sábado, 8 de agosto de 2026

MULHERES QUE CONTARAM SUAS HISTÓRIAS COMO FORMA DE LUTAR

Flávia Oliveira, O Globo

Angela Davis comoveu ao situar a própria experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica quanto seu ativismo

Certas conversas, encontros, palavras reverberam em nós muito tempo depois de ocorridas, vividos, ouvidas. Foi assim com o diálogo que mantive com Angela Davis, em mesa idealizada pelo Sesc-RJ na edição 2026 da Festa Literária Internacional de Paraty, a Flip. À filósofa, professora e ativista apresentei perguntas a partir do pensamento de grandes intelectuais negras e negros do Brasil, entre os quais Conceição Evaristo. A grande escritora nacional cunhou o conceito de escrevivência, a produção literária extraída da experiência, das cicatrizes, das histórias da própria autora e de seu povo.

A ex-Pantera Negra abraçou a ideia para demonstrar que a obra de autores brancos não é necessariamente universal. E que a de autores negros pode ser.

— Toni Morrison provou isso — ela disse.

Mas Angela Davis comoveu ao situar a própria experiência de vida como elemento que pautou tanto sua produção acadêmica quanto seu ativismo. E falou da prisão. Autora de dezenas de livros, professora na Universidade da Califórnia, ela foi presa por três vezes no início dos anos 1970. Classificada como terrorista pelo FBI por integrar os Panteras Negras, enfrentou acusações, posteriormente anuladas, que resultariam em pena de morte. De uma líder do movimento, Ericka Huggins, ouviu que a “prisão pode ser um presente”. Tomou emprestada a frase:

— Quando fui presa pelo FBI, em 1970, não tinha ideia de que estava prestes a embarcar em uma série de experiências formativas. Por mais difícil que fosse enfrentar a pena de morte, a prisão, quando olho para trás, para aquele período, percebo que o resto da minha vida foi moldado pelo que aconteceu.

Das conversas com outras mulheres encarceradas, nasceu a abolicionista penal e a intelectual antiencarceramento em massa. Referência no tema no Brasil e no mundo, Angela é autora de “A democracia da abolição” e “Estarão as prisões obsoletas?”. Está escrevendo o segundo volume de “Abolition: politics, practices, promises”, em que aprofunda a reflexão sobre quanto a própria prisão se relaciona com seu trabalho. Da mobilização fora dos Estados Unidos por sua vida e libertação, brotou a convicção de que, em aliança, a sociedade civil pode muito. Até derrotar os poderosos (supostamente) invencíveis.

Angela Davis, décadas depois, foi uma das vozes globais que se ergueram para, com ativistas de todo o Brasil, mulheres negras à frente, exigir justiça por Marielle Franco, vereadora carioca executada no exercício do mandato, e Anderson Gomes, seu motorista. Desde o crime, em março de 2018, quase oito anos se passaram, até que autores e mandantes fossem condenados.

Lembrei da conversa com Angela Davis ao revisitar a luta de Inês Etienne Romeu, brasileira que viveu para contar, denunciar, cobrar a punição dos criminosos que a torturaram, humilharam e estupraram no centro clandestino de repressão da ditadura militar, em Petrópolis (RJ). Inês foi a única sobrevivente da Casa da Morte, cenário de morte e desaparecimento de 22 pessoas. Fez da vida luta por memória, verdade e justiça.

Nesta semana, 55 anos depois das brutalidades e 11 depois da morte, em abril de 2015, a Justiça Federal condenou em segunda instância o ex-sargento do Exército Antonio Waneir Pinheiro Lima, vulgo Camarão, pelos crimes de sequestro qualificado e dois estupros. A juíza federal Maria Isadora Frazão fixou a pena de 12 anos, 11 meses e 25 dias de reclusão pelos atos contra Inês. Por serem crimes contra a humanidade, não foram passíveis nem de prescrição nem de aplicação da Lei da Anistia.

A estudante ficou presa por 96 dias na Casa da Morte. Em outubro de 1971, ela denunciou as violências numa carta. Escreveu que o documento ajudaria a esclarecer os fatos obscuros “em nome da honra do país” onde nasceu. Em 2014, apontou seus torturadores à Comissão Nacional da Verdade (CNV), o que viabilizou a ação do Ministério Público Federal. Mesmo com meio século de atraso, a condenação inédita do sequestrador, torturador e estuprador pago pelo Estado foi alento, não só para a família de Inês, mas para todas as mulheres vítimas dos Anos de Chumbo da História do Brasil.

— A gente viveu para ver essa decisão justa, histórica, necessária. É a remissão de todas as mulheres que foram estupradas na tortura. Todos os corpos aviltados na tortura estão sendo resgatados na sua dignidade — desabafou Denise Assis, jornalista, escritora e pesquisadora na CNV.

Quem também viveu para ver foi Maria da Penha Maia Fernandes, hoje com 81 anos. Ela não desistiu de buscar justiça por agressões e tentativa de feminicídio pelas mãos do ex-companheiro. Uma luta que começou em 1983 deu na denuncia à Comissão Interamericana de Direitos Humanos. Em 2001, o órgão condenou o Brasil a elaborar o arcabouço legal de proteção à mulher. Ontem, a Lei Maria da Penha completou 20 anos. É o texto que ensinou às brasileiras o que é violência física, sexual, psicológica, moral e patrimonial; estimula denúncias; viabiliza punições.

Duas mulheres, uma jovem estudante e uma servidora do Judiciário, viverão para contar que, pela coragem que tiveram, um ministro do Superior Tribunal de Justiça (STJ), Marco Buzzi, perderá o cargo, sinônimo de poder e prestígio. Ele foi condenado à pena máxima por seus pares pelas acusações de assédio e importunação sexual. Apenas em 2025, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, foram registrados 9.031 daquele e 41.425 deste crime. Que a justiça se faça.

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TEORIA GERAL DE KEYNES: 90 ANOS

Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar das antigas

No Ano da Graça de 2026, a Teoria Geral de John Maynard Keynes completa 90 anos. A primeira edição do livro seminal do pensador inconformista foi publicada em fevereiro de 1936. Julgo conveniente iniciar este artigo com o prefácio da Teoria Geral:

“A composição deste livro tem sido, para o autor, uma longa luta de fuga, e a leitura dele deve ser, para a maioria dos leitores, um ataque bem-sucedido para escapar dos modos habituais de pensamento e expressão. As ideias expressas aqui, com tanto esforço, são extremamente simples e deveriam ser óbvias. A dificuldade não está nas ideias novas, mas em escapar das antigas, que se ramificam, para aqueles criados como a maioria de nós, para todos os cantos da mente”.

No célebre artigo O Fim do ­Laissez-faire­, Maynard ironizou a ideia de que a busca do interesse privado levaria necessariamente ao bem-estar coletivo. “Não é uma dedução correta, segundo os princípios da teoria econômica, afirmar que o egoísmo esclarecido leva sempre ao interesse público. Nem é verdade que o autointeresse é, em geral, esclarecido.”

Os efeitos negativos do darwinismo social devem ser neutralizados mediante a ação jurídica e política do Estado e, sobretudo, pela atuação de “corpos coletivos intermediários”, como, por exemplo, um Banco Central dedicado à gestão consciente da moeda e do crédito. Keynes acreditava que a cura para os males do capitalismo deve “ser buscada, em parte, pelo controle da moeda e do crédito por uma instituição central e, em parte, por um acompanhamento da situação dos negócios, subsidiados por abundante produção de dados e informações”. Ele insistia na “direção inteligente pela sociedade dos mecanismos profundos que movem os negócios privados”, particularmente as decisões sobre a posse da riqueza marcadas pelo conflito entre o investimento criador de riqueza nova – leiam-se emprego, rendimentos e lucros para trabalhadores e empresários – e a acumulação de valores fictícios, financeiros, estéreis para a comunidade.

No último capítulo de sua obra maior, intitulado Notas Finais Sobre a Filosofia Social, Keynes constrói a síntese entre a sua filosofia moral e a crítica à “teoria clássica” empreendida ao longo do livro. Ele propõe um conjunto de políticas apoiadas nas concepções já sugeridas no artigo de 1933, The Means to Prosperity: “O problema econômico é uma questão de economia política, isto é, da combinação entre teoria econômica e a arte da gestão estatal”.

O primeiro ponto desse arranjo de política econômica é a “socialização do investimento”, entendida como a coordenação, pelo Estado, das relações entre o investimento público e o privado. O “orçamento de capital” do governo deve ser administrado de modo a minorar as incertezas que contaminam o investimento privado. “Creio que uma socialização bastante completa do investimento será o único meio de se aproximar do pleno emprego, ainda que isso não exclua qualquer forma de cooperação entre a autoridade pública e a iniciativa privada.”

O segundo pilar da proposta ­keynesiana trata da eutanásia do ­rentier. A política bancária e de crédito deve ser administrada para neutralizar “o poder de opressão acumulativo do capitalista para explorar o valor de escassez do capital… enquanto sejam intrínsecas as razões para a escassez da terra, isso não é verdade para a escassez de capital”.

