quinta-feira, 23 de abril de 2026
O CAVALO DE TRÓIA ELEITORAL MONTADO A GALOPE POR KASSIO NUNES
Na mesma sessão em que foi eleito Presidente do TSE, Kássio
Nunes inaugura tese teratológica sobre a Cassação exclusiva do Governador e a
preservação do Vice
Era uma vez um candidato que concebeu um plano astuto: praticar, de forma
isolada, toda sorte de atos antirrepublicanos capazes de alterar o resultado
das eleições com a certeza de que seria cassado, mas com a segurança de que,
mantido o vice afastado das falcatruas, este herdaria o cargo. Até ontem, isso
era apenas uma fantasia. Hoje, graças ao voto vista do Ministro Kássio Nunes
Marques no TSE, tornou-se uma estratégia juridicamente viável.
O princípio da unicidade da chapa
Ao longo de décadas, a jurisprudência do TSE consolidou o princípio da
unicidade da chapa nas eleições majoritárias: governador e vice integram um
único ente eleitoral, juridicamente indivisível. A lógica é clara ambos
disputaram juntos, ambos se beneficiaram da campanha, ambos receberam os votos
que aquela chapa angariou. Por corolário lógico, se o julgado reconhece que
ocorreram condutas vedadas que comprometeram a lisura da eleição e alteraram o
resultado do pleito, a chapa eleita não representa a vontade popular autêntica,
mas uma vontade viciada, antidemocrática e intolerável - e, portanto, deve ser
integralmente cassada.
Cassar apenas o Governador, autor imputado das condutas, e manter o Vice no
cargo é desafiar essa lógica. É reconhecer a fraude e, ao mesmo tempo,
preservar seus frutos.
A tese inaugurada: o vice era secretário de Estado
O argumento do Ministro Kássio Nunes Marques para preservar o Vice foi o de
que, durante a campanha, ele exercia o cargo de Secretário de Estado - e que,
por isso, não poderia ser responsabilizado pelos crimes eleitorais da chapa. A
tese é problemática por razões elementares.
Primeiro: o cargo de secretário estadual e a condição de candidato a
vice-governador são relações jurídicas completamente distintas. Ser nomeado
secretário não extingue a candidatura nem a responsabilidade eleitoral dela
decorrente. O candidato permanece integrante da chapa e sujeito às
consequências de sua cassação.
Segundo: não há, na legislação eleitoral nem na jurisprudência do TSE, qualquer
dispositivo que exclua da cassação da chapa o candidato ao cargo de vice que
tenha exercido função no governo durante a campanha. A tese cria uma exceção ex
nihilo sem amparo legal, sem antecedente jurisprudencial, sem fundamento no
direito eleitoral brasileiro.
Terceiro, e mais grave: a tese cria um incentivo perverso. Se essa lógica
prosperar, a estratégia ótima para qualquer candidato que planeje praticar
fraudes eleitorais será nomear seu vice como secretário de Estado durante a
campanha, para garantir, em caso de cassação, que um aliado herde o cargo. O
direito eleitoral, concebido para proteger a vontade popular, converte-se em
manual de fraude institucionalizada.
Uma tese sem precedente na história do TSE
Não há registro, na história do Tribunal Superior Eleitoral, de voto que tenha
dissociado a cassação da chapa com base no exercício de cargo público pelo vice
durante a campanha. Trata-se, na prática, de uma tese inédita o que, por si só,
deveria exigir fundamentação extraordinariamente robusta. O que se viu, ao
contrário, foi uma construção argumentativa que, na melhor das interpretações,
desafia a lógica jurídica consolidada; na pior, corrobora a intenção da fraude:
vão-se os anéis, mas ficam os dedos.
Manter o Vice no cargo é o mesmo que condenar um ladrão, mas permitir que o
produto do roubo permaneça com seus comparsas. A condenação individual sem a
restituição do bem jurídico violado - a lisura do pleito é uma sanção vazia.
O cavalo de Tróia eleitoral
Uma decisão local, aparentemente circunscrita ao caso de Roraima, pode
funcionar como um cavalo de troia no sistema eleitoral brasileiro. Se a tese
for incorporada à jurisprudência, o impacto nas eleições presidenciais de 2026
será imediato e profundo: estaremos diante do vale-tudo institucionalizado.
O perigo está precisamente em subestimar seus efeitos. Decisões que rompem com
princípios estruturantes do direito eleitoral não ficam confinadas ao processo
que as originou. Elas migram, são invocadas como precedente, são ampliadas por
interpretações subsequentes. Quando nos dermos conta da extensão do dano, o
impacto já terá se consolidado.
A pergunta que fica é desconfortável, mas necessária: a tese teratológica
inaugurada nesta sessão - a mesma em que Kássio Nunes Marques foi eleito
Presidente do TSE - é uma excepção ou um presságio?
Charge: Gervásio Castro Neto
quarta-feira, 22 de abril de 2026
O SEQUESTRO DA PAISAGEM
São Paulo desfigura Lei Cidade Limpa em pastiche da Times
Square
Vinte anos depois, maior cidade do país arma retrocesso
no combate à poluição visual
Aprovada em 2006, a Lei Cidade Limpa impôs um freio à
poluição visual na maior cidade do país. A norma devolveu aos cidadãos a
paisagem sequestrada pela publicidade. Em vez de celebrar seus 20 anos, as
autoridades de São Paulo querem desfigurá-la.
Na segunda-feira, o governador Tarcísio de Freitas divulgou
um vídeo em que gigantescos painéis de LED cobrem os prédios da Avenida São
João. “Por enquanto, as imagens aqui são de inteligência artificial. Mas daqui
a uns dias, elas vão ser realidade”, anunciou. O prefeito Ricardo Nunes também
mostra entusiasmo com a ideia.
O projeto tem sido chamado de Times Square
paulistana, uma imitação jeca do famoso largo de Nova York. Na verdade,
trata-se de uma cópia
da cópia. O primeiro pastiche foi inaugurado em Balneário Camboriú, que já
se apresentou como a Dubai brasileira.
O plano de São Paulo se destaca pela megalomania. Os telões
poderão cobrir 70% da fachada de edifícios históricos. Terão até 25 metros de
altura, o suficiente para esconder oito andares das construções. A desculpa,
como sempre, é revitalizar o Centro e atrair investimentos.
Há controvérsias. O Instituto dos Arquitetos do Brasil
apontou “risco iminente de desfiguração da cidade e de reintrodução massiva da
poluição visual”. O urbanista Mauro Calliari observou que a contrapartida aos
cofres públicos, de R$ 2 milhões por ano, é “quase ofensiva de tão pequena”.
Em março, a Companhia de Engenharia de Tráfego avisou que os
painéis podem provocar “sérios problemas de segurança viária”. O estudo
enfatizou que o excesso de propaganda luminosa ofusca a visão de motoristas e
aumenta o índice de acidentes. Apesar de tudo, o projeto foi aprovado
pelos conselhos municipais que deveriam proteger o patrimônio e a
paisagem urbana.
No Rio, uma lei inspirada na Cidade Limpa chegou a vigorar
por seis anos. Foi
revogada em 2019, quando os vereadores autorizaram a volta
dos anúncios gigantes em fachadas e laterais de prédios. Hoje a
prefeitura também dá mau exemplo ao emporcalhar as orlas da praia e da Lagoa
com placas publicitárias, a pretexto de divulgar eventos.
MORRE EDVALDO DE MELO
Morre aos 82 anos Edvaldo de Melo, ex-vice-presidente do
GRPCOM
Morreu nesta quarta-feira (22/04), aos 82 anos, Edvaldo de
Melo, ex-vice-presidente do Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM). Ele
estava internado no Hospital São Vicente, em Curitiba.
Melo teve importante atuação na comunicação e longa
trajetória no GRPCOM, o maior grupo de comunicação do Paraná.
Além de já ter sido vice-presidente do Grupo, ele atuou como
gerente geral da antiga TV Coroados, atualmente a RPC Londrina. Foi também,
durante muitos anos, membro do Conselho do GRPCOM.
O velório será realizado nesta quinta-feira (23/04), no
Crematório Vertical de Curitiba, das 9h30 às 13h30.
terça-feira, 21 de abril de 2026
A HISTÓRIA ENSINA QUE OS IMPERADORES PASSAM, MAS O PAPADO PERMANECE
Por que Leão 14 não demonstra temor ou deferência diante
de Donald Trump?
Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese
para adultos, aprendeu essas lições
Tempos interessantes. Os Estados
Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em
assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito
aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso
é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.
Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos
últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente
bizarrice trumpista.
Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que
transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das
investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros
da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.
Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de
joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.
Há quem prefira o conflito de Filipe 4º da
França contra Bonifácio 8º. Dinheiro, tudo é dinheiro —e Filipe precisava taxar
o clero para financiar suas guerras. Bonifácio se opôs. Dessa vez, o confronto
terminou mal para o papa.
E que dizer de Henrique 8º
e da recusa de Clemente 7º em anular o casamento do rei com Catarina
de Aragão? É um dos conflitos mais conhecidos da história, que levou à ruptura
com Roma e ao nascimento da Igreja Anglicana.
Em todos esses confrontos, a questão foi repetidamente a
mesma: quem manda? Antes da modernidade política —ou seja, até a Revolução
Francesa— o poder temporal disputou com frequência o espaço com o poder
espiritual. E vice-versa.
Donald Trump é
o nome mais recente dessa linhagem anacrônica. Como é possível que o papa Leão 14 não
abençoe sua guerra
no Oriente Médio? Mais: como é possível que se oponha a ela?
Pior ainda: por que não demonstra temor ou deferência diante
do imperador de Washington?
Curiosamente, ao formular essas perguntas e considerar a
personalidade de Trump, é Napoleão
Bonaparte e seu conflito com Pio 7° o exemplo histórico mais próximo
que encontro.
Tudo começou bem entre os dois: em 1801, Napoleão e o papa
assinaram uma concordata que devolvia parte das terras e dos direitos que a
Igreja havia perdido com a Revolução Francesa. Em troca, Roma reconhecia a
república.
Mas a concordata já nasceu torta, porque os dois lados
enxergavam coisas diferentes no documento. Para Napoleão, ela selava a
supremacia do Estado sobre a Igreja. Para o papa, era o primeiro passo para
restaurar a aliança entre o trono e o altar na França pós-revolucionária.
No fundo, a pergunta "quem manda?" continuava
pairando sobre os dois poderes —e rapidamente envenenou a cabeça de Napoleão.
Tudo começou com um drama doméstico: o irmão de Bonaparte, Jérôme, queria obter
de Roma a anulação do seu casamento com uma americana protestante.
Sem isso, a política de alianças e matrimônios que Napoleão
arquitetava para os seus familiares na Europa ficaria comprometida. O papa
recusou.
Mas foi a guerra, ontem como hoje, que acabou sendo a gota
d’água. Napoleão exigiu que os Estados Pontifícios fechassem seus portos aos
ingleses, contribuindo assim para o sucesso do chamado "bloqueio
continental". Pio 7º não aceitou ser parte do conflito.
O que aconteceu em seguida foi descrito de forma definitiva
pelo historiador Ambrogio Caiani no livro "To Kidnap a Pope, sequestrar um
papa, em português. As tropas napoleônicas invadiram o Palácio do Quirinal em
1809 e sequestraram o papa.
Depois de anos de cativeiro, Pio 7º acabou cedendo ao poder
do imperador com uma segunda concordata, em 1813, no exílio de Fontainebleau.
É possível que, em seus momentos mais delirantes, Donald
Trump sonhe com uma missão semelhante. Se funcionou com Nicolás
Maduro na Venezuela,
por que não com Leão 14?
Eu desaconselharia. Até porque a história do conflito entre
Napoleão e o papa não acabou bem para o imperador. Um ano depois da segunda
concordata, Napoleão foi derrotado em Paris e, em 1815, definitivamente
esmagado em Waterloo.
O papa, por sua vez, voltou a Roma. Foi recebido como um
herói, um mártir e uma referência moral para toda a Europa.
Mais uma vez, confirmava-se a velha máxima: imperadores
passam, mas o papado permanece.
Não sei se o vice J.D. Vance, em
suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições. Elas seriam
valiosas para tentar esfriar os impulsos do chefe.
A história é pródiga em napoleões que, embriagados pelo
poder, acreditam mesmo governar este mundo e o outro.
*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade
Católica Portuguesa.
ERA ORBÁN NA HUNGRIA FOI MAIS REFLEXO DO QUE NEGAÇÃO DA EUROPA
Experiência iliberal no país nos últimos 16 anos reflete
contradições europeias no pós-guerra
Ideia de 'retorno à Europa' se baseia em suposta
superioridade de um Ocidente civilizado e na inferioridade de um oriente
europeu bárbaro
[RESUMO] As eleições parlamentares na Hungria que
selaram a derrota de Viktor Orbán foram
celebradas como um "retorno do país à Europa",
vista como símbolo de democracia e liberdade. Para professora, contudo, seria
mais apropriado ver no projeto iliberal húngaro não uma negação dos valores
europeus, mas um espelho de suas contradições, afinal o continente foi berço de
fascismo, nazismo e guerras que deixaram um legado de destruição.
Em 12 de abril, as atenções do mundo se voltaram para um
pequeno país da Europa Central —a
Hungria, que, desde 2010, tornara-se uma espécie de laboratório internacional
para as direitas radicais.
Naquele dia, eleições parlamentares interromperam
o projeto iliberal do partido União Cívica Húngara (Fidesz) e de seu principal
líder, o primeiro-ministro Viktor Orbán, no poder há 16 anos.
Com índices de participação eleitoral beirando os 80% —os
maiores desde a redemocratização do país, em 1989—, as urnas consagraram a
vitória do partido de oposição Respeito e Liberdade (Tisza), de centro-direita, liderado
pelo ex-aliado de Orbán, Péter Magyar. A legenda conquistou 138 das
199 cadeiras do Parlamento húngaro, contra 55 do Fidesz.
Em 2014, quando pesquisas indicavam grande
popularidade nacional de Orbán, o primeiro-ministro referiu-se pela primeira
vez ao regime húngaro como uma "democracia iliberal". Desde então, o
termo passou a ser amplamente utilizado para se referir à experiência política
do país.
Na visão de Orbán, uma democracia não precisava ser
necessariamente liberal. O liberalismo, para ele, era fonte de problemas
diversos em toda a parte; no caso específico da Hungria, teria falhado, entre
1990 e 2010, na medida em que não foi capaz de compelir o Estado a trabalhar
pelos interesses nacionais.
Nessa concepção, uma democracia iliberal não se caracteriza
por uma ruptura abrupta com a ordem democrática, mas sim com seu caráter
liberal.
O
Fidesz colocou em prática um projeto baseado na ideia de transformação gradual
das instituições: reformas constitucionais, reconfiguração do
Judiciário, crescente concentração dos meios de comunicação e restrições ao
funcionamento de universidades e organizações da sociedade civil. Um processo
que diversos analistas descrevem como uma forma de erosão "por
dentro", na qual mecanismos formais são preservados, porém o funcionamento
interno da democracia é progressivamente limitado.
Em paralelo, o governo investia na imagem da Hungria como um
dos últimos bastiões europeus na defesa dos "valores cristãos",
exerceu papel central na propagação de políticas anti-imigração, enfatizava a
defesa da "família tradicional", limitava os direitos reprodutivos
das mulheres, rejeitava pautas de gênero e estabelecia políticas hostis à
população LGBTQIA+.
Outro ponto-chave do projeto iliberal do Fidesz diz respeito
à relação da Hungria com a União Europeia. Estado-membro desde 2004, quando o
bloco realizou sua maior expansão em direção ao leste, incorporando diversos
países ex-socialistas, o país manteve, a partir da ascensão de Orbán em 2010,
uma relação ambígua com o grupo. Se, por um lado, permaneceu formalmente
integrado, por outro, entrou em choque recorrente com suas instituições,
especialmente em torno de temas ligados à democracia.
Ao mesmo tempo, o governo Orbán estreitou laços com a Rússia
de Vladimir Putin, adotando posições frequentemente dissonantes das demais
lideranças europeias. A invasão russa na Ucrânia, em 2022, acentuou esse
distanciamento, visível, mais recentemente, no veto da Hungria a empréstimos
destinados ao país.
Nesse quadro, a campanha do Fidesz em 2026 passou a
mobilizar as figuras de Volodimir
Zelenski, presidente da Ucrânia, e Ursula
von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, como símbolos de uma ameaça
externa, associada tanto à guerra quanto às pressões vindas de Bruxelas.
Esse conjunto de tensões internas e externas ajuda a
entender o cenário em que as eleições de agora ocorreram.
A derrota de Orbán deve ser compreendida à luz de
transformações importantes no comportamento eleitoral húngaro. A elevada
participação indica uma mobilização incomum, especialmente entre os mais
jovens.
