sábado, 10 de outubro de 2026

MORRE TELMA DE SOUZA

Rafael Motta, g1 Santos

Telma de Souza, única mulher eleita prefeita de Santos, morre aos 82 anos

Ex-prefeita estava internada no Hospital Mont Serrat. Fundadora do PT, também foi vereadora e deputada estadual e federal.

A ex-prefeita de Santos Telma de Souza (PT), única mulher eleita a governar a cidade (1989-1992), morreu aos 82 anos às 20h27 deste sábado (10). Ela estava internada no Hospital Mont Serrat, na Vila Mathias.

Telma havia sofrido um acidente vascular cerebral (AVC) e teve uma infecção urinária. Ela já havia se recuperado de um AVC isquêmico sofrido um ano antes e, desde então, restringido as participações em eventos públicos.

A morte foi confirmada pelo presidente do instituto que leva o nome da ex-prefeita, Fernando Alberto Júnior. O velório ocorrerá no Palácio José Bonifácio, em horário a ser confirmado.

Trajetória política

Telma Sandra Augusto de Souza nasceu em Santos em 29 de setembro de 1944. Ela era filha de João Inácio de Souza, o Joãozinho do Instituto, vereador cassado em 1964 pela ditadura, e da também ex-vereadora Hilda Augusto de Souza.

Fundadora do Partido dos Trabalhadores (PT), em 1980, Telma foi vereadora entre 1983 e 1986, deputada estadual em 1987 e 1988 e prefeita de Santos de 1989 a 1992.

Também exerceu três mandatos como deputada federal, entre 1995 e 2007, e voltou à Câmara de Santos como vereadora entre 2017 e 2024.

Relembre: prefeita eleita e com medo

Em entrevista ao podcast Baixada em Pauta, Telma relembrou a passagem pelo Executivo e revelou que sentiu "medo" ao ser eleita. Em sua gestão, implantou as policlínicas ao lado de David Capistrano, então secretário de Saúde e seu sucessor na prefeitura.

"Fiquei uns dois, três dias chorando e todo mundo dizia: Como ela é sensível, como está emocionada. Que nada, eu estava com medo, porque eu sabia o que eu não devia fazer, mas não tinha certeza daquilo que eu devia fazer", lembrou.

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O ALGORITMO DAS FAMÍLIAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Esquerda se institucionalizou e deixou campo da rebeldia livre para a ultradireita

Distanciamento afetivo dos horrores do totalitarismo reduz defesas contra a radicalização

Uma das possíveis explicações para o mau desempenho de Lula (PT) no primeiro turno é que ele perdeu apoio entre os eleitores mais jovens. Pesquisas mostraram que o petista, que antes mantinha confortável vantagem sobre Flávio Bolsonaro (PL) nas faixas de 16 a 34 anos, viu sua dianteira estreitar-se mais perto do pleito. Numa disputa acirrada, esses votos fizeram diferença.

Não é só no Brasil. Jovens, notadamente homens, abraçando posições da direita radical foram um fator relevante para as eleições de Javier Milei na Argentina e de José Antonio Kast no Chile. Não é só na América Latina. Jovens também passaram a engrossar as fileiras da ultradireita nos EUA, França, Alemanha, Espanha etc. Até duas décadas atrás, jovens eram, no Ocidente, um público quase cativo da esquerda. O que aconteceu?

Há várias hipóteses, que vão de uma frustração com o "statu quo" econômico (eles já não querem as vagas de emprego tradicionais) até o advento das redes sociais (influenciadores de direita parecem ser mais eficazes que os de esquerda). Haveria inclusive uma dimensão estética, já que a esquerda, até por ter emplacado várias de suas bandeiras, se fossilizou, deixando para a direita o papel de movimento de contestação à ordem, que casa tão bem com os instintos de rebeldia da juventude.

Outro elemento relevante é que a mais poderosa das vacinas contra a radicalização, que é a memória, tem prazo de validade. Os horrores do nazifascismo e das tiranias comunistas estão todos nos livros de história. Mas isso não basta. Para atuar como imunizantes, essas memórias precisam vir com uma carga afetiva que vai se apagando com a passagem do tempo. Eu ainda lembro das histórias de meus avós sobre as perseguições a judeus na Europa e me recordo bem dos amigos de meus pais que foram torturados e de um que foi assassinado na ditadura. Meus filhos conhecem esses casos, mas só de forma abstrata e muito menos vívida.

Talvez a humanidade precise mesmo de crises periódicas para atualizar as bússolas morais das pessoas.

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MAIS UMA VEZ À BEIRA DO ABISMO

Juliana Diniz*, O Povo

Mal saímos do primeiro turno e já temos um rol de preocupações sobre o futuro para administrar. Bem-posicionado nas pesquisas e muito confiante de sua vitória, Flávio Bolsonaro não tem tido pudor ao anunciar suas pretensões para quando se assenhorar da cadeira da presidência da república. Não há, aqui, espaço para o engano, as propostas são claras e merecem toda a nossa atenção.

A mais alarmante de todas é o desejo explícito de mudar a constituição para torná-la, segundo o candidato, "mais democrática". A ambição não é impossível: depois de eleger a maior bancada de deputados federais e de senadores, o Partido Liberal irá despontar como força parlamentar na próxima legislatura, tornando mais desafiadora a defesa das agendas mais associadas à esquerda progressista. O Brasil, ao que parece, vai mesmo "endireitar", o que deveria ser motivo de angústia para trabalhadores, mulheres e demais grupos vulneráveis.

Quando indagado sobre o que seria objeto de mudança, Bolsonaro afirmou que é seu desejo alterar as regras sobre acesso ao STF, sobre o tempo de permanência dos ministros, sobre as competências do tribunal e sobre o espaço para decisões monocráticas. Não é pouca coisa e, considerando o dado de que o próximo presidente irá indicar, pelo menos, 4 ministros à corte, a chance de neutralização da STF não é pequena, está no campo das altas probabilidades.

Sem um STF independente e forte, o que fica em risco é a defesa da supremacia da constituição. Quaisquer iniciativas que violem seus dispositivos não poderão ser revertidas ou interrompidas pela falta de um controle externo. Dito isso, a segunda promessa de mudança preocupa ainda mais: o desejo de alterar muitas das normas relacionadas à ordem social.

Organização da educação nacional, proteção do meio ambiente e da família, sistemas de assistência e previdência social, tudo fica exposto às iniciativas de emenda constitucional quando o candidato afirma ter a pretensão de reduzir o equivalente a 250 bilhões em "gasto". Serviços públicos custam dinheiro e absorvem um mínimo obrigatório de orçamento previsto na constituição. A única forma de economizar com o custeio do SUS ou das universidades é mutilando a carta constitucional para deixá-la menos próxima de um estado do bem-estar social e mais parecida com a carta de um estado mínimo.

O cenário que Flávio Bolsonaro nos anuncia, caso seja eleito, é o de uma terra arrasada para o projeto do constituinte de 1988, um Brasil comprometido com a redução das desigualdades sociais e com a democracia. É um abismo que, mais uma vez, se coloca diante de nós, agora em circunstâncias mais severas, pois o guardião dos nossos direitos, o STF, nunca esteve tão fraco e envergonhado.

*Juliana Diniz – Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará. 

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ESQUEMA BOLSONARISTA DEFINE ELEIÇÃO NO RIO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Douglas Ruas nem precisava de canetada do TSE e confusão armada por Garotinho

Impactado por votos na Baixada Fluminense, pleito virou um negócio de família

No Rio de Janeiro, a política é um negócio de família. O método genealógico –uma tradição na história brasileira, basta lembrar dos Andradas de Minas Gerais, que atuam desde antes da declaração de independência do país –domina as relações de poder na atual sociedade fluminense, aí incluídas as igrejas evangélicas e as milícias.

A partir de 2018 o clã Bolsonaro –em torno do qual gravitam os clãs menores– instalou no estado uma espécie de novo chaguismo, sistema baseado no uso da máquina e no desvio de dinheiro dos cofres públicos para a compra de votos e a obtenção de imbatível vantagem eleitoral.

Depois de Wilson Witzel e de Cláudio Castro, ambos marcados por denúncias de corrupção, a bola da vez para assumir o governo é Douglas Ruas, filho do PM reformado Capitão Nelson, que desde 2021 é prefeito de São Gonçalo, segundo maior colégio eleitoral do estado. Nelson é suspeito de ter comandado um "carro da linguiça", expressão usada no Rio para se referir a veículos clandestinos a serviço de grupos de extermínio que agem em áreas periféricas.

Quatro vezes prefeito da capital, Eduardo Paes, em seu sonho de se tornar governador, tentou neutralizar o esquema bolsonarista nos municípios da Baixada Fluminense –um retrato sem filtro do Rio de Janeiro, com imóveis de alto padrão, onde vivem empresários e caciques eleitorais, a poucos metros de barracos ocupados por famílias sem a sorte e a esperteza de ter entrado para a política ou arranjado os contatos certos.

Paes fez um acordo com o dono de Duque de Caxias. Para vice na chapa, indicou Jane Reis, irmã de Washington Reis, ex-secretário de Castro e o homem que conseguiu o certificado de vacina falso para Bolsonaro. Reis elegeu os dois irmãos, Rosenverg e Gutemberg —o primeiro para a Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) e o segundo para a Câmara dos Deputados—, mas deu um perdido no aliado. Douglas Ruas teve 50% dos votos válidos em Caxias. Na vizinha Nova Iguaçu, domínio da família Canella, quase 60%.

