sexta-feira, 2 de outubro de 2026

OITO TEMAS PARA O NOVO PRESIDENTE

Fernando Luiz Abrucio*, Valor Econômico

Agenda inclui ajuste fiscal, reforma administrativa, adaptação às demandas econômicas do século XXI, educação, combate à desigualdade e ao crime organizado, política externa e reorganização das instituições

Uma eleição marcada por denúncias e controvérsias que passou ao largo dos desafios do próximo governo. Esse poderia ser um resumo fidedigno do primeiro turno da disputa presidencial de 2026. Claro que houve algumas discussões sobre temas importantes ao país, como segurança pública e o fim das bets, mas diagnósticos mais profundos sobre as maiores dificuldades foram deixados em segundo plano. Só que quem assumir em 2027 terá uma lista grande de tarefas bem difíceis pela frente, e o eleitorado por enquanto não sabe o que o vencedor fará para enfrentar tais problemas.

Num país tão complexo como o Brasil, não faltam questões relevantes que o presidente tem de tratar. Seria impossível fazer uma lista que abarcasse todas elas em um artigo de jornal. Porém, é possível escolher temas estratégicos essenciais para o próximo mandato, cuja resolução será fundamental não somente para o país melhorar, como também para evitar que entre numa crise no final desta década.

Oito temas serão inadiáveis no próximo mandato presidencial. O primeiro diz respeito a um ajuste econômico que permita um crescimento sustentável sem inflação relevante. Para isso, será fundamental equacionar as fragilidades fiscais para reduzir mais fortemente as taxas de juros. Dois efeitos positivos poderiam ser conseguidos aqui: a limitação do crescimento da dívida pública e a maior possibilidade de alavancar investimentos públicos e privados, que seriam os motores de um novo ciclo de desenvolvimento.

Não é possível imaginar um ajuste fiscal que produza um superávit gigantesco no curto prazo. Não obstante, é possível fazer mudanças institucionais, tanto nas despesas quanto nas receitas (especialmente as isenções tributárias), que paulatinamente reduzam os desequilíbrios e sinalizem uma modificação estrutural na evolução da dívida pública. Economistas como Manoel Pires, Bráulio Borges e Felipe Salto têm proposto um programa equilibrado de ajuste, e os presidenciáveis precisam ouvi-los.

Se o ajuste não for iniciado logo no primeiro ano de mandato, a crise econômica virá e a popularidade do presidente irá para o chão. Óbvio que no curto prazo pode se perder parte do apoio popular, mas se essa agenda não for priorizada, o governo se inviabiliza para fazer seu sucessor ou reeleger-se.

O segundo tema inadiável é a reforma da gestão pública, especialmente em dois pontos. Um deles é a necessidade de reduzir os privilégios remuneratórios de determinadas corporações estatais, particularmente as do sistema de Justiça. O efeito fiscal não será gigantesco, mas será significativo e, principalmente, será um exemplo essencial para justificar outros cortes que podem afetar camadas mais vulneráveis socialmente. Além disso, é preciso melhorar a qualidade da máquina pública. Em especial, é fundamental fortalecer as capacidades de estados e, mais ainda, de municípios para produzir serviços públicos mais eficientes e efetivos. Um plano nacional de modernização administrativa seria um passo central neste processo reformista.

A construção de um novo padrão de desenvolvimento condizente com os desafios do século XXI é um terceiro tema estratégico. Isso significa atuar de forma planejada sobre as potencialidades econômicas que o país tem em novas áreas como terras raras e energia renovável, como também fortalecer o investimento agrícola, industrial e em serviços em vários campos nos quais somos ou podemos nos tornar mais competitivos. Tudo isso levando em conta a sustentabilidade ambiental, outro diferencial positivo que o Brasil tem de saber usar melhor, seja para fins econômicos, seja para produzir uma maior qualidade de vida, agora e no futuro. Ignorar a mudança climática, por exemplo, seria um legado desastroso do próximo presidente.

O próximo governo tem de se comprometer com a educação se quiser modificar profundamente a realidade brasileira. Mais uma tarefa inadiável aqui, a quarta, está em aprimorar a política educacional com ações baseadas em evidências e no aprendizado com a experiência recente do Brasil. Deve-se continuar o processo de colaboração federativa entre União, estados e municípios para atuar na primeira infância, na alfabetização, na educação especial inclusiva, na construção de um ensino que faça mais sentido para os adolescentes e os jovens, neste último caso com prioridade para a educação profissional e tecnológica. Melhorar a formação e a carreira docente em escolas de tempo integral, com lideranças escolares qualificadas e secretarias de educação com fortes capacidades estatais, são as metas principais.

A educação precisa mirar dois objetivos centrais: formar cidadãos e contribuir decisivamente para elevar a produtividade do país. No primeiro caso, o processo educacional é o principal instrumento para garantir a democracia no longo prazo, produzindo os cidadãos capazes de evitar autoritarismos e políticos golpistas. A política educacional, ademais, precisa melhorar a qualidade do capital humano, desde a educação básica. Dado que há a necessidade de qualificar muita gente que já está no mercado de trabalho, principalmente por conta da rapidez das transformações tecnológicas, o próximo presidente vai ter a tarefa de criar programas de capacitação em larga escala em vários setores da economia.

Reduzir a pobreza e os diversos tipos de desigualdades continua sendo uma prioridade máxima do país, quem quer que seja o presidente eleito. Esta quinta tarefa é a mais inadiável de todas. O Brasil teve muitos avanços neste campo nos últimos 30 anos, como o Bolsa Família e o SUS, contudo, precisa começar uma nova agenda marcada por duas características principais. A primeira delas é a maior integração entre as políticas públicas, a chamada intersetorialidade, capaz de atuar sobre a integralidade dos problemas, e não apenas numa parte setorial. Isso vale para temas como mudança climática, políticas urbanas para as cidades maiores, a política de primeira infância e programas para a população idosa.

Nesta nova agenda de reformas das políticas sociais é fundamental aumentar a capacidade de os governos chegarem às famílias e indivíduos, tendo um tratamento de dados e acompanhamento mais fino das demandas sociais. Um Estado mais preventivo e com capacidade de customizar mais sua atuação, especialmente para a população mais pobre e para grupos vulneráveis, deve ser uma prioridade do próximo presidente.

O combate ao crime organizado é a sexta tarefa inadiável do país. O efeito negativo dela vai desde crimes ambientais, passando pelo domínio territorial de periferias, chegando à perda de segurança, particularmente (mas não só) da parcela mais vulnerável da população, e finalizando com o comando perverso de diversas atividades econômicas. Além disso, sua existência cria atritos externos que afetam a soberania do país. A resolução desse tema passará pelo aumento da capacidade de inteligência do Estado - especialmente contra a cúpula das facções -, pela maior profissionalização e integração das forças policiais, pela atuação mais efetiva nas fronteiras do país e pela transformação da política prisional.

O cenário internacional será extremamente desafiador no próximo quadriênio. Daí uma sétima tarefa inadiável: a construção de um projeto soberano e multipolar de inserção internacional. Entregar-se ao domínio norte-americano, que nos tornaria um quintal dessa potência, é o maior erro a ser evitado pelo governante que assumir em 2027. O Brasil precisará navegar num mundo mais perigoso em termos geopolíticos, mas que também pode trazer várias oportunidades econômicas se o país souber dialogar e negociar com todos as nações e blocos econômicos. Em poucas palavras, a liderança internacional será uma qualificação essencial para o novo presidente.

Finalizando a lista, como oitavo tema inadiável, está a reorganização republicana e democrática das instituições brasileiras. Além de reequilibrar a dinâmica entre os Poderes, é fundamental mexer pelo menos em dois pontos. Um diz respeito à questão das medidas que levaram à maior oligarquização do sistema político, como a explosão de emendas parlamentares pouco transparentes e descoladas das prioridades das políticas públicas, bem como o excessivo poder dado às cúpulas partidárias com o exagerado volume de financiamento público.

O outro desafio é reformar o STF. Não se trata apenas de punir os ministros que descumpriram a lei e regras éticas básicas mínimas - isso é o básico. Mais importante é criar as condições para se ter um Supremo no futuro que sirva melhor à sociedade brasileira, o que passa por transformações na redução das decisões monocráticas, nas pautas legais que cabem a uma corte constitucional e, com especial ênfase, no processo de seleção dos novos integrantes.

Não se pode mais ter ministros vinculados diretamente ao presidente que os escolhe, seja Lula, seja Bolsonaro. A criação de uma comissão vinculada à elite da academia brasileira que fizesse uma lista prévia de nomes seria algo essencial para evitar o fisiologismo judicial que impera hoje. Afinal, melhorar a democracia deve ser um critério para guiar o próximo governante, e isso será mais factível quanto mais a sociedade participar do controle do poder. Esse é o novo ciclo que devemos começar em 2027.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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ENTRE BIOGRAFIAS E FOLHAS CORRIDAS

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar

Em alguns dias o eleitorado se defrontará, com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.

O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.

Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.

Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar.

Um desses instrumentos foi a adoção do nome de urna em conexão com a adoção da urna eletrônica. Um incitamento do eleitor a se enganar na escolha que faz. A pretexto de permitir que o eleitor supostamente conheça face a face os candidatos, em vez de uma República representativa, criamos uma república de bairro, cuja sociabilidade é a de feira livre e de negociantes, de paroquialismo pentecostal, até de enterros e cemitérios.

Tornaram-nos um povo que se acha devedor de favor político ao padeiro, ao açougueiro, ao pastor de igreja, ao verdureiro, ao dono do botequim da esquina, ao artista de circo, ao agente funerário, ao coveiro do cemitério. Em número descabido e não raro a qualificação “profissional” do candidato agregada ao seu nome de urna. Toda uma teia de relações não políticas redutivas da sociabilidade ao mais superficial do cotidiano.

