segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ATÉ QUANDO A ELITE VAI IGNORAR VIDAS NEGRAS ?

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Reconhecer o impacto do racismo na vida de milhões não é prioridade no país mais negro fora da África

Apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência têm propostas para enfrentar racismo e desigualdades étnico-raciais

Na semana da independência, me pego pensando no quanto a nação brasileira é historicamente negligente com seu povo. A ruptura com Portugal, eternizada pelo simbólico grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, foi mais um dos inúmeros momentos em que somente anseios da elite (formada por latifundiários e burocratas que dependiam da mão de obra escravizada) foram contemplados.

A despeito da participação de pretos e mestiços em movimentos e revoltas pró-independência, os negros (que naquela época já compunham o maior contingente populacional do país e reivindicavam melhores condições de vida e igualdade de direitos) foram excluídos do sonho de liberdade.

A colônia "se libertou" de Portugal, mas os negros não se libertaram da escravização, abolida 66 anos depois da independência. Como afirmou o historiador Luiz Felipe de Alencastro, somos um país que nasceu apostando no futuro da escravização. Os efeitos dessa aposta são notórios e impactam brutalmente milhões de brasileiros.

Em menos de um mês, teremos eleições gerais. A mim, chama atenção que apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência da República apresentem nos programas de governo propostas para enfrentar o racismo institucionalizado nestas terras. Entendo que isso diz muito sobre o nosso projeto de nação.

Apesar de todos os índices que relacionam a falta de oportunidades e a precarização das condições de vida dos brasileiros à questão étnico-racial, reconhecer o impacto do racismo no cotidiano e enfrentar o problema ainda não são prioridades no país que concentra a maior população negra fora da África.

Em contraponto, há alguns dias o Comitê das Nações Unidas Contra a Discriminação Racial (CERD) recomendou que os Estados adotem medidas de reparação pelos danos provocados pelo tráfico transatlântico de africanos, pela escravização e por seus efeitos persistentes sobre pessoas de ascendência africana.

Me pergunto até quando o Brasil vai apoiar o pacto de uma elite que insiste em ignorar os direitos da população negra?

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domingo, 6 de setembro de 2026

O QUE PROTEGER EM TEMPOS EXTREMOS

Míriam Leitão, O Globo

A confiança na democracia está se estiolando, num país ferido pela polarização e com reflexos do maior escândalo financeiro da história

Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.

A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.

O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.

Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.

Os fatos são importantes. Vorcaro tentava falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.

O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num banco público, o BRB. O senador Flávio Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro, sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de dinheiro que recebeu.

O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.

Uma autoridade que acompanhou os momentos nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não deixar o cara escapar naquela noite”.

A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.

As próximas semanas serão muito tensas. Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a democracia.

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O AUTORITARISMO REVIVIDO

Merval Pereira, O Globo

A manipulação da Suprema Corte dos EUA pelo presidente Roosevelt e a cassação de ministros no Brasil em 1969 são exemplos de controles das Cortes

A politização do Supremo Tribunal Federal (STF) deu início a essa crise institucional que estamos vivendo que, com diferenças de características sociais e geopolíticas, se repete em diversos países. De aspirantes a ditadores até a democracias liberais, o papel das Cortes Superiores vem ganhando uma dimensão política que não se coaduna com princípios de equilíbrio de poderes de uma democracia. O poder excessivo do ministro Alexandre de Moraes é exemplar dessa situação.

Na semana passada, debatendo o tema do autoritarismo na Academia Brasileira de Letras a partir de conferências feitas pelo embaixador e acadêmico João Almino, discutimos a questão dos “democratas autoritários”, título de um livro do próprio Almino, a partir da aceitação de que estamos vivendo um momento de regressão política e de abandono da experiência democrática em vários lugares do mundo, o que nos levou ao momento que vive o país.

Almino trouxe ao debate uma tese do filosofo francês Claude Lefort, segundo quem a democracia não é um regime político, mas uma formação social. Por isso, ressaltou João Almino, é importante que entendamos as atuais tendências políticas como o afloramento da personalidade autoritária na sociedade e de determinados traços culturais. O impulso reacionário contém o desejo da volta a um tempo que nunca existiu, se veste com uma capa superficial de defesa da democracia, da liberdade e da civilização ocidental.

A paranoia anticomunista é a busca de pelo em ovo, que pode ser o da serpente. Amalgamadas na política externa dos Estados Unidos sob Trump, as tendências atuais do totalitarismo associam liberdade e civilização ocidental com propósitos políticos, o que não passa de um equívoco histórico, excepcionalismos com pretensões de superioridade, adverte Almino. Estados Unidos e Europa foram palco do totalitarismo, notadamente o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália. Os Estados Unidos, considerado país exemplar na prática democrática, viveu a experiência do macarthismo entre o fim dos anos 1940 e a década de 1950, e ainda hoje presenciamos ataques à livre expressão das liberdades civis, de imprensa.

O Ocidentalismo justificou a dominação externa em torno de um pensamento de que o Ocidente é essencialmente livre, legitimando o imperialismo e a defesa cultural contra valores estrangeiros. Com a palestra, lembrei-me de que a manipulação da Suprema Corte dos Estados Unidos começou com o presidente Roosevelt, que reagiu à manifestação da maioria conservadora contra seu projeto de reforma do programa New Deal. Ele ameaçou aumentar o número de cadeiras até que conseguisse maioria no plenário. Conseguiu “convencer” os Justices e aprovou o programa.

Mais tarde, o sistema foi adotado por vários governantes, que assim assumiram o controle da Corte e respaldaram uma ditadura, como aconteceu no Brasil, em 1969, quando o governo militar cassou os ministros Evandro Lins e Silva, Victor Nunes Leal e Hermes Lima. Dois ministros renunciaram em protesto, o então presidente do STF Antonio Gonçalves de Oliveira e Antonio Carlos Lafayette de Andrada. Estamos caminhando para a expansão geográfica do autoritarismo. Temos também nos Estados Unidos um exemplo de leniência com desvios éticos que demonstram como a democracia por lá anda corrompida.

A Corte Suprema tem em sua história a cassação por suborno do ministro Abe Fortas, em 1969, por ter recebido U$ 20 mil de uma fundação cujo dono estava sob investigação. Mesmo assim, não foi processado criminalmente, mas renunciou devido à pressão pública. No único processo de impeachment, Samuel Chase em 1804 foi condenado pela Câmara, mas o Senado não deu quorum para julga-lo. Mais recentemente os juízes Clarence Thomas e Samuel Alito foram denunciados pelo recebimento de mordomias de empresários diversos, um pedido de impeachment foi feito na Câmara, mas não foi adiante. Como não havia uma proibição explícita de receber presentes ou mordomias, resolveu-se o caso com a edição de um Código de Ética. Já viram esse filme?

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UM MORTO-VIVO NA ELEIÇÃO DO RIO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Cláudio Castro se lambuzava em caviar enquanto estado era rapinado, indica PF

Um fantasma ronda a disputa pelo Palácio Guanabara: o fantasma de Cláudio Castro. O ex-governador virou um morto-vivo na política fluminense. Os aliados fingem não conhecê-lo, e os rivais apostam nele como anticabo eleitoral.

O candidato do PL, Douglas Ruas, esconde o antigo chefe da propaganda partidária. Na TV, ele é apenas um caminhante solitário que esbraveja contra o “Rio da novela” e repete que “a gente não criou esses problemas”. Quem terá criado?

Os bolsonaristas que concorrem ao Senado também fazem ginástica para se distanciar do ex-governador. “Nunca fui aliado de Castro”, diz Carlos Jordy. “Não preciso defender o legado dos outros. Cada um tem seu CPF”, emenda Carlos Portinho.

Castro não cai no ostracismo completo porque há quem insista em lembrá-lo no horário eleitoral. O candidato do PSD, Eduardo Paes, tem explorado vídeos em que o ex-governador chama Ruas de “amigo” e “irmão”.

Faz com o adversário o que fizeram com ele em 2018, quando seu ex-padrinho Sérgio Cabral cumpria pena em Bangu 8 e estrelava a propaganda de Wilson Witzel.

Na quinta-feira, Castro voltou a um lugar que já conhece bem: as páginas policiais. Um novo relatório da PF expôs sua intimidade com Ricardo Magro, considerado o maior sonegador do país. A amizade era nutrida por mordomias e viagens ao exterior. “Aqui vc tem um amigo”, derramou-se o então governador em 2025, após boca-livre em Nova York custeada pelo dono da Refit.

A PF afirma que Castro “direcionou todos os esforços de sua máquina pública” em favor de Magro. Teria mobilizado duas secretarias, a Procuradoria-Geral do Estado e a Polícia Civil para proteger o comparsa, que está foragido nos EUA e deve R$ 9,4 bilhões ao estado.

A investigação ainda identificou um advogado suspeito de atuar como laranja de Castro. Como um larápio de chanchada, o ex-governador esvaziou os cofres e se lambuzou de caviar. Numa só tacada, torrou R$ 10.500 em ovas de esturjão.

