quarta-feira, 15 de abril de 2026

ROLETA-RUSSA EM SP

Editorial, O Estado de S. Paulo

Despreparo de alguns policiais transforma uma simples caminhada noturna em aposta de vida ou morte

A morte da auxiliar de serviços gerais Thawanna da Silva Salmázio, baleada no peito pela policial militar Yasmin Cursino Ferreira durante uma ronda noturna em Cidade Tiradentes, zona leste da capital paulista, mostra que, a depender do bairro, sair às ruas é apostar numa loteria macabra na qual a vida humana tem pouco ou nenhum valor. A maturidade e o nível de treinamento dos policiais militares envolvidos em dada abordagem irão determinar se um cidadão vai viver ou morrer após cruzar seu caminho.

As imagens da ocorrência, registradas pela câmera corporal do soldado Weden Silva Soares, parceiro de Yasmin no patrulhamento, são perturbadoras não só pelo desfecho trágico. Elas revelam uma escalada de insensatez que qualquer agente mais bem treinado teria evitado.

Tudo começou com o marido de Thawanna sendo atingido pelo retrovisor da viatura policial. O casal reclamou. Os policiais deram ré, mas, em vez de se desculparem e seguirem adiante, iniciaram a abordagem com agressividade, questionando por que o casal estava na rua naquele horário. Em seguida, a soldado Yasmin sai do carro e a discussão escala sem controle. Um tiro é disparado em questão de poucos minutos, como se fosse um desfecho trivial para aquela altercação.

A reação do soldado Weden à atitude da colega sintetiza o amadorismo que resultou em tragédia. “Por que você atirou nela?”, questiona. De fato, não havia qualquer razão para o uso da força letal. A soldado Yasmin alega que a vítima teria dado um tapa em seu rosto. Não há registro dessa suposta agressão. Mas, ainda que tenha havido, é evidente o descompasso entre o que se espera de um policial militar envolvido numa situação dessas e o comportamento irresponsável, para dizer o mínimo, da soldado de dedo leve no gatilho.

O uso de força letal por agentes do Estado é regido, fundamentalmente, pelo princípio do uso progressivo. Um tapa, supondo que tenha havido, não autoriza um tiro, mas sim a prisão do agressor, se tanto. Espera-se que policiais militares sejam capazes de suportar a tensão das ruas e responder a provocações sem perder o controle. É para isso, afinal, que são treinados – ou deveriam ser.

Esse caso expôs falhas óbvias de recrutamento, treinamento e, sobretudo, padronização de condutas na Polícia Militar (PM) de São Paulo. É inaceitável que o comportamento de um policial militar varie a ponto de abordagens semelhantes em regiões distintas levarem a desfechos radicalmente opostos. O policiamento ostensivo deve ser padronizado e proporcional. A autoridade policial se exerce com firmeza, mas também com técnica e respeito aos cidadãos.

O preço do despreparo de alguns policiais militares costuma ser mais caro nas periferias da cidade, onde as abordagens da PM não raro são mais conflitivas. Nas regiões mais afastadas do centro expandido, os cidadãos nunca sabem se serão tratados como tais ou como suspeitos a priori. No fundo, talvez saibam.

Sem confiança social na PM, não há segurança pública, há medo. E, quando um cidadão passa a sentir medo ao avistar uma viatura policial, a instituição deixa de representar proteção e passa a ser vista como ameaça. Esse círculo vicioso só produz desordem e morte.

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terça-feira, 14 de abril de 2026

UM MINEIRO QUE RETORNA

Simon Schwartzman*, O Estado de S. Paulo

Obra deve ser lida como uma coleção de pistas sobre as ideias e contribuições de Lamounier para o debate político brasileiro ao longo de sua carreira

Seis gigantes que retornam e outros estudos, de Bolívar Lamounier (Edicon, 2025), não deve ser lido apenas como uma apresentação erudita de clássicos das ciências sociais, e sim como uma coleção de pistas sobre as ideias e contribuições do autor para o debate político brasileiro ao longo de sua carreira. A parte mais substancial é um belo ensaio sobre Minas Gerais no período colonial, que não aparece no título, mas revela não só as origens do autor como também sua interpretação sobre as características do Estado e do sistema político brasileiro, objetos de suas preocupações.

Nascido em Dores do Indaiá, no interior de Minas Gerais, Lamounier estudou sociologia e política em Belo Horizonte no início dos anos 1960, foi para Los Angeles cursar doutorado – interrompido por uma prisão durante a ditadura militar enquanto visitava Belo Horizonte. Escreveu sua tese sobre as ideologias políticas autoritárias que vicejavam no Brasil. De volta, organizou os cursos de pós-graduação em Ciência Política e Sociologia do Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro e depois mudou-se para São Paulo para trabalhar com Fernando Henrique Cardoso no Centro Brasileiro de Análise e Pl a nej a mento ( Cebrap). Acompanhou de perto as eleições dos anos 1970 e 1980 e, em 1985, integrou a Comissão Afonso Arinos, que preparou o anteprojeto da Constituição brasileira. Desde então, pesquisa, escreve e participa ativamente dos debates sobre a consolidação e funcionamento da democracia brasileira.

No ensaio sobre Minas Gerais, Lamounier descreve o processo tumultuado de ocupação da região para a exploração do ouro no século 18, com a população que chegava para trabalhar nas minas, o esforço cada vez maior do Estado português para controlar a riqueza que se produzia, além das tensões e conflitos que surgiam não só entre a administração portuguesa e os mineradores, mas também entre estes e os escravizados e libertos que vinham de toda parte e faziam o trabalho pesado. O que sobrou no século 19, quando o ciclo do ouro se encerrou? Nem uma economia de subsistência e pobreza extrema, nem uma sociedade tradicional de tipo feudal, mas uma sociedade complexa e viva, apoiada sobretudo na agricultura e na pecuária, combinando uma elite rural empobrecida, trabalhadores escravizados e libertos vivendo nas fazendas e aldeias que haviam sobrevivido ao ciclo do ouro.

Um dos “gigantes” da primeira parte do livro, Victor Nunes Leal, dá a chave principal para entender Minas Gerais, na figura do “coronel”. Ele não é simplesmente um chefe local, mas um ponto de contato e transição entre a sociedade rural e o Estado que, aos poucos, vai crescendo de importância, não só na capital, no Rio de Janeiro, mas também nos governos provinciais, que se afirmam sobretudo com a inauguração de Belo Horizonte, em 1897. O coronel manda seus filhos estudar nas cidades, vai à capital negociar cargos e simboliza, não a força do atraso, mas o enfraquecimento do poder privado ante um país que se moderniza.

O outro gigante, Celso Furtado, é louvado pela grande contribuição que teve ao inaugurar a moderna história econômica do Brasil e valorizar a modernização, mas criticado pela ênfase exclusiva que punha na industrialização, sem ver a vitalidade que havia também no campo.

O terceiro, Sérgio Buarque de Holanda, é visto sobretudo de forma negativa, ao interpretar a cultura brasileira como avessa à racionalidade e à modernização, sem entender o dinamismo e a racionalidade que também ocorriam de outras formas.

Dos três “gigantes” da literatura internacional, o mais importante para Lamounier é o espanhol Juan Linz, um dos fundadores dos modernos estudos de sistemas políticos comparados dos anos 1970 e 1980, acompanhando o processo de democratização que ocorria em tantos países naqueles anos, inclusive no Brasil. As comparações pareciam indicar que os regimes parlamentaristas tinham mais chance de dar certo do que os presidencialistas, e Lamounier também defendeu essas ideias para o Brasil naqueles anos. O segundo, Mancur Olson, entra somente pelo axioma central de sua obra, o de que indivíduos racionais não agem espontaneamente para promover o interesse comum quando os benefícios são públicos. No papel, democracias são regimes governados pelo povo, mas, na prática, elas dependem de elites que se mobilizam para o bem ou para o mal. Regimes democráticos efetivos são aqueles que conseguem administrar sem violência a pluralidade de interesses da sociedade e fazer com que os interesses das elites coincidam com os interesses comuns da sociedade.

Mas como conseguir esse milagre? Aí entraria o terceiro gigante, Max Weber. Weber, sobretudo na perspectiva de um de seus principais intérpretes, Reinhard Bendix, é um dos principais teóricos do tema da formação dos Estados nacionais modernos, que eu utilizei quando trabalhei em minha tese de doutorado. Lamounier, no entanto, parece preferir falar das escolhas políticas que Weber fez nos anos confusos da Alemanha da década de 1910, o que lamento, mas seria o tema para outra resenha ou uma longa conversa. 

*Sociólogo, é membro da Academia Brasileira de Ciências

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BAGUNÇA DE MODAIS ELÉTRICAS CORRE SOLTA NAS METRÓPOLES

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Não há regulação, fiscalização ou campanhas educativas

Depois de tragédia no Rio, quase nada mudou nas ruas

"Ciclovias, ruas e calçadas são espaços anárquicos, onde motos, bicicletas e autopropelidos —patinetes e motinhas elétricas de rodas pequenas, muitas das quais usadas por adolescentes e marmanjões descuidados— disputam centímetros com outros veículos e com pedestres de olhos arregalados de atenção e medo."

É um trecho de coluna publicada neste espaço no início de março. No fim daquele mês, a geógrafa Emanoelle de Farias e seu filho de 9 anos morreram atropelados numa bicicleta elétrica por um ônibus. O acidente ocorreu no Rio, mas grandes cidades brasileiras vivem no limite da tragédia.