Para vencer, Ruas não precisava da canetada do TSE (Tribunal Superior Eleitoral) nem da confusão armada de propósito pelo velho Garotinho.

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sexta-feira, 9 de outubro de 2026

AVANÇO DA DIREITA NUM MUNDO TRANSFORMADO

Artigo de Fernando Gabeira

O problema desse primeiro turno, encerrado com a vitória de Flávio Bolsonaro e uma grande votação da direita no Senado, é o fato de precisarmos de muito tempo para entender, num contexto em que não há tempo, pois o segundo turno já começou. É difícil corrigir em 20 dias erros que se arrastaram por quatro anos. Um deles se refere à amplitude e eficácia da frente democrática, bem-sucedida em 2022. Para ser fiel à proposta, o governo teria de evitar a hegemonia de um só partido e tentar, progressivamente, conquistar setores da sociedade que ainda estavam fora da frente. Não foi isso que aconteceu. A frente foi vista apenas como um instrumento da vitória eleitoral, e não como uma ferramenta que precisa ser aperfeiçoada para confrontar o crescimento da direita, uma realidade internacional.

Dificilmente num primeiro momento podemos avaliar o impacto que a crise no Supremo Tribunal Federal (STF) teve na campanha eleitoral. Para medi-lo, talvez seja necessário começar pelo julgamento dos envolvidos no 8 de Janeiro. Os juízes foram muito severos em suas penas, além disso, por falta de estrutura, não se avaliou adequadamente a participação individual de cada manifestante. A severidade de uma determinada sentença não é algo extraordinário. Pode ocorrer aqui e ali, sobretudo pelo fato de que os juízes não analisam em detalhes as consequências políticas de suas decisões. O problema é que os políticos do governo se identificaram com as decisões judiciais e as aprovaram sem reservas. Isso contribuiu não para inibir a direita, ao contrário, foi um estímulo para uma campanha denunciando injustiças e perseguição política. Em pouco tempo, o Supremo, com o qual o governo se identificou, entra numa grande crise de credibilidade. O mesmo juiz que se destacou no rigor da repressão é apontado como cúmplice de Daniel Vorcaro, a partir do contrato de R$ 131 milhões que o escritório de sua família tinha com o Banco Master.

Para quem era de oposição e denunciava o ministro Alexandre de Moraes por sua severidade e algumas injustiças, tornou-se fácil estabelecer uma ligação entre governo e STF. Algumas decisões atabalhoadas dos ministros a favor de Lula nas eleições, como no caso do debate cancelado, podem ter contribuído para que grande parte dos eleitores identificasse uma instituição impopular com o governo. Essa hipótese é fortalecida pela grande vitória da direita no Senado. Muitos candidatos vitoriosos prometiam votar o impeachment de ministros. Parece que grande parte do eleitorado comprou a ideia de que era necessário mudar o governo.

Uma das grandes questões da política atual no Brasil é esta: se o bolsonarismo foi derrotado em 2022, apesar de ter o governo nas mãos, por que, em vez de perder substância, continuou crescendo a ponto de realizar sem problemas sua estratégia de ganhar o Senado?

Estava tudo tão claramente exposto e, no entanto, foi impossível de evitar. Há dois caminhos de análise: avaliar a força de um movimento internacional de crescimento da direita, mas também examinar os erros da frente que começou com uma amplitude e foi se estreitando. Em termos de distribuição de cargos, houve uma tentativa de ampliação. E isso sempre funciona, pois há muita gente querendo cargos. Mas em termos de intercâmbio político, de troca de ideias, de tentativa de crescimento, inclusive para cima dos eleitores de Bolsonaro, pouco foi feito.

A ideia sempre foi a de delimitar o bolsonarismo e atacá-lo, numa falsa suposição de que milhões de eleitores são de extrema direita. Talvez não tenha sido a melhor. Um dos fatores que influenciam as posições políticas é a lacração ou o desprezo pelo adversário.

Num livro lançado agora no Brasil, o sociólogo François Dubet destaca a importância do desprezo, da humilhação e da falta de reconhecimento no crescimento do populismo e na crise da democracia. Muitas pessoas não compreendem isso e, ao começar o segundo turno, tornam-se agressivas contra quem não votou com elas. Todas as pessoas que são ofendidas por causa de suas opções políticas acabam se enraizando e dificilmente consideram a possibilidade de mudar de ideia.

Para obter um resultado um pouco melhor, teria sido importante voltar à vitória de 2022 e avaliar os erros de interpretação. O primeiro deles foi considerar a frente democrática apenas como uma bandeira de campanha, e não como um instrumento de aperfeiçoamento constante.

O segundo deles é mais difícil de conter, pois é um esporte popular: insultar o adversário político, renunciar à ideia de convencê-lo. É muito comum nas redes o insulto ao “pobre de direita”, por exemplo. Isso sem contar as milhares de lacrações do politicamente correto. É importante que as pessoas reconheçam que estamos diante de uma forte onda internacional. Para fazer frente a ela, é preciso estudo, pesquisa, humildade, uma tentativa de compreender o outro.

Fatores como demonstração de artistas ricos e bonitos a favor de uma candidatura talvez não tenham mais o peso do início do processo de democratização. Existem forças políticas capazes de moldar identidades, alimentar ressentimentos.

No seu pequeno livro, François Dubet lança a ideia de que em nossos tempos nem sempre as desigualdades são vividas como injustiça material, mas como uma humilhação simbólica. São ainda tímidas as tentativas de entender o que se passa, mas algumas coisas mais urgentes precisam ser discutidas agora.

Artigo publicado no jornal Estdão em 09 / 10 / 2026

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A DIREITA QUE DIVIDIU O CENTRÃO

Karolina Roeder*, Correio Braziliense

É muita ironia do destino a democracia brasileira em 2026 depender do Centrão para sobreviver

 O primeiro turno de 2026 confirmou algo que vinha se desenhando desde 2018. A extrema-direita se consolidou como força eleitoral no Brasil, com quadros, eleitorado e um partido que, mesmo com uma organização frágil, dispõe da maior fatia individual do fundo eleitoral. O capital político de Jair Bolsonaro foi transferido para os filhos, especialmente Flávio, cuja candidatura presidencial funcionou como motor das candidaturas do PL ao Legislativo. O PL elegeu 121 deputados, a maior bancada de um único partido na Câmara desde a redemocratização, e terá a maior bancada do Senado a partir de 2027, com 28 senadores. 

Do outro lado, os seis partidos do Centrão — União Brasil, PP, PSD, Republicanos, MDB e Podemos  — elegeram juntos 13 deputados a menos que em 2022. Isso chama atenção porque parte desses partidos passou os últimos anos ao lado do bolsonarismo em pautas como a anistia aos condenados do 8 de Janeiro e a oposição sistemática ao governo. Com isso, perderam espaço justamente para o campo político que ajudaram a fortalecer. 

O Centrão não é sinônimo de centro ideológico. Os pesquisadores que fazem estudos sobre partidos políticos Bruno Bolognesi, Ednaldo Ribeiro, Adriano Codato e Bruno Fernando da Silva mostram que o centro praticamente desapareceu do sistema partidário brasileiro, e que a direita é predominantemente fisiológica, orientada à obtenção de cargos e recursos mais do que à defesa de programas. 

A composição do Centrão não tem uma definição e muda a cada legislatura, os partidos se alinham conforme a matéria em votação. União Brasil, PP e MDB perderam juntos 22 cadeiras, a maior parte delas na federação União Progressista, que, em setembro de 2025, anunciou a saída do governo Lula e o apoio à anistia. PSD, Republicanos e Podemos, por outro lado, ganharam nove cadeiras. O Republicanos merece atenção porque, mesmo próximo do bolsonarismo, tem base própria no eleitorado evangélico e em Tarcísio de Freitas, e por isso não dependeria do PL para ter identidade. Portanto, a disputa no Legislativo de 2026 se deu dentro da própria direita, direita fisiológica x direita bolsonarista, e quem venceu foi o partido que deixou de ser Centrão para se tornar a agremiação da extrema-direita.

Parte do Centrão que mais se aproximou do bolsonarismo e do PL foi vítima de uma estratégia que parecia racional no curto prazo. Esses partidos buscaram ampliar seu poder de barganha diante do Executivo e se proteger de ataques pela direita em suas bases. O custo foi legitimar uma pauta que pertence a outro campo. Experiências de outros países mostram que, quando partidos tradicionais adotam o discurso da direita radical para disputar seus eleitores, raramente são bem-sucedidos. Porque o eleitor que prioriza esses temas tende a preferir o original à cópia.

A força do Centrão sempre esteve nos recursos locais e lideranças regionais, como mostraram as eleições municipais de 2024. Em 2026, a disputa foi mais nacionalizada e polarizada, e tudo indica que o eleitor votou mais por pertencimento político, em boa medida mobilizado pelas redes sociais. Nesse cenário, a direita bolsonarista levou vantagem sobre a direita fisiológica.

