sexta-feira, 6 de março de 2026

ELE FALA INGLÊS

José de Souza Martins, Valor Econômico

Um brasileiro fez um discurso em inglês, em Nova York, e foi aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo conteúdo do discurso

Manchete de uma chamada num desses canais eletrônicos, em dias passados, dizia que um brasileiro fizera um discurso em inglês, em Nova York, e fora aplaudido de pé. Dava a entender que o aplauso era pelo inglês, e não pelo conteúdo do discurso.

Tive minha estreia na língua inglesa do modo mais estranho e humilhante. Foi pelo fim da década de 1940, quando minha família morava na roça, em Guaianases. Eventualmente vínhamos a São Paulo de trem. Na entrada da estação do Norte, no Brás, havia uma banca de jornal que exibia uma revista americana, com belas fotografias em preto e branco.

Perguntei ao jornaleiro quanto custava a revista Life. “É Laife”, respondeu agressivamente. “Mas está escrito Life”, justifiquei-me. “Em inglês se escreve de um jeito e se fala de outro, seu tonto.”

Quase no fim de minha adolescência, o meu melhor amigo era um baiano de Campo Formoso. De uma das muitas famílias de migrantes atraídos pelo começo do “boom” da indústria automobilística na região do ABC. Muitíssima gente vinda do Nordeste e todas definidas como baianas.

Meu amigo fazia questão de diferençar os verdadeiros baianos, como ele, dos outros “baianos” que não o eram. Gostava de lembrar aos que o rodeavam nas conversas que Rui Barbosa era baiano, culto e inteligente, mais que a imensa maioria dos brasileiros. Tão inteligente que até fora à Inglaterra ensinar inglês aos ingleses.

E tinha mais: em 1907, fora enviado à Segunda Conferência de Paz, em Haia, como representante do Brasil. Opusera-se com veemência à exclusão dos países menos influentes por parte das grandes potências. Ficou conhecido como o Águia de Haia.

Aberta a sessão em que Rui deveria falar, deu-lhe o presidente a palavra. Ele perguntou: “Em que língua quereis que vos fale?”. “Fala na tua língua”, respondeu-lhe o presidente. Ele, então, fez um veemente discurso, em língua nheengatu, derivada do tupi antigo, sobre direito internacional. Falava inglês, mas era patriota. Tinha baixa estatura, mas o Romualdo esclarecia: “É nos pequenos frascos que estão as grandes essências”.

Aí por 1955, realizou-se em São Paulo o 7º Congresso Mundial de Evangelismo. Alguns amigos e eu resolvemos acompanhar os cultos em diferentes igrejas. Imaginávamos que aquilo seria o inesperado. Ouviríamos inglês ao vivo, falado por gente de carne e osso, as bocas se abrindo na nossa frente. Comentava-se que os americanos fariam milagres, coisa que jamais havíamos visto.

Acabamos descobrindo que o “mundial” do Congresso era principalmente texano. E todos os pregadores eram pentecostais. Além disso, foi uma descoberta, muitos deles falavam as bíblicas “línguas estranhas”, um dom do Espírito Santo. Não era para qualquer um. Para que os brasileiros entendessem as pregações, havia intérpretes que faziam a tradução do inglês para o português. Multidões compareceram aos diferentes templos em que tudo aquilo acontecia. Em alguns bairros, grandes tendas foram montadas, as tendas da cura divina.

Hoje sei que São Paulo chegara à pós-modernidade antes de chegar ao mundo moderno. Dava para entender o moto paulista muito difundido: “São Paulo não pode parar”. Pressa de chegar ao depois sem chegar ao antes.

Um senhor ao meu lado, numa dessas pregações, comentou com a mulher, depois que um dos americanos recebera o Espírito Santo e falara em língua estranha: “Agora, eu sei porque não sabemos o que Deus quer de nós: Deus fala inglês”.

Após um mês de americanos espalhando inglês pela cidade e pelo subúrbio, os texanos foram embora. Algum tempo depois, começaram a surgir nas igrejas evangélicas pregadores brasileiros que falavam português de periferia com acentuado sotaque, pretensamente americano. Outros, aos pares, dividiam o trabalho. Um fazia a voz do Espírito Santo, em língua estranha, e o outro, com sotaque inglês, “traduzia”.

Foi ficando claro para muitíssimos que Deus falava uma língua que podia ser traduzida. Diferentemente do Deus católico, que falava latim e não tinha tradução que só o padre sabia. Uma bobagem dessas talvez explique a expansão das igrejas e seitas evangélicas entre nós.

O brasileiro que falou inglês em Nova York e foi aplaudido de pé é um que está refugiado nos EUA, sujeito a prisão se voltar ao Brasil. É um desses casos notáveis de ascensão social. Anos atrás emigrara para a América e fora trabalhar como chapeiro de hambúrguer numa lanchonete. Ouvi uma de suas falas daquela época. Seu inglês era muito pobre. A notícia de agora tem suas conexões explicativas. No caso de que seu irmão seja eleito presente da República, ele irá para o Itamaraty. Será o Barão do Rio Branco da pós-modernidade. Um caso espetacular de ascensão política sem ascensão social.

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CRISES MASTER E INSS LEVAM À ELEIÇÃO 'ANTISSISTEMA'

Andrea Jubé, Valor Econômico

Ocorrido com “Sicário” só é comparável, possivelmente, com uma morte suspeita, 30 anos atrás: a de PC Farias

Os novos capítulos do escândalo envolvendo o banqueiro Daniel Vorcaro e o Banco Master comprovam, mais do que a gravidade, o quase ineditismo do tsunami com potencial para destruir a República, ou boa parte das instituições. O ocorrido com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, potencial delator, só é comparável, possivelmente, com morte suspeita, 30 anos atrás: a de Paulo César Farias, ex-tesoureiro de Fernando Collor.

A essa altura dos acontecimentos, outra percepção é de que a soma das crises envolvendo o Master e os desvios nas aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), que dominam o Congresso e contaminam o humor dos brasileiros, deve culminar em mais uma eleição “antissistema”, nos moldes da disputa de 2018, que elegeu o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e vários “outsiders”.

Em paralelo, se o governo acha que poderá faturar, eleitoralmente, com a bandeira da redução da jornada 6 x 1, pode se equivocar como se deu com a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil - ativo que ainda não alavancou a aprovação do governo. É o que sugerem pesquisas às quais a coluna teve acesso, e de que falaremos logo mais.

No meio de um enredo cinematográfico, “PC Farias” foi acusado de corrupção, fugiu do país, foi capturado na Tailândia. Cumpriu menos de um ano de pena, e estava em regime semiaberto quando foi encontrado morto em sua casa de praia em Alagoas, ao lado da namorada, Suzana Marcolino, ambos com tiros no peito, em 23 de junho de 1996. Um novo depoimento dele ainda era aguardado no Supremo Tribunal Federal (STF). A polícia suspeitou de crime passional, mas não descartou “queima de arquivo”.

De volta ao presente, Sicário" foi preso junto com Vorcaro e seu cunhado, Fabiano Zettel, na terceira fase da Operação Compliance Zero. Ele seria o operador do banqueiro para monitorar desafetos, extrair dados de sistemas sigilosos e executar ações de intimidação. Caberia a ele “moer” uma empregada e “quebrar os dentes” de um jornalista. Horas depois de ser preso, ele foi encontrado desacordado na cela em Belo Horizonte. A Polícia Federal disse que ele tentou se matar, e abriu inquérito para investigar. Levado ao hospital, entrou em protocolo de morte cerebral.

As cenas protagonizadas por “Sicário” fazem parte de uma trama criminosa sem paralelos na história recente da República, que ampliou o sentimento na população de descrédito nas instituições. A percepção de políticos experientes, e até de um dirigente partidário ouvido pela coluna, é que o escândalo Master/Vorcaro, somado às fraudes do INSS, devem transformar as eleições deste ano em uma reedição da disputa eleitoral de 2018, quando as urnas privilegiaram os candidatos “antissistema”.

Pesquisas internas de partidos, não registradas na Justiça Eleitoral, mas que circularam, nos últimos dias, entre caciques do centro e da direita e no mercado financeiro, apontaram para essa direção. Uma liderança partidária descreveu detalhes de um destes levantamentos. Apresentado a uma cartela com várias respostas, o entrevistado foi questionado sobre qual seria o maior desafio do país neste momento: 32% escolheram o impeachment de ministros do STF.

Para surpresa de políticos da direita, a preocupação com segurança pública ficou em segundo lugar, com 28% das respostas. Na terceira colocação, ficou a defesa da soberania brasileira, que foi alvo de ataques como o “tarifaço” do presidente americano Donald Trump. De acordo com a mesma fonte, a redução da jornada de trabalho 6 x 1 foi a alternativa de apenas 5% dos entrevistados - um sinal amarelo para o governo.

