sábado, 14 de fevereiro de 2026

QUEM TEM MEDO DAS ESCOLAS DE SAMBA ?

Jorge Santana, Correio Braziliense

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes

As escolas de samba sofrem de um pecado original. Essas instituições que nasceram poucas décadas após o fim da escravidão tornaram-se um "perigo" para o Estado. A Primeira República brasileira (1889-1930), fundada em 15 de novembro de 1889, teve como metas o progresso e o desenvolvimento — leia-se excluir tudo aquilo oriundo de África ou dos povos originários. Tal busca pelo branqueamento da nação não significava apenas eliminar os povos não brancos, mas também extirpar todas as práticas, culturas, religiosidades, traços africanos e ameríndios.

É nesse contexto político, marcado pela eugenia e pelo racismo científico, que surgem as escolas de samba. As agremiações de samba eram e são muito mais que entidades carnavalescas, são espaços de sociabilidade, de produção cultural, resistência, aquilombamento, reexistência, protagonismo negro, produção multiartística, manifestação política e de congraçamento da vida. Como diz o escritor Antônio Simas, "as escolas de samba não desfilam por isso existem, mas existem e por isso desfilam".

O pecado original das escolas de samba é que elas foram, e ainda são, uma pedra incômoda no sapato de muita gente. No pretérito, eram acusadas de centros de balbúrdia, antros de desocupados e lócus da vadiagem. No presente, elas são alvos de críticas que associam à libertinagem, reduto de gays e lésbicas, promotoras de "macumba", redutos da contravenção (jogo do bicho), mantenedoras do atraso cultural e inimigas da moral cristã e dos bons costumes. 

Os atuais detratores recorrem a acusações de que elas não contribuem para a cultura, não dão retorno à sociedade, ou o desenvolvimento da nação, além de que não produzem nada de positivo ou edificante. Essas acusações caem como frágeis castelos de cartas ao constatarmos que esses detratores, na verdade, temem as escolas.

Desde o início, as escolas sofreram com a censura ou o controle estatal. A Vizinha Faladeira foi proibida de ter como tema do carnaval "Branca de neve e os setes anões", pois o regulamento só permitia que as escolas abordassem temas nacionais. Ou seja, era a busca incessante do Estado em fazer das escolas difusoras da história dos chamados grandes temas e homens da nação. O Império Serrano foi censurado durante a famigerada ditadura civil militar (1964-1985) por trazer um enredo para a avenida falando em liberdade.

Décadas atrás, até a Igreja Católica também censurou a Beija Flor, que proibiu a alegoria do Cristo Redentor caracterizado de mendigo. Joãozinho, o Trinta, driblou a censura, embrulhou o Cristo com saco preto e colocou a frase "Mesmo proibido, olhai por nós". Neste ano, parlamentares de extrema-direita tentam censurar a escola de samba Acadêmicos de Niterói, por ter como tema o presidente Luiz Inácio Lula da Silva. A alegação é que a homenagem configura campanha eleitoral ilegal, com uso do dinheiro público.

Aqui não quero discutir se o mandatário merece ou não a singela homenagem, mas sobre o que leva à busca da censura, pois são os mesmos que acusam as escolas de samba de não contribuírem em nada, de não ser cultura e de não promover nenhum impacto positivo para a população brasileira.

Na verdade, as acusações falam muito mais sobre os acusadores do que sobre as tão criticadas escolas de samba. Porque só se busca proibir ou censurar aquilo que tem relevância, força e potência transgressora. Portanto, seja o Estado, seja a Igreja, e, atualmente, seja uma parte dos parlamentares, não buscam censurar as escolas de samba porque elas são irrelevantes. Mas, justamente, pelo contrário. As escolas de samba têm relevância, potência, impacto sobre a opinião pública, poder de pautar a sociedade e de construir imaginário social.

O pecado original dessas instituições está na sua origem e no seu ethos. Nascidas nas periferias, subúrbios e favelas; formadas em sua maioria por homens e mulheres negras; por manterem viva a cultura popular; por não se submeterem aos poderes e interesses da elite, sempre deram um jeito de subverter os podres poderes. Portanto, o problema dos críticos e aspirantes a censores nunca foi sobre a relevância, potência e importância delas. Mas sobre não poder controlá-las. Sem esse controle, para quem tem medo das agremiações, sobra a famigerada censura.

*Jorge Santana, professor doutor de história do Instituto Federal do Paraná (IFPR) campus Campo Largo

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IMPERADOR IMPOPULAR

Jamil Chade, CartaCapital

O mundo demonstra seu desprezo pelo presidente dos Estados Unidos

Donald Trump descobre, aos poucos, a dimensão do desprezo do mundo por seu governo. Durante a abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno, em Milão, a entrada da delegação dos Estados Unidos no desfile foi marcada por uma mistura de aplausos e vaias. A celebração foi para os atletas, alguns dos melhores do mundo em suas modalidades. Mas um sonoro protesto ocorreu quando o telão do estádio de San Siro mostrou o vice-presidente JD Vance, de pé, aplaudindo a delegação. Curiosamente, o público dos EUA jamais soube disso. Na transmissão oficial veiculada nas televisões de milhões de norte-americanos, a NBC cortou o som das vaias. Horas depois, quando a Casa Branca divulgou o vídeo do vice-presidente no evento na Itália, uma vez mais o som das vaias havia sido convenientemente abafado.

Ali foi apenas um termômetro de críticas, protestos e manifestações de repúdio diante de um governo que desmonta a democracia, abala os direitos humanos, interrompe a ajuda humanitária pelo mundo e ainda se diz orgulhoso de invadir países estrangeiros.

Nos dias seguintes à cerimônia de abertura, foram diversos os eventos e competições que viram as arquibancadas se manifestar contra os EUA. Num jogo de hóquei entre Canadá e Suíça, no sábado 7, torcedoras canadenses abriram um cartaz de protesto contra o ICE, a polícia de imigração de Trump. Manifestações da mesma dimensão tomaram outros locais de eventos esportivos durante os Jogos.

As arquibancadas eram, porém, meras caixas de ressonância de uma tendência mais profunda. Um levantamento da entidade YouGov revelou que poucas vezes nas últimas décadas a popularidade do governo norte-americano na Europa esteve em patamares tão baixos como hoje. A pesquisa revelou que, em janeiro, apenas 16% dos britânicos tinham uma opinião favorável a Trump e 81% tinham uma opinião desfavorável. Na França, 18% dos entrevistados apresentaram uma opinião favorável ao presidente dos EUA, contra apenas 11% entre os alemães. Na Itália, 77% dos entrevistados tinham uma opinião desfavorável, taxa similar àquela registrada na Espanha. Nem George W. Bush nos primeiros anos de seu governo registrou índices tão baixos.

Nada se equipara, no entanto, aos índices de desaprovação de Trump na Dinamarca, país que sofre um assédio direto do republicano em busca do controle da Groenlândia. Em janeiro, apenas 4% dos escandinavos tinham uma percepção positiva sobre o presidente dos EUA. Os dados contrastam com a popularidade­ de Barack Obama na Europa ao terminar o mandato em 2016. Naquele ano, o democrata chegou a registrar um índice de aprovação de mais de 75% na Espanha, Alemanha, Reino Unido e França.

A Olimpíada de Inverno, portanto, transformou-se num primeiro teste real da imagem dos EUA no exterior, desde a volta ao poder de Trump. Os protestos não se limitaram às arquibancadas. O esquiador da equipe britânica, Gus Kenworthy,­ compartilhou uma foto no Instagram na qual critica o ICE, escrevendo seu desagravo na neve com urina. “Não podemos ficar de braços cruzados enquanto o ICE continua a operar com poder irrestrito em nossas comunidades”, afirmou. Os atletas de Minnesota, epicentro do confronto entre as forças de Trump e imigrantes, também usaram o evento para se distanciar do republicano. “Estou competindo por um povo americano que defende o amor, a aceitação, a compaixão, a honestidade e o respeito ao próximo”, disse Jessie Diggins, medalhista de ouro olímpica no esqui cross-country. “Não apoio o ódio, a violência ou a discriminação.”

