sexta-feira, 26 de junho de 2026

GILBERTO GIL: 84 ANOS DO MESTRE DA TROPICÁLIA

Estevam Silva, Pensar a História, Opera Mundi

Artista brasileiro que ocupou cargo como ministro da Cultura do Brasil, teve sua história profundamente marcada pela resistência à ditadura militar

Há 84 anos, em 26 de junho de 1942, nascia o cantor, compositor e instrumentista Gilberto Gil.

Referência basilar da música brasileira, Gil é autor de uma obra vasta e diversificada, caracterizada pela síntese bem sucedida entre as tradições nacionais, a cultura nordestina e a linguagem do pop internacional, bem como pelo engajamento nas questões sociais, políticas e estéticas do Brasil.

Gil possui mais de cinquenta álbuns lançados e coleciona múltiplas honrarias e condecorações — incluindo os títulos de Artista da Paz da UNESCO e de “imortal” da Academia Brasileira de Letras.

Os primeiros anos

Gilberto Gil nasceu em Salvador, filho da professora Claudina Passos e do médico José Gil Moreira. Passou a infância com a família na cidade de Ituaçu, interior da Bahia, manifestando desde cedo o interesse pela música regional, sobretudo pelo baião e pela obra de Luiz Gonzaga. Retornou posteriormente a Salvador, onde concluiu o ensino básico no Colégio Nossa Senhora da Vitória e estudou acordeão.

Em 1960, Gil Ingressou no curso de administração na Universidade da Bahia. Em paralelo, deu início a sua carreira artística como integrante do conjunto instrumental Os Desafinados. Sob influência da bossa nova e de João Gilberto, substituiu o acordeão pelo violão e passou a compor jingles e a fazer participações nos programas da televisão local.

Em 1963, fez amizade com Caetano Veloso, Maria Bethânia e Gal Gosta, que se tornariam seus parceiros no show “Nós, Por Exemplo…”, apresentado na inauguração do Teatro Vila Velha, em Salvador.

Já graduado, Gil se mudou para São Paulo, onde assumiu um cargo na indústria Gessy Lever. Suas canções, entretanto, fizeram grande sucesso ao serem interpretadas por Elis Regina no programa O Fino da Bossa, exibido pela TV Record, granjeando-lhe um convite da Philips Records para lançar um álbum. Abandonou então o emprego para dedicar-se exclusivamente à música, mudando-se para o Rio de Janeiro.

Tropicalismo, os festivais e o exílio na ditadura

Em maio de 1967, Gil lançou seu primeiro álbum, intitulado Louvação. Nesse mesmo ano, participou de um protesto organizado pela Frente Única da MPB contra o uso da guitarra elétrica nas composições nacionais, mas logo rompeu com o movimento, passando a questionar o discurso da “pureza” da cultura popular.

Data desse período a adesão de Gil ao Tropicalismo — movimento inspirado pelo Manifesto Antropófago de Oswald de Andrade, que preconizava a adaptação das linguagens estrangeiras à realidade nacional, fundindo gêneros como o baião e a música folclórica com elementos do pop e do rock.

O movimento tropicalista se consolidaria durante os grandes festivais. No 3º Festival da Música Popular Brasileira, organizado pela TV Record, Gil conquistou o segundo lugar com a inovadora canção Domingo no Parque, que fundia o toque do berimbau à sonoridade das guitarras elétricas e aliava elementos folclóricos à cadência cinematográfica da composição.

Gil também participou da gravação do álbum Tropicalia ou Panis et Circencis, ao lado de Caetano, Gal Costa, Nara Leão, Tom Zé e da banda Os Mutantes. O álbum assentaria os princípios do Tropicalismo e teria enorme influência sobre a música brasileira ulterior.

Em 1968, Gil tomou parte da Passeata dos Cem Mil, somando-se aos críticos do regime militar. Em função do recrudescimento da perseguição política, o cantor foi preso pela ditadura, passando dois meses na cadeia. Após sua libertação, exilou-se em Londres, despedindo-se do Brasil com o samba Aquele Abraço. Permaneceu exilado até 1972, iniciando um período eclético, marcado pela aproximação com a cultura pop e pela influência de nomes como Beatles e Jimi Hendrix.

O retorno ao Brasil

Após voltar para o Brasil, Gil lançou o álbum Expresso 2222, com canções abordando o esoterismo, a saudade e a melancolia (Back in Bahia, O Sonho Acabou, Oriente). Em 1973, compôs a canção de protesto “Cálice”, em parceria com Chico Buarque, que seria censurada pela ditadura.

Em 1975, Gil lançou dois novos álbuns — Gil & Jorge: Ogum, Xangô, junto com Jorge Ben, e Refazenda. No ano seguinte, gravou Doces Bárbaros, ao lado de Caetano, Gal Costa e Maria Bethânia.

A partir de então, o artista renovou seu interesse pela musicalidade afro, sobretudo após participar do Festival Mundial da Arte Negra na Nigéria. Em 1977, gravou Refavela e nos anos posteriores compôs diversas canções abordando a herança negra, os problemas sociais e o racismo no Brasil (Axé Babá, A Mão da Limpeza, Oração pela Libertação da África do Sul, etc.).

Gil também buscou inspiração no reggae, compondo uma versão em português para No Woman, No Cry (“Não Chores Mais”), que se tornaria uma espécie de hino não oficial do movimento pela anistia política. O reggae também serviria de influência a outros clássicos do período, tais como Vamos Fugir e A Novidade, além do álbum Kaya N’Gan Daya, em homenagem a Bob Marley.

Dos anos 80 aos dias de hoje

Na década de 1980, a obra de Gil seria marcada pelo influxo crescente do pop (perceptível nos álbuns Um Banda UmRaça Humana e Dia Dorim Noite Neon), da música disco (Realce) e do rock nacional (Pessoa Nefasta).

Na década seguinte, o avanço da globalização e a revolução digital seriam um temas recorrentes (Parabolicamará, Pela Internet). Gil foi um dos músicos pioneiros na adaptação de sua obra ao mundo virtual, tendo sido o primeiro grande artista brasileiro a inaugurar um canal no YouTube e aderir ao licenciamento alternativo (Copyleft, Software Livre, Creative Commons).

Gil também ampliou sua participação na política institucional, exercendo o cargo de presidente da Fundação Gregório de Matos e sendo eleito vereador pela cidade de Salvador. Entre 2003 e 2008, durante o governo Lula, o cantor exerceu o cargo de Ministro da Cultura. Sua gestão se destacou pela implementação dos chamados “Pontos de Cultura” e pelo fomento à produção audiovisual.

Ainda como ministro, Gil foi nomeado Artista da Paz” e Embaixador das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura e foi condecorado com a comenda da Legião de Honra da França. Em novembro de 2021, o músico foi eleito para ocupar a cadeira de número 20 da Academia Brasileira de Letras (ABL).

Suas obras mais recentes sugerem um retorno às origens, com a valorização dos elementos da música nordestina e da arte de Luiz Gonzaga e Jackson do Pandeiro, destacando-se a composição de xotes e baiões (trilha sonora de Eu, Tu, Eles e os álbuns Banda Larga Cordel e Fé na Festa).

Bookmark and Share

VÍDEO DE MICHELLE CONFORMA DNA BOLSONARISTA

Vera Magalhães, O Globo

Ao criticar enteado pré-candidato a presidente, ex-primeira-dama atesta maneira subalterna como clã enxerga as mulheres

O longo vídeo de Michelle Bolsonaro é um dos mais eloquentes testemunhos de alguém literalmente de dentro a respeito de algumas das principais características que estão no DNA do bolsonarismo: o mandonismo do “capitão”, a franquia familiar como objetivo político maior e o completo desprezo às mulheres como marca indelével.

Ela pode ter pretendido atingir Flávio Bolsonaro, mas, se levadas a sério, suas palavras expõem a maneira como seu “galego” instrumentalizou a ela própria para atingir o eleitorado feminino, que sempre foi um ponto fraco para a chegada e a permanência de Jair no poder.

Mesmo fazendo uso da linguagem e da lógica caras ao feminismo quando lhe convém, Michelle, na verdade, aceita, legitima e reproduz a maneira subalterna como o clã enxerga a mulher: sempre a serviço do projeto e dos desígnios de um homem, que não pode nunca ser questionado.

