segunda-feira, 5 de outubro de 2026

A VOLTA DE UM PASSADO QUE NUNCA EXISTIU

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A extrema direita transforma em glórias os crimes que se cometeram para garanti-las

E é um passado ainda mais perigoso, porque promete um futuro que também nunca existirá

Em sessão recente na Academia Brasileira de Letras, meu colega, o escritor João Almino, levantou uma importante questão: a estratégia da extrema direita, que, "sob uma capa superficial de defesa da liberdade, da família, dos costumes, da tradição, da ordem, da religião, da nação, da civilização ou da própria democracia, adota um discurso de regresso ao passado". E que passado é esse? Um que nunca existiu e muito menos foi vivido por aqueles que o defendem.

Um passado não só fictício como perigoso, porque transforma em supostas glórias os crimes que se cometeram para garanti-las e faz com que eles, os crimes, sejam vistos com naturalidade e anseio. Na Europa, isso se manifesta no atual controle pela extrema direita de países como Itália, Suécia, Hungria e Polônia e no crescimento dela na França, Espanha, Áustria e, inacreditavelmente, Alemanha. Que tais países estejam à beira de uma nova onda nazifascista já é suficientemente incompreensível –para que lutaram os avós desse pessoal entre 1932 e 1945? Mas, na Alemanha, é chocante –nenhum outro foi mais algoz e vítima de si mesmo.

Os argumentos dos extremistas europeus são os mesmos que Mussolini e Hitler usaram para se impor: crise econômica, nacionalismo, antiglobalização, xenofobia, pureza racial (luta contra a imigração) e a "volta à verdadeira essência da nação" —como se uma suposta essência fosse possível de determinar.

No Brasil, a receita bolsonarista adota a maioria desses ingredientes, enfatizando o papel da religião, com Jesus Cristo, como diz Almino, "rebaixado a cabo eleitoral". Há também uma nostalgia da ditadura civil-militar –nostalgia que, para existir, precisa negar o que a sustentou por 21 anos: proibição de eleições, empobrecimento político de duas gerações, censura, prisões, tortura, exílio de seus melhores cérebros (de imediato acolhidos pelos EUA e pela Europa) e um falso "milagre econômico".

Não é só a tentativa de volta a um passado que nunca existiu, mas a promessa de um futuro que também não existirá.

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domingo, 4 de outubro de 2026

A JORNADA DO VOTO E OS RISCOS ATUAIS

Míriam Leitão, O Globo

Eleitores decidirão o destino do país, e não só os próximos quatro anos. O autoritarismo e o alinhamento acrítico aos EUA são riscos que não podemos correr

Quando minha mãe nasceu, mulher não votava. O direito eleitoral feminino é recente. O voto é novo no Brasil. Há apenas 37 anos, o Brasil voltou a escolher livremente o presidente e os governadores, após a longa interrupção imposta pela ditadura. Apesar de as eleições terem se tornado rotina desde a redemocratização, não podemos perder de vista como é valioso o direito que hoje podemos exercer. No fim deste domingo, 4 de outubro, o país terá escolhido dois terços do Senado, toda a Câmara dos Deputados, todas as Assembleias Legislativas e vários chefes do Executivo. A composição do Senado definirá o perfil do Supremo Tribunal Federal que teremos. Será um Supremo capaz de corrigir seus erros ou ele será capturado para o projeto autoritário que um dia combateu?

Os 158 milhões de brasileiros aptos a votar decidirão o destino do país, e não apenas nos próximos quatro anos. Um projeto autoritário tem na sua essência o continuísmo e segue a estratégia de corroer por dentro as instituições, até que elas percam sua força de contrapeso. Velhos medos, que minha geração acreditou ter deixado para trás, estão vivos. O autoritarismo é o maior deles. O intervencionismo americano recuou a meados do século passado. Donald Trump é tão primitivo que quer da América Latina nada menos do que a vassalagem. O alinhamento acrítico aos Estados Unidos é um risco que um país como o Brasil não pode correr.

A suspensão do atendimento na embaixada americana na sexta-feira, movimento seguido por consulados de outros países que pertencem ao mesmo grupo de troca de informações de inteligência, foi dramatizado pelas redes bolsonaristas que alimentam um clima de tensão.

Esta campanha transcorreu no inverno do nosso descontentamento. O STF foi a instituição mais atacada no governo de Jair Bolsonaro porque com o Supremo fraco ficaria mais fácil o plano golpista. Foi o ponto da resistência. Esse mesmo STF minou a si próprio desta vez. De novo, o risco maior é o democrático, mas agora o país desconfia da sua cidadela. Se a briga fratricida dos ministros expôs o país ao perigo, toda a campanha foi estranha. O momento mais inusitado teve Nossa Senhora Aparecida no meio da polêmica eleitoral.

O Supremo precisa corrigir a si próprio. O Senado a ser escolhido hoje pode ajudar a fortalecer a instituição, que tem sido disfuncional nos últimos tempos, ou pode aproveitar as fraquezas do Supremo e completar o golpe que ficou inacabado em 2023. Tudo o que o STF fez e falou será usado contra ele e contra a democracia. É doloroso que os ministros não tenham entendido a dimensão do risco que enfrentamos. Era previsível que a campanha da extrema direita usasse como bandeira a proposta de eleger senadores para destituir ministros do Supremo. E evidentemente, a ideia é não parar por aí.

Eu comecei esta coluna falando de minha mãe, Mariana, e tenho motivos para esta volta para casa quando falo de eleição. Ela nasceu em 1925 e morreu em setembro de 1989, sem conseguir dar seu voto ao Doutor Ulysses, candidato que havia escolhido. Num dos últimos encontros que tivemos, minha mãe estava às voltas com o recadastramento eleitoral, trabalho para o qual ela havia se voluntariado naquele renascimento do direito do voto. Meus pais eram cerimoniosos com o ato de votar. Ainda os vejo, descendo a rua Princesa Isabel, vestidos com a elegância de um evento social, indo votar para presidente, em 1960, antes que a ditadura acabasse com esse direito.

Minha neta mais velha, também Mariana, vota hoje pela segunda vez, e levará junto seu irmão Daniel que, aos 16, estreia seu título. Votarão na mesma zona eleitoral que o pai, Matheus. A luta do movimento sufragista permitiu que minha mãe votasse pela primeira vez para presidente, aos 20 anos, em 1945, no encerramento da ditadura de Vargas. Quando votei pela primeira vez para presidente, meu filho Vladimir também votava pela primeira vez. A minha família traz vários símbolos — e cicatrizes — de como o direito do voto é conquista árdua. Hoje correntes de extrema direita defendem o fim do voto feminino. Parece delírio que a vitória do movimento sufragista seja posta em questão um século depois, mas não se deve subestimar os perigos de hoje em dia. No livro que meu marido, Sérgio Abranches, acaba de lançar “A terceira margem do Ipiranga” há uma frase da qual eu gosto muito. “A democracia nunca teve vida fácil entre nós”.

Desejo um bom voto para eleitoras e eleitores.

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sábado, 3 de outubro de 2026

A IMPORTÂNCIA DO VOTO

Artigo de Rachel de Queiroz

O artigo "Votar" de Rachel de Queiroz foi publicado na revista O Cruzeiro, em 11 de Janeiro de 1947, com o objetivo de alertar os eleitores de então, quanto a importância do voto, continua contemporâneo.

Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo político que se chama governo democrático, ou governo do povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato. No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: governo do povo. Porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOVERNO.

Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.

Escolhem-se pelo voto aqueles que vão modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.

Escolhemos igualmente pelo voto aqueles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aqueles que irão estipular a quantidade desses impostos. Vejam como é grave a escolha desses "cobradores". Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gota de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bolso.

E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhem-se não só aqueles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aqueles que vão "fabricar" o dinheiro. Esta é uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos.

Pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Eles desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero.

Não preciso explicar muito este capítulo, já que nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos no poder.

Escolhem-se nas eleições aqueles que têm direito de demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo burocrático. E, circunstância mais grave e digna de todo o interesse: dá-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de todas as fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias.

