quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

PELO FIM DAS ISCOLAS SÍVICOS-MILITÁRIS


Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Erro de grafia no quadro escolar foi protagonizado por monitor do modelo cívico-militar

Ensino cívico-militar apenas ensina alunos a respeitar autoridade sem questioná-la

Nesta semana, alunos de uma escola estadual de Caçapava, no interior de São Paulo, aprenderam, além de comandos militares, a escrever errado as palavras "descansar" e "continência" —na lousa, viam "descançar" e "continêcia".

O erro de grafia no quadro escolar, capturado em vídeo, foi protagonizado por um dos monitores do modelo cívico-militar, no primeiro dia de implementação do programa. Nem os comandos militares, nem os erros de grafia caem no Enem, há de ser registrado.

A resposta da pasta estadual de Educação diante do vexame foi pior que o episódio em si. Para a secretaria estadual, os monitores não atuarão em sala de aula, mas, sim, no reforço da disciplina, do respeito e dos valores cívicos. Ou seja, o governo Tarcísio de Freitas (Republicanos) retira 208 policiais militares da aposentadoria e paga uma bolsa-PM de R$ 301,70 por dia para que estes, entre outras coisas, controlem o corte de cabelo dos alunos, fiscalizem seus uniformes, os organizem em filas e os façam cantar o Hino Nacional.

Parte dos familiares é a favor das escolas cívico-militares. A razão, em geral, é a disciplina escolar. Mas é importante separar o joio do trigo.

Professores tampouco são a favor de um ambiente escolar em que a desordem impere. Mas coisa bem diferente é gastar R$ 17 milhões ao ano para que militares, em geral sem educação superior, executem funções para as quais não têm formação. Tarcísio precisa explicar aos pais de alunos mais pobres por que prefere gastar R$ 17 milhões com militares do que com o futuro de seus filhos.

O ensino cívico-militar serve apenas para amedrontar alunos e ensiná-los a respeitar autoridade sem questioná-la, habilidade esta útil apenas para formar a mão de obra barata de ditaduras.

Se, como os liberais, o leitor crê que o alvo da educação é formar os melhores profissionais para o mercado, deve pensar que o foco precisa estar na inovação e na excelência individual, não na subserviência. E se, como os progressistas, vê a educação como caminho para a liberdade, sabe que aquilo que liberta as pessoas é o pensamento crítico, não um cassetete sobre suas cabeças.

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NÃO É FÁCIL A VIDA DE EX-PRESIDENTE PARA LIRA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O deputado mandou e desmandou na engenharia das emendas, organizou, arbitrou conflitos e fez da Presidência da Câmara um contrapoder que rivalizou com Planalto

O deputado Arthur Lira (PP-AL), considerado ainda o parlamentar mais poderoso da Câmara, atrás apenas de Hugo Motta, o atual presidente da Casa, que ungiu ao cargo, começa a viver uma espécie de “inferno astral” semelhante à de outros antecessores. Para quem já mandou e desmandou na distribuição de emendas parlamentares, é no mínimo constrangedor ser acareado pela Polícia Federal (PF) com o deputado José Rocha (União Brasil-BA), que o acusa de manipular emendas de comissão em benefício próprio.

A acareação pode virar uma enorme dor de cabeça para Lira, por causa da Operação Transparência, que teve como alvo a ex-assessora da Presidência da Câmara Mariangela Fialek, conhecida como Tuca. Na ocasião, agentes da PF cumpriram mandados de busca e apreensão no antigo gabinete da servidora e em sua residência, recolhendo celulares, computador e anotações. O material apreendido está em análise. Ela foi apontada por Rocha como a responsável operacional pela distribuição de emendas por ordem de Lira.

A vida depois do poder raramente é gentil com ex-presidentes da Câmara dos Deputados. A cadeira concentra prerrogativas decisivas – controle da pauta, mediação entre Executivo e Legislativo, distribuição de cargos e, sobretudo, influência sobre o Orçamento –, mas esse poder se transformar rapidamente em retrato na parede. É desse lugar ambíguo que Arthur Lira começa a experimentar seu próprio “efeito Orloff”, assim como já aconteceu com alguns de seus antecessores. Dois deles, cujos mandatos sobreviveram até agora, hoje estão na planície e não têm nenhum poder de influência nas decisões da Casa: Aécio Neves (PSDB-MG) e Arlindo Chinaglia (PT).

Outros passaram por situação muito pior, como os deputados Severino Cavalcanti (PP-PE), que renunciou ao cargo por causa do escândalo do “Mensalinho”, em 2005, e Eduardo Cunha (MDB-RJ), que também renunciou ao cargo, em janeiro de 2016, depois de dois meses de afastamento no bojo da Operação Lava-Jato. Mesmo assim, teve seu mandato cassado, no dia 12 de setembro de 2016, pelo plenário da Câmara dos Deputados, por 450 votos a favor, 10 contrários e 9 abstenções, em virtude de quebra de decoro parlamentar, considerando que o ex-deputado teria mentido à CPI da Petrobras ao negar, durante depoimento em março de 2015, ser titular de contas bancárias na Suíça.

Durante quatro anos, Lira foi o centro de gravidade da política parlamentar. Mandou e desmandou na engenharia das emendas, organizou maiorias, arbitrou conflitos e fez da Presidência da Câmara um contrapoder que rivalizou com o Planalto. Ao ungir Hugo Motta para sucedê-lo, tentou prolongar a influência além do mandato. Mas o tempo político tem dinâmica própria; fora do comando da Casa, o poder se dissipa com rapidez surpreendente.

O constrangimento simbólico da Operação Transparência está na decisão que autoriza a Polícia Federal a colocar Lira frente a frente com o deputado José Rocha, no âmbito da investigação sobre a destinação de emendas do antigo orçamento secreto, a cargo do ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Flávio Dino. Para quem sempre defendeu a centralidade do Parlamento na alocação de recursos, a acareação é uma inversão de papéis. A condição de investigado devolve o parlamentar à planície institucional.

O ciclo mudou

O ministro Flávio Dino recolocou o tema das emendas no centro do debate constitucional. Nesta semana, autorizou os deputados Dr. Flávio (PL-RJ) e Missionário José Olímpio (PL-SP), a redefinir a destinação de recursos apresentados por parlamentares afastados ou sem presença institucional, como no caso dos ex-deputados Eduardo Bolsonaro (PL-SP) e Alexandre Ramagem (PL-RJ), respectivamente, ambos residindo nos Estados Unidos. Ambos perderam seus mandatos, o primeiro por se ausentar da Casa, o segundo por ter sido condenado no julgamento da tentativa de golpe de 8 de janeiro. Mesmo assim, suas emendas ao Orçamento haviam sido aprovadas.

É nesse ambiente que o “inferno astral” de Lira ganha densidade política. A investigação aponta a ex-assessora como peça operacional do esquema de desvio de verbas provenientes de emendas do chamado “orçamento secreto”. O orçamento secreto, proibido pelo STF, era a engrenagem que permitia ao presidente da Câmara funcionar como distribuidor de poder territorial.

A história recente mostra mesmo que o destino dos ex-presidentes da Câmara costuma ser ingrato. A exceção foi Michel Temer (MDB-SP), que presidiu a Câmara, foi vice-presidente e assumiu a Presidência com o impeachment de Dilma Rousseff(PT). Lira ainda dispõe de capital político, articulação e mandato. Mas a acareação, as investigações e o novo ambiente institucional indicam que o ciclo mudou. 

O “Efeito Orloff” é uma expressão popular no Brasil, derivada de um comercial de vodca dos anos 80 com o slogan “eu sou você amanhã”. A expressão já foi muito usada por economistas, para descrever a tendência de o Brasil repetir, com certo atraso, crises econômicas ou políticas vivenciadas por outros países, tradicionalmente a Argentina, sugerindo que “o que aconteceu com eles, acontecerá conosco”. A campanha publicitária da vodca Orloff mostrava um homem conversando com sua versão do futuro, bem-disposto por não ter tido ressaca.

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DOIS DISCURSOS, O MESMO TOM

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Canadá e Brasil mostram papel dos países de poder médio na crise da ordem internacional

Lula anuncia suave mudança na estratégia de privilegiar coalizões Sul-Sul

Dois importantes pronunciamentos passaram batido pelo noticiário da imprensa nacional, submersa nos infindáveis desdobramentos do Banco Master e na descrição de cada movimento do xadrez da eleição presidencial. Em 20 de janeiro, o primeiro-ministro canadense, Mark Carney, discursou em Davos, no Fórum Econômico Mundial. Oito dias depois, foi a vez de Lula falar na abertura do Fórum Econômico Internacional da América Latina e do Caribe, no Panamá. Ambos trataram dos desafios implicados na desordem mundial produzida pela desenfreada prepotência de Donald Trump.

Carney foi taxativo: o mundo não está passando por uma transição, mas por uma ruptura da ordem internacional. A grande potência não se considera sujeita a qualquer restrição imposta por regras previamente acordadas.

Segundo ele, essa não é uma crise resultante da globalização em si, mas do fato de que os EUA "começaram a usar a integração econômica como arma, as tarifas como alavancas de poder, a infraestrutura financeira como coerção e as cadeias de suprimento como vulnerabilidades a serem exploradas". Ou seja, a Casa Branca trumpista exacerbou o uso da infraestrutura da globalização como instrumento de poder e agressão, tendência já observada pelos cientistas políticos norte-americanos Henry Farrell e Abraham Newman no livro "Underground empire: How America weaponized the world economy" (o império subterrâneo: como a América instrumentalizou a economia mundial), ainda sem edição em português.

