sexta-feira, 22 de maio de 2026

FLÁVIO BOLSONARO QUEIMA O FILME, LEVA CAVALO DE PAU, E LULA GANHA

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Há quem aposte que, apesar das mentiras e armações, senador voltará a se revelar competitivo

Desgaste é grande e atinge direita Master e seu espectro conservador que se estende ao mercado

Depois do flagra no escurinho do cinema, quando o site Intercept Brasil publicou o áudio de sua tentativa de pegar dinheiro de Daniel Vorcaro para supostamente financiar a cinebiografia de seu pai, Flávio Bolsonaro vem sofrendo desgaste sobre desgaste. "Dark Horse", azarão em inglês, bem que poderia ser intitulado "O Pangaré Obscuro"

O filme do senador e pré-candidato pelo PL foi queimado por ele mesmo. Sua ascensão nas pesquisas, que causou frisson nos mercados, sofreu um cavalo de pau. Flávio mentiu e continua mentindo para tentar escapar dessa fase negativa. A questão é saber se ele ainda poderá se apresentar como candidato competitivo quando a campanha de fato começar.

Gente ligada ao mundo das pesquisas e do marketing político-eleitoral tem dito que os danos não serão tão profundos e poderão ser superados. Sim, a perspectiva, pelo menos, é a de que a eleição vá a segundo turno. E se Flávio estiver lá, vai saber.

Veremos. Por ora a situação é desastrosa para o bolsonarismo e a direita. Lula é um animal político e eleitoral, tem a máquina na mão, prepara novas medidas de impacto popular e ganhou um farto material para ajudá-lo na tarefa de detonar a imagem de seu concorrente, que já não tinha muito a mostrar além do nome do papai.

O senador é uma nulidade. Sua eleição seria, certamente, um retrocesso histórico para o Brasil. Até mesmo os setores mais irresponsáveis do mercado financeiro, sempre inclinados a topar tudo pela derrota de Lula e do petismo, claudicaram diante do espetáculo de submissão à máfia do Master.

Não quer dizer que trocarão de ideia caso não se veja escolha diferente. No nosso continente do neoliberalismo sob Pinochet, valores democráticos são com frequência apenas enfeites para a busca a qualquer preço de um capitalismo radicalmente elitista e antipopular. É o que o filósofo Vladimir Safatle chamou de "complexo de Vargas Llosa".

A hipótese de afastamento de Flávio Bolsonaro pode até ser desejável, mas um tanto complexa. Que nome poderia unir a direita com a bênção do capitão recluso?

No rooftop da Faria Lima alguém falou em Renan Santos? Que missão!

Seria, no final das contas, mais razoável tentar algum tipo de composição com o lulismo em sua última grande investida com a presença do maior líder da centro-esquerda e da política brasileira das últimas décadas.

Mas isso, vamos ser razoáveis, não existe —é impossível, basta ver as opiniões espumosas dos porta-vozes do mercadismo sem freios de plantão.

Como escrevi aqui, o terreno está minado e novas explosões podem ocorrer, inclusive com estilhaços à esquerda. Mas vale insistir: o Master é um escândalo fortemente ligado à direita. Nasceu durante o Banco Central de Jair e Campos Neto, e varreu a tigrada do centrão e do bolsonarismo, como se observa agora com as reinações de Flavinho.

A manter-se a candidatura do primogênito do clã Bolsonaro, estaremos embarcando numa disputa da mais baixa qualidade, um verdadeiro filme de terror moral e ético, que ainda acabará sendo tratado como "normal" por setores expressivos do establishment.

A degradação política a que assistimos encontra cada vez menos quem com ela se espante. Como se sabe, não é apenas um caso brasileiro, o que só piora o cenário.

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O SUCESSOR

O ano era... 1976, para sucedê-lo na prefeitura de Sobral (CE), Zé Prado lança José Euclides. Para eleger seu sucessor, Zé Prado não mediu esforços: saia às ruas de Sobral e distritos dia e noite, pedindo voto para seu candidato.

Com slogan “De Zé pra Zé, do jeito que o povo quer” e a força política que o jovem carismático da família Prado já demonstrava ter, elegeu seu sucessor.

Após cinco meses no poder, Euclides rompe com Zé Prado, seu padrinho político e responsável pela vitória que tornou o desconhecido comerciante em prefeito de Sobral.

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quinta-feira, 21 de maio de 2026

ISTO É FLÁVIO BOLSONARO

Editorial O Estado de S. Paulo

Ninguém pode se dizer surpreendido com as mentiras em série do senador, cuja folha corrida inclui rachadinha e ligação com milicianos. O caso Master não torna Flávio pior do que ele já era

Desde que estourou o escândalo envolvendo o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) e o banqueiro Daniel Vorcaro, os integrantes da equipe de campanha do filho de Jair Bolsonaro saíram por aí a dizer que foram surpreendidos com a revelação de que o candidato a presidente tinha relações fraternas (e transacionais) com o protagonista do maior crime financeiro da história brasileira. Alguns admitem que o baque pode até fazer o campo bolsonarista escolher outro candidato.

Ora, francamente: esse escândalo não muda uma vírgula da biografia de Flávio, na qual já figuram com destaque suas relações com milicianos, a prática de rachadinha em seu gabinete e estranhos negócios imobiliários em dinheiro vivo. Trata-se, portanto, de um candidato com longa ficha corrida, que nunca foi segredo para ninguém. O caso do Banco Master não torna Flávio pior do que ele já era.

Tampouco muda alguma coisa o fato de que Flávio Bolsonaro mentiu seguidamente – para seus aliados, para sua equipe de campanha e para a imprensa – a respeito de suas relações com Vorcaro. A mendacidade é a própria natureza do clã Bolsonaro, que construiu sua trajetória política em cima de desinformação, logro e desfaçatez. O filme sobre Bolsonaro, a julgar pelo trailer divulgado por Flávio, é em si mesmo um retrato fiel dessa doença congênita: inventa um Bolsonaro que só existe nos delírios da família. Como vivemos tempos estranhos, em que mentirosos patológicos ganham destaque no degradante mercado da atenção em que se transformou a política, chega a ser engraçado que alguém se queixe por ter sido enganado por Flávio Bolsonaro.

Mas é preciso reconhecer que Flávio sempre foi absolutamente honesto a respeito do espírito de sua candidatura à Presidência: ele nunca escondeu que seu único objetivo, ao chegar ao poder, é livrar o pai da cadeia. Governar o Brasil não está nos seus planos, como não estava nos planos do patriarca – que terceirizou a administração do governo por sua absoluta inaptidão ao trabalho e que vivia a lamentar o fardo de estar na Presidência.

Ainda assim, alguns aliados de Flávio Bolsonaro dizem por aí que acreditam na sobrevivência da candidatura do senador e mantêm sua disposição em apoiá-lo. O fator determinante nesse cálculo é que Flávio, a despeito de tudo, continua a aparecer nas pesquisas como o único capaz de fazer frente ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Portanto, segundo esse raciocínio, pouco importa se Flávio envolveu-se com o protagonista do maior escândalo financeiro da história brasileira, se tem ligação com milicianos, se tomou dinheiro de funcionários de seu gabinete e se fez negócios obscuros em dinheiro vivo. Também não interessa se o tal filme feito com dinheiro de Daniel Vorcaro é tão ruim que não se pode condenar quem o considere apenas um meio de lavar dinheiro, fazer caixa de campanha e sustentar o irmão de Flávio, o deputado cassado Eduardo, na sua dolce vita nos EUA. O que interessa é impedir um novo mandato de Lula, retratado pelos bolsonaristas como o diabo em pessoa.

O Brasil não pode mais ficar à mercê dos interesses particulares de uma única família, ainda mais quando esses interesses colidem frontalmente com a decência e as leis. Determinada pelo “dedazo” de Jair Bolsonaro, a candidatura de Flávio sabotou a construção de uma chapa de oposição democrática à reeleição de Lula. E é improvável que os Bolsonaros recuem, já que seu objetivo é impedir que a direita se organize em torno de nomes de fora da família. A lealdade, como ocorre na máfia, é a laços de sangue, não a valores morais e princípios republicanos ou mesmo a um projeto de país.