Muito se especulou desde quarta-feira se ela pretenderia, com o longo texto — que pode parecer desabafo, mas foi meticulosamente calculado, pesado, testado e ensaiado —, disputar com o enteado o posto de candidata a presidente, mas o objetivo imediato parece ser mais localizado. A aposta num voo presidencial fica evidente, mas ela parece mirar antes 2030 que agora.

Os intentos de curtíssimo prazo são assegurar a candidatura de suas aliadas na direita, um espaço de atuação no PL, um pedido público de desculpas (que atende menos a um propósito de madrasta magoada e mais à necessidade de firmar posição pública) e a implosão do apoio a Ciro Gomes no Ceará. Dado o falatório que provocou, é possível que saia com o pacote completo.

Não parece provável que os potenciais eleitores de Flávio Bolsonaro migrem em massa do apoio a ele para qualquer outro candidato por causa da lavação de roupa suja em público de Michelle. Mas o vídeo tem o efeito de provocar urticária naquele eleitor que votou em Lula em 2022 a contragosto, entre outros motivos, pelas tretas permanentes da família e por sua capacidade infinita de gerar crises sem a necessidade de que a esquerda mova uma palha. Esse é um pedaço do eleitorado que as pesquisas classificam como independente, mas que define o voto antes pela lógica do que lhe provoca mais aversão, Lula ou a volta do bolsonarismo ao poder.

Ao confirmar padrões e estigmas que pesam para a rejeição ao clã, Michelle mirou em Flávio, mas acertou no legado do marido — e, portanto, em sua própria perspectiva de voo, solo ou dirigido pelo patriarca. Ao escolher um timing para lá de esquisito para lançar seu petardo, pouco antes do jogo do Brasil, ainda deu de lambuja para Lula um refresco ao maior constrangimento que o petista enfrentou em semanas. A decisão arrastada de afastar Jaques Wagner da liderança do governo no Senado depois das revelações complicadíssimas de suas ligações com o ecossistema do Master viraram nota de rodapé diante do bolsobarraco.

Por fim, um vídeo de 26 minutos em que o único assunto é a guerra intestina dentro da família, com a vitimização característica capaz de unir mesmo aqueles que não se toleram, apenas evidencia a completa e total ausência de um projeto de país na candidatura de Flávio. Ela nasceu como e segue como uma resposta de Jair a seu destino judicial.

A cada petardo que o atinge, sejam os milhões que pediu docilmente a Daniel Vorcaro ou o puxão de orelhas público da madrastra, Flávio perde estatura como postulante à Presidência. Resta evidente sua falta de recursos políticos, estratégicos, intelectuais e emocionais para lidar com adversidades.

Sua pré-candidatura vai ficando tão realista quanto os embaraçosos vídeos de inteligência artificial com que resolveu inaugurar o marketing de sua campanha. Não deixa de ser emblemático que, no dia em que lançou mais uma dessas peças, em que aparece como piloto indo “resgatar” o menino Neymar, um vídeo sem nenhum recurso de IA, feito na biblioteca da casa do pai, o tenha reduzido ao papel do menino que precisa ser resgatado. De novo.

Bookmark and Share

NA PRÁTICA A TEORIA COLAPSA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Ida de Gilmar Mendes ao Roda Viva mostra que lei não basta para produzir comportamento virtuoso

Prestígio do STF está se esvaindo e, se nada for feito, é questão de tempo até que venha um impeachment

A ala do STF contrária à criação de um código de ética para a corte tem razão ao afirmar que, em princípio, tal diploma não seria necessário, uma vez que regras de conduta para juízes já estão fixadas na Lei Orgânica da Magistratura, a Loman. A Loman, vale lembrar, é uma lei complementar, hierarquicamente superior a qualquer forma legal que um código de ética poderia assumir. Se a tese desse grupo de ministros é robusta na teoria, não é necessário mais do que rápida visita ao mundo real para constatar que, na prática, ela colapsa.

A Loman, em seu artigo 36, III, veda ao magistrado "manifestar, por qualquer meio de comunicação, opinião sobre processo pendente de julgamento, seu ou de outrem, ou juízo depreciativo sobre despachos, votos ou sentenças, de órgãos judiciais". Na última segunda (22/6), Gilmar Mendes, o expoente-mor da ala anticódigo do STF, foi ao programa Roda Viva, isto é, a um meio de comunicação, e deu repetidas declarações que violam todas as vedações do 36, III. Ao longo de 90 minutos, Mendes comentou casos que tramitam no STF, criticou colegas e atacou decisões por eles tomadas.

Não dá para dizer que Mendes aja irracionalmente. Embora a Loman valha para todos os magistrados e preveja sanções para quem a viole, no caso do STF, as punições são na prática inaplicáveis, já que a corte não se sujeita ao CNJ. Vale observar que não é só Mendes e não foi só agora. Há décadas ministros do STF ignoram o princípio segundo o qual o juiz só fala nos autos e vêm testando carreira alternativa como comentaristas políticos.

O problema é que as pessoas estão vendo. A percepção de que ministros do STF agem com motivação política, agravada pelas suspeitas de corrupção no caso Master, já fez o prestígio da corte escoar pelo ralo. Se o STF não fizer nada para salvar a própria imagem, o que passa pela adoção de um código de ética, é questão de tempo até que algo aconteça. Não prevejo uma revolução anti-STF, mas um impeachment de ministro me parece viável e até provável.

Bookmark and Share

CULTURA EM ALERTA

José Sarney*, Correio Braziliense

Como intelectual e escritor com mais de 120 títulos publicados, em 168 edições e 10 idiomas, alio-me à defesa dos direitos autorais e daqueles que os estão defendendo

Nunca na História tivemos um tempo de nuanças tão grande quanto neste tempo — não digo neste século, porque não sabemos quanto tempo vai durar.

É que, desde a grande explosão (o Big Bang), o Universo sofreu mudanças físicas que determinaram e continuam determinando a sua forma. Aqui na Terra, com a existência de vida, sempre tivemos, e vamos continuar tendo, transformações no corpo dos seres vivos, animais e plantas.

Pois bem, agora passamos por uma modificação profunda no modo de pensar, e a capacidade do cérebro humano é desafiada pela inteligência artificial (IA). As "minas", isto é, os bancos de dados gigantes, que consomem uma energia colossal, caminham para o armazenamento de todo o conhecimento humano e para uma imitação plena do pensamento lógico e do domínio da razão, sem que se possa prever o que farão no futuro. E já se está engatinhando por esse caminho. A humanidade ainda não consegue avaliar o risco de ser sufocada por esses imensos perigos.

Um desses aspectos, por exemplo, é a mudança que estamos tendo na riqueza dos minerais, que deixam de ser os mais necessários para o consumo atual (como o petróleo, o ferro, a bauxita e o magnésio), substituídos por terras raras e outros minerais considerados estratégicos para o futuro. Entre esses, destacam-se especialmente o lítio, o cobre, o níquel, o cobalto e o grafite, ou seja, vários elementos químicos que possuem propriedades especiais muito utilizadas na atual tecnologia de ponta, como computadores, celulares, baterias, turbinas eólicas, carros elétricos, armas de guerra e drones.

No que diz respeito ao Brasil, nosso país é rico nesses elementos. Por isso mesmo, precisamos de uma nova política em relação a esses minerais e às tecnologias que devem ser adotadas para sua extração, uma vez que eles estão associados a outros minerais ou elementos comuns.

Essa mudança de pensar atinge a todos, afetando, sobretudo, intelectuais e artistas, que veem os seus direitos de autoria ameaçados por essa revolução digital, necessitando de leis que protejam a si mesmos e a suas criações. Existe também uma forte ameaça das novas tecnologias e da IA sobre os empregos em geral.

Esses assuntos tratados por mim hoje, neste texto, demandam uma larguíssima gama de aspectos que não podem ser esgotados em um simples artigo. Assim, para colocá-los no terreno da realidade e das consequências atuais, vemos a dificuldade que estão tendo nossos legisladores, Câmara dos Deputados e Senado Federal, para estabelecer limites contra os possíveis abusos da tecnologia. Por isso, temos de ter o maior cuidado ao lidar com a inteligência artificial generativa.

Assim, como intelectual e escritor com mais de 120 títulos publicados, em 168 edições e 10 idiomas, alio-me à defesa dos direitos autorais e daqueles que os estão defendendo, tendo como referência a Paula Lavigne, que está sendo uma guerreira no Congresso Nacional, juntamente com dezenas de artistas e entidades representativas de cantores, escritores, pintores e de todas as formas de criação.

