sábado, 21 de fevereiro de 2026

POLÍTICA E ECONOMIA

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Os brasileiros, sobretudo os petistas, ainda não entenderam que o país cresceu, mas não enriqueceu. Candidatos só querem lançar bons projetos para os ouvidos do eleitor. Em política ruim é perder

O ano, afinal, começou. Na próxima segunda-feira, serão iniciados os trabalhos de 2026. Até agora, os brasileiros desfrutaram do Natal, do réveillon, das férias e do carnaval, que, segundo a crença geral, não constituem tempo hábil para trabalhar. Curioso é que, exatamente neste momento, o governo do presidente Lula tenta revogar o sistema que consagra seis dias de trabalho para um de descanso. Ou seja, é o incentivo oficial à boa vida. Vale tudo para vencer a eleição.

Os brasileiros, sobretudo os petistas, ainda não entenderam que o país cresceu, mas não enriqueceu. A produtividade do trabalhador europeu ou norte-americano é várias vezes superior à do nacional. Do ponto de vista da matemática, não faz sentido diminuir o tempo de trabalho e manter salário. Mas os objetivos eleitorais são diferentes da natureza das coisas. O presidente, que anda distribuindo bolsas de todos os tipos e tamanhos, foi obrigado a elevar muito os impostos, para cumprir suas promessas. 

Sacrificou o crescimento da economia na busca por votos. Anulou o Imposto de Renda de quem ganha até R$ 5 mil, mas, na outra ponta, elevou de quem ganha acima desse nível. O governo vai continuar a receber o mesmo montante. O que muda é quem paga. E quem paga, usualmente, não vota no Partido dos Trabalhadores.

Governos populistas são assim. O presidente Lula não inventou nada neste particular. O governador Cristovam Buarque, do Distrito Federal, instituiu, no seu período de governo, a Bolsa Escola. Ele copiou o modelo utilizado pelos franceses, na cidade de Lyon. O incentivo para as crianças irem para a escola era o lanche, que, naquela época, constituía algo raro em toda França recém-saída da destruição da Segunda Guerra Mundial. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, aproveitou a ideia e a implantou em todo o território nacional. Cristovam Buarque não conseguiu se reeleger para o governo do DF. Chegou, porém, ao Senado. FHC governou por dois mandatos presidenciais. O esquema populista funciona.

O problema é que as contas nacionais sofrem muito. O Brasil já teve uma dívida externa em dólares que mandava no país. Vários ministros da Fazenda comandaram recessões pavorosas para pagar ao menos os juros dos empréstimos concedidos pelos banqueiros internacionais. Mas a Petrobras descobriu petróleo, e o país começou a produzir o ouro negro. A conta petróleo, que era um pesadelo na contabilidade dos economistas, sumiu. E o bom trabalho realizado por um grupo de técnicos fez a dívida externa desaparecer. Justiça se faça, foi Lula que acabou com o que restava da dívida externa, que era toda em dólares. Pagou a dívida.

Hoje, o problema é parecido, mas a dívida é em reais, contraída junto aos bancos brasileiros. É um grande negócio para os banqueiros nacionais. Eles emprestam para o governo segundo a taxa de juros arbitrada pelo Banco Central. Hoje, está em 15% ao ano. Esse negócio garante rentabilidade acima da inflação e oferece boa taxa de lucro, sem qualquer trabalho ou despesa. Uma delícia para o sistema financeiro. O endividamento brasileiro já anda pela casa dos 75% do Produto Interno Bruto. Outros países possuem índices maiores. Bom exemplo é o governo dos Estados Unidos, cuja dívida está além dos 120%. A obsessão de Trump com taxas de importação é explicada pela enorme dívida do governo norte-americano que é financiada pelos títulos da dívida pública deles. Acontece que a China, além de vários países da Ásia, estão se desfazendo dos papéis. É guerra sob outro ponto de vista.

Quando Tancredo Neves percebeu que ele iria ganhar a eleição no Colégio Eleitoral, em Brasília, chamou seu parente e amigo Francisco Dornelles e deu a ele a missão de conversar com banqueiros internacionais. A mensagem era simples. O governo brasileiro iria manter o pagamento dos juros da dívida externa. Já no governo Sarney, o então ministro Dilson Funaro, além de fazer o congelamento de preços, chegou ao ápice da negação. Decretou a moratória na dívida externa brasileira. A partir daquele momento, o Brasil deixou de pagar suas obrigações com os banqueiros estrangeiros. No dia seguinte, as agências do Banco do Brasil em todo o mundo ficaram sem recursos. O banco foi excluído da negociação intrabancos. Foi muito difícil retomar a antiga confiança.

Este ano de 2026 vai ser curto. Termina em junho, quando começa a Copa do Mundo de futebol. Se o time brasileiro avançar para as finais, o país ficará paralisado com os olhos postos na televisão. O torneio termina em julho. E, logo em seguida, começa a campanha eleitoral. Candidatos só querem lançar bons projetos para os ouvidos do eleitor. Em política ruim é perder. Vale tudo para vencer uma eleição. Dilma Rousseff tentou seguir esse protocolo: prometeu o país de sonhos, mas iniciou seu segundo mandato no comando de uma recessão. Parece que não deu certo.

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

'TODAS AS FAMÍLIAS FELIZES SE PARECEM'

Andrea Jubé, Valor Econômico

Controvérsia sobre os valores da família brasileira despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Lula é politicamente relevante e eleitoralmente potente

A controvérsia sobre os valores da família brasileira despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que em uma das alas criticou os “Neoconservadores em conserva”, é politicamente relevante e eleitoralmente potente. Contudo, desperta uma sensação de déjà vu, que nos transporta ao século 19.

Quem não se recorda da antológica frase de abertura de “Anna Kariênina”? “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Quando Tolstói escreveu o romance - um clássico da literatura universal - entre 1873 e 1877, lançou o debate sobre modelos de convívio familiar e a noção de progresso, associada a valores econômicos e sociais. Puniu a heroína infiel com o famoso desfecho trágico. Perto dos 45 anos, era um autor consagrado por “Guerra e paz”, casado e tinha quatro filhos: era a personificação do homem de família feliz.

Quase 150 anos depois, a oposição pode se refestelar com a polêmica levantada pela escola que na intenção de afagar o presidente da Republica, se não o prejudicou eleitoralmente, causou danos à sua imagem que os petistas terão de rebolar para contornar. As cúpulas do governo e do PT ainda avaliam internamente a dimensão do estrago gerado pelo desfile da Acadêmicos de Niterói.

O rebaixamento da escola é um constrangimento residual, a futura batalha jurídica sobre eventual campanha antecipada incomoda, porém, a real preocupação volta-se à ala que retratou famílias dentro de latas de ervilha, algumas com referências religiosas. A percepção é de um inevitável desgaste com o eleitor conservador, em especial, o evangélico - que representa quase 30% da população.

Uma fonte governista salientou que não é racional tentar reduzir a relação de Lula com as famílias brasileiras à alegoria de uma escola de samba, e ressalvou que o “samba é criativo e crítico” por definição.

O problema foi a falta de senso de oportunidade em uma conjuntura politicamente desfavorável, em que a polarização que divide a sociedade entre bolsonarismo e lulismo desde 2018 parece cristalizada, indicando uma eleição acirrada como a de 2022. Sempre bom lembrar: naquele pleito, Lula obteve 50,9% dos votos válidos, vencendo Jair Bolsonaro (PL) por uma margem apertada de 2,1 milhões de votos (1,8% do total).

Foi um banquete para a oposição. Em alusão ao desfile da escola que homenageou Lula, em publicação em seus perfis nas redes sociais, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ) dirige-se a quem “não é de esquerda nem de direita”, mas que não ficou feliz “com o dinheiro dos impostos sendo utilizado para campanha antecipada”, ou com sua fé e o pastor de sua igreja sendo “alvos de chacota”, colocados dentro de “latas de conserva”. A provocação havia alcançado mais de 26,2 milhões de visualizações até essa quinta-feira.

Uma liderança do PT costuma afirmar que a esquerda detém a arma de comunicação mais poderosa que é o presidente da República: “Lula tem um canhão na boca”, observa, em alusão ao potencial de alcance das falas presidenciais. Contudo, como a acusação de suposta campanha antecipada intimidou o governo e o PT, os ataques da oposição, a pecha de que a esquerda seria contrária aos valores familiares, ficaram sem resposta até agora.

Na direita, o “canhão na boca” continua com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que em postagem em seus perfis, acusou Lula e o PT de odiarem “famílias estruturadas” e pais que amam seus filhos. Segundo ele, um jovem distante dos pais é facilmente “tragado pela esquerda”. “Eu sou ou feliz na minha família em conserva, nunca foi tão fácil escolher um lado”, arremata no vídeo que já obteve mais de 32 milhões de visualizações.

