domingo, 29 de março de 2026

FLÁVIO BOLSONARO PEDE AJUDA A TRUMP PARA SE ELEGER PRESIDENTE

Do Blog do Noblat, Metrópoles

Um exemplo notável de subserviência

Incitar é um verbo transitivo que significa estimular, instigar, provocar ou encorajar alguém a realizar uma ação. Foi o que fez o senador Flávio Bolsonaro, em sua versão dita moderada, em palestra para o fino da direita americana em Dallas, no Texas.

Diante de milhares de pessoas, ele comparou a trajetória do seu pai com a de Donald Trump, e acusou Lula de fazer lobby em favor de facções criminosas brasileiras e de privilegiar interesses chineses, cubanos e iranianos sobre os dos americanos.

“Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna sua política para a região impossível”, disse Flávio em inglês, lendo um texto.

Empolgado, disse que “o Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.

Segundo Mariana Sanchez, colunista do UOL em Washington, coube a Eduardo Bolsonaro chamar ao palco o irmão, não sem antes mostrar à audiência que estava registrando o evento em um vídeo de celular “para mostrar ao meu pai”.

Flávio disse sobre o pai: “Tentaram assassiná-lo, assim como tentaram fazer com Trump. Não conseguiram. E agora ele está na prisão, assim como Trump estaria se vocês não tivessem lutado com sucesso para salvá-lo. Nós brasileiros ainda lutamos”.

Em seguida, qualificou Lula de “socialista condenado por corrupção” e mostrou uma foto dele abraçado ao líder venezuelano Nicolás Maduro, atualmente preso em Nova York, depois de ter sido removido de Caracas por forças militares americanas.

“Talvez vocês pensem: ‘Por que deveríamos nos importar? Este é um problema do Brasil’. Deixem-me explicar exatamente por que isso importa para a América e para o mundo“, disse Flávio. E citou os minerais críticos e o combate ao narcotráfico.

Foi a deixa para dizer: “Esta é a encruzilhada que a América enfrenta: ou vocês têm o aliado mais poderoso do continente, ou um antagonista que se alinha com adversários americanos e torna sua política para a região simplesmente impossível”.

Adiante: “O Brasil vai ser o campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido, porque o Brasil é a solução dos EUA para quebrar a dependência da China por minerais críticos, especialmente elementos de terras raras”.

A China é o maior parceiro comercial do Brasil. Ontem, por sinal, Trump a elogiou ao reconhecer a eficiência de seu modelo econômico. Nem Jair Bolsonaro ousou criticar a China à época do seu governo desastroso. Mas Flávio, cópia encardida do pai…

“O presidente do meu país faz lobby nos EUA para proteger organizações terroristas que oprimem meu povo e exportam armas, lavam dinheiro e exportam drogas para os Estados Unidos e o mundo“, disse Flávio, mudando de assunto.

E defendeu que os Estados Unidos classifiquem o Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital como organizações terroristas. Terrorista é a organização que atua para derrubar regimes. O crime organizado visa ganhar dinheiro.

“Estas organizações criminosas não têm qualquer viés ideológico, nem viés político, não querem mudar o sistema. Elas praticam infrações penais, lavagem de dinheiro”, afirma Mario Sabburro, ex-secretário nacional de Segurança Pública.

No limite, a classificação delas como organizações terroristas permitiria aos Estados Unidos combatê-las em solo brasileiro via operações militares ou policiais, e a bloquear contas de empresas que se relacionem com elas. A soberania do país iria para o lixo.

Flávio Bolsonaro e seu irmão Eduardo não se importam com isso. Flávio com a palavra:

“Eu entendo que o presidente Trump está incrivelmente ocupado ‘Fazendo a América Grande Novamente’ e deve manter relações institucionais com líderes de todos os países (…). Mas estou confiante de que o maior negociador da história pode facilmente ver quem são seus verdadeiros aliados do Brasil”.

Flávio encerrou sua fala dizendo: “Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor, graças à experiência adquirida durante a presidência do meu pai. E os EUA também terão seu aliado de volta”.

Poderia haver exemplo mais notável de subserviência e de pedido de ajuda para se eleger presidente em outubro próximo?

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COMO SE FAZ UM PRESIDENTE

Bernardo Mello Franco, O Globo

Como se faz um presidente: nova biografia narra guinada de Lula ao centro até vitória em 2002

Petista conta a Fernando Morais que quase desistiu de tudo após primeira derrota para FH: 'Eu é que sei o sofrimento que foi'

Chega nesta semana às livrarias a segunda parte da biografia de Lula escrita por Fernando Morais. O novo volume narra o período entre a campanha das Diretas e a conquista do Planalto. É uma história de persistência. O ex-metalúrgico perdeu três disputas presidenciais até vencer a quarta, em 2002.

A escalada começou em 1989, na primeira eleição direta pós-ditadura. Forjado na luta sindical, o candidato do PT assustou as elites com ideias tachadas de radicais. Falava em reforma agrária, tabelamento de lucros, suspensão do pagamento da dívida externa.

Depois de superar Leonel Brizola por menos de 500 mil votos, Lula passou ao segundo turno contra Fernando Collor. Na reta final, deixou-se abater por golpes abaixo da cintura. Os mais duros foram desferidos por Miriam Cordeiro, mãe de sua filha Lurian, na propaganda de TV do adversário.

Derrotado, Lula assistiu de camarote ao escândalo que derrubou Collor. Depois recusou-se a participar do governo de Itamar Franco e começou a costurar uma chapa com Tasso Jereissati, do PSDB. O petista entrou em 1994 como franco favorito. “Durante os primeiros meses da campanha, Lula era o virtual presidente da República, sem nada no horizonte que pudesse ameaçar a vitória que parecia ao alcance da mão”, escreve Morais.

Tudo mudou com o lançamento de uma nova moeda, que catapultaria a popularidade do ministro Fernando Henrique Cardoso. “O Plano Real passou por cima da candidatura de Lula como um trem descontrolado”, resume o biógrafo. Atordoados, os petistas tentaram desacreditar o plano como “cruzado dos ricos” e “estelionato eleitoral”. A aposta se mostrou desastrada, e o tucano venceu no primeiro turno.

O novo fiasco quase levou o ex-metalúrgico a desistir do sonho presidencial. “Eu é que sei o sofrimento que foi”, desabafa Lula a Morais. “Perdi e falei para mim mesmo: porra, não dá mais, vou desistir disso”. Frustrado, ele se afastou da direção do partido e disse que não seria mais candidato. Mudou de ideia para montar uma chapa com Brizola, seu antigo rival na disputa pelos votos da esquerda.

A campanha de 1998 começou com o PT em ebulição. Com a aliança em risco, Lula ordenou uma intervenção no diretório do Rio para barrar a candidatura de Vladimir Palmeira e impor o apoio a Anthony Garotinho, do PDT. “Não posso ser candidato pela terceira vez apenas para marcar posição”, justificou. A economia patinava, mas FH manteve o real sobrevalorizado e venceu de novo no primeiro tuno.

Em 2002, Lula abraçou o pragmatismo e conduziu uma guinada do PT ao centro. Exigiu a contratação do marqueteiro Duda Mendonça, uniu-se ao empresário José Alencar e beijou a cruz do mercado com a “Carta ao povo brasileiro”. Morais reconstitui a reunião com Valdemar Costa Neto que formalizou a aliança PT-PL, impensável nos dias de hoje. Mais tarde, o acerto financeiro entre os dois partidos ficaria conhecido como a origem do mensalão.

Na quarta tentativa, Lula finalmente chegou lá. Sem disfarçar a admiração pelo biografado, o biógrafo conclui o livro em tom épico: “Em mais de cem anos de República, pela primeira vez um operário iria ocupar a Presidência do Brasil”.

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sábado, 28 de março de 2026

FLÁVIO E A 'DANÇA DA RACHADINHA'!

José Simão, Folha de S.Paulo

E ele tirou o sobrenome; agora é só Flávio, não tem mais família; nasceu de inseminação artificial

E no Rio castraram o Cláudio Castro, que é a cara de João Bafo de Onça

Buemba! Buemba! Macaco Simão Urgente! O esculhambador-geral da República!

Devido à rejeição do nome Bolsonaro, Flávio tirou Bolsonaro do nome pra fazer campanha. Agora é simplesmente Flávio. Não tem mais família. Nasceu de inseminação artificial! Rarará!

E no Nordeste ele sobe numa passarela e fica dançando, dançando, dançando! É a "Dança da Rachadinha". A coisa mais bizarra que eu já vi!

E o ex-governador do Rio, o Castro? Inelegível! Castraram o Castro. Rarará! Com aquela cara de João Bafo de Onça.

E o Bolsonaro? Oraram tanto pra pneu que veio a pneumonia! Infame! Rarará!

