sexta-feira, 6 de março de 2026

DIREITA E MERCADO ESTÃO MAL NA FOTO DO ESCÂNDALO MASTER

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Cada vez mais os suspeitos de sempre do centrão e facilidades desreguladas do mundo das finanças aparecem lado a lado no caso

Esquerda não é santa e conexões com gente ligada ao petismo podem surgir, mas até aqui mercadismo e direitistas se desgastam

Com a destituição do abafador geral Dias Toffoli, as investigações e revelações sobre o escândalo do Banco Master, agora nas mãos do relator André Mendonça, vão oferecendo uma melhor visão do iceberg que se tentava manter oculto.

A coisa, para dizer o mínimo, é muito feia e envolve práticas milicianas e mafiosas, com ameaças físicas a jornalistas, como Lauro Jardim, e outras barbaridades. Pelo que se revela, a turma do Master não deve ser comparada ao crime organizado –ela é o crime organizado.

Entre os primeiros, destacam-se os suspeitos de sempre da direita, a turma boa centrão, representada por nomes como Ciro Nogueira, do indefectível PP, chamado por Daniel Vorcaro, o capo da máfia, de "grande amigo". Caso também do governador do Rio, Cláudio Castro, do PL bolsonarista, personagem do mais baixo gabarito. Há muitos outros na chuva, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil, e uma matilha tentando se abrigar.

Soubemos também que funcionários do Banco Central estavam levando propina do chefão —talvez um sinal de que possa haver mais fio a puxar na instituição que se tornou autônoma no período Bolsonaro.

Do mesmo modo, há suspeitas em torno de figurões do Supremo Tribunal Federal, um deles pelo menos, o ministro Alexandre de Moraes, amplamente apoiado pelas esquerdas, por bons e maus motivos.

Feitas as contas, contudo, é sobretudo a direita que vai neste momento entrando pelo cano com agentes financeiros e aqueles que propalam a visão fantasiosa do mercado como ente virtuoso que se autorregula e dispensa controles.

Já são mais do que evidentes as condições propícias oferecidas pelo mercado financeiro a atividades ilícitas que rodam dinheirama suja, orquestram falcatruas, e fazem lavagem para facções criminosas. Uma espécie de matrioska de fundos, por exemplo, com donos e sócios secretos, serviu aos propósitos criminosos do esquema de Daniel Vorcaro.

Certamente não estamos diante apenas daqueles fundos ligados à Reag, descobertos já por ocasião da Operação Carbono Oculto, que colocou a Faria Lima no baile sinistro do PCC. Que profundezas sem luz do sol continuam sendo navegadas pelos escafandristas das finanças?

Lembremos, ainda, que o affair Master foi precedido pelo assustador escândalo contábil das Americanas, negócio de gente não raro incensada pelo mercadismo de plantão, como o Trio Lemann.

Não esqueçamos também que a grande trapaça de Vorcaro foi arquitetada, como escreveu meu colega Vinicius Torres Freire, para terminar com "a desova de um cadáver no colo do que, no fim das contas, é o governo, o público em geral". Um velho modus operandi, diga-se.

Em que pese manifestação de protesto do MBL em torno do escândalo, a esquerda vai cada vez mais se sentindo à vontade, em contexto de campanha eleitoral, para colar o episódio na direita. "Ah, mas é para ocultar o Lulinha e outros problemas", pode-se argumentar.

Sim, a esquerda não é nenhuma santa e até que se restabeleçam as bases do acordão em crise, se isso ocorrer, a disputa vai se acirrar. Ainda estamos em brumas e não se pode descartar um envolvimento mais consistente de alguém ligado ao petismo.

É difícil, porém, não considerar que a fotografia até aqui é desfavorável a mercadistas e direitistas.

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A REPÚBLICA VAI RUIR ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Celular de Vorcaro e possível delação premiada criam clima de pânico em Brasília

Forças pró-acordão tentam estancar a sangria, mas talvez não seja tão simples

Como previsto, o celular de Daniel Vorcaro vai produzindo vítimas, incluindo o próprio ex-banqueiro, agora recolhido à prisão preventiva. Pelo teor de colunas de bastidores que leio, o aparelhinho traz munição para causar uma razia tanto nas fileiras da direita como nas da esquerda e do centro. E as revelações contidas no telefone podem ser magnificadas por uma eventual delação premiada de Vorcaro, que vai ficando sem opções.

Já vivemos esse clima antes. O leitor há de se lembrar do auge da Operação Lava Jato e das listas de Janot. A sensação que se tinha ali é a de que poucos políticos escapariam. Alguns até caíram, provisória ou definitivamente, mas a República segue viva e povoada mais ou menos pelas mesmas figuras. Quem passou mais perto de um diagnóstico em 2017 foi o então senador Romero Jucá, com seu vaticínio de que seria preciso "estancar a sangria, [...] com o Supremo e com tudo". Curiosamente, ele mesmo, Jucá, caiu, mas a sangria foi estancada. Até multas das empresas que confessaram ilícitos foram anuladas.

Como naquela ocasião, assistimos agora a um embate entre forças que querem a continuidade das investigações e as que pressionam por um acordão. Existem, porém, diferenças importantes. A primeira é que, desta vez, há ministros do STF envolvidos em suspeitas e isso acrescenta muitas incertezas em relação ao desfecho.

O Judiciário é, de longe, o mais corporativista dos Poderes, o que em princípio joga a favor do acordão, mas não sei se é tão simples. A exemplo de políticos do centrão, os magistrados até carregam o caixão até a beira da cova, mas não entram nela junto com o morto. Se surgirem mais fatos contra Toffoli, Moraes ou algum outro, cortar na carne do STF talvez se torne inevitável.

Para adicionar mais camadas de complexidade, o escândalo Master corre em paralelo ao do INSS, igualmente ecumênico, e estamos num ano eleitoral.

Meu saudável ceticismo faz com que eu ponha minhas fichas no cenário do acordão, mas essa é uma aposta que torço para perder.

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MILÍCIA NA ALTA ESFERA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

O que se descobre agora é sinal eloquente da infiltração da bandidagem no tecido institucional

Falta desvendar a teia completa de influência do macabro esquema nos três Poderes da República

Agora que o trabalho da Polícia Federal parou de ser atrapalhado por Dias Toffoli e o novo relator no Supremo Tribunal Federal, ministro André Mendonça, explicitou a omissão da Procuradoria-Geral da República, o caso Master traz novas revelações que vão além das atividades fraudulentas de um banco liquidado.

O termo "milícia" ultrapassou as fronteiras dos territórios dominados pela criminalidade nos morros e periferias para entrar no contexto das investigações sobre Daniel Vorcaro. Aí estaria um elo importante entre ilicitudes no ambiente financeiro e crimes violentos típicos de máfias. Sinal eloquente da infiltração da bandidagem no tecido social.

O comportamento do ex-banqueiro descrito na decisão de Mendonça é o de um "capo" capaz de tudo na direção dos seus negócios, cujo objetivo é o enriquecimento ilícito.

Para isso, valeu o roubo em forma de fraude, a corrupção de agentes públicos, a intimidação de funcionários, o plano de "quebrar os dentes" do jornalista Lauro Jardim na simulação de um assalto e o que mais exista para ser descoberto nesse esquema macabro que supera as piores previsões.

O capanga cujo codinome era Sicário não deixa a menor dúvida: preferiu se matar a enfrentar a contingência de entregar o chefe. Mas ainda há outros implicados que cedo ou tarde falarão, ajudando a desvendar a teia de delinquências.

Falta agora chegar ao andar das altas autoridades, razão pela qual esse inquérito permanece sob a jurisdição do Supremo Tribunal Federal. Não houvesse gente com foro por prerrogativa de função, já teria sido remetido à primeira instância.

Portanto, o envolvimento de excelências é mais que uma suposição decorrente das propagadas relações de Daniel Vorcaro com poderosos dos três Poderes, sem os quais não poderia ter ido tão longe à sombra da impunidade.

Escalado esse degrau, há muito ainda a nos estarrecer, pois nesse patamar não estão só políticos. Ao que se percebe, ali deram e dão expediente outros peixes grandes da República.

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A LAVAGEM DOS COLARINHOS BRANCOS

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

É raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados a crimes; mais comuns são os sem colarinho

O uso dos colarinhos brancos é privilégio dos que trabalham com grandes fraudes, desvios e vazamentos

Se você é homem, adulto e obrigado a se vestir formalmente, com certeza já dispensou alguns minutos a observar os formatos dos colarinhos. Existe o clássico colarinho francês, com pontas médias e mais fechadas; o italiano, mais curto e com pontas abertas; o americano, de pontas longas, abotoadas à camisa; o tipo padre, com a gola pequena e em pé, exigindo quilos de goma; e o asinha ou tico-tico, com as pontinhas dobradas para fora. Todos são colarinhos brancos. Não significa que seus usuários sejam criminosos. Só alguns.