O terceiro ponto reclama um sistema fiscal que mantenha permanentemente a capacidade de redistribuir renda dos mais abonados para as classes menos favorecidas, com o objetivo de manter o consumo crescendo à mesma velocidade da expansão da renda.

Na Teoria Geral, Keynes clamava por uma distribuição mais equitativa do ajustamento dos desequilíbrios de balanço de pagamento entre deficitários e superavitários, como forma de evitar os desatinos competitivos de “empobrecer o vizinho”. Isso significava facilitar o crédito aos países deficitários e penalizar os superavitários. O propósito era evitar os “ajustamentos deflacionários” e manter as economias na trajetória do pleno emprego. Mais tarde, em Bretton Woods, Keynes fez uma proposta à Clearing Union, uma espécie de Banco Central dos Bancos Centrais.  A Clearing Union emitiria uma moeda bancária, o “bancor”, destinada a liquidar posições entre os Bancos Centrais. Ele imaginava que o controle de capitais deveria ser “uma característica permanente da nova ordem econômica mundial”.

É fácil perceber a atualidade dessas recomendações de política econômica. Mas é quase impossível vislumbrar sua aplicação no mundo controlado pelas ideias do poder – econômico, financeiro e midiático – não, como pretendia Keynes, pelo poder das ideias. •

Publicado na edição n° 1425 de CartaCapital, em 12 de agosto de 2026.

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JOGADA DE EDUARDO CUNHA EM MINAS DERRUBA OUTSIDER CLEITINHO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Com 39% nas pesquisas, favorito ao governo do estado teve a candidatura negada

Espelho das eleições presidenciais desde a democratização, cenário mineiro está embolado

Ele brigou, chorou, rezou, apelou ao luto familiar. Mas até agora nada feito. Cleitinho –cuja presença agressiva nas redes o levou de vereador em Divinópolis (MG) ao Senado com 4 milhões de votos– é a primeira grande baixa nas eleições de 2026. Um favorito que foi sem nunca ter sido.

Com 39% nas pesquisas para o governo de Minas, Cleitinho teve sua candidatura negada pelo presidente do Republicanos, Marcos Pereira, devido à sua "instabilidade". Pereira disse que o partido "não pode submeter o povo a uma situação de insegurança". Conversa. Foi uma rasteira da política fisiológica em quem posa de outsider.

Em junho, quando se achava dono da situação, Cleitinho deu uma entrevista extraordinária. Aspas, que ele merece: "Entrei na política para aparecer, não sou hipócrita. Nunca tive título de eleitor, só queria ser famoso. Queria ser comentarista de futebol ou apresentador de TV igual ao Ratinho. Se um dia tiver uma proposta, largo essa merda".

Aproveitou para desmoralizar o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal, empresário da fé que manda no Republicanos, usando o partido como ponta de lança no projeto de poder neopentecostal: "Falso profeta, de quem não quero me aproximar".

A desdita de Cleitinho não está ligada às declarações –tampouco ao fato de jamais ter apresentado um projeto de relevância– e sim a um arranjo do inacabável Eduardo Cunha, que após sair da cadeia se instalou com todas as suas tralhas e tramoias no Triângulo Mineiro. Ele quer se reeleger deputado federal, se conseguir cancelar a folha corrida na Justiça, e armou a postulação de Marcelo Aro, um cartola de futebol não por acaso conhecido como "o Cunha mineiro". O plano B do Republicanos, no entanto, é Luís Eduardo Falcão, ex-prefeito de Patos de Minas.

Embora desmontado, o circo do ex-presidente da Câmara embolou a eleição em Minas, segundo maior colégio e espécie de espelho eleitoral das intenções de voto para a Presidência. Desde a redemocratização do país, quem venceu lá chegou ao Planalto.

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O CÉREBRO AUTORITÁRIO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Eduardo Bolsonaro diz que escolha de Gaspar para vice é escudo contra impeachment

Tal visão denota paranoia institucional, que é característica de personalidades autoritárias

Adorei a reação de Eduardo Bolsonaro à escolha do polêmico Alfredo Gaspar para disputar o cargo de vice na chapa do irmão: "Com Alfredo Gaspar não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro". Não é uma observação inédita. Bolsonaristas disseram praticamente a mesma coisa quando o general Hamilton Mourão foi escolhido para concorrer como vice de Jair em 2018.

O raciocínio denota uma certa paranoia institucional. Em vez de ver o vice como alguém que agrega apoios e ideias à chapa, Eduardo e outros bolsonaristas preferem descrevê-lo como uma apólice de seguro contra tentativas de destituição. Esse tipo de paranoia projetiva, que pressupõe um mundo repleto de inimigos ocultos e conspirações, é uma das características marcantes de personalidades autoritárias. Outros traços incluem convencionalismo, submissão ao líder e agressividade.

O interesse por tentar entender a mente de pessoas que aderem a ideologias totalitárias ganhou impulso após a derrota do nazismo. É nesse contexto que foi publicado, em 1950, o livro "A Personalidade Autoritária"Theodor Adorno é nome famoso associado à obra, mas ela resultou de um esforço coletivo e é assinada por vários autores. Um dos mais importantes é Else Frenkel-Brunswik. Foi ela quem coordenou e analisou as mais de 2.000 entrevistas que deram base empírica ao livro. Também é dela a famosa escala F, que permite calcular numericamente quão fascista é uma pessoa.

Um dos muitos achados interessantes da obra é que o autoritarismo tem base familiar. Estaria vinculado a um poder patriarcal rígido que condiciona afeto a desempenho e obediência. Outra constatação fascinante é que a rigidez psicológica de perfis autoritários não fica limitada à política, mas vaza para todas as dimensões do pensamento, incluindo a matemática e a solução de problemas.

Autoritários resistem a mudanças e não aceitam bem respostas diferentes daquelas a que estão acostumados, mesmo que mais eficientes. O cérebro autoritário é autoritário por inteiro.

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OS POLÍTICOS E AS MULHERES

Juliana Diniz*, O Povo

As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do preço de sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito valioso. As mulheres estão, por isso, mais obstinadas

O voto das mulheres é o centro da eleição de 2026. É preciso convencer o eleitorado feminino, conquistá-lo. Eu diria mais: pela primeira vez, os candidatos tradicionais precisam se esforçar para dialogar com as mulheres, olhando-as nos olhos. Cada um usará o repertório de que dispõe. Avaliar seus movimentos será uma aula sobre como nossa sociedade divide os papéis de gênero.

Na convenção do PT, Lula se queixou da falta de representatividade no palanque do partido. Flávio Bolsonaro ressaltou que filhas são cuidadoras em potencial, porque esse é seu papel familiar. Romeu Zema disse que homens precisam trabalhar, e que as mulheres têm seus assuntos domésticos. Ciro Gomes criticou as "mulheres agressivas do PT", defensoras, segundo ele, de um "feminismo vazio".

Quando colocamos sobre a mesa as múltiplas declarações, vemos as mulheres oscilando entre dois estereótipos muito claros: o da mulher submissa, boa esposa e filha, obediente ao líder familiar, e o da feminista militante, raivosa e agressiva, destruidora de pontes.

Nenhum dos dois contempla o eleitorado feminino. A mulher conservadora não é uma ovelha obediente que votará em quem lhe mandar: as pesquisas de intenção de voto mostram isso. A mulher de esquerda, feminista convicta, tem feito mais pelo combate à desigualdade social do que o mais ortodoxo dos quadros partidários da esquerda histórica.

O que essas mulheres têm em comum? Por que é possível falar em eleitorado feminino, em comportamento desse eleitorado e em intenções de voto desse estrato? Há algo que nos perpasse como grupo, uma espécie de identidade como sujeitos políticos? Eu diria que sim, e a explicação exige de quem observa a política a capacidade de entender os efeitos fragmentados, muitas vezes contraditórios, de mudanças estruturais de longo prazo.

As mulheres estão mudando, as conservadoras ou não. Estão amadurecendo sua consciência política, a percepção dos direitos e do preço de sua autonomia. Estão compreendendo que têm um capital próprio, e muito valioso.

As mulheres estão, por isso, mais obstinadas, para usar a expressão de Sara Ahmed. Ser obstinada é ter vontade própria, é tornar-se audível, exercer voz, querer estar presente. É desagradar, mesmo que isso renda a alcunha de "agressiva". "Ser obstinada é ter uma vontade que descontenta", escreve a autora.

Tenho a impressão de que nenhum dos nossos políticos nos enxerga assim, como pessoas autônomas, cidadãs plenas. Enquanto não houver diálogo de igual para igual, as mulheres continuarão a ser, nos discursos dos políticos, apenas uma caricatura atemorizante, distante. Pergunto: quando eles começarão a falar efetivamente com as mulheres reais em vez de falar das mulheres imaginárias?