O próprio Trump envolveu-se em uma troca de farpas com o esquiador Hunter Hess. O atleta foi questionado sobre como era representar os EUA nas Olimpía­das, dada a situação atual do país, que incluiu operações do ICE e uma série de crises geopolíticas. Hess disse que representar os EUA lhe causava “sentimentos mistos” e que era “um pouco difícil”. “Só porque estou vestindo a bandeira não significa que represento tudo o que está acontecendo nos EUA.”

Extremistas de direita dos EUA passaram a pedir a exclusão de Hess da delegação. Trump deixou clara sua indignação. “Ele (Hess) não representa seu país nas atuais Olimpíadas de Inverno. Se for esse o caso, ele não deveria ter tentado entrar para a equipe, e é uma pena que esteja nela. É muito difícil torcer por alguém assim”, escreveu o presidente, que o chamou de “perdedor”.

O mal-estar ganhou tal dimensão que os próprios organizadores tiveram de tomar medidas de precaução. Para evitar uma polêmica ainda maior, a delegação norte-americana renomeou a casa que havia alugado em Milão para promover atletas e patrocinadores. O nome original era ICE House, numa referência ao gelo. Mas, a poucos dias da abertura do evento, o local passou a se chamar Winter House, ou a Casa de Inverno. Que venha a primavera. 

Publicado na edição n° 1400 de CartaCapital, em 18 de fevereiro de 2026.

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sexta-feira, 13 de fevereiro de 2026

O CARNAVAL NÃO TEM SIDO E NUNCA FOI EXPRESSÃO DA NOSSA SUPOSTA ALEGRIA

José de Souza Martins, Valor Econômico

Entre nós, o Carnaval foi destituído das referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma

Mesmo não o sendo, de fato, o Carnaval se tornou uma espécie de referência identitária do imaginário do que o brasileiro julga que é. Na verdade, a imensíssima maioria do povo sempre esteve e está cada vez mais distante dessa festividade, que, aliás, não é apenas uma, mas várias escondidas sob um único nome.

O declínio do Carnaval brasileiro pode ser analisado como documento e indício sociológico de mudanças profundas no que reiteradamente tem-nos sido dito que somos. O Carnaval é o outro lado, é o nosso nunca fomos.

O crescimento estatístico do número de evangélicos poderia ser tomado como fator de comprometimento da adesão ao que muitos, evangélicos ou não, consideram uma festa de Satanás. Tampouco o é. É notório que Satanás está muito atarefado com outras solicitações, sobretudo com a maligna tarefa de monitorar seus auxiliares em estado de rebeldia nos poderes, na economia e mesmo nas religiões.

Os indícios do último meio século são de que o Carnaval está no fim. Monitoro essa decadência desde quando começou claramente a deixar de ser uma festa popular de rua, o tríduo da licença pecaminosa, do cotidiano invertido, para deixarmos de ser o oculto que somos.

Desde que foi aqui difundido nos finais do século XIX, o Carnaval não tem sido e nunca foi expressão da nossa suposta alegria. Alegria de quê? Qual a proporção de brasileiros que tem tido algum motivo de alegria para celebrar?

Eu sempre soube que o Carnaval era um momento de fuga, de fingimento, de nele estar para não estar de fato. Mas isso também tem um pouco de simplificação. Talvez o Carnaval melhor diga que não somos um povo alegre, mas reclamamos o direito de ter alguns momentos de alegria, nem que seja fingida.

O extraordinário Paulo da Silva Prado, de uma das famílias mais ricas do Brasil, patrono da Semana de Arte Moderna de 1922, publicou, em 1928, “Retrato do Brasil: Ensaio sobre a tristeza brasileira”, um livro referencial. Do modernista Mário de Andrade, também de 1928, é Macunaíma, o herói sem nenhum caráter.

O da identidade inconcreta dos desencontros do modo de ser, o diverso e múltiplo que não é nenhum.

O Carnaval está no fim por ter perdido as referências sociais de sua gênese, daquilo que socialmente é, por ter perdido a possibilidade de ser socialmente compreendido e decifrado.

O Carnaval é popularmente interpretado como festa mundana, suspeitamente, porém, impregnada de atributos e concepções que remetem a um sistema de significados que é o da religião. Sua cultura de inversões, simulações e fingimentos narra a representação social do anticotidiano, do que somos não querendo ser, ou querendo mas não podendo.

Em tempos idos, nos começos, Carnaval era homem se fingir de mulher, mulher, de homem, usar máscara do que não se era para interagir como avesso. Sentir-se liberado para agredir o outro, o desconhecido, o diferente, o socialmente distante, com laranjinhas de cera cheias de água perfumada ou mais tarde o lança-perfume.

O momento significativo do nascimento do Carnaval entre nós foi aquele em que se sobrepôs ao Entrudo e o modificou e substituiu, no século XIX. O Entrudo era o marco divisório entre o sagrado e o profano, situado no próprio calendário religioso.

Do latim “introitus”, dizem, inaugurava a Quaresma, o período de restrições religiosas que penalizam o corpo. O Entrudo, e o Carnaval o imitou, representava uma burla dessas restrições, viabilizada pela inversão da realidade ao contrário do que cotidianamente é. A realidade como representação e teatro do avesso.

A máscara e o mascarado como figurações do não ser dos dias da incerteza da aproximação da crucificação e morte de Cristo. O tempo do vazio da espera e do perigo do advento do Anticristo.

Mas algo aconteceu. Entre nós, o Carnaval se tornou o espetáculo desse vazio, foi destituído das referências mediadoras da Quaresma, do tempo da espera. Virou coisa em si mesma. Mero produto para consumo do imaginário. A rua tornou-se residual.

O Carnaval virou imóvel nos monumentos de concreto que são os sambódromos, em que se paga para participar, tornou-se seletivo, instrumento de exibição da classe média e de consumo do espetáculo. Como todo produto que é mercadoria, disseminou-se. A antiquaresma antecipou-se e estendeu-se pelo próprio tempo sagrado da espera sacrificial.

A Quarta-Feira de Cinzas foi violada. Todos os dias se tornaram dias de Carnaval. Já não é preciso fingir. A vida perdeu a autenticidade porque já não existe o íntimo nem o segredo. Íntimo e segredo agora são espetáculo. A banalidade do cotidiano transformou-se em espetáculo. O Carnaval, por sê-lo, já não o é. O Carnaval tornou-se desnecessário e inútil.

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UMA AGENDA POSITIVA PARA A DEMOCRACIA

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

É preciso tratar dos problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições

Os defensores da democracia começaram 2026 com uma grande vitória: a eleição de Antonio Sérgio Seguro em Portugal, que bateu o candidato da extrema direita. Estabeleceu-se o que muitos chamam de cordão sanitário contra os antidemocratas, algo essencial quando há o risco da vitória de autoritários - no caso português, de um partido como o Chega, cujo racismo explícito atinge nossos compatriotas que moram por lá.

Depois do alívio e da comemoração, vem o aviso: ancorar-se numa estratégia apenas defensiva dos regimes democráticos é muito arriscado. Para sair desta quadra obscurantista da história, será preciso construir uma agenda positiva para a democracia, num processo que demandará mais tempo que o curto prazo de uma eleição. Isso vale para Portugal, para os Estados Unidos ou para o Brasil.

A necessidade de uma agenda positiva não significa que os instrumentos defensivos devam ser ignorados ou aposentados. A reação a governantes de extrema direita e a partidos de extrema direita aspirantes ao poder continuará exigindo métodos reativos dos democratas.

De um lado, porque a luta contra o ideário autoritário do século XXI dependerá, antes de mais nada, de resistência. Se os Estados Unidos tivessem punido os golpistas do dia 6 de janeiro de 2020, hoje estariam numa situação democrática melhor. Trata-se de um conflito político no qual não se pode acreditar que os políticos extremistas vão seguir plenamente as regras do jogo - ou ficar nas quatro linhas da Constituição. Isso seria ingenuidade, no mínimo.