Mas, embora se fale muito nos "crimes de colarinho branco", é raro ver pessoas com colarinhos dessa cor associados aos ditos crimes. Os criminosos mais presentes na mídia usam camiseta, sem colarinho. São os mais pobres da categoria, ladrões de carteira ou de celular. Como sua ação costuma ser muito rápida, tanto no trânsito quanto numa rua escura, não precisam se preocupar com a apresentação. Sabem que suas vítimas não terão tempo para analisar seus colarinhos, donde uma camiseta comum, mesmo regata, sem mangas, será socialmente aceitável.

Os bandidos mais graduados, que portam armas pesadas, preferem o colarinho mole e casual das camisas polo, estas quase sempre amarelas ou de riscas. Têm a vantagem de expor seus bíceps sarados, produto de horas de malhação em academias ou nas instalações militares a que até havia pouco pertenciam. Não significa que os criminosos de colarinho branco não tenham esses bíceps sarados —é que costumam escondê-los debaixo do paletó, embora isso não impeça que sejam detectados pela largura dos ombros. Recomenda-se atenção na presença de um deles.

E chegamos aos elegantes criminosos nos casos hoje em voga: dos escândalos do Banco Master, das fraudes no INSS, dos desvios de emendas parlamentares, do vazamento de dados no STF, dos mandantes do 8 de Janeiro. Esses, sim, são todos de colarinho branco. Vide Daniel Vorcaro, o Careca do INSS e outros.

Não se pode confiar na alvura de seus colarinhos. São lavados junto com o dinheiro.

 

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quinta-feira, 5 de março de 2026

VORCARO E A TURMA DE MOER GENTE

Míriam Leitão, O Globo

O crime de Vorcaro atingiu outro patamar. Agora as provas são de planejar agressões físicas e outros atos violentos, além das fraudes financeiras

Nunca houve um banco como o Master. Outros quebraram, nenhum deles arrastou o Brasil para um enredo com desdobramentos tão tenebrosos. No capítulo de ontem da série, soube-se de “Sicário”, um capanga enviado para “moer” funcionários do banqueiro ou “quebrar todos os dentes” de um jornalista. No fim do dia, ele tentou suicídio. O crime de Daniel Vorcaro atingiu outro patamar. Agora, além de cometer fraude financeira, há provas de uma associação criminosa para executar atos violentos. Vorcaro, o homem que fez um banco de papel e achou que ficaria impune por ter uma rede poderosa de influências, é pior do que se sabia. Uma autoridade que acompanha o caso em Brasília definiu a maneira de agir de Vorcaro e sua turma: “É máfia.”

Tudo o que foi descrito pela Polícia Federal confirma o método mafioso. Crimes múltiplos, corrupção, ameaças físicas, milícia privada atacando supostos adversários do “capo”. O chefe de organização criminosa não pode, pela lei, fechar delação premiada. Conversei com uma fonte sobre os rumores de que ele estaria negociando um acordo deste tipo. “Acho difícil uma delação no topo da cadeia alimentar.” A Polícia Federal não foi procurada com essa proposta pela defesa. Há quem duvide, contudo, que ele tenha capacidade de montar tão sofisticada engenharia financeira como a que vem sendo descoberta nas investigações. Ele poderia estar representando outros “capos”.

Nas conversas reveladas ontem, Vorcaro e o executor dos crimes, Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, falam em “moer” a empregada Monique, dar um “sacode” no chefe de cozinha e simular o assalto ao jornalista Lauro Jardim com atos de violência. Era, como disse a Polícia Federal, a “dinâmica violenta”. O “Sicário” comandava “A Turma” que executava crimes físicos e digitais com o farto financiamento de Vorcaro, distribuído por um “pastor” da Igreja Batista da Lagoinha, o cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel.

Zettel distribuía o dinheiro para a rede criminosa. Os ilícitos eram também digitais. A “turma” de Vorcaro era tipo faz-tudo. Além de atos violentos e monitoramento de supostos adversários ou funcionários infiéis, Mourão invadia sistemas policiais nacionais e internacionais e extraía dados protegidos por sigilo. Conseguia acessar sistemas da Polícia Federal, da Interpol e do FBI.

No Banco Central, os indícios são de que Vorcaro corrompeu dois altos funcionários. Um deles, o ex-diretor de Fiscalização Paulo Souza, com 28 anos de BC. Ao deixar o posto, em 2023, permaneceu em cargo de destaque na mesma diretoria. O outro, Belline Santana, era chefe da divisão de Supervisão Bancária. Os dois tinham que fiscalizar o Master, seria natural terem contato com o banqueiro, mas em favor da estabilidade do sistema financeiro. Tornaram-se prestadores de serviço de Vorcaro. O BC, ao detectar indícios de irregularidades, afastou os dois em janeiro, e encaminhou as informações à Polícia Federal.

Na operação de ontem, outro elemento foi revelador. O fato de que a Procuradoria-Geral da República não apoiou o pedido da Polícia Federal de prisão contra os principais responsáveis e de outras medidas cautelares. O novo relator do caso, após o afastamento de Dias Toffoli, o ministro André Mendonça deu uma bronca na PGR. “Tempus fugite”, escreveu ele, “no caso específico dos autos, a demora se revela extremamente perigosa para a sociedade.”

O ministro viu ameaças concretas que todos os que leem os autos são capazes de ver, como “o risco concreto de interferência nas investigações”. Daniel Vorcaro usa o método de compra de apoio de influenciadores para atacar quem quer se interponha entre ele e seus objetivos, como o Banco Central.

Vorcaro tem tanto dinheiro que, só na fase dois da Compliance Zero, foram encontrados com o pai dele R$ 2,2 bilhões. Ele tem aviões, contas em paraísos fiscais, mansões no exterior. Sim, era óbvio que havia a chance de ele fugir, de usar o seu poder para obstruir a investigação e de atacar pessoas. E, como disse o ministro André Mendonça, “pode-se colocar em risco a segurança e a própria vida de pessoas”. Mourão, o “Sicário” tentou se matar na Polícia Federal e foi levado para o hospital. Tem muito a esclarecer sobre os atos do seu chefe, o banqueiro que mandava “moer” pessoas. Houve no Brasil uma crise bancária de enorme dimensão nos anos 1990, mas nunca se viu um caso como o Master.

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TURMA DE VORCARO AGIA COMO A MÁFIA

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Era tudo coisa de gângster: Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance

Com nova operação da PF, as suspeitas de que o antigo relator do caso, o ministro Dias Toffoli, atrapalhou as investigações aumentam

As revelações que vieram à tona no rastro da nova fase da operação Compliance Zero, deflagrada na manhã desta quarta-feira (4) pela Polícia Federal, mostraram que a quadrilha montada pelo banqueiro Daniel Vorcaro agia como uma máfia.

Era tudo coisa de gângster. Vorcaro e sua turma construíram um cenário de brutalidade de longo alcance.

A sua organização criminosa atuava em quatro núcleos detalhadamente descritos na decisão do ministro do STF André Mendonça que levou à ação da PF: 1) financeiro, responsável pela estruturação das fraudes contra o sistema financeiro; 2) corrupção institucional, voltado à cooptação de servidores públicos do Banco Central; 3) ocultação patrimonial e lavagem de dinheiro, com utilização de empresas laranjas; 4) intimidação e obstrução de justiça, responsável pelo monitoramento ilegal de adversários, jornalistas e autoridades.

O quarto núcleo é o ingrediente novo trazido na operação e que torna o escândalo do banco Master ainda mais assustador, estampado nas palavras escritas em trocas de mensagens de Vorcaro contra o jornalista Lauro Jardim: "Esse Lauro quero mandar dar um pau nele".

O ex-banqueiro, agora novamente preso, tinha em seu grupo até uma pessoa apelidada de Sicário, nome dado a matador, facínora, capanga. A alcunha foi atribuída a Luiz Philippi Machado de Moraes Mourão, que mantinha relação direta de prestação de serviços para Vorcaro.

Sicário fazia o jogo mais sujo, atuando como responsável pela execução de atividades voltadas à obtenção de informações sigilosas, monitoramento de pessoas e neutralização de situações consideradas sensíveis aos interesses do grupo investigado.

Vorcaro também fez determinação expressa ao seu sicário para "levantar tudo" sobre um funcionário seu e um chefe de cozinha a ele associado.

Um quinto núcleo, não descrito, poderia ser incluído na lista. É o núcleo das festas e da participação de autoridades em eventos organizados pelo dono do Master.

