sábado, 21 de fevereiro de 2026

CARNAVAL E ELEIÇÕES

Cláudio Couto, CartaCapital

De forma simpática ou crítica, políticos costumam ser retratados em sambas-enredo. A celeuma em torno da escolha da Acadêmicos de Niterói parece muito barulho por nada, causado por boas doses de moralismo

A semana de carnaval e aquelas que a antecedem costumam ser marcadas pela evidência de celebridades e subcelebridades na preparação e, depois, na efetiva participação em desfiles das escolas de samba do Rio de Janeiro e São Paulo. Destaques, rainhas de bateria e homenageados são retratados na cobertura da mídia. Alguns, por sinal, já são figurinhas carimbadas do evento momesco, pois, ano sim, ano também, se preparam diligentemente para a festa, tendo nela oportunidade para se manter visíveis e faturar durante o resto do ano. São festeiros profissionais.

De tempos em tempos, também surge um samba-enredo memorável, daqueles que, devido à sua qualidade musical, ultrapassam as atenções dos carnavalescos militantes e cativam também os que costumam passar alheios à festa. Em minha memória, nenhum soa mais fortemente do que Bum Bum Paticumbum ­Prugurundum, tema do Império Serrano no já longínquo ano de 1982.

Nesse período, a política nunca está ausente do noticiário. Por vezes, apenas devido à presença de algum político em camarotes, ou em decorrência de eventos pitorescos envolvendo mandatários. Foi esse o caso de Jair Bolsonaro em 2019, quando postou em seu Twitter uma pergunta: “O que é golden shower?”, aludindo a um episódio do carnaval paulistano, quando dois homens, dançando sobre um ponto de táxi, foram filmados, um urinando no outro. A devassidão escatológica e homoafetiva em público era um prato cheio para o reacionarismo moral homofóbico do então presidente. Um quarto de século antes, em 1993, foi o presidente Itamar Franco que ganhou destaque, aparecendo na Marquês de Sapucaí ao lado da modelo Lílian Ramos, fotografada sem calcinha.

Afora esses episódios grotescos, a política se faz presente também de forma direta, tematizada nos sambas-enredo das escolas. Em 1956, dois anos após o suicídio de Getúlio Vargas, a Mangueira homenageou o presidente na avenida. Durante os anos 1960, no período de chumbo da ditadura, havia a imposição de que os enredos tratassem da história do Brasil. Remetendo ao passado, geralmente de forma glorificada, ficaria mais difícil apontar as mazelas do presente. Ironizando tal situação, Sérgio Porto (mais conhecido como Stanislaw Ponte Preta), compôs o Samba do Crioulo Doido, que, antes de se tornar expressão popular, foi gravado em 1968 pelo Quarteto em Cy. A letra misturava fatos históricos de forma amalucada, ensejando a metáfora. Em 1975, a Beija-Flor de Nilópolis teve um infame samba-enredo enaltecendo a ditadura: O Grande Decênio. Um dos versos dizia: E o Beija-Flor vem exaltar, com galhardia o grande decênio, do nosso Brasil que segue avante, pelo céu, mar e terra.

De lá para cá, muitos políticos foram homenageados. Alguns deles, como Juscelino Kubitschek, tema da Mangueira em 1981 e da Beija-Flor em 2010 (numa homenagem a Brasília), já estavam mortos. Outros, contudo, bem vivos. Foi o caso de Anthony Garotinho, homenageado pela Independentes de Cordovil em 1994 com o enredo O Garotinho de Campos Vem Aí… Sacudindo a Sapucaí. Naquele mesmo ano, ele disputou o governo do Rio de Janeiro, perdendo no segundo turno para o tucano Marcello Alencar. Não consta que tenha tido problemas com a Justiça Eleitoral à época.

A Gaviões da Fiel, escola da maior torcida organizada do Corinthians, homenageou Lula em 2012 com o samba-enredo Verás Que o Filho Fiel Não Foge À Luta – Lula o Retrato de Uma Nação. O corintiano Lula, à época, se tratava de um câncer e não pôde comparecer à homenagem. Nove anos antes, a Beija-Flor teve um enredo sobre o combate à fome e Lula, ainda na Presidência, foi enaltecido num carro alegórico na forma de um grande boneco.

Ocasionalmente, em vez de exaltados, políticos são detratados. Foi assim com Michel Temer em 2018, ano de eleição presidencial, quando encerrava seu mandato, abdicando de tentar se reeleger, tamanha a sua rejeição. A Paraíso do Tuiuti retratou o chefe de Estado como um vampiro, causando grande polêmica. Em 2022, outro ano eleitoral, a escola de samba paulistana Rosas de Ouro mostrou Bolsonaro se transformando num jacaré após ser vacinado.

Nesse contexto histórico se inscreve o enredo da Acadêmicos de Niterói, Do Alto do Mulungu Surge a Esperança: Lula, o Operário do Brasil. A antes pouco conhecida escola da antiga capital fluminense não inovou. O que parece ter mudado são os parâmetros com os quais se analisa o caso. É muito barulho por nada, causado por boas doses de moralismo e oportunismo eleitoral. •

Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.

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LULA E OS RISCOS DO CARNAVAL

Juliana Diniz, O Povo

Vítima de uma vaidade juvenil, Lula contribuiu para um fato com pouco potencial de dano jurídico imediato, mas imensos efeitos colaterais em termos de mobilização da oposição e aprofundamento da antipatia de um público que precisa conquistar

É difícil encontrar boas razões para o apoio de Lula ao desfile em sua homenagem promovido pela escola de samba Acadêmicos de Niterói. Vítima de uma vaidade juvenil, o presidente contribuiu para um fato com pouco potencial de dano jurídico imediato, mas com imensos efeitos colaterais em termos de mobilização da oposição, produção de ruído político e aprofundamento da antipatia de um público que Lula precisa conquistar.

Vejamos, em alguns pontos, os desacertos do episódio, a começar pelo que toca ao Direito Eleitoral. Seus opositores levaram o assunto à Justiça, na intenção de impedir a realização do desfile por considerá-lo propaganda eleitoral antecipada. A tese não foi acatada, e o desfile foi apresentado sem intercorrências. A simples judicialização do tema, contudo, já deveria acender um alerta.

Num cenário de extrema disputa política, com instituições tão permeáveis aos humores do momento e à captura da própria polarização, não convém abrir um flanco que poderá ser explorado futuramente em cenários de fragilidade. É um risco alto demais para um ganho tão diminuto. Não vale a pena.

Os impactos maiores se dão em outro campo: na comunicação com a sociedade. Um desfile de escola de samba é uma grande história encenada, dançada, cantada. Há uma narrativa que se exibe na evolução da avenida, uma visão de mundo, valores, símbolos que fundam seu poder justamente na capacidade de tocar o imaginário social compartilhado e ativar emoções muito profundas. Nenhum desfile de carnaval é, por isso, neutro do ponto de vista dos valores, ele representa escolhas, um certo olhar sobre o mundo e sobre a cultura.

Na história contada pela Acadêmicos do Niterói, acompanhamos Lula desde a sua infância no sertão, e episódios da sua biografia tumultuada e única, revivemos o impeachment de Dilma Rousseff, e encontramos um Michel Temer que arranca a faixa presidencial para entregá-la a Jair Bolsonaro. O ex-presidente ressurgirá, adiante no cortejo, representado em uma grande figura encarcerada, com as feições de palhaço/vilão. Entre as alas, a família enlatada indica o apoio dos setores conservadores e evangélicos da sociedade ao grupo político antagonista a Lula.

Entre os conservadores, o efeito negativo da crítica à hipocrisia do moralismo cristão caiu, como era de se esperar, na conta de Lula, revertendo meses de trabalho custoso de aproximação. Como produção artística, a família enlatada foi uma bela ala carnavalesca, porque sintetizou numa imagem todo um discurso.

Como fato eleitoral, o desfile foi um erro evitável, e seus conselheiros mais leais já haviam sinalizado. Em uma eleição que será decidida voto a voto, a alegria de carnaval tem um custo alto demais para valer o risco.

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RISCO SISTÊMICO VS. FRAUDE

Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, CartaCapital

O elo entre dinheiro e ganância sustenta a relação especulação e alavancagem e a fraude é só uma extensão

Os escribas deste artigo tiveram a oportunidade de conhecer e entrevistar Karl Marx, colunista do New York Daily Tribune. Marx denunciou o escândalo financeiro que abalou os súditos de sua majestade britânica em 1856.

O Banco Master? Não, o Royal ­British Bank.

Aqui vamos transcrever partes da conversa com o colunista Karl Marx:

Nós: O senhor considera como um fato novo a fraude ocorrida no Royal ­British Bank?

Marx: O que distingue o período atual de especulação na Europa é a universalidade da febre. Já houve manias de jogos de azar antes das manias do milho, das ferrovias, da mineração, dos bancos, da fiação de algodão… embora todos os ramos da atividade industrial e comercial tenham sido afetados, uma mania principal conferiu a cada época seu tom e caráter distintos. Com todos os setores invadidos pelo espírito da especulação, cada especulador ainda se limitava ao seu próprio setor.

Nós: No seu entendimento, houve algo de novo no sistema?

Marx: Ao contrário, o princípio fundamental no Crédit Mobilier, representante da atual mania, não é especular em uma linha específica, mas sim especular na especulação, e universalizar a fraude na mesma medida em que a centraliza.

Nós: Vamos insistir para que o nosso leitor entenda. Por que os experts não conseguem explicar a crise do Crédit Mobilier?