O modelo reativo, por outro lado, também tem um potencial de buscar o que pode ir além da mera defesa, abrindo as portas para a valorização das instituições e ideais democráticos. Isso fica mais claro ao se analisar os três tipos de resistência às forças antidemocráticas que têm sido utilizados: a vitória eleitoral, o uso das instituições como proteção contra a extrema direita e a mobilização social, tomada como resistência e construção de novas formas de comunicação política.

No caso dos processos eleitorais, o discurso contra os partidos e políticos antidemocráticos tem de se transformar em votos, especialmente seguindo a lógica de convencer os independentes e os não engajados na disputada polarizada. Foi o que ocorreu em Portugal, é o que tem acontecido na França e também foi essa a linha do segundo turno presidencial no Brasil em 2022. Grandes coalizões contra a extrema direita autoritária têm se formado em muitos países, por enquanto com mais sucesso do que fracasso. Mas os eleitores descontentes com a democracia continuam lá, geralmente à espera de lideranças populistas antidemocráticas. Ou seja, o monstro não foi derrotado.

O uso de instituições políticas para evitar o autoritarismo de governantes, sejam formadas por representantes eleitos como o Legislativo, sejam compostas por membros não eleitos como o Judiciário, é o segundo tipo de resistência democrática. Nem sempre o mandatário tem maioria parlamentar e parte de seu limite será dado por outros políticos. Se os democratas ganharem a eleição congressual de meio de mandato nos Estados Unidos, Trump perderá parte de seu vigor autoritário.

Além disso, promotores e juízes, responsáveis por garantir direitos dos cidadãos que não podem ser restringidos por uma maioria eleitoral momentânea, têm sido muito ativos em alguns lugares como contrapesos a autocratas e/ou a projetos de autocracias golpistas. O caso brasileiro é paradigmático: sem a ação do STF, particularmente do ministro Alexandre de Moraes, teria sido muito difícil escapar do golpe bolsonarista.

A estratégia de usar o arcabouço institucional como mecanismo de resistência é parte integrante do pacote que compõe o regime democrático; porém, num contexto de contestação da democracia, tal ferramenta não será suficiente ao longo do tempo. Mais do que isso: tais instituições precisam de legitimidade social para que não se estabeleça o argumento de que alguém com grande clamor popular, ou eleito pelo povo, possa ser barrado por quem não tem o mesmo suporte.

A disputa entre o voto e as instituições contramajoritárias, vale ressaltar, é um dos grandes temas da reflexão democrática. Depois dos totalitarismos ocidentais, a ciência política do pós-guerra reforçou a necessidade de a democracia proteger-se de maiorias de ocasião para evitar quebras autoritárias do regime. Entretanto, também é fundamental construir a legitimidade institucional de quem arbitra a disputa política - em outras palavras, a crença de que as instituições não têm credibilidade suficiente, ou mesmo subvertem a vontade popular, é um grande risco à democracia contemporânea.

O último tipo de resistência às tendências antidemocráticas atuais diz respeito à mobilização da sociedade. Ela pode ser feita cotidianamente por organizações permanentes, como a universidade, a imprensa e várias formas de associativismo, ou então por manifestações de rua, geralmente organizadas contra algum evento que atinge os direitos da população. É o que está acontecendo em boa parte dos EUA como reação à ação troglodita e autoritária do ICE, agência federal americana que foi comparada à Gestapo nazista por um dos mais influentes apoiadores de Trump, o midiático Joe Rogan.

Resistências antidemocráticas que apenas mobilizem e sensibilizem os que já são claramente adversários dos extremistas têm força bem menor do que os movimentos que chegam a outros grupos, gerando apoio inclusive em parcela dos que apoiaram os governantes ou partidos autoritários. Isso significa que o caminho mais bem-sucedido da resistência civil vai além da metáfora do cordão de proteção. A esse papel deve ser acrescentado o de encontrar as questões que afetam a todos na vida cotidiana, no mundo que vai além da disputa política partidária, gerando novas formas de comunicação e convencimento.

Analisando o conjunto de resistências às forças antidemocráticas do mundo, constata-se que o vetor defensivo é fundamental e predominante, mas é preciso avançar para uma agenda positiva, capaz de revitalizar a democracia e conversar com os problemas de diversos grupos sociais que não se sentem representados pelas elites políticas tradicionais e suas instituições.

A construção da agenda positiva passa, primeiramente, pelo reforço de valores democráticos que, por vezes, os próprios democratas têm enfatizado menos ao entrarem no jogo de soma zero em que se transformou a política polarizadora comandada pela extrema direita. Um dos principais elementos aqui é a aposta no pluralismo e no diálogo com os diferentes. Critica-se corretamente o comportamento de manada das forças antidemocráticas, com suas lideranças tendo uma capacidade enorme de dominar autoritariamente seu eleitorado, mas também se deve lembrar que setores centristas liberais e de centro-esquerda ou esquerda agarraram-se demasiadamente em suas certezas e são incapazes de adaptar suas propostas e argumentos às angústias de parcelas crescentes do eleitorado.

Não seria possível defender a globalização ou o combate às desigualdades conversando com quem desconfia dessas agendas (ou pelo menos de seus defensores)? Muitos querem a riqueza e as transformações tecnológicas presentes no ideário mais liberal, mas creem que deveriam ter maior participação nesse bolo. Outra grande parcela não é necessariamente racista e tem preocupações sociais, contudo pensa que eles igualmente deveriam estar na lista dos que devem ser defendidos por não terem a ascensão social almejada.

A revitalização democrática presente no debate e mobilização social tem de chegar à política para aumentar sua potência contra os antidemocratas. Do ponto de vista institucional, três tarefas são inescapáveis. A primeira é ressaltar mais as políticas públicas que mudam a vida de muitas pessoas, inclusive de muitas que estão descontentes com a democracia. Aqui, há um problema comunicacional grave, uma disputa de narrativas na qual ações governamentais bem-sucedidas não aparecem enquanto tais para os corações e mentes de muita gente.

Parte da dificuldade de realçar as qualidades da democracia e da efetividade de muitas de suas políticas públicas reside em vícios dos políticos, da alta burocracia e das elites de maneira geral, que são vistos como distantes e privilegiados frente a boa parcela da população. Esse segundo ponto é fundamental porque, para lembrar o filósofo americano Michael Sandel, vai exigir sentimento comunitarista das lideranças e grupos que comandam a sociedade. Os descontentes não se sentem participantes do jogo democrático e vinculam os governantes e setores influentes a uma casta que sequestrou o bem comum. Sem dúvida, há mitos aqui, mas também muitas verdades sobre um fosso social enorme que foi ignorado pelos “donos do poder” nas últimas décadas.

A descoberta de pautas populares que não estão sendo atendidas pelas instituições democráticas atuais é a tarefa de fundo mais relevante aos que querem defender a democracia para além das vitórias eleitorais. Infelizmente, nesse campo a extrema direita está na frente, mesmo que seja com base em mentiras e demagogia. Para garantirmos a longevidade dos regimes democráticos, precisamos conversar e entender mais os descontentes, superando preconceitos para gerar uma nova agenda pública, que realce o quão positiva pode ser a democracia.

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quinta-feira, 12 de fevereiro de 2026

À SOMBRA DO MASTER, AMERICANAS VOLTA À CENA

Nelson Niero, Valor Econômico

Apesar de rebaixado à segunda colocação no ranking de escândalos do país, o caso da varejista ainda promete algumas emoções

No meio do furacão do Banco Master, que veio redefinir a extensão e a profundidade do lodaçal que avança sobre o país, a Americanas (alguém se lembra?) ensaiou uma volta ao noticiário no mês passado, quando a Comissão de Valores Mobiliários (CVM) elencou 31 réus, entre eles a rede varejista, que teriam sido responsáveis pela “maior fraude corporativa da história do mercado de capitais brasileiro”.

Não tão rápido, regulador. No fim da semana passada, a autarquia aprovou a criação de um grupo de trabalho para “análise técnica de informações relacionadas ao Grupo Master, à Reag e a outras entidades conexas”. Nem é preciso dar alerta de spoiler. Todo mundo sabe que o título já mudou de mãos.

