sexta-feira, 27 de março de 2026

VIOLAÇÕES JURAMENTADAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Parlamentares aprovam norma que sabem ser inconstitucional

Por cálculo político, autoridades deixam o erro passar

Se a tolerância está se tornando artigo raro no debate público, ela abunda em meios políticos. E eu falo aqui da pior das tolerâncias, que é a tolerância com o erro.

No Brasil, todas as autoridades eleitas, para tomar posse, juram cumprir e defender a Constituição. Idêntico compromisso é exigido de certas autoridades não eleitas, incluindo ministros do STF. Há situações em que surgem dúvidas legítimas em relação ao que o constituinte quis estabelecer, mas também há casos em que o texto da Lei Maior é anormalmente cristalino. É o que ocorre com o artigo 15, que diz que os direitos políticos de presos só podem ser suspensos após condenação penal definitiva.

A clareza do dispositivo não impediu deputados e senadores de aprovarem a Lei Antifacção, cujo artigo 13-A retira o direito de voto de presos provisórios, se houver indícios de que tenham ligação com organizações criminosas. Os parlamentares que aprovaram isso violaram seu compromisso de zelar pela Constituição. Quem vir aí quebra de decoro não estará materialmente errado.

E há mais. A equipe jurídica do Planalto identificou a inconstitucionalidade, mas o presidente Lula preferiu lavar as mãos e não vetou o malfadado artigo (vetou outros). Até entendo as razões. Imagino que a direita do TikTok já tinha prontos os vídeos que colocaria no ar acusando Lula de pôr assassinos e estupradores para votar se ele o tivesse feito. Mas, institucionalmente, o presidente errou. Se a inconstitucionalidade é patente, ele teria de vetar.

A questão inevitavelmente chegará ao STF. Quero crer que os ministros farão o que a Carta determina, mas, se o clima entre a corte e o Congresso estiver muito pesado, não me parece impossível que os magistrados se furtem a julgar.

É triste quando o cálculo político imediatista se sobrepõe ao que deveriam ser consensos inegociáveis do sistema democrático. Se você discorda de algum dispositivo constitucional, há regras para modificá-lo. Elas não incluem gambiarras legislativas nem cegueiras seletivas.

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quinta-feira, 26 de março de 2026

PÁGINAS DE FOFOCA NO ATAQUE

Do ICL NOTÍCIAS

Perfis de fofoca nas redes com milhões de seguidores atacam governo Lula e promovem Tarcísio

Páginas publicam inúmeras postagens com críticas ao governo Lula e exaltando políticos de direita e extrema direita

Vários perfis de fofoca nas redes sociais com muitos milhões de seguidores têm se dedicado com afinco a uma tarefa que nada tem a ver com as histórias de bastidores dos astros e estrelas da TV. Fugindo completamente ao estilo esperado para esse tipo de conteúdo, essas páginas publicam muitas postagens com críticas ao governo Lula e exaltando políticos de direita e extrema direita, em especial o governador de São Paulo, Tarcísio de Feitas (Republicanos).

Muitos desses perfis foram notícia no fim de 2025 por terem sido flagrados fazendo campanha a favor do banco de Daniel Vorcaro e contra o Banco Central, que acabara de liquidar o Master. A campanha foi alvo de investigação da Polícia Federal.

É o mesmo modus operandi dos ataques a Lula e elogios aos políticos de direita.

Uma das páginas principais a seguir esse roteiro é a Alfinetei, que tem mais de 25 milhões de seguidores no Instagram. O perfil é a 46ª conta brasileira mais seguida no Instagram, estando no mesmo patamar de famosos como o Padre Fábio de Melo, a atriz Grazi Massafera e a cantora Simaria.

O perfil no Instagram é patrocinado pela 7games.bet, site de apostas que pertence a Fernando Oliveira de Lima, CEO da One Internet Group (OIG), um dos responsáveis pela popularização do jogo do Tigrinho no Brasil. Ele é amigo do senador Ciro Nogueira (PP-PI), opositor ao governo e que fez parte do governo de Jair Bolsonaro.

Em um rápido passeio pelo perfil Alfinetei é possível ver várias postagens que nada têm a ver com fofoca sobre famosos. Em uma das publicações recentes, o perfil compartilha um vídeo com o título: “Influenciador detona governo Lula: ‘Governo miserável, maldito e sem vergonha’. O post, que conta com mais de 114,2 mil curtidas e 10 mil comentários, divulga a logotipo da 7games.bet.

O mesmo modelo de publicação pode ser visto em diferentes posts da página. Em outra, o perfil compartilho um vídeo de outro “influenciador” que critica o governo do presidente Lula pela cobrança do IPVA, o  imposto sobre a propriedade de veículos automotores, que é de responsabilidades dos governos estaduais. O post também conta com o patrocínio da 7games.bet, de Fernando Oliveira de Lima.

Em uma das publicações, a Alfinetei reproduz o print de uma publicação de um usuário da rede social “X”, o antigo Twitter, criticando o programa Gás do Povo, do governo federal, que distribui gás de cozinha gratuitamente para às famílias de baixa renda. O post, assim como os outros, também divulga a mesma casa de apostas.

Outra página que reproduz esse tipo de conteúdo é a Babadeira, com 2,7 milhões de seguidores no Instagram. A página tem algo em comum com a Alfinetei: ambas contam com o mesmo “embaixador” na legenda, a 7games.bet, de Fernando Oliveira de Lima.

Em uma publicação recente, o “Babadeira” publicou uma imagem afirmando que “Flávio Bolsonaro deve derrotar Lula de forma história em 2026”. Em outro post, o perfil escreveu, em tom depreciativo, que o presidente Lula “chama atenção por não ter nenhum curso superior”.

No ICL Notícias – 1ª edição desta quinta-feira (26), o jornalista Leandro Demori comentou sobre as publicações dessas páginas. “Isso chega em todo mundo, o cara que está indignado em casa porque foi sacaneado com IPVA, o maluco andando no meio da rua dizendo que o governo Lula é isso ou aquilo e aí, está lá a 7games.bet, do Fernandinho OIG e o Ciro Nogueira, que estão envolvidos nessa história toda”, disse.

Por outro lado, a Alfinetei e outas páginas fazem publicações enaltecendo o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), além de outros políticos de direita e extrema direita. Em uma das publicações, a página compartilhou um vídeo publicado nas redes de Tarcísio em que o governador rebate à propaganda de ano novo da marca Havaianas.

No título, o perfil destaca uma fala em que Tarcísio afirma que, em São Paulo, vai “começar o ano com o pé direito”. Na legenda da publicação, há referências à obra do primeiro trecho do Rodoanel Norte. A postagem conta com mais de 53,3 mil likes e 3 mil comentários.

O modus operandi é repetido por outras páginas, como a Otariano. Em uma publicação, o perfil também faz propaganda da entrega da obra do primeiro trecho do Rodoanel Norte, na região metropolitana de São Paulo. Em destaque, está uma foto do governador Tarcísio de Freitas.

A obra do Rodoanel também apareceu na página Fofoquei, que tem mais de 7 milhões de seguidores no Instagram. A publicação também conta com uma foto de Tarcísio em destaque.

Em outra publicação, a Aflinetei publicou o reencontro do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) com as famílias, com “EM FAMÍLIA” em destaque.

“Até onde eu sei, isso não é permito no Instagram. A gente, do ICL, sofre, muitas vezes, quando a gente faz algum documentário que tem uma linha mais política. Quando a gente quer promover os nossos documentários, como o do caso Master, o Instagram muita vezes bloqueia, alegando que é propaganda política, e a gente nem pode recorrer. Eu quero perguntas pro Instagram: O vídeo de um cara que se diz influenciador em uma conta verificada, a empresa sabe quem são os donos, como o Instagram permite que tenha uma bet de um cara investigado, brother do Ciro Nogueira, fazer esses posts?”, analisou o jornalista Leandro Demori.

“É a mesma cepa de conta contratada pelo Vorcaro para bater em seus desafetos. O Vorcaro contratou influenciadores de política. A Alfinetei está envolvida no escândalo do Banco Master”, salientou Demori.

Publicações impactam debate público, diz analista de redes

O analista de redes Pedro Barciela comentou sobre esses tipos de publicações por páginas de fofoca. Segundo ele, o fenômeno já produz efeitos concretos no debate público e vem se consolidando há meses.

“Isso já impacta. A verdade é que esse processo vem tomando forma há alguns bons meses, para dizer o mínimo. E ele espelha algo que aconteceu em 2022, que o bolsonarismo se incomodava bastante: a proximidade entre perfis de fofoca e não polarizados com a campanha do Lula, naquele momento. Eles perceberam que aquilo gerava engajamento e passaram a explorar esse tipo de estratégia”, comentou.