*Doutora em Direito (USP) e professora na Universidade Federal do Ceará

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sexta-feira, 7 de agosto de 2026

PODERES PRECISAM DE NOVO PACTO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

Precisamos sair do varejo ininterrupto que tomou conta da política nos últimos anos, com decisões que fortaleceram a oligarquização do poder em todos os seus fronts institucionais

O início da corrida presidencial está mais para um jogo de acusações do que uma disputa por projetos. É verdade que há necessidade de se debater e investigar todas as denúncias contra os candidatos e seus aliados, do mesmo modo que é provável que com o decorrer da eleição apareçam as ideias e as diferenciações entre os presidenciáveis. Porém, a realidade nua e crua do dia seguinte do voto não é a prioridade no discurso dos concorrentes. O problema é que o ano de 2027 vai exigir muitas medidas para evitar uma crise política e econômica. E isso só será possível com um novo pacto entre os Poderes.

Reclama-se muito, eleição após eleição, que os candidatos não apresentam um plano de governo baseado num conjunto estruturado e crível de políticas públicas. Sem dúvida isso é fundamental e precisa ser cobrado dos atuais presidenciáveis. Mas o cenário de 2027 exige algo mais: uma estratégia de governabilidade que reconstrua as relações entre os Poderes, que ao final do governo Lula III estão em frangalhos.

Não que o atual mandato tenha iniciado esse problema. Na verdade, ele é um ponto mais alto de um processo crescente iniciado no final do primeiro governo Dilma. Trata-se de um fenômeno de deterioração de muitas das bases do presidencialismo de coalizão que vigorou de forma mais estável entre o período FHC e o segundo período do presidente Lula, quando os conflitos, naturais num sistema de divisão de Poderes, não geravam grandes anomalias decisórias e de alocação de recursos públicos, nem o sentimento de revanche entre os Poderes.

Antes que decretem, o presidencialismo de coalizão não morreu, nem nasceu um semipresidencialismo congressual. Isso porque tal modelo é extremamente necessário tanto em termos sociais como políticos, pois seu objetivo é lidar com a enorme heterogeneidade do país por meio de acordos e negociações que envolvem divisões de poder e de ganhos entre os atores, mantendo uma governabilidade dividida sem que o sistema deixe de ser funcional. Foi nessa linha que Sérgio Abranches definiu o caminho possível de nosso presidencialismo há cerca de 40 anos, apesar de ele também ter dito que esse equilíbrio era factível, mas seria sempre complexo e escorregadio.

O presidencialismo de coalizão continua sendo fundamental e parte importante dele ainda funciona razoavelmente, pois o presidente consegue produzir algumas alianças em torno de projetos e definir a maior parte da pauta legislativa (embora menos do que antes), o Congresso Nacional e o STF exercem seu poder de fiscalização sem querer derrubar o mandatário a todo instante e, em suma, as crises não colocaram ainda o sistema em questão, a despeito de isso ter ficado perto de acontecer em determinados momentos do mandato de Jair Bolsonaro.

O problema é que a capacidade de o Executivo federal ter a direção do processo político é algo cada vez mais frágil, como sentiram os últimos quatro presidentes da República, muito diferentes não só ideologicamente, mas na forma de pensar o poder e em suas habilidades negociadoras. Soma-se a isso o fato de que o Congresso Nacional vem obtendo gradativamente mais poderes sem ganhar as responsabilidades equivalentes, como bem provam as emendas parlamentares, cuja dinâmica crescente e opaca tem piorado a qualidade do gasto e aumentado as zonas de favorecimento corrupto dos congressistas.

O Supremo Tribunal Federal precisa igualmente de um freio de arrumação, seja em sua engrenagem interna, seja na sua relação com os demais Poderes e com a sociedade. É inegável que o STF tem cumprido um papel corretor de desmandos constitucionais dos congressistas e do presidente, tendo tido um papel fundamental em crises de políticas públicas - como a da gestão da pandemia da covid-19 - e do sistema político, particularmente na tentativa de golpe de Estado comandada pelo presidente Jair Bolsonaro.

Entretanto, excessos de poder unipessoal, falta de transparência em determinados ritos ou comportamentos sociais e um embate permanente com o Congresso Nacional, num jogo em que um quer punir o outro, são fatores que necessitam ser corrigidos para garantir a própria legitimidade do Judiciário, fundamental numa democracia.

Dois cenários devem ser evitados no próximo quadriênio governativo (2027-2030). Um é o da manutenção do cenário atual, em que os deputados e senadores inflam cada vez mais emendas sem controle público para serem pegos na esquina por algum ministro do Supremo, algo que será descontado mais adiante com a criação pelos congressistas de uma série de leis sem base constitucional, dificultando a possibilidade de barrar judicialmente todas essas medidas. No meio deles está o presidente, cuja caixa de ferramentas para produzir coalizões não tem o mesmo alcance do passado, e que já começa a ter enormes problemas para indicar postos que precisam de aprovação congressual.

Pior do que a manutenção da situação atual é sua transformação numa espécie de briga de rua, em que vale tudo, inclusive eliminar os Poderes do outro ramo, tratado como inimigo a ser vencido. Este segundo cenário está muito presente na promessa de derrubar ministros, no plural, do Supremo Tribunal Federal. O objetivo aqui não é moralizar o jogo, até porque isso precisaria ser acompanhado da punição exemplar dos congressistas do centrão, do bolsonarismo e do governo que se envolveram em diversos escândalos nos últimos anos.

Imagine se Flávio Bolsonaro vence as eleições e tenta emparedar o STF, cassando seus membros, mas deixando de ser punido por rachadinhas, empréstimos de Vorcaro, ganhos de serviços advocatícios feitos por quem era filho do presidente e pela entrega do poder de fato do país a uma potência estrangeira, no caso obedecendo a todas as ordens e punições de Trump ao Brasil. A crise iria além dos Poderes e se transformaria numa crise de legitimidade da democracia e da República.

Por isso que a única saída é construir uma nova pactuação entre os Poderes, tarefa não só do próximo presidente, como também e igualmente das lideranças congressuais, dos ministros do STF que pensem na instituição, dos governadores de estado, de lideranças sociais e do setor produtivo - neste último caso porque se o confronto institucional virar briga de rua, a economia vai para o brejo. A reconstrução do jogo e das suas regras de convivência não servem simplesmente para parar brigas e ponto final. Esse processo deve ter como objetivo enfrentar tarefas tão essenciais quanto difíceis e complexas que o Brasil precisará enfrentar.

Cinco pontos justificam a busca desse novo equilíbrio no presidencialismo de coalizão. Primeiro para gerar maior confiança na democracia. Se os Poderes não acertarem e definirem uma boa agenda de país, serão tragados pelo antissistema em 2030 - e ele será mais caudaloso do que foi o bolsonarismo em 2019. Para isso, os atores institucionais terão de atacar privilégios e comportamentos antirrepublicanos, afastando de si piratas como os donos do Master, que entregaram bondades para desmoralizar todo o sistema.

A repactuação é fundamental, em segundo lugar, porque o Brasil precisará passar por um ajuste fiscal relevante, e isso é uma questão matemática, em vez de ideológica. Como serão necessários cortes, e eles podem atingir setores sociais importantes, será essencial cortar na carne de quem está no andar de cima das instituições públicas, para dar o exemplo aos eleitores. Sem mexer, numa proporção convincente, com penduricalhos e emendas, será muito mais difícil acertar as contas públicas, potencializando uma crise que pode ser profunda.

Ademais, o equilíbrio decisório precisa ser restabelecido porque o contínuo crescimento da luta fratricida entre os Poderes levará o país, certamente, a uma crise institucional grave. Esse terceiro ponto é importante porque no passado quem cultivava o jacobinismo era a esquerda, ao passo que quem faz isso hoje é a direita comandada por extremistas. A história mostra que a tentativa de quebrar o sistema na marra produziu mais caos, opressão e miséria das nações. É magnético ouvir líderes e discursos salvacionistas no início, tanto quanto é desesperador ver os resultados desastrosos num prazo muito rápido.

Os dois últimos pontos têm a ver com o futuro do país. Num plano mais imediato, um quarto problema que enfrentaremos é o ataque deliberado à soberania nacional pela interferência externa dos EUA no processo político brasileiro, infelizmente com apoio dos bolsonaristas. Para resistir a esse golpe de fora para dentro, será preciso mais do que um presidente salvador da pátria; será necessária uma forte aliança entre os Poderes e destes com a sociedade.

A nova pactuação entre os Poderes, por fim, deve servir para sairmos do varejo ininterrupto que tomou conta da política nos últimos anos, com decisões que fortaleceram a oligarquização do poder em todos os seus fronts institucionais. Para enfrentarmos os desafios do século XXI e termos um projeto consistente de desenvolvimento que tenha um horizonte bem mais amplo do que um mandato, será preciso começar em 2027 uma negociação mais ampla que gere uma pactuação duradoura por um novo equilíbrio entre os Poderes.