Apesar dos recursos modernos de verificação eletrônica de histórias de vida, essa cultura pseudopolítica inviabiliza a consciência crítica, sem a qual a representação política não é possível.

É claro que os portadores de apelidos podem acrescentá-los ao nome civil, como fez Luiz Inácio da Silva, que acrescentou judicialmente ao seu nome o apelido pelo qual era conhecido, “Lula”.

O presidente Fernando Henrique Cardoso baixou ato que proíbe aos cartórios e juízes de paz fazerem registros de nascimento com nomes ridículos, que possam acarretar humilhação a seus portadores, na escola, no emprego, na igreja. Somos propensos a atribuir aos filhos nomes esdrúxulos.

Uma amiga, no consultório dentário, enquanto esperava sua vez, ouviu com espanto a dentista chamar a cliente seguinte: Madeinusa. E lhe explicou, o pai da cliente lera o nome num fundo de garrafa: “made in USA”. Achara-o lindo e o colocou na filha.

A mesma mentalidade tosca se manifestou na eleição municipal de 1959, em São Paulo, quando a rinoceronte Cacareco, do zoológico municipal, foi “eleita” vereadora com mais de 100 mil votos, mais do que o maior número de votos do partido mais votado. Quando o voto ainda era escrito, os eleitores que queriam protestar escreviam gracinhas como essa na cédula, o que anulava o voto.

A eleição frequente de suspeitos de atos graves contra o regime democrático e contra a autenticidade da representação política amplia o uso da cultura da folha corrida com a equivocada concepção de que nela estar é um atributo próprio da política. Os antigos se lembrarão do mote informal das candidaturas de Adhemar de Barros, que foi governador e prefeito de São Paulo e foi candidato a presidente da República: “Rouba, mas faz”.

A disputa entre biografia e folha corrida não é disputa entre esquerda e direita, como tampouco conservadores são necessariamente de direita. Há conservadores autênticos formados na cultura das tradições conservadoras que de modo algum são de direita e tampouco fascistas. Os que fazem propositalmente essas confusões são antes de tudo ignorantes e por ignorância não sabem ser, politicamente, mais do que bajuladores de espertalhões e enganadores.

Arremetidas recentes para “aperfeiçoar” com o abrandamento, da sua necessária severidade, a lei da ficha-limpa, tornarão o país oficialmente o país da ficha suja. O propósito prático acabará sendo valorizar como limpo o que é sujo. Isto é minimizar a importância política das biografias honradas. A ficha suja desonrará os que honram a pátria por não serem cúmplices dos que dela se servem.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

DEUS, CABO ELEITORAL COM EXCLUSIVIDADE

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Por suas declarações em palanques, é como se Flávio Bolsonaro estivesse fazendo negócios com Deus

Um deles é o de que vai terceirizar seu mandato, entregando-o às mãos de Jesus; pode isso, Arnaldo?

Vivendo e aprendendo. Sempre ouvimos dizer que cargos políticos eram laicos e que Deus nunca se rebaixaria a se misturar com gente que pede votos a quem no fundo despreza. Mas, pelo visto, não é mais assim. Flávio Bolsonaro contratou Deus como cabo eleitoral e usa seu santo nome em comícios, passeatas e sabe-se mais por onde anda como candidato à Presidência. E, ao que parece, é um contrato de exclusividade. Só ele pode invocar Deus e, se quiser, até prometer-lhe um ministério. Eis alguns exemplos.

"Deus está me preparando há 24 anos para ser presidente do Brasil." É um de seus motes favoritos. Significa que foi Deus quem o ensinou a extorquir servidores, condecorar milicianos, mentir como quem respira e suplicar dinheiro a Daniel Vorcaro. "Acredito que Deus colocou uma ‘missão’ em minha vida." Deixa implícito que sua candidatura atende a um chamado de ordem espiritual e que Deus viu nele um novo Cristo, quem sabe até com uma midiática crucificação.

"Deus vai me honrar [com a vitória na eleição]." Pela frequência com que Flávio repete isso, parece que a vitória está incluída no pacote de seus negócios com Deus. Resta ver se um dia prestará contas sobre esses negócios, ao contrário das contas que continua devendo sobre o filme "Dark Horse". "Se Deus me honrar, vamos poder colocar mais ministros [no STF]." E, com isso, obrigará Deus a se misturar com um tribunal tão desmoralizado.

"Vou fazer uma oração antes de ler o termo de posse, entregando o Brasil nas mãos de Jesus." Epa! Significa que quem vai governar é Jesus? Pode isso, Arnaldo —o fulano ser eleito e terceirizar o mandato? E sabe-se lá se Jesus não tem mais o que fazer?

Afinal, sua jurisdição abrange toda a humanidade, o que inclui os Estados Unidos. O patrão Donald Trump se contentará com sublocar Deus em vez de tê-lo todo para si?

"Não debato com quem não acredita em Deus." Afinal, Flávio é candidato a presidente ou a pastor? Resta ver se ele, notório evangélico de última hora, aguentaria cinco minutos de debate com um pastor de verdade.

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quarta-feira, 30 de setembro de 2026

O DISCÍPULO DO CONDE KOMA, AS ELEIÇÕES E A DIMENSÃO DA CRISE DO SUPREMO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros estão à beira do pugilato encobre os fundamentos das decisões. Não há risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança

Mitsuyo Maeda, o Conde Koma, nasceu no Japão em 1878 e fez da luta uma profissão itinerante. Formado no judô de Jigoro Kano, percorreu países demonstrando técnicas e enfrentando adversários de diferentes modalidades. Chegou ao Brasil em 1914 e passou por Manaus em dezembro de 1915, com apresentações no Teatro Polytheama. Seus desafios ajudavam a divulgar uma arte marcial na qual técnica, equilíbrio e alavancas permitiam superar a força bruta.

Foi em Belém que Maeda encontrou Carlos Gracie, responsável por transmitir seus ensinamentos aos irmãos. Hélio, que aprendeu sobretudo no ambiente familiar, tornou-se um dos principais responsáveis pelo aperfeiçoamento e pela divulgação do estilo brasileiro, com ênfase no combate no chão. Carlos organizou o ensino; Hélio projetou a eficácia das técnicas nos desafios. Filhos, sobrinhos e discípulos ampliaram essa escola. Décadas depois, Royce Gracie levou suas finalizações aos primeiros torneios do UFC, enquanto academias espalhavam pelo mundo o jiu-jítsu brasileiro.

 

Entre os praticantes mais ilustres do esporte está Luiz Fux. Discípulo de Osvaldo Alves desde a juventude, o ministro do Supremo Tribunal Federal recebeu em Manaus, em 2019, a faixa vermelha e branca, correspondente ao oitavo grau. Uma graduação que resulta de mais de 50 anos de treinamento. Fux cultiva a disciplina, o autocontrole e os valores transmitidos pelo jiu-jítsu. Agora, porém, trocou o tatame por um octógono institucional: tornou-se protagonista da guerra de liminares que atravessou o Supremo e alcançou a Justiça Eleitoral.

A escalada começou com o Banco Master. A investigação conduzida por André Mendonça, as mensagens atribuídas a Daniel Vorcaro e os questionamentos envolvendo Alexandre de Moraes expuseram divisões internas que o tribunal não conseguiu administrar nos colegiados. A abertura de informações e a disputa sobre os limites das apurações converteram divergências processuais em confrontos públicos entre os ministros. Desde então, cada novo processo politicamente sensível passou a ser interpretado à luz desse conflito, mesmo quando possui fundamentos e objeto próprios.

O desgaste avançou sobre o reajuste do Bolsa Família e os precatórios do setor sucroalcooleiro. No primeiro caso, Mendonça rejeitou uma iniciativa no TSE por razões processuais; depois, Gilmar Mendes reconheceu a validade do aumento no Supremo. Nos precatórios, referências encontradas no material do Master a pessoas próximas de Nunes Marques ampliaram a tensão. Esses episódios não demonstram, por si, atuação coordenada de facções judiciais. Revelam, entretanto, um ambiente no qual decisões alimentam suspeitas de movimentos entre adversários.

Dimensão histórica

A crise desembocou diretamente na campanha na sexta-feira. Mendonça determinou, no TSE, a retirada de publicações que atribuíam a Flávio Bolsonaro a intenção de remover de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. No domingo, Flávio Dino permitiu o restabelecimento de conteúdos, invocando a liberdade de expressão. Na segunda-feira, Fux suspendeu os efeitos da decisão do colega e restaurou a ordem eleitoral até a manifestação do plenário. Em quatro dias, as plataformas receberam comandos sucessivos e contraditórios sobre o mesmo assunto.

Fux aplicou uma espécie de contragolpe: evocou o rigor empregado pelo próprio Supremo nos inquéritos sobre desinformação para questionar a liberação de uma narrativa considerada falsa pelo TSE. O argumento expõe uma cobrança de coerência. Mas o procedimento reproduz o problema que pretende conter: outra decisão individual neutraliza a anterior, enquanto o colegiado aguarda para estabelecer uma orientação comum.

Nunes Marques, presidente do TSE, levou sua reação a Edson Fachin e advertiu para o risco de captura institucional da Corte Eleitoral. A expressão mostra a profundidade da ruptura: o tribunal responsável pela votação passou a reclamar da interferência do Supremo, de onde provêm três de seus integrantes. O ativismo monocrático voltou como um bumerangue. A expansão do poder individual, frequentemente justificada pela urgência de proteger a democracia, abriu caminho para uma disputa sobre quem pode impor sua interpretação aos demais.