“O vídeo não explodiu como o do Pix”, destacou uma fonte governista, comparando com o post de Nikolas do ano passado, em que ele sugeriu, falsamente, que o governo taxaria a ferramenta, o que causou queda abrupta da aprovação de Lula. O “vídeo do Pix” já conseguiu mais de 347 milhões de visualizações. Petistas alegam que houve impulsionamento e favorecimento do algoritmo. Ainda assim, a distância nas redes entre a oposição e a esquerda continua sendo abissal.

A mesma fonte governista reconheceu, entretanto, que nessa conjuntura, é urgente responder à acusação de que Lula, o PT e a esquerda de forma geral seriam contrários aos valores das famílias brasileiras, quaisquer que sejam seus formatos, do conservador ao progressista.

Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada no começo do mês, a desaprovação de Lula entre os evangélicos “despiorou”, isto é, caiu de 64% em janeiro para 61% em fevereiro, acima da margem de erro, de 2 pontos percentuais. Evangélicos representam hoje 26,9% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vale destacar, contudo, que católicos reforçam o eleitorado conservador - maior fatia dos brasileiros.

Para um dirigente petista, a oposição cumpre seu papel. “Eles estão sem referencial, pois Bolsonaro está preso”, enquanto Lula compareceu às principais praças de Carnaval, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, pontuou. “O que restava a eles? Produzir confusão, tentar sangrar o governo”. Este petista acha que a onda de ataques será pontual. “Todos conhecem as qualidades e defeitos de Lula”, desafiou.

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TERCEIRA VIA: TEM ALGUMA ?

José de Souza Martins, Valor Econômico

Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais precoces quer difundir o pressuposto de que só existe uma direita e de que só existe uma esquerda

Há mais de um ano que pesquisas de opinião eleitoral sobre preferências nas eleições de 2026 tentam nos convencer de que tudo já está quase decidido. Mal escondem o possível intuito de despistar os eleitores, fazendo-os supor que a lógica do pleito é uma só. O país não teria outra alternativa senão a da polarização de esquerda e direita.

Foi Brizola quem viu no PT e no ideário petista uma variante da social-democracia. Portanto, um partido social, de centro-esquerda, e não um partido de esquerda como os partidos clássicos dessa orientação.

Um partido sob o risco eventual de perder eleitorado para partidos de direita, de classe média. Menos por mudar de lado, mas porque a realidade social sofreu na simbolicamente petista região do ABC imensas mudanças. Ela deixou de ser região majoritariamente operária, passou pela reestruturação produtiva e pelo início da desindustrialização.

Caracterizou-se, também, por uma mudança demográfica significativa. A grande maioria dos trabalhadores das fábricas deixou de ser de residentes do ABC para ser de moradores dos municípios vizinhos, inclusive da capital paulista. E os eleitores regionais, residentes no ABC, são trabalhadores em outros municípios. Situação de classe social e orientação eleitoral desconectaram-se.

Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais precoces, sabendo-o ou não, quer difundir o pressuposto de que só existe uma direita e de que só existe uma esquerda. Essa prisão ideológica pressupõe, com tais dados, o bloqueio da reflexão política. Os partidos, não só os da polarização, não parecem interessados no desbloqueio.

Não querem que o eleitor se pergunte: qual direita? Qual esquerda? No processo político, sobretudo no processo eleitoral, nem tudo é visível e menos ainda já chegou de fato à consciência de quem vai votar. No início de 1989, petistas já cantavam o “Lula-lá” com ânimo exaltado. Até hostilizavam quem ousasse ter dúvidas quanto a se Lula seria o eleito. Apenas os melhor informados intuíam que o estranho Fernando Collor, que não era candidato, poderia sê-lo. E acabou sendo candidato e eleito.

É significativo que no ABC, onde o PT nasceu e foi hegemônico por longo tempo, nas eleições dos últimos anos, o eleitorado começou a dele se afastar para a direita. As novas gerações, de filhos dos manifestantes de esquerda do Estádio de Vila Euclides, ganharam um perfil diverso do dos pais. Tornaram-se direitistas no comportamento, com episódios de racismo e de misoginia. O PT, que tem dado demonstrações de considerar-se patrono da ascensão social do operariado, criou a categoria social dos que com ele já não se identificam, a classe média.

E a direita, no caso de Fernando Henrique e de José Serra, e do PSDB, que não são nem eram de direita, são originários de movimentos políticos mais autenticamente de esquerda. Diferentemente do que ocorre com o PT, cujos eleitores se identificam com Lula e não necessariamente com o partido, o PSDB não conta com uma lealdade política de seus eleitores que reconstitua os fatores de sua restauração, continuidade e representatividade. O PSDB foi em boa parte fruto da pluralidade social e ideológica do povo brasileiro, que os oportunistas do partido destruíram.

O núcleo decisivo do outro lado da polarização tem demonstrado vitalidade causada por algo que é bem diferente do que acontece com o PT. Sabendo ou não sabendo, a família Bolsonaro atua como uma dinastia, embora falsa. Usa o nome de família, como se fosse marca de massa de tomate, uma anomalia política. O pai pode estar na cadeia, mas o nome não está. Enquanto houver um varão que procrie alguém com esse sobrenome, ainda que em declínio, a visibilidade da marca estará assegurada.

Os Bolsonaros têm inimigos naturais. Os que se aproveitam da deterioração política do nome, os factoides ansiosos por personificá-los e usurpar-lhes o prestígio difuso e enganoso. Mas, em seu caso, o eleitor da direita não parece vulnerável à deterioração da identidade e da consistência do grupo. Até porque não são um partido. São uma aglomeração não unificada por ideologia ou doutrina, mas por ambição de poder.

Os fatores da disputa não são os mesmos nos seus diferentes grupos. Quando se observa o comportamento de deputados bolsonaristas na Câmara dos Deputados, é fácil notar que eles se reproduzem nos gestos, no modo de falar e de desqualificar os opositores. Tenho a impressão de que Olavo de Carvalho foi o inventor do método pedagógico para reproduzir os atores desse perfil.

Algo muito parecido com o que também acontece com as seitas religiosas fundamentalistas que aderiram ao bolsonarismo.

A direita industrializou a produção de adeptos.

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QUE FALTA NOS FAZ WERNECK VIANNA NESSE CRISE EXISTENCIAL DO SUPREMO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O caso Master expôs relações opacas, suspeitas de promiscuidade, cifras astronômicas, inexplicáveis, apesar das justificativas protocolares. E uma reação corporativa de autodefesa

Numa hora como essa, de crise existencial do Supremo Tribunal Federal (STF), que falta nos faz as análises do sociólogo Luiz Werneck Vianna, que estudou o papel da Justiça Federal na manutenção da nossa integridade territorial e na formação do Estado brasileiro. Sua morte completará dois anos amanhã. Intérprete do Brasil contemporâneo, foi quem melhor compreendeu a “judicialização” da nossa política, que vive um momento institucionalmente grave: o caso Master está volatilizando a credibilidade da Corte e já provoca grave crise de confiança entre seus integrantes, sem nenhum sinal de que o conflito se resolva a curto prazo, nos marcos do que seria a normalidade institucional da Corte.

Em depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, em 2012, Werneck capturou o espírito dos constituintes em relação ao Supremo: “E o que faz o legislador em Constituinte? Naquela de 1988. Ele é um intérprete, ele é um leitor da História do Brasil, muito agudo, muito fino. O que ele faz? Ele recusa essa história? Não! Ele não recusa essa história porque, inclusive, ele não é fruto de uma revolução, não é? Ele é fruto de uma transição política. O que ele faz? Lendo tudo isso, ele concorda com uma tese capital da nossa formação que foi: ‘Não temos sociedade para fazermos grandes mudanças’. Precisamos que a pedagogia e a ética venham de cima. Virá de onde? Virá do Direito e dessas instituições, que nós vamos criar agora, em 1988. Quer dizer, há um elemento de continuidade aí ou há um elemento de descontinuidade do qual as marcas autoritárias vão ser erradicadas, mas essa precedência do público sobre o privado continua.”

Na Constituinte, grupos de empresários entendiam o moderno como a privatização do mundo; enquanto setores do sindicalismo, dos movimentos sociais e das instituições da sociedade civil, ao longo das lutas contra o autoritarismo, entendiam a modernidade como a democratização da esfera pública. A promessa era a recusa ao corporativismo, o empenho no fortalecimento das instituições da democracia representativa, o desenvolvimento do promissor embrião da democracia participativa que se desenvolvia, a instituição de nexos fecundos entre essas duas, a regulação democrática de sua vida interna e o envolvimento vivo e concreto com os movimentos sociais e suas associações nos processos decisórios.

