terça-feira, 20 de outubro de 2026

MENTIRAS DO BOLSONARISMO NA ECONOMIA

Míriam Leitão, O Globo

Flávio Bolsonaro copia propostas de Lula e diz que fará muito mais. Mas nas reuniões com a Faria Lima, promete tudo o oposto

Na economia, essa campanha virou uma disputa de quem faz mais populismo fiscal. Flávio Bolsonaro copia as proposta de Lula e aumenta ainda mais as despesas. Lula prometeu que o Tesouro compraria dívidas velhas dos endividados exigindo dos credores um desconto. Flávio pegou carona na proposta e disse que vai comprar também, mas vai congelar a dívida restante das pessoas físicas por seis meses, e, das pessoas jurídicas, por um ano. Qual a diferença entre os dois caminhos econômicos? Lula está fazendo propostas elaboradas por sua equipe, depois de estudos. Pode-se discordar, mas tem lógica. Flávio Bolsonaro está copiando tudo o que Lula anuncia, elevando as ofertas numa espécie de leilão de populismo.

As propostas de Lula são expansionistas. As de Flávio são uma cópia improvisada das de Lula e ainda mais expansionistas. Só que ele está prometendo ao mercado financeiro um corte de gastos de R$ 200 bilhões. Outra diferença é que Lula apresentou um saco de bondades com a intenção de cumprir. E isso se vê até pela delimitação mais precisa da população alvo da política pública. Flávio Bolsonaro está propondo sem ter feito os estudos prévios porque está pegando carona no que o seu oponente disse.

Lula propôs a compra de carteiras das dívidas, mas estabeleceu métodos e limites. Serão dívidas bancárias e não bancárias de até 10 mil reais no valor original. As dívidas atingidas pelo programa são as de mais de dois anos e de menos de quatro anos e meio. O Tesouro vai fazer um leilão para que os credores ofereçam descontos, mas avisará que quer pelo menos 90% de desconto. Com essa delimitação, o universo de dívidas será de R$ 150 bilhões e o custo total deve ficar em torno de R$ 15 bilhões.

Flávio Bolsonaro repetiu Lula no debate da Band e disse que ele também vai comprar a dívida. Mas fará mais. Vai congelar a dívida remanescente.“Você não vai pagar boleto nenhum, seis meses congelado, sua dívida parada e você que é pessoa jurídica esse prazo é de um ano, um ano sem pagar os boletos das suas dívidas atrasadas”. Ficará uma parte para ser paga. “A sua parcela que você pagava R$ 100, R$ 200, vai chegar a R$ 20 e a R$ 30”. Mas isso será refinanciado pela Caixa.

Essa proposta é evidentemente mentirosa, além de confusa. Como Flávio Bolsonaro não delimita nada, o valor ou o tempo da dívida, a conta vai ao infinito. A proposta genérica é para atrair todos os endividados. O montante da dívida total em atraso é R$ 592 bilhões e o universo dos endividados é de 84 milhões de pessoas.

Ao mercado, ele garante que cortará R$ 200 bilhões no primeiro ano. Em certos momentos, diz que o dinheiro virá da redução dos supersalários. O governo Lula propôs esse corte e o Congresso se recusou a analisar a proposta. O Judiciário entrou para diminuir os exageros, mas na prática elevou o teto. Mesmo se fosse o limite anteriormente fixado, e fosse possível acabar da noite para o dia, o governo não conseguiria economizar nem 10% do que está prometendo.

Flávio Bolsonaro disse no debate da Band o seguinte: “O simples fato de Flávio Bolsonaro virar do primeiro para o segundo turno na frente, a taxa de juros futuros já caiu 2%. Com essa dívida que o atual governo está deixando de R$ 11 trilhões, se você fizer uma conta rápida, com Flávio Bolsonaro presidente da República, muito rapidamente você já vai ter um espaço no orçamento de R$ 200 bilhões. Sabe o que eu vou fazer com isso? Eu vou ajudar você a pagar a sua dívida”.

Isso é uma heresia econômica e monetária. Não se usa a “economia” com o custo menor da dívida pública para ampliar gastos. Se Lula falasse algo assim seria crucificado na Faria Lima.

A estratégia de Flávio é a seguinte: fugir das perguntas pela tangente, repetir à exaustão propostas na segurança pública que não resolvem o problema mas parecem efetivas, partir para o ataque quando é confrontado com os muitos indícios de corrupção dele e da família Bolsonaro, copiar todas as propostas econômicas de Lula, dizendo que fará o mesmo e muito mais. Nas reuniões, a portas fechadas no mercado financeiro, ele diz o oposto do que diz em público. É manipulação populista.

Criando confusão nos debates, nas entrevistas e nas postagens, Flávio Bolsonaro escapa da pior questão que pesa sobre ele: o risco real que ele representa para a democracia, por tudo o que já disse e por tudo que o bolsonarismo sempre defendeu.

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O QUE VEM DEPOIS DE TANTA EMOÇÃO

Artigo de Fernando Gabeira

Minha menina: o Brasil vive sua última semana de campanha. Só agora, no segundo turno, assume os traços interessantes do passado.

Há gente na rua, gente fazendo o L, dizendo “vamos virar”, manifestações estudantis, shows. Para dizer a verdade, a animação envolve os dois lados. Vi uma espécie de comício em Capelinha, com milhares de pessoas. É uma cidade de Minas na entrada do Vale do Jequitinhonha, onde estive recentemente. Enfim, há luta eleitoral em toda parte.

Acho ótimo que as pessoas façam as campanhas. Os candidatos deveriam agradecer a elas não só por carregarem o piano nesta fase final, em que estão já de língua de fora. O ano que vem será difícil para qualquer vencedor. Os economistas acham que faltará dinheiro, além disso o El Niño vem pesado com seus eventos extremos.

Os últimos dias são interessantes também pelo esforço dos candidatos. O nome da direita acabou, para não perder votos, votando numa pauta de esquerda, o fim da escala 6×1, sem dúvida um avanço civilizatório. O candidato da esquerda afirmou que apoia a redução da maioridade penal, uma pauta clássica da direita. Chamo isso de efeito sertão virando mar, mar virando sertão, verso consagrado de nossa música popular.

O governo tem tido vitórias no Parlamento. O dado mais importante é que o desmatamento na Amazônia caiu ao nível mais baixo da História. Há queimadas por causa da seca e também porque os desmatadores se vestem de incendiários. Faz parte de seu show macabro.

Se um dia fosse escrever a história desta campanha, destacaria a grande quantidade de declarações de voto na internet. Conhecidas ou não, as pessoas traçam ligeiramente sua biografia e concluem dizendo em quem votarão.

Lembra aquele português que fomos visitar no Alentejo? Ele me escreveu dizendo que em seu país costumam eleger um Congresso de direita e um presidente de esquerda, ou vice-versa. Só para equilibrar. Os brasileiros fariam o mesmo? Não sei, aqui é presidencialismo, e não há muito esse tipo de cálculo.

Há muitas encruzilhadas, daqui até 2030. Não sei se verei todas. Espero que essa rígida divisão nacional se atenue com o tempo. A derrota da direita na Hungria mostrou que, mesmo com poderes quase absolutos, Viktor Orbán foi para o espaço. As próximas eleições americanas sugerem que Trump perderá pelo menos uma das duas Casas do Parlamento.

O que não significa caminho tranquilo para a esquerda. Nesta fase, o capitalismo é um cavalo bravo que ninguém consegue cavalgar por muito tempo. Será preciso um longo trabalho de revisão, suportando a dor de saber que não se é dono da verdade e que nem existe resposta científica para o rumo da História.

Não importa o resultado, depois da emoção da reta final, uma grande tarefa nos espera. As multidões nas ruas não podem abandonar a cena política, embora tenham de voltar para suas atividades cotidianas. Elas serão um grande termômetro.

Artigo publicado no jornal O Globo em 20 / 10 / 2026

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A CRISE HISTÓRICA E O APARECIMENTO DOS 'MONSTROS'

Roberto Amaral*, Carta Capital

“Com a ‘marcha sobre Roma’ [1922], que pressiona a monarquia, os fascistas chegam ao governo, com a nomeação de Mussolini para a chefia do gabinete. Começa para o PCI [Partido Comunista Italiano]um período de ilegalidade de fato. No Partido, como Trotski recordará em 1932, ninguém admitia a possibilidade de uma ditadura fascista ‘salvo Gramsci’.” (“Cronologia da vida de A. Gramsci”. In:Cadernos do Cárcere, vol. 1.Civilização Brasileira, 2004).

Em texto com data provável de 1930, Antonio Gramsci observa o fenômeno crise histórica para afirmar que seu caráter está, precisamente, no fato de que o “velho morre e o novo não consegue nascer: nesse interregno verificam-se os mais variados fenômenos mórbidos”. Ou, na versão mais conhecida (retirada da tradução francesa), “o velho mundo está morrendo, o novo tarda a aparecer e, nesse claro-escuro, surgem os monstros”.

O autor de Cadernos do Cárcere está, evidentemente, a refletir sobre a Europa de então. Sua Itália já estava sob o jugo fascista (desde 1922), e na Alemanha o nazismo avançava marchando com botas de sete léguas. Hitler, como é sabido, conquistaria a chancelaria em 1933. O que se segue, inclusive entre nós, é história consabida, e nada edificante.