Com a operação, as suspeitas de que o antigo relator do caso no STF, o ministro Dias Toffoli, atrapalhou as investigações aumentam. Vorcaro não deveria ter sido solto na primeira prisão em novembro do ano passado.

Toffoli não só deve explicações como o STF precisa aprovar a quebra de sigilo da Maridt Participações, empresa da família do ministro.

A extensão dos núcleos de investigação revela que novas fases das operações vão acontecer em breve.

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A MÁFIA QUE TINHA UM BANCO, O MASTER, SUMIU COM O DINHEIRO E COMPRAVA A REPÚBLICA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Após alerta do Banco Central, PF acusa altos burocratas do BC de levar propina de Vorcaro

Funcionários do BC assessoravam Master e pareciam ricos demais para o salário

Banco Master era a fachada de uma máfia comandada por Daniel Vorcaro. Qualquer autoridade da República que crie empecilhos para a investigação do Master é conivente com a máfia. No pior dos casos, é também beneficiário da organização criminosa, empregado dos mafiosos ou cúmplice.

Segundo acaba de se saber pela Polícia Federal, Vorcaro tinha capangas para espionar e ameaçar concorrentes e jornalistas. Mandou pagar propina aos dois chefes da supervisão bancária do Banco Central, que davam assessoria para escamotear irregularidades e deram ajuda para tirar Vorcaro da prisão.

Foram flagrados, além desses motivos, porque pareciam ricos demais para o salário, segundo apurações do BC. Descobriu-se também como o Master sumiu com mais R$ 2,24 bilhões, outra vez pela Reag, grande ninho dos fundos bandidos (o rolo era só ali?).

Essas são as últimas. Já sabemos de mais. Mas nada se sabe ainda de concreto sobre mãos e braços políticos de Vorcaro ou sobre os motivos de sua amizade com o centrão, em particular no PP, o Progressistas, dos deputados Doutor Luizinho (RJ) e Claudio Cajado (BA) e do senador Ciro Nogueira (PI), por exemplo, e no Distrito Federal governado por Ibaneis Rocha (MDB).

O Master era uma ficção. Seus ativos eram superestimados e ilíquidos (não virariam dinheiro logo e sem custo) ou mera ficção fraudulenta, como os créditos que vendeu ao BRB.

Os ativos de fantasia falsificavam a saúde do banco e, pois, permitiam que pegasse dinheiro emprestado (como CDBs), que então escorria para empresas de fachada, laranjas, fundos de propriedade secreta, parentes de Vorcaro e sabe-se lá quais beneficiários. Quais?

O esquema contava com apoio no Congresso (no mínimo), alugava lobistas de nível ministerial e escritórios supremos de advocacia, tinha sociedades ou negócios com gente poderosa (Dias Toffoli ou Nelson Tanure) e subornava altos burocratas do BC, segundo as investigações.

No grupo de WhatsApp "A Turma", Vorcaro coordenava capangas, espiões, subornos e intimidações; de resto, tinha uma zona de confraternização de poderosos em uma casa de Trancoso (BA).

Os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-SE), e do Senado, Davi Alcolumbre (UB-AP), barram uma CPI sobre o caso ou criam dificuldades para a CPI do Crime Organizado, que tenta ser uma alternativa à CPI do Master.

Qualquer leitor de jornal sabe disso, que a máfia alugava ou comprava apoios de variada espécie e poder e, agora, que corrompia gente do BC. O acordão ainda tenta abafar o caso, apesar de investigações da PF, ora liberadas por André Mendonça, e do BC. O país, sem ação, é refém da máfia, por interpostas pessoas na cúpula da República.

Em 18 de novembro de 2025, o Banco Central liquidou o Master. Dias depois, começou a investigar o processo inteiro que, no final das contas, permitiu a sobrevida de um banco fictício como o Master. Era uma investigação administrativa. Havia indício de mais, porém.

Belline Santana, chefe do departamento de Supervisão Bancária do BC, e Paulo Sérgio Neves de Souza, chefe-adjunto, foram afastados dos cargos. Em janeiro, o BC passou os indícios para a Polícia Federal e avisou a CGU (Controladoria-Geral da União).

Souza foi diretor de Fiscalização do BC, de 2017 a 2023 —assim também votava nas decisões do Copom sobre juros. É gravíssimo. Quando se puxa uma pena, não vem uma galinha, vem um avestruz. O que mais, onde? Apenas a delação de Vorcaro vai resolver?

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DESCOBRINDO VIRGINIA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Como tolerar a ideia de que até hoje não faço parte dos 55 milhões de seguidores da influenciadora?

Todo dia surgem fulanos manipulando bilhões e, como todo bandido, com muito dinheiro em casa

Na semana passada ("De Gardel a Montiel", 26/2), ao dizer que nunca ouvira falar de Bad Bunny, temi que uma massa de leitores me caísse em cima –como era possível não saber do maior fenômeno musical de nosso tempo? E só soube por ele ter desafiado Donald Trump, o que logo o tornou merecedor de minha admiração. Confesso que, por enquanto, ainda não ouvi Bad Bunny emitir uma só nota como cantor, e talvez seja melhor assim. Pois não é que vários leitores admitiram a mesma deficiência –que também tinham acabado de ser apresentados a Bad Bunny?

O problema não é o Bad Bunny. Somos nós. Vivemos sob um tufão de informações, em que os personagens entram e saem do noticiário com uma velocidade difícil de acompanhar. Pouco antes do Carnaval, por exemplo, ouvi falar de Virginia, namorada do craque Vini Jr. De repente, fui assolado de notícias sobre a mesma Virginia, agora como rainha de bateria da Grande Rio, e só então descobri que era uma influenciadora com 55 milhões de seguidores e a maior celebridade do Brasil depois de Lula e Bolsonaro. Por onde andei nos últimos meses que não fui influenciado por Virginia?

E mais. Sei muito bem que Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel e João Carlos Mansur, do caso Master, são três bombas que explodirão no colo de quem fez negócio com eles. Mas, como perdi o começo do caso, não conseguirei dizer direito por quê. O mesmo quanto a Rodrigo Bacellar e o pitoresco TH Joias, dois elementos acusados de organização criminosa, comércio de drogas, tráfico internacional de armas, corrupção ativa e passiva, lavagem de dinheiro e relações amorosas com o Comando Vermelho. Como sujeitos com tal currículo nunca fizeram parte da minha cultura?

E, mal me familiarizei com esses nomes, surge nas manchetes um certo Adilsinho, magnata do contrabando e da falsificação de cigarros, manipulando bilhões de reais e, como todo bandido, com montanhas de dinheiro vivo em casa.

É como se houvesse um outro Brasil, paralelo ao real. Só não sei qual é o Brasil paralelo ou o real.

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A DEMOCRACIA CORRE RISCO NESTA ELEIÇÃO ?

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

A extrema direita irá se adaptar às regras democráticas se vencer?

O que ocorrer nos EUA pode definir o destino da democracia mundo afora.

É da maior importância a discussão das consequências de uma vitória nas eleições presidenciais das forças de direita lideradas pelo delfim dos Bolsonaros. O debate divide respeitáveis analistas da política nacional.

Uns acham que, no Planalto, Flávio representaria clara ameaça à ordem democrática, por reavivar o golpismo que culminou com o pai na Papudinha. Outros acreditam não haver indícios fortes de que o filho, mais moderado, siga os passos do genitor.

Em outros termos, o que se debate é a possibilidade de a extrema direita se adaptar ao sistema representativo e que, no governo, não trate de enterrá-lo. O que se conhece do assunto não ampara conclusões cabais. No passado, fascismo e nazismo chegaram ao poder por meio de eleições livres e, rapidamente, aplastaram as instituições representativas e as liberdades individuais. No presente, há exemplos para todos os gostos.

Na Rússia e nos países do Leste Europeu, a democracia mal chegou a se firmar, tendo sido substituída por regimes claramente autocráticos. Na Europa Ocidental, o crescimento da extremaO que se debate é a possibilidade de a extrema direita se adaptar às regras da democracia representativa direita foi suficiente para transformá-la em potência política. Tornou-se a segunda força eleitoral na maioria dos países e participa das coalizões governantes na Finlândia, na Suécia e na Holanda. Mas só na Itália e na Bélgica, líderes extremistas —Giorgia Meloni e Bart de Wever— chefiam os respectivos governos. Na Itália, desde a primeira vitória de Silvio Berlusconi, em 1994, a direita radical adaptou-se às regras da democracia representativa: quando não ganhou eleições, aceitou a derrota.

A grande incógnita atual são os EUA, onde Trump investe furiosamente contra a Constituição, enquanto os freios e contrapesos a seu empenho autoritário são postos à prova. O que lá ocorrer poderá definir o destino da democracia na América e mundo afora.