A poucos dias da eleição, a impressão de que ministros estão à beira do pugilato ameaça encobrir os fundamentos de suas decisões. Não há risco de fraude eleitoral, mas há uma crise de confiança. Quando os árbitros parecem disputar o resultado, oferecem aos derrotados argumentos para contestar as regras e aos observadores internacionais motivos para duvidar da estabilidade institucional brasileira. A Corte precisa recuperar sua autoridade com decisões coletivas fundamentadas e critérios consistentes. A lição da arte suave deveria servir a Fux e aos colegas: dominar a própria força é tão importante quanto vencer um adversário. No octógono do Supremo, a legitimidade das eleições não pode acabar imobilizada. Existe uma dimensão ética e histórica que precisa ser considerada pela Corte neste momento.

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CENAIS FINAIS DE UM 1º TURNO ESTÉRIL EM PROPOSTAS

Fernando Exman, Valor Econômico

Primeiro turno se aproxima sem que os principais candidatos tenham detalhado o que farão em caso de vitória

A campanha à reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) conseguiu nos últimos dias estancar os problemas que vinham se acumulando e, após semanas na defensiva, reequilibrou o jogo. Para aliados do petista, o freio de arrumação precisa continuar. E deve ser ainda mais intenso, se a direita repetir a arrancada final que costuma dar nas disputas presidenciais e o senador Flávio Bolsonaro (PL) passar para o segundo turno na dianteira.

Como dizem no mundo do futebol, Lula estava “encaixotado” pelo adversário. Em outras palavras, estava bloqueado por uma marcação tática que o impedia de trocar passes, avançar pelo campo e criar novas jogadas. Flávio tinha maior posse de bola, dominando a pauta da campanha e neutralizando as investidas do presidente.

Os estrategistas de Flávio sabiam que o plano do Palácio do Planalto era insistir no discurso de que Lula recebeu do ex-presidente Jair Bolsonaro um país destruído, com a máquina federal aos pedaços, e ao longo dos últimos anos conseguiu restabelecer as políticas públicas que haviam sido abandonadas. Com a casa arrumada, a reeleição então serviria como ponto de virada para um país melhor, com mais qualidade de vida e poder de compra para a população.

Flávio também sabia que Lula entraria em campo para tentar consolidar sua imagem junto à torcida como uma “lenda política”, pedindo ao eleitor que lhe reconduzisse à Presidência para fazer uma despedida dos gramados em alto estilo. Lula escalou a bandeira da soberania para a defesa, na expectativa de reviver os melhores momentos em que sua popularidade subiu após a família Bolsonaro trabalhar pelo tarifaço imposto pelos Estados Unidos contra o Brasil. No ataque, apostou no caso Master.

Mas Flávio acabou surpreendendo. Para neutralizar o tema da defesa da soberania, misturou o assunto com o debate sobre segurança pública, ao argumentar que “soberania” mesmo é o cidadão poder andar na rua sem medo das facções criminosas que serão tratadas como grupos terroristas.

A campanha do senador subverteu o lema do “nós contra eles” muitas vezes utilizado por petistas, com um discurso de que a vitória de Lula representaria, no fundo, “uma derrota do Brasil”. Fugindo da marcação “homem a homem” da comparação de biografias, valeu-se do barulho gerado nas arquibancada pelas notícias das impressionantes jogadas do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para evitar dar maiores explicações sobre suas conexões com o dono do Banco Master e o financiamento do filme produzido para homenagear seu pai.

Flávio invadiu a área adversária, dominando o discurso sobre a inflação de alimentos e a queda do poder de compra da população devido ao endividamento. Petistas lamentam até hoje o gol feito pela oposição com as peças de propaganda realizadas nos supermercados, assim como a dificuldade de Lula separar sua imagem da de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Presente em praticamente todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, Lula tornou-se a cara do sistema, na visão da população em geral.

Neste processo de reflexão sobre os rumos da partida, aliados do petista passaram a falar com menos embaraço sobre o equívoco estratégico de colocar a homenagem ao presidente no centro da campanha. Afinal, apesar de ter vencido por estreitíssima margem de votos em 2022, dependendo de uma frente ampla contra o bolsonarismo, Lula não aproveitou os últimos anos para ampliar sua base eleitoral. A hora era de finalmente ir atrás dos votos dos indecisos.

A campanha à reeleição parecia estar com baixa capacidade de reação, até que o Palácio do Planalto decidiu acelerar o ritmo de jogo com auxílio dos anabolizantes da máquina. Lula anunciou o reajuste do Bolsa Família, ignorou o risco de prejudicar o ambiente de negócios ao criminalizar as empresas legais de apostas que haviam investido no país e entrou de cabeça numa controvérsia religiosa envolvendo Nossa Senhora Aparecida.

Como resultado, a aprovação do governo federal melhorou. Lula recuperou a dianteira nas pesquisas, mas não a ponto de poder comemorar. Segundo a mais recente pesquisa da Quaest, o presidente empata em 42% a 42% com Flávio Bolsonaro no segundo turno.

Isso explica o movimento da oposição pelo voto útil, em uma última tentativa de contra-ataque antes de o árbitro apitar. Também joga luz sobre o que tem levado ambos os lados a partir de vez para uma conduta antiesportiva, após uma campanha de baixíssimo debate propositivo.

O primeiro turno se aproxima sem que os principais candidatos tenham detalhado o que farão em caso de vitória. Na economia, as medidas de ajuste fiscal são conhecidas e necessárias, mas impopulares. Bolsonaristas, que antes defendiam o amplo corte de gastos, hoje advogam em público o equilíbrio das contas por meio da ampliação da arrecadação. Do lado oposto, petistas têm evitado defender até mesmo as regras de um arcabouço fiscal que, apesar de suas travas, ainda garantem uma expansão dos gastos acima da inflação e não resolvem o problema da dívida pública.

Cerca de 158,7 milhões de brasileiros se aproximam do dia da eleição sem ter clareza do que esperar do próximo governo. A única certeza, pela conduta dos jogadores e pela fama do juiz, é que o ambiente institucional tende a se degradar ainda mais até o dia da posse.

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RELATÓRIO LISTA ATAQUES DE BOLSONARISTAS À IGREJA CATÓLICA E A CNBB

Bernardo Mello Franco, O Globo

Documento cita ameaças e intimidações a bispos católicos; início da ofensiva coincide com ano em que o clã chegou ao poder

No último domingo, a cúpula da Igreja Católica se viu arrastada para a guerra eleitoral. O candidato do PL ao Planalto acusou integrantes da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil de propagar mentiras para prejudicá-lo.

Sem apresentar provas, Flávio Bolsonaro disse que “gente de dentro da CNBB” teria ajudado a disseminar o que ele chamou de fake news sobre Nossa Senhora Aparecida. A fala viralizou nas redes e deu início a uma série de ataques à entidade. Não foi a primeira vez.

Um estudo feito pela Comissão Brasileira de Justiça e Paz lista 61 investidas contra a CNBB e seus bispos desde 2018. O início da ofensiva coincide com o ano em que Jair Bolsonaro chegou ao poder.

Entre os detratores citados no relatório, estão influenciadores bolsonaristas, uma produtora de vídeos de extrema direita e políticos do PL, como Paulo Bilynskyj, Gil Diniz e Eduardo Bolsonaro. O documento deixa claro que os ataques ultrapassam a disputa de opiniões. Há casos de ameaças, intimidações e ofensas.

Um dos primeiros registros, ainda em 2018, é um vídeo em que Jair Bolsonaro descreveu a CNBB e o Conselho Indigenista Missionário como “parte podre da Igreja”. No ano seguinte, Eduardo Bolsonaro inflamou seguidores ao tuitar que a esquerda teria “se infiltrado” na conferência.

Em outro momento, o deputado Bilynskyj chamou a CNBB de “antro de comunistas”. O ex-ministro Adolfo Sachsida chamou os bispos de “covardes” e disse que a entidade “apodreceu”. Num episódio pitoresco, o arcebispo de São Paulo, dom Odilo Scherer, precisou se defender de bolsonaristas que viram sua veste vermelha de cardeal como sinal de adesão ao PT.

Para não se misturar à disputa política, a CNBB costuma ignorar os ataques. Uma exceção ocorreu no domingo, quando a entidade julgou necessário rebater a acusação do candidato do PL. “A mentira não se combate com outra mentira”, afirmou em nota, após frisar que não apoia nenhum partido ou candidatura.

A ofensiva política contra a Igreja não é exclusividade brasileira. Na segunda-feira, o Papa Leão XIV disse que o declínio do número de católicos na Alemanha pode estar ligado ao crescimento da extrema direita. “Os valores do Evangelho não dizem respeito ao ódio e à divisão”, afirmou.

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ELEIÇÃO DESCAMBA PARA TEMAS ALEATÓRIOS

Vera Magalhães, O Globo

Captura da campanha por assuntos inflados artificialmente, como guerra religiosa que foi parar no STF, mostra falência da política e esgotamento da atual polarização

Quando parecia que a eleição deste ano não tinha como ficar mais distante dos problemas reais do país, ela foi dragada por uma escalada sem pé nem cabeça que começou num boato sobre Nossa Senhora Aparecida e terminou, como sempre e como tudo, no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF).

A guerra santa se fundiu à guerra aberta entre ministros da Corte, num epílogo que nem as mentes mais criativas poderiam imaginar para uma campanha em que as atenções estiveram muito mais voltadas à lista de favorecidos por um banqueiro preso por fraude financeira que às propostas para o futuro do Brasil.

De uma hora para outra, uma nova sessão de um STF já conflagrado passa a ter tanta possibilidade de interferir nos rumos do pleito quanto o debate do dia seguinte entre os candidatos à Presidência da República.

Esse estado de coisas é prova cabal do esgotamento da polarização entre dois grupos políticos que falharam em acenar ao eleitor com esperança, combustível que costumava guiar o voto antes do ódio e do desejo de aniquilação do outro, sentimentos que se impuseram pelo menos desde 2018.

