domingo, 13 de setembro de 2026

TERREMOTO NO SUPREMO

Míriam Leitão, O Globo

A crise no STF está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível

Soterrado por muitos gigabytes de informação, o Brasil tenta entender o que está acontecendo enquanto caminha para as urnas, dentro de três semanas, numa eleição diferente de todas as outras. Não há programas, não há ideias, nada. O debate incandescente é o Supremo Tribunal Federal. A crise está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível.

A corrupção de Daniel Vorcaro espalhou-se, e atingiu mais fortemente alguns atores. O ministro Alexandre de Moraes está cercado por uma montanha de dúvidas e a maior delas é sobre o seu futuro na Corte. A previsão é ele assumir a presidência do STF daqui a um ano. O ministro André Mendonça é acusado de selecionar politicamente alvos de investigação, poupando outros, e continuar fazendo isso até na quebra de sigilo.

O contrato do escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro tem dupla personalidade. Diz que o motivo é implantar um sistema de integridade, o que em si seria curioso num banco que já estava se envolvendo em tantas falcatruas. Pode-se argumentar que no começo de 2024 não eram conhecidas as fraudes do Master. Mas por que uma assessoria para implantação de compliance deve incluir “consultoria estratégica” junto ao Banco Central, Polícia Federal, Polícias Civis, Receita Federal e “processos judiciais em todas as instâncias do Poder Judiciário”?

Se era mesmo a implantação de sistema de conformidade, como o escritório nada percebeu dos muitos desconformes do banco? O texto fala até em “revisão do código de ética”. A amplitude do contrato e a lista dos órgãos junto aos quais o escritório prestaria serviços advocatícios eram uma porta aberta para conflitos de interesse, dada a posição ocupada por Alexandre de Moraes.

O candidato Flávio Bolsonaro está sendo investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção, organização criminosa. Os dados, no celular de Daniel Vorcaro, previam investimento de US$ 24 milhões, equivalente a R$ 134 milhões na época, supostamente no filme Dark Horse. As premissas de retorno eram hollywoodianas. Os custos inflados. O dinheiro navegava por caminhos tortuosos até desaguar numa caixa vazia. O Fundo Havengate não tinha fundos. Era do advogado de Eduardo Bolsonaro e ficou quatro anos inativo até receber os repasses. Flávio Bolsonaro era o aflito cobrador das parcelas. Teve papel central. O banqueiro doador tinha se capitalizado tirando dinheiro de servidores aposentados e arruinando um banco público. Nunca foi dinheiro privado.

A crise institucional começou a ser enfrentada com as decisões fortes de Edson Fachin, em ambiente dramático. Ainda está longe de arrefecer. A próxima semana promete ser eletrizante. Já houve guerra de liminares e disparo de notas entre gabinetes. Teremos agora o duelo em plenário dos ministros com as mesmas iniciais: Alexandre de Moraes e André Mendonça.

É importante voltar à primeira cena deste filme de terror e crime. O Banco Central impediu a compra do Master pelo BRB em 3 de setembro de 2025. O presidente Gabriel Galípolo enfrentou pressão do centrão, do governador Ibaneis Rocha, de políticos da oposição, do TCU. A fiscalização encontrou sinais de crime financeiro no Master e o BC denunciou à Polícia Federal. Encontrou indícios de corrupção interna e afastou os diretores Paulo Sérgio de Souza e Belline Santana.

Com as informações divulgadas revelam-se novos detalhes da corrupção dos dois. No bloco de notas do celular, Vorcaro registrava as informações. Foi informado até dos nomes dos delegados da Polícia Federal com quem o BC conversou. Há provas do que eles tiveram em troca. Recebiam desde 2019. Eles trabalhavam “de casa” e ganhavam viagens a Paris e Disney. Entre muitos outros mimos. Inexplicavelmente nunca foram presos. Permanecem apenas com tornozeleiras.

O governo do Distrito Federal não resolveu ainda o rombo do BRB. Quer jogar em colo alheio. A governadora Celina Leão tenta usar o ministro Luiz Fux para empurrar o custo do saneamento do banco para o Tesouro. Fux deu prazo ao Ministério da Fazenda para se explicar. O governo federal já avisou que não vai pagar a conta do saque ao BRB, que foi permitido pelo governo do Distrito Federal.

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DEZ ESCORPIÕES NUMA GARRAFA

Elio Gaspari, O Globo

Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça

O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e em 2026 meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de “profeta”.

Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados “capinhas” que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles sentem ou levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)

Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça — vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do banco Master preocupados em apagar as luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.

Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.

Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque julgaram-se invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.

Cármen Lúcia cantou a pedra

Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando ela disse:

“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”.

Não eram só os taxistas. Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do Tayayá, o STF deu-se ao ridículo. Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez. Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino disse do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá:

“Essas 200 páginas (de relatório da PF), para mim, são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico.”

As camas do Master

Foram expostas à exaustão as festas e farofas de Daniel Vorcaro. No meio desses agapes, degustavam-se uísques e charutos. Só?

Mensagens já conhecidas apontam para a existência de uma traficância de favores sexuais semelhante, em ponto menor ao do americano Jeffrey Epstein. Vorcaro era servido pelo promotor de eventos Diogo Batista, conhecido como “o conciérge dos VIPs”.

Em 2022, num passeio pela França, o banqueiro gastou R$ 11,2 milhões. Meses depois, o banqueiro patrocinou uma festa indígena na praia de Trancoso, enfeitada por convidadas estrangeiras, inclusive russas e ucranianas. No ano seguinte o Master foi um dos patrocinadores da equipe de Fórmula 1 da Aston Martin e da sua festa para 190 convidados e consumo de 180 garrafas de bebidas. Novamente, foram trazidas convidadas do Leste Europeu.

Em 2024, Vorcaro desentendeu-se com Diogo Batista e foi parcialmente substituído por Karolina Trainotti.

Vorcaro também foi assessorado por Stheve Lopes, sócio de Batista. As repórteres Joana Cunha e Julia Mouras mostraram que ele recrutava convidadas e submetia fotografias a Vorcaro que as avaliava nas categorias “wow”, “loirinha top” ou “+ -”.

Em junho de 2004, Lopes ajudou Vorcaro com eventos simultâneos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza. O roteiro que Vorcaro bancou em Portugal ficou em US$ 1,6 milhão.

Em agosto de 2025 Vorcaro e sua ex-noiva, Martha Graeff, trataram das festas, e ela reclamou que Vorcaro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava “putas”.

“Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”, respondeu o ex-banqueiro nas mensagens extraídas de seu celular pela PF.

Falta saber qual era o “business” dos convidados de Vorcaro.

Promessas amazônicas

Lula entra na reta final da campanha azucrinado por más notícias. Há algo de desigual nessa má sorte. Afinal, noves fora as traficâncias de alguns ministros do Supremo, que são encrencas pessoais, nada há no seu passivo que se compare ao ervanário que circulou em torno do filme “Dark horse”, uma biografia apologética de Jair Bolsonaro.

Habituada ao salto, sua equipe achou razoável criar quatro unidades de preservação ambiental no Amazonas.

Tudo bem, mas cadê a Autoridade Ambiental, prometida durante a campanha eleitoral? Em janeiro de 2023, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, prometeu:

“Até março deste ano, será formalizada a criação da Autoridade Nacional de Segurança Climática, no âmbito do Ministério do Meio Ambiente, além da criação de um conselho sobre mudança do clima, a ser comandado pelo próprio presidente da República, e com a participação de todos os ministérios que estão agora nesta Esplanada, da sociedade civil, dos estados e municípios.”

Veio março e nada. Em setembro de 2024, em Manaus, Lula prometeu a criação da Autoridade Climática. Nada, nem explicação.

Mulheres no STF

Com o Supremo atolado na crise, importa registrar que em 218 anos de existência o Supremo Tribunal Federal só teve três mulheres: Ellen Gracie, nomeada em 2000 por Fernando Henrique Cardoso; Cármen Lúcia, nomeada por Lula 1.0; e Rosa Weber, nomeada por Dilma Rousseff.

Nenhuma das três envolveu-se em farofas ou episódios nebulosos.

El Presidente

Se um candidato a presidente latino-americano oferecesse US$ 5 mil a cada adulto caso seu partido vença a eleição, a promessa seria associada à irresponsabilidade fiscal dos latinos.

