segunda-feira, 20 de abril de 2026

VOTO NEGRO TEM PODER

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Qual o projeto político dos candidatos para a população negra brasileira?

A realidade já deixou evidente que a falta de consciência social e de letramento étnico-racial afeta diretamente o povo

Com a proximidade das eleições gerais, a pergunta que não sai da minha cabeça é: Ei, senhor(a) candidato(a), qual o seu projeto político para a população negra brasileira?

Indagação semelhante me ocorre em relação a propostas voltadas à proteção, segurança e bem-estar das mulheres. Como se sabe, o público feminino vem sendo atacado sistematicamente em nosso país —a média de feminicídios foi de 4 mortes ao dia em 2025.

No meu entendimento, esses são questionamentos dos mais relevantes a se fazer a quem pretende disputar e exercer postos de comando e gestão com poder suficiente para definir (ou redefinir) os rumos de uma nação.

Sempre é bom lembrar que a maioria dos brasileiros (56%) se autodeclara preta ou parda. Por óbvio, isso também revela o perfil da maior parte dos eleitores. Pelas estatísticas do TSE, 64,96% do nosso eleitorado é negro e 52 % é feminino.

Além disso, a realidade já deixou evidente que a falta de consciência social e de letramento étnico-racial afeta diretamente o povo. Em alguns casos, trata-se, sem exagero, de questão de vida ou morte que se coloca para os cerca de 115 milhões de pessoas autodeclaradas negras.

Não sei vocês, mas eu lembro bem de máximas racistas, preconceituosas e discriminatórias proferidas por governantes movidos por lemas como "mira na cabecinha" e "primeiro atira, depois pergunta".

Em menos de seis meses —o primeiro turno das eleições está marcado para o dia 4 de outubro— teremos na ponta dos dedos o poder de escolher presidente da República, deputados federais e senadores que irão compor o Congresso Nacional (Câmara e Senado), governadores dos estados e deputados estaduais e distritais que integrarão as assembleias legislativas.

Essa gente vai pautar e definir temas que irão impactar as nossas vidas pelos próximos quatro anos —ao menos. Então, fique atento. Valorize seu voto. Pesquise sobre as propostas dos candidatos. Preze o poder que a democracia nos delega a cada eleição.

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COMO SE LÊ KKKKKK EM PORTUGAL

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Comparado com os sonoros rárárá, rêrêrê, ririri, rôrôrô e rururu, o kkkkkk é só um cacarejo

Se você escrever kkkkk para sua namorada lisboeta, ela lerá kappakappakappakappa

Os leitores mais regulares desta coluna sabem de minha aversão pelo kkkkkk com que muitas pessoas encerram suas mensagens pela internet. Sabem também de minhas razões para isto. Primeiro, na vida real, ninguém ri kkkkkk, mas de outras maneiras, muito mais ricas. A começar pelo rá-rá-rá, uma explosão aberta e sonora, um brado de bem-estar no mundo. Ou o rê-rê-rê, um riso de desprezo, de ironia. E o ri-ri-ri, uma forma afetiva de rir, embutindo uma crítica ao que se ouviu. E não para por aí.

Temos também o rô-rô-rô, uma risada gorda, bonachona, feliz da vida. E o ru-ru-ru, tão significativa quanto o rá-rá-rá, mas, me parece, mais comum entre pessoas de idade. Há ainda outra forma de rir, o sofisticado quá-quá-quá, uma risada autorreferente, uma metarrisada, como se o ridente estivesse citando uma risada —nunca ouvi ninguém rir quá-quá-quá espontaneamente. Enfim, tudo isso para dizer que, em comparação, o kkkkkk não passa de um cacarejo.

O kkkkkk só existe por escrito e no final da mensagem, como se o sujeito estivesse rindo do que ele mesmo escreveu, quando deveria nos dar a opção de rir ou não. Além disso, rá-rá-rá, rê-rê-rê, ri-ri-ri, rô-rô-rô e ru-ru-ru são universais, soam igual em toda parte. Já o americano ou o inglês, diante do nosso kkkkkk, rirá keikeikeikeikeikei, que é como se pronuncia o k em inglês.

O pior é que nem em Portugal seremos compreendidos, porque, lá, a letra k se lê kappa, segundo o original grego. Portanto, se você mandar para a sua namorada lisboeta uma mensagem com kkkkkk, ela lerá kappakappakappakappakappakappa e não perceberá o que você, o zuca, quis dizer com aquilo.

Atenção, esta crônica não é uma censura, apenas uma observação linguística. O kkkkkk é uma invenção da internet e, como tal, um dia poderá ser desinventada. No tempo das cartas à mão ou datilografadas, colocadas num envelope e este fechado com uma lambida, ninguém as terminava com kkkkkk. Um dia, quem sabe, chegaremos ao kêkêkê, ao kikiki, ao kókókó e, quem sabe, ao kukuku. Kkkkkk!

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A DISPUTA PELO SENADOE A ARMADILHA DA DISPERSÃO

Lara Mesquita, Folha de S. Paulo

Dados de 1998 a 2022 mostram que candidatos da coligação do governador têm muito mais chance

Desafio é não permitir que votos dos eleitores se diluam entre muitos nomes de um mesmo grupo político

Na última semana, a disputa pelo Senado passou a ocupar mais espaço no debate político. Seja pela pressão de alguns partidos em busca de espaço nas chapas num ano em que estarão em disputa duas cadeiras por estado, seja ainda pela indefinição sobre quem serão os candidatos em alguns estados. A isso se soma o uso abertamente eleitoreiro que o senador Alessandro Vieira fez do relatório da CPI do Crime Organizado.

Ainda são poucas as pesquisas sobre as chances dos pré-candidatos ao Senado. Mas os sinais de indefinição se multiplicam. Os ex-governadores do Rio de Janeiro e do Distrito Federal, que se desincompatibilizaram de seus cargos com o objetivo de disputar uma vaga ao Senado, parecem ter desistido. Um pela insegurança jurídica, o outro para evitar ter sua imagem ainda mais vinculada ao escândalo do Banco Master.

Em São Paulo, por enquanto, apenas duas candidaturas são dadas como certas: as dos deputados federais Guilherme Derrite (PP) e Ricardo Salles (Novo).

Salles deve sair em candidatura independente, sem o apoio do governador Tarcísio de Freitas. A direita ainda pode lançar um segundo nome vinculado à coligação de apoio do governador, mas aguarda que Jair e Eduardo Bolsonaro unjam um candidato.

A esquerda, capitaneada pela candidatura ao governo estadual de Fernando Haddad, precisa decidir se sairá unida ou fragmentada. A federação Rede-PSOL anunciou a deputada federal e ex-ministra Marina Silva como pré-candidata, enquanto o PSB trabalha com as pré-candidaturas dos ex-ministros Simone Tebet e Márcio França.

A disputa para o Senado em 2026 pode se tornar uma armadilha para os grupos que não se coordenarem, e essa armadilha tende a ser mais perigosa para a oposição, que na maioria dos estados parte em desvantagem na corrida pelo governo.

São escassos os estudos da ciência política dedicados à competição pelo Senado. Diante dessa lacuna, convidei Miguel Lian e Cedric Antunes, meus colegas do FGV Cepesp, para analisarmos os padrões de resultados dessa disputa entre 1998 e 2022. Os resultados mostram que candidatos lançados pela coligação do governador vencedor têm uma vantagem expressiva: sua probabilidade de eleição é cerca de 53 pontos percentuais maior do que a de candidatos que concorrem fora desse campo. Nos anos em que há duas vagas em disputa, a coligação do governador elege ao menos um senador em metade dos casos e conquista as duas cadeiras em 29% das eleições.

À luz desses resultados, em estados como São Paulo, onde o governador que disputa a reeleição larga em posição muito favorável, a eleição para o Senado pode funcionar como uma disputa por apenas uma vaga efetivamente aberta. Uma das cadeiras tende a gravitar em torno da coligação do governador. A outra dependerá tanto das estratégias de campanha quanto da capacidade de coordenação interna entre os grupos políticos.

A lógica da disputa para o Senado não premia a diversidade de candidaturas. Premia a concentração de votos. O desafio é não permitir que os votos dos eleitores se diluam entre muitos nomes de um mesmo grupo político.

A escolha deve ser entre coordenar-se, reduzir o número de candidaturas e somar forças, ou dividir os votos e entregar a cadeira aos seus adversários.

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EFEITOS NÃO ANTECIPADOS DA CORRUPÇÃO

Marcus André Melo*, Folha de S. Paulo

No caso do Banco Master não há efeitos mitigadores do impacto dos malfeitos

No caso do escândalo do Supremo, é a defesa da democracia que tem sido mobilizada

Nada mais atual do que a afirmação do senador Jaques Wagner ao comentar a estratégia de reeleição da presidente Dilma Rousseff em 2014: "Estamos em campanha e tenta-se fazer palanque sobre um tema rejeitado pela população, que é a corrupção... Ninguém ganha eleição dizendo ‘sou honesto’. Até porque ninguém acredita".

Wagner errou em seu diagnóstico de que esse tema era "rejeitado pela população", mas acertou quando apontou para a questão da credibilidade de declarações sobre honestidade. Na atual conjuntura, a percepção de um "mar de lama" faz com que ninguém acredite que políticos sejam honestos. Que ministros do Supremo sejam honestos. Ou que diretores do INSS ou Banco Central sejam honestos.

Quando a corrupção é avassaladora, seus efeitos sobre os incentivos são sistêmicos. Como já analisei na coluna, a corrupção gera corrupção. À primeira vista, pode sugerir que ela dê lugar a um cinismo cívico generalizado, e que os cidadãos perdem a capacidade de se indignar. O efeito médio para os eleitores pode ser o de indiferença. Mas a corrupção não é categoria homogênea.