Por mais que indicações dadas por Flávio Bolsonaro de que, se eleito, poderia patrocinar ou incentivar discussões já propostas no passado, sem sucesso, para rever feriados católicos ou a designação de Nossa Senhora Aparecida como padroeira do Brasil, a celeuma em torno disso foi inflada por Lula e pela esquerda de forma absolutamente bizantina.

Além de não ser fato que Flávio tenha efetivamente proposto algo nesse sentido, espanta que seja isso, e não um caminhão de outras coisas mais preocupantes que ele já disse efetivamente que fará — como indultar o pai e os demais condenados por tentativa de golpe —, a chocar os eleitores que professam essa ou aquela fé. Outra demonstração alarmante do descolamento em relação à realidade que tem guiado esta corrida eleitoral.

Que Lula, que sempre condenou, ao menos no gogó, o uso político da fé, tenha se aferrado a Nossa Senhora como um devoto que nunca foi é mais um indício do grau de desespero que tomou sua campanha e seu governo diante do risco concreto de derrota.

É inadmissível que um governante coloque no mesmo caldeirão doses cavalares de populismo fiscal, usando a tinta da caneta até não sobrar uma gota, e um proselitismo religioso indisfarçado para tentar recuperar terreno nos campos da popularidade e da intenção de votos. pratiSe são esses os remédios, resta a pergunta óbvia: o que esse político ainda tem a oferecer a um país com tantas carências? Por que se recusa a debater essas ideias, em vez de recorrer a mandrakarias?

E por que o temor de confrontar sua biografia, com três mandatos presidenciais e uma vida política escrutinada — para o bem e para o mal — há décadas, com a de um senador até ontem obscuro, cujas conquistas políticas até aqui derivam apenas e tão somente do sobrenome e com uma ficha corrida que também não foi trazida à luz nesta campanha marcada por obscurantismo e diversionismo.

Em vez de travarem esse embate de projetos e trajetórias olho no olho, os dois candidatos que lideram as pesquisas recorrem a ministros do STF cada vez mais alinhados a grupos políticos e a narrativas falsas sobre questões religiosas, que deveriam ficar fora dos palanques, porque não dizem respeito à definição de políticas públicas num Estado laico. É vergonhoso e perigoso ao mesmo tempo.

Parecia que o vexame de 15 de setembro seria o degrau mais baixo a que o Supremo desceria para que seus integrantes, entrincheirados, evitassem um mínimo de prestação de contas à sociedade sobre sua conduta e suas relações.

Mas não: a guerra santa das redes sociais foi transposta para os tribunais, opondo, de um lado, um ministro “terrivelmente evangélico” e seus aliados e, de outro, um declaradamente católico e seu afã de participar do processo político de que deveria ter se retirado quando foi nomeado para voltar à magistratura.

É assim que o país se aproxima do momento de ir às urnas. O grau de imprevisibilidade diante de uma disputa completamente irracional é tal que praticamente só resta clamar: seja o que Deus quiser.

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IDEIA DE LULA DE FALTAR AO DEBATE É ARRISCADA

Elio Gaspari, O Globo

Como não há ideias nem propostas, Nossa Senhora Aparecida ocupou o espaço vazio

Lula tende a não ir ao debate de quinta-feira na TV Globo. Com isso, o primeiro turno ficará sem debate entre os candidatos competitivos. É pena, mas os nomes de uma terceira via tiveram meses para romper a barreira de um dígito e não conseguiram. Essa monotonia fez da eleição presidencial um evento burocrático, sem ideias, plataformas ou desafios. Lula 4.0 seria uma continuação de Lula 3.0, que nada foi além dos Lulas passados. Há um candidato do PT, outro contra o PT, e estamos conversados.

A ideia de faltar a mais esse debate é arriscada. Numa eleição apertada como esta, a imagem da cadeira vazia pode ter um efeito desastroso mesmo para o segundo turno.

Num debate com quatro candidatos, Lula será o principal alvo. Se as chances de cada um fossem semelhantes, tudo bem. Mas não. Lula e Flávio disputam uma eleição apertada, e os demais tornaram-se figurantes. Está na memória de todos a figura patética do Padre Kelmon em 2022. Só com quatro candidatos, esse risco fica reduzido, embora não eliminado.

Ir ao debate seria a melhor ideia. No caso de Lula, teria a vantagem adicional de espanar a ideia segundo a qual está cansado.

Com Flávio Bolsonaro, a situação se agrava. Ele é o pai, que, por sua vez, personifica pouco mais que um renitente sentimento antipetista. O Brasil é maior que essa mixaria, e os desafios estão aí.

A novela da corrupção na alta magistratura continuará sendo assunto nos próximos meses, e é bom que seja assim, mas o país de farofeiros deslumbrados está ofuscando outro país que anda.

Nele, constroem-se novas linhas de metrô em São Paulo, mais o túnel Santos-Guarujá. Na semana passada, zarpou do porto de Lüsi, na China, o maior bate-estacas marítimo do mundo. Ele vem para a obra da ponte que ligará Salvador à Ilha de Itaparica, com 12,4 quilômetros de extensão, um pouco menor que a Rio-Niterói.

Com obras desse tamanho, os charutos do procurador-geral Paulo Gonet são apenas fumaça, produzida por um burocrata deslumbrado, escoltado por um banqueiro espertalhão.

O Brasil é muito maior que a arena onde pontificam esses doutores. Por isso, é pena que a sucessão presidencial esteja num nível inédito de indigência. Parece até que a eleição presidencial é uma formalidade.

Temas abundam, mas falta disposição aos candidatos, sobretudo a Lula e Flávio, para debatê-los. Como não há debates, ideias nem propostas, Nossa Senhora Aparecida ocupou o espaço vazio.

Se algum político ou religioso quiser retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil, terá uma surpresa: a fé popular manterá o título. A ideia de destronar Nossa Senhora é velha e inútil.

Os poderosos da ocasião tomam carona na história da santa que atrai milhões de peregrinos a cada ano.

Mexer com devoções populares nunca deu certo. A hierarquia católica tentou enquadrar a devoção dos napolitanos por San Gennaro ou a dos nordestinos por Padre Cícero. Pura perda de tempo.

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NOSSA SENHORA APARECIDA QUE SE CUIDE

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

A guerra santa promovida após vir à tona uma notícia falsa de que o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, pretendia tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil ressuscitou a batalha entre duas alas do STF, às vésperas das eleições.

Não bastasse a campanha do primeiro turno estar chegando ao fim sem que os eleitores saibam as propostas dos candidatos para comandar o País pelos próximos quatro anos, agora os dois principais postulantes à Presidência têm um juiz para chamar de seu. Na prática, a agenda sobre o que precisa ser feito para impulsionar o desenvolvimento do Brasil foi sequestrada pelo escândalo do Banco Master e pela crise do STF.

De um lado da Corte está o grupo de André Mendonça, que é evangélico, integrado pelo presidente do TSE, Nunes Marques, e por Luiz Fux. De outro, a ala liderada por Alexandre de Moraes, Flávio Dino, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin. O primeiro grupo virou a tropa de choque de Flávio. O segundo cerra fileiras para defender o presidente Lula.

Embora tenha sido indicado por Lula para o cargo, Dias Toffoli caiu em desgraça com o presidente após ter impedido a ida dele ao velório do irmão Vavá, em 2019. À época, o petista estava preso. Hoje, Toffoli parece mais ligado a Mendonça.

Cabe ao presidente do STF, Edson Fachin, impedir que os homens de toga se digladiem, desta

Marques decidiu levar hoje o caso para o plenário virtual do TSE, longe das câmeras.

Fachin tem contado com o apoio de Cármen Lúcia em suas decisões. Mas, se até agora a dupla não conseguiu tirar do papel o Código de Ética para os magistrados, que dirá promover o armistício entre os colegas?

Enquanto o fim do mundo não vem, Lula vai erguendo a imagem da padroeira e anunciando bondades para atrair votos, como o reajuste no Bolsa Família e o fim das bets. E, como Nossa Senhora entrou para ficar na campanha, o PT aproveita para distribuir pelo WhatsApp figurinhas com a santa fazendo o “L”.

Na outra ponta, aliados de Flávio também espalham – e muito – notícias falsas, dizendo que o presidente é “macumbeiro”. Além disso, nos cultos, pastores reembalam o discurso de que Lula, se reeleito, fechará igrejas evangélicas, uma fake news cantada desde 2002.

O fato é que, nessa toada, o Brasil vai chegando ao domingo, dia da votação, sem nada saber sobre o que os candidatos à Presidência propõem para mudar o atual estado de coisas. Seria importante, até porque o difícil não é matar um leão por dia, mas, sim, se desviar das antas. 

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O GÊNIO DAS ELEIÇÕES

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Na reta final do primeiro turno, Lula parte para o vale-tudo do populismo

Medidas testam limites do eleitor moderado, que não tem tantas alternativas

O eventual eleitor institucionalista em busca de argumentos para não votar em Lula deparou-se com vários no último par de semanas. Como a lista é longa, concentro-me nos dois casos mais gritantes de populismo eleitoreiro.

O primeiro foi o reajuste de 15% nos benefícios do Bolsa Família, decretado a apenas 17 dias do primeiro turno. O problema aqui não é o conteúdo, mas o timing. Compensar o programa pelas perdas inflacionárias dos últimos anos sempre teve sentido, mas o governo Lula, por boas ou más razões, havia preferido não fazê-lo. O reajuste não constava da proposta de Orçamento para 2027 enviada ao Congresso pouco antes. Mas bastaram as pesquisas o colocarem num quadro eleitoralmente desafiador para ele agir.

Se o reajuste era necessário, o presidente errou ao esperar até quase o final de seu mandato para decretá-lo. Se o certo era segurar as despesas, então ele foi irresponsável ao incorrer em gasto expressivo de forma atabalhoada.