Dados do Ministério da Saúde mostram que, até julho de 2025, o SUS registrou mais de 127 mil internações por acidentes de trânsito envolvendo 98 mil motociclistas, 19 mil pedestres e mais de 10 mil ciclistas. Juntos, eles representam 77,4% dos casos graves. Entre janeiro e setembro de 2025, foram 1.992 mortes de motociclistas, 916 de pedestres e 258 de ciclistas. Em paralelo às estatísticas macabras surge a expansão dos modais elétricos, saudável alternativa ao transporte público deficiente, mas que se dá sem regulação nacional, sem fiscalização e sem campanhas educativas.

A bagunça corre solta e será difícil de arrumar. Sob o impacto das mortes de mãe e filho, a Prefeitura do Rio de Janeiro publicou um decreto endurecendo as regras: o uso de capacete é obrigatório para ciclomotores, bicicletas elétricas e autopropelidos (como patinetes), que estão proibidos de circular em vias com velocidade máxima superior a 60 km/h; exige-se emplacamento e carteira de habilitação a ciclomotores. O prefeito Eduardo Cavaliere, que substitui Eduardo Paes, anunciou a implantação de novas ciclovias na cidade, promessa de mais 50 quilômetros até 2028.

Nos dias seguintes à publicação do decreto, quase nada havia mudado nas ruas. Dei uma volta na orla e flagrei as bandalhas de sempre: pessoas sem capacete trafegando na contramão, homens levando crianças ou mulheres na garupa, motinhas acelerando ao máximo nas ciclovias.

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HÚNGAROS REVERTEM EROSÃO DA DEMOCRACIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Apesar de passar por período difícil, democracias continuam vivas

Caso húngaro se soma ao da Polônia, da Eslovênia e do Brasil

Viktor Orbán foi destronado pelo voto. Os relatos sobre a morte da democracia liberal são exagerados. É fato que esse sistema de governo já viveu dias mais brilhantes, mas é pouco provável que a atual maré recessiva leve a democracia à condição de espécie ameaçada. Substituí-la não é tarefa trivial. Nenhum sistema oferece melhor balanço de direitos individuais, responsividade à opinião pública e estabilidade política.

Orbán era o garoto-propaganda do iliberalismo. Foi ele quem escreveu o manual da erosão democrática, pelo qual líderes eleitos vão, em geral dentro da lei, enfraquecendo os freios e contrapesos a seu poder até que o Estado se torna mais autocrático do que democrático. Orbán levara esse movimento ao paroxismo. Ele gozava de amplo domínio sobre o Legislativo, o Judiciário e controlava os meios de comunicação. Mas não controlava tanto o eleitorado.

Após 16 anos no poder, o Fidesz, o partido de Orbán, sofreu uma surra histórica nas urnas. O futuro governo conseguiu a maioria de dois terços necessária para aprovar mudanças constitucionais. Vale lembrar que não foi só na Hungria que líderes autocráticos sofreram reveses. Algo parecido aconteceu na Polônia, na Eslovênia e, é claro, no Brasil.

Mas, se Orbán experimentara tanto sucesso como líder iliberal, por que aceitou abrir mão do poder? É justamente aí que reside a "mágica" da democracia. Ela não é virtuosa por favorecer a escolha de líderes competentes (muito pelo contrário), mas por facilitar a saída pacífica de governantes, especialmente os maus. Orbán, que é mais inteligente que a média dos candidatos a autocrata, calculou que perderia menos passando um tempo na oposição do que resistindo, por meio de violência ou golpe, à vontade popular e às sanções que sofreria no âmbito da União Europeia.

Ele continua a ser um político influente e poderá voltar pelas urnas. Trump e Netanyahu voltaram —a democracia é boa, mas não perfeita. E, no pior cenário, se vier a enfrentar processos, sabe que será bem recebido em Moscou.

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O ROTEIRISTA ESTÁ INCONTROLÁVEL

André Borges, Folha de S. Paulo

No novo episódio que flerta com o surreal, ex-diretor da Abin é preso pelo serviço de imigração dos EUA

Novas peripécias de Daniel Vorcaro e sua turminha do barulho certamente vão agitar a sua sessão da tarde

Ninguém segura o roteirista. Está sem limites. No novo episódio que flerta com o surreal, o ex-diretor da Abin (Agência Brasileira de Inteligência) Alexandre Ramagem (PL-RJ) é detido pelo ICE, o serviço de imigração dos Estados Unidos. Considerado foragido da Justiça brasileira, o ex-deputado cassado cai na malha trumpista que deporta imigrantes ilegais.

Um olhar desatento pode até sugerir que o escrevinhador perdeu a mão, que exagera no pastelão, mas basta lembrar que, em dezembro, Silvinei Vasques, ex-diretor-geral da Polícia Rodoviária Federal, foi preso em Assunção, no Paraguai, quando tentava embarcar num voo para El Salvador usando um passaporte falso.

De cara e cabelos novos, dizia se chamar Julio Eduardo Baez Fernandez e que viajava para tratamento de saúde. Levava uma carta em espanhol com prescrição médica, onde afirmava que não falava, nem ouvia, "em razão de uma condição médica grave".

O despautério do roteirista chega a fazer com que se esqueça de seus arroubos mais recentes. Já parece um causo distante o episódio de novembro passado, quando Jair Bolsonaro (PL) atentou contra a sua tornozeleira eletrônica usando um ferro de solda. Flagrado pela Polícia Federal, alegou, num desvario, que fez aquilo por "curiosidade".

Num talento inesgotável para a tragicomédia, o roteirista também mostra que não é escritor de uma obra só. Chega dessa história clichê de fugir para os EUA com joias das Arábias, de montar missão secreta para recuperar diamantes, de se esconder na Embaixada da Hungria ou falsificar cartão de vacina.

Aí estão os episódios diários das "Mil e Uma Noites de Vorcaro" e sua trupe, para provar que "as novas peripécias dessa turminha do barulho vão agitar a sua sessão da tarde". Muitas sessões.

Não é à toa que tem gente que não confia mais nas instituições da República. Alguns já decidiram chamar ETs com o celular para ver se dão um jeito nessa confusão. O roteirista morre de rir. De tédio, ninguém morre.

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AS FFAA E A POLÍTICA NO BRASIL

Rubens Barbosa*, O Estado de S. Paulo

A prisão de militares de alta patente marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no País

A prisão de militares de alta patente, inclusive de um ex-presidente, ex-ministro da Defesa e comandantes das forças singulares, marca um ponto de inflexão na história da política e no relacionamento entre civis e militares no Brasil. Foram 27 militares que participaram de uma tentativa de golpe, de acordo com a acusação do Supremo Tribunal Federal (STF), todos tornados réus e condenados.

Como consequência das prisões, o Superior Tribunal Militar (STM) julgará se todos os oficiais e o presidente perderão seus postos e patentes por serem considerados indignos do oficialato ou com ele incompatíveis. O resultado é incerto e poderá tornar-se controvertido.

A reação da instituição militar ao julgamento mostra que houve uma mudança significativa no comportamento das Forças Armadas (FFAA), comprovada pela atuação fora da política (com poucas exceções individuais) desde 1985, apesar das tentativas de atraí-las para o cenário político no governo anterior. E agora, depois do julgamento e do início do cumprimento das penas, não se ouviu nem se leu qualquer manifestação contra a condenação e as penas impostas aos que tentaram desafiar a democracia e as regras do jogo democrático. Com 40 anos, desde 1985 até hoje, nunca houve um período tão longo na história brasileira, sem uma intervenção dos militares na vida política nacional.

Depois de 14 intervenções militares na política nacional, desde a deposição do imperador Pedro II em 1889, até o golpe de Estado de 1964, pela primeira vez, os articuladores e líderes desses movimentos contrários à democracia foram indiciados, julgados e condenados. A anistia, sempre concedida a todos os participantes das insurreições anteriores, pela primeira vez, não foi aplicada, pelo menos, até aqui.

Pesquisa recente da AtlasIntel/ Estadão sobre o nível de confiança da sociedade nas instituições – talvez influenciada pelo que ocorreu no governo anterior – colocou o Exército e as FFAA com 60% de desconfiança, em penúltimo lugar, só perdendo para o Congresso. Corrigir essa percepção é uma das principais razões para virar mais uma página de nossa história.

A virada de página dos militares seria um marco na história política brasileira e, espera-se, poderá ter profundos impactos na evolução e fortalecimento da democracia no Brasil e no papel das FFAA na sociedade brasileira.

No debate interno sobre o papel das FFAA, a tendência é sempre discutir o papel constitucional dos militares, a submissão dos militares ao poder civil, deixando de lado, no Congresso e na sociedade civil, aspectos relevantes, como a formulação de uma nova política de Defesa, a modernização operacional e logística das FFAA, a necessidade de investimentos na Defesa, a interação com a Base Industrial de Defesa e sobretudo a previsibilidade das questões orçamentárias. Na verdade, os civis – os políticos e a academia – são os grandes ausentes no exame isento e objetivo dos problemas da organização das Forças Armadas e da Defesa nacional.

O Congresso daria uma relevante contribuição para reafirmar a supremacia do poder civil, caso decidisse examinar questões que dizem respeito à participação de militares da ativa no Executivo e sobre a designação do ministro da Defesa. A chefia do Ministério da Defesa, normalmente civil, somente poderia ser ocupada por oficial militar se o indicado estiver na reserva por pelo menos sete anos e, caso não preencha esse requisito, com a expressa autorização do Congresso, como ocorre nos EUA. Duas Propostas de Emenda à Constituição (PECs) encontram-se paradas no Congresso.

