segunda-feira, 31 de agosto de 2026

GOIÁS, O ESTADO QUE MAIS REFINA COCAÍNA NO PAÍS

Cecília Olliveira, The Intercept

Caiado quer levar ao Brasil o modelo em segurança de Goiás, o estado que mais refina cocaína no país

Estado lidera o refino da droga no país e integra rota controlada pelo PCC enquanto Ronaldo Caiado, do PSD, vende sua gestão como modelo de segurança pública.

“Um paciente foi atropelado por um ônibus. Quais são os pontos que você vai priorizar? Poxa, cara, eu nem examinei o doente. Calma”. Foi essa a resposta de Ronaldo Caiado quando César Tralli e Renata Vasconcellos, na sabatina do Jornal Nacional desta terça-feira, pediram detalhes sobre o que faria na Previdência.

Foi também a estratégia que ele repetiu ao longo de toda a entrevista: reclamou dos jornalistas dizendo que “não estamos aqui em uma mesa examinadora”, interrompeu, fugiu das perguntas objetivas e delegou os detalhes a “melhores cabeças do Brasil” que ainda não nomeou.

A ironia é que o candidato do PSD à Presidência da República se apresenta há meses como alguém que já examinou o doente e traz o remédio pronto. O nome do remédio é Goiás.

E Goiás é o estado que mais concentra laboratórios de cocaína no Brasil. São 81 estruturas identificadas entre janeiro de 2019 e julho de 2025, mais do que o dobro do segundo colocado, o Amazonas, com 39.

O dado é do relatório Floresta em Pó, publicado em outubro de 2025 pelo Instituto Fogo Cruzado em parceria com outras organizações. O estudo mapeou 550 laboratórios no país e mostra uma virada: o Brasil deixou de ser apenas rota de passagem da cocaína para se tornar um dos principais lugares onde a droga é refinada, movimentando cerca de US$ 6 bilhões por ano.

Goiás está no centro dessa nova geografia. O estado concentra 44 laboratórios de alta capacidade produtiva e integra a chamada Rota Caipira, sob domínio do PCC, que controla as fronteiras com o Paraguai e a Bolívia.

‘Modelo que deu certo’

Nada disso apareceu na sabatina. Nada disso aparece nas convenções em que Caiado repete que “Goiás é o modelo que deu certo”, que “Goiás, hoje, é o estado que tem a maior segurança pública do Brasil” e que “bandido não se cria em Goiás”.

O plano de governo registrado no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, ratifica a mesma narrativa em linguagem institucional: “a experiência de Goiás mostra que esse cenário pode ser modificado”. O que a experiência de Goiás mostra, se examinarmos o doente, quer dizer, os dados, é outra coisa.

Um estado que ocupa esse lugar na cadeia internacional do tráfico não é modelo de segurança pública. É um hub logístico do narcotráfico.

E ninguém está fazendo  a pergunta que ele deveria  responder: se sua gestão foi tão bem-sucedida contra o crime organizado, por que Goiás lidera o refino de cocaína no país durante exatamente os seis anos em que ele governou?

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O plano de governo, tanto quanto a entrevista de terça, não oferece resposta. Oferece um catálogo de propostas que repete o repertório de sempre, que vai de redução da maioridade penal a uso das Forças Armadas contra facções.

Ele fala sobre enquadrar grupos armados como terroristas, incluindo milícias, mas não resolveu a  famosa “confraria da morte”, conjunto de policiais de Anápolis que assassinou um desafeto do governador e outras sete pessoas como queima de arquivo. A milícia se enquadraria na tal proposta?

Hub goiano do refino

Dentre as propostas no plano do candidato, nenhuma toca no elo que sustenta o hub goiano do refino: a arquitetura financeira que lava o dinheiro da cocaína, as rotas rodoviárias que atravessam o estado sem fiscalização efetiva, a infraestrutura rural que abriga os laboratórios.

Segurança pública contra o crime organizado se faz com inteligência financeira, controle integrado de fronteiras, cooperação internacional efetiva, desarticulação patrimonial das lideranças e políticas de redução de danos que retirem o mercado consumidor das mãos das facções. Nada disso está no centro da proposta de Caiado.

O centro da proposta é uma lei de terrorismo doméstico com regime prisional próprio para facções, enquanto o mesmo candidato promete anistia “ampla, geral e irrestrita” aos condenados pelo 8 de Janeiro. Rigor máximo para uns crimes, perdão total para outros. Que combate ao crime é esse?

Quando questionado, Caiado responde que não examinou o doente. Quando não é questionado, apresenta o remédio. E o remédio é o estado que virou plataforma de exportação de cocaína durante os seis anos em que ele foi médico responsável.

Esse é o exemplo que Caiado quer levar ao Brasil.
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MORRE CARLOS MONFORTE

Do g1 DF

Jornalista Carlos Monforte morre aos 77 anos

Monforte começou na Globo como repórter local, e passou por telejornais como Jornal da Globo e Bom Dia São Paulo, além da GloboNews.

O jornalista Carlos Monforte morreu, nesta segunda-feira (31), aos 77 anos. A informação foi confirmada à TV Globo pela família do jornalista, que fazia tratamento contra um câncer. O velório acontece nesta terça-feira (1º) em Brasília.

Formado pela Faculdade de Comunicação de Santos em 1972, Carlos Américo Aguiar Monforte passou pelos jornais A Tribuna, de Santos, e Estado de São Paulo.

O jornalista começou a trabalhar na Globo em 1978. Foi contratado como repórter local, mas logo começou a produzir reportagens para o Jornal Nacional e para o Fantástico.

Na época, participou de coberturas importantes como as greves de metalúrgicos no ABC Paulista. Em 1982, ele assumiu a editoria de política do Jornal da Globo. No mesmo ano, virou editor e apresentador do Bom Dia São Paulo.

Com a criação do Bom Dia Brasil, em janeiro de 1983, Carlos Monforte assumiu o cargo de editor-chefe e apresentador do programa. Monforte esteve à frente do telejornal por nove anos.

Em 1998, Monforte atuou no Espaço Aberto, da GloboNews. No final de 2000, assumiu o cargo de coordenador da GloboNews em Brasília e foi apresentador do Jornal das Dez da capital federal.

O jornalista deixou a Globo em 2016.

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DIVERSIDADE PERDE FORÇA NO MUNDO CORPORATIVO

Preto Zezé, O Globo

Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela

A ideia de diversidade dos defensores da causa entrou numa encruzilhada. Empresa não existe para fazer justiça, mas para dar lucro, e convicção moral é terreno que nunca foi dela. Não é acusação, é constatação. Nos conselhos de empresas e marcas de que participo, sempre busquei outro caminho: diversidade na prateleira do investimento. E, se render, parte do lucro volta para reinvestir.

Em 2025, 53% das companhias do S&P 100, as cem maiores da Bolsa americana, mudaram a forma de registrar a diversidade nos relatórios. Poucas encerraram as ações. Levaram a supervisão para a governança e baixaram a visibilidade quando virou custo político. Ninguém tira do relatório o que dá lucro.

A Parada do Orgulho de São Paulo foi de 11 patrocinadores em 2025 para quatro na edição de 30 anos. A Marcha do Orgulho Trans não aconteceu, por falta de patrocínio. O primeiro corte caiu sobre quem tem menos poder de barganha.

Sempre achei frágil o discurso da diversidade e fui mal compreendido por isso. Ou talvez atrapalhasse a venda da narrativa. A palavra virou pacote: mulher, pessoa preta, pessoa com deficiência, pessoa LGBTQIA+, periferia, como se fosse uma experiência só. Não é. Cada trajetória tem demanda, obstáculo e solução próprios. Empacotar não é ofensa, é reflexo da imprecisão. Na vida social das causas, isso é fácil de administrar. Numa empresa, imprecisão na gestão custa caro.

No setor público e no privado, causa não pode virar departamento. Este serve para pontuar: a nota da empresa, a posição na Bolsa, o mercado internacional. No público, a boa foto para o gestor e o cargo no conselho para o representante. A causa se perde em representatividade sem força política, decorativa e sazonal, sem perenidade na cultura corporativa nem continuidade no ambiente estatal. Nada obriga o processo a chegar a salário, promoção, orçamento, contrato e sociedade.

Se é para funcionar na lógica do negócio, que entremos no plano de negócio. Se dou audiência, quero parte da receita. Da mesma forma, se aumento o consumo e se atraio investimento, quero parte da receita. Se elejo mandato, quero poder político e caneta com orçamento. Quero ser contratado como serviço e contabilizado como investimento. E, se o discurso político que cita nossas causas for sério, que apareça na divisão dos fundos eleitorais e nos cargos de gestão. Se garanto receita, quero parte do lucro para reinvestir. Repito: não sou gasto. Sou investimento.

A marca faz campanha com corpo preto e da favela, mas contrata a produtora de sempre e paga ao criador menos que ao influenciador de bairro nobre de mesmo alcance. A favela é locação, não fornecedora. Coadjuvante da própria história.

O valor é gerado num lugar e realizado noutro. Na economia criativa, setor que mais vende a própria pluralidade, pessoas negras são 42% da força de trabalho, ante 55% do mercado nacional, e ali homem branco ganha R$ 7,1 mil, mulher preta R$ 2,2 mil. A renda não acompanhou o trabalho.

O máximo que ocorre é uma onda George Floyd, e todo mundo vira antirracista até ela passar ou até a próxima tragédia. Talvez seja hora de dizer bye bye. Não para a diversidade, fato da vida brasileira, mas para a palavra que junta gente diferente numa caixa só e para a caixa que só serve de nota em planilha. Fica o que muda quem decide, quem fornece, quem lucra, quem governa e quem reinveste. A diversidade não precisa estar na moda, e sim no plano de negócio e no orçamento.

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AJUSTE EXIGE RECONSTRUIR ARQUITETURA FISCAL DO PAÍS

Sergio Lamucci, Valor Econômico

O problema já não é apenas produzir um resultado primário melhor, mas limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos parafiscais, baixar o prêmio de risco e devolver eficácia à política monetária

A situação das contas públicas do Brasil exige uma mudança significativa na política fiscal a partir de 2027, num ambiente econômico e político extremamente complexo. Há resistência a novos aumentos de impostos, o cenário externo é mais adverso, com juros globais mais altos, e as taxas internas na casa de 10% acima da inflação elevam os gastos financeiros do setor público e prejudicam famílias e empresas endividadas. O ajuste precisa ser amplo, focado nos gastos e liderado pelo Executivo, mas tem de contar com o Congresso e com o Judiciário. Visto de hoje, porém, parece improvável que uma agenda fiscal ambiciosa seja adotada pelo próximo presidente.

