terça-feira, 6 de outubro de 2026

O PODER DO VOTO SOBRE A TOGA

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Resultado eleitoral no Rio mostra o efeito rebote da intervenção judicial

Nas primeiras falas do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e no resultado eleitoral do Rio, há um mapa de 2º turno. O comandante da avalanche do PL nas eleições majoritárias e proporcionais disse que o ex-presidente Jair Bolsonaro, caso o filho se eleja, será reabilitado para disputar a Presidência da República.

As perspectivas de reabilitação do ex-presidente, as ambições da senadora eleita Michelle Bolsonaro (DF) e a maiúscula votação do deputado federal Nikolas Ferreira (MG) deixam claro que, nem tão cedo, o PL pretende ceder o manche para a direita tradicional. Ainda que o senador Flávio Bolsonaro (PL) cumpra sua promessa de pôr fim à reeleição, não parecerá disposto, se eleito, a entregar o poder para que outro aventureiro lance mão.

Não se trata de um cenário confortável para outros partidos que têm projeto de poder, como o Republicanos do governador reeleito Tarcísio de Freitas ou o PSD da governadora reeleita Raquel Lyra. Junte-se a isso o Senado e a Câmara, em que, tirando o Novo, amasiado com o bolsonarismo, toda a direita se deu mal e está acrescentado outro ingrediente do incômodo. Some-se ainda uma votação em que Lula manteve seu tamanho nas capitais e grandes cidades, mas perdeu espaço nos grotões do agronegócio, e se tem uma rota para 2º turno.

Em nenhum lugar, porém, estão concentradas tantas lições desta primeira rodada quanto no Rio. No berço do bolsonarismo, a política enfrentou o rebote da sombra do Judiciário sobre a vontade do eleitor. O candidato do PL ao governo, Douglas Ruas, passou à frente para o 2º turno com uma campanha em que buscou, com sucesso, se distanciar do ex-governador Cláudio de Castro e de seu antecessor na Presidência da Assembleia Legislativa do Rio, Rodrigo Bacellar.

A pergunta que os engenheiros da ruína do ex-prefeito Eduardo Paes fazem hoje é se isso teria sido possível se Ruas tivesse podido assumir o governo do Estado com a renúncia de Castro e disputasse, no cargo, a reeleição. Teria a máquina nas mãos mas também todo o desgaste decorrente da herança que o desgoverno bolsonarista impõe, há oito anos, sobre o Estado.

Ricardo Couto, o ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio que, graças ao Supremo Tribunal Federal, foi mantido no cargo durante as eleições por um pedido de vista, tomou medidas saneadoras amplamente aplaudidas pela imprensa, pelo empresariado e por uma classe média que viu o Rio ser entregue às luzes da tecnocracia judicial.

Paes associou-se à gestão de Couto mostrando-se como mais apto para dar continuidade ao saneamento iniciado por Couto enquanto exibia como as alianças de Ruas com Castro e Bacellar vulnerabilizariam o Palácio da Guanabara frente ao crime organizado. Deixou em segundo plano aquele que, da direita à esquerda, se reconhece como seu maior ativo eleitoral, as entregas de sua gestão.

Enquanto isso, Douglas Ruas apresentava-se como o parlamentar da Baixada Fluminense, que entende os dramas do povo e, com humildade, propõe-se a enfrentá-los. Some-se a isso a insatisfação que o saneamento promovido por Couto promoveu na rede de empregos e cabos eleitorais mobilizada pela Assembleia Legislativa e foi aberto o terreno para o candidato do PL avançar.

Ruas ganhou na Baixada e Paes, na capital. As duas regiões têm eleitorado equivalente. A vitória de Ruas em Campos dos Goytacazes não apenas desempatou a disputa como também comprovou o papel cumprido pelo terceiro colocado, Anthony Garotinho (Republicanos), cuja família domina a política na região.

Inelegível por oito anos pela Lei da Ficha Limpa em condenação confirmada pelo STF em 2025, Garotinho conseguiu registrar sua candidatura e disputou todo o 1º turno em meio a uma guerra de liminares sobre a validade deste registro. Nesta segunda, Garotinho desistiu do recurso ao TSE.

A campanha de Paes, que, até aqui, tentou invalidar sua candidatura para garantir vitória no 1º turno, acabou surpreendida pela liderança de Ruas. Agora entrou na guerra das liminares para que esta decisão seja prorrogada e o 2º turno possa acontecer.

Este efeito rebote da imersão do Judiciário na política fluminense acabou, paradoxalmente, aproximando o drama vivido por Paes e Lula. Ainda que Paes tenha sido mais proativo em convocar a toga para a arena eleitoral, Lula também enfrentou revezes decorrentes da simbiose entre sua gestão e o STF.

Algumas propostas de reforma do Judiciário que já começam a chegar ao PL não apenas reduzem o STF a uma Corte Constitucional, e não recursal, como também impõem limite a mandatos vigentes, o que dispensaria até o impeachment de ministros. Lula também deverá avançar numa reforma do Judiciário neste 2º turno por inevitável. Até aqui, se limitou a dizer que formará um conselho de notáveis para filtrar suas indicações.

A reforma conterá o único poder capaz de por freio à hipertrofia do Legislativo? Certamente. As contas criteriosas de Lara Mesquita (FGV-SP), porém, colocam um freio na percepção de que as emendas garantem a vitaliciedade dos parlamentares. Dos 414 que tentaram a reeleição, 71% conseguiram, a mesma proporção de 2002. E no Senado? O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), teve aliados derrotados nas duas vagas e no governo do Estado.

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LULA REVÊ ESTRATÉGIA PARA RECUPERAR ELEITORES

Sofia Aguiar, Lucas Borges Teixeira, Cristiane Agostinee Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Decepcionado com o resultado do primeiro turno, o “day after” da contagem dos votos serviu para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) dar início a um freio de arrumação de olho na reeleição. Uma das principais preocupações da campanha é rever as estratégias para recuperar eleitores de São Paulo, Minas Gerais e dos Estados da região Nordeste, com o objetivo de melhorar o desempenho do petista. Em outra frente, a comunicação da campanha é pressionada a mudar e é vista como uma das responsáveis pela performance aquém do esperado nas urnas no domingo (4).

Com o intuito de renovar a estratégia para os próximos 20 dias, Lula realizou, na segunda-feira (5), reuniões com o grupo político de seu governo e candidatos derrotados, vitoriosos e que ainda concorrem ao segundo turno, além de integrantes do núcleo duro da campanha.

Em um dos encontros, o presidente admitiu que precisa falar mais e fazer mais mobilização. Segundo ele, é preciso “fazer mais rádio, mais selfie, conversar mais e arrumar tempo para fazer campanha”. Nesse sentido, afirmou que é importante participar dos debates nesta segunda etapa - o que não fez no primeiro turno - “porque é tête-à-tête”, em referência a um embate direto com o candidato do PL, Flávio Bolsonaro, que conquistou mais votos que o petista nas urnas.

De acordo com Lula, um dos focos será trabalhar para reverter a alta abstenção da primeira etapa da eleição, e apontou que houve um prejuízo por estar “carregando nas costas a promiscuidade que ficou estabelecida” no Supremo Tribunal Federal (STF).

Também disse que, nos próximo dias, “teremos que colocar para fora o que deveríamos ter colocado no ano inteiro, o que está por trás da eleição”. Em uma das frentes, ele explorou o discurso do medo e disse que seu adversário pode acabar com as políticas sociais.

Auxiliares do presidente responsabilizam a comunicação pelo resultado do primeiro turno. Eles afirmam que Lula demorou muito para entrar nos assuntos que se relacionam com o cidadão e “perdeu muito tempo” tratando de pautas de difícil entendimento, como terras raras e soberania. Eles voltam a citar que, enquanto isso, Flávio insistia no preço dos alimentos.

As críticas ao ministro da Secretaria de Comunicação (Secom), Sidônio Palmeira, e ao marqueteiro Raul Rabelo não foram poupadas. Segundo pessoas envolvidas com a campanha, coube aos dois insistir nesse tom, programando um debate “mais republicano”, sem tantos ataques ao adversário.

Muitos já vinham dizendo que a campanha tinha “fé” de que tudo “daria certo” e demorava por articular e até fazer o uso da máquina. Eles citam, por exemplo, que o reajuste do Bolsa Família, feito a 17 dias da eleição, só terá efeito prático para o segundo turno, dado que o primeiro pagamento será feito no dia 19 de outubro. Se era para entrar neste atrito, recebendo críticas pelo impacto fiscal das medidas, que o fizesse com tempo o bastante para colher os louros antes, argumentam.

