André Barrocal,
CartaCapital
As recentes decisões de Edson Fachin não garantem o fim
da crise no STF
Flávio Bolsonaro bem que tenta, mas Dark Horse não é página
virada. O homem encarregado de fazer com que o dinheiro de Daniel Vorcaro, dono
do finado Banco Master, chegasse aos realizadores do filme sobre Jair Bolsonaro
acaba de ter a delação premiada homologada no Supremo Tribunal Federal e os
detalhes sobre o envio dos dólares começam a vir a público. Um dia depois, a
Polícia Federal foi às ruas apreender documentos e vasculhar endereços da dona
da produtora da cinebiografia, Karina Ferreira da Gama, e do roteirista da
obra, o deputado Mario Frias, secretário de Cultura no governo do capitão. A
batida policial foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, encarregado no
STF de um inquérito sobre o repasse de uma emenda parlamentar de Frias a uma
ONG de Karina, o Instituto Conhecer Brasil. A ONG é alvo da Polícia Civil
paulista por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura da
capital, e o delegado do caso, Antônio Carlos Munuera Silveira, aponta
“consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Em
agosto, Dino havia liberado a PF para ter acesso total às investigações em
curso em São Paulo.
Os advogados de Gama e Frias não queriam estar na mira de apurações policiais
supervisionadas por Dino. Preferiam André Mendonça, relator de um inquérito
sobre a cinebiografia criado após a revelação pelo Intercept Brasil, em maio,
de que Flávio cobrou dinheiro de Vorcaro para o filme. “Apesar de você ter dado
a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te
cobrando, tá?”, disse o senador em um áudio de WhatsApp de 8 de setembro de
2025, dois meses antes da primeira prisão preventiva do banqueiro. “É porque tá
num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás,
cara, tá todo mundo tenso.” Uma semana após a cobrança, o fundo Havengate
recebeu 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, conforme relatório do Coaf, o órgão
federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. O fundo
é sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro,
ex-deputado em autoexílio em Tio Sam desde fevereiro de 2025. Desse fundo os
recursos seguiram à produtora do filme, a Go Up, que tem Gama como sócia.
A nova operação que visa o financiamento ao filme Dark
Horse faz parte do movimento das peças na batalha em curso no tribunal
O clã Bolsonaro alega que o patrocínio de Vorcaro à
cinebiografia foi uma relação entre particulares, sem verba pública envolvida.
Não é bem assim. Quando estava na beira do abismo, a partir de 2024, o Master
conseguiu aportes bilionários de fundos de pensão de servidores públicos. E
há ainda outro problema: Eduardo tramou nos EUA o tarifaço de Donald Trump
contra o Brasil, cujo objetivo era salvar a pele do pai de uma condenação por
tentativa de golpe, julgamento ocorrido no STF há exatamente um ano. O “zero
três” começou o complô em fevereiro de 2025, mês da primeira remessa financeira
de Vorcaro a Dark Horse. O Supremo considerou a conspiração uma atitude
criminosa, uma “coação no curso do processo”, e sentenciou o ex-deputado a
quatro anos de prisão. A permanência nos EUA pode ter sido financiada por
Vorcaro, ou seja, o banqueiro fora da lei pode ter patrocinado o tarifaço e a
“coação”.
No fim de agosto, Mendonça, um dos indicados de Bolsonaro no
STF, abriu o gabinete a Vorcaro. Deu-lhe palanque para posar de herói. “Lutar
contra todo o sistema não é fácil”, declarou o banqueiro no depoimento, cuja
transcrição é pública. Na versão do interrogado, o ingresso no sistema
financeiro tinha por objetivo enfrentar bancos que cobram juro alto. A
“ousadia” teria levado rivais a persegui-lo. Para se defender, ele teria
buscado socorro em agentes públicos e políticos e cruzado a linha da moralidade
no trato com esses personagens. Vorcaro se diz arrependido e estaria disposto a
delatar os envolvidos, mas a PF barraria o intento. Seus alvos? “Pessoas do
núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos
ataques que eu estava sofrendo.” Uma delas seria o diretor-geral da Polícia
Federal, Andrei Rodrigues, afastado do cargo na terça-feira 8 por Mendonça e
devolvido ao posto no dia seguinte, primeiro por Dino, sob o argumento de que
as apurações sobre Dark Horse não podiam parar, e depois por Edson Fachin,
presidente da Corte, com a justificativa de que Mendonça tinha atropelado
procedimentos.