A primeira é a PEC que estabelece que a indicação de militares da ativa para cargos civis no governo deveria seguir norma pela qual qualquer representante das Forças Armadas e da Polícia Militar que aceitar convite para integrar o Executivo, em qualquer nível, deveria passar automaticamente para a reserva. Adicionalmente, o Congresso deveria votar a PEC que proíbe a participação de militares da ativa nas eleições. O texto, que dorme há três anos no Congresso, prevê a transferência para a reserva de integrantes das Forças Armadas que optarem por entrar na política, uma medida importante para proteger as tropas da politização.

Para encerrar um período complexo da história nacional, o Congresso deveria também examinar outra PEC prevendo a mudança no artigo 142 da Constituição federal, que dispõe: “As Forças Armadas, constituídas pela Marinha, pelo Exército e pela Aeronáutica, são instituições nacionais permanentes e regulares, organizadas com base na hierarquia e na disciplina, sob a autoridade suprema do presidente da República e destinam-se à defesa da Pátria, à garantia dos Poderes constitucionais e, por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”. Seria eliminada a parte final (“a garantia dos poderes constitucionais e por iniciativa de qualquer destes, da lei e da ordem”) para deixar bem claro que as FFAA não ganharam, pelo texto atual, um poder moderador para arbitrar crises políticas internas no Brasil, conforme decisão do STF sobre o assunto.

Com essas medidas, seria virada uma página sensível dos 137 anos de história de participação ativa dos militares na vida política nacional, dando-se ênfase à subordinação das FFAA às leis e à Constituição. •

*Presidente do Centro de Estudos de Defesa e Segurança Nacional (Cedesen) e do grupo interesse nacional

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GILMAR QUER REFORÇO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Jorge Messias vem aí. Vencidas, algumas codevasfs depois, as principais dificuldades forjadas por Davi Alcolumbre, os seus wevertons já afrouxam as cordas e apontam para aquela sabatina teatral padrão. Messias vem aí. E Gilmar Mendes o reivindica para si. Quer reforço à sua bancada no Supremo, também a bancada do governo na Corte constitucional – o terceiro parlamento, com todos os ônus eleitorais decorrentes da associação de Lula ao “companheiro” Alexandre de Moraes, a própria imagem de um tribunal percebido ao mesmo tempo como agente líder em operação abafa (contra as investigações do caso Master) e extensão proativa do Planalto.

Messias vem aí, talvez mesmo a tempo – de pedido de vista em pedido de vista – de formar maioria pela eleição suplementar direta no Rio de Janeiro; ou talvez, não havendo mais tempo de organizar a eleição suplementar, para formar maioria a que haja somente a eleição regular de outubro e, já em outro patamar de intervenção, a que o presidente do Tribunal de Justiça governe o Estado até janeiro, ignorada a linha sucessória a ser recomposta com a eleição de novo presidente da Assembleia Legislativa.

A bancada que precisa de reforço: além de Mendes e Moraes, Dias Toffoli, Cristiano Zanin e Flávio Dino. (Paulo Gonet, PGR, é assessor-parlamentar do bloco.) Messias vem aí, para assegurar a maioria e, contra o código de Fachin, reafirmar a vigência do direito xandônico. Leal a Lula, como Zanin e Dino, o principal critério para indicação neste mandato; e doravante devedor do decano, cuja carga em senadores que têm foro no STF não pode ser desvalorizada.

“Apoio de peso” – li em algum lugar, sobre a defesa de Gilmar às credenciais do candidato, cousa de repente normal um ministro do Supremo fazendo campanha pública, em rede social, para que o advogado-geral da União se junte ao time. Já há muito natural que tenham candidatos a todos os cargos de indicação política em Brasília – e que trabalhem por eles.

Gilmar Mendes quer reforço à bancada porque o caso Master a expôs e enfraqueceu. Moraes, ainda que ferido, mantém-se de pé, mesmo sem meios para explicar o contrato do escritório da esposa – R$ 80 milhões pagos em 22 meses – com o banco. Não tendo como explicar o valor do serviço nem a mensagem em que Vorcaro lhe questiona, no dia em que seria preso, sobre se conseguira bloquear algo, reage disparando investigações-intimidações via inquérito xandônico infinito e onipotente.

Xandão tem fibra e é útil. Ainda. Não se poderá dizer o mesmo de Dias Toffoli, outrora anulador-geral da República, hoje moribundo dependente da blitz bloqueadora que o time promove para lhe blindar o sigilo da empresa – blitz que o tem por fachada para a blindagem, afinal, do próprio Supremo. Dias Toffoli, descartável, tornou-se especialmente tóxico, pois inconfiável; os membros da bancada – que decidiriam não investigar a trairagem – não tendo se esquecido de que alguém gravara e vazara a reunião secreta em que deliberaram sobre seu afastamento da relatoria do caso Master. Messias vem aí e Gilmar tem pressa.

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A EXTREMA DIREITA NÃO É ETERNA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

As lições, ou reflexões, que a derrota de Orbán na Hungria traz para o Brasil

A surpreendente derrota de um dos principais líderes da extrema direita, Viktor Orbán, da Hungria, traz ao menos quatro reflexões, ou lições, para um Brasil polarizado e em ano eleitoral. A Hungria é a Hungria, o Brasil é o Brasil, mas as guerras políticas assolam o mundo inteiro e os extremos avançam, ainda mais com internet e redes sociais.

Orbán “reinou” na Hungria por 16 longuíssimos anos e tornou-se um polo de atração e inspiração da extrema direita, aliando-se a Trump, de um lado, e Putin, de outro, inclusive para fóruns de caráter religioso que, por exemplo, animam Trump a atacar o papa Leão XIV como “fraco”. Por quê? Porque não é arrogante, autoritário e histriônico como ele próprio.

A primeira lição que a Hungria nos dá é que a extrema direita não é imbatível nem eterna. Um dia, a casa cai, sob o peso dos excessos e do autoritarismo tosco que geram indignação e manifestações por mudanças, liberdade, democracia. Não adianta Trump enviar seus principais assessores para interferir. Ele enviou J.D. Vance a favor de Orbán, e daí?

A segunda é o que já vivenciamos, ao deixar os 20 anos de ditadura militar para trás: derrubar regimes autoritários não é tarefa para um bloco só, é uma construção da esquerda, do centro e da direita mais civilizada, ou insatisfeita, em geral dissidentes do regime – como Péter Magyar, vitorioso na Hungria. A união faz a força.

A terceira, mais modesta, mas eficaz, é que, enquanto Orbán gastou a campanha tentando doutrinar os húngaros com ideologia, geopolítica, Trump e guerras, o vitorioso Magyar falou aos eleitores sobre o que realmente lhes interessa: educação, saúde, salários, combate à corrupção e, somando tudo, liberdade. Se vai cumprir e se vai dar certo, são outros quinhentos.

E, enfim, a quarta lição: eleição não se ganha de véspera e nunca se pode descartar um “outsider” (ou aventureiro, em bom português) nesses momentos de desencanto com a política, desconfiança nas instituições e indignação generalizada.

Magyar, advogado de 45 anos, deslumbrou-se com as ideias de Orbán desde criancinha, filiou-se ao partido dele na juventude e ocupou posições estratégicas no regime. Sua ex-mulher e atual inimiga, a também advogada Judit Varga, foi ministra da Justiça de Orbán.

De fiel aliado, Magyar se transformou em ferrenho opositor e, assim, criou seu próprio partido, canalizou a insatisfação popular para as urnas e, em dois anos, deu a cambalhota que derrubou Orbán para iniciar uma nova era na Hungria. Qual? Não se sabe. Aliás, esse é o “x do problema” de “outsiders” e aventureiros, não é, Wilson Witzel e Ibaneis Rocha?

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SOCIEDADE ESTÃO DESPREPARADAS PARA AVANÇO DA TECNOLOGIA

Pedro Doria, O Globo

Estamos perdidos em guerras tribais enquanto o futuro se constrói

Foi uma semana atribulada no Vale do Silício. Começou com a Anthropic soltando para a concorrência, e não para o público, seu novo modelo de inteligência artificial. Terminou na madrugada de domingo, quando um jovem casal disparou tiros contra a casa do CEO da OpenAI, Sam Altman. Foi o segundo ataque à casa. Na sexta-feira, também de madrugada, um coquetel molotov havia sido atirado contra o muro da entrada.

Altman vive com o marido e o filho, um bebê de 1 ano, em Russian Hill, bairro de classe média alta em San Francisco onde algumas casas, em geral mais antigas, são bem luxuosas. É o caso da residência do CEO, que não tem fachada na rua, como é mais comum na cidade. A construção é um pouco mais afastada. No fim de semana, ele publicou em seu blog um texto longo sobre o primeiro ataque. De cara, pôs a foto do marido com o filho. Era para lembrar que ele não é uma entidade, e sim uma pessoa, com família. Seguiu explicando que compreende perfeitamente que este é um momento em que a ansiedade a respeito de IA começa a crescer.

O motivo que levou a Anthropic a divulgar a nova versão do Claude para a concorrência tem tudo a ver com isso. Segundo a equipe da companhia, ao testar melhor o modelo, os engenheiros descobriram que ele é tão bom em escrever códigos e compreender programas que saiu achando fragilidades em toda sorte de software. Portas escancaradas para ataques de hackers. Acharam melhor abrir o sistema para Google, Microsoft, Apple, Fundação Linux e diversos outros grandes negócios da tecnologia. O objetivo é dar um tempo para que todos mapeiem onde seus sistemas são vulneráveis e consertem os problemas, antes de o Claude Mythos ir ao ar.

