terça-feira, 7 de julho de 2026

MORRE BENEDITO RUY BARBOSA

Do g1 SP — São Paulo

Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas como 'Pantanal' e 'O Rei do Gado', morre aos 95 anos em SP

Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro. Seu legado inclui tramas icônicas como Meu Pedacinho de Chão (1971), Pantanal (1990), O Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999).

O dramaturgo e escritor Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas como Pantanal e Terra Nostra, morreu nesta terça-feira (7) na capital paulista devido a complicações de insuficiência renal crônica. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor).

O corpo será velado nesta terça, das 15h às 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de SP. A cerimônia será aberta ao público entre as 15h e as 16h.

Em janeiro deste ano, Benedito chegou a ficar 19 dias internado no HCor para o tratamento de uma infecção urinária associada a um quadro de insuficiência renal crônica.

Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro, exploram a diversidade cultural, com interesse especial na imigração italiana, e apresentam amores intensos.

Seu legado inclui tramas icônicas como "Meu Pedacinho de Chão" (1971), "Pantanal" (1990), "O Rei do Gado" (1996) e "Terra Nostra" (1999), marcadas por protagonistas de "bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos", como o próprio determina.

O mais velho entre cinco irmãos, Ruy Barbosa nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 1931, e passou a infância na vizinha Vera Cruz, uma região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos.

Com a morte precoce do pai, precisou trabalhar desde cedo para ajudar a família. Ao longo da juventude, trabalhou como auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro, até conseguir um emprego como revisor no jornal "Estado de S. Paulo".

O gosto pela escrita levou Benedito a criar seu primeiro romance, "Fogo Frio", que foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, começo de sua trajetória como roteirista.

Sua estreia na televisão aconteceu em 1966, com "Somos Todos Irmãos", na TV Tupi. Nos anos seguintes, passou por emissoras como Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, escreveu "Meu pedacinho chão", novela produzida por uma parceria da Cultura com a Globo e exibida por ambas.

Cinco anos depois, assinou com a Globo, onde deu início a uma sequência de sucesso na faixa das 18h. Nessa época, adaptou o romance de Ribeiro Couto em "Cabocla" (1979).

Em 1990, ao se transferir para a TV Manchete, Benedito escreveu "Pantanal", que inovou ao utilizar locações externas e explorar a cultura e os mistérios do bioma brasileiro.

Com o sucesso, retornou à Globo para escrever "Renascer" (1993), trama ambientada no interior baiano e marcada pelo duelo de gerações do coronel José Inocêncio. Ambas seriam refilmadas décadas depois, escritas por seu neto, Bruno Luperi.

Com "O Rei do Gado" (1996), Benedito abordou a rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, enquanto discutia temas como a posse de terra e a reforma agrária.

Já em "Terra Nostra" (1999), retratou o drama dos italianos Matteo e Giuliana, separados ao chegarem ao Brasil no início do século XX.

Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras. Em 2006 e 2014, assinou as refilmagens de "Sinhá Moça" e "Meu Pedacinho de Chão".

Na versão cheia de cores da segunda obra, declarou que finalmente conseguiu colocar no ar ideias que a Censura havia barrado na primeira versão, durante a ditadura militar.

Em 2016, escreveu "Velho Chico", ambientada na fictícia cidade de Grotas do São Francisco, no sertão nordestino. A novela trouxe um embate de gerações e a disputa por terra e poder no interior do Brasil.

"Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor", definiu Benedito Ruy Barbosa em depoimento  ao Memória Globo.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

COMBINARAM DE NOS MATAR

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Pessoas negras foram vítimas em 71% das mortes pela polícia em 2025, aponta estudo com 9 estados

Número de crianças e adolescentes mortos cresce 5% e alcança 312 vítimas nas regiões pesquisadas

Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança aponta 4.330 mortos em intervenções policiais, aumento de 6,4%

"O Estado tirou o direito de ver meu filho crescer" (Bruna Silva). "Como confunde marmita com revólver"? (Fabiana Hoytil da Silva); "O Estado acabou com a minha vida." (Rosicleide Cruz Bispo de Jesus).

As declarações saíram das bocas de três mulheres que perderam filhos para a violência policial no Brasil nos últimos anos. Além da juventude, Marcus Vinícius da Silva (14), Gabriel Hoytil Araújo (19) e Michel Cruz (21) tinham outro traço em comum: a negritude.

Para vergonha nacional, esse é um padrão que se repete. Os números falam por si e demonstram, ano a ano, que o futuro é um tempo marcado para não se realizar nas vidas de parcela expressiva de brasileiros.

Em 2025, o aumento da letalidade policial foi de 6,4% em relação a 2024. O percentual equivale a 4.330 pessoas mortas em decorrência de intervenção policial (entre as quais, 312 crianças e adolescentes de até 17 anos) em nove dos 27 estados do país.

Pretos e pardos representam 86% dos mortos em razão da intervenção policial. A maioria é de homens jovens, moradores das periferias e favelas, que tiveram as vidas ceifadas antes dos 30 anos.

É que "falar de racismo e segurança pública é incorrer num paradoxo insustentável", como consta na sétima edição do relatório "Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã", divulgado recentemente pela Rede de Observatórios de Segurança com dados do AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ e SP.

O estudo lança luz ao debate sobre a letalidade policial, denuncia desigualdades contra a população negra e fomenta o debate público. Coisa oportuna e necessária diante da persistência do perfil racial das vítimas da polícia e da disparidade entre a demografia e a proporção de pretos e pardos mortos.

O extermínio de vidas negras por agentes do Estado é mais um dos frutos do racismo institucionalizado numa nação que naturaliza a desigualdade étnico-racial e insiste em negar direitos e cidadania à maioria do povo. Como bem disse a escritora negra Conceição Evaristo, "eles combinaram de nos matar…" 

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OS EUA INVENTARAM O PRESIDENCIALISMO, SO WHAT ?

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Medeiros e Albuquerque viu na abolição brasileira e na Guerra Civil americana os efeitos de dois sistemas de governo

Aos 250 anos, a mais influente invenção institucional americana continua a dividir os estudiosos da democracia

Os Estados Unidos inventaram o presidencialismo e difundiram-no quando o modelo parlamentarista ainda não havia se consolidado na Inglaterra, onde surgiu. Os 250 anos dos EUA servem para perguntar se sua exportação institucional foi uma boa ideia. Tocqueville reverenciou o modelo institucional do país em "A Democracia na América" (1835). Mas a América aqui era a Nova Inglaterra, uma sociedade fortemente igualitária de camponeses livres, não o Sul escravocrata, que mais se parecia com o Brasil.

O Sul, à época, representava apenas 28% da população total dos EUA, e sua população livre, apenas 16%. O Sul permaneceu, assim, um enclave na democracia americana. E a escravidão, o contencioso central da Constituição que, com as dez primeiras emendas (Bill of Rights), é um marco do constitucionalismo moderno. Embora minoritários, os estados do Sul lograram vetar mudanças no status quo na região.

As 13ª (1865) e 14ª (1868) emendas, que aboliram a escravidão e garantiram cidadania e tratamento igualitário, foram aprovadas manu militari, quase 80 anos depois. No pós-guerra, o compromisso perverso foi adotado em 1877 para o Sul ocupado: autonomia para implantar medidas restritivas que negavam na prática a igualdade legal. Este estado de coisas —o sistema "separados, porém iguais"— persistiu e só foi eliminado com o Civil and Voting Rights Acts (1964-1965).

Mas o sistema de governo importa para a evolução política do país? Se o Brasil tivesse adotado o presidencialismo após a independência, como os demais países da América Latina, nossa história teria sido diferente? Para Medeiros e Albuquerque autor de "O Regime Presidencial no Brasil", de 1914, a resposta é positiva. "O regime parlamentar no Brasil fez a abolição pacificamente, ao passo que o regime presidencial nos EUA desencadeou uma revolução tremenda."

Medeiros e Albuquerque foi o primeiro a fazer um exercício contrafactual relacionando sistema de governo e abolição. Foi institucionalista avant la lettre. Se os EUA fossem parlamentaristas, conjeturava, não teria havido a Guerra de Secessão. O parlamentarismo tem uma válvula de pressão: a moção de desconfiança. A orientação muda quando o governo perde apoio parlamentar, ao contrário do presidencialismo, no qual os mandatos são fixos. As quedas de ministérios ocorrem sem fortes descontinuidades. Já o presidencialismo, argumentava, seria inflexível: os presidentes são forçados a manter seus pontos de vista "por teima ou coerência" até o fim do mandato.

"Se, em 1887, o Brasil fosse República presidencial e tivesse de eleger o seu presidente, não elegeria um abolicionista incondicional e sem indenização." Mas o processo era dinâmico: "um ano depois, esta solução se impunha e se realizava suavemente após se sacrificar vários ministérios". Assim, "esgotadas as outras soluções, restava apenas a da abolição e incondicional".