Exatamente três anos depois que a revelação das “inconsistências contábeis” da varejista de Jorge Paulo Lemann, Marcel Telles e Carlos Alberto Sicupira atingiu em cheio o mercado, a CVM apresentou sua peça de acusação de um dos inquéritos instaurados para dar conta da peça de ficção contábil de R$ 20 bilhões encenada por anos a fio sem que ninguém conseguisse desvendar a farsa.

São duas histórias muito diferentes, com enredos que passam por temas comuns em dramas que viraram livros e chegaram ao cinema como “Enron: Os Mais Espertos da Sala” (2005) e “A Grande Aposta” (2015): cobiça, manipulação e vigias que não impediram o crime.

O script do Master está praticamente escrito, com suas reuniões secretas em mansões frequentadas por poderosos e até um resort no estilo “Ilha da Fantasia” - “O avião! O avião!”, gritava na abertura o ator Hervé Villechaize, no papel de Tatoo - que fica num bairro chamado Laranjal. Não, não é piada.

A trama da Americanas é comparativamente mais modesta. Seus atores primaram pela discrição e pela resiliência - ela foi muito mais duradoura, pelo menos desde 2013 há indícios de manipulação, segundo a investigação da CVM, que ocorreu simultaneamente à feita pelos especialistas contratados pela empresa, o chamado comitê independente, cujas conclusões foram reveladas pelo Valor em 2024.

As 264 páginas produzidas pela Superintendência de Processos Sancionadores da CVM confirmam o ambiente de um “The Office” turbinado e sem graça, no qual um esforço descomunal é feito para montar e manter de pé uma realidade paralela numa fábrica de números e de documentos falsos, cujo objetivo era enganar acionistas e investidores com um pastelão de quinta categoria.

Nada extravagante, nada de festas, modelos e influenciadores. Nenhum ministro ou político. Apenas um elenco entrosado que fazia o que fosse necessário para entregar o resultado que os analistas queriam. Uma assinatura forjada aqui, mais três zeros ali. “Tô tentando aqui aumentar o LL [lucro líquido] mas tá F”, diz uma das mensagens que constam do relatório da CVM.

“Os números a serem atingidos com a fraude tinham por base o orçamento previamente aprovado e não alcançado, ou seja, já partiam de números fraudados”, escrevem os técnicos da autarquia. “Não é complexo, portanto, entender como, no decorrer do tempo, tal situação tornou-se incremental, retroalimentando-se.” Como não imaginar o que não teria sido feito com ajuda da inteligência artificial?

Os auditores, cuja atuação voltou a ser criticada no caso Master, aparecem numa luz ligeiramente positiva nas páginas do relato da CVM. “Durante os processos de auditoria surgia a necessidade de fraudes adicionais, como a confecção de documentos falsos e a adulteração de relatórios a serem entregues aos auditores”, diz um trecho. “Conforme aumentavam as exigências das empresas de auditoria, aumentava também o número de pessoas envolvidas [na fraude]”, de áreas como tecnologia da informação, comercial, jurídico e financeiro.

Os relatos parecem apontar para o que se convencionou caracterizar como um “sequestro” pela administração dos controles internos, o que impediria os “gatekeepers” de desempenhar suas tarefas. Essa teoria, que ganhou força na esteira dos grandes escândalos do início do século, diz que os gestores usam as brechas e fragilidades do sistema de governança para enganar auditores, conselheiros e reguladores. Esse conluio de funcionários, de diferentes níveis da empresa, especialmente na instância decisória, tornaria difícil a detecção das fraudes.

Isso não significa que as auditorias que passaram pela Americanas estão livres de uma possível punição, já que há investigações separadas em curso na CVM sobre a atuação delas, todas do grupo das “quatro grandes” do setor no mundo. A novidade desta vez é que a autarquia resolveu colocar mais gente no barco. Dois inquéritos foram abertos no fim de janeiro para apurar a atuação dos bancos em operações comerciais e nas emissões de valores mobiliários da Americanas, como ofertas públicas de ações. Membros dos conselhos de administração e fiscal e de comitês de assessoramento também serão investigados para se saber se cumpriram suas funções com diligência.

Apesar de já ter sido rebaixado para a segunda colocação no ranking do país pródigo em escândalos, o caso Americanas ainda promete algumas emoções.

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2026

AFASTAMENTO DE MINISTRO MUDA PARADIGMA CONTRA ASSÉDIO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Ao afastar cautelarmente um de seus integrantes, a Corte envia uma mensagem clara à sociedade e, sobretudo, às vítimas de que as denúncias serão levadas a sério

A decisão do Superior Tribunal de Justiça (STJ) de afastar cautelarmente, por unanimidade, o ministro Marco Buzzi representa um marco no enfrentamento do assédio sexual no Brasil. Além de uma resposta a um caso ainda sob apuração administrativa e criminal, o gesto estabelece um novo paradigma de responsabilidade pública: não há mais espaço para tolerância institucional diante de condutas que violem a dignidade de mulheres, especialmente a violência quando praticada por autoridades investidas de poder, prestígio e prerrogativas.

O afastamento cautelar foi adotado após o surgimento de uma nova acusação, além daquela já tornada pública. O fato reforçou a necessidade de o tribunal agir rapidamente para proteger a integridade das investigações e, sobretudo, a própria credibilidade da Corte. A decisão não antecipa juízo de culpa, mas reconhece que a permanência do magistrado no exercício do cargo poderia agravar danos institucionais e simbólicos. É uma mudança de paradigma, que rompe histórica autocontenção excessiva. A autoridade do Judiciário depende não apenas de decisões técnicas, mas, também, de padrões éticos rigorosos.

As denúncias descrevem comportamentos reiterados e semelhantes, o que indicaria abuso de poder e assimetria hierárquica, na caracterização do assédio sexual. Nos termos do artigo 216-A do Código Penal, assédio sexual é o ato de constranger alguém, com o objetivo de obter vantagem ou favorecimento sexual, prevalecendo-se de condição de superior hierárquico ou ascendência funcional. Não se trata apenas de investidas explícitas, mas, também, de insinuações, contatos físicos indesejados, convites insistentes, comentários de cunho sexual ou qualquer conduta que transforme relações profissionais ou sociais em ambientes hostis, intimidatórios ou humilhantes.

Assédio e importunação sexual são coisas diferentes. Enquanto o primeiro pressupõe uma relação de hierarquia ou poder, a importunação sexual — também tipificada no Código Penal — refere-se a atos libidinosos sem consentimento, independentemente de vínculo funcional. Ambos representam a violação da liberdade, da dignidade e da autonomia da vítima. Não se trata de “mal-entendidos”, mas de violência simbólica e, muitas vezes, física.

Os dados sobre essa realidade são alarmantes. Pesquisas recentes indicam que cerca de 47% das mulheres brasileiras já sofreram algum tipo de assédio sexual ao longo da vida. Em grandes centros urbanos, esse percentual chega a 75%. No ambiente de trabalho, o problema é igualmente grave e estrutural: apenas em 2024, a Justiça do Trabalho registrou 8.612 novos processos por assédio sexual, um aumento de 35% em relação a 2023. Entre 2020 e 2024, acumulam-se mais de 33 mil ações, número que, ainda assim, está longe de refletir a dimensão real do fenômeno.

“Biografia ilibada”

Há que se considerar, ainda, a subnotificação é um subproduto perverso desse tipo de ataque. Cerca de 92% das vítimas de assédio sexual no ambiente profissional não denunciam o ocorrido. O silêncio é alimentado pelo medo de retaliação, pela vergonha, pela naturalização da violência e pela descrença nas instituições. Em estruturas hierarquizadas — como empresas, universidades e órgãos públicos —, a assimetria de poder funciona como mecanismo de intimidação e protege os agressores.

