sábado, 23 de maio de 2026

O GRANDE RIO DE JANEIRO

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, Flávio Bolsonaro sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro, onde o poder público foi envolvido pela corrupção

Chico Buarque disse, com sua boa música e melhor poesia, que o Brasil poderia se transformar em imenso Portugal. A brincadeira poético-musical era elogiosa, porque a pátria mãe, que durante muitos anos foi vista como um país no norte da África, foi aceita pela União Europeia e se transformou. Passou a contar com bons hotéis, melhores restaurantes e grandes centros de compras. O país deixou de ser o local apenas para comer bacalhau e passou a oferecer múltiplas oportunidades. Os brasileiros fazem a festa por lá.

Essa imagem me veio à cabeça porque o candidato Flávio Bolsonaro, com suas trapalhadas e suas amizades escandalosas, sugere que o Brasil se transforme no grande Rio de Janeiro. Machuca muito escrever isso. Nasci perto do Rio de Janeiro e cresci na cidade. Desfrutei das praias, do bom futebol e dos restaurantes. Temporada feliz. Mas aquele Rio de Janeiro não existe mais. Depois do surgimento veloz e feroz da chamada Zona Oeste, a criminalidade tomou conta de boa parte da cidade. O tráfico de drogas assumiu grandes áreas, as grandes favelas se transformaram em territórios autônomos para proteger quadrilhas de assaltantes de vários tipos e categorias. Meu filho, na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), foi obrigado a se proteger, algumas vezes, dentro da sala de aula, do tiroteio que corria solto lá fora. Foi assaltado, confrontado com arma na mão, dentro do campus.

Histórias de policiais envolvidos com a criminalidade são muitas. Às vezes são até folclóricas, como a do sujeito que teve a sua moto roubada e procurou a polícia. Na delegacia, recebeu o endereço dos três maiores ladrões de motos do Rio. Com a sugestão de que ele procurasse o ladrão e pagasse pela liberação da própria motocicleta. O delegado naturalmente receberia algum pela corretagem. Os apontadores do jogo do bicho fazem parte da paisagem carioca. Eles mandam nas ruas da cidade. Ninguém pode estacionar em local em que estão trabalhando. Eles chamam a polícia. É isso mesmo. Os bicheiros mandam os reboques do Detran, que levam seu carro. Depois, o proprietário deve pagar uma série de benefícios para liberar o veículo.

O poder público foi envolvido pela corrupção. E a cidade dominada pelas milícias, pelos comandos criminosos que se estruturaram nas favelas e passaram a lidar com quantias financeiras consideráveis. Começaram a importar armas pesadas capazes de fazer enfrentamentos, de igual para igual, com Polícia e Exército. Nada disso aconteceu por acaso. Os últimos cinco governadores do estado do Rio de Janeiro foram presos por corrupção e leniência com o crime organizado. 

O último ainda não foi preso, apenas cassado, pretendia ser candidato a senador, mas a Justiça interrompeu sua carreira. A Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro é um antro dominado pela criminalidade. Flávio Bolsonaro reinou ali, onde implantou o sistema da rachadinha. Vários deputados foram presos. Alguns, cassados. Por causa de sucessivos impedimentos, o atual governador do Rio de Janeiro é o desembargador Ricardo Couto. Ele, que não é ligado a nenhum grupo criminoso, promove uma limpa no governo do estado, o que ocorre pela primeira vez nas últimas décadas.

Esse é o mundo Bolsonaro. O universo de atuação da família, cuja residência em condomínio horizontal na Barra da Tijuca irradiou sua influência pela região. Por via da política, tentou controlar todo o país. Militares desinformados chegaram a apoiar a loucura do golpe de Estado no país, para evitar novas eleições. E entronizar as milícias no poder no Brasil. Jair, ex-presidente, já demonstrara seu profundo desprezo pelas massas quando abandonou o povo no momento da pandemia. Ele não se dignou a visitar um hospital, nem lamentou as 700 mil mortes. Exerceu o poder para colocar a mão no dinheiro. A avidez com que Flávio, o candidato, se lançou sobre as posses, furtadas, de Daniel Vorcaro é autoexplicativa. Eles gostam muito de dinheiro em qualquer circunstância.

O perfil de Flávio Bolsonaro é nítido. Ele é produto da família que se comporta como uma famiglia mafiosa italiana de filme norte-americano. O pai manda, os filhos obedecem e se espalham pelo país, para tentar eleições em diversos estados. Eles fazem o discurso contra as elites para destruir as elites. O Brasil já viu candidatos como esses, destinados a limpar, passar a vassoura e construir nova sociedade. Todos, desde Jânio Quadros, terminam demonstrando sua tendência autoritária. Flávio Bolsonaro é apenas um arrivista, rápido na ação de amealhar dinheiro com a mão grande, que pretende se passar por reformista, coisa que ele nem sabe o significado. É o desastre anunciado na tentativa de criar o grande Rio de Janeiro.

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O CARMA POLÍTICO DE CIRO GOMES

Juliana Diniz*, O Povo

É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um aliado muito enrolado, hoje incômodo a seus aliados

Ciro Gomes foi apresentado como pré-candidato ao governo do estado nas eleições deste ano, pondo fim a qualquer especulação sobre eventual candidatura ã presidência. O timing do anúncio não poderia ser mais infeliz, ocorrendo a dias da divulgação dos áudios em que Flávio Bolsonaro pede dinheiro ao banqueiro preso Daniel Vorcaro. A toxidade da aliança é notória: como candidato do PL no estado, é hoje impossível para Ciro se dissociar do bolsonarismo e do filho do ex-presidente.

Seu grupo anunciou que adotará uma estratégia de isolamento. É provável que Flávio Bolsonaro não suba no palanque cearense ao lado de Ciro. Também se evitará a qualquer custo a imagem ou o nome do presidenciável no material de campanha. Em um estado simpático a Lula, não convém mostrar muita amizade ou aliança com um Flávio Bolsonaro muito enrolado, hoje incômodo a seus aliados em todos os partidos de sua base. Sua equipe de comunicação sabe bem disso.

Não consigo imaginar em desafio maior à estratégia de marketing, que a de isolar o dna bolsonarista de nomes como Capitão Wagner, Carmelo Neto, André e Alcides Fernandes. É ao lado dessas lideranças locais que Ciro Gomes tem aparecido, esbravejando sua disposição de combater o crime organizado, afirmando ao povo "que fica" e que está pronto a falar o que deve ser dito, doa a quem doer?

O abraço bolsonarista não é a única dificuldade. Seu comportamento em relação às mulheres deve ser explorado. Durante a semana, Ciro Gomes foi condenado pela justiça eleitoral por violência política de gênero. Em diversas aparições públicas, Gomes atacou a senadora suplente Janaína Freitas, afirmando que ela seria "assessora dos assuntos de cama", "cortesã", "assessora de alcova", e alguém que organizaria festas para o ministro Camilo Santana. Pelo conjunto dessas afirmações caluniosas e difamatórias, ele foi condenado, tendo a sentença sido proferida na última terça-feira, dia 19.

Não foi o único caso de misoginia. Em 2002, Ciro Gomes afirmou, sobre sua esposa na época: "o papel mais importante dela é dormir comigo". Em 2017, ao questionar a viabilidade de Marina Silva como candidata, afirmou que "o momento é muito de testosterona", descredibilizando a política por ser mulher.

Não deixa de ser irônico saber que, hoje, a principal opositora de Ciro Gomes seja Michelle Bolsonaro. Ela repudia a aliança e declara desconfiança. Um problema, considerando que, eleitoralmente, ela é o nome mais importante do bolsonarismo hoje, ainda mais depois das implicações de Flávio. Uma espécie de carma, vivido por um político com dificuldade de se renovar rumo a uma prática política menos agressiva e mais adequada a um país em que a maioria do eleitorado é feminino.

*Professora de Direito da UFCE

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O PIPOCÃO

O ano era... 1982, Zé Prado disputa a segunda campanha para prefeito de Sobral (CE). Eram três candidatos: Zé Prado, Joaquim Barreto – o Kinkão – e Aurélio Ponte.

Foi neste ano que entrou em cena o “Pipocão”, a charanga que contagiava a multidão nos comícios e terreiros alegres de Zé Prado. Cheio de lâmpadas por todos os lados, o carro era a sensação por onde passava.

Numa alusão divertida ao jogo do bicho, a população identificava os candidatos não pelo número da cédula eleitoral de cada um, mas pelo número do jogo. Zé Prado, o 15, era o jacaré; Aurélio Ponte, o 16, era o leão e Kinkão, o 17, era o macaco.

Todas as campanhas de Zé Prado eram marcadas por uma música feita pelo poeta popular, Pedro Lavandeira e naquela de 1982 não foi diferente; entre todas as músicas da campanha, a que marcou foi a versão de Andar com Fé, Pedro Lavandeira fez "Andar com o Zé".

A campanha foi disputadíssima e o nome do novo prefeito de Sobral só foi conhecido próximo ao término da apuração. Zé Prado e Kinkão, sempre próximo um do outro na contagem dos votos, mas no último dia de apuração, Kinkão foi eleito prefeito de Sobral.