No Brasil, a hipótese segundo a qual, se vitorioso, o bolsonarismo respeite as regras do jogo assenta-se em duas condições exigentes.

A primeira é que as instituições democráticas, tendo prevalecido sobre a vontade dos golpistas, mantenham a mesma capacidade de impor limites a um governante de apetite autoritário. Ou seja, espera-se que a imprensa não se dobre; que a sociedade organizada pressione os Poderes; que governadores resistam; que a maioria do Congresso trave os projetos mais danosos; que o comando das Forças Armadas não sucumba a tentações autoritárias; e que o Supremo possa defender o processo eleitoral e punir os conspiradores. Não custa lembrar que pelo menos um desses requisitos hoje inexiste: nossa alta corte passa por inegável processo de deslegitimação.

A segunda condição é que Flávio Bolsonaro, por crença ou cálculo, não só seja mais moderado que o patriarca da família, mas tenha força para enquadrar o pai e as lideranças que alimentam extremismo nas ruas e nas redes. Em que pesem suas declarações mais mansas, a promessa de indulto aos golpistas não indica compromisso efetivo com o respeito às regras democráticas.

Pode ser que o Brasil siga o caminho trilhado pela Itália. Isso será tão mais provável se, em lugar de apostar na conversão do bolsonarismo, os democratas aumentarem o custo do extremismo.

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TRUMP INICIOU GUERRA COM IRÃ POR CAPRICHO E PERDEU O MONOPÓLIO DO CONFLITO

Financial Times / Folha de S. Paulo

Presidente americano disse em posse que queria fim de guerras de escolha; agora está envolvido na maior delas

Objetivos dos EUA são caleidoscópicos, e mudança de regime após morte de Khamenei não vai acontecer com facilidade

O problema com os homens fortes é que eles podem facilmente mudar de ideia. Em seu discurso de posse no ano passado, o presidente americano, Donald Trump, prometeu ser um "pacificador" que acabaria com "guerras de escolha". Agora ele está envolvido contra o Irã na tentativa da maior mudança de regime de todas.

Talvez a realidade no terreno o force a abandonar esse objetivo. No entanto, mesmo seu gabinete —para não falar do Congresso e dos aliados dos Estados Unidos— está no escuro sobre qual é seu plano de saída.

Como Trump disse ao The New York Times em janeiro, sua única restrição é "minha própria moralidade... É a única coisa que pode me deter". O sistema constitucional americano até agora não deu motivos para duvidar dele. O que acontece no teatro de guerra em expansão é outra história.

Deixando de lado o ataque inicial de Israel, o momento de maior potência do presidente foi escolher ir à guerra com o Irã. A partir daí, Trump perdeu o monopólio sobre como a guerra se desenrola. Muitos outros —não apenas iranianos— agora têm voz sobre sua direção.

O próprio Trump está dividido sobre quais são seus objetivos. Nas primeiras 72 horas, ele disse várias vezes que quer eliminar o programa de armas nucleares do Irã, acabar com a capacidade iraniana de exportar terrorismo, derrubar seu regime ou encontrar um novo líder dentro dele com quem pudesse fazer negócios.

A maioria dos comentários do presidente vem na forma de reflexões telefônicas para repórteres. Para um, disse que a guerra poderia durar mais "quatro a cinco semanas"; para outro, que estava pronto para conversar com o Irã. Mas também questionou se havia alguém restante com quem conversar.

Seus objetivos de guerra são, portanto, caleidoscópicos. Ao contrário do que disse, os EUA e seus aliados não enfrentavam nenhum ataque iminente do Irã. Não há nada de preventivo nesta guerra. Nem, como ele também afirmou, o Irã estava perto de desenvolver mísseis que pudessem alcançar os Estados Unidos.

Seu enviado, Steve Witkoff, foi hiperbólico alguns dias antes ao dizer que o Irã estava "a uma semana de ter material de grau industrial para fabricação de bombas". Os mediadores de Omã também contestam a afirmação de Trump de que os negociadores iranianos se recusavam a ceder. O que o Irã ofereceu na semana passada —zero estocagem de urânio de baixo enriquecimento— era melhor do que o que Barack Obama conseguiu no acordo nuclear de 2015, do qual Trump se retirou.

Um profundo ceticismo é justificado quanto à capacidade de Trump de impedir mais carnificina nas ruas iranianas. Embora ele esteja instando o povo a se levantar, eles não têm como saber se isso não seria suicida. Regimes não são mudados pelo ar. Trump só poderia ajudar invadindo o país deles. Pela primeira vez, está considerando essa ideia.

"Não tenho receio em relação a tropas no terreno", disse ao New York Post. Ao mesmo tempo, está convidando os paramilitares do Irã a entregar suas armas ("eles simplesmente se renderiam ao povo, se você pensar bem"). Talvez eles se desarmem em uma galáxia muito, muito distante. Neste planeta, a névoa da guerra começa na mente de Trump.

Qualquer um que afirme saber para onde esta guerra vai, incluindo Trump, está blefando. Entre os possíveis resultados, no entanto, a transferência pacífica de poder é um dos menos prováveis. O regime do Irã assassinou recentemente milhares, talvez dezenas de milhares, de seu próprio povo. O que restou da liderança do país está encurralada. O presidente dos EUA transmitiu a eles que esta guerra é existencial. No entanto, expressou surpresa por estarem disparando drones e mísseis contra os Estados do Golfo que abrigam bases americanas —uma escalada óbvia para a teocracia ameaçada.

É por isso que nenhuma das monarquias do Golfo queria esta guerra. Seu lugar como eixo da economia global está agora perigosamente exposto. Trump não ouviu seus amigos do Golfo. Nem deu atenção aos cenários de risco apresentados pelo general Dan Caine, chefe do Estado-Maior Conjunto dos EUA. Um país do tamanho do Irã não pode ser transformado por controle remoto.

Sua aposta era que o Irã cederia rapidamente. Até agora, não há sinal disso. Estamos, portanto, entrando em um teste de resistência. Quanto mais tempo os iranianos conseguirem sustentar seus ataques com drones Shahed, mais provável é que eles cobrem um preço significativo em vidas americanas e de outros. A guerra ameaça se transformar em uma disputa sobre quem aguenta mais —a capacidade do Irã de produzir drones versus a capacidade dos EUA de interceptá-los.

Um conflito prolongado também vai pesar no bolso dos americanos. Os apoiadores do Maga de Trump acreditavam que ele marcaria uma ruptura acentuada com a era de guerras intermináveis e rendas espremidas. Estavam enganados. Trump viu o histórico de George W. Bush e dobrou a aposta. Não há nada de bom a dizer sobre o regime do Irã. Mas ele demonstrou um instinto melhor para ler as intenções de Trump do que seus eleitores.

*É editor e colunista do jornal Financial Times

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PRISÃO DE VORCARO E NOVAS REVELAÇÕES DO CASO MASTER ASSOMBRAM BRASÍLIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A decisão do ministro do STF André Mendonça cita a formação de organização criminosa, danos bilionários e crimes de ameaça, corrupção e lavagem de dinheiro

A nova fase da Operação Compliance Zero, deflagrada, ontem, pela Polícia Federal, assombra os caciques do Centrão com os quais mantinha forte relações, porque ampliou muito o alcance político e institucional das investigações sobre a fraude envolvendo o Banco Master. Foram presos o banqueiro Daniel Vorcaro; seu cunhado, o empresário Fabiano Zettel; Luiz Phillipi Mourão, o "Sicário", que estaria conduzindo monitoramento de adversários de Vorcaro, e o policial federal Marilson Roseno da Silva.

Segundo a Polícia Federal, o banqueiro teria encomendado ao Sicário a simulação de um assalto para intimidar o jornalista Lauro Jardim, colunista do jornal O Globo, que teria os dentes quebrados, mas o atentado não se consumou. O presidente da Associação Brasileira de Imprensa, Octávio Costa, repudiou as ameaças e reiterou o papel da imprensa na cobertura do caso.

A operação atingiu diretamente o Banco Central ao impor medidas cautelares contra dois de seus servidores de carreira: Paulo Sérgio Neves de Souza, ex-diretor de Fiscalização da autarquia, e Belline Santana, ex-chefe do Departamento de Supervisão Bancária. Ambos foram afastados de suas funções, proibidos de acessar as dependências do BC e obrigados a usar tornozeleira eletrônica por determinação do ministro André Mendonça, relator do inquérito no Supremo Tribunal Federal (STF).