E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fez um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a esses sujeitos um simples emprego bem remunerado.

Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem - e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe dá o povo. Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios fossem.

Entregamos a esses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa mocidade, a eles presa por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.

Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes. Votar não é assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva.

Porque, afinal, a mulher quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o governo, quando é ruim, ele é que nos dá a surra, ele é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da boca dos nossos filhos e nos faz apodrecer na cadeia. E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.

E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto. Meu amigo e leitor, se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar este ou aquele candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto.

Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem medo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem medo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno".

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sexta-feira, 2 de outubro de 2026

OITO TEMAS PARA O NOVO PRESIDENTE

Fernando Luiz Abrucio*, Valor Econômico

Agenda inclui ajuste fiscal, reforma administrativa, adaptação às demandas econômicas do século XXI, educação, combate à desigualdade e ao crime organizado, política externa e reorganização das instituições

Uma eleição marcada por denúncias e controvérsias que passou ao largo dos desafios do próximo governo. Esse poderia ser um resumo fidedigno do primeiro turno da disputa presidencial de 2026. Claro que houve algumas discussões sobre temas importantes ao país, como segurança pública e o fim das bets, mas diagnósticos mais profundos sobre as maiores dificuldades foram deixados em segundo plano. Só que quem assumir em 2027 terá uma lista grande de tarefas bem difíceis pela frente, e o eleitorado por enquanto não sabe o que o vencedor fará para enfrentar tais problemas.

Num país tão complexo como o Brasil, não faltam questões relevantes que o presidente tem de tratar. Seria impossível fazer uma lista que abarcasse todas elas em um artigo de jornal. Porém, é possível escolher temas estratégicos essenciais para o próximo mandato, cuja resolução será fundamental não somente para o país melhorar, como também para evitar que entre numa crise no final desta década.

Oito temas serão inadiáveis no próximo mandato presidencial. O primeiro diz respeito a um ajuste econômico que permita um crescimento sustentável sem inflação relevante. Para isso, será fundamental equacionar as fragilidades fiscais para reduzir mais fortemente as taxas de juros. Dois efeitos positivos poderiam ser conseguidos aqui: a limitação do crescimento da dívida pública e a maior possibilidade de alavancar investimentos públicos e privados, que seriam os motores de um novo ciclo de desenvolvimento.

Não é possível imaginar um ajuste fiscal que produza um superávit gigantesco no curto prazo. Não obstante, é possível fazer mudanças institucionais, tanto nas despesas quanto nas receitas (especialmente as isenções tributárias), que paulatinamente reduzam os desequilíbrios e sinalizem uma modificação estrutural na evolução da dívida pública. Economistas como Manoel Pires, Bráulio Borges e Felipe Salto têm proposto um programa equilibrado de ajuste, e os presidenciáveis precisam ouvi-los.

Se o ajuste não for iniciado logo no primeiro ano de mandato, a crise econômica virá e a popularidade do presidente irá para o chão. Óbvio que no curto prazo pode se perder parte do apoio popular, mas se essa agenda não for priorizada, o governo se inviabiliza para fazer seu sucessor ou reeleger-se.

O segundo tema inadiável é a reforma da gestão pública, especialmente em dois pontos. Um deles é a necessidade de reduzir os privilégios remuneratórios de determinadas corporações estatais, particularmente as do sistema de Justiça. O efeito fiscal não será gigantesco, mas será significativo e, principalmente, será um exemplo essencial para justificar outros cortes que podem afetar camadas mais vulneráveis socialmente. Além disso, é preciso melhorar a qualidade da máquina pública. Em especial, é fundamental fortalecer as capacidades de estados e, mais ainda, de municípios para produzir serviços públicos mais eficientes e efetivos. Um plano nacional de modernização administrativa seria um passo central neste processo reformista.

A construção de um novo padrão de desenvolvimento condizente com os desafios do século XXI é um terceiro tema estratégico. Isso significa atuar de forma planejada sobre as potencialidades econômicas que o país tem em novas áreas como terras raras e energia renovável, como também fortalecer o investimento agrícola, industrial e em serviços em vários campos nos quais somos ou podemos nos tornar mais competitivos. Tudo isso levando em conta a sustentabilidade ambiental, outro diferencial positivo que o Brasil tem de saber usar melhor, seja para fins econômicos, seja para produzir uma maior qualidade de vida, agora e no futuro. Ignorar a mudança climática, por exemplo, seria um legado desastroso do próximo presidente.

O próximo governo tem de se comprometer com a educação se quiser modificar profundamente a realidade brasileira. Mais uma tarefa inadiável aqui, a quarta, está em aprimorar a política educacional com ações baseadas em evidências e no aprendizado com a experiência recente do Brasil. Deve-se continuar o processo de colaboração federativa entre União, estados e municípios para atuar na primeira infância, na alfabetização, na educação especial inclusiva, na construção de um ensino que faça mais sentido para os adolescentes e os jovens, neste último caso com prioridade para a educação profissional e tecnológica. Melhorar a formação e a carreira docente em escolas de tempo integral, com lideranças escolares qualificadas e secretarias de educação com fortes capacidades estatais, são as metas principais.

A educação precisa mirar dois objetivos centrais: formar cidadãos e contribuir decisivamente para elevar a produtividade do país. No primeiro caso, o processo educacional é o principal instrumento para garantir a democracia no longo prazo, produzindo os cidadãos capazes de evitar autoritarismos e políticos golpistas. A política educacional, ademais, precisa melhorar a qualidade do capital humano, desde a educação básica. Dado que há a necessidade de qualificar muita gente que já está no mercado de trabalho, principalmente por conta da rapidez das transformações tecnológicas, o próximo presidente vai ter a tarefa de criar programas de capacitação em larga escala em vários setores da economia.

Reduzir a pobreza e os diversos tipos de desigualdades continua sendo uma prioridade máxima do país, quem quer que seja o presidente eleito. Esta quinta tarefa é a mais inadiável de todas. O Brasil teve muitos avanços neste campo nos últimos 30 anos, como o Bolsa Família e o SUS, contudo, precisa começar uma nova agenda marcada por duas características principais. A primeira delas é a maior integração entre as políticas públicas, a chamada intersetorialidade, capaz de atuar sobre a integralidade dos problemas, e não apenas numa parte setorial. Isso vale para temas como mudança climática, políticas urbanas para as cidades maiores, a política de primeira infância e programas para a população idosa.

Nesta nova agenda de reformas das políticas sociais é fundamental aumentar a capacidade de os governos chegarem às famílias e indivíduos, tendo um tratamento de dados e acompanhamento mais fino das demandas sociais. Um Estado mais preventivo e com capacidade de customizar mais sua atuação, especialmente para a população mais pobre e para grupos vulneráveis, deve ser uma prioridade do próximo presidente.

O combate ao crime organizado é a sexta tarefa inadiável do país. O efeito negativo dela vai desde crimes ambientais, passando pelo domínio territorial de periferias, chegando à perda de segurança, particularmente (mas não só) da parcela mais vulnerável da população, e finalizando com o comando perverso de diversas atividades econômicas. Além disso, sua existência cria atritos externos que afetam a soberania do país. A resolução desse tema passará pelo aumento da capacidade de inteligência do Estado - especialmente contra a cúpula das facções -, pela maior profissionalização e integração das forças policiais, pela atuação mais efetiva nas fronteiras do país e pela transformação da política prisional.

O cenário internacional será extremamente desafiador no próximo quadriênio. Daí uma sétima tarefa inadiável: a construção de um projeto soberano e multipolar de inserção internacional. Entregar-se ao domínio norte-americano, que nos tornaria um quintal dessa potência, é o maior erro a ser evitado pelo governante que assumir em 2027. O Brasil precisará navegar num mundo mais perigoso em termos geopolíticos, mas que também pode trazer várias oportunidades econômicas se o país souber dialogar e negociar com todos as nações e blocos econômicos. Em poucas palavras, a liderança internacional será uma qualificação essencial para o novo presidente.

