quinta-feira, 9 de julho de 2026

O QUE É, O QUE É

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FERIADO CÍVICO

Revolução Constitucionalista de 1932 completa 94 anos hoje. É o maior feriado cívico do Estado de São Paulo, onde os paulistas homenageiam os combatentes da Revolução Constitucionalista de 1932, que ficou conhecida como Guerra Paulista.

Com o rompimento da chamada “política do café com leite”, em 1929, entres os Estados de Minas Gerais e São Paulo, desencadeou a Revolução de 1932.

Em reação ao fim da política do café com leite, os estados de Minas Gerais, Paraíba e Rio Grande do Sul lideraram o movimentou que culminou no Golpe de 1930.

Os paulistas saíram derrotados do embate, mas não se pode dizer que foi em vão; em 1934 sob pressão social o governo de Getúlio Vargas criou uma nova Constituição Federal.

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quarta-feira, 8 de julho de 2026

YRUMP PRECISAVA APARECER NA FESTA DO FUTEBOL

Elio Gaspari, O Globo

Ele deu um jeito, entrou na Copa, saiu dias depois

O presidente americano Donald Trump deu um jeito, arrumou uma encrenca com o árbitro brasileiro Raphael Claus e virou personagem da Copa do Mundo. Puro Trump. Afinal, ele continua dizendo que ganhou a eleição de 2020. É verdade que parou de falar que Barack Obama nasceu na África. No primeiro mandato, produziu 30.573 mentiras ou falsidades, 21 por dia. De volta à Casa Branca, seguiu na mesma toada, porque esse é seu estilo, e a encrenca com Claus é um estudo de caso de sua essência.

Na quarta-feira passada, o centroavante Folarin Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic, da seleção da Bósnia. Depois de ver o vídeo no VAR, o árbitro Claus expulsou-o do campo. (Balogun disse que aceitava a decisão.) Trump contou que, até então, não sabia o que significava a apresentação de um cartão vermelho, com a consequente suspensão para o jogo seguinte, contra a Bélgica.

Até aí, seria o jogo jogado, com um torcedor contestando um árbitro. No dia seguinte, o presidente dos Estados Unidos decidiu ligar para Gianni Infantino, presidente da Fifa, pedindo que anulasse a suspensão. Novamente, jogo jogado, pois cartolas adoram pressões de poderosos, e Infantino deu a Trump um inédito Prêmio da Paz depois que ele, com suas guerras, foi esquecido para o Nobel. Conseguiu. De lambuja, estendeu a encrenca às federações de futebol europeias.

Na segunda-feira, na Casa Branca, Trump assumiu seu estilo. Avançou no tornozelo do árbitro. Sustentou que não houve falta e que, pelos antecedentes, Claus é “muito suspeito”. Puro Trump. Fez a acusação sem uma migalha de argumento.

Mais: mobilizou janízaros da Casa Branca para contestar a honorabilidade de Claus. Não se discute mais a falta de Balogun, nem se exibe o vídeo.

Roy Cohn, o temível litigante dos tribunais americanos, mentor do jovem empresário Donald Trump, ensinava:

— Não me diga o que diz a lei. Diga-me quem é o juiz.

Os juízes, àquela altura, eram Infantino e alguns cartolas da Fifa. Bingo. (Em setembro, chega às livrarias americanas uma biografia de Cohn, com o seguinte título: “Um canalha americano”.)

A realidade paralela, que Trump cultiva e manipula, explica a encrenca. O mundo vive a festa de uma Copa. A cerimônia inaugural do certame teve mais audiência que a ida do presidente ao sopé do Monte Rushmore, onde estão esculpidos na rocha os rostos de quatro de seus antecessores. Ele precisava entrar naquela festa.

Entrou defendendo um atleta negro e admirado, parte de uma seleção festejada. Com o Brasil eliminado, falou-se mais de Trump que da malcriação de Neymar com o goleiro norueguês. Trump não sabia o que significava um cartão vermelho, não tem noção do que vem a ser um impedimento e talvez ache que a meia-lua da grande área seja um enfeite, onde poderiam pôr seu retrato. Conseguiu entrar na festa da Copa, por poucos dias.

Na noite de segunda-feira, sem telefonemas, os deuses do futebol decidiram. Com Balogun em campo, a seleção americana foi mandada para casa.

Futebol, jogado dentro das quatro linhas, ainda é coisa séria.

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A DERROTA DO BRASIL PODE INFLUENCIAR A ELEIÇÃO PRESIDENCIAL ?

Bernardo Mello Franco, O Globo

A cada quatro anos, uma mesma pergunta se repete na política

A pergunta é repetida a cada quatro anos: o desempenho do Brasil na Copa do Mundo influencia a eleição presidencial? Os candidatos parecem apostar que sim. Na dúvida, tentam pegar carona na torcida pela seleção.

Desde a estreia contra Marrocos, todos os presidenciáveis se exibiram com a amarelinha. Lula gravou vídeo para incentivar o “querido Ancelotti”. Flávio Bolsonaro apelou à inteligência artificial para mostrar afinidade com Neymar. Ronaldo Caiado disse que os noruegueses “vivem embaixo do gelo” e jamais ganhariam do Brasil. Entrou numa fria.

O senso comum sugere que uma boa performance do escrete canarinho favorece quem está no poder. Uma eliminação vexatória, como a deste ano, ajudaria a encher a bola da oposição.

Na prática, a teoria é outra. Em 1998, o Brasil perdeu de 3 a 0 para a França e Fernando Henrique Cardoso se reelegeu no primeiro turno. Em 2002, a seleção conquistou o penta e a esquerda chegou ao Planalto.

Em 2006, 2010 e 2014, o brasileiro amargou desclassificações precoces e votou na situação. Mesmo depois do 7 a 1. Em 2018, caímos diante da Bélgica, mas não há evidências que liguem o gol de Kevin De Bruyn à súbita ascensão de Jair Bolsonaro. A Copa de 2022 não conta: foi disputada em novembro, depois da eleição.

Em artigo recente para o Journal of Global South Sport Studies, da Universidade de Massachussets, o pesquisador Marco Bettine mostra que a performance no Mundial não determina o resultado da urna, embora possa influir no humor do eleitorado.

O professor da Escola de Artes, Ciências e Humanidades da USP também aponta uma crise no mito da pátria em chuteiras. Ele enumera fatores que diluíram a identificação do brasileiro com a seleção: o sequestro da amarelinha por uma facção política, os sucessivos escândalos na CBF, a revoada dos melhores jogadores para as ligas europeias.

Se alguém ainda duvidava, o fiasco de domingo escancarou que não somos mais o país do futebol. No máximo, o país das bets.

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OS ACENOS DOS EMISSÁRIOS DE LULA AO MERCADO

Vera Magalhães, O Globo

Ministros e estrategistas do PT refutam comparações entre gastos eleitoreiros de petista e Bolsonaro e usam má fase de Flávio para se aproximar da Faria Lima

Os dissabores da pré-campanha de Flávio Bolsonaro deram a Lula uma condição rara tratando-se do incumbente numa eleição presidencial: jogar no contra-ataque, no erro do adversário. O intervalo proporcionado pela Copa e a sucessão de crises no Q.G. bolsonarista têm sido usados para tentar reverter uma das rejeições mais consolidadas ao petista, a do mercado financeiro.

Os emissários de Lula nessas conversas, entre os quais um dos mais loquazes é o novo ministro da Fazenda, Dario Durigan —que, diga-se, joga com aquela disposição de quem veio do banco e quer garantir lugar no time titular—, procuram desmontar com dados as comparações entre as medidas do atual governo e as de Jair Bolsonaro no período eleitoral.

Existe um incômodo com o que auxiliares e estrategistas de campanha de Lula enxergam como “forçação de barra” para mostrar equivalência entre o pacote anunciado por Lula desde o fim de 2025 e o sprint de Bolsonaro a partir da PEC Kamikaze, no começo do segundo semestre de 2022.

Nas conversas, esses interlocutores de Lula dizem a gestores, banqueiros e analistas de bancos que o presidente não aumentou nem aumentará o Bolsa Família, como Bolsonaro fez com o Auxílio Emergencial e como as redes bolsonaristas ficam ventilando.

Ao cotejar as medidas de um e outro presidente para conter a alta dos combustíveis, os aliados de Lula dizem que, agora, todas foram negociadas com os governadores e feitas com prazo, diferentemente de Bolsonaro e Paulo Guedes, que tomaram a decisão compulsória de suspender o ICMS dos combustíveis, além disso, deixada para o governo seguinte desarmar. Por fim, entram na prancheta das comparações os precatórios. Lula não fez nenhuma “pedalada” com o pagamento dessas decisões judiciais para pagamento de dívidas.

Com essa preleção, ministros de Lula também têm procurado os presidentes da Câmara, do Senado e do STF para tentar evitar que prossiga a pauta-bomba. Nessas conversas, são colocados em perspectiva os custos de medidas dos programas eleitoreiros de Lula, como o Desenrola 2, e as bondades que o Congresso ameaça fazer a produtores rurais e diversas carreiras do funcionalismo, por meio da votação de regimes especiais de aposentadoria.