A evidência acumulada na ciência política mostra exatamente o contrário: as pessoas distinguem entre tipos de corrupção. Marco Klasjna, Noam Lupu e Joshua Tucker em trabalho sobre comparativo experimental no Uruguai, Argentina e Chile, como parte do Lapop (Latin American Public Opinion Project), concluíram que a informação sobre a extensão da corrupção não afeta a punição de certos tipos de ilicitudes.

Isto é consistente com a forte rejeição em abstrato à corrupção, mas o pouco impacto efetivo em situações concretas (Boas, Hidalgo e Melo). Casos de enriquecimento pessoal geram forte reprovação moral e tendem a produzir punição eleitoral. Já formas de corrupção associadas à provisão de bens públicos —obras, programas sociais, transferências— são julgadas de forma ambígua. Nesses casos, as pessoas operam com trade-offs: ponderam corrupção contra desempenho, entrega de políticas, alinhamento partidário e lealdade identitária. São conhecidos os padrões "rouba mas faz" ou "rouba mas distribui", que cada vez mais têm sido substituídos pelo "rouba mas é da minha tribo".

No caso do escândalo do Supremo, é a defesa da democracia que tem sido mobilizada. Mas isso tem tido retornos claramente decrescentes. Aqui o aspecto crítico é a reversão de expectativas: ilícitos cometidos onde menos se suspeitava. Mas o julgamento moral dos envolvidos em corrupção no caso Master e no INSS não tem trade-off envolvido e, por isso, assume assim alta voltagem. E contrastam com a corrupção exposta em muitos casos de emendas ao orçamento, em que os efeitos são mitigados pela provisão de bens públicos.

A reação do Supremo ao indiciamento de seus membros na CPI do Crime Organizado alimenta a espiral de indignação e o sentimento público de "mar de lama". O relatório hiperbólico apresentado pelo relator é reflexo das interferências brutais do próprio tribunal, do governo e da base parlamentar aos seus trabalhos. O relatório foi acusado de ser "eleitoreiro" —"de fazer palanque" (Wagner)— justamente porque incidirá nas urnas com alta voltagem. O "corte de orelhas" sobre o qual falei na coluna pode sair pela culatra.

*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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A SEMENTE DO PRÓXIMO FIDEL

Oliver Stuenkel*, O Estado de S. Paulo

Trump corre o risco de plantar as sementes do próximo Fidel Castro

Estratégias de imposição externa frequentemente alimentam nacionalismo e reduzem a influência no longo prazo

Tudo indica que Donald Trump buscará replicar em Cuba uma estratégia semelhante à que usou na Venezuela: quer transformar a ilha socialista em um país alinhado e submisso aos EUA, sem necessariamente alterar outros elementos centrais do sistema político. Isso pode envolver substituir o atual presidente, Miguel Diaz-Canel, por alternativa mais maleável.

Nos bastidores em Washington, fala-se que Trump está buscando uma espécie de “Delcy cubana”, em referência à líder venezuelana cuja permanência no poder depende, em grande medida, do apoio de Washington. Demandas de Trump incluem compensar cidadãos e empresas dos EUA por propriedades confiscadas após a revolução de 1959.

Independentemente de exigências específicas, porém, o plano mais amplo para Cuba é claro: tornar o país em um Estado cliente dos EUA – um país formalmente soberano, ma dependente na prática.

À primeira vista, isso representaria uma vitória estratégica para Washington. Afinal, significaria ampliar a influência americana no Caribe, reduzir o espaço de atuação de adversários como China e Rússia e reforçar a capacidade dos EUA de moldar os rumos políticos e econômicos da região – objetivo declarado na Estratégia de Segurança Nacional apresentada pelos EUA no fim do ano passado. Em um contexto de competição geopolítica crescente, sobretudo entre grandes potências, a tentação de garantir zonas de influência mais previsíveis é comum.

DEPENDÊNCIA. Há, porém, um problema estrutural nessa lógica. Governos que dependem de uma potência externa quase sempre enfrentam um déficit de legitimidade interna. Para muitos cidadãos, passam a ser vistos – frequentemente de forma justificada – como submissos a interesses estrangeiros. Esse tipo de percepção cria um ambiente político volátil, no qual a estabilidade depende menos de apoio popular e mais de sustentação externa.

A história de Cuba mostra que esse tipo de arranjo abre espaço para o surgimento de líderes com forte discurso nacionalista e antiamericano. São políticos que se apresentam como defensores da soberania, prometendo romper com a dependência externa, restaurar o orgulho nacional e “devolver o controle ao povo” – uma narrativa que encontra terreno fértil em sociedades onde a presença estrangeira é percebida como intrusiva ou humilhante.

Vale lembrar que, em 1959, Fidel Castro chegou ao poder após uma revolução alimentada pelo ressentimento contra a forte influência dos EUA nas décadas anteriores. A proximidade entre elites cubanas e interesses americanos, somada à percepção de desigualdade e perda de autonomia, ajudaram a criar as condições que tornaram a revolução possível. O nacionalismo, nesse contexto, emergiu como uma força mobilizadora poderosa.

Esse ressentimento tem raízes na fundação do Estado cubano. Quando Cuba se libertou do domínio espanhol, em 1898, após a Guerra Hispano-Americana, o preço da intervenção militar americana que selou o desfecho foi alto: a Emenda Platt, incorporada à constituição cubana de 1901, sob pressão de Washington, concedia aos EUA o direito de intervir na ilha e estabelecer bases militares, como Guantánamo.

RISCO. Cuba nasceu, portanto, formalmente independente, mas estruturalmente subordinada – e essa submissão plantou sementes de ressentimento que continuaram a germinar ao longo do século 20. Ou seja: uma estratégia pensada para aumentar o controle pode, no longo prazo, produzir o oposto. Ao tentar moldar o sistema político cubano de fora para dentro, Washington corre o risco de reacender dinâmicas históricas que já demonstraram sua capacidade de criar resistência.

Mesmo que uma liderança mais alinhada aos EUA consiga se consolidar no curto prazo e melhorar a situação econômica, sua sobrevivência dependerá de apoio externo, o que reforça o ciclo de fragilidade interna. Qualquer crise poderá ser reinterpretada como consequência da submissão a interesses estrangeiros, alimentando novas ondas de contestação.

Se esse for o caminho escolhido por Trump, há um risco real de que ele esteja apenas adicionando mais um capítulo a um padrão histórico recorrente: períodos de forte influência americana seguidos por reações nacionalistas intensas.

*Pesquisador do Carnegie Endowment, na Harvard Kennedy School, e professor de relações internacionais da FGV-SP

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DISSONÂNCIA COGNITIVA

Denis Lerrer Rosenfield *, O Estado de S. Paulo

Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que procura conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo fazem para impor a sua narrativa

O mundo tal como existia a partir da 2 . ª Guerra Mundial desmoronou. Vivemos hoje a sua derrocada progressiva, com o enfraquecimento e o desaparecimento daí resultantes de suas instituições. Os horrores da 2.ª Guerra deram lugar, naquele então, a tratados internacionais que respondiam aos interesses das potências vencedoras. Note-se, todavia, que a paz tinha um significado restrito, válido para a Europa Ocidental, não se aplicando ao Leste Europeu. Enquanto a guerra desaparecia desse território limitado, outrora considerado o centro do mundo, ela proliferava pelo mundo afora. Exemplos são inúmeros nas invasões de Hungria, República Checa e Afeganistão, no Vietnã, na Argélia, no Iraque e várias no Oriente Médio, além das africanas. Tudo sustentado no equilíbrio militar nuclear.

No entanto, estamos vivendo uma espécie de nostalgia, a de um mundo idílico perdido, como se a história tivesse perdido um eixo que nunca o teve. Façamos uma analogia. Stefan Zweig, em sua época, viveu tragicamente a sua nova realidade quando viu se esfacelar o seu mundo. Em 1941, quando escreve seu livro O mundo de ontem, relata como a bolha em que vivia explode, visto que tudo apostava num progresso incessante da humanidade em função de valores mais altos, ancorados em sua experiência própria na cultura europeia, mormente alemã e austríaca. Era o mundo das belles lettres, da poesia, da música e da literatura.

Tem desse mundo uma profunda nostalgia, vendo-se desarmado intelectualmente diante de sua nova realidade. Em sua correspondência com Einstein, Freud, em sua perplexidade, foi levado a pensar o significado da guerra, enquanto Zweig ficou preso à sua própria reminiscência, isolado e perdido. Não lhe passava pela cabeça que o mundo hobbesiano da guerra de todos contra todos poderia comparecer novamente, sendo considerado algo que tinha sido superado definitivamente. Qual não foi seu espanto quando a figura bíblica de Behemoth, monstro da morte e da destruição, bateu à sua porta. O mundo que se autodestruía o levou ao seu próprio suicídio, em 1942, em Petrópolis, no Rio de Janeiro.

A ausência de novas categorias capazes de dar conta deste novo fenômeno da guerra, aliada ao intenso uso de mídias sociais e sites jornalísticos mundo afora pela esquerda e pela rede islamista, faz com que, na guerra dos EUA e Israel contra o Irã, fatos desapareçam diante de narrativas mistificadoras. Vitoriosos são apresentados como derrotados e os derrotados como vitoriosos. Atente-se à necessária distinção entre uma perspectiva militar e uma política, sendo essa última a mais propícia para tergiversações ideológicas e religiosas. Os objetivos militares israelenses e americanos são basicamente os mesmos, embora o seu enfoque político tenha ênfases diferentes.