“O problema brasileiro já não é apenas produzir um resultado primário melhor, mas sim reconstruir uma arquitetura fiscal capaz de limitar o crescimento automático do gasto, reduzir os estímulos parafiscais [que não passam pelo Orçamento], baixar o prêmio de risco e devolver eficácia à política monetária”, resume estudo da ARX Investimentos, elaborado pelo economista-chefe da gestora, Gabriel Leal de Barros, com Cléo Olimpio, Matheus Caliano e Eric Fernandes. O resultado primário não inclui gastos com juros.

“A carga tributária foi recomposta em aproximadamente 2 pontos do PIB, a dívida bruta se aproxima de 85% do PIB, o déficit nominal [que inclui gastos com juros] é de dois dígitos e o juro global é estruturalmente mais alto”, dizem eles. “A estratégia de ajuste apoiada em receita chegou perto de seu limite econômico e político.”

A sustentabilidade das contas públicas, observam os economistas da ARX, “é gravemente afetada pela mecânica dos juros nominais sobre o estoque da dívida pública”. Nos 12 meses até junho, os gastos com juros do setor público alcançaram R$ 1,160 trilhão, ou 8,8% do PIB. A fotografia fiscal, segundo o estudo, não é nada bonita, por combinar estoque, fluxo e preço desfavoráveis.

“Em junho de 2026, a dívida bruta alcançou 81,9% do PIB, o déficit primário acumulado em 12 meses ficou em 1,2% do PIB, a despesa nominal de juros atingiu 8,8% do PIB e o déficit nominal chegou a 10% do PIB. Nossas projeções apontam para uma dívida de 83,5% do PIB no fim deste ano. A dificuldade não está em um único indicador, mas na combinação de déficit primário, juro elevado e dívida crescente.”

A composição do ajuste é essencial. “Medidas de receita melhoram o caixa rapidamente e podem ajudar na transição, mas seu efeito sobre o juro estrutural é limitado quando o mercado entende que o gasto obrigatório continuará crescendo acima do PIB potencial”, advertem eles. “Reformas fiscais que tratam de indexação, elegibilidade e progressões funcionais produzem economia mais lenta, porém mudam a inclinação da despesa. É essa alteração de trajetória, e não apenas o número do primeiro ano, que interessa à parte longa da curva de juros”, diz o estudo.

Na visão de Barros, o ideal seria um ajuste de 4 pontos percentuais do PIB do resultado primário até o fim do próximo mandato, passando de um déficit hoje na casa de 1% do PIB no acumulado em 12 meses para um superávit de 3% do PIB em 2030. “O ajuste integral é o único caminho de mudança de regime”, avalia ele, o que requer reforma administrativa, desindexar benefícios previdenciários e assistenciais do salário mínimo, desatrelar gastos de saúde e educação da receita, integrar benefícios sociais, rever incentivos fiscais e retirar estímulos parafiscais, como a expansão do crédito por bancos públicos e a utilização de fundos estatais. “O custo inicial é atividade mais fraca; o benefício é reduzir simultaneamente o primário necessário [para estabilizar e reduzir a dívida], o juro real e o risco de inflação. Apenas nesse cenário, fiscal e monetário operam em harmonia”, afirma o estudo.

O relatório vê como possíveis outros quatro cenários: o ajuste precário, o insuficiente, o quadro sem consolidação e o de ruptura. “O cenário-base é o ajuste insuficiente; o melhor caso plausível é o ajuste precário”, avaliam os economistas da ARX. “A política tende a produzir medidas graduais, negociadas e permeadas por exceções. Reformas de gasto obrigatório enfrentam grupos organizados e exigem convicção e capital político elevado”, diz o estudo. “Já medidas de receita ou contenções temporárias de gasto oferecem resultado imediato e menor conflito distributivo aparente. Essa assimetria política explica por que o cenário economicamente desejável não é o mais provável.” No caso do ajuste precário, a melhora do resultado primário seria de 2 a 2,5 pontos do PIB; no insuficiente, de 0,8 a 1,5 ponto do PIB.

Ex-diretor da Instituição Fiscal Independente (IFI), Barros diz que o ajuste integral é improvável pelas condições da economia política corrente. “Além do desarranjo econômico, é imperativo resgatar a efetiva harmonia entre os Poderes e o fim de privilégios, o que legitimaria a adoção de medidas duras junto à sociedade; e, adicionalmente, há a imoralidade que muitas situações representam, notadamente o descumprimento constitucional do teto remuneratório do serviço público”, afirma Barros.

“Sem o enfrentamento rigoroso dos gastos obrigatórios e a contenção dos mecanismos parafiscais, o país corre o risco de ingressar na dominância fiscal, reduzindo significativamente a capacidade da taxa Selic de conter a inflação”, nota o estudo, referindo-se à situação em que o agravamento do desequilíbrio fiscal leva a um ponto em que elevar os juros faz os índices de preços subirem, em vez de caírem. Altas da Selic deterioram a situação fiscal, aumentando a aversão ao risco e pressionando o câmbio, o que alimenta a inflação. É um risco que pode ser evitado, mas requer uma resposta fiscal firme.

Para os economistas da ARX, há uma diferença entre dominância fiscal fraca e plena. “Na forma fraca, o BC mantém a taxa de juro necessária, mas enfrenta custo crescente e desinflação mais lenta. Na forma plena, a trajetória da dívida condiciona diretamente a decisão monetária: cortes ocorrem antes da reancoragem [das expectativas], medidas regulatórias tentam conter o custo financeiro e o ajuste migra para câmbio e inflação.” Mesmo a forma mais fraca, por óbvio, é altamente indesejável.

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QUANDO A ELEIÇÃO VAI ENGRENAR ?

Bruno Carazza, Valor Econômico

Só uma notícia bombástica ou a possibilidade de vitória em primeiro turno de um dos candidatos podem despertar o eleitor da apatia desta campanha

No sábado (29) começou o horário eleitoral gratuito no rádio e na TV dos candidatos à Presidência da República. Numa campanha que parece ter começado há meses, mas que ao mesmo tempo não engrenou, a propaganda eleitoral é o ato que faltava para sentirmos o clima de eleição. Será?

Além de atingir dezenas de milhões de pessoas que assistem à TV aberta e ouvem rádio, o horário eleitoral também serve para gerar conteúdo para as redes sociais dos candidatos. Mas, pelo visto, a repercussão continua limitada.

No dia da estreia, a equipe de Lula publicou no Instagram um corte anunciando a sua primeira inserção. Quase 24 horas depois, a postagem tinha alcançado apenas 8.500 encaminhamentos e 12.200 comentários. Publicada pouco tempo depois na mesma rede, uma foto de Flávio Bolsonaro segurando uma imagem do pai com a faixa presidencial tinha atingido 12,1 mil compartilhamentos e 7,4 mil manifestações escritas no post. São números baixos de interação para o total de seguidores desses políticos: 14,9 milhões do petista e 11,4 milhões no perfil do candidato do PL.

Em 30 de julho, Lula compareceu ao videocast Inteligência Ltda. para uma entrevista de duas horas. Até o momento, a publicação contabiliza 1,2 milhão de visualizações no YouTube. Uma semana depois, em 7 de agosto, Flávio Bolsonaro foi o convidado de outro programa de sucesso na rede, o Market Makers. Com o mesmo tempo de duração, a conversa registra 239 mil views.

Há quatro anos, Lula e Jair Bolsonaro protagonizaram uma intensa disputa nas redes sociais com alternância de recordes de políticos nesse tipo de programa. Segundo notícias da época, em dezembro de 2021 (bem antes, portanto, do início do pleito) Lula atingiu 292 mil acessos simultâneos ao aparecer no Podpah. Bolsonaro deu o troco no Flow, em 8 de agosto de 2022, nas vésperas do início oficial da corrida eleitoral: 550 mil pessoas acompanharam ao vivo uma entrevista que durou mais de cinco horas. No intervalo de 48 horas, quase dez milhões de interessados haviam acessado a íntegra da conversa no YouTube.

No auge do segundo turno e com a batalha dos videocasts instaurada, em 18 de outubro de 2022 o petista atraiu mais de um milhão de pessoas conectadas ao vivo no mesmo programa. Dois dias depois, Jair Bolsonaro mobilizou um público de 1,75 milhão de espectadores simultâneos na sua entrevista ao vivo no Inteligência Ltda.

A explicação para o aparente desinteresse na campanha eleitoral deste ano pode estar na cristalização dos polos lulista e bolsonarista entre os eleitores brasileiros. Está é a terceira ocasião em que Lula e Bolsonaro se encontram direta ou indiretamente nas urnas, e desta vez não há nenhuma opção à esquerda e aparentemente ninguém no pelotão de nanicos à direita tem chances de decolar.

De acordo com a última pesquisa Quaest, a intenção de voto em Lula no primeiro turno está no mesmo patamar de dezembro passado (39%). Ao longo de todo o ano, Lula oscilou entre um mínimo de 36% e um máximo de 40%.

Enquanto isso, Flávio Bolsonaro subiu de 23% em dezembro de 2025 para 30% atualmente; nesse percurso, o máximo que atingiu foi 33%. Os demais concorrentes, por sua vez, somaram entre 17% (dez/25) e 13% em agosto. Como as principais alternativas a Lula e Bolsonaro são de direita, as candidaturas anti-Lula contam com um teto que variou entre 40% e 46% das intenções de voto.

Entre os dois lados, os determinados a anular, votar em branco ou se abster caíram de 16% para 8% desde o fim de 2025. Já os indecisos subiram de 5% para 10%.

Há, portanto, uma parcela significativa de 18% do eleitorado que pode ser mobilizada para, inclusive, decidir a disputa no primeiro turno - e os dois lados têm chances de liquidar a fatura em 4 de outubro, como vêm alertando, há algum tempo, Cila Schulman e Maurício Moura do instituto de pesquisas Ideia.

A briga pelo “50% mais um” dos votos válidos que daria vitória a Lula ou a Flávio Bolsonaro já no primeiro turno depende i) da taxa de comparecimento às urnas, ii) da rejeição e medos que cada um desses nomes provoca no eleitor pendular e, finalmente, iii) da força do movimento a favor do voto útil, principalmente no campo da direita.

Logo, a campanha deste ano só vai esquentar à medida que a possibilidade de resolução da eleição em primeiro turno se tornar mais concreta. Mas isso dificilmente ocorrerá antes dos dias que antecederem a votação.