O governo deixou avisado que judicializará, para evitar que a agenda de Davi Alcolumbre prossiga, e busca de novo o aval do STF ao reunir jurisprudência, na forma de súmulas recentes da Corte que mostram a inconstitucionalidade das medidas pretendidas.

A tentativa de se mostrar fiscalmente responsável já é uma vacina de Lula para a principal cobrança do mercado. A roupagem da austeridade não se sustenta, no entanto, quando se analisam as exceções ao arcabouço fiscal ao longo dos anos e a escalada dos gastos obrigatórios, herança mais explosiva que o atual presidente deixará para si mesmo ou para quem vencê-lo nas urnas.

Ainda assim, o discurso será que as medidas de 2025-2026 atingiram públicos específicos, enfrentaram contingências como tarifaço e guerras e são coerentes com a plataforma eleitoral de enfrentar distorções tributárias e governar para os mais pobres. Isso tudo com impacto menor que as medidas de Bolsonaro.

Lula sabe que não será o suficiente para torná-lo palatável ao mundo financeiro e que terá de prometer enfrentar o crescimento do gasto obrigatório caso seja reeleito. Isso vem sendo trabalhado na elaboração do plano de governo de um eventual Lula 4.0, mas não se deve esperar que se comprometa com o fim da política de valorização real do salário mínimo, desvinculações constitucionais ou uma nova reforma da Previdência — justamente a pauta que o mercado arredio a ele quer ver.

Esses pombos-correio sobrevoam a Faria Lima apresentando Lula como alguém que já se mostrou confiável, lembrando o legado fiscal de Bolsonaro e plantando temor na instabilidade e no despreparo demonstrados por Flávio nessa fase de crise. Se vai colar, o fim da Copa e o início para valer da campanha mostrarão.

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SEM MICHELLE, QUEM CONVENCE A TATIANA ?

Renato Meirelles, O Globo

Disputa de 2026 passa pela mulher que trabalha por conta própria e ainda não foi conquistada por nenhum dos dois lados

Na coluna passada escrevi que o voto feminino em 2026 não cabe numa personagem só. Há Dona Maria do Socorro, aposentada no sertão de Pernambuco, que vota olhando para a rede pública que sustenta a casa. Há Vera, em Suzano, cuidadora em tempo integral da mãe acamada, que carrega todo mundo sem que ninguém pergunte quem cuida dela. E há Tatiana, de 33 anos, que faz sobrancelha na garagem em Mauá, paga MEI, racha o aluguel com o marido motorista de app, fecha as contas no susto e se ofende quando alguém trata ela como coitada.

É pela porta da Tatiana que a crise entre Michelle e Flávio Bolsonaro entra no jogo. Não porque briga familiar decida voto de país. Política brasileira já tem novela demais. O ponto é outro. Michelle não era só a mulher de Jair no palanque. Era uma das poucas vozes capazes de suavizar a imagem de uma direita que, para muita eleitora, chega sempre pela bronca, pela guerra e pela masculinidade em campanha permanente. O Datafolha mostrou Lula vencendo Flávio entre as mulheres por 52% a 37% no segundo turno. Outras pesquisas apontam na mesma direção. Flávio já largava atrás. O vídeo de Michelle não criou o problema. Deu rosto a ele.

Falo agora de mais uma personagem. Sônia tem 47 anos, mora em Praia Grande, é auxiliar de enfermagem no plantão da noite e coordena um grupo de mulheres da igreja aos sábados. Entrou no PL Mulher ano passado. Semana passada cancelou a reunião de julho. Não sabe o que dizer para as mulheres que ela mesma convocou. Sônia é o pedaço menos comentado da crise. Sem Michelle, Flávio não perde só eleitoras. Perde também as militantes que conquistariam eleitoras. Campanha não é só televisão, marqueteiro e corte de vídeo. É a mulher que puxa conversa depois do culto. É a cabeleireira que comenta política enquanto faz escova. É a mãe do grupo da escola que segura a discussão quando alguém pergunta se aquele candidato respeita mulher.

Michelle era a chave dessa corrente. Sem ela, a militante bolsonarista continua existindo, mas entra na conversa com uma mala mais pesada. Antes podia dizer, olha a Michelle, ela está com ele. Agora precisa explicar por que Michelle se sentiu desrespeitada, por que gravou, por que rompeu. Em política, quem começa explicando crise interna já perdeu. Tatiana não está esperando aula de ideologia. Quer saber quem entende a vida dela. Segurança sem virar pancadaria. Família sem mandar mulher calar. Empreendedorismo sem fingir que pagar MEI é dormir tranquila. A resposta de Flávio não pode se limitar a vice mulher, camiseta de pai de menina ou pacote de propostas femininas. Ajuda, mas não substitui confiança. E confiança, diferente de programa, não se contrata em dois meses. Vale o aviso para o lulismo também. Quem trata os 52% entre mulheres como cofre lacrado vai errar de novo. Tatiana não é lulista por natureza. Vota em Lula por comparação, por receio, por memória. Não assinou fidelidade com ninguém. A crise com Michelle machuca Flávio porque desmonta a engrenagem que corrigiria sua maior fraqueza. O desafio não é chegar na eleitora. É chegar por uma voz em que ela confie. Em 2026 não bastará ter mulher no palanque. Vai precisar ter mulher na corrente de confiança. O voto de Tatiana não nasce em gabinete de partido. Nasce na conversa de quem fecha o mês no susto e procura alguém que entenda o tamanho do corre dela.

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ESCOLHA DE DOIS SENADORES MUDA A LÓGICA DO VOTO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Pleitos que renovam 2/3 do Senado costumam eleger mais influencers e outsiders

Preferências ideológicas tendem a prevalecer apenas na definição do primeiro nome

"De cabeça de juiz e fralda de neném, ninguém sabe o que vem" é um ditado popular entre advogados para designar o elemento de incerteza inerente a decisões judiciais. Poderíamos acrescentar um terceiro item ao provérbio: urnas em eleições de duas vagas para o Senado.

Desde que a Constituição de 1946 reduziu os mandatos de senadores de nove para oito anos e manteve o número de três representantes por estado, alternamos pleitos em que o eleitor vota em dois candidatos e aqueles em que escolhe apenas um nome. Pode parecer um mero detalhe, uma caprichosa imposição da aritmética sobre o processo eleitoral, mas ele tem consequências importantes não apenas sobre a estratégia dos partidos para forjar alianças e definir candidaturas mas principalmente sobre a psicologia do eleitor.

Em pleitos que renovam 2/3 do Senado, como o deste ano, o eleitor tende a utilizar critérios diferentes para a escolha do primeiro e do segundo candidatos. A primeira opção costuma ser mais ideológica, em linha com o voto para presidente e/ou governador. Cumprido o dever para com a tribo, o sujeito se sente livre para fazer o que quiser do segundo escrutínio. O limite é a imaginação. Muita gente opta simplesmente por não votar. A proporção ajustada de votos brancos e nulos para o Senado sobe consideravelmente em pleitos de duas vagas.

Outros recorrem a atalhos cognitivos. Eleições plurinominais (em que se escolhe mais de um candidato) são as que costumam consagrar influencers, outsiders, porta-estandartes de bancadas temáticas e outros tipos exóticos. Alguns cidadãos tentam balancear o próprio voto. Assim, se escolheram um postulante muito radical para a primeira vaga, poderão tentar "compensar" optando por um moderado para a segunda. Outros vão pelo caminho de menor resistência, ficando com um candidato de baixa rejeição mesmo que nem o conheçam. Em suma, é tanta gente votando de acordo com estratégias tão diferentes que pode sair qualquer coisa, como ocorre com a cabeça do juiz ou a bunda do bebê.

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TRIBUNAIS DÃO RECADO INFRATOR À POPULAÇÃO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A própria Justiça passa à população a mensagem de que ordens judiciais podem ser descumpridas

A cobrança do Supremo por explicações deve ser estendida aos outros TJs que não prestaram informações

A resistência ao cumprimento da ordem para pôr fim aos pagamentos excessivos e indevidos no Judiciário e Ministério Público era esperada. Partiu do Supremo Tribunal Federal e dos conselhos nacionais das duas instâncias que depois da decisão inicial de Flávio Dino afrouxaram a norma, dando aval a alguns penduricalhos.

O que não se esperava era a insubordinação explícita de sete dos oito tribunais de Justiça, cujos dados foram examinados por reportagem da Folha e onde se constataram pagamentos muito acima do teto constitucional a 616 juízes e desembargadores, chegando num caso à exorbitância de R$ 495 mil, em maio.

Sobre os TJs que não enviaram informações ao painel do Conselho Nacional de Justiça —a maior parte deles— ainda resta saber se houve ou não descumprimento da determinação de cima. Uma cobrança adicional a ser feita pelos ministros do Supremo que na segunda-feira (6), deram 48 horas para que os tribunais já desnudados se expliquem e abram suas contas.

