terça-feira, 29 de setembro de 2026

A GRANDE APOSTA DE LULA

Artigo de Fernando Gabeira

Ao proibir as bets nove dias antes do primeiro turno, Lula fez sua maior aposta. Muitos observadores consideram grandes suas chances de êxito. As pesquisas mostram que a maioria condena apostas on-line. Grande número de mulheres pode decidir o voto a partir dessa medida.

É impossível cravar cientificamente qual será o resultado das eleições de domingo. O universo do futebol foi atingido. Lula fez menção ao Flamengo; a torcida não gostou. Enfim, há muitos fatores a analisar.

Essa avaliação pertence às pesquisas que saem às ruas nesta semana. O mais importante é colocar a questão-chave: por que foram necessários tantos malabarismos às vésperas das eleições? Creio que essa variável é fundamental para analisar o governo nascido de uma frente democrática em 2022. Lula é acossado por um Bolsonaro. Significa que, apesar dos grandes julgamentos e de todas as críticas midiáticas, o bolsonarismo resistiu. Um governo democrático bem-sucedido com uma orientação adequada talvez pudesse reduzir a importância dessa corrente política radical. Não foi o que aconteceu.

O interessante é que as pesquisas revelam que outros candidatos também acossam Lula num hipotético segundo turno. Forte indicação de desejo de mudança. Se as pesquisas revelassem uma situação mais favorável, Lula certamente dispensaria os malabarismos e enfrentaria as eleições com os métodos tradicionais.

É razoável questionar se houve erros no caminho. A Frente Ampla foi realmente uma frente? Ou, apesar do nome, apenas mascarou as pretensões hegemônicas de um partido, que abocanha o essencial e mantém os aliados como funcionários do governo?

Não houve debates no interior da Frente para apresentar alternativas. Isso decorre também do horror às críticas, da tentativa permanente de associar qualquer dissidência ao adversário político, um distante resquício do stalinismo.

Lula percebia as dificuldades do governo, mas tentava superá-las magicamente. Todo ano que terminava era o ano de plantação, segundo ele. Todo ano que começava era o ano da colheita. O mandato termina, e a magia terá de ser repetida no próximo, exceto em caso de compreensão de que é preciso mudar, de que um próximo governo precisa corrigir os erros, reencontrar apoio e reduzir o campo de manobra dos adversários mais radicais.

Pode-se argumentar que o avanço da extrema direita é uma realidade mundial. Mas isso retira a singularidade do caso brasileiro. Ao norte, o problema que estimula o avanço é a imigração; aqui é a corrupção. Para grande parte dos analistas de esquerda, a corrupção é apenas uma nota insignificante no pé de página da História. É um não problema que aflige apenas um pequeno segmento da classe média. O resultado dessa tolerância acabou se refletindo no clima geral do país. Ministros do Supremo entraram na corrida para se tornar bilionários, deputados e senadores esbanjam boa parte do Orçamento com emendas que não controlamos.

Enquanto essas questões não forem resolvidas, o Brasil estará aberto à espera de um oportunista que se apresente como salvador diante de um universo político considerado 100% corrupto. Num novo mandato, será difícil para Lula dobrar a aposta. Terá de refazer o caminho.

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AS DÚVIDAS DA RETA FINAL

Míriam Leitão, O Globo

A pouco dias da eleição, as pesquisas mostram dois candidatos à presidência empatados, mas com os blocos de eleitores se movendo

Dentro de cinco dias estaremos diante da urna eletrônica e o que a democracia nos oferece é uma enorme avenida. Escolher o próximo presidente, renovar dois terços do Senado, eleger os deputados da Câmara Federal, das assembleias legislativas e os governadores. Com a campanha curta, e drenada por temas estranhos à natureza da escolha, as pesquisas nos mostram um país em que dois candidatos ao Planalto estão empatados, mas com blocos de eleitores se movendo. A pesquisa Quaest, encomendada por este jornal, traz informações relevantes, só que ainda há muitas dúvidas.

A sondagem foi melhor para Lula do que para Flávio Bolsonaro em dois pontos cruciais. Aumentou de 5 para 11 pontos percentuais a vantagem de Lula sobre Flávio no eleitorado feminino. Eu disse aqui, colunas atrás, que o presidente estava perdendo essa dianteira no eleitorado feminino, e as mulheres foram decisivas na vitória de Lula em 2022. Isso se reverteu. Outra boa notícia para Lula é a redução da distância que ele estava de Flávio Bolsonaro na região Sudeste, que concentra 42% do eleitorado brasileiro e tem os três maiores colégios eleitorais do Brasil, São Paulo, Minas e Rio de Janeiro. A diferença há uma semana era de seis pontos, agora caiu para dois: 35% para o candidato do PL, 33% para o petista.

A religião dominou o debate nos últimos dias, com Nossa Senhora Aparecida no centro da controvérsia. A acusação do senador Flávio Bolsonaro de que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil tivera participação no boato reacendeu a polêmica que já estava perdendo a força no final do domingo. Não era verdade a informação que incendiou as redes sobre a destituição de Aparecida como padroeira do Brasil, mas a acusação à CNBB também não tinha fundamento. “Não se combate uma mentira com outra mentira”, disseram os bispos.

Na pesquisa, subiu de 43% para 48% a intenção de votos em Lula entre os católicos. Nos evangélicos, Lula subiu quatro pontos, de 23% para 27%, e Flávio Bolsonaro caiu de 49% para 46%. O campo da pesquisa foi feito de sexta a domingo. Traz parte do reflexo dessa briga religiosa.

O que espanta é o desinteresse numa eleição tão decisiva para definir o Executivo e o Legislativo dos próximos anos. E, de certa forma, o Judiciário. Na pesquisa espontânea, 31% estão ainda indecisos sobre o voto para presidente, 23% se dizem nada interessados nas eleições. O voto nulo e branco é alto. Ainda podem mudar o voto, 16% dos que disseram ter a intenção de votar em Lula, 19% dos que escolheram Flávio Bolsonaro, 35% dos eleitores de Caiado, 47% dos de Augusto Cury e 40% de Renan Santos.

Há um menor engajamento nesta eleição. Talvez isso se explique pelo fato de as taxas de rejeição dos dois principais candidatos terem estado consistentemente acima de 50% durante os últimos meses. Talvez pelo fato de essa campanha ter sido engolida pela crise do Supremo Tribunal Federal e pelo escândalo do banqueiro trambiqueiro, hoje preso, Daniel Vorcaro. Para complicar, nos últimos dias uma batalha religiosa instaurou-se nas redes e nas campanhas.

O eleitor tem preocupações, a vida do país tem emergências, há perigos reais no horizonte do Brasil, e esta campanha será conhecida como a que mais fugiu da discussão de propostas e projetos de governo.

O debate da Globo, marcado para a próxima quinta, ficou ainda mais relevante. Claro que todos criticarão o presidente Lula, mas qualquer incumbente é sempre o alvo preferencial nos debates. Se comparecer, será a chance de Lula apresentar o que fez em quatro anos e em nome do que está pedindo mais quatro. A campanha de Flávio Bolsonaro é um deserto de ideias. A de Lula também, porém tem a seu favor os resultados de três governos e de uma longa vida política. Flávio Bolsonaro é um senador sem projetos e sem relatorias. Não tem uma biografia parlamentar relevante. Na pesquisa, 52% dos entrevistados disseram que Lula é que ganhará a eleição, e 32% disseram que é Flávio Bolsonaro.

Cada pesquisa, seja de que instituto for, traz uma coleção de números mostrando evoluções por dentro dos grupos e das regiões, ainda que a disputa permaneça tão empatada quanto estava em abril. Haverá emoção até o final. Muito provavelmente, a disputa presidencial terminará só no segundo turno. Do voto deste domingo sairá a composição da Câmara e de dois terços do Senado. Não é pouco o que decidiremos dentro de alguns dias.

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segunda-feira, 28 de setembro de 2026

O BRASIL QUE VAI VOTAR CANSADO

Preto Zezé, O Globo

A mesma pessoa que quer ordem quer proteção social. O mesmo eleitor que votou num lado já votou no outro

No Acre, uma mulher me contou uma cena do mercado. O filho pequeno colocou um chocolate no carrinho. Ela teve que tirar. A criança chorou, e ela precisou explicar que não dava para pagar tudo, que naquele mês era só o básico. Nenhum debate na TV tem essa cena. E ela resume o Brasil que vai às urnas no dia 4.

Nas últimas semanas, estive em Brasília, Acre, Paraná, São Paulo, Rio de Janeiro e Nordeste. Realidades e sotaques diferentes, problemas que mudam de nome. Mas uma palavra atravessou quase todas as conversas: cansaço. E é esse eleitor cansado quem decidirá a disputa.

O primeiro cansaço é o do bolso. Em Brasília, conversei com um homem que trabalha no comércio e ainda faz bico de Uber num carro alugado para fechar o mês. Já votou em Bolsonaro. Já votou em Lula. Agora não sabe para onde vai. Perguntei o que um candidato precisaria dizer para ele voltar a confiar:

— Não quero ninguém salvando o mundo. Quero saber quem vai me ajudar a salvar o dinheiro para pagar as contas no fim do mês.

No Nordeste, ouvi o reconhecimento e a cobrança na mesma frase.

— O social chegou, a gente está incluído. Mas a gente quer mais. Meu filho quer abrir um negócio e não encontra crédito. E as dívidas só aumentam.