A iguaria foi paga por uma empresa em nome do laranja. “Caviar é comida de rico / Curioso fico, só sei que se come”, ensina o samba gravado por Zeca Pagodinho. A composição de Barbeirinho do Jacarezinho, Luiz Grande e Marquinhos Diniz é mais conhecida pelo refrão: “Você sabe o que é caviar? / Nunca vi, nem comi / Eu só ouço falar”.

É o que os velhos aliados dizem hoje de Castro.

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Apertem os cintos

Edson Fachin está prestes a entrar na segunda metade de seu biênio na presidência do Supremo. Em setembro de 2027, terá que passar a cadeira ao ministro mais antigo dos que ainda não a ocuparam.

Pela ordem atual do rodízio, seria a vez de Alexandre de Moraes. Se ele não estiver mais na Corte, assume o ministro Kassio Nunes Marques, tendo como sucessor André Mendonça.

Num cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, o novo governo conviverá com um novo Supremo, dirigido pelos dois ministros indicados pelo pai do presidente.

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A RESPONSABILIDADE DO SUPREMO

Elio Gaspari, O Globo

No meio da disputa entre Mendonça e Moraes, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Daniel Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade

Os dez ministros do Supremo precisam olhar para a estatueta da Justiça que enfeita seus gabinetes. Ela é cega.

O presidente do tribunal, Edson Fachin, sabe que a estratégia da turma do Vorcaro é obter a nulidade de todo o processo e de suas provas. Afinal, o banqueiro quebrado ameaçou várias vezes contar “toda a história” do Master.

Preso, está conseguindo mais do que supunha. Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça engalfinharam-se. Um (Mendonça) quer que os diálogos de Moraes com Vorcaro em poder da Polícia Federal venham a público.

Trata-se da aplicação da lei do juiz americano Louis Brandeis: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.

O outro, Moraes, quer investigar iniciativas ilegais de Mendonça.

No meio, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade.

Assim, a maior fraude financeira da história iria para baixo das togas. Quais? Todas, como se deu com a Lava-Jato.

Isso está claro desde o tempo em que a relatoria do caso estava sob o ferrolho do ministro Dias Toffoli.

Como ensinaria Chico Buarque, “chamem o banqueiro”.

Institutos e ministros

O ministro André Mendonça deve estar amargamente arrependido de ter criado o Iter, uma instituição privada de ensino nascida em 2024. Ela se apresenta como um lugar onde “autoridades vivem o que ensinam”. O sujeito dessa frase é a autoridade, não necessariamente o saber.

Mendonça encabeça o plantel do Iter e é seguido por um “membro da Câmara Nacional de Licitações e Contratos da Advocacia-Geral da União” e outro é “assessor de ministro do Supremo Tribunal Federal”: “No Instituto Iter você aprende com quem faz.” Em dois anos, o instituto recebeu R$ 10,8 milhões em verbas púbicas, vindos de 55 contratos, 54 dos quais sem licitação.

Mendonça criou o Iter três anos depois de ser nomeado para o Supremo Tribunal, mas não foi ele quem inventou essa fonte de conhecimento. A iniciativa de maior sucesso na área é o IDP, Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, criado pelo ministro Gilmar Mendes há 25 anos, um ano antes de ser indicado para o STF, quando ele era advogado-geral da União. Estendendo suas atividades a Portugal, o IDP promove ciclos de palestras chamadas de “Gilmarpalooza”, que reúnem em Lisboa magistrados, ministros, parlamentares e empresários.

O atual procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi um dos fundadores do IDP.

O IDP se apresenta como “conhecimento que conecta, comunidade que transforma” e convida: “Formamos os nomes por trás das grandes decisões. Agora é a sua vez!”.

A lei permite que magistrados lecionem. Cada ministro do Supremo recebe R$ 46.366,19, mais automóvel e escolta, no Brasil e no Ultramar.

Pindorama tem dois tipos de sem-teto

Em tese, os servidores não podem receber mais que os vencimentos dos juízes do STF. Na vida real, o Brasil tem dois tipos de sem-teto.

O primeiro tipo não tem onde morar. São cerca de 65 mil pessoas que vivem na rua. O segundo tipo é o dos servidores públicos cujos contracheques ultrapassam o teto constitucional. Eles seriam 53 mil. São magistrados, procuradores, militares, professores e sabe-se lá quem mais. Estima-se que 65% dos magistrados brasileiros recebam a cada mês valores acima do teto. Seis dos dez ministros do STF furam o teto. Como o Supremo está na chuva, vale mencionar os ministros que vivem livres desses penduricalhos: Edson Fachin, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Cristiano Zanin.

Recordar é viver

O caso Master jogou luz sobre a presença de delegados da Polícia Federal em gabinetes de ministros do Supremo. Tudo bem, esse magnetismo é velho e universal.

Em abril de 1964, o marechal Castello Branco nomeou seu colega Juarez Távora (1898-1975), ministro da Viação e Obras Públicas, que ficava no Centro do Rio. Juarez começou a trabalhar e percebeu que sempre havia um PM na porta do seu gabinete. Intrigado, o marechal quis saber o que o PM fazia ali.

Demorou, mas veio a informação. Fazia tempo, o ministro da ocasião mandou pintar a porta de sua sala. Com a tinta fresca, algumas pessoas sujaram seus ternos e seu chefe de gabinete mandou que o PM postado à entrada do prédio (no sol) fosse realocado para garantir que ninguém esbarrasse na porta (refrigerada).

Isso, há anos.

Chame o ladrão

Está nas livrarias “Chame o ladrão — Como os artistas driblaram a censura do governo militar”, do repórter Miguel de Almeida. Em 142 páginas ele traça um panorama do jogo de gato e rato entre artistas e censores durante a ditadura. O caso mais conhecido é o de Chico Buarque, que virou Julinho da Adelaide para escapar da censura que cortava tudo o que ele assinava. Mas há outros. Luiz Carlos Barreto resgatou “Dona Flor e seus Dois Maridos”, de seu filho Bruno, com a ajuda de Amália Lucy Geisel, filha do presidente.

Um censor achava que a atriz Glauce Rocha e o cineasta Glauber Rocha eram a mesma pessoa. Vários censores amoleciam com bebidas, um general recebia as vítimas na garçonnière, mas todos censuravam e mutilavam a cultura nacional. Hilária a cena do Chacrinha enxotando os censores.

Aquele mundo não era divertido como parece meio século depois. Gilberto Gil, Caetano Veloso e dezenas de artistas foram presos, projetos de filmes, peças e canções morreram no nascedouro por receio da tesoura. Miguel de Almeida pesa muito bem suas escolhas. No seu melhor momento, conta a saga do romancista Inácio de Loyola Brandão para liberar seu romance “Zero”. Em 1973, 13 editoras rejeitaram-no.

Loyola furou a censura publicando “Zero” pela editora italiana Feltrinelli. Só depois da edição italiana, em 1975, saiu a edição brasileira, logo proibida. Era tarde: 10 mil exemplares haviam sido vendidos e seu “Zero” estava na vitrine da Biblioteca Mário de Andrade.

“Chame o Ladrão” ecoa um verso de Chico Buarque. Nos primeiros anos da ditadura, o Serviço de Censura e Diversões Públicas era Romero Lago.

Romero Lago era Hermelindo Ramirez Godoy, mandante de um duplo assassinato, fugido da cadeia, andou pela Argentina e pelo Paraguai, até trocar de identidade, estabelecendo-se no Rio. Optou pelo serviço público e explicou:

— Eu queria acima de tudo servir ao meu país, e ter uma vida honrada. Minha principal preocupação era limpar totalmente aquela mancha. Iria trabalhar e mais tarde propor a comprovação da minha inocência — disse. — Nunca fui reconhecido — completou.

Segundo Romero/Hermelindo, o mandante do crime foi seu irmão.

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O APAGAMENTO DE GAZA

Dorrit Harazim, O Globo

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio a movimento terrorista

Pronto, agora é oficial. Na semana passada, em Israel, foi anunciado o plano de limpeza étnica e erradicação da vida palestina em Gaza. A única ambiguidade — e ela é infame — está no título do opus: “Plano Nacional de Trabalho para a Emigração Voluntária do Estreito de Gaza”. De resto, o documento de 20 páginas detalhado com orgulho por seu autor, o ministro da Segurança Interna Itamar Ben-Gvir, é “realista” e “concreto”. E inequívoco. Numa primeira leva, com prazo de execução de 12 meses, a cota de desterro coercivo deverá atingir 250 mil cabeças. O restante dos 2 milhões de gazenses deverá abandonar o que lhe resta de chão ao longo dos seis anos subsequentes. Está tudo equacionado, garante Ben-Gvir, afirmando já ter uma lista de países dispostos a absorver os desenraizados. O próprio ministro da Defesa israelense, Israel Katz, também já informou aguardar apenas a aprovação do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, para dar início à emigração “a qualquer custo”.

Vale lembrar o Direito Internacional Humanitário (Estatuto de Roma de 1998, Quarta Convenção de Genebra, de1949), que define como crime de guerra “a deportação ou transferência da totalidade ou de parte da população do território ocupado dentro ou para fora desse território, em conflitos internacionais”. Ainda assim, o mundo viciado em noticiário 24/7 preferiu não se deter nesse marco que a História haverá de registrar. Preferiu-se, para melhor acomodar o sono, atribuir o anúncio declarado do crime a mais uma extravagância da campanha de Ben-Gvir às decisivas eleições legislativas de 27 de outubro próximo.