Ao afastar cautelarmente um de seus integrantes, o STJ envia uma mensagem clara à sociedade e, sobretudo, às vítimas de que as denúncias serão levadas a sério, independentemente do cargo ocupado pelo acusado. A medida também contribui para quebrar o ciclo de impunidade que, historicamente, protegeu homens poderosos, sob a capa narrativa de “biografia ilibada”, reputação construída ou vida privada exemplar. Na verdade, trata-se de uma vida dupla, como o caso do piloto responsável por uma rede de exploração sexual infantil.

O afastamento cumpre um papel preventivo. Protege o ambiente interno do tribunal, evita constrangimentos adicionais às vítimas e impede que o órgão seja arrastado para uma crise prolongada de natureza pessoal. Nesse aspecto, foi fundamental a mobilização das ministras que integram a Corte, que foram informadas do que ocorreu em detalhes e exigiram que providências foram tomadas. Ao mesmo tempo, preserva o devido processo legal, porque a medida é temporária, excepcional e reversível, caso as acusações não se confirmem. Equilibra garantias individuais e responsabilidade pública.

É grande a responsabilidade do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) e do Supremo Tribunal Federal (STF). Apuração rigorosa, com discrição, respeito às vítimas e observância do contraditório. Seguir o rito do devido processo legal é indispensável para que o caso produza efeitos pedagógicos duradouros. Não se combate o assédio apenas com discursos ou estatísticas. A intolerância real à violência de gênero deve ser factual.

O afastamento cautelar de um ministro por suspeita de assédio sexual inaugura um novo patamar civilizatório no funcionamento das instituições brasileiras. Estabelece o paradigma de que o poder não confere licença para violar direitos, que a hierarquia não autoriza a humilhação e que a dignidade das mulheres é um valor universal. Num país marcado pela subnotificação, pelo medo e pela impunidade quanto ao assédio e importunação sexuais, a decisão do STJ começa a estabelecer um novo paradigma.

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CASO DE ASSÉDIO PÕE STJ NA BERLINDA E PODE JOGAR LUZ SOBRE OUTROS VÍCIOS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Livre dos holofotes que cercam o STF, tribunal costuma ser leniente com nepotismo processual, pagamento de supersalários e atuação de lobistas

Ao ser avisado da primeira acusação de importunação sexual contra Marco Buzzi, o presidente do Superior Tribunal de Justiça, Herman Benjamin, desabafou com um amigo: “Era só o que nos faltava”. O ministro se referia à série de problemas que atinge a imagem da Corte desde que ele tomou posse, em agosto de 2024.

Com dois meses de gestão, Benjamin teve que dar explicações sobre suspeitas de venda de sentenças no STJ. Em seguida, a Polícia Federal fez buscas nas casas de servidores que atuaram em três gabinetes do tribunal.

Ao autorizar a operação, o ministro Cristiano Zanin, do Supremo Tribunal Federal, relatou a existência de um “verdadeiro comércio de decisões judiciais no STJ”. Em entrevista, Benjamin admitiu um “constrangimento coletivo”. “Nosso sentimento é de profunda tristeza”, afirmou o presidente, que apoia a criação de um código de ética para a elite do Judiciário.

Até aqui, não há registro de participação de ministros no esquema na mira da PF. Mas o fato de o caso seguir nas mãos de Zanin mantém uma nuvem carregada sobre o STJ, cujos integrantes têm foro privilegiado no Supremo.

As acusações contra Buzzi criaram novos embaraços para o tribunal. Na semana passada, a Corte abriu sindicância, mas não impôs medidas disciplinares ao ministro. A situação se agravou com o surgimento do segundo relato de assédio, feito por uma ex-assessora. O escândalo, que havia começado numa praia catarinense, instalou-se na sede do STJ.

Ontem Buzzi pediu licença médica de 90 dias. O atestado foi visto por colegas como manobra protelatória, e ele foi afastado do cargo por unanimidade. Em nota, sua defesa afirmou que a decisão criou um “arriscado precedente”. Apostou no espírito de corpo que costuma proteger os togados em Brasília.

Livres dos holofotes que cercam o Supremo, os 33 ministros do STJ não estão habituados ao escrutínio público. Isso ajuda a explicar a antiga leniência com vícios como o nepotismo processual, o pagamento de supersalários e a atuação de lobistas. São muitos problemas para uma Corte que gosta de se apresentar como o “tribunal da cidadania”.

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FIM DA ESCALA 6X1 PARA ALÉM DO 8 OU 80

Vera Magalhães, O Globo

Discussão sobre redução de jornada não opõe sensibilidade social e responsabilidade com a economia e tem de ser bem estruturada

O debate sobre o fim da escala 6x1 vem sendo travado no Brasil como se opusesse, de forma automática, sensibilidade social e preocupação com os efeitos econômicos e inflacionários. Essa rigidez dogmática, cada vez mais premissa de qualquer discussão, impede que se analise o assunto com o cuidado e a profundidade requeridos por tema que diz respeito à vida de tanta gente.

A História brasileira e a experiência internacional costumam mostrar que algumas políticas públicas, sobretudo trabalhistas, produzem no curto prazo uma pressão de custos, muitas vezes inflacionários, mas se revelam no médio e longo prazo conquistas civilizatórias. E não só. Se bem implementadas, elevam a produtividade, levam a maior formalização e podem implicar mais crescimento, com ganhos para parcelas maiores da população.

A redução da intensidade da jornada pode elevar o custo do trabalho em setores como serviços e comércio. Se a remuneração mensal for mantida, o custo por hora aumentará a partir do momento em que a jornada diminuir. Parte desse impacto poderá ser repassada a preços ou absorvida por reorganização de turnos, contratação adicional ou investimento em tecnologia.

A realidade que se tem no Brasil — jornadas abusivas tornadas norma em amplo leque de atividades econômicas — não é razoável. Um indicativo eloquente disso é a relativa rapidez com que o assunto deixou de ser tabu para congressistas sempre alinhados com os setores empregadores para se tornar uma pauta abraçada por quase todos os partidos. É claro que a proximidade das eleições ajudou a aplainar o caminho.

A experiência internacional aponta que jornadas mais curtas tendem a elevar a produtividade por hora, diminuir rotatividade e afastamentos por problemas de saúde. Esses são custos indiretos que normalmente ficam de fora das planilhas. A redução recente de horas de trabalho no Reino Unido e na Islândia foi seguida de manutenção ou aumento da produção, queda no absenteísmo e melhora no desempenho das empresas. Países com menor carga horária anual, como Alemanha, Holanda e Dinamarca, estão entre os mais produtivos do mundo por hora trabalhada.

Isso não significa que a transição seja neutra, ainda mais num país em que o custo do trabalho ainda é bastante alto para os empregadores e a produtividade média é baixa, como o Brasil. Mas políticas emancipatórias exigem aposta e tempo de assimilação. Foi assim, historicamente, com a licença-maternidade ampliada, a política de valorização real do salário mínimo e, mais recentemente, a formalização dos direitos dos trabalhadores domésticos.

Quando o FGTS para empregados domésticos foi aprovado, o prognóstico dominante era o colapso do emprego no setor. Houve ajuste, mas, passados alguns anos, os ganhos em termos de formalização, previsibilidade e dignidade numa das relações de trabalho mais desiguais do país compensaram largamente os senões.

Olhar para a jornada 6x1, de um lado, e para discussões diametralmente opostas, como os supersalários da casta dos servidores públicos, de outro, ajuda a mostrar o tamanho do fosso que separa as realidades do trabalho no Brasil. A preocupação com eficiência fiscal e econômica precisa ser simétrica. É difícil sustentar que o problema central de competitividade do país esteja no descanso semanal de trabalhadores do varejo, e não em privilégios que comprimem o espaço orçamentário, enquanto a reforma administrativa nunca sai do papel.

Defender a redução da escala não é incompatível com uma visão pró-mercado. Economias funcionam melhor quando regras claras reduzem assimetrias extremas e criam condições mínimas de bem-estar para todos. Isso não elimina a necessidade de rigor no desenho da política, que deve prever regras de transição e flexibilidade para negociações salariais.

O Brasil costuma oscilar entre dois extremos: paralisia por medo de custo imediato ou expansão de direitos em tempos de eleições sem atenção à sustentabilidade. O bom caminho, como sempre, está no meio.