Até lá, seguiremos em compasso de espera. De um lado, Lula se esquiva de participar de debates para não virar o alvo único dos ataques do pelotão de adversários de direita. Enquanto isso, Flávio Bolsonaro também não quer se expor e ficar frente a frente com concorrentes que podem lhe roubar votos preciosos no seu próprio eleitorado.

A política brasileira, porém, sempre reserva fortes emoções para a reta final da votação. Neste ano em particular, com as investigações sobre o Banco Master de Daniel Vorcaro e a fraude do Careca do INSS correndo em paralelo, conteúdos explosivos ainda podem fazer esta campanha finalmente despertar o interesse dos brasileiros.

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SOCOS E CANIVETES EM SALA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A maioria dos professores brasileiros já sofreu violência física ou verbal no ambiente escolar

'Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida de nós?', pergunta uma das agredidas

Se quisermos fazer uma ideia do que espera o Brasil no futuro, basta perguntar aos professores do ensino público e particular. Ninguém como eles tem tantas informações de primeira mão —não raro, na forma de uma arma portada por aquela mão ou de um punho assestado contra o seu rosto. Eis alguns relatos recentes.

Em Planaltina (DF), um professor pediu a dois alunos de 17 anos que entregassem os celulares durante a aula. Os garotos se negaram e tiveram seus aparelhos recolhidos. Terminada a aula, seguiram o professor até o ponto de ônibus e o espancaram. Em Cuiabá, um professor idoso levou rasteiras e pescoções de dois alunos que se negavam a se sentar em seus lugares. Em João Pessoa, um professor foi agredido por um aluno com um martelo por ter-lhe dado nota baixa em um exame.

Em Curitiba, uma aluna investiu a palavrões, socos e pontapés contra uma pedagoga, provocando-lhe inchaços e cortes no rosto. A estudante foi contida e sua mãe se recusou a ir à escola para saber do ato da filha. Em Araçatuba (SP), um estudante com canivete tentou avançar sobre seus colegas. Foi desarmado pela segurança e suspenso por três dias. No dia seguinte, sua mãe foi ao colégio para forçar a diretora a aceitá-lo em sala. Como esta não cedesse, agarrou e bateu a cabeça da diretora contra uma janela.

Segundo pesquisa, 65,6% dos professores só do estado de São Paulo já sofreram violência física ou verbal no ambiente escolar. E no resto do país? Mesmo quem ainda não foi vítima fica tenso —sabe que pode ser o próximo. Professores de cidades pequenas têm medo de sair à rua e encontrar seus alunos.

Uma professora de São José dos Campos (SP) resumiu o terror da situação. Depois de sobreviver a anos de balbúrdia, desrespeito e xingamentos, um dia pediu água a um deles. O garoto lhe levou a água num copo contendo vidro quebrado. "Ninguém merece passar por isso", ela disse, chorando. "Nós cuidamos de quase o Brasil inteiro, mas quem cuida da gente? Quem cuida de quem cuida de nossas crianças?".

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A IMPORTÂNCIA DO VOTO

Artigo de Rachel de Queiroz

O artigo "Votar" de Rachel de Queiroz foi publicado na revista O Cruzeiro, em 11 de Janeiro de 1947, com o objetivo de alertar os eleitores de então, quanto a importância do voto, continua contemporâneo.

Não sei se vocês têm meditado como devem no funcionamento do complexo maquinismo político que se chama governo democrático, ou governo do povo. Em política a gente se desabitua de tomar as palavras no seu sentido imediato. No entanto, talvez não exista, mais do que esta, expressão nenhuma nas línguas vivas que deva ser tomada no seu sentido mais literal: governo do povo. Porque, numa democracia, o ato de votar representa o ato de FAZER O GOVERNO.

Pelo voto não se serve a um amigo, não se combate um inimigo, não se presta ato de obediência a um chefe, não se satisfaz uma simpatia. Pelo voto a gente escolhe, de maneira definitiva e irrecorrível, o indivíduo ou grupo de indivíduos que nos vão governar por determinado prazo de tempo.

Escolhem-se pelo voto aqueles que vão modificar as leis velhas e fazer leis novas - e quão profundamente nos interessa essa manufatura de leis! A lei nos pode dar e nos pode tirar tudo, até o ar que se respira e a luz que nos alumia, até os sete palmos de terra da derradeira moradia.

Escolhemos igualmente pelo voto aqueles que nos vão cobrar impostos e, pior ainda, aqueles que irão estipular a quantidade desses impostos. Vejam como é grave a escolha desses "cobradores". Uma vez lá em cima podem nos arrastar à penúria, nos chupar a última gota de sangue do corpo, nos arrancar o último vintém do bolso.

E, por falar em dinheiro, pelo voto escolhem-se não só aqueles que vão receber, guardar e gerir a fazenda pública, mas também se escolhem aqueles que vão "fabricar" o dinheiro. Esta é uma das missões mais delicadas que os votantes confiam aos seus escolhidos.

Pois, se a função emissora cai em mãos desonestas, é o mesmo que ficar o país entregue a uma quadrilha de falsários. Eles desandam a emitir sem conta nem limite, o dinheiro se multiplica tanto que vira papel sujo, e o que ontem valia mil, hoje não vale mais zero.

Não preciso explicar muito este capítulo, já que nós ainda nadamos em plena inflação e sabemos à custa da nossa fome o que é ter moedeiros falsos no poder.

Escolhem-se nas eleições aqueles que têm direito de demitir e nomear funcionários, e presidir a existência de todo o organismo burocrático. E, circunstância mais grave e digna de todo o interesse: dá-se aos representantes do povo que exercem o poder executivo o comando de todas as fôrças armadas: o exército, a marinha, a aviação, as polícias.

E assim, amigos, quando vocês forem levianamente levar um voto para o Sr. Fulaninho que lhes fez um favor, ou para o Sr. Sicrano que tem tanta vontade de ser governador, coitadinho, ou para Beltrano que é tão amável, parou o automóvel, lhes deu uma carona e depois solicitou o seu sufrágio - lembrem-se de que não vão proporcionar a esses sujeitos um simples emprego bem remunerado.

Vão lhes entregar um poder enorme e temeroso, vão fazê-los reis; vão lhes dar soldados para eles comandarem - e soldados são homens cuja principal virtude é a cega obediência às ordens dos chefes que lhe dá o povo. Votando, fazemos dos votados nossos representantes legítimos, passando-lhes procuração para agirem em nosso lugar, como se nós próprios fossem.

Entregamos a esses homens tanques, metralhadoras, canhões, granadas, aviões, submarinos, navios de guerra - e a flor da nossa mocidade, a eles presa por um juramento de fidelidade. E tudo isso pode se virar contra nós e nos destruir, como o monstro Frankenstein se virou contra o seu amo e criador.

Votem, irmãos, votem. Mas pensem bem antes. Votar não é assunto indiferente, é questão pessoal, e quanto! Escolham com calma, pesem e meçam os candidatos, com muito mais paciência e desconfiança do que se estivessem escolhendo uma noiva.

Porque, afinal, a mulher quando é ruim, dá-se uma surra, devolve-se ao pai, pede-se desquite. E o governo, quando é ruim, ele é que nos dá a surra, ele é que nos põe na rua, tira o último pedaço de pão da boca dos nossos filhos e nos faz apodrecer na cadeia. E quando a gente não se conforma, nos intitula de revoltoso e dá cabo de nós a ferro e fogo.

E agora um conselho final, que pode parecer um mau conselho, mas no fundo é muito honesto. Meu amigo e leitor, se você estiver comprometido a votar com alguém, se sofrer pressão de algum poderoso para sufragar este ou aquele candidato, não se preocupe. Não se prenda infantilmente a uma promessa arrancada à sua pobreza, à sua dependência ou à sua timidez. Lembre-se de que o voto é secreto.

Se o obrigam a prometer, prometa. Se tem medo de dizer não, diga sim. O crime não é seu, mas de quem tenta violar a sua livre escolha. Se, do lado de fora da seção eleitoral, você depende e tem medo, não se esqueça de que DENTRO DA CABINE INDEVASSÁVEL VOCÊ É UM HOMEM LIVRE. Falte com a palavra dada à fôrça, e escute apenas a sua consciência. Palavras o vento leva, mas a consciência não muda nunca, acompanha a gente até o inferno".

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O RISCO BOLSONARO 2.0 ?

Carlos Pereira, O Estado de S. Paulo

Legado institucional e multipartidarismo no Brasil limitam aventuras autoritárias

Voltou a ganhar força a ideia de que a democracia brasileira estaria novamente em perigo diante de uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro. O argumento é conhecido: em 2022, teríamos escapado por pouco porque alguns militares se recusaram a embarcar numa aventura golpista. Agora haveria um agravante: diferentemente do pai, Flávio encontraria Donald Trump na Casa Branca.

O risco representado por líderes com inclinações iliberais nunca deve ser desprezado. Berlucchi e Kellam, analisando governos democráticos desde 1970, mostram que populistas no poder estão associados a maior erosão democrática. Mas mostram também que a Presidência, por si só, não basta. A capacidade de transformar intenção em erosão depende dos recursos e constrangimentos encontrados pelo governante.

É aí que o caso brasileiro se torna interessante. Kyriacou e Trivin demonstram que o impacto de governos populistas depende fortemente do legado institucional que encontram. Onde existe uma tradição robusta de Judiciário independente, burocracia imparcial e respeito às regras, o dano produzido por populistas é muito menor. Instituições aprendem a resistir. autoritárias diminui onde existe um legado de instituições capazes de constranger o Executivo e aumenta quando o presidente dispõe de apoio partidário coeso para seu projeto.

Pesquisa que desenvolvi com Negretto e Melo sobre 18 democracias latino-americanas chega a conclusão complementar. A vulnerabilidade a investidas

O Brasil apresenta condições relativamente favoráveis nas duas dimensões. Desde 1988, Congresso, Judiciário, Ministério Público, imprensa e sociedade civil acumularam experiência e capacidade para impor limites ao Executivo. Bolsonaro testou esses limites e fracassou. Depois de deixar o poder, ele e vários de seus colaboradores ainda sofreram consequências judiciais relevantes.

A segunda proteção vem de uma característica frequentemente tratada como defeito: nosso multipartidarismo. Presidentes precisam construir maiorias negociando com partidos heterogêneos. Isso torna proibitivo o custo de coordenar e manter coesa uma coalizão em torno de um projeto autoritário. Trump poderia oferecer respaldo político externo a um eventual governo Bolsonaro. Mas não controla o Congresso brasileiro, os ministros do Supremo nem elimina os incentivos do multipartidarismo.