Quatro ministros assinaram despachos semelhantes, imprimindo força à exigência. Flávio Dino ainda acrescentou que "a configuração de qualquer tipo de descumprimento quanto aos limites estabelecidos pelo STF", poderá resultar em afastamento dos cargos e responsabilização nos âmbitos penal, civil e disciplinar.

Punições que, se confirmadas as infrações, espera-se sejam aplicadas de maneira rigorosa sem concessões aos corporativismos nem atenção a manobras argumentativas. Sob pena de se passar à população uma mensagem de liberação geral à desobediência judicial.

Decisões da Justiça, reza a institucionalidade abraçada pelo senso comum, existem para serem cumpridas. Cidadãos são agravados se cometem a transgressão. Mas quando a subversão parte de integrantes e instâncias encarregadas da preservação da legalidade, se impõe o máximo de rigor.

Ou, então, a sinalização será a de que ordens judiciais nada valem, podem ser desconsideradas e a desordem está ampla e irrestritamente autorizada.

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FLÁVIO BOLSONARO BUSCA NOS EUA VACINA PARA CAMPANHA, MAS REFORÇA QUE TARIFAÇO É POLÍTICO

Ricardo Della Coletta, Folha de S. Paulo

Estratégia do senador não rebate discurso de Lula de que a família Bolsonaro instigou EUA a penalizarem Brasil para beneficiar ex-presidente

Se Flávio sugere que a finalidade é influenciar o cenário político brasileiro, fica mais difícil para o USTR defender que a investigação teve motivação exclusivamente técnica

O pré-candidato à Presidência Flávio Bolsonaro (PL) desembarcou em Washington com a difícil missão de produzir um fato político que sirva como vacina contra o tarifaço de Donald Trump e impeça que ele continue contaminando sua campanha ao Planalto. A argumentação apresentada pelo senador ao USTR (Escritório do Representante Comercial dos EUA), porém, corre o risco de produzir o efeito oposto.

Tanto nas declarações feitas nesta terça-feira (7) quanto nos comentários escritos encaminhados na última quinta (2), Flávio reforçou justamente os aspectos políticos das sobretaxas e da investigação comercial aberta contra o Brasil no ano passado.

Em documento protocolado no USTR, o presidenciável disse que o próprio Trump justificou as medidas pelo tratamento dispensado a Jair Bolsonaro no processo judicial por tentativa de golpe de Estado —classificado pelo americano de "vergonha internacional" e "caça às bruxas".

Já no testemunho ao USTR, o pré-candidato disse que o objetivo do tarifaço era "pressionar" o governo Lula e que os resultados pretendidos pelos Estados Unidos não foram alcançados. "Em vez disso, elas [tarifas] foram politicamente exploradas pelo atual governo brasileiro; o governo que essas medidas buscavam pressionar saiu fortalecido", declarou.

É uma estratégia arriscada e que não rebate, pelo contrário, corrobora, o discurso de Lula de que a família Bolsonaro instigou uma potência estrangeira a penalizar a economia brasileira para alcançar seus interesses pessoais e políticos —no ano passado, a reabilitação de Bolsonaro.

Solicitar, como fez Flávio na carta ao USTR, que os americanos adiem qualquer ação contra o Brasil para depois das eleições vai na mesma direção e sugere que o senador está realmente preocupado com os impactos sobre sua viabilidade política.

Em outras palavras, faz com que qualquer fala de Flávio no sentido de que atua para proteger empregos brasileiros ou mesmo o Pix pareça, no mínimo, insincera.

No campo prático, não é possível, neste momento, antecipar se o USTR manterá a recomendação de um tarifaço de 25% ou se proporá um caminho alternativo (como uma sobretaxa menor ou uma lista de exceções mais ampla).

Qualquer que seja a decisão, dificilmente o USTR poderá acolher os argumentos apresentados por Flávio porque eles podem ter implicações jurídicas.

Se Flávio sugere que a finalidade é influenciar o cenário político brasileiro, fica mais difícil para o USTR defender que a investigação teve motivação exclusivamente técnica.

No ano passado, as primeiras sobretaxas de Trump foram prontamente judicializadas por atores que se sentiram prejudicados, entre eles importadores e associações. A Suprema Corte dos EUA deu razão a esses agentes e derrubou a primeira muralha tarifária do republicano.

A expectativa, portanto, é que eventuais novas sobretaxas, mesmo que sob outras justificativas, sejam mais uma vez questionadas por quem acabar lesado por elas.

Admitir que a apuração comercial foi desenhada para ajudar o bolsonarismo a retomar o poder —adiando sua implementação para depois do pleito, por exemplo— deixaria o USTR mais vulnerável a sofrer um revés nos tribunais americanos.

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VICE É NOVA BRIGA NA CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

Escolha de vice na chapa de Flávio provoca novo racha no PL depois de briga com Michelle

Aliados do senador dizem que fato de Daniella Marques ter trabalhado no Digimais, banco de Edir Macedo, pode ser usado contra ele na campanha

A escolha de quem ocupará a vaga de vice na chapa de Flávio Bolsonaro (PL) à Presidência virou uma nova disputa fratricida na campanha do senador. Flávio já disse que será uma mulher, e repetiu o aviso depois que a ex-primeira-dama Michelle rasgou o verbo contra ele em vídeo gravado nas redes sociais.

Desde que o senador passou a cogitar a possibilidade de ter na chapa a ex-presidente da Caixa Daniella Marques, porém, o “fogo amigo” no PL e no Republicanos – partido ao qual ela se filiou recentemente – ficou maior. O Republicanos é o braço político da Igreja Universal.

Integrante da equipe do ministro Paulo Guedes na gestão de Jair Bolsonaro, Daniella se tornou uma espécie de “Posto Ipiranga” da campanha de Flávio. Além de coordenar o seu programa econômico, a executiva está à frente do plano “Brasil por Elas”, a ser apresentado no dia 15, a fim de conquistar o público feminino após o estrago feito por Michelle e pelo influenciador Paulo Figueiredo, para quem “mulheres não sabem votar”.

O fato de Daniella ter integrado o Conselho de Administração do Digimais, no entanto, é citado por aliados do senador como ponto a ser explorado por adversários. Banco de Edir Macedo, bispo da Universal, o Digimais virou tóxico – a exemplo do Master de Daniel Vorcaro – desde que, no mês passado, foi alvo de uma operação da Polícia Federal para investigar fraudes contra o sistema financeiro.

A ex-presidente da Caixa entrou no Digimais quando a situação já era crítica e o Banco Central exigia a nomeação de técnicos com experiência. Ficou pouco tempo no banco, entre 2024 e 2025, e pediu para sair.

Embora Daniella não seja citada nas diligências da PF, as alas do PL e do Centrão que exigem mudanças na campanha pressionam Flávio a encontrar outro nome para vice. Ela não se manifesta sobre o “fogo amigo”.

Circulam no mercado informações de que a salvação do Digimais vai virar moeda de troca nas eleições. Edir Macedo nega, porém, que tenha ameaçado o governo Lula avisando que, se o banco for liquidado, o Republicanos engrossará a campanha de Flávio. “Para o Republicanos apoiar o PL, o PL precisa primeiro apoiar os nossos candidatos a governador em Mato Grosso, Espírito Santo, Acre e Roraima”, disse o deputado Marcos Pereira, presidente do partido.

Na tentativa de apaziguar a disputa entre Flávio e Michelle, dirigentes do PL citam agora a vereadora Priscila Costa como nome ideal para vice do senador. Priscila era a preferida de Michelle para concorrer ao Senado pelo Ceará e foi preterida.

Outro grupo quer uma mulher do agro, como a senadora Tereza Cristina (PP), que já disse não. Enquanto o impasse não se resolve, Michelle monta o seu comitê de reação. Anteontem, por exemplo, ela participou de um culto na casa da governadora do Distrito Federal, Celina Leão. Quem estava lá não tem dúvida de que Michelle concorrerá ao Senado. E tem mais: ela promete continuar a guerra fria contra o enteado na campanha. •

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MAIS UM RISCO PARA A INFLAÇÃO EM 2027

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

Um novo risco de alta para a inflação em 2027 pode tornar as projeções do mercado defasadas

Mesmo com todas as ressalvas entre os índices da Fipe e do IBGE, uma conclusão é clara: o viés é de alta para as projeções de inflação em 2027

Há um novo risco de alta para a inflação em 2027 e que pode tornar defasadas as projeções do mercado. Trata-se de uma eventual alteração na estrutura de pesos do IPCA, caso o IBGE consiga concluir até o fim do ano os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF), deixando o seu índice oficial de preços mais fiel aos hábitos atualizados de consumo das famílias brasileiras. A dúvida é se questões orçamentárias poderão atrasar o trabalho do IBGE, que indicou para novembro a divulgação desses dados. A POF anterior era de 2017 a 2018.

