Resultado de anos de pesquisas, livro responde perguntas
que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da
política brasileira por décadas
Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do
repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o
golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de
pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma
figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.
Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi
comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.
Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio
Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do
presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.
Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl
Marx e Friedrich Engels? Não.
Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28
anos e ele 17 incompletos.
Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a
direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a
esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde
estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três
dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.
Jornalista de grande talento, tinha
raciocínio rápido, escrita clara e dedos velozes. Em 1934, lendo “São
Bernardo”, viu em Graciliano Ramos um grande romancista.
O general De Gaulle chamava-o de “demolidor de presidentes”.
Demolia tudo que tinha por perto, inclusive o próprio pai: “demagogo de merda”.
Feroz adversário de Getúlio Vargas, foi um mobilizador de
vivandeiras e o caricaturista Lan eternizou-o como Corvo. Lacerda tinha uma
escolta de oficiais, nove dos quais da Força Aérea. (Havia alguns do Exército,
entre eles Emílio Garrastazu Médici.)
Nas primeiras horas do dia 5 de agosto de 1954, o major
Rubens Vaz escoltava-o de volta ao seu apartamento da Rua Tonelero, em
Copacabana. Dois pistoleiros atiraram e morreu o major. Dezenove dias depois,
às portas da deposição, Getúlio Vargas se matou. Em cerca de 40 páginas Mário
Magalhães conta esses dois episódios, com a minúcia e clareza de um repórter
policial.
Afora um breve epílogo, o volume termina com a partida do
“matador de Getúlio” para o exílio dos Estados Unidos. Lacerda defendia um
regime de exceção para que Vargas não fosse eleito em 1950, não tomasse posse
em 1951 e não governasse a partir daí. Ao fim, perdeu.
Em 1955, o presidente morto elegeu Juscelino Kubitschek. O
general Henrique Lott, ministro da Guerra, derrubou dois presidentes na noite
de 11 de novembro e garantiu-lhe a posse. O vencedor de 1954 teve que deixar o
país.
Magalhães reconstrói os primeiros 41 anos dessa vida
contorcida num período tumultuado. Espremendo-se o legado desse Lacerda sobra
um sujeito inteligente e combativo, para pouco, quase nada. Em 1934, aos 20
anos, ele tentou se matar. Prevaleceu em 1954 e fracassou em 1955. Teria mais
triunfos e fracassos até 1977, quando a morte física pegou-o aos 63 anos.
JK tirou o país da mediocridade
Com Lacerda nas livrarias e a campanha presidencial na rua,
o livro de Mário Magalhães é como um salto do passado no presente. Lacerda
cavalgava o moralismo, combatendo o “mar da lama” do governo de Getúlio. Era
pouco mais que um exagero.
Juscelino Kubitschek tomou posse em 1956 prometendo 50 anos
e 5 e uma nova capital no Planalto Central. Com um sorriso inesquecível e um
otimismo contagiante, entregou quase tudo o que prometeu, mais uma economia
envenenada pela inflação.
No epílogo do seu “Lacerda”, Mário Magalhães salta de 1955
para Lisboa, em 1966, quando eram dois proscritos da ditadura e pensavam que,
juntos, podiam ir a algum lugar. Foram a lugar algum. Passado meio século,
pode-se medir o legado dos dois.
Deus os havia poupado da mediocridade.
Lacerda deu ao Rio água e a alma do Aterro, concebida pela
doidivanas Lota de Macedo Soares. Tisnou-se defendendo a ditadura que o
mastigou. JK fez estradas e hidrelétricas, mas seu pedestal é o compromisso com
as liberdades democráticas e a fé no “monstro”.
Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura
nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, JK estava num almoço quando lhe
perguntaram o que aconteceria no Brasil.
— O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está
em todos os lugares.
Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa,
e prosseguiu:
— Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você
imaginar.
— Que monstro?
— A opinião pública.
Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o
monstro carregou-o nos ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá, ocorreu a
maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart, em 1964.
Corrupção e candidatos
A corrupção é e será um tema central da campanha eleitoral.
Ela o era ao tempo de Lacerda e JK.
Em 1960, cavalgando uma vassoura, Jânio Quadros elegeu-se
presidente. Um ano depois, tentou dar um golpe de maluco e foi-se embora.
Em 1964, instalou-se a ditadura das propostas de Lacerda.
Cinco anos depois, terroristas roubaram um cofre na casa da
namorada do ex-governador paulista Ademar de Barros.
A senhora disse que o cofre estava vazio, e os generais
acreditaram.
Tinha 2,5 milhões de dólares; 22,75 milhões em dinheiro de
hoje.
Renan e sua bomba
Renan Santos parece excêntrico ao dizer que o Brasil deve
ter uma bomba atômica, mas a verdade é que, desde 1945, sempre houve alguém no
governo trabalhando por ela. Às vezes, tinha poder e, às vezes, pensava que
tinha.
O campeão da ideia de uma política nuclear foi o almirante
Álvaro Alberto (1889-1976), primeiro presidente do Conselho Nacional de
Pesquisas, que empresta seu nome à usina de Angra.
Em 1951, o Conselho de Segurança Nacional discutia a
construção de um reator nuclear. (Só no ano seguinte Israel criou sua Comissão
de Energia Atômica.)
Em julho de 1954, um grupo de cientistas alemães montou e
testou três centrífugas para enriquecer urânio. O Brasil havia pedido licença
para importá-las, e os Estados Unidos a haviam negado. Álvaro Alberto foi em
frente, e elas estavam prontas para embarque no porto de Hamburgo quando foram
apreendidas.
As centrífugas acabaram vindo em 1956, mas só começaram a
funcionar em 1970, quando Israel já era uma potência nuclear desde 1966 ou
1967.
Maus ventos
Em poucas semanas a economia nacional levou os trancos das
recuperações judiciais da Braskem e das Casas Bahia. Em seguida, foi para a UTI
a rede de lojas Habib’s.
Na terça-feira, pela segunda vez, a Justiça decretou a
falência da Oi, que chegou a ser a maior operadora de telefonia fixa do país.
Ela surgiu no festim privatista de 1998, com o nome de Telemar. No BNDES era
conhecida como Telegang. No final do século passado foi uma das “campeãs”
nacionais. Sobreviveu por dez anos na UTI da recuperação judicial.

