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sexta-feira, 22 de maio de 2026

A RACHADINHA DE FRIAS

Reynaldo Turollo Jr, g1

Ex-funcionária pagou cartão da esposa de Mario Frias e fez PIX para ex-chefe de gabinete, indicam comprovantes bancários

Procurada, ex-funcionária confirmou os repasses. Salário recebido chegou a R$ 21 mil por mês. Ela diz que ficava com R$ 6 mil. Frias foi procurado, por meio de seu atual chefe de gabinete, mas ainda não se pronunciou.

Comprovantes de pagamento e extratos bancários de uma ex-funcionária do gabinete do deputado Mario Frias (PL-SP) na Câmara indicam que ela devolveu parte do salário ao então chefe de gabinete e a parentes dele, e pagou despesas de familiares de Frias, entre fevereiro de 2023 e março de 2024.

A ex-funcionária, que foi nomeada secretária parlamentar de fevereiro de 2023 até maio de 2024, também tomou cinco empréstimos consignados em seu nome, totalizando R$ 174.886. Segundo os documentos, parte dos valores foi transferida ao então chefe de gabinete em datas próximas aos empréstimos.

g1 teve acesso com exclusividade a comprovantes de PIX e extratos bancários da conta de Gardênia Morais no Banco do Brasil, na qual ela recebia o salário pago pela Câmara. O valor líquido do salário, após todos os descontos, variou no período entre R$ 10 mil e R$ 21 mil.

Os documentos indicam que Gardênia transferia o salário da conta do BB para outra conta de sua titularidade, no Itaú, e dessa conta repassava valores para o então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, ou para a ex-mulher e uma outra parente dele.

Os comprovantes obtidos pela reportagem são:

  • um PIX de R$ 4.600 para Azevedo em fevereiro de 2023;
  • um PIX de R$ 5.000 para Azevedo em março de 2023;
  • um PIX de R$ 1.500 para Avezedo em abril de 2023;
  • um PIX de R$ 3.200 para a ex-mulher de Azevedo em maio de 2023;
  • dois PIX, de R$ 3.200 e R$ 816, para a ex-mulher e uma outra parente de Azevedo em julho de 2023;
  • quatro PIX de R$ 3.200 para a ex-mulher de Azevedo nos meses de agosto, setembro, outubro e novembro de 2023;
  • e um PIX de R$ 4.000 para o próprio Azevedo em março de 2024.

A ex-funcionária afirmou que houve mais repasses além dos que a reportagem identificou, que somam R$ 35.116. Segundo Gardênia, também "tinha mais pessoas devolvendo" o salário no gabinete, além dela.

Familiares e saque

Um dos comprovantes obtidos pela reportagem mostra que Gardênia fez um PIX de R$ 1.000 em 29 de janeiro de 2024 para Maria Lucia Frias, mãe do parlamentar.

Outro comprovante indica que, em dezembro de 2023, a ex-funcionária pagou uma fatura do cartão de crédito de Juliana Frias, esposa do deputado, no valor de R$ 4.832,32.

A reportagem obteve ainda um comprovante de que a ex-funcionária fez um saque de R$ 49.999,99 em dinheiro vivo, em 27 de março de 2024. Ela afirmou que o valor foi entregue, mas não quis revelar para quem.

Essa transação, supostamente, foi feita de modo a dificultar o rastreamento, segundo o relato da ex-funcionária e os documentos:

  • Gardênia recebeu três depósitos de Raphael Azevedo e de sua esposa no valor de R$ 50 mil na conta-salário no Banco do Brasil, em 26 de março de 2024;
  • a então funcionária transferiu esse valor para a conta no Itaú, na mesma data, segundo os extratos bancários;
  • e no dia seguinte, 27 de março, ela sacou no caixa R$ 49.999,99. Não é possível saber o destino desse valor.

Procurada pela reportagem e questionada sobre os comprovantes, Gardênia Morais confirmou que devolvia parte do salário, conforme um acordo feito com o então chefe de gabinete, Raphael Azevedo, com o conhecimento do deputado.

"O meu salário foi subindo gradativamente. Lá na Câmara a gente tem os 'steps'. No final, estava girando em torno de R$ 20 mil. Me restavam, em média, de R$ 6 mil a R$ 7 mil. Eu devolvia todos os meses, de acordo com o meu 'step'", disse Gardênia.

Raphael Azevedo trabalhou no gabinete do deputado Mário Frias de fevereiro de 2023 a fevereiro de 2024, segundo o registro da Câmara.

"O deputado sabia, o deputado estava ciente de todas as devoluções. Foi um combinado inicial, o deputado sempre participa. E depois as tratativas do dia a dia ocorriam com o Azevedo, que na época era o chefe de gabinete, braço direito do deputado", afirmou a ex-funcionária do deputado Mario Frias.

Empréstimos consignados

A ex-funcionária disse que somente um dos empréstimos consignados, no valor de R$ 35 mil, foi feito para uso pessoal. Gardênia afirmou que eles não foram pagos e ela ficou com o nome sujo.

"Dos cinco empréstimos, um é meu particular, no restante todos foram feitos a pedido do deputado e do Raphael Azevedo para quitar dívidas de campanha [de 2022]. Os empréstimos foram feitos e eles não foram quitados, estão todos em aberto no Serasa. Enfim, meu nome... Para você ter noção de como ficou minha situação hoje, eu moro de favor na casa da minha ex-sogra", disse.

A prática de devolver uma parte do salário ao parlamentar ou a algum preposto, em troca de ser contratado como servidor do gabinete, é conhecida como rachadinha.

No Brasil, não existe um crime específico de rachadinha. O Ministério Público vem denunciando parlamentares ou auxiliares envolvidos nessa prática sob a acusação de peculato, crime caracterizado pelo desvio de recursos públicos em proveito próprio ou de terceiros.

Deputado atuou como produtor-executivo de filme sobre Jair Bolsonaro

Mario Frias ganhou destaque recentemente por sua participação na produção do filme "Dark Horse", que conta a história do ex-presidente Jair Bolsonaro do ponto de vista de seus aliados políticos.

Áudios e mensagens revelados pelo site The Intercept Brasil mostram que o senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência da República, pediu dinheiro para o banqueiro Daniel Vorcaro, preso pelo escândalo do Master, para a realização do filme.

Vorcaro deu cerca de R$ 61 milhões para a produção. Mario Frias, de acordo com mensagens também divulgadas pelo Intercept e confirmadas pela TV Globo e pelo g1, agradeceu ao banqueiro pelo financiamento.

O que dizem os citados

A reportagem enviou perguntas ao atual chefe de gabinete de Mario Frias, Diego Ramos. Ele afirmou que desconhece as suspeitas porque entrou no gabinete depois desse período e que tem a convicção de que Frias também não tem conhecimento.

Ramos disse que "aparentemente são ex-funcionários aproveitando a situação midiática".

O ex-chefe de gabinete Raphael Azevedo, que atuou no gabinete de Frias até 2024, não respondeu à reportagem.

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EU RESILO. TU RESILAS ? ELE RESILA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Antes que a palavra ficasse na moda, ninguém era resiliente e não havia problema nisso

Como não podemos mais fugir de resiliência, por que não adotar também o verbo resilir?

Quer um conselho? Não saia de casa sem a palavra "resiliência". É leve, portátil, fácil de carregar —serve para tudo, cabe na memória e, em último caso, será audível e compreensível mesmo se simplesmente sussurrada, devido a seus sons sibilantes. Hoje, sem resiliência, não chegaremos a lugar nenhum. É o que todos querem de si mesmos —ser resilientes.

O extraordinário é que, há poucos anos, antes que a palavra ficasse na moda, ninguém era resiliente e não havia problema nisso. Até então, a palavra dormia em paz no fundo dos dicionários, com seu modesto sentido de "resistência ao choque", "elasticidade", "propriedade de um material de absorver um impacto e retornar à sua forma original". Vinda do latim "resilire", significando ricochetear, pular para trás, ninguém lhe dava bola. De repente, descoberta através do inglês "resilient", penetrou fulminantemente na língua e hoje está no vocabulário até dos psitacídeos —se duvida, bata um papo com um deles.

Mas, não adianta. Em matéria de língua, o povo tem sempre razão e, quando ele adota uma palavra, não há o que fazer. Donde, já que é inevitável, por que não relaxar e aproveitar todas as possibilidades de "resiliência"? Uma delas é o ótimo verbo "resilir", com o mesmo sentido de resistir, aguentar o tranco, e que pode ser conjugado de muitas maneiras. Eis algumas, e não ria:

1 - no presente do indicativo: eu resilo, tu resilas, ele resila; nós resilimos, vós resilis, eles resilam; 2 - no futuro do presente: eu resilirei, tu resilirás, ele resilirá; nós resiliremos, vós resilireis, eles resilirão; 3 - no futuro do subjuntivo: quando eu resilir, quando tu resilires, quando ele resilir; quando nós resilirmos, quando vós resilirdes, quando eles resilirem; e 4 - os mais resilientes poderão usá-lo no pretérito imperfeito: se eu resilisse, se tu resilisses, se ele resilisse; se nós resilíssemos, se vós resilísseis, se eles resilissem.