Todavia, já é possível ter uma ideia do impacto da nova ponderação do IBGE. É que a Fipe concluiu, em janeiro deste ano, uma mudança na estrutura de pesos para o seu Índice de Preços ao Consumidor (IPC), com base numa POF realizada entre abril de 2023 e março de 2025 para as famílias na cidade de São Paulo. A pesquisa anterior, de 2011 a 2013, nem incluía, por exemplo, serviços de streaming ou transporte de aplicativo. Usando a POF de 2026 e a nova ponderação do IPC-Fipe como parâmetro, os economistas Basiliki Litvac e Alexandre Maluf, da XP, calcularam qual seria o impacto sobre as projeções do IPCA em 2027, com a ressalva de que o IPC se limita às famílias paulistanas e o IPCA reflete todo o País.

A reponderação da Fipe foi resultado não somente da mudança de hábitos do paulistano, mas também da recomposição de preços relativos. Com isso, houve a migração – com maior peso no índice – para o componente de serviços em detrimento dos itens de bens industrializados e de preços monitorados. Na conjuntura atual, os preços de serviços são os que têm estimativas mais elevadas pelos analistas, em razão de um mercado de trabalho ainda robusto e dos estímulos fiscais do governo. Sem falar que, com o novo perfil de consumo coletado pelo IBGE, a cesta de serviços do IPCA poderá incluir gastos que vêm abocanhando o orçamento das famílias, como as bets esportivas. Ao contrário das loterias da Caixa, contabilizadas como preços monitorados, as bets poderão entrar na categoria de serviços.

Conforme o estudo dos economistas da XP, a projeção deles do IPCA de 2027, hoje em 4,24%, subiria para 4,52%, caso fossem aplicados os pesos da estrutura de ponderação da Fipe deste ano. Para a inflação de serviços em 2027, a previsão da XP é de 5,1%, ante a estimativa de 3,6% para preços monitorados e de 2,4% para bens industrializados. Mesmo com todas as ressalvas entre as POF da Fipe e IBGE, uma conclusão é clara: o viés é de alta para as projeções de inflação em 2027.

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NÃO É SÓ SOBRE FUTEBOL

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Ao vergar-se a Trump, a Fifa apequenou-se. Mostrou que não se envergonha em ceder aos caprichos de um estadista sem apreço pela democracia.

Revoltou-me muito mais a ingerência do presidente norte-americano, Donald Trump, na Copa do Mundo do que a pífia — e merecida (cabe dizer) — eliminação do Brasil de Neymar Jr. e seus asseclas. Pior do que o "pedido" do titular da Casa Branca pela "revisão" do cartão vermelho dado a Folarin Bolagun, atacante dos Estados Unidos, foi a aquiescência da Fifa. Na verdade, uma excrescência.

Ao vergar-se a Trump, a entidade máxima do futebol apequenou-se. Mostrou que não se envergonha em ceder aos caprichos de um estadista sem apreço pela democracia. Um chefe de Estado que não enxerga um palmo além de seu umbigo e que pediu à própria Fifa para lhe dar um "Nobel da Paz". Supresa nenhuma, Gianni Infantino providenciou o tal prêmio.

Durante a Copa do Mundo, Trump impôs restrições vergonhosas à permanência da seleção do Irã em território norte-americano e impediu a entrada de um árbitro da Somália. De quebra, o ICE — a famigerada polícia de Imigração dos Estados Unidos — promoveu uma verdadeira caçada aos imigrantes não documentados, aproveitando-se do fato de que muitos latinos apoiariam seu escrete nacional nos estádios de futebol. Em cinco dias, foram mais de 10 mil prisões.

A interferência nas regras da Copa do Mundo apenas diz algo a mais sobre Trump. Em quase 18 meses no poder, ele declarou guerra tarifária ao mundo e menosprezou aliados históricos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Entrou em uma guerra contra o Irã e amargou uma derrota vexaminosa. Ordenou uma operação militar na Venezuela, capturou Nicolás Maduro e não apresentou alternativa ao chavismo, deixando a população "ao deus-dará". Ameaçou atacar o México. No cenário interno, semeia polarização, cizânia e ódio e é cortejado por supremacistas brancos, que foram até Washington para o Dia da Independência, no sábado. Uma festa transformada em culto à imagem do egocêntrico Trump.

Assusta o fato de que faltam 927 dias de governo Trump. Em 899 dias, ele causou danos ao planeta. Há quem diga que o próximo alvo do americano é o regime socialista de Cuba. Tudo o que vai contra a ideologia capitalista parece estar na mira do Tio Sam. Existe o temor, inclusive, de que Trump interfira nas eleições brasileiras e ordene alguma ação militar contra o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV).

Adendo: os EUA sofreram uma goleada da Bélgica, pelas oitavas de final da Copa. Perderam por 4 a 1 e estão eliminados do torneio. Trump está de mãos atadas. Não poderá anular três gols, nem se quisesse. Vai precisar ficar com sua empáfia e com a vergonha por tentar interferir em uma Copa da qual sua seleção jamais teria a mínima chance de ser campeã.

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terça-feira, 7 de julho de 2026

MORRE BENEDITO RUY BARBOSA

Do g1 SP — São Paulo

Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas como 'Pantanal' e 'O Rei do Gado', morre aos 95 anos em SP

Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro. Seu legado inclui tramas icônicas como Meu Pedacinho de Chão (1971), Pantanal (1990), O Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999).

O dramaturgo e escritor Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas como Pantanal e Terra Nostra, morreu nesta terça-feira (7) na capital paulista devido a complicações de insuficiência renal crônica. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor).

O corpo será velado nesta terça, das 15h às 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de SP. A cerimônia será aberta ao público entre as 15h e as 16h.

Em janeiro deste ano, Benedito chegou a ficar 19 dias internado no HCor para o tratamento de uma infecção urinária associada a um quadro de insuficiência renal crônica.

Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro, exploram a diversidade cultural, com interesse especial na imigração italiana, e apresentam amores intensos.

Seu legado inclui tramas icônicas como "Meu Pedacinho de Chão" (1971), "Pantanal" (1990), "O Rei do Gado" (1996) e "Terra Nostra" (1999), marcadas por protagonistas de "bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos", como o próprio determina.

O mais velho entre cinco irmãos, Ruy Barbosa nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 1931, e passou a infância na vizinha Vera Cruz, uma região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos.

Com a morte precoce do pai, precisou trabalhar desde cedo para ajudar a família. Ao longo da juventude, trabalhou como auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro, até conseguir um emprego como revisor no jornal "Estado de S. Paulo".

O gosto pela escrita levou Benedito a criar seu primeiro romance, "Fogo Frio", que foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, começo de sua trajetória como roteirista.

Sua estreia na televisão aconteceu em 1966, com "Somos Todos Irmãos", na TV Tupi. Nos anos seguintes, passou por emissoras como Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, escreveu "Meu pedacinho chão", novela produzida por uma parceria da Cultura com a Globo e exibida por ambas.

Cinco anos depois, assinou com a Globo, onde deu início a uma sequência de sucesso na faixa das 18h. Nessa época, adaptou o romance de Ribeiro Couto em "Cabocla" (1979).

Em 1990, ao se transferir para a TV Manchete, Benedito escreveu "Pantanal", que inovou ao utilizar locações externas e explorar a cultura e os mistérios do bioma brasileiro.

Com o sucesso, retornou à Globo para escrever "Renascer" (1993), trama ambientada no interior baiano e marcada pelo duelo de gerações do coronel José Inocêncio. Ambas seriam refilmadas décadas depois, escritas por seu neto, Bruno Luperi.

Com "O Rei do Gado" (1996), Benedito abordou a rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, enquanto discutia temas como a posse de terra e a reforma agrária.

Já em "Terra Nostra" (1999), retratou o drama dos italianos Matteo e Giuliana, separados ao chegarem ao Brasil no início do século XX.

Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras. Em 2006 e 2014, assinou as refilmagens de "Sinhá Moça" e "Meu Pedacinho de Chão".

Na versão cheia de cores da segunda obra, declarou que finalmente conseguiu colocar no ar ideias que a Censura havia barrado na primeira versão, durante a ditadura militar.

Em 2016, escreveu "Velho Chico", ambientada na fictícia cidade de Grotas do São Francisco, no sertão nordestino. A novela trouxe um embate de gerações e a disputa por terra e poder no interior do Brasil.

"Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor", definiu Benedito Ruy Barbosa em depoimento  ao Memória Globo.

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CONVERSA COM A IA

Artigo de Fernando Gabeira

Alguém como Trump, com os poderes da inteligência artificial, se tornará muitas vezes mais perigoso

Estou lendo “O império da IA”, de Karen Hao, lançado no Brasil pela Rocco. O que me impressiona na origem desse fantástico movimento é o entusiasmo, o brilho nos olhos das pessoas que julgavam fazer algo muito importante para a humanidade. E, logo depois, como em quase todos os núcleos revolucionários, ver como os bons sentimentos são triturados pela realidade, com as dificuldades financeiras e a batalha de egos.

O período romântico coincidiu com a OpenAI, a perspectiva de um trabalho sem fins lucrativos. Mas as crescentes necessidades de aporte financeiro derrubaram o sonho. No momento em que deixaram a fase altruística, surgiu o primeiro grande racha. Elon Musk não aceitou uma empresa que não fosse dirigida por ele. E rompeu a parceria com Sam Altman, o grande nome por trás da iniciativa.