Para Werneck, a história da modernização no Brasil, aliada à lógica privatista, era a negação do sistema da representação política e dos partidos políticos pela convivência corporativista. Ao movimento democrático e popular organizado caberia a combinação entre representação clássica e a democracia participativa de massas. A política social, o pluralismo político e a cidadania plena e livre seriam fundamentais nesse processo. O que deu errado?

Não existe resposta simples. Estamos na iminência de uma crise institucional muito grave, dessa vez protagonizada por quem deveria evitá-la. O retorno dos ministros à Praça dos Três Poderes não teve a liturgia dos recomeços, mas a continuidade da crise que antecedeu o carnaval. O Supremo volta ao trabalho com a sensação de que já não controla o próprio enredo. A crise não é apenas externa, com Planalto e Congresso já no embalo das campanhas eleitorais; é interna, de corredor, de confiança quebrada. Quando uma Corte constitucional perde o chão, a toga vira tapete mágico.

No fundo, o caso Master é um exemplo de “precedência do público sobre o privado”. A promessa de 1988 foi civilizar o poder, submeter interesses privados à publicidade, impessoalidade e responsabilidade. Mas o escândalo expôs o oposto: relações opacas, suspeitas de promiscuidade, cifras astronômicas, inexplicáveis, apesar das justificativas protocolares. E uma reação corporativa de autodefesa, contra os órgãos controladores, em que o heterodoxo inquérito das “Fake News” foi exumado. Já não está sendo usado para defender a democracia.

Acima das suspeitas

No clássico do cinema italiano “Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto” (Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita), do diretor Elio Petri, estrelado por Gian Maria Volonté e Florinda Bolkan (Bulcão), como Augusta Terzi, um inspetor do alto escalão da polícia italiana, com reputação ilibada, fama de incorruptível, mas reacionário, mata sua amante. Resolve pagar para ver se a polícia irá acusá-lo e, por isso, como em “Crime e castigo”, de Fiódor Dostoiévski, vai plantando pistas óbvias que o identificam como o assassino, ao mesmo tempo em que vê os colegas ignorando-as, intencionalmente ou não.

Voltemos ao caso Master. Não é casual que, em vez de discutir o mérito do problema, a conversa interna no Supremo (vazada, gravada ou reconstituída) tenha derivado para a guerra contra quem investiga, contra quem notícia, contra quem “ousa” tocar no clube de futebol. É “judicialização” da própria crise do Judiciário: pedidos, ofícios, operações, rastreamentos, apurações paralelas, com o uso de instrumentos excepcionais para blindar os integrantes da Corte, em lugar da transparência, do rito e do contraditório. E o improviso retaliatório.

O ambiente externo é o pior possível, exatamente por causa da “judicialização da política”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém distância regulamentar da PF; na Câmara, agitam-se as CPIs, que ninguém sabe como terminam. O Senado, por ora, não quer saber de impeachment. Ninguém aparece para apagar o fogo. O mais grave é a crise de autoridade moral: o Supremo pode continuar decidindo, porém, com menos crédito social; seus limites são cada vez mais opacos e sinuosos.

Ou seja, deu errado quando a promessa de “pedagogia e ética vindas de cima” se transformou em tutela sem controle. Quando a judicialização foi capturada por uma cultura de corporação. A modernização avançou por meio de vínculos pessoais, mercados de influência e portas giratórias; e a política representativa foi substituída por tribunais, corporações e moralismos de ocasião. É uma crise existencial.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

PELO FIM, SEM ALARDE, DA ESCALA 6X1

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

A mentalidade colonial brasileira quer nos fazer crer que o fim do regime de trabalho destruirá a economia do país

Investir no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da escala

debate sobre o fim da escala 6x1 precisa, de um lado, se dar sem alardes infundados em evidências e, de outro, considerar a histórica desigualdade nas relações trabalhistas no país. Sem levar em conta o peso de uma nação com quase quatro séculos de escravidão nas costas, torna-se superficial e, portanto, infrutífero debater a sério a relação economia e trabalho.

Importante enfatizar que os estudos disponíveis sobre o impacto do fim da escala de trabalho 6x1 não justificam o alarde. Tudo o mais constante, sim, o custo do trabalho pode aumentar em 7,84% segundo estudo do Ipea, por uma simples razão de que o combo salário igual e menos horas trabalhadas eleva o custo da hora de trabalho. O dado em si diz pouco.

Investir no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da escala 6x1. Se a produtividade cresceu pouco entre 1981 e 2023, em parte isso se deve à necessidade de maior investimento em máquinas e equipamentos usados pelo trabalhador, bem como em sua escolaridade e experiência. O fim da escala 6x1 abre uma brecha para que trabalhadores, além de ter o direito humano ao descanso, possam investir em sua capacitação.

Haver custo não quer dizer, ademais, que a alta não seria absorvida pela economia, nem que seria igual a todos os setores da economia. Ipea prevê impacto na indústria e comércio bem menor, de 1%; em áreas como vigilância e limpeza poderia ser maior, de 6%. A classe política e empresarial é plenamente capaz de desenhar as estratégias setoriais adequadas, basta se empenhar tanto nisto quanto o fazem para justificar exorbitantes benefícios fiscais.

A mentalidade colonial brasileira quer nos fazer crer que o fim da escala 6x1 —e não a cooptação patrimonialista das instituições da República, por exemplo— destruirá a economia do país. Não é a dona Maria ou o seu João que não conseguem ter nem sequer um dia inteiro de descanso que destruirão a economia, mas, sim, a distorção óptica segundo a qual o flagelo sempre parecerá mais leve para aquele que está do lado de quem o impõe.

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quarta-feira, 18 de fevereiro de 2026

TRABALHADORES DO BRASIL

Bernardo Mello Franco, O Globo

Em prefácio a livro de discursos, presidente revê opinião sobre legado do antecessor

Em 1979, Leonel Brizola baixou em São Bernardo do Campo para visitar o presidente do Sindicato dos Metalúrgicos. Queria atraí-lo para o projeto de refundação da legenda histórica do PTB.

Recém-chegado do exílio, o ex-governador discorria sobre as tradições do trabalhismo quando Lula o interrompeu com uma frase seca: “Getúlio ferrou o trabalhador”. A conversa acabou em constrangimento: o anfitrião nem se levantou da cadeira para se despedir.

Estrela do novo sindicalismo, Lula associava o nome de Vargas aos pelegos que dominavam a velha estrutura sindical corporativista e subordinada à ditadura. Chamava o ex-presidente de “pai dos pobres e mãe dos ricos” — uma heresia aos ouvidos de Brizola, que dizia representar o “fio da história” de lutas sociais rompido pelo golpe militar.

Quase meio século depois daquele encontro, o fundador do PT afirma que estava errado sobre o líder da Revolução de 1930. “Nasci na política criticando Getúlio. Eu reconhecia as conquistas da classe trabalhadora na Era Vargas, mas criticava a CLT por acreditar que havia nela um DNA fascista: a ‘Carta del Lavoro’, de Mussolini, o que não era verdade”, escreve.

A autocrítica está no prefácio de “Trabalhadores do Brasil! Discursos à nação”, que chega em breve às livrarias. Organizada por Lira Neto, a obra reúne 49 pronunciamentos históricos de Getúlio Vargas. Passa por temas como o programa da Aliança Liberal, a entrada do Brasil na Segunda Guerra e a volta ao poder pelas urnas, em 1950.

No texto que introduz o livro, Lula diz que só compreendeu o “real significado de Getúlio para o Brasil” ao ler os três volumes da biografia publicada por Lira Neto. “Getúlio trouxe para o centro da arena política questões que permanecem atuais: o Estado como indutor do desenvolvimento, a defesa da soberania nacional e o combate à desigualdade e aos privilégios”, afirma.

Citando a carta-testamento, o atual presidente escreve que essas bandeiras despertaram o ódio das elites. “São temas que até hoje, 80 anos depois, ainda enfrentam a oposição das forças e dos interesses contra o povo”, prossegue.

Livre da sombra de Brizola, Lula parece reivindicar um posto que já viu com desdém: o de herdeiro do getulismo.

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OS GENES EGOÍSTAS DE TRUMP

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Pesquisadores propõem modelo neorrealista para entender ações de presidente dos EUA

Ele não defenderia interesses do país, mas os da família, como numa corte de monarquia absolutista

Trocar as lentes que utilizamos para interpretar fenômenos pode esclarecer muita coisa. Richard Dawkins promoveu uma pequena revolução conceitual na biologia ao destacar, em 1976, que são os genes, e não o indivíduo ou a espécie, a unidade fundamental sujeita à seleção natural. São os genes que buscam perpetuar-se e, ao contrário de indivíduos e espécies, que têm data mais ou menos marcada para morrer ou extinguir-se, podem perdurar pelo tempo em que existir vida na Terra.

