terça-feira, 29 de setembro de 2026

A GRANDE APOSTA DE LULA

Artigo de Fernando Gabeira

Ao proibir as bets nove dias antes do primeiro turno, Lula fez sua maior aposta. Muitos observadores consideram grandes suas chances de êxito. As pesquisas mostram que a maioria condena apostas on-line. Grande número de mulheres pode decidir o voto a partir dessa medida.

É impossível cravar cientificamente qual será o resultado das eleições de domingo. O universo do futebol foi atingido. Lula fez menção ao Flamengo; a torcida não gostou. Enfim, há muitos fatores a analisar.

Essa avaliação pertence às pesquisas que saem às ruas nesta semana. O mais importante é colocar a questão-chave: por que foram necessários tantos malabarismos às vésperas das eleições? Creio que essa variável é fundamental para analisar o governo nascido de uma frente democrática em 2022. Lula é acossado por um Bolsonaro. Significa que, apesar dos grandes julgamentos e de todas as críticas midiáticas, o bolsonarismo resistiu. Um governo democrático bem-sucedido com uma orientação adequada talvez pudesse reduzir a importância dessa corrente política radical. Não foi o que aconteceu.

O interessante é que as pesquisas revelam que outros candidatos também acossam Lula num hipotético segundo turno. Forte indicação de desejo de mudança. Se as pesquisas revelassem uma situação mais favorável, Lula certamente dispensaria os malabarismos e enfrentaria as eleições com os métodos tradicionais.

É razoável questionar se houve erros no caminho. A Frente Ampla foi realmente uma frente? Ou, apesar do nome, apenas mascarou as pretensões hegemônicas de um partido, que abocanha o essencial e mantém os aliados como funcionários do governo?

Não houve debates no interior da Frente para apresentar alternativas. Isso decorre também do horror às críticas, da tentativa permanente de associar qualquer dissidência ao adversário político, um distante resquício do stalinismo.

Lula percebia as dificuldades do governo, mas tentava superá-las magicamente. Todo ano que terminava era o ano de plantação, segundo ele. Todo ano que começava era o ano da colheita. O mandato termina, e a magia terá de ser repetida no próximo, exceto em caso de compreensão de que é preciso mudar, de que um próximo governo precisa corrigir os erros, reencontrar apoio e reduzir o campo de manobra dos adversários mais radicais.

Pode-se argumentar que o avanço da extrema direita é uma realidade mundial. Mas isso retira a singularidade do caso brasileiro. Ao norte, o problema que estimula o avanço é a imigração; aqui é a corrupção. Para grande parte dos analistas de esquerda, a corrupção é apenas uma nota insignificante no pé de página da História. É um não problema que aflige apenas um pequeno segmento da classe média. O resultado dessa tolerância acabou se refletindo no clima geral do país. Ministros do Supremo entraram na corrida para se tornar bilionários, deputados e senadores esbanjam boa parte do Orçamento com emendas que não controlamos.

Enquanto essas questões não forem resolvidas, o Brasil estará aberto à espera de um oportunista que se apresente como salvador diante de um universo político considerado 100% corrupto. Num novo mandato, será difícil para Lula dobrar a aposta. Terá de refazer o caminho.

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AS DÚVIDAS DA RETA FINAL

Míriam Leitão, O Globo

A pouco dias da eleição, as pesquisas mostram dois candidatos à presidência empatados, mas com os blocos de eleitores se movendo

Dentro de cinco dias estaremos diante da urna eletrônica e o que a democracia nos oferece é uma enorme avenida. Escolher o próximo presidente, renovar dois terços do Senado, eleger os deputados da Câmara Federal, das assembleias legislativas e os governadores. Com a campanha curta, e drenada por temas estranhos à natureza da escolha, as pesquisas nos mostram um país em que dois candidatos ao Planalto estão empatados, mas com blocos de eleitores se movendo. A pesquisa Quaest, encomendada por este jornal, traz informações relevantes, só que ainda há muitas dúvidas.

A sondagem foi melhor para Lula do que para Flávio Bolsonaro em dois pontos cruciais. Aumentou de 5 para 11 pontos percentuais a vantagem de Lula sobre Flávio no eleitorado feminino. Eu disse aqui, colunas atrás, que o presidente estava perdendo essa dianteira no eleitorado feminino, e as mulheres foram decisivas na vitória de Lula em 2022. Isso se reverteu. Outra boa notícia para Lula é a redução da distância que ele estava de Flávio Bolsonaro na região Sudeste, que concentra 42% do eleitorado brasileiro e tem os três maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. A diferença há uma semana era de seis pontos, agora caiu para dois: 35% para o candidato do PL, 33% para o petista.

A religião dominou o debate nos últimos dias, com Nossa Senhora Aparecida no centro da controvérsia. A acusação do senador Flávio Bolsonaro de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tivera participação no boato reacendeu a polêmica que já estava perdendo a força no final do domingo. Não era verdade a informação que incendiou as redes sobre a destituição de Aparecida como padroeira do Brasil, mas a acusação à CNBB também não tinha fundamento. “Não se combate uma mentira com outra mentira”, disseram os bispos.

Na pesquisa, subiu de 43% para 48% a intenção de votos em Lula entre os católicos. Nos evangélicos, Lula subiu quatro pontos, de 23% para 27%, e Flávio Bolsonaro caiu de 49% para 46%. O campo da pesquisa foi feito de sexta a domingo. Traz parte do reflexo dessa briga religiosa.

O que espanta é o desinteresse numa eleição tão decisiva para definir o Executivo e o Legislativo dos próximos anos. E, de certa forma, o Judiciário. Na pesquisa espontânea, 31% estão ainda indecisos sobre o voto para presidente, 23% se dizem nada interessados nas eleições. O voto nulo e branco é alto. Ainda podem mudar o voto, 16% dos que disseram ter a intenção de votar em Lula, 19% dos que escolheram Flávio Bolsonaro, 35% dos eleitores de Caiado, 47% dos de Augusto Cury e 40% de Renan Santos.

Há um menor engajamento nesta eleição. Talvez isso se explique pelo fato de as taxas de rejeição dos dois principais candidatos terem estado consistentemente acima de 50% durante os últimos meses. Talvez pelo fato de essa campanha ter sido engolida pela crise do Supremo Tribunal Federal e pelo escândalo do banqueiro trambiqueiro, hoje preso, Daniel Vorcaro. Para complicar, nos últimos dias uma batalha religiosa instaurou-se nas redes e nas campanhas.

O eleitor tem preocupações, a vida do país tem emergências, há perigos reais no horizonte do Brasil, e esta campanha será conhecida como a que mais fugiu da discussão de propostas e projetos de governo.

O debate da Globo, marcado para a próxima quinta, ficou ainda mais relevante. Claro que todos criticarão o presidente Lula, mas qualquer incumbente é sempre o alvo preferencial nos debates. Se comparecer, será a chance de Lula apresentar o que fez em quatro anos e em nome do que está pedindo mais quatro. A campanha de Flávio Bolsonaro é um deserto de ideias. A de Lula também, porém tem a seu favor os resultados de três governos e de uma longa vida política. Flávio Bolsonaro é um senador sem projetos e sem relatorias. Não tem uma biografia parlamentar relevante. Na pesquisa, 52% dos entrevistados disseram que Lula é que ganhará a eleição, e 32% disseram que é Flávio Bolsonaro.

Cada pesquisa, seja de que instituto for, traz uma coleção de números mostrando evoluções por dentro dos grupos e das regiões, ainda que a disputa permaneça tão empatada quanto estava em abril. Haverá emoção até o final. Muito provavelmente, a disputa presidencial terminará só no segundo turno. Do voto deste domingo sairá a composição da Câmara e de dois terços do Senado. Não é pouco o que decidiremos dentro de alguns dias.

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O AVISO DE DINO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

André Mendonça vestiu-se de Xandão e, pois, censurou. A porteira estava aberta; a estrada, pavimentada. Será sempre por boa causa – contra a “reprodução sucessiva” de mentira. Na origem, havia uma mentira. E logo haveria a proibição genérica de referências à Nossa Senhora Aparecida. O gênio que não voltará mais à lâmpada é esse.

Mendonça censurou com base em jurisprudência do TSE; aquela, aplaudida, aclamada mesmo, por meio da qual – para além de se derrubar publicações – cassaram-se contas em redes sociais. Bloqueou-se uma rede social no Brasil – em defesa da democracia.

Mendonça censurou lastreado na conceituação jurídica elástica sobre fake news; aquela, vigente, em que tudo caberá, a depender do juiz: e então, à notícia objetivamente falsa, sobrepõe-se a vagueza do fato “gravemente descontextualizado”, da “desordem informacional” – o próprio convite a que se censure “conteúdos substancialmente equivalentes” por arrastamento. (Alexandre de Moraes, exemplar, condenou por arrastamento os depredadores do 8 de Janeiro.)

Mendonça censurou – previamente, à baciada – com fundamento no Direito Xandônico.

Censurou – ora veja você – legalmente. Censurou aplicando aquilo que, em 2022, consagrara Moraes como o herói salvador da pátria. E que hoje – em defesa da liberdade de expressão, essa instrumentalizada – virou, na caneta de Mendonça, silenciamento preventivo do debate. É que o “terrivelmente evangélico” censura em prol do lado errado... Para prevenção virtuosa contra a desinformação bolsonarista, o TSE de Xandão – com Cármen Lúcia – criou as regras autoritárias que agora Mendonça aplica à desinformação petista.

