sábado, 11 de abril de 2026

IMPÉRIO ODIADO

Jamil Chade, CartaCapital

Sob Donald Trump, os EUA experimentam um rápido declínio de sua liderança global

“Tivemos um bom período – cerca de oito décadas –, mas agora está claro que os Estados Unidos deixaram de ser os líderes do mundo livre.” A avaliação foi publicada em 24 de março pelo colunista do The New York Times Carlos Lozada, autor do livro The Washington Book: How to Read Politics and Politicians. Um de seus argumentos é de que parte do que diferentes governos norte-americanos tentaram realizar, ao longo de décadas, foi preservar um recurso essencial, a legitimidade internacional. Lozada conclui o artigo com um alerta: “Podemos estar entrando em um mundo pós-norte-americano, um mundo no qual o significado da América, os princípios e valores que o país sempre representou – às vezes na realidade, às vezes em aspiração – estão desaparecendo”. Mais: “A perda dessa América pode provar-se tão prejudicial, e muito mais duradoura, do que qualquer dano que as incursões de Donald Trump possam causar”.

Não se trata de uma avaliação isolada. Levantamentos revelam que, de fato, Trump se transformou num passivo para os EUA no mundo. Uma pesquisa realizada pela Gallup em 130 países constatou que o mundo não confia mais na Casa Branca para liderar absolutamente nada. De acordo com a enquete, a imagem dos Estados Unidos como atores centrais vive hoje um dos momentos de mais baixa popularidade no mundo inteiro.

Em 2009, um pouco menos da metade dos entrevistados (49%), em mais de cem países, dizia confiar no governo norte-americano, naquele momento comandado por Barack Obama. Em 2016, a taxa era de 46%. Um primeiro abalo ocorre em 2017, com a chegada de Trump ao poder. A vitória de Joe Biden, quatro anos depois, recupera em parte a credibilidade internacional dos EUA, mas em patamares mais baixos, e, ao longo dos anos, envereda por uma pequena, mas contínua queda.

Agora, com o comportamento errático de Trump, ofensas contra outros chefes de Estado, ruptura de alianças, os ataques a culturas diferentes, a difusão incansável de mentiras e o constante belicismo, a popularidade norte-americana mundo afora voltou a desabar. Hoje, apenas 31% dos entrevistados dizem confiar em Washington­, ante uma taxa de 36% favorável aos chineses. Em 2024, a taxa de popularidade da liderança norte-americana era de 39%. Se Trump prometeu que, com ele, os EUA voltariam a ser “respeitados em todo o mundo”, sua ingerência em assuntos domésticos, sequestros e mortes de adversários enterraram sua credibilidade.

A pesquisa também revela que nunca a liderança norte-americana atingiu um grau tão elevado de desaprovação internacional: 48%.

A aprovação caiu 10 pontos ­por­cen­tuais ou mais em 44 países, entre 2024 e 2025. Não por acaso, as quedas mais bruscas concentraram-se entre os aliados dos EUA, incluindo muitos parceiros da Otan A Alemanha liderou o mundo em sua ­desaprovação. A queda foi de 39 pontos porcentuais, seguida de perto por Portugal, com redução de 38 pontos porcentuais. Vários outros parceiros de longa data dos EUA, entre eles Canadá, Reino Unido e Itália, igualmente apresentaram um processo substancial de abandono da confiança. A única exceção entre os aliados dos EUA foi registrada em Israel, onde a popularidade da liderança norte-americana subiu mais de 10 pontos porcentuais. Hoje, 76% dos israelenses dizem apoiar Trump.

Para os autores do levantamento, a mudança na percepção da liderança dos EUA nas últimas duas décadas reflete “um mundo que caminha para uma ordem mais multipolar”. “Muitos países, especialmente aliados dos EUA, podem estar mais abertos a equilibrar as relações entre as grandes potências do que a se alinhar claramente com uma só”, destacaram. “Para os formuladores de políticas em alguns países aliados, isso pode tornar o alinhamento com os EUA mais delicado politicamente, mesmo que o engajamento com a China pareça um pouco mais aceitável. Para empresas e investidores, sinaliza um ambiente menos previsível, em que o sentimento público pode moldar o acesso ao mercado, à regulamentação e às parcerias.”

Por qualquer critério concreto de poder, não há ninguém que ainda possa superar os EUA no cenário internacional. Com mais de 700 bases pelo mundo e um orçamento militar recorde para 2027 de 1,5 trilhão de dólares, o país continua a deter um poderio bélico incomparável. Sua economia ainda é a maior do mundo. Mas, durante décadas, a verdadeira vantagem estratégica dos EUA também residia em uma espécie de autoridade moral. Hoje, ela sofre abalos inéditos a cada postagem nas redes sociais, a cada ofensa e mentiras proclamadas por Trump, a cada míssil disparado e a cada sinalização de que, em decadência, a Casa Branca deixou de ser um ator confiável.

Publicado na edição n° 1408 de CartaCapital, em 15 de abril de 2026.

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NOSSO ESTREITO DE ORMUZ

Cristovam Buarque, Veja

No Brasil, barramos a formação educacional de toda uma geração

O Brasil percebe o custo do bloqueio no Estreito de Ormuz, que impede o fluxo de navios com petróleo, mas parece não perceber os obstáculos que impedem o fluxo de nossas crianças ao longo da educação de base, dos ensinos fundamental e médio. É corte que subtrai um recurso seminal: o conhecimento. Nosso Estreito de Ormuz interrompe a travessia de 80% dos brasileiros em direção à conclusão do ensino médio com a qualidade necessária para enfrentar os desafios do mundo contemporâneo. Assim como o Irã faz com os petroleiros em Ormuz, aqui barramos a formação de nossa população. Barramos o progresso econômico por falta de produtividade, inovação e competitividade. Ficamos presos na armadilha da baixa renda média; barramos o progresso social, impedindo a distribuição da renda conforme o talento desenvolvido. No passado, uma escrava grávida era um navio negreiro levando seu filho para a escravidão; no presente, um brasileiro sem acesso à educação é um navio negreiro levando a si próprio para a escravidão moderna.

Nas atuais condições de nosso sistema escolar, dos 2,5 milhões de brasileiros que nasceram em 2025, 50000 nem sequer serão matriculados; 1250000 serão deixados para trás por não concluírem a educação básica, analfabetos para a contemporaneidade; dos que concluirão o ensino médio, no máximo 200000 terão recebido formação que lhes forneça o “mapa” para buscar a própria felicidade e as ferramentas para construir um país mais justo e eficiente. É como se fechássemos nosso Estreito de Ormuz para três em cada quatro brasileiros.

“Falta o sentimento nacional de que o conhecimento é o recurso fundamental para o progresso”

O Brasil precisa de um sistema nacional de educação básica no qual todos concluam essa etapa com máxima qualidade e absoluta equidade, independentemente da renda e do endereço, e em que nenhuma criança ou jovem seja bloqueado e impedido de receber o mais eficiente combustível do progresso: educação, ciência, tecnologia.

Com 220 milhões de habitantes, a educação de qualidade para todos permitiria elevar a produtividade e a renda nacional, colocando o Brasil entre as cinco maiores economias nacionais, e a equidade permitiria a distribuição justa dessa renda ampliada conforme o talento e o esforço pessoal. Temos todos os instrumentos necessários para garantir a trajetória de nossa população ao longo da educação: um idioma comum, o que facilita a educação básica; 8 milhões de universitários, o que fortalece a base da produção intelectual; um território integrado; um sistema de comunicação eficiente; e 185000 escolas, com 2 milhões de professores. Faltam o sentimento nacional de que o conhecimento é o recurso fundamental para o progresso e a disposição de incluir todos os brasileiros em um mesmo sistema educacional: abrir nosso Ormuz para todos e permitir que cada cérebro avance em sua educação.

O outro Ormuz se fecha ou abre com bombas, o nosso se abre construindo escolas. O Ormuz iraniano se fecha explodindo bombas, o nosso se abriria instalando escolas de qualidade para todos. Acabaria a burocracia, o protecionismo, o corporativismo, a instabilidade jurídica e a corrupção. Bastaria dar a todo sistema escolar a mesma qualidade de nossas escolas e institutos federais.

Publicado em VEJA de 10 de abril de 2026, edição nº 2990

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QUANTOS CORINGAS EXISTEM NA POLÍTICA NO RIO, E QUEM OS CHEFIA ?

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Com a bênção do pai, Flávio Bolsonaro quer levar Cláudio Castro ao Senado

Ex-governador, que renunciou para evitar cassação, é responsável pelo vácuo no poder

Postada na quarta (8) —dia em que o STF começou a analisar o modelo para um mandato-tampão no Rio de Janeiro—, a foto mostra o ex-governador Cláudio Castro e o candidato à Presidência Flávio Bolsonaro reunidos na sede do Partido Liberal, em Brasília. Os dois exibem um sorriso amarelo, típico de quem não se suporta, mas precisa manter as aparências. Em segundo plano aparece um boneco de papelão de Bolsonaro, indicando que, mesmo preso, o ex-presidente segue dando as cartas na política fluminense.