A mudança de lentes explica o que antes parecia inexplicável. Um bom exemplo é a homossexualidade. Para o indivíduo que a pratica de forma exclusiva, é um beco sem saída reprodutivo. Mas, se pensarmos em termos de genes, tudo muda de figura. As mesmas sequências genéticas que levam uma pessoa gay a não ter filhos podem conferir vantagem reprodutiva a seus irmãos do sexo oposto. Com isso, esses genes se fixam no pool da humanidade mesmo que prejudiquem a reprodução de indivíduos específicos.

Stacie Goddard e Abraham Newman sugerem uma troca de óculos para entender Donald Trump. Para a dupla, ações e atitudes do presidente americano que aparentemente desafiam a lógica ficam menos malucas se as virmos como voltadas para beneficiar não os EUA nem grupos econômicos fortes do país, mas para satisfazer suas próprias necessidades egoicas, ajudar nos negócios da família e de seus colaboradores próximos.

O modelo não é Metternich nem Maquiavel, mas Henrique 8º ou os Borgias. A unidade de seleção é a corte trumpiana. Os autores chamam esse estilo de administração de neorrealista ("neoroyalist" em inglês, que é menos ambíguo).

O interessante nessa abordagem é que ela permite entender a facilidade com que Trump sacrifica interesses de longo prazo dos americanos e eventualmente até se alia a Putin ou Xi, tradicionalmente vistos como competidores dos EUA, se a parceria servir a seus interesses paroquiais.

A teoria tem corroboração empírica. Neste ano de Presidência, a família Trump já ficou US$ 1,4 bilhão mais rica.

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terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

O FAVORITISMO DE LULA EM 2026

Míriam Leitão, O Globo

Com bons números na economia, Lula chega como favorito na campanha. E Flávio tenta herdar o espólio bolsonarista

O ambiente econômico de 2026 é favorável ao presidente Lula. Inflação sob controle, juros em queda, dólar fraco, crescimento maior do que no governo anterior, desemprego baixo e melhoria da renda. E a disputa sempre favorece o incumbente. Nas quatro eleições em que o presidente, ou a presidente, concorreu no cargo, só Jair Bolsonaro perdeu. Apesar de a pesquisa ter mostrado que Flávio Bolsonaro herda parte importante do espólio do pai, ele não tem a mesma capacidade de mobilização nem conseguiu galvanizar a direita. O favoritismo nesta eleição é do presidente Lula.

Os dois candidatos com mais intenção de votos têm em comum uma alta rejeição, mas é preciso levar em conta a dinâmica da disputa eleitoral. Normalmente, a rejeição cai, até porque campanha é o esforço de falar bem do candidato, mostrar suas realizações e convocar o bom recall. O presidente Lula tem um enorme legado para trazer de volta à memória dos eleitores, como ascensão social, período de crescimento, e boas relações com o mundo.

O recall de um “Bolsonaro” é contaminado pelas más lembranças da pandemia, quando o então presidente ofereceu ao país uma sucessão de frases ofensivas e impiedosas. As falas do tipo “eu não sou coveiro” ou “chega de mimimi”, “vai ficar chorando até quando?” ficaram marcadas.

Os economistas de mercado financeiro já começam a dizer que o candidato da direita tem mais capacidade de reduzir o déficit público, mas sabem que não se baseiam em evidências. O “tesouraço” prometido no artigo do Brazil Journal é apenas uma palavra. Quem leu o artigo viu que nenhuma medida sustenta a promessa. Além do mais, há os fatos. A economia de Bolsonaro não foi bem, nem para os parâmetros liberais. Ele ampliou muito os gastos no ano eleitoral, deu calote em precatórios, fez quatro intervenções na Petrobras, privatizou só a Eletrobras porque ela estava preparada desde o governo Temer. Não conseguiu preparar nenhuma outra empresa para a venda. Reduziu impostos federais e estaduais apenas para manipular preços dos combustíveis e reduzir a inflação artificialmente.

O déficit primário é menor no governo Lula do que nos governos de Michel Temer e Jair Bolsonaro, porém é um assunto difícil de tratar na corrida eleitoral. O prejuízo dos Correios é muito mais concreto e exibido como prova de que os governos do PT são gastadores. De fato, o rombo cresceu muito. Há detalhes difíceis de explicar nas contas das estatais. A Emgepron, estatal da Marinha, por exemplo, teve superávit no governo Bolsonaro e agora tem déficit. É efeito estatístico. Bolsonaro aportou R$ 10 bilhões do Tesouro na estatal. Por isso, aparece superavitária. Nos anos seguintes, a empresa tem gastado esse dinheiro e, por este motivo, passa a registrar déficit. Não é que a Emgepron esteja tendo prejuízo. Está fazendo os investimentos previstos. Só que não há campanha que explique isso.

Economistas distantes da polarização e que são capazes de ver virtudes no governo Lula acham que ele deveria fazer uma promessa de ajuste fiscal no início de um novo mandato. É necessário porque as despesas obrigatórias têm crescido acima dos limites do arcabouço, e da capacidade do país de absorver. Em parte, a explicação está nos aumentos reais do salário mínimo que voltaram neste mandato, o que indexa a maioria das despesas previdenciárias.

Estes são temas áridos no palanque, mas que fazem parte do debate. O bolsonarismo fará aquelas promessas que não cumpriu da primeira vez que governou o país. A outra direita, a que se organiza em torno do coletivo de candidatos do PSD, pode ter crescimento. A queda de Ratinho Júnior. na última pesquisa Quaest decorre de ele ainda não ser candidato, e a apresentação por Gilberto Kassab da sua trinca mais confundiu do que esclareceu sobre a candidatura alternativa da direita.

No período oficial de campanha, o presidente Lula contará com a vantagem de uma situação econômica que não atrapalha, pelo contrário, ajuda. E com o fato de ser o incumbente. Quem quiser acreditar que Flávio é moderado terá que esquecer, por exemplo, que numa entrevista à Folha, em 14 de junho de 2025, ele disse que o grupo do pai só apoiaria um candidato a presidente disposto a impor ao Supremo a aprovação do indulto ao ex-presidente. “Estamos falando da possibilidade do uso da força, de interferência em outro poder”. Não há um moderado de nome Bolsonaro.

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AMANHÃ É UM NOVO COMEÇO

Artigo de Fernando Gabeira

Escrever numa terça-feira de carnaval amplia a latitude de um artigo político. Ainda mais porque faço hoje 85 anos. Amanhã, começa para valer o ano eleitoral. Poderia escrever sobre o debate entre grandes projetos políticos para o Brasil. Toda eleição, faço isso. Mas a experiência me diz: não vão rolar.

Para que perder tempo? Esta é a última eleição presidencial da minha vida. Com alguma sorte, a penúltima. Não adiantam grandes elucubrações. D. H. Lawrence afirma que é uma pena, ao lermos livros como “O futuro da América” ou “A situação da Europa”, não poder imaginar a pessoa gorda ou magra que dita o texto a uma estenógrafa com bobs no cabelo ou escrevendo, com caneta-tinteiro, marcas no papel.

Aqui, de uma varanda em Ipanema, com uma gata dormindo ao lado do computador, sou capaz apenas de imaginar algumas coisas que podem ser boas para as novas gerações. O Brasil precisa usar racionalmente suas riquezas naturais, completar a transição energética, proteger as florestas. Talvez precise compreender melhor o mundo digital, preparar-se para o bom uso da inteligência artificial, formular um projeto gradativo de autonomia das grandes plataformas.

Vamos discutir segurança pública e compreender, finalmente, que, sem integração de forças, não há saída. Só se integra com confiança recíproca. Isso não vai rolar, pelo menos não com facilidade. Há um grande muro subjetivo nos afastando da solução.

Se os candidatos analisarem o mundo, compreenderão que ele mudou. É preciso diversificar negócios, abrir novas frentes. Lula compreende isso bem. Ninguém viajou tanto quanto ele, nem se tornou tão presente no cenário internacional.

Mas é preciso também aprimorar a segurança nacional. Às vezes, Lula parece não compreender isso, com esse papo de sangue de Lampião. Será preciso investimento nas Forças Armadas e preparação real da sociedade.

De qualquer forma, uma das coisas que precisam ser feitas é jogar o foco nas eleições parlamentares. Também não vai rolar. A experiência mostra que tudo se concentra na presidencial. Mas é preciso advertir que o Congresso, no Brasil, tornou-se muito poderoso. Ele manipula verbas de R$ 50 bilhões, não depende do presidente como antes e teve performance muito medíocre.