O gesto da Anthropic é também boa propaganda. Não é a primeira vez que Dario Amodei, CEO da empresa, apronta. Quando ainda estava na OpenAI e comandou o projeto do GPT 2.0, alegou a mesma coisa. Modelo inteligente demais, perigoso para se tornar público. Não, não era. O GPT 5 está no ar faz um ano e não quebrou nada por enquanto. Mas o Claude atual, versão 4.6, é o modelo mais formidável em circulação, se tornou o favorito de programadores, e é inteiramente plausível que a nova edição seja mesmo um ás em descobrir problemas nos sistemas existentes.

Existe outra tese circulando no Vale: a Anthropic roubou muitos clientes da OpenAI e do ChatGPT, nos últimos três meses. E sentiu o peso. Quem usa muito o Claude percebe que há horas do dia em que ele fica mais lento, não aguenta o tranco. Para no meio, interrompe um processo sem terminar. Isso quer dizer que, mesmo Mythos já estando pronto, talvez a companhia precise antes expandir seus data centers para oferecê-lo aos clientes. Todas as versões podem ser verdade ao mesmo tempo. A Anthropic não tem estrutura para liberar o novo modelo, ele descobriu vulnerabilidades reais em sistemas e é propaganda das suas qualidades.

É nesse momento que empresas começam concretamente a perceber o que ganham com IA. Está muito mais fácil escrever programas. Muitas das plataformas de que companhias dependem para gerenciar estoque, folha de pagamentos e fornecedores poderão ser escritas dentro de casa por equipes pequenas. Nos departamentos jurídicos, também lá a IA começa a entrar, redigindo e relendo contratos. O que ainda não era nítido em termos de transformação começa a ser. E a ansiedade aparece.

Na edição da semana passada da New Yorker, a principal reportagem foi sobre Altman. O repórter Ronan Farrow, famoso por denunciar o magnata de Hollywood Harvey Weinstein, passou 18 meses na cola do executivo. Descobriu que ele enganou profissionais que contratava e ocultou informação do Conselho da OpenAI. Altman tem um perfil que escolhe seletivamente o que dizer a quem, de acordo com seus objetivos.

Na postagem que publicou, ele não negou nada. Seu tom foi de que “não é um homem perfeito”, “não se orgulha de tudo o que fez”. E fez um aceno: ele é uma das pessoas no comando da maior revolução tecnológica de nossa vida. Não é missão trivial. As conversas sobre IA, e que IA queremos, e como ela se apresentará na sociedade, precisam acontecer. Democraticamente. Ele não é contra esse debate. Pede que o debate aconteça. Como, aliás, Dario Amodei também pede. São rivais, não se dão, há um mês se encontraram num palco na Índia e nem sequer se cumprimentaram.

Mas ambos, sempre que podem, batem nessa tecla. As coisas começarão a acontecer rápido. E as sociedades estão com o foco desregulado. Estamos perdidos em guerras tribais enquanto o futuro se constrói sem que prestemos atenção.

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PRISÃO DE RAMAGEM E O POLICIAL NO ICE

Míriam Leitão, O Globo

Prisão de Ramagem é fruto da cooperação internacional entre os países, com atuação de um brasileiro junto ao ICE na busca por foragidos

Um delegado brasileiro trabalha dentro do ICE à procura de foragidos da Justiça entre imigrantes ilegais. Foi assim que o serviço de imigração e alfândega dos EUA soube de Alexandre Ramagem e o Brasil foi informado de sua prisão ontem. Por isso, o caso está sendo entendido pelas autoridades brasileiras como de deportação, e não de extradição. O próximo passo é que o ex-diretor da Abin seja levado a um juiz, que pode soltá-lo mediante pagamento de fiança ou decidir pela deportação.

Além do delegado, que é o “oficial de ligação”com o ICE, há outros oficiais brasileiros trabalhando em órgãos americanos, da mesma forma que há no Brasil servidores americanos. Isso além dos adidos da Polícia Federal lotados nas embaixadas brasileiras. O delegado brasileiro junto ao ICE busca foragidos da Justiça entre imigrantes ilegais. Ele é uma espécie de ponte entre o Brasil e a autoridade de imigração americana. Como me explicou uma fonte: “Nós, brasileiros, não estamos atrás de brasileiros ilegais. Estamos atrás de brasileiros foragidos da Justiça. Se o cara está nos Estados Unidos de maneira ilegal, é problema para ser resolvido pelas autoridades americanas. Neste caso do Ramagem ele é um foragido”.

Se for extradição é um processo mais complexo que pode levar mais tempo. Ramagem tem um pedido de asilo apresentado aos Estados Unidos para ser considerado. Só que ele foi preso por uma situação irregular, estava usando um passaporte que já fora cancelado pelas autoridades brasileiras. E o usou recentemente para aluguel de um carro.

Tem sido uma rotina trazer, nos voos que chegam ao Brasil com imigrantes ilegais, brasileiros com mandado de prisão. Em cada voo, são dois ou três, e já houve caso de cinco presos em um mesmo avião.

Houve uma dúvida ontem sobre se a prisão de Ramagem havia sido ou não resultado da cooperação internacional entre o Brasil e os Estados Unidos, ou fora um acaso a partir de uma infração de trânsito. O que a Polícia Federal sustenta é que foi fruto da cooperação internacional. E parceria através desse oficial de ligação com o ICE. Foi o delegado que recebeu a informação da prisão de Ramagem e informou ao Brasil. Isso mostra que a despeito de quaisquer diferenças entre os governos dos dois países há articulação que continua acontecendo naturalmente entre vários de seus órgãos públicos.

O caso de Ramagem é exemplar por vários motivos. Ele fugiu antes da sentença, mas o fez saindo por Roraima, onde sua mulher é procuradora do Estado, e com a ajuda do filho de um garimpeiro. Isso torna tudo mais grave, porque é um flagrante de promiscuidade ligando uma ex-autoridade do governo Bolsonaro com o garimpo.

A Procuradoria-Geral do Estado de Roraima enviou nota informando que “a procuradora Rebeca Teixeira Ramagem encontra-se em período regular de férias até o dia 8 de maio”. Ramagem fugiu em setembro de 2025. A procuradora chegou em novembro com as filhas. Segundo a nota da procuradoria de Roraima, há um período de ausência da procuradora que está “pendente de julgamento pelo Tribunal de Justiça de Roraima”, o de “7 de janeiro a 20 de fevereiro de 2026”. Nesse período, ela pediu licença médica e queria que a perícia fosse virtual. A procuradora entrou com um mandado de segurança no TJ, pedindo essa perícia remota, mas foi indeferido.

Ramagem foi condenado, com sentença transitada em julgado, por fazer parte da tentativa de golpe de Estado de Jair Bolsonaro. Integrava o núcleo crucial, em que está o próprio Bolsonaro, os generais e o almirante que fizeram parte da conspiração. Entre as várias acusações contra ele está o fato de que montou uma Abin paralela contra as pessoas que o governo anterior considerava inimigas.

A prisão de Ramagem relembra o que aconteceu no governo Bolsonaro. Há quem esteja esquecendo ou tendo amnésia proposital nesse período de eleições. Aqui, no mandato de Jair Bolsonaro, houve uso da máquina para espionar adversários políticos. E isso fazia parte do plano de golpe de Estado que levou o ex-presidente e lideranças militares para a prisão. Ramagem, ex-segurança de Bolsonaro que virou diretor-geral da Abin, fugiu para os Estados Unidos. Preso ontem em Orlando ele aguarda seu destino, que pode ser a deportação para o Brasil.

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O BENGALÃO

Merval Pereira, O Globo

Na convicção de que são os salvadores da pátria, já existe nos bastidores do STF a ideia de aumentar de 75 para 80 anos a idade da aposentadoria compulsória.

Os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) continuam se sentindo os sustentáculos da democracia brasileira, por causa disso consideram que criticar a instituição é trabalhar contra o regime. Houve época em que isso foi verdade, especialmente no governo Bolsonaro, que, constatou-se posteriormente, queria enfraquecer o Supremo para dar um golpe de Estado. Certamente por essa circunstância especial, em que a mais alta Corte do país lutava para neutralizar o golpe, algumas interpretações heterodoxas dos ministros foram incorporadas ao nosso sistema jurídico e aceitas pela sociedade.

Encerrado o episódio desastroso de nossa História, alguns ministros permaneceram agindo além dos limites legais, em defesa até de interesses pessoais. Episódio menor como a agressão ao ministro Alexandre de Moraes e a sua família num aeroporto estrangeiro foi transformado em caso de segurança nacional. Outros, mais graves, fizeram com que o ministro Dias Toffoli, viu-se depois em defesa própria, avocasse para si todo o processo do Banco Master, com sigilo máximo, e passasse a obstruir as investigações. O escândalo foi tamanho que ele acabou retirado da relatoria do caso, apesar de o espírito de confraria ter justificado a saída como decisão dele, e não do colegiado.

Em dezembro de 2025, o ministro Gilmar Mendes suspendeu monocraticamente trechos da Lei do Impeachment (Lei 1.079/1950), restringindo à Procuradoria-Geral da República (PGR) o direito de denunciar ministros da Corte e retirando essa prerrogativa de cidadãos. A medida, vista por críticos como “blindagem”, exigia quórum maior no Senado para impeachment, sob alegação de proteger a independência judicial de pressões políticas. Gilmar acabou desistindo da proposta.

