sexta-feira, 3 de julho de 2026

DEPOIS DA ELEIÇÃO OU NO DIA DE SÃO NUNCA

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

O novo grito de guerra em Brasília é: que tal deixar para depois das eleições?

Carta com pedido de Flávio Bolsonaro sobre adiamento de tarifaço dos EUA é um desastre

A carta do senador Flávio Bolsonaro para o governo Trump, via Escritório de Comércio (ou USTR), é um desastre para o próprio Flávio, sob todos os pontos de vista, político, diplomático, até moral. Quer dizer que um novo tarifaço agora não pode, porque é bom para o presidente Lula, mas, depois das eleições, depende de quem ganhar?

O importante para o candidato não é se é bom ou mau para o Brasil e os brasileiros, o que vale é se é bom ou mau para ele e o bolsonarismo, dane-se o resto. Aliás, foi assim em cada passo do bolsonarismo para se aproximar de Trump e se distanciar do Brasil.

O então deputado Eduardo Bolsonaro articulou o primeiro tarifaço, de 50%, para tentar salvar o pai, Jair, no Supremo, apesar do evidente estrago que isso produziria na economia do País. Aliás, como produziu, até que Lula e Trump abrissem um diálogo institucional, agora rebaixado a troca de cartas.

Depois, o próprio Flávio assumiu a articulação do novo tarifaço, com base na Seção 301 de Comércio, tanto que o anúncio de Washington saiu dias depois do encontro dele com Trump. Aquele, em que ele aparece nas fotos de pé, com Trump ao lado, sentado.

O novo capítulo, às vésperas de Flávio participar de uma audiência pública nos EUA, é a carta para o USTR, que, num resumo livre, pode ser lida assim: desculpem, foi mal, mas fizemos uma besteira atrás da outra e deu tudo errado.

Citando pesquisas, ele diz que novas tarifas dariam “vitória política” para o governo Lula e “puniriam a economia americana e os próprios brasileiros”. Alguma surpresa? É como se ele não tivesse nada a ver com isso, mas foi o próprio Flávio quem se vangloriou de ter conseguido as medidas – que, aliás, atingem o Pix.

Michelle Bolsonaro também quer parar o tempo e já avisou que não vai mexer uma palha na campanha do enteado. E depois? Depende do resultado?

No campo oposto, as investigações do escândalo contra velhinhos e velhinhas do INSS, que esbarram em Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, andam meio paradas. Só depois das eleições, também? Dependendo de quem ganhe?

E a delação de Daniel Vorcaro, que pode detonar Flávio, o ex-líder do governo Lula Jaques Wagner, o ex-chefe da Casa Civil do governo Bolsonaro Ciro Nogueira, o ministro do STF Alexandre de Moraes e um punhado de governadores? Depois das eleições? Será?

Em alguns desses casos, as consequências realmente dependem de quem ganhe. Em outros, que envolvem direita e esquerda, governo e oposição, nem em novembro, nem em 2027, nem em 2028... Só no Dia de São Nunca?

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quinta-feira, 2 de julho de 2026

O PASTOR QUE ESCONDIA DINHEIRO NO ARMÁRIO E OS ESCÂNDALOS NA GAVETA DO BOLSONARISMO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

PF investiga deputado federal Sóstenes Cavalcante, que segue líder dos bolsonaristas

Excesso de barracos na direita talvez abafe o caso do dinheirão vivo sem origem justificada

Jaques Wagner (PT-BA) foi saído da liderança do governo no Senado por suspeitas de fazer negócio com gente vorcarenta. Levou uns dias até cair. Talvez pelo odor de santidade, digamos, o pastor Sóstenes Cavalcante (PL-RJ), líder do seu partido na Câmara, resiste faz meses, desde que a Polícia Federal achou um saco de dinheiro no flat brasiliense desse deputado federal, em dezembro do ano passado.

Sóstenes disse que a dinheirama viria da venda de um imóvel em Ituiutaba (MG). Eram R$ 467,8 mil em notas de cem, juntadas em um saco plástico achado em um guarda-roupa. Não caberia tudo em roupas de baixo, decerto. A polícia e parte do Supremo suspeitam que o dinheiro seria resultado de desvios de verba parlamentar.

A extrema direita, a direita, boa parte da dita e velha opinião pública mais vocal ou o evangelismo político-partidário parecem querer que o caso fique dentro do armário. Sóstenes não causa sensação maior nem depois de a Polícia Federal seguir umas pistas, como etiquetas dos maços de tutu, e chegar a mais amigos do dinheiro vivo, ao que parece parceiros do deputado. É uma turma dona de empresas esquisitas, de gente que costuma sacar milhões em notas de reais. Quem sabe sejam apenas aquelas pessoas excêntricas amalucadas, que desconfiam de bancos e gostam de depósitos no colchão ou no armário. Ou gente em quem a polícia não deve confiar.

Sóstenes já presidiu a Frente Parlamentar Evangélica. Formou-se em teologia. É pastor evangélico. É de uma Assembleia de Deus. É amigo de Silas Malafaia. Foi contra o isolamento sanitário na Covid-19. Defende a "vida" (é contra a interrupção voluntária da gravidez) e armas, família e bons costumes, apesar de ter esse costume de guardar dinheiro no saco dentro do armário. É um bolsonarista ferrabrás.

Pode ser que o caso de Sóstenes ainda não tenha causado escândalo maior por causa do congestionamento de podres, mumunhas e salseiros na direita extrema. Há, por exemplo, o barraco que envolve Flávio Bolsonaro com Michelle Bolsonaro, dita "Firmo" pelos inimigos íntimos. A madrasta dos filhos de Bolsonaro diz temer a revelação de mais mutretas do enteado e reposta vídeos que tratam das cafajestadas de políticos, empresários e outros nas bandalhas de Daniel Vorcaro. Está dizendo "não mexam comigo", respondendo a ameaças veladas de bolsonaristas que a detestam.

Há ainda o ajudante de ordens de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos a dizer que "mulher vota mal". Segundo esse sujeito, um Paulo Figueiredo, mulher não "vota errado porque é burra ou inferior, mas sim porque uma ideologia demoníaca, marxista, está destruindo a cabeça delas: o feminismo", como disse a Monica Bergamo, nesta Folha.

O excesso de vexames pode ser uma explicação circunstancial para a tolerância com bandalheiras bolsonaristas. O fato maior é que Flávio Bolsonaro tem enorme ficha corrida, processos ensacados no armário, amizade fraterna com Vorcaro e relações históricas com milicianos. Bolsonaristas estavam no comando do poder político estadual do Rio de Janeiro até o início deste ano, mandando em governo e Assembleia Legislativa (Alerj) infiltrados pelo crime, pela corrupção policial, por facções como o Comando Vermelho, que talvez domine ou dominasse a Alerj. Não tem causado escândalo terminal que essa turma tenha um projeto de comandar o governo da República. Sóstenes inclusive.

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A NOVA GUERRA SANTA

Ruy Castro*, Folha de S. Paulo

Michelle e Fernanda Bolsonaro brigam à base de capítulos e versículos da Bíblia

Resta saber se Flávio Bolsonaro sobreviveria a uma sabatina por pastores com Ph.D

É uma guerra santa, em que as contendoras, cada qual com uma Bíblia como munição, disputam o monopólio da Verdade. As armas são os capítulos e versículos de autoria dos influencers apostólicos. O campo de batalha, os bazares e covis das redes sociais. Em combustão, o ódio embutido em palavras como "amor", "alegria" e "mansidão". Por trás das duas generalas, exércitos de fiéis equipados com as novas tábulas, os smartphones, despejando insultos nada evangélicos contra uma ou outra. O botim, algo nunca previsto nas Escrituras: uma candidatura à Presidência do Brasil.

Ambas as litigantes são Bolsonaros de cartório: Michelle, 44 anos, mulher do Bolsonaro original, ex-primeira-dama e potencial parlamentar, e Fernanda, idade não sabida, mulher do presidenciável Flávio Bolsonaro e cirurgiã-dentista. Donde Michelle Bolsonaro é madrasta de Flávio Bolsonaro e sogra torta de Fernanda Bolsonaro. Se os Bolsonaros não se entendem nem entre si, como entenderão o Brasil?

Na semana passada, Michelle azedou o vinho familiar ao publicar nas redes sociais um vídeo em que, citando os Salmos, acusou Flávio Bolsonaro de maltratá-la, humilhá-la e apunhalá-la com seus sabidos machismo, grossura e arrogância. Fernanda, por sua vez, também em postagens, contra-atacou com Provérbios para defender seu marido. O começo das hostilidades revelou uma paridade de armas: ambas conhecem a fundo a Bíblia. Cite uma frase de Jó ou Malaquias e elas lhe dirão os números do capítulo e versículo. Ou dê-lhes esses números e elas recitarão os textos a que correspondem. A pergunta é: Flávio Bolsonaro –que há pouco definiu as eleições como "uma luta contra o Mal", com ele no papel do Bem-- será também tão conhecedor do Verbo como tenta parecer?

