sexta-feira, 10 de abril de 2026

UMA GUERRA SÓ COM DERROTADOS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Se cessar-fogo precário puser fim a conflito, EUA, Israel e Irã saem com mais perdas do que ganhos

Conflito sem vitória também poderá trazer repercussões eleitorais negativas para Trump e Netanyahu

dSempre que vejo Palmeiras e São Paulo se enfrentando, me pergunto se não haveria um jeito de os dois times perderem. No futebol, parece que não, mas, no que diz respeito a guerras, a derrota de todos os envolvidos é um desfecho possível e até frequente. Lembrem-se de 

guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã encaminha-se para ser um desses conflitos sem vencedores, ainda que todas as partes reclamem ter logrado brilhante vitória. O regime iraniano pode de fato congratular-se por ter sobrevivido a um inimigo militarmente muito superior, mas é só. A coluna dos ônus é extensa demais para ser ignorada: cerca de duas dezenas de suas principais lideranças, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, foram assassinadas, o país sofreu enorme destruição de vidas e de infraestrutura, notadamente a militar, e comprou décadas de inimizade com os países vizinhos do Golfo Pérsico que atacou.

Já os EUA entraram numa guerra de escolha da qual não precisavam apenas para escancarar que fizeram uma péssima escolha. Nenhum dos cambiantes pretextos que Donald Trump alegou para atacar o Irã foi plenamente alcançado, os EUA sacrificaram ainda mais sua já decadente credibilidade internacional, além de terem provocado uma onda global de inflação. Desta vez, Trump perdeu pontos até com o público MAGA, que é irredutivelmente isolacionista. De positivo (para o mundo, não para Trump), resta que ficou mais difícil para o Partido Republicano manter o controle das duas Casas do Legislativo após as eleições de novembro.

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, ao contrário de Trump, tinha apoio popular para ir à guerra, desde que obtivesse uma vitória inconteste. Não a ter conseguido só reforça agora os muitos erros de segurança (nem falo dos políticos e morais) cometidos por sua administração desde antes da ação do Hamas em 7 de outubro de 2023. Se uma vitória sobre o Irã era a esperança de Netanyahu para vencer as eleições de outubro, a ausência dela pode ser o prego definitivo no caixão de seu governo.

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AUMENTOS DE GASOLINA E DIESEL NO BRASIL ESTÃO ENTRE OS MENORES DO MUNDO DURANTE A GUERRA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Reajuste da gasolina por aqui fica na 90ª posição entre 128 países; o do diesel, na 71ª

Além de dar subsídios e redução de impostos, país enfrenta crise em situação mais favorável

Os preços da gasolina e do diesel aumentaram mais na maioria dos países do mundo do que no Brasil, que fica perto da rabeira desse ranking. No caso da gasolina, ficamos em 90º lugar entre 128 países —em 25 deles, a variação foi menor do que 1%, nada, ou negativa. Quanto ao diesel, ficamos em 71º lugar —em 21 países, a variação foi menor do que 1%.

Os dados são da Global Petrol Prices. Baseiam-se na conta de variação de preços entre 23 de fevereiro (a guerra começou em 28 de fevereiro) e 6 de abril. Como se deve fazer em relação a qualquer ranking ou comparação, é preciso descontar a precisão dos dados. Trata-se de médias nacionais ou preços típicos. Alguns países controlam reajustes (oi, Brasil), ditam as datas de aumento, outros não intervêm no mercado, poucos são grandes produtores, outros importam quase tudo etc.

Mesmo com as ressalvas, é certo que o Brasil está lá pelo fim da classificação. O aumento médio de preços nos 89 países em que a gasolina ficou mais cara do que por aqui foi de 23,5% –no Brasil, pelos dados do ranking, 7,6%. No caso do diesel, a média do reajuste dos 70 países com aumento maior do que o brasileiro foi de 50,8% (no Brasil, de 23,5%).

A carestia foi maior em países mais pobres do sul e do leste da Ásia. "Anglo-saxões", como dizem os franceses, historicamente mais liberais, tiveram reajustes grandes. Os Estados Unidos estão em 14º lugar no ranking da gasolina (aumento de 35,1%) e em 23º lugar no diesel (reajuste de 48,2%).

No mais, olhando a lista não dá para discernir tendências regionais claras. Em muito lugar da Europa, há, sim, subsídio ou redução de imposto sobre combustíveis. No sul e no leste da Ásia, há tentativas de contenção de consumo ou quase racionamento. A atitude de cada país depende também de seus meios.

Petrobras no mínimo atenua frequência e tamanho dos reajustes, não sabemos por ora se de modo razoável (para o balanço da empresa) ou não. O governo subsidia diesel, gás, reduz imposto. Embora importe parte dos combustíveis que consome, o Brasil é exportador de petróleo. Isto é, com aumento do preço do barril, a renda do país e a receita do governo aumentam. Enfim, tem contas externas em ordem, o que não é o caso de muito país pobre —se mantivessem preços estáveis, entre outros problemas, continuariam a importar combustíveis em ritmo de outros tempos, gastando o que não têm em moeda forte.

O Brasil enfrenta esta crise em situação menos desfavorável, pois. Além do mais, intervenção estatal é costume nacional, da direita à esquerda, e gosto de tanto empresário "bolsonarista moderado" com horror do "estatismo" de PT e Lula. Em ano de eleição, intervenção é palpite certo.

Apanha quem levanta dúvidas sobre a qualidade, a quantidade e a oportunidade da intervenção ou trata dos riscos de dano colateral. Na dificuldade, empresas correm para o governo ou para o Congresso e suas "bancadas", onde conseguem extensões compridas ou eternas de subsídios.

Sim, há argumentos razoáveis para tentativas emergenciais de atenuar choques econômicos, de preços. Isto é, se são choques, se são transitórios. Aliás, é necessário ter política nacional de energia, por exemplo, planos, muita vez com ação do Estado, pensada e de prazo mais longo. Estamos falando aqui de outra coisa: do desejo quase geral de acomodação duradoura ou permanente no colo do Estado, não raro com favor explícito, para quem pode.

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SOB AS ASAS, DIGO, MEMBRANAS DO PAI

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro ainda nem começou a apanhar, mas já reage como se no meio da campanha

Da Lua vê-se o pôr e o nascer da Terra; da candidatura de Flávio só se verão os eclipses

Nada de mais em a nave Artemis 2 ter dado uma volta pelo lado oculto da Lua e ficado 40 minutos sem que soubéssemos o que estava acontecendo. A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência passa ainda mais tempo no lado oculto de si mesma e só tenta mostrar o que lhe interessa. Mas não adianta —ao contrário da Lua, cuja massa rochosa interrompe o sinal e impede que este chegue à Terra, a candidatura de Flávio Bolsonaro tem a densidade de uma cortina de banheiro.

Por enquanto, Flávio Bolsonaro —"Flávio", para os íntimos— se escora no apoio de aderentes de ocasião, hoje com ele, mas prontos a lhe virarem as costas à menor queda da agulha. Ainda nem começou a apanhar para valer, mas não trai o menino mimado que levou a vida sob as asas, digo, membranas do pai. Exposto ao sol, já ameaça jornalistas, processa big techs e dispara liminares para remover conteúdos que o associam a sujeiras. Será divertido vê-lo no centro do ringue, exposto a perguntas e punches dos profissionais.

Assim como a equipe da Artemis saiu de Houston com um plano de voo, "Flávio" já deve ter um plano de governo. Assim como seu pai, entregará a Saúde a um boçal? Reduzirá a Educação a uma banca de camelôs de Bíblias? Tentará corromper o Exército com empregos civis? Desmontará a fiscalização ambiental? Terá uma Abin paralela para espionar adversários? Travará investigações com troca-trocas de delegados? Nomeará Fabrício Queiroz para o STF? São perguntas. Mas já garantiu que doará as terras raras a Donald Trump.

Da Lua vê-se o pôr e o nascer da Terra. Da candidatura de "Flávio" só se verão eclipses, por sua necessidade de encobrir as denúncias de "rachadinhas", elos com assassinos e queima de arquivos, que insistem em atribuir-lhe. É verdade que sua única experiência em administração foi um sucesso: uma loja de chocolates que, pelos balanços, vendia mais no resto do ano do que na Páscoa!

A tripulação da Artemis levou uma brava mulher. A única mulher que seguiria com "Flávio" já disse que não embarca na dele.

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LAMBANÇA DE TRUMP NO IRÃ É APOIO A PLANO DE GRANDE ISRAEL

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Líder americano achou que o explosivo tabuleiro de xadrez da guerra contra o Irã seria um jogo de damas

Com Netanyahu, alguém ainda acredita nas fantasias de dois Estados e devolução de territórios ocupados?

Estados Unidos e Israel, nas figuras abomináveis de Donald Trump e Binyamin Netanyahu, estão transformando o mundo num lugar ainda mais perigoso para se viver. Sim, isso é possível. Os dois têm muitas coisas em comum, nenhuma delas animadoras: são autoritários, expansionistas, imperialistas, racistas (por que não dizer?) e não medem consequências em busca de seus objetivos.