Para essa segunda fase, o governo estuda o que pode ser adotado, visando atingir parte do eleitorado, e a área econômica do governo federal está em compasso de espera quanto à estratégia que será adotada. Segundo fontes, é possível correr e lançar novas “bondades”, se assim for decidido. Por ora, no entanto, não há nenhuma medida pronta para ser lançada.

Aliados de Lula passaram a citar o nome de Alckmin como um possível ministro da Fazenda

Há dúvidas, contudo, se o anúncio de novas ações, a essa altura da disputa, produzirá o ganho de votos de que Lula necessita. Além do Bolsa Família, o Desenrola 3.0 só deve ser colocado na rua em novembro, com os contratos de renegociação sendo assinados somente em janeiro.

Para além da estratégia de comunicação, outra das principais frentes de atuação será a de reconquistar votos de Lula que foram perdidos no domingo. Nesse desenho, aparecem São Paulo e Minas Gerais - maiores colégios eleitorais do país - e a região Nordeste, onde o presidente costuma ter melhor desempenho.

No Nordeste, um dos objetivos será conseguir o apoio daqueles que não votaram no primeiro turno, especialmente dos eleitores mais pobres que se abstiveram. Assim como em 2022, Lula venceu nos nove Estados, com mais de 50% dos votos, mas teve uma votação inferior em relação à disputa passada, no primeiro turno. Mesmo nos três Estados em que o governador é do PT e foi reeleito domingo (Bahia, Ceará e Piauí), Lula teve menos votos.

Nos diretórios petistas, há uma cobrança por mais material de campanha e estrutura para divulgação da candidatura de Lula. No primeiro turno, a propaganda de Lula foi basicamente produzida pelas equipes estaduais, do governador e dos candidatos a deputados e ao Senado.

Em outra frente, no Sudeste, a equipe petista já trabalhava com uma derrota no primeiro turno em São Paulo, mas não esperava um cenário tão adverso. O petista teve 1,7 milhão de votos a menos do que recebeu em 2022. Já em Minas, a expectativa era, ao menos, levar a disputa para o segundo turno, o que não aconteceu. Lula perdeu 600 mil votos no Estado.

Diante desse cenário, em São Paulo, a aposta é aumentar a participação do vice-presidente Geraldo Alckmin (PSB) e explorar sua interlocução com diferentes grupos políticos para ampliar os apoios à chapa. A estratégia remete à adotada em 2022, quando economistas declararam apoio a Lula. Aliados do petista passaram a citar o nome de Alckmin como um possível ministro da Fazenda, se o presidente for reeleito, em aceno ao mercado.

Agora, porém, a intenção é que Alckmin, além de ampliar sua presença no Estado, algo que já ocorreu no primeiro turno, adote um discurso mais incisivo e faça críticas mais diretas a Flávio.

Entre os desafios da campanha para ampliar a votação nesses Estados está manter a base mobilizada e convencer o eleitor a ir votar no segundo turno. Dos nove Estados do Nordeste, oito resolveram a eleição para governador domingo. No Sudeste, tanto as disputas ao governo de São Paulo quanto Minas também acabaram com derrotas dos candidatos do PT.

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'HÁ DUAS QUESTÕES CENTRAIS EM JOGO: EM PRIMEIRO LUGAR, A DEMOCRACIA'

Sérgio Abranches, Valor Econômico

Há, para mim, duas questões centrais em jogo. Em primeiro lugar, a democracia. O ponto, digamos, mais profundo de risco à democracia é a negação da tentativa de golpe de 2022 por Flávio Bolsonaro.

A crise no STF completou o processo de esgarçamento institucional. O presidencialismo de coalizão está paralisado com o desequilíbrio nas relações Executivo/Legislativo. O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita. E a crise no STF atinge a capacidade de mediação e resolução de conflitos entre os dois Poderes.

O resultado das eleições para o Congresso agrava esse quadro com uma bancada expressiva de extrema-direita.

O segundo tema crucial é a preparação do país para a travessia na longa transição estrutural global iniciada pela revolução digital. Trata-se de uma metamorfose global que mudará significativamente a política e a economia na construção da sociedade digital. Cada país terá que encontrar o seu caminho, enfrentando as dificuldades da transição e se aproveitando das oportunidades de mudança nos padrões de produção, consumo, trabalho, educação e representação política. A começar por saber usar e controlar a IA, nosso desafio imediato.

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DIREITA AVANÇA, CONGRESSO MUDA E ESTADOS PESAM NO SEGUNDO TURNO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Caiado e Zema sinalizam oposição ao PT; Cury e Renan não orientam eleitores. Flávio busca novas adesões e Lula votos no Sudeste

O primeiro turno deu a Flávio Bolsonaro mais do que a dianteira na disputa presidencial. Entregou ao candidato do PL palanques fortalecidos, a maior bancada da Câmara e um avanço expressivo no Senado. Lula preservou sua fortaleza nordestina, mas precisará ampliar suas fronteiras eleitorais para vencer em 25 de outubro. A eleição também revela uma mudança na composição da classe política: lideranças mais jovens, familiares de políticos tradicionais e personagens projetados pelas redes sociais ganham espaço, combinando renovação geracional e continuidade de correntes ideológicas e oligarquias conservadoras no poder.

A geografia mostra o desafio. Lula venceu em todos os estados do Nordeste, acumula um saldo de aproximadamente 11 milhões de votos. Bahia, Pernambuco e Ceará produziram diferenças superiores a 3,2 milhões, 1,8 milhão e 1,8 milhão, respectivamente. Nas demais regiões, entretanto, Flávio somou cerca de 13 milhões de votos de vantagem. A força nordestina permanece indispensável ao petista, mas o resultado demonstra que ela precisa ser acompanhada de maior competitividade nos grandes colégios eleitorais do Sudeste.

 

São Paulo deu a maior vantagem a Flávio: 3,4 milhões de votos. Rio de Janeiro, Minas Gerais e Espírito Santo também contribuíram para sua liderança. Os três maiores estados do Sudeste concentram mais de 40% do eleitorado brasileiro, tornando pequenas alterações proporcionalmente relevantes para o resultado nacional. No Sul, especialmente Paraná e Santa Catarina, diferenças superiores a 1,8 milhão de votos reforçaram a vantagem do senador. Para se reeleger, Lula precisa reduzir essas perdas enquanto preserva sua mobilização no Nordeste.

A nova Câmara traduz esse deslocamento. O PL elegeu 121 deputados, contra 97 em 2022, enquanto o PT conquistou 70 cadeiras. União Brasil e PP somaram 87; o PSD, 43; o Republicanos, 41; e o MDB, 36. O bolsonarismo amplia sua capacidade de organizar a agenda legislativa, disputar o comando da Casa e pressionar o Executivo. Entretanto, o PL permanece distante de uma maioria própria: os partidos do Centrão (União Brasil, PP, PSD e Republicanos) continuam indispensáveis à construção de coalizões.

Essa composição mostra que a eventual eleição Flávio facilitaria a relação entre o Planalto e o Congresso e a aprovação de uma agenda política dura de direita, com um ajuste fiscal em V, como propõem os ultraliberais. Para Lula, mostra que sua eventual reeleição começará sob condições mais difíceis de negociação no quarto mandato, na política, e um contingenciamento forte nas políticas sociais devido ao deficit público.

Jovem guarda

No Senado, a mudança é ainda mais significativa. O PL elegeu 19 senadores e chegará a 28 representantes, diante de nove do PT. A bancada bolsonarista ganha força para disputar a presidência da Casa e influenciar decisões sobre autoridades e tribunais. Esse resultado aumenta o poder de pressão sobre o Supremo, mas não assegura ao partido capacidade de decidir sozinho. O impeachment de Alexandre de Moraes pode ser uma consequência imediata.

As dobradinhas do PL no Distrito Federal, no Mato Grosso do Sul, no Rio de Janeiro, em Rondônia e em Santa Catarina proporcionaram esse grande avanço. Michelle Bolsonaro e Bia Kicis, Carlos Jordy e Carlos Portinho, Carlos Bolsonaro e Carol de Toni ampliam a rede de mobilização do partido. A presença de Michelle e Carlos no Senado, somada à candidatura presidencial de Flávio, mostra como o bolsonarismo distribui seu protagonismo por novos mandatos e preserva a centralidade da família.

A Câmara confirma a mudança geracional: 183 eleitos exercerão seu primeiro mandato. Isso não permite concluir que houve rejuvenescimento generalizado, mas indica uma troca relevante de representantes, com jovens políticos despontando com grande votação e alguns veteranos líderes políticos encerrando a carreira com derrotas acachapantes. Nikolas Ferreira e Lucas Pavanato, ambos com mais de três milhões de votos, exemplificam a força de lideranças jovens cuja projeção passa pelas redes sociais. Sua votação fortalece bancadas e amplia sua influência sobre a linguagem e as prioridades da direita. São lideranças com perfil de extrema-direita que estão pautando narrativas e comportamentos políticos.

