sábado, 16 de maio de 2026

AS FRAGILIDADES DE FLÁVIO BOLSONARO

Juliana Diniz, O Povo

Flávio é visto com desconfiança, não só por sua tentativa de parecer menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A revelação sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de Michelle

A divulgação do áudio com a voz do pré-candidato Flávio Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro foi o fato político mais importante da semana, não só pelo conteúdo das mensagens em si, mas pelos desdobramentos após a notícia ser veiculada. As manifestações constrangidas ou forçosamente indignadas dos aliados são reveladoras de um aspecto evidente da candidatura: sua fragilidade.

Embora Flávio Bolsonaro seja um candidato muito competitivo, sobretudo em razão do nome que carrega, a conjuntura que o ungiu é um campo minado: a direita conservadora nunca esteve tão fragmentada, e as reações ao áudio o demonstra bem. Romeu Zema afirmou que o áudio é um "tapa na cara do Brasil", dizendo ainda que é "preciso ter credibilidade para mudar o Brasil". Ronaldo Caiado, outro presidenciável, cobrou um posicionamento, dizendo que Flávio Bolsonaro deve explicações sobre as mensagens.

A rapidez das reações e o tom indignado mostram que o senso de oportunismo falou mais alto do que o cálculo dos custos de se bater de frente com a família. No passado, a simples ideia de ser considerado infiel pelo núcleo duro de Jair Bolsonaro suscitava o medo de políticos de direita cuja sobrevivência dependia do capital político angariado pelo bolsonarismo raiz. Essa dependência, hoje, parece mais tênue.

As causas são várias e convergentes. Existe uma disputa aberta pelo protagonismo e liderança dentro do campo. Flávio e Michelle Bolsonaro parecem traçar projetos distintos. A ex-primeira-dama resiste a ceder espaço, justamente por perceber a importância do seu nome, em termos eleitorais, para o êxito de qualquer candidatura à direita. Depois da prisão de Jair Bolsonaro, foi Michelle, e não um dos filhos, que personificou, no imaginário do eleitor bolsonarista, a identidade leal aos valores do grupo. Flávio, em contrapartida, é visto com desconfiança, não só por sua tentativa de parecer menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A revelação sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de Michelle. Para ela, chegou como um golpe de sorte.

Embora o desempenho da pré-candidatura bolsonarista tenha empolgado os seus articuladores e despertado o temor de uma virada em favor da direita, ainda há muita instabilidade no cenário. Longos meses nos afastam da eleição e, num cenário de polarização cristalizada, os resultados são tão imprevisíveis quanto cambiantes.

Não é possível afirmar que a revelação da semana tenha comprometido de forma definitiva a viabilidade de Flávio Bolsonaro, mas certamente deve evidenciar o quão frágil é a posição do filho do ex-presidente e, por consequência, de todos os aliados que vão para o tudo ou nada nesta eleição de recall. 

*Professora de Direito na UFCE.

Bookmark and Share

SEM MEIA CONVERSA ENTRE FLÁVIO BOLSONARO E VORCARO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

No que Vorcaro investia ao investir no filme sobre Bolsonaro?

Caso revela um senador da República que subordina o mandato a um acordo obscuro entre privados

“Flávio diz dinheiro privado, mas verba do Master vinha de operações do banco com dinheiro público”

Flávio Bolsonaro primeiro disse que era mentira, confrontado com a informação verídica de que pedira – e levara – dinheiros de Daniel Vorcaro para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro. Depois, ante a exposição de suas mensagens, teve de admitir a verdade; isso após seis meses de omissões e mentiras sobre suas relações com o miliciano comprador de burocratas e autoridades. Comportamento idêntico ao de Dias Toffoli: o ministro que, tendo sido sócio da rede vorcárica no tal hotel, ocultou a sociedade e permaneceu como relator do caso no STF.

A bateção bolsonarista de cabeças foi intensa e pública, até que Flávio plantasse a versão que ora prospera – a do “contrato de confidencialidade”. Não podia falar a respeito do lance porque impedido formalmente, o que o levaria a mentir, faz dois meses, declarando-se “sem nenhum contato pessoal” com o banqueiro. Um senador da República que subordina o contrato com a democracia representativa, o mandato, a um acordo entre privados que produzira o pagamento de cerca de US$ 10 milhões – por meio de empresa laranja metida com PCC e máfia italiana – a um fundo nos EUA gerido pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.

Operação que deixaria de ser fedida – sob a suspeita de que haveria sobras de caixa – com a apresentação dos registros formais do fluxo de remessas-entradas da bufunfa toda, totalmente transferida à produtora do filme.

Nunca se tratou de filho pedindo dinheiro para produção sobre o pai. Experimentasse você pedir dinheiro a Vorcaro para bancar homenagem a papai. Era um senador da República, filho de ex-presidente e cotado como candidato à Presidência, alguém influente sobre essa escolha; alguém a ser agradado. Vide Ciro Nogueira, de oposição também, cujo mandato foi, segundo a PF, instrumentalizado a serviço de interesses vorcáricos.

Estamos ante uma questão ainda – ainda – de natureza político-comunicacional, sob a qual a pergunta decisiva permanece a mesma. O que Vorcaro contratava, ao contratar o escritório de advocacia? O que comprava, ao comprar parte do resort?

Pode Flávio fazer essas perguntas? No que Vorcaro investia, ao investir no filme?

Existe o padrão vorcárico de estabelecimento de relações. Inexiste a hipótese de que alguém acreditasse – em novembro de 2025, à véspera da prisão do cara – em que o dinheiro “privado” de Vorcaro fosse limpo, proveniente que era de traficâncias com fundos de pensão e da venda de créditos fraudulentos.

Flávio fala como se suas conversas com o sujeito fossem restritas a dezembro de 2024. Começaram em dezembro de 24; se intensificaram em 2025, à medida que a situação do Master se degradava, chegando àqueles termos íntimos (“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a gente.”) depois de as investigações sobre o banco se tornarem públicas, o que ocorrera entre agosto e setembro de 25.

Naquele momento, o senador da República deveria ter feito cessar o contrato-contato e revelado a existência do acordo e as razões por que o encerrava. Prevaleceu o homem de negócios.

Bookmark and Share

A GARGALHADA DE FLÁVIO BOLSONARO ELEVA A MENTIRA A UM NOVO PATAMAR DE CINISMO

Thaís Oyama, O Globo

A mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade

A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da política — evidentemente, não por engrandecê-la.

— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.

Nas imagens, à disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.

— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.

Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos antes:

— O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado para um filme privado sobre a história do próprio pai — disse, agora consternado e cândido.

A negativa de Flávio, e sua gargalhada cenográfica, levaram a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece importar cada vez menos no Brasil.

Na reunião de emergência com sua equipe de campanha após o episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada mais aparecerá contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61 milhões que recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia de Jair Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up, dizem os responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar num fundo nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu pedir dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que o desembolso era para isso mesmo.

Diante de tantos e escrachados descalabros, a candidatura de Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia é reavaliá-la na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles à possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto.

Sobre o primeiro, um político próximo diz que Jair não tem “condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a mulher candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um critério único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz de levar mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem a R$ 1 bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio apenas se a hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um elemento radioativo em vez de puxador de bancada.

Na mesma linha, especialistas em pesquisas de opinião avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos não mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma parcela do voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema, Ronaldo Caiado ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a engolir o que Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as contas por vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a mentira não triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que ele sabe disso.