O resultado é que os seis partidos terão 234 deputados, cerca de 45% da Câmara e quase o dobro da bancada do PL. E continuarão com mais dinheiro. Como o fundo eleitoral é distribuído conforme o resultado da última eleição geral, o PL deve ficar com cerca de um quarto dos recursos nas eleições municipais de 2028, e o Centrão somará cerca de 40%. É justamente no plano municipal, em suas redes locais, que esses partidos teriam a chance de se recompor e fazer a diferença. O PL segue longe da maioria e precisará desses partidos para qualquer agenda.

Agora, o que muda é a posição de negociação, e o segundo turno vai defini-la. Se a extrema-direita vencer a Presidência, o Centrão tende a se tornar sócio menor de um projeto que não é originalmente seu. Se Lula vencer, o Centrão volta a ser o fiel da balança. É muita ironia do destino a democracia brasileira em 2026 depender do Centrão para sobreviver.

Em qualquer cenário, a parte do Centrão que aderiu ao bolsonarismo parece ter trocado sua autonomia, e a proteção do próprio sistema democrático, por vantagens imediatas. Os partidos tradicionais têm a função de filtrar lideranças e agendas que desafiam as regras do jogo democrático. Quando abrem mão desse papel em troca de ganhos de curto prazo, quem costuma pagar a conta são eles próprios. Em 2026, a fatura chegou nas urnas.

*Karolina Roeder — cientista política, professora de ciência política e relações na Uninter e pesquisadora do INCT ReDem (Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Representação e Legitimidade Democrática) 

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SENSAÇÃO DE DISPUTA RESOLVIDA NÃO SE CONFIRMA NA PESQUISA

César Felício, Valor Econômico

Diferença de 4pp mostra descompasso com o clima de já ganhou entre bolsonaristas

O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) já não faz mais campanha presidencial, embora ainda faltem mais de duas semanas para o segundo turno. Negocia as adesões do Centrão em troca não de votos, mas de espaços de poder nas mesas diretoras do Congresso e do ministério. Organiza como se dará o impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) e até sinaliza para uma costura que, em nome de acabar com a reeleição, prorrogará o próprio mandato que disputa e adiará as eleições de 2030. Já há até especulação sobre a divisão de cargos de segundo escalão.

Não se trata de salto alto, vai além disso. Flávio se comporta como se o segundo turno fosse mera formalidade, e assim também se comportam a cúpula dos partidos políticos e do próprio Judiciário: como se a eleição presidencial de 2026 estivesse resolvida. A sensação de que não há mais competição se fortalece por uma característica única desta eleição, que é a virtual ausência de segundos turnos, disputados em apenas cinco Estados (Tocantins, Acre, Amazonas, Espírito Santo e Rio Grande do Norte) e no Distrito Federal.

A pesquisa divulgada pelo Datafolha na quinta-feira (8), contudo, não é tão assertiva assim. Ele lidera com 49% de intenção de voto, ante 45% do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), uma diferença relativamente apertada. Na pesquisa espontânea, sem que os nomes sejam apresentados, Flávio obtém 46% e Lula 44%, os mesmos dois pontos percentuais de diferença registrados nas urnas do primeiro turno. Segundo o levantamento, 46% dizem que votarão com certeza no senador e 46% dizem que com certeza não votarão.

A chave da pesquisa que de fato confere favoritismo ao senador está na rejeição de Lula: 49% afirmam que não votarão no presidente em hipótese alguma e só 43% afirmam que votarão com certeza. Entre os eleitores que se declaram não alinhados aos dois polos que dividem o país, 53% descartam votar em Lula, 26% dizem que votariam com certeza e 20% admitem que talvez votem.

Não há registro de viradas nas eleições presidenciais brasileiras em segundo turno, mas há um descompasso entre a divisão do eleitorado brasileiro e a unanimidade do mundo político de que já vivemos a era Flávio.

Diferença de 4pp mostra descompasso com o clima de já ganhou entre bolsonaristas

O senador tende a ganhar a eleição, mas por uma diferença de votos pequena, provavelmente muito inferior à registrada pelo pai em 2018, quando Jair Bolsonaro venceu Fernando Haddad por 55% a 45%. Será um segundo turno mais parecido com os de 2014 e 2022 em que, ao contrário de agora, Brasília não vivia a sensação de que não há nada mais em jogo.

Uma diferença como a registrada pelo Datafolha não é imune a debates, propaganda ou algum fato novo, por mais calcificadas que estejam as opiniões (94% dos entrevistados dizem que não mudarão o voto). Se metade dos 6% que não são tão categóricos assim mudar a sua decisão a favor do segundo colocado no primeiro turno, já estaria configurado um empate.

Obviamente o senador Flávio Bolsonaro não desconhece esse fato. O gesto de sentar-se na cadeira antes da hora, mais que soberba, também é estratégia. Apresentar-se como inexorável, inevitável, é um modo de baixar o moral da tropa adversária. O eleitor lulista, diante do que parece se tratar de um fato consumado, pode ficar mais tentado a ficar em casa no dia 25 e não votar. O eleitor desmotivado e pendular também pode se mobilizar menos diante de uma fatura que parece liquidada.

O mundo político, por outro lado, precisa fazer apostas. O nível de acesso a um presidente muda se a aliança se der antes do segundo turno ou depois, e os partidos do Centrão foram os que mais perderam no Congresso. O União Brasil encolheu seis cadeiras. O PP, cinco. O Republicanos, uma. Todos declararam apoio a Flávio nos últimos dias. A exceção foi o PSD de Gilberto Kassab, que se posicionou pela neutralidade no primeiro instante.

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FLÁVIO BOLSONARO TENTARÁ 'SUBMISSÃO NEGOCIADA' AOS EUA

César Felício , Valor Econômico

Entrevista | Para Marcos Nobre, Flávio tentará ‘submissão negociada’ aos EUA

Cientista político vê cenário difícil para eventual Lula 4, com necessidade de montagem de base ‘anti-impeachment'

Autor de vários livros sobre a estruturação do bolsonarismo como um partido orgânico de caráter digital, o cientista político Marcos Nobre vê possibilidades do surgimento de uma “esquerda digital” no futuro, caso o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) perca a eleição para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ).

Para Nobre, caso chegue ao poder, Flávio será um presidente longe do improviso: firmou liderança dentro do seu grupo, mesmo depois de contestado publicamente pela madrasta, a senadora eleita Michelle Bolsonaro (PL-DF). Forjou aliança com os partidos do Centrão e sobreviveu a escândalos como o da “rachadinha” e do Banco Master.

Nobre aposta que, se eleito, o filho do ex-presidente Jair Bolsonaro tentará negociar a submissão do Brasil aos Estados Unidos em troca de investimentos externos que viabilizem uma saída para os problemas fiscais sem comprometer o desenvolvimento.

Caso a estratégia não dê certo, ele não considera impossível que o Brasil derive para um modelo autoritário, nos moldes do de Recep Erdogan, autocrata da Turquia, no poder desde 2003.

Líder conservador, Erdogan enfrentou diversos obstáculos jurídicos para organizar o seu partido e chegar ao poder. Em seus dois primeiros mandatos fez governos com alta aprovação, marcados por crescimento econômico e inflação sob controle. A partir de 2013, com o país em crise, passou a fechar o regime por meio de medidas judiciais, processo que se acelerou depois que sofreu uma tentativa de golpe de Estado em 2016. Para Nobre, a democracia cai em uma espécie de armadilha quando é forçada a recorrer a medidas arbitrárias para sua própria autodefesa. 

A seguir, trechos da entrevista de Nobre ao Valor:

Valor: Independentemente do resultado da eleição para Lula, há um fim de ciclo na esquerda. O que poderia caracterizar o pós-lulismo no cenário de uma vitória do petista ou de uma derrota?

Marcos Nobre: São condições muito diferentes você fazer a transição para o pós-Lula estando no poder ou estando fora dele. Estando no poder, as condições são muito mais favoráveis para você conseguir manter a unidade do PT e a unidade do campo da esquerda. Fora do poder, o desafio aumenta. Na hipótese de reeleição, o ponto mais importante é o de relação do que seria o governo Lula com os outros dois poderes. Ele seria rebaixado do ponto de vista das suas relações com o Congresso, porque estaria bloqueado, sob muitos aspectos, por esse Senado e por essa Câmara. Seria um governo de minoria, que tem que montar, basicamente, uma base anti-impeachment muito sólida, ou seja, tem que ter pelo menos 200 deputados, em condições de negociação com o centrão, que, nesse caso, não iria aderir automaticamente. Mas a reeleição mesmo assim significaria duas coisas muito importantes. Em primeiro lugar, que a espada da destruição da democracia seria tirada da cabeça da população brasileira. E, em segundo lugar, que o STF e o Judiciário, de uma maneira mais ampla, não seriam objetos de captura por parte da extrema-direita.

Valor: No cenário de derrota do Lula, estaríamos em uma hegemonia bolsonarista e irá existir demanda eleitoral pelo antibolsonarismo. Quem preencheria esta demanda?