O “claro-escuro” gramsciano precisa o intervalo histórico entre os estertores da velha ordem, quando ela perde a capacidade de reprodução, e uma nova ordem sucessora ainda não conseguiu impor-se. Karl Marx (prefácio à Contribuição à crítica da economia política, 1859) explica como, em determinada etapa de seu desenvolvimento, as forças produtivas materiais da sociedade entram em contradição com as relações de produção. Quando isso ocorre, as relações de produção deixam de cumprir com seu papel de fator de desenvolvimento e passam a atuar como entraves.

A crise de hegemonia, em sentido gramsciano — descendente da análise marxista do bonapartismo —, ocorre quando a classe dominante não consegue mais construir um consenso em torno de seu projeto. O Estado (“um comitê para administrar os negócios comuns de toda a classe burguesa”) perde a capacidade de representar como interesses universais da sociedade os interesses particulares do capital. É o momento em que “o velho está morrendo e o novo não pode nascer”.

Entra em crise a capacidade de a classe dominante exercer sua liderança ideológica (“as ideias dominantes de uma época são as ideias da classe dominante”) sobre a sociedade, essencial para o exercício do mando; a ordem burguesa vê diluírem-se as condições necessárias de funcionamento e legitimação. O momento seguinte é o de falência de sua capacidade de constituição de uma ordem alternativa, necessária para intentar sua sobrevida, ainda que em outros termos.

 

A crise de autoridade e de hegemonia abre espaço para fenômenos políticos reacionários, e a desagregação da ordem política favorece a adesão a soluções patológicas, dentre as quais a mais significativa é a via totalitária ou autoritária, por definição regressiva.

Ela não carece de ação revolucionária e pode mesmo realizar-se nos marcos da legalidade formal, como é, no caso brasileiro, a ameaça presente do neofascismo. De outra parte, nossa história é fecunda em exemplos de alteração da ordem para que a ordem permaneça a mesma. Neste sentido, é exemplar o golpe de Estado da madrugada de 1º de abril de 1964. Em 1889, o golpe da Proclamação da República também serviu para manter no poder a ordem do latifúndio arcaico, que sobreviveria até pelo menos 1930.

A classe dominante perde a adesão das grandes massas, e sua hegemonia (desconsiderada a análise respeitante a qualquer sorte de legitimidade) é posta em xeque. Quando isso ocorre, a ordem passa a depender da força coercitiva do Estado, à qual se associa a instrumentalização dos partidos e de forças sociais, inclusive movimentos religiosos e organizações políticas mobilizados em defesa do statu quo, ou do recuo histórico, como se observa, entre nós, no bolsonarismo e em setores da direita evangélica.

A ordem vigente entra em crise, mas conserva ainda forças para impedir que uma nova ordem emerja e, frente ao impasse, a desagregação política abre o largo espaço por onde trafegam as soluções autoritárias e messiânicas. Foi assim, na Argentina eamSão sempre exemplos históricos a ascensão do fascismo na Itália e do nazismo na Alemanha.

Foi em ambiente de crise que emergiram as formações totalitárias do século passado, percorrendo os caminhos abertos pelo fracasso da social-democracia. Não só na Europa como na América Latina, e entre nós, com o Estado Novo, que derrogou a Constituição democrática de 1934, tentativa frustrada de normatizar o movimento de 1930. Em 1946 o cel. Perón é eleito na Argentina. Outro exemplo, em nosso Continente, para ficarmos em poucos, é oferecido pelo Peru. Em 1990 Alberto Fujimori é eleito Presidente, para, em 1992, com apoio das Forças Armadas, comandar um autogolpe e impor uma ditadura que sobreviveria até 2000.

Esse quadro certamente ajuda a explicar a erosão democrática que percorre o mundo no desdobramento da crise estrutural do capitalismo,  e que chega de forma quase avassaladora ao nosso continente, tocada a partir da Casa Branca, acicatada pelos impasses que se colocam para sua hegemonia, mesmo no mundo ocidental. A crise geopolítica é ainda alimentada pelo esgotamento de sua economia, ponto de partida para a crise política, da qual o trumpismo é a mais evidente consequência. Este é o caráter ostensivo da crise do capitalismo, que hoje, mais do que nunca, depende de sua liderança, não só política e econômica, mas, antes de tudo, de sua salvaguarda militar. Sua agressividade não deve ser tributada à patologia de seu presidente.

Não é esta, porém, a única via que a história registra como alternativa à crise de hegemonia.

Com Marx, sabemos que as contradições não produzem necessariamente uma crise terminal do capitalismo. A história vem demonstrando, à saciedade, os recursos desse sistema para administrar suas contradições/seus conflitos, reorganizar a produção, conquistar novos mercados, alterar as relações de trabalho (aprofundando a exploração de que se nutre) e, saltando para a política, alterar a atuação do Estado. Por isso mesmo, a crise do capitalismo, que também pode ser vista como fenômeno a ele imanente, não significa, ipso facto, seu fim.

É prudente não confundir determinismo histórico com fatalismo: as condições históricas revelam a crise, mas não a resolvem. Não basta que a sociedade produza desigualdade, que o Estado seja instrumento de opressão dos interesses das classes subalternizadas pelo capital; essas são condições necessárias, mas não suficientes para a luta de classes. Gramsci nos dirá que a crise não consiste simplesmente no fato de que o velho perdeu força. Consiste também em que o novo não adquiriu capacidade suficiente para substituí-lo. As contradições do capitalismo, tão bem identificadas por Marx, se convertem em crise de direção, mas essa crise não conduz necessariamente a uma alternativa emancipatória.

O salto qualitativo entre a passividade e a consciência política, ponte para a luta de classe, não resulta, automaticamente, naturalmente, deterministicamente, da existência proletária: é fruto do processo social. O avanço político se realiza quando as classes subalternas – avançando sobre as reivindicações econômicas,  que no entanto desempenham essencial papel pedagógico --- entendem que seus interesses, aparentemente particulares, devem se tornar interesses de outros grupos subalternizados. É quando, retomamos Gramsci, o proletariado se vê capaz de elaborar um projeto político para toda a sociedade e disputar a hegemonia; é quando os sindicatos se legitimam e se politizam.

A crise política brasileira de nossos dias contagia a institucionalidade e se debruça sobre o Poder Judiciário, no qual a cidadania não sabe se com ele pode contar para a defesa de seus direitos. Mas nada é mais contundente do que os números do pleito de 4 de outubro passado, de que resultou a formação de um Congresso majoritariamente de direita, apto a romper com o pacto social que nos deu a Constituição liberal de 1988 e, assim, jogar por terra as conquistas sociais amealhadas pela sociedade ao longo de sua história republicana. Ademais, e mais facilmente do que em 2016, poderá decretar o impeachment do futuro Presidente. Lula, reeleito, corre o risco de governar sob esta verdadeira espada de Dámocles. 
 
Se a direita abocanhar a Presidência da República, terá sob suas rédeas,  os três poderes da República, o que nem mesmo a ditadura militar, de que o bolsonarismo é herdeiro, logrou alcançar. Porque, além do Executivo e do Congresso, controlará o Poder Judiciário, de fio a pavio: o próximo Presidente indicará, em seu mandato, pelo menos quatro novos ministros para o STF. Poderão ser mais quatro ministros “terrivelmente evangélicos” que se juntarão aos seus dois péssimos espécimes que já lá estão. A soma mostra seis ministros em um colegiado de onze!

O novo  Congresso é fruto da crise de representação, que põe em risco a República. Ela resulta da percepção da classe dominante de que o projeto de centro-esquerda, representado pelos governos liderados pelo PT, cobra concessões que ela não está disposta a fazer. Justiça seja feita à Faria Lima: desde 2013 ela dá mostras de insatisfação, sinais que nos recusámos a identificar, mesmo depois do golpe parlamentar que depôs a presidente Dilma Rousseff, e ainda mesmo depois das eleições de 2018!

Mesmo após a dificílima eleição de Lula em 2022, nos revelámos incapazes de construir “uma nova maioria”, como reclama Marcio Pochmann, e assim se explicam nossas dificuldades de enfrentar o avanço da onda reacionária.
Este foi o preço cobrado pelo “pacto de conciliação”, inarredavelmente conservador.

De um lado, perfila-se a classe dominante para impor sua vontade, primeiro pelo voto. Conquistado o pódio, avançará sobre a ordem democrática e os direitos sociais e fará deste país uma extensão do poder imperial de Washington.
As classes subalternas brasileiras ainda não se encontram em condições de construir uma alternativa de hegemonia. A resistência à ditadura, a luta pelas Diretas Já, as greves do ABC, a reconstitucionalização liberal, configuram momentos de festejada politização, que, no entanto, vive o risco de ser  posta a pique pela avalanche da direita.

Mas há algo de novo a registrar, e muito precioso: o verdadeiro levante popular que, nos últimos 15 ou 20 dias, tomou as ruas de todo o país, em defesa da democracia, neste transe reorientada pela necessidade histórica de reeleger o presidente Lula, o dique que a sociedade pode construir para conter a ameaça neofascista.

Este levante é, por si só, o fato mais notável desta quadra, e o que mais ressalta é o caráter inusitado de sua espontaneidade. Desapartada dos partidos, ou independentemente deles, a juventude veio às ruas numa mobilização que, entre nós, superou os idos de 1968, empolgou o país, animou o que talvez possamos chamar de “alma nacional” e possivelmente definirá o pleito.

A emergência dos jovens na política, pondo por terra a apatia em que parecia adormecida a sociedade, traz de volta a esperança, pois revela um alto nível de politização que perdurará para além do pleito, indicando a construção de uma nova sociedade, disposta a construir sua história.

Não estamos mais, passivos, condenados a assistir à emergência dos monstros.