Bookmark and Share

FURACÃO QUE VARREU FIGURAS DA DIREITA INFLUENCIARÁ PESQUISAS

Flávia Oliveira, O Globo

Levantamentos recentes dão pistas sobre o interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master

É certo que o furacão que varreu figuras da direita brasileira neste maio influenciará a posição do eleitorado em consultas vindouras sobre o pleito de outubro. Afinal, não é todo dia que um mandachuva do Centrão é alvo de operação da Polícia Federal, por suspeita de pôr o mandato de senador a serviço do protagonista da maior fraude bancária da História. Tampouco é sempre que um senador içado pelo pai a presidenciável é descoberto em relações financeiras e amistosas com o mesmo ex-banqueiro. Nem que um ex-governador tornado inelegível por fraudar o processo eleitoral sofre busca e apreensão por favorecimento ao maior sonegador de impostos da República.

Está por vir a safra de pesquisas pós-revelações do envolvimento de Ciro Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil de Jair Bolsonaro, e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, preso desde março; e de Cláudio Castro com Ricardo Magro, dono da Refit, ora incluído na lista vermelha da Interpol. Mas levantamentos recentes dão pistas sobre o interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master. Na pesquisa Quaest de março, 38% do eleitorado declarou que evitaria votar em candidato envolvido no caso; 29% levariam as investigações em consideração. Nada menos que dois terços dos brasileiros relacionam o tema à corrida político-eleitoral deste ano.

Na consulta divulgada nesta semana — antes de o áudio e as mensagens de Flávio e o contrato de Eduardo Bolsonaro com a produção do filme biográfico sobre o ex-presidente, pai deles, tornarem-se públicos pelas reportagens do Intercept Brasil —, a Quaest informou que 46% dos brasileiros acreditam que o escândalo afeta negativamente dos governos Bolsonaro e Lula ao Congresso, do STF ao Banco Central. Dois meses atrás, a proporção estava em 40%.

Felipe Nunes, diretor da empresa de pesquisa, antevê três eixos de impacto político dos episódios. Uma hipótese, diz, é consolidar a percepção de escândalo sistêmico, de responsabilidade coletiva, difusa. É cenário que tanto pode beneficiar um outsider, movido pela antipolítica, o famoso “candidato contra tudo que está aí”, quanto fermentar o desalento, multiplicando a proporção dos votos brancos e nulos, além da abstenção.

— Por outro lado, se a percepção do eleitor mudar na direção do bolsonarismo, quem pode se beneficiar é o presidente da República — diz Nunes.

Na pesquisa da semana, a Quaest já detectara recuperação de popularidade e de intenções de voto no pré-candidato à reeleição, na esteira do lançamento do Novo Desenrola Brasil e da reunião de três horas com Donald Trump, na Casa Branca.

Pré-candidatos da direita acenaram, de imediato, à base bolsonarista. O mais ferino foi Romeu Zema (Novo-MG), ex-governador de Minas Gerais, que chamou de imperdoável o áudio de Flávio cobrando repasses de Vorcaro. Foi atacado sem piedade até por correligionários. Cauteloso, o ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) se apresentou como alternativa ao herdeiro de Bolsonaro, sob o manto do antipetismo. Renan Santos (Missão-SP), fundador do MBL, é a encarnação do antissistema.

A corrupção desde março aparece como o segundo maior problema do país na pesquisa Quaest, com 18%. Mas, entre eleitores autodeclarados de direita, bolsonaristas ou não, ambos com 34%, está no topo. É cenário capaz de movimentar as intenções de voto, na medida em que integrantes da família Bolsonaro e nomes relevantes da base de apoio estejam envolvidos com as fraudes do Banco Master, que avançou até sobre os fundos de pensão de servidores dos estados do Rio de Janeiro, do Amapá, além de fundações municipais.

A violência é a principal preocupação dos brasileiros (31%). Lidera também entre lulistas (36%) e não lulistas (29%), bem como no eleitorado independente (31%), tido como fiel da balança no pleito, até aqui novamente polarizado entre Lula e a família Bolsonaro. O governo lançou um programa de enfrentamento ao crime organizado nesta semana. Lula prometeu combate ao tráfico de armas, asfixia financeira das facções, integração com estados, cooperação internacional. Prometeu criar o Ministério da Segurança Pública, se o Congresso aprovar a PEC da Segurança, empacada há meses.

Mas não necessariamente a preocupação que brasileiros expressam com violência se relaciona ao crime organizado. O Fórum Brasileiro de Segurança Pública encomendou ao Datafolha uma pesquisa sobre medo do crime. De 13 episódios de violência enumerados, em 11 mais de metade dos entrevistados manifestou temor. A lista contém de golpe financeiro por internet e celular (83,2%) a roubo a mão armada (82,3%); de ser vítima de bala perdida (77,5%) a ter a casa invadida ou arrombada (76,1%); de ser vítima de agressão sexual (66,2%) a ser agredido por preferência política ou ideológica (59,6%).

Ao todo, 96% dos brasileiros manifestaram algum medo; quatro em dez sofreram alguma violência. As respostas carregam assimetrias de gênero, raça e classe. Entre as mulheres, é maior o medo de violência por companheiros ou ex, consistente com a escalada de violência doméstica e dos feminicídios, e de circular nas ruas após o anoitecer. Ricos temem perder patrimônio; pobres e pretos, a vida. Cerca de 40% vivem em áreas dominadas por grupos armados; 13% já tiveram familiar ou conhecido assassinado. Compreender o que os brasileiros temem é essencial ao debate político-eleitoral de 2026, sob o risco de as receitas dos candidatos produzirem, em vez de esperança, mais desconfiança e desalento.

Bookmark and Share

O CREPÚSCULO DOS PREFIXOS

Eduardo Affonso, O Globo

Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem escalas, à ultradireita

Há dois prefixos de origem latina que, depois de séculos de excelentes serviços prestados ao idioma, encaram um fim melancólico.

Ultra era, na juventude, um exagerado, um extremista. Onde quer que se encostasse, passava do limite. Se “super” indicava algo acima do normal (vide supermercado, superlativo) e “hiper” levava tudo a um nível ainda mais elevado ou mais intenso (hipermercado, hipertensão), “ultra” era outro patamar — ao infinito e além (tanto que nunca existiram ultramercado nem ultratireoidismo).

A radiação com energia superior à da luz visível era a ultravioleta. As ondas sonoras com frequências superiores ao limite de audição humana eram o ultrassom. Enquanto o Super-Homem beirava 1,90 metro e, talvez, 100 quilos, o Ultraman tinha 40 metros de altura e 30 mil toneladas.

Ultra excedia o que quer que fosse. Tente pensar na distância que há entre secreto (aquele seu caso extraconjugal) e ultrassecreto (a cartela de vacinação do presidente antivax, a agenda da primeira-dama).

As definições de ultra nos dicionários, entretanto, estão ultrapassadas. Agora basta acreditar na biologia, seguir as regras gramaticais ou ficar com um pé atrás em relação a uma novidade e você é ultraconservador. Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem escalas, à ultradireita. E não é preciso se exceder: um reles questionamento já é considerado um ultraje. Se bobear, nec plus ultra não será mais o ápice de nada, só algo mediano — e olhe lá.

O mesmo aconteceu com trans. Desde uns 700 a.C. o prefixo significa “além de”, “através de”, “do outro lado”. A Gália além dos Alpes era a Gália Transalpina (a “do lado de cá”, do ponto de vista dos romanos, era a Cisalpina). Daí serem transexuais os que estavam “do lado de lá” de um sexo e cruzaram a fronteira.