Militarmente, os objetivos da guerra já foram alcançados. Eliminação das lideranças religiosas e militares, obliteração dos sites nucleares, ficando ainda pendente o urânio enriquecido que jaz sob escombros, a destruição de mais de 80% dos lançadores de mísseis balísticos, assim como de seus estoques e fábricas, a marinha iraniana descansando no fundo do mar, a aniquilação das defesas antiaéreas e o aniquilamento da Força Aérea. Seus satélites como Hamas, Jihad Islâmica e Hezbollah foram severamente atingidos. O Irã tornou-se uma pálida figura do que foi. Acrescente-se ainda uma economia declinante, inflação galopante e perda de valor da moeda. Como se pode, sob essas condições, clamar por vitória? Politicamente, porém, colocar como objetivo a mudança de regime é algo que se situa para além da força militar, por depender fundamentalmente de uma sublevação do povo iraniano, tarefa essencial sua.

Contudo, certa cobertura jornalística e de comunicação em geral está produzindo uma forma de dissonância cognitiva ao obedecer a orientações ideológicas. Com efeito, tem-se frequentemente a impressão de que o Irã é o vencedor dessa guerra, enquanto os EUA e Israel são os grandes derrotados. Os fatos são obliterados em proveito de uma narrativa que procura conquistar a opinião pública. Uma vez que já perderam no combate, tudo fazem para impor a sua narrativa. A batalha, para eles, desenrola-se principalmente nos meios de comunicação, jornalísticos e nas redes sociais. Chega-se, inclusive, hoje a um aparente paradoxo. Ao se ler sites jornalísticos nos Emirados Árabes, no Kuwait, no Bahrein e na Arábia Saudita, tem-se uma visão muitas vezes mais veraz do que em relatos que seguem a narrativa esquerdista mundial. Jornalistas árabes indagam-se, perplexos, como se pode ainda falar de uma vitória do Hamas e da teocracia iraniana, quando estão aos frangalhos, contentando-se com o que se pode denominar de uma vitimização de Tânatos, figura da morte, por eles mesmos produzida. Bastaria fazer uma leitura de fatos, em vez de uma adesão irracional a concepções mistificadoras.

Zweig sucumbe à nova realidade, a mistificação dos fatos ignora essa mesma realidade. 

*Professor de Filosofia na UFRGS

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ÉTICA PÚBLICA: UM IMPERATIVO CONSTITUCIONAL

Eduardo Muylaert *, O Estado de S. Paulo

Implantar uma nova cultura ética significa romper com práticas que naturalizam privilégios e confundem o público com o privado

Comportamentos que, na iniciativa privada, levariam à demissão imediata por justa causa tornaram-se corriqueiros em setores da administração pública, inclusive em altas esferas do poder. Práticas incompatíveis com o interesse público passaram a ser tratadas como normais – quando não justificáveis – corroendo a confiança nas instituições e esvaziando o sentido constitucional da ética na gestão do Estado.

“É preciso saber aproveitar as oportunidades”, ouvi certa vez, horrorizado. Traduzindo: mesmo sem roubar, sem incorrer em peculato, a posição de poder – por menor que seja – autorizaria o uso de meios pouco ortodoxos para benefício próprio. Nessa interpretação “generosa”, a passagem pelo poder geraria quase um direito à vantagem. Só os tolos, muito tolos, não o fariam.

A perigosa distância que separa as regras do Direito da prática político-administrativa sempre foi motivo de preocupação no Brasil. Com a Constituição de 1988, buscou-se reduzir esse abismo ao submeter a administração pública direta e indireta aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência (art. 37).

A noção de interesse público como elemento essencial do serviço público e a obrigação de desinteresse do agente estatal são tradicionais na doutrina. Já em 1969, Laubadère ensinava que é vedado ao funcionário ter, numa empresa que tenha relação com o seu serviço, interesses capazes de comprometer sua independência. A Constituição de 1988 foi além: incorporou a moralidade ao núcleo do regime jurídico-administrativo, consagrada assim c o mo parâmetro de validade dos atos do poder público.

As regras são claras, mas – como observa a ministra Cármen Lúcia – o que importa é o nível de aplicação e acatamento das normas. Daí a importância dos sistemas de ética pública, com códigos de conduta e instâncias de orientação, controle e responsabilização.

Alguns insistem na desnecessidade desses códigos. Embora as noções do que é certo e do que é errado integrem a consciência e a inteligência da maioria, na prática do poder surgem controvérsias que, às vezes, parecem agredir o senso comum. O evidente mal-estar da sociedade diante da conduta ética de agentes públicos e de agentes econômicos privados já vinha sendo apontado há tempos por João Geraldo Piquet Carneiro, que presidiu a Comissão de Ética Pública do governo federal.

Vários autores enfrentaram com acuidade o problema. A legislação brasileira sobre ética pública é bem inspirada, pouco lembrada e escassamente implementada, diagnosticou o ministro Marcílio Marques Moreira, ex-presidente daquela comissão. Vivemos um tempo “dividido entre a esperança e o dissabor”, para a professora Marília Muricy, cujo mandato na Comissão de Ética Pública da presidência não foi renovado em 2012, o que levou à demissão do então presidente, ministro Sepúlveda Pertence.

Mesmo os defensores mais aguerridos da ética pública reconhecem as dificuldades. Um dos grandes desafios é tornar aceitável, numa sociedade personalista e hierárquica, a ideia de que todos – inclusive e sobretudo os agentes do Estado – estejam submetidos aos mesmos princípios e tratados como qualquer cidadão, em situações de conflito de interesses, na análise do antropólogo Roberto DaMatta.

No plano federal, a Constituição de 1988 deu origem a iniciativas importantes, como o Código de Ética Profissional do Servidor Público (1994) e a criação da Comissão de Ética Pública (1999). Normas complementares disciplinaram temas sensíveis como a publicidade da agenda de autoridades e o registro das audiências, presentes e brindes, seminários, eventos e sua remuneração. Também há regras sobre viagens, pagamento de transporte e hospedagem, quarentena ao deixar o posto, movimentação patrimonial. E o nepotismo, que o Houaiss define como “favoritismo para com parentes, especialmente pelo poder público”.

A Lei de Acesso à Informação, de 2011, reforçou a transparência como condição do controle da legalidade e da moralidade administrativa. O Código de Ética da Magistratura, de 2008, buscou fortalecer a confiança da sociedade na autoridade moral dos juízes. O foco era reafirmar compromisso com a excelência da prestação de serviço e realçar a função educativa e exemplar de cidadania da magistratura. Cuida, por exemplo, de independência, imparcialidade, transparência, integridade, dedicação, cortesia, prudência e sigilo profissional.

Há hoje um clamor legítimo por transparência e moralidade em todos os níveis da administração pública. Implantar uma nova cultura ética significa romper com práticas que naturalizam privilégios e confundem o público com o privado. A eficácia dos sistemas de ética pública é condição indispensável para restaurar a confiança na democracia e na República. Talvez tenha chegado a hora de a ética, com ou sem código, deixar o papel e passar a funcionar de verdade em todas as esferas do poder.

*Advogado e escritor, foi Secretário da Justiça e da Segurança Pública do Estado de São Paulo

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LULA E O NEOLIBERALISMO

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Lula ressuscita espantalho do neoliberalismo e revela inveja do bolsonarismo

Em discurso na Espanha, presidente fez uma espécie de autocrítica da esquerda global em uma tentativa de encontrar explicações para a ascensão da direita antidemocrática

Há muito tempo a palavra “neoliberalismo” deixou de ser um conceito do campo econômico para se tornar um “palavrão intelectual”, como observou Rajesh Venugopal, professor da London School of Economics, no Reino Unido. Em artigo publicado em 2015, ele analisou o uso do termo, demonstrando como passou a servir a generalizações teóricas e à descrição de fenômenos sem conexão entre si. De uma delimitação do papel do Estado como regulador da atividade econômica, transformou-se em definição de atitudes políticas autoritárias, ou de imperialismo, ou de uma nova forma de exploração dos pobres pelos ricos, ou até mesmo de massificação de produtos culturais.

O presidente Lula e o PT sempre tiveram a palavra “neoliberalismo” na ponta da língua quando precisavam de um bode expiatório para um problema qualquer. O recurso se desgastou, mas não foi abandonado. Em discurso realizado no último sábado, em Barcelona, na Espanha, Lula fez uma espécie de autocrítica da esquerda global, uma tentativa de encontrar explicações para a ascensão da direita antidemocrática em diversos países do mundo, inclusive o Brasil. E a explicação que Lula encontrou é que a esquerda se rendeu ao neoliberalismo. Pois é.

Segundo o presidente, “o progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante” e seus representantes se tornaram “gerentes das mazelas do neoliberalismo”.

“Governos de esquerda”, disse Lula, “ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam a austeridade”. E, de acordo com ele, “abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade”.

São afirmações curiosas quando se relembra a campanha presidencial de 2022, que resultou na vitória de Lula para um terceiro mandato. O petista não foi eleito por seu “discurso de esquerda” ou por apresentar um sólido programa de governo progressista, mas por ter sido o candidato mais apto a capitalizar a rejeição ao seu oponente, o então presidente Jair Bolsonaro. E mais: na apertada disputa de segundo turno, Lula contou com o que chamava de “frente ampla” com forças de centro. Seu vice, Geraldo Alckmin, é um ex-tucano e ex-adversário de urna.

A julgar pelas palavras de Lula em Barcelona, tudo isso foi um erro. “Sucumbimos à ortodoxia”, disse ele. “Nós nos tornamos o sistema. Por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.” A frase transparece uma ponta de inveja do bolsonarismo. Para o PT, o discurso antissistema nunca funcionou para chegar ao Palácio do Planalto.