Reconhecer isso não significa minimizar as eventuais inclinações iliberais dos Bolsonaro. Significa reconhecer algo que os últimos anos demonstraram: a democracia brasileira já foi submetida a um severo teste de estresse – e mostrou-se resistente.

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O BOBO DA CORTE E O FREIO NOS DENTES

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

No 'modo sobrevivência', a relação com a base parlamentar e com o judiciário engendra erosão institucional disruptiva

Não nos depararemos com a morte da democracia, mas com sua crescente degradação institucional

Na sabatina da TV Globo, durante a campanha presidencial de 2022, Lula acusou Bolsonaro de ter capitulado: "Bolsonaro não manda em nada. Ele é refém do centrão". Arrematando: "Bolsonaro parece um bobo da corte, não controla o Orçamento".

A frase retornou como um bumerangue. Hoje, é o próprio Lula quem se vitimiza como refém de um Congresso que capturou o Orçamento. O que, sob Bolsonaro, era descrito como incapacidade pessoal passou, sob Lula, a ser apresentado como patologia institucional.

A revista The Economist acaba de publicar matéria intitulada: A grande democracia em que os parlamentares são mais poderosos que o Executivo. A revista parte de um paradoxo. Na última década, candidatos a autocratas, dos Estados Unidos à Turquia e à Índia, acumularam poder por meio do chamado executive aggrandizement: a expansão unilateral do Executivo em detrimento das instituições encarregadas de controlá-lo, sobretudo o Legislativo.

Mas isto não é novidade para os leitores desta coluna. Como argumentamos em 2024, em "Por Que a Democracia Brasileira Não Morreu?" (Cia. da Letras), escrito em coautoria com Carlos Pereira, o Brasil seguiu na direção contrária, o presidente perdeu poder para o Congresso e também para o Judiciário. O desequilíbrio teria chegado a tal ponto que os parlamentares e o mundo dos negócios já não parecem se importar muito com quem vencerá a eleição presidencial: qualquer que seja o eleito, será obrigado a capitular diante dos demais poderes.

A inversão histórica é extraordinária. O Executivo brasileiro já foi descrito como superpoderoso e majestoso. Em "His Majesty the President of Brazil", publicado em 1936, o diplomata britânico Ernest Hambloch descreveu o Congresso como "destituído de poderes vis-à-vis o Executivo" e os tribunais como "invariavelmente flácidos, dependendo demasiado do Executivo que os nomeia". O presidente da República conservava poderes quase imperiais.

Mas o poder formal da Presidência nunca contou toda a história. Ao examinar a crise do governo Vargas, em "Razões da Crise", de 1954, Hermes Lima —ex-membro do gabinete presidencial e ex-membro do STF— identificou a condição política da hegemonia presidencial: "Se o presidente é dotado de forte personalidade e seu partido conta com maioria no Congresso, o Executivo, já poderoso pelo seu caráter unipessoal, impõe de forma avassaladora sua vontade. Se o presidente é fraco, o Congresso toma o freio nos dentes".

Escasso poder partidário é só parte da explicação, como mostrei aqui. Apoio parlamentar se constrói com liderança e capacidade de gestão. No que chamo de modo sobrevivência, a construção de base parlamentar e a relação com o Judiciário tem sido pouco republicana. O resultado não é a morte da democracia através de autogolpe, mas a deterioração institucional dos três Poderes.

Isso não torna equivalentes um autocrata que captura as instituições, um Congresso que abocanha o Orçamento, ou tribunais que abusam de poder. O primeiro ameaça a sobrevivência da democracia; o segundo produz corrupção, irresponsabilidade fiscal e paralisia decisória; o terceiro, a perda de legitimidade e degradação institucional.

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O AVANÇO DA EDUCAÇÃO ÉTNICO-RACIAL

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Sei bem que a educação para equidade racial sempre foi um 'não assunto' nas nossas escola

Bastou o Estado agir com propósito para que essa situação começasse a mudar

Agir com propósito impacta diretamente os resultados alcançados em tudo o que se faz na vida. Quando se trata de políticas públicas, não é diferente. Isso fica evidente ao observar o recente avanço na implementação da Lei 10.639/2003, criada para incluir a história e cultura afro-brasileira no currículo oficial da rede nacional de ensino.

Analisando o cenário atual, a constatação óbvia é que a implementação de políticas para educação das relações étnico-raciais no Brasil só foi pra frente por conta da ação dos movimentos sociais negros, o que levou o Ministério da Educação a assumir as rédeas do processo —passados 21 anos da promulgação da lei, é bom lembrar. Mas é aí que entra o propósito.

Para além da regulamentação legal, foi instituída a coordenação federativa da política nacional de educação para as relações étnico-raciais. Com isso, uma situação que estava estagnada começou a mudar. O que se observa no Diagnóstico Equidade, estudo criado para acompanhar as métricas nesse campo, é que essa política pública finalmente "pegou" no país.

Conforme noticiado pela Folha, o Índice Nacional de Educação para as Relações Étnico-Raciais (Erer), mecanismo criado para acompanhar a implementação da ação governamental, subiu de 47,7 para 54,2 pontos nas redes estaduais e de 26,6 para 34,7 nas municipais (numa escala de 0 a 100) nos dois últimos anos.

O Erer considera seis dimensões: formação de professores, gestão escolar, material didático, financiamento, institucionalização e avaliação e monitoramento. Os avanços mais expressivos ocorreram em estruturas de gestão, planejamento e financiamento. De 2024 para 2026, o percentual de redes municipais que declararam ter uma equipe própria para gerir políticas de equidade racial passou de 15,1% para 40,7%.

Como mulher preta, mãe de dois filhos negros, sei bem que a educação para equidade racial sempre foi um "não assunto" nas nossas escolas. Bastou o Estado agir com propósito para que essa situação começasse a mudar.

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domingo, 30 de agosto de 2026

UM ACORDO ARRISCADO NA VENEZUELA

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

Trump quer ampliar produção de petróleo na Venezuela com garantias para empresas dos EUA

Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos de petróleo para companhias americanas no país latino-americano

Os Estados Unidos elaboraram um plano para tornar a Venezuela sua fornecedora estratégica de petróleo. A iniciativa cria, na prática, monopólio para empresas americanas sobre as maiores reservas de petróleo do mundo, e busca lhes proporcionar segurança política, regulatória, jurídica e financeira.

A Venezuela tem 303 bilhões de barris, mas produz só 1,25 milhão por dia, menos da metade do que antes de duas décadas e meia de destruição de valor e sucateamento sob o regime chavista. O risco de confiscos de pagamentos por credores e desapropriação de ativos por um futuro governo venezuelano tem afugentado as petroleiras americanas. É o que o governo Trump tenta endereçar.

O programa protege as receitas das vendas de petróleo venezuelano nos EUA contra credores. O novo governo apoiado por Washington alterou a legislação para dar mais autonomia às empresas privadas, reduzindo o controle da estatal PDVSA.

Os EUA negociam direitos de longo prazo sobre campos para companhias americanas. Donald Trump diz que o arranjo assegura “controle majoritário” dos EUA sobre mais de 65 bilhões de barris. É uma definição política, não jurídica: o petróleo continua venezuelano.

A Chevron já se prepara para ampliar suas operações. A SLB, maior empresa de serviços e tecnologia para a indústria de petróleo do mundo, moderniza os precários bancos de dados geológicos da PDVSA.

LEGITIMIDADE. Mas Exxon e ConocoPhillips, expropriadas por Hugo Chávez, continuam ressabiadas. A Venezuela ainda precisa provar que contratos assinados hoje sobreviverão ao próximo governo e que tribunais, câmbio e regras de propriedade serão previsíveis.

A guerra com o Irã deu nova relevância à estratégia. O petróleo venezuelano é pesado, justamente o tipo para o qual muitas refinarias da Costa do Golfo americano foram projetadas. Durante décadas, elas receberam grandes volumes da Venezuela e, depois das sanções, passaram a buscar alternativas, como petróleo pesado do Oriente Médio. A retirada do mercado desse óleo iraniano eleva a competição por outros óleos do mesmo tipo no Golfo Pérsico.

O plano tem boas chances de produzir aumento inicial da oferta para 1,5 milhão ou 1,7 milhão de barris por dia. Chegar novamente perto de 3 milhões é mais difícil. Exigiria dezenas de bilhões de dólares, infraestrutura e anos de estabilidade jurídica.

Trump tenta exercer poder com política energética: retirar petróleo da órbita da China e trazê-lo para a matriz energética americana. O maior risco está na abordagem. Quanto mais o acordo parecer uma nova forma de colonialismo, maior a contestação futura de sua legitimidade na Venezuela.

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FLÁVIO BOLSONARO MENTE E DISTORCE COM MAIS CONVICÇÃO QUE O PAI

Bernardo Mello Franco, O Globo

Senador afrontou os fatos ao falar de golpe, escândalo do Master e relação com miliciano

Flávio Bolsonaro deu uma nova contribuição à teoria de Darwin. Mostrou-se mais assertivo que o pai ao mentir, distorcer e renegar o que já disse. É a evolução da espécie.

Em entrevista à TV Globo, o candidato do PL fingiu desconhecer os fatos que levaram o capitão à cadeia. Descreveu como “golpe da Disney” a conspiração que destruiu as sedes dos Três Poderes e quase arrastou o país para uma nova ditadura.

O senador ainda chamou de petista o ex-comandante da Aeronáutica que, depois de votar em Jair Bolsonaro, recusou-se a manchar a farda para impedir a alternância de poder.

Questionado sobre o pedido de R$ 134 milhões a Daniel Vorcaro, Flávio descreveu o cambalacho como “relação privada”. “Não tem absolutamente nada de irregular”, recitou. O senador simulou esquecer que exerce cargo público e foi flagrado tomando dinheiro de um especialista em corromper autoridades.

Também fingiu não saber que parte da fortuna do banqueiro, a quem tratava como “irmão”, era subtraída de fundos de previdência geridos por seus aliados. Só o governo do Rio, sob comando do bolsonarista Cláudio Castro, enterrou mais de R$ 3 bilhões em papéis do Master.

Sem corar, Flávio definiu o filme sobre o pai, usado para justificar as transferências de Vorcaro, como uma “obra-prima” do cinema. Para quem já viu o trailer de “Dark Horse”, esta pode ter sido a maior das cascatas da noite.