Eu, se fizesse parte de seu rebanho eleitoral, só votaria nele depois de vê-lo rigorosamente sabatinado por pastores com Ph.D Queria ouvi-lo citar de memória João 14:16 e 15:12. Ou Marcos 12:31, Salmos 23:1 e Efésios 4:29.

Spoiler: são algumas das citações mais queridas da Bíblia.

*Jornalista e escritor, autor das biografias de Carmen Miranda, Garrincha e Nelson Rodrigues, é membro da Academia Brasileira de Letras

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O GALEGO TINHA RAZÃO

Julia Duailibi, O Globo

Lula acha denúncias contra Jaques Wagner uma grande bobagem

Demissão do amigo Galego ocorre como algo protocolar, cujo objetivo principal era estancar a crise

O presidente Lula fez ontem um elogio ao senador Jaques Wagner (PT-BA), ex-líder do seu governo no Senado. Em viagem à Bahia, Lula o chamou de irmão, o abraçou e posou no palanque a seu lado, uma semana depois de ele deixar o posto. Com seu gesto, o presidente mostrou o que realmente acha das denúncias apresentadas pela Polícia Federal, envolvendo os favores prestados a Wagner por um empresário que manteve conexões com o Master: uma grande bobagem.

Galego, como o senador é chamado por Lula, tinha razão, portanto, quando, semanas atrás, deu uma declaração dizendo achar que Lula não o demitiria e que o próprio presidente enfrentou problemas mais graves, como a prisão na Operação Lava-Jato. O abraço público dos dois ontem foi a comprovação de que Wagner sabia do que estava falando. No mérito, Lula não deu muita bola para as denúncias, e a preocupação dele sempre foi com o uso eleitoral delas pelos adversários.

Nesse contexto, a demissão de Wagner ocorre como algo protocolar, cujo objetivo principal era estancar a crise e dar ao presidente discurso para responder quando confrontado sobre o assunto na eleição. Aliás, o próprio senador cantou essa bola, dando a entender que Lula não havia comprado muito a história da PF sobre os favores pedidos ao empresário. Em entrevista a Catia Seabra, da Folha de S.Paulo, depois da saída do cargo de líder, Wagner revelou que, no dia de sua demissão, Lula disse a ele que o “conhecia há 48 anos”, mas que agora teria de desmontar a “história” que “construíram” contra ele.

A postura de Lula em relação a Wagner descredibiliza as investigações da PF, ainda que elas não devam ser uma condenação prévia. A Justiça é quem dará a palavra final sobre se houve corrupção no pedido de Wagner ao empresário para que ele comprasse um apartamento de R$ 2,4 milhões para a filha do senador. Mas, uma vez que Wagner já está fora mesmo da liderança do governo e que a crise parece um pouco mais estancada, o mais conveniente para Lula agora foi ignorar as denúncias contra o aliado e tentar ajudar na reeleição dele ao Senado.

Além disso, assim como a maioria dos políticos brasileiros, Lula tende a normalizar as relações entre público e privado. Casos potenciais de corrupção são tratados pela nossa classe política como simples demonstração de amizade. Ninguém compra apartamento para filha de senador só para ser boa gente. Assim como nenhum empresário banca filme sobre vida de político pelo interesse no cinema nacional. Quando Daniel Vorcaro atende ao pedido do pré-candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, e paga milhões para, como foi alegado, produzir “Dark Horse”, também age em troca de acesso ou blindagem.

Na nossa cultura política, o anormal é viajar em voo comercial ou ter de pegar financiamento imobiliário no banco para comprar um apartamento para a filha. Os favores privados fazem parte do jogo, e quem cobra prestação de contas sobre isso está a serviço dos adversários políticos. Ao abraçar Galego no palanque, Lula não deu só uma demonstração de amizade em relação a ele. Deixou claro que também considera ter havido uma “patacoada” da PF, expressão usada por Wagner em relação à operação de que foi alvo.

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SUA SENHORIA, OS FATOS

Merval Pereira, O Globo

O pré-candidato do PSD, ex-governador Ronaldo Caiado, aguarda os possíveis erros da candidatura do PL para ver se consegue reverter sua situação na corrida presidencial

A crise familiar dos Bolsonaros pode ter desdobramentos na campanha eleitoral para a Presidência da República. O prazo para registro das candidaturas termina em 5 de agosto, e até lá os partidos podem mudar seus pré-candidatos. Há quem desconfie de que o ex-presidente Jair Bolsonaro não esteja totalmente alheio aos movimentos de sua esposa, Michelle, e de que ela não teria gravado sem aquiescência dele aquele vídeo em que praticamente rompe com a candidatura de seu enteado Flávio.

Embora à primeira vista pareça quase impossível que o pai abandone o filho por causa da madrasta, os ventos políticos podem fazer com que a candidatura de Flávio se inviabilize. Pelo menos é o que parece esperar Michelle. O temor, ou desconfiança, de que surgirão novos fatos contra Flávio domina parte do grupo bolsonarista, e a insegurança é grande no seu entorno. As próximas pesquisas podem indicar um caminho novo ou confirmar a candidatura de Flávio, caso os escândalos recentes não o tenham ferido de morte.

O pré-candidato do PSD, ex-governador Ronaldo Caiado, aguarda os possíveis erros da candidatura do PL para ver se consegue reverter sua situação na corrida presidencial. A escolha do presidente do partido, Gilberto Kassab, para candidato a vice pode tanto significar que a legenda quer se distanciar de alianças tóxicas, como alegam, como fraqueza na articulação partidária. A campanha de Caiado está convencida de que, se ele conseguir chegar aos 10 pontos nas próximas pesquisas, estará aberto um caminho alternativo para os eleitores que não querem a polarização. A crise no PL pode também levar a um acordo já no primeiro turno, já que o apoio a Flávio é questão fechada no PSD no segundo turno.

Esclarecimento

O ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), classifica de “erro factual” eu ter dito que os ministros votaram a flexibilização dos penduricalhos “em causa própria” e pergunta que vantagem pessoal ele tirou da nova decisão do Supremo. Evidentemente, não acusei individualmente os ministros. A causa própria a que me referi é a da classe dos servidores do Judiciário. Não tenho ideia se algum ministro do Supremo receberá aumento em seus vencimentos devido à decisão.

Dino também pede para esclarecer que a votação sobre os penduricalhos do Judiciário terminou com 6 votos pela manutenção do teto de 35% (relatores Flávio Dino, Alexandre de Moraes, Cristiano Zanin, Gilmar Mendes, presidente Edson Fachin e Cármen Lúcia); e os demais 4 votos (Luiz Fux, Dias Toffoli, André Mendonça e Kassio Nunes Marques) defenderam a retirada do teto de 35% para pagamento de penduricalhos retroativos. Com a decisão, o teto fixado passa de R$ 46,4 mil, o salário de ministros do Supremo, para R$ 78,8 mil. Entre as decisões aprovadas por unanimidade está um aumento de 5% a cada cinco anos de serviço, benefício que havia sido extinto há 20 anos.

Desgastes

A prisão do vereador Senival Moura (PT) na Operação Última Parada deixou de ser apenas problema municipal para o partido, na visão dos coordenadores da campanha de reeleição do governador Tarcísio de Freitas. O caso ganhou peso nacional desde que veio à tona o fato de o relatório da investigação citar Jilmar Tatto, vice-presidente nacional do PT e um dos nomes mais antigos do partido na área de transportes. A investigação trata da lavagem de dinheiro do PCC na Transunião, empresa de ônibus da Zona Leste de São Paulo. O setor é historicamente ligado à estrutura política petista na capital. A pergunta que circula nos bastidores é: se a apuração seguir o caminho do dinheiro, ficará restrita a Senival ou poderá alcançar campanhas e estruturas partidárias? Para Haddad, o risco nasce em seu principal território político: São Paulo. Para Lula, o desgaste é nacional ao misturar PT com PCC, transporte público e suspeita de financiamento político.

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A CAMPANHA EM MOVIMENTO

Míriam Leitão, O Globo

Crise familiar-partidária, trégua no Oriente Médio e os impactos no cenário eleitoral

A crise do PL se aprofunda, a briga dos Bolsonaro escala, e as ofensas às mulheres pioram tudo. PSD tenta virar opção e Lula pode ser beneficiado pelo fim da guerra

A escolha do PSD de fazer uma chapa puro-sangue, com o presidente do partido Gilberto Kassab como candidato a vice de Ronaldo Caiado, se deve principalmente à falta de opção. Eles tentaram atrair o PP e o União Brasil e não foi possível. Informações do próprio PSD são de que ouviram nos dois partidos que a tendência seria o apoio ao presidente Lula. A legenda vê a pré-campanha de Flávio Bolsonaro em apuros, avalia que a crise vai se aprofundar e que, portanto, há a possibilidade de crescimento de candidatura alternativa da direita. A aposta continua sendo no prestígio de Ronaldo Caiado como gestor, atestado pelos altos índices de aprovação.