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POR QUE LULA DEVE RENUNCIAR À CANDIDATURA

Miguel de Almeida, O Globo

É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato

Lula deve renunciar à intenção de ser candidato. Pelo bem do Brasil e de sua biografia. É questão de coerência. Em 2022, ele prometeu, caso eleito, não buscar outro mandato — seria o quarto. Foi quase uma troca: votem em mim pela última vez. Quem jamais o engoliu, a ele e ao PT, aceitou a permuta. Os eleitores independentes o ajudaram a despachar Jair Bolsonaro. Se, em 2018, a quantidade de votos brancos e nulos foi o equivalente a 8,8% do eleitorado no primeiro turno, em 2022, ano do escambo, mal chegou aos 4,4%, algo como 5,4 milhões de votos. Mas a abstenção superou os 20%. Lula ganhou com a diferença de míseros 2,1 milhões de votos — diferença perto de 1%. E prometeu em sua primeira manifestação:

— A partir de 1° de janeiro de 2023, vou governar para 215 milhões de brasileiros e brasileiras, e não para só aqueles que votaram em mim — afirmou.

No passo seguinte, esqueceu suas palavras mandando às favas a frente democrática que o levara à vitória. O povo não esquece. Ao longo do mandato Lula 3, ele jamais gozou de aprovação muito otimista; na pesquisa Quaest da semana passada, 52% dos brasileiros torciam o nariz para sua gestão.

Mesmo criando uma bolsa a cada crise de popularidade, o truque não funcionou. Não à toa, Flávio Bolsonaro está numericamente à frente dele no segundo turno. O problema é o desgaste do modelo de gestão. O retrato de sua incompreensão ao novo Brasil ficou demonstrado dias atrás na manifestação de motoboys e motoristas por aplicativos contrários às propostas de regulamentação da categoria. Alguns milhares de trabalhadores pararam ruas paulistanas em protesto ao modo como o governo pretende editar legislação específica.

E não é de agora. O ministro do Trabalho, Luiz Marinho, ameaça a categoria desde o início do governo com uma legislação considerada obsoleta — chegou a falar em sindicalização dos trabalhadores. Marinho opera na mentalidade getulista (estrutura herdada de Mussolini) de aparelhamento de setores da sociedade. Na gênese do PT, está o movimento sindical da década de 1970.

Os constantes e minguados índices de aprovação ao governo — hoje em 43% — significam fastio da população com Lula e seu jeito de governar, que embute um recado a quem deixou o segundo mandato com cerca de 80% de ótimo/bom: o apoio se limitava à eleição de 2022 diante da ameaça de golpe representada por Bolsonaro. Os números podem ser lidos ainda como lembrança à promessa de um governo de frente ampla, que ficou na saudade, e à falta de êxitos na administração. Em dois exemplos: as fraudes milionárias no INSS sobre os aposentados e pensionistas e a fila no mesmo INSS (em março eram 2,8 milhões de brasileiros à espera de atendimento).

Caso renuncie, Lula já tem lugar na História brasileira. Foi o único a vencer três eleições nas urnas. Conseguiu eleger e reeleger Dilma Rousseff, embora carregue com ela uma das piores recessões econômicas do Brasil democrático (a da pandemia, sob Bolsonaro, foi excepcional). Teve ousadia em aprofundar a ideia tucana de bolsas sociais, mesmo que construídas sob iluminação populista e não estrutural, como desenharam anteriormente Vilmar Faria e Dona Ruth Cardoso nos anos de FH. Seus dois primeiros mandatos se beneficiaram de ventos favoráveis trazidos pelas commodities. E, no atual governo, exibe números positivos na queda do desemprego e na inflação (obrigado, Galípolo), apesar do escandaloso aumento da carga tributária — até o momento em que escrevo, de 32,4%. Renunciando agora, Lula deixa o Brasil com o maior volume de impostos da América Latina. PT!

Com sua afamada biografia — sempre saudada pelo próprio —, Lula deveria retribuir ao país os ganhos obtidos em sua trajetória. Não pode ser ingrato com o povo que o elegeu por três mandatos. Erros seus e de seu partido, em mais de 14 anos no poder, resultaram na vitória de Bolsonaro em 2018 e no surgimento de uma direita radical e raivosa. Seu compromisso deveria ser não entregar o Brasil novamente à conflituosa família Bolsonaro. Em seu partido existem nomes capazes de lhe suceder. São pessoas jovens e mais modernas, não tão afeitas ao ideário petista de desenvolvimento, obsoleto como o fio do telefone.

Mantendo-se aferrado à disputa, ele deveria ter em mente o que ocorreu com o grande Winston Churchill. Depois de comandar o Reino Unido na vitória contra os nazistas, viu-se mandado para casa na primeira eleição depois do final da Segunda Guerra. Os britânicos reconheciam seu valor, mas queriam renovação após tantos anos.

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IMPOSTOS AUMENTAM PARA TODOS

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

A carga tributária no Brasil tem subido porque o governo a cada ano gasta mais do que arrecada

O ministro das Relações Institucionais, José Guimarães, é contra a taxa das blusinhas. O vice-presidente Geraldo Alckmin é a favor. O chefe deles, o presidente Lula, meio que tirou o corpo fora dessa disputa dentro de seu governo, mas deu a entender que pode engrossar o grupo dos que propõem a extinção desse imposto.

Ocorre que, politicamente, a taxa gerou desgaste para o governo petista. Do ponto de vista da política econômica, a medida faz sentido. Taxa das blusinhas é o nome genérico que se deu ao imposto federal de importação de 20%, aplicado sobre compras eletrônicas em sites internacionais, especialmente nos chineses. Ela foi aplicada a partir de agosto de 2024. E se somou ao ICMS de 17%, cobrado pelos estados desde julho de 2023. Na conta final, o imposto total foi para cerca 40%.

Antes disso, compras de até US$ 50 (o equivalente a R$ 250 de hoje) eram totalmente isentas — e se tornaram um sucesso, sobretudo entre as camadas de baixa renda. O apelido blusinhas pegou porque a maior parte das compras era de roupas e calçados. Mas havia mais: eletrônicos, artigos de casa, materiais de construção e produtos para pets.

O imposto estadual passou sem grande alarde, talvez porque fosse de difícil cobrança. O que acabou com a farra foi a lei federal 14.902, de 2024, a partir da qual o Ministério da Fazenda criou o programa de Remessa Conforme. Os impostos passaram a ser recolhidos diretamente, no Brasil, pelos sites vendedores. Lula assinou a lei sem vetos, apesar dos protestos intensos em redes sociais. O então ministro Fernando Haddad defendeu a regra como parte da política econômica para favorecer a indústria nacional.

Além disso, havia uma receitinha extra que um governo gastador não pode dispensar. No ano passado, a taxa das blusinhas rendeu R$ 5 bilhões ao governo federal. E outro tanto aos governos estaduais.

Nas redes sociais, o governo Lula perdeu a parada. A taxa das blusinhas é malhada até hoje — é o governo arrecadando imposto dos mais pobres. Por isso integrantes do governo passaram a considerar sua extinção, num programa de bondades eleitorais.

Lula, em entrevista recente, comentou que sempre achou a taxa “desnecessária” — mas não a vetou quando podia. Também comentou que os danos para o governo foram expressivos.

Nesse quadro, indústria e comércio nacionais reagiram. Um manifesto produzido pela Associação Brasileira do Varejo Têxtil, assinado por 70 entidades empresariais, sustenta que a taxa equilibrou o mercado, com vantagens para os setores locais. O manifesto afirma que indústria e comércio tiveram um desempenho bem melhor depois da aplicação dos impostos. Na verdade, atribui a isso o bom crescimento dos setores nos últimos dois anos — é exagero, pois a expansão do PIB decorreu de vários outros fatores.

De todo modo, as associações empresariais têm um ponto. Indústria e comércio locais afirmam recolher impostos que podem chegar a 90% — para os têxteis. A equipe econômica aceita esses argumentos. Tanto que, ainda em fevereiro passado, elevou impostos sobre a importação de 1.252 produtos de tecnologia (máquinas, equipamentos industriais e itens eletrônicos, incluindo, por exemplo, celulares). Depois, diante de protestos, tirou alguns produtos da lista, mas foi mantido o plano de conter as importações de tecnologia, para favorecer a produção nacional.

Ocorre que a indústria nacional não tem capacidade de atender toda a demanda nesse setor, de modo que os efeitos práticos são produtos mais caros e, claro, maior arrecadação. A carga tributária no Brasil tem subido porque o governo a cada ano gasta mais do que arrecada. Se não fosse assim, poderia, em vez de aumentar o imposto do importado, reduzir o local. Mas isso nem sequer é cogitado.

O governo pode, afinal, eliminar a taxa das blusinhas por motivos eleitorais. A arrecadação não é muita, e a Fazenda sempre arranja onde recolher.

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DÍVIDAS MINAM PERCEPÇÃO DA ECONOMIA E GOVERNO APOSTA CONTRA BETS

César Felício, Valor Econômico

Bancarização e abundância de crédito fácil e caro fomentam o aumento da inadimplência

Desemprego em mínimas históricas, inflação na casa de 5% ao ano, renda em alta e PIB em crescimento contínuo, embora baixo, deveriam proporcionar calmaria para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva se aventurar em sua reeleição. Pesquisas como a Genial/Quaest da semana que passou deixam claro que não é isso o que acontece e há um consenso de que uma das razões é a corda do endividamento apertando o pescoço das famílias.