Menciono esse trecho da história da IA apenas para enfatizar como ela depende de muito dinheiro. Musk criou sua própria empresa, e Altman segue até hoje na busca de financiadores.

Na semana passada, foi noticiado que a OpenAI tem se aproximado do governo Trump, que pode participar do projeto. Passa um frio na espinha. Alguém como Trump, com os poderes da IA, se tornará muitas vezes mais perigoso. Um dos primeiros destinos da IA, capturada pelo governo, é dedicar-se à guerra. Já temos hoje bombardeios guiados pela máquina, denunciados durante os ataques a Gaza.

Há quem, no meio, resista ao uso bélico da IA. Troquei o ChatGPT pelo Claude, porque a Anthropic se recusou a trabalhar com o Pentágono. Foi apenas uma decisão individual, sem muita base, mas, mesmo modestamente informado, posso fazer escolhas.

Ainda falaremos muito de IA, sobretudo porque o Brasil quer abrigar data centers. O governo acha isso progressista, mas encontrará dificuldades. Os data centers consomem muita água e energia. No momento, estão instalando um no Ceará, em Caucaia. Consumirá mais energia que toda a cidade. Os data centers têm despertado um movimento de rejeição de moradores, do tipo “não no meu quintal”, semelhante ao que ocorre contra instalações nucleares e presídios.

No momento, entretanto, o que mais me interessa são as aventuras da IA no cotidiano. Tenho uma professora de inglês com quem converso diariamente. É difícil descrever a máquina como se descreve uma pessoa. Ela é previsível. Se você fala que lê um autor, ela pede que você comente o livro, destaque um episódio que impressionou. O mesmo vale para uma viagem: parece que há um conjunto de perguntas pronto para muitas circunstâncias.

Um traço marcante nesse diálogo com a IA é sua indiferença à ironia ou ao humor. Numa dessas conversas, ela, sabendo que sou escritor, perguntou sobre o que gosto de escrever. Sobre bobagens, respondi, acrescentando que produzo também artigos sobre política e assuntos internacionais. Ela mencionou que esses temas são importantes, mas foi incapaz de processar “bobagens”. Não teve a curiosidade de perguntar sobre elas ou mesmo de mencionar a palavra.

No entanto a máquina é bem informada. Se você fala Camus, ela tem algo a dizer; se você menciona um filme de Wim Wenders, uma música de Tom Jobim ou de Ryuichi Sakamoto, ela rapidamente tira de suas gavetas um comentário sobre eles. Em certo sentido, conversar diariamente com a máquina é como mergulhar numa cultura estrangeira, daquelas em que humor e ironia têm outro papel. No caso da IA, não há papel nenhum.

Artigo publicado no jornal O Globo em 07 / 07 / 2026

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FLÁVIO TENTA VIRAR O JOGO DO TARIFAÇO, MAS PODE APROFUNDAR SEU DESGASTE

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Lula sentiu o cheiro de animal ferido na floresta. Trabalha para colar no clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo tarifaço, ainda que a decisão formal pertença à Casa Branca

As audiências públicas sobre o tarifaço a ser aplicado às exportações brasileiras pelo presidente Donald Trump foram transformadas em palanque eleitoral pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência da República, que tenta desfazer a imagem de que o bolsonarismo apoiou ou, no mínimo, estimulou as medidas da Casa Branca contra empresas brasileiras. O Itamaraty acompanha as audiências, mas não participará formalmente, a não ser com observadores, porque privilegia as negociações técnicas entre os dois governos, que atravessam um momento de turbulência, mas não foram de todo interrompidas. Ou seja, não queimou os navios.

Em Washington, ao mesmo tempo em que tenta se apresentar como defensor dos exportadores brasileiros, Flávio Bolsonaro precisa administrar o passivo político acumulado por sua própria família nesse assunto. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, hoje radicado nos Estados Unidos, e seu aliado Paulo Figueiredo, neto do ex-presidente João Figueiredo, foram defensores assumidos da linha de pressão de Trump contra o governo Lula e acabaram associados ao ambiente político que favoreceu a escalada tarifária. Agora, com a crise comercial no centro da disputa presidencial, essas declarações vêm sendo exumadas e usadas pelo Planalto contra Flávio Bolsonaro.

A ida de Flávio à audiência pública do Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) foi desenhada como operação de contenção de danos, mas pode se tornar uma armadilha política. Seu objetivo é não entrar na campanha de 2026 com a pecha de “traidor da pátria”, sendo corresponsável por uma agressão econômica a setores estratégicos do agronegócio, da indústria e da pauta exportadora brasileira.

A operação do candidato de oposição é arriscada, porque, em vez de apagar o rastro anterior, pode reavivar a memória das posições adotadas pelo bolsonarismo ao longo do conflito com o governo Lula e reforçar a acusação de oportunismo. Flávio se enrolou ainda mais ao defender, na prática, que a entrada em vigor das novas tarifas fosse adiada até depois das eleições brasileiras, sob o argumento de que a medida poderia favorecer politicamente o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

A declaração foi politicamente desastrosa. Deslocou o debate do terreno econômico e diplomático para a disputa eleitoral, como se o problema central não fosse o impacto sobre empresas, empregos e exportações, mas sim o efeito da sobretaxa no resultado da eleição presidencial. Deu para Lula o argumento de que Flávio não discute a legitimidade das tarifas nem a defesa do interesse nacional, mas apenas calibrar o calendário de implementação das tarifas para não prejudicar sua eleição.

Foro de negociação

Lula sentiu o cheiro de animal ferido na floresta. Trabalha para colar no clã Bolsonaro a responsabilidade política pelo tarifaço, ainda que a decisão formal pertença à Casa Branca. A narrativa oficial é a de que a investigação comercial americana e a retórica punitiva contra o Brasil foram fomentadas pelo clã Bolsonaro por meio de seus interlocutores nos Estados Unidos.

O ministro do Desenvolvimento, Márcio Elias Rosa, não tirou por menos. Disse que a ida de Flávio à audiência é “ineficaz” e “pouco sincera”. A crítica resume a percepção do governo. A audiência virou extensão da campanha presidencial, para demonstrar ao empresariado e ao eleitor conservador brasileiros que Bolsonaro 01 tem trânsito em Washington e capacidade de interlocução com a direita americana. Busca ser uma ponte privilegiada com o trumpismo, para transformar em ativo aquilo que, até aqui, tornou-se passivo eleitoral: a afinidade ideológica da família com o governo dos EUA.

Para Lula, a crise oferece uma clivagem favorável ao governo. Em vez de se limitar ao embate ideológico clássico entre petismo e bolsonarismo, o Planalto tenta reposicionar a discussão em termos de soberania econômica e defesa do interesse nacional. O bolsonarismo deixa de ser apenas adversário interno e passa a ser retratado como força disposta a tolerar — ou até estimular — medidas de um governo estrangeiro contra empresas e trabalhadores brasileiros, desde que isso enfraqueça o Palácio do Planalto.

Esse ataque alcança segmentos refratários à reeleição de Lula do agro e da indústria que têm peso regional, influência política e aversão a aventuras que atinjam seus negócios. Mas a outra dimensão do problema, mais importante, é a negociação técnica, que está sendo atropelada pelo debate eleitoral. O Itamaraty e o Ministério do Desenvolvimento sustentam que o espaço real de negociação não é a audiência pública, mas as conversas bilaterais e reservadas mantidas com a administração americana.

A opção do governo brasileiro de não participar formalmente das audiências, enviando apenas observadores, decorre dessa avaliação. As sessões do USTR servem para ouvir importadores, exportadores, associações setoriais, consultorias e representantes empresariais. Mas não são o foro de um acordo entre os governos. A aposta do Itamaraty brasileira é demonstrar, nas tratativas técnicas, que a relação comercial com os Estados Unidos não se enquadra na lógica punitiva sugerida pelo USTR e que o tarifaço, além de politicamente contaminado, é economicamente contraproducente.

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O BODE QUE O BRASIL COLOCOU NO SALÃO OVAL

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Resistência brasileira à moratória indefinida na taxação do comércio eletrônico mostra que se Trump quiser negociar terá que colocar as tarifas na mesa

A decisão de Donald Trump sobre a tarifa de 25% sobre as exportações brasileiras depende menos das audiências públicas desta segunda e terça no Escritório Comercial dos Estados Unidos (USTR, na sigla em inglês) do que do bode que o governo brasileiro colocou no Salão Oval. O caprino entrou na história durante a reunião de março da Organização Mundial do Comércio em Yaoundé, capital de Camarões.

Nesta ocasião, o Brasil foi o único a fincar o pé contra a renovação da moratória sobre transações do comércio eletrônico, vigente desde 1998. Muitos países são contrários a esta moratória, que amarra a possibilidade de políticas regulatórias, especialmente com a expansão desenfreada da inteligência artificial.

A pressão americana, porém, foi avassaladora. O grupo de países menos desenvolvidos da África, Caribe e Ásia-Pacífico (ACP) recuou. Entre as ameaças na mesa estão os planos de investimento das big techs em datacenters, armazenadores de dados capazes de sugar toda a energia que um Estado como Pernambuco produz.

