terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

À ESPREITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Cordão sanitário funcionou e portugueses rejeitaram ultradireita na Presidência

Radicais têm ascensão meteórica quando eleitores descobrem que não estão sós

Por dois terços dos votos, os portugueses elegeram o socialista moderado António José Seguro para a Presidência do país, dando um sonoro "não" ao ultradireitista André Ventura, do Chega. Funcionou aqui o cordão sanitário. As principais forças políticas do país, tanto à esquerda como à direita, se uniram no segundo turno para impedir que um candidato da direita radical vencesse a disputa. Em Portugal, quem governa é o premiê, mas o presidente tem poderes relevantes, como o de dissolver o Parlamento e vetar leis.

Meu coração exulta sempre que o cordão sanitário evita que radicais conquistem o poder. A democracia é boa não por favorecer a eleição de líderes sábios, mas por automatizar o afastamento de governantes que perdem eleições ou nem deixar que figuras mais problemáticas se aproximem do poder. O otimismo, porém, só vai até certo ponto. O Chega passou de um deputado no pleito de 2019 a segunda força política de Portugal, com 23% dos votos nas legislativas de 2025.

E não é só em Portugal. Com variações, o cenário se repete na França, na Alemanha, na Espanha. Na Itália, um partido de raízes fascistas fez a premiê. A melhor explicação que já encontrei para o fenômeno é a dada pelo cientista político português Vicente Valentim. Num resumo grosseiro, eleitores sempre tiveram ideias de direita, às vezes bem pesadas, mas, por sentir que existia reprovação social a essa ideologia, evitavam expressá-las em público ou nas urnas. Os diques, porém, só funcionam até certo ponto.

Especialmente depois do advento da internet, que permite até à diminuta minoria dos terraplanistas encontrar-se, esses eleitores ultradireitistas descobrem que não estão sós e deixam de falsificar suas reais preferências. Daí as ascensões explosivas das siglas radicais, que, no espaço de dois ou três pleitos, vão da insignificância a porção significativa dos Parlamentos nacionais. Esses partidos agora pautam o debate e ficam à espreita. Se circunstâncias adversas se materializarem, poderão eventualmente governar.

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RECONSTRUIR SEGURANÇAS LABORAIS, TAREFA CONTRA O VALE-TUDO

Pedro Cafardo, Valor Econômico

Há enorme controvérsia sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos

Amélia, de 65 anos, saiu de casa para ir ao supermercado caminhando em uma rua de Pinheiros, em São Paulo, por volta das 18 horas. Era uma quinta-feira de verão, e o sol ainda iluminava a cidade. Vários motociclistas passavam em alta velocidade até que um deles, com um colega na garupa, parou ao lado da mulher:

“Passa o celular aí, vovó!”, ordenou, sem descer da moto.

“Não tenho celular, pode ver”, respondeu a trêmula senhora, mostrando a bolsa para o carona que parecia ter uma arma na mão.

“Então passa aí o cartão, e na próxima vez não esqueça o celular”, disse o motoqueiro ao empurrar a mulher e partir com o cartão no bolso.

Essa é uma cena comum em São Paulo e em muitas cidades brasileiras. Sumiram os trombadinhas mãos-leves, batedores de carteira. Agora ladrões usam velozes motocicletas para fazer assaltos, disfarçados de entregadores. No Brasil todo, houve estimados 900 mil roubos e furtos de celulares em 2025, sendo 390 mil no Estado de São Paulo e 154 mil na cidade de São Paulo.

Estimativas do Dieese indicam que há cerca de 1 milhão de motoboys no país, metade deles registrada em plataformas digitais e outra metade de entregadores totalmente informais.

A imagem desses profissionais, que prestam enorme serviço, é manchada por uma minoria de larápios. Hoje, quando um motoboy para no meio-fio, as pessoas ao lado saem de fininho.

No país, o total de trabalhadores registrados em aplicativos, incluindo motoboys e taxistas, atinge 2,2 milhões. Eles são a face mais visível da informalidade no trabalho, mas representam parcela pequena de empregados não protegidos pela CLT, que somam 40 milhões. São adultos jovens, principalmente, não sensibilizados para a fragilidade de suas relações de trabalho e para as dificuldades que poderão ter no futuro, quando atingirem idade de aposentadoria. A maioria não conta com benefícios das leis trabalhistas, como previdência, seguro-desemprego, licença médica, licença maternidade, fundo de garantia, aviso prévio, férias, décimo-terceiro etc.

Além de ser um fator perpetuador de desigualdades, essa alta informalidade corrói a base de arrecadação do Estado. Quanto maior ela for, menor será a capacidade pública de oferecer proteção social a essas pessoas.

A aproximação das eleições abre espaço para a discussão desse problema. Em editorial em seu site, o Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) definiu como “urgente” a necessidade de regulamentar e conceder benefícios a esses profissionais para evitar que a modernização digital aprofunde a desigualdade e a precarização. Segundo a entidade, reconstruir as seguranças laborais, em parte destruídas pela reforma trabalhista de 2017, é um “desafio central” na atual estratégia de desenvolvimento.

Projeto de regulamentação do trabalho com aplicativos já tramita no Congresso, mas não parece haver muita disposição dos partidos políticos, nem mesmo dos mais à esquerda, para colocar a discussão da qualidade do trabalho e da educação profissional em suas principais propostas de governo.

É previsível que as campanhas, sobretudo as da direita, concentrem o foco (além do carro-chefe da segurança, “motorroubos” incluídos) em velhas propostas neoliberais, como empreendedorismo, austeridade fiscal e privatizações para reduzir o papel do Estado na economia. Em síntese, propostas orientadas pela crença de que o setor privado e o livre mercado são mais eficientes do que o poder público para resolver problemas sociais e promover desenvolvimento.

Há enorme controvérsia sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos. A Amobitec, associação que reúne as maiores plataformas em operação no país, defende uma regulamentação moderada, que promova a inclusão dos trabalhadores no sistema de previdência, mas mantenha as características dos modelos de negócios das plataformas de tecnologia.

Os partidos políticos não terão como evitar esse tema na campanha eleitoral e podem se inspirar em modelos de fora. Nos EUA, onde a situação varia de Estado para Estado, os motoristas de aplicativos são prestadores de serviços autônomos, sem direitos trabalhistas. Não há remuneração mínima nem benefícios como seguro-desemprego, mas é grande a flexibilidade de horário e baixo o controle das plataformas, com inúmeras disputas judiciais.

Na França, o sistema é mais protetivo, e a informalidade, a norma. Os motoristas assinam contrato comercial com a plataforma, porém a Justiça pode reclassificá-los como empregados, caso haja controle excessivo, punições e dependência econômica. Existe remuneração mínima por corrida e exige-se transparência sobre como o algoritmo define preços e corridas. São obrigatórias contribuições para aposentadoria, seguridade social e seguro-doença. A plataforma paga o seguro de acidente de trabalho e não há férias remuneradas, salário fixo e seguro-desemprego.

O trabalho informal sem proteção, como já foi dito, não se resume aos aplicativos, porque está em todos os setores. Mais cedo ou mais tarde, o problema terá que ser encarado pelo Legislativo. Não para impor a velha CLT, mas para criar alguma regulamentação que impeça a instalação do “vale-tudo” nas relações trabalhistas.

E a dona Amélia?

Sim, dona Amélia resolveu o problema dela sem nenhum apoio policial. Na quinta-feira em que foi roubada, ela voltou para casa e cancelou o cartão antes que fosse usado pelo larápio. Não fez boletim de ocorrência e adotou um hábito bastante difundido em São Paulo: ao sair de casa, leva o “celular do ladrão”, um aparelho antigo, sem acesso à internet e ao banco. No sábado, vai ver bloquinhos de carnaval com ele na bolsa.

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O FIM DA ESCALA 6X1, A "ECONOMIA DO AFETO" E A REELEÇÃO DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Governo e partidos da base do presidente Lula já disseram ser favoráveis a uma redução da jornada de trabalho, mas dificilmente a jornada de 4 x 3 será aprovada

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou, ontem, o envio da Proposta de Emenda da Constituição (PEC) que põe fim à escala 6 x 1 para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Admitida a constitucionalidade, será formada uma comissão especial para ouvir economistas, empregados e patrões para se chegar a uma mudança “com equilíbrio e responsabilidade”.

“O mundo avançou, principalmente na área tecnológica, e o Brasil não pode ficar para trás”, disse Motta, que aglutinou os projetos da deputada Erika Hilton (PSol-SP), que acaba com a escala 6 x 1, e um texto apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), sobre o mesmo assunto. A redução da jornada de trabalho é música aos ouvidos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aposta na “economia do afeto” — a essencia do lulismo, na feliz expressão do historiador Alberto Aggio– para se reeleger.