Os números confirmam. Segundo a CNC, 82% das famílias estavam endividadas em agosto, recorde pelo sétimo mês seguido. Entre quem ganha até três salários mínimos, quase quatro em cada dez têm conta atrasada. A inclusão abriu a porta. Agora a favela quer entrar na sala onde se decide crédito, investimento e oportunidade.

O segundo cansaço é o do esquecimento. A mesma mulher do Acre foi direta:

— A política só lembra de mim na eleição.

É a frase que mais se ouve nas periferias, e a que menos se escuta.

O terceiro é o do medo. Em São Paulo, uma mulher começou pela segurança, mas queria também amparo social. No Rio, a conversa seguiu o mesmo caminho:

— Do jeito que tá, quem manda aqui é a vagabundagem. Só que não adianta mandar polícia aqui só para matar e ir embora. A gente quer direito também.

A favela quer ordem e quer dignidade. Quer o Estado presente, não de passagem.

E há o cansaço da própria briga. No Paraná, visitei uma família em casa. Ali, a polarização não era tema de noticiário. Tinha dividido os parentes. A política, que deveria organizar a vida em comum, entrou pela porta para separar quem se ama.

Juntando essas vozes, ninguém me pediu revolução. Pediram conta paga, lembrança fora da eleição, segurança com direitos, crédito para empreender, família em paz. São demandas que desmontam a divisão entre esquerda e direita. A mesma pessoa que quer ordem quer proteção social. O mesmo eleitor que votou num lado já votou no outro.

E aqui os dois lados falham. Um fala de segurança como se bastasse mandar polícia. O outro fala de inclusão como se ela fosse ponto de chegada, e não de partida.

Esse eleitor também tem um poder que quase não usa. No dia 4, serão seis escolhas na urna. Quem comanda as polícias é o governador. Deputados e senadores controlam parte importante do orçamento. A maior parte do que aperta essa gente passa por votos que ficam longe do barulho.

O eleitor cansado não está vazio de opinião. Sabe o que aperta. Está disponível, mas cansado de ser disputado como torcida e esquecido como cidadão. Ele não abandonou a política. Foi a política que se afastou dele. E, desta vez, é ele quem decidirá.

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domingo, 27 de setembro de 2026

A ESQUERDA DEMOCRÁTICA EM TEMPO DE APATIA

Luiz Sérgio Henriques*, O Estado de S. Paulo

Como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?

A transmissão e a recepção de uma cultura política no ocaso constituem tema espinhoso, especialmente quando “tudo o que é sólido se desmancha no ar”. Revisitar tais processos, no entanto, pode ser útil quando menos porque por aí ronda a tentação da novidade pela novidade. Os arautos da perdição asseveram não só que a Carta de 1988 é papel velho, mas também que existem demiurgos capazes de propor soluções para transformar maus políticos e cidadãos desavisados em figuras republicanas irretocáveis.

A cultura antiga a que me refiro é a do comunismo brasileiro, em particular a do PCB. Tornada objeto histórico no seu conjunto, deixou como legado pontos de referência vivos e incontornáveis. O modo como essa cultura foi recebida – às vezes incorporada, outras tantas recusada – seria obra, entre outros atores, da formação partidária que a sucede no tempo e marca, como nenhuma outra, o nosso século 21. Por isso, a revisitação não é uma operação interna à própria esquerda – PCB e PT –, o que por si só chamaria a atenção, mas algo que afeta o entendimento da política corrente.

É possível encontrar um desses marcos incontornáveis num ensaio de 1979 escrito por Carlos Nelson Coutinho, em plena saída do autoritarismo. Seu título, tornado quase canônico, na verdade vinha de Enrico Berlinguer, dirigente do Partido Comunista Italiano. A “democracia como valor universal” cancelava, ou devia cancelar, o qualificativo “burguesa” com que muitos à esquerda ainda a tratavam. Instituições, regras e procedimentos contam – e muito. Na linguagem da época, não haveria um caminho democrático para o socialismo. A democracia seria, de fato, o caminho do socialismo, com exclusão de soluções anacrônicas, como, para dar exemplo à mão, uma inadmissível “ditadura do proletariado”.

A história de um país não se faz com um ensaio ou os debates que suscita. Seguiram-se movimentos de massa, a eleição de Tancredo Neves, a Constituinte e a Nova República. A troca de bastões, à esquerda, era visível a olho nu. O contraste não podia ser mais nítido: o PCB apoiara Tancredo e, reduzido a uma pequena bancada, empenhou-se na elaboração da nova Constituição; o PT expulsara os deputados que foram ao Colégio Eleitoral e, não obstante sua participação, votaria contra a redação final da Carta. No entanto, tradições envelhecem e merecem perecer. Os comunistas já eram o passado que só volta por seus pontos de luz. O que irrompia era uma nova força: o PT, seu líder inquestionável, sua teoria de Brasil em que confluíam muitos elementos díspares, inclusive a desconfiança em relação à “democracia formal”.

Formas institucionais não seduzem o ator jovem tomado pela vontade de se afirmar contra todo o passado e abrir um tempo inaugural. É aqui que se insinuam algumas das muitas maneiras de viver e propagar a antipolítica, como o viés salvacionista ou a pretensão do monopólio das virtudes públicas. Numa visão benévola, seriam as dores do parto da nova formação, ainda antes de tomar a estrada do amadurecimento. Mais realisticamente, costuma-se apontar nestes casos o predomínio de um “espírito de cisão” que, deixado a si mesmo, faz cometer erros mais ou menos graves – entre eles, acreditar piamente na própria excepcionalidade e abominar o mundo comezinho de alianças e compromissos.

Neste ponto é que nos ocorre a lembrança de uma segunda voz dotada de imensa autoridade. A vitória petista de 2002, início de um inédito ciclo que, com interrupções, vem até hoje, não foi acontecimento exótico numa democracia moderna. Luiz Werneck Vianna, no calor da hora, apontou que terminava ali, de uma vez por todas, a sedução da aventura fora da política democrática. Em resumo, não somos um país de fracassos, uma sociedade fechada aos “de baixo”, um Estado que não inclui quem aceita as regras do jogo.

Ao contrário, Werneck Vianna, talvez o mais destacado formulador marxista da política de frente, indicava a possibilidade de uma absolvição da História por parte dos vencedores de 2002, seus intelectuais e a cultura que, com avanços e recuos, estavam a propor. Nesta reconciliação – e no bom combate para dirigir uma sociedade complexa e plural –, residia a esperança de superação dos traumas deixados por uma modernização aos trancos e barrancos, com as injustiças com que todos temos de nos haver cotidianamente. Uma modernização sem o moderno, ainda segundo nosso autor.

Nem todas as provas foram vencidas com louvor, muito pelo contrário. As insuficiências explicam este momento de cansaço cívico e existencial. Estamos presos a uma sensação de democracia incompleta e precocemente envelhecida, estimulando os cavaleiros da fortuna a explorar os flancos expostos. Apatia e polarização “congelada” convivem numa mistura insólita, o que reforça a oportunidade de consultar as vozes que nos antecederam. Ouvi-las não significa repetir suas respostas. Preservado o núcleo de tais respostas, cabe recuperar a pergunta original: como mudar a sociedade sem fazer terra arrasada das instituições – liberal-democráticas – que nos trouxeram até aqui?

*TRADUTOR E ENSAÍSTA, COEDITOR DAS ‘OBRAS’ DE GRAMSCI NO BRASIL

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REATIVAR O PAÍS SEM DESARRUMAR A ECONOMIA

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Qualquer um dos candidatos parece capaz de perceber o atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar o País

Crescimento pífio, em torno de 2%, inflação acima de 4%, muita insegurança e investimento abaixo dos padrões internacionais compõem o quadro econômico brasileiro a poucos dias das eleições. Sem projetos claros e bem estruturados, os principais candidatos, incluído o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, raramente foram além das promessas de comícios. Houve quem apostasse em debates e pronunciamentos mais esclarecedores no final das campanhas. Falta verificar se os candidatos estão interessados em debater e preparados para isso.

Qualquer debate sério deve, ou deveria, partir de alguns dados básicos da economia nacional. Crescimento sustentável só é possível com razoável taxa de investimentos em meios de produção, como equipamentos, máquinas e instalações produtivas de bens e serviços. Em outros emergentes essa taxa é raramente inferior – e com frequência superior – a 18% do Produto Interno Bruto (PIB). Isso é parte da explicação do vigor econômico, bem maior do que o brasileiro, observado em vários desses países.

No Brasil, nos dez anos entre 2016 e 2025, o investimento em meios físicos de produção igualou ou superou a marca de 18% no quarto trimestre de 2020 (18,33%), no primeiro e no terceiro de 2021 (18,40% e 18,25%) e no terceiro de 2022 (18,33%). Em 2025, a maior taxa, 17,8%, foi registrada no primeiro trimestre. Esses números ajudam a entender por que a expansão econômica brasileira tem sido medíocre há algumas décadas.

Desde o começo do século, o crescimento raramente superou a taxa anual de 3%. Pior que isso: esteve frequentemente abaixo desse padrão. A partir de 2015, houve 3% de expansão apenas em 2022. Essa marca havia sido ultrapassada em 2021 (4,8%) e seria novamente superada em 2023 (3,2%) e 2024 (3,4%).