O caso das bets é até pior. Com a proscrição de todas as casas de aposta a nove dias do pleito, Lula implodiu quase quatro anos de esforços de seu próprio governo para regulamentar a matéria. O banimento poderá reduzir o fluxo de apostas, mas não resolverá o problema dos ludopatas, que continuarão jogando em sites irregulares. A medida priva ainda o governo de arrecadação e consolida a percepção de que no Brasil não existe estabilidade jurídica.

Os dois casos mostram que Lula dá mais importância a assegurar mais quatro anos de poder para si do que a tentar fazer o melhor governo possível no tempo que lhe foi concedido, uma traição à própria ideia de exercício republicano do mandato.

O eleitor institucionalista pode então tirar o petista do rol de candidatos a considerar? Não é tão simples, e o próprio presidente explica o porquê: "Se vocês tivessem de escolher entre mim e um gênio, é uma coisa. Mas não é isso que está na mesa".

Lula foi desmesuradamente gentil com Flávio Bolsonaro ao descrevê-lo só como alguém que não atingiu a genialidade.

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O QUE MUDA DE JAIR BOLSONARO EM 2018 PARA FLÁVIO BOLSONARO EM 2026 ?

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

STF enfraquecido, Trump e aprendizado institucional tornam diferente um eventual novo ciclo bolsonarista

Em 2026, o projeto é mais legível e as condições para executá-lo podem ser mais favoráveis

Em 2018, a rejeição ao PT, a ojeriza aos partidos e grupos que dominavam a política nacional, a sensação de que a vida havia parado de melhorar, os ventos internacionais favoráveis a um populismo radical de direita e, como decorrência disso tudo, uma vontade quase desesperada de mudança de rumo político levaram milhões de eleitores a conceder praticamente um cheque em branco a Jair Bolsonaro. Um candidato que, sabia-se então como se sabe hoje, exibia poucas, se alguma, das qualidades que normalmente se procuram em alguém a quem se pretende entregar o governo do país.

De certa forma, Bolsonaro foi um "poste". Chamamos assim o candidato cuja viabilidade eleitoral provém menos de capital político próprio do que daquele que lhe transfere um patrocinador. A diferença é que Bolsonaro não era o poste de um padrinho determinado, mas de sentimentos políticos urgentes: o antipetismo, o desprezo pela política tradicional, o "não" a tudo o que parecia errado. Era o tapa na cara que se queria desferir no sistema político.

Teve fiadores, claro, mas, como candidatura do "não", Bolsonaro não precisava explicar com muita precisão para onde levaria o país. Bastava assegurar que seria para longe daquilo. O resto vinha depois.

É curioso que, em 2026, estejamos novamente diante de uma candidatura cuja principal credencial continua a ser apenas a capacidade de derrotar o PT. A pergunta sobre quais qualificações próprias Flávio apresenta para governar o Brasil continua difícil de responder a partir de tudo o que se sabe dele. Nem mesmo a desculpa "pelo menos é honesto", usada em 2018 para justificar o voto em um candidato sem outras qualidades, resiste a um exame atento.

Mas há uma diferença decisiva. O voto em Flávio já não pode ser entendido como o mesmo cheque em branco de 2018. Há agora um projeto muito mais legível. Quem escolhe Flávio escolhe também consequências mais previsíveis que aquelas de oito anos atrás: uma inflexão conservadora nas políticas públicas e nas instituições, sim, mas também uma ofensiva para alterar o equilíbrio interno do Judiciário e uma política externa voluntariamente subordinada ao governo Trump.

Além disso, um eventual governo Flávio se daria em circunstâncias muito distintas das enfrentadas por seu pai. Há, antes de tudo, uma diferença decisiva no sistema de contenção institucional. Durante o governo Bolsonaro, o Supremo e, particularmente, Alexandre de Moraes, de um jeito ou de outro, transformaram-se nas principais barreiras às sucessivas tentativas de erosão da democracia liberal.

Não é preciso canonizar ninguém no STF para reconhecer que foi o poder dissuasivo contra um movimento que nunca demonstrou quaisquer escrúpulos para tentar perpetuar-se no poder ou dominar o Estado sem obstáculos constitucionais.

Um novo governo bolsonarista encontraria uma corte em situação muito diferente. E não se trata apenas da queda da confiança no STF. A guerra aberta entre seus ministros tornou perfeitamente plausível a percepção de que eles podem colocar os interesses das facções internas a que pertencem acima da própria instituição. E, para piorar, alguns já parecem ter perdido o antigo cuidado de evitar que suas decisões fossem lidas como extensão das preferências políticas do campo que os indicou.

Some-se a isso o fato de que o próximo presidente também terá peso incomum sobre a composição do tribunal —Flávio já anunciou que pretenderia indicar cinco ministros— e teremos uma situação completamente diferente da vivida no passado.

Antes, o problema era se o STF teria força suficiente para conter um presidente disposto a testar os limites da democracia; no próximo governo, acrescenta-se a dúvida sobre se terá credibilidade suficiente para fazê-lo.

Por fim, também muda o ambiente internacional. Jair Bolsonaro governou entre Trump e Biden. Um eventual Flávio encontraria Trump na Casa Branca durante pelo menos os dois primeiros anos de mandato.

Finalmente, existe algo que não havia em 2018: aprendizado.

O primeiro governo Bolsonaro foi, em muitos momentos, improvisação, conflito interno, iniciativas mal executadas e recuos diante de obstáculos que seus integrantes pareciam não ter previsto. Trump oferece o exemplo de como uma segunda passagem pelo poder pode ser mais consciente dos obstáculos e, portanto, muito mais eficiente.

No Brasil, a analogia sugere ao menos isto: desta vez, haveria menos incerteza sobre o que se pretende fazer, mais clareza sobre meios e metas e, possivelmente, condições mais favoráveis para executar a agenda.

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UM INVERNO PROLONGADO NA POLÍTICA BRASILEIRA

Vagner Gomes*, Voto Positivo

Em 1986, nas eleições legislativas para a Constituinte, o sociólogo Luiz Werneck Vianna foi candidato a Deputado Federal pelo PMDB do Rio de Janeiro. Aqueles que gostam de fazer o exercício da memória das antigas campanhas eleitorais deveriam resgatar as imagens dessa campanha eleitoral, que foi a primeira após o prolongado período de autoritarismo no Brasil. O partido mencionado fazia um “círculo” de candidaturas ao legislativo, debatendo propostas no horário da propaganda eleitoral gratuita. Muito distante da competição individualizada nas eleições atuais.

Foi naquele ano que o PMDB se tornou vitorioso em todo o país ao ponto da imprensa o comparar ao PRI do México (uma comparação que demonstrava o temor dos meios de comunicação de uma hegemonia em favor de um Estado de Bem Estar Social). A comparação se apresentou como equivocada, pois o Partido de Ulisses era uma grande frente de diversificadas tendências que tinham em comum a luta pela derrota política do atraso ao qual o país se entregou após 1964.

Os liberais brasileiros compreenderam que o caminho democrático era uma possibilidade que beneficiaria a todos enquanto as forças políticas mais à esquerda, sob influência de uma cultura política do “partidão”, não se deixava levar por propostas sectárias. Haviam aqueles que anunciavam esse caminho como equivocado, ou seja, uma política de conciliação. Todavia, o tempo realocou todas essas forças aproximadas na campanha vitoriosa da oposição em 2022.

O reencontro da sociedade brasileira com a Democracia ainda não foi muito bem estudado pelos meios acadêmicos das Ciências Humanas, uma vez que o tema do social predominou em muitos trabalhos acadêmicos a partir de então. A Transição Democrática ainda é “lida” por alguns acadêmicos como um projeto conservador vindo de cima numa estranha mutação do populismo russo, dando voz a um novo populismo do século XXI.

De fato, reconstruir uma sociedade brasileira que se viu sufocada em 21 anos de autoritarismo foi uma ação política que se fez com a intervenção de Partidos Políticos e Intelectuais que debatiam nosso país para fora dos muros das Universidades. O desafio educacional estava em reduzir drasticamente nosso analfabetismo, que era em torno de 15%, enquanto vivíamos tempos sem o Sistema Único de Saúde (SUS). Essa ebulição da democracia formava novas lideranças vindas das comunidades populares, de uma Igreja Católica chamada de progressista e dos sindicatos.

A clivagem política e social nos fez conquistar uma Constituição com inúmeros avanços em diversos itens, sejam civis, trabalhistas, sociais e ambientais. Nosso país foi pioneiro do Código de Defesa do Consumidor e estabeleceu conquistas para crianças, adolescentes e segmentos sociais que eram marginalizados no Inverno Prolongado da Política Brasileira. Lembrar essas movimentações da política brasileira é muito importante para que possamos avaliar em qual momento esse processo desandou o como tentar impedir que um novo inverno prolongado se estabeleça pela manifestação das multidões ressentidas.

Se os ganhos do Estado de Direito Democrático e os sociais foram marcantes, o que justifica um ressentimento político aumentando em forma de espiral? Provavelmente por conta de não termos um partido como o PMDB, que se colocava com defensor de conquistas. Uma “universidade” de quadros políticos foi substituída por agremiações partidárias que pouco debate a política. As reuniões, quando ocorrem, se iniciam com dirigentes falando que não teremos uma longa reunião. Encontros cartoriais e festivos com pouco conteúdo reflexivo. E uma sociedade cada vez mais desacostumada a ler, ao ponto de que muitos que chegaram até esse ponto do texto já devem estar exaustos, uma vez que se acostumou a imagens. Mas a Grande Política ainda é esse ofício de grandes desafios, onde a “mercantilização” das avaliações da qualidade de ensino esvaziou o ofício dirigente dos educadores na sociedade brasileira.

A crise da Democracia brasileira se espelha na agressividade de pais e alunos contra os profissionais de educação nas unidades escolares. A saúde mental nesse universo, que deveria ser de construção do diálogo e do conhecimento, está profundamente abalada por uma ausência de disciplina que espelha os desvios extremistas nos quais uma parte da juventude está se alimentando, enquanto a apatia predomina em outros. Aqueles que forçam a pensar e a se indignar acabam se entregando à melancolia se não compreenderem o grave momento aos quais vivemos.