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A MILONGA ELEITORAL

José de Souza Martins, Valor Econômico

O presidente da Argentina, Javier Milei, não falou em nome próprio, mas como protagonista de empréstimo do ex-presidente e chefe do clã que está preso 

Uma visita insólita aos palcos da política brasileira ocorreu há poucos dias. Foi quando da convenção do PL que oficializou a candidatura de um filho de Jair Messias à confirmação da família na Presidência da República.

Família, na lei brasileira, republicana e não monárquica, não é sujeito de direito eleitoral. Tecnicamente, político não é nem tem família. Só na vida privada. No entanto, mesmo quem do “clã” está condenado e na prisão comporta-se aqui como se não estivesse. Manda por trás das grades.

A visita insólita foi a do presidente da Argentina, que tirou uma folga para uma visita não oficial, uma escapada para socorrer um colega brasileiro de ideologia política, em crise de sobrevivência eleitoral.

O evento da convenção mencionada foi feito para legalizar fora da lei o protagonismo eleitoral do que vem sendo identificado pela mídia como “clã Bolsonaro”. Uma prática de despistamento exposta pelo ministro do Meio Ambiente, na reunião do governo Bolsonaro de 22 de abril de 2020. Aproveitar a distração da mídia com a pandemia para fazer “passar a boiada” de mudanças nas leis de proteção ambiental com base nas regras e textos normativos infralegais. Um Brasil infralegalmente paralelo é o Brasil da direita, e é nele que vivemos.

É o país da exceção. O país do que o professor da USP Antonio Candido definiu em seu artigo sociológico famoso como “dialética da malandragem”.

Não é estranho, portanto, que um personagem bufo, coadjuvante de outro governante descabidamente bufo, do recinto conhecido como Casa Branca, assessorado pelo “clã” brasileiro lá infiltrado, que aqui pretende voltar ao poder, tenha sido importado do rio da Prata para fazer o comício de oficialização da candidatura do grupo.

Não podendo legalmente recorrer aos termos usados no discurso bufo que o convidado fez no evento, ao difamar o presidente brasileiro e um ministro do STF, Milei não falou em nome próprio, mas como protagonista de empréstimo para na própria boca colocar o discurso que era, tudo indica, por gestos de entusiasmo e coleguismo, o do candidato bolsonarista à presidência do Brasil emudecido pela circunstância.

Clã por uma sutil ironia jornalística porque não existem clãs na organização social da família no Brasil. Até porque o que dessa instituição, herdada de Portugal, resistiu no país até o começo do Império, deixou de existir legalmente em 1835. Quando foi extinto aqui o morgadio, que concentrava os direitos de herança, especialmente os de terras, nas mãos do filho primogênito de um potentado rural, o morgado.

No Brasil da época, o principal bem não era a terra. Eram os escravos. Concentrar terras era ampliar o poder da escravidão e do escravismo e, portanto, o morgadio era um dos fundamentos do poder político.

Os morgados, indiretamente, herdavam também um direito prioritário ao poder, na importância que o patrimônio tinha no Império para ascensão aos níveis mais altos do Legislativo. Um sistema de acesso político hierarquizado de vereador municipal a deputado ao Parlamento nacional com base no montante do patrimônio de cada candidato e o requerido em cada nível.

Foram tantos os disfarces para essa persistência, que ela perdura até hoje, como indica a pretensão do morgadio nos direitos políticos exclusivos de uma família no país de agora. É a legitimação pelo eleitorado partidarizado mas não politizado, que é o nosso, dessa pretensão, que os partidos de direita e de extremo centro praticam.

Em bom número, partidos não representativos das demandas sociais e políticas condenam o povo brasileiro à subserviência a esse tipo de gente e de mentalidade por no mínimo mais meio século. Com os cúmplices e cupinchas como alternativas leais, ainda que eventuais, poderão chegar a um século no poder.

Com o elenco de bajuladores e protegidos que o “clã” tem arrastado para o Poder Legislativo, as prefeituras e câmaras municipais, os governos estaduais e as assembleias legislativas, a direita governa por via indireta, como faz o presidente do Senado e do Congresso.

Cotidianamente atuam para inviabilizar as medidas governamentais do Poder Executivo e mesmo as decisões reguladoras do Poder Judiciário. Passam, mutiladas, as medidas que eles querem e permitem.

Infiltrar-se no STF foi tentativa sinistra de risco de influência pessoal de um grupo de interesses políticos em eventuais decisões da corte. Aqui, cada vez mais, é ela nossa mais importante garantia de respeito à Constituição, às leis e à democracia que nos resta. Mas ameaçada o tempo todo pelos fazedores de “fake news”. Até religiões e seitas foram postas de joelhos. Como diz Guimarães Rosa: “E Deus mesmo, se vier, que venha armado”.

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quinta-feira, 6 de agosto de 2026

AMADO, O JORGE AMADO

Do History

Há 25 anos, o Brasil se despedia de Jorge Amado, um dos maiores escritores da literatura nacional.

Autor de obras que retrataram a cultura, o povo e as contradições sociais do Brasil, ele deixou um legado que atravessa gerações e continua inspirando leitores em todo o mundo.

Nascido em Itabuna (BA), em 10 de agosto de 1912, Jorge Amado escreveu 49 livros, publicados em dezenas de idiomas e adaptados para o cinema, o teatro e a televisão. Entre suas obras mais conhecidas estão "Gabriela", "Cravo e Canela", "Dona Flor e Seus Dois Maridos", "Tieta do Agreste", "Capitães da Areia" e "Teresa Batista Cansada de Guerra".

Sua literatura deu protagonismo ao povo brasileiro, abordando temas como desigualdade social, cultura popular, religiosidade, política, folclore e a riqueza das tradições da Bahia. Além da carreira literária, também foi jornalista e atuou na política, chegando a viver períodos de exílio por suas convicções ideológicas.

Em 1961, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e recebeu importantes reconhecimentos nacionais e internacionais ao longo da vida. Suas histórias permanecem entre as mais adaptadas da literatura brasileira e seguem conquistando novos leitores décadas após sua publicação.

Vinte e cinco anos após sua morte, Jorge Amado continua sendo um dos escritores mais influentes da cultura brasileira e uma referência da literatura mundial.

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MESMO COM INTERFERÊNCIA ESTRANGEIRA, DISPUTA ENTRE LULA E FLÁVIO BOLSONARO CHEIRA A MOFO

Malu Gaspar, O Globo

Pode-se dizer que a corrida presidencial começou para valer com a oficialização dos candidatos e suas chapas e com a definição do quinhão de tempo de TV e rádio de cada um. Como sempre, os discursos nas convenções, as escolhas de vices e a formação (ou não) de coligações movimentaram o noticiário. Olhando bem, porém, à exceção das tentativas de Argentina e Estados Unidos de se enfronhar no processo eleitoral, que ainda podem ter consequências, todo o resto cheira a mofo.

O tumulto na campanha de Flávio Bolsonaro (PL), inaugurado com as revelações do caso “Dark Horse” e agravado pela briga pública com Michelle Bolsonaro, teve uma trégua com a escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para vice. Os números da pesquisa Genial/Quaest divulgados ontem mostram que a relativa calmaria na campanha ajudou o candidato do PL a recuperar um pouco do terreno perdido para Lula.

Mas, se há uma certeza no mundo kardashiano dos Bolsonaros, é que logo teremos novas tretas para movimentar as redes sociais.

Lula, que concorre de novo com o mesmo vice, declarou, no palco da convenção em que foi confirmado candidato, que agora vai. No quarto mandato, ele vai ser “ousado”, “vai mudar coisa nesse país”, e “vai ter briga com emenda parlamentar”.

Nem ele mesmo acredita no que diz, mas isso não importa. De agora até o primeiro turno, jogará a bola para o lado e evitará tomar gol, enquanto sua verdadeira estratégia de campanha vai sendo executada a partir do Palácio do Planalto, com Desenrola 2.0, Gás do Povo e o impulso do Move Brasil, entre outros programas destinados a convencer o eleitor de que vale a pena mantê-lo no poder.

A ordem no comando da campanha é que Lula não vá a debates ou sabatinas promovidas pelos veículos da imprensa profissional. A prioridade na agenda é dos podcasts, em que ele costuma falar sem ser apertado e pode passar recados sem interferências.

Flávio, por sua vez, já decidiu que só vai aonde Lula for. Tudo isso favorece a manutenção do cenário de polarização Lula/Flávio, com pouca diferença entre os dois nas intenções de voto — a menos, é claro, que o imponderável venha a dar as caras.

A má notícia para ambos é que ele sempre aparece, e nesta semana fez uma visita a Lula. Três inquéritos foram abertos no Supremo Tribunal Federal para investigar suspeitas de tráfico de influência envolvendo seu filho Zero Um, Fábio Luís Lula da Silva, mais conhecido como Lulinha, e seu ex-chefe de gabinete e coordenador de campanha, Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola. Companheiro fiel de Lula desde antes da prisão, Marcola foi obrigado a admitir ter recebido R$ 249 mil de Roberta Luchsinger, lobista do “Careca do INSS” em Brasília (e, pelo visto, no Palácio do Planalto).