Ninguém no Brasil consegue ficar alheio à bendita palavra. A prova disto está em que, perguntado sobre qual será a maior qualidade da seleção brasileira, Carlo Ancelotti chutou de primeira: "Resiliência". Resiliu.

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DIREITA, DE UMA QUEDA FOI AO CHÃO

Artigo de Fernando Gabeira

Quando baixar a poeira do envolvimento de Flávio Bolsonaro com o dono do Banco Master, muitas perguntas poderão ser respondidas sobre o futuro da direita e, indiretamente, o futuro imediato do próprio País. Ao que parece, as revelações não são um mero incidente de campanha, mas revelam o tamanho do erro de essa corrente de opinião se tornar refém da liderança de Jair Bolsonaro. É um homem limitado para uma tarefa complexa, e o simples fato de ter optado por um caminho dinástico, apresentando o filho como candidato, já é um sinal de estreiteza.

A direita brasileira, de um modo geral, não vencia eleições majoritárias, daí o grande número de tentativas de golpe em nossa história contemporânea. No entanto, o processo de redemocratização trouxe algumas novidades: Collor e o próprio Jair Bolsonaro se elegeram – hoje ambos cumprem prisão domiciliar por razões humanitárias.

A vitória de Jair Bolsonaro representou um encontro com o voto popular. No auge das lutas identitárias, ele soube como ninguém usar o desconforto conservador, explorando o lado sombrio do racismo, da homofobia e da misoginia. Líderes como Carlos Lacerda não teriam a mesma desenvoltura, apesar do brilho intelectual. Verdade é que as condições históricas estavam mudadas, mas a direita sempre foi acusada de elitismo. Bolsonaro conseguiu adicionar à clássica agenda da direita a luta contra a corrupção, além de todos os temas de costumes presentes no Brasil moderno. E enfatizou uma visão implacável na segurança pública, uma política do tipo “bandido bom é bandido morto”.

Numa época em que as redes sociais têm hegemonia na propaganda política, Bolsonaro se beneficiou de uma presença agressiva na internet e mobilizou, por sua vez, grupos aguerridos a seu favor. Com todas essas características, principalmente a capacidade de atrair votos, Bolsonaro galvanizou a direita e também o antipetismo. Os candidatos no seu campo que desprezam sua orientação seriam apenas coadjuvantes no processo eleitoral.

Agora que o modelo dinástico com a candidatura do filho está fazendo água, Bolsonaro coloca em risco toda a estratégia de avanço da direita que deveria culminar, ao lado da campanha presidencial, com uma eleição de grande número de senadores. Essa força no Senado seria usada para combater alguns ministros do Supremo Tribunal Federal (STF), inclusive com impeachment.

Nada autoriza dizer que a direita perderá espaço no Parlamento. Mas um baque na Presidência acaba refletindo nas eleições proporcionais. Muitos candidatos estão revendo seu plano de campanha diante da fragilidade de Flávio expressa nas relações com Vorcaro e suas desculpas inconsistentes. Certos candidatos ao Senado estudam disputar a Câmara. A expectativa vai baixar.

No campo da esquerda, havia um certo cansaço com o governo. O desgaste de Lula por nada disso foi alterado. Mas a primeira pesquisa que surgiu após as revelações mostra uma queda acentuada de Flávio e a manutenção das preferências por Lula. Diante desse quadro, o favoritismo se fortaleceu. Vários candidatos continuam a disputar o papel de opositor, mas dificilmente um deles vai superar a fragmentação.

Diante dessa possível realidade, o caminho é desejar que a política do atual governo mantenha alguns dos seus pontos positivos e, certamente, encontre outros.

A política de transição energética é fundamental para, entre outras coisas, fortalecer o papel do Brasil como um importante interlocutor global no campo do meio ambiente. A hipótese de que se vai lutar contra o desmatamento, explorar de forma sustentável nossos recursos naturais e proteger nossos povos originários pode ser uma boa previsão para o futuro.

Reformas serão necessárias: política, administrativa e judiciária. Muita coisa velha tem de ser superada. E todas essas tensões estarão presentes diante de um Congresso hostil e de grandes dificuldades financeiras em 2027.

Será preciso superar o problema de equilíbrio fiscal. Não tenho a fórmula. Sei que uma política austera dá margem ao desgaste e o avanço do populismo, conforme o próprio Lula admitiu em seu discurso de Barcelona.

Penso que uma reforma administrativa e a adesão do Estado aos instrumentos digitais poderiam tornar a máquina mais leve, a vida das pessoas e empresas mais fácil e, quem sabe, um grande alívio para o peso fiscal. Não podemos deixar de gastar e não podemos gastar. Será preciso discutir com calma como sair desse dilema.

É preciso saber também como será o resultado final das eleições, que tipo de correlação de forças emergirá das urnas, que evolução terá a conjuntura internacional com protagonistas tão imprevisíveis como Donald Trump.

É previsível que todos terão de tentar uma renovação, inclusive os vencedores. Com a velocidade dos fatos, a interdependência global, a nostalgia é proibida: a direita brasileira que o diga.

Artigo publicado no jornal Estadão em 22 // 05 / 2026

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ATUALIZAÇÃO DO MARCO CIVIL DA INTERNET TRAZ PERIGOS

Pablo Ortellado, O Globo

Conceito de publicidade enganosa sobre políticas públicas não está bem definido

Ontem o governo publicou dois decretos regulamentando a decisão do STF de junho de 2025 que mudou o entendimento sobre a responsabilidade civil no Marco Civil da Internet. Embora os decretos sejam em geral corretos, dois dispositivos ampliam de forma preocupante o poder do governo sobre o discurso digital.

Até 2025, vigorava no Brasil uma regra que protegia plataformas, como Instagram ou TikTok, de qualquer responsabilidade civil pelo que seus usuários publicavam — salvo quando descumprissem ordem judicial de remoção. A ideia, em sua formulação original, é que essas empresas não deveriam ser responsabilizadas pelo que usuários postam, assim como os Correios não são responsabilizados por uma ameaça de bomba enviada por carta. Porém, à medida que as plataformas desenvolveram políticas de moderação de conteúdo e adotaram algoritmos de promoção de postagens, o regime deixou de fazer sentido, já que elas passaram a desempenhar um papel editorial.

Em junho de 2025, o Supremo declarou essa regra parcialmente inconstitucional. Reconheceu que o regime antigo conferia proteção insuficiente a direitos fundamentais e à própria democracia e construiu, no lugar dele, um sistema híbrido, em que a responsabilização das plataformas passa a depender do tipo de conteúdo.

Para os crimes contra a honra (calúnia, difamação, injúria), continua valendo a regra antiga. No caso de ilícitos em geral, basta notificação para deflagrar o dever das plataformas de removê-los — se alguém faz uma denúncia, elas devem retirar se entenderem que é pertinente. Para crimes graves, criou-se algo novo, o “dever de cuidado”.

Esse dever incide sobre sete categorias de crimes graves, como atos antidemocráticos, indução ao suicídio ou discriminação. As plataformas devem agir preventivamente para que, no agregado, conteúdos com esse tipo de crime não sejam disseminados. Elas não respondem pela existência de um conteúdo criminoso isolado, ainda que grave. Respondem apenas quando sua disseminação configurar falha sistêmica, quando deixarem de adotar medidas de prevenção e remoção capazes de inibir a circulação maciça desses conteúdos.

A ideia é produzir um equilíbrio: incentivar a remoção de conteúdos graves sem levar as plataformas a retirar, por excesso de cautela, tudo o que possa parecer ilícito, com prejuízo à liberdade de expressão. Esse modelo balanceado é inspirado na Lei de Serviços Digitais europeia, uma abordagem moderna e muito bem-vinda.

Os decretos publicados ontem são, em geral, cuidadosos. Ainda assim, dois artigos merecem atenção. O artigo 16-H do Decreto 12.975 obriga as plataformas a encaminhar ao poder público o conteúdo e as informações para identificar autoria e materialidade de crimes que detectarem. O desenho tem antecedentes. Nos Estados Unidos, provedores são obrigados desde 1998 a reportar suspeitas de abuso sexual infantil ao CyberTipline do NCMEC, uma ONG independente. No Brasil, esse modelo foi incorporado e adaptado com o ECA Digital, que obriga as plataformas a comunicar suspeitas de crimes contra crianças e adolescentes às autoridades.

O artigo do decreto, porém, amplia drasticamente o escopo desse modelo, que deixa de cobrir apenas crimes contra crianças e passa a abranger praticamente todo tipo de crime — incluindo eleitorais, contra a administração pública, contra o Estado Democrático de Direito e apologia a drogas. Um órgão do Executivo passaria a receber, periodicamente, relatórios das plataformas com a tipificação dos crimes detectados e as informações necessárias para identificar seus autores. O potencial de abuso é evidente.