O Zero Um mentiu com convicção sobre Adriano da Nóbrega. Disse ter condecorado o matador de aluguel com a Medalha Tiradentes porque o considerava um “policial exemplar”, embora estivesse preso por homicídio. Acrescentou que o homenageado teria matado um traficante — na verdade, executou um guardador de carros que havia denunciado outros milicianos.

De volta às ruas, Adriano se tornou o mais notório pistoleiro do Rio. Sua mulher e sua mãe foram empregadas no gabinete de Flávio na Alerj. As duas recebiam sem trabalhar, mostraram as investigações do esquema da rachadinha.

Instado a detalhar planos para a economia, o senador renegou as medidas impopulares que seus coordenadores de campanha têm prometido em jantares com donos de bancos e corretoras. Preferiu se refugiar em promessas vagas como “combater a roubalheira” e reduzir o número de ministérios

Ele também desconversou sobre declarações em que negou o aquecimento global e sustentou que o mundo passaria por um “resfriamento”. Por pouco não sai do estúdio correndo para abraçar uma árvore.

Numa das primeiras propagandas como presidenciável, Flávio usou inteligência artificial para encarnar o aviador de Tom Cruise em “Top Gun”. Na entrevista aos apresentadores do JN, lembrou outro personagem: Pinóquio, o boneco de madeira cujo nariz cresce a cada mentira.

Desde o fim do século XIX, pais leem a história escrita pelo italiano Carlo Collodi para ensinar aos filhos o valor da honestidade. Avesso aos livros, Jair poderia ter recorrido ao filme da Disney para educar o Zero Um e seus irmãos.

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DESESPERANÇA

Merval Pereira, O Globo

Teremos a primeira eleição desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor.

O desânimo com a eleição presidencial deve-se a que ela é a primeira desde a redemocratização que não traz nenhum traço de esperança ao eleitor. A primeira eleição direta depois da redemocratização, em 1989, trouxe a novidade do “caçador de Marajás”, o então governador de Alagoas Fernando Collor, contra os ícones da esquerda brasileira, Leonel Brizola de volta do exílio, e o líder operário Lula, que enfrentara a ditadura militar com as greves operárias de São Bernardo. Tudo era novidade, e os eleitores motivaram-se, cheios de esperanças.

Deu tudo errado, com Collor cassado por corrupção. Não foi preso na ocasião, mas está em prisão domiciliar atualmente, após reincidir no erro, eleito senador depois de passar anos inelegível. A eleição de 1994 teve a grande novidade até hoje no país, o Plano Real, que levou o ministro da Fazenda Fernando Henrique Cardoso ao Palácio do Planalto no primeiro turno. Acabar com a hiperinflação foi o passo mais importante já dado no país, deixando de legado um tripé macroeconômico que resiste até hoje como modelo de boa governança: câmbio flutuante, metas de inflação e superávit primário.

Reeleito também no primeiro turno em 1998, FHC deu um passo que marcou negativamente seu segundo mandato: a desvalorização do Real, que se tornara necessária. As diversas crises econômicas no mundo e no Brasil levaram a que o candidato governista, o tucano José Serra não usasse a continuidade do Plano Real como base para seu futuro governo. Lula, o líder do PT, que já perdera três eleições presidenciais, surgiu como a esperança de mudanças, e venceu a eleição e a desconfiança dos empresários escrevendo a “Carta aos Brasileiros”.

Assessorado por Antônio Palocci no ministério da Fazenda, que coordenou sua campanha e o plano de governo, Lula tomou medidas corajosas. Chamou para dirigir o Banco Central o banqueiro Henrique Meirelles, que acabara de se eleger deputado federal pelo PSDB de Goiás. Manteve as diretrizes econômicas do governo anterior e teve êxito ao unir os programas sociais do governo tucano em um só programa, o Bolsa Família, de sucesso indiscutível até hoje. Os problemas com a corrupção surgiram a partir de metade de seu governo, com o escândalo do mensalão.

Lula pela primeira vez declarou-se traído, pediu desculpas na televisão, e viu seus principais aliados sendo presos, inclusive José Dirceu, o homem forte do Planalto na ocasião. Os escândalos seguidos não impediram que ele, extremamente popular, fosse reeleito e depois elegesse a ministra Dilma Rousseff para sucedê-lo. Mas, diante dos escândalos que se seguiram, como o petrolão desvendado pela Operação Lava-Jato, Lula estourou o orçamento para eleger sua sucessora, que governou com uma situação econômica deteriorada acentuada por sua própria visão de que “gasto é vida”.

Dilma quase perdeu para Aécio Neves, do PSDB, na reeleição, devido à crise econômica, mas acabou impedida pelo Congresso devido à própria incapacidade de negociação parlamentar e a uma política econômica desastrada. O PMDB preparou-se para assumir o governo com um programa chamado “Ponte para o Futuro”, lançado quando Dilma ainda governava. O vice Michel Temer assumiu o governo com esse plano, que agradava aos empresários e a grande parte da classe média, farta da crise econômica e da corrupção petista.

Mas foi abatido pelo escândalo da gravação de uma conversa quase clandestina com o empresário Joesley Batista, em que trataram aos sussurros de uma operação para manter o ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha calado na prisão. O deputado federal do baixo clero Jair Bolsonaro surgiu em meio a esse caos, com Lula na cadeia por corrupção. Vendeu a imagem de um líder antissistemas e de combate à corrupção, e a maioria comprou. Governou planejando um golpe de Estado que lhe desse poderes ditatoriais, e fez com que Lula, que a esta altura já estava fora da cadeia, por uma decisão do STF considerada por muitos teratológica, ou no mínimo excêntrica, se tornasse o grande salvador da democracia brasileira. Hoje, não há auspícios a serem esperados.

 

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DEMOCRACIA EM QUESTÃO

Míriam Leitão, O Globo

A questão democrática segue em jogo nesta eleição, com candidatos minimizando o 8 de janeiro e defendendo governos autoritários

Dos cinco entrevistados no Jornal Nacional, até sexta, a apenas um não foi preciso fazer perguntas sobre democracia. Dois subestimaram o ataque aos Três Poderes de 8 de janeiro, um apresentou uma proposta de extremismo autoritário e o quarto é filho de ex-presidente que tentou o golpe.

Romeu Zema disse que houve apenas “vandalismo”. Ronaldo Caiado prometeu anistia, e não condenou em momento algum os graves atos de conspiração de Jair BolsonaroRenan Santos quer um “banho de sangue”, regime de exceção em favelas e descumprimento de ordem judicial. Flávio Bolsonaro nega todos os fatos, prometeu indulto, e ameaçou enquadrar o Supremo Tribunal Federal. O presidente Lula ficou como o defensor solitário do regime que o Brasil conquistou com tantas lutas e dores.

A questão democrática permanece presente. Era para os líderes políticos terem entendido a história recente do país, se unido no essencial, a defesa do regime democrático, e divergido apenas nos projetos de governo. Porque assim se pode fazer bons debates eleitorais e uma boa escolha.

Todos eles se disseram democratas, e depois vieram os senões. O ex-governador de Minas Romeu Zema, além de negar a conspiração da qual se tem farta comprovação, alimentou a dúvida sobre a urna eletrônica, o ponto do qual partiu Jair Bolsonaro. Segundo Zema, ele confia na urna, “mas ela pode ser melhorada se tiver o voto impresso”. A mesma lenga-lenga do governo anterior na sua tentativa de minar a confiança no sistema eleitoral brasileiro.

Zema disse que “não existe na história da humanidade, uma tentativa de golpe ou um golpe de Estado que tenha sido um movimento de vandalismo e depredação”. O ex-governador demonstra não ter entendido que aquele atentado de 8 de janeiro foi parte de uma conspiração ampla que teve envolvimento de militares de alta patente, plano impresso no Planalto para matar o presidente e o vice, ameaça de atentado a bomba em aeroporto. Defendeu a estranha teoria de que “quem fez, idealizou, mas não levou adiante, não cometeu crime”. Ou seja, os criminosos não cometeram crime porque o golpe fracassou. Não custa lembrar que Zema em 2023 definiu a Conjuração Mineira como “um golpe à coroa portuguesa”. Ah, Minas, que já teve fama de ter políticos argutos.

Ronaldo Caiado prometeu dar anistia “ampla, geral e irrestrita” para os golpistas sob o argumento de que assim vai pacificar o país. Mas em nenhum momento sequer reconhece que eles cometeram crime. Perguntado, o candidato fugiu da pergunta como tem feito em todas as entrevistas dessa campanha. Nunca condenou os gravíssimos casos que a ação penal trouxe aos autos. Portanto, Caiado não apenas defende a anistia, ele nunca reconheceu que houve os crimes que o país viu.

Renan Santos usou sua eloquência e treino em defesa do presidente Nayib Bukele de El Salvador. Aliás, nesta eleição a meca da direita parece ser o pequeno país da América Central onde direitos humanos têm sido desrespeitados e regras democráticas foram arquivadas em nome do combate ao crime. Suas ideias esquisitas, como a de ter a bomba atômica para ser respeitado pelos vizinhos e pelo mundo, ou a de impor um estado de exceção apenas nas favelas, são apresentadas como se fossem criativas e inteligentes.

Flávio Bolsonaro foi, claro, o maior defensor da ideia de que não houve golpe, e sim “uma farsa armada para tirar Jair Bolsonaro da vida pública”. Acusou o STF de perseguição ao seu pai. “Não queira ser julgado pelo seu inimigo”, disse ele, falando de Alexandre de Moraes, mas ele foi condenado pelos votos dos ministros da primeira turma. Moraes foi apenas o relator. E tanto os fatos trazidos pela investigação da Polícia Federal quanto a denúncia da Procuradoria Geral são eloquentes. Entre as muitas mentiras de Flávio, uma foi acusar o brigadeiro Baptista Jr de ser lulista. O militar foi nomeado por Jair Bolsonaro, exatamente quando o então presidente demitiu toda a cúpula das Forças Armadas. Ou seja, era então pessoa de confiança de Bolsonaro.

As mentiras, as falsificações sobre eventos recentes, as tentativas de subestimar o que ocorreu, a defesa aberta de governantes autoritários: tudo isso foi o que se viu durante essa semana de entrevistas de quatro em cinco entrevistados. Pode-se criticar Lula por outras declarações, ou por falta de uma proposta crível de ajuste fiscal, mas ele não precisou ser perguntado sobre democracia.