***

Os Trumps parecem uma família boazinha do subúrbio perto do clã Bolsonaro — Sob esse título (Gegen den Bolsonaro-Clan wirken die Trumps wie eine brave Vorstadtfamilie!), a revista alemã Sternpublicou, em 27/09/2026, extensa reportagem sobre o clã Bolsonaro e o processo eleitoral brasileiro. O professor Pedricto Rocha preparou um resumo da matéria, também repercutida por Luiz Carlos Azenha. Com sarcasmo, a revista considera “especialmente grotesca” a pretensão de Flávio Bolsonaro, herdeiro político do clã, de apresentar-se como “inimigo do sistema”, quando sua trajetória sempre esteve vinculada à política familiar. A reportagem aborda a tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, as relações com milícias armadas e o esquema das “rachadinhas”, além do enriquecimento da família, que teria transformado a política em negócio lucrativo, acumulando patrimônio por meio de salários públicos, verbas de gabinete e transações suspeitas, incluindo a aquisição de 51 imóveis com dinheiro vivo. Para a Stern, a eventual volta do clã ao poder representaria um constrangimento internacional para o Brasil. A revista retrata Flávio Bolsonaro como figura politicamente incapaz, sem ideias próprias ou projeto a oferecer ao país.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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segunda-feira, 19 de outubro de 2026

NÃO SEI VOCÊS

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas

Não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos

Não sei vocês, mas entendo que estamos às vésperas da eleição mais importante do resto de nossas vidas. Em poucos dias iremos definir se queremos um governo que se caracteriza pela defesa dos interesses coletivos e pela priorização do bem-estar social ou um governo associado ao autoritarismo, ao culto à personalidade, à perseguição de minorias e ao desprezo pelo meio ambiente.

Não sei vocês, mas a escolha certa me parece óbvia para quem preza a democracia, a liberdade de expressão, o direito à divergência, o livre pensamento, a justiça social, a equidade de gênero e de raça, a educação pública, a proteção previdenciária e uma série de direitos e garantias conquistados com muita luta e articulação coletiva ao longo de décadas.

Não sei vocês, mas acredito que precisamos centrar esforços para manter viva a Nova República, período que começou com o término dos 21 anos de ditadura militar, uma época caracterizada pelo autoritarismo, pela censura à imprensa, pela restrição de direitos políticos, pela perseguição, repressão e tortura de opositores, pela criação de órgãos de controle e por golpes institucionais.

Não sei vocês, mas creio que não podemos correr o risco de perder nenhum dos direitos que conquistamos. Devemos isso em respeito aos que, num passado recente, pagaram com a vida para que hoje pudéssemos ir às urnas para expressar nossa soberania por meio do voto. Devemos isso a nós mesmos. Devemos isso especialmente às próximas gerações.

Não sei vocês, mas numa sociedade extremamente injusta e desigual como a brasileira, é imprescindível contar com leis trabalhistas, com salário mínimo, com negociação coletiva, com direitos previdenciários, com ações afirmativas, com proteção ao meio ambiente, com um Estado que proteja direitos e module relações econômicas absolutamente díspares –entre outras coisas.

Não sei vocês, mas para mim liberdade, equidade e justiça social são valores maiores e mais relevantes que o gosto ou desgosto por qualquer partido político.

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SEM BALA DE PRATA

Diogo Schelp, O Estado de S. Paulo

Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir rejeição dos que pretende atrair

Um bom desempenho em um debate na TV não costuma ser a bala de prata para vencer uma eleição presidencial. Não foi diferente no debate Band/Estadão de ontem.

No balanço geral, Flávio se saiu melhor do que Lula na forma, mas não o suficiente para reduzir a rejeição do eleitorado que pretende conquistar. Passou sua mensagem com mais clareza, usou melhor o jogo de câmeras (por exemplo, ao se posicionar atrás de Lula, com expressão de desaprovação, enquanto o presidente falava) e administrou melhor o tempo à sua disposição. Nos embates diretos com tema livre entre os dois, porém, o senador foi tão evasivo nos questionamentos de Lula que passava a impressão de que qualquer assunto lhe era demasiadamente espinhoso – até aqueles que não deveriam ser. Qual era a dificuldade de explicar por que votou assim ou assado em determinada matéria no Congresso Nacional?

Lula, por sua vez, fez uma salada de assuntos, de tal maneira que, a determinada altura, deu a sensação de estar apenas listando temas combinados no treinamento com os assessores, mas sem conseguir dar contexto para que os espectadores entendessem onde ele queria chegar. Mencionou vários escândalos que afetam diretamente Flávio, mas, diante do silêncio ou das evasivas do adversário, perdia a oportunidade de explicar para os eleitores o que estava por trás daquelas acusações.

Flávio usou e abusou das frases prontas para lacração: “O seu nariz está crescendo, Lula, cuidado” e “Você que está em casa, em quem acha que o ladrão da sua bolsa ou do seu celular vai votar?” foram algumas delas. Lula, por sua vez, usou e abusou da lembrança da desgraça que foi o governo de Jair Bolsonaro, pai de Flávio. Este chegou a manifestar incômodo com essa insistência, como se quisesse se desvencilhar da imagem do ex-presidente.

O pior momento do debate foi quando Lula e Flávio entraram em uma espiral fútil de acusações mútuas de corrupção. Nenhum dos dois esclareceu nada. A melhor defesa era o ataque. Mais importante do que negar uma suspeita sobre si próprio era mostrar que o outro era ainda mais enrolado com pessoas e atividades impróprias. Em uma campanha em que a lacração foi mais valorizada pelos candidatos do que a discussão de propostas factíveis para os problemas do País, as atuações de Lula e Flávio nesse debate acabaram se provando apenas uma extensão dessa estratégia.

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domingo, 18 de outubro de 2026

MORRE BENITO DI PAULA

Do Blog  Pop & Arte do Mauro Ferreira, g1

Benito Di Paula morre em São Paulo, aos 84 anos, e deixa obra inovadora no segmento do samba

♫ OBITUÁRIO

♬ Um dos cantores e compositores mais populares do Brasil nos anos 1970, Benito Di Paula morreu na noite deste domingo, 18 de outubro, aos 84 anos. O artista faleceu no Hospital 9 de julho, em São Paulo (SP), em decorrência de complicações de um câncer. O artista lutava contra a doença há cerca de um ano. Ainda não há informações sobre o velório e o enterro do cantor.

Cantor, compositor e músico fluminense, Benito Di Paula nasceu Uday Velloso (28 de novembro de 1941 – 18 de outubro de 2026) na cidade de Nova Friburgo (RJ) e foi criado no Rio de Janeiro (RJ). Mas o Brasil já o conheceu como Benito Di Paula a partir dos anos 1970, década em que o artista fez sucesso nacional com um samba diferente, esquema novo.

Benito Di Paula jamais se considerou um sambista da dinastia de Martinho da Vila e Paulinho da Viola, cantores e compositores que também obtiveram grande sucesso na década de 1970 no segmento do samba. Benito sempre se rotulou publicamente como sambeiro e como pianeiro.

Foi no toque percussivo do piano que Benito Di Paula fazia a própria batucada com um suingue brasileiro que, de certa forma, antecipou o pagode paulista que seria propagado nos anos 1990 por grupos como Raça Negra com arranjos cheios de teclados. E o fato é que o sambeiro pianeiro imprimiu assinatura singular na música do Brasil.

Diplomado na escola noturna das boates, território onde constatou que o manuseio das teclas do piano surtia efeito de batucada, Benito Di Paula marcou época nos palcos dos auditórios dos programas de TV com o informal visual de gala composto por anéis, casacas, colares, gravatas borboletas, pulseiras e, claro, os cabelos longos e outrora cacheados. Quem viveu no Brasil ao longo dos anos 1970 lembra da figura de Benito.

O cantor debutou no mercado fonográfico em 1967 e lançou em 1971 o primeiro álbum, “Benito Di Paula” (1971), ao qual se sucedeu o segundo, “Ela” (1972), apresentado um ano depois com o primeiro sucesso do artista, “Violão não se empresta a ninguém” (1972).

Contudo, o reinado de Benito Di Paula começou de fato em 1973 com dolente samba-canção, “Retalhos de cetim”, apresentado em single blockbuster naquele ano de 1973.

“Retalhos de cetim” foi o ponto de partida para o sucesso de obra que – calcada no mix do piano tocado pelo artista com instrumentos de percussão – rendeu sucessivos hits até 1984, mas sobretudo no período que foi de 1973 a 1977.

Nesse período, foi impossível ignorar “Charlie Brown” (1974), “Beleza que é você mulher” (1974), “Bandeira do samba” (1975), “Como dizia o mestre” (1975), “Vai ficar na saudade” (1975), “Tudo está no seu lugar” (1976), “Do jeito que a vida quer (1976, samba dos versos confessionais “...É que meu samba me ajuda na vida / Minha dor vai passando esquecida”), “Assobiar e chupar cana” (1977) e “Proteção às borboletas” (1977).

Apresentadas ao longo de quatro anos, no já mencionado período de 1973 a 1977, auge da carreira de Benito, essas músicas atestaram o talento do compositor para fazer samba descolado da matriz do gênero, ainda que a assumida maior influência do sambeiro tenha sido a obra do bamba Ataulfo Alves (1909 – 1969).

Lançados em discos editados pelo cantor na gravadora Copacabana, na qual Benito permaneceu até 1980 e para a qual voltou brevemente em 1987 e em 1992, esses sucessos da década de 1970 já são suficientes para garantir a imortalidade de Benito Di Paula na galeria dos criadores da música do Brasil.

