domingo, 19 de abril de 2026

O PAPA E O IMPERADOR

Bernardo de Mello Franco, O Globo

Cruzada contra Papa Leão XIV pode custar caro a Trump

Pontífice é comparado a Pio VII, que peitou Napoleão, por não se dobrar ao imperador laranja

Foi no período de sede vacante, o intervalo entre a morte de um Papa e a escolha do sucessor. A uma semana do início do conclave, o presidente dos Estados Unidos arriscou uma piada sobre o perfil ideal do substituto de Francisco. “Eu gostaria de ser Papa. Seria minha escolha número um”, gracejou.

Três dias depois, Donald Trump voltou à carga. Divulgou uma montagem em que aparecia no trono, vestido de pontífice. A provocação revoltou católicos de todo o mundo. Em Roma, foi recebida como sinal de novos atritos entre a Casa Branca e a Santa Sé.

Trump travou uma série de embates com Francisco, crítico de sua política de deportações em massa. “Quem pensa em construir muros, e não em construir pontes, não é cristão”, sentenciou em 2016, quando o americano prometia erguer uma barreira contra imigrantes na fronteira com o México.

Após a morte do argentino, Trump indicou que torcia pela eleição do cardeal de Nova York, o conservador Timothy Dolan. A Igreja escolheu um Papa americano, porém ligado ao ideário de Francisco: Robert Francis Prevost, defensor dos direitos humanos e ex-missionário na América Latina.

Mais contido que o antecessor, Leão XIV começou em tom conciliador. Evitou polêmicas, fez concessões aos tradicionalistas e buscou atenuar as divisões no catolicismo. Nos últimos dias, precisou engrossar a voz para rebater ataques de Trump. Foi comparado a Pio VII, que peitou o cerco de Napoleão e chegou a ser preso, mas conseguiu restaurar a independência da Igreja.

O imperador laranja tem outros métodos. No fim de março, seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, invocou o nome de Deus para justificar bombardeios ao Irã. Sem citá-lo, o Papa respondeu que Jesus rejeita as orações de quem cultua a guerra e tem “mãos cheias de sangue”.

Depois Trump afirmou que o pontífice seria “fraco com a criminalidade”. “Não quero um Papa que critica o presidente dos EUA”, desafiou. No mesmo dia, o imperador laranja publicou outra imagem produzida com inteligência artificial em que aparecia como Jesus curando um doente.

Sob ataque, Leão XIV avisou que não tem medo do republicano. “Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser abusada como alguns estão fazendo. Vou continuar a falar forte contra a guerra, buscando a paz”, garantiu.

Sem medo do ridículo, o vice-presidente J. D. Vance aconselhou o Papa a ter cuidado ao falar de teologia. O trumpista se converteu ao catolicismo em 2019, quando Prevost já era bispo e somava quase quatro décadas de sacerdócio.

Além de reforçar a autoridade moral do Papa, os ataques de Trump tendem a ampliar seu desgaste com os católicos, cerca de 20% da população americana. Seus votos devem fazer falta nas eleições de novembro, que ameaçam tirar a maioria parlamentar dos republicanos.

Leão XIV não dá sinais de que vá se dobrar. Na quinta-feira, criticou os “senhores da guerra” e disse que o mundo está “assolado por tiranos”. O Vaticano já avisou que o Papa não vai aos EUA para os 250 anos da independência, que Trump planeja transformar num culto à própria personalidade. O pontífice passará a data em Lampedusa, onde deve voltar a condenar o tratamento desumano a imigrantes.

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AO LADO DE SANCHES, LULA SOBE O TOM CONTRA TRUMP EM EVENTO NA ESPANHA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima ao presidente dos Estados Unidos e uma escalada retórica desnecessária que pode acarretar retaliações da Casa Branca

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom nas críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por causa da guerra do Irã, ontem, durante a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona. Durante o evento, ao lado do presidente da Espanha, Pedro Sanches, Lula criticou as guerras e o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). "Nós não podemos levantar todo dia de manhã e dormir todo dia à noite com um tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra" , disse.

Embora o ambiente fosse favorável a um discurso em defesa da paz, o tom das críticas a Trump sinaliza que pretende trazer para o debate eleitoral a relação com os Estados Unidos, em meio a negociações com a Casa Branca sobre o Pix e à iminente adoção de novas tarifas contra o Brasil pelo governo norte-americano. O contexto político interno, muito impactado pelos efeitos econômicos da guerra do Irã e a sua ultrapassagem por Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, sugere essa mudança de tática.

Ao elevar o tom contra Donald Trump em Barcelona, Lula mirou dois objetivos centrais: mitigar os efeitos econômicos internacionais sobre o cotidiano do eleitor e reconfigurar o debate eleitoral em torno da soberania e da política externa. "O que não pode é o mundo gastando US$ 2 trilhões e 700 bilhões em armas e o povo passando fome", destacou Lula. A 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre reúne chefes de Estado e de governo de diferentes regiões do mundo para debater o fortalecimento das instituições democráticas e os principais desafios globais à governança.

Criado em 2024 por iniciativa de líderes progressistas, entre eles Lula e o espanhol Pedro Sánchez, o Fórum Democracia Sempre busca ampliar a articulação internacional em defesa da democracia diante do avanço de movimentos autoritários e extremistas em diferentes países. A edição deste ano ocorre em meio a conflitos armados em diferentes regiões, como no Oriente Médio, e ao aumento das tensões políticas internacionais, incluindo embates envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Lula aproveitou a oportunidade para aprofundar a polarização política com o presidente Jair Bolsonaro: "Nós temos um ex-presidente preso, condenado a 27 anos de cadeia. Nós temos quatro generais de quatro estrelas presos porque tentaram dar um golpe. Mas o extremismo não acabou. Ele continua vivo e vai disputar a eleição outra vez". As pesquisas recentes mostram que o tempo fechou para Lula: há queda de popularidade e o risco eleitoral reduz a expectativa de poder. A oposição de direita, com Flávio Bolsonaro em destaque, avançou em cenários de segundo turno; em alguns levantamentos, o filho do ex-presidente está à frente fora da margem de erro. Lula acusou o golpe. "Mas ele é um problema nosso. Ele é um problema do povo brasileiro. Esse a gente lida com as nossas forças e com as nossas armas lá dentro", reconheceu.

Guerra e feijão

A escalada do conflito dos EUA e de Israel com o Irã já pressionou preços de energia e alimentos, com isso, a percepção pública sobre a economia se deteriora apesar de indicadores macroeconômicos relativamente sólidos. A alta do preço do petróleo e seus efeitos inflacionários atingem diretamente custos de transporte, combustíveis e alimentos, amplificando a sensação de aperto sobre famílias endividadas e sobre os eleitores de renda média. Lula reforça o discurso de que não cede a interesses estrangeiros na esperança de atrair eleitores preocupados com autonomia econômica e identidade nacional.

Ao afirmar que "Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil", Lula carrega nas tintas e transforma a geopolítica em apelo emocional. As pesquisas dirão se conseguirá mobilizar segmentos sociais que sentem o impacto imediato da inflação e da carestia, bem como eleitores que valorizam discurso de defesa nacional, embora com certeza mobilize apoio da base partidária e de atores progressistas internacionais, como no evento da Espanha. Entretanto, elevar o confronto retórico com os EUA pode bloquear canais diplomáticos para o Brasil e inviabilizar acordos técnicos e negociações comerciais e financeiras.

No plano interno, também pode funcionar como bumerangue, caso o discurso seja acolhido como um oportunismo eleitoral. Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima a Donald Trump, cuja imagem desce a ladeira nos Estados Unidos e no mundo, e uma escalada desnecessária que pode acarretar retaliações econômicas e políticas da Casa Branca. A escolha do evento em Barcelona e de Pedro Sánchez como interlocutor foi um gesto calculado. O ataque a Trump reforçou alianças ideológicas e atraiu cobertura internacional favorável.

Mas o sucesso de Lula depende mesmo é de respostas efetivas aos problemas econômicos, sociais e políticos internos. O anúncio subvenções a combustíveis e gás, linhas de crédito para setores estratégicos e tributação compensatória busca sinalizar ação concreta do governo para mitigar os efeitos da guerra. Entretanto, as controvérsias dentro do próprio governo sobre a "taxa das blusinhas", a subvenção à gasolina e a margem para esses e outros gastos revelam que o governo está propenso adotar a retórica de uma "economia de guerra" para enfrentar as dificuldades eleitorais.

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OS SUPREMOS

Merval Pereira, O Globo

Agora já não é mais um governo autoritário que ameaça o Supremo, é o Supremo que ameaça a democracia

A fórmula mais usada em governos autoritários, de esquerda ou de direita, para controle da democracia sem que suas instituições deixem de funcionar na aparência é o domínio do que aqui se denomina Supremo Tribunal Federal (STF). Por ser a última instância da Justiça, é a que pode definir quem está certo ou errado, especialmente no Brasil, onde qualquer tipo de ação vai parar lá. Por isso mesmo, um governo como o de Bolsonaro, que claramente tinha o objetivo de dar um golpe de Estado, atacava seus representantes, para criar na população uma ojeriza à sua atuação.