De fato, o ministro supremacista mais extremado do governo de Benjamin Netanyahu tem se superado. Dia desses, ele postou um vídeo de 25 segundos tão tóxico que foi aconselhado a deletá-lo. O vídeo gerado por IA mostrava prisioneiros palestinos rechonchudos e sorridentes numa sala de tribunal, aguardando julgamento. No plano seguinte, o mesmo grupo já emaciado e cabisbaixo era encaminhado, em fila, ao que parecia ser um abatedouro humano industrializado. Um horror difícil de dissociar do horror maior do século XX. Mas era brincadeirinha de IA.

Um segundo vídeo do ministro de popularidade galopante dispensou pirotecnias digitais. Gerou impacto justamente pela veracidade factual da filmagem: uma visita às obras do futuro complexo de forças reservado à execução de palestinos condenados por crimes de terrorismo. O local exato da obra permanece sigiloso, mas já era possível ver escavadeiras e construções pesadas em andamento.

— O corredor da morte e as instalações para enforcamento estão começando a tomar forma — informa o ministro.

Ele acrescenta que o local das execuções será equipado com cabines de observação para as famílias judaicas das vítimas acompanharem o ritual. A pena de morte aprovada neste ano em Israel isenta judeus extremistas acusados de crimes semelhantes contra palestinos.

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio ao movimento terrorista Kach, banido. Ele também poderá sofrer sanções se pisar na França, na Irlanda ou no Reino Unido. Nos Estados Unidos está em curso uma moção do senador democrata Ruben Gallego, do estado do Arizona, a favor do seu banimento do solo americano. Uma parte do Ocidente envergonhado considerou excessiva a recente defesa que ele faz de execuções punitivas em Gaza:

— Acho que deveríamos realizar de 30 a 40 assassinatos seletivos por noite. Não apenas daqueles que representam uma ameaça imediata. Há pessoas ali que não merecem viver... Elas nem sequer são gente.

A marcha de Israel anda acelerada. O partido Poder Judaico, sob comando de Ben-Gvir, tem fortes chances de ganhar mais sete cadeiras na nova legislatura e já se fala na criação de um novo ministério para cuidar da emigração forçada. Na terça-feira, autoridades do país iniciaram a imposição de novo currículo para mais de 45 mil alunos palestinos matriculados em escolas públicas do setor árabe de Jerusalém. Como parte de uma campanha global, o Estado judeu e seus aliados têm intensificado esforços para apagar a palavra Palestina de registros históricos, livros e museus. Soa delirante? Nem tanto. A seção libanesa da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês) já substituiu a palavra “Palestina” por “Cisjordânia” e “Gaza” em mapas didáticos do ensino médio. Até o majestoso British Museum de Londres cedeu a pressões em fevereiro último e apagou “Palestina”, “palestino” e “ocupação israelense” de alguns painéis históricos específicos.

Deixamos o mais afrontoso para o final, revelado por Jeremy Greenstock, embaixador junto à ONU no primeiro mandato do esquecível governo de Tony Blair (1997-2007). Atualmente, Blair integra o esdrúxulo Comitê de Paz montado por Trump para implementar o cessar-fogo em Gaza, acordado, mas não cumprido, por Israel desde outubro passado. Pois bem, em entrevista ao site Middle East Eye, o diplomata contou que Blair havia sido incumbido de levar à Autoridade Palestina uma proposta capaz de amolecer Israel: a troca do termo “Palestina” pelas designações bíblicas judaicas “Judeia” e “Samaria” no currículo escolar das crianças palestinas. A indecência dessa proposta está à altura do mensageiro, que nega o ocorrido. Decididamente, há bípedes que se superam na ignomínia.

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ESTRATÉGIA DOS EUA CHEIRA A ANOS 60

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

Nova política amplia risco de interferência em um país em caso de derrota de um aliado de Trump

Os pilares do plano de Donald Trump para a Venezuela sugerem um potencial padrão para a América Latina: coerção militar, pacto de sustentação do governo, expropriação de riquezas e ausência de compliance. O alinhamento de líderes políticos da região, incluindo do Brasil, à estratégia americana cria o risco de retrocesso institucional, econômico e geopolítico.

O acordo, endossado com entusiasmo pela presidente interina Delcy Rodríguez, estipula que 20% do petróleo venezuelano será entregue a preço de custo aos EUA, que podem exercer preferência na compra dos outros 80%. O plano abrange a exploração de 65 bilhões de barris – o equivalente a quase dois anos de todo o petróleo consumido pelo mundo.

O contrato é brindado à North American Blue Energy Partners (Nabep), com sede em Barbados, cujo dono, o venezuelano Alejandro Betancourt, cresceu como empresário sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro, com contratos públicos de geração de energia. Trata-se de um “bolichico”, como são chamados os jovens homens de negócio que gravitam em torno do regime bolivariano.

Significa que, em vez de levar para a Venezuela as regras de governança que os EUA ajudaram a criar, Trump está aderindo ao clientelismo chavista. Como os eleitores venezuelanos dificilmente aceitariam essa expropriação neocolonialista, Trump explicou na semana passada que “a Venezuela não está pronta para eleições”.

Antes de capturar Maduro no início do ano, Trump lhe enviou emissários com o recado de que poderiam negociar sua permanência no poder em troca desse tipo de transação. O então ditador não aceitou. Delcy, então vice, apresentouse como alternativa – até para não ter o mesmo fim.

A estratégia combinou a designação de narcotraficantes como terroristas, a identificação de Maduro como “líder” do crime organizado, a intimidação por meio dos bombardeios de lanchas no Caribe e no Pacífico, o bloqueio naval e a captura do ditador.

Presidentes recém-eleitos e líderes de oposição conservadores na região, incluindo no Brasil, alinham-se com a estratégia de Trump de aplicar a força militar contra o crime organizado e submeter a exportação de minerais críticos e outras matériasprimas estratégicas ao monopólio dos EUA, a título de conter a influência chinesa.

Além das implicações econômicas, existe o risco de os EUA interferirem em um país em caso de derrota eleitoral de um aliado de Trump para um crítico desses arranjos, que colocasse em risco contratos lucrativos para os americanos. Como nos anos 60.

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MENDONÇA, O NOVO JUSTICEIRO, TAMBÉM PRECISA SER COBRADO

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Erros de um e de outro deveriam ser tratados sem a contaminação da guerra ideológica

Politização toma conta de instituições e mídia durante campanha sem discussão de propostas

As revelações sobre as relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro são graves e precisam ser esclarecidas. Sua atuação contra a tentativa de golpe obviamente não lhe confere imunidade, pelo contrário, coloca uma lupa sobre sua conduta. Há forte suspeita de corrupção.

Os erros de Moraes, contudo, não transformam André Mendonça em paladino da moral e da imparcialidade. Há elementos suficientes para que a atuação do novo candidato a justiceiro do Supremo também seja submetida a escrutínio.

Um relatório da própria Polícia Federal chamou a atenção para a diferença de velocidade com que Mendonça analisou medidas contra políticos de campos distintos. Foram nove dias no caso do petista Jaques Wagner, 29 no de Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro, e até 75 num procedimento envolvendo o ex-governador fluminense Cláudio Castro, do PL. Essas diferenças não podem ser tratadas como prova de parcialidade, mas são um indício.

E não se trata de sinal isolado. Há outros, que apontam para diferenças de tratamento em episódios envolvendo Lulinha e políticos da direita. Também é questionável a atitude de Mendonça diante de referências a integrantes do próprio Supremo: enquanto demonstrou interesse em aprofundar rapidamente elementos relacionados a Moraes, foi preguiçoso com Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. A PF ressalva que não há elementos para estabelecer as razões dessas diferenças.

Já Paulo Gonet, como está claro, não pode ser aceito como árbitro da crise. O nome do procurador-geral aparece no material investigado. Caberá a Edson Fachin, presidente do tribunal, descascar o abacaxi, tarefa hercúlea.

Tudo isso às vésperas das eleições, o que exige cuidado redobrado com o andor. Políticos bolsonaristas e analistas de direita festejam as revelações sobre Moraes e procuram colá-lo a Lula, na clara expectativa de transferir o desgaste ao presidente. Mas essa associação simplifica uma relação mais ambígua.

Lula e Moraes —que foi indicado por Michel Temer— estiveram do mesmo lado na defesa das instituições contra o golpismo, mas isso não os tornou aliados incondicionais. O presidente já manifestou nos bastidores descontentamento com Moraes quando surgiram as primeiras revelações da relação com Vorcaro. E ficou particularmente contrariado com a rejeição pelo Senado de Jorge Messias, que teria contado com apoio do ministro.

Diante das novas revelações, Lula fez bem ao defender que todos sejam investigados e afirmar que ninguém pode utilizar um cargo público e a democracia em benefício pessoal.

A politização das instituições —e a mídia não está fora disso— tornou-se irrefreável e se acentua com a proximidade das eleições. Não se discutem propostas para o país, o que prevalece é o tiroteio ideológico acirrado e perigoso.