Se a maioria responde que o maior desafio do país é o afastamento de ministros do STF do cargo, este resultado indica a descrença dos brasileiros nas instituições, principalmente, no Poder Judiciário. Uma derrota para uma instituição que foi responsável pela combativa atuação em defesa da democracia nas eleições de 2022.

Políticos que viram este levantamento concluíram que a insatisfação com o STF favorece a vitimização de Bolsonaro, que cumpre pena pela tentativa de golpe de Estado, ao mesmo tempo em que explica o crescimento do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, nas pesquisas eleitorais.

Outra conclusão é de que a sucessão de crises agrava o desalento do cidadão. Além de nomes de ministros do STF aparecerem envolvidos nos escândalos de Vorcaro, há denúncias de vendas de sentenças em investigação no Superior Tribunal de Justiça (STJ) e em tribunais de Justiça estaduais, ao mesmo tempo em que as revelações dos pagamentos de supersalários de juízes e do Ministério Público, acima de R$ 100 mil, chocam a população, num país em que 31 milhões de brasileiros ganham até um salário mínimo por mês.

Os escândalos alcançam os outros Poderes. Deputados e senadores são investigados por desvios de emendas parlamentares, e o Executivo é cobrado pelos desvios no INSS. Nessa crise, o filho mais velho de Lula, Fábio Luís da Silva, surge como um investigado explosivo para o governo. Há um esforço para transformar Lula no candidato “antissistema”. Será difícil convencer um eleitor cansado de guerra.

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O LOBO DA FARIA LIMA E AS RELAÇÕES PERIGOSAS DO BANQUEIRO COM O PODER

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Protagonista do escândalo envolvendo o Banco Master, o banqueiro Daniel Vorcaro e seus parceiros parecem personagens dos filmes de Hollywood sobre a máfia em Wall Street

O filme O Lobo de Wall Street (2013) retrata um tipo de celebridade destrutiva que fascina muita gente por viver no limite: dinheiro fácil, prazer imediato, drogas e ausência completa de escrúpulos. Dirigido por Martin Scorsese e com roteiro de Terence Winter, baseado no livro de Jordan Belfort, o filme acompanha a ascensão e a queda de um corretor que enriquece manipulando o mercado financeiro.

A história começa em 1987, quando Jordan Belfort (Leonardo DiCaprio) se torna corretor em Wall Street. Desde o início, o espectador percebe a atmosfera de cinismo e ganância que domina aquele ambiente. A primeira máscara cai quando Jordan almoça com seu chefe, Mark Hanna (Matthew McConaughey), que lhe apresenta as regras informais do jogo: dinheiro acima de tudo, sem qualquer preocupação moral. A partir daí, o aprendiz se transforma no mestre, mergulhando numa espiral de riqueza, excessos e ilegalidades.

Scorsese conduz com liberdade a trajetória de um homem disposto a vencer a qualquer custo. Ética e moral aparecem apenas para serem atropeladas pelo dinheiro e pelo poder. Uma das cenas mais marcantes ocorre quando agentes do FBI visitam o iate de Jordan. Num diálogo tenso, o corretor sugere discretamente o suborno do investigador. A corrupção paira no ar sem precisar ser explicitada — como acontece tantas vezes na vida real.

O banqueiro Daniel Vorcaro, protagonista do escândalo envolvendo o Banco Master, parece personagem digno de um roteiro semelhante: uma espécie de "Lobo da Faria Lima". Em mensagens de celular apreendidas pela Polícia Federal, ele próprio compara o sistema financeiro a uma organização mafiosa. "Esse negócio de banco sempre falei: é igual máfia", escreveu à namorada. "Não dá para sair. Ninguém sai bem. Só sai mal."

A mensagem, datada de 7 de abril de 2025, coincide com as tratativas para a venda do Banco Master ao Banco de Brasília (BRB), operação que acabou frustrada pela posterior liquidação da instituição pelo Banco Central. O negócio colocou o governador do Distrito Federal, Ibaneis Rocha (MDB), na berlinda política. Nas mesmas conversas, Vorcaro reclama de André Esteves, controlador do BTG Pactual, acusando-o de atuar contra a operação junto ao Banco Central. "André baixou a guarda e os ataques diminuíram bem. Criaram um problema que não existia", escreveu.

O caso ganhou novos contornos após a nova fase da Operação Compliance Zero, que levou novamente Vorcaro à prisão. Como em muitos enredos de corrupção financeira, a expectativa agora é que ele recorra a uma delação premiada para tentar reduzir sua pena. É nesse ponto que o escândalo da Faria Lima começa a mexer com o Poder em Brasília. Em mensagens à namorada, o banqueiro se gaba de manter contato frequente com o senador Ciro Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil no governo Jair Bolsonaro e uma das principais lideranças do Centrão.

Mudança de cenário

Procurado, o senador reagiu com uma nota protocolar: afirmou que troca mensagens com centenas de pessoas e que isso não o torna próximo apenas por eventualmente interagir com elas". Disse também estar tranquilo quanto às investigações da Polícia Federal e negou qualquer conduta inadequada relacionada ao caso. A investigação passou a assombrar os poderosos de Brasília após mudança na relatoria do processo no Supremo Tribunal Federal. Quando o caso estava sob responsabilidade do ministro Dias Toffoli, havia fortes restrições à atuação da Polícia Federal.

Com a transferência da relatoria para o ministro André Mendonça, a investigação avança. Mendonça autorizou novas diligências e criticou a falta de urgência demonstrada pela Procuradoria-Geral da República diante dos pedidos da Polícia Federal. Na prática, a PF recebeu carta branca para aprofundar as investigações. O material apreendido é uma caixa de Pandora. já é volumoso. Os celulares de Vorcaro tornaram-se uma fonte abundante de provas.

Em uma das mensagens, ele comenta uma iniciativa legislativa do senador Ciro Nogueira: "Ciro soltou um projeto de lei agora que é uma bomba atômica no mercado financeiro! Ajuda os bancos médios e diminui o poder dos grandes." Em outra conversa, o banqueiro descreve o senador como um aliado próximo: "Ciro Nogueira. É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida".

A proposta mencionada previa elevar o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) de R$ 250 mil para R$ 1 milhão por depositante. O Banco Master captava recursos por meio de CDBs garantidos pelo fundo — de modo que a mudança ampliaria a proteção aos investidores e fortalecer ia o seu audacioso e fraudulento modelo de negócios. Como nos filmes de Scorsese, a trama mistura dinheiro, poder e relações perigosas.

E uma queda espetacular

A reação do sistema bancário foi imediata. Grandes bancos pressionaram contra a proposta, temendo distorções competitivas e aumento do risco sistêmico. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), acabou retirando o tema da pauta. Paralelamente, os bancos que integram o FGC decidiram antecipar cinco anos de contribuições ao fundo, somando cerca de R$ 32,5 bilhões. O recolhimento está previsto para 25 de março e deverá cobrir aproximadamente metade do rombo estimado até agora no caso Master.

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UMA MILÍCIA NA FARIA LIMA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Investigação do caso Master expõe milícia na Faria Lima

Talvez não seja preciso esperar delação para conhecer tamanho do lamaçal

A segunda prisão de Daniel Vorcaro acrescentou novas camadas de lama ao caso Master. O banqueiro já era pivô de um escândalo financeiro com conexões na política. Agora desponta como chefe de uma organização de tipo mafioso, que corrompia servidores, roubava dados sigilosos e tramava atos de violência contra desafetos.

De acordo com a Polícia Federal, Vorcaro montou uma “milícia privada” que apelava à coação e à ameaça para proteger seus interesses. O esquema era comandado da Faria Lima, mas se valia de métodos usados em áreas sob domínio armado.

Em conversa com um capanga, o banqueiro deu ordens para “quebrar todos os dentes” de um jornalista, “dar sacode” num cozinheiro e “moer” uma empregada. O linguajar miliciano contrasta com a imagem de executivo moderno que ele buscava projetar.

A decisão do ministro André Mendonça aponta outros elos entre o crime do colarinho branco e o mundo da pistolagem. Os investigadores descobriram que Vorcaro ocultou R$ 2 bilhões numa corretora ligada ao PCC. Enquanto ele escondia a bolada, o Fundo Garantidor de Créditos sangrava para cobrir parte do rombo deixado pelo Master.

A nova prisão coincidiu com a divulgação das primeiras informações extraídas dos telefones do banqueiro. Os diálogos expõem sua proximidade com figurões da República. O presidente do PP, Ciro Nogueira, é descrito como um de seus “grandes amigos de vida”. O senador se notabilizou por apresentar a chamada “emenda Master”, que ajudaria o banco a jogar mais títulos podres no mercado.