A três meses das eleições, o cenário está em movimento. Lula tem conseguido manter a dianteira em relação a Flávio Bolsonaro em todas as pesquisas, mas as próximas consultas à opinião pública poderão informar melhor de que forma a campanha à reeleição foi atingida pelo episódio envolvendo o líder do governo no Senado Jaques Wagner, no caso Master.

Os comentários de dirigentes partidários são de que estaria havendo o desembarque de lideranças políticas e evangélicas da candidatura de Flávio Bolsonaro e não apenas pelo affair Dark Horse. A pré-candidatura tem sido atingida pelo temor de que ainda haja muito mais a ser revelado. Além disso, o desentendimento com Michelle está afastando lideranças femininas e evangélicos. A demora e tibieza da reação de Flávio Bolsonaro ao grotesco vídeo de Paulo Figueiredo ofenderam até mulheres da política fortemente identificadas com o bolsonarismo.

Afinal, o neto do último ditador, amigo íntimo de Eduardo e Flávio Bolsonaro, falou que mulheres “estatisticamente” não sabem votar, que as casadas acompanham os votos dos maridos. Paulo Figueiredo no vídeo se aproxima da campanha pelo fim do voto feminino que avança na ultradireita dos Estados Unidos e, no final da fala, usa uma expressão chula para dizer que não se importa que as mulheres reclamem. É um nível neandertal de misoginia.

A reação de Flávio Bolsonaro demorou dias e veio primeiro através de uma nota da assessoria. Na esvaziada reunião de ontem com as mulheres do PL, o pré-candidato, de novo, não foi convincente. A briga familiar-partidária com a madrasta poderia ser contornada, se houvesse uma boa estratégia, mas está escalando. Eles estão todos detonando pontes. Não é definitivamente um bom momento para os Bolsonaro.

O presidente Lula vê a redução da pressão na economia, que havia sido provocada pela guerra dos Estados Unidos contra o Irã. O petróleo volta a visitar patamares de preços de antes do início do conflito. Ontem mesmo fechou em US$ 71,13. Essa volta das cotações está permitindo o início da retirada dos subsídios com os quais o governo tentou atenuar o efeito da guerra na inflação.

Não é apenas uma conta aritmética. Tem muito mais envolvido. Os preços do petróleo nos patamares de US$ 100 estavam contratando uma crise de grandes proporções. O subsídio teria que ser maior para tentar evitar alta mais forte da inflação. Com o índice pressionado, a queda da taxa de juros é muito mais difícil. Os preços dos fertilizantes e a falta de insumos agrícolas estrangularia o agronegócio na hora do plantio.

Quando a guerra começou, o Brasil tinha plantado a sua safra e pôde esperar. Mas se a contenda passasse de julho seria difícil. O que os economistas que acompanham o assunto dizem é que, em agosto, o Brasil precisará dos fertilizantes para serem distribuídos no máximo até outubro e assim garantir a próxima safra. Se o cenário fosse o de continuidade da falta de produtos ou de sobrepreço haveria uma disparada de preços dos alimentos, antecipando-se à escassez. Esse cenário de restrição e tensão previsto para o segundo semestre na economia está se dissipando por causa do acordo entre Estados Unidos e Irã e da retomada do tráfego no Estreito de Ormuz. Por outro lado, o governo calcula que arrecadará ao todo R$ 40 bilhões a mais pela alta das receitas do petróleo durante o primeiro semestre.

Há, contudo, outros riscos à candidatura de Lula que ele precisará administrar. A disparada de gastos eleitoreiros está erodindo apoios de setores independentes e também minando a capacidade de realização de um bom governo a partir do ano que vem, caso seja reeleito. Nem tudo é campanha. O vitorioso terá um país altamente endividado e com muitas demandas para administrar.

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O CÁLCULO DE MICHELLE NA MIRA DO GABINETE DO ÓDIO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Ex-primeira-dama investe em imagem de liderança que foi além do sobrenome e cavou seu próprio espaço

Ao repudiar, num jogo combinado, o libelo medieval de Paulo Figueiredo, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) marchou para preservar alguma chance numa disputa em que o voto das mulheres predomina. A dúvida é se será suficiente. Não apenas para destronar o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mas também para evitar a fagocitose do espólio bolsonarista.

Desde 2018, o bolsonarismo tornou-se o vetor da direita. O que Flávio Bolsonaro e a ex-primeira-dama estão a fazer é a fratura não apenas deste campo mas do próprio bolsonarismo. Superaram as desavenças do pós-lulismo com o esgarçamento antecipado do pós-bolsonarismo. E, como é do seu feitio, pelas redes sociais.

Michelle escolheu suas armas. Deixou a presidência do PL Mulher mas não abandonou os planos de fazer bancada no PL. Ameaça os próprios enteados na disputa pelo espólio do ex-presidente com um discurso de quem foi além do sobrenome ao enfrentar o machismo.

O marido, de cujo sobrenome não pode abrir mão, ainda não escolheu o lado. Se o fez, não tem como anunciá-lo, a não ser por porta-vozes enviesados. Como prisioneiro, não pode se pronunciar, a não ser que venha a ser autorizada uma entrevista - hipótese remota durante a campanha. Como está casado e em prisão domiciliar, é Michelle quem, por ora, detém a guarda.

Em 2022, a então primeira-dama já tinha sinalizado a estratégia que agora aprofunda. Naquele ano, duas ministras do governo Bolsonaro postulavam a única vaga pelo Senado no Distrito Federal, Damares Alves e Flávia Arruda. Derrotada em sua tentativa de fazer o marido apoiar Damares, não entrou na campanha à reeleição no primeiro turno. Deixou para fazê-lo apenas no segundo, depois de eleger sua aliada, pelo Republicanos.

Não se desviou da rota. Foi a presidente do PL Mulher SC e sua aliada de primeira hora, a deputada estadual do PL de Santa Catarina, Ana Campagnolo, quem liderou o movimento contrário ao alijamento da deputada federal Caroline de Toni (PL-SC) da disputa pelo Senado. Como Carlos Bolsonaro não arredou o pé da transferência de seu domicílio eleitoral do Rio para Santa Catarina, sobrou para o senador Esperidião Amin (União-SC), que perdeu o apoio da família em sua campanha à reeleição.

A estratégia de Michelle ainda embute uma ofensiva tão agressiva quanto a dos enteados, só que muito mais cifrada. Horas antes da veiculação do vídeo-bomba, mandou um sinalizador para Flávio Bolsonaro. A ex-primeira-dama publicou nas redes sociais, numa modalidade em que as publicações somem em 24 horas, foto com “pessoas mais que especiais” em que está Martha Seillier, economista, ex-diretora do BID e mãe de uma criança cuja paternidade foi assumida por Carlos Bolsonaro.

Ao investir na cisão com os enteados, Michelle estará a cavar um destino semelhante àquele da ex-deputada Joice Hasselmann, relegada ao esquecimento? Tudo pode acontecer, mas há três diferenças: (ainda) é casada com Bolsonaro, tem seu grupo político dentro do PL e conta com o apoio do presidente do partido.

Valdemar Costa Neto equilibra-se em suas declarações, mas deixa digitais em todo lugar. Há menos de dois anos, foi obrigado a criar a Secretaria de Relações Internacionais do PL para abrigar o ex-deputado Eduardo Bolsonaro e suas pretensões de protagonismo no partido. Semanas atrás, no auge da repercussão dos indícios de que o financiamento do Master para o filme “Dark Horse” embutia caixa 2 para a campanha de Flávio, declarou publicamente que o fundo eleitoral não seria suficiente para bancar as candidaturas do partido nos Estados.

Foi além. Franqueou condições para a ex-primeira-dama recrutar pré-candidaturas de mulheres evangélicas, negras e de periferia à Câmara. E, finalmente, extinguiu o cargo de presidente do PL Mulher como se estivesse a homenagear uma insubstituível Michelle.

A reação à ex-primeira-dama é comandada por uma estrutura que mimetiza, no exterior, o “Gabinete do Ódio” que funcionou no Palácio do Planalto durante o governo Jair Bolsonaro. Com integrantes espalhados pela Austrália, Polônia e EUA, investe na estratégia de mudar o foco quando se faz necessário. Não é uma investida ideológica mas utilitária da pauta.

Jogaram os holofotes no “feminismo marxista” porque precisavam tirar o foco colocado por Michelle nos palanques estaduais, simbolizado pelo Ceará, para que as chapas possam ser montadas sob menos pressão. Agora Flávio Bolsonaro se dissociou do mulher-não-sabe-votar e investe no todo-poder-às-mulheres para correr atrás do prejuízo.