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DIREITA QUEBROU BANCO E COMPROU STF

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Quando Jair lhe deixou ser banqueiro, Vorcaro saiu procurando políticos ladrões que aceitassem investir

Banqueiro tentou comprar juízes porque o Banco Central e a Polícia Federal melaram seu esquema

A direita criou o Banco Master, foi pega roubando com o Banco Master e agora teve que pagar uns caras do STF para escapar da cadeia.

Na última semana, descobrimos novos indícios de que o dono do Master tentou comprar o apoio do ministro Alexandre de Moraes. Há também indícios contra os ministros Dias Tóffoli e Nunes Marques. Mas só as acusações contra Moraes ajudam o candidato em que o ministro André Mendonça vota.

O possível suborno de juízes do STF já seria um dos maiores escândalos da história brasileira, mas esse é só o final de uma história muito pior. Os valores desviados têm muito mais zeros, as vítimas dos crimes são muito mais pobres, e o envolvimento da direita vai muito, muito além de um filme.

Daniel Vorcaro tentou comprar juízes porque o Banco Central e a Polícia Federal, já no governo Lula, melaram seu esquema. Mas que esquema foi esse?

"Banco Master" é um negócio que existiu depois do Banco Central do Temer (que não deixou Vorcaro virar banqueiro) e antes do Banco Central do Lula (que obrigou Vorcaro a deixar de ser banqueiro). No meio disso teve Bolsonaro.

Quando Jair lhe deixou ser banqueiro, Vorcaro saiu procurando políticos ladrões que aceitassem investir dinheiro de aposentado em títulos que não valiam nada.

Conseguiu sócios em 18 entes federativos: 3 estados e 15 municípios. Dos 18, 17 (90%) eram governados pela direita. De longe, o maior desfalque foi dado pelo governador bolsonarista do Rio de Janeiro, Cláudio Castro: R$ 3,7 bilhões.

Em suas voltas pela picaretagem brasileira, Vorcaro conheceu Augusto Lima, que tinha um esquema com o governo do PT na Bahia. O esquema dava empréstimos fraudulentos a funcionários públicos do estado. Vorcaro virou sócio de Lima e de outros picaretas semelhantes Brasil afora.

Como toda mutreta desse tipo, uma hora o Banco Master começou a fazer água.

Um senador e um deputado bolsonaristas apresentaram projetos no Congresso para aumentar a cobertura do FGC, o que permitiria a sobrevivência da pirâmide Master por mais tempo. Se os projetos tivessem sido aprovados, todo o dinheiro que você tem no banco teria sumido.

Seis partidos apresentaram um requerimento de urgência para votar um projeto que permitiria ao Congresso demitir o diretor –justiça seja feita, nomeado por Campos Neto– que impediu a operação do BRB. Dos 6, 5, 84%, eram de direita: PL do Bolsonaro, Republicanos do Tarcísio, PP do Ciro Nogueira, União Brasil do Alcolumbre e MDB do Ibaneis Rocha.

Não deu certo, e Vorcaro precisou apelar para o governo bolsonarista de Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, que tinha um banco estatal grande nas mãos. A operação para salvar o Master custou, por baixo, R$ 8 bilhões ao BRB, dinheiro que será pago com cortes nos serviços públicos do Distrito Federal por muitos anos.

Depois dos bilhões de dinheiro público que o bolsonarismo lhe deu, Vorcaro achou que o mínimo que poderia fazer seria recompensá-los com R$ 140 milhões (dos quais R$ 60 milhões foram pagos) para Flávio Bolsonaro. Não era problema de Vorcaro se o dinheiro era para fazer filme ou se, como é óbvio, era para sustentar as conspirações de Eduardo Bolsonaro contra o Brasil.

A acusação contra Moraes é essa: ter entrado no esquema.

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RELATOS DE PURO ESPANTO

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia

Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.

Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor Tom Zé.

"Negar o que é" equivale a desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime", horror público.

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou, sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo, entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em que alunos agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em Copacabana.

O fato é condenável, não se discute, nem se justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de inaceitável violência por parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.

Quando se pensa em "jornalismo do futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em "O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que se ouve e publica.

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ORIGEM DA CRISE É O DESRESPEITO À CONSTITUIÇÃO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A responsabilidade não é do sistema; é de quem comanda e opera os Poderes ao arrepio das regras e rituais

A geração subsequente aos artífices da redemocratização foi incapaz de seguir os passos dos antecessores

Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria.

O enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte.

É preceito básico, pré-requisito essencial ao regime democrático. Aquele em nome de cuja retomada inscreveram-se as normas que passariam a valer depois de 21 anos de submissão do Legislativo e do Judiciário ao mando do Executivo hipertrofiado —a ditadura.

De lá para cá, o país sofreu e venceu solavancos que testaram a firmeza do desenho institucional de 1988. Não está conseguindo, no entanto, resistir à inaptidão da geração subsequente em seguir os passos dos arquitetos da redemocratização.

Em meio a autoritarismos, voluntarismos, populismos, usurpação de funções e agressão a ritos e regras, assistimos a uma deterioração de condutas cuja solução passa longe da culpa do aludido sistema ao qual se pedem reformas, na tentativa de fugir da responsabilidade que é de seus condutores e operadores.

O chefe do Executivo houve por bem se escorar em magistrados permeáveis a alianças no Judiciário, a fim de contornar dificuldades num Legislativo interesseiro e arisco. Alheios às consequências, entraram numa espiral descendente de desmoralização compartilhada.

A eleição presidencial se dá em ambiente de rejeição e desencanto; o Supremo Tribunal Federal vive um impasse de gravidade inédita e o Congresso não dispõe de lideranças com estatura institucional à altura do desafio.

O túnel é escuro e o poço sem fundo. A resposta em outros tempos esteve na política, que perdeu tônus e protagonismo quando decidiu se dedicar primordialmente aos negócios e terceirizar suas funções a juízes com pendores políticos e vocação para santos guerreiros.

Queira o bom senso que a saída não esteja em acertos para estancar a sangria com Supremo e com tudo.

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AS CORES DO CORAÇÃO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Se for crime usar a camisa do time adversário, muitos ilustres já deveriam ter pagado por isso

O que o garoto corintiano que pediu a camisa de Neymar levará desta experiência pela vida?

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida —profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância?

Se for crime vestir a camisa do adversário, muitas pessoas ilustres já deveriam ter pagado por isso. Em sua edição de 14 de julho de 1979, a revista Manchete abriu uma reportagem sobre Nelson Rodrigues e Zico com uma incrível foto de Paulo Scheuenstuhl, em que o dramaturgo, histórico torcedor do Fluminense, veste a camisa do Flamengo. Por sua vez, no dia 24 de março de 1993, Zico, símbolo do Flamengo, atuou no Maracanã com a camisa 9 do Vasco no jogo de despedida de seu grande amigo Roberto Dinamite. O mundo não acabou.

Flamengo e Vasco vivem uma das piores rivalidades do futebol brasileiro. Se o craque de um deles se passa para o outro, deveria ser excomungado, não? Não. O Flamengo já viu alguns de seus heróis usando as cores do inimigo —Andrade, Bebeto, Junior Baiano, Petkovic e, mais doloroso de todos, Rondinelli, o Deus da Raça—, mas perdoou-os, por sabê-los Flamengos. E, para gáudio rubro-negro, o Vasco teve de se curvar ao fato de que, em 1995, Romário, ao deixar o Barcelona eleito o maior jogador do mundo e voltar para o Rio, preferiu o Flamengo, onde fez também monumental carreira.

E quando um jogador não consegue jogar pelo clube para o qual secretamente torce? Gerson, o Canhotinha, revelou-se no Flamengo, foi ídolo do Botafogo e só em fim de carreira chegou ao seu time de coração, o Fluminense. Como ele, muitos outros.

Dias depois, o garoto posou com uma bandeira do Corinthians e a camisa de Neymar. Assim se faz.

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IDEIAS E PALIATIVOS PARA CONTER A BANDALHEIRA NO SUPREMO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Reformas podem atenuar risco de crises, mas país está institucionalmente podre

Difícil conter nomeação de amigos políticos para o STF e advocacia familiar bandida

Bandalheiras no Supremo causam escândalo justificado. Também dão oportunidade a comportamento santarrão ou hipócrita de outra espécie, que prega soluções de moralismo política ou eleitoralmente interessado. O apodrecimento do STF vem de década e meia, anos em que a promiscuidade política e econômica do tribunal não causava tanta sensação, pois camuflada de modo útil para elites políticas e econômicas, antes que festas e farofas ricas de lobby ficassem exageradas. De resto, candidatos de grupos políticos associados a facções criminosas estão aí, sem suscitar manifestos de indignação.

Até essa conversa de "maior crise do STF da história" é fiada. O Supremo é pouco mais novo do que a proclamada República, pois coisa remotamente parecida com República não houve em mais da metade do tempo desde 1889. Tivemos 5 anos de ditadura militar até 1894 e 36 anos de República Velha, uma oligarquia de modos e ideias escravistas que fraudava eleições já elitizadas. Tivemos 15 anos de ditadura de Getúlio Vargas e 21 anos de ditadura militar, quando o STF era tolhido ou submisso ou decorativo ou teve a composição manipulada pelos ditadores.