Em consequência, os que defendiam a democracia em diversos níveis nacionais se uniram a favor do Supremo, e mesmo medidas consideradas exageradas (como as longas prisões provisórias) ou punições contra críticas, mesmo as menos agressivas, eram vistas como fatos a serem barrados para não deixar que o clima de campanha contra o Supremo prosperasse. O inquérito das Fake News, por exemplo, mal iniciado há sete anos, foi muito criticado no momento por falhas técnicas, como a indicação do ministro Alexandre de Moraes como relator sem que houvesse um sorteio obrigatório. Mas seus exageros nunca foram combatidos com o devido rigor por boa parte da imprensa profissional, inclusive eu, no entendimento de que o objetivo final era correto.

Só que não. A circunstância política permitiu que aflorassem em alguns dos membros do Supremo seus instintos mais primitivamente autoritários, contidos pelo ambiente democrático que começou a se esvair no governo Bolsonaro. Os anos de persistência da Operação Lava-Jato devem-se muito ao ministro Gilmar Mendes, que um dia classificou o governo petista de “cleptocracia” e apoiou as decisões, que tiveram nos ministros Teori Zavascki e Edson Fachin dois apoiadores de primeira ordem.

Alguma coisa aconteceu no caminho, porém, que fez com que o ministro Gilmar Mendes mudasse de posição, e ele passou a ser um inimigo ferrenho da Lava-Jato. Criticava anteriormente, é bem verdade, as longas prisões preventivas, as delações premiadas abusivas, mas não revogava suas palavras diante das acusações de corrupção que abundavam com as prisões. Foi buscar nas transcrições criminosas de conversas entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores de Curitiba a base para sua campanha de aniquilamento da Operação, sem se preocupar com o que estava sendo deixado pelo caminho: uma série de crimes não julgados, muitos empresários e políticos liberados mesmo depois que suas confissões tivessem revelado esquemas criminosos variados e muito dinheiro devolvido. Tudo parecia compor o quadro proposto pelo ex-senador Romero Jucá, “estacar a sangria, com STF e tudo”.

O espírito vingativo de parte dos membros do Supremo aparece agora na defesa da confraria, ora com a ressurreição de propostas já engavetadas, ora com a sugestão de medidas que reduzem o poder do Senado para impedir membros da Corte, ou para reduzir o âmbito das CPIs; ora para ameaçar um senador que, nos estritos poderes que lhe confere a Constituição, indiciou três deles por motivos reais, mas por meio de instrumento impróprio. Não satisfeitos com a reprovação do relatório, querem impor uma derrota acachapante ao senador, impedindo-o de se candidatar à reeleição.

Agora já não é mais um governo autoritário que ameaça o Supremo, é o Supremo que ameaça a democracia se envolvendo em um jogo político que, a pretexto de prevenir uma volta da extrema-direita ao poder, se transforma em um instrumento de medidas autoritárias. Pior: evita que seus membros envolvidos em denúncias graves de corrupção sejam investigados por seus atos. Pela reação agressiva e desproporcional, fica a sensação de que se sentem acima de todos os demais poderes da República, não apenas na retórica. Como definiu o ministro Gilmar Mendes, o nome é Supremo “porque nós somos supremos”.

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VICTOR HUGO AJUDA A REFLETIR SOBRE AS ROUBALHEIRAS DE SEMPRE

Dorrit Harazim, O Globo

Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de ‘Os miseráveis’

Na semana passada, a Assembleia Nacional da França aprovou, por rara unanimidade, o Projeto de lei que agiliza a devolução de obras de arte e bens culturais saqueados ao longo de 157 anos. O limite temporal da medida (entre 1815, ano da queda de Napoleão, e 1972, data da entrada em vigor de convenção da Unesco sobre restituições) restringe o caráter universal inicialmente pretendido. O texto tampouco abriga a palavra-chave envergonhada da questão: “colonização”. Ainda assim, com nove longos anos de atraso, a medida veio cumprir uma promessa de 2017 feita pelo presidente Emmanuel Macron.

A sessão plenária de seis horas foi salpicada de alta literatura — comme il faut tratando-se de debates parlamentares na França. E coube ao deputado Jérémie Patrier-Leitus, do partido de centro-direita Horizons, o troféu de melhor citação. O parlamentar recorreu a uma carta, certamente a mais célebre do romancista Victor Hugo, escrita mais de 150 anos atrás. A carta é tão primorosa que merece ser contextualizada e transcrita aqui quase na íntegra, em tradução livre. Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de “Os miseráveis” e do político que escreveu o “Discurso sobre a miséria”.

Corria o ano de 1861 e os governos imperiais do Reino Unido e da França haviam lançado uma segunda expedição contra a China (a Segunda Guerra do Ópio). Um oficial britânico chamado Henry Butler, interessado em explorar o prestígio de Victor Hugo, enviou-lhe uma missiva sugerindo o apoio do escritor à empreitada colonial. Àquela altura, um dos bens culturais mais icônicos da humanidade, o milenar Palácio de Verão imperial chinês (ou Palácio da Harmonia Preservada), já havia sido saqueado e virado cinzas nas mãos dos expedicionários.

A resposta de Victor Hugo:

“Ao Capitão Butler / Hauteville House / 25 de novembro de 1861

Uma vez que deseja conhecer minha opinião, ei-la:

Havia, em um canto do mundo, uma maravilha mundial; essa maravilha chamava-se Palácio de Verão. A arte tem dois princípios: a Ideia, que produz a arte europeia, e a Quimera, que produz a arte oriental. O Palácio de Verão era, para a arte quimérica, o que o Partenon é para a arte ideal. Ali se encontrava tudo o que podia ser concebido pela imaginação de um povo quase sobre-humano. Não era uma obra única, singular, como o Partenon; era como um imenso exemplar de quimera, se a quimera pudesse ter exemplar.

Imagine uma construção inexprimível, algo semelhante a um edifício lunar, e terá o Palácio de Verão. Erga um sonho com mármore, jade, bronze e porcelana; emoldure-o em cedro, recubra-o de pedras preciosas, revista-o de seda, faça aqui, um santuário; ali, um harém; acolá, uma cidadela; acrescente nele deuses e monstros; envernize, esmalte, doure, pinte; mande arquitetos que sejam poetas erguer os mil e um sonhos das Mil e Uma Noites; acrescente jardins, lagos, águas correntes e espumas, cisnes, íbis, pavões; imagine uma resplandecente fantasia humana com função de templo e de palácio — tal era esse edifício.

Foi necessário o lento labor de gerações para criá-lo. Esse edifício, vasto como uma cidade, fora construído por séculos; e para quem? Para os povos. Porque a obra do tempo pertence ao homem. Artistas, poetas e filósofos conheceram o Palácio de Verão; Voltaire fala dele. Falava-se do Partenon na Grécia, das pirâmides no Egito, do Coliseu em Roma, de Notre-Dame em Paris, do Palácio de Verão no Oriente. Se não o viam, imaginavam-no. Era uma espécie de prodigioso e desconhecido chef-d’œuvre, entrevisto ao longe, numa espécie de crepúsculo, como a silhueta da civilização da Ásia no horizonte da civilização europeia.

E essa maravilha desapareceu.

Um dia, dois bandidos entraram no Palácio de Verão. Um saqueou; o outro incendiou [...] Mistura-se a esse fato o nome de Elgin, que inevitavelmente faz lembrar o Partenon. O que se fez ao Partenon, fez-se ao Palácio de Verão, de forma ainda mais completa e hábil, para que dele nada restasse. Os tesouros reunidos de todas as nossas catedrais não valeriam esse formidável e esplêndido museu do Oriente. Ele continha não só obras-primas de arte, mas uma imensidão de joias. Que feito extraordinário, que presa magnífica! Um dos dois vencedores encheu os bolsos; quando o outro viu isso, encheu os cofres. E retornaram à Europa, braço dado, rindo à vontade. Tal é a história dos dois bandidos.

Nós, europeus, somos os civilizados; os chineses, para nós, são os bárbaros. Eis o que a civilização fez à barbárie.

Perante a História, um dos dois bandidos se chamará França; o outro, Inglaterra. Mas eu protesto, e agradeço-lhe por me haver dado ensejo de fazê-lo! Os crimes dos que governam não são culpa dos que são governados; os governos são às vezes bandidos, os povos nunca.

O império francês embolsou metade dessa vitória e, hoje, com uma espécie de ingênua propriedade, exibe a esplêndida bugiganga do Palácio de Verão. Espero que venha o dia em que a França, liberta e purificada, restitua esse butim à China espoliada. Por ora, há um roubo e dois ladrões. Tomo nota.

Eis a medida da aprovação que dou à expedição da China.”

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A TERCEIRA VIA EXISTE ?

Elio Gaspari, O Globo

Tentar ler numa pesquisa de abril o comportamento do eleitorado em outubro é pouco mais que um exercício de quiromancia, sobretudo quando a Genial/Quaest registrou que há 62% de indecisos.

Há meses, todas as pesquisas trazem notícias ruins para Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o, (42% x 40%) dentro da margem de erro e em um cenário estimulado. O sabor amargo dessa pesquisa está na rejeição. Lula tem 55% e Flávio tem 52%, novamente dentro da margem de erro.

A terceira via tem dois candidatos: Romeu Zema, o ex-governador de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. No cenário de uma disputa do segundo turno, Lula patina na faixa dos 40%, enquanto os dois têm leve viés de alta. Zema tem 36% e Caiado, 35%.

Não se pode cravar, mas a terceira via parece existir. Zema e Caiado vieram de governos bem avaliados. O mineiro com 47% e o goiano com 85%. Eles precisam pescar seus votos entre os indecisos e os 42% que estão com Flávio Bolsonaro. Como sua experiência administrativa, ele limitou-se à gestão de um sobrenome e de uma loja de chocolates. A campanha pode favorecê-los.