Parece improvável que o gabinete do ódio foragido aposte, de fato, na transposição do movimento americano que pretende acabar com o voto feminino para um país em que as periferias são tomadas por mulheres que começam a trabalhar cedo e tornam-se responsáveis pelo sustento de suas famílias quando abandonadas ou ameaçadas.

A alternância de pauta que, ao longo da última década, teve como alvo principal o PT agora se volta para sua própria disputa interna. Com adversários em fagocitose, a campanha petista joga parada, o que não significa que tenha caminho desimpedido até outubro. O pior que pode acontecer para Lula é que sobreviva Michelle. É de direita a primeira liderança feminina da política nacional nascida na periferia.

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O CÉU É O LIMITE PARA OS AMERICANOS

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Primeiras sanções contra brasileiros e três empresas sediadas em São Paulo suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para o PCC indicam que vem mais pressão por aí

É fácil prever que esse primeiro movimento dos americanos é só o começo, e tudo indica que vai acabar chegando indiretamente nos envolvidos no escândalo do Master

O governo Donald Trump não perdeu tempo. Um mês depois de os Estados Unidos decidirem classificar o CV (Comando Vermelho) e o PCC (Primeiro Comando da Capital) como organizações terroristas, os americanos anunciaram as primeiras sanções contra brasileiros e três empresas sediadas em São Paulo suspeitas de integrar um esquema de lavagem de dinheiro para a facção paulista.

A aplicação das sanções nesta quarta-feira (1º) indicou não só que o governo dos EUA tem acesso a informações detalhadas do esquema das empresas envolvidas para ocultar a origem dos recursos ilícitos e escapar da fiscalização, como sinalizou também que eles podem estar sendo abastecidos de informações repassadas diretamente por brasileiros envolvidos nas investigações.

De forma legal, por meio de cooperação entre investigadores dos dois países, ou por debaixo dos panos, de forma sigilosa, com razões políticas neste ano de eleições presidenciais por aqui? É a dúvida que paira.

É fácil prever que esse primeiro movimento dos americanos é só o começo, e tudo indica que vai acabar chegando indiretamente nos envolvidos no escândalo do Master.

Afinal, como revelou a Folha em janeiro deste ano, o Banco Central identificou seis fundos de investimento suspeitos de fazerem parte do esquema de fraude capitaneado pelo banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master.

Todos esses fundos mapeados também aparecem nas investigações que miram a infiltração do PCC na economia formal feitas pela equipe que deflagrou a Operação Carbono Oculto, de acordo com o cruzamento de dados feito pela reportagem na época.

A revelação dos nomes dos fundos —Astralo 95, Reag Growth 95, Hans 95, Olaf 95, Maia 95 e Anna— abriu as trilhas para que a imprensa chegasse às conexões importantes de Vorcaro com figurões em Brasília, como o ministro Dias Toffoli.

Os americanos vão elevar a pressão. Eles querem ampliar a influência no Brasil com atuação do FBI. O céu é o limite para os americanos.

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ZÉLIA GATTAI, 110 ANOS

Dilva Frazão, Ebiografia

Biografia de Zélia Gattai

Zélia Gattai (1916-2008) foi uma escritora brasileira. Começou a escrever com 63 anos. Estreou na literatura com o livro de memórias "Anarquistas Graças a Deus". Recebeu o Prêmio Paulista de Revelação Literária. Viveu com o escritor Jorge Amado durante 56 anos. Em 2001, foi eleita para a Academia Brasileira de Letras, para a cadeira n.º 23, a mesma que pertenceu a Jorge Amado.

Zélia Gattai Amado de Faria nasceu em São Paulo, no dia 2 de julho de 1916. Filha de Ernesto Gattai e Angelina, imigrantes italianos, passou sua infância e adolescência no bairro do Paraíso onde fez os estudos básicos.

Participava junto com a família do movimento político-operário organizado por imigrantes italianos, espanhóis e portugueses, que reivindicavam melhorias nas condições do trabalho.

Zélia Gattai casou-se aos dezenove anos com o militante comunista, Aldo Veiga. Em 1942, nasceu seu primeiro filho, Luís Carlos, nome escolhido em homenagem a Luís Carlos Prestes. O casal separou-se depois de oito anos de casados. Posteriormente, Zélia perdeu a guarda do filho e ficaram décadas sem se comunicar.

Zélia Gattai e Jorge Amado

Em 1945, Zélia conheceu o escritor Jorge Amado, quando ambos trabalhavam no movimento pela anistia dos presos políticos.

Pouco tempo depois, foram morar juntos, pois ainda não havia divórcio e os dois eram separados. Zélia passou a trabalhar com Jorge, revisando e datilografando os originais de seus livros.

Em 1945, com a eleição de Jorge Amado para a Câmara Federal, o casal mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 25 de novembro de 1947, nasceu João Jorge o primeiro filho do casal e o segundo filho de Zélia.

Exílio

Em 1948, o Partido Comunista foi declarado ilegal e os parlamentares eleitos pelo PCB foram cassados.

Jorge Amado perdeu o mandato e teve que se exilar. Foi para Europa e Zélia seguiu depois, com João Jorge ainda pequeno. Chegou à Itália, no porto de Gênova, onde Jorge a esperava.

Depois de alguns dias, Zélia e Jorge seguiram para a Tchecoslováquia, depois foram para a Polônia e por fim, chegaram à Paris. No final do ano, foram para a URSS.

Em 1949 estavam de volta à Paris quando Zélia ingressou na Sorbonne, onde estudou Civilização Francesa, Fonética e Língua Francesa.

No fim do mesmo ano, foram obrigados a deixar Paris, pois os comunistas não eram bem vistos pelo governo francês, então voltaram para a Tchecoslováquia.

Em 1951, nasceu sua filha Paloma. Viajaram ainda para a Hungria, Romênia, Bulgária, China e Mongólia.

A volta ao Brasil

De volta ao Brasil, em 1952, passam a morar no Rio de Janeiro, onde permanecem alguns anos.

Decididos a viver numa cidade mais pacata, em 1960, Zélia e Jorge compram uma casa em Salvador, Bahia, no bairro do Rio Vermelho.

No dia 12 de maio de 1976, depois de vários anos de união, eles conseguiram oficializar o casamento.

Anarquistas Graças a Deus

Em 1979, depois de três anos do casamento, Zélia Gattai estreou na literatura com o livro de memórias "Anarquistas Graças a Deus”, no qual narra sua infância de filha de imigrantes italianos, anarquistas e católicos.

O livro foi traduzido para diversos países, sendo adaptado para o teatro e para uma minissérie de televisão. Zélia recebeu pelo livro o Prêmio Paulista de Revelação Literária de 1979.

Zélia, que assinou seu livro com o nome de solteira, tomou gosto, e três anos depois já lançava o segundo livro e não parou mais. Alguns de seus livros foram traduzidos para vários países.

Zélia Gattai viveu durante 56 anos com o escritor Jorge Amado, que faleceu em 6 de agosto de 2001. Nesse mesmo ano, foi eleita pra a cadeira n.º 23, que pertenceu a Jorge Amado, na Academia Brasileira de Letras. Foi também eleita para a Academia de Letras da Bahia.

Zélia Gattai faleceu em Salvador, Bahia, no dia 17 de maio de 2008.

Prêmios e homenagens

  • Prêmio Paulista de Revelação Literária (1979)
  • Cidadã de Salvador (1984)
  • Cidadã de Honra da Comuna de Mirabeau, França (1985)
  • Grande Oficial da Ordem do Infante D. Henrique de Portugal (1986)
  • Medalha Castro Alves da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (1987)
  • Comendadora da Ordem do Mérito da Bahia (1994)
  • Comendadora da Ordem das Artes e das Letras do Governo Francês (1998)

Obras de Zélia Gattai

  • Anarquistas Graças a Deus, memórias, 1979
  • Um Chapéu para Viagem, memórias, 1982
  • Pássaros Noturnos de Abaeté, 1983
  • Senhora Dona do Baile, memórias, 1984
  • Jardim de Inverno, memórias, 1988
  • Pipistrelo das Mil Cores, literatura infantil, 1989
  • O Segredo da Rua 18, literatura infantil, 1991
  • Chão de Meninos, memórias, 1992
  • Crônica de Uma Namorada, romance, 1995
  • A Casa do Rio Vermelho, memórias, 1999
  • Cittá di Roma, memórias, 2000
  • Joana e a Sereia, literatura infantil, 2000
  • Códigos de Família, memórias, 2001
  • Um Baiano Romântico e Sensual, 2002
  • Memorial do Amor, memórias, 2004
  • Vacina de Sapo e Outras Lembranças, 2006
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A SOBERANIA NACIONAL SE DECIDE NA AMAZÔNIA

Maria Hermínia*, Folha de S. Paulo

Região transformou-se em crise de segurança e de governança

Crime organizado transnacional é grande ameaça

O presidente Lula prometeu incluir a questão da defesa nacional em seu programa de governo. O compromisso público ocorreu na sexta-feira (26), no batismo de uma fragata que faz parte do principal projeto de renovação do poder naval brasileiro. Segundo Lula, a nova embarcação, mais do que um navio, exprime "um país que vai assumir, de fato e de direito, o direito de ser soberano".