Nobre: Essa oferta não está pronta ainda. O PT, quando volta ao poder no terceiro mandato de Lula, não tem um programa que vá além do que fez nos 13 anos em que governou até 2016. A partir de agora, perdendo a eleição, vai ter que formular um programa alternativo. Esse programa alternativo se torna tanto mais possível, no caso de uma vitória de Flávio Bolsonaro, porque justamente será um partido na oposição. Então, o bolsonarismo sendo obrigado a se definir como governo, ou seja, ter características proativas, vai fazer com que o PT e a sua coalizão produzam um programa oposicionista. Estamos vendo isso acontecer nos Estados Unidos. Há uma disputa no interior do Partido Democrata por qual será o programa anti-Trump. Nós temos uma ala esquerda do partido que está ganhando várias prévias lá, está em curso esse debate dentro do Partido Democrata. Então, no caso brasileiro, nós vamos ver uma coisa semelhante. Embora não tenhamos essa figura das prévias, vamos ter um debate intenso no campo progressista e na esquerda em particular sobre qual será o programa a ser apresentado. Isso não é fácil, nem rápido, nem simples de ser feito.

Valor: Você acha que o PT manterá a centralidade?

Nobre: Quando nós pensamos que o PT tem 33% do eleitorado que se identifica com ele, você tem aí uma base que nenhuma outra força no campo progressista tem. É muito difícil que o PT seja desalojado da sua posição. O que pode acontecer é esse campo diminuir de tamanho. Mas, em termos de força política, não só força eleitoral, acho difícil outra possibilidade, a menos que surja, por exemplo, um partido digital de esquerda, o que seria uma grande novidade, que necessariamente fosse disputar com o PT a hegemonia desse campo. Mas uma construção desse tipo é uma construção de médio, longo prazo. Não é uma construção para quatro anos.

Valor: Você vê sinais dessa nova estação chegando com a eleição de alguns influencers de esquerda para a Câmara? Um sinal de um partido digital de esquerda?

Nobre: Nós estamos estudando isso. São sinais de uma organização semelhante ao Partido Digital Bolsonarista. Ou seja, não tem ainda essa característica organizativa e organizacional, mas, existe ali um importante contingente de pessoas que estão crescentemente se organizando e se interconectando.

Valor: Sobre a possível presidência de Flávio: Ele teria liderança no campo dele? Teria uma agenda que desenhe um governo estruturado?

Nobre: Eu não tenho dúvida disso. Flávio Bolsonaro tem uma enorme vantagem, se for eleito presidente, em relação a todos os antecessores, sem exceção, inclusive o pai: ele não se comprometeu com absolutamente nada nessa campanha. Então, é um presidente que chegaria ao poder sem ter fixado compromissos claros, o que lhe dá uma margem de manobra muito grande.

Valor: Mas há dúvidas se ele manda dentro da própria família.

Nobre: Eu acho que essa questão foi resolvida ao longo do primeiro semestre. A partir do momento em que Jair Bolsonaro indica o seu filho, logo depois foi iniciada uma guerra civil dentro do partido bolsonarista. Quem quer que tenha visto o vídeo de Michelle Bolsonaro, teria constatado no dia seguinte a implosão da candidatura, porque não é possível esse grau de hostilidade em relação ao candidato apontado pelo seu próprio marido. E, no entanto, Flávio Bolsonaro sobreviveu a toda essa artilharia. Sobreviveu também à artilharia que veio dos fatos, dos fatos que o ligavam ao Daniel Vorcaro, dos fatos que o ligam a suspeitas de rachadinha e outros tipos de possíveis malfeitos. E continuou não só competitivo, mas o único candidato competitivo na oposição. Todo mundo que o desafiou no campo do bolsonarismo teve de recuar e teve de abraçar a sua candidatura. Ou seja, nesse momento, Flávio Bolsonaro tem a liderança inclusive em relação aos irmãos.

Valor: E como ele vai lidar com o próprio pai?

Nobre: Jair Bolsonaro sabe que o seu futuro, fora da cadeia, depende do sucesso do governo do seu filho. Então, se houver uma disputa destrutiva isso prejudicaria o próprio Jair Bolsonaro. Acho que ele passou o bastão para o filho. E qualquer volta atrás nesse sentido faria mal para todo mundo, inclusive para ele mesmo. Então, é claro que ele vai ter uma influência enorme no governo, vai ter uma influência enorme em todas as decisões. Mas sua maior influência será fazer com que a família, os membros dessa família não se ataquem mutuamente. Será um poder moderador dentro da família.

Valor: Em que sentido Flávio Bolsonaro poderia repetir aspectos da modernização conservadora, associado ao capital externo, que marcou o regime de 1964?

Nobre: Bolsonaro disse que achava que a ditadura militar era uma democracia. Então, alguém que diz isso é alguém que, com clareza, tem isso como modelo do que deva ser o país. Em 1964 tínhamos uma clara submissão do Brasil ao campo da Guerra Fria, portanto, aos interesses dos Estados Unidos. A situação atual não é uma situação de Guerra Fria. A China nada tem a ver com a União Soviética, não está querendo exportar a sua revolução, não está criando partidos nos outros lugares pra espalhar a revolução, nem nada disso. Não obstante, esse modelo está sendo mobilizado para criar esse clima no qual uma submissão aos Estados Unidos parecesse algo necessário ou urgente. Essa submissão acontecerá. Isso foi declarado pelo Flávio Bolsonaro com todas as letras na conferência da CPAC lá em Dallas, Texas, em março desse ano. Mas a lógica é que essa submissão virá com um aumento significativo dos investimentos americanos no Brasil. Ou seja, você trocaria submissão por capital externo, por investimento externo direto dos Estados Unidos. E essa lógica quer dizer o quê? Olha, se eu torno o Brasil um país seguro para o investimento dos Estados Unidos, vou obter os recursos necessários para desenvolver o país. Ou seja, ele conseguiria dessa maneira sair da situação fiscal bastante difícil em que se encontra o Brasil.

Valor: Mas os Estados Unidos vão querer isso? Não podem exigir concessões sem dar nada em troca?

Nobre: Essa é a grande pergunta. Eles vão de fato trocar submissão por investimento? Flávio será capaz de negociar com os Estados Unidos investimentos em troca de submissão? Ele pode ficar com submissão e zero, nada. Se vier uma dependência absoluta em troca de nada, nos dois primeiros anos de mandato do Flávio Bolsonaro, basicamente, ele vai se ver numa situação muito difícil para governar. Nós temos uma situação em que o investimento público está no chão, e, ao mesmo tempo, tem uma situação fiscal difícil. Isso se reverte no quê? Na capacidade orçamentária do Executivo, que, como a gente sabe, é muito pequena. Então, ele se verá numa crise nesse governo. Uma das saídas possíveis, caso esse governo comece a entrar em uma situação muito difícil, é um golpe.

Valor: Em 2022 uma parte da elite política, empresarial e cultural do Brasil se convenceu de que Jair Bolsonaro era uma ameaça existencial à democracia. Dessa vez, não há sinais de que Flávio assim seja percebido. O que mudou?

Nobre: O nível de informação a que todas as pessoas têm acesso não mudou. Dentre as informações relevantes, está o fato de que Jair Bolsonaro tentou dar um golpe em 2022. O que eu acho que aconteceu é que essas pessoas se convenceram de que a democracia é algo secundário. Que é mais importante como a economia vai funcionar, que tenha previsibilidade, organização e ordem, do que a democracia.

Valor: Mas como seria um golpe dado pelo governo Flávio?

Nobre: Você pode fechar um regime por dentro. Manter algum grau de democracia de fachada, continuar fazendo eleições etc. Mas você tem o controle do sistema enquanto tal. Como se faz isso? Primeiro tem que tomar a Suprema Corte e isto está garantido para ele, porque vai indicar pelo menos mais três ministros. Se houver impeachment de Alexandre Moraes, quatro. E ele já tem o apoio de três, quatro juízes. E a partir daí, ele tem um controle do sistema político absoluto. A partir daí você pode começar a restringir, por exemplo, competição política, competição eleitoral. Você teria restrição da candidatura de outros partidos. Seria um pouco o que o Erdogan fez na Turquia.

Valor: Por que?

Nobre: É um modelo que já foi testado. É o arranjo da imposição de uma série de restrições à liberdade que aos poucos vão se tornando, entre aspas, normais. A lógica é um pouco a seguinte: a partir do governo Jair Bolsonaro, o Supremo Tribunal Federal, como última linha de defesa da democracia brasileira, porque não tinha outra, tomou decisões que, do ponto de vista de um momento, digamos, normal do funcionamento das instituições, eram decisões arbitrárias. Por quê? Porque, naquele momento não se podia defender a democracia em abstrato. Com a volta do bolsonarismo ao poder, a lógica vai ser o seguinte: já que o STF foi arbitrário contra Jair Bolsonaro, contra o bolsonarismo, agora seremos arbitrários contra quem quer que se oponha. Então, veja, a lógica da arbitrariedade está colocada como habitual, normal. Quem toma o poder tem o direito de ser arbitrário. É isso que se estabeleceu nesse país.

Valor: Então o senhor está reconhecendo que Jair Bolsonaro teria sido vítima de arbitrariedades?

Nobre: De jeito nenhum. Contra a democracia, não existe arbitrariedade. O que você não pode é defender os princípios da democracia em abstrato, quando ela está sendo atacada no concreto. Agora, isso tem consequência ao longo do tempo. Se você não consegue conter a ameaça à democracia, a mesma arbitrariedade que já foi necessária para tentar conter o autoritarismo se volta contra a democracia.