Flávio Dino já disse que não pode. O senador-togado, líder do governo Lula no Supremo, puxa a reação do gilmarmendismo para informar ao colega da facção rival que as ferramentas xandônicas são exclusivas e não lhe estarão à disposição tão facilmente. Para tanto, para que Mendonça não possa usufruir do arsenal que Moraes inscrevera em resoluções da Justiça Eleitoral, a turma já armou um TSE paralelo.

Está valendo tudo: extinção de instância, espoliação de competência – a violação permanente ao princípio do juiz natural. Vide a forma como Dino derrubou a ordem de Mendonça: estendendo agora a um censurado em decorrência de representação eleitoral movida por Flávio Bolsonaro a eficácia de decisão tomada em junho, em Reclamação que tinha outro objeto e outras partes. A defesa escolheu o juiz. Escolheu Dino. Peticionou – e levou. No atalho, na marra.

Levou – levamos todos nós – a defesa cínica de Dino sobre o valor da liberdade de expressão, aquela contra a qual ele, tomando emprestado o inquérito das fake news, investiu: o criminalizador de reportagem e supressor do direito ao sigilo da fonte de repente preocupado com a qualidade da informação e a garantia fundamental ao debate livre. Um milagre, talvez.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

A METÁSTASE INSTITUCIONAL DO CASO MASTER

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

O passivo de ilícitos passa a sobredeterminar as relações entre os três Poderes e vira moeda de troca

Presidentes, ministros e parlamentares agora calculam também os riscos de exposição e retaliação

As revelações mais recentes sobre Davi Alcolumbre acrescentam uma dimensão ainda mais grave à crise política atual. Seu comportamento podia ser explicado, em larga medida, pela dinâmica institucional de um presidente hiperminoritário diante de um Legislativo hostil. Nessa interpretação, Alcolumbre seria essencialmente o agente representativo de uma maioria parlamentar.

Essa explicação institucional não é falsa. Tornou-se, porém, claramente insuficiente.

O presidente do Senado é o gatekeeper dos pedidos de impeachment contra ministros do Supremo e de instalação de CPIs. Apenas Alexandre de Moraes acumula 55 pedidos; contra o conjunto dos ministros, segundo o próprio Alcolumbre, foram protocolados 109. A rejeição da indicação de Messias ao STF também parecia confirmar que o Senado recuperara sua condição de ponto de veto diante do Executivo.

Mensagens extraídas do celular de Vorcaro apontam para uma relação de grande promiscuidade entre o banqueiro e Alcolumbre. Os dois se tratavam como irmãos "para a vida toda". Outros diálogos mencionam festas organizadas pelo ecossistema do Master e a presença de mulheres selecionadas para os convidados. O problema não se limita à vida privada. A Amprev, fundo de previdência dos servidores do Amapá, aplicou centenas de milhões de reais em papéis do Master. Um irmão de Alcolumbre integrava o conselho da instituição.

A decisão recente de Cristiano Zanin sobre a CPI do Master torna o quadro ainda mais nefasto. O requerimento apresentado por Alessandro Vieira tinha 41 assinaturas —muito mais do que as 27 exigidas pela Constituição— e apontava fato determinado: as relações pessoais, financeiras ou funcionais entre ministros do STF e Vorcaro. Embora já tivessem transcorrido quase seis meses sem que Alcolumbre desse andamento ao pedido, Zanin afirmou não estar suficientemente comprovada, "por ora", omissão ou abuso de poder por parte do presidente do Senado.

A decisão colide com uma jurisprudência claríssima do próprio Supremo: a instalação de uma CPI constitui direito da minoria parlamentar. Zanin não apenas preservou o poder de veto do presidente do Senado: fez isso em benefício de um gatekeeper cuja relação com o principal investigado acabara de ser revelada.

A informação também lança outra luz sobre o jantar realizado em agosto na casa de Moraes. Reuniram-se ali Moraes, Zanin, Lula e Alcolumbre, fora das agendas oficiais, para promover uma "reconciliação" entre os presidentes da República e do Senado. Poucas semanas depois, um dos ministros presentes recusou-se a obrigar Alcolumbre a instalar uma CPI destinada justamente a investigar as relações de integrantes do Supremo com Vorcaro.

O passivo de suspeitas, vínculos comprometedores e ilícitos passa, assim, a sobredeterminar as relações entre os três Poderes. Presidentes, ministros e parlamentares deixam de agir apenas segundo suas preferências institucionais e passam a calcular também os riscos de exposição e retaliação. O que emerge não é simples corporativismo, mas um sistema de vulnerabilidades cruzadas, no qual a omissão de hoje pode ser trocada pelo silêncio de amanhã. É essa a metástase institucional do caso Master.

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PRESENÇA DE MULHERES NA POLÍTICA FORTALECE A DEMOCRACIA

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Maioria no eleitorado, mulheres ainda ocupam espaço reduzido no poder

Candidatas negras enfrentam a pior taxa de conversão em mandato

Lá se vão 31 anos desde que a legislação eleitoral (lei nº 9.100/95) determinou que os partidos políticos devem reservar vagas para candidaturas de mulheres. Originalmente, a reserva mínima era de 20% e valia para as eleições de 1996.

No ano seguinte, a determinação foi alterada (lei nº 9.504/97) para abranger as eleições proporcionais em geral. Até que a minirreforma eleitoral (lei nº 12.034/2009) ampliou para 30% o percentual mínimo de candidaturas para cada gênero.

Não há dúvidas sobre o impacto positivo da política de cotas de gênero para assegurar a participação feminina na política. Contudo, três décadas, 15 eleições, dois plebiscitos e dois referendos depois da implementação dessa relevante ação afirmativa, menos de 35% das candidaturas válidas são de mulheres (TSE).

O que deixa no ar a pergunta: por que a presença feminina na política ainda é tão acanhada, considerando que mulheres são maioria na população e no eleitorado?

A resposta correta é de múltipla escolha, e uma das opções verdadeiras diz respeito ao descumprimento da legislação. Em 2026, um terço dos partidos que receberam dinheiro público do Fundo Eleitoral não haviam destinado as verbas obrigatórias para candidaturas de mulheres e de pessoas negras a dez dias das eleições gerais do próximo domingo.

O que faz pensar sobre a eficácia da reserva de cotas em listas de candidaturas sem rever a dinâmica das estruturas partidárias que decidem quem e quando recebe apoio, dinheiro e visibilidade, questões que definem uma eleição.

Na atual cena eleitoral, quem tem menos chances de transformar candidatura em mandato eletivo no Congresso Nacional são as mulheres negras, que em 2022 apresentaram uma taxa de elegibilidade de apenas 1,5% (TSE).

Contar com a presença de mais mulheres na política brasileira implica reduzir uma desigualdade histórica e ainda fortalecer a própria democracia à medida que se alarga a representatividade da nossa sociedade, que é plural e diversa.

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DOIS LITROS POR DIA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Nenhum jovem sai mais à rua sem uma garrafa d'água; seria como andar nu por aí

A pergunta é: onde ele despeja toda essa água que manda para dentro o dia todo?

O espetáculo salta aos olhos: o batalhão de jovens (jovens hoje são todos entre 10 e 40 anos) nas ruas com uma garrafa d’água. Ela pode estar num bolso da mochila, presa à alça da própria, levada na cintura ou mesmo nas mãos. O importante é ter o produto ao alcance de um gole. É como se sair de casa sem água fosse sair sem calças. Nenhum millennial será apanhado nessa condição.

Imaginei que essa nova devoção à água tivesse um fundo religioso, algo a ver com crenças alternativas, e, nesse caso, eu não estaria aqui palpitando. Ou com uma simples prevenção individual no caso de sede súbita e incontornável —mas como pode ser individual se toda uma geração parece de repente atracada a um bico de mamadeira? Fui pesquisar e vi que não é nada disso. Para as novas gerações, beber água o dia inteiro tem implicações éticas, morais, estéticas, políticas e de saúde física e mental.

O principal é o bem-estar —"wellness", em português. Os jovens se convenceram de que beber pelo menos dois litros de água por dia produz energia, pele bonita, organismo nos trinques, cabeça fresca e barriga de tanquinho. É também um símbolo de consciência social —a garrafa reutilizável prova que você não veio ao mundo para poluí-lo com porcarias de plástico.

A garrafa pode ser ainda um acessório de moda. Dependendo da marca, das cores ou do design, o status de seu portador subirá aos cumes da cotação social. Sem falar na garrafinha como um objeto de apelo emocional —agarrar-se a ela como se fosse um ursinho de pelúcia ajuda na sensação de controle e conforto.

Diante disso, penso em mim e na minha turma nos últimos 200 anos. Somos uma geração de desidratados, desenergizados, ecoinsensíveis, com pele de pergaminho e emoções em pandarecos. Afinal, sempre nos limitamos a um ou dois copos de Caxambu ou São Lourenço, que nos bastavam pelo resto do dia como se fôssemos camelos, no balcão de sórdidos e queridos botequins. O que me faz perguntar: onde na rua os garotos despejam toda essa água que bebem às catadupas?

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ENTRE O SONHO E O RESSENTIMENTO

Rosana Pinheiro-Machado*, Folha de S. Paulo /Ilustríssima

Brasil vai às urnas dividido entre quem realiza sonhos e quem se vê deixado para trás

Percepção do papel do Estado na concretização das aspirações é decisivo no voto dos segmentos que aprenderam a desejar

Anseio de se tornar CEO de si próprio expressa, mais que ímpeto neoliberal, busca por dignidade em país que humilha pobres

Em uma análise da vitória recente da extrema direita nas eleições da Alemanha, Paul Krugman, vencedor do Prêmio Nobel de Economia, apontou que a balança comercial favorável e os empregos industriais não foram suficientes para prevenir o ressentimento daqueles que se consideram, em comparação com a média nacional, em desvantagem econômica.