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NOVOS ESCRAVOS

Jamil Chade, CartaCapital

Relatório da ONU denuncia o trabalho forçado em presídios, especialmente nos estados do Alabama e da Louisiana

Muitos são obrigados a trabalhar sem qualquer remuneração. Quem tem o privilégio de ser pago, recebe apenas 2 centavos de dólar por hora trabalhada. Aqueles que se recusam, são punidos com a proibição de ver suas famílias. O relato poderia fazer parte de um livro de Frederick Douglas­s ou de documentos sobre os séculos de escravidão nas plantações de algodão em terras norte-americanas. Mas no Sul dos EUA, esta continua a ser a realidade em pleno século XXI. Uma denúncia apresentada por relatores da ONU ao governo dos EUA e obtida pela reportagem de CartaCapital revela as condições desumanas às quais são submetidos detentos de prisões no Alabama, Louisiana e outros estados. As vítimas, como acontecia nos séculos passados, são negros.

Os detalhes fazem parte de uma carta enviada em 20 de janeiro à diplomacia do governo de Donald Trump e que jamais foi respondida pelas autoridades norte-americanas. O caso eclode justamente no momento em que a Casa Branca anuncia uma investigação contra diversos países, entre eles o Brasil, baseada na suspeita de uso de trabalho forçado. A depender das conclusões, Washington se veria no direito de impor tarifas extras aos investigados.

Os relatores da ONU descrevem a “prática supostamente generalizada” de trabalho forçado e servidão involuntária em prisões no sul dos Estados Unidos. “Recebemos relatos de que indivíduos­ encarcerados são forçados a trabalhar sem remuneração ou por salários extremamente baixos, sob condições de trabalho coercitivas e punitivas. Essas práticas estariam ligadas à criminalização desproporcional de afrodescendentes, a maioria com histórico socioeconômico precário (…) São particularmente prevalentes nos estados do sul e sua manifestação contemporânea estaria ligada ao legado brutal da escravidão”.

A carta é assinada por Tomoya Obokata­, relator da ONU sobre formas contemporâneas de escravidão, Isabelle Mamadou, presidente do Grupo de Trabalho da ONU sobre Afrodescendentes, Matthew Gillett, vice-presidente do Grupo de Trabalho da ONU sobre Detenção Arbitrária, Damilola S. Olawuyi, presidente do Grupo de Trabalho da ONU sobre a questão dos direitos humanos e empresas transnacionais, Nicolas Levrat, relator especial da ONU sobre questões de minorias, e Ashwini K.P., relatora especial da ONU sobre formas contemporâneas de racismo.

No Alabama, prisioneiros seriam forçados a prestar serviços sob a ameaça de uma série de sanções, incluindo a atribuição de trabalho não remunerado adicional e o confinamento solitário. Tanto no estado quanto em Louisiana, detentos também sofreriam ameaças de violência física e sanções disciplinares. As prisões estaduais, afirmam os relatores, dependem do trabalho não remunerado para funcionar. Eles precisam cozinhar e servir refeições, limpar, realizar reparos, entregar mercadorias, cuidar de idosos e doentes e até dar suporte ao patrulhamento. Na avaliação do informe, algumas tarefas não estão relacionadas com uma eventual economia de recursos. “Elas têm mais a ver com dominação e controle do que com lucro.” Haveria ainda um padrão racial. “Assim como o próprio sistema prisional, o trabalho forçado em prisões nos Estados Unidos prejudica desproporcionalmente os afrodescendentes.”

Uma das consequências é a deterioração da saúde dos prisioneiros. No Alabama, a taxa de mortalidade nas cadeias é cinco vezes maior do que a média nacional. Três anos atrás, 325 presos teriam morrido sob custódia no estado.

“Formas contemporâneas de escravidão”, concluem os relatores

Na Penitenciária Estadual da Louisiana, apelidada de “Angola”, presos são forçados a trabalhar em condições inseguras, humilhantes e degradantes, aponta o documento. “As informações recebidas indicam que, em Angola, aproximadamente 72% dos submetidos a trabalho no campo são homens afrodescendentes e mais da metade tem mais de 50 anos.” Muitos são enviados para as “linhas agrícolas”, plantações sob a supervisão de guardas armados. “Eles são obrigados a cavar valas e colher plantações em calor e umidade extremos, muitas vezes sem equipamentos de segurança adequados ou máquinas modernas”, denunciam os relatores. “Os homens encarcerados não são pagos por seu trabalho na linha agrícola durante os primeiros três anos de encarceramento e, quando se tornam elegíveis para receber pagamento, ganham apenas US$ 0,02 por hora”.

Quem se recusa ou tem desempenho considerado “inadequado” enfrenta novas punições, incluindo o envio ao confinamento solitário e a uma série de trabalhos forçados. Mesmo aqueles com deficiência são obrigadas a trabalhar no campo. “Tais práticas geraram traumas significativos, pois os indivíduos descrevem experiências que espelham a escravidão e a violência racial.”

A lista de violações cita a falta de acesso regular a água potável. “Às vezes ficam com água contendo mofo ou insetos mortos. Sombra, pausas e banheiros sanitários são rotineiramente indisponíveis, mesmo durante condições de calor extremo, com temperaturas acima de 38 graus Celsius”.

O envio ao trabalho no campo também é usado como método de punição por supostas infrações disciplinares. Entre as tarefas, os presos são obrigados a regar manualmente longas fileiras de plantações com baldes ou arrancar capim com as mãos. A condição é classificada como “desumanizante e um mecanismo usado para controlar e subjugar pessoas encarceradas, a maioria delas de afrodescendentes”.

Há quem lucre. A Prison Enterprises é uma delas. “Em 2019, quase 30% de sua força de trabalho carcerária trabalhava nos campos de Angola, sem receber salário ou por US$ 0,02 por hora”, afirmam os relatores. As empresas prisionais ainda vendem bens e mão de obra de detentos para o estado, municípios e governos locais. Em 2021 e 2022, trabalhadores encarcerados plantaram, cultivaram e colheram quase 3 mil acres. A maior parte dos produtos foi comercializada por preços de mercado. “Essas práticas de trabalho inseguras, não remuneradas e forçadas equivalem a formas contemporâneas de escravidão operando dentro das prisões da Louisiana”, conclui a carta. 

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

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LOBO À ESPREITA

Pedro Serrano, CartaCapital

Precisamos desnudar os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive aquelas de matriz neobolsonarista

As formas de autoritarismo no século XXI apresentam certas especificidades em comparação com aquelas do século anterior. Embora seja possível identificar elementos de continuidade, as expressões mais recentes, por se diluírem na rotina democrática, tornam o fenômeno ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de exceção, em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um Estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, e não por governos de exceção.

Utilizamos a denominação “autoritarismo líquido” para caracterizar essa nova natureza das medidas excepcionais no interior das rotinas democráticas. Trata-se de práticas fragmentadas e cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

Essa nova forma de autoritarismo se manifesta, por exemplo, no governo de Donald Trump. Desde o início, o atual presidente dos EUA adotou medidas voltadas a restringirb a liberdade de expressão de cientistas e pesquisadores, limitar direitos de imigrantes e questionar o multilateralismo e a soberania das nações.

Com efeito, nas fronteiras norte-ame­ricanas observa-se o esvaziamento dos direitos dos imigrantes, em face dos quais tem sido empregada força bruta. Deportações cruéis e degradantes, bem como atos de violência e desrespeito à integridade física e moral dos estrangeiros, buscam transmitir a mensagem contundente de que o outro ali não será aceito.

Trata-se de um recado categórico que expressa uma nova forma de tratar o inimigo: sua desumanização, por meio da supressão da proteção jurídica e política mínima a que todo ser humano deveria ter direito diante de qualquer poder político. Mais recentemente, o trumpismo passou a se insurgir contra o multilateralismo, bem como contra a arquitetura institucional do Direito Internacional Público erigida após as duas grandes guerras e a própria soberania das nações.

A desumanização produzida pela exceção opera por meio da escolha e da nomeação do inimigo. É a linguagem que o desumaniza ao enquadrá-lo em uma categoria que suprime qualquer individualidade, seja como ser humano, seja como Estado dotado de soberania.

Tais exemplos nos levam a afirmar, de forma enfática, que os EUA vivem um momento especialmente autoritário, colocando em xeque a imagem de que assumem – de modo incondicional ou ao menos relevante – a tutela dos direitos em escala global.

Isso é grave e terá repercussões profundas não apenas na vida norte-americana, mas no mundo inteiro. Estamos diante da ascensão de uma extrema-direita de elevado potencial autoritário, assim como o clássico movimento nazifascista, mas com novas vestes e um instrumental relativamente mais sofisticado. Medo, ódio e insegurança estão sendo capturados pelo soberano através de narrativas pretensamente racionais e legitimadoras da imposição de mecanismos de segregação e violência, em prejuízo da pluralidade e da tolerância.

Os exemplos citados – aos quais se somam muitos outros, como o enfraquecimento de órgãos multilaterais de defesa de direitos, a guerra comercial e a utilização do caos e da força bruta como instrumentos cotidianos de formação de capital político – nos alertam, agora olhando para a realidade brasileira, que a história humana não se desenrola em fases estanques, apesar de a descrição didática por vezes sugerir o contrário.