Um estudo da LCA Consultores, com base em dados da Serasa e do Banco Central, mostram que o garrote começou a apertar depois da pandemia de covid-19 e subiu degraus de dois em dois no governo Lula. O total de dívidas negativadas passou de R$ 221,2 bilhões para R$ 321,6 bilhões entre dezembro de 2022 e dezembro de 2025.

Entre 2016 e 2020 o número de consumidores inadimplentes ficou oscilando no patamar de 60 milhões de pessoas.

De 2021 para cá saltou para 81,2 milhões.

Um dado sobre o perfil de quem são esses inadimplentes permite perceber o impacto político. A faixa entre 41 e 60 anos concentra 35% deles e 34% possuem entre 26 e 40 anos. Essas são as faixas da grande maioria das pessoas que estão em produção laboral.

A inadimplência na população idosa, acima de 60 anos, soma apenas 3%. Por duas razões: ou estão ancorados no crédito consignado para aposentados, onde a inadimplência é menor, ou têm a renda tão baixa e um acesso a tecnologias tão precário que estão excluídos do crédito fácil e caro que as classes médias usam para tentar sustentar seu padrão de consumo.

Não por acaso, é entre os idosos que a desaprovação ao governo Lula é menor, de acordo com o levantamento da Genial/Quaest divulgado na quarta-feira (15). Na população com mais de 60 anos, Lula é desaprovado por 44%. Entre os que têm entre 35 e 59 anos este percentual sobe para 54%.

O tipo de inadimplência que afeta os brasileiros neste momento está diretamente relacionado ao aumento da bancarização. De acordo com dados do Banco Central, havia em junho de 2018, Bolsonaro em campanha, 77,2 milhões de clientes pessoas físicas, ou o equivalente a 47% da população adulta. Em dezembro de 2023, já com Lula presidente, havia 152 milhões de clientes, ou o correspondente a 88% dos adultos. Segundo a autoridade monetária, cerca de 75% dessa base de correntistas tinham há dois anos e meio operações de crédito.

O resultado, segundo o relatório da LCA, é que o perfil da inadimplência se transforma. A fatia da insolvência financeira passou de 37% para 47% entre 2018 e 2025. A parcela não financeira (contas de serviço não pagas, por exemplo), reduziu de 63% para 53%.

O grande nó, em um círculo vicioso, é o do cartão de crédito. A inadimplência sobre o total de carteira é absurdamente alta, sobretudo na modalidade do rotativo, em parte porque os juros estão em um patamar acima de 400% anual há mais de dez anos.

Essa bolha que sustenta o consumo no Brasil remove de quem está encalacrado com o pagamento de juros qualquer sensação de bem-estar com a economia. Supera a inflação como régua para medir o humor do eleitorado.

A pesquisa Genial/Quaest demonstra isso. A sensação de piora da economia é mais elevada na faixa que ganha entre 2 e 5 salários mínimos (53%) e acima de 5 salários mínimos (55%) e menor entre os que ganham menos de 2 salários mínimos (40%). Todas essas faixas, contudo, percebem de forma similar que o preço dos alimentos subiu no último mês: de 56% para 73% na faixa mais baixa, de 59% para 73% na intermediária e de 60% para 72% na mais alta.

É uma crise de percepção com fundamento inferido pela análise dos dados, mas não admitida pelo eleitorado. Como comentou Eric Brasil, diretor da LCA, as famílias não se consideram endividadas enquanto estão adimplentes. De acordo com a Genial/Quaest, 43% dos pesquisados disseram ter “poucas dívidas”, 29% afirmaram ter muitas e 28% disseram não tê-las. Mas pagamento de juros já representa 10,4% da renda familiar e a inadimplência da pessoa física em relação ao total do crédito do Sistema Financeiro Nacional saltou de 3,5% para 5% entre dezembro de 2019 e dezembro de 2025.

Diante desse problema o governo irá agir e a ação governamental irá provocar um embate no Congresso. O estudo da LCA citado nessa coluna teve um propósito político. Ele foi apresentado em Brasília durante um evento promovido por defensores da indústria das bets no Brasil. Busca convencer a audiência de que o vício em apostas digitais teria pouco peso no agravamento do problema de endividamento. Trata-se de uma vacina para o que está para vir, porque não é essa a visão do governo.

O novo ministro da Secretaria de Relações Institucionais, José Guimarães, disse a jornalistas na quinta-feira (16) o seguinte: “Vi dados que a pessoa, por exemplo, negocia sua dívida e vai lá para gastar [em bets], é um negócio impressionante”. Ele afirmou que o governo prepara “um conjunto de medidas que será anunciado logo, logo” para conter o endividamento, e as bets serão um alvo.

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INFLAÇÃO DE 2028 TIRA FOLGA DO COPOM

Alex Ribeiro, Valor Econômico

Desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo poderá limitar o tamanho do ciclo de corte de juros

O maior desafio do Banco Central na política monetária é a desancoragem das expectativas de inflação de longo prazo. Os sinais recentes não são bons: já houve piora nas projeções para 2028, que ficaram mais distantes da meta, e há indícios de que a tendência continuará.

É pouco provável que isso inviabilize o corte de juros que o Banco Central planeja na reunião da semana que vem, que o mercado aposta que será de 0,25 ponto percentual, para 14,5% ao ano. Mas poderá limitar o tamanho do ciclo de corte - ou seja, poderemos terminar o ano com uma taxa de juros mais alta do que teríamos com uma maior ancoragem das expectativas.

Quem colocou primeiro o foco nas expectativas de inflação para 2028 foi o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, mais para o começo do mês. Desde o início da guerra no Oriente Médio, o miolo das projeções dos analistas de mercado para a inflação em 2028 subiu de 3,5% para 3,6%, distanciando-se ainda mais do centro da meta, de 3%.

Em eventos paralelos à reunião do Fundo Monetário Internacional (FMI), o diretor de Assuntos Internacionais do BC, Paulo Picchetti, que acumula a área de Política Econômica, disse que o que preocupa não é apenas a alta da mediana. As projeções do mercado estão mais dispersas, num sinal de incerteza, e pendendo para cima, o que pode indicar uma tendência de piora.

As expectativas de inflação de longo prazo são fundamentais porque, no fim das contas, dão a margem de manobra para o Banco Central acomodar pelo menos uma parte do choque nos preços causado pela guerra sem ter que manter os juros ainda mais apertados.

Num evento do Itaú BBA, Picchetti disse que há um novo “regime” para a política monetária - ou seja, uma mudança na forma como as engrenagens econômicas funcionam - depois da pandemia, das guerras e do tarifaço. Nesse ambiente, argumentou, ficou mais estreita a margem de manobra para um banco central tratar uma alta da inflação como temporária.

A expectativa de inflação de longo prazo é justamente o termômetro que mede essa margem de manobra. Se ela sobe, significa que os agentes econômicos não entendem que o efeito da guerra sobre a inflação será temporário - e essa crença pode se tornar uma profecia autorrealizada.

O que não está claro, por enquanto, é por que os economistas consultados na pesquisa Focus de expectativas de mercado estão colocando uma gordura adicional nas projeções de inflação.

A hipótese mais provável é que, no fundo, o mercado não acredite que o Banco Central será bem-sucedido em garantir que o surto inflacionário associado à nova guerra será temporário. Esse é um problema de credibilidade - que, mesmo antes do conflito, não era plena.

Mesmo depois de o Banco Central elevar os juros a 15% ao ano, o maior patamar nominal em duas décadas, e mantê-los apertados por um período prolongado, as expectativas de inflação não convergiram para o centro da meta, de 3%. Muitos atribuem isso à política fiscal, que está fora do lugar há anos.

O próprio BC dá sinais de reconhecer esse limite. Começou a cortar os juros depois de obter alguma redução nas expectativas, mas antes de elas estarem ancoradas na meta. É como se dissesse que percorreu o caminho que estava ao seu alcance, mas não conseguiria transpor a barreira criada pela política fiscal.

Esse mesmo contexto parece estar influenciando a situação atual. Diante da guerra, o Banco Central reviu seu plano de voo. Cortou apenas 0,25 ponto percentual da taxa Selic em março, em vez de 0,5 ponto. Deve fazer mais um corte de 0,25 ponto. E tem dado sinais de que, se o cenário negativo persistir, revisará o orçamento do ciclo de baixa dos juros.

Isso não foi suficiente para impedir a alta das expectativas. Pode ser que o mercado ache que o Banco Central não fará o necessário para cumprir a meta. Ou pode ser apenas o reflexo da expectativa de uma deterioração adicional da política fiscal, com o presidente Lula acelerando gastos e o crédito em ano eleitoral.

Outra hipótese - que não exclui totalmente a anterior - é que o mercado esteja apenas incorporando aos preços os efeitos secundários dessa alta inflacionária da guerra. Sinais preliminares nas projeções de inflação de serviços apontam nessa direção.

A projeção central para a inflação de serviços em 2028 está estacionada em 4%, acima da inflação cheia esperada, de 3,5%. Isso sugere que, na visão do mercado, é mais difícil reduzir a inflação de serviços. Mais recentemente, como mostra um gráfico apresentado por Picchetti, essas expectativas começaram a pender para cima - um indicador antecedente de uma possível piora.

Ventos internacionais podem desempenhar papel importante na dinâmica da inflação de serviços. Em 2023, houve queda nos preços de bens industriais, numa normalização após o choque da pandemia. Isso contribuiu para a desaceleração da inflação de serviços no Brasil, abrindo caminho para um ciclo de distensão naquele período.