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CARLOS LACERDA E SUA MÁQUINA DO ÓDIO

Elio Gaspari, O Globo

Resultado de anos de pesquisas, livro responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas

Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.

Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.

Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.

Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl Marx e Friedrich Engels? Não.

Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28 anos e ele 17 incompletos.

Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.

Jornalista de grande talento, tinha raciocínio rápido, escrita clara e dedos velozes. Em 1934, lendo “São Bernardo”, viu em Graciliano Ramos um grande romancista.

O general De Gaulle chamava-o de “demolidor de presidentes”. Demolia tudo que tinha por perto, inclusive o próprio pai: “demagogo de merda”.

Feroz adversário de Getúlio Vargas, foi um mobilizador de vivandeiras e o caricaturista Lan eternizou-o como Corvo. Lacerda tinha uma escolta de oficiais, nove dos quais da Força Aérea. (Havia alguns do Exército, entre eles Emílio Garrastazu Médici.)

Nas primeiras horas do dia 5 de agosto de 1954, o major Rubens Vaz escoltava-o de volta ao seu apartamento da Rua Tonelero, em Copacabana. Dois pistoleiros atiraram e morreu o major. Dezenove dias depois, às portas da deposição, Getúlio Vargas se matou. Em cerca de 40 páginas Mário Magalhães conta esses dois episódios, com a minúcia e clareza de um repórter policial.

Afora um breve epílogo, o volume termina com a partida do “matador de Getúlio” para o exílio dos Estados Unidos. Lacerda defendia um regime de exceção para que Vargas não fosse eleito em 1950, não tomasse posse em 1951 e não governasse a partir daí. Ao fim, perdeu.

Em 1955, o presidente morto elegeu Juscelino Kubitschek. O general Henrique Lott, ministro da Guerra, derrubou dois presidentes na noite de 11 de novembro e garantiu-lhe a posse. O vencedor de 1954 teve que deixar o país.

Magalhães reconstrói os primeiros 41 anos dessa vida contorcida num período tumultuado. Espremendo-se o legado desse Lacerda sobra um sujeito inteligente e combativo, para pouco, quase nada. Em 1934, aos 20 anos, ele tentou se matar. Prevaleceu em 1954 e fracassou em 1955. Teria mais triunfos e fracassos até 1977, quando a morte física pegou-o aos 63 anos.

JK tirou o país da mediocridade

Com Lacerda nas livrarias e a campanha presidencial na rua, o livro de Mário Magalhães é como um salto do passado no presente. Lacerda cavalgava o moralismo, combatendo o “mar da lama” do governo de Getúlio. Era pouco mais que um exagero.

Juscelino Kubitschek tomou posse em 1956 prometendo 50 anos e 5 e uma nova capital no Planalto Central. Com um sorriso inesquecível e um otimismo contagiante, entregou quase tudo o que prometeu, mais uma economia envenenada pela inflação.

No epílogo do seu “Lacerda”, Mário Magalhães salta de 1955 para Lisboa, em 1966, quando eram dois proscritos da ditadura e pensavam que, juntos, podiam ir a algum lugar. Foram a lugar algum. Passado meio século, pode-se medir o legado dos dois.

Deus os havia poupado da mediocridade.

Lacerda deu ao Rio água e a alma do Aterro, concebida pela doidivanas Lota de Macedo Soares. Tisnou-se defendendo a ditadura que o mastigou. JK fez estradas e hidrelétricas, mas seu pedestal é o compromisso com as liberdades democráticas e a fé no “monstro”.

Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, JK estava num almoço quando lhe perguntaram o que aconteceria no Brasil.

— O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.

Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa, e prosseguiu:

— Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.

— Que monstro?

— A opinião pública.

Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o monstro carregou-o nos ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá, ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart, em 1964.

Corrupção e candidatos

A corrupção é e será um tema central da campanha eleitoral. Ela o era ao tempo de Lacerda e JK.

Em 1960, cavalgando uma vassoura, Jânio Quadros elegeu-se presidente. Um ano depois, tentou dar um golpe de maluco e foi-se embora.

Em 1964, instalou-se a ditadura das propostas de Lacerda.

Cinco anos depois, terroristas roubaram um cofre na casa da namorada do ex-governador paulista Ademar de Barros.

A senhora disse que o cofre estava vazio, e os generais acreditaram.

Tinha 2,5 milhões de dólares; 22,75 milhões em dinheiro de hoje.

Renan e sua bomba

Renan Santos parece excêntrico ao dizer que o Brasil deve ter uma bomba atômica, mas a verdade é que, desde 1945, sempre houve alguém no governo trabalhando por ela. Às vezes, tinha poder e, às vezes, pensava que tinha.

O campeão da ideia de uma política nuclear foi o almirante Álvaro Alberto (1889-1976), primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, que empresta seu nome à usina de Angra.

Em 1951, o Conselho de Segurança Nacional discutia a construção de um reator nuclear. (Só no ano seguinte Israel criou sua Comissão de Energia Atômica.)

Em julho de 1954, um grupo de cientistas alemães montou e testou três centrífugas para enriquecer urânio. O Brasil havia pedido licença para importá-las, e os Estados Unidos a haviam negado. Álvaro Alberto foi em frente, e elas estavam prontas para embarque no porto de Hamburgo quando foram apreendidas.

As centrífugas acabaram vindo em 1956, mas só começaram a funcionar em 1970, quando Israel já era uma potência nuclear desde 1966 ou 1967.

Maus ventos

Em poucas semanas a economia nacional levou os trancos das recuperações judiciais da Braskem e das Casas Bahia. Em seguida, foi para a UTI a rede de lojas Habib’s.

Na terça-feira, pela segunda vez, a Justiça decretou a falência da Oi, que chegou a ser a maior operadora de telefonia fixa do país. Ela surgiu no festim privatista de 1998, com o nome de Telemar. No BNDES era conhecida como Telegang. No final do século passado foi uma das “campeãs” nacionais. Sobreviveu por dez anos na UTI da recuperação judicial.

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SOBREVIVER É PROVA DE RESISTÊNCIA EM GAZA

Dorrit Harazim, O Globo

Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade

Na semana passada morreu o pintor e escultor palestino Sliman Mansour. Vivera 79 anos. Até o fim, ano após ano, década após década, ele repetia um mesmo mantra:

— A solução de dois Estados independentes, um para a Palestina, outro para Israel, se dará um ano depois da minha morte.

A depender do Estado de Israel, essa fantasia precisa ser enterrada. Mansour fazia parte da geração de artistas gerados na primeira intifada dos anos 1970, que buscou uma linguagem visual para retratar o significado da memória — da memória do que é ser palestino. Um pé de oliveira adquiria a força-símbolo de terra e continuidade, Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade, resistência. Mansour foi quem mergulhou mais fundo nessa busca. Uma colheita na primavera, um vilarejo rural, duas palestinas tocando flauta — a resistência em sua obra é implícita.

Seu quadro mais icônico, “Camel of hardship”, de 1973, até hoje adorna um sem-número de lares palestinos mundo afora, em forma de pôster. A obra mostra uma figura humana em andrajos, curvada sob o peso de um imenso fardo preso à testa por uma corda, e dentro do fardo está a cidade de Jerusalém, com o Domo da Rocha em destaque. É o retrato de um povo que continua a carregar no corpo pátria e memória, identidade e cultura, o sonho do retorno. O restante da tela é um espaço vazio e abstrato, sem horizonte claro. Vale a pena conferi-lo na internet.

A partir de outubro de 2023, com a saúde já declinante, Sliman Mansour não conseguiu mais tirar os olhos de Gaza:

— Todas as imagens que me vêm à mente são horrendas. Algumas delas não consigo apagar de mim.

Sua linguagem tornou-se mais abstrata para que a memória, a dor, a beleza e a resistência pudessem perdurar. Para ele, permanecer enraizado sempre foi o ato de resistência maior.

É precisamente contra esse enraizamento no chão, contra a resistência existencial dos palestinos que Israel luta por uma solução final. Tome-se o raciocínio do general reformado Giora Eiland, que serviu por 33 anos nas Forças de Defesa de Israel (FDI), condensado em entrevista recente para a emissora de rádio 103FM:

— Israel não tem interesse em ver Gaza reconstruída. É melhor para nós que a Faixa permaneça destruída por várias gerações... Eles nos atacam quando têm esperança, não quando estão desamparados, portanto, quanto maior a desesperança e a destruição, melhor.

Apesar do seu linguajar exterminador, Eiland nem é considerado ultraextremista no panorama atual da política israelense — ele apoia um eclético bloco partidário contrário ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, curiosamente descrito como de centro.

— Gaza se tornará um lugar onde nenhum ser humano poderá viver — acrescentou.

Israel está doente de si mesmo. Avi Dichter, de 73 anos, é filho de sobreviventes do Holocausto. Já foi chefe do Serviço de Segurança Interna do país e hoje ocupa o cargo de ministro da Agricultura e Segurança Alimentar.

— Conquistaremos Gaza e não deixaremos um só palestino vivo — prometeu.

Sua colega de gabinete May Golan, ministra da Igualdade Social, é de outra geração, tem apenas 40 anos, mas certezas igualmente consolidadas.

— Eu me sinto pessoalmente orgulhosa das ruínas de Gaza — declarou ela em plenário do Knesset dois anos atrás, quando o número de civis mortos pela ação militar israelense ainda não tinha chegado a 30 mil. Hoje já são mais de 73.400.

— Gaza e sua gente precisam ser queimados. Toda criança nascida neste minuto em Gaza já nasce terrorista. Não podemos viver com essas criaturas perto de nós. — ecoou o ex-ministro da Educação Nissim Vaturi em fevereiro de 2025.

— Não restarão árabes na Faixa de Gaza — concluiu a voz mais engajada na anexação definitiva de toda a Palestina ocupada.

— Vamos fazer pelo Estado o que o Estado não pode fazer — explicou, referindo-se a forçar os 2,2 milhões de palestinos entulhados em Gaza a abandonar um chão tornado estéril.

Não que o Estado judaico esteja em compasso de espera enquanto adia o máximo possível a fase 2 do claudicante cessar-fogo em Gaza, instituído pela Casa Branca dez meses atrás. Ainda nesta semana, por ordem do ministro da Defesa, Israel Katz, a população do enclave foi informada de que as FDI poderiam alvejar qualquer criança ou adulto que soltasse uma pipa pelos céus do território. Alguns desses brinquedos de papel colorido haviam sido detectados pelos serviços de segurança em mãos infantis e considerados “atos de guerra”. Como justificativa foi citado o precedente de 2018, quando palestinos de fato lançaram balões e pipas contendo material incendiário por ocasião de uma marcha de protesto no enclave.