Se o resultado das eleições parlamentares for muito diferente, em termos políticos, da presidencial, teremos dificuldades pela frente, com uma força bloqueando a outra. Também não vai rolar, mas valeria a pena discutir um projeto de longo prazo para reduzir a corrupção no Brasil.

Escrevi um longo artigo, na semana passada, com algumas ideias. A gente começou com muito entusiasmo em torno das Diretas. Esse entusiasmo arrefeceu. Não deixem a peteca da democracia cair. Não verei mais de duas eleições por causa da idade. Mas é preciso que elas continuem para sempre.

Artigo publicado no jornal O Globo em 17 / 02 / 2026

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CAMPO MINADO

Merval Pereira, O Globo

Se esse enredo não é exemplo de propaganda eleitoral fora do prazo, muito difícil definir o que seja

O desfile da escola de samba Acadêmicos de Niterói, que abriu o carnaval do Rio no último domingo, foi uma afronta ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e à sociedade brasileira, exibição de poder político do incumbente, que já tem vantagens sobre seus concorrentes, a menor delas a possibilidade de concorrer à reeleição para presidente da República permanecendo no cargo. Esse certamente é um dos pontos corrigir na legislação eleitoral, impedindo que os candidatos a reeleição em cargos majoritários (presidente, governador, prefeito) possam permanecer neles durante a campanha.

O ambiente político definirá a decisão dos ministros do TSE. O tribunal já avisou: dependeria do que acontecesse no dia do desfile a possível punição, que pode ir de simples multa à inelegibilidade do presidente candidato à reeleição. O uso posterior das imagens do desfile, com Lula e Janja na pista do Sambódromo, e o coro de “Lula, lá” reverberando na passarela podem agravar a situação, mas o cálculo do risco mostra que a interpretação da lei quase nunca corresponde ao que a opinião pública sente e constata.

Não foi um pedido explícito de voto em Lula, mas a propaganda de seu governo estava escancarada em cada carro alegórico, e o ataque aos adversários políticos foi evidente. Se esse enredo não é exemplo de propaganda eleitoral fora do prazo, muito difícil definir o que seja. O caso do ex-presidente Bolsonaro certamente foi agravado pelo ambiente político à época. A reunião com os embaixadores, como parte do golpe de Estado que era tramado, significou a preparação de uma estratégia contra as urnas eletrônicas para obter apoio internacional. Por isso o TSE foi tão rigoroso com o ex-presidente.

Não foi um fato isolado, diferente deste. Tratou-se de uma transgressão da lei com o cuidado de não pedir votos explicitamente (o que a lei eleitoral exige para punir). Se ficar provado, porém, que houve interferência do Palácio do Planalto para financiamento privado da escola de samba, a situação muda de figura. O que é evidente para grande parte da sociedade se transformaria na certeza de que a “homenagem” foi incentivada pelo governo. Mesmo que o risco não tenha consequências eleitorais sérias, como acho que não terá, ficará exposto aos olhos de boa parte do eleitorado que nossa legislação é limitada pela interpretação que os juízes queiram dar, implicando sempre um toque político.

Mesmo os especialistas na legislação eleitoral divergem. É polêmica a decisão. Uns acham que não houve transgressão à lei, outros que houve, sem que o leigo possa entender por que tanta celeuma. A lei deveria ser clara para que todos tivessem segurança sobre a decisão do juiz. O fato de o presidente Lula não ter dado um basta a essa homenagem fora de hora (ou será que foi a hora certa?) mostra que as vantagens foram analisadas e consideradas merecedoras do risco. O toque final de cautela foi conseguir que a primeira-dama Janja Lula da Silva desistisse de desfilar em cima de um carro alegórico, como estava programado.

Ela disse que desistiu do desfile para ajudar quem ela mais gosta nesse mundo, o presidente Lula. Sinal de que cada gesto, cada passo no Sambódromo foi medido, o que pode ser entendido como obediência à lei. Do ponto de vista de Lula, ela fez muito bem, demonstrando que qualquer toque a mais de adesão à homenagem poderia ser um passo em falso. Veremos mais adiante o que acharam os juízes do TSE. De qualquer maneira, a campanha à reeleição de Lula entrou em campo minado, e qualquer falha pode ser fatal.

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BRASIL ESTÁ EM MODO ELEITORAL

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Governantes e candidatos passam a perseguir bandeiras que se transformem em votos

Risco é a adoção de políticas erradas ou menos eficazes do que poderiam ser se implementadas com calma

homenagem que uma escola de samba fluminense fez a Lula viola a legislação eleitoral? A escola, afinal, recebeu verbas federais (todas receberam) e o próprio presidente e ministros acorreram ao desfile, embora tenham exercido alguma discrição.

TSE, até aqui, agiu corretamente. Não proibiu o desfile, o que configuraria intervenção absurda na liberdade de criação artística, mas disse em alto e bom som que o petista correria riscos —daí a cautela do entorno presidencial. Veremos se isso vira um processo de abuso de poder político e econômico. Após as condenações eleitorais de Bolsonaro, o TSE está moralmente obrigado a ser rigoroso nessa matéria.

Penso que Lula se pôs em situação de vulnerabilidade a troco de nada. "Vanitas vanitatum et omnia vanitas".

Mais consequente é o caso da redução da jornada de trabalho. É um projeto meritório, mas que obviamente tem custos. Se o trabalho, que é um preço importante da economia, fica mais caro, é razoável esperar impacto inflacionário. A distribuição dos ônus não é uniforme. Há setores que tirariam a mudança de letra, mas há outros, já na iminência de substituição tecnológica, como portarias de prédios, em que o resultado pode ser desemprego maciço.

O governo e o PT, que passaram os últimos três anos dedicando atenção marginal à redução, agora que precisam de uma bandeira eleitoral, querem correr com a proposta, atropelando os trâmites legislativos e a possibilidade de elaborar um projeto bem estudado, que minore os efeitos adversos.

Obviamente, não são só Lula e o PT. Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas, candidato à reeleição, vem dando nó em pingo d’água para racionar água sem dizer que há um racionamento. Também corre riscos. Se o pior acontecer e sairmos da estação seca com os reservatórios vazios, ele será cobrado por não ter recorrido ao racionamento pleno quando isso teria feito alguma diferença.

O problema do populismo não é defender pautas que tenham apelo popular, mas sim fazê-lo sem medir as consequências.

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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

RUA CONVULSIONADA DE LUXÚRIA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Crônica de João do Rio em 1908 já descrevia o Carnaval carioca como um pandemônio

'Atrás de nós', disse ele, 'um grupo de futuras glórias nacionais berrava as cantigas do dia'

"Era em plena rua do Ouvidor. Não se podia andar. A multidão apertava-se. Havia sujeitos congestos, mulheres afogueadas, crianças a gritar, tipos que berravam pilhérias. A pletora de alegria punha desvarios em todas as faces. Era provável que, do largo de São Francisco à rua Direita, dançassem vinte cordões e quarenta grupos, rufassem duzentos tambores, zabumbassem cem bombos, gritassem cinquenta mil pessoas.

"A rua convulsionava-se, como se fosse rebentar de luxúria e de barulho. A atmosfera pesava como chumbo. No alto, arcos de gás besuntavam de uma luz de açafrão as fachadas dos prédios. Nos estabelecimentos comerciais, nas redações dos jornais, as lâmpadas elétricas despejavam sobre a multidão uma luz ácida e galvânica, que envilidecia e parecia convulsionar os movimentos da turba, sob o panejamento multicor das bandeiras que adejavam e sob o esfarelar constante dos confetes, que, como um irisamento do ar, caíam, voavam, rodopiavam.

"Essa iluminação violenta era ainda aquecida pelas vermelhidões de incêndio e as súbitas explosões azuis e verdes de fogos-de-bengala; era como que arrepiada pela corrida diabólica e incessante dos archotes e das pequenas lâmpadas portáteis. Serpentinas riscavam o ar; homens passavam empapados d’água; mulheres de chapéu de papel curvavam as nucas à etila dos lança-perfumes; frases rugiam cabeludas, entre gargalhadas, risos, berros, uivos, guinchos.

"A rua personalizava-se, tornava-se única, e parecia, toda ela policromada de serpentinas e confete, arlequinar o pincho da loucura e do deboche. Nós íamos indo, eu e o meu amigo, nesse pandemônio. Atrás de nós, sem colarinho, um grupo de rapazes acadêmicos, futuros diplomatas e futuras glórias nacionais, berrava furioso a cantiga do dia, essas cantigas que só aparecem no Carnaval."

O que você acabou de ler foi um trecho de "Cordões", crônica de João do Rio na Gazeta de Notícias, reproduzida em seu livro "A Alma Encantadora das Ruas", de 1908. Eu também gostaria de ter vivido aquele Carnaval.