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O RACISMO DE TRUMP E A LIBERDADE DE EXPRESSÃO

Nicolau Cavalcanti, O Estado de S. Paulo

A comunicação nas redes não é um entretenimento ‘café com leite’. Tem impacto político, social e econômico – e jurídico

Diante das críticas à publicação por Donald Trump de um vídeo racista, que representava Barack e Michelle Obama como macacos, a secretária de imprensa da Casa Branca, Karoline Leavitt, afirmou: “Trata-se de um vídeo de meme da internet que mostra o presidente como o rei da selva e os democratas como personagens de O Rei Leão. Por favor, parem com a falsa indignação e noticiem algo que realmente importe para os americanos”.

Por mais que soe revoltante – afinal, foi uma tentativa de minimizar a gravidade de um ato racista do presidente dos Estados Unidos –, o argumento de Leavitt, deve-se admitir, costuma ser aceito por muita gente. Há quem pense que uma “piada” na internet não tem especial importância. Levá-la a sério seria não apenas um sintoma de que não a entendeu, mas expressão de uma mentalidade rígida e controladora, que leva a reduzir a liberdade de expressão alheia. Há aqui dois sérios erros. Primeiro. A internet não é irrelevante no mundo real. Vejam-se, para citar apenas um dado, os números da publicidade digital. Estima-se que, no ano passado, foram investidos globalmente mais de US$ 600 bilhões em publicidade digital. A comunicação nas redes sociais não é uma espécie de entretenimento “café com leite”. O que se vê e o que se ouve na internet tem enorme impacto político, social e econômico – e, por consequência, também jurídico. O que afeta as relações sociais afeta o Direito.

Esquecemo-nos, às vezes, de um elemento básico. A internet potencializou a comunicação humana. Potencializou, assim, os benefícios da expressão humana, bem como seus riscos, perigos e danos. Ou seja, é natural – uma consequência da própria potência da internet – que existam agora, por exemplo, muito mais questões penais envolvendo o que cada um fala. A comunicação nas redes sociais atinge, de forma muito mais rápida, muito mais pessoas. A expressão na internet tem, sim, grande relevância.

O segundo erro é considerar que o vídeo publicado teria sido apenas uma “piada” e, portanto, desimportante, irrelevante juridicamente. A própria fala de Leavitt revela que o vídeo não foi mero humor: era o presidente dos Estados Unidos apresentando-se “como o rei da selva e os democratas como personagens de O Rei Leão”. Ou seja, era uma comunicação política, estabelecendo papéis para personagens políticos reais. Ainda que pudesse ter aparência de “humor”, de desenho animado, a mensagem era política. Seu objetivo não era entreter simpliciter.

Uma das potencialidades comunicativas das redes sociais é precisamente o despojamento da forma da mensagem, permitindo alcançar um público muito maior e de modo desarmado. Não nego que haja humor genuíno na internet – e que deva ser tratado como humor. Isso, por óbvio, não é autorização para a prática de crimes. Por exemplo, alguém que utilize uma piada para difundir desinformação sobre uma instituição financeira estará cometendo um crime. Mesmo que seu público ria ao final.

No caso do vídeo postado por Donald Trump, dizer que é uma piada por ter aparência de piada é não entender o que estava sendo dito. É ignorar a dinâmica da comunicação da internet. Um meme pode ter um potencial comunicativo muito maior do que um texto – e o Direito não é, nem pode ser, indiferente a esse fato.

Talvez alguém questione: mas, nos Estados Unidos, eles têm a Primeira Emenda, que permite a fala racista; então, nada disso teria muita relevância. Ora, a Primeira Emenda da Constituição americana não fala sobre racismo. Diz o texto: “O Congresso não aprovará nenhuma lei (...) que restrinja a liberdade de expressão ou de imprensa”. Afirmar, portanto, que a Constituição dos Estados Unidos autoriza o racismo constitui uma interpretação, entre várias possíveis, do que significa liberdade de expressão.

Ao longo do tempo, houve diversas interpretações sobre o tema. Por exemplo, em 1925, a Suprema Corte dos Estados Unidos – inclusive, com o voto favorável do juiz Oliver Wendell Holmes Jr., considerado um dos grandes formuladores do que viria a ser o conceito americano de liberdade de expressão – confirmou a condenação do político Benjamin Gitlow por seus escritos revolucionários, entendendo que esse tipo de publicação não estava protegido pela liberdade de expressão. Ou seja, dizer que o vídeo racista de Trump está autorizado pela Primeira Emenda é uma escolha interpretativa, não um dado normativo.

O debate sobre a liberdade de expressão anda raso. Há quem queira usar o poder estatal para impor suas verdades. Há quem queira retirar do Direito a capacidade de discernir o que é insulto, agressão, discriminação – ações que nunca estiveram no âmbito de proteção da liberdade de expressão. Tem-se aqui um tema importante. A internet expandiu as capacidades de comunicação, mas o direito de se exprimir continua o mesmo. Os limites da proteção da liberdade de expressão não foram alterados. Existe liberdade, mas continua sendo necessário respeitar os outros e seus direitos. Existe liberdade, mas continua havendo a correspondente responsabilidade.

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LULA, TRUMP E OS BRAÇOS DO CRIME NOS EUA

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Governo se vê diante da possibilidade de atingir o que Haddad chamou de “CEOs do crime organizado”

O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, disse nessa terça-feira em evento do BTG Pactual que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva lhe pediu alguns trabalhos “de saideira”. Não disse quais, mas em seguida comentou que o secretário da Receita Federal, Robinson Barreirinhas, pode acompanhar Lula na visita que fará ao presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

A Receita, liderada por Barreirinhas, sabe que esquemas criminosos do setor de combustíveis investigados no Brasil têm braços nos Estados Unidos. Foi o que desvendou a operação Poço de Lobato, deflagrada em novembro passado.

Desde então, Lula tem dito a Trump que os dois países precisam cooperar para combater o crime organizado e a lavagem de dinheiro. Segundo informou o presidente em entrevista ao portal UOL na semana passada, ele pretende levar, além do chefe da Receita, o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva.

Não é pouca coisa a ser apurada. Segundo a Receita, o grupo sob investigação havia adquirido uma exportadora em Houston, no Texas, que vendeu combustíveis para o Brasil no valor de R$ 12,5 bilhões de 2020 a 2025. Também se valeu de empresas constituídas em Delaware, um Estado cuja legislação garante anonimato e isenção tributária desde que não haja produção local. Segundo a Receita, essa é uma prática usual em esquemas de lavagem de dinheiro e blindagem patrimonial dos envolvidos.

A Poço de Lobato foi um desdobramento da operação Carbono Oculto, que identificou fraudes no setor de combustíveis e lavagem de dinheiro por meio de fundos e fintechs. Um dos alvos da Carbono Oculto foi a Reag. Essa, por sua vez, foi liquidada em 15 de janeiro pelo Banco Central, na esteira da crise em torno do Banco Master.

Basicamente, o esquema investigado na Poço de Lobato tem como centro uma refinaria que importava gasolina como se fosse derivado de petróleo para industrialização. As empresas participantes dessa cadeia de comercialização eram também devedoras contumazes de impostos.

Os recursos produzidos nessa fraude eram movimentados por meio de uma estrutura em que havia uma financeira “mãe” e várias sócias. Esse desenho dificultava identificar os verdadeiros beneficiários, diz a Receita. Foram movimentados pelo menos R$ 74 bilhões no prazo de um ano.

O dinheiro ilícito era reinvestido em imóveis e outros ativos por meio de fundos de investimento. A Poço de Lobato identificou que entidades estrangeiras constituídas em Delaware apareciam como sócias e cotistas. Além disso, constatou a coincidência entre representantes legais das offshores e dos fundos.

Na entrevista ao UOL, Lula contou ter enviado a Trump as fotografias das casas dos chefes do esquema, que moram em Miami. E disse ter sugerido que, se o americano quer combater o crime organizado e o narcotráfico, poderia começar entregando essas pessoas.