Como velho senador naquela Casa legislativa, onde passei 40 anos, sei que assuntos dessa natureza têm grande repercussão, principalmente esse, no qual ainda somos neófitos, que desperta o interesse de gigantescos grupos internacionais, as já famosas big techs.

Quero juntar-me, assim, àqueles que zelam pela cultura brasileira, lutam por ela e por todos que que a produzem.

*José Sarney Ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

Bookmark and Share

QUE TREM É ESSE ?

José de Souza Martins*, Valor Econômico

O lucro mais fácil do transporte de minérios e de produtos agrícolas, aos olhos do empreendedorismo superficial, desvaloriza ideologicamente o lucro possível no transporte de passageiros

A atualização e expansão da rede ferroviária brasileira, voltada para o agronegócio e a mineração, levanta a questão social do que nela sobrará para o chamado passageiro, como seu usurário e beneficiário.

As ferrovias são fatores de criação de renda diferencial da terra na medida em que colocam os territórios que percorrem mais próximos dos mercados que se situam em seus respectivos destinos. A diminuição do tempo de um percurso opera na prática como diminuição da distância em relação ao mercado e ao mundo urbano.

O lucro mais fácil do transporte de minérios e de produtos agrícolas de exportação, aos olhos do empreendedorismo superficial, desvaloriza ideologicamente o lucro adicional possível no transporte de passageiros, viabilizável pelo uso de equipamentos e infraestrutura subutilizados. Esquecem que o pequeno lucro, o chamado lucro extraordinário, também é lucro e, nesse caso, resulta num serviço social.

Só num capitalismo mínimo e decadente o potencial usuário e consumidor é visto e tratado como fator de prejuízo. É a neoeconomia do subdesenvolvimento lucrativo.

Na atual onda ferroviária, há exceções. Refiro-me às duas linhas de passageiros da Vale. A Vitória-Minas, de Cariacica, no Espírito Santo, a Belo Horizonte, e a de São Luís, no Maranhão, a Parauapebas, no Pará, além de Carajás. São ferrovias com composições de padrão europeu, com carros de classe econômica e de classe executiva, com restaurante e lanchonete, carro especial para pessoas com deficiência em cadeira de rodas. Na de Carajás há até carro de lazer educativo para crianças com serviço de monitores.

É claro que os lucros das duas ferrovias transportadoras de minérios subsidiam esse serviço de transporte para passageiros embarcados e desembarcados em cidades e localidades ao longo de seus trajetos. Mas, na verdade, esse transporte se faz com o uso da capacidade ociosa própria das ferrovias, nos intervalos do tráfego das composições do transporte economicamente principal.

O Brasil já teve uma rede ferroviária notável, documentada nas páginas do mais que centenário Guia Levi com arrolamento minucioso dos horários de trens de passageiros do país inteiro e suas conexões com os trens de países vizinhos.

O aproveitamento da ociosidade de equipamentos ferroviários foi exemplar na São Paulo Railway, de 1866, que ia de Jundiaí a Santos. Até por ocasião de festas religiosas de subúrbio havia trens especiais para o serviço dos devotos. A SPR lucrava com café e algodão, mas também com os pecadores.

A Paulista vivia do café. E era um luxo com os passageiros. Bauru fazia conexão com a Noroeste do Brasil até Corumbá, na fronteira com a Bolívia. De lá, pelo Ferrocarril Brasil-Bolívia ia-se até Santa Cruz de la Sierra. Subia-se os Andes de ônibus e voltava-se ao trem no Altiplano, que chegava até ruínas da cidade pré-incaica de Tihuanaco no rumo do Lago Titicaca e do Chile. Viagem que fiz em 1958.

Uma semana para percorrer 600 km. Duas horas depois de Roboré, o trem semanal estacou. Um passageiro fora deixado para trás. Chegaria uma hora depois, a cavalo, com um menino que o levasse de volta. O cavalo fora mais rápido que o trem.

Em meados dos anos 1950, começo da decadência ferroviária brasileira, a rede tornara-se tão expressiva que se podia ir de São Luís, no Maranhão, a Buenos Aires de trem.

Três vezes por semana havia trens de São Paulo a Buenos Aires. Como o Brasil, a Argentina fora destino de milhares de imigrantes, italianos e espanhóis desde fins do século XIX. Famílias embarcadas da Itália e da Espanha imaginavam estar emigrando para a América. Porém, qual América?

Separadas no embarque acabavam em portos diferentes do pretendido. Ou em Santos ou em Buenos Aires. Com o tempo, o sistema ferroviário que conectava os dois países permitiam-lhes reencontrarem-se eventualmente e episodicamente.

Fiz um trecho dessa viagem para ir a um seminário em Joaçaba (SC). Ao embarcar, em União da Vitória, vi que a composição tinha um carro-restaurante. Com fome, fui a ele e descobri que era um carro vazio, só mesas e cadeiras, uma cozinha com fogão aceso para ferver a água para as cuias de chimarrão dos viajantes gaúchos.

Em 1983, fui a Goiás Velho a trabalho. Decidi levar a família e ir de trem para que minhas filhas tivessem a oportunidade de fazer uma viagem dessas. Da Luz fomos a Campinas, onde fizemos baldeação para o trem que de lá ia até Brasília, duas cabinas-dormitório, conectadas, com banheiro e lavabo, carro-restaurante. Em Brasília, a estação rodoviária era também estação ferroviária final.

Foi uma viagem de despedida de um Brasil que desaparecia, o Brasil de gente, e um outro Brasil, em que transportar gente não vale a pena.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Bookmark and Share

EM NOME DE QUE MICHELLE DESAFIOU A AUTORIDADE DE BOLSONARO ?

Juliano Spyer*, Folha de S. Paulo

Vídeo foi planejado em detalhes, com cenário, roteiro e teleprompter

Ex-primeira-dama cita Valdemar Costa Neto e lideranças do PL Mulher como aliados

Michelle Bolsonaro publicou um vídeo explicando por que não apoiará Flávio. O que me interessa não é o que ela diz, mas o que ela faz a partir desse ato e as perguntas que isso levanta.

Michelle tomou essa atitude sem consultar ou pedir autorização ao marido? Porque ela não diz falar em nome de Jair e não faz sentido que ele ataque o filho. Seu primogênito é pré-candidato à Presidência da República escolhido por ele próprio. Não me lembro de outro gesto da ex-primeira-dama demonstrando essa autonomia contra o interesse familiar.

Qual é o objetivo, além de prejudicar as chances de Flávio na corrida presidencial, ao apresentá-lo e aos irmãos como pessoas que atacam uma mulher —a esposa do pai— tratando-a como ingênua nas palavras dela, para apoiar um inimigo político em nome do pragmatismo?

Ela tem motivos para agir. Ao tomar a frente como candidato do bolsonarismo, Flávio tirou de cena o projeto de chapa entre Tarcísio e a própria Michelle. A dobradinha era tida como a mais viável para vencer Lula —juntava a experiência de Tarcísio como governador aprovado de São Paulo com a força da ex-primeira-dama levando mulheres, inclusive evangélicas pobres, atraídas a Lula.

O Ministério Madureira da Assembleia de Deus já declarou apoio aberto a Caiado, e outros pastores não escondem o desejo de seguir o mesmo rumo —apenas temem o desgaste dessa escolha dentro de suas denominações.

Michelle quer vingança, quer uma chapa, ou outra coisa?

Ela calculou suas ações em detalhes. Seu vídeo é uma peça publicitária que conta com cenário —diplomas ao fundo, símbolo de libras e estrela de Davi, taça de cristal clássica. Havia um roteiro elaborado. Havia um teleprompter para ela ler. Esse planejamento supõe que existem outras pessoas atuando em nome dela.

E quem então faz parte desse núcleo duro em torno de Michelle? Ela cita alguns nomes em sua fala. O mais conhecido é o do presidente do PLValdemar Costa Neto. Ela também defende o grupo de lideranças que constituiu por meio da presidência do PL Mulher.

Podemos supor que ela esteja dialogando com pastores como Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, que visitou Bolsonaro na prisão? E o pastor Silas Malafaia, a liderança que tem criticado Flávio publicamente? E os evangélicos ligados ao governo Bolsonaro, da Igreja Presbiteriana, como o ministro André Mendonça?