"Mais unidos do que nunca", tuitou o ex-governador. Depois de renunciar para não ter o cargo cassado no TSE por abuso de poder político e econômico, ele mantém a candidatura ao Senado com a bênção dos Bolsonaros. Em 2022, para impulsionar sua reeleição, contratou mais de 20 mil funcionários fantasmas. Agora, além do marketing da matança, é de se imaginar que tipo de golpe Castro esconde na manga.

O presidente do PL, Valdemar Costa Neto, confirmou o "apoio irrestrito" ao ex-governador —a sigla atuará para reverter a inelegibilidade declarada no TSE. Uma movimentação previsível: bolsonaristas se consideram acima da lei e agem com desprezo pelas instituições, quando não as destroem.

Deve-se a Cláudio Castro o cenário de incertezas sobre quem irá governar o Rio de Janeiro até o fim do ano e, sobretudo, no período eleitoral. O vice-governador, Thiago Pampolha, renunciou a troco de uma cadeira no Tribunal de Contas, o que permitiria ao presidente da Assembleia, Rodrigo Bacellar, assumir o cargo. Tendo a máquina pública nas mãos, Bacellar seria o candidato de Bolsonaro ao governo. Deu ruim, como se diz, pois o escolhido para continuar o esquema clientelista acabou preso por ligação com o Comando Vermelho. Que surpresa, não?

No julgamento do Supremo —que foi paralisado após o pedido de vista do ministro Flávio Dino—, o advogado Thiago Boverio comparou o Rio a Gotham City: "É mais fácil elegerem o Coringa do que o Batman", disse. Mas quantos Coringas existem? E quem é o chefão deles?

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TRUMP APOIA ORBÁN

Da Folha de S. Paulo

Trump diz que vai fortalecer economia da Hungria se Orbán vencer eleição

Governo dos EUA interfere no pleito húngaro para tentar ajudar autocrata, no poder há 16 anos

Presidente diz estar ansioso para 'investir na prosperidade criada pela liderança contínua" de Orbán

O presidente dos Estados UnidosDonald Trump, disse nesta sexta-feira (10) que vai "fortalecer a economia da Hungria" caso o primeiro-ministro Viktor Orbán, que enfrenta uma eleição acirrada neste domingo (12), permaneça no poder.

"Meu governo está pronto para usar todo o poderio econômico dos EUA para fortalecer a economia da Hungria, como fizemos para nossos aliados no passado, se [Orbán] e o povo húngaro precisarem", escreveu Trump em sua plataforma, a Truth Social. "Estamos ansiosos para investir na prosperidade futura gerada pela liderança contínua de Orbán!"

Trata-se da mais recente e flagrante interferência de Trump e seu governo no pleito da Hungria —que, segundo pesquisas, pode acabar com o longo período de Orbán no poder. O autocrata comanda o país do Leste Europeu há 16 anos e transformou suas instituições para permanecer no cargo, aparelhando o Judiciário, alterando regras eleitorais e controlando a imprensa.

O vice-presidente americano, J. D. Vance, esteve no país nesta semana e transmitiu juras de amor de Trump a Orbán. "O presidente ama você", disse Vance. O secretário de Estado americano, Marco Rubio, já havia estado no país fazendo campanha para o primeiro-ministro. Mais cedo, o próprio Trump pediu votos para o premiê húngaro em postagem no Truth Social: "SAIAM E VOTEM EM VIKTOR ORBÁN".

Apesar da pesada interferência —ou talvez por causa dela—, levantamentos apontam que o primeiro-ministro pode perder a eleição desta vez: a coalizão centrista de Péter Magyar está dez pontos percentuais à frente do Fidesz, partido de Orbán.

No domingo, 8,1 milhões de húngaros aptos a votar responderão se Orbán seguirá no poder após 16 anos de gestões controversas, marcadas por conservadorismo e mudanças institucionais.

O governo brasileiro, por sua vez, vê as eleições húngaras como um teste para uma possível interferência dos Estados Unidos no pleito presidencial no Brasil em outubro. Parte do governo monitora a votação para avaliar a eficiência das ações do governo Trump em favor de Orbán.

Nas palavras de um integrante do governo Lula, a eleição húngara será a primeira lição de casa de observação para o Planalto avaliar como lidar com as tentativas de interferência americana. As eleições na Colômbia (em 31 de maio, em que concorre um candidato de esquerda apoiado por Gustavo Petro) e do Peru (também no próximo domingo) serão outros dois pontos de observação.

Reportagens investigativas revelam que, além dos EUA, serviços de inteligência russos trabalham ativamente para a recondução do primeiro-ministro húngaro, cuja proximidade com Vladimir Putin incomoda a União Europeia.

O presidente russo é tratado como uma ameaça existencial pela maioria dos integrantes do bloco desde a invasão da Ucrânia, em 2022, e os seguidos vetos de Orbán à medidas de apoio à Ucrânia transformaram o pleito atual em um dos maiores desafios para Bruxelas nos últimos anos.

Em uma carta endereçada à presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, membros do Parlamento Europeu que monitoram o Estado de Direito na Hungria alertaram para o risco de manipulação do pleito patrocinada por Moscou.

O Kremlin estaria repetindo ações híbridas já detectadas em eleições recentes do Leste Europeu, que vão de canais de notícias criados por inteligência artificial a conteúdo viralizado por canais do Telegram. Segundo o jornal americano The Washington Post, assessores russos chegaram a recomendar um atentado encenado contra Orbán, entre outras medidas de impacto para tentar reverter a tendência das pesquisas de opinião.

A notícia de que explosivos teriam sido encontrados em um gasoduto na Sérvia, outro país na esfera de influência de Moscou, também foi percebida como armação. A campanha de Orbán tenta resgatar um sentimento nacionalista, acusando Ucrânia e UE de sabotarem a segurança energética do país e tentarem arrastar a Hungria para a guerra.

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FUNDAMENTALISTAS AMERICANOS

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

A confusão entre política e religião fundamentalista modifica na essência a maneira norte-americana de ser. Os conceitos de democracia foram relegados a planos inferiores. Trata-se agora da imposição da força e da negação da diplomacia

Fiz meu mestrado na School of Advanced International Studies (Sais), em Washington, Estados Unidos, nos anos de 1980. Período muito fértil na vida acadêmica. Estudei muito, conversei bastante, frequentei palestras e cheguei a falar para alunos e professores sobre Brasil e suas circunstâncias, porque o país atravessava a imensa dificuldade ocasionada pela doença e morte de Tancredo Neves, depois de ele ter sido eleito presidente da República. Fiz palestra no Clais — Centro de Estudos Latino-americanos e Ibéricos —, em Harvard, sobre o cenário político brasileiro da época.

Recordo esse período da minha vida porque estive mais perto da sociedade norte-americana. Até hoje, mantenho amigos lá. Alguns se aposentaram, outros seguiram carreira no serviço público ou na esfera privada. Mas havia grande preocupação entre os professores e alunos de manter vivas as ideias básicas do chamado american way of life. A democracia e o livre comércio eram símbolos do que se pretendia para um país livre. Nada parecido com o que se vê hoje em Washington. Essa extrema-direita que assumiu o poder, raivosa, sem limites, é uma novidade. A confusão entre política e religião fundamentalista modifica na essência a maneira norte-americana de ser. Os conceitos de democracia foram relegados a planos inferiores. Trata-se agora da imposição da força e da negação da diplomacia. Trump fez a guerra contra o Irã sem motivos, nem objetivos definidos. Agiu para se adiantar a Israel, país que se autoconcedeu o direito de matar seus vizinhos.

Israel é assunto europeu que se transferiu para o Oriente Médio. Os judeus foram muito perseguidos por Hitler na Alemanha e em todo leste europeu. A Haganah, antecessora do Mossad, organizou levas de judeus que fugiram da Europa para a Palestina, administrada pelos ingleses. Estes foram os primeiros terroristas da época em que todas as religiões conviviam em paz naquela região. Eles sabotaram os esforços pelo entendimento pacífico até que os britânicos se retirassem do comando. Assim surgiu Israel, que, na origem, era um país socialista, baseado nas fazendas coletivas, os kibutzim. Nada parecido com o atual do estado judeu que ataca e mata seus vizinhos segundo os próprios critérios. Além disso, tomou posse da área definida pela Nações Unidas para a criação do Estado palestino.  

A guerra é a negação da política. Bombas não substituem diplomatas. O comportamento do presidente dos Estados Unidos é o de um dirigente ensandecido. Ele não considera dificuldades, nem vantagens comparativas. Envia as tropas sem saber motivo ou razão. Bombardeou o Irã e não tomou as cautelas elementares. Ficou surpreso com a capacidade de resistência do país, que respondeu atacando as bases norte-americanas na região e fechando o trânsito de navios no Estreito de Hormuz. Os americanos não conseguiram defender seus aliados. E penalizaram o mundo inteiro com o aumento do custo do petróleo, que pesou, inclusive, no bolso do consumidor norte-americano. Tudo errado. Restaram os discursos furiosos, irados, recheados de palavrões, que recordam o denso palavreado da era nazista na Alemanha. É uma tragédia norte-americana.

A Pérsia foi um dos maiores e mais importantes impérios da Antiguidade, localizado na região do atual Irã e áreas vizinhas. Existiu em diferentes fases, a mais famosa é do Império Aquemênida, que surgiu por volta de 550 a.C. O império começou com Ciro, o Grande, que unificou os povos persas e conquistou territórios vizinhos, como a Lídia e a Babilônia. No seu auge, foi gigantesco, abrangendo o Egito, no norte da África, até partes da Índia, o Oriente Médio, a Mesopotâmia e territórios na Ásia Central.