A decisão que autorizou a operação, do ministro André Mendonça, cita a formação de uma organização criminosa, danos bilionários e a possível prática dos crimes de ameaça, corrupção, lavagem de dinheiro e invasão de dispositivos informáticos. Vorcaro já havia sido preso em novembro do ano passado, na primeira fase da operação, mas foi solto na sequência. Desde então, o empresário passou a usar tornozeleira eletrônica. A defesa de Vorcaro nega as alegações atribuídas ao banqueiro, que "sempre esteve à disposição das autoridades, colaborando de forma transparente com as investigações desde o início, e jamais tentou obstruir o trabalho das autoridades ou da Justiça".

Segundo a Polícia Federal, os dois servidores teriam atuado como consultores informais do controlador do Banco Master, fornecendo orientações estratégicas sobre processos administrativos conduzidos pelo próprio Banco Central. De acordo com a decisão judicial que autorizou a operação, Paulo Sérgio Souza e Belline Santana compartilhavam informações internas, discutiam a situação regulatória do banco e sugeriam argumentos a serem utilizados em reuniões com dirigentes da autoridade monetária. Em troca desses serviços, teriam recebido pagamentos indevidos intermediados por terceiros.

Infiltração no BC

Souza revisava documentos elaborados pelo Banco Master antes de serem encaminhados ao próprio órgão regulador. Relatórios técnicos, ofícios e manifestações institucionais teriam sido analisados e ajustados com sua participação. Em alguns episódios, teria antecipado ao banqueiro questionamentos que poderiam surgir em reuniões com autoridades do Banco Central. Souza alertou Vorcaro sobre movimentações financeiras identificadas pelos sistemas de monitoramento do BC, o que permitiu que adotasse medidas para reduzir riscos de questionamentos.

Belline Santana aparece na investigação como interlocutor frequente do banqueiro em temas relacionados à supervisão bancária. Segundo o despacho do ministro Mendonça, ele prestava consultoria estratégica ao controlador do Banco Master, discutia cenários regulatórios, avaliava documentos e participava de decisões relacionadas à atuação do banco perante o órgão supervisor. Em algumas ocasiões, solicitou que determinados assuntos fossem tratados por telefone, evitando registros escritos das conversas.

Mensagens identificadas pela Polícia Federal reforçam a suspeita de pagamento pelos serviços prestados. Em um diálogo de aplicativo, Fabiano Zettel pergunta a Daniel Vorcaro sobre o pagamento relacionado a Belline. Em outra mensagem, insiste: "Belline cobrando. Paga?". O banqueiro responde: "Claro". Para os investigadores, a troca de mensagens indica que havia remuneração vinculada à atuação do servidor em benefício do banco. Belline é considerado um dos especialistas mais experientes do órgão em fiscalização bancária. Técnico de carreira, Paulo Sérgio Souza chegou ao cargo de diretor de Fiscalização em 2017.

O Banco Central, em nota oficial, informou que detectou sinais de percepção de vantagens indevidas durante uma revisão interna dos processos relacionados ao Banco Master. Diante dos indícios, os dois servidores foram afastados de suas funções e tiveram acesso aos sistemas da autarquia suspenso, enquanto a Polícia Federal foi comunicada. O caso Master já estressou a relação entre o sistema financeiro, o governo e o Supremo Tribunal Federal, diante da magnitude das suspeitas de fraude e das disputas sobre o acesso a informações sigilosas da investigação. A inclusão de dois servidores da própria autoridade monetária no inquérito amplia o alcance institucional do problema.

O envolvimento dos dois funcionários cria grande constrangimento e abala a credibilidade do Banco Central. Porém, segundo especialistas, não coloca em xeque o sistema financeiro. Nos bastidores de Brasília, a grande preocupação mesmo é uma eventual delação premiada de Vorcaro, diante das evidências de seu envolvimento com políticos e ministros do STF. O banqueiro foi transferido da Polícia Federal para o Centro de Detenção Provisória de Guarulhos (CDPG), um presídio comum. Dificilmente terá a prisão relaxada.

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AUTORIDADES COM FORO E CHANCE DE DELAÇÃO

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Novo capítulo do caso Master promete chacoalhar a política em ano eleitoral

Anova fase das investigações sobre as fraudes do Banco Master promete chacoalhar a política em ano eleitoral. Pessoas com acesso ao caso, que está sob sigilo, atestam que a apuração chegou a mais de uma autoridade com direito a foro especial no Supremo Tribunal Federal (STF). Diante da amplitude das descobertas, investigadores não descartam que suspeitos tentem fechar acordos de delação premiada.

A legislação sobre a colaboração premiada impede o líder de uma organização criminosa de fechar acordo. No entanto, investigadores colocam em dúvida que Daniel Vorcaro tenha essa posição no esquema do Master. Portanto, deixam em aberto a possibilidade de serem procurados pela defesa do banqueiro.

A informação de que a apuração chegou a autoridades com foro leva a algumas conclusões. A primeira é que o inquérito ficará sob a condução do Supremo provavelmente até o caso ser encerrado. A segunda é que as investigações devem elevar a temperatura em Brasília até as eleições de outubro, com probabilidade de uso político do caso nas campanhas.

Desde que assumiu o inquérito, no mês passado, André Mendonça imprimiu um estilo diferente do adotado pelo relator anterior, Dias Toffoli. Mendonça garantiu autonomia para a Polícia Federal e para o Coaf no curso das apurações – o que, na visão dos investigadores, possibilitou avanço nas descobertas.

Pessoas com acesso ao caso apostam que novas prisões serão determinadas. A possibilidade de exploração política do escândalo não deve interferir nas medidas a serem adotadas. Ou seja: se uma prisão for considerada importante para o bom andamento do caso, ela deverá ser determinada – ainda que as campanhas já estejam nas ruas.

Mendonça conseguirá mapear o tamanho do apoio interno com o qual pode contar para dar os próximos passos na próxima semana, quando a Segunda Turma do STF vai decidir se mantém ou não as medidas determinadas ontem – entre elas, a prisão de Vorcaro.

Será a primeira vez que Toffoli se manifestará publicamente sobre o assunto desde que deixou a relatoria do caso Banco Master. O mais provável é que Mendonça contabilize ao menos três votos a favor das medidas – além do próprio voto, os de Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Dias Toffoli e Gilmar Mendes podem apresentar algum tipo de divergência.

Discreto, Mendonça preferiu pautar o julgamento para o plenário virtual em vez de encaminhar para o plenário físico. Evita, assim, que eventuais discussões acaloradas entre os ministros sejam transmitidas pela TV Justiça.

 

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O CINEMA REVELA JEFFREY EPSTEIN

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

A sétima arte tem algo a dizer sobre como os endinheirados e poderosos misturam lascívia, fortuna, vício e desmandos para selar as alianças dos de cima contra os de baixo

Os tufos de fumaça no céu de Teerã escondem as assombrações que atormentam o mandato de Donald Trump. As bombas roubam as manchetes enquanto a queda de popularidade do presidente dos Estados Unidos perde destaque. A iminente subida da inflação sai de fininho do noticiário. De modo providencial, vai se desmanchando no ar o caso Epstein, este megaescândalo de exploração sexual de adolescentes, tráfico de influência internacional e corrupção de muitos matizes.

Há dois dias, o secretário de Comércio dos Estados Unidos, Howard Lutnick, concordou em prestar depoimento para a comissão do Congresso encarregada de averiguar as relações entre figuras públicas e o financista Jeffrey Epstein (criminoso sexual condenado, que morreu na cadeia em 2019, cumprindo pena). A notícia sobre Lutnick não teve repercussão, mas deveria. A investigação tem potencial para revelar algumas das tramas íntimas que procuram enlaçar a Casa Branca. Hillary Clinton já deu seu depoimento. Bill Clinton também. Trump vai ter de depor? Não se sabe.

Só o que se sabe é que a guerra ateia fogo no Oriente Médio, ao passo que o caso Epstein se esfumaça. Pode ser que as perguntas se percam. Se esse for o desfecho, Jeffrey Epstein, depois de morto, terá encontrado seu descanso eterno e poderá passear livremente, sem mais importunações póstumas. Desocupado, poderá até ir ao cinema durante a tarde.

Ou, melhor ainda, o cinema poderá ir até Jeffrey Epstein. Mais do que ir até ele, poderá nos explicar o lugar que esse nome ocupa na cultura burguesa. De verdade. A chamada sétima arte tem algo a dizer sobre como os endinheirados e poderosos – quase sempre homens – misturam lascívia, fortuna, vício e desmandos para selar as alianças dos de cima contra os de baixo.