Se ele se reeleger e se a defesa da soberania nacional for mais do que uma oportuna proposta de campanha para enfrentar o bolsonarismo, a centro-esquerda terá um encontro marcado com a amazônia.

Ali reside o principal desafio à capacidade do Estado de se afirmar senhor do território que suas fronteiras delimitam. É ali que nossa soberania vem sendo posta à prova —não por uma potência estrangeira ou algum vizinho belicoso, mas pela entramada rede de agentes sem rosto que se convencionou chamar de crime organizado transnacional.

Dois estudos permitem uma visão realista do problema: "Amazon Underworld: criminal economies in the world largest rainforest" (Submundo amazônico: economias criminosas na maior floresta tropical do mundo) —produzido pelas ONGs Amazon Watch, Infoamazonia e Global Initiative Against Transnational Organized Crime— e "O cenário do crime organizado e dos mercados ilícitos no bioma amazônico", de Leandro Piquet Carneiro e Adriano Bastos Rosas, publicado pela Fundação Fernando Henrique Cardoso.

Segundo os autores, a amazônia há muito deixou de ser somente um grande problema ambiental; transformou-se em crise de segurança e governança que ultrapassa as fronteiras nacionais. Ali ocorre o que os especialistas chamam de "convergência criminal", ou seja, a articulação de diferentes atividades ilícitas possibilitada por redes de cooperação entre organizações criminosas. Mineração ilegal de ouro; tráfico de cocaína, animais silvestres e pessoas; extração ilegal de madeira e grilagem de terras compartilham infraestruturas e rotas de trânsito; ganham potência graças à colaboração da bandidagem.

Facções brasileiras, como o PCC e o Comando Vermelho, agem em conjunto com grupos armados locais nos países vizinhos e em território nacional. As zonas de tríplice fronteira entre Brasil, Colômbia e Peru servem de rota de fuga e centro de operações do crime organizado.

Calcula-se que tais organizações operem em quase 70% dos municípios amazônicos, espalhando o terror —algumas cidades da região estão entre as mais violentas do país—; agravando o desmatamento e o desrespeito aos direitos dos indígenas e da população pobre.

Nesse território minado não se pode firmar a soberania em bases sólidas. Lográ-la requer clareza de objetivos; políticas que os traduzam; capacidades estatais —incluindo repressivas— que permitam colocá-las em prática.

Demanda também boa diplomacia para obter a cooperação de nações vizinhas, menos equipadas para enfrentar os desafios e mais sujeitas à turbulência política. Supõe ainda colaboração oficial com países consumidores das mercadorias ilícitas. Segurança nacional a serviço da soberania exige bem mais do que retórica mobilizadora e promessas bem-intencionadas.

*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap

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URNAS VÃO JULGAR POLÍTICOS ANTES DO STF

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Urnas vão julgar políticos do caso Master antes de STF bater o martelo sobre condenações

Eleitores, e não a nata do Judiciário, vão decidir primeiro quem deve ser punido pelas fraudes cometidas no esquema de Daniel Vorcaro; ministros ligados ao banqueiro devem ser poupados

As urnas vão definir, antes do Supremo Tribunal Federal (STF), quem são os culpados e os inocentes no escândalo do Banco Master. A Polícia Federal poderá concluir a investigação sobre o esquema de Daniel Vorcaro antes de outubro. O ritmo das apurações será mais ágil após a rejeição de duas propostas de delação premiada do ex-banqueiro, com expectativa de acontecer o mesmo com a terceira tentativa.

Ainda assim, não haverá tempo hábil para a Corte encerrar o processo judicial até lá. Finalizada a parte da PF, caberá à Procuradoria-Geral da República (PGR) apresentar ou não denúncias ao Supremo contra os eventuais indiciados. Nos bastidores, a expectativa é de que Paulo Gonet não tenha pressa para fazer isso, especialmente no meio do processo eleitoral.

Em caso de denúncia, se os ministros da Segunda Turma do STF concordarem em abrir ação penal, vai ser iniciada uma nova fase de apurações. Somente com o encerramento desta fase o tribunal julgaria os réus. Os prazos fixados na legislação penal devem empurrar a conclusão do processo para 2027.

Ou seja: quando a classe política for julgada pelo STF, não haverá mais pressão eleitoral.

Sobre os ministros Dias Toffoli e Alexandre de Moraes, que foram citados por relações próximas com Vorcaro, o mais provável é que nem sequer sejam alvo de denúncia da PGR.

Nas campanhas, o clima é de tensão. Mais do que o risco de condenação judicial, os candidatos temem agora o impacto das próximas operações da PF sobre as campanhas.

O primeiro candidato diretamente atingido foi Flávio Bolsonaro, com a descoberta de que Vorcaro teria financiado o filme sobre Jair Bolsonaro. O caso pode gerar novas frentes de apurações na PF. Entretanto, fontes do Supremo apostam que haja maior potencial para subtrair votos do filho do ex-presidente do que para gerar condenação penal.

A candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva também foi alvejada com a revelação de que o então líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), recebeu dinheiro e vantagens de Vorcaro. Assim como a situação do oponente, Lula deve sofrer revés maior nas urnas do que nos tribunais.

Passada a eleição presidencial, a tendência é de que o escândalo do Master perca tração no Supremo – mesmo porque a pressão da opinião pública em torno do caso provavelmente terá diminuído. A exemplo do que aconteceu com outros esquemas de corrupção do País, o julgamento final dos réus será realizado depois de silenciado o clamor social. E, por isso mesmo, com um cenário de menor probabilidade de condenações de poderosos.

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A SÚMULA VINCULANTE DA RESPONSABILIDADE FISCAL

Felipe Salto*, O Estado de S. Paulo

A súmula da responsabilidade fiscal vai silenciar Ulisses ou, ao menos, reforçar os nós das cordas do zelo pelo dinheiro público

Nas democracias consolidadas, as mudanças são quase sempre incrementais. As propostas precisam amadurecer para a construção de consensos, dos quais surgem as inovações legais e constitucionais. A atuação do Estado melhora e, no limite, a coletividade se beneficia. No caso da responsabilidade fiscal, não é diferente.

A Proposta de Súmula Vinculante n.º 150, de autoria do ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal (STF), “visa a consolidar o entendimento do tribunal sobre projetos de lei que criem despesas obrigatórias ou envolvam renúncia de receita”, conforme o site do STF. Se aprovada por dois terços dos seus membros, o País conseguirá aprimorar fortemente o modus operandi dos poderes públicos.

A saber, a Lei de Responsabilidade Fiscal (LRF – Lei Complementar n.º 101, de 2000) já determina: medidas com impacto fiscal devem ser compensadas e o seu custo, explicitado à sociedade. Ocorrida no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso, a aprovação da LRF foi um marco para as finanças públicas.

Em 2016, no governo do presidente Michel Temer, a Emenda Constitucional n.º 95, por meio do artigo n.º 113 do Ato das Disposições Constitucionais Transitórias, também determinou que nenhuma iniciativa poderia ser aprovada sem que seus efeitos fiscais fossem trazidos à luz. A providência reiterou a LRF ao prever a obrigação de transparência e à adoção de medidas compensatórias.

Em 2023, a Lei Complementar n.º 200, da lavra do ministro Fernando Haddad, trouxe outro componente fundamental. Vinculou a elaboração e o cumprimento de metas fiscais à sustentabilidade da dívida pública, remetendo ao próprio texto constitucional.

Apesar de termos melhorado muito, portanto, do ponto de vista das normas jurídicas, a verdade é que a lei, muitas vezes, é ignorada; ou sua interpretação é heterogênea. São diversos os exemplos nas três esferas federativas: União, Estados e municípios. A multiplicidade de interpretações da LRF, o voluntarismo e o descaso com relação à responsabilidade fiscal encontraram lugar, com ou sem intenção. Assim, a súmula colocará todos na mesma página.

Mesmo na presença de uma Constituição Cidadã que, claramente – ainda mais após as inovações mencionadas –, baseia-se nos princípios da responsabilidade com o dinheiro público e da sustentabilidade das contas dos governos, a aprovação de matérias sem lastro não se restringiu ao campo das exceções.