Henry Kissinger lembra, em seus escritos, que, após o fim da Segunda Guerra Mundial, os melhores líderes políticos do Ocidente se organizaram para construir um mundo mais seguro. A Alemanha se reunificou, a Europa procurou o caminho da União e criou a moeda única, o euro. O apartheid foi extinto na África do Sul, os países do leste europeu encontraram o caminho da liberdade, as colônias mantidas pelos europeus na África e na Ásia encontraram sua independência. Só o conflito na Palestina remanesce até hoje sem solução. Árabes e judeus brigam, e o mundo é refém do conflito. 

O Império Persa era tolerante com culturas e religiões dos povos conquistados. Detalhe interessante é que bombardeio de Israel destruiu uma sinagoga em Teerã. Há judeus na antiga Pérsia. As coisas são mais complexas do que supõem os adolescentes de várias idades que tomaram o poder em Washington. Há boas livrarias na capital dos Estados Unidos. Eles podem se dar ao trabalho de estudar um pouco a história e a política internacionais. Previne o governo de futuros vexames semelhantes ao atual.

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O IMPÉRIO É FORTE, MAS JÁ NÃO RESOLVE

Fabio Gallo, O Estado de S. Paulo

O dólar continua um instrumento de força, mas já não garante a imposição dos interesses dos EUA

O vai e volta do discurso — ora escalando, ora sinalizando saída — não é apenas estilo: é sintoma de um poder que já não controla plenamente as consequências das próprias ações

Como na saga hollywoodiana, o império ainda tem força para contra-atacar. Mas isso já não decide o rumo da história. A cada escalada do conflito no Irã, o petróleo sobe, os mercados se reposicionam e o poder americano se move com intensidade – sem garantir o desfecho. Os instrumentos centrais desse poder – militar e financeiro – continuam fortes, mas estão ficando menos decisivos. Como argumenta em artigo o Financial Times, a guerra expôs a fragilidade do dólar.

Antes, o controle do sistema financeiro trazia um poder quase automático. O dólar segue sendo um instrumento de força, mas já não garante a imposição dos interesses americanos. A guerra da Ucrânia mostra a mudança. A eficácia das restrições financeiras impostas à Rússia foi bastante limitada. Os países estão precificando os riscos e não mais em posição apenas reativa. Assim o poder do dólar está sendo contornado antecipadamente.

A moeda perde eficácia como instrumento de coerção. O paradoxo é evidente. O dólar continua sendo, de longe, a principal moeda do sistema global – nas reservas, no comércio e nas transações financeiras. A mudança em curso não é de substituição, mas de comportamento. Tanto que os bancos centrais vêm ajustando suas estratégias. Aumento de reservas em ouro e acordos bilaterais em moedas locais sinalizam uma tentativa de reduzir exposição ao dólar.

A busca por alternativas não vem sem custo. Um sistema mais fragmentado tende a ser menos eficiente, com maior volatilidade cambial e custos de transação mais elevados. Essa perda de eficácia não se limita ao campo financeiro.

O ponto central já não é o tamanho do poder dos EUA – é a forma como ele é exercido. No campo militar, a guerra avança, ampliando custos humanos e políticos que corroem sua legitimidade. Sequer há clareza de seus objetivos. Se a mudança de regime era um desses objetivos – não há sinal algum disso acontecer. O resultado é uma contradição crescente: quanto mais o poder é mobilizado, mais expõe seus limites. A erosão de autoridade é clara.

A leitura política de toda essa situação segue a mesma lógica. Não se trata apenas de erros ou recuos táticos de Donald

Trump, mas de um ambiente em que mesmo decisões agressivas produzem efeitos mais incertos e, muitas vezes, contraproducentes. O vai e volta do discurso – ora escalando, ora sinalizando saída – não é apenas estilo. É sintoma de um poder que já não controla plenamente as consequências das próprias ações.

No entanto, há um ponto central que por vezes é tratado como acessório. Ao ampliar perdas humanas e sociais, a ação dos EUA não é apenas ineficiente – passa a ser moralmente insustentável. Não é o fim da força – é o esvaziamento do seu sentido.

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INTERVENÇÃO DO BEM NO RIO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

 STF parece gostar da ideia de um togado no comando do Rio de Janeiro

Ministros já abriram o campo para que, alegada a inexistência de condições à organização de eleição suplementar tão próxima da ordinária, o desembargador siga na cadeira de governador até 2027

Flávio Dino pediu vista. Tem dúvidas. Esperará pelo acórdão do TSE sobre o julgamento que tornou inelegível Cláudio Castro. Pareceu querer respeitar a Justiça Eleitoral. Na prática, faz pressão para que o tribunal entregue cassação que não declarou. É pesada a carga por eleições suplementares diretas. Não descartado que essa carga seja fachada para outra solução. O laboratório do Supremo está ativo.

O TSE poderia cassar o ex-governador sob o entendimento de que renunciara para escapar da cassação. Ele pretendeu mesmo escapar. Não há dúvida. Tampouco há dúvida de que o TSE não lhe considerou a fuga. Cármen Lúcia, também presidente do TSE, foi explícita a respeito: não havendo mais o mandato, ficara prejudicada a cassação. Não terá sido à toa que os outros ministros membros do tribunal eleitoral, André Mendonça e Nunes Marques, anteciparam votos: para reforçar a posição do TSE.

O placar está em 4 a 1 pela eleição indireta no Rio de Janeiro – aquela que teria por colégio eleitoral a Assembleia Legislativa. Quando Dino concluir o seu exame, virá a blitz xandônica pela eleição direta. Xandônica porque, embora seja Cristiano Zanin o relator, a tese foi plantada por Alexandre Moraes – tese que, avançando, produziu e sustentará, sem qualquer direito que a embase, o prolongamento da condição de um juiz como governador. Enquanto Dino não conclui o exame, o Rio será governado pelo presidente do Tribunal de Justiça.

O STF parece gostar da obra de engenharia política por meio da qual mantém um desembargador à frente do Estado. Um togado governante! Para nos salvar. O Rio está na lama – e o Judiciário decerto nada tem a ver com isso. Na quinta, ministros que não pisam no mesmo chão das gentes, senão naquele que os leva do palácio ao jatinho (do Vorcaro), e que ignoram a realidade do lugar sobre o qual deitam regras para cortes de rede social esqueceram-se – “Deus tenha piedade do Rio de Janeiro” – de mencionar o togado, desembargador federal graças à reabilitação promovida pelo CNJ, que passava informações sigilosas ao ex-presidente da Alerj condenado junto com Castro. Togado que, a rigor, passava informações ao Comando Vermelho.

Quando o julgamento estava no plenário virtual, Dino formou com Xandão, Zanin e Mendes. Seria o 4 a 4. Não poderão contar com Cármen desta vez. Contarão com Dias Toffoli. O voto de Fachin seria decisivo. Isso se não considerarem a chegada de Messias – membro seguro da bancada governista – para resolver a parada. Já há os que testam essa hipótese no mercado das ideias.

A Alerj não tem presidente. Terá em breve, recomposta a linha sucessória. O Supremo precisará criar arte sem precedentes para justificar que esse deputado não assuma o Estado. Você se lembra da referida carga por eleição direta como fachada para outra solução? O STF já abriu o campo para que, alegada a inexistência de condições à organização de eleição suplementar tão próxima da ordinária, haja somente o pleito de outubro, e para que o desembargador governe até janeiro. •

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O COMPANHEIRO ALEXANDRE

Thaís Oyama, O Globo

Presidente tem vários motivos para largar a mão daquele a quem, por mais de uma ocasião, chamou de salvador da democracia

O presidente Lula, em entrevista ao ICL Notícias, referiu-se ao ministro do STF Alexandre de Moraes como “companheiro Alexandre” para, três frases depois, jogar o companheiro Alexandre aos leões. Dois dias após a CPI do Banco Master revelar que o patrimônio do magistrado triplicou desde a sua chegada ao STF — e que só os 17 imóveis que possui com a mulher estão avaliados em R$ 31,5 milhões —, Lula afirmou que quem quer “ficar milionário não pode ser ministro da Suprema Corte”. Disse ainda que “salário de deputado, governador, presidente da República não permite que ninguém seja rico”. E acrescentou: se alguém enriquece durante o mandato, é “porque teve outras coisas para ficar rico”. Um pouco mais e Moraes ficaria tentado a enquadrar Lula num de seus inquéritos imorríveis.

O presidente tem vários motivos — até onde a vista alcança, todos de natureza eleitoral — para largar a mão daquele a quem, por mais de uma ocasião, chamou de salvador da democracia — uma das togas mais poderosas do tribunal que foi o parceiro institucional e instância de sustentação de seu governo nos choques com o Congresso.

A primeira razão para Lula descartar o até aqui aliado Moraes é que a sucessão de revelações sobre as ligações cada vez mais escancaradas entre o Banco Master e os cada vez menos egrégios ministros do Supremo tornou improvável a contenção do escândalo — e ele não pode se dar ao luxo de ficar na contramão da opinião pública. Segundo a última pesquisa Quaest, mais brasileiros não confiam no STF (49%) do que confiam (43%); e 66% querem votar em candidatos ao Senado que apoiem o impeachment de ministros. O pior dado para Lula: 59% veem a Corte como aliada do governo.