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DISPUTA DO SEGUNDO TURNO SE ACIRRA NA RUA, NO CONGRESSO E NOS TRIBUNAIS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Eleitos com milhões de seguidores têm força própria: à esquerda, Erika Hilton, Ana Elisa e Jones Manoel são as estrelas; à direita, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Jessé Sangalli

O segundo turno está na rua, mas uma parte decisiva da disputa ocorre nos corredores do Congresso e nos gabinetes dos tribunais. Enquanto Flávio Bolsonaro procura converter a vantagem sobre Luiz Inácio Lula da Silva em vitória, o resultado de domingo já reorganiza alianças, estimula propostas de mudanças constitucionais e altera as expectativas sobre o futuro do Supremo Tribunal Federal. A eleição presidencial tornou-se também uma disputa pelas regras e pelos limites do poder. Flávio já fala em acabar com a reeleição e aumentar seu mandato para cinco anos.

Há euforia da oposição, com repercussão na Bolsa e disputas antecipadas por cargos. Flávio obteve 47,03%, contra 45,16% de Lula: vantagem que não encerra a eleição. Mas o Data Folha de ontem já apontou um placar de 52% (Flávio) a 48% (Lula) considerando os votos válidos. Atacar o Supremo mobiliza a base e oferece uma explicação política em favor da oposição para o mal-estar do eleitor. Lula tenta superar a perplexidade e corrigir fragilidades da campanha. Precisa oferecer respostas ao orçamento doméstico, disputar os eleitores dos candidatos eliminados e mostrar o custo social das promessas do adversário.

A crítica à agenda institucional de Flávio não substitui propostas sobre renda e segurança. Lula também precisa impedir que a rejeição ao Supremo continue sendo transferida à sua candidatura. O realinhamento parlamentar também começou antes da definição presidencial. Quem se aproximou do governo contando com a reeleição passa a calcular os custos de permanecer a seu lado. A força conquistada pela direita no Congresso aumenta sua capacidade de atração e torna mais difícil para Lula recompor uma maioria.

Flávio Bolsonaro apresenta uma agenda de mudanças como programa amparado pelas urnas. A articulação de Rogério Marinho para presidir o Senado reúne essas dimensões. Coordenador da campanha de Flávio, o senador potiguar disputa uma posição que pesa sobre os pedidos de impeachment de ministros do Supremo.

Mudar a Constituição para “redemocratizar o país” é uma narrativa de resgate da democracia de Flávio Bolsonaro que põe suas instituições sob suspeita. Propõe reformas do Judiciário e do STF, redução da maioridade penal, alterações tributárias e fim da reeleição. Cada proposta exige exame próprio. Seu projeto, desde sempre, tem um conteúdo “iliberal”.           ‘             

O que é isso? O iliberalismo é um sistema político que se opõe aos valores fundamentais do liberalismo clássico e da democracia representativa, como respeito ao dissenso e aos direitos das minorias, porém, sua legitimidade é resultado de uma maioria eleitoral. Surge em todo o mundo, com muita força, como reação à frustração com as promessas não cumpridas da democracia tradicional e da globalização econômica.

Os líderes ou movimentos iliberais costumam chegar ao poder através de eleições legítimas, mas depois fragilizam as enfraquecem as regras democráticas. As instituições que controlam o poder, como o Supremo Tribunal ou Tribunais Superiores, a imprensa independente e organismos internacionais, são deslegitimadas, como ocorre agora com o Supremo.

Fim da reeleição

Nesta quinta-feira, Flávio deu uma cartada para abrir as portas de uma reforma constitucional: defendeu que o fim da reeleição alcance seu eventual governo e deixou ao Congresso a definição de um mandato de quatro ou cinco anos. O fim da reeleição, associado à possibilidade de ampliar o próprio mandato, exige critérios impessoais e transição clara. Uma vitória não autoriza mudanças ilimitadas nas regras do poder.

A renovação geracional no Congresso também está longe da moderação. Eleitos com milhões de seguidores têm força própria. À esquerda, Erika Hilton, Ana Elisa e Jones Manoel são as principais estrelas; à direita, Nikolas Ferreira, Lucas Pavanato e Jessé Sangalli. O debate sobre trabalho por aplicativos mostra projetos sociais distintos: proteção e direitos de um lado, resistência à regulação de outro. O mesmo acomntece nquanto ao fim da jornada de trabalho 6 por 1.

Nos tribunais, o episódio do Rio de Janeiro evidencia como uma decisão posterior à votação pode alterar o desfecho eleitoral. Douglas Ruas obteve 49,27% na totalização divulgada, e Eduardo Paes, 42,76%. A anulação definitiva dos 274.411 votos de Garotinho modifica a base de cálculo e permite a Ruas ultrapassar a maioria absoluta. Paes ensaiou recurso ao STF para preservar o segundo turno, sustentando que esses votos expressaram uma escolha e não podem ser equiparados aos originalmente nulos. Não colou.

No Supremo, Luiz Fux determinou acesso a investigações que atingem Jair Bolsonaro e aliados, numa ação do PP que questiona procedimentos adotados por Alexandre de Moraes. A iniciativa alimenta expectativas de revisão. Manifestação de Paulo Gonet favorável às visitas de Flávio ao pai; e o arquivamento, por Gilmar Mendes, do pedido de investigação contra o vice Alfredo Gaspar, diante da ausência de elementos apontada pela PGR, apontam uma aproximação com Flávio. Em sentido distinto, Moraes determinou a execução da pena de Eduardo Bolsonaro por coação no curso do processo. A Corte continua em transe.

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FIM DE ÉPOCA

José de Souza Martins, Valor Econômico

No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições, revelações e fatos mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem

O resultado da eleição de 4 de outubro não foi uma surpresa. Ele já se anunciava há tempos, desde a eleição do candidato do PT à Presidência em 2002. Fernando Henrique Cardoso, então presidente em segundo mandato, não disfarçou sua enorme e genuína emoção no momento da passagem da faixa presidencial a Lula.

FHC era, provavelmente, o único brasileiro a compreender o significado politicamente revolucionário da eleição de um operário como presidente.

Num texto de 1977 sobre “O Estado na América Latina”, ele chamara a atenção para o fato de que o Brasil era o único país latino-americano a não se ter tornado independente por meio de uma revolução. O próprio Estado português fizera a independência do Brasil na proclamação feita em 7 de setembro de 1822 pelo príncipe herdeiro da Coroa. Não temos sido, portanto, um povo de protagonistas de nossa soberania nem do nosso destino.

O resultado desta eleição, de vários modos, expressa essa tradição, em que o próprio povo com facilidade pode ser manipulado para satisfazer ambições de poder de terceiros que são ambições de riqueza pessoal e de família. No Brasil destes dias e meses anteriores às eleições, revelações e fatos, política e moralmente anômalos, mostraram que é possível ser beneficiado pela corrupção sem dano à própria imagem.

Fernando Henrique Cardoso, homem democrático e de esquerda, porém, compreendia claramente que a eleição de Lula quebrava a tradição da ausência do povo na política.

A eleição mostrou que o PT e os petistas compreenderam mal o processo político brasileiro e nossa realidade social. E compreenderam mal seu próprio protagonismo político.

Bastava ter observado as mudanças sociais, laborais e políticas na própria região de origem do PT, a região do chamado ABC, em São Paulo. A ascensão do PT coincidiu com o fato de que seis dos sete municípios da chamada região industrial tornaram-se petistas. Hoje, apenas um o é.

Os municípios em que estava instalada a chamada grande indústria, tecnologicamente mais desenvolvida e pagadora de grandes salários pelo trabalho altamente qualificado que empregava, criou uma classe operária rica.

O ABC tornou-se uma região de classe média, identificada com o ideal de ascensão social. Manifestações de racismo e nazismo surgiram na geração dos filhos dos operários que ouviam e aplaudiam os discursos de Lula no Estádio da Vila Euclides.

O cineasta Carlos Reichenbach lançou em 2003 o filme “Garotas do ABC”, inspirado em fatos reais, rodado numa tecelagem desativada, que mostra essa metamorfose social radical, a guinada para a direita. As classes sociais não são estruturas rígidas e estamentais fixas.

A eficácia política da classe operária persiste enquanto existem fatores e memória das lutas sociais, que são lutas de crítica e, no fundo, de aperfeiçoamento do capitalismo. Isso não elimina as contradições sociais que alimentam uma visão de esquerda do mundo.

O mundo do trabalhador não é um mundo de necessidades econômicas, simplesmente. Lula encampou uma visão economicista da realidade operária, a dos militantes, embora ele próprio intuísse e bem que o mundo operário não é só isso nem principalmente isso.

Há bem mais de cem anos, o capitalismo transformou o trabalho numa realidade nova, a do trabalho social e abstrato, criador de riqueza capitalista e não apenas de lucros. O capitalismo do mero lucro é o capitalismo do prejuízo. Lula é filho do novo proletariado, o do sindicalismo da mesa de negociação.

A reestruturação produtiva transformou o próprio trabalho. Se Lula quisesse voltar para a indústria, descobriria que sua profissão não existe mais. Computadores e máquinas fazem o mesmo trabalho e melhor.

