segunda-feira, 7 de setembro de 2026

ATÉ QUANDO A ELITE VAI IGNORAR VIDAS NEGRAS ?

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Reconhecer o impacto do racismo na vida de milhões não é prioridade no país mais negro fora da África

Apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência têm propostas para enfrentar racismo e desigualdades étnico-raciais

Na semana da independência, me pego pensando no quanto a nação brasileira é historicamente negligente com seu povo. A ruptura com Portugal, eternizada pelo simbólico grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822, foi mais um dos inúmeros momentos em que somente anseios da elite (formada por latifundiários e burocratas que dependiam da mão de obra escravizada) foram contemplados.

A despeito da participação de pretos e mestiços em movimentos e revoltas pró-independência, os negros (que naquela época já compunham o maior contingente populacional do país e reivindicavam melhores condições de vida e igualdade de direitos) foram excluídos do sonho de liberdade.

A colônia "se libertou" de Portugal, mas os negros não se libertaram da escravização, abolida 66 anos depois da independência. Como afirmou o historiador Luiz Felipe de Alencastro, somos um país que nasceu apostando no futuro da escravização. Os efeitos dessa aposta são notórios e impactam brutalmente milhões de brasileiros.

Em menos de um mês, teremos eleições gerais. A mim, chama atenção que apenas 5 dos 13 candidatos à Presidência da República apresentem nos programas de governo propostas para enfrentar o racismo institucionalizado nestas terras. Entendo que isso diz muito sobre o nosso projeto de nação.

Apesar de todos os índices que relacionam a falta de oportunidades e a precarização das condições de vida dos brasileiros à questão étnico-racial, reconhecer o impacto do racismo no cotidiano e enfrentar o problema ainda não são prioridades no país que concentra a maior população negra fora da África.

Em contraponto, há alguns dias o Comitê das Nações Unidas Contra a Discriminação Racial (CERD) recomendou que os Estados adotem medidas de reparação pelos danos provocados pelo tráfico transatlântico de africanos, pela escravização e por seus efeitos persistentes sobre pessoas de ascendência africana.

Me pergunto até quando o Brasil vai apoiar o pacto de uma elite que insiste em ignorar os direitos da população negra?

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A ENCRUZILHADA POLÍTICA DA ALEMANHA

Oliver Stuenkel, O Estado de S. Paulo

Extrema direita na Alemanha: isolar, proibir ou deixar governar?

Com 44,5% dos votos na Saxônia-Anhalt, AfD fica a um passo de governar sozinha um estado alemão; isolamento não freou o partido

A Alternativa para a Alemanha (AfD) obteve 44% dos votos na eleição estadual da Saxônia-Anhalt, mais que o dobro da CDU, de centro-direita, partido do chanceler, Friedrich Merz, que ficou em segundo com 17%. A AfD, classificada pelo serviço de inteligência doméstica como extremista de direita, obteve o melhor resultado de uma sigla desse campo na Alemanha desde 1945.

A eleição intensifica um dos debates já dominantes na política alemã: por que tantos cidadãos votam em um partido radical, e o que fazer? A explicação padrão para o voto na AfD, a de um leste pobre e abandonado, perdedor da modernização, resiste cada vez menos aos dados.

O poder de compra de Magdeburg ou Halle supera o de quase todo o sul e o leste da Europa; as aposentadorias de quem contribuiu por mais de 35 anos equivalem a 95% das pagas no oeste, e produtividade e salários chegam a 84% do nível ocidental, diferença que reflete sobretudo o caráter mais rural da região.

A infraestrutura não fica atrás da de regiões comparáveis do continente: por exemplo, cerca de 30 dos quase 80 teatros de ópera do país estão no leste, que abriga um quinto da população. Ainda assim, 75% dos alemães orientais dizem que o que separa as duas partes do país pesa mais que o que as une, o maior índice desde 2004.

Um novo estudo da Universidade do Sarre conclui que renda e escolaridade quase nada explicam: o que prevê o voto na AfD é a preocupação com a imigração, e ela pesa tanto para ricos quanto pobres. E isso em um Estado onde estrangeiros são apenas 8% da população, menos da metade da média nacional e bem abaixo do que se vê em Hesse ou Hamburgo. Os autores tiram a conclusão incômoda: mais transferências e políticas de igualdade não trarão os eleitores de volta.

MURO. O segundo debate é o que fazer a respeito da ascensão do partido. Desde a fundação da AfD, em 2013, todos os partidos tradicionais mantêm o Brandmauer, o “muro cortafogo” erguido para jamais cooperar com a AfD. O muro cumpriu o que prometia, como lembra Thorsten Benner, do Global Public Policy Institute, em Berlim, pois a AfD até hoje nunca chegou a governar um Estado. Mas fica cada vez mais evidente que fracassou como estratégia de contenção, e há algo paradoxal nisso: governar desgasta, e a AfD passou uma década sem governar nada.

Enquanto CDU, SPD e Verdes se consumiam em coalizões improváveis, a legenda cresceu sem nunca ter sido testada, e hoje lidera as pesquisas nacionais com quase 30%. Benner vai além e sustenta que o muro ajuda a explicar por que a AfD, ao contrário de outras siglas de extrema direita na Europa, se tornou mais radical à medida que crescia: sem perspectiva de poder, moderar-se não lhe traz nada.

Uma proposta é converter o veto absoluto em condições verificáveis, como expulsar Björn Höcke, seu dirigente mais influente no leste do país, que foi condenado duas vezes por usar, em eventos de campanha, um slogan das tropas de assalto de Hitler, cujo uso é crime na Alemanha. Romper com esse tipo de quadro e de discurso seria o preço do diálogo, e a própria AfD teria de decidir se está disposta a pagá-lo.

Outros defendem a proibição do partido. Boris Pistorius, ministro da Defesa e há anos o político mais popular do país, pediu, ao lado de Cem Özdemir, chefe de governo de Baden-Württemberg, que se abra um processo de banimento das seções da AfD no leste alemão, entre elas a da SaxôniaAnhalt.

O argumento é o mesmo do serviço de inteligência, que em 2025 classificou a AfD como “comprovadamente extremista de direita”, por defender uma concepção étnica de povo incompatível com a Constituição alemã. Os críticos respondem que um processo desses levaria anos e daria à AfD o papel que ela mais gosta de encenar, o de vítima.

SINAL VERDE. Há uma terceira via, que decorre do próprio diagnóstico de Benner: deixar a AfD governar um Estado e expor sua incapacidade. O partido defende um nacionalismo de slogans, mais definido pelo que rejeita do que pelo que propõe.

Um episódio quase cômico ilustra a aposta. Em 2021, Tino Chrupalla, hoje copresidente do partido, defendia em um programa infantil da TV pública que as escolas ensinassem mais canções populares e poesia clássica alemã. O repórter mirim quis saber, então, qual era seu poema alemão favorito. Chrupalla hesitou, disse que precisaria pensar e admitiu que nenhum lhe vinha à cabeça. Instado a citar ao menos um poeta, apontou Heinrich Heine, de origem judaica, exilado em Paris e cujos livros os nazistas queimaram em 1933.

Deixar governar foi, é verdade, o erro que a Alemanha cometeu nos anos 1930. Em 1930, juristas do governo da Prússia recomendaram por escrito a proibição do partido nazista. O chanceler Heinrich Brüning preferiu enfrentá-lo politicamente, temendo alimentar seu vitimismo, e menos de três anos depois Hitler chegava ao poder.

A comparação tem limites óbvios. Um Estado não é o país inteiro, e uma AfD obrigada a administrar escolas, hospitais e orçamentos deixaria de ser um partido de protesto para virar um governo cobrado por resultados, ofício bem menos glamouroso do que denunciar o sistema. Nenhuma das três saídas é isenta de risco. O que a eleição de ontem mostrou é que a atual estratégia de simplesmente isolar o partido deixou de ser uma opção. 

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VITÓRIA DA EXTREMA DIREITA NA ALEMANHA REVELA DESEJO DE VOLTAR AO PASSADO

João Pereira Coutinho, Folha de S. Paulo

AfD encontrou eleitorado desencantado com promessas

Partido tem programa politicamente indigno e até perigoso

A história não se repete. Às vezes, nem sequer rima. Mas é tentador olhar para 2026 com os olhos postos em 1933. No estado da Saxônia-Anhalt, no leste da Alemanha, a direita radical conseguiu uma vitória histórica.

Sem maioria absoluta, ainda não está claro se conseguirá governar. Mas foram incontáveis os artigos de jornal que pintaram em Ulrich Siegmund, o candidato da AfD – Alternativa para a Alemanha –, o célebre bigodinho do cabo austríaco. Antes de mais nada: o programa da AfD é politicamente indigno e, em suas simpatias russófilas, até perigoso.