Finalmente, cabe perguntar qual é a eficiência desse ataque à pré-candidatura de Flávio. Houve a revelação de que ele mentiu sobre não conhecer o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro. A informação veio de dentro —mas de quem? Não parece haver pressão para que se revele o destino verdadeiro dos milhões pagos por ele ao clã, com o objetivo inicial de financiar o filme.

Mesmo acuada, a pré-candidatura resiste. Nem Zema nem Caiado têm ganhado tração nas pesquisas. Apesar do que já foi revelado, Flávio segue sendo visto como o nome com mais chances de vencer Lula no segundo turno. Ele recebeu a bênção do pai e os adversários até agora se mostraram submissos a esse desejo de Jair.

A estratégia do círculo de Flávio parece ser apresentar esta eleição como um plebiscito sobre Lula e o PT. Eleitores da direita entendem que a meta maior é tirar o presidente, independentemente de quem for ocupar essa posição. E Flávio se consolidou como a opção mais viável para esse confronto, pelo menos no primeiro turno.

Devemos analisar os vídeos de Michelle a partir desse cenário. Ela foi figura importante no PL ao longo dos últimos anos, mesmo depois de deixar a Presidência. Teve recursos, infraestrutura, prestígio. Agora, com Flávio, ela e seu grupo vêm sendo maltratados, expostos e desmerecidos.

Será que a ex-primeira-dama terá vaga para concorrer ao Senado? E quem será ela no partido caso Flávio seja eleito?

Esse parece ser o motivo mais razoável para a atuação de Michelle. Ela demonstrou que quer negociar um espaço no PL antes do início da campanha. Para continuar relevante em 2030, em um cenário sem Lula, ela e seus interlocutores próximos —especialmente evangélicos— precisam mostrar a força que têm hoje.

*Antropólogo e historiador, autor de 'Crentes' (Record) e 'Povo de Deus' (Geração), pesquisa cristianismo, mundo popular, mídias digitais e esportes de combate

Bookmark and Share

UM PAÍS QUE SÓ EXISTE HOJE E ATÉ A ESQUINA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O analfabetismo caiu, mas pergunte a alguém quando se proclamou a República, em 1822 ou 1889

Pelo menos, há um livro que está vendendo aos milhões: o álbum de figurinhas da Copa

Faça um teste com qualquer pessoa das que lhe prestam serviços, em sua casa, no seu prédio ou na rua. Pergunte-lhe se sabe o que aconteceu no Brasil em 1964. Ou sobre qual veio primeiro, se a Segunda Guerra ou a Guerra do Paraguai. Ou em que ano foi proclamada a República, 1822 ou 1889. Não quero antecipar nada, mas temo que as respostas não sejam muito animadoras. Converso com muita gente, de todas as classes e categorias, e sinto nelas um distanciamento crescente entre as premências da vida real e um conhecimento básico do país. É como se, para elas, o Brasil só existisse hoje e até a esquina.

Todos recebemos com satisfação os dados do recente levantamento do IBGE, que registrou a queda do analfabetismo para, pela primeira vez, abaixo de 5% da população. É uma vitória –há cerca de 100 anos, a taxa era de monstruosos 80%. Um fator fundamental para a escalada da alfabetização foi a transferência da população rural para as cidades nas décadas de 1960 e 1970. Mais da metade dos 4,9% atuais que não sabem ler nem escrever tem acima de 60 anos, o que confere com o dado anterior. São os brasileiros que ficaram para trás, e os governos não foram até a eles para alfabetizá-los.

Mas, para mim, o chocante são os 29% da população entre 15 e 60 anos, hoje, que sabem identificar as palavras e os números, mas não conseguem entender textos pouco além da cartilha nem multiplicar 3 vezes 9 ou dividir 12 por 4. Chama-se a isso analfabetismo funcional e atinge até quem está nas faculdades. Pode-se aceitar que 12% dos atuais matriculados no ensino superior sejam analfabetos funcionais? Serão esses os nossos profissionais do futuro?

Dos 16 anos que se exigem de alguém para se educar (nove no ensino fundamental, três no médio e quatro no superior), o brasileiro passa só dez anos na escola. O americano, 14. Sim, temos bolhas de alta realização –sempre as tivemos. Só que todos os países também as têm e, na média, mais do que nós.

Mas chega de pessimismo. Neste momento, há um livro vendendo aos milhões no país: o álbum de figurinhas da Copa.

Bookmark and Share

TEMPOS DE ARRAES - A REVOLUÇÃO SEM VIOLÊNCIA

Antônio Fausto Nascimento*, Democracia Política

O governo de Miguel Arraes de Alencar (1963/1964), em Pernambuco, ao lado de Seixas Dória, de Sergipe, foram os únicos a serem imediatamente depostos pelo golpe civil-militar de 1964. Governou o Estado por um ano, mesmo tempo em que ficou encarcerado na Ilha de Fernando de Noronha.

Ameaçado de nova prisão pela ditadura, teve de se exilar na Argélia, onde permaneceu por 14 anos, regressando ao Brasil com a Lei de Anistia de 1979. A partir das eleições gerais de 1982, foi eleito Deputado Federal por várias legislaturas e novamente governador por dois mandatos. O povo pernambucano lhe fez justiça, em seu retorno ás atividades políticas.

Pernambuco, em seu primeiro governo, foi o estado mais democrático da Federação (1).

É que coincidiu com a extensão da legislação trabalhista aos trabalhadores rurais pelo governo do Presidente João Goulart (1961/1964).

Atraso de vinte anos, nos quais cerca de duzentos mil trabalhadores das Usinas e Engenhos da Zona da Mata, em Pernambuco, não auferiam nenhum direito, ao tempo em que fora criado o décimo-terceiro salário e aprovada a Lei Orgânica da Previdência Social.

Acrescem a sindicalização rural, fundação de Sindicatos rurais, uma Federação estadual e preço favorável do açúcar no mercado internacional.

Também ao amparo do Estatuto do Trabalhador Rural - Lei 4.214, de 02/03/1963, aprovada pelo Congresso Nacional, foi feito o Acordo do Campo, regulando o trabalho no meio rural, onde, secularmente, vigoravam relações de produção pré-capitalistas.

Fonte de referência: Antonio Callado Repórter - Tempo de Arraes e Vietnã do Norte - Ediouro Publicações S.A - 2005.

*Antonio Fausto de Nascimento, foi dirigente sindical, bancário e secretário de Trabalho governo Arraes (1963-1964)

Bookmark and Share

ENSINANDO UMAS COISINHAS

Charge do Miguel Paiva

Bookmark and Share

quinta-feira, 25 de junho de 2026

PODEMOS NOS PREPARAR PARA CHEGAR A LUGAR NENHUM NO CASO MASTER

Julia Duailibi, O Globo

Investigações já chegaram a tantos, que muito pouca gente quer que prossigam

A entrevista do ministro Gilmar Mendes ao “Roda viva”, da TV Cultura, revelou, nas entrelinhas, o que devemos esperar do escândalo envolvendo o Master. Depois de meses discutindo os tentáculos de Daniel Vorcaro, do Centrão ao Supremo, do candidato à Presidência pelo PL ao líder do governo no Senado, podemos nos preparar para chegar a lugar nenhum. O que não seria grande novidade. Das tragédias brasileiras, está esta de pularmos de escândalo em escândalo, com uma expectativa quase pueril de que “agora vai ser diferente”. A entrevista nos lembra que, quando o assunto envolve os donos do poder, melhor adotar a cautela.

Ficou evidente que a delação de Vorcaro não deverá sair. E não sairá porque as investigações já chegaram a tanta gente, que muito pouca gente quer que prossigam. São poucos os sensibilizados com as mesadas, os contratos advocatícios, os negócios imobiliários e toda sorte de extravagâncias que deslumbraram o poder: de degustação de uísque em Nova York e Londres a festinhas com eslavas e esqui em Courchevel. É muita gente querendo abafar uma delação que, se bem feita, poderia ajudar a desvendar as contrapartidas que Vorcaro obteve ou tentou obter dos agentes públicos. Sem ela, fica mais difícil.