Em mais uma ação autoprotetiva, Moraes desencavou uma proposta do Partido dos Trabalhadores de tentar reduzir o alcance das delações premiadas, parada desde julho do ano passado, liberando o caso para ser incluído na pauta de julgamento do plenário físico do STF. O PT afirma que a ação visa a “evitar delações que ofendem as garantias fundamentais individuais”. Com as revelações diárias que implicam Moraes, Toffoli e, em menor grau até agora, o ministro Nunes Marques, os ministros passaram a adotar medidas de autodefesa que só fazem desacreditar a instituição.

Eles agora advertem interlocutores de que as críticas ao Supremo podem favorecer a extrema direita, disposta, caso vença a eleição presidencial, a intervir, incentivando o impeachment de alguns de seus membros ou aumentando o número de ministros para conseguir maioria no plenário. Não passa na cabeça de muitos deles que a melhor solução seria a autocontenção, como defende o presidente Edson Fachin, cortando na carne quando for o caso.

O aumento no número de integrantes das Cortes Superiores é prática de governos autocráticos para controlar as decisões da Justiça. O húngaro Viktor Orbán foi mestre nesse artifício a partir de 2010, quando aumentou o número de juízes do Tribunal Constitucional e alterou regras de nomeação. Foi derrotado nas urnas depois de 16 anos de governo autoritário. Noutros países, como Polônia, Turquia, Venezuela, Argentina, Nicarágua ou Israel, governos de direita ou de esquerda usaram o método para controlar as Supremas Cortes.

O caso emblemático aconteceu nos Estados Unidos. O presidente Franklin D. Roosevelt ameaçou aumentar o número de integrantes da Suprema Corte em 1937, episódio conhecido pejorativamente como court-packing plan (plano de empacotamento da Corte), porque, dominado por juízes conservadores, o tribunal se colocou contra o programa de Roosevelt para combater a Grande Depressão, o New Deal. Não conseguiu aprovação do Congresso. Na convicção de que são os salvadores da pátria, já existe nos bastidores do STF a ideia de aumentar de 75 para 80 anos a idade da aposentadoria compulsória. Seria “o bengalão”.

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A RENDA BÁSICA E A DIGNIDADE DAS MULHERES

Eduardo Suplicy, Folha de S. Paulo

Em um país onde a dependência financeira aprisiona tantas brasileiras à violência, modelo é instrumento de autonomia e segurança

Ouvi de beneficiários no Quênia que há mais paz entre os casais e maior participação das mulheres nas decisões do lar

Renda Básica de Cidadania é o meio mais eficiente para garantir dignidade às mulheres. Além de importante instrumento de combate à pobreza, assegura autonomia com liberdade financeira. Em um país marcado pelo aumento assustador do feminicídio, a discussão deixou de ser apenas social e passou a ser também uma questão de proteção à vida. A renda básica permitirá a milhares de mulheres saírem de situações de violência.

Em 2025, foram registrados no Brasil o assassinato de 1.568 mulheres, quatro por dia. Desde 2024, cerca de 51,7% dos lares brasileiros são chefiados por mulheres. O feminicídio é, quase sempre, o desfecho extremo de um ciclo de violências que se constrói aos poucos, no medo, na humilhação, no controle, na dependência e no isolamento.

Desde a infância, a falta de acesso à uma infraestrutura de higiene agrava a situação de vulnerabilidade social do sexo feminino. A pobreza menstrual, a falta de absorventes para uso durante a menstruação, atinge milhões de meninas desde os 10 anos de idade, impactando diretamente sua saúde e dignidade, gerando estigma e exclusão social, provocando evasão escolar. O problema está parcialmente resolvido apenas para as mulheres inscritas no CadÚnico no programa "Dignidade Menstrual".

Mapa Nacional da Violência de Gênero de 2025 mostrou que 34% das mulheres vítimas de violência declararam não conseguir se sustentar com o próprio dinheiro, e 66% delas têm renda familiar de até dois salários mínimos. Para 61% das mulheres, a dependência financeira impede a denúncia de agressões. A mais importante vantagem da renda básica está justamente em elevar o grau de liberdade real das pessoas.

Em 2019, visitei experiência de renda básica no Quênia com resultados altamente positivos para as mulheres. A partir de 2017, todas as pessoas com mais de 18 anos, de vilas rurais extremamente pobres, passaram a receber US$ 22 mensais. Uma quantia modesta, mas relevante num dos países mais pobres do mundo. Pesquisa da Universidade de Princeton (EUA) registrou queda de 51% na violência doméstica e de 66% na violência sexual em domicílios onde as mulheres passaram a receber a transferência de renda junto com seus maridos.

Ouvi dos beneficiários que, quando a renda chega de forma regular e assegurada, diminuem-se a angústia e os conflitos agravados pela fome. Houve o aumento da paz entre os casais e a maior participação das mulheres nas decisões do lar, além do crescente empreendedorismo feminino e do ganho de independência.

A renda básica não é apenas uma política de combate à pobreza. Trata-se do direito de todas as pessoas, não importa sua origem, raça, sexo, idade ou condição civil e social, de participar da riqueza comum da nação. Oferece algo que, para milhões de mulheres, é decisivo: uma base segura para poder fazer escolhas, como sair de uma relação violenta, garantir proteção a seus filhos e reorganizar suas vidas.

Considero a Renda Básica de Cidadania uma iniciativa fundamental para assegurar às mulheres aquilo que lhes é devido: autonomia, segurança, dignidade e liberdade.

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LULA E A MALDIÇÃO DO INCUMBENTE

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Se a campanha petista não entender a razão por que a isenção do IR não trouxe benefício eleitoral para a reeleição, não é a escala 5x2 que o fará

Confirmado o envio da escala 5 x 2 de trabalho para a Câmara dos Deputados, pelo governo, restará a dúvida se a proposta, uma vez aprovada, trará dividendos eleitorais ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, feito que a isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil não foi capaz.

Há indicadores mais preocupantes no Datafolha para Lula do que a ultrapassagem, na margem de erro, pelo senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O primeiro é a taxa de aprovação (soma da avaliação boa e ótima). Dos presidentes reeleitos, Dilma Rousseff foi aquela que disputou com a menor taxa: 39%. Neste quesito, Lula tem 29%.

O segundo é que Lula, desde 2002, não chegava ao início do semestre das eleições tão mal situado nas pesquisas. Naquele ano, ele estava bem atrás do ex-ministro José Serra, mas disputou como desafiante numa campanha marcada pelo desejo de mudança. Agora é o incumbente.

A palavra, além de feia, é um anglicismo semântico ainda não dicionarizado. Existe na língua portuguesa mas não no sentido que tem na inglesa. Como caiu na boca da política e a xenofobia, como diz Sérgio Rodrigues, nunca foi boa conselheira linguística, aqui permanecerá. Até porque as concorrentes nacionais pecam na exatidão. Nem todo mandatário ou situacionista é candidato à reeleição.

Em 2010, quando disputou como incumbente pela primeira vez, tinha, no fim do primeiro trimestre do ano, mais do que o dobro de ótimo/bom (76%) do que o Datafolha lhe confere hoje.

Agora a comparação com a isenção do IR se impõe porque ambas são medidas que a despeito de divisivas (aquela desgostou os fiscalistas e a escala 5x2, o empresariado), geraram expectativas positivas na maioria do eleitorado. Nos primeiros meses do ano, quando entrou em vigor, a isenção do IR, que beneficiou mais de 15 milhões de pessoas, não teria trazido benefícios porque se trata de um período em que o brasileiro é acossado por matrícula e material escolares, IPTU e IPVA. Mas o terceiro trimestre já se iniciou e, ainda assim, a medida não inverteu curva alguma.

Em 2002, a capacidade que teve de ir para cima de Serra e ganhar aquela eleição não se aplica hoje apenas pela diferença de 24 anos que separam os dois Lulas. O desafiante tem a cara do futuro e o incumbente, a do passado. Sim, dá para empilhar indicadores positivos e até alguns programas novos. E também não dá para dizer que se trata de um brechó de seus primeiros mandatos, mas subscrever a tese da ingratidão do eleitor, esta pantera, é uma rima que não leva a lugar algum. Até porque não dá para chamar os 3 milhões na fila do INSS de ingratos.

O Brasil em que Lula foi incumbente com os aplausos de dois terços a seis meses das eleições não tinha 20 milhões de apostadores nem acontecia nas redes sociais, dois fenômenos que, conjugados, indicam a inflação de expectativas em curso. Se o mestre de obras não ficou rico do dia para a noite porque deixou de pagar IR, a atendente de lanchonete também não o fará se arrumar um bico no dia de folga que terá se a escala 5x2 vier a passar.

As melhorias decorrentes de políticas públicas são incrementais e, por isso mesmo, descompassadas das expectativas geradas pelo algoritmo e pela roleta. Nessa disputa pela satisfação de expectativas, ainda não se divisa qual é o horizonte do desejo que Lula vai traçar. Até aqui, sobra desejo, falta horizonte.

É um Lula paternal que se queixa de que o brasileiro não sai do celular. Pode até sinalizar para a disputa de valores num país em que a força da religião mostra terreno para a pregação, mas será que tem funcionado? Não é o que parece.

A derrota de Viktor Orbán é uma boa notícia para Lula porque mostra que a pressão americana sobre eleições alheias não pode tudo. Mas nem todo insucesso de Donald Trump traz benefícios ao Brasil. Desde o início da guerra o preço dos fertilizantes importados, dos quais a agricultura brasileira é completamente dependente, já subiu 50%.