Na maior parte deste século, a agropecuária tem sido o setor mais dinâmico, mais produtivo e mais competitivo internacionalmente. Parte da indústria, aquela mais próxima da atividade rural, participa dessa competitividade e contribui também, de forma diferenciada, para a geração da receita cambial e para a acumulação de dólares. Uma capacidade competitiva especial também é observada em alguns outros segmentos da indústria de transformação – e um destaque especialmente notável tem sido o do setor aeronáutico.

A enorme dependência em relação à agropecuária torna o Brasil especialmente vulnerável a acidentes climatológicos e ao protecionismo praticado em vários países desenvolvidos, como os da União Europeia. O combate a esse protecionismo é dificultado por fatores políticos, especialmente importantes no caso da Europa continental.

A articulação de ações do governo e do setor privado tem conferido alguma eficácia à defesa dos interesses brasileiros no comércio internacional.

Mas novos obstáculos, baseados em novos argumentos protecionistas, podem ser impostos a qualquer momento pelos grandes importadores, até em benefício de países concorrentes do Brasil e com grande peso no jogo diplomático das principais potências políticas e econômicas. Cada vez mais é necessária a articulação de visões diplomáticas e comerciais no desenho e na execução das políticas de atuação no mercado global.

Com suas dificuldades e sua enorme complexidade, o comércio global pode impor desafios importantes a qualquer governo instalado a partir de janeiro do próximo ano. Política externa e economia internacional, no entanto, têm sido assuntos ignorados, ou quase, nos pronunciamentos de candidatos à Presidência da República. Mesmo com mudança de governo, o comércio exterior continuará, naturalmente, funcionando com base na experiência e na atuação do setor empresarial, exceto se a administração recém-instalada cometer alguma tolice excepcional. Diplomacia e comércio foram assuntos menosprezados – de fato, praticamente ignorados, até agora – pelos principais candidatos.

Nada de muito estranho, é claro, quando se leva em conta o peso eleitoral quase nulo desses temas. Não há como ignorar, no entanto, sua importância para o funcionamento do País e para o bem-estar da população. Falta checar a percepção desses fatos pelos concorrentes aos mais altos postos da administração nacional. Um presidente eleito em fase recente, notável por sua ignorância de vários assuntos dependentes do governo, destacou-se também por suas estranhas nomeações para postos ligados a temas internacionais. Foi uma fase tenebrosa para a diplomacia brasileira.

Nenhum dos atuais candidatos, alguns bem-sucedidos em negócios privados e outros em atividades públicas, parece oferecer risco de algo desastroso em funções políticas. Qualquer deles, incluído o candidato à reeleição como presidente, parece capaz de perceber o atoleiro atual da economia nacional e a urgência de políticas para desemperrar o País. Desemperrar, é claro, sem recorrer a irresponsabilidades, sem causar desarranjos e sem levar a sério a tese da gastança como indispensável à prosperidade. Vários petistas, alguns bem-sucedidos em funções oficiais, mostraram haver superado essa bobagem. Não há por que ressuscitá-la.

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TRUMP ESCANCARA 'INTERESSES VITAIS' NA AMÉRICA LATINA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Às vésperas de eleição no Brasil, Trump escancara 'interesses vitais' na América Latina

Governador da Califórnia sugere que interferência da Casa Branca na disputa brasileira deve aumentar na reta final

Donald Trump não é de esconder o jogo. Na terça-feira, admitiu que a defesa da democracia e o combate ao narcotráfico foram só pretextos para invadir a Venezuela. “Assinamos o maior acordo de petróleo da história”, festejou, na Assembleia Geral da ONU. “Foi uma guerra, mas talvez tenha sido o maior negócio já feito. Ao vencedor, os despojos”, congratulou-se.

O presidente dos Estados Unidos avisou que não vai permitir “ameaças à América” no Hemisfério Ocidental. “Se necessário, usaremos todo o nosso poderio militar inigualável para assegurar os interesses vitais dos EUA”, informou.

No caso venezuelano, os interesses podem ser medidos em barris. A operação que derrubou e prendeu Nicolás Maduro abriu caminho para os americanos assumirem o controle de 21% das reservas do país, o equivalente a 65 bilhões de barris de petróleo. “Os números são absolutamente incríveis”, celebrou Trump.

Em sete dias, o Brasil vai às urnas para escolher o próximo presidente. A disputa é marcada pela interferência explícita da Casa Branca, que já impôs um tarifaço a exportações, chantageou autoridades com a Lei Magnitsky e, num ato inédito de hostilidade, cassou o visto da embaixadora brasileira em Washington.

Os americanos não disfarçam. Querem a vitória da família que, no passado recente, subordinou a política externa brasileira aos desejos do próprio Trump. Na ausência do pai, o republicano aposta no filho. O irmão dele, ex-deputado cassado e foragido no Texas, já se escalou para o cargo de chanceler do irmão.

De olho nos despojos, a Casa Branca escancarou a ingerência eleitoral no início de junho. Horas depois de anunciar uma nova sobretaxa de 25% sobre produtos brasileiros, Trump postou uma foto com Flávio Bolsonaro no Salão Oval. Descreveu o candidato do PL como “um jovem inteligente que ama muito o seu país”.

O senador já deu pistas de como retribuiria a gentileza. Em março, declarou que o Brasil seria “a solução para os EUA quebrarem a dependência da China por minerais críticos, especialmente terras raras”. Também atacou o decreto do governo que impôs regras para responsabilizar plataformas digitais por publicações que envolvam fraudes, apologia à violência, exploração sexual infantil e nudez sem consentimento. Ao advogar em favor do lobby das big techs, disse defender a liberdade de expressão.

Depois do discurso na ONU, Trump se reuniu com presidentes de 14 países da América Latina e do Caribe governados pela direita. Eles assinaram um comunicado que abre caminho a sanções econômicas e operações militares na região, a pretexto de combater “organizações narcoterroristas transnacionais”. O Brasil não foi convidado, mas está na mira do pacote.

Na quarta-feira, o governador da Califórnia, Gavin Newsom, descreveu a relação da família Bolsonaro com Trump como “obscena”. O democrata sugeriu que a interferência americana só deve aumentar na reta final da eleição. “Eu ficaria muito preocupado”, disse ao portal Metrópoles.

 

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DISTOPIA

Merval Pereira, O Globo

Ambas as campanhas fazem “o diabo” para ganhar, e por isso o índice de eleitores indecisos ou desanimados está tão grande.

“A gente faz o diabo para vencer uma eleição” já dizia a ex-presidente Dilma Rousseff. Bolsonaro fez o diabo, mas perdeu. Basta lembrar a PEC Kamikaze, que injetou R$ 41,3 bilhões no orçamento alegando “estado de emergência”, com tempo limitado até o fim de seu governo, passando pelas eleições. Lula está fazendo o diabo, mas corre o risco de perder. Talvez por isso esteja tão açodado, liberando dinheiro a sete dias do primeiro turno. A proibição das bets talvez seja uma medida correta, mas se tomada no inicio de seu terceiro mandato, ou ao final dele, depois das eleições.

A regulamentação das bets, que foram criadas no governo Temer sem regras de proteção do apostador, era necessária e o governo Lula fez bem. O governo Bolsonaro evitou regulamentar as apostas, perdeu a chance de ganhar muito dinheiro com as outorgas e os impostos decorrentes, o que ficou para Lula fazer. Mas já na votação do Congresso, mobilizou-se a base do governo para retirar ou incluir obrigações, às vezes a favor das empresas estrangeiras. Agora, soa popularesco, eleitoreiro, decretar o seu fim repentinamente.

As bets contribuíram com bilhões de reais em impostos, ajudaram o governo a reduzir o déficit orçamentário, e, do dia para noite, são proibidas. Mais um exemplo de insegurança jurídica típica de um país que cuida de seus problemas como se eles fossem solucionáveis com uma canetada, sem ligar para os rastros que deixam para trás. A fama de caloteiro persegue os governos brasileiros, sejam eles de que tendência forem, porque temos a mania de não resolver estruturalmente as questões, apenas damos um retoque, tomamos decisões precipitadas, que depois podem ser revogadas de acordo com os interesses eleitorais.

O novo programa “Desenrola” é outra decisão eleitoreira similar à de Trump nos Estados Unidos, que prometeu U$ 5 mil se seu partido Republicano vencer as eleições de meio de mandato. Compra de voto na veia. Também Lula pretende gastar bilhões de reais para perdoar as dívidas antigas limitadas a R$ 10 mil. Quem ganhará serão os bancos, que já haviam desistido de ver esse dinheiro e agora, para limpar a ficha dos devedores, receberão pagamento do governo.

Esse programa poderia ter sido feito depois das eleições, em dezembro, antes do fim do terceiro mandato, ganhe ou perca Lula, se o interesse fosse realmente ajudar os endividados. O boato sobre os evangélicos quererem cancelar Nossa Senhora de Aparecida de ser a Padroeira do Brasil é outro jogo sujo de última hora. Exumar uma mentira que já surgira e fora desmentida anos antes é típico de quem está desesperado, temendo a derrota eleitoral. Não foi preciso fuxicar o celular do Vorcaro para descobrir mensagens de um membro do setor de comunicação da campanha de Lula estimulando que se disseminasse o boato, que seria bom para a candidatura à reeleição.