Não é a lei restritiva do uso dos celulares que expõe a grande conquista para o debate da educação. Pelo contrário, tamanha proposta expõe o quanto o espaço da sala de aula a cada momento precisa de intervenção externa a autoridade educativa do Professor. Dos risos vazios estamos a perceber a ausência de um programa mais coerente para reagrupar a Educação como uma fonte para a Democracia. Essa crise se enraíza por outros segmentos da sociedade nos permitindo testemunhar o crescimento do negacionismo científico contrário a eficiência das vacinas.

Nas mesmas unidades escolares, o debate sobre o meio ambiente se transformou num recurso com poucos retornos entre os jovens. O mais grave é o desconhecimento ser reforçado pela falta de interesse. Sem um espaço educacional qualificado e com partidos políticos submetidos à lideranças sem espírito público, estamos empurrando aos poucos o nosso país ao longo inverno político: o poder autoritário construído por aqueles que se deixam comercializar suas opiniões ou que “terceirizam” as decisões políticas em nome da busca de uma simplificação. Estamos, então, há poucos dias das eleições gerais no Brasil e muitos afirmam votar num candidato de oposição sem se preocupar com o que é proposto no programa. A justificativa seria que ninguém cumpre o que promete.

Saibamos, contudo, que o “Cidadão Vigilante” deveria se qualificar para reduzir tamanha distorção na política brasileira. Essa seria a importância das eleições ao legislativo; porém, quantos candidatos apresentaram um material de política na campanha eleitoral? Alguns parlamentares, até mesmo os do campo progressista, apresentam vídeos que se assemelham a pequenos memes em movimento. Não há política na campanha eleitoral e não se educa a sociedade brasileira para continuar na Democracia. E, assim, o populismo de extrema direita ganha um grande espaço nas casas legislativas. Por fim, teremos um grande desafio nos próximos dias, diante de campanhas com um alto grau de infidelidade até aos princípios das legendas que as abrigaram. O tempo está mudando e trazendo nuvens sombrias.

*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e professor de História na Rede Estadual de Ensino no Rio de Janeiro.

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terça-feira, 29 de setembro de 2026

POLÊMICAS ENTRE LULA E FLÁVIO TÊM LIMITES NOS VOTOS CONSOLIDADOS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo voto útil. Mas precisa combinar com o eleitor.

Depois de semanas dominadas pela crise do Supremo, pelo caso Banco Master e pelo confronto entre Lula e Flávio Bolsonaro sobre corrupção e democracia, as pesquisas Quaest e a Nexus divulgadas nesta segunda-feira, 28, mostram que, ao menos em parte, as duas controvérsias mais recentes, a medida provisória que proibiu as bets e o boato sobre Nossa Senhora Aparecida, favoreceram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O petista manteve a vantagem no primeiro turno e empata no segundo com Flávio Bolsonaro.

Na Quaest, Lula passou de 37% para 39%, e Flávio, de 33% para 34%. A Nexus registrou 42% para o presidente e 37% para o senador, ante 40% e 37% na rodada anterior. Os dois levantamentos indicam uma ampliação numérica da dianteira de Lula no primeiro turno. As mudanças individuais, contudo, são pequenas diante das margens de erro e não demonstram que uma polêmica específica tenha produzido o movimento. Num eventual segundo turno, a Quaest mostra 42% para cada candidato; a Nexus, 46% para Lula e 44% para Flávio, também em empate técnico.

A proibição das bets é a iniciativa com maior potencial de atingir a vida cotidiana. Na noite de sexta-feira, 25, Lula editou uma medida provisória que alcança apostas esportivas e jogos online. Ela proibiu novos aportes nas plataformas, fixou prazo para a retirada dos saldos pelos usuários e determinou que sites e aplicativos saiam do ar a partir de 6 de outubro. A decisão responde ao endividamento e aos danos à saúde associados ao jogo, mas também abre uma disputa sobre sua execução, o mercado ilegal e os efeitos sobre empresas e clubes patrocinados pelo setor, que já foi parar no Supremo Tribunal Federal (STF. Em termos eleitorais a polêmica vem sendo boa para Lula.

A Quaest ouviu eleitores de 24 a 27 de setembro, e a Nexus, de 25 a 27. Ambas captaram, portanto, apenas parte da repercussão da medida anunciada na sexta-feira à noite. Ainda é possível que Lula obtenha até domingo algum benefício adicional entre famílias atingidas pelas apostas, mesmo que a medida provisória seja derrubada ou sustada pelo ministro Luiz Fux, relator do caso no STF.

A controvérsia religiosa tem dinâmica diferente. Circulou nas redes a informação falsa de que Flávio retiraria de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. O candidato negou a hipótese, e a GloboNews corrigiu a referência a um antigo projeto, apresentado por outro parlamentar e arquivado em 2008. A disputa ganhou novo capítulo com decisões judiciais sobre a remoção de publicações e a liberdade de expressão. No domingo, questionado sobre o boato, Lula disse não saber se a informação era falsa, o que deu à campanha adversária mais um argumento para reagir.

Um levantamento sobre as conversas digitais entre 24 e 26 de setembro encontrou críticas à divulgação do boato em proporção superior à indignação com a suposta ameaça à padroeira. Outro monitoramento, feito num momento anterior da circulação, havia apontado maior pressão sobre Flávio. A pesquisa eleitoral, por enquanto, não demonstra perda expressiva de Flávio nem ganho expressivo do presidente por causa dessa disputa.

Já a crise do STF e o caso Master têm uma força de inércia mais longa. Não dependem de uma única postagem ou declaração: investigações, decisões judiciais e novas revelações podem recolocá-los no centro da campanha a qualquer momento. Flávio explora o desgaste da Corte e tenta associá-lo a Lula; o presidente procura se distanciar dos ministros envolvidos e lembrar as conexões do banqueiro Daniel Vorcaro com o campo adversário. Na Quaest da semana passada, 62% afirmaram que a crise no Supremo não influenciava seu voto.

Disputa pelas bordas

O principal freio a qualquer reviravolta está na consolidação dos votos. Na Nexus, 87% dos entrevistados que escolheram um candidato disse ter a decisão tomada, ante 84% na semana passada. Entre os eleitores de Lula, são 92%; entre os de Flávio, 91%. Apenas 2% não indicaram um nome no primeiro turno, embora 12% dos que escolheram alguém admitam mudar. Mas dificilmente converterão, em grande número, apoiadores convictos de um polo ao outro.

Os dados estatísticos mais relevantes estão nas demais candidaturas. Na Quaest, Augusto Cury caiu numericamente de 6% para 4%, Caiado permaneceu com 4%, Renan Santos com 3% e Zema com 1%. Na Nexus, Cury e Caiado têm 5% cada, Renan, 4%, e Zema, 1%. Não se pode atribuir a oscilação de Cury a uma polêmica nem identificar para onde teriam ido seus antigos eleitores. Pode estar começando uma onda de “voto útil”.

Se houver segundo turno entre Lula e Flávio, a disputa central será por corações e mentes desse grupo. Um recorte do Datafolha mostrou que, entre os eleitores somados de Cury, Caiado, Renan e Zema, 43% escolheriam Flávio; 30%, Lula; e 26%, branco, nulo ou nenhum. Essa vantagem ajuda a explicar o empate nas simulações finais, apesar da liderança inicial do presidente.

Até domingo, a tendência mais consistente é a de Lula preservar a dianteira no primeiro turno, com Flávio buscando reduzi-la pelo “voto útil”. A proibição das bets ainda pode render apoio ao presidente; o boato sobre Nossa Senhora de Aparecida perde força, mas provocou um litígio religioso. E o Master continua assombrando o Supremo. As pesquisas revelam forte inércia nos dois polos e uma disputa ainda aberta nas bordas. Lula chega mais bem colocado para vencer a primeira etapa. Flávio mantém condições de equilibrar a segunda. Só falta combinar com o eleitor.

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O DESTINO DO PAÍS VAI ÀS URNAS

Roberto Amaral*, Carta Capital

Em artigo-ensaio recente (“O golpe continuado”), o professor e historiador Lincoln de Abreu Penna estuda como um só fenômeno a tragédia que se abateu sobre nós em 1º de abril de 1964 e que, pelos seus efeitos, todos danosos, chega até nossos dias, justificando as apreensões que medram em setores significativos do pensamento democrático brasileiro.

Lincoln ressalta que o golpe militar “não foi [só] contra um governo constitucional, eleito pelo povo, mas contra o Brasil como nação que aos trancos e barrancos se estruturava para promover o arranco desenvolvimentista conjugado com as Reformas de Base”. Foi tudo isso, mas foi ainda mais: para além dessa tragédia, fez por terra um processo democrático então caracterizado pela crescente ascensão das forças populares e pelo esforço coletivo para dar fim à miséria.

É preciso lembrar e relembrar a herança de 21 anos de uma ditadura luciferina, que não só desterrou as liberdades civis e políticas, não só fechou o Congresso e aviltou o Poder Judiciário, como impôs o terror, tanto o terror cultural a que se referia Alceu Amoroso Lima quanto o terror das prisões, da tortura e dos assassinatos ainda sem conta fechada.

Pois foi defendendo esse legado de barbárie que o bolsonarismo chegou à Presidência da República e, como discípulo de régulos, governou o país e liderou a intentona de janeiro de 2023, mediante a qual, usurpando o mandato do presidente eleito, pretendia retornar ao poder do qual havia sido alijado pela soberania popular.

