocupação. Para uma candidatura que precisa avançar para se consolidar, preocupações como unidade partidária e captação de recursos já deveriam ter sido equacionadas, na procura de novos aliados.

Quadro semelhante expõe a candidatura de Renan Santos. Sem fundo partidário e eleitoral, e até agora sem uma significativa captação de recursos, carente de tempo de rádio e televisão, além de não ter nenhuma coligação partidária atrás de si, a sua escolha de vice tampouco segue os critérios adotados. A opção, também dele, de uma pessoa desconhecida do público em geral, sem demérito de sua pessoa, não é de natureza a alavancar a sua candidatura.

O mesmo se pode dizer da candidatura de Romeu Zema ao cogitar escolher um empresário amigo seu, amplamente desconhecido e de seu próprio Estado. Convém assinalar uma verdade básica: candidatos devem ir além de seu escopo inicial, tendo como objetivo conquistar o grande público, sob o risco de não decolarem ou não ameaçarem o candidato mais competitivo.

Note-se que não estou fazendo nenhum juízo de valor ou moral sobre essas pessoas, mas tão somente assinalando as dificuldades apresentadas, segundo uma liturgia de poder que deveria ser outra. E quem souber fazer essa lição se posiciona à frente das pesquisas eleitorais. •

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COMO O CONGRESSO DA UNE CAIU EM 1968

Miguel de Almeida, O Globo

Polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador

O dia mal amanhecera em 12 de outubro de 1968, um sábado, quando 150 policiais surgiram na mata a 25km do centro de Ibiúna, interior de São Paulo. Caía uma chuva intermitente. A lama na estrada íngreme fizera a tropa abandonar as viaturas no caminho principal. Percorreram 10km a pé. Quando avistaram o acampamento, deram tiros para o alto aos gritos:

— Não reajam, vamos atirar para matar.

Cercaram as barracas de lona e prenderam 800 jovens. Era o final melancólico do XXX Congresso da União Nacional dos Estudantes (UNE).

Ali se reuniam delegados de faculdades de todo o país para eleger a nova diretoria da UNE e discutir teses e estratégias para o movimento estudantil. Desde o golpe de 1964, era uma movimentação vigiada e reprimida pelos militares. Com a classe política acuada por prisões e cassações, e os sindicatos mais combativos sob intervenção, os universitários e secundaristas se mostravam a vanguarda militante da oposição. O governo dos generais proibiu as reuniões políticas e procurava assustar a população com a iminência de uma hipotética tomada de poder pelos comunistas. Nada mais canastrão. Buscava-se recuperar a democracia, extinta com a derrubada do presidente João Goulart.

Jason Tércio reconstrói os embates com a polícia, até o arrastão final, em “Sitiados – A saga do Congresso de Ibiúna em 1968”. Foram vários confrontos, com prisões e manifestantes feridos — o mais grave, semanas antes do encontro da UNE, ficou conhecido como Batalha da Rua Maria Antônia. A briga ocorreu entre os alunos do Mackenzie, onde nascera a milícia do Comando de Caça aos Comunistas (CCC), e da Faculdade de Filosofia da USP, à esquerda no espectro político. O estudante José Carlos Guimarães, 20 anos, morreu baleado na cabeça. Do Mackenzie também foram jogados frascos com ácido sulfúrico, que atingiram vários universitários. Embora testemunhas afirmassem que o tiro partira do telhado do Mackenzie, a polícia à época não identificou o autor. No período democrático, um integrante do CCC e agente do Deops foi responsabilizado pelo assassinato.

José Guimarães não era o primeiro aluno morto pela ditadura. Em março daquele ano, um soldado matou à queima-roupa Edson Luís, 18 anos, durante protesto estudantil pela melhoria da comida no Restaurante Calabouço, no Rio. Ao assassinato seguiram-se protestos — peças teatrais foram suspensas em solidariedade, e passeatas percorreram as ruas centrais da cidade. Na missa de sétimo dia, a cavalaria da polícia cercou a Candelária e atacou a sabre quem saía da cerimônia, numa guerra campal com bombas de gás lacrimogêneo. Na igreja encontravam-se cerca de 600 pessoas.

O Congresso da UNE não deixava de ser um desafio à ditadura. Os líderes estudantis — principalmente José Dirceu, Vladimir Palmeira e Luís Travassos — eram vigiados pela polícia. As cenas lembravam filmes de James Bond. Dirceu, depois de namorar uma militante, descobriu se tratar de espiã (codinome: “Maçã Dourada”) colocada em sua cama pela repressão. Mesmo assim, mantiveram a ideia de realizar o encontro para eleger a nova diretoria da entidade. Ao contrário dos anteriores, seria maior — com 800 delegados de todo o Brasil. Brincavam com a sorte.

Com o auxílio de um frei dominicano — Tito — e de Therezinha Zerbini, casada com o general legalista Euryale Zerbini, os estudantes conseguiram emprestado um sítio em Ibiúna. Apesar de a operação ser tratada em sigilo, com uso de senhas e divulgação de locais e datas falsas, a polícia acabou informada não por seus espiões, mas por um lavrador, Miguel Góes (existem outras versões, várias inventadas pelos delegados). Góes desconfiou ao ver pessoas armadas (eram estudantes) na propriedade e avisou o delegado. Informado, o governador Abreu Sodré autorizou a batida policial. Até então, o presídio Tiradentes jamais havia recebido tantos presos políticos de uma única vez. Logo em dezembro de 1968, a ditadura baixou o AI-5, o mais duro golpe contra as liberdades civis.

Perguntei a três personagens envolvidos na trama: por que o Congresso caiu?

— Na sexta, soube que o Deops já sabia do encontro. Os líderes foram avisados de madrugada. Preferiram esperar amanhecer para discutir a informação — conta Paulo de Tarso Venceslau, economista.

— Foi ingenuidade colocar 800 pessoas naquele lugar — lembra Fausto Nilo, poeta e arquiteto.

— Erro de planejamento da organização — diz Xico Chaves, artista plástico.

Em setembro de 1969, José Dirceu, Luís Travassos e Vladimir Palmeira seguiram para o exílio, trocados pelo embaixador americano Charles Elbrick, sequestrado por guerrilheiros (o estudante Paulo de Tarso entre eles) da Aliança Libertadora Nacional e do MR-8.

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