Veja-se, por exemplo, o caso da desoneração da folha de salários. Uma medida sobre a qual rios de tinta já foram escritos, inclusive por economistas e especialistas de diferentes matizes. Concluiu-se, para ter claro, tratar-se de ação ineficiente para os propósitos da elevação do emprego e da renda. Diante dessas evidências e, apesar das normas mencionadas, o Congresso aprovou a prorrogação da desoneração, e espetou uma fatura de duas dezenas e meia de bilhões de reais no governo atual. O caso foi parar no STF, que invocou o artigo 113 mencionado e a Lei de Responsabilidade Fiscal. Bingo.

O caso atual, das pautasbomba, reanimou o debate sobre a responsabilidade fiscal intertemporal e a sustentabilidade da dívida pública. O ministro Gilmar Mendes decidiu apresentar a Proposta de Súmula Vinculante (PSV) n.º 150 com o objetivo de consolidar os entendimentos do STF e afastar, em definitivo, as práticas lesivas às contas públicas e à economia. Na Warren Investimentos, calculamos que essas pautas em tramitação no Congresso poderiam produzir quase R$ 1,7 trilhão em dívida adicional até 2035. Vamo-nos entender: a dívida pública bruta ficaria (ainda) mais alta, podendo atingir 100% do PIB em 2032. Os efeitos médios anuais seriam de R$ 111 bilhões.

O exercício de simulação evidencia a importância da iniciativa, como se vê. É importante que ela receba não apenas os votos necessários, mas a unanimidade do STF. Seria um sinal importante para os Três Poderes. Medidas populistas, de um lado, e ações de autoconcessão de benefícios, vantagens, reajustes, remunerações, etc. seriam melhor enfrentadas na presença de uma súmula poderosa como essa.

No Brasil, parece não bastar o entendimento previsto em leis ordinárias, leis complementares ou mesmo na própria Constituição federal. A lei precisa “pegar”, como se diz. O ministro Gilmar Mendes dá um empurrão oportuno para a responsabilidade fiscal transformar-se, na prática, em condição inescapável a todos os que atuam no setor público.

Na literatura de orçamento público e de regras fiscais, falase no viés deficitário dos governos, quaisquer que sejam, de modo que a restrição ao comportamento gastador tem de estar presente. Vale para todos, independentemente de preferências partidárias, colorações ideológicas, importância do cargo, etc.

Quando se trata de contas públicas, a tentação de Ulisses, ao ouvir o canto das sereias, é implorar para se desvencilhar do mastro do navio. O objetivo, um feliz mergulho com morte anunciada. A súmula da responsabilidade fiscal vai silenciar Ulisses ou, ao menos, reforçar os nós das cordas do zelo pelo dinheiro público.

*Economista-chefe da Warren Investimentos e professor do IDP, foi secretário da Fazenda e Planejamento do Estado de São Paulo

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TRUMP INICIA COMBATE À LAVAGEM DE DINHEIRO DO PCC NOS EUA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Ação permanece circunscrita à jurisdição norte-americana e ao combate à lavagem de dinheiro no plano jurídico. Entretanto, seu significado político é muito maior

A decisão de o governo Donald Trump classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas estrangeiras deixou de ser uma declaração política para se transformar em efetiva ação de Estado. As sanções anunciadas nesta semana pelo Departamento do Tesouro contra brasileiros e empresas acusados de integrar uma rede de lavagem de dinheiro ligada ao PCC representam um novo patamar na nova estratégia americana ao combate ao narcotráfico.

Ontem, foram sancionados os brasileiros Victor Henrique de Oliveira Shimada e Stella Stefanie Nunes Henrique de Oliveira, bem como as empresas Victory Trading Intermediação de Negócios Cobranças e Tecnologia Ltda; Pixwave Soluções de Pagamentos Ltda; Wave Construções Inteligentes Ltda; e Avenidas Flutuantes Unipessoal Lda (de Portugal) — todos acusados de movimentar de recursos provenientes do narcotráfico dentro do sistema financeiro americano.

Segundo o Tesouro dos Estados Unidos, Victor Shimada teria atuado como elo entre operadores do PCC na Flórida e traficantes internacionais, lavando mais de US$ 30 milhões mediante o uso de criptomoedas. As sanções bloqueiam bens, proíbem transações financeiras e expõem instituições que eventualmente mantenham relações comerciais com os sancionados ao risco de punições secundárias.

A ação permanece circunscrita à jurisdição norte-americana e ao combate à lavagem de dinheiro no plano jurídico. Entretanto, seu significado político é muito maior. Ao classificar PCC e CV como organizações terroristas, Washington passa a utilizar contra o narcotráfico brasileiro instrumentos originalmente concebidos para o enfrentamento do terrorismo internacional: sanções financeiras, cooperação internacional de inteligência, compartilhamento de informações e bloqueio de ativos.

Esse é um novo paradigma para a relação entre EUA e Brasil na área de segurança pública. Essa mudança não é acidental. Trump construiu boa parte de sua política externa a partir da associação entre imigração ilegal, narcotráfico e segurança nacional. Seu governo já havia endurecido a política contra cartéis mexicanos e organizações criminosas transnacionais. Agora, essa lógica alcança as facções brasileiras, que há anos expandem sua atuação para Paraguai, Bolívia, Peru, Colômbia, Venezuela, Europa e Estados Unidos.

É a presença crescente dessas organizações em território norte-americano que fundamenta a narrativa de Washington, ao classificar a questão não apenas como um problema brasileiro, porém, como ameaça direta à segurança nacional dos EUA. Nesse aspecto, o secretário de Estado, Marco Rubio, desempenha papel estratégico. Conhecido por posições duras contra a esquerda latino-americana e defensor histórico do endurecimento das políticas de segurança, propõe que o combate ao crime organizado deve ser uma prioridade da política externa americana.

Ponto fraco

A interlocução de Rubio com o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, e lideranças conservadoras brasileiras, desnuda a convergência ideológica em torno da pauta da segurança pública entre a Casa Branca e a oposição brasileira. Isso não significa coordenação institucional, até porque existe cooperação entre a Polícia Federal e as agências de segurança norte-americanas, mas em se tratando de terrorismo a agenda passa para a esfera da Agência Central de Inteligência (CIA) norte-americana.

A segurança pública está entre as principais preocupações da população brasileira. Pesquisas recentes mostram que aproximadamente 60% dos brasileiros concordam com a classificação de PCC e CV como organizações terroristas, embora rejeitem majoritariamente qualquer intervenção militar norte-americana direta no país. Também há divisão quanto à decisão dos EUA em si. A opinião pública apoia o endurecimento contra as facções, mas não abdica da soberania nacional.

Esse é o cenário que desafia o presidente Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições. O governo brasileiro sustenta, com fundamento na legislação nacional, que PCC e CV não se enquadram na definição jurídica de terrorismo, pois atuam predominantemente por motivação econômica e não política, ideológica ou religiosa. Essa interpretação é consistente com a Lei Antiterrorismo brasileira e vem sendo reiterada pelas autoridades federais, mas tem alcance jurídico e não político-eleitoral.

Ao assumir protagonismo no combate às facções brasileiras, Trump desloca o debate para um ponto fraco do governo Lula: a percepção da população de que não há eficácia no enfrentamento do narcotráfico, que amplia seu controle territorial na maioria das cidades brasileiras. Ou seja, deixa o Palácio do Planalto numa posição defensiva.

Ao contrário do que acontece com “tarifaço”, visto como uma agressão à soberania nacional, as críticas de Lula à decisão norte-americana abrem espaço para que a oposição o acuse de não combater o PCC e o CV como deveria. A ação de Washington também ocorre num momento de reorganização da geopolítica na América do Sul, com a eleição de governos de direita parceiros de Trump, que também defendem medidas extremas contra a criminalidade.

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quarta-feira, 1 de julho de 2026

AS DUAS FACES DO BOLSONARISMO

Wilson Gomes*, Folha de S. Paulo

Michelle disputa o controle da autenticidade do movimento

Os filhos flexibilizam alianças para ampliar chances eleitorais

Há alguns anos, parte do debate público se preocupava com a "normalização" do bolsonarismo. A palavra servia para criticar coisas distintas: descrever a extrema direita sem repulsa suficiente, deixar de tratá-la como pária ou reconhecer que já integrava a política ordinária. A crítica, contudo, raramente vinha acompanhada de uma explicação sobre o que estava sendo normalizado, por quem e com quais consequências.

Mas é preciso distinguir dois processos: a normalização, pela qual se reduzem o estigma e a repulsa a ideias, condutas e atores radicais na esfera pública, e o "mainstreaming", a incorporação de grupos radicais à política convencional como participantes legítimos e efetivos.

No Brasil, ambos avançaram muito. O bolsonarismo não esperou que jornalistas ou intelectuais lhe concedessem um certificado de normalidade. Afinal, é uma escolha reiterada de quase metade do eleitorado, tem bancadas, governos, prefeituras, uma grande estrutura partidária, redes religiosas e apoio empresarial e do agronegócio. Mesmo com Jair Bolsonaro preso, doente e impedido de concorrer, nenhuma candidatura de direita parece capaz de disputar seriamente a Presidência sem conquistar sua base.