Bolsonaro e sua grei não geraram nada de bom para o País, só ressentimentos e destruição de consensos mínimos entre concidadãos. De quebra, conseguiram a proeza de devolver o poder a Lula, malgrado a extensa folha corrida do petista. Só por isso mereceriam do País o mais absoluto desprezo.

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CURRICULUM VITAE, 01

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

Ativista do direito de mentir, luta contra o direito universal de não acreditar

Chama de 'narrativa' o que lhe desabona; de 'fato' o que lhe favorece

Filho de pai preso. Segue carreira do pai e se elege por ser filho do pai. Obedece ideias do pai, copia métodos do pai. Tem os aliados do pai. Trilha o curriculum do pai. Em casa, o pai o chama pelo número de antiguidade 01. Amor filial supera o paterno.

Sua sagacidade não alcança a do pai, porém mais afiada que a dos irmãos. Nunca disse "ditadura devia ter matado mais", mas vê em 1964 "contrarrevolução democrática". Não gostaria de filho "entrando em casa e apresentando seu namorado". Definiu as medidas do governo do pai na pandemia, e o superávit de mortes evitáveis da ordem dos seis dígitos, como o que "se espera de um estadista".

Revelou que, se presidente, caso STF anule seu indulto ao pai, "aí é confusão fora das quatro linhas". Mas fará o possível "para que não chegue a esse ponto". É candidato a versão moderada da família.

Apoiador da cultura nacional, lutou pela produção de filme sobre o pai. Articulou modelo arrojado de patrocínio, onde patrocinador prefere não aparecer. Recebeu milhões de reais de banco quando já se sabia a magnitude das operações ilegais.

"Sem graça de ficar cobrando", cobrou outros milhões na véspera da prisão do mecenas. Trata o banqueiro, que alegou nunca ter conhecido, por "meu irmão", a quem confessou não saber "como tudo isso vai acabar, está nas mãos de Deus aí", "estou contigo sempre".

Explicou ser filme privado com dinheiro privado. Não menciona emendas parlamentares e dinheiro de aposentados. Não sabia que, quando autoridade pede dinheiro a banqueiro, pode cometer pelo menos um de três crimes: corrupção, lavagem e financiamento de organização criminosa. Depende do destino real do dinheiro, ainda não sabido, e de outras variáveis. Não importa se privado o dinheiro.

Empresário bem-sucedido de chocolates, em três anos sua loja recebeu 1.512 depósitos em valores idênticos e movimentou R$ 3 milhões em espécie. Explicou ser assim no comércio, "no final do dia você junta a quantia e deposita no banco".

Ministério Público e Coaf produziram provas sobre peculato (rachadinha) de seu gabinete, de onde supostamente provinham investimentos imobiliários em áreas de milícias. Foram anuladas por STF e STJ, que alegaram vício formal.

Mora em casa comprada por R$ 6 milhões, metade financiada pelo Banco de Brasília (BRB). Negociou juros europeus de 3,71% ao ano.

Retirou assinatura do pedido de CPI do Banco Master, mas continuou gritando a favor. Assinou outra vez depois da notícia sobre sua relação com o banqueiro, que admitiu depois de tanto negar.

Ativista do direito de mentir, combate cidadãos que lutam pelo direito de não acreditar. Chama de "narrativa" o que lhe desabona, de "fato" o que lhe favorece.

Candidato à Presidência, sua dancinha de campanha aperfeiçoa o molejo de boneco de posto. Exibe "O Pix é do Bolsonaro, o Master é do Lula" na camiseta. Seu irmão conspira contra a economia brasileira perante o governo norte-americano, que cobra tarifa e combate o Pix em favor de cartões de crédito.

Sua filosofia constitucional está encapsulada no conceito de "legalização de milícias", emprestado do pai. Argumenta: "As classes mais altas pagam segurança particular, e o pobre, como faz para ter segurança?"

Seu pensamento religioso: "Sou instrumento de Deus para pacificar o Brasil".

Quer novo emprego.

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O BC NO MEIO DO REDEMOINHO

Míriam Leitão, O Globo

O Banco Central vive dias de pressão por causa pelo Banco Master. A situação do BRB é motivo de preocupação e sem solução a curto prazo

O problema do Banco de Brasília (BRB) não está resolvido. Longe disso. O controlador resiste à venda de algum pedaço relevante da instituição que poderia ajudar a enfrentar a crise. Desde o fim de março, o BRB já está pagando multa diária pela não publicação do balanço. A cada solução apresentada, a governadora Celina Leão faz uma pesquisa com a Câmara Distrital e sondagens de opinião pública para ver como a proposta impactaria sua popularidade. Se houver uma queda brusca de liquidez, será difícil evitar o pior.

O governo federal não quer ajudar, porque seria abraçar um desgaste que não foi criado por ele, pelo contrário, foi obra do centrão e do ex-governador bolsonarista, Ibaneis Rocha. O governo do Distrito Federal tem insinuado que, se acontecer algum incidente, terá sido porque a União não ajudou.

Desde 2025, o Banco Central já liquidou 13 instituições: Master, Master BI, Letsbank, Master DTVM, Reag, Advanced Corretora de Câmbio, Will Bank, Pleno, Pleno DTVM, Dank SCD, Entrepay IP, Creditag Cooperativa e Frente Corretora de Câmbio. Se o pior cenário se confirmar em relação ao BRB haverá um grande impacto porque há desdobramentos delicados. O BRB não representa um risco sistêmico, mas pode gerar um problema sistêmico para o poder público. Presta mais de 35 serviços e projetos para o DF e tem em depósitos o dinheiro dos Tribunais de Justiça de vários estados. É mais significativo para os governos do que para o mercado financeiro.

Ao impedir a compra do Master pelo BRB e, em seguida, liquidá-lo, o Banco Central enfrentou todo o tipo de pressão. Ainda enfrenta. Foi acusado de ter demorado a agir, e também de ter se precipitado. Enfrentou ameaças e pressões do Congresso, do Tribunal de Contas da União e do Supremo quando a relatoria do caso estava com o ministro Dias Toffoli. No dia em que apareceu uma proposta sendo votada, de emergência, que dava poderes ao Congresso de demitir o presidente e os diretores da autoridade monetária, o Banco Central não só não se intimidou como liquidou o banco de Daniel Vorcaro no dia seguinte.

Esta semana, na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado houve mais uma batalha. O senador Renan Calheiros quis acusar o Banco Central de conivência com o Master e de estar cometendo com o BRB o mesmo erro que teria cometido com o Master. Indiretamente estava dizendo que o BC está atrasando a liquidação. O Banco Central não pode deixar de agir quando um banco entra em quadro de crise irreversível, nem pode fechar um banco por pressão política.

O senador Renan Calheiros tenta a reeleição em Alagoas, enfrentando os deputados Alfredo Gaspar e Arthur Lira numa disputa acirrada. Renan tem razão de dizer que o Centrão pressionou o Banco Central. O ministro do Tribunal de Contas da União Jhonatan de Jesus, que ameaçou o BC, é do Centrão e indicado por Arthur Lira. Mas Renan acusou Gabriel Galípolo de não ter reagido às pressões, o que não faz sentido. O que o presidente da instituição explicou no debate é que o BC não pode entrar na briga política, nem na disputa de redes sociais. Tem que preservar sua missão que é garantir a estabilidade do sistema financeiro, a estabilidade da moeda e tomar decisões técnicas e na hora certa. No debate acalorado, Galípolo respondeu.

– O Banco Central está respondendo até agora ao Tribunal de Contas da União uma acusação por não ter autorizado ( a compra do Master). O Banco Central e seus servidores foram expostos e caluniados sistematicamente porque não toparam. Coincidentemente, na semana em que o Banco Central rejeitou a compra pelo BRB foi colocada uma proposta de voto para mandar embora o presidente do Banco Central e os diretores. O Banco Central não tem que ir para a televisão, gravar Instagram ou Tik Tok. Não é palanque. Toma a decisão correta independentemente de quem está jogando pedra ou fazendo barulho.

Galípolo disse que, nos bancos que foram liquidados na década de 1990, a técnica foi separar o “banco bom” do “banco ruim” e vender o que era viável. No caso do Master, disse ele, “não havia banco bom”.