Há uma segunda razão para ele abandonar Moraes — cuja biografia disse ter tentado salvar sugerindo ao ministro uma declaração de impedimento e um truque retórico (“Diga textualmente: ‘Minha mulher estava advogando, minha mulher não tem que pedir licença pra mim, ela faz as coisas…’.”). Essa razão passa pelo fato de, assim como Lula, Flávio Bolsonaro dar um braço para não ter de subir num palanque e falar sobre o envolvimento de ministros do STF no caso Master.

O filho de Jair Bolsonaro segue com o freio de mão puxado no assunto não apenas por ter pai presidiário e à mercê da Corte, mas por temer pela própria sorte. Assombra-o a hipótese — até agora nem cogitada, nem fundamentada — de integrantes da Corte produzirem um fato jurídico que leve o TSE a indeferir o registro de sua candidatura. Por isso, até aqui, o bolsonarista vem tratando com ponderada distância os passivos de Moraes e Dias Toffoli — o combinado é que, provocado, ele jogue para os candidatos ao Congresso a resposta sobre eventuais impeachments. Próceres do PL receiam ainda pelo destino de cinco pré-candidatos do partido ao Senado que respondem a ações no Supremo, entre eles Carlos Bolsonaro.

Por motivos distintos, tanto Lula quanto Flávio pretendiam manter a maior distância possível do inconveniente assunto dos magistrados radioativos. A entrada de Caiado na eleição, porém, tende a obrigar os dois a mudar o jogo. Na segunda-feira, o candidato do PSD declarou que, antes mesmo de um eventual impeachment de ministros, o STF deveria “cortar na própria carne” e afastar os nomes envolvidos no escândalo. Ao arrastar o tema para a arena presidencial, Caiado obriga Flávio a segui-lo, ao mesmo tempo que força Lula a se mexer para não ficar com o mico na mão.

A terceira razão para o petista buscar distanciamento sanitário do ex-aliado Moraes nasce do solo fértil da especulação: é que um passarinho, altamente informado sobre o andamento das investigações policiais do Master, contou ao presidente que mais coisa pesada vem por aí — e que não há salvação para a biografia do companheiro Alexandre.

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MULHER POBRE E PERIFÉRICA, MORREU DE SÃO PAULO, BRASIL

Flávia Oliveira, O Globo

Violência policial ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos

Múltiplas mazelas brasileiras confluíram para a morte de Thawanna da Silva Salmázio, às vésperas de completar 32 anos, na madrugada da Sexta-Feira Santa, feriado sagrado para os cristãos. Aconteceu em Cidade Tiradentes, Zona Leste da capital paulista. Poderia ter ocorrido em qualquer comunidade, favela, quebrada, invasão, periferia de metrópoles brasileiras. A violência policial praticada pela soldado Yasmin Cursino Ferreira, de 21 anos, há três meses em estágio supervisionado na PM-SP, foi a face mais visível da tragédia que, por uma banalidade, ceifou a vida de uma mãe de cinco filhos.

O Brasil tem produzido órfãos em escala inaceitável. A situação é grave a ponto de o presidente da República ter sancionado a Lei 14.717/2023, que instituiu pensão de um salário mínimo para filhos e dependentes menores de 18 anos de vítimas de feminicídio. O Laboratório de Estudos de Feminicídios da Universidade Estadual de Londrina (UEL) contou 683 meninos e meninas que perderam suas mães, apenas no primeiro semestre do ano passado. Nesta semana, a filha de Gisele Alves Santana, também policial militar em São Paulo, começou a receber a pensão a que terá direito até os 18 anos, pela perda da mãe. O valor corresponde a cerca de um terço da aposentadoria rapidamente concedida ao tenente-coronel Geraldo Leite Rosa Neto, preso por suspeita de assassinar a então mulher.

Thawanna deixou cinco crianças. Sua vida não foi abreviada por marido, companheiro, namorado ou ex, infortúnio de 1.568 brasileiras no ano passado. Morreu em decorrência de outra anomalia nacional, a brutalidade de agentes do Estado. Foi atingida pelo disparo único de uma policial dez anos mais nova. Como assinalou a Anistia Internacional Brasil em nota sobre o crime, a novata não usava câmera corporal, mas portava a arma de fogo que não hesitou em sacar. O caso foi registrado inicialmente na delegacia como resistência.

O episódio que pôs fim à vida da trabalhadora autônoma foi registrado pela câmera corporal do PM Weden Silva Soares, parceiro da soldado Yasmin. O equipamento não inibiu a abordagem indevida nem impediu o assassinato, mas foi essencial para esclarecer o episódio e enlutar o país. A perseguição a uma motocicleta levou o par de policiais à Rua Edimundo Audran, em Cidade Tiradentes. O retrovisor da viatura tocou no braço de Luciano Gonçalvez dos Santos, que caminhava com a mulher pelo asfalto.

Thawanna estaria viva se vivesse num país menos desigual, num estado que não abandonasse áreas periféricas à própria sorte, numa cidade com urbanização bem feita. Morreu porque, diferentemente dos bairros ricos, seu CEP não dá direito a calçadas amplas, em que moradores não disputam espaço com carros e motos. Perdeu a vida porque era pobre e se arriscou à dupla violência: do trânsito e da polícia. Tivesse outro endereço, viveria.

Aqui não se trata de especulação. Em entrevista ao portal UOL, em agosto de 2017, o tenente-coronel Mello Araújo, então comandante da Rota, tropa de elite da PM-SP, hoje vice-prefeito da capital, declarou que a forma de abordagem dos agentes nos Jardins, área abastada da cidade, é diferente da periferia:

— É uma outra realidade. São pessoas diferentes que transitam por lá. A forma dele abordar tem que ser diferente. Se ele [policial] for abordar uma pessoa [na periferia] da mesma forma que uma pessoa aqui nos Jardins, vai ter dificuldade. Ele não vai ser respeitado. Da mesma forma, se eu coloco um [policial] da periferia para lidar, falar com a mesma linguagem de uma pessoa da periferia aqui no Jardins, ele pode estar sendo grosseiro. O policial tem que se adaptar àquele meio em que está naquele momento.

Em quase nove anos, o livro-texto não parece ter sido atualizado. Depois de esbarrar no marido de Thawanne, o soldado Weden deu marcha a ré na viatura e abordou o casal com rispidez e um palavrão, conforme os registros da câmera corporal obtidos pelo repórter Lucas Jozino, da TV Globo e do g1 SP:

— A rua é lugar para você tá andando, c***lho?

A ocorrência, que inexistia, começou ali, com a abordagem indevida de um policial, a atitude intempestiva da colega, que saiu da viatura, discutiu com Thawanna e, minutos depois, a matou. A vítima, filha, esposa e mãe de cinco filhos menores de 16 anos, ainda esperou meia hora por socorro. Reportagem de Gustavo Honório, do g1 SP, mostrou que o resgate foi solicitado 40 segundos após o tiro, mas o Corpo de Bombeiros só chegou 30 minutos depois, ainda que houvesse bases da corporação a seis e a 13 minutos do local. Na PM-SP, a meta para atendimentos de emergência é de até 20 minutos.

A existência de uma jovem mãe foi abreviada por morar onde morava, caminhar onde caminhava. Por motivo banal, sofrer abordagem policial indevida, levar um tiro de uma agente da lei e, baleada, permanecer desassistida. Morreu de São Paulo. Morreu de Brasil.

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O CHEIRO PODRE DA INTOLERÂNCIA OITO DÉCADAS DEPOIS

Eduardo Affonso, O Globo

Há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas

É 1944. Vinícius de Moraes acorda com uma sensação indizível e bebe do copo vazio uma substância violeta, com peso específico de sonho. Era o ar da primavera.

Sente o cheiro da filha — “mistura de talco, suorzinho, lavanda, xixi, sabonete, leite e sono”. Depois, o da Praia do Leblon, que não cheirava a rosas: era o esgoto onde se banhavam igualmente a criançada rica e a da Praia do Pinto.

Percebe, também, súbito, um cheiro de nazismo. Branco, inodoro, com laivos de salsicha, chope, cachorro policial, radiotelegrafia e cemitério. Que talvez viesse de algum bar ou café, “desses onde se reúnem nazistas conhecidos e desconhecidos”. Chegam, a seguir, outros cheiros: de amor, solidão, mar, mosca que voeja, madeira, sol, gato. Mas fiquemos neste, o do nazismo.

Apure os sentidos. Sentiu? A origem é o mesmo Leblon de Vinícius, já sem a favela da Praia do Pinto, dispersada em 1969. Emana agora de uma delicatéssen, com o aroma de pães e especiarias. É Pessach, a Páscoa judaica, mas não há matzá, o pão ázimo, à venda. O dono está “cansado de judeus” e não quer mais atender esse público.

Vire as narinas noutra direção: o fedor vem da Lapa. De um bar “antifascista”, em cuja porta o cartaz avisa que cidadãos israelenses e norte-americanos não são bem-vindos. Respire mais fundo, e é de Itacaré, de Morro de São Paulo, que chega a pestilência dos militantes a hostilizar turistas de Israel.