Além disso, o resultado revelou alterações significativas na
geografia política do país: se, nos últimos anos, a oposição se concentrava
sobretudo em Budapeste e
em outros grandes centros urbanos, a eleição de 2026 aponta para uma
redistribuição mais ampla do voto, reduzindo os tradicionais bastiões do Fidesz
no interior.
Assim,
divulgados os resultados eleitorais e confirmada a vitória da oposição, uma
onda de euforia pareceu varrer o Velho Continente. Na imprensa liberal e
entre certas lideranças europeias, ganhou destaque a ideia de que a Hungria
estaria "retornando à Europa", expressão que remete a um vocabulário
político que não é, de forma alguma, novo na história do continente.
Assim, a imprensa francesa falava ora que a Hungria
"celebrava seu retorno à Europa" (Le Monde) ora em "ventos
ocidentais sobre Budapeste" (Libération).
O primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, declarou em
suas mídias sociais: "Hoje,
ganha a Europa e ganham os valores europeus". Em sentido similar, o
primeiro-ministro polonês, Donald Tusk, declarou "Hungria, Polônia,
Europa, juntos de volta!", enquanto o primeiro-ministro britânico, Keir
Starmer, afirmou que aquele era um momento histórico, "não apenas para a
Hungria, mas para a democracia europeia".
Mas foram as manifestações de Ursula von der Leyen as que
melhor sintetizaram os ânimos europeus: poucas horas depois do anúncio dos
resultados, a presidente da Comissão Europeia afirmou que a Hungria
"retornou ao verdadeiro coração da Europa".
A ideia de um "retorno à Europa" expressa uma
comunidade de valores civilizacionais responsáveis pela definição de uma certa
noção de Ocidente, sinônimo de democracia, liberdade, defesa dos direitos
humanos e da paz. Isso marcou, sobretudo depois da Segunda Guerra Mundial, a
construção da identidade do continente e as relações entre suas diferentes
partes.
Em 1989, por exemplo, quando as revoluções democráticas na
Europa Central derrubaram as ditaduras comunistas e prenunciaram o fim da
Guerra Fria e a reunificação do continente, não foram raras as interpretações
que consagraram tais eventos como uma vitória dos valores da "verdadeira
Europa", da democracia e da liberdade, contra a tirania e o totalitarismo.
Nessa chave interpretativa, as
revoluções de 1989 no leste seriam o epítome da Europa liberal, moderna e
democrática, destino final para onde caminharia todo o continente.
Aplicar essa lógica narrativa aos resultados eleitorais
húngaros de agora, quase quatro décadas após as quedas das ditaduras
comunistas, nos coloca, no entanto, diante de algumas questões.
A primeira delas é se, de fato, o modelo iliberal do Fidesz
se esgotou. A segunda —e, talvez, mais importante— é se a experiência húngara
da última década e meia era, de fato, uma negação da Europa e de seus valores.
Não seria mais fértil pensá-la como parte da complexa experiência europeia na
modernidade?
Afinal, os acontecimentos terríveis da "era das
catástrofes", que caracterizaram o século 20 e parecem entrar pelo 21, não
são igualmente frutos da modernidade europeia?
Tais experiências marcaram também a identidade do continente
e fizeram da Europa espaço e berço de experiências limite: fascismos, nazismo, guerras
mundiais, conflitos civis, genocídios e limpezas étnicas transformaram a
"Europa das Luzes" em um "continente de sombras" e deixaram
um legado de destruição e divisão.
Nesse sentido, não deveríamos considerar também a
experiência iliberal e autoritária húngara no século 21 como parte das
tradições europeias? Ao questionar o modelo democrático-liberal da União
Europeia, optando por uma via nacionalista, autoritária e iliberal, a
Hungria não deixou "o verdadeiro coração da Europa", apenas
evidenciou as contradições históricas e identitárias que marcam a história do
Velho Continente na modernidade.
A Hungria não está, mais uma vez, voltando à Europa. Ao
contrário, a experiência que agora parece terminar mostra uma disputa em torno
do significado político e normativo da própria ideia de Europa.
Falar em "retorno" reintroduz uma hierarquia
implícita que há muito estrutura as representações sobre a Europa Central, que
se baseia na ideia de superioridade de um Ocidente civilizado e na
inferioridade de um oriente europeu bárbaro, que precisa alcançar as luzes da
civilização.
Lembremos, porém, que enquanto as direitas radicais sofreram
derrotas políticas e entraram em crise no Leste Europeu,
elas continuam vivas e se fortalecendo na Itália, na França e na Alemanha.
*Professora de história contemporânea da Universidade
Federal Fluminense, autora de "Europa Central: A Fascinante História de
Uma Região Decisiva" (Contexto, 2025)
BRASÍLIA, 66 ANOS !
A transferência dos principais órgãos da administração
federal para a nova capital foi progressiva, com a mudança das sedes dos
poderes Executivo, Legislativo e Judiciário federais.
O plano urbanístico da capital, conhecido como "Plano
Piloto", foi elaborado pelo urbanista Lúcio Costa, que, aproveitando o
relevo da região, o adequou ao projeto do lago Paranoá. O lago armazena 600
milhões de metros cúbicos de água.
Sob as linhas retas e curvas do arquiteto Oscar Niemeyer,
nasce Brasília. Um grande desafio; a cidade foi construída na velocidade de um
mandato, e Niemeyer teve de planejar uma série de edifícios em poucos meses
para configurá-la.
O blog Sou Chocolate e Não Desisto indica dois livros
biográficos sobre Juscelino Kubitschek: JK – O
artista do impossível, do jornalista Cláudio Bojunga e Juscelino Kubitschek – O
presidente bossa-nova, da jornalista Marleine Cohen com prefácio de Maria
Adelaide Amaral.
Além dessas biografias, uma ótima opção é o filme Bela
Noite Para Voar, de Zelito Viana, lançado em 2005, baseado no livro de
Pedro Rogério Moreira que tem como pano de fundo duas conspirações contra o
governo "50 anos em 5", de Juscelino Kubitschek.
Se preferir uma obra mais extensa, a minissérie JK,
de Maria Adelaide Amaral e Alcides Nogueira com cinco discos (DVD),
aproximadamente 230 minutos em 47 episódios; é uma excelente opção para quem
gosta de história e política.
TRUMP MOSTRA DESPREZO PELO PAPA
Quantas divisões tem o Papa? A pergunta, atribuída a Stálin,
mostra o desprezo que os políticos em guerra têm pela autoridade moral de um
Papa. Donald Trump revelou essa arrogância ao afirmar que o pontífice é fraco e
não entende de política externa. Os Estados Unidos são uma nação religiosa e,
pela primeira vez na História, o Papa é um americano. Nada disso inibiu Trump,
apesar de os Estados Unidos continuarem dando um verniz religioso à sua
política de conquista de regiões ricas em petróleo.
Essa versão religiosa estava muito presente em Bush filho
antes da guerra do Iraque. Para ele, os Estados Unidos estavam em luta contra o
Eixo do Mal. Ficou célebre esta declaração do tenente-coronel Gareth Brandl ao
liderar o ataque dos fuzileiros navais americanos à cidade iraquiana de Faluja:
— O inimigo tem um rosto. Ele se chama Satã. Ele vive em
Faluja. E nós o destruiremos.
Muitos dos conservadores religiosos que constituem parte da
base republicana esperam um final dos tempos promovido pela intervenção divina.
Encaram os conflitos mundiais, na análise de John Gray, como prenúncio do
Armagedon, batalha final entre a luz e as trevas. Outros esperam ser poupados
dessas provações, num êxtase em que serão conduzidos aos céus. Em ambos os
casos, o mundo imperfeito vivido pela humanidade chegará ao fim.
O verniz religioso das aventuras geopolíticas americanas
continua presente. Só que está ficando mais audacioso e ligeiramente ridículo.
Em primeiro lugar estão as críticas ao Papa. O vice-presidente J.D. Vance disse
que o Papa deveria tomar muito cuidado ao falar de teologia. Como assim? O Papa
graduou-se em teologia aos 27 anos.
Na mesma semana em que fazem críticas ao Papa, querem se
mostrar religiosos. O secretário de Defesa pensou ler um trecho bíblico do
Livro de Ezequiel, mas, na verdade, lia um texto de Quentin Tarantino, escrito
para o filme “Pulp fiction” e declamado pelo ator Samuel L. Jackson.
O tom religioso continua presente, com Trump fazendo
leituras públicas da Bíblia. Tudo mostra que a velha aspiração de Bush continua
de pé: nossa responsabilidade perante a História é livrar o mundo do Mal.