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domingo, 15 de fevereiro de 2026

MORRE RENATO RABELO

Do g1 — Brasília

Renato Rabelo, ex-presidente do PCdoB, morre aos 83 anos

Dirigente presidiu o partido entre 2001 e 2015. Velório será realizado no Palácio do Trabalhador, em São Paulo.

O ex-presidente nacional do Partido Comunista do Brasil (PCdoB) Renato Rabelo morreu aos 83 anos, em São Paulo, na manhã deste domingo (15). Segundo o partido, ele enfrentava câncer há três anos. A informação foi divulgada pelo partido em uma nota oficial.

O velório está previsto para a segunda-feira (16), durante a manhã, no Palácio do Trabalhador, no bairro da Liberdade, na capital paulista. Após a cerimônia, haverá cremação.

Trajetória

José Renato Rabelo nasceu em 22 de fevereiro de 1942, em Ubaíra (BA). Iniciou a militância política no movimento estudantil e foi vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE) durante o período da ditadura militar.

Na década de 1970, integrou a direção da Ação Popular Marxista-Leninista (APML), organização que depois se incorporou ao PCdoB. Após a repressão que resultou na Chacina da Lapa, em 1976, deixou o país e viveu na França. Retornou ao Brasil com a anistia, em 1979.

Em 2001, assumiu a presidência nacional do PCdoB, cargo que ocupou até 2015. Foi sucedido por Luciana Santos. Durante sua gestão, o partido integrou a base de apoio dos governos de Luiz Inácio Lula da Silva e Dilma Rousseff.

Depois de deixar a presidência do partido, passou a atuar na Fundação Maurício Grabois, entidade vinculada ao PCdoB. Posteriormente, foi anunciado como presidente de honra da instituição.

Repercussão

Em publicação nas redes sociais, o presidente da República, Luiz Inácio Lula da Silva afirmou que Renato Rabelo dedicou a vida à militância política e à defesa da democracia.

"A democracia brasileira perdeu hoje um de seus maiores nomes, o meu querido companheiro Renato Rabelo. [...] A visão estratégica de Renato Rabelo e sua capacidade de reunir as forças políticas em prol da soberania e justiça social seguirão, sempre, ajudando a guiar o caminho daqueles que querem construir um Brasil melhor para todas e todos. Aos seus amigos, familiares e companheiros, deixo meu carinhoso abraço.", afirmou Lula.

O presidente ainda relembrou momentos políticos vividos pelos dois. Rabelo e o PCdoB apoiaram Lula desde a primeira campanha à presidência da República, em 1989.

"Dirigente histórico do PCdoB, trilhamos, lado a lado, alguns dos momentos mais importantes de nossa história. Estivemos juntos nas greves do ABC, nas Diretas Já e nas campanhas presidenciais a que concorri", completou.

A deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ) disse que Rabelo teve papel na formulação política do partido. O deputado federal Orlando Silva (PCdoB-SP) afirmou que ele contribuiu para a articulação de alianças no campo da esquerda.

"Hoje me despeço com profunda tristeza de um grande amigo, referencia ideológica, politica e de afeto, presidiu nosso PCdoB e por décadas, e um dos maiores construtores da história do Brasil. Renato dedicou a vida inteira à luta pela democracia, pela soberania nacional, por direitos e pelo socialismo. O Brasil ficou mais pobre de ideias e de luta", afirmou Feghali.

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sábado, 14 de fevereiro de 2026

QUEM TEM MEDO DAS ESCOLAS DE SAMBA ?

Jorge Santana, Correio Braziliense

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes

As escolas de samba sofrem de um pecado original. Essas instituições que nasceram poucas décadas após o fim da escravidão tornaram-se um "perigo" para o Estado. A Primeira República brasileira (1889-1930), fundada em 15 de novembro de 1889, teve como metas o progresso e o desenvolvimento — leia-se excluir tudo aquilo oriundo de África ou dos povos originários. Tal busca pelo branqueamento da nação não significava apenas eliminar os povos não brancos, mas também extirpar todas as práticas, culturas, religiosidades, traços africanos e ameríndios.

É nesse contexto político, marcado pela eugenia e pelo racismo científico, que surgem as escolas de samba. As agremiações de samba eram e são muito mais que entidades carnavalescas, são espaços de sociabilidade, de produção cultural, resistência, aquilombamento, reexistência, protagonismo negro, produção multiartística, manifestação política e de congraçamento da vida. Como diz o escritor Antônio Simas, "as escolas de samba não desfilam por isso existem, mas existem e por isso desfilam".

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. No pretérito, eram acusadas de centros de balbúrdia, antros de desocupados e lócus da vadiagem. No presente, elas são alvos de críticas que associam à libertinagem, reduto de gays e lésbicas, promotoras de "macumba", redutos da contravenção (jogo do bicho), mantenedoras do atraso cultural e inimigas da moral cristã e dos bons costumes. 

Os atuais detratores recorrem a acusações de que elas não contribuem para a cultura, não dão retorno à sociedade, ou o desenvolvimento da nação, além de que não produzem nada de positivo ou edificante. Essas acusações caem como frágeis castelos de cartas ao constatarmos que esses detratores, na verdade, temem as escolas.

Desde o início, as escolas sofreram com a censura ou o controle estatal. A Vizinha Faladeira foi proibida de ter como tema do carnaval "Branca de neve e os setes anões", pois o regulamento só permitia que as escolas abordassem temas nacionais. Ou seja, era a busca incessante do Estado em fazer das escolas difusoras da história dos chamados grandes temas e homens da nação. O Império Serrano foi censurado durante a famigerada ditadura civil militar (1964-1985) por trazer um enredo para a avenida falando em liberdade.

Décadas atrás, até a Igreja Católica também censurou a Beija Flor, que proibiu a alegoria do Cristo Redentor caracterizado de mendigo. Joãozinho, o Trinta, driblou a censura, embrulhou o Cristo com saco preto e colocou a frase "Mesmo proibido, olhai por nós". Neste ano, parlamentares de extrema-direita tentam censurar a escola de samba Acadêmicos de Niterói, por ter como tema o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A alegação é que a homenagem configura campanha eleitoral ilegal, com uso do dinheiro público.

Aqui não quero discutir se o mandatário merece ou não a singela homenagem, mas sobre o que leva à busca da censura, pois são os mesmos que acusam as escolas de samba de não contribuírem em nada, de não ser cultura e de não promover nenhum impacto positivo para a população brasileira.

Na verdade, as acusações falam muito mais sobre os acusadores do que sobre as tão criticadas escolas de samba. Porque só se busca proibir ou censurar aquilo que tem relevância, força e potência transgressora. Portanto, seja o Estado, seja a Igreja, e, atualmente, seja uma parte dos parlamentares, não buscam censurar as escolas de samba porque elas são irrelevantes. Mas, justamente, pelo contrário. As escolas de samba têm relevância, potência, impacto sobre a opinião pública, poder de pautar a sociedade e de construir imaginário social.

O pecado original dessas instituições está na sua origem e no seu ethos. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas; formadas em sua maioria por homens e mulheres negras; por manterem viva a cultura popular; por não se submeterem aos poderes e interesses da elite, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes. Portanto, o problema dos críticos e aspirantes a censores nunca foi sobre a relevância, potência e importância delas. Mas sobre não poder controlá-las. Sem esse controle, para quem tem medo das agremiações, sobra a famigerada censura.

*Jorge Santana, professor doutor de história do Instituto Federal do Paraná (IFPR) campus Campo Largo

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IMPERADOR IMPOPULAR

Jamil Chade, CartaCapital

O mundo demonstra seu desprezo pelo presidente dos Estados Unidos

Donald Trump descobre, aos poucos, a dimensão do desprezo do mundo por seu governo. Durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, a entrada da delegação dos Estados Unidos no desfile foi marcada por uma mistura de aplausos e vaias. A celebração foi para os atletas, alguns dos melhores do mundo em suas modalidades. Mas um sonoro protesto ocorreu quando o telão do estádio de San Siro mostrou o vice-presidente JD Vance, de pé, aplaudindo a delegação. Curiosamente, o público dos EUA jamais soube disso. Na transmissão oficial veiculada nas televisões de milhões de norte-americanos, a NBC cortou o som das vaias. Horas depois, quando a Casa Branca divulgou o vídeo do vice-presidente no evento na Itália, uma vez mais o som das vaias havia sido convenientemente abafado.

Ali foi apenas um termômetro de críticas, protestos e manifestações de repúdio diante de um governo que desmonta a democracia, abala os direitos humanos, interrompe a ajuda humanitária pelo mundo e ainda se diz orgulhoso de invadir países estrangeiros.