A ventania das campanhas eleitorais desarruma previsões baseadas só em pesquisas. A sabedoria convencional trabalha com a hipótese de um segundo turno entre Lula e Flávio, mas em 1989 aguardava-se um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola. Em agosto, Lula tinha apenas 5% das preferências, com viés de queda. Em setembro, ele chegou a 16%, ultrapassando Brizola. Dois meses depois, Lula foi para o segundo turno, quando viria a ser batido por Fernando Collor.

(Naquela eleição, Ronaldo Caiado disputou pela primeira vez a Presidência e acabou em 10º lugar, com 0,72% dos votos).

Sidônio na frigideira

Assim como aconteceu com seu antecessor, os ventos da opinião pública sopram contra o Planalto e a responsabilidade é do ministro da Comunicação Social, o marqueteiro Sidônio Palmeira.

Pensando bem, é para isso que serve o ministro da Secom.

BC e o BRB

O Banco Central pode ter demorado para agir sobre o Master, ou não. Uma coisa é certa, o BC não agiu a tempo sobre o Banco Regional de Brasília, que funcionava como vaca leiteira de Daniel Vorcaro.

O presidente do BRB ao tempo de Vorcaro devia ter sido preso há mais de um ano.

Um canalha americano

Sai em setembro nos Estados Unidos “Canalha americano — A Jornada Sombria de Roy Cohn, de Joe McCarthy a Donald Trump”. Pelo autor, Kai Bird, e pelo personagem, tem tudo para ser um grande livro.

Bird escreveu a saga de Robert Oppenheimer que serviu de base para o filme sobre o pai da bomba atômica americana. Antes, ele havia escrito “The Chairman”, uma biografia de John McCloy (1895-1989), o filho de uma cabeleireira, que se tornou a encarnação do andar de cima dos EUA. Advogado e banqueiro, foi conselheiro de todos os presidentes de Franklin Roosevelt a Ronald Reagan. McCloy passou por Pindorama no final de fevereiro de 1964, defendendo os interesses da mineradora Hanna e esteve com o presidente João Goulart.

A jornada sombria de Roy Cohn começou em 1952. Como promotor, ele mandou para a cadeira elétrica um casal acusado de espionar para a União Soviética. Daí, tornou-se a alma danada das investigações do senador Joseph McCarthy (Na sua equipe estava o jovem Robert Kennedy).

Depois da ruína de McCarthy, Cohn submergiu, advogando em Nova York. Jogando pesado, com uma estampa amedrontadora, dada por um par de olhos azuis e uma enorme cicatriz no nariz, meteu-se em extorsões e acabou perdendo a licença para advogar. Entre seus clientes estavam mafiosos, padres e magnatas do mercado imobiliário. Entre eles, Donald Trump, que fez de Cohn uma espécie de tutor, com telefonemas diários. Trump agradou-o presenteando-o com uma abotoadura de brilhante da Bulgari (falsa).

Cohn morreu aos 59 anos, de câncer (segundo ele) e de complicações da Aids (segundo os prontuários médicos). A última pessoa com quem ele falou, ao telefone, foi Donald Trump.

Trump e os delinquentes

Donald Trump repete que muitos imigrantes sem papéis são delinquentes e devem ser deportados.

Tudo bem, mas o governo americano prendeu e soltou o doutor Alexandre Ramagem.

Ramagem foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos de prisão por ter se metido na armação do golpe de 2022/2023.

A encrenca do Judiciário

Noves fora as farofas, impropriedades e onipotências de alguns ministros do STF, talvez esta seja a hora de dar um freio de arrumação na magistratura.

Com a Constituição de 1988, perdeu-se a oportunidade de transformar o Supremo em Corte Constitucional. Isso se deveu inclusive ao interesse de alguns ministros que, com a mudança, perderiam poder. Resultado: o Supremo virou uma quarta instância, recebendo litígios triviais e acumulando superpoderes que deram no que deu.

Uma série de circunstâncias e ambições levaram o STF para o centro do palco, um problema inédito e desnecessário.

O Supremo é o topo de uma pirâmide mal ajambrada. Nenhuma magistratura funciona direito com 80 milhões de processos tramitando e com 35 milhões de novos casos a cada ano. Daí advém uma sobrecarga que é metabolizada em penduricalhos y otras cositas más.

O palhaço Tiririca estava errado: o que vai mal, piorará.

Mariz, 55 anos de advocacia

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira lança na quinta-feira, em seu escritório de São Paulo, o livro “Casos e causos — A trajetória de um defensor”. São 55 anos de advocacia em 272 páginas e 50 casos.

Tem de tudo. A mulher pobre que mata o companheiro que molestava a filha (absolvida). Como assistente de acusação, Mariz condenou filhos que mataram a mãe, viu ministro do Supremo maltratando advogado e promotores mais interessados em acusar do que em buscar a justiça. Tudo isso e mais uma referência da defesa da princesa Caroline de Mônaco, ofendida por um grã-fino paulista.

Em sete páginas, Mariz conta o seu caso de maior repercussão, a defesa do presidente Michel Temer, em 2017. Os dois partilham “uma amizade que ultrapassa meio século”. Sai mal no episódio o procurador-geral Rodrigo Janot, com sua famosa frase, “enquanto houver bambu, lá vai flecha”.

Mariz critica o tratamento dado ao grampo da conversa de Temer com o empresário Joesley Batista: “Foi apontada a existência de uma série de interrupções e hiatos na gravação”. Com a defesa de Mariz, a Câmara dos Deputados rejeitou a denúncia de Janot. Esse caso/causo chama-se “Em defesa de um amigo”.

“Casos e Causos” repassam 55 anos de trabalho de um advogado que está de bem com a vida. Seus personagens são de carne e osso, mas Mariz pincela passagens com críticas e louvores ao funcionamento do Judiciário. É um curso-relâmpago de Direito.

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COMO A GUERRA CHEGA NA ELEIÇÃO

Míriam Leitão, O Globo

Um recorte exclusivo da pesquisa Genial/Quaest mostra que apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis.

A guerra contra o Irã atingiu diretamente o Brasil, por isso, a perspectiva de fim do conflito, que se abriu na sexta-feira, é uma excelente notícia também para o governo brasileiro. Segundo a pesquisa Genial/Quaest, apenas 16% dos brasileiros não se sentem afetados pela alta dos combustíveis. O evento bagunça o cenário e aumenta a distância entre percepção e fato na economia. O país tem bons indicadores, mas o eleitor não sente isso. Para 38%, o principal causador dos preços dos combustíveis é a guerra do Irã e a situação internacional, porém o segundo vilão escolhido, com 25%, é o “governo Lula e suas decisões na economia”.

As pesquisas mostram que não têm melhorado nem a avaliação do presidente Lula nem a do governo, apesar dos bons números. Na atual administração, a inflação caiu, o desemprego despencou, a renda subiu, os trabalhadores do mercado formal, da base da pirâmide salarial, deixaram de pagar Imposto de Renda ou pagam menos. São fatos que indicam o avanço, mas o importante no mercado político é a percepção. O governo já tinha dificuldades e a guerra aumentou ainda mais seus problemas.

Os que se dizem mais atingidos pela alta dos combustíveis são homens, de 35 a 59 anos, do Sudeste e do Sul do país, com ensino médio ou ensino superior, com renda superior a dois salários mínimos e evangélicos. Alguns desses segmentos são particularmente desafiadores para a campanha do presidente Lula. As clivagens na sociedade brasileira se repetem na hora de avaliar quem é o causador do problema. Entre os católicos apenas 19% acham que é a culpa do governo Lula. Entre os evangélicos, 34% têm esta opinião.

O governo Bolsonaro enfrentou o mesmo problema, a disparada dos preços dos combustíveis em ano eleitoral causada por uma crise internacional. Em 2022, foi a guerra da Rússia contra a Ucrânia. Os dois governos decidiram suspender impostos federais sobre derivados de petróleo. Bolsonaro impôs aos estados a suspensão do imposto estadual. O governo Lula chamou os governadores para um pacto.

A Quaest perguntou aos eleitores: “Soube que o governo federal reduziu impostos e articulou com governadores?”. Entre os entrevistados, 63% disseram que não souberam e 37% souberam. No Nordeste, 70% desconheciam que houve redução de impostos sobre combustíveis. Entre as mulheres, 74%.

Quando perguntados o que acham das ações do governo sobre combustíveis, 55% aprovam e 31% desaprovam. A aprovação chega a 63% entre os eleitores do Nordeste, 60% entre os homens, mais do que os 52% das mulheres que aprovam. Tem aprovação até entre os bolsonaristas (40%) e direita não bolsonarista (50%).

Há uma divisão fiscalista interessante na pesquisa. Quando a pergunta é sobre o que o governo deve fazer agora, 49% disseram que é “manter a redução de impostos, mesmo que isso piore as contas públicas” e 39% acham que deve “priorizar o equilíbrio das contas, mesmo que o preço fique mais alto”. Dos que aprovam o governo, 52% defendem a manutenção da política, enquanto 37% consideram que o foco deve ser o ajuste fiscal. Já entre os que desaprovam, 46% apoiam a continuidade da medida, e 42% avaliam que a prioridade deve ser o fiscal.