Contudo, o cantor ainda emplacou eventuais hits na primeira metade da década de 80. “Ah! Como eu amei”, música dos irmãos Jota Vellozo e Nei Vellozo, garantiu a Benito bom lugar nas playlists de 1981. Parceria de Benito com Márcio Brandão Carneiro, “Amigo do sol amigo da lua” tocou bem nas rádios em 1984.

“Amigo do sol amigo da lua” foi o último sucesso de Benito Di Paula, ainda que o cantor tenha continuado a lançar álbuns com regularidade até 1996, ano em que apresentou “Baileiro sem repercussão. Desde então alijado do mercado fonográfico pela máquina das gravadoras, Benito Di Paula apresentou somente mais dois álbuns com músicas inéditas, “A felicidade é nossa” (2017) e o relativamente recente “O infalível zen” (2021), disco com o qual celebrou 80 anos.

Nos últimos anos, a obra inovadora de Benito Di Paula passou por processo de reavaliação e gerou tributos. Contudo, o aval mais importante, o do público, sempre foi dado de imediato a esse cantor, compositor e instrumentista que deixa o nome gravado na história da música popular do Brasil ao morrer a um mês de completar 85 anos.

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sábado, 17 de outubro de 2026

INCOMPETÊNCIA OU PERVERSIDADE ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Em menos de um mês, PM paulista mata terceira pessoa em aparente surto psicótico

É assustador que cúpula da polícia não consiga fazer agentes seguirem protocolo

Às vezes eu me pergunto se o governador Tarcísio de Freitas e a cúpula da segurança pública de São Paulo são apenas incompetentes ou se têm também maldade no coração. Só neste mês, que mal passou da metade, já se registraram três casos de cidadãos em aparente surto psicótico mortos pela PM. Em dois deles, os policiais dispararam mais de 20 vezes contra as vítimas.

Falei em incompetência porque as circunstâncias desses óbitos estão em total desacordo com o protocolo da PM para a abordagem de suspeitos, notadamente daqueles que se imagina estarem sob estresse psíquico. A primeira providência deveria ter sido acionar o Samu. A tentativa de usar armamentos menos letais antes dos tiros também teria sido obrigatória. Mesmo que os suspeitos representassem ameaça real à vida dos policiais ou de terceiros, os agentes falharam. O método Giraldi, adotado em SP, jamais autoriza descarregar a arma contra o suspeito. Será que os comandantes não conseguem treinar seu pessoal para seguir a regra que a própria instituição desenhou?

Falei em maldade porque ninguém fora do espectro do sadismo ou da psicopatia pode considerar aceitável que pessoas morram porque a polícia não consegue comportar-se como ela mesma acha que deveria.

Se fossem casos isolados, até daria para deixar passar. Mas o que não falta são histórias escabrosas recentes envolvendo a PM que ainda ocorrem num contexto de persistente aumento nos óbitos por intervenção policial.

Para piorar o quadro, a psicologia moral sugere que o ser humano já vem de fábrica com mecanismos que inibem sua disposição de infligir danos em seus semelhantes. Não se trata, por óbvio, de uma trava absoluta, mas cérebros saudáveis sentem repulsa emocional em provocar dor em terceiros. Uma das formas de reverter essas inibições é submeter a tropa a uma cultura que valorize o policial matador. Que os PMs estejam mergulhados nela é compreensível, embora lamentável. Que o governador e outras autoridades chancelem essa cultura de morte é imperdoável.

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ASFIXIA CONSTITUCIONAL

Oscar Vilhena Vieira*, Folha de S. Paulo

O Brasil precisa de mudanças, mas não as que asfixiem nossa democracia

Nosso edifício institucional ficará vulnerável se o sistema de freio e contrapesos for neutralizado

"Todo homem investido no poder é tentado a dele abusar (…) para viver em liberdade é necessário que o poder freie o poder". A máxima de Montesquieu deveria servir, ao menos para aqueles que se creem liberais, com um alerta sobre o que está em jogo na eleição do próximo domingo.

A promessa de Flávio Bolsonaro de mudar a Constituição para "democratizar o país" teria gerado menos apreensão não fosse o alinhamento de três elementos: a origem e o histórico antidemocrático do clã político a que pertence; o crescimento da direita não liberal na composição do Congresso Nacional e dos governos de Estado; o dramático declínio da autoridade do Supremo, que, para piorar, terá sua maioria recomposta pelo próximo mandatário.

Para agravar a situação, se eleito, Bolsonaro governará em um contexto internacional em que as instituições liberais e democráticas estão sendo submetidas a imensas pressões e a um deliberado processo de erosão por políticos extremistas. Em resumo, será um governo sem contenção, que disporá de ampla discricionariedade para moldar a política e as instituições brasileiras em função de seus interesses e concepções de mundo.

O Brasil já adotou a mais democrática de suas constituições, em 1988. A atual Constituição foi uma clara reação da sociedade brasileira a um passado de autoritarismo e injustiça que marcou a nossa história. Somente no século 20, o Brasil experimentou dois longos períodos de exceção. Um de natureza militar e outro de matiz populista. Em comum, ambas as ditaduras promoveram a demolição do sistema de freios e contrapesos. Subordinaram o Congresso Nacional e o Supremo Tribunal Federal; restringiram e violaram direitos, especialmente dos seus inimigos; manipularam o processo eleitoral para se perpetuar no poder.

A Constituição de 1988 devolveu aos cidadãos o direito de escolherem periodicamente seus governantes, além das liberdades essenciais à vida democrática. Adotou um robusto sistema de freios e contrapesos, de forma a dificultar a concentração de poderes numa só pessoa, facção ou partido. Reconheceu um amplo rol de direitos, voltados a corrigir históricas injustiças que estruturaram nossa sociedade. Para proteger esses valores, limitou por meio de cláusulas pétreas o poder de maiorias eventuais que, em momentos de fúria ou irracionalidade, podem ficar tentadas a abrir mão das próprias condições que habilitam democracia.

Esse complexo edifício institucional, no entanto, ficará vulnerável se um mesmo grupo ou facção política tiver oportunidade objetiva de neutralizar o sistema de freio e contrapesos. Com isso, não sofrerá restrições ao manipular o processo eleitoral, violar direitos ou promover a erosão do próprio Estado de Direito.

Como demonstram as experiências de Venezuela, Rússia, Hungria, El Salvador, Turquia ou Índia, o declínio da democracia não decorre mais apenas de golpes, como o tentado por Jair Bolsonaro após ser derrotado nas urnas, mas também de sucessivos processos de mudança constitucional e legal, que levam à subversão da própria natureza liberal e democrática da Constituição.

Esses processos de erosão institucional se aprofundam, sobretudo, quando temos um segundo mandato de líderes ou grupos autoritários. A mudança de regras e estruturas institucionais, além da ocupação das instituições com pessoas leais e dispostas a tudo para aprofundar e prolongar o exercício do poder, toma tempo.

O Brasil precisa de mudanças, mas não daquelas que asfixiem nossa democracia constitucional.

*Professor da FGV Direito SP, mestre em direito pela Universidade Columbia (EUA) e doutor em ciência política pela USP. Autor de "Constituição e sua Reserva de Justiça" (Martins Fontes, 2023)

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RELEMBRANDO JERÔNIMO PRADO

Fotos: da esq. para à dir. O prefeito Jerônimo Prado ao lado da primeira-dama dona Francisquinha Prado assina a Lei 214 que cria a Universidade Vale do Acaraú - UVA. O prefeito Jerônimo Prado, ao lado de seu filho, o secretário José Parente Prado inaugura a primeira praça do então distrito Forquilha. Sempre acompanhado de seu filho Zé Prado, Jerônimo Prado inaugura o primeiro colégio do distrito Olho d´Água – hoje Rafael Arruda.

Memória – Em 17 de outubro de 2003 morre em Sobral (CE), um dos maiores líderes políticos: Jerônimo Medeiros Prado. Nasceu em 15 de julho de1909, no povoado de São Vicente, distrito de Jaibaras, da cidade de Sobral. Em 1932 Jerônimo Prado mudou para Sobral com a família e dar início a uma nova fase de sua vida, torna-se comerciante.

Em 1940 Jerônimo Prado funda em Sobral a Brasil Oiticica, era a pioneira no comércio de oleaginosas da zona norte do Ceará. Com o sucesso da empresa, Jerônimo Prado mais uma vez se aventura e investe na cultura sobralense e cria o primeiro cinema da cidade, o Cine Alvorada, que se tornou referência cultural no Ceará.

Em 1966, Jerônimo Prado é eleito prefeito de Sobral, começa então a saga da família Prado na política sobralense como exemplo de gestão séria com a participação popular. De 1967 a 1971, Sobral foi administrada por Jerônimo Prado.

Obras importantes foram construídas na gestão Jerônimo Prado: o Estádio Plácido Aderaldo Castelo, conhecido como Estádio do Junco. A adutora para o abastecimento de Sobral. Por meio da Lei Municipal número 214, de 23 de outubro de 1968 cria a Universidade Vale do Acaraú – UVA. A Universidade se torna referência no ensino superior e cultural no estado do Ceará.

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sexta-feira, 16 de outubro de 2026

VOTO DISTRITAL PARA BARRAR INFLUENCERS ENTRA EM PAUTA

Andrea Jubé, Valor Econômico

Uma postagem recente do candidato derrotado à Presidência Renan Santos, do Missão, surpreendeu quem acompanha a política nacional de perto. Na publicação, o fundador do Movimento Brasil Livre (MBL), conhecido pelo perfil combativo, convidou os brasileiros a uma volta ao passado, aos tempos em que o debate político era baseado em propostas, e adversários não eram tratados como inimigos.