Embora não seja estudioso de teologia, observo que, desde
Agostinho — precisamente o inspirador da ordem do Papa Leão XIV —, a corrente
central do pensamento cristão rejeita a tentação do absolutismo moral na
política. Para ela, o reino dos céus não é deste mundo; nenhuma instituição
humana pode arvorar-se em encarnação do Bem.
Como lembrou o Papa na África, os tiranos estão devastando o
mundo. E podemos acrescentar: devastam o mundo em nome do domínio geopolítico,
do petróleo e, finalmente, em nome de Deus. O irônico é que a guerra de agora é
contra uma teocracia que massacra seus opositores, principalmente as mulheres,
e que considera os Estados Unidos o Grande Satã. Na verdade, assistimos a uma
luta em que os contendores se consideram, respectivamente, Satã e o Grande
Satã.
Só nos resta desejar a paz, como o Papa. Nesse sentido, a
posição brasileira nos representa, pois ela prega a paz e se solidariza com
Leão XIV.
Artigo de Fernando Gabeira publicado no jornal O Globo em 21
/ 04 / 2026
RELEMBRANDO TANCREDO NEVES
Memória – Há exatos 41 anos morria Tancredo Neves. Tancredo de Almeida Neves, nasceu em 4 de março de 1910, em São João Del Rei, Minas Gerais. Faleceu em 21 de abril de 1985. Tancredo era advogado, empresário e político; foi casado com Risoleta Guimarães Tolentino, com quem teve três filhos.
Em 1985 foi realizada a primeira eleição (indireta, via
Colégio eleitoral) para presidente desde o golpe militar de 1964.
Tancredo Neves foi indicado por uma coligação de partidos,
com apoio de Ulysses Guimarães (a figura mais importante no período de
redemocratização do país).
Tendo como candidato a vice na mesma chapa José Sarney,
venceu o pleito em 15 de janeiro de 1985, por 480 votos contra 180 de Paulo
Maluf.
A articulação que elegeu a dupla Tancredo e Sarney é tida
ainda hoje como uma das mais complexas e bem-sucedidas na história política do
país.
Tancredo temia que os militares mais rigorosos se recusassem
a passar o poder ao vice-presidente. Porém não resistiu, e na véspera da posse
(14 de março de 1985), foi internado em Brasília com dores abdominais.
José Sarney assumiu a presidência aguardando o
restabelecimento de Tancredo, que a partir de então, já em São Paulo, sofreu
sete cirurgias. No entanto, em 21 de abril (mesma data da morte do mártir
nacional Tiradentes), Tancredo faleceu vítima de infecção generalizada, aos 75
anos.
Vinte anos após, o corpo médico revelou que não divulgou o
laudo correto da doença, que não teria sido diverticulite, porém um tumor.
Embora benigno o anúncio de um tumor poderia ser interpretado como câncer,
causando efeitos imprevisíveis no andamento político no momento.
Em seu lugar, assumiu a presidência da República o vice José
Sarney, encerrando o período de governos militares chamado de Anos de chumbo
iniciado com o Golpe de 1964.
Vale a pena ler – O blog Sou
Chocolate e Não Desisto recomenda três obras sobre a trajetória de
Tancredo Neves: o livro Tancredo
Neves - A travessia midiática; uma organização de textos de vários autores
sobre a vida desse político feita por Nair Prata e Wanir Campelo, o
documentário Tancredo
– a travessia, de Silvio Tendler e a recente biografia Tancredo
Neves, O Príncipe Civil, do jornalista Plínio Fraga.
TIRADENTES, 234 ANOS
Os versos do samba enredo da escola de samba Império
Serrano, campeã de 1949, fez um enorme sucesso em todo o Brasil e, desde então,
vem servindo para ajudar a contar um dos capítulos mais importantes da nossa
história.
A Inconfidência Mineira foi um movimento político que tinha
como objetivo conquistar a independência do Brasil em relação a Portugal,
alimentado pelos altos impostos cobrados da mineração em Minas Gerais e também
pelos ideais propostos pela Revolução Francesa.
Ao longo do tempo a execução de Tiradentes, um dos
participantes desse movimento foi transformada em seu símbolo, mesmo sendo
objeto de muitas controvérsias em relação ao seu papel e mesmo sobre a imagem
que foi criada e divulgada para retratar os acontecimentos.
Controvérsias a parte, a possibilidade de contarmos essa
história através de sambas e de feriados mostra que essa é uma história
importante e consolidada na cultura brasileira.
segunda-feira, 20 de abril de 2026
VOTO NEGRO TEM PODER
Qual o projeto político dos candidatos para a população
negra brasileira?
A realidade já deixou evidente que a falta de consciência
social e de letramento étnico-racial afeta diretamente o povo
Com a proximidade das eleições
gerais, a pergunta que não sai da minha cabeça é: Ei, senhor(a)
candidato(a), qual o seu projeto político para a população negra brasileira?
Indagação semelhante me ocorre em relação a propostas
voltadas à proteção,
segurança e bem-estar das mulheres. Como se sabe, o público feminino vem
sendo atacado sistematicamente em nosso país —a média de feminicídios foi de 4
mortes ao dia em 2025.
No meu entendimento, esses são
questionamentos dos mais relevantes a se fazer a quem pretende disputar e
exercer postos de comando e gestão com poder suficiente para definir (ou
redefinir) os rumos de uma nação.
Sempre é bom lembrar que a maioria dos brasileiros (56%) se
autodeclara preta ou parda. Por óbvio, isso também revela o perfil da maior
parte dos eleitores. Pelas estatísticas do
TSE, 64,96% do nosso eleitorado é negro e 52 % é feminino.
Além disso, a realidade já deixou evidente que a falta de
consciência social e de letramento étnico-racial afeta diretamente o povo. Em
alguns casos, trata-se, sem exagero, de questão de vida ou morte que se coloca
para os cerca de 115 milhões de pessoas autodeclaradas negras.
Não sei vocês, mas eu lembro bem de máximas racistas,
preconceituosas e discriminatórias proferidas por governantes movidos por lemas
como "mira na cabecinha" e "primeiro atira, depois
pergunta".
Em menos de seis meses —o primeiro turno das eleições está
marcado para o dia 4 de outubro— teremos na ponta dos dedos o poder de escolher
presidente da República, deputados federais e senadores que irão compor o
Congresso Nacional (Câmara e Senado), governadores dos estados e deputados
estaduais e distritais que integrarão as assembleias legislativas.
Essa gente vai pautar e definir temas que irão impactar as
nossas vidas pelos próximos quatro anos —ao menos. Então, fique atento.
Valorize seu voto. Pesquise sobre as propostas dos candidatos. Preze o poder
que a democracia nos delega a cada eleição.
COMO SE LÊ KKKKKK EM PORTUGAL
Comparado com os sonoros rárárá, rêrêrê, ririri, rôrôrô e rururu, o kkkkkk é só um cacarejo
Se você escrever kkkkk para sua namorada lisboeta, ela lerá kappakappakappakappa
Os leitores mais regulares desta coluna sabem de minha aversão pelo kkkkkk com que muitas pessoas encerram suas mensagens pela internet. Sabem também de minhas razões para isto. Primeiro, na vida real, ninguém ri kkkkkk, mas de outras maneiras, muito mais ricas. A começar pelo rá-rá-rá, uma explosão aberta e sonora, um brado de bem-estar no mundo. Ou o rê-rê-rê, um riso de desprezo, de ironia. E o ri-ri-ri, uma forma afetiva de rir, embutindo uma crítica ao que se ouviu. E não para por aí.
Temos também o rô-rô-rô, uma risada gorda, bonachona, feliz da vida. E o ru-ru-ru, tão significativa quanto o rá-rá-rá, mas, me parece, mais comum entre pessoas de idade. Há ainda outra forma de rir, o sofisticado quá-quá-quá, uma risada autorreferente, uma metarrisada, como se o ridente estivesse citando uma risada —nunca ouvi ninguém rir quá-quá-quá espontaneamente. Enfim, tudo isso para dizer que, em comparação, o kkkkkk não passa de um cacarejo.
O kkkkkk só existe por escrito e no final da mensagem, como se o sujeito estivesse rindo do que ele mesmo escreveu, quando deveria nos dar a opção de rir ou não. Além disso, rá-rá-rá, rê-rê-rê, ri-ri-ri, rô-rô-rô e ru-ru-ru são universais, soam igual em toda parte. Já o americano ou o inglês, diante do nosso kkkkkk, rirá keikeikeikeikeikei, que é como se pronuncia o k em inglês.
