quinta-feira, 18 de junho de 2026

MARIA BETHÂNIA, 80 ANOS

Do Blog do Mauro Ferreira, Pop & Arte, g1

Maria Bethânia chega aos 80 anos com a altivez intacta do canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria

 MARIA BETHÂNIA 80 ANOS

Nascida em 18 de junho de 1946, Maria Bethânia chega hoje aos 80 anos com trajetória inatacável, pautada pela altivez do canto sobrenatural que educa, comove e, não raro, inebria.

Movido pela espiritualidade que rege a artista, espécie de divindade no panteão da MPB com quem (quase) ninguém ousa mexer, esse canto atinge os rincões mais profundos do Brasil sem deixar de cantar as dores de amores comuns a toda a gente do campo ou da cidade.

O canto de Bethânia educa porque, através dele, versos de poetas como Fernando Pessoa e Clarice Lispector escaparam dos nichos literários e chegaram aos ouvidos do grande público interpretados por uma cantora que também nos pega pela palavra. Educa por transitar pela estrada de um sertão que resiste aos vícios e hits da industrialização. Por conduzir o público do Brasil às rodas da cidade natal de Santo Amaro da Purificação (BA), norte do canto da artista.

A força motriz de Bethânia também vem da voz da mãe, Claudionor Vianna Telles Velloso (1907 – 2012), a Dona Canô, a que está em tudo que Bethânia canta, das louvações aos santos e orixás aos sambas-canção da era do rádio.

Bethânia não vai na onda. Bethânia traz a onda, aponta o que ninguém via, propõe que se atente para um compositor. O que seria de Roberto Mendes e de outros grandes compositores de Santo Amaro sem a voz-guia de Bethânia a mostrar uma obra que, sem a projeção nacional da intérprete, talvez tivesse ficado conhecida somente em redutos locais?

O canto de Bethânia também comove porque a voz grave sabe transitar entre a delicadeza e a dramaticidade com inteligência rara.

Admiradora de Dalva de Oliveira, estrela da era do rádio, Maria Bethânia embute alta carga de teatralidade no canto. Esta é a marca da artista desde que, em fevereiro de 1965, a debutante subiu ao palco de teatro do bairro carioca de Copacabana para alçar um voo sem volta pelo Brasil a partir do canto de “Carcará”.

Contudo, dona do dom e das emoções, também sabe baixar os tons se assim lhe convém para ruminar mágoas, solidões, ressentimentos ou vinganças. Mas quando sempre canta nas alturas, com as veias abertas para a emoção, os olhos imponentes nos olhos embevecidos das plateias.

Avessa a rótulos e a modismos, Maria Bethânia atravessou seis décadas de carreira com fidelidade a si mesma. Lutou para ser Maria Bethânia e, quando cedeu, como no caso da sugestão do executivo Marcos Maynard para que gravasse em 1993 um álbum com canções de Roberto Carlos, o fez sem baixar a cabeça, com a habitual imponência.

E fez assim porque todas as canções do Roberto, do mano Caetano Veloso, dos Chicos (tanto o Buarque como César, ambos recorrentes nos repertórios da intérprete), de Gonzaguinha, de Arnaldo Antunes e de Adriana Calcanhotto – entre outros compositores – pareceram feitas para ela. Mesmo quando não foram.

E é comovente a entrega de Bethânia a cada canção. Ela depura a palavra através do canto que, em cena, abafa arranjos e instrumentistas virtuosos. Todas as atenções e olhos são para a intérprete.

Por fim, o canto de Maria Bethânia inebria porque tem algo de sobrenatural ali. Mais do que um canto em si, parece haver uma energia poderosa quando Bethânia solta a voz e se entrega, palavra por palavra, à magia do palco, com o brilho dos olhos que nunca arrefeceu em 63 anos de carreira iniciada ainda em Salvador (BA).

Maria Bethânia é tão grande como a Mangueira que celebrou a existência da Menina de Oyá no desfile campeão do Carnaval de 2016, por ocasião dos 70 anos da artista. Estação primeira da música brasileira neste 2026 em que já não há a presença física da maioria das grandes cantoras de MPB surgidas nos anos 1960, Maria Bethânia carece de explicação, assim como a Mangueira. Embora a gente tente buscar alguma para celebrar, no dia dos 80 anos da cantora, essa força sobrenatural que ainda parece longe de secar.

Leia outros textos sobre os 80 anos de Maria Bethânia:

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TRUMP GAGÁ

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Não será surpresa se, numa dessas em que cochila em eventos, ele cair da cadeira

Que sua influência sobre nós se dilua antes de ele vestir a cueca por cima das calças

Donald Trump completou 80 anos neste domingo (14), anunciando em tom imperial o fim de uma guerra interesseira que ele próprio começou e perdeu. Os observadores viram nisso mais um sintoma da iminente gagaíce de Trump, manifesta em seu comportamento abilolado, marcado por atitudes sem nexo, declarações que faz e desfaz em questão de horas e sintomas de que já não é quem ele simula ser. O fato de ter sido fotografado cochilando em recentes eventos públicos preocupa a Casa Branca –temem que, numa dessas, ele caia da cadeira.

Sua jequice e megalomania, que não são de hoje, estão atingindo dimensões mamutianas. Trump botou sua carantonha em passaportes, selos e documentos oficiais. Ameaça assinar as cédulas de dólar –sua assinatura, por sinal, ainda está por ser estudada por psiquiatras. Quer botar seu nome em instituições e monumentos históricos. Vai construir uma torre de 60 andares em Miami para comportar sua biblioteca presidencial --em comparação, a biblioteca de George Washington, recém-inaugurada em Mount Vernon, Virginia, com milhares de livros e documentos inestimáveis do século 18, contenta-se com um prédio de três andares. E acaba de rebaixar a Casa Branca a um mafuá de MMA.

A saúde geral de Trump também periclita. Tem 22 médicos à sua volta, o que deve dizer alguma coisa. Toma remédios para o coração, a pressão e o colesterol, sofre de insuficiência venosa crônica e sabe-se que vive com os tornozelos e pés inchados. Informantes com acesso à balança de seu banheiro íntimo disseram ao The New York Times que ele ganhou sete quilos nos últimos tempos. Sua dieta diária consiste de Big Macs, frango frito e quilômetros de macarrão, mandados para dentro com Coca Diet.

Com tudo isso, Trump continua a ser o fiel da nossa balança. Flávio Bolsonaro quer que ele quebre o Brasil com seus tarifaços e, assim, o eleja presidente. O governo, por sua vez, precisa adulá-lo para impedir isso.

Roga-se que esse dilema se resolva antes de Trump começar a usar a cueca por cima das calças.

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MENDONÇA VIRA 'LÍDER DA MINORIA' NO STF

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Com apenas dois aliados, Mendonça assume posto de ‘líder da minoria’ no STF

Mesmo com delação de Daniel Vorcaro rejeitada, ministro mostrou em julgamento que não vai aliviar para autoridades nas investigações sobre o Banco Master

André Mendonça pode até integrar uma ala minoritária no Supremo Tribunal Federal (STF) pelas ideias que defende e pelos votos que profere. Mas, na última terça-feira, saiu da sessão da Segunda Turma consolidado como líder da minoria na Corte, para pegar emprestado um termo do Congresso Nacional.

Por três votos a um, o colegiado confirmou a decisão do relator das investigações sobre o Banco Master de manter presos o pai e o primo de Daniel Vorcaro. Com apenas quatro ministros votantes, Mendonça só precisava de dois aliados para sair vencedor.

O relator contou com uma dose de sorte. No Supremo, Mendonça tem dois apoiadores fiéis, que concordam com ele em matéria penal: Kassio Nunes Marques e Luiz Fux. Coincidentemente, os dois integram a Segunda Turma.

Depois que Dias Toffoli se declarou impedido para julgar o caso Master, o caminho de Mendonça rumo à maioria ficou menos tortuoso. Apenas Gilmar Mendes defendeu que os investigados fossem transferidos para a prisão domiciliar. Nas sessões de turma, Gilmar costuma fazer uma dobradinha com Toffoli. Desta vez, ficou isolado.

Gilmar, porém, não facilitou para Mendonça. Fez críticas quanto à condução das investigações e comparou os métodos aos da Lava Jato. No fim, o relator falou mais alto. Alegou que não prendia ninguém para forçar acordo de delação e defendeu sua posição com a voz empostada de pastor evangélico. Aproveitou para falar do caso Master como nunca tinha feito antes em público. Revelou que a defesa “perdeu o pudor” ao propor uma delação seletiva. “Falaram na minha cara isso. Eu disse: ‘Não faço questão de delação. Agora, delação seletiva? Comigo, não!’”

Gilmar representa um grupo do Supremo insatisfeito com o rumo das investigações do Master. Alexandre de Moraes e Toffoli fazem coro ao colega. Os dois tiveram ligações com Vorcaro expostas ao longo das investigações. Mas, como relator do escândalo do Master, Mendonça pode abdicar da maioria numérica dos ministros do Supremo. Ter vitória garantida na Segunda Turma é suficiente, porque é lá que as questões referentes ao Banco Master serão julgadas.

Não satisfeito com a votação na turma, Mendonça mirou a aprovação da opinião pública ao divulgar, pouco antes do julgamento, novas provas da investigação que reforçavam a necessidade de manter o pai e o primo de Vorcaro atrás das grades.

Ou seja: o ministro está disposto a incomodar colegas do STF e a classe política em meio ao período eleitoral. A recusa à delação de Vorcaro fez Brasília respirar aliviada por apenas um dia. O clima tenso voltou a assombrar os três Poderes a partir do julgamento de terça-feira.

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COPOM SEGUE EXPECTATIVA

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

Por decisão unânime, o Copom cortou os juros básicos (Selic) em 0,25 ponto porcentual, para 14,25% ao ano. Confirmou, assim, as previsões dos analistas.

Desta vez, a sintonia com o mercado pode ter sido a principal razão desse corte. Esta diretoria do Banco Central (BC) já deu sinais de que não só procura formar as expectativas, como também, em caso de alguma falta de clareza, costuma segui-las.