Barciela destaca, no entanto, que há novos elementos no cenário atual, incluindo indícios de uso coordenado dessas páginas para campanhas específicas. “Só que agora há indícios diferentes. Existem páginas, como Babadeira e Alfinetei, por exemplo,  sobre as quais já há denúncias de que foram, no mínimo, contactadas para campanhas pagas de ataque ao Banco Central, naquele contexto recente. Há posts patrocinados, o que caracteriza propaganda. É algo bastante significativo”

Em um monitoramento feito na semana passada com os posts no Instagram e Facebook que mais geraram interações citando Flávio Bolsonaro, Barciela identificou que quatro dos cinco principais eram do Alfinetei. Apenas um era do perfil do próprio Flávio.

“Isso dá uma dimensão do impacto. Quando você olha dados diários ou semanais, isso não fica tão evidente. Mas ao analisar um período mais longo, de dois a três meses, fica claro o peso que essas páginas têm para impulsionar determinados atores políticos”, salientou.

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EXTRADIÇÃO AUTORIZADA

Márcio Falcão, Túlio Amâncio, Beatriz Borges, Ana Flávia Castro, TV Globo, GloboNews e g1 — Brasília

Justiça italiana autoriza extradição da ex-deputada Carla Zambelli; defesa diz que vai recorrer

Decisão é da Corte de Apelação da Itália, que analisa o pedido de extradição feito pelo STF contra a ex-deputada. Zambelli foi condenada a 10 anos de prisão em regime fechado por invadir os sistemas do CNJ. Defesa afirmou que vai recorrer.

A Justiça da Itália autorizou nesta quinta-feira (26) a extradição da ex-deputada federal Carla Zambelli.

Zambelli deixou o país em maio do ano passado, apesar de ter sido condenada pelo Supremo Tribunal Federal (STF) a 10 anos de prisão pela invasão aos sistemas do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) (relembre mais abaixo).

A decisão desta quinta-feira é da Corte de Apelação do país, que analisa o pedido de extradição feito pelo Supremo contra a ex-parlamentar. Ainda cabe recurso da defesa, antes de o caso ser levado para decisão final do governo italiano.

A defesa de Zambelli já anunciou que vai recorrer. Não há prazo para uma resposta definitiva.

O processo que corre na Corte em Roma julga um pedido do STF para que Zambelli, presa após pedido da Interpol no país europeu, seja devolvida à Justiça brasileira (entenda a cronologia mais abaixo).

Zambelli tem cidadania italiana e deixou o Brasil em maio do ano passado, pela fronteira com a Argentina. Antes de chegar ao país europeu, ela também passou pelos Estados Unidos.

De lá, publicou uma mensagem nas redes sociais afirmando que era vítima de perseguição e que ainda pretendia provar sua inocência.

Como fugiu do país após uma condenação do Supremo, Zambelli é considerada foragida da Justiça brasileira. Por isso, o STF formalizou um pedido de extradição, assinado pelo relator do caso, ministro Alexandre de Moraes.

O documento foi encaminhado pelo governo brasileiro a autoridades italianas. Para que seja cumprido, o pedido precisa receber o aval da Justiça na Itália. É justamente este processo que está em andamento.

Zambelli permanece presa em Roma, porque autoridades do país europeu entendem que há risco de fuga.

Como foi a prisão?

Em julho do ano passado, o governo confirmou a prisão de Zambelli. Ela estava na lista vermelha da Interpol, e foi detida por forças de segurança do país europeu.

Após a prisão, Zambelli disse que preferia ser julgada no país europeu e que provaria que não tem envolvimento na invasão do sistema do CNJ. A Justiça italiana decidiu mantê-la presa durante o julgamento, por entender que há risco de fuga.

Nos últimos meses, o processo de extradição de Zambelli enfrentou atrasos por diversos motivos e já teve quatro adiamentos de audiências.

Na primeira delas, no fim de novembro, a defesa de Zambelli aderiu a uma greve de advogados em Roma, e na segunda, no mês seguinte, seus advogados apresentaram novos documentos à corte.

Veja a cronologia do caso

🗓️Em 15 de maio de 2025, a Primeira Turma do STF condenou, por unanimidade, Zambelli e o hacker Walter Delgatti Neto por invadirem os sistemas do Conselho Nacional de Justiça.

Segundo a Procuradoria-Geral da República (PGR), os dois teriam incluído documentos falsos em sistemas oficiais, com objetivo de colocar em dúvida a legitimidade da Justiça brasileira.

➡️Zambelli foi condenada à pena de 10 anos de prisão em regime inicial fechado e à perda do mandato, pois a pena a ser cumprida em regime fechado ultrapassa 120 dias (limite estabelecido pela Constituição Federal para ausência em sessões legislativas).

➡️O hacker Delgatti, também condenado no processo, foi sentenciado a oito anos e três meses de prisão, em regime inicial fechado.

🗓️Em 25 de maio de 2025, Zambelli deixou o país pela fronteira com a Argentina. De lá, seguiu para os Estados Unidos, antes de pegar um voo para Roma.

🗓️Em 7 de junho de 2025, o STF decretou a prisão definitiva dos dois. A decisão foi tomada após ocorrer o trânsito em julgado do processo — quando não cabem mais recursos da defesa e a pena deve começar a ser cumprida de forma definitiva.

Na ocasião, Moraes rejeitou os últimos recursos de Zambelli e determinou o envio ao Ministério da Justiça do pedido de extradição. Zambelli estava licenciada do mandato e, segundo a PF, deixou o país dias antes, em 25 de maio, via fronteira com a Argentina.

Zambelli perdeu o mandato, e enviou carta de renúncia

Em dezembro, o STF reiterou a determinação que previu a cassação do mandato de Zambelli, revogando decisão contrária da Câmara dos Deputados. Três dias depois, ela entregou uma carta de renúncia à Casa.

Na mensagem, Zambelli afirmou que ter sido perseguida e que sua "história pública não foi forjada".

"Afirmo: a verdade foi dita, a história foi escrita e a minha consciência permanece livre", concluiu a ex-deputada.

O pedido de renúncia em nada afeta as condenações das quais Zambelli foi sentenciada. Assim, por mais que a defesa possa ter tentado "proteger" os direitos políticos da ex-parlamentar para que ela não fique inelegível, as condenações foram concluídas e já preveem o fim da possibilidade dela de se tornar elegível.

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LEGADO DE CLÁUDIO CASTRO É CHACINA E CORRUPÇÃO

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Seu governo foi o binômio dinheiro vivo, de um lado, e gente morta, de outro

Sem fortalecer instituições, estado está fadado a repetir outros Castros

Com a maioria formada no Tribunal Superior Eleitoral para condenar à inelegibilidade o ex-governador do Rio Cláudio Castro (PL), na noite desta terça-feira (24) —não graças aos dois ministros indicados por Bolsonaro, também do partido de Castro—, é oportuno fazer um balanço de sua gestão. Duas palavras sintetizam o governo castrista: chacina e corrupção.

Seu legado se resume a ter comandado operações policiais que mataram muita gente, sem ganho em controle de território de facções e milícias, e a ter ganhado eleições em meio a um esquema de saque de dinheiro público por milhares de pessoas com cargo-fantasma.

Castro no poder se baseou no binômio dinheiro vivo, de um lado, e gente morta, de outro. Os anos Castro, se auditados, impressionariam pelos números superlativos do vil metal e de sangue humano.

Na operação Contenção, 122 mortos, cinco deles policiais. Foi a mais letal da história do estado e do país, mas qualificada como um sucesso pelo ex-mandatário. Em 2025, foram 180 mortos em tiroteios na região metropolitana do Rio, segundo o Instituto Fogo Cruzado. Ao menos 49 crianças baleadas desde o início do governo Castro, em 2020, de acordo com a ONG Rio de Paz.

Na Ceperj, fundação de pesquisa, 27 mil cargos temporários; na Uerj mais 18 mil —com pagamentos em folha secreta, grande parte em dinheiro vivo. Em oito meses em 2022, as ordens bancárias saltaram de R$ 13 milhões para R$ 69,1 milhões.

A renúncia de Castro um dia antes do julgamento no TSE confirma, de um lado, a falta de institucionalidade no estado em que projetos pessoais de poder —disputar o Senado— se sobrepõem a qualquer preocupação com a decência na condução da política; de outro, o quão delirante é preciso estar o ocupante do Palácio Guanabara para renunciar dizendo ser uma figura respeitada que sai de cabeça erguida.

Se o estado do Rio de Janeiro não investir para fortalecer as instituições capazes de fiscalizar os elos políticos entre dinheiro e sangue, estará fadado a repetir outros Castros.

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MORRE FERNANDO KASSAB

Do g1 Campinas e Região

Jornalista Fernando Kassab morre aos 64 anos em Campinas

Apresentador, que trabalhou na EPTV por 21 anos, teve insuficiência renal decorrente de problema cardíaco. Ele ficou conhecido pelos diferentes quadros de culinária que comandou na emissora.