Marx: Para que um grupo de diretores consuma o capital de uma empresa, enquanto anima os acionistas com altos dividendos e seduz depositantes e novos acionistas com demonstrações financeiras fraudulentas, não é necessário muito requinte. Basta a lei inglesa… Todos os anos, desde que o banco iniciou suas operações, acumulava um prejuízo de 50 mil libras e mesmo assim os diretores vinham anualmente parabenizar os acionistas pela prosperidade.

Dividendos de 6% eram pagos trimestralmente, embora, segundo declaração do contador oficial, Sr. ­Coleman, os acionistas jamais tenham sido pagos trimestralmente…

Quando o banco estava completamente insolvente, novas ações foram emitidas, em meio a relatórios otimistas sobre seu progresso e voto de confiança aos diretores. Essa emissão de novas ações não foi, de forma alguma, concebida como uma medida desesperada para aliviar a situação do banco, mas, simplesmente, para fornecer material para fraudes da diretoria. Embora uma das regras do estatuto social proibisse o banco de negociar suas próprias ações, parece ter sido prática constante onerá-lo, a título de garantia, com suas próprias ações sempre que estas se desvalorizavam nas mãos dos diretores.

Nós: O senhor tem conhecimento de envolvimento de altos funcionários do banco e o uso do que chamamos hoje de “laranjas”?

Marx: Havia dois grupos de diretores: um que se contentava em embolsar seu salário de 10 mil libras por ano sem saber nada sobre os negócios do banco e, assim, manter a consciência tranquila; e outro que se preocupava com a verdadeira direção do banco, mas que se tornava seu primeiro cliente, ou melhor, seu saqueador. Esse último grupo, dependendo do gerente, começava por deixar o gerente se acomodar sozinho. Além do gerente, eles também tinham de manter em segredo o auditor e o advogado da empresa, que, consequentemente, recebiam subornos em adiantamentos. Além dos adiantamentos feitos a si mesmos e a seus familiares em seus próprios nomes, os diretores e o gerente passaram a nomear vários laranjas, em nome dos quais embolsaram novos adiantamentos. O capital integralizado totaliza agora 150 mil libras, das quais 121,84 mil foram absorvidas direta e indiretamente pelos diretores. O fundador da empresa, Sr. McGregor, membro do Parlamento por Glasgow e renomado escritor de estatísticas, deixou um empréstimo de 7.362 libras para a empresa; outro diretor e membro do Parlamento, Sr. ­Humphrey Brown, de Tewkesbury, que utilizou o banco para pagar suas despesas de campanha eleitoral, chegou a ter um débito de 70 mil libras com a instituição e parece ainda estar devendo 50 mil. O Sr. Cameron­, o gerente, recebeu adiantamentos no valor de 30 mil. Não deveriam ter recebido dividendos. No verão passado, houve demonstrações contábeis fraudulentas no valor de mais de 370 mil libras.

Todos os anos, desde que o banco iniciou suas operações, acumulava um prejuízo de 50 mil libras, e mesmo assim os diretores vinham anualmente parabenizar os acionistas pela prosperidade.

Nós: Houve algum tipo de triangulação com setores da indústria inglesa? Há indícios claros de que se trata de “lavagem de dinheiro”?

Marx: Uma das transações mais extraordinárias e características do Royal British­ Bank foi sua ligação com uma siderúrgica galesa. Na época em que o capital integralizado da Companhia era de apenas 50 mil libras, os adiantamentos feitos somente a essa siderúrgica totalizaram 70 mil a 80 mil. Quando a Companhia tomou posse dessa siderúrgica, ela estava inviável.

Experts insistem que o mercado financeiro e a especulação não têm efeito no mundo produtivo real

Após se tornar viável com um investimento de cerca de 50 mil libras, a propriedade ficou nas mãos de um Sr. Clarke­, que, depois de explorá-la “por algum tempo”, a devolveu ao banco, “expressando sua convicção de que estava desperdiçando uma grande fortuna”, deixando, no entanto, o banco com uma dívida adicional de 20 mil libras referente à “propriedade”. Assim, essa empresa saía das mãos do banco sempre que havia perspectivas de lucro e retornava ao banco quando novos adiantamentos eram necessários. Essa brincadeira de mau gosto que os diretores tentavam levar adiante até o último momento de sua confissão, ainda exaltando a capacidade lucrativa das instalações, que, segundo eles, poderiam render 16 mil libras por ano, esquecendo-se de que custaram aos acionistas 17.742 libras durante cada ano de existência da empresa. Os negócios da empresa serão agora liquidados no Tribunal da Chancelaria. Muito antes que isso possa ser feito, porém, todas as aventuras do Royal British­ Bank terão sido afogadas no dilúvio da crise europeia generalizada.

Nunca é um caso isolado, como a economia das expectativas racionais brada aos sete ventos. “Racional” na economia monetária-financeira capitalista é a ganância. Há quase uma correlação perfeita entre dinheiro e ganância: são estes os “fundamentos” que sustentam a relação entre especulação e alavancagem. A fraude é só uma extensão.

Nossos experts da ciência triste, a economia, insistem que o mercado financeiro e a especulação seriam uma espécie de tumor do sistema, um planeta distante na galáxia. Não teria importância nem qualquer efeito no dia a dia do mundo produtivo real da dita “economia racional”.

Outros Masters virão, previsão mais que certa! 

Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.

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SEU VOTO PARA O CONGRESSO NACIONAL VALE OURO

Marcus Pestana, Congresso em Foco

A organização do sistema democrático tem diversas configurações: monarquia constitucional, república presidencialista ou parlamentarista. A redemocratização brasileira, pós-1985, foi institucionalizada através da Assembleia Nacional Constituinte, eleita em 1986. O texto constitucional, que é o marco fundador da Nova República, promulgado em 1988, tem claro viés parlamentarista. No entanto, previa um plebiscito a ser realizado em 1993, para a escolha da forma e do sistema de governo. O regime republicano derrotou a monarquia e o presidencialismo venceu o parlamentarismo por larga margem de votos. Sempre tivemos no Brasil presidentes da República fortes e a cultura popular pende mais para líderes carismáticos do que para programas partidários.

Acontece que nenhum presidente pode governar sem maioria parlamentar. Os dois presidentes pós-redemocratização que desprezaram este princípio foram afastados (Fernando Collor e Dilma Roussef).  O presidente da República tem o direito de editar medidas provisórias com vigência imediata, mas o parlamento brasileiro tem a prerrogativa de torná-las sem efeito. O presidente tem o poder de vetar decisões do Congresso Nacional, mas este pode derrubar o veto, revalidando sua decisão. Gestou-se inicialmente o presidencialismo de coalizão. Com o avanço crescente da pulverização partidária da representação parlamentar, a formação de maioria foi ficando cada vez mais complexa. Crises como a do mensalão, a da Lava Jato e do impeachment de Dilma revelaram isso. O partido do presidente Lula, o PT, tem apenas 13% das cadeiras na Câmara dos Deputados e 11% dos votos no Senado Federal.

É dificílimo para qualquer presidente, independente da sua orientação ideológica, implantar seu programa de governo na atual dinâmica. A maioria precária é formada a partir das articulações políticas e do compartilhamento de espaços de poder e de verbas orçamentárias. Ainda assim, partidos que tem dois ou três ministérios no governo, em votações decisivas, dividem-se ao meio e entregam menos de 50% de seus votos no Congresso. Essa disfuncionalidade evita que o Brasil avance mais rápido rumo a um determinado rumo escolhido pela maioria da população.

As eleições majoritárias para presidente, governador ou prefeito mobilizam muito mais as atenções da sociedade do que as para vereador, deputado e senador. Quase todo mundo sabe o nome do presidente, do governador e do prefeito. Em contrapartida, reiteradas pesquisas de opinião feitas nas últimas décadas revelam que, um ano após as eleições, 70% dos brasileiros não lembram em quem votou para deputado. O nosso sistema eleitoral é um dos piores do mundo. Como o eleitor mineiro, por exemplo, pode comparar os 2.500 candidatos registrados a deputado federal em Minas Gerais, em 2022, competindo num território equivalente à França, sem sequer conhecer a maioria deles? Isto não acontece nas democracias avançadas da Europa, da Ásia, dos EUA e do Canadá, onde o voto é distrital ou na lista partidária. Aqui decreta-se uma balburdia política e uma anarquia em termos de qualidade da governabilidade e governança.

É essencial que cada um de nós se empenhe em qualificar a opção de voto para deputado e senador nas eleições de outubro e procure coerência entre as escolhas feitas para o executivo e o legislativo. 

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ATRÁS DAS GRADES, BOLSONARO ENSINA FLÁVIO A SE ESPELHAR NELE

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Sem generais à disposição, filho 01 pode escolher um vice capitão da PM

Derrite virou um trunfo ideológico mais importante que Tarcísio

Desde a mudança para a Papudinha, a saúde de Bolsonaro deve ter melhorado, o acompanhamento médico é constante. A vitimização diminuiu. Até porque a unidade da PM em Brasília se transformou numa espécie de comitê político, com o entra-e-sai dos filhos, da ex-primeira-dama, de advogados, dirigentes partidários e aliados mais próximos.

Da cadeia, Bolsonaro dá as ordens e bola as estratégias que vão sustentando –mais que isso, consolidando– a candidatura de Flávio à Presidência. "Faça tudo o que eu fiz, me tenha como espelho", é a lição resumida ao filho 01.

O convite para que Tarcísio de Freitas colabore no programa presidencial é uma maneira matreira de sepultar de vez as pretensões do governador de São Paulo ao Palácio do Planalto. De nome preferido da direita limpinha, do centrão fisiológico e do mercado financeiro, Tarcísio, se aceitar, passaria a aspone de luxo.