O Banco Central se defende de ataques de lados diferentes, fiscaliza um mercado no qual ainda há pelo menos um banco em situação de fragilidade, mantém o aperto monetário contra inflação crescente e continua tentando aprovar uma PEC que possa fortalecer seu quadro de servidores. O projeto que trata do assunto foi novamente adiado.

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UMA ELEIÇÃO REFÉM DO SISTEMA

Malu Gaspar, O Globo

Lulistas e bolsonaristas se unem por acordão que torna eleição refém do sistema

A Câmara dos Deputados acaba de aprovar, num acordão que incluiu de lulistas a bolsonaristas, um monstrengo batizado de minirreforma eleitoral, que de mini não tem nada e que, em vez de reformar, promove uma avacalhação nas eleições que vêm aí.

A lista de mudanças é ampla. Uma delas prevê que a multa máxima para partidos que não apresentarem prestações de contas ou cujas contas forem rejeitadas não pode ser de mais de R$ 30 mil (antes poderia chegar a 20% do valor questionado). Considerando que o fundo partidário distribuiu R$ 1 bilhão em 2025 e que o fundo eleitoral entregará mais de R$ 5 bilhões neste ano, caiu a perto de zero o custo de fazer lambança com o dinheiro dos nossos impostos.

Mas tem mais.

O texto também dá 15 anos de prazo para as legendas renegociarem suas dívidas com a União. Bens de partidos políticos não poderão mais ser penhorados pela Justiça, mesmo que tenham sido usados por seus dirigentes para cometer crimes. Além disso, esses chefões poderão usar o fundo partidário para pagar multas, juros e dívidas que tenham contraído por dilapidar o próprio fundo.

Legendas com as contas reprovadas também não podem ser impedidas de participar das eleições, e os repasses de dinheiro público só poderão ser suspensos depois de o processo transitar em julgado. Isso se um dia for de fato julgado, já que a lei também prevê um prazo limite de cinco anos para a decisão definitiva da Justiça Eleitoral. Se o processo se arrastar para além disso, estará automaticamente suspenso, mesmo que a causa do adiamento sejam recursos protelatórios impetrados de má-fé. Nem Daniel Vorcaro faria melhor.

Como se não bastasse a farra com o dinheiro dos nossos impostos, os deputados também cuidaram de abrir a porteira para a farra da desinformação, flexibilizando as regras para disparo de mensagens.

Nas eleições de 2022, elas só podiam ser enviadas a quem tivesse dado consentimento por escrito. Agora, mensagens enviadas por celulares registrados pelos partidos a pessoas “previamente cadastradas”, mesmo que por robôs, não serão consideradas disparos, e os números também não poderão ser bloqueados pelas plataformas sem ordem judicial.

Alguém aí consegue ver a Justiça fiscalizando esses cadastros nome a nome e ainda bloqueando os envios num cenário tão adverso? Caso o projeto não seja derrubado, o resultado previsível será a multiplicação de desinformação e fake news, logo na primeira eleição com a inteligência artificial a toda potência.

Todas essas mudanças foram aprovadas na noite de terça-feira em regime de urgência, com votação simbólica e aprovação de todos os grandes partidos. Ninguém teve coragem de ir ao microfone defender o texto, e quem se opôs foi a minoria de sempre.

A ânsia de liberar geral era tanta que, mesmo a Constituição prevendo que as alterações feitas em lei eleitoral só passam a valer um ano depois de sua aprovação, os parlamentares decidiram que as mudanças entram em vigor imediatamente e valem já para o pleito de outubro. Basta agora o o.k. do Senado Federal, que está louco para aderir.

Para completar o pacote da vergonha, hoje o Congresso ainda deverá repetir o que já fez na gestão Jair Bolsonaro e permitir que o governo faça doação de bens, dinheiro e benefícios como cestas básicas, tratores e ambulâncias a municípios em plena campanha eleitoral.

A reforma eleitoral ainda pode ser vetada pelo presidente Lula ou contestada e derrubada no Supremo Tribunal Federal (STF).

Independentemente do resultado final, porém, toda essa coreografia só reforça o sentimento de ojeriza ao sistema político, num contexto em que a corrupção vem crescendo no ranking de preocupações dos eleitores e escândalos como o do Banco Master fornecem assombrosas revelações a cada dia.

Claro que, com Flávio Bolsonaro (PL) sangrando em praça pública em razão do inexplicável enredo dos R$ 61 milhões de dólares aplicados por Vorcaro no filme sobre a vida de seu pai, o cenário parece bem mais favorável a Lula. Mas nem todo petista está soltando fogos.

A história das nossas eleições mostra que, quando escândalos se multiplicam, e o eleitor é tomado pelo sentimento antissistema, todo candidato competitivo sofre — incluindo o governante que comanda a máquina e busca a reeleição. Na cabeça do cidadão comum, ele encarna o próprio sistema.

Os políticos mais experientes de Brasília estão cansados de conhecer essa máxima, em especial os do Centrão. Se não estão preocupados é porque se guiam fielmente por outra máxima: o dinheiro é a graxa que azeita o sistema, mesmo que para isso seja preciso tomar todo o processo eleitoral de assalto.

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CÚPULA DO PL POUCO TEM A FAZER

Julia Duailibi, O Globo

Decisão sobre manutenção da candidatura de Flávio será única e exclusivamente de Jair Bolsonaro

Os tentáculos do Master atingiram Flávio Bolsonaro e agora começam a dar voltas pelo seu pescoço, a ponto de integrantes de seu partido, o PL, saírem falando por aí que em 15 dias decidirão se mantêm a candidatura de pé ou não. A cúpula do PL pode até causar nos bastidores, mas pouco tem a fazer diante da decisão que será única e exclusivamente de Jair Bolsonaro, como foi dele o projeto de lançar o primogênito à Presidência, e não Tarcísio de Freitas, nome preferido dos chefões da sigla. Depois da repercussão ruim, Valdemar Costa Neto, presidente do PL, veio a público dizer que o deadline de 15 dias, estabelecido numa reunião interna, não dizia respeito à manutenção da candidatura do senador, mas sim à retomada de seu crescimento nas pesquisas eleitorais.

É irrelevante o que ele diga em privado ou em público. Valdemar terceirizou o partido para Bolsonaro, e é Bolsonaro quem decidirá se Flávio fica ou não. O presidente do PL fez essa concessão ao clã de olho no que realmente importa para ele: eleger grandes bancadas no Congresso. Quanto maior a bancada, maior a fatia de dinheiro público que pinga nas contas do partido, via fundo eleitoral. Somente neste ano, Valdemar terá em mãos R$ 880 milhões para tocar a eleição. Comprar briga com os Bolsonaros agora não parece ser bom negócio.

Bolsonaro tende a manter Flávio na disputa por uma questão simples: a candidatura dele não foi lançada para ganhar, mas para manter a base bolsonarista coesa em torno do clã, evitando a dispersão dela em direção a outro candidato que, uma vez eleito, se tornaria o novo líder da direita, engolindo Bolsonaro. Se não fosse por isso, Tarcísio teria sido o candidato. O bom desempenho de Flávio nas pesquisas, antes da parceria cinematográfica com Vorcaro, não estava precificado. Sua candidatura passou a ter perspectiva de vitória à medida que ele vestiu o figurino do “Bolsonaro que toma vacina”, e parte do eleitorado resolveu passar o pano para os detalhes do currículo, como rachadinha e ligações com milicianos. Além disso, mesmo com o enrosco do “Dark Horse” e o que mais aparecer em eventuais delações e afins, Bolsonaro não tem o perfil de quem passará recibo para as denúncias e substituirá o filho, mandando um recado para o público de que o Zero Um tem mesmo culpa em cartório.

Do lado do PT, a manutenção de Flávio na corrida é o melhor dos mundos. Lula enfrenta um adversário enfraquecido não só pelas denúncias, mas pelas mentiras contadas para rebatê-las. O governo assiste de camarote ao senador ser engolido pelos tentáculos de Vorcaro e, paralelamente, toca seu pacote eleitoreiro, na esperança de que não só a qualidade do adversário, mas as entregas às vésperas da eleição fortaleçam Lula. Ontem foi crédito para motorista de aplicativo comprar carro, lembrando o auxílio-taxista de Bolsonaro em 2022.