O jornalista e apresentador Fernando Kassab morreu aos 64 anos, nesta quinta-feira (26), em Campinas (SP). Ele estava internado no Hospital PUC-Campinas após sofrer uma descompensação cardíaca que causou insuficiência renal. O jornalista também lutava contra um câncer de pele.

Kassab nasceu em São Paulo, mas mudou-se para o interior paulista ainda na infância. De origem árabe, assim como os seis irmãos, tinha na prática de cozinhar um gesto de amor.

Trabalhou na EPTV Campinas por 21 anos e ficou conhecido pelos diferentes quadros de culinária que comandou na emissora, sempre com pitadas de conhecimento, como o "Prato Fácil", que ficou por mais de 15 anos no ar.

Ao longo de sua trajetória na telinha, esteve em todas as cidades da área de cobertura da EPTV no interior de São Paulo e no Sul de Minas Gerais.

Colecionou receitas, histórias e amigos — e falava de tudo isso com orgulho.

“Eu não me lembro de nenhum momento em que eu tenha tido um senão. O telespectador da EPTV, que nos assiste, nos acompanha nas gravações, sabe mais de mim, às vezes, do que eu mesmo. Lembram do que eu fiz há quatro, cinco anos, conversam comigo como se fossem irmãos. O que é que paga isso?”, disse Kassab em 2013.

Essa imersão regional inspirou a publicação do livro "Prato Fácil: 10 anos", que reuniu 300 receitas das diferentes cidades que visitou.

“A gente pensou na produção agrícola do município, a gente pensou em alguém famoso, figuras ilustres do Brasil. Tudo isso a gente homenageia no livro, para que nossos telespectadores não tenham apenas um livro de receitas, mas tenham uma compreensão desse universo de 300 cidades que é fabuloso”, destacou Kassab durante sessão de autógrafos, em 2014.

Kassab deixou a EPTV em 2020 e mantinha-se ativo com publicações nas redes sociais, seja com receitas ou registros do dia a dia.

Sua última postagem na página pessoal, em 2 de março, destacava a paixão pelo gamão. No vídeo, ele mostrava um tabuleiro que era do avô, com mais de 100 anos de história. “Gamão, uma paixão”, escreveu.

O velório será no Cemitério Flamboyant e começará às 6h de sexta-feira (27), com sepultamento às 16h no Cemitério Parque das Aleias.

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FLÁVIO BOLSONARO MODERADO É CONVERSA MOLE PARA BOI DORMIR

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S.Paulo

Imagem de moderação interessa a setores da direita liberal inclinados a sacrificar a democracia em troca de gestão privatista da economia

Candidato terá que responder sobre seu reacionarismo e encrencas pregressas

São Paulo O senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato à Presidência pelo PL, anda vendendo uma imagem de moderado. Não vai colar. Para citar a velha canção "Touradas em Madri", isso é conversa mole para boi dormir. Estamos falando do filho 01 de Jair Bolsonaro, o líder da extrema direita brasileira, condenado e preso por tentativa de golpe e atentado à democracia e ao Estado de Direito.

A coreografia de moderado tem certo interesse. Atrai, por exemplo, simpatias da direita liberal, viúva da sempre chorada terceira via, que rejeita Lula e o PT, e tem histórico de se inclinar por projetos autoritários, na expectativa de que adotem uma linha privatista na economia. O caso mais recente foi o apoio ao próprio Jair Bolsonaro.

É um tipo de perfil que se observa em outros países da região. O filósofo Vladimir Safatle apelidou essa irrefreável tendência de liberais latino-americanos à aliança com a extrema direita de "complexo de Vargas Llosa". Referência ao grande escritor e político menor peruano que, lido e esclarecido, na hora da decisão optava pela pior direita.

Flávio Bolsonaro ainda não foi submetido ao ambiente de campanha. Tem-se a impressão de que a esquerda está até evitando fazer marola para esperar a confirmação da candidatura de Tarcísio de Freitas à reeleição paulista, que deve ocorrer no início do próximo mês.

Tão logo o clima comece a esquentar, o 01 vai ter que explicitar suas posições ideológicas, suas simpatias por Donald Trump, seu reacionarismo profundo. Terá também que dar respostas a encrencas pregressas, como o esquema de "rachadinha" em seu gabinete, a proximidade fraternal com a milícia no Rio e acusações de lavagem de dinheiro, entre outras situações, para dizer o mínimo, desconfortáveis.

Por enquanto, a subida do candidato nas pesquisas, que têm revelado empate em segundo turno contra Lula, não é desprezível, porém não diz muita coisa sobre a corrida eleitoral pela frente.

É certo que o petista tem problemas, a começar pelo desgaste do personagem, o cansaço que sua longevidade política naturalmente acarreta. Mesmo alguns setores de inclinação progressista parecem sentir falta de novidade, prefeririam um candidato de renovação da centro-esquerda que Lula representa. Não se sabe bem as razões pelas quais conquistas verificáveis do atual governo, em economia e outras áreas, não se transformam em aumento de popularidade.

Lula, contudo, é um animal eleitoral e terá a máquina federal na mão.

Quanto ao cenário mais amplo, há enorme incerteza. Não apenas pelas aventuras de Donald Trump, mas sobretudo pelos desdobramentos do caso Master. Virá uma delação? Será confiável? Está muito claro que até aqui o abacaxi está muito mais difícil de ser descascado pela direita, em que pesem powerpoints e tentativas frequentes de colocar o escândalo no colo da esquerda.

É de se perguntar também se a manutenção de Jair Bolsonaro em casa irá mudar alguma coisa. Deixará de ser tratado como vítima do STF e do "sistema sádico" da esquerda. Flávio não ganha com isso. Para um nome que não reúne qualidades para conquistar o cargo, talvez o melhor seja continuar fazendo dancinhas, como a que apresentou no Nordeste ao som de "01, novo capitão".

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NÃO SE DEVE SUBESTIMAR O PERIGO À DEMOCRACIA

Martin Wolf, Financial Times / Valor Econômico

EUA de Donald Trump são um líder mundial em declínio democrático

A democracia corre grave perigo, em todo o mundo. Essa é a mensagem de dois conceituados relatórios recentes - um da V-Dem, da Suécia, intitulado, “Desmonte da Era Democrática?”, o outro da Freedom House, dos Estados Unidos, intitulado “A Crescente Sombra da Autocracia”. Eles apresentam dois argumentos fundamentais. O primeiro é que fenômeno chamado por Larry Diamond, de Stanford, de “recessão democrática”, iniciado há 20 anos, começa perigosamente a parecer-se mais a uma depressão democrática. O outro é que, em 2025, o governo Trump iniciou o que se revelou o declínio mais rápido na saúde de qualquer grande democracia nos últimos tempos.

De acordo com a Freedom House, “a liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025”. “Um total de 54 países passou por uma deterioração em seus direitos políticos e liberdades civis, enquanto só 35 registraram melhoras”. A V-Dem mensura esse declínio não apenas pelo número de países afetados, mas também pelo número de pessoas. Conclui que entre 2005 e 2025, a proporção da população mundial vivendo em autocracias aumentou de 50% para 74%, enquanto a que vive em verdadeiras democracias liberais, onde se oferece um leque completo de direitos civis e legais, além de eleições, desabou de 17% para apenas 7%.

Acima de tudo, a V-Dem argumenta que o mundo nunca antes viu tantos países se “autocratizando” ao mesmo tempo. A liberdade de expressão sofre uma queda particularmente rápida, com 44 países tendo apresentado um declínio nesse aspecto em 2025. Até a tortura vem sendo mais empregada.

Ainda mais importante, isso também vem ocorrendo nos EUA. O índice agregado da V-Dem sobre a saúde da democracia dos EUA caiu para os patamares de 1965, logo na esteira da Lei dos Direitos Civis de 1964. Desta vez, contudo, o que vemos é um exemplo clássico de uma tentativa de um Poder Executivo de derrubar uma democracia liberal por dentro. Os freios legislativos ao Executivo - possivelmente o mais fundamental de todos os controles constitucionais - chegaram a seu menor patamar em 100 anos, segundo a V-Dem. Os direitos civis e a igualdade diante da Justiça caíram para os piores níveis desde meados dos anos 1960 e, apesar de toda a ladainha sobre o “discurso livre”, a liberdade de expressão está em seu pior ponto desde o início dos anos 1950. Segundo avalia a V-Dem, apenas os componentes eleitorais da democracia ficaram intocados, pelo menos por enquanto.