A explicação desse fenômeno foi desenvolvida em um artigo de Laura Carvalho e Guilherme Klein, publicado nesta Ilustríssima, que analisa como bons indicadores da economia brasileira não se convertem em uma avaliação positiva do governo Lula (PT). Os economistas argumentam que a transformação das aspirações dos brasileiros e as novas comparações geradas por esse processo estão no centro da popularidade do presidente.

Analiso, aqui, como a capacidade de aspirar se expandiu dramaticamente entre os brasileiros nas últimas décadas. Essa mudança transformou o país e produziu efeitos não óbvios e contraditórios, cujas consequências políticas ainda não foram plenamente compreendidas, mas certamente vão estar em jogo nestas eleições.

Há quase três décadas, venho documentando os sonhos atrelados ao consumo e ao trabalho dos brasileiros. Desenvolvi o conceito de classes aspiracionais para me referir aos segmentos populares que aprenderam a desejar outros futuros, ampliaram as suas expectativas e, agora, querem —e sentem que merecem— mais.

A ampliação do repertório de aspirações de uma população é um indicador importante do desenvolvimento, porque os sonhos avançam à medida que os horizontes se expandem. Mas isso, sozinho, traz grandes riscos: ao gerar expectativas, pode retroalimentar frustrações e ressentimentos. Consumidores e trabalhadores mais exigentes querem mais e buscam respostas políticas ou para avançar ou para não perder o pouco que conquistaram. Logo, se as aspirações forem atingidas, as políticas de mobilidade social vão bem; senão, a conta chega na forma de radicalização política.

Nestas eleições, o que está em jogo é um Brasil dividido entre os que estão concretizando as suas ambições e os que se ressentem. Isso, no entanto, não significa que a realização das aspirações leve automaticamente à rejeição da extrema direita. A percepção da presença ou da ausência do Estado e do esforço individual nessa trajetória é mais importante que a concretização em si das aspirações.

Uma contradição insolúvel

No Brasil, a expansão da teologia da prosperidade nas igrejas neopentecostais nos anos 1990 e as políticas lulistas dos anos 2000 —ampliação do crédito, inclusão pelo consumo, transferência de renda e ações afirmativas— multiplicaram as aspirações. Na ponte entre os discursos governamental e religioso, o empreendedorismo surgiu como uma promessa de autonomia, prosperidade e ascensão individual.

O padrão se repetiu em outros países do Sul Global, como a Índia e as Filipinas, onde também desenvolvo pesquisas: a economia cresceu nos anos 2000 e milhões de pessoas foram retiradas da pobreza sem um rompimento com o modelo neoliberal.

Pessoas alcançaram alguma mobilidade social e ampliaram a sua capacidade de sonhar, seja conquistando bens, seja vendo pessoas próximas conquistá-los, mas permaneceram presas a novas formas de precarização, como o trabalho plataformizado em aplicativos e redes sociais. Soma-se a isso o incentivo em massa ao empreendedorismo como saída individual para uma crise marcada pela redução das proteções sociais e trabalhistas.

Como resultado, uma contradição insolúvel foi criada: aspirações crescentes, de um lado, e alto endividamento e precariedade econômica e laboral, de outro.

Abrindo a janela do consumo

Entre 2009 e 2014, eu e Lucia Scalco pesquisamos o consumo das classes populares de Porto Alegre —a primeira geração que podia comprar objetos cobiçados e rejeitar restos e doações de patroas, por exemplo. O Bolsa Família e as novas possibilidades de crédito facilitavam as compras em lojas.

Sem grandes perspectivas de futuro, essas pessoas apostavam na cidadania por meio do consumo. Acompanhamos muitos casos: um jovem que juntou tudo o que tinha para comprar um tênis Nike à vista no shopping para não ser confundido com bandido; o aprendiz de padeiro que comprou um celular em 12 prestações e foi roubado na parada de ônibus antes mesmo de pagar a primeira; a cuidadora que usou todo o FGTS para realizar o sonho de levar a família ao Outback.

Longe de ser futilidade ou irracionalidade, esses gestos funcionavam como um passaporte para cruzar uma fronteira existencial. As pessoas sonhavam em comprar um produto caro e visível como uma forma de se sentir gente.

Chamamos esse momento de reivindicação do direito a brilhar: o prazer pela aquisição de "coisas boas", o empoderamento individual, a consciência de que a sociedade racista e classista não legitimava aquele consumo e, como resposta, a afronta de andar com a cabeça erguida.

Os rolezinhos de 2014, tão paradigmáticos do direito a brilhar nos anos 2010, marcaram o ponto de virada da primeira geração dos filhos do Bolsa Família, que buscava visibilidade, reivindicava circular em shopping centers e queria comprar por meios formais.

Depois de Junho de 2013 e diante da profunda crise econômica e política que começou em 2014, havia ali o retrato de uma mudança complexa e perturbadora que transformou o Brasil. Não à toa, no estudo "Da Esperança ao Ódio", documentamos, entre 2016 e 2018, como parte desses jovens e dos seus pais, frustrados com a crise econômica, aderiu ao bolsonarismo. O voto expressava uma revolta contra as aspirações frustradas dirigida justamente ao partido que havia aberto essa janela.

Novos sonhos materiais e imateriais

Em um livro publicado em 2025, investigamos os sonhos de consumo de brasileiros, chineses, mexicanos e filipinos que saíram da pobreza, mas ainda não chegaram à classe média. Eles viviam em um limbo: tinham alcançado uma vida melhor, mas não conseguiam usufruí-la plenamente por causa de dívidas, da violência urbana e de outras formas de precariedade.

Nossa amostra era composta de pessoas que acessaram políticas de inclusão social e redistribuição de renda —muitos eram profissionais liberais e autônomos. Quando perguntamos a jovens adultos qual era o seu sonho mais ousado, ouvimos respostas como ter uma poupança, alcançar segurança financeira e se alimentar melhor.

No México, muitos queriam reduzir os pedidos de iFood e o consumo de ultraprocessados e incluir orgânicos na dieta. Nesse desejo de comer melhor, também emergiam conflitos familiares, como o caso do personal trainer que saiu da Rocinha para morar em Copacabana, passou a apreciar experiências gastronômicas e já não conseguia lidar com o pai, que "só come frango a passarinho". Esses microconflitos cotidianos evidenciam as grandes rupturas decorrentes da expansão dos horizontes.

Encontramos também o sonho de viajar: para Gramado, Salvador, Paris ou a Disney; para países africanos em busca da própria ancestralidade. Muitos interlocutores, os primeiros da família a andar de avião, já viviam essa jornada. Embora tirassem selfies na janelinha, o prazer não estava na exibição, mas no sentimento arrebatador de ampliar os horizontes.

Outro achado foi encontrar pessoas que ascenderam um pouco ou estavam rompendo com a pobreza e cujo pertencimento já não passava por exibir a sua capacidade de consumo: não ligavam para roupas nem para celulares de marca, e a realização dispensava símbolos de prestígio, riqueza ou branquitude.

Encontramos uma geração de jovens adultos com um estilo de vida mais pé no chão. As políticas públicas, combinadas com o tremendo esforço pessoal, permitiram mudanças sustentáveis entre as gerações. Os sonhos se transformaram em um planejamento de conquistas graduais e realistas. São pessoas que sabem que nada está garantido. Esses grupos não tiveram as suas aspirações castradas, e as suas escolhas políticas rejeitam os extremismos.

Já nos últimos cinco anos, a capacidade de sonhar de certos segmentos populares tem se transformado radicalmente com uma explosão de aspirações mediadas pelas redes sociais, em contraste brutal com a realidade.

Pessoas dizem que vão acumular dezenas de milhões de reais enquanto escondem a parede sem reboco das suas casas, sonham com uma Ferrari, mas não têm dinheiro para pagar uma corrida de moto por aplicativo, passam horas em ônibus e trens e são frequentemente assaltadas ao voltar do emprego e almejam encontrar no trabalho digital uma saída rumo ao conforto e à liberdade.

Esse sonho oferece um alívio: permite imaginar a admiração e o respeito que seriam conquistados com a riqueza. O problema é a dissonância entre esse anseio e as possibilidades concretas de ser realizado.

O sonho digital virou um mercado gigantesco no Brasil. O empreendedorismo online, como Brooke Erin Duffy define, é um trabalho aspiracional: uma promessa de renda e emancipação para quem ainda está longe da mobilidade social. Nos aplicativos e, sobretudo, nas redes sociais, milhões de brasileiros tentam ganhar a vida, obter renda extra ou se tornar influenciadores. Muitos jovens têm deixado a escola nessa ilusão.

Trata-se de um universo mediado por influenciadores e coaches do marketing digital e da prosperidade, cujas credenciais se baseiam em premissas falaciosas, como "se eu consegui, você também consegue" ou "todo o mundo tem as mesmas 24 horas".

Nos últimos três anos, seguimos diariamente 700 influenciadores. Em uma das mentorias, um deles dizia que tinha o código da riqueza de Elon Musk e que os seus mentorados, as 90 mil pessoas do mundo todo que assistiam às suas aulas, seriam parte do novo 1% VIP da humanidade.

Abaixo dos grandes influenciadores, se esconde uma pirâmide de exploração da esperança, alimentada por operários da viralização, como os estudados por Rafael Grohmann, e por aqueles que consomem os seus conteúdos. "O que mais vende são reels que trazem a reza da riqueza", me disse um jovem que sonha em ficar rico na internet.

Nossos levantamentos mostram que 90% dos influenciadores desse ecossistema se alinham à extrema direita. Esse universo é marcado pela fé inabalável na meritocracia e no individualismo, combinada a estilos de vida conservadores.