Seja qual for a explicação, o fato é que as expectativas de inflação para 2028 pioraram e podem continuar piorando - e isso afeta necessariamente a política monetária. Picchetti deu sinais de que vê um balanço de riscos para a inflação do lado negativo, ou seja, com riscos altistas superiores aos riscos baixistas. Ainda assim, por ora, não indica movimentos abruptos na sinalização da taxa básica.

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domingo, 19 de abril de 2026

O PAPA E O IMPERADOR

Bernardo de Mello Franco, O Globo

Cruzada contra Papa Leão XIV pode custar caro a Trump

Pontífice é comparado a Pio VII, que peitou Napoleão, por não se dobrar ao imperador laranja

Foi no período de sede vacante, o intervalo entre a morte de um Papa e a escolha do sucessor. A uma semana do início do conclave, o presidente dos Estados Unidos arriscou uma piada sobre o perfil ideal do substituto de Francisco. “Eu gostaria de ser Papa. Seria minha escolha número um”, gracejou.

Três dias depois, Donald Trump voltou à carga. Divulgou uma montagem em que aparecia no trono, vestido de pontífice. A provocação revoltou católicos de todo o mundo. Em Roma, foi recebida como sinal de novos atritos entre a Casa Branca e a Santa Sé.

Trump travou uma série de embates com Francisco, crítico de sua política de deportações em massa. “Quem pensa em construir muros, e não em construir pontes, não é cristão”, sentenciou em 2016, quando o americano prometia erguer uma barreira contra imigrantes na fronteira com o México.

Após a morte do argentino, Trump indicou que torcia pela eleição do cardeal de Nova York, o conservador Timothy Dolan. A Igreja escolheu um Papa americano, porém ligado ao ideário de Francisco: Robert Francis Prevost, defensor dos direitos humanos e ex-missionário na América Latina.

Mais contido que o antecessor, Leão XIV começou em tom conciliador. Evitou polêmicas, fez concessões aos tradicionalistas e buscou atenuar as divisões no catolicismo. Nos últimos dias, precisou engrossar a voz para rebater ataques de Trump. Foi comparado a Pio VII, que peitou o cerco de Napoleão e chegou a ser preso, mas conseguiu restaurar a independência da Igreja.

O imperador laranja tem outros métodos. No fim de março, seu secretário de Defesa, Pete Hegseth, invocou o nome de Deus para justificar bombardeios ao Irã. Sem citá-lo, o Papa respondeu que Jesus rejeita as orações de quem cultua a guerra e tem “mãos cheias de sangue”.

Depois Trump afirmou que o pontífice seria “fraco com a criminalidade”. “Não quero um Papa que critica o presidente dos EUA”, desafiou. No mesmo dia, o imperador laranja publicou outra imagem produzida com inteligência artificial em que aparecia como Jesus curando um doente.

Sob ataque, Leão XIV avisou que não tem medo do republicano. “Não acho que a mensagem do Evangelho deva ser abusada como alguns estão fazendo. Vou continuar a falar forte contra a guerra, buscando a paz”, garantiu.

Sem medo do ridículo, o vice-presidente J. D. Vance aconselhou o Papa a ter cuidado ao falar de teologia. O trumpista se converteu ao catolicismo em 2019, quando Prevost já era bispo e somava quase quatro décadas de sacerdócio.

Além de reforçar a autoridade moral do Papa, os ataques de Trump tendem a ampliar seu desgaste com os católicos, cerca de 20% da população americana. Seus votos devem fazer falta nas eleições de novembro, que ameaçam tirar a maioria parlamentar dos republicanos.

Leão XIV não dá sinais de que vá se dobrar. Na quinta-feira, criticou os “senhores da guerra” e disse que o mundo está “assolado por tiranos”. O Vaticano já avisou que o Papa não vai aos EUA para os 250 anos da independência, que Trump planeja transformar num culto à própria personalidade. O pontífice passará a data em Lampedusa, onde deve voltar a condenar o tratamento desumano a imigrantes.

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RELEMBRANDO LYGIA FAGUNDES TELLES

Do Nota

Neste 19 de abril celebramos os 108 anos de nascimento de Lygia Fagundes Telles, uma das maiores vozes da literatura brasileira.

Com sua escrita pretensamente elegante, mas contundente, potente, profunda e corajosa, principalmente nos seus contos, Lygia vai revelando e escondendo, mostrando e ocultando as contradições e as sombras da alma humana.

A autora fez uma importante denúncia da ditadura militar no livro “As Meninas”, publicado pela primeira vez em 1973 em meio a censura.

Segundo relatos, inclusive lembrado pelo nosso seguidor Marcelo Nepomuceno, em publicação em nosso Facebook, o livro tinha que passar pelos censores e ela encontrou um meio para “burlar”.

Por sugestão do marido, ela colocou a sequência no fim do livro. Reza lenda que os censores, que não eram nenhum primor de inteligência, acharam o livro “tão chato” que sequer chegaram na sequência, e ela foi publicada.

Leia a matéria completa:

https://url-shortener.me/L4IH

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EX-VEREADOR É ASSASSINADO A FACADAS

Do g1 CE

Ex-vereador é assassinado a facadas no interior do Ceará

A vítima se envolveu em um conflito com terceiros, em um bar, segundo a polícia. O suspeito de cometer o crime já foi identificado.

O ex-vereador por Hidrolândia, José Orlean Pereira Souza, de 60 anos, foi morto a facadas, na cidade que fica a cerca de 250 km de distância de Fortaleza, no interior do Ceará. O crime aconteceu em um bar, na noite do último sábado (18).

"Conforme as primeiras informações, a vítima, um homem de 60 anos, estava em um ponto comercial e se envolveu em um conflito com terceiros, que resultou na lesão por um objeto perfurocortante", informou a Secretaria da Segurança Pública e Defesa Social do Ceará (SSPDS).

Orlean Pereira chegou a ser socorrido a um hospital, mas não resistiu aos ferimentos. O suspeito de cometer o crime já foi identificado e é procurado pela polícia, segundo a SSPDS. O crime é investigado pela Delegacia de Polícia Civil de Crateús.

A Prefeitura de Hidrolândia emitiu nota, nas redes sociais, em que "manifesta profundo pesar pelo falecimento do ex-vereador José Orlean Pereira Souza, cidadão que dedicou parte de sua vida ao serviço público e à construção do desenvolvimento do nosso município".

"Neste momento de dor, nos solidarizamos com familiares, amigos e toda a população hidrolandense, reconhecendo sua trajetória e contribuição para a história de Hidrolândia. Que Deus conforte o coração de todos e conceda força para enfrentar esta perda irreparável", completou a Prefeitura, em nota.

Vida política

José Orlean Pereira Souza foi eleito vereador por Hidrolândia em 2012 e exerceu o único mandato nos anos seguintes, segundo informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).

Em outras quatro eleições, inclusive 2024, Orlean Pereira ficou entre os suplentes. Na última eleição, ele foi candidato pelo partido Podemos e recebeu 184 votos.

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AO LADO DE SANCHES, LULA SOBE O TOM CONTRA TRUMP EM EVENTO NA ESPANHA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima ao presidente dos Estados Unidos e uma escalada retórica desnecessária que pode acarretar retaliações da Casa Branca

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) subiu o tom nas críticas ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, por causa da guerra do Irã, ontem, durante a 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum em Defesa da Democracia, em Barcelona. Durante o evento, ao lado do presidente da Espanha, Pedro Sanches, Lula criticou as guerras e o Conselho de Segurança das Nações Unidas (ONU). "Nós não podemos levantar todo dia de manhã e dormir todo dia à noite com um tuíte de um presidente da República ameaçando o mundo, fazendo guerra" , disse.

Embora o ambiente fosse favorável a um discurso em defesa da paz, o tom das críticas a Trump sinaliza que pretende trazer para o debate eleitoral a relação com os Estados Unidos, em meio a negociações com a Casa Branca sobre o Pix e à iminente adoção de novas tarifas contra o Brasil pelo governo norte-americano. O contexto político interno, muito impactado pelos efeitos econômicos da guerra do Irã e a sua ultrapassagem por Flávio Bolsonaro nas pesquisas eleitorais, sugere essa mudança de tática.

Ao elevar o tom contra Donald Trump em Barcelona, Lula mirou dois objetivos centrais: mitigar os efeitos econômicos internacionais sobre o cotidiano do eleitor e reconfigurar o debate eleitoral em torno da soberania e da política externa. "O que não pode é o mundo gastando US$ 2 trilhões e 700 bilhões em armas e o povo passando fome", destacou Lula. A 4ª Reunião de Alto Nível do Fórum Democracia Sempre reúne chefes de Estado e de governo de diferentes regiões do mundo para debater o fortalecimento das instituições democráticas e os principais desafios globais à governança.

Criado em 2024 por iniciativa de líderes progressistas, entre eles Lula e o espanhol Pedro Sánchez, o Fórum Democracia Sempre busca ampliar a articulação internacional em defesa da democracia diante do avanço de movimentos autoritários e extremistas em diferentes países. A edição deste ano ocorre em meio a conflitos armados em diferentes regiões, como no Oriente Médio, e ao aumento das tensões políticas internacionais, incluindo embates envolvendo o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

Lula aproveitou a oportunidade para aprofundar a polarização política com o presidente Jair Bolsonaro: "Nós temos um ex-presidente preso, condenado a 27 anos de cadeia. Nós temos quatro generais de quatro estrelas presos porque tentaram dar um golpe. Mas o extremismo não acabou. Ele continua vivo e vai disputar a eleição outra vez". As pesquisas recentes mostram que o tempo fechou para Lula: há queda de popularidade e o risco eleitoral reduz a expectativa de poder. A oposição de direita, com Flávio Bolsonaro em destaque, avançou em cenários de segundo turno; em alguns levantamentos, o filho do ex-presidente está à frente fora da margem de erro. Lula acusou o golpe. "Mas ele é um problema nosso. Ele é um problema do povo brasileiro. Esse a gente lida com as nossas forças e com as nossas armas lá dentro", reconheceu.