Independentemente de seus muitos erros e de seus muitos defeitos, ditados pela exorbitância de poderes e, lamentavelmente, pela sua composição atual, o STF desnudou o golpe; não se limitou a identificar os vândalos da Praça dos Três Poderes; indicou e puniu seus agentes, criminosos políticos que atentaram contra o Estado, e reles criminosos comuns. Foi quando esteve à altura dos desafios da história.

Demos, com seu concurso, uma lição ao mundo, ilustrando com coragem como as instituições podem se defender e defender o país.

Pois o bolsonarismo promete anistia para a malta de meliantes que, sob a liderança do capitão e o concurso de meia dúzia ou mais de generais e assemelhados, lançou-se contra as instituições republicanas.

Uma vez mais estamos sob graves riscos de nova fratura democrática e, na sua esteira, ameaça-nos um desastroso retrocesso histórico que promete levar de roldão as conquistas amealhadas pelo esforço nacional nesses 41 anos de vigência da Constituição de 1985. Desta feita, ao contrário de 1964, o mostrengo pode vir das urnas. E, uma vez mais, aponta contra o futuro do país, daquele país desenvolvido e soberano com o qual já chegamos a sonhar.

Ou seja, estamos sujeitos a um golpe de Estado que se pode processar segundo as regras da ordem constitucional, como os regimes fascistas e nazistas (que infestaram a Europa no século passado; alçando-se ao poder pela via eleitoral, logo implantaram longas ditaduras e ameaçaram a humanidade com a Segunda Guerra Mundial. E estão de novo na Itália, com a primeira-ministra Giorgia Meloni, do partido Irmãos da Itália (FdI), e na Alemanha, com o sucesso, em eleições provinciais, do neofascista Alternativa para a Alemanha.

A extrema-direita nativa, destoando de suas matrizes europeias, é, ainda, desavergonhadamente entreguista. Não cora diante do trumpismo; mais do que isso, goza com o sonho de tornar o Brasil mais uma estrela da bandeira norte-americana, um grande protetorado no quintal do imperialismo. E não disfarça. Sem rebuços, um dos Bolsonaro transferiu-se de armas e bagagem para os subúrbios da Casa Branca, onde, áulico dos asseclas de Trump, forceja por conspirar contra os interesses de nosso país.

O bolsonarismo já deu provas concretas de seu desapreço pela democracia. Está bem viva a tentativa de golpe de janeiro de 2023.

O golpe de Estado não requer, necessariamente, a intervenção armada e pode ser operado tanto por dentro do governo (Getúlio Vargas, em 1937, rasgando a Constituição de 1934 e implantando o Estado Novo) quanto mesmo preservando a ordem constitucional. Neste caso, é exemplar o golpe da implantação do parlamentarismo em 1961, preço cobrado pelos militares para permitir a posse de João Goulart em face da renúncia de Jânio Quadros, por seu turno, peça de frustrada tentativa de autogolpe.

Nesta espécie, a história republicana está repleta de exemplos e consagra a expressão “golpe permanente”, como transformação continuada do regime a partir de dentro, iniciada em 1964 e jamais concluída, trazendo à baila os tempos recentes que vamos considerar a partir do golpe de Estado parlamentar que, sem ferir o rito constitucional, decretou a deposição da presidente Dilma Rousseff, abrindo espaço para a passagem de Michel Temer, eficiente na desconstrução do programa de governo que havia sido consagrado pela soberania popular no pleito de 2014.

Igual consideração se aplica ao golpe do Judiciário, reunindo em uma mesma peça um desonesto juiz de piso e o STF. Refiro-me aos crimes da Lava Jato, à decretação da prisão e da inelegibilidade de Lula, palmilhando o caminho da eleição do chefe da súcia bolsonarista, com as consequências conhecidas: seu governo e, hoje, a possibilidade de um desastre democrático no pleito do próximo domingo.

Outro golpe, levado a cabo nas duas últimas legislaturas, é a usurpação, pelo Congresso reacionário e tacanho, de poderes do Executivo, reduzindo sensivelmente sua capacidade de investimento ao pulverizar, através de emendas orçamentárias, os recursos da União, mediante as emendas impositivas e o “orçamento secreto”, implantado pelo sátrapa alagoano que pode retornar a Brasília com a faixa de senador da República.

Este Congresso, teoricamente a sede da expressão da soberania popular, é desaprovado por 64,4% da população (pesquisa Futura/100% Cidades, divulgada em 24/09/2026), fazendo par com o Judiciário, cuja desaprovação, segundo a mesma pesquisa, chega a 62,6%, sua pior fase de descrédito.

As ameaças à institucionalidade são graves. O novo Congresso, que pode nascer velho, pode ainda, como o atual, exercer o papel de estorvo para a defesa dos interesses sociais e instrumento de instabilidade nacional. O STF pode abastardar-se ainda mais e constituir-se em um antro da reação, com os mais graves riscos para o direito brasileiro e a ordem social. O próximo presidente da república indicará pelo menos quatro novos ministros. Além da vaga não preenchida com a aposentadoria do ministro Luís Roberto Barroso, outras três serão abertas com as aposentadorias compulsórias dos ministros Luiz Fux, Gilmar Mendes e Cármen Lúcia. Isto é quase a metade do Plenário.

Mas não é só, se já não fosse muito. Conforme o andar da carruagem, a essas vagas poderão somar-se outras tantas. E os novos ministros podem tanto ser novos Dino ou novas Cármen Lúcia, quanto novos Mendonça, novos Kassio, novos Fux ou novos Moraes, carregando a tiracolo os escritórios de advocacia de esposas e filhos, alguns acusados de receber do bandido-banqueiro a bondosa prenda de uma mesada de 500 mil reais.

Não é só, portanto, a futura Presidência da República – o que já não seria pouco. Nestas eleições estaremos, igualmente, decidindo que Congresso e que STF queremos.

O bolsonarismo não é apenas a síntese da miséria política brasileira; representa um grande risco para a governança do país em face de suas ligações com o mundo do crime, sejam milicianos da pior extração, sejam bandidos de paletó e gravata, como o banqueiro trambiqueiro posto na cadeia, que financiou o filme sobre o chefe do clã e financia a vilegiatura do Bolsonaro que abandonou o mandato de deputado federal por São Paulo para instalar em Washington a banquinha de lobista contra os interesses nacionais, nessa sórdida tarefa mancomunado, lê-se nos jornais, com um neto de um ex-general presidente.

Nas eleições dos próximos dias seremos chamados a decidir entre a continuidade democrática e o autoritarismo larvar; entre um projeto progressista e a promessa de uma sociedade ultraconservadora; e entre um país soberano e um grande protetorado. Nosso voto dirá se na Presidência teremos um representante dos interesses nacionais ou um incumbente do imperialismo.

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Aos capas-pretas da campanha do presidente Lula – o Brasil possui 28 milhões de jovens entre 16 e 24 anos de idade (IBGE, 2024) e, na mesma faixa etária, 19,2 milhões de eleitores (dados do TSE para as eleições de 2026). Campanha eleitoral — ensinou-me um velho campeão de votos — não se faz olhando pelo retrovisor, mas apontando para a frente. A esquerda, pelo menos ela, posto que está comprometida com a construção do futuro, precisa voltar a despertar esperança. Está na hora de rever o discurso. Mirando o futuro, foi que Juscelino foi eleito e fez o Brasil rejuvenescer. Em 1989, no começo da reviravolta, o hit da campanha de Lula era a volta da esperança.

O andar de cima não tem jeito (1) – a Faria Lima e suas adjacências (nesse rol, o Banco Central e os “especialistas” da grande imprensa) comemoram a perspectiva de queda do crescimento da economia, com a redução do PIB, projetado para 2027 em 1,4% (Banco Central, Relatório de Política Monetária, 24/9/2026), como consequência óbvia dos juros altos. Menos crescimento, menos emprego, menos indústria. E, para não perder o bonde, os jornalões gritam contra o aumento do Bolsa Família, programa que atende a mais de 29 milhões de brasileiros. O Bolsa, como é carinhosamente chamado por seus defensores, reduziu a pobreza em 15%, a extrema pobreza em 25% e diminuiu o índice de Gini em 1,5%. Retirou da pobreza 3,2 milhões de brasileiros e 3,4 milhões da extrema pobreza (dados do IPEA). Destinado a famílias de baixa renda, o benefício não é entesourado, nem vira poupança. Ao contrário dos ganhos de capital, não vai para a ciranda financeira. Para além de seu caráter como benefício social, alimenta a economia, pois é imediatamente consumido em alimento, vestuário, transporte e comércio local. Resulta em transferência direta de renda. A classe dominante, porém (escravocrata hoje como ontem), faz-lhe cara feia.

O andar de cima não tem jeito (2) — Outra fonte dos reclamos da classe dominante é o Benefício de Prestação Continuada, acusado de pressionar a dívida pública (O Globo, 25/09, p. 22). Criado pela Constituição de 1988, o BPC é um dos principais programas sociais do país: paga um salário-mínimo a pessoas com deficiência e a idosos maiores de 65 anos com renda domiciliar ou pessoal de um quarto do salário-mínimo, ou seja, R$ 405,25! A Faria Lima e seus boletins (Estadão, Folha e Globo) não gostam desse programa, como não aceitam o reajuste do SM com base na inflação. Gostam mesmo é dos juros que fazem o capital render sem precisar investir na economia.

Os mesmos jornalões fizeram campanha contra o 13º salário. Em 1962, repetindo seus “especialistas”, à frente Eugênio Gudin (Globo) e Gustavo Corção (Diário de Notícias), anunciavam que o país iria falir, as empresas quebrariam e o “falso benefício” produziria desemprego. O que a história registrou, ao contrário, foi o aumento do poder aquisitivo de parcela significativa da população. Será que, hoje, a Associação Comercial concordaria com a supressão desse abono? É a velha visão de classe do andar de cima.