O que a pesquisa mostra em todas as suas nuances é que nada é automático nessa relação entre economia e política. O fim da guerra, contudo, seria um alívio. A guerra é inflacionária, e isso eleva o mau humor que se vira contra a presente gestão. Ao longo da campanha, a aprovação do governo sempre melhora. Na pesquisa espontânea, 62% ainda não se decidiram. Ou seja, há muito chão pela frente, mas o incumbente tem sempre o terreno mais acidentado. O fim da guerra seria um solavanco a menos.

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VOANDO COM VORCARO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Como é fácil voar de graça no Brasil! Basta ter cargo importante e o que oferecer em troca

Ricos e poderosos cruzam os céus em jatinhos e jatões, próprios, alugados ou ‘emprestados’; se você tem um cargo, a FAB, empresas e empresários estão à sua disposição

Enquanto milhões de brasileiros vivem com seus filhos em barracos, amontoados em morros, sem esgoto, higiene e o mínimo de segurança e conforto, os ricos e poderosos cruzam os céus do País – e do mundo – em jatinhos e jatões, próprios, alugados ou “emprestados”. Baratinho não é.

Os muitíssimo ricos do setor privado compram aviões para uso pessoal, se exibir por aí, fazer negócios e paparicar quem lhes possa garantir algum tipo de vantagem. Os poderosos do serviço público aproveitam seus 15 minutos de fama para usufruir do bom e do melhor, como, por exemplo, os jatinhos da FAB e seus brindes caprichados.

O famoso da vez, Daniel Vorcaro, por exemplo, voava alto, cruzava oceanos e, além de “aviões laranjas” de suas empresas, comprou três jatos ultra modernos para ele próprio, com um detalhe: à vista. Mais interessante ainda é como ele fazia uso das preciosidades: para desfrute próprio, gracinhas para as namoradas e paparicar gente importante.

Está claro de onde vinha tanta grana para as extravagâncias de um espertalhão que virou banqueiro e, enfim, presidiário. Já o dinheiro para comprar e manter os jatinhos da FAB sai do seu, do meu, do nosso bolso. Aliás, está na hora da declaração de IR. O Leão é guloso, se você errar R$ 1 mil, tá ferrado.

Relatório do TCU, revelado por Vinícius Valfré, no Estadão, mostra como é bom voar nas asas da Panair, ops!, da FAB. Foram 791 voos em 2020, 1.531 em 2021, 1.879 em 2022, 2.124 em 2023 e 1.166 até julho de 2024. O gosto por jatinhos oficiais também não tem ideologia, vai de Bolsonaro a Lula em velocidade de cruzeiro.

Assim, é muito fácil viajar de graça no Brasil, seja para leilões de cavalos em São Paulo, como um certo ex-ministro do governo, ou jogos de futebol em países vizinhos e reuniões a dois com empresários esquisitões, como dois ministros do STF, e por aí vai. Se você tem um cargo importante, tem a FAB, empresas e empresários à disposição.

O TCU determinou à Casa Civil, à Defesa e à FAB que apresentem, em 30 dias, um plano com regras mais rígidas, transparentes, minimamente razoáveis. Defesa e Aeronáutica até podem gostar da ideia, mas a Casa Civil? Logo agora, com ministros novos, desconhecidos, doidos para tirar uma casquinha do cargo?

A providência é como o Código de Ética do Supremo, muito bem vinda, mas de resultado duvidoso, como tudo no Brasil, onde aventureiros tiram bancos da cartola, qualquer Pablo Marçal vira sucesso, inescrupulosos roubavam, roubam e vão roubar até de aposentados e pensionistas do INSS. Ah! E o crime organizado voa em aviões supersônicos, ninguém pega.

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O CASTELO DE AREIA DE TRUMP

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

Negociações entre Irã e EUA não passam de encenação e guerra reduz influência americana

Apesar da exibição de força militar avassaladora, conflito ampliou a percepção de falta de discernimento estratégico de Donald Trump

Os acordos de reabertura do Estreito de Ormuz pelo Irã e de cessar-fogo entre Israel e o Líbano não passam de encenações. A queda no preço do petróleo e as altas nos mercados de ações são movimentos especulativos.

O que o Irã “aceitou” foi manter aquilo que já havia imposto: os cargueiros têm de passar por corredores estabelecidos pela marinha iraniana. O Esquema de Separação de Tráfego (TSS), que funcionou tão bem desde os anos 60, está comprometido pelas minas lançadas pelo Irã.

O cessar-fogo no sul do Líbano não tem consistência porque Israel mantém tropas na área, o Hezbollah não aceita esse status e o exército libanês não tem meios de controlar a milícia pró-Irã.

A decapitação de Ali Khamenei, autor de decreto religioso que proibia a bomba nuclear, eliminou o maior fator de contenção no regime. Agora, ele é dominado pela Guarda Revolucionária, que ambiciona a bomba, ainda mais depois dessa guerra.

Donald Trump tenta mascarar o fato de ter rompido um acordo nuclear, firmado em 2015 por Barack Obama, que restringia efetivamente o enriquecimento do urânio, com as inspeções mais invasivas da história da Agência Internacional de Energia Atômica. Só depois desse rompimento em 2018 foi que o Irã elevou o enriquecimento de 441 kg de urânio, de 3,67%, que gera energia elétrica, para 60%. A bomba requer 90%.

INFLUÊNCIA. Apesar da exibição de força militar avassaladora, a guerra reduziu a influência dos EUA e ampliou a percepção de falta de discernimento estratégico de Donald Trump e outros integranteschave de seu gabinete.

Em contrapartida, elevou o peso geopolítico da China e o perfil pessoal de Xi Jinping. Na última semana, peregrinaram a Pequim o primeiro-ministro da Espanha, Pedro Sánchez, o príncipe herdeiro de Abu Dhabi, Khaled bin Mohamed, o presidente do Vietnã, To Lam, e o chanceler e vice-primeiro-ministro da Itália, Antonio Tajani, além do chanceler russo, Serguei Lavrov.

Nos 18 meses antes da guerra, a China estocou 1,5 bilhão de barris petróleo, segundo fontes do setor. Isso é o triplo da reserva estratégica dos EUA, maior produtor mundial, de acordo com essas fontes.

Mais de 40 países participaram de uma cúpula virtual liderada por França e Reino Unido sobre uma coalizão para garantir a livre navegação no Estreito de Ormuz. Os países “beligerantes” – EUA, Israel e Irã – foram excluídos da reunião.

Donald Trump solapa suas relações com os aliados da Otan, com parceiros antes muito próximos como o Reino Unido e a primeira-ministra italiana, Giorgia Meloni, e com personalidades de grande prestígio mundial, como Leão XIV, o primeiro papa americano.

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PANCADAS SOBRE O TURISMO

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

O turismo já vinha levando pauladas antes do período de guerra, que sempre é ruim para o setor

Os problemas não se devem apenas ao impacto da guerra, que aumentou em mais de 100% os preços do querosene, responsável por cerca de 45% dos custos dos transportes operados pelos aviões

Tempo de guerra é sempre ruim para o turismo. Desta vez, não é diferente. Mas o setor vem levando pauladas há mais tempo, por uma conjunção de fatores.

Turismo é atividade relativamente nova da economia global. Viagens sempre houve, como houve peregrinações e deslocamentos em busca de contatos, de atividades econômicas e de conhecimento. Mas o desfrute em massa de outras culturas e de prazeres proporcionados pela natureza é mais recente.

Lugares altos, por exemplo, eram mais vistos como fator de defesa, onde se instalavam fortalezas. E, algumas vezes, até mosteiros em busca de isolamento. Mas não eram muito usados para proveito próprio. Na literatura antiga, nenhum herói aparece perdendo o fôlego diante de uma paisagem exuberante. Foi com o filósofo Jean-Jacques Rousseau (século 18), grande valorizador da natureza, que a procura dos Alpes ganhou grande interesse.

O setor aéreo enfrenta a pior crise pós-pandemia. Desde o início da Guerra do Irã, mais de 37 mil voos foram cancelados ao redor do mundo. O aeroporto de Dubai, por exemplo, ponto de conexão de mais de 100 países, restringiu as companhias aéreas estrangeiras a apenas um voo diário até 31 de maio.

Mas o turismo vem enfrentando problemas que não se devem apenas ao impacto da Guerra, que aumentou em mais de 100% os preços do querosene, responsável por cerca de 45% dos custos dos transportes operados pelos aviões.

Agora, são grandes centros de turismo, como as cidades de Veneza e Barcelona, que começam a tomar medidas de contenção do turismo, porque a população local se sente prejudicada pelo excesso de visitantes.

Uma das fontes de rejeição são as locações de curta permanência proporcionadas pelos aplicativos do tipo Airbnb, que reduziram a oferta de habitações, o que aumentou quase insuportavelmente os aluguéis residenciais para os locais.

Os números da ONU dão boa ideia da retração do setor no mundo em 2025: redução de 11% para 4% do crescimento global; de 7% para 4%, na Europa; de 25% para 6%, na Ásia do Pacífico; de 8% para 1% nas Américas; e de 14% para 8% na África.

Como consta em relatório da Cirium, empresa de dados e análises da área de aviação civil, o setor movimentou US$ 11,6 trilhões (9,8% do PIB global) em 2025, e sustentou 366 milhões de empregos. O Brasil mostrou mais dinamismo. Em 2025, cresceu 37%, apenas em número de chegadas de 9,3 milhões de turistas internacionais. Acusou, então, faturamento de US$ 7,9 bilhões.