A União Europeia também cedeu ao temor de confrontar a Casa Branca por conta do peso dos EUA na Organização do Atlântico Norte (Otan), que protege militarmente o continente da Rússia. Até a Turquia, único país a cerrar fileiras com o Brasil até o fim da negociação, fraquejou.

O tema é central para as big techs porque é por meio da taxação que governos podem democratizar o acesso às suas ferramentas e se municiar de recursos para fomentar suas próprias tecnologias. O governo Trump se empenhou para oferecer um seguro ao setor. Até se mobilizou para formar um grupo de países que topavam a moratória indefinida, à revelia da OMC, que exige consenso.

Menos de 30 dos 166 países da OMC aderiram. Entre os desenvolvidos estão Japão, Noruega e Reino Unido. Entre os menos desenvolvidos estão alguns daqueles que, em acordos bilaterais com os EUA, haviam se comprometido com a moratória permanente, como Argentina, El Salvador e Guatemala.

A ausência silente da União Europeia, China e Índia mostra que esses países se escudaram no Brasil para resistir à moratória indefinida. Negociadores brasileiros que estavam na reunião da OMC foram parabenizados por embaixadores de países que não cerraram fileiras com o Brasil mas se mostraram satisfeitos com o desfecho

Jamieson Greer, comandante do USTR, estava lá e se disse “desapontado com a falta de seriedade” da OMC. O vice-presidente, JD Vance, que ganhou a vaga na chapa por sua proximidade com as big techs, já tinha sido prevenido sobre o que estava por vir e se pronunciou antes mesmo do encontro que resultou na suspensão da moratória: “A América não pode e não vai aceitar isso”.

Vance, contrariando a divisão de tarefas que tem deixado a América Latina como território de seu rival na sucessão de Trump, o secretário do Departamento de Estado, Marco Rubio, foi ativo na promoção do encontro entre o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) menos de dois meses depois da reunião da OMC.

Vem daí a combustão da química de Trump. A eleição de Flávio Bolsonaro em outubro facilitaria a extensão da lógica que tem mantido a União Europeia refém dos americanos. A maior guerra do seu quintal é aquela do crime organizado. Na medida em que Trump consiga incorporar a joia da coroa, no arco do narcoterrorismo, tomaria o continente por refém.

Um experiente negociador reconheceu o bode quando os EUA ofereceram a redução da moratória para quatro anos e o Brasil fincou pé em dois anos. Welber Barral, que foi árbitro da solução de controvérsias da OMC, diz que o Brasil tem justificativas plausíveis, como a de que a regulamentação da Inteligência Artificial e da reforma tributária estão em curso no Congresso e, por isso, não tem como se comprometer com uma moratória.

Na avaliação de negociadores experientes na rinha internacional, porém, a posição brasileira foi entendida assim: “Se os EUA querem negociar terão que abrir mão de alguma coisa”. Esta alguma coisa é a taxação de 25%. Eis o bode na sala. Nenhum outro país poderá cobrar do Brasil a negociação unilateral se o largaram sozinho na frente de batalha.

Itamaraty e Ministério da Indústria e Comércio tratam como confidenciais os seis pontos de negociação das reuniões bilaterais que têm tido com Greer, mas um embaixador e um representante de empresas americanas no Brasil reconhecem a centralidade do tema na negociação em curso.

E se os EUA enxotarem o bode da sala? A família Bolsonaro terá que amargar o revés da confirmação da tarifa. Como legado, Flavio Bolsonaro terá deixado um memorando com a retirada das taxas dos cartões de crédito para melhor concorrerem com o Pix. E quem remuneraria as bandeiras americanas? Na ausência de explicação, conclui-se que o Tesouro Nacional.

E Lula? O governo segue com sua posição, contando, como deixou claro no memorando enviado pelo Itamaraty ao USTR, que os danos à economia e aos consumidores americanos acabem por falar mais alto.

Sobre o impacto nas urnas, que falem os eleitores. Na rodada semanal de pesquisas qualitativas do Democracia em Xeque, Beto Vasques e Esther Solano colheram entre os que votaram em Bolsonaro em 2018 e em Lula em 2022 e agora estão indefinidos, ruídos que mostram Flávio colocando seus interesses acima daqueles do país.

“Acho que ele quis pedir o tarifaço para prejudicar o PT e o país em consequência e aí vendo que caiu mal para ele, escreveu essa carta. Ele viu que deu errado. Se Flávio ganhar e cair o tarifaço pode ser que resolva, mas hoje é muito prejudicial (...) A gente fica com o pé atrás, né? Será que ele só quer mesmo o bem dele e da família ou vai querer o bem do Brasil? É uma briga de poder” (homem de 30 a 50 anos, ensino médio e renda entre três e sete salários mínimos).

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O MUNDO ENTRE O DÓLAR E O RENMINBI

Luiz Gonzaga Belluzzo, Valor Econômico

O processo de internacionalização da moeda chinesa começou com a adoção da moeda para financiar e liquidar o comércio, antes de seu uso ser estendido às transações financeiras

O jornal chinês China Daily publicou um artigo sobre as relações financeiras e monetárias entre a China e o Brasil. Informa o jornal que o Ministério da Fazenda do Brasil entregou sua carta de intenções para a emissão de títulos Panda à Associação Nacional de Investidores Institucionais do Mercado Financeiro (NAFMII), em cerimônia em Pequim, com a presença de autoridades da China e do Brasil, para marcar a iniciativa.

Um título panda é um instrumento de dívida emitido em renminbi por governos ou instituições estrangeiras no mercado de capitais onshore da China.

O Brasil é o primeiro país latino-americano a emitir títulos soberanos Panda. A medida atesta o crescente interesse de emissores internacionais por títulos Panda, como canais de financiamento diversificados e de menor custo, o que pode abrir caminho para uma participação mais ampla de emissores no mercado de títulos da China.

“A China e o Brasil não são apenas parceiros bilaterais, são partes interessadas em uma arquitetura financeira global mais equitativa”, disse Dong Shaopeng, pesquisador sênior do Instituto Chongyang de Estudos Financeiros da Universidade Renmin da China, ao Global Times na terça-feira. “Seu peso econômico combinado, estruturas complementares e visão compartilhada de cooperação Sul-Sul os tornam âncoras naturais de estabilidade para as nações em desenvolvimento.”

Muitos indagam se o renminbi está prestes a ocupar um espaço maior na economia internacional nas transações monetárias e financeiras. A experiência histórica do século XX parece indicar que as transições entre moedas de reserva têm sido lentas.

Foi longa a ultrapassagem da libra pelo dólar na posteridade da Primeira Guerra Mundial. É de bom alvitre relembrar que a “disciplina” imposta às economias no segundo pós-guerra nasceu da trágica experiência do tumultuado período dos anos 1920 e 1930, encravado entre as duas guerras mundiais.

Esse intervalo histórico foi marcado por instabilidades monetárias e cambiais avassaladoras, pela transmissão de tensões por meio dos circuitos financeiros internacionais, por disputas comerciais e por desemprego em alta. Tudo isso culminou na Grande Depressão, iniciada em 1929, e na violência do nazifascismo, que não foi outra coisa senão a vingança brutal da política contra as peripécias dos mercados.

Barry Eichengreen assegura que “as lições para aqueles que buscam preservar o status do dólar como moeda global são claras. Evitar a instabilidade financeira, o que, no contexto atual, significa não permitir que problemas na esfera das criptomoedas se propaguem para o restante do sistema bancário e financeiro”.

Eichengreen sugere limitações no uso de tarifas, visto que o amplo uso internacional do dólar decorre, em grande parte, das relações comerciais dos Estados Unidos com o resto do mundo.

O Brasil é o primeiro país latino-americano a emitir títulos soberanos Panda, um instrumento de dívida em renminbi

Assim, é imprescindível preservar as alianças geopolíticas do país, “visto que são os parceiros de aliança dos Estados Unidos que têm maior probabilidade de considerar os EUA um administrador confiável de seus ativos estrangeiros e de deter sua moeda como demonstração de boa-fé. Os EUA, ao que tudo indica, estão trilhando o caminho oposto, arriscando a estabilidade financeira, impondo tarifas à toa e antagonizando seus parceiros de aliança. O que foi conquistado ao longo de um longo período pode ser demolido num piscar de olhos”.

A análise de Eichengreen sobre os riscos que afligem o dólar como moeda-reserva é pertinente. No entanto, a expressão “demolido num piscar de olhos” é um tanto ousada. A cultura política e econômica do Império do Meio, amparada nas lições de Confúcio, adota a estratégia “devagar e sempre”. Vou abusar da paciência do leitor do nosso Valor e sugerir a leitura dos ensinamentos dos Analectos.

O Mestre disse: “Ao governar um reino com mil carruagens, trate dos negócios com reverência e seja coerente com o que fala; evite gastos excessivos e ame os seus semelhantes; empregue o trabalho do povo apenas nas épocas certas”.