Na semana que vem está prevista uma conversa atrás das grades entre o ex-presidente e Guilherme Derrite. Com seu histórico na Rota – investigado em operações que resultaram em 16 homicídios –, o deputado virou o coringa do bolsonarismo. Uma peça mais importante que Tarcísio.

Ao relatar o PL Anfifacção na Câmara, Derrite não conseguiu esconder que agia movido por interesses eleitoreiros e ideológicos. Em cinco versões do projeto, não fez outra coisa que tentar diminuir a importância da Polícia Federal em favor das polícias militares estaduais, promovendo uma desunião que só interessa ao crime organizado. Conexões entre criminosos, quartéis de PMs e partidos políticos –a toda hora reveladas pela PF e pelas corregedorias– são a realidade do Brasil. O ex-secretário de Segurança de São Paulo as ignorou na cara de pau.

Sua candidatura ao Senado é parte do plano para obter maioria de cadeiras e abrir caminho para o impeachment de ministros do STF. Derrite também passou a ser cogitado como vice na chapa de Flávio, representando a abstração de que, se vestiu farda, está apto a resolver os problemas do país.

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UDENISMO NA AVENIDA

Sergio Lirio, CartaCapital

Na passarela, o surrado enredo “é preciso mudar tudo que está aí”

No carnaval, segundo a máxima, “quem sobe, desce”. Tradução: escolas recém-promovidas são candidatíssimas a voltar ao lugar de onde vieram. A Acadêmicos de Niterói não fugiu à sina, dirão os experts. Mas o histórico dos desfiles cariocas não explica tudo. O rebaixamento era uma barbada. A nota oficial divulgada após o desfile na Marquês de Sapucaí, na qual a escola de samba pedia uma análise estritamente técnica do seu desempenho no percurso até a Praça da Apoteose, revelava o temor, talvez a certeza, do destino anunciado. É difícil afirmar até que ponto o “medo venceu o amor” na decisão dos jurados. O tribunal das redes sociais havia dado seu veredicto antes mesmo de a escola atravessar a Sapucaí na noite do ­domingo 15. O bloco do udenismo estava na rua e a marchinha da “indignação seletiva” contagiava os cidadãos de bem, que saltaram das suas latas em conserva para protestar contra a “campanha eleitoral antecipada” em favor do presidente Lula, embora o petista tenha sido tema de enredo no passado sem que a homenagem revirasse as entranhas dos foliões da moralidade. A Acadêmicos ficou na lanterna, mas conquistou os holofotes no sambódromo, no Brasil e no exterior. Um feito.

Enquanto isso, no mundo das latas em conserva, ouve-se o grito do narrador: ­deeezzz, nota deeezzz. A campanha contra a escola de Niterói proporcionou um efêmero triunfo. Não deixa de ser alguma coisa. Sem um projeto para o País, na ausência de uma única e escassa ideia a não ser retirar Lula do topo do carro alegórico chamado Brasil, a estratégia da oposição tem sido tumultuar a avenida. E eis que voltamos a escutar o samba batido de outros carnavais: mar de lama, esquindô, falência das instituições, esquindô, e vamos “acabar com tudo isso que está aí”, ziriguidum. Salve, salve, comunidade. O lavajatismo pede passagem. Para os saudosistas, só falta fantasiar Sergio Moro e Janaína Paschoal de mestre-sala e porta-bandeira, seguidos de uma motociata cívica de Bolsonaro financiada com dinheiro público. E se não for possível chegar à Apoteose, há sempre a chance de convidar os patriotas para um after ­party, uma reedição da Festa da Selma.

Para sambar até a rampa do Palácio do Planalto, o udenismo precisa, antes, fazer do Supremo Tribunal Federal a Acadêmicos de Niterói da Praça dos Três Poderes. Nesta fanfarra, admitamos, a própria Corte tem dado uma contribuição inestimável. O ministro José Dias Toffoli ofereceu confetes e serpentinas ao achincalhe. A despeito de uma campanha orquestrada e interessada de quem visa subjugar o STF, os conflitos de interesse eram mais que suficientes para levar o magistrado a se declarar impedido de conduzir as investigações sobre o Banco Master. Toffoli se expôs e expôs o colegiado e colocou o tribunal no centro do palco onde deveriam estar os verdadeiros cúmplices da tramoia: governadores bolsonaristas que arriscaram as aposentadorias de servidores estaduais, políticos do Centrão, pastores da Igreja Lagoinha e o ex-presidente do Banco Central Roberto Campos Neto.

O ministro Dias Toffoli forneceu confetes e serpentinas a quem visa “rebaixar” o Supremo

A relutância de Toffoli elevou o terrivelmente evangélico André Mendonça ao posto de rainha da bateria. Por sorteio, Mendonça conduzirá os dois inquéritos mais explosivos da República, a quebra do Master e os descontos indevidos do INSS. O ministro assumirá ainda a vice-presidência do Tribunal Superior Eleitoral, em dobradinha com Kássio Nunes Marques, o outro magistrado indicado por Bolsonaro. O ex-presidente, entre soluções e ataques de pânico, assiste aà evolução dos acontecimentos do camarote da Papudinha e seus aliados preparam as fantasias para o carnaval fora de época.

Nessa pipoca o Brasil promete pular até outubro. Os Poderes serão arrastados pela multidão, atrás do trio elétrico? O STF, que abriga atualmente seis de dez ministros indicados pelo PT, vai superar a ressaca? Toffoli saiu, por ora, da berlinda, mas Alexandre de Moraes continua com um alvo na careca. O presidente da Corte, Edson Fachin, parece tentado a ceder à demagogia e à banalidade, vide a proposta de se discutir um supérfluo código de ética, enquanto o Conselho Nacional de Justiça prefere premiar com aposentadoria compulsória no lugar de punir devidamente magistrados corruptos e desembargadores fazem procissão a Brasília para derrubar a decisão de Flávio Dino de cortar o pagamento dos mal chamados “penduricalhos” (gratificações exorbitantes que multiplicam por quatro, cinco vezes os paupérrimos salários do Judiciário).

Dino tem sido uma honrosa exceção. Último indicado pelo presidente Lula ao Supremo (falta o presidente enviar o nome de Jorge Messias para sabatina no Senado), o ministro é, sem medo de ser feliz, o solitário acerto do petismo. Lula e Dilma Rousseff conseguiram uma proeza inigualável. Os dois foram responsáveis por nomear, ao longo dos mandatos, 15 integrantes do STF. A lista de equívocos assombra e vai do “humanista” Eros Grau, que validou a Lei da Anistia imposta pelos militares, ao “herói” Joaquim Barbosa, que distorceu a tese do domínio do fato para corroborar as condenações do Mensalão. Sem esquecer a “racional” Rosa Weber e seu indecifrável voto a favor de uma maioria inexistente na rejeição ao habeas corpus a Lula, Luiz “mato no peito” Fux, recém-convertido ao garantismo, e do próprio Toffoli, cuja reflexão intensa e conversas esclarecedoras com generais o levaram a chamar o golpe de 1964 de “revolução”. Se os homens – e mulheres – se medem nas circunstâncias, Dino é um Gulliver na ilha de Lilliput. 

Publicado na edição n° 1401 de CartaCapital, em 25 de fevereiro de 2026.

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MERA EXALTAÇÃO ARTÍSTICA DE UMA FIGURA PÚBLICA

Hélio Silveira, Folha de S. Paulo

Ato Ilícito exige comprovar desequilíbrio no pleito, uso indevido da máquina ou pedido explícito de votos fora de época

O uso de um jingle antigo em contexto de narrativa histórica não configura pedido de voto futuro; trata-se de memória

Carnaval é a maior vitrine da cultura popular brasileira. Na avenida do samba, a história é recontada, personalidades são eternizadas e críticas sociais ganham ritmo e melodia. O desfile da escola Unidos de Niterói, que prestou homenagem à trajetória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, tornou-se alvo de controvérsia política e de ações na Justiça. Contudo, ao despirmos o episódio das paixões partidárias e analisá-lo sob a ótica do direito eleitoral, a tese de abuso de poder ou propaganda antecipada revela-se juridicamente frágil.

Para configurar ilícito eleitoral, é preciso mais do que a mera exaltação de uma figura pública; é necessária a comprovação de desequilíbrio no pleito, o uso indevido da máquina ou pedido explícito de votos fora de época. Nenhum desses elementos parece estar presente no caso.

O primeiro ponto é o financiamento. Para haver abuso de poder econômico ou político, seria necessário comprovar que recursos públicos foram direcionados especificamente para beneficiar uma candidatura. O patrocínio da Embratur seguiu critérios republicanos: foi distribuído de maneira isonômica entre as escolas. A escolha do enredo é prerrogativa da agremiação, protegida pela liberdade artística, e não imposição estatal. Não houve dinheiro carimbado para a homenagem, mas fomento à cultura de forma geral.

O direito eleitoral trabalha com a lógica de cronograma e repercussão. Estamos em fevereiro, a oito meses das eleições. A propaganda oficial inicia-se apenas em agosto. Enquadrar um desfile realizado meses antes como ato de campanha é alargar demais o conceito de "microprocesso eleitoral". A jurisprudência considera que atos tão distantes não possuem gravidade para desequilibrar a disputa, sob pena de silenciarmos o debate público durante o mandato.

A lei 9.504/97 (art. 36-A) trouxe evolução fundamental ao permitir a menção à pretensa candidatura, a exaltação das qualidades pessoais e a divulgação de posicionamentos políticos —desde que não haja pedido explícito de voto.