Em mensagens à namorada, Vorcaro relata encontros descontraídos com Alexandre de Moraes. As investigações sugerem que o banqueiro se sentia à vontade para pedir favores e informações. Seria curioso saber como o ministro trataria os diálogos se não figurasse como interlocutor.

Os vazamentos assustaram Brasília, mas parecem ser apenas um aperitivo do que está por vir. Talvez não seja preciso esperar uma delação de Vorcaro para conhecer o tamanho do lamaçal. O que a PF quer saber já pode estar em planilhas nos celulares que apreendeu.

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CASO MASTER REVELA UM SISTEMA QUE ESTÁ TODO APODRECIDO

Pablo Ortellado, O Globo

Vorcaro e Toffoli se encontraram mais de dez vezes, segundo relatório da PF

Numa troca de mensagens com a namorada, Daniel Vorcaro diz que, apesar da oposição de André Esteves à venda do Master ao BRB, funcionários da XP e do BTG pediam para tirar fotos e davam a ele os parabéns, dizendo que era a “anarquia do sistema”. Nunca uma expressão foi tão apropriada.

Vorcaro não apenas fraudou o sistema financeiro vendendo títulos sem lastro e passando a conta ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Para se proteger, comprou uma rede de aliados tão ampla que sua queda também será vista como a “queda do sistema”.

Por meio do seu operador financeiro, ele comprou cotas do resort da família do ministro Dias Toffoli em 2021, no valor de R$ 20 milhões. Em 2023 e 2024, Vorcaro e Toffoli se encontraram mais de dez vezes, segundo relatório da PF — Vorcaro recebeu até convite para o aniversário do ministro. Nesse mesmo período, mensagens mostram Vorcaro cobrando urgentemente seu operador para transferir mais R$ 15 milhões ao resort da família de Toffoli, sem qualquer justificativa razoável. No ano seguinte, Toffoli assumiu a relatoria do caso e tomou uma série de decisões atípicas: determinou sigilo máximo do processo, tentou centralizar a custódia das provas antes da perícia, escolheu peritos próprios e elaborou perguntas personalizadas aos investigados.

O escritório da família de Alexandre de Moraes recebeu R$ 79 milhões do Banco Master antes da liquidação — pouco mais da metade de um contrato superior a R$ 130 milhões. A principal advogada do escritório, Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro, tem reputação modesta no mercado. O valor do contrato foi considerado sem precedentes e muito acima do que custaria contratar as bancas mais prestigiadas do país. O contrato tem objeto vago, e as repartições explicitamente listadas no documento — Banco Central, Cade, Receita Federal e Procuradoria-Geral da Fazenda — disseram não ter registro algum de atuação do escritório em nome do Master.

Moraes esteve ao menos duas vezes na mansão de Vorcaro, segundo o site Metrópoles. As mensagens apreendidas pela PF no celular do banqueiro e reveladas ontem registram outros dois encontros em abril de 2025. Segundo reportagem do GLOBO, Moraes procurou o presidente do Banco Central ao menos quatro vezes para pedir a aprovação da venda do Master ao BRB — número que o jornal Estado de S. Paulo elevou para ao menos cinco conversas, com Moraes chegando a ligar seis vezes num único dia.

As principais vítimas do Master não foram os investidores individuais cobertos pelo FGC, mas grandes fundos de previdência que compraram papéis sem lastro. A Amapá Previdência (Amprev) investiu R$ 430 milhões em letras financeiras do Master, sem cobertura do FGC, tornando-se o segundo fundo de pensão mais exposto aos papéis do banco, atrás apenas do Rioprevidência.

O diretor da Amprev, Jocildo Lemos, foi indicado pelo presidente do Senado, Davi Alcolumbre, tendo antes sido tesoureiro da campanha eleitoral do senador. O Conselho Fiscal da Amprev conta ainda com a participação de Alberto Alcolumbre, irmão do presidente do Senado.

Ao mesmo tempo que aliados do senador fizeram investimentos milionários no Master, toda investigação sobre o banco foi barrada no Senado. Alcolumbre não deu prosseguimento a um pedido de CPI do Master protocolado pelo senador Eduardo Girão, com 51 assinaturas, e a um pedido de CPMI do Master protocolado pelo deputado Carlos Jordy, com 280 assinaturas. Chegou a fazer manobras para não votar o veto presidencial ao PL da Dosimetria para não ser obrigado a dar andamento aos pedidos de CPI e CPMI.

Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro e presidente do PP, foi apresentado à namorada de Vorcaro como um de seus “grandes amigos de vida”. Em agosto de 2024, Ciro apresentou uma emenda à PEC da autonomia financeira do Banco Central para elevar o limite de cobertura do FGC de R$ 250 mil para R$ 1 milhão. Se tivesse sido aprovada, a captação do Master teria disparado, e o impacto financeiro da quebra do banco teria sido muitas vezes maior do que foi.

Logo depois da proposição da emenda, Vorcaro escreveu à namorada:

— Ciro soltou um projeto de lei que é uma bomba atômica no mercado financeiro!

A rapidez com que Vorcaro soube da emenda chama a atenção: o documento foi criado às 17h57, modificado às 18h09, e a mensagem para a namorada foi enviada às 19h44.

Em setembro de 2025, às vésperas de o Banco Central barrar a venda do Master ao BRB, um requerimento de urgência impulsionou um projeto que permitiria ao Congresso destituir o presidente e diretores do Banco Central — manobra descrita por técnicos do BC como a maior pressão política já sofrida pela instituição. A articulação partiu do deputado Cláudio Cajado, aliado de Ciro no PP.

Toffoli, Moraes, Alcolumbre e Ciro são apenas um pedaço da história. As revelações que emergiram até o momento mostram compra de apoio, ameaça a adversários, invasão de sistemas e muita corrupção de funcionários públicos e autoridades. O retrato que vai se formando é de um sistema todo apodrecido. Esse retrato terá efeitos eleitorais bem visíveis em outubro — e esses efeitos não serão bons.

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MERCADO DE TRABALHO AQUECIDO


Celso Ming, O Estado de S. Paulo

O Brasil se aproxima do pleno emprego; qual impacto a redução de jornada teria nesse quadro?

Em São Paulo, empreiteiras e construtoras vêm montando esquemas de caça à mão de obra, de maneira a garantir pessoal necessário para cumprir cronogramas de serviço

A economia brasileira vive um momento que pode ser considerado muito próximo do pleno emprego, situação que tem lá suas consequências, positivas e negativas.

Os levantamentos da Pnad Contínua (Pesquisa Nacional por Amostras de Domicílio – Contínua) apontou, no trimestre terminado em janeiro, um índice de desemprego que atingiu 5,4% da população ativa, alguma coisa mais alto do que em dezembro, temporada de mais contratação de mão de obra em consequência do aumento do comércio de Natal, quando estava nos 5,1%.

Doze meses antes: em janeiro de 2025, o índice de desemprego estava em 6,5%. Ou seja, no período, o mercado de trabalho ficou bem mais aquecido, o que vai empurrando a renda média para níveis acima da inflação, da ordem de 5,4%.

Enquanto isso, o trabalho informal, não garantido por contrato com o empregador nem por meio de mecanismos de microempreendimento, continua alto no Brasil, da ordem de 37,5%, situação que agrava a condição financeira da Previdência Social, porque achata a arrecadação.

A situação de quase pleno emprego pode ser caracterizada quando importantes setores da economia enfrentam escassez de mão de obra. É, por exemplo, o que acontece na construção civil. Em São Paulo, empreiteiras e construtoras vêm montando esquemas de caça à mão de obra, até mesmo às de baixa qualificação, em canteiros de empresas concorrentes, de maneira a garantir pessoal necessário para o cumprimento de cronogramas de serviço.

Essa relativa diluição da oferta de mão de obra pode ser explicada por fatores recorrentes. O primeiro deles é a mais generosa transferência de recursos do Tesouro para as populações de baixa renda. Vem sendo feita não só por meio do Bolsa Família mas, também, por meio do Benefício de Prestação Continuada (BPC), que proporciona um salário mínimo por mês para idosos pobres e pessoas com deficiência física. É um meio de sustento que tende a reduzir a procura de emprego por familiares desses beneficiários.

Outro fator de redução do desemprego é a maior utilização dos aplicativos que vêm facilitando a ocupação por conta própria e a abertura de MEIs (Microempreendedores Individuais) por parte de profissionais autônomos.

O mercado de trabalho aquecido, acompanhado de aumento real da renda, é uma das condições que têm levado o Banco Central a manter os juros básicos (Selic) nas alturas dos 15% ao ano, de maneira a atacar focos de inflação de demanda por meio do encarecimento do crédito.