A avaliação negativa sobre o presidencialismo é associada ao professor Juan Linz da Universidade Yale (1926-2013). O debate continua. O presidencialismo é ruim para a governabilidade e/ou crescimento? O parlamentarismo promove mais igualdade e inclusão social?

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POR QUE ESQUECEMOS EM QUEM VOTAMOS ?

Carlos Pereira, O Estado de S. Paulo

Não é memória curta, mas um sistema eleitoral que torna lembranças pouco relevantes

A pesquisa Datafolha que revelou que 75% dos brasileiros não conseguem citar o nome de um senador e 68% não se lembram de um deputado federal provocou uma enxurrada de diagnósticos pessimistas sobre a democracia brasileira. Para muitos, os números seriam prova do desinteresse dos cidadãos pela política, da baixa qualidade do voto ou da incapacidade do Congresso de se conectar com a sociedade.

Em vez de perguntar por que o eleitor esquece em quem votou, deveríamos perguntar por que o sistema eleitoral lhe daria incentivos para lembrar. A memória política não é apenas uma característica individual. Ela é, em grande medida, produzida pelas instituições.

Em democracias que adotam distritos eleitorais pequenos, como Estados Unidos e Reino Unido, cada parlamentar representa uma comunidade claramente delimitada. A relação entre representante e representado tende a ser direta, territorial e personalizada. O eleitor sabe quem é seu deputado, e o deputado sabe quem são seus eleitores.

No Brasil, porém, a lógica é outra. Elegemos deputados pelo sistema proporcional de lista aberta em distritos de enorme magnitude. Nesse ambiente, a representação deixa de ser uma relação direta para se transformar em uma representação em rede. Entre o parlamentar e o eleitor surgem prefeitos, vereadores, lideranças religiosas, associações comunitárias, sindicatos, empresários locais e inúmeras outras organizações que fazem a ponte entre ambos. São esses intermediários que mobilizam votos, acompanham a atuação do parlamentar e ajudam a transformar recursos públicos em apoio político.

O parlamentar, portanto, depende de manter ativa essa rede de relações. Em vez de responder diretamente a milhões de cidadãos dispersos, o parlamentar presta contas continuamente às lideranças locais que sustentam sua base eleitoral.

Isso ajuda a compreender a importância das emendas parlamentares na política brasileira. Ao proporcionar capacidade individual dos parlamentares de direcionar recursos para municípios e organizações locais, elas fortalecem justamente essas redes de intermediação. Quanto mais recursos um deputado controla, maior o incentivo para cultivar lideranças locais e menor a necessidade de investir na construção de uma reputação junto ao eleitorado como um todo.

Isso não significa que o eleitor seja alienado ou que a democracia esteja necessariamente em crise. Significa apenas que nosso sistema eleitoral recompensa um tipo específico de conexão entre representantes e representados: uma conexão indireta, mediada por redes políticas locais.

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MAIS FUZIS DO QUE PÁS NA VENEZUELA

Demétrio Magnoli, O Globo

A segurança da camarilha no poder, não o auxílio às vítimas dos terremotos, é a prioridade absoluta do governo

Não faltou ajuda internacional. No socorro às vítimas dos terremotos na Venezuela, engajaram-se 17 países com equipes de resgatistas, especialistas, equipamentos, hospitais de campanha. Mas, diante de tragédias naturais de grandes proporções, nenhuma operação humanitária externa substitui eficientemente os recursos internos. À medida que passavam as horas e os dias, ficou patente o colapso estatal venezuelano.

O regime chavista dilapidou sistematicamente os bens públicos ao longo de anos. Na hora da catástrofe, as vítimas foram deixadas à própria sorte por uma camarilha habituada apenas a roubar e reprimir. Faltou tudo, inclusive combustível, num país que se jacta de possuir as maiores reservas petrolíferas do planeta.

Em Los Corales, no litoral caribenho, a menos de 40 quilômetros de Caracas, o operador de uma retroescavadeira governamental não apareceu na cena, de modo que os residentes fizeram uma vaquinha para remunerar um substituto.

— Havia pessoas respondendo sob as ruínas quando as chamamos, mas agora estão mortas — testemunhou Rosalia Bustamante, moradora local.

Lá, mais de uma dúzia de cadáveres foram recuperados de um edifício destroçado. Na ausência de sacos apropriados, terminaram embrulhados em plásticos de lixo e começaram a se decompor sob o sol dos trópicos.

Centenas de voluntários deslocaram-se em motos de Caracas a Cátia La Mar, em La Guaira, para auxiliar os resgates. Uma barreira policial tentou bloquear-lhes o trajeto.

— Aqui, há mais fuzis que pás, irmão! — gritou um deles aos homens armados.

O general reformado Antonio Rivero registrou que o governo poderia ter convocado as Forças Armadas com seus caminhões, geradores e sensores, mas não convocou. Ángel Rangel, ex-chefe da agência de defesa civil, explicou:

— Eles estão preparados para distúrbios sociais, não desastres naturais.

Terremotos implodem ditaduras cleptocráticas. Na Nicarágua, depois da catástrofe de dezembro de 1972, o roubo descarado da ajuda internacional pelo tirano Anastasio Somoza impulsionou a guerrilha sandinista que acabaria por derrubá-lo sete anos mais tarde.

Na Venezuela, do desespero, tristeza e desalento brotou uma indignação sólida. Autoridades foram vaiadas nas ruas e insultadas nas redes. O terremoto abalou as fundações do plano da Casa Branca de reforma da ditadura venezuelana.

A extração de Nicolás Maduro e sua substituição por Delcy Rodríguez (na prática, pelo novo homem forte, o ministro do Interior Diosdado Cabello) assinalaram uma brusca reorientação geopolítica. Os Estados Unidos converteram a Venezuela em protetorado informal, trocando acordos petrolíferos e minerais pela sustentação do regime falido. A ideia era deflagrar um ciclo de recuperação econômica, por meio da reativação da indústria do petróleo, a fim de estabilizar a ditadura reinventada como governo títere. Mas as ramificações políticas da tragédia ameaçam demolir o plano.

María Corina Machado, a líder opositora que concentrou as esperanças do povo, ganha nova oportunidade. Em janeiro, ao apoiar o sequestro de Maduro, imolou o princípio da soberania nacional na expectativa frustrada de um retorno triunfal patrocinado pelos Estados Unidos. Depois, acomodou-se às conveniências do governo Trump, curvando-se à vaga promessa de uma transição adiada. A crise aberta pelo desastre natural a coloca numa encruzilhada.

Dias atrás, uma dura advertência americana barrou seu ensaio de voltar clandestinamente ao país, via Curaçao. Segundo alega a Casa Branca, seria preciso evitar tensões políticas no pós-terremoto. Delcy Rodríguez invocou o mesmo álibi para impor a exigência de autorização oficial à chegada de voos internacionais a Caracas. Fuzis, em lugar de pás. A segurança da camarilha no poder, não o auxílio às vítimas, é a prioridade absoluta do governo.

Há indícios de que o terremoto servirá como pretexto, tanto em Caracas como em Washington, para enterrar a perspectiva de eleições livres. Corina Machado encara uma escolha decisiva: permanecer alinhada a Trump, à custa de sua liderança popular, ou empunhar a bandeira da democracia, correndo os riscos do retorno.

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SABER DO PAÍS VAI ALÉM DO 'SOFT POWER'

Preto Zezé, O Globo

Brasil desenvolveu formas originais de organizar pessoas, gerar confiança e resolver problemas complexos

Nos últimos meses, uma cena tem se repetido nas redes sociais. Vídeos sobre o Brasil viralizam em diferentes idiomas. Milhões falam de nossa música, nosso futebol, nossas festas e jeito de viver. Em Bangladesh, a Seleção Brasileira mobiliza uma paixão que atravessa gerações. O funk domina pistas na Europa. O samba continua sendo um idioma universal. Norte e Nordeste passam a ocupar um novo lugar no imaginário global, como territórios de cultura, turismo e inovação.

É tentador explicar tudo isso apenas pelo nosso soft power. Mas essa resposta é incompleta. O que chama a atenção do mundo não é apenas a cultura brasileira. É o tipo de conhecimento que ela produziu. Samba, capoeira, futebol e as redes de solidariedade das periferias não são fenômenos isolados. Todos nasceram como respostas a um mesmo desafio: criar convivência, criatividade e cooperação numa sociedade profundamente desigual.

A ginga não surgiu porque alguém desenhou uma estratégia de identidade nacional. Apareceu quando jogadores negros precisaram reinventar um esporte que não havia sido pensado para eles. O samba nasceu como forma de preservar memória e pertencimento diante da exclusão. A capoeira transformou perseguição em técnica. Nas favelas, a cooperação virou condição de sobrevivência muito antes de receber o nome de inovação social.

Quase sempre olhamos para essas experiências como manifestações culturais. Raramente as tratamos como produção de conhecimento. Esse talvez seja um dos maiores equívocos brasileiros.

