Rodrigo Nunes*,
Folha de S. PauloLula 4 dá fôlego à democracia, mas extrema direita não
foi embora com Flávio
Um governo apenas de normalização institucional é muito
pouco contra ameaças que nos assombram
Será indispensável manter mobilização social e ousadia
para emparedar bolsonarismo
[RESUMO] Triunfo histórico de Lula merece ser
celebrado pelos defensores da democracia, mas não podemos nos enganar sobre a
gravidade da situação. O voto bolsonarista segue crescendo, consolidou domínio
no Congresso e por pouco não leva a Presidência, impulsionado pela
desintegração social em todo o mundo após 50 anos de neoliberalismo. Reverter
esse quadro exigirá do governo federal preservar ao longo dos próximos quatro
anos o senso de urgência descoberto no segundo turno, começando a se preparar
para 2030 desde já.
Com uma inédita virada no segundo turno, Luiz
Inácio Lula da Silva ganhou um inédito quarto mandato como presidente
naquela que foi, sem dúvida, a eleição mais dramática da história do país.
Mais uma vez, a democracia brasileira respira aliviada após
escapar
por um triz do maior risco por que passou desde o fim da ditadura militar. Mas
se o retorno de Lula há quatro anos pareceu ser interpretado por muitos
como sinal de que a ameaça fora definitivamente derrotada, é preciso desta vez
levar muito a sério o que as urnas indicam: ela não apenas não foi embora, como
segue crescendo.
Embora o salto à frente de Flávio
Bolsonaro no primeiro turno não fosse esperado, tudo mais nos resultados
daquele dia não deveria ser surpresa.
Malgrado a derrota na disputa presidencial de 2022, o voto
bolsonarista continuou se ampliando e capilarizando desde 2018, conforme se
pôde observar nas três últimas eleições, com
a consolidação de sua presença no Congresso, nos governos e legislativos
estaduais, nas prefeituras e câmaras de vereadores.
Em vez de uma virada de maré, o triunfo de Lula quatro anos
atrás foi a recaptura do último bastião que ainda não estava plenamente nas
mãos da extrema direita.
Se aquela eleição viu um dos melhores presidentes da
história do Brasil bater o pior por uma margem mínima, 2026 obrigou Lula a
correr atrás do resultado contra um candidato que não é o político mais
expressivo nem de sua própria família —e o reconduziu ao governo para quatro
anos sob o cerco permanente de um adversário hostil e empoderado.
Nas últimas semanas, um termo circulou para caracterizar
esse cenário: haveria uma revolução de
extrema direita em curso no país. Por um lado, tratar-se-ia de uma revolução
cultural, visível, por exemplo, no avanço de todo um universo de valores e
referências associados ao agronegócio ao longo da fronteira agrícola em
expansão no interior do Brasil.
Uma revolução cultural também no modo como a extrema direita
soube dar forma aos desejos e frustrações dos atletas da
viração nas cidades grandes e médias: motoboys, motoristas de aplicativo,
aspirantes a influencers e outros trabalhadores em situação permanente de sub e
multiemprego que se identificam com a promessa de um mundo em que menos
regulação e impostos possam impulsionar seus voos pessoais.
Revolução cultural, finalmente, no
crescimento das igrejas evangélicas nas periferias e na ascensão dos empreendedores políticos: influenciadores digitais que
fizeram da agitação de extrema direita uma carreira lucrativa e que, em muitos
casos, lograram converter em votações estrondosas seu considerável capital
midiático.
Mas o termo se justificaria sobretudo porque é a extrema
direita que tem sabido melhor do que ninguém encarnar um desejo de ruptura que
paira no ar há algum tempo —uma mistura de desencanto com as promessas da
democracia e da modernidade, indiferença a instituições vistas como elitistas e
corruptas, um sentimento de que as coisas não podem seguir como estão e uma
dificuldade profunda de imaginar como elas poderiam ser diferentes.
