Conflito no Oriente Médio escala, com mortes de inocentes
e efeitos econômicos que atingem diversos países
O The New York Times mostrou ontem um vídeo, com
autenticidade verificada pelo próprio jornal, da escola para meninas no Irã atacada
pelos Estados
Unidos. A reportagem conta que uma investigação militar em andamento indica
que o míssil Tomahawk foi disparado em direção ao colégio elementar por “dados
desatualizados” dos alvos no Irã. Os gritos das mães procurando sobreviventes
ficam no ouvido de quem assiste. Morreram 175 pessoas, a maioria meninas.
Ontem, Israel escalou
seus ataques contra o Líbano, nesta guerra que já virou uma tragédia humana e
uma crise econômica.
Irã está respondendo com a estratégia de
aumentar o custo econômico do conflito. O preço está sendo pago por todos os
países, da região ou de fora dela, pelas empresas e pelos consumidores. A alta
do petróleo é a consequência mais imediata, mas os efeitos são mais amplos e
espalhados.
O presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal,
Ricardo Santin, afirmou que o fechamento do Estreito de Ormuz afeta as
exportações brasileiras de carne de frango para todo o Oriente Médio, não só o
Irã, bloqueando cerca de 70 mil toneladas dos itens. Parte da carga está sendo
redirecionada para portos alternativos nos Emirados Árabes, na Arábia Saudita e
na Jordânia. O Oriente Médio compra 30% das exportações brasileiras do setor, e
até agora entre 10% e 15% do volume já foram afetados. A produção não deve
parar porque as empresas estão enviando a mercadoria para China, Europa e
Japão, mas pagando taxas extras de US$ 3 mil a US$ 4 mil por contêiner. A
região também compra 30% do milho brasileiro e 17% do açúcar.
Um levantamento feito para o
blog pelo Centro Brasileiro de Infraestrutura (CBIE) mostrou que já
foram atingidos vários alvos da estrutura de produção de petróleo e gás: uma
refinaria no Kuwait, uma na Arábia Saudita, e uma no Bahrein, dois complexos
industriais no Catar, uma refinaria e um terminal nos Emirados Árabes e dois portos
em Omã. No dia 10, a petroleira estatal dos Emirados Árabes Unidos anunciou o
fechamento do complexo de refino de Ruwais que tem capacidade de processamento
de 922 mil barris/dia e tem plantas de petroquímicos, fertilizantes e gás
natural. Em resposta, a estrutura de produção do Irã também está sendo atacada.
Somando tudo, o que se tem hoje é dúvida sobre a capacidade de manutenção do
fluxo de petróleo e derivados. Não apenas pela dificuldade do Estreito de
Ormuz, mas porque a estrutura está sendo bombardeada.
Também têm sido atacadas usinas de dessalinização que são
fundamentais numa região com muito poder econômico, mas escassez de água. Isso
atinge diretamente a população. Os países do Golfo gostariam que o confronto
acabasse, segundo tenho ouvido de analistas que acompanham a questão. Eles nada
têm a ganhar e não estão interessados em se juntar ao esforço de guerra dos EUA
e Israel.
Nos Estados Unidos, as contradições sobre os objetivos da
guerra são cada vez maiores. A ideia de que foi iniciada porque ocorreria um
ataque iminente do Irã às bases norte-americanas já foi derrubada. O secretário
de Estado, Marco Rubio, disse que a iminência era derivada do fato de que
Israel estava decidido a atacar o Irã e, portanto, as bases americanas seriam
bombardeadas em resposta. Ou seja, Rubio está admitindo que os Estados Unidos
são caudatários de Israel.
Israel, por sua vez, tem objetivos maximalistas. Quer
derrubar o regime, acabar com a Guarda Revolucionária, interromper o programa
nuclear. Quer a subserviência do Irã ou a sua fragmentação, e portanto fomenta
a insurgência das minorias. O Irã está numa luta por sobrevivência como país e
pela integridade territorial.
O ataque à escola elementar na cidade de Minab não poderia
ter acontecido. Países signatários das convenções de Genebra assumem limites
entre o que fazer e não fazer numa guerra. O Direito Internacional Humanitário
não proíbe a guerra, mas coloca regras que as partes beligerantes devem seguir.
O governo de Donald Trump feriu
essas leis. O que o NYT informa é que, no passado, houve uma instalação da
Guarda Revolucionária na área do colégio. Mas isso foi há dez anos. Mais de 100
meninas morreram por uma informação desatualizada. Essa é a dor humana. A
econômica está batendo no bolso do consumidor americano. Mas não só. Até no
Brasil onde a Petrobras segura o repasse, o preço do diesel está subindo e há
temores de falta do produto.


