Os fatores da consciência social de reivindicação do reconhecimento de direitos não terminou por isso. São outros. Ter filé-mignon à mesa no almoço e no jantar não significa que a classe trabalhadora foi saciada.

Hoje os trabalhadores na roça e na cidade têm necessidades de que nem mesmo são conscientes. São mais amplos e em maior número. Henri Lefebvre e Agnes Heller assinalam que surgiram o que chamam de necessidades radicais, as que só podem ser saciadas com transformações sociais.

As esquerdas, nesse cenário, são cogestoras do neocapitalismo da nova concepção de trabalho. A vitória da direita na eleição de 4 de outubro não significa nem derrota nem fim das esquerdas. A direita acaba de se transformar em vidraça em face do que ela própria produziu com suas anomalias ideológicas. Está devolvendo às esquerdas a função política de pedra de bodoque das pressões e reivindicações sociais: esquerdas desafiadas a retornar aos movimentos sociais e a redefinir sua relação com o Estado.

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quinta-feira, 8 de outubro de 2026

PAPAI, POR QUE VOCÊ VOTOU NO HITLER ?

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

No Dia das Crianças, livro de Didier Daeninckx vale para toda a família

A banalidade do voto, a responsabilidade e a cumplicidade na linguagem infantil

Em 5 de março de 1933, Otto, garoto de 5 anos, vê seus pais discutindo. A mãe repudiava o voto do pai no dia da eleição. O pai, com medo da crise econômica no país, aponta as promessas de emprego e prosperidade de seu candidato.

O líder prometia ordem e trabalho, o resto era menos importante. As ameaças, as propostas, o ódio, tudo era periférico. "Papai dizia que era preciso que as coisas mudassem."

Ao longo do livro, Otto testemunha os efeitos do regime apoiado por seu pai. Vizinhos desaparecem, livros queimados, censura, um primeiro campo de concentração para homossexuais, ciganos, judeus, pessoas com deficiência. Até que chega a tragédia familiar: nasce sua irmã, bebê com deficiência mental, alvo das políticas de eugenia do governo que seu pai ajudou a eleger.

A história ilustra o processo rápido e violento de radicalização pela perspectiva da família, pelos olhos de uma criança. Mostra a preocupação com conveniências imediatas do pai, rejeitadas pela mãe.

Ilumina a banalidade do voto que incentiva a força mais sociopática naquela comunidade. Não era um voto ideológico, apenas desespero e ressentimento, crente em soluções mágicas. O autoengano, a subestimação do risco, a cumplicidade. A miopia de curto prazo. O líder lhe deu uma explicação da crise, um culpado.

Otto nunca faz ao pai a pergunta do título ("Papai, Por Que Você Votou no Hitler?", de Didier Daeninckx, tradução de Julia Simões, Ed. Cecerelê). Ela ecoa no silêncio da casa, na sua incapacidade de entender e verbalizar a incongruência entre o voto do pai e o som ao redor.

Otto não julga, apenas sobrevive. E expõe a maior crueldade do voto extremista: atinge a família e deixa legado para o futuro. O pai, homem de bem, ignora sinais. Jornais também ignoram e não nomeiam o horror. Ele não sabia que poderia atingir a própria filha, cuja existência o regime não atribuía valor.

Analistas sabichões podem dizer que o livro não passa de um exemplo da "Lei de Godwin": à medida que uma discussão se estende, aumenta a probabilidade de surgir uma comparação com Hitler. Mike Godwin, que deu nome a essa "lei", se referia a abusos hiperbólicos, não à possibilidade de qualquer comparação com o nazismo. Ele próprio afirmou: "É ok comparar Trump com Hitler. Não me deixe impedi-lo".

Richard Hamilton, no livro "Quem Votou em Hitler?", mostrou que o voto no partido nazista crescia conforme aumentava o nível econômico. Milton Mayer, em "Eles Pensavam Que Eram Livres: Alemães Entre 1933-1945", mostra como cidadãos comuns vão ignorando perdas graduais nas liberdades até ser tarde demais.

A imagem viral que marca a comemoração do resultado eleitoral de domingo no Brasil foi a de um menino com camisa do Brasil dançando no capô de um carro segurando uma arma.

Essa a enormidade da barganha: você entra na mesa de negociação com pedido de ajuste fiscal. O outro lado promete atender, sem explicar como. Só cobra armar crianças, intimidar professores, jornalistas e artistas; descredibilizar médicos, discriminar homossexuais, desproteger mulheres; explodir o clima, enriquecer a família, legitimar a incivilidade gratuita e liberar recursos nacionais para país estrangeiro.

Ignorar a Constituição. E você diz sim, negócio fechado.

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MUITOS BOLSONAROS PARA UM BRASIL SÓ

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Dos 20 Bolsonaros que concorreram, 13 se elegeram ou ficaram como suplentes já no aquecimento

Hélio Negão, fiel Bolsonaro cenográfico, não pôde concorrer como Hélio Bolsonaro e perdeu

Foi a vitória de Deus, da pátria e da família Bolsonaro. Deus ainda terá de aguardar para saber com o que será aquinhoado —a promoção, talvez, da praça dos Três Poderes para a dos Quatro Poderes. A pátria nem imagina o que a espera, mas já decidiu que será bom para ela também. E a família já se garantiu —dos 20 Bolsonaros que concorreram às eleições, 1 aguarda o segundo turno e 13 se elegeram ou ficaram como suplentes, já no aquecimento para entrar em campo. As demais famílias brasileiras continuam onde estavam, vivendo através das redes sociais.

Jair Bolsonaro, sem sair de casa, provisoriamente atado a um pé de mesa por uma tornozeleira eletrônica, emplacou o filho Flávio Bolsonaro, na boca para a Presidência; a mulher, Michelle Bolsonaro, senadora; outro filho, Carlos Bolsonaro, também senador; mais um filho, Jair Renan Bolsonaro, deputado federal; e até um irmão, Renato Bolsonaro, também federal. Uma bancada que só não se reunirá para um churrasco familiar porque madrasta e enteados se odeiam e não será surpresa se ela partir para voo solo.

Rogéria Bolsonaro, ex-mulher de Jair Bolsonaro, ficou na suplência para federal no DF. Se Flávio Bolsonaro for presidente, fará de um deputado eleito o chefe do armário de vassouras do Planalto e abrirá a vaga para a sua mãe. E, suplentes como ela, mas para os Legislativos regionais, Eduardo Torres, irmão de Michelle Bolsonaro, e Marcelo Bolsonaro (primo de Jair Bolsonaro) e sua esposa, Valéria Bolsonaro. Os Bolsonaros são muitos para um Brasil só.

Vários Bolsonaros avulsos, parentes ou não, também se elegeram ou foram para o banco em disputas locais, como Fabiana Bolsonaro e Samanta Bolsonaro (SP), Jean Bolsonaro (RJ), Joel Bolsonaro (RS) e Fã do Bolsonaro (PR). Inapelavelmente derrotados, só Freitas Bolsonaro (ES), Helio Rodrigues Bolsonaro (TO), Renata Bolsonaro (SP), Rodrigo Bolsonaro (RN), Bolsonaro Sergipano (SE) e Bolsonaro da Shopee (MT).

Hélio Negão não pôde concorrer como Hélio Bolsonaro. Perdeu. Logo ele, fiel Bolsonaro cenográfico.

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FLÁVIO ASSUME O SOBRENOME AO REVELAR SEU PROGRAMA

Igor Gielow, Folha de S. Paulo

Plano de mudança constitucional, da lei penal e de mandato não havia sido mencionado em público

Fazer proposta é legítimo, mas levanta suspeita de ser mistura de golpismo bolsonarista e Trump 2.0

Quando chegou ao poder em 2019, Jair Bolsonaro prometia uma revolução contra o que chamava de sistema, um ente etéreo e útil como alvo de críticas por radicais à direita e à esquerda.

O deputado acreditava ser possível moldar a política brasileira a seu gosto apenas com os votos que recebera.

Politicamente, mostrou-se desdentado, amparado por uma amálgama de militares, aderentes de ideologias exóticas e boa vontade do dito mercado, enquanto isso foi lucrativo.

A debacle na pandemia mostrou a extensão de seu despreparo, e a crise militar de 2021 o colocou em uma rota de radicalização que explodiu no 7 de setembro daquele ano. Acuado pela reação à sua apoplexia golpista, Bolsonaro cedeu enfim ao centrão que tanto criticava.

Quase reelegeu-se com o novo arranjo, no qual seu chefe da Casa Civil Ciro Nogueira (PP), hoje mais conhecido por ser o político mais próximo de Daniel Vorcaro, era a estrela maior. Veio a trama golpista, seu fracasso e a ida de Bolsonaro para a prisão.

Lula (PT) começou o governo sob o signo do 8 de Janeiro e sua aliança com o Supremo ante um Congresso hostil, uma combinação eleitoralmente tóxica até aqui. Mas a turbulência provocada pelo Executivo cessou, sendo substituída só neste ano pela confusão no Judiciário.

Entra em cena o príncipe herdeiro do bolsonarismo, o primogênito Flávio. Sua campanha de primeiro turno foi marcada pela ausência de algo parecido com um programa de governo, e deu certo.