As redes sociais estão repletas de mantras, técnicas de neurociência e leis da física quântica que prometem atrair riqueza. Terapias prometem curar as feridas familiares que manteriam as pessoas na pobreza. A disciplina e o "mindset" definem tudo.

Os seguidores são ensinados a elevar a sua frequência para que ela corresponda à do reino de Deus ou possa atrair a fortuna magneticamente. Outros são incentivados a preencher quadros com imagens dos seus desejos: casas de dois andares, teto quadrado e Jaguar na garagem, jatinhos e muitos milhões. É preciso, ainda, exibir o "print" do saldo bancário e agradecer a Deus pelas bênçãos.

Os influenciadores se aproximam das pessoas comuns e forjam uma identificação com os seus modos de falar e viver. Se a capacidade de aspirar depende de modelos, esses profissionais se apresentam como referências próximas: dizem ter pegado ônibus e começado do zero, produzindo conteúdo em casa com um celular velho. Dessa forma, parecem exemplos alcançáveis e ampliam a imaginação do seu público, embora os seus seguidores nem sempre tenham à mão os recursos materiais e simbólicos necessários para concretizar as ambições.

Com uma base de dados de quase 2 milhões de aspirantes a empreendedores digitais e diversos projetos etnográficos, acompanhamos muitos desses trabalhadores. São pessoas que vivem de bicos, empregos formais mal remunerados ou trabalhos precários e plataformizados. A maioria delas se define, no Instagram, como empresário, empreendedor ou até CEO.

A prosperidade econômica desse segmento que aposta na internet tem sido praticamente nula. É claro que o digital pode oferecer oportunidades a muitos, mas apenas uma minoria alcança o sucesso. A exceção, porém, é vendida como regra e retroalimenta o ciclo da aspiração.

O antropólogo Wagner Guilherme Alves da Silva, que pesquisa empregadas domésticas que usam o Instagram como plataforma de trabalho, mostra como elas se reposicionam como "personal cleaners" e aspiram a deixar de ser "Isauras" e se tornar diamantes. Muitas delas compram mentorias para abandonar velhos hábitos, transformar o corpo, atrair riqueza e até se imaginar na capa da Forbes, mas não deixam de vivenciar a precariedade e a violência.

Ouvimos muitas pessoas que, mesmo passando horas por dia tentando crescer no universo digital sem obter resultados, se culpam pelo fracasso: "O meu mindset está errado". Os reveses são vividos como algo puramente individual, resultado de energia fraca ou esforço insuficiente.

Muitas dessas pessoas são mulheres negras, mães e trabalhadoras com dupla jornada, para as quais a renda extra digital e o home office aparecem como uma saída. Ao não progredir, porém, costumam se endividar para comprar mais uma mentoria com um coach.

Aspirar à autonomia

Muitos ridicularizam pessoas de baixa renda que desejam empreender, as chamando de "CEO de MEI", referência a microempreendedor individual. A minha proposta é olhar para esse fenômeno sob outro ângulo. Estamos falando de sonhos de realização pessoal, dignidade, tempo livre e conforto: se anseia vender hambúrgueres para comandar a própria vida, controlar o tempo de descanso e se realizar por meio da expressão de quem se é.

Estimamos que cerca de um terço da população economicamente ativa usa redes sociais para empreender. As políticas governamentais e o debate público erram ao reduzir a plataformização ao trabalho por aplicativos, ignorando o fenômeno mais amplo e profundo do trabalho nas redes sociais.

Uma das maiores aspirações dos brasileiros sempre foi ter carteira assinada. Embora pesquisas apontem a predominância desse desejo hoje, cresce a ambição pelo trabalho autônomo. O discurso que associa a CLT à falta de ambição, ao fracasso e à humilhação não domina apenas as redes, mas ganha força na linguagem popular porque toca em uma ferida profunda: o legado de uma cultura de subalternidade associado a uma rotina de "corres" e "perrengues". Isso não significa que os brasileiros não queiram empregos formais. As pessoas não querem mais se sujeitar a empregos ruins.

Trabalhar no digital ou por aplicativo e sonhar com liberdade e autonomia faz sentido em um país que marginalizou os trabalhadores informais e maltratou os formais em empregos mal remunerados e com longas jornadas, que sugaram a sua criatividade e força física e mental. Por trás do desejo de ser CEO no Instagram ou se tornar patrão de si mesmo, está a vontade de controlar o próprio tempo e não ter que obedecer ordens.

Esse Brasil que quer andar de cabeça erguida e ser tratado como diamante tem menos a ver com um ímpeto neoliberal e mais com algo fundamentalmente humano: a busca por visibilidade e respeito em um país que invisibilizou e humilhou os grupos populares e a procura por autonomia e conforto em uma cultura de trabalho que historicamente os explorou.

Essa não é uma explicação romântica para um mal social. O desejo mesquinho, o egoísmo, a ostentação e a exploração existem por todos os lados. A extrema direita surfa nesse desejo de liberdade e o transforma em força ideológica, mas as ausências estruturais são a base desse processo.

A raiva e os sonhos do autoritariado

Nestas eleições, precisamos entender como as classes aspiracionais votam. A resposta depende menos da concretização ou da frustração das aspirações e mais da forma como o Estado é percebido nesse processo.

Não há um modelo rígido de voto, mas uma tendência se destaca: parte daqueles cujas aspirações foram ampliadas e concretizadas tende a rejeitar a extrema direita e a votar em Lula. São pessoas que guardam uma memória mais viva da presença contínua do Estado ao longo da sua trajetória de melhoria.

Contudo, existe um universo imenso e muito desafiador à compreensão do impacto da expansão das aspirações na adesão ao bolsonarismo. Refiro-me tanto àqueles cujas aspirações seguem frustradas quanto aos que as concretizam por caminhos que julgam ser puramente individuais e meritocráticos, ou seja, sem a influência estatal. Ambos os grupos consideram o Estado ausente, ineficiente e corrupto, que só aparece para taxar e extorquir.

Chamei esse universo social de autoritariado: frações das classes aspiracionais e pobres que, como grande parte da população brasileira à margem do mercado de trabalho formal e das proteções sociais, aprenderam a se virar. O autoritariado é oprimido e opressor. Cada vez mais plataformizado, está encarnado tanto no estereótipo do Uber bolsonarista quanto nos autônomos que, segundo um levantamento do jornal O Globo, representaram 43% dos presos pelo STF por participação no 8 de Janeiro.

Esses segmentos estão cada vez mais alinhados não apenas ao conservadorismo e ao autoritarismo, mas também ao libertarianismo. O autoritariado acredita apenas no seu esforço e vê o Estado como usurpador, mas espera um pulso firme para cortar as mamatas. É seduzido por bets, criptomoedas, imposto zero e figuras como Musk. Não se revolta contra as grandes fortunas e tampouco defende a sua taxação: almeja ser parte das superelites.

O bolsonarismo e os seus aliados, em diferentes graus de radicalidade, têm ganhado de braçada entre o autoritariado. Aqui, voltamos à dimensão comparativa da percepção dos indicadores econômicos. A lógica é esta: "Ao mesmo tempo que percebo o Estado como profundamente ausente para mim, sinto que ele, que nada me deu e muito me tirou, é muito presente e benevolente para os outros".

Carvalho e Klein mencionaram o papel dos feeds na ampliação do repertório de aspirações. De fato, raramente se sonhou tanto e tão alto, mas isso não significa que a raiva e o ressentimento tenham se ampliado na mesma escala. Ao contrário do que se imagina, essas emoções não são dirigidas a um inimigo abstrato, forjado pelas redes sociais.

As redes ampliam os horizontes e preparam o terreno, mas a raiva desce ao chão da vida cotidiana e permanece profundamente paroquial. Se as aspirações se constroem na comparação com os de cima —os ricos e "livres e felizes"—, a raiva nasce da comparação com os rechaçados de baixo. A indignação é com a "vizinha preguiçosa, que não faz nada e só vive do Bolsa Família enquanto eu me mato de trabalhar".

Isso é o que chamo de senso de merecimento precário: diz respeito ao sujeito que conquistou um pouquinho a mais e, por isso, se acha superior em uma narrativa que valoriza o trabalho individual duro. Mais que falta de consciência de classe, se trata de uma forma de desejo de tentar se salvar do estigma da pobreza e repassá-lo para baixo.

Em um "país de vagabundos", o desprezo à pobreza produz a vontade desesperada de não ser reconhecido como pobre —e leva a culpa aos menos privilegiados. A extrema direita, que se caracteriza justamente pela narrativa do "nós contra eles", joga lenha nessa fogueira.

Enquanto os estudos sobre a extrema direita se concentram nas emoções negativas —raiva, ressentimento, frustração, ódio e nostalgia—, tenho preferido olhar para os sentimentos positivos, os sonhos e as aspirações. É um erro achar que o bolsonarismo se assenta somente no ressentimento pelas aspirações frustradas.

O anseio do sujeito de mostrar que é melhor que a "vizinha preguiçosa" e esfregar isso na cara de quem antes o humilhava encontra hoje o seu lugar no empreendedorismo e nas novas formas de trabalho, alimentado por promessas meritocráticas de esforço individual.

O autoritariado vai às urnas

O bolsonarismo e os seus aliados têm falado com esses grupos de muitas formas: exaltando o trabalho duro, desqualificando o Estado e, durante a pandemia, afirmando que o Brasil não podia parar. A extrema direita surfa no desejo legítimo de autonomia e o transforma em liberdade individual. Na campanha, Flávio Bolsonaro (PL) se concentra no poder de compra, no endividamento, no Estado taxador e na violência.