Finalizando a lista, como oitavo tema inadiável, está a reorganização republicana e democrática das instituições brasileiras. Além de reequilibrar a dinâmica entre os Poderes, é fundamental mexer pelo menos em dois pontos. Um diz respeito à questão das medidas que levaram à maior oligarquização do sistema político, como a explosão de emendas parlamentares pouco transparentes e descoladas das prioridades das políticas públicas, bem como o excessivo poder dado às cúpulas partidárias com o exagerado volume de financiamento público.

O outro desafio é reformar o STF. Não se trata apenas de punir os ministros que descumpriram a lei e regras éticas básicas mínimas - isso é o básico. Mais importante é criar as condições para se ter um Supremo no futuro que sirva melhor à sociedade brasileira, o que passa por transformações na redução das decisões monocráticas, nas pautas legais que cabem a uma corte constitucional e, com especial ênfase, no processo de seleção dos novos integrantes.

Não se pode mais ter ministros vinculados diretamente ao presidente que os escolhe, seja Lula, seja Bolsonaro. A criação de uma comissão vinculada à elite da academia brasileira que fizesse uma lista prévia de nomes seria algo essencial para evitar o fisiologismo judicial que impera hoje. Afinal, melhorar a democracia deve ser um critério para guiar o próximo governante, e isso será mais factível quanto mais a sociedade participar do controle do poder. Esse é o novo ciclo que devemos começar em 2027.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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ENTRE BIOGRAFIAS E FOLHAS CORRIDAS

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar

Em alguns dias o eleitorado se defrontará, com razoável consciência, com o dilema de decidir em quem votar. Não será o de decidir entre candidatos de esquerda ou de direita. Aqui essas designações são em boa parte rótulos. Para saber se alguém é de direita ou de esquerda é preciso muito mais competência do que é próprio do nosso pobre senso comum.

O dilema será o de decidir qual é a fonte legítima do perfil do candidato. Se pela biografia ou pela folha corrida. Temos tido políticos, de biografias honradas e respeitáveis, de histórias pessoais limpas e límpidas, provadas em funções políticas ao longo do tempo.

Outros, porém, se notabilizam por terem a biografia reduzida a mera e suspeita folha corrida. Com anotações decorrentes de processos de investigação motivados por dúvidas em relação não só a atos fora das pautas límpidas da tradição, mas também por histórias cheias de meandros sombrios e anômalos que as tornam suspeitas e que não recomendam seus titulares ao exercício de poder em nome da democracia.

Nas últimas décadas o Brasil se esmerou em diversificar o elenco de alternativas para despistar o eleitor e tornar-lhe difícil a tomada de decisões racionais e propriamente políticas na hora de votar.

Um desses instrumentos foi a adoção do nome de urna em conexão com a adoção da urna eletrônica. Um incitamento do eleitor a se enganar na escolha que faz. A pretexto de permitir que o eleitor supostamente conheça face a face os candidatos, em vez de uma República representativa, criamos uma república de bairro, cuja sociabilidade é a de feira livre e de negociantes, de paroquialismo pentecostal, até de enterros e cemitérios.

Tornaram-nos um povo que se acha devedor de favor político ao padeiro, ao açougueiro, ao pastor de igreja, ao verdureiro, ao dono do botequim da esquina, ao artista de circo, ao agente funerário, ao coveiro do cemitério. Em número descabido e não raro a qualificação “profissional” do candidato agregada ao seu nome de urna. Toda uma teia de relações não políticas redutivas da sociabilidade ao mais superficial do cotidiano.

Apesar dos recursos modernos de verificação eletrônica de histórias de vida, essa cultura pseudopolítica inviabiliza a consciência crítica, sem a qual a representação política não é possível.

É claro que os portadores de apelidos podem acrescentá-los ao nome civil, como fez Luiz Inácio da Silva, que acrescentou judicialmente ao seu nome o apelido pelo qual era conhecido, “Lula”.

O presidente Fernando Henrique Cardoso baixou ato que proíbe aos cartórios e juízes de paz fazerem registros de nascimento com nomes ridículos, que possam acarretar humilhação a seus portadores, na escola, no emprego, na igreja. Somos propensos a atribuir aos filhos nomes esdrúxulos.

Uma amiga, no consultório dentário, enquanto esperava sua vez, ouviu com espanto a dentista chamar a cliente seguinte: Madeinusa. E lhe explicou, o pai da cliente lera o nome num fundo de garrafa: “made in USA”. Achara-o lindo e o colocou na filha.

A mesma mentalidade tosca se manifestou na eleição municipal de 1959, em São Paulo, quando a rinoceronte Cacareco, do zoológico municipal, foi “eleita” vereadora com mais de 100 mil votos, mais do que o maior número de votos do partido mais votado. Quando o voto ainda era escrito, os eleitores que queriam protestar escreviam gracinhas como essa na cédula, o que anulava o voto.

A eleição frequente de suspeitos de atos graves contra o regime democrático e contra a autenticidade da representação política amplia o uso da cultura da folha corrida com a equivocada concepção de que nela estar é um atributo próprio da política. Os antigos se lembrarão do mote informal das candidaturas de Adhemar de Barros, que foi governador e prefeito de São Paulo e foi candidato a presidente da República: “Rouba, mas faz”.

A disputa entre biografia e folha corrida não é disputa entre esquerda e direita, como tampouco conservadores são necessariamente de direita. Há conservadores autênticos formados na cultura das tradições conservadoras que de modo algum são de direita e tampouco fascistas. Os que fazem propositalmente essas confusões são antes de tudo ignorantes e por ignorância não sabem ser, politicamente, mais do que bajuladores de espertalhões e enganadores.

Arremetidas recentes para “aperfeiçoar” com o abrandamento, da sua necessária severidade, a lei da ficha-limpa, tornarão o país oficialmente o país da ficha suja. O propósito prático acabará sendo valorizar como limpo o que é sujo. Isto é minimizar a importância política das biografias honradas. A ficha suja desonrará os que honram a pátria por não serem cúmplices dos que dela se servem.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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quinta-feira, 1 de outubro de 2026

O FATO NOVO

Merval Pereira, O Globo

O sentimento do presidente é mais de soberba que de receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se a ser criticado por todos os outros candidatos que têm hoje quase traço nas pesquisas.

O presidente Lula já teve a experiência, em outra encarnação presidencial, de faltar a um debate da Globo às vésperas da eleição presidencial. Foi em 2006, quando o escândalo do mensalão pôs em risco sua reeleição. Sua cadeira ficou vazia pela primeira vez, e o efeito visual foi grande. Além disso, os demais candidatos, especialmente o hoje seu vice-presidente, Geraldo Alckmin, na época um dos líderes tucanos, aproveitaram-se da situação para criticá-lo. A resposta do eleitorado foi imediata: Alckmin obteve surpreendentes 40% dos votos no primeiro turno, deixando tontos os petistas.

Lula entrou em depressão, desapareceu por uns dias, depois recuperou o espaço perdido. Tanto que o candidato tucano teve menos votos no segundo turno que no primeiro, demonstrando que o resultado inicial fora apenas um susto. Desta vez, a diferença entre Lula e Flávio Bolsonaro quase não existe, e sua recusa parece mais uma demonstração de fraqueza que arrogância — na verdade, a razão da desistência. Lula considera-se superior aos adversários, especialmente Flávio, a quem definiu assim:

— Se vocês tivessem uma dúvida entre mim e um gênio, seria uma coisa. Mas vocês não estão fazendo essa escolha.

Não entrou na decisão de não ir ao debate, pelo menos não conscientemente, a avaliação de que Lula está cansado, já não tão ágil quanto antes, tem de tomar cuidado com as improvisações. Muitos dos assessores, sim, tinham esses e outros receios, não ele. O sentimento do presidente é mais de soberba que de receio. Ele acha um absurdo estar empatado com Flávio e expor-se a ser criticado por todos os outros candidatos que, além de ser apoiadores do bolsonarista no segundo turno, têm hoje quase traço nas pesquisas. Lula está convencido de que fez um bom governo e não aguenta a ideia de que Flávio possa enfrentá-lo de igual para igual, como se fossem equivalentes.