Para os que duvidam de tudo isso, recomendo a leitura de Trump Action Tracker (o rastreador das atitudes de Trump), que lista 2.816 ações tomadas desde janeiro de 2025. Talvez o aspecto mais gritante do que está ocorrendo seja o descaramento da corrupção. A ideia pela qual se lutou por tanto tempo de que o serviço público é confiado a alguém em nome do benefício público, não uma oportunidade para enriquecimento pessoal, foi quase inteiramente abandonada. Alguns argumentam, de forma plausível infelizmente, que pessoas com informações privilegiadas têm conseguido lucrar com operações financeiras por possuírem conhecimento prévio de anúncios presidenciais, como o desta semana que retirou ameaças contra o Irã.

O que se deduz a partir de tudo isso? De acordo com a Freedom House, a qualidade da democracia americana está agora no mesmo nível da sul-africana, embora esta venha melhorando, não se deteriorando. Segundo a V-Dem, a velocidade do declínio americano em 2025 superou em muito a da Rússia, Índia, Turquia e Hungria no início da queda desses países. Caso volte a ocorrer um declínio similar no índice de democracia liberal da V-Dem em 2026, os EUA chegariam no patamar em que a Hungria estava em 2018 e terão chegado lá muito mais rápido.

A liberdade global diminuiu pelo 20º ano consecutivo em 2025 (Freedom House). De um total de 54 países, só 35 registraram melhoras em seus direitos políticos e liberdades civis. Subiu a 74% a proporção da população mundial que vive sob uma autocracia (V-Dem)

Infelizmente, até agora nenhum desses outros declínios foi revertido. Isso porque esses aspirantes a autocratas sabem muito bem que não podem se dar ao luxo de perder eleições, e porque conquistaram poder suficiente para impedir isso. A primeira parte certamente já se aplica a Donald Trump, sua família e muitos membros do governo. Alguém duvida, então, de que o governo fará tudo o que estiver a seu alcance para “vencer” as eleições de meio de mandato em novembro, sem dúvida alegando o tempo todo que vêm tentando apenas garantir eleições “justas”? Se eles vão ter sucesso? Veremos.

Na história da humanidade, a democracia, em qualquer forma, é uma raridade, em especial em grandes potências. Muito mais comuns são a autocracia, a oligarquia ou alguma combinação das duas. Foi apenas no fim do século XX que a democracia se tornou uma espécie de norma global. Os EUA tiveram um papel decisivo nesse êxito, tanto em virtude de seu poder quanto de seu exemplo.

O “poder” ainda permanece, embora o governo Trump esteja montando um ataque contra os alicerces desse poder no Estado de Direito, na segurança dos direitos de propriedade, na governança eficaz, na ciência avançada e na liberdade de imprensa. Já o “exemplo” deixou de existir. Para o mundo, os EUA demonstram diariamente seu repúdio aos valores que as pessoas acreditavam que o país representava. Em particular, nos países em desenvolvimento, mas também em muitos outros, as pessoas estão mais do que familiarizadas com aquilo que os EUA de Trump representam: despotismo. Os EUA nunca estiveram perto de ser um modelo perfeito dos ideais democráticos. No entanto, eram esses ideais que o mundo passou a acreditar que os EUA representavam.

Com os EUA sob o comando de pessoas que desprezam a tradição iluminista que criou a civilização ocidental atual (que não é aquela que eles imaginam), onde iremos parar? Não sabemos. Talvez, a democracia americana dê um jeito de se salvar. Talvez, a pura ferocidade do ataque gere a resposta necessária. Infelizmente, a Europa continua dividida entre seus membros, e dentro deles próprios. Portanto, hoje carece da disposição de defender a democracia pelo mundo. O restante das democracias reais pelo mundo também é fraco demais para fazer grande coisa nesta era de autocratas.

Ainda assim, recuso-me a entrar em desespero. As noções de que o Estado não pertence a um governante absoluto, mas, sim, ao povo; de que as pessoas precisam ter o direito de falar e de ser ouvidas; de que a lei existe para protegê-las; e de que não se pode confiar a ninguém poder absoluto sobre elas continuam sendo, na minha visão, as melhores da política. No entanto, seria tolice acreditar que elas estão seguras. Mais uma vez, elas correm gravíssimo perigo. (Tradução de Sabino Ahumada)

*Martin Wolf é editor e principal comentarista econômico do Financial Times.

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quarta-feira, 25 de março de 2026

RATINHO ABANDONOU O NAVIO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Sob pressão de Flávio Bolsonaro, Ratinho abandonou o navio

Próximo da fila do PSD, Caiado não tem nada a perder além de mais uma eleição

Ratinho, o Júnior, foi o primeiro a abandonar o navio. O governador do Paraná anunciou que não é mais candidato a presidente. Vai ficar no cargo até o fim do mandato.

O herdeiro do animador de TV se apresentava como candidato da “direita democrática”. Ensaiou um discurso moderado, mas prometeu militarizar escolas e indultar os golpistas, a começar por Jair Bolsonaro.

O equilibrismo não o ajudou a se firmar na disputa. Em três meses, Ratinho encolheu de 12% para 7% no Datafolha. O eleitor bolsonarista dispensou o genérico e escolheu o original, filho do capitão.

Em alta nas pesquisas, Flávio Bolsonaro deu o tiro de misericórdia nos planos do governador. Depois de tentar cooptá-lo com a vaga de vice, lançou seu desafeto Sergio Moro como candidato do PL no Paraná.

Sem avançar na corrida ao Planalto, Ratinho recuou para defender o Palácio Iguaçu. Vai cuidar dos assuntos da província, na esperança de emplacar um aliado como sucessor.

O tempo dirá se o caso Master também influiu na decisão. O paranaense tem sido cobrado pela venda da distribuidora de energia Copel ao empresário Nelson Tanure, parceiro de negócios de Daniel Vorcaro. Ratinho, o pai, foi sócio dos irmãos Toffoli numa filial do resort Tayayá.

A desistência do governador lança novas dúvidas sobre o projeto presidencial do PSD. O partido de Gilberto Kassab lançou três pré-candidatos, mas não deu garantias a nenhum. Agora terá que escolher entre Ronaldo Caiado e Eduardo Leite, que comem poeira nas pesquisas. Os dois oscilam entre 3% e 4% das intenções de voto. Aparecem numericamente atrás de Romeu Zema, do nanico Partido Novo.

Favorito para o lugar de Ratinho, Caiado não tem nada a perder além de mais uma eleição. O homem do cavalo branco sonha com a Presidência desde 1989, quando tentou se vender como antagonista do PT. Foi atropelado por Fernando Collor e terminou em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

No ano passado, ele se lançou candidato pelo União Brasil, mas teve o tapete puxado pelos donos da sigla. A ver se Kassab terá incentivos para mantê-lo no páreo até o fim.

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'PAREDÃO DE KASSAB' TERÁ QUE SOBREVIVER AO TESTE DAS BANCADAS

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Linha de corte para uma candidatura presidencial, dizem bons fazedores de contas eleitorais, é 10% dos votos

A aposta de que o “Paredão de Kassab”, como já é chamado o processo de depuração da candidatura presidencial do PSD, finde na candidatura do ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado, vale pouco hoje. Para um partido vocacionado a fazer bancadas legislativas e acessar os recursos de poder delas decorrentes, a linha de corte para uma candidatura presidencial, dizem bons fazedores de contas eleitorais, é 10% dos votos. Com menos do que isso, uma candidatura presidencial própria não “puxa” bancada.

Em Estados como Pernambuco, em que o PSD pretende reconduzir a governadora Raquel Lyra, ou Bahia, em que o partido compõe chapa com os petistas incumbentes, por exemplo, a candidatura Caiado, certamente, não favorece a eleição de bancadas.

Ainda que não sobreviva às convenções de junho, o processo seletivo do secretário de Relações Institucionais do governo de São Paulo e presidente do PSD, Gilberto Kassab, não passará desapercebido. A começar pela desistência do governador Ratinho Júnior, do Paraná.

Sua decisão de permanecer no governo até o fim, desperdiçando uma eleição certa para o Senado, demonstra o grau de dificuldade que atribui à disputa de seu candidato, provavelmente o secretário de Cidades, Guto Silva, contra o senador Sérgio Moro, que se filiou, na terça-feira (24), ao PL.

A cerimônia de filiação, que colocou lado a lado Moro e o senador e pré-candidato do partido, Flávio Bolsonaro (RJ), acontece seis anos depois de o ex-ministro da Justiça deixar o governo Jair Bolsonaro.

Moro saiu atirando. Acusou o ex-presidente de pressioná-lo a interferir na Polícia Federal em benefício dos filhos, particularmente do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que estava sendo acossado pelo superintendente da PF no Rio, Ricardo Saad. Com a eleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Saad foi escolhido pelo diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, para a diretoria de Investigação e Combate ao Crime Organizado e à Corrupção.