Em momentos da entrevista, Gilmar aponta preocupações com abusos cometidos noutras investigações, como a Operação Lava-Jato. Ele tem razão quando volta a esse ponto. O suicídio, em 2017, do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, citado por ele, nos obriga a manter um olhar crítico com as informações que vêm dos investigadores. Não se deve comprá-las pelo valor de face, sob risco de cometer injustiça. O ministro também criticou o fato de delações poderem ser feitas com investigados ou seus parentes presos. Outro ponto que demanda reflexão. O Estado não pode agir com tortura psicológica para alcançar nenhum objetivo. Não se combate o crime cometendo crime, disse Gilmar.

Chama a atenção, no entanto, que ele não tenha manifestado a mesma preocupação com excessos noutras ocasiões. A jornalista do Valor Econômico Maria Cristina Fernandes perguntou sobre a delação de Mauro Cid, que teve cinco versões e foi negociada entre idas e vindas da prisão. Na relatoria, Alexandre de Moraes, à época, pelo trabalho de defesa da democracia, imune a críticas dos pares e de parte expressiva da imprensa. Gilmar agora aponta como “erro crasso” de André Mendonça o que foi modus operandi do próprio STF na tentativa de golpe. A condenação dos golpistas, ato da maior importância para a democracia do país, poderia ter entrado para a História sem as inovações jurídicas às vésperas do julgamento, como a mudança na regra do foro privilegiado ou a análise pela turma e não pelo plenário. As provas contra Bolsonaro e seu entorno eram suficientes, e exageros no caso só serviram para dar argumento a quem era contra condená-los.

O mesmo serve para o escândalo do momento. Forçarmos a mão para punir os inimigos ou pegarmos o lustra-móveis para passar o pano para os amigos repete um script já conhecido. De escândalo em escândalo, continuamos cometendo os mesmos erros e chegando a lugar nenhum.

Bookmark and Share

ELES SABEM O QUE FAZEM (MAS NÃO SABEM TUDO)

Eugênio Bucci *, O Estado de S. Paulo

Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima 

Pior do que legislar pelo medo, pelo ódio, pelo ressentimento e pela ignorância é legislar pela exploração intencional do medo, do ódio, do ressentimento e da ignorância. Os parlamentares que insistem na tentativa de baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos (ou menos ainda) fazem exatamente isso. Eles se aproveitam do sentimento de desproteção que assombra a gente brasileira e prometem fazer leis para conter a criminalidade. Só querem, porém, é ganhar dividendos nas urnas, isso em pleno ano eleitoral. Deliberadamente, premeditadamente, desinformam a sociedade e deformam a opinião pública. Eles sabem o que fazem.

(O que eles não sabem é que, com sua pregação apelativa, desacreditam não só os adversários, mas toda a cultura política. Dissolvendo a credibilidade dos outros, dissolvem a deles mesmos. Eles não sabem que ficarão gritando sozinhos, sem ninguém para ouvi-los. Acham que vão ter tempo de se divertir sobre os escombros das instituições. Mas, calma. Só tratarei do que eles não sabem ao final deste artigo. Antes, vou me dedicar a esmiuçar o que eles sabem, mesmo quando simulam não saber. Sigamos.)

Eles têm consciência da fraude que vai embutida em sua oratória. De saída, sabem que a redução da maioridade penal viola o limite da constitucionalidade. Juristas, à esquerda e à direita, alertam para o óbvio, mas eles não tomam conhecimento. Até os que veem pertinência na redução da maioridade penal afirmam que não dá para atropelar a Lei Maior dessa maneira. Entre outros, Ives Gandra Martins, ouvido pelo repórter André Fleury Moraes, da Folha de S. Paulo, advertiu: “O jovem tem o direito de não ser apenado antes dos 18 anos. Isso está na Constituição. Se isso foi assegurado como direito individual, torna-se evidente que a essa altura esta já é uma cláusula pétrea.” O dr. Ives Gandra admite que a tese é “lógica” e “razoável”, mas não aceita a correria intempestiva: “Entendo que hoje não cabe”.

Este jornal também tentou alertar. “Uma matéria tão complexa não pode ser contaminada pela exploração eleitoreira”, ponderou o editorial (Debate sério na hora errada, 13/6, A3). Em vão. Os fomentadores do sensacionalismo parlamentar não ouvem. Eles já estão informados de que a hora é inadequada e têm perfeita noção de que a ideia poderá gerar efeitos catastróficos. Sabem que, na quadra em que se encontra o tema da segurança no Brasil, o projeto, além de não reduzir a incidência de crimes hediondos, vai criar condições para piorar o que já é muito ruim. Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima. Jurando combater o crime, prestarão um favor inestimável para o crime.

Eles também sabem que uma pessoa de menos de 18 anos, quando comete um delito, não fica impune, pois está sujeita à restrição de liberdade nas formas da lei. Mesmo assim, alardeiam que vão acabar com a impunidade – impunidade que sabem não existir. E seguem em frente. Cientes de que quase ninguém tem acesso a estudos atualizados sobre os mecanismos que favorecem o crescimento dos homicídios, saem pelas tribunas falando absurdos sobre absurdos, certos de que não serão contestados.

E não são, ou quase não são. Eles sabem que a redução da maioridade no Brasil, se aprovada no embalo da raiva e do oportunismo, vai se traduzir na elevação da desumanidade, da indiferença, da insensibilidade, do egoísmo, da crueldade e da desigualdade perante a lei. Vai ser uma tragédia. Mais uma.

Os parlamentares sensacionalistas estão atropelando a Constituição, a razoabilidade, a compaixão, a inteligência e a verdade dos fatos. Transformaram a ignorância em seu cabo eleitoral. Mentem com fervor, banalizam a mentira e assim vêm convencendo os cidadãos desenganados, que não têm mais a quem recorrer. Uma pesquisa Ipsos-Ipec, publicada no ano passado, mostrou que 65% dos brasileiros apoiavam a redução da maioridade penal. Outro levantamento (Real Time Big Data), divulgado em maio, revela que o índice subiu para 90%. Esses parlamentares sabem o que fazem, e fazem com inegável sucesso.

(Agora, o contrapé, no contrafluxo. Eles se imaginam os campeões da esperteza e se deleitam em tapear o mundo inteiro todo o tempo. Há coisas entre o céu e a Terra, no entanto, das quais nem desconfiam. No afã de acender suas falsidades, põem fogo na madeira do palanque em que estão encarapitados. Eles se declaram religiosos, policiais, empresários, militares e até “influencers”, mas nunca políticos – isso, não. Incineram a credibilidade do poder público sem saber que queimam junto a autoridade dos postos que ocupam ou que planejam ocupar. Eles afrontam os direitos dos outros sem perceber que, no mesmo golpe, destroem a legitimidade do Estado no qual pretendem se empoleirar. Expoentes do cinismo sádico, desmantelam os laços sociais enquanto fazem pose – intragável – de sabidos.)

Eles fingem que não sabem o que sabem, mas sabem muito bem (e não sabem o que fingem, muito mal, que sabem). Serão perdoados? Vai saber.

*Jornalista, é professor da ECA-USP

Bookmark and Share

A PRESSÃO POLÍTICA DO DIGIMAIS

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Manobras de Vorcaro evidenciam dificuldade que o BC tem em decretar liquidação extrajudicial do Digimais

O banco de Edir Macedo tem caixa

As tentativas de Daniel Vorcaro de desliquidar o Master evidenciam a dificuldade que o Banco Central tem em decretar uma liquidação extrajudicial do Digimais.

O Digimais tem caixa.

O banco controlado pelo bispo Edir Macedo foi alvo da Operação Miragem da Polícia Federal, que mirou diretores, conselheiros e empresas ligadas ao banco do fundador da Igreja Universal do Reino de Deus e dono da RecordTV, sob suspeita de crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em relatórios e realização de empréstimos proibidos por lei.

Mas, ao contrário do que ocorreu com o Master, o BC não liquidou o Digimais no mesmo dia da operação da PF, o que tem alimentado especulações em torno da possibilidade de uma intervenção em breve do órgão regulador.

No caso do Master, mesmo com investigações avançadas das fraudes orquestradas por Vorcaro, o BC só liquidou o banco quando restavam apenas R$ 4 milhões em caixa.

Se o BC tivesse liquidado o Master mais cedo, talvez o cancelamento já tivesse ocorrido antes do avanço das investigações pela PF, num movimento que começou no final do ano passado e contou com episódios sem precedentes no TCU (Tribunal de Contas da União) e no STF (Supremo Tribunal Federal). Por pouco a manobra não foi bem-sucedida.