Isso até resolverem que “mulher trans é mulher”. O que, convenhamos, é um oximoro: exceto na superposição quântica, não se pode estar lá e cá simultaneamente. Trans é quem nasceu com um sexo e fez uma transição (não necessariamente cirúrgica) para o sexo oposto. Mulheres trans têm, sem dúvida, os mesmos direitos das mulheres — mas, se fossem mulheres, não precisariam do prefixo que traduz mudança, travessia.

Ele serve para os transatlânticos — que, por um desses mistérios insondáveis, também cruzam o Pacífico, o Índico etc. Para a Transamazônica, aquele atoleiro que insiste em impedir que se atravesse a Amazônia. O próprio verbo transportar indica que se leva alguma coisa de um lugar a outro. E, se mulher trans é mulher, então não existe transfobia, só misoginia.

Tá legal, eu aceito o argumento de que a língua é dinâmica, mas um pouco de ortodoxia na semântica vai bem. Ou de agora em diante trânsfuga não precisa mudar de lado, transeunte pode estar parado, a transformação deixa igual e “transgênico é orgânico” pode vir a ser o novo mote do agro.

Se a tendência não for revertida a tempo, é provável que os Estados Unidos, ao ganharem sua primeira Copa do Mundo, neste ano, já se possam declarar pentacampeões, empatando conosco. E daqui a pouco os prefixos aparecerão no final das palavras. Como não reclamamos quando rebaixaram o ultra e neutralizaram o trans, ninguém poderá dizer nada.

Bookmark and Share

UM MUNDO SEM ROTEIRO

Fabio Gallo, O Estado de S. Paulo

Empresas antes eram premiadas por eficiência, agora os troféus são pela resiliência

Resiliência, porém, custa caro por obrigar a manter estoques altos, operar com fornecedores redundantes, fábricas duplicadas, ter excesso de liquidez, gastar com hedge e ter cadeias mais curtas

Nas últimas décadas, as empresas aprenderam a tomar decisões em um mundo muito competitivo, mas com um script relativamente previsível. Tínhamos globalização crescente, capital barato, cadeias eficientes, tecnologia avançando, porém de forma incremental.

O problema do mundo atual não é apenas o risco, mas agora é preciso decidir em um mundo imprevisível – acima do que poderíamos admitir como normalidade. E o custo da incerteza não aparece no balanço como despesa operacional. Mas está em toda parte: investimentos adiados, contratações suspensas, caixa parado e decisões que nunca saem do PowerPoint.

O capitalismo sempre conviveu e calculava o risco de suas decisões. Mas saímos de uma situação de risco mensurável para uma ambiguidade permanente. Mesmo sendo algo sensível, vale olhar alguns dados para que essas afirmações não pareçam desprovidas de realidade factual.

O Economic Policy Uncertainty Index Global (EPU) em 2025 atingiu um dos maiores níveis da história. Este indicador mede frequência de notícias relacionadas simultaneamente a economia, política e incerteza em mais de 20 países e centenas de jornais, referência para o Fed, FMI e Banco

Central Europeu. O EPU em ambiente de normalidade econômica fica no nível de 100, na crise de 2008 estava em torno de 200, na pandemia foi a 450 e em 2025 atingiu o índice 350.

O índice atual, além de estar mais de três vezes acima da média histórica, permanece elevado por período muito mais longo que choques anteriores. Isso mostra que a incerteza se mostra estrutural. Quanto maior o índice, maior são os impactos negativos. Índice maior, menor o nível de investimentos, maior o volume de caixa preservado, maior o prêmio de risco e menor o crescimento.

Outros dados são encontrados no relatório “The Cost of Policy Uncertainty on Investment” da Câmara de Comércio Internacional (ICC), que informa que a incerteza política/econômica retirou cerca de US$ 202 bilhões em investimentos corporativos globais em 2025. Em um cenário de agravamento, as perdas podem atingir US$ 380 bilhões em 2026.

Segundo Oxford Economics, a incerteza reduziu o crescimento global esperado em cerca de 0,4 ponto porcentual. O problema da incerteza não é apenas destruir riqueza, mas impedir que ela seja criada. Se antes as empresas eram premiadas por eficiência, agora o são por resiliência. Resiliência, porém, custa caro porque as obriga a manter estoques altos, operar com fornecedores redundantes, fábricas duplicadas, manter excesso de liquidez, gastar com hedge e ter cadeias mais curtas. O custo do mundo sem roteiro talvez não esteja só nas crises já vividas – mas no futuro que deixa de ser construído.

Bookmark and Share

CHINA, EUA E BRASIL

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Trump e Xi Jinping conversam em Pequim. O dólar nunca esteve tão baixo. O ouro conseguiu extraordinária valorização nos mercados globais. E as consequências são percebidas no interior da Amazônia, com o garimpo ilegal

Donald Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, e os brasileiros tentam antecipar o que será combinado entre os dois grandes da economia mundial. Juntos, eles significam 40% do comércio internacional. Desde Barack Obama, o governo dos Estados Unidos age no sentido de conter o veloz desenvolvimento econômico dos chineses. Na era Trump, os norte-americanos aumentaram muito suas tarifas específicas para produtos daquele país. Pequim respondeu na mesma medida. Também elevou tarifas. 

Porém, Pequim fez mais: começou a vender seus títulos do tesouro norte-americano. Os chineses chegaram a deter cerca de US$ 1trilhão investidos naquele título. Hoje, possuem cerca de US$ 700 bilhões naquele papel. Uma das consequências desse movimento de xadrez financeiro foi a queda do valor do dólar em todo mundo. O dólar nunca esteve tão baixo. Os chineses inundaram o mercado com os títulos do Tesouro norte-americano e começaram a utilizar sua moeda, o renminbi, em seus negócios internacionais. Foi outro violento ataque ao dólar.

No sentido inverso, o ouro  conseguiu extraordinária valorização. Os bancos centrais de diversos países perceberam a queda do valor do dólar. Passaram a fazer reservas em ouro. A consequência no Brasil foi curiosa: explodiu o comércio do ouro por toda a Amazônia. A Polícia Federal (PF) e o Exército não conseguem controlar a lavra e a pesquisa do vil metal.  Os números são eloquentes: a medida do ouro é chamada de onça troy, que equivale a 32g do metal. Seu preço hoje está na faixa de   US$ 4.600 a US$ 4.800, o que, com o dólar em torno de R$ 5, resulta em R$ 23 a 25 mil. Trata-se de mercado internacional. O metal tem esse valor em Itaituba, no interior da Amazônia, ou em Amsterdã, na Holanda. 

A evolução do preço do ouro nos últimos anos supera o de qualquer ação na Bolsa de Valores. Em 2021, era de US$ 1.829. Hoje, passou de US$ 4.800, com forte aceleração nos últimos dois anos. Valorização de 170% em cinco anos. Ótimo negócio. Em termos práticos, quem comprou ouro em 2020 praticamente dobrou o capital em dólares. 

A estimativa da Agência Nacional de Mineração (ANM) é de que saem do país, sem pagar imposto, 15 a 20 toneladas de ouro por ano, com valor aproximado de R$ 5,5 bilhões/ano. Grande parte não aparece como contrabando clássico, mas é esquentado com documentos falsos. É mercado bilionário, comparável a outros grandes crimes econômicos no Brasil. Os compradores do ouro brasileiro no exterior são, em geral, atores formais do mercado global, não contrabandistas diretos. 

Na Suíça, funciona o maior centro mundial de refino de ouro. O metal é vendido para bancos, joalherias e investidores. Em Londres, opera o centro financeiro global do ouro, Dubai tornou-se grande hub para ouro de origem africana e sul-americana. Índia, grande consumidor de ouro em joias. China compra ouro para investimento e para indústria. O chinês médio costuma fazer reserva financeira em ouro para se sustentar na idade provecta. Antes era o dólar, agora é o ouro. Além desses, há compradores no Canadá e nos Estados Unidos. 