Lembra-se dos clubes que não aceitavam pretos? Das instituições onde mulheres não entravam? Dos lugares em que demonstrações de afeto entre pessoas do mesmo sexo eram motivo de expulsão? Pois há um bar na Lapa, uma déli no Leblon e praias da Bahia onde a xenofobia e o antissemitismo ergueram barricadas — e a Constituição Federal, a Lei dos Crimes Raciais e o Código de Defesa do Consumidor não valem. Dali, os direitos humanos no pasarán.

Agora substitua os indesejados por “angolanos e haitianos”, “gays, lésbicas e trans”, “cadeirantes e autistas” e veja o que acontece. Troque a frase do dono da déli por “não vendo mais produtos árabes; estou cansado dos muçulmanos”. Pense em ativistas perseguindo praticantes de religiões de matriz africana de férias em Santa Catarina. Quem contribuiu com R$ 500 para o transporte dos manifestantes do 8 de Janeiro pegou 14 anos de cadeia. Haverá consequências para quem faz vaquinha para pagar a multa e bancar os advogados do bar da Lapa, da déli do Leblon?

Há gente que se acostumou a ignorar a lei e criar as próprias regras — como essa de afrodescendentes não poderem ser agentes de racismo, apenas vítimas. Nessa visão torta, a discriminação baseada na crença de superioridade de um grupo sobre outro, com base em características físicas, cor da pele, origem étnica, é de mão única:

— Quando sou discriminado, é racismo; quando sou eu que discrimino, não é.

Sentiu o ranço da dupla moral? Não são poucos os que exalam esse miasma. Parte da imprensa os apoia, velada ou abertamente. A “elite intelectual” os aplaude. Quem está no poder os acolhe e protege.

Vinícius, que conseguia sentir cheiro de riso, de pureza, de sobrenatural — e até o cheiro mágico de paz — haveria de estar hoje perplexo com a origem desse bafo podre, com laivos de superioridade moral, intolerância, desumanização e ódio. É outono, 2026.

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A COREOGRAFIA DO GENOCÍDIO

José Eduardo Agualusa, O Globo

O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista

Suponham que, num momento de perigosa insensatez, decide servir-se das vossas redes sociais para ameaçar um vizinho: “Fulano morrerá esta noite para nunca mais ser ressuscitado.”

Teria problemas com a Justiça. Sérios problemas.

Agora, imaginem que é o presidente dos EUA. Dispõe de poder para arrasar um país, recorrendo a armamento nuclear. E escreve isto nas redes sociais, referindo-se ao Irã: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada.”

Uma afirmação como esta, produzida por quem tem meios para cumpri-la, não pode ser lida como mera retórica, uma metáfora cruel, o irresponsável descuido de um senhor idoso, já um pouco senil. Tem de ser interpretada como o primeiro movimento de uma coreografia genocida. Não descreve uma possibilidade — aproxima-a do real.

Mais inquietante do que a brutalidade da frase é a brandura com que o mundo reagiu a ela.

É certo — o Papa protestou. Greta protestou. O secretário-geral das Nações Unidas, António Guterres, mostrou-se muito preocupado. George Clooney, mais rigoroso, chamou-lhe um crime de guerra: “Se alguém diz que quer acabar com uma civilização, isso é um crime de guerra. Você pode apoiar pontos de vista conservadores, mas deve haver uma linha de decência, e não pode ser cruzada.”

Linha de decência, George?! Estamos falando de um presidente da República que se comunica através de palavrões e baixo calão, insulta os jornalistas que se atrevem a colocar-lhe questões mais difíceis, usa o cargo para enriquecer, e, convém lembrar, foi condenado por abuso sexual ainda antes de ser eleito.

Donald Trump não se limitou, uma vez mais, a troçar da decência. Cometeu um crime, sim, um abominável crime de guerra. Num mundo normal, não anestesiado por anos de intimidade com o feroz surrealismo da extrema direita global, o escândalo seria unânime. A carreira política do atual inquilino da Casa Branca terminaria naquele triste parágrafo.

O que ocorreu, ao invés, foi um sobressalto breve, e logo o mundo regressou à sua tépida indiferença. A frase permaneceu — como permanece uma mancha de sangue —, já integrada no padrão. Mais uma. Apenas mais uma.

Aprendemos a aceitar o excesso. A linguagem, levada ao limite, não fere mais. É como um ruído demasiado alto, que o ouvido recusa.

Quanto maior a violência anunciada, mais irreal parece. Ora, a irrealidade, o absurdo, não exige resposta. Contudo, é assim que a História avança. Não na sequência de rupturas súbitas, mas por uma lenta deslocação do tolerável. O que ontem era impensável torna-se hoje discutível. Amanhã, aceitável. Finalmente, inevitável. É esse o perigo do discurso trumpista. Não tanto por aquilo que afirma, mas por aquilo que permite. No caso, permite que a ideia do genocídio circule sem consequências. Que se teste o limite. Que se meça a paciência da plateia. E a plateia, queridos leitores, é paciente.

Então, a coreografia prossegue, um pequeno passo hesitante, depois um segundo mais firme. E nós, espectadores atordoados, vamos aprendendo a reconhecer os movimentos sem, todavia, abandonar a sala.

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sexta-feira, 10 de abril de 2026

UMA GUERRA SÓ COM DERROTADOS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Se cessar-fogo precário puser fim a conflito, EUA, Israel e Irã saem com mais perdas do que ganhos

Conflito sem vitória também poderá trazer repercussões eleitorais negativas para Trump e Netanyahu

dSempre que vejo Palmeiras e São Paulo se enfrentando, me pergunto se não haveria um jeito de os dois times perderem. No futebol, parece que não, mas, no que diz respeito a guerras, a derrota de todos os envolvidos é um desfecho possível e até frequente. Lembrem-se de 

guerra deflagrada por EUA e Israel contra o Irã encaminha-se para ser um desses conflitos sem vencedores, ainda que todas as partes reclamem ter logrado brilhante vitória. O regime iraniano pode de fato congratular-se por ter sobrevivido a um inimigo militarmente muito superior, mas é só. A coluna dos ônus é extensa demais para ser ignorada: cerca de duas dezenas de suas principais lideranças, incluindo o aiatolá Ali Khamenei, foram assassinadas, o país sofreu enorme destruição de vidas e de infraestrutura, notadamente a militar, e comprou décadas de inimizade com os países vizinhos do Golfo Pérsico que atacou.

Já os EUA entraram numa guerra de escolha da qual não precisavam apenas para escancarar que fizeram uma péssima escolha. Nenhum dos cambiantes pretextos que Donald Trump alegou para atacar o Irã foi plenamente alcançado, os EUA sacrificaram ainda mais sua já decadente credibilidade internacional, além de terem provocado uma onda global de inflação. Desta vez, Trump perdeu pontos até com o público MAGA, que é irredutivelmente isolacionista. De positivo (para o mundo, não para Trump), resta que ficou mais difícil para o Partido Republicano manter o controle das duas Casas do Legislativo após as eleições de novembro.

O premiê israelense, Binyamin Netanyahu, ao contrário de Trump, tinha apoio popular para ir à guerra, desde que obtivesse uma vitória inconteste. Não a ter conseguido só reforça agora os muitos erros de segurança (nem falo dos políticos e morais) cometidos por sua administração desde antes da ação do Hamas em 7 de outubro de 2023. Se uma vitória sobre o Irã era a esperança de Netanyahu para vencer as eleições de outubro, a ausência dela pode ser o prego definitivo no caixão de seu governo.

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AUMENTOS DE GASOLINA E DIESEL NO BRASIL ESTÃO ENTRE OS MENORES DO MUNDO DURANTE A GUERRA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Reajuste da gasolina por aqui fica na 90ª posição entre 128 países; o do diesel, na 71ª

Além de dar subsídios e redução de impostos, país enfrenta crise em situação mais favorável

Os preços da gasolina e do diesel aumentaram mais na maioria dos países do mundo do que no Brasil, que fica perto da rabeira desse ranking. No caso da gasolina, ficamos em 90º lugar entre 128 países —em 25 deles, a variação foi menor do que 1%, nada, ou negativa. Quanto ao diesel, ficamos em 71º lugar —em 21 países, a variação foi menor do que 1%.

Os dados são da Global Petrol Prices. Baseiam-se na conta de variação de preços entre 23 de fevereiro (a guerra começou em 28 de fevereiro) e 6 de abril. Como se deve fazer em relação a qualquer ranking ou comparação, é preciso descontar a precisão dos dados. Trata-se de médias nacionais ou preços típicos. Alguns países controlam reajustes (oi, Brasil), ditam as datas de aumento, outros não intervêm no mercado, poucos são grandes produtores, outros importam quase tudo etc.

Mesmo com as ressalvas, é certo que o Brasil está lá pelo fim da classificação. O aumento médio de preços nos 89 países em que a gasolina ficou mais cara do que por aqui foi de 23,5% –no Brasil, pelos dados do ranking, 7,6%. No caso do diesel, a média do reajuste dos 70 países com aumento maior do que o brasileiro foi de 50,8% (no Brasil, de 23,5%).