Tendo enumerado as medidas que o Canadá estava tomando para aumentar sua autonomia estratégica, o primeiro-ministro reconheceu os limites e perigos da empreitada: "Um mundo de fortalezas será mais pobre, mais frágil e menos sustentável". Terminou depositando na atuação conjunta das chamadas potências médias, entre as quais incluiu seu próprio país —e poderíamos inscrever o nosso—, a esperança de deter o uso da força bruta e os efeitos da crua rivalidade entre as grandes potências, de forma a construir um mundo mais cooperativo e resiliente.

De certa forma, o discurso do presidente Lula seguiu o mesmo diapasão. Depois de listar as ações que tornariam o país menos vulnerável às incertezas internacionais, enfatizou a necessidade de buscar o que possa lastrear uma ação regional concertada e de estabelecer parcerias positivas dentro e fora da região. Falou no respeito à pluralidade de opções e na superação das divergências ideológicas.

Palavras são palavras; arriscam perder-se com o tempo. Mas, neste caso, parecem anunciar uma suave mudança na estratégia internacional do governo, que tem privilegiado as coalizões Sul-Sul, no plano global, e as relações com países ideologicamente próximos, no âmbito regional. O esforço por concluir o acordo Mercosul-União Europeia e os acenos a recém-eleitos presidentes de direita no Chile e na Bolívia são outros indícios da correção de rumos. Atestam o senso político do governo e o entranhado pragmatismo de nossa política externa.

O discurso de Mark Carney indica que entendimentos com democracias do norte, na defesa de regras civilizadas de convívio internacional, são também possíveis.

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FALANDO FRANCAMENTE !

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quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

JULGAMENTO DE BOLSONARO E GENERAIS NO STM SERÁ TESTE DE DEMOCRACIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A questão é simples e existencial: a hierarquia e a disciplina, em regime democrático, exigem lealdade constitucional ou podem coexistir com a ruptura planejada?

O julgamento das representações por indignidade ou incompatibilidade para o oficialato do ex-presidente Jair Bolsonaro e quatro oficiais-generais condenados pela trama golpista, pelo Superior Tribunal Militar, não será apenas o desdobramento da decisão penal do Supremo Tribunal Federal: será um teste de estresse do pacto civil-militar da Constituição de 1988, um teste para a democracia. O STM não revisará culpa, provas ou tipificação criminal — isso já foi afirmado pelo Supremo —, mas se a natureza dos crimes e o papel desempenhado por cada oficial tornam moralmente incompatível a permanência no corpo de oficiais.

A questão básica é a seguinte: não se trata de “repunir”, mas de decidir se quem conspirou contra a ordem constitucional pode continuar ostentando posto e patente, com os símbolos, prerrogativas e benefícios que a carreira militar concentra. O caso é inédito pelo fato de se tratar de um ex-presidente e três generais de Exército, além de um almirante; e porque o tipo de delito, crime contra a democracia, nunca foi julgado pelo STM. A história brasileira registra anistias, acomodações e reintegrações de militares golpistas. A questão é simples e existencial: a hierarquia e a disciplina, em regime democrático, exigem lealdade constitucional ou podem coexistir com a ruptura planejada?

Leia tambémMP Militar pede expulsão de Bolsonaro das Forças Armadas

Os cinco réus chegam ao STM com situações distintas. Bolsonaro será examinado como capitão da reserva, mas inevitavelmente também como ex-chefe de Estado, alguém que dispôs da máquina presidencial e do prestígio do cargo para tensionar as instituições. Walter Braga Netto, general de Exército, aparece como o elo mais visível entre o bolsonarismo político e a engrenagem militar do governo, figura central do núcleo duro e, por isso mesmo, frequentemente apontado nos bastidores como o “caso mais fácil” de punição. Terá muita dificuldade de sustentar, no plano moral, que tudo não passou de um “erro de avaliação” ou de retórica.

Augusto Heleno, também general de Exército, é uma espécie de emblema do bolsonarismo fardado, com capital simbólico interno e trajetória que o torna referência para segmentos mais ideológicos, mas talvez seja absolvido por causa da idade e de não ter o mesmo nível de participação operacional na tentativa de golpe. Paulo Sérgio Nogueira, general de Exército e ex-ministro da Defesa, carrega o peso institucional de ter ocupado a ponte entre governo e Alto Comando, numa fase em que a ambiguidade e o silêncio também tiveram custo para a democracia. Almir Garnier Santos, almirante e ex-comandante da Marinha, tem a posição hierárquica mais delicada: até onde o comandante de uma Força pode ir em condescendência, adesão ou tolerância a um projeto de ruptura constitucional sem macular irreversivelmente a honra do oficialato?

Os juízes

Há um componente político inevitável ao julgamento: a escolha dos relatores e revisores, ministros com trajetórias, indicações e estilos que, embora não definam o resultado, moldam a cadência e a narrativa do julgamento. No caso de Bolsonaro, o relator é Carlos Vuyk de Aquino, brigadeiro da Aeronáutica visto como tranquilo, legalista e pouco dado a arroubos. A revisora é Verônica Abdalla Sterman, ministra civil.

A leitura predominante é que o perfil de Aquino favorece uma condução “quadrada”, isto é, mais aderente ao texto constitucional e ao dever de preservar a credibilidade institucional do tribunal, o que pode tornar a condenação moral mais provável se ele entender que crime contra a democracia é, por si, incompatível com o oficialato. A ministra Verônica, recentemente integrada à Corte, segue o mesmo figurino.

Já Garnier terá como relatora a própria Verônica Abdalla, com revisão do ministro Guido Amin Naves. E é justamente neste ponto que entra a ambivalência: o general Guido Amin se apresenta como moderno e institucional, mas seu comportamento sugere conservadorismo e sensibilidade corporativa. No processo de Paulo Sérgio, o relator é José Barroso Filho, com revisão do ministro Flávio Marcus Lancia Barbosa, um general recém-chegado, fechado, com postura percebida como conservadora. Um voto dele, sobretudo se ancorado na defesa da corporação, pode puxar o plenário para uma leitura mais branda do nexo entre crime político e indignidade.

No caso de Heleno, o relator é Celso Luiz Nazareth e o revisor Péricles Aurélio Lima de Queiroz, ex-aliado de Bolsonaro, o que pode aumentar a chance de voto que condena o fato criminal, mas relativiza-se a mancha moral, com base em serviços prestados, biografia, “contexto” ou gradação de culpa. Por fim, Braga Netto terá como relator o próprio Flávio Marcus Lancia, ex-aliado de Bolsonaro, e como revisor Artur Vidigal de Oliveira, combinação que torna o caso ainda mais interessante: o relator, percebido como conservador, pode ficar entre duas pressões opostas — a corporativa, para evitar o precedente de cassar generais, e a institucional, para não permitir que a impunidade se transforme em licença para novas aventuras. De todos os réus, Braga Neto é considerado um “grande traidor” pelos demais generais.

Leia ainda: Toga está acima da farda, diz presidente do STM

Entretanto, o plenário será o verdadeiro campo decisório. O tribunal tem 15 ministros, mas a presidente do STM, ministra Maria Elizabeth Rocha, vota apenas em caso de empate — sempre a favor do réu. Entre os militares, há a percepção de que três ou quatro tendem ao bolsonarismo. Entre os civis, ao menos um seria alinhado. E dois novos ministros-generais, recém-empossados, são descritos como esfinge.

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JUSTIÇA QUE TARDA

Bernardo Mello Franco, O Globo

STM pode punir Bolsonaro com 38 anos de atraso

Para driblar corporativismo da Justiça Militar, procurador afirma que capitão traiu "prática da camaradagem" na caserna

Depois de perder o poder e a liberdade, Jair Bolsonaro pode perder também a patente de capitão. O Superior Tribunal Militar (STM) abriu processo para apurar se o ex-presidente violou as leis castrenses. Se condenado, ele será declarado indigno para o oficialato e expulso das Forças Armadas.

Para o procurador Clauro Roberto de Bortolli, Bolsonaro mostrou descaso pelos “preceitos éticos mais básicos” da vida militar. Ele afirmou que o capitão atentou contra a probidade, a lealdade e a disciplina ao liderar uma tentativa de golpe após a derrota nas urnas.

A acusação sustenta que a gravidade dos atos do ex-presidente é “incontroversa” e ficou comprovada no processo criminal que o levou para a cadeia. É tudo verdade, mas a Justiça Militar está 38 anos atrasada.

Em junho de 1988, o mesmo STM julgou Bolsonaro por tramar atentados em quartéis. Além de atacar o comando do Exército, o capitão havia elaborado um plano para explodir bombas em instalações militares como protesto pelo aumento de salários.

Em janeiro daquele ano, um conselho de justificação o considerou culpado por ter praticado atos contra “a honra pessoal, o pundonor militar e o decoro da classe”. Cinco meses depois, o STM ignorou as provas e absolveu o aspirante a terrorista por 9 votos a 4.

Inocentado, Bolsonaro ficou livre para se lançar na política. Candidatou-se a vereador e iniciou a escalada que o levaria ao Planalto. O general Ernesto Geisel se referiu ao caso das bombas ao descrever o capitão como um “mau militar”, em depoimento ao CPDOC da Fundação Getulio Vargas.