Enquadram-se perfeitamente na categoria de lideranças fascistas contemporâneas. "Ah, mas isso não é igual ao que aconteceu nos anos 30"... Bem, não estamos nos anos 30 do século passado. Falamos do conceito do século 21. É duro e triste dizer que um político que comanda Israel veste bem esse perfil fascista, mas lamentavelmente é o caso.

Trump entrou no segundo conflito com o Irã atraído pelo colega israelense. Ao que parece partiu para um explosivo tabuleiro de xadrez achando que seria apenas um jogo de damas. Quebrou a cara.

É óbvio que os EUA têm poderio militar –como aventou o próprio autocrata da Casa Branca– para destruir o Irã e a civilização persa. Mas as coisas não são assim. Não bastam ameaças por mais criminosas que possam ser. Americanos já foram derrotados em guerras envolvendo adversários menos poderosos, caso do Vietnã e do Afeganistão. Os iranianos defendem-se com as armas que têm, e entre elas não consta nenhum artefato nuclear. Drones baratos, mísseis, caos regional e fechar Hormuz são o arsenal utilizado.

A guerra é, repita-se, bem mais de interesse de Netanyahu do que dos EUA. Não há nenhuma ameaça do Irã aos americanos. Para Israel, trata-se de uma força regional que atrapalha o projeto, que parece ser o grande plano de seu governo, de expandir fronteiras e incorporar territórios.

O que está em cena, ao que tudo indica, é mais uma escalada de Netanyahu em busca da nação expandida, o Grande Israel. Ou alguém acredita ainda numa agenda de dois Estados, devolução de territórios e outras fantasias já soterradas? É bem mais factível a busca por novas anexações, Líbano, Síria e por aí vai.

Um Irã forte é uma grande barreira a esse intuito, daí a necessidade de enfraquecê-lo, mesmo que lançando mão de mentiras e agressões injustificadas.

Sim, não se deve esquecer o atentado terrorista do Hamas, que tem suporte iraniano, de 7 de outubro de 23. É difícil contudo usar essa data como marco zero, apesar dos esforços de alguns. O conflito, todos sabemos, vem de longuíssima data. E as chances de que possa chegar a bom termo são nulas.

A reação absolutamente desproporcional nesta etapa recente nos oferece uma série repulsiva de crimes de guerra cometidos por Netanyahu e com apoio da extrema direita de seu país, em mal disfarçados delírios teocráticos e genocidas.

Também é possível falar em crimes de guerra de Trump, comandante de forças que, por exemplo, bombardearam uma escola no Irã, resultando em horrível matança de crianças.

A aventura de EUA e Israel no Irã é de uma irresponsabilidade a toda prova. Uma ameaça ao mundo, desde o aspecto econômico ao humanitário, sem mencionar o caos geopolítico e a perda de capacidade de negociação global.

Talvez o que reste da democracia americana imponha um freio a Trump, sob pena de perda eleitoral no meio de mandato e um impeachment. A ver.

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FAZ-NÃO-FAZ E DESFAZ

José Sarney*, Correio Braziliense

A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz

O presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: "Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: 'vem por aqui'? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí… […] Ninguém me diga: 'Vem por aqui'! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / — Sei que não vou por aí!"

Esse é o caso de todos no mundo inteiro: não sabemos por onde vamos, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não vamos atrás do Trump.

A última dele foi a de que iria destruir uma civilização, isto é, a milenar civilização persa, como se isso fosse possível. Em seguida, afirmou que o Irã seria consumido pelo fogo, numa tragédia igual àquela de Sodoma e Gomorra. Mas no dia seguinte, já na quarta-feira, pensando melhor, Trump voltou atrás e, numa boa volta, resolveu parar com essa coisa escatológica de fim do mundo e negociou uma trégua em troca da abertura do Estreito de Hormuz.

Essa guerra com o Irã sempre foi difícil de ser entendida ou de se aceitar a razão, a sem-razão, de sua fúria, nem as alegadas justificativas. O fato que é difícil de explicar é, depois de destruída — obliterada — a capacidade iraniana de enriquecimento do urânio, como esse país produziria uma bomba atômica que pudesse ameaçar Estados Unidos e/ou Israel. Israel e Irã sempre pregaram a mútua destruição, mas os ataques sempre partiram de Israel.

O que ficou evidente é que, enquanto os Estados Unidos negociavam um acordo com o Irã, os israelenses descobriram onde as lideranças iranianas iriam se reunir para discutir os termos desse acordo e, imediatamente, Netanyahu convenceu Donald Trump de que deviam aproveitar essa reunião para eliminar todas as lideranças iranianas. Com o assassinato desses líderes, cairiam o governo iraniano e o regime teocrático, assegurando uma vitória total com menor custo do que o de uma guerra. Daí a afirmação inicial de Trump de que em quatro dias a guerra estaria acabada.

Isso bastou para convencer Trump a entrar em uma guerra sem uma análise mais aprofundada de que, com o componente religioso e dogmático que leva ao fanatismo do povo, liquidados os seus líderes, outros apareceriam imediatamente em substituição àqueles, sem solução de continuidade. Talvez os estudos tenham sido feitos, mas se sabe que Trump não lê nem ouve nada que não esteja na televisão — e, por isso, logo demitiu o chefe da Inteligência americana que disse ter avisado que o Irã não era uma ameaça. Não previu as consequências que adviriam ao comércio mundial com o comprometimento das exportações do Golfo Pérsico, nem tomou providências para proteger as bases americanas na região. Ignorou que pelo Estreito de Hormuz transitavam 20% de todo o consumo mundial de petróleo.

O fracasso dessa ausência de qualquer plano estratégico imediatamente aflorou, e o resultado é que a economia mundial entrou em crise, com impactos considerados mais graves que os da crise de 1972, quando houve o famoso choque do petróleo. A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz.

Trump não acredita na revolta da opinião pública dos Estados Unidos, que hoje está sendo divulgada: 60% da população é contra sua decisão de fazer essa guerra levado pelo israelense Netanyahu — que aproveitou o momento para mais uma vez destruir o Líbano, várias vezes massacrado pelo vizinho mais forte.

Se soube agora que, no ano passado, o Pentágono chamou o Núncio Apostólico para dizer que, se o papa não aderisse ao trumpismo, os americanos fariam um novo papado paralelo — como o de Avignon. O papa, que está com Deus e não com o diabo, sabe por onde vai e não se abalou, continuou dizendo que as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus.

Temos que, com o papa, rezar para que o cessar-fogo, mesmo com intermitência, acabe com os crimes contra os civis e dure até poder surgir um espaço para a paz.

A paz é o que o povo americano e o resto do mundo querem.

*José Sarneyex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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O QUE MUDOU DESDE A DELAÇÃO DE CID ?

Raquel Landin, O Estado de S. Paulo

Lei da delação premiada serviu para Mauro Cid. Por que não para Daniel Vorcaro?

O tenente-coronel Mauro Cid fechou sua delação premiada em setembro de 2023. À época, o pedido do PT para revisar a lei da delação premiada já descansava nos escaninhos do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes há mais de dois anos. A solicitação do partido, feita pelos advogados Lenio Streck, André Trindade, Marco Aurélio de Carvalho e Fabiano Santos, é de dezembro de 2021.

Cid prestou vários depoimentos à PF, alterando versões e implicando mais pessoas. Nos depoimentos iniciais, “esqueceu” que o general Braga Netto carregava uma sacola de dinheiro.

Deu sérias indicações de não ser um delator confiável. Sua delação foi mantida por Moraes e referendada pelo plenário do STF; caso contrário, corria o risco de toda a trama golpista ser desmontada, livrando o ex-presidente Jair Bolsonaro da prisão.

Naquele momento, na visão de Moraes, não havia necessidade de aprimorar o ordenamento jurídico, afinal, o pedido do PT poderia ter sido desengavetado. Nesta quarta-feira, o ministro ressuscitou a Ação Direta de Preceito Fundamental (ADPF) e levou ao presidente do STF, Edson Fachin, para que coloque em votação. O que será que mudou para que Moraes perceba que agora há uma súbita necessidade de mudança nas regras da colaboração premiada?

É impossível ignorar a conjuntura. O que mudou é que o banqueiro Daniel Vorcaro está na cadeia e mantinha relações próximas com ministros do STF, inclusive o próprio Moraes. O escritório de sua esposa recebeu R$ 80 milhões do Master em dois anos, honorários considerados fora do padrão para a advocacia. Moraes voou em jatinhos da empresa de Vorcaro.

A proposição inicial feita pelos advogados do PT é genérica – tão genérica que qualquer conclusão de um eventual julgamento vai ficar por conta da criatividade dos ministros. Também fala em temas que, na prática, já fazem parte do dia a dia da aplicação da lei. Por exemplo, a delação cruzada. Desde o mensalão, juízes não permitem que a palavra de um delator corrobore a de outro. Em teoria, é preciso provas para condenar alguém.

Não se defende aqui que a legislação seja imune a aprimoramento. Alguém preso pode falar qualquer coisa para tentar ser solto. E é preciso ter cuidado com os benefícios. Em busca de alcançar a alta cúpula do poder, malfeitores saem praticamente livres. No entanto, trata-se de expediente essencial para desbaratar organizações criminosas.