Mas serei o único a achar estranho que a direita radical se imponha nas urnas porque, entre outras razões, também soube apelar à nostalgia pela antiga RDA comunista? Se dúvidas houvesse, Ulrich Siegmund fez questão de aparecer na campanha com sua moto Simson – um pedaço de "Ostalgie" sobre duas rodas, só superado pelas quatro do inevitável Trabant, o carro emblemático do antigo regime. As causas do sucesso da AfD talvez estejam mais próximas de nós do que as cervejarias de Munique de um século atrás.

Os cientistas políticos Ivan Krastev e Stephen Holmes ajudam a explicar esse sucesso com um ensaio de 2019 que ainda hoje provoca urticária em certas cabeças liberais. O título é "The Light that Failed: A Reckoning" e começa com o "Pigmaleão", de Bernard Shaw: tal como na peça, o Ocidente acreditava que transformaria os países pós-comunistas em sociedades "normais" e bem-sucedidas, capazes de aprender as instituições, os hábitos e os valores das democracias liberais.

O que aconteceu, argumentam os autores, está mais próximo de Frankenstein: a criatura descobre-se uma cópia imperfeita, olhada com soberba pelo modelo que deveria imitar e, por fim, ressentida com o próprio criador. Na Hungria, na Polônia e no leste da Alemanha, houve uma adesão voluntária e esperançosa ao modelo liberal-democrático.

O Ocidente significava liberdade, prosperidade, estado de direito – numa palavra, normalidade. Mas havia também uma ansiedade escondida nesse imperativo de imitação.

Como observou o sociólogo húngaro Elemér Hankiss, citado no livro, "as pessoas perceberam de repente que nos anos seguintes ficaria decidido quem seria rico e quem seria pobre; quem teria poder e quem não teria; quem seria marginalizado e quem estaria no centro." O problema é que ao novo modelo político foram associadas expectativas que nenhuma democracia podia garantir.

A democracia serve para mudar os governantes sem derramamento de sangue, como lembrava Karl Popper, não para garantir o paraíso na Terra, como os regimes totalitários do século 20. Era inevitável que parte dessas expectativas acabasse frustrada – e dois momentos aceleraram esse desencanto.

O primeiro aconteceu em 2008: a crise financeira destruiu a confiança de que o Ocidente sabia necessariamente o que estava fazendo. Como continuar a pedir ao Leste Europeu que seguisse a cartilha dos "especialistas" quando os próprios especialistas tinham levado as economias para o abismo?Para os líderes populistas que ganharam força nos anos seguintes, o liberalismo tinha falhado tal como o comunismo tinha falhado para as gerações anteriores.

Era preciso encontrar alternativas. O segundo golpe veio em 2015, quando Angela Merkel abriu as portas da Alemanha – e da Europa – a milhões de refugiados e migrantes. No Leste Europeu, o impacto político foi particularmente traumático porque esse movimento colidiu com um medo que lhe era anterior: o da emigração em massa.

Desde a queda dos regimes comunistas que milhões de jovens qualificados tinham partido para o Ocidente, em busca de vidas melhores. Os números apresentados por Krastev e Holmes são impressionantes: entre 1989 e 2017, a Letônia perdeu 27% de sua população; a Lituânia, 22,5%; a Bulgária, quase 21%; o leste da Alemanha, 14%.

O colapso demográfico do Leste Europeu passou então a ser assombrado pelo fantasma da "substituição cultural", mesmo em países onde a percentagem de população imigrante era residual, como a Hungria. O medo, o verdadeiro medo, era outro.

Foi assim que o otimismo de 1989, o ano da queda do Muro de Berlim, acabou por desembocar, décadas depois, numa crise do liberalismo no Leste Europeu. E foi assim que partidos radicais, como a AfD, encontraram um eleitorado desencantado com as promessas do "fim da história", suspirando por um retorno imaginário a um passado imaginário feito de segurança, previsibilidade e pertencimento. Moral da história?É preciso corrigir as datas.

A AfD não venceu na Saxônia-Anhalt porque a Alemanha voltou a 1933. Venceu porque uma parte do leste alemão deixou de acreditar em 1989.

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STF: FORA DE CAMPO, DENTRO DO JOGO

Lara Mesquita, Folha de S. Paulo

A menos de um mês do primeiro turno, o Supremo deixou de arbitrar o jogo eleitoral para se tornar seu principal personagem

Enquanto o STF trava uma guerra interna, debate sobre planos de governo e propostas eleitorais fica em segundo plano

Em quatro semanas estaremos nas urnas escolhendo presidente, governadores, senadores, deputados federais e estaduais. As manchetes dos jornais deveriam estar dedicadas aos planos de governo, propostas, candidatos azarões e peculiaridades do financiamento político. Mas a realidade é diferente, tudo o que discutimos foi o Supremo Tribunal Federal e seus ministros.

Que a corte é inventiva em sua função de guardiã da Constituição sabemos há tempos. Para ficarmos em exemplos recentes, o STF reinterpretou a regra constitucional que estabelece um teto para pagamentos dos servidores públicos criando um teto paralelo para o Judiciário. Outro exemplo é a manutenção do presidente do TJ-RJ como governador em exercício do estado. Que a corte atua politicamente também não é novidade. O decano da casa, ministro Gilmar Mendes, é o melhor exemplo. Em uma de suas decisões mais emblemáticas, em dezembro do ano passado restringiu, sozinho, à PGR o poder de pedir impeachment de ministros do STF, blindando a si e aos colegas.

Nesta semana os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça são os protagonistas. Moraes é acusado de agir, se não como advogado, no mínimo como conselheiro do ex-banqueiro acusado de diversas fraudes Daniel Vorcaro. Um conselheiro com acesso franco aos investigadores do aconselhado. Mendonça, por sua vez, é acusado por políticos e pelo próprio Moraes de fazer uso político de sua posição de relator, mantendo sigilo ou atrasando investigações que poderiam prejudicar o candidato do grupo político que o indicou ao Supremo e seus aliados. Moraes chegou a protocolar no STF um pedido de investigação contra Mendonça, usando os mesmos expedientes que acusa o colega de empregar indevidamente. A acusação foi registrada no âmbito de um inquérito das Fake News, que juristas apontam que já deveria ter sido encerrado.

Além de contribuir para a degradação institucional da democracia brasileira, colocando em risco decisões inéditas –como as condenações de generais e do ex-presidente Bolsonaro por tentativa de golpe de Estado– e de ampliar imensamente as chances de intervenções na Corte em caso de vitória de um candidato a presidente de direita, o Supremo prejudica o debate de ideias do ciclo eleitoral em curso.

Você, caro leitor, já decidiu seus votos? Já colocou na balança qual é a questão que distingue os principais candidatos e vai orientar sua decisão de voto? Está lembrando que o presidente precisa de maioria na Câmara e no Senado (e o governador, na assembleia estadual) para ser bem-sucedido na implementação de sua agenda, e está considerando esse ponto na escolha de seus candidatos ao Legislativo? Lembra que o voto para deputados federais e estaduais é um voto em toda a lista partidária e que, ao escolher um candidato você apenas está indicando sua preferência de ordenação da lista? Ou suas atenções estão todas voltadas para o Supremo, cujos dez ministros você não apenas sabe escalar de cor, como inclusive sabe quem se senta do lado de quem no plenário do STF?

Os ministros do Supremo, em princípio, não precisam do seu voto para continuar no cargo, mas, ao que tudo indica, decidiram ser os protagonistas do pleito de outubro.

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A REPÚBLICA À VENDA

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

A pergunta já não é apenas quem tentou comprá-la, mas quem se dispôs a negociar com o comprador

Reformas no STF eliminam incentivos perversos, mas não substituem a responsabilização necessária

Urbem venalem et mature perituram, si emptorem invenerit (uma cidade à venda e condenada a perecer rapidamente, caso encontrasse um comprador). A frase, atribuída por Salústio a Jugurta, rei da Numídia, depois de ter corrompido senadores, diplomatas e tribunos da plebe, tornou-se a expressão máxima da corrupção política. Evoca não apenas a compra de autoridades, mas o colapso de uma República.

Jugurta concluiu que Roma estava à venda. No Brasil, a pergunta já não é apenas quem tentou comprar a República, mas quem se dispôs a negociar com o comprador —e quem utiliza o poder de julgar para impedir que saibamos a resposta. E é com isso que estamos nos deparando: contra-ataques diversionistas disparados a toque de caixa. A estratégia parece clara: criar falsas equivalências. A que ponto chegamos? E como chegamos a esse ponto?