A carestia foi maior em países mais pobres do sul e do leste da Ásia. "Anglo-saxões", como dizem os franceses, historicamente mais liberais, tiveram reajustes grandes. Os Estados Unidos estão em 14º lugar no ranking da gasolina (aumento de 35,1%) e em 23º lugar no diesel (reajuste de 48,2%).

No mais, olhando a lista não dá para discernir tendências regionais claras. Em muito lugar da Europa, há, sim, subsídio ou redução de imposto sobre combustíveis. No sul e no leste da Ásia, há tentativas de contenção de consumo ou quase racionamento. A atitude de cada país depende também de seus meios.

Petrobras no mínimo atenua frequência e tamanho dos reajustes, não sabemos por ora se de modo razoável (para o balanço da empresa) ou não. O governo subsidia diesel, gás, reduz imposto. Embora importe parte dos combustíveis que consome, o Brasil é exportador de petróleo. Isto é, com aumento do preço do barril, a renda do país e a receita do governo aumentam. Enfim, tem contas externas em ordem, o que não é o caso de muito país pobre —se mantivessem preços estáveis, entre outros problemas, continuariam a importar combustíveis em ritmo de outros tempos, gastando o que não têm em moeda forte.

O Brasil enfrenta esta crise em situação menos desfavorável, pois. Além do mais, intervenção estatal é costume nacional, da direita à esquerda, e gosto de tanto empresário "bolsonarista moderado" com horror do "estatismo" de PT e Lula. Em ano de eleição, intervenção é palpite certo.

Apanha quem levanta dúvidas sobre a qualidade, a quantidade e a oportunidade da intervenção ou trata dos riscos de dano colateral. Na dificuldade, empresas correm para o governo ou para o Congresso e suas "bancadas", onde conseguem extensões compridas ou eternas de subsídios.

Sim, há argumentos razoáveis para tentativas emergenciais de atenuar choques econômicos, de preços. Isto é, se são choques, se são transitórios. Aliás, é necessário ter política nacional de energia, por exemplo, planos, muita vez com ação do Estado, pensada e de prazo mais longo. Estamos falando aqui de outra coisa: do desejo quase geral de acomodação duradoura ou permanente no colo do Estado, não raro com favor explícito, para quem pode.

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SOB AS ASAS, DIGO, MEMBRANAS DO PAI

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro ainda nem começou a apanhar, mas já reage como se no meio da campanha

Da Lua vê-se o pôr e o nascer da Terra; da candidatura de Flávio só se verão os eclipses

Nada de mais em a nave Artemis 2 ter dado uma volta pelo lado oculto da Lua e ficado 40 minutos sem que soubéssemos o que estava acontecendo. A candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência passa ainda mais tempo no lado oculto de si mesma e só tenta mostrar o que lhe interessa. Mas não adianta —ao contrário da Lua, cuja massa rochosa interrompe o sinal e impede que este chegue à Terra, a candidatura de Flávio Bolsonaro tem a densidade de uma cortina de banheiro.

Por enquanto, Flávio Bolsonaro —"Flávio", para os íntimos— se escora no apoio de aderentes de ocasião, hoje com ele, mas prontos a lhe virarem as costas à menor queda da agulha. Ainda nem começou a apanhar para valer, mas não trai o menino mimado que levou a vida sob as asas, digo, membranas do pai. Exposto ao sol, já ameaça jornalistas, processa big techs e dispara liminares para remover conteúdos que o associam a sujeiras. Será divertido vê-lo no centro do ringue, exposto a perguntas e punches dos profissionais.

Assim como a equipe da Artemis saiu de Houston com um plano de voo, "Flávio" já deve ter um plano de governo. Assim como seu pai, entregará a Saúde a um boçal? Reduzirá a Educação a uma banca de camelôs de Bíblias? Tentará corromper o Exército com empregos civis? Desmontará a fiscalização ambiental? Terá uma Abin paralela para espionar adversários? Travará investigações com troca-trocas de delegados? Nomeará Fabrício Queiroz para o STF? São perguntas. Mas já garantiu que doará as terras raras a Donald Trump.

Da Lua vê-se o pôr e o nascer da Terra. Da candidatura de "Flávio" só se verão eclipses, por sua necessidade de encobrir as denúncias de "rachadinhas", elos com assassinos e queima de arquivos, que insistem em atribuir-lhe. É verdade que sua única experiência em administração foi um sucesso: uma loja de chocolates que, pelos balanços, vendia mais no resto do ano do que na Páscoa!

A tripulação da Artemis levou uma brava mulher. A única mulher que seguiria com "Flávio" já disse que não embarca na dele.

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LAMBANÇA DE TRUMP NO IRÃ É APOIO A PLANO DE GRANDE ISRAEL

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Líder americano achou que o explosivo tabuleiro de xadrez da guerra contra o Irã seria um jogo de damas

Com Netanyahu, alguém ainda acredita nas fantasias de dois Estados e devolução de territórios ocupados?

Estados Unidos e Israel, nas figuras abomináveis de Donald Trump e Binyamin Netanyahu, estão transformando o mundo num lugar ainda mais perigoso para se viver. Sim, isso é possível. Os dois têm muitas coisas em comum, nenhuma delas animadoras: são autoritários, expansionistas, imperialistas, racistas (por que não dizer?) e não medem consequências em busca de seus objetivos.

Enquadram-se perfeitamente na categoria de lideranças fascistas contemporâneas. "Ah, mas isso não é igual ao que aconteceu nos anos 30"... Bem, não estamos nos anos 30 do século passado. Falamos do conceito do século 21. É duro e triste dizer que um político que comanda Israel veste bem esse perfil fascista, mas lamentavelmente é o caso.

Trump entrou no segundo conflito com o Irã atraído pelo colega israelense. Ao que parece partiu para um explosivo tabuleiro de xadrez achando que seria apenas um jogo de damas. Quebrou a cara.

É óbvio que os EUA têm poderio militar –como aventou o próprio autocrata da Casa Branca– para destruir o Irã e a civilização persa. Mas as coisas não são assim. Não bastam ameaças por mais criminosas que possam ser. Americanos já foram derrotados em guerras envolvendo adversários menos poderosos, caso do Vietnã e do Afeganistão. Os iranianos defendem-se com as armas que têm, e entre elas não consta nenhum artefato nuclear. Drones baratos, mísseis, caos regional e fechar Hormuz são o arsenal utilizado.

A guerra é, repita-se, bem mais de interesse de Netanyahu do que dos EUA. Não há nenhuma ameaça do Irã aos americanos. Para Israel, trata-se de uma força regional que atrapalha o projeto, que parece ser o grande plano de seu governo, de expandir fronteiras e incorporar territórios.

O que está em cena, ao que tudo indica, é mais uma escalada de Netanyahu em busca da nação expandida, o Grande Israel. Ou alguém acredita ainda numa agenda de dois Estados, devolução de territórios e outras fantasias já soterradas? É bem mais factível a busca por novas anexações, Líbano, Síria e por aí vai.

Um Irã forte é uma grande barreira a esse intuito, daí a necessidade de enfraquecê-lo, mesmo que lançando mão de mentiras e agressões injustificadas.

Sim, não se deve esquecer o atentado terrorista do Hamas, que tem suporte iraniano, de 7 de outubro de 23. É difícil contudo usar essa data como marco zero, apesar dos esforços de alguns. O conflito, todos sabemos, vem de longuíssima data. E as chances de que possa chegar a bom termo são nulas.

A reação absolutamente desproporcional nesta etapa recente nos oferece uma série repulsiva de crimes de guerra cometidos por Netanyahu e com apoio da extrema direita de seu país, em mal disfarçados delírios teocráticos e genocidas.

Também é possível falar em crimes de guerra de Trump, comandante de forças que, por exemplo, bombardearam uma escola no Irã, resultando em horrível matança de crianças.

A aventura de EUA e Israel no Irã é de uma irresponsabilidade a toda prova. Uma ameaça ao mundo, desde o aspecto econômico ao humanitário, sem mencionar o caos geopolítico e a perda de capacidade de negociação global.

Talvez o que reste da democracia americana imponha um freio a Trump, sob pena de perda eleitoral no meio de mandato e um impeachment. A ver.

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FAZ-NÃO-FAZ E DESFAZ

José Sarney*, Correio Braziliense

A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz

O presidente dos Estados Unidos tem estarrecido o mundo com suas exóticas colocações, que, no mínimo e no máximo, representam um jogo de faz-e-esconde, o que tem mantido as nações em suspense sem saber por onde ele quer ir e para onde vai. Parece os versos do grande poeta português José Régio: "Se ao que busco saber nenhum de vós responde, / Por que me repetis: 'vem por aqui'? / Prefiro escorregar nos becos lamacentos, / Redemoinhar aos ventos, / Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, / A ir por aí… […] Ninguém me diga: 'Vem por aqui'! / A minha vida é um vendaval que se soltou. / É uma onda que se alevantou. / É um átomo a mais que se animou… / Não sei por onde vou, / Não sei para onde vou / — Sei que não vou por aí!"

Esse é o caso de todos no mundo inteiro: não sabemos por onde vamos, não sabemos para onde vamos, mas sabemos que não vamos atrás do Trump.