O depoimento de Vorcaro a Mendonça havia sido solicitado
pelo banqueiro. Dias depois, soube-se que os dois haviam se reunido
pessoalmente em março do ano passado, na sede do instituto educacional fundado
por Mendonça em 2023, o Iter, notícia que levou o magistrado a anunciar sua
retirada da sociedade. Naquela época, Mendonça ainda não era relator do caso
Master. Um mês antes da reunião, havia ido a uma alfaiataria na companhia de um
advogado conhecido de Vorcaro, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn
em sua newsletter. Em áudio de WhatsApp ao banqueiro naquele dia, Ciro Soares
comentou: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você. Levei o André lá no Vasco
agora, pra fazer um terno”. Em outro, afirmou: “O André Mendonça disse que quer
te receber junto comigo (…) Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda.
Eu contei. Ele já sabia”.
Vorcaro corrompeu dois dirigentes do BC, segundo descobertas
da PF, na tentativa de proteger o Master na batalha contra a concorrência. Foi
o BC de Bolsonaro, recorde-se, que autorizou o banco a funcionar, depois de uma
negativa na gestão Temer. Apesar de ser o relator do inquérito sobre o pedido
de financiamento de Flávio Bolsonaro a Vorcaro e de todo o caso Master,
Mendonça prefere outra linha apuratória: a relação do colega de Corte Alexandre
de Moraes com o banqueiro. Essa postura jogou o Supremo em uma crise sem
precedentes. Em 15 de setembro, o tribunal realizará uma sessão plenária para
examinar um relatório da PF encomendado por Mendonça que aponta vários
encontros pessoais e trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes por quase dois
anos, a partir de dezembro de 2023. Menos de um mês após o início dos contatos,
o banqueiro contratou a esposa do ministro como advogada, um acordo vigente
quando Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez, em novembro de 2025. O
relatório policial de 218 páginas sobre Moraes é nulo, por ter nascido de duas
decisões ilegais de Mendonça: abrir por conta própria uma investigação sobre um
colega e tê-lo feito sem ouvir os colegas do STF. É o que sustenta o
procurador-geral da República, Paulo Gonet, autor de um pedido de anulação da
papelada-documento, algo também a ser avaliado pelo tribunal na terça-feira 15.
Fachin se recusava a decidir, mas acabou obrigado a
agir por conta das pressões externas e da escalada da crise
A sessão transcorrerá diante das tevês, como queria Mendonça
ao ressuscitar métodos lavajatistas a um mês da eleição? Ou a portas fechadas,
como a Corte fez de maneira informal em fevereiro, ao debruçar-se sobre outra
papelada de 200 páginas preparada pela PF? À época, quem estava na mira por
razões similares àquelas que comprometem Moraes (proximidade excessiva com
Vorcaro, e talvez movida a dinheiro) era mais um togado supremo, José Dias
Toffoli, então relator do escândalo do Master. Toffoli acabou por deixar o
processo, assumido em seguida por Mendonça graças a um sorteio eletrônico. Mas
seus colegas salientaram que o documento da PF não tinha valor, por motivos
parecidos com aqueles invocados agora por Gonet em relação a Moraes. “A palavra
do ministro Toffoli tem fé pública”, disse Mendonça naquela reunião, a
propósito da negativa do par de que houvesse “intimidade” com o banqueiro.
Mendonça ascendeu na Advocacia-Geral da União, quando Toffoli comandava o órgão
nos governos passados de Lula. E foi aprovado para o Supremo no Senado com
apoio do agora colega de Corte.
O relatório contra Toffoli havia sido levado por Rodrigues,
o diretor da PF, a Fachin, acompanhado de um pedido de suspeição do juiz no
caso Master, jamais apreciado pelo tribunal. Ao convocar a sessão plenária para
examinar a situação de Moraes, o presidente do tribunal não detalhou o formato.