A lista de filmes daria uma fila grande, dessas de dobrar a esquina. Vou ficar aqui em apenas dois – esses dois valem por muitos. O primeiro deles é De olhos bem fechados (1999), de Stanley Kubrick. Baseado no livro Breve romance de sonho ( Traumnovelle), de 1926, escrito por Arthur Schnitzler, a discreta obra-prima retrata o espanto do jovem médico Bill Harford ao conhecer por dentro os hábitos lúbricos da alta classe. Em inebriante ascensão social, atendendo pacientes da elite nova-iorquina, o Dr. Harford (Tom Cruise) vê as portas dos mais elegantes salões da cidade se abrirem ao seu desfrute. As coisas pioram quando ele despenca num festim dionisíaco em que moças esbeltas copulam com rapazes vigorosos diante de uma plateia de grã-finos. Todo mundo de máscara. O médico descobre: é aquilo que a nata da sociedade faz para se divertir quando vai alta a madrugada. Ele descobre também que as moças, pobres moças, tão bonitas, são prostitutas recrutadas e descartadas como serviçais desprezíveis. Suas vidas não valem um único centavo. O Dr. Harford entra em pane existencial.

De olhos bem fechados expõe os rituais de espoliação dos corpos, durante os quais os senhores sorvem, como vampiros gulosos, a vitalidade de servas alienadas. No livro original, que se passa na Viena de cem anos atrás, o itinerário é o mesmo – só a conformação das classes sociais muda um pouquinho. O que não importa; o que conta é que, no livro ou no filme, tanto faz, o imbroglio chamado Epstein já se deixava entrever. Com nitidez.

Agora, o segundo filme. Se você suportar uma dose maior de escatologia, convém dar uma olhada em Calígula ( 1979). Há uma nova montagem, menos suja, disponível na Netflix. Produzido por Bob Guccione, o magnata da revista Penthouse, inteiramente dedicada à pornografia chique, Calígula reedita as bacanais opulentas do louco que fez de seu cavalo, Incitatus, um senador de Roma. Aqui, não interessa tanto a biografia do imperador (interpretado por Malcolm McDowell), mas o modo como o olhar da Nova York embotada de dólares enxergou essa figura desmiolada e perversa. O modo de ver nos diz tudo sobre quem vê. E, para quem vê, o poder se realiza somente quando passa a deglutir a libido do outro, somente quando reduz aquele corpo a um brinquedo descartável ou a uma peça decorativa anônima. O arbítrio se reproduz à medida que sacrifica em seu altar os sonhos e os destinos dos seviciados. Epstein na veia.

Li O Manifesto Comunista pela primeira vez há 50 anos. “Nossos burgueses, não contentes em ter à sua disposição as mulheres e as filhas dos proletários, sem falar da prostituição oficial, têm singular prazer em cornearem-se uns aos outros. O casamento burguês é, na verdade, um regime de propriedade comunal das esposas.” Na época, eu me diverti com a ideia de que os burgueses, ao menos segundo Marx e Engels, tinham deleites adúlteros. Eu ria. Pelo menos, não eram assim tão sérios.

Acontece que eu estava errado nas minhas primeiras impressões sardônicas. No mundo de Jeffrey Epstein, aquilo que Raul Seixas dizia venerar acima de tudo, “a beleza de deitar”, não vira comédia de costumes: vira, isto sim, um comércio de detritos humanos. O poder produz prazer pelo gesto de impor humilhação aos indefesos. O Marquês de Sade, o libertino do Iluminismo, é o padroeiro do caso que Trump prefere abafar.

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VORCARO, PARCEIRO DO BOLSONARISMO

Henrique Rodrigues, Fórum

Incluindo Nikolas, Vorcaro tinha 18 deputados e ex-deputados em seu celular; todos bolsonaristas

Maioria é do PL. Fórum confirmou que há ainda parlamentares do PP, Republicanos, PSD, Novo, União Brasil e PSDB. Nenhum nome do PT ou de partidos governistas foi encontrado. Veja a lista

Os ânimos estão à flor da pele e Brasília ferveu nesta quarta-feira (4) após a Polícia Federal cumprir mandados de prisão contra o ex-dono do Banco MasterDaniel Vorcaro, e seu sócio e cunhado, Fabiano Zettel. A ordem partiu do ministro do STF André Mendonça motivada por uma descoberta estarrecedora: o grupo estaria planejando ataques físicos e atos de violência extrema, que poderiam incluir agressões ou até assassinatos, contra desafetos e jornalistas, entre eles Lauro Jardim, do jornal O Globo.

Mas a histeria tomou conta mesmo do ambiente com as primeiras revelações do que foi extraído do iPhone 17 de Vorcaro, apreendido numa operação anterior. O aparelho, identificado por investigadores como o número “comercial” do banqueiro, mostrou uma agenda que funciona como um verdadeiro mapa do poder bolsonarista na Câmara dos Deputados. A Fórum confirmou com uma fonte ligada à CPMI do INSS os dados que vinham ventilados desde as primeiras horas da manhã por internautas. São, de fato, 18 nomes de parlamentares e ex-parlamentares encontrados no dispositivo, todos ligados à direita e à extrema direita, e por consequência, ao bolsonarismo. Não há um único registro de integrantes do PT, PCdoB, PSB ou de qualquer legenda da base governista.

A análise partidária dos 18 nomes revela o DNA bolsonarista da agenda de Vorcaro: o PL lidera com 5 representantes, seguido pelo PP com 4, o PSD com 3, enquanto Republicanos e Novo aparecem com 2 cada, e as legendas União Brasil e PSDB fecham a relação com 1 nome cada.

A lista dos 18: O núcleo duro do celular de Vorcaro

Abaixo, os nomes encontrados na agenda institucional do banqueiro preso, que incluem desde o atual presidente da Câmara até figuras centrais da atual oposição:

Aguinaldo Ribeiro (PP-PB) – Deputado federal

Altineu Côrtes (PL-RJ) – Deputado federal

Arthur Lira (PP-AL) – Deputado federal (ex-pres. da Câmara)

Bilac Pinto (União Brasil-MG) – Ex-deputado federal

Diego Coronel (PSD-BA) – Deputado federal

Doutor Luizinho (PP-RJ) – Deputado federal

Fábio Mitidieri (PSD-SE) – Ex-deputado federal

Fausto Pinato (PP-SP) – Deputado federal

Flávia Arruda (PL-DF) – Ex-deputada federal

Hugo Motta (Republicanos-PB) – Deputado federal (atual pres. da Câmara)

João Carlos Bacelar (PL-BA) – Deputado federal

Lucas Gonzalez (Novo-MG) – Ex-deputado federal

Marcelo Álvaro Antônio (PL-MG) – Deputado federal

Márcio Marinho (Republicanos-BA) – Deputado federal

Nikolas Ferreira (PL-MG) – Deputado federal

Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG) – Deputado federal

Rodrigo Maia (PSD-RJ) – Ex-deputado federal (ex-pres. da Câmara)

Vinicius Poit (Novo-SP) – Ex-deputado federal

O moralista Nikolas, do jatinho de campanha, está lá

O nome de Nikolas Ferreira (PL-MG) salta aos olhos na lista do celular de Vorcaro não apenas pela sua postura de paladino da moralidade nas redes, mas pela reincidência. A presença do deputado mineiro na agenda ocorre apenas 24 horas após vir a público que Nikolas utilizou o jatinho privado do banqueiro durante a campanha de 2022.

Enquanto discursava para as bases bolsonaristas, o parlamentar cruzava o céu em uma aeronave cedida pelo bilionário agora preso por planejar atentados a jornalistas. O uso do jatinho em agendas vinculadas à reeleição de Jair Bolsonaro (PL) já havia inserido o banqueiro no radar político-eleitoral, mas a lista do iPhone 17 mostra que a conexão era direta e catalogada.

A tentativa frustrada de “terceirizar” o escândalo

Desde que as irregularidades envolvendo o Banco Master e Vorcaro começaram a emergir, parlamentares bolsonaristas tentaram criar uma cortina de fumaça, buscando empurrar o escândalo para o colo do governo Lula (PT). No entanto, os fatos são teimosos.

As investigações mostram que o trânsito de Vorcaro era exclusivamente dentro do campo da direita e extrema direita. O fato de o aparelho “comercial” concentrar figuras como o atual presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e seu antecessor, Arthur Lira (PP-AL), reforça que o banqueiro mantinha uma rede de interlocução institucional de altíssimo nível, mas estritamente restrita a um espectro político.

A ausência de qualquer nome de esquerda ou centro-esquerda na lista desmonta a narrativa de “escândalo generalizado” e isola o caso como um imbróglio que nasce e se cria dentro dos gabinetes mais próximos ao ex-presidente Jair Bolsonaro.