O mote foi o encontro amigável entre Renan e a deputada estadual do PT eleita por São Paulo, Duda Hidalgo, na noite paulistana, após uma apresentação da banda dele, e cujo registro circulou nas redes sociais. “Muita gente chocada com a interação pacífica e bem-humorada entre a gente que pensa diferente”, observou. “Há 20 anos atrás, este era o mundo em que a gente vivia”, completou. “Mas desde que surgiram os algoritmos de redes sociais, a gente começou a se radicalizar, ao ponto de um passar a odiar o outro, e odiar o outro virou uma profissão”, criticou sobre a polarização entre bolsonarismo e petismo.

Renan salientou que o mais saudável seria divergir e disputar vários temas, mas convivendo socialmente. Ao fim, exortou os seguidores a romperem a polarização em seu entorno. “Vamos construir algo melhor para todos nós”, concluiu. Até a noite de quinta-feira (14), a postagem havia alcançado mais de 3,5 milhões de visualizações.

Renan acerta ao afirmar que “odiar virou uma profissão”. Há mais de uma década, o ódio se tornou o combustível das redes sociais, como revelou o repórter do New York Times Max Fisher, no livro “A máquina do caos”. Entre 2017 e 2018, constatou-se que viralizavam as publicações nos matizes de ódio, conspiração e extremismo. “Perceberam que quanto mais incendiária era a postagem, mais a plataforma a espalhava”, disse o autor.

Foi nessa conjuntura que os “influencers” cresceram e passaram a disputar espaços no Congresso com os políticos tradicionais. Na semana passada, a coluna mostrou que os dez deputados federais mais votados no país se forjaram nas plataformas. O PL tem quatro nomes na lista: Nikolas Ferreira (MG), Lucas Pavanato (SP), André Fernandes (CE) e Júlia Zanatta (SC). Os outros são: Erika Hilton (Psol-SP), Kim Kataguiri (Missão-SP), Jeffrey Chiquini (Novo-PR), Sâmia Bomfim (Psol-SP), Tabata Amaral (PSB-SP) e Ana Elisa (PT-MG).

Em paralelo, muitos ampliaram o capital de votos. Mais votado no país, Nikolas saiu de 1,47 milhão de votos em 2022 para 3,1 milhões. Erika Hilton passou de 256,9 mil para 1,58 milhão de votos. Por sua vez, sigla oficial do bolsonarismo, o PL deu um salto impressionante depois de filiar o ex-presidente Jair Bolsonaro em 2021. Em 2018, ainda com o nome PR, havia eleito 33 deputados federais. Abrigando o bolsonarismo, triplicou a bancada em 2022, com 99 parlamentares eleitos. Neste ano, 121 deputados do PL saíram vitoriosos das urnas. O primeiro efeito dessa expansão da bancada foi justamente o difícil convívio entre os moderados e os bolsonaristas, de perfil radicalizado, obrigando o líder a fazer reuniões separadas com os dois grupos. Em contraponto, as legendas de centro encolheram. Juntos MDB, Republicanos e a federação União Brasil-Progressistas, que já foi a maior força parlamentar, elegeram 164 deputados. Em 2022, esse placar foi de 189.

Nesse cenário, caciques do Centrão se uniram à bancada da esquerda, encabeçada pelo PT, a fim de aprovar, ainda neste ano, o voto distrital misto como modelo para a eleição proporcional (deputados e vereadores). Segundo uma fonte a par da articulação, o presidente da Câmara dos Deputados, Hugo Motta (Republicanos-PB), pretende pautar a discussão em novembro, logo após o segundo turno da eleição.

Lideranças das legendas envolvidas nessa movimentação ressaltam que a aprovação do novo sistema, que passaria a vigorar em 2030, deve ocorrer até dezembro. O receio de que com o fortalecimento da bancada do PL e Novo a partir de 2027, reduzem as chances de aprovação da proposta. “O PL é contra”, disse à coluna uma liderança da sigla.

Em contrapartida, a percepção das lideranças do Centrão e do PT é de que o novo sistema seria capaz de fortalecer os partidos políticos e, ao mesmo tempo, barrar a eleição dos “influencers”.

O próprio Hugo Motta já se manifestou favorável ao voto distrital misto, depois de participar de um evento na Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão (Abert) em março. “Nós temos propostas acerca do voto distrital misto, que me parece que nesse momento seria a proposta que atende aos anseios de todos aqueles que querem ver cada vez mais a boa política sendo discutida”, afirmou. Motta também acredita que a mudança contribui para impedir a eleição de representantes do crime organizado, que se infiltraram na política.

Defensores do modelo argumentam que a eleição dos “influencers” fragiliza a democracia porque esses parlamentares se formaram nas redes, sem vinculação aos partidos. Um dos pioneiros na defesa desse modelo foi o ex-senador José Serra (PSDB-SP), que teve sua proposta chancelada pelo Senado, mas sem nunca avançar na Câmara.

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A DUPLA CARA DO FUTURO

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Na política, as duplas personalidades se desconstroem reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a campanha eleitoral

De repente, o surpreendente resultado das eleições do chamado primeiro turno revela aquilo que o bolsonarismo e a direita não são nem aquilo que as esquerdas e o PT tampouco são. O processo político brasileiro, há muito, se desenrola fora do âmbito do racional e do compreensível e longe do que é propriamente político e a política.

Sem substância teórica e doutrinária e, portanto, sem competência para se propor como protagonista legítima do processo histórico brasileiro, a direita finge. Tanto finge o que é quanto o que não é.

Utilizando os meios técnicos abundantes e fáceis de manipulação das vontades, a direita conseguiu resultados espetaculares do ponto de vista numérico. Pessoas inexpressivas e até desconhecidas do eleitor tradicional obtiveram votações muito acima do que é numericamente normal num país como o Brasil.

Equipararam-se às abstenções, as grandes campeãs de voto em nosso país. Com isso, o eleitor brasileiro confirma-se como personagem significativo da eleição para não eleger, para não legitimar o regime político, para desacatar as instituições.

O eleitor brasileiro há muito usa a eleição para mandar um recado antipolítico aos políticos. A abstenção mais o voto em branco e os ausentes são indicativos de um partido potencial, discordante e crítico, que porém não consegue traduzir na mensagem propriamente política de mandatos de contestação o seu não voto.

No seu comportamento antipolítico e antidemocrático, essa parcela do eleitorado brasileiro é a presença do ausente. Essa ausência é politicamente efetiva como renúncia a um direito, mas também como anulação prática do direito de todos, o de se fazer representado nas instituições e no contrato político implícito que lhe dá sentido.

Não é alienação no estrito sentido do conceito. É rudimento de ação política como expressão não de vontade, mas de raiva, portanto, como ação política inacabada. Que, porém, é levada a termo por aqueles que na direção contrária dão-lhe o sentido que não deveria ter enquanto ato de usurpação de direitos do eleitor omisso.

O que, com relutância, pode ser chamado de erro das esquerdas tem sido o de levar a sério as armadilhas da polarização ideológica da direita. É o erro de aceitar como desafio o que, ficou claro agora, é apenas teatro e circo. Mas é claro que não é, na direita, engano e brincadeira.

É impossível não prestar atenção, nestes dias, no fato de que a direita acha que política é isso mesmo. Diferente do que foi a concepção dos eleitores paulistas que deram a Tiririca mais 1,3 milhão de votos em 2010 para a Câmara dos Deputados e o reelegeram mais três vezes. Nessa votação, queriam dizer que todo político é um palhaço.

Neste ano de 2026, Tiririca mudou de partido e de domicílio eleitoral para o Ceará, seu estado de origem. Recebeu míseros 5.500 votos, 0,5% de sua votação original em São Paulo. Depois de quatro mandatos como deputado federal, Tiririca se convenceu de que não era propriamente um palhaço na política, mas um palhaço transformado em político. Retornou ao lugar de origem para recriar-se como outra pessoa, metamorfoseado em político. Não foi reconhecido. A condição de palhaço da política apossara-se dele.

Esse caso, de certo modo, lembra o filme de Roberto Rossellini, estrelado por Vittorio De Sica, “Il generale Della Rovere” (intitulado “De crápula a herói” no Brasil). História verdadeira do trapaceiro Indro Montanelli, preso em Milão durante a ocupação alemã da Itália. Aliciado para fingir-se de general Della Rovere, da Resistência, e identificá-lo, na tortura, cuja identidade acaba assumindo e é finalmente fuzilado no lugar do herói italiano.

Aparentemente, Tiririca entrou num processo de ressocialização política, porém sociologicamente inviável. O político como palhaço tinha sentido na pessoa sem identidade porque fora do lugar institucional e da condição de cumpridor do roteiro próprio da política que pode transformar o palhaço em político.

O pós-eleitoral mostrou aqui a dupla personalidade do novo político brasileiro de direita. Na política, as duplas personalidades se desconstroem reciprocamente. Esse processo manifestou-se tardiamente durante a campanha eleitoral. Se eleito, Bolsonaro chegará ao poder completamente sem poder, pois destituído de autenticidade. O povo brasileiro terá dúvida quanto ao que ele diz que faz ou quer fazer e o que ele é não sendo.

Do lado das esquerdas, são elas expressão do lado oposto da polarização: porque sem duplicidade. Historicamente, as esquerdas são oposição mesmo no poder. Oposição ao sistema, e não oposição ao governo. Pensamento e ação crítica em relação às contradições antissociais do poder do lucro sem limite e sem ética.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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TRIUNFALISMO LEVOU DISPUTA A EMPATE

César Felício, Valor Econômico

Jamais houve viradas no segundo turno, mas pesquisa se assemelha a virada de Dilma sobre Aécio em 2014

A diminuição do volume de campanha presidencial do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na última semana, ocupado em sentar em uma cadeira que ainda não é sua, cobrou seu preço. A candidatura bolsonarista perdeu fôlego de acordo com o levantamento divulgado nesta quinta-feira pelo Datafolha, recuando de 49% para 47%.