Ela se revela por meio de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não existem garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. O bolsonarismo está sedento em retomar o poder, com todas as implicações decorrentes, inclusive com o deliberado propósito de reverter os avanços civilizatórios promovidos pelo governo Lula.

A análise do autoritarismo líquido – assim chamado por não se assumir como tal, por não ser uniforme e por minar, em intensidades variadas, diferentes âmbitos da vida democrática – exige um exame aprofundado dos fatores de desestabilização e subversão dos direitos fundamentais. Enfrentar a gradual fragilização dos espaços democráticos e do senso de pertencimento à sociedade requer desnudarmos os artifícios dessas novas formas de autoritarismo, inclusive de matriz neobolsonarista, que enfraquecem nosso pacto civilizatório. Estejamos em vigília. •

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

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A CRISE SILENCIOSA NO PSD A 6 MESES DAS ELEIÇÕES

Vinicius Nunes, CartaCapital

A saída abrupta de Kassab do governo paulista, a desistência de Ratinho Jr. e a fragilidade nas pesquisas expõem dificuldades do partido para sustentar uma candidatura própria

A seis meses da eleição presidencial, o PSD entra em uma fase decisiva no calendário eleitoral sem um rumo definido para sua candidatura nacional e acumulando sinais de enfraquecimento.

O movimento mais recente foi a saída de Gilberto Kassab da Secretaria de Relações Institucionais do governo de São Paulo. A decisão foi comunicada por mensagem de WhatsApp ao governador Tarcísio de Freitas (Republicanos) antes mesmo de uma reunião, surpreendendo aliados e encerrando de forma abrupta uma relação que já se desgastava.

No plano nacional, o PSD também perdeu seu expoente mais competitivo para a disputa presidencial. O governador do Paraná, Ratinho Junior, decidiu abandonar a corrida ao Palácio do Planalto. Em simulações de primeiro turno, ele aparecia com cerca de 7%, ainda distante dos líderes, mas à frente dos demais postulantes do partido. 

Sem Ratinho, o PSD passou a depender de alternativas com desempenho ainda mais limitado. Na mesma pesquisa Genial/Quaest, Ronaldo Caiado registra cerca de 4% das intenções de voto, enquanto Eduardo Leite aparece com 3%. Em cenários equivalentes, Lula (PT) oscila entre 37% e 39%, e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) entre 30% e 32%.

A fragilidade eleitoral se soma a outro problema: a ausência de palanques estaduais. Ao contrário de Lula e Flávio Bolsonaro, o PSD não conseguiu estruturar uma rede de apoio regional para sustentar um nome próprio à Presidência. Em estados estratégicos, lideranças da sigla já se alinham a projetos adversários.

No Rio de Janeiro, por exemplo, o prefeito Eduardo Paes apoiará Lula. Em São Paulo, o partido está no campo de Tarcísio, aliado de Flávio. Em Minas Gerais, a articulação local também se aproxima da extrema-direita. 

O diagnóstico interno é que, embora o PSD mantenha força regional e quadros relevantes, falta coesão para transformar esse capital político em um projeto presidencial unificado. Diretórios estaduais seguem caminhos distintos, divididos entre apoio ao governo Lula ou à candidatura ligada ao bolsonarismo.

Diante desse quadro, a promessa de Kassab de lançar um candidato próprio enfrenta obstáculos evidentes. Sem unidade interna, com desempenho baixo nas pesquisas e sem palanques estruturados, o partido chega à reta final de definição eleitoral pressionado por um cenário em que a chamada “terceira via” segue sem espaço.

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UMA DISPUTA ACIRRADA

Murillo de Aragão, Veja

Lula é favorito, mas a situação dele está longe de ser confortável

As eleições presidenciais deste ano são um evento propício a surpresas. O presidente Lula (PT), na condição de dono da caneta e do poder de fazer benesses, é o favorito, mas com evidentes fragilidades, que podem comprometer o seu favoritismo. Quais são elas? São tantas que poderiam compor um dicionário. O primeiro aspecto reside no próprio governo, que é desunido, não se comunica bem, polemiza sem necessidade e não sabe aproveitar as boas notícias que produz. Não há simpatia nem coleguismo dentro do governo. É cada um por si e Lula por todos. Sem sombra de dúvida, não deveria ser assim. Até porque falta energia e falta disposição por parte do presidente para unir o governo em torno de si, tendo em vista a campanha. Nem mesmo as boas notícias são comunicadas eficientemente. Não basta entupir a TV de anúncios. Comunicar estrategicamente é muito mais do que isso. Tempos atrás, em 2019, atribuiu-se o fracasso do PT nas urnas à sua falta de familiaridade com as redes sociais. O tempo passou e Lula tem hoje apenas a metade dos seguidores de Jair Bolsonaro (PL). Claramente, é uma questão de narrativa, em que se busca configurar a sociedade ao discurso, e não o discurso às circunstâncias do mundo.

O segundo aspecto é a fragilidade dos palanques estaduais, em especial, no Rio de Janeiro e em Minas Gerais, além do Sul e do Centro-Oeste de maneira geral. Lula não terá palanques fortes em estados relevantes, salvo São Paulo. Até em regiões onde ele é tradicionalmente forte, a situação não é muito confortável. Sem empatia e sem gestos concretos para o centro da política, Lula dependerá de estruturas frágeis do PT que, além do mais, está escravizado por uma narrativa dos primórdios do século XX. As lideranças do PT envelheceram e os novos quadros não têm relevância ou não são bem aproveitados.

“Em um país de alma autoritária, a responsabilidade pelas questões polêmicas respinga no chefe”

O terceiro aspecto a considerar refere-se ao ambiente político atual, abalado por sucessivas crises e escândalos. Em um país de alma autoritária, a responsabilidade pelas questões polêmicas respinga, no mínimo, no chefe, que é o presidente. Pior ainda se os escândalos atingirem sua família e/ou aliados. O conjunto das circunstâncias hoje não é bom. E mais: a questão da segurança pública também é percebida como grave fragilidade do governo. E, ainda que o governo se empenhe em aprovar leis, a população quer voltar a ter a sensação de que ele está realmente engajado no problema.

O quarto aspecto é circunstancial: trata-se da evidente fragilidade decorrente das repercussões econômicas do conflito no Golfo Pérsico. Caso a situação se agrave, poderá ter o efeito, mesmo mitigado, do apagão dos tempos de FHC 2. Não há como prever a duração do conflito, porém, a impressão é de que o governo reage à crise sem ter um plano para aplacar nossas vulnerabilidades no campo dos combustíveis. Ainda bem que temos o etanol e o biodiesel.

Enfim, o quadro para Lula não é bom. Mesmo considerando que ele é melhor candidato do que presidente e que ainda tem o controle da generosa máquina pública — que não economiza ao distribuir benesses —, a situação pode piorar. Basicamente, sua estratégia tem sido explorar o antibolsonarismo. Mas isso pode não ser suficiente para a expressiva parte do eleitorado que está cansada da polarização. No fundo, as eleições estão em aberto e o favoritismo de Lula precisa ser confirmado. Ainda não foi.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988

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A ESQUERDA NEOLIBERAL

Cristovam Buarque, Veja

Não há real preocupação com a erradicação da pobreza

As transformações tecnológicas e geopolíticas nos século XX e XXI deram força eleitoral ao chamado neoliberalismo conservador. Provocaram, no caminho, o surgimento de uma esquerda mais comprometida com a defesa dos direitos individuais para alguns do que a ampliação de direitos sociais para todos. É como se uma esquerda sul-africana defendesse os interesses dos trabalhadores brancos sem a bandeira do fim do apartheid. No Brasil, o propósito dessa esquerda neoliberal, chamemos assim, tem sido aumentar renda e consumo de trabalhadores, não a abolição da apartação social, a erradicação da pobreza, assegurando serviços sociais básicos com qualidade e equidade a todos.

Defende mais a manutenção de direitos já adquiridos do que a universalização do acesso aos serviços essenciais. Luta pelos direitos dos trabalhadores nas empresas de saneamento, e não dos moradores sem água e esgoto. Com sensibilidade social defende a redução da penúria dos muito pobres usando transferências de renda mínima do tipo Bolsa Família, cuja ideia nasceu entre economistas neoliberais na Universidade de Chicago, em vez de adotar incentivos sociais do tipo Bolsa-Escola, nascida no Brasil com propósito social transformador pela educação. Com justo sentimento humanista, apoia a redução da jornada de trabalho para adultos com empregos formais, sem lutar por taxistas, ubers, motociclistas entregadores de mercadorias e trabalhadores informais em geral; nem a ampliação da jornada escolar para todas as crianças.

“Em vez de atuar com força transformadora, ela se concentra em lutas sindicais imediatas”

Reivindica universidade para os 50% que terminam o ensino médio, mas não se compromete com a erradicação do analfabetismo de 10 milhões de adultos. Ignora totalmente a bandeira de o filho do trabalhador pobre ter direito à mesma escola do filho do patrão rico.