Enquanto importamos teorias para explicar o país, prestamos pouca atenção ao conhecimento que produzimos. Nossas universidades estudam o Vale do Silício, mas ainda pesquisam pouco as soluções das periferias, das comunidades tradicionais, dos terreiros, das escolas de samba e dos coletivos culturais. É como se reconhecêssemos valor apenas quando nossas ideias recebem selo estrangeiro.

Não se trata de romantizar a pobreza. A desigualdade continua sendo um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento nacional. O ponto é outro: reconhecer que, diante da escassez, o Brasil desenvolveu formas originais de organizar pessoas, gerar confiança e resolver problemas complexos.

Isso ficou evidente na pandemia, nas enchentes do Rio Grande do Sul e noutras crises. Em poucas horas, comunidades, empresas e organizações construíram redes de apoio que muitas vezes chegaram antes das estruturas formais. O que movia tais iniciativas não era só solidariedade. Era uma inteligência coletiva construída pela experiência.

Num mundo marcado por guerras, polarização, envelhecimento da população e isolamento social, esse conhecimento ganha um valor novo. Talvez o maior ativo brasileiro já não esteja apenas debaixo da terra, mas na forma como aprendemos a conviver em meio às diferenças.

A questão é saber se continuaremos exportando apenas produtos culturais ou se passaremos a reconhecer que também produzimos conhecimento. O mundo talvez tenha percebido antes de nós que o Brasil não exporta só música, futebol ou alegria. Exporta maneiras de criar vínculos, produzir confiança e transformar diversidade em cooperação.

Se compreendermos isso, deixaremos de tratar nossa cultura apenas como entretenimento e passaremos a enxergá-la como fonte de inovação para um mundo que, cada vez mais, desaprende a conviver.

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AS REFORMAS SÃO NECESSÁRIAS, MAS FALTA LIDERANÇA

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas

‘Hoje nós temos uma convicção muito grande de que a República está podre. Hoje os Poderes estão contaminados com ineficiência, e isso acaba abalando a confiança da sociedade brasileira na República.’ O diagnóstico, contundente, é de Gilberto Kassab, presidente do PSD. Foi enunciado na semana passada, quando o político assumiu a posição de vice na chapa do ex-governador Ronaldo Caiado, pré-candidato a presidente. Caiado não deixou por menos. Disse que a política brasileira está tomada por práticas de corrupção, negociatas e acordos ilegais e imorais. A imprensa registrou, o mundo político tomou conhecimento... e ficou por isso mesmo.

Não que as denúncias sejam infundadas. As operações da Polícia Federal têm apanhado figuras dos três Poderes, envolvidas em práticas “imorais e ilegais”. Se não é toda a República que está podre, pode-se dizer que há muita podridão em muitas esferas do poder. A imprensa independente tem colocado nas manchetes essas operações. Por que não fez o mesmo com as denúncias de Caiado e Kassab? Por um motivo simples: fatos valem mais do que declarações. E a chapa do PSD mal passa dos 3% nas pesquisas.

Há, no entanto, uma explicação mais interessante do que a aritmética eleitoral. É uma espécie de lei das campanhas presidenciais: quanto menos pontos tem o candidato, mais contundente é seu programa. O corolário é igualmente confiável — quanto mais ele sobe nas pesquisas, mais prudente se torna.

Caiado e Kassab estão livres para dizer o que pensam precisamente porque ninguém espera que cheguem ao segundo turno. Nenhum dos dois, registre-se, foi apanhado em qualquer malfeito — mas talvez o eleitorado, cansado, esteja mesmo em busca de gente nova, e isso já baste para explicar o desinteresse.

Em circunstâncias normais, essa prudência crescente é até positiva. Melhor um moderado que um radical. Ocorre que o Brasil não vive um momento normal — e é aí que a lei das campanhas vira armadilha. Ignorar o mensageiro, desta vez, tem um custo: não invalida a mensagem. O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas. E a velha política segue tomada por práticas imorais e ilegais.

Dito de outro modo: os dois, Caiado e Kassab, podem estar isolados nas pesquisas e, ainda assim, estar certos. Têm razão, inclusive nas propostas: reforma administrativa para eliminar privilégios e rever subsídios; corte de despesas correntes; mais investimentos públicos; e nada de aumento de impostos.

Eis onde estamos: o país precisa de reformas, especialmente na economia e, mais especialmente ainda, na Previdência. Mas não se vê no horizonte nenhuma liderança capaz e com vontade de comandá-las. Entre economistas independentes, circula o entendimento de que as reformas fiscais serão necessariamente feitas no ano que vem, impostas pela realidade.

Os dados são eloquentes. Há uma tendência de aumento do gasto público, que tem sido pago com elevação de impostos e dívida pública. E uma inflação que tem sido controlada com juros muito altos, asfixiando empresas e famílias. Se essa tendência não for invertida, o futuro não distante aponta para outro período de recessão com inflação — como visto na gestão de Dilma Rousseff.

Sim, é grave assim.

Nada disso aparece nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, os ponteiros nas pesquisas. O governo Lula aumentou os gastos todos os anos e acelerou neste momento eleitoral. Mais: o presidente não perde oportunidade de criticar quem sugere políticas de ajuste fiscal. Flávio é herdeiro de um governo Bolsonaro que também aumentou os gastos no ano eleitoral, além de ter cometido pecados ainda mais graves no período da pandemia e na tentativa de golpe. Além disso, a polarização impede a abertura de um debate consistente.

A criação do Real foi mais difícil. Mas havia FH para liderar a inédita e brilhante reforma monetária. O problema atual é mais simples do que liquidar a hiperinflação. Todo mundo sabe o que é um ajuste fiscal. Mas falta a liderança.

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MUDANÇAS NO CENÁRIO INDICAM PIB MAIS FORTE EM 2026

Sergio Lamucci, Valor Econômico

O quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da economia no ano que vem

Após um primeiro semestre atribulado, o cenário que se vislumbra hoje para a economia brasileira em 2026 tem algumas diferenças significativas em relação ao que se via há seis meses, o que deverá ter efeitos não desprezíveis sobre o quadro que se desenha para 2027. Neste ano, o PIB tende a crescer mais do que se imaginava no fim de 2025, avançando perto de 2%, a inflação será mais alta, atingindo um nível um pouco acima de 5%, e os juros deverão ficar perto de 14% ao ano - consideravelmente acima dos 12% a 12,5% projetados em dezembro do ano passado.

O impacto do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo pressionou as cotações de combustíveis e alimentos (neste caso, pelo efeito sobre fretes e fertilizantes), ao mesmo tempo em que os estímulos fiscais têm impulsionado a demanda, reduzindo o espaço para cortes da Selic, ainda que a taxa, em 14,25% ao ano, esteja nas alturas. As incertezas sobre as contas públicas, num ambiente de déficit nominal (incluindo gastos com juros) elevadíssimo e dívida pública crescente, contribuem para que os juros sigam altos.

Esse quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da economia no ano que vem, ainda que obviamente elas tenham elevado grau de incerteza. Bancos e consultorias têm reduzido as estimativas de expansão do PIB para 2027, indicando que o ganhador das eleições presidenciais deste ano assumirá com uma atividade em ritmo mais lento. O Bradesco, por exemplo, revisou a previsão de avanço do PIB em 2027 de 2% para 1,5%, ao mesmo tempo em que elevou a deste ano de 1,8% para 2%. A consultoria 4intelligence, por sua vez, trabalha com um número ainda mais baixo para o ano que vem - cortou no mês passado a estimativa de 1,6% para 1,2%. Para 2026, a 4intelligence também trabalha com 2%, como o Bradesco.

O crescimento neste ano será mais forte do que se imaginava em boa parte devido aos estímulos à economia do governo num ano eleitoral. A 4intelligence observa que várias iniciativas têm efeito significativo” sobre a expansão do PIB em 2026, “como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR), a liberação de recursos extraordinários do FGTS e a aceleração do investimento público, da União e dos governos subnacionais, com destaque para os Estados”, aponta a consultoria, em relatório. Como a política fiscal não deverá repetir “o substancial impulso que vem dando à atividade econômica neste ano eleitoral”, o PIB tende a sofrer uma desaceleração relevante em 2027, diz a 4intelligence.

Na revisão do cenário divulgada na semana passada, o Bradesco também ressalta o impacto dos “fortes estímulos que se contrapõem à política monetária” para explicar a avaliação de uma economia mais forte em 2026, que levou à revisão do crescimento de 1,8% para 2%. Com uma política fiscal expansionista, o Banco Central (BC) tem ainda mais dificuldades para reduzir os juros, algo já complicado num cenário de pressão dos combustíveis e dos preços de alimentos.