O eleitor que se prepare para uma campanha em que os temas centrais passarão por eventuais desvios num filme B sobre a vida de Bolsonaro e pelo fato de “capinhas de celular e canetas” serem consideradas pelo governo itens básicos da população, como chegou a dizer um ministro palaciano ao defender o fim da taxa das blusinhas.

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EM CRISE, FLÁVIO BOLSONARO TROCA MARQUETEIRO E CRIA RUIDO NO MEIO EVANGÉLICO E AGRO

Luísa Marzullo e Letícia Pille - O Globo

Crise de Imagem

De evangélicos ao agro, Flávio queima pontes com base fiel em meio a desgaste com filme e mudanças na equipe da campanha

Insatisfação de aliados fez a primeira vítima no entorno de Flávio, com a saída do publicitário Marcello Lopes, o Marcellão

Flávio sofre desgaste do agro aos evangélicos e tem primeira baixa com saída de marqueteiro

A crise instalada na pré-campanha de Flávio Bolsonaro (PL-RJ), desencadeada a partir da revelação de sua proximidade com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, estremeceu as pontes com segmentos de sustentação do bolsonarismo nas últimas campanhas e derrubou o marqueteiro contratado pelo senador para cuidar de sua imagem. Em meio ao desgaste, o PL já identificou a contrariedade com interlocutores do mercado financeiro, do agronegócio e lideranças evangélicas.

Além disso, a insatisfação de aliados fez a primeira vítima no entorno de Flávio, com a saída do publicitário Marcello Lopes, o Marcellão. Ele estava nos Estados Unidos durante a semana mais crítica para a comunicação do candidato, o que gerou contrariedade entre pessoas próximas ao senador.

Agora, assume a função Eduardo Fischer, que fez a campanha de Alvaro Dias (Podemos) na corrida presidencial em 2018 e conhecido por trabalhos publicitárias fora da política.

Repercussão negativa

Embora ainda predomine um discurso de cautela, aliados admitem que o escândalo interrompeu a aproximação de Flávio com empresários, investidores, produtores rurais e pastores influentes, justamente no momento em que a campanha acreditava estar conseguindo reduzir resistências.

Entre evangélicos, o impacto foi imediato. O áudio em que Flávio cobra dinheiro de Vorcaro provocou irritação em parte das lideranças religiosas, sobretudo pelo fato de que o senador vinha minimizando publicamente a relação com o banqueiro.

No grupo de WhatsApp “Aliança”, que reúne algumas das principais lideranças evangélicas alinhadas ao bolsonarismo — entre elas Silas Malafaia, Robson Rodovalho, Renê Terra Nova e Estevam Hernandes — o caso passou a dominar as conversas nos últimos dias.

Segundo relatos, pastores reconheceram a gravidade política da situação e entraram em modo de espera para medir se haverá novos desdobramentos antes de declarar um rompimento.

O bispo Robson Rodovalho, da Sara Nossa Terra, afirmou que o episódio foi um “balde de água fria” na pré-campanha presidencial do senador.

— Foi muito negativo tanto o fato em si, da aproximação com Vorcaro, como a explicação em prestações. Claro que abalou o segmento, mas estamos todos em modo de espera para ver o que é crime e o que é apenas narrativa. Os próximos dias e semanas vão ser importantes.

Como mostrou o GLOBO ontem, o pastor Silas Malafaia, próximo à família, foi um dos primeiros a se manifestar. Ele vem demonstrando descontentamento.

— A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio — afirmou o pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo.

Rodovalho disse ainda que a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro voltou a aparecer com mais força nas conversas internas do segmento como eventual alternativa caso a situação de Flávio se agrave:

— Michelle não perderia nada do que já foi conquistado da transferência de votos do Bolsonaro pai. Ela está no partido e é viável, mas vamos esperar o presidente Bolsonaro decidir.

Anteontem, a ex-primeira-dama foi questionada publicamente, pela primeira vez, sobre o envolvimento do senador com Vorcaro. Ela evitou opinar e afirmou que o pré-candidato à Presidência é quem deve se posicionar.

Agenda na Faria Lima

No mercado financeiro, a repercussão do caso dominou conversas na Brazil Week, em Nova York, que ocorreu na semana passada, e ampliou dúvidas entre empresários e investidores que vinham enxergando Flávio como o nome mais competitivo da direita para enfrentar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT).

Anteontem, porém, o desgaste aumentou após a revelação de que o senador também procurou Daniel Vorcaro após a primeira prisão do banqueiro, quando ele cumpria medidas restritivas em São Paulo.

Nas últimas semanas, o entorno do presidenciável do PL vinha intensificando reuniões reservadas com gestores, banqueiros e empresários em uma tentativa de apresentar Flávio como um bolsonarista menos radical e comprometido com responsabilidade fiscal e previsibilidade econômica.

A crise fez auxiliares defenderem uma aceleração dos anúncios de propostas econômicas e da agenda pública do senador para evitar que o desgaste se cristalize no setor.

Foi nesse contexto que Flávio desembarcou novamente em São Paulo ontem para uma agenda desenhada justamente para conter a deterioração do ambiente.

O senador participou de um almoço reservado com executivos ligados à Faria Lima e, à noite, se reuniu com empresários do turismo, hotelaria, aviação e serviços. Hoje, ainda tem compromissos antes de retornar a Brasília.

A campanha acompanhou de perto as oscilações no mercado, inclusive com alta do dólar, a partir da primeira relevação do site Intercept Brasil. A partir daí, empresários e operadores financeiros passaram a mencionar com mais frequência alternativas dentro da direita, especialmente o governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo), que já possuía trânsito consolidado no mercado pelo perfil empresarial e discurso liberal. Publicamente, contudo, ainda não há disposição para verbalizar movimentos mais bruscos.

Responsável por organizar um encontro de Flávio com empresários há dois meses, o presidente da Federação das Indústrias de São Paulo (Fiesp), Paulo Skaf, evitou antecipar qualquer mudança de posição:

— Está cedo.

Busca por plano B

Entre empresários e parlamentares ligados ao agronegócio, interlocutores afirmam que o apoio ao bolsonarismo permanece majoritário, mas admitem que cresceu o desejo de parte dos produtores e lideranças rurais por uma alternativa de direita menos sujeita a turbulências políticas.

A resistência ao nome de Flávio já existia antes da crise envolvendo Vorcaro. Desde a desistência do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), da disputa presidencial, parte do setor vinha demonstrando preferência por nomes como Ronaldo Caiado (PSD) e Zema, ambos vistos como políticos com perfil mais executivo e maior capacidade de diálogo com o setor produtivo.

O caso Master aprofundou esse movimento. Zema passou a ser observado com mais atenção por segmentos ligados ao discurso liberal e empresarial, enquanto Caiado mantém força junto ao setor rural e segue com forte interlocução com a Frente Parlamentar Agropecuária.

Apesar disso, integrantes da bancada ruralista minimizam a possibilidade de afastamento em relação a Flávio.

— O Vorcaro é tóxico, mas nosso entendimento é que isso é uma marola que passa — afirmou o deputado Lafayette de Andrada (PL-MG), integrante da Frente Parlamentar Agropecuária

Dirigentes do PL admitem que os próximos dias serão decisivos. Como revelou o GLOBO, o partido deu um prazo de 15 dias para medir o impacto do caso e avaliar se Flávio Bolsonaro terá viabilidade diante da evolução da crise. Ontem, após ser enquadrado por aliados, o presidente do partido, Valdemar Costa Neto, admitiu que havia dado este prazo, mas modulou o discurso e afirmou que Flávio tem sua força política “mais sólida do que nunca”. (Colaborou Sérgio Quintella)

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CENÁRIOS PREOCUPANTES

Merval Pereira, O Globo

Com a fragilidade atual da candidatura de Flávio, e as dificuldades que o governo Lula tem para manter a economia em bom estado pode ser que surja um caminho para um candidato alternativo que supere a polarização política.

Muito além do resultado das urnas em outubro, as consequências da derrota de um ou outro dos favoritos momentâneos nas pesquisas de opinião, ou a vitória de um azarão (dark horse?) que surja, colocarão o futuro do país em nova encruzilhada. O presidente Lula, cuja possibilidade de disputar a reeleição aumenta à medida que se enfraquece a candidatura do senador Flávio Bolsonaro, dificilmente deixará de estar no segundo turno. Mas pode perder. Aí começa a confusão.