O pior é que nem em Portugal seremos compreendidos, porque, lá, a letra k se lê kappa, segundo o original grego. Portanto, se você mandar para a sua namorada lisboeta uma mensagem com kkkkkk, ela lerá kappakappakappakappakappakappa e não perceberá o que você, o zuca, quis dizer com aquilo.
Atenção, esta crônica não é uma censura, apenas uma observação linguística. O kkkkkk é uma invenção da internet e, como tal, um dia poderá ser desinventada. No tempo das cartas à mão ou datilografadas, colocadas num envelope e este fechado com uma lambida, ninguém as terminava com kkkkkk. Um dia, quem sabe, chegaremos ao kêkêkê, ao kikiki, ao kókókó e, quem sabe, ao kukuku. Kkkkkk!
A DISPUTA PELO SENADOE A ARMADILHA DA DISPERSÃO
Dados de 1998 a 2022 mostram que candidatos da coligação
do governador têm muito mais chance
Desafio é não permitir que votos dos eleitores se diluam
entre muitos nomes de um mesmo grupo político
Na última semana, a disputa pelo Senado passou
a ocupar mais espaço no debate político. Seja pela pressão de alguns partidos
em busca de espaço nas chapas num ano em que estarão em disputa duas cadeiras
por estado, seja ainda pela indefinição sobre quem serão os candidatos em
alguns estados. A isso se soma o uso
abertamente eleitoreiro que o senador Alessandro Vieira fez do relatório da CPI
do Crime Organizado.
Ainda são poucas as pesquisas sobre as
chances dos pré-candidatos ao Senado. Mas os sinais de indefinição se
multiplicam. Os ex-governadores do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, que se
desincompatibilizaram de seus cargos com o objetivo de disputar uma vaga ao
Senado, parecem ter desistido. Um pela insegurança jurídica, o outro para
evitar ter sua imagem ainda mais vinculada ao escândalo do Banco Master.
Em São Paulo,
por enquanto, apenas duas candidaturas são dadas como certas: as dos deputados
federais Guilherme
Derrite (PP)
e Ricardo
Salles (Novo).
Salles deve sair em candidatura independente, sem o apoio do
governador Tarcísio
de Freitas. A direita ainda pode lançar um segundo nome vinculado à
coligação de apoio do governador, mas aguarda que Jair e Eduardo
Bolsonaro unjam um candidato.
A esquerda, capitaneada pela candidatura ao governo estadual
de Fernando
Haddad, precisa decidir se sairá unida ou fragmentada. A federação Rede-PSOL anunciou
a deputada
federal e ex-ministra Marina Silva como pré-candidata, enquanto o PSB
trabalha com as pré-candidaturas dos ex-ministros
Simone Tebet e Márcio França.
A disputa para o Senado em 2026 pode se tornar uma armadilha
para os grupos que não se coordenarem, e essa armadilha tende a ser mais
perigosa para a oposição, que na maioria dos estados parte em desvantagem na
corrida pelo governo.
São escassos os estudos da ciência política dedicados à
competição pelo Senado. Diante dessa lacuna, convidei Miguel Lian e Cedric
Antunes, meus colegas do FGV Cepesp, para analisarmos os padrões de resultados
dessa disputa entre 1998 e 2022. Os resultados mostram que candidatos lançados
pela coligação do governador vencedor têm uma vantagem expressiva: sua
probabilidade de eleição é cerca de 53 pontos percentuais maior do que a de
candidatos que concorrem fora desse campo. Nos anos em que há duas vagas em disputa,
a coligação do governador elege ao menos um senador em metade dos casos e
conquista as duas cadeiras em 29% das eleições.
À luz desses resultados, em estados como São Paulo,
onde o governador que disputa a reeleição larga em posição muito favorável, a
eleição para o Senado pode funcionar como uma disputa por apenas uma vaga
efetivamente aberta. Uma das cadeiras tende a gravitar em torno da coligação do
governador. A outra dependerá tanto das estratégias de campanha quanto da
capacidade de coordenação interna entre os grupos políticos.
A lógica da disputa para o Senado não premia a diversidade
de candidaturas. Premia a concentração de votos. O desafio é não permitir que
os votos dos eleitores se diluam entre muitos nomes de um mesmo grupo político.
A escolha deve ser entre coordenar-se, reduzir o número de
candidaturas e somar forças, ou dividir os votos e entregar a cadeira aos seus
adversários.
EFEITOS NÃO ANTECIPADOS DA CORRUPÇÃO
No caso do Banco Master não há efeitos mitigadores do
impacto dos malfeitos
No caso do escândalo do Supremo, é a defesa da democracia
que tem sido mobilizada
Nada mais atual do que a afirmação do senador Jaques Wagner
ao comentar a estratégia de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014: "Estamos em campanha e
tenta-se fazer palanque sobre um tema rejeitado pela população, que é a corrupção...
Ninguém ganha eleição dizendo ‘sou honesto’. Até porque ninguém acredita".
Wagner errou em seu diagnóstico de que esse
tema era "rejeitado pela população", mas acertou quando apontou para
a questão da credibilidade de declarações sobre honestidade. Na atual
conjuntura, a percepção de um "mar de lama" faz com que ninguém acredite
que políticos sejam honestos. Que ministros do Supremo sejam honestos. Ou que
diretores do INSS ou Banco Central sejam honestos.
Quando a corrupção é avassaladora, seus efeitos sobre os
incentivos são sistêmicos. Como já analisei na coluna, a corrupção gera corrupção. À primeira vista, pode sugerir
que ela dê lugar a um cinismo cívico generalizado, e que os cidadãos perdem a
capacidade de se indignar. O efeito médio para os eleitores pode ser o de indiferença.
Mas a corrupção não é categoria homogênea.
A evidência acumulada na ciência política mostra exatamente
o contrário: as pessoas distinguem entre tipos de corrupção. Marco Klasjna,
Noam Lupu e Joshua Tucker em trabalho sobre comparativo experimental no
Uruguai, Argentina e Chile, como parte do Lapop (Latin American Public Opinion
Project), concluíram que a informação sobre a extensão da corrupção não afeta a
punição de certos tipos de ilicitudes.
Isto é consistente com a forte rejeição em abstrato à
corrupção, mas o pouco impacto efetivo em situações concretas (Boas, Hidalgo e Melo). Casos de enriquecimento pessoal
geram forte reprovação moral e tendem a produzir punição eleitoral. Já formas
de corrupção associadas à provisão de bens públicos —obras, programas sociais,
transferências— são julgadas de forma ambígua. Nesses casos, as pessoas operam
com trade-offs: ponderam corrupção contra desempenho, entrega de políticas,
alinhamento partidário e lealdade identitária. São conhecidos os padrões
"rouba mas faz" ou "rouba mas distribui", que cada vez mais
têm sido substituídos pelo "rouba mas é da minha tribo".
No caso do escândalo do Supremo, é a defesa da democracia
que tem sido mobilizada. Mas isso tem tido retornos claramente decrescentes.
Aqui o aspecto crítico é a reversão de expectativas: ilícitos cometidos onde
menos se suspeitava. Mas o julgamento moral dos envolvidos em corrupção no caso
Master e no INSS não tem trade-off envolvido e, por isso, assume assim alta
voltagem. E contrastam com a corrupção exposta em muitos casos de emendas ao
orçamento, em que os efeitos são mitigados pela provisão de bens públicos.
A reação do Supremo ao indiciamento de seus membros na CPI do Crime Organizado alimenta a espiral de
indignação e o sentimento público de "mar de lama". O relatório
hiperbólico apresentado pelo relator é reflexo das interferências brutais do
próprio tribunal, do governo e da base parlamentar aos seus trabalhos. O relatório
foi acusado de ser "eleitoreiro" —"de fazer palanque"
(Wagner)— justamente porque incidirá nas urnas com alta voltagem. O "corte de orelhas" sobre o qual falei na
coluna pode sair pela culatra.
*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e
ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)
A SEMENTE DO PRÓXIMO FIDEL
Trump corre o risco de plantar as sementes do próximo
Fidel Castro
Estratégias de imposição externa frequentemente alimentam
nacionalismo e reduzem a influência no longo prazo
Tudo indica que Donald Trump buscará replicar em Cuba uma
estratégia semelhante à que usou na Venezuela: quer transformar a ilha
socialista em um país alinhado e submisso aos EUA, sem necessariamente alterar
outros elementos centrais do sistema político. Isso pode envolver substituir o
atual presidente, Miguel Diaz-Canel, por alternativa mais maleável.