Não há nada que impeça Moraes de pautar ou votar uma tese sobre delação premiada. Mas vamos usar do bom senso e da ética: se ele pode ser alvo de uma colaboração iminente, tem interesse no tema. Pesquisas sobre a imagem do STF mostram que a população está atenta.

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NÃO PRECISAMOS ESCOLHER ENTRE A APATIA E A POLARIZAÇÃO

Pablo Ortellado, O Globo

No Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia

A literatura política frequentemente associa o alinhamento ideológico — a organização das preferências políticas de modo coerente com os valores de um campo — ao aprimoramento da democracia. Mas, no Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia — ou se o país não precisa, ao contrário, reaprender o valor do desalinhamento.

O alinhamento programático e ideológico tem sido tradicionalmente valorizado pela literatura da ciência política. Em primeiro lugar, ele organiza e simplifica debates amplos, cujos componentes variados e complexos passam a ser compreendidos à luz de princípios coerentes e estáveis, facilitando sua inteligibilidade. Numa democracia de massas, isso é especialmente importante porque partidos políticos e ideologias funcionam como atalhos cognitivos para os eleitores. O alinhamento também favorece a organização política da sociedade, articulando diferentes conflitos e divisões, viabilizando alianças coerentes e a oferta de soluções coordenadas.

O alinhamento permite ao cidadão intuir que o feminismo e a defesa dos direitos dos trabalhadores fazem parte do mesmo pacote, de esquerda, que defende igualdade e direitos sociais, assim como permite intuir que lei e ordem e defesa da família fazem parte do pacote conservador. A coerência programática organiza o espectro ideológico, traz ordem ao sistema partidário e torna previsível a construção de alianças.

Durante anos, a sociedade brasileira careceu de alinhamento. Era uma sociedade essencialmente amorfa e despolitizada. Depois dos protestos de junho de 2013 — e especialmente após as eleições de 2018 —, o Brasil passou da carência ao excesso. Vivemos hoje numa sociedade hiperpolitizada, com identidades hipertrofiadas e divisões ideológicas crescentes.

O custo desse ganho de coerência tem sido a intolerância política e o risco cada vez maior de não conseguirmos conviver em respeito democrático. A saída para isso pode ser o desalinhamento, o exercício crítico da moderação e da independência política.

O desalinhamento não precisa ser a retomada da despolitização informe, da incoerência e da confusão conceitual que tivemos no passado. Os blocos ideológicos não são necessariamente unidos pela coerência de valores e princípios, como sugere a teoria. O alinhamento entre liberalismo econômico e conservadorismo moral não é fruto de lógica interna, mas de uma aliança tática que tem sido costurada politicamente. Da mesma maneira, em alguns países o nacionalismo caminha junto à proteção social; noutros, se alinha com a austeridade.

Às vezes, cada lado do espectro político revela um pedaço do nosso problema social. O progressismo tem ressaltado as profundas iniquidades que recaem sobre as mulheres. O conservadorismo, a centralidade da família para a vida social. Não deveria ser preciso escolher entre uma ênfase e outra.

O alinhamento nos torna reféns das respostas políticas dominantes no campo a que nos filiamos. Não é porque reconhecemos a gravidade do racismo que precisamos necessariamente aceitar as cotas raciais como melhor solução de política pública.

O desalinhamento permite o convívio e a escuta — e o convívio modera. Ao conviver com gente dos dois campos políticos, passamos a entender suas perspectivas e moderamos as posições. As feministas mostram que o aborto muitas vezes responde a uma necessidade imperiosa: a sobrevivência psíquica da mãe. Os conservadores mostram que o aborto traz um problema ético inescapável. É possível entender as duas coisas, e essa compreensão simultânea modera a posição.

Pensar com independência, reconhecer razões em lados opostos e recusar a ortodoxia dos campos políticos não é debilidade. Não precisamos escolher entre a apatia e a polarização. Deve haver um ponto ótimo em que nos engajamos e nos responsabilizamos pela vida pública, mas sem comprar pacotes prontos que geram fechamento cognitivo, intolerância política e incapacidade de compromisso democrático. O desalinhamento estratégico pode ser o caminho para esse engajamento crítico.

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GOTHAM CITY É PINTO DIANTE DO DESCALABRO DO RIO DE JANEIRO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ao julgar sucessão de Castro, ministros do STF expuseram calamidade da política do Rio

Na quarta-feira, um advogado apelou ao mundo dos quadrinhos para descrever a crise do Rio de Janeiro. “O Rio virou Gotham City. Se a eleição for indireta, mais fácil eleger o Coringa que o Batman”, disse, na tribuna do Supremo.

O causídico arrancou risos, mas derrapou na metáfora. No Rio, nem super-herói tem garantia de ficha limpa. Uma das milícias mais violentas do estado, a Liga da Justiça, usava o símbolo do homem-morcego para demarcar território. Seu chefe, um ex-policial militar, atendia pelo apelido de Batman.

O Supremo reservou a semana para debater a crise sucessória aberta pela renúncia de Cláudio Castro. O julgamento foi paralisado ontem por um pedido de vista, mas já serviu para expor a calamidade da política fluminense.

“Não há nenhum estado do Brasil que esteja na situação do Rio”, resumiu o ministro Flávio Dino. Ele relembrou o histórico de sete governadores presos ou inelegíveis. Poderia ter citado a Assembleia Legislativa, que já teve quatro presidentes presos. O último, Rodrigo Bacellar, está trancado em Bangu 8. É acusado de vazar informações sigilosas para o Comando Vermelho.

“A infiltração do crime organizado na Assembleia do Rio não é ficção”, ressaltou o ministro Alexandre de Moraes. O decano Gilmar Mendes disse ter ouvido do diretor da PF que “32 ou 34 parlamentares da Assembleia recebiam mesada do jogo do bicho”. “Deus tenha piedade do Rio”, concluiu.

Condenado por desviar dinheiro público para se reeleger, Castro renunciou para fugir da cassação e evitar novas eleições diretas. Com o drible, tentou deixar um aliado como governador-tampão indicado por via indireta. Agora o Supremo precisa decidir se valida o golpe.

O grupo do ex-governador já apresentou seu candidato a Coringa. É o bolsonarista Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo. O deputado entrou na política pela via do nepotismo, ao ser nomeado secretário pelo pai. Passou pela gestão de Castro e agora quer assumir sua cadeira pelas mãos da Alerj.

Enquanto o julgamento não é concluído, o desembargador Ricardo Couto segue como governador interino. Presidente do Tribunal de Justiça, ele tem evitado despachar no Palácio Guanabara, onde as paredes têm ouvidos.

“Não queria estar no lugar de Sua Excelência”, gracejou ontem o ministro Kassio Nunes Marques, antes de votar pela eleição indireta. Gotham City é pinto diante do descalabro do Rio.

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CÁRMEN, DIAS E MESSIAS PAUTAM AGENDA DO STF E OFUSCAM MASTER

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Deslocar o foco das atenções para temas institucionais complexos, como a sucessão no Rio, a reorganização do TSE e a indicação ao STF, funciona como amortecedor da crise na Corte

Uma sequência de movimentos no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Senado, embora aparentemente desconectados, revela uma engrenagem institucional em pleno funcionamento sob tensão. A reorganização da agenda política deixou em segundo plano o explosivo caso do Banco Master, que gerou grande constrangimento para o ministro Alexandre de Moraes.

O primeiro fato relevante foi protagonizado pela ministra Cármen Lúcia, que anunciou a antecipação de sua saída da presidência do TSE para 14 de abril. O gesto, justificado como uma medida administrativa para permitir melhor preparação das eleições, tem implicações políticas evidentes. Ao abrir espaço para o ministro Nunes Marques assumir a presidência da Corte eleitoral, consolida-se uma inflexão no comando do processo eleitoral de 2026, com a presença de nomes indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em posições-chave, incluindo André Mendonça na vice-presidência da Corte. Trata-se de uma mudança silenciosa, mas estratégica, no equilíbrio de forças institucionais que conduzirão o pleito.

Paralelamente, o STF mergulhou em uma crise federativa e institucional de grande complexidade ao analisar o caso da sucessão do governo do Rio de Janeiro, após a renúncia de Cláudio Castro e a desorganização completa da linha sucessória estadual. O julgamento caminhava para consolidar maioria (4 x 1) favorável à realização de eleições indiretas, de acordo com os votos de Luiz Fux, Mendonça, Nunes Marques e da própria Cármen Lúcia, mas a seguir foi interrompido por um pedido de vista do ministro Flávio Dino.

Ao alegar necessidade de aguardar o acórdão do TSE sobre a cassação e a renúncia de Castro, Dino adotou uma postura de cautela jurídica que, na prática, suspende uma decisão politicamente sensível. O caso foi definido pelo próprio ministro como uma “encruzilhada jurídica”, expressão que sintetiza o dilema central: definir se a vacância do cargo foi de natureza eleitoral ou administrativa. Essa distinção é decisiva, pois determina se a eleição deve ser direta (com voto popular) ou indireta (pela Assembleia Legislativa).