Isto posto, a situação do STF é grave como jamais se viu desde que tentamos criar República de fato, a partir de 1988. Desde 2016, o regime é em parte ou em vários anos o do acordão transacional contra instituições, torcidas à base daquelas mumunhas que matam democracias, e de tentativas de golpe, com omissão ou participação ativa dos três Poderes. Além da entrada do crime no Estado e da privatização terminal do Orçamento, crápulas, negocismo, dinheirismo e acafajestamento vão dominando o país, não apenas na política (veja-se a quantidade de podreira empresarial e financeira), mas também na "sociedade e cultura".

Difícil consertar o STF sem dar conta do resto. Paliativos?

Proibir presidentes da República de indicar para STF e STJ seus advogados, ministros e similares talvez ajude. Seria preciso então lidar com o Congresso, mais livre para promover seus nomes de confiança, embora ali o poder possa ser mais disperso.

Restringir o foro privilegiado de políticos conteria a politização? Ainda seria preciso julgar no STF presidentes e certos graúdos. O problema continua. Dos que foram ao poder pós-Constituição, 5 de 7 presidentes da República foram de algum modo parar em tribunais superiores (capos do Congresso, não).

Ao mandar processos de "políticos" para tribunais estaduais, não raro dominados por políticos e parentadas da elite regional, nos lembraríamos do motivo original do foro especial: evitar privilégios ou perseguições locais. De resto, casos de gente com mais poder acabariam subindo ao STF, via recursos.

Como conter a advocacia de cônjuges, filhos e agregados que traficam a influência familiar para ganhar causas nos tribunais maiores, além de levar para as cortes negócios políticos e econômicos? Ideias?
Como evitar maiorias politicamente sectárias na composição do STF? Os EUA têm o mesmo problema e ideias ruins para evitá-lo.

Ajuda quase proibir decisões individuais, "monocráticas" no STF, que são porta aberta para negocismo político ou dinheirista. Ajuda recolocar o STF na casinha constitucional, mas para tanto seria preciso haver Congresso que tomasse decisões e que fosse respeitável. Não temos. Para melhorar, seria preciso colocar o Parlamento sob o cabresto de participação política popular facilitada e melhorada. Está longe, isso.

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AO SOM DE XANDÃO E LULINHA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Com foco em Vorcaro, o prejudicado era Flávio; em Xandão, passa a ser Lula

O resultado da crise sem precedentes no Supremo, devastador para o humor nacional e a já frágil confiança nas instituições, atinge as eleições. Sem programas de governo, com propostas reais e factíveis, a base de eleitores e eleitoras para votar é o mar de lama e a nociva sensação de que “são todos iguais, ninguém presta, não temos para onde correr”. Daí os dois dígitos do outsider Augusto Cury.

O escândalo bilionário do onipresente Daniel Vorcaro atinge direita, esquerda e principalmente Flávio Bolsonaro, que se jogou na rede ao pedir a bagatela de R$ 130 milhões para o “irmão” banqueiro. Mas, ao destroçar a reputação do ministro Alexandre de Moraes e rachar de vez o STF, o caso respinga sobre o presidente Lula.

O estrago contra Flávio já foi feito e, até surgirem novas revelações, atingiu o teto. Se há ainda estrago a ser feito é contra Lula, que não é suspeito de envolvimento direto com Vorcaro, como Flávio, mas embolouse com Moraes, como se fossem aliados, do mesmo time.

Ao se meter no julgamento da trama do golpe, Lula reforçou o discurso bolsonarista de “motivação política” e acaba de cometer a imprudência de negociar com o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, na casa de Moraes. Ministro do STF em campanha política?

O time de Moraes inclui Gilmar Mendes, Dias Toffoli e o próprio Alcolumbre. Como dizer que Lula não faz parte? Logo, o fator Xandão ameaça Lula e exatamente quando sua vantagem sobre Flávio evoluiu para empate no segundo turno e já não é impossível que as duas linhas se cruzem, com Flávio à frente.

Moraes não explica o contrato de R$ 131 milhões, jato Legacy, helicóptero e cartão de crédito com limite de R$ 300 mil para os filhos. Muito menos, as 51 mensagens de Vorcaro em que fica óbvio que passava informações sigilosas e agia para tentar salvá-lo, tanto da prisão quanto da liquidação do Master.

Assim, o ministro ataca o relator do caso Master, André Mendonça, até com rascunho sem timbre, assinatura ou qualquer valor, o que revela desespero e foi descartado por Edson Fachin. O antes todo-poderoso Xandão está nos estertores e se permite arrastar o STF com ele, transformando-se, de defensor, em ameaça à democracia.

Com o foco do escândalo em Vorcaro, o principal prejudicado na campanha era seu “irmão” Flávio. Quando esse foco desvia para Moraes, perdido em movimentos primários e descoordenados, quem tende a pagar o pato é Lula.

Xandão e Lulinha são os maiores riscos a um quarto mandato para Lula e, portanto, os maiores cabos eleitorais de Flávio, segundo a campanha petista, “o pior dos Bolsonaro”.

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CRIME, CASTIGO E RELAÇÕES PERIGOSAS DE MINISTROS DO STF NO CASO MASTER

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Ao citar Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, também supostamente investigados de forma ilegal, Moraes insinua ter apoio da maioria dos ministros do Supremo contra Mendonça

“Raskólhnikov, de lábios desmaiados, olhar fixo, aproximou-se devagar, aproximou-se até junto da mesa dele, apoiou uma das mãos sobre ela, quis dizer alguma coisa e não pôde; apenas se ouviram alguns sons incoerentes.

— O senhor está maldisposto: uma cadeira! Aqui…Sente-se nesta cadeira, sente-se. Água!

Raskólhnikov deixou-se cair na cadeira, mas sem afastar os olhos da cara desagradavelmente surpreendida de Iliá Pietróvitch. Olharam-se um ao outro por um momento e ficaram à espera. Trouxeram a água.

— É que eu… — começou Raskólhnikov.

— Beba água.

Raskólhnikov desviou a água com a mão e, devagar, mas distintamente, disse:

— É que fui eu quem matou aquela velha viúva dum funcionário e a sua irmã Lisavieta, com uma machadada, para roubá-la.

Iliá Pietróvitch abriu a boca. De todos os lados acudiu gente. Raskólhnikov repetiu a sua declaração…”

O protagonista do romance Crime e Castigo (Nova Cultural), de Fiódor Dostoiévski, é o ex-estudante pobre Rodion Raskólhnikov. Em São Petersburgo, movido por uma teoria de que seria um homem superior, ele assassina uma velha agiota e a irmã dela. Em seguida, passa a sofrer de intensa angústia mental, delírios e profunda culpa psicológica. O “castigo” real não é apenas a condenação legal, mas o tormento de sua própria consciência isolada.

 

Crime e Castigo não é somente um romance policial sobre um duplo homicídio. Desde o início, o leitor sabe que Rodion Raskólhnikov matou a agiota Aliena Ivanovna e, inesperadamente, sua irmã. O enigma é compreender o caminho entre o crime e a confissão. Raskólhnikov acredita que homens extraordinários podem violar a lei em nome de objetivos superiores. Mata para provar sua teoria, mas não consegue viver acima da própria consciência. Antes de ser condenado pelo tribunal, já fora condenado pelo sentimento de culpa. No fim, guiado pelo amor de Sônia, ele se entrega à polícia e encontra a redenção na Sibéria.

A crise do Supremo tem uma dimensão dostoievskiana. A sociedade desconhece toda a história das relações reveladas pelo telefone de Daniel Vorcaro, das ordens transmitidas à Polícia Federal e dos vazamentos seletivos contra autoridades. Os integrantes da Corte, porém, sabem muito mais do que revelam. Cada qual conhece o que fez, o que autorizou, o que tolerou e aquilo que soube em silêncio.

A gravidade não decorre apenas das mensagens atribuídas a Vorcaro. O banqueiro procura interlocutores poderosos, teme ser preso e sugere ter acesso às instituições encarregadas de investigá-lo. Como respostas não foram recuperadas, conclusões exigem cautela. A ausência dessas respostas não elimina as perguntas. Impõe uma investigação independente, transparente e de acordo com o devido processo legal, sem condenações antecipadas nem proteção corporativa.

Impeachment

André Mendonça levantou o sigilo do material e adotou providências consideradas incompatíveis com as prerrogativas do plenário. Alexandre de Moraes reagiu e pediu a investigação do colega dentro do inquérito das fake news. A PGR contestou o relatório policial. A crise deixou de envolver somente os fatos investigados. Passou a alcançar a legalidade dos métodos empregados na investigação e seus principais atores.

É aí que o Supremo esbarra na sua jurisprudência. Pau que dá em Chico dá em Francisco, diz o velho ditado popular. Decisões monocráticas de enorme alcance, investigações abertas por iniciativa judicial e a expansão de inquéritos foram usadas nos casos do 8 de janeiro. Agora, práticas semelhantes são condenadas dentro da própria Corte. Isso não significa que eventual nulidade no caso Master anule automaticamente o processo de Bolsonaro. São processos distintos. Mas é disso que agora se trata.