Ambas as campanhas fazem “o diabo” para ganhar, e por isso o índice de eleitores indecisos ou desanimados está tão grande. Tudo indica que a campanha continuará equilibrada, até que o debate da Rede Globo na próxima quinta-feira possa defini-la. Nenhum dos dois está em condições de abrir mão desse embate, que evitaram durante toda campanha, por razões diversas. Flavio Bolsonaro por temor de enfrentar Lula; o presidente, por desprezar o oponente. Lula fez um cálculo errado ao imaginar que está disputando com Flavio. Está disputando com o fantasma de Bolsonaro pai, e por isso está tão difícil.

Lula parece não ter aprendido com as várias campanhas presidenciais que disputou. Depois de três derrotas seguidas, duas no primeiro turno para Fernando Henrique e seu Plano Real, venceu quando se defrontou com um adversário de carne e osso, José Serra, não para utopias: o caçador de Marajás e o Real. Ele mesmo tornou-se uma utopia, venceu as outras eleições, e fez a sucessora. Agora, pode perder para uma distopia.

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O BAITA SER HUMANO ZUENIR VENTURA

Dorrit Harazim, O Globo

Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele leva mais que admiração: leva gerações inteiras de amigos

Não há idade ou hora justa para a partida de um amigo — nem para quem parte, nem para quem deve continuar a tocar a vida. “A eternidade está no momento”, ensina Walt Whitman no monumental “Folhas de relva”. É na soma de momentos compartilhados que descobrimos nossas profundezas e limites, que nos temperamos ou transcendemos. E isso ocorre mais claramente no fluir da amizade, esse complexo entrelaçamento afetivo capaz de nos proporcionar uma ventura única.

Nem mesmo os gregos da Antiguidade, tão dedicados a definir e catalogar a amálgama de sentimentos humanos, conseguiram isolar e nomear a amizade. Ela escapuliu da sabedoria da época, e acabou incorporada sob o guarda-chuva da palavra philia, designação também para amor. Milênios depois, já temos a palavra, mas a dificuldade em defini-la continua quase inalterada — apesar de amizade ser um componente tão essencial a uma vivência plena. Nossa espécie se agrupa em coletivos maiores que nossa família biológica não apenas para aumentar as chances de sobrevivência. Também pelo impulso de explorar as fronteiras do afeto espontâneo. Só que o sentimento de amizade, além de essencial, também é fugidio, não contempla a todos. Tomem-se as infinitas mandingas para encontrar um grande amor, ou apenas um marido, e a pouca procura por amigo. Talvez por imaginarmos já tê-los em número suficiente para o dia a dia, dispensando as camadas mais profundas de um ombro amigo.

Dois anos antes de conhecer seu companheiro de vida Jean-Paul Sartre, Simone de Beauvoir, então com apenas 19 anos, se propôs a dissecar a natureza do amor em relação à amizade. À época, ela talvez já tivesse lido Rainer Maria Rilke, para quem o modelo idealizado de uma relação afetiva estava ancorado no “compromisso de duas pessoas tomarem conta da solidão do outro”. Na formulação da intelectual francesa, esse nó afetivo deveria ser construído com duas liberdades e a simples alegria de saber que o outro existe.

Um bonito inventário da convivência com sua primeiríssima “melhor amiga de infância”, Élisabeth Zaza Lacoin, dos 9 aos 20 anos, consta do primeiro volume de sua autobiografia, “Memórias de uma moça bem-comportada” (Nova Fronteira). Foi a rebelde menina Zaza quem bagunçou a convenção até então aceita pela comportada Simone, de que num coração humano bem ordenado a amizade ocupava posição honrosa, mas inferior ao esplendor misterioso do amor e à dignidade sagrada da devoção filial. Era, portanto, um sentimento secundário. A convivência com Zaza mudou a amiga.

— Convenções, rotinas e a categorização cuidadosa das emoções foram varridas, e fui tomada por uma enxurrada de sentimentos que não cabiam em código algum — escreveu ela.

Simone descobriu que uma amizade pode ser mais segura e resistente que um romance, livre dos “grandes ódios do amor, do orgulho irremediável, das rupturas apaixonadas, das torturas mútuas, sem introduzir ciúmes, exigências e dúvidas. (...) Eu não exigia que Zaza tivesse sentimentos tão definidos a meu respeito: para mim, bastava ser sua melhor amiga. A admiração que sentia por ela não me diminuía aos meus próprios olhos”. Zaza morreu aos 21 anos de doença indefinida e sua presença no viver de Beauvoir jamais se extinguiu.

Zuenir Ventura morreu aos 95 anos na terça-feira passada. Não cabe aqui elencar sua dimensão como jornalista, escritor, professor, acadêmico, cidadão brasileiro. Aqui só cabe a alegria de saber ter sido sua amiga. No passar de olhos pelo salão nobre da Academia Brasileira de Letras onde seu corpo foi velado, só se viam amigos do amigo Zuenir. Isso porque ele era um colecionador de amizades. Brasil afora, por onde passava, elas brotavam em seu encalço — genuínas, gratuitas, sem qualquer interesse material, apenas movidas pela alegria da descoberta de um baita ser humano.

Seu maior talento talvez tenha sido esse. Numa época em que qualquer like digital já é tido sofregamente como sinal de amizade, Zuenir morreu com uma fartura extraordinária de amigos verdadeiros, analógicos. Deste Brasil que tão bem entendeu e amou, ele leva mais que admiração: leva gerações inteiras de amigos. Zaza precisou de Simone para ser reconhecida e viveu pouco o prazer da amizade. Zuenir, felizmente, pôde ter vida longa para praticar seu arrastão afetivo. Quem ganhou fomos nós.

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ALÉM DE AVANÇAR SOBRE SUPREMO E PF, NOVO PRESIDENTE PODE REFAZER BANCO CENTRAL EM UM ANO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Novo governo pode nomear maioria dos diretores até o início de 2028 e ter mais poder no BC

Lula 3 não deve ter tempo de preencher vagas na autoridade monetária e no STF

Quem terá mais poder de controlar ou influenciar o Supremo a partir de 2027 é assunto maior desta eleição deplorável. O novo presidente e o Senado podem entrar em acordo ou conflito para fazer a maioria no STF, o que pode ter consequências funestas para a estabilidade política ou para a democracia. No entanto, pouca gente se lembra de que o próximo presidente da República poderá ter nomeado 6 dos 9 integrantes da direção do Banco Central até janeiro de 2028, início do segundo ano do mandato, e todos até janeiro de 2030, mudanças críticas para a estabilidade econômica.

Um presidente pode fazer estrago em muitas outras partes. Pode tentar controlar a Polícia Federal, como Jair Bolsonaro. Ou reabrir a porteira da destruição da Amazônia, um desastre em si e que deu mais poder a facções e empresas do crime organizado (tráfico de drogas, armas, minérios, madeira, gado). "Passar a boiada" na proteção ambiental (Bolsonaro, bis) é também fomentar PCC, CV etc. O caso aqui é que o STF é Poder independente; o BC é em parte independente do governo.

O mandato de Gabriel Galípolo como presidente do BC vai até o final de 2028. Em caso extremo de imprudência ou ignorância, o próximo presidente da República pode nomear diretores que atropelem Galípolo ou ideias sensatas de política monetária (grosso modo, decisões sobre taxas de juros e câmbio). Além disso, o presidente do BC pode ficar em minoria no Conselho Monetário Nacional, que baixa normas sobre o sistema financeiro. Até mercadistas bolsonaristas, quase todos, podem ter de comer o pão que amassaram para o diabo.

Meter a mão na política monetária dá mais problema de imediato do que lotar o STF de amigos. A mera intenção de executar um plano que assuste o dinheiro grosso vai causar tumulto, que dirá implementar maluquices. Basta indicar dois nomes esquisitos para o BC que já se vai sentir o cheiro de queimado (dólar e juros em alta).

Em ano de dificuldades, como deve ser 2027, o risco é ainda maior. Por outro lado, pode ser também que, justamente por causa da dureza econômica, um governo queira dar uma guinada à moda argentina ou de teor "nacional, popular e decolonial" (é sarcasmo, mas não muito). Parece um desastre improvável, mas o país é contumaz na autoflagelação. Além disso, desde os anos 1950 a defesa do "desenvolvimento nacional" acaba em planos de subsídios para ricos e empresas, sob o PT inclusive. Mas passemos.

Por erro político soberbo, Luiz Inácio Lula da Silva deixou aberta uma vaga de ministro do STF (o fiasco Jorge Messias). Sem contar decapitações por impeachment ou renúncias, uma vaga seria aberta em 2028 (a de Luiz Fux) e outra em 2029 (a de Carmen Lúcia). A seguinte, de Gilmar Mendes, só em dezembro de 2030. Não seria para tão logo e tão fácil fazer maioria, pois cada um dos partidos atuais do Supremo junta no máximo quatro ministros. Um Flávio Bolsonaro que conte com um Senado de direita e extrema direita decerto aceleraria a tomada do STF. Um Lula 4 teria dificuldade de fazer nomeações.

Na diretoria do BC, há duas vagas abertas desde o início do ano —Lula 3 ainda pode indicar os nomes. Não o fez antes por causa de conflitos do governo com o Senado e com o BC, do desinteresse pelo assunto e da ideia petista de que vencer Flávio seria "barbada" —não daria problema deixar o assunto para depois. Atrasos têm consequências perigosas, escreveu Shakespeare no Henrique VI.