Se, por motivações preponderantemente eleitorais, conseguir arrancar do Congresso a aprovação de Projeto de Emenda à Constituição que reduz a jornada de trabalho, o governo federal estará contribuindo para aquecer ainda mais o mercado de trabalho.

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GONET CORRE O RISCO DE SE TORNAR O NOVO ARAS

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

O procurador-geral da República, Paulo Gonet, está correndo o risco de rasgar sua biografia e se transformar no novo Augusto Aras, que comandava o órgão na época do início do interminável inquérito das fake news. Até por seu papel institucional, é de Gonet a principal omissão hoje entre todos os entes da República que tentam abafar o caso Master.

A blindagem a Daniel Vorcaro está escapando pelos dedos graças ao trabalho de investigadores da PF, com apoio do ministro do STF André Mendonça. Com a prisão do banqueiro e o envio do seu sigilo à CPI do INSS, está vindo a público a natureza de sua organização criminosa e seu envolvimento com políticos. Vorcaro não é apenas o responsável pela maior fraude bancária do País, ou um criminoso do colarinho-branco. Ele se assemelha a chefe de uma quadrilha capaz de invadir sistemas do governo e ameaçar adversários, inclusive jornalistas.

Já são três as ocasiões em que Gonet se omitiu no caso. Não viu nada relevante para apurar no contrato de R$ 139 milhões da esposa do ministro Alexandre de Moraes com o Master. Com o apoio de manobra jurídica do STF, que afastou o ministro Dias Toffoli da relatoria do caso, Gonet também não precisou investigar a venda por R$ 35 milhões de fatia da empresa Maridt, que pertence a Toffoli e seus irmãos, em resort de luxo ao sistema que ronda Vorcaro.

Agora, Gonet foi contra a prisão preventiva de Vorcaro, por falta de tempo para analisar as novas evidências recolhidas pela PF. Destaco dois pontos: uma ordem para “quebrar os dentes de um jornalista” e a ocultação de R$ 2,2 bilhões pelo banqueiro na conta do pai. Independentemente do momento em que ocorreu, a intenção de planejar um assalto a Lauro Jardim, colunista de O Globo, mostra intenção violenta contra adversários.

E o dinheiro escondido da Justiça colabora para o risco de fuga.

Aras ficou conhecido por engavetar os ataques de Jair Bolsonaro à democracia. Colocou em risco o sistema de pesos e contrapesos da Justiça. Ao se omitir, Gonet faz o mesmo.

Só que devemos ter cuidado com as comparações históricas. Mendonça não está no mesmo papel de Toffoli, que abriu o inquérito das fake news, ou de Moraes, que o conduz até hoje. O ministro não começou o inquérito do Master de ofício, mas o recebeu por sorteio.

Não é, ao mesmo tempo, julgador e vítima e, até agora, não há sinais de envolvimento dele e de pessoas diretamente relacionadas no caso. O que Mendonça fez foi proteger os delegados da PF da pressão que vinham sofrendo Toffoli, que tentava brecar as investigações.

Gonet e Aras têm em comum a defesa de seus padrinhos políticos. Aras foi indicado por Bolsonaro, que fugiu da lista tríplice. Gonet teve forte apoio de ministros do STF, com destaque para Moraes e Gilmar Mendes, que levaram seu nome a Lula. Ao contrário de Aras, porém, Gonet tem uma carreira irretocável até aqui. Ainda há tempo para uma mudança de rumo.

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HISTORIADOR REEXAMINA ASCENSÃO DE HITLER E APONTA RISCOS ÀS DEMOCRACIAS

Juliana de Albuquerque, Folha de S. Paulo

Para Laurence Rees, eventos históricos não oferecem lições, mas ajudam a identificar sinais de ameaças no presente

Obra alerta que as instituições responsáveis pelo nosso bem-estar são muito mais frágeis do que pensamos

Como estive doente na última semana, aproveitei os dias de repouso para concluir a leitura de "A Mentalidade Nazi: 12 Avisos da História", o mais recente trabalho do historiador e documentarista britânico Laurence Rees.

Autor de obras como "Hitler e Stálin: os Tiranos e a Segunda Guerra Mundial" e "Auschwitz: os Nazis e a Solução Final", Rees é reconhecido pela seriedade de suas pesquisas e pelo grande número de entrevistas que realizou durante os anos em que atuou na BBC como editor de programas de história.

Em seu novo livro, ele questiona a ideia de que o passado poderia nos oferecer lições e propõe que estudemos eventos históricos a fim de aprendermos a reconhecer tendências.

Diferentemente das lições, que geralmente possuem caráter prescritivo, as tendências mostram como determinadas circunstâncias podem favorecer a emergência de certos fenômenos, mas não determinam as nossas ações. Afinal, como observa o historiador, as respostas do passado raramente se aplicam ao presente com a mesma eficácia e cada nova situação deve ser analisada cuidadosamente, levando em consideração as suas especificidades.

Segundo Rees, o papel da história, especialmente em um momento como o nosso, em que as democracias estão novamente sob ataque, seria o de nos ajudar a identificar a tempo sinais de que tanto as nossas vidas quanto as nossas instituições estão sendo ameaçadas.

Assim, ao reexaminar os acontecimentos que levaram Hitler ao poder e culminaram no Holocausto, cada capítulo do livro recebe como título um dos 12 sinais de alerta identificados pelo autor.

Entre esses sinais, Rees destaca a disseminação de teorias da conspiração racistas e antissemitas, que culpavam os judeus pela derrota da Alemanha na Primeira Guerra Mundial, e mostra como o receio de uma revolta socialista foi explorado durante a crise econômica e a hiperinflação da década de 1920, aprofundando a fragmentação da sociedade em grupos antagônicos e mutuamente excludentes.

Ele analisa a transformação da figura do herói em modelo de liderança e seu impacto no sucesso da ideologia nazista entre os mais jovens e reflete sobre a participação das elites na ascensão de Hitler. Rees também deixa claro que, desde o início, o regime nazista atacou os direitos humanos, tendo por alvo judeus e outras minorias étnicas e religiosas, bem como pessoas com deficiência e opositores políticos.

O historiador ainda discute como Hitler explorou a devoção de seus apoiadores por meio de discursos visionários que prometiam o retorno a um passado imaginário, porém glorioso. Nesse sentido, ele observa que, durante a guerra, à medida que os recursos se tornavam escassos, muitos desses apoiadores tentavam se convencer de que Hitler era vítima da corrupção de membros de seu próprio gabinete e ignorava as necessidades do povo.

Rees examina como o regime criou inimigos internos e externos para unificar a população restante e relata, por fim, que as violentas disputas entre oficiais nazistas pela atenção de Hitler geraram um ambiente caótico, propício a uma radicalização ainda mais extrema entre seus acólitos.

Nesse cenário, foram tomadas as decisões que resultaram no Holocausto, definido como um evento histórico complexo, marcado por uma sequência gradual de medidas. Esse processo envolveu não apenas a criação de campos de concentração, mas também a implementação de leis raciais e capacitistas, a arianização de bens, a formação de guetos, os fuzilamentos em massa, o aprimoramento de métodos de matança a distância e o desenvolvimento das câmaras de gás.

Ao fim do livro, Rees nos alerta que as instituições responsáveis pela manutenção do nosso bem-estar são muito mais frágeis do que pensamos. Assim, na esperança de que não sejamos mais uma vez surpreendidos pelos acontecimentos, deixo aqui essa sugestão de leitura como um convite à reflexão sobre a vulnerabilidade do mundo em que vivemos.

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O PREÇO DA GASOLINA DE TRUMP E O FUTURO DO MORTICÍNIO NO IRÃ

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Prestígio do presidente americano é baixo, mas mal se moveu neste ano, mesmo com guerra

Combustíveis começaram a subir logo depois do começo dos ataques

O preço médio dos combustíveis nos EUA aumenta desde que começou a guerra contra o Irã. Lá não tem Petrobras para amaciar a variação de preços. Nesta quinta, a gasolina comum custava 12,5% mais do que na média de fevereiro. Por falar nisso, o litro custava R$ 4,54. Na média brasileira, R$ 6,3 —a renda média americana é o quádruplo da brasileira. Passemos.

Combustíveis mais baratos ajudavam a conter a inflação nos EUA. Mas o nível de preços desde a inflação da pandemia ainda machuca a metade mais pobre do país, que não vem tendo aumento real de salário nem se beneficia do aumento de riqueza com a alta das ações. Mesmo sem guerra, preços seriam um problema para Donald Trump e o Partido Republicano nas eleições do final do ano. Em entrevista nesta quinta, Trump disse que não se preocupa com isso: "...[os preços] vão cair muito rapidamente quando isso [guerra] terminar e, se subiram, subiram...". E daí?

