Patrícia Campos Mello,
Folha de S. Paulo
Mandatário gabaritou lista de críticas a americano,
mencionando desde Irã e Israel até América Latina e IA
Presidente brasileiro usa pronunciamento para reforçar
discurso de soberania e enfatizar plataforma de campanha
O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT)
na abertura da Assembleia Geral da ONU combinou
vacinas contra interferências
americanas na eleição brasileira com uma apresentação do pleito ao mundo
como embate entre autoritarismo e democracia.
Na fala de quase 22 minutos, diante dos 18 minutos do ano
passado, Lula caracterizou a eleição brasileira como uma luta entre o
retrocesso autoritário simbolizado pela volta da família Bolsonaro ao poder e o
aprofundamento de um projeto progressista que ainda não entregou resultados
suficientes para parte da população. E, como esperado, o tema da soberania
permeou o pronunciamento.
"No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e
brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o
presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder
Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo."
O discurso foi recheado de recados eleitorais e alfinetadas
em Donald
Trump.
"A democracia está novamente em xeque. Voltamos a
presenciar a ingerência externa em processos eleitorais", disse Lula.
"Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos,
atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos
brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano."
Lula gabaritou a check-list de críticas a
Trump, mesmo sem nomeá-lo.
"Ameaçar civilizações de extinção não trará
estabilidade para o Oriente Médio", discursou o mandatário, referindo-se à
frase de Trump, em abril, sobre o Irã, na qual afirmou que "uma
civilização inteira morrerá esta noite". Ele também mencionou a alta
dos combustíveis e de fertilizantes, resultado da guerra contra o Irã iniciada
por Trump e pelo primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu.
O brasileiro afirmou que a relatora especial da ONU,
Francesca Albanese, não pode ser "silenciada por dizer a verdade" e
condenou a perseguição a membros do Tribunal Penal Internacional –eles
foram alvos de sanções por parte do governo Trump por suas ações em relação a
Israel.
Lula fez referência à Doutrina
Donroe, codificada na estratégia de segurança nacional dos EUA, que
estabelece hegemonia americana no Hemisfério Ocidental. "Na América Latina
e no Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é
inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações
hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém."
Também rechaçou o tarifaço —os que "usam tarifas como
armas de coerção e chantagem"— e a oposição de Trump à regulação de IA.
"Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de
neoliberalismo digital, sem regras nem transparência."
Sobrou também para o governo americano no tema da saúde.
Lula criticou as campanhas contra vacinas, incentivadas pelo secretário de
Saúde de Trump, Robert F. Kennedy, e a retirada dos EUA da Organização Mundial
de Saúde.
A única menção direta ao mandatário americano entrou em um
contexto de imunização contra sanções americanas iminentes a bancos e entidades
brasileiras acusadas de envolvimento com o crime organizado. Desde que o
governo americano designou PCC e CV como entidades terroristas, a pedido do
senador e candidato presidencial Flávio
Bolsonaro (PL-RJ),
espera-se uma saraivada de sanções contra empresas e indivíduos brasileiros,
tal como ocorreu no México.
"Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de
defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem
medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de
cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime.
Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados
Unidos."
A soberania foi enfatizada no pronunciamento. O tema foi
abraçado como uma das principais plataformas eleitorais após a reação firme de
Lula contra o tarifaço de Trump render apoio popular. Neste ano, não estão tão
claros os dividendos políticos do discurso da soberania, mas a campanha de Lula
continua apostando no mote.
Dentro do contexto eleitoral, Lula tentou retratar Flávio
Bolsonaro como o candidato que será subserviente aos Estados Unidos.
"Teremos um pleito transparente e competitivo, em que
todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que
alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros
contrários ao país."
E fez menção implícita ao envolvimento do candidato do PL no
escândalo do Banco Master. "Crime organizado e corrupção andam juntos. O
combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima
da lei."
Os petistas afirmam que o ministro André Mendonça, relator
do caso Master no Supremo, protege Flávio, que foi flagrado em um áudio pedindo
milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse". O
candidato é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro desde julho, mas
isso só veio à tona recentemente.
Outro check-list que Lula gabaritou foi o eleitoral. Ele
mencionou os principais pontos que vem enfatizando em sua campanha: restrições
a bets, escala 6x1, proteção
do Pix, processamento de minerais críticos com transferência de tecnologia
para o Brasil, ECA digital, luta contra o feminicídio, reajuste do salário
mínimo, ampliação do crédito.
Mas o mandatário brasileiro reconheceu, em trecho do
discurso, a maré negativa que se abateu sobre os progressistas nos últimos
tempos. Governos e partidos do espectro ideológico ao redor do mundo enfrentam
dificuldades para ganhar apoio popular e têm perdido eleições para
lideres populistas de direita.
"Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por
mudanças. Mas mudar não é retroceder. Não é subtrair direitos. Não é reeditar
teorias de supremacia racial ou de submissão feminina. Não é recolonizar o Sul
Global. Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais
conquistas."