O ex-presidente não foi o único beneficiado pelo corporativismo do STM. Num país com longo histórico de quarteladas, o tribunal nunca puniu oficiais golpistas. Agora terá que julgar cinco. Além de Bolsonaro, serão processados três generais e um almirante que tramaram contra a democracia.

Numa tentativa de sensibilizar os ministros, o procurador Bortolli não se limitou a enumerar os crimes cometidos pela quadrilha. Também acusou Bolsonaro e seus comparsas de traírem a “prática da camaradagem”. Apesar de se dizerem patriotas, eles ordenaram ataques aos colegas de farda que se recusaram a embarcar no golpe.

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MENSAGEM DE LULA PEDIA PALANQUE

Elio Gaspari, O Globo

O ano eleitoral começou com a proposta do fim da escala 6x1 

Mensagem presidencial de 600 páginas é uma demasia. Como ninguém as lê, tanto faz. Pelo cerimonial, um parlamentar é submetido ao suplício da leitura. Pelo ritual, o governo fala mais do que fez, indicando o que pretende fazer no ano legislativo. Na sua mensagem, o governo fala bem de si, mas Lula aproveitou a oportunidade para marcar três objetivos. Dois tratam de assuntos em que, em três anos, ele não fez o que podia. A saber: regulamentação dos direitos de quem trabalha no mercado de aplicativos e um projeto para a segurança pública.

O terceiro tema é inovador e terá reflexos no funcionamento da economia. Trata-se do fim da escala de seis dias de trabalho por um de repouso, o 6x1, substituído pela regra de 5x2, com dois dias de repouso. Ainda não se conhece o texto que será perfilhado pelo governo. Sabe-se, contudo, que a votação ficará para depois do carnaval. (Leia-se, para uma data mais próxima da eleição.)

Pelo andar da carruagem, uma nova escala será aprovada. Uma das hipóteses é a fixação de 40 horas semanais de serviço, divididas entre cinco ou seis dias. Milhões de trabalhadores já descansam aos sábados e domingos.

Trata-se de uma profunda reforma nas relações de trabalho, só comparável à instituição do 13º salário, em julho de 1962. Assim como o décimo terceiro, a nova escala atrairá queixas e será acusada de eleitoreira. Pode ser, mas os candidatos do presidente João Goulart perderam a eleição daquele ano em São Paulo, Rio Grande do Sul, Ceará e Bahia. (Em 1962 não se disputavam os governos do Rio de Janeiro e de Minas Gerais.)

Até agora, a nova escala foi mantida ao largo da discussão nacional. É pena, mas esse é o padrão. A abolição da escravatura ficou encravada por mais de 50 anos e acabou aprovada em seis dias, pela pressão das ruas e das fugas de negros. O andar de cima de Pindorama só entrega os anéis depois que perde alguns dedos. Na sua mensagem, Lula defendeu o fim da escala 6x1 com um argumento simples:

— Nosso próximo desafio é o fim da escala 6x1 de trabalho, sem redução de salário. O tempo é um dos bens mais preciosos para o ser humano. Não é justo que uma pessoa trabalhe duro toda a semana e tenha apenas um dia para descansar o corpo e a mente e curtir a família.

Trazendo o tema para o debate, Lula enfrentará contraditas robustas. A produtividade do trabalhador brasileiro é baixa, e a mão de obra é relativamente cara. Pelo visto, os adversários da iniciativa combateram nas sombras de Brasília. Com a defesa de Lula, talvez decidam ir para a luz do Sol. A revisão da tabela do imposto de renda foi aprovada sem maiores sobressaltos porque afetava a fúria arrecadatória da Viúva e compensava a perda orçamentária taxando os mais ricos. Na mudança da escala desaparece essa compartimentação. Ela afeta do mordomo do banqueiro ao faxineiro do botequim, caso eles trabalhem com carteira assinada.

É aí que mora o perigo. Se a nova escala estimular o êxodo de trabalhadores para a informalidade, a emenda piorará um soneto que é ruim há décadas.

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TARCÍSIO PERDEU O BONDE ?

Vera Magalhães, O Globo

Governador de São Paulo continuará a ser incluído em pesquisas como pré-candidato à Presidência, mas não esconde desânimo por não ter sido ungido candidato por Bolsonaro, como ocorreu em 2022

Uma semana depois do movimento de Gilberto Kassab para anabolizar seu PSD com mais um pré-candidato à Presidência e da reiteração, por parte de Tarcísio de Freitas, do apoio a Flávio Bolsonaro, a sensação entre aliados do governador de São Paulo é que, agora, ele perdeu mesmo o último bonde para a corrida ao Planalto.

Continuará, porém, a ser incluído em pesquisas de intenção de votos, e isso fará com que permaneça a pressão por demonstrações reiteradas de lealdade a Jair Bolsonaro, algo que lhe tem causado constrangimento visível.

Auxiliares e conselheiros relatam certo desânimo de Tarcísio com a forma como os fatos se desenrolaram entre o fim do ano e este início de fevereiro. Depois de um flerte claro com o projeto nacional, que envolveu conversas com o meio empresarial e político e uma estratégia de comunicação e marketing, ele não conseguiu o que esperava: ser, de novo, ungido candidato por Bolsonaro, como foi em 2022 ao governo paulista.

A escolha precoce do ex-presidente preso pela própria estirpe expôs a falta de traquejo político de Tarcísio, que não encontrou meios de argumentar com o padrinho a respeito da conveniência de sua candidatura em detrimento do filho Flávio. Aqueles que conversaram com ele depois da última visita a Bolsonaro, na Papudinha, dizem que, mesmo agora, ele encontra dificuldade de tratar da montagem do jogo à própria reeleição.

Tarcísio está preocupado com a possibilidade de a chapa ao Senado ficar com uma composição muito radical à direita. Ele se sentiria mais confortável com pelo menos um nome de centro-direita, já que uma das vagas deverá ser ocupada por seu ex-secretário de Segurança Guilherme Derrite, de quem vem se afastando desde que promoveu mudanças na pasta.

A tendência é que a família Bolsonaro pressione por um nome do PL para o Senado, tornando a chapa mais ideologizada do que Tarcísio gostaria. Ele expôs a Bolsonaro o risco de que isso favoreça a eleição de um nome ligado ao presidente Lula, mas não há garantia de que o alerta será levado em conta.

Pessoas próximas a Tarcísio relatam que, além de certo travo amargo que ficou da implosão do ensaio presidencial mesmo antes do lançamento, ele está longe de ter o sentimento de que a reeleição será uma barbada que dispensará maiores preocupações, a despeito do franco favoritismo registrado nas pesquisas.

Inspira cautela no campo tarcisista, sobretudo, a possibilidade de Lula convencer o vice-presidente e ex-governador Geraldo Alckmin a ir para o sacrifício e disputar o Palácio dos Bandeirantes. Mesmo desprovido de seu antigo capital eleitoral, Alckmin, que governou São Paulo por três mandatos, poderia questionar Tarcísio quanto às marcas de sua gestão, uma vez que a maioria das grandes obras e das vitrines do estado é herança das gestões tucanas.

Mais: os problemas decorrentes da privatização da Sabesp, esta, sim, uma das principais apostas da gestão Tarcísio, deverão ser martelados pelo candidato lulista, seja ele qual for.

O antilulismo, cada vez mais forte no interior do estado, joga a favor da recondução de Tarcísio. Lula, no entanto, já deixou claro que tentará montar uma chapa competitiva em São Paulo, que impulsione sua própria votação no estado de maior eleitorado da Federação. Avançou nas conversas com Fernando Haddad, com Simone Tebet e com o próprio Alckmin, mas nenhum deles demonstra grande entusiasmo em aceitar a “missão”.

Também no Planalto prevalece o diagnóstico de que Tarcísio ficará mesmo preso em São Paulo. A ordem por lá é reforçar a imagem de subserviência em relação a Bolsonaro, contra a qual ele se insurgiu em recente entrevista.

Por tudo isso, a eleição paulista será a mais nacionalizada do país. O irônico é que, mesmo preterido pela família Bolsonaro, Tarcísio será fundamental para a campanha de Flávio.

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LULA NA SAPUCAÍ

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terça-feira, 3 de fevereiro de 2026

DEFESA NACIONAL, TEMA PARA A ELEIÇÃO

Artigo de Fernando Gabeira

No mundo marcado pela lei do mais forte, não seria melhor ter Forças Armadas mais poderosas?

É um privilégio voltar à estrada e percorrer o país. Aqui em Igarapé-Miri, no interior do Pará, capital do açaí, encontramos a cidade em festa. Intensa queima de fogos e uma motociata com mais de duzentos participantes comemoravam o êxito dos estudantes locais no Enem. Agora, vão todos para as faculdades em Belém. É uma pausa nas atribulações de um mundo confuso, marcado por agressividade interna e externa da política de Trump, escândalos como os do banco Master e assassinato do cão Orelha numa praia de Santa Catarina.

Consultando as redes, ouvi um discurso de Lula que me interessou. Ele fala do grande poderio militar dos Estados Unidos e lembrava que, além de tudo, Trump anunciou armas secretas de grande potencial destrutivo. Aqui, disse ele, temos o Exército, a Marinha e a Aeronáutica, e às vezes até falta bala para seus exercícios.

Não se trata de criticar Lula por dizer uma verdade inconveniente, mesmo porque não há registro do final de seu discurso. Simplesmente comecei a refletir sobre isso e a perguntar se, no mundo marcado pela lei do mais forte, não seria melhor ter as Forças Armadas mais poderosas que nossos recursos possam obter.