Não se sabe o que os Estados Unidos trumpianos querem com a guerra contra o Irã, se é que eles sabem. Sem objetivo definido, não há medida de sucesso e, pois, baliza para dar fim ao conflito. Nem mesmo é possível medir se tal ou qual quantidade de perdas, como mortes, destruição ou perda de prestígio político e internacional, vale a continuidade da guerra.

Afora Xi Jinping ou país com bomba atômica, quase apenas altas de preços e tumultos nos mercados financeiros têm feito Trump recuar de ameaças e medidas lunáticas. Gasolina, ações e variações perigosas das taxas de juros nem de longe servem como avaliação de sucesso na guerra. Mas seriam a medida de Trump, outra vez?

O S&P 500, um índice muito importante do mercado de ações nos EUA caiu apenas 1% em relação à sexta passada, antes do começo da guerra. É nada, dada a volatilidade do S&P 500. O preço do barril de petróleo Brent já aumentou mais de 16% desde então, bem pior, embora, em um dia qualquer, o preço do Brent pode variar mais ou menos 5%, em média, ao do mês anterior (é assim desde 2023). Dado o tamanho do enrosco e do risco de desastre ainda maior, não são variações descabeladas.

Quase não passa navio pelo famoso estreito de Hormuz, por onde sai o equivalente a 20% do consumo diário de petróleo no mundo. É medo de bomba. Arábia Saudita e Emirados Árabes Unidos em parte contornam o estreito recorrendo a oleodutos; petroleiras americanas podem produzir mais, assim como as de países de fora da zona do conflito. No curtíssimo prazo, semanas, não compensam 15% da perda com Hormuz. Quanto mais tempo de asfixia, maior o risco para preços, mas o fim do ataque daria alívio quase imediato (claro, os efeitos da guerra vão muito além disso, em particular para os mortos). Trump disse que a guerra duraria mais quatro semanas, sabe-se lá com base em qual cenário.

Na média das pesquisas calculada pelo Silver Bulletin, a popularidade de Trump se move pouco desde meados de janeiro. A desaprovação é agora de 54,9%; a aprovação, de 42,5% saldo negativo de 12,4 pontos (era positivo de 11,6 no início do mandato). A insatisfação é bem parecida com a desaprovação desta guerra de Trump: no pior dos casos, das pesquisas, é de 59%.

Portanto, o morticínio no Irã por ora não afeta ainda mais o prestígio desse bucaneiro perverso e demente, que é capaz de falar de escolha de cortinas douradas para o salão de baile que está construindo na Casa Branca no meio de um discurso sobre a guerra. Preços e prestígio por ora parecem os motivos à vista que podem conter Trump.

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DIREITA E MERCADO ESTÃO MAL NA FOTO DO ESCÂNDALO MASTER

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Cada vez mais os suspeitos de sempre do centrão e facilidades desreguladas do mundo das finanças aparecem lado a lado no caso

Esquerda não é santa e conexões com gente ligada ao petismo podem surgir, mas até aqui mercadismo e direitistas se desgastam

Com a destituição do abafador geral Dias Toffoli, as investigações e revelações sobre o escândalo do Banco Master, agora nas mãos do relator André Mendonça, vão oferecendo uma melhor visão do iceberg que se tentava manter oculto.

A coisa, para dizer o mínimo, é muito feia e envolve práticas milicianas e mafiosas, com ameaças físicas a jornalistas, como Lauro Jardim, e outras barbaridades. Pelo que se revela, a turma do Master não deve ser comparada ao crime organizado –ela é o crime organizado.

Entre os primeiros, destacam-se os suspeitos de sempre da direita, a turma boa centrão, representada por nomes como Ciro Nogueira, do indefectível PP, chamado por Daniel Vorcaro, o capo da máfia, de "grande amigo". Caso também do governador do Rio, Cláudio Castro, do PL bolsonarista, personagem do mais baixo gabarito. Há muitos outros na chuva, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil, e uma matilha tentando se abrigar.

Soubemos também que funcionários do Banco Central estavam levando propina do chefão —talvez um sinal de que possa haver mais fio a puxar na instituição que se tornou autônoma no período Bolsonaro.

Do mesmo modo, há suspeitas em torno de figurões do Supremo Tribunal Federal, um deles pelo menos, o ministro Alexandre de Moraes, amplamente apoiado pelas esquerdas, por bons e maus motivos.

Feitas as contas, contudo, é sobretudo a direita que vai neste momento entrando pelo cano com agentes financeiros e aqueles que propalam a visão fantasiosa do mercado como ente virtuoso que se autorregula e dispensa controles.

Já são mais do que evidentes as condições propícias oferecidas pelo mercado financeiro a atividades ilícitas que rodam dinheirama suja, orquestram falcatruas, e fazem lavagem para facções criminosas. Uma espécie de matrioska de fundos, por exemplo, com donos e sócios secretos, serviu aos propósitos criminosos do esquema de Daniel Vorcaro.

Certamente não estamos diante apenas daqueles fundos ligados à Reag, descobertos já por ocasião da Operação Carbono Oculto, que colocou a Faria Lima no baile sinistro do PCC. Que profundezas sem luz do sol continuam sendo navegadas pelos escafandristas das finanças?

Lembremos, ainda, que o affair Master foi precedido pelo assustador escândalo contábil das Americanas, negócio de gente não raro incensada pelo mercadismo de plantão, como o Trio Lemann.

Não esqueçamos também que a grande trapaça de Vorcaro foi arquitetada, como escreveu meu colega Vinicius Torres Freire, para terminar com "a desova de um cadáver no colo do que, no fim das contas, é o governo, o público em geral". Um velho modus operandi, diga-se.

Em que pese manifestação de protesto do MBL em torno do escândalo, a esquerda vai cada vez mais se sentindo à vontade, em contexto de campanha eleitoral, para colar o episódio na direita. "Ah, mas é para ocultar o Lulinha e outros problemas", pode-se argumentar.

Sim, a esquerda não é nenhuma santa e até que se restabeleçam as bases do acordão em crise, se isso ocorrer, a disputa vai se acirrar. Ainda estamos em brumas e não se pode descartar um envolvimento mais consistente de alguém ligado ao petismo.

É difícil, porém, não considerar que a fotografia até aqui é desfavorável a mercadistas e direitistas.

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A REPÚBLICA VAI RUIR ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Celular de Vorcaro e possível delação premiada criam clima de pânico em Brasília

Forças pró-acordão tentam estancar a sangria, mas talvez não seja tão simples

Como previsto, o celular de Daniel Vorcaro vai produzindo vítimas, incluindo o próprio ex-banqueiro, agora recolhido à prisão preventiva. Pelo teor de colunas de bastidores que leio, o aparelhinho traz munição para causar uma razia tanto nas fileiras da direita como nas da esquerda e do centro. E as revelações contidas no telefone podem ser magnificadas por uma eventual delação premiada de Vorcaro, que vai ficando sem opções.

Já vivemos esse clima antes. O leitor há de se lembrar do auge da Operação Lava Jato e das listas de Janot. A sensação que se tinha ali é a de que poucos políticos escapariam. Alguns até caíram, provisória ou definitivamente, mas a República segue viva e povoada mais ou menos pelas mesmas figuras. Quem passou mais perto de um diagnóstico em 2017 foi o então senador Romero Jucá, com seu vaticínio de que seria preciso "estancar a sangria, [...] com o Supremo e com tudo". Curiosamente, ele mesmo, Jucá, caiu, mas a sangria foi estancada. Até multas das empresas que confessaram ilícitos foram anuladas.

Como naquela ocasião, assistimos agora a um embate entre forças que querem a continuidade das investigações e as que pressionam por um acordão. Existem, porém, diferenças importantes. A primeira é que, desta vez, há ministros do STF envolvidos em suspeitas e isso acrescenta muitas incertezas em relação ao desfecho.

O Judiciário é, de longe, o mais corporativista dos Poderes, o que em princípio joga a favor do acordão, mas não sei se é tão simples. A exemplo de políticos do centrão, os magistrados até carregam o caixão até a beira da cova, mas não entram nela junto com o morto. Se surgirem mais fatos contra Toffoli, Moraes ou algum outro, cortar na carne do STF talvez se torne inevitável.

Para adicionar mais camadas de complexidade, o escândalo Master corre em paralelo ao do INSS, igualmente ecumênico, e estamos num ano eleitoral.

Meu saudável ceticismo faz com que eu ponha minhas fichas no cenário do acordão, mas essa é uma aposta que torço para perder.