A última dele foi a de que iria destruir uma civilização, isto é, a milenar civilização persa, como se isso fosse possível. Em seguida, afirmou que o Irã seria consumido pelo fogo, numa tragédia igual àquela de Sodoma e Gomorra. Mas no dia seguinte, já na quarta-feira, pensando melhor, Trump voltou atrás e, numa boa volta, resolveu parar com essa coisa escatológica de fim do mundo e negociou uma trégua em troca da abertura do Estreito de Hormuz.

Essa guerra com o Irã sempre foi difícil de ser entendida ou de se aceitar a razão, a sem-razão, de sua fúria, nem as alegadas justificativas. O fato que é difícil de explicar é, depois de destruída — obliterada — a capacidade iraniana de enriquecimento do urânio, como esse país produziria uma bomba atômica que pudesse ameaçar Estados Unidos e/ou Israel. Israel e Irã sempre pregaram a mútua destruição, mas os ataques sempre partiram de Israel.

O que ficou evidente é que, enquanto os Estados Unidos negociavam um acordo com o Irã, os israelenses descobriram onde as lideranças iranianas iriam se reunir para discutir os termos desse acordo e, imediatamente, Netanyahu convenceu Donald Trump de que deviam aproveitar essa reunião para eliminar todas as lideranças iranianas. Com o assassinato desses líderes, cairiam o governo iraniano e o regime teocrático, assegurando uma vitória total com menor custo do que o de uma guerra. Daí a afirmação inicial de Trump de que em quatro dias a guerra estaria acabada.

Isso bastou para convencer Trump a entrar em uma guerra sem uma análise mais aprofundada de que, com o componente religioso e dogmático que leva ao fanatismo do povo, liquidados os seus líderes, outros apareceriam imediatamente em substituição àqueles, sem solução de continuidade. Talvez os estudos tenham sido feitos, mas se sabe que Trump não lê nem ouve nada que não esteja na televisão — e, por isso, logo demitiu o chefe da Inteligência americana que disse ter avisado que o Irã não era uma ameaça. Não previu as consequências que adviriam ao comércio mundial com o comprometimento das exportações do Golfo Pérsico, nem tomou providências para proteger as bases americanas na região. Ignorou que pelo Estreito de Hormuz transitavam 20% de todo o consumo mundial de petróleo.

O fracasso dessa ausência de qualquer plano estratégico imediatamente aflorou, e o resultado é que a economia mundial entrou em crise, com impactos considerados mais graves que os da crise de 1972, quando houve o famoso choque do petróleo. A guerra não obedeceu a nenhuma das previsões feitas pelo Sr. Trump nesse jogo de faz-e-desfaz, e ele teve de desmentir-se, aplicar sua técnica de negociação TACO — Trump Always Chicken Out, isto é, sempre se acovarda e desiste — e lutar desesperadamente por um acordo de paz.

Trump não acredita na revolta da opinião pública dos Estados Unidos, que hoje está sendo divulgada: 60% da população é contra sua decisão de fazer essa guerra levado pelo israelense Netanyahu — que aproveitou o momento para mais uma vez destruir o Líbano, várias vezes massacrado pelo vizinho mais forte.

Se soube agora que, no ano passado, o Pentágono chamou o Núncio Apostólico para dizer que, se o papa não aderisse ao trumpismo, os americanos fariam um novo papado paralelo — como o de Avignon. O papa, que está com Deus e não com o diabo, sabe por onde vai e não se abalou, continuou dizendo que as orações de quem faz a guerra não são ouvidas por Deus.

Temos que, com o papa, rezar para que o cessar-fogo, mesmo com intermitência, acabe com os crimes contra os civis e dure até poder surgir um espaço para a paz.

A paz é o que o povo americano e o resto do mundo querem.

*José Sarneyex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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O QUE MUDOU DESDE A DELAÇÃO DE CID ?

Raquel Landin, O Estado de S. Paulo

Lei da delação premiada serviu para Mauro Cid. Por que não para Daniel Vorcaro?

O tenente-coronel Mauro Cid fechou sua delação premiada em setembro de 2023. À época, o pedido do PT para revisar a lei da delação premiada já descansava nos escaninhos do ministro do Supremo Tribunal Federal Alexandre de Moraes há mais de dois anos. A solicitação do partido, feita pelos advogados Lenio Streck, André Trindade, Marco Aurélio de Carvalho e Fabiano Santos, é de dezembro de 2021.

Cid prestou vários depoimentos à PF, alterando versões e implicando mais pessoas. Nos depoimentos iniciais, “esqueceu” que o general Braga Netto carregava uma sacola de dinheiro.

Deu sérias indicações de não ser um delator confiável. Sua delação foi mantida por Moraes e referendada pelo plenário do STF; caso contrário, corria o risco de toda a trama golpista ser desmontada, livrando o ex-presidente Jair Bolsonaro da prisão.

Naquele momento, na visão de Moraes, não havia necessidade de aprimorar o ordenamento jurídico, afinal, o pedido do PT poderia ter sido desengavetado. Nesta quarta-feira, o ministro ressuscitou a Ação Direta de Preceito Fundamental (ADPF) e levou ao presidente do STF, Edson Fachin, para que coloque em votação. O que será que mudou para que Moraes perceba que agora há uma súbita necessidade de mudança nas regras da colaboração premiada?

É impossível ignorar a conjuntura. O que mudou é que o banqueiro Daniel Vorcaro está na cadeia e mantinha relações próximas com ministros do STF, inclusive o próprio Moraes. O escritório de sua esposa recebeu R$ 80 milhões do Master em dois anos, honorários considerados fora do padrão para a advocacia. Moraes voou em jatinhos da empresa de Vorcaro.

A proposição inicial feita pelos advogados do PT é genérica – tão genérica que qualquer conclusão de um eventual julgamento vai ficar por conta da criatividade dos ministros. Também fala em temas que, na prática, já fazem parte do dia a dia da aplicação da lei. Por exemplo, a delação cruzada. Desde o mensalão, juízes não permitem que a palavra de um delator corrobore a de outro. Em teoria, é preciso provas para condenar alguém.

Não se defende aqui que a legislação seja imune a aprimoramento. Alguém preso pode falar qualquer coisa para tentar ser solto. E é preciso ter cuidado com os benefícios. Em busca de alcançar a alta cúpula do poder, malfeitores saem praticamente livres. No entanto, trata-se de expediente essencial para desbaratar organizações criminosas.

Não há nada que impeça Moraes de pautar ou votar uma tese sobre delação premiada. Mas vamos usar do bom senso e da ética: se ele pode ser alvo de uma colaboração iminente, tem interesse no tema. Pesquisas sobre a imagem do STF mostram que a população está atenta.

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NÃO PRECISAMOS ESCOLHER ENTRE A APATIA E A POLARIZAÇÃO

Pablo Ortellado, O Globo

No Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia

A literatura política frequentemente associa o alinhamento ideológico — a organização das preferências políticas de modo coerente com os valores de um campo — ao aprimoramento da democracia. Mas, no Brasil polarizado de hoje, precisamos nos perguntar se o aumento do alinhamento nos trouxe mesmo mais democracia — ou se o país não precisa, ao contrário, reaprender o valor do desalinhamento.

O alinhamento programático e ideológico tem sido tradicionalmente valorizado pela literatura da ciência política. Em primeiro lugar, ele organiza e simplifica debates amplos, cujos componentes variados e complexos passam a ser compreendidos à luz de princípios coerentes e estáveis, facilitando sua inteligibilidade. Numa democracia de massas, isso é especialmente importante porque partidos políticos e ideologias funcionam como atalhos cognitivos para os eleitores. O alinhamento também favorece a organização política da sociedade, articulando diferentes conflitos e divisões, viabilizando alianças coerentes e a oferta de soluções coordenadas.

O alinhamento permite ao cidadão intuir que o feminismo e a defesa dos direitos dos trabalhadores fazem parte do mesmo pacote, de esquerda, que defende igualdade e direitos sociais, assim como permite intuir que lei e ordem e defesa da família fazem parte do pacote conservador. A coerência programática organiza o espectro ideológico, traz ordem ao sistema partidário e torna previsível a construção de alianças.

Durante anos, a sociedade brasileira careceu de alinhamento. Era uma sociedade essencialmente amorfa e despolitizada. Depois dos protestos de junho de 2013 — e especialmente após as eleições de 2018 —, o Brasil passou da carência ao excesso. Vivemos hoje numa sociedade hiperpolitizada, com identidades hipertrofiadas e divisões ideológicas crescentes.

O custo desse ganho de coerência tem sido a intolerância política e o risco cada vez maior de não conseguirmos conviver em respeito democrático. A saída para isso pode ser o desalinhamento, o exercício crítico da moderação e da independência política.

O desalinhamento não precisa ser a retomada da despolitização informe, da incoerência e da confusão conceitual que tivemos no passado. Os blocos ideológicos não são necessariamente unidos pela coerência de valores e princípios, como sugere a teoria. O alinhamento entre liberalismo econômico e conservadorismo moral não é fruto de lógica interna, mas de uma aliança tática que tem sido costurada politicamente. Da mesma maneira, em alguns países o nacionalismo caminha junto à proteção social; noutros, se alinha com a austeridade.

Às vezes, cada lado do espectro político revela um pedaço do nosso problema social. O progressismo tem ressaltado as profundas iniquidades que recaem sobre as mulheres. O conservadorismo, a centralidade da família para a vida social. Não deveria ser preciso escolher entre uma ênfase e outra.