Para além do bolsonarismo, existe um leque de opções que, ainda que não se apresentem diretamente como de extrema direita, ecoam as aspirações do autoritariado. Pablo Marçal (PRTB) e Augusto Cury (Avante), por exemplo, vieram de um mundo político digital muito semelhante. Não à toa, ambos pareceram surgir do nada e alcançaram intenções de voto significativas. Desapercebidos por muitos, estavam falando a milhões de sonhadores havia anos.

Cury, em particular, reina no universo dos coaches de prosperidade e, ainda que não defenda abertamente pautas de extrema direita, é parte do mesmo ecossistema digital, sustentado por uma crença inquestionável na força individual e dirigido a milhões que acreditam apenas em si mesmos e em Deus como caminhos para o crescimento. Ele representa justamente esse novo universo do trabalho que, ao considerar o Estado ausente, vê nas terapias de cura de dores individuais —das perdas e da pobreza— a solução para problemas coletivos.

Para Lula, o desafio é imenso: como gerir o monstro imprevisível que saiu da janela das aspirações —janela também aberta por ele? Para um partido calcado na luta histórica de uma parcela dos trabalhadores, especialmente os sindicalizados, como falar e se conectar com um grupo que se desprende do Estado, vê a saída no indivíduo —não na luta coletiva ou na democracia— e busca autonomia por meio do sucesso empreendedor? Como entender o direito a brilhar sem transformá-lo em políticas neoliberais ainda mais individualizantes e, principalmente, tornar o coletivo e a democracia uma nova aspiração?

É preciso lembrar que a tendência libertária do autoritariado, vinda da revolta contra o Estado, não significa que não se queira o Estado. Ao contrário, as pessoas se ressentem da sua ausência.

Portanto, em um mundo do trabalho cada vez mais pejotizado e plataformizado, a questão não se limita a recriar narrativas para falar com esses trabalhadores. Em vez disso, escancara o desafio tremendo de desenhar políticas públicas robustas que preservem o desejo legítimo de autonomia e conforto e ampliem a proteção do Estado às classes aspiracionais.

*Professora titular de estudos globais da University College Dublin, na Irlanda, onde dirige o laboratório Digital Economy and Extreme Politics

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HÁ 60 ANOS, BRASIL PARA VER "A BANDA" DE CHICO PASSAR

Claudio Leal*, Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Canção interpretada por Nara Leão venceu festival na TV em 1966 e virou fenômeno cultural

Versos do músico de 22 anos uniram país em fase traumática e foram louvados por Drummond

(Resumo) Em 10 de outubro de 1966, "A Banda" despontou da 2ª edição do Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record, para a glória nacional, fazendo de seu autor, um jovem e tímido Chico Buarque de 22 anos, um ídolo de massa. Nos dias seguintes daquele ano, como conta a reportagem a seguir, a passagem da banda "cantando coisas de amor" foi um sopro de poesia em um Brasil acossado pela ditadura, seduzindo jovens, bicheiros, militares e nomes ilustres e díspares como Drummond, Nelson Rodrigues, dom Helder Câmara e Carlos Lacerda.

Uma canção de cinco estrofes, 33 versos e 190 palavras elevou Chico Buarque a ídolo de massa. Em 10 de outubro de 1966, "A Banda", de Chico, e "Disparada", de Theo de Barros e Geraldo Vandré, dividiram o primeiro lugar do 2º Festival de Música Popular Brasileira, da TV Record.

O empate, solução ansiada por Chico, não as igualou em alcance. Defendida por Nara Leão, a marcha buarquiana virou um fenômeno cultural, como se a história da passagem de uma banda emanasse do imaginário brasileiro e a ele voltasse.

"Estava à toa na vida/ O meu amor me chamou/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor// A minha gente sofrida/ Despediu-se da dor/ Pra ver a banda passar/ Cantando coisas de amor."

O estrelato empurrou o músico de 22 anos a uma onipresença em jornais, revistas, rádios e tevês, superexposição inversa ao seu recolhimento na maturidade. Em São Paulo, algumas lojas chegaram a vender 50 compactos de Chico por hora.

Duas semanas depois do festival, a gravadora Philips divulgou os números de vendas das três gravações de "A Banda": Nara, 80 mil cópias; Chico, 20 mil; e Quarteto em Cy, 10 mil. "Disparada" beirou as 60 mil cópias. "Quero que Vá Tudo pro Inferno", de Roberto Carlos, 40 mil.

Os novatos só não quebraram o recorde individual de cem mil discos do gaúcho Teixeirinha, compositor de "Coração de Luto" (1960), vulgo "churrasquinho de mãe", que ainda fazia o país chorar com uma cremação edipiana: "O maior golpe do mundo/ Que eu tive na minha vida/ Foi quando com nove anos/ Perdi minha mãe querida// Morreu queimada no fogo/ Morte triste e dolorida/ Que fez a minha mãezinha/ Dar o adeus da despedida".

Na sequência do festival, o Jornal do Brasil reconheceu abalos no reino de Roberto Carlos: "O rei perde o povo?". O soberano da jovem guarda via crescer o número de fãs de Chico e de Ronnie Von. "A Banda" se tornava um sucesso de inesperados desdobramentos.

Naquele outubro de 1966, em Belo Horizonte, a bicheira Benedita do Amaral abandonou a banca para ver a banda passar. À caça do compacto de Chico, fez duas buscas mal-sucedidas em lojas do centro, sem notar que era perseguida por policiais à paisana, benevolentes o bastante para lhe prometerem um exemplar. Na entrega a domicílio, os tiras encontram 122 listas do jogo do bicho em cima do toca-discos da contraventora. Sua prisão foi noticiada em 20 de outubro.

Os conterrâneos de Benedita tiveram melhor sorte no mês seguinte. Na capital mineira, Chico desfilou com quatro batedores e 35 policiais, o mesmo esquema de segurança do presidente da República, que, em todo o resto, saiu em desvantagem, pois o cantor ainda foi saudado por sete bandas e atraiu uma multidão estimada em 30 mil pessoas, na rua Bahia. Dias antes, ele dera com 10 mil fãs na praça 29 de Março, em Curitiba.

Na carreira de Chico, não haveria outro fenômeno tão avizinhado da beatlemania. Sem demora, os diretores Hugo Carvana e Antonio Carlos Fontoura trocaram a tabuleta do show do cantor com Odete Lara, na casa noturna Arpège, no Rio: saiu "Meu Refrão", entrou "A Banda".

A essa altura, em Minas, a Juventude Unida dos Santos Anjos da Guarda rezava com letras litúrgicas aplicadas à melodia de "A Banda", o novo tema das missas outrora animadas pelo iê-iê-iê.

De súbito, Chico virou o padroeiro das filarmônicas do interior. O presidente de uma delas, a Banda Santa Helena de Cabo Frio, pediu que o jovem ídolo convencesse prefeitos unhas de fome a liberarem mais recursos para as associações musicais.

O elogio mais eminente apareceu no Correio da Manhã, em 14 de outubro. "Viva a música, viva o sopro de amor que música e banda vêm trazendo, Chico Buarque de Hollanda à frente, e que restaura em nós hipotecados palácios em ruínas, jardins pisoteados, cisternas secas, compensando-nos da confiança perdida nos homens e suas promessas", afirmou Carlos Drummond de Andrade.

A crônica do poeta seria estampada no livro "A Banda", o primeiro de Chico, lançado em dezembro pela editora Francisco Alves, que reuniu suas letras e o conto "Ulisses". No texto de apresentação, o compositor abordou o desvio em curso de sua formação em arquitetura. "A música absorveu-me de tal forma, que chego a crer que as pontes que eu construir ruirão na manhã seguinte. Mas hão de ruir em ritmo dançante."

Naquele início de ditadura, Chico foi uma rara ponte entre correntes políticas adversárias. Em Pernambuco, dom Helder Câmara dedicou os dez minutos de seu programa televisivo à análise de "A Banda", em cuja letra apontou sementes de meditação, "pois a gente também deve se distrair, não deixando que as preocupações dominem a nossa vida".

Desafeto do "padre de passeata", o dramaturgo Nelson Rodrigues surpreendeu a filha e a esposa aos prantos com a canção. Tão logo a ouviu, em casa, desejou sentar-se no meio-fio e derramar lágrimas de esguicho. Para a alegria de Nelson, o brasileiro voltava a assobiar.

Em novembro, a marcha virou a trilha informal da "frente ampla" de oposição à ditadura. Em Lisboa, ao selar a aliança com o ex-presidente Juscelino Kubitschek, Carlos Lacerda presenteou o ex-inimigo com o compacto de "A Banda".

"Foi a única coisa alegre que aconteceu no Brasil nestes três anos", disse-lhe Lacerda, também autor de uma "carta aos pais do moço da 'Banda'", dirigida aos amigos Maria Amélia e Sérgio Buarque de Hollanda, seu velho e então distante companheiro das rodas de conversa com o escritor modernista Mário de Andrade, na Taberna da Glória.

"O menino sai um Noel Rosa dialeticamente desenvolvido, um Noel viajado, da Vila à Tijuca, quem sabe ao Cosme Velho e à Europa. (…) A carioquice de seu samba —que ele reabilita depois de tantas experiências e desconversas brilhantes— fez exultar, disseram-me, o grande Mário Reis", escreveu Lacerda. "Como é bom ver que vocês tiveram um filho para dá-lo à música."

Em Brasília, o ditador Castelo Branco ouviu "A Banda" ser executada na troca de guarda do Palácio do Planalto, uma dieta musical logo acolhida pelo Panteão de Caxias, na avenida Presidente Vargas, no Rio. Três minutos depois do toque de clarim, ao meio-dia das segundas e quintas-feiras, os Dragões da Independência deixavam o Ministério da Guerra ao som de "A Banda".