Tudo começa com o garimpo ilegal, na Amazônia, em terras indígenas, e o posterior esquentamento com documentos falsos. Não existe um comprador criminoso único. O sistema envolve empresas brasileiras, refinarias internacionais e multinacionais. O garimpo, especialmente o ilegal no Brasil, raramente é autônomo. Em muitos casos, há financiadores por trás, que bancam a operação e ficam com a maior parte do lucro. Esses financiadores aparecem em diferentes níveis da cadeia: há empresários e redes logísticas, donos de pistas de pouso clandestinas, aviões, balsas e rotas de transporte. Funcionam como infraestrutura do garimpo. Facções e redes ilegais atuam em várias áreas: controle territorial, segurança armada e lavagem de dinheiro.

O garimpo ilegal no Brasil é financiado por rede econômica estruturada, que inclui investidores locais, empresas de compra de ouro, logística ilegal, crime organizado e demanda internacional. Ou seja: não é uma atividade isolada de trabalhadores pobres. É negócio organizado e altamente lucrativo. O garimpeiro recebe entre R$ 1.500 e R$ 4.000 por mês. A situação típica é trabalho pesado, renda instável e o risco de procurar durante semanas e não achar nada.

A consequência desse comércio é que a densa floresta na Amazônia esconde 2.837 pistas de pouso irregulares — ou seja, não têm cadastro junto à Agência Nacional de Aviação Civil (Anac). Quase 814 delas estão dentro de terras indígenas ou unidades de conservação. São números do Ministério da Defesa. A rede de infraestrutura para pesquisa, lavra e venda do ouro está em crescimento, porque opera junto com o narcotráfico. Trump e Xi Jinping conversam em Pequim, mas as consequências são percebidas no interior da Amazônia.

Bookmark and Share

O RESGATE DA CONFIAÇA

Oscar Vilhena Vieira*, Folha de S. Paulo

Em matéria judicial, não apenas as ações, mas também as aparências importam

Quando o Judiciário deixa de ser percebido como árbitro imparcial, o Estado democrático de Direito ingressa em um processo silencioso de erosão

A autoridade do Poder Judiciário, em uma democracia constitucional, depende da confiança dos cidadãos. Sem a percepção de imparcialidade, independência e integridade dos tribunais, até decisões juridicamente corretas passam a ser vistas como expressões de interesses políticos ou influências privadas. Quando isso ocorre, a própria estabilidade democrática se fragiliza.

Esse entendimento levou democracias contemporâneas a tratar a ética judicial como questão estrutural. Os Princípios de Bangalore, organizados em 2001 sob os auspícios das Nações Unidas, consolidaram a ideia de que a legitimidade do Judiciário depende não apenas da integridade efetiva dos magistrados, mas também da confiança social em sua conduta. Em matéria judicial, portanto, não apenas as ações, mas também as aparências importam.

Os cidadãos tendem a aceitar decisões desfavoráveis quando acreditam que foram produzidas por procedimentos imparciais, baseados na análise objetiva dos fatos e na correta aplicação do direito. Quando essa convicção se deteriora, instala-se um ambiente de insegurança institucional e oportunismo, no qual prevalecem tentativas de capturar o sistema de Justiça para obtenção de benefícios indevidos, por atores corruptos e autoritários, como temos testemunhado no Brasil.

Não por acaso, cortes constitucionais vêm adotando parâmetros mais rigorosos de transparência e autocontenção. Nos Estados Unidos, a necessidade de preservar sua credibilidade institucional levou à adoção de regras éticas pela Suprema Corte. Na Alemanha, o Tribunal Constitucional também adotou código de conduta voltado à proteção da imagem de imparcialidade e da prevalência do interesse institucional sobre conveniências pessoais.

A integridade dos magistrados e a imparcialidade de suas decisões integram a própria ideia de Estado de direito. A sociedade precisa conhecer com clareza hipóteses de impedimento, suspeição e de conflitos de interesses. Relações de amizade íntima, vínculos familiares ou proximidade com atores envolvidos em processos relevantes produzem zonas de desconfiança que corroem a autoridade das cortes.

O adequado comportamento extrajudicial dos magistrados também é essencial. Em uma esfera pública marcada pela polarização política e pela hiperexposição digital, a preservação do distanciamento dos interesses em disputa e a autocontenção tornaram-se essenciais à autoridade da Justiça.

Nesse contexto, regras sobre participação em eventos patrocinados por interessados em litígios, manifestações político-partidárias ou circulação em ambientes potencialmente comprometedores deixaram de ser questões periféricas. Tornaram-se parte central da proteção da autoridade judicial.

A autoridade do Judiciário repousa menos na coerção do que no reconhecimento pelos indivíduos e instituições da correção dos seus procedimentos. Esse reconhecimento depende da crença coletiva de que os tribunais atuam segundo critérios imparciais, transparentes e juridicamente consistentes. Quando o Judiciário deixa de ser percebido como árbitro imparcial e passa a ser visto como ator político ordinário, o Estado democrático de Direito ingressa em um processo silencioso de erosão.

Nesse cenário, a insistência dos ministros Edson Fachin e Luiz Philippe Vieira de Mello Filho na necessidade de adoção de regras mais rígidas de conduta, na ampliação da transparência, no aperfeiçoamento dos mecanismos de controle e na eliminação de privilégios —aqui com a colaboração do ministro Flávio Dino— tem sido fundamental.

O Judiciário brasileiro possui inúmeras outras deficiências —da morosidade aos elevados custos, passando pelo litígio predatório, pela insegurança jurídica e pelas dificuldades de acesso dos mais pobres. Todas essas deficiências demandam reformas amplas e consistentes. Nenhuma delas, porém, prescinde da urgente necessidade de se resgatar a confiança da sociedade na integridade e na imparcialidade da Justiça.

*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)

Bookmark and Share

A RELAÇÃO ÍNTIMA ENTRE OS BOLSONAROS E VORCARO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Filho 01 e empresário trambiqueiro tinham um pacto: 'Estarei contigo sempre'

03 pode ter usado dinheiro sujo do Master para tramar contra o Brasil nos EUA

No fim de abril, com as duas derrotas impostas a Lula no Congresso em menos de 24 horas —rejeição de Jorge Messias ao STF e derrubada do veto ao projeto de lei da dosimetria—, Flávio Bolsonaro subiu nas tamancas. "O governo acabou", disse.

O otimismo não era um reflexo das pesquisas —que apontavam o bolsonarista e o petista tecnicamente empatados no segundo turno—, mas sim de um acordo com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, carregando a certeza de que os fisiológicos do centrão iriam abraçar a candidatura do filho 01. Logo depois, num discurso a empresários de Santa Catarina, Flávio garantiu que ficaria no poder no mínimo por dois mandatos e que, com sua ascensão, a esquerda seria insignificante durante 40 anos.

Não demorou e a tamanca, de péssima qualidade, se desfez no asfalto, ao som de um velho samba de Billy Blanco, "A Banca do Distinto": "A vaidade é assim/ Põe o bobo no alto/ E retira a escada/ Fica por perto esperando sentada/ Mais cedo ou mais tarde/ Ele acaba no chão".

Flávio acreditava que todos eram tontos, menos ele. Há dois meses, quando o seu nome apareceu na agenda de Daniel Vorcaro, ele afirmou que nunca teve contato com o dono do Master, trambiqueiro responsável pelo maior escândalo bancário do país. Aos poucos, porém, a teia de relações íntimas e secretas ganha visibilidade.