Com perspectivas mais favoráveis para o petróleo, após a diminuição das tensões entre EUA e Irã, o quadro inflacionário pode ser menos desfavorável do que se temia há algumas semanas, mas as previsões continuam a apontar um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre 5% e 5,5% neste ano, distante da meta de 3% perseguida pelo BC. Além disso, um IPCA mais alto neste ano contamina o indicador do ano que vem, por meio da inércia, o fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a inflação futura. Em 2027, o IPCA deverá ficar acima de 4%, segundo as previsões dos economistas.

Os juros, nesse quadro, ficarão mais altos do que se estimava na virada do ano. O Bradesco ainda vê a Selic em 13,75% no fim de 2026, 0,5 ponto percentual abaixo do nível atual da taxa. A 4intelligence, porém, espera que os juros continuem em 14,25% até o fim deste ano. Com isso, “o espaço para expansão do crédito tende a permanecer limitado” no ano que vem, “em linha com a expectativa de condução mais conservadora da política monetária”, avalia a consultoria. É mais um dos motivos que justificam o crescimento mais fraco da economia em 2027, ainda que a 4intelligence tenha elevado a projeção de aumento da massa de renda de 2,7% para 3,5%, descontada a inflação, por causa da força do mercado de trabalho. O ponto é que, além do efeito dos juros altos sobre o crédito, “estará em curso um processo de desalavancagem financeira das famílias”, diz a consultoria, para quem, “diante de um nível de endividamento historicamente elevado, parcela relevante do aumento de renda será direcionada à amortização de dívidas, em detrimento do consumo”.

A desaceleração da atividade em 2027 deverá diminuir a pressão da demanda sobre os preços, o que pode ajudar a abrir espaço para um ciclo de queda um pouco mais intenso dos juros, à medida que o ano avance. No entanto, para que a Selic possa cair para níveis mais baixos, algo urgente num país em que muitas empresas e famílias estão endividadas e o setor público tem despesas financeiras pesadíssimas, será fundamental que o presidente eleito neste ano enfrente de fato o desequilíbrio das contas públicas, com um ajuste concentrado no lado das despesas. Se isso for feito, haverá uma redução dos estímulos do governo à economia e uma melhora da percepção de risco fiscal do país. Não é algo fácil do ponto de vista político, mas é essencial para que a Selic e os juros de longo prazo possam recuar mais e para o câmbio ficar valorizado, contribuindo para o controle da inflação.

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A NUMEROLOGIA JÁ DEFINIU QUEM SERÁ ELEITO

Bruno Carazza, Valor Econômico

Escolha de números de urnas é muito mais do que um recurso mnemônico para o eleitor

Num evento político no mês passado, o pré-candidato a governador subiu no palanque improvisado de um restaurante para declarar seu apoio a um correligionário. E afirmou: “Você será o meu candidato a deputado federal, e a prova disso é que o seu número de urna será XYXY”, onde XY é o número do partido deles.

Numa eleição em que centenas ou milhares de políticos se engalfinham pelas poucas cadeiras em disputa, ter um número de urna fácil de ser lembrado pelo eleitor é um ativo importante - ainda mais num país em que candidatos e partidos em geral têm baixa conexão com os cidadãos.

Em 2022, 137 dos 513 deputados federais eleitos escolheram como número de urna a repetição do algarismo do seu partido. Foi a opção preferencial dos vencedores, o que justifica a escolha do pré-candidato a governador para seu preferido.

Essa opção é ainda mais forte nas agremiações que já têm como símbolo um dígito repetido. O PL é o campeão: elegeu vinte candidatos que tinham o número 2222. Na sequência vieram o Progressistas, com 16 eleitos com o número 1111, e o União Brasil, que fez 15 deputados 4444.

As demais siglas seguem o mesmo padrão. O 1010 é o número mais frequente entre os eleitos do Republicanos (13 deputados), assim como o 1313 é o mais comum entre os petistas (10 eleitos) e o 1515 no MDB (8 deputados). No PDT, o 1212 foi superior até ao tentador 1234 (com o placar de 5 a 4).

Grandes nomes do Congresso seguiram essa fórmula, de Eduardo Bolsonaro e Nikolas Ferreira (ambos 2222, um em São Paulo e outro em Minas) a Gleisi Hoffmann e Washington Quaquá (ela no Paraná e ele no Rio, mas os dois 1313), passando por Arthur Lira (1111) e Tábata Amaral (4040).

O segundo padrão de numeração mais comum em 2022 foi o final 00, com 46 parlamentares no total. Outra predileção é o final 10, utilizado por 31 deputados eleitos.

Em tempos de polarização extrema, políticos também usam a numeração para enviar um sinal claro para o eleitor. Assim, 28 congressistas se valeram de um combinado entre a indicação do seu partido e o numeral 22, associado a Jair Bolsonaro. Foi o quarto modelo mais utilizado, principalmente por integrantes do Centrão.

Para os adeptos da numerologia, a escolha de um bom número é receita de sucesso. De fato, os dados indicam que, no pleito de 2022, candidatos que foram às urnas com uma numeração que repetia os dígitos de seu partido tiveram quase 4 vezes mais chances de serem eleitos do que os seus adversários: 19,4% daqueles que usaram números repetidos foram eleitos, contra uma taxa geral de 4,9% do total de postulantes à Câmara dos Deputados.

Da mesma forma, quem usou números com final 10 teve o dobro de chances de conseguir uma vaga, enquanto os de final 00 apresentaram em média uma probabilidade 70% maior de chegar a Brasília.

Antes que alguém passe a atribuir efeitos mágicos aos números - como analistas esportivos que se fiam na tradição e no peso da camisa para cravar classificações - a prioridade na definição da numeração de urna é apenas um dos privilégios que os caciques partidários concedem aos seus correligionários preferidos.

O fator que realmente conta nas chances de ser ou não eleito no Brasil é a distribuição de recursos dos fundos partidário e eleitoral para os candidatos em cada diretório estadual.

Num sistema em que as eleições são disputadas em territórios muito grandes e com tantos partidos e candidatos, larga muito na frente quem dispõe de mais dinheiro para gastar com propaganda, cabos eleitorais e impulsionamento de campanha em redes sociais.

Em 2022, dos 6.269 candidatos que receberam menos de R$ 100 mil de seus partidos, apenas 24 conquistaram um lugar na Câmara, numa taxa de sucesso de 0,4%. Já entre os 38 agraciados com mais de R$ 3 milhões do fundão eleitoral, 18 se elegeram - ou seja, desfrutaram de uma probabilidade de vitória altíssima, de 47,4%.

Uma forma de visualizar como os caciques partidários definem previamente quem terá mais chance de vencer a eleição é cruzar os dados da numeração de urna com a repartição dos recursos do financiamento público de campanhas.

Na eleição passada, os concorrentes que usaram o número do partido duplicado (2222, 1313 e assim por diante) receberam em média R$ 722.575,91 de suas agremiações. Esse montante é mais de três vezes superior ao que ganharam os candidatos com números “normais” (média de R$ 215.456,35).

No Brasil existe uma discussão infrutífera entre os analistas e cientistas políticos sobre as vantagens do sistema de representação proporcional em lista aberta (adotado por nós) frente à alternativa da lista fechada.

Quando se analisa a distribuição dos ativos eleitorais dos partidos entre seus candidatos (fundos eleitoral e partidário, tempo na propaganda no rádio e na TV, presença em palanques e até mesmo o número de urna) constata-se que já vivemos um sistema de lista fechada - só que sem transparência.

Precisamos reconhecer que, no Brasil, eleição é uma disputa entre algumas centenas de candidatos previamente escolhidos pelos partidos e milhares de figurantes.

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DISPUTA EXPÕE REARRANJOS DO BOLSONARISMO

Joelmir Tavares, Valor Econômico

Conflito entre Flávio e Michelle Bolsonaro acelera corrida pelo espólio político do ex-presidente

A troca pública de críticas entre o senador Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro expôs uma disputa pelo espólio eleitoral do ex-presidente Jair Bolsonaro e lançou dúvidas sobre o futuro do bolsonarismo, no momento em que sua principal liderança está impedida de atuar publicamente como um árbitro e a pré-candidatura do clã à Presidência, liderada por Flávio, enfrenta obstáculos.

Na visão de especialistas que pesquisam movimentos de direita, a crise não deve significar o esvaziamento do bolsonarismo como força política, mas acirra a briga por espaço e reorganiza segmentos que se aglutinaram em torno de Bolsonaro - hoje em prisão domiciliar, determinada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), após a condenação por tentativa de golpe de Estado.

Na sexta-feira (3), o ministro Alexandre de Moraes prorrogou a prisão domiciliar do ex-presidente, condenado a 27 anos e três meses de prisão. A defesa argumentou que o quadro de saúde de Bolsonaro ainda é delicado e que ele receberia melhores cuidados em casa. O prazo de 90 dias do benefício tinha se encerrado em 25 de junho. Na nova decisão, Moraes não definiu a duração. Ele ainda revogou o porte de uma arma do ex-presidente que foi apreendida no mês passado.