Crises de corrupção em cortes supremas são eventos raros. Quando alcançam a cúpula do Judiciário, abalam justamente a instituição encarregada de arbitrar os conflitos e impor limites aos demais Poderes. A crise é gravíssima.

Há, nesta crise, duas questões entrelaçadas. De um lado, a defesa da democracia e os abusos cometidos em seu nome. De outro, os desvios de conduta de ministros e a preservação do Supremo como instituição. No primeiro caso, a defesa da democracia converteu-se também em manto protetor dos abusos. No segundo, a defesa da corte passou a ser confundida com a blindagem de seus integrantes. A reconstrução institucional exige necessariamente separar essas duas ordens de questões. A estratégia defensiva dos envolvidos consiste justamente no contrário: reforçar deliberadamente sua confusão, como se investigar abusos significasse atacar a democracia e responsabilizar ministros significasse destruir o Supremo.

Problemas de desenho institucional pioram o quadro, mas os desvios são de ministros. A jurisdição criminal do Supremo, decisões monocráticas e estratégias processuais ativistas de seus ministros (processos colocados ou retirados da gaveta, acelerados ou paralisados com propósitos negociais e políticos) criam incentivos perversos.

Mas os desvios são individuais. A reforma da corte não os elimina. O ativismo processual voltado para autopreservação e autoblindagem confere ao caso uma gravidade sem paralelo. Contra-atacar com base no inquérito do fim do mundo assume contornos de escárnio e o clamor público que gerou é alvissareiro.

A crise já estava escrita na pedra havia meses. Sabia-se que o protagonista do maior escândalo financeiro brasileiro que ameaçou com sicários jornalistas investigativos —manteve contatos nas horas que antecederam sua prisão com seu "consigliere". Como no caso do ministro Toffoli, o PGR toma decisões de autoproteção. O problema, portanto, não nasce nesta semana nem depende das intenções do relator. O que emergiu foi a dimensão documental de relações cuja simples existência já deveria ter provocado respostas institucionais urgentes.

Uma República à venda. É isto que a sociedade observa perplexa. Mas o que está também sob escrutínio público é a resposta institucional da corte a sua degradação em virtude de ilícitos individuais.

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VOTO EM FLÁVIO BOLSONARO EXPRESSA IDEIA PERDIDA DE NAÇÃO

Bernardo Carvalho, Folha de S. Paulo

Podemos estar cercados de 'amigos desleais' que, em nome de interesses aparentemente comuns, preparam armadilha fatal

Em entrevista em 1964, Hannah Arendt discutiu pertencimento a grupos organizados politicamente

A resenha de uma biografia de Hannah Arendt recentemente publicada nos Estados Unidos me remeteu à incrível entrevista que ela deu a Günter Gaus, na televisão alemã, em 1964, e que eu nunca tinha visto, embora esteja há anos disponível no YouTube.

Arendt escapou da Alemanha em 1933, aos 26 anos, quando, em suas próprias palavras, só um idiota seria incapaz de perceber que os nazistas (e muitos alemães que os apoiavam direta ou indiretamente) eram inimigos dos judeus. E isso bem antes da instalação do terror, precedida por um período de abandono e vazio.

O problema na verdade não eram só os inimigos, mas os "amigos", gente que acabaria caindo na própria armadilha, no que ela chama de "coordenação", ou deslealdade, dos intelectuais. "Eu não tinha a menor vontade de ficar perambulando pela Alemanha como cidadã de segunda classe."

Arendt é categórica ao declarar que, "se você é atacado como judeu, deve se defender como judeu, não como alemão ou cidadão do mundo ou defensor dos direitos humanos, ou o que quer que seja".

Nesse momento, o entrevistador pede que ela então explique o que queria dizer quando declarou: "Nunca amei nenhum povo ou grupo coletivo, nem alemães, nem franceses, nem americanos, nem a classe operária nem nada desse gênero. Só posso amar meus amigos. O amor pelos judeus seria suspeito, porque sou judia".

E ela esclarece: "Pertencer a um grupo por nascimento é da condição humana. Agora, pertencer a um grupo organizado politicamente é uma coisa completamente diversa. As pessoas se organizam politicamente por interesses comuns em relação ao mundo. O que chamamos de amor, e que pode existir no amor propriamente dito e também na amizade, é uma relação pessoal direta, que não está baseada em interesses comuns em relação ao mundo. [...] O amor é apolítico e desinteressado".

Arendt associa esse amor à condição judaica, à humanidade própria dos párias, que se perdeu com a criação do Estado de Israel. E lamenta: "A liberdade cobra um preço alto".

O amor desinteressado aparece na literatura, segundo ela, quando Homero decide cantar não apenas o vencedor, mas os vencidos; quando Heródoto conta os feitos dos gregos e também dos bárbaros. "Toda ciência nasce desse espírito. Se você é incapaz de imparcialidade, porque pretende amar seu próprio povo a ponto de comprometer a verdade, então não há o que fazer."

O interesse comum é da ordem política. É a condição das nações. O resultado das pesquisas, mostrando Flávio Bolsonaro encostado em Lula no segundo turno das eleições presidenciais em outubro, com tudo o que seu nome, seu pai e sua família representam contra os brasileiros, acrescido do passivo de subserviência a uma potência estrangeira com interesses contrários aos do país, faz pensar que estejamos cercados não só pelo cinismo de inimigos declarados, mas pelos que Arendt considerava "amigos desleais" que, em nome de interesses aparentemente comuns, nacionais, e muitas vezes sem se dar conta da extensão suicida de suas ações, preparam uma armadilha que, essa sim, será comum e fatal.

Não seria de todo descabido ver na política internacional aparentemente errática de Donald Trump, para além da ganância pessoal, um desmonte deliberado das nações, com a cumplicidade de grupos oportunistas internos compartilhando interesses em redes supranacionais de desregulação e corrupção.

Por mais contraintuitivo que pareça à primeira vista, a autocracia é a condição do esfacelamento nacional. A aliança do governo americano com a extrema direita na América Latina faz parte de uma política de espoliação, fundamental no seu confronto com a China, única potência capaz de lhe fazer frente.

Que significa quase metade dos eleitores declarar o voto em Flávio Bolsonaro senão uma ideia perdida de nação? O eco insistente de um governo funesto cujo lema —"Deus acima de todos..."— trazia embutida uma conclusão tácita e interessada: "...e cada um por si".

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domingo, 6 de setembro de 2026

O QUE PROTEGER EM TEMPOS EXTREMOS

Míriam Leitão, O Globo

A confiança na democracia está se estiolando, num país ferido pela polarização e com reflexos do maior escândalo financeiro da história

Os próprios ministros do Supremo Tribunal Federal carregaram bombas para dentro da instituição. O perigo não é mais externo. É interno. O presidente Luiz Edson Fachin terá que conduzir com sabedoria salomônica o fim da maior crise da história do Supremo. O foco tem que ser, o que se quer salvar. É de novo a democracia. O ministro Alexandre de Moraes quis usar o inquérito das fake news contra o ministro André Mendonça. O ministro André Mendonça extrapolou de suas funções ao direcionar a investigação, e ao avançar sobre atribuições da Polícia Federal.

A democracia exige confiança nas instituições. E a confiança está se estiolando, num país ferido por polarização extremada e vivendo os reflexos do maior escândalo financeiro da sua história. Quem tem a ganhar com tudo isso é Daniel Vorcaro. Se Mendonça se substitui ao investigador e ao controle externo da polícia judiciária o risco é de nulidade de tudo. Salvam-se todos os suspeitos.

O depoimento de Daniel Vorcaro no gabinete de André Mendonça é uma óbvia tentativa de manipulação. As acusações sem lastro ao diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, são para confundir, para tirar proveito da briga entre o ministro e o comando da Polícia Federal.

Qualquer delação premiada de Daniel Vorcaro tem que começar com ele respondendo às perguntas: onde está o dinheiro, quando e como você vai devolver? Ele nunca respondeu. Essa é a explicação para o fato de a delação premiada do ex-banqueiro não ter progredido nem na Polícia Federal, nem no Ministério Público. Vorcaro não admite sequer que cometeu crimes. Ele se comporta como se fosse vítima. E tentou neste depoimento ao juiz substituto do ministro Mendonça mais uma vez alimentar a tese de que é um perseguido. Vorcaro é o criminoso, tem direito às garantias constitucionais mantidas na democracia, mas não pode manipular o sistema judiciário.