Essa esquerda neoliberal não reconhece, enfim, a educação de base como o principal vetor do progresso e administra a rede escolar conforme os interesses dos trabalhadores do setor, e não dos filhos de todos os trabalhadores do país. Defende os direitos do professor como operário do magistério, cujos patrões seriam os pais ou os governantes. Por isso, aceita mais o direito à greve do que o direito dos alunos a aulas. É contra o racismo, mas não contra o rentismo, que exclui pobres de escolas e hospitais de qualidade. Apoia lutas pela preservação ambiental, mas aprova exploração de petróleo na foz do Amazonas e não ousa criticar o modelo de crescimento econômico baseado no aumento do consumo depredador.

Em vez de atuar com força transformadora por meio de partidos com propostas para um futuro eficiente e justo, e sobretudo sustentável, a esquerda neoliberal se concentra em lutas sindicais associadas a categorias profissionais na defesa de vantagens individuais imediatas, desde que beneficiem segmentos assalariados, mesmo que sejam supersalários que empobrecem o setor público e retira recursos de setores prioritários socialmente.

Felizmente, ainda há uma esquerda neoliberal para enfrentar a direita neoliberal, mas é preciso uma esquerda moderna que, sem o atual eleitoralismo imediatista nem ideologias nostálgicas, lute por transformações estruturais para retirar o país da armadilha da renda mínima, da ineficiência, da corrupção — e que lidere a busca de progresso inclusivo, sem pobreza, democrático e justo.

Publicado em VEJA de 27 de março de 2026, edição nº 2988

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MISOGINIA NÃO É OPINIÃO; É VIOLÊNCIA

Juliana Diniz, O Povo

É interessante observar as reações de grupos conservadores contrários à criação de uma plataforma legal que criminalize a misoginia. Elas mostram como é limítrofe e nebulosa a diferença entre defesa do tradicionalismo patriarcal e o desapreço às mulheres

O Senado Federal aprovou por unanimidade um projeto de lei que equipara a misoginia ao crime de racismo e abriu caminho para tornar o ódio às mulheres uma nova modalidade de crime de preconceito no Brasil. De acordo com o projeto, considera-se misoginia toda conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres. Além de criar um novo crime, o projeto altera o tratamento legal da injúria quando ela é praticada por motivações misóginas.

A preocupação do Legislativo em priorizar essa pauta é compreensível: uma enxurrada de casos estarrecedores de violência contra mulheres, sobretudo feminicídios, tem ocupado o noticiário, ao mesmo tempo em que testemunhamos o avanço significativo da disseminação de conteúdo digital de teor discriminatório. A falta de moderação adequada das redes sociais as torna um ambiente favorável para que influenciadores propaguem apologia à violência física e psicológica contra as mulheres. A trend viral "e se ela disser não" é um belo exemplo do potencial de propagação do ódio via internet.

Setores conservadores têm afirmado que a aprovação da lei pode criminalizar a opinião no Brasil, deixando vulneráveis lideranças religiosas, parlamentares, jornalistas, intelectuais e afins que defendam publicamente uma abordagem mais tradicionalista da condição da mulher. Segundo essa perspectiva mais tradicional, há uma ordem social que precisa ser respeitada, e o princípio fundante dela é a primazia da autoridade masculina.

Para as vozes em contrário ao teor integral do projeto, e ressalto o nome do senador cearense Eduardo Girão entre elas, seria preciso criar uma exceção para os discursos de teor artístico e religioso. Caso prevalecesse o proposto pelo senador, a conclusão seria a seguinte: quando a conduta que exteriorize ódio ou aversão às mulheres se der em contextos religiosos ou artísticos, não haveria problema legal.

Mais do que o teor do projeto em si, é interessante observar as reações de grupos conservadores contrários à criação de uma plataforma legal que criminalize a misoginia. Elas mostram como é limítrofe e nebulosa a diferença entre defesa do tradicionalismo patriarcal e o desapreço às mulheres. Afinal de contas, defender que a mulher deve, por natureza, ser servil e submissa não é um pressuposto de toda postura misógina? Há uma gradação de discurso que começa com a defesa do tradicionalismo e se radicaliza com o movimento redpill. A raiz discursiva das duas atitudes é comum.

Assim como no caso do combate do racismo, o projeto de lei antimisoginia busca promover uma mudança de comportamento e sensibilidade em relação a um tipo de violência. É uma iniciativa estrutural bem-vinda, que vem em boa hora trazer alguma esperança a nós. 

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MANOBRAS DE CASTRO PARA MANTER O PODER SÃO GOLPE

Flávia Oliveira, O Globo

Todos os artifícios possíveis foram, rigorosamente, usados para manter, à frente do estado, o agora ex-governador e seu grupo político

O Rio de Janeiro experimenta o golpismo continuado desde a corrida eleitoral de 2022, que garantiu ao bolsonarista Cláudio Castro (PL) a reeleição. Todos os artifícios possíveis foram, rigorosamente, usados para manter, à frente do estado, o agora ex-governador e seu grupo político. No julgamento, que decidiria sobre o inédito modelo de escolha de um titular para o Palácio Guanabara, no restante do ano-calendário de 2026, num território sem governador, sem vice e sem presidente da Assembleia Legislativa, coube ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), retirar da farsa o véu numa senha de três palavras:

— Desvio de finalidade.

Moraes considerou indevida a renúncia de Castro na véspera do julgamento no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que o tornou inelegível por oito anos por abuso de poder político e econômico, condutas vedadas e captação ilícita de recursos. Ele só não foi cassado porque desistiu do cargo. Abriu mão da cadeira para, de um lado, evitar os efeitos da cassação; de outro, garantir a permanência de aliados no poder, por meio de eleição indireta. Golpe.

Nos últimos anos, uma gama de ardis jurídicos e políticos foi usada para que a máquina pública fluminense permanecesse sob domínio da aliança que assumiu o Rio na esteira da onda que, em 2018, levou ao Planalto Jair Bolsonaro — desde ontem, em prisão domiciliar por tramar um golpe contra a democracia. Castro assumiu o governo em substituição a Wilson Witzel, que sofreu impeachment em 2021.

Castro foi reeleito em primeiro turno, com quase 60% dos votos, alavancado por um esquema que usou não só a estrutura administrativa, mas recursos financeiros do estado para remunerar cabos eleitorais. A fraude, denunciada inicialmente pelos repórteres Ruben Berta e Igor Mello, do portal UOL, envolveu a contratação de mais 27 mil terceirizados pela Fundação Ceperj, órgão estadual de estatísticas, e pela Uerj, segundo o Ministério Público Eleitoral. Para dificultar a identificação, os funcionários eram pagos como autônomos e recebiam remuneração em dinheiro, diretamente em agências bancárias. Golpe.

Quase dois anos depois de Castro assumir o segundo mandato, o Tribunal Regional Eleitoral (TRE-RJ) livrou da cassação o governador, o vice Thiago Pampolha e o deputado Rodrigo Bacellar, então presidente da Assembleia Legislativa do Rio (Alerj). Os desembargadores não viram repercussão nas urnas das irregularidades cometidas no Ceperj e na Uerj. Qual o nome para isso?

O caso chegou ao TSE apenas no ano passado. Pedidos de vista empurraram o veredito para esta semana. A linha sucessória foi, ao longo do tempo, oportunisticamente implodida. Primeiro da fila, o vice mudou-se para o Tribunal de Contas do Estado. Bacellar, o segundo, investigado pela Polícia Federal por envolvimento com o Comando Vermelho e afastado pelo STF da presidência da Alerj, licenciou-se seguidas vezes do cargo, para manter o substituto como interino. Pode chamar de golpe?

Assim, o governo do Rio foi parar nas mãos do terceiro na linha sucessória, o presidente do Tribunal de Justiça, desembargador Ricardo Couto. O grupo de Castro ainda tentou surrupiar-lhe a função. Às pressas, anteontem, elegeu Douglas Ruas (PL) presidente da Alerj no lugar de Bacellar, agora cassado pelo TSE e novamente preso, para torná-lo governador. O nome é golpe.

Os ministros Gilmar Mendes, Flávio Dino e Cristiano Zanin acompanharam o voto divergente no plenário virtual que escancarou a armação de Castro e companhia. Como, no entendimento de Moraes, a vacância tem causa política, para influenciar na sucessão, deve valer o Código Eleitoral. Em vez de decidir as regras de um pleito indireto, em que os deputados estaduais de uma Alerj dominada escolheriam secretamente o titular do mandato-tampão, os ministros preferiram defender a eleição direta. É forma de emprestar legitimidade ao processo e restabelecer o direito surrupiado do povo fluminense pelo golpismo continuado.

O placar no STF pela eleição indireta está em 6 a 4. Até segunda-feira, outros ministros podem reformar os próprios votos para fazer o Rio ir às urnas antes de outubro. O que, desde já, não deixa dúvida é a estrutura miliciana que orienta Executivo, Legislativo e até a Justiça no estado. Trama, controla e domina a máquina oficial, tal como grupos armados submetem territórios populares, da economia às urnas, nos quatro cantos da Região Metropolitana. Cientes estamos todos, falta reagir.