O caso Cláudio Castro revela o grau de deterioração institucional do estado: sem governador, sem vice, com o presidente da Assembleia Legislativa impedido e preso, e com o comando provisório entregue ao presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto. O retrato é de colapso político, agravado por denúncias de infiltração do crime organizado no Legislativo estadual, mencionadas, inclusive, pelo ministro Gilmar Mendes, que disse ter ouvido de um diretor da Polícia Federal (PF) que de 32 a 34 deputados recebiam dinheiro do jogo do bicho.

Equilíbrio institucional

Ao mesmo tempo, no Senado, avançou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), encaminhou o nome à Comissão de Constituição e Justiça, em um movimento interpretado como gesto político ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de resistências iniciais, causadas pelo fato de o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), indicado pelo presidente do Senado, ter sido preterido por Lula, que o quer candidato ao governo de Minas.

A indicação de Messias revela uma barganha entre Executivo e Legislativo. A demora no envio da mensagem presidencial, seguida de intensa articulação de Messias junto a cerca de 70 senadores, indica que a aprovação — que exige 41 votos — está sendo construída com base em negociação política direta, e não apenas em critérios técnicos. O relator Weverton Rocha (PDT-MA) já sinalizou um relatório favorável. Tudo indica que o governo conseguiu recompor sua base no Senado, em razão das articulações eleitorais.

No entanto, a eventual entrada de Messias no STF tende a aprofundar a percepção pública de alinhamento entre o Judiciário e o Executivo, somando-se a ministros já identificados com o governo. Internamente, já se delineia uma disputa por sua futura posição nos blocos informais da Corte. O Supremo de fato se tornou uma arena política, ainda que as manobras e acordos de bastidores tenham que se traduzir em decisões jurídicas.

O pano de fundo de todos esses movimentos é justamente o que ficou “na geladeira” nessa quinta-feira: o caso Master. Deslocar o foco das atenções para temas institucionais complexos, como a sucessão no Rio, a reorganização do TSE e a indicação ao STF, funciona como amortecedor político para um escândalo de grandes proporções, que envolve sistema financeiro, agentes públicos e possíveis ramificações dentro do próprio Estado. O instinto de sobrevivência do establishment falou mais alto do que as divergências políticas entre seus principais atores.

As linhas de força desse processo estão profundamente acopladas ao cenário eleitoral de 2026. Há uma reorganização silenciosa e natural do controle institucional das eleições, com mudanças relevantes no comando do TSE, em razão das regras do jogo da sucessão naquela Corte. O STF assume a responsabilidade de resolver uma crise institucional no terceiro maior colégio eleitoral do país, com 12.644.616 cidadãos aptos a votar. A entrada de Jorge Messias no Supremo, caso aprovada, fortalece a posição de Lula na recomposição interna de forças. Executivo, Legislativo e Judiciário operam em regime de contenção de danos para manter o equilíbrio institucional.

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GUERRA, ELEIÇÕES E A ECONOMIA

Armando Castelar Pinheiro*, Valor Econômico

O espaço para relaxar a política monetária tende seguir apertado, como aponta a curva de juros, que antecipa cortes relativamente modestos da Selic este ano

Quase seis semanas depois de o conflito iniciado, o cessar-fogo, de duas semanas, saiu. Até certo ponto, foi uma surpresa: Israel não parecia interessada em parar os ataques, os EUA não pareciam ter um caminho politicamente aceitável para sair do conflito e o Irã não parecia ter uma liderança capaz de negociar uma saída. Talvez não por outra razão o que foi acertado soe tão confuso, com detalhes diferentes aparecendo em línguas e porta-vozes distintos. O que, claro, coloca em questão se será possível alcançar um acordo duradouro e o que este contemplará.

Não se quer com isso menosprezar o papel da diplomacia e a possibilidade de encontrar uma saída para essa guerra. Tomara que sim. Mas, em essa não ocorrendo, o conflito se estenderá e as consequências negativas para a economia mundial vão se acentuar, com os preços do petróleo, do gás e dos fertilizantes subindo mais, com significativos impactos estagflacionários. Com o tempo, mais instalações produtivas serão destruídas e, principalmente, os estoques desses produtos, hoje utilizados para atender à demanda, irão se esgotar.

As projeções para o PIB do Brasil subiram para 1,85% pelo fato de sermos exportadores líquidos de petróleo

Além disso, muitos governos, inclusive o brasileiro, têm absorvido parte do impacto da guerra sobre os preços, em especial de combustíveis, mas isso ficará mais difícil com o passar do tempo, pelo acúmulo do ônus fiscal daí resultante. Isso em um contexto em que as contas públicas já vinham se deteriorando, com a dívida dos governos em alta. Com a escalada dos juros provocada pela guerra, o financiamento dessa dívida está mais caro, também por aí levando a uma deterioração fiscal adicional. Sem falar, claro, da esperada expansão dos gastos com defesa, que tende a ocorrer em praticamente toda parte.

Mesmo em um acordo duradouro sendo obtido, a situação à frente é mais difícil do que há seis semanas atrás. O cessar-fogo vai limitar, mas não eliminar o choque estagflacionário. Muitas instalações produtivas foram destruídas e sua reconstrução levará anos. A passagem pelo Estreito de Ormuz seguirá complicada. O preço do petróleo não voltará tão cedo ao patamar anterior. A inflação já subiu e seus efeitos secundários tendem a se estender. Em toda parte, o espaço para cortar juros seguirá menor do que antes.

Porém, esse quadro não parece inteiramente precificado, com o mercado, em várias dimensões, ainda apostando que as coisas vão logo voltar a ficar como antes. Verdade que a cotação do petróleo no mercado futuro subiu bem, ainda que siga bem abaixo do preço spot. Mas o mercado acionário, por exemplo, parece ignorar os riscos colocados à frente: o S&P 500, por exemplo, fechou quarta-feira apenas 1,4% abaixo do patamar de 27 de fevereiro.

É interessante observar como a economia brasileira tem se saído relativamente bem, em meio a esse não trivial choque externo. Verdade que a previsão de inflação para este ano subiu bem, de 3,91% na véspera do conflito para 4,36% no Focus passado. Mas as projeções de PIB subiram (1,82% para 1,85%), as de déficit em conta corrente caíram (US$ 67,8 para US$ 65,0 bilhões) e as do resultado primário ficaram estáveis (0,5% do PIB). Por sua vez, o real se valorizou 1,2% frente ao dólar, em contraste com a valorização de 1,6% no DXY, enquanto o Ibovespa subiu quase 2%. Melhor, portanto, que nas economias avançadas e na média dos emergentes.

Isso reflete em grande medida o fato de sermos exportadores líquidos de petróleo, de forma que a alta de seu preço, ainda que impacte a inflação, tende a favorecer a atividade econômica, as contas externas e as contas públicas. Não se pode descartar, porém, que esse bom desempenho também reflita o ganho de competitividade eleitoral da oposição nas eleições presidenciais de outubro próximo. As pesquisas mostram que as chances de o senador Flavio Bolsonaro sair vencedor, que eram relativamente baixas até algumas semanas atrás, subiram bem; hoje, ele empata com o presidente Lula nas pesquisas para o segundo turno das eleições presidenciais.

Ainda que, se essa análise estiver correta, isso possa implicar que, a partir de 2027, o país tenha um ajuste fiscal, com menor aumento do gasto corrente e da dívida pública, o caminho até lá tende a ser complicado. De um lado, pois o país pode se mostrar mais sensível a um choque estagflacionário externo mais longo e, talvez, mais forte. Por exemplo, pode ficar mais difícil manter a atual defasagem nos preços do diesel e da gasolina. De outro, pois há o risco de termos mais medidas de estímulo fiscal em reação à evolução das pesquisas eleitorais em favor da oposição.

Ainda que estejamos falando de “apenas” seis meses até as eleições, o quadro econômico até lá pode complicar bastante, em função desses dois fatores. O espaço para relaxar a política monetária tende seguir apertado, como refletido na estrutura a termo da curva de juros, que antecipa cortes relativamente modestos da Selic este ano. Ora, com o setor público, as empresas e as famílias bastante endividados, isso significa um elevado risco de uma crise mais séria, colocando o Banco Central em uma situação bem difícil.

*Armando Castelar Pinheiro, professor da FGV Direito Rio e do Instituto de Economia da UFRJ, é PhD em economia pela Universidade da Califórnia, Berkeley.

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QUANTRO PEDRAS NO CAMINHO DA POLARIZAÇÃO

Fernando Luiz Abrucio*, Valor Econômico

Força dos candidatos vai variar conforme lidem com efeito Trump, casos de corrupção, situação nos estados e eleitor independente

O que as eleições presidenciais de 2022 e 2026 têm em comum? Os analistas políticos, de forma quase unânime, responderiam: a permanência da polarização entre o lulismo e o bolsonarismo. Mas isso quer dizer que o enredo da corrida eleitoral será o mesmo? Aqui estão as diferenças.