Guerra e feijão

A escalada do conflito dos EUA e de Israel com o Irã já pressionou preços de energia e alimentos, com isso, a percepção pública sobre a economia se deteriora apesar de indicadores macroeconômicos relativamente sólidos. A alta do preço do petróleo e seus efeitos inflacionários atingem diretamente custos de transporte, combustíveis e alimentos, amplificando a sensação de aperto sobre famílias endividadas e sobre os eleitores de renda média. Lula reforça o discurso de que não cede a interesses estrangeiros na esperança de atrair eleitores preocupados com autonomia econômica e identidade nacional.

Ao afirmar que "Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil", Lula carrega nas tintas e transforma a geopolítica em apelo emocional. As pesquisas dirão se conseguirá mobilizar segmentos sociais que sentem o impacto imediato da inflação e da carestia, bem como eleitores que valorizam discurso de defesa nacional, embora com certeza mobilize apoio da base partidária e de atores progressistas internacionais, como no evento da Espanha. Entretanto, elevar o confronto retórico com os EUA pode bloquear canais diplomáticos para o Brasil e inviabilizar acordos técnicos e negociações comerciais e financeiras.

No plano interno, também pode funcionar como bumerangue, caso o discurso seja acolhido como um oportunismo eleitoral. Há um equilíbrio frágil entre a crítica legítima a Donald Trump, cuja imagem desce a ladeira nos Estados Unidos e no mundo, e uma escalada desnecessária que pode acarretar retaliações econômicas e políticas da Casa Branca. A escolha do evento em Barcelona e de Pedro Sánchez como interlocutor foi um gesto calculado. O ataque a Trump reforçou alianças ideológicas e atraiu cobertura internacional favorável.

Mas o sucesso de Lula depende mesmo é de respostas efetivas aos problemas econômicos, sociais e políticos internos. O anúncio subvenções a combustíveis e gás, linhas de crédito para setores estratégicos e tributação compensatória busca sinalizar ação concreta do governo para mitigar os efeitos da guerra. Entretanto, as controvérsias dentro do próprio governo sobre a "taxa das blusinhas", a subvenção à gasolina e a margem para esses e outros gastos revelam que o governo está propenso adotar a retórica de uma "economia de guerra" para enfrentar as dificuldades eleitorais.

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OS SUPREMOS

Merval Pereira, O Globo

Agora já não é mais um governo autoritário que ameaça o Supremo, é o Supremo que ameaça a democracia

A fórmula mais usada em governos autoritários, de esquerda ou de direita, para controle da democracia sem que suas instituições deixem de funcionar na aparência é o domínio do que aqui se denomina Supremo Tribunal Federal (STF). Por ser a última instância da Justiça, é a que pode definir quem está certo ou errado, especialmente no Brasil, onde qualquer tipo de ação vai parar lá. Por isso mesmo, um governo como o de Bolsonaro, que claramente tinha o objetivo de dar um golpe de Estado, atacava seus representantes, para criar na população uma ojeriza à sua atuação.

Em consequência, os que defendiam a democracia em diversos níveis nacionais se uniram a favor do Supremo, e mesmo medidas consideradas exageradas (como as longas prisões provisórias) ou punições contra críticas, mesmo as menos agressivas, eram vistas como fatos a serem barrados para não deixar que o clima de campanha contra o Supremo prosperasse. O inquérito das Fake News, por exemplo, mal iniciado há sete anos, foi muito criticado no momento por falhas técnicas, como a indicação do ministro Alexandre de Moraes como relator sem que houvesse um sorteio obrigatório. Mas seus exageros nunca foram combatidos com o devido rigor por boa parte da imprensa profissional, inclusive eu, no entendimento de que o objetivo final era correto.

Só que não. A circunstância política permitiu que aflorassem em alguns dos membros do Supremo seus instintos mais primitivamente autoritários, contidos pelo ambiente democrático que começou a se esvair no governo Bolsonaro. Os anos de persistência da Operação Lava-Jato devem-se muito ao ministro Gilmar Mendes, que um dia classificou o governo petista de “cleptocracia” e apoiou as decisões, que tiveram nos ministros Teori Zavascki e Edson Fachin dois apoiadores de primeira ordem.

Alguma coisa aconteceu no caminho, porém, que fez com que o ministro Gilmar Mendes mudasse de posição, e ele passou a ser um inimigo ferrenho da Lava-Jato. Criticava anteriormente, é bem verdade, as longas prisões preventivas, as delações premiadas abusivas, mas não revogava suas palavras diante das acusações de corrupção que abundavam com as prisões. Foi buscar nas transcrições criminosas de conversas entre o então juiz Sérgio Moro e os procuradores de Curitiba a base para sua campanha de aniquilamento da Operação, sem se preocupar com o que estava sendo deixado pelo caminho: uma série de crimes não julgados, muitos empresários e políticos liberados mesmo depois que suas confissões tivessem revelado esquemas criminosos variados e muito dinheiro devolvido. Tudo parecia compor o quadro proposto pelo ex-senador Romero Jucá, “estacar a sangria, com STF e tudo”.

O espírito vingativo de parte dos membros do Supremo aparece agora na defesa da confraria, ora com a ressurreição de propostas já engavetadas, ora com a sugestão de medidas que reduzem o poder do Senado para impedir membros da Corte, ou para reduzir o âmbito das CPIs; ora para ameaçar um senador que, nos estritos poderes que lhe confere a Constituição, indiciou três deles por motivos reais, mas por meio de instrumento impróprio. Não satisfeitos com a reprovação do relatório, querem impor uma derrota acachapante ao senador, impedindo-o de se candidatar à reeleição.

Agora já não é mais um governo autoritário que ameaça o Supremo, é o Supremo que ameaça a democracia se envolvendo em um jogo político que, a pretexto de prevenir uma volta da extrema-direita ao poder, se transforma em um instrumento de medidas autoritárias. Pior: evita que seus membros envolvidos em denúncias graves de corrupção sejam investigados por seus atos. Pela reação agressiva e desproporcional, fica a sensação de que se sentem acima de todos os demais poderes da República, não apenas na retórica. Como definiu o ministro Gilmar Mendes, o nome é Supremo “porque nós somos supremos”.

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VICTOR HUGO AJUDA A REFLETIR SOBRE AS ROUBALHEIRAS DE SEMPRE

Dorrit Harazim, O Globo

Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de ‘Os miseráveis’

Na semana passada, a Assembleia Nacional da França aprovou, por rara unanimidade, o Projeto de lei que agiliza a devolução de obras de arte e bens culturais saqueados ao longo de 157 anos. O limite temporal da medida (entre 1815, ano da queda de Napoleão, e 1972, data da entrada em vigor de convenção da Unesco sobre restituições) restringe o caráter universal inicialmente pretendido. O texto tampouco abriga a palavra-chave envergonhada da questão: “colonização”. Ainda assim, com nove longos anos de atraso, a medida veio cumprir uma promessa de 2017 feita pelo presidente Emmanuel Macron.

A sessão plenária de seis horas foi salpicada de alta literatura — comme il faut tratando-se de debates parlamentares na França. E coube ao deputado Jérémie Patrier-Leitus, do partido de centro-direita Horizons, o troféu de melhor citação. O parlamentar recorreu a uma carta, certamente a mais célebre do romancista Victor Hugo, escrita mais de 150 anos atrás. A carta é tão primorosa que merece ser contextualizada e transcrita aqui quase na íntegra, em tradução livre. Afinal de contas, nunca é demais ver como funcionava a mente privilegiada e honrada do autor de “Os miseráveis” e do político que escreveu o “Discurso sobre a miséria”.

Corria o ano de 1861 e os governos imperiais do Reino Unido e da França haviam lançado uma segunda expedição contra a China (a Segunda Guerra do Ópio). Um oficial britânico chamado Henry Butler, interessado em explorar o prestígio de Victor Hugo, enviou-lhe uma missiva sugerindo o apoio do escritor à empreitada colonial. Àquela altura, um dos bens culturais mais icônicos da humanidade, o milenar Palácio de Verão imperial chinês (ou Palácio da Harmonia Preservada), já havia sido saqueado e virado cinzas nas mãos dos expedicionários.

A resposta de Victor Hugo:

“Ao Capitão Butler / Hauteville House / 25 de novembro de 1861

Uma vez que deseja conhecer minha opinião, ei-la:

Havia, em um canto do mundo, uma maravilha mundial; essa maravilha chamava-se Palácio de Verão. A arte tem dois princípios: a Ideia, que produz a arte europeia, e a Quimera, que produz a arte oriental. O Palácio de Verão era, para a arte quimérica, o que o Partenon é para a arte ideal. Ali se encontrava tudo o que podia ser concebido pela imaginação de um povo quase sobre-humano. Não era uma obra única, singular, como o Partenon; era como um imenso exemplar de quimera, se a quimera pudesse ter exemplar.

Imagine uma construção inexprimível, algo semelhante a um edifício lunar, e terá o Palácio de Verão. Erga um sonho com mármore, jade, bronze e porcelana; emoldure-o em cedro, recubra-o de pedras preciosas, revista-o de seda, faça aqui, um santuário; ali, um harém; acolá, uma cidadela; acrescente nele deuses e monstros; envernize, esmalte, doure, pinte; mande arquitetos que sejam poetas erguer os mil e um sonhos das Mil e Uma Noites; acrescente jardins, lagos, águas correntes e espumas, cisnes, íbis, pavões; imagine uma resplandecente fantasia humana com função de templo e de palácio — tal era esse edifício.