Embora ainda não esteja claro o papel que Michelle vá desempenhar na eleição - ela não confirma a pré-candidatura ao Senado pelo Distrito Federal -, a avaliação é que seu distanciamento da futura campanha de Flávio possa abalar a confiança de setores religiosos, além de ser um desafio a mais para quebrar resistências no eleitorado feminino.

A cientista política Thais Pavez, uma das autoras do estudo “Bolsonarismo sem Bolsonaro?”, de 2024, afirma que o risco de prejuízo eleitoral existe no segmento das mulheres evangélicas, que veem em Michelle “uma representante própria”, mas “ainda é cedo para falar de um deslocamento de segmentos da base”.

“Michelle é uma liderança que construiu o capital político dela, diferentemente do Flávio. Ela foi capaz de mobilizar gente na rua, em Marchas para Jesus e caravanas pelo país, e atuou como uma das vozes centrais da guerra espiritual que caracterizou a campanha de 2022, com a ideia de bem contra o mal”, diz Pavez.

Para ela, existe “um conflito a respeito de quem vai liderar o projeto bolsonarista”, enquanto parte da base entende que Michelle “pode dar continuidade ao projeto de transformação profunda da sociedade e de combate à chamada ‘inversão de valores’ [iniciado por Bolsonaro]”.

O custo do racha familiar para a votação de Flávio, caso ele confirme a candidatura ao Planalto, ainda é incerto, mas qualquer perda pode ser prejudicial, em um pleito que se desenha acirrado contra o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, pré-candidato do PT e hoje à frente nas pesquisas.

A construção do “bolsonarismo sem Bolsonaro”, como define o cientista social Jonas Medeiros, pesquisador do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), tem sido precipitada em consequência da prisão e da inelegibilidade do ex-presidente.

“Isso realmente alimenta disputas internas. O que está em jogo nestas eleições de 2026 é o quanto o clã Bolsonaro vai conseguir manter o controle sobre o próprio campo político, mas também sobre a parte da direita brasileira que não vê problema algum em se aliar a um projeto político com características autoritárias e subordinado aos interesses dos Estados Unidos, sob Donald Trump”, diz Medeiros.

Segundo ele, que é coautor de um livro sobre a ascensão de Bolsonaro, a dúvida é se os filhos vão conseguir manter setores aliados sob comando “sem atuação pública direta do Jair”. Ao mesmo tempo, o especialista cogita uma aposta do clã na saída “mais racional”: seria preferível amargar uma derrota com Flávio em 2026 a perder a força predominante que hoje exerce na oposição.

A antropóloga e professora Isabela Kalil, que é coordenadora do Observatório da Extrema Direita, acrescenta que outro objetivo no horizonte da família é uma reabilitação política de Jair Bolsonaro, o que só ganharia corpo com uma vitória de um aliado. “Nem todos os cálculos estão baseados na vitória eleitoral. A manutenção da hegemonia na direita e um possível perdão a Bolsonaro são os eixos que hoje mobilizam o bolsonarismo”, diz.

Segundo Kalil, o movimento sempre funcionou como uma aglutinação instável de diferentes grupos conservadores, por vezes até divergentes entre si. “O que estamos vendo de diferente agora é essa corrida pela sucessão a partir de disputas familiares, e tudo isso sem o Bolsonaro, que antes vinha como o fiel da balança, para dizer que diretriz tomar. Claro que uma fragmentação tira força [do bolsonarismo], mas não significa dizer que necessariamente esteja se desfazendo.”

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MORRE CHICO SIMÕES

Caroline Del Piero, g1 Vales de MG

Morre Chico Simões, ex-prefeito e vereador de Coronel Fabriciano, aos 75 anos

Médico ginecologista e obstetra, ele também foi deputado estadual, vice-prefeito e presidiu a Associação dos Municípios do Vale do Aço.

Morreu nesta segunda-feira (6), aos 75 anos, o vereador de Coronel Fabriciano Francisco de Assis Simões Thomaz, conhecido como Chico Simões (PT). Médico ginecologista e obstetra, ele também foi prefeito, vice-prefeito, deputado estadual e presidente da Associação dos Municípios do Vale do Aço (Amvale).

Segundo informações divulgadas pela Câmara Municipal, Chico Simões enfrentava um câncer desde abril deste ano. Mesmo debilitado, continuava exercendo o mandato de vereador de forma remota.

Trajetória na medicina e na política

Natural de Dom Joaquim, Chico Simões nasceu em 17 de outubro de 1950 e se formou em Medicina pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG). Ginecologista e obstetra, atuou em hospitais do Vale do Aço, foi médico-legista da Secretaria de Estado de Segurança Pública, servidor concursado do antigo Instituto Nacional de Assistência Médica da Previdência Social (Inamps) e professor da Faculdade de Direito de Ipatinga.

Na vida pública, foi vice-prefeito de Coronel Fabriciano entre 1989 e 1992, vereador de 1993 a 1996 e prefeito do município por dois mandatos: de 1997 a 2000 e de 2005 a 2012.

Chico também exerceu mandato como deputado estadual entre 2003 e 2004, quando renunciou ao cargo para disputar novamente a Prefeitura de Coronel Fabriciano. Em 2024, foi eleito vereador pelo Partido dos Trabalhadores.

Em nota de pesar, a Câmara Municipal afirmou que Chico Simões "deixou uma importante trajetória de dedicação à vida pública e ao desenvolvimento de Coronel Fabriciano". O Legislativo também manifestou solidariedade aos familiares, amigos e à população fabricianense.

O velório será realizado a partir das 12h desta segunda-feira (6), na Capela Municipal de Coronel Fabriciano. O sepultamento está marcado para as 17h, no Cemitério Vale da Saudade.

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MORRE ADERBAL PORTELA DE AGUIAR

Do g1 CE

Morre cearense de 108 anos que fazia questão de votar em todas as eleições mesmo sem obrigatoriedade

Aderbal Portela de Aguiar era morador de Cariré, no interior do Ceará, e nasceu em 1918.

O cearense Aderbal Portela de Aguiar, morador de Cariré, no interior do Ceará, morreu na madrugada desta segunda-feira (6), aos 108 anos de idade. O anúncio do seu falecimento foi feito por um dos netos, o médico Roberto Didier, nas redes sociais.

Aderbal nasceu em 1918, foi comerciante e, depois, prefeito do município de Cariré. Ele chegou a ser notícia do g1 em 2022, pois mesmo com mais de 100 anos, fazia questão de votar nas eleições. O cearense teve 20 filhos, 52 netos, 36 bisnetos e dois trinetos. 

Ele virou uma símbolo das eleições democráticas por fazer questão de ir às urnas em todas as eleições, mesmo não sendo mais obrigado a comparecer devido à idade.

A família informou ao g1 que o idoso morreu após uma convulsão. Há dois meses, ele havia sofrido uma queda e ficou com um coágulo na cabeça.

"Hoje me despeço do meu querido avô, Aderbal Portela de Aguiar (1918–2026). Perdi meu avô-pai. Minha base. Meu exemplo de vida. Quantos conselhos… Quantas conversas… Quanto amor recebi desse homem extraordinário. Ele construiu uma história linda: deixou um legado de trabalho, honestidade, fé e amor à família", escreveu o neto de Aderbal.

Aderbal morava com a família em Cariré e tinha uma rotina movimentada com exercícios físicos para manter a mobilidade e alimentação saudável. A TV Verdes Mares acompanhou o aniversário de 107 anos do idoso.

"A idade é engraçada. Quando a gente chega aos 107, pensa logo em 108, 109, 110, [pensa] em ser o homem mais velho do Brasil e do mundo", disse à época (assista no vídeo acima).

Pessoas mais velhas vivas

No Brasil, a pessoa mais velha viva é a alagoana Yolanda Beltrão de Azevedo, de 115 anos. Depois dela, vem a pernambucana Beatriz Ferreira Duarte, também com 115 anos.

A brasileira Yolanda é a quarta pessoa mais velha do mundo. Veja o ranking da LongeviQuest, uma organização internacional especializada na validação de registros de pessoas com mais de 110 anos, conhecidas como supercentenárias.

  • Ethel Caterham, de 116 anos e que nasceu no Reino Unido em 21 de agosto de 1909;
  • Naomi Whitehead, de 115 anos e que nasceu nos Estados Unidos em 26 de setembro de 1910;
  • Lucia Laura Sangenito, de 115 anos e que nasceu na Itália em 22 de novembro de 1910;
  • Yolanda Beltrão de Azevedo, de 115 anos e que nasceu no Brasil em 13 de janeiro de 1911;
  • Shigeko Kagawa, de 115 anos e que nasceu no Japão em 28 de maio de 1911.
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domingo, 5 de julho de 2026

SOBRAL, 253 ANOS !

A minha querida terra natal, Sobral, situada na região norte do Ceará comemora hoje, 5 de julho, 253 anos. Segundo dados do IBGE Censo 2023, a população sobralense está estimada em 203.023 mil habitantes. A 240 quilômetros de Fortaleza (capital do estado) é conhecida como a Princesa do Norte.