Se desistir, por qualquer motivo, de concorrer, Lula teria no seu vice, Geraldo Alckmin, um candidato perfeito para enfrentar Flávio, agregando o eleitorado de centro-direita. Mas ele é um “tucano do PSB”, e o PT prefere perder com os seus a ganhar com um aliado. Ganhando, Lula encontrará provavelmente um Congresso de oposição mais conservador que o atual, sobretudo no Senado. Isso tornará seu quarto governo no mínimo problemático, se não inviável. O que sairá de um governo sem força política, apoiado por um Supremo Tribunal Federal (STF) acuado politicamente, com probabilidade alta de impeachment de ministro, só saberemos quando acontecer.

Um presidencialismo populista de esquerda com um governo parlamentarista de direita é receita de crise. Só deu certo o presidencialismo de coalizão enquanto os parlamentares não tinham o controle do Orçamento, e o presidente da República se impunha pela distribuição de verbas a seu bel-prazer. O poder do PT é fruto dessa circunstância, devido à cooptação de apoios legislativos e à força popular de Lula, que leva o partido nas costas.

À medida que a autonomia do Congresso com as emendas orçamentárias e os fundos de financiamento foi se cristalizando, o presidente da República, fosse de que tendência política fosse, foi perdendo o controle da situação. Foi assim com Dilma Rousseff, que acabou interditada; com Michel Temer, que se valeu de suas ligações históricas com a Câmara, de que foi três vezes presidente, para governar; com Jair Bolsonaro, que entregou os anéis a Arthur Lira para não perder os dedos; e agora com Lula em seu terceiro mandato. Nada indica que não será assim num próximo, se houver.

Se vencer, o até agora candidato mais forte da direita, Flávio, governará com o apoio do Congresso e poderá pôr em prática as promessas de campanha. Algumas são extremamente perigosas, como a anistia a seu pai, o ex-presidente Bolsonaro, e aos demais condenados pela tentativa de golpe. O episódio histórico de condenação dos golpistas, inclusive militares, não pode ser cancelado por uma canetada, pois a punição tem o dom de advertir eventuais aventureiros, de direita ou de esquerda, de que a sociedade e a comunidade internacional não aceitam esse anacronismo.

Se, no entanto, a candidatura de Flávio entrar em modo de autodestruição, pode ser que se abra a porta para outros candidatos desse espectro político, reforçados pelo antipetismo que sobrevive fortemente no eleitorado brasileiro. O PSDB representou por anos a fio essa tendência, vencendo duas eleições no primeiro turno e chegando ao segundo turno em todas as demais, com uma base de no mínimo 40% de votos. O ex-governador de Minas Aécio Neves foi o que mais perto chegou de vencer, perdendo por margem mínima na reeleição de Dilma Rousseff. Já se via ali, com o escândalo do mensalão, e depois do petrolão, uma brecha para derrotar o PT, que acabou ocupada pelo bolsonarismo.

Com a fragilidade atual da candidatura de Flávio, e as dificuldades que o governo Lula tem para manter a economia em bom estado devido ao crescimento da inflação pelo desequilíbrio fiscal, e pela desatualização da esquerda brasileira, pode ser que surja um caminho para um candidato alternativo que supere a polarização política. O ex-governador de Goiás Ronaldo Caiado está mais moderado que o outro ex-governador, este de Minas, Romeu Zema. Qualquer um dos dois, porém, pode receber os votos bolsonaristas, se acontecer o desmonte da candidatura de Flávio. O ministro aposentado do STF Joaquim Barbosa não me parece essa figura. Mas o fato de partidos estarem em busca de novos nomes mostra que existe a demanda.

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A PRIMEIRA CAMPANHA

O ano era... 1972, Zé Prado disputa pela primeira vez uma campanha eleitoral, seu adversário era o empresário Carlos Alberto, o “Carrim”. A campanha empolgava todos os sobralenses dos bairros e dos distritos.

Apoiado pelo prefeito Joaquim Barreto, uma das estratégias políticas de marketing para angariar votos de “Carrim” foi distribuir miniaturas de automóveis de plástico para o povo e dizia: “–Vamos de Carrim para chegar primeiro.”

Em contraposição à estratégia de marketing político de "Carrim", a resposta da campanha pradista veio em forma de jingle eleitoral, Pedro Lavandeira fiel amigo e compadre de Prado, fez duas canções: Todo mundo vai a pé, de carro pode virar e Pra ganhar vou a pé.

Após uma acirrada disputa, Zé Prado foi eleito prefeito de Sobral. De 1973 a 1976, Zé Prado e o vice João Edson Andrade administraram a cidade no prédio da atual Câmara Municipal.

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quarta-feira, 20 de maio de 2026

INSISTÊNCIA DE LULA EM MESSIAS É ENSAIO COM BALÃO FURADO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

É improvável que senadores aceitassem mudar uma regra para dar vitória ao governo que acabaram de derrotar

O presidente se expõe a um enfrentamento que não tem capital político nem amparo jurídico para bancar

Chama-se balão de ensaio a ideia plantada no noticiário político de que o presidente Luiz Inácio da Silva (PT) cogita reapresentar ao Senado o nome de Jorge Messias para ocupar a vaga aberta no Supremo Tribunal Federal.

No caso, um balão com muitos furos. O maior deles esbarra na impossibilidade de os senadores examinarem duas vezes uma indicação na mesma legislatura. Ato normativo da Mesa da Casa, em tese poderia ser revogado mediante negociação entre as presidências da República e do Congresso.

E aí temos o segundo furo no balão. Davi Alcolumbre (União-AP) e Lula não estão exatamente em posição de boa vontade mútua, condição essencial à construção exitosa de entendimentos.

As tentativas de recomposição feitas por intermediários ainda não deram resultado, como observamos no distanciamento entre os dois na posse de Kássio Nunes Marques na presidência do Tribunal Superior Eleitoral.

Alcolumbre manda, mas o peso do seu comando é lastreado no maior ou menor apoio que tenha de seus pares. Ainda que se dispusesse a atender a conveniências do Palácio do Planalto, dependeria de sustentação no colegiado para levar a ação adiante.

Eis, então, o terceiro furo a ser remendado: convencer os senadores que acabaram de derrotar o governo a mudar uma regra para anular o próprio gesto de contrariedade. Não é impossível, mas altamente improvável.

Considerando que o governo saiba de todos esses obstáculos, a propagação da ideia de que haveria insistência na indicação atenderia a dois possíveis propósitos: testar se houve mudança de clima depois da trombada das conversas de Flávio Bolsonaro (PL) com Daniel Vorcaro ou apenas marcar posição de autoridade de Lula na prerrogativa de indicar juízes ao STF.

Ambas as hipóteses de frágil —para não dizer inexistente— efeito prático. Se há outras intenções, por ora permanecem ocultas. Fato é que Lula se expõe inutilmente a um enfrentamento que não tem capital político nem amparo jurídico/institucional para bancar.

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ATÉ ONDE VAI A ELITE COM OS BOLSONARO ?

Vera Magalhães, O Globo

Condescendência com acusações e instabilidades ligadas ao clã não se explica nem por dados econômicos e fiscais do governo de Jair

A forma como parte da elite econômica e política espera para ver se a candidatura de Flávio Bolsonaro fica de pé diante das evidências quase diárias de uma relação constante com Daniel Vorcaro escancara um fenômeno conhecido, mas que se renova a despeito dos fatos: a enorme condescendência desses estamentos com todo tipo de instabilidade que a família Bolsonaro é capaz de provocar, algo inexistente em relação a qualquer outro grupo político.

A eleição de Jair Bolsonaro, em 2018, se deu a despeito da profusão de evidências de evolução patrimonial do patriarca e dos filhos incompatível com a atividade parlamentar de todos eles, do histórico antiliberal do “capitão” recém-associado a Paulo Guedes e de outras inconsistências.

Os quatro anos de mandato de Bolsonaro trouxeram à tona detalhes da relação do ex-deputado estadual Flávio, então já senador, com seu ex-braço direito Fabrício Queiroz, evidências de prática de rachadinha em seu gabinete, de mais movimentações financeiras apontadas pelo Coaf como suspeitas, de relacionamento com ex-policiais ligados à milícia, mais compra de patrimônio imobiliário em transações milionárias e em dinheiro vivo — e tudo foi aceito.