Há temas que podem afetar ambos os lados, de maneira a enfraquecer um ou outro, gerando maior incerteza do que no pleito passado. Na verdade, existem pelo menos quatro pedras no trajeto cujas dificuldades podem ser antevistas agora, mas cujos desfechos ainda são imprevisíveis.

A história de 2022 foi um samba de uma nota só. Foi uma eleição polarizada e a mais concorrida desde a redemocratização, mas o enredo dividia claramente os presidenciáveis e suas estratégias. O fio condutor era o desempenho do governo Jair Bolsonaro. Os bolsonaristas defendiam com unhas e dentes seu líder, aceitando inclusive algum desfecho “heterodoxo” e golpista, enquanto a oposição comandada por Lula dizia que a reeleição do presidente significaria a continuação da tragédia simbolizada pela política contra a covid-19 e mesmo o fim da própria democracia.

Houve episódios emocionantes durante a campanha, como as loucuras de Roberto Jefferson e Carla Zambelli, porém, o plebiscito da eleição nunca mudou de sentido. O resultado final foi uma vitória apertada e pelo negativo, pois Lula venceu principalmente para que o bolsonarismo não continuasse no poder. Obviamente que agora há também um voto de avaliação do governo lulista, como sempre ocorre em tentativas de reeleição. Só que o jogo de 2026 é mais complexo, pois as forças dos candidatos poderão variar na longa caminhada até outubro conforme lidem com quatro pedras presentes na corrida eleitoral.

A primeira pedra é o cenário geopolítico, derivado basicamente da política externa do governo Trump. Suas políticas podem atrapalhar Lula ou Flávio Bolsonaro, e ambos têm menos controle do que imaginam sobre essa enorme influência exógena. A boa estratégia será usar os efeitos da ação trumpista a seu favor, em meio a uma grande incerteza em acompanhar os momentos de fúria impetuosa ou de confusão do presidente americano - para não falar de suas amareladas, o já famoso Taco (Trump Always Chicken Out).

Lula perde com os efeitos econômicos da política trumpista. O preço do petróleo ou novas tarifas podem atrapalhar o caminho da reeleição, especialmente se tiverem efeitos negativos no custo de vida dos brasileiros. Por quanto tempo a guerra contra o Irã vai afetar a economia mundial? Ninguém honestamente sabe.

O risco para o outro lado é outro: Trump é muito mal visto pelo eleitorado brasileiro, e quem se abraçar demais com ele aumenta suas chances de derrota. Flávio Bolsonaro não se deu conta que esta não é a eleição de seu pai, em 2018, e continua propondo um amor carnal com o presidente americano que a maioria do povo no Brasil não quer.

Imaginem se Trump punir o Brasil por causa do Pix. O culpado dessa desgraça será o presidente americano, e quem estiver ao lado dele será seu cúmplice. Não adianta Flávio Bolsonaro dizer que foi o governo de seu pai o criador dessa instituição nacional. Ele terá que dizer que discorda do trumpismo e que não aceitará tal interferência na política brasileira. Se fizer isso, o bolsonarismo terá de mudar toda a sua cartilha de forma relâmpago. Qual a probabilidade de essa metamorfose ocorrer?

Incertezas grandes podem derivar de uma segunda pedra, relacionada aos casos de corrupção ou desvio ético. A novela do Master tem enormes probabilidades de ser marcante no pleito de 2026. Políticos de muitos lados podem surgir como protagonistas dessa história, que pode tirar muitos votos. Pelos fatos conhecidos até aqui, a maioria dos envolvidos está ligada ao Centrão, cujos caciques vinculados ao escândalo tendem a se tornar muito tóxicos para as candidaturas presidenciais.

Por isso, fazer alianças com alguns desses partidos ou líderes do Centrão pode ser um tiro no pé. Isso atrapalha mais Flávio Bolsonaro, que pretendia ter esses parceiros para se vender como a faceta moderada do bolsonarismo. Se os presidentes do PP e do União Brasil forem colocados no centro da ribalta do caso Master, quem estiver com eles será visto como companheiro de corruptos que roubaram dinheiro público e privado.

Só que o caso Master é um combo muito amplo, aparentemente envolvendo muita gente, e não só do mundo da política. Embora envolva empresários, funcionários públicos e até uma igreja, seu impacto maior, por ora, está no possível relacionamento espúrio com ministros do Supremo Tribunal Federal. Por conta disso, esse escândalo ganha no momento um caráter maior de crise do sistema político brasileiro.

Ainda não se sabe a dimensão que esse fenômeno terá na corrida eleitoral, mas duas coisas são certas. A primeira é que Lula, mesmo não havendo nenhum indício de participação no caso, é mais prejudicado do que a oposição. O presidente é visto como o fiador último das instituições para o povo e, ademais, o lulismo aliou-se fortemente com o STF nos últimos anos, especialmente para contrabalançar sua fragilidade no Congresso Nacional. Uma segunda coisa também é bem provável: o discurso bolsonarista contra a “ditadura” do Supremo vai se fortalecer nas eleições, ajudando Flávio Bolsonaro.

A discussão sobre a corrupção e desvios éticos, no entanto, não termina no caso Master. Em especial, o que Flávio Bolsonaro, junto com o bolsonarismo do Rio de Janeiro, fez nos verões passados pode ser uma pedra muito pesada no meio do caminho eleitoral. O escândalo da rachadinha e suas derivações em lojas de chocolate de fachada com certeza voltarão à boca do povo. Neste episódio, há uma contradição para o discurso bolsonarista: quem salvou Flávio Bolsonaro dessa investigação foram dois ministros do STF que os bolsonaristas querem mandar para casa. Com certeza, o passado não será apagado numa situação de crise.

A terceira pedra já é velha conhecida da política brasileira, mas parece que suas armadilhas estão mais perigosas em 2026. Trata-se da dinâmica regional que afeta as alianças políticas e as estratégias de conquista do voto majoritário do povo brasileiro. Por exemplo, a entrada de Ronaldo Caiado na disputa presidencial influenciará eleições estaduais, como as de Goiás e do Paraná, além de ter o potencial de retirar votos de Flávio no agro e entre os evangélicos.

Além disso, Bolsonaro filho construiu poucos palanques bons no Nordeste e há incertezas em Minas Gerais que não existiam em 2022. Mesmo no Rio, onde o bolsonarismo é forte, o legado desastrado de Cláudio Castro, cassado por corrupção e com parceiros presos por ligação com o Comando Vermelho, poderá ter um peso maior do que se imagina.

Lula não escapa dessas armadilhas. Em São Paulo terá uma disputa duríssima. Há ainda muitas incertezas em Minas. Nos estados do Sul pouco se avançou eleitoralmente desde a última disputa presidencial, o que se complica ainda com a briga do PT nacional com a seção gaúcha do partido. E mesmo no Nordeste, onde o lulismo tem sua maior fortaleza eleitoral, o cenário não é tão róseo como no passado, com uma disputa difícil no Ceará e uma forte indefinição no Maranhão.

A quarta e última pedra é o sentimento de cansaço de parte decisiva do eleitorado, particularmente dos chamados independentes. É um grupo que sozinho não vence a eleição presidencial. Contudo, dado o quase empate entre os grupos polarizados, o voto que decidirá o pleito nacional virá de quem não se perfila automaticamente a nenhum dos polos.

Se em 2022 tais eleitores votaram em Lula porque queriam se livrar de Bolsonaro e mudar o governo, seu desejo hoje é de renovação, algo que para os independentes não está representado pelas duas principais candidaturas ao Palácio do Planalto.

Como as pedras relativas ao trumpismo e aos escândalos de corrupção podem ter efeitos diversos e ainda incertos sobre Flávio Bolsonaro e Lula, os eleitores independentes vão esperar para ver, observando o comportamento desses candidatos para punir o que se tornar o mais rejeitado entre eles. Afora isso, a dinâmica das eleições estaduais também mexerá com esse voto não polarizado, de modo que bolsonarismo e lulismo dependem em parte dos resultados das eleições estaduais.

Outras questões e fatos novos - o Imponderável da Silva, como diria Nelson Rodrigues - podem surgir no meio do caminho da polarização. Embora Caiado tenha dificuldades de ultrapassar Flávio Bolsonaro, até porque demorou para se desvencilhar do bolsonarismo, o seu crescimento em torno de experiência governamental ou de erros de seu adversário na extrema direita pode, sim, tornar as eleições mais competitivas e emocionantes.

Até que ponto? É difícil dizer isso agora, mas o caminho para romper a dualidade presidencial é duro. Surgiram candidatos antissistema que podem tirar poucos votos dos líderes, mas sua importância maior é gerar caminhos de decisão eleitoral, sobretudo no segundo turno, para os cansados eleitores independentes.

De todo modo, a polarização vai ser, no mínimo, moldada por quatro grandes pedras na corrida eleitoral. Quem lidar melhor com elas vencerá a disputa presidencial de 2026.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas.

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ALGUMAS LIÇÕES DA GUERRA

Artigo de Fernando Gabeira

A guerra ainda não acabou, mas já nos deu um farto material de reflexão para além do simples ajuste do preço do diesel e do querosene de aviação. A primeira conclusão estratégica é óbvia e bastante velha: é preciso realizar logo a transição energética e liberar o País da dependência de petróleo. Primeiro foi a Venezuela, agora o Irã. Em todos os lugares em que os norte-americanos vão buscar a democracia, acabam encontrando o petróleo.