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MENDONÇA EXPÕE O QUE TOFFOLI PARECIA QUERER OCULTAR

Julia Duailibi, O Globo

Dono do Master tinha o poder no bolso. A decisão do STF que veio a público ontem não revela ainda quem é o ‘alto escalão da República’

O que Dias Toffoli parecia se esforçar para manter longe da luz do dia foi escancarado por André Mendonça em poucas semanas. Daniel Vorcaro formou uma milícia, segundo as palavras do próprio ministro, composta por “profissionais do crime” que atuaram de forma coordenada para captar “servidores públicos dos mais altos escalões da República”. Leia-se: Vorcaro tinha o poder no bolso. A decisão do STF que veio a público ontem, no entanto, não revela ainda quem é esse “alto escalão da República”. Concentra-se no segundo escalão, como os servidores do BC.

Ao assumir o caso, Mendonça deu autonomia para a Polícia Federal (PF) atuar e a blindou de influência do Planalto determinando que a direção não deveria ter acesso à investigação. Colocou a apuração nos trilhos, e parte do resultado veio a público ontem, com a revelação do modus operandi da máfia de Vorcaro. Saem os punhos de renda nas relações com o poder e entra o soco-inglês da gangue. A PF, com base no celular de Vorcaro, descreve o “braço armado” do bando e as ilegalidades promovidas pelo que os próprios criminosos chamavam de “A Turma”. Vorcaro surbonava, fraudava documentos e monitorava alvos ilegalmente. Mandava “moer vagabunda”, dar “sacode” e “pau” em desafeto, seguir e “quebrar todos os dentes” de jornalista, como se referiu a Lauro Jardim, do GLOBO. Don Vorcaro tinha capanga para cometer seus desvios e intimidar pessoas pelo caminho. Seu Peter Clemenza era Phillipi Mourão, chamado de “Sicário”, que ontem, segundo a PF, atentou contra a própria vida após a prisão.

Esse “núcleo de intimidação da organização” conseguiu acessar informações sigilosas da própria PF, do MPF, da Interpol e do FBI, provavelmente corrompendo servidores pelo caminho. O capítulo do Banco Central mostra isso. Vorcaro tinha no bolso, segundo a PF, Belline Santana, chefe do Departamento de Supervisão Bancária, e Paulo Sérgio de Souza, o chefe-adjunto, responsáveis, em tese, por manter o Master nas rédeas. Mas, na verdade, eles é que foram domados pelo banco:

— Hoje tem de pagar a primeira do Belline, ok? — diz o cunhado Fabiano Zettel a Vorcaro.

Essa frente da investigação escancarou a passividade do BC durante anos com o Master. Somente depois do avanço do trabalho da polícia, o BC abriu uma sindicância, aos 45 minutos do segundo tempo, para tentar pegar carona nas apurações. Àquela altura, a polícia já tinha tudo nas mãos com a quebra dos celulares.

O sinal verde dado por Mendonça às investigações criou um fosso na comparação com a condução por Toffoli. As informações que vieram a público são importantes, mas são um aperitivo do que há nos celulares de Vorcaro e seu bando. O jornalismo profissional, na contramão dos influenciadores pagos pelo Master, revelou os fatos: as relações de Vorcaro com a elite do Legislativo e do Judiciário, por meio de contratos com escritório de parente de ministro, compra de participação em resort da empresa de outro e atuação da bancada Master no Congresso.

Vorcaro atuou anos sem ser incomodado. Tinha a República no bolso. A delinquência dele e de seu braço armado foi escancarada. Mas a investigação da PF não pode parar aí. A ver se haverá gente com foro. Em tese, tem mais por vir.

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COM NOVA PRISÃO, VORCARO NÃO TERÁ ALTERNATVA SENÃO PARTIR PARA DELAÇÃO

Malu Gaspar, O Globo

Se ainda havia qualquer dúvida sobre o risco que Daniel Vorcaro e seu celular-bomba representam para o establishment político brasileiro, foi sepultada ontem, com as revelações contidas na decisão do ministro do Supremo Tribunal Federal (STFAndré Mendonça que ordenou nova prisão do banqueiro e de três cúmplices, entre eles um ex-policial federal e um estelionatário com larga experiência em crimes de todo tipo.

Os parcos diálogos que já vieram à tona revelam que Vorcaro pensava e operava na lógica da Máfia. Quem não seguisse sua cartilha, fosse uma funcionária, um jornalista ou um concorrente, estava fadado a sofrer represálias.

Como todo mafioso, Vorcaro tinha um capanga, apropriadamente apelidado “Sicário” — assassino de aluguel, na definição do Houaiss —, remunerado com R$ 1 milhão mensais para atender a todos os desejos do chefe. E, assim como sua conta bancária, também não tinha limites. As mensagens que trocava com Sicário deixam claro que, se considerasse necessário, ele não se acanharia em “moer” uma “empregada” que o ameaçava e, por tabela, dar um “sacode” no chefe de cozinha que o servia.

Em junho de 2025, quando o jornalista Lauro Jardim publicou uma nota contando que o Banco Central (BC) havia descoberto irregularidades na venda de ativos do Master ao BRB, ele se descontrolou: “Esse Lauro quero mandar dar um pau nele. Quebrar todos os dentes. Num assalto”.

Seguindo o manual das máfias, o dono do Banco Master comprou quem pôde no aparato repressivo e regulatório, dos escrivães da PF — como seu “assessor” Marilson Roseno, preso ontem — aos chefes de supervisão do Banco Central Paulo Sérgio Souza e Belline Santana. De acordo com a investigação, os dois o avisavam dos movimentos internos do BC, revisavam seus documentos e orientavam sobre o que dizer nas reuniões com a autarquia.

Mafiosamente, o dono do Master ainda mandou invadir os sistemas internos da Polícia Federal (PF) e do Ministério Público Federal, por onde se informava quase em tempo real sobre o avanço das investigações sigilosas a seu respeito. E, para “esquentar” as informações traficadas ou promover campanhas difamatórias contra os adversários, tinha no bolso seus próprios jornalistas, a quem também pagava regularmente para divulgar notícias de seu interesse.

Todos esses detalhes descritos na decisão de Mendonça e na representação ainda sigilosa da PF jogam luz sobre uma parte da engrenagem de Vorcaro. Contudo, por mais brutal que seja o quadro já conhecido, ainda há uma ampla zona de sombra por iluminar.

Nessa penumbra estão os reais objetivos do contrato de R$ 130 milhões que ele firmou com a mulher do ministro Alexandre de Moraes; ou o que os R$ 35 milhões pagos por uma fatia do resort do ministro Dias Toffoli de fato remuneravam; a verdadeira natureza dos serviços prestados pelos ex-ministros de Lula Guido Mantega e Ricardo Lewandowski; os mecanismos pelos quais seu banco obteve acesso a quase R$ 2 bilhões dos fundos de pensão estaduais e municipais, atropelando as regras mais básicas da gestão de risco.

Falta saber, ainda, quantas e quais autoridades viajaram pelo Brasil e pelo mundo em seus aviões, beberam de seus uísques caros, desfrutaram os préstimos de garotas de programa internacionais e receberam dinheiro disfarçado de consultoria jurídica ou patrocínio para eventos. E, não menos importante, por que tanta gente se fez de cega, surda e muda no mercado financeiro, dos burocratas da Comissão de Valores Mobiliários (CVM) aos operadores da Faria Lima que empurraram os títulos do Master a clientes incautos como se fossem ótimos negócios.

Tantas pontas soltas só comprovam que aquilo que veio à tona até agora é apenas um aperitivo do que ainda há a desvendar. A boa notícia — ou má, a depender do interesse do freguês — é que os mafiosos só se mantêm calados enquanto estiverem protegidos. Quando vestiu o uniforme de interno do sistema penitenciário paulista, ontem, Vorcaro certamente compreendeu que os escudos usados no passado haviam se tornado definitivamente inúteis.

Desta vez, não há juízes, senadores, deputados ou ministros a quem ele possa recorrer. Se quiser voltar para casa ou ao menos aliviar sua situação, ele terá de negociar o único ativo que lhe resta: seus segredos. Sua única alternativa é romper a própria lei do silêncio e jogar a omertà no lixo. As lições da História mostram, porém, que precisará agir rápido, antes que outros corram na frente e entreguem seu esquema aos pedaços. É assim que as máfias acabam, e com Vorcaro não será diferente.

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MAFIOSOS EM AÇÃO

Merval Pereira, O Globo

A CPI do Banco Master não será aberta porque há interesse suprapartidário para que ela não exista

Entramos no campo da atividade mafiosa a partir dos diálogos e confirmações de que Daniel Vorcaro não era apenas um audacioso investidor financeiro que levou seu Banco Master a um esquema de pirâmide que lesou milhares de investidores e fundos públicos. Vorcaro era mais que um trambiqueiro de colarinho branco; era um bandido que montou uma quadrilha de delinquentes para ameaçar e desestruturar qualquer um que viesse a denunciar suas atividades criminosas. Podia ser uma empregada doméstica que ouviu mais do que devia ou o cozinheiro que ele imaginava ter gravado uma conversa indevida. Uma clara ação mafiosa, cujo braço armado tinha o sugestivo codinome de “Sicário”.