O segundo ponto que merece atenção é o artigo 16-N, que permite à Advocacia-Geral da União (AGU) notificar plataformas e, em resposta, elas devem remover publicidade “enganosa, abusiva ou fraudulenta” quando “relacionada a políticas públicas”. Numa leitura otimista, o governo quer evitar fraudes em programas como o “Desenrola”. Porém o conceito de publicidade enganosa sobre políticas públicas não está bem definido. Em sentido amplo, pode se aplicar a qualquer comunicação organizada sobre política pública, como vídeos de deputados, posts de influenciadores ou conteúdo político impulsionado, criticando medidas. Se notificada, a plataforma teria de decidir entre acatar a notificação ou defender a postagem. Qualquer crítica dura que for contestada pelo governo passará, assim, a depender da disposição da plataforma de enfrentar a AGU.

Os dois dispositivos problemáticos têm características comuns: foram desenhados por decreto, têm pouco amparo na decisão do Supremo e ampliam o poder do Executivo sobre o discurso digital. Antes que entrem em vigor, dentro de 60 dias, é imperioso que sejam revistos.

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O DESMANCHE POLÍTICO

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Explicação de Flávio Bolsonaro para pedido a Vorcaro é episódio que desconstrói o enredo e a trama e expõe cruamente a incongruência do visível, mas sobretudo a extensão do invisível

O programa de Julia Duailibi, com Malu Gaspar e Otávio Guedes, na GloboNews da quinta-feira dia 14, foi muito mais do que um programa rotineiro sobre temas da atualidade política. Horas antes o pré-candidato da extrema direita à Presidência da República Flávio Bolsonaro teve que ver-se com a divulgação de sua própria conversa com o principal protagonista do caso do Banco Master, de pedido de recursos milionários para realização de um filme sobre o ex-presidente Jair Messias.

Os entrevistadores foram objetivos e claros no questionamento do entrevistado quanto à coerência de seus argumentos para defender-se de ser impróprio o pedido de dinheiro envolvendo um banco em situação anômala. O banqueiro seria preso no dia seguinte ao do pedido.

A entrevista, provavelmente, acabará se tornando um documento do que Edgar Morin define como efeito bumerangue de uma ação imprópria que produz o efeito contrário ao do pretendido pelo autor do fato. O modo como as coisas ocorreram na linha habitual do bolsonarismo indica que a “cultura” bolsonarista pode ter chegado ao fim.

O argumento de Flávio Bolsonaro o mostrou frágil porque repetitivo, falou muito e revelou o que queria esconder. Teimou, impaciente, na afirmação da legalidade e privacidade da solicitação de milhões de dólares para financiar o filme. Mas os três jornalistas o estavam questionando sobre outra coisa. A moralidade duvidosa da solicitação e da origem do dinheiro. Sobretudo exposta no tratamento entre os dois envolvidos no caso, o tratamento próprio de cúmplices.

O episódio é de grande relevância sociológica. É o que na sociologia se chama de analisador-revelador. Ele desconstrói o enredo e a trama e expõe cruamente a incongruência do visível, mas sobretudo a extensão do invisível.

Convém ter em conta, ainda, a singular peculiaridade do filme, uma ousada ação político-partidária para promover um upgrade na biografia política de Jair Bolsonaro, condenado a 27 anos de prisão pela conspiração antidemocrática que se revelou por inteiro na baderna política do 8 de janeiro de 2023.

Estão tentando recuperar o suposto carisma de Jair Messias para assegurar o prestígio vicário da família e dos coadjuvantes. É pouco provável que esse plano dê certo. Como já explicou o sociólogo alemão Max Weber, o carisma é intransferível.

O filme tem uma peculiaridade que se deve considerar quanto a suas implicações políticas. O ator que faz o papel de Bolsonaro, Jim Caviezel, é o mesmo que fez o papel de Jesus Cristo no filme “A paixão de Cristo”, exibido no Brasil pela Record. Há alguns anos ocorreu na Índia um fato político do gênero, que virou uma espécie de lição de manipulação da consciência política da grande multidão que nos países subdesenvolvidos está na fase meramente pré-política da politização precária, superficial e insuficiente.

Numa novela de televisão na Índia, há muitos anos, a atriz Surita Irani desempenhou o papel da deusa Sita, figura central do hinduísmo, que cria, mantém e destrói. A atriz ingressou na política, se candidatou ao Parlamento e foi eleita. Estudo sociológico mostrou que muitos nela votaram por não verem a diferença entre a atriz e a deusa que representou. Tinham medo dela. Não parece que Bolsonaro possa convencer os crentes daqui de que é um Cristo dos trópicos.

Bolsonaro mistura com política os dois versículos que conhece. Talvez seja um erro.

Se a hipótese se confirmar, Flávio Bolsonaro é neste momento um ser político transitório. Como os outros membros da família que visivelmente atuam na política como Bolsonaros vicários, de imitação. Estamos de fato diante de uma elaborada técnica de criação e sustentação de sua vitalidade política, convencida de que foi escolhida para dominar o Brasil. Não há conflitos entre eles.

Como carecem de legitimidade de fato, mostram perfeito domínio da mais nefasta característica da política brasileira. Não é necessário que todos os membros do grupo estejam no posto principal. Basta um. Os demais desfrutam vicariamente os efeitos do que centraliza a posição de poder. Outras famílias políticas brasileiras, claramente originárias da roça, estão perfeitamente organizadas em torno dessa concepção paralela de poder.

No caso dos Bolsonaros, porém, fizeram alianças demais, muito além dos meros limites de família, praticamente transformaram um grande e decisivo número de partidos em confrarias de cúmplices. Envolveram igrejas evangélicas e alguns setores católicos. A suposição de seu jogo, de que os evangélicos são dóceis e manipuláveis, revelou-se equivocada justamente nos episódios destes dias. O ministro terrivelmente evangélico indicado para o STF por Jair Messias não se dobrou.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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O TEATRO DA CPI

Bernardo Mello Franco, O Globo

No teatro do Congresso, até Flávio Bolsonaro defende CPI do Master

Ao se dizer favorável a investigação, senador ameaça tomar prêmio de Jim Caviezel na categoria pior ator

O senador Davi Alcolumbre pode ser acusado de muitas coisas. Menos de impaciente. Na sessão de ontem do Congresso, ele deixou parlamentares do governo e da oposição se esgoelarem à vontade. Num raro momento de consenso, todos cobravam a instalação da CPI do Master.

“Vossa Excelência não vai conseguir ficar sentado em cima dessa CPI”, bradou o petista Lindbergh Farias. “É obrigatória essa instalação”, reforçou o bolsonarista Carlos Jordy.

Depois de uma hora e meia de falatório, Alcolumbre retomou a palavra para o que chamou de “esclarecimento de ordem técnico-regimental”. Sem alterar a voz, informou que não leria os requerimentos de abertura da CPI. Disse que a decisão era um “ato discricionário da Presidência da Mesa do Congresso Nacional” — ou seja, dele mesmo.

Alcolumbre tem motivos para não querer a investigação. O Amprev, que gere as aposentadorias dos servidores do Amapá, enterrou R$ 400 milhões nos papéis de Daniel Vorcaro. O presidente do fundo, Jocildo Silva Lemos, foi tesoureiro da última campanha do senador.

Em fevereiro, Jocildo acordou com uma visita da Polícia Federal. Sentindo-se ameaçado, Alcolumbre voltou a tabelar com o bolsonarismo e passou a torpedear o Planalto.

Em defesa do senador, ele não é o único a temer uma CPI. O governo passou meses driblando o assunto. Sabia que a investigação poderia atingir o PT da Bahia e respingar em Lula às vésperas da eleição. Só mudou de ideia quando o escândalo bateu à porta de Flávio Bolsonaro.

Ontem até o Zero Um se encorajou a participar do teatro. Avisado de que Alcolumbre deixaria os requerimentos na gaveta, ele subiu à tribuna, estufou o peito e fez pose de indignação. “Mais do que nunca, é necessária a instalação da CPI”, discursou.

A atuação faria inveja ao deputado e ex-galã Mario Frias, que também costumava chamar Vorcaro de “irmão”. Os dois poderiam contracenar com Jim Caviezel, que vestiu uma peruca acaju para representar o capitão em “Dark horse”. Pelas cenas do trailer, o americano já é forte candidato ao prêmio Framboesa de Ouro, entregue aos piores atores do ano.

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CONGRESSO REVOGA O AXIOMA DE TIRIRICA

Vera Magalhães, O Globo

'Libera geral' promovido nesta semana por deputados e senadores supera em falta de cerimônia a tentativa de aprovação da PEC da Blindagem

Em 2010, o humorista e cantor Tiririca explodiu em votos para deputado federal com um slogan justificando sua decisão de entrar para a política: "Pior do que tá, não fica". Ele se elegeu, se reelegeu e pode-se dizer que a qualidade do trabalho piorou muito — e o artista que começou sua carreira no circo não pode ser responsabilizado por isso, nem pela profecia errada.