Ao mesmo tempo, a ascensão de filhos, irmãos e cônjuges de políticos tradicionais torna evidente que a renovação pode reproduzir estruturas antigas. O processo combina sucessão familiar, máquinas locais e mobilização digital. Para a esquerda, envelhecida, o desafio envolve formar lideranças capazes de disputar esses espaços sem depender exclusivamente do prestígio de Lula e da geração que construiu o PT.

O segundo turno nos estados prolonga essa disputa. Caiado negocia com Kassab; Zema sinaliza oposição ao PT; Cury e Renan Santos deixam seus eleitores sem orientação. Flávio tentará transformar o avanço territorial e parlamentar em novas adesões. Lula precisará convencer parte do centro e recuperar votos no Sudeste, mostrar que a vitória legislativa da direita não encerrou a disputa presidencial. A rejeição e o medo serão o grande divisor de águas do segundo turno.

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VENTOS DA DIREITA, UM CONVITE À HUMILDADE

Artigo de Fernando Gabeira

Aconteceu. Independentemente do resultado do segundo turno, o grande fato político é a vitória da direita no Senado, que, desde já, anuncia um ano de crises institucionais com o STF.

Aconteceu, e não creio que se possam culpar apenas os erros de campanha. A performance do governo teve peso. A frente que venceu em 2022 não foi capaz de crescer após as eleições, não soube se expandir para setores ainda não conquistados.

Escrevi alguns artigos mencionando minhas dúvidas aqui e ali. Mas às vezes as críticas são muito mal recebidas, e o velho argumento de que criticar é favorecer o adversário continua sendo dominante.

Para começar, acho que o tratamento judicial dado aos presos do 8 de Janeiro foi rigoroso demais. As sentenças foram muito longas, não houve avaliação individual de culpa.

O bolsonarismo se valeu da ideia de perseguição política e cresceu na condição de vítima. Creio que, em Santa Catarina, num desses discursos de campanha, Lula afirmou ser candidato para manter Bolsonaro na cadeia.

Esses discursos inflamados animam a militância, mas não trazem crescimento na sociedade. Identificar-se tão completamente com as decisões do Supremo não era um bom caminho, mesmo porque, adiante, o STF cairia em desgraça com o caso Master e se transformaria em vilão nacional.

Não pretendo me fixar nesse ponto, mas política de frente é algo distinto do que foi desenvolvido no Brasil. Frente significa trabalho comum e formulação comum. O PT tem uma indiscutível propensão hegemônica. Agrega, distribui cargos, mas quer o monopólio nas questões essenciais, como política externa.

Houve erros de interpretação dos ventos de direita que sopram no mundo. É difícil entendê-los, porque em cada país sopram de um jeito especial. No meu entender, a corrupção tem papel no Brasil. Mas é desconcertante para essa interpretação ver a vitória parcial de Flávio Bolsonaro. Ele tem os mesmos problemas de um político convencional, enriquecendo silenciosamente ao longo de seus mandatos.

O vento que soprou no Senado, de certa forma, atinge a Câmara. No caso específico do Rio de Janeiro, houve muitas baixas entre deputados de esquerda, uma estranha lista dos mais votados e a derrota parcial de quem parecia favorito, Eduardo Paes.

É difícil interpretar esse tsunami depois de um longo fim de semana de trabalho. Precisaremos de mais tempo, flexibilidade e abertura para entender melhor o que se passa no Brasil. Precisamos também de mais tolerância no debate. Não dá para avançar quando se pune o exercício do pensamento com agressões morais.

Detesto enfoques do tipo “bem que avisei”. No meu caso, avisei muito timidamente. Poderia ter feito mais, porque minha vida também estava em jogo. Dediquei anos à legislação ambiental, e ela será a primeira vítima.

Diziam no passado que a esquerda só se une na prisão. Ela tem uma excelente oportunidade de se unir nessa derrota parcial. Os anos que virão, com um Congresso dominado, serão difíceis. Deveríamos superar a arrogância, a lacração e nos tratarmos com a fraternidade dos outros tempos. Sabemos menos que pensamos, podemos menos que imaginamos, não sei mais o que falta para nos aplicarmos uma boa dose de humildade.

Artigo publicado no jornal O Globo em 06 / 10 / 2026

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BRASIL MARCHA À DIREITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Virada de Lula no segundo turno não é impossível, mas é bem difícil

País se junta a outras nações em onda de ultradireita

A direita fez barba, cabelo e bigode nestas eleições. Se o futuro é contingente, não dá para descartar uma virada de Lula contra Flávio Bolsonaro no segundo turno, mas ela é improvável. Os menos de dois pontos percentuais que separam o petista de seu adversário podem não parecer muita coisa, mas os eleitores de Renan Santos, Augusto Cury e Ronaldo Caiado, que ficaram órfãos, tendem a ter um perfil mais conservador. Difícil imaginar que migrem para Lula em desproporção tal que compense e supere a diferença.

É claro que o imponderável pode dar as caras. Eleitores sempre podem mudar de ideia. Imagino até que os serviços de "opposition research" do petismo tenham guardado algum vazamento suculento contra Flávio. Tudo é possível, mas nada aponta um caminho muito fácil para a virada.

Já especulando um pouco, eu diria que os recados das urnas foram tão inequivocamente direitistas que, se essa ala tivesse apresentado um candidato presidencial menos ruim do que o pequeno Bolsonaro, teria liquidado a fatura no primeiro turno. Em 20 das 27 unidades federativas a disputa se resolveu em primeiro escrutínio, com amplo predomínio da direita.

Se aplicarmos ao Brasil o princípio da mediocridade, segundo o qual o país nada tem de excepcional ou único que o distinga de outras nações, então os resultados nem são assim tão surpreendentes.

Observamos hoje no mundo a superposição de dois fenômenos relativamente novos. O primeiro é o forte crescimento da ultradireita, que afeta não apenas países periféricos mas também os centrais (Trump, AfD, Le Pen, Chega). O segundo é a transformação da vantagem do incumbente numa espécie de maldição.

Levantamento de Steven Levitsky mostrou que, desde a pandemia, os incumbentes perderam 40 de 54 eleições (74%) em democracias ocidentais analisadas. O próprio Bolsonaro original perdeu uma.

Vamos descobrir nas próximas semanas se Lula, que já deu improváveis voltas por cima, conseguirá uma nova façanha ou se vai encerrar sua carreira perdendo para "o pior dos Bolsonaros".

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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A VOLTA DE UM PASSADO QUE NUNCA EXISTIU

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A extrema direita transforma em glórias os crimes que se cometeram para garanti-las

E é um passado ainda mais perigoso, porque promete um futuro que também nunca existirá

Em sessão recente na Academia Brasileira de Letras, meu colega, o escritor João Almino, levantou uma importante questão: a estratégia da extrema direita, que, "sob uma capa superficial de defesa da liberdade, da família, dos costumes, da tradição, da ordem, da religião, da nação, da civilização ou da própria democracia, adota um discurso de regresso ao passado". E que passado é esse? Um que nunca existiu e muito menos foi vivido por aqueles que o defendem.

Um passado não só fictício como perigoso, porque transforma em supostas glórias os crimes que se cometeram para garanti-las e faz com que eles, os crimes, sejam vistos com naturalidade e anseio. Na Europa, isso se manifesta no atual controle pela extrema direita de países como Itália, Suécia, Hungria e Polônia e no crescimento dela na França, Espanha, Áustria e, inacreditavelmente, Alemanha. Que tais países estejam à beira de uma nova onda nazifascista já é suficientemente incompreensível –para que lutaram os avós desse pessoal entre 1932 e 1945? Mas, na Alemanha, é chocante –nenhum outro foi mais algoz e vítima de si mesmo.

Os argumentos dos extremistas europeus são os mesmos que Mussolini e Hitler usaram para se impor: crise econômica, nacionalismo, antiglobalização, xenofobia, pureza racial (luta contra a imigração) e a "volta à verdadeira essência da nação" —como se uma suposta essência fosse possível de determinar.

No Brasil, a receita bolsonarista adota a maioria desses ingredientes, enfatizando o papel da religião, com Jesus Cristo, como diz Almino, "rebaixado a cabo eleitoral". Há também uma nostalgia da ditadura civil-militar –nostalgia que, para existir, precisa negar o que a sustentou por 21 anos: proibição de eleições, empobrecimento político de duas gerações, censura, prisões, tortura, exílio de seus melhores cérebros (de imediato acolhidos pelos EUA e pela Europa) e um falso "milagre econômico".

Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá.