 

Ao considerar esses métodos ilegais, o Supremo deverá explicar por que os admitiu anteriormente. Coerência é essencial. Também seria inaceitável, nesse caso, usar as garantias constitucionais para destruir toda a investigação e libertar Vorcaro sem apurar os fatos. Provas ilegais devem ser anuladas, não as responsabilidades. Talvez, seja esse um dos objetivos dos responsáveis pelos vazamentos.

 

Edson Fachin tenta uma saída institucional: retirou a disputa do inquérito das fake news, pediu explicações aos envolvidos e pretende levar as questões relevantes ao plenário. Também defende o fim do inquérito aberto em 2019 e um código de ética para os ministros. Por enquanto, são apenas declarações de intenções. Ao citar os ministros Gilmar Mendes, Dias Toffoli, Luiz Fux e Nunes Marques, supostamente também investigados de forma ilegal, Moraes insinua já ter apoio de metade dos votos do Supremo contra Mendonça.

Não por acaso, também relaciona o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, responsável por pautar ou não os pedidos de impeachment de ministros do Supremo, que ameaça abrir um processo contra Moraes e outro contra Mendonça, para conter o ímpeto da oposição. A indignação pública e seu impacto eleitoral, porém, podem converter essa ameaça tática numa pauta impossível de controlar. Ninguém pode estar acima da lei, nem mesmo quem tem o poder de interpretá-la. Sem confiança pública, decisões são percebidas como demonstrações de força de quem detém o poder e não como atos de Justiça do Estado democrático de direito.

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sábado, 5 de setembro de 2026

A MONGÓLIA SE ESPANTOU

José Renato Nalini, O Estado de S.Paulo

Estive na Mongólia, a participar da COP-17, a Convenção para o Combate à Desertificação promovida pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esse destino estava ausente de minhas cogitações turísticas. Mas valeu a viagem. Fiquei impressionado com a distância, com a imensidão desse país nos confins asiáticos, a confrontar-se com a Rússia e com a China.

Tem a menor densidade populacional do planeta: cerca de 1,3 habitante por quilômetro quadrado. Sua capital – Ulaanbaatar – abriga metade dos mongóis, que totalizam pouco mais de 3 milhões. Ou seja: toda a Mongólia representa um quarto da população paulistana.

Participei de vários encontros que abordaram inúmeros temas. O mundo está preocupado com a escassez hídrica e com a crescente desertificação do planeta. Dentro da COP, houve discussões como a promovida pelo Fórum Asiático para o Meio Ambiente, a abordar a questão “Terra-Alimento-Clima: A Armadilha da Pobreza do Neo-Nexo no Sul Global”, que muito tem a ver com a situação brasileira. Também estive presente à iniciativa do Instituto Global de Crescimento Verde e Programa de Paisagens Multifuncionais, com o propósito de Restaurar a Terra, Restaurar a esperança: conectando a lacuna entre ciência, política e financiamento para a ação do Nexo do Rio.

Um dos pontos mais prestigiados foi a Iniciativa Global de Terras do G-20, ancorada nas evidências de que a restauração é mais do que urgente, oportunidade em que se lançou o Relatório de Conquistas Globais de Restauração de Terras no ano de 2026.

Houve um dia temático sobre financiamento para restauração de terras e resiliência à seca, durante o qual realizou-se um diálogo ministerial sobre abordagens inovadoras de investimento para essa inadiável tarefa. Muitas ideias foram expostas, inclusive com sugestões para integrar melhor as estruturas financeiras e mobilizar recursos em escala, pois é essencial a atuação da iniciativa privada. A dimensão e a complexidade da crise ambiental superam a capacidade do poder público, principalmente em países como o nosso, em que a desigualdade social, não raro, reclama tratamento de choque imediato e prioritário.

Ocorre que tudo converge para a necessidade de se encarar com seriedade o cataclismo climático. Íntima a conexão entre o maltrato à terra, a resiliência econômica, a segurança alimentar e o desenvolvimento sustentável, que não prescinde de aguda atenção para a saúde física e mental dos humanos.

A participação paulistana concentrou-se no dia temático sobre o nexo terra-água como base da resiliência. Além da abertura de alto nível do Dia da Água, com ênfase na seca e desertificação como risco sistêmico global, insistiu-se na demanda de maior compromisso político e ação integrada entre governo e sociedade. Houve troca de experiências e identificação de prioridades, com abertura de alternativas para explorar oportunidades de mobilização de recursos financeiros e pessoais de enfrentamento da crise hídrica global.

São Paulo apresentou-se no painel “Prevenindo a falência hídrica: Cidades, Operadoras e Bacias Hidrográficas na linha de frente da resiliência à seca”, com exposição do secretário de Mudanças Climáticas e o testemunho do coordenador da Operação Integrada de Defesa das Águas (Oida), o coronel da Polícia Militar Washington Luiz Gonçalves Pestana, que realiza as operações de salvação dos mananciais, sobretudo a Represa do Guarapiranga. A Oida foi objeto de intenso interesse por parte de todas as comitivas que participaram da sessão, inclusive do jovem prefeito da capital mongol, Byaruuzanyn Pürevdagva.

Razoável parcela dos interessados considerava inexistente qualquer problema de escassez hídrica no Brasil, tido sempre como detentor campeão de água doce. Ao tomar conhecimento da situação dos mananciais, sobretudo a represa do Guarapiranga, única abastecida com nascentes locais, ao lado de elogiar a municipalidade, que atua com regularidade a inibir as ocupações clandestinas, estranhou a aparente ausência de comoção por parte da sociedade civil.

É que a condição de insuficiência de água em quase todos os países é uma questão superior a qualquer política pública, já que pertinente à própria sobrevivência das criaturas. A responsabilidade pela preservação dos mananciais, protegidos na maior cidade brasileira por tríplice esfera normativa – federal, estadual e municipal – é de toda a sociedade.

Ressalvadas excepcionalíssimas reações, por parte de privilegiadas mentes sensíveis e conscientes do risco a que a humanidade se expôs, ao não cuidar da natureza, da qual faz parte, com o respeito que ela merece, prepondera um cruel desinteresse. Como se a não remota possibilidade de vir a faltar água para beber, a afetar milhões de humanos, não representasse o maior perigo já enfrentado pelas criaturas que se autodenominam racionais.

É paradoxal que o bicho-homem, o último animal a vir a habitar a Terra, e o único a se considerar provido de razão, seja o responsável pela eliminação da vida sobre o planeta que o acolheu e que dele não está a merecer o respeito devido.

Opinião por José Renato Nalini

Reitor da Uniregistral, docente da pós-graduação da Uninove e secretário-executivo das Mudanças Climáticas de São Paulo

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O STF EM RUÍNAS

Cláudio Couto, CartaCapital

Uma reforma das regras de funcionamento da Corte se impõe. Ela deve ser agenda importante da próxima legislatura, a despeito dos desdobramentos do atual escândalo que atinge o tribunal

O Supremo Tribunal Federal, não é de hoje, merece críticas severas ao comportamento de magistrados individualmente e da Corte como um todo. Antes mesmo da ascensão da ultradireita, com seus ataques à democracia em geral e ao STF em particular, estudiosos e analistas do funcionamento de nosso sistema judicial apontavam falhas graves, cuja remediação se impunha tanto para preservar a legitimidade das instituições do Estado Democrático de Direito, como para prover justiça efetivamente.

A conduta politizada de certos magistrados, sua incontinência verbal, as relações promíscuas mantidas com interesses privados, a mudança casuística de posição em relação a julgados, o monocratismo, dentre outros vícios, são mazelas que duram quase três décadas. Tais problemas se exacerbaram a partir de 2012, quando se julgou o mensalão. A partir dali o protagonismo do tribunal se amplificou, transbordando do mero controle de constitucionalidade para a atuação na esfera criminal, que, embora fosse parte das atribuições do STF, não tinha a centralidade que ganhou a partir de então.

Tal âmbito de operação do tribunal foi especialmente importante durante os anos de Jair Bolsonaro, quando ameaças à democracia e a gestão catastrófica e negacionista da pandemia o converteram em baluarte na defesa do Estado de Direito e da saúde pública. Nisso foi crucial a proatividade do ministro Alexandre de Moraes perante as invectivas autoritárias do bolsonarismo, pondo freios à desinformação, à promoção de atos antidemocráticos, à sabotagem do processo eleitoral e, finalmente, à tentativa de golpe de Estado. Não à toa, Moraes converteu-se em inimigo preferencial do bolsonarismo e, por extensão, da ultradireita inteira, que, contudo, não antagonizou unicamente com esse integrante do tribunal. Outros magistrados e a Corte toda viraram desafetos.

Esse papel primordial do STF e de alguns de seus ministros fez com que certos magistrados perdessem o pudor de abusar do poder decisório e de expedientes excepcionais, que, embora tenham sido necessários numa conjuntura crítica de efetiva ameaça autoritária, não eram adequados noutra, em que tal risco se tornara bem menor. Exemplo claro é o recente episódio da quebra do sigilo da fonte de um jornalista maranhense, sob a alegação de que sua atuação ameaçava a incolumidade do ministro Flávio Dino e de seus familiares. Ironicamente, o mesmo tribunal e os mesmos juízes que atuaram de forma decisiva no combate ao autoritarismo, sob o pretexto de defesa do Estado Democrático de Direito, sentiram-se à vontade para perpetrar práticas autoritárias.