A argumentação da defesa de Vorcaro foi a de que o BC teria se precipitado com a adoção de uma medida extrema como a liquidação extrajudicial. A tese foi encampada por um monte de gente influente que não deveria ter papel nenhum na história, com Vorcaro comprando a República.

O BC joga com essa realidade. É mais difícil para a autoridade monetária navegar por esse campo minado. O ambiente de insegurança jurídica que enfrenta é muito grande.

Assim como ocorreu no caso do Master e do BRB, banco público que se envolveu nas fraudes de Vorcaro, haverá agora pressão extra sobre o BC, com o Digimais, em ano eleitoral. Tem toda uma força política ligada à Igreja Universal, à Rede Record e a uma série de veículos de radiodifusão jogando na defesa do banco e reclamando de perseguição do governo Lula.

Bookmark and Share

OBITUÁRIO DA CANDIDATURA DE FLÁVIO BOLSONARO A PRESIDENTE

Do Blog do Noblat, Metrópoles

“Me humilhou ao telefone”: os bastidores da guerra entre Michelle e os enteados

E aí, Jair Messias Bolsonaro? Não vai desautorizar o que Michelle disse no vídeo de 27 minutos sobre seus filhos homens, pelo menos dois, Flávio e Eduardo, citados nominalmente? E aí, Valdemar Costa Neto, presidente do Partido Liberal (PL) que emprega Michelle e abriga a família disfuncional mais famosa do país? Se não demitir a autora do maior ataque sofrido por Flávio até aqui, é porque assina embaixo do que ela disse.

Flávio, Eduardo e Carlos pressionam o pai para que rebata as declarações de sua terceira mulher. As duas primeiras afastaram-se dele há muitos anos, e uma delas o traiu. Por ora, publicamente, antes do início do jogo Brasil x Escócia, Flávio limitou-se a afirmar que “hoje (ontem) é dia de jogo, nada nem ninguém me aborrece. Vamos tratar de coisa boa, vamos tratar de futebol.” Na ocasião, o pré-candidato a presidente usava uma máscara de Neymar.

Sem que ninguém lhe pedisse, e porque é encantado com a própria voz, o pastor evangélico Silas Malafaia, líder da Assembleia de Deus Vitória em Cristo, respondeu a Michelle com dois trechos da Bíblia, e nem uma palavra a mais: “Casa dividida contra si mesma não subsistirá” e “Até o tolo, estando calado, é tido por sábio, e o que cerra os seus lábios, por entendido”. Malafaia sempre preferiu a eventual candidatura de Michelle à vaga de Lula.

Michelle desenterrou um episódio de novembro do ano passado para se queixar do modo como é tratada por seus enteados. Ela foi contra o apoio do PL do Ceará à candidatura de Ciro Gomes ao governo do Estado. Alegou que Ciro criticou seu marido, chamando-o de ultradireitista ladrão de gasolina, e também a Flávio, Eduardo e Carlos. Horas depois do que disse sobre Ciro, Flávio telefonou para ela de forma ríspida e a censurou por se meter com o que não devia.

— Ele me desrespeitou ao telefone, me humilhou. Eu não tinha nada contra ele. Ele disse que seria melhor eu ficar fora das decisões do partido. Disse que eu havia chegado ontem e não entendia nada de política. Eles me tratam como se eu fosse uma idiota. Como se fosse alguém que chegou ontem. Eu não sou. Eu sei mais do que eles pensam. Tenho o direito de achar errado uma aliança com quem sempre se declarou inimigo do pai deles.

E acrescentou:

— Não vou trocar valores por pragmatismo político oportunista. Também não estou impedindo ninguém de fazê-lo, mas acho errado fazê-lo no primeiro turno. Ciro não terá meu apoio nunca e, na minha opinião, não deveria ter de ninguém da direita que apoia Bolsonaro. Não estou exigindo que se desfaça a aliança no Ceará, mas que se adie para o segundo turno.

A fala de Michelle foi bem concebida. Pareceu um desabafo espontâneo, embora ela tenha lido com naturalidade e sem se perder o texto que lhe oferecia um teleprompter. Michelle apresentou-se como uma mulher do lar, cuidadora do marido enfermo e preso, e incompreendida pelos filhos dele, que a desprezam e não dão ouvidos ao que ela diz. Se o pai é um reconhecido misógino, os filhos são piores do que ele.

O testemunho de Michelle abre mais um buraco no casco da candidatura de Flávio. Em seis meses de campanha, Flávio produziu três fatos negativos contra si mesmo: recebeu dinheiro do banqueiro mais corrupto da história recente do Brasil; bateu às portas do presidente dos Estados Unidos para pedir sua interferência em assuntos internos do Brasil; e foi jogado pela madrasta contra a maioria das mulheres que já o rejeitam.

Dará em nada? Dificilmente. O Brasil derrotou a Escócia por 3 x 0. Flávio arrisca-se a ser goleado por Lula, a não ser que abandone o campo, sendo trocado por outro candidato. Mas qual, a essa altura? Não adianta consultar Ancelotti, que tem mais o que fazer.

Bookmark and Share

DOIS PRESOS, DUAS MEDIDAS

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Quais são os critérios para o Supremo definir os destinos de Vorcaro e Bolsonaro

Dentre as muitas divisões que o Supremo Tribunal Federal (STF) vive hoje, uma delas é estrutural. A Corte é dividida em duas turmas. Por força do acaso, cada uma ficou com um dos temas de maior sensibilidade política da temporada: a Primeira Turma, de Alexandre de Moraes, julga os processos ligados à tentativa de golpe de Estado e a Segunda, de André Mendonça, está com as fraudes do Banco Master.

O destino dos protagonistas dos dois escândalos deve ser definido em breve pelos relatores dos processos. Moraes está para decidir se Jair Bolsonaro seguirá na prisão domiciliar depois que um segurança foi flagrado com uma arma do ex-presidente dentro do carro em uma blitz. Mendonça vai definir se Daniel Vorcaro, o dono do Master, continua em uma cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, ou se será transferido para um presídio.

Moraes permitiu que Bolsonaro ficasse em casa por questões de saúde. A revelação de que mantém uma arma e a preocupação do condenado com a manutenção do equipamento podem mudar a situação. O problema é que, segundo boletins médicos da equipe que atende o ex-presidente, ele continua com a saúde frágil.

O entorno de Moraes considera pouco provável que ele mande o ex-presidente de volta para a Papudinha, pelos cuidados médicos que demanda. Em ano eleitoral, uma piora do quadro de saúde causada por falta de estrutura do estabelecimento poderia servir de motivo para novos ataques ao STF. Como solução, o relator poderá impor novas restrições ao réu na prisão domiciliar.

Já pessoas próximas de Mendonça apostam que o ministro mande Vorcaro para um presídio. Depois que a proposta de delação premiada foi recusada duas vezes pelos investigadores, não faria sentido manter o ex-banqueiro na superintendência da PF. Se Mendonça retirar Vorcaro de lá, deixará claro que a terceira tentativa de delação, aventada pela defesa, está fora de cogitação.

Sejam quais forem as decisões dos relatores, os dois devem ter as decisões confirmadas em votações posteriores nas turmas que integram. Mas por motivos diferentes.

Ao fortalecer Moraes, a Primeira Turma enfraquece o time de Bolsonaro em ano eleitoral. Lembrando que o ex-presidente foi condenado não apenas por ameaçar a democracia, mas por ameaçar o funcionamento do próprio STF.

A maioria da Segunda Turma apoia Mendonça não somente em nome da punição dos culpados pelas fraudes do Master, mas para fortalecer o bloco do ministro na briga interna contra o grupo de Gilmar Mendes, que tem atacado o relator pela forma como ele conduz as investigações.

Bookmark and Share

RACISMO RELIGIOSO DE UM ESTADO POLICIAL-CRISTÃO

Thiago Amparo*, Folha de S. Paulo

Por cumprir seu papel, diretora de escola infantil foi intimidada por PMs

Tratar de orixás nas escolas é tratar da cultura brasileira

Doze policiais, um deles com uma metralhadora, intimidaram a diretora de uma escola em São Paulo após o pai de uma aluna, ele mesmo policial militar, ter contestado uma atividade escolar sobre cultura afro-brasileira.