Trata-se de uma revolta que acaba por ser extremamente conformista, na medida em que não se traduz em
projetos coletivos de combate à explosão da concentração de poder econômico e
político das últimas décadas, mas na aposta em figuras que prometem um ambiente
mais desregulado de competição de todos contra todos. Isso, contudo, não a
torna menos urgente para quem adere a ela.
Revolução ou Aceleração?
Todos os elementos dessa análise estão corretos —e, no
entanto, a palavra "revolução" não deixa de causar ruído. Não porque
ela seja privilégio exclusivo da esquerda ou porque tenha um conteúdo
determinado, mas porque falta à ascensão da extrema direita uma característica
que parece essencial ao conceito: a de ir a contrapelo do atual estado de
coisas.
Em cada um dos pontos acima, é possível dizer que o sucesso
da extrema direita vem menos de sua capacidade de andar na contramão da
história e mais de sua aptidão para navegar os ventos favoráveis das quase duas
décadas de crise permanente que vieram na esteira da debacle financeira de
2008.
A internalização do empreendedorismo de si mesmo —aquilo que
Verónica Gago chamou de "neoliberalismo desde baixo"— não é um fenômeno
recente, mas o resultado cumulativo de cinco décadas de reformas neoliberais
que reformataram o mundo em que vivemos.
O advento da plataformização e das redes digitais contribuiu
para acelerar este processo, bem como o da colonização da política pela
economia da atenção que fez
crescer exponencialmente o poder das big techs, inclusive aquele de intervir
diretamente em eleições, ao mesmo tempo que abria aos empreendedores
políticos um mercado gigante de instrumentalização da raiva, do ressentimento e
do ódio.
Neste processo, também as igrejas evangélicas funcionaram
menos como inovadoras do que como organismos especialmente adaptados a um novo
mundo que se formava.
Ocupando espaços deixados pela ausência do Estado e pela
retirada da Igreja Católica de áreas mais pobres, elas ofereciam apoio a
indivíduos expostos a condições cada vez mais hostis e uma mensagem adequada às
circunstâncias, de esforço e salvação individuais.
Durante um tempo, os desejos despertados por essa
reformatação da vida social e da subjetividade puderam se projetar em cenários
de expansão: a globalização e a abertura ao capital internacional, bolhas
especulativas como a da internet e a do mercado imobiliário. Com o estouro
desta última, a situação mudou no mundo todo.
No Brasil, o fim
do ciclo das commodities em 2015 fez com que mesmo alguns dos pilares do
sucesso petista se voltassem contra o partido. Em 2026, o voto bolsonarista
cresceu no Nordeste junto com a fronteira de um agronegócio que, desde 2018, se
realinhou à extrema direita.
A expansão do crédito, que possibilitou a "inclusão
pelo consumo" no início do século, virou endividamento em massa e fez com
que a melhora dos indicadores macroeconômicos do terceiro governo Lula não se
traduzisse na vida de muita gente.
Também a promoção do empreendedorismo popular, parte
importante do repertório lulista nos tempos de prosperidade, virou-se
contra o PT quando as condições mudaram. Não apenas a culpa pela piora
recaiu sobre o partido, como este perdeu a batalha discursiva em torno de quais
haviam sido as causas dos tempos de vacas gordas.
Em vez de as políticas redistributivas serem percebidas como
aquilo que aquecera o mercado interno e tornara possível empreender, elas
viraram as vilãs que tiravam dos busca-vidas para dar a quem não queria
trabalhar.
É possível compreender essa mudança de vento global
examinando a transformação do imaginário em torno dessa figura-chave de nosso
tempo, o empreendedor.
As condições econômicas pós-2008 —explosão do subemprego,
aceleração da concentração de renda, inflação de ativos financeiros— fizeram
com que desaparecesse a perspectiva de uma progressão linear entre poupança e
investimento em formação, por um lado, e a mobilidade social, pelo outro.
Com isso, a ética protestante do êxito mediante o trabalho
duro sofreu uma inflexão. Quando o sonho da casa própria ou de ter filhos se
torna tão distante que não há um caminho natural até ele, cresce a busca por
atalhos: soluções mágicas como bets, criptomoedas ou o sonho de virar coach ou
influencer, caminhos que elegem um caso de sucesso em cada dezena ou centena de
milhar.