Isso é muito grave, pois condutas impróprias de ministros do STF solapam a legitimidade do tribunal e jogam água no moinho da campanha da ultradireita para eleger senadores dispostos a cassar o mandato de ministros da Corte. Se os extremistas tiverem sucesso nessa empreitada, não se preocuparão em corrigir os vícios do tribunal, mas em tolher sua capacidade de pôr freio aos vícios de outros atores relevantes da política nacional, principalmente eles próprios. E por condutas impróprias entendam-se não apenas os excessos autoritários de integrantes do tribunal, mas sua completa indiferença à compostura, ao reconhecimento de conflitos de interesse, à suspeição e às relações promíscuas com atores públicos e privados. Noutros termos, não é somente um problema democrático, mas republicano.

O evidente contubérnio de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro é a demonstração mais recente e cabal dessa impropriedade. Torna insustentável a permanência do magistrado na Corte, pois envenena de tal forma o funcionamento do tribunal e sua imagem pública que ameaça arruinar de vez qualquer vestígio de credibilidade que a Corte ainda tenha, comprometendo sua legitimidade. Contudo, Moraes não está nisso sozinho. A instrumentalização da investigação por André Mendonça para promover a luta intestina no tribunal, destruir inimigos e interferir no processo eleitoral também depõe contra sua conduta e não pode ser tolerada.

Uma reforma profunda das regras de funcionamento do STF se impõe. Ela deve ser uma agenda importante da próxima legislatura, independentemente dos desdobramentos do escândalo ­atual. A solução dessa crise profunda e a reconstrução das condições de legitimidade substantiva do tribunal não se dará apenas com o afastamento e a eventual punição daqueles que erraram. É preciso criar condições para que tais erros não se repitam futuramente. •

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

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TERRA ARRASADA

André Barrocal, CartaCapital

Mendonça instala uma crise no STF de olho na demolição da República

O Supremo Tribunal Federal foi arrastado para sua maior tormenta por dois de seus integrantes: André Mendonça e Alexandre de Moraes. Agora cabe ao presidente da Corte, Edson Fachin, decidir se o capítulo mais agudo da crise terá um desfecho diante das câmeras de tevê ou se a solução será outra. Mendonça investigou Moraes às escondidas no caso Master e botou na praça todas as informações recebidas da Polícia Federal. Moraes está encrencado até o pescoço, graças à relação com Daniel Vorcaro, dono do finado banco. Ao ligar o ventilador na direção do colega, Mendonça praticamente exigiu que o STF realize uma sessão aberta para decidir o futuro do desafeto. Detalhe: Moraes assumirá o comando do Supremo daqui a um ano, se sobreviver até lá. Para o trivial Fachin, o tribunal vive um momento de “especial gravidade” e tanto a atuação de Mendonça quanto os indícios contra Moraes exigem resposta. Daí sua promessa de anunciar nos próximos dias “as medidas cabíveis e necessárias”, conforme declarou em nota pública. Uma saída que preserve “a integridade do Supremo”, “a autoridade de suas decisões” e “a confiança da sociedade na instituição”.

Ao partir para cima de Moraes, Mendonça incendiou a oposição às vésperas do Dia da Pátria, data que o bolsonarismo usou em outras ocasiões para malhar o Supremo e pretende repetir a dose neste ano. Muitas campanhas direitistas ao Senado, casa com poder para cassar ministros das altas Cortes, se escoram no discurso anti-STF. Não só o tribunal está em jogo, a eleição presidencial também. A guerra contra Moraes é o ápice de uma atuação de Mendonça a favor do clã Bolsonaro nas investigações sobre falcatruas do Master e sobre descontos indevidos em aposentadorias do INSS. O ministro deve a vaga no STF a Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de cadeia por tentativa de golpe em um processo conduzido por Moraes. “É o mais ideológico” da Corte, anota um colega. Enquanto poupa Flávio Bolsonaro no inquérito sobre o filme Dark ­Horse, um capítulo do escândalo do Master, o “terrivelmente evangélico” parece empenhado em transformar Vorcaro em herói com uma delação premiada contra o lulismo. Uma forma de jogar no colo do governo um escândalo majoritariamente do Centrão e dos bolsonaristas, vide, entre outras, a participação decisiva dos ex-governadores Cláudio Castro, do Rio de Janeiro, e Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, e do senador Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro.

No fim de agosto, o gabinete de Mendonça recebeu Vorcaro, preso preventivamente desde março. Tomou-lhe um depoimento, a pedido do advogado de defesa. Uma das afirmações do interrogado foi de que topa acusar “pessoas do núcleo do atual governo”. A íntegra do depoimento foi vazada na quinta-feira 3. É o método lavajatista a pleno vapor a um mês da eleição. Busca-se pressionar as autoridades, via mídia, para que aceitem a delação de Vorcaro, alguém disposto a passar o Brasil a limpo. O relatório da PF sobre as relações de ­Moraes com Vorcaro dá plausibilidade à tese de que o banqueiro tem muito a falar.

Vorcaro foi preso duas vezes a pedido da PF e não conseguiu convencê-la a aceitar uma delação, nem teve mais sorte com a Procuradoria-Geral da República. Segundo fontes policiais, ele propôs um acordo inaceitável: reabrir o Master e pagar ao longo de anos, não de cara, uma multa de 40 bilhões de reais. Autorizada pelo Banco Central a funcionar no primeiro ano de Jair Bolsonaro, a instituição de Vorcaro foi fechada pelo BC no dia da primeira prisão dele, em novembro passado. A PF prepara-se para concluir as apurações principais do caso e incriminá-lo por gestão fraudulenta. Aí caberá à PGR acusá-lo, ou não, na Justiça. Um relatório do BC de outubro de 2025 aponta um golpe de 12 bilhões de reais do Master, com a venda ao BRB, banco estatal de Brasília, de uma carteira de crédito fajuta. É a maior fraude financeira da história brasileira.

O objetivo final da vandalização do STF parece ser atribuir ao governo Lula a exclusiva responsabilidade pelo escândalo do Banco Master

A delação de um parceiro de Vorcaro tem tudo para piorar a situação do banqueiro e para tornar mais improvável um acordo de delação. José Carlos Mansur é o dono de um fundo, a Reag, que o Master usava para lavar dinheiro. A Reag também se prestava à lavanderia do PCC. Os negócios com o Master injetaram recursos em uma empresa, a Super Empreendimentos, que depois compraria uma casa em Brasília onde seria instalado o QG de Vorcaro. Até 2024, a Super era dirigida por um cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel. Na eleição de 2022, Zettel foi um dos maiores financiadores de Bolsonaro, 3 milhões de reais. A delação de Mansur acaba de ser selada com o Ministério Público. Cabe a Mendonça, relator do caso Master, homologá-la. Idem com outra colaboração premiada encaminhada, conforme O Globo. E esta atinge envolvidos com o filme Dark Horse, a cinebiografia de Bolsonaro bancada por Vorcaro.

O delator, neste caso, é Antônio Carlos Freixo Júnior, alvo em janeiro de uma batida da PF. Conhecido como “mineiro”, fazia chegar aos Estados Unidos os repasses de Vorcaro para o filme. Em 5 de fevereiro do ano passado, Vorcaro e Zettel trocaram mensagens sobre a produção e o patrocínio, conforme revelado, em maio, pelo Intercept Brasil. Zettel dizia que a área de câmbio do Master estava “criando caso”. Vorcaro autorizou “mandar a grana”, por meio de “quem paga lá fora”. Zettel perguntou se poderia pedir ao “Minas” para enviar, ou seja, a Freixo Jr. À época, Eduardo Bolsonaro já havia se autoexilado no Texas, a fim de conspirar para que o governo Trump impusesse medidas prejudiciais ao Brasil, na esperança de livrar o pai da cadeia. Convertido em réu no STF por “coação no curso do processo”, foi condenado a quatro anos em um processo relatado por Moraes. A delação de “mineiro” é uma chance de descobrir se Vorcaro pagou o complô de Eduardo. Fontes da PF são céticas quanto ao auxílio do governo norte-americano no rastreio da verba depositada no Heavengate, o fundo localizado nos EUA que era o destino dos recursos transferidos por Vorcaro. Motivo do ceticismo: os laços do bolsonarismo com o trumpismo.