Não há ainda informações sobre o que aconteceu neste ano. Mas as manifestações disponíveis são de novo recuo. •

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A PROMESSA DE FLÁVIO BOLSONARO E O RISCO DE BANANISMO AUTORITÁRIO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Candidato da extrema direita quer 'tesouraço' nos gastos e menos impostos ao mesmo tempo

Se houver protesto contra um governo Bolsonaro 2, haverá cenoura diversionista ou chicote?

O vago plano econômico de Flávio Bolsonaro é em tese impopular, ao menos quanto a contas do governo. Prega redução de impostos e cortes de despesas. Quanto menos tributação, maior o tamanho da contenção de gastos. A rigor, porém, há promessa de aumento de impostos, de início (corte de gasto tributário é isso).

O risco de protesto é evidente, do topo ao chão da escala de renda. A questão fiscal será problema para qualquer governo, mas o modus operandi bolsonarista em relação à divergência é problema ainda maior. Quanto ao mais, o candidato a Bolsonaro Segundo diz que as "diretrizes e lições" são as do governo Bolsonaro Primeiro.

O plano é apenas em tese impopular. Javier Milei, na Argentina, inspiração bolsonarista, fez ajuste fiscal inédito, afora aqueles de tempos de grande guerra ou de hiperinflação terminal, chegando a cortar em 30% o valor real de rendas de pessoas que recebiam pagamento do Estado. Milei começa a cair pelas tabelas, mas a "motosserra" autoritária não levou seu prestígio a nível negativo nem impediu vitória eleitoral nos primeiros dois anos.

Décadas de sofrimento econômico, raiva de esquerdas e do sistema político e a política do entretenimento odiento das redes podem incentivar sacrifício voluntário, se não servidão sectária. Decerto o caso brasileiro está longe do descalabro argentino –exige menos "tesouraço", como diz Flávio. Por outro lado, nossos costumes e acordões são menos tolerantes das reviravoltas "hermanas".

Isto posto, corte é problema, ao menos no início do arrocho. O gasto federal é 43% Previdência (INSS), 18% pessoal, 15,5% de outros benefícios sociais (Bolsa Família, BPC, seguro-desemprego etc.), 13,8% saúde e educação (tudo isso dá 90% da despesa). Redução do gasto tributário implica aumento de imposto para classe média alta e rica que ganha com o Simples, setores empresariais, Zona Franca; talho de isenções de IR para quem gasta com saúde e escola privadas, para cesta básica e outras isenções "sociais".

Dado o chicote do arrocho, qual será a cenoura ou a manobra diversionista? Um terror de segurança pública, como a de Nayib Bukele, de El Salvador, outra inspiração bolsonarista?

Como será no Congresso? Imobilismo ou barganha terminal? Bolsonaro Primeiro instaurou o semiparlamentarismo de avacalhação em abril de 2020. Entregou boa parte da governança a Arthur Lira (PP-AL), grão-duque das emendas e da eternização do centrão, e, depois, também a Ciro Nogueira (PP-PI), grande amigo de Daniel Vorcaro. Flávio vai tirar os golpistas da cadeia, a começar pelo pai, o que pode criar mais instabilidade. Para abafar protestos, tentará desde logo implementar a "democracia iliberal"?

Claro que se descreve aqui um cenário quase racional. Bolsonaro Primeiro levou para o governo gente sem formação intelectual, lunática, incapaz, perversa e golpista; os Bolsonaro passaram a vida no esquema do dinheiro vivo, na pregação de genocídio e ditadura e na confraternização com milicianos e torturadores, por exemplo. Pode haver de colapso na anomia a repressão organizada. Mas a elite brasileira, boa parte direitista chucra por tradição, que bancou desgraças como Jânio, ditadura, Collor e Jair, parece dizer que virá um tucanato redivivo (coitado) com Deus, pátria e família; que a breve passagem dos golpistas pela cadeia e a experiência nacional de 2022 vão desanimar novo golpe. Pode ser. Ou pode vir o bananismo iliberal.

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STF SE ENREDA NA PRÓPRIA TEIA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Não há solução à vista para a recuperação do alto grau de desconfiança da população no Supremo

Cabe ao tribunal decidir se faz autocrítica para salvar a instituição ou se ignora as evidências e aprofunda a crise

Na sexta-feira (17), Edson Fachin e Cármen Lúcia respiraram fundo e foram ao cerne da questão: a crise de confiança que assola o Judiciário, em particular o Supremo Tribunal Federal, é grave e precisa ser enfrentada pelos próprios juízes.

O presidente e a ministra vocalizaram o que diz a população nas pesquisas que registram o alto grau de desconfiança na corte. Minados internamente, partiram para o desabafo externo na tentativa de mostrar aos colegas a necessidade de reconhecer o óbvio e virar essa página nefasta na história do STF.

A situação atual é uma temeridade em matéria de firmeza institucional. Foi o que ambos disseram nas entrelinhas sem ceder a arroubos de acusações, mas deram o alerta para quem, como afirmou Fachin, tem "olhos de ver e ouvidos de ouvir".

Viemos parar nesse ponto com a ofensiva do bolsonarismo, mas não só. Antes disso tivemos atos arbitrários e ações nem sempre justificadas no desmonte de investigações. Agora vemos o Supremo ser atraído para o poço ainda sem fundo do caso Master por condutas inadequadas de ministros e falta de reação adequada do colegiado.

Onde vai dar isso, qual o caminho para o restauro da confiança no último bastião, não sabemos. A ala ativista do tribunal parece apostar em resistir e guerrear até que tudo se ajeite no aconchego do esquecimento.

Difícil de acontecer, pois a confrontação alimenta a percepção da falta do equilíbrio esperado em magistrados. Fachin e Cármen Lúcia não encontram respaldo no tribunal; são relatados como isolados pelos pares mais vocais na circulação de versões junto aos meios de comunicação.

Daqueles que não costumam ter esse tipo de interlocução, não se sabe o que pensam. O ideal seria se manifestarem para que a sociedade saiba como o conjunto dos magistrados avalia o declínio de reputação.

Cabe ao STF decidir se insiste em negar as evidências ou se salva a instituição mediante a autocrítica, a transparência e a autocontenção no uso do poder de dar a palavra final.

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DEJETOS APOCALÍPTICOS DA GUERRA

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da decadência ocidental, Trump alimenta a velha voracidade capitalista por solos e subsolos

Frágil é a trégua no Oriente Médio; certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder interno

Pequena e anterior às manchetes do recuo dos EUA em seu apocalíptico ultimato, uma notícia nas redes reportava que uma bomba iraniana atingiu por acaso uma rede de esgotos israelense, inundando ruas com enxurradas de fezes. Um tópico adequado à "slopaganda" ("sloppy propaganda") iraniana, que mistura baixaria e porcaria. Provável sinal cabalístico de que o desatino bélico criado por dementes passou de porqueiro a porco. Em termos ainda mais prosaicos, a guerra deu ruim, deu "eme".

Tivesse Trump lido "A Arte da Guerra" (Sun-Tzu), ponderaria que, "se o inimigo é superior, finja-se de fraco, à espera da arrogância". Ou seja, à espera de visão curta. Isso fizeram os aiatolás durante décadas, preparando-se para o conflito com o que chamam de Grande Satã. "Shit happens", dizem os americanos, a catástrofe moral é também olfativa. E, esteticamente, grotesca.

Essa categoria aplica-se à indecisão ontológica entre o humano e o animalesco: o sublime contempla o sentimento voltado para os céus, enquanto o grotesco conota partes baixas, práticas excluídas do processo civilizatório, dejetos humanos. Indagado se a destruição de infraestrutura civil não seria crime de guerra, disse Trump não ser o caso, porque o povo persa era "comandado por animais". Só que, respondendo a um jornalista sobre sua saúde mental, pôs-se a grunhir como um porco. Demência, encenada como grotesco.

Não há maior interesse na clínica da miséria metabólica e psicológica de Trump, nem dos aiatolás e mulás, dissociados da milenar civilização persa e dos anseios modernizantes de seu povo. Mas o filósofo italiano Giorgio Aganbem acha relevante refletir por que a nação tida como mais poderosa do mundo se deixa conduzir por um indivíduo oscilante entre narcisismo maligno e demência megalomaníaca.

A sociopatia dos teocratas iranianos garante-se pela repressão brutal da Guarda Revolucionária. Já o etnocídio de Netanyahu e seu governo teocrático apoia-se em fantasias derivadas do Deus vingativo do Velho Testamento, em cordão umbilical com o Estado norte-americano: Hegseth, secretário da Guerra, comparou o resgate do piloto abatido sobre o Irã à ressurreição de Cristo. E Trump postou a si mesmo vestido de Jesus, curando um doente.

Grotescos loucos de Deus, todos eles.

Frágil é a trégua no Oriente Médio. Certo mesmo é que a Guarda Revolucionária do Irã sai fortalecida, com maior poder interno. Trump não ganhou nada. Na corda bamba sobre o abismo sem fundo da decadência ocidental, alimenta a velha voracidade capitalista por solos e subsolos: dos espaços buscados pelo neocolonialismo israelense às cobiçadas terras raras.

Essas são as drogas e talvez a nêmese do império americano, metafísica da hiperpotência reduzida à dejeção. Na farsa fundamentalista de cavaleiro do apocalipse, Trump arroga-se ao papel de "fúria épica" da Morte, conduzida por corcel amarelo. Na realidade, fúria hípica de um grotesco ginete alaranjado a cavalo de si mesmo, arremedo mitológico do sátiro Pan, metade homem, metade bode. Pânico é o máximo que tem conseguido. "Ao vencedor, os despojos", vociferou, ainda que espojado em dejetos físicos e morais.