Além de mandar o colega à fogueira, tirou poder dele ao evocar o inquérito das
fake news. A investigação foi instaurada pelo Supremo em 2019, para proteger-se
da cruzada anti-STF do bolsonarismo. O ex-deputado Daniel Silveira foi
condenado a oito anos de cadeia em 2022 graças ao inquérito. Havia gravado
vídeo com ameaças de violência física contra juízes da Corte. Moraes será
mantido na relatoria de ações penais decorrentes dessa investigação, contudo as
apurações pendentes correrão agora sob a batuta de Fachin, que busca o
encerramento do processo desde que assumiu o leme da Corte, há um ano. Ele vai
estudar os autos para separar o que cabe enviar à PF para ser aprofundado e o
que pode ir a Gonet, para ser convertido em acusação formal perante a Justiça.
“Vou indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal
Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio Bolsonaro na
esvaziada manifestação no 7 de setembro
Manter o inquérito vivo era visto como ato necessário por
uma ala da Corte que enxerga no bolsonarismo um risco à democracia e ao
tribunal. Dino integra essa corrente. “É possível a um julgador, qualquer que
seja ele, ‘prometer o final de um inquérito’ como se fosse um candidato ou para
receber aplausos?”, escrevera em uma rede social às vésperas da decisão de
Fachin. Colocar um cabresto no Judiciário é uma prática da extrema-direita na
atualidade. Foi assim na Hungria nos anos de Viktor Orbán e é assim em El
Salvador de Nayib Bukele, entre outros. No Brasil, o Supremo foi uma barreira
de contenção ao extremismo de Bolsonaro, condenado pelo tribunal há exatamente
um ano por tentativa de golpe. O filho do capitão que concorre a presidente não
esconde o desejo de subjugar a Corte. “Vou indicar cinco ministros para o
Supremo Tribunal Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio
em um ato público da oposição em 7 de setembro.
Incendiados pela decisão de Mendonça de detonar uma guerra
contra Moraes, militantes bolsonaristas não perderam a oportunidade de usar
mais um Dia da Independência para malhar o Supremo. Na sabatina no Jornal
Nacional, da Rede Globo, em 28 de agosto, Flávio tinha uma “cola” na mão com as
palavras “mudança”, “futuro” e “7/set”, uma pista de que a iniciativa de
Mendonça contra Moraes não havia sido aleatória, mas parte de um plano. Foram
várias manifestações pelo País, estreladas por candidatos ao Senado, a casa
legislativa com poder para cassar integrantes do STF. O principal ato, o da
Avenida Paulista, mais uma vez deixou a desejar em público, nem um boneco
inflável do impopular (nos EUA) Donald Trump evitou o fiasco. Pesquisas
existentes hoje apontam avanço do PL no Senado.
São 11 integrantes no STF. Uma das cadeiras está vaga há
quase um ano, com a aposentadoria precoce de Luís Roberto Barroso. No próximo
governo, três vão pendurar a toga por idade. Eis a conta dos “cinco” de Flávio:
as vagas de Barroso, Moraes e dos futuros aposentados. Somados aos dois
indicados de Jair que já compõem a Corte (Mendonça e Kassio Nunes Marques), um
novo governo Bolsonaro teria a mais alta Corte na mão. Entre auxiliares de
Lula, há uma disputa silenciosa por um lugar no Supremo. De um lado, Jorge
Messias, o AGU. De outro, Wellington César Lima e Silva, o ministro da Justiça.
Messias foi indicado por Lula e rejeitado pelo Senado em maio. Na busca pela
aprovação, havia se aliado a Mendonça, evangélico como ele. Sonha em ser
escolhido de novo, daí a AGU não peitar o juiz em nome da PF e ter resistido
por semanas aos apelos de Rodrigues para integrar o esforço de demonstrar a
parcialidade de Mendonça nos casos Master e INSS. Lima e Silva foi outro a
fazer cara de paisagem diante da batalha. “O Andrei está isolado no governo”,
comentava um ministro de Lula na semana anterior à decisão de Mendonça de
afastar o diretor da polícia.
Messias e Wellington Silva só entraram em campo por
Rodrigues após uma ordem de Lula, no dia do afastamento do delegado. A dupla
foi a Fachin, antes de a AGU entrar com um recurso na Corte para devolver o
chefe da polícia ao posto. O presidente do tribunal concedeu a liminar, mas só
após Dino ter derrubado a decisão de Mendonça, a pedido do próprio delegado.