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EFEITOS DA GUERRA NO BRASIL

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

O país é sofrido em matéria de crise de combustível, apesar de hoje ser importante produtor de petróleo, o que não acontecia nos anos 70

A renúncia de Carlos Massa, o Ratinho Júnior, de sua candidatura à Presidência da República pegou seus correligionários de surpresa. Alguns até se recusavam, no dia seguinte da decisão, a acreditar na veracidade da notícia. Tudo havia sido combinado, discutido e acertado, nos mínimos detalhes, nos últimos meses. Não havia dúvidas, mas a persistente oposição do pai, dono de poderoso conglomerado de empresas, entre elas o SBT no Paraná, mudou o rumo da conversa. Ratinho Júnior decidiu permanecer no cargo de governador até o fim do mandato, tentar eleger seu sucessor, que ganhou concorrente de peso na pessoa de Sergio Moro, e assumir a presidência dos negócios do pai. Deixou a política para tratar dos próprios interesses.

Relegou amigos e correligionários o sol e a chuva. Gilberto Kassab, presidente do PSD, terá que optar entre o goiano Ronaldo Caiado e o gaúcho Eduardo Leite. São perfis diferentes, com olhar diverso para a realidade nacional. Caiado vem de um período de governo bem-sucedido em Goiás, onde expandiu a economia, Goiânia hoje é capital do agronegócio, ultrapassou Brasília em termos de desenvolvimento, e garantiu a segurança da população. Leite é um administrador competente, com tinturas de esquerda moderado, capaz de dialogar bem com o centro democrático. É distante da extrema-direita e do bolsonarismo. 

O radicalismo substituiu a melhor política no país. Não há espaço para discussão de meios e métodos para alcançar resultados positivos e escapar do subdesenvolvimento persistente. A mais nova crise do petróleo, consequência das loucuras de Donald Trump, demonstra que o país continua preso à inexistência de antevisão para superar limites. Nos anos 70, ocorreu a primeira grande crise do petróleo, sempre consequência das guerras entre Israel e vizinhos. Naquela época, o preço do barril de petróleo subiu de um para US$ 10. Aumento espetacular. No Brasil, o governo tentou de tudo para evitar a contaminação da economia com a elevação dos preços da gasolina e do óleo diesel.

Mas não há como evitar. Os aumentos chegaram ao posto de gasolina e ao preço do pão. O Brasil iniciou um processo de aumento da dívida externa para conseguir comprar petróleo e, ao mesmo tempo, tentou reduzir o consumo interno do produto. Chegou ao racionamento, a exemplo de alguns europeus que tomaram a mesma providência. Naquela época, surgiu o programa do álcool. Desde então, o álcool oscilou como principal combustível de automóveis no Brasil. Houve época em que ele sumiu dos postos. Hoje é comum, mas seu preço oscila junto com o da gasolina, o que é espantoso.

Os governos brasileiros não trabalham com planejamento nem costumam se antecipar às crises. O país é sofrido em matéria de crise de combustível, apesar de hoje ser importante produtor de petróleo, o que não acontecia nos anos 70. Mas o transporte de carga no país continua a ser realizado por caminhões, baseado no consumo do óleo diesel, subproduto do petróleo. 

O governo Lula, no período entre 2023 e 2025, construiu 225 quilômetros de rodovias no país. Duplicou cerca de 180 quilômetros. A soma dos dois desforços resulta em aumento de 400 quilômetros, pouco para um país de dimensões continentais. No capítulo ferrovias, o desempenho do governo é lamentável. Ele retomou as obras da ferrovia chamada de Transnordestina, novela que se desenvolve nos últimos anos e não sai do lugar. Planejou e licitou grandes projetos, como a ferrovia Oeste-Leste, que terá um total de 1.527 quilômetros, mas continua a existir apenas no papel. Na realidade, não construiu um único quilômetro de ferrovia neste país, nos últimos anos. O transporte de carga continua a ser realizado majoritariamente por caminhões. O remédio, extremo e ineficaz, é criar subsídio para evitar que o aumento de preço chegue ao consumidor na véspera da eleição. Vai chegar por outro caminho quando a crise da dívida interna explodir. Preço é preço, não há como fugir dele.

O Brasil poderia ter, hoje, em funcionamento trens elétricos, caminhões elétricos, ônibus elétricos e carros elétricos (estes existem por força do planejamento dos chineses), mas nada disto existe — exceto os veículos —, a não ser em caráter experimental. A negligência vai mais longe. Existe energia de sobra, tanto eólica quanto solar. É tanta sobra que as empresas são obrigadas a desligar os geradores para não sobrecarregar as redes de transmissão. Na realidade, há menos redes de transmissão do que o necessário para carregar o enorme volume de energia gerado pelo sol e pelos ventos para todo o território nacional. O que realmente sobra no Brasil é incompetência, negligência, falta de planejamento e preguiça de realizar, além da onipresente corrupção. É mais fácil fazer o discurso do que fazer a obra. E haja subsídio para pagar o preço do combustível.

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QUEM SERÁ A PRÓXIMA VÍTIMA DO FEMINICIDA ?

Eduardo Affonso, O Globo

Nesta semana ele matará, com outro nome, outra arma, outras mãos, por outros meios, outra Dana, outra Daniella, outra Claudia

Ângela está caída na areia de Búzios, com três perfurações à bala no rosto e uma na nuca. Tem 32 anos. Em pé, a seu lado, Doca, empresário, entrega a arma ao engenheiro Roberto, que disparará seis vezes contra Jô, 36 anos, em Belo Horizonte. Outro engenheiro, Márcio, descarregará o revólver em Eloísa, 32 anos, enquanto ela dorme. Nas mãos do paisagista Eduardo, o mesmo gatilho será acionado, e mais seis tiros acertarão Maria Regina. É no palco que Lindomar encontra Eliane, 25 anos, e a abate com cinco disparos.

Cláudia também está caída, mas no costão da Niemeyer. Tem 21 anos. Foi violentada e estrangulada pelo traficante Michel e pelo cabeleireiro Georges. Um pouco adiante, quem jaz na calçada da Avenida Atlântica é Aída, 18 anos — abusada e jogada, ainda viva, do 12º andar por Ronaldo e Cássio, estudantes, com a ajuda de Antônio, porteiro. A quilômetros dali, sangra até a morte Daniella, 22 anos, 18 perfurações pelo corpo. O ator Guilherme e sua mulher seguram a faca — ou punhal — que entregarão a Maicol, mecânico. Em Cajamar, ele golpeará Vitória, 17 anos, a quem agrediu e cujos cabelos raspou. A lâmina logo estará com José Cícero, que a usará para dar fim a Yasmin, 27 anos, que tinha contra ele uma medida protetiva e acionara, em vão, o botão de pânico do aplicativo SOS Mulher, de Mato Grosso.

Maria de Lourdes, 25 anos, queima no chão do quartel, em Brasília, depois de levar duas facadas no pescoço. Tainara, de 31, é arrastada pelo asfalto da Marginal Tietê, em São Paulo. O soldado Kevin esfaqueou e ateou fogo. Douglas atropelou e acelerou o carro. Maria da Conceição, 15 ou 16 anos, é degolada, esquartejada e enterrada no quintal pelo desembargador José Cândido. Maria Mercedes, 21 anos, grávida de seis meses, é desmembrada, colocada numa mala e despachada de navio por Giuseppe.

Soa um tiro, e é Sandra quem cai, baleada nas costas — e depois, de novo, na cabeça. O revólver que estava na mão do jornalista Antônio vai para a do motoboy Lindemberg, que atira também duas vezes em Eloá, sua refém por cinco dias. Outras balas atingem o queixo e a mão de Mércia, 28 anos, mas é afogada que ela morrerá, no carro submerso pelo policial Mizael. Isamara, 41 anos, está na festa de réveillon, interrompida por Sidnei, técnico de laboratório contra quem havia feito cinco boletins de ocorrência. Ele a mata a tiros, e a seu filho e a mais nove parentes.

Para Lorenza, a morte vem silenciosa, pelas mãos do promotor de Justiça André, que a dopa e asfixia. São as mãos de Giovane que, após o estupro, apertam o pescoço de Catarina, 31 anos, até que ela não mais respire e jamais chegue à aula de natação, em Florianópolis. Luana, 41 anos, é esfaqueada e estrangulada, e o mecânico Wellington grava a cena, no celular.

Alice, trans, 33 anos, é espancada pelos garçons William e Arthur e não resiste às fraturas e à perfuração do intestino. Gisele está caída na sala, em São Paulo, com um filete de sangue escorrendo pela têmpora e o revólver cenograficamente encaixado na mão. Ainda sem camisa, o tenente Geraldo recebe o abraço do amigo desembargador e a solidariedade do amigo coronel. Nesta semana ele matará — com outro nome, outra arma, outras mãos, por outros meios — outra Dana, outra Daniella, outra Claudia, outra Sandra, outra Catarina, outra Vitória, outra Raiane, outra Tainara, outra Mércia, outra Maria, outra Aída, outra Eloá, outra Gisele, outra Ângela.