A gestão da pandemia expôs um presidente avesso à ciência, disposto a dinamitar o Programa Nacional de Imunizações, incentivando que se “passasse a boiada” em desmonte ambiental aproveitando o isolamento, zombando de medidas sanitárias e de mortes, trocando ministros da Saúde como quem mudava de camisa do Brasil. Houve abalo a sua imagem, mas ele quase foi reeleito.

Vieram o 8 de janeiro de 2023 e aquela destruição sem precedentes em Brasília, por uma turba mantida em acampamentos em frente a quartéis por meses, incentivada por um presidente que abdicou do exercício do cargo desde a derrota no segundo turno, depois deixou o país sem passar o cargo ao sucessor. Houve repúdio generalizado de imediato, mas logo depois passou-se a relativizar a gravidade do que aconteceu, como se fosse apenas coisa de donas de casa armadas de batom.

Por fim, o processo da trama golpista expôs a realização de uma reunião ministerial gravada em vídeo em que se discutiram opções até para melar as eleições. Vieram à tona um plano para matar autoridade e minutas de diferentes estados de exceção. O primeiro ex-presidente do Brasil foi condenado por tramar um golpe de Estado.

E, ainda assim, uma parcela majoritária de nossos tomadores de decisão permanece aferrada aos desígnios desse líder, agora preso, a ponto de rapidamente assimilar aquilo que não queria: um presidenciável da própria família. Foi escolhida a segunda opção, porque o primeiro cogitado estava nos Estados Unidos havia meses obtendo sanções econômicas e políticas contra o Brasil.

Agora, diante de um áudio reconhecido pelo próprio pré-candidato como autêntico, pedindo R$ 134 milhões a um banqueiro já enrolado para um filme sobre o pai, com recursos geridos por um fundo sem nenhuma transparência, existe uma torcida silenciosa para que a tempestade passe, e a motociata siga.

É difícil compreender, apenas à luz da ideologia, tal complacência. Não foi vista em escândalos envolvendo políticos do PT ou mesmo do PSDB. Basta ver a descida ao inferno de Aécio Neves por muito menos que esse acervo do “azarão” e sua prole.

O resultado econômico e fiscal sob Bolsonaro e Guedes não explica tal devoção imune a fatos. O antigo teto de gastos foi seguidamente excedido, houve a pedalada com precatórios e toda sorte de medida eleitoreira, inclusive elevando despesas assistenciais — um dos pecados sempre apontado nas gestões petistas.

As pesquisas e as novas revelações (que não param de aparecer, a despeito das velas acesas na Faria Lima) dirão se Flávio se segura. Mas a disposição a passar pano com desinfetante para tudo o que tenha o sobrenome Bolsonaro é um traço distópico dos nossos tempos que precisará ser explicado nos livros de História, com as consequências dela decorrentes.

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SOB PRESSÃO, FLÁVIO BOLSONARO ADMITE VISITA A VORCARO APÓS PRISÃO

Luísa Marzullo, Letícia Pille e Lauriberto Pompeu / O Globo

Cúpula do PL vê prazo de 15 dias para avaliar viabilidade da candidatura de Flávio após conversas com Vorcaro

Desconfiados das versões apresentadas pelo senador e com medo de novos fatos, ala do partido já defende a busca por opções ao Planalto

Pressionado pelo próprio partido a explicar sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, o pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, admitiu ontem mais um fato que havia sido omitido dos próprios aliados. Além de pedir dinheiro ao banqueiro para uma cinebiografia de seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, o senador confirmou que fez uma visita ao dono do Banco Master depois de ele ser preso, no fim do ano passado. À época, Vorcaro usava tornozeleira eletrônica e estava impedido de deixar São Paulo. A nova revelação abalou as bancadas do partido no Congresso e consolidou o entendimento, para parte dos colegas, de que um acontecimento novo pode sepultar a candidatura do senador.

Publicamente, integrantes do PL trataram o caso apenas como um novo revés, mas as justificativas apresentadas foram consideradas pouco plausíveis. Integrantes da cúpula avaliam que, de 10 a 15 dias, será o tempo para reavaliar se Flávio terá condições de prosseguir como candidato e se as denúncias serão relevantes eleitoralmente.

‘Um ponto final’

Flávio sustenta que só foi ao encontro do dono do Master para colocar um “ponto final” em questões relacionadas ao patrocínio do longa. Como revelou o Intercept Brasil, Vorcaro autorizou o repasse de R$ 61 milhões ao filme “Dark horse”, transferência investigada pela Polícia Federal (PF). A mesma reportagem revelou áudios em que Flávio cobra parcelas atrasadas do banqueiro.

— Fui, sim, até o encontro dele (Vorcaro). Ele estava restrito e não podia sair do estado de São Paulo, então fui até ele — disse Flávio, na manhã de ontem, minutos depois de o encontro ser revelado pelo portal Metrópoles. — Eu fui, sim, ao encontro dele para botar um ponto final nessa história. Dizer que, se ele tivesse me avisado que a situação era grave como essa, eu já teria ido atrás de outro investidor há muito mais tempo e o filme não correria risco.

O senador afirmou que o único assunto tratado com Vorcaro, tanto por telefone quanto pessoalmente, foi o financiamento do filme. Segundo relatos feitos ao GLOBO, a avaliação interna é que a candidatura de Flávio passaria a ser considerada “inviabilizada” se aparecerem fatos que contradigam a versão de que sua relação com o dono do Banco Master esteve restrita exclusivamente ao longa.

A revelação da visita se junta a uma série de turbulências que a campanha de Flávio vem enfrentando antes mesmo de vir à tona sua proximidade com Vorcaro. A escolha de um ex-policial civil para chefiar a comunicação havia irritado uma ala do PL. A postura do senador durante operação que mirou Ciro Nogueira (PP-PI), há duas semanas, ajudou a afastar parte do Centrão, que deve optar pela neutralidade na corrida presidencial. Após a revelação da troca de áudios entre o senador e o banqueiro, versões desencontradas do pré-candidato, de Eduardo Bolsonaro e de produtores do projeto, como o deputado Mario Frias (PL-SP) e a empresa Go Up, levantaram dúvidas sobre a veracidade das informações.

Depois de passar os últimos dias em reuniões reservadas com Jair Bolsonaro, Valdemar Costa Neto e Rogério Marinho, Flávio reuniu ontem cerca de 70 deputados e senadores do partido em Brasília. Aliados ainda demonstram incômodo com a condução política do caso e com a forma como o senador reagiu publicamente às revelações.

Ao tentar reverter a situação para o seu eleitorado, o pré-candidato chegou a divulgar o trailer do filme nas redes sociais. Interlocutores próximos a Valdemar afirmam que cresceu na cúpula do partido a avaliação de que o PL precisa começar a olhar opções caso novos desdobramentos atinjam o filho do ex-presidente.

Qualquer mudança, porém, teria que passar pelo crivo do ex-presidente, que está em prisão domiciliar, onde mantém diálogo frequente com Flávio.

No caso de a candidatura não se viabilizar, hoje três figuras aparecem como principais possibilidades: Michelle Bolsonaro, a senadora Tereza Cristina (PP-MS) e o senador Rogério Marinho (PL-RN), coordenador da pré-campanha de Flávio. Pastor da Assembleia de Deus Vitória em Cristo e aliado da família, Silas Malafaia resume o ambiente da pré-campanha.

— A relação de Flávio com evangélicos esfria, sim, se tiver comprovação de que recebeu dinheiro para mais coisa que o filme. Por enquanto, estamos todos com cautela. Se tiver mais coisa, será difícil apoiar; mas, se não tiver, vamos com Flávio.

Outros preferem fazer defesa enfática do candidato do PL à Presidência.

— Não existe nenhuma chance de Flávio ser substituído — diz Marinho.

Os últimos acontecimentos geraram desconforto inclusive entre aliados da família Bolsonaro. O influenciador Paulo Figueiredo, próximo de Eduardo, afirmou publicamente que a oposição enfrenta um problema de “comunicação e política”. Já Eduardo admitiu em uma transmissão ao vivo que o grupo demorou a reagir justamente para evitar contradições.