Lula já se beneficia dos programas de transferência de renda, como Bolsa Família e Vale Gás, e dos aumentos de salário real, da queda da taxa de emprego e da isenção do pagamento de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. O fim da jornada de 6 x 1 possibilitará a mobilização dos trabalhadores via sindicatos, depois do fracasso do governo ao discutir propostas de regulamentação do trabalho por aplicativos, que enfrentou forte rejeição dos interessados. De certa forma, essa redução será associada à ampliação da possibilidade de trabalho via aplicativos e, também, de empreendedorismo, com o aumento das horas vagas.

No Brasil, a questão do trabalho tem um sentido especial. Muitas vezes foi tratada como caso de polícia. A escravidão, com sua violência estrutural, impregnou a estrutura social de tal forma que as relações de trabalho se mantiveram como conflito, mesmo depois da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a grande herança da Era Vargas. Daí decorre o desrespeito, os assédios sexual e moral, a redução dos direitos sociais, o trabalho sem carteira assinada e as jornadas excessivas sem pagamento das respectivas horas extras, as diferenças salariais entre homens e mulheres e em relação aos negros e pardos.

Não passamos pela construção de uma “ética do trabalho”. Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Companhia das Letras), destaca o trabalho árduo, racional e disciplinado como “vocação”, impulsionado pela ética calvinista, que transformou o acúmulo de riqueza fruto do trabalho em sinal de salvação.

Aqui, trabalho árduo, racional e disciplinado veio acompanhado dos grilhões e, depois, acompanhado, na maioria das vezes, de uma péssima remuneração. O trabalho intelectual é tão desvalorizado quanto o manual. A categoria dos professores, cujo trabalho é considerado “vocação”, é um bom exemplo. Como o “chão de fábrica” como locus do trabalho produtivo é cada vez mais minoritário, o fim da jornada 6 x 1 beneficiará diretamente os trabalhadores desses e de outros setores que ainda são obrigados a marcar o relógio de ponto.

Tendência mundial

A iniciativa nasceu do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que ganhou força nas redes e somou 1,5 milhão de assinaturas em um abaixo-assinado que pede à Câmara dos Deputados a revisão da escala 6 x 1. A proposta de Erika Hilton prevê estabelecer que a jornada de trabalho normal não poderá ser superior a oito horas diárias; não poderá ultrapassar 36 horas semanais; e será de quatro dias por semana.

Segundo o texto, as mudanças entrariam em vigor depois de 360 dias da eventual promulgação da PEC. De acordo com a legislação vigente, a jornada-padrão é de oito horas diárias, somando 44 horas semanais, e um dia de folga por semana, preferencialmente aos domingos. Se o trabalhador ultrapassar essa jornada, a CLT garante que receba adicional de 50% sobre a hora extra (e 100% em domingos e feriados, se aplicável).

Nada impede uma empresa no Brasil que encurte a jornada de trabalho para apenas quatro dias por semana. Mas uma mudança geral exigiria emenda constitucional aprovada pelo Congresso, onde a correlação de forças é desfavorável à mudança dessa ordem. O governo e partidos da base de Lula já disseram ser favoráveis a uma redução, mas dificilmente a jornada de 4 x 3 será aprovada. O mais provável é que se aprove a jornada 5 x 2, que já ocorre em muitos setores — ou 4,5 x 3,5 se houver um avanço maior.

A gradativa redução da jornada de trabalho nasceu nos Estados Unidos. Em meados do século XIX, trabalhar mais de 70 horas por semana era comum. Eram jornadas de 12 horas, seis dias por semana. Em 1926, a Ford Motor Company, sob a liderança de Henry Ford, instituiu uma semana de trabalho de oito horas por dia e cinco dias por semana.

Hoje, o Brasil ocupa a 29ª posição no ranking global (OCDE) de carga horária, com uma jornada padrão de oito horas diárias e 44 horas semanais. Entre os países com as menores jornadas de trabalho estão a Alemanha, com uma carga média de 26,3 horas semanais; a Dinamarca, 27,3 horas; a Noruega, 27,5 horas; a França, 30 horas; e a Itália, com média de 35,6 horas semanais. Jornadas reduzidas resultam em melhor saúde mental, maior qualidade de vida e maior eficiência no ambiente de trabalho.

 

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A FOLIA DOS SUPERSALÁRIOS

Artigo de Fernando Gabeira

Quando menino, o carnaval era uma festa de acasalamento: Ai, morena/ Seria meu maior prazer/ Passar o carnaval contigo/ Beijar a sua boca e depois morrer.

Aos olhos do adulto, o carnaval é apenas um filtro político. Que enredos sobreviverão a ele, quantos escândalos ainda serão lembrados, pois, no Brasil, depois do carnaval é que começa o ano, com seu sabor de novidade. Algumas CPIs já estão no final, como a do crime organizado e a do assalto aos velhinhos do INSS. Seu último esforço é se agarrar à cauda do cometa, o escândalo do Banco Master.

A do crime organizado tenta convocar Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, para explicar o contrato milionário com o Banco Master: R$ 3,6 milhões por mês, num total de R$ 130 milhões. A do INSS tenta trazer o próprio Daniel Vorcaro. Todas buscam um gran finale para seu trabalho e, com isso, apostam, como nós, que o escândalo do Master tem uma generosa sobrevida depois do carnaval.

Outro tema com expectativa de longa vida é a luta contra os supersalários nos três Poderes da República. O ministro Flávio Dino proibiu os penduricalhos, que elevam os salários às alturas, e pediu regras claras para as verbas indenizatórias. Auxílio-panetone no Natal e auxílio iPhone estão entre os artifícios bizarros para turbinar os salários, assim como excesso de folgas, que passam a ser vendidas como trabalho extra. Segundo alguns cálculos, os supersalários — remuneração de 53 mil servidores — custam R$ 20 bilhões ao ano, com a parcela maior no Judiciário, R$ 10,5 bilhões. Isso para juízes, pois, no Ministério Público, o custo é de R$ 3,2 bilhões.

Os supersalários são aqueles acima do máximo permitido pela Constituição, equivalente ao salário de um ministro do Supremo, R$ 46,4 mil. Com ou sem penduricalhos, quem ganha mais que isso está fora da lei — vale dizer que boa parte dos juízes do Brasil está nessa condição.

A Câmara tem um projeto para regulamentar tudo isso. Nele, não se podem receber penduricalhos, exceto em 30 casos. Equivale simbolicamente a um queijo suíço. De qualquer forma, o Supremo analisará a decisão de Dino e pode dar uma ajuda proibindo os penduricalhos. Isso pode melhorar sua imagem num momento difícil. Apenas melhorar, pois o caso Master continua desgastando dois de seus ministros: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Bem que fizeram discursos defensivos na retomada dos trabalhos do Judiciário. Esgrimiram argumentos contra acusações hipotéticas e se esqueceram de responder a seus reais problemas.

Enfim, vamos ver como o carnaval filtra tudo isso para que mergulhemos de novo num ano eleitoral. De novo, teremos esperanças, promessas de novos tempos, enfim, o ritual clássico de uma eleição.

Cada vez mais, no entanto, alguns problemas se repetem tristemente no Brasil, e não encará-los é perigoso, porque a democracia pode ser vista como farsa. Nesse caso, teremos profundo desânimo ou sinal verde para aventureiros autoritários, inclusive no poderoso Congresso.

Artigo publicado no jornal O Globo em 10 / 02 / 2026

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

É DIFÍCIL SABER QUAL É A PLATAFORMA DOS CANDIDATOS DE DIREITA

Miguel de Almeida, O Globo

Sem temer raios ou outros castigos, a cola que os une é a promessa de indulto a Jair Bolsonaro

Mesmo com boa vontade, é difícil saber qual é a plataforma dos autointitulados candidatos de direita. Existem as platitudes costumeiras (“o ajuste fiscal”, “enxugamento da máquina”, “combate à corrupção” etc.), porém, de concreto, apenas os ataques de sempre a Lula. Sem temer raios ou outros castigos, a cola que os une é a promessa de indulto a Jair Bolsonaro.

Entre eles, existem diferenças. Há quem prometa anistia ampla e irrestrita a todos os golpistas presos; há quem mire apenas na liberdade do capitão. O único que não promete soltar golpistas é Eduardo Leite.

Se é essa a melhor proposta da direita, estamos fritos. A ideia de anistia, em qualquer grau, nega que houve tentativa de abolição violenta do Estado de Direito. Ignora todas as provas públicas. Depois, perdoam-se os golpistas.

A ameaça de interrupção da democracia aconteceu ao vivo e em cores bem antes da derrota eleitoral de Bolsonaro. Como vociferou o general Heleno na célebre reunião ministerial, qualquer ato mais forte deveria ocorrer antes das eleições. Por inépcia (e para nossa sorte), a sedição durante o governo ficou restrita à bazófia. Mas, depois da derrota, virou ação: 8 de Janeiro.

Bolsonaro foi julgado por vários crimes. Tentou interromper o processo democrático e implantar um regime autoritário. Defendeu publicamente que militares deveriam ter matado mais adversários durante a ditadura — ameaça que soava como promessa. Seus correligionários alegam perseguição política, mas a condenação se baseia em crimes objetivos. Um assaltante não pode alegar que roubou por motivos políticos. Crime é crime. O mesmo vale para o capitão.