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MINISTRO DO TCU SEGURA A BOLA EM PROCESSO DO MASTER

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

A serviço de quem o relator do processo Master na Corte de Contas segurou o julgamento do processo?

Momento é estratégico porque Daniel Vorcaro está prestes a delatar

Estranhamente, Jhonatan mudou de ideia com o argumento de que precisa receber informações sobre as apurações do caso que estão sendo feitas no Supremo Tribunal Federal, onde tramita o inquérito que investiga as fraudes do banco de Daniel Vorcaro.

O vaivém da posição favorece a defesa de Vorcaro e também os políticos aliados que, por ventura, tenham algo a temer por terem mantido relações obscuras e não republicanas com o dono do Master.

O momento é estratégico porque o ex-banqueiro está prestes a delatar. Ele assinou um termo de confidencialidade com as autoridades (primeira etapa do acordo de colaboração premiada) e Brasília está em compasso de espera. As suspeitas de que aliados de Vorcaro estejam atuando dentro do tribunal continuam.

Primeiro, a mão invisível do ex-banqueiro tentou suspender toda e qualquer decisão do BC sobre o Master para impedir o veto da operação de compra do banco pelo BRB. Com o Master já liquidado, Vorcaro tentou barrar a venda dos ativos pelo liquidante para ficar com os seus bilhões em caso de nulidade posterior do processo.

Em seguida, a tentativa foi barrar a liquidação do banco decretada pelo BC. O episódio ficou conhecido coma desliquidação (sic) do Master e entrou vergonhosamente para a história do sistema bancário nacional.

A esperança é que o inquérito possa avançar nas investigações e descubra o que aconteceu no subsolo do TCU. Talvez, isso já tenha acontecido.

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BOLSONARISMO AFUNDA SEU PRÓPRIO BERÇO, O RIO DE JANEIRO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Máquina estatal está nas mãos da família há quase oito anos

O resultado é corrupção, clientelismo e associação ao crime organizado

Que coincidência, não? No julgamento do TSE que condenou Cláudio Castro por abuso de poder político, econômico, irregularidades em gastos de campanha e conduta proibida a agentes públicos no período eleitoral de 2022, Nunes Marques votou a favor do réu. E André Mendonça divergiu da maioria, rejeitando a aplicação de inelegibilidade ao ex-governador. Os dois ministros foram indicados por Bolsonaro.

"As irregularidades abundam", resumiu o ministro Floriano Azevedo Marques, referindo-se à utilização da máquina pública, que no Rio de Janeiro está nas mãos do bolsonarismo há quase oito anos. Clientelista e corrupta, a gestão Castro foi um desastre geral e letal. Deixa como legado a chacina no Alemão e na Penha, 121 mortos —exploração midiática e eleitoreira que não abalou o poder das facções criminosas. Cerca de 4 milhões de pessoas vivem em territórios dominados.

Castro foi um fracasso longevo. Ficou mais de 2.000 dias no Palácio Guanabara. Renunciou ao cargo como o primeiro governador eleito em mais de três décadas que não inaugurou uma única estação de metrô. Na saúde, produziu o escândalo dos transplantes, em que seis pacientes receberam órgãos contaminados com o vírus HIV. O banco Master não poderia faltar em seu currículo. O Rioprevidência é investigado pela PF por investimentos de R$ 2,6 bilhões em fundos ligados ao banco. Para 2026, a previsão do déficit orçamentário é de R$ 18,9 bilhões, o maior em cinco anos. No total, o Rio deve R$ 238 bilhões (84% à União).

Espelhando a tática dos governos de direita e de extrema direita, o Rio sob Castro viveu da propaganda enganosa de combater o crime. A operação Anomalia, da PF, revelou que policiais civis e militares usavam a estrutura do Estado para extorquir integrantes do Comando Vermelho. O ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar —candidato do capitão ao governo fluminense— foi denunciado pela PGR por vazar informações ao CV.

É um caso especial de brutalidade: o bolsonarismo destruindo seu próprio berço, o Rio de Janeiro.

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O ATAQUE AO IRÃ E O COLONIALISMO DO SÉCULO XXI

Roberto Amaral*, CartaCapital

A guerra está aí, se espalhando pelo mundo. O que ninguém ignora foi proclamado como novidade há uns poucos dias pelo Secretário-Geral da ONU, instituição que mais e mais vê ausentes as razões justificadoras de sua criação, em 1945 (manutenção da paz e da segurança internacionais), quando mal saíamos da Segunda Guerra Mundial e os tambores já rufavam no vestíbulo da Guerra Fria — que, aparentemente finda com a autodissolução da URSS, volta à cena, por outros meios e com novos atores.

Aquele pós-guerra nos deu um mundo em guerra, e a guerra que os EUA promovem, mais acentuadamente hoje, é, nada obstante a tragédia humana que implica, um só episódio em processo guerreiro que não começou agora, nem se limita ao Golfo Pérsico, não só como teatro das ações, mas igualmente em suas repercussões tanto políticas quanto econômicas. Essas pervadem o mundo e já chegaram ao nosso continente e ao Brasil.

Trata-se de uma guerra diferenciada, mais sofisticada do que os modelos conhecidos e vividos, e mais complexa, em face das experiências passadas. Ela não se restringe ao teatro das operações bélicas no sentido estrito — por exemplo, as agressões dos EUA e do Estado sionista de Israel, que, repetindo o assalto às Colinas de Golan (em 1967), anuncia a ocupação e posse, ou seja, a rapina de algo como 10% do território do Líbano, que não cessa de atacar, matando civis, destruindo o país, sob o pretexto (a prepotência nem sempre se empenha em construir pretextos, como a humanidade aprendeu com as lições da Alemanha hitlerista) de estar combatendo o Hezbolah.

A guerra que neste momento tem seu epicentro no Golfo começou, do ponto de vista bélico, em Gaza; mas pode ser definida como uma guerra continuada, porquanto o mundo não conheceu a paz nesses 81 anos que nos separam do Armistício, e desde então os EUA não deixaram de guerrear. É uma guerra imperialista — como tantas iniciadas por Washington (jamais esquecer a invasão do Vietnã) —, mas que não se trava entre potências capitalistas avançadas, nem visa a disputa de mercado.

Embora a Casa Branca tenha seus canhões e seus marines momentaneamente voltados para o petróleo do Oriente e já se tenha apossado das reservas da Venezuela, o eixo central é a disputa da hegemonia internacional que os EUA, a unipotência de hoje, veem, com justificadas razões, ameaçada pela China, até aqui silente, enquanto, caminhando para além da Rota da Seda, expande sua presença em todos os continentes.

O conflito está entre nós, na América do Sul e no Brasil. Sofrem nossas exportações para o Oriente; a economia padece com a alta dos fertilizantes e dos combustíveis, cujos efeitos são ainda mais sentidos em vista da privatização de refinarias e venda da BR Distribuidora, parte do projeto de desmonte do governo anterior. Se já não se conta com a queda da Selic (sem o que o país não se desenvolve), o tal mercado estima a queda do PIB este ano. A Argentina, como o Paraguai, assegurou aos EUA o ingresso de tropas para exercícios militares (há sempre um começo) e participação na base naval que está sendo construída em Ushuaia (a cidade mais austral do país), porta de entrada para a Antártica. Tudo isso nos diz respeito.

Esta guerra, porém, contém um componente anacrônico, que lembra o neocolonialismo, quando logra submeter aos seus interesses países periféricos no sistema capitalista; antes independentes, são reduzidos à condição de protetorado-colônia, espécie à espera de definição pela ciência política.

Caso que não é, tão só, o da Venezuela, pois já é o de quase todo o Caribe, para além dos condicionamentos que secularmente amaldiçoam o México. Ali, naquela região nevrálgica, a fronteira norte do grande “quintal”, os EUA promovem — criminosamente, por óbvio — a sufocação de Cuba, pela fome de sua gente, como preâmbulo para a incorporação ao império, já aventada por Trump. Se lograrem êxito, Cuba voltará a ser o que era antes da revolução: uma cloaca, um cassino para a classe média do sul dos EUA, balneário para o repouso de gangsters aposentados.

A história comum de nossos países reproduz a preeminência dos interesses dos EUA, sustentada por uma sucessão de golpes de Estado que conheceu quase todo o continente e esteve presente entre nós em variados momentos. Convém não esquecer.

Sobre os escombros de Gaza e os milhares e milhares de cadáveres palestinos abre-se o espaço para a Riviera da família Trump, sua Lagoa ao mar oriental, levantada sobre a falência do direito internacional, a afronta à Carta das Nações Unidas e o auxílio prestimoso do sionismo, anunciando um portfólio de negócios a ser explorado mundo afora pela partilha entre o grande capital e o complexo industrial-militar, que carece da guerra para sobreviver.

Não é o começo, nem sugere um fim.