Hoje, as crianças de Gaza que soltam pipas sem explosivos sobre sua terra arrasada talvez servissem de tema para uma última obra de Sliman Mansour. Pelo simples fato de terem sobrevivido, são resistentes.

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DALVA DE OLIVEIRA, A RAINHA DA VOZ

Há exatos 54 anos, morria a cantora e compositora Dalva de Oliveiral. Dalva nasceu na cidade de Rio Claro (SP), em 5 de maio de 1917. Faleceu no Rio de Janeiro em 30 de agosto de 1972.

Dalva de Oliveira de voz afinada, e bela, considerada a Rainha da Voz ou o rouxinol brasileiro, sua extensão vocal ia do Contralto ao Soprano.

Segundo a revista Rolling Stone, Dalva de Oliveira foi considerada uma das maiores vozes da música brasileira de todos os tempos.

Biografia de Dalva de Oliveira

Dalva de Oliveira (1917-1972) foi uma cantora brasileira que fez sucesso nos anos 30, 40 e 50. Com uma extensão vocal que ia do contralto ao soprano, recebeu o apelido de “Rouxinol do Brasil”.

Dalva de Oliveira, nome artístico de Vicentina de Paula Oliveira, nasceu em Rio Claro, interior do Estado de São Paulo, no dia 5 de maio de 1917. Era filha mais velha de Mário de Oliveira, um carpinteiro, e da portuguesa Alice do Espírito Santo.

Seu pai que era músico nas horas vagas, tocava clarinete e organizava serenatas com seus amigos músicos. Com oito anos Dalva ficou órfã de pai e em busca de trabalho, sua mãe mudou-se para São Paulo levando as quatro filhas. Em São Paulo, trabalhou como governanta e colocou as filhas em um internato.

Em 1934, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Dalva passou a frequentar o Cine Pátria onde conheceu e logo iniciou um namoro com Herivelto Martins, que trabalhava ao lado de Francisco Sena formando o dueto Preto e Branco.

Dalva ingressou no grupo e passou a se apresentar como “Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco”. Em 1936, Francisco faleceu sendo substituído por Nilo Chagas. Em 1937 lançaram “O Trio de Ouro”, nome dado por César Ladeira. Nesse mesmo ano, Dalva e Herivelto se casaram. Dessa união nasceu, Peri, que se tornou um grande cantor conhecido como Pery Ribeiro e Ubiratan.

Com o trio, Dalva gravou diversas músicas de sucesso, entre elas: “Ceci e Peri”, “Batuque no Morro”, “Adeus Estácio”, “Lamento Negro” e “Lá na Mangueira”. Em 1947, com a separação do casal, o trio se desfez. Era o início de uma longa batalha judicial pela guarda dos filhos, que acabaram sendo levados para um internato.

Em 1950, Dalva retomou a carreira solo e em 1951 lançou as músicas “Tudo Acabado”, “Olhos Verdes” e “Ave Maria do Morro”. Em 1952 recebeu o título de “Rainha do Rádio”.

Ainda em 1952, em uma excursão a Buenos Aires, Dalva conheceu o ator Tito Climent, que se tornou seu empresário e mais tarde seu segundo marido. Morando em Buenos Aires, o casal adotou Dalva Lúcia Oliveira Climent. Em 1963 o casal se separou e Dalva retornou ao Brasil, perdeu a guarda da filha e passou a morar sozinha em seu casarão no Rio de Janeiro. Todos os anos ela dava um tempo em sua agenda e recebia seus filhos na sua casa durante as férias escolares do mês de janeiro.

Em 1965, Dalva sofreu um grave acidente automobilístico, ao lado de seu namorado, Manuel Nuno, modesto rapaz, vinte anos mais jovem que ela, sendo obrigada a dar um tempo na carreira.

No fim dos anos 60, Dalva casou-se com Manuel e comemorou com uma festa em sua mansão. Dalva de Oliveira, que fez grande sucesso com as músicas “Bandeira Branca”, “Ave Maria do Morro”, “Tudo Acabado”, “Errei Sim”, “Hino ao Amor”, “Estão Voltando as Flores”, entre outras, foi considerada uma das maiores vozes da música brasileira.

Dalva de Oliveira faleceu no Rio de Janeiro, no dia 30 de agosto de 1972.

Texto de Dilva Frazão, E-biografia

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sábado, 29 de agosto de 2026

'PROGRAMA DE PARCERIA'

Gisele Lobato e Cecília Olliveira, The Intercept Brasil

Flávio Bolsonaro oferece assessoria e faz influenciadores lucrarem com ataques a Lula

“Se eu fosse petista, eu tinha ganhado um bicho desse?”. A influenciadora Dady Santos, do Rio Grande do Norte, fez a pergunta a seus seguidores no Instagram após apresentar o armário de cozinha que diz ter recebido do dono de um restaurante de Brasília. A casa sem reboco também ganhou, nas últimas semanas, uma televisão e a reforma completa do banheiro. Ela atribui sua “chuva de bençãos” nominalmente a “Flavinho” Bolsonaro. 

Dady Santos viralizou depois que o então pré-candidato à Presidência pelo PL e as redes bolsonaristas compartilharam um vídeo seu atacando o governo Lula, em julho. Não demorou para que os novos seguidores começassem a mandar presentes e até a contribuir em uma vaquinha que ela passou a divulgar.

Flávio Bolsonaro tem emprestado sua visibilidade nas redes para impulsionar perfis que postam conteúdos criticando a gestão de Lula, do PT. Mas isso é só parte da estratégia de sua campanha para alimentar a propaganda nas redes: descobrimos que o PL promete assessoria e até encontros com o candidato para ajudar influenciadores de direita a “fazer o feed virar”, estimulando a produção de conteúdo político disfarçado de engajamento espontâneo — o que pode lhe causar problemas com a Justiça Eleitoral.

No centro dessa rede está o site Direita Já. A iniciativa é similar à da plataforma Porta-Voz do Lula, criada pelo PT para incentivar a campanha pela reeleição do presidente. A diferença é que, em vez de fornecer apenas conteúdo para a militância distribuir, a iniciativa do PL está prometendo consultoria para quem participar do seu “programa de creators [criadores]”, voltado especificamente para influenciadores. 

“Mais de 200 parceiros já recebem briefings semanais, conteúdo exclusivo antes de virar público e suporte direto da nossa equipe de produção”, diz a página, que foi registrada como um dos sites oficiais da campanha de Flávio Bolsonaro no Tribunal Superior Eleitoral, o TSE.

A campanha de Flávio não divulga quem são os 200 influenciadores beneficiados pelo programa de criadores nem é transparente sobre quais briefings envia para orientar a produção de conteúdo. Mas essa rede de influenciadores tem um alcance combinado de 50 milhões de pessoas, segundo o próprio Direita Já. Só consegue fazer parte dela quem já possui perfis com amplo alcance.

Além desse grupo restrito, o site oferece conteúdos como cards e textos de propaganda eleitoral prontos para baixar e distribuir nas redes. Também dá acesso ao grupo de WhatsApp em que as propagandas estão formatadas para compartilhar nesse aplicativo. Conteúdos sugerindo que a economia do país está em crise ou relacionando o governo Lula a casos de corrupção estão entre os mais disponibilizados para o público geral.

A legislação eleitoral permite que qualquer pessoa compartilhe conteúdo de campanha por conta própria em suas redes. “O problema começa quando existe uma contrapartida em troca da publicação”, explica a advogada Carla Maria Nicolini, membro da Academia Brasileira de Direito Eleitoral e Político, a Abradep.

“Não precisa ser um pagamento em dinheiro vindo da campanha para configurar irregularidade”, acrescenta a especialista, esclarecendo que qualquer benefício com valor de mercado pode vir a ser interpretado como vantagem econômica pela Justiça Eleitoral. Isso inclui o fornecimento de produtos e serviços e até mesmo a divulgação, já que a visibilidade é um ativo valioso para quem busca viver do trabalho nas redes sociais.

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Mas a investigação do Intercept Brasil constatou que as vantagens de atuar nas redes em defesa da candidatura de Flávio Bolsonaro vão além da possibilidade de receber suporte da equipe de campanha. Influenciadores de direita têm relatado nas redes um aumento expressivo no seu número de seguidores após terem conteúdos compartilhados por políticos. 

Perfis de pessoas comuns estão se tornando virais, e o resultado é o que se espera da fama: oportunidades para monetizar o feed. Recebimento de presentes, organização de vaquinhas, links para a venda de produtos e até convites para eventos e viagens estão hoje chegando para criadores de conteúdo que criticam o governo e apoiam Flávio Bolsonaro.

É nesses pontos que a monetização da estrutura de  influenciadores construída pelo PL deve ser alvo de embates jurídicos durante a campanha. 

“Quando [o influenciador] passa a lucrar com isso de qualquer maneira, o conteúdo deixa de ser apoio orgânico e passa a se sujeitar às regras e às penalidades da propaganda paga”, explica Nicolini. “Em última análise, a prática pode configurar uso indevido dos meios de comunicação, sujeitando os responsáveis e beneficiários às penas de multas, cassação do registro ou diploma, se comprovada a gravidade da conduta e sua influência no resultado do pleito”, acrescenta.

A estratégia de Flávio Bolsonaro não começou agora. Em vídeo publicado no YouTube no final de maio, o deputado federal e candidato ao Senado por Goiás Gustavo Gayer, do PL, garante que o cadastro no Direita Já oferece aos influenciadores acesso a um “grupo diferenciado”. “Você já vai ter uma assessoria, você poderá ser convidado a participar de eventos para poder gravar um vídeo com Bolsonaro, com Flávio Bolsonaro ou com os principais candidatos do seu estado”, diz o parlamentar, que coordena a comunicação do PL.

Na gravação, Gayer apresenta o site como a ferramenta que “estava faltando para a gente voltar a vencer o jogo”. Na época em que publicou o vídeo, as pesquisas mostravam queda nas intenções de voto em Flávio Bolsonaro após a divulgação, pelo Intercept, duas semanas antes, de áudio do senador negociando um repasse de R$ 134 milhões com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, preso no escândalo do Banco Master.

“Estava faltando uma articulação, uma espécie de mobilização centralizada, uma ferramenta que pudesse ajudar as pessoas a terem acesso a conteúdo, a entrar nos grupos do WhatsApp, a saber o que postar, como contrapor as mentiras do governo e do PT”, diz Gayer.