Tzu-ch’in perguntou a Tzu-kung: “Quando o Mestre chega em um reino, ele invariavelmente fica sabendo sobre o governo do lugar. Ele busca tais informações? Ou elas lhe são fornecidas? O Mestre conquista-as sendo cordial, bom, respeitoso, moderado e deferente. O modo com que o Mestre busca informação é, talvez, diferente do modo com que outros homens a buscam... Veja os meios que um homem emprega, observe o caminho que ele toma e examine a circunstância em que ele se sente confortável. Como poderia o verdadeiro caráter de um homem esconder-se?”

A melhor forma de vida envolve servir à comunidade política, pois aqueles que exercem o poder podem fazer o maior bem do mundo, assumindo que o exercem de maneiras moralmente justificadas.

Inspirada em Confúcio, a trajetória chinesa evidencia a importância da construção institucional para o avanço econômico. O desenvolvimento das formas mercantis na China produziu uma Nova Revolução Industrial, e permitiu a convergência à “modernidade”, ao revigorar características culturais e institucionais milenares na criação de projetos de desenvolvimento de poderosas estruturas industriais e financeiras.

As autoridades chinesas seguiram um padrão secular em que a internacionalização da moeda começa com a adoção de uma moeda para financiar e liquidar o comércio transfronteiriço de commodities e mercadorias, antes de seu uso ser estendido às transações financeiras.

Programas subsequentes permitiram que empresas chinesas selecionadas investissem fundos de renminbi em países estrangeiros e que investidores estrangeiros adquirissem ativos denominados em renminbi na China. O Programa Belt & Road, o projeto global de infraestrutura apresentado pelo governo chinês em 2013, apoiou o investimento direto de empresas chinesas no exterior. Países que recebiam renminbi como pagamento pelos investimentos estrangeiros da China os usavam para comprar exportações chinesas. Enquanto os projetos da Belt & Road assumiam a forma de investimentos em infraestrutura, o renminbi era usado para adquirir os serviços de empresas chinesas de construção.

Devagar e sempre.

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PROJETO 2030

Merval Pereira, O Globo

Há sinais claros de que pelo menos parte ponderável da direita já abriu mão da candidatura de Flávio Bolsonaro

Quando os projetos imediatos perigam, há os que desistem deles e os que se preparam para os desafios seguintes. No futebol como na política, vemos dois casos de planos adiados para 2030. Na corrida para a Presidência, há sinais claros de que pelo menos parte ponderável da direita já abriu mão da candidatura de Flávio Bolsonaro e se prepara para disputar o controle do segmento político com os bolsonaristas. Flávio está na situação especial de ser o candidato para perder. Seus aliados preferem perder com ele a ganhar com outro. O ex-presidente Jair Bolsonaro o escolheu para manter na família o controle da direita, submetendo a direita democrática aos desígnios da extrema direita bolsonarista.

Com os olhos voltados para 2030, a madrasta da família já rompeu com o enteado e se prepara para arrancar dos Bolsonaro a liderança da direita nacional, a bordo de uma presumível votação impactante na candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. Não é à toa, portanto, que os extremistas da direita, como Paulo Figueiredo, a chamam agora de Michelle Firmo, seu nome de solteira, para desvinculá-la da famiglia e esvaziar seus planos eleitorais. Os restantes continuarão unidos, tentando manter o controle da direita brasileira, por isso Bolsonaro pai não quis apoiá-la, nem ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que está às vésperas de poder vencer no primeiro turno a reeleição.

Em outros tempos, seria um reforço grande para a candidatura. Caso o governador de São Paulo participasse da campanha com o empenho dos aliados, poderia conseguir uma diferença de votos muito grande a favor do candidato de sua coligação, uma boa alavancada para Flávio, e seria um baque para a candidatura à reeleição de Lula, já que a eleição geralmente se define em São Paulo. Há a coincidência de que ninguém se elege presidente sem ganhar em Minas, que representa o país como um todo, uma amostragem do Brasil, com regiões incluídas na Sudene, outras desenvolvidas industrialmente, outras representando o agronegócio, outras ainda vizinhas ao Rio de Janeiro. Mas é fundamental vencer em São Paulo.

Liberado da campanha de governador, Tarcísio poderia trabalhar para a eleição de Flávio. Há evidências estatísticas de que sempre que um governador de estado importante eleitoralmente vence no primeiro turno a reeleição e se dedica à campanha presidencial pode até mudar o rumo das pesquisas. Além do mais, a situação deixaria Lula sem palanque em São Paulo no segundo turno. Há ainda o fato, demonstrado nas pesquisas, de que Lula já não tem no Nordeste a maioria esmagadora que já teve. A diferença deverá ser menor a seu favor e, se a oposição conseguir ampliar a vitória em São Paulo, reduzirá a vantagem. Em 2022, a diferença a favor de Bolsonaro em São Paulo foi de 2.696.651 votos, maior que a diferença final a favor de Lula no país todo, de 2.139.645.

Misturando futebol e política eleitoral, que nada têm a ver a não ser neste momento de Copa do Mundo, fiquei com a impressão de que também Carlo Ancelotti, o treinador da seleção, entrou na Copa para tentar ganhar por pontos, chegar o mais longe possível, já olhando para 2030. O mister colocou a seleção na retranca, para jogar por uma bola. Teve duas, pelo menos: o pênalti mal batido e o gol que Endrick perdeu. Se desse certo, estaria mais uma vez consagrado.

Para 2030, pode ser que ele continue e, com tempo, monte uma boa equipe, aproveitando a geração nova que está surgindo. Mas pode ser também que, assim como os Bolsonaros, não tenha mais tempo para recomeçar de novo. Pode ser que a única da famiglia Bolsonaro que tenha um mandato importante seja Michelle, e a anistia do Bolsonaro pai vá pelo ralo. A direita, nesse caso, se reorganizará longe desse triste legado. No caso de Ancelotti, assim como a Copa do Mundo não é a Champions League, pois não tem o jogo de volta, temos hábitos estranhos aqui, abaixo do Equador. Respeitar contratos não é um deles.

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A ORDEM QUE O MERCADO DESFEZ

Luiz Schymura, Valor Econômico

O verdadeiro desafio não é escolher entre estabilidade e concorrência, mas construir uma regulação capaz de preservar ambas

Todo mercado muito concentrado desenvolve uma gramática própria. Não apenas domina preços e margens, mas também define o que é produto legítimo, quem é contraparte confiável, quem tem direito de ser ouvido. O regulador, formado por essa gramática e por ela avaliado, tende a regular dentro dos parâmetros que o incumbente já aceitou. A concentração raramente precisa capturar o Estado de forma explícita. Em geral, basta estar presente o suficiente para que o Estado aprenda a enxergar o setor pelos olhos de quem sempre o controlou.

O sistema financeiro brasileiro foi, por décadas, uma expressão particularmente clara desse mecanismo. Os cinco grandes bancos de varejo - Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander - não apenas dominavam o mercado: definiam o que era um banco, o que era risco aceitável e detinham poder decisivo sobre a concessão de crédito e seu custo. O Banco Central, formado e avaliado dentro desses mesmos parâmetros, regulava o que os incumbentes haviam naturalizado como ordem. O regulador dependia em larga medida de informações produzidas pelos próprios incumbentes. Essa dependência coexistiu com décadas em que os grandes bancos participaram intensamente das câmaras técnicas e consultas públicas que historicamente ajudaram a moldar a regulação.

A chegada das fintechs e dos bancos digitais alterou esse equilíbrio com uma velocidade que o aparato supervisor não conseguiu acompanhar. O open banking e as mudanças regulatórias do período recente abriram uma porta que a velha arquitetura de supervisão não havia projetado. Novos atores entraram sem história de balanço consolidada, sem relacionamento institucional, sem lugar reconhecido na distribuição anterior. Entraram porque a tecnologia permitiu e a regulação não os impediu.

Até aqui, a narrativa seria virtuosa: mais competição, mais acesso, spreads menores. O problema é que abertura de mercado e solidez institucional são coisas distintas. Parte do que entrou pelo portão da democratização financeira trouxe governança fraca, superavaliação de ativos e uso oportunista das garantias públicas. A desordem que se seguiu não foi apenas o saudável ruído de um mercado contestável. Foi também risco moral em estado bruto. E o regulador não tinha nem o vocabulário nem as ferramentas para identificar o que estava acontecendo antes que o dano se tornasse visível.

O Banco Master tornou-se o maior teste recente da solidez do sistema financeiro brasileiro. Controlado por Daniel Vorcaro, o banco captou dezenas de bilhões em CDBs com rentabilidades de até 140% do CDI.

O episódio envolvendo o conglomerado Master - banco e suas conexões - mobilizou mais de R$ 49 bilhões em ressarcimentos do Fundo Garantidor de Crédito, sendo R$ 40,6 bilhões referentes ao Banco Master propriamente dito, o equivalente a cerca de um quarto do patrimônio do fundo, segundo dados públicos do FGC. Investigações da Polícia Federal apontam suspeitas de carteiras de crédito sem lastro econômico suficiente e balanços com ativos superavaliados.