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CRENÇA EM RAZÕES RAZOÁVEIS PARA O VOTO DEMOCRÁTICO

Paulo Fábio Dantas Neto*, Democracia Política

Volto hoje a usar como referência, nesta coluna, agora com mais ênfase, avaliações recentes do quadro das eleições presidenciais, feitas pelo cientista político Antônio Lavareda. O resumo de entrevista sua aos jornalistas Matheus Leitão, Rafael Campos e Maria Carolina Brito foi publicado na coluna do primeiro no site Metrópoles, na quarta-feira, 23.09. Lavareda avaliou, nessa entrevista, que se a eleição fosse hoje Flávio Bolsonaro seria favorito. E usou, por outro lado, a imagem da "eternidade" para se referir ao tempo hábil que ainda resta à campanha de Lula para alterar a situação que lhe seria adversa.

A imagem da eternidade foi metáfora um tanto vaga, talvez por cuidado profissional de quem tem a justa reputação de ser dos mais sólidos e experientes realizadores e analistas de pesquisas eleitorais do país. Um profissional desse ramo não deve abrir espaço, numa entrevista jornalística, para ser interpretado, pelo grande público, como conselheiro de uma das campanhas. Mas dias antes - como comentei semana passada - ele fora muito mais específico numa discussão virtual de que participou com o movimento Derrubando Muros. Em vez de uma metáfora, emitiu um conceito que, a meu ver, seria, caso considerado, muito útil à campanha de Lula para aproveitar de modo politicamente positivo essa lacuna de tempo restante: o conceito de mudança, que Lavareda entende como o sentimento predominante no eleitorado, cuja consideração é condição para um candidato ter chance de vitória.

Mudança na pauta e no tom da campanha para veicular uma noção de mudança política. Novo conceito na comunicação que, por sua vez, requer, para ser veraz e ter credibilidade, uma nova estratégia política, admitindo que mudanças importantes, não apenas táticas, são necessárias na atitude do incumbente.

Lavareda não está descobrindo a pólvora. Nem o diagnóstico do humor do eleitorado é novo nem são novas as críticas à atitude de Lula. Nada disso pode ser novidade principalmente para quem está discutindo a campanha com o candidato. É o que o noticiário sobre bastidores da política já registra, a ponto de se cogitar uma divisão na campanha. A boa notícia é que não há ignorância ou desaviso, nem falta reflexão. A má notícia é que, apesar disso, predomina a inércia e a busca de uma “bala de prata”.

Penso ser um equívoco deixar passar batido o toque de Lavareda - que não foi conselho profissional a vigário, mas reflexão responsável de um intelectual público, que ele também é - e suas implicações na comunicação e na política, Na data da discussão com Lavareda, acima referida (18.09), a bola já estava há algum tempo com o incumbente. Faltavam dezessete dias até o início da campanha do segundo turno, momento em que é razoável esperar que haja uma virada de chave. Já se passaram oito dias, restam nove e não há sinal de preparação dessa virada, mesmo que fora dos holofotes principais da campanha. É invisível até aqui um movimento que desafie a inércia da polarização com viés moral, do personalismo narcisista e da falta de aceno ao futuro. Deixo claro que uso aqui a palavra futuro no estrito sentido de compromissos de conduta do próximo governo. Sentido imediato e modesto, como pede o contexto. 

Ao contrário do que aqui se postula como "razão razoável", ambas as campanhas seguem, como bem assinalou a colunista de política Vera Magalhães, em seu artigo "Debate pode tirar eleição do escuro" (O Globo, 25.09.26), opacas em suas retrancas, a de Bolsonaro no modo ideia fixa e a de Lula no modo aleatório. Há, de fato, grande chance de, quando a luz se acender, no dia do debate da Globo, o país ver dois gladiadores ensanguentados numa cena de luta livre. Especialistas em comunicação política podem opinar (e não tenho como negar suas razões), que a essa altura é necessário um derradeiro esforço de reiteração desse varejo rude e agressivo para Lula conseguir manter sua margem exígua de vantagem numérica no primeiro turno e, com isso, evitar desabamento precoce do ânimo moral da sua tropa. Esse efeito negativo é cogitado por Lavareda na hipótese de Lula ser ultrapassado ainda no primeiro turno.

Com ou sem ultrapassagem, se um novo script de campanha (de moderação e cuidado com potenciais aliados, revisão de condutas do Lula 3 e compromissos concretos de partilha de poder num Lula 4) não for adotado para o segundo turno e não puder ser ao menos esboçado já no debate da próxima quinta-feira (mesmo que ao lado dos impropérios de varejo), o desabamento do moral da tropa poderá ser só questão de tempo. E aí as três semanas do segundo turno parecerão mesmo uma eternidade, no sentido de serem penosas, ainda que entremeadas por imagens espetaculares de engajamento e animação.

Tem sido difícil preservar a vida ativa da razão razoável na hora em que a definição se aproxima. Mesmo as emoções mais ilhadas e intimidadas tendem a ser fustigadas para se fazerem presentes ao juízo final. Por encanto, o ceticismo que predomina há meses poderá ser invisibilizado e banido como argumento, por força de cenas controladas pelas campanhas oficiais e pela obstinação de militâncias. Impossível descartar chances de sucesso na mobilização de certos segmentos sociais e até mesmo que essas cenas venham, de algum modo, a influir no resultado eleitoral. Ou não. Certo é que a palavra tomara será uma das mais acionadas do dicionário dos atores políticos e dos eleitores engajados durante esses dias.

Interessante (não por ser espantoso, ou misterioso, mas pedagógico sobre nosso "normal") acompanhar a dança de dois tipos de narrativa que tendem a ficar mais presentes nas duas campanhas, até ou além da conclusão do processo. A partir de ambas as campanhas prosperam tanto narrativas focadas em engajamento otimista de vontades e voltado à conquista da vitória eleitoral, quanto narrativas-vacina, que antecipam discursos explicativos de uma eventual derrota, para minimizá-la ou, até mesmo, não a reconhecer.

O senso comum percebe intuitivamente e a inteligência artificial cataloga facilmente os dois tipos de narrativa. Basta consultar, um ou outra. Por isso não me ocuparei do trabalho supérfluo de "revelá-las".  O que tem sentido numa coluna sobre política é alertar, a quem quer preservar suas próprias razões como razões razoáveis, para a presença de traços de várias narrativas desses dois tipos em palavras e obras (não tenho o dom de ler "pensamentos") dos atores concretos envolvidos no espetáculo em exibição. Quem quiser procurar não terá dificuldade de achar. Diante da revelação do desde sempre percebido, a pessoa de boa-fé não precisa ter que escolher entre ficar chocada, decepcionada, ou magoada e, daí, revoltada, apática ou indiferente. Todas essas são reações emocionais próprias de nossa humanidade desejante. Mas votar, sim, é um ato de vontade, logo racional, seja qual for o seu gatilho emocional. Um ato de escolha para o cidadão ou cidadã cometer com mente prevenida e olhos abertos.

*Cientista político e professor da UFBa

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SE FLÁVIO BOLSONARO FOR ELEITO, BRASIL VAI VIRAR VENEZUELA

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Acordo de Trump com Maduro sobre petróleo segue a mesma lógica do que ele propõe a Flávio para o Brasil

'Madurismo entreguista' e 'bolsonarismo' são sinônimos perfeitos

Por uma dessas ironias latino-americanas, o Brasil vai virar a Venezuela se Flávio Bolsonaro for eleito presidente. Com Lula presidente, nunca virou.

Desde a invasão americana, o regime venezuelano pode ser caracterizado como um madurismo entreguista.

Ora, "madurismo entreguista" e "bolsonarismo" são sinônimos perfeitos.

Se você tirar de Maduro seu anti-imperialismo e seu bigode, ele estará a uma peruca do Jim Caviezel de distância de virar o Jair. Já poderá, inclusive, pedir dinheiro ao Vorcaro.

Ao contrário do que esperava a direita venezuelana, Trump deixou a ditadura madurista em paz, em troca de um acordo que permite aos americanos roubar o petróleo venezuelano ("ao vencedor, os espólios", disse Trump na ONU).

Nenhum governo venezuelano que dependesse de voto popular poderia oferecer a Trump um acordo tão lesivo à Venezuela.

Quando o acordo foi divulgado no dia 28 de agosto, Ricardo Hausmann, professor de economia em Harvard e membro da oposição venezuelana, postou no falecido Twitter: "Secretário Marco Rubio: você acaba de perder qualquer confiança que os venezuelanos tinham em você, e isso ainda voltará para lhe assombrar. Você optou por usar o poder dos Estados Unidos, não para libertar a Venezuela, mas para ir para a cama com nossos opressores".

Por outra dessas ironias latino-americanas, os dois grupos políticos sul-americanos com mais raiva de Marco Rubio neste exato momento devem ser o PT e a direita venezuelana.

Nos últimos meses, antigos assessores de Paulo Guedes andaram pela Faria Lima prometendo cortes de gastos gigantescos se Flávio for eleito. Ignore, por um momento, o quão pereba o sujeito precisa ser para ser reserva no time em que o Guedes é titular. Deixe de lado, também, o fato de que a essa altura, em 2018, o plano econômico do Guedes era zerar a dívida pública em um ano vendendo os imóveis da União.

O verdadeiro programa econômico de Flávio foi escrito em Washington.