A lambança promovida por deputados e senadores nesta rara semana em que resolveram pegar no batente presencialmente supera, em desfaçatez e ousadia, a malfadada jornada pela aprovação da PEC da Blindagem no ano passado. Supera porque, desta vez, o Senado não se sente pressionado a “corrigir” as decisões escandalosas e participa delas ativamente.

Tudo começou com o “Desenrola dos Partidos” iniciado na Câmara em sessão-fantasma, na qual o presidente da Casa, Hugo Motta (Republicanos-PB), não deu as caras para evitar ligar sua imagem à sua obra.

O conjunto aprovado sob a cínica nomenclatura de reforma eleitoral é um “libera geral” de toda e qualquer tentativa que ainda não havia sido revogada de disciplinar minimamente o uso dos cada vez mais generosos recursos públicos que irrigam os fundos partidário e eleitoral.

Num bônus não menos vergonhoso, os deputados retiraram as travas que a Justiça Eleitoral estabeleceu paulatinamente desde 2018 nos disparos automáticos de mensagens no período eleitoral, justamente depois do uso indiscriminado dessas ferramentas para disseminar desinformação por parte da máquina bolsonarista naquela campanha.

O conluio silencioso que levou à inclusão do vale-tudo partidário uniu, e não pela primeira vez em temas dessa natureza corporativista, PT, PL e tudo que está no espectro entre esses dois polos. As exceções ficaram à esquerda e à direita: PSOL e Novo, com suas bancadas diminutas.

Não se passaram dois dias para a segunda paulada desferida pelo Legislativo, com a derrubada dos vetos de Lula a trechos da Lei de Diretrizes Orçamentárias de 2026 que permitiam repasses e transferências a municípios no período vedado pelas leis Eleitoral e de Responsabilidade Fiscal.

A Lei das Eleições é de 1997 e proíbe repasses voluntários de recursos, inclusive de emendas, nos três meses que antecedem as eleições. Tratava-se de um princípio consagrado até 2022, quando já foi esculhambado pelo governo Bolsonaro com a PEC Kamikaze. Na época, assim como agora, a manobra, considerada inconstitucional dois anos depois pelo STF, teve apoio do PT.

Desta vez, o governo tentou brecar a farra eleitoral, mas o Congresso comandado por Davi Alcolumbre aproveitou a semana em que Brasília está tomada por prefeitos na marcha anual para anunciar sua benesse com dinheiro público. O senador também deverá levar adiante o “libera geral” dos partidos aprovado pela Câmara.

Lula não deverá se envolver para criticar a farra do boi do Congresso, até porque também o Executivo resolveu mandar às favas qualquer comedimento no uso indiscriminado de medidas para tentar aumentar as chances reeleitorais do presidente. No caso específico da LDO, é o tipo de derrubada de veto de que o governo não deve reclamar, porque também ele poderá fazer proselitismo eleitoral fora do prazo legal.

Caberá ao Judiciário, como sempre, dar a palavra final nos dois casos. Mas, com tanto fogo para apagar, será que o Supremo Tribunal Federal comprará mais um contencioso com o Congresso a esta altura do campeonato?

A delação vai-não-vai de Daniel Vorcaro é um tema que fragiliza simultaneamente uma parcela da Corte e cabeças coroadas do Legislativo, inclusive o pré-candidato a presidente do PL, Flávio Bolsonaro. Num cenário em que todos têm interesses próprios e, muitas vezes, coincidentes em jogo, a moralidade eleitoral pode ser relegada ao plano dos temas de menor urgência e relevância.

Com a derrama de dinheiro público sem controle que se aprovou nesta semana, o Axioma de Tiririca nunca pareceu tão anacrônico. A chance de piorar o que já está abaixo da crítica é enorme.

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ALCOLUMBRE REPETIU ERRO DE EDUARDO CUNHA ?

Andrea Jubé, Valor Econômico

Fontes bem informadas da cúpula do PL descartam chance de substituição de Flávio Bolsonaro pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na corrida presidencial

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva não é mais o nosso Lionel Messi, o craque argentino, hoje no Inter Miami, que corre o meio de campo, dribla adversários, bate o escanteio e faz a rede balançar.

Na opinião de um observador político, o Lula do terceiro mandato está mais para o Romário: “precisa que alguém arme o jogo e coloque a bola na cara do gol pra ele chutar”, provocou. O ex-artilheiro do Flamengo entrou para a política, está filiado ao PL e se reelegeu senador do Rio de Janeiro em 2022.

A percepção de que o líder petista deixou de ser o craque da política nacional não é isolada. Mas aliados ressalvam que, seja no campo de futebol, seja no tabuleiro de xadrez, Lula continua sendo um estrategista capaz de driblar outros jogadores e surpreender opositores.

Nesse contexto, um interlocutor de Lula disse à coluna que ele não digeriu o chute na canela que levou do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), com a derrota imposta ao seu indicado à vaga no Supremo Tribunal Federal (STF), o ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias.

“Vai ter troco”, vem prometendo Lula, em algumas conversas reservadas, enquanto alisa, meticulosamente, os fios brancos do bigode.

Um político experiente, que marca gols desde os tempos de Fernando Henrique, afirmou à coluna que Alcolumbre teria sido alertado quanto ao amadorismo de seu gesto, qual seja, articular a derrota de Messias no plenário do Senado no dia 29 de abril.

Segundo este veterano, a lição número um da política é de que “não se coloca a faca no pescoço do presidente da República em público”. Se é para fazer cobranças, resolver divergências ou qualquer medida que possa emparedar o chefe do Executivo, recomenda-se fazê-lo entre quatro paredes, nos bastidores, ensinou.

“O poder não esbraveja, o poder age”, prosseguiu. “Veja o que aconteceu com o Eduardo Cunha depois que apunhalou a Dilma”, advertiu.

Como se sabe, o então presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, na época no MDB, articulou a abertura do processo de impeachment contra a presidente Dilma Rousseff (PT). Ele assinou a sentença de Dilma no início da noite de 2 de dezembro de 2015. Foi uma retaliação à decisão dos deputados do PT, que haviam anunciado, horas antes, que votariam a favor da continuidade do processo de cassação no Conselho de Ética.

Na sequência, o parlamentar fluminense conduziu, como presidente da Casa, a histórica votação do impeachment, quando no dia 17 de abril de 2016, 367 deputados determinaram o encaminhamento do processo para o Senado.

No entanto, foi a última vitória de Cunha na saga de vingança contra Dilma e o PT. O calvário dele começou um mês depois. Em maio de 2016, o Supremo Tribunal Federal (STF) suspendeu seu mandato parlamentar e o afastou da presidência da Câmara, ao argumento de que ele teria utilizado o cargo para prejudicar a Operação Lava-Jato e o andamento do processo contra ele no Conselho de Ética.

Um mês depois, em junho de 2016, o Conselho de Ética aprovou a cassação de Cunha por quebra de decoro, ao argumento de que ele mentiu à CPI da Petrobras sobre a possuir contas na Suíça. A cassação dele no plenário se consumou dois meses depois, em setembro, com 450 votos favoráveis, dez contra e 9 abstenções.

O auge desse martírio foi em 19 de outubro de 2016, quando Eduardo Cunha foi preso preventivamente por ordem do então juiz Sergio Moro - hoje senador do Paraná pelo PL - no âmbito da Lava-Jato. Ele ficou detido pouco mais de quatro anos, até obter o regime domiciliar na pandemia, e conseguir a revogação da prisão em 2021. Em 2023, o STF anulou sua condenação, que era de 16 anos de reclusão.

A avaliação deste político experiente é de que o calvário de Cunha deveria ser pedagógico. Embora o impeachment de Dilma tenha se consumado, o parlamentar pagou um preço alto pelo sabor da vingança, ao amargar mais de quatro anos na prisão.

Nos bastidores, uma das explicações para o gesto de Alcolumbre seria a irritação com operação da Polícia Federal (PF) no Amapá, no âmbito das investigações nas fraudes do Banco Master, pelo aporte de R$ 400 milhões do fundo de previdência dos servidores do Estado na instituição de Daniel Vorcaro. O governador Clécio Luís (União), que busca a reeleição, é aliado do presidente do Senado.

Lula tem falado em “dar troco”, mas interlocutores do presidente insistem que ele deverá reconstruir a relação com Alcolumbre. “Não pode continuar assim, eles são dois chefes de Poderes, têm que se falar”, protestou o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), em conversa com a coluna.

Enquanto o encontro de conciliação não acontece, uma fala de Riobaldo em “Grande sertão: veredas” não sai da cabeça de Lula: “Vingar, digo ao senhor: é lamber, frio, o que outro cozinhou quente demais”.

Michelle. Fontes bem informadas da cúpula do PL descartam chance de substituição de Flávio Bolsonaro pela ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro na corrida presidencial. “[O ex-presidente] Bolsonaro não confia em Michelle”, resumem.