Essa guerra no Irã tem se caracterizado por ataques à infraestrutura energética. O fechamento do Estreito de Ormuz era uma das consequências previsíveis, mas os EUA não a consideraram. Trump deu uma pista da indiferença americana, afirmando que os EUA tinham muito petróleo. Na visão dele, se os europeus não tivessem coragem de abrir o estreito, poderiam comprar óleo nos EUA, que o tem em abundância.

Outra lição importante deve estar sendo aprendida pelos países do Golfo que confiaram na segurança de seu grande aliado. Os EUA não só fizeram uma guerra por escolha na região como não foram capazes nem de defender suas bases, quanto mais portos e refinarias.

O fôlego da resistência iraniana nos faz pensar um pouco no que se transformou a guerra moderna. Costumamos imaginá-las com aviões e navios, mas desde a Ucrânia que os drones ocupam um lugar de destaque. Mísseis e drones parecem ser a base de uma defesa eficaz.

O Brasil já pode construir aviões supersônicos, depois de comprar os caças Gripen da Suécia. O compromisso de transferência de tecnologia funcionou. Dilma acertou. No entanto, de lá para cá, algo mais simples, aparentemente, aparece como uma grande arma. Certamente os especialistas em segurança brasileiros devem ter se dado conta disso, e, em breve, estaremos fabricando drones brasileiros em quantidade industrial. Na minha concepção de leigo, deveríamos avançar nesse campo, aprendendo ao máximo com os ucranianos forçados a desenvolver modelos cada vez mais eficazes.

No campo dos mísseis, o Brasil já produz os seus. O famoso Matador e outros, que colocam o País num grupo de nações que detêm o ciclo completo da tecnologia de mísseis. Pelo que se vê no Irã, não se trata apenas de ter mísseis, mas tê-los em grande quantidade. O Irã se preparou 40 anos para uma guerra. O Brasil é um país democrático e pacífico. Talvez não precise de tanta rigidez em seus planos. Mas algumas ideias que estamos vendo no terreno poderiam ser examinadas aqui.

Uma delas é a cadeia de comando com alternativas bem definidas, de forma que a morte de um líder seja imediatamente substituída por outro. Outra questão importante: a descentralização. O Irã é cinco vezes menor do que o Brasil. Teve algum sucesso descentralizando suas forças. Num país de 8 milhões de quilômetros quadrados, a descentralização é um desafio ainda maior, considerando áreas pouco habitadas como a Amazônia.

Não imaginei que estivesse de refletir sobre esses temas. O mundo mudou muito nessa segunda década do século. Falar de guerra não é um devaneio vicioso. A lei do mais forte subitamente subiu ao topo da agenda com a visão de Trump e com a invasão da Ucrânia pelos russos. Fala-se hoje de acabar com uma civilização com muita naturalidade. O bombardeio de infraestrutura civil é um crime de guerra, mas não constrange ninguém. Não só as infraestruturas civis, mas os próprios civis foram bombardeados em Gaza.

As alianças estão se desfazendo, a começar por aquela que marcou o pós-guerra: a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). O que era trabalho comum está se desfazendo na cumplicidade de Trump com a Rússia na Ucrânia, no desejo manifesto de ocupar a Groenlândia. Mesmo na América Latina é difícil hoje uma ampla posição de independência. Grande parte dos governos se rendeu ao fascínio poderoso de Trump.

O Irã se preparou anos para o pior, pois o tipo de governo ditatorial não espera outra coisa, além da guerra. Não é o caso do Brasil, que sempre vai trabalhar com o diálogo e soluções políticas para os conflitos.

Mas no mundo atual, como diz o primeiro-ministro do Canadá, Mark Carney, quem não senta na mesa está no menu, o perigo de ser engolido é muito grande. O que diriam as novas gerações se deixássemos de notar os sinais?

Não há nenhuma urgência, nenhum pânico. Apenas uma tendência que não pode ser ignorada, inclusive, no ano eleitoral. Não temos inimigos, mas o excesso de confiança em Trump pode levar ao desastre. Os países do Golfo não foram protegidos, ao contrário, Trump levou a guerra para lá. E os que dependem do Estreito de Ormuz ouviram isso: se virem, temos petróleo de sobra. Uma versão rude do slogan America First.

Um homem que acorda disposto a acabar com uma civilização que existe há mais de 2.500 anos, como diz a música popular, é ruim da cabeça e provavelmente doente do pé.

Artigo publicado no jornal Estadão em 10 / 04 / 2026

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E SE LULA NÃO FOR CANDIDATO ?

Andrea Jubé, Valor Econômico

Na cúpula petista há quem afirme que presidente pode dar um passo para trás se conjuntura não melhorar; maioria das lideranças, no entanto, é veemente ao assegurar candidatura

Em outros tempos, a vida dos presidentes da República, se não era mais fácil, parecia ter soluções mais simples para os problemas. Enquanto nos dias de hoje a queda de braço por uma cadeira no Supremo Tribunal Federal (STF) deflagrou uma crise institucional entre Senado e Palácio do Planalto, no passado, o presidente Getúlio Vargas resgatou um aliado dissidente com uma vaga na Academia Brasileira de Letras (ABL).

Pouco antes do golpe do Estado Novo, a influência e o poder bélico do governador do Rio Grande do Sul, Flores da Cunha, inquietavam Getúlio. Por isso, ele se movimentou para se reconciliar com ex-aliados gaúchos, que romperam com ele para aderir à Revolução Constitucionalista de 1932, como João Neves da Fontoura e Batista Lusardo. O objetivo era esvaziar o rol de aliados do desafeto. Em uma conjuntura em que o fardão dos imortais era mais atraente, para alguns, do que a toga do STF, Getúlio e Assis Chateaubriand atuaram para garantir a eleição de Fontoura para a ABL em 1936.

Nos dias atuais, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva amargou quase cinco meses de espera até que o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), concordasse em dar andamento à indicação do ministro da Advocacia-Geral da União (AGU), Jorge Messias, para o STF.

A crise entre Senado e Planalto continua latente, mas a percepção geral é que a temperatura baixou, viabilizando a retomada do diálogo. Em um aceno ao governo, o presidente do Senado finalmente enviou o processo de Messias para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ), onde a sabatina será realizada em 29 de abril.

Porém, nos bastidores, fontes ligadas a Alcolumbre afirmam que a relação dele com Lula ainda não distensionou. Segundo esses interlocutores, as declarações do presidente sobre a crise do Banco Master na quarta-feira (8), ao ICL Notícias, não foram bem assimiladas no entorno do senador do Amapá nem entre alguns ministros do STF.

Em um esforço de descolar sua imagem do Supremo, que foi contaminado pela crise do Master, Lula relatou ter aconselhado o ministro Alexandre de Moraes a se declarar impedido de julgar ações relacionadas às fraudes atribuídas à instituição financeira, liquidada pelo Banco Central. O líder petista citou o contrato do Master com o escritório de advocacia de Viviane Barci, esposa do ministro, e ressaltou que o magistrado não deveria permitir que o escândalo jogasse fora a “biografia” dele.

Nesse cenário, Alcolumbre concordou em destravar a indicação de Messias ao STF, mas, ao mesmo tempo, acenou para a oposição. Programou para um dia depois da sabatina, ou seja, 30 de abril, uma sessão do Congresso para votar o veto ao projeto de lei da dosimetria, que permitirá a redução da pena do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), condenado a mais de 27 anos de prisão por tentativa de golpe de Estado.

Na mesma entrevista, Lula deixou petistas e o ministro da Secretaria de Comunicação Social, Sidônio Palmeira, atordoados ao afirmar que não decidiu se será candidato à reeleição. “Vai ter uma convenção no meio de junho e eu, para decidir ser candidato, vou ter que apresentar um programa, uma coisa nova pra esse país”, justificou. Na sequência, entretanto, gerou mais confusão: “Todo mundo sabe que dificilmente eu deixarei de ser candidato”.

Nessa entrevista, Lula contrariou Sidônio, que dois dias antes, foi a público rechaçar rumores, que estariam circulando entre políticos do Centrão, de que o presidente desistiria da candidatura. “Esta conversa simplesmente não existe. Lula é candidatíssimo à reeleição”, enfatizou, ao portal Metrópoles. Sidônio deixará o cargo em junho para assumir a função de marqueteiro da campanha.

Mesmo na cúpula petista, há quem afirme que Lula poderia, realmente, dar um passo para trás, se a conjuntura não melhorar. O argumento é de que ele não pode “jogar a sua biografia no lixo”, na hipótese de eventual derrota para o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) - justamente, o filho do adversário que, em 2022, tentou impedi-lo de tomar posse. A maioria das lideranças petistas, contudo, é veemente ao assegurar que o mandatário levará a candidatura até o fim.