Em resumo, a proposta de Trump é que o Brasil compre tudo dos Estados Unidos mesmo que os chineses cobrem mais barato; e vendam tudo para os Estados Unidos mesmo que os chineses aceitem pagar mais caro. Teremos que pedir permissão para vender nossos minérios, desistiremos do Pix e compraremos aviões americanos piores que os feitos pela Embraer. Em outros termos, todos os setores internacionalmente competitivos da economia brasileira terão que começar a trabalhar para enriquecer os americanos.

O próprio Marco Rubio já nos contou que Flávio Bolsonaro concordou em estabelecer um comitê de transição, após as eleições, para implementar o plano.

Em entrevista recente ao ICL, o cientista político Steve Levitsky, autor, com Daniel Ziblatt, do já clássico "Como as Democracias Morrem", afirmou que há um risco real de Trump não reconhecer uma vitória eleitoral de Lula.

Isso daria margem a novas ofensivas da extrema direita global contra a democracia brasileira.

Afinal, Trump vê o autoritarismo da família Bolsonaro como uma vantagem, pelos mesmos motivos que o fazem gostar do autoritarismo madurista. Nenhum governo brasileiro que dependa de voto popular poderá oferecer a Trump um acordo tão lesivo ao Brasil quanto o que Flávio já prometeu aceitar.

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'VOU FALAR COM A TURMA'

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Contradição entre razão e práticas político-sociais isentas de hábitos morais provoca perplexidade

Quebra dos protocolos de decoro na classe política e no Judiciário é novidade

Não deverá haver novas sessões públicas do STF, para atenuar a perplexidade nacional com as cenas chocantes da última vez. Por minúsculo que seja, entretanto, o episódio não se esgota na estupefação imediata. A sociedade civil pode estar à espera de algo como "O Guia dos Perplexos" do filósofo judeu Maimônides (1138-1204). Atualizada, a questão desse livro é como conciliar uma ordem supostamente racional com aquilo que parece estar além de seus limites. "Perplexo" hoje é aquele lançado na aflição de compreender dois sistemas contraditórios entre si: o da razão e o de práticas político-sociais isentas de hábitos morais.

Essa reinterpretação comporta o discernimento do coreano Byung-Chul Han no sentido de que hoje "a sociedade bem ordenada não é uma sociedade do desempenho, mas uma sociedade do respeito" (em "Sem Respeito", Vozes). No que é corroborado por um aforismo da tradição afro-brasileira: "Só aprende quem respeita". Vale para a crise disciplinar no âmbito pedagógico, também para as instituições, que formam cidadania. Respeito requer responsabilidade com relação ao outro. Isso não existe no desempenho individual como único valor ético, característico da socialização neoliberal orientada pelo mercado e pelas ilusões teológicas da prosperidade com o culto do empreendedor de si mesmo, sem vínculo com a sociedade global.

Na falência desse vínculo, transparece a "guerra civil molecular", endógena nas sociedades marcadas pela violência da cidadania contra seu próprio entorno. A falta de respeito tem visibilidade pronta no cotidiano urbano com a depredação sistemática de equipamentos públicos, o lixo nas ruas, o caos do trânsito, o claro espírito de vingança coletiva contra a cidade e suas desigualdades. Desrespeito é o mesmo que irresponsabilidade individual e social.

Menos visível é a manifestação desse fenômeno na quebra dos protocolos seculares de convivência das elites herdeiras das disposições patrimonialistas de poder. Patrimonialismo, convém reiterar, é a forma social transplantada de Portugal para o Brasil desde os começos, com o princípio político-social de que as benfeitorias devem circular na "comunidade dos iguais". Outro modo de dizer que a circulação de riquezas obedece a critérios de família e de clã, ou seja, à "turma" do privilégio e conchavo. É o que se perpetua entre nós ao longo dos séculos sob os véus das ideologias conciliatórias formuladas pela elite letrada e inteligente.

Bem ou mal, essa elite sempre se inculcou algum autorrespeito, carteira de trânsito na panelinha dos pares. O que agora acontece, em meio à crise da representação parlamentar, da responsabilidade social e da civilidade, é a quebra dos protocolos de decoro tanto na classe política como nas instâncias do Judiciário.

Deformações moleculares apagaram o sentimento de vergonha, inerente ao autorrespeito. O patrimonialismo neoliberal virou ganância financeira controlada pelo crime organizado e, na promiscuidade das turmas, pouco importa ser percebido como corrupto e sem vergonha. Perplexa, a sociedade assiste ao "master" corruptor Vorcaro entronizar o crime acima da lei: "Vou falar com a turma". Qual? "Turma do KN", milícia privada?

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O QUE ACONTECEU COM A DEMOCRACIA LIBERAL ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Novo livro de Acemoglu defende regulação tecnológica pró-trabalhador para salvar liberalismo

Obra foi criticada por liberais de estirpe mais conservadora, que rejeitam intervencionismo estatal

O liberalismo é versátil. É compatível tanto com visões de mundo conservadoras, como a das democracias cristãs da Europa continental e a dos "tories" britânicos, quanto com políticas mais à esquerda, como a das social-democracias dos países nórdicos.

Embora os dois polos até consigam concordar em relação a princípios básicos que caracterizariam o liberalismo, como o respeito às liberdades básicas, à propriedade privada e ao império da lei, eles frequentemente se desentendem sobre os detalhes. "What Happened to Liberal Democracy?", de Daron Acemoglu, é um bom exemplo dessa tensão.

Para o autor, o liberalismo nos serviu bem enquanto foi capaz de promover uma prosperidade que, em vários países, foi partilhada entre diferentes classes sociais. Em algum momento, porém, ele deixou de fazer isso. Mudanças tecnológicas, globalização e outras disrupções fizeram com que uma elite se apropriasse de nacos cada vez maiores da riqueza, gerando uma perda de confiança nas instituições com reflexos na política.

Acemoglu acha que é possível salvar o liberalismo adotando um modelo que reequilibre os pratos da balança a favor do trabalhador. Ele chama isso de "working class liberalism".

Como previsível, o livro foi copiosamente elogiado por representantes da esquerda universitária, como Thomas Piketty, e duramente criticado pela ala dos liberais mais alérgica a intervenções do Estado, notadamente a revista The Economist.

O real divisor de águas aqui, me parece, são as expectativas em relação à tecnologia. Para os otimistas, ela trará tantos ganhos de produtividade que inaugurará uma era de abundância para todos. Para os pessimistas, ela só agravará as desigualdades, tornando a regulação urgente, sob pena de ver o planeta sucumbir ao fascismo.

De minha parte, reservo-me o direito ao agnosticismo. Simplesmente não sei qual será o impacto da IA e outras tecnologias em 20 ou 30 anos. Mas sei que, para chegar a esses horizontes mais dilatados, precisamos antes sobreviver às crises que já se avistam.

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'AMOR' POR VORCARO EXPLICA OMISSÃO DE ALCOLUMBRE

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

O problema não é a amizade, mas o reflexo que essa relação tem sobre as atitudes do presidente do Senado

A negligência deliberada é evidência da atuação de Davi Alcolumbre em favor do irmão fraudador

Estava demorando para Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) entrar na dança das influências de Daniel Vorcaro. Entra não por ser amigo do vigarista —pode acontecer com qualquer um. Cai na roda do escândalo por suas atitudes como presidente do Senado.

As mensagens divulgadas pela revista Veja dizem muito a respeito da conduta passivo-agressiva de Alcolumbre no transcorrer da crise que atinge os três Poderes.

Por exemplo, fornecem ao ministro Cristiano Zanin as evidências que ele alegou inexistentes ao negar pedido do senador Alessandro Vieira (MDB-SE) para que o Supremo Tribunal Federal desse aval à instalação de uma CPI para investigar o caso Master.

Zanin pediu provas da omissão, como se o silêncio diante de um requerimento com assinaturas e fato determinado na conformidade do regimento não comprovasse a negligência deliberada.

As expressões de "amor", "gratidão" e juras de fraternidade eterna entre Alcolumbre e Vorcaro iluminam o sigilo imposto a informações sobre visitas de personagens do caso ao Senado e declarações do presidente da Casa nas duas únicas ocasiões em que se pronunciou sobre o assunto.

Na primeira, disse que não tinha de "achar nada" sobre o abalo à República. Na segunda e derradeira antes de anunciar "providências" contra os mensageiros, foi à tribuna para ameaçar falar umas verdades, sem dizer sobre o quê ou a respeito de quem.

Atos de intimidação que em tempos normais causariam no mínimo estranheza vindos do chefe de um Poder ao qual caberia razão e sensibilidade no trato de uma situação de gravidade ímpar. Mas, como sabemos, não vivemos tempos normais e os desatinos diluíram-se no cipoal de disparates diários.

Estabelecida a natureza da ligação entre o presidente do Congresso e o fraudador-mor, abre-se o caminho para se saber mais sobre o aporte de R$ 400 milhões do fundo de pensão dos servidores do Amapá —presidido por ex-funcionário de Alcolumbre— no banco podre do amigo digno de amor e gratidão.

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O ANDAR DO BÊBADO, A EPIDEMIA DE BETS E UMA APOSTA DE ALTO RISCO DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e algoritmos para obter lucro

Um homem ganhou na loteria espanhola com um bilhete terminado em 48. Explicou sua escolha: sonhara com o número 7 durante sete noites; logo, 7 vezes 7 seriam 48. A conta está errada, mas o prêmio era real. O físico norte-americano Leonard Mlodinow abre o livro O andar do bêbado: como o acaso determina nossas vidas (Zahar) com esse episódio para mostrar uma fraqueza humana: depois de conhecer o resultado, inventamos uma lógica que parece explicá-lo. Nas loterias, cada sorteio é independente; números atrasados não ficam mais próximos de sair, e uma vitória não comprova a eficácia do palpite. O vencedor aparece nas notícias. A multidão que fez contas igualmente fantasiosas e perdeu permanece invisível.