Esta oscilação para baixo não migrou para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que permaneceu em 45% de intenção de voto, com desaprovação de governo e avaliação negativa da administração em alta de um ponto percentual. Mas ainda não decantou a maré de anúncios impactantes gerados pelo Palácio do Planalto, como a aprovação do fim da escala de trabalho 6x1 e o pacote de bondades para microempreendedores individuais.

O que a pesquisa já reflete em sua plenitude foram as massivas manifestações da esquerda no fim de semana em São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília. Estas manifestações foram importantes do ponto de vista do petismo para mobilizar um eleitor que se sentiu derrotado no primeiro turno, mas talvez tenham assustado o eleitor não alinhado.

Em São Paulo, por exemplo, há uma tradicional aversão do eleitor a campanhas eleitorais de rua. É um lugar comum encontrar um paulistano que se queixe da sujeira dos santinhos no dia da eleição, das alterações no trânsito, das bandeirolas nos cruzamentos, como se a eleição fosse uma micareta irritante a perturbar o cotidiano. Os propagandistas de Flávio foram hábeis em explorar cortes de imagens de militantes esquerdistas promovendo desordem, com boa dose de desinformação. Usaram uma imagem de consumo de drogas que na realidade aconteceu no Chile. No Sudeste, de acordo com a pesquisa, Flávio está com 51%, ante 41% de Lula. Os cruzamentos do Datafolha mostram uma única inversão de tendência: na faixa de 16 a 24 anos Lula agora está na frente por 50% a 43%, quando na semana passada o placar era inverso, a favor de Flávio.

O eleitor jovem costuma se abster mais, mesmo no segmento acima de 18 anos, em que o comparecimento é compulsório. Segundo o cientista político Jairo Nicolau constatou em sua obra “O Brasil dividido”, a presença nas urnas ficou ligeiramente abaixo de 80% nas eleições de 2014, 2018 e 2022, enquanto entre os 30 e 69 anos ficou acima de 80%. Este é um indício de que Lula de alguma forma está motivando um eleitor mais propenso à abstenção.

A hipótese de Lula conseguir ganhos em cima da abstenção, mais do que virando votos do adversário, já havia se desenhado no levantamento divulgado na véspera, da Quaest, em que Flávio ficou com 46% e o petista com 44%. A pesquisa Quaest levantou a intenção de voto entre os que não foram votar e, neste universo, Lula prevalece.

Um dado positivo para o presidente é que ele oscilou um ponto percentual para cima na pesquisa espontânea, sem a apresentação dos nomes, o que indica um voto consolidado. Passou de 44% para 45%, enquanto Flávio permaneceu com 46%.

Jamais houve viradas no segundo turno, mas a pesquisa de hoje guarda similitude com a que o Datafolha divulgou em 15 de outubro de 2014, em que Aécio Neves tinha 45% e Dilma Rousseff 43%. A petista passou à frente no levantamento da semana seguinte.

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FORTALECER, E NÃO REDUZIR A DEMOCRACIA

Fernando Luiz Abrucio*, Valor Econômico

Os resultados das eleições presidenciais de 2026 vão ser decisivos para ver quem defende o espírito democrático estabelecido pela Constituição de 1988 e quem aposta na destruição de seu legado

Um paradoxo marca a disputa presidencial de 2026: no primeiro turno, predominou um clima de insatisfação e desânimo entre os eleitores, o que agora é contrabalançado no segundo turno pela enorme mobilização nas ruas e nas redes sociais. Ambos os sentimentos são expressão dos avanços democráticos do país e seus limites. O voto e a participação popular continuam muito relevantes, mas há pontos problemáticos nas instituições e um medo de retrocesso democrático. O que está em jogo é como fortalecer e melhorar a democracia brasileira.

O Brasil não tem tradição democrática forte em sua história. Ao contrário, foram predominantes o autoritarismo e formas oligárquicas, com exclusão de muitos atores da participação política plena e acesso privilegiado ao poder para determinadas elites. Somente a partir da redemocratização que depôs o regime militar e, mais ainda, com a promulgação da Constituição de 1988 é que a democracia se tornou o eixo central da política brasileira.

Cerca de quarenta anos depois, dentre os vários avanços democráticos obtidos, três mais amplos podem ser destacados. O primeiro é o processo ininterrupto de eleições livres e competitivas, em todos os níveis da Federação. Houve alternância no governo em várias esferas, a oportunidade de eleger ou punir os representantes e nunca um partido ou um líder teve a força para ser dono do eleitor. Grupos conseguem ter maior hegemonia por um tempo, mas até agora houve pluralismo político e social suficiente para controlar os excessos do poder.

A existência de governantes de partidos diferentes nos estados da Federação e em importantes cidades do país constitui uma das formas de pluralismo. A necessidade de construir coalizões no Congresso Nacional também evitou um poder desmedido nas mãos do presidente da República. Como contraponto, criticava-se a necessidade de negociações contínuas e as formas que elas se realizavam, esse sim um ponto delicado para republicanização do sistema político. Entretanto, imagine o que pode acontecer se não houver freios e contrapesos advindos do próprio voto. Esse medo deve nos guiar para evitarmos formas de autocratização, ao estilo do PRI mexicano ou, pior, da Rússia de Putin, e ainda na mesma linha de casos como da Nicarágua e El Salvador contemporâneos.

O combate à concentração do poder não ficou apenas no pluralismo derivado das eleições. Um segundo avanço democrático derivado da Constituição de 1988 foi a criação de um sistema institucional baseado em múltiplos controles. A fiscalização de governantes, agentes políticos e da burocracia pública aumentou, obrigando-os a responder mais a critérios de probidade, legalidade e mesmo de qualidade das políticas públicas. Ministério Público, tribunais de contas, magistratura e órgãos como a Receita Federal e a Polícia Federal puderam atuar para ampliar a responsabilização democrática do país.

Nem sempre as instituições de controle agiram corretamente. No caso da Lava-Jato, obviamente havia casos de corrupção detectados, porém, a ânsia por poder de parte dos seus protagonistas os levou a burlar normas legais e direitos básicos de defesa. O STF também tem sido essencial na defesa da Constituição e da democracia - sem ele, teríamos tido sim um golpe de Estado no final do governo Jair Bolsonaro. Não obstante, o excesso de monocratismo dos ministros e a sua entrada direta no jogo político têm atrapalhado o seu papel constitucional.

Dessa argumentação deriva uma dupla conclusão. De um lado, é fundamental ter controles institucionais fortes sobre os eleitos, bem como sobre outros agentes políticos e burocráticos. Se o Supremo Tribunal Federal, a PF, o Ministério Público e os tribunais de contas forem enfraquecidos, parte da democracia brasileira vai para o ralo. Mas, por outro lado, os controladores não devem estar acima da lei e precisam ser contidos quando ultrapassam os parâmetros constitucionais básicos. A democracia não pode suportar nenhum tipo de excesso de poder.

O avanço democrático recente ancorou-se principalmente na expansão e garantia de um conjunto amplo de direitos, com ênfase para os grupos minoritários e mais vulneráveis. Como terceira grande conquista, esse ponto é central porque a democracia tem seu ponto de partida na cidadania. Quanto mais os cidadãos puderem alargar suas possibilidades e oportunidades, mais democrática será uma nação.

Direitos políticos, civis e sociais foram ampliados pela nova ordem democrática. Analfabetos ficaram quase um século sem votar e foram incluídos integralmente na arena eleitoral. Comunidades indígenas foram exploradas por décadas e ganharam proteções especiais. Infelizmente, os feminicídios ainda são uma marca horrenda de nossa sociedade, mas também houve uma ampliação inédita das formas de proteção às mulheres. A lista é longa e poderiam ser citadas conquistas vinculadas à questão racial ou às pessoas com deficiência. Desigualdades de tratamento persistem, só que existem agora mecanismos democráticos para combatê-las.

A ampliação das oportunidades e da igualdade por meio de políticas sociais foi um campo central na luta por direitos. A expansão da educação, a universalização da saúde e a garantia de condições básicas à população mais pobre são conquistas civilizatórias que terão sempre muita gente para defendê-las no Brasil. A tentativa de extinguir ou reduzir programas sociais bem-sucedidos leva os governantes a perder a maior parte de sua popularidade. Essa é uma das heranças da Constituição de 1988 que será muito difícil de ser suplantada enquanto houver democracia.

A liberdade para se associar, expressar opiniões e ir às ruas é uma marca dessa era de direitos impulsionada pela redemocratização. A participação social não substitui o voto, contudo, os eleitos precisam prestar atenção nas mobilizações populares porque elas podem retirar a legitimidade e os cargos dos políticos. Em outras palavras, ganhar eleições é central na democracia, mas não define completamente o jogo democrático porque o povo brasileiro é livre para cobrar cotidianamente quem está no poder.

É importante lembrar disso num momento em que surgem grandes manifestações de massa que, como muitas outras do passado, apontam que maiorias eleitorais de ocasião não dão direitos a representantes ou para os possíveis presidentes, seja Bolsonaro ou Lula, fazerem o que bem entenderem. A sociedade organizada ainda é um limite para a ação dos políticos eleitos. Por isso, muitos deles preferem a PEC da Blindagem ou mesmo projetos autocráticos de poder, e nessas horas que a voz das ruas precisa ser acionada - do contrário, ela poderá ser calada por muitos e muitos anos.