Nos dias seguintes à cerimônia de abertura, foram diversos os eventos e competições que viram as arquibancadas se manifestar contra os EUA. Num jogo de hóquei entre Canadá e Suíça, no sábado 7, torcedoras canadenses abriram um cartaz de protesto contra o ICE, a polícia de imigração de Trump. Manifestações da mesma dimensão tomaram outros locais de eventos esportivos durante os Jogos.

As arquibancadas eram, porém, meras caixas de ressonância de uma tendência mais profunda. Um levantamento da entidade YouGov revelou que poucas vezes nas últimas décadas a popularidade do governo norte-americano na Europa esteve em patamares tão baixos como hoje. A pesquisa revelou que, em janeiro, apenas 16% dos britânicos tinham uma opinião favorável a Trump e 81% tinham uma opinião desfavorável. Na França, 18% dos entrevistados apresentaram uma opinião favorável ao presidente dos EUA, contra apenas 11% entre os alemães. Na Itália, 77% dos entrevistados tinham uma opinião desfavorável, taxa similar àquela registrada na Espanha. Nem George W. Bush nos primeiros anos de seu governo registrou índices tão baixos.

Nada se equipara, no entanto, aos índices de desaprovação de Trump na Dinamarca, país que sofre um assédio direto do republicano em busca do controle da Groenlândia. Em janeiro, apenas 4% dos escandinavos tinham uma percepção positiva sobre o presidente dos EUA. Os dados contrastam com a popularidade­ de Barack Obama na Europa ao terminar o mandato em 2016. Naquele ano, o democrata chegou a registrar um índice de aprovação de mais de 75% na Espanha, Alemanha, Reino Unido e França.

A Olimpíada de Inverno, portanto, transformou-se num primeiro teste real da imagem dos EUA no exterior, desde a volta ao poder de Trump. Os protestos não se limitaram às arquibancadas. O esquiador da equipe britânica, Gus Kenworthy,­ compartilhou uma foto no Instagram na qual critica o ICE, escrevendo seu desagravo na neve com urina. “Não podemos ficar de braços cruzados enquanto o ICE continua a operar com poder irrestrito em nossas comunidades”, afirmou. Os atletas de Minnesota, epicentro do confronto entre as forças de Trump e imigrantes, também usaram o evento para se distanciar do republicano. “Estou competindo por um povo americano que defende o amor, a aceitação, a compaixão, a honestidade e o respeito ao próximo”, disse Jessie Diggins, medalhista de ouro olímpica no esqui cross-country. “Não apoio o ódio, a violência ou a discriminação.”

O próprio Trump envolveu-se em uma troca de farpas com o esquiador Hunter Hess. O atleta foi questionado sobre como era representar os EUA nas Olimpía­das, dada a situação atual do país, que incluiu operações do ICE e uma série de crises geopolíticas. Hess disse que representar os EUA lhe causava “sentimentos mistos” e que era “um pouco difícil”. “Só porque estou vestindo a bandeira não significa que represento tudo o que está acontecendo nos EUA.”

Extremistas de direita dos EUA passaram a pedir a exclusão de Hess da delegação. Trump deixou clara sua indignação. “Ele (Hess) não representa seu país nas atuais Olimpíadas de Inverno. Se for esse o caso, ele não deveria ter tentado entrar para a equipe, e é uma pena que esteja nela. É muito difícil torcer por alguém assim”, escreveu o presidente, que o chamou de “perdedor”.

O mal-estar ganhou tal dimensão que os próprios organizadores tiveram de tomar medidas de precaução. Para evitar uma polêmica ainda maior, a delegação norte-americana renomeou a casa que havia alugado em Milão para promover atletas e patrocinadores. O nome original era ICE House, numa referência ao gelo. Mas, a poucos dias da abertura do evento, o local passou a se chamar Winter House, ou a Casa de Inverno. Que venha a primavera. 

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

CORRUPÇÃO, O PATINHO FEIO DO DEBATE NACIONAL

Artigo de Fernando Gabeira

Um relatório sobre a percepção da corrupção, realizado pela Transparência Internacional, coloca o Brasil numa posição incômoda: na 107.ª posição entre 182 países. Muito possivelmente não é perfeito. O governo brasileiro responde com outras pesquisas, que mostram um crescimento de confiança no funcionalismo nacional. Argumenta que a pesquisa não capta os esforços que faz para combater a corrupção, que o aumento de certos índices não indica maior corrupção, mas o aumento das ações do Estado para combatê-la de forma efetiva.

Na televisão, o ministro Vinícius de Carvalho, da Controladoria-Geral, argumentou ainda que o combate à corrupção é uma batalha de décadas e que, às vezes, a percepção dela cresce porque os investimentos do governo são maiores. Mais dinheiro, mais possibilidade de desvio. O problema do combate ser de décadas é a dificuldade de mensurar quais os avanços concretos feitos no espaço de um ano, por exemplo.

Falar de corrupção no Brasil, apesar dos escândalos do INSS e do Banco Master, ainda é considerado uma atitude conservadora de direita e que ignora os temas centrais da nossa história. Raimundo Faoro, um dos grandes pensadores do Brasil, talvez não concordasse com essa tese. Sua visão do patrimonialismo é uma explicação para a gênese de nossos problemas modernos. Nela, o Estado nasce antes da sociedade, o acesso ao poder vale mais do que o acesso ao mercado, os cargos são moeda política, os recursos estatais são vistos como uma extensão da propriedade individual.

O Brasil, na minha opinião, precisava de um projeto de longo alcance para reduzir a corrupção. Reconheço que não é fácil. A Estônia obteve algum êxito digitalizando a relação Estado-cidadão. Menos contato físico acabou ajudando a reduzir a corrupção.

No entanto, se examinamos o que houve no INSS, os velhos foram roubados em muitos casos sem nenhum contato ou conhecimento do que se passava. Tudo aconteceu na mediação entre entidades e o Ministério do Trabalho.

Um fator clássico no combate à corrupção é a existência de punição correspondente ao crime. Se não houver punição adequada, ele se torna mais atraente.

Creio que Daniel Vorcaro trabalhava com essa possibilidade no Banco Master. Pagava pelos certificados bancários mais do que podia. Sabia que seu esquema iria para o espaço. Mas baseava seu negócio no Fundo Garantidor de Créditos. Era um equilibrista com rede.

Alguns autores afirmam que a criação de uma burocracia profissional, bem paga e protegida, é uma saída para combater a corrupção. No entanto, no Brasil, temos tudo isso. Os ministros do Supremo são bem pagos, escolhidos – ao menos teoricamente – por mérito e têm uma carreira estável. No entanto, foram atraídos por ganhos extras, seja em palestras patrocinadas, seja na advocacia de parentes, como mostrou o caso Master.

Verdade é que as burocracias profissionais têm mecanismos de controle, enquanto a brasileira parece ter capturado o Estado e consegue inclusive atuar acima das regras. Um exemplo nítido são os supersalários e os chamados penduricalhos, que custam ao País R$ 30 bilhões. Existe um teto salarial determinado por lei, mas que é superado e a pergunta de sempre é: quem fará valer a lei, se grande parte dos beneficiados são juízes ou procuradores?

Na pesquisa sobre corrupção, o Brasil ficou abaixo da média mundial, mas também abaixo da média sul-americana. O Uruguai, embora seja um país menor, apresenta índices muito melhores em termos mais próximos.

Isso remete também ao nosso sistema político. Durante muito tempo, o presidencialismo de coalizão foi apontado como uma causa da corrupção. Um dos exemplos históricos foi o escândalo do mensalão. Hoje, o Parlamento detém boa parte do Orçamento, cerca de R$ 60 bilhões. Visto de longe, parece uma divisão do poder, algo próximo ao parlamentarismo.

No entanto, ao contrário dessa forma de governo, os parlamentares usam essa verba individualmente. Isso produz redundância e estimula a corrupção, principalmente porque, apesar dos esforços da Polícia Federal, não há estrutura para fiscalizar rigorosamente a aplicação do dinheiro ao longo do País.

O Supremo tem tentado colocar alguns limites, combatendo o orçamento secreto e outras barbaridades. Mas as operações concretas para retomar o dinheiro desviado são pontuais, apenas simbólicas, destinadas mais a impressionar do que a corrigir a perda de recursos.

Para alguns analistas, o crescimento econômico, potencialmente, reduz a corrupção. Nesse caso, há mais dinheiro e menos pressão das elites sobre os cofres públicos.

Numa entrevista recente, um homem riquíssimo, Elon Musk, estava denunciando corrupção, inclusive temendo por sua própria vida. As soluções precisam ser integradas, muitas convergências políticas e econômicas precisam estar presentes para combater eficazmente o problema.

Estamos longe disso.