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MILÍCIA NA ALTA ESFERA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

O que se descobre agora é sinal eloquente da infiltração da bandidagem no tecido institucional

Falta desvendar a teia completa de influência do macabro esquema nos três Poderes da República

Agora que o trabalho da Polícia Federal parou de ser atrapalhado por Dias Toffoli e o novo relator no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, explicitou a omissão da Procuradoria-Geral da República, o caso Master traz novas revelações que vão além das atividades fraudulentas de um banco liquidado.

O termo "milícia" ultrapassou as fronteiras dos territórios dominados pela criminalidade nos morros e periferias para entrar no contexto das investigações sobre Daniel Vorcaro. Aí estaria um elo importante entre ilicitudes no ambiente financeiro e crimes violentos típicos de máfias. Sinal eloquente da infiltração da bandidagem no tecido social.

O comportamento do ex-banqueiro descrito na decisão de Mendonça é o de um "capo" capaz de tudo na direção dos seus negócios, cujo objetivo é o enriquecimento ilícito.

Para isso, valeu o roubo em forma de fraude, a corrupção de agentes públicos, a intimidação de funcionários, o plano de "quebrar os dentes" do jornalista Lauro Jardim na simulação de um assalto e o que mais exista para ser descoberto nesse esquema macabro que supera as piores previsões.

O capanga cujo codinome era Sicário não deixa a menor dúvida: preferiu se matar a enfrentar a contingência de entregar o chefe. Mas ainda há outros implicados que cedo ou tarde falarão, ajudando a desvendar a teia de delinquências.

Falta agora chegar ao andar das altas autoridades, razão pela qual esse inquérito permanece sob a jurisdição do Supremo Tribunal Federal. Não houvesse gente com foro por prerrogativa de função, já teria sido remetido à primeira instância.

Portanto, o envolvimento de excelências é mais que uma suposição decorrente das propagadas relações de Daniel Vorcaro com poderosos dos três Poderes, sem os quais não poderia ter ido tão longe à sombra da impunidade.

Escalado esse degrau, há muito ainda a nos estarrecer, pois nesse patamar não estão só políticos. Ao que se percebe, ali deram e dão expediente outros peixes grandes da República.

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A LAVAGEM DOS COLARINHOS BRANCOS

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

É raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados a crimes; mais comuns são os sem colarinho

O uso dos colarinhos brancos é privilégio dos que trabalham com grandes fraudes, desvios e vazamentos

Se você é homem, adulto e obrigado a se vestir formalmente, com certeza já dispensou alguns minutos a observar os formatos dos colarinhos. Existe o clássico colarinho francês, com pontas médias e mais fechadas; o italiano, mais curto e com pontas abertas; o americano, de pontas longas, abotoadas à camisa; o tipo padre, com a gola pequena e em pé, exigindo quilos de goma; e o asinha ou tico-tico, com as pontinhas dobradas para fora. Todos são colarinhos brancos. Não significa que seus usuários sejam criminosos. Só alguns.

Mas, embora se fale muito nos "crimes de colarinho branco", é raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados aos ditos crimes. Os criminosos mais presentes na mídia usam camiseta, sem colarinho. São os mais pobres da categoria, ladrões de carteira ou de celular. Como sua ação costuma ser muito rápida, tanto no trânsito quanto numa rua escura, não precisam se preocupar com a apresentação. Sabem que suas vítimas não terão tempo para analisar seus colarinhos, donde uma camiseta comum, mesmo regata, sem mangas, será socialmente aceitável.

Os bandidos mais graduados, que portam armas pesadas, preferem o colarinho mole e casual das camisas polo, estas quase sempre amarelas ou de riscas. Têm a vantagem de expor seus bíceps sarados, produto de horas de malhação em academias ou nas instalações militares a que até havia pouco pertenciam. Não significa que os criminosos de colarinho branco não tenham esses bíceps sarados —é que costumam escondê-los debaixo do paletó, embora isso não impeça que sejam detectados pela largura dos ombros. Recomenda-se atenção na presença de um deles.

E chegamos aos elegantes criminosos nos casos hoje em voga: dos escândalos do Banco Master, das fraudes no INSS, dos desvios de emendas parlamentares, do vazamento de dados no STF, dos mandantes do 8 de Janeiro. Esses, sim, são todos de colarinho branco. Vide Daniel Vorcaro, o Careca do INSS e outros.

Não se pode confiar na alvura de seus colarinhos. São lavados junto com o dinheiro.

 

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quinta-feira, 5 de março de 2026

VORCARO E A TURMA DE MOER GENTE

Míriam Leitão, O Globo

O crime de Vorcaro atingiu outro patamar. Agora as provas são de planejar agressões físicas e outros atos violentos, além das fraudes financeiras

Nunca houve um banco como o Master. Outros quebraram, nenhum deles arrastou o Brasil para um enredo com desdobramentos tão tenebrosos. No capítulo de ontem da série, soube-se de “Sicário”, um capanga enviado para “moer” funcionários do banqueiro ou “quebrar todos os dentes” de um jornalista. No fim do dia, ele tentou suicídio. O crime de Daniel Vorcaro atingiu outro patamar. Agora, além de cometer fraude financeira, há provas de uma associação criminosa para executar atos violentos. Vorcaro, o homem que fez um banco de papel e achou que ficaria impune por ter uma rede poderosa de influências, é pior do que se sabia. Uma autoridade que acompanha o caso em Brasília definiu a maneira de agir de Vorcaro e sua turma: “É máfia.”

Tudo o que foi descrito pela Polícia Federal confirma o método mafioso. Crimes múltiplos, corrupção, ameaças físicas, milícia privada atacando supostos adversários do “capo”. O chefe de organização criminosa não pode, pela lei, fechar delação premiada. Conversei com uma fonte sobre os rumores de que ele estaria negociando um acordo deste tipo. “Acho difícil uma delação no topo da cadeia alimentar.” A Polícia Federal não foi procurada com essa proposta pela defesa. Há quem duvide, contudo, que ele tenha capacidade de montar tão sofisticada engenharia financeira como a que vem sendo descoberta nas investigações. Ele poderia estar representando outros “capos”.

Nas conversas reveladas ontem, Vorcaro e o executor dos crimes, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, falam em “moer” a empregada Monique, dar um “sacode” no chefe de cozinha e simular o assalto ao jornalista Lauro Jardim com atos de violência. Era, como disse a Polícia Federal, a “dinâmica violenta”. O “Sicário” comandava “A Turma” que executava crimes físicos e digitais com o farto financiamento de Vorcaro, distribuído por um “pastor” da Igreja Batista da Lagoinha, o cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel.

Zettel distribuía o dinheiro para a rede criminosa. Os ilícitos eram também digitais. A “turma” de Vorcaro era tipo faz-tudo. Além de atos violentos e monitoramento de supostos adversários ou funcionários infiéis, Mourão invadia sistemas policiais nacionais e internacionais e extraía dados protegidos por sigilo. Conseguia acessar sistemas da Polícia Federal, da Interpol e do FBI.

No Banco Central, os indícios são de que Vorcaro corrompeu dois altos funcionários. Um deles, o ex-diretor de Fiscalização Paulo Souza, com 28 anos de BC. Ao deixar o posto, em 2023, permaneceu em cargo de destaque na mesma diretoria. O outro, Belline Santana, era chefe da divisão de Supervisão Bancária. Os dois tinham que fiscalizar o Master, seria natural terem contato com o banqueiro, mas em favor da estabilidade do sistema financeiro. Tornaram-se prestadores de serviço de Vorcaro. O BC, ao detectar indícios de irregularidades, afastou os dois em janeiro, e encaminhou as informações à Polícia Federal.

Na operação de ontem, outro elemento foi revelador. O fato de que a Procuradoria-Geral da República não apoiou o pedido da Polícia Federal de prisão contra os principais responsáveis e de outras medidas cautelares. O novo relator do caso, após o afastamento de Dias Toffoli, o ministro André Mendonça deu uma bronca na PGR. “Tempus fugite”, escreveu ele, “no caso específico dos autos, a demora se revela extremamente perigosa para a sociedade.”

O ministro viu ameaças concretas que todos os que leem os autos são capazes de ver, como “o risco concreto de interferência nas investigações”. Daniel Vorcaro usa o método de compra de apoio de influenciadores para atacar quem quer se interponha entre ele e seus objetivos, como o Banco Central.

Vorcaro tem tanto dinheiro que, só na fase dois da Compliance Zero, foram encontrados com o pai dele R$ 2,2 bilhões. Ele tem aviões, contas em paraísos fiscais, mansões no exterior. Sim, era óbvio que havia a chance de ele fugir, de usar o seu poder para obstruir a investigação e de atacar pessoas. E, como disse o ministro André Mendonça, “pode-se colocar em risco a segurança e a própria vida de pessoas”. Mourão, o “Sicário” tentou se matar na Polícia Federal e foi levado para o hospital. Tem muito a esclarecer sobre os atos do seu chefe, o banqueiro que mandava “moer” pessoas. Houve no Brasil uma crise bancária de enorme dimensão nos anos 1990, mas nunca se viu um caso como o Master.