Pelo andar da carruagem, Trump poderá perder a maioria na Câmara. Até aí nada de novo, porque em geral os presidentes perdem as eleições do meio do mandato.

A novidade é a promessa.

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MÚLTIPLO ISMAEL

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Difícil dizer o que era mais fascinante em Ismael Nery, se a obra ou a vida

Seu objeto eram homens e mulheres andróginos, belíssimos, de sedução letal

Se as exposições permitissem que, ao se admirar um quadro, se pudesse ver também através dele e enxergar o artista, poucas seriam tão surpreendentes quanto "Ismael Nery: Armadilha Moderna", em cartaz na Pinacoteca do Estado de São Paulo. É um dos casos agudos em que não se sabe quem é mais fascinante, se a obra ou o autor. O fascínio em Ismael Nery (1900-1934) é a dificuldade de defini-lo, por suas muitas e inesperadas aptidões. Ele era especial em todas.

Saído da Escola Nacional de Belas Artes, do Rio, Ismael passou 1921 em Paris, estudando com Marc Chagall, Joan Miró e André Breton. De volta à sua casa em Botafogo, pintava e desenhava em telas, papelão, papel de pão, pedaços de jornal, tábuas, o que houvesse, e, ao terminar, amassava, rasgava, pintava por cima, jogava fora. O ato de fazer lhe bastava. Sua mulher, Adalgisa, e seu melhor amigo, Murilo, saíam pelo quintal e latas de lixo resgatando esse material sem ele saber. Ismael nunca admitiu vender um quadro —dava-o. Não tinha nada de seu nas paredes.

Os mais de 200 trabalhos da exposição compõem boa parte do que foi salvo. Prepare-se para cair de costas pela modernidade do que verá. Expressionista, cubista, surrealista? Talvez faltassem ismos para defini-lo. Seu objeto eram homens e mulheres, andróginos, sensuais, a quem ele emprestava seu rosto ou o de Adalgisa, belíssimos, de sedução letal.

Não se sabe quando Ismael tinha tempo para pintar. Era também arquiteto, cenógrafo, figurinista, poeta, matemático, filósofo, teólogo, bailarino clássico, fotógrafo. Amador em tudo isso, mas admirado pelos profissionais de cada categoria, que o ouviam como a um guru. Bispos o tinham em alta conta —um dia, segundo Ismael, a santidade não seria uma exceção. Visitava prisões, hospitais e hospícios, queria conhecer a tristeza humana. Morreu de tuberculose, aos 33 anos —como previra anos antes, ao desenhar seu túmulo e a data.

Sua mulher se tornaria a escritora e política Adalgisa Nery. Seu melhor amigo, o futuro poeta Murilo Mendes.

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A ELEIÇÃO NA ALEMANHA, A CRISE DO SUPREMO E A DESESPERANÇA NA DEMOCRACIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A insegurança jurídica adia investimentos, interrompe decisões empresariais, contamina as expectativas econômicas e aumenta a frustração social e política

A vitória da extrema direita na Saxônia-Anhalt, estado da antiga Alemanha Oriental, é mais um sinal de que a democracia liberal enfrenta uma crise que ultrapassa fronteiras. A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve cerca de 44% dos votos, mais do que o dobro da União Democrata-Cristã (CDU), de centro-direita, e ficou próxima da maioria absoluta. O partido continuará afastado do governo pelo Brandmauer — o “muro corta-fogo” que impede alianças das forças democráticas com extremistas —, mas já condiciona toda a política alemã.

A contradição é evidente: a barreira político-partidária protege as instituições, mas não impede o crescimento eleitoral da AfD. A extrema direita não precisa negociar, moderar suas propostas nem prestar contas pelos resultados de um governo. Denuncia a todos, promete soluções impossíveis e responsabiliza àqueles que lhe impedem o acesso ao poder. O fenômeno possui causas econômicas, sociais e culturais. A estagnação, a desigualdade entre o Leste e o Oeste alemães, a imigração, a transição energética, a guerra da Ucrânia e a perda de referências comunitárias criaram um contingente de eleitores que não se sente representado. Continuam votando, mas já não acreditam que as instituições tradicionais sejam capazes de melhorar suas vidas.

Existe um ambiente semelhante de desesperança em grande parte do Ocidente. A globalização integrou mercados e multiplicou riquezas, mas também desorganizou comunidades, concentrou renda e reduziu a capacidade dos Estados nacionais de proteger seus cidadãos. Ao mesmo tempo, os êxitos econômicos de regimes iliberais do Oriente são utilizados como argumento contra a democracia, como se seus Poderes fossem obstáculos à eficiência. O Brasil não está fora desse contexto.

 

Nossos problemas podem ser agravados por fatores internacionais, entre os quais as pressões do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e as guerra do Irã e da Ucrânia, mas suas saídas são nacionais. A resposta não está na substituição da democracia pelo autoritarismo, e sim na recuperação da capacidade de governar para todos, oferecer serviços públicos de qualidade, gerar prosperidade para os mais pobres e submeter todos à mesma lei. O Estado democrático precisa se reformar para atender às expectativas do povo.

 

É nesse ponto que o caso alemão se encontra com a crise brasileira. As diferenças históricas são enormes, mas o mecanismo político é parecido. Aqui, a grande rejeição aos principais candidatos à Presidência mostra que a maioria do eleitorado já não se reconhece nas alternativas oferecidas. A polarização mobiliza bases fiéis, mas também produz fadiga, ressentimento, medo e sensação de aprisionamento. Milhões de brasileiros imaginam que, qualquer que seja o resultado eleitoral, o país continuará submetido aos mesmos conflitos e incapaz de enfrentar seus problemas concretos.

A crise do Supremo Tribunal Federal acrescenta um componente explosivo a esse ambiente. O STF deveria ser o ponto de estabilidade do regime, o guardião da Constituição e o árbitro dos conflitos entre os Poderes. Entretanto, decisões monocráticas contraditórias, disputas entre ministros e o caso Banco Master transformaram a Corte no epicentro da insegurança institucional.

Paralisia econômica

O problema ultrapassa os nomes de Alexandre de Moraes e de André Mendonça, estão além da força de Flávio Dino ou de Gilmar Mendes. Quando os julgadores parecem envolvidos nos fatos que deveriam julgar, a confiança no devido processo legal é inevitavelmente abalada. As providências de Fachin foram suspender decisões conflitantes, preservar o comando da Polícia Federal, quebrar o sigilo das investigações já concluídas, retirar de Moraes a relatoria do inquérito das fake news e submeter ao plenário a abertura de investigação. São medidas necessárias, mas talvez insuficientes. É preciso esclarecer integralmente os fatos, definir responsabilidades e demonstrar que nenhum ministro está acima da Constituição.

Manifestos de entidades empresariais, associações civis e ex-integrantes do Supremo sobre a crise possuem, nesse contexto, dois significados. O primeiro é positivo: revelam que as elites do país procuram uma saída dentro das instituições. Seus signatários não pedem a destruição do STF, mas sua recuperação. O segundo é um alerta: quando setores responsáveis pela produção e pelos empregos do país se mobilizam para denunciar uma crise institucional, sinalizam que a instabilidade já ultrapassou os limites do mundo político e jurídico, paralisou a economia.

A insegurança política e jurídica adia investimentos, interrompe decisões empresariais e contamina as expectativas econômicas. Em consequência, por sua vez, aumenta a frustração social e oferece combustível aos discursos antissistema. Nenhuma muralha institucional será suficiente se, aos olhos da população, aqueles que estão dentro dela abusarem do poder, protegerem aliados ou se recusarem a prestar contas. A extrema direita cresce e captura o centro quando consegue convencer as pessoas de que todas as instituições fazem parte de um único sistema voltado para a própria preservação.

A crise do Supremo não favorece apenas um candidato ou campo ideológico. Fortalece as narrativas dispostas a apresentar a democracia como fraude, o equilíbrio entre os Poderes como conspiração e as garantias constitucionais como obstáculos à vontade popular. A História nos ensina que a desesperança na democracia é a antessala do autoritarismo.

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BRASÍLIADA

Merval Pereira, O Globo

Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra no STF teve início.