O avanço das investigações demonstra também que o ministro Dias Toffoli tinha todo o interesse em controlar as investigações e atrasar o trabalho da Polícia Federal (PF). Existem cerca de cem celulares de Vorcaro e seus interlocutores que ainda nem foram investigados pela PF porque ela temia que qualquer avanço pudesse ser anulado por decisão de Toffoli — como sabemos agora, ele havia criado um clima de suspeição sobre a PF justamente para constranger suas ações.

Outro detalhe interessante: ao descobrir que Vorcaro tinha um grupo de WhatsApp chamado “A Turma”, em que dava ordens para crimes, ele poderia ser enquadrado na CPI do Crime Organizado, porque estava organizado para cometer qualquer tipo de crime — financeiro, agressão, ataques etc. Certamente o senador Alessandro Vieira (MDB-SE) tentará essa brecha para insistir na quebra de sigilo bancário da Maridt, sociedade dos irmãos Toffoli, que vendeu o resort Tayayá a um fundo ligado a Vorcaro por cerca de R$ 35 milhões.

Dificilmente, porém, essa providência seria bem-sucedida, pois há uma tendência no Supremo Tribunal Federal (STF) de evitar que as CPIs ampliem demais seu escopo. Todas as CPIs, segundo alegam, investigam crime organizado, como a do INSS, que tem uma investigação isolada. A CPI do Banco Master não será aberta porque há interesse suprapartidário para que ela não exista, já que são vários, de várias legendas partidárias, os envolvidos de uma maneira ou de outra com Vorcaro e seus tentáculos financeiros.

O episódio do deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), denunciado pela colunista do GLOBO Malu Gaspar, é exemplar desse envolvimento, mesmo que seja indireto. Cada vez que se abre a investigação, que há informações novas, as coisas vão ficando mais claras, e é isso que Toffoli tentou evitar o tempo todo. O ministro André Mendonça, que assumiu como relator em seu lugar, está disposto a enfrentar todos e ir adiante — até criticou o procurador-geral da República, que não viu premência para analisar o caso, embora estivesse claro nos autos que havia risco de vida envolvido, como no caso do jornalista Lauro Jardim, do GLOBO, contra quem era armado um falso assalto para “quebrar todos os seus dentes”.

Mendonça não quer e não fará estardalhaço com o resultado das investigações, mas está com o firme propósito de ir até o fim para esclarecer o caso. Ele tem as informações, por isso nem sabe onde tudo vai dar — sabe que não é só o que foi divulgado. Prevejo uma ação mais forte dele na sequência de investigações. A polícia já sabe, Mendonça sabe e Toffoli sabe, por isso tentou esconder. Ao fechar o cerco nas investigações, a PF abre a possibilidade de que Vorcaro venha a fazer delação premiada. À medida que os campos institucionais em que enterrou suas garras acabam — aliados ou funcionários federais em órgãos fundamentais como Banco Central ou Tribunal de Contas da União, deputados e senadores comprados pelo dinheiro criminoso, agora identificados —, ele vai perdendo a esperança de sair impune e pode querer levar mais gente junto.

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VORCARO, ENTRE A PRISÃO E A DELAÇÃO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Lei da delação beneficia quem está em baixo para pegar os de cima, mas Vorcaro atuava em todas as posições, sempre em sociedade

O temor de uma delação de Daniel Vorcaro é proporcional à convicção, na política, no Judiciário e no mercado, de que nem sempre o ex-banqueiro esteve no pico da pirâmide. Estivesse, teria dificuldade de se encaixar na lei da delação, que oferece o benefício aos de baixo para pegar os de cima. Os sócios que fez ao longo da empreitada querem que subordinados o delatem, mas Vorcaro também prestou serviços, no varejo e no atacado, em todas as posições. É este organograma o alvo.

Na decisão em que mandou Vorcaro e três de seus colaboradores para a prisão, o ministro André Mendonça revela que um deles, Luiz Phillipi Mourão, era conhecido por “sicário”, um cumpridor de ordens. Nos diálogos revelados pela decisão, porém, a despeito de dar ordens a seu sicário, que atentou contra a própria vida na quarta, Vorcaro age mais como operador do que como o “cérebro” da organização. É o ex-banqueiro, e não seu capanga, quem fala em quebrar os dentes do jornalista Lauro Jardim (O Globo) e “moer” sua própria empregada. É ele também quem troca mensagens com servidores do Banco Central e manda lhes pagar propina.

É Vorcaro quem opera a rede de cooptação no mercado de notícias que transformou, do dia para a noite, jornalistas talentosos em empresários com sinais de riqueza incomuns e patrocinou a investida contra reputações como a do ex-diretor do BC, Renato Gomes. Opositor da venda do Master para o BRB, Gomes teve sua reputação questionada na publicidade rotativa de um grande site de notícias exposta nos pontos de ônibus de Brasília.

O temor de uma delação vem do que ainda está para aparecer num inquérito que estava represado pelo ex-relator, o ministro Dias Toffoli. Como se deu a compra do Voiter, Will e Banif pelo Master? Como foram estruturadas as operações conjuntas nos fundos partilhados entre Vorcaro e Nelson Tanure? Qual a cadeia de beneficiários das propostas legislativas operadas por Vorcaro, da elevação da garantia de cobertura do FGC à inclusão do mercado de carbono entre os investimentos obrigatórios dos fundos de previdência?

A operação de busca e apreensão e a tornozeleira eletrônica de Paulo Souza e Bellini Santana, respectivamente ex-diretor de fiscalização e ex-chefe de supervisão, são o ponto de partida para se começar a entender o que aconteceu nas últimas décadas no BC - e no mercado - para que seus dirigentes tenham passado a temer a justiça não pelas liquidações feitas (Marka Fonte-Cindam), mas por aquela que tentaram evitar (Master).

É possível que algumas das dúvidas gerais da nação comecem a ser respondidas no dia 10, quando Vorcaro deporá na Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, ainda que os alvos, na ordem de prioridades, venham a ser seus sócios que, em outubro, enfrentarão os titulares desta comissão nas urnas.

As decisões, no Supremo Tribunal Federal, que visam a proibir a quebra de sigilo dessas comissões ameaçam ser tornadas inócuas pelo relator do caso Master na Corte. Na decisão desta quarta, por exemplo, Mendonça expôs os métodos de intimidação usados por Vorcaro, que não se distanciam daqueles das milícias e do crime organizado.

A decisão acabou por levar o relator da CPI do crime organizado, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), a anunciar recurso contra a decisão do ministro Gilmar Mendes que impediu a quebra de sigilo da Maridt, empresa da família do ministro Dias Toffoli. Como esta empresa recebeu recursos de Vorcaro, o principal fundamento da decisão, o de que a quebra de sigilo não guarda relação com o objeto da CPI, ruiu.

Se o circo do Congresso terá plateia garantida, o andamento do inquérito no STF também está assegurado. Na decisão desta quarta, Mendonça não se contentou em mostrar que Toffoli estava sentado em cima de um barril de crimes graves. Expôs também aqueles que estão sentados num banquinho ao lado, como o procurador-geral da República, Paulo Gonet. A PGR se opôs ao pedido de prisão preventiva da PF. O ministro poderia ter ignorado o parecer e seguido com a prisão, mas fez questão de expor - e lamentar - a decisão de Gonet. Não foi a primeira retranca do PGR nas investigações do Master. Ele rejeitou pedidos de suspeição de Toffoli para julgar o caso e também aquele sobre o contrato do escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro.

Desde a noite de 1º de fevereiro, quando o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu, depois do jogo Corinthians x Flamengo, um grupo restrito de togados no Palácio do Alvorada, a tensão com o STF só cresceu, alimentada, em grande parte, pelo relatório produzido pela PF sobre Toffoli. A decisão desta quarta confirma que é Mendonça, e não o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, quem está com o manche.

Sob seu comando, o inquérito mal começou a responder a uma das mais inquietantes dúvidas de toda a fraude: onde foram parar quase R$ 60 bi de rombo. A nota da PF fala no bloqueio, até agora, de R$ 22 bilhões, mas este valor parece corresponder à estimativa, inflada, das cotas dos fundos operados pelo Master. Em 2025, o banco informava R$ 21 bilhões em precatórios que, no mercado, não chegavam a valer R$ 1 bilhão. A decisão de Mendonça informa bloqueio efetivo de R$ 2,2 bilhões de Vorcaro. Seus credores - na política, no mercado e nos tribunais - vão pra cima na tentativa de pôr a mão no principal antes do relator.

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