No ano passado, Saad deixou a PF para um cargo ainda mais estratégico. Com a posse de Gabriel Galípolo, no Banco Central, foi nomeado presidente do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), que tem tido um papel crucial nas investigações do caso Master pela identificação de transações bancárias suspeitas. Até aqui, os vazamentos do Coaf carimbaram o entorno bolsonarista: o ex-prefeito de Salvador e pré-candidato do União ao governo da Bahia, ACM Neto, e o advogado Kevin Marques, filho do ministro do STF, Nunes Marques.

Entre os pré-candidatos que permanecem no “paredão”, Caiado tende a beneficiar mais a Lula, por disputar o eleitor de direita com Flávio Bolsonaro. O governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite, é melhor para o pré-candidato do PL pela razão inversa. Circula melhor ao centro e, por isso, tende a tirar mais votos de Lula.

Se Caiado prevalecer sobre Leite, a campanha de 2026 terá dois personagens da primeira eleição presidencial pós-redemocratização, a de 1989. Caiado, à época candidato de um outro PSD, emergiu no governo José Sarney como fundador da União Democrática Ruralista (UDR), que puxou a retranca dos debates da reforma agrária da Constituinte. Apareceu na campanha presidencial montado em um cavalo branco, imagem que seria exaustivamente ironizada pelo candidato petista.

Outra imagem, que, certamente, será reprisada à exaustão pela campanha lulista caso a candidatura do ex-governador goiano se confirme, será a do debate daquela que, à época, ainda era chamada de TV Bandeirantes. Caiado provocou Lula a lhe dirigir a pergunta que o petista faria a Paulo Maluf. “Quando você chegar a 1,5% eu faço”, respondeu Lula. Naquele ano, o candidato petista passou ao segundo turno, contra Fernando Collor, com 11,6 milhões de votos. Caiado, com 488 mil, ficou em 10º lugar na disputa.

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CAIADO OU EDUARDO, A ESCOLHA DE SOFIA DE KASSAB PARA CANDIDATO DO PSD

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O líder do PSD vive um drama político. Argumenta que o processo de escolha fortaleceu o partido, mas mal consegue disfarçar a frustração com a desistência de Ratinho Júnior

Com a surpreendente desistência do governador do Paraná, Ratinho Júnior, de se candidatar à Presidência da República, o ex-prefeito Gilberto Kassab está diante de uma escolha de Sofia: tem dois nomes para substituí-lo, os governadores de Goiás, Ronaldo Caiado, e do Rio Grande Sul, Eduardo Leite, e precisa indicar um deles para concorrer à Presidência. No jargão político, a expressão é usada para descrever situações muito difíceis, em que qualquer decisão representa uma grande perda, como no romance A Escolha de Sofia (Sophie’s Choice, em inglês), de William Styron, publicado em 1979.

O livro relata a história de Stingo, um jovem sulista aspirante a escritor que vai morar em uma pousada no Brooklyn, onde conhece um casal que vive um turbulento caso de amor e ódio, Nathan Landau, um judeu que se apresenta como um cientista, e Sofia Zawistowk, uma polonesa sobrevivente do campo de concentração de Auschwitz. Stingo se envolve com a bela Sofia, assombrada pelas lembranças da terrível escolha que precisou fazer um dia.

No cinema, a história valeu o Oscar de melhor atriz para Meryl Streep e popularizou a expressão mundialmente. A trama dirigida por Alan J. Pakula conta a história de Sofia, uma polaca acusada de contrabando, que é presa com seus dois filhos pequenos, um menino e uma menina, no campo de concentração de Auschwitz durante a II Guerra. Um sádico oficial nazista dá a ela a opção de salvar apenas uma das crianças da execução, ou ambas morrerão, obrigando-a à terrível decisão. O trauma é relembrado por Sofia em 1947, ao viver o triângulo amoroso com o jovem escritor.

Com as devidas ressalvas, Kassab vive um drama de opção política. Argumenta que o processo de escolha fortaleceu o PSD, mas mal consegue disfarçar a frustração com a desistência de Ratinho Júnior, que resolveu permanecer no governo do Paraná até o final do mandato, com objetivo de fazer seu sucessor. “A decisão foi tomada na noite de domingo, após profunda reflexão com sua família. O fato foi levado ao conhecimento do presidente nacional do PSD, Gilberto Kassab”, diz o comunicado. Ratinho Júnior “pretende voltar ao setor privado e presidir o Grupo de Comunicação criado pelo pai, o apresentador Ratinho”.

Na verdade, Ratinho Júnior foi atropelado pela filiação ao PL do senador Sergio Moro, o ex-juiz de Curitiba do caso Lava-Jato e ex-ministro da Justiça do governo Bolsonaro. Embora fosse o candidato com mais possibilidades eleitorais na lista do PSD, o governador do Paraná chegou à conclusão de que perderia a eleição para Presidência e, com a eleição de Moro, a sua própria sucessão no estado.

A disputa pela indicação agora é entre o governador de Goiás, Ronaldo Caiado, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Nesta terça-feira, Leite publicou um vídeo mirando os eleitores de Ratinho Júnior: “Estou com energia, disposição e verdadeiramente interessado em liderar um projeto que ajude a despolarizar o país. Quero muito ajudar o país a encontrar um caminho que una os brasileiros, não no mesmo pensamento, mas no mesmo propósito. Tenho certeza de que é uma eleição possível”, afirmou.

Dois perfis

Entretanto, quem primeiro se encontrou com Kassab foi o governador de Goiás. Segundo o presidente do PSD, Caiado apenas manifestou sua disposição e motivação em ser candidato. “A questão (por quem será escolhido) é política. Envolve muita conversa com pessoas que torcem para que o partido tenha o melhor desempenho possível. Não é disputa, é convergência”, disse Kassab, que não pretende fazer prévias nem decidir apenas com base em pesquisas, e chamou o governador Eduardo Leite para uma conversa, amanhã.

Leite seria o substituto natural de Ratinho Júnior, mas a filiação de Caiado ao PSD mudou o cenário. A avaliação positiva do governo de Goiás é a mais alta do país, e Caiado está à frente de Leite nas pesquisas eleitorais. Ninguém sabe os critérios adotados por Kassab para ungir o seu candidato, mas todos sabem que seus governadores, prefeitos e deputados estão liberados para apoiar Flávio Bolsonaro ou a reeleição do presidente Lula. Isso pode resultar na inevitável “cristianização” do candidato a presidente da República do PSD.

Parece uma grande contradição, mas não é. Uma candidatura para inglês ver deixaria o terreno livre para que Kassab possa administrar as contradições da legenda nos estados e somar forças para apoiar o candidato que esteja à frente nas pesquisas. Seus ministros Alexandre Silveira (Minas e Energia) e André de Paula (trocará a Pesca e Aquicultura pela Agricultura) permanecem no governo; Carlos Fávaro (Agricultura) deixará o governo para renovar seu mandato na Câmara, mas manterá seus aliados na pasta.

Como as eleições estão muito polarizadas entre o presidente Lula, que pretende continuar na Presidência, e o senador Flávio Bolsonaro, mantendo uma candidatura à Presidência, pode ser que o PSD tenha votos suficientes para decidir a eleição no segundo turno. Caiado e Leite têm perfis muito diferentes, embora sustentem que se apoiarão reciprocamente, ou seja, qualquer que seja a escolha.

Caiado é um candidato claramente de direita, muito combativo, com um currículo político de quem passou por tudo na política brasileira: foi candidato a presidente em 1989, exerceu dois mandatos de deputado federal e dois de senador, governa Goiás desde 2019. Leite foi vereador e prefeito de Pelotas, está no segundo mandato de governador e não tem o mesmo trânsito de seu concorrente no Congresso. Seu diferencial é uma trajetória política de centro-esquerda, que agora deriva à centro-direita.

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A MENTIRA QUE MUDOU O DESTINO DO BRASIL

Da revista Liberta

E como você pode se proteger da próxima enxurrada de desinformação em 2026

Em 2018, 98% dos eleitores de um candidato foram expostos a uma mentira que nunca existiu. 90% acreditaram nela.

O resultado?

Um presidente eleito baseado em fantasias.

Uma democracia abalada até suas fundações.

E milhões de brasileiros convencidos de que uma mentira era verdade.

A história da "mamadeira erótica" e do "kit gay" nunca aconteceu.

Mas mudou o destino de um país inteiro.

Isso não foi acidente.
FOI ESTRATÉGIA.
E em 2026, vai ser ainda pior.

SE VOCÊ NÃO SE PROTEGER AGORA COM INFORMAÇÃO DE VERDADE, VOCÊ SERÁ A PRÓXIMA VÍTIMA

A desinformação não é um problema que vai desaparecer.

Ela é a principal arma política da extrema direita — e está ficando mais sofisticada, mais rápida e mais mortal a cada dia.

João Cezar de Castro Rocha, um dos maiores pesquisadores do Brasil sobre o tema, define isso como "guerra cultural".