O dado mais importante é o de que a inflação voltou a dar seus pinotes. Os números de maio mostraram que, no período de 12 meses, a inflação saltou para 4,72%, acima do teto da meta, que é 4,5%. Foi o suficiente para que o mercado, sondado pela Pesquisa Focus, projetasse a inflação do ano para 5,3%. É indicação de que o BC teria de acionar sua política de juros para voltar a conduzir a inflação para a meta.

Isso não é tudo. É preciso saber quais forças vêm empurrando a inflação para cima. Dois são seus principais fatores. Há a alavanca de custos, que tem a ver com a alta do petróleo e de insumos de produção provocada pela Guerra do Irã. Se o acordo entre Estados Unidos e Irã está para reabrir imediatamente o Estreito de Ormuz, então, por esse lado, a inflação perderá boa parte de sua força.

A outra alavanca da inflação tem natureza de demanda. É aumento do consumo em ritmo superior à capacidade de oferta, acionado pela brutal gastança do governo, que injeta recursos na economia destinados a azeitar o consumo e, com ele, a boa vontade do eleitor. Os números mostram forte alta dos serviços e um mercado de trabalho apertado por escassez de mão de obra em setores chave da economia.

Além de turbinar o rombo fiscal e a dívida pública, esse despejo de moeda na economia pelo governo federal trabalha contra o BC, que se empenha em retirar dinheiro da economia por meio de sua política monetária. O comunicado divulgado logo após a reunião do Copom é, como sempre, discreto sobre esse jogo contra, mas suficientemente enfático ao denunciar essas pressões fiscais.

Os diretores do Copom não ousaram antecipar os próximos passos, porque o nível de incerteza continua alto. Não há segurança de que as hostilidades no Oriente Médio terminarão. O governo de Israel vem demonstrando insatisfação com esse acordo e poderá aumentar os ataques ao Líbano, com objetivo de neutralizar o Hezbollah, força por meio da qual o Irã vem terceirizando sua guerra contra Israel.

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PARTIDOS PEDEM MANUTENÇÃO DE TETO DE GASTOS NAS ELEIÇÕES

Andrea Jubé, Valor Econômico

Presidentes dos principais partidos políticos se uniram para encaminhar ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) um pedido para que o teto de gastos com as campanhas eleitorais não seja reajustado neste ano. Não prosperou, entretanto, o movimento de algumas siglas para tentar reservar um volume maior de recursos para as candidaturas de deputados federais, estaduais e distritais.

Cabe à corte eleitoral editar uma resolução estabelecendo os limites das despesas dos candidatos nas eleições, e a expectativa é de que o presidente do TSE, Kassio Nunes Marques, acolha a reivindicação dos dirigentes. Procurado pelo Valor, o ministro respondeu, por meio da assessoria, que recebeu o pleito das legendas, mas que o mesmo ainda está sendo analisado.

De acordo com dirigentes ouvidos pelo Valor, há uma preocupação com o encarecimento das campanhas, em contraponto aos recursos disponíveis. Sob pressão da opinião pública, o Congresso destinou ao fundo eleitoral, no Orçamento de 2026, o mesmo valor de R$ 4,9 bilhões fixado para o pleito de 2022, sem correção pela inflação ou outro índice. Partidos com as maiores bancadas recebem as maiores fatias do fundo. Os três principais beneficiados entre 30 legendas são o PL com R$ 881 milhões; o PT com R$ 615 milhões; e o União Brasil com R$ 526 milhões.

No entanto, em 2022, o TSE decidiu que o teto de gastos das campanhas seria o mesmo de 2018, porém, atualizado pela inflação do período. Desde a proibição do financiamento privado das campanhas, os candidatos se valem de recursos públicos para arcar com as despesas da corrida pelos votos, que podem sair do fundo eleitoral, do fundo partidário, de recursos próprios ou doações de pessoas físicas.

Em conversas privadas, entretanto, candidatos queixam-se da limitação de recursos e da elevação dos gastos. Por exemplo, as campanhas de deputados federais, que têm o mesmo limite em todo o país, foram fixadas em até R$ 2,5 milhões em 2018. Com a atualização desse valor pelo IPCA, esse limite subiu para até R$ 3,1 milhões em 2022. Na prática, contudo, apenas candidatos selecionados pelas cúpulas partidárias, com maiores chances de vitória - como os que disputam a reeleição -, recebem das legendas o teto de gastos.

TSE editará resolução estabelecendo limites das despesas dos candidatos

A campanha para presidente da República também ficou mais cara de 2018 para 2022, com o limite de despesas atualizado de R$ 105 milhões para até R$ 133,3 milhões - considerados os gastos no primeiro e no segundo turnos. As candidaturas para os governos estaduais e para o Senado têm os valores estabelecidos proporcionalmente à população. Dessa forma, o postulante ao governo de São Paulo poderá gastar até R$ 26,6 milhões nos dois turnos, considerados os valores de 2022; já o candidato ao governo do Distrito Federal obedecerá ao teto de R$ 10,6 milhões (em dois turnos).

Não houve consenso entre os dirigentes sobre o pleito de postulantes às vagas proporcionais (deputados federais, estaduais e distritais) por mudanças na fórmula de distribuição dos recursos entre os candidatos de cada sigla. Há queixas de que, depois da dedução dos valores que são reservados às candidaturas de mulheres, negros e pardos, aqueles que vão concorrer para governador, senador ou a presidente ficam com uma parcela muito maior do total remanescente do que os candidatos ao Legislativo. Pela lei, no mínimo 30% dos recursos do fundo eleitoral devem ser repassados às candidaturas femininas, e 30% se destinam aos candidatos negros e pardos.

Na quarta-feira (17), Nunes Marques se reuniu com presidentes de partidos, que assinaram um pacto para garantir a integridade das eleições deste ano. O documento contempla medidas para ampliar o diálogo e a cooperação entre a Justiça Eleitoral e os partidos. O texto enumera ações contra a desinformação, o uso responsável da inteligência artificial (IA) e fortalecimento da confiança nas eleições. A assessoria do TSE ressaltou que o pleito para não elevar os tetos das campanhas é anterior, e não foi debatido nesse encontro.

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O PREÇO DA DESGLOBALIZAÇÃO E O CUSTO PARA O BRASIL

Eduardo Belo, Valor Econômico

Nos EUA, trabalhadores já sentem efeito de salários menores

A fragmentação do sistema financeiro global é tema do relatório “Deepening Divides”, publicado no início de junho pelo Fórum Econômico Mundial (WEF, em inglês) em parceria com a consultoria Oliver Wyman. A fragmentação se traduz em tarifas, restrições a investimentos, controles de exportação e medidas de retaliação entre países.

Para além das implicações na economia mundial, o relatório traz algumas considerações sobre o Brasil, especialmente no que trata da guerra comercial travada pelos Estados Unidos contra praticamente o mundo inteiro pela via do tarifaço e pela expansão do protecionismo.

O esforço brasileiro de se manter aberto a parcerias comerciais e de investimento está contemplado no relatório. O texto classifica o Brasil como país “Neutro”. O texto divide outras economias entre “Ocidente” (EUA, UE, Canadá e Reino Unido, além dos orientais Japão, Coreia do Sul e Austrália) e “Oriente” (China e Rússia). Índia, Indonésia, México, Taiwan e Turquia acompanham o Brasil no bloco “Neutro”.

Neutralidade parece ser um posicionamento bom, mas não é bem assim. Há riscos. Países neutros são mais dependentes economicamente do comércio e, em caso de mais recrudescimento do protecionismo, sofreriam com a perda de exportações - mesmo que a queda das importações fosse equivalente.

O relatório aponta Índia e Brasil como as duas economias mais sujeitas a queda no PIB em caso de maior fragmentação do comércio e das finanças. A projeção indica que no cenário de “fragmentação muito alta - desacoplamento total”, o grupo “Neutro” pode enfrentar uma queda de 10,7 pontos percentuais no PIB, em contraste com um crescimento médio mundial de 6,4 pontos em um período não especificado.

O modelo criado pelo WEF e pela consultoria indica que, nos cenários de alta e muito alta fragmentação, países Neutros alinhados ao Ocidente ampliariam suas trocas com o Oriente. A situação sugere certa pressão para o Brasil para “escolher” um lado - EUA ou China -, atitude incoerente com o comportamento histórico da diplomacia brasileira, pautada pela autonomia e diversificação.

Há saídas, claro. Uma delas, no caso brasileiro, é o acordo entre União Europeia e Mercosul, em implementação provisória. Abre a perspectiva de novo dinamismo comercial, capaz de suprir pelo menos em parte as perdas com as barreiras americanas. Diante da fragmentação do multilateralismo, esse tipo de acordo funciona como um antídoto, defende o relatório.

Outra oportunidade, diz o texto, está na defesa aberta do multilateralismo e da possibilidade de trocas comerciais em moedas locais, sem a necessidade de intermediação do dólar. São alternativas que incomodam o governo Donald Trump, mas que podem ganhar adesões em caso de escalada do protecionismo.

O relatório do WEF e da Oliver Wyman lembra que o protecionismo sempre esteve presente. A diferença, agora, está na dose. Quando Trump começou a sinalizar que adotaria tarifas para fortalecer a economia americana, havia uma expectativa de que o golpe se restringiria aos rivais geopolíticos e a países não alinhados. Mesmo com o ajuste das expectativas à medida que novas declarações vinham à luz às vésperas do chamado Dia da Libertação, a intensidade e o alcance das sobretaxas surpreendeu, diz o texto.

Aliados e alinhados não foram poupados. Alguns muito colaborativos com Washington, como a Índia, foram atingidos em cheio. Sócios em acordos comerciais - Canadá e México - também não escaparam.

O principal conteúdo do relatório faz menção ao sistema financeiro. A tese é que ele nunca foi tão interconectado e ao mesmo tempo tão exposto a uma ruptura geopolítica.

Paradoxalmente, 2025 foi um ano de recordes para o comércio e para o crédito bancário internacional. Remessas de divisas tiveram seus maiores volumes da história. Os títulos do Tesouro americano em posse de não residentes nos Estados alcançaram o pico. Do mesmo modo, a fragmentação também chegou a níveis inéditos.

Segundo o documento, a fragmentação já está custando à economia global entre US$ 213 bilhões e US$ 307 bilhões por ano - o tamanho do PIB do Chile ou da Finlândia -, além de adicionar 0,2 a 0,3 ponto percentual à inflação global.