Não penso em bomba atômica ou algo desse tipo. Há países como Vietnã que não têm bomba, e, no entanto, os agressores pensariam duas vezes antes de ocupá-lo. Minha ideia de defesa não se limita às melhores Forças Armadas, mas se estende também a um esforço nacional. Na Suécia, as empresas se preparam para circunstâncias difíceis, desastres naturais e mesmo uma guerra. Elas se perguntam, em seus planos, como funcionar nas mais difíceis situações.

Somos um povo pacífico, alegre e solidário. Mas o mundo mudou muito, e estamos num ano eleitoral. Precisamos continuar pacíficos, alegres e solidários, mas um pouco mais preparados para a dura realidade internacional. Teríamos de dar uma sacudida e um upgrade nas Forças Armadas e perguntar aos colégios, sindicatos e a todas as associações o que poderiam fazer se houver necessidade de defender o país. Há tantos grupos nas redes, eles poderiam colocar a questão: o que poderíamos fazer juntos? E depois desdobrá-la em reuniões presenciais.

Pensarão que fiquei paranoico. Nem o Congresso discute a questão da defesa, porque a considera muito secundária. Há quem ache também que as potências mundiais são tão fortes que o melhor é nem pensar nisso. Esses rirão de mim. Outros, com razão, acham que as instituições estão desgastadas e inspiram desânimo geral. Mais um argumento para resolvermos o desgaste, pois ele enfraquece até a soberania nacional. 

Mesmo quem não concorde ou ache que estou exagerando daria grande contribuição pedindo aos candidatos que falem sobre o tema da defesa, uma novidade na eleição presidencial. Como diz Mark Carney, primeiro-ministro do Canadá, a novidade é um mundo em que ou se senta à mesa ou se é incluído no menu. Isso depende muito de habilidade em abrir novos mercados, mas também de ampliar a capacidade de se defender.

Artigo publicado no jornal O Globo em 03 / 02 / 2026

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MOMENTO DE AUTOCORREÇÃO

Merval Pereira, O Globo

O presidente do STF, ministro Edson Fachin, abriu o ano judiciário com um discurso sereno e firme, sem jactâncias nem dramaticidade

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Edson Fachin, abriu o ano judiciário com um discurso sereno e firme, sem jactâncias nem dramaticidade, mas reafirmando posições e necessidades exigidas, segundo ele, por “momentos de adversidade”:

— Fidelidade absoluta à Constituição da República e respeito à liberdade de expressão e de imprensa, que não são concessões, uma vez que estruturam o debate público e oxigenam a democracia. A crítica republicana não é mesmo ameaça à democracia.

Essa referência à liberdade de expressão e de imprensa logo no início da fala esclarece um mal-entendido provocado por ele mesmo na nota oficial em que, ao defender a instituição do Supremo, deixou no ar uma ameaça de que a História cobraria as posições de quem hoje critica o Supremo, alegando que “quem tenta desmoralizar o Supremo” ataca “o coração da própria democracia”. Talvez para esclarecer ainda mais sua posição, Fachin iniciou e encerrou seu discurso relembrando o nome de ministros do Supremo que, na ditadura cívico-militar de 1964, foram cassados por suas posições e hoje são reconhecidos pela História: Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva.

Noutro momento do discurso, Fachin admitiu que o protagonismo do STF “tem seus ônus e efeitos para a legitimidade institucional. Os ministros respondem pelas escolhas que fazem. As decisões que tomamos, os casos que priorizamos, a forma como nos comunicamos — tudo isso importa”. Ele definiu o atual momento da seguinte maneira:

— Quando esses canais saturam, quando a fragmentação partidária impede a formação de maiorias estáveis, quando o custo de governabilidade se torna proibitivo, quando a responsividade do sistema representativo cai abaixo de um limiar mínimo, quando a confiança nas instituições representativas se erode, a pressão não desaparece. Ela se desloca.

Fachin acha que “já chegou a hora de o tribunal sinalizar, por seus próprios atos, que o momento é outro”. “A fase agora é da retomada plena da construção institucional de longo prazo”, afirmou.

Na sua visão, “o Supremo foi impulsionado e ao mesmo tempo colocou-se em direção ao centro do sistema institucional das decisões do Estado Democrático de Direito”. Apesar de atuações fundamentais para a defesa da democracia, ele considera que “o momento histórico é também de ponderações e de autocorreção. É hora de um reencontro com o sentido essencial da República, da tripartição real de Poderes e da convivência harmônica e independente, com equilíbrio institucional”. A partir do conceito de autocorreção, Fachin reforçou que “unidade não significa unanimidade”, reconhecendo haver resistências internas para a adoção de um Código de Ética para o Tribunal, que reafirmou ser o projeto de sua gestão.

Aproveitou para agradecer à ministra Cármen Lúcia por ter aceitado ser a relatora desse projeto, pois afirmou que busca dar à sociedade brasileira “segurança jurídica com legitimidade”. Resumiu assim os principais pontos de seu projeto: 1) transparência, integridade e diálogo institucional; 2) divergência democrática como elemento legítimo da vida constitucional; 3) centralidade da legalidade constitucional como linguagem comum entre os Poderes; 4) direitos humanos e segurança como eixos da democracia constitucional; 5) Atuação do STF marcada por responsabilidade e segurança jurídica; 6) Eficiência, inovação e sustentabilidade.

No ponto sobre direitos humanos, Fachin parece ter escolhido a palavra “segurança” para esclarecer que não é contra a ação policial, como muitos alegaram a partir de sua determinação de que a subida das forças policiais nas favelas teria de obedecer a uma série de cuidados preventivos. Fez questão também de afirmar que “nos processos, as dúvidas sobre conflitos de interesses devem ser tratadas sempre com transparência”. E advertiu:

— Ninguém cogite que possa ser diferente numa sociedade republicana como a nossa.

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segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

LIMA BARRETO E A CORRUPÇÃO SISTÊMICA

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Por que o Brasil está preso numa armadilha da corrupção sistêmica?

Resposta está nos microfundamentos; explicações culturalistas não dão conta do fenômeno

"Penso, ao ler tais notícias, que a fortuna dessa gente que está na Câmara, no Senado, nos ministérios, até na Presidência da República, se alicerça no crime. Que acha você?".

A afirmação é do protagonista de "O Único Assassinato de Cazuza" (1922), um dos últimos textos de Lima Barreto. A questão da corrupção sistêmica no país já se colocava há mais de um século. Os tribunais superiores, no entanto, não figuravam na lista. Sim, Lima não apelou para a explicação superficial, culturalista (herança lusitana).

Se todos acreditam que a corrupção é a regra do jogo, ficamos presos a uma armadilha clássica. Se, ao contrário, prevalece a crença de que transações honestas são a norma, obedecer à lei torna-se a estratégia dominante. Quando práticas escusas são percebidas como regra, o ator que decide jogar limpo tende a ser o perdedor —e, no limite, não sobrevive. O incentivo, nessa situação, é jogar sujo, apostando que os demais farão o mesmo.

Se um cidadão ou empresário paga propina a um agente público —seja um fiscal, seja um parlamentar— esperando que a oferta seja aceita, o sistema se mantém em equilíbrio. A punição ocasional de alguns transgressores pode produzir mudanças parciais —em um setor, um ministério ou uma prefeitura. Mas, na ausência de um efeito manada, isto é, de um ponto de inflexão capaz de alterar expectativas de forma radical, o equilíbrio global tende a ser restaurado.

As evidências empíricas que sustentam a tese de que "a corrupção corrompe" (Shaul Shalvi) são numerosas e consistentes. Dados do Lapop/Vanderbilt mostram forte correlação entre a crença de que "a corrupção é generalizada" e a probabilidade de se considerar que "pagar propina é justificável". Daniel Gingerich e coautores demonstraram que a exposição à informação sobre o aumento da corrupção em um país elevou em 28% a propensão a pagar propina, em comparação com um grupo de controle não exposto a essa informação.

Não são "pecadillos" individuais que produzem a corrupção sistêmica. A causalidade opera no sentido oposto: a corrupção corrompe. Gächter e Schulz, em artigo publicado na Nature, encontram evidências, com base em uma amostra de 23 países, do impacto da grande corrupção sobre a pequena. Participantes oriundos de países com altos escores no Índice de Prevalência de Violação de Regras (PRV) —medida que captura grande corrupção, fraude política e evasão tributária— apresentaram maior propensão a se engajar em atos corruptos em experimentos de laboratório.

Fisman e Miguel, por sua vez, examinaram milhares de multas de estacionamento cometidas por funcionários de missões diplomáticas em Nova York —que gozavam de imunidade até 2002— e encontraram forte correlação entre estacionamento ilegal e indicadores de corrupção nos países de origem dos diplomatas. Mesmo na ausência de qualquer punição, as normas sociais forjadas nos países de origem mostraram-se determinantes.

A lição a extrair para o Brasil é clara: é a grande corrupção que molda nossa sociabilidade e estimula as microtransgressões —não o contrário. "Se aqueles no andar de cima fazem, por que eu não posso fazer?" deixa de ser apenas uma pergunta retórica e passa a funcionar como máxima orientadora do comportamento social.

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PRECISAMOS DE UMA AGENDA PARA O BRASIL REAL

Preto Zezé, O Globo

O país tem gente qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir desenvolvimento

O Brasil não sofre por falta de ideias nem por ausência de experiências bem-sucedidas. O problema é a dificuldade de transformar o que já funciona em agenda pública estruturada, contínua e com visão de Estado. Falta conexão — entre políticas, territórios, quem faz e quem decide — e sobra dependência de ciclos políticos curtos.