O pai da estudante mente: a escola apenas aplicou uma atividade pedagogicamente adequada e determinada pela lei federal 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira. Os professores estavam trabalhando o livro "Ciranda de Aruanda", de Liu Oliveira, que apresenta os orixás em linguagem para crianças.

Tratar de orixás nas escolas é falar de cultura brasileira. Da mesma forma que estudantes se debruçam sobre mitologia greco-romana e sobre o papel do cristianismo na história do país — seja levantando a cruz, seja empunhando a espada— , devem, sim, aprender sobre Iansã, sobre Ogum, sem os quais nunca conseguirão ler um Jorge Amado, uma Conceição Evaristo, um Itamar Vieira Junior, nunca entenderão nossas festas populares nem nossa própria língua.

Invadir uma escola infantil armado não é apenas intolerância; é racismo religioso praticado por um Estado policial-cristão, para o qual liberdade religiosa tem cor e um credo.

Chamar de racismo religioso, não apenas de intolerância, ressalta o caráter sistemático e odioso desse tipo de discriminação que atinge primordialmente religiões de matriz africana. Os policiais devem ser punidos no rigor da lei, por crime de racismo e por abuso de autoridade ao servir como capangas privados, não como agentes republicanos da lei.

Não se trata de um caso isolado. Religiões de matriz africana predominam entre os casos de intolerância religiosa no Disque 100 —76% dos terreiros relataram ter sofrido violências físicas e/ou verbais, de acordo com estudo de 2025. Discriminação religiosa é um dos principais motivos de perseguição a professores e funcionários, de acordo com OLE (Observatório da Laicidade na Educação). O Brasil que veste branco todo fim de ano e fala Oxalá entra em escola infantil com metralhadora com a certeza da impunidade que apenas o racismo propicia.

*Advogado, é professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste),

Bookmark and Share

ARTILHEIROS NA BATATA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Messi já fez 18 gols em Copas. E daí? Quantos jogos levou para chegar a essa marca?

Os grandes goleadores são o húngaro Kocsis e o francês Fontaine; confira suas médias

Como diria Nelson Rodrigues, a imprensa teve espasmos de cachorro atropelado diante do 18º gol de Messi em Copas do Mundo. A julgar pelos gritos dos narradores e das manchetes, os gols do argentino contra a Áustria foram um momento da história, como o da fissão do átomo em 1938, da chegada do homem à Lua em 1969 e do sequenciamento do genoma em 2003. Ao fim da Copa, campeão ou não, Messi será desfilado pelos estádios numa bandeja de prata e com uma maçã na boca, para usar mais uma imagem rodrigueana.

Eu só me pergunto se essa suposta avalanche de gols faz jus à realidade. Messi está na sua sexta Copa do Mundo e levou 27 partidas para marcar os ditos 18. É uma média de 0,59 gol por jogo, significando que, em praticamente uma a cada duas partidas, foi para o vestiário com as mãos abanando. O alemão Klose, que ele teria superado, marcou 16 gols em 24 jogos –média de 0,67, melhor que a dele.

Quanto aos nossos artilheiros, fizeram melhor ainda. Ronaldo, em quatro Copas, marcou 15 gols em 19 partidas —0,79 gol por jogo. Pelé, também em quatro, foi às redes 12 vezes em 14 partidas, numa média de 0, 86. E Vavá, em duas Copas, nove gols em 10 partidas, média de 0,90. Nada mal, não?

Como temos por tradição esnobar o passado, ignoramos que Ademir, o Queixada, marcou nove gols em apenas seis jogos na única Copa que disputou, a de 1950, deixando a fabulosa média de 1, 50 gols. E que a de Leônidas da Silva foi ainda maior: 1,60, por oito gols em cinco partidas nas Copas de 1934 e 1938.

Mas vamos deixar a patriotada. Os artilheiros na batata (mais uma de Nelson) são o francês Fontaine, 13 gols em seis partidas em uma única Copa, a de 1958, com a já absurda média de 2, 17, e o húngaro Kocsis, 11 gols em cinco partidas, em sua também única Copa, a de 1954 —2, 20! Messi, meu chapa, supere isso.

Estamos falando de vetustas Copas, com a bola pesando 500 gramas (contra os 400 gramas de hoje), zero de substituições e sem pausas para hidratação. Pausas, só para a comemoração dos gols.

Bookmark and Share

DIGIMAIS DO PAU OCO


Charge do Aroeira

Bookmark and Share

DONALD TRUMP E AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NO BRASIL

Maria Hermínia Tavares*, Folha de S. Paulo

Preferências eleitorais parecem organizar visão dos brasileiros sobre EUA

Diferenças desaparecem, porém, diante da pergunta sobre os limites aceitáveis da intervenção

O presidente Donald Trump afirmou na rede Truth Social, na terça-feira (23), que a votação no Brasil será seu próximo desafio. E se declarou —quem diria— preocupado com a integridade do sistema eleitoral do país e com a necessidade de que a disputa seja livre e justa. Para ele, assim será se o Brasil vier a "se juntar à crescente lista de nações que se movem à direita".

Não poderia ser mais explícito: joga a favor do candidato direitista. Como, por enquanto não se sabe. Mas desde já o mandatário americano se alinha à tática da família Bolsonaro de disparar suspeitas sobre o nosso sistema de votação e sobre as regras que asseguram condições necessárias à livre competição nas urnas.

A declaração extemporânea dá mais um passo na direção de colocar as relações entre Brasil e EUA como um dos temas importantes do debate eleitoral. Bem diferente do que ocorria no passado, quando a política externa não fazia parte do rol de questões relevantes para a definição da imagem dos candidatos presidenciais, muito menos para a escolha dos votantes.

Se assim for, vale a pena olhar como potenciais eleitores encaram a ingerência ianque em assuntos nacionais. Também na terça, este jornal publicou a pesquisa Datafolha sobre a decisão da Casa Branca de incluir as facções criminosas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras que ameaçariam a segurança nacional dos EUA. O ato unilateral abre caminho à interferência direta de Washington em nossos assuntos domésticos.

O Datafolha mostra a grande repercussão do fato, medida pela elevada porcentagem de brasileiros que se julgam informados sobre a iniciativa americana. Majoritária é também a parcela dos que consideram que "organização terrorista" é um rótulo adequado às duas facções.

Ainda assim, a opinião pública se divide quase meio a meio quando se trata de caracterizar as intenções americanas, vendo nelas um gesto bem-intencionado para ajudar o Brasil no combate ao crime organizado ou, inversamente, uma desculpa para mandar no país.

As diferenças de avaliação estão associadas à preferência por partidos; à autoclassificação no gradiente esquerda-direita; à crença religiosa e ao apoio aos pré-candidatos Lula e Flávio Bolsonaro. Os partidários deste último creem mais no altruísmo dos americanos, enquanto os lulistas acreditam que aqueles se guiam pela crua ambição de poder.

As preferências eleitorais parecem assim organizar a visão dos brasileiros sobre as intenções dos EUA. As diferenças desaparecem, porém, diante da pergunta sobre os limites aceitáveis da intervenção americana.

Quase 3 em 4 entrevistados contestam o direito de Trump de atacar unilateralmente o crime organizado, sem avisar o governo brasileiro.

Por analogia, os resultados do citado levantamento sugerem que há limites para o discurso que mobilize a defesa da soberania diante de possível interferência trumpista no processo eleitoral deste ano.

Não obstante, assinalam que uma intervenção desabrida e prepotente —a marca por excelência do titular de turno da Casa Branca— poderá prejudicar seu candidato preferido.

*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

Bookmark and Share

BRASIL CONDENADO INJUSTAMENTE

Míriam Leitão, O Globo

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas. A decisão final será no mês que vem e o país prepara as suas considerações finais. Um experimentado negociador me disse que este tem sido o mais difícil processo do qual já participou. Outro funcionário do governo brasileiro me explicou o seguinte: “É muito difícil evitar as tarifas porque há um claro desinteresse dos Estados Unidos em chegar a um acordo”. O presidente Donald Trump quer condenar o Brasil e não por motivos comerciais.

O que me explicaram é que no processo contra 59 países e a União Europeia, em que alegaram que essas nações não têm legislação eficiente contra importação de países que usem trabalho forçado, a decisão americana será cobrar as taxas. É muito difícil para os países se defenderem, e os Estados Unidos querem arrecadar.