Até o otimismo de nossos tempos tem um quê de desesperado.
Isso implica que, se é essencial à esquerda saber ouvir as aspirações
dos que querem brilhar, ela não pode contentar-se com acolhê-las em seus
próprios termos, sem questionar as (im)possibilidades estruturais de sua
realização ou articular a necessidade de uma outra economia, sustentável e mais
igualitária, onde outros tipos de sonho encontrem outras condições de se
realizar.
Em boa medida, a guinada à extrema direita no mundo todo
pode ser entendida como aquilo que acontece com os desejos despertados pelo
neoliberalismo quando suas promessas de boa vida se tornam cada vez mais
difíceis de realizar: eles azedam.
Trata-se de uma política para "um tempo de expectativas
decrescentes", potencializado pelo espectro da crise ambiental, quando
perceber o mundo como um jogo de soma zero se torna cada vez mais natural.
Se as condições não parecem poder mudar, a não ser para
pior, e redistribuir a renda concentrada no topo não parece possível, só resta
a quem está na base da pirâmide competir entre si —empurrando para fora do jogo
minorias, imigrantes, ou quem quer que esteja do lado mais fraco da corda.
É por conta desta continuidade com o atual estado de coisas
que, sem menosprezar a força galvanizante da extrema direita, parece mais
adequado falar não em revolução, mas em instrumentalização e aceleração da desintegração social produzida por 50 anos de
neoliberalismo, incluindo as já quase duas décadas de sua sobrevida zumbi
pós-2008.
Alimentando-se das forças liberadas por essa desintegração,
a extrema direita as direciona na direção do colapso: da democracia e do
universalismo liberais, da legalidade, da capacidade estatal, do meio ambiente
e até mesmo da soberania indivisível —como se vê no avanço de atores soberanos
não estatais como milícias e narcotráfico, que tinham um representante direto
nessas eleições em Flávio Bolsonaro, agora foragido das investigações criminais
que pesam sobre ele.
Emancipação em Tempos de Expectativas Decrescentes
Pensar o ascenso da extrema direita como continuação e
aceleração de tendências existentes também nos ajuda a entender todas as
vantagens estruturais que ela aparenta possuir.
Vantagens do ponto de vista da mensagem, que está em
continuidade com o momento histórico de horizontes reduzidos, a gramática moral dominante e a experiência vivida de muita
gente; e vantagens do ponto de vista organizacional, já que ela se acha mais
capilarizada no tecido social e encontra nas plataformas digitais um terreno
mais favorável ao tipo de política que propõe.
Vantagem, finalmente e sobretudo, porque, apesar do discurso
antissistema, sua prática está em perfeita continuidade com os interesses de
elites domésticas e globais que decidiram pisar no acelerador da concentração
de riqueza às custas da democracia, do meio ambiente e da imensa maioria da
população mundial.
Mais do que qualquer coisa, a quarta vitória de Lula
significa comprar tempo. Tempo para a democracia, afastando
o risco de tomada do Judiciário que um Executivo e Legislativo em mãos
bolsonaristas representava.
Tempo para o meio ambiente, diante do fato de que mais
quatro anos de um Bolsonaro na Presidência certamente poria a Amazônia numa
trajetória irreversível de savanização, com um impacto fortíssimo sobre o
aquecimento global.
Tempo para serviços públicos como saúde e educação,
afastando por ora a ameaça de cortes e privatização. Tempo para proteger as
instituições e a vida pública da infiltração cada vez maior pelo crime
organizado.
Mas é preciso ter sobre essa vitória a clareza que faltou em
2022: por ora, estamos apenas comprando tempo. Lula 3 foi um governo de
normalização, o que não deixava de ser bem-vindo após quase dez anos de
anormalidade constante; mas, em um mundo em que a tendência natural das coisas
favorece a extrema direita, agir como se estivéssemos em tempos normais é um
grande erro.
Quando as coisas vão longe demais em uma direção, as medidas
capazes de realmente corrigir seu curso não podem deixar de parecer radicais.