O alinhamento nos torna reféns das respostas políticas dominantes no campo a que nos filiamos. Não é porque reconhecemos a gravidade do racismo que precisamos necessariamente aceitar as cotas raciais como melhor solução de política pública.

O desalinhamento permite o convívio e a escuta — e o convívio modera. Ao conviver com gente dos dois campos políticos, passamos a entender suas perspectivas e moderamos as posições. As feministas mostram que o aborto muitas vezes responde a uma necessidade imperiosa: a sobrevivência psíquica da mãe. Os conservadores mostram que o aborto traz um problema ético inescapável. É possível entender as duas coisas, e essa compreensão simultânea modera a posição.

Pensar com independência, reconhecer razões em lados opostos e recusar a ortodoxia dos campos políticos não é debilidade. Não precisamos escolher entre a apatia e a polarização. Deve haver um ponto ótimo em que nos engajamos e nos responsabilizamos pela vida pública, mas sem comprar pacotes prontos que geram fechamento cognitivo, intolerância política e incapacidade de compromisso democrático. O desalinhamento estratégico pode ser o caminho para esse engajamento crítico.

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GOTHAM CITY É PINTO DIANTE DO DESCALABRO DO RIO DE JANEIRO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ao julgar sucessão de Castro, ministros do STF expuseram calamidade da política do Rio

Na quarta-feira, um advogado apelou ao mundo dos quadrinhos para descrever a crise do Rio de Janeiro. “O Rio virou Gotham City. Se a eleição for indireta, mais fácil eleger o Coringa que o Batman”, disse, na tribuna do Supremo.

O causídico arrancou risos, mas derrapou na metáfora. No Rio, nem super-herói tem garantia de ficha limpa. Uma das milícias mais violentas do estado, a Liga da Justiça, usava o símbolo do homem-morcego para demarcar território. Seu chefe, um ex-policial militar, atendia pelo apelido de Batman.

O Supremo reservou a semana para debater a crise sucessória aberta pela renúncia de Cláudio Castro. O julgamento foi paralisado ontem por um pedido de vista, mas já serviu para expor a calamidade da política fluminense.

“Não há nenhum estado do Brasil que esteja na situação do Rio”, resumiu o ministro Flávio Dino. Ele relembrou o histórico de sete governadores presos ou inelegíveis. Poderia ter citado a Assembleia Legislativa, que já teve quatro presidentes presos. O último, Rodrigo Bacellar, está trancado em Bangu 8. É acusado de vazar informações sigilosas para o Comando Vermelho.

“A infiltração do crime organizado na Assembleia do Rio não é ficção”, ressaltou o ministro Alexandre de Moraes. O decano Gilmar Mendes disse ter ouvido do diretor da PF que “32 ou 34 parlamentares da Assembleia recebiam mesada do jogo do bicho”. “Deus tenha piedade do Rio”, concluiu.

Condenado por desviar dinheiro público para se reeleger, Castro renunciou para fugir da cassação e evitar novas eleições diretas. Com o drible, tentou deixar um aliado como governador-tampão indicado por via indireta. Agora o Supremo precisa decidir se valida o golpe.

O grupo do ex-governador já apresentou seu candidato a Coringa. É o bolsonarista Douglas Ruas, filho do prefeito de São Gonçalo. O deputado entrou na política pela via do nepotismo, ao ser nomeado secretário pelo pai. Passou pela gestão de Castro e agora quer assumir sua cadeira pelas mãos da Alerj.

Enquanto o julgamento não é concluído, o desembargador Ricardo Couto segue como governador interino. Presidente do Tribunal de Justiça, ele tem evitado despachar no Palácio Guanabara, onde as paredes têm ouvidos.

“Não queria estar no lugar de Sua Excelência”, gracejou ontem o ministro Kassio Nunes Marques, antes de votar pela eleição indireta. Gotham City é pinto diante do descalabro do Rio.

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CÁRMEN, DIAS E MESSIAS PAUTAM AGENDA DO STF E OFUSCAM MASTER

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Deslocar o foco das atenções para temas institucionais complexos, como a sucessão no Rio, a reorganização do TSE e a indicação ao STF, funciona como amortecedor da crise na Corte

Uma sequência de movimentos no Supremo Tribunal Federal (STF), no Tribunal Superior Eleitoral (TSE) e no Senado, embora aparentemente desconectados, revela uma engrenagem institucional em pleno funcionamento sob tensão. A reorganização da agenda política deixou em segundo plano o explosivo caso do Banco Master, que gerou grande constrangimento para o ministro Alexandre de Moraes.

O primeiro fato relevante foi protagonizado pela ministra Cármen Lúcia, que anunciou a antecipação de sua saída da presidência do TSE para 14 de abril. O gesto, justificado como uma medida administrativa para permitir melhor preparação das eleições, tem implicações políticas evidentes. Ao abrir espaço para o ministro Nunes Marques assumir a presidência da Corte eleitoral, consolida-se uma inflexão no comando do processo eleitoral de 2026, com a presença de nomes indicados pelo ex-presidente Jair Bolsonaro em posições-chave, incluindo André Mendonça na vice-presidência da Corte. Trata-se de uma mudança silenciosa, mas estratégica, no equilíbrio de forças institucionais que conduzirão o pleito.

Paralelamente, o STF mergulhou em uma crise federativa e institucional de grande complexidade ao analisar o caso da sucessão do governo do Rio de Janeiro, após a renúncia de Cláudio Castro e a desorganização completa da linha sucessória estadual. O julgamento caminhava para consolidar maioria (4 x 1) favorável à realização de eleições indiretas, de acordo com os votos de Luiz Fux, Mendonça, Nunes Marques e da própria Cármen Lúcia, mas a seguir foi interrompido por um pedido de vista do ministro Flávio Dino.

Ao alegar necessidade de aguardar o acórdão do TSE sobre a cassação e a renúncia de Castro, Dino adotou uma postura de cautela jurídica que, na prática, suspende uma decisão politicamente sensível. O caso foi definido pelo próprio ministro como uma “encruzilhada jurídica”, expressão que sintetiza o dilema central: definir se a vacância do cargo foi de natureza eleitoral ou administrativa. Essa distinção é decisiva, pois determina se a eleição deve ser direta (com voto popular) ou indireta (pela Assembleia Legislativa).

O caso Cláudio Castro revela o grau de deterioração institucional do estado: sem governador, sem vice, com o presidente da Assembleia Legislativa impedido e preso, e com o comando provisório entregue ao presidente do Tribunal de Justiça, Ricardo Couto. O retrato é de colapso político, agravado por denúncias de infiltração do crime organizado no Legislativo estadual, mencionadas, inclusive, pelo ministro Gilmar Mendes, que disse ter ouvido de um diretor da Polícia Federal (PF) que de 32 a 34 deputados recebiam dinheiro do jogo do bicho.

Equilíbrio institucional

Ao mesmo tempo, no Senado, avançou a indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o STF. O presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União-AP), encaminhou o nome à Comissão de Constituição e Justiça, em um movimento interpretado como gesto político ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, apesar de resistências iniciais, causadas pelo fato de o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG), indicado pelo presidente do Senado, ter sido preterido por Lula, que o quer candidato ao governo de Minas.

A indicação de Messias revela uma barganha entre Executivo e Legislativo. A demora no envio da mensagem presidencial, seguida de intensa articulação de Messias junto a cerca de 70 senadores, indica que a aprovação — que exige 41 votos — está sendo construída com base em negociação política direta, e não apenas em critérios técnicos. O relator Weverton Rocha (PDT-MA) já sinalizou um relatório favorável. Tudo indica que o governo conseguiu recompor sua base no Senado, em razão das articulações eleitorais.

No entanto, a eventual entrada de Messias no STF tende a aprofundar a percepção pública de alinhamento entre o Judiciário e o Executivo, somando-se a ministros já identificados com o governo. Internamente, já se delineia uma disputa por sua futura posição nos blocos informais da Corte. O Supremo de fato se tornou uma arena política, ainda que as manobras e acordos de bastidores tenham que se traduzir em decisões jurídicas.

O pano de fundo de todos esses movimentos é justamente o que ficou “na geladeira” nessa quinta-feira: o caso Master. Deslocar o foco das atenções para temas institucionais complexos, como a sucessão no Rio, a reorganização do TSE e a indicação ao STF, funciona como amortecedor político para um escândalo de grandes proporções, que envolve sistema financeiro, agentes públicos e possíveis ramificações dentro do próprio Estado. O instinto de sobrevivência do establishment falou mais alto do que as divergências políticas entre seus principais atores.

As linhas de força desse processo estão profundamente acopladas ao cenário eleitoral de 2026. Há uma reorganização silenciosa e natural do controle institucional das eleições, com mudanças relevantes no comando do TSE, em razão das regras do jogo da sucessão naquela Corte. O STF assume a responsabilidade de resolver uma crise institucional no terceiro maior colégio eleitoral do país, com 12.644.616 cidadãos aptos a votar. A entrada de Jorge Messias no Supremo, caso aprovada, fortalece a posição de Lula na recomposição interna de forças. Executivo, Legislativo e Judiciário operam em regime de contenção de danos para manter o equilíbrio institucional.

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