Desafiantes terão mais facilidade em exibir horizontes nunca dantes desbravados. Flávio Bolsonaro tem errado pouco e assim permanecerá enquanto não encontrar minas no seu caminho. A pré-campanha lulista anuncia sua desconstrução desde a quarta-feira de cinzas, mas a quaresma já vai longe e até agora nada. Se o filho do ex-presidente ainda não entrou na mira do PT, a artilharia sobre Fábio Luís da Silva tampouco se esgotou.

Na última entrevista que deu, Lula preferiu se dedicar a desconstruir sua relação com o ministro Alexandre de Moraes chamando-o de “companheiro” e dando-lhe conselhos. Isso depois de toda a bem-sucedida política de enfrentamento do tarifaço ter sido montada em cima do discurso de que o Judiciário é independente. Costeando o alambrado assim, sem um discurso claro em defesa de uma reforma inteligível do Judiciário, vai ser difícil para o presidente se descolar do desgaste que lhe é imposto por este Supremo.

Ainda que afunilado, o cenário não favorece a aposta de que Lula venha a desistir. A menção a esta possibilidade guarda mais relação com a paciência esgotada para a disputa entre aliados nos palanques regionais, vide o mais cabeçudo deles, no Rio Grande do Sul, quando teve que convencer o PT a abrir mão em favor da candidatura mais competitiva do PDT. Uma coisa é fazer um governo de transição, como havia prometido em 2022 e não cumpriu. Outra é fugir da raia a esta altura do campeonato. É mais desonroso do que ser derrotado.

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ALÉM DA GUERRA, PERSISTE O 'FOGO AMIGO' DOS JUROS

Pedro Cafardo, Valor Econômico

De acordo com a CNI, antes da guerra no Irã, a taxa de juros de equilíbrio seria de 11%, 3,75 pontos percentuais abaixo da atual

Um mês atrás, esta coluna saiu com o título “Empresas vão ao ‘matadouro’ sem dar um pio”. Era uma forma de sugerir que os juros altíssimos no país estavam levando grandes e médias empresas, silenciosamente, a uma situação de endividamento insustentável.

Por coincidência, no mesmo dia e no seguinte, dois grupos gigantescos pediram recuperação extrajudicial, com dívidas de R$ 4,5 bilhões e R$ 65 bilhões. A estranheza do colunista era pelo fato de que praticamente não havia críticas de empresários do setor produtivo à política monetária do Banco Central, que mantinha a Selic em 15% ao ano, uma das causas mais importantes desses pedidos de renegociação de dívidas com credores.

Um empresário, Rafael Cervone, contestou essa afirmação, argumentando que tem lutado de forma sistemática contra a política dos juros altos. E ele tinha provas. Uma busca detalhada de suas manifestações em artigos e entrevistas confirma empenho frequente no combate ao “triste consenso” entre analistas de mercado e o Banco Central para manter juros exorbitantes há três décadas no país.

Cervone é presidente do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) e primeiro vice-presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp).

Como nenhum outro empresário se manifestou, vale alinhar ideias de Cervone. Já em setembro de 2023, ao citar a Selic média de 12,63% verificada em 2022, ele apresentou danos dessa taxa citando dados da Fiesp. Se o Brasil tivesse os juros reais próximos dos de África do Sul, Chile, Indonésia ou México, países emergentes onde as taxas também são altas, mas inferiores à brasileira, o custo de financiamento de capital de giro da indústria brasileira cairia de R$ 71,5 bilhões para R$ 37,6 bilhões em 2022. Só com o ganho nessa rubrica, de R$ 33,9 bilhões, seria possível duplicar os gastos com pesquisa e desenvolvimento, itens cruciais para o avanço industrial.

Atolado em notícias e efeitos das guerras do senhor Trump, o Brasil esqueceu um pouco dos juros, mas o assunto já volta à cena e ganhará espaço até o fim do mês, quando, segundo a previsões, o BC deverá fazer uma nova e insignificante redução da Selic.

A divergência teórica ou ideológica entre BC+mercado e os economistas não ortodoxos espelha mais ou menos o dilema de “o ovo ou a galinha”. Os ortodoxos argumentam que os juros altos são hoje consequência de fatores estruturais, como o elevado endividamento público e o risco fiscal. Os não ortodoxos sustentam que seriam os juros elevados os causadores dos aumentos da dívida pública, das empresas e das famílias, bem como do custo de vida. Isso estaria travando investimentos e o crescimento da produção.

Cervone não se propõe, obviamente, a resolver esse dilema. Reconhece a importância do ajuste fiscal, mas observa que “não se pode usar indefinidamente o desequilíbrio das contas públicas como desculpa para manter a Selic em níveis punitivos para quem produz, consome e trabalha”.

Na última reunião do Copom, o BC cortou a Selic de 15% para 14,75% ao ano. A redução de 0,25 ponto percentual, insignificante, mantém o juro brasileiro em nível historicamente elevado. Apesar de eventos imprevisíveis, como guerras e seu impacto na inflação, há espaço para um corte maior no dia 29. Segundo dados da CNI, a Selic está errada. Antes do conflito no Irã e Oriente Médio, a taxa de juros de equilíbrio, suficiente para manter a inflação estável e a economia no pleno emprego, seria de 11%, 3,75 pontos percentuais abaixo da atual.

Quando o presidente Donald Trump anunciou seu tarifaço histórico de 50%, em abril do ano passado, Cervone sugeriu que o nível da Selic representava um “fogo amigo” adicional contra as exportações brasileiras. O peso dos juros seria uma “tarifa extra” para os produtos nacionais vendidos no exterior. O tarifaço foi atenuado, mas o “fogo amigo” mantém-se até hoje, somando-se ao da guerra.

Não há, felizmente, silêncio total do empresariado do setor produtivo sobre o massacre dos juros no país. Sem muito espaço na mídia, que ouve mais as lideranças do mercado financeiro, algumas vozes constantes alertam para o “sofrimento” da indústria. Cervone é uma delas. Em março, quando o IBGE divulgou os dados do PIB de 2025, ele observou que a indústria teve uma queda de produção de 0,2% no ano passado, o que seria um “agudo sinal de alerta” a merecer atenção das autoridades, tanto dos responsáveis pela política fiscal quando da monetária.

Cervone animou-se quando Gabriel Galípolo assumiu o Banco Central, em janeiro do ano passado, na esperança de que ele encontrasse “um patamar mais equilibrado e civilizado para a taxa de juros”. Deve estar frustrado.

Em meio aos impactos das guerras de Trump, na semana passada, Galípolo exaltou a cautela do BC na condução da política monetária. Cautela é sempre necessária, em qualquer situação, mas não pode ser confundida com omissão. Com ou sem guerras, os juros brasileiros estão fora de lugar e, mesmo elevados até a lua, não podem fazer milagres, como resolver choques de oferta vindos do longínquo estreito de Ormuz

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ALIADO DE TRUMP, PUTIN E BOLSONARO, ORBÁN PERDE AS ELEIÇÕES NA HUNGRIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A experiência húngara indica que narrativas ideológicas globais têm alcance limitado quando confrontadas com a realidade econômica e social dos países

A derrota de Viktor Orbán na Hungria, após 16 anos no poder, sinaliza uma mudança de rumo na Europa e o esgotamento da capacidade de projeção política de lideranças associadas ao chamado “iliberalismo”. E impôs um revés político à estratégia de interferência internacional do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e do presidente russo, Vladimir Putin. Em um momento em que a eleição brasileira ganha contornos mais definidos, o episódio europeu mostra os limites do apoio externo na disputa pelo Palácio do Planalto.

A queda de Orbán representa a fadiga política acumulada ao longo de anos de concentração de poder, autoritarismo institucional e desgaste econômico. Sua associação explícita com lideranças estrangeiras controversas, como Trump e Putin, foi um forte fator de rejeição, sobretudo entre os eleitores mais jovens. Orbán é um ícone de movimentos Maga (Make America Great Again) nos EUA, por ter iniciado o combate à cultura woke, à imigração, às elites universitárias e à liberdade de imprensa, entre outras coisas.

Orbán mostrou à extrema-direita mundial como chegar ao poder e minar uma democracia por dentro, inaugurando o que foi conceituado como “democracia iliberal”. Segundo o jornal britânico Financial Times, a Rússia montou uma campanha de desinformação para tentar ajudar Orbán a se reeleger, e Washington atuou pesadamente a favor de Orbán. Trump manifestou várias vezes o seu apoio ao premiê, recebeu-o na Casa Branca e prometeu “usar todo o poderio econômico americano para fortalecer a economia da Hungria”.

Em fevereiro, o secretário de Estado americano, Marco Rubio, disse, em Budapeste, que as relações entre os dois países viviam uma “era de ouro”. Na semana passada, o vice-presidente dos EUA, JD Vance, passou dois dias na Hungria, onde fez campanha abertamente para o aliado, chegando, inclusive, a participar de um comício de Orbán, durante o qual telefonou para Trump. Ao vivo, o presidente elogiou o premiê, dizendo que ele fazia um “trabalho fantástico”. Vance ainda acusou a UE de interferência eleitoral, por ter congelado fundos destinados à Hungria.

Para o Brasil, onde a polarização entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o senador Flávio Bolsonaro está muito acirrada, o caso húngaro projeta um dilema estratégico para a oposição. A eventual vinculação direta com Donald Trump, por afinidades ideológica e política, pode não produzir o efeito esperado. Como já foi demonstrado nas eleições da Hungria, do Canadá e da Austrália, a interferência aberta do presidente americano pode ser muito tóxica e afastar eleitores moderados e indecisos.