A antiga margem não foi simplesmente acolhida pelo centro: tornou-se o coração eleitoral da direita.

O vídeo em que Michelle Bolsonaro expôs seu conflito com Flávio e os irmãos mostra outro aspecto desse processo. A literatura sobre a extrema direita costuma perguntar como movimentos radicais são normalizados e incorporados à política convencional. O episódio desta semana sugere uma pergunta adicional: o que acontece quando uma extrema direita já normalizada disputa internamente os termos de sua própria convencionalização?

Diante da aliança do PL cearense com Ciro Gomes, Michelle não apresentou sua objeção apenas como divergência estratégica. Falou em "ordem do líder", "palavra de Jair", "fidelidade", "lealdade", "convicção" e "traição". Recordou os ataques de Ciro a Bolsonaro, aos filhos e às mulheres da família. O problema, segundo a narrativa dela, não era apenas escolher um candidato, mas premiar um antigo inimigo, descartar aliados leais e desobedecer à vontade do líder em nome da conveniência eleitoral.

Claro que se trata de disputa por poder. Michelle se ressente de que ela e o segmento conservador, religioso e identitário que organiza dentro do PL tenham sido acintosamente desconsiderados na campanha de Flávio. Ao repetir "meu marido e eu", não reivindica apenas proximidade com Jair, mas sugere uma unidade de vontade entre ambos. Com isso, apresenta-se como intérprete privilegiada da fonte de autoridade do movimento e como encarnação do verdadeiro bolsonarismo.

Flávio tem o sobrenome, a indicação paterna e a candidatura; os irmãos, a linhagem; o PL, a máquina partidária. Já Michelle reivindica para si o acesso à vontade verdadeira do líder e o poder de decidir o que ainda pode ser considerado autenticamente bolsonarista.

Michelle não está fora da política partidária nem representa simplesmente valores contra interesses. Preside o PL Mulher, implantou diretórios em todos os estados, percorre o país, forma lideranças e patrocina candidaturas. A sua retórica aceita partidos, alianças e cálculos eleitorais, mas quer subordiná-los a valores, à recompensa dos fiéis, às fronteiras morais do movimento e ao espaço de sua própria corrente.

O conflito opõe duas narrativas sobre como institucionalizar o bolsonarismo. A adaptativa, representada pelos filhos e pelo PL cearense, concentra o antagonismo no PT e transforma antigos adversários em aliados quando isso aumenta as chances de vitória. A identitária, reivindicada por Michelle, também disputa candidaturas, alianças e poder, mas exige fidelidade ao líder, memória dos agravos e preservação dos valores do movimento.

Não se trata de carisma contra organização nem de princípios contra oportunismo. Ambos usam o partido e disputam a herança eleitoral de Bolsonaro. Michelle apresenta sua exclusão da campanha de Flávio como parte de uma luta pela identidade do movimento e, ao se declarar a voz do líder e a guardiã dos valores, defende seu lugar na distribuição

de poder. Os filhos procuram converter a herança paterna numa operação eleitoral mais flexível, sem romper com o antagonismo e a dependência carismática que mantêm unida a base.

A briga desta semana não revela apenas uma família dividida pela sucessão. Revela a visão de Michelle sobre como assimilar o bolsonarismo ao sistema partidário e negociar sua normalização.

*Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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A RETÓRICA INFLADA DA LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Nicolau da Rocha Cavalcanti, O Estado de S. Paulo

O problema da ideia de uma liberdade sem limites não é conceder muita liberdade. Trata-se de uma defesa frágil e estéril

Nunca falamos tanto de liberdade de expressão no Brasil como agora, mas essa conversa não tem gerado os efeitos esperados: uma compreensão minimamente funcional da liberdade de expressão, própria e alheia; uma proteção mais efetiva da liberdade. Abaixo, três aspectos do debate atual.

O uso retórico do termo censura. Sim, todos concordamos que a Constituição proíbe a censura. Mas o que é a censura?

Caso 1. Demitido de um jornal após escrever uma coluna, um jornalista afirma em rede social que foi censurado.

Caso 2. Depois de compartilhar em rede social dados manifestamente falsos sobre as urnas eletrônicas, um cidadão tem seu perfil bloqueado por ordem judicial. Noutra rede social, afirma ter sofrido censura.

Caso 3. Uma ordem judicial suspende a divulgação de pesquisa de intenções de voto, sob o fundamento de que o questionário induzia as respostas. Diversas vozes denunciam a ocorrência de censura.

Ainda que tolerado socialmente, o caso 1 é um uso apelativo do termo censura. A demissão de um jornalista, originada numa decisão livre do veículo de imprensa, não constitui censura. O profissional continua dispondo de seus direitos de expressão. A rigor, tem-se o oposto: a curadoria feita por um jornal é exercício das liberdades de expressão e de imprensa.

Ninguém tem direito adquirido a ter sua opinião publicada na imprensa. A decisão de publicação – é precisamente o que as liberdades de expressão e de imprensa protegem – cabe ao jornal, à direção do jornal.

Por sua vez, nas redes sociais, a publicação da opinião tem outros contornos. Se há respeito aos termos da plataforma e se há respeito à lei, cada um tem o direito de publicar suas opiniões, que não podem ser vetadas. De toda forma, não são triviais as questões acerca do cumprimento das duas condições: respeito à lei e respeito aos termos da plataforma. Por isso, se a decisão estiver devidamente fundamentada, não cabe falar propriamente em censura no caso 2.

Pelo debate atual, a impressão é de que alguns ignoram os limites e as condições do exercício da liberdade de expressão. Mesmo nos Estados Unidos, a liberdade de expressão tem limites. Por exemplo, ela nunca é um argumento válido para a prática de crimes. Por isso, a doutrina americana criou a distinção entre ação e discurso, o que protege e também restringe a expressão.

O caso 3 recorda-nos a existência de regimes jurídicos específicos de liberdade de expressão. Podemos discutir se são constitucionais e se estão sendo aplicados de forma imparcial. De todo modo, não cabe tachar de censura toda decisão que restringe a divulgação de uma informação. A vedação constitucional à censura não significa liberação de todo e qualquer conteúdo, como informações enganosas sobre o mercado de ações ou medicamentos.

O Brasil, por meio do seu Legislativo, tem entendido que os assuntos eleitorais demandam um cuidado especial. Assim, se a decisão do caso 3 estiver fundamentada na legislação eleitoral (não declarada até aqui inconstitucional) e em conformidade com a jurisprudência do tribunal (não for uma aplicação seletiva da lei), não há que se falar em censura.

Uma segunda deficiência do debate atual. É frequente ouvir, na defesa retórica da liberdade de expressão, que não se pode restringir a circulação de ideias incômodas ou das quais discordamos. Muito repetida, essa frase dá a entender que esse seria o grande (e único) motivo para restringir o discurso. Ora, se assim fosse, a liberdade de expressão seria irrestrita: o incômodo e a discordância não são, em definitivo, razões para limitar a fala. No entanto, existem outras razões para restringir e, principalmente, para responsabilizar a expressão. Por isso, o tema da liberdade de expressão é tão sério e tão debatido ao longo da história, sem ter soluções fáceis. Por isso, é sempre necessário voltar a ler os pensadores clássicos. Não para simplesmente repeti-los, mas para pensar as questões atuais em diálogo com as grandes reflexões já feitas.

O terceiro aspecto não é menos importante. Há quem afirme que toda regulação estatal da expressão é uma violação da liberdade de expressão. Ora, tal concepção de liberdade é irreal. A liberdade de ir e vir não é violada pelas regras de trânsito; por exemplo, pela proibição de dirigir na contramão. Numa cidade grande, só podemos nos mover livremente porque há normas de trânsito. Penso que ainda estamos engatinhando na compreensão de como o ambiente atual das redes sociais – quase um vale-tudo – prejudica, condiciona e coage o exercício da nossa expressão.

O erro do debate atual foi identificado por Isaiah Berlin em 1958: “A liberdade não é simples ausência de impedimento. Isso inflaria tanto seu significado que seria afirmar demasiado e, ao mesmo tempo, demasiado pouco”. O problema da ideia de uma liberdade sem limites não é conceder muita liberdade a cada um, como se fosse uma apologia excessiva da liberdade. É o oposto: trata-se de uma defesa frágil e, em último termo, estéril. Sem entender a dinâmica da liberdade, não é possível protegê-la. •

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FLÁVIO BOLSONARO TEM FORÇA, NA CASA BRANCA

Elio Gaspari, O Globo

Um novo anti, o antibolsonarismo

Adélio Bispo de Oliveira esfaqueou Jair Bolsonaro no dia 6 de setembro de 2018. Ninguém pode garantir que a facada de Juiz de Fora tenha decidido a eleição, mas, um mês depois, Bolsonaro conseguiu 46% dos votos no primeiro turno. Fernando Haddad ficou com 29%. A eleição estava decidida, e no segundo turno o ex-capitão correu para o abraço, com 55% dos votos.