Não é uma guerra por território.

É uma guerra pelo o que você acredita ser verdade.

Pelo que você acha que está acontecendo no país.

Por quem você vai votar em 2026.

"A mídia faz você odiar quem está sendo oprimido e amar quem está oprimindo. Basta controlar o que você vê."— Malcolm X (há mais de 60 anos — e nunca esteve tão atual)

A ESTRATÉGIA É SIMPLES (E DEVASTADORA)

Você não precisa convencer ninguém de que sua ideia é boa.

Você só precisa destruir a confiança em tudo.

Na ciência.
Na imprensa.
Nas instituições.
Nas eleições.

Quando ninguém sabe mais em que acreditar, instala-se o que Castro Rocha chama de "caos cognitivo".

E nesse caos, quem grita mais alto, quem emociona mais, quem mente sem medo...

VENCE.

2018: QUANDO O WHATSAPP SE TORNOU UMA ARMA

Deixe-me mostrar como isso funcionou.

66% dos brasileiros usavam WhatsApp em 2018.

E muitos tinham acesso gratuito ao aplicativo, mas não tinham dados para checar informações em outros sites.

Então, o que chegava no grupo da família...
No grupo da igreja...
No grupo do trabalho...
Virava verdade.

Meu nome é Leandro Demori.

E em 2019, revelamos conversas entre o então juiz Sergio Moro e os procuradores da Lava Jato que provaram uma verdade devastadora:

Leandro Demori

Moro não agia como juiz.
Ele coordenava a acusação.
Orientava estratégias.
Antecipava decisões.

Tudo para condenar um homem: Luiz Inácio Lula da Silva.

A repercussão foi imediata.

The Guardian. Le Monde. The Washington Post.

O mundo falou sobre isso.

E o Brasil?

Bom, o Brasil resolveu omitir.

A grande mídia brasileira, aquela que você vê na TV todo dia, escolheu o silêncio.

E eu?

Eu precisei sair do país.

A ONU pediu proteção para mim depois que comecei a receber ameaças de morte.

Tive que mudar de país pela minha segurança e da minha família.

Por fazer jornalismo.

Por revelar a verdade.

2022: O ESQUEMA FICOU AINDA MAIS SOFISTICADO

Se você achou que 2018 foi ruim, espere até ver o que aconteceu em 2022.

O Tribunal Superior Eleitoral investigou algo perturbador:

Havia um ecossistema de desinformação.
Organizado.
Financiado.
Planejado.

Com Carlos Bolsonaro, filho do presidente, como um dos principais articuladores.

O foco era triplo:

1. Criminalizar o PT
2. Associar Lula a um "projeto totalitário"
3. Semear desconfiança nas urnas eletrônicas

E funcionou quase perfeitamente.

Os ataques de 8 de Janeiro de 2023 e a tentativa de golpe de Estado foram o reflexo direto dessa estratégia.

A MENTIRA COMO MÉTODO DE GOVERNO

Entre 2019 e 2022, Bolsonaro fez mais de:

6.600

declarações falsas ou imprecisas

Leia esse número de novo: 6.600

A mentira não foi um desvio.
A mentira FOI O MÉTODO.

Ele governou mentindo.
E quase foi reeleito mentindo.

A DESINFORMAÇÃO NÃO ATACA SÓ A POLÍTICA

Ela matou.
Literalmente.

Durante a pandemia, vimos campanhas massivas contra vacinas.

Tratamentos sem eficácia sendo defendidos pelo presidente da República.

"Gripezinha", "histórico de atleta", cloroquina, ivermectina.

Resultado?

700 mil+

brasileiros mortos

Muitas dessas mortes poderiam ter sido evitadas com informação correta.

A desinformação mata.
E não só nas urnas.

POR QUE A DESINFORMAÇÃO FUNCIONA TÃO BEM?

A resposta está na ciência.

A estratégia é sempre a mesma — e ela funciona porque explora como nosso cérebro funciona.

A desinformação não precisa ser perfeita.

Ela só precisa ser:

Rápida (chega primeiro que a checagem)
Emocional (ativa medo, raiva, indignação)
Repetida (você vê a mesma mentira 10, 20, 50 vezes)

O cérebro humano não foi feito para processar 10 notícias contraditórias por segundo.

Então, a gente acredita na primeira.

Ou na que confirma o que a gente já pensa.

Isso se chama "viés de confirmação".

E os manipuladores sabem disso.

2026: A TEMPESTADE PERFEITA ESTÁ SE FORMANDO

E agora vem 2026.

A eleição que vai decidir se o Brasil sobrevive como democracia ou afunda de vez.

Teremos eleição presidencial e renovação do Senado.
O momento mais decisivo da década.

E você acha que a desinformação vai diminuir?

Não.

Vai EXPLODIR.

Porque agora eles sabem três coisas:

  • 1. Funciona (elegeu Bolsonaro em 2018, quase o reelegeu em 2022)
  • 2. Não há punição real (ninguém foi preso a tempo)
  • 3. As plataformas não vão controlar (Facebook, Instagram, TikTok lucram com engajamento, não com verdade)

AS BIG TECHS ESTÃO DO LADO DE QUEM PAGA MAIS

E tem mais.

As Big Techs não são aliadas da verdade.

Elas são aliadas do lucro.

Em 2025, o ICL (Instituto Conhecimento Liberta) produziu um documentário sobre o Bolsonaro e sua tentativa de golpe de Estado.

Foi barrado no Facebook e no Google.

Classificado como "propaganda política".

Jornalismo virou propaganda política?

Outro documentário, sobre Milei.

Também barrado.

Justo em ano eleitoral na Argentina.

Coincidência?

Não.

É censura seletiva, e isso acontece o tempo todo.

ENTÃO ME DIGA: ONDE VOCÊ VAI BUSCAR INFORMAÇÃO DE VERDADE EM 2026?

Quando a enxurrada de mentiras começar...

Quando seu feed do Facebook estiver inundado de fake news...

Quando seus grupos de WhatsApp estiverem cheios de vídeos manipulados...

Onde você vai buscar informação de verdade?

Quem vai te explicar o que está acontecendo de fato?

Quem vai investigar as fake news?

Quem vai te dar contexto, análise e profundidade?

A GRANDE MÍDIA NÃO VAI TE PROTEGER (PORQUE ELA FAZ PARTE DO PROBLEMA)

A grande mídia não vai te salvar da desinformação.

Porque ela faz parte do problema.

Segundo dados da Repórteres Sem Fronteiras, quatro grupos controlam 71% da audiência de TV no Brasil.

Os mesmos donos de sempre, com os mesmos interesses de sempre — que não incluem você saber a verdade.

A grande mídia não te respeita. Ela te trata como gado eleitoral.

É por isso que você precisa de uma alternativa 100% independente.

É POR ISSO QUE A REVISTA LIBERTA EXISTE.
E ELA PRECISA DE VOCÊ AGORA.

Para ser o antídoto contra a desinformação.

Uma publicação semanal, 100% independente.

Sem anunciantes.
Sem donos.
Sem patrões.
Sem compromissos com grupos econômicos.

Só você. E a verdade.

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ABOLIÇÃO DA ESCRAVATURA NO CEARÁ, 142 ANOS

Dia 25 de março é a Data Magna do Ceará

Você sabe por que hoje é feriado?

O ano de 2026 assinala o 142° aniversário da Abolição da Escravatura no Ceará. No dia 25 de março de 1884, o então presidente da Província Sátiro de Oliveira Dias (1883 – 1884), anunciava que a província do Ceará não possuía mais escravos.

O evento que ocorreu quatro anos antes da assinatura da Lei Áurea, e deveu-se principalmente, à luta e o empenho de alguns homens e mulheres, que se recusaram a aceitar a exploração de humanos, como coisa natural.

Imagem: Óleo sobre tela de Raimundo Cela.

Publicação Fortaleza em Fotos 

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terça-feira, 24 de março de 2026

RELEMBRANDO PADRE CÍCERO

A cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará celebra hoje o aniversário de 182 anos de Padre Cícero. Cícero Romão Batista nasceu no Crato, 24 de março de 1844 e faleceu em Juazeiro do Norte, 20 de julho de 1934. Carismático, Padre Cícero ou “Padim Ciço”, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará e da Região Nordeste do Brasil.

Padre Cícero, foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o povoado foi elevado a cidade. Voltou ao poder, em 1914, quando o governador Marcos Rabelo foi deposto. No final da década de 1920, o Padre Cícero começou a perder a sua força política, que praticamente acabou depois da Revolução de 1930. Seu prestígio como santo milagreiro, porém, aumentaria cada vez mais.

Em 1° de novembro de 1969 no alto do Horto, em Juazeiro do Norte foi erguido uma estátua (a terceira maior do mundo) em homenagem ao Padre Cícero Romão Batista. Em 22 de março de 2001 “Padim Ciço” foi eleito o cearense do século.