Aqui entra o conceito das "palavras mágicas" do Tribunal Superior Eleitoral (TSE). Para configurar propaganda antecipada ilícita, a mensagem deve conter expressões claras como "vote em", "eleja" ou "apoie". O uso de um jingle antigo em contexto de narrativa histórica não configura pedido de voto futuro. Trata-se de memória, não de prospectiva eleitoral.

Há, ainda, confusão entre vedação à publicidade institucional e liberdade de expressão. A lei proíbe publicidade institucional apenas nos três meses que antecedem o pleito. Referências a programas como o Bolsa Família num samba-enredo em fevereiro não viola a norma. O Carnaval tem função documental. Se a escola decide que tais programas são marcos na biografia do homenageado, isso é exercício de liberdade de expressão, não propaganda estatal.

Processualmente, eventual representação encontraria obstáculo prático: quem seria o polo passivo? O presidente homenageado, a escola de samba ou os autores da música? Para haver condenação, é preciso provar o dolo e o prévio conhecimento do beneficiário —nexos difíceis de estabelecer num evento cultural autônomo.

Curiosamente, a repercussão é amplificada pelos opositores do presidente Lula, gerando o "efeito Streisand", que ocorre quando um ato de censura apenas aumenta a curiosidade em relação ao conteúdo removido, fazendo com que ele não só continue a circular como ganhe força. Caberá à Justiça Eleitoral filtrar excessos.

Contudo, numa democracia saudável, o Carnaval deve ser entendido como espaço sagrado de crítica e homenagem. Tentar transformá-lo em caso de propaganda antecipada é juridicamente equivocado e desrespeita a cultura popular. Não houve "queimada de largada", apenas o povo contando sua história.

*Advogado eleitoral, é ex-presidente da Comissão de Direito Eleitoral da OAB-SP; membro do Grupo Prerrogativas

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O TRAVESSÃO, ESSE INJUSTIÇADO

Eduardo Affonso, O Globo

Ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata

Com a IA fazendo revisão gramatical, tradução — e até coluna de opinião! —, há cada vez mais leitores em alerta para o risco de estarem comprando GPT por gente. E um dos sinais mais evidentes da trapaça (sim, usar máquina de escrever é uma coisa, usar “máquina de escrever” é outra...) são os travessões.

Nada mais injusto. O travessão já existia na Idade Média e se consolidou com o advento da imprensa, fazendo o meio de campo com os parênteses, a vírgula e o ponto e vírgula. Os parênteses chamam o leitor para um canto e cochicham alguma coisa, com as mãos em concha. O travessão, não: ele abre uma clareira no texto, manda as palavras em volta calarem a boca e diz o que tem de dizer, na lata. É mais que o respiro dado pela vírgula — é uma pausa dramática. Ela só interrompe; ele cria um clima. Se o ponto e vírgula se esforça para organizar, o travessão apita e manda parar o jogo.

Rubem Braga, o maior de todos os cronistas, usava travessão:

— Tomamos uma modesta cerveja e falamos de coisas antigas — mulheres que brilharam outrora, madrugadas dantanho, flores doutras primaveras. Ia a conversa quente e cordial, ainda que algo melancólica, tal soem ser as parolas vadias de cupinchas velhos — quando o telefone tocou. (“O telefone”, 1951)

Emily Dickinson, então, era useira e vezeira. Augusto de Campos manteve seus travessões ao traduzi-la para o português:

— E assim Parentes pela Noite, sábios —/Conversamos a Sós —/Até que o Musgo encobriu nossos lábios —/E —nomes — logo após — (“Morri pela beleza”, cerca de 1862).

(Repare que Emily o usava até como ponto final, para deixar o verso em suspensão!)

O travessão nasceu bom — a IA é que o corrompeu, transformando-o numa fórmula, numa ilusão de espontaneidade. Ou talvez seja um lapso freudiano, para denunciar a impostura — da IA ou de quem queira fazer passar por seu um texto escrito via prompt. Nem precisava.

Ao contrário do que brotava das páginas de Clarice Lispector, o texto gerado por IA é previsível. O ritmo é “certinho” — passa longe de um Arnaldo Jabor, de uma Fernanda Young. O tom é neutro — insípido, inodoro e indolor — uma espécie de anti-Nélson Rodrigues. Não inventa, não tensiona o idioma — quem tem esses superpoderes são Manoel de Barros, Dalton Trevisan, Guimarães Rosa. Pode parecer inteligente — mas sem a graça de um Machado de Assis, de um Veríssimo. Até delira — mas não como Hilda Hilst. Até consegue escrever sobre qualquer assunto — e uma crônica por dia —, mas não como Antônio Maria.

Há colunista se contentando em ter a ideia e delegar à IA o trabalho sujo da escrita. Mas, assim como se diz que no dia seguinte à invenção do cinto de castidade patenteou-se o abridor de lata, já existem IAs X9 que detectam a fraude. E — acredite! — IAs que “humanizam” textos escritos em gepetês. Dão-lhes um toque de imperfeição, de arbitrariedade. Se permitem uma repetição — e orações começadas por pronome oblíquo. Adicionam uma digressão — para quem escreve, qualquer palavra pode ser uma madeleine. Desamarram uma ponta, se arriscam a desagradar ao leitor — ou a não tirar 1.000 na redação do Enem.

Em suma — não julgue um texto pelos traços mais óbvios. A IA me garantiu que esta coluna é 100% humana — e olha que contei 30 travessões.

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CARNAVAL COROOU A FORÇA E O TALENTO DAS MULHERES

Flávia Oliveira, O Globo

Festa foi da onipresente Conceição Evaristo, escritora que, feita enredo pelo Império Serrano, frequentou a quadra, se vestiu de baiana

O carnaval 2026, que chega hoje ao sábado derradeiro, premiou um sambista, Ciça, o mestre dos mestres de bateria, enredo campeão da Unidos do Viradouro; homenageou um astro, Ney Matogrosso, via Imperatriz Leopoldinense; reverenciou um intelectual negro, Nei Lopes, autor de “Ifá Lucumí”, livro que inspirou o desfile da Paraíso do Tuiuti. Pôs holofotes em Luiz Inácio Lula da Silva, tema da rebaixada Acadêmicos de Niterói, e na movimentação dos adversários pela disputa eleitoral. Espantou-se com o prefeito da cidade brincando de deficiente visual no camarote na Avenida; e com o pré-candidato ao governo do Rio, o mesmo Eduardo Paes, apoiado pelo presidente de esquerda, acertando a sério a vaga de vice com o clã de Washington Reis, hegemônico em Duque de Caxias, bolsonarista raiz.

A festa, sobretudo, coroou mulheres. Na Beija-Flor, foi o carnaval das iabás, Iemanjá e Oxum, orixás festejadas no Bembé do Mercado, o maior candomblé de rua do mundo, que toma Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo Baiano, no 13 de maio, em celebração pela liberdade, desde 1889. Foi o carnaval de Stephanie Vanira, bailarina no Theatro Municipal, integrante desde 2022 da comissão de frente dos coreógrafos Jorge Teixeira e Saulo Finelon. Foi ela que encarnou, na escola de Nilópolis, a divindade do mar, mãe de todas as cabeças, no elemento alegórico em forma de barco, ora em travessia atlântica, ora em cortejo de fé.

O carnaval foi de Selminha Sorriso, porta-bandeira que dança há 35 anos com o mesmo par, Claudinho, e há 30 na mesma escola, onde também se tornou diretora cultural e presidente da agremiação mirim, Sonho do Beija-Flor. Na mesma noite/madrugada, ela cruzou a Sapucaí duas vezes seguidas. Primeiro, defendeu a Deusa da Passarela; depois, passou em honra de Ciça, com quem ela e o parceiro foram campeões pela Estácio de Sá, em 1992, no desfile “Pauliceia desvairada — 70 anos de Modernismo”. Foi o carnaval de Jessica Martin, que formou com Ninno a dupla de vozes encarregada de substituir Neguinho da Beija-Flor, depois de meio século como intérprete oficial. Ela ainda ganhou o Estandarte de Ouro de Revelação.

Foi o carnaval de dona Lea Garcia (1933-2023), atriz negra, homenageada pela Mocidade Alegre, campeã do Grupo Especial de São Paulo. E da filósofa e ativista Sueli Carneiro, que passou pelo Anhembi com cofundadoras, equipe e amigos de Geledés Instituto da Mulher Negra, enredo da Mocidade Unida da Mooca no desfile que manteve a escola no olimpo do carnaval paulistano.

O carnaval foi da onipresente Conceição Evaristo, escritora que, feita enredo pelo Império Serrano, frequentou a quadra, se vestiu de baiana, circulou por Madureira, balançou bandeirão, participou do minidesfile na Cidade do Samba e do ensaio técnico na Sapucaí. Ajudou a escola da Serrinha, campeã nove vezes da primeira divisão das escolas cariocas, a conquistar o vice-campeonato da Série Ouro deste ano, depois de um 2025 em que a agremiação ficou fora da competição por perder as fantasias num incêndio. A escola de Vovó Maria Joana, Tia Maria do Jongo, Dona Ivone Lara e Jovelina Pérola Negra agora é também da mineira premiada por “Ponciá Vicêncio” e “Olhos d’água”.

Conceição também passou na Sapucaí pela Unidos da Tijuca. Na escola nascida no Morro do Borel, o carnaval foi de Carolina Maria de Jesus, autora de “Quarto de despejo”, entre outros. Pelas mãos do carnavalesco Edson Pereira, da diretora de carnaval Elisa Fernandes, pioneira na função, e da professora Fernanda Felisberto, consultora do enredo, Carolina afirmou-se não como a catadora de recicláveis que escrevia, mas como a escritora a quem o racismo e a desigualdade brasileiros impuseram sobrevivência na miséria, no precário.

