Há 84 anos, nascia Clara Nunes
Clara Nunes: relembre a biografia da cantora
Em sua breve vida, Clara Nunes conseguiu o que muitos tentam
durante anos de carreira e não conseguem: firmou-se como uma importante
artista brasileira, exaltada e elogiada até hoje pelo público e pela
crítica.
Em busca do seu sonho, largou o trabalho como tecelã para se
apresentar nas rádios de Belo Horizonte. Em pouco tempo, já estava se mudando
para o Rio e conhecendo o samba e o mar.
Eram as duas inspirações que faltavam para que ela se
tornasse um exemplo de mulher
na música, um meio que até então era dominado pelos homens.
Conhecer a biografia de Clara Nunes é também aprender
mais sobre a evolução do samba e o destaque feminino no cenário musical
brasileiro. Por isso, continue lendo para se apaixonar ainda mais por essa
verdadeira estrela!
A biografia de Clara Nunes
Considerada uma das maiores intérpretes do Brasil, Clara Nunes não
era só cantora e compositora. Ela também pesquisou muito sobre a música popular
brasileira, os ritmos nativos e o folclore nacional.
Clara Nunes dedicou a sua arte para difundir a nossa cultura
para o mundo. Em sua história de vida, conseguimos perceber tudo isso. Vem ver!
A órfã tecelã
Clara Nunes é a caçula dos sete filhos de um casal muito
humilde de Cedro (atual Caetanópolis), em Minas Gerais. Nascida em 12 de agosto
de 1942, com apenas 6 anos, ela já era órfã de pai e mãe e foi criada
por seus irmãos Maria, a Dindinha, e José, o Zé Chilau.
Já naquela época, nas aulas de catecismo, Clara
cantava as ladainhas em latim no coro da igreja. Parecia ter puxado o
talento musical do pai, que era violeiro. Tanto que venceu o seu primeiro
concurso de canto ainda na infância, na sua cidade.
Aos 14 anos, ela começou a trabalhar como tecelã para
ajudar nas despesas da casa. Mas um acontecimento drástico a fez mudar às
pressas para Belo Horizonte: Zé Chilau, seu irmão, assassinou o ex-namorado da
cantora, que estava difamando a garota pela cidade por não aceitar o fim do
relacionamento.
A fugitiva na capital
Após o crime cometido pelo irmão, que ficou anos foragido,
Clara Nunes passou a viver com outros dois irmãos, Vicentina e Joaquim. Na
capital, continuou o seu trabalho como tecelã e iniciou os seus estudos no
curso normal, para se formar como professora.
Nos finais de semana, participava do coral da igreja do
bairro. Porém, aos poucos, por influência de uma amiga de infância, foi
se afastando do catolicismo e se converteu ao kardecismo.
Foi nessa época que ela conheceu o violonista Jadir
Ambrósio, que ficou encantado com a sua voz. Ele a levou para as rádios
de BH e a garota começou a se apresentar com o seu nome de batismo, Clara
Francisca.
O nascimento de Clara Nunes
A cantora foi ficando cada vez mais conhecida pelos
belo-horizontinos e conquistando o seu espaço na música. Em 1960,
conheceu Aurino Araújo, com quem namorou por 10 anos. Durante o
relacionamento, ele a apresentou a diversos artistas da cidade, que a apoiaram
e influenciaram.
Foi nesse período que ela resolveu adotar o nome
artístico de Clara Nunes, que era o sobrenome de sua mãe. A sugestão foi do
produtor musical Cid Carvalho.
Apesar de ainda trabalhar como tecelã, a artista não perdia
a oportunidade de participar de eventos musicais. Ela venceu a etapa mineira do
concurso A Voz de Ouro ABC, com a música Serenata
do Adeus, de Vinícius de Morais. Sinta um gostinho dessa
apresentação memorável:
A dedicação de Clara Nunes à carreira musical
A partir do concurso, Clara recebeu o título de
“melhor cantora de Minas Gerais”. Os trabalhos foram aumentando e ela se
apresentava também em clubes e boates.
Foi aí que ela teve de deixar a fábrica de tecidos e os
estudos para se dedicar exclusivamente ao seu sonho. E deu certo!
Depois de se apresentar pela primeira vez na TV, no programa
da Hebe Camargo, em 1963, ela ganhou um programa só dela na TV Itacolomi,
o Clara Nunes Apresenta.
O encontro com o mar e o samba
Clara viveu em Belo Horizonte até 1965, até que Aurino a
convidou para ir com ele para o Rio de Janeiro. Como ele tinha família na
cidade, ela aceitou a proposta.
A cantora alugou um quarto em Copacabana e foi lá que viu
o mar pela primeira vez na vida. Ela ficou tão encantada e hipnotizada que
resolveu incorporá-lo em muitas de suas canções.