Bolsonaro pai, ele leva a sério, considera um líder popular forte, embora despreze seus valores ideológicos. Mas terminar a vida política com uma derrota para o filho do adversário será devastador psicologicamente para Lula. E, paradoxalmente, a posição de superioridade passa ao adversário, que se sente repentinamente fortalecido diante da fragilidade psicológica de seu oponente. Na última vez em que Brizola disputou a Presidência da República, terminou em quarto lugar, sem contar que antes já admitira estar abaixo de Lula na esquerda, aceitando ser seu vice. Incomoda a Lula a possibilidade de terminar uma carreira política brilhante com uma derrota, e logo para quem.

A recusa ao debate, pela primeira vez transmitido em horário nobre, porém, pode levá-lo a uma derrota que não está decretada, mas é uma probabilidade que ele poderia reduzir com uma apresentação à maior plateia televisiva da campanha eleitoral. Dar entrevistas a blogs e podcasts de esquerda, mesmo que com grande alcance, significa falar consigo mesmo, falar para os seus, cujos votos já estão computados. Na televisão, os indecisos, os independentes, os não bolsonaristas estariam à disposição de Lula. Estarão agora à disposição de Flávio, que terá a oportunidade de se mostrar como “o Bolsonaro que se vacinou” e não estará exposto a críticas contundentes.

As pesquisas são unânimes em mostrar um quadro de empate no segundo turno, mas já se sabe que essa perspectiva não corresponde à realidade das urnas. Pode dar qualquer um, desde que não surja o famoso “fato novo”, que muito tempo reinou como definidor de quadros eleitorais. Hoje, um fato novo surge a cada momento, banalizando os escândalos, a ponto de neutralizar seus efeitos. A polarização congelou as posições do eleitorado, fazendo com que a campanha mais morna e monótona dos últimos tempos teste a paciência de um eleitor irritadiço, desconfiado, desiludido. O aumento da abstenção pode ser o tal “fato novo”.

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STF NA ELEIÇÃO MOSTRA BRASIL DISFUNCIONAL

Julia Duailibi, O Globo

Supremo apareceu não porque foi provocado a agir. Entrou de maneira deliberada, para tentar garantir a sobrevivência

Na terça-feira, o presidente Lula telefonou de cima de um palanque para o ministro Flávio Dino em plena campanha eleitoral. Estava em Belém e queria parabenizá-lo por um projeto criado por Dino, enquanto senador, que prevê controle de qualidade dos serviços prestados pelos hospitais privados. A iniciativa do ministro, sancionada por Lula, ocorreu depois da trágica morte do filho dele, de 13 anos, durante atendimento num hospital privado de Brasília.

Para além da importância da matéria sancionada, a imagem sintetiza o que foi a campanha de 2026. Uma confusão entre política, candidatos e ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Tudo junto e misturado. Uma disputa eleitoral em que se falou muito pouco sobre o que aflige os eleitores ou o que é fundamental para um projeto de país. Mas foi dominada pelo STF, que entrou com os dois pés na eleição.

Nunca uma eleição passou tanto pelo STF. O protagonista, em momentos de normalidade, tem de ser o Tribunal Superior Eleitoral (TSE). E não é que o STF apareceu porque tenha sido provocado a agir. Entrou de maneira deliberada, para tentar garantir sua sobrevivência, depois que parte de seus ministros se seduziu pelo pacote de benesses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Em nome da própria sobrevivência ou de seu grupo (ou torcendo contra eles), ministros pesaram a mão em decisões com impacto eleitoral. Afinal, a depender do resultado das urnas no domingo, se a oposição se fortalecer muito, o Brasil poderá assistir pela primeira vez ao impeachment de um ministro.

André Mendonça segurou em seu gabinete, sob sigilo, uma informação super-relevante: um dos candidatos, no caso Flávio Bolsonaro, era investigado sobre os recursos pedidos a Vorcaro para o filme “Dark Horse”. Gilmar Mendes foi alvo de críticas por ter usado uma causa antiga para dar o.k. à política de reajuste do Bolsa Família, que não estava no radar nem da equipe econômica, mas foi encomendada depois do empate de Lula com Flávio nas pesquisas. Dino atropelou duas vezes Mendonça em decisões simpáticas ao candidato à reeleição. Para derrubar a polêmica decisão, dada no TSE, que suspendia posts envolvendo Nossa Senhora Aparecida e Flávio Bolsonaro, aceitou uma petição de maio num caso que não tinha nada a ver com o tema. Também deu um jeito e derrubou o afastamento do diretor-geral da Polícia Federal, ordenado por Mendonça, num caso que não tinha ligação direta com a discussão.

A Corte é composta hoje por ministros que têm o DNA da política. Foram forjados no embate, e a toga não os protege dessa essência. Dino foi governador, deputado, senador. Alexandre de Moraes foi filiado ao PSDB e ao DEM, ocupou cargos nos governos tucanos e foi ministro da Justiça de Temer. Mendonça foi ministro de Bolsonaro, assim como Gilmar de FH. Em outros tempos, o STF teve togados de perfil político como Hermes Lima, Paulo Brossard, Nelson Jobim e Evandro Lins e Silva. Mas os tempos eram outros. O STF não estava acusado nem acuado, com parte dos seus quadros lutando pela sua sobrevivência. Some-se a isso a dificuldade do presidente Edson Fachin, que não consegue costurar uma saída para a crise.

De figurante, o STF chega como protagonista às eleições. Maior evidência de que a Corte está disfuncional.

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O QUE HOUVE COM A DÍVIDA PÚBLICA

Míriam Leitão, O Globo

A explicação para o crescimento da dívida pública não pode ser política ou simplista. Não dá para apenas culpar o governo ou os altos juros

A dívida pública subiu e ronda o país. Mas para entender direito o que tem acontecido é preciso se desligar das paixões políticas. A dívida subiu 11 pontos percentuais no governo Lula e chegou a 83% do PIB. No período Bolsonaro, chegou ao recorde de 87,66% e caiu no fim do governo para 71,7%. A queda naquela época foi o resultado de um truque contábil e dois fatores conjunturais favoráveis. O mandato Lula tem ampliado os gastos nesta reta final da campanha e isso é ruim. Porém, não é a despesa que explica toda a alta da dívida pública.

A dívida subiu no governo Bolsonaro pelo aumento forte de gastos devido à Covid e caiu no final do mandato pelo efeito combinado de três fatores. Um é truque. O dólar naquela época subiu muito. Isso fez com que as reservas em reais crescessem. Só que apenas contabilmente. Subiram porque um mesmo dólar valia mais em reais. Esse aumento das reservas em real foi usado pelo então ministro Paulo Guedes para abater a dívida pública. Ele pegou R$ 350 bilhões, 4,5% do PIB, e reduziu a dívida. Foi um falso ajuste, já que ele usou uma valorização da reserva absolutamente contábil.

Outro fator que ajudou a redução da dívida foi a inflação. Ela chegou a 10%. Quando a inflação sobe, o PIB Nominal sobe junto, o que faz a dívida cair como percentual do PIB. A pandemia elevou a inflação, em parte pela maneira como a economia foi administrada naquela crise, e esta alta acabou comendo uma parcela da dívida. O terceiro ponto é que os juros despencaram no governo Bolsonaro e chegaram a 2%. Não porque a inflação estivesse sob controle, ou o déficit estivesse caindo, e sim para evitar a recessão na Covid.

Hoje, grande percentual do crescimento da dívida se deve à própria dívida e aos juros altos. Vejam os números. O déficit primário do setor público em agosto foi R$ 10 bilhões, mas quando entra a conta financeira, ou seja, os juros da dívida, o déficit nominal vai para R$ 116 bilhões. Em 12 meses, o déficit sem contar os juros da dívida foi R$ 82 bilhões e o resultado nominal, que conta os juros da dívida, foi de R$ 1,2 trilhão.

Significa que a solução é não pagar os juros da dívida? Claro que não. Como qualquer pessoa sabe, seria o colapso da economia. O Tesouro deve a todos os aplicadores, pequenos e grandes, famílias e empresas. E se os juros caírem, vai se resolver? Só se for por decisão do Banco Central e sem intervenção política. Do contrário, o tiro sai pela culatra. A desconfiança na política monetária provoca turbulências muito piores.