A ordem agora dentro do PL é reorganizar o discurso e evitar que Flávio fique acuado. O entorno do senador defende ampliar agendas públicas, reforçar viagens pelo país e intensificar encontros com empresários. Ele viaja para São Paulo hoje, onde deve ter encontros com a Faria Lima.

Desculpas e cobranças

Durante a reunião com parlamentares do PL, Flávio pediu desculpas por não ter explicado antes detalhes da relação com Vorcaro, afirmou diversas vezes que “não há mais nada” além da negociação envolvendo o filme e tentou convencer os colegas de que a crise pode ser superada politicamente. Flávio ouviu cobranças e parte dos presentes queria entender se Flávio já havia contado tudo o que sabia ou se o partido ainda corre risco de ser surpreendido.

Flávio também tentou sustentar a tese de que jamais teria deixado registros tão explícitos em mensagens e áudios se acreditasse estar diante de algo ilegal. Para integrantes do PL, essa passou a ser a principal linha de defesa construída pelo entorno bolsonarista: a de que houve erro político e imprudência, mas não consciência de eventual irregularidade.

Mais tarde, em evento da Marcha dos Prefeitos, que ocorre em Brasília, o presidenciável decidiu alegar que estava sendo “perseguido”, mas sem explicar em detalhes o encontro que teve com o dono Master.

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FLÁVIO BOLSONARO NÃO PARA DE MENTIR, PL FINGE QUE ACREDITA E CENTRÃO FAZ CARA DE PAISAGEM

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Direita diz que vai esperar um mês de pesquisas antes de pensar em alianças

Gente do PL diz que candidatura está no lucro, pois cresceu cedo e tem gordura

A candidatura de Flávio Bolsonaro está no "lucro", diz gente do PL, partido do senador fluminense. O que quer dizer? Que o pré-candidato teve um desempenho melhor do que o esperado no início da pré-campanha, que empatou com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas pesquisas "muito precocemente" e, por isso, "está muito bem-posicionado".

Perdeu sete pontos no cenário em que vai para o segundo turno contra Lula e caiu para segundo lugar, segundo pesquisa AtlasIntel divulgada nesta terça, mas isso seria efeito passageiro de "espuma de narrativa" e "volatilidade normal de campanha". Os partidos que seriam aliados de Flávio Bolsonaro compartilham da opinião do PL? "Muita água vai passar por baixo da ponte" diz um chefe do PL.

Muita coisa está boiando nessa água que passa sob a ponte. Flávio Bolsonaro não para de mentir. Nesta terça, teve de admitir que foi discutir em pessoa o fim da relação ("DR, fim") com seu irmão Daniel Vorcaro. Afinal, não é bonito acabar uma relação por e-mail ou mensagem. Né.

Quase a cada dia surgem versões novas do relacionamento de Vorcaro com os Bolsonaro e a produção do filme de propaganda de Jair. Mais importante, ainda não sabemos como o tutu foi gasto e quais instrumentos foram utilizados para fazer o trânsito do dinheiro e das justificativas de quanto passou em cada conta, fundo, empresa. Teve sobra de caixa? Superfaturamento de custos de transação do tráfego dos recursos ou outros? Não é por acaso que gente como Vorcaro usa "fundo do fundo do fundo" para sumir com dinheiro.

Flávio Bolsonaro disse que vai apresentar as contas "em trinta dias", como aqueles prazos de esclarecimentos de acidente de avião, queda de ponte ou apagão. O vencimento da promessa seria em 18 de junho véspera do jogo do Brasil com o Haiti na Copa.

O pessoal do PL acredita que a "espuma da narrativa vai passar" até por causa disso, Copa, festa junina e, principalmente, porque apareceriam más notícias econômicas para o governo Lula: taxas de juros altas por mais tempo, criação de emprego "caindo".

Flávio Bolsonaro vai participar da Marcha para Jesus em São Paulo, no início de junho. "Vai mostrar", diz gente do PL, que não perdeu apoio de evangélicos, vários irritados com o escândalo Vorcanaro, assim como a dita "direita limpinha" e influencer (que, no entanto, faz menos de uma semana não se importava com o histórico de sujidades dos Bolsonaro).

O pessoal do centrão mal quer falar do assunto. Algumas lideranças dizem que prejuízos locais já estão dados. Alianças difíceis se tornaram inviáveis, mas não seriam lá tantas. Outros dizem que não há informação para falar ou agir. Isto é, vão esperar para ver até onde vai a onda atual de mentiras de Flávio Bolsonaro e "um mês de pesquisas" (para medir o tamanho do estrago). Mais importante, não haveria o que fazer porque não há alternativa visível, nem para agregar o antipetismo, e porque acordos não haviam sido fechados. Por fim, parte menor do centrão iria com Lula 4 mesmo, por conveniências regionais, e uma outra parte, menos comprometida com a extrema direita, pode mudar de barco a depender do grau de conveniência —expectativa de poder, desempenho nas pesquisas dos presidenciáveis ou o próprio desempenho do político, embora o escândalo novo de Flávio dificulte o cálculo do vira-casaca.

O motivo principal da inação, porém, é a falta de alternativa.

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PRESIDENTE DO DC, DE JOAQUIM BARBOSA, FOI CONDENADO NA MÁFIA DOS SANGUSSUGAS

Bernardo Mello Franco, O Globo

"Nada ficou provado contra mim", diz João Caldas, barrado pela Lei da Ficha Limpa em 2022; ex-deputado compara novo pré-candidato a Neymar

Morreu por falta de votos a candidatura de Aldo Rebelo ao Planalto. Sem alcançar 1% nas pesquisas, o ex-comunista foi rifado pelo Democracia Cristã. O presidente da sigla, João Caldas, recorre ao futebol para explicar a decisão: “Seu time está perdendo e tem um perna de pau em campo. Você deixa ele lá ou chama o Neymar, que está no banco?”.

O Neymar do DC é Joaquim Barbosa, o ex-ministro do Supremo. A exemplo do atacante do Santos, seu maior trunfo é o passado. O auge da popularidade foi em 2012, no julgamento do mensalão.

Há oito anos, Barbosa ensaiou disputar a Presidência pelo PSB. Desistiu alegando razões pessoais. “Ele viu que tinha gente puxando o tapete. Aqui isso não vai acontecer. Joaquim é uma u-na-ni-mi-da-de”, diz Caldas, recitando uma sílaba por vez.

O DC era o partido de Eymael, nanico que disputou seis eleições presidenciais. Sua aposentadoria abriu caminho para Caldas, ex-deputado alagoano. Em quatro décadas na política, ele já passou por PMDB, PMN, PL, PSDB, PEN e União Brasil. Convenceu-se de que o eleitor não dá a mínima para o troca-troca.

“O povo não escolhe partido, escolhe candidato. O Collor foi eleito pelo PRN e o Bolsonaro pelo PSL”, lembra. Questionado se Barbosa também usaria o figurino de salvador da pátria, ele desconversa: “Nada a ver. O Joaquim é preparadíssimo!”.

Segundo Caldas, o ex-ministro teria o perfil certo para pilotar uma República desgovernada. “Qual é a lei que vale no Brasil? Só a do jogo do bicho, onde vale o escrito”, ironiza. “O país está uma bagunça, e ele vai botar ordem na bagunça”, promete.

Apesar do entusiasmo, o Ancelotti do DC não sabe dizer se seu Neymar tiraria votos de Lula ou de Flávio Bolsonaro. “Aí eu teria que ser um palpiteiro. Mas, quando a gente mostra a foto dele, o povo vibra como se fosse gol”, empolga-se.

Doze anos depois de pendurar a capa preta de ministro, Barbosa ainda tem a imagem associada à condenação dos mensaleiros. “Tem uma turma aí com medo dele, né?”, provoca Caldas. O presidente do DC diz não integrar esse time, embora já tenha sido condenado por corrupção no escândalo da máfia dos sanguessugas.

Em 2022, ele tentou virar suplente de senador e foi barrado pela Lei da Ficha Limpa. “Fui vítima de acusações levianas. Nada ficou provado contra mim”, discursa. Por via das dúvidas, o ex-deputado não deve ser candidato em outubro. “Meu projeto agora é trabalhar nas costuras. Vou virar um office boy de luxo”, anuncia.