O relatório enxerga as seguintes situações: 1) Tarifas elevadas encarecendo o comércio. As transações diminuem e se redirecionam para rotas menos eficientes. 2) Restrições a investimentos via barreiras regulatórias. O custo do capital aumenta e inibe investimentos produtivos. 3) Incerteza e imprevisibilidade. Empresas não conseguem planejar operações no exterior. A tendência é cortar investimento e empregar menos. 4) Redundância em cadeias de suprimento. Para se proteger de eventuais falhas de abastecimento, corporações se obrigam a manter relações com grupos de fornecedores diferentes, de regiões distintas.

Esse conjunto resulta em 0,2 a 0,3 ponto percentual a mais na inflação global, estima o levantamento. O texto diz que efeitos já são visíveis nos Estados Unidos, com salários reais 0,33% menores para trabalhadores de baixa qualificação, 0,49% mais baixos para os de qualificação média e 0,66% inferiores na alta qualificação.

E o cenário pode piorar. O relatório alerta: as perdas globais poderiam chegar a US$ 6,9 trilhões se a escalada persistir. O número é maior que o PIB de praticamente todas as economias - cerca de 200 países -, com exceção de Estados Unidos e China. É o custo da desglobalização.

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REPRISES DAS NULIDADES NO MASTER TERÁ RESISTÊNCIA

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Processo mais cauteloso, robustez de provas e plateia vacinada contra conchavos diferencia inquérito daquele da Lavajato

Cotejadas, as duas sessões ocorridas em lados opostos na Praça dos Três Poderes, na tarde desta terça, antecipam os desdobramentos daquele que o relator denominou de maior escândalo financeiro da história do país. A insistência com a qual, tanto na Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal quanto no plenário do Senado, se fizeram remissões entre a Lava-Jato e o Master demonstra o tamanho da aposta na repetição das nulidades, a começar por aqueles que foram alavancados na vida pública pelo lavajatismo.

Abalroado por uma reportagem da Veja, que o coloca no centro de uma suposta delação de Daniel Vorcaro, o presidente do Senado promoveu uma sessão pública destinada ao desagravo a si mesmo. Davi Alcolumbre (União-AP), que estreou no comando da Mesa surfando o lavajatismo bolsonarista, agora é atropelado pelas investigações do Master.

Seu principal aliado na Casa, o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), foi o primeiro a atribuir as acusações à coação de “gangsters” que negociam eventual delação. O senador Jaques Wagner (PT-BA), que chefiava a Casa Civil do governo derrubado por não ter contido a Lava-Jato, foi além. Citado pela revista, o líder do governo no Congresso amaldiçoou o legado de Dilma Rousseff na proposição da lei da delação.

O uso mais recente da Veja para melar uma delação, porém, não foi na Lava-Jato mas no inquérito golpista. O “desabafo” do então ajudante de ordens do ex-presidente Jair Bolsonaro, Mauro Cid, sobre as condições em que havia fechado a delação levaram o relator daquele inquérito, ministro Alexandre de Moraes, a convocar Cid para uma reinquirição de três horas.

A amnésia sobre o peso do instituto da delação no inquérito do golpismo também atingiu a sessão que se desenrolava do outro lado da praça. Ao liberar o julgamento da vista e proferir seu voto sobre a ação que pedia a prisão domiciliar para Henrique e Felipe Vorcaro, pai e primo do banqueiro, o presidente da Turma, ministro Gilmar Mendes também focou na associação entre Master e Lava-Jato.

Empilhou as expressões das quais se vale há cinco anos para desqualificar a mesma operação que foi avalizada pela Corte também por cinco anos até o vazamento do conluio entre procuradoria e justiça federal em Curitiba na produção de provas: “circo midiático”, “cerceamento do direito de defesa”, “juízes que se comportam como delegados de polícia”, “práticas ilícitas para forçar delação premiada”. Omitiu, por óbvio, a mais simbólica das decisões daquela operação, o impedimento da posse do atual presidente na Casa Civil de Dilma com base num monitoramento ilegal.

A principal arma do relator para manter a prisão preventiva foi a liberação, horas antes da sessão, de relatórios da Polícia Federal que revelaram a atuação de ambos os presos na obstrução de justiça e compra de testemunha, além dos indícios de que comandavam uma milícia que continuou a agir depois da prisão de Vorcaro na ocultação de patrimônio e consecução de ameaças tendo em sua posse um arsenal que incluía até fuzis.

A defesa - e o decano - alegaram que aquelas provas haviam sido incluídas nos autos na última hora, impedindo sua contestação. Foi no inquérito do golpe que o volume de 70 terabytes foi aludido, pelo ministro Luiz Fux, como impedimento para o pleno acesso aos arquivos probatórios.

O ministro relator foi além. Desmontou a principal tese do decano, de que estaria a forçar uma delação. Contou da “delação seletiva” que lhe foi candidamente oferecida por um advogado e disse que se fiaria nas investigações, que ainda estavam longe de esgotar o pleno acesso às provas, como o celular de Felipe Mourão, o assessor de Vorcaro que se matou na PF de Curitiba. Na véspera, a PGR havia seguido a PF e recusado a segunda proposta de delação. Se duas versões da delação são indício de que se está a forçá-la, o que dizer das oito que foram tentadas por Mauro Cid até que a nona engatasse?

O que André Mendonça fez na largada, ao contrário do relator da Lava-Jato, o ministro Edson Fachin, foi apontar o dedo para o que começava a ser delineado ali: “Não vou admitir tentativas de desacreditar de forma indevida minha atuação e a dos investigadores. Há setores que atuam para criar vício. Há um sistema articulado para isso. Não sou cego”. A presença de Mendonça na Marcha para Jesus e a eleição para o Senado, onde a bancada anti-STF deve aumentar, sugerem que o relator contará com a plateia para ouvir o decano fazer o bis: “O ministro-presidente da Turma restou vencido”.

A paciência de Mendonça em esperar as provas da investigação terá, por óbvio, vida mais longa do que a de Vorcaro com o isolamento na prisão e o avanço dos investigadores à revelia de sua colaboração.

A demora parece ter como beneficiário o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Na eventualidade de ser reeleito, Lula precisará mais dos resultados deste inquérito no início de seu quarto mandato do que durante campanha eleitoral. A chave do cofre hoje lhe preserva poder. No início de um próximo governo, ainda terá chave mas lhe faltará cofre, visto que o Congresso irá com tudo pra cima da encruzilhada fiscal.

Um inquérito com provas robustas contra peças-chave do Centrão pode vir a equilibrar o jogo. Na contramão das apostas do decano e até de aliados no Congresso governistas, não é a maior vítima da Lava-Jato, mas aqueles que dela escaparam e se beneficiaram que podem ser alvejados.

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CICLOS POLÍTICOS ELEITORAIS NO BRASIL

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O episódio do G7 talvez seja apenas o primeiro capítulo de uma campanha eleitoral em que Washington terá presença muito maior do que em pleitos anteriores

O choque político e ideológico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no contexto das eleições brasileiras, estava escrito nas estrelas. Não é um episódio isolado, provocado apenas pelas recentes declarações de Trump sobre a política brasileira ou pela reação de Lula durante a reunião do G7. O conflito tem raízes mais profundas: a estreita ligação política e ideológica entre o bolsonarismo e a atual administração republicana, o novo posicionamento internacional do Brasil sob o governo Lula e a própria complexidade histórica das relações entre Brasília e Washington. A disputa pode reavivar uma polarização que marcou a vida política nacional nas décadas de 1950 e 1960: o confronto entre nacionalistas e “entreguistas”, sob novas circunstâncias e narrativas.

As declarações de Trump na França, ao comentar a situação política brasileira e manifestar simpatia pelos Bolsonaro, não surgiram do nada. O presidente norte-americano tem afinidade política com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos desde seu primeiro mandato. Essa proximidade foi reforçada pela atuação internacional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula nas eleições, e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro junto aos círculos conservadores norte-americanos. Ele se autoexilou e se coloca como vítima de perseguição, o que aparentemente foi corroborado por sua condenação a quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto por “coação” da Justiça. O elo mais importante dessa conexão é o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

Figura central da política externa do governo Trump, Rubio compartilha com o bolsonarismo não apenas uma visão conservadora dos costumes, mas também uma visão geopolítica marcada pela oposição à China, pela crítica aos governos de esquerda latino-americanos e pela defesa de um alinhamento preferencial com Washington. A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado, a pressão tarifária sobre produtos brasileiros e as críticas dirigidas às instituições brasileiras refletem essa convergência entre setores do governo Trump e a oposição bolsonarista.

Ao reagir, Lula não fez apenas a defesa das instituições brasileiras. Reafirmou uma concepção tradicional da política externa brasileira baseada na soberania nacional e na não intervenção nos assuntos internos dos Estados. Ao dizer a Trump que não se meta nas eleições brasileiras, o presidente procurou estabelecer um limite diplomático que remete à tradição do Itamaraty desde o Barão do Rio Branco. O problema é que a relação entre Brasil e Estados Unidos sempre foi complexa. É tecida por interesses econômicos, afinidades culturais e disputas geopolíticas que remontam ao século XIX.

Cosmopolitismo

Maior país da América do Sul, sempre houve uma combinação contraditória de cooperação e tensão com Washington. Houve momentos de estreita convergência, como na Primeira República, no governo Dutra e nos primeiros anos do regime militar. Mas também períodos de atrito, como durante os governos de Getúlio Vargas e João Goulart. Agora, o contexto é mais complexo. Embora os Estados Unidos continuem sendo uma referência econômica, tecnológica e cultural para a sociedade brasileira, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil.

O governo Lula aposta numa política externa de múltiplos alinhamentos, fortalecendo relações com os países do Brics, ampliando laços com Pequim e defendendo uma ordem internacional multipolar. Essa estratégia colide frontalmente com a visão geopolítica de Trump e Rubio, para os quais a contenção da influência chinesa constitui prioridade absoluta. Nesse cenário, era inevitável que a política externa ganhasse densidade no embate eleitoral. O bolsonarismo busca apresentar Lula como representante de um projeto alinhado à China. O lulismo, por sua vez, acusa o bolsonarismo de ter complexo de vira-latas e subordinar os interesses nacionais aos interesses norte-americanos. O episódio do G7 talvez seja apenas o primeiro capítulo de uma campanha eleitoral em que Washington terá presença muito maior do que em eleições anteriores.