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domingo, 4 de outubro de 2026

OS SAFRAS, HISTÓRIA DE UM BANCO

Elio Gaspari, O Globo

Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram a empresa com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime

Está nas livrarias “Os Safras — Uma história”, do repórter Robson Viturino. Conta a trajetória do banco Safra. Tremenda história. Eram três irmãos — Edmond, José e Moise — que criaram um banco com o sobrenome da família. Triunfaram, brigaram (ao seu estilo), viram-se metidos num crime, no qual morreu Edmond.

Em 2015, José Safra era o banqueiro mais rico do mundo. Batia os Rothschild, Warburg, Morgan, Goldman, Rockefeller, Setúbal e Moreira Salles. Tudo isso com um jeito simples e discreto, em pouco mais de 50 anos.

José morreu em 2020 sempre apagando suas pegadas, salvo na filantropia. Seu banco financiou tucanos e petistas, ajudou a criar o Cebrap, que em 1969 acolheu professores demitidos da USP (ouvindo o ministro Delfim Netto). Reservados, os Safra eram banqueiros ao velho estilo, em um mundo que não existe mais, o de contas numeradas na Suíça.

Viturino foi aos segredos dos Safra, não a todos, mas aos que fazem de seu livro um trabalho revelador. No coração dos mistérios está a morte de Edmond, em dezembro de 1999, em Mônaco. Minado pelo Mal de Parkinson, ele estava na sua cobertura quando temeu ser sequestrado e trancou-se com uma enfermeira num banheiro. Um enfermeiro ateou fogo a um cesto de lixo e os dois morreram asfixiados pela fumaça.

Viturino não decifra o mistério, mas mostra a moldura. Uma amostra:

“Muito se falaria do momento em que José e Moise apareceram na sinagoga Hekhal Haness e cadeiras tiveram de ser levadas a eles — através da sinagoga, já que seus nomes não constavam da lista de convidados —, tudo sob o olhar gélido de reprovação da viúva. (...) No enterro de Edmond no cemitério de Veyrier, José e Moise tiveram que abrir caminho às cotoveladas no cortejo para poder carregar o caixão do irmão.”

Isso. Os dois irmãos davam-se mal, muito mal, com Lily Safra. Ela viria a se tornar a mulher mais rica do mundo. Em 2008, Lily negociou a Villa Leopolda, onde dava festas com Edmond, por 530 milhões de dólares, o maior valor de um imóvel desde a Idade da Pedra.

José afastou-se dos negócios de Edmond antes de sua morte. Depois, José e Moise separaram-se. Hoje os dois bancos, Safra e J. Safra, estão nas duas calçadas da Avenida Paulista, esquina com Rua Augusta.

Moise morreu em 2014 e José, em 2020, aos 82 anos. A briga propagou-se na geração seguinte, até que uma paz foi selada em 2014. Mas o mundo dos bancos era outro. O Safra havia sido multado em 10 milhões de dólares e reconheceu seus malfeitos. José passava mais tempo no exterior, temendo ser preso. Mas os bancos continuam de pé.

A volta de ‘Je suis brésilien’

A vulgaridade e o nouveaurichisme das farofas de Daniel Vorcaro com hierarcas da República mostram que o tempo passa e os vícios persistem, com menos talento. Na segunda metade da década de 1860, a ópera bufa “La vie parisienne”, do compositor francês Jacques Offenbach, fez enorme sucesso na Europa. Nela havia uma ária que prenunciava os farofeiros do século XXI, chamava-se “Je suis brésilien“.

Ele cantava:

“Eu sou brasileiro, tenho ouro

E venho do

Rio de Janeiro

Mais rico hoje do que antes.

Paris, retorno para você.

Duas vezes,

eu já vim

Tinha ouro na minha mala

Diamantes na minha camisa

Quanto tudo isso durou?

O tempo de ter duzentos amigos

E de amar quatro ou cinco amantes

Seis meses de galantes bebedeiras

E mais nada,

ô Paris, Paris!

Em seis meses, você me tirou

Tudo.

(...)

E venho, para que você me roube

Tudo que roubei lá embaixo”

Em 1867, estava na plateia o boêmio Juca Paranhos, filho do Visconde do Rio Branco e pai do futuro Barão.

O “Brasileiro” de Offenbach pode estar na origem do termo “rastaquera”.

O tesouro de Vorcaro

Depois de meses de tratativas, a colaboração de Daniel Vorcaro continua na estaca zero. Apesar disso, o conteúdo armazenado em seus celulares prova, à saciedade, a extensão de suas conexões.

O cunhado do finório, Fabiano Zettel, revelou que em outubro de 2025 foi ao exterior e escondeu um ervanário. Nas suas palavras:

“O Banco Central deu três semanas para o Daniel reformular o banco, senão ele vai ser liquidado. Eu fui lá (no exterior), escondi um dinheiro, porque se der tudo errado e der uma merda danada e tudo meu for bloqueado, eu tenho que ter um dinheiro pra poder continuar vivendo e mantendo as coisas. Agora, eu estou no Brasil e confio em falar isso pra você. Lá eu não podia falar isso por telefone”.

Seriam bilhões de reais, talvez 20. Com calma, o Ministério da Justiça e a Polícia Federal têm como achar esse tesouro.

Itamaraty em perigo

De todas as propostas de Flávio Bolsonaro, a mais tóxica veio na semana passada. Ele já anunciou que seu irmão Eduardo será o chanceler de seu governo e que ele fará “uma faxina” nos quadros da diplomacia...

Pindorama já provou esse veneno. Em 2019, seu pai nomeou o diplomata Ernesto Araújo para o cargo. Sua gestão foi desastrosa mesmo para os padrões do ex-capitão, e ele teve que substituí-lo em 2021. Para o lugar foi o embaixador Carlos França que restabeleceu o estilo da Casa.

Veio a eleição, Bolsonaro foi derrotado, e a tradição prevaleceu. França foi mandado para a embaixada no Canadá, onde exerce sua função como um profissional correto. O canibalismo é estranho à vida do Itamaraty.

Em 1964, deposto João Goulart, seu chanceler, Araújo Castro, foi mandado para Atenas. Em 1985, terminada a ditadura, o chanceler Ramiro Guerreiro foi nomeado pelo presidente José Sarney para negociar a dívida externa.

O Brasil tem uma diplomacia respeitada porque não tem lugar para canibais. O Barão do Rio Branco dava-se mal com o Visconde de Cabo Frio, diretor-geral do Ministério. Esperou que morresse, o que se deu em 1907.

Os Bolsonaro deveriam ler “O mundo em que vivi”, as memórias do embaixador Pio Corrêa (1918-2013), um verdadeiro e destemido conservador.

O Judiciário na semana da Criação

Se o Judiciário brasileiro estivesse presente na Semana da Criação, ele obrigaria o Pai Eterno a:

1º dia: Deus criaria a luz, mas manteria nas trevas os processos envolvendo magistrados.

2º dia: Deus criaria o firmamento, separando uma área para os gabinetes e casas dos magistrados.

3º dia: Deus criaria as plantas e os pomares dos magistrados que teriam safras contínuas.

4º dia: Deus criaria os astros, com prioridade para familiares de magistrados e tribunais superiores e seus familiares.

5º dia: Deus encheria os mares com peixes e as águas dos magistrados com salmões.

6º dia: Deus criaria os animais e o ser humano, com imortalidade e juventude eterna para os magistrados.

7º dia: Deus descansaria, com direito a férias retroativas.

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NÃO IMPORTA QUEM VENÇA, O CENTRÃO VAI MANDAR E O STF ESTARÁ EM MAUS LENÇÓIS

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

É bastante improvável que a eleição presidencial feche já no primeiro turno; as incertezas e tensões vão persistir para além da noite de domingo

Nunca antes na história deste País as eleições chegam ao fim tão indefinidas, tensas e com o Supremo Tribunal Federal roubando a cena, soterrado por erros e críticas. Ganhe quem ganhar a Presidência, as únicas certezas são que o Judiciário estará na mira e que o Centrão vai continuar poderoso, dominando o Legislativo e controlando o Executivo.

Quem ganha neste domingo? É certo que o “segundo pelotão”, com Ronaldo Caiado, Romeu Zema, Augusto Cury e Renan Santos, mal deve chegar a 10% dos votos válidos e só dois candidatos têm chance de vitória, o presidente Lula e o senador Flávio Bolsonaro. No mais, tudo continua incerto.

Nada é impossível, mas é bastante improvável que a eleição presidencial feche já no primeiro turno. Logo, as incertezas e tensões vão persistir e as fakenews vão continuar pipocando para além da noite de domingo, quando os resultados devem ser anunciados pouco depois das 21h, como em 2022.