Os limites à democracia brasileira existem e ficaram mais claros nos últimos tempos. A entrada do crime organizado na política, a falta de controle sobre os recursos públicos nas mãos de parlamentares e presidentes de partidos, o debilitamento de um STF politizado e com membros enrolados com negócios privados tenebrosos, entre outros pontos, revelam que precisamos continuar numa trilha de reformas democráticas.

Se a maior parte do eleitorado parecia desanimada e insatisfeita no primeiro turno é porque desejava mais democracia, e não menos. Do mesmo modo, se houver propostas que reduzam o escopo de direitos das pessoas e que limitem a possibilidade de controle do poder, há boas chances de haver reação social contra isso. Uma nova leva de lideranças jovens mostrou nesta eleição que o espaço para renovação começa a ser ocupado e as lideranças políticas precisam prestar atenção neste fenômeno.

A potencialidade democrática do país, sedimentada durante as últimas décadas, não é líquida e certa, todavia. Discursos e comportamentos autoritários estão presentes não só em lideranças políticas e movimentos partidários, como também em parte da população. Não se sabe se um projeto autocrático tem chance de acontecer efetivamente porque ele depende de muitas variáveis, mas há mais chances de ele ser ativado se duas coisas estiverem presentes: uma sensação de desordem social, pois a extrema direita aposta no caos para instalar gradativamente um modelo autoritário, e uma posição geopolítica que enfraqueça a soberania nacional.

Defender um Brasil soberano, no momento, não é apenas um nacionalismo vinculado a correntes políticas. A soberania hoje está atrelada à capacidade de evitar ataques à nossa democracia. Lutar pelo autogoverno dos brasileiros, e não ser governado por ordens emanadas de fora, é central para garantir os direitos de cidadania que custaram muitos para serem conquistados e instalados na Constituição de 1988.

Os resultados das eleições presidenciais de 2026 vão ser decisivos para ver quem defende o espírito democrático estabelecido pela Constituição de 1988 e reformas que sempre devem atualizá-la, e quem aposta na destruição do legado da redemocratização, enfraquecendo direitos de minorias e políticas públicas ampliadoras da cidadania. Se o segundo lado vencer o jogo, haverá uma disputa dos defensores da liberdade e da igualdade, com muita movimentação de rua, contra a possibilidade de começarmos a década seguinte com um regime mais autocrático do que democrático.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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MORRE SÔNIA PINHEIRO

João Gabriel Tréz, Diário do Nordeste

Morre a jornalista e colunista social Sônia Pinheiro

Profissional construiu carreira em veículos incluindo o Diário do Nordeste.

A jornalista Sônia Pinheiro, reconhecida em especial pelas décadas de trabalho dedicadas ao colunismo social no Ceará, morreu na noite da última quinta-feira (15).

O velório acontece no Jardim Metropolitano, com sepultamento previsto para 10h30. A profissional foi vítima de uma pneumonia, segundo informações do jornalista Eliomar de Lima. 

Nascida em Natal, a jornalista se mudou para Fortaleza ainda cedo. Formada pela Universidade Federal do Ceará, acumulou décadas de trajetória iniciada ainda nos anos 1970, no jornal O Estado, tendo passagens também pelo Correio do Ceará, Tribuna do Ceará, como assessora de imprensa e relações públicas.

Pioneirismo profissional 

A consolidação na carreira, no entanto, se deu pelo trabalho como colunista social, no qual atuou por mais de 10 anos no Diário do Nordeste.

Sônia foi pioneira do colunismo social do veículo, atuando na área e também como editora do DN Gente a partir de março de 1982. O jornal havia sido fundado pelo empresário Edson Queiroz em dezembro do ano anterior. 

Segundo define o jornalista e colunista do Diário do Nordeste Egídio Serpa, a profissional "foi uma marca do colunismo social da imprensa cearense".

"Ela era admirada e muito respeitada pelo seu trabalho profissional, pois unia a competência e o talento à sua distinta personalidade. Sônia incluía no texto de suas informações um jeito próprio de redigi-las, acrescentando-lhe o seu sorriso encantador. Ela deixa milhares de pessoas saudosos de seu estilo inconfundível de divulgar os atos e os fatos da sociedade cearense", homenageia o colega.

A jornalista também teve passagens importantes pelos jornais O POVO, onde trabalhou por décadas, e O Otimista, no qual atuou mais recentemente.

Na lida profissional, marcou o jornalismo e o Ceará ao mesclar amenidades da sociedade e notícias ligadas à política e economia. Além da mistura de temas, Sônia também era reconhecida pela assinatura própria na escrita, na qual lançava mão de termos em inglês e francês, por exemplo.

A jornalista foi reconhecida com homenagens como o título de Cidadã de Fortaleza e a Medalha Boticário Ferreira, pela Câmara Municipal; e a Medalha da Ordem Alencarina do Mérito Judiciário do Trabalho, pelo Tribunal Regional do Trabalho da 7ª Região.

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quinta-feira, 15 de outubro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO MENTE SOBRE ESCALA 6X1

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Candidato já havia qualificado fim da 6x1 como inoportuna, eleitoreira e hipocrisia

Ele quer que o trabalhador tenha a liberdade de escolher entre salário menor ou desemprego

O noticiário espelhou o aparente vaivém de Flávio sobre a escala 6x1. Na terça (13) o Painel da Folha publicou que "Flávio Bolsonaro fez chegar a aliados que vai rever pontos da proposta caso seja eleito".

Isso reflete a real intenção do presidenciável, que já qualificou o fim da jornada exaustiva como "inoportuna e eleitoreira", uma "hipocrisia" com risco de "desemprego em massa". Antes, no mesmo dia, o jornal publicou que "Flávio diz que vai votar a favor do fim da escala 6x1, pressionado pela eleição".

Em tempos de falas-notícias, as palavras escritas importam. O plano de governo de Flávio é mais cristalino que seu oportunismo: Flávio propõe que o trabalhador entre em acordo com seu empregador, prevalecendo o negociado sobre o legislado. É em especial sintomático que Flávio chame exploração do trabalho de liberdade de escolha, uma síntese perfeita de uma ideia fora de lugar, um país cuja elite professa ser liberal, moderna e, portanto, maravilhosa, enquanto é rentista e beneficiada por incentivos fiscais.

Flávio quer que o trabalhador tenha a liberdade de escolher entre ter o salário cortado ou ficar desempregado: defende jornadas remuneradas por hora por meio da PEC 12 de 2026. Nela, prevê que os direitos sejam proporcionais à hora trabalhada, o descanso, portanto, passa a não ser remunerado. Flávio propõe contratos de trabalho com menos proteção para jovens e acima de 50 anos. O plano de Flávio é hipócrita ao afirmar que não retirará direitos ao mesmo tempo em que os flexibiliza expressamente sob a alcunha da liberdade.

É central ao debate a disputa entre Lula e Flávio sobre quem domina a retórica do empreendedorismo. Flávio chama exploração do trabalho de liberdade, porque sabe que o discurso de "empresa de si mesmo" tem apelo emancipatório para parte dos pobres (com exceções, como os movimentos de trabalhadores de aplicativos por mais direitos). O exemplo argentino lembra, no entanto, que a política econômica da extrema direita impõe, aos trabalhadores, a liberdade da fome e, aos empreendedores, a liberdade da crise.

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quarta-feira, 14 de outubro de 2026

HÁ SUGESTÕES, INCLUSIVE ORTODOXAS, PARA O FIM DOS JUROS ALTOS

Pedro Cafardo, Valor Econômico

Nível dos juros é uma das questões atuais mais importantes da economia brasileira e será tema de debate em 2027 qualquer que seja o presidente eleito

Alunos de jornalismo aprendem o que é lide (do inglês lead) nas primeiras aulas da faculdade. Lide é o parágrafo inicial de uma notícia, que resume a informação principal.

Jornalistas procuram, portanto, escrever notícias numa espécie de pirâmide invertida. Começam com o fato mais relevante e o detalham aos poucos, de forma que o leitor mais preguiçoso possa parar a leitura após dois ou três parágrafos já conhecendo a informação essencial.

Não é assim nos artigos de opinião. Tal qual em teses acadêmicas, o articulista em geral faz longas observações e coloca a informação principal na conclusão do artigo. Foi o que fez o professor Thiago de Moraes Moreira, do Ibmec/RJ e ESPM/SP, em excelente artigo no Valor (22/9). Na última frase do texto, ele dá o que seria o lide: o Brasil estaria pondo no bolso dos rentistas, desnecessariamente, de R$ 230 bilhões a R$ 340 bilhões por ano. Isso porque a taxa Selic (13,75% ao ano) estaria em nível incompatível com os fundamentos macroeconômicos do país. Se fosse compatível, a taxa ficaria entre 8% e 10% ao ano.

Essa é uma das questões atuais mais importantes da economia brasileira e será tema de debate em 2027 qualquer que seja o presidente eleito dia 25. Moreira, com argumentos técnicos, não detalhados aqui, tenta desmontar a tese dominante de que os juros estratosféricos são justificados por um suposto problema fiscal.

Ele explica os dados usando parâmetros dos economistas ortodoxos, embora não seja um deles. Utiliza a Regra de Taylor, uma das bases para definir os juros de curto prazo, e a adequação de paridade dos juros a descoberto, que também dá pistas sobre o nível em que deveriam estar as taxas de curto prazo numa economia aberta aos fluxos de capitais.