A noite era de confraternização, embora não saísse da cabeça de todos à mesa a crise em que vivemos. A ameaça era evidente: éramos 13 à mesa. Um dos convivas, talvez notando a inconveniência, passou mal e se retirou. Uma festa familiar, diga-se de passagem, nada parecida com a das Astronautas, ou aquela em que havia 120 mulheres para 20 homens, onde o futuro do país era discutido entre vinhos caros, charutos mais ainda e só entre os homens, porque as mulheres eram estrangeiras, suíças, escandinavas, não poliglotas, para não entenderem o que os homens tramavam. Meio cafona, mas era assim que funcionava.

Inevitável, porém, que a conversa acabasse no assunto que todos preferiam esquecer: a guerra instalada no plenário do Supremo Tribunal Federal (STF), latente há anos, uma briga de poder sem trégua entre dois grupos. Estranho que haja grupos no plenário da mais alta Corte do país? Desde a Operação Lava-Jato, que teve no decano, ministro Gilmar Mendes, seu principal defensor durante anos, e depois seu algoz, a guerra teve início. Da guerra interna, passamos a outra guerra, entre gregos e troianos, do filme sensação do momento, Odisseia, de Christopher Nolan.

Imagine-se que os nossos ministros do Supremo fossem os combatentes da Guerra de Tróia – uma “Brasilíada”, criação de um poeta presente. Uma guerra que se inicia por uma causa supostamente nobre – recapturar uma mulher raptada –, mas, em seguida, perde seu sentido original, transformando-se num banho de sangue. Alguma coincidência com nossa guerra, que começou com a defesa da democracia e terminou no escândalo do Banco Master?

Do lado grego teríamos o líder Agamenon, avatar do decano do Supremo, ministro Gilmar Mendes. Poderoso, arrogante, soberbo. Não morre na guerra, mas acaba perecendo quando acredita que encontrou a paz. O ministro Alexandre de Moraes, que nos tempos de glória era aclamado por Xandão, compara-se a Aquiles: irascível, destemido, mercurial. Age emocionalmente, sem se preocupar com seu enorme e suscetível calcanhar. Também do lado grego encontra-se o ministro Flavio Dino, ou melhor, Ulisses. Esperto, ensaboado com as palavras, um guerreiro que, na verdade, se preocupa acima de tudo com a sua terra natal, Ítaca (ou Maranhão).

O ministro Dias Toffoli seria Nestor, outro rei grego, de um estado menor, que, por conta do exagero no vinho, não se engaja tanto nos combates. Há ainda um personagem de pouco destaque no texto de Homero, Estêmulo, um escudeiro – desempenhado na nossa epopeia pelo ministro Cristiano Zanin. Um comandado, que não expressa suas próprias opiniões. Do lado dos troianos, seu grande herói é Heitor – o ministro André Mendonça. Sempre com discursos bonitos e moralistas, acaba morrendo pelas mãos de Aquiles (ou Xandão). Os dois se digladiam, um para confirmar a epopeia, outro para mudar seu final.

Há também Paris, outro príncipe troiano, que se mete em confusões e recusa o embate direto. Papel para o ministro Kassio Nunes Marques. O Presidente do Supremo, ministro Edson Fachin, seria o rei troiano Príamo, bem intencionado, mas que não é levado em conta pelos que deveria comandar. Na nossa guerra interna, Facchin tenta reverter este papel, veremos na terça-feira se terá força para levar adiante sua tentativa de recuperar a credibilidade do plenário que preside. O ministro Luiz Fux seria Eneias, o filho de Afrodite, deusa do amor. Um nobre troiano, cioso na proteção de sua própria família. Consegue escapar quando, ao fim, Troia é invadida.

Finalmente, a ministra Carmen Lúcia assume o papel de Helena, todos lutam por ela, embora por motivos diferentes, na epopeia de Homero ou na nossa. O enredo não merecia uma epopeia, há um elemento trágico: todos sabem o que há de errado. O vício se coloca claro bem na frente de todos nós. Contudo, o Brasil não reage. Estamos paralisados. Esqueçam a epopeia. O que vivemos é uma tragédia.

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MINISTROS DO STF DEVERIAM LER MADAME SATÃ

Bernardo Mello Franco, O Globo

Em busca de argumentos para defender o indefensável, vale consultar a lendária entrevista do malandro da Lapa ao Pasquim

Madame Satã era o apelido do transformista João Francisco dos Santos, figura mitológica da Lapa na primeira metade do século passado. Malandro e destemido, não recusava uma briga. Somou 27 anos de cadeia antes de inspirar livros, filmes e peças de teatro.

Madame Satã é o nome de uma casa noturna da cena underground de São Paulo. Nos últimos dias, notabilizou-se como cenário de uma farra promovida por Daniel Vorcaro. Pivô da maior fraude financeira da História do país, o banqueiro corrompeu a República com propinas, viagens e bacanais.

Acostumada a receber outras tribos, a boate paulistana abriu as portas em outubro de 2023 para figurões da elite política. Segundo reportagem da revista Piauí, foram convidados o presidente do Senado e seu antecessor, o então presidente da Câmara e um ministro do Supremo envolvido na teia do Master.

Os organizadores da festa contabilizaram 20 homens e 120 mulheres, sendo a metade estrangeiras, para não entenderem as conversas. “Só menina nova”, ordenou Vorcaro ao ex-ministro que se encarregou dos convites. Uma moça driblou o veto aos celulares e postou um vídeo da pista de dança. Seu perfil no Instagram foi derrubado por capangas do banqueiro.

A “noite das suíças” não foi um evento isolado. Investigações da Polícia Federal mostram que o dono do Master recrutava trabalhadoras da noite para agradar autoridades que podiam favorecê-lo durante o dia. Há registros de orgias semelhantes em Nova York, Lisboa e Trancoso.

O fantasma das festas de Vorcaro assombra o mundo político desde junho, quando Anthony Garotinho disse ter um vídeo da “noite das astronautas”. “Deputados, senadores, governadores, homens que defendem a família... todo mundo pelado, e as mulheres de capacete”, provocou.

O ex-governador nunca provou ter o tal vídeo, mas sua descrição de mulheres altas, louras e caparência de estrangeiras bate com os diálogos reproduzidos pela Piauí. “Davi tá louco perguntando se as suíças vão vir”, escreveu o ex-ministro Fabio Faria a Vorcaro. Todos os figurões citados na revista negam ter participado da noitada.

Nesta terça, o Supremo Tribunal Federal discutirá se abre investigação sobre as ligações perigosas do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro. As farras noturnas parecem brincadeira de criança diante das cifras milionárias em jogo. Emparedado, Moraes promete ir para cima do ministro André Mendonça, que rasgou a fantasia ao insuflar o 7 de Setembro bolsonarista e destituir a cúpula da PF numa canetada.

O escândalo do Master envolve doutores que posam de estadistas, viajam de primeira classe e usam institutos e escritórios em nome de parentes para fechar negócios. Nada a ver com o Satã da Lapa, que se dizia “analfabeto de pai e mãe” e batalhou como vendedor ambulante, cozinheiro e garçom.

Em busca de argumentos para defender o indefensável, os supremos deveriam se mirar na lendária entrevista do malandro ao Pasquim. Questionado sobre o tiro que deu num guarda-civil, ele respondeu: “O revólver é que disparou na minha mão. Casualmente”. O jornalista Sérgio Cabral, o pai, perguntou se foi a bala quem matou. “A bala fez o buraco. Quem matou foi Deus”, explicou Satã.

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NARCISISMO PATOLÓGICO DE TRUMP É UM PERIGO

Dorrit Harazim, O Globo

Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar

Peter Baker não é um jornalista qualquer. Correspondente-chefe do New York Times junto à Casa Branca, ele traz no currículo a cobertura diária de seis presidentes dos Estados Unidos. É autor de vários livros sobre o poder e a história política moderna e, vez por outra, produz ensaios situando determinados mandatos em contextos mais amplos. Raramente se ocupa de temas amenos do métier. Daí a relevância da reportagem intitulada “60 postagens em 10 horas”, em que Baker se debruça sobre um surto quase psicótico de publicações digitais por parte de Donald Trump no fim de semana passado.