Essa tensão não é nova. Remete-nos ao velho debate que dividiu o Brasil durante a industrialização do pós-guerra. De um lado, os nacionalistas, defensores do desenvolvimento autônomo, da proteção da indústria nacional, da soberania sobre recursos estratégicos e de uma política externa independente. De outro, os chamados “entreguistas”, acusados de favorecer interesses estrangeiros em detrimento de um projeto nacional de desenvolvimento.

Celso Furtado e outros economistas defenderam a necessidade de um desenvolvimento apoiado na inovação tecnológica e na redução da dependência externa. Em sentido oposto, setores liberais e conservadores apostavam numa integração mais estreita ao capitalismo internacional liderado pelos Estados Unidos. A disputa marcou os governos Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart e foi um dos componentes da crise política que desembocou no golpe de Estado de 1964.

Entretanto, o mundo é outro. A economia brasileira foi globalizada. Numa inversão de papéis, quem se opõe à globalização e adota uma política protecionistas são os Estados Unidos. Nossa economia está integrada às cadeias globais, o agronegócio exporta principalmente para a China e a própria noção de soberania nacional ganhou novos contornos diante da revolução tecnológica e do nosso cosmopolitismo. No entanto, a essência do conflito permanece: qual é o lugar do Brasil no mundo? Um país capaz de formular seu próprio projeto de desenvolvimento ou uma nação dependente das decisões tomadas pelas grandes potências?

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SEM QUERER, QUERENDO, BANCO CENTRAL NÃO DIZ O QUE VAI FAZER DOS JUROS ALTOS

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Apesar de conjuntura e expectativas ruins para a inflação, BC corta Selic outra vez

Em texto nebuloso, BC parece indicar que IPCA pode estar na meta no início de 2028

Banco Central torturou o português para dizer que não dá para saber o que será da próxima reunião em que vai decidir o nível da Selic. Nesta quarta (17), cortou a taxa básica de juros de 14,5% para 14,25%, um quase nada no que diz respeito aos custos de financiamento na economia.

Quanto ao mais importante, o BC parecia querer criar névoa suficiente para ninguém achar que a Selic pode ficar na mesma na próxima reunião. Sem querer, querendo, também poderia estar dizendo que a Selic pode continuar caindo, pois pode ser que a inflação esteja na meta no início de 2028.

Mesmo essa dúvida não é a mais relevante para a economia, a não ser para quem negocia dinheiro a cada segundo. As taxas de juros para vários prazos já foram para a lua do vinagre —a Selic é taxa de curtíssimo prazo.

No comunicado em que o BC divulga suas decisões sobre a Selic há sempre breve exposição de motivos e análise sumária da conjuntura. A conjuntura vai bem mal, diz o BC, no que diz respeito a preços: economia mais aquecida, inflação corrente e esperada cada vez mais alta, projeção de IPCA em 3,7% no final de 2027, para uma meta de 3%.

A tradicional lista de ameaças de inflação ("balanço de riscos") estava gorda e longa: efeito persistente da alta do petróleo; risco de o El Niño afetar preço de alimentos e de eletricidade; serviços caros por causa de economia crescendo ainda mais acima do potencial; real mais desvalorizado por causa de política econômica no Brasil (mais gasto e crédito do governo) e nos EUA.

"O cenário segue sendo marcado por expectativas desancoradas, projeções de inflação elevadas, e pressões no mercado de trabalho", diz o pessoal.

E daí? O BC cortou um pouco e deixou até a porta aberta para mais um corte na próxima reunião do Copom. Depende dos dados que virão: "... a magnitude total do ciclo de calibração será estabelecida à luz de novas informações visando assegurar a convergência da inflação à meta".

O texto hieroglífico parece dizer que ao não cortar a Selic poderia derrubar a inflação para baixo da meta no início de 2028, o novo "horizonte relevante" do BC (o momento em que a política monetária, de juros, tende a fazer efeito maior). Logo, o IPCA a 3,7% de fins de 2027 projetado pelo modelo do BC não seria assim de causar tanta preocupação.

Essa conversa pode levar o pessoal que negocia dinheiro, "o mercado" de títulos, a derrubar taxas de curto prazo ("BC está mais bonzinho, dovish") e manter na estratosfera as taxas para prazos mais longos. Isto é, continuariam a carestia de crédito e a agonia do custo de financiar a dívida pública e empresas.

Decerto o BC é "passageiro da agonia" nessa história —a não ser que faça também barbeiragem. O crédito extra e subsidiado de Lula 3 evita desaquecimento maior da economia. O choque da guerra vai demorar para passar. Os juros nos EUA ficarão mais altos. Há risco de El Niño ruim.

Enfim, seja lá quem esteja para ganhar a eleição, não se sabe se vai haver programa econômico que lide com o nó econômico rudimentar do país. O assunto fiscal, a dívida pública que cresce sem limite, voltou a pesar nas decisões no mercado quanto a juros e câmbio assim que passou a boa vontade dos "estrangeiros" com o Brasil "queridinho", essa tolice cafona, "Ibovespa 200 mil".

Agora, resta a realidade de uma dívida que vai aumentar 13 pontos em relação ao PIB em quatro anos, anos de crescimento razoável. Um resultado assustador.

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DISPUTA ELEITORAL SE DÁ EM DESERTO DE IDEIAS

Maria Hermínia Tavares*, Folha de S. Paulo

Sem visão de futuro, pré-candidatos carecem de propostas inovadoras

A discussão programática faz diferença para a qualidade dos governos

A disputa presidencial rasteja em um verdadeiro Saara tropical.

Em entrevista a Pedro Doria, do Canal Meio, questionado qual político lhe servia de inspiração, o ex-governador Ratinho Jr, então pré-candidato à Presidência, citou ninguém menos que dom Pedro 2º (!).

Ronaldo Caiado, pretendente ao Palácio do Planalto pelo PSD, embora sua carreira política remonte aos anos 1980, com passagens pelas duas Casas do Congresso, só consegue falar de Goiás, que governou por dois mandatos.

O mineiro Romeu Zema, talvez por não se dar propriamente bem com o idioma, até agora foi incapaz de articular qualquer proposta que justifique sua ambição presidencial.

Tampouco é possível encontrar alguma pista do que pretende Flávio Bolsonaro, hoje o principal adversário do presidente Lula no campo das direitas. Dele, até recentemente, sabia-se apenas que, se eleito, livrará o pai da cadeia e se alinhará incondicionalmente aos EUA de Donald Trump. Agora fomos informados de sua opinião positiva sobre o Bolsa Família, que considera um "direito adquirido" que promete respeitar e ampliar —mais ou menos o equivalente a se proclamar corajoso defensor do salário mínimo: não propriamente uma promessa inovadora, para dizer... o mínimo.

Já o pré-candidato à reeleição parece se contentar em exibir o que já foi feito no atual mandato —incluídas as mais recentes iniciativas acondicionadas como pacote eleitoral—, bem como no passado mais distante. Aposta também no medo que se há de ter da ameaça à democracia e ao convívio civilizado que a candidatura de um Bolsonaro inevitavelmente carrega.

Falta-lhe, porém, uma visão de futuro; dos rumos desejados para o país; dos trunfos disponíveis; e dos obstáculos a vencer. Carece de propostas sobre como tratar a delicada situação fiscal; como avançar na segurança; como lidar com os gargalos do SUS e da Previdência Social; como superar os medíocres resultados na educação; como adequar a proteção social e as normas da CLT ao novo mercado de trabalho; que escolhas energéticas fazer; que rumos dar para a amazônia e como se preparar para as catástrofes climáticas; como aumentar a conectividade no país e como incorporar as novas tecnologias baseadas em inteligência artificial para aumentar a eficiência da administração pública.

Para o eleitor com preferências intensas, ser apaixonadamente a favor de um candidato ou visceralmente contra outro basta para definir o voto. Pesquisas indicam que, juntos, lulistas e bolsonaristas empedernidos equivalem a 2/3 dos votantes. O terço restante precisa ser conquistado principalmente pela emoção, ou, em menor medida, pela razão.

Sim, eleições se disputam com slogans e mensagens concisas; com imagens fortes, não com policy papers. Mas também configuram oportunidades para que, em paralelo à disputa por votos nos palanques, redes sociais, rádio e TV, intelectuais e think tanks ligados a partidos ou candidatos os municiem com ideias novas.

Que isso aconteça não é inevitável, nem indispensável para garantir a vitória a este ou àquele. Mas a discussão programática faz diferença para a qualidade dos governos e a produção de convergências sem as quais não se vai a parte alguma.

*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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INTERPRETAÇÃO ATRAPALHA

Merval Pereira, O Globo

Divergências entre ministros, do STF, além de patéticas, ficam cada dia mais expressivas à medida que temas delicados, como o caso Master, entram na pauta

O excesso de subjetividades e interpretações constitucionais pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em suas decisões faz com que seus votos sejam com muita frequência incongruentes com a jurisprudência da própria Corte ou com decisões dos próprios magistrados. Houve um debate recente entre os ministros Dias Toffoli e André Mendonça em que o primeiro acusava seu colega de ter atribuído a ele, relator do caso, uma decisão que dizia não ter tomado. “O senhor está colocando no meu relatório palavras que eu nunca disse”, reclamou Toffoli. Mendonça rebateu: “Não estou não, estou lendo aqui”. Disse estar interpretando o voto. Toffoli reclamou que o voto era dele, e não fora aquilo que decidira. E fechou o debate: “Vossa Excelência interpreta meu voto, e eu interpreto o seu”.

Essas divergências entre ministros, além de patéticas, ficam cada dia mais expressivas à medida que temas delicados, como o caso Master, entram na pauta. Na reunião de terça-feira, na decisão da Segunda Turma sobre a prisão preventiva do pai do ex-banqueiro Daniel Vorcaro e alguns de seus parentes, o ministro Gilmar Mendes sugeriu que Mendonça suspendera o sigilo da parte do processo que tratava do caso para constranger quem discordava dela.