A simpatia dos fardados aflorava depois da censura militar ao samba "Tamandaré" (1965), no qual um "Zé qualquer" interpelava a efígie do patrono da Marinha numa "velha nota de um cruzeiro". "Pois é, Tamandaré/ A maré não tá boa/ Vai virar a canoa/ E este mar não dá pé, Tamandaré/ Cadê as batalhas/ Cadê as medalhas/ Cadê a nobreza". Meses depois, na avalanche de "A Banda", Chico viveria o outro lado da cédula, sendo celebrado em ritmo marcial.

A febre brasileira encantou os concorrentes estrangeiros do Festival Internacional da Canção (FIC), no fim de outubro. Inge Brück prometeu gravar "A Banda" na Alemanha, Amália Rodrigues em Portugal e Mitch Murray na Inglaterra.

Numa madrugada, Daniel Faure e Guy Mardel a verteram para o francês, na intenção de que a atriz Brigitte Bardot a cantasse. À época, em tom de galhofa, Chico anunciou a um colunista que faria uma versão em esperanto. Em seu exílio, na Itália, ele a cantaria com a diva italiana Lea Massari.

A demanda da esquerda por canções de protesto não afetava as convicções do artista. "A minha música não é política. Não tem a pretensão de servir a determinadas causas ou mudar qualquer coisa, a não ser a própria música. O tema social de ‘Pedro Pedreiro’ é tão característico da música popular brasileira como as canções de amor", disse em entrevista à revista "Manchete".

Até ali, os jornais o apresentavam como "paulista". Nascido no Rio, em 1944, Chico tinha dois anos ao mudar-se com a família para São Paulo, onde o pai assumiu a direção do Museu do Ipiranga. Mais tarde, em 1963, após temporada com a família na Itália, Chico matriculou-se na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, cuja sede ficava na Rua Maranhão.

Em 1966, o historiador Sérgio Buarque de Holanda, autor do clássico "Raízes do Brasil" (1936), pode ter sido mais questionado sobre o filho famoso do que a respeito da história colonial do país.

Em novembro, o compositor foi anunciado como o mais jovem depoente do Museu da Imagem e do Som. Ele revelou que a inspiração de "A Banda" lhe assaltara na hora do almoço. Às vésperas do festival, dividido entre ela e "Morena dos Olhos D’Água", cogitou inscrever a segunda.

Embora lembrasse de uma bandinha em Cataguases (MG) e da troca da guarda do Palácio de Buckingham, em Londres, não recorrera a nenhuma memória concreta. Ainda novinho, Chico evitava expor mistérios e sentidos da criação, autovigilância redobrada na vida adulta.

Naquele mesmo novembro, a cantora Maysa afrontou a unanimidade da marcha buarquiana. "Sinceramente, não gosto", ela disse à Manchete, crítica à linha melódica, ainda que elogiasse a letra. "Isto não quer dizer que não considere Chico um dos melhores compositores brasileiros de hoje", ressalvou.

Em 1967 e 1968, o poeta concreto Augusto de Campos fortaleceu o coro dos descontentes com a "chicolatria" aberta por "A Banda", contrapondo as canções buarquianas à poética tropicalista insurgente. A partir das experiências formais do álbum "Construção", de 1971, Augusto não deixou de manifestar seu apreço crescente pelo rigor de Chico.

A leitura de Álvaro de Campos, heterônimo de Fernando Pessoa, é um aspecto menos iluminado do Chico daqueles dias, um tanto encantado pelo poeta português.

Numa alusão à mudança de sua carreira, ele o citou em entrevista: "Começo a conhecer-me. Não existo./ Sou o intervalo entre o que desejo ser e os outros me fizeram". Desviado para a música, mas propenso à literatura, revelava estima por Flaubert, Balzac e Kafka.

Chico tivera êxito com as trilhas das peças "Morte e Vida Severina", de João Cabral de Melo Neto, montada no Tuca, teatro da PUC de São Paulo, e "Os Inimigos", de Górki, no Teatro Oficina —um tema desta última viraria o "Acalanto" do disco "Construção".

A experiência de ser moído pela indústria cultural permeia a história de "Roda Viva", o texto entregue à direção desconstrutiva de José Celso Martinez Corrêa, recém-saído da vanguarda de "O Rei da Vela". Atacada pelo Comando de Caça aos Comunistas (CCC), a comédia musical encarnou o martírio do teatro brasileiro às vésperas do AI-5 (Ato Institucional Nº 5).

Aquele 1968 também ficou marcado pela ruptura de Chico com o público dos festivais. No 3º FIC, interpretada por Cynara e Cybele, "Sabiá" (parceria com Tom Jobim) venceu a engajada "Pra Não Dizer que Não Falei de Flores", de Vandré, e mereceu rajadas de vaias no Maracanãzinho.

Naquele período, Chico vinha protegendo sua estética dos apelos políticos rasos. "Acho que tudo é válido. Detesto esse negócio de sectarismo. Tudo tem que ser bom. O samba não precisa ser necessariamente social, na base da reivindicação, do protesto. Não gosto que nada me constranja", declarou em entrevista a Armando Aflalo, no JB, em maio de 1966, cinco meses antes do estouro de "A Banda".

Depois de 1967, ele enfrentou os debates estéticos da geração pós-bossa nova e construiu de modo soberano o seu modelo de modernidade poético-musical. Levado ao violão por influência de João Gilberto, ele aprofundaria mais, nos anos seguintes, o elo com Tom Jobim.

Suas canções não mergulharam no ideário nacional-popular, nem o rejeitaram. Ele não hostilizou a jovem guarda e, se não aderiu ao tropicalismo, tampouco desprezou o grupo baiano, mesmo no auge das rivalidades dos festivais e das performances agressivas do movimento.

Enquanto na imprensa e nas universidades crescia uma crítica depreciativa aos tropicalistas, jogados na sarjeta da cultura de massa, como se fossem os únicos a vivenciar dilemas comerciais, Chico encomendava arranjos do álbum "Construção" ao maestro Rogério Duprat, cujo trabalho com Gil tanto lhe impressionara na apresentação de "Domingo no Parque", no festival de 1967.

Além disso, dividiu show e disco ao vivo com Caetano Veloso (1972) —e, claro, a série de programas na Globo, em 1986—, compôs "Cálice" (1973) com Gilberto Gil, ofereceu obras-primas para Gal Costa e celebrou Rita Lee em "Paratodos". Numa só canção, "Baioque", demonstrou que podia estar em todas sem perder a si mesmo, indo além dos dogmas estéticos de uma parte de seus admiradores.

A julgar pela alta qualidade das canções compostas por Chico em 1964 e 1965, pode-se concluir que a maioria dos brasileiros ouvia a banda tocar, mas não sabia onde. "A Banda" era, sim, um divisor de popularidade. Antes dela, "Tem Mais Samba", "Desencontro", "Madalena Foi Pro Mar", "Meu Refrão", "Olé Olá", "Pedro Pedreiro", "A Rita" e "Sonho de um Carnaval" tinham expressão para o dimensionar como um dos cancionistas centrais na nova geração da música popular.

"A Banda" foi a fagulha para que outras zonas de seu repertório fossem observadas. O álbum de estreia, com a capa de retrato duplo (sério e sorridente), fixou a fluente complexidade de sua obra inicial.

De algum modo, o equilíbrio se impôs no prêmio de música do ano da Rádio JB, no qual "Olê Olá" saiu vitoriosa, e não "A Banda". Depois da avalanche de 1966, a marcha deixaria pouco a pouco o roteiro dos shows de Chico.

Havia uma identidade entre as canções de juventude. Chico refletia o transitório, o mal-estar da passagem do tempo, tanto na rota da banda como na roda de samba suspensa ao amanhecer.

"Agora Falando Sério", do álbum "Chico Buarque de Hollanda – Nº 4" (1970), sinalizou uma virada na poética da primeira fase, um cavalo de pau sob a forma de revisão crítica. "Dou um chute no lirismo/ Um pega no cachorro/ E um tiro no sabiá/ Dou um fora no violino/ Faço a mala e corro/ Pra não ver a banda passar".

Desde os anos 1960, Chico protegeu de um lado a estética da política, criando uma linguagem atemporal na prosa e na poesia, e de outro observou a política sob os parâmetros de sua ética artística. A viagem recente à ilha de Cuba ilustra o método de sinalizar para a história com gestos mínimos, por vezes bastando a sua presença física.

Em 8 de abril, o perfil de Chico no Instagram anunciou a sua chegada a Havana, no dia anterior, acompanhado da advogada Carol Proner, sua esposa. "Em meio ao endurecimento das sanções contra a ilha e ao agravamento da crise econômica e energética, a viagem ocorre como demonstração de solidariedade ao povo do país."

Depois de 34 anos de ausência em solo cubano, ele gravou "Sueño con Serpientes" em duo com Silvio Rodríguez, expoente da Nueva Trova Cubana, a geração de músicos despontada oito anos depois da revolução.

Assim, Chico pôs seu mito para agir em três planos: na música, ao renovar a ligação com a cena artística de Cuba, referência de seu trabalho desde o final da década de 1970; na política, ao reiterar a solidariedade ao povo cubano, numa fase de acirramento da asfixia econômica e de ameaça de intervenção militar americana, sem vincular-se ao governo autocrático ou a qualquer órgão oficial; e, por último, incidiu em sua própria trajetória, ao reforçar uma linha de coerência histórica.

"Sueño con serpientes/ Con serpientes de mar/ Con cierto mar, ay, de serpientes, sueño yo (…) La mato y aparece una mayor (...)/ Con mucho más infierno en digestión", ele cantou no estúdio.