Os fatos são importantes. Vorcaro tentava falar com todo mundo que pudesse ter interesse para ele na estrutura de poder no Brasil. Muitos falaram. O erro não está em ter tido contato com ele, mas no que houve na relação entre o agente público e o banqueiro corruptor. O contrato milionário entre o escritório da família de Alexandre de Moraes com ele, revelado por Malu Gaspar, é um fato incontornável. Os diálogos divulgados pelo relatório da Polícia Federal, tornado público pelo ministro André Mendonça na terça-feira passada, trazem indícios contra Moraes que precisam ser esclarecidos.

O dinheiro de Vorcaro não era privado. Ele deu golpes em fundos de pensão de servidores públicos e colocou um rombo num banco público, o BRB. O senador Flávio Bolsonaro não tem razão quando diz que o dinheiro de Vorcaro era privado. Ele se capitalizou saqueando dinheiro público. Um senador da República não pode fazer o que Flávio fez: correr atrás de dinheiro de Vorcaro, sonegar informações de como os recursos foram usados, mentir sobre o volume de dinheiro que recebeu.

O que Vorcaro tenta agora é aproveitar os conflitos e escapar de alguma forma. Tenta criar suspeição sobre Andrei porque a Polícia Federal o prendeu, o interrogou e vai pedir seu indiciamento em breve. A suspeição sobre a PF daria a ele a nulidade do procedimento original.

Uma autoridade que acompanhou os momentos nervosos que levaram Vorcaro a ser apanhado em quase fuga diz que o diretor geral foi essencial desde o primeiro momento. “Eu sei o que ele fez para não deixar o cara escapar naquela noite”.

A estratégia de Daniel Vorcaro neste momento é evidente. Ele está preso, seu pai, seu cunhado e seu primo estão presos. Ele não conseguiu fazer delação premiada porque não entregou informações relevantes, nem quis devolver o dinheiro que escondeu. Está aproveitando a crise entre as instituições — e dentro delas — e a hora da ferrenha disputa eleitoral para fazer seu jogo. Vorcaro vai tentar de tudo agora.

As próximas semanas serão muito tensas. Fachin tem sobre seus ombros de juiz a carga mais pesada. Moraes não pode ser protegido. Mendonça não pode conduzir de forma seletiva sua relatoria. Em Provérbios há um versículo que orienta sobre o que é essencial em tempos turvos. “Sobretudo o que se deve guardar, guarde o seu coração porque dele procedem as fontes da vida”. Não é preciso ser religioso para valorizar a mensagem e entender que o bem mais precioso a guardar neste momento é a democracia.

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O AUTORITARISMO REVIVIDO

Merval Pereira, O Globo

A manipulação da Suprema Corte dos EUA pelo presidente Roosevelt e a cassação de ministros no Brasil em 1969 são exemplos de controles das Cortes

A politização do Supremo Tribunal Federal (STF) deu início a essa crise institucional que estamos vivendo que, com diferenças de características sociais e geopolíticas, se repete em diversos países. De aspirantes a ditadores até a democracias liberais, o papel das Cortes Superiores vem ganhando uma dimensão política que não se coaduna com princípios de equilíbrio de poderes de uma democracia. O poder excessivo do ministro Alexandre de Moraes é exemplar dessa situação.

Na semana passada, debatendo o tema do autoritarismo na Academia Brasileira de Letras a partir de conferências feitas pelo embaixador e acadêmico João Almino, discutimos a questão dos “democratas autoritários”, título de um livro do próprio Almino, a partir da aceitação de que estamos vivendo um momento de regressão política e de abandono da experiência democrática em vários lugares do mundo, o que nos levou ao momento que vive o país.

Almino trouxe ao debate uma tese do filosofo francês Claude Lefort, segundo quem a democracia não é um regime político, mas uma formação social. Por isso, ressaltou João Almino, é importante que entendamos as atuais tendências políticas como o afloramento da personalidade autoritária na sociedade e de determinados traços culturais. O impulso reacionário contém o desejo da volta a um tempo que nunca existiu, se veste com uma capa superficial de defesa da democracia, da liberdade e da civilização ocidental.

A paranoia anticomunista é a busca de pelo em ovo, que pode ser o da serpente. Amalgamadas na política externa dos Estados Unidos sob Trump, as tendências atuais do totalitarismo associam liberdade e civilização ocidental com propósitos políticos, o que não passa de um equívoco histórico, excepcionalismos com pretensões de superioridade, adverte Almino. Estados Unidos e Europa foram palco do totalitarismo, notadamente o nazismo na Alemanha e o fascismo na Itália. Os Estados Unidos, considerado país exemplar na prática democrática, viveu a experiência do macarthismo entre o fim dos anos 1940 e a década de 1950, e ainda hoje presenciamos ataques à livre expressão das liberdades civis, de imprensa.

O Ocidentalismo justificou a dominação externa em torno de um pensamento de que o Ocidente é essencialmente livre, legitimando o imperialismo e a defesa cultural contra valores estrangeiros. Com a palestra, lembrei-me de que a manipulação da Suprema Corte dos Estados Unidos começou com o presidente Roosevelt, que reagiu à manifestação da maioria conservadora contra seu projeto de reforma do programa New Deal. Ele ameaçou aumentar o número de cadeiras até que conseguisse maioria no plenário. Conseguiu “convencer” os Justices e aprovou o programa.

Mais tarde, o sistema foi adotado por vários governantes, que assim assumiram o controle da Corte e respaldaram uma ditadura, como aconteceu no Brasil, em 1969, quando o governo militar cassou os ministros Evandro Lins e Silva, Victor Nunes Leal e Hermes Lima. Dois ministros renunciaram em protesto, o então presidente do STF Antonio Gonçalves de Oliveira e Antonio Carlos Lafayette de Andrada. Estamos caminhando para a expansão geográfica do autoritarismo. Temos também nos Estados Unidos um exemplo de leniência com desvios éticos que demonstram como a democracia por lá anda corrompida.

A Corte Suprema tem em sua história a cassação por suborno do ministro Abe Fortas, em 1969, por ter recebido U$ 20 mil de uma fundação cujo dono estava sob investigação. Mesmo assim, não foi processado criminalmente, mas renunciou devido à pressão pública. No único processo de impeachment, Samuel Chase em 1804 foi condenado pela Câmara, mas o Senado não deu quorum para julga-lo. Mais recentemente os juízes Clarence Thomas e Samuel Alito foram denunciados pelo recebimento de mordomias de empresários diversos, um pedido de impeachment foi feito na Câmara, mas não foi adiante. Como não havia uma proibição explícita de receber presentes ou mordomias, resolveu-se o caso com a edição de um Código de Ética. Já viram esse filme?

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UM MORTO-VIVO NA ELEIÇÃO DO RIO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Cláudio Castro se lambuzava em caviar enquanto estado era rapinado, indica PF

Um fantasma ronda a disputa pelo Palácio Guanabara: o fantasma de Cláudio Castro. O ex-governador virou um morto-vivo na política fluminense. Os aliados fingem não conhecê-lo, e os rivais apostam nele como anticabo eleitoral.

O candidato do PL, Douglas Ruas, esconde o antigo chefe da propaganda partidária. Na TV, ele é apenas um caminhante solitário que esbraveja contra o “Rio da novela” e repete que “a gente não criou esses problemas”. Quem terá criado?

Os bolsonaristas que concorrem ao Senado também fazem ginástica para se distanciar do ex-governador. “Nunca fui aliado de Castro”, diz Carlos Jordy. “Não preciso defender o legado dos outros. Cada um tem seu CPF”, emenda Carlos Portinho.

Castro não cai no ostracismo completo porque há quem insista em lembrá-lo no horário eleitoral. O candidato do PSD, Eduardo Paes, tem explorado vídeos em que o ex-governador chama Ruas de “amigo” e “irmão”.

Faz com o adversário o que fizeram com ele em 2018, quando seu ex-padrinho Sérgio Cabral cumpria pena em Bangu 8 e estrelava a propaganda de Wilson Witzel.

Na quinta-feira, Castro voltou a um lugar que já conhece bem: as páginas policiais. Um novo relatório da PF expôs sua intimidade com Ricardo Magro, considerado o maior sonegador do país. A amizade era nutrida por mordomias e viagens ao exterior. “Aqui vc tem um amigo”, derramou-se o então governador em 2025, após boca-livre em Nova York custeada pelo dono da Refit.

A PF afirma que Castro “direcionou todos os esforços de sua máquina pública” em favor de Magro. Teria mobilizado duas secretarias, a Procuradoria-Geral do Estado e a Polícia Civil para proteger o comparsa, que está foragido nos EUA e deve R$ 9,4 bilhões ao estado.

A investigação ainda identificou um advogado suspeito de atuar como laranja de Castro. Como um larápio de chanchada, o ex-governador esvaziou os cofres e se lambuzou de caviar. Numa só tacada, torrou R$ 10.500 em ovas de esturjão.