Nas últimas semanas, dialoguei com instituições e territórios que ajudam a compreender esse impasse. Mais que registrar boas práticas, esses encontros buscam renovar o repertório da agenda pública. Nosso papel é levar elementos concretos para provocar novas leituras e construir práticas mais eficientes, capazes de gerar impacto real.

Faço esse diálogo sem veto ideológico. Não converso com gestores a partir de bandeiras eleitorais, mas como quadros eleitos que administram recursos públicos. Gestores são transitórios; a agenda precisa ser permanente.

No Banco do Nordeste, em conversa com seu presidente, Wagner Antônio de Alencar Rocha, tratamos de economia criativa, inovação e governança local a partir de um ativo central: o maior programa de crédito popular do país. O Crediamigo acumulou uma inteligência territorial rara no sistema financeiro brasileiro. Com o Crediamigo Comunidades, o território passa a ser unidade estratégica. O desafio é articular crédito, inovação, cultura e desenvolvimento no mesmo lugar, ampliando resultados.

Na Sudene, com Francisco Ferreira Alexandre e Heitor Freire, a conversa abordou o papel do Nordeste num cenário global em transformação. O acordo entre União Europeia e Mercosul reposiciona ativos estratégicos da região. O Brasil concentra cerca de 40% da infraestrutura de data centers da América Latina, com destaque para o Ceará. Nesse contexto, favelas e comunidades urbanas precisam ser incluídas nas políticas que articulam formação, energia, conectividade e desenvolvimento urbano.

Em São Paulo, com o secretário municipal de Cultura José Antônio Silva Parente, o Totó Parente, reforçamos a cultura como vetor econômico, não como discurso, mas como prática. Em pouco mais de um ano, os programas em andamento mostram como a cultura pode organizar territórios e gerar renda.

Em Maricá (RJ), sob a liderança do prefeito Washington Luiz Cardoso Siqueira, o Quaquá, encontrei uma experiência singular: a única secretaria especial dedicada à Promoção das Comunidades, hoje conduzida por Brunna Tavares. Fica claro que o desafio não é testar ideias, mas sustentá-las ao longo do tempo. Política pública não pode ser só projeto de governo.

Esse percurso revela algo simples: o Brasil já tem gente qualificada, experiências testadas e instituições capazes de induzir desenvolvimento. O que falta é conexão, escala e continuidade. Não é preciso começar do zero, mas articular melhor o que já existe.

Por trás das instituições há pessoas que tomam decisões e sustentam políticas no dia a dia. Reconhecer lideranças não é personalizar a política, mas admitir que nenhuma agenda pública se sustenta sem gente preparada e capaz de executar. O Brasil real já produz respostas; o desafio é transformá-las em agenda pública de Estado.

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CAMINHOS DO MAR

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domingo, 1 de fevereiro de 2026

CASO MASTER, HORA DE REVER PROCEDIMENTOS

Míriam Leitão, O Globo

Assim como fez o Banco Central, as instituições envolvidas deveriam rever procedimentos para verificar se houve falhas

No dia seguinte à decisão do Copom, de manter juros no elevadíssimo nível de 15%, e avisar que a taxa cairá na próxima reunião, o Banco Central estava nas manchetes dos jornais. O assunto, contudo, não era a Selic. Era a auditoria interna feita para averiguar os procedimentos no caso da liquidação do Banco Master. Na mesma quinta-feira, o ministro Dias Toffoli soltou uma nota tentando se explicar e sinalizando que pode devolver o assunto à primeira instância.

No mercado bancário, o Master era um S3. Em palavras: um banco pequeno. Por que então a República está abalada? Há muitas respostas para a pergunta, e uma delas todos sabem: as muitas conexões políticas e jurídicas de Daniel Vorcaro que, se não conseguiram impedir que ele usasse tornozeleira, têm provocado uma sucessão de sustos e dúvidas institucionais.

A nota de Toffoli omite alguns eventos. Não registra, por exemplo, que ele chegou a determinar uma descabida acareação entre diretor do Banco Central e dois investigados, antes ainda de ouvir os suspeitos. A inversão da ordem causou tanta estranheza e provocou tantas críticas, que o ministro relator trocou acareação por depoimento do diretor de fiscalização do BC, Ailton de Aquino. Recuou, mas nunca admitiu o recuo. Fez de conta que não havia falado em acareação.

O diretor Ailton de Aquino, aliás, diante da primeira dúvida sobre ele, tomou a iniciativa de colocar à disposição dos investigadores da Polícia Federal seus sigilos fiscal, bancário e telemático. Não se vê a mesma atitude do ministro. A empresa dos irmãos de Toffoli, chamada Maridt, com sede na casa de uma cunhada dele — que desconhece o empreendimento que sedia — deveria divulgar informações sobre seu balanço, de quem recebe e a quem paga.

A notícia de que o Banco Central havia aberto uma auditoria interna, por decisão do presidente da instituição, foi dada primeiro no GLOBO, por Thiago Bronzatto e Fabio Graner. Esta deveria ser uma atitude de todos os órgãos, instituições e empresas envolvidas no episódio: revisar seus atos e decisões. Todos precisam rever procedimentos para saber onde houve falhas. No âmbito do Banco Central, rever a governança, os pareceres, estudar os passos da fiscalização e da supervisão bancária ajudará a evitar que uma situação como esta se repita. Não há qualquer tipo de acusação, a auditoria não foi iniciada por suspeição, mas porque é necessária. É difícil, produz tensão interna, há quem tema que se um pequeno erro for encontrado seja o suficiente para que as defesas queiram a nulidade do processo. Mas a luz do sol sempre foi o melhor remédio contra qualquer dúvida.

O país está num momento de desconfiança em relação às instituições. Por isso, o melhor é ter o máximo de transparência e evitar a tendência ao corporativismo. Criticar o comportamento do ministro Jhonatan de Jesus não é atacar o TCU. Ter dúvidas sobre a conveniência de Dias Toffoli permanecer na relatoria do caso Master não é atacar o Supremo Tribunal Federal. Quem tenta blindá-los presta um desserviço à democracia. Ela precisa da confiança nas instituições.

Tem havido muitos erros e eles precisam ser encarados. Inclusive no setor privado. A Fitch, uma das maiores agências de risco do mundo, deu upgrade ao Master em outubro de 2024. Ele passou a “A-”. Uma nota excelente que indica baixo risco. Naquela altura não era segredo para ninguém a crise de liquidez da instituição, nem se desconhecia a baixa qualidade dos ativos. Em setembro de 2025, a Fitch rebaixou a nota para “BB”, uma nota mediana. E dois meses depois, após a liquidação do banco, rebaixou para “D”. Em um ano saiu do patamar que representa baixo risco, para a nota que indica falência.

O BRB tinha a obrigação de auditar o que estava comprando, realizando uma diligência para verificar se a carteira de fato existia. Evidentemente que a culpa não é do Banco Central. Tudo indica que os ativos foram comprados para fazer transfusão de sangue para o Master. Até março, o BRB tem que entregar seu balanço de 2025 e dizer quanto fará de provisão — o BC mandou R$ 2, 6 bilhões — e como vai resolver o rombo total que, segundo o diretor Ailton Aquino no depoimento, pode chegar a R$ 5 bilhões.

O melhor no intrincado caso Master é o caminho da análise dos procedimentos e condutas nas instituições públicas e no setor privado. Como está fazendo o Banco Central.

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UM PALANQUE NA SAPUCAÍ

Bernardo Mello Franco, O Globo

Sem medo de ser governista, Acadêmicos de Niterói exalta Lula e leva hino do PT à Sapucaí

A oito meses da eleição presidencial, Sambódromo será palco de desfile chapa-branca

Aconteceu há 12 dias, em solenidade no Rio Grande do Sul. De macacão laranja, o presidente da estatal Transpetro usou o púlpito para exaltar o governo e fazer campanha pela reeleição. “Mesmo diante das ameaças externas, estamos mais fortes”, discursou, dirigindo-se a Lula.

Em clima de comício, Sérgio Bacci arengou a claque e provocou a oposição. “Os brasileiros não vão permitir que os CEOs do atraso voltem a comandar este país”, disse. Em seguida, passou a recitar “um pedacinho do samba-enredo que será sucesso na Sapucaí”.

“Nosso sobrenome é Brasil da Silva/ Vale uma nação, vale um grande enredo/ No Brasil, o amor venceu o medo”, cantarolou, antes de pedir vivas ao presidente que disputará o quarto mandato em outubro.

O carnaval ainda não chegou, mas o desfile da Acadêmicos de Niterói já dá o que falar. Recém-promovida ao Grupo Especial, a escola cruzará a Avenida com um samba chapa-branca. A letra glorifica a trajetória de Lula, “da luta sindical à liderança mundial”. Sem sutileza, cita duas vezes o 13, número de urna do PT.

Enredos governistas não são novidade no carnaval carioca. Turbinadas com dinheiro público, as escolas já serviram à propaganda de prefeitos, governadores e generais. Em 1975, a Beija-Flor bajulou a ditadura com um enredo que cantava as maravilhas do Funrural e do PIS-Pasep. Neste ano, a Mangueira embolsará R$ 10 milhões para se apresentar como “Estação Primeira do Amapá”.