A defesa de indulto (ou anistia) a Bolsonaro e seus aliados é perdão a delitos graves. Não é gesto de concórdia ou de laica humanidade. Na verdade, esconde tolerância a quem tentou tirar nossa liberdade.

Os candidatos do arco da direita buscam votos da extrema direita. Para isso, emitem mensagens desastrosas: prometem perdoar crimes. Esquecem que eleição integra um processo civilizatório: é onde se discute o futuro desenhado para a população. E qualquer promessa — da econômica à administrativa — ajuda a moldar a sociedade. Prometer anistia a golpistas é trair a democracia.

Quando Ronaldo Caiado defende liberdade aos golpistas de 8 de janeiro, incluindo Bolsonaro e seus generais, joga no lixo 40 anos de redemocratização. Pior: faz isso para ganhar votos na eleição. Quer nos fazer esquecer que, se os golpistas tivessem vencido, não haveria eleições hoje.

Pela primeira vez na História da República — fundada por um golpe militar em 1889 —, golpistas foram julgados e presos. Pode parecer pouco, mas é um grande passo de maturidade no Brasil de Macunaíma. Com seus gestos, os candidatos de direita querem que o país volte alguns passos atrás. Apenas Eduardo Leite parece mais sincero: demonstra manter suas convicções, e não ser um bolsonarista populista. Tampouco submisso.

Na contramão dos pré-candidatos, o Superior Tribunal Militar (STM) se prepara para o julgamento dos golpistas militares. O Ministério Público Militar pediu que se declare a perda de postos e patentes de Bolsonaro, do almirante Almir Garnier e dos generais Augusto Heleno, Paulo Sérgio Nogueira e Braga Netto.

Ao contrário dos políticos, a presidente do STM, ministra Maria Elizabeth Rocha, lembrou a todos o ineditismo do caso. Será a primeira vez que a Corte julgará um caso de tentativa de golpe contra a democracia e que o julgamento ajudará na criação de jurisprudência no tribunal sobre preservação do Estado de Direito.

O promotor do Ministério Público Militar, em sua peça de acusação, afirma que os acusados se mostraram indignos para o posto e a patente. Disso eu já sabia.

O julgamento deverá ocorrer ao longo do ano, em paralelo ao processo eleitoral. Parece ser um recado aos políticos direitistas e uma ironia na história brasileira: um tribunal militar julgará seus oficiais por atentado à democracia.

O golpe não se consumou porque Bolsonaro e agregados não conseguiram atrair o apoio de quem possuía tropas. Ao negar adesão, os militares mostraram aos civis de direita que aprenderam com a redemocratização. Não querem participar de mais golpes e pagar sozinhos a fatura do desastre. Em 1964, parte da sociedade apoiou a quebra da democracia. Quando o regime degringolou, atolado em inflação e inépcia, apenas os generais ficaram na cena. O desastroso governo do capitão mostrou novamente aos fardados: é mais seguro ficar nos quartéis.

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BENEFÍCIO FISCAL A ALIMENTOS SAUDÁVEIS É BEM-VINDO

Irapuã Santana, O Globo

O consumidor moderno, munido de informação, não perdoa marcas que fingem promover saúde enquanto entregam sódio e conservantes

Janeiro de 2026 será um marco no setor de consumo no Brasil. Com a entrada em vigor da alíquota zero do Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e da Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) para a nova Cesta Básica Nacional, o prato do brasileiro deixou de ser apenas uma questão de subsistência para se tornar o centro de uma estratégia sofisticada de ESG (Environmental, Social, and Governance, na sigla em inglês) e saúde pública.

A reforma tributária, ao selecionar alimentos saudáveis e sustentáveis para o benefício fiscal, não apenas reduziu custos. Com ela, o Estado parou de apenas tributar o consumo e passou a induzir escolhas que beneficiam a sociedade no longo prazo.

Historicamente, o setor de alimentos e o varejo operavam sob uma lógica de margens apertadas e logística complexa. Agora, a desoneração cria um cenário de tripla vitória. Em primeiro lugar, a sociedade ganha com o acesso facilitado a alimentos in natura ou minimamente processados, combatendo a insegurança alimentar e doenças crônicas. O Estado também se beneficia com a redução de gastos futuros no SUS, uma vez que uma dieta de qualidade é a melhor medicina preventiva. Por fim, as empresas ganham maior giro de estoque de produtos de alto valor nutricional e a oportunidade de alinhar o lucro ao propósito social.

O tributo deixa de ser um “mal necessário” para se tornar um indutor de competitividade, e as empresas que já vinham adaptando suas cadeias de suprimentos a critérios sustentáveis agora colhem o fruto financeiro direto dessa governança.

O grande desafio de 2026 é a conformidade, já que a linha que separa um alimento minimamente processado de um ultraprocessado “maquiado” pode ser tênue para o marketing, mas é rígida para o Fisco. Surge aqui o risco de greenwashing alimentar, diante da possibilidade de empresas tentarem enquadrar produtos ultraprocessados na alíquota zero por meio de rotulagem criativa.

O impacto de ser pego nessa prática vai muito além da multa pesada, pois, se a hipótese ocorrer, gera-se uma crise reputacional. O consumidor moderno, munido de informação, não perdoa marcas que fingem promover saúde enquanto entregam sódio e conservantes. O outro problema é que, com o foco do Estado voltado para uma fiscalização rigorosa dos novos critérios, o erro de enquadramento pode gerar retroativos tributários asfixiantes.

Para que esse ciclo seja sustentável, as empresas de alimentos, varejo e logística precisam organizar sua governança de forma transversal, não se restringindo mais a uma tarefa apenas do departamento tributário. Trata-se de missão que envolve desde a origem da matéria-prima (o “S” e o “E” do ESG) até a transparência da rotulagem (o “G”).

A nova cesta básica não é mera lista de compras, mas um manifesto de valores. O compliance é o grande guardião da integridade nutricional e ética da marca. Em 2026, a sustentabilidade chegou à mesa do brasileiro com o poder de transformar o balanço financeiro das companhias que souberem honrar o que prometem no rótulo.

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domingo, 8 de fevereiro de 2026

A ESCURIDÃO QUE PAIRA SOBRE UM GRANDE JORNAL AMERICANO

Dorrit Harazim, O Globo

Com o Washington Post morrendo, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais

Adotado pelo Washington Post em fevereiro de 2017 como mote oficial, o dístico “Democracy Dies in Darkness” (a democracia morre na escuridão) soa lindo e continua a ornar as capas das edições digitais e impressas do jornal. A frase fora cunhada ainda nos anos 1960 pelo juiz negro Damon Keith, defensor dos direitos civis, e popularizada já neste milênio pelo veterano Bob Woodward a propósito da obsessão de sigilo (“escuridão”) por parte de governantes. Era a primeira vez em 140 anos de existência que o venerável matutino da capital dos Estados Unidos adotava um lema oficial. A mensagem também era clara: um jornalismo que fiscaliza o poder, cobra responsabilidades de autoridades e instituições e promove transparência pública é essencial para a prevenção de malfeitos subterrâneos dos donos do poder — sobretudo, para a preservação da democracia.

Naquele início de 2017, o mundo vivia o choque de Donald Trump ter sido recém-entronizado na Casa Branca pelo voto popular. Jeff Bezos, o então já bilionário fundador da Amazon, adotara o lema para fincar posição: o Washington Post, pelo qual pagara US$ 250 milhões, continuaria a honrar a marca de bom jornalismo e independência deixada por Kay Graham. À época, foi saudado como mecenas pelo alto investimento feito na redação. Talvez tenha até abrigado a ambição de competir com o New York Times como jornal de referência.

Não mais. Bezos simplesmente se cansou de um “negócio” tão pouco rentável como o jornalismo independente, sistematicamente atacado, processado, perseguido e ridicularizado por um Trump cada vez mais vingativo. Melhor cortejar a Casa Branca, ampliando outros negócios (entre 2013 e 2026, seu patrimônio pulou de US$ 25 bilhões para estimados US$ 250 bilhões). Na semana passada, a notícia do corte seco de 300 profissionais do Post, decapitando um terço dos 800 e tantos postos da redação, foi impiedosa. Foram limadas seções inteiras como a resenha de livros e Esportes (em pleno ano de Copa do Mundo, Olimpíada de Inverno e pré-Olimpíada de 2028), valiosas sucursais em todo o Oriente Médio foram fechadas; inúmeros correspondentes mundo afora, dizimados por e-mail.

Coube ao diretor de redação do jornal, Matt Murray, nomeado por Bezos em 2024, conduzir o “megapassaralho”, como se diz na gíria jornalística. Seu estilo lembrou Elon Musk durante os 130 dias em que esteve à frente do defunto Departamento de Eficiência Governamental, quando 260 mil funcionários federais foram cortados ou aceitaram acordos de rescisão.