O segundo turno é “uma nova eleição”, logo, as pesquisas, os especialistas e a mídia, além das campanhas de Lula e Flávio, continuarão mobilizados, atolados em dúvidas sobre quem vencerá e temerosos de novas intervenções políticas do Supremo e do próprio TSE, como as que derrubaram o último debate.

Atenção, porém: essas intervenções podem vir tanto a favor de Lula quanto de Flávio e não vão começar pelo Judiciário, mas pelo Congresso. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre, anunciou que vai iniciar a análise do fim da escala 6X1 na terça-feira, bem no início do segundo turno.

Como essa é uma das cartas na manga pró Lula, desde que ele fez as pazes com Alcolumbre, depois de meses de muxoxos, conclui-se que a decisão é boa para o presidente, que disputa o quarto mandato, e ruim para Flávio, eleito pelo pai, Jair Bolsonaro, como seu sucessor político.

Se já é esse sufoco todo, imagine-se como será o segundo turno, com o eleitorado já desanimado, descrente, desmobilizado e sem praticamente metade dos palanques estaduais, já que uma dúzia de governadores devem eleitos em primeiro turno.

A expectativa é de guerra de acusações, facknews aos montes, Supremo se metendo, TSE indo para um lado ou outro, Centrão entrando de mau jeito e uma disputa feroz pelos votos do “segundo pelotão”, já derrotado. E não poderiam faltar as igrejas. Não só as evangélicas, majoritariamente pró Flávio, mas também a Católica, que entrou na campanha de Lula.

É nesse clima de radicalização, crise entre as instituições e envolvimento religioso, que o primeiro turno vai chegando ao fim e o segundo já vai começar. O pós-eleição, como o novo governo será melhor? Nem Nossa Senhora sabe.

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EM QUEM VOCÊ VAI VOTAR EM 2030 ?

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Mais do que candidatos, faltam novas forças e coalizões sociais para renovar a política

Até agora, grupos que apareceram no cenário político apoiam projetos reacionários

Na véspera do primeiro turno deste 2026, pelas mídias sociais se viam cartazes criados por IA dos candidatos a presidente de 2030: Flávio Dino, ministro do STF, contra Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo. Sim, 2030 começou faz tempo. Não prestamos atenção.

Os próximos anos serão de dificuldades econômicas. A depender do resultado de 2026, é possível que venham a ser também de angústia política, sendo incertas as condições de disputa da eleição de 2030, se com degradação democrática maior ou total.

Sabe-se que Luiz Inácio Lula da Silva não vai disputar o cargo de presidente em 2030. Nas direitas, caso o bolsonarismo defina a candidatura principal, está longe de certo que Tarcísio ou equivalente seja o candidato. Ainda que apareçam presidenciáveis pela esquerda, no momento é difícil acreditar que o PT adote candidato de fora.

Ao menos desde 2002, o PT é o centro da política partidária. Alguma variante de antipetismo definiu a outra força maior. Desde 1994, o PT mais e mais se limitou a lulismo e Lula. Lideranças escasseiam faz tempo.

Além do mais, as forças sociais organizadas que se amalgamaram no partido estão fracas ou se foram. Por exemplo, sindicatos de trabalhadores industriais, de bancos, de estatais, de servidores públicos. Ou o forte movimento social de base, que brigava por posto de saúde, um poste de luz, um ponto de ônibus que não ficasse a uma hora de caminhada, água, paz, terra, casa ou pão, mesmo na rica São Paulo.

Foram-se ou são mínimas e órfãs forças sociais que lideraram o PSDB até sua morte, entre 2014 e 2018, uma elite mais ilustrada ou patrícia e agregados ricos melhores, boa parte da tecnocracia e da academia mais capaz. PT e PSDB foram filhos de uma história do desenvolvimento que poderia ter sido, mas não foi, centrada em São Paulo, entre 1950 e 1990, e que morreu por aí.

Outras forças sociais que nasceram nas margens desse país, pelos 1970, estão fortes e articuladas. O evangelismo ganhou mais força nas periferias desse país falhado. O agro nasceu nas marchas para o Oeste, com pesquisa universitária e financiamento da agricultura estatais; ficou enorme com a China. Polícias, militares e seguranças se tornaram força política em um país precário e violento.

Organizações de mulheres, negros, indígenas e tanta gente oprimida mais não criaram grande coalizão política; acham representação pontual no envelhecido PT ou em partido pequeno. A Grande Insatisfeita, a pequena classe média que ficou grande nos anos petistas, se vê travada por crescimento baixo e escola ruim. Está em revolta, mas parece inorgânica. Vota "contra o que está aí", contra o PT na maior parte. O pobre dos benefícios sociais, eleitor de Lula, mas bem menos do PT, também é desarticulado.

O "empresariado" é dominado pela finança ou pelo controlador via finança da grande empresa, ou está em serviços e comércio. Não há motor de desenvolvimento por aí, via novo padrão de investimento ou projeto que não seja pagar menos imposto e receber subsídio estatal. O resto é imenso centrão, partido do extrativismo estatal puro.

É um mapa sumário e precário. Mas indica falta de forças sociais para dar carne e osso a projeto político que não seja reacionário ou de extração de benesses. Política e movimento social não são a mesma coisa, mas é difícil haver renovação política sem novas forças ou coalizões sociais. O voto em 2030 pode ser também desanimador.

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PADROEIRO DE FLÁVIO BOLSONARO É HOMEM, LOIRO E MORA NA CASA BRANCA

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Candidato diz que falou simbolicamente sobre Cristo; é de se perguntar até onde vai sua devoção simbólica ao líder dos EUA

Subordinação do país aos interesses americanos vai muito além da simples especulação

No ano passado, Flávio Bolsonaro assistiu a um vídeo divulgado pelo governo Trump que exibia forças americanas destruindo uma embarcação, acusada de pertencer a narcoterroristas, na região do Caribe. Um ataque sumário, que feria as leis internacionais e o bom senso.

O filho de Jair Bolsonaro disse sentir inveja da ação e convidou os americanos a fazerem algo semelhante no Rio: "Ouvi dizer que há barcos como este aqui na baía de Guanabara. Vocês não gostariam de passar alguns meses aqui nos ajudando a combater essas organizações terroristas?", disse ele, apelando ao presidente Donald Trump.

Na terça, 29 de setembro, a campanha de Flávio respondeu à Folha sobre outro assunto: sua promessa de, caso eleito, "decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo". A declaração deveria ser entendida, segundo ele, simbolicamente. Apenas faria uma oração durante a posse.

Aceita a licença semântica —que não elimina o risco à laicidade do Estado e à diversidade religiosa—, cabe perguntar a quem mais Flávio estaria disposto a entregar simbolicamente o Brasil.

Trump é o candidato mais bem cotado.

A submissão política dos Bolsonaros ao presidente americano antecede a eleição de Jair, em 2018. Depois de vitorioso, em sua primeira visita bilateral, em 2019, ele declarou na Casa Branca que sempre fora um grande admirador dos Estados Unidos —mais ainda após a chegada de Trump ao poder.

Com a derrota dos dois populistas da ultradireita, o assunto pareceu sair de cena por um interregno, até que o republicano voltou à Presidência. A família Bolsonaro passou, então, a apostar na interferência do líder da maior superpotência mundial para livrar o ex-presidente da cadeia por ter liderado uma tentativa de golpe de Estado.

O ex-deputado Eduardo Bolsonaro, que desertou para os EUA, trabalhou pela aplicação de sanções contra autoridades brasileiras e, quando Trump anunciou seu tarifaço, comemorou: "Obrigado, presidente Trump. Faça o Brasil livre novamente. Queremos Magnitsky".

Seria simplista atribuir as tarifas de Trump à influência de Eduardo, mas é certo que um deputado brasileiro celebrou medidas de pressão econômica dos EUA contra seu próprio país.

O tiro acabou saindo pela culatra. Lula empunhou a bandeira da soberania nacional, e Flávio mudou o rumo, chegando a apresentar aos americanos pesquisas para argumentar sobre o risco de vitória política do rival.

Mas nada disso afetou a relação com Trump. Em março, nos EUA, o 01 de Jair apresentou o Brasil como "a solução" para os americanos quebrarem a dependência da China em minerais críticos, especialmente terras raras.

Em julho, levantou suspeitas sobre as urnas eletrônicas, afirmando que algumas máquinas teriam origem na Smartmatic, ligada a supostas fraudes na Venezuela. Mais recentemente, soube-se que o modelo para o Itamaraty numa gestão bolsonarista seguiria as ideias de Marco Rubio, o secretário da área nos EUA.