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TURMA DE VORCARO AGIA COMO A MÁFIA

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Era tudo coisa de gângster: Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance

Com nova operação da PF, as suspeitas de que o antigo relator do caso, o ministro Dias Toffoli, atrapalhou as investigações aumentam

As revelações que vieram à tona no rastro da nova fase da operação Compliance Zero, deflagrada na manhã desta quarta-feira (4) pela Polícia Federal, mostraram que a quadrilha montada pelo banqueiro Daniel Vorcaro agia como uma máfia.

Era tudo coisa de gângster. Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance.

A sua organização criminosa atuava em quatro núcleos detalhadamente descritos na decisão do ministro do STF André Mendonça que levou à ação da PF: 1) financeiro, responsável pela estruturação das fraudes contra o sistema financeiro; 2) corrupção institucional, voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central; 3) ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, com utilização de empresas laranjas; 4) intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.

O quarto núcleo é o ingrediente novo trazido na operação e que torna o escândalo do banco Master ainda mais assustador, estampado nas palavras escritas em trocas de mensagens de Vorcaro contra o jornalista Lauro Jardim: "Esse Lauro quero mandar dar um pau nele".

O ex-banqueiro, agora novamente preso, tinha em seu grupo até uma pessoa apelidada de Sicário, nome dado a matador, facínora, capanga. A alcunha foi atribuída a Luiz Philippi Machado de Moraes Mourão, que mantinha relação direta de prestação de serviços para Vorcaro.

Sicário fazia o jogo mais sujo, atuando como responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado.

Vorcaro também fez determinação expressa ao seu sicário para "levantar tudo" sobre um funcionário seu e um chefe de cozinha a ele associado.

Um quinto núcleo, não descrito, poderia ser incluído na lista. É o núcleo das festas e da participação de autoridades em eventos organizados pelo dono do Master.

Com a operação, as suspeitas de que o antigo relator do caso no STF, o ministro Dias Toffoli, atrapalhou as investigações aumentam. Vorcaro não deveria ter sido solto na primeira prisão em novembro do ano passado.

Toffoli não só deve explicações como o STF precisa aprovar a quebra de sigilo da Maridt Participações, empresa da família do ministro.

A extensão dos núcleos de investigação revela que novas fases das operações vão acontecer em breve.

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A MÁFIA QUE TINHA UM BANCO, O MASTER, SUMIU COM O DINHEIRO E COMPRAVA A REPÚBLICA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Após alerta do Banco Central, PF acusa altos burocratas do BC de levar propina de Vorcaro

Funcionários do BC assessoravam Master e pareciam ricos demais para o salário

Banco Master era a fachada de uma máfia comandada por Daniel Vorcaro. Qualquer autoridade da República que crie empecilhos para a investigação do Master é conivente com a máfia. No pior dos casos, é também beneficiário da organização criminosa, empregado dos mafiosos ou cúmplice.

Segundo acaba de se saber pela Polícia Federal, Vorcaro tinha capangas para espionar e ameaçar concorrentes e jornalistas. Mandou pagar propina aos dois chefes da supervisão bancária do Banco Central, que davam assessoria para escamotear irregularidades e deram ajuda para tirar Vorcaro da prisão.

Foram flagrados, além desses motivos, porque pareciam ricos demais para o salário, segundo apurações do BC. Descobriu-se também como o Master sumiu com mais R$ 2,24 bilhões, outra vez pela Reag, grande ninho dos fundos bandidos (o rolo era só ali?).

Essas são as últimas. Já sabemos de mais. Mas nada se sabe ainda de concreto sobre mãos e braços políticos de Vorcaro ou sobre os motivos de sua amizade com o centrão, em particular no PP, o Progressistas, dos deputados Doutor Luizinho (RJ) e Claudio Cajado (BA) e do senador Ciro Nogueira (PI), por exemplo, e no Distrito Federal governado por Ibaneis Rocha (MDB).

O Master era uma ficção. Seus ativos eram superestimados e ilíquidos (não virariam dinheiro logo e sem custo) ou mera ficção fraudulenta, como os créditos que vendeu ao BRB.

Os ativos de fantasia falsificavam a saúde do banco e, pois, permitiam que pegasse dinheiro emprestado (como CDBs), que então escorria para empresas de fachada, laranjas, fundos de propriedade secreta, parentes de Vorcaro e sabe-se lá quais beneficiários. Quais?

O esquema contava com apoio no Congresso (no mínimo), alugava lobistas de nível ministerial e escritórios supremos de advocacia, tinha sociedades ou negócios com gente poderosa (Dias Toffoli ou Nelson Tanure) e subornava altos burocratas do BC, segundo as investigações.

No grupo de WhatsApp "A Turma", Vorcaro coordenava capangas, espiões, subornos e intimidações; de resto, tinha uma zona de confraternização de poderosos em uma casa de Trancoso (BA).

Os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-SE), e do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), barram uma CPI sobre o caso ou criam dificuldades para a CPI do Crime Organizado, que tenta ser uma alternativa à CPI do Master.

Qualquer leitor de jornal sabe disso, que a máfia alugava ou comprava apoios de variada espécie e poder e, agora, que corrompia gente do BC. O acordão ainda tenta abafar o caso, apesar de investigações da PF, ora liberadas por André Mendonça, e do BC. O país, sem ação, é refém da máfia, por interpostas pessoas na cúpula da República.

Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central liquidou o Master. Dias depois, começou a investigar o processo inteiro que, no final das contas, permitiu a sobrevida de um banco fictício como o Master. Era uma investigação administrativa. Havia indício de mais, porém.

Belline Santana, chefe do departamento de Supervisão Bancária do BC, e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto, foram afastados dos cargos. Em janeiro, o BC passou os indícios para a Polícia Federal e avisou a CGU (Controladoria-Geral da União).

Souza foi diretor de Fiscalização do BC, de 2017 a 2023 —assim também votava nas decisões do Copom sobre juros. É gravíssimo. Quando se puxa uma pena, não vem uma galinha, vem um avestruz. O que mais, onde? Apenas a delação de Vorcaro vai resolver?

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DESCOBRINDO VIRGINIA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Como tolerar a ideia de que até hoje não faço parte dos 55 milhões de seguidores da influenciadora?

Todo dia surgem fulanos manipulando bilhões e, como todo bandido, com muito dinheiro em casa

Na semana passada ("De Gardel a Montiel", 26/2), ao dizer que nunca ouvira falar de Bad Bunny, temi que uma massa de leitores me caísse em cima –como era possível não saber do maior fenômeno musical de nosso tempo? E só soube por ele ter desafiado Donald Trump, o que logo o tornou merecedor de minha admiração. Confesso que, por enquanto, ainda não ouvi Bad Bunny emitir uma só nota como cantor, e talvez seja melhor assim. Pois não é que vários leitores admitiram a mesma deficiência –que também tinham acabado de ser apresentados a Bad Bunny?

O problema não é o Bad Bunny. Somos nós. Vivemos sob um tufão de informações, em que os personagens entram e saem do noticiário com uma velocidade difícil de acompanhar. Pouco antes do Carnaval, por exemplo, ouvi falar de Virginia, namorada do craque Vini Jr. De repente, fui assolado de notícias sobre a mesma Virginia, agora como rainha de bateria da Grande Rio, e só então descobri que era uma influenciadora com 55 milhões de seguidores e a maior celebridade do Brasil depois de Lula e Bolsonaro. Por onde andei nos últimos meses que não fui influenciado por Virginia?

E mais. Sei muito bem que Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e João Carlos Mansur, do caso Master, são três bombas que explodirão no colo de quem fez negócio com eles. Mas, como perdi o começo do caso, não conseguirei dizer direito por quê. O mesmo quanto a Rodrigo Bacellar e o pitoresco TH Joias, dois elementos acusados de organização criminosa, comércio de drogas, tráfico internacional de armas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e relações amorosas com o Comando Vermelho. Como sujeitos com tal currículo nunca fizeram parte da minha cultura?

E, mal me familiarizei com esses nomes, surge nas manchetes um certo Adilsinho, magnata do contrabando e da falsificação de cigarros, manipulando bilhões de reais e, como todo bandido, com montanhas de dinheiro vivo em casa.

É como se houvesse um outro Brasil, paralelo ao real. Só não sei qual é o Brasil paralelo ou o real.

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A DEMOCRACIA CORRE RISCO NESTA ELEIÇÃO ?