O carnaval foi de Leci Brandão, cantora, compositora, quatro vezes deputada estadual em São Paulo, enredo da Unidos de Bangu, escola da Zona Oeste carioca. Foi das pombagiras da Em Cima da Hora e das ganhadeiras dos balangandãs da União de Maricá. O carnaval foi de Laísa Lima, primeira mulher a comandar uma bateria de escola de samba na Marquês de Sapucaí. A jovem, 25 anos, é filha de Laíla (1943-2021), diretor de carnaval e multiartista tornado enredo campeão da Beija-Flor em 2025. Atua há uma década como diretora dos tamborins na escola de Nilópolis. Ano que vem, passará pela segunda vez à frente da Bateria Sensação, do Arranco do Engenho de Dentro, escola que tem, além da mestra, mulheres como presidente (Diná Santos), vice (Tatiana Santos) e carnavalesca (Annik Salmon, no biênio 2025-26).

Foi o carnaval das rainhas de bateria Mayara Lima (Paraíso do Tuiuti), Viviane (sempre ela) Araújo (Salgueiro), Sabrina Sato (Vila Isabel), Evelyn Bastos (Mangueira). E de Juliana Paes, agora campeã, mãos dadas com Ciça. Foi o carnaval de Rita Lee (1947-2023), padroeira, sim, da Liberdade e da Mocidade; e de Rosa Magalhães (1947-2024), a professora campeonérrima do carnaval, feita enredo pelo Salgueiro. Ô lê-lê, elas brilharam.

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EMBALOS DE VORCARO EM TRANCOSO MOSTRAM ARTE DE AGRADAR AO PODER

Thaís Oyama, O Globo

Com caviar à farta, festas eram repletas de beldades croatas, russas e ucranianas para alegrar os convivas

Um cínico diria que, no território da concupiscência, os operadores da Corte brasiliense refinaram bastante seus métodos. No primeiro governo Lula, lobistas recorreram à autointitulada “promotora de eventos” Jeany Mary Corner para que suas “recepcionistas” azeitassem as relações entre empresários e integrantes da “República de Ribeirão Preto”, como era chamado o núcleo da Fazenda comandado por Antonio Palocci. Os encontros — que, segundo testemunhas, ocorriam numa mansão do Lago Sul, com churrasco, uísque 15 anos e latas de energéticos — hoje parecem festa de quermesse perto do padrão de suntuosidade com que o ex-dono do Master, Daniel Vorcaro, tratava os seus amigos, entre eles vultos da República.

As gentilezas do agora ex-banqueiro — segundo reportagem da Folha de S.Paulo — incluíam festas em Trancoso, São Paulo, Nova York e Lisboa. Com caviar à farta e celulares deixados à porta, eram regadas a Macallans e Petrus, repletas de beldades croatas, russas e ucranianas trazidas da Europa em jatinhos para alegrar os convivas. As festas em Trancoso, em especial, despertaram o interesse do Ministério Público junto ao Tribunal de Contas da União (MPTCU).

— Esses eventos, denominados Cine Trancoso, teriam contado com a presença de altas autoridades dos três Poderes da República, incluindo integrantes do Poder Executivo do governo anterior, pessoal do mercado financeiro, da política e do meio jurídico — diz o MPTCU em representação ao Tribunal de Contas da União.

Nela, o subprocurador-geral, Lucas Rocha Furtado, pede ao tribunal que descubra que autoridades federais frequentaram a casa de Trancoso, já que o envolvimento delas com Vorcaro poderia representar “risco para a confiança nas instituições públicas”. Furtado destaca que um dos convidados ao Cine Trancoso afirmou à Revista Liberta ter assistido a um vídeo da festa “estrelado por figura de alta relevância do Poder Judiciário” — um “pica das galáxias”, na descrição citada pela revista e reproduzida no documento pelo subprocurador.

Entende-se a curiosidade do MPTCU — e ela certamente não é exclusiva do tribunal. Querer, porém, que o TCU investigue que adultos estavam numa festa em que eventualmente se praticou sexo consensual parece descabido. O argumento maroto de que é preciso saber se alguma repartição federal ajudou a financiar o encontro tampouco se sustenta, já que em eventos do gênero paga quem quer agradar, não quem está ali para ser agradado — evidentemente, o caso das altas autoridades.

— Tenho amigos em todos os Poderes — disse Vorcaro em depoimento à PF.

Da rotina do ex-banqueiro, faziam parte reuniões fora da agenda com o presidente da República, jantares com ministros do STF e passeios com líderes do governo e da oposição. Uma rede social impressionante para alguém que até 2016 atuava como CEO na empresa do pai em Minas e era um perfeito desconhecido nas rodas do poder em Brasília.

Vorcaro foi pródigo em firmar gordas consultorias “institucionais” — com o ex-ministro do STF Ricardo Lewandowski e o ex-ministro da Fazenda Guido Mantega, entre outros —, sem falar no milionário contrato de R$ 130 milhões com a advogada Viviane Barci de Moraes, mulher do ministro Alexandre de Moraes. Mas sabia que não é só com um punhado de dólares que se cria intimidade. Os relatos dos embalos de Trancoso sugerem que ele tinha consciência de que bens de prazer e prestígio — aqueles que dão deleite e status, a sensação de ser único e VIP — podem, em certas almas, calar tão ou mais fundo que uma mala de dinheiro. Desde que o mundo é mundo, sexo e poder andam de mãos dadas com a corrupção.

Há muitos caminhos para convencer alguém a trocar o dever público por vantagens particulares. Vorcaro, como se vê, não desconhecia nenhum.

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SUPREMOCRACIA EM XEQUE

Oscar Vilhena Vieira, Folha de S. Paulo

A guarda da Constituição não pressupõe a manutenção do modelo supremocrático

Como a autoridade judicial não se renova pelo voto, não será fácil sair desta crise

Após contribuir de maneira fundamental para defender a democracia de seus inimigos, o Supremo Tribunal Federal imergiu, por seus próprios feitos, numa aguda crise reputacional. A questão que se coloca neste momento é se conseguiremos superar esta crise ou se estamos frente ao esgotamento do modelo supremocrático.

Ao concentrar no STF as funções de tribunal constitucional, corte de últimos recursos e tribunal de primeira instância para a classe política, a Constituição deslocou o Supremo para o centro do sistema político. Não houve questão relevante de natureza política, econômica ou moral a que não se tenha reclamado a última palavra do Supremo.

O tribunal saiu da sombra com o "mensalão", ao julgar criminalmente a elite política do país. A partir de 2013, com o aprofundamento da crise política e a redução da capacidade de construção de consensos pelos representantes eleitos, o Supremo passou a ser demandado de maneira ainda mais intensa e sistemática a coordenar conflitos e, sobretudo, arbitrar interesses econômicos. Alguns ministros foram testando seus poderes e se demonstrando cada vez mais à vontade para fazer escolhas políticas ou econômicas, em detrimento de sua missão de aplicar a Constituição.

A absorção, pelos gabinetes, de atribuições que deveriam permanecer no colegiado agravou o déficit de legitimidade do Supremo e aumentou sua vulnerabilidade, atraindo para sua órbita agentes econômicos, lobistas e operadores políticos, diretamente interessados em suas decisões. Os fatos apontam que alguns gabinetes não souberam ou não quiseram se defender desse movimento. Assim, chegamos até aqui.

A autoridade de qualquer tribunal decorre de sua capacidade de aplicar a lei com independência, imparcialidade, integridade e objetividade. Mais do que isso, precisa ser capaz de transmitir essas virtudes à sociedade. Quando isso não acontece, a autoridade dos tribunais declina.

Como a autoridade judicial não pode ser renovada pelo voto, como a das demais instâncias de poder numa democracia, não será fácil sair desta crise. Ao reconhecer os problemas que afetam o Supremo e propor medidas de autocorreção, desde o seu discurso de posse, o ministro Edson Fachin vem abrindo um corajoso caminho para superar a crise de autoridade do tribunal.

Se conseguir transpor a arrebentação, o próximo desafio será corrigir distorções e repensar as fronteiras hipertrofiadas da jurisdição do Supremo. A mudança mais estrutural —proposta pelo ministro Cézar Peluso em 2011— seria permitir a execução de sentenças após duplo grau de jurisdição, conferindo maior racionalidade e eficiência ao sistema judicial brasileiro. Nem tudo precisa terminar no Supremo ou mesmo nos demais tribunais superiores.

Esses tribunais precisam exercer sua autoridade por precedentes bem concebidos, não por milhares de decisões "ad hoc", que só retardam o término dos processos e criam enormes disparidades na aplicação da lei. Por fim, seria essencial limitar ainda mais a ação monocrática dos ministros, fonte de insegurança jurídica e de corrosão da integridade do Supremo.

A democracia brasileira não parece prescindir de um tribunal com autoridade para zelar pelos direitos fundamentais de grupos vulneráveis, pelo respeito à separação de Poderes, assim como pela integridade da competição eleitoral. Como se diz no jargão da ciência política, "cachorro bravo exige coleira forte".

A guarda da Constituição não pressupõe, no entanto, a manutenção do modelo supremocrático, que cumpriu seu papel. Agora é necessário corrigir os rumos.