Jair bajulou Trump, e Eduardo pleiteou sanções contra autoridades e interesses brasileiros. Já o candidato Flávio desdobrou-se em mesuras, do pedido de intervenção militar contra o tráfico no Rio às declarações sobre urnas eletrônicas, passando pelos recursos minerais. Seu padroeiro é homem, loiro e mora na Casa Branca.

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SOBRE O AFETO QUE SE ENCERRA

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

É preciso distinguir a polarização política e ideológica da afetiva, que contempla convivência cívica e até mesmo amor

A máquina de ódio religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas se orientam pelo escândalo do outro

Diante do show de horrores com esqueleto fora do armário oferecido pelo STF, vale perguntar se alguma parte cabe à polarização social. Não é exclusividade nossa, acadêmicos norte-americanos já se inquietam com esse fenômeno nas universidades. É preciso, entretanto, distinguir polarização política da afetiva. A primeira contempla posições ideológicas, com maiores ressonâncias onde se exacerbe a divisão entre conservadores e progressistas. A segunda, convivência cívica e, mesmo, amor. Mas as duas podem se superpor.

Entre nós, a superposição é estimulada pela identificação do campo antiprogressista ao bolsonarismo. Embora este termo já se distancie de um nome próprio à extrema direita, o fantasma do capitão assombra a memória democrática como objeto malsoante. Não apenas por seu espírito golpista, muito pelo legado negativo da grosseria de linguagem, indiferença à vida humana, ataques à educação. Matéria-prima da náusea.

Só que o cotidiano visto pelas lentes de uma sociologia do imediato mostra outra face da polarização. Um caso ilustrativo: alguém com fortes convicções direitistas, mas em quem se reconhecem algumas virtudes pessoais, repercute em conversa uma suposta declaração do imunologista Anthony Fauci de que ivermectina e hidroxicloroquina poderiam ter salvado vidas. Fauci não disse nada disso, calou-se na audiência do Senado americano (29/6/2026). O interlocutor, porém, é categórico: "O capitão estava certo".

Esse adepto não pode, entretanto, ser definido como réplica antropológica de seu ícone. Anestesiado, ele simplesmente não absorve fatos reais, é um Pedro Bó (o personagem crédulo de Chico Anísio) do afeto. Contra a corrupção política, recita o mensalão, o petrolão ou despesas de cartão do presidente da República. Personaliza tudo no epíteto "ladrão". Apenas esquece a voracidade financeira do clã predador da democracia, da ganância imobiliária, da associação com a criminalidade miliciana. E mesmo sabendo da quinta-coluna entreguista, anuncia, pimpão: "vamos libertar o país". Ingênuo parceiro do golpismo permanente.

Um caso singular, certo. Mas inteligível como holograma do laço social estruturado pelo vaivém entre desafecção e afecção. O indivíduo se dessensibiliza quanto a fatos sórdidos (pregação de extermínio físico, elogio da tortura), na vertigem do fascínio libidinal por um espectro, sobre o qual projeta instintos silenciados. Zero cognição: uma cabeça, uma estrutura de ressentimento internalizada.

Isso pode coexistir com civilidade ou com violência, como entre 2018-22, período de inédito antagonismo afetivo, teoricamente sonhado pelo politólogo Carl Schmitt: o inimigo funda a política. A máquina de ódio religiosa transfunde polarização afetiva na política: campanhas eleitorais se orientam pelo escândalo do outro. Nem santas católicas escapam de ataques misóginos e racistas, contaminando ministros do STF "terrivelmente" qualquer coisa. Em sangria institucional desatada, trocam a liturgia interna pela hemorragia do cargo.

Questão intrigante é que polarização nenhuma explica o desejo repulsivo de ver o país transformado em modelo de narcoestado, como o Rio de Janeiro em 8 anos de bolsonarismo. Na exaustão dessa violência continuada, há vislumbres de socorro: fora da dinâmica fascista ou patológica, o corpo social não vota na aberração miliciana

*Sociólogo, professor emérito da UFRJ, autor, entre outras obras, de “Pensar Nagô” e “Fascismo da Cor”

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PAÍS VAI ÀS RUAS REFÉM DO CONFLITO SURDO E RADICAL

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A política deixou de ser a arte de construir consensos para se tornar a fonte de impasses sem resultados

O jeito de escapar da armadilha é a retomada da obediência a regras e papéis legalmente estabelecidos

O Brasil vai às urnas neste domingo (4) refém da armadilha criada pela batalha de aversões e afeições em que se transformou a política, que deixou de ser a arte da construção de consensos a partir de dissensos para se tornar a própria fonte da discórdia.

A lógica é a do conflito pelo conflito produtor de impasses sem o alcance de resultados. Falar da polarização e atribuir a ela o aprisionamento do país a duas correntes surdas ao contraditório é chover no molhado dos chavões.

O lugar-comum simplifica a cena, mas não lança luz sobre a rota de fuga nem explica a razão pela qual caímos na arapuca. Igualmente irrelevante para a elaboração de um pensamento que nos leve adiante é se apegar ao marco inicial da dinâmica do atrito.

Seja o "nós contra eles" ou o "eles contra nós", o mal está feito. Interessa saber agora como se escapa da sinuca. Dos favoritos na disputa de rejeições só o que se viu foi estímulo à contaminação do ambiente, cuja infecção tomou conta dos tribunais, assim chamados de superiores.

Não há, para qualquer lado que se olhe, compromisso com as consequências. O Congresso ocupa-se dos negócios orçamentários, a cúpula do Judiciário entrega-se a rivalidades militantes, a chefia do governo é objeto de cobiça de grupos voltados aos próprios projetos, e o país fica nas mãos do que der e vier.

Só há um jeito de se escapar dessa cilada: é refazer o caminho da obediência às regras e aos papéis legalmente estabelecidos. Contribuiria também a disposição geral em arejar o ambiente de modo a que se ouçam outras vozes sem desqualificá-las por se recusarem a entrar na briga do dedo no olho e golpes ao baixo-ventre.

Ao Legislativo caberia voltar a exercer suas funções de representação popular; ao Judiciário, a retomada do papel de defesa da legalidade e ao Executivo cumpriria a tarefa de governar para todos, trafegando nas divergências com respeito ao adversário para, assim, liderar o indispensável e urgente processo de reorganização institucional.

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A JORNADA DO VOTO E OS RISCOS ATUAIS

Míriam Leitão, O Globo

Eleitores decidirão o destino do país, e não só os próximos quatro anos. O autoritarismo e o alinhamento acrítico aos EUA são riscos que não podemos correr

Quando minha mãe nasceu, mulher não votava. O direito eleitoral feminino é recente. O voto é novo no Brasil. Há apenas 37 anos, o Brasil voltou a escolher livremente o presidente e os governadores, após a longa interrupção imposta pela ditadura. Apesar de as eleições terem se tornado rotina desde a redemocratização, não podemos perder de vista como é valioso o direito que hoje podemos exercer. No fim deste domingo, 4 de outubro, o país terá escolhido dois terços do Senado, toda a Câmara dos Deputados, todas as Assembleias Legislativas e vários chefes do Executivo. A composição do Senado definirá o perfil do Supremo Tribunal Federal que teremos. Será um Supremo capaz de corrigir seus erros ou ele será capturado para o projeto autoritário que um dia combateu?

Os 158 milhões de brasileiros aptos a votar decidirão o destino do país, e não apenas nos próximos quatro anos. Um projeto autoritário tem na sua essência o continuísmo e segue a estratégia de corroer por dentro as instituições, até que elas percam sua força de contrapeso. Velhos medos, que minha geração acreditou ter deixado para trás, estão vivos. O autoritarismo é o maior deles. O intervencionismo americano recuou a meados do século passado. Donald Trump é tão primitivo que quer da América Latina nada menos do que a vassalagem. O alinhamento acrítico aos Estados Unidos é um risco que um país como o Brasil não pode correr.

A suspensão do atendimento na embaixada americana na sexta-feira, movimento seguido por consulados de outros países que pertencem ao mesmo grupo de troca de informações de inteligência, foi dramatizado pelas redes bolsonaristas que alimentam um clima de tensão.

Esta campanha transcorreu no inverno do nosso descontentamento. O STF foi a instituição mais atacada no governo de Jair Bolsonaro porque com o Supremo fraco ficaria mais fácil o plano golpista. Foi o ponto da resistência. Esse mesmo STF minou a si próprio desta vez. De novo, o risco maior é o democrático, mas agora o país desconfia da sua cidadela. Se a briga fratricida dos ministros expôs o país ao perigo, toda a campanha foi estranha. O momento mais inusitado teve Nossa Senhora Aparecida no meio da polêmica eleitoral.