Entretanto, as repercussões do fenômeno devem ser analisadas com cuidado. O Brasil vive uma eleição em ambiente de forte competição, com um presidente que mantém um piso eleitoral consistente, mas ainda dependente de ampliar sua base social para ser reeleito, e uma oposição em franca ascensão. Qualquer movimento que reforce a rejeição entre os eleitores, especialmente no centro político, pode ser decisivo para qualquer um dos lados.

Vitória conservadora

Desde a eleição de Trump, por causa de seu intervencionismo na política mundial, cresce a sensibilidade do eleitorado em relação à soberania nacional. A interferência externa tende a ser mal recebida. No caso húngaro, a presença ativa do vice-presidente J.D. Vance, às vésperas do pleito, provocou uma queda de três pontos percentuais de Orbán nas pesquisas de boca de urna. A tradição diplomática brasileira, marcada pelo princípio da não intervenção, contrasta com o alinhamento automático a interesses estrangeiros. Assim, uma aproximação explícita com Trump pode ser explorada politicamente como sinal de subordinação, porque o nacionalismo econômico e político volta a ganhar relevância no debate público.

A derrota de Orbán, entretanto, não beneficia o governo Lula. O resultado não foi apenas uma rejeição ao alinhamento internacional do premiê húngaro, mas também uma resposta a problemas internos, como inflação elevada, denúncias de corrupção e desgaste institucional. Ou seja, fatores domésticos continuam sendo determinantes centrais do comportamento eleitoral. E a vitória da oposição não se deu por meio de um candidato de esquerda, mas de um político de centro-direita, que até recentemente fazia parte do grupo político de Orbán.

Advogado e ex-aliado do governo, Péter Magyar é um dissidente, caso típico de rompimento entre criatura e criador. Com uma participação recorde de quase 80% dos eleitores, o partido de Magyar, Tisza, obteve mais de 53% dos votos, garantindo uma supermaioria de dois terços no parlamento. Durante anos, Magyar fez parte da cozinha do governo húngaro, ocupando cargos em empresas estatais e na diplomacia. Seu vínculo mais forte com o regime era seu casamento com Judit Varga, ex-ministra da Justiça e figura proeminente do Fidesz, partido de Orbán. Até romper

Seu perfil não se alinha ao de Lula nem ao de Flávio Bolsonaro. Uma comparação com os demais candidatos à Presidência mostra-o mais próximo de políticos conservadores, como os ex-governadores de Goiás e Minas Gerais Ronaldo Caiado (PSD) e Romeu Zema (Novo), respectivamente. Nesse sentido, o governo brasileiro não tem muito a comemorar. A experiência húngara indica que narrativas ideológicas globais têm alcance limitado quando confrontadas com a realidade econômica e social dos países.

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O FATOR TRUMP NA ELEIÇÃO BRASILEIRA

Artigo de Fernando Gabeira

Nestes anos democráticos, política externa nunca foi um grande tema eleitoral. Mas agora isso mudará. Será preciso uma definição diante do governo Trump: como se relacionar com os Estados Unidos neste período tão conturbado?

Já tivemos a experiência de um tarifaço, que veio sem aviso prévio algum. De repente, acordamos com as maiores tarifas do mundo — nós, que tínhamos déficit no comércio entre os dois países.

Trump venceu dizendo America first. Venceu com uma grande sede de petróleo, que o levou a sequestrar Maduro e iniciar uma guerra contra o Irã.

É difícil projetar uma política diante de um homem que nega a importância dos outros, que despreza outros idiomas e que acorda, em certos dias, disposto a acabar com uma civilização que data de milênios antes de Cristo.

Sua relação com aliados históricos é difícil. Deixou a Europa um pouco só na defesa da Ucrânia, atacada por Putin. Obrigou o continente a gastar mais dinheiro com armas. No momento em que se voltou contra o Irã, pediu a ajuda dos europeus. Em seguida, disse: não precisamos do óleo que passa pelo Estreito de Ormuz; os europeus que resolvam o problema do fechamento.

Com os países do Golfo, Trump se mostrou mais problemático. Eles investiram bilhões de dólares em segurança, contavam com os Estados Unidos para protegê-los, e Trump levou a guerra e, com ela, uma grande insegurança sobre a produção de petróleo e a própria dessalinização da água.

Todos esses fatores o tornam um aliado pouco confiável. A desconfiança fica colossal quando se leem os bastidores de sua decisão. Netanyahu fez uma preleção sobre matar o aiatolá Khamenei, bombardear o Irã e despertar uma revolta popular que resultaria na troca de regime. Trump apenas disse:

— Sounds good.

Ele não consultou seus estrategistas, não submeteu a ideia ao Congresso, simplesmente foi à guerra.

Diante de tudo isso, fica claro que uma oposição direta a Trump não é uma saída sensata. Cooperar em alguns itens, como segurança pública, e distanciar-se de apoio a guerras que empobrecem o mundo parecem alguns elementos dessa política.

Uma diretriz de alinhamento acrítico não corresponde à sofisticação da política externa brasileira e pode ser extremamente perigosa no longo prazo. Independentemente de apoiar ou não o regime teocrático do Irã, a decisão de declarar guerra não pode ser tão grotesca quanto a tomada por Trump. Não era possível reproduzir a Venezuela.

O Irã se prepara há 40 anos para uma guerra; logo, não seria derrotado nos primeiros dias. O Estreito de Ormuz poderia ser fechado, com prejuízos para todo o planeta. A infraestrutura produtiva dos países do Golfo poderia ser atingida.

Uma adesão incondicional à política de Trump só pode ser classificada como cegueira ideológica, uma suposição de que os Estados Unidos estão sempre certos, mesmo num período e num governo tão excepcionais — especialmente de Donald Trump, que combina arrogância com uma visão limitada da situação mundial.

Artigo publicado no jornal O Globo em 14 / 04 / 2026

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segunda-feira, 13 de abril de 2026

PARABÉNS, FORTALEZA, 300 ANOS !

Fortaleza, a capital do meu querido estado do Ceará completa hoje 300 anos. Uma das principais cidades escolhidas por turistas de todo o Brasil e do mundo que buscam praias exuberantes e boa gastronomia.

A população de Fortaleza aumentou nos últimos dez anos,  e hoje a capital cearense é a quarta cidade mais populosa do país. É a maior capital do Nordeste.

Em 2022 Fortaleza tinha 2.428.678 habitantes, de acordo com o Censo Demográfico do IBGE. Em 2024, a população da capital cearense era de 2.574.412 habitantes, segundo o IBGE

A todos que trabalham para construir a cada dia uma cidade mais forte e solidária, àqueles que fazem da terra do sol sua moradia é hora de comemorar! Este blog deseja mil felicidades a Fortaleza.

Parabéns, Fortaleza, 300 anos!

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GERAÇÃO ATUAL NÃO SE IDENTIFICA COM REFERÊNCIAS POLÍTICA CONSAGRADAS

Preto Zezé, O Globo

Jovem não reconhece autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência

Os números chamam a atenção, mas o erro começa quando se supõe que se explicam sozinhos. Entre jovens de 16 a 24 anos, o presidente Lula tem 72% de desaprovação, segundo pesquisa AtlasIntel-Bloomberg — e há quem trate o assunto como mera oscilação ou humor das redes, embora seja pouco provável que se explique apenas por isso.

Quando uma geração se afasta do principal rosto de um campo político, a questão deixa de ser só eleitoral e passa a ser simbólica. No limite, trata-se de entender quem ocupa o lugar do futuro, onde se organiza a energia política de quem está começando a vida.

Essa geração cresceu num ambiente de desconfiança permanente, não só sobre a política, mas sobre as instituições. Chega à vida adulta num tempo em que a política é tratada como suspeita, associada a escândalo, conflito e desgaste, enquanto a atividade empresarial passa a ser vista com desconfiança generalizada, muitas vezes reduzida à ideia de má-fé ou ilegalidade. A agenda pública ora é capturada pela polarização algorítmica, ora anexada aos interesses do gestor de plantão, aprofundando o distanciamento e desorganizando referências básicas de confiança.

O jovem não reconhece autoridade herdada, reage mal à pedagogia tradicional e mostra pouca paciência para discursos que não dialogam com a vida concreta. Passa a testar, filtrar e desconfiar de tudo, enquanto vive uma realidade de renda instável, trabalho precário e sensação de futuro travado.

Parte da análise pública escorrega ao explicar o afastamento como simples virada ideológica. A ideia de migração automática para a direita pode confortar alguns diagnósticos, mas não dá conta da complexidade do fenômeno, em que o mais evidente não é adesão plena a outro campo, e sim um deslocamento de confiança em relação ao que já está posto.

Essa mudança exige outro tipo de resposta, que não se resolve com troca de slogan, ajuste estético ou tentativas artificiais de falar a língua do jovem. O problema é mais profundo e envolve presença, experiência e pertencimento — dimensões que só se consolidam quando a política deixa de ser discurso e passa a ser vivida no cotidiano.

Em diversos espaços, surgem experiências que ajudam a entender o momento por operarem na vida real, e não só na narrativa. São iniciativas simples na forma, mas com impacto concreto, construídas com presença, acompanhamento cotidiano e participação efetiva de quem vive o território, sem escuta protocolar ou participação decorativa.

A comunicação então deixa de ser peça e passa a ser voz; a representatividade deixa de ser simbólica e se transforma em poder concreto; e a política deixa de ser anúncio para se tornar experiência. Isso altera a percepção: em vez de perguntar se é de direita ou de esquerda, passa-se a avaliar se funciona e melhora a vida.

