Resultado eleitoral no Rio mostra o efeito rebote da
intervenção judicial
Nas primeiras falas do presidente do PL, Valdemar Costa
Neto, e no resultado eleitoral do Rio, há um mapa de 2º turno. O comandante da
avalanche do PL nas eleições majoritárias e proporcionais disse que o
ex-presidente Jair Bolsonaro, caso o filho se eleja, será reabilitado para
disputar a Presidência da República.
As perspectivas de reabilitação do ex-presidente, as
ambições da senadora eleita Michelle Bolsonaro (DF) e a maiúscula votação do
deputado federal Nikolas Ferreira (MG) deixam claro que, nem tão cedo, o PL
pretende ceder o manche para a direita tradicional. Ainda que o senador Flávio
Bolsonaro (PL) cumpra sua promessa de pôr fim à reeleição, não parecerá
disposto, se eleito, a entregar o poder para que outro aventureiro lance mão.
Não se trata de um cenário confortável para
outros partidos que têm projeto de poder, como o Republicanos do governador
reeleito Tarcísio de Freitas ou o PSD da governadora reeleita Raquel Lyra.
Junte-se a isso o Senado e a Câmara, em que, tirando o Novo, amasiado com o
bolsonarismo, toda a direita se deu mal e está acrescentado outro ingrediente
do incômodo. Some-se ainda uma votação em que Lula manteve seu tamanho nas
capitais e grandes cidades, mas perdeu espaço nos grotões do agronegócio, e se
tem uma rota para 2º turno.
Em nenhum lugar, porém, estão concentradas tantas lições
desta primeira rodada quanto no Rio. No berço do bolsonarismo, a política
enfrentou o rebote da sombra do Judiciário sobre a vontade do eleitor. O
candidato do PL ao governo, Douglas Ruas, passou à frente para o 2º turno com
uma campanha em que buscou, com sucesso, se distanciar do ex-governador Cláudio
de Castro e de seu antecessor na Presidência da Assembleia Legislativa do Rio,
Rodrigo Bacellar.
A pergunta que os engenheiros da ruína do ex-prefeito
Eduardo Paes fazem hoje é se isso teria sido possível se Ruas tivesse podido
assumir o governo do Estado com a renúncia de Castro e disputasse, no cargo, a
reeleição. Teria a máquina nas mãos mas também todo o desgaste decorrente da
herança que o desgoverno bolsonarista impõe, há oito anos, sobre o Estado.
Ricardo Couto, o ex-presidente do Tribunal de Justiça do Rio
que, graças ao Supremo Tribunal Federal, foi mantido no cargo durante as
eleições por um pedido de vista, tomou medidas saneadoras amplamente aplaudidas
pela imprensa, pelo empresariado e por uma classe média que viu o Rio ser
entregue às luzes da tecnocracia judicial.
Paes associou-se à gestão de Couto mostrando-se como mais
apto para dar continuidade ao saneamento iniciado por Couto enquanto exibia
como as alianças de Ruas com Castro e Bacellar vulnerabilizariam o Palácio da
Guanabara frente ao crime organizado. Deixou em segundo plano aquele que, da
direita à esquerda, se reconhece como seu maior ativo eleitoral, as entregas de
sua gestão.
Enquanto isso, Douglas Ruas apresentava-se como o
parlamentar da Baixada Fluminense, que entende os dramas do povo e, com
humildade, propõe-se a enfrentá-los. Some-se a isso a insatisfação que o
saneamento promovido por Couto promoveu na rede de empregos e cabos eleitorais
mobilizada pela Assembleia Legislativa e foi aberto o terreno para o candidato
do PL avançar.
Ruas ganhou na Baixada e Paes, na capital. As duas regiões
têm eleitorado equivalente. A vitória de Ruas em Campos dos Goytacazes não
apenas desempatou a disputa como também comprovou o papel cumprido pelo
terceiro colocado, Anthony Garotinho (Republicanos), cuja família domina a
política na região.
Inelegível por oito anos pela Lei da Ficha Limpa em
condenação confirmada pelo STF em 2025, Garotinho conseguiu registrar sua
candidatura e disputou todo o 1º turno em meio a uma guerra de liminares sobre
a validade deste registro. Nesta segunda, Garotinho desistiu do recurso ao TSE.
A campanha de Paes, que, até aqui, tentou invalidar sua
candidatura para garantir vitória no 1º turno, acabou surpreendida pela
liderança de Ruas. Agora entrou na guerra das liminares para que esta decisão
seja prorrogada e o 2º turno possa acontecer.
Este efeito rebote da imersão do Judiciário na política
fluminense acabou, paradoxalmente, aproximando o drama vivido por Paes e Lula.
Ainda que Paes tenha sido mais proativo em convocar a toga para a arena
eleitoral, Lula também enfrentou revezes decorrentes da simbiose entre sua
gestão e o STF.
Algumas propostas de reforma do Judiciário que já começam a
chegar ao PL não apenas reduzem o STF a uma Corte Constitucional, e não
recursal, como também impõem limite a mandatos vigentes, o que dispensaria até
o impeachment de ministros. Lula também deverá avançar numa reforma do
Judiciário neste 2º turno por inevitável. Até aqui, se limitou a dizer que
formará um conselho de notáveis para filtrar suas indicações.
A reforma conterá o único poder capaz de por freio à
hipertrofia do Legislativo? Certamente. As contas criteriosas de Lara Mesquita
(FGV-SP), porém, colocam um freio na percepção de que as emendas garantem a
vitaliciedade dos parlamentares. Dos 414 que tentaram a reeleição, 71%
conseguiram, a mesma proporção de 2002. E no Senado? O presidente da Casa, Davi
Alcolumbre (União-AP), teve aliados derrotados nas duas vagas e no governo do
Estado.