Mlodinow, autor de livros de divulgação científica, assina uma coluna para o The New York Times e escreveu roteiros das séries MacGyver e Star Trek. Com o falecido Stephen Hawking, é coautor de “Uma nova história do tempo” (Ediouro), um best-seller traduzido em 25 idiomas. Seus pais foram ambos sobreviventes do holocausto, e se conheceram em Nova York depois da guerra. Casado e pai de três crianças, entre as quais uma menina adotada na China, Leonard Mlodinow é um sortudo: estava no World Trade Center, no dia 11 de setembro de 2001, e sobreviveu ao ataque terrorista.

O Andar do Bêbado é um tratado sobre o poder do acaso em áreas da nossa vida que vão de jogar futebol, conseguir emprego e receber um diagnóstico médico. Mlodinow percorre a história das probabilidades e usa exemplos do esporte, das finanças e da vida cotidiana para explicar por que confundimos sorte com talento, coincidência com padrão e uma sequência passageira de acertos com uma regra confiável. Seu livro ajuda a entender o fascínio das bets.

Quem acompanha futebol pode conhecer os times, avaliar jogadores e antecipar tendências. Ainda assim, uma partida conserva muita criatividade e imprevisibilidade; acertar algumas apostas não transforma o torcedor em alguém capaz de vencer continuamente uma empresa que define as cotações e programa os algoritmos para obter lucro.

A loteria tradicional vende a esperança de uma mudança de vida concentrada em um sorteio. As plataformas digitais multiplicaram essa promessa. Estão no celular, aceitam pagamentos em segundos e oferecem novas oportunidades a cada jogo, lance ou rodada de cassino virtual. A derrota convida à tentativa de recuperar o dinheiro; uma pequena vitória alimenta a impressão de que o próximo grande prêmio está perto. Publicidade, influenciadores e patrocínios esportivos deram à aposta a aparência de hábito comum. O cassino entrou em casa sem precisar abrir as portas.

É nesse ambiente que a epidemia das bets se tornou uma questão de saúde pública e de economia doméstica. O custo não se resume ao dinheiro transferido para as plataformas: inclui sofrimento psíquico, conflitos familiares, perda de produtividade e tratamento. Estudo citado pelo Ministério da Saúde estima em R$ 38,8 bilhões por ano o custo social associado aos jogos, dos quais R$ 30,6 bilhões estariam ligados à saúde. É uma estimativa que não deve ser confundida com o total apostado ou com a perda financeira direta dos jogadores.

Chegou atrasado

O governo demorou a acordar para o problema. Regulamentou o mercado, autorizou empresas, cobrou outorgas e tentou impor mecanismos de fiscalização e proteção ao apostador. Foram concedidas 85 autorizações, com pagamento total de R$ 2,55 bilhões em outorgas. Agora, abruptamente, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva decidiu encerrar a atividade por meio da Medida Provisória nº 1.394, assinada na sexta-feira, 25 de setembro. A decisão impede novos depósitos e prevê o bloqueio dos sites e aplicativos a partir de 6 de outubro, dois dias depois do primeiro turno. O governo associou a proibição a um pacote de renegociação de dívidas.

Faltam nove dias para a votação. A proximidade das urnas torna a decisão uma aposta política de alto risco, embora seus fundamentos sociais sejam sérios. Para famílias atingidas pela dependência, Lula poderá aparecer como o presidente que enfrentou um negócio poderoso. Para quem aposta sem identificar prejuízo na própria rotina, a proibição poderá soar como perda de liberdade e abuso de poder. Clubes, empresas de comunicação e outros setores que recebem dinheiro das plataformas têm motivos para resistir e capacidade de levar essa reação ao debate eleitoral.

O eleitor também poderá perguntar: por que o governo autorizou a expansão de um mercado que agora considera intolerável? Há um risco prático por trás do cálculo eleitoral. Proibir a oferta legal não elimina a vontade de apostar. Sites clandestinos continuam acessíveis. O governo anunciou bloqueios de acesso e de pagamentos, mas a eficácia dessas medidas dependerá de fiscalização contínua. Operações da Polícia Federal já identificaram plataformas ilegais divulgadas por influenciadores, inclusive com sinais falsos de regularidade.

E como reagirá o Congresso, onde o lobby das bets tem sua própria bancada? Uma medida provisória produz efeitos imediatos, mas precisa ser aprovada para se tornar definitiva. Entre a assinatura e a eleição, porém, haverá pouco tempo para medir seus resultados. Defender as famílias do vício pode render apoio. Convencer o país de que a proibição funcionará, depois de ter regulamentado as bets, é a parte mais difícil dessa aposta.

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LULA ERROU EM 2023

Elio Gaspari, O Globo

Em terceiro mandato, petista não cultivou arco democrático que o elegeu

Em 2022, quando derrotou Jair Bolsonaro por uma pequena margem de votos, Lula leu mal o resultado. O que era uma vitória apertada vinda de um arco democrático, o PT e Lula tomaram como uma consagração. Consagração foi, afinal o sujeito passou quase dois anos na cadeia acusado de corrupção e se elegeu presidente pela terceira vez. É vitória para ninguém botar defeito, mas não é suficiente.

Lula 3.0 não cultivou o arco democrático que o elegeu. A diferença entre o arco democrático e a coligação governista pode ser testada pelo lugar onde fica o ex-ministro Pedro Malan. Ele pertence ao arco, mas não pertence ao bloco que poderia ser chamado de governista.

O PT desperdiçou a oportunidade de governar com uma coligação mais inteligente e criativa do que a pobre polarização em que se caiu.

Faltando menos de dez dias para o primeiro turno ele acordou. O eleitor também acordou. Se não é ele, é Bolsonaro. O antipetismo que elegeu o ex-capitão em 2022 encolheu em 2026, até porque surgiram fatos que alimentam um antibolsonarismo. No início de outubro de 2018, Bolsonaro tinha 32% das preferências, segundo o Datafolha. O petista Fernando Haddad tinha 21%. Aquele Brasil bolsonarista desmanchou-se, mas não acabou.

Lula vive um paradoxo, é o candidato que vai melhor nas pesquisas, mas seu governo é mal avaliado por 40% contra e 34% a favor, segundo o último Datafolha.

Lula revelou um certo cansaço com a campanha. Não era fadiga física, era cansaço do modo campanha. Um sinal desse cansaço é o bordão desafiador: “É esse país que vocês querem?” O eleitor sabe que é ele quem manda, não é preciso ser desafiado.

De certa maneira, Lula foi capturado pela polarização bolsonarista. Podendo ampliar sua base, estreitou-a ou engordou-a, recorrendo ao Centrão.

Faltou criatividade ao petismo, mas ele teve a sorte de ganhar um adversário incapaz de formular uma ideia nova ou de buscar um novo aliado.

Ministro folião

Em 24 de fevereiro de 2024 publicou-se aqui a seguinte nota:

“O ministro Kassio Nunes Marques é um folião aplicado. No último carnaval esteve em Salvador, de onde voou para o Rio e assistiu o desfile de segunda-feira no camarote Arpoador. Hospedou-se no Fasano e moveu-se naquilo que chamou de ‘nosso aviãozinho’.

Na segunda-feira desfilou a Mocidade Independente, cujo patrono é o contraventor Rogério Andrade. Em agosto de 2022, Nunes Marques revogou a prisão preventiva de Andrade, em decisão confirmada por seus colegas da segunda turma do STF. O sobrinho do falecido Castor de Andrade não pôde desfilar com sua tornozeleira eletrônica. Contentou-se vendo Fabíola, sua mulher, passar pela Sapucaí como rainha da bateria.”

Passou o tempo e soube-se mais. Quem cacifava todo o carnaval do ministro era o banqueiro Daniel Vorcaro.

No carnaval seguinte, Nunes Marques voltou a ser mimado pelo banqueiro.

Vorcaro se valia dos serviços de uma senhora chamada Rayanna. No dia 28 de fevereiro ela informou a Vorcaro:

“As meninas estão prontas” e ele deu-lhe um endereço. Uma semana depois, uma menina cobrava pelos serviços que prestou a “kassio”. Coisa de “10 né”.

Nunes Marques nega ter recebido esses favores e diz que nunca votou em caso que envolvesse o banco Master.

Além dos favores noturnos, Daniel Vorcaro tinha também um expediente diurno com cifras do andar de cima. O contrato de serviços advocatícios da mulher de um desembargador pagava até R$ 427 milhões.

O apartamento para onde deveriam ir as “meninas” pertencia a Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, o maior doador pessoa física da campanha de Tarcísio de Freitas para o governo de São Paulo, em 2022, com R$ 2 milhões, e de Jair Bolsonaro, com R$ 3 milhões. Zettel está preso.

Supremo

A corrosão do STF está pior do que se imaginava. Falta pouco, muito pouco, para que algumas excelências saiam no tapa.

A única mulher do Pretório Excelso é a ministra Cármen Lúcia, que não usa toga acetinada nem vai a farofas no além-mar. Já na bancada masculina, com pelo menos três machos alfa (Gilmar, Fux e Toffoli), a qualquer momento o tempo pode fechar.