A guerra que nos toca hoje, está, pela diversidade de meios, expandida em face do conceito canônico e compreende um número sem conta de intervenções da mais variada forma, que completam um rol que vai muito além da guerra convencional, substituída por guerras irregulares, apoio a insurgências, sabotagens de um modo geral, ciberataques, desinformação, pressão econômica e sanções, operações psicológicas e o lawfare, ou seja, o uso do sistema jurídico como arma política, expediente bem conhecido entre nós, pois não podemos esquecer o que foi a Lava Jato, cujos efeitos ainda não foram de todo superados.

Neste caleidoscópio, o tarifaço de Trump é apenas uma dessas artes, ao lado das pressões e das sanções econômicas, como as que se abatem notadamente sobre a Rússia e o Irã. Estas são armas claras, como a guerra militar convencional, expostas à luz do dia; mas há as que passam despercebidas do grande público: as guerras irregulares, que se fazem mediante a mobilização, por exemplo, de milícias ou contingentes mercenários (como vimos na guerra civil da Síria e da Líbia pós-2011) e, notadamente, a espionagem e a sabotagem de que permanentemente se valem as grandes potências, e no que se destacam os serviços secretos de EUA e Israel, de uma forma ou de outra herdeiros da experiência do serviço secreto inglês em seus momentos mais ignominiosos.

Cuidemos de apenas dois crimes. Aquele que mais diz respeito à tragédia iraniana é a deposição, em 1953, do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, liderada pelo serviço secreto britânico (MI6), de mãos dadas com a CIA. Ficou conhecida como Operation Ajax. Era a resposta das grandes potências à nacionalização do petróleo iraniano (sempre ele) até então, controlado pela Anglo-Iranian Oil Company.

De igual relevância é a deposição e assassinato, em 1961, do líder congolês Patrice Lumumba, acusado de simpatias pela URSS, numa operação que reuniu o serviço secreto da Bélgica (ex-potência colonial) e a CIA. No fundo, havia a disputa por recursos estratégicos, como urânio e cobre. Israel, como se vê, não inova com os seguidos assassinatos de líderes e cientistas iranianos.

A isto tudo chama-se guerra híbrida, definida por Frank Hoffman (Conflict in the 21st Century: The Rise of Hybrid Wars, 2007) como o uso combinado e coordenado de instrumentos militares e não militares, tecnológicos, jurídicos, informacionais e psicológicos para enfraquecer o adversário sem necessariamente recorrer a uma guerra convencional declarada. Aqui não há tanques nem drones, mas há impacto direto na soberania política e na manipulação da consciência coletiva. A invasão se opera por outros meios e, mais do que nunca, “a guerra é a continuação da política por outros meios” (Clausewitz).

A guerra híbrida é ainda mais contundente quando as novas tecnologias abrem espaço livre para a manipulação ideológica. Refiro-me aos bots, às fake news e à manipulação algorítmica; mas a espécie mais insidiosa, ao lado das pressões psicológicas, certamente são os ciberataques (exemplar, a este respeito, é o caso Stuxnet, descoberto em 2010, quando os EUA e Israel, mediante a introdução de vírus tipo worms, sabotaram centrífugas nucleares do Irã) e a desinformação, mediante o controle dos meios de comunicação e da manifestação cultural como um todo, no que têm reinado os EUA, universalizando sua visão de mundo (embalagem de seus interesses), a partir do autoconceito de império destinado a reinar, material e espiritualmente, sobre os povos.

É a doutrina do destino manifesto, que se resume na crença falaciosa de que sua gente foi ungida por Deus para comandar o mundo. Esta maluquice foi tomada ao pé da letra por Donald Trump e sua curruela.

Nesse cenário inquietante, para dizer o mínimo, o Brasil segue à míngua de defesa, seja para a guerra convencional, seja para a híbrida, na qual atuam, além dos conhecidos atores internos (políticos, econômicos, religiosos, midiáticos), as chamadas big techs, sobre as quais não tem qualquer controle.

Deve ser nossa prioridade o desenvolvimento de mecanismos tecnológicos de defesa, mas o ponto fulcral é a coesão social, sem a qual nenhuma estratégia de dissuasão híbrida funciona. Dela sempre nos descuramos, mas jamais no nível em que nos encontramos, no limiar de um processo político — as eleições de outubro —, certamente o mais agônico desde a redemocratização, em face da ascensão da extrema-direita brasileira, na qual investe a internacional neofascista que se espalha pelo mundo a partir da Casa Branca.

Resta esperar que governo e partidos do campo progressista encontrem engenho e arte para avançar na organização e mobilização popular. Ponto de partida incontornável, nesta quadra histórica, é a denúncia do imperialismo, que jamais se expôs como agora, sem disfarces.

***
O alerta e a esfinge – As pesquisas eleitorais dando conta de um crescimento da rejeição ao presidente Lula, e de uma possível dianteira do pré-candidato fascista em projeções de segundo turno, não devem instalar o derrotismo na esquerda e no campo democrático como um todo, mas precisam servir de alerta. Não há dúvida de que, para assegurar a necessária vitória, a candidatura governista precisará dialogar com o eleitorado conservador, e com as pautas que ele tende a priorizar. É questionável, no entanto, que o “populismo penal” festejado pelos quadros mais rebaixados da centro-esquerda seja um caminho a seguir. E há uma esfinge a ser decifrada sem demora: por que o eleitorado jovem, da faixa entre 16 e 24 anos (cerca de 13% do total de votantes), rejeita massivamente o presidente Lula, preferindo um adversário desqualificado e de extensa ficha corrida?

Ainda Cuba – A população de Cuba gira em torno de 9 milhões, o que corresponde, ensina-me  o bravo frei Beto, a um bairro de Pekin. E a China não se abala em seu socorro!

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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O VAIVÉM DAS PESQUISAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Processo de tomada de decisão do eleitor é cheio de hesitações e reviravoltas

Lula é altamente competitivo mesmo que economia piore com guerra no Irã

Reviravoltas em pesquisas eleitorais nunca me comoveram muito, especialmente quando as sondagens são feitas vários meses antes do pleito. O processo de tomada de decisão dos eleitores não é linear. Eles hesitam, mudam de ideia e respondem a estímulos que ganham destaque nos jornais e nas redes sociais, mas que costumam revelar-se efêmeros.

No mais, políticos, marqueteiros e jornalistas tendemos a supervalorizar os eventos de campanha. Muitas vezes é mais exato prever o voto de um eleitor submetendo-o a um teste de personalidade do que perguntando-lhe com grande antecedência qual candidato ele escolherá.

A dúvida que assaltava petistas em meados do ano passado era como Lula piorava nas pesquisas quando seu governo tinha bons indicadores macroeconômicos a exibir. De lá para cá, o presidente recuperou popularidade, chegou a figurar como franco favorito e agora volta a enfrentar problemas.

Os números da economia são mais ou menos os mesmos. Na verdade, o dado da inflação até melhorou, muito por cortesia de Donald Trump, que derrubou o valor do dólar. Mas petistas têm motivos para preocupação. Os bons indicadores talvez tenham prazo para acabar.

O mesmo Trump que involuntariamente ajudou Lula agora deflagrou uma guerra com alto potencial inflacionário e de ruptura em cadeias logísticas.

Isso poderá custar caro a todos os governantes que enfrentarão processos eleitorais, incluindo o próprio Agente Laranja, que corre o risco de perder as duas casas do Congresso em novembro. E não dá para descrever Lula como vítima inocente de Trump. Grande parte das vulnerabilidades econômicas do Brasil são consequência de escolhas do petista.

Minha avaliação, porém, que mantenho desde 2024, é a de que o pleito presidencial será acirradíssimo. Mesmo que a economia piore um pouco, Lula será um candidato muito competitivo, como é o caso de qualquer presidente que tente a reeleição. Até Bolsonaro com a pandemia nas costas, a inflação da Guerra da Ucrânia e já dando sinais de golpismo foi.

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TRADE-OFF DA POBREZA

Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, CartaCapital

As raízes socioeconômicas do trumpismo e o velório do sonho americano

Começamos com o editorial do New York Times: “Imagine que você tenha de fazer uma aposta. Há duas ­pessoas de 18 anos, uma na China, a outra nos Estados Unidos, ambas pobres e com poucas perspectivas. Você precisa escolher aquela com maior probabilidade de mobilidade ascendente. Qual você escolheria? Não há muito tempo, a resposta talvez fosse fácil. Afinal, o ‘sonho americano’ havia prometido uma caminhada rumo a uma vida melhor a qualquer pessoa que trabalhasse arduamente. Mas hoje a resposta é surpreendente: a China ascendeu com tanta rapidez que as chances de uma pessoa melhorar a situação de vida por lá excedem em muito as de uma pessoa nos Estados Unidos”.

Trade-off é renunciar a algo em benefício de outra coisa. Em economia, trata-se da renúncia de um benefício por outro, em uma suposta troca entre dua­s alternativas. Diriam os economistas conservadores que a classe média branca norte-americana desrespeita os sagrados princípios da “racionalidade econômica” ao abandonar o princípio da troca de um benefício por outro.