Por isso, será indispensável manter ao longo dos próximos
quatro anos o senso de urgência descoberto no segundo turno para garantir que
Lula 4 tenha não apenas a chance de existir, mas de fazer o que é preciso para
começar a reverter o cenário em que a aceleração da desintegração opera e a
extrema direita cresce.
Isso significa sustentar tanto a mobilização popular quanto
a ousadia que o governo federal assumiu na reta final das eleições, quando uma
série de medidas até então tidas como impossíveis subitamente se tornaram
imparáveis —com
a proibição das bets, o
reajuste do Bolsa Família, a
redução da jornada de trabalho e a PEC
da Tarifa Zero.
A estas precisarão se somar, o quanto antes, a regulação das
big techs e o combate ao sequestro do orçamento por emendas parlamentares nada
transparentes.
Acima de tudo, a esquerda será obrigada a enfrentar a
questão fundamental que o sucesso da extrema direita em capitalizar em cima da
desintegração traz à tona:
o que significa articular um projeto emancipatório em tempos de expectativas
decrescentes?
Como podem os desejos, as esperanças e as aspirações
atualmente depositados na extrema direita serem transformados e redirecionados
para uma alternativa à altura do desafio de combater a desigualdade em um mundo
que se aproxima perigosamente do colapso ambiental?
A vitória improvável sobre o bolsonarismo, Donald Trump, o
crime organizado e o Vale do Silício tornou-se uma fonte de esperança e
entusiasmo ao redor do mundo —uma espécie de equivalente, na política
eleitoral, ao que foi o Vietnã.
A impressionante mobilização que tornou isso possível virou
um caso de estudo sobre como vencer a extrema direita nas urnas, além de ter
posto uma pulga atrás da orelha da maioria de direita no Congresso, que
certamente viu ali a possível emergência de uma força capaz de reorganizar a
correlação de forças pós-eleições.
Contudo, é preciso lembrar que foi preciso uma figura do
porte de Lula para bater o bolsonarismo em 2022 e 2026 —o que significa que a
preparação para 2030, quando
ele já não poderá se candidatar, começa desde já.
Mas é preciso estar atento para não confundir estratégia
eleitoral com estratégia política. Uma coisa, evidentemente importante, é
construir candidaturas fortes para a Presidência e o Legislativo nas próximas
eleições.
Nomes novos que despontaram com força neste último ciclo,
como
Érika Hilton e Ana
Elisa, não só oferecem esperança como apontam alguns caminhos.
Outra coisa, condição imprescindível para o sucesso da
primeira, é compor uma base social em condições não apenas de eleger tais
candidaturas, mas de emparedar aqueles que tentarão emparedar o governo,
gerando a demanda e as oportunidades para que este consiga ir além.
Isso não se fará apenas com mais influenciadores de
esquerda, como muitos pareceram concluir após o primeiro turno, mas também com
organização analógica e o esforço para elaborar um programa capaz de atualizar
o lulismo para condições muito diferentes.
Neste sentido, há uma lição muito forte a se aprender com
este segundo turno. Iniciativas vindas de fora do quartel-general de campanha,
tais como o Exército do Lula e o projeto Revelando,
foram decisivas nesta virada.
Elas, por sua vez, não teriam produzido os mesmos efeitos
sem a tenacidade de milhões de pessoas que dedicaram seu tempo, dentro e fora
das redes, para correr atrás de um resultado improvável.
Não foi o PT, nem foi Lula,
mas sim a ecologia
que se constituiu em torno deles que venceu a eleição.
Se Lula, com esse triunfo, inscreveu seu nome em definitivo
nas páginas da história brasileira, é a sua imagem nessa reta final que oferece
a lição mais potente para o que virá agora: a de um indivíduo extraordinário,
de trajetória extraordinária, mas que precisou de um povo
extraordinário para carregá-lo até a linha de chegada.
*Professor da Universidade de Essex e da PUC-Rio.
Autor de "Do Transe à Vertigem: Ensaios sobre Bolsonarismo e um Mundo em
Transição" e "Nem Vertical Nem Horizontal: uma Teoria da
Organização"