Há aceitação ampla: os juros elevados são o principal entrave aos investimentos produtivos e ao desenvolvimento econômico. As divergências aparecem, porém, quando se avalia a compatibilidade das taxas fixadas pelo Banco Central com os fundamentos macroeconômicos do país.

O artigo de Moreira no Valor repercutiu. O economista Robson Adame Campos observou que a qualidade da análise está em enfrentar a visão dominante em seu próprio terreno metodológico ao utilizar o ferramental analítico do mainstream neoclássico para demonstrar a inconsistência da taxa atual de juros.

Comentário de Adame Campos: “Ao parametrizar tanto a consagrada Regra de Taylor (equacionando hiato de produto negativo, taxa real neutra e desvios de inflação) quanto a condição de paridade de juros (somando a taxa do Fed, o CDS de cinco anos e a desvalorização cambial esperada), Moreira prova numericamente que a Selic deveria estar entre 8% e 10% ao ano.”

A taxa atual, segundo Moreira, extrapola justificativas ortodoxas, atua como um entrave desmedido aos investimentos produtivos e onera desnecessariamente o Orçamento público em centenas de bilhões de reais por ano com o serviço da dívida.

É oportuna essa discussão no intervalo entre o primeiro e o segundo turno da eleição presidencial porque, ganhe quem ganhar, o BC, que define a taxa Selic, deve continuar sendo guiado pelas mesmas cabeças e pelos mesmos princípios por mais dois anos. (Supõe-se!).

Haveria alternativa?

Proposta e acusação
Um dos principais formuladores do Plano Real, André Lara Resende escreveu artigo com o título “Eu acuso: uma proposta para eliminar os juros absurdos” e propôs a criação de um Conselho Fiscal e Monetário Nacional (CFMN).

Ele parte do princípio de que, sem redução da Selic para algo em torno da taxa de crescimento nominal da economia, não há ajuste fiscal possível que interrompa a expansão da dívida em relação ao PIB.

Caberia ao CFMN definir metas fiscais e monetárias para quatro ou cinco anos à frente. As fiscais seriam pautadas pela racionalização e simplificação da arrecadação e dos gastos; as de inflação, anunciadas em conjunto com as metas para a Selic. O BC se comprometeria a manter a taxa de juros num intervalo entre a meta de inflação, 3%, e a taxa de crescimento nominal potencial, o que hoje seria de 5,5% ao ano. Só em casos especiais, com autorização do CFMN, a taxa básica poderia ser inferior ao piso ou superior ao teto.

Para iniciar o novo regime, o BC anunciaria a redução gradual da Selic, ao longo de 12 meses, para a taxa de crescimento nominal potencial mais um spread transitório de segurança de 2%, isto é, perto de 7,5% ao ano (o spread seria reavaliado e gradualmente reduzido até ser eliminado). O BC também atuaria para suavizar toda depreciação mais acentuada de câmbio usando reservas de mais de US$ 350 bilhões. Os dois canais pelos quais a redução do juro poderia pressionar a inflação no curto prazo estariam, assim, neutralizados: o fiscal, pela dívida curta; o cambial, pelas reservas.

A redução do custo da dívida de quase 13% para 7,5% ao ano, numa dívida que corresponde a 80% do PIB, equivale a uma economia fiscal de cerca de 4% do PIB ao ano. Nenhum ajuste fiscal é capaz de produzir um superávit primário dessa magnitude sem provocar profunda recessão.

Lembrando Émile Zola, Lara Resende acusa o BC de sustentar, em nome de teoria anacrônica, juros que são a principal causa do desequilíbrio fiscal que diz combater; acusa a grande imprensa de repetir, sem exame, que o problema está no gasto primário, quando está nos juros; acusa os analistas de confundir o interesse dos rentistas com a racionalidade econômica; e acusa a todos os que, sabendo que juros absurdos inviabilizam o país, preferem o conforto do consenso ao incômodo da verdade.

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terça-feira, 13 de outubro de 2026

ECOS DA RESISTÊNCIA, DA RUA AO CONGRESSO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Há sinais fartos de que o país não ficará a reboque de um eventual endurecimento do regime

Dê Flávio, dê Lula, as ruas deixaram de ser território cativo do bolsonarismo. Foi o que as manifestações deste feriado mostraram. Se serão suficientes para uma virada é difícil dizer, mas a reocupação traz um dado que ultrapassa a conjuntura eleitoral. Se perdurarem, podem vir a respaldar a resistência ao acachapante avanço do PL no Congresso.

A primeira impressão foi a de que a captura do Congresso, ante um Supremo nas cordas proporcionaria a um Flávio Bolsonaro eleito presidente um poder sem freio e a um Luiz Inácio Lula da Silva de mandato renovado, a condição de refém de uma maioria legislativa ainda mais à direita. A assertiva, que caiu como um facão da fatalidade sobre o destino da nação, não durou uma semana.

E não apenas pela reocupação das ruas. A razão disso está no próprio Legislativo, Poder em que, para o bem e para o mal, estão as âncoras de acomodação do arranjo institucional do país. Não é apenas com branco ou preto que se costuram as maiorias legislativas. A votação do fim da jornada 6x1 marcada para a quarta-feira no Senado é um exemplo. A votação do Orçamento de 2027 e do arranjo fiscal que viabilizará a futura gestão do Executivo será outro. É com as atuais Mesas diretoras que o presidente a ser eleito terá que negociar.

Não por coincidência, a mobilização acontece ao mesmo tempo em que todos os partidos do espectro de centro-esquerda reduziram a idade média de suas bancadas na Câmara. Os puxadores de voto da maioria das legendas, da esquerda à direita, são jovens. Esta já era uma realidade nos partidos de direita, desde os primórdios das manifestações de 2013, com a chegada de um parlamentar como Kim Kataguiri (Missão-SP) em 2018 e, quatro anos depois, com Nikolas Ferreira (PL-MG).

Ainda em 2022, chegou ao Psol, com a eleição de Erika Hilton (SP) e Sâmia Bomfim (SP), e ao PDT, com Tabata Amaral (SP), hoje no PSB. Agora, finalmente, a renovação chega ao PT, com a eleição de Ana Elisa (MG) e Luna Zarattini (SP), esta também egressa de 2013. A bancada só não será maior porque ambições desmedidas impediram que Psol e PT formassem uma federação.

O mecanismo teria salvo o Psol da cláusula de barreira por associar o partido à maior capilaridade do PT. Ficou a 185 votos de atingir o quórum no nono Estado, o Espírito Santo. Com a federação, os votos de Erika Hilton e Sâmia Bomfim não teriam sido desperdiçados, e poderiam ter salvo da guilhotina nomes como o ex-presidente do PT Rui Falcão (SP).

Até aqui, os jovens parlamentares, ou “caçadores de pokemon”, como são apelidados na Câmara, pouco influenciaram na relação do Executivo com o Congresso. Enquanto se dedicam a vídeos para viralizar nas redes, a pauta legislativa vai sendo tratorada pelo Centrão. A primeira pauta, de fato, capitaneada pela bancada jovem com poder de balançar o coreto é o fim da jornada 6x1, originalmente proposto pelo vereador Rick Azevedo (Psol-RJ), que também chega à Câmara.

Se o tema foi mantido em pauta é porque o presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), concluiu que não terá margem para ser reconduzido num governo Flávio Bolsonaro e resolveu partir para o tudo ou nada?

É possível. Mas não apenas. A pauta relembra a Flávio Bolsonaro que, se eleito, terá que negociar com o Congresso que aí está se não quiser começar seu governo apenas em abril, quando a tramitação do Orçamento na Casa a ser empossada em fevereiro atravessa o Carnaval e a Páscoa até que chegue ao plenário. E a negociação também passa pela composição das Mesas.

Se, em 2022, Lula negociou a PEC da transição rendendo-se à reeleição das Mesas, a resistência de Jair Bolsonaro em procurar o Congresso antes de sua posse em 2019, tampouco lhe garantiu o comando das Casas e a preservação do escopo das reformas. Quando a proposta da Previdência do ex-ministro Paulo Guedes chegou à Câmara, seu então presidente, Rodrigo Maia, lhe avisou que a mudança no BPC e na aposentadoria rural não passariam.

É verdade que o PL quase quintuplicou o número de senadores e mais que dobrou os deputados em relação ao PSL de 2018, legenda à qual Bolsonaro era filiado. É cadeira suficiente para o partido não ficar a reboque do Centrão como o fez quando o bolsonarismo chegou ao poder, mas não basta para dirimir as resistências de uma esquerda que retomou o poder de mobilização nem tampouco da própria direita.

Se Flávio Bolsonaro se eleger terá mais facilidade em fazer o presidente do Senado do que o da Câmara, Casa em que terá que negociar com o Centrão. O Republicanos tem até um nome para manter a Casa, o do presidente do partido, Marcos Pereira (SP). O engajamento do governador reeleito de São Paulo, Tarcísio de Freitas (SP), neste 2º turno, não pode ser dissociado deste movimento.

No Senado, tudo corre a favor do senador Rogério Marinho (PL-RN), que, no quesito aparar-arestas perde para a senadora Teresa Cristina (PP-MS). E não faltarão arestas, a começar pela senadora eleita, Michelle Bolsonaro (PL-DF), que capitaneou a mais bem-sucedida ampliação da bancada feminina da história e não aceitará ficar a reboque do enteado.

O Congresso está mais para uma caixa de ressonância de muitos acordes dissonantes do que para uma relva à espera do tratoraço do bolsonarismo, se as urnas assim o decidirem no dia 25. Neste fim de semana, o eleitor resolveu dar as caras para avisar que também está nessa.

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