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CPI PEGA STF E LIVRA POLÍTICOS

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Relatório não indiciou quem roubou, ganhou dinheiro e tentou salvar o Master com dinheiro público

Se tivesse contado a história toda, texto teria sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4

O relatório da CPI do Crime Organizado escrito pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) pediu indiciamento de três ministros do STF e do procurador-geral da República. Não indiciou os políticos (em geral, de direita) que roubaram com o Master, ganharam dinheiro do Master e tentaram salvar o Master com dinheiro público.

A leitura do relatório deixa claro que Vieira tentou transformar a CPI do crime organizado em CPI do Banco Master.

Até aí, várias CPIs já trataram de temas diferentes dos que inspiraram sua instalação: o mensalão, por exemplo, foi investigado em uma CPI sobre bingos.

O problema é que, como relatório de uma hipotética CPI do Master, o trabalho de Alessandro Vieira é ruim.

O viés do relator fica claro na página 60 do relatório, onde são discutidas as conexões do Banco Master com as instituições da República.

Quando fala dos órgãos reguladores, o relatório cita nominalmente os dois funcionários do Banco Central acusados de receber suborno de Daniel Vorcaro. Quando fala do Judiciário, Vieira também cita Toffoli nominalmente. Na hora de falar de políticos, o relatório não dá nomes. Os casos de governadores e prefeitos que colocaram dinheiro de aposentados no Master não são sequer discutidos.

O viés anti-STF e pró-políticos do relatório final da CPI fica claro também quando olhamos para quem votou a favor e contra sua aprovação.

Os votos pela aprovação do relatório foram dados por parlamentares do MDB, do PP, do Novo e do PL. À exceção do Novo, todos estão no centro do escândalo Master.

Do PP saiu Ciro Nogueira, que tentou aumentar a cobertura do FGC por emenda constitucional; do PL saiu Filipe Barros, que tentou fazer a mesma coisa por projeto de lei. PP, PL e MDB assinaram o requerimento 3.651/2025, que pedia urgência para o projeto que autorizaria o Congresso a demitir os diretores do Banco Central que se opusessem ao salvamento do Master com dinheiro público. Do MDB saiu Ibaneis Rocha, que deu ao Banco de Brasília um prejuízo avaliado entre R$ 15 bilhões e R$ 18 bilhões tentando salvar o Master. Do PL saiu Cláudio Castro, o governante brasileiro que mais colocou dinheiro de aposentados no Master (R$ 1 bilhão).

Os votos contrários ao relatório foram dados por parlamentares do PT, do PSD e do PSB.

O PT tem gente da Bahia envolvida com um sócio de Vorcaro. O PSD tem prefeitos do interior de São Paulo que investiram dinheiro de previdência no Master. Dos três partidos, só o PSB assinou o requerimento 3.651 de 2025.

Ou seja: os partidos dos parlamentares que votaram a favor do relatório de Alessandro Vieira estão muito mais enrolados com o Master do que os partidos dos parlamentares que votaram contra.

Não é por acaso: ao jogar toda a culpa no STF, o relatório da CPI tira o foco dos políticos e abre um espaço para as críticas bolsonaristas ao STF parecerem legítimas. Cria uma aliança natural entre uma multidão de políticos direitistas "moderados" enrolados com o Master e bolsonaristas anti-STF que, aliás, também são enrolados com o Master.

Se tivesse contado a história toda, o relatório da CPI teria sido rejeitado por 10 a 0, não por 6 a 4. Mas não ajudaria a direita a ganhar a Presidência como recompensa por ter quebrado um banco.

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sábado, 18 de abril de 2026

MÁQUINAS DE PENSAR ?

Manfred Back e Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

Seu avanço oculta o monopólio de dados e ajuda a bloquear o pensamento

“…a tirania da IA preside ao nascimento de uma besteira desconhecida até agora – a estupidez artificial – espalhada por toda parte, nas telas e redes informáticas. Então a besteira natural pode ganhar nobreza como loucura.”
(Jean Baudrillard)

Inteligência Artificial vs. Artificial Inteligência, eis a questão, diria ­Hamlet! Seria a destruição criadora ou a destruição destruidora?, diria Schumpeter. No artigo Máquinas de Computação e Inteligência, Alan ­Turing, em 1950, fez um teste, criou uma máquina para verificar se a inteligência das máquinas seria equivalente à inteligência humana. Testou se a inteligência dita artificial é inteligência ou não.

Alan Turing faz uma premonição: “Acredito que a pergunta original, ‘as máquinas podem pensar?’, é insignificante demais para merecer discussão. No entanto, acredito que, no final do século, o uso das palavras e a opinião geral das pessoas instruídas terão mudado tanto que será possível falar de máquinas pensantes sem esperar ser contrariado”.

Esse momento chegou e qualquer análise rigorosa e crítica sobre as causas e consequências da Inteligência Artificial na vida, comportamento e pensamento das pessoas, não pode ser contrariada. O que Turing chamou de Jogo da Imitação hoje seria o modelo LLM (­Large ­Language Models)! Imitar é diferente de pensar, para isso gastam-se trilhões de dólares em armazenamento de dados e informações, consumindo energia e água. Para quê? Melhorar a capacidade de imitar, não de pensar, Artificial Intelligence.

Entre o fim de 2025 e meados de 2026, a Amazon captou 15 bilhões de dólares em títulos de crédito privado, a Open IA captou 122 bilhões de dólares, o Google­ 32 bilhões de dólares e a Oracle perto de 45 bilhões de dólares. Uma transferência brutal de recursos de investidores no setor de IA. Quantos empregos criaram? Quantos empregos destruíram? Nesse Jogo da Imitação de trilhões de dólares, a facilidade cobrará seu preço, não aos donos do Vale do Silício, mas aos pobres mortais.

O avanço de rotinas e os atendimentos mais rápidos escondem o monopólio de dados, ou melhor, a intimidade das pessoas. Tudo vira dado, dado vira commodity­, que vira dinheiro, que vira controle, que vira poder. Ninguém escapa.

Evgeny Morozov, doutor em História da Ciência pela Universidade de Harvard, grande pesquisador e crítico do poder do Vale do Silício, no seu grande e importante livro Big Tech, a Ascensão dos Dados e a Morte da Política, faz um alerta sobre o poder de vigilância das corporações:

“A tecnologia digital da atualidade, ficou evidente, não é apenas ciência aplicada, como ainda sustentam as filosofias mais vulgares da tecnologia. Ela é, na verdade, um emaranhado confuso de geopolítica, finança global, consumismo desenfreado e acelerada apropriação corporativa dos nossos relacionamentos mais íntimos… nossa sociedade digital, quaisquer que sejam suas falhas, não é a causa do mundo em que vivemos, e sim consequência dele”. (Evgeny Morozov)

Quanto mais acumula dados e dinheiro, mais você deixa de pensar, basta consultar a IA, e assim vai, recorrentemente. Você colabora de graça com os algoritmos, vendendo de graça seus dados, seu pensamento, suas emoções e desejos. Sem perceber, passa a não usar mais seus neurônios, e como não pensa, não usa energia cerebral. Você se torna uma ‘Artificial Inteligência’, porque terceiriza todo o seu ser a um banco de dados. Quem é a máquina? Quem imita quem?

Nos alerta Maryanne Wolf, professora residente de Educação da UCLA, diretora do Centro de Dislexia, Alunos Diversos: o ato de ler acrescentou um circuito inteiramente novo ao repertório do nosso cérebro de hominídeos no longo processo evolutivo de aprender a ler bem e em profundidade. Mudou nada menos que a estrutura de conexões desse circuito e isso fez com que mudassem as conexões do cérebro, com a consequência de transformar a natureza do pensamento humano.

Onde o cérebro gasta mais energia e conexões é no ato de ler e pensar, e depois escrever no papel. Esse é o movimento da inteligência. Ao digitar e consultar a IA, seria a morte da inteligência.

Diz o ditado popular: criar dificuldades para vender facilidades. A Inteligência Artificial facilita a obstrução do pensamento.

No final, o “empobrecimento” e a submissão da subjetividade dos indivíduos “livres” e seu mundo

No livro How Big-Tech Barons Smash Innovation and How to Strike Back, Ariel Ezrachi trata das consequências sociais e políticas do domínio das big techs:

“A utopia tecnológica intensa dos anos 1990 agora parece uma distopia, em que muitos dispositivos, aplicativos e serviços vêm de ecossistemas digitais controlados por poucas empresas poderosas (que chamamos de “Barões da Tecnologia”). ­Pense, por exemplo, na Alphabet ­(Google), Apple, Meta (Facebook), ­Amazon e ­Microsoft (GAFAM para abreviar).

“Esses Barões da Tecnologia não apenas governam a concorrência dentro de seus ecossistemas rigidamente controlados por eles, mas também determinam a natureza da inovação que chega ao mercado. E, para proteger seus interesses, eles garantem avançar e permitir inovações apenas que não atrapalhem seus modelos de negócios e lucros.”

Pedimos licença para recorrer a Karl Marx. Nos Grundrisse, ele argumenta que “o desenvolvimento do capital fixo indica o grau em que o conhecimento social se tornou uma força direta de produção e em que medida, portanto, o processo da vida social foi colocado sob o controle do General Intellect e passou a ser transformado de acordo com ele”.

O conceito de capital fixo em Marx envolve, portanto, um potencial inesgotável de avanço tecnológico, o que implica necessariamente a criação de aparatos educacionais e científicos institucionalmente articulados.