O pastor Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro e integrante do grupo que mandava "quebrar os dentes" de desafetos, foi o maior doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Marcelo Lopes, o marqueteiro que trabalha com Flávio, consta como um dos estrategistas do plano de ataques coordenados contra o Banco Central. Vice dos sonhos, o senador Ciro Nogueira está mergulhado na lama até o pescoço.

Pelas conversas reveladas pelo Intercept Brasil, sabe-se que havia um pacto entre o 01 e Vorcaro –"Fala, irmãozão", "Estarei contigo sempre"–, permitindo que a família Bolsonaro se lambuzasse com o dinheiro sujo do empresário. Parte dos R$ 134 milhões pode ter bancado o 03 nos EUA.

Bookmark and Share

A PARTIDARIZAÇÃO DA BACTÉRIA

Cláudio Couto, CartaCapital

Na visão dos bolsonaristas, a Pseudomonas aeruginosa é um micro-organismo de esquerda

Durante os últimos anos, nos acostumamos a testemunhar repetidos factoides criados pela ultradireita, seja o bolsonarismo, sejam outros grupos extremistas, como o MBL. Por vezes tais episódios ocorrem no âmbito de interações humanas diretas, como em provocações e assédios a desafetos ideológicos, sempre registrados em vídeos que possam ser replicados no mundo virtual. Assim, provocadores e assediadores se apresentam como justiceiros em defesa da moralidade pública e vítimas do que seria a intolerância de seus alvos, pegos em armadilhas quando reagem a agressões sofridas. O esculacho no mundo real torna-se lacração no virtual, excitando seguidores, que podem dar vazão a seus instintos mais primitivos.

Noutras ocasiões, os episódios têm lugar somente no mundo virtual pela disseminação de desinformação, tanto na forma de mentiras puras e simples quanto por insinuações e distorção de fatos, apresentados descontextualizadamente ou interpretados de forma descabida, porém conveniente à narrativa extremista. Exemplo disso foi a campanha do ­deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) contra a fiscalização de movimentações do PIX acima de certo valor, medida necessária para combater a lavagem de dinheiro pelo crime organizado. Em vídeo disseminado nas redes, o deputado insinuava que o governo taxaria transferências e bisbilhotaria movimentações financeiras dos cidadãos. O impacto foi tão negativo para o governo Lula que levou o presidente a determinar o cancelamento da medida, decerto agradando ao extremismo de direita e ao crime organizado, que se abraçaram.

O último factoide da ultradireita brasileira foi produzido no contexto de uma fiscalização da Agência Nacional de Vigilância Sanitária sobre a Química Amparo, fabricante dos produtos de limpeza da marca Ypê. Técnicos da agência identificaram que os itens eram fabricados em precárias condições de higiene e lotes de uma série de produtos estariam contaminados pela bactéria Pseudomonas aeruginosa­, micro-organismo muito resistente a antibióticos. Cidadãos com baixa imunidade ou ferimentos poderiam ser vítimas, caso manipulassem produtos contaminados, correndo o risco de infecções que, em alguns casos, poderiam ser graves e até mesmo levar a óbito.

O que seria apenas uma ação técnica rotineira, de um órgão cuja missão inclui justamente identificar tais riscos e tomar as devidas providências, tornou-se um cavalo de batalha ideológico para disseminar teorias da conspiração, segundo as quais a empresa química seria alvo de perseguição política. Como seus controladores apoiaram financeiramente a candidatura presidencial de Jair Bolsonaro em 2022, além de promover assédio eleitoral contra funcionários (acarretando condenação pela Justiça do Trabalho), políticos, influenciadores e mesmo cidadãos comuns de ultradireita iniciaram campanha em defesa da companhia, alegando que a medida da Anvisa seria retaliação do governo Lula contra o bolsonarismo de seus dirigentes. Ao que parece, para bolsonaristas e assemelhados, a Pseudomonas aeruginosa é de esquerda.

Este episódio explicita o modus ­ ­operandi da ultradireita no Brasil e alhures. A lógica do movimento requer a ativação constante de sua base social e a partidarização de tudo que favoreça tal objetivo, promovendo guerras culturais. Por isso, nem sequer bens de consumo escapam à dinâmica e qualquer coisa que pareça passível de ideologização, assim será. Ocorreu com os chinelos Havaianas, com o biscoito Bis e, agora, com os produtos Ypê. A contrapartida, além do pânico moral criado, é promover produtos concorrentes daqueles identificados com a esquerda, punindo as marcas ideologicamente desalinhadas, bem como premiar os identificados com a direita. Não à toa, houve até quem se filmasse bebendo detergente no gargalo.

A construção dessas dinâmicas e teo­rias da conspiração funda-se em afetos, identidades e crenças. A emotividade ideológica, a identificação com um grupo político e os credos prévios levam a aceitar certas narrativas e importam mais que a consideração racional de fatos. Foi assim durante a pandemia com o negacionismo em relação ao perigo do vírus ou às mortes por ele causadas – houve quem acreditasse que caixões eram recheados com pedras e tijolos para simular os óbitos – e com a prescrição do “tratamento precoce”. Portanto, este evento, embora inserido na campanha eleitoral, não se restringe a ela. Integra uma dinâmica constante da ultradireita, inclusive quando no governo, como vimos no quadriênio presidencial bolsonarista. 

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Bookmark and Share

Mr. MAGOO E OS ECONOMISTAS

Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

Ortodoxos ou heterodoxos, os arautos da economia de manual se recusam a enxergar a realidade

Mr. Magoo, personagem de desenho animado nos bons tempos da televisão. Um velhinho bem de vida, teimoso e com deficiência visual, se recusava a usar óculos. Sua péssima visão, causada pela miopia, o colocava sempre em situações perigosas e engraçadas. Onde sempre escapava ileso. Nossos ­Magoos da macroeconomia de manual também se recusam a usar óculos. Sua deficiência não é visual, é uma miopia em relação à realidade e às relações econômicas. A deficiência visual é democrática, essa miopia se estende aos ortodoxos e heterodoxos. Ambos têm seus campos de visão estreitos e dividem a economia, enxergando-a em blocos. O sistema financeiro e o rentismo são vistos como anomalias do sistema, um tumor, uma metástase disfuncional.

E nossos Magoos não conseguem nem querem enxergar a economia como um todo. Combatem a especulação financeira, como uma questão moral. O capital fictício (capital financeiro), nessa visão, não produz nada além de dinheiro. Perguntar não ofende: nas várias atividades econômicas do capitalismo, o objetivo não é ganhar dinheiro? Segmentam o capital em capital produtivo e capital financeiro, mas ambos estão submetidos ao conceito de capital.

No capitalismo, as decisões sobre a posse da riqueza são movidas pelos “espíritos animais” e supõem a especulação permanente sobre o futuro, o que envolve a contínua reavaliação do presente. Tais decisões estão apoiadas no crédito e se baseiam, portanto, num certo “estado de confiança”, isto é, não há fundamentos que possam livrá-las da incerteza e da possibilidade de risco sistêmico. Apoiados em convenções e constrangidos pela concorrência, os detentores de riqueza não podem escapar dos estados de euforia e de apetite pelo risco, que, não raro, culminam na decepção, na crise e na desvalorização da riqueza.

Outra dúvida aos nossos Magoos: aquela pessoa que produz bolo para vender na porta de uma estação de metrô não é especuladora? Quando sai de casa, acredita que vai vender todos os bolos, portanto, especula. Especular está na genética do capitalismo.

Me desculpem os leitores, vamos recorrer a Marx, Keynes e Schumpeter, para tentar curar a miopia de nossos Magoos a respeito do dinheiro.