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POLÍTICA E ECONOMIA

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Os brasileiros, sobretudo os petistas, ainda não entenderam que o país cresceu, mas não enriqueceu. Candidatos só querem lançar bons projetos para os ouvidos do eleitor. Em política ruim é perder

O ano, afinal, começou. Na próxima segunda-feira, serão iniciados os trabalhos de 2026. Até agora, os brasileiros desfrutaram do Natal, do réveillon, das férias e do carnaval, que, segundo a crença geral, não constituem tempo hábil para trabalhar. Curioso é que, exatamente neste momento, o governo do presidente Lula tenta revogar o sistema que consagra seis dias de trabalho para um de descanso. Ou seja, é o incentivo oficial à boa vida. Vale tudo para vencer a eleição.

Os brasileiros, sobretudo os petistas, ainda não entenderam que o país cresceu, mas não enriqueceu. A produtividade do trabalhador europeu ou norte-americano é várias vezes superior à do nacional. Do ponto de vista da matemática, não faz sentido diminuir o tempo de trabalho e manter salário. Mas os objetivos eleitorais são diferentes da natureza das coisas. O presidente, que anda distribuindo bolsas de todos os tipos e tamanhos, foi obrigado a elevar muito os impostos, para cumprir suas promessas. 

Sacrificou o crescimento da economia na busca por votos. Anulou o Imposto de Renda de quem ganha até R$ 5 mil, mas, na outra ponta, elevou de quem ganha acima desse nível. O governo vai continuar a receber o mesmo montante. O que muda é quem paga. E quem paga, usualmente, não vota no Partido dos Trabalhadores.

Governos populistas são assim. O presidente Lula não inventou nada neste particular. O governador Cristovam Buarque, do Distrito Federal, instituiu, no seu período de governo, a Bolsa Escola. Ele copiou o modelo utilizado pelos franceses, na cidade de Lyon. O incentivo para as crianças irem para a escola era o lanche, que, naquela época, constituía algo raro em toda França recém-saída da destruição da Segunda Guerra Mundial. O governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, do PSDB, aproveitou a ideia e a implantou em todo o território nacional. Cristovam Buarque não conseguiu se reeleger para o governo do DF. Chegou, porém, ao Senado. FHC governou por dois mandatos presidenciais. O esquema populista funciona.

O problema é que as contas nacionais sofrem muito. O Brasil já teve uma dívida externa em dólares que mandava no país. Vários ministros da Fazenda comandaram recessões pavorosas para pagar ao menos os juros dos empréstimos concedidos pelos banqueiros internacionais. Mas a Petrobras descobriu petróleo, e o país começou a produzir o ouro negro. A conta petróleo, que era um pesadelo na contabilidade dos economistas, sumiu. E o bom trabalho realizado por um grupo de técnicos fez a dívida externa desaparecer. Justiça se faça, foi Lula que acabou com o que restava da dívida externa, que era toda em dólares. Pagou a dívida.

Hoje, o problema é parecido, mas a dívida é em reais, contraída junto aos bancos brasileiros. É um grande negócio para os banqueiros nacionais. Eles emprestam para o governo segundo a taxa de juros arbitrada pelo Banco Central. Hoje, está em 15% ao ano. Esse negócio garante rentabilidade acima da inflação e oferece boa taxa de lucro, sem qualquer trabalho ou despesa. Uma delícia para o sistema financeiro. O endividamento brasileiro já anda pela casa dos 75% do Produto Interno Bruto. Outros países possuem índices maiores. Bom exemplo é o governo dos Estados Unidos, cuja dívida está além dos 120%. A obsessão de Trump com taxas de importação é explicada pela enorme dívida do governo norte-americano que é financiada pelos títulos da dívida pública deles. Acontece que a China, além de vários países da Ásia, estão se desfazendo dos papéis. É guerra sob outro ponto de vista.

Quando Tancredo Neves percebeu que ele iria ganhar a eleição no Colégio Eleitoral, em Brasília, chamou seu parente e amigo Francisco Dornelles e deu a ele a missão de conversar com banqueiros internacionais. A mensagem era simples. O governo brasileiro iria manter o pagamento dos juros da dívida externa. Já no governo Sarney, o então ministro Dilson Funaro, além de fazer o congelamento de preços, chegou ao ápice da negação. Decretou a moratória na dívida externa brasileira. A partir daquele momento, o Brasil deixou de pagar suas obrigações com os banqueiros estrangeiros. No dia seguinte, as agências do Banco do Brasil em todo o mundo ficaram sem recursos. O banco foi excluído da negociação intrabancos. Foi muito difícil retomar a antiga confiança.

Este ano de 2026 vai ser curto. Termina em junho, quando começa a Copa do Mundo de futebol. Se o time brasileiro avançar para as finais, o país ficará paralisado com os olhos postos na televisão. O torneio termina em julho. E, logo em seguida, começa a campanha eleitoral. Candidatos só querem lançar bons projetos para os ouvidos do eleitor. Em política ruim é perder. Vale tudo para vencer uma eleição. Dilma Rousseff tentou seguir esse protocolo: prometeu o país de sonhos, mas iniciou seu segundo mandato no comando de uma recessão. Parece que não deu certo.

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O DELEGADO XANDÃO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Xandão Orloff observa Dias Toffoli e pensa: eu sou você amanhã. E se antecipa. O juiz “com sangue nos olhos”. Houvesse República entre nós, estando ele também no celular de Vorcaro, o País esperaria relatório da Polícia Federal sobre as relações do delegadão com a turma do Master. Documento da mesma natureza daquele que a PF entregou a Fachin relativamente a Dias Toffoli – peça que reúne indícios de crimes.

Eu não serei você amanhã – reage. E então a operação policial contra servidores da Receita Federal; Alexandre de Moraes de repente relator paralelo do caso Master, para o qual escreve novela concorrente e da qual dispara capítulos intimidatórios em que a trama central se tornou a atividade ilícita do Fisco. Contra a revelação de relações econômicas cruzadas de “altas autoridades”, a intimidação cruzada também à Polícia Federal e à imprensa.

A Receita não vaza a ocorrência de charutadas de juiz com empresário interessado no tribunal que tem como advogada a esposa do juiz. As divulgações do contrato multimilionário da mulher de Moraes com o Master e da sociedade de Dias Toffoli com os fundos operadores do banco não são produtos de quebra-vazamento de dados fiscais. Isso é o que se quer intimidar.

Teremos nova censura? Seria coerente; maneira de o inquérito xandônico original voltar – sete anos depois – à sua origem, sempre em defesa da honra dos togados amigos dos amigos. Está encaminhado esse regresso, conforme projeta a ordem para que deponha o auditor-sindicalista que disse ser menos arriscado fiscalizar o PCC do que poderosos formais do Brasil.

Como quando das acusações de Eduardo Tagliaferro, outrora braço de Xandão no TSE, sobre barbaridades cometidas pelo ministro no trânsito entre o tribunal eleitoral e o STF, teremos agora novamente a opção do PGR Alexandre de Moraes por investigar somente o vazador-vazamento; e não o conteúdo de interesse público que é revelado.

Quebra-vazamento de sigilo fiscal é crime. Tem de ser investigado e, se confirmado, punido. Desvio funcional grave, como grave é o uso da função pública em benefício próprio. Moraes, relator-geral do Brasil, vítima da quebra-vazamento, é ao mesmo tempo investigador, acusador e julgador. E assim é porque quis – porque submete o Supremo à sua vingança. Porque instrumentalizou o conceito de prevenção e explora a esculhambação do princípio do juiz natural.

Não faz semana, uma reunião de ministros do STF foi gravada clandestinamente – algo gravíssimo. Que a turma vai deixar morrer, sem investigação, enquanto – rigor em riste – Moraes manda distribuir tornozeleiras eletrônicas a servidores sob apuração ainda longe de concluída. Sem que se saiba por que mandou jogar a rede-arrastão sobre eventuais quebras de sigilo contra mais de cem pessoas, incluídos colegas e parentes de colegas, Xandão plantou no maledicente a impressão de que pratica pesca probatória; também um modo de exercer poder, amarrar desafetos e unir corporativamente um conjunto de desconfiados.

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MAIS TRANSPARÊNCIA AO CASO MASTER

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Semana termina com Toffoli, Moraes e Alcolumbre perdendo o controle do processo; era o que mais temiam

Vorcaro busca combinar perguntas com parlamentares para ir ao Congresso, mas estratégia pode ter ido para o brejo

O ministro do STF André Mendonça garante mais transparência ao determinar que o presidente do SenadoDavi Alcolumbre, entregue à CPI do INSS os dados do ex-banqueiro Daniel Vorcaro originados de quebra de sigilo.

As informações ficarão também com a Polícia Federal, que, sob pressão máxima nas últimas semanas, terá que redobrar a cautela para não se ver numa nova armadilha. Na PF, o que se espera é que o risco de provas serem corrompidas, usadas de forma seletiva ou até mesmo anuladas posteriormente diminua.

Numa estratégia bem calculada, Mendonça também dispensou o dono do Master de comparecer à comissão. A sua presença passou a ser facultativa.

Antes da decisão de Mendonça, o ex-banqueiro tinha compromisso marcado na CPI, na próxima segunda (23), e na CAE (Comissão de Assuntos Econômicos do Senado) do Senado, no dia seguinte.

Vorcaro já avisou que não vai à CPI e também não deve ir à CAE, apesar do acerto com o seu presidente, senador Renan Calheiros.

Indo ao Congresso, ele será o assunto da próxima semana. Não comparecendo, também. A decisão será exclusivamente dele.

Se queria usar as duas comissões para dar vários recados aos envolvidos —como já tem atuado nos bastidores, via movimentação de sua defesa, desde que foi preso em novembro passado— ficará mais difícil diante da maior transparência dada ao caso pelo novo relator no Supremo.