A indústria do samba-exaltação também aceita petrodólares do exterior. Em 2006, a estatal venezuelana PDVSA patrocinou um desfile da Vila Isabel que exaltava a “revolução bolivariana” de Hugo Chávez. Nove anos depois, a Beija-Flor recebeu uma bolada do ditador Teodoro Obiang para enaltecer a pequena Guiné Equatorial.

Apesar desse histórico, o samba da Niterói tem tons de ineditismo. Pela primeira vez, uma escola do Grupo Especial exaltará um presidente no cargo e prestes a disputar a reeleição. O homenageado parece satisfeito. Já recebeu os dirigentes da Niterói e foi representado pela primeira-dama em visita à Cidade do Samba. O casal é aguardado na Sapucaí no domingo de carnaval. Na última sexta, deputados petistas aproveitaram o ensaio técnico da escola para produzir vídeos para as redes sociais.

A festa do Sambódromo é uma das maiores expressões da cultura brasileira. Não deveria ser capturada pelo proselitismo político — muito menos às custas do contribuinte. Neste ano, a agremiação que exaltará Lula recebeu R$ 6,5 milhões das prefeituras do Rio e de Niterói. O governo federal repassou mais R$ 1 milhão, mesma verba destinada às concorrentes, via Ministério da Cultura e Embratur.

A pretexto de evitar multas da Justiça Eleitoral, a escola orientou os componentes a não fazerem o L com os dedos. Nem precisava. Sem medo de ser governista, o samba exalta o presidente (“Vi a esperança crescer/ e o povo seguir sua voz”), debocha da prisão de Bolsonaro (“Sem falsos mitos/ sem anistia”) e martela o hino dos comícios do PT (“Olê, olê, olê, olá/ Lula, Lula”).

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MISCELÂNEA PARTIDÁRIA

Merval Pereira, O Globo

As crises do mensalão, e depois do petrolão, levaram ao caos partidário em que vivemos hoje

Não é possível chegar-se a uma conclusão sobre os acordos eleitorais para a eleição presidencial por causa da miscelânea da nossa política partidária. As fotos dos pré-candidatos do PSD podem dar a impressão de que a união deles faria a diferença no segundo turno, pois, nas pesquisas eleitorais, a soma dos candidatos de direita é maior do que os votos dados a Lula. Essa conta simples mostra que a maioria prefere um candidato de direita ao eterno representante da esquerda, o presidente Lula. Mas, se no Brasil até o passado é duvidoso, o que dizer do futuro?

Quem disse que a direita se unirá? Quem afirma que o presidente Lula não terá o apoio de parte do eleitorado de centro-direita? Quem disse que nenhum candidato da direita correrá para o colo de Lula assim que for desdenhado por seus companheiros de partido? Lembrar que o presidente do PSD, Gilberto Kassab é secretário do governador de São Paulo, mas também tem ministérios no governo Lula, serve para algum parâmetro?

Existe, claro, o antipetismo, assim como o antibolsonarismo. Mas os eleitores escolhem seus candidatos por ideologia ou por simpatia? Há os que achem Lula comunista, ou Bolsonaro fascista. Mas a maioria os coloca nessa categorização, ou o jeito popularesco dos dois está acima das ideologias? O fato é que o país há muito não tem uma disputa na base de um programa. A mais recente dessas ocorreu no Plano Real, quando havia um projeto tucano de superação da crise econômica, e um projeto petista de assistência social que se combinavam, mas não combinavam suas lideranças.

Fernando Henrique Cardoso e Lula vinham da mesma vertente da social-democracia, mas disputavam entre si a liderança nacional. Os tucanos tinham internamente disputas que, na hora da definição da candidatura depois de dois governos seguidos de Fernando Henrique, vencidos no primeiro turno, não encontraram um denominador comum. Serra, ministro do Planejamento, era um crítico do ministro da Fazenda Pedro Malan, e a sua derrota não foi muito lamentada por uma parte do tucanato. Havia a íntima percepção dessa ala de que o PT no poder chamaria o PSDB para governar, dando continuidade ao Plano Real.

Mas Lula decidiu continuar com o Real, mas sem o PSDB. Foi buscar ajuda na periferia do PSDB: Henrique Meirelles para o Banco Central foi uma escolha política perfeita. Alguns outros assessores de DNA tucano, como Marcos Lisboa, foram convocados, e o PT fez o que FHC previa, mas a seu jeito. A partir do segundo governo Lula, o petismo começou a dar vazão a seu próprio projeto de governo, que culminou com uma vitória na sucessão com a eleição de Dilma, mas degringolou com os equívocos na economia.

Mais uma vez o PT correu atrás de uma solução tucana, convocando Joaquim Levy para tentar corrigir os rumos. Não houve solução possível, mesmo porque petistas boicotavam Levy assim como boicotaram assessores ligados aos tucanos no primeiro mandato. Enquanto o ministro da Fazenda Antonio Palocci teve força política para sustentar a guerra interna, deu certo. Depois, a “nova matriz econômica” de Guido Mantega levou à crise do impeachment.

Outras crises, a do mensalão, e depois o petrolão, levaram ao caos partidário em que vivemos hoje. Apoios políticos comprados não olhavam legendas, mas oportunidades fisiológicas. Qualquer partido, qualquer político, passou a ser acolhido em qualquer governo, fosse de esquerda, fosse de direita. O Centrão passou a dominar o Congresso, graças ao desapego de Bolsonaro pelas instituições democráticas, pois preparava-se para um golpe, e alterou as regras aos poucos, tornando-se o controlador das emendas partidárias que deram aos políticos o controle do Orçamento da União e, por consequência, do processo congressual.

Mesmo que a esquerda vença este ano, não conseguirá o controle da Câmara e do Senado, e será sempre pressionada pela maioria de direita que provavelmente se formará. Os jogos de poder que serão disputados atingirão o Supremo Tribunal Federal (STF) e o próprio governo, com mais intensidade que hoje. E se a direita bolsonarista vencer, tendo nos Estados Unidos o governo Trump, os desafios serão maiores.

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sábado, 31 de janeiro de 2026

MÃO AMIGA

André Barrocal, CartaCapital

O governador Ibaneis Rocha é figura central na investigação sobre o Banco Master

Daniel Vorcaro, dono do finado Banco ­Master, esteve com o presidente Lula no Palácio do Planalto no fim de 2024, levado por Guido Mantega, ministro da Fazenda no segundo mandato do petista e, à época da reunião, consultor da instituição financeira. Buscava apresentar ao governo federal sua versão sobre o que considerava uma perseguição de rivais poderosos no sistema financeiro. Em vão. Sob a batuta de ­Gabriel ­Galípolo, indicado por Lula, o Banco Central fechou o Master em novembro passado. Ricardo Lewandowski também havia se tornado consultor de Vorcaro­ depois de deixar o Supremo Tribunal Federal em 2023. O presidente sabia do contrato ao nomeá-lo ministro da Justiça. Se o banqueiro esperava ter no ex-juiz um defensor no governo, equivocou-se. Com Lewandowski na Justiça, o mineiro foi preso pela Polícia Federal em novembro, durante a Operação Compliance ­Zero, que investiga o banco. Tanto Mantega quanto Lewandowski tornaram-se consultores do Master por sugestão do líder de Lula no Senado, Jaques Wagner, do PT da Bahia, amigo de um conterrâneo e ex-sócio de Vorcaro, Augusto Lima.

Essas informações têm recheado o noticiário. Para quem acompanha o escândalo, parece até que o governo Lula é o “vilão” do enredo, tamanho o destaque dado ao lobby, malsucedido, tudo indica, de Vorcaro. Seria uma forma de desviar o foco dos verdadeiros “amigos” do banqueiro encastelados no Centrão e no bolsonarismo? O antecessor de Galípolo no BC, Roberto Campos Neto, foi levado ao cargo por Jair Bolsonaro. Durante seu mandato, a autoridade monetária autorizou o Master a funcionar, em 2019, como parte de um plano de incentivar o surgimento de instituições menores que enfrentassem os tubarões. Ao longo da gestão de Campos Neto no BC, o Master começou a ter problemas de caixa e a levantar desconfianças na Faria Lima quanto à sua solidez. O banqueiro central, protegido pela mídia e pelos pares do setor financeiro, não tomou providências, exceto por um mal explicado ultimato de dezembro de 2024, dias antes de passar o leme a Galípolo. Preferiu apostar na “mão invisível do mercado”. A omissão, ou a demora, do BC à época levou o Ministério Público a requerer ao Tribunal de Contas da União que investigasse o caso e para uma tentativa de convocação de Campos Neto à CPI do INSS.

Por conta da relação com Vorcaro, o emedebista virou alvo de dois pedidos de impeachment no Distrito Federal

Cláudio Castro, governador do Rio de Janeiro pelo PL de Bolsonaro, é outra figura em cena. O fundo de pensão dos servidores e aposentados fluminenses, o ­Rioprevidência, investiu 1 bilhão de reais no Master quando a sobrevivência do banco era incerta. Não à toa, a PF saiu às ruas há alguns dias para vasculhar o fundo de pensão. O comprometimento dos proventos dos servidores é uma pedra no caminho das pretensões eleitorais de Castro.

Ninguém, no entanto, simboliza melhor a mão amiga – e visível – da oposição a Vorcaro do que o emedebista Ibaneis Rocha, governador do Distrito Federal. O BRB, banco público de Brasília, levou um prejuízo de quase 5 bilhões de reais na compra de carteiras de crédito questionáveis do Master nos últimos dois anos. E ainda quis adquirir 58% do capital total da instituição privada, por 2 bilhões de reais, no momento em que ninguém no setor financeiro punha fé no conglomerado. Em março de 2025, havia uma oferta simbólica de 1 real pelo Master, da lavra do BTG de André Esteves, cujas divergências com Vorcaro são notórias.