A iguaria foi paga por uma empresa em nome do laranja. “Caviar é comida de rico / Curioso fico, só sei que se come”, ensina o samba gravado por Zeca Pagodinho. A composição de Barbeirinho do Jacarezinho, Luiz Grande e Marquinhos Diniz é mais conhecida pelo refrão: “Você sabe o que é caviar? / Nunca vi, nem comi / Eu só ouço falar”.

É o que os velhos aliados dizem hoje de Castro.

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Apertem os cintos

Edson Fachin está prestes a entrar na segunda metade de seu biênio na presidência do Supremo. Em setembro de 2027, terá que passar a cadeira ao ministro mais antigo dos que ainda não a ocuparam.

Pela ordem atual do rodízio, seria a vez de Alexandre de Moraes. Se ele não estiver mais na Corte, assume o ministro Kassio Nunes Marques, tendo como sucessor André Mendonça.

Num cenário de vitória de Flávio Bolsonaro, o novo governo conviverá com um novo Supremo, dirigido pelos dois ministros indicados pelo pai do presidente.

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A RESPONSABILIDADE DO SUPREMO

Elio Gaspari, O Globo

No meio da disputa entre Mendonça e Moraes, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Daniel Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade

Os dez ministros do Supremo precisam olhar para a estatueta da Justiça que enfeita seus gabinetes. Ela é cega.

O presidente do tribunal, Edson Fachin, sabe que a estratégia da turma do Vorcaro é obter a nulidade de todo o processo e de suas provas. Afinal, o banqueiro quebrado ameaçou várias vezes contar “toda a história” do Master.

Preso, está conseguindo mais do que supunha. Os ministros Alexandre de Moraes e André Mendonça engalfinharam-se. Um (Mendonça) quer que os diálogos de Moraes com Vorcaro em poder da Polícia Federal venham a público.

Trata-se da aplicação da lei do juiz americano Louis Brandeis: “A luz do sol é o melhor desinfetante”.

O outro, Moraes, quer investigar iniciativas ilegais de Mendonça.

No meio, clarividente, está o presidente do tribunal, Edson Fachin, vendo que a estratégia da defesa de Vorcaro e de sua turma é a busca da nulidade.

Assim, a maior fraude financeira da história iria para baixo das togas. Quais? Todas, como se deu com a Lava-Jato.

Isso está claro desde o tempo em que a relatoria do caso estava sob o ferrolho do ministro Dias Toffoli.

Como ensinaria Chico Buarque, “chamem o banqueiro”.

Institutos e ministros

O ministro André Mendonça deve estar amargamente arrependido de ter criado o Iter, uma instituição privada de ensino nascida em 2024. Ela se apresenta como um lugar onde “autoridades vivem o que ensinam”. O sujeito dessa frase é a autoridade, não necessariamente o saber.

Mendonça encabeça o plantel do Iter e é seguido por um “membro da Câmara Nacional de Licitações e Contratos da Advocacia-Geral da União” e outro é “assessor de ministro do Supremo Tribunal Federal”: “No Instituto Iter você aprende com quem faz.” Em dois anos, o instituto recebeu R$ 10,8 milhões em verbas púbicas, vindos de 55 contratos, 54 dos quais sem licitação.

Mendonça criou o Iter três anos depois de ser nomeado para o Supremo Tribunal, mas não foi ele quem inventou essa fonte de conhecimento. A iniciativa de maior sucesso na área é o IDP, Instituto Brasileiro de Ensino, Desenvolvimento e Pesquisa, criado pelo ministro Gilmar Mendes há 25 anos, um ano antes de ser indicado para o STF, quando ele era advogado-geral da União. Estendendo suas atividades a Portugal, o IDP promove ciclos de palestras chamadas de “Gilmarpalooza”, que reúnem em Lisboa magistrados, ministros, parlamentares e empresários.

O atual procurador-geral da República, Paulo Gonet, foi um dos fundadores do IDP.

O IDP se apresenta como “conhecimento que conecta, comunidade que transforma” e convida: “Formamos os nomes por trás das grandes decisões. Agora é a sua vez!”.

A lei permite que magistrados lecionem. Cada ministro do Supremo recebe R$ 46.366,19, mais automóvel e escolta, no Brasil e no Ultramar.

Pindorama tem dois tipos de sem-teto

Em tese, os servidores não podem receber mais que os vencimentos dos juízes do STF. Na vida real, o Brasil tem dois tipos de sem-teto.

O primeiro tipo não tem onde morar. São cerca de 65 mil pessoas que vivem na rua. O segundo tipo é o dos servidores públicos cujos contracheques ultrapassam o teto constitucional. Eles seriam 53 mil. São magistrados, procuradores, militares, professores e sabe-se lá quem mais. Estima-se que 65% dos magistrados brasileiros recebam a cada mês valores acima do teto. Seis dos dez ministros do STF furam o teto. Como o Supremo está na chuva, vale mencionar os ministros que vivem livres desses penduricalhos: Edson Fachin, Cármen Lúcia, Dias Toffoli e Cristiano Zanin.

Recordar é viver

O caso Master jogou luz sobre a presença de delegados da Polícia Federal em gabinetes de ministros do Supremo. Tudo bem, esse magnetismo é velho e universal.

Em abril de 1964, o marechal Castello Branco nomeou seu colega Juarez Távora (1898-1975), ministro da Viação e Obras Públicas, que ficava no Centro do Rio. Juarez começou a trabalhar e percebeu que sempre havia um PM na porta do seu gabinete. Intrigado, o marechal quis saber o que o PM fazia ali.

Demorou, mas veio a informação. Fazia tempo, o ministro da ocasião mandou pintar a porta de sua sala. Com a tinta fresca, algumas pessoas sujaram seus ternos e seu chefe de gabinete mandou que o PM postado à entrada do prédio (no sol) fosse realocado para garantir que ninguém esbarrasse na porta (refrigerada).

Isso, há anos.

Chame o ladrão

Está nas livrarias “Chame o ladrão — Como os artistas driblaram a censura do governo militar”, do repórter Miguel de Almeida. Em 142 páginas ele traça um panorama do jogo de gato e rato entre artistas e censores durante a ditadura. O caso mais conhecido é o de Chico Buarque, que virou Julinho da Adelaide para escapar da censura que cortava tudo o que ele assinava. Mas há outros. Luiz Carlos Barreto resgatou “Dona Flor e seus Dois Maridos”, de seu filho Bruno, com a ajuda de Amália Lucy Geisel, filha do presidente.

Um censor achava que a atriz Glauce Rocha e o cineasta Glauber Rocha eram a mesma pessoa. Vários censores amoleciam com bebidas, um general recebia as vítimas na garçonnière, mas todos censuravam e mutilavam a cultura nacional. Hilária a cena do Chacrinha enxotando os censores.

Aquele mundo não era divertido como parece meio século depois. Gilberto Gil, Caetano Veloso e dezenas de artistas foram presos, projetos de filmes, peças e canções morreram no nascedouro por receio da tesoura. Miguel de Almeida pesa muito bem suas escolhas. No seu melhor momento, conta a saga do romancista Inácio de Loyola Brandão para liberar seu romance “Zero”. Em 1973, 13 editoras rejeitaram-no.

Loyola furou a censura publicando “Zero” pela editora italiana Feltrinelli. Só depois da edição italiana, em 1975, saiu a edição brasileira, logo proibida. Era tarde: 10 mil exemplares haviam sido vendidos e seu “Zero” estava na vitrine da Biblioteca Mário de Andrade.

“Chame o Ladrão” ecoa um verso de Chico Buarque. Nos primeiros anos da ditadura, o Serviço de Censura e Diversões Públicas era Romero Lago.

Romero Lago era Hermelindo Ramirez Godoy, mandante de um duplo assassinato, fugido da cadeia, andou pela Argentina e pelo Paraguai, até trocar de identidade, estabelecendo-se no Rio. Optou pelo serviço público e explicou:

— Eu queria acima de tudo servir ao meu país, e ter uma vida honrada. Minha principal preocupação era limpar totalmente aquela mancha. Iria trabalhar e mais tarde propor a comprovação da minha inocência — disse. — Nunca fui reconhecido — completou.

Segundo Romero/Hermelindo, o mandante do crime foi seu irmão.