Recorremos a Karl Marx: “O capital a juros compostos sobre cada uma das partes do capital poupado é tão assombroso que toda a riqueza produtiva de renda que há no mundo converteu-se, há muito tempo, em juros do capital… dinheiro que engendra mais dinheiro, valor que valoriza a si mesmo… para todos os capitalistas ativos, operem eles com capital próprio ou com capital emprestado”.

No capitalismo, as decisões sobre a posse da riqueza supõem a especulação permanente sobre o futuro

Vamos convocar Keynes: “Quando comecei a escrever meu Tratado Sobre a Moeda, eu ainda estava me movendo ao longo das linhas tradicionais, encarando a influência da moeda como algo, por assim dizer, separado da teoria geral da oferta e da demanda. Quando terminei de escrever o livro, tinha feito algum progresso na tentativa de encaminhar a teoria monetária no sentido de se tornar uma teoria da produção como um todo”.

Schumpeter afirma: “Assim sendo, não podemos nos afastar da base monetária do juro. Isso constitui uma prova indireta de que se deve preferir uma segunda interpretação do significado da forma-dinheiro em que o juro nos chega, a saber, de que essa forma-dinheiro não é uma casca, mas o cerne”.

Nos modelos Magoos, não existe dinheiro, só preços, porque o dinheiro atrapalha. Existe renda, mas, pasmem, não é monetária. Separam o mundo em dois blocos, o lado real e o lado monetário da economia. Nosso trio de economistas citados ficaria estarrecido, o lado produtivo não tem dinheiro. O principal objetivo de uma empresa ao investir em máquinas é fabricar produtos como meio de ganhar dinheiro. Nosso produtor de máquinas não é especulador porque não é rentista. Investir é pensar no que vai acontecer daqui para a frente. Isso não é especular?

Na miopia de nossos Magoos, não existe tempo, tudo é automático, racional e causa-efeito, afinal, nesse mundo criado por eles, tudo se equilibra. Talvez essa seja a causa do desprezo que têm pelo mercado futuro e pelos derivativos. Um derivativo ou contrato futuro pode trazer qualquer prazo futuro para o presente.

O jurista português Helder Mourato ensina: o derivativo é uma situação jurídica a prazo (por oposição a situações jurídicas à vista), em que o tempo é elemento essencial do negócio, quer para a determinação do preço, quer para o cumprimento de prestações, quer ainda para a transmissão da titularidade dos ativos.

Trata-se de instrumentos que permitem a chamada alavancagem (ou ­leverage) de preços, uma vez que o investimento inicial necessário para a subscrição do produto financeiro derivado equivale a uma pequena parte do investimento a prazo.

De tal modo que a exposição ao risco é muito superior ao capital inicialmente investido, o que significa que, no fim do prazo, o investidor pode ser presenteado com uma quantia financeira (dinheiro ou ativos) de valor muito superior ao capital investido ou, pelo contrário, ver-se a braços com uma dívida também de valor muito superior ao capital inicialmente investido.

Os swaps de taxa de juro representam atualmente cerca de 80% do volume total dos negócios de swap, mas a verdade é que nem sempre foi assim. Os primeiros swaps foram de divisas: operações financeiras complexas, montadas com o intuito de contornar barreiras nacionais relativas ao câmbio.

Diferente de nosso velhinho do desenho animado, que se nega a usar óculos para enxergar. O derivativo é a expressão máxima do capital fictício (financeiro). Ele permite determinar o preço de qualquer coisa e o prazo a qualquer momento. Impedem que nós, economistas, deixemos de ser magos e continuemos a reproduzir uma macroeconomia obsoleta. Uma visão míope da rea­lidade e da economia!

Em terra de cego quem tem um olho é rei. 

Publicado na edição n° 1413 de CartaCapital, em 20 de maio de 2026.

Bookmark and Share

BRASIL 2070: QUE LEGADO QUEREMOS DEIXAR ?

Marcus Pestana, O TEMPO

Pensar o desenvolvimento nos próximos 45 anos nas eleições 2026

O Brasil, de 1980 a 2025, prisioneiro da armadilha de renda média, viu o PIB per capita global ultrapassar o PIB per capita brasileiro. Em 1980, a riqueza brasileira gerada por nossa economia em um ano, dividida pela população, era de US$ 4.427. Em 2025, foi de US$ 23. 381. Ou seja, teve um crescimento de apenas 428%. Enquanto isso, o PIB per capita global foi de US$ 3.380 para US$ 26.189. Um incremento de 675%. No mesmo período os países que já eram ricos tiveram um crescimento de 625% e os países emergentes avançaram 1.128%.

Esses dados são com dólares comparáveis, calibrados pelos organismos internacionais. Perdemos os quinze anos anteriores ao Plano Real em sucessivas crises cambiais e nos fracassados planos de combate à hiperinflação. Insistimos num modelo fechado de desenvolvimento – que deu certo de 1930 a 1980 – sem entender a globalização que ocorria e usufruir de seus potenciais benefícios. Depois, estabilizamos a economia, controlamos a inflação, começamos as reformas estruturais, privatizamos, modernizamos, tivemos ventos favoráveis no boom das comodities. Mas voltamos a errar. Em 2015, foi a ultrapassagem do indicador mundial em relação ao brasileiro, em plena recessão vivida no Governo Dilma, com a economia brasileira dando marcha ré e colhendo crescimento negativo de 3,5% e 3,3%, em 2015 e 2016.

A polêmica sobre crescer e distribuir não é nova. É famosa a frase do ex-ministro Delfim Neto, em pleno Milagre Brasileiro, quando o Brasil crescia a exuberantes taxas anuais de crescimento, como os 14% de 1973, que ao ser questionado sobre a péssima distribuição de renda, cravou: “Primeiro, é preciso fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”.

A partir da Constituição de 1988, as forças democráticas procuraram combater as desigualdades, dividir o bolo. Hoje, os gastos sociais levam a maior parte do orçamento. No entanto, os investimentos - sementes do crescimento da economia - despencaram. O Novo PAC – conjunto de ações estratégicas para o desenvolvimento – representam apenas 1,1% do Orçamento da União. Não adianta crescer sem dividir, mas também não resolve dividir sem crescer. Continuaremos estagnados e seremos ultrapassados por outros países, como nos últimos 45 anos.

Aproximam-se as eleições presidenciais. Os candidatos deveriam responder à esta questão: qual é o Brasil que queremos em 2070? Qual é o país que queremos entregar aos nossos netos daqui a 45 anos? E não nos perdermos numa discussão polarizada, rasa, radical e de baixa qualidade, eivada de idiossincrasias ideológicas, onde predominem denúncias e acusações mútuas, onde o protagonismo seja do Banco Master e não do projeto nacional de desenvolvimento.

A eleição é uma oportunidade rara de mobilização e debate nacional. Que predomine a discussão profunda sobre a inserção do Brasil num mundo hegemonizado por EUA e China, a revolução educacional inconclusa, o desenvolvimento científico-tecnológico na era da IA e da robótica, as oportunidades oferecidas pelos minerais críticos, a retomada vigorosa dos investimentos em infraestrutura, a melhoria do ambiente de negócios, o aprimoramento do SUS e o combate sem tréguas ao crime organizado.

Podemos escolher o pântano das baixarias ou o debate qualificado sobre cenários de desenvolvimento nacional. A escolha é nossa. Mas o futuro dos nossos netos depende dela.