Gilmar foi o único que votou pela prisão domiciliar, fazendo críticas à preventiva, vista por ele como maneira de forçar Vorcaro à delação premiada. Como sempre, referiu-se à Operação Lava-Jato, afirmando que os métodos foram os mesmos usados agora no caso Master. O interessante é que Gilmar foi um apoiador da Lava-Jato por anos a fio. Chegou até a chamar o governo do PT de cleptocracia e, didaticamente, fez contas para dizer que o PT amealhara tanto dinheiro que ficaria no poder por muitos e muitos anos.

Foi ele, aliás, quem apoiou uma das decisões do então juiz Sergio Moro mais criticadas: divulgar uma gravação de conversa entre a então presidente Dilma Rousseff e o então ex-presidente Lula, em que ela informava enviar pelo “Bessias” uma nomeação que deveria ser usada em caso de tentativa de prisão. “Bessias” era o atual chefe da Advocacia-Geral da União, Jorge Messias, rejeitado para o STF. Gilmar impediu que Lula fosse nomeado ministro da Casa Civil, para alegria dos “lavajatistas”, não levando em conta até que a gravação fora feita fora do prazo legal permitido.

“Lavajatistas”, aliás, é um termo depreciativo que Gilmar usa para criticar os que apoiaram — e ainda apoiam — a Lava-Jato. Ele também achou estranho que seu colega Mendonça tivesse revelado ter sido procurado por um advogado propondo uma delação premiada “seletiva” de Vorcaro. Mendonça disse que não aceitaria uma delação desse tipo, e Gilmar, em tom irônico, lembrou que o ministro-relator não tem esse poder, pois só a Polícia Federal e a Procuradoria-Geral da República podem decidir sobre delações. Mendonça rebateu: “Mas eu homologo”. Cabe ao relator verificar se o acordo atende aos requisitos de legalidade, regularidade e voluntariedade. Se entender que há ilegalidades, vícios, falta de espontaneidade ou cláusulas incompatíveis com a lei, pode recusar a homologação ou determinar ajustes.

Mendonça foi além mais alguns passos, afirmando que notava em certas movimentações que procuram plantar vícios no processo, insinuando que as acusações de “prisões alongadas” e outras são feitas para conseguir anular o processo, como na Lava-Jato, em que todos os culpados foram liberados e as condenações anuladas. Mendonça garantiu que, com ele na relatoria, não acontecerá a mesma coisa com o caso Master.

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A DOENÇA DO NEGACIONISMO

Cida Barbosa, Correio Braziliense

O estágio atual de enfrentamento às doenças é resultado de décadas de exaustivo trabalho. Só não conseguimos ainda o antídoto contra o negacionismo que tenta minar essa evolução

Há poucos dias, apareceu para mim uma postagem ligando vacinas à destruição do sistema imunológico. Em três ou quatro frases — com a imagem de um pseudoespecialista —, a mensagem sustentava que imunizantes fazem mal à humanidade. Lamentavelmente, alguém que está na minha rede social concordou com essa sandice, com essa irresponsabilidade criminosa e resolveu compartilhar.

É revoltante que um conteúdo danoso assim possa ser disseminado em plataformas digitais, com potencial imenso de alcance —  porque, quando se trata de mentiras, a propagação é assustadoramente ampla e veloz. Esse negacionismo de grupos antivacina pode ter consequências devastadoras, com capacidade de influenciar o retorno ou o aumento de doenças evitáveis.

Na definição da Academia Brasileira de Letras, negacionismo é "atitude tendenciosa que consiste na recusa a aceitar a existência, a validade ou a verdade de algo, como eventos históricos ou fatos científicos, apesar das evidências ou argumentos que o comprovam".

E as evidências mostram que, graças aos espetaculares avanços da ciência no desenvolvimento e na produção de vacinas, podemos viver mais e melhor, porque estamos blindados contra uma série de enfermidades.

Um estudo publicado pela revista científica The Lancet, em 2024, mostrou que, nas últimas cinco décadas, os esforços globais de vacinação salvaram cerca de 154 milhões de pessoas — o equivalente a seis vidas a cada minuto. A grande maioria foi de crianças: 101 milhões.  

O estudo, liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), apontou que o imunizante contra o sarampo, por exemplo, teve o impacto mais significativo na redução da mortalidade infantil: responsável por 60% das vidas salvas. Também destacou que, por meio da vacinação contra a poliomielite, mais de 20 milhões de pessoas, que teriam sofrido paralisia, hoje podem andar.

Há que se ressaltar que o levantamento cobre o impacto da vacinação contra 14 doenças, mas existem imunizantes para mais de 30 enfermidades letais, ou seja, a quantidade de vidas salvas certamente foi muito maior.

Vacinas são uma conquista formidável da humanidade. Eliminam ou reduzem o risco de contrair doenças perigosas ou de evoluir para quadros graves. E, aqui no Brasil, a proteção é gratuita, acessível a todos. 

O estágio atual de enfrentamento às doenças é resultado de décadas de exaustivo trabalho. E com pesquisas e investimentos, a ciência continuará na batalha para debelar males que ameaçam a humanidade. Só não conseguimos ainda o antídoto contra o negacionismo que tenta minar essa evolução.

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TRUMP VOLTA A CRITICAR O BRASIL, E LULA PEDE QUE NÃO SE META NAS ELEIÇÕES

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O episódio do G7 talvez seja apenas o primeiro capítulo de uma campanha eleitoral em que Washington terá presença muito maior do que em pleitos anteriores

O choque político e ideológico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no contexto das eleições brasileiras, estava escrito nas estrelas. Não é um episódio isolado, provocado apenas pelas recentes declarações de Trump sobre a política brasileira ou pela reação de Lula durante a reunião do G7. O conflito tem raízes mais profundas: a estreita ligação política e ideológica entre o bolsonarismo e a atual administração republicana, o novo posicionamento internacional do Brasil sob o governo Lula e a própria complexidade histórica das relações entre Brasília e Washington. A disputa pode reavivar uma polarização que marcou a vida política nacional nas décadas de 1950 e 1960: o confronto entre nacionalistas e "entreguistas", sob novas circunstâncias e narrativas.

As declarações de Trump na França, ao comentar a situação política brasileira e manifestar simpatia pelos Bolsonaro, não surgiram do nada. O presidente norte-americano tem afinidade política com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos desde seu primeiro mandato. Essa proximidade foi reforçada pela atuação internacional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula nas eleições, e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro junto aos círculos conservadores norte-americanos. Ele se autoexilou e se coloca como vítima de perseguição, o que aparentemente foi corroborado por sua condenação a quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto por "coação" da Justiça. O elo mais importante dessa conexão é o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

Figura central da política externa do governo Trump, Rubio compartilha com o bolsonarismo não apenas uma visão conservadora dos costumes, mas também uma visão geopolítica marcada pela oposição à China, pela crítica aos governos de esquerda latino-americanos e pela defesa de um alinhamento preferencial com Washington. A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado, a pressão tarifária sobre produtos brasileiros e as críticas dirigidas às instituições brasileiras refletem essa convergência entre setores do governo Trump e a oposição bolsonarista.

Ao reagir, Lula não fez apenas a defesa das instituições brasileiras. Reafirmou uma concepção tradicional da política externa brasileira baseada na soberania nacional e na não intervenção nos assuntos internos dos Estados. Ao dizer a Trump que não se meta nas eleições brasileiras, o presidente procurou estabelecer um limite diplomático que remete à tradição do Itamaraty desde o Barão do Rio Branco. O problema é que a relação entre Brasil e Estados Unidos sempre foi complexa. É tecida por interesses econômicos, afinidades culturais e disputas geopolíticas que remontam ao século XIX.

Cosmopolitismo

Maior país da América do Sul, sempre houve uma combinação contraditória de cooperação e tensão com Washington. Houve momentos de estreita convergência, como na Primeira República, no governo Dutra e nos primeiros anos do regime militar. Mas também períodos de atrito, como durante os governos de Getúlio Vargas e João Goulart. Agora, o contexto é mais complexo. Embora os Estados Unidos continuem sendo uma referência econômica, tecnológica e cultural para a sociedade brasileira, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil.

O governo Lula aposta numa política externa de múltiplos alinhamentos, fortalecendo relações com os países do Brics, ampliando laços com Pequim e defendendo uma ordem internacional multipolar. Essa estratégia colide frontalmente com a visão geopolítica de Trump e Rubio, para os quais a contenção da influência chinesa constitui prioridade absoluta. Nesse cenário, era inevitável que a política externa ganhasse densidade no embate eleitoral. O bolsonarismo busca apresentar Lula como representante de um projeto alinhado à China. O lulismo, por sua vez, acusa o bolsonarismo de ter complexo de vira-latas e subordinar os interesses nacionais aos interesses norte-americanos. O episódio do G7 talvez seja apenas o primeiro capítulo de uma campanha eleitoral em que Washington terá presença muito maior do que em eleições anteriores.

Essa tensão não é nova. Remete-nos ao velho debate que dividiu o Brasil durante a industrialização do pós-guerra. De um lado, os nacionalistas, defensores do desenvolvimento autônomo, da proteção da indústria nacional, da soberania sobre recursos estratégicos e de uma política externa independente. De outro, os chamados "entreguistas", acusados de favorecer interesses estrangeiros em detrimento de um projeto nacional de desenvolvimento.

Celso Furtado e outros economistas defenderam a necessidade de um desenvolvimento apoiado na inovação tecnológica e na redução da dependência externa. Em sentido oposto, setores liberais e conservadores apostavam numa integração mais estreita ao capitalismo internacional liderado pelos Estados Unidos. A disputa marcou os governos Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart e foi um dos componentes da crise política que desembocou no golpe de Estado de 1964.

Entretanto, o mundo é outro. A economia brasileira foi globalizada. Numa inversão de papéis, quem se opõe à globalização e adota uma política protecionistas são os Estados Unidos. Nossa economia está integrada às cadeias globais, o agronegócio exporta principalmente para a China e a própria noção de soberania nacional ganhou novos contornos diante da revolução tecnológica e do nosso cosmopolitismo. No entanto, a essência do conflito permanece: qual é o lugar do Brasil no mundo? Um país capaz de formular seu próprio projeto de desenvolvimento ou uma nação dependente das decisões tomadas pelas grandes potências?