Murray definiu os cortes como “reset estratégico”. Não citou o cancelamento de milhares de assinaturas sofridas pelo jornal em 2024, quando suspendeu, à última hora, o endosso à candidatura da democrata Kamala Harris contra Trump para um segundo mandato. Tampouco mencionou que a decisão de limitar a seção de opinião a temas como liberdades individuais e livre-mercado, em detrimento de qualquer sinal de diversidade, afugentou outros 75 mil assinantes. Em compensação, no “reset estratégico” de Bezos, coube o desembolso de US$ 75 milhões pela Amazon para produzir, distribuir e divulgar mundialmente o documentário “Melania”, narrado pela própria primeira-dama.

— Tenho ouvido que a ênfase maior daqui para a frente será em inteligência artificial — disse em entrevista à Vanity Fair o respeitado Marty Baron, que chefiou o Post por oito anos até 2021, amealhou dez Prêmios Pulitzer para o jornal e consolidou a instituição como força independente às invectivas de Trump. — Devem estar se iludindo com o que a IA pode realmente fazer. Não sei como a IA cultivará fontes ou apurará o que acontece no mundo.

Ele sustenta que, mesmo sendo uma ferramenta poderosa que deve ser usada, a IA não consegue substituir um repórter. Nem um bom chefe de redação. Em livro publicado dois anos atrás (“Collision of Power”) sobre o primeiro mandato de Trump, Baron relata embates de que Bezos deveria se orgulhar até hoje. Não mais.

— O caso atual deveria ser estudado como a destruição autoinfligida de uma marca — diz Baron.

Lá atrás, Alexis de Tocqueville especulou sobre o futuro da democracia nos Estados Unidos, as possíveis armadilhas e perigos que ela enfrentaria. Incluiu em suas divagações a suspeita de que ela poderia degenerar num “despotismo brando”. Nada em Trump é brando. Ao divulgar em seu site oficial do Truth Social (11 milhões de usuários) um vídeo — depois retirado do ar — contendo um meme que retrata o ex-presidente Barack Obama e a ex-primeira-dama Michelle Obama como primatas, ele convida seu eleitorado supremacista a um gozo racista. Que ninguém se engane: com o Post morrendo, não na escuridão, mas à luz do dia, a democracia americana e o jornalismo que a sustenta encolhem um pouco mais.

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TRUMP QUER ROUBAR A ELEIÇÃO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Há um plano, que parece óbvio, de inventar uma mutreta para reclassificar cidadãos americanos como eleitores irregulares

Entrega para autoridades federais dos registros de eleitores do Minnesota seria altamente irregular

O supremacista branco Donald Trump pretende fraudar as eleições de meio de mandato deste ano nos Estados Unidos.

Durante a invasão do Minnesota pela milícia ICE, o governo Trump ofereceu às autoridades estaduais condições para interromper a matança nas ruas. Entre elas estava a entrega, para autoridades federais, dos registros de eleitores do Minnesota.

Isso seria altamente irregular. As eleições americanas são organizadas pelos estados. Não há uma autoridade central que as organize, não há sequer o equivalente de nossa Justiça Eleitoral. Sempre foi assim, e é consistente com os princípios de um país que, afinal, se chama "Estados Unidos".

O objetivo declarado de Trump é passar um pente-fino nas listas de eleitores para impedir que imigrantes ilegais votem. Até aí, você pode dizer: beleza, ué. Os imigrantes ilegais não têm mesmo o direito de votar.

Mas eu te responderia com outra pergunta: eles têm votado?

Faça o seguinte: vá ao site da Heritage Foundation, o think tank trumpista que redigiu o famoso Projeto 2025, o plano autoritário que Trump vem colocando em prática no segundo mandato, descrito no ótimo livro "O Projeto", de David Graham (Zahar, 2025).

A Heritage mantém um site que cataloga casos de fraude eleitoral ocorridos nos Estados Unidos desde os anos 80. É possível pesquisar neste banco de dados. Vá lá e coloque, em "Keywords" ("palavra-chave") o termo "alien" (estrangeiro, não cidadão).

O resultado da busca são 41 casos em que imigrantes ilegais votaram nos Estados Unidos entre 2003 e 2006. O Bipartisan Policy Center (BPC) revisou os registros da Heritage manualmente e encontrou 77 casos em que não cidadãos votaram entre 1999 e 2023. Um outro estudo do BPC, analisando 23,5 milhões de votos da eleição de 2016, encontrou apenas 77 exemplos (entre 136 milhões de pessoas que votaram) em que não cidadãos votaram.

Ou seja, para todos os propósitos práticos, o número de imigrantes ilegais nas eleições americanas é arredondável para zero. E é fácil entender por quê. Para votar ilegalmente, você precisa enganar uma autoridade quando se registra e outra no dia da eleição. Imigrantes ilegais, naturalmente, evitam o contato com as autoridades, especialmente as que têm propensão a pedir documentos.

Portanto, Trump não quer nacionalizar a contagem dos votos –como ameaçou fazer semana passada– para corrigir esse problema inexistente. O plano, parece óbvio, é inventar uma mutreta para reclassificar cidadãos americanos como eleitores irregulares.

Na eleição em que perdeu em 2020, Trump foi gravado ordenando que o secretário de estado da Geórgia "encontrasse" os 11.780 votos que lhe garantiriam virar o estado a seu favor. O secretário, um republicano honesto, recusou-se a participar da fraude.

Após anos de completo aparelhamento do Partido Republicano –que controla o Congresso e a Suprema Corte–, Trump sabe que seus novos subordinados não terão dificuldades para "encontrar" votos na próxima eleição.

Afinal, quem se recusar pode se deparar com a fúria da base trumpista. E ela já aprendeu, com a anistia aos invasores do Capitólio, que qualquer crime que cometa será perdoado pelo presidente.

 

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PARABÉNS, MARINA !

Hoje é dia de parabenizar a ex-senadora, ex-ministra Marina Silva. Ela representa muito bem a força da mulher brasileira.

Maria Osmarina Marina Silva Vaz de Lima nasceu no dia 8 de fevereiro de 1958 na localidade de Breu Velho, no Seringal Bagaço, no estado do Acre.

Parabéns, Marina, 67 anos! Felicidades, saúde e paz.

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sábado, 7 de fevereiro de 2026

PERFIS PAGOS IGUALAM POLÍTICA E FOFOCA NAS REDES

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Prática de contratar influenciadores é crime de rápida resposta

Plataformas avançam sem regulação, com risco para as eleições de outubro

Ao lado da inteligência artificial, cada vez mais usada para espalhar mentiras com deepfakes realistas e vídeos fabricados e manipulados, a contratação de influenciadores digitais é outro alerta de risco para o período eleitoral que se aproxima.

É preciso que o ministro Nunes Marques fique esperto. Em junho, ele se tornará o primeiro indicado por Bolsonaro ao STF a assumir o controle do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), que enfrentou uma campanha de difamação e descrédito durante os quatro anos do ex-presidente, com ataques sem provas às urnas eletrônicas.

Crime facilitado pelas plataformas, de rápida resposta e difícil identificação, a prática de contratar perfis para beneficiar políticos, empresários e subcelebridades já foi constatada pela Justiça. O desenrolar do caso Master mostrou que agências de publicidade procuraram donos de contas oferecendo pagamentos de até R$ 2 milhões pela postagem de vídeos contra o Banco Central. O STF autorizou a abertura de inquérito para apurar a rede de influenciadores a serviço de Daniel Vorcaro, com páginas de grande alcance (mais de 70 milhões de seguidores no país), não por acaso ligadas a empresas de apostas.

A revista Piauí revelou que perfis de fofoca no Instagram, acostumados à dieta de barracos, surras e traições conjugais envolvendo os famosos do momento, começaram, da noite para o dia, a fazer elogios ao governador Tarcísio de Freitas, à isenção de IPVA em São Paulo e à inauguração do Rodoanel.

O uso das redes avança, sem regulação. Com lições de empreendedorismo e linguagem agressiva, Pablo Marçal provou em 2024 –até mais do que Bolsonaro em 2018– que elas calam fundo nos eleitores. Divulgador de fakes hoje condenado e inelegível, Marçal é carta fora do baralho, virou um reles palpiteiro. Deixou, no entanto, a suspeita de que políticos e influenciadores são duas categorias em processo de simbiose.

Por mais espantosas que sejam as ações e declarações de Trump, há um pessoal que só enxerga o cabelo laranja.

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sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

PESSIMISMO ESTATÍSTICO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Feminicídio bate recordes, mas no cômputo geral há menos mulheres morrendo assassinadas

Série de mudanças na legislação faz com que dados sejam registrados de forma inconsistente

Pacto Nacional contra o Feminicídio, lançado na última quarta-feira pelo presidente Lula, tem todo meu apoio. Cada assassinato de mulher que ocorre é uma tragédia. Políticas racionais para tentar reduzir homicídios, de todos os gêneros, são intrinsecamente meritórias. Precisamos, porém, evitar que, no afã de travar o bom combate, tratemos mal os números.