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O APAGAMENTO DE GAZA

Dorrit Harazim, O Globo

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio a movimento terrorista

Pronto, agora é oficial. Na semana passada, em Israel, foi anunciado o plano de limpeza étnica e erradicação da vida palestina em Gaza. A única ambiguidade — e ela é infame — está no título do opus: “Plano Nacional de Trabalho para a Emigração Voluntária do Estreito de Gaza”. De resto, o documento de 20 páginas detalhado com orgulho por seu autor, o ministro da Segurança Interna Itamar Ben-Gvir, é “realista” e “concreto”. E inequívoco. Numa primeira leva, com prazo de execução de 12 meses, a cota de desterro coercivo deverá atingir 250 mil cabeças. O restante dos 2 milhões de gazenses deverá abandonar o que lhe resta de chão ao longo dos seis anos subsequentes. Está tudo equacionado, garante Ben-Gvir, afirmando já ter uma lista de países dispostos a absorver os desenraizados. O próprio ministro da Defesa israelense, Israel Katz, também já informou aguardar apenas a aprovação do presidente dos Estados UnidosDonald Trump, para dar início à emigração “a qualquer custo”.

Vale lembrar o Direito Internacional Humanitário (Estatuto de Roma de 1998, Quarta Convenção de Genebra, de1949), que define como crime de guerra “a deportação ou transferência da totalidade ou de parte da população do território ocupado dentro ou para fora desse território, em conflitos internacionais”. Ainda assim, o mundo viciado em noticiário 24/7 preferiu não se deter nesse marco que a História haverá de registrar. Preferiu-se, para melhor acomodar o sono, atribuir o anúncio declarado do crime a mais uma extravagância da campanha de Ben-Gvir às decisivas eleições legislativas de 27 de outubro próximo.

De fato, o ministro supremacista mais extremado do governo de Benjamin Netanyahu tem se superado. Dia desses, ele postou um vídeo de 25 segundos tão tóxico que foi aconselhado a deletá-lo. O vídeo gerado por IA mostrava prisioneiros palestinos rechonchudos e sorridentes numa sala de tribunal, aguardando julgamento. No plano seguinte, o mesmo grupo já emaciado e cabisbaixo era encaminhado, em fila, ao que parecia ser um abatedouro humano industrializado. Um horror difícil de dissociar do horror maior do século XX. Mas era brincadeirinha de IA.

Um segundo vídeo do ministro de popularidade galopante dispensou pirotecnias digitais. Gerou impacto justamente pela veracidade factual da filmagem: uma visita às obras do futuro complexo de forças reservado à execução de palestinos condenados por crimes de terrorismo. O local exato da obra permanece sigiloso, mas já era possível ver escavadeiras e construções pesadas em andamento.

— O corredor da morte e as instalações para enforcamento estão começando a tomar forma — informa o ministro.

Ele acrescenta que o local das execuções será equipado com cabines de observação para as famílias judaicas das vítimas acompanharem o ritual. A pena de morte aprovada neste ano em Israel isenta judeus extremistas acusados de crimes semelhantes contra palestinos.

O fanatismo exterminador de Ben-Gvir já lhe valeu condenações por incitação ao racismo e apoio ao movimento terrorista Kach, banido. Ele também poderá sofrer sanções se pisar na França, na Irlanda ou no Reino Unido. Nos Estados Unidos está em curso uma moção do senador democrata Ruben Gallego, do estado do Arizona, a favor do seu banimento do solo americano. Uma parte do Ocidente envergonhado considerou excessiva a recente defesa que ele faz de execuções punitivas em Gaza:

— Acho que deveríamos realizar de 30 a 40 assassinatos seletivos por noite. Não apenas daqueles que representam uma ameaça imediata. Há pessoas ali que não merecem viver... Elas nem sequer são gente.

A marcha de Israel anda acelerada. O partido Poder Judaico, sob comando de Ben-Gvir, tem fortes chances de ganhar mais sete cadeiras na nova legislatura e já se fala na criação de um novo ministério para cuidar da emigração forçada. Na terça-feira, autoridades do país iniciaram a imposição de novo currículo para mais de 45 mil alunos palestinos matriculados em escolas públicas do setor árabe de Jerusalém. Como parte de uma campanha global, o Estado judeu e seus aliados têm intensificado esforços para apagar a palavra Palestina de registros históricos, livros e museus. Soa delirante? Nem tanto. A seção libanesa da Agência das Nações Unidas de Assistência aos Refugiados da Palestina no Oriente Próximo (UNRWA, na sigla em inglês) já substituiu a palavra “Palestina” por “Cisjordânia” e “Gaza” em mapas didáticos do ensino médio. Até o majestoso British Museum de Londres cedeu a pressões em fevereiro último e apagou “Palestina”, “palestino” e “ocupação israelense” de alguns painéis históricos específicos.

Deixamos o mais afrontoso para o final, revelado por Jeremy Greenstock, embaixador junto à ONU no primeiro mandato do esquecível governo de Tony Blair (1997-2007). Atualmente, Blair integra o esdrúxulo Comitê de Paz montado por Trump para implementar o cessar-fogo em Gaza, acordado, mas não cumprido, por Israel desde outubro passado. Pois bem, em entrevista ao site Middle East Eye, o diplomata contou que Blair havia sido incumbido de levar à Autoridade Palestina uma proposta capaz de amolecer Israel: a troca do termo “Palestina” pelas designações bíblicas judaicas “Judeia” e “Samaria” no currículo escolar das crianças palestinas. A indecência dessa proposta está à altura do mensageiro, que nega o ocorrido. Decididamente, há bípedes que se superam na ignomínia.

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ESTRATÉGIA DOS EUA CHEIRA A ANOS 60

Lourival Sant’Anna, O Estado de S. Paulo

Nova política amplia risco de interferência em um país em caso de derrota de um aliado de Trump

Os pilares do plano de Donald Trump para a Venezuela sugerem um potencial padrão para a América Latina: coerção militar, pacto de sustentação do governo, expropriação de riquezas e ausência de compliance. O alinhamento de líderes políticos da região, incluindo do Brasil, à estratégia americana cria o risco de retrocesso institucional, econômico e geopolítico.

O acordo, endossado com entusiasmo pela presidente interina Delcy Rodríguez, estipula que 20% do petróleo venezuelano será entregue a preço de custo aos EUA, que podem exercer preferência na compra dos outros 80%. O plano abrange a exploração de 65 bilhões de barris – o equivalente a quase dois anos de todo o petróleo consumido pelo mundo.

O contrato é brindado à North American Blue Energy Partners (Nabep), com sede em Barbados, cujo dono, o venezuelano Alejandro Betancourt, cresceu como empresário sob Hugo Chávez e Nicolás Maduro, com contratos públicos de geração de energia. Trata-se de um “bolichico”, como são chamados os jovens homens de negócio que gravitam em torno do regime bolivariano.

Significa que, em vez de levar para a Venezuela as regras de governança que os EUA ajudaram a criar, Trump está aderindo ao clientelismo chavista. Como os eleitores venezuelanos dificilmente aceitariam essa expropriação neocolonialista, Trump explicou na semana passada que “a Venezuela não está pronta para eleições”.

Antes de capturar Maduro no início do ano, Trump lhe enviou emissários com o recado de que poderiam negociar sua permanência no poder em troca desse tipo de transação. O então ditador não aceitou. Delcy, então vice, apresentouse como alternativa – até para não ter o mesmo fim.

A estratégia combinou a designação de narcotraficantes como terroristas, a identificação de Maduro como “líder” do crime organizado, a intimidação por meio dos bombardeios de lanchas no Caribe e no Pacífico, o bloqueio naval e a captura do ditador.

Presidentes recém-eleitos e líderes de oposição conservadores na região, incluindo no Brasil, alinham-se com a estratégia de Trump de aplicar a força militar contra o crime organizado e submeter a exportação de minerais críticos e outras matériasprimas estratégicas ao monopólio dos EUA, a título de conter a influência chinesa.

Além das implicações econômicas, existe o risco de os EUA interferirem em um país em caso de derrota eleitoral de um aliado de Trump para um crítico desses arranjos, que colocasse em risco contratos lucrativos para os americanos. Como nos anos 60.

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MENDONÇA, O NOVO JUSTICEIRO, TAMBÉM PRECISA SER COBRADO

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Erros de um e de outro deveriam ser tratados sem a contaminação da guerra ideológica

Politização toma conta de instituições e mídia durante campanha sem discussão de propostas

As revelações sobre as relações de Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro são graves e precisam ser esclarecidas. Sua atuação contra a tentativa de golpe obviamente não lhe confere imunidade, pelo contrário, coloca uma lupa sobre sua conduta. Há forte suspeita de corrupção.

Os erros de Moraes, contudo, não transformam André Mendonça em paladino da moral e da imparcialidade. Há elementos suficientes para que a atuação do novo candidato a justiceiro do Supremo também seja submetida a escrutínio.