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BANDEIRA BRANCA, O HINO

As campanhas de Zé Prado eram marcadas por vários jingles/paródias que se tornaram memoráveis, entre eles: Falam de MimAndar com FéVai Vai Vai Vai... Mas entre tantos que se destacaram, um virou o hino da carreira política pradista: Bandeira Branca.

Conhecida na voz magnifica de Dalva de Oliveira, a música ganhou uma versão feita pelo poeta popular Pedro Lavandeira, amigo fiel e compadre de Zé Prado. Quando o clima ficava quente na campanha, Prado pedia para o compadre Lavandeira cantar Bandeira Branca.

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SEMANA BANDEIRA BRANCA

Próxima quarta-feira, 26 de maio, completa 27 anos que José Parente Prado faleceu. Para lembrar a trajetória política desse líder, o blog Sou Chocolate e Não Desisto realiza a 17ª edição da “Semana Bandeira Branca”.

Um dos maiores líderes políticos do Ceará, Zé Prado foi secretário municipal, deputado estadual por três legislaturas e duas vezes prefeito de Sobral (CE).

A “Semana Bandeira Branca” terá fotos, jingles, vídeos e postagens com histórias que marcaram as campanhas políticas de Zé Prado.

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terça-feira, 19 de maio de 2026

'DEUS TE ABENÇOE MEU BROTHER'

Paulo Motoryn, Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker e Mauricio Moraes, The Intercept Brasil

ÁUDIO: Mario Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a filme sobre Jair Bolsonaro

Essa é uma edição especial da newsletter Cartas Marcadas, assinada por boa parte dos autores da investigação que chacoalhou o Brasil nos últimos dias. A proposta inicial do mês de maio é que esse espaço seria dedicado apenas a reportagens sobre a tramitação da escala 6×1.

Fizemos isso nas primeiras duas semanas, nos debruçando sobre o lobby empresarial que usa a extrema direita para atravancar a proposta. Mas, no meio do caminho, veio um turbilhão. O Intercept Brasil publicou o maior furo jornalístico do país desde as revelações da Vaza Jato: as mensagens secretas que colocam a família Bolsonaro no centro do escândalo do Banco Master, de Daniel Vorcaro.

É claro que não abriremos mão de nossa cobertura da urgente luta dos milhões de trabalhadores que suportam o desumano regime 6×1. Mas faremos uma pausa porque sabemos que a nossa audiência anseia por mais informações sobre a relação do bolsonarismo com o Banco Master.

Portanto, resolvemos mudar os planos e, nesta semana, brindar os leitores com mais um capítulo de nossa investigação: o áudio e as mensagens de texto que revelam a proximidade de mais um líder da extrema direita no Congresso com Daniel Vorcaro. Vamos aos fatos.

Pouco menos de uma hora após o horário em que estava previsto um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, no dia 11 de dezembro de 2024, em Brasília, o deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, enviou um áudio ao banqueiro agradecendo pelo apoio ao filme “Dark Horse”.

Na gravação, obtida com exclusividade pelo Intercept, Frias afirma que o longa sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita gente”, será “muito importante para o nosso país” e pede autorização para informar Vorcaro sobre o andamento da produção.

O registro mostra intimidade entre Frias e Vorcaro, algo que o deputado vem tentando esconder. Na semana passada, após o Intercept revelar que o senador Flávio Bolsonaro havia negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme “Dark Horse”, Frias disse que o banqueiro não havia dado “um único centavo” para o longa-metragem.

Cerca de 20 horas depois, o deputado emitiu outra nota e disse que havia “uma diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”. Ele destacou apenas que Vorcaro ou o Banco Master não haviam aparecido como investidores. A postura demonstra um distanciamento entre os dois – uma versão que um áudio e mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept desmontam.

O conteúdo indica que, além de produtor-executivo de “Dark Horse”, o ex-secretário especial de Cultura de Jair Bolsonaro atuava diretamente na articulação do filme financiado pelo banqueiro, que viria a ser investigado pela maior fraude bancária da história do país.

Na gravação, enviada por WhatsApp para Vorcaro em 11 de dezembro de 2024, às 18h24, Frias diz: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá? Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?” Imediatamente depois, Vorcaro responde: “Eu to numa ligação te chamo em seguida”. Frias diz “Blz” e, às 19h06, os dois se falam por ligação de voz durante cerca de 2 minutos. 

Como já apontamos no início do texto, o agradecimento veio menos de uma hora após o horário previsto para o encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro, naquele dia, na residência do banqueiro em Brasília. Segundo mensagens reveladas pelo Intercept, a reunião foi organizada por Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para tratar do financiamento do filme biográfico internacional sobre Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro participava de uma reunião da Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ, no Senado naquele dia e deixou a sua cadeira por volta de 17h30, no horário em que havia sido marcado o encontro. Só voltou às 18h, o que indica que uma possível participação na reunião teria ocorrido de forma remota ou em outro local. O Intercept não conseguiu confirmar se o encontro, de fato, ocorreu.

Na sequência do áudio, Frias mandou novas mensagens ao banqueiro. Em 15 de dezembro de 2024, o deputado enviou uma captura de tela a Vorcaro que exibe uma troca de mensagens entre ele e o diretor Cyrus Nowrasteh, revelando negociações preliminares para a produção de uma obra sobre “um homem comum que se tornou presidente por um milagre”.

No diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator Jim Caviezel sobre o projeto, alertando, contudo, que o astro fará duas perguntas: “1) Posso ler o roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?”. Frias respondeu que o ator “será imortalizado por esse papel”.

Abaixo do print, Frias escreveu para Vorcaro: “Milagres só são possíveis quando a fé”, “Esse é um desses milagres” e “Vai ser a maior super produção de uma história brasileira”. Aparentemente, na primeira frase, o parlamentar quis dizer “quando há fé”.

Em 22 de dezembro de 2024, houve outra conversa entre o deputado e Vorcaro. O banqueiro disse, às 10h19, que estava na igreja e prometeu chamá-lo quando saísse. Frias não se conteve e, uma hora e 16 minutos depois, antes mesmo que Vorcaro avisasse que estava disponível, escreveu que o filme seria “o grande milagre”, capaz de tocar “milhões de pessoas em todo mundo”, e teria “um papel histórico imprescindível para as futuras gerações”. Disse ainda que o longa-metragem sobre o ex-presidente era uma “questão de justiça divina”, ao que Vorcaro respondeu, às 11h40: “Tenho certeza disso”. “JB precisa ter sua verdadeira história revelada”, acrescentou Mario Frias. Em outra mensagem, afirmou: “2026 é do Brasil” e depois, frisou: “Deus te abençoe meu Brother”.

As mensagens mostram que a relação entre Frias e Vorcaro ia além de um contato protocolar entre um potencial investidor e um produtor. O deputado também chamava o banqueiro de “meu irmão”, fazia elogios em tom religioso e demonstrava acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.

Frias, que foi produtor-executivo de “Dark Horse” e peça-chave na articulação da obra com o banqueiro investigado pela maior fraude bancária do país, passou a propagar mentiras nas redes sociais, na tentativa de descredibilizar as reportagens do Intercept.

Como revelamos no último sábado, o parlamentar compartilhou, no dia 14 de maio, publicações falsas alegando que o Intercept teria recuado sobre as cifras do filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.

O rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por Frias expõe uma rede de desinformação financiada e estruturalmente ligada ao PL, partido do deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner Leandro de Lima, secretário parlamentar do também deputado federal André Fernandes, do PL do Ceará e tesoureiro da sigla no estado.

Já a página Hora Brasília é registrada em nome de uma empresa de Hugo Alves dos Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo Eustáquio. A firma de comunicação atuou nas eleições de 2024 como fornecedora de duas campanhas do PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador, em Atibaia, no interior de São Paulo. Foi nessa cidade que Fabrício Queiroz, ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi preso, em 2020, na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederik Wassef, num desdobramento da investigação que apurava o esquema de rachadinhas na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.

Outro lado

Após a publicação da primeira reportagem da série, a defesa de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas afirmou que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo os advogados, Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em nome do banqueiro.

A defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas conversas privadas decorria da “dimensão artística e cultural do projeto”. Procuramos Mario Frias nesta terça-feira, 19, por meio de sua assessoria. Não houve resposta até a publicação desta reportagem.

O PL também foi procurado, mas não respondeu. O espaço segue aberto.

A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada, mas informou que ele não vai se manifestar. 

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