A situação do governador piorou após a divulgação do depoimento do banqueiro mineiro à PF. Vorcaro tinha sido ouvido em 30 de dezembro, no inquérito em curso no Supremo que apura os negócios entre o Master e o BRB. No dia do interrogatório, a delegada Janaína Palazzo­ ouviu ainda Paulo Henrique Costa, presidente do BRB afastado do cargo pela Justiça em novembro, e Ailton de Aquino Santos, diretor de Fiscalização do BC. No depoimento, Santos estimou em quase 5 bilhões o buraco no BRB decorrente das transações com o Master. A delegada perguntou a Vorcaro se ele havia falado com Rocha a respeito da venda de parte do banco ao BRB. Resposta: “Conversei em algumas poucas oportunidades, sim”. Diálogos que teriam ocorrido nas casas de ambos, segundo o depoente.

O governador admitiu ter encontrado o banqueiro ao menos uma vez, em um almoço na residência de Vorcaro, em Brasília. Teria, porém, “entrado mudo e saído calado”. Seus adversários não acreditam na versão e montaram uma ofensiva para tirá-lo do cargo. Há dois pedidos de impeachment, ambos por crime de responsabilidade, propostos por PSOL, PSB e Cidadania. E dois para que o procurador-geral da República, Paulo Gonet, abra um inquérito. Um de autoria do PSOL, ancorado na Lei do Colarinho Branco, e outro coletivo de PT, PDT, PCdoB, PV e Rede, baseado em crime comum e de improbidade. “Presidentes falam com banqueiros, como o Lula falou com o Vorcaro. O diferente no caso do Ibaneis é que a conversa teve desdobramento. O governador atuou como lobista do Master. Isso não é só questionável, é crime”, diz Fábio Félix, deputado psolista na Assembleia Legislativa de Brasília.

O “desdobramento” provocou “prejuízos bilionários” ao Distrito Federal e ao BRB, como ressaltam o pedido de ­impeachment de PSB e Cidadania e a representação de PT, PDT, PV, PCdoB e Rede. É o resultado de um arranjo que juntou a fome com a vontade de comer, além de farta camaradagem. Governador desde 2019, o bolsonarista resolveu turbinar o BRB, dar-lhe musculatura para voos nacionais. A instituição patrocinou a Fórmula 1 e o Flamengo. Sem dar a mesma publicidade, foi generosa com alguns ricaços, incluído o próprio Rocha, que declarou patrimônio de 79 milhões de reais na última eleição. O emedebista comprou no ano passado uma fazenda obtida pelo banco na esteira da execução da dívida de um cliente. Pagou 60% do valor da propriedade, em um leilão. Em 2024, tinha adquirido uma suíte de 2 milhões de reai­s em São Paulo com dinheiro emprestado pelo BRB com juro de pai para filho.

O senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio, tirou proveito do juro de camarada, ao comprar uma casa de 6 milhões de reais em Brasília. Rocha fez de tudo para que a atual morada do pai de Flávio não fosse o presídio da Papuda. Seus subordinados quiseram convencer o Supremo de que na capital do País não havia estabelecimento prisional apropriado para o “frágil” Jair Bolsonaro cumprir a pena de 27 anos por tentativa de golpe. O governador, aliás, escapou por, digamos, um golpe de sorte de engrossar o banco dos réus após o quebra-quebra de 8 de janeiro de 2023 na cidade. Chegou a ser afastado do cargo por quase dois meses pelo STF. Seu secretário de Segurança Pública da época, Anderson Torres, foi condenado juntamente com Bolsonaro. A então cúpula da PM de Brasília também, em um julgamento a ser concluído em fevereiro.

O governador vislumbrava, na associação com o Master, a expansão nacional do BRB

De volta ao imbróglio atual. Ao mesmo tempo que Rocha sonhava com um BRB nacional, o Master aventurava-se por trilhas que o levariam à beira do precipício. Na fase expansionista após o aval do BC de Campos Neto, a instituição havia vendido títulos com a promessa de pagar remuneração acima da média do mercado. O dinheiro captado foi aplicado em negócios de retorno baixo ou incerto, em empresas em dificuldades. Quando chegou a hora de resgatar os papéis e pagar os investidores, não havia recursos suficientes. A enrascada ficou clara em 2024, conforme um relatório do BC que aponta a combinação de crise de liquidez e reputação. O Master recorreu à venda da carteira de crédito. Receberia de imediato dinheiro que entraria no cofre mais adiante. O BRB foi magnânimo. Topou adquirir os títulos.

De novembro de 2024 em diante, o banco de Vorcaro passou a vender ao BRB carteiras que não eram suas originalmente, mas de uma empresa criada por aqueles dias, a Tirreno. Uma firma de fachada para dar aparência de normalidade às transações. Dizia ter carteira de crédito consignado e vendeu-a ao Master, que por sua vez a repassou ao BRB. Detalhe: um ex-funcionário do banco mineiro assumiu o controle da Tirreno sete meses depois do nascimento da empresa. O BC examinou 30 contratos de empréstimo consignado da companhia e não comprovou sua veracidade. Na análise seguinte, de cem contratos, naquela altura contabilizados no BRB, identificou duplicidade. Era como se o Master tivesse negociado com a instituição pública a mesma mercadoria duas vezes. Tudo somado, o BRB injetou 12 bilhões de reais em troca de uma ficção.

Por ocasião da tentativa de aquisição de metade do Master pelo banco público, o governador jactou-se em uma entrevista. “Vamos falar a realidade”, comemorou. “Tiramos o BRB da Polícia Federal, como estava no governo anterior, e levamos para a Faria Lima (…) Pensaram que eu estava vendendo o BRB e estamos comprando o Banco Master.” Era o contrário. A aquisição, anunciada no mês anterior, tinha, diz o BC, a intenção de acobertar trambiques. Quando a autoridade monetária proibiu a operação, Rocha ficou inconformado: “Mais uma vez, PT e PSB agiram contra o DF”. Era uma referência aos partidos de Lula e Geraldo ­Alckmin, vice-presidente. “Tudo indica que o BRB estava internalizando as fraudes do Master”, acusa Ricardo Cappelli, ex-interventor na Segurança Pública do DF e pré-candidato pelo PSB ao governo distrital. “O Paulo Henrique Costa (ex-presidente do BRB) não faria isso sozinho, sem o aval do governador.” No depoimento à PF, em dezembro, Costa admitiu ter falado com Rocha a respeito da aquisição.

O ex-presidente do BRB é próximo do senador Ciro Nogueira, presidente do PP e conterrâneo piauiense de Rocha. Quando o emedebista resolveu concorrer ao governo distrital em 2018, Nogueira foi o primeiro a ser consultado. A vice-governadora, Celina Leão, é do PP e deseja concorrer à sucessão em outubro. Na eleição passada, o PP tinha apoiado Flávia Arruda, hoje Flávia Peres, para o Senado. Peres (ex-Arruda) é do PL de Bolsonaro e foi colega de Nogueira no governo do capitão, ambos os ministros no Palácio do Planalto. Derrotada em 2022, a candidata foi trabalhar no Master como diretora de Relações Institucionais, cuja função era fazer contatos políticos. Casou-se posteriormente com Augusto Lima, o baiano amigo de Wagner e sócio do Master até 2024. Nogueira, recorde-se, tentou dar uma forcinha ao banco de Vorcaro ao propor no Congresso uma mudança na Constituição para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, que ressarce até certo limite o dinheiro de aplicadores em instituições com problemas de liquidez.

O atual presidente do BRB, Nelson Antônio de Souza, é paulista, mas fez carreira no setor bancário no Piauí. É ligado a Nogueira. Tem quebrado a cabeça em busca de uma solução que cubra o rombo da instituição sem afetar os cofres do Distrito Federal. Caso verba pública seja injetada no banco, Rocha ficará em situação mais delicada. Haverá uma cifra para resumir o prejuízo causado por sua gestão ao Erário. Souza convidou para almoços em fevereiro, em São Paulo, influenciadores digitais. Tradução: garotos-propaganda remunerados. O executivo pretende apresentar-lhes suas ideias e topa financiá-los para que falem bem do BRB na web. Quando caiu em desgraça, no fim do ano passado, o Master arquitetou uma operação inversa, para ­influencers falarem mal do BC. Os intermediários da engrenagem abordaram influenciadores com o seguinte argumento: “Caso de repercussão nacional. Gente grande. Esquerda e Centrão envolvidos”. Autorizada por Dias Toffoli, do Supremo, a PF abriu um inquérito para investigar a formação da milícia digital.

Segundo Cappelli, aproxima-se o ‘dia D’ para o BRB. Seria 15 de fevereiro, data da publicação obrigatória do balanço anual. Nesse momento se tornará público o tamanho do rombo apurado pelo próprio banco e o que será feito para tapá-lo. As demonstrações contábeis do terceiro trimestre de 2025 não saíram até hoje. Questionado por CartaCapital sobre o motivo da não publicação e se há relação com o caso Master, o BRB não respondeu. Está em curso, afirma a instituição, uma auditoria independente sobre a situação interna, levada adiante pelo escritório de advocacia Machado Meyer, especializado em compliance e investigações, com suporte da Kroll, uma multinacional da área de riscos de mau histórico no Brasil. O trabalho deve ser concluído nas próximas semanas.