Um relatório da própria Polícia Federal chamou a atenção para a diferença de velocidade com que Mendonça analisou medidas contra políticos de campos distintos. Foram nove dias no caso do petista Jaques Wagner, 29 no de Ciro Nogueira, ex-ministro de Bolsonaro, e até 75 num procedimento envolvendo o ex-governador fluminense Cláudio Castro, do PL. Essas diferenças não podem ser tratadas como prova de parcialidade, mas são um indício.

E não se trata de sinal isolado. Há outros, que apontam para diferenças de tratamento em episódios envolvendo Lulinha e políticos da direita. Também é questionável a atitude de Mendonça diante de referências a integrantes do próprio Supremo: enquanto demonstrou interesse em aprofundar rapidamente elementos relacionados a Moraes, foi preguiçoso com Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. A PF ressalva que não há elementos para estabelecer as razões dessas diferenças.

Já Paulo Gonet, como está claro, não pode ser aceito como árbitro da crise. O nome do procurador-geral aparece no material investigado. Caberá a Edson Fachin, presidente do tribunal, descascar o abacaxi, tarefa hercúlea.

Tudo isso às vésperas das eleições, o que exige cuidado redobrado com o andor. Políticos bolsonaristas e analistas de direita festejam as revelações sobre Moraes e procuram colá-lo a Lula, na clara expectativa de transferir o desgaste ao presidente. Mas essa associação simplifica uma relação mais ambígua.

Lula e Moraes —que foi indicado por Michel Temer— estiveram do mesmo lado na defesa das instituições contra o golpismo, mas isso não os tornou aliados incondicionais. O presidente já manifestou nos bastidores descontentamento com Moraes quando surgiram as primeiras revelações da relação com Vorcaro. E ficou particularmente contrariado com a rejeição pelo Senado de Jorge Messias, que teria contado com apoio do ministro.

Diante das novas revelações, Lula fez bem ao defender que todos sejam investigados e afirmar que ninguém pode utilizar um cargo público e a democracia em benefício pessoal.

A politização das instituições —e a mídia não está fora disso— tornou-se irrefreável e se acentua com a proximidade das eleições. Não se discutem propostas para o país, o que prevalece é o tiroteio ideológico acirrado e perigoso.

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DIREITA QUEBROU BANCO E COMPROU STF

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Quando Jair lhe deixou ser banqueiro, Vorcaro saiu procurando políticos ladrões que aceitassem investir

Banqueiro tentou comprar juízes porque o Banco Central e a Polícia Federal melaram seu esquema

A direita criou o Banco Master, foi pega roubando com o Banco Master e agora teve que pagar uns caras do STF para escapar da cadeia.

Na última semana, descobrimos novos indícios de que o dono do Master tentou comprar o apoio do ministro Alexandre de Moraes. Há também indícios contra os ministros Dias Tóffoli e Nunes Marques. Mas só as acusações contra Moraes ajudam o candidato em que o ministro André Mendonça vota.

O possível suborno de juízes do STF já seria um dos maiores escândalos da história brasileira, mas esse é só o final de uma história muito pior. Os valores desviados têm muito mais zeros, as vítimas dos crimes são muito mais pobres, e o envolvimento da direita vai muito, muito além de um filme.

Daniel Vorcaro tentou comprar juízes porque o Banco Central e a Polícia Federal, já no governo Lula, melaram seu esquema. Mas que esquema foi esse?

"Banco Master" é um negócio que existiu depois do Banco Central do Temer (que não deixou Vorcaro virar banqueiro) e antes do Banco Central do Lula (que obrigou Vorcaro a deixar de ser banqueiro). No meio disso teve Bolsonaro.

Quando Jair lhe deixou ser banqueiro, Vorcaro saiu procurando políticos ladrões que aceitassem investir dinheiro de aposentado em títulos que não valiam nada.

Conseguiu sócios em 18 entes federativos: 3 estados e 15 municípios. Dos 18, 17 (90%) eram governados pela direita. De longe, o maior desfalque foi dado pelo governador bolsonarista do Rio de Janeiro, Cláudio Castro: R$ 3,7 bilhões.

Em suas voltas pela picaretagem brasileira, Vorcaro conheceu Augusto Lima, que tinha um esquema com o governo do PT na Bahia. O esquema dava empréstimos fraudulentos a funcionários públicos do estado. Vorcaro virou sócio de Lima e de outros picaretas semelhantes Brasil afora.

Como toda mutreta desse tipo, uma hora o Banco Master começou a fazer água.

Um senador e um deputado bolsonaristas apresentaram projetos no Congresso para aumentar a cobertura do FGC, o que permitiria a sobrevivência da pirâmide Master por mais tempo. Se os projetos tivessem sido aprovados, todo o dinheiro que você tem no banco teria sumido.

Seis partidos apresentaram um requerimento de urgência para votar um projeto que permitiria ao Congresso demitir o diretor –justiça seja feita, nomeado por Campos Neto– que impediu a operação do BRB. Dos 6, 5, 84%, eram de direita: PL do Bolsonaro, Republicanos do Tarcísio, PP do Ciro Nogueira, União Brasil do Alcolumbre e MDB do Ibaneis Rocha.

Não deu certo, e Vorcaro precisou apelar para o governo bolsonarista de Ibaneis Rocha, do Distrito Federal, que tinha um banco estatal grande nas mãos. A operação para salvar o Master custou, por baixo, R$ 8 bilhões ao BRB, dinheiro que será pago com cortes nos serviços públicos do Distrito Federal por muitos anos.

Depois dos bilhões de dinheiro público que o bolsonarismo lhe deu, Vorcaro achou que o mínimo que poderia fazer seria recompensá-los com R$ 140 milhões (dos quais R$ 60 milhões foram pagos) para Flávio Bolsonaro. Não era problema de Vorcaro se o dinheiro era para fazer filme ou se, como é óbvio, era para sustentar as conspirações de Eduardo Bolsonaro contra o Brasil.

A acusação contra Moraes é essa: ter entrado no esquema.

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RELATOS DE PURO ESPANTO

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia

Espanto ou estupefação: a escolha da palavra fica a cargo da parcela crítica do público disposto a avaliar uma notícia recente em alguns veículos de mídia. Trata-se da narrativa em que Ronnie Lessa, o matador de Marielle Franco e Anderson Gomes, explica friamente os detalhes da execução, mas, compungido, lamenta ter assassinado os dois únicos inocentes em sua carreira de crimes. E o público, nada menos que estupefato, ainda fica sabendo que ele não matou mil pessoas, como teriam insinuado. Foi menos, mas poderia ser muito mais, fosse feita a conta de ações conjuntas com a polícia.

Horripilante, esse relato evoca Jean-Jacques Rousseau em "A Nova Heloísa" quando menciona um jeito de "negar o que é, e de explicar o que não é". A negação permite manipular a percepção plena de algo que existe, para naturalizar o lado obscuro dessa existência. É quando a explicação serve para confundir, como diz o compositor Tom Zé.

"Negar o que é" equivale a desconversar sobre uma estrutura sociopolítica criminosa emergente no território fluminense a partir da infiltração do velho caciquismo, com os vícios de políticas interioranas, nos aparelhos de Estado. São amostras o parentesco e o compadrio das alianças partidárias, mas igualmente a reconfiguração dos antigos capangas como matadores profissionais. A indiferença aos direitos humanos por parcelas expressivas da sociedade é fator de expansão desse fenômeno, com vezos de autonomia: o "escritório do crime", horror público.

Mas à estupefação com o relato do pistoleiro segue-se um espanto crítico ante o comportamento da mídia. Abordou o fato como fait-divers, isto é, notícia curiosa que rompe a normalidade cotidiana, e aí ficou, sem relacioná-la à estrutura criminosa que se mantém de pé. Ao mesmo tempo, entretanto, acendeu holofote continuado sobre um incidente universitário, em que alunos agrediram outro por suposto uso de insígnia nazista. Numa das matérias, chegou-se a comparar com o linchamento fatal de um ciclista em Copacabana.

O fato é condenável, não se discute, nem se justifica manifesto de docentes em apoio a agressores. Mas a atitude imediata do reitor Roberto Medronho, um dos melhores nesses tempos de carência por que passam as instituições públicas de ensino e pesquisa, foi exemplar: abriu sindicância, deu entrevista clara, os responsáveis serão avaliados. Não foi ato de uma "esquerda" imaginária encarnada: tratou-se mesmo de inaceitável violência por parte de adolescentes exaltados, no âmbito da UFRJ. Daí ser também espantoso o persistente foco da mídia carioca sobre o assunto, simultâneo e minimizador do relato do pistoleiro. Universidade pública pode ser alvo empresarial mais impactante.