—Eles não vão reverter para ninguém, porque querem substituir as tarifas de base, que foram derrubadas. Na cabeça de Donald Trump, é preciso arrecadar alguma coisa. Ele gosta do dinheiro entrando. E é curioso porque em países ricos o imposto de importação não deveria ter caráter arrecadatório. Trump mudou toda a lógica.

Há também pouca expectativa de que não seja aplicada a tarifa de 25%, da seção 301 da lei de comércio. O Brasil foi “investigado” com base neste item da lei por supostos erros no comércio com os Estados Unidos. Esse foi um processo específico contra nós.

— No caso da 301, temos perguntado a eles o que querem em certas áreas investigadas. Por exemplo, no desmatamento, querem mais dinheiro para o Ibama? Mais dinheiro do BNDES para o arco do reflorestamento? Eles não dizem, nem pedem nada. É como dizem, nem se o Brasil oferecer o céu, eles mudariam a atitude punitiva — me disse um dos negociadores brasileiros.

Outro integrante do governo diz que é difícil contrapor qualquer coisa. Contou que o lado americano pergunta o que o Brasil vai oferecer e não pede nada específico. Um dos itens das acusações trata dos acordos que temos com o México e a Índia.

– Eles dizem, ‘esses acordos estão atrapalhando as exportações dos Estados Unidos’. Falam como se eles mesmos não tivessem acordos com vários países.

Por mais que o Brasil explique que o desmatamento tem caído, que há leis contra pirataria, que as vendas para a Índia e México são pequenas, e que o Pix não compete com serviços americanos, eles continuam nas suas posições.

Essa onda de tarifas altas começou porque os Estados Unidos acusavam os países de lucrar com superávits permanentes no comércio bilateral. Mostramos que não é o nosso caso porque temos déficit. Mas isso não melhorou a situação para o país. É como se fingissem não entender essa diferença. Em janeiro, contudo, o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, se vangloriou em rede social de ter superávit com o Brasil.

Apesar do ceticismo com que os integrantes das equipes negociadoras do Brasil avaliam a realidade, a decisão política é a de continuar tentando um acordo. Agora têm acontecido as audiências públicas, os hearings. O governo não participa. São ouvidos apenas os integrantes do setor privado. Os negociadores preparam essas alegações finais reapresentando todos os nossos pontos e argumentos.

Durante a negociação, por exemplo, foi perguntado quais produtos e linhas os Estados Unidos querem que as tarifas sejam reduzidas. Exceto do etanol, os americanos nada pediram.

- Falam de um modo geral, em setores industriais, o automotivo, o médico, mas eles sabem que, se abrirmos, os grandes vencedores serão os países asiáticos que são mais competitivos. Perguntamos isso desde o ano passado. Reiteramos nos últimos meses e semanas. Eles sempre respondem de forma genérica — explicou um integrante da missão negociadora brasileira.

A guerra tarifária de Donald Trump é para arrecadar mais e tentar impor sua vontade aos países parceiros. No caso do Brasil, o bombardeio tem sido uma tentativa de interferir no processo que condenou Jair Bolsonaro. Foi um pedido dos bolsonaristas, primeiro de Eduardo e depois de Flávio Bolsonaro. Agora eles tentam mudar a história, com pedidos para serem ouvidos nas audiências, nas quais, dizem, defenderão que não haja taxação. O Brasil será tributado com taxas punitivas, as empresas terão prejuízo, porque os Bolsonaro fizeram lobby contra o Brasil.

Bookmark and Share

quarta-feira, 24 de junho de 2026

"ANATOMIA DO CAOS"

Bernardo Mello Franco, O Globo

Documentário mostra bastidores da CPI da Covid e expõe desgoverno na pandemia

"Anatomia do caos", de Dandara Ferreira, reconstitui atuação de Bolsonaro a favor do vírus

Em depoimento ao Senado, o taxista Márcio Antônio Silva lembrou a última vez que viu o filho, morto aos 25 anos. O corpo do rapaz estava embrulhado num saco plástico, seguindo os protocolos da pandemia.

“Minha dor não é mimimi”, desabafou o pai enlutado. Representava milhares de famílias ofendidas por um presidente que fazia piada com a tragédia, recusava-se a comprar vacinas e chamava cidadãos de “frouxos” e “maricas”.

A emoção de Márcio humaniza a pauleira de “Anatomia do caos”, que estreia semana que vem nos cinemas. O documentário de Dandara Ferreira reconstitui os passos da CPI da Covid, que propôs o indiciamento de Jair Bolsonaro e outros 77 suspeitos de crimes na emergência sanitária.

Durante seis meses, a comissão recolheu provas de delitos variados, de charlatanismo a trambiques com dinheiro público. A investigação expôs políticos, empresários e médicos que afrontaram a ciência em troca de lucro e poder.

Algumas cenas da CPI resumem o desgoverno da época. Nomeado ministro da Saúde sem saber o que era o SUS, o general Eduardo Pazuello se atrapalhou com os papéis e ficou em silêncio por 13 segundos diante das câmeras. Sem a cola, não tinha ideia do que dizer.

Em outro momento, o então ministro da Controladoria-Geral da União, Wagner Rosário, chamou a senadora Simone Tebet de “descontrolada”. Apelou ao machismo por falta de resposta para as suspeitas de corrupção.

O documentário expõe buracos na estratégia de Flávio Bolsonaro de se apresentar como o “Bolsonaro que toma vacina”. O senador aparece tumultuando a investigação e gargalhando de perguntas sobre os malfeitos do pai.

O filme também revela rusgas e divergências entre integrantes da CPI. Num dos diálogos, os senadores Randolfe Rodrigues e Humberto Costa dizem que Renan Calheiros daria “tiro no pé” ao convocar o empresário Luciano Hang, que se vestia de Zé Carioca para bajular o capitão.

A comissão cumpriu seu papel, mas o relatório acabou engavetado pelo procurador Augusto Aras. Há nove meses, o ministro Flávio Dino mandou a Polícia Federal instaurar um novo inquérito, que segue inconcluso. O taxista Márcio morreu em 2022, sem ver qualquer punição pelas mais de 700 mil mortes no país.

Bookmark and Share

TRETA NO CLÃ BOLSONARISTA

 

Bookmark and Share

SALVE SÃO JOÃO !

Bookmark and Share

DRIBLES DO ACASO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Aleatoriedade tem mais influência no futebol do que em outros esportes coletivos

Raridade do gol e abundância de eventos imprevistos estão entre as razões da diferença

O ser humano é um bicho esquisito. Como espécie, temos horror ao acaso. Inventamos as religiões precisamente para fingir que ele não existe. Mas, quando se trata de eleger um esporte, a maior parte do mundo civilizado fica com o futebol. E o que caracteriza o futebol é justamente expor-se muito mais ao acaso do que outros esportes coletivos. É o imponderável que dá sabor à coisa. No basquete, é altamente improvável que um time muito ruim vença um muito bom, mas, no futebol, zebras fazem parte da ordem natural dos acontecimentos.

Causou frisson em 2013 o lançamento do livro "Os Números do Jogo", em que Chris Anderson e David Sally, depois de analisar com rigor estatístico um sem-número de partidas, tiram uma série de conclusões interessantes. Um de seus achados é que, no futebol, o acaso explica 50% dos resultados, deixando os outros 50% para a habilidade dos jogadores e a estrutura tática.

Um jeito prático de ver isso é olhando para os prognósticos em casas de apostas. Ali por volta de 2013, os times favoritos venciam apenas 50% das vezes. No handebol, eram mais de 70%. Vários fatores conspiram para a imponderabilidade. Um dos principais é que o gol é um desfecho raro. Uma partida pode envolver até 4.000 eventos como chutes, dribles, passes, impedimentos. Os gols, normalmente, não passam de três. Quando um time mete quatro, já chamamos de goleada.

Outra forma intuitiva de visualizar isso é observando o desenvolvimento de uma jogada. É raro tudo sair como o armador planejou. Quase sempre, ocorre algum imprevisto, como uma interceptação, um rebote, um passe errado e outras patadas do acaso. É em cima dessa generosa estocasticidade que as jogadas se constroem.

Meu palpite é que gostamos do futebol porque ele imita a vida. As características humanas que mais nos interessam também são, pelas metanálises de genética comportamental, o resultado de um complexo jogo de interações entre genes (habilidades?) e ambiente não compartilhado (acaso?) numa razão próxima a 50/50.

Bookmark and Share