A perda da dignidade do trabalho, somada à falta de perspectiva nos estados do Meio-Oeste do nosso glorioso Tio Sam, impulsiona o trade-off entre o ruim e o pior. Pode piorar ainda mais: os republicanos tradicionais, elegeram Trump again. E piorou.

O sonho americano, simplesmente acabou, a terra das oportunidades é restrita a 2% ou 3% da camada superior. O resto? Cada vez mais se entrega ao vício do opioide oxicodona, recorde de consumo mundial. A queda de cerca de 10% no consumo de fast-food se associa aos planos de saúde miseráveis e às ferrovias e estradas deterioradas.

O sonho americano virou pesadelo, um trade-off entre desalento e altas taxas de suicídio.

Aqui cabe lembrar a série Papai Sabe Tudo (Father Knows Best), uma representação arquetípica dos ideais de vida familiar dos anos 1950, que se tornou uma importante influência nos valores familiares norte-americanos. Esses valores familiares – prevalecentes no imediato pós-Guerra – refletiam as condições de vida da classe média do país, herança valiosa da Era Roosevelt. O ambiente de maior igualdade estendeu-se ao longo de três décadas, de 1945 a 1970.

Os chamados Trinta Anos Gloriosos do pós-Guerra sucumbiram às façanhas do neoliberalismo financeiro. A classe média, os Baby Boomers, viveu o boom na economia norte-americana entre 1945 e 1970. O país da classe média era contemplado com estabilidade de renda e emprego e com casas nos subúrbios.

Compensar desigualdade com poder de compra não reduz o ressentimento por falta de reconhecimento

No artigo “O capital está de volta”, Thomas Piketty e Gabriel Zucman revelam a evolução da relação entre riqueza e renda desde o século XVIII. Analisando as oito maiores economias desenvolvidas do mundo, a relação entre a riqueza agregada e a renda saltou de, aproximadamente, 200% a 300%, em 1970, para 400% a 600% atualmente.

O economista Michael Roberts apresenta as condições dos mercados de trabalho nos Estados Unidos. “Em janeiro, a economia dos EUA perdeu 92 mil empregos. As vagas no setor de serviços profissionais e empresariais caíram para apenas 4 por 100 funcionários, o menor número desde a recessão da pandemia de 2020 e quase 60% abaixo do pico do emprego de profissionais qualificados em 2022. Quando a contratação de profissionais qualificados desacelera drasticamente, o restante do mercado de trabalho geralmente segue a mesma tendência.”

Alerta Michael J. Sandel, no livro A Tirania do Mérito: “Interpretar o protesto populista como malévolo ou mal direcionado absolve as elites governantes da responsabilidade de criar as condições que corroeram a dignidade do trabalho e deixaram várias pessoas se sentindo desrespeitadas e sem poder. O status econômico e social declinante dos trabalhadores em décadas recentes não é resultado de forças inexoráveis, é resultado do modo como os partidos políticos dominantes e as elites governam”.

Os baby boomers submergiram e seus netos não têm trabalho, fazem bicos no setor de serviços e não conseguem comprar suas moradias. Vivem em cidades fantasmas, sem indústrias, sem sonhos. Perderam sua dignidade, acossados pela raiva e pelo desespero, ou narcotizados pelo consumo de oxicodona, correm para o Make America Great Again (­MAGA) não por convicção, mas por desespero, assim como a massa de trabalhadores alemães acreditou em Deutschland über alles (A Alemanha acima de tudo). A derrocada lenta e gradual da hegemonia imperial norte-americana.

Se os trabalhadores norte-americanos não têm trabalho, como indivíduos, sem função, sem valor e sem dignidade, não é possível avaliar sua produtividade. “A produtividade está ligada principalmente aos papéis no trabalho, não aos indivíduos.” (Elizabeth Anderson)

Quem vai restaurar a dignidade e o valor do trabalho numa economia que gasta trilhões de dólares em tecnologia de Inteligência Artificial e na construção de data centers que consomem energia e água da população nas cidades próximas? A raiva vai aumentar quando a classe média branca norte-americana perceber que o Messias e o mundo vindouro não virão! Qual será o próximo trade-off da miséria?

“Todo idealismo é uma mentira diante da necessidade.” (Nietzsche)

Vamos nos valer de Michael Sandel ainda uma vez:

“As propostas de políticas para compensar a desigualdade por meio de aumento do poder de compra de famílias das classes trabalhadoras e médias, ou para fortalecer a rede de segurança, terão pouco resultado na abordagem da raiva e do ressentimento que hoje estão fortes demais. Isso porque a raiva decorre da falta de reconhecimento e de estima”.

The dream is over, my fellows americans. 

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

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MENOS HORAS, MAIS VALOR

Paulo Gala, CartaCapital

O verdadeiro debate por trás do fim da jornada 6×1

O possível fim da jornada 6×1, seis dias de trabalho para um de descanso, tem sido apresentado como uma mudança de grande impacto econômico. No debate público, a proposta frequentemente aparece cercada de previsões alarmistas sobre emprego, produtividade e crescimento. Mas, quando analisada com mais cuidado, a evidência sugere um quadro bem mais modesto. Trata-se, essencialmente, de uma redução marginal na jornada formal de trabalho, com efeitos macroeconômicos limitados.

Levantamentos sobre o mercado de trabalho, inclusive as análises do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada e de outros centros de estudo, indicam que mudanças moderadas na duração da jornada raramente provocam alterações significativas nos níveis de emprego ou desemprego. Empresas tendem a se ajustar, reorganizando escalas, turnos e contratos. Não há sinais consistentes de que reduções desse tipo levem a uma destruição relevante de postos de trabalho.

Do ponto de vista dos trabalhadores, a mudança pode, no entanto, ter efeitos positivos no curto prazo. Caso as empresas optem por manter o mesmo volume total de horas trabalhadas, será necessário recorrer a horas extras ou a novas contratações pontuais. Em ambos os casos, pode haver algum aumento de renda para parte dos trabalhadores formais. Além disso, a melhora nas condições de descanso e na qualidade de vida não é desprezível – e faz sentido do ponto de vista social.

Ainda assim, é importante não exagerar o alcance da medida. O debate sobre a jornada de trabalho, embora relevante, não toca no principal problema da economia brasileira. Com frequência, afirma-se que o País sofre de baixa produtividade. Mas essa leitura, isoladamente, pode ser enganosa. O verdadeiro desafio está no baixo valor adicionado das atividades econômicas.

Grande parte da força de trabalho brasileira está concentrada em setores que produzem bens e serviços com baixo conteúdo tecnológico e reduzida sofisticação produtiva. Nessas atividades, mesmo trabalhadores eficientes geram pouco valor econômico por hora trabalhada. O resultado aparece nas estatísticas como baixa produtividade, mas a raiz do problema está na estrutura produtiva.

Esta é a principal diferença entre economias ricas e países de renda média. Nas economias avançadas, uma parcela significativa da produção ocorre em setores intensivos em tecnologia, conhecimento e inovação, como indústria de alta complexidade, serviços sofisticados e Tecnologia da Informação. Nesses segmentos, cada trabalhador é capaz de gerar muito mais valor.

No Brasil, ao contrário, houve nas últimas décadas uma perda relevante de complexidade produtiva, com redução do peso da indústria mais sofisticada e maior dependência de atividades de menor valor agregado. Esse movimento ajuda a explicar por que o País fica atrás de economias avançadas – e até de alguns emergentes – nos indicadores de produtividade.

A própria forma de medir produtividade reforça essa interpretação. Em geral, calcula-se a produtividade do trabalho como o valor adicionado dividido pelo número de trabalhadores. Se a economia gera pouco valor, porque produz bens e serviços pouco sofisticados, o indicador será baixo, independentemente do esforço individual dos trabalhadores.

Não há evidência de que o trabalhador brasileiro seja menos dedicado ou eficiente. Ao contrário, a jornada média no Brasil já é relativamente longa, superior àquela observada em muitas economias desenvolvidas. O problema, portanto, não está na quantidade de horas trabalhadas, mas na qualidade econômica das atividades realizadas.

Nesse contexto, mudanças na jornada, como o fim da escala 6×1, têm impacto limitado sobre o desempenho agregado da economia. Elas podem melhorar o bem-estar dos trabalhadores e gerar pequenos ganhos distributivos, mas não alteram de forma significativa a trajetória de crescimento do País.

O que realmente pode transformar o desempenho econômico brasileiro são políticas voltadas ao aumento do valor adicionado: investimento em inovação, desenvolvimento tecnológico, fortalecimento da indústria e estratégias de sofisticação produtiva. Em outras palavras, o desafio central do Brasil não é fazer os empregados trabalharem mais – ou menos – horas, mas produzir melhor. Porque, no fim, não é o relógio que define a riqueza de um país, e sim aquilo que ele é capaz de criar dentro dele. 

Publicado na edição n° 1406 de CartaCapital, em 01 de abril de 2026.

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