Os feminicídios no Brasil até podem estar batendo recordes, mas há menos mulheres morrendo assassinadas, o que é uma ótima notícia. Para constatar isso não é preciso mais do que olhar o Anuário Brasileiro de Segurança Pública, a fonte principal desse tipo de estatística. Ali, a mesma tabela que registra o total de feminicídios traz também os homicídios intencionais contra mulheres somados com os feminicídios. As notas de rodapé explicam o motivo dessa decisão, que é manter a comparabilidade dos números diante das alterações na legislação.

Até 2015 não havia o tipo penal de feminicídio e em 2024 este passou a ser um crime autônomo. Os escrivães encarregados de preencher a papelada ainda hesitam, produzindo inconsistências. A melhor forma de reduzir o ruído é olhar para o dado mais amplo, isto é, os feminicídios somados aos assassinatos de mulheres cuja motivação exata não esteja tão clara. E aí o que observamos é uma tendência persistente de queda. De 2023 para 2024, a redução foi de 6,4%. No prazo mais dilatado de 2018 para 2024, a diminuição foi de 12,5%. Esse movimento está em linha com a redução geral de todos os assassinatos em curso no país.

Insistir no recorde dos feminicídios serve para chamar atenção para o problema, que é real, mas acaba contribuindo para criar um sentimento de pânico moral, que não costuma ser bom conselheiro na hora de elaborar políticas públicas. O pano de fundo, acredito, é o pessimismo metafísico que cerca as militâncias identitárias, que veem machismo, racismo, homofobia etc. como problemas insolúveis. Até podem ser, mas isso não impede que tenhamos feito progresso nessas questões.

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TERRAS RARAS, LULA E TRUMP

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Governo dos EUA organiza sistema de produção e comércio mundial de minerais críticos

Política do Brasil para o setor começa só agora e ainda tem de lidar com ofensiva americana

De 2024 para 2025, o valor da exportação brasileira de terras raras triplicou. Algo anda, mas do quase nada para muito pouco. O valor exportado foi de US$ 13,3 milhões. Um troco, dado o valor total das exportações nacionais, de R$ 349 bilhões.

Em quantidade, as exportações (785,3 toneladas) equivaleram a 1,2% das vendas chinesas. Ironia: 89,8% das exportações foram para a China; 8,4% para a França, 1,4% para a Espanha (contas baseadas nos dados da Secretaria de Comércio Exterior).

Terras raras não são nem serão pote de ouro no fim do arco-íris da economia brasileira —nem um potinho. Mas são oportunidade econômica e possível instrumento de força política internacional (e, assim, talvez para outros negócios).

Desde dezembro, Brasil e EUA negociam acerto sobre minerais críticosLuiz Inácio Lula da Silva voltou a falar do assunto, nesta quinta. Sem terras raras e subprodutos, a indústria de tecnologia avançada, militar e de transição energética para. Mas o valor do negócio não é grande.

Uma encrenca é que o Brasil vai entrar nesse negócio geoeconômico enquanto o governo dos EUA reorganiza a economia dos minerais críticos (terras raras incluídas) por meio de intervenção estatal e arranjo internacional, muita vez por meio de acordos políticos extraídos sob ameaça comercial ("tarifas") ou militar.

Nesta semana, Donald Trump anunciou o "Project Vault" (Projeto Cofre), que é mais do que a formação de um estoque de minerais críticos. É parte do plano de criar demanda regular desses produtos e garantir preços.

Assim, em tese diminui o risco de investir em minas —leva uns oito anos para fazer um projeto desses funcionar; uns cinco anos para criar uma fábrica de processamento (isso depois de aprender a tecnologia, quase toda chinesa). Para incentivar investimento, garantias são necessárias, ainda mais porque China tem poder sobre esses preços. O dinheiro para esse estoque regulador vem do Eximbank (oficial), US$ 10 bilhões, e de empresas (US$ 1,7 bilhões).

Não se trata de um Estado projetando um mercado, mas formatando e subsidiando um negócio crucial para a segurança econômica e militar —ou dele sendo sócio. Aliás, os EUA acabam de emprestar mais dinheiro para a Serra Verde, com opção de se associar a essa brasileira de capital americano-britânico, ora a produtora nacional de terras raras.

Trump 2 fez acordos com Japão, Austrália, Malásia, Tailândia, Vietnã, Camboja etc. Além de garantir acesso preferencial para empresas americanas (no caso de países menores), acertou planos de financiamento de parcerias de extração e processamento, de comércio, de garantia firme de compra de produção e de estabilização de preços. É política industrial até a medula, em acerto internacional.

O mundo já corre para dominar processamento de terras raras e produção de ímãs. Os EUA vão criando um sistema de produção que garanta a sua segurança e isole a China.

A encrenca é como o Brasil vai fazer sua produção e tourear potências; como fazer com que essa produção tenha sentido econômico. Nem sabemos ainda da viabilidade das nossas famosas reservas enormes de terras raras.

Precisamos investir em ciência (não ligamos para isso), talvez arrancar parcerias de pesquisa e investimento dos americanos. A estratégia nacional foi lançada neste janeiro. Mas está quase tudo por fazer em estudo de viabilidade dos recursos e de produção, impulso para pesquisa aplicada e plano geoeconômico.

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O FUTURO CHEGOU

Pablo Ortellado, O Globo

Novos robôs de IA facilitam a vida, mas trazem riscos

É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos

O leitor deve ter visto nesta semana a notícia fantástica de uma rede social feita apenas para robôs de inteligência artificial (IA). Nessa rede, eles discutem filosoficamente se têm consciência e, entre outras coisas, se organizam para se rebelar contra os humanos. No fim das contas, depois de muito susto, descobrimos que as postagens não são espontaneamente feitas pelos robôs, mas provavelmente brincadeiras de seus donos — que devem ter pedido para fazerem essas postagens distópicas a fim de fazer graça e gerar burburinho.

Mas, enquanto as postagens dos robôs não parecem espontâneas e autênticas, os robôs por trás delas são reais. Trata-se de um software que cria agentes de IA chamado OpenClaw. É a novidade mais fascinante da inteligência artificial nos últimos anos.

Desde o revolucionário lançamento do ChatGPT em novembro de 2022, temos visto melhorias incrementais a cada semestre e a esperança renovada de que estamos a um ano ou dois da inteligência artificial geral (IAG), estágio em que a IA se equipara ou supera a inteligência humana. Enquanto a IAG não vem, o que pode nos surpreender é a exploração plena do potencial das IAs que temos. É o que o OpenClaw nos entrega.

O software foi desenvolvido por um engenheiro austríaco para ser um assistente virtual baseado em IA. O OpenClaw faz aquilo que muita gente esperava de um assistente como a Alexa. Dá ao serviço de IA que o usuário já assina (ChatGPT, Claude ou Gemini) autorizações amplas para usar o computador por meio de uma interface de comando via WhatsApp. Além disso, guarda registros das interações, permitindo que aprenda persistentemente (ao contrário dos chats que “esquecem” o que se falou na sessão anterior).

Em apenas uma semana de uso, usuários relatam maravilhas. Você pode mandar uma mensagem de WhatsApp a seu robô e pedir para ele marcar um encontro com determinada pessoa. Com esse único comando, ele procura um restaurante comparando avaliações na internet, encontra um horário livre em seu calendário, manda mensagem convidando para jantar, faz a reserva no restaurante e depois marca o encontro no calendário. Tudo, automaticamente, com apenas um comando. Pode também soar um alarme no horário e pedir automaticamente um Uber para o restaurante.

Você pode pedir para ele encontrar documentos em seu computador, ler o conteúdo e criar um sistema de organização em pastas. Pode pedir para comparar preços e resenhas de produtos e fazer uma compra baseado no custo-benefício. Se você tem pacientes, ele pode abrir seu e-mail, responder a todos os interessados, marcar as consultas e bloquear sua agenda. Em resumo, tudo o que você consegue fazer num computador, ele pode fazer para você de maneira automática, rápida e eficiente. É realmente uma revolução.

Porém tudo vem com risco. Há muito tempo as IAs têm capacidade para fazer esse tipo de coisa, mas as empresas nunca lançaram um produto assim porque não conseguiram resolver os problemas de segurança. O OpenClaw é um projeto comunitário de código aberto, sem garantias. O software é um test drive do futuro — em que você dirige um carro sem seguro e sem habilitação. Se você autoriza a IA a criar eventos no calendário, a ler e a escrever e-mails, a organizar arquivos e pastas no computador, a responder mensagens de texto, a fazer compras com seu cartão de crédito, qualquer erro pode ser fatal.

Além de simples erros (bugs), você pode pedir para a IA “limpar” o computador, pensando em se livrar de arquivos e programas que não usa, e ela entender que você quer formatar a máquina — e toda a sua vida digital desapareceria nesse equívoco semântico. Além disso, como a IA se relaciona com outras pessoas, inclusive as maliciosas, elas podem, na interação, persuadi-la a entregar dados, senhas e autorizações. Golpistas podem esconder mensagens em sites que só máquinas conseguem ler tentando tomar o controle de seu computador — técnica conhecida como “injeção de prompt”. Quanto mais poder você der à IA, mais fácil fica a sua vida, mas mais em risco você se põe.