No início, escreveu o jornalista, o feed do presidente americano nas redes sociais era visto como espelho de seu “id”. Mas, desde a incorporação de recursos de IA às postagens, elas passaram também a expressar como Trump deseja ser visto pelo mundo: um guerreiro, um conquistador, uma figura histórica, uma versão mais jovem, mais magra e mais musculosa de si mesmo. Elas servem, sobretudo, de termômetro de seu estado mental aos 80 anos. Uma mente movida a delírios, vaidade e violência.

Os fins de semana e feriados, quando Trump dispõe de menos assessores e mais tempo ocioso, parecem despertar seus fantasmas interiores. As 60 postagens analisadas foram disparadas em rajadas intermitentes de seu clube de golfe em Bedminster, estado de Nova Jersey. Nelas, há muito de (Trump esmaga o Irã com um martelo gigante, subjuga o primeiro-ministro do Canadá com um taco de beisebol) e uma montanha de infantilidades, como o redesenho do mapa-múndi em versões cada vez mais vorazes.

Uma das fantasias mais recorrentes e irrealizáveis do 47° comandante em chefe é apresentar-se como herói militar. Como é sabido, Trump evitou o alistamento militar durante a Guerra do Vietña graças a um diagnóstico de esporões ósseos assinado por um médico que era inquilino de seu pai. Ainda que nunca tenha servido ao país, surge num uniforme militar para posar entre os generais históricos George S. Patton e Douglas MacArthur — cortesia da inteligência artificial.

Para os apoiadores de Trump, essa forma de comunicação direta e sem filtros é considerada “autêntica” e eficaz, pois consegue desencadear horror e alarme nas hostes democratas. Há um deleite ostensivo em ver o adversário levar a sério o que seriam meros trolls bem-humorados. Na verdade, o que precisa, sim, ser considerada é a capacidade mental, física, intelectual e moral de Trump no comando da grande potência em declínio.

— Chega. Nada disso é normal ou aceitável — escreveu Chellie Pingree, democrata do Maine citada por Peter Baker.

Um narcisista patológico no poder — com apenas 30% de aprovação popular, atolado até a cintura na guerra que desencadeou contra o Irã, sem solução para as guerras na Ucrânia e em Gaza, e às vésperas de uma eleição de meio de mandato em que arrisca perder maioria na Câmara e no Senado — é um perigo real. E mundial.

Um indivíduo que se utiliza do dantesco atentado terrorista múltiplo de 2001 contra as Torres Gêmeas para se vangloriar de proezas pessoais, inventadas, não pode ser considerado pessoa equilibrada. Na sexta feira, 11 de setembro, Trump não se perfilou junto aos ex-presidentes dos Estados Unidos reunidos no local da hecatombe de 25 anos atrás para a sempre pungente homenagem aos mortos na tragédia. A cerimônia anual não abre espaço a discursos de políticos, e comove precisamente por isso. A leitura do nome e sobrenome de cada uma das 3 mil vítimas — feita por algum pai, mãe, avô, irmão, filha, neto ou amigo da família — basta. São centenas de origens, etnias, naturalidades e procedências unidas pela morte.

Trump preferiu comparecer à cerimônia realizada em Washington, pelo Pentágono, cujo prédio também foi atingido por um dos voos suicidas de 25 anos atrás. Ali, pôde falar à vontade. E Narciso falou. Descreveu com requintes uma cena de que não existe a mais remota comprovação: ele teria se deslocado ao local das Torres Gêmeas logo depois do atentado e sido carregado para fora da zona de perigo por dois bombeiros:

— Dois caras grandes e fortes — recordou com nostalgia.

Tampouco existe qualquer evidência de outra alegação feita por Trump, de ter ajudado na limpeza da área e testemunhado cenas horríveis de corpos espalhados pelos escombros. Tem mais: nenhum bombeiro, socorrista ou policial jamais viu os 100 ou 200 operários que Trump alega ter despachado para o local em ruínas. O único fato concreto é que ele acompanhou o 11 de Setembro do alto da Trump Tower, localizada na Quinta Avenida em Midtown Manhattan, a seis quilômetros de distância do horror.

O atentado que fez desmoronar certezas consolidadas desde o final da Segunda Guerra emociona a família humana até hoje — à exceção dos terroristas islâmicos e de Donald Trump.

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O ARCO CONSERVADOR NAS AMÉRICAS

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

EUA projetam mais poder na região enquanto Estado de direito apresenta fissuras no Brasil

Guerra entre ministros, suspeitas envolvendo o Banco Master e a dificuldade da própria Corte de investigar seus integrantes corroem sua autoridade moral

Enquanto Marco Rubio costurava em Bogotá, Quito e Lima um arco andino de governos alinhados a Donald Trump, o Brasil assistia à debacle moral do Supremo. Não é uma confluência feliz: os Estados Unidos intensificam drasticamente sua projeção de poder no hemisfério, quando o Estado de Direito no Brasil expõe fissuras em sua esfera de decisão última.

Na Colômbia, Abelardo de la Espriella quer reatar a parceria de segurança rompida por Gustavo Petro. Pediu drones, radares e inteligência, prometeu retomar a fumigação da coca e lançou um “Plano Patriota”.

No Equador, a aliança já estava em vigor. Daniel Noboa abriu espaço para operações conjuntas contra o narcotráfico. Rubio ofereceu US$ 45 milhões e embarcações. O país, corredor da cocaína entre Colômbia e Peru, virou laboratório da política americana.

No Peru, Keiko Fujimori aderiu ao Escudo das Américas, coalizão de Trump contra cartéis. Por determinação de Trump, o país já havia sido tornado aliado extra-Otan. Segurança, minerais críticos e contenção da China são os vetores de atração para os EUA. É a “Doutrina Donroe” em marcha: prioridade ao hemisfério, combate aos cartéis, redução da presença chinesa e uso combinado de poder militar, comercial e financeiro. Washington constrói uma faixa de alianças na costa do Pacífico, contígua às fronteiras brasileiras.

ARCO. Se Flávio Bolsonaro vencer, o maior país da região poderá completar esse arco por afinidade ideológica. Se Lula for reeleito, Trump procurará moldar o comportamento brasileiro por meio de pressões econômicas e a sinalização de coerção militar. Não será preciso romper com Brasília. Bastará aumentar o preço da autonomia.

É aí que a crise do STF ganha dimensão externa. A guerra entre ministros, as suspeitas envolvendo o Banco Master e a dificuldade da própria Corte de investigar seus integrantes corroem sua autoridade moral. Isso não leva necessariamente à falência da democracia. Mas reduz o capital institucional e político para resistir a pressões estrangeiras.

O governo americano impôs sanções a Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, em julho de 2025, retirou a punição meses depois e agora discute retomá-la. Quanto menos legítima parecer a Corte, mais fácil será apresentar sanções contra ministros como defesa de direitos, e não ingerência.

FRAGILIDADE. A vulnerabilidade brasileira não está apenas na Amazônia, no crime organizado, nos minerais ou na precariedade militar. Está também na qualidade de suas instituições. Potências exploram divisões internas. A melhor defesa contra a nova projeção americana não é retórica soberanista. É recuperar credibilidade em casa.

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DEMOCRACIA E IDEAL REPUBLICANO

Pedro S. Malan, O Estado de S. Paulo

A visão política surge do encontro oportuno entre uma nova realidade social, ideias aptas a captá-la e líderes capazes de estabelecer a ligação entre ideia e realidade

A mais bela defesa do ideal democrático que conheço é aquela de Norberto Bobbio: “Apenas em um regime democrático são possíveis a aceitação e o elogio da diversidade; o reconhecimento da legitimidade e da fecundidade dos conflitos de razão e de interesse; a absoluta liberdade de opinião; o ideal da tolerância; o ideal da não violência. Apenas em democracias é possível livrar-se de governantes sem derramamento de sangue e resolver conflitos sem o recurso à força. Apenas em democracias é possível a renovação gradual da sociedade pelo livre debate de ideias e pela mudança de mentalidades. Apenas em democracias é reconhecida a necessidade de antepor limites ao poder, mesmo quando esse poder é o da maioria que o conquistou pela força do voto”.