O Supremo precisa corrigir a si próprio. O Senado a ser escolhido hoje pode ajudar a fortalecer a instituição, que tem sido disfuncional nos últimos tempos, ou pode aproveitar as fraquezas do Supremo e completar o golpe que ficou inacabado em 2023. Tudo o que o STF fez e falou será usado contra ele e contra a democracia. É doloroso que os ministros não tenham entendido a dimensão do risco que enfrentamos. Era previsível que a campanha da extrema direita usasse como bandeira a proposta de eleger senadores para destituir ministros do Supremo. E evidentemente, a ideia é não parar por aí.

Eu comecei esta coluna falando de minha mãe, Mariana, e tenho motivos para esta volta para casa quando falo de eleição. Ela nasceu em 1925 e morreu em setembro de 1989, sem conseguir dar seu voto ao Doutor Ulysses, candidato que havia escolhido. Num dos últimos encontros que tivemos, minha mãe estava às voltas com o recadastramento eleitoral, trabalho para o qual ela havia se voluntariado naquele renascimento do direito do voto. Meus pais eram cerimoniosos com o ato de votar. Ainda os vejo, descendo a rua Princesa Isabel, vestidos com a elegância de um evento social, indo votar para presidente, em 1960, antes que a ditadura acabasse com esse direito.

Minha neta mais velha, também Mariana, vota hoje pela segunda vez, e levará junto seu irmão Daniel que, aos 16, estreia seu título. Votarão na mesma zona eleitoral que o pai, Matheus. A luta do movimento sufragista permitiu que minha mãe votasse pela primeira vez para presidente, aos 20 anos, em 1945, no encerramento da ditadura de Vargas. Quando votei pela primeira vez para presidente, meu filho Vladimir também votava pela primeira vez. A minha família traz vários símbolos — e cicatrizes — de como o direito do voto é conquista árdua. Hoje correntes de extrema direita defendem o fim do voto feminino. Parece delírio que a vitória do movimento sufragista seja posta em questão um século depois, mas não se deve subestimar os perigos de hoje em dia. No livro que meu marido, Sérgio Abranches, acaba de lançar “A terceira margem do Ipiranga” há uma frase da qual eu gosto muito. “A democracia nunca teve vida fácil entre nós”.

Desejo um bom voto para eleitoras e eleitores.

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ONDE FOI PARAR A FESTA DA DEMOCRACIA ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Polarização exacerbada afasta tom celebratório do dia da eleição

Eleitor balança entre medo e conformismo com escolha do mal menor

Não muito tempo atrás, ainda era possível descrever o dia da eleição como festivo. Não que não houvesse divergências entre as pessoas, mas elas eram vistas mais como escolhas distintas do que como ameaça existencial. Estava implícito que quem perdesse aceitaria o resultado, parabenizaria o vencedor, e iria para a oposição. Ainda celebrávamos a retomada do direito de escolher nossos dirigentes depois de um hiato de mais de 20 anos imposto pela ditadura militar.

Tudo mudou. Já não podemos contar que o derrotado aceitará graciosamente o veredicto popular. Mesmo excluindo o cenário extremo de uma tentativa de golpe, como a que ocorreu após o último pleito, é possível que o perdedor não reconheça imediatamente o resultado e parta para algum tipo de judicialização. É preocupante porque seria a democracia deixando de entregar seu produto principal, que é a transferência não violenta do poder.

Neste domingo, o clima é mais de consternação do que de festa. A indefinição deverá se prolongar por mais três semanas e, para os eleitores que não se identificam positivamente com nenhum dos dois principais competidores, só o que lhes resta é escolher o que consideram ser o mal menor.

Sou capaz de apreciar a arquitetura conceitual de autores como Kant, Hannah Arendt e Slavoj Zizek, que rejeitam a doutrina do mal menor. Conformar-se sempre com ela é de fato um problema. Movimentos de cordão sanitário tendem a ter efeito transitório. Mas não consigo rejeitar a argumentação de filósofos mais pé no chão que costumam trazer a realidade para suas considerações. Até entre a forca e a fogueira há uma alternativa melhor e outra pior. Podemos pessoalmente nos furtar a uma escolha, mas fazê-lo não elimina o problema. Mesmo para quem não gosta de nenhum dos dois candidatos, é difícil que eles empatem em todos os quesitos do eleitor. Deve haver um que lhe pareça menos ruim. É esse dilema que exige nossa atenção.

Não há clima para festa, mas o simples fato de estarmos votando já tem significado positivo.

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INCERTEZAS

Elimar Nascimento, Revista Será?

Há os que vivem em um mar de certezas, por mais turbulentos e imprevisíveis que sejam os tempos em que vivemos. Em qualquer situação, estão certos do que está ocorrendo e do que vai acontecer. E, se não acontece, não foi ele que errou, mas a culpa é de variáveis imponderáveis que surgiram. A convicção da certeza persiste.

Aos que, desta natureza, se apoiam em pesquisas de opinião, mantêm a mesma postura. Nunca erram. O que ele falou se refere a um momento que passou. A culpa é deste e não de suas opiniões, sempre certas. Em último caso, o erro é do eleitor que mudou de opinião na hora em que se viu em frente à urna e com a consciência acima.

Prefiro pensar que tudo pode acontecer nessas eleições. O presidente pode ser qualquer um dos que ocupam os dois primeiros lugares. O Senado e a Câmara tendem a manter a maioria conservadora dos partidos do Centrão. Porém, não se sabe em que proporção, dentre estes, será da extrema-direita, esses conservadores que não têm compromisso com as regras democráticas. Nos estados, a situação é mais plural e complexa, diversa. Quanto mais perto da vida cotidiana das pessoas, menos valor têm as ideologias. Por isso mesmo, famílias de forte tradição na vida partidária têm membros em todos (ou quase todos) os partidos relevantes no local.

Há indícios de vitória de um e de outro lado no caso das eleições presidenciais, que são aquelas que galvanizam a opinião pública, a grande mídia e as mídias sociais. O Estadão, este paladino do tradicional conservadorismo brasileiro, em seus editoriais demarcou uma distância clara da família Bolsonaro ou da “família de milicianos”, como sugeriu. Já a Globo, aos poucos, foi se parecendo cada vez mais com aquela que editou o debate Collor x Lula, a favor do primeiro, influindo no resultado eleitoral de 1989. O debate na quinta-feira tem algo difícil de ser explicado convincentemente: a ausência de um nome (Renan) e a presença de outro (Zema), este com menor percentual de intenção de votos. A Globo preferiu utilizar outro critério que não este. O critico à Bolsonaro foi preterido em favor de um crítico à Lula. Diante do fato de ter que debater com quatro adversários, Lula tomou a decisão de ausentar-se; quatro a um é demais. As consequências desta decisão nas eleições não são conhecidas.

O movimento de grandes grupos empresariais no campo da informação nunca se faz de maneira gratuita. Seriam as posições citadas: uma, de medo de um perseguidor da grande imprensa, e outra, de aproximação deste mesmo perseguidor para se manter viva?

O empate entre Bolsonaro e Lula provavelmente vai ser resolvido entre sábado e domingo: pelos indecisos, pelo voto útil ou pelos dois. O voto útil favorece Bolsonaro; os indecisos, por sua vez, podem ser movidos pelo medo da insegurança do novo ou pelo toque das últimas medidas adotadas em seu favor, particularmente as mulheres, por parte do governo. Este sentimento será maior do que o provocado pela carestia ao longo do ano?

O sentimento nas respectivas hostes políticas também conta.

Aparentemente, o sentimento de “já ganhou” é maior entre os apoiadores de Bolsonaro. Em parte, pela resiliência demonstrada, sobrevivendo ao escândalo do banco e seu envolvimento e às medidas tomadas recentemente pelo governo. Em parte, pela recente ascensão, reduzindo sua distância do primeiro lugar. O sentimento é de crescimento e de vitória, com a expectativa do movimento do voto útil por parte dos eleitores dos outros candidatos conservadores.

Por sua vez, a ascensão de Bolsonaro e o empate técnico deixam as hostes lulistas inseguras por não verem resultados de crescimento com as medidas populares adotadas, ou, em alguns casos, “desesperadas”. Impera um sentimento de que a margem de crescimento se esgotou. E a derrota, que antes era impensável, agora é uma possibilidade ou, para os mais pessimistas, uma probabilidade.