A ideia de robôs tramando uma revolução parece fichinha perto de um assistente virtual decidindo, por conta própria, que o melhor custo-benefício para seu jantar de aniversário é um combo de esfihas do Habib’s. Ao entregar as chaves da casa à IA, o risco não é ela se tornar dominante, mas agir como um estagiário inocente e hiperativo com acesso ilimitado a sua conta bancária.

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OLHO NO OLHO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Presidente confirma encontro em março e ensaia novo tom sobre Venezuela e minerais críticos

Lula confirmou que vai à Casa Branca em março. Disse que espera ter uma conversa “olho no olho” com Donald Trump. O objetivo do governo brasileiro é zerar o tarifaço sobre as exportações para os Estados Unidos. Mas o encontro também deve tratar de outros temas espinhosos.

Na primeira semana do ano, os EUA invadiram a Venezuela e sequestraram o presidente Nicolás Maduro. A ação deixou dezenas de mortos e inaugurou a “Doutrina Donroe”, que restabelece a diplomacia do porrete na relação de Washington com a América Latina.

O Itamaraty condenou a intervenção militar, e Lula se disse “indignado” com a agressão ao país vizinho. Ontem o presidente mudou de tom e pareceu rifar Maduro, ao afirmar que ele “não é a preocupação principal”. “O que está em jogo é se a gente vai melhorar a vida do povo ou não”, declarou, em entrevista ao UOL.

Na visão do Brasil, a situação de Cuba se tornou mais complicada que a da Venezuela. Há temor de um colapso humanitário na ilha, que sofre com apagões e falta de combustível após novas medidas americanas para endurecer o bloqueio.

Lula pretende defender a autodeterminação dos cubanos, mas seus conselheiros estão pessimistas com a possibilidade de uma distensão. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, deve suas votações na Flórida ao discurso agressivo contra o regime comunista.

Os dois presidentes também devem tratar do combate ao crime organizado. Trump tem citado o tráfico de drogas como pretexto para fazer novas ameaças de uso da força. No Brasil, políticos de direita pregam que facções criminosas sejam rotuladas de terroristas, o que abriria caminho à imposição de sanções ao país.

Lula tentará conduzir a conversa em outra direção. Deve pedir ajuda para enfrentar a sonegação de impostos e a lavagem de dinheiro. Num telefonema em dezembro, ele disse a Trump que o maior devedor brasileiro mora em Miami. Referia-se ao empresário Ricardo Magro, alvo de megaoperação recente contra fraudes em combustíveis.

Planalto e Itamaraty sabem que a Casa Branca está de olho nas terras raras. Há sete meses, Lula afirmou no palanque que “aqui ninguém põe a mão”. Ontem ele se mostrou mais disposto a negociar, e disse que o tema não é “proibido”. A ideia é condicionar o acesso aos minerais a investimentos para processá-los no Brasil.

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PRESA COM BOLSONARO, DIREITA DEIXA LULA SOZINHO NO PALANQUE

Vera Magalhães, O Globo

Presidente usa indefinição da oposição para largar na frente e tentar reverter insatisfação com seu governo

O terceiro mandato de Lula ainda carece de respaldo junto ao eleitorado. Um ano se passou desde que sua aprovação começou a sofrer uma erosão, que atingiu o ápice em meados de 2025. Desde então, ele apenas recuperou um patamar de zero a zero. Ainda assim, aproveita o momento de apagão da oposição para ocupar sozinho a vitrine eleitoral, e isso pode lhe garantir a dianteira necessária para vencer de novo, provavelmente em nova disputa acirrada, como a de quatro anos atrás.

O fundador do Ideia, Maurício Moura, observa que a pergunta na cabeça da população neste momento é se Lula merece continuar na Presidência. Ao responder diretamente a esse questionamento, 51% dizem que não, de acordo com a última pesquisa do instituto para o Meio.

Mas o que explica, então, que o petista lidere todos os cenários de primeiro e segundo turno? A falta de clareza quanto a quem será o adversário do lulismo em outubro parece garantir a Lula a dianteira, que ele vem procurando aproveitar usando todas as oportunidades possíveis para desfilar o que acredita serem as marcas da atual gestão capazes de carimbar seu passaporte para mais um mandato.

Até a abertura do ano judiciário foi palco para o presidente falar de reforma do Imposto de Renda (IR), de pleno emprego, da saída do Brasil do Mapa da Fome, da operação Carbono Oculto (olha a segurança pública aí...) e do novo produto em sua gôndola, o combate à violência contra a mulher, tentativa inteligente de se reconectar com o eleitorado feminino, fundamental para a vitória sobre Jair Bolsonaro em 2022.

O governo acredita que a economia funcionará, quando a campanha começar para valer, como trunfo, e não revés. Isso a despeito dos dados que mostram o aumento do peso da dívida sobre o PIB e a fragilidade do arcabouço fiscal e de as mesmas pesquisas apontarem avaliação negativa nessa seara.

Lula se vale não só da isenção do IR para quem recebe até R$ 5 mil, mas também da resiliência diante do tarifaço, do pleno emprego, de medidas que aliviaram o peso de energia e gás de cozinha para os mais pobres e de sua entrada tardia na defesa da redução da jornada de trabalho e na tentativa (ainda sem sucesso) de dialogar com os trabalhadores de aplicativos. São essas bandeiras que Sidônio Palmeira tem tratado de embalar de forma atraente na propaganda oficial, que deu uma guinada em termos de qualidade e eficiência desde a troca na comunicação.

A largada na frente, enquanto a oposição procura o próprio rabo desde que Jair Bolsonaro foi preso, é o tempo que os aliados do presidente julgam ser necessário para reverter a impressão das pesquisas de que ele já deu o que tinha que dar. Não se trata de trabalho fácil diante do cansaço natural da imagem de alguém que está há tanto tempo na estrada e enfrentou ao longo de duas décadas, desde a primeira vez que chegou ao Planalto, vários casos de corrupção, uma prisão e o impeachment de sua pupila.

Mas Lula entendeu cedo que precisa ter discurso também para o antipetismo que se cristalizou nesses episódios e é um dos seus flancos mais frágeis, com a segurança pública. Na entrevista que concedeu à jornalista Daniela Lima, do portal UOL, não se furtou a responder sobre os escândalos do Banco Master e do INSS. Ele parece concordar com os analistas que acreditam ser difícil furar a polarização já dada. Nesse cenário, tem de atrair novamente o contingente que lhe deu a vitória sobre Bolsonaro, mas está insatisfeito com seu governo.

Parece estar guardando munição para atingir Flávio, mais frágil e com menos fã-clube que o pai, apenas na hora certa, quando for tarde para trocá-lo por um candidato mais palatável ao centro.

— A pergunta que mais respondo fora do Brasil é: “Por que a oposição não quer ganhar as eleições?” — diz Maurício Moura.

A explicação parece clara: Bolsonaro levou a direita para a prisão consigo. Lula agradece.

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O ACESSO RELÂMPAGO

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Chama a atenção a facilidade com que Vorcaro chegou também ao mais alto cargo do Executivo

As datas não são precisas, mas impressiona a velocidade com que o banqueiro Daniel Vorcaro conseguiu acesso ao gabinete do presidente da República.

Em novembro de 2024, Vorcaro foi chamado ao Banco Central para assinar um “termo de comparecimento”. Conforme revelado pelo Estadão, era uma espécie de alerta que dava a ele 180 dias para resolver os problemas de liquidez do Master.

Em dezembro daquele ano, portanto, cerca de um mês depois, ele chegava ao Planalto para uma reunião com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Um en controque não constava na agenda oficial, marcado pelo ex-ministro Guido Mantega. Lula diz que chamou para a reunião o chefe da Casa Civil, Rui Costa, e, naquela época, o quase presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo.

Conforme apurou a coluna, quando Galípolo chegou à sala, os outros já estavam sentados e conversando. Ele estava ali a pedido de Lula para esclarecer as dúvidas do presidente.

No fim de 2024, o mercado já sabia do carrossel financeiro do Master, que vendia papéis de alto risco contando com a cobertura do Fundo Garantidor de Crédito, e havia alertado o BC. O que ninguém imaginava é que a autoridade monetária estava nos calcanhares de Vorcaro.

Lula disse em entrevista ao portal UOL que Vorcaro afirmou no encontro que era “vítima de perseguição” dos concorrentes. O presidente afirmou ter garantido ao banqueiro que não haveria “posição política pró ou contra o Master, mas uma investigação técnica”.

Operadores políticos experientes “leram” a cena para a coluna. Vorcaro chegou ao Planalto graças a padrinhos políticos fortes. Oficialmente teria sido Mantega, mas é conhecida a relação de seus sócios com o PT da Bahia.

Tentou, portanto, chegar ao chefe para ameaçar o subordinado. Lula chamou Galípolo e, a se confirmar o relato do presidente sobre o encontro, o respaldou. Não há notícias de interferências do governo federal contra ou a favor da liquidação do Master.