Dito isto, uma democracia digna deste nome deve também incorporar a virtude cívica dos cidadãos e o ideal republicano. Isso se revela não apenas no voto: exige o acompanhamento atento da atuação dos representantes eleitos, das ações e eficácia dos Três Poderes da República e da interação entre eles. José Murilo de Carvalho caracterizou com propriedade, por meio de exemplos, o que é ou deveria “ser republicano”: “É crer na igualdade civil de todos, sem distinção de qualquer natureza; é crer na lei como garantia de liberdade; é saber que o Estado não é uma extensão da família, um clube de amigos, um grupo de companheiros; é repudiar práticas patrimonialistas, clientelistas e corporativistas; é acreditar que o Estado não tem dinheiro, que ele apenas administra o dinheiro pago pelo contribuinte; é saber que quem rouba o dinheiro público é ladrão do dinheiro de todos; é considerar que a administração eficiente e transparente do dinheiro público é dever do Estado e direito seu”.

No mundo real, o ideal republicano é tão ou mais difícil de alcançar do que o ideal democrático. Há mais de 250 anos, o decano dos “pais fundadores” dos EUA, Benjamin Franklin, assim respondeu sobre qual sistema político os constituintes estariam propondo: “Uma República, se vocês conseguirem preservála”. Não é fácil. Afinal, constituições, e as instituições por elas criadas, são tão fortes ou fracas quanto o grau de consenso a elas subjacente. Como notou a historiadora Linda Colley em seu belo Guerra, Constituições e a Construção do Mundo Moderno, constituições são criações frágeis, feitas no papel, concebidas por seres humanos falíveis.

No livro The Once and Future Liberal, publicado no primeiro ano do primeiro governo Trump, Mark Lilla apontou: “Há duas gerações a América vive sem uma visão política de seu destino. Não existe uma visão conservadora; não existe uma visão liberal. Existem apenas duas ideologias individualistas, cansadas e intrinsecamente incapazes de discernir o bem comum e de unir o país em torno de sua realização nas circunstâncias atuais. Somos governados por partidos que já não sabem o que querem em um sentido amplo, apenas o que não querem em um sentido restrito. (...) Que espécie de imagem do futuro orienta suas ações? Parece que já não sabem. Portanto, dificilmente se pode esperar que o público saiba.”

A visão política surge do encontro oportuno entre uma nova realidade social, ideias aptas a captá-la e líderes capazes de estabelecer, na mente do público, a ligação entre ideia e realidade, de modo que as pessoas sintam essa conexão. O surgimento de líderes dotados desse talento, como Roosevelt, John F. Kennedy e Reagan, é impossível de prever. Não existem laboratórios capazes de formular o ideal republicano ou candidatos com currículos alinhados para serem entrevistados para o cargo. Tudo o que podemos fazer é nos preparar.

É preciso resistir, em particular, a certa visão que ora encontra ampla acolhida entre extremos do espectro político brasileiro. Aquela visão baseada na formulação de Carl Schmitt, para quem “a distinção política específica à qual ações e motivos políticos podem ser reduzidos é a distinção entre amigo e inimigo”. Como mostrou Mark Lilla, para Schmitt, tudo é potencialmente político: costumes morais, religião, economia, arte, cultura podem se tornar questões políticas, encontros com o inimigo, e transformar-se em fonte de deliberado, e sempre renovado, conflito. Confrontações entre extremos, voltadas a manter mobilizadas e excitadas as redes digitais em torno de fatos alternativos e realidades paralelas.

Creio que o Brasil está a tentar preservar, ou resgatar, o ideal republicano, como mostram as reações da sociedade civil aos eventos recentes, que evidenciam o grau de fadiga e degradação institucionais a que chegamos nas disfunções intra e inter Poderes da República. Agravadas neste conturbado ano eleitoral de 2026, que tem ares de um replay de 2022. A história rima, ensina – e a muitos desatina. Mais do que nunca, é preciso lembrar as palavras de Umberto Eco em seu Cinco Escritos Morais (1997), que reúne textos, como diz, “de caráter ético, ou seja, referem-se àquilo que seria justo fazer, àquilo que não se deveria fazer ou àquilo que não se deve fazer em hipótese alguma”. Na teoria parece óbvio, na prática não o é.

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INFLAÇÃO RECUA, MAS AINDA FALTA PIB MAIS DINÂMICO

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Não haverá crescimento mais veloz enquanto os setores público e privado mantiverem uma aplicação miseravelmente baixa em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações produtivas

Comer, morar, acompanhar o mundo pela TV e assistir a novelas – tudo isso ficou mais barato em agosto, quando o custo de vida recuou 0,32%, puxado pelas despesas com alimentação (0,34%), habitação (-1,87%) e eletricidade (-7,63%). Milhões de famílias endividadas e pressionadas pelos juros pouco devem ter percebido essas melhoras, mas suas finanças – pelo menos objetivamente – ganharam alguma estabilidade. É difícil apostar se essa condição persistirá até dezembro ou, num quadro muito mais otimista, se ainda se manterá no início do novo mandato presidencial, em 2027.

A inflação acumulada no ano, até agosto, bateu em 3,11%. Em 12 meses, os preços ao consumidor aumentaram 4,22%, pouco menos do que no período até julho (4,44%), e as últimas projeções de mercado indicaram 5% até dezembro. Esse número é bem superior ao teto da meta, 4,5%, e muito distante do centro, ainda fixado em 3%.

As notícias do campo indicam uma boa produção de alimentos, componentes fundamentais do custo de vida. Mas a inflação depende também da gastança federal, sem perspectiva de grande contenção, e das condições internacionais, ainda muito sujeitas aos delírios imperiais do presidente Donald Trump e, como sempre, às ambições das maiores potências da Europa e da Ásia.

As encrencas no Oriente Médio têm elevado o preço do petróleo, beneficiando a Petrobras, mas, ao mesmo tempo, dificultando a política anti-inflacionária no Brasil. O governo tem procurado conter o encarecimento dos combustíveis e lubrificantes, mas esse tipo de intervenção impõe custos indesejáveis ao poder federal.

Pressões desse tipo, surgidas de fatores fora do controle brasileiro, são motivos adicionais para uma gestão mais prudente das contas públicas. Nem todo governante petista é gastador, mas o presidente Lula parece nunca haver abandonado, para valer, a velha identificação entre governar e gastar. Não se governa, é claro, sem realizar despesas, mas esse reconhecimento de nenhum modo envolve a defesa da gastança como algo indispensável.

Se nada for feito, em Brasília, para disciplinar os gastos federais, a insegurança fiscal seguirá dificultando o equilíbrio das contas públicas e uma redução mais firme dos juros pelo Banco Central (BC). Juros elevados continuarão atrapalhando os negócios, emperrando o crescimento econômico e freando a criação de empregos produtivos e mais seguros.

Sem finanças públicas mais controladas e juros mais toleráveis, o investimento permanecerá travado e o País continuará no atoleiro, sem perspectiva de modernização e expansão do potencial produtivo.

Não haverá crescimento econômico mais veloz – vale a pena repetir essa obviedade – enquanto os setores público e privado mantiverem, conjuntamente, uma aplicação miseravelmente baixa em infraestrutura, máquinas, equipamentos e instalações produtivas. É urgente retomar com firmeza, para em seguida ultrapassar, o velho nível de investimento correspondente a 18% do Produto Interno Bruto (PIB). O investimento em educação e pesquisa vem melhorando, mas tem de avançar muito mais para o Brasil deixar de ser uma economia emergente sem perspectiva de maior avanço.

A maldição do emperramento econômico é lembrada semanalmente no boletim Focus, em que a mediana das projeções de crescimento permanece na vizinhança de 1,90% para este ano, em torno de 1,50% para 2027 e pouco acima disso para os anos seguintes.

Esses números são conhecidos tanto no governo quanto no setor privado, mas a persistência desse quadro parece pouco alarmante para as autoridades. No setor empresarial, surge de vez em quando algum sinal de preocupação com o baixo nível geral de investimento, mas sem manifestações importantes sobre o assunto.

Enquanto isso, o governo insiste em gastar, simplesmente, como se isso bastasse para promover a necessária expansão do PIB. Não basta, no entanto. Para se alcançar esse resultado, é preciso gastar bem, poupando e aplicando recursos em meios produtivos selecionados segundo sadios critérios empresariais e governamentais. Esses critérios são seguidos em outros países, desenvolvidos e em desenvolvimento, com resultados visíveis para quem acompanhe com alguma atenção a economia internacional.