Procurada pelo Intercept, a campanha de Flávio Bolsonaro disse que “a reportagem tenta estabelecer uma relação inexistente e fantasiosa entre apoio espontâneo, produção independente de conteúdo, compartilhamento nas redes sociais com supostas vantagens econômicas”.

Citou, ainda, que o TSE “reconhece a licitude da veiculação de propaganda em canais e perfis de pessoas naturais” e “admite atos de mobilização destinados a ampliar organicamente mensagens nas redes, mencionando expressamente o compartilhamento simultâneo de materiais distribuídos aos participantes, a convocação para eventos virtuais e presenciais e a utilização de hashtags”.

O posicionamento frisa que a lei define “limites claros, que são observados” pela campanha de Flávio Bolsonaro e acusa a reportagem de querer favorecer o PT.

A campanha ainda afirma que “o projeto Direita Já é uma iniciativa de mobilização e relacionamento com apoiadores”, que “o Intercept quer impedir Flávio Bolsonaro de repostar conteúdos de cidadãos comuns”, confirmando que isso gera um aumento de seguidores, mas considerando que “o ilícito só existe na cabeça e na vontade da esquerda, mas não na lei”. Leia aqui a nota na íntegra.

A campanha de Flávio Bolsonaro não explicou como é o suporte que sua equipe oferece aos influenciadores cadastrados no Direita Já, não esclareceu se pagou viagens para a participação em eventos nem se orientou sobre a produção de conteúdos similares com críticas aos preços nos supermercados e ao governo Lula.

Gustavo Gayer e o PL não responderam até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto. Também questionamos a influenciadora Dady Santos sobre o apoio de Flávio e do PL. Ela respondeu que não recebeu nada. “Ganhei nada de políticos, não. Ganhei de alguns seguidores meus”, disse.

‘O homem fala com nóis’

Embora o PL não torne público quem faz parte do grupo exclusivo de influenciadores, nas redes sociais é possível identificar perfis de cidadãos comuns — como microempreendedores e autodeclarados “pobres de direita” — que compartilham vídeos com o candidato e atribuem esses encontros aos conteúdos que publicam.

“Eu pensava que tava velho, cara, que não era pra rede social. Seis meses e dez dias postando… […] O presidente do Brasil, você sabe, né? Flávio Bolsonaro. Hoje [tô] super alegre. O homem me convidou para tomar um café da manhã no dia 3, 9 horas da manhã, e botou no convite: ‘influenciador digital Zig.Sport’”, celebrou o comerciante Gilberto Fernandes, de Duque de Caxias, no Rio de Janeiro, que está no Instagram como @zig_na_voz.

No alto do vídeo que publicou em 30 de junho, é exibida a imagem de um cartaz do 3ª Seminário de Comunicação do Partido Liberal, realizado no ExpoRio Cidade Nova, que ofereceu palestras, oficinas e um espaço para experimentações com inteligência artificial para comunicadores de direita.

O perfil de Fernandes já compartilhou conteúdos disponibilizados na plataforma Direita Já, como uma produção feita com IA intitulada “A trajetória obscura de Lulinha”. Mas o tema preferido de seus vídeos são denúncias de lojas que estariam fechando ou demitindo porque Lula estaria “quebrando o país”. Com 86,7 mil seguidores em 26 de agosto de 2026, o bolsonarista aproveita a exposição para tentar monetizar com a oferta de produtos e cursos sobre empreendedorismo.

No dia 24 de julho, o influenciador postou um vídeo ao lado de Flávio Bolsonaro, no qual se apresentou como camelô e ouviu do senador que “o governo massacra vocês”. No encontro, Fernandes entregou ao candidato um boné com o número 22 que vende em seu Instagram. Na conclusão, o comerciante pediu voto em Flávio — apelo que a legislação eleitoral proíbe que seja feito antes do início oficial da campanha, em 16 de agosto.

O encontro foi postado por Fernandes um dia antes da Convenção Nacional do PL em São Paulo, evento no qual foi formalizada a candidatura do filho de Bolsonaro à Presidência. O comerciante esteve no ato, segundo ele, após receber um telefonema do próprio candidato o convidando. “Meu amigo, o presidente do Brasil, um cara simples, chamou um cara simples, igual você, para a convenção dele em São Paulo”, celebrou no dia 21 de julho.

“Agora você tem um amigo que te representa junto ao futuro presidente do Brasil, porque o homem fala com nóis”, reforçou em outro vídeo, uma semana depois, citando outros influenciadores bolsonaristas. “Tu viu o que o homem fez, né? Comigo, com o Preto de Direita…”, afirmou, antes de se oferecer para fazer a ponte entre seus seguidores e o candidato do PL.

Com 273 mil seguidores em uma de suas contas no Instagram, o influenciador Danilo Miguel de Sousa Pereira, que se apresenta como Preto de Direita, fez diversas publicações em parceria com Zig na Voz. Ambos aparecem juntos em vídeo gravado em 24 de julho no Aeroporto Santos Dumont, no Rio, no qual Pereira alega estar a caminho de São Paulo e atribui a seus seguidores a oportunidade, exibindo uma passagem de avião. “De comunidade pra rede social, da rede social pro Santos Dumont, do Santos Dumont ao encontro do meu futuro presidente, Flávio Bolsonaro”, comemora.

No mesmo dia em que desembarcou em São Paulo, o influenciador de Nova Iguaçu, no Rio de Janeiro, postou um vídeo ao lado do candidato do PL. “Nós estamos passando sufoco quando a gente vai no mercado. Está terrível, terrível, terrível, não estamos aguentando. E eu vim diretamente falar com o homem pra que ele possa dar o recado pra você que está sofrendo também”, diz Pereira, antes de passar o microfone ao senador. 

Em sua fala, Flávio culpou os gastos governamentais pela inflação. “Preto de Direita, fechamento nosso!”, comentou o ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, na publicação no Instagram, que teve quase 50 mil curtidas até dia 26 de agosto de 2026.

O Intercept perguntou a Danilo Pereira e a Gilberto Fernandes sobre a assessoria recebida de Flávio e do PL e quem custeou as passagens de avião e o hotel em que se hospedaram em São Paulo para participar da Convenção Nacional do PL. Não houve resposta até a publicação da reportagem. O espaço segue aberto.

‘Aqui sua picanha’

Atribuir ao governo Lula o endividamento das famílias e afirmar que o custo de vida está aumentando são temas presentes em diversos discursos de Flávio Bolsonaro na corrida à Presidência. Também aparecem em cards produzidos pelo PL e disponíveis para compartilhamento na plataforma Direita Já.

Nos feeds dos “pobres de direita”, o ataque à atual gestão multiplica-se em vídeos similares, nos quais os influenciadores mostram notas de compras que teriam acabado de fazer no supermercado e lamentam que, hoje, o dinheiro não rende.

No dia 12 de agosto, Flávio Bolsonaro compartilhou um desses vídeos. Mas o conteúdo, publicado por uma influenciadora de Belo Horizonte, era enganoso. Na gravação, a consumidora dizia ter gasto R$ 626 no supermercado levando “só o básico”, sem comprar nenhuma peça de carne. 

Agências de checagem, como o Estadão Verifica, consultaram a íntegra da nota fiscal no portal da Secretaria de Estado de Fazenda de Minas Gerais e verificaram que a compra incluía mais de 6 quilos de diferentes tipos de carne vermelha.

Outra influenciadora que também costuma publicar vídeos reclamando dos preços é Kelle Cristina, do perfil no Instagram @kelledireita. “Você acha isso aqui normal?”, pergunta, em vídeo publicado no dia 14 de agosto, no qual tira de sacolas de supermercado diferentes tipos de carne, citando o preço de cada uma. “Eu não quero mais viver com esse governo”, afirma no vídeo.

A criadora de conteúdo participou do Seminário de Comunicação do PL e postou conteúdos com Flávio Bolsonaro na ocasião. Em outro vídeo, de 24 de julho, atribui a um apelo do presidenciável o aumento no seu número de seguidores, que hoje somam 630 mil. “O Flávio Bolsonaro, ele simplesmente (…) pediu às  pessoas, aos seguidores dele lá: ‘Segue a Kelle”, relatou, dizendo que, desde que foi compartilhada nas redes pelo senador, foi “abraçada” por muitas pessoas de direita.

Procurada pelo Intercept, Kelle Cristina disse que participou do evento do PL após “um convite de uma amiga” e que nunca recebeu nenhum tipo de ajuda ou dinheiro para fazer seus conteúdos e roteiros. “Eu gravo do fundo do meu coração, da minha alma”. 

A influenciadora confirmou que ser repostada por Flávio Bolsonaro a ajudou a ganhar muitos seguidores, “mas ele não me pediu nada em troca”. “Eu tô ganhando mais seguidores pelo conteúdo que eu crio e [porque] eu não divulgo casa de aposta, então meus seguidores gostam muito do meu trabalho”, afirma.

“Flávio Bolsonaro me ajudou repostando meu vídeo e com isso eu ganhei muitos seguidores, mas eu já tinha me posicionado porque eu fui enganada pelo PT”, disse também a influenciadora, que se diz decepcionada com o governo Lula.

Outro influenciador que registra em suas redes um encontro com o presidenciável e também grava vídeos reclamando dos preços nos supermercados é Jonas Cosme, autointitulado “Favelado de Direita”. Seu perfil faz propaganda para diversos políticos do PL do Rio de Janeiro.

Em um desses conteúdos, de 4 de julho, Cosme segura uma abóbora no setor de hortifruti de um supermercado enquanto exibe um cartaz com uma ilustração de Lula mostrando o dedo médio sob a frase “Aqui sua picanha”. 

A piada coincide com uma declaração que o coordenador da campanha de Flávio, Rogério Marinho, fez em entrevista à Jovem Pan News em maio e que voltou a destacar em suas redes em julho: “Lula prometeu picanha e cervejinha, mas entregou abóbora, inflação e carestia”. Nós procuramos Cosme e o questionamos sobre o tema e se recebeu assessoria de Flávio e sua equipe, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem. O espaço segue aberto.

Além da trend dos preços dos alimentos, notícias da recuperação judicial das Casas Bahia e pedidos para que eleitores não troquem seu voto pelo vale-gás oferecido pelo programa federal Gás do Povo também se repetem nos perfis de outros influenciadores periféricos que se encontraram com Flávio ou tiveram publicações curtidas ou compartilhadas por membros do clã Bolsonaro.

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