Bookmark and Share

A INDEFINIÇÃO AINDA PREDOMINA

Murillo de Aragão, Veja

O acaso vai continuar no comando do processo eleitoral

A expectativa sobre o resultado das eleições é uma constante no mundo econômico. Em sucessivos eventos promovidos em torno da premiação do Person of the Year, em Nova York, o tema era as pesquisas eleitorais e as tendências. Todos queriam saber para onde o Brasil irá com o novo presidente. O recente desempenho de Lula surpreendeu alguns em Wall Street, mas não todos. Outros se mostravam decepcionados com as últimas notícias. De fato, nos últimos tempos, parte expressiva dos analistas de mercado começou a considerar a eleição presidencial praticamente decidida em favor de Flávio Bolsonaro. Essa leitura, contudo, padece de um vício recorrente: tenta projetar de forma linear um processo que, por natureza, é descontínuo, contingente e sensível a circunstâncias. Enfim, a campanha ainda está em seu estágio inicial. As eleições serão submetidas aos fatos novos. O vazamento do áudio de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro sobre o filme que conta a história de Jair Bolsonaro, por exemplo, já repercute nas preferências eleitorais e prova a letalidade de certas novidades para os candidatos. O que se observa agora é um instantâneo, construído a partir de pesquisas preliminares, movimentos incipientes de aliança e, sobretudo, expectativas. Ainda não é um filme.

A experiência recente do Brasil recomenda cautela diante de diagnósticos apressados. Em sistemas complexos e com elevada tensão entre poderes, a decisão do eleitor tende a ser moldada mais por eventos do que por tendências consolidadas. Nesse cenário, o conflito institucional entre Executivo, Legislativo e Judiciário não funciona apenas como pano de fundo. Ele interfere diretamente na formação das percepções. A sensação de instabilidade, atrito e imprevisibilidade leva o eleitor médio a ponderar não apenas as propostas, mas a capacidade de governar e de pacificar o país que cada candidato é capaz de demonstrar.

“Vazamentos, investigações e delações reconfiguram o tabuleiro em poucos dias”

Soma-se a isso o fato de que as eleições têm sido marcadas por ondas de revelações. Vazamentos, investigações e delações reconfiguram o tabuleiro em poucos dias. Em um ambiente hiperconectado e judicializado, esses episódios deixam de ser acessórios e tornam-se centrais. Convém lembrar que os dois nomes mais conhecidos do páreo carregam fragilidades evidentes. Lula enfrenta o desgaste próprio de quem governa, a necessidade de reconstruir sua base de apoio e a permanente exposição institucional. Além de lidar com as contradições de um governo que nunca se afirmou. Flávio Bolsonaro, por sua vez, precisa consolidar-se como liderança nacional e administrar o legado e as controvérsias do seu grupo político. Além de lidar com potenciais conexões políticas perniciosas. O vazamento de sua conversa com Daniel Vorcaro sobre apoio ao filme da vida de Jair Bolsonaro é muito ruim junto ao eleitorado não bolsonarista.

Diante desse quadro, a conclusão mais prudente é que não há espaço para cravar o desfecho. Lula segue como favorito, mas o páreo está longe de ser decidido. A escolha do eleitor será resultado de uma combinação de fatores institucionais, eventos relevantes e percepções de risco. No limite, a eleição de 2026 será decidida mais pelos detalhes do que pelas grandes narrativas. E, como a política ensina, são os detalhes, frequentemente imprevisíveis, que alteram trajetórias supostamente consolidadas.

Publicado em VEJA de 15 de maio de 2026, edição nº 2995

Bookmark and Share

sexta-feira, 15 de maio de 2026

EDUARDO BOLSONARO, O HOMEM DA GRANA

Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Paulo Motoryn, The Intercept Brasil

EXCLUSIVO: Eduardo Bolsonaro tinha poder sobre dinheiro do “Dark Horse”, revela contrato

O deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, atuou como produtor-executivo de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro, com responsabilidades e poder sobre a gestão financeira do projeto, segundo um contrato assinado por ele e diálogos obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil

Os registros contradizem afirmações feitas por Eduardo Bolsonaro em uma publicação no Instagram na quinta-feira, 14, sobre sua relação com o filme e colocam o deputado federal cassado como uma peça-chave com poder na tomada de decisões, inclusive financeiras, sobre o filme que conta a história do seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Também mostram que Eduardo omitiu sua conexão com a busca de dinheiro para financiar o filme ao dizer, no post feito no Instagram, que apenas cedeu seus direitos de imagem e não exerceu qualquer cargo de gestão no “Dark Horse”.

Um contrato de produção, datado de novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024, traz a empresa GoUp Entertainment, sediada nos Estados Unidos, como produtora, e Eduardo Bolsonaro e o deputado federal Mario Frias, também do PL paulista, à frente da produção-executiva, função com poder para lidar diretamente com o controle de orçamento e gestão financeira de um projeto audiovisual.

Contrato cita que Jair Bolsonaro cedeu “os direitos de história de vida” para a produção, na época intitulada “O Capitão do Povo”, e não “Dark Horse”.Contrato cita que Jair Bolsonaro cedeu “os direitos de história de vida” para a produção, na época intitulada “O Capitão do Povo”, e não “Dark Horse”.

Segundo o documento, a produtora e os produtores-executivos agiriam em conjunto para dedicar-se a atividades de desenvolvimento do projeto, dentre elas “envolvimento nas considerações estratégicas relacionadas ao financiamento do filme e preparação de informações e documentação para investidores e assistência na identificação de recursos de financiamento de filmes, incluindo créditos e incentivos fiscais, colocação de produtos e patrocínio”.

O contrato obtido pelo Intercept define uma ampla gama das funções que Eduardo teria na produção. Junto com os outros produtores, a empresa GoUp e o deputado federal Mario Frias, ele teria a responsabilidade sobre as decisões sobre como os recursos seriam captados e gastos. Não há informação, porém, sobre quem, de fato, executou essas funções.

Contrato descreve atividades a serem executadas pela produtora e pelos produtores-executivos do filme.

Enviamos questionamentos para Eduardo Bolsonaro e para o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto. A defesa do deputado Mario Frias informou que “Eduardo Bolsonaro não é e nunca foi produtor-executivo da produção do filme Dark Horse” e “nunca recebeu qualquer quantia do fundo de investimento cujo produto privado final é o filme”.

A defesa do banqueiro Daniel Vorcaro disse que não iria se manifestar sobre o tema. A defesa de Jair Bolsonaro disse ao Intercept que ele não pode se manifestar porque está preso – e destacou que não tinha acesso ao ex-presidente porque as visitas dos advogados são restritas.

Uma troca de mensagens entre o empresário Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, e Daniel Vorcaro de 21 de março de 2025 destaca o papel de articulador financeiro exercido por Eduardo na produção do filme.  

Miranda, que teve papel de intermediário entre Vorcaro, a família Bolsonaro e o deputado Mario Frias em tratativas sobre o filme, encaminha para o banqueiro uma captura de tela de uma mensagem que Eduardo o enviou e diz: “Já estou fazendo o aditivo da troca da empresa e preciso de um direcionamento seu para seguir.”

Na mensagem de Eduardo a Miranda, o deputado federal cassado diz: “O ideal seria haver os recursos já nos EUA. Que dos EUA para o EUA é tranquilo. Se a empresa brasileira a enviar aos EUA não tiver aquele grande orçamento que mencionamos como exemplo, será problemático, vai ser necessário fazer as remessas aos poucos e isto tardaria cerca de 6 meses, calculamos.”

Em seguida, de acordo com a mensagem obtida pelo Intercept, Eduardo explica como seria a melhor forma de enviar o dinheiro: “Solução: enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual e etc. Será que conseguimos?”. 