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BANCOS CENTRAIS, JUROS E GUERRA

Míriam Leitão, O Globo

A incerteza sobre os desdobramentos de um acordo no Oriente Médio e os efeitos do El Niño mantêm a economia em um cenário imprevisível

A economia apelidou de superquarta o dia em que Brasil e Estados Unidos decidem a taxa de juros. Engana-se quem pensa que o tema não tem emoção. Lá, na terra de Donald Trump, o novo presidente do Fed, Kevin Warsh, foi escolhido para baixar os juros. Teve que mantê-los e avisar que pode até subi-los no ano. Aqui, Gabriel Galípolo conduziu mais uma decisão unânime por um cortezinho, a terceira vez de uma queda de metade de meio ponto. De 0,25 em 0,25, a Selic foi para 14,25%. A guerra de Trump foi um tiro no pé dele e no nosso. Os juros poderiam ter caído muito mais este ano, não fosse o conflito no Oriente Médio.

Não há como negar o que o Banco Central escreveu no começo do comunicado: “O ambiente externo permanece incerto”. A grande dúvida era se o Copom daria algum sinal de interromper a redução dos juros. Não fez isso, mas também não se comprometeu a continuar cortando. O que significa que a autoridade monetária se deixa livre para decidir em outra superquarta, daqui a 45 dias, se continua com essa queda a conta-gotas ou se para por aí, encerrando a pequena redução da taxa. O comunicado, sempre em linguagem sânscrita, avisou, ao cortar a taxa, que estava dando “sequência ao ciclo de calibração monetária”.

É difícil calibrar. O ano está imprevisível. Nos últimos dias, abriu-se uma fresta de esperança, pela chance de um acordo no Oriente Médio, e isso tem derrubado os preços do petróleo. Será que a comemoração é cedo demais? José Roberto Mendonça de Barros, da MB Associados, acha que sim.

— Os mercados, sempre eufóricos, estão derrubando demais o preço do petróleo no curto prazo por conta do acordo. Primeiro, porque é um acordo preliminar e tem uma longa duração à frente. Segundo, o mercado está subestimando o fato de que os estoques efetivos dos países consumidores estão baixos e a normalização vai levar tempo.

Se a guerra acabar, haverá um ambiente mais favorável na economia, mas a diferença não será tão grande, segundo José Roberto, porque com o aumento do uso do etanol e as medidas para mitigar a alta dos derivados do petróleo, o Brasil reduziu o impacto. Portanto, agora não teria muito a “devolver”.

As expectativas de inflação para este ano estão em 5,3%. Bem acima do teto da meta. Então por que baixar os juros com uma projeção tão alta? O economista Bráulio Borges, da LCA Consultores e pesquisador-associado do FGV Ibre, responde que é porque estão altos demais.

—A Selic está num nível muito restritivo. Basta pegar a conta do Banco Central de que os juros neutros (que não produzem inflação) é de 5% em termos reais. Com a inflação a 4%, dá uma Selic de 9%. O mercado que tem uma visão mais pessimista acha que juros neutros são de 6% a 6,5% o que daria uma Selic de 11%. Mesmo nas métricas mais pessimistas, ela está bastante restritiva.

O Banco Central tem que olhar a inflação do “horizonte relevante”. O número deste ano está dado. O que tem que trabalhar é a taxa daqui a 18 meses. E o BC mesmo diz no comunicado. “A projeção da inflação do Copom para o quarto trimestre de 2027, atual horizonte relevante de política monetária, situa-se em 3,7% no cenário de referência”.

O risco continua muito alto, avisa o comunicado. Há pouca certeza sobre o que vai acontecer com o choque externo. A chance de a tensão diminuir é porque Trump precisa de um fim de guerra para chamar de seu. Mesmo se o confronto der uma trégua, deve começar a pesar o efeito do El Niño. O economista Felippe Serigati, professor do FGVAgro diz que, independentemente das dúvidas sobre a intensidade, é certo que o fenômeno climático vai atingir algumas culturas brasileiras da safra de 2026/2027.

— O cerrado brasileiro é de longe a área mais sensível aos efeitos do El Niño e é justamente o principal celeiro. A região é uma das maiores produtoras de milho, soja, algodão e pecuária de corte. Uma eventual crise pode afetar os preços dos grãos e a pecuária. No Sul, o volume das chuvas pode prejudicar culturas como soja, milho e arroz. No Sudeste, o clima pode afetar café, cana-de-açúcar, laranja e feijão.

A guerra precisa acabar logo para que a normalização do fornecimento de fertilizantes ocorra até o começo de agosto, lembra José Roberto. Em outubro, o produto tem que estar distribuído para a próxima safra. Diante de tanta incerteza, o Banco Central abusou da palavra “cautela” no comunicado. Ele continuará indo bem devagar com esse andor.

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MARIA BETHÂNIA, 80 ANOS

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

MORRE BAPTISTA CHAGAS DE ALMEIDA

Alessandra Mello, Estado de Minas

Morre, aos 62 anos, o jornalista Baptista Chagas de Almeida

Ex-editor de Política do Estado de Minas foi um dos mais influentes colunistas de Minas Gerais

Faleceu nesta quarta-feira (17/6), aos 62 anos, em Belo Horizonte, Baptista José Patrus Chagas de Almeida, um dos mais importantes jornalistas da imprensa mineira, que construiu sua carreira nos Diários Associados, onde foi editor de Política no Estado de Minas, mantendo uma coluna diária. Atuou também como editor no “Correio Braziliense”.

Natural de Belo Horizonte e formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Baptista começou sua carreira como estagiário do Estado de Minas, aos 20 anos. Depois tornou-se repórter, editor-assistente, editor de Política e colunista, cargo que o projetou definitivamente no cenário da cobertura dos bastidores do poder, área em que deixou sua marca registrada.

Assinou durante cerca de três décadas a coluna “Em dia com a política”, na qual analisava os fatos mais importantes do poder em Minas e no Brasil, trazendo sempre informações exclusivas, com uma dose de humor e ironia.

Era conhecido entre os repórteres, principalmente pelos “focas”, termo usado para definir os iniciantes na profissão, pelas inúmeras fontes, informações exclusivas, texto impecável, memória excepcional, paixão pela literatura e pela música e gentileza no trato cotidiano.

Formou inúmeros profissionais, sempre com paciência e boas dicas, entre eles um de seus filhos, o jornalista João Henrique Almeida, que também trabalhou no Estado de Minas e hoje é repórter, comentarista e apresentador da rádio 98 FM.

Baptista era casado com a educadora Maria Angélica Almeida, com quem teve três filhos, Pedro Gabriel, Mateus e João Henrique, e quatro netos.

“Meu pai sempre foi uma pessoa que conquistava todos e de diferentes formas, por sua inteligência, educação, irreverência e lealdade. Deixa um legado gigantesco para a nossa família e amigos. Na profissão, foi e é exemplo para muitos jornalistas. Ainda é comum ouvir de colegas jornalistas a frase: ‘O Bapt é o melhor editor que já tive’. Concordo e completo: é o melhor pai e melhor amigo”, disse João Henrique Almeida.

“Baptista foi um dos profissionais mais brilhantes com quem já trabalhei. Sua força de trabalho era absurda. Sua dedicação, seu profissionalismo o fizeram um dos mais talentosos jornalistas da nossa geração. É uma perda enorme para o jornalismo mineiro”, afirmou Josemar Gimenez de Resende, presidente dos Diários Associados e diretor de Redação do Estado de Minas quando Baptista exerceu o cargo de editor de Política.

“Além das qualidades conhecidas por todos os profissionais com quem trabalhou, Baptista se destacava pelo tom de humor e de ironia que empregava para comentar os fatos, tornando a cobertura de política menos sisuda e mais atraente para o leitor”, lembrou o atual diretor de Redação do EM, Carlos Marcelo Carvalho, que também trabalhou com o jornalista. “Incansável. Admirável. Baptista foi um grande mestre na redação”, afirmou Renata Neves, editora-executiva do Estado de Minas.

Políticos

Para o deputado federal e ex-governador Aécio Neves (PSDB), Minas Gerais perdeu “um de seus mais bem informados jornalistas políticos”. “Durante anos, a coluna ‘Em dia com a política’, assinada por Baptista Chagas, que, mesmo na função de editor jamais deixou de ser exímio repórter, foi referência para quem buscava informação de qualidade e análises precisas da política nacional e em especial, de nosso estado. Perde o jornalismo mineiro e eu perco um amigo. Em meu nome e de minha família, deixo meu abraço solidário a seus familiares, colegas e amigos”, disse Aécio, também presidente nacional do PSDB.

O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) Alencar da Silveira Júnior, ex-deputado estadual, também lamentou a passagem do “repórter mais bem informado da imprensa mineira”. “A gente ficava em dia com a política mineira lendo sua coluna 'Em dia com a política'”, afirma o conselheiro, que foi vereador e deputado estadual durante 36 anos.

O também ex-deputado e conselheiro do TCE-MG Agostinho Patrus disse, por meio de nota, que “Baptista marcou época em Minas Gerais e em Brasília, com suas emblemáticas colunas políticas”. Segundo ele, Minas, o jornalismo brasileiro e a família Patrus “perdem hoje uma grande pessoa”. “Ele cativava fontes, escrevia com irreverência e conquistou gerações de leitores com seu talento. Um amigo para todas as horas. Seu legado permanecerá para sempre conosco”, disse o conselheiro, também primo do jornalista.

O ex-procurador de Justiça de Minas Gerais Jarbas Soares (PSB), pré-candidato ao governo de Minas, também lembrou a trajetória de Baptista e disse que ele marcou época no jornalismo mineiro. “Astuto, inteligente, responsável, bem informado, guardava ainda assim um toque de ironia, beirava a picardia. Era a forma sutil que tinha para criticar. Fui vítima da sua verve muitas vezes, mas sempre entendi como um recado de um bom jornalista, de alguém maior do que eu. Amadureci com isto”, afirmou.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Lina Rocha, destacou a trajetória do jornalista e lembrou que sempre lia suas colunas para se inteirar dos bastidores da política no estado. “Não o conheci pessoalmente, só pelas suas colunas sempre recheadas de informações exclusivas, mas sei que era admirado e muito querido pelos repórteres que trabalhavam com ele, prova inequívoca de que era um editor muito bom em todos os quesitos.”

A causa da morte não foi divulgada pela família. O velório está marcado para as 11h desta quinta-feira e o sepultamento, para as 15h no Cemitério Bosque da Esperança. 