Qualquer dos dois resultados não será bom para o País, sendo a vitória de Bolsonaro muito pior. Pior para os pobres, que voltarão ao mapa da fome; para os trabalhadores de salário mínimo, que não terão reajustes acima da inflação; para os ativistas democráticos, que serão ameaçados e presos; para os negros, com o crescimento do discurso da supremacia branca; para as mulheres, que terão portas fechadas em sua luta pela igualdade de direitos; ruim para os nacionalistas, que verão o controle americano sobre as terras raras, último baluarte de riqueza mineral. E pior ainda será para os indígenas, com ameaças sobre suas terras e o estímulo governamental ao agronegócio e à mineração degradadora do meio ambiente. Este sofrerá como nunca, e os dois anos de redução do desmatamento desaparecerão com o aumento da derrubada das florestas. Enfim, o risco de ingressarmos em um regime autoritário, sem respeito pela imprensa nem pelos opositores, é real. Aos poucos, porque hoje não se derruba a democracia com canhões, mas assiste-se ao sufocamento e a submissão dos poderes constitucionais (Legislativo e Judiciário) ao Executivo, assim como, o cerceamento da oposição.

No caso da vitória de Lula, a democracia não estará imediatamente ameaçada, mas o déficit público vai obrigar a adoção de medidas pouco populares; as tensões políticas, com um Congresso opositor, vão dificultar a governabilidade; a polarização será mantida, com repercussões sobre a paz social; a criminalidade deverá crescer, e a aprovação do governo será suficientemente baixa para alimentar movimentos de impeachment e contestação. As instituições democráticas poderão estar ainda mais desgastadas ao final de seu governo, alimentando o discurso dos neorreacionários.

Por enquanto, a incerteza é a rainha do pedaço. Sinal de democracia, como diria Przeworski. Hoje, contudo, o risco de sua destruição gradativa é real. Aqui e acolá, no Brasil e no mundo ocidental. Domingo será um dia relevante nesta luta.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011). 

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QUE ANTICLÍMAX !

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Foi pena Flávio Bolsonaro ter se escafedido do debate da Globo aos 44 do 2º tempo

A Faria Lima, o agronegócio e o Brasil queriam saber de seus planos de desgoverno

Que anticlímax! Já sabendo que Lula não iria ao debate, para não ter de apanhar da turma do 1% e levar 20 minutos para poder responder, preparei-me para ouvir Flávio Bolsonaro e seu programa presidencial. Do qual, aliás, só conhecemos suas promessas de anistiar familiares presos ou condenados, soltar golpistas, pôr-se de quatro para Donald Trump e construir igrejas evangélicas. Há importantes questões envolvendo-o e que ele precisava esclarecer, até para dar satisfações aos interessados na sua eleição.

A Faria Lima, por exemplo, talvez quisesse saber se a condução da economia por ele não se limitará a facilitar investimentos sem lastro para êmulos de Daniel Vorcaro, lavagem de capitais, impossibilidade de prestar contas por negócios vultosos, compra de mansões com juros camaradas do BRB, fazer negócios suspeitos com dinheiro vivo e envolver-se em práticas incompatíveis com o decoro do cargo. Há também seu lado como administrador. Todo presidente precisa ter alguma experiência nisso. A de Flávio resume-se a uma loja de chocolates que realizou o milagre de não vender chocolate na Páscoa.

O agronegócio também gostaria de saber se terá de redirecionar seus negócios. Afinal, Flávio já disse que governará seguindo as ordens de Trump, e Trump não quer que o Brasil negocie com a China. Sem esta, para quem os agros vão vender seu algodão, celulose, açúcar, soja em grão ou farelo e carne suína, bovina e de frango? Para Trump, claro, que os revenderá com lucro para a China.

Um país para produzir precisa de paz, e Flávio já garantiu, se eleito, vingança contra todos que impediram que o golpe tentado por seu pai em 2022 fosse vitorioso. Isso significará expurgo radical no Exército, com expulsão ou prisão de militares democratas e legalistas; razzia no Itamaraty, com a aposentadoria do corpo diplomático de carreira e sua substituição por estranhos ao assunto; e censura cerrada à educação, artes e comunicações.

Pena Flávio ter ficado com medo de Renan Santos e se escafedido aos 44 do segundo tempo.

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CARO ELEITOR DE DIREITA

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Se você votar em candidatos bolsonaristas, recompensará quem montou o esquema Master

Se Flávio Bolsonaro perder essa, em 2030 haverá opções melhores

Leitor de direita, a grande mídia está mentindo para você, não para te sacanear, mas para puxar teu saco.

Grande parte do público que paga por notícia ou tem dinheiro para comprar os produtos dos anunciantes da grande mídia está nas classes média e alta.

Historicamente, a classe alta tem maior probabilidade (mas não igual a cem por cento) de votar em candidatos do centro para a direita.

A classe média é um caso mais complexo, mas, nos últimos anos, também tendeu para candidatos do centro para a direita. Nenhum dos pobres que podem eleger Lula esse domingo paga por notícia.

Isso quer dizer que, para não perder as classes que pagam por notícia como público, a grande mídia tem um medo desproporcional de desagradar a direita.

Entendo o raciocínio econômico, mas discordo do diagnóstico a seu respeito. Não acho que você seja um moleque mimado que precisa ser protegido dos fatos que o desagradam.

Nesse fim de semana de eleição, aqui vão alguns deles.

Em 2026, as autoridades descobriram um novo Petrolão. Dessa vez, quem fez o Petrolão não foi a minha turma, foi a sua: o Banco Master. Se quiser o diagrama básico dos envolvidos no escândalo, sugiro ler minha coluna de 28 de março de 2026.

Os dados gritam: os organizadores do esquema Master, a imensa maioria dos envolvidos e todos os que tentaram acobertar o escândalo são de direita.

Se novos dados surgirem, eu mudo de diagnóstico. Mas não vou fingir que não estou vendo o padrão evidente nos dados disponíveis.

É esquisito que Alexandre de Moraes, que prendeu Jair Bolsonaro no julgamento do golpe, seja acusado no escândalo de corrupção montado pelos bolsonaristas? É. Mas é verdade.

Por isso, se você votar em candidatos bolsonaristas para qualquer cargo, estará recompensando a direita brasileira que montou o esquema Master. Estará, inclusive, recompensando-os por darem dinheiro para ministros do STF.

Mais recentemente, a turma na mídia que puxa teu saco inventou que o STF e o TSE censuraram o debate da Globo. Ninguém foi impedido de ir lá falar nada, mas a Justiça não deixou colocarem uma cadeira vazia com o nome do Lula e autorizou Renan Santos a participar.

Durante o governo Bolsonaro, fui alvo de investigação da Polícia Federal (NCV 2022.0044537) por uma coluna de 9 de maio de 2021 em que, com base em análise estatística, critiquei o governo pelas mortes que a falta de vacina causou na pandemia.

Isso, sim, foi uma tentativa de censura.

Se, ao invés disso, tivessem me proibido de conversar com uma cadeira, eu teria achado não só melhor, mas algo de natureza muito diferente do que o risco de ser preso.

Passei a vida toda sem conversar com cadeira, tenho certeza de que me adaptaria bem. Mas me adaptaria mal à curta vida de prisioneiro político que uma ditadura Bolsonaro teria me proporcionado.

Se você quer punir quem de fato tentou matar a liberdade brasileira e quem roubou no caso Master —são as mesmas pessoas— vote contra o bolsonarismo.

Para todos os cargos que não a Presidência, há candidatos de direita e de centro que não são cúmplices do Jair. Se Flávio Bolsonaro perder essa, em 2030 você terá opções melhores dentro do seu campo. E a mídia talvez aprenda que você quer ser informado, não tratado como criança.

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sábado, 3 de outubro de 2026

A IMPORTÂNCIA DO VOTO

Artigo de Rachel de Queiroz

O artigo "Votar" de Rachel de Queiroz foi publicado na revista O Cruzeiro, em 11 de Janeiro de 1947, com o objetivo de alertar os eleitores de então, quanto a importância do voto, continua contemporâneo.

Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo político que se chama governo democrático, ou governo do povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato. No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: governo do povo. Porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOVERNO.

Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.

Escolhem-se pelo voto aqueles que vão modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.

Escolhemos igualmente pelo voto aqueles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aqueles que irão estipular a quantidade desses impostos. Vejam como é grave a escolha desses "cobradores". Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gota de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bolso.

E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhem-se não só aqueles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aqueles que vão "fabricar" o dinheiro. Esta é uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos.

Pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Eles desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero.

Não preciso explicar muito este capítulo, já que nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos no poder.

Escolhem-se nas eleições aqueles que têm direito de demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo burocrático. E, circunstância mais grave e digna de todo o interesse: dá-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de todas as fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias.

E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fez um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a esses sujeitos um simples emprego bem remunerado.

Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem - e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe dá o povo. Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios fossem.

Entregamos a esses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa mocidade, a eles presa por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.

Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes. Votar não é assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva.

Porque, afinal, a mulher quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o governo, quando é ruim, ele é que nos dá a surra, ele é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da boca dos nossos filhos e nos faz apodrecer na cadeia. E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.

E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto. Meu amigo e leitor, se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar este ou aquele candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto.

Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem medo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem medo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno".

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