Na cúpula do poder, em Brasília, esse acompanhamento parece envolver pouco mais que o interesse em questões geopolíticas e diplomáticas, mas no sentido mais abstrato. Se o interesse das autoridades fosse um pouco mais prático e mais prosaico, alguém poderia notar, por exemplo, a diferença entre o dinamismo de outros membros do Brics e o do Brasil.

Inicialmente formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, esse grupo expandiu-se rapidamente e passou a incluir países muito diferentes, mas quase todos com uma característica evidente – um dinamismo econômico maior que o do Brasil. Se as autoridades de Brasília dessem maior atenção às diferenças de desempenho econômico e às suas explicações técnicas, talvez as projeções do PIB no boletim Focus, hoje tão modestas, ficassem um pouco mais animadoras.

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A ASCENSÃO VIOLENTA DA MENTIRA

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica; mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico

Fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado

Na última conversa com TrumpLula retificou mais um despropósito que contamina relações comerciais e diplomáticas: as mentiras deslavadas sobre desmatamento (diminuiu 50% desde 2022) e trabalho escravo (há combate às condições degradantes da mão de obra). Fake news, portanto, nenhuma novidade na história das agressões imperiais. É de memória viva a mentira de Bush sobre armas nucleares no Iraque, pretexto para uma guerra que arruinou aquele país.

Políticos mentem individualmente, como recurso retórico. Acredita ou finge acreditar quem quer, a depender do grau de confiança. O cientista e compositor Paulo Vanzolini sugeriu em canção ("Mente") um arguto caminho reflexivo para a questão: mentira como "uma hipótese de vida", na falta de qualquer outra. Mas com ressalva: "Pois na mentira, meu amor / crer, eu não creio / só pretendo que de tanto mentir / repetir que me ama / você mesma acabe crendo".

Erro, momento falso na construção da verdade, é questão lógica. Mentira, não, é fenômeno ético, de alcance filosófico. Jacques Derrida (em "História da Mentira", 1995) detecta, assim como Vanzolini, um paradoxo: o mentiroso não é mero autor de uma falsidade, pois quer impingir como verdadeiro aquilo que ele sabe ser falso. Há intenção de enganar, portanto, um grau real de violência na quebra moral da responsabilidade que se deva ter para com o outro.

Por isso, o fenômeno assume dimensão muito grave quando passa da esfera individual ao Estado, no funcionamento operativo de seus aparelhos coercitivos e ideológicos. É quando, na produção deliberada de falsidades, transparece o arbítrio hegemônico e cruel de um poder, a conversão do que Vanzolini chamou de "hipótese de vida" em hipótese de morte do sentido político. Acontece quando um pretenso modelo global da vida democrática tenta legitimar com mentiras suas agressões à soberania externa e seus assassinatos seletivos. São os Estados (não tão) Unidos da América, centralizados como potência imperial.

Assim, podem matar dirigentes de nações, sob qualquer pretexto. Afundar lanchas no Caribe, sem comprovação de narcotráfico nem resgate de sobreviventes, criando a figura (jurifascista) do "suposto criminoso", extensiva a imigrantes. Senão, extorquir petróleo a preço de custo ou transferir bilhões das reservas venezuelanas para os cofres americanos, enquanto assistem impávidos aos pedidos de socorro financeiro das vítimas do terremoto. É a mesma lógica das tarifas. A mentira respalda uma nova forma de colonização administrativa.

Tudo isso incrementa, na aba da internacional direitista, a desintegração dos direitos do homem em escala continental. Entre nós, o fenômeno pôde ser vivido no auge bolsonarista, quando a disseminação oficial de mentiras impregnava a vida cotidiana. Hoje se aperfeiçoa de pai para filho na forma do cinismo cara-de-pau e tira a capa no âmago da mais alta magistratura do país.

Nos frouxos de riso, caberia entoar juntos "todo es mentira", como no tango ("Yra, Yra") celebrizado por Gardel. É que a violência da enganação entubada pelos enganados parece mesmo uma triste hipótese de vida pública.

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FLÁVIO E MORAES RECEBERAM A MESMA GRANA DO MESMO ESQUEMA

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

O fim do sigilo do inquérito do Master vai explicar quais candidatos estão envolvidos no escândalo

Se as suspeitas forem verdadeiras, senador e ministro são cúmplices

Se as acusações contra Flávio Bolsonaro e Alexandre de Moraes forem verdadeiras, os dois foram cúmplices.

É estranho, eu sei.

Flávio Bolsonaro é filho do maior criminoso da história do Brasil. Alexandre de Moraes foi o juiz que prendeu o pai de Flávio por seu segundo pior crime, a tentativa de golpe de 2022 (o maior foi o assassinato em massa durante a pandemia).

É possível que o filho do bandido e o juiz que o prendeu estejam no meio da mesma mutreta?

Ao que parece, sim.

Flávio Bolsonaro é o herdeiro do movimento político que deu autorização para que Vorcaro virasse banqueiro, que deu bilhões em dinheiro de aposentados para o Master, que tentou salvar o Master elevando a cobertura do FGC, que tentou dar ao Congresso poder para demitir diretores do Banco Central que não aceitassem suborno de Vorcaro, que deu bilhões de reais do BRB (Banco Regional de Brasília) para evitar que o Master quebrasse.

Recebeu de Vorcaro a promessa de R$ 140 milhões. Não, não foi para fazer filme. Está cada vez mais claro que "Dark Horse" era um esquema que permitia aos deputados e prefeitos bolsonaristas, além do eternamente grato Daniel Vorcaro, desviarem dinheiro para o grande caixa 2 bolsonarista.

Se as suspeitas contra ele forem verdadeiras, Alexandre de Moraes chegou ao escândalo no final, quando o Master já estava indo para o buraco e precisava comprar juízes. Chegou atrasado, mas chegou gloriosamente: com uma promessa de R$ 130 milhões de Vorcaro.

Ainda não sabemos o que Moraes fez, ou teria feito, para justificar um investimento dessa grandeza da parte de Vorcaro. No mínimo, o Farialimer picareta esperava decisões favoráveis depois que o banco quebrasse e os processos começassem a chegar.

Se tudo for verdade, Moraes e Flávio trabalharam, de formas diferentes, para o mesmo criminoso: Daniel Vorcaro.

O futuro da eleição presidencial deste ano depende do público brasileiro entender ou não que Moraes e Flávio são acusados de terem ganho a mesma grana do mesmo esquema.

Tem gente grande trabalhando para que esta obviedade não venha à luz. E não, não são só os suspeitos de sempre na grande imprensa.

Com os vazamentos de André Mendonça, o caso Master voltou a ser, aos olhos do público, sobre Alexandre de Moraes.

Graças a isso, Flávio, que concorre à Presidência como avatar da aliança Daniel Vorcaro/Marco Rubio, já aparece numericamente à frente de Lula nas pesquisas. Moraes é o cara que prendeu o pai dele, certo?

Na verdade, Flávio Bolsonaro ganhou votos porque a população está indignada com um juiz acusado de ser cúmplice de Flávio Bolsonaro no caso Master.

A retirada do sigilo do inquérito Master por Edson Fachin é a última chance que teremos para explicar ao público quem, entre os candidatos, está de fato envolvido com o maior escândalo financeiro da história do Brasil. Espero que aproveitemos a oportunidade. Até agora, fracassamos.

Finalmente, é bom ressaltar: o caso Master não desqualifica o trabalho de Moraes no inquérito do golpe. Muito pelo contrário. O Master mostra o tamanho dos escândalos que os bolsonaristas promoveriam depois de terem se livrado do Judiciário independente e da imprensa livre.

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SEM PRECEDENTES, CRISE NO STF ESVAZIA CAMPANHA PRESIDENCIAL

César Felício, Valor Econômico

Noticiário sobre possível envolvimento de ministros da Corte com Vorcaro jogou atenção nas mídias para plano secundário e, em graus diferentes, atinge os seis principais candidatos

A crise dentro do Supremo Tribunal Federal (STF), que poderá ter seu ponto alto nesta terça-feira (15), com a deliberação em plenário sobre a abertura ou não de investigação contra o ministro Alexandre Moraes, esvaziou a campanha eleitoral. O noticiário sobre o possível envolvimento dos ministros da Corte com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, do Banco Master, jogou para um plano secundário de atenção nas mídias eventos de impacto eleitoral óbvio, como por exemplo a sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva que eliminou a chamada “taxa das blusinhas”. A crise já havia desconcentrado o Congresso Nacional, que prometera na primeira semana de setembro um esforço concentrado que poderia ter aprovado a PEC que acaba com a escala 6 por 1 de trabalho, outra iniciativa de apelo eleitoral que poderia beneficiar o governo.