Na origem dos desentendimentos há uma forte carga de ciúme, que os homens gostam de atribuir às mulheres.

Uma maneira de baixar a tensão seria combinar com Gilmar Mendes que ninguém o investiu na função de bedel da Corte.

Até porque se fosse para ter bedel, a sério, esse personagem seria o servidor mais atarefado de Brasília.

Presidente na ONU

Desde que a ONU existe as assessorias dos presidentes brasileiros torcem para que seus discursos na assembleia geral tenham alguma repercussão na imprensa americana. Perda de tempo.

Nos anos 80 do século passado era embaixador na ONU Sérgio Corrêa da Costa, um diplomata de vitrine. Durante meses ele cultivou o chefe da seção de editoriais do The New York Times.

Em setembro de 1982 o presidente João Baptista Figueiredo foi à ONU, discursou e o Times gostou. O jornalista ligou para o embaixador e avisou-o de que no dia seguinte teria uma boa surpresa.

No dia seguinte o Times publicava um editorial elogiando o discurso do general João Baptista Figueiredo. Começava assim:

Está certo o presidente “José Figueiredo...”

Não se falou mais no assunto.

Um veterano do New York Times lembra que não eram comuns editoriais tratando do Brasil. Um dos mais falados foi publicado no dia 3 de abril de 1964. Seu título dizia tudo: “Finis for Goulart:” chamava o ex-presidente de “incompetente” e “irresponsável”.

Com toda probabilidade, o autor do editorial é o jornalista Herbert Matthews, famoso por ter entrevistado Fidel Castro no alto da Sierra Maestra em 1958, quando o governo dizia que ele estava morto. Matthews era quem cuidava da América Latina.

Tarcisio no 1º turno

Uma eventual vitória do governador Tarcísio de Freitas no primeiro turno pode atrapalhar a vida de Flávio Bolsonaro no segundo turno. Sobretudo se no dia 25 de outubro der praia.

A carta das apostas

As casas de apostas que compraram outorgas ao governo por R$ 2,5 bilhões vão brigar na Justiça para recuperar a franquia ou receber o dinheiro de volta.

Os deuses do jogo maltrataram as casas de apostas. Jogaram no colo da Justiça a proteção às casas de tavolagem.

Era tudo o que a magistratura não precisava.

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FALTA UMA CARTA NESTA CAMPANHA

Míriam Leitão, O Globo

Não é exigido de Flávio Bolsonaro o compromisso com a democracia, como em 2002 se exigiu de Lula uma carta garantindo a estabilização econômica

O senador Flávio Bolsonaro nunca assinou uma carta compromisso com a democracia, nem dele foi exigido. Devia ter sido. Estamos a uma semana do primeiro turno. Ele tem chances reais de ser eleito e carrega um enorme passivo autoritário, decorrente dos atos e palavras dele e da família toda. Em 2002, o país exigiu do então candidato Lula da Silva que se comprometesse com as bases econômicas do Plano Real. Havia dúvidas razoáveis sobre o programa econômico do PT. Lula escreveu a “Carta aos Brasileiros” e a cumpriu.

Há dúvidas razoáveis sobre o candidato do PL. O senador teve relações com integrantes da facção criminosa conhecida como milícia, está sendo investigado pelo dinheiro recebido do ex-banqueiro corruptor Daniel Vorcaro, teve uma loja de chocolate com faturamento atípico, nunca ficou claro como conseguiu comprar uma mansão em Brasília. Sua amizade estreita com o advogado Willer Tomaz é outro foco de incerteza. Willer é reincidente em casos de corrupção. Chegou a ser preso por envolvimento na Operação Greenfield, em 2017, que apurou fraudes com fundos de pensão, e agora é investigado no caso do INSS.

Esse currículo de dúvidas sobre o senador já seria suficiente para ele ser escrutinado com mais objetividade. No entanto, Flávio Bolsonaro foge das explicações necessárias, com a velha artimanha de atacar como se não tivesse enorme telhado de vidro.

De todas as questões que pesam sobre o senador Flávio Bolsonaro, a maior é o seu déficit democrático. Ele professa o mesmo ideário autoritário do pai e dos irmãos. Nisso, a família é bem unida. O Brasil não pode alegar desconhecimento desse risco, porque viu o projeto em ação. Foram anos de ataques sistemáticos às instituições, de defesa da ditadura militar, de demanda pela volta do AI-5, de tentativa de sedução das lideranças militares, de mobilização dos seus seguidores para não respeitar o resultado das urnas de 2022. A investigação da tentativa de golpe de 8 de janeiro revelou que a conspiração havia ido mais longe do que se pensara. Não cabe o benefício da dúvida quando os fatos são tão sólidos.

A pátria caminha para as urnas distraída. A extrema direita sempre foi muito competente em usar as ferramentas digitais para criar realidades paralelas. Em 2018, houve a onda das fake news. A partir de 2019, o chamado “gabinete do ódio” instalou-se no Palácio do Planalto e disparou contra todos os que via como adversários. Os jornalistas, principalmente as mulheres, foram alvo preferencial. Na pandemia, as mentiras contra a ciência elevaram o número de mortes e reduziram a cobertura vacinal de várias doenças. Até hoje o país luta contra as sequelas do atentado à confiança no programa de imunização. A urna eletrônica sobreviveu a um bombardeio, cujo objetivo era minar o processo eleitoral. Sabedor de tudo isso, o Brasil não pode subestimar o risco.

Em 2002, o medo principal era o retrocesso na economia. O país havia vencido a hiperinflação depois de uma luta muito árdua, de anos. O programa econômico do PT tinha propostas que poderiam abalar as bases da política econômica que mantinha a inflação sob controle. Era chamado de risco Lula. O mercado financeiro, então, exigiu um compromisso com a estabilização da moeda e Lula fez algo mais amplo. Falou para o país como um todo, na “Carta aos Brasileiros”. Acertou. O medo de perder o Real era da população em geral e não apenas dos gestores de investimento.

O risco democrático nunca preocupou o mercado financeiro. Deveria. Não há liberdade econômica, sem liberdade política. O poder sem limites, sem o sistema de freios e contrapesos, é um risco econômico também.

O senador Flávio Bolsonaro disse em entrevista à Folha de S.Paulo, em junho do ano passado, que o eleito em 2026 tinha que se comprometer com o “uso da força” contra o Supremo, caso o STF considerasse inconstitucional o indulto aos condenados pelo 8 de janeiro. Ele não falava de impeachment de ministros dentro de um processo constitucional. Queria algo mais forte. “A gente está falando do uso da força. A gente está falando de interferência direta entre os poderes”. O senador Bolsonaro sempre negou ter havido tentativa de golpe, trata de forma anedótica o ataque físico e institucional aos poderes, promete subir a rampa com o pai. Nunca fez qualquer esforço para aplacar essas dúvidas. Esse é o risco Flávio Bolsonaro.

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SEDUZIDO E ABANDONADO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Nenhum dos figurões com quem Daniel Vorcaro foi tão generoso quer saber dele

Negam que foram seus amigos, que o chamavam de irmão e até que o conheceram

Daniel Vorcaro está arrependido do bem que praticou a tantos figurões em quem confiou. Vê agora que era um bando de ingratos. Ninguém quer saber mais dele. Há os que dizem tê-lo conhecido só de passagem, embora o chamassem de "irmão", ou que aceitaram seu dinheiro para ser gentis, sem saber que a grana era pública, suja e ilegal. Eu, se fosse Vorcaro, faria um caderninho com o nome de todos que beneficiou e, ao sair da cadeia, cobraria cada centavo dos zilhões que lhes repassou. À guisa de aide-mémoire, aqui vão alguns.

Alexandre de Moraes: Vorcaro destinou R$ 131 milhões ao escritório de advocacia da mulher do ministro, cedeu jatinhos ao casal e, agora, só tem de Moraes o silêncio. Nem uma cartinha, nem um bilhetinho, nem um alô pelo STF. Kassio Nunes Marques: mimoseado por Vorcaro com camarotes na Sapucaí, ingressos para a Fórmula 1, descontos no Fasano e, veja só, uma mesada de R$ 500 mil para seu filho Kevin, caçula de uma "Turma do KN" empenhada em destravar R$ 8,5 bilhões em precatórios do seu interesse. Bem-sucedida, a operação renderia R$ 427 milhões à dita turma.

Paulo Gonet: o procurador-geral da República parece ter saído baratinho a Vorcaro: algumas rodadas do uísque Macallan e de charutos Cohiba Behike num lounge em Londres. Mesmo assim, o PGR classificou o encontro entre eles como "breve e banal". Como "breve e banal"? Significa que Gonet tem acesso diário a uísques de 25 anos e aos charutos mais caros do mundo?

Flávio Bolsonaro: ao ser questionado pela repórter sobre ter negócios com Vorcaro, B. Jr. deu um riso nervoso e respondeu: "De onde você tirou isso?". Horas depois, vazou o áudio em que ele implora pelo resto do dinheiro que Vorcaro lhe prometera. Como B. Jr. nunca explica nada, não se sabe se a doação ficou nos R$ 61 milhões que Vorcaro mandou ou se chegou aos R$ 134 milhões combinados. E, agora, pipocaram os voos de B. Jr. no mesmo jato em que viajou Moraes, idem, negados.

O pobre Daniel também poderia render um filme: "Seduzido e Abandonado".

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