Um dos monumentos característicos da cidade, o Arco do Triunfo foi construído por iniciativa de Dom José Tupinambá da Frota, em 1953, como marco da visita da imagem peregrina de Nossa Senhora de Fátima à Sobral.

O blog Sou Chocolate e Não Desisto parabeniza Sobral e a todos que, a cada dia, com suor, dedicação e muito amor à esta cidade quente e acolhedora, contribuem para uma Sobral mais humana e próspera. Parabéns, Sobral, 253 anos !

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sábado, 4 de julho de 2026

FLÁVIO BOLSONARO FOI PARA A FRIGIDEIRA

Maria Inês Nassif, CartaCapital  

Michelle e Valdemar Costa Neto ganham mais se o filho 01 de Jair perder a eleição

O que está em jogo no lar bolsonarista não é quem vai disputar as eleições presidenciais de outubro – o príncipe ou a rainha, o peão ou o cavalo. Hoje, e depois do Escândalo Master, ninguém consegue definir o verdadeiro valor de face do bolsonarismo. O ex-capitão está na cadeia, cumprindo pena por golpe de Estado. A ideia de um líder forte, encantador de serpentes, sumiu atrás das grades. A reiterada exposição de suas fragilidades físicas desmonta a imagem do Mussolini jabuticaba, do super-herói que vai “livrar o País” de alguma coisa. Seu filho Flávio, autodenominado sucessor político do pai, registra nas pesquisas perdas crescentes entre eleitores antes cativos de Jair. Aquele que se nomeia candidato a presidente por direito de sucessão foi engolido pelo mar de lama do banco de Daniel Vorcaro e de uma relação antipatriótica com os Estados Unidos, a quem só falta pedir explicitamente que lidere um golpe de Estado no Brasil.

O legado político depositado no tabuleiro do xadrez da direita brasileira em 2026 é muito mais que Flávio ou mesmo Jair. O mais importante, para esse espectro, não é perenizar o bolsonarismo, mas um eleitorado conservador que deixou de ser apenas um aglomerado de fanáticos em torno de um líder e passou a reunir um contingente expressivo de simpatizantes, por adesão ideológica, em torno de partidos políticos.

O PL é o principal deles. Embora tenha crescido e se multiplicado a partir da adesão de Bolsonaro, o partido ganhou organicidade apesar dele. O construtor da máquina partidária que floresceu e frutificou nos últimos cinco anos foi o presidente da legenda, Valdemar Costa Neto. Michelle Bolsonaro é parte dessa engenharia política não como esposa de Jair, nem apenas como presidente do PL Mulher, mas pelas relações estreitas com igrejas evangélicas de diversas denominações. Hoje, o partido que era um sopro e vivia à margem do poder federal, qualquer que fosse ele, comendo as sobras, é a maior força de direita do País. Tem quase 1 milhão de filiados, fez uma bancada de 99 deputados federais em 2002, elegeu 516 prefeituras e 5 mil vereadores em 2024 e já começa a eleição deste ano com a vantagem de dez senadores eleitos em 2022, que têm mais quatro anos de mandato.

Flávio Bolsonaro cometeu o erro de trombar de frente com Michelle e Costa Neto. Impôs a sua candidatura como se fosse ordem do pai. Alijou ambos das decisões de campanha. Agiu como um miliciano: entrou no PL Nacional com um chute na porta e expulsou os donos. Patina agora nas pesquisas de opinião, carregando na testa o carimbo de beneficiá­rio de Vorcaro e de vendilhão da pátria. É o candidato que pediu, e conseguiu, dinheiro de Vorcaro e cujo irmão pediu ao governo norte-americano sanções contra o Brasil. É o senador que, agora, sem intermediários, diz que vai colocar à disposição dos EUA uma “equipe de transição” para decidir, se eleito, as relações do Império com o Brasil. Quando for iniciada oficialmente a campanha eleitoral, Flávio irá para as ruas carregando um desgaste do tamanho necessário para impedir uma vitória eleitoral.

O senador esticou tanto a corda que, para o PL, é mais vantagem que ele perca. O que Michelle tem feito, com a cumplicidade de Costa Neto, é jogá-lo às feras. Pode continuar candidato, mas não será presidente. Derrotado, terá a utilidade de puxar uma boa bancada federal, com o auxílio dos votos antipetistas, e sua liderança acabará no dia seguinte à derrota. A política regional, sob controle de Costa Neto, dará ao dirigente partidário uma base parlamentar sólida, com forte poder de negociação. O presidente do PL, um dos líderes mais longevos do Centrão, fará bom proveito disso.

O capital eleitoral evangélico também não cairá automaticamente no colo de Flávio. Ele se espalha por todos os partidos. O Republicano de Tarcísio de Freitas, inclusive, é considerado um partido de propriedade de Edir Macedo, líder único e inconteste da Igreja Universal do Reino de Deus, a maior do Brasil. Nas eleições passadas, definiu como prioridade eleger uma forte bancada federal, capaz de barrar as agendas de esquerda no Congresso. O presidente do partido, Marcos Pereira, nem sequer compareceu à reunião do pré-candidato com os líderes do Centrão no Congresso, logo depois de se autodeclarar candidato pelo PL. ­Silas Malafaia, o presidente da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, ficou de costas para o filho de seu líder após as pesquisas eleitorais mostrarem a debandada de votos evangélicos ao candidato acusado de corrupção. “Não passo a mão na cabeça de corrupto de direita”, disse, selando o rompimento com Flávio. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

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PACOTE DE BONDADES

André Barrocal, CartaCapital

Em um esforço para melhorar a imagem, Lula faz um sprint final no lançamento de obras e programas de apoio

A campanha presidencial começa só em agosto, com o registro das candidaturas na Justiça e o início da propaganda eleitoral, mas a pré-campanha entra em nova fase. De 4 de julho em diante, exatos três meses antes de os brasileiros irem às urnas, os postulantes à reeleição ficam proibidos de inaugurar obras, contratar servidores ou fazer publicidade dos atos de gestão. Daí o presidente Lula ter se empenhado nos últimos dias nos derradeiros anúncios de novas medidas do governo. Agora, terá de combinar o expediente burocrático no Palácio do Planalto com atividades político-partidárias fora da agenda oficial, em particular à noite e nos fins de semana. Com palanques definidos em 24 estados, o petista dedicará parte do tempo a reuniões com candidatos a governador e senador que o apoiam e a gravar vídeos para eles, entre outras.

O que a máquina de publicidade governamental podia fazer pelo ibope de Lula está feito e se o resultado de hoje não é o dos melhores para quem tentará renovar o mandato, está um pouco melhor do que se via há dois ou três meses, tempos de angústia no petismo e sua militância diante das pesquisas. Para sorte do presidente, o principal rival, o senador Flávio Bolsonaro, do PL, vive uma maré de más notícias iniciada com a revelação da intimidade financeira com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do finado Banco Master, engrossada pelo “tarifaço 2” de Donald Trump e, mais recentemente, pela briga em praça pública, ou melhor, em ágora digital com a madrasta Michelle.

Até a largada da propaganda eleitoral na internet, em 15 de agosto, e na tevê, 13 dias depois, caberá ao PT a tarefa de promover o presidente, em especial nas redes sociais. Estas são dominadas pela extrema-direita, razão para o filósofo Marcos Nobre apontar a existência de um “Partido Digital Bolsonarista”, título de um livro recém-lançado por ele e cinco coautores. Na sexta-feira 3, o PL promoveu no Rio de Janeiro um seminário de comunicação com, segundo as palavras do secretário-geral do partido, o senador Rogério Marinho, “grandes nomes da direita, influenciadores e especialistas”. Um encontro para alinhar discursos e reunir arsenal contra Lula e o PT.

Secretário nacional de comunicação do PT, Eden Valadares afirma que por ora nada muda na atuação petista nas redes, o padrão atual será mantido, “até porque ainda não pode pedir voto e a Copa do Mundo tem monopolizado as atenções”. A final da Copa será em 19 de julho, e um dia depois começa o período de convenções partidárias que, até 5 de agosto, definirão os candidatos a presidente. A do PT, em conjunto com legendas aliadas, será em 2 de agosto, em São Paulo, estado escolhido por ser o principal teatro de operações, berço de 21% do eleitorado.

A popularidade do presidente tem melhorado nas últimas semanas

Os próximos 90 dias até o pleito verão um “corpo a corpo” na luta por votos, e aí será possível mostrar à população lá na ponta, no mundo real, as realizações do governo e combater as “narrativas” que circulam nas redes sociais por obra da oposição que contam uma história negativa sobre Lula. É o que diz o secretário-geral do PT, Henrique Fontana. “Essa será a eleição mais importante e desafiadora das nossas vidas e, provavelmente, a mais disputada­”, afirma. E por que será mais acirrada do que o duelo de 2022 com Jair Bolsonaro? “Vamos enfrentar uma tentativa de interferência maior por parte dos Estados Unidos. Além disso, as ideias da extrema-direita ganham força com a crise gerada pelo capitalismo financeirizado e predatório, como vimos nas eleições recentes na Colômbia e no Peru.”