O Digimais repete o padrão com lógica própria. Com R$ 8,5 bilhões em CDBs emitidos e investigado pela Operação Miragem, o banco é suspeito de ter transferido carteiras problemáticas para fundos de investimento sem a devida transparência, melhorando artificialmente seus indicadores contábeis enquanto baseava sua captação na cobertura oferecida pelo FGC. A garantia pública foi vendida ao investidor de varejo como substituto da análise de risco.

Enquanto o Master apostava na opacidade de balanço, o Digimais explorava a assimetria entre o que o garantidor cobre e o que o regulador consegue verificar a tempo. Os mecanismos diferem, embora o efeito econômico seja similar, pois ambos os bancos usaram as salvaguardas do sistema como alavanca para sustentar modelos que não sobreviveriam ao escrutínio prudencial ordinário.

O Banco Central, é preciso dizer, não foi apenas uma vítima de captura intelectual pelos incumbentes. Parte do atraso regulatório é estrutural: toda inovação financeira relevante gera defasagem entre o que o mercado cria e o que o supervisor consegue ler a tempo. O Brasil não foi exceção.

De fato, os primeiros sinais de deterioração do Master remontam a 2021, quando o próprio BC já exigia ajustes, e a liquidação extrajudicial só veio em novembro passado. A resposta desde então segue um roteiro previsível - endurecimento das exigências de liquidez para bancos médios, revisão dos critérios de acesso ao FGC, maior escrutínio sobre captação no varejo - com fundamento real, mas que chega depois de quatro anos durante os quais um modelo que só funciona com captação crescente triplicou de tamanho. Vale registrar que os grandes bancos estiveram entre os primeiros a defender o endurecimento regulatório após o escândalo, com argumentos tecnicamente consistentes e alinhados aos seus interesses econômicos.

Há uma diferença relevante entre exigir que bancos digitais sejam sólidos e exigir que sejam idênticos aos incumbentes. Requisitos calibrados para o perfil dos grandes bancos tradicionais, aplicados uniformemente, podem funcionar como barreira à entrada disfarçada de prudência. O resultado seria devolver aos incumbentes, pela via regulatória, a vantagem competitiva que a tecnologia havia começado a corroer. Toda exigência regulatória tem um custo fixo, e esse custo pesa proporcionalmente menos sobre quem já opera em grande escala.

A questão que o episódio do Master e do Digimais coloca não é apenas técnica. A regulação que emerge dessa crise vai conseguir distinguir fraude de contestabilidade legítima? Vai preservar a abertura que reduziu spreads e ampliou acesso, enquanto impõe disciplina prudencial efetiva? Ou vai usar o a rgumento inquestionável da estabilidade sistêmica para reconstruir, com nova nomenclatura, a geometria anterior?

O verdadeiro desafio não é escolher entre estabilidade e concorrência. É construir uma regulação capaz de preservar ambas, distinguindo inovação de fraude antes que o mercado volte a se fechar em nome da prudência. Quando toda contestação passa a parecer ameaça, a prudência vira pretexto.

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TRUMP REPETE MUSSOLINI, SUBMETE A FIFA E DESAFIA O MUNDO E O BRASIL

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Trump repete Mussolini, intervém na Fifa e ataca juiz brasileiro em meio à tensão Brasil-EUA

A interferência de Donald Trump na submissa Fifa, para anular a expulsão de um jogador norte-americano e jogar suspeitas sobre um juiz brasileiro, é um escândalo internacional, que confirma a velha prepotência dos EUA, potencializada por Trump, e ocorre num momento de tensões e decisões nevrálgicas entre Brasil e EUA.

A ação de Trump e a suspeita sobre o árbitro Raphael Claus jogam uma pitada de pimenta no que já está ardido. Nesta segunda-feira, começou em Washington a audiência pública em que representantes brasileiros apresentam argumentos e dados concretos contra novas sanções comerciais.

No mesmo dia, veio a público um documento do chanceler Mauro Vieira admitindo, duas vezes, o risco de Trump usar força militar em território brasileiro, no rastro da classificação de PCC e CV como terroristas.

Ao telefonar para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, Trump não sugeriu, mas exigiu a anulação do cartão vermelho para Folarin Balogun e a participação dele no jogo dos EUA contra a Bélgica. E atacou Claus.

Sem entender patavina de futebol, Trump justificou, ao admitir o telefonema para a Fifa: “Eu vi o lance, e sou uma pessoa que ama esportes... Aquilo não foi uma falta. Nem mesmo uma infração. Esse árbitro é um pouco suspeito...”

Ou seja, o presidente dos EUA não se satisfaz em ver o jogo, achar isso ou aquilo e xingar o árbitro, como qualquer torcedor, mas usa o seu cargo e o fato de ser anfitrião para algo inédito: decretar que não aceita a expulsão e que Balogun vai jogar, sim.

Ele não considerou uma hipótese: e se os EUA vencessem a Bélgica com gol de Balogun? E se levassem a taça? Trump poderia até comemorar, mas o mundo aceitaria calado?

O episódio remete à Copa de 1934 na Itália, quando o ditador Mussolini escolheu jogadores e influenciou resultados para não só dar a vitória ao seu país, como usar essa vitória para uma fenomenal propaganda fascista.

Afora a vassalagem vergonhosa de Infantino e da própria Fifa, a ação de Trump confirma o que o mundo todo sabe – e teme. Ele não tem escrúpulos, limites e se sente imperador do mundo.

Logo, é capaz de tudo e é com ele que o governo e o setor privado brasileiros têm de negociar para evitar as novas tarifas inventadas por Trump, por influência direta de Flávio Bolsonaro, que participa da audiência pública de Washington nesta terça-feira, tentando consertar seu imenso erro.

Ele foi se meter onde e com quem não deveria, e tenta desfazer o mal que tentou fazer ao Brasil e acabou fazendo à sua própria candidatura. Imaginem agora, com a intervenção na Fifa e o ataque ao juiz brasileiro...

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MICHELLE SERÁ CULPADA POR EVENTUAL FRACASSO DE FLÁVIO NAS URNAS

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Evangélicos veem ex-primeira-dama como vilã, vítima ou força inquestionável

Sem o apoio de mulheres evangélicas, candidatura de Flávio fica vulnerável

Quem venceu a guerra entre Michelle Bolsonaro e os filhos de Jair? Por que ela se rebelou contra a campanha de Flávio Bolsonaro? Registrei algumas das narrativas —em que ela é vilã, vítima ou liderança vencedora.

Evangélicas mais à esquerda entendem que Michelle colhe o que plantou. Diante de tantos ataques, estaria sentindo na pele o que significa ser recatada e do lar. O tratamento seria educativo para quem desfruta das conquistas do feminismo enquanto defende a submissão da mulher no casamento.

Uma visão mais popular do que essa também a trata como vilã, mas por outro motivo. Michelle seria a mulher sem juízo que lava roupa suja em público e age por ser temperamental ou inapta. A atitude estaria condenando o Brasil a mais quatro anos de PT.

Outra posição, também popular, a vê como vítima. Segundo essa narrativa, analistas estariam atribuindo significados ocultos ao que é apenas uma briga familiar. Os filhos de Jair atacaram a madrasta, que revidou.

Michelle aparece como alguém de personalidade difícil, mas ainda exausta pelo que viveu desde a facada —pandemia, julgamento do marido, internações, batalha para transferi-lo para casa, responsabilidade pela filha adolescente.

Nessa condição de fragilidade, Michelle vem sendo atacada em sua honra, apontada como ingênua e ameaçada de violência física. Teria feito bem em se defender, mas não tem plano. Ao falar no evento com as mulheres conservadoras, Flávio sugeriu que ela estaria sendo induzida a prejudicá-lo.

Há a imagem de Michelle como vitoriosa —uma mulher que se parece com lideranças de igrejas pentecostais, como a pastora Helena Raquel, que viralizou ao criticar o machismo que encobre a violência contra mulheres nas igrejas.

Representam uma alternativa ao feminismo que, em vez de ver a Bíblia como um livro que promove o machismo, percebe nas escrituras um caminho para o igualitarismo. Homens e mulheres estão submetidos à mesma moralidade e o homem é mais defensor do que cabeça da casa.

Michelle é vista como essas mulheres que se entregam a projetos por suas igrejas mas são mantidas sob controle por lideranças masculinas. Defendem a submissão, mas, na prática, dão exemplo de empoderamento.

Na disputa com Flávio, seria uma liderança política que fez por merecer seu espaço. Viajou, mobilizou igrejas, abriu diretórios do PL Mulher, ampliou em quase 50% o número de mulheres eleitas pela legenda em 2024. Seria atacada pela esquerda porque disputa o monopólio desse campo sobre as necessidades de mulheres. E sai por cima.

Para alguns, ainda sonharia em ser a salvadora da direita caso escândalos tirem Flávio do jogo. Outros a veem se blindando: teria informação sobre novos materiais ligando Flávio ao caso Vorcaro, sai da linha de fogo e guarda capital político para 2030, sem Lula.

Duas ideias sobressaem: sem o apoio de mulheres evangélicas, a candidatura de Flávio fica vulnerável em uma eleição tão disputada. Se acontecer, Michelle será apontada como culpada.

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