Um complicador para eventual recuo seria a falta de quadros de fôlego para substitui-lo na urna. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad é visto como um sucessor natural, até pelo recall da campanha de 2018. Mas Lula não quer nem pensar em afastá-lo da disputa em São Paulo. A interlocutores, o presidente já disse acreditar - mesmo na contramão das pesquisas - que o ex-prefeito de São Paulo tem chances, em uma campanha sem erros, de vencer o atual governador Tarcísio de Freitas (Republicanos).

Nesse contexto, crescem as apostas sobre o ex-ministro da Educação Camilo Santana, um dos quadros que mais se aproximou de Lula no atual mandato. Mas o ex-ministro está na linha de frente das negociações para impedir a vitória do ex-governador Ciro Gomes (PSDB) no Ceará, e manter o governo estadual nas mãos do PT.

A propósito da potencial dupla de sucessores, um petista histórico lembrou à coluna que ainda no início do governo, Lula dizia a interlocutores identificar no ex-ministro da Educação atributos eleitorais que faltariam ao ex-titular da Fazenda. A leitura do presidente era de que Camilo tinha “pele de povo”, e Haddad não.

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O ISOLAMENTO DE LULA A SEIS MESES DA ELEIÇÃO

Vera Magalhães, O Globo

Os canais do governo com o comando do Congresso se mostram obstruídos. É como se o Executivo fosse um mero espectador da agenda do país

Lula chega à sua sétima disputa presidencial isolado como nunca e demonstra mais dificuldade que em ocasiões passadas de reverter uma maré negativa. As trocas nos ministérios esvaziaram a já precária articulação política de seu terceiro mandato, ele está cercado de políticos e assessores com visão de esquerda e não tem diálogo fluente nem com o Congresso, nem com os setores da economia que mais se envolvem nas conversas preparatórias para as eleições.

Nesse ambiente marcado pela anemia política do incumbente, acumulam-se riscos de derrotas parlamentares, a discussão de medidas emergenciais em ritmo diário demonstra a preocupação que tomou conta do Palácio do Planalto e, para culminar, começam a fermentar teorias que, se ganharem tração, são altamente perniciosas para Lula, como aquela segundo a qual ele poderia desistir de disputar um novo mandato.

Em conversas nesta semana de aliados históricos de Lula com expoentes do mercado financeiro, do agronegócio e de outros setores, já havia quem não considerasse absurda a hipótese de “bidenização”, sua substituição por outro nome.

A colunista Mônica Bergamo, da Folha de S.Paulo, abordou conversas de bastidores que trazem o nome de Fernando Haddad como possível substituto de Lula na chapa presidencial. Quando questionado, Haddad tem sido peremptório em negar a possibilidade e retruca que o candidato é Lula.

Mas o simples fato de esse assunto começar a ser tratado em voz alta, ainda que reservadamente, por políticos, empresários e especialistas de marketing, entre outros atores, já é uma pista eloquente das dificuldades inéditas enfrentadas por Lula.

Sim, trata-se de alguém que já demonstrou ter sete vidas na política, ao vencer em 2006, depois do mensalão e do escândalo dos aloprados, e em 2022, depois de ter sido condenado e preso na Lava-Jato. Mas, para onde quer que se olhe, há adversidades no caminho para o quarto mandato. Nas pesquisas, nenhuma área do governo aparece bem avaliada. Diante disso, qualquer campanha publicitária esbarra, de saída, no muro de má vontade erigido pelo eleitor.

A defesa da democracia, um dos pilares sobre os quais Lula estruturou a atual passagem pela Presidência, também vai se mostrando mais limitada como catalisador eleitoral, uma vez que a rejeição a sua permanência no poder supera a demonstrada diante da possibilidade de volta do bolsonarismo.

Para que esses dados mudassem, Lula precisaria sensibilizar segmentos com que não tem hoje nenhuma interlocução, como empresários, profissionais liberais, representantes do agronegócio, pequenos empreendedores, evangélicos e tantos outros convencidos de que sua vida econômica piorou e de que o PT já deu o que tinha que dar.

Mesmo nas prioridades que elencou nos últimos meses para tentar reagir, não há senso de urgência da parte de quem ficou ao lado de Lula depois das desincompatibilizações. Basta ver a novela da escala 6x1: há quantos meses o governo anuncia que mandará um Projeto de Lei à Câmara, sem tomar a iniciativa?

O Planalto vai a reboque do noticiário, em vez de ter o protagonismo da agenda política. A iminência da votação, em datas consecutivas, da indicação de Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal e do veto integral de Lula ao projeto que amenizou as penas dos golpistas embute um duplo risco de derrota para Lula.

Nos dois casos, os canais com o comando do Congresso se mostram obstruídos. É como se o Executivo fosse mero espectador do desfecho de pautas que terão importância capital na campanha eleitoral.

O embrulho de última hora de medidas para tentar dar alento a endividados e evitar a explosão do preço dos combustíveis e o lavar de mãos tardio do caso Master terminam de compor o quadro de apatia do presidente a menos de seis meses do pleito.

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quinta-feira, 9 de abril de 2026

AS TERRAS RARAS E O DISCURSO DE SOBERANIA

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Terras raras é tema importante demais para ficar no discurso da extrema direita

Decisões exigem ciência aplicada, intenção política e compromisso democrático

O risco à democracia não é o único problema criado pela existência de um candidato de extrema direita com chances de chegar ao Palácio do Planalto. Ao levar à cena uma agenda para lá de retrógrada, ele manda para o fundo do poço a discussão política, aprisionada entre a entranhada ignorância dos fatos e a diminuta capacidade intelectual, ambas marcas da família golpista e de seu círculo mais próximo.

É o caso da proposta feita por Flávio Bolsonaro de oferecer aos Estados Unidos acesso irrestrito aos minerais críticos e às terras raras brasileiras em troca do apoio do trumpismo à sua candidatura e, por via das dúvidas, à campanha preventiva de descrédito do processo eleitoral que se avizinha, se o incumbente Lula crescer nas pesquisas. O assunto é importante demais para ficar limitado aos termos em que foi posto pelo Bolsonaro-2 e ali mantido pelas críticas que vem recebendo, assentadas em defesa abstrata da soberania nacional.

O Brasil é bem-dotado de terras raras —cerca de 18% das reservas globais— e de alguns minerais críticos, como nióbio, grafite, níquel e lítio, uns e outros indispensáveis à transição energética e à economia digital.

De forma incipiente, eles já são aqui explorados —ou estão em fase de pesquisa— por empresas nacionais, estrangeiras ou associadas entre si. Os investimentos externos vêm do Canadá, do Reino Unido e da China.

Além desta, União Europeia e EUA são o destino das exportações brasileiras de minérios em estado bruto.

Aqui e agora, são pelo menos dois os desafios a merecer debate intenso e informado. O primeiro é como o país quer entrar nessa seara: reforçará sua vocação de grande exportador de commodities valiosas ou deseja integrar de alguma forma cadeias de valor na produção de bens que incorporam os cobiçados minérios? Qualquer dessas escolhas envolverá legislação reguladora, políticas de incentivo e diplomacia econômica.

O segundo desafio é de natureza socioambiental. Parte importante das estratégicas reservas, ao que tudo indica, está na Amazônia —especialmente no Pará, no Amazonas e em Roraima— e, muitas, em unidades de conservação e territórios indígenas. Ambos já vêm sofrendo com a mineração ilegal e o que ela acarreta de degradação ambiental, criminalidade e desorganização dos modos de vida tradicionais e das culturas originárias.

A revelação da importância das terras raras e dos minerais críticos só acrescenta urgência a um problema que vem de muito antes. Quem não se lembra da exploração do ouro de Serra Pelada, cuja catástrofe Sebastião Salgado registrou em fotos notáveis?

Dadas as muitas utilidades dos minerais estratégicos, fica difícil imaginar que uma posição puramente preservacionista possa prevalecer. Insustentável, também, é a situação atual, que favorece a ilegalidade e o crime. Entre uma e outra, há diferentes soluções possíveis que reduzem danos ambientais e dão às comunidades indígenas participação nas decisões e nos frutos da exploração econômica. Mas os remédios não nascem por geração espontânea; demandam ciência aplicada, intenção política e compromisso democrático.

Em questão tão importante, a extrema direita não pode ditar a pauta, muito menos os termos da discussão.

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A PRÓPRIA LIBERDADE ESTÁ EM JOGO NAS ELEIÇÕES DA HUNGRIA

Folha de S. Paulo / Financial Times

Votação do próximo domingo mostrará se é possível derrotar a democracia iliberal de Orbán

Mesmo que oposição vença, governar após 16 anos de 'Estado máfia' será tarefa difícil

Tenho idade suficiente para lembrar da revolta húngara contra o comunismo soviético em 1956 e sua subsequente repressão brutal. Quão deprimente é, então, encontrar o governo da Hungria apoiando ferozmente o ataque de Vladimir Putin à Ucrânia e o assalto do governo Trump à União Europeia.

A Hungria é um país pequeno. Mas Viktor Orbán, seu primeiro-ministro, não é um homem de pouca influência. Para muitos dos chamados "conservadores nacionais", notadamente nos Estados Unidos, ele define uma forma bem-sucedida e admirável de política de direita. Isso até usa o disfarce de servir aos "valores tradicionais". Mas a realidade é o que o ex-ministro Bálint Magyar chama de "Estado máfia".