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A SÍNDROME DE ESTOCOLMO DA DIREITA

Fernando Luiz Abrucio*, Valor Econômico

Nos últimos quatro anos todos os pretendentes à direita fora da família Bolsonaro não tiveram a coragem de buscar a independência, seja por amor ou medo do patriarca

O bolsonarismo tem significado a redenção e a desgraça da direita brasileira. Esse paradoxo está ficando cada vez mais claro com a crise na campanha presidencial de Flávio Bolsonaro. Suas relações com Daniel Vorcaro são mal contadas e injustificáveis, pensam aliados e outros candidatos do lado direitista. Porém, como criticar profundamente ou abandonar o filho de um grande líder popular que reordenou o mapa ideológico do país, antes com predomínio inconteste do espectro que vai do centro para a esquerda?

Compreender as razões desse dilema é fundamental para a direita não bolsonarista. Ela vive hoje uma espécie de Síndrome de Estocolmo, caracterizada por uma simpatia ou lealdade irrestrita em relação ao sequestrador. O bolsonarismo sequestrou quase todos os políticos direitistas e mesmo uma parcela mais ao centro. Tal aprisionamento impede críticas às posições ou atos da família Bolsonaro e dificulta sobremaneira um projeto efetivamente independente de poder, mesmo quando hoje temos mais presidenciáveis à direita do que à esquerda.

Não se trata de um feitiço político. Há quatro razões objetivas que explicam essa dificuldade de se libertar do sequestrador. A primeira é que o bolsonarismo conseguiu tornar a direita palatável e popular no país, pois Jair Bolsonaro nunca mascarou suas ideias e por meio delas chegou ao Palácio do Planalto. Claro que políticos direitistas sempre foram fortes no país, particularmente no Legislativo e nos governos locais. Contudo, tinham medo de dizer seu próprio nome, e isso ficou ainda mais destacado a partir da redemocratização, quando as ideias da direita eram remetidas ao período da ditadura militar e a um certo elitismo social.

O bolsonarismo deu amparo para quem quisesse ser chamado de direitista. Mais do que isso, gerou um projeto de poder com base popular, capaz de eleger um presidente da República. Isso não quer dizer que a direita, sozinha, seja capaz de ter hegemonia política no país - e nem a esquerda tem esse poder. Também não é verdade que haja um único ideário de direita - ao contrário, há várias tonalidades possíveis. Basta lembrar que os bolsonaristas concentram seu discurso no campo moral e quando estiveram no poder não levaram adiante nem uma agenda liberal à Javier Milei, nem foram nacionalistas econômicos como Trump está tentando ser no seu segundo mandato.

A diversidade de posições à direita e de centro-direita de fato existe em forças sociais e políticas brasileiras. No entanto, quem gritou mais alto e sem vergonha que era direitista foi o bolsonarismo, mesmo que sua corrente seja uma das formas possíveis desse espectro político, num ponto mais extremo dele.

Verdade que desde a década passada o MBL - hoje um partido, o Missão - trouxe à tona essa identidade, só que não ganhou a liderança do movimento. Isso coube a Jair Bolsonaro e sua vitória eleitoral em 2018, que levou direitistas ao poder, depois o distribuiu entre os aliados e tentou reverter a hegemonia mais à centro-esquerda que dominava a eleição presidencial e o discurso político-cultural.

Numa democracia, o peso eleitoral faz muita diferença. E aqui entra uma segunda razão que explica por que o bolsonarismo aprisionou o restante da direita em seu casulo. Os bolsonaristas-raiz, comandados diretamente pela família, conseguem ter um piso entre 20% e 30% dos votos do eleitorado brasileiro. Não têm a maioria dos eleitores ao seu lado, como comprova a derrota do projeto reeleitoral de Jair Bolsonaro, mas criaram uma barreira de entrada para outras forças de direita e mesmo do centro entrarem no jogo político maior da eleição presidencial.

O exemplo do escândalo de Flávio Bolsonaro e suas relações mal explicadas e antirrepublicanas com Daniel Vorcaro, que era líder de crime organizado e não banqueiro, revela bem a força que tem um piso eleitoral alto. É bem provável que o senador perca pontos nas próximas pesquisas, mas é muito difícil que caia para menos de 20% ou deixe de ficar na frente dos outros de seu front ideológico, como Zema, Caiado e Renan Santos. Daí que é muito tentador manter até o final uma candidatura quando se domina um espectro político e se há chances grandes de ir ao segundo turno.

Entretanto, se esse derretimento continuar, o que tende a ser alavancado por tanta coisa a ser descoberta na cleptocracia bolsonarista que governava o Rio de Janeiro, Flávio Bolsonaro perderá a eleição presidencial para manter a hegemonia da família dentro do bloco direitista.

Quem não tem esse piso eleitoral alto, mas não quer que Lula continue como presidente, deveria se contrapor e defender um projeto independente de poder. Zema arriscou ir por esse caminho, mas desistiu rapidamente, quase se desculpando. Caiado foi tão educado nas críticas que ninguém percebeu que ele as fez. O único que teve coragem de desafiar o bolsonarismo foi o Missão e seu candidato presidencial - se os Bolsonaros conhecem Maquiavel, deveriam temê-los.

Por que tanto medo e hesitação no momento em que Flávio Bolsonaro foi pego com a boca na botija com o maior larápio do país? É importante frisar que não é a primeira vez que a direita não bolsonarista retrocede em sua busca por independência. O caso mais conhecido foi o de Sergio Moro, que saiu do governo de Jair Bolsonaro propondo uma revolta ampla, dizendo que iria desvendar muitos escândalos, e hoje é um soldado apático e servil do bolsonarismo.

O medo da perseguição bolsonarista, especialmente nas redes sociais, é o terceiro ingrediente da Síndrome de Estocolmo que tomou conta da direita. Por ora, é inegável a capacidade de o bolsonarismo destruir reputações e carreiras políticas de gente do seu mesmo espectro político ou de ex-aliados. Praticamente todos que saíram do ventre eleitoral comandado pela família Bolsonaro e desafiaram o clã político estão hoje menores politicamente. Para usar a linguagem militar, trata-se de um fator dissuasório para os pretendentes a dissidentes. É uma patrulha ideológica eficaz, tal como outras que a esquerda usou no passado aos que abandonavam o ideal comunista.

O bolsonarismo deu identidade e poder à direita, tem um piso eleitoral muito alto, sabe dissuadir dissidentes com grande eficácia, e, como quarto fator do poder de aprisionamento do seu espectro ideológico, edificou firmemente uma causa comum: o antipetismo e a oposição ao presidente Lula, visto como o principal inimigo a ser batido. Por meio desse objetivo, o mais estratégico de todos, os bolsonaristas clamam pelo esquecimento das brigas ou escândalos da família que comanda o movimento, dado que há um projeto unificador que só pode ser realizado com o apoio inconteste ao líder mais forte: Jair Bolsonaro ou quem ele indique.

É por meio desse discurso do inimigo comum que o bolsonarismo vai atacar os direitistas que ousarem criticar Flávio Bolsonaro e sua busca pelo patrocínio de Daniel Vorcaro. Há o risco de descobrirem mais histórias mal explicadas, ou até “videozinhos do senador”, mas sempre se retornará à questão central: só um Bolsonaro pode chegar a um segundo turno contra Lula. Na verdade, seria mais fácil um candidato que não viesse da extrema direita vencer a disputa presidencial, do mesmo modo que o lulismo cresce toda vez que acena para um eleitorado mais amplo.

O problema é que nos últimos quatro anos todos os pretendentes à direita fora da “família real” não tiveram a coragem de buscar a independência frente ao bolsonarismo, seja por amor ou medo do patriarca. O que ganharam Zema, Caiado, Tarcísio, Ratinho e outras lideranças mais à direita indo a comícios na avenida Paulista de defesa da anistia a Jair Bolsonaro? O direito de ficarem calados toda vez que houver algum escândalo envolvendo a família Bolsonaro.

Fica a lição: só se mudará essa realidade na direita, ou mesmo no centro, buscando um caminho alternativo no início do próximo período presidencial. Quem tentar montar um projeto somente no final do quadriênio, às vésperas da eleição, não terá tempo para mudar o jogo. A coragem de escolher um caminho próprio é um processo e não um lampejo frágil de quem é dependente politicamente. Cabe recordar que ao início Jair Bolsonaro era visto como uma caricatura, percorreu todo o Brasil e construiu uma candidatura.

Quem estiver no mesmo espectro eleitoral deveria guiar sua própria trajetória, pois os políticos ou partidos só se tornam fortes ao longo da história quando são livres e independentes de qualquer tipo de mito ou aprisionamento a um grupo.