Que Lulinha tenha se envolvido em novos rolos depois de tudo o que já se documentou a respeito dele desde o caso Gamecorp, não chega a ser surpresa para quem o conhece. Ainda assim, segundo o que se ouve na campanha, o impacto de eventuais revelações sobre uma ligação entre ele e o escândalo do INSS já estava “precificado”. Num dos podcasts a que compareceu nos últimos dias, Lula recitou a frase já ensaiada:

“Não haverá nenhum privilégio. Eu jamais pedirei para um delegado ou para um juiz não fazer as coisas corretas. Se ele estiver certo, ele vai ter ajuda minha. Se ele fizer coisa errada, ele sabe o que eu passei”.

O que não estava precificado era o envolvimento de Marcola no escândalo, e a saída dele da campanha não aplaca a ansiedade no entorno de Lula. Quem conhece a fundo a história dos rolos de Careca, Lulinha e Marcola no INSS aposta que vem mais coisa por aí. Até que ponto esse caso pode machucar o desempenho de Lula na corrida eleitoral, ainda é difícil dizer.

Ao mesmo tempo, ninguém que conheça bem a dinâmica de uma eleição duvida que Flávio fatalmente será alvejado por novas denúncias até o primeiro turno.

Numa disputa eleitoral tão apertada, cada jogada conta pontos e, como a criatividade do roteirista do Brasil é infinita, novos lances gerarão mais manchetes e podem, no limite, afetar o resultado final do pleito.

Com tanto agito, pode parecer contraditório dizer que a disputa deste ano cheira a mofo. Não é. O rumo que esta eleição tem tomado é o mesmo das anteriores: uma sequência infindável de tretas, denúncias e debates estéreis, em que os temas que realmente importam — do endividamento da população à segurança pública, passando pelo problema fiscal e pelas deficiências na educação — nunca são discutidos seriamente.

Entre tantas divergências, este é o único ponto comum entre os candidatos que têm voto: os dois estão se empenhando para atravessar a corrida sem submeter à população um projeto concreto de futuro.

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INSANA CORRIDA PARA TENTAR SALVAR O BRB

Maria Clara R. M. do Prado, Valor Econômico

Na ponta do lápis, as contas não fecham, a menos que escolas, postos de saúde e outros serviços prestados à população do DF deixem de funcionar

Há muito tempo não se via uma movimentação política tão intensa para salvar um banco quebrado. Desde que assumiu carteiras de créditos podres em negociação suspeita com o banco Master, o Banco de Brasília (BRB) se arrasta aos trancos e barrancos, com problemas de liquidez e de patrimônio. Como não há publicação de balanço (o último data do segundo trimestre de 2025) não se sabe ao certo o tamanho do buraco. Sabe-se, sim, que é expressivo, qualquer que seja a indicação de prejuízo que se queira considerar.

De acordo com o governo do Distrito Federal — dono do BRB, com participação de 53,71% — o rombo é de R$ 8,8 bilhões. Analistas do setor financeiro estimam um déficit de pelo menos R$ 12 bilhões, o valor da carteira de créditos podres comprada do Master. Segundo o Ministério da Fazenda, se liquidado, o BRB causaria prejuízo de R$ 17 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O FGC, para lembrar, é alimentado com recursos dos bancos com vistas a cobrir depósitos e aplicações de correntistas e investidores em caso de falência de alguma instituição financeira até o limite de R$ 250 mil.

O GDF, com a ajuda do Banco Central, da AGU e do STF, vem empurrando o problema com a barriga, à espera de alguma solução antes do primeiro turno das eleições, que têm a atual governadora Celina Leão (Progressistas) entre os candidatos. A última novidade no rol de tentativas para esticar a corda foi anunciada esta semana com a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) do banco para o próximo dia 24. Na pauta consta a autorização para que os acionistas proponham ações de responsabilidade civil contra os ex-administradores da instituição, tendo em vista a Operação Compliance Zero, desencadeada pela Polícia Federal no inquérito das fraudes praticadas pelo Banco Master.

O objetivo da AGE soa um tanto redundante, uma vez que o ex-presidente do BRB envolvido nas operações com o Master está preso e certamente responderá na Justiça pelos atos que tenha praticado, incluindo o ressarcimento pelos danos causados ao banco que, no frigir dos ovos, correspondem a prejuízos aos acionistas. Outros antigos gestores do BRB por ocasião das fraudes são alvos de medidas cautelares.

A governadora espera que os grandes bancos brasileiros possam salvar o BRB, apesar de nada terem a ver com as fraudes em investigação. Ela busca um empréstimo de R$ 6,6 bilhões justamente junto ao FGC — aquele que sofreria um rombo de R$ 17 bilhões com a liquidação do BRB — pelo prazo de 15 anos, com dezoito meses de carência, e propõe juros atrelados à evolução do IPCA mais 4,5% ao ano.

Os principais bancos entrariam no esquema como garantidores do empréstimo via FGC ao BRB, tendo como contragarantia recursos futuros do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Esses fundos envolvem recursos arrecadados pela União que são depois repassados aos Estados, municípios e ao Distrito Federal.

Estima-se que o GDF receberá de ambos os fundos cerca de R$ 1,6 bilhão este ano, verba usada com educação, saúde, saneamento e demais gastos do governo.

Na prática, bancos como Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil, entre os maiores, entrariam em um esquema de resultado duvidoso para salvar um banco estatal que se meteu em operações fraudulentas por conta própria e que estará sempre sujeito às interferências políticas do acionista majoritário, ao sabor dos próprios interesses. O BC não pode assegurar que o “acordo” proposto pelo GDF será cumprido nem que resultará positivo para as partes a médio prazo. Nem mesmo a governadora Celina pode estar segura do sucesso da sua proposta, ainda que venha a ser eleita para o próximo mandato.

Os problemas dos bancos estaduais no Brasil são fartamente conhecidos. Um a um, foram desaparecendo por absoluta impossibilidade de sobrevivência. No caso atual do BRB, um dos últimos remanescentes, há um complicador adicional: as finanças do GDF estão totalmente amarradas aos limites legais, o que impede gastos extras além do autorizado. Por isso, precisou de uma lei específica para contratar aquela operação, com previsão de custo astronomicamente alto.

Se for adiante, nos termos propostos pelo GDF, o empréstimo custaria cerca de R$ 100 milhões por mês a partir de 2028, ou seja, R$ 1,2 bilhão por ano. Esse valor corresponde ao montante estimado das receitas que o GDF deve receber este ano com repasses do FPE. A receita prevista com o FPM é muito menor, cerca de R$ 380 milhões. Na ponta do lápis, as contas não fecham, a menos que escolas, postos de saúde e outros serviços prestados à população do Distrito Federal deixem de funcionar.

É importante notar que os alardeados efeitos de uma eventual liquidação do Banco de Brasília no Fundo Garantidor de Crédito não passam por enquanto de ameaça velada. Se o BC achar que o BRB tem salvação, pode optar por uma intervenção ou por um Regime de Administração Especial Temporária (Raet), o que certamente desagradaria a governadora Celina Leão neste momento. Se tiver de liquidar o BRB, o BC o fará munido dos fundamentos técnicos que cabem em tal situação. Só não dá para entender a demora da decisão, por tudo o que se conhece.

Já aqui seria o caso de perguntar a respeito da conveniência de ser introduzido no uso do FGC algum tipo de salvaguarda de modo a evitar abusos e desvios de função. Sim, porque se o governo do DF não honrar com os compromissos que pretende assumir caberá aos grandes bancos fazer os aportes necessários para evitar o colapso do fundo e, neste caso (e até mesmo antes), dar as devidas explicações aos respectivos acionistas.

Do ponto de vista da finalidade para o qual foi criado, faria sentido um escalonamento de valores para o ressarcimento dos depósitos garantidos de acordo com as características da falência da instituição financeira, se resultou de algum movimento externo e abrangente ou se resultou de decisões tomadas deliberadamente dentro da instituição para proveito próprio.

Também deveria ser proibida a divulgação da cobertura do FGC como peça de propaganda para a venda de papéis ou qualquer tipo de captação como foi largamente usada pelo dono do Master, Daniel Vorcaro. É como se ele tivesse transformado o fundo garantidor de crédito em cúmplice das suas falcatruas.

A mesma tábua de salvação pretende usar agora o GDF em desesperada tentativa de não perder o BRB. Afinal, para os políticos, um banco estadual funciona como se fosse a galinha dos ovos de ouro da fábula de Esopo.