Isso torna as eleições parlamentares de domingo muito mais importantes do que o tamanho modesto da Hungria sugeriria. A derrota do homem que abraçou a noção de "democracia iliberal" pode significar muito para a sobrevivência da ameaçada versão "liberal". É por isso que o déspota da Rússia, Vladimir Putin, e o aspirante a déspota da América, Donald Trump, estão apoiando Orbán. Este último está até enviando seu vice-presidente, J.D. Vance, à Hungria para enfatizar seu respaldo.

Johan Norberg, um conhecido "liberal clássico", escreveu uma análise devastadora da tomada do Estado húngaro por Orbán para o Cato Institute. O instituto, para seu crédito, acredita em mercados livres e no Estado de direito. Ambos são anátema para os novos autoritários nos EUA (e em outros lugares), que parecem acreditar, em vez disso, em autoritarismo social e despotismo arbitrário.

A descrição de Norberg sobre o método de Orbán para acumular poder é reveladora e assustadora. O líder húngaro desmantelou o Estado de direito pouco a pouco, usando sua maioria para transformar a constituição. Entre outras coisas, isso lhe permitiu preencher o Tribunal Constitucional com aliados leais e simultaneamente reduzir seus poderes.

Mais importante ainda, um novo Escritório Judicial Nacional foi criado "para contratar, demitir, promover e rebaixar todos os juízes da Hungria". Nem é preciso dizer que Orbán também colocou aliados leais no comando de todas as instituições destinadas a fiscalizar o exercício arbitrário do poder pelo governo.

O governo também mudou a lei eleitoral para se favorecer de várias maneiras, incluindo dar 1 milhão de votos a húngaros étnicos que não vivem no país. Atacou a mídia livre, entre outras coisas, assumindo controle político sobre a mídia estatal e organizando o controle por aliados sobre empresas de mídia nominalmente independentes.

Isso é parte de um sistema maior fundado no favorecimento das atividades de empresários leais ao regime e no confisco de propriedade daqueles que não são. Orbán disse uma vez que estava procurando "oito a dez" capitalistas para administrar a economia. Notável e crucialmente, acrescenta Norberg, todo esse sistema foi "turbinado" com dinheiro da UE: "nos anos 2010, os fundos anuais da UE para a Hungria totalizaram até 4% do PIB". Em suma, a UE subsidiou sua própria subversão.

Além disso, argumenta Norberg, o governo assumiu elementos centrais da sociedade civil, notadamente escolas e ensino superior. Notoriamente, forçou a Universidade Centro-Europeia fundada por George Soros a sair do país. Aprovou restrições aos direitos de pessoas LGBT+. Limitou as atividades de ONGs estrangeiras. Ao mesmo tempo, criou "milhares de ONGs organizadas pelo governo" para conduzir campanhas de propaganda pró-governo.

Qual o resultado disso? Em uma medida de liberdade humana do Cato Institute e do Fraser Institute, a classificação da Hungria caiu do 31º lugar em 2010 para o 67º em 2023 —o último entre os países da UE. O país também caiu na maioria dos indicadores de governança do Banco Mundial, notadamente "voz e responsabilização", "qualidade regulatória", "Estado de direito" e "controle da corrupção".

No Índice de Percepção da Corrupção da Transparência Internacional, a classificação da Hungria é agora a mais baixa da UE. Não menos importante, sua classificação pelo V-Dem em várias medidas de democracia caiu dramaticamente.

Despotismo arbitrário turbinado pela corrupção —esse sistema soa familiar? Certamente deveria, já que parece ser precisamente o que o governo Trump está tentando implementar. É fascinante que isso seja o que "conservadorismo" parece significar para muitos que usam esse rótulo hoje em dia. No entanto, na Hungria, como nos EUA (mas diferentemente da Rússia), há uma possível brecha na armadura do autocrata: as eleições.

É possível derrotar um regime que está há 16 anos no poder e manipulou tudo o que pôde contra a chance de uma vitória da oposição? Parece, pelas pesquisas, que a oposição pode ter uma margem tão grande a seu favor que mesmo este governo será incapaz de reverter o voto. A oposição tem três coisas a seu favor: em Péter Magyar, finalmente tem um líder eficaz; após 16 anos, muitos estão fartos de Orbán; e a UE impõe alguns limites ao que o regime pode esperar conseguir. Devemos esperar que isso seja suficiente para mudar o governo democraticamente.

No entanto, duas coisas devem ser lembradas.

Primeiro, uma ditadura plebiscitária do tipo que Orbán tentou criar não é uma democracia propriamente dita (isto é, uma "democracia liberal"), porque está sem os direitos civis, políticos e legais que protegem os eleitores da trapaça daqueles que pretendem manter o poder indefinidamente. Todos esses devem ser restaurados.

Segundo um Péter Magyar vitorioso enfrentaria intensa oposição de todos aqueles que se beneficiaram do chamado Estado máfia —praticamente todos em posição de poder após tanto tempo. Governar contra esses incumbentes será difícil. Mas substituí-los pode ser ainda mais difícil. Uma vitória da oposição seria o fim da primeira batalha em uma longa guerra.

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EUA E IRÃ QUEREM FUGIR DA GUERRA, MAS MUNDO NÃO VAI ESCAPAR DA GUERRA TÃO CEDO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Há chance de que a troca de fogo pare ou diminua, mas conflito seguirá por outros meios

Principais autoridades do mundo esperam meses de efeitos econômicos ruins, mesmo com 'paz'

Estados Unidos e Irã querem cantar vitória e dar um jeito de acabar com a guerra, do modo que puderem, não tão rápido que pareça fuga, nem tão devagar que pareça provocação.

Donald Trump quer evitar mais estrago econômico-eleitoral e o risco de ver uma tripulação de avião abatido se tornar refém do inimigo, por exemplo. O Irã quer salvar o que resta das suas armas, do regime e tomar posse de Hormuz de vez, sua bomba nuclear sem radiação.

Americanos e iranianos aceitaram até esse cessar-fogo improvisado, trôpego e obscuro, acordo que não cancelaram mesmo com tantas violações básicas (tiros) neste primeiro dia de vigência. É indício do desejo de se livrar do fogo desta guerra.

Ainda que se livrem, os efeitos econômicos mais imediatos deste conflito específico vão demorar a passar. A reabertura de Hormuz será lenta, gradual e insegura. Pelas informações disponíveis, não estamos nem no começo do fim. Se depender de Israel, sabe-se lá.

Empresas de navegação estão com navios presos no golfo Pérsico faz mais de mês, pelo menos 800, dizem empresas especializadas nesse monitoramento. Mais da metade deles transporta combustíveis. No mais, são embarcações que carregam fertilizantes, minérios, alimentos, carros, eletrodomésticos etc. Há até transatlânticos de turismo.

Suponha-se que esses navios passem agora a fugir da zona de guerra, a sair pelo estreito de Hormuz, suposição otimista. No máximo quatro navios teriam saído do Golfo nesta quarta (8), o menor tráfego deste mês de abril (antes da guerra, eram pelo menos 100 por dia).

O Irã diz que navios apenas passarão por Hormuz depois de que forem verificados carga e destino —isso se passarem, a depender de decisão das Forças Armadas. Há relatos de que os iranianos estariam cobrando pedágio de pelo menos US$ 1 milhão por embarcação, a serem pagos em moeda chinesa ou em criptomoedas.

De certo, sabe-se que o Parlamento do Irã aprovou tal cobrança, em março, e dirigentes do país afirmaram em público que levariam a lei à prática.

Depois de dar o fora da zona de guerra do Golfo, essas empresas de navegação darão como certo que o trânsito voltou ao normal? Que não haverá risco de bomba ou de novo fechamento de Hormuz? Decerto o trânsito de navios deverá aumentar, no caso de algum acordo de interrupção da guerra. Pelo menos 15% do petróleo consumido no mundo ainda estará lá, no Golfo, para ser transportado, além de produtos essenciais como fertilizantes.

Mas as empresas vão voltar à região em qual ritmo? Além do mais, vai demorar para haver tanto petróleo e gás a ser transportado quanto havia antes da guerra. As autoridades da União Europeia, por exemplo, não acreditam na volta ao normal tão cedo (meses), mesmo que o Irã libere o tráfego, mediante pedágio, com um "acordo de paz" (entre aspas, pois paz não será).

O preço do barril do tipo Brent, para os contratos a serem liquidados em junho, caiu da casa dos US$ 110 para perto de US$ 95, com a notícia do cessar-fogo, ainda uns 32% mais caro do que logo antes do início da guerra, quando estava perto de US$ 72. Os contratos para dezembro estão em US$ 80. Mesmo com alívio paulatino, difícil haver queda de preços em relação ao imediato pré-guerra.

A pressão inflacionária vai permanecer por meses, pois. Resta saber se vai se espalhar para outros preços ou também prejudicar a atividade econômica. A direção dos principais bancos centrais do mundo, o do Brasil inclusive, não sabe.

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