Os jornalões, porém, pouco cuidam das reais sangrias do Erário. Quanto custou e ainda custará ao contribuinte a esbórnia do Master, não apenas do ponto de vista econômico e financeiro, mas também político e institucional? Trata-se do maior escândalo financeiro já registrado no país e, certamente, do que mais envolveu os intestinos da República. O Congresso, andando com o rabo entre as pernas, não cogita, por justas razões, de uma CPI que investigue até a última víscera o sistema financeiro, esse polvo corrupto e corruptor que chegou à intimidade do STF e constitui um dos fatores da grave crise institucional que ameaça nossa sempre frágil estabilidade democrática.

Se afinal tivermos uma investigação séria, sua lupa deverá alcançar a CVM e o BC, que precisam explicar sua omissão diante das explícitas falcatruas de Vorcaro e seus asseclas. Onde estava a Diretoria de Fiscalização do BC diante de um banco de segunda linha que pagava aos fundos dividendos muito acima da média do mercado? Enquanto o BC permanece afônico, o MP-SP e a Polícia Federal (Operação Carbono Oculto) desvendam mais uma arquitetura de lavagem e ocultação de dinheiro, com o envolvimento, uma vez mais, da arapuca chamada Banco Genial. Segundo as investigações, seu objetivo é ocultar dinheiro do crime organizado para financiar a expansão do grupo financeiro que controla o banco. A matéria está no Valor (25/09), que ouviu ou tentou ouvir todos os suspeitos, mas não teve tempo de pedir explicações à reumática Diretoria de Fiscalização do BC.

O andar de cima não tem jeito (3) — Apesar de tudo — incluídos os desmandos da pandemia, a intentona de 8 de janeiro e a conspiração desabrida contra a economia nacional —, o patriciado brasileiro ainda dá mostras de considerar difícil a escolha do próximo dia 4, e sonha com uma "terceira via" que não consegue construir.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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DIAS FINAIS

Merval Pereira, O Globo

O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos na guerra religiosa, que nunca foi parte das campanhas políticas.

Os últimos dias de campanha trazem novas discussões, mais debates estéreis, mas nada de propostas para o futuro do país. Discute-se se o voto útil funcionará para evitar um segundo turno — parece improvável — ou se Nossa Senhora Aparecida deixará de ser a padroeira do Brasil. Perde-se tempo numa guerra religiosa que não deveria nem ser cogitada, quanto mais disputada. O maior perigo que corremos, como nação laica, é cairmos nesse tipo de embate, que nunca foi parte das campanhas políticas, a não ser em casos pontuais e não institucionais.

O país é laico, mas não é imune a mentiras grosseiras. Por isso, o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), não deveria ter se intrometido, à custa de um desvio jurídico, para, a pretexto de defender a liberdade de expressão, defender, na verdade, a difusão de notícias falsas. Um ministro do Supremo interferir em decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) é sinal claro de que a disputa pelo poder está aberta. Quantas notícias menos prejudiciais como essa foram retiradas do ar pelo famoso inquérito das fake news nos últimos sete anos?

A exibição do lado eleitoral das decisões dos ministros dos tribunais superiores era suposta, mas não tão explícita como agora. E tem deixado a sociedade descrente da Justiça. Pior ainda, transforma as decisões monocráticas dos ministros do STF em parte da campanha. A cada decisão do ministro tal, o outro lado espera resposta do ministro qual, a ponto de o STF ter passado a fazer parte da campanha, com dois grupos se digladiando em público.

A disputa da eleição presidencial está e será acirradíssima. Tudo indica que movimentações internas nas pesquisas mostram avanços de Lula, mas em alguns setores ele perde, e Flávio avança. No final das contas, fica tudo empatado.

O debate da Globo poderá ser definitivo. Flávio já disse que vai e desafiou Lula, ainda em dúvida. A eleição está muito apertada para ele abrir mão da possibilidade de exposição no horário nobre da Globo. Ficará mal para ele se não for. Será uma admissão de fraqueza, e o debate pode definir o empate do segundo turno. Tudo indica que ele está achando um absurdo ter de disputar e debater com Flávio. Está surpreso com a pontuação dele nas pesquisas. Isso abala muito quem tem uma vida política exitosa e não entende por que não está com posição mais tranquila do que aparece nas pesquisas.

Lula indiscutivelmente é um dos grandes líderes populares do Brasil. Chega ao final da carreira política, aos 80 anos, desafiado pelo filho do adversário, que não tem nenhuma história política para justificar essa posição. É o fantasma do pai de Flávio que disputa a eleição; não o próprio Flávio. E essa é a diferença. O grupo político petista acha que Lula não deve ir, porque será atacado por todos os lados pelos outros concorrentes, todos potenciais aliados de Flávio no segundo turno. Mas a participação no debate foi decidida pelas regras do TSE, não há como mudá-las.

Além do mais, se a esquerda tem apenas Lula como representante, essa é uma limitação imposta pela própria política eleitoral do PT, que não compreende uma aliança alargada para a centro-direita. Só quando subordinada ao petismo. Por isso a propalada união nacional proposta na eleição de 2022 por Lula não se realizou. A direita, em contrapartida, deu um exemplo de unidade em São Paulo, com a retirada da candidatura do ex-ministro bolsonarista Ricardo Salles ao Senado, para possibilitar que as duas vagas em disputa sejam ocupadas por seus candidatos.

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ELEITOR VAI ÀS URNAS ENQUANTO TRÊS PODERES DERRETEM

Pedro Doria, O Globo

O regime parece ter perdido a capacidade de se regenerar. De se aperfeiçoar

Entre novembro e dezembro de 2022, o pai do senador Flávio Bolsonaro (PL) dedicou boa parte de seu tempo a convencer os comandantes do Exército e da Aeronáutica a dar um golpe militar em seu nome. Não é uma hipótese. É um fato histórico documentado. Foi o que disseram em depoimento à Polícia Federal e ao Supremo o general Marco Antônio Freire Gomes, que estava no topo da hierarquia do Exército, e o brigadeiro Carlos de Almeida Baptista Junior, seu par na Força Aérea. Baptista Junior é autor do livro “Eu disse não”, que conta justamente os detalhes daqueles dias, publicado neste mês pela Autêntica. E, no entanto, quando a pesquisa Meio/Ideia perguntou aos brasileiros em março sobre o tema, 39% disseram acreditar que o golpe fora tentado por Jair Bolsonaro; 54% falaram que não acreditam. Foi a última vez em que uma pesquisa nacional tratou do tema. Nesta semana, à medida que entramos na reta final do primeiro turno destas eleições, as pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) no que, essencialmente, é um empate com Flávio. Pode dar qualquer coisa.

Muitos de nós, da imprensa profissional, temos recebido cobranças. No fundo, elas vêm principalmente numa só toada: não damos peso correto às responsabilidades de um lado e do outro nas ameaças à democracia brasileira. Pela massa de um noticiário cravejado de denúncias de toda sorte, fazemos parecer que é tudo igual. Que não há diferença entre os dois candidatos. Que, de certa forma, temos responsabilidade pelo problema de desconhecimento dos brasileiros.

A vida do brasileiro que está na batalha de acordar na madrugada e voltar para casa de noite é difícil. De escândalos em curso, há três: do INSS, do lobby do filho do presidente e do Banco Master. Cada um tem seu tamanho, e os tamanhos são muito distintos. O maior, do Master, é particularmente complexo. Há pelo menos três ministros do Supremo envolvidos, cada um da seu jeito. O dinheiro do banco tocou os presidentes do Senado e da Câmara, o senador e candidato Flávio, inúmeros outros parlamentares, o líder do governo no Senado, governadores. Cada um tem sua história particular. Para uns, as evidências são indiretas. Os valores vão de um punhado às muitas centenas de milhões. Há também as cortesias. De uma garrafa de uísque à farta distribuição da bebida, festas com mulheres bonitas, orgias sexuais, empréstimo de aviões.

Cada uma dessas histórias foi devidamente contada pela imprensa. Em detalhes. Em muito mais de uma reportagem, em todos os grandes veículos. Depois, são recontadas também no YouTube e em redes sociais. Muitas vezes, a recontagem se dá com viés. Não apenas os fatos, somente os fatos, mas aquele jeito com um encaixe: “Não tem como comparar um lado com o outro”. Ambos os lados dizem isso num tom convicto de que não há mesmo.

Acesso a mais informação não é o mesmo que ter boa informação que nos permita avaliar. Então quem escolhe sua versão? Para o eleitor com poucos minutos por dia, a seleção é do algoritmo das redes. E o algoritmo tende a oferecer a versão que, sabe, lhe agradará. Confirmará as impressões gerais que já tem. E, nesse tiroteio, não faltarão ministros do Supremo de seu time fazendo o que todos sabem ser certo e os do time oposto cometendo absurdos. Que ninguém se iluda: no Brasil de hoje, quase todo ministro do STF tem partido.

Votaremos no próximo domingo de acordo com nossas convicções. Para quem está realmente preocupado com a democracia, não custa lembrar. Neste momento, o brasileiro assiste ao derretimento dos três Poderes. Cada eleitor escolherá o lado que considera menos pior, mas a impressão geral não muda. O regime parece ter perdido a capacidade de se regenerar. De se aperfeiçoar. Está derretendo.

A cada atalho tomado, a cada cartada matadora num eterno jogo de truco, a espiral acelera para baixo. Todos os golpes que sofremos na História do Brasil nasceram de momentos como este. Em que os agentes do poder atuam sempre no limite de suas prerrogativas em pequenas rupturas crescentes e acumuladas das regras sobre as quais todos concordavam. Como num redemoinho, tentar nadar contra só cansa e empurra mais pra baixo.

Sim, um dos candidatos líderes representa o golpismo. Mas estamos novamente aqui, pela terceira eleição seguida, não porque não se tenha gritado o suficiente que há um lobo na sala. Estamos aqui porque, coletivamente, os agentes do poder constroem as condições para o lobo se refestelar.

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