Não foi Bolsonaro quem ganhou, foram Haddad e o PT que perderam. Lula estava preso em Curitiba, o juiz Sergio Moro e os procuradores da Operação Lava-Jato faziam o que queriam. Nada disso estará no pano verde na eleição de outubro.

Lula terá governado por quatro anos sem maiores sobressaltos, e quem está preso é Bolsonaro. As tensões que ele espargiu, insultando um ministro do Supremo Tribunal Federal, opondo-se a um programa de vacinação durante uma pandemia que matou mais de 700 mil pessoas, viraram má lembrança.

A eleição de 2018 foi o apogeu do antipetismo. Em 2026, lida-se com o antibolsonarismo. Assim como, em 2018, a soberba petista detonou Haddad, agora a soberba bolsonarista poderá detonar Flávio Bolsonaro, e as pesquisas apontam nessa direção. A candidatura do senador tem um sabor dinástico, agravado pelo deserto de ideias de seu campo. Sem a facada de Juiz de Fora e as turbinas da Lava-Jato, como a divulgação da delação do ex-ministro Antonio Palocci às vésperas do primeiro turno, o antipetismo não dá caldo.

A essas adversidades somou-se a autofagia bolsonarista. A mulher de Bolsonaro fez um estudado vídeo, em que o sujeito oculto de suas críticas é Flávio. Qual é a raiz dessa quizília? A política cearense e a preterição de uma vereadora que aspirava a disputar o Senado. É pouco para tanto barulho.

O repórter Luis Felipe Azevedo mostrou que, na Bahia, em Pernambuco, Ceará e Maranhão, os candidatos do arco oposicionista evitam partilhar palanques com a campanha de Flávio. Tratando-se do principal reduto lulista, essa ausência é mau presságio. Os erros da famiglia certamente explicam em parte esse movimento. Contudo o principal fator está além deles. O antipetismo, cimento da vitória de 2018, dissolveu-se no ar, abrindo espaço a um novo anti, o antibolsonarismo.

Flávio é forte na Casa Branca, fraco em Pindorama. A ideia de jactar-se da imposição do primeiro tarifaço de Donald Trump foi um caso raro de um só tiro acertando os dois pés. Naquele tarifaço, a patrulha bolsonarista acampada em Washington pode ter exercido alguma influência. No próximo, a despeito da carta de Flávio ao secretário de Estado, Marco Rubio, pedindo que o Brasil seja poupado, essa janela de oportunidade encolheu.

O tarifaço de 2025 foi concebido com o voluntarismo da Casa Branca. Basta lembrar a tarifa imposta a uma ilha de pinguins. Desta vez, o novo tarifaço será essencialmente técnico. Enviesado, porém com verniz técnico.

Novas tarifas virão, transformando-se numa bola de ferro amarrada a um pé dos Bolsonaros. Eles cometeram o mesmo erro que o bilionário Elon Musk, que em poucos meses passou de gênio a maluco e acabou defenestrado da Casa Branca. Em sua fase de delírio, Musk tentou morar na Casa Branca.

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DESCANSO E DIGNIDADE, DO CAMPO À CIDADE

Viviana Santiago, Correio Braziliense

A eliminação da jornada 6x1 tem de valer também para os milhões de trabalhadores e trabalhadoras rurais que fazem do Brasil um dos maiores celeiros do mundo

O debate sobre o fim da escala 6x1 ganhou força ao expor a compressão do tempo de vida imposta por jornadas extensas e descanso insuficiente. Impulsionada pelo Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), essa mobilização partiu das redes sociais para as ruas, reativando um debate clássico sobre a apropriação do tempo e a dignidade do trabalhador frente às demandas do capital. Mobilizou principalmente as cidades, mas agora precisa alcançar com a mesma centralidade o trabalho no campo.

A produção rural brasileira depende de uma força de trabalho numerosa, mal protegida e, com frequência, invisibilizada. São cerca de 3,6 milhões de trabalhadores rurais assalariados, dos quais apenas 40% têm carteira assinada. A informalidade, nesse caso, não é condição lateral: ela estrutura a relação entre empregadores e trabalhadores no meio rural, dificultando o controle da jornada, o acesso à previdência, a proteção em acidentes e o direito efetivo ao descanso.

O estudo "Entre o tempo de trabalho e o tempo de vida", da Oxfam Brasil, mostra que 45% desses trabalhadores cumprem mais de 40 horas semanais — e 23% ultrapassam as 44 horas previstas na Constituição. A escala 6x1 é uma das formas mais frequentes de organização do trabalho rural, sobretudo nos períodos de plantio e colheita. Ainda assim, a jornada registrada não revela todo o tempo tomado pelo trabalho: desde a reforma trabalhista de 2017, as horas de transporte deixaram de ser reconhecidas como tempo à disposição do empregador, impactando especialmente o trabalhador rural que, em muitas regiões, gasta até quatro horas diárias em deslocamento.

Essa exclusão do tempo de trajeto é mais um desdobramento de uma invisibilidade jurídica histórica enraizada na escravidão e reforçada desde a criação da CLT em 1943, que deliberadamente excluiu o campo de sua proteção. O resultado é um ciclo de desamparo que mantém o trabalhador rural fora do radar da fiscalização e agravado pela insuficiência do aparato público: são apenas 2.700 auditores fiscais do trabalho para mais de 5.000 municípios. Em cadeias marcadas por terceirização e intermediação por "gatos", trabalhadores ficam fora do alcance das normas mais elementares de proteção.

O cenário é ainda mais crítico quando se observam seus recortes. De acordo com a Oxfam Brasil, 69,6% dos trabalhadores rurais são pessoas negras e 58,3% deles estão na informalidade, o que concentra sobre essa força de trabalho a ausência de registro, a instabilidade dos vínculos e a dificuldade de acesso à previdência. As desigualdades de gênero ampliam a sobrecarga: para muitas mulheres rurais, outra jornada começa quando o expediente termina. Dados do estudo mostram que mulheres dedicam em média 21,3 horas semanais a afazeres domésticos — ante 11,7 horas dos homens —, e, entre mulheres negras, o peso é ainda maior.

Para que a mudança seja efetiva, é preciso romper com a persistência cultural da exploração escravocrata, que trata o trabalho no campo como objeto de total disponibilidade ao capital. Essa visão é alimentada por estruturas de contratação opacas, como as "parcerias falsas", que ocultam vínculos empregatícios legítimos e privam os trabalhadores de sua identidade como sujeitos de direitos. Por isso, também no campo a redução da jornada deve ser tratada como política de saúde, proteção social e igualdade: o fim da escala 6x1 precisa vir acompanhado da garantia de pelo menos dois dias de descanso semanais, preferencialmente consecutivos, sem redução salarial e sem que a mudança seja neutralizada por horas extras ou bancos de horas abusivos.

O avanço legislativo recente abriu uma oportunidade concreta. Em maio, a Câmara dos Deputados aprovou a PEC 221/2019, que estabelece jornada máxima de 40 horas semanais, em cinco dias de trabalho e dois de descanso, sem corte de salários. O texto seguiu ao Senado — e seu alcance dependerá da preservação de pontos centrais na tramitação. Propostas que esticam a transição por 10 anos, criam exceções amplas ou compensam custos empresariais com perda de direitos esvaziam o sentido da medida.

A inclusão do campo nessa agenda interessa ao conjunto da sociedade. A informalidade reduz contribuições à previdência, fragiliza a arrecadação pública e transfere os custos do adoecimento e dos acidentes para os serviços públicos. A precarização no campo enfraquece o Estado, pressiona o sistema de saúde e aprofunda desigualdades territoriais. Jornadas exaustivas elevam riscos, ampliam afastamentos e favorecem a rotatividade — enquanto experiências em segmentos rurais que adotaram dois dias de descanso indicam melhora de produtividade e maior permanência dos trabalhadores.

O Congresso tem diante de si a oportunidade de aprovar uma mudança ampla, sem corte salarial, sem perda de direitos e sem deixar para depois a proteção de quem sustenta parte essencial da economia brasileira. Enquanto a barreira de invisibilidade social persistir, a sociedade continuará consumindo os frutos desse esforço sem reconhecer a dignidade de quem o produz, mantendo o abismo entre o sucesso do agronegócio e a precariedade da vida de seus trabalhadores.

*Viviana Santiago — diretora-executiva da Oxfam Brasil; Gabriel Bezerra — presidente da Confederação Nacional dos Trabalhadores Assalariados e Assalariadas Rurais (Contar) ; Lucas Sidrach — coordenador nacional do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT)

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