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COM TARIFAÇO E INTERFERÊNCIA NAS NOSSAS ELEIÇÕES, TRUMP PODE DAR UM TIRO PELA CULATRA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Conflito fortalece a narrativa de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas alimenta críticas da oposição à diplomacia de Lula

“O Brasil não é para principiantes”, atribuída ao compositor e maestro Tom Jobim, a frase serve como uma luva para Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e principal arquiteto da mudança de orientação dos Estados Unidos para a América Latina. A política de pressão concebida em Washington que pretende enfraquecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser um tiro pela culatra.

Até agora, deu a Lula a oportunidade de transformar a crise diplomática numa disputa em defesa da soberania nacional. O tarifaço contra produtos brasileiros, os contatos de integrantes do governo Trump com aliados de Flávio Bolsonaro, a tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para discutir a integridade das urnas e a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti são iniciativas consideradas ingerências nas eleições deste ano pelo Palácio do Planalto. Washington condiciona a restauração do visto de Viotti à aprovação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos.

Nenhuma dessas medidas, isoladamente, decide uma eleição. Juntas, porém, permitem que Lula apresente o confronto como uma disputa entre os interesses nacionais e uma potência estrangeira interessada no resultado das urnas. Ocupa o lugar institucional de chefe de Estado agredido por pressões externas, enquanto Flávio Bolsonaro corre o risco de ser associado a uma articulação internacional contra seu próprio país.

Trump e Rubio talvez tenham subestimado a complexidade da política brasileira. A pressão externa costuma estimular reações nacionalistas. Lula mobiliza a militância de esquerda, busca apoio de setores democráticos e de eleitores moderados. Quanto mais explícita e truculenta for a tentativa norte-americana de influenciar o processo eleitoral, maior será a possibilidade de Lula se apresentar como defensor da autonomia do país. Entretanto, se a condição de vítima o favorece, o santo é de barro. Lula precisa calibrar suas reações para não agir com soberba e irresponsabilidade.

A Casa Branca promove a reorganização da direita latino-americana. Marco Rubio procura consolidar um eixo conservador no continente, conter a presença econômica da China e apoiar governos identificados com a agenda de Trump. No Cone Sul, Javier Milei tornou-se a principal expressão desse movimento. Sua participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, e os ataques feitos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes provocaram uma deterioração sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.

A América Latina não é um tabuleiro no qual Washington movimenta aliados sem provocar reações locais. O conflito fortalece a narrativa oficial de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas também gera críticas da oposição à diplomacia de Lula. Jogar na defensiva não é vergonha para o Itamaraty. Brasil e Argentina compartilham fronteira, comércio, cadeias produtivas e o Mercosul. Milei pode mobilizar sua base atacando Lula, mas não pode romper os vínculos econômicos entre os dois países sem impor custos à própria Argentina.

Resiliência

Trump dispõe de instrumentos poderosos, principalmente o acesso ao mercado norte-americano, as sanções e as tarifas. Ainda assim, poder econômico não se converte automaticamente em influência eleitoral. A pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem mostra essa ambivalência. Lula continua na liderança, com 39% contra 30% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 44% a 39% no segundo. Entretanto, o senador recompôs parte da unidade da direita, reduziu a rejeição e aumentou a convicção de seus eleitores.

Mas a reconciliação com Michelle Bolsonaro e a reação às restrições judiciais para visitar o pai contribuíram mais para sua recuperação do que o confronto de Lula com os Estados Unidos. O outro lado da moeda são os limites dos dividendos nacionalistas. Em julho, 51% consideravam que ele defendia melhor o Brasil, contra 34% que apontavam Flávio. Agora, a diferença caiu de 17 para oito pontos: 46% a 38%.

Ao mesmo tempo, a avaliação da resposta do governo ao tarifaço passou de um saldo positivo de três pontos para um saldo negativo de cinco: 43% consideram que Lula reagiu mal e 38%, bem. Portanto, a pressão de Trump continua favorecendo a narrativa do presidente, mas a administração efetiva da crise já começa a ser cobrada. Será uma corrida contra o tempo mitigar os efeitos negativos da crise diplomática até as eleições.

A grande incógnita é o impacto econômico das tarifas. O comércio com os Estados Unidos representa cerca de 2% do PIB brasileiro, proporção que permite ao governo sustentar que o país dispõe de escala, mercado interno, reservas internacionais e parceiros comerciais suficientes para absorver o choque.

A diversificação das exportações, principalmente em direção à China, à União Europeia e aos demais países do Sul Global, reduz a capacidade de Washington estrangular a economia brasileira. Essa resiliência macroeconômica, entretanto, não elimina os prejuízos para empresas exportadoras, cadeias industriais integradas aos Estados Unidos e regiões dependentes de produtos de exportação para os Estados Unidos. Isso repercute eleitoralmente nos setores e estados mais atingidos.

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EM NOME DO PAI

Merval Pereira, O Globo

O tempo é curto para uma virada de posições tão radical quanto a necessária para retirar Flávio do segundo turno

Os números se movem nas pesquisas eleitorais para presidente da República. Os dois candidatos mais bem cotados se aproximam e se distanciam à medida que as notícias vão se desenrolando, mas o que trava a corrida de cada um são os escândalos de corrupção envolvendo os dois. O que muda menos é o índice de rejeição de cada, e partimos para uma disputa entre quem é menos corrupto que o outro.

“Em nome do pai” é o slogan da campanha de Flávio Bolsonaro, uma admissão de que está concorrendo por ser filho de Jair. A escolha do relator da CPI do INSS para vice na chapa de Flávio revela que o tema será objeto direto da campanha da oposição, e o relatório da comissão, que não foi aprovado por trabalho do governo e pedia até mesmo o indiciamento de Lulinha, filho do presidente, deve ser ressuscitado como se fosse a verdade encoberta pelo poder do pai.

De um lado, um filho de ex-presidente candidato a presidente, apanhado com a boca na botija em conversa de milhões com o ex-banqueiro Vorcaro. De outro, um filho de presidente suspeito em diversas acusações de corrupção ligadas ao roubo dos aposentados do INSS. Com uma rede de contatos envolvendo a burocracia governamental e práticas de tráfico de influência para favorecer negócios do “Careca do INSS”. Uma lobista conhecida em Brasília, sua amiga, ligada ao “Careca”, apareceu também em escândalo paralelo, emprestando dinheiro ao chefe de gabinete do presidente Lula. Serão mesmo escândalos paralelos?

Impressionante como o governo que lançou o programa de renegociação de dívidas “Desenrola” tem entre seus principais assessores e aliados pessoas com a mania de pedir dinheiro emprestado a lobistas, não aos bancos. O senador Jaques Wagner é outro que ganhou um apartamento de um sócio de Vorcaro, para pagar mais tarde. Wagner teve de deixar a liderança do governo no Senado para acalmar a crise. “Marcola”, que pelo apelido não se perca, teve de se afastar da coordenação da campanha presidencial de reeleição de Lula para evitar estrago maior.

A campanha de Flávio erra até mesmo na criação de expectativas, pois anunciou que a escolha do vice seria “uma decisão histórica”, e a montanha acabou parindo um rato. Vice não dá voto, mas revela a fragilidade da candidatura. Todos os candidatos de oposição a Lula tiveram de fazer chapa pura por falta de acordos partidários.

A pesquisa Quaest aponta alguns problemas para a campanha de Lula, como o sentimento de déjà-vu que suas promessas transmitem, a recuperação de Flávio entre os que o abandonaram depois do escândalo do filme “Dark Horse”, financiado por Vorcaro a preços mais que hollywoodianos nunca explicados. Esses, especialmente os homens, os evangélicos, estão lentamente voltando a apoiá-lo.

O candidato do Missão, Renan Santos, com seus planos mirabolantes de desfavelização e combate ao crime organizado, chama a atenção dos jovens e cresce nas pesquisas. Pode superar no primeiro turno os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Há os que acreditam nele, e há os que querem transformá-lo num novo “Cacareco”. Há, no entanto, a esperança entre os que apoiam Caiado de que os ataques e contra-ataques entre Lula e Flávio abram caminho para o ex-governador de Goiás chegar ao segundo turno como candidato da direita, hoje dividida, mas que tende a se unir no segundo turno, seja qual for o candidato.

Como Lula e Flávio tendem a não comparecer aos debates, os demais candidatos podem ter espaço para se apresentar ao eleitorado fora dessa polarização negativa. O tempo, porém, é curto para uma virada de posições tão radical quanto a necessária para retirar Flávio do segundo turno. As pesquisas mostram que a convicção dos eleitores já está em ampla margem definida. Mas, como tudo pode acontecer, até mesmo nada, ainda teremos 60 dias de expectativa até que as urnas indiquem o vencedor.

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TARCÍSIO PASSA RECIBO E PIORA A IMAGEM DAS PRIVATIZAÇÕES

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Governador acusou greve de política, mas é o que faz com as concessões apressadas

Caso dos trens foi atestado de políticas mal planejadas, que também atingem parques

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, acusou a greve de ferroviários em seu estado, já encerrada, de política. Greves são políticas em sentido amplo e essa característica pode se acentuar em períodos eleitorais. Na disputa, acusações sempre aparecem.