A tática deu certo até agora com o inquérito do Master sob a batuta do ministro Dias Toffoli e suas perigosas relações financeiras com a família Vorcaro. A tentativa de Vorcaro de combinar perguntas com os parlamentares e até mesmo com jornalistas para colocar foco em temas que favoreçam a sua narrativa de vítima do processo tende a ir para o brejo.

Definitivamente, o ambiente político está mudando com as decisões de Mendonça, o que inclui ter dado mais autonomia para a PF para investigar depois das restrições impostas pelo antigo relator. A semana termina com Toffoli, Alexandre de Moraes e Alcolumbre perdendo o controle do processo. Era o que mais temiam.

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sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

'TODAS AS FAMÍLIAS FELIZES SE PARECEM'

Andrea Jubé, Valor Econômico

Controvérsia sobre os valores da família brasileira despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Lula é politicamente relevante e eleitoralmente potente

A controvérsia sobre os valores da família brasileira despertada pela escola de samba que homenageou o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, e que em uma das alas criticou os “Neoconservadores em conserva”, é politicamente relevante e eleitoralmente potente. Contudo, desperta uma sensação de déjà vu, que nos transporta ao século 19.

Quem não se recorda da antológica frase de abertura de “Anna Kariênina”? “Todas as famílias felizes se parecem, cada família infeliz é infeliz à sua maneira”. Quando Tolstói escreveu o romance - um clássico da literatura universal - entre 1873 e 1877, lançou o debate sobre modelos de convívio familiar e a noção de progresso, associada a valores econômicos e sociais. Puniu a heroína infiel com o famoso desfecho trágico. Perto dos 45 anos, era um autor consagrado por “Guerra e paz”, casado e tinha quatro filhos: era a personificação do homem de família feliz.

Quase 150 anos depois, a oposição pode se refestelar com a polêmica levantada pela escola que na intenção de afagar o presidente da Republica, se não o prejudicou eleitoralmente, causou danos à sua imagem que os petistas terão de rebolar para contornar. As cúpulas do governo e do PT ainda avaliam internamente a dimensão do estrago gerado pelo desfile da Acadêmicos de Niterói.

O rebaixamento da escola é um constrangimento residual, a futura batalha jurídica sobre eventual campanha antecipada incomoda, porém, a real preocupação volta-se à ala que retratou famílias dentro de latas de ervilha, algumas com referências religiosas. A percepção é de um inevitável desgaste com o eleitor conservador, em especial, o evangélico - que representa quase 30% da população.

Uma fonte governista salientou que não é racional tentar reduzir a relação de Lula com as famílias brasileiras à alegoria de uma escola de samba, e ressalvou que o “samba é criativo e crítico” por definição.

O problema foi a falta de senso de oportunidade em uma conjuntura politicamente desfavorável, em que a polarização que divide a sociedade entre bolsonarismo e lulismo desde 2018 parece cristalizada, indicando uma eleição acirrada como a de 2022. Sempre bom lembrar: naquele pleito, Lula obteve 50,9% dos votos válidos, vencendo Jair Bolsonaro (PL) por uma margem apertada de 2,1 milhões de votos (1,8% do total).

Foi um banquete para a oposição. Em alusão ao desfile da escola que homenageou Lula, em publicação em seus perfis nas redes sociais, o pré-candidato do PL à Presidência, senador Flávio Bolsonaro (RJ) dirige-se a quem “não é de esquerda nem de direita”, mas que não ficou feliz “com o dinheiro dos impostos sendo utilizado para campanha antecipada”, ou com sua fé e o pastor de sua igreja sendo “alvos de chacota”, colocados dentro de “latas de conserva”. A provocação havia alcançado mais de 26,2 milhões de visualizações até essa quinta-feira.

Uma liderança do PT costuma afirmar que a esquerda detém a arma de comunicação mais poderosa que é o presidente da República: “Lula tem um canhão na boca”, observa, em alusão ao potencial de alcance das falas presidenciais. Contudo, como a acusação de suposta campanha antecipada intimidou o governo e o PT, os ataques da oposição, a pecha de que a esquerda seria contrária aos valores familiares, ficaram sem resposta até agora.

Na direita, o “canhão na boca” continua com o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), que em postagem em seus perfis, acusou Lula e o PT de odiarem “famílias estruturadas” e pais que amam seus filhos. Segundo ele, um jovem distante dos pais é facilmente “tragado pela esquerda”. “Eu sou ou feliz na minha família em conserva, nunca foi tão fácil escolher um lado”, arremata no vídeo que já obteve mais de 32 milhões de visualizações.

“O vídeo não explodiu como o do Pix”, destacou uma fonte governista, comparando com o post de Nikolas do ano passado, em que ele sugeriu, falsamente, que o governo taxaria a ferramenta, o que causou queda abrupta da aprovação de Lula. O “vídeo do Pix” já conseguiu mais de 347 milhões de visualizações. Petistas alegam que houve impulsionamento e favorecimento do algoritmo. Ainda assim, a distância nas redes entre a oposição e a esquerda continua sendo abissal.

A mesma fonte governista reconheceu, entretanto, que nessa conjuntura, é urgente responder à acusação de que Lula, o PT e a esquerda de forma geral seriam contrários aos valores das famílias brasileiras, quaisquer que sejam seus formatos, do conservador ao progressista.

Segundo a última pesquisa Genial/Quaest, divulgada no começo do mês, a desaprovação de Lula entre os evangélicos “despiorou”, isto é, caiu de 64% em janeiro para 61% em fevereiro, acima da margem de erro, de 2 pontos percentuais. Evangélicos representam hoje 26,9% da população, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Vale destacar, contudo, que católicos reforçam o eleitorado conservador - maior fatia dos brasileiros.

Para um dirigente petista, a oposição cumpre seu papel. “Eles estão sem referencial, pois Bolsonaro está preso”, enquanto Lula compareceu às principais praças de Carnaval, Recife, Salvador e Rio de Janeiro, pontuou. “O que restava a eles? Produzir confusão, tentar sangrar o governo”. Este petista acha que a onda de ataques será pontual. “Todos conhecem as qualidades e defeitos de Lula”, desafiou.

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TERCEIRA VIA: TEM ALGUMA ?

José de Souza Martins, Valor Econômico

Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais precoces quer difundir o pressuposto de que só existe uma direita e de que só existe uma esquerda

Há mais de um ano que pesquisas de opinião eleitoral sobre preferências nas eleições de 2026 tentam nos convencer de que tudo já está quase decidido. Mal escondem o possível intuito de despistar os eleitores, fazendo-os supor que a lógica do pleito é uma só. O país não teria outra alternativa senão a da polarização de esquerda e direita.

Foi Brizola quem viu no PT e no ideário petista uma variante da social-democracia. Portanto, um partido social, de centro-esquerda, e não um partido de esquerda como os partidos clássicos dessa orientação.

Um partido sob o risco eventual de perder eleitorado para partidos de direita, de classe média. Menos por mudar de lado, mas porque a realidade social sofreu na simbolicamente petista região do ABC imensas mudanças. Ela deixou de ser região majoritariamente operária, passou pela reestruturação produtiva e pelo início da desindustrialização.

Caracterizou-se, também, por uma mudança demográfica significativa. A grande maioria dos trabalhadores das fábricas deixou de ser de residentes do ABC para ser de moradores dos municípios vizinhos, inclusive da capital paulista. E os eleitores regionais, residentes no ABC, são trabalhadores em outros municípios. Situação de classe social e orientação eleitoral desconectaram-se.

Quem quer que esteja limitando-se a pesquisas eleitorais precoces, sabendo-o ou não, quer difundir o pressuposto de que só existe uma direita e de que só existe uma esquerda. Essa prisão ideológica pressupõe, com tais dados, o bloqueio da reflexão política. Os partidos, não só os da polarização, não parecem interessados no desbloqueio.

Não querem que o eleitor se pergunte: qual direita? Qual esquerda? No processo político, sobretudo no processo eleitoral, nem tudo é visível e menos ainda já chegou de fato à consciência de quem vai votar. No início de 1989, petistas já cantavam o “Lula-lá” com ânimo exaltado. Até hostilizavam quem ousasse ter dúvidas quanto a se Lula seria o eleito. Apenas os melhor informados intuíam que o estranho Fernando Collor, que não era candidato, poderia sê-lo. E acabou sendo candidato e eleito.

É significativo que no ABC, onde o PT nasceu e foi hegemônico por longo tempo, nas eleições dos últimos anos, o eleitorado começou a dele se afastar para a direita. As novas gerações, de filhos dos manifestantes de esquerda do Estádio de Vila Euclides, ganharam um perfil diverso do dos pais. Tornaram-se direitistas no comportamento, com episódios de racismo e de misoginia. O PT, que tem dado demonstrações de considerar-se patrono da ascensão social do operariado, criou a categoria social dos que com ele já não se identificam, a classe média.

E a direita, no caso de Fernando Henrique e de José Serra, e do PSDB, que não são nem eram de direita, são originários de movimentos políticos mais autenticamente de esquerda. Diferentemente do que ocorre com o PT, cujos eleitores se identificam com Lula e não necessariamente com o partido, o PSDB não conta com uma lealdade política de seus eleitores que reconstitua os fatores de sua restauração, continuidade e representatividade. O PSDB foi em boa parte fruto da pluralidade social e ideológica do povo brasileiro, que os oportunistas do partido destruíram.