O General Intellect institui-se como forma de apropriação dos significados do conhecimento humano, em particular dos códigos da ciência. O capital toma para seus propósitos a educação, cujos métodos e objetivos são ajustados aos requerimentos da aceleração da valorização do capital e da desvalorização do trabalho, no mesmo movimento em que impõe critérios de qualificação dos trabalhadores cada vez mais exclusivos e “excludentes”.

As condições de produção e de sobrevivência escapam cada vez mais ao controle dos cidadãos e os submetem aos seus movimentos. A automação crescente do processo de trabalho e a tendência à concentração e centralização das forças produtivas assumem diretamente, em sua forma material, o automatismo da acumulação, determinando o “empobrecimento” e a submissão da subjetividade dos indivíduos “livres” e de seu mundo da vida.  

Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.

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PUNITIVISMO PROGRESSISTA

André Barrocal, CartaCapital

Lula promete criar o Ministério da Segurança e espera por mais poderes do Congresso para atuar na área

Os brasileiros estão inseguros por causa da criminalidade, e não é de agora. Esse sentimento faz com que confiem menos nos outros e se tornem mais punitivistas, ou seja, queiram soluções “linha-dura”, como a redução da maioridade penal e a pena de morte. Entre mulheres, negros e aqueles que ganham até um salário mínimo, a preocupação com o crime é ainda maior do que a média. Esse quadro foi descrito em um livro do ano passado, O Brasil no Espelho, baseado em 9,9 mil entrevistas realizadas no fim de 2023. É um guia para entender uma guinada de Lula e do governo. Está em marcha no lulismo a construção de uma espécie de “punitivismo progressista”, com o qual o presidente pretende melhorar o ibope e as chances de reeleição.

O símbolo da nova fase é a promessa presidencial de, enfim, criar o Ministério da Segurança Pública, proposta feita na última eleição. Para tirar a ideia do papel, Lula aguarda a aprovação pelo Congresso de uma mudança constitucional que dê ao governo poderes na área. Pela Constituição de 1988, cuidar da proteção aos cidadãos é uma obrigação dos estados. Muitos governadores rejeitam a entrada de Brasília nessa seara, pois não querem dividir os potenciais ganhos político-eleitorais do combate ao crime.

Caso vingue, o novo ministério precisará de recursos, do contrário será pouco efetivo. O Fundo Nacional de Segurança Pública, administrado pela pasta da Justiça, tem 2,1 bilhões de reais neste ano, 400 milhões a menos que em 2025. Seria o caixa inicial. Comparação: o estado da Bahia, o quarto mais populoso, tem cinco vezes mais. Há negociações em curso no governo em busca de soluções financeiras. Uma hipótese seria separar parte da receita corrente líquida, algo visto na área da saúde, nas famigeradas emendas parlamentares e que pode vir a ocorrer com o Sistema Único da Assistência Social. Há alguns dias, os deputados aprovaram em primeira votação uma alteração constitucional para que o SUAS receba 1% da receita corrente líquida federal, perto de 17 bilhões de reais anuais. A equipe econômica é contra essa vinculação, idem com a indexação para a segurança pública.

Para dar certo, a futura pasta precisaria de orçamento reforçado

Na primeira metade do mandato, Lula resistiu a mergulhar no tema. Achava que o medo da população cairia na conta dos governadores. Não foi bem assim. Pesquisas “qualitativas” têm feito descobertas nada boas para o presidente. Nesses levantamentos, os entrevistados ficam em uma sala envidraçada, enquanto respondem perguntas e debatem questões propostas pelos pesquisadores. Do lado de fora, câmeras e analistas acompanham. As mulheres têm relatado uma decepção específica com Lula, segundo o instituto Quaest, cujo dono, o cientista social Felipe Nunes, é o autor de O Brasil no Espelho. Acreditavam que o petista faria mais do que o concorrente Jair Bolsonaro para protegê-las, pois foi Lula quem, há duas décadas, sancionou a Lei Maria da Penha. E a frustração tem razão de ser. No ano passado, o homicídio de mulheres cometido pelo simples fato de serem mulheres, o feminicídio, subiu e foi recorde desde a lei de 2006. Perderam a vida 1.568 brasileiras, de acordo com o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, alta de quase 5% após estabilidade por três anos.

Uma parte do aumento não pode ser debitada na conta do governo. A existência da lei e a sua aplicação têm levado as autoridades a catalogar como “feminicídio” assassinatos que, em outros tempos, seriam categorizados como um homicídio qualquer. Mas nem tudo se explica pelo fator “carimbo”. A violência contra a mulher avançou de fato. Em cinco anos, os registros cresceram 14,5%, enquanto a taxa geral de homicídios caiu. Interromper a escalada não é problema de legislação, segundo o Fórum. Após a Maria da Penha, vieram leis sobre importunação sexual, violência psicológica e stalking. O que falta é cumprir as normas.

Agora em abril, Lula sancionou mais duas leis de proteção feminina. Uma permite à polícia colocar tornozeleira eletrônica em homens que representem riscos a uma mulher ou a um filho dela. Até então, a medida precisava de autorização judicial prévia. A outra cria um tipo penal, o “vicaricídio”, o assassinato de filhos ou parentes de uma mulher com o objetivo de causar sofrimento a ela. Dá de 20 a 40 anos de cadeia. Comparação: um homicídio convencional custa de 12 a 30 anos. Na quarta-feira 15, o Congresso aprovou mais uma regra de defesa das mulheres. Quem for condenado por ameaça ou agressão, cumprirá pena no Regime Disciplinar Diferenciado. Neste, os presos ficam em celas individuais, recebem menos visitas e têm menos banhos de sol. O regime vigora por até dois anos. O texto foi à sanção de Lula.

A insatisfação da opinião pública com a violência contra a mulher levou o senador Flávio Bolsonaro, pré-candidato a presidente, a votar a favor de um projeto que equipara atitudes misóginas, demonstrações de ódio e aversão às mulheres, ao crime de racismo. A lei, que ainda precisa ser apreciada pelos deputados, foi apresentada por uma senadora lulista, Ana Paula Lobato, do PSB. O primogênito do capitão arrependeu-se de apoiá-la, diante das reações de deputados bolsonaristas como Nikolas Ferreira e Julia Zanatta, ambos do PL. Flávio declarou depois que havia caído em uma “armadilha do PT”.

O líder petista na Câmara, Pedro Uczai, defende, por sua vez, a criação de uma Secretaria de Combate ao Feminicídio. Ou para fazer parte de um futuro Ministério da Segurança Pública ou para integrar a atual pasta da Justiça. Nos próximos dias, levará a proposta ao atua­l ministro Wellington César Lima e Silva. “Mulheres, pessoas pretas e os mais pobres mostram níveis mais elevados de preocupação com violência, criminalidade e tráfico de drogas. Esses grupos são os que se sentem mais inseguros”, afirma o livro O Brasil no Espelho. Grupos que, ressalte-se, estão entre aqueles que mais aprovam o governo e estão mais inclinados a votar em Lula. “Quanto mais inseguro se sente, mais punitivista é o brasileiro”, prossegue a obra. Dois dados ilustram esse sentimento. A pena de morte para crime hediondo tem o apoio de 77% e a redução da maioridade penal, de 94%.

Flávio B. prega a redução. Em 2019, apresentou um projeto no Senado para permitir a condenação em regime comum a partir dos 16 anos. Agora quer baixar para 14. Lima e Silva topa debater a maioridade. Foi o que disse nas negociações, em fevereiro, na Câmara dos ­Deputados, da PEC da Segurança Pública, aquela que dá poderes ao governo federal. O relator, Mendonça Filho, do União Brasil, queria diminuir a maioridade e realizar um referendo popular que endossaria (ou não) a medida, com a chancela do substituto de ­Ricardo ­Lewandowski. “Esse ministro é muito mais nosso do que deles”, afirmou na época o líder do PL na Câmara, Sóstenes Cavalcante.

Lima e Silva também se aproximou da Bancada da Bala. Tem participado de cafés semanais com a Comissão de Segurança Pública da Câmara. Na terça-feira 14, o presidente da comissão disse no encontro, conforme uma testemunha: “A gente vai armar todos os deputados federais que quiserem, em parceria com o ministro”. Na votação da Lei Antifacção, elaborada pelo governo antes de Lima e Silva, o ministro aceitou punitivismos da bancada. Um: a família de um indivíduo condenado por fazer parte de facção criminosa não poderá receber aquele auxílio pago a parentes de detentos. Outro: os presos ficam proibidos de votar nas eleições. Proibição que cheira a inconstitucionalidade. Pela Carta de 1988, o voto é “universal”, “com valor igual para todos”. “O governo cedeu ao senso comum”, critica o deputado Rui Falcão, ex-presidente do PT.

A CPI do Crime Organizado virou chacrinha e desperdiçou uma oportunidade

A guinada à direita causou uma baixa no Ministério da Justiça. Marivaldo Pereira, secretário-executivo com Flávio Dino e Ricardo Lewandowski, antecessores de Lima e Silva, deixou a Secretaria de Assuntos Legislativos da pasta. Consta que brigado com o ministro e por pressão da Bancada da Bala. Pereira defende o argumento de que os governos petistas têm um legado a apresentar na segurança pública, entre eles os presídios federais, a Força Nacional de Segurança e o Sistema Nacional de Informações de Segurança Pública, além das atuais leis da lavagem de dinheiro e das organizações criminosas. Embarcar na onda punitivista e de encarceramento em massa, fórmulas, aliás, que não fizeram do Brasil um país mais seguro, seria um erro, na avaliação dele.