DEPOIMENTOS

“Dono de uma memória fenomenal, Baptista Patrus Chagas de Almeida era capaz de ouvir uma fonte sem escrever uma única palavra e reproduzir o que lhe era dito com a maestria e fidelidade que o tornaram um dos maiores repórteres de política da sua geração. Reconhecido pelo mundo político de Minas Gerais, Baptista era habilidoso em apurar informações que lhe valeram muitas colunas de análise, pautando o meio político da capital mineira. Como editor de Política do Estado de Minas, coordenou com tranquilidade toda uma equipe de profissionais, sempre ensinando e corrigindo de forma a permitir a evolução dos profissionais.”

Marcílio de Moraes
Subeditor de Política/Economia do Estado de Minas

A memória brilhante, o pensamento e a escrita ágeis e o bom humor eram marcas registradas de Baptista Chagas dentro e fora da redação do Estado de Minas. Durante uma década e meia, sentado bem ao lado dele, pude acompanhar essa destreza incansável para conseguir o furo jornalístico, as novidades diárias do mundo político para a sua coluna na página 2, uma das mais nobres do jornal. Tinha o jornalismo na veia e dessa forma contribuiu para a formação de um número incontável de repórteres. Baptista deixa a lição do compromisso incondicional com a notícia.”

Paulo Nogueira
Subeditor de Política/Economia do Estado de Minas

“Baptista foi um dos principais nomes do jornalismo político de Minas durante décadas. Sempre bem informado e com muitas fontes, era brilhante no que fazia, como colunista e como editor de Política. Amava a profissão como poucos. Vai deixar muita saudade.”

Renato Scapolatempore
Editor de Política/Economia do Estado de Minas, que trabalhou com Baptista Chagas por quase 20 anos

“Com o perdão do clichê, o Baptista era um animal político. Inteligente, tinha faro para perceber o ‘lado oculto’ das articulações no mundo do poder. A política, na verdade, estava no sangue: era primo do ex-prefeito de BH Patrus Ananias, deputado federal pelo PT; sobrinho de Agostinho Patrus (1939-2008), que presidiu a Assembleia Legislativa de Minas Gerais e comandou várias secretarias em Minas; primo de Agostinho Patrus Filho, também ex-presidente daquela Casa. O raciocínio rápido, a facilidade para escrever e o talento para organizar edições, sobretudo aquelas maiores e mais complexas, eram características dele. Chefe boa-praça, tinha espírito boêmio. Nunca vou me esquecer de seu bordão: ‘Qual é a da night?’, que, hoje, certamente viraria meme.”

Ângela Faria
Editora-assistente de Cultura do Estado de Minas, foi subeditora quando Baptista comandou a editoria de Política do jornal

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NOVAS REVELAÇÕES ACUAM CIRO E RODAM MOTTA NO CASO MASTER

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Mensagens mostram o banqueiro solicitando reservas para “Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no hotel Four Seasons Ritz de Lisboa

As novas informações tornadas públicas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre as investigações da Operação Compliance Zero, que investiga o caso Master, colocam o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), expoente do Centrão, em situação cada vez mais delicada perante a Justiça, ao mesmo tempo em que aproximam o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), do perímetro das investigações.

O foco do relatório é a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, e Ciro. Segundo a Polícia Federal (PF), o parlamentar teria recebido uma série de vantagens econômicas enquanto atuava politicamente em favor dos interesses do banqueiro. Pagamentos mensais foram classificados pelos investigadores como uma espécie de “mesada”, que variaria entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além da aquisição de participação societária em empresa e do custeio de viagens internacionais de alto padrão.

Hospedagens em hotéis de luxo, voos em jatos particulares, refeições em restaurantes sofisticados e até compras de roupas para viagens de esqui foram pagos por Vorcaro, em Paris, Nova York, Lisboa e Courchevel, nos Alpes Franceses, famosa por suas estações de esqui e hotéis de alto luxo. Os benefícios econômicos diretamente relacionados às viagens ultrapassam R$ 468 mil, sem contar os custos dos voos privados.

A PF sustenta que existe uma relação direta entre os benefícios recebidos e a atuação parlamentar de Ciro em favor dos interesses financeiros de Vorcaro e do Master. É justamente essa conexão que transforma os presentes, viagens e pagamentos em potenciais elementos de corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

O busílis dessa conexão seria a chamada “Emenda Master”. Segundo a investigação, uma proposta de alteração da PEC 65/2023 teria sido elaborada pela própria assessoria do banco e, posteriormente, apresentada por Ciro no Senado. A emenda buscava modificar regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ampliava possibilidades de negócios para a instituição financeira investigada e transferia riscos ao sistema de garantia bancária. A PF afirma ter encontrado mensagens, metadados e minutas que indicariam que o texto protocolado pelo senador reproduzia integralmente a versão produzida pelo Master.

Também há suspeitas de ocultação patrimonial. De acordo com os investigadores, empresas familiares, circulação de recursos entre pessoas próximas, utilização de dinheiro em espécie e interposição de terceiros teriam sido empregados para dificultar o rastreamento financeiro dos benefícios recebidos. A suspeita é de que tais mecanismos pudessem caracterizar lavagem de capitais, tendo Ciro como possível beneficiário final.

Tour em Lisboa

Há também a investigação sobre um episódio envolvendo o transporte de R$ 350 mil em dinheiro vivo em uma aeronave ligada ao grupo de Vorcaro. O piloto afirmou ter ouvido referências ao nome de Ciro durante a operação. Embora a própria PF reconheça que ainda não há comprovação material da entrega dos recursos ao senador, o relato foi considerado compatível com o conjunto de fatos investigados e permanece sob apuração.

O mesmo relatório faz com que as investigações passem a rondar Hugo Motta. O presidente da Câmara aparece vinculado a uma viagem para Lisboa, em junho de 2024, cuja hospedagem teria sido paga por Vorcaro. Mensagens encontradas pela PF mostram o banqueiro solicitando reservas para “Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no hotel Four Seasons Ritz Lisboa. Em outra mensagem, Vorcaro manifesta preocupação com privacidade e segurança do encontro, pedindo controle rigoroso do ambiente.

Os investigadores cruzaram as mensagens com documentos encontrados nos e-mails de Vorcaro. O confronto dos registros levou a PF à conclusão de que os pagamentos identificados correspondem efetivamente à hospedagem de Ciro e Motta em Lisboa. As diárias teriam custado cerca de R$ 18 mil. A situação do deputado, porém, é muito distinta da do senador. O relatório não atribui ao presidente da Câmara participação em esquemas de favorecimento legislativo, nem o aponta como beneficiário de pagamentos sistemáticos.

As novas revelações acuam Ciro e, ao mesmo tempo, rondam Motta porque o colocam pela primeira vez dentro do contexto factual das investigações, associado a benefícios pagos por Vorcaro e citado em comunicações consideradas relevantes pela PF. Nesse sentido, o relatório amplia o alcance político do caso Master e continua produzindo efeitos sobre figuras centrais do Congresso.

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CRESCIMENTO PARA POUCOS: A ARMADILHA DO CAPITALISMO

Roberto Amaral*, CartaCapital

“O empresário tende inevitavelmente a se transformar em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora a produção.” — Thomas Piketty, O capital no século XXI.

Ao contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda, como a promove. 

Trata-se, simplesmente, de determinismo da lógica de acumulação do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos salários. De um lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o desemprego estrutural — alimento do exército industrial de reserva — pressiona os salários para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão de obra e intensivas em capital, e a articulação de grandes e poucas corporações operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio, com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político, frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.

A história testemunha que o crescimento da renda per capita pode conviver com estagnação relativa ou perda do poder aquisitivo dos trabalhadores. Marx, no século XIX, explicou a contradição entre a expansão das forças produtivas e as relações sociais de produção. Tal disfunção se agrava na periferia do capitalismo contemporâneo, onde o desenvolvimento econômico se conjuga com setores altamente atrasados. Celso Furtado, ainda nos anos 1960, referia-se ao que denominou “difusão restrita do progresso técnico”: os ganhos de produtividade concentram-se em setores modernos, todavia sem irradiar para o conjunto da economia, acentuando as desigualdades. 

Como em uma ordem de vasos comunicantes, as elites econômicas reproduzem padrões de consumo dos países centrais, canalizando renda para setores de alto valor agregado e baixa absorção de mão de obra.

Segundo o coeficiente Gini (que varia de 0 — igualdade total — a 1 — desigualdade máxima), nosso índice de desigualdade já chega a 0,51. Nesse coeficiente encontram-se -- segundo dados do Banco Mundial--, Madagascar e Ruanda, e, em suas vizinhanças, Moçambique (0,54) e Zâmbia (0,57). Mas, ao contrário desses países, extremamente pobres, somos a décima economia do mundo. Ou seja, a desigualdade social que nos assola é fruto da concentração da riqueza, acumulada pelo capital, que cresce mesmo em sua expressão financeira — capital fictício, segundo Marx — e passa à margem da produção.

Dados recentes do IBGE, lamentavelmente sem revelarem novidade, dizem que os 10% de brasileiros “mais ricos” — algo como 20,3 milhões de pessoas em uma população estimada em 213,5 milhões — concentram cerca de 40% da renda total, ou seja, 13 a 14 vezes mais que os 40% mais pobres, estimados em 81,2 milhões. Em 2018, essa diferença chegou a 17 vezes.

A massa de rendimentos domiciliares em 2025, foi de cerca de R$ 5,8 trilhões, e os 10% “mais ricos” se apropriaram de algo como R$ 2,4 trilhões/ano, considerando o PIB de R$ 12,7 trilhões. Ou seja, 18% do PIB escorrem diretamente para o fosso desses 10% mais ricos, como renda corrente.

Entre os “mais pobres” — brasileiros integrados no processo produtivo, trabalhadores e assalariados de um modo geral — situam-se os que percebem renda mensal variante entre R$ 400 e 500 mensais (o salário-mínimo nacional é de R$ 1.621), contra R$ 7 mil e 9 mil, renda estimada dos 10% mais ricos.

Mas o sistema rentista nada tem a reclamar. É o que proclamam os lucros médios dos cinco maiores bancos privados que atuam no Brasil: Itaú, 46,8 bilhões de reais; Bradesco, 24,6 bilhões; Santander, 15,6 bilhões; BTG Pactual, 16,7 bilhões; e Safra, 3,9 bilhões.