O fato é que o movimento teve uma dimensão trabalhista. Por outro lado, não há dúvida de que certas concessões e privatizações em curso em São Paulo se enquadram bem no rótulo de políticas —ainda que mal feitas.

No afã de cunhar uma marca eleitoral e ganhar pontos com o empresariado e a opinião pública antipetista, Tarcísio —recente anfitrião do presidente da Argentina, o libertário Javier Milei— vem contribuindo para o questionamento do dogma liberal que afirma ser sempre preferível privatizar, pois aquilo que a iniciativa privada for capaz de fazer, fará melhor do que o setor público.

Não é bem isso que vemos em São Paulo. O exemplo mais candente são justamente as privatizações das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade da CPTM, concedidas à empresa Trivia Trens, no fim de junho.

Falhas gritantes, entre as quais um grave incêndio na linha 12, levaram o governador a cancelar a concessão por 90 dias, recolocando os ramais sob controle da companhia de trens do estado. Difícil imaginar um recibo de incompetência técnica e motivação política mais evidente do que esse recuo.

O caso, diga-se, não é pioneiro em problemas ferroviários: as linhas 8 e 9, concedidas à ViaMobilidade pelo governo de João Doria, em 2021, também ficaram marcadas por mau funcionamento e má prestação de serviço aos usuários.

Em outras áreas, equívocos também se acumulam, caso das concessões para alguns parques. O que poderia ser uma boa alternativa para melhorar a qualidade dessas áreas verdes da cidade tornou-se um portal aberto para a agressão à natureza e a mercantilização desenfreada e pouco inteligente das unidades.

Tenho eu mais de dez anos, quase que diários, de lugar de fala como frequentador do parque Villa-Lobos, onde os descalabros vão de vento em popa, com cervejarias chamativas, praças de alimentação duvidosas a até pedaços inteiros de vegetação cercados e cobertos com leds, com bilheteria na porta para quem quiser pagar para ver o luminoso desastre. Tapumes se erguem por todas as partes, enquanto o piso das pistas para pedestres, sobre as quais um patrocinador imprime sua marca, se encontra esburacado, com os bancos caindo aos pedaços.

Estou entre aqueles que não são principistas em matéria de privatizações. Reconheço, com senso pragmático, as vantagens em diversos casos. Em outros, não. Há situações em que a opção, se bem planejada e estruturada, é preferível, mesmo com eventuais problemas.

Por exemplo, apesar dos inconvenientes que podem nos desesperar na relação com as empresas de telefonia e internet, companhias como a Telesp e a Telerj não deixaram saudade. Também seria melhor não pagar pedágio, mas é claro que as concessões de rodovias em São Paulo deram bom resultado.

Não é o caso de algumas das privatizações levadas a toque de caixa pelo governador paulista, com resultados muitas vezes sofríveis e contrários ao interesse maior da sociedade. E isso pode respingar na própria imagem do mandatário privatista.

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O EFEITO BUMERANGUE DA ESCOLHA DE GASPAR

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Escolha de vice mostra Flávio Bolsonaro de costas para as mulheres e agarrado na pauta da corrupção que também pode ricochetear em sua candidatura

“Na maior parte das vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são justamente as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso, quando eu ficar velhinho quem vai tomar conta de mim são elas”.

O candidato do PL à Presidência fez este preâmbulo ao anunciar o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. A visão tacanha sobre o papel da mulher é uma das explicações sobre o risco tomado por Flávio Bolsonaro com a escolha.

No último dia da CPMI do INSS, depois de o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) irromper a sessão acusando-o de estuprador, Gaspar, que foi o relator da comissão, negou a acusação. Atribuiu o protagonismo a um primo e fez exame de DNA que, disse, não comprovaria a paternidade da criança. Em vídeo, a filha em questão confirmou sua versão.

Como o crime de “estupro de vulnerável” pressupõe apenas a existência de uma relação sexual com um menor de 14 anos, o deputado e a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) protocolaram uma notícia-crime no Supremo Tribunal Federal que é relatada pelo ministro Gilmar Mendes, em segredo de justiça.

O relator pediu um parecer da Procuradoria-Geral da República, que, por sua vez, solicitou diligências à Polícia Federal. A campanha eleitoral transcorrerá, portanto, com esta investigação em aberto.

Outra explicação para o risco é a tensão nunca superada de sua relação com a ex-primeira-dama. A pesquisa Genial/Quaest divulgada no mesmo dia do anúncio de Gaspar mostra que a reconciliação entre Flávio e Michelle Bolsonaro foi aprovada por seis em cada dez eleitores. Em um mês passou de 38% para 46% a proporção daqueles que acreditam em mais chance de vitória em função do apoio da ex-primeira-dama ao enteado.

A despeito de Michelle ter publicado mensagem em apoio a Gaspar, a escolha desagradou a seu grupo. A presença da ex-primeira-dama ou de uma aliada consolidaria a imagem de conciliação aprovada pelo eleitorado.

A disputa pelo espólio do pai parece superar, em importância, aquela pela Presidência da República. A desconfiança foi resumida, no X, pelo irmão foragido, Eduardo Bolsonaro: “Com Alfredo Gaspar, não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro”.

A pauta da segurança pública tampouco parece ser suficiente para explicar a escolha. Promotor público e ex-procurador-geral de Justiça do Estado, Gaspar era um expoente da linha dura quando foi escolhido para secretário de segurança da gestão Renan Filho (MDB) em Alagoas com êxito na redução de homicídios.

A despeito de a pauta ter apelo regional, pela escalada da violência em Estados governados pelo PT, como Ceará e Bahia, políticos da região apostam que o sobrenome Bolsonaro dispensa adendos quando o objetivo é sinalizar para a radicalização da política de segurança. Gaspar, nesta matéria, é anil sobre o azul.

Sua saída da disputa alagoana pelo Senado facilita, sim, a candidatura do deputado Arthur Lira (PP), que deixa de ter um concorrente no eleitorado de direita. Por mais pretensões que Lira cultive, porém, não seria capaz de levar o candidato do PL a sacrificar a escolha de um vice mais producente para resolver um imbróglio estadual.

Ainda mais em Alagoas, onde verbas destinadas por Gaspar em emendas Pix nunca chegaram aos pretendidos fins. Auditoria do TCU identificou que R$ 6,2 milhões destinados ao município de São José da Laje sumiram sem que fossem registradas obras ou serviços deles decorrentes. O parlamentar nega ser investigado e atribui à prefeitura a responsabilidade pela execução dos recursos.

Resta, portanto, uma única motivação para a escolha de Gaspar, a relatoria da CPMI do INSS, que trouxe à tona o envolvimento de Fábio Luís da Silva, filho do presidente da República, com a lobista Roberta Luchsinger. O fôlego tomado por Flávio nas pesquisas tem este carimbo.

A preocupação com corrupção numa campanha com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre o prejudica, não importa se seu adversário tiver recebido de um corruptor um valor 244 vezes superior àquele que seu ex-chefe de gabinete o fez. Tampouco importa se o valor do imprevidente Marco Aurélio Santana foi devolvido e o de Flávio teve destino incerto. Todo respingo em Lula vira enchente.

É nisso que o PL aposta com a escolha de Gaspar, um relator que arquivou o requerimento de convocação do cunhado de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel. A CPI tinha evidências fartas da participação de Zettel no manejo de R$ 40 milhões de um esquema que também envolvia desvio do crédito consignado. No leque de destinatários dos recursos operados pelo cunhado de Vorcaro se incluem até a campanha de 2022 de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

A escolha de Alfredo Gaspar, portanto, sugere que Flávio Bolsonaro se agarrará à mesma pauta que motivou a ascensão do seu pai à Presidência oito anos atrás. A diferença é que, de lá para cá, no poder e fora dele, o bolsonarismo acumulou muitas contas a pagar neste escaninho.

O bombardeio sobre Flávio está concentrado em Renan Santos (Missão). A campanha de Lula já estava decidida a partir pra cima do candidato do PL tão logo seu registro eleitoral fosse irremediável. O sinal enviado com a escolha do vice é declaração de guerra.

A chapa pura de Flávio o deixa em desvantagem em relação ao tempo de Lula no rádio e TV. De um lado estará um presidente cujo entorno parece acometido pela amnésia do que se viu em Curitiba. Do outro, um adversário cujo escritório de advocacia ainda nem entrou no jogo.

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EUA IGNORAM VIAS LEGAIS E ESCOLHEM O MÉTODO DO CAOS

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Ao revogar visto de embaixadora brasileira, os EUA decidem reverter a ordem prevista na lei internacional

Governo Trump usa alavanca para que a direita ganhe as próximas eleições no Brasil

A única explicação plausível para que o governo Trump tenha decidido revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington é a aposta no caos como alavanca para que a direita ganhe as próximas eleições no Brasil e, assim, a onda neotrumpista latina possa inundar o Planalto Central. Este, ao menos, é o sonho de Marco Rubio, secretário de Estado americano.