Em declínio nas pesquisas, Lula é o principal prejudicado com o esvaziamento da campanha. O único ponto positivo para a campanha do presidente com a eclosão da crise no Judiciário é que as investigações contra o filho do presidente, o empresário Fabio Luís Lula da Silva, por ora saíram do radar.

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), em ascensão, caminha no fio da navalha, já que o Supremo confirmou que o parlamentar é investigado por seu papel no financiamento do filme “Dark Horse”, bancado por Vorcaro. O relator do caso Master no STF, ministro André Mendonça, claramente estava mantendo essa investigação em ritmo lento, mas a ordem do presidente da Corte, Edson Fachin, de quebra de sigilo de todos os documentos, pode diminuir o seu controle sobre a investigação.

De todo modo, o esvaziamento da campanha ocorre em um momento de reversão do favoritismo inicial de Lula e prejudica ainda mais seus concorrentes, Augusto Cury (Avante), Renan Santos (Missão), Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), que foram invisibilizados.

Não há precedente de campanha presidencial no Brasil tão esvaziada por um evento externo. Na eleição de 2014, as investigações sobre a Lava-Jato ganharam tração em novembro, semanas depois de consolidada a reeleição da então presidente Dilma Rousseff. Em 2006, Lula se reelegeu em uma janela das atenções sobre o escândalo do Mensalão. As denúncias foram notícia no ano anterior. O Supremo só começou a examinar o caso no ano seguinte. O paralelo mais próximo é o da campanha eleitoral de 1994, que perdeu a atenção da opinião pública assim que foi lançado o Plano Real, com a troca do padrão monetário e o fim do processo da hiperinflação. Fernando Henrique Cardoso, recém saído do Ministério da Fazenda, virou uma eleição que parecia destinada a consagrar Lula.

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MEMÓRIAS E IDEIAS SELETIVAS SOBRE DEMOCRACIA E REPÚBLICA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Flávio e Moraes ganham apoios de quem tem memória e ideias seletivas sobre democracia e república

Revolta justa contra ministro abafa o caso do candidato da 'rachadinha' e do Rio podre

Um vazamento pode decidir a eleição, temem ou esperam lulistas e bolsonaristas

Manifestos de empresários e da "sociedade civil", associações de gente bem-situada na vida, pedem "transparência" no Supremo. Sob muitos aspectos, têm razão. Pela decência básica, ao menos dois ministros do STF estariam com o pé na cova judicial. Sob outro aspecto, a revolta é seletiva, assim como vazamentos, inquéritos, juízes, a memória etc.

Esquece-se da história de Flávio "Página Virada" Bolsonaro, investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Perto do passado dele, o que se sabe por ora do dinheiro para financiar as artes da família, o "Dark Horse", ainda é fichinha.

A indignação foi inflamada pela divulgação de mensagens que Daniel Vorcaro enviava ao celular de um Alexandre de Moraes, pedindo ajuda para fugir da polícia. Esse "um" Alexandre de Moraes é um benefício generoso da dúvida. Para merecê-lo, o ministro teria de provar que o gângster na verdade ligava para o celular de um Zé Laranja Encerrabodes de Oliveira, não o de Moraes. Não sendo o caso, teria de explicar por que não chamou a polícia, ainda na hipótese generosa. Sem isso, o ministro estaria no bico do corvo em um mundo de processos legais.

Por erro ou "erro" de procedimento de André Mendonça ou por chicana política, Moraes pode escapar, para aumento da indignação, mais típica de antilulistas. Lulistas defendiam Moraes e apontam, em parte com razão, que Mendonça colaborou com o autoritarismo bolsonarista. No mais, os Moraes e Bolsonaros levaram dinheiro de Vorcaro.

O STF está em guerra de poder e eleitoral. Um vazamento pode decidir a eleição, temem ou esperam lulistas e bolsonaristas. Edson Fachin por ora vai levar só Moraes ao cadafalso; Mendonça fica para depois. Aliados de Xandão podem vir a alterar o processo, com a tese do "erro de procedimento" ou jogando o caso de mais ministros no ventilador. Fachin já sabe do destino do julgamento ou arrisca? De qualquer modo, mandou Mendonça abrir sigilos, acusação implícita de seletividade. Seja qual for o resultado da sessão de terça no STF, se houver terça, chicanas políticas vão cobrir de cinzas a "transparência", que será elogiada por quem vencer provisoriamente a disputa.

Erro de procedimento é o elixir da vida de moribundos judiciais, embora devesse ser levado a sério. Erro de procedimento foi em parte o caso da Lava Jato; muito crime empresarial acaba nisso, sem motivar manifestos. Erro de procedimento foi o elixir de

Flávio foi denunciado em 2020 pelo Ministério Público por peculato, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa. Era acusado de pegar o salário de seus funcionários na Assembleia do Rio de Janeiro e de lavar o furto pagando despesas pessoais e compras de imóveis com dinheiro vivo ou por meio da loja de chocolate. O dinheiro era recolhido por Fabrício Queiroz, elo de Flávio com milícia. Por falar em Rio, o grupo político de Flávio por lá, que dominava o governo, é ligado a facções, como o CV, e botou dinheirama de servidores no Master.

A instância inadequada do processo ("foro") e a "imprestabilidade" de provas obtidas no Coaf levaram STJ e STF a enterrar o caso em 2021.

A depender do voto para presidente e conveniência, "fatos" valem mais do que "procedimentos" e vice-versa. Para quem vier com a conversa de "falsas equivalências": como defender com razões seu projeto político sem perdão de bandalhas ou, mais importante, de adeptos da ruína democrática?

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OS FATOS, MAIS QUE OS ATAQUES, VÃO DITAR O RUMO DOS INDEPENDENTES

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

As campanhas têm margem ínfima de manobra para tentar tirar Lula e Flávio da situação de empate

O presidente achou que o senador seria o adversário mais fácil de derrotar, mas a prática desmentiu a tese

Três semanas neste Brasil de sobressaltos é muito tempo. Seis, então, equivalem à eternidade. É o que nos separa dos primeiro e segundo turno das eleições gerais.

Daqui até lá vão acontecer muitas coisas, dentre as quais nada indica que estará a alteração do quadro de disputa entre Luiz Inácio da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL).

Na fotografia das pesquisas, Lula ainda aparece à frente; o filme, contudo, conta outra história: a distância se estreita e, em algumas delas, Flávio chega a inverter a linha da liderança.

As campanhas de ambos jogam com margem ínfima de manobra e acreditam poder tirar a diferença usando os casos em que a polícia se mistura com política e Justiça como matéria-prima para a troca de ataques.

O que vale daqui em diante não são as palavras dos candidatos. Podem ser veementes o quanto quiserem, mas o que conta são os fatos, suas respectivas gravidades e a capacidade de mexerem nos votos da parcela de eleitores ditos independentes, calculada pelos institutos em 10% na média nacional.

É gente que não acaba mais: cerca de 15 milhões de brasileiros aptos a votar, que até agora não se sensibilizaram com outras candidaturas nem aderiram ao comando da dinâmica de afeições e aversões que exclui o critério da racionalidade na escolha do chefe da nação.

Hoje, o presidente aparece em desvantagem para capturar esse eleitorado. Com substantiva vida política, cinco vitórias presidenciais do partido, uso indiscriminado da máquina pública, pacotes de bondades sociais e aura de superstar, Lula estacionou ao lado de um oponente sem lastro. Senador inexpressivo, ungido a candidato para defender a permanência do sobrenome na ribalta da política e livrar o pai da prisão.

Em tese, uma batalha desigual. Era o que parecia e desejava o PT. Isso até a prática se mostrar divergente, colocar trajetórias tão diferentes no mesmo patamar e levar Lula a enfrentar o mais desqualificado dentre o elenco de antigos adversários.