O ministro da Justiça tem dito, e repetiu em um evento na segunda-feira 13, que sua intenção é “implementar uma política de segurança pública baseada em evidências”. Tradução: experiências práticas (de estados e municípios, por exemplo) valem mais que teorias. Falta saber quais “evidências” abraçará.

E Lula? No figurino “punitivista progressista”, passou a defender o fim das bets­, as casas de apostas online usadas com frequência para lavar dinheiro sujo. Em entrevista ao ICL Notícias, disse coisa parecida com o que se ouve nas ruas: “A polícia prende um ladrão e, dependendo da fama dele, é solto no dia seguinte (pela Justiça)”. Entre seus colaboradores da pré-campanha à reeleição, defende-se que o governo adote mais medidas contra roubo de celular, equipamento indispensável na vida de muito trabalhador, e que ataquem o medo nas grandes cidades. A discussão sobre segurança pública, segundo esses colaboradores, precisa ser feita sem preconceitos por um campo político que costuma identificar, com razão, a polícia como parte do problema. A condenação de Lula ao massacre da PM do Rio no Complexo do Alemão, em outubro passado, é algo a ser evitado.

O presidente ainda sonha em fechar um acordo com Donald Trump de cooperação entre os dois países contra o crime organizado. Em 10 de abril, a Receita Federal anunciou o início de colaboração com um órgão norte-americano para facilitar a descoberta e o rastreamento do tráfico de armas e drogas. Quatro dias depois, a CPI do Crime Organizado terminou no Senado sem um relatório final. O relator, Alessandro Vieira, do MDB, influenciado pela disputa eleitoral em curso, defendeu o indiciamento de três ministros do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, José Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, e do Procurador-Geral da República, Paulo Gonet. O motivo teria sido a suposta obstrução às investigações da comissão sobre os desvios do Banco Master, embora o escândalo não fizesse parte do escopo inicial do trabalho parlamentar e os integrantes não tenham sequer analisado os dados da quebra de sigilo da instituição enviados pela Polícia Federal. O delegado Vieira deixou de fora os chefes de facções, criminosos de colarinho branco e colegas acusados de envolvimento em falcatruas. O relatório acabou derrotado e o trabalho do senador, na sequência do fim deplorável da CPI do INSS, deu outra contribuição à completa desmoralização das investigações do Congresso. 

Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.

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JUNTAR OS CACOS

Jamil Chade, CartaCapital

Restabelecer a democracia na Hungria não será tarefa fácil, avalia Lajos Bokros, ex-ministro das Finanças

A Hungria viveu uma experiência única nos últimos 16 anos. Descobriu, em plena luz do dia, como morrem as democracias. Com a derrota nas urnas de Viktor Orbán, o país tem tudo para entrar em uma nova fase, inédita no século XXI no Ocidente: como renascem as democracias. Na entrevista a seguir, o ex-ministro das Finanças da Hungria, Lajos Bokros, não esconde o entusiasmo com o fim do governo Orbá­n, denuncia o que chamou de “Estado mafioso” criado pelo líder da extrema-direita e destaca que o trabalho de reconstrução de uma democracia liberal será enorme. Bokros liderou a economia húngara nos primeiros anos após o fim da Guerra Fria e foi parlamentar europeu depois da adesão da Hungria à UE.

CartaCapital: Por qual motivo, desta vez, a oposição conseguiu reunir as condições para derrotar Viktor Orbán?
Lajos Bokros: São diversos fatores. Em primeiro lugar, “é a economia, estúpido”, como disse James Carville, assessor de Bill Clinton. A Hungria ainda vive profundas consequências da Covid-19 e, desde então, não há crescimento econômico. Está perdendo espaço e nível de ­desenvolvimento, mesmo entre os países do Leste e do Centro Europeu. O padrão de vida se deteriorou para muitos. Esse é um fator fundamental. Outro elemento a ser considerado é que o governo, no poder há 16 anos, tinha exaurido sua capacidade de dar respostas. E isso foi sentido pela população. Não tinham novas ideias, novos planos. Os húngaros estavam exaustos de um governo ineficiente.

CC: Como se deu a ruptura entre Peter­ Magyar e Orbán?
LB: Há dois anos, houve um enorme escândalo em uma instituição de cuidados de crianças e que foi acobertado por gente influente, incluindo a presidente do país e a ministra da Justiça. Uma delas era a esposa de Magyar. Isso lhe deu um enorme ímpeto para começar algo novo. Ele tinha informação sobre o funcionamento do governo e dos crimes dos funcionários de alto escalão. Depois de tantos anos no poder, Orbán e seu grupo se degeneraram em um governo num estilo mafioso. A corrupção se transformou em um sistema de política de governo. Amigos e parentes de Orbán ficaram muito ricos em curto espaço de tempo. Até os mais leais ao partido de Orbán entenderam que havia algo de errado. Essa corrupção revelou a natureza dessa estrutura oligárquica. Em muitos países existe isso, dos EUA ao Brasil, da Itália à Rússia. Mas não era conhecido por parte da população. Orbán e seus aliados ficaram tão arrogantes que ficou evidente, até para o povo, que se tratava de uma organização criminosa. Chamamos de um Estado mafioso.

CC: De que forma isso ocorria?
LB: Cerca de 20 famílias passaram a explorar quase tudo. Não apenas o Estado. Desviavam até dinheiro da UE. E, para completar, Orbán e seu grupo destruíram o Estado de Direito. O resultado foi uma deterioração dos serviços públicos, como saúde e educação.

Orbán instituiu um Estado mafioso, afirma

CC: Por anos, a Hungria liderou um experimento de desmonte da democracia. Como vai ressuscitar agora?
LB: A primeira pergunta que precisamos fazer é se isso será realmente possível. Orbán colocou seus aliados em alguns dos cargos mais estratégicos e eles continuam nessas posições. Isso inclui cargos na imprensa, na educação, na economia e na administração. A boa notícia é que Magyar conseguiu eleger dois terços do Parlamento, o que lhe permitirá mudar a Constituição. Foi exatamente esse caminho que Orbán usou para destruir o Estado de Direito. Isso ocorreu em 2010 e, em um ano, escreveram uma Constituição nova e destruíram todas as principais instituições independentes, incluindo os tribunais, o Banco Central e a imprensa. Outro órgão fundamental que assumiram foi o da concorrência. No fundo, eles tomaram o Estado e, por quase ­duas décadas, colocaram aliados como funcionários de todos esses locais. Esse agora é um grande problema. Magyar pode usar o mesmo sistema. Orbán ainda cometeu um enorme erro. Distorceu o sistema eleitoral, acabando com princípios de proporcionalidade e permitindo que, com maioria relativa de votos, um partido possa facilmente atingir dois terços dos votos. Isso foi criado para eternizar Orbán no poder. Mas foi um grande erro e, agora, um novo partido, em apenas dois anos, conseguiu atrair toda a oposição e fazer o sistema funcionar a seu favor. Magyar obteve 53% dos votos, mas, pelo sistema, conquistou mais de dois terços do Parlamento. Se ele usar essa maioria de forma correta, pode restabelecer o Estado de Direito. Não será fácil.

CC: Para além do Estado de Direito, o que mais o novo primeiro-ministro terá de fazer para restabelecer a democracia?
LB: Muita coisa. Na economia, será fundamental restabelecer o sistema de ­livre-mercado, destruído por intervenções do governo para facilitar contratos para amigos. As licitações públicas foram transformadas em um caminho fundamental para destinar dinheiro às empresas privadas. Na Hungria, apenas aquelas 20 famílias ganhavam contratos públicos. Isso permitia que destinassem enormes recursos apenas para esses grupos. Se esse cordão umbilical puder ser cortado entre o orçamento nacional e a oligarquia, uma parte de seus ativos não terá mais valor. Após a Covid-19, a UE criou programas para apoiar os setores econômicos. Bilhões de euros foram distribuídos. Mas o partido de Orbán destruiu o Estado de Direito e a Hungria deixou de receber 35 bilhões de euros. É verdade que, até agora, não sabemos exatamente qual será a política econômica de Magyar. Ele não deu respostas específicas a nenhum dos problemas econômicos. Vamos ver se sabe o que fazer e quanta coragem terá para tomar decisões que poderão ser pouco populares.

CC: Quais são esses desafios?
LB: O déficit fiscal é de mais de 5% do PIB numa economia estagnada. Muitos dirão que pacotes de austeridade serão necessários. Se você quer melhorar o país­, você é confrontado com escolhas difíceis e que podem ser impopulares. Isso ocorreu comigo há 30 anos.

CC: O senhor viveu o fim da Cortina de Ferro e liderou a economia do país nos anos 1990. O que significou presenciar essa última eleição?
LB: Podemos chamar o que ocorreu de “terceira mudança de regime” na Hungria nos últimos 35 anos. A primeira mudança ocorreu em 1989, quando o sistema comunista entrou em colapso e iniciamos a democracia liberal. Isso durou 20 anos. Orbán chegou e destruiu a democracia liberal. Agora temos mais uma. É um novo começo e poderia ser a terceira mudança. Podemos ir de volta à democracia e ancorar o destino da Hungria no Ocidente. Isso vai exigir a recriação do Estado de Direito, um mercado competitivo e democracia. É só uma promessa ainda. Veremos. 

Publicado na edição n° 1409 de CartaCapital, em 22 de abril de 2026.

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