Em terras cariocas, a sua participação na televisão
aumentou. Além disso, também se apresentava em escolas de samba e casas
noturnas. Foi lá que ela entrou em contato com sambistas e religiões de matriz
africana.
A conexão foi tão grande que ela deixou os boleros
que cantava no início da carreira, passou a cantar samba e se converteu ao
candomblé.
Os primeiros álbuns de Clara Nunes
O primeiro LP de Clara Nunes foi gravado em 1965, com a
participação de outros artistas, graças a um teste que ela passou para ser
cantora da Odeon. No ano seguinte, foi contratada pela gravadora.
O primeiro álbum exclusivo foi lançado no ano seguinte, mas
não teve muito sucesso. Por influência da gravadora, ela só cantou
boleros e músicas mais românticas, o que já não era tanto o estilo da
artista.
Foi só no segundo que Clara gravou mais faixas de samba e
mostrou a sua personalidade. Assim, ela conquistou o coração do público com Você Passa e Eu Acho Graça, que dá título ao
LP:
A estrela do samba
Transcendendo os limites do Brasil, a cantora se apresentou
em Luanda, na Angola, em 1970. No mesmo ano, desmanchou o seu noivado
com Aurino Araújo, após descobrir uma traição.
No ano seguinte, gravou vários sucessos, como Ê
Baiana e Ilu
Ayê, em seu quarto LP. Na capa do disco, Clara Nunes fez um
permanente nos cabelos e usou turbante e vestes brancas.
Essa passou a ser a sua vestimenta em apresentações. Assim,
não só nas letras e no ritmo, a artista também reforçava as suas convicções com
o figurino e o penteado. Faz todo sentido, já que, em 1971, ela se
converteu à umbanda, religião que seguiu e difundiu até o fim de sua vida.
Em seguida, a cantora também afirmou a sua
predileção pelo samba, ao lançar o álbum Clara Clarice Clara. Foi
um trabalho muito elogiado, com canções lembradas até hoje pelo público
brasileiro e com mensagens marcantes no samba, como Seca do
Nordeste.
O sucesso comercial de Clara Nunes
Clara Nunes estava cada vez mais presente nas rádios e nos
programas de TV brasileiros. Sem falar das apresentações em teatros e
auditórios, como o show O poeta, a moça e o violão, que ela
apresentou ao lado de Vinicius de Moraes e Toquinho.
Sucesso também internacional, ela representou o Brasil no
Festival do Midem, em Cannes, e teve um álbum lançado na Europa, em 1974. O LP
foi recorde de vendas de cantoras
brasileiras no exterior.
Em 1975, a cantora se casou com o poeta, compositor
e produtor Paulo César Pinheiro. Sem deixar o trabalho até mesmo na
lua de mel, o casal percorreu vários países europeus em turnê logo depois do
casamento.
O sonho de ser mãe
Além da carreira estrondosa e da vida de casada, Clara
Nunes também tinha o sonho de ser mãe. Apesar de muito tentar, depois de
três abortos espontâneos, a artista teve de passar por uma histerectomia, para
remover miomas no útero, o que impossibilitou uma gravidez.
Ela tentou diversos tratamentos médicos e espirituais, mas
não conseguiu realizar o desejo da maternidade. Essa foi uma grande
dor que a cantora carregou por toda a sua vida e afetou a sua saúde emocional.
Todo esse processo é retratado na biografia Clara Nunes: Guerreira da
Utopia, de Vagner Fernandes.
Esse sofrimento fez com que a cantora se entregasse de corpo
e alma à música e interpretasse canções cada vez mais dramáticas, com grande
carga emocional.
Os últimos cantos de Clara Nunes
Na década de 1980, inúmeros hits foram lançados por Clara
Nunes, como Morena
de Angola, que é um marco de sua carreira até hoje. E muitos
trabalhos já estavam planejados por sua gravadora.
Mas, infelizmente, no auge do sucesso, a vida da
cantora foi interrompida no dia 2 de abril de 1983, por complicações em uma
simples cirurgia de varizes.
Na época, a mídia fez muitas especulações sobre a causa da
morte, mas ficou comprovado que foi uma reação alérgica ao anestésico.
Apesar de ter tido uma curta vida, já que Clara
Nunes tinha apenas 40 anos quando faleceu, o seu legado ainda está muito vivo.
Ela continua a ser uma das cantoras antigas mais lembradas no Brasil, não
só pelas suas canções emblemáticas, mas pela defesa das religiões de matriz
africana e pela cultura afro-brasileira.
Ouça mais artistas do samba
Você acaba de descobrir o quanto o samba foi um estilo
musical importante na carreira de Clara Nunes e impactou a sua biografia.
Agora, que tal aproveitar o embalo e conhecer os 10
maiores sambistas antigos?