Tal subserviência não é o único efeito dessa Síndrome de Estocolmo. Ao se colar completamente ao bolsonarismo, as direitas deixaram de discutir ideias sobre democracia, políticas públicas e o papel do Brasil no mundo, questões cujos resultados foram desastrosos no governo Bolsonaro. É fundamental ter conservadores e liberais com um projeto claro, para não dizer de um centro robusto, essencial para o equilíbrio das democracias. Antes, todavia, é preciso se libertar dos grilhões que os acorrentam a uma família que tem muitos esqueletos no armário, numa narrativa que é dominada agora pelo ponto e vírgula, uma vez que a única coisa certa é que Flávio Bolsonaro desmentirá o que disse ontem.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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FLÁVIO BOLSONARO QUEIMA O FILME, LEVA CAVALO DE PAU, E LULA GANHA

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Há quem aposte que, apesar das mentiras e armações, senador voltará a se revelar competitivo

Desgaste é grande e atinge direita Master e seu espectro conservador que se estende ao mercado

Depois do flagra no escurinho do cinema, quando o site Intercept Brasil publicou o áudio de sua tentativa de pegar dinheiro de Daniel Vorcaro para supostamente financiar a cinebiografia de seu pai, Flávio Bolsonaro vem sofrendo desgaste sobre desgaste. "Dark Horse", azarão em inglês, bem que poderia ser intitulado "O Pangaré Obscuro"

O filme do senador e pré-candidato pelo PL foi queimado por ele mesmo. Sua ascensão nas pesquisas, que causou frisson nos mercados, sofreu um cavalo de pau. Flávio mentiu e continua mentindo para tentar escapar dessa fase negativa. A questão é saber se ele ainda poderá se apresentar como candidato competitivo quando a campanha de fato começar.

Gente ligada ao mundo das pesquisas e do marketing político-eleitoral tem dito que os danos não serão tão profundos e poderão ser superados. Sim, a perspectiva, pelo menos, é a de que a eleição vá a segundo turno. E se Flávio estiver lá, vai saber.

Veremos. Por ora a situação é desastrosa para o bolsonarismo e a direita. Lula é um animal político e eleitoral, tem a máquina na mão, prepara novas medidas de impacto popular e ganhou um farto material para ajudá-lo na tarefa de detonar a imagem de seu concorrente, que já não tinha muito a mostrar além do nome do papai.

O senador é uma nulidade. Sua eleição seria, certamente, um retrocesso histórico para o Brasil. Até mesmo os setores mais irresponsáveis do mercado financeiro, sempre inclinados a topar tudo pela derrota de Lula e do petismo, claudicaram diante do espetáculo de submissão à máfia do Master.

Não quer dizer que trocarão de ideia caso não se veja escolha diferente. No nosso continente do neoliberalismo sob Pinochet, valores democráticos são com frequência apenas enfeites para a busca a qualquer preço de um capitalismo radicalmente elitista e antipopular. É o que o filósofo Vladimir Safatle chamou de "complexo de Vargas Llosa".

A hipótese de afastamento de Flávio Bolsonaro pode até ser desejável, mas um tanto complexa. Que nome poderia unir a direita com a bênção do capitão recluso?

No rooftop da Faria Lima alguém falou em Renan Santos? Que missão!

Seria, no final das contas, mais razoável tentar algum tipo de composição com o lulismo em sua última grande investida com a presença do maior líder da centro-esquerda e da política brasileira das últimas décadas.

Mas isso, vamos ser razoáveis, não existe —é impossível, basta ver as opiniões espumosas dos porta-vozes do mercadismo sem freios de plantão.

Como escrevi aqui, o terreno está minado e novas explosões podem ocorrer, inclusive com estilhaços à esquerda. Mas vale insistir: o Master é um escândalo fortemente ligado à direita. Nasceu durante o Banco Central de Jair e Campos Neto, e varreu a tigrada do centrão e do bolsonarismo, como se observa agora com as reinações de Flavinho.

A manter-se a candidatura do primogênito do clã Bolsonaro, estaremos embarcando numa disputa da mais baixa qualidade, um verdadeiro filme de terror moral e ético, que ainda acabará sendo tratado como "normal" por setores expressivos do establishment.

A degradação política a que assistimos encontra cada vez menos quem com ela se espante. Como se sabe, não é apenas um caso brasileiro, o que só piora o cenário.

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O SUCESSOR

O ano era... 1976, para sucedê-lo na prefeitura de Sobral (CE), Zé Prado lança José Euclides. Para eleger seu sucessor, Zé Prado não mediu esforços: saia às ruas de Sobral e distritos dia e noite, pedindo voto para seu candidato.

Com slogan “De Zé pra Zé, do jeito que o povo quer” e a força política que o jovem carismático da família Prado já demonstrava ter, elegeu seu sucessor.

Após cinco meses no poder, Euclides rompe com Zé Prado, seu padrinho político e responsável pela vitória que tornou o desconhecido comerciante em prefeito de Sobral.

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

ISTO É FLÁVIO BOLSONARO

Editorial O Estado de S. Paulo

Ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era

Desde que estourou o escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, os integrantes da equipe de campanha do filho de Jair Bolsonaro saíram por aí a dizer que foram surpreendidos com a revelação de que o candidato a presidente tinha relações fraternas (e transacionais) com o protagonista do maior crime financeiro da história brasileira. Alguns admitem que o baque pode até fazer o campo bolsonarista escolher outro candidato.

Ora, francamente: esse escândalo não muda uma vírgula da biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios imobiliários em dinheiro vivo. Trata-se, portanto, de um candidato com longa ficha corrida, que nunca foi segredo para ninguém. O caso do Banco Master não torna Flávio pior do que ele já era.

Tampouco muda alguma coisa o fato de que Flávio Bolsonaro mentiu seguidamente – para seus aliados, para sua equipe de campanha e para a imprensa – a respeito de suas relações com Vorcaro. A mendacidade é a própria natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória política em cima de desinformação, logro e desfaçatez. O filme sobre Bolsonaro, a julgar pelo trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa doença congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família. Como vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro.

Mas é preciso reconhecer que Flávio sempre foi absolutamente honesto a respeito do espírito de sua candidatura à Presidência: ele nunca escondeu que seu único objetivo, ao chegar ao poder, é livrar o pai da cadeia. Governar o Brasil não está nos seus planos, como não estava nos planos do patriarca – que terceirizou a administração do governo por sua absoluta inaptidão ao trabalho e que vivia a lamentar o fardo de estar na Presidência.

Ainda assim, alguns aliados de Flávio Bolsonaro dizem por aí que acreditam na sobrevivência da candidatura do senador e mantêm sua disposição em apoiá-lo. O fator determinante nesse cálculo é que Flávio, a despeito de tudo, continua a aparecer nas pesquisas como o único capaz de fazer frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Portanto, segundo esse raciocínio, pouco importa se Flávio envolveu-se com o protagonista do maior escândalo financeiro da história brasileira, se tem ligação com milicianos, se tomou dinheiro de funcionários de seu gabinete e se fez negócios obscuros em dinheiro vivo. Também não interessa se o tal filme feito com dinheiro de Daniel Vorcaro é tão ruim que não se pode condenar quem o considere apenas um meio de lavar dinheiro, fazer caixa de campanha e sustentar o irmão de Flávio, o deputado cassado Eduardo, na sua dolce vita nos EUA. O que interessa é impedir um novo mandato de Lula, retratado pelos bolsonaristas como o diabo em pessoa.

O Brasil não pode mais ficar à mercê dos interesses particulares de uma única família, ainda mais quando esses interesses colidem frontalmente com a decência e as leis. Determinada pelo “dedazo” de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma chapa de oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os Bolsonaros recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em torno de nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços de sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto de país.

Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom para o País, só ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre concidadãos. De quebra, conseguiram a proeza de devolver o poder a Lula, malgrado a extensa folha corrida do petista. Só por isso mereceriam do País o mais absoluto desprezo.

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CURRICULUM VITAE, 01

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

Ativista do direito de mentir, luta contra o direito universal de não acreditar

Chama de 'narrativa' o que lhe desabona; de 'fato' o que lhe favorece

Filho de pai preso. Segue carreira do pai e se elege por ser filho do pai. Obedece ideias do pai, copia métodos do pai. Tem os aliados do pai. Trilha o curriculum do pai. Em casa, o pai o chama pelo número de antiguidade 01. Amor filial supera o paterno.

Sua sagacidade não alcança a do pai, porém mais afiada que a dos irmãos. Nunca disse "ditadura devia ter matado mais", mas vê em 1964 "contrarrevolução democrática". Não gostaria de filho "entrando em casa e apresentando seu namorado". Definiu as medidas do governo do pai na pandemia, e o superávit de mortes evitáveis da ordem dos seis dígitos, como o que "se espera de um estadista".

Revelou que, se presidente, caso STF anule seu indulto ao pai, "aí é confusão fora das quatro linhas". Mas fará o possível "para que não chegue a esse ponto". É candidato a versão moderada da família.

Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude das operações ilegais.

"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo sempre".

Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa se privado o dinheiro.

Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a quantia e deposita no banco".

Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato (rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos imobiliários em áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício formal.

Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.

Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.

Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe desabona, de "fato" o que lhe favorece.

Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões de crédito.

Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de "legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?"

Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para pacificar o Brasil".

Quer novo emprego.