Bafejado pelo primeiro lugar na primeira rodada e pela nova configuração política do país, Flávio Bolsonaro enfim parece assumir seu sobrenome. Dois dias depois da votação, começou a falar como eleito e abrir o jogo acerca de forma mais concreta.

Disse na terça-feira (6) que queria "redemocratizar o Brasil". Nesta quarta (7 ), sugeriu o que seria isso: reformar a política, o Judiciário, a Constituição, a lei penal e, de quebra, ver estendido o mandato presidencial às expensas da reeleição.

Fazer tais propostas é legítimo, e elas estavam citadas genericamente em seu plano de governo protocolado na Justiça Eleitoral. Mas o histórico golpista do bolsonarismo leva a suspeitas imediatas acerca das intenções de Flávio.

O que ele quer dizer por reforma do Judiciário, por exemplo? Até aqui, pelo proferido por ele e seus aliados, a prioridade é promover por meio de um Senado bolsonarista o impedimento de ministros que condenaram seu pai. Há também a ideia de reduzir competências e ritos internos.

Em relação ao mandato, é provável que apenas esteja acenando à necessidade de ter o trabalho de Tarcísio de Freitas (Republicanos), nome certo do jogo federal de 2030, em São Paulo no segundo turno.

Ciente do seu DNA, o próprio candidato buscou fazer um "hedge". "Eu já vi gente começar a dizer: 'Ah, agora o Flávio, com esse Congresso com ampla maioria, ele vai fazer o que o pai dele não fez'. Vamos parar de mentir, vamos aterrissar no mundo real. Para de fazer torcida", disse.

Além de admitir a "torcida", o senador logo na sequência afirmou que apenas ele poderá governar com o novo Congresso, ainda mais à direita que o atual.

Se é óbvio que uma eventual vitória de Lula fará o petista encarar um cenário ainda mais conflituoso, a confluência dos raciocínios sugere que Flávio procura, sim, fazer mais do que o pai.

Modelo ele já tem: o ídolo Donald Trump, cuja trajetória Jair Bolsonaro sempre espelhou. O roteiro inclui primeiro mandato turbulento, derrota por pouco, insurgência golpista, condenação judicial e volta por cima nas urnas.

A diferença é que a regra do jogo no Brasil não permite que apenados sejam candidatos, então Jair foi de Flávio. Voltando a Trump, com o controle que deverá perder agora das duas Casas do Congresso, o americano desde então trabalha para desmontar o arcabouço institucional de seu país.

Até aqui, tal reforma não se mostrou coerente do ponto de vista interno, além de trazer caos ao resto do mundo.

Para saber o que poderia acontecer no Brasil no caso de eleição de Flávio, é preciso agora clareza acerca da sua proposta. O impacto presumido de seu enunciado é doméstico, mas não desconectado dos desígnios de Trump para a região.

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NADA DECIDIDO ATÉ O ELEITOR FALAR

Míriam Leitão, O Globo

A 17 dias da eleição, nada está definido. A distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o Lula

O país viverá os próximos 17 dias em emoção na intensidade máxima. A eleição não acabou, nem está definida, até porque o eleitor faz o que quer com o voto. O que tenho ouvido de especialistas é que a distância não é grande, há vantagens para Flávio Bolsonaro e possibilidades para o presidente Lula. Para além dos cálculos dos políticos, há uma dúvida mais aguda: quais são as intenções de Flávio Bolsonaro em relação à democracia? A fala dele sobre usar a maioria conservadora e mudar a Constituição para “redemocratizar o país”, assustou. E assustou exatamente por ele ser quem é e filho de quem é.

O ministro Celso de Mello considerou “grave e inquietante” a declaração do candidato. “A sociedade tem o direito de conhecer o alcance do projeto”. Em mensagem que me enviou, o ministro aposentado do Supremo Tribunal Federal, conhecido por seu saber jurídico, disse que “causa estranheza a promessa de ‘redemocratizar’ o Brasil, na medida em que nosso país vive, plenamente, sob regime democrático, com eleições competitivas, pluralismo político, oposição legítima e liberdade de crítica”. Ontem, Flávio tentou atenuar o que tinha dito. Disse que se referia a mudanças no Judiciário, maioridade penal e reforma tributária. Mas a dúvida permanece porque evidentemente, se fosse apenas uma PEC, ele não usaria a expressão “redemocratizar".

A campanha de Flávio Bolsonaro já se considera vitoriosa. Um observador do mundo político avalia que o otimismo tem ajudado a campanha bolsonarista porque deu ânimo e estímulo. Na campanha do presidente Lula, é preciso superar o desânimo inicial, que ficou estampado na primeira foto após o resultado, ter mais engajamento e mudanças de tom.

– Não acho pouco tempo para virar, existe caminho, precisa acertar na campanha. A diferença é pequena, se virar 1%, empatou. Porém, Lula precisa mudar o discurso, porque está com o discurso errado — disse esse observador.

Sobre a necessidade de um sinal para o centro, o que eu ouvi de um interlocutor é que, quando Lula se elegeu a primeira vez, tinha como vice o empresário José Alencar, que na época era do PL. O próprio PL era centro e não de extrema direita como agora. Depois, a presidente Dilma se elegeu com um vice-presidente do MDB, que também representava o centro. Na terceira vez, a aposta foi em Geraldo Alckmin por ter boa articulação no setor produtivo, mesmo após mudar do PSDB para o PSB. Mas a avaliação é que, durante o mandato, Lula não fez gestos para quem o apoiou na campanha de 2022. Na área econômica e fiscal, Lula teve, nos outros mandatos, pessoas como o então ministro Antonio Palocci e o presidente do Banco Central Henrique Meirelles para modular o discurso e controlar as medidas fiscais.

O mercado financeiro está dando um cheque em branco ao candidato Flávio Bolsonaro, aceitando pela fé, sem qualquer materialidade, que ele fará um ajuste fiscal. O candidato não se comprometeu com coisa alguma. Fez declarações vagas e anedóticas como “vou dar uma tesourada”, ou diminuir impostos sem dizer quais, cortar gastos sem especificar onde.

Na campanha de Lula já se vê algumas mudanças. Uma delas foi chamar os jovens digitais para “disputar a juventude”, como define Ana Elisa, deputada eleita por Minas Gerais. É preciso falar com todos os públicos, os eleitores que se distanciaram por raiva ou decepção, e que podem voltar. Os que não foram votar. O próprio Lula terá muito a fazer.

Flávio tem a seu favor a vantagem de ter chegado na frente na disputa do primeiro turno e ter recebido apoio dos derrotados. Mas Romeu Zema é um candidato que foi rejeitado até em Minas Gerais e terminou com quase traço. Ronaldo Caiado é um apoio pessoal, o PSD permanece neutro. O apoio do centrão é uma faca de dois gumes. Afinal, Flávio, que já está pessoalmente envolvido com casos de corrupção, terá ao seu lado políticos como Antonio Rueda, Ciro Nogueira e outros igualmente enrolados.

Lula tem contra si o peso da crise de imagem do STF, da qual ele tenta se afastar, só que não tem conseguido. Flávio Bolsonaro tem contra si o fato de que ele e sua família defenderam em inúmeras ocasiões o AI-5, a ditadura militar, a tortura, enalteceram o mais notório dos torturadores e, indo das palavras à ação, Jair Bolsonaro tentou um golpe de Estado. Agora, Flávio Bolsonaro fala em mudar a Constituição para “redemocratizar o Brasil”. Antes de seguir, é preciso pedir ao candidato que defina democracia.

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COM FLÁVIO, BRASIL VAI VIRAR A VENEZUELA OU A HUNGRIA ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

O segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso

Com Suprema Corte e Congresso governistas, não vai adiantar chorar o leite derramado

Cientistas políticos como Steven Levitsky apontam que o segundo mandato de governantes autocráticos é sempre mais perigoso.

Bolsonaro pai tentou um golpe à moda antiga e foi condenado por isso; Bolsonaro filho, um pouco mais esperto, vai perdoar o pai no primeiro dia como presidente e tentar um golpe à moda contemporânea, refundando a Constituição.

Mal passou o primeiro turno, Flávio já cogita ampliar o mandato do presidente, no caso, o dele.

Foi assim na Hungria com Viktor Orbán, antes um político mediano e depois um autocrata que se embrenhou em alterar a Constituição, em 2011, reinventando a nação, inebriado com a supermaioria que ganhou em seu segundo mandato, eleição essa em que o tema da reforma constitucional nem sequer esteve em pauta.

Qualquer semelhança não é mera coincidência. Os laços entre Orbán, que ficou 16 anos no poder, e a família Bolsonaro são amplamente documentados; com visitas mútuas, hospedagem em embaixada e apelidos afetuosos.

Flávio conhece bem o playbook autocrático, à esquerda na Venezuela de Nicolás Maduro e à direita na Hungria de Orbán. O manual é o mesmo. Mudar a Constituição para reduzir freios e contrapesos é um deles.

Dizem que ninguém dá a mínima para a Constituição, exceto alguns democratas de plantão. Pois deveriam: Orbán fez uso da queda do Estado de Direito para distribuir contratos públicos a seus amigos corruptos, algo que deveria preocupar o empresariado; também fez seus amigos monopolizarem a imprensa, algo que deveria preocupar o povo do doisladismo na mídia.