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sábado, 12 de setembro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO É UM CANDIDATO SOB SUSPEITA

Editorial O Estado de S.Paulo

Com autorização de André Mendonça, Flávio Bolsonaro é formalmente investigado pela PF por sua relação financeira com Daniel Vorcaro e segue devendo explicações convincentes ao País

O País acaba de tomar conhecimento de que Flávio Bolsonaro, candidato a presidente da República pelo PL, é oficialmente investigado pela Polícia Federal (PF) por sua associação com o banqueiro Daniel Vorcaro para o suposto financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, apura se Flávio cometeu os crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Como se sabe, Flávio pediu de viva voz R$ 134 milhões a Vorcaro, tendo recebido mais de R$ 60 milhões, segundo a PF. O candidato, inclusive, esteve pessoalmente com o banqueiro vigarista no curto interstício em que ele esteve livre, condicionado ao uso de tornozeleira eletrônica, entre uma prisão e outra.

É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas. Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.

Ao que tudo indica, o financiamento do tal filme pode ter sido apenas um meio de obtenção de dinheiro sujo da rede de operações de Vorcaro para bancar uma série de gastos de figuras de proa do bolsonarismo – desde a produção do filme propriamente dita até o sustento da vida de playboy que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, leva nos Estados Unidos. Um fundo de investimentos no Texas, cujo titular é um advogado amigo de Eduardo, recebeu dinheiro de sócios de Vorcaro para, supostamente, cobrir despesas da produção de Dark Horse, uma transação inusual no setor audiovisual. Ademais, há suspeita, ainda a ser investigada, de que parte dos milhões recebidos por Flávio de Vorcaro possa ter sido usada no financiamento de sua própria campanha eleitoral, o que caracterizaria “caixa dois”.

Louve-se aqui a iniciativa do presidente do STF, ministro Edson Fachin, de pedir a Mendonça, relator do caso Master na Corte, que levantasse o sigilo das investigações, pedido este atendido, ainda que parcialmente. Por mais graves que sejam as informações que ora vêm a público, é incerto se elas prejudicarão a candidatura presidencial de Flávio. Mas isso pouco importa. O eleitor tem o direito de ir às urnas sabendo exatamente de tudo o que pesa contra quem pretende governá-lo. A decisão de voto diz respeito apenas à sua consciência.

Diante dessa mixórdia entre interesse público e interesses privados, Flávio não só segue devendo explicações convincentes ao País, como chega a ser cínico ao insistir que tudo não teria passado de uma relação “privada”, envolvendo dinheiro “privado”. É uma dupla mentira. Em primeiro lugar, porque há fundadas suspeitas de que recursos de emendas ao Orçamento da União do deputado federal Mario Frias (PL-SP) tenham sido direcionados para o orçamento de Dark Horse, como revelou a Operação Make Up, deflagrada pela PF há poucos dias. Em segundo lugar, porque o dinheiro de Vorcaro não pode ser tratado naturalmente como recurso privado: trata-se de fruto da maior fraude financeira de que o País já teve notícia. O que Flávio trata como dinheiro “privado” é o prejuízo de milhões de correntistas, investidores, servidores públicos e aposentados, o maior rombo já coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos.

Se Flávio Bolsonaro considera normal financiar uma hagiografia do pai – e sabe-se lá mais o quê – com recursos de origem tão gritantemente espúria, a fragilidade jurídica da defesa é o menor de seus problemas. Está-se diante, isso sim, de sua própria falência ética. Espera-se que um candidato à Presidência da República saiba distinguir entre o certo e o errado, o público e o privado, o lícito e o ilícito. Alguém que se perde entre essas noções elementares, evidentemente, não está qualificado para governar o Brasil.

Pode não parecer, mas caráter ainda importa. E ele se revela nas escolhas feitas por um candidato. Flávio fez as suas: chamou Vorcaro de “irmão” no áudio em que lhe pediu R$ 134 milhões e não teve pudor em ignorar a origem do dinheiro. Que os eleitores se perguntem que espécie de irmandade é essa – e o que ela diz sobre quem aspira à Presidência da República.

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POR QUE ELEITOR DEMOROU A SABER DE INVESTIGAÇÃO SOBRE FLÁVIO BOLSONARO ?

Flávia Oliveira, O Globo

Eleitorado só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois

Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?

Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.

Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.

Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.

A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.

Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.

Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.

Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.

Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.

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O STF OLHOU PARA O ABISMO, O ABISMO AGORA OLHA PARA ELE

Thaís Oyama, O Globo

Se o inquérito das fake news se tornar público, virão à luz procedimentos mantidos há quase oito anos em sigilo

Ao emergir de sua meditação profunda, Edson Fachin tomou nesta semana uma série de medidas para suspender o bangue-bangue do STF — a última delas, a determinação para que André Mendonça levante integralmente o sigilo dos procedimentos do caso Master. As ações do presidente do Supremo se provaram tão tardias quanto vãs. Na quarta-feira, quando foram divulgadas, a Corte já parecia terra sem lei; e até ontem o tiroteio entre os ministros não dava mostra de arrefecer. Duas das providências anunciadas por Fachin, porém, ainda podem mudar os rumos do tribunal, caso sobrevivam à cortina de fumaça com que se pretende desviar o foco do que importa.

A primeira foi a retirada das mãos de Alexandre de Moraes do inquérito das fake news. O UOL revelou ontem que a teratologia jurídica criada por Dias Toffoli e conduzida por Moraes deu origem, ou serviu de base, a mais de cem procedimentos, a maioria sob sigilo. Fachin agora considera torná-los públicos. Se fizer isso, virão à luz procedimentos mantidos em segredo ao longo de quase oito anos. Também se conhecerá a extensão das heterodoxias processuais empregadas por Moraes para conduzir casos formalmente públicos, como o processo ainda em curso contra um advogado por uma malcriação proferida há oito anos contra Gilmar Mendes num aeroporto de Madri.

Será a oportunidade de o Supremo acertar as contas com um inquérito que nasceu para proteger ministros e seus familiares de investigações inconvenientes e cujos métodos foram tolerados por parte da sociedade e pela totalidade da Corte, sob o pretexto de defender a democracia. A depender de Fachin, o inquérito das fake news pode agora deixar a cena para entrar para a História como uma das páginas mais vergonhosas do STF.

A segunda providência capaz de corrigir os rumos da instituição foi a promessa de levar o Supremo a enfrentar a questão de fato premente, por sua gravidade e por ter sido a origem da presente crise: as gritantes suspeitas de prática de crime por um de seus integrantes, o ministro Alexandre de Moraes. Sem enfrentá-la, o Supremo não sairá do atoleiro. E a pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta-feira mostra quanto ele é profundo.

O levantamento apontou que quase metade dos brasileiros (49,7%) confia pouco ou nada no STF. A descrença atravessa praticamente na mesma proporção todos os segmentos demográficos: homens e mulheres, jovens e idosos, ricos e pobres, religiosos e sem religião. Não é uma desconfiança de nicho, mas descrédito generalizado.

Há notícia pior. Segundo o levantamento, 51,6% dos brasileiros concordam com a ideia de que os ministros do STF decidem “mais por interesse próprio do que pela lei”. Isso significa que, quando os dez integrantes da Corte chegam ao plenário com suas togas negras e seus semblantes graves, sob a liturgia vetusta da instituição, mais da metade dos brasileiros os enxerga não como guardiões da Constituição, mas como magistrados que atuam em causa própria.

A gravidade da situação está em a legitimidade do poder de julgar repousar justamente sobre a crença de que juízes atuam como terceiros imparciais: não integram o conflito, não têm interesse pessoal em seu desfecho e decidem segundo o Direito, ainda que contrariem maiorias. Uma Corte que consome sua reserva de legitimidade pode manter o poder de decidir, mas perde a autoridade.

No próximo dia 15, o plenário poderá seguir o que diz a lei: diante de indícios, investigue-se, diante de uma investigação, afaste-se o investigado, diante de uma acusação, dê-se a ele o direito de defesa. Ou pode optar por esconder suas chagas atrás de pedidos de vista e de uma sessão a portas fechadas. Nesse caso, confirmará a percepção pública de que, entre a lei e a autoproteção, escolhe sempre o abismo.

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