A trajetória religiosa e política de Padre Cícero é relatada na excelente biografia Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, do jornalista Lira Neto. A obra é primorosa, resultado trabalho intenso de dez anos de pesquisa, baseada em documentos raros e inéditos tornam a biografia a mais completa obra sobre a vida do mais amado e controvertido religioso que o Brasil já teve, Padre Cícero, para os romeiros e fiéis, o “Padim Ciço”.

Clique aqui e ouça a música Viva meu Padim, composta pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga e João Silva para homenagear Padre Cícero. A canção tem a participação especial de Benito di Paula.

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CRIAMOS A CATEGORIA DELAÇÃO SÉRIA

Artigo de Fernando Gabeira

O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas, bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos.

Outro front bem brasileiro é o sigilo processual. A antiga canção diz: segredo é pra quatro paredes. No entanto um segredo guardado entre quatro paredes frequentadas por mais de 20 deputados é um segredo de mentirinha.

Vivemos o maior escândalo financeiro de nossa história. Cerca de R$ 40 bilhões serão pagos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Outros bilhões foram para o espaço. Teoricamente, o esforço deveria se concentrar na recuperação dessa fortuna roubada. Mas vazaram conversas íntimas de Vorcaro com a namorada, e elas passaram a ser o centro das atenções.

É um sinal dos tempos, mas há um viés cultural. No passado, quando a imprensa profissional detinha a hegemonia, havia um filtro na divulgação das notícias. Hoje, com milhares de comunicadores nas redes sociais — muitos buscando aumentar sua audiência —, um diálogo íntimo empolga os seguidores. Simplesmente não há como controlar nosso ímpeto latino. Se o órgão sexual da mulher foi chamado, carinhosamente, de “peleleca” ou “cherolaine”, essas palavras estarão entre as trends dominantes na internet.

Segundo tenho lido nos jornais, Vorcaro fará uma delação tão séria que não pretende citar ministros do Supremo Tribunal Federal. Os R$ 130 milhões do contrato com a mulher de Alexandre de Moraes foram apenas para uma cartilha de compliance que, ironicamente, resultou na Operação Compliance Zero para botá-lo na cadeia. O dinheiro investido no resort em que familiares de Dias Toffoli tiveram participação era apenas um bom investimento — tão bom que empresas poderosas como a J&F também investiram. E o que foi destinado ao filho de Nunes Marques era apenas o reconhecimento ao jovem talento, como há muitos em Brasília, todos filhos de alguém importante na República.

São problemas que deveriam estar na pauta. Mas competem com outros, como as festas na casa de Trancoso. Foram trazidas algumas mulheres do Leste Europeu que não tinham a mínima ideia dos homens com quem festejariam. A grande expectativa são as fotos e vídeos dessas festas. Como se Vorcaro e seus convidados fossem descuidados o bastante para permitir isso. As pessoas estão sintonizadas no escândalo errado, o de Jeffrey Epstein, nos Estados Unidos.

Isso não significa que não tenha havido festas e, possivelmente, que as mulheres não tenham sido vítimas de algum tipo de exploração criminosa. Pode ser até que Vorcaro tenha instalado câmeras secretas em Trancoso. Mas por que usaria essa tática se possivelmente comprou a fidelidade de políticos e juízes com muito dinheiro?

A realidade sem festas — gente com pouca roupa, louras europeias beijando maduras autoridades republicanas — é apenas a realidade de milhares de pequenos investidores roubados. Não podemos nos afastar dela no exame da responsabilidade de Vorcaro e seus cúmplices na política e na Justiça.

Artigo publicado no jornal O Globo em 24 / 03 / 2026

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O ENCONTRO DE PADRE CÍCERO E LAMPIÃO

Paulo Henrique Rodrigues, o PH, Diário do Nordeste

Há 100 anos, Padre Cícero e Lampião se encontravam no Cariri

Era final da tarde de 4 de março de 1926, quando Lampião e seu bando saltavam dos cavalos em Juazeiro do Norte. Vinham a convite do então deputado federal Floro Bartolomeu da Costa. Tinham como missão fazer parte de um exército montado às pressas pelo governo federal para lutar contra o movimento revolucionário comandado por Luís Carlos Prestes.

Lampião não encontrou Floro, que, doente, tinha viajado a Fortaleza e depois ao Rio de Janeiro, onde morreu no dia 8 daquele mesmo mês. Também não cruzou o caminho da Coluna Prestes, que, naquele momento, já marchava em outro ponto do Sertão. Mas Lampião não perdeu a viagem.

Permaneceria em Juazeiro do Norte até o dia 7, protagonizando uma sequência de acontecimentos, todos pacíficos, que só aumentariam a sua fama.

Na ausência de Floro, coube ao Padre Cícero encontrar Lampião para entregar a ele a patente de capitão do chamado batalhão patriótico criado pelo governo federal. Gesto que custou caro ao Padim, criticado em 9 de cada 10 jornais que noticiaram aquele encontro.

Lampião fez questão de frequentar as manchetes. Foi em Juazeiro do Norte que o cangaceiro concedeu sua primeira entrevista, feita pelo médico Otacílio Macedo, que morava no Crato e correra à cidade vizinha para encarar um entrevistado temido por todos e cercado de homens armados.

As respostas publicadas em "O Ceará" podem ser encontradas acompanhadas de comentários essenciais na literatura do Cangaço de Frederico Pernambucano de Mello, "Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros", e Robério Santos, do recém saído do prelo "O Santo e o Cangaceiro".

Além da entrevista, rica em detalhes, em que Lampião falava sobre a vida no cangaço e celebrava a oportunidade de visitar Juazeiro do Norte e de ver pessoalmente o Padre Cícero, foram registradas também imagens dele. 

As lentes de Pedro Maia, que veio do Crato, e Lauro Cabral, vindo de Barbalha, fotografaram um Lampião jovem, com chapéu sem testeira, numa pose que o deixaria famoso. Os originais de Maia estão guardados no Museu Orgânico da Fotografia do Cariri Telma Saraiva, no Crato.

Lampião ainda conheceria uma pessoa que o faria voltar às manchetes com mais força. Benjamin Abrahão, jornalista sírio então secretário do Padre Cícero, após a morte deste, procuraria o cangaceiro e, em 1936, faria um documentário com equipamento de uma empresa que tinha sede em Fortaleza, preciosidade do cinema brasileiro, que hoje conquista admiradores em Hollywood. Um filme que pode ser encontrado no YouTube e que tem tantos detalhes do cotidiano do grupo que levaram Pernambucano de Mello a dizer que Lampião parece ter codirigido a película.

A passagem pelo Cariri durou cerca de 72 horas. Tempo suficiente para que ele entrasse um cangaceiro de rosto quase anônimo e saísse capitão famoso, mesmo que a patente não valesse um pequi roído. 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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CONDENAÇÃO MANTIDA

Do Tempo Real

Justiça mantém condenação e Crivella terá de pagar R$ 100 mil por determinar apreensão ilegal na Bienal do Livro

A 4ª Câmara de Direito Público do Rio manteve a condenação do ex-prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) ao pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos, em ação civil pública movida por entidades de defesa dos direitos da população LGBTQIA+ por ele ter mandado recolher exemplares de livro que tinha como ilustração um beijo entre pessoas do mesmo gênero.

Hoje deputado federal — e também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus — Crivella havia recorrido da punição, mas seus argumentos foram rejeitados pelos desembargadores. A informação é do jornalista Ancelmo Gois, em sua coluna no jornal “O Globo”. Os R$ 100 mil, segundo a decisão original mantida, serão destinados “a políticas públicas de combate à discriminação por orientação sexual”.

Entenda os motivos da condenação de Crivella

Em 2019, durante a Bienal do Livro, Crivella, então prefeito, mandou recolher exemplares de um livro com uma illustração de um beijo gay. A atitute gerou polêmica e muitas críticas de perseguição e discriminação sexual. Com a repercussão, a publicação esgotou na feira.

“A repercussão nacional do caso concreto, inclusive em decorrência da exposição voluntária nas redes sociais do Réu, justifica a compreensão segundo a qual a mera cassação do ato administrativo ilegal é insuficiente para reparar a lesão aos interesses difusos em jogo”, diz o acórdão.

Para desembargador, “compreensão desigual” de formas de afeto

A ação foi movida por diversas associações de civis de defesa dos direitos das pessoas homossexuais e transexuais.

Segundo o desembargador relator Guilherme Peña de Moraes, “Ao mobilizar a máquina pública para lacrar as revistas em quadrinhos cujas capas contivessem representações de atos afetivos entre pessoas do mesmo gênero, demonstrou-se uma compreensão desigual de que determinadas formas de afeto – no caso, beijos entre duas figuras masculinas – são inapropriadas para o público juvenil, como se tivessem teor pornográfico ou de perversão sexual, ao passo em que semelhante tratamento não foi conferido às obras literárias que trouxessem representações de afeto entre homens e mulheres.”