Quando se pensa em "jornalismo do futuro", conviria ser incorporada a definição por Machado de Assis de jornal como "a verdadeira forma da república do pensamento" (em "O Jornal e o Livro"). Sim, diante da metástase eletrônica da informação desinformativa, o bom jornalismo ainda é "expressão, um sintoma de democracia". Nunca foi tão crucial a reflexão responsável sobre o que se ouve e publica.

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ORIGEM DA CRISE É O DESRESPEITO À CONSTITUIÇÃO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A responsabilidade não é do sistema; é de quem comanda e opera os Poderes ao arrepio das regras e rituais

A geração subsequente aos artífices da redemocratização foi incapaz de seguir os passos dos antecessores

Estava escrito nas estrelas das disfuncionalidades da República que este momento de degradação nas relações, atuações e reputações chegaria.

O enunciado da Constituição sobre a divisão harmônica e autônoma de atribuições entre os três Poderes não está lá por acaso nem é obra de diletantismo do colegiado constituinte.

É preceito básico, pré-requisito essencial ao regime democrático. Aquele em nome de cuja retomada inscreveram-se as normas que passariam a valer depois de 21 anos de submissão do Legislativo e do Judiciário ao mando do Executivo hipertrofiado —a ditadura.

De lá para cá, o país sofreu e venceu solavancos que testaram a firmeza do desenho institucional de 1988. Não está conseguindo, no entanto, resistir à inaptidão da geração subsequente em seguir os passos dos arquitetos da redemocratização.

Em meio a autoritarismos, voluntarismos, populismos, usurpação de funções e agressão a ritos e regras, assistimos a uma deterioração de condutas cuja solução passa longe da culpa do aludido sistema ao qual se pedem reformas, na tentativa de fugir da responsabilidade que é de seus condutores e operadores.

O chefe do Executivo houve por bem se escorar em magistrados permeáveis a alianças no Judiciário, a fim de contornar dificuldades num Legislativo interesseiro e arisco. Alheios às consequências, entraram numa espiral descendente de desmoralização compartilhada.

A eleição presidencial se dá em ambiente de rejeição e desencanto; o Supremo Tribunal Federal vive um impasse de gravidade inédita e o Congresso não dispõe de lideranças com estatura institucional à altura do desafio.

O túnel é escuro e o poço sem fundo. A resposta em outros tempos esteve na política, que perdeu tônus e protagonismo quando decidiu se dedicar primordialmente aos negócios e terceirizar suas funções a juízes com pendores políticos e vocação para santos guerreiros.

Queira o bom senso que a saída não esteja em acertos para estancar a sangria com Supremo e com tudo.

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AS CORES DO CORAÇÃO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Se for crime usar a camisa do time adversário, muitos ilustres já deveriam ter pagado por isso

O que o garoto corintiano que pediu a camisa de Neymar levará desta experiência pela vida?

Há dias, um garoto de 8 anos levantou uma placa no jogo contra o Santos na Neo Química Arena: "Neymar, amo o Corinthians, mas sou seu fã. Me dá sua camisa?". Pediu e recebeu. Por causa disso, ouviu um coro de urros, insultos e ameaças de um grupo de torcedores corintianos. O risco de linchamento levou sua mãe a retirá-lo do estádio sob proteção policial. O Corinthians condenou os brutamontes. Pergunto-me o que essa criança levará pelo resto da vida —profunda repulsa pelo ser dito humano ou a certeza de que nada é mais importante do que a tolerância?

Se for crime vestir a camisa do adversário, muitas pessoas ilustres já deveriam ter pagado por isso. Em sua edição de 14 de julho de 1979, a revista Manchete abriu uma reportagem sobre Nelson Rodrigues e Zico com uma incrível foto de Paulo Scheuenstuhl, em que o dramaturgo, histórico torcedor do Fluminense, veste a camisa do Flamengo. Por sua vez, no dia 24 de março de 1993, Zico, símbolo do Flamengo, atuou no Maracanã com a camisa 9 do Vasco no jogo de despedida de seu grande amigo Roberto Dinamite. O mundo não acabou.

Flamengo e Vasco vivem uma das piores rivalidades do futebol brasileiro. Se o craque de um deles se passa para o outro, deveria ser excomungado, não? Não. O Flamengo já viu alguns de seus heróis usando as cores do inimigo —Andrade, Bebeto, Junior Baiano, Petkovic e, mais doloroso de todos, Rondinelli, o Deus da Raça—, mas perdoou-os, por sabê-los Flamengos. E, para gáudio rubro-negro, o Vasco teve de se curvar ao fato de que, em 1995, Romário, ao deixar o Barcelona eleito o maior jogador do mundo e voltar para o Rio, preferiu o Flamengo, onde fez também monumental carreira.

E quando um jogador não consegue jogar pelo clube para o qual secretamente torce? Gerson, o Canhotinha, revelou-se no Flamengo, foi ídolo do Botafogo e só em fim de carreira chegou ao seu time de coração, o Fluminense. Como ele, muitos outros.

Dias depois, o garoto posou com uma bandeira do Corinthians e a camisa de Neymar. Assim se faz.

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IDEIAS E PALIATIVOS PARA CONTER A BANDALHEIRA NO SUPREMO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Reformas podem atenuar risco de crises, mas país está institucionalmente podre

Difícil conter nomeação de amigos políticos para o STF e advocacia familiar bandida

Bandalheiras no Supremo causam escândalo justificado. Também dão oportunidade a comportamento santarrão ou hipócrita de outra espécie, que prega soluções de moralismo política ou eleitoralmente interessado. O apodrecimento do STF vem de década e meia, anos em que a promiscuidade política e econômica do tribunal não causava tanta sensação, pois camuflada de modo útil para elites políticas e econômicas, antes que festas e farofas ricas de lobby ficassem exageradas. De resto, candidatos de grupos políticos associados a facções criminosas estão aí, sem suscitar manifestos de indignação.

Até essa conversa de "maior crise do STF da história" é fiada. O Supremo é pouco mais novo do que a proclamada República, pois coisa remotamente parecida com República não houve em mais da metade do tempo desde 1889. Tivemos 5 anos de ditadura militar até 1894 e 36 anos de República Velha, uma oligarquia de modos e ideias escravistas que fraudava eleições já elitizadas. Tivemos 15 anos de ditadura de Getúlio Vargas e 21 anos de ditadura militar, quando o STF era tolhido ou submisso ou decorativo ou teve a composição manipulada pelos ditadores.

Isto posto, a situação do STF é grave como jamais se viu desde que tentamos criar República de fato, a partir de 1988. Desde 2016, o regime é em parte ou em vários anos o do acordão transacional contra instituições, torcidas à base daquelas mumunhas que matam democracias, e de tentativas de golpe, com omissão ou participação ativa dos três Poderes. Além da entrada do crime no Estado e da privatização terminal do Orçamento, crápulas, negocismo, dinheirismo e acafajestamento vão dominando o país, não apenas na política (veja-se a quantidade de podreira empresarial e financeira), mas também na "sociedade e cultura".

Difícil consertar o STF sem dar conta do resto. Paliativos?

Proibir presidentes da República de indicar para STF e STJ seus advogados, ministros e similares talvez ajude. Seria preciso então lidar com o Congresso, mais livre para promover seus nomes de confiança, embora ali o poder possa ser mais disperso.

Restringir o foro privilegiado de políticos conteria a politização? Ainda seria preciso julgar no STF presidentes e certos graúdos. O problema continua. Dos que foram ao poder pós-Constituição, 5 de 7 presidentes da República foram de algum modo parar em tribunais superiores (capos do Congresso, não).

Ao mandar processos de "políticos" para tribunais estaduais, não raro dominados por políticos e parentadas da elite regional, nos lembraríamos do motivo original do foro especial: evitar privilégios ou perseguições locais. De resto, casos de gente com mais poder acabariam subindo ao STF, via recursos.

Como conter a advocacia de cônjuges, filhos e agregados que traficam a influência familiar para ganhar causas nos tribunais maiores, além de levar para as cortes negócios políticos e econômicos? Ideias?
Como evitar maiorias politicamente sectárias na composição do STF? Os EUA têm o mesmo problema e ideias ruins para evitá-lo.

Ajuda quase proibir decisões individuais, "monocráticas" no STF, que são porta aberta para negocismo político ou dinheirista. Ajuda recolocar o STF na casinha constitucional, mas para tanto seria preciso haver Congresso que tomasse decisões e que fosse respeitável. Não temos. Para melhorar, seria preciso colocar o Parlamento sob o cabresto de participação política popular facilitada e melhorada. Está longe, isso.

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