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

A extrema direita irá se adaptar às regras democráticas se vencer?

O que ocorrer nos EUA pode definir o destino da democracia mundo afora.

É da maior importância a discussão das consequências de uma vitória nas eleições presidenciais das forças de direita lideradas pelo delfim dos Bolsonaros. O debate divide respeitáveis analistas da política nacional.

Uns acham que, no Planalto, Flávio representaria clara ameaça à ordem democrática, por reavivar o golpismo que culminou com o pai na Papudinha. Outros acreditam não haver indícios fortes de que o filho, mais moderado, siga os passos do genitor.

Em outros termos, o que se debate é a possibilidade de a extrema direita se adaptar ao sistema representativo e que, no governo, não trate de enterrá-lo. O que se conhece do assunto não ampara conclusões cabais. No passado, fascismo e nazismo chegaram ao poder por meio de eleições livres e, rapidamente, aplastaram as instituições representativas e as liberdades individuais. No presente, há exemplos para todos os gostos.

Na Rússia e nos países do Leste Europeu, a democracia mal chegou a se firmar, tendo sido substituída por regimes claramente autocráticos. Na Europa Ocidental, o crescimento da extremaO que se debate é a possibilidade de a extrema direita se adaptar às regras da democracia representativa direita foi suficiente para transformá-la em potência política. Tornou-se a segunda força eleitoral na maioria dos países e participa das coalizões governantes na Finlândia, na Suécia e na Holanda. Mas só na Itália e na Bélgica, líderes extremistas —Giorgia Meloni e Bart de Wever— chefiam os respectivos governos. Na Itália, desde a primeira vitória de Silvio Berlusconi, em 1994, a direita radical adaptou-se às regras da democracia representativa: quando não ganhou eleições, aceitou a derrota.

A grande incógnita atual são os EUA, onde Trump investe furiosamente contra a Constituição, enquanto os freios e contrapesos a seu empenho autoritário são postos à prova. O que lá ocorrer poderá definir o destino da democracia na América e mundo afora.

No Brasil, a hipótese segundo a qual, se vitorioso, o bolsonarismo respeite as regras do jogo assenta-se em duas condições exigentes.

A primeira é que as instituições democráticas, tendo prevalecido sobre a vontade dos golpistas, mantenham a mesma capacidade de impor limites a um governante de apetite autoritário. Ou seja, espera-se que a imprensa não se dobre; que a sociedade organizada pressione os Poderes; que governadores resistam; que a maioria do Congresso trave os projetos mais danosos; que o comando das Forças Armadas não sucumba a tentações autoritárias; e que o Supremo possa defender o processo eleitoral e punir os conspiradores. Não custa lembrar que pelo menos um desses requisitos hoje inexiste: nossa alta corte passa por inegável processo de deslegitimação.

A segunda condição é que Flávio Bolsonaro, por crença ou cálculo, não só seja mais moderado que o patriarca da família, mas tenha força para enquadrar o pai e as lideranças que alimentam extremismo nas ruas e nas redes. Em que pesem suas declarações mais mansas, a promessa de indulto aos golpistas não indica compromisso efetivo com o respeito às regras democráticas.

Pode ser que o Brasil siga o caminho trilhado pela Itália. Isso será tão mais provável se, em lugar de apostar na conversão do bolsonarismo, os democratas aumentarem o custo do extremismo.

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TRUMP INICIOU GUERRA COM IRÃ POR CAPRICHO E PERDEU O MONOPÓLIO DO CONFLITO

Financial Times / Folha de S. Paulo

Presidente americano disse em posse que queria fim de guerras de escolha; agora está envolvido na maior delas

Objetivos dos EUA são caleidoscópicos, e mudança de regime após morte de Khamenei não vai acontecer com facilidade

O problema com os homens fortes é que eles podem facilmente mudar de ideia. Em seu discurso de posse no ano passado, o presidente americano, Donald Trump, prometeu ser um "pacificador" que acabaria com "guerras de escolha". Agora ele está envolvido contra o Irã na tentativa da maior mudança de regime de todas.

Talvez a realidade no terreno o force a abandonar esse objetivo. No entanto, mesmo seu gabinete —para não falar do Congresso e dos aliados dos Estados Unidos— está no escuro sobre qual é seu plano de saída.

Como Trump disse ao The New York Times em janeiro, sua única restrição é "minha própria moralidade... É a única coisa que pode me deter". O sistema constitucional americano até agora não deu motivos para duvidar dele. O que acontece no teatro de guerra em expansão é outra história.

Deixando de lado o ataque inicial de Israel, o momento de maior potência do presidente foi escolher ir à guerra com o Irã. A partir daí, Trump perdeu o monopólio sobre como a guerra se desenrola. Muitos outros —não apenas iranianos— agora têm voz sobre sua direção.

O próprio Trump está dividido sobre quais são seus objetivos. Nas primeiras 72 horas, ele disse várias vezes que quer eliminar o programa de armas nucleares do Irã, acabar com a capacidade iraniana de exportar terrorismo, derrubar seu regime ou encontrar um novo líder dentro dele com quem pudesse fazer negócios.

A maioria dos comentários do presidente vem na forma de reflexões telefônicas para repórteres. Para um, disse que a guerra poderia durar mais "quatro a cinco semanas"; para outro, que estava pronto para conversar com o Irã. Mas também questionou se havia alguém restante com quem conversar.

Seus objetivos de guerra são, portanto, caleidoscópicos. Ao contrário do que disse, os EUA e seus aliados não enfrentavam nenhum ataque iminente do Irã. Não há nada de preventivo nesta guerra. Nem, como ele também afirmou, o Irã estava perto de desenvolver mísseis que pudessem alcançar os Estados Unidos.

Seu enviado, Steve Witkoff, foi hiperbólico alguns dias antes ao dizer que o Irã estava "a uma semana de ter material de grau industrial para fabricação de bombas". Os mediadores de Omã também contestam a afirmação de Trump de que os negociadores iranianos se recusavam a ceder. O que o Irã ofereceu na semana passada —zero estocagem de urânio de baixo enriquecimento— era melhor do que o que Barack Obama conseguiu no acordo nuclear de 2015, do qual Trump se retirou.

Um profundo ceticismo é justificado quanto à capacidade de Trump de impedir mais carnificina nas ruas iranianas. Embora ele esteja instando o povo a se levantar, eles não têm como saber se isso não seria suicida. Regimes não são mudados pelo ar. Trump só poderia ajudar invadindo o país deles. Pela primeira vez, está considerando essa ideia.

"Não tenho receio em relação a tropas no terreno", disse ao New York Post. Ao mesmo tempo, está convidando os paramilitares do Irã a entregar suas armas ("eles simplesmente se renderiam ao povo, se você pensar bem"). Talvez eles se desarmem em uma galáxia muito, muito distante. Neste planeta, a névoa da guerra começa na mente de Trump.

Qualquer um que afirme saber para onde esta guerra vai, incluindo Trump, está blefando. Entre os possíveis resultados, no entanto, a transferência pacífica de poder é um dos menos prováveis. O regime do Irã assassinou recentemente milhares, talvez dezenas de milhares, de seu próprio povo. O que restou da liderança do país está encurralada. O presidente dos EUA transmitiu a eles que esta guerra é existencial. No entanto, expressou surpresa por estarem disparando drones e mísseis contra os Estados do Golfo que abrigam bases americanas —uma escalada óbvia para a teocracia ameaçada.

É por isso que nenhuma das monarquias do Golfo queria esta guerra. Seu lugar como eixo da economia global está agora perigosamente exposto. Trump não ouviu seus amigos do Golfo. Nem deu atenção aos cenários de risco apresentados pelo general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA. Um país do tamanho do Irã não pode ser transformado por controle remoto.

Sua aposta era que o Irã cederia rapidamente. Até agora, não há sinal disso. Estamos, portanto, entrando em um teste de resistência. Quanto mais tempo os iranianos conseguirem sustentar seus ataques com drones Shahed, mais provável é que eles cobrem um preço significativo em vidas americanas e de outros. A guerra ameaça se transformar em uma disputa sobre quem aguenta mais —a capacidade do Irã de produzir drones versus a capacidade dos EUA de interceptá-los.

Um conflito prolongado também vai pesar no bolso dos americanos. Os apoiadores do Maga de Trump acreditavam que ele marcaria uma ruptura acentuada com a era de guerras intermináveis e rendas espremidas. Estavam enganados. Trump viu o histórico de George W. Bush e dobrou a aposta. Não há nada de bom a dizer sobre o regime do Irã. Mas ele demonstrou um instinto melhor para ler as intenções de Trump do que seus eleitores.

*É editor e colunista do jornal Financial Times

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