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O BC NO MEIO DO REDEMOINHO

Míriam Leitão, O Globo

O Banco Central vive dias de pressão por causa pelo Banco Master. A situação do BRB é motivo de preocupação e sem solução a curto prazo

O problema do Banco de Brasília (BRB) não está resolvido. Longe disso. O controlador resiste à venda de algum pedaço relevante da instituição que poderia ajudar a enfrentar a crise. Desde o fim de março, o BRB já está pagando multa diária pela não publicação do balanço. A cada solução apresentada, a governadora Celina Leão faz uma pesquisa com a Câmara Distrital e sondagens de opinião pública para ver como a proposta impactaria sua popularidade. Se houver uma queda brusca de liquidez, será difícil evitar o pior.

O governo federal não quer ajudar, porque seria abraçar um desgaste que não foi criado por ele, pelo contrário, foi obra do centrão e do ex-governador bolsonarista, Ibaneis Rocha. O governo do Distrito Federal tem insinuado que, se acontecer algum incidente, terá sido porque a União não ajudou.

Desde 2025, o Banco Central já liquidou 13 instituições: Master, Master BI, Letsbank, Master DTVM, Reag, Advanced Corretora de Câmbio, Will Bank, Pleno, Pleno DTVM, Dank SCD, Entrepay IP, Creditag Cooperativa e Frente Corretora de Câmbio. Se o pior cenário se confirmar em relação ao BRB haverá um grande impacto porque há desdobramentos delicados. O BRB não representa um risco sistêmico, mas pode gerar um problema sistêmico para o poder público. Presta mais de 35 serviços e projetos para o DF e tem em depósitos o dinheiro dos Tribunais de Justiça de vários estados. É mais significativo para os governos do que para o mercado financeiro.

Ao impedir a compra do Master pelo BRB e, em seguida, liquidá-lo, o Banco Central enfrentou todo o tipo de pressão. Ainda enfrenta. Foi acusado de ter demorado a agir, e também de ter se precipitado. Enfrentou ameaças e pressões do Congresso, do Tribunal de Contas da União e do Supremo quando a relatoria do caso estava com o ministro Dias Toffoli. No dia em que apareceu uma proposta sendo votada, de emergência, que dava poderes ao Congresso de demitir o presidente e os diretores da autoridade monetária, o Banco Central não só não se intimidou como liquidou o banco de Daniel Vorcaro no dia seguinte.

Esta semana, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado houve mais uma batalha. O senador Renan Calheiros quis acusar o Banco Central de conivência com o Master e de estar cometendo com o BRB o mesmo erro que teria cometido com o Master. Indiretamente estava dizendo que o BC está atrasando a liquidação. O Banco Central não pode deixar de agir quando um banco entra em quadro de crise irreversível, nem pode fechar um banco por pressão política.

O senador Renan Calheiros tenta a reeleição em Alagoas, enfrentando os deputados Alfredo Gaspar e Arthur Lira numa disputa acirrada. Renan tem razão de dizer que o Centrão pressionou o Banco Central. O ministro do Tribunal de Contas da União Jhonatan de Jesus, que ameaçou o BC, é do Centrão e indicado por Arthur Lira. Mas Renan acusou Gabriel Galípolo de não ter reagido às pressões, o que não faz sentido. O que o presidente da instituição explicou no debate é que o BC não pode entrar na briga política, nem na disputa de redes sociais. Tem que preservar sua missão que é garantir a estabilidade do sistema financeiro, a estabilidade da moeda e tomar decisões técnicas e na hora certa. No debate acalorado, Galípolo respondeu.

– O Banco Central está respondendo até agora ao Tribunal de Contas da União uma acusação por não ter autorizado ( a compra do Master). O Banco Central e seus servidores foram expostos e caluniados sistematicamente porque não toparam. Coincidentemente, na semana em que o Banco Central rejeitou a compra pelo BRB foi colocada uma proposta de voto para mandar embora o presidente do Banco Central e os diretores. O Banco Central não tem que ir para a televisão, gravar Instagram ou Tik Tok. Não é palanque. Toma a decisão correta independentemente de quem está jogando pedra ou fazendo barulho.

Galípolo disse que, nos bancos que foram liquidados na década de 1990, a técnica foi separar o “banco bom” do “banco ruim” e vender o que era viável. No caso do Master, disse ele, “não havia banco bom”.

O Banco Central se defende de ataques de lados diferentes, fiscaliza um mercado no qual ainda há pelo menos um banco em situação de fragilidade, mantém o aperto monetário contra inflação crescente e continua tentando aprovar uma PEC que possa fortalecer seu quadro de servidores. O projeto que trata do assunto foi novamente adiado.

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UMA ELEIÇÃO REFÉM DO SISTEMA

Malu Gaspar, O Globo

Lulistas e bolsonaristas se unem por acordão que torna eleição refém do sistema

A Câmara dos Deputados acaba de aprovar, num acordão que incluiu de lulistas a bolsonaristas, um monstrengo batizado de minirreforma eleitoral, que de mini não tem nada e que, em vez de reformar, promove uma avacalhação nas eleições que vêm aí.

A lista de mudanças é ampla. Uma delas prevê que a multa máxima para partidos que não apresentarem prestações de contas ou cujas contas forem rejeitadas não pode ser de mais de R$ 30 mil (antes poderia chegar a 20% do valor questionado). Considerando que o fundo partidário distribuiu R$ 1 bilhão em 2025 e que o fundo eleitoral entregará mais de R$ 5 bilhões neste ano, caiu a perto de zero o custo de fazer lambança com o dinheiro dos nossos impostos.

Mas tem mais.

O texto também dá 15 anos de prazo para as legendas renegociarem suas dívidas com a União. Bens de partidos políticos não poderão mais ser penhorados pela Justiça, mesmo que tenham sido usados por seus dirigentes para cometer crimes. Além disso, esses chefões poderão usar o fundo partidário para pagar multas, juros e dívidas que tenham contraído por dilapidar o próprio fundo.

Legendas com as contas reprovadas também não podem ser impedidas de participar das eleições, e os repasses de dinheiro público só poderão ser suspensos depois de o processo transitar em julgado. Isso se um dia for de fato julgado, já que a lei também prevê um prazo limite de cinco anos para a decisão definitiva da Justiça Eleitoral. Se o processo se arrastar para além disso, estará automaticamente suspenso, mesmo que a causa do adiamento sejam recursos protelatórios impetrados de má-fé. Nem Daniel Vorcaro faria melhor.

Como se não bastasse a farra com o dinheiro dos nossos impostos, os deputados também cuidaram de abrir a porteira para a farra da desinformação, flexibilizando as regras para disparo de mensagens.

Nas eleições de 2022, elas só podiam ser enviadas a quem tivesse dado consentimento por escrito. Agora, mensagens enviadas por celulares registrados pelos partidos a pessoas “previamente cadastradas”, mesmo que por robôs, não serão consideradas disparos, e os números também não poderão ser bloqueados pelas plataformas sem ordem judicial.

Alguém aí consegue ver a Justiça fiscalizando esses cadastros nome a nome e ainda bloqueando os envios num cenário tão adverso? Caso o projeto não seja derrubado, o resultado previsível será a multiplicação de desinformação e fake news, logo na primeira eleição com a inteligência artificial a toda potência.

Todas essas mudanças foram aprovadas na noite de terça-feira em regime de urgência, com votação simbólica e aprovação de todos os grandes partidos. Ninguém teve coragem de ir ao microfone defender o texto, e quem se opôs foi a minoria de sempre.

A ânsia de liberar geral era tanta que, mesmo a Constituição prevendo que as alterações feitas em lei eleitoral só passam a valer um ano depois de sua aprovação, os parlamentares decidiram que as mudanças entram em vigor imediatamente e valem já para o pleito de outubro. Basta agora o o.k. do Senado Federal, que está louco para aderir.

Para completar o pacote da vergonha, hoje o Congresso ainda deverá repetir o que já fez na gestão Jair Bolsonaro e permitir que o governo faça doação de bens, dinheiro e benefícios como cestas básicas, tratores e ambulâncias a municípios em plena campanha eleitoral.

A reforma eleitoral ainda pode ser vetada pelo presidente Lula ou contestada e derrubada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Independentemente do resultado final, porém, toda essa coreografia só reforça o sentimento de ojeriza ao sistema político, num contexto em que a corrupção vem crescendo no ranking de preocupações dos eleitores e escândalos como o do Banco Master fornecem assombrosas revelações a cada dia.

Claro que, com Flávio Bolsonaro (PL) sangrando em praça pública em razão do inexplicável enredo dos R$ 61 milhões de dólares aplicados por Vorcaro no filme sobre a vida de seu pai, o cenário parece bem mais favorável a Lula. Mas nem todo petista está soltando fogos.

A história das nossas eleições mostra que, quando escândalos se multiplicam, e o eleitor é tomado pelo sentimento antissistema, todo candidato competitivo sofre — incluindo o governante que comanda a máquina e busca a reeleição. Na cabeça do cidadão comum, ele encarna o próprio sistema.

Os políticos mais experientes de Brasília estão cansados de conhecer essa máxima, em especial os do Centrão. Se não estão preocupados é porque se guiam fielmente por outra máxima: o dinheiro é a graxa que azeita o sistema, mesmo que para isso seja preciso tomar todo o processo eleitoral de assalto.

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