Para aplauso dos bolsonaristas, Fachin retirou das
mãos de moraes o inquérito das fake news, instalado há sete anos
A hesitação de Fachin diante do vale-tudo entre colegas
contribuiu para a escalada da crise no STF. Moraes tinha revidado o relatório
policial encomendado por Mendonça com um despacho, no qual, também baseado em
papéis da PF, apontou fortes indícios de que o oponente teria cometido abuso de
autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. E defendia
que a situação fosse objeto de providências. Fachin queria baixar a temperatura
e ganhar tempo, conversou com alguns colegas com esse objetivo, segundo um
interlocutor. Os ânimos estão, no entanto, acirrados demais para uma solução
dessa natureza. Fachin gostaria ainda de construir uma solução mais ou menos
consensual, mas esbarrou na geopolítica interna de forças. Essa geopolítica não
permite antecipar o desfecho da sessão de 15 de setembro. Moraes chegou a
convocar um pronunciamento para a manhã da quinta-feira 10, dia da conclusão
desta reportagem, mas adiou o evento para a segunda-feira 14, véspera da sessão
plenária.
O relatório da PF sobre as relações com Vorcaro mostram
Moraes em uma posição indefensável. Ele mentiu aos pares, ao divulgar uma nota,
em março, na qual negava que certas mensagens de WhatsApp enviadas por Vorcaro
em 17 de novembro de 2025 tivessem ele (Moraes) como destinatário. Naquela
data, o banqueiro foi preso pela PF pela primeira vez, em um aeroporto, quando
tentava embarcar para o exterior. Em uma das últimas mensagens a Moraes,
Vorcaro escreveu: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por
“bloquear” leia-se “melar” a operação policial a caminho. Na véspera, banqueiro
e juiz haviam tido uma reunião. Em seguida, o primeiro escreveu ao segundo: “Se
o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não
quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Trata-se do
diretor-geral da PF. Não houve atraso, a polícia algemou Vorcaro.
A Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça
só entraram na briga entre a Polícia Federal e Mendonça após o presidente Lula
reclamar da omissão dos subordinados
Na antevéspera da prisão, o banqueiro tinha procurado Moraes
por mensagem. “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele
mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que
na segunda já tenho que estar fora?” E prosseguiu: “Não conseguimos reverter
isso com Paulo ou Andrei?” Essas mensagens resumem a relação entre os dois e
delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10a
Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de
novembro. Galípolo é o presidente do BC, que liquidou o Master no dia da prisão
de Vorcaro. Paulo é Gonet, o procurador-geral da República. Ao se observarem as
mensagens em conjunto e à luz dos acontecimentos, é inevitável concluir que
Vorcaro contratou a banca advocatícia da esposa de Moraes para ter acesso
direito ao togado. Descobrir a existência de investigações policiais e de
medidas judiciais contra o Master era uma das missões de Moraes. Procurar
autoridades que pudessem auxiliar o banco e seu dono, outra.
A crise no Supremo é um assunto delicado para Lula e tem
impacto potencialmente negativo na tentativa de reeleição. Em parte da opinião
pública, Moraes é visto como inimigo do bolsonarismo, em razão da postura dele
à frente da Justiça Eleitoral na campanha de 2022 e na condenação do ex-presidente
por tentativa de golpe. Por tabela, seria “lulista”. Flávio esforça-se para
colar o juiz ao presidente. Mendonça inflou essa estratégia ao levantar
suspeita contra o diretor da PF. Lula tem dado declarações genéricas sobre o
STF nas redes sociais. Sem citar nomes, defende que todo mundo seja
investigado, “doa a quem doer”.
O domínio absoluto do tema no noticiário é outro abacaxi
para o petista. A insistência monocórdica da mídia tira visibilidade do debate
de ideias. Um colaborador presidencial cita um caso: no dia da decisão de
Mendonça sobre Moraes, Lula fez uma longa reunião no Palácio do Planalto, com
gente de dentro e de fora do governo, para discutir restrições às bets, da
limitação à publicidade à possibilidade de proibição total das apostas
esportivas, ideia apoiada pela maioria do País. O assunto praticamente não teve
espaço midiático. Daí o presidente torcer por uma solução rápida para a crise
no Supremo. A sessão de 15 de setembro pode ser o início desse desfecho. Ou, ao
contrário, alimentar ainda mais a fogueira. Até lá, a campanha petista tentará
manter Lula a uma prudente distância de Moraes. •
Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16
de setembro de 2026.