Desde a operação Carbono Oculto, deflagrada em agosto do ano passado, o governo se vê diante da possibilidade de atingir o que Haddad chamou de “CEOs do crime organizado”. Lula, por sua vez, vê no caso Master uma oportunidade de “pegar os magnatas da corrupção, da lavagem de dinheiro nesse país”.

Se há relação direta entre os dois escândalos, é algo ainda a ser determinado. Mas ambos movimentaram os escalões superiores dos Poderes, o que lança dúvidas sobre até onde irão as investigações. Será uma lástima se as tentativas de transformar tudo em uma grande pizza forem bem-sucedidas.

Revisão de gastos
Falando como falaria o formulador do programa de governo de Lula 4, Haddad comentou ser possível reorganizar as transferências feitas pelo governo em um programa de renda mínima. É uma racionalização tão bem-vinda quanto difícil do ponto de vista político.

Houve resistência da própria Esplanada dos Ministérios quando, neste governo, o programa de revisão de gastos mexeu no vespeiro dos benefícios sociais. No caso, era para melhorar os controles sobre Bolsa Família, seguro-defeso e outros. Houve avanços, mas a muito custo. Também o Congresso Nacional reagiu à tentativa de apertar critérios de acesso ao Benefício de Prestação Continuada (BPC).

Algumas ideias de redesenho de programas sociais já foram discutidas no atual governo. Por exemplo, reorganizar benefícios ao trabalhador, como abono salarial, seguro-desemprego e Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), e acoplá-los a incentivos à produtividade, pagando um bônus mensal por assiduidade.

Outra ideia era redesenhar o abono salarial, hoje pago a celetistas que recebem até dois salários mínimos. Passaria a ser concedido conforme a renda familiar per capita, e sem permitir acúmulo de benefícios no mesmo núcleo. Com isso, poderia atender à metade da população economicamente ativa que não tem emprego formal, numa espécie de benefício “pós-Bolsa Família”. Passaria a ser pago mensalmente, e não uma vez por ano, como ocorre hoje.

 São ideias que continuam no papel.

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O 'BOOM' DE COMMODITIES: COMO O BRASIL VAI APROVEITAR ESSA BONANÇA ?

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

A pergunta que se faz é como o Brasil vai aproveitar a bonança desse boom de commodities?

Gestores de fundos e analistas vêm alardeando, nas últimas semanas, que um novo superciclo de commodities está a caminho, mas que, desta vez, essa tendência de alta nos preços será alimentada pelos gastos com o desenvolvimento da inteligência artificial (IA) e não pela demanda da China, cujo crescimento econômico vertiginoso nos anos 2000 financiou, entre outras coisas, a forte expansão fiscal no Brasil nos governos Lula e Dilma.

Por ora, o que vem chamando a atenção é a montanha-russa nos preços do ouro e da prata, após esses metais terem atingido recordes de alta. O ouro, por exemplo, chegou a superar US$ 5.600 a onça-troy. Desde então, a volatilidade tem sido de perder o equilíbrio. No dia 30 de janeiro, as cotações do ouro (-11%) e da prata (31%) registraram a pior queda num único dia desde 1980. Dois pregões depois, o preço do ouro subiu 6% e o da prata saltou 8%.

Para além desses dois metais preciosos, é inegável o desempenho excepcional nas cotações de outras commodities, principalmente minérios que servem de insumos para indústrias, como as de fabricação de veículos elétricos, de energia sustentável e, sobretudo, de IA. Esse rali vem turbinando desde os preços de ações de empresas produtoras de metais até as moedas de países exportadores de minérios.

O índice S&P 500 para as ações de empresas do setor de matérias-primas subia 12,5% no ano, até a semana passada, enquanto o índice principal registrava alta de apenas 1,3% no período. Já o índice DXY, que mede a variação do dólar ante uma cesta de seis moedas fortes, acumulava queda de 0,7%, enquanto o dólar australiano registrava ganho de 5,1%.

“As commodities, particularmente os metais industriais e preciosos, vão seguir se beneficiando do atual boom de gastos com IA”, escreveram os estrategistas da corretora Brown Brothers Harriman, em relatório. “Cada novo servidor e sistema de energia exigem grandes quantidades de prata, ouro, platina, paládio e cobre, para chips de alta performance, fiação e infraestrutura de energia.”

O banco Barclays elegeu o dólar australiano como um dos principais beneficiários do boom de commodities alimentado pelos gastos com IA. Já o Goldman Sachs projeta, em 2026, um crescimento de 3,1% do PIB do Peru, outro grande exportador de ouro e cobre.

Se, compensando a desaceleração do PIB chinês ante o que se viu nos anos 2000, a construção de data centers e de infraestrutura de IA irá mesmo turbinar a demanda por matérias-primas, a pergunta é: como o Brasil aproveitará essa nova bonança? •

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UMA CPI PARA O MASTER ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Comissões de inquérito tiveram seu auge nos anos 1990 e depois perderam efetividade

Apesar de blindagens variadas, sempre há a chance de algo ser revelado, o que justifica a CPI

Sou jornalista e jornalistas somos quase que legalmente obrigados a apoiar CPIs. A essência da profissão, afinal, é revelar aquilo que poderosos gostariam de manter escondido —e as comissões ampliam as chances de que isso aconteça. Não há, porém, como deixar de reconhecer que CPIs são hoje um instrumento de investigação menos efetivo do que foram no passado.

A era de ouro das CPIs foram os anos 1990. Por duas décadas a ditadura mantivera os parlamentares sob rédeas curtas, então a possibilidade, inaugurada a partir da Carta de 1988, de proceder a inquirições sem prestar a continência exigida pelos generais era uma novidade. Duas boas CPIs dos bons tempos foram a do PC Farias (1992), que levaria ao impeachment de Collor, e a dos Anões do Orçamento (1993), que revelou como congressistas desviavam dinheiro público.

Não digo que investigações mais discretas, conduzidas por profissionais, não teriam levado a resultados até melhores, mas sabemos desde os romanos que o circo é um ingrediente importante da política.

A vida, porém, é uma grande curva de aprendizado. Governos e outras vítimas preferenciais de CPIs desenvolveram tecnologias para defender-se delas. Mobilizar os presidentes das duas Casas para que elas nem sejam instaladas é uma. Fazer filas de CPIs para manter o escândalo mais recente longe dos holofotes é outra.

Quando tudo isso falha, é sempre possível apelar para o uma mão lava a outra. Como os escândalos no Brasil tendem a ser ecumênicos, basta ampliar um pouco o escopo da investigação para incluir membros da oposição. Aí as coisas se resolvem quase que sozinhas: eu não convoco o seu protegido e você não convoca o meu. Assim nascem as pizzas.

Master, pelo que leio e ouço, é divinamente ecumênico. O mais provável, portanto, é que a CPI morra antes de nascer e, se vier à luz, que se torne uma comissão desdentada, feita para não morder. Mas sempre há o risco de alguém escolhido para o sacrifício falar mais do que deve e outros imponderáveis. Que venha a CPI!

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A QUESTÃO MORAL POR TRÁS DA 'RAPINA DO SÉCULO' DO BANCO MASTER

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

Quando a crise afeta políticos de todos os lados e magistrados, o que precisa mudar não são as pessoas

Era 28 de outubro de 1980 quando o general Raffaele Giudice chegou preso ao cárcere de Casale Monferrato. Ex-comandante da Guardia di Finanza, a polícia fazendária italiana, ele era um dos acusados da “rapina do século”, o escândalo de corrupção e fraude petrolífera que, segundo os cálculos do procurador Domenico Labozzetta, movimentara o equivalente a ¤ 1,2 bilhão.

A quantidade de políticos, empresários e a ligação deles com magistrados fizeram com que o jurista Stefano Rodotà escrevesse: “Quando o fenômeno se alarga até envolver os chefes da Finança, de grandes escritórios de advocacia, os serviços secretos, políticos de primeiro plano e seus colaboradores, é indispensável não se deter nas pessoas e olhar, em vez disso, para o sistema que tornou possível seus empreendimentos criminosos.” É a isto que o Brasil está assistindo no escândalo do Banco Master.