Nesses câmbios cubanos, impossível esquecer seu papel na popularização de Pablo Milanés no Brasil, ao gravar "Yolanda" e "Como se Fosse a Primavera", esta última nascida de um poema de Nicolás Guillén.

A viagem virou um gesto político dos mais significativos da cultura brasileira neste ano. O fotógrafo Francisco Proner, filho de Carol, situou Chico no mar, na cidade e entre o povo que deseja proteger com seus poderes de trovador.

No Malecón, o calçadão costeiro de Havana, ele entoou "Pequeña Serenata Diurna" acompanhado por músicos anônimos, como se voltasse ao álbum de 1978, em que a gravou, para reafirmar a essência da canção de Rodríguez. "Cuba te quiere", disse um dos admiradores.

Há 60 anos, "A Banda" deu amplitude popular ao escritor e compositor que, aos 82 anos, ainda reconhece nas canções o lugar de onde projeta, com assobios, seu pensamento e sua capacidade de intervenção nos vaivéns da história.

*Jornalista e mestre em teoria e história do cinema pela USP

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CANÇÕES ROMÂNTICAS DE CHICO BUARQUE ECOAM 'A ODISSEIA'

Luiz Guilherme Piva*, Folha de S. Paulo / Ilustríssima

Obra de Homero parece ter marcado profundamente o músico, que levou Penélope e Ulisses para suas letras

Protagonismo de anti-herói odisseico redimido é característica distintiva de parte das canções de Chico

Quando publicou o conto "Ulisses", em 1966, Chico Buarque transformou o herói grego num sujeito simplório, com dificuldades profissionais, sonhador, meio tolo, desamparado, infantil, que volta para casa de alguma viagem como caixeiro-viajante, inglório, contando desventuras nas quais berra e bebe e briga — mas só na fantasia ou de mentira ou por malandragem— com monstros que o derrotam.

Encontra sua esposa, Penélope, fria e distante, muda, fazendo infinitamente seu tricô (como a heroína clássica), sem lhe dar atenção —afinal, ele pensa, ela deve esperar outro Ulisses, um herói de verdade. Ele quer que ela o reconheça como rei, mesmo com seus defeitos, e o acolha, console e abrace; quer que ela o bote no colo, maternal e compreensiva, e enxergue suas grandezas.

Em muitas canções românticas, Chico Buarque realiza esse desejo do Ulisses do seu conto. Nelas o personagem masculino é o Ulisses comum; meio criança, meio homem feito; vadio, porém bom amante; cheio de defeitos e derrotas, que muitas vezes sai, viaja ou some por um tempo, mas que é amado e enaltecido, perdoado e acolhido pela mulher quando volta para casa. E a personagem feminina é a Penélope compreensiva, que o espera paciente e fiel e, amorosa, dá-lhe o leito, o peito, o prato, o regaço e o perdão, destacando suas virtudes.

Pode-se até dizer que o protagonismo desse anti-herói odisseico redimido é uma característica distintiva de parte das canções de Chico. A obra de Homero parece tê-lo marcado de forma profunda. As referências diretas ao livro clássico —e às vezes por meio da recuperação de expressões e situações já usadas no conto ("ela e seu tricô", por exemplo)— são muitas nas suas letras. E as indiretas também, sobretudo nas imagens de navios, mares, navegantes, embarcações, faróis, portos e cais.

As menções mais manifestas, inaugurais, daqueles personagens estão em "Ela e Sua Janela" (1966) e "Sem Fantasia" (1967). Elas definem, respectivamente, a Penélope sozinha na janela, paciente e fiel (ainda que atenta a alguns acenos), no período da ausência do amado, e o Ulisses aceito e aninhado, no momento da volta de seus infortúnios.

Na primeira, ela o espera: "Ela e seu tricô/ Ela e sua janela, espiando/ Com tanta moça aí/ Na rua o seu amor/ Só pode estar dançando/ Da sua janela/ Imagina ela/ Por onde hoje ele anda/ [...] Ela e sua janela, esperando/ Com tão pouco dinheiro/ Será que o seu amor/ Ainda está jogando/ [...] Ela e sua janela, querendo/ Com tanto velho amigo/ O seu amor num bar/ Só pode estar bebendo".

Na segunda, ela o recebe: "Vem, meu menino vadio/ [...], mas vem sem fantasia/ Que da noite pro dia/ Você não vai crescer/ [...] Vem que eu te quero fraco/ Vem que eu te quero tolo/ Vem que eu te quero todo meu". E ele então conta sua odisseia: "Ah, eu quero te dizer/ Que o instante de te ver/ Custou tanto penar/ [...] Eu quero te contar/ Das chuvas que apanhei/ Das noites que varei/ No escuro a te buscar/ Eu quero te mostrar/ As marcas que ganhei/ Nas lutas contra o rei/ Nas discussões com Deus". E pede a recompensa, que Penélope, na sua fala, já disse que dará: "E agora que cheguei/ [...] Eu quero a prenda imensa/ Dos carinhos teus".

O papel de Penélope esperando é reiterado nas canções "Carolina" (1967), "Januária" (1967) e "Morena dos Olhos d'água" (1966). Nelas o foco está em possíveis competidores de Ulisses, que tentam convencê-la a deixar de esperá-lo à beira-mar. E também em "Nicanor" (1969), que é um Ulisses que deixa muitas Penélopes "viúvas" enquanto viaja pelos mares. São canções na voz masculina. Já em "Pedaço de Mim" (1977) a espera se frustra, Ulisses segue ausente e a dor é traduzida pelo barco que, quase na chegada, refuga e retoma o oceano.

O Ulisses malandro, moleque e molambo que volta e é recebido de braços abertos reaparece, em roupagens variadas, em "Com Açúcar, com Afeto" (1966), "Sem Açúcar" (1975), "Teresinha" (1977) e, considerado o contexto da peça, "O Meu Amor" (1978) —todas na voz feminina.

E também em três outras canções, mas em duas situações que merecem destaque. A primeira situação é a referência ao acolhimento maternal —de amante, em "Alumbramento" (1979), e de mãe, em "O Meu Guri" (1981). A segunda situação é a da reemergência do Ulisses do conto original, em que o anti-herói pede àquela Penélope indiferente ou relutante que o escute, receba e perdoe, apesar de seus defeitos, em "Fica" (1965).

O fim dessa odisseia? Penélope ficou, recebeu e perdoou Ulisses. Eles fizeram samba e amor até mais tarde e —"Logo que a Aurora, de dedos de rosa, surgiu matutina"— tiveram muito sono de manhã.

*Economista pela UFJF (Universidade Federal de Juiz de Fora) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Ladrilhadores e Semeadores" e "A Miséria da Economia e da Política"

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O BRASIL QUE VAI VOTAR CANSADO

Preto Zezé, O Globo

A mesma pessoa que quer ordem quer proteção social. O mesmo eleitor que votou num lado já votou no outro

No Acre, uma mulher me contou uma cena do mercado. O filho pequeno colocou um chocolate no carrinho. Ela teve que tirar. A criança chorou, e ela precisou explicar que não dava para pagar tudo, que naquele mês era só o básico. Nenhum debate na TV tem essa cena. E ela resume o Brasil que vai às urnas no dia 4.

Nas últimas semanas, estive em Brasília, Acre, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste. Realidades e sotaques diferentes, problemas que mudam de nome. Mas uma palavra atravessou quase todas as conversas: cansaço. E é esse eleitor cansado quem decidirá a disputa.

O primeiro cansaço é o do bolso. Em Brasília, conversei com um homem que trabalha no comércio e ainda faz bico de Uber num carro alugado para fechar o mês. Já votou em Bolsonaro. Já votou em Lula. Agora não sabe para onde vai. Perguntei o que um candidato precisaria dizer para ele voltar a confiar:

— Não quero ninguém salvando o mundo. Quero saber quem vai me ajudar a salvar o dinheiro para pagar as contas no fim do mês.

No Nordeste, ouvi o reconhecimento e a cobrança na mesma frase.

— O social chegou, a gente está incluído. Mas a gente quer mais. Meu filho quer abrir um negócio e não encontra crédito. E as dívidas só aumentam.

Os números confirmam. Segundo a CNC, 82% das famílias estavam endividadas em agosto, recorde pelo sétimo mês seguido. Entre quem ganha até três salários mínimos, quase quatro em cada dez têm conta atrasada. A inclusão abriu a porta. Agora a favela quer entrar na sala onde se decide crédito, investimento e oportunidade.

O segundo cansaço é o do esquecimento. A mesma mulher do Acre foi direta:

— A política só lembra de mim na eleição.

É a frase que mais se ouve nas periferias, e a que menos se escuta.

O terceiro é o do medo. Em São Paulo, uma mulher começou pela segurança, mas queria também amparo social. No Rio, a conversa seguiu o mesmo caminho:

— Do jeito que tá, quem manda aqui é a vagabundagem. Só que não adianta mandar polícia aqui só para matar e ir embora. A gente quer direito também.

A favela quer ordem e quer dignidade. Quer o Estado presente, não de passagem.

E há o cansaço da própria briga. No Paraná, visitei uma família em casa. Ali, a polarização não era tema de noticiário. Tinha dividido os parentes. A política, que deveria organizar a vida em comum, entrou pela porta para separar quem se ama.

Juntando essas vozes, ninguém me pediu revolução. Pediram conta paga, lembrança fora da eleição, segurança com direitos, crédito para empreender, família em paz. São demandas que desmontam a divisão entre esquerda e direita. A mesma pessoa que quer ordem quer proteção social. O mesmo eleitor que votou num lado já votou no outro.