O fato de a maior parte do crescimento da dívida se dever ao custo financeiro da dívida não exime de culpa o aumento dos gastos nesta última etapa. Não se consegue dimensionar direito o impacto fiscal de tanta bondade e o governo tem de fato abusado de medidas de estímulo ao crédito. Isso é preocupante.

No Conselho Monetário Nacional, nos últimos meses, não houve reunião sem aprovação de medidas de oferta de crédito. Seja para o agro, sejam linhas subsidiadas para todo o tipo de transporte. Desenrola para todos os segmentos encrencados. Alguns são mais defensáveis, outros mais controversos. Todos juntos provam que o governo tem estimulado o endividamento.

O desemprego está no nível mais baixo da série histórica, houve aumento da renda e, mesmo assim, as pessoas estão endividadas. O nível do endividamento das famílias anunciado ontem de 49,9% é o mesmo número de meados de 2022. A crise do endividamento foi de 2020 a 2022, por causa da Covid. Se a renda cresceu e o desemprego caiu, devia ter caído o endividamento. E não caiu porque o crédito tem sido estimulado.

A dívida pública mudou de composição. Há dez anos, 17% da dívida era em LFT, agora é 52%. O que significa que a Selic impacta uma parte maior da dívida. Mas os investidores foram para lá porque sabem que o Banco Central vai defender a moeda, mesmo que tenha que manter os juros altos. Se o mercado apostasse em inflação fora de controle compraria mais NTN-B, por exemplo, que é IPCA mais uma parcela de juros e o dólar estaria disparando. Esse assunto é técnico. Simplificá-lo ou politizá-lo culpando apenas o governo, ou só os juros altos, não ajuda nem a entender, nem a procurar uma solução que seja boa para o país. Como tenho dito aqui, número é igual a menor de idade. Não pode viajar desacompanhado. No caso, de uma explicação.

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A ELEIÇÃO DOS DESAFETOS

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo.

Muita gente aí do seu lado celebra por antecipação o vislumbre de que ‘aquilo a que odeia’ será destruído

A frase foi escrita por Baruch Espinosa (ou, se você preferir, Benedictus de Spinoza), no livro Ética: “Quem imagina que aquilo a que odeia é destruído, se alegrará”. É a proposição de número 20 da parte terceira desse clássico essencial. Isso mesmo: o ódio alegra os viventes.

Espinosa nasceu no dia 24 de novembro (data boa) de 1632, em Amsterdã, numa família de origem judaico-portuguesa (falava o nosso idioma), e morreu em Haia, aos 44 anos. Esse tempo lhe bastou. Ninguém, como ele, escrutinou as afecções do espírito que nos aprisiona. Ninguém, como ele, ensinou que o ódio é inimigo do pensamento e da felicidade. Ninguém, como ele, foi tão incompreendido.

Na apresentação que fez para a edição de Ética publicada pela Edusp em 2015, Marilena Chaui diz que a obra desse pensador inigualável “faz desabar os pilares que sustentam a superstição religiosa, a tirania política e a servidão ética”. Ela tem razão, mas, na vida cotidiana, os pilares não desabaram. Na campanha eleitoral que aí está, o ódio, o medo, o remorso e o ressentimento falam mais alto. Os pilares da superstição religiosa, da tirania e da servidão continuam firmes, para o gozo das multidões. O ódio presenteia o eleitorado apenas com momentos de alegria, mas com doses viciantes de euforia.

Olhe à sua volta, por um minuto que seja. Muita gente aí do seu lado celebra por antecipação o vislumbre de que “aquilo a que odeia” será destruído. Nessas celebrações, acendemse faíscas opacas em olhos que não veem. É um ódio com tamanha carga, com tanto investimento pulsional, que a gente pode até tocá-lo com os dedos. É um ódio que se avoluma, ganha concretude, ocupa lugar no espaço e pesa feito chumbo. É o ódio dos fanáticos.

Mas em que consiste o objeto desse sentimento atroz? A pergunta incomoda, eu sei, mas, se queremos pensar a respeito, temos de enfrentá-la. Não que alguém aqui seja capaz de desarmar a fúria e o ressentimento. Eu apenas diria que, se soubermos pensar, ao menos um pouco, será possível entender um pouco do que se deu conosco. Vamos lá.

O epicentro do malquerer se materializa na personalidade do atual presidente da República, como todo mundo sabe. Odeia-se Lula. Odeia-se o lulismo. Comecemos, pois, pelo que está à mostra. Os índices de rejeição ao atual chefe do governo aparecem nas pesquisas de todo dia, inamovíveis. Não é preciso muito esforço para ver que eles não se devem a uma escolha eleitoral de momento. Os índices de rejeição não são um dado da conjuntura, mas se vinculam a um asco que remonta a forças imperiosas do passado. Trata-se de uma parede sólida que finca alicerces no nosso marco civilizatório – ou na nossa incivilidade ancestral. Vista por esse ângulo, a hostilidade raivosa contra o presidente mal dissimula seus traços de patriarcalismo, de intolerância à visibilidade pública da pobreza e de preconceito de cor.

Nada de novo sob o sol dos trópicos, infelizmente. Mas, à medida que a análise crítica procura ir além do visível, descortinam-se alguns veios por baixo da cena aparente. Esses veios compõem uma trama de muitos nós que reproduz a influência do presidente em todas as dimensões da vida social. Explicando melhor: a liderança do governante instaurou figuras de menor projeção que o representam (por mimetismo ou por emulação) em planos mais exíguos, que vão se subdividindo nas comunidades, nos ambientes de trabalho, nos locais de diversão, nas igrejas e, por fim, nas esferas mais recônditas da intimidade, seja nos círculos de amizade, seja nos laços familiares.

O lulismo – o pacto do “reformismo fraco”, na definição do cientista político André Singer – soube, assim, ramificar-se em rede até os âmbitos mais ínfimos. Toda gente tem lá um conhecido, uma amiga, um primo ou uma irmã que funcionam como o expoente governista dentro de casa. Por efeito dessa trama que faz do lulismo uma rede coesa, o repúdio incontido contra o chefe de Estado, que está lá longe, ganha tradução num repúdio menos declarado contra personagens que estão mais próximas ou muito próximas.

Assim, aquele sujeito reacionário, pouco versado nas verborragias da política, que perde todas as discussões na mesa de almoço de domingo para o cunhado de esquerda, falante e saidinho, vai votar no candidato da extrema direita antidemocrática só para se vingar. Vai votar bufando. Vai usar a urna para desopilar e, no mesmo ato, vai dar o troco no cunhado a quem dedica uma aversão maldisfarçada, silenciosa e ressentida.

Não há dúvida. Os ódios íntimos, principalmente aqueles mais mesquinhos e desprezíveis (embora atados ao grande ódio que se arrasta, pestilento, desde os tempos da colônia), incidirão sobre o resultado das eleições deste mês de outubro. Isso acontecerá não porque somos um país governado pelo PT, mas porque somos um país governado pelo ódio. Muitos de nós padecemos da “impotência” a que Espinosa deu o nome de “servidão”: a “incapacidade de moderar ou coibir os afetos”. O filósofo ensinou que “o homem submetido aos afetos não é senhor de si”. Esse homem, porém, poderá ser o senhor do destino do Brasil.

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A SALA DE LANCHES E A GUERRA FRIA NO STF

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Ministros do tribunal se encontram antes das sessões para tomar café em ambiente tenso

Nos dias de sessão, antes de entrarem no plenário, os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) se encontram em uma espécie de antessala. Um biombo de madeira confere alguma privacidade às conversas diante de uma grande mesa redonda. São servidos café e petiscos. A crise na Corte alcançou esse espaço e mudou a forma como os ministros interagem nele.