Ao mesmo tempo, consolida-se uma crise geracional de identificação com referências políticas tradicionais, somada à dificuldade crescente dos veículos de comunicação em produzir leitura crítica com profundidade. Muitas vezes, eles reproduzem o enredo dominante, com pouca abertura a reflexões e contradições. Isso reforça a sensação de repetição e gera desconfiança entre essa geração.

O que está em disputa hoje, portanto, não é só o voto, mas o significado e a capacidade de ocupar, de forma concreta, o imaginário do futuro — um espaço que já não está garantido para ninguém.

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IRÃ, DEZ LIÇÕES DE UM DESASTRE ESTRATÉGICO

Demétrio Magnoli, O Globo

Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações

1. Os Estados Unidos perderam a guerra, independentemente dos resultados das negociações com o Irã. Apesar da devastação infligida às capacidades militares iranianas, não atingiram os variados e mutáveis objetivos políticos declarados por Trump. O Irã não renunciou a seus programas nuclear e de mísseis ou ao patrocínio das milícias regionais subordinadas. E, ainda, assumiu o controle efetivo do Estreito de Ormuz.

2. A decapitação do Líder Supremo e do círculo principal de dirigentes não provocou a implosão do regime iraniano, que é uma ditadura institucionalizada. O regime resistiu, com um deslizamento do núcleo de poder do clero xiita para a Guarda Revolucionária. O ataque brutal dos Estados Unidos e de Israel esvaziou o levante popular que abalava o regime e reconstituiu parcialmente sua base social interna.

3. O Irã inclina-se a substituir a política de enriquecimento de urânio sem a produção de bombas atômicas pela busca da construção de um arsenal nuclear. Depois de implodir o acordo nuclear negociado por Obama, Trump lançou as sementes do surgimento de uma Coreia do Norte no Oriente Médio.

4. Na guerra assimétrica, o Irã assumiu o controle do Estreito de Ormuz, o que impôs recuo humilhante aos Estados Unidos. Teerã aprendeu que, sem fechar fisicamente o estreito, tem os meios de sujeitar o tráfego de petroleiros às suas conveniências, inclusive à hipotética cobrança de taxas de trânsito. Nenhum acordo com o regime será capaz de anular o precedente. Daqui em diante, o regime iraniano usará como arma de dissuasão a prerrogativa de tomar como refém o mercado global de combustíveis.

5. O guarda-chuva de segurança dos Estados Unidos às monarquias do Golfo Pérsico perdeu credibilidade. A modernização das economias da região baseia-se na imagem de oásis seguros num Oriente Médio turbulento. As retaliações iranianas contra hotéis e infraestruturas energéticas revelaram a vulnerabilidade dos aliados árabes dos Estados Unidos. O controle iraniano do ponto de estrangulamento de Ormuz passa a representar uma ameaça direta à soberania dos países da região.

6. Os interesses dos Estados Unidos e de Israel não são, necessariamente, convergentes. Netanyahu convenceu Trump a deflagrar a guerra contra o Irã, apesar da oposição da corrente etnonacionalista do Maga e das reticências da cúpula militar americana. O fracasso tende a afastar Trump de Netanyahu. Não por acaso, na hora do acordo de trégua, o chefe de governo israelense não foi consultado.

7. Os Estados Unidos abandonaram um governo libanês comprometido com o desarmamento do Hezbollah, permitindo a campanha de bombardeios e a invasão israelense do sul do Líbano. A guerra de Israel desestabiliza o Líbano, colocando o vizinho à beira do precipício da guerra civil. A sabotagem do governo libanês propicia novas oportunidades ao Irã.

8. A aventura iraniana aprofundou a cisão entre Estados Unidos e Europa, agravando um cenário já envenenado pelas tarifas unilaterais americanas e pelas ameaças da Casa Branca de anexação da Groenlândia. Os aliados europeus rejeitaram engajar-se na guerra de escolha de Trump. A Otan está suspensa por um fio tênue, à mercê dos desvarios de Trump.

9. China e Rússia, por motivos distintos, emergem triunfantes do desastre estratégico dos Estados Unidos. A China beneficia-se da degradação da liderança dos Estados Unidos, aparecendo como mediador responsável e fator de estabilização global. A Rússia beneficia-se do aprofundamento da crise da Otan, que enfraquece o apoio militar ocidental à Ucrânia. Xi e Putin erguem brindes à guerra catastrófica deflagrada por Trump.

10. A “excursão” no Irã assinala uma ruptura de dimensões históricas. Os Estados Unidos deixam de ser vistos como potência confiável por seus aliados e como potência hegemônica por seus inimigos. A palavra do presidente americano sofre desvalorização inédita. As violações em série das leis internacionais cometidas pela Casa Branca e, em particular, o ultimato repugnante de destruir “uma civilização inteira” dissolvem a liderança moral americana. Declínio geopolítico: de hiperpotência mundial, os Estados Unidos convertem-se em grande potência do Hemisfério Ocidental. O rei está nu.

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NARCISOS LOUCOS GUIAM CEGOS NO PLANETA

Dorrit Harazim, O Globo

O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional

‘É a desgraça destes tempos que os loucos guiem os cegos’, lamenta o Conde de Gloucester na trama shakespeariana “Rei Lear”. No enredo da peça, a frase resume a inversão moral e política que se descortina ao longo de cinco atos. Os incapazes ou corruptos passam a conduzir os já vulneráveis, e a autoridade deixa de estar ligada à lucidez. A imagem de “loucos” governando, “cegos” manipulados e a ordem moral definhando refere-se tanto ao reino da trama como ao próprio Lear, que só percebe a verdade depois de ter entregado o poder e perdido o discernimento.

O sentido da frase de Gloucester, além de político, é moral, por marcar um mundo em que a autoridade foi tragicamente separada da sabedoria. E é, sobretudo, imortal, por atravessar 420 anos de existência e conseguir retratar com acuidade nossos miseráveis tempos atuais.

O mundo está exausto de Donald Trump, e sobram poucos líderes nacionais adultos comprometidos com o Direito Internacional. Não é preciso concordar com o tom combativo do economista Jeffrey Sachs, professor de políticas públicas na Universidade Columbia, para validar sua preocupação com a mente transtornada de dois governantes específicos que não dão paz à humanidade. Em artigo no site progressista Common Dreams, intitulado “Dois loucos brincando de Deus”, Sachs refere-se assim a Trump e Benjamin Netanyahu, seu parceiro de violência israelense:

— Quando líderes desequilibrados invocam a catástrofe divina como instrumento político, não apenas seus inimigos são consumidos. A menos que sejam detidos, todos nós seremos vítimas desses dois psicopatas. (...) Eles estão dominados por três patologias em cascata. A primeira é de personalidade: ambos são narcisistas malignos. A segunda é a arrogância do poder: homens que têm o poder de comandar a aniquilação nuclear e, por isso, não sentem qualquer contenção. A terceira, e mais perigosa de todas, é a ilusão religiosa: dois homens que acreditam, e são informados diariamente por aqueles a seu redor, que são messias fazendo a obra de Deus. Cada patologia agrava as outras, de modo que, juntas, colocam o mundo num perigo sem precedentes.

Para Sachs, narcisismo maligno é um termo clínico, não um insulto. Foi cunhado em 1964 pelo psicólogo social Erich Fromm, para descrever Adolf Hitler como “fusão de grandiosidade patológica, psicopatia, paranoia e personalidade antissocial numa única estrutura de caráter”. “O narcisista maligno não é apenas vaidoso. É estruturalmente incapaz de empatia genuína, constitucionalmente imune à culpa e movido por uma convicção paranoica de que inimigos o cercam e devem ser destruídos”, disse Fromm.

Nunca é demais lembrar também que Trump e Netanyahu têm a nuvem nuclear ao alcance da mão.

A Operação Fúria Épica contra o Irã entra em sua sexta semana, e ninguém — nem mesmo Trump — sabe no que desembocará o esquisito cessar-fogo de duas semanas, acordado mas não respeitado pelas partes. Israel, escanteado das gestões, continua a transformar o sul do Líbano em escombros como se não houvesse um amanhã. Problemão para um cessar-fogo cuja arquitetura política pode ter sido ambígua o suficiente para garantir o anúncio, mas não coerente o bastante para sobreviver ao contato com a realidade. Uma vez que as bombas caem em Beirute e que um lado afirma que a área estava coberta pelo acordo enquanto o outro diz que não, o problema deixa de ser um mal-entendido técnico. Torna-se uma falha estrutural na própria trégua.

Saltam aos olhos os entendimentos mutuamente excludentes sobre os termos do cessar-fogo. Teerã aparentava acreditar que seu plano de 10 pontos era tratado como base para a desescalada, mas Washington agora sugere um entendimento muito mais restrito dessa base: “Reabrir o Estreito de Ormuz enquanto os Estados Unidos suspendem os bombardeios diretos ao Irã”. É pouco, tanto que, até a noite de sexta-feira, Ormuz estava longe de ser reaberto à navegação statu quo ante. E continuava sendo zona perigosa, pois conseguiu engolir um drone militar de espionagem dos Estados Unidos que fazia bisbilhotagem. Nenhum Departamento de Defesa gosta de ver desaparecer no ar um equipamento de US$ 200 mil (mais de R$ 1 bilhão).

Neste mundo exausto de embriagados pelo poder e corruptos por natureza, faltam vozes como a de Cordélia, cuja lucidez foi ignorada pelo pai, o Rei Lear. Shakespeare, presente.

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