Nos bastidores em Washington, fala-se que Trump está
buscando uma espécie de “Delcy cubana”, em referência à líder venezuelana cuja
permanência no poder depende, em grande medida, do apoio de Washington.
Demandas de Trump incluem compensar cidadãos e empresas dos EUA por
propriedades confiscadas após a revolução de 1959.
Independentemente de exigências
específicas, porém, o plano mais amplo para Cuba é claro: tornar o país em um
Estado cliente dos EUA – um país formalmente soberano, ma dependente na
prática.
À primeira vista, isso representaria uma vitória estratégica
para Washington. Afinal, significaria ampliar a influência americana no Caribe,
reduzir o espaço de atuação de adversários como China e Rússia e reforçar a
capacidade dos EUA de moldar os rumos políticos e econômicos da região –
objetivo declarado na Estratégia de Segurança Nacional apresentada pelos EUA no
fim do ano passado. Em um contexto de competição geopolítica crescente,
sobretudo entre grandes potências, a tentação de garantir zonas de influência
mais previsíveis é comum.
DEPENDÊNCIA. Há, porém, um problema estrutural nessa lógica.
Governos que dependem de uma potência externa quase sempre enfrentam um déficit
de legitimidade interna. Para muitos cidadãos, passam a ser vistos –
frequentemente de forma justificada – como submissos a interesses estrangeiros.
Esse tipo de percepção cria um ambiente político volátil, no qual a
estabilidade depende menos de apoio popular e mais de sustentação externa.
A história de Cuba mostra que esse tipo de arranjo abre
espaço para o surgimento de líderes com forte discurso nacionalista e
antiamericano. São políticos que se apresentam como defensores da soberania,
prometendo romper com a dependência externa, restaurar o orgulho nacional e
“devolver o controle ao povo” – uma narrativa que encontra terreno fértil em
sociedades onde a presença estrangeira é percebida como intrusiva ou
humilhante.
Vale lembrar que, em 1959, Fidel Castro chegou ao poder após
uma revolução alimentada pelo ressentimento contra a forte influência dos EUA
nas décadas anteriores. A proximidade entre elites cubanas e interesses
americanos, somada à percepção de desigualdade e perda de autonomia, ajudaram a
criar as condições que tornaram a revolução possível. O nacionalismo, nesse
contexto, emergiu como uma força mobilizadora poderosa.
Esse ressentimento tem raízes na fundação do Estado cubano.
Quando Cuba se libertou do domínio espanhol, em 1898, após a Guerra
Hispano-Americana, o preço da intervenção militar americana que selou o
desfecho foi alto: a Emenda Platt, incorporada à constituição cubana de 1901,
sob pressão de Washington, concedia aos EUA o direito de intervir na ilha e
estabelecer bases militares, como Guantánamo.
RISCO. Cuba nasceu, portanto, formalmente independente, mas
estruturalmente subordinada – e essa submissão plantou sementes de
ressentimento que continuaram a germinar ao longo do século 20. Ou seja: uma
estratégia pensada para aumentar o controle pode, no longo prazo, produzir o
oposto. Ao tentar moldar o sistema político cubano de fora para dentro,
Washington corre o risco de reacender dinâmicas históricas que já demonstraram
sua capacidade de criar resistência.
Mesmo que uma liderança mais alinhada aos EUA consiga se
consolidar no curto prazo e melhorar a situação econômica, sua sobrevivência
dependerá de apoio externo, o que reforça o ciclo de fragilidade interna.
Qualquer crise poderá ser reinterpretada como consequência da submissão a
interesses estrangeiros, alimentando novas ondas de contestação.
Se esse for o caminho escolhido por Trump, há um risco real
de que ele esteja apenas adicionando mais um capítulo a um padrão histórico
recorrente: períodos de forte influência americana seguidos por reações
nacionalistas intensas.
*Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy
School, e professor de relações internacionais da FGV-SP
DISSONÂNCIA COGNITIVA
Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que
procura conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo
fazem para impor a sua narrativa
O mundo tal como existia a partir da 2 . ª Guerra Mundial
desmoronou. Vivemos hoje a sua derrocada progressiva, com o enfraquecimento e o
desaparecimento daí resultantes de suas instituições. Os horrores da 2.ª Guerra
deram lugar, naquele então, a tratados internacionais que respondiam aos
interesses das potências vencedoras. Note-se, todavia, que a paz tinha um
significado restrito, válido para a Europa Ocidental, não se aplicando ao Leste
Europeu. Enquanto a guerra desaparecia desse território limitado, outrora
considerado o centro do mundo, ela proliferava pelo mundo afora. Exemplos são
inúmeros nas invasões de Hungria, República Checa e Afeganistão, no Vietnã, na
Argélia, no Iraque e várias no Oriente Médio, além das africanas. Tudo
sustentado no equilíbrio militar nuclear.
No entanto, estamos vivendo uma espécie de
nostalgia, a de um mundo idílico perdido, como se a história tivesse perdido um
eixo que nunca o teve. Façamos uma analogia. Stefan Zweig, em sua época, viveu
tragicamente a sua nova realidade quando viu se esfacelar o seu mundo. Em 1941,
quando escreve seu livro O mundo de ontem, relata como a bolha em que vivia
explode, visto que tudo apostava num progresso incessante da humanidade em
função de valores mais altos, ancorados em sua experiência própria na cultura europeia,
mormente alemã e austríaca. Era o mundo das belles lettres, da poesia, da
música e da literatura.
Tem desse mundo uma profunda nostalgia, vendo-se desarmado
intelectualmente diante de sua nova realidade. Em sua correspondência com
Einstein, Freud, em sua perplexidade, foi levado a pensar o significado da
guerra, enquanto Zweig ficou preso à sua própria reminiscência, isolado e
perdido. Não lhe passava pela cabeça que o mundo hobbesiano da guerra de todos
contra todos poderia comparecer novamente, sendo considerado algo que tinha
sido superado definitivamente. Qual não foi seu espanto quando a figura bíblica
de Behemoth, monstro da morte e da destruição, bateu à sua porta. O mundo que
se autodestruía o levou ao seu próprio suicídio, em 1942, em Petrópolis, no Rio
de Janeiro.
A ausência de novas categorias capazes de dar conta deste
novo fenômeno da guerra, aliada ao intenso uso de mídias sociais e sites
jornalísticos mundo afora pela esquerda e pela rede islamista, faz com que, na
guerra dos EUA e Israel contra o Irã, fatos desapareçam diante de narrativas
mistificadoras. Vitoriosos são apresentados como derrotados e os derrotados
como vitoriosos. Atente-se à necessária distinção entre uma perspectiva militar
e uma política, sendo essa última a mais propícia para tergiversações
ideológicas e religiosas. Os objetivos militares israelenses e americanos são
basicamente os mesmos, embora o seu enfoque político tenha ênfases diferentes.
Militarmente, os objetivos da guerra já foram alcançados.
Eliminação das lideranças religiosas e militares, obliteração dos sites
nucleares, ficando ainda pendente o urânio enriquecido que jaz sob escombros, a
destruição de mais de 80% dos lançadores de mísseis balísticos, assim como de
seus estoques e fábricas, a marinha iraniana descansando no fundo do mar, a
aniquilação das defesas antiaéreas e o aniquilamento da Força Aérea. Seus
satélites como Hamas, Jihad Islâmica e Hezbollah foram severamente atingidos. O
Irã tornou-se uma pálida figura do que foi. Acrescente-se ainda uma economia
declinante, inflação galopante e perda de valor da moeda. Como se pode, sob
essas condições, clamar por vitória? Politicamente, porém, colocar como
objetivo a mudança de regime é algo que se situa para além da força militar,
por depender fundamentalmente de uma sublevação do povo iraniano, tarefa
essencial sua.
Contudo, certa cobertura jornalística e de comunicação em
geral está produzindo uma forma de dissonância cognitiva ao obedecer a
orientações ideológicas. Com efeito, tem-se frequentemente a impressão de que o
Irã é o vencedor dessa guerra, enquanto os EUA e Israel são os grandes
derrotados. Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que procura
conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo fazem
para impor a sua narrativa. A batalha, para eles, desenrola-se principalmente
nos meios de comunicação, jornalísticos e nas redes sociais. Chega-se,
inclusive, hoje a um aparente paradoxo. Ao se ler sites jornalísticos nos
Emirados Árabes, no Kuwait, no Bahrein e na Arábia Saudita, tem-se uma visão
muitas vezes mais veraz do que em relatos que seguem a narrativa esquerdista
mundial. Jornalistas árabes indagam-se, perplexos, como se pode ainda falar de
uma vitória do Hamas e da teocracia iraniana, quando estão aos frangalhos,
contentando-se com o que se pode denominar de uma vitimização de Tânatos,
figura da morte, por eles mesmos produzida. Bastaria fazer uma leitura de
fatos, em vez de uma adesão irracional a concepções mistificadoras.