Se na sessão do dia 15 os ministros trocaram acusações aos gritos; longe das câmeras da TV Justiça, a atmosfera também está ruim, mas de um jeito diferente. A sala de lanches, de onde era possível ouvir gargalhadas, ficou mais silenciosa e menos frequentada. Cármen Lúcia, por exemplo, evita encontrar os colegas no ambiente. Na semana passada, o clima estava “ameno”, segundo um dos presentes. Edson Fachin, Cristiano Zanin, Alexandre de Moraes, Dias Toffoli, André Mendonça, Luiz Fux, Kassio Nunes Marques e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, se encontraram na antessala.

Nem todos quiseram compartilhar da mesma mesa. Alguns se instalaram em um sofá que fica ao lado para conversar com colegas de quem são mais próximos. Dessa forma, evitaram fazer contato visual e cumprimentar quem estava na “ala da mesa”.

Apesar das conversas triviais e de risadas discretas, o ar era de guerra fria. Desde que Mendonça divulgou o relatório com indícios contra Moraes, os dois não trocam palavra. O silêncio foi estendido à relação entre Moraes e Luiz Fux – que, por sua vez, saiu em defesa de Mendonça.

Ninguém falou do assunto na sala de lanches. A distância física guardada entre os ministros revelava, porém, quem rompeu com quem. No plenário, a geopolítica é outra. A ordem dos assentos obedece ao critério de antiguidade. Moraes senta-se ao lado de Mendonça. Continuam sem se falar – porém, a poucos palmos de distância.

Fachin tenta ser “algodão entre cristais”, para lembrar a metáfora de Marco Aurélio Mello, ministro aposentado, ao descrever o papel do presidente do STF. Ultimamente, inclui temas unânimes na pauta do plenário, para não dar margem a discussões. Na semana passada, foi julgado um processo sobre licença-maternidade.

A sala de lanches do Supremo já foi palco de embates memoráveis. Em uma situação mais dramática, o ex-procurador-geral da República Rodrigo Janot contou que, em 2017, no auge da Lava Jato, foi armado com um revólver até a sala de lanches para atirar em Gilmar Mendes e, em seguida, cometer suicídio. Janot disse que desistiu ao chegar ao local. Gilmar recomendou ajuda psiquiátrica ao então procurador.

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O DEVER CRISTÃO DE SE MANTER INFORMADO

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

Voto que ignora tudo de mais cruel e sinistro no país também ofende a Cristo

Mas tenho direito à ignorância e sou livre para renunciar à minha liberdade

Eu posso ignorar que Flávio Bolsonaro alimenta uma perigosa semente de guerra religiosa ao anunciar que seu primeiro ato, se eleito, será decretar "Brasil é do Senhor Jesus Cristo". Guerra dentro do próprio cristianismo.

Posso ignorar que o pastor JB Carvalho, fundador da igreja onde Flávio foi batizado em 2023, acusa prostituição religiosa da Igreja Católica, e que o pastor Victório Galli, ex-deputado e assessor de Jair, apresentou projeto de lei para retirar de Nossa Senhora Aparecida o título de Padroeira do Brasil. Posso ignorar o ataque a bispos da CNBB e os riscos à liberdade religiosa.

Posso ignorar o desprezo de Flávio por mulheres, sua rejeição à Lei Maria da Penha, seu orgulho de "não ser feministo" e de lutar apenas por "mulheres de verdade". Posso ignorar correntes bolsonaristas que se opõem ao voto feminino, que ganham tração nos porões extremistas do Brasil e dos Estados Unidos.

Posso ignorar conexões de Flávio com o miliciano Adriano da Nóbrega, com Major Ronald e Robson Calixto (condenados no caso Marielle), com Domingos Brazão; posso ignorar construção de seu patrimônio ligada a transações em dinheiro vivo e à loja de chocolates; ou suas relações com Willer Tomaz e Daniel Vorcaro, com o Careca do INSS, com Rodrigo Bacellar e Cláudio Castro.

Posso ignorar que André Mendonça expôs fatos graves sobre Alexandre de Moraes e não fez nada equivalente para informar o eleitor sobre Ciro Nogueira, Cláudio Castro, Ibaneis Rocha, Dias Toffoli, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Mendonça nem sequer deu transparência à sua própria relação com Vorcaro e aos contratos públicos de seu instituto, do qual se retirou sem esclarecer se deixará de prestar serviços ou usar de sua autoridade para renda privada. Ou se foi um delito ético, que continua sem explicar. Posso ignorar que, na série extravagante de ordens monocráticas do STF, nenhuma se compara em radicalidade e lesividade eleitoral às de Mendonça.

Posso ignorar que Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Kassio Nunes anularam provas produzidas contra Flávio no caso das "rachadinhas".

Posso ignorar tudo isso e chamar fatos documentados de fake news. Tenho direito de acreditar e abraçar a mentira. Afinal, tenho direito à ignorância. Sou livre para, sendo ignorante, renunciar à minha liberdade. Livre para a servidão. Esses paradoxos do direito constitucional e da moralidade política me favorecem.

A ética da ignorância estratégica, aquele modo insincero de se relacionar com a verdade, pode confortar a consciência. Contudo, é incompatível com qualquer conceito não cínico de pessoa de bem, com qualquer fé que se preocupa com o próximo, como a fé cristã. A Bíblia condena a "ignorância deliberada", e há responsabilidade espiritual por tamanha cegueira voluntária.

Informar-se é um direito-dever cívico, como o voto. Voto livre depende de boa informação. Voto que ignora tanta coisa e apoia candidato-símbolo das práticas mais cruéis e sinistras da sociedade brasileira, sem deixar nada de fora, nem tortura ou crime organizado, nem corrupção ou exploração da fé alheia, também é insustentável na fé cristã.

Posso ter direito à ignorância. Só não posso exercer esse direito e reivindicar amor em Cristo. Se Deus existe, Deus está me vendo.

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BOLSONAROS PROPÕE CAÇA ÀS BRUXAS NO ITAMARATY

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Eduardo diz que haverá 'faxina' no órgão se irmão for eleito

E há o risco de a promessa se alastrar para outros órgãos, como PF e BC

Duas reportagens de Patrícia Campos Mello publicadas nesta quarta (30) na Folha detalham como seria a política externa de Flávio Bolsonaro, se eleito.

Depois do isolacionismo implementado durante o governo de seu pai, Jair Bolsonaro, a equipe de Flávio buscará, se bem-sucedida nas eleições, intensificar o alinhamento aos EUA, no estilo e na condução da política externa. O projeto possui um codinome: "reforma do Marco Rubio", referência ao belicoso secretário de Estado americano.

O que se propõe, afinal, é uma mudança radical do lugar da diplomacia do Brasil no mundo. Seria um cavalo de pau na política externa brasileira, que se tornaria menos multilateral e mais subserviente aos EUA; menos pragmática e mais ideológica, privilegiando alinhamentos a países sob a liderança da direita; mais conflituosa com a China e com o Brics em geral.

Ficam as perguntas sobre se o agro brasileiro está disposto a pagar a conta de tensões com os chineses e se a população estaria disposta a debater Pix, big techs e temas afins com os EUA.

O alvo principal seria o próprio Itamaraty, com uma reestruturação à la Rubio do corpo diplomático, com menor participação de diplomatas de carreira e mais indicações políticas, ou seja, menos João Cabral de Melo Neto e mais Filipe Martins. Hoje, apenas 9% dos embaixadores americanos vêm do corpo diplomático, evidenciando a partidarização da carreira.

Direto dos EUA, Eduardo Bolsonaro propôs uma "faxina" (leia-se caça às bruxas) no Itamaraty se o irmão for eleito, o que eleva o risco real de perseguição política no órgão.

Trata-se de um erro para o Brasil, que se beneficia, inclusive economicamente, da habilidade histórica da diplomacia de dialogar e negociar com o espectro mais amplo possível de países. E há o risco de que a caça às bruxas se alastre para outros órgãos, como Polícia Federal e Banco Central.

Um corpo técnico no alto funcionalismo é indispensável para a qualidade do Estado, da diplomacia ao combate à corrupção, e é isso o que está sob ameaça.