Era conhecida a influência de Vorcaro junto ao Centrão, que montou uma “bancada” a seu favor, que tenta até agora barrar qualquer iniciativa mais concreta de investigação no Congresso. A imprensa revelou ainda os tentáculos do banqueiro no Judiciário. A facilidade com que ele chegou também ao mais alto cargo do Executivo é de assustar. •

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UMA INVEJA DANADA

José Sarney, Correio Braziliense

Na nossa geração da política disputada na internet, a inveja encontrou um terreno fértil. Ideias, à essa altura, levam desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam.

Inveja é coisa feia. E esse pecado mortal — Santo Agostinho dizia que é o pecado do diabo por excelência —, que é o desejo de ter o que outro tem, anda de mãos dadas com a avareza, que é o desejo de ter tudo. 

Muita gente tem inveja dos relógios, carros e fortuna dos outros. Eu, de minha parte, nunca tive. 

Na nossa geração da política disputada na internet, a inveja encontrou um terreno fértil: já que todos se expõem e mostram o que têm, o invejoso quer ter o que o outro tem, sejam votos, acessos, "likes" e, naturalmente, o sucesso e o dinheiro que andam juntos. Ideias, à essa altura, levam desvantagem, e a política se empobrece, embora os políticos enriqueçam. 

Não é que a inveja não estivesse na política há muito tempo, desde sempre as disputas tiveram em grande parte a inveja como motivo. Os vitoriosos políticos, no mais das vezes, tinham um episódio de violência ou de envenenamento no seu sucesso, que resultava, naturalmente, em eles assumirem o que era do outro. Esse é um campo em que o Império Romano dá show: quando, por exceção, Marco Aurélio foi sucedido por seu filho Cômodo, as coisas foram muito piores do que com a costumeira adoção do sobrevivente entre os vários candidatos.

Na frente do invejoso se colocam algumas opções, e vale selecionar todas: a avareza, como lembrei, o narcisismo, o egocentrismo. O primeiro objeto de exposição é uma moeda com sua cara, e se as com a cara de Augusto são multidão nas coleções numismáticas, o futuro dirá quantas moedas mostrarão o topete do Trump, que já providenciou a sua. Mas o imperador deixou também uma multidão de bustos e esculturas de corpo inteiro — é surpreendente que ele, que fizera César deus para poder se dizer divi filius, não tenha providenciado para que sobrevivesse pelo menos uma escultura do pai adotivo. 

Os artistas eram cooptados como os maiores divulgadores das belas (ai de quem quisesse ser realista) imagens dos poderosos. Estão aí as centenas de quadros de Napoleão, mão no casaco, que não nos deixam esquecer que ele também foi imperador. Depois, com o advento das massas e da fotografia, foram os retratos de seus heróis que desfilaram: Lênin, Stalin, Hitler, Mussolini, Hirohito, o Xá, Khomeini, Saddam Hussein e todos os que acreditam na autocracia, de um canto do mundo a outro. Outra variante é ter seu nome nas coisas, como o Trump, com inveja do Kennedy, fez com o Kennedy Center, que ele resolveu fechar porque os artistas não querem se apresentar no Donald J. Trump — John F. Kennedy Center for the Performing Arts.

Se o narcisismo é estampado, o egocentrismo leva também a achar que são os maiores. Um sapato com solado especial é um bom remédio para a altura, mas outros predicados são mais difíceis de enganar, de modo que o jeito é dizer que tem o maior tudo: bomba, prédio, depósito bancário, descaramento e por aí vai. Enquanto planejava restaurar o território russo ao esplendor do império soviético, o Vladimir Putin, há uns tempos, resolveu o problema colocando uma mesa em que se sentava à cabeceira e o interlocutor, do outro lado, tinha que usar um binóculo para vê-lo e um sistema de autofalantes e microfones para conversar, era humilhante. Esse truque, aliás, sempre foi usado, se sucedendo os estrados que mostravam a importância do mandão — ou até de autoridades regularmente eleitas, como os papas, que usavam até a sedes gestatoria nos ombros dos acólitos, até a época do Concílio Vaticano II, quando passaram a usar papamóvel. 

O Trump — que faz questão de que estejamos todos a falar dele, mesmo mal — tem duas manias, uma decorativa, outra arquitetônica. Nada de novo. O Franco, por inveja de Felipe II, que fizera o extraordinário Escorial, fez junto dele, no Valle de Cuelgamuros, que ele chamava de Valle de los Caídos, o horripilante memorial aos seus mortos na guerra civil, com o requinte de ser construído pelos presos políticos. O autocrata americano, além de encher de dourado o Salão Oval, diz ele que é seu Versailles, isto é, inveja do Roi-Soleil, Luís XIV, derrubou a East Wing da Casa Branca para lá fazer uma sala de baile tamanho família e, agora, quer fazer também o "Arc of Trump" diante do Lincoln Memorial, do outro lado do Rio Potomac; o detalhe é que tem que ser o maior do mundo, duas vezes e meio o Arco do Triunfo, por inveja de Napoleão!

Há inveja para todos os gostos!

*José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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DIA A DIA NA PAPUDINHA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

À falta de secretária, Bolsonaro deve ter uma agenda para organizar as reuniões diárias

Suas instalações são melhores que as de 99,9% da população carcerária. A quem cabe o 0,1%?

Meus fiéis leitores bolsonaristas não se conformam —quando escrevo sobre qualquer assunto que não Bolsonaro, eles se queixam. E com razão. Por razões sanitárias, só falo de Bolsonaro uma vez por semana e, mesmo assim, nem toda semana. Com isso, às vezes passo em branco sobre assuntos a seu respeito que mereceriam atenção. Omiti-me, por exemplo, há algumas semanas, quando Bolsonaro foi transferido para a Papudinha.

Ao ler no noticiário sobre suas novas e amplas acomodações —sala, quarto, cozinha, banheiro com box, área externa e lavanderia—, algo me chamou a atenção. Os cinco primeiros itens me pareceram razoáveis. Afinal, Bolsonaro precisa de uma sala para receber sua legião de visitas diárias: mulher, filhos, advogados, bispos, cúmplices. À falta de uma secretária, imagino que disponha de uma agenda para organizar suas reuniões. Nada também contra um fogão para fritar bolinhos, área para banho de sol etc. Mas por que uma lavanderia?

Terá Bolsonaro de lavar pessoalmente suas ceroulas, meias e cuecas? A Papudinha não disporá de encarregados desse serviço, tendo em conta inclusive a dignidade do ex-cargo do condenado? Nenhuma das reportagens me esclareceu. Se for assim, espero que, ao vê-lo dirigir-se ao tanque, munido de escovão e sabão de coco, os guardas lhe forneçam pelo menos um avental.

Relatório enviado há dias ao STF pela PM do DF informou que, na semana passada, Bolsonaro teve assistência religiosa a cargo de um deputado-pastor, fez cinco sessões de fisioterapia, leu zero livros e recebeu quatro médicos —imagino que um para lhe tirar a temperatura; outro, a pressão; o terceiro para mandá-lo dizer "33"; e o último para receitar-lhe um copo d’água para soluços. Tanta assistência médica torna inexplicável sua campanha para voltar à prisão domiciliar —em casa, teria tantos médicos à disposição?

Como já se disse, a Papudinha fornece a Bolsonaro instalações melhores do que a de 99,9% da população carcerária brasileira. Eu gostaria de saber a quem cabe o 0,1% restante.

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CONGRESSO PÕE LULA NUM DILEMA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Quando os penduricalhos chegarem à sua mesa, presidente terá escolha difícil entre vetar ou sancionar

Mais difícil será explicar o que faziam o PT e companhia no acordo de privilégios que o governo diz ignorar

presidente da República tem pela frente uma escolha difícil. Quando o pacote de privilégios aprovado no Congresso Nacional chegar à sua mesa para sanção ou veto, ele precisará decidir entre se indispor com o Legislativo, além de boa parte do funcionalismo, e ficar mal na foto eleitoral.

A dificuldade maior nem é essa. Antes disso, será necessário explicar a presença do PT e companhia no acordo que viabilizou uma votação simbólica —sem a identificação do voto— de surpresa, no meio da tarde do segundo dia do novo ano legislativo, e que, entre outras desigualdades, cria penduricalhos salariais e institui a escala 3x1 de trabalho para uma casta de servidores públicos.

Isso enquanto Executivo e Legislativo fazem cara de paisagem à tramitação de uma proposta de reforma administrativa que busca conter privilégios, o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, defende o fim dos supersalários e o governo faz da escala de cinco dias de trabalho por dois de folga para o setor privado uma bandeira de campanha.

Francamente, Luiz Inácio da Silva (PT) estará diante de um dilema e tanto. Ou bem sanciona a manobra de privilégios, jogando fora o discurso da justiça social, ou veta a pilantragem e quebra o acordo de boa vizinhança que incluiu a oferenda de um instituto federal de educação na cidade de Patos (PB), administrada pelo pai do presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos).