O governador também não respondeu às perguntas da revista. Rocha conta com ampla maioria na Assembleia Legislativa e dificilmente prosperarão os pedidos de impeachment ou a abertura de uma CPI. O início do processo de cassação depende em primeiro lugar do presidente da casa, o deputado distrital Wellington Luiz, comandante do MDB em Brasília. A esperança da oposição reside no eventual aparecimento de fatos novos e no acirramento do jogo eleitoral deste ano. Vorcaro deve depor em 5 de fevereiro na CPI do INSS. Incriminará Rocha? O escândalo vai influenciar o voto do eleitor brasiliense? Em caso afirmativo, aumentam os riscos para o governador, inclinado a disputar uma vaga no Senado, o que o obrigaria a deixar o comando do DF em abril. O plano continua de pé? Largar o governo lhe custaria o foro privilegiado e o poder de influência do cargo.

Há a possibilidade de a eleição rachar o bolsonarismo em Brasília e complicar as pretensões de Rocha. O emedebista imaginou candidatar-se ao Senado em dobradinha com Michelle Bolsonaro (estão em disputa duas vagas por estado). A deputada federal bolsonarista Bia Kicis, do PL, também cobiça uma indicação e pode movimentar-se politicamente para inviabilizar o governador e ser a parceira de Michelle nas urnas. A temporada de punhaladas está aberta. 

Bode na sala

Até quando o ministro Dias Toffoli tocará o inquérito?

O bode na sala no escândalo do Banco Master sairá do aposento? Sobram motivos para crer que o ministro José Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal, não sobreviverá no papel de juiz supervisor da investigação policial sobre a fraude bancária. A dúvida é se deixará o recinto por vontade própria ou na marra.

Toffoli foi jogado às feras pelo presidente da Corte, Edson Fachin, e pelo Palácio do Planalto. Enrolado em despachos extravagantes sobre o caso e em um resort a respeito do qual faz cara de paisagem, é defendido por poucos. Basicamente, dois colegas: Gilmar Mendes, que age nos bastidores e em público, e Alexandre de Moraes, que prefere o primeiro método.

O Supremo reabre em 1º de fevereiro, mas Fachin antecipou o fim das férias para sondar os integrantes do tribunal sobre a situação de Toffoli. Após as consultas, deu várias entrevistas e, em uma delas, afirmou: “Há uma suscitação de que não há razão desse processo estar no STF”.

As investigações estão lá graças a Toffoli. Em dezembro, o juiz concentrou na Corte apurações em curso em varas de Brasília e São Paulo. Era um pedido da defesa de um ex-diretor do Master. O advogado havia viajado de avião com Toffoli ao Peru dias antes. Baseou a solicitação em um contrato imobiliá­rio achado pela Polícia Federal na casa do dono do Master, Daniel Vorcaro. O acordo era com um deputado do PL da Bahia, João Carlos Bacelar, razão do foro privilegiado.

Há um roteiro capaz de servir de saída honrosa a Toffoli. O magistrado pode concluir que Bacelar nada tem a ver com o caso. O passo seguinte seria devolver os processos às instâncias inferiores. O próprio ministro abriu um precedente em relação ao empresário Nelson Tanure, apontado como sócio oculto do Master.

O script geral depende do fim das investigações da PF, em março, e da posição do procurador-geral da República, Paulo Gonet. Se ninguém incriminar Bacelar, Toffoli manda os processos de volta à primeira instância.

Existe um cenário alternativo, pior para o ministro. Toffoli seria derrotado no voto por colegas, na hipótese de alguma autoridade (Gonet, por exemplo) cobrar do STF que o caso desça à primeira instância por ausência de foro privilegiado envolvido. O requerimento iria a julgamento na turma da qual Toffoli faz parte. Dos demais quatro integrantes, ele conta apenas com o apoio de Mendes, tutor do colega a partir do governo Dilma Rousseff. Parece sentir-se alvejado pela cruzada de Fachin por um código de conduta no STF, assunto de uma reunião marcada para
12 de fevereiro no tribunal. Mendes está por trás do IDP, faculdade patrocinadora de evento com figurões em Portugal.

E Moraes? É colega de faculdade de Toffoli, formaram-se juntos em 1990. Além disso, sua esposa é uma advogada que esteve a serviço do Master. E Lula? Responsável por indicar o ex-advogado-geral da União para uma vaga no tribunal em 2009, tem criticado o juiz a portas fechadas, conforme uma operação montada no Planalto para afastar o presidente da investigação. O petista quer punição, doa a quem doer.

Publicado na edição n° 1398 de CartaCapital, em 04 de fevereiro de 2026.

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PROIBIÇÃO DE COTAS EM SANTA CATARINA É RASCISMO

Flávia Oliveira, O Globo

Ataque às políticas de inclusão de pessoas negras, invariavelmente, emerge como tática política às vésperas de período eleitoral

A Assembleia Legislativa de Santa Catarina aprovou, em votação simbólica, em dezembro, legislação que proíbe a aplicação de cotas raciais para ingresso em universidades estaduais e entidades de ensino que recebam recursos do governo catarinense. A casa, formada por 40 deputados, não indicou no painel do plenário quantos deputados votaram a favor, contra ou não se posicionaram sobre o projeto de um parlamentar do PL, posteriormente sancionado pelo governador. Pelo que declararam os próprios deputados, sete integrantes da Casa foram contrários ao texto que, ora judicializado no próprio estado e no Supremo Tribunal Federal (STF), suprime a reserva de vagas para pretos e pardos, mas a mantém para alunos oriundos de escolas públicas, de baixa renda e portadores de deficiência.

O ataque às políticas de inclusão de pessoas negras, invariavelmente, emerge como tática política às vésperas de período eleitoral. Trata-se de tema exaustivamente debatido no Brasil — na sociedade, no mundo político e no Judiciário — nos primeiros anos deste século, quando a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj) acenou afirmativamente à entrada da gente preta e periférica em escalas nas salas de aula. Há quase 14 anos, o Supremo, arguido pelo DEM, ex-PFL, hoje União Brasil, decidiu por unanimidade que as cotas são forma legitima de política pública para corrigir desigualdades históricas. Tratar desigualmente os desiguais para construir equidade é iniciativa 100% alinhada à Constituição de 1988. Mais tarde, em 2014, o mesmo STF estendeu o entendimento aos concursos federais.

As leis federais de cotas para ensino e empregos públicos foram prorrogadas em 2023 e 2025, respectivamente, após sua eficácia ser confirmada em estudos acadêmicos. As evidências foram todas favoráveis: alunos pretos, pardos, indígenas, antes raros, tornaram-se visíveis no ensino superior; a qualidade das universidades não caiu; o rendimento dos cotistas é equivalente ao de quem se matriculou pela ampla concorrência; o horizonte de pesquisas se ampliou. Em decorrência da escolaridade ampliada, cresceu também a participação de pessoas negras nos mundos corporativo, jurídico, artístico, literário, midiático. A diversidade provou-se tão democrática quanto rentável. Significa dizer que não apenas os estudantes negros e suas famílias se beneficiaram. Ganharam também as empresas, as instituições, a sociedade, enfim.

A gente preta descobriu que é tão capaz quanto as pessoas brancas, a quem eram reservadas as melhores posições nos bancos escolares e no mercado de trabalho. A supremacia branca não se deu por merecimento, mas pela depreciação e pela exclusão das massas, com pitadas de exceção para disfarçar. O debate amplo sobre o racismo à brasileira nos fez enxergar. Negros somos bonitos como os brancos. E feios. Como os brancos, inteligentes e estúpidos. Sensíveis e indiferentes. Geniais e abomináveis.

Renunciamos à desumanidade que nos foi imposta ao longo da História. E ora nos ameaça. A razão implícita nos argumentos contrários às cotas raciais na versão 20.26 é a mesmíssima de antes: racismo. É preciso honestidade e coragem para admitir. No Brasil, o supremacismo branco reemerge com eufemismos. Defender cotas raciais — aplicadas, vale lembrar, proporcionalmente à demografia local, após os critérios de ensino público e renda — não é blindagem. É, sim, política pública de combate à discriminação testada e aprovada. Abolir o ingresso à universidade por critério étnico-racial não é medida para restituir mérito. Os pretos aprendemos que mérito não é atributo inerente à pele branca, mas argumento para reivindicar privilégio tomado como direito adquirido.

O fim das cotas premiaria a mediocridade, por aniquilar a diversidade. A experiência de ser preto e pobre não é a mesma de ser branco e pobre. Hoje, se observamos uma floresta de eucalipto, sabemos que se trata de um deserto verde, pobre. Riqueza é a biodiversidade da Mata Atlântica, do Pampa, do Cerrado, da Amazônia. A valiosa paisagem humana brasileira é preta, parda, indígena, branca, amarela; inclui mulheres, homens, LGBTQIA+, pessoas com deficiência. O movimento contra cotas é político. Busca atrair, pelo ódio racial, porções inconformadas do eleitorado. Em Santa Catarina, como argumenta uma das ações apresentadas ao STF, mostra-se tão antinegros que admite os demais critérios de reserva de vagas (escola pública, de baixa renda, deficiência). Alinha-se ao supremacismo, à xenofobia, ao racismo, à intolerância que se espalham no Brasil e mundo afora.

Não há riqueza em debater retrocesso, quando há tanto a avançar no enfrentamento à exclusão e na criação de oportunidade a quem não teve. Em frente.

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