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GUERRA SANTA É APENAS SINTOMA DO VALE-TUDO DA POLÍTICA DE UM PAÍS SOB AMEAÇA DE GOLPES

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Campanha de 2010 também teve questão religiosa oportunista; 2026 é muito pior

Selvageria que tira carne e medula do osso das instituições é a nova regra do jogo

A eleição para presidente de 2010 teve "guerra santa". Era um indício de que o caldo político começava a azedar. A gente não sabia então que se tratava do começo do caminho para o fim da picada.

Uma campanha odienta, início de desarranjo econômico, mudança institucional quase parando e corrupções eram problemas, mas talvez transitórios —até para um pessimista. A "guerra santa" de 2026 é aspecto menor do buraco em que nos metemos.

Dilma Rousseff (PT) foi chamada de "abortista" na campanha de 2010. Anos antes, dissera que a interrupção voluntária da gravidez era assunto de saúde pública. A campanha de José Serra (PSDB) se valeu do rótulo que ajudou a carimbar na adversária.

Sacerdotes católicos distribuíam panfletos ou faziam sermões contra o aborto. Havia correntes de e-mails sobre o assunto. Perto do que se vê hoje, parecia até querela teológica.

A campanha de Dilma na TV passou a ressaltar a "formação moral e religiosa" dela. Serra fazia caminhada com padres e beijava terços. No segundo turno, Dilma e Serra foram a Aparecida. Serra dizia que o PSDB não inventara a "questão religiosa" na eleição; que o governo do PT havia criado suspeitas ao aprovar o Terceiro Plano Nacional de Direitos Humanos (de 2009), prato cheio para conservadores e oportunistas, além de cheio de disparates de fato.

Na "guerra santa" de 2026, uma mentira diz que Flávio Bolsonaro (PL) apoiaria um projeto para tirar de Nossa Senhora Aparecida o título de padroeira do Brasil. No mais, é verdade que rumores exploram o fato de que certos grupos evangélicos, alguns aliados do bolsonarismo, fazem campanha contra a igreja católica e suas formas de culto (e contra o candomblé e a umbanda também). Lulistas são acusados de instigar conflito religioso a fim de tirar voto do adversário, assim como bolsonaristas. É verdade.

O comentarismo observa a suposta ironia da situação, de bolsonaristas "provarem do próprio veneno" das "fake news" —é verdade. Condena lulistas dizendo que não existem "fake news" do bem —é verdade. Mas é parte pequena da verdade saber quem prova qual veneno ou começou a usar gás mostarda nas trincheiras. O que não implica dizer que a balança da desrazão está equilibrada. Jair Bolsonaro colocou Deus acima de tudo no seu mote político, fez da propaganda e da mentira digitais o núcleo de seu movimento político. Presidente, dizia que haveria eleição apenas de acordo com sua vontade e tentou um golpe.

Importante é que o padrão da disputa política se tornou o vale-tudo. Quem ignorar as novas regras do jogo se arrisca a perder a eleição, voto do Supremo ou as graças podres do Congresso. Não se trata de dizer que "bonzinhos" apenas reagem, essa conversa infantil. Trata-se de atitude que transforma instituições em esqueleto sem carne e sem medula. Daqui a pouco, pode ser que nem mais esqueleto exista.

O vale-tudo foi a tônica da República até a Constituição de 1988. Sempre haverá quem queira esticar a corda. Mas, com boa vontade, se pode dizer que houve alguma contenção de 1992 (impeachment de Collor) a 2014.

Vale-tudo haverá até que a selvageria perca eficácia, o que é difícil de acontecer sem reconstrução política. Isto é, forças sociais que criem ou influenciem movimentos e partidos políticos que reajam ao projeto de destruição institucional e democrática, o que não está no horizonte. "Guerra santa" é pouco. É outro sintoma de coisa muito pior.

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A ÚLTIMA ELEIÇÃO DA NOVA REPÚBLICA

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Direitas optaram por entregar liderança à sua facção mais autoritária

Esquerdas têm que oferecer tradução renovada de seus compromissos

O presidente Lula, seu vice, Geraldo Alckmin, e o ex-governador de Goiás e candidato, Ronaldo Caiado, são os três últimos políticos de projeção nacional que participaram da Constituinte de 1987-88. Todos os seus contemporâneos já saíram de cena. Esta será, por assim dizer, a última eleição da Nova República.

As direitas, em transição geracional, optaram por entregar a liderança à sua facção mais autoritária e mais descomprometida com a democracia e as conquistas sociais dos últimos 40 anos. Tendo, enfim, produzido um líder popular, capaz de transferir votos a seu filho, o direitismo prefere correr com ele o risco de levar o país a parte alguma.

Abertas as urnas, o campo progressista terá de pensar na vida ­ literalmente. Instaladas no Palácio do Planalto ou amargando a oposição, as lideranças maiores da centro-esquerda, por imperativo da natureza, deverão passar o comando aos mais jovens.

A transição é desafiadora. Afinal, não se trata apenas de encontrar quem substitua um líder popular, cujo apelo eleitoral vai além do que sua legenda e seus aliados são capazes de mobilizar. Supõe, também, oferecer tradução renovada do compromisso com a equidade no acesso a recursos; com o bem-estar social; com a igualdade política; com as liberdades e direitos fundamentais que definem o progressismo democrático.

A Carta de 1988 cristalizou uma versão daquele compromisso por meio de dois pactos implícitos. O primeiro em torno de um modelo de democracia liberal que limitou a concentração de poder no Executivo, fragmentou a representação política e fortaleceu as instituições de controle, especialmente o Judiciário. O segundo, já descrito pelo economista Samuel Pessôa, foi social. Implicou na garantia constitucional de um conjunto de direitos, materializados no SUS, no Fundef, no BPC (Benefício de Prestação Continuada), nas regras previdenciárias e na renda básica familiar, que a legislação ordinária traduziria no Bolsa Família.

Os reiterados episódios de escarrapachada corrupção, do mensalão ao Banco Master; a disputa entre Congresso e Executivo pelo controle da parte do Orçamento não comprometida com gastos obrigatórios; enfim o desmoronamento da autoridade moral do Supremo estão a pedir ao progressismo algo mais que realista acomodação à política como ela é.

Por outro lado, o êxito dos programas que materializaram o "pacto social" da Constituição alimentou novas demandas e aspirações —por mais qualidade e eficiência dos serviços públicos— e está a requerer engenho para ajustá-las às inescapáveis limitações fiscais. Sem falar nas transformações no mercado de trabalho que esperam respostas diferentes das arroladas na vetusta CLT.

Na verdade, a Nova República terminou em 2018, quando a extrema direita ascendeu na maré de descontentamento pelas promessas que a democracia não cumpriu e pelos soberbos erros do governo Rousseff. Os pactos que a viabilizaram já não são possíveis. Com as direitas nos braços de seus líderes mais fanáticos, o convívio civilizado e a esperança de um país decente, dependerão, ao menos por ora, do "aggiornamento" da centro-esquerda.

Fará diferença se ocorrer sob um governo seu ou na oposição ao obscurantismo.

Para o país, uma diferença vital.

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DONALD TRUMP É UM SER HUMANO HORRÍVEL QUE VIRALIZA DAS PIORES FORMAS

The New York Times / Folha de S. Paulo

Imaginação pútrida do presidente deixa os EUA expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos

Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso

Donald Trump é um ser humano tão horrível que até escrever sobre ele parece degradante. Que presidente menosprezaria seu antecessor diante do líder da China da maneira como Trump zombou de Joe Biden, que agora sofre de câncer, ao apontar que um quadro com a imagem de uma caneta automática estava pendurado na Casa Branca no lugar do retrato de Biden?

Infelizmente, porém, quando alguém tão moralmente deformado quanto Trump —cujo primeiro secretário de Estado o chamou de "idiota"— assume tanto poder sem qualquer controle no alvorecer da Era da Inteligência Artificial, não se pode ignorá-lo.

Porque, neste momento, Trump está deixando os Estados Unidos expostos a vírus perigosos: digitais, biológicos e diplomáticos. Algo ruim vai nos acontecer como resultado disso. Nós e nossos filhos pagaremos por isso, e não apenas na hora de abastecer o carro.