Embora não seja possível precisar a data que Eduardo enviou a mensagem a Miranda, o encaminhamento da captura de tela para Vorcaro indica que isso ocorreu em março de 2025 – mesmo mês em que Eduardo anunciou que ia se licenciar do mandato para ficar nos EUA e buscar as “devidas sanções aos violadores de direitos humanos”.

Enviamos questionamentos para Miranda, que esclareceu que ele “não desempenhou qualquer função na produção, divulgação, gestão financeira e estratégia de lançamento do filme Dark Horse” tendo limitado sua participação a “intermediar o contato entre pretenso investidor e os interessados no projeto”. Leia a resposta na íntegra

Outro documento, datado de fevereiro de 2024, mostra ainda uma minuta de aditivo de contrato para a produção de “Dark Horse” em que Eduardo é qualificado como financiador do filme e autoriza o uso de recursos financeiros que ele investir no projeto. Não há confirmação se o aditivo foi, de fato, assinado.

Aditivo do contrato cita que Eduardo, que consta como “financiador”, se compromete a “financiar parcialmente a produção cinematográfica”.Aditivo do contrato cita que Eduardo, que consta como “financiador”, se compromete a “financiar parcialmente a produção cinematográfica”.

Embora ele diga não ser “dono do filme”, o contrato – datado de  novembro de 2023 e assinado digitalmente por Eduardo Bolsonaro em 30 de janeiro de 2024 – designa explicitamente Eduardo e Frias como tendo poder de gestão e decisão sobre a produção, juntamente da GoUp. 

A minuta que o designa como financiador da operação também contradiz sua fala de que ele teria apenas cedido “direitos de imagem”.

Contrato foi assinado digitalmente e, embora a data conste como 26 de novembro de 2023, a assinatura de Eduardo Bolsonaro foi formalizada no acordo em 30 de janeiro de 2024.

A GoUp Entertainment é uma empresa sediada na Flórida que tem como sócios a brasileira Karina Ferreira da Gama e um brasileiro naturalizado nos Estados Unidos, Michael Brian Davis. 

Em dezembro, revelamos como uma organização não-governamental na qual Karina é sócia, o Instituto Conhecer Brasil, havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público sem concluir as entregas previstas. Desde março, o Ministério Público está investigando o contrato. 

Nesta sexta-feira, o ministro do Supremo Tribunal Federal Flávio Dino determinou a abertura de uma apuração preliminar para apurar se houve direcionamento de emendas parlamentares para projetos culturais, inclusive o filme Dark Horse. A TV Globo noticiou na quinta-feira, 14, que o STF tenta, há mais de um mês, intimar o deputado Mario Frias a prestar informações sobre “possíveis irregularidades na execução de recursos de emendas” destinados ao Instituto Conhecer Brasil – o parlamentar e produtor-executivo do filme teria destinado R$ 2 milhões à ONG. 

Enviamos questionamentos para Karina Gama e para seu sócio, Michael Brian Davis, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.

Fundo de advogado de Eduardo recebeu dinheiro de Vorcaro

Na quarta-feira, 13, o Intercept revelou como o senador Flavio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, irmão de Eduardo, articulou apoio do banqueiro Vorcaro para financiar a produção de “Dark Horse”, segundo mensagens obtidas com exclusividade. 

Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção, dos quais pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro.

A Polícia Federal apura se o dinheiro de Vorcaro para “Dark Horse” teria custeado despesas de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos. No Instagram, o deputado federal cassado negou ter recebido o dinheiro negociado para o filme. 

O material analisado pelo Intercept indica que ao menos parte dos valores negociados por Flávio junto a Vorcaro foi para um fundo controlado por aliados de Eduardo – incluindo Paulo Calixto, o advogado encarregado de seu processo imigratório nos EUA, conforme apuração da Agência Pública

Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2 milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos analisados pelo Intercept indicam que parte do dinheiro negociado com Vorcaro para o filme foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas do banqueiro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos EUA, e controlado por aliados de Eduardo.

Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto.

Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas.

Os documentos desta segunda firma apontam Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço comercial utilizado pelo Havengate.

LEIA TAMBÉM:

Em uma das mensagens obtidas pelo Intercept, ao sugerir alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA, Eduardo Bolsonaro informa que Altieris Santana estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.

Enviamos questionamentos para Altieris Santana e Paulo Calixto, mas não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto. 

No Instagram, Eduardo disse que “o escritório cuida apenas da gestão burocrática, financeira e legal dos recursos” e que foi ele quem apresentou Calixto a Mario Frias “por saber da sua competência”.

Plano de negócios previa “oportunidade de imigração”

Os documentos mostram que o filme biográfico do ex-presidente Jair Bolsonaro teve um orçamento total astronômico para os padrões brasileiros: o valor estimado é entre 23 milhões e 26 milhões de dólares. A quantia corresponde ao montante negociado por Flávio Bolsonaro com Vorcaro: 24 milhões de dólares. O custo total é superior ao de várias produções recentes de Hollywood, inclusive vencedoras do Oscar.

O orçamento do filme prevê, segundo os documentos aos quais o Intercept teve acesso, que mais de 10,7 milhões de dólares seriam destinados apenas aos custos “acima da linha”, rubrica que inclui “custos gastos antes da filmagem” – com direitos do roteiro, salários de atores, diretores, produtores, diretor de elenco, roteirista e outros envolvidos na direção financeira e criativa de alto nível do filme.

Ainda segundo os documentos, a estratégia para captar recursos consistia na oferta de 40 cotas de 500 mil dólares. Ou seja, um total de 20 milhões de dólares.

Para atrair grandes investidores, o orçamento do filme foi fatiado em pacotes de investimento VIP com regalias incomuns para o mercado de cinema. Se o investidor pagasse 1 milhão de dólares, ele comprava uma cadeira no conselho de produção – com direito a dar pitacos e influenciar as decisões do filme.

O pacote mais caro, e incomum, custava 1,1 milhão de dólares. O grande chamariz para esse investimento não era o filme, mas sim a promessa explícita de uma “oportunidade de imigração”. O plano de negócios oferecia o filme como um atalho para que ricaços comprassem o direito a um Green Card, garantindo assim o visto de residência permanente nos Estados Unidos.

Plano de negócios previa benefícios para investidores, incluindo uma “oportunidade de imigração”

A promessa de lucro da produtora era agressiva: os investidores teriam a devolução de 100% do capital aportado acrescido de um lucro de 20% sobre o valor investido. O plano de negócios projetava a receita global do filme em três cenários distintos: um pessimista (de 45 milhões de dólares), um conservador (70 milhões de dólares) e um otimista (100 milhões).

Após a quitação prioritária do capital e do prêmio de 20% aos financiadores, todo o lucro líquido restante gerado pela bilheteria e plataformas de streaming seria dividido meio a meio entre investidores e produtores. Ou seja, Eduardo Bolsonaro e Mario Frias também lucrariam com o filme.

Você tem mais documentos sobre Eduardo Bolsonaro, Flávio Bolsonaro, “Dark Horse” ou o Banco Master e quer que o Intercept investigue sua denúncia? Entre em contato conosco, por e-mail: lais.martins@intercept.com.breduardo.goulart@intercept.com.brleandro.becker@intercept.com.br e paulo.motoryn@intercept.com.br. Ou, então, por Signal: @laisfm.02, EduardoGoulart.01, @interceptbrasil.44

Atualização: 15 de maio de 202516h49
Texto atualizado para incluir resposta da defesa do ex-presidente Jair Bolsonaro.

Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa, Angélica Neiva, Marina Luiza Queiroz, Rafaela Silva e Sarah Germano.

Bookmark and Share