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segunda-feira, 23 de março de 2026

MORRE GERSON BRENNER

Do g1

Gerson Brenner, ator de 'Rainha da Sucata', morre aos 66 anos

Galã fez sucesso em novelas dos anos 1990. Em 1998, foi baleado em uma tentativa de assalto, o que afetou sua locomoção e fala.

Morreu nesta segunda-feira (23), aos 66 anos, o ator Gerson Brenner, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Ele estava internado no Hospital São Luiz, no Itaim, em São Paulo. A morte foi confirmada pela esposa, Marta Brenner.

Conhecido por seus papéis como galã na TV Globo, ele enfrentava, há décadas, as sequelas de um tiro sofrido durante uma tentativa de assalto em 1998, o que o manteve afastado da vida pública.

"Ele tinha muito amor pela TV Globo. Não assistia nenhum outro canal. A vida dele era a televisão", disse a esposa.

Segundo a família, as informações sobre velório e sepultamento devem ser divulgadas posteriormente.

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Carreira

Gerson Brenner se destacou na televisão durante os anos 90, em novelas da TV Globo. Ele ficou famoso pelos papéis cômicos, quase sempre interpretando personagens fortões de bom humor e bom coração.

Em "Rainha da Sucata" (1990), interpretou um de seus papéis mais marcantes, como Gerson Giovanni, um instrutor de paraquedismo e filho mais velho de Armênia (Aracy Balabanian).

Outro papel de destaque foi o de Giovanni Barbieri na novela “Perigosas Peruas” (1992). Na trama, ele era um policial fortão, grosso, ignorante e trapalhão, que disputava o amor de Joana (Fabiana Scaranzi) com um colega.

Na novela "Corpo Dourado" (1998), viveu Jorginho, um fazendeiro ingênuo que disputava o amor da protagonista Selena (Cristiana Oliveira) com o empresário Arturzinho (Marcos Winter). Jorginho era mais um personagem divertido, que acabou formando um casal com Alicinha (Danielle Winits) no final da trama.

Tentativa de assalto

Quando interpretava Jorginho, o ator sofreu a tentativa de assalto que interrompeu sua carreira no auge.

Em 17 de agosto de 1998, Gerson Brenner estava na estrada indo de São Paulo para o Rio gravar o último capítulo da novela das 8 quando foi baleado na cabeça, na Rodovia Dutra.

Pedras foram colocadas na pista por assaltantes e estouraram dois pneus de seu carro. Na troca dos pneus, dois homens tentaram assaltá-lo. Gerson reagiu e foi baleado na cabeça.

A bala atravessou o hemisfério esquerdo do cérebro e ficou alojada na altura da nuca. Áreas do cérebro responsáveis pela locomoção e fala foram atingidas. Brenner ficou na cadeira de rodas e desde então teve dificuldades para falar. Nunca mais atuou.

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MORRE ROBERTO MARQUIS, O ETERNO GUARDA JUJU

Augusto de Sousa, DCM

Roberto Marquis, o eterno Guarda Juju, de “A Praça é Nossa”, morre aos 83 anos

O ator, humorista e cantor Roberto Marquis, conhecido pelos personagens Teobaldo e o inesquecível Guarda Juju do humorístico “A Praça é Nossa”, exibido pelo SBT, morreu aos 83 anos. Nascido em São Paulo, em 30 de março de 1942, Roberto construiu uma longa trajetória artística que atravessou décadas e diferentes áreas do entretenimento.

Seu personagem mais popular surgiu inicialmente em um comercial na década de 1970. O sucesso foi tão grande que Teobaldo migrou para o humor televisivo, tornando-se figura querida em “A Praça é Nossa”, programa comandado por Carlos Alberto de Nóbrega. Além do Guarda Juju, Roberto também interpretou personagens como Tanaka e Osório no tradicional banco da praça.

Roberto Marquis iniciou sua carreira na TV Tupi em 1962. Na publicidade, criou bordões famosos como o “Boko Moko”. Também se dedicou à música, gravando nove discos, muitos com marchinhas de carnaval. No cinema, produziu o infantil “Dani, Um Cachorro Muito Vivo”. O artista deixa sua marca na história do entretenimento brasileiro.

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CRIME DE ÓDIO

Miguel de Almeida, O Globo

Nega-se à deputada Erika Hilton o 'lugar de fala': sendo trans, não poderia tratar de questões das 'mulheres biológicas'

Às preocupações do brasileiro com o perigo de um conflito nuclear e ao espanto com as cafonices de Daniel Vorcaro, somou-se a batalha entre Ratinho e a deputada federal Erika Hilton. O apresentador mostrou-se indignado com a eleição da deputada ao cargo de presidente da Comissão da Mulher da Câmara. Irritado, disse-se contrário a que uma pessoa trans ocupe a vaga. E explicitou sua visão de mundo:

— Ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela]. Eu acho que deveria deixar uma mulher.

Para não deixar dúvidas, acrescentou:

— Mulher, para ser mulher, tem de ser mulher (...). Quero dizer que não tenho nada contra a deputada, ou deputado, não sei.

A deputada acionou o Ministério Público, que pediu a condenação do apresentador e da emissora. No contrapé, o Partido Novo solicitou a cassação da parlamentar, acusada de usar o mandato “como instrumento de intimidação (...) contra críticos que expressaram opiniões legítimas sobre temas como sexo biológico e identidade de gênero”.

Ratinho e o Partido Novo, em suas intervenções, não informaram que o Brasil, no ranking mundial, lidera o número de homicídios de pessoas LGBTQIA+. As fontes para minha afirmação (Grupo Gay da Bahia, Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil, entre outros) divergem bastante, e alguns estados deixam de informar os dados. Mas isso não alivia as mortes por ódio.

O imbróglio (chamemos assim) poderia ser polarizado da seguinte forma: Erika é uma deputada trans de esquerda; o Partido Novo está à direita e Ratinho vai na mesma seara, além de seus comentários em geral ofensivos. Ainda no campo ideológico, um relatório do Instituto Democracia em Xeque mostrou o impacto nas redes sociais. Em sete dias pesquisados, foram 956 mil posts com 15,6 milhões de interações dos usuários. Houve predomínio da direita (7 milhões) sobre a esquerda (4,2 milhões), com o restante espalhado por outras tendências. No conteúdo, embora se reconheça a luta das mulheres trans, ocorre a diferenciação entre elas e as “mulheres biológicas” — mas questiona-se a legitimidade de Erika para ocupar o cargo de presidente da Comissão da Mulher. É negado à deputada o “lugar de fala”. Sendo trans, não poderia tratar de questões das “mulheres biológicas”.

Se ficarmos nas estatísticas, em 2024 ocorreu uma morte a cada 30 horas, segundo o Grupo Gay da Bahia. No ano anterior, a frequência foi de uma morte a cada 34 horas. A maioria das vítimas (60,8%) tinha entre 19 e 45 anos. Salvador, em termos proporcionais de população, é a capital mais violenta. No ranking mundial, em 2024, 30% das mortes ocorreram no Brasil. Há divergências entre as fontes: em 2023, o GGB contou 257 homicídios, e o Observatório de Mortes e Violências LGBTIA+ no Brasil, 230; diferem as sistematizações. Nos métodos usados, estão armas brancas e de fogo; espancamentos, asfixia e apedrejamento. E ainda esquartejamento e carbonização.

Mesmo para um país violento como o Brasil — 20,8 assassinatos a cada 100 mil habitantes em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública —, os números são estarrecedores. Daí que não é questão a ser discutida por uma posição maniqueísta como ocorre nas redes, com eco num apresentador com altos índices de audiência.

Ratinho alega liberdade de expressão para propagar seus preconceitos. É o recurso usado à direita e à esquerda quando se é pego na cena do crime. Não é de agora que os meios de massa são usados para validar a opressão. Sob a ditadura, apresentadores acusavam artistas de ser comunistas. Aconteceu com Gil e Caetano, que acabaram presos e exilados por anos, embora não tenha havido um processo formal contra os dois. A fala de Ratinho pode ensejar violência. Ou solidificar a hostilidade contra o público LGBTQIA+. Com as consequências conhecidas.

Não importa, como se argumentou, que a Erika tenha votado contra o aumento de pena para crimes de feminicídio. E agora seja presidente da Comissão de Direitos da Mulher. A discussão é outra e precisa ser maior — pessoas são mortas. Não é tema para ser polarizado pela política ou religião (infelizmente se misturam no Brasil). Podemos lembrar a Ratinho que a escravidão era legal e defendida em nome da liberdade de propriedade. E o que é visto como liberdade de expressão, hoje, pode ser crime de ódio.

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