Comecemos pelo vírus digital que está à solta. Recentemente, OpenAI, Anthropic, Meta e Google revelaram, todas elas, incidentes nos quais seus modelos de inteligência artificial escaparam ao controle e saíram por aí invadindo outros sistemas de computador —incluindo um site do governo australiano, a plataforma Hugging Face e sites do Departamento de Comércio e da Comissão de Valores Mobiliários americana.

Lembrem-se: esses são sistemas de IA ainda na infância; estão de fraldas e ainda não foram potencializados pelo treinamento completo de si mesmos, que os levará a deixar para trás seus projetistas humanos.

E lembrem-se também de que as histórias acima dizem respeito ao que os mocinhos estão fazendo. Converse com qualquer grande especialista em cibersegurança de uma grande empresa americana e você ficará aterrorizado com as histórias sobre o que os bandidos estão fazendo com modelos menores de IA que conseguiram obter, dos quais foram retirados os mecanismos de controle.

O Relatório Global de Ameaças da CrowdStrike afirmou que os ataques de "adversários habilitados por IA" aumentaram 89% em 2025 na comparação com o ano anterior, segundo a revista Infosecurity Magazine, em fevereiro —e o ritmo disparou desde então.

Mas não tenham medo, porque nosso presidente, que nem sequer usa email, disse às Nações Unidas na semana passada que sabe que nossos temores em relação à segurança da IA são fraudulentos. Ele se referiu às "mesmas pessoas que disseram que todos estaríamos mortos em 12 anos por causa do aquecimento global". E acrescentou: "E ninguém morreu. São as mesmas pessoas que agora dizem que a IA vai nos matar a todos".

Milhares de pessoas morreram em catástrofes agravadas pelas mudanças climáticas na última década, e só na imaginação pútrida de Trump alguém disse: "Senhor, todos estaremos mortos em 12 anos".

Trump e seu partido —assim como os magnatas da tecnologia da IA que, na prática, pagaram a eles para que não interfiram em seu setor— deveriam rezar para que a "surpresa de outubro" nas próximas eleições legislativas de meio de mandato não seja um grande evento destrutivo envolvendo IA.

Se for, é melhor que tenham suas espaçonaves prontas para levá-los a outro planeta, onde possam viver para sempre, porque este evento talvez transforme suas existências em um inferno.

Essa ameaça da IA não é uma farsa (assim como a ameaça climática não é uma farsa, como Trump saberia se algum dia consultasse o site da Nasa de seu próprio governo). A única farsa é Trump, que certa vez sugeriu que injetar água sanitária poderia ser uma boa maneira de se livrar da Covid-19, achar que sabe alguma coisa sobre IA ou mudanças climáticas —ou água sanitária.

Gostaria que a única ameaça que a ignorância desenfreada de Trump representasse para nós fosse um vírus de IA. Infelizmente, na semana passada, Apoorva Mandavilli, minha colega do New York Times, noticiou que os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC), por muito tempo considerados "líderes globais incontestáveis em saúde pública", foram tão sistematicamente desmantelados pelo secretário de Saúde, Robert F. Kennedy Jr., que agora são "um esqueleto do que já foi uma potência".

Não apenas o quadro de funcionários do CDC foi reduzido em cerca de 30%, como, segundo Mandavilli, citando funcionários atuais e antigos, "as mudanças prejudicaram a capacidade do CDC de responder a surtos, enquanto o sarampo se espalha dentro do país, e o ebola, no exterior, e de emitir orientações oportunas sobre vacinação à medida que a queda das temperaturas dá início à temporada de doenças respiratórias. Divisões inteiras foram fechadas, incluindo equipes que trabalhavam com tabagismo, violência sexual, abuso infantil e quedas entre idosos".

O jornal The Guardian publicou uma reportagem sobre a disseminação do surto de sarampo na Pensilvânia, que já ultrapassou 900 casos. O médico John Goldman, especialista em doenças infecciosas do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh, disse que, entre 1992 e 2026, não havia visto um único caso, segundo o Guardian. Agora, "estamos vendo pelo menos um por dia".

E acrescentou: "Nunca na minha vida pensei que voltaria a ver sarampo". Esse é um exemplo de como a negligência de Trump está ajudando a disseminar vírus biológicos de verdade.

Mas não se esqueçam também do vírus antidiplomático, que igualmente está minando nossas forças. O que seria isso? Uma reportagem do jornal israelense Haaretz, assinada por seu especialista em assuntos do Oriente Médio, Zvi Bar’el, descreveu como a incompetência diplomática do governo Trump e a malevolência do gabinete do primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu, se combinaram para paralisar o plano de paz de 20 pontos de Trump para a Faixa de Gaza.

Assim, os civis palestinos, muitos deles vivendo em edifícios destruídos pela guerra —um dos quais desabou em 16 de setembro, matando pelo menos 21 pessoas, incluindo 11 crianças—, continuam em condições de absoluta miséria.

Quando Trump lançou seu tão alardeado Conselho da Paz e se tornou seu presidente, os países participantes prometeram US$ 17 bilhões para Gaza. Mas, "até onde se sabe, menos de US$ 300 milhões foram transferidos", informou Bar’el.

Além disso, a força internacional de estabilização prevista no plano de paz ainda não foi criada. A força policial palestina que deveria substituir o Hamas, sob a supervisão de um governo tecnocrático palestino, deveria receber treinamento no Egito, "mas Israel está impedindo que seus integrantes deixem Gaza", segundo Bar’el.

Aprendi ao longo dos anos que a diplomacia também funciona como um vírus, de maneira benéfica ou prejudicial: quanto mais sucesso você tem, mais respeito conquista; quanto mais respeito conquista, mais sucesso obtém. No sentido inverso, quanto mais fracassos acumula, menos os aliados confiam em se juntar a você, o que leva a mais fracassos.

Um exemplo: entre março e outubro de 1991, o secretário de Estado James Baker fez oito viagens diplomáticas ao Oriente Médio para organizar a Conferência de Paz de Madri —a primeira entre Israel, a Organização para a Libertação da Palestina e vários Estados árabes. Acompanhei as oito viagens com ele, como correspondente diplomático do NYT. Ele fracassou nas sete primeiras, mas Baker não desistiu e conseguiu realizar a conferência na oitava.

Mostrem-me uma única iniciativa diplomática que o governo Trump tenha desenvolvido desde o cessar-fogo em Gaza, que Trump deixou definhar. É como se tudo o que lhe importasse fosse a manchete sobre a assinatura do acordo, após a qual ele declarou, espantosamente, em 13 de outubro do ano passado: "Juntos, conseguimos o que todos diziam ser impossível. Finalmente temos paz no Oriente Médio".

Isso, sim, é o que chamo de uma verdadeira farsa.

Não há um acompanhamento enérgico e concentrado porque não existem linhas claras de autoridade. Temos Thomas Barrack, enviado especial para Síria e Iraque e embaixador na Turquia, fazendo suas próprias declarações sobre políticas. Temos Massad Fares Boulos, sogro de Tiffany, filha de Trump, atuando como assessor sênior do presidente para assuntos árabes e do Oriente Médio. Temos Jared Kushner e Steve Witkoff, que atuam em tempo parcial. Temos vários subsecretários de Estado e de Defesa. E temos Trump em suas redes sociais. (Alguém ainda vai transformar isso em um musical!)

O que não temos é um secretário de Estado como Baker, que se concentre incansavelmente em mobilizar o poder dos Estados Unidos e que faça viagem após viagem, até cumprir a missão.

A única coisa que Trump acompanha incansavelmente é a perseguição à imprensa. No último sábado, depois de ser obrigado por um juiz a permitir que repórteres da CNN voltassem à Casa Branca, após Trump tê-los banido ilegalmente porque a cobertura da emissora não era bajuladora o suficiente, o presidente ainda assim impediu que a CNN o acompanhasse no Air Force One para assistir a uma partida de futebol americano no Tennessee.

Quando se trata de denunciar a imprensa, Trump tem foco absoluto. Mas, ao lidar com os vírus digitais, biológicos e diplomáticos que enfraquecem o sistema imunológico nacional, nem tanto —para nosso enorme risco.

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