De quebra, o canhão financeiro do adversário está mais potente. O fundo público da eleição tem o mesmo tamanho da campanha passada, 4,9 bilhões de reais. Antes, o PT tinha vantagem sobre o PL: levou 503 milhões e os liberais, 288 milhões. Agora, é o contrário: 881 milhões a 615 milhões para o PL. Dificuldades políticas e financeiras somadas explicam o motivo de a futura campanha de Lula ser prioridade total na divisão interna no PT da verba do fundo, conforme um dos vice-presidentes do partido, Jilmar Tatto.

Para Fontana, mesmo com as restrições legais impostas pela legislação eleitoral, “o mais importante é o governo andar cada vez melhor”. A elevação da popularidade governamental é uma tendência durante campanhas. Foi assim com Bolsonaro em 2022. Segundo uma pesquisa Datafolha de junho, 49% desaprovam Lula e 48%, aprovam. No caso do governo, 38% têm uma avaliação negativa, 32% uma positiva e 29% uma regular. Na última semana sem restrições, Lula inaugurou obras, inclusive parciais, na Bahia e no Ceará, e participou, em Brasília, do anúncio da última grande medida oficial de potencial impacto nas urnas, o Desenrola Adimplentes.

O Desenrola é um programa de 2023, e que neste ano ganhou nova versão, destinado a tirar os endividados do sufoco. Propõe-se a facilitar a troca de dívida cara por uma mais barata, de juros mais baixos. Registre-se que parte da explicação para a corda no pescoço dos endividados é do governo, graças ao juro pornográfico do Banco Central, que com Lula saiu de 13,75% ao ano, chegou a 15% e agora está em 14,25%. O Desenrola Adimplentes segue a mesma lógica de substituir dívida pesada por outra menor, mas o público-alvo é diferente, microempreendedores individuais, não pessoas físicas, que ainda não entraram na lista dos caloteiros (essa lista abriga quem está com atrasos acima de três meses). Podem ser renegociados débitos de até 15 mil reais, com juro anual de 26%. As operações devem ser feitas basicamente pelo Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal. As instituições privadas não veem motivo para oferecer a facilidade a devedores que, bem ou mal, têm pagado os empréstimos.

No embalo do Desenrola Adimplentes, o governo botou na praça mais duas iniciativas de alívio creditício. Uma é para quem bancou a faculdade com o Fies, linha de crédito estudantil, pagou em dia três anos desse financiamento e agora possui, ou quer, um empreendimento próprio e precise de capital de giro. O juro é de 11% ao ano. O empréstimo, via bancos públicos sobretudo, será de até 80 mil para pessoas físicas e de até 180 mil para as jurídicas. Neste segundo caso, a empresa precisa ter ao menos um sócio com histórico de bom pagador. A outra iniciativa é para atender trabalhadores de carteira assinada. Estes poderão oferecer o FGTS como garantia em empréstimos do tipo “consignado”, aquele cujas parcelas são descontadas do salário. Por estar diante de uma forma de reaver o dinheiro em caso de calote do devedor, o banco pode baixar o juro dos empréstimos. Ao menos, é a expectativa oficial.

Um dia após o pacote de crédito, o governo lançou o tradicional e anual Plano Safra, de empréstimos subsidiados do Banco do Brasil ao campo. E o que se viu foi o de sempre: um caminhão de dinheiro para um setor que nunca está satisfeito e reclama. O plano tem 610 bilhões de reais, um recorde. São 16 bilhões a mais do que o anterior. O juro será de 9% a 12,5%. Antes, variava de 10% a 14%. Do valor total de crédito, 525 bilhões são para médios e grandes agropecuaristas e 85 bilhões, para a agricultura familiar. A CNA, maior entidade nacional de defesa dos fazendeiros, queria 622 bilhões. A fatia direcionada à turma de grande porte supera o que a confederação pedia (518 bilhões). “O anúncio trouxe poucas informações sobre a efetiva disponibilidade de recursos para os produtores rurais e incorporou instrumentos que tradicionalmente não integram o Plano Safra”, reclamou a entidade.

A bancada ruralista no Congresso, uma espécie de CNA com mandato parlamentar, reverberou as queixas. E criticou a ausência de Lula no anúncio da bolada para os grandes agropecuaristas. O presidente havia viajado ao Paraguai pela manhã, para participar de uma reunião de cúpula do Mercocul, e voltou a Brasília à tarde, a tempo de participar somente do anúncio do plano para a agricultura familiar. A realização de dois eventos distintos é uma marca das gestões petistas. Apesar da chiadeira, a bancada ruralista tenta arrancar do ministro da Fazenda, Dario Durigan, uma linha especial de crédito para produtores que tenham tido perdas causadas por crises climáticas e conflitos geopolíticos.

Lula conta com os percalços do principal adversário, Flávio Bolsonaro

O antipetismo e o conservadorismo do campo empurram-no ao apoio do anti-Lula da vez, mas a fase de Flávio Bolsonaro não é boa. A briga com a madrasta por causa de um vídeo divulgado por ela no fim de junho, a atacar a aliança do senador com Ciro Gomes no Ceará, rendeu novos capítulos. A ex-primeira-dama deixou o comando do PL Mulher, apesar do apelo do presidente do partido, Valdemar Costa Neto, para que a lavação de roupa suja familiar acontecesse entre quatro paredes. Michelle tem espalhado ainda que pode até não concorrer ao Senado pelo Distrito Federal.

Em meio à briga com a madrasta, Flávio tomou café da manhã com mulheres do PL em Brasília. O voto feminino é de novo um pepino para o bolsonarismo, daí o encontro servir de pretexto para fotos e vídeos que virassem notícia. Michelle boicotou o convescote e nada indica que em 15 de julho comparecerá ao lançamento de um plano de governo do enteado para as mulheres. Para piorar, um aliado do clã, Paulo Figueiredo, neto de general-ditador brasileiro e há tempos residente nos Estados Unidos para não prestar contas à Justiça brasileira, comentou nas redes sociais que “mulher vota estatisticamente muito mal”, principalmente “as solteiras”.

As mulheres compõem a maioria do eleitorado, 53% dos 158 milhões de votantes, 9 milhões a mais que os homens. São mais antipáticas ao bolsonarismo e simpáticas ao lulismo. A diferença nas preferências delas e deles é uma das formas de enxergar o favoritismo do presidente nas pesquisas. Entre as mulheres, Lula ganha de 44% a 26% de Flávio no primeiro turno e de 52% a 37% no segundo, segundo o Datafolha de junho. Como o “zero um” de Jair vai virar esse jogo é um mistério. 

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

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BOLSONARISMO 2.0

Pedro Serrano, CartaCapital

Associados ao trumpismo e com grande capacidade de mobilização, os discípulos de Bolsonaro dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios

A história humana não ocorre através de fases estanques, como às vezes a descrição didática em períodos transparece ao inadvertido. Ao contrário, ela se revela por meio de processos complexos, nos quais elementos de conformação política e social do período anterior podem ser – e comumente são – identificados nos subsequentes. Não há, inclusive, garantias contra retrocessos e involuções civilizatórias. Só há ordem na mera descrição histórica, bem como nas tentativas de sua compreensão pelos manuais da didática clássica. Na história vivida prevalece o caos.

É nesse cenário que podemos afirmar enfaticamente: o bolsonarismo está aparelhado para, de forma sedenta, reassumir o poder pelas vias democráticas, mas com o deliberado propósito de miná-las no curso do processo eleitoral, abrindo caminho para uma governabilidade de exceção.

As formas de autoritarismo do século XXI possuem, como constantemente reafirmamos, determinadas especificidades quando comparadas às manifestações do século anterior. Ainda que identifiquemos elementos de continuidade, as expressões dos últimos anos, por estarem diluídas na rotina democrática, tornam o tema ainda mais desafiador.

O autoritarismo deixou de ser a manifestação de um Estado de exceção em sua acepção clássica, para dar lugar às medidas de exceção associadas à produção fractal e líquida. Ou seja, deparamo-nos com um Estado de exceção que se manifesta por medidas de exceção, não por governos de exceção.

Utilizamos a denominação autoritarismo líquido para falar dessa nova natureza das medidas de exceção no interior das rotinas democráticas, por se tratar de medidas fragmentadas, cirúrgicas, acionadas sob uma aparência de legalidade, o que torna sua identificação mais difícil.

A análise do autoritarismo líquido – assim intitulado por não se assumir como tal, não ser uniforme e minar, em intensidades variadas, os âmbitos da vida democrática – impõe aprofundado estudo dos fatores de desestabilização e de subversão dos direitos fundamentais e da democracia.