Zweig sucumbe à nova realidade, a mistificação dos fatos
ignora essa mesma realidade.
*Professor de Filosofia na UFRGS
ÉTICA PÚBLICA: UM IMPERATIVO CONSTITUCIONAL
Implantar uma nova cultura ética significa romper com
práticas que naturalizam privilégios e confundem o público com o privado
Comportamentos que, na iniciativa privada, levariam à
demissão imediata por justa causa tornaram-se corriqueiros em setores da
administração pública, inclusive em altas esferas do poder. Práticas
incompatíveis com o interesse público passaram a ser tratadas como normais –
quando não justificáveis – corroendo a confiança nas instituições e esvaziando
o sentido constitucional da ética na gestão do Estado.
“É preciso saber aproveitar as oportunidades”, ouvi certa
vez, horrorizado. Traduzindo: mesmo sem roubar, sem incorrer em peculato, a
posição de poder – por menor que seja – autorizaria o uso de meios pouco
ortodoxos para benefício próprio. Nessa interpretação “generosa”, a passagem
pelo poder geraria quase um direito à vantagem. Só os tolos, muito tolos, não o
fariam.
A perigosa distância que separa as regras
do Direito da prática político-administrativa sempre foi motivo de preocupação
no Brasil. Com a Constituição de 1988, buscou-se reduzir esse abismo ao
submeter a administração pública direta e indireta aos princípios da
legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (art. 37).
A noção de interesse público como elemento essencial do
serviço público e a obrigação de desinteresse do agente estatal são
tradicionais na doutrina. Já em 1969, Laubadère ensinava que é vedado ao
funcionário ter, numa empresa que tenha relação com o seu serviço, interesses
capazes de comprometer sua independência. A Constituição de 1988 foi além:
incorporou a moralidade ao núcleo do regime jurídico-administrativo, consagrada
assim c o mo parâmetro de validade dos atos do poder público.
As regras são claras, mas – como observa a ministra Cármen
Lúcia – o que importa é o nível de aplicação e acatamento das normas. Daí a
importância dos sistemas de ética pública, com códigos de conduta e instâncias
de orientação, controle e responsabilização.
Alguns insistem na desnecessidade desses códigos. Embora as
noções do que é certo e do que é errado integrem a consciência e a
inteligência da maioria, na prática do poder surgem controvérsias que, às
vezes, parecem agredir o senso comum. O evidente mal-estar da sociedade diante
da conduta ética de agentes públicos e de agentes econômicos privados já vinha
sendo apontado há tempos por João Geraldo Piquet Carneiro, que presidiu a
Comissão de Ética Pública do governo federal.
Vários autores enfrentaram com acuidade o problema. A
legislação brasileira sobre ética pública é bem inspirada, pouco lembrada e
escassamente implementada, diagnosticou o ministro Marcílio Marques Moreira,
ex-presidente daquela comissão. Vivemos um tempo “dividido entre a esperança e
o dissabor”, para a professora Marília Muricy, cujo mandato na Comissão de
Ética Pública da presidência não foi renovado em 2012, o que levou à demissão
do então presidente, ministro Sepúlveda Pertence.
Mesmo os defensores mais aguerridos da ética pública
reconhecem as dificuldades. Um dos grandes desafios é tornar aceitável, numa
sociedade personalista e hierárquica, a ideia de que todos – inclusive e
sobretudo os agentes do Estado – estejam submetidos aos mesmos princípios e
tratados como qualquer cidadão, em situações de conflito de interesses, na
análise do antropólogo Roberto DaMatta.
No plano federal, a Constituição de 1988 deu origem a
iniciativas importantes, como o Código de Ética Profissional do Servidor
Público (1994) e a criação da Comissão de Ética Pública (1999). Normas
complementares disciplinaram temas sensíveis como a publicidade da agenda de
autoridades e o registro das audiências, presentes e brindes, seminários,
eventos e sua remuneração. Também há regras sobre viagens, pagamento de
transporte e hospedagem, quarentena ao deixar o posto, movimentação
patrimonial. E o nepotismo, que o Houaiss define como “favoritismo para com
parentes, especialmente pelo poder público”.
A Lei de Acesso à Informação, de 2011, reforçou a
transparência como condição do controle da legalidade e da moralidade
administrativa. O Código de Ética da Magistratura, de 2008, buscou fortalecer a
confiança da sociedade na autoridade moral dos juízes. O foco era reafirmar
compromisso com a excelência da prestação de serviço e realçar a função
educativa e exemplar de cidadania da magistratura. Cuida, por exemplo, de
independência, imparcialidade, transparência, integridade, dedicação, cortesia,
prudência e sigilo profissional.
Há hoje um clamor legítimo por transparência e moralidade em
todos os níveis da administração pública. Implantar uma nova cultura ética
significa romper com práticas que naturalizam privilégios e confundem o público
com o privado. A eficácia dos sistemas de ética pública é condição
indispensável para restaurar a confiança na democracia e na República. Talvez
tenha chegado a hora de a ética, com ou sem código, deixar o papel e passar a
funcionar de verdade em todas as esferas do poder.
*Advogado e escritor, foi Secretário da Justiça e da
Segurança Pública do Estado de São Paulo
LULA E O NEOLIBERALISMO
Lula ressuscita espantalho do neoliberalismo e revela
inveja do bolsonarismo
Em discurso na Espanha, presidente fez uma espécie de
autocrítica da esquerda global em uma tentativa de encontrar explicações para a
ascensão da direita antidemocrática
Há muito tempo a palavra “neoliberalismo” deixou de ser um
conceito do campo econômico para se tornar um “palavrão intelectual”, como
observou Rajesh Venugopal, professor da London School of Economics, no Reino
Unido. Em artigo publicado em 2015, ele analisou o uso do termo, demonstrando
como passou a servir a generalizações teóricas e à descrição de fenômenos sem
conexão entre si. De uma delimitação do papel do Estado como regulador da
atividade econômica, transformou-se em definição de atitudes políticas autoritárias,
ou de imperialismo, ou de uma nova forma de exploração dos pobres pelos ricos,
ou até mesmo de massificação de produtos culturais.
O presidente Lula e o PT sempre tiveram a
palavra “neoliberalismo” na ponta da língua quando precisavam de um bode
expiatório para um problema qualquer. O recurso se desgastou, mas não foi
abandonado. Em discurso realizado no último sábado, em Barcelona, na Espanha,
Lula fez uma espécie de autocrítica da esquerda global, uma tentativa de
encontrar explicações para a ascensão da direita antidemocrática em diversos
países do mundo, inclusive o Brasil. E a explicação que Lula encontrou é que a
esquerda se rendeu ao neoliberalismo. Pois é.
Segundo o presidente, “o progressismo não conseguiu superar
o pensamento econômico dominante” e seus representantes se tornaram “gerentes
das mazelas do neoliberalismo”.
“Governos de esquerda”, disse Lula, “ganham as eleições com
discurso de esquerda e praticam a austeridade”. E, de acordo com ele, “abrem
mão de políticas públicas em nome da governabilidade”.
São afirmações curiosas quando se relembra a campanha presidencial de 2022, que resultou na vitória de Lula para um terceiro mandato. O petista não foi eleito por seu “discurso de esquerda” ou por apresentar um sólido programa de governo progressista, mas por ter sido o candidato mais apto a capitalizar a rejeição ao seu oponente, o então presidente Jair Bolsonaro. E mais: na apertada disputa de segundo turno, Lula contou com o que chamava de “frente ampla” com forças de centro. Seu vice, Geraldo Alckmin, é um ex-tucano e ex-adversário de urna.
A julgar pelas palavras de Lula em Barcelona, tudo isso foi um erro. “Sucumbimos à ortodoxia”, disse ele. “Nós nos tornamos o sistema. Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.” A frase transparece uma ponta de inveja do bolsonarismo. Para o PT, o discurso antissistema nunca funcionou para chegar ao Palácio do Planalto.