Foi necessário o lento labor de gerações para criá-lo. Esse edifício, vasto como uma cidade, fora construído por séculos; e para quem? Para os povos. Porque a obra do tempo pertence ao homem. Artistas, poetas e filósofos conheceram o Palácio de Verão; Voltaire fala dele. Falava-se do Partenon na Grécia, das pirâmides no Egito, do Coliseu em Roma, de Notre-Dame em Paris, do Palácio de Verão no Oriente. Se não o viam, imaginavam-no. Era uma espécie de prodigioso e desconhecido chef-d’œuvre, entrevisto ao longe, numa espécie de crepúsculo, como a silhueta da civilização da Ásia no horizonte da civilização europeia.

E essa maravilha desapareceu.

Um dia, dois bandidos entraram no Palácio de Verão. Um saqueou; o outro incendiou [...] Mistura-se a esse fato o nome de Elgin, que inevitavelmente faz lembrar o Partenon. O que se fez ao Partenon, fez-se ao Palácio de Verão, de forma ainda mais completa e hábil, para que dele nada restasse. Os tesouros reunidos de todas as nossas catedrais não valeriam esse formidável e esplêndido museu do Oriente. Ele continha não só obras-primas de arte, mas uma imensidão de joias. Que feito extraordinário, que presa magnífica! Um dos dois vencedores encheu os bolsos; quando o outro viu isso, encheu os cofres. E retornaram à Europa, braço dado, rindo à vontade. Tal é a história dos dois bandidos.

Nós, europeus, somos os civilizados; os chineses, para nós, são os bárbaros. Eis o que a civilização fez à barbárie.

Perante a História, um dos dois bandidos se chamará França; o outro, Inglaterra. Mas eu protesto, e agradeço-lhe por me haver dado ensejo de fazê-lo! Os crimes dos que governam não são culpa dos que são governados; os governos são às vezes bandidos, os povos nunca.

O império francês embolsou metade dessa vitória e, hoje, com uma espécie de ingênua propriedade, exibe a esplêndida bugiganga do Palácio de Verão. Espero que venha o dia em que a França, liberta e purificada, restitua esse butim à China espoliada. Por ora, há um roubo e dois ladrões. Tomo nota.

Eis a medida da aprovação que dou à expedição da China.”

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A TERCEIRA VIA EXISTE ?

Elio Gaspari, O Globo

Tentar ler numa pesquisa de abril o comportamento do eleitorado em outubro é pouco mais que um exercício de quiromancia, sobretudo quando a Genial/Quaest registrou que há 62% de indecisos.

Há meses, todas as pesquisas trazem notícias ruins para Lula. Pela primeira vez, Flávio Bolsonaro ultrapassou-o, (42% x 40%) dentro da margem de erro e em um cenário estimulado. O sabor amargo dessa pesquisa está na rejeição. Lula tem 55% e Flávio tem 52%, novamente dentro da margem de erro.

A terceira via tem dois candidatos: Romeu Zema, o ex-governador de Minas Gerais, e Ronaldo Caiado, ex-governador de Goiás. No cenário de uma disputa do segundo turno, Lula patina na faixa dos 40%, enquanto os dois têm leve viés de alta. Zema tem 36% e Caiado, 35%.

Não se pode cravar, mas a terceira via parece existir. Zema e Caiado vieram de governos bem avaliados. O mineiro com 47% e o goiano com 85%. Eles precisam pescar seus votos entre os indecisos e os 42% que estão com Flávio Bolsonaro. Como sua experiência administrativa, ele limitou-se à gestão de um sobrenome e de uma loja de chocolates. A campanha pode favorecê-los.

A ventania das campanhas eleitorais desarruma previsões baseadas só em pesquisas. A sabedoria convencional trabalha com a hipótese de um segundo turno entre Lula e Flávio, mas em 1989 aguardava-se um segundo turno entre Fernando Collor e Leonel Brizola. Em agosto, Lula tinha apenas 5% das preferências, com viés de queda. Em setembro, ele chegou a 16%, ultrapassando Brizola. Dois meses depois, Lula foi para o segundo turno, quando viria a ser batido por Fernando Collor.

(Naquela eleição, Ronaldo Caiado disputou pela primeira vez a Presidência e acabou em 10º lugar, com 0,72% dos votos).

Sidônio na frigideira

Assim como aconteceu com seu antecessor, os ventos da opinião pública sopram contra o Planalto e a responsabilidade é do ministro da Comunicação Social, o marqueteiro Sidônio Palmeira.

Pensando bem, é para isso que serve o ministro da Secom.

BC e o BRB

O Banco Central pode ter demorado para agir sobre o Master, ou não. Uma coisa é certa, o BC não agiu a tempo sobre o Banco Regional de Brasília, que funcionava como vaca leiteira de Daniel Vorcaro.

O presidente do BRB ao tempo de Vorcaro devia ter sido preso há mais de um ano.

Um canalha americano

Sai em setembro nos Estados Unidos “Canalha americano — A Jornada Sombria de Roy Cohn, de Joe McCarthy a Donald Trump”. Pelo autor, Kai Bird, e pelo personagem, tem tudo para ser um grande livro.

Bird escreveu a saga de Robert Oppenheimer que serviu de base para o filme sobre o pai da bomba atômica americana. Antes, ele havia escrito “The Chairman”, uma biografia de John McCloy (1895-1989), o filho de uma cabeleireira, que se tornou a encarnação do andar de cima dos EUA. Advogado e banqueiro, foi conselheiro de todos os presidentes de Franklin Roosevelt a Ronald Reagan. McCloy passou por Pindorama no final de fevereiro de 1964, defendendo os interesses da mineradora Hanna e esteve com o presidente João Goulart.

A jornada sombria de Roy Cohn começou em 1952. Como promotor, ele mandou para a cadeira elétrica um casal acusado de espionar para a União Soviética. Daí, tornou-se a alma danada das investigações do senador Joseph McCarthy (Na sua equipe estava o jovem Robert Kennedy).

Depois da ruína de McCarthy, Cohn submergiu, advogando em Nova York. Jogando pesado, com uma estampa amedrontadora, dada por um par de olhos azuis e uma enorme cicatriz no nariz, meteu-se em extorsões e acabou perdendo a licença para advogar. Entre seus clientes estavam mafiosos, padres e magnatas do mercado imobiliário. Entre eles, Donald Trump, que fez de Cohn uma espécie de tutor, com telefonemas diários. Trump agradou-o presenteando-o com uma abotoadura de brilhante da Bulgari (falsa).

Cohn morreu aos 59 anos, de câncer (segundo ele) e de complicações da Aids (segundo os prontuários médicos). A última pessoa com quem ele falou, ao telefone, foi Donald Trump.

Trump e os delinquentes

Donald Trump repete que muitos imigrantes sem papéis são delinquentes e devem ser deportados.

Tudo bem, mas o governo americano prendeu e soltou o doutor Alexandre Ramagem.

Ramagem foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 16 anos de prisão por ter se metido na armação do golpe de 2022/2023.

A encrenca do Judiciário

Noves fora as farofas, impropriedades e onipotências de alguns ministros do STF, talvez esta seja a hora de dar um freio de arrumação na magistratura.

Com a Constituição de 1988, perdeu-se a oportunidade de transformar o Supremo em Corte Constitucional. Isso se deveu inclusive ao interesse de alguns ministros que, com a mudança, perderiam poder. Resultado: o Supremo virou uma quarta instância, recebendo litígios triviais e acumulando superpoderes que deram no que deu.

Uma série de circunstâncias e ambições levaram o STF para o centro do palco, um problema inédito e desnecessário.

O Supremo é o topo de uma pirâmide mal ajambrada. Nenhuma magistratura funciona direito com 80 milhões de processos tramitando e com 35 milhões de novos casos a cada ano. Daí advém uma sobrecarga que é metabolizada em penduricalhos y otras cositas más.

O palhaço Tiririca estava errado: o que vai mal, piorará.

Mariz, 55 anos de advocacia

O advogado Antônio Cláudio Mariz de Oliveira lança na quinta-feira, em seu escritório de São Paulo, o livro “Casos e causos — A trajetória de um defensor”. São 55 anos de advocacia em 272 páginas e 50 casos.

Tem de tudo. A mulher pobre que mata o companheiro que molestava a filha (absolvida). Como assistente de acusação, Mariz condenou filhos que mataram a mãe, viu ministro do Supremo maltratando advogado e promotores mais interessados em acusar do que em buscar a justiça. Tudo isso e mais uma referência da defesa da princesa Caroline de Mônaco, ofendida por um grã-fino paulista.

Em sete páginas, Mariz conta o seu caso de maior repercussão, a defesa do presidente Michel Temer, em 2017. Os dois partilham “uma amizade que ultrapassa meio século”. Sai mal no episódio o procurador-geral Rodrigo Janot, com sua famosa frase, “enquanto houver bambu, lá vai flecha”.

Mariz critica o tratamento dado ao grampo da conversa de Temer com o empresário Joesley Batista: “Foi apontada a existência de uma série de interrupções e hiatos na gravação”. Com a defesa de Mariz, a Câmara dos Deputados rejeitou a denúncia de Janot. Esse caso/causo chama-se “Em defesa de um amigo”.

“Casos e Causos” repassam 55 anos de trabalho de um advogado que está de bem com a vida. Seus personagens são de carne e osso, mas Mariz pincela passagens com críticas e louvores ao funcionamento do Judiciário. É um curso-relâmpago de Direito.

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