O enfrentamento à gradual fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios das novas formas de autoritarismo, inclusive de matriz neobolsonarista, enfraquecedoras do nosso pacto civilizatório.

O olhar para o futuro pressupõe, antes de mais nada, o reconhecimento dos nossos recentes fracassos, a insuficiência dos nossos manuais clássicos e a falibilidade das nossas instituições. Entretanto, sem que antes tenhamos enfrentado e desnudado o bolsonarismo, o mesmo vem se apresentando, praticamente às vésperas de um novo processo eleitoral, de forma cada vez mais sofisticada e poderosa.

Maior sofisticação, quando comparado ao que podemos chamar de bolsonarismo 1.0, é identificada, por exemplo, nos seus discípulos, inclusive nos governos estaduais. Com maior verniz, eles dissimulam o autoritarismo de outrora com singulares artifícios. Ademais, maior poderio identifica-se, ainda, na capacidade de mobilização e associação ao trumpismo.

É fundamental compreender as causas e as consequências do deslocamento do poder soberano do povo para aquele que toma para si a possibilidade de, inclusive mobilizando afetos públicos e em solapamento da verdade e da coesão social, decidir sobre a exceção. Trata-se do antídoto contra a gradual fragilização dos direitos fundamentais, dos espaços e dos sentidos da democracia e, por fim, da relação de pertencimento à sociedade.

Repita-se: o enfrentamento à gradual­ fragilização dos espaços e dos sentidos da democracia e da relação de pertencimento à sociedade requer que desnudemos os artifícios de um autoritarismo de diluição do pacto civilizatório e da coesão social. Medo, ódio, ressentimento, decepção, raiva e angústia são, como nunca, capturados pelo soberano por meio de narrativas pretensamente racionais e legitimadoras da imposição de mecanismos de segregação e violência, em prejuízo da pluralidade e da tolerância.

Ainda que desejássemos, não temos fórmulas ou receitas para o enfrentamento do desafio ora apresentado. Uma das características do novo autoritarismo está exatamente em retroalimentar-se e de redesenhar-se diuturnamente, inclusive como estratégia de infiltração e de esvaziamento dos instrumentos democrático-sociais a ele contrários.

A reconstrução, bem como o olhar para o futuro, requer incondicional compromisso com a democracia e com os direitos fundamentais. O grande problema é que, sem que antes tenhamos cicatrizado as dores do bolsonarismo paterno, seus filhos e adeptos estão, como nunca, armados para a guerra. Estejamos em vigília. •

Publicado na edição n° 1420 de CartaCapital, em 08 de julho de 2026.

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sexta-feira, 3 de julho de 2026

PALANQUES CAPENGAS NO SUDESTE

Vera Magalhães, O Globo

Lula e Flávio com problemas no Sudeste

Palanques capengas do petista em Minas e do filho de Bolsonaro no Rio indicam problemas na região mais disputada da eleição

A eleição de 2026 será um teste para a validade de vários axiomas tradicionais da política, como a importância da propaganda em rádio e TV, os efeitos da inteligência artificial e, no plano mais concreto, a centralidade da montagem de palanques regionais para fortalecer candidaturas presidenciais e, no limite, decidir uma disputa que tende a ser apertada.

Nesse quesito, o Sudeste brasileiro é o cenário em que as candidaturas de Lula e Flávio Bolsonaro concentram as fichas. Mas, a menos de um mês do início formal da corrida eleitoral, ambos enfrentam problemas bastante sérios para largar com um time promissor e um discurso condizente em colégios importantes da região.

Os desdobramentos consecutivos da Operação Unha e Carne — que atingiu fortemente o grupo do ex-governador Cláudio Castro no Rio de Janeiro — jogam uma dose enorme de imprevisibilidade para o comando bolsonarista “em casa”.

O grupo contava, na montagem da estratégia para a disputa no Rio, que, a esta altura, já estivesse no comando do governo por meio de uma eleição indireta. O atraso na definição dessa novela por parte do Supremo Tribunal Federal e do Tribunal Superior Eleitoral coincide com as graves revelações trazidas em capítulos pela Polícia Federal, que desnudam aspectos perturbadores da imbricação da política com o crime organizado no estado.

A campanha do até aqui favorito Eduardo Paes — que já teria o foco na pregação pela necessidade de sanear a estrutura do estado dessa infiltração — se fortalece a partir de indícios da proximidade que se mostra cada vez maior da gestão de Castro com diferentes modalidades da estrutura criminosa do Rio.

Para Flávio, o ex-governador e seu grupo se tornam aliados para lá de incômodos, levando para a campanha presidencial temas que ele gostaria de afastar e colocando em perspectiva a pregação cara à direita de que tem a solução para a segurança pública, problema apontado como mais grave pelos brasileiros em quase todas as pesquisas.

Para Lula, a dor de cabeça em termos de palanque capenga se localiza em Minas Gerais. Todas as tentativas de construir uma candidatura minimamente competitiva ao governo do estado que responde pelo segundo maior eleitorado do Brasil se revelaram tiros n’água.

Agora, o presidente passa pelo constrangimento de ver o presidente nacional do PT, Edinho Silva, e a ex-prefeita de Contagem Marília Campos lavarem roupa suja em público diante da tentativa do partido de praticamente obrigá-la a abrir mão da candidatura ao Senado para ir para o sacrifício e disputar o governo.

Isso tudo depois que Rodrigo Pacheco deu de ombros aos apelos de Lula para que topasse a missão para lá de inglória diante da guinada política que fez nos últimos oito anos, resultando na desconfiança geral dos mineiros a respeito de que apito ideológico o ex-presidente do Senado toca, afinal.

Não que o time da direita esteja arrumadinho em Minas, longe disso. A indefinição do senador Cleitinho (Republicanos) — um estranhíssimo caso de favorito nas pesquisas que não decide logo se será candidato — e a dificuldade do governador Mateus Simões (PSD), substituto de Romeu Zema, de decolar tornam ainda nebuloso quem será o puxador de votos para Flávio e quanto ele terá de dividir espaço com os demais presidenciáveis da centro-direita (o próprio Zema e Ronaldo Caiado, que vem a ser do partido do governador).

Só São Paulo, o mais nevrálgico dos territórios do Sudeste, está com o roteiro da disputa bem definido entre Tarcísio de Freitas, favorito à reeleição, e Fernando Haddad, recebedor da tão crucial quanto difícil incumbência de repetir a perfomance razoável de 2022, que assegurou a Lula um número de votos fundamental para vencer por pouco no país.

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MARATONA DE INAUGURAÇÕES

Bernardo Mello Franco, O Globo

Lula corre para entregar obras e chama lei eleitoral de 'papagaiada' 

Presidente faz maratona de inaugurações e reclama de limites ao uso da máquina

Aconteceu ontem em Luís Gomes, município de 9 mil habitantes no interior do Rio Grande do Norte. Na correria para entregar obras no limite do prazo legal, Lula inaugurou um túnel de irrigação sem uma gota d’água.

“Cadê o dono da empresa que fez esse túnel?”, perguntou, do alto do palanque. O presidente disse que programou a viagem para ver a água chegar, mas “houve um erro de cálculo”. “E esse erro de cálculo fez com que eu chegasse aqui e a água ainda não chegou”, justificou-se.

O atraso frustrou o petista, mas não constrangeu seus áulicos. O ministro Waldez Góes disse que o povo da cidade deveria “olhar para o céu e agradecer a Deus e a Lula”. O prefeito Carlos Augusto de Paiva, o Tututa, descreveu a visita presidencial como uma “dádiva”.

Na segunda parada, Lula pousou em Quixeramobim, no Ceará. Inaugurou um trecho da ferrovia Transnordestina, que havia prometido concluir em 2010. Em nova sessão de elogios, foi saudado pelo senador Camilo Santana como “o maior presidente da história deste país”.

O petista terminou o dia em Juazeiro do Norte, onde entregou ambulâncias e ônibus escolares. Por volta das 20h, reclamou que ainda não havia tido tempo para almoçar.

No discurso, enumerou feitos, comparou-se a Getúlio Vargas e perguntou se algum outro governante é “mais respeitado hoje no estrangeiro”. A claque não teve dúvidas. Empolgada, a prefeita de Brejo Santo, Gislaine Landim, estimulou o público a cantar o jingle de 1989: “Vamos lá: Lula lá, brilha uma estrela...”.

Nos últimos dias antes do chamado defeso eleitoral, o presidente fez uma maratona de viagens para inaugurar obras e lançar programas. Em clima de campanha, usou as cerimônias oficiais para elogiar a própria gestão, renovar o estoque de promessas e sugerir que merece mais um mandato.

Ao inaugurar o túnel sem água, ele se queixou da lei que proíbe novos anúncios oficiais nos três meses que antecedem a eleição. Definiu a regra, que limita o uso da máquina pública por candidatos à reeleição, como uma “papagaiada desgraçada”.

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