Artigo publicado no jornal Estadão em 13 / 02 / 2026

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O CARNAVAL NÃO TEM SIDO E NUNCA FOI EXPRESSÃO DA NOSSA SUPOSTA ALEGRIA

José de Souza Martins, Valor Econômico

Entre nós, o Carnaval foi destituído das referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma

Mesmo não o sendo, de fato, o Carnaval se tornou uma espécie de referência identitária do imaginário do que o brasileiro julga que é. Na verdade, a imensíssima maioria do povo sempre esteve e está cada vez mais distante dessa festividade, que, aliás, não é apenas uma, mas várias escondidas sob um único nome.

O declínio do Carnaval brasileiro pode ser analisado como documento e indício sociológico de mudanças profundas no que reiteradamente tem-nos sido dito que somos. O Carnaval é o outro lado, é o nosso nunca fomos.

O crescimento estatístico do número de evangélicos poderia ser tomado como fator de comprometimento da adesão ao que muitos, evangélicos ou não, consideram uma festa de Satanás. Tampouco o é. É notório que Satanás está muito atarefado com outras solicitações, sobretudo com a maligna tarefa de monitorar seus auxiliares em estado de rebeldia nos poderes, na economia e mesmo nas religiões.

Os indícios do último meio século são de que o Carnaval está no fim. Monitoro essa decadência desde quando começou claramente a deixar de ser uma festa popular de rua, o tríduo da licença pecaminosa, do cotidiano invertido, para deixarmos de ser o oculto que somos.

Desde que foi aqui difundido nos finais do século XIX, o Carnaval não tem sido e nunca foi expressão da nossa suposta alegria. Alegria de quê? Qual a proporção de brasileiros que tem tido algum motivo de alegria para celebrar?

Eu sempre soube que o Carnaval era um momento de fuga, de fingimento, de nele estar para não estar de fato. Mas isso também tem um pouco de simplificação. Talvez o Carnaval melhor diga que não somos um povo alegre, mas reclamamos o direito de ter alguns momentos de alegria, nem que seja fingida.

O extraordinário Paulo da Silva Prado, de uma das famílias mais ricas do Brasil, patrono da Semana de Arte Moderna de 1922, publicou, em 1928, “Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira”, um livro referencial. Do modernista Mário de Andrade, também de 1928, é Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

O da identidade inconcreta dos desencontros do modo de ser, o diverso e múltiplo que não é nenhum.

O Carnaval está no fim por ter perdido as referências sociais de sua gênese, daquilo que socialmente é, por ter perdido a possibilidade de ser socialmente compreendido e decifrado.

O Carnaval é popularmente interpretado como festa mundana, suspeitamente, porém, impregnada de atributos e concepções que remetem a um sistema de significados que é o da religião. Sua cultura de inversões, simulações e fingimentos narra a representação social do anticotidiano, do que somos não querendo ser, ou querendo mas não podendo.

Em tempos idos, nos começos, Carnaval era homem se fingir de mulher, mulher, de homem, usar máscara do que não se era para interagir como avesso. Sentir-se liberado para agredir o outro, o desconhecido, o diferente, o socialmente distante, com laranjinhas de cera cheias de água perfumada ou mais tarde o lança-perfume.

O momento significativo do nascimento do Carnaval entre nós foi aquele em que se sobrepôs ao Entrudo e o modificou e substituiu, no século XIX. O Entrudo era o marco divisório entre o sagrado e o profano, situado no próprio calendário religioso.

Do latim “introitus”, dizem, inaugurava a Quaresma, o período de restrições religiosas que penalizam o corpo. O Entrudo, e o Carnaval o imitou, representava uma burla dessas restrições, viabilizada pela inversão da realidade ao contrário do que cotidianamente é. A realidade como representação e teatro do avesso.

A máscara e o mascarado como figurações do não ser dos dias da incerteza da aproximação da crucificação e morte de Cristo. O tempo do vazio da espera e do perigo do advento do Anticristo.

Mas algo aconteceu. Entre nós, o Carnaval se tornou o espetáculo desse vazio, foi destituído das referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma. Mero produto para consumo do imaginário. A rua tornou-se residual.

O Carnaval virou imóvel nos monumentos de concreto que são os sambódromos, em que se paga para participar, tornou-se seletivo, instrumento de exibição da classe média e de consumo do espetáculo. Como todo produto que é mercadoria, disseminou-se. A antiquaresma antecipou-se e estendeu-se pelo próprio tempo sagrado da espera sacrificial.

A Quarta-Feira de Cinzas foi violada. Todos os dias se tornaram dias de Carnaval. Já não é preciso fingir. A vida perdeu a autenticidade porque já não existe o íntimo nem o segredo. Íntimo e segredo agora são espetáculo. A banalidade do cotidiano transformou-se em espetáculo. O Carnaval, por sê-lo, já não o é. O Carnaval tornou-se desnecessário e inútil.

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UMA AGENDA POSITIVA PARA A DEMOCRACIA

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

É preciso tratar dos problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições

Os defensores da democracia começaram 2026 com uma grande vitória: a eleição de Antonio Sérgio Seguro em Portugal, que bateu o candidato da extrema direita. Estabeleceu-se o que muitos chamam de cordão sanitário contra os antidemocratas, algo essencial quando há o risco da vitória de autoritários - no caso português, de um partido como o Chega, cujo racismo explícito atinge nossos compatriotas que moram por lá.

Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou para o Brasil.

A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.

De um lado, porque a luta contra o ideário autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria ingenuidade, no mínimo.

O modelo reativo, por outro lado, também tem um potencial de buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas para a valorização das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro ao se analisar os três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm sido utilizados: a vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção contra a extrema direita e a mobilização social, tomada como resistência e construção de novas formas de comunicação política.

No caso dos processos eleitorais, o discurso contra os partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos, especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.

O uso de instituições políticas para evitar o autoritarismo de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o Legislativo, sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o segundo tipo de resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria parlamentar e parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os democratas ganharem a eleição congressual de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump perderá parte de seu vigor autoritário.

Além disso, promotores e juízes, responsáveis por garantir direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma maioria eleitoral momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como contrapesos a autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso brasileiro é paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro Alexandre de Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.

A estratégia de usar o arcabouço institucional como mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que compõe o regime democrático; porém, num contexto de contestação da democracia, tal ferramenta não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais instituições precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o argumento de que alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa ser barrado por quem não tem o mesmo suporte.

A disputa entre o voto e as instituições contramajoritárias, vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão democrática. Depois dos totalitarismos ocidentais, a ciência política do pós-guerra reforçou a necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de ocasião para evitar quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é fundamental construir a legitimidade institucional de quem arbitra a disputa política - em outras palavras, a crença de que as instituições não têm credibilidade suficiente, ou mesmo subvertem a vontade popular, é um grande risco à democracia contemporânea.

O último tipo de resistência às tendências antidemocráticas atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser feita cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a imprensa e várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua, geralmente organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população. É o que está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo nazista por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.

Resistências antidemocráticas que apenas mobilizem e sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas têm força bem menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando apoio inclusive em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos autoritários. Isso significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência civil vai além da metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser acrescentado o de encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana, no mundo que vai além da disputa política partidária, gerando novas formas de comunicação e convencimento.

Analisando o conjunto de resistências às forças antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é fundamental e predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva, capaz de revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições.

A construção da agenda positiva passa, primeiramente, pelo reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios democratas têm enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se transformou a política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos principais elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os diferentes. Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças antidemocráticas, com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar autoritariamente seu eleitorado, mas também se deve lembrar que setores centristas liberais e de centro-esquerda ou esquerda agarraram-se demasiadamente em suas certezas e são incapazes de adaptar suas propostas e argumentos às angústias de parcelas crescentes do eleitorado.

Não seria possível defender a globalização ou o combate às desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou pelo menos de seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações tecnológicas presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter maior participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente racista e tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam estar na lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social almejada.

A revitalização democrática presente no debate e mobilização social tem de chegar à política para aumentar sua potência contra os antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são inescapáveis. A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a vida de muitas pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a democracia. Aqui, há um problema comunicacional grave, uma disputa de narrativas na qual ações governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto tais para os corações e mentes de muita gente.

Parte da dificuldade de realçar as qualidades da democracia e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em vícios dos políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são vistos como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse segundo ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael Sandel, vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que comandam a sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo democrático e vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que sequestrou o bem comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades sobre um fosso social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas últimas décadas.

A descoberta de pautas populares que não estão sendo atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de fundo mais relevante aos que querem defender a democracia para além das vitórias eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na frente, mesmo que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a longevidade dos regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os descontentes, superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que realce o quão positiva pode ser a democracia.

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