POR QUE LULA DEVE RENUNCIAR À CANDIDATURA
É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso
eleito, não buscar outro mandato
Lula deve renunciar à intenção de ser candidato. Pelo bem do
Brasil e de sua biografia. É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso
eleito, não buscar outro mandato — seria o quarto. Foi quase uma troca: votem
em mim pela última vez. Quem jamais o engoliu, a ele e ao PT, aceitou
a permuta. Os eleitores independentes o ajudaram a despachar Jair
Bolsonaro. Se, em 2018, a quantidade de votos brancos e nulos foi o
equivalente a 8,8% do eleitorado no primeiro turno, em 2022, ano do escambo,
mal chegou aos 4,4%, algo como 5,4 milhões de votos. Mas a abstenção superou os
20%. Lula ganhou com a diferença de míseros 2,1 milhões de votos — diferença
perto de 1%. E prometeu em sua primeira manifestação:
— A partir de 1° de janeiro de 2023, vou
governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e não para só aqueles
que votaram em mim — afirmou.
No passo seguinte, esqueceu suas palavras mandando às favas
a frente democrática que o levara à vitória. O povo não esquece. Ao longo do
mandato Lula 3, ele jamais gozou de aprovação muito otimista; na pesquisa
Quaest da semana passada, 52% dos brasileiros torciam o nariz para sua gestão.
Mesmo criando uma bolsa a cada crise de popularidade, o
truque não funcionou. Não à toa, Flávio
Bolsonaro está numericamente à frente dele no segundo turno. O
problema é o desgaste do modelo de gestão. O retrato de sua incompreensão ao
novo Brasil ficou demonstrado dias atrás na manifestação de motoboys e
motoristas por aplicativos contrários às propostas de regulamentação da
categoria. Alguns milhares de trabalhadores pararam ruas paulistanas em
protesto ao modo como o governo pretende editar legislação específica.
E não é de agora. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho,
ameaça a categoria desde o início do governo com uma legislação considerada
obsoleta — chegou a falar em sindicalização dos trabalhadores. Marinho opera na
mentalidade getulista (estrutura herdada de Mussolini) de aparelhamento de
setores da sociedade. Na gênese do PT, está o movimento sindical da década de
1970.
Os constantes e minguados índices de aprovação ao governo —
hoje em 43% — significam fastio da população com Lula e seu jeito de governar,
que embute um recado a quem deixou o segundo mandato com cerca de 80% de
ótimo/bom: o apoio se limitava à eleição de 2022 diante da ameaça de golpe
representada por Bolsonaro. Os números podem ser lidos ainda como lembrança à
promessa de um governo de frente ampla, que ficou na saudade, e à falta de
êxitos na administração. Em dois exemplos: as fraudes milionárias no INSS sobre
os aposentados e pensionistas e a fila no mesmo INSS (em março eram 2,8 milhões
de brasileiros à espera de atendimento).
Caso renuncie, Lula já tem lugar na História brasileira. Foi
o único a vencer três eleições nas urnas. Conseguiu eleger e reeleger Dilma
Rousseff, embora carregue com ela uma das piores recessões econômicas do
Brasil democrático (a da pandemia, sob Bolsonaro, foi excepcional). Teve
ousadia em aprofundar a ideia tucana de bolsas sociais, mesmo que construídas
sob iluminação populista e não estrutural, como desenharam anteriormente Vilmar
Faria e Dona Ruth Cardoso nos anos de FH. Seus dois primeiros mandatos se
beneficiaram de ventos favoráveis trazidos pelas commodities. E, no atual
governo, exibe números positivos na queda do desemprego e na inflação
(obrigado, Galípolo), apesar do escandaloso aumento da carga tributária — até o
momento em que escrevo, de 32,4%. Renunciando agora, Lula deixa o Brasil com o
maior volume de impostos da América Latina. PT!
Com sua afamada biografia — sempre saudada pelo próprio —,
Lula deveria retribuir ao país os ganhos obtidos em sua trajetória. Não pode
ser ingrato com o povo que o elegeu por três mandatos. Erros seus e de seu
partido, em mais de 14 anos no poder, resultaram na vitória de Bolsonaro em
2018 e no surgimento de uma direita radical e raivosa. Seu compromisso deveria
ser não entregar o Brasil novamente à conflituosa família Bolsonaro. Em seu
partido existem nomes capazes de lhe suceder. São pessoas jovens e mais
modernas, não tão afeitas ao ideário petista de desenvolvimento, obsoleto como
o fio do telefone.
Mantendo-se aferrado à disputa, ele deveria ter em mente o
que ocorreu com o grande Winston Churchill. Depois de comandar o Reino Unido na
vitória contra os nazistas, viu-se mandado para casa na primeira eleição depois
do final da Segunda Guerra. Os britânicos reconheciam seu valor, mas queriam
renovação após tantos anos.
IMPOSTOS AUMENTAM PARA TODOS
A carga tributária no Brasil tem subido porque o governo
a cada ano gasta mais do que arrecada
O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, é
contra a taxa das blusinhas. O vice-presidente Geraldo Alckmin é a favor. O
chefe deles, o presidente Lula, meio que tirou o corpo fora dessa disputa
dentro de seu governo, mas deu a entender que pode engrossar o grupo dos que
propõem a extinção desse imposto.
Ocorre que, politicamente, a taxa gerou desgaste para o
governo petista. Do ponto de vista da política econômica, a medida faz sentido.
Taxa das blusinhas é o nome genérico que se deu ao imposto federal de
importação de 20%, aplicado sobre compras eletrônicas em sites internacionais,
especialmente nos chineses. Ela foi aplicada a partir de agosto de 2024. E se
somou ao ICMS de 17%, cobrado pelos estados desde julho de 2023. Na conta
final, o imposto total foi para cerca 40%.
Antes disso, compras de até US$ 50 (o
equivalente a R$ 250 de hoje) eram totalmente isentas — e se tornaram um
sucesso, sobretudo entre as camadas de baixa renda. O apelido blusinhas pegou
porque a maior parte das compras era de roupas e calçados. Mas havia mais:
eletrônicos, artigos de casa, materiais de construção e produtos para pets.
O imposto estadual passou sem grande alarde, talvez porque
fosse de difícil cobrança. O que acabou com a farra foi a lei federal 14.902,
de 2024, a partir da qual o Ministério da Fazenda criou o programa de Remessa
Conforme. Os impostos passaram a ser recolhidos diretamente, no Brasil, pelos
sites vendedores. Lula assinou a lei sem vetos, apesar dos protestos intensos
em redes sociais. O então ministro Fernando Haddad defendeu a regra como parte
da política econômica para favorecer a indústria nacional.
Além disso, havia uma receitinha extra que um governo
gastador não pode dispensar. No ano passado, a taxa das blusinhas rendeu R$ 5
bilhões ao governo federal. E outro tanto aos governos estaduais.
Nas redes sociais, o governo Lula perdeu a parada. A taxa
das blusinhas é malhada até hoje — é o governo arrecadando imposto dos mais
pobres. Por isso integrantes do governo passaram a considerar sua extinção, num
programa de bondades eleitorais.
Lula, em entrevista recente, comentou que sempre achou a
taxa “desnecessária” — mas não a vetou quando podia. Também comentou que os
danos para o governo foram expressivos.
Nesse quadro, indústria e comércio nacionais reagiram. Um
manifesto produzido pela Associação Brasileira do Varejo Têxtil, assinado por
70 entidades empresariais, sustenta que a taxa equilibrou o mercado, com
vantagens para os setores locais. O manifesto afirma que indústria e comércio
tiveram um desempenho bem melhor depois da aplicação dos impostos. Na verdade,
atribui a isso o bom crescimento dos setores nos últimos dois anos — é exagero,
pois a expansão do PIB decorreu de vários outros fatores.
De todo modo, as associações empresariais têm um ponto.
Indústria e comércio locais afirmam recolher impostos que podem chegar a 90% —
para os têxteis. A equipe econômica aceita esses argumentos. Tanto que, ainda
em fevereiro passado, elevou impostos sobre a importação de 1.252 produtos de
tecnologia (máquinas, equipamentos industriais e itens eletrônicos, incluindo,
por exemplo, celulares). Depois, diante de protestos, tirou alguns produtos da
lista, mas foi mantido o plano de conter as importações de tecnologia, para
favorecer a produção nacional.
Ocorre que a indústria nacional não tem capacidade de
atender toda a demanda nesse setor, de modo que os efeitos práticos são
produtos mais caros e, claro, maior arrecadação. A carga tributária no Brasil
tem subido porque o governo a cada ano gasta mais do que arrecada. Se não fosse
assim, poderia, em vez de aumentar o imposto do importado, reduzir o local. Mas
isso nem sequer é cogitado.
O governo pode, afinal, eliminar a taxa das blusinhas por
motivos eleitorais. A arrecadação não é muita, e a Fazenda sempre arranja onde
recolher.






.png)