Em setembro de 2025, o Heavengate recebeu um extra de 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, de acordo com um relatório do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. Na semana anterior, Flávio Bolsonaro havia cobrado o banqueiro. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, dizia o senador. “É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” O senador insiste que a relação entre Vorcaro e o filme só envolve dinheiro privado, ou seja, nada antiético. Será? Ao chegar à beira do abismo, em 2024, o Master lambuzou-se em verba pública para tentar se safar. O fundo de pensão dos servidores do Rio injetou cerca de 3 bilhões de reais no banco, na gestão Castro. E o BRB, 12 bilhões, sob Ibaneis. Karina Ferreira da Gama, a dona da produtora do filme, a GoUp, pede para ser investigada sob supervisão do Mendonça. Idem o deputado Mário Frias, do PL, secretário de Cultura no governo Bolsonaro, roteirista da cinebiografia do capitão e autor do envio de dinheiro de emendas parlamentares a uma ONG de Gama. Essa ONG, o Instituto Conhecer Brasil, é alvo da Polícia Civil de São Paulo por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura paulistana. O delegado Antônio Carlos Munuera Silveira vê “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Daí os advogados da produtora acionarem Mendonça para que ele retire de São Paulo a investigação e puxe para si em Brasília. Frias é alvo de um inquérito no Supremo, aos cuidados de Flávio Dino, por ter financiado o instituto com emenda parlamentar. Seu advogado pediu a Fachin que transfira o inquérito para Mendonça. Tanto o deputado quanto Gama parecem, digamos, confiar em Mendonça.

Quando o assunto é Dark Horse, o filho “Zero Um” não tem do que reclamar do “terrivelmente evangélico”. O processo não tem gerado notícias. Há, porém, um recurso no Supremo capaz de fazer tudo passar às mãos de outro magistrado. Após a divulgação do áudio de Flávio a Vorcaro, o deputado ­Lindbergh Farias, do PT, requereu ao STF uma nova investigação do senador. A solicitação foi a Moraes, pois, à época, o ministro era o relator da ação penal de “coação” contra Eduardo. Moraes não aceitou a relatoria e remeteu a bola a Fachin. Este entendeu que o tema se relacionava ao caso Master e mandou o pedido a Mendonça. Cabe a este liberar o recurso para o plenário do Supremo resolver a controvérsia sobre a relatoria.

Depois de expor a relação de Vorcaro com Moraes, o gabinete de Mendonça tornou pública a proposta do banqueiro de delatar “pessoas do núcleo do atual governo”

Por que Moraes se esquivou de supervisionar o processo sobre Dark Horse? Segundo informações em Brasília, o juiz não queria entrar na berlinda associado a Vorcaro. O relatório encomendado por Mendonça a delegados da PF do caso Master explica o receio. Moraes e o banqueiro estiveram juntos várias vezes desde o fim de 2023. O que falaram nas conversas não se sabe. Mas as trocas de mensagens escritas entre eles são comprometedoras para Moraes, mesmo que a PF tenha conseguido descobrir apenas o que Vorcaro dizia. Os dois usavam um método peculiar nas mensagens. Em vez de escreverem o texto no ­WhatsApp, redigiam no aplicativo “bloco de notas”, faziam uma foto da “nota”, a enviavam ao outro e em seguida a apagavam do WhatsApp, forma de não deixar rastros. O que Vorcaro não sabia é que as fotos ficavam armazenadas em um lugar oculto no celular, e foi a esse “esconderijo” que a PF chegou ao apreender o telefone dele em novembro.

Ao se observarem as mensagens em conjunto e cotejá-las com os acontecimentos, a conclusão inescapável é de que Vorcaro contratou o escritório da esposa de Moraes para ter serviços prestados pelo próprio togado. E que o combinado foi entregue. Descobrir a existência de investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das missões do juiz. Procurar autoridades que pudessem salvar a pele do banco e de seu dono era outra. O diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, e o procurador-geral, Paulo Gonet, parecem ter sido acionados por Moraes. Dois deles, afirma uma autoridade em Brasília, receberam mensagens de Moraes nas quais o ministro dizia que Vorcaro era “sério”. Situação que configura, em tese, crimes como advocacia administrativa, favorecimento pessoal, tráfico de influência e obstrução de Justiça.

O primeiro contrato de Vorcaro com o escritório de Viviane Barci de Moraes ocorreu em janeiro de 2024. Em 30 de dezembro de 2023, o banqueiro e o ministro haviam se encontrado na estância turística de Campos do Jordão, no que parece ter sido o tête-à-tête inicial. A reunião tinha sido intermediada por Fábio Faria, ex-ministro de Bolsonaro. Foi Faria quem passou o telefone do togado a Vorcaro durante os preparativos do encontro. Duas semanas após a reunião, Moraes examinou o contrato que a esposa selaria com o banqueiro. Há registro de que ele alterou o documento antes da assinatura. O acordo era de 3 milhões de reais mensais, por três anos. Outro, de 50 milhões, a ser pago com cotas de empresas proprietárias de um helicóptero e de um avião, foi celebrado em maio de 2025.

O ano passado marcou a ­ruína do Master. Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez na noite de 17 de novembro, uma segunda-feira, no aeroporto de Guarulhos, quando estava prestes a embarcar para o exterior. Na antevéspera, 15 de novembro, um sábado, ele havia procurado Moraes. Em uma das mensagens, dizia: “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” No minuto seguinte, prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?”.

No meio do tiroteio, veio à tona que o ministro Mendonça também manteve contatos com Daniel Vorcaro

As mensagens resumem a natureza da relação entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10ª Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de novembro, fato desconhecido na ocasião das mensagens. Galípolo é o presidente do BC. Paulo é Gonet, o procurador-geral. E Andrei, o diretor da PF. Em 16 de novembro, Vorcaro e Moraes acertaram uma reunião às 2 da tarde. Depois dela, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Não houve atraso. A PF o algemou no dia seguinte e desde então resiste às suas propostas de delação. Em uma das últimas mensagens a Moraes no dia da prisão, ele indagou: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por “bloquear”, leia-se “melar” a operação policial a caminho.

Mendonça tornou público o relatório encomendado à PF e assinou um despacho no qual afirma que o “caminho inevitável” é o plenário do Supremo decidir “de forma pública e transparente, em sessão presencial” o que fazer. Tradução: se Moraes será investigado. É mais uma tacada do tipo lavajatista, de usar a opinião pública para pressionar o Judiciário, ao estilo de Sergio Moro, cuja postura Mendonça tem mimetizado ao orientar a mira da PF nos inquéritos do Master e do INSS. A correlação de forças no Supremo não permite antecipar o desfecho, na hipótese de julgamento plenário. A realização ou não dessa sessão depende de Fachin.

Gonet pediu ao tribunal a anulação do relatório policial encomendado por Mendonça. Segundo ele, há duas nulidades por trás do documento. Uma é que o juiz abriu uma investigação por conta própria, sem ser provocado pela PF ou pelo Ministério Público. A outra é que a produção do relatório deveria ter sido discutida no plenário do STF. Há um complicador na posição do procurador. Ele próprio é atingido pelo relatório policial. Além das citações a seu nome em conversas entre Vorcaro e Moraes, aparece como alguém das relações do banqueiro. A ponte entre eles era o advogado Ciro Rocha Soares, que intermediou um convite para Gonet participar de um evento jurídico em Londres, em 2025, organizado por Moraes e patrocinado por Vorcaro. O banqueiro topava bancar as despesas do procurador-geral e de um filho dele, Pedro Gonet. O evento, cuja primeira edição aconteceu em 2024, foi cancelado.

Soares foi intermediário de um encontro de Mendonça com Vorcaro, em março do ano passado, época em que o caso Master ainda não tinha vindo à tona, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn. A reunião ocorreu na sede do instituto do juiz, o Iter, em São Paulo. O Iter é um flanco exposto do togado, por causa de contratos com órgãos públicos. Um deles: 1,2 milhão de reais pagos por um consórcio municipal paulista, o Cioste, presidido por um prefeito que injetou dinheiro no Master na hora do aperto do banco, conforme revelado, em abril, por CartaCapital. O acordo foi feito quatro meses após a conversa de Mendonça e Vorcaro. Outro contrato chamativo: 518 mil reais com a Secretaria de Segurança Pública do Rio, de maio passado. Cláudio Castro, governador do estado até janeiro, é investigado no escândalo do Master. A PF pediu uma batida contra ele, e Mendonça autorizou justamente em maio. Não permitiu, porém, que fosse vasculhado o escritório de advocacia de Castro, onde o ex-governador guardaria documentos incriminadores.

E a política diante do maremoto? Flávio Bolsonaro pede a renúncia de Moraes, outros opositores querem o impeachment do juiz via Senado. Quem tem o poder de abrir o processo de cassação é o presidente da Casa, Davi Alcolumbre. Na quarta-feira 2, o senador comentou no plenário: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões para a mesma pessoa, para fazer um filme, e agora o culpado só é o ministro Alexandre de Moraes”. Foi uma alusão à cobrança de Flávio a Vorcaro. “A maior aliança da República hoje é do Davi com o Alexandre”, afirma um ministro de Lula. O juiz promoveu a reconciliação do senador com o presidente da República, ao oferecer um jantar no início de agosto. O petista conversou com alguns magistrados do Supremo nos últimos dias e está decidido a lavar as mãos no entrevero. O coordenador da campanha à reeleição, Edinho Silva, divulgou um vídeo após falar com Lula. Nele diz que “o sistema apodreceu” e que “ninguém está acima da lei, seja cidadão comum, um governante, um parlamentar, ou até um integrante do Poder Judiciário”.

A conferir se o lavajatismo vai triunfar mais uma vez. 

Publicado na edição n° 1429 de CartaCapital, em 09 de setembro de 2026.

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