É o Brasil que a direita pretende preservar.

A hegemonia das finanças e as transformações tecnológicas aceleradas dos últimos anos, ao alterarem as regras do sistema produtivo, estamparam a tendência estrutural do capitalismo como fator de desigualdade. Longe de se dissipar com o desenvolvimento econômico, o capitalismo globalizado das últimas décadas reina sob novas formas e novos mecanismos de reprodução, refazendo-se após crises sistêmicas constitutivas do seu funcionamento, como, no século passado, a estagflação dos anos 1970,  e, mais recentemente,  a crise financeira global de 2008.

Marx observou que o capital, ao se acumular, tende inevitavelmente à concentração. A concorrência entre capitais individuais, escreveu, leva à centralização — os maiores absorvem os menores, e o sistema se reorganiza continuamente em torno de unidades cada vez mais poderosas. Esse movimento não é acidental, mas constitutivo do próprio funcionamento do capitalismo. Em sua lógica interna, não há freios naturais para esse processo, mas a busca incessante por lucro e expansão sem fim, de que depende.

O desenvolvimento científico e tecnológico, ao tempo em que traz para nossos dias um futuro inimaginável há poucas décadas, vem reforçar a concentração de renda e riqueza. A chamada quarta revolução industrial — marcada pela disseminação da inteligência artificial, da automação avançada e das grandes plataformas digitais — redefine a relação entre capital e trabalho. Empresas intensivas em tecnologia requerem investimentos crescentes em capital e, ao mesmo tempo, reduzem drasticamente os postos de trabalho.

A substituição do trabalho humano por máquinas e algoritmos comprime a participação dos salários na renda nacional, enquanto amplia os ganhos do capital. O trabalho, antes principal meio de distribuição de renda, é subsumido pelo capital — especialmente o capital financeiro. As consequências, como lembrava o conselheiro Acácio, vêm depois: a queda dos postos de trabalho, o crescimento dos exércitos de reserva, as restrições aos direitos sociais dos trabalhadores e a queda do poder aquisitivo dos salários.

Nada está fora das regras de funcionamento do capitalismo, e isso nos diz que o desenvolvimento econômico não é uma autarquia, condicionado que está por opções políticas. A classe dominante brasileira, herdeira do latifúndio e do escravismo, é que optou por este sistema, e o sustenta qualquer preço, como nos lembra a ditadura militar.

A financeirização da economia, traço marcante do capitalismo globalizado, determina a subordinação das economias nacionais à lógica da valorização financeira e, assim, desfaz-se dos projetos de expansão e crescimento para optar pela maximização do valor para o acionista, especialmente por meio da distribuição de dividendos. Os Estados nacionais, por sua vez, tornam-se cada vez mais condicionados pelos mercados financeiros globais, limitando sua capacidade de intervenção redistributiva. 

Mais e mais é consumida a soberania das nações não hegemônicas.

A clivagem não é necessariamente entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos — ou emergentes, como se queira —, nem entre nações ricas e pobres, mas entre ricos e pobres no interior de cada país.

Retornemos a Celso Furtado lembrando-nos  que a concentração de renda não é um efeito colateral do crescimento econômico, mas elemento constitutivo de certas formas de desenvolvimento capitalista dependente, precisamente aquela pela qual as elites econômicas brasileiras optaram.

Para Celso, o problema central das economias periféricas não se concentrava apenas na escassez de capital, pois muito resultava da forma como ele se distribuía e se utilizava. Ou seja, de sua concentração. A modernização produtiva coexistia com estruturas sociais arcaicas, gerando crescimento que beneficiava poucos e excluía muitos. Essa interpretação permanece atual, especialmente quando se observa a integração subordinada dessas economias às cadeias globais de valor e aos fluxos financeiros internacionais.

Esse quadro vem se agravando à medida que se consolida a globalização capitalista, potencializada pela ascensão do neoliberalismo, com seus penduricalhos: a desregulamentação como conditio sine qua non; a liberalização financeira como regra; a redução do papel do Estado; as privatizações; as políticas fiscais regressivas; o enfraquecimento dos sindicatos; a flexibilização do mercado de trabalho; e a precarização dos mecanismos de previdência social. 

Ao fim e ao cabo, a fragilidade dos sindicatos — isto é, dos mecanismos de defesa do trabalho e dos trabalhadores — altera a correlação de forças, condiciona o processo político e, nesses termos, interfere no andamento da história. O capital continua a se expandir, a se acumular e a se concentrar em escala planetária e em velocidade impensável no século passado.

A desigualdade — que cresce em ritmo insustentável — não é, jamais foi, uma disfunção do sistema capitalista, mas sua consequência lógica, acelerada nas últimas décadas pela revolução tecnológica.

O resultado é uma dinâmica cumulativa: o capital gera mais capital, enquanto o trabalho perde participação relativa. A concentração de renda e riqueza — um projeto de classe — é o fundamento da concentração do poder político.

Em última instância, a questão da desigualdade remete ao próprio sentido do desenvolvimento, que é uma decisão política. Diz respeito ao projeto de país. A pergunta é: crescer para quem?

A questão que se coloca não é a óbvia necessidade de desenvolvimento econômico, mas a afirmação de que sociedade se deseja construir. Uma sociedade em que o desenvolvimento econômico e o progresso tecnológico se traduzam em bem-estar compartilhado pela universalidade dos brasileiros — projeto que deve ser da esquerda e das forças progressistas de um modo geral — ou uma sociedade socialmente ainda mais atrasada, projeto da direita brasileira? 

A resposta poderá ser ouvida nas eleições de outubro próximo.

Até aqui nenhuma novidade. O que é de serra acima, e assusta, é que esses números — a certidão do capitalismo globalizado, perverso de um modo geral e especialmente perverso nos países do Sul Global — estejam passando ao largo das reflexões e do discurso da esquerda brasileira e da ação de nossos governos. Ausentes na denúncia do sistema de opressão, confundimo-nos, no governo e na ação política, com os partidos da ordem e somos  assim justamente condenados como comprometidos com o “sistema” porque, por incapacidade de leitura correta do processo histórico, assumimos o destino frustrado da socialdemocracia: simplesmente administrar o capitalismo, suavizando seus males.

À noite, todos os gatos são pardos.

***

Os patriotas pelo avesso- Este é o título do precioso artigo de Míriam Leitão estampado pelo Globo, na edição de 31 do finado mês de maio. Deveria ter sido lido no jornal da "Vênus platinada”.  Mas seria exagero esperar coragem da famiglia Marinho. Resta-nos divulgar.

Descompostura — Não cansa de impressionar a hubris, ou desmedida, de certa categoria de agentes políticos que chega ao poder e nele se deslumbra. Ora, ninguém ignora os problemas —violência, pobreza, enchentes, falta de moradia etc. — que afligem a maior parte da população fluminense. Pois bem, ficamos agora sabendo que, entre outras mutretas, o sujeito que comandava o RJ até outro dia - mais um de uma sequência infeliz de governadores - se permitiu voar a NYC para uma "degustação de whisky" bancada pelo amigo banqueiro delinquente (hoje preso), brincadeira essa ao custo de US$ 1,013 milhão (mais de R$ 5 milhões, na cotação atual), retribuída sobejamente com recursos da Rioprevidência. Que nome dar a isso? Corrupção é pouco.

O Abolicionismo, hoje I — Passados 138 anos da sanção da Lei Áurea (204 da chamada Independência), impressiona ver os esforços que ainda precisamos fazer para tornar realidade o fim da escravidão – algo que Joaquim Nabuco, lá atrás, previra que aconteceria. Assim, o fim da infame escala 6x1 avança a duras penas (embora impulsionado pelas circunstâncias de um ano eleitoral), sob o bombardeio esperável da classe rentista, e o Programa Bolsa Família ainda precisa existir, e ainda precisa ser defendido de ataques do patriciado.

O Abolicionismo, hoje II — O “Bolsa”, como é carinhosamente chamado por quem o conhece de perto, nunca pretendeu ser revolucionário, embora opere microrrevoluções nas relações de gênero, e ameace o velho coronelismo ainda vivo entre nós. Mais que um simples mecanismo de transferência de renda, o PBF serve para 1) auxiliar o Estado a realizar suas obrigações em relação à educação, à saúde e à assistência social; 2) evitar que pessoas sejam submetidas a superexploração de sua força de trabalho (incluindo situações análogas à escravidão); e 3) dinamizar a economia real, ao fomentar a demanda com a introdução de renda onde quase não havia. É, no fundamental, um complemento à Lei Áurea e aos ditames da Constituição Cidadã. Não admira que incomode os coronéis de novo tipo, que grassam nos meios eletrônicos.

Perder ganhando — No cenário regional, a direita institucional enfrenta dificuldades, mesmo no poder: o bufão Milei se desgasta na Argentina, como Noboa no Equador, enquanto Kast e Paz enfrentam fortes protestos pouco após assumirem o poder no Chile e na Bolívia, respectivamente. No Brasil esse campo se estapeia pelo espólio do bolsonarismo, em face do naufrágio da candidatura miliciana do PL. No Paraguai, por outro lado, o governo conservador se mostra estável até aqui - e até se envolve em tenebrosas transações com os EUA de Trump -, enquanto na Colômbia a extrema-direita termina o 1º turno em perigosa vantagem, e no Peru o espectro político parece todo ele estilhaçado. Em que pesem os percalços citados, o grande trunfo do conservadorismo parece ser o de haver conseguido estabelecer os parâmetros do imaginário e do fazer político, de tal modo que mesmo as alternativas mais à esquerda, na região, têm como horizonte a meta de "humanizar o capitalismo", isto é, salvar um pouco de welfare das garras do grande capital. Um pouco que passou a parecer muito.

Cúmplices na assessoria — O presidente Lula tem sido honradamente firme na denúncia do genocídio praticado por EUA e Israel contra o povo palestino, e por isso mesmo sofrido injúrias por parte do deplorável lobby sionista. Assim, é de lamentar que esse mesmo lobby — useiro  e veseiro em defender o indefensável -— tenha assento na alta cúpula do nosso governo, chegando mesmo à antessala do gabinete presidencial.

Terceira via -- Nas eleições de outubro próximo, a procurada “terceira via”  é o codinome da direita envergonhada.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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