O núcleo decisivo do outro lado da polarização tem demonstrado vitalidade causada por algo que é bem diferente do que acontece com o PT. Sabendo ou não sabendo, a família Bolsonaro atua como uma dinastia, embora falsa. Usa o nome de família, como se fosse marca de massa de tomate, uma anomalia política. O pai pode estar na cadeia, mas o nome não está. Enquanto houver um varão que procrie alguém com esse sobrenome, ainda que em declínio, a visibilidade da marca estará assegurada.

Os Bolsonaros têm inimigos naturais. Os que se aproveitam da deterioração política do nome, os factoides ansiosos por personificá-los e usurpar-lhes o prestígio difuso e enganoso. Mas, em seu caso, o eleitor da direita não parece vulnerável à deterioração da identidade e da consistência do grupo. Até porque não são um partido. São uma aglomeração não unificada por ideologia ou doutrina, mas por ambição de poder.

Os fatores da disputa não são os mesmos nos seus diferentes grupos. Quando se observa o comportamento de deputados bolsonaristas na Câmara dos Deputados, é fácil notar que eles se reproduzem nos gestos, no modo de falar e de desqualificar os opositores. Tenho a impressão de que Olavo de Carvalho foi o inventor do método pedagógico para reproduzir os atores desse perfil.

Algo muito parecido com o que também acontece com as seitas religiosas fundamentalistas que aderiram ao bolsonarismo.

A direita industrializou a produção de adeptos.

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QUE FALTA NOS FAZ WERNECK VIANNA NESSE CRISE EXISTENCIAL DO SUPREMO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O caso Master expôs relações opacas, suspeitas de promiscuidade, cifras astronômicas, inexplicáveis, apesar das justificativas protocolares. E uma reação corporativa de autodefesa

Numa hora como essa, de crise existencial do Supremo Tribunal Federal (STF), que falta nos faz as análises do sociólogo Luiz Werneck Vianna, que estudou o papel da Justiça Federal na manutenção da nossa integridade territorial e na formação do Estado brasileiro. Sua morte completará dois anos amanhã. Intérprete do Brasil contemporâneo, foi quem melhor compreendeu a “judicialização” da nossa política, que vive um momento institucionalmente grave: o caso Master está volatilizando a credibilidade da Corte e já provoca grave crise de confiança entre seus integrantes, sem nenhum sinal de que o conflito se resolva a curto prazo, nos marcos do que seria a normalidade institucional da Corte.

Em depoimento ao Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea (CPDOC) da Fundação Getúlio Vargas, em 2012, Werneck capturou o espírito dos constituintes em relação ao Supremo: “E o que faz o legislador em Constituinte? Naquela de 1988. Ele é um intérprete, ele é um leitor da História do Brasil, muito agudo, muito fino. O que ele faz? Ele recusa essa história? Não! Ele não recusa essa história porque, inclusive, ele não é fruto de uma revolução, não é? Ele é fruto de uma transição política. O que ele faz? Lendo tudo isso, ele concorda com uma tese capital da nossa formação que foi: ‘Não temos sociedade para fazermos grandes mudanças’. Precisamos que a pedagogia e a ética venham de cima. Virá de onde? Virá do Direito e dessas instituições, que nós vamos criar agora, em 1988. Quer dizer, há um elemento de continuidade aí ou há um elemento de descontinuidade do qual as marcas autoritárias vão ser erradicadas, mas essa precedência do público sobre o privado continua.”

Na Constituinte, grupos de empresários entendiam o moderno como a privatização do mundo; enquanto setores do sindicalismo, dos movimentos sociais e das instituições da sociedade civil, ao longo das lutas contra o autoritarismo, entendiam a modernidade como a democratização da esfera pública. A promessa era a recusa ao corporativismo, o empenho no fortalecimento das instituições da democracia representativa, o desenvolvimento do promissor embrião da democracia participativa que se desenvolvia, a instituição de nexos fecundos entre essas duas, a regulação democrática de sua vida interna e o envolvimento vivo e concreto com os movimentos sociais e suas associações nos processos decisórios.

Para Werneck, a história da modernização no Brasil, aliada à lógica privatista, era a negação do sistema da representação política e dos partidos políticos pela convivência corporativista. Ao movimento democrático e popular organizado caberia a combinação entre representação clássica e a democracia participativa de massas. A política social, o pluralismo político e a cidadania plena e livre seriam fundamentais nesse processo. O que deu errado?

Não existe resposta simples. Estamos na iminência de uma crise institucional muito grave, dessa vez protagonizada por quem deveria evitá-la. O retorno dos ministros à Praça dos Três Poderes não teve a liturgia dos recomeços, mas a continuidade da crise que antecedeu o carnaval. O Supremo volta ao trabalho com a sensação de que já não controla o próprio enredo. A crise não é apenas externa, com Planalto e Congresso já no embalo das campanhas eleitorais; é interna, de corredor, de confiança quebrada. Quando uma Corte constitucional perde o chão, a toga vira tapete mágico.

No fundo, o caso Master é um exemplo de “precedência do público sobre o privado”. A promessa de 1988 foi civilizar o poder, submeter interesses privados à publicidade, impessoalidade e responsabilidade. Mas o escândalo expôs o oposto: relações opacas, suspeitas de promiscuidade, cifras astronômicas, inexplicáveis, apesar das justificativas protocolares. E uma reação corporativa de autodefesa, contra os órgãos controladores, em que o heterodoxo inquérito das “Fake News” foi exumado. Já não está sendo usado para defender a democracia.

Acima das suspeitas

No clássico do cinema italiano “Indagine su un cittadino al di sopra di ogni sospetto” (Investigação sobre um cidadão acima de qualquer suspeita), do diretor Elio Petri, estrelado por Gian Maria Volonté e Florinda Bolkan (Bulcão), como Augusta Terzi, um inspetor do alto escalão da polícia italiana, com reputação ilibada, fama de incorruptível, mas reacionário, mata sua amante. Resolve pagar para ver se a polícia irá acusá-lo e, por isso, como em “Crime e castigo”, de Fiódor Dostoiévski, vai plantando pistas óbvias que o identificam como o assassino, ao mesmo tempo em que vê os colegas ignorando-as, intencionalmente ou não.

Voltemos ao caso Master. Não é casual que, em vez de discutir o mérito do problema, a conversa interna no Supremo (vazada, gravada ou reconstituída) tenha derivado para a guerra contra quem investiga, contra quem notícia, contra quem “ousa” tocar no clube de futebol. É “judicialização” da própria crise do Judiciário: pedidos, ofícios, operações, rastreamentos, apurações paralelas, com o uso de instrumentos excepcionais para blindar os integrantes da Corte, em lugar da transparência, do rito e do contraditório. E o improviso retaliatório.

O ambiente externo é o pior possível, exatamente por causa da “judicialização da política”. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva mantém distância regulamentar da PF; na Câmara, agitam-se as CPIs, que ninguém sabe como terminam. O Senado, por ora, não quer saber de impeachment. Ninguém aparece para apagar o fogo. O mais grave é a crise de autoridade moral: o Supremo pode continuar decidindo, porém, com menos crédito social; seus limites são cada vez mais opacos e sinuosos.

Ou seja, deu errado quando a promessa de “pedagogia e ética vindas de cima” se transformou em tutela sem controle. Quando a judicialização foi capturada por uma cultura de corporação. A modernização avançou por meio de vínculos pessoais, mercados de influência e portas giratórias; e a política representativa foi substituída por tribunais, corporações e moralismos de ocasião. É uma crise existencial.

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quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

PELO FIM, SEM ALARDE, DA ESCALA 6X1

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

A mentalidade colonial brasileira quer nos fazer crer que o fim do regime de trabalho destruirá a economia do país

Investir no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da escala

debate sobre o fim da escala 6x1 precisa, de um lado, se dar sem alardes infundados em evidências e, de outro, considerar a histórica desigualdade nas relações trabalhistas no país. Sem levar em conta o peso de uma nação com quase quatro séculos de escravidão nas costas, torna-se superficial e, portanto, infrutífero debater a sério a relação economia e trabalho.

Importante enfatizar que os estudos disponíveis sobre o impacto do fim da escala de trabalho 6x1 não justificam o alarde. Tudo o mais constante, sim, o custo do trabalho pode aumentar em 7,84% segundo estudo do Ipea, por uma simples razão de que o combo salário igual e menos horas trabalhadas eleva o custo da hora de trabalho. O dado em si diz pouco.

Investir no aumento de produtividade poderia ser uma das metas com o fim da escala 6x1. Se a produtividade cresceu pouco entre 1981 e 2023, em parte isso se deve à necessidade de maior investimento em máquinas e equipamentos usados pelo trabalhador, bem como em sua escolaridade e experiência. O fim da escala 6x1 abre uma brecha para que trabalhadores, além de ter o direito humano ao descanso, possam investir em sua capacitação.

Haver custo não quer dizer, ademais, que a alta não seria absorvida pela economia, nem que seria igual a todos os setores da economia. Ipea prevê impacto na indústria e comércio bem menor, de 1%; em áreas como vigilância e limpeza poderia ser maior, de 6%. A classe política e empresarial é plenamente capaz de desenhar as estratégias setoriais adequadas, basta se empenhar tanto nisto quanto o fazem para justificar exorbitantes benefícios fiscais.

A mentalidade colonial brasileira quer nos fazer crer que o fim da escala 6x1 —e não a cooptação patrimonialista das instituições da República, por exemplo— destruirá a economia do país. Não é a dona Maria ou o seu João que não conseguem ter nem sequer um dia inteiro de descanso que destruirão a economia, mas, sim, a distorção óptica segundo a qual o flagelo sempre parecerá mais leve para aquele que está do lado de quem o impõe.

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