Não se trata de um segredo. Em junho, Rubio afirmou em audiência no Senado dos EUA que o Brasil "no meio de um ciclo eleitoral" não está entre as nações amigáveis aos EUA. Erra quem tenta ver nas ações da extrema-direita racionalidade maior que isso; o método é o caos.

Se o governo dos EUA quisesse mostrar desagravo com a condução da política externa brasileira, poderia ter escolhido a via da lei internacional, que existe e se chama declaração de persona non grata. Escolheu, no entanto, a via mais nuclear: revogar o visto da embaixadora e, portanto, virtualmente expulsá-la.

Pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas —tratado que rege o tema, em seu Artigo 9º, descreve o passo a passo—, os EUA poderiam declarar a embaixadora persona non grata, e o Brasil teria a opção civilizada de retirá-la. A cláusula preserva, de um lado, a soberania de não se ter quem não se quer em seu território e, de outro, o respeito aos ritos diplomáticos pacíficos que substituem medidas coercitivas.

Tampouco procede a razão dada pelos EUA para a revogação do visto da representante brasileira, qual seja a demora em conceder o aval (agrément) para o embaixador nomeado pelos EUA para o Brasil, Daniel Perez. A praxe é que o país que envia o diplomata certifique-se de que ele possui o aceite do país para onde irá, e caso o país de destino não aceite, sequer precisa justificar a negativa. É o que expressamente prevê o Artigo 4º do Tratado de Viena.

De novo, os EUA decidem reverter a ordem prevista na lei internacional e fazer com que o Brasil concorde calado. Incomoda-lhes que o Brasil se veja como igualmente soberano num mundo acostumado à subserviência.

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PARABÉNS, SOCORRO PRADO !

Hoje é dia de parabenizar nossa querida amiga, a guerreira dona Socorro Prado, ou para os íntimos, Tia Bô. Socorro Prado é exemplo de luta, força, coragem, amizade e fraternidade.

Ex-primeira-dama (duas vezes) de Sobral (CE), desenvolveu excelente trabalho como secretária de Ação Social. Socorro Prado, parabéns, saúde e felicidade! Abraço.

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FLÁVIO CONTA COM MÃOZINHA DO PT

Julia Duailibi, O Globo

Nesta semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao adversário

O PT prestou um serviço para Flávio Bolsonaro. O candidato do PL estava em baixa, sem conseguir nenhuma aliança e passando o chapéu pelo Centrão em busca de um vice. Até que o Q.G. de Lula colocou a bola no pé do adversário. À moda Vorcaro, uma lobista do INSS conseguiu chegar com seus tentáculos à antessala do gabinete presidencial — isso depois de já ter alcançado a família do presidente. Flávio, tóxico para os mais versados na arte da política depois do caso “Dark Horse”, viu que daquele limão dava para fazer uma limonada.

Ciente do estrago potencial que o discurso sobre Lulinha, INSS e afins pode trazer à campanha do PT, o candidato do PL fabricou um vice e tentará vendê-lo ao público como o xerife da investigação que tentou desvendar quem roubou o dinheiro dos aposentados. O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) foi o relator da CPMI do INSS e chegou a pedir o indiciamento do filho do presidente. Isso por si só já era uma peça de propaganda para quem pretende surfar no caso. Mas a abertura de três inquéritos no STF envolvendo Lulinha e o dinheiro que a lobista do INSS emprestou, em tese, a Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, deram musculatura ao personagem.

Há dúvidas sobre a qualidade do escolhido e sobre quanto ele pode agregar à campanha — ou, no limite, até desagregar. Fora que o INSS também é telhado de vidro para o governo Bolsonaro. Mas, num cenário de escassez de possibilidades, o candidato do PL inventou um vice que, por enquanto, ajuda no discurso contra Lula, principalmente entre os eleitores independentes, que definem a eleição. Segundo a Quaest divulgada ontem, Lula perdeu 7 pontos percentuais, entre julho e agosto, nesse eleitorado, enquanto Flávio avançou 3 — o presidente tem 33% das intenções de voto dos independentes no segundo turno, ante 30% de Flávio.

É fato que Flávio não tem a menor condição de se colocar como arauto dos bons costumes e da ortodoxia no manejo dos recursos públicos depois do escândalo da rachadinha, do emprego da parentada dos milicianos no gabinete e, mais recentemente, do flagra do pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro — milhões que até hoje não se sabe ao certo onde foram parar. A questão aqui, porém, é o impacto que o discurso da corrupção tem entre os independentes que o PT precisa conquistar. E o caso INSS, a própria campanha admite, atrapalha essa conquista.

A indicação de Gaspar até ajuda num impasse que o PL tinha com aliados sobre uma das duas vagas para a disputa pelo Senado por Alagoas — o deputado queria concorrer como senador e dificultava a composição local com a chapa montada por Arthur Lira (PP-AL), que também concorrerá. Mas a ajuda que o PL dá a Lira em seu estado não se compara à ajuda, involuntária, que o PT deu à campanha de Flávio. Tanto que, nesta semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao adversário. O assombro maior, no entanto, era perceber como os erros do passado não serviram de alerta para muita gente do entorno presidencial. Agora, o estrago político está feito.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O ISOLAMENTO DE FLÁVIO BOLSONARO NA NOVA PODRIDÃO DO SISTEMA POLÍTICO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Novo poder do Congresso explica apenas em parte solidão partidária do candidato do PL

Parlamento-centrão começa a institucionalizar novo modo de saque extrativista do Estado

O isolamento partidário de Flávio Bolsonaro (PL) em parte confirma a impressão de que a perda de poder do governo federal para o Congresso diminui a relevância de alianças firmes com presidentes para o objetivo de dominar dinheiros do Estado. É isso, mas não só. Vai além da eleição, é outra história.

O Congresso-centrão institucionaliza um outro modo de extração de recursos estatais, em parte concatenada com crimes diversos, corrupção entre eles. Emendas são parte disso. De modo legal ou ilegal, servem para valorizar o capital político e o capital privado de políticos (e de associados).

Note-se também o caso Vorcaro, o mais explícito dos sintomas pornopolíticos do favorecimento empresarial extrativista no Parlamento e de associação da política com fundos da finança bandida. É ingenuidade chamar o aumento do poder do Congresso de "semiparlamentarismo", mesmo de modo provisório.

Quanto à eleição, o mais importante, se diz do centrão ao direitão, é fazer bancadas grandes de modo a ter mais controle sobre emendas, fundos partidários e eleitorais e sobre poucos cargos ainda rendosos (em termos de dinheiro e prestígio) ou que facilitam negócios com empresas e finança.

Quase tão óbvias são as explicações do motivo de o apoio a Flávio Bolsonaro ameaçar a eleição de bancadas grandes. Há, por exemplo, o risco de mais vexames eleitoralmente daninhos do candidato do PL. Não se sabe também como o eleitorado vai reagir a Bolsonaro filho, que não foi testado em eleição nacional.

De resto, não há indício seguro de que Flávio Bolsonaro vá ganhar, ainda mais com margem folgada —mais risco para o benefício ora mais limitado oferecido pelo Executivo. Em um segundo turno, quando candidatos parlamentares já tiverem resolvido a vida, Bolsonaro filho terá de pedinchar apoios, de qualquer modo.

O candidato do PL também ameaça acordos regionais (mais lulistas ao norte, mais bolsonaristas ao sul do país), embora o desalinhamento entre candidaturas a presidente e arranjos locais esteja longe de ser novidade. Além do mais, como dizem deputados do centrão ao direitão, Flávio não transfere votos como o fez Jair Bolsonaro nas eleições de 2016 a 2022. Bolsonaro filho também não serve para reforçar candidaturas porque não é governo, não tem recursos da máquina à mão, como o pai em 2022. De resto, não teria organização e habilidade para fazer acordos políticos.

O PL de Jair Bolsonaro se aliou oficialmente a PP e a Republicanos em 2022. No segundo turno, a direita quase inteira (centrão inclusive) o apoiou, embora a aliança do governo Bolsonaro com o centrão tivesse sido tumultuada e de má vontade (o objetivo mesmo era algum golpe).

Em vez do padrão vigente de 1994 a 2014, não houve vontade mesmo do centrão mais centrista de embarcar em Lula 3 (houve adesões pessoais). Um eleitorado mais dividido, quase metade antiesquerdista, antipetista ou antilulista, dificultou barganhas em um Congresso direitista. Os mesmos motivos do isolamento de Flávio Bolsonaro também pesaram, além do desprezo de Lula 3 pela "frente ampla".

O isolamento partidário de Flávio e de Lula tem um tanto de circunstancial, pois, inclusive o fato de Lula e Bolsonaros criarem "polarizações". Mas parece acontecer mudança na política institucional, um sistema em mutação que ainda não entendemos direito, um sistema que é também um empecilho para reformas profundas (de "esquerda" ou de "direita").

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