Se Flávio decidir fazer o que quiser com a Constituição —de alterar regras eleitorais para favorecê-lo a acabar com casamento entre pessoas do mesmo sexo—, quem irá pará-lo? Ninguém.

Maduro e Orbán mostraram que, com Suprema Corte e Congresso governistas, não adianta chorar o leite derramado.

Cabe à imprensa cobrar de Flávio o que ele quer dizer com "alterar a Constituição para democratizá-la".

Normalizar esse discurso beira o proselitismo futebolístico de uma torcida organizada com a bola na cara do gol.

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A METAMORFOSE DAS DIREITAS

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Ascensão do PL vai consolidando a liderança da extrema direita

Sigla está servindo à ambição eleitoral dos políticos de direita

O exercício da Presidência não assegurou a Lula a mesma porcentagem de eleitores que lhe entregou as chaves do Palácio do Planalto há quatro anos. A diferença entre o número de votos recebidos por Lula e Flávio Bolsonaro é muito próxima da que levou o presidente ao segundo turno contra o pai do candidato do PL. Apenas inverteram-se as posições de chegada.

Entre 2022 e agora, o líder petista perdeu eleitores em todo o país. Usando dados preliminares do TSE (Tribunal Superior Eleitoral), o cientista político Marco Faganello (CPESP-FGV) mostrou que a sangria foi de 3,4 milhões de votos, espalhados por 98% dos municípios brasileiros. Praticamente todos, exceto as capitais dos estados.

Diante desse quadro, muitos passaram a falar numa avalanche da direita. Se ocorreu, porém, faltou combinar com o Congresso. Ali, o PT e os pequenos partidos de esquerda conservaram praticamente o mesmo total de cadeiras. Na Câmara de 2022, o PT tinha 65; na próxima legislatura passará a ocupar 70.

O PSOL ganhou um representante; o PSB perdeu dois; o PDT quatro; e o PCdoB ficou sem nada. No Senado, o PT continuará com nove, o PSB foi de seis para quatro, o PDT perdeu um senador e a Rede manteve seu único representante. Em suma, no Legislativo, as esquerdas, PT à frente, continuaram em minoria, como sempre.

A mudança significativa, embora não sendo uma avalanche, ocorreu no território das forças de direita. Especialmente nas duas casas, em virtude do notável crescimento do PL; por outro lado, minguaram tanto a centro direita (MDB e PSDB) quanto a direta pragmática (PSD, União Brasil, PP e Republicanos). A destra, aliás, sempre dominou o Congresso —mesmo quando, em seu segundo mandato, Lula quase alcançou a unanimidade junto à opinião pública. De fato, a composição do Legislativo espelha o Brasil real, conservador ou reacionário, mas sempre meio tosco; aquele país que a elite brasileira urbana e educada tem dificuldade de enxergar.

A ascensão do PL, transformado em legenda do bolsonarismo, vai consolidando a liderança da extrema direita. Ela não só expressa a vontade dos eleitores como resulta de uma escolha das elites partidárias.

Foi delas a decisão de aceitar, tacitamente, a imposição da candidatura do filho ungido pelo pai e de não apostar seriamente em alternativas promissoras —e mais moderadas. Houve cálculo político nessa escolha.

A vitória de Bolsonaro em 2018 deu aos partidos de direita a possibilidade de disputar eleições presidenciais com um candidato próprio, dotado de apelo popular e capacidade de mobilização de seguidores nas ruas e nas redes. Apelo popular forte o suficiente para indicar um sucessor, no caso de mesmo sobrenome. Esse o charme do populismo de extrema direita, que sempre faltou às raposas do centrão.

Em seu livro mais recente, "O País Dividido", o cientista político Jairo Nicolau sugere a possibilidade de o PL, ocupado pela ultradireita, tornar-se um partido com mais corpo e ideologia que as legendas que servem à ambição eleitoral dos políticos de direita. É uma possibilidade real, especialmente se o segundo turno presidencial consagrar o herdeiro do presidente golpista.

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quarta-feira, 7 de outubro de 2026

O DILEMA DA CAMPANHA: FARIA LIMA OU POVÃO ?

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Há na área econômica do governo sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas ‘bondades’ neste segundo turno

Há na área econômica do governo federal sérias dúvidas sobre a eficácia do lançamento de novas “bondades” neste segundo turno eleitoral. Primeiro, porque não há nada pronto para ser anunciado. Segundo, porque uma medida sacada da cartola a essa altura do campeonato, com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) atrás de Flávio Bolsonaro (PL) na corrida pela Presidência da República, poderia até ser malvista, ao passar um clima de “fazer o diabo para ganhar a eleição”.

Mesmo assim, ninguém jura que não haverá novas medidas daqui até o dia 25 de outubro. A postura nos bastidores da equipe econômica é de colaboração.

A hesitação entre lançar ou não mais “bondades” reflete um dilema que corre entre estrategistas da campanha de Lula em relação a temas econômicos: fazer um aceno para os agentes de mercado ou falar ao povão. O presidente precisa se aproximar dos dois grupos, mas agradar a um quase sempre é desagradar ao outro.

O rumor em torno da nomeação do vice-presidente Geraldo Alckmin para o Ministério da Fazenda num eventual quarto mandato de Lula seria um aceno para o mercado.

Atualmente no PSB, Alckmin cumpriu quatro mandatos como governador de São Paulo sendo integrante do PSDB, o partido que liderou o Plano Real e que levou as contas federais para o azul.

Na manhã desta terça-feira, Alckmin ligou para o titular da pasta da Fazenda, Dario Durigan, para negar planos de substituição.

Ainda que não seja com um ministro da Fazenda de histórico fiscalista, Lula precisa dar algum sinal ao mercado, avalia-se nos bastidores da equipe econômica.

Conquistar a Faria Lima é algo que o entorno de Lula considera missão impossível. A euforia que tomou conta dos mercados neste pós-eleição mostra duas coisas, interpretam integrantes do governo: que existe por lá uma clara opção política em favor de Flávio Bolsonaro e que dólar, juros e bolsa não refletem apenas os fundamentos da economia.

Ainda assim, comenta-se que Lula precisa dar um sinal em direção ao ajuste fiscal. Pelo menos para desfazer a má impressão gerada pela declaração que deu em Curitiba no mês passado, chamando de “babaquice” a perseguição de superávits (saldos positivos) nas contas públicas.

Detalhar os planos em desenvolvimento para o ajuste fiscal, porém, é algo que contraria o outro grupo que Lula precisa buscar: a população de baixa renda. Ajustar as contas envolveria desacelerar o ritmo de crescimento de despesas, inclusive programas sociais. Isso vai na direção contrária à que a campanha já começa a explorar, que é o suposto risco de interrupção desses programas caso Flávio vença e promova um “tesouraço”.

Outro tema que opõe os dois grupos é o fim da escala 6x1: trabalhadores querem, empresários não. Flávio classificou o debate de “oportunista”.

Enquanto se busca uma estratégia para os temas econômicos na campanha, o foco pode estar em outros pontos. Por exemplo, segurança pública e políticas de apoio à mulher. Além de reforço da campanha nas redes sociais.

CBS
As campanhas não tratarão disso, mas um tema incontornável este ano é a entrada em vigor da reforma tributária. No dia 1º de janeiro de 2027, começa a ser cobrada a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), em substituição ao Programa de Integração Social/Contribuição para o Financiamento da Seguridade Social (PIS/Cofins). A dúvida é se as empresas estarão prontas para a mudança.

Dados da Receita Federal dão um retrato de como está a preparação. No momento, está em curso um teste de emissão de notas fiscais já informando um valor simbólico da CBS e do Imposto sobre Bens e Serviços.

Por um lado, 72,3% dos documentos fiscais emitidos destacam os novos tributos. Em outro recorte, porém, 61,6% dos emissores de notas fiscais ainda não cumprem, ou cumprem apenas em parte, essa formalidade.

Se o novo sistema estivesse em vigor, essas empresas que não completaram sua adaptação não conseguiriam emitir notas fiscais. Só estão conseguindo fazê-lo porque a Receita flexibilizou as exigências até o final deste ano.

Grandes empresas já estão prontas a operar no novo sistema, informa Adriano Subirá, presidente do Comitê Tributário Brasileiro (CTB). O problema é que os fornecedores delas não estão. “Se não consigo emitir uma nota, eu não consigo enviar insumos, e aí posso parar uma linha de produção”, diz. Assim, pode haver um efeito dominó na economia. “É um ambiente de cooperação: se todo mundo chegar junto, todo mundo ganhou, mas se alguém ficar para trás, todo mundo perdeu”.

O adiamento da CBS, porém, seria “o pior dos mundos”, avalia Ângelo de Angelis, sócio da ACF Consultores. “A insegurança jurídica explodiria”, afirma. “Por outro lado, temos muitos problemas operacionais.” Para adiar o início da cobrança da CBS seria preciso alterar a Constituição.

Questionada, a Receita informou que “continua trabalhando na implementação da reforma tributária conforme o previsto”.

O que fazer diante do atraso das empresas nos preparativos para recolhimento da CBS é uma decisão a ser tomada ainda em 2026, qualquer que seja o resultado das urnas. A virada de ano promete ser agitada.

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