E aqui os dois lados falham. Um fala de segurança como se bastasse mandar polícia. O outro fala de inclusão como se ela fosse ponto de chegada, e não de partida.

Esse eleitor também tem um poder que quase não usa. No dia 4, serão seis escolhas na urna. Quem comanda as polícias é o governador. Deputados e senadores controlam parte importante do orçamento. A maior parte do que aperta essa gente passa por votos que ficam longe do barulho.

O eleitor cansado não está vazio de opinião. Sabe o que aperta. Está disponível, mas cansado de ser disputado como torcida e esquecido como cidadão. Ele não abandonou a política. Foi a política que se afastou dele. E, desta vez, é ele quem decidirá.

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SOBRE A (IN) CONSTÂNCIA DA HUMANIDADE ATUAL

Aldo Paviani*, Correio Braziliense

As sociedades que se encontram dentro da curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e realizam seus projetos. Já as que estão fora dela aplicam a máxima "o futuro a Deus pertence"

A humanidade atravessa um período de profundas alterações estruturais e de processos, impulsionadas, em parte, pelas transformações no perfil populacional e sociocultural. O volume demográfico de diversas regiões tem se modificado, assim como a representação de gênero. As mulheres vêm ocupando papéis cada vez mais proeminentes na estrutura populacional, tanto em âmbito regional quanto nacional. A Região Centro-Oeste, por exemplo, segundo o IBGE, é atualmente composta por 52% de mulheres e 48% de homens. Espera-se, portanto, que elas assumam um protagonismo crescente não apenas na manutenção das famílias, mas na ocupação de cargos de liderança na sociedade, uma das principais pautas sociais do momento. Todavia, o aumento simultâneo da violência contra a mulher sugere que parcelas da sociedade ainda reagem de forma brutal a essas mudanças sociofamiliares.

A grande transformação no espaço geográfico mundial é vinculada também às diversas expressões do "período técnico-científico-informacional", para utilizar a conceituação de Milton Santos. A fusão entre ciência e técnica, a intensificação dos fluxos de informação, a dinâmica fluida de ocupação territorial e a materialidade do consumo apontam para um novo estado organizacional das relações humanas. No entanto, essas expressões atuais não apenas falham em corrigir problemas socioestruturais históricos, como tendem a agravá-los. As desigualdades socioeconômicas entre os estratos populacionais aprofundam-se, promovendo o empobrecimento dos mais vulneráveis e a concentração de riqueza. Não se trata de um desenvolvimento voltado à inclusão, mas de um processo que gera soluções mediante a exclusão das vítimas do próprio sistema.

Os tempos mudam e as ciências e tecnologias avançam, mas a pobreza permanece. Historicamente, as populações vulneráveis vivem das migalhas do progresso. O crescimento da humanidade, sob a lógica atual, não visa a tornar os indivíduos iguais, mas a conferir ainda mais poder àqueles que já dispõem de condições sociopolíticas favoráveis. Se essas parcelas empoderadas demonstram alguma empatia, sobram para os despossuídos eventuais ganhos residuais em qualidade de vida, saúde, educação e poder de compra. Veja-se, por exemplo, o valor do salário mínimo, fixado com base no montante que o Estado pode custear sem comprometer o crescimento dos setores já favorecidos.

As sociedades que se encontram dentro da curva de crescimento possuem visão de futuro: traçam caminhos, planejam e realizam seus projetos. Já as que estão fora dela, na periferia do sistema, aplicam a máxima "o futuro a Deus pertence" e são tragadas pelo desenvolvimento. A essas sociedades não cabe poder decisório sobre o amanhã; apenas seguem o fluxo, coletando restos do caminho. Trata-se de uma constância do movimento humano rumo ao futuro: um amanhã que, na prática, não é pensado por todos, de todos e para todos.

O expressivo avanço tecnológico atual evidencia essa disparidade. As grandes corporações de tecnologia e inovação que dominam a economia global trabalham dia e noite, noite e dia, para desenvolver produtos destinados àqueles que possuem capacidade de consumo. É uma corrida desenfreada entre as potências hegemônicas pela inovação. Contudo, inovar para quê e para quem? Fundamentalmente, para perpetuar hegemonias e manter esses atores na liderança da construção do futuro. As nações em desenvolvimento ou subdesenvolvidas são abandonadas, incapazes de acompanhar os líderes impulsionados pela tecnologia. Nessa dinâmica, o bloco da liderança torna-se cada vez menor, mas mais poderoso, enquanto o grupo dos excluídos cresce em contingente e escassez de recursos, pondo em risco nossa coesão como humanidade.

Qual é, afinal, o objetivo do avanço científico-técnico-informacional contemporâneo? Perpetuar a divergência ou promover a convergência? Parece haver aqui um descompasso entre os pesquisadores, agentes da prática científica, e os governos e corporações, que detêm o controle do uso e da distribuição desses avanços. Enquanto os cientistas compreendem que o objetivo maior da ciência é a solução dos problemas globais e a redução das desigualdades, governos e empresas operam com uma definição restrita de humanidade, ignorando questões de equidade.

Para nossa sorte, a natureza opera, em grande medida, alheia às dinâmicas humanas, e os ventos atuais sopram contra a lógica perversa do aumento das disparidades. A ascensão quantitativa e qualitativa de mulheres causará transformações decisivas no tecido estrutural das sociedades, introduzindo novos valores e perspectivas de crescimento. Espera-se que elas atuem como reais agentes de inovação, transformação e desenvolvimento, contribuindo para a edificação de uma sociedade mais agregadora e mais empática. Vida longa às mulheres! 

*Aldo Paviani — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB) e geógrafo

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FIM DAS BETS

César Felício, Valor Econômico

A motivação eleitoral da proibição das bets no Brasil, decidida na sexta-feira pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, é óbvia.

Pelo menos duas pesquisas mediram nos últimos meses a adesão a uma proibição total das apostas online e a maioria absoluta se mostrou favorável à interdição. Na mais detalhada delas, da Ideia, de julho, 56% dos entrevistados concordaram com a proibição.

Um sinal do apelo da medida é o fato de que o principal rival do presidente, o senador Flávio Bolsonaro (PL), tachou a medida de “eleitoreira, hipócrita, populista”, mas ao mesmo tempo ponderou: “sempre fui contra os jogos”.

Renan Santos (Missão), em vídeo, procurou desqualificar a iniciativa como pouco efetiva. “Vou dizer exatamente o que vai acontecer: a Medida Provisória vai caducar. É só uma medida eleitoreira.” Frisou ser contra jogos.

Ronaldo Caiado (PSD), em Goiás, lembrou que votou contra o tema quando era senador e não permitiu loterias no estado, quando governador.  Romeu Zema (Novo) ainda não havia se pronunciado até o começo da tarde de sábado, mas passou a campanha inteira criticando as bets.

O alcance da medida, contudo, parece duvidoso. O governo justifica o fim do mercado de apostas online por um alegado impacto desta atividade no aumento do endividamento e, em particular, da inadimplência. A pesquisa de julho indicava que o eleitorado via baixa relação entre uma coisa e outra. Quando os entrevistados foram perguntados sobre que gastos mais contribuíam para o endividamento, 29% mencionaram gastos com supermercado; 28%, contas de consumo; 14%, aluguel; 10%, gasolina; 8%, educação; 7%, plano de saúde; 6%, transporte público; 5%, condomínio; e somente 2%, apostas online.

Ou seja: o eleitorado provavelmente não verá o fim das bets como uma medida do governo para reduzir o aperto financeiro da população.

Entre os entrevistados, 33% consideravam as apostas um vício e 26%, uma fonte de perda de dinheiro. A reação maior vem das mulheres, como o próprio Renan Santos indicou em seu vídeo. “O cálculo do Lula é simples: quem usa mais as bets são homens. Homens não votam tanto nele. Esses homens estão gerando vícios e gastos em endividamento que estão irritando mulheres, tanto mães quanto esposas. Estas mulheres votam mais no Lula.”

Afora o fato de que há baixa percepção de correlação entre aumento de endividamento e apostas, o resto do raciocínio de Renan encontra lastro nas pesquisas. De acordo com a Ideia, 67% das mulheres e 50% dos homens eram a favor da proibição.

Tentar relacionar o aumento do endividamento com as apostas online é crucial para a estrutura narrativa da campanha de Lula, porque há pouco o que o governo possa apresentar como solução para contornar o que o eleitorado de fato vê como comprometedor para sua renda.

O Desenrola 3, lançado também na sexta-feira, novamente foca os consumidores que estão com dívidas em atraso, assim como foi nas versões anteriores. Não contempla aqueles que têm renda cada vez mais comprometida, mas que permanecem adimplentes. O universo de apostadores é amplo - já houve registros de apostas feitas por 43,8 milhões de CPFs desde a regulamentação da atividade, feita pelo próprio governo Lula -, mas estabelecer uma relação de causalidade entre aumento de inadimplência e jogo é algo complexo.

Nos próximos dias, a reação negativa à medida que pode ter mais impacto na opinião pública é a do universo do futebol. As casas de apostas online patrocinam 17 dos 20 clubes que estão na série A do Campeonato Brasileiro e pelo menos dois deles - Flamengo e Fluminense - divulgaram posicionamentos oficiais ainda na sexta-feira reclamando de insegurança jurídica, uma sinalização de que podem judicializar a questão.

No anúncio da medida, o governo federal não fez qualquer indicação de que compensará os atingidos de alguma forma. “Qualquer decisão precisa considerar segurança jurídica e previsibilidade”, reclamou o Fluminense. “Não se pode criar uma nova regra, levar empresas e instituições a assumir compromissos com base nelas, e, de um dia para o outro, mudar todo o marco regulatório”, afirmou o Flamengo.

 

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