Será uma boa oportunidade para Lula desvendar ao público o real significado do slogan "Congresso inimigo do povo". Até lá, fica a seguinte impressão: o dito serve para afetar antagonismo nos palanques e exortar as plateias a escolher parlamentares fiéis ao governo. Mas não é para ser levado a sério quando o pragmatismo manda que se alimentem as boquinhas.

Seja qual for a saída encontrada por Lula, uma coisa é certa: nem ele nem os presidentes da Câmara dos Deputados e do Senado deram a menor pelota ao que ouviram no dia anterior do presidente do Supremo Tribunal Federal, Edson Fachin, sobre a urgência da autocorreção dos Poderes. Não entenderam nada.

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quinta-feira, 5 de fevereiro de 2026

NÃO EXISTEM MOCINHOS NO CASO MASTER

Julia Duailibi, O Globo

Era muita gente pedindo pelo banco. Vorcaro criou uma rede de contatos considerável

O salvador da pátria é figura valorizada no imaginário brasileiro, mas, no caso envolvendo o Master, está difícil encontrar alguém que se encaixe no papel. O avanço das investigações aponta para, na melhor das hipóteses, um misto de omissão e incompetência, em meio a uma estrutura normativa falha. Na pior, a atuação em defesa de interesses privados, os de Vorcaro. Como o mundo é complexo, e não existem heróis na política (engana-se quem acha que este é um caso só técnico), o final da novela deverá apontar para uma combinação das duas hipóteses.

Sob as barbas das autoridades fiscalizadoras, Vorcaro teceu negócios com base em, entre outras engenharias, precatórios lançados com valores acima dos praticados no mercado e empréstimos suspeitos que alimentavam fundos em looping. A partir de 2023, com o Banco Central (BC) sob Campos Neto, as operações suspeitas passam a despertar rejeição dos operadores mais prudentes — ou mais bem informados.

O BC, no entanto, tocou a bola de lado. Em outubro de 2023, diante das reclamações de outros bancos, editou a resolução 346, que impunha regras para diminuir a exposição a precatórios, uma das operações mais suspeitas do Master. Mas havia um senão:

— O tratamento previsto neste artigo não se aplica aos precatórios expedidos (...) até a data-base de 30 de junho de 2023.

A regra não valia para trás. Foi um baita fôlego para o Master. A farra dos CDBs também correu solta até quase o Natal de 2023, quando a resolução 5.114 do Conselho Monetário Nacional limitou ao patrimônio líquido do banco emissões com garantias do Fundo Garantidor de Créditos (FGC).

Os olhares mais atentos já viam problemas de solvência — não só de liquidez — desde 2024. Mas somente em novembro Vorcaro foi chamado no BC para apresentar um plano de sobrevivência, segundo Alex Ribeiro, do Valor Econômico. Àquela altura, o Master apresentava também falhas no recolhimento dos compulsórios e, meses depois, já em 2025, os bilhões declarados em créditos repassados ao BRB já exalavam cheiro ruim. Apesar da situação insustentável, o BC ainda autorizou, em junho de 2025, a transferência do controle do Banco Voiter, de Vorcaro, ao empresário baiano e ex-sócio Augusto Lima, também alvo da Polícia Federal (PF). Com a decisão, na prática, um ativo do Master saiu protegido de uma eventual liquidação. Em setembro, diante de todo esse cenário, o BC vetou a venda do Master ao BRB, apesar da posição contrária do diretor de fiscalização.

Se mercado, BC, FGC, Ministério Público e PF já sabiam, por que o BC esperou até novembro, quando veio a operação da PF que prendeu Vorcaro, para liquidar o banco? Os defensores da demora alegam que a liquidação seria traumática, que se buscava uma solução de mercado e que havia preocupação com o FGC.

A variável política pode explicar a demora do BC, que estava sob pressão. Era muita gente pedindo pelo Master. Vorcaro criou uma rede de contatos considerável. Do Congresso ao STF, passando pela Bahia e aportando no Planalto. Lula o recebeu quando Galípolo era diretor do BC. A liquidação ocorreu apenas depois de Vorcaro parar nas páginas policiais. Tanto que, a partir daí, o presidente do BC pediu investigação interna para saber se houve omissão na fiscalização. Não dava mais para o BC tocar a bola de lado.

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MASTER: EM BRASÍLIA, O CARNAVAL É A SENHA DO ACORDÃO

Malu Gaspar, O Globo

A volta das férias do Legislativo nesta semana foi assombrada pela fraude do Banco Master. Nos corredores e gabinetes, a maior parte das conversas era sobre como abafar o caso e impedir a instalação de comissões de inquérito. São quatro os pedidos só na Câmara dos Deputados. Mas, da esquerda à extrema direita, quase todo mundo tem motivo para querer evitar uma investigação sobre os esquemas de Daniel Vorcaro. Nos tempos áureos, dizia-se que a bancada do Master era maior que a de muitos partidos, sem contar que vários de seus integrantes ainda tinham poder para arrastar os votos de outros, como Ciro Nogueira, do PP, ou Antonio Rueda, do União Brasil.

O networking de Vorcaro e seu sócio Augusto Lima também alcançava o Supremo Tribunal Federal (STF), governos estaduais de variadas linhas ideológicas, a Esplanada dos Ministérios e o Palácio do Planalto. Toda essa gente passou os últimos dias em confabulações sobre como trocar as meias sem tirar o sapato, evitando a instalação de uma CPI sem ter de arcar com o desgaste diante da sociedade.

Hugo Motta (Republicanos-PB) saiu-se com um argumento burocrático. Disse que tinha de respeitar a fila de cerca de 15 pedidos de CPI e que, portanto, os deputados teriam de decidir sobre as outras antes de pensar em abrir a do Master.

“A Câmara tem de obedecer a essa ordem cronológica e tem de obedecer regimentalmente ao funcionamento de cinco CPIs ao mesmo tempo”, declarou.

Balela. O regimento realmente estabelece o limite de cinco comissões ao mesmo tempo, e a questão do respeito à fila vem de uma resposta a uma questão de ordem dada há mais de 20 anos pelo presidente da Câmara de então. Depois disso, em 2021, o próprio STF, ao ordenar a instalação da CPI da Covid, decidiu que, para criar CPIs, é preciso “unicamente” preencher três critérios: reunir o mínimo de assinaturas necessárias, haver um fato determinado e prazo de duração. E nada mais. Quando quer, Motta dá seu jeito, até porque sempre tem um artigo do regimento ou uma jurisprudência a que se possa recorrer.

O presidente do Senado Federal adotou postura mais discreta e malandra, como é do seu estilo. Ele mesmo um dos personagens enrolados com o Master, em razão dos R$ 400 milhões que o fundo de pensão do Amapá enterrou em letras financeiras do banco, Davi Alcolumbre (União-AP) repetiu várias vezes a mesma resposta a quem lhe pediu que liberasse uma investigação sobre o Master: “Vamos deixar isso para depois do carnaval”.

Deixar para depois do carnaval virou mantra. A própria defesa de Vorcaro recorreu ao expediente para ganhar tempo e ver se, até o final da folia, se produz um acordão.

Conseguiu, numa triangulação com o ministro Dias Toffoli — outro enrolado com o Master até a tampa —, adiar para o final do mês o depoimento à CPI do INSS que tinha sido marcado para hoje. Nos bastidores, Toffoli e Alexandre de Moraes, o melhor amigo de Vorcaro no Supremo, também mexeram seus pauzinhos, mandando recados aos parlamentares que porventura estejam interessados em aprovar uma CPI.

Toda essa movimentação mostra que o bloco do Master está afiado e bem ensaiado, mas não é garantia absoluta de vitória. Ainda estão por ser discutidos no Senado mais de dez requerimentos propostos pelo senador Alessandro Vieira (MDB-SE) noutra CPI em andamento, a do crime organizado.

Os pedidos são ousados — incluem convocar para depor Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre e dona de um contrato de R$ 130 milhões com o Master, e quebrar o sigilo bancário de seus escritórios de advocacia —, mas a votação é aberta. Acaba de ser criado, ainda, um grupo de trabalho liderado pelo senador Renan Calheiros (MDB-AL) que não tem poder de CPI, mas pode ajudar a manter o caso vivo até depois do carnaval.

Além disso, os inquéritos da PF continuam, assim como a auditoria do Banco Central sobre quem falhou no caso do Master. Nada impede que algum fato novo reedite o roteiro da CPI do 8 de Janeiro. Nem o governo Lula queria a comissão, temendo que contaminasse as eleições municipais, mas ela acabou se tornando inevitável depois que revelações sobre possíveis omissões do Planalto nos fatos daquele dia atraíram o interesse do bolsonarismo.

Em Brasília, o acordão é a regra, mas o imponderável por vezes se impõe, e nesse caso do Master os imponderáveis têm se multiplicado. Enquanto os blocos desfilam, as engrenagens do escândalo se movimentam. A ressaca pós-carnaval é certa, mas ainda não dá para cravar com segurança que cabeças vão doer.

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