Quando um empresa criminosa conta com uma bancada no Congresso que busca mudar leis para anular investigações é porque a ousadia não se detém diante da luz do dia. A reportagem do Estadão que mostrou essa bancada deve servir de guia ao eleitor para punir todo político que teve o nome envolvido nas manobras que buscavam esconder a rapina do século, que ameaça pôr o petrolão no chinelo. Este não é um escândalo de esquerda ou de direita. Ele é de todos, mas, principalmente, da turma que usa a direita e a esquerda como biombo para se apossar de recursos públicos, seja qual for o presidente.

É aqui que renasce a Questão Moral, tão bem definida por Rodotà. E é nesse contexto que o Instituto Ética e Democracia lançou o manifesto Fortalecer o diálogo para aprofundar a democracia. O documento diz o óbvio nessas horas: não pode haver democracia sem boas instituições, cidadãos politicamente educados e diálogo. “A crise da democracia não será superada pela substituição de uma narrativa fechada por outra. Seu enfrentamento necessita de conhecimento qualificado, debates propositivos e uma sociedade civil atuante.” Nossa democracia – diz o documento – está ameaçada por forças autoritárias, pela degradação do debate público e pela substituição da razão por narrativas emocionais. “A política se converteu em espetáculo permanente de antagonismos.”

O acerto de contas com um sistema político que surgiu dos escombros da Lava Jato e se valeu da ascensão das redes sociais para estabelecer seu reino de ostentação, desvios e golpes não deve converter o conflito em ódio e a divergência em desumanização do outro, ainda que, como disse Rodotà, seja preciso não lhe dar trégua nessa luta, caso contrário o País verá “surgir outros dez mil escândalos”. A história lhe deu razão.

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terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

À ESPREITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Cordão sanitário funcionou e portugueses rejeitaram ultradireita na Presidência

Radicais têm ascensão meteórica quando eleitores descobrem que não estão sós

Por dois terços dos votos, os portugueses elegeram o socialista moderado António José Seguro para a Presidência do país, dando um sonoro "não" ao ultradireitista André Ventura, do Chega. Funcionou aqui o cordão sanitário. As principais forças políticas do país, tanto à esquerda como à direita, se uniram no segundo turno para impedir que um candidato da direita radical vencesse a disputa. Em Portugal, quem governa é o premiê, mas o presidente tem poderes relevantes, como o de dissolver o Parlamento e vetar leis.

Meu coração exulta sempre que o cordão sanitário evita que radicais conquistem o poder. A democracia é boa não por favorecer a eleição de líderes sábios, mas por automatizar o afastamento de governantes que perdem eleições ou nem deixar que figuras mais problemáticas se aproximem do poder. O otimismo, porém, só vai até certo ponto. O Chega passou de um deputado no pleito de 2019 a segunda força política de Portugal, com 23% dos votos nas legislativas de 2025.

E não é só em Portugal. Com variações, o cenário se repete na França, na Alemanha, na Espanha. Na Itália, um partido de raízes fascistas fez a premiê. A melhor explicação que já encontrei para o fenômeno é a dada pelo cientista político português Vicente Valentim. Num resumo grosseiro, eleitores sempre tiveram ideias de direita, às vezes bem pesadas, mas, por sentir que existia reprovação social a essa ideologia, evitavam expressá-las em público ou nas urnas. Os diques, porém, só funcionam até certo ponto.

Especialmente depois do advento da internet, que permite até à diminuta minoria dos terraplanistas encontrar-se, esses eleitores ultradireitistas descobrem que não estão sós e deixam de falsificar suas reais preferências. Daí as ascensões explosivas das siglas radicais, que, no espaço de dois ou três pleitos, vão da insignificância a porção significativa dos Parlamentos nacionais. Esses partidos agora pautam o debate e ficam à espreita. Se circunstâncias adversas se materializarem, poderão eventualmente governar.

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RECONSTRUIR SEGURANÇAS LABORAIS, TAREFA CONTRA O VALE-TUDO

Pedro Cafardo, Valor Econômico

Há enorme controvérsia sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos

Amélia, de 65 anos, saiu de casa para ir ao supermercado caminhando em uma rua de Pinheiros, em São Paulo, por volta das 18 horas. Era uma quinta-feira de verão, e o sol ainda iluminava a cidade. Vários motociclistas passavam em alta velocidade até que um deles, com um colega na garupa, parou ao lado da mulher:

“Passa o celular aí, vovó!”, ordenou, sem descer da moto.

“Não tenho celular, pode ver”, respondeu a trêmula senhora, mostrando a bolsa para o carona que parecia ter uma arma na mão.

“Então passa aí o cartão, e na próxima vez não esqueça o celular”, disse o motoqueiro ao empurrar a mulher e partir com o cartão no bolso.

Essa é uma cena comum em São Paulo e em muitas cidades brasileiras. Sumiram os trombadinhas mãos-leves, batedores de carteira. Agora ladrões usam velozes motocicletas para fazer assaltos, disfarçados de entregadores. No Brasil todo, houve estimados 900 mil roubos e furtos de celulares em 2025, sendo 390 mil no Estado de São Paulo e 154 mil na cidade de São Paulo.

Estimativas do Dieese indicam que há cerca de 1 milhão de motoboys no país, metade deles registrada em plataformas digitais e outra metade de entregadores totalmente informais.

A imagem desses profissionais, que prestam enorme serviço, é manchada por uma minoria de larápios. Hoje, quando um motoboy para no meio-fio, as pessoas ao lado saem de fininho.

No país, o total de trabalhadores registrados em aplicativos, incluindo motoboys e taxistas, atinge 2,2 milhões. Eles são a face mais visível da informalidade no trabalho, mas representam parcela pequena de empregados não protegidos pela CLT, que somam 40 milhões. São adultos jovens, principalmente, não sensibilizados para a fragilidade de suas relações de trabalho e para as dificuldades que poderão ter no futuro, quando atingirem idade de aposentadoria. A maioria não conta com benefícios das leis trabalhistas, como previdência, seguro-desemprego, licença médica, licença maternidade, fundo de garantia, aviso prévio, férias, décimo-terceiro etc.

Além de ser um fator perpetuador de desigualdades, essa alta informalidade corrói a base de arrecadação do Estado. Quanto maior ela for, menor será a capacidade pública de oferecer proteção social a essas pessoas.

A aproximação das eleições abre espaço para a discussão desse problema. Em editorial em seu site, o Conselho Regional de Economia de São Paulo (Corecon-SP) definiu como “urgente” a necessidade de regulamentar e conceder benefícios a esses profissionais para evitar que a modernização digital aprofunde a desigualdade e a precarização. Segundo a entidade, reconstruir as seguranças laborais, em parte destruídas pela reforma trabalhista de 2017, é um “desafio central” na atual estratégia de desenvolvimento.

Projeto de regulamentação do trabalho com aplicativos já tramita no Congresso, mas não parece haver muita disposição dos partidos políticos, nem mesmo dos mais à esquerda, para colocar a discussão da qualidade do trabalho e da educação profissional em suas principais propostas de governo.

É previsível que as campanhas, sobretudo as da direita, concentrem o foco (além do carro-chefe da segurança, “motorroubos” incluídos) em velhas propostas neoliberais, como empreendedorismo, austeridade fiscal e privatizações para reduzir o papel do Estado na economia. Em síntese, propostas orientadas pela crença de que o setor privado e o livre mercado são mais eficientes do que o poder público para resolver problemas sociais e promover desenvolvimento.

Há enorme controvérsia sobre a regulamentação do trabalho por aplicativos. A Amobitec, associação que reúne as maiores plataformas em operação no país, defende uma regulamentação moderada, que promova a inclusão dos trabalhadores no sistema de previdência, mas mantenha as características dos modelos de negócios das plataformas de tecnologia.

Os partidos políticos não terão como evitar esse tema na campanha eleitoral e podem se inspirar em modelos de fora. Nos EUA, onde a situação varia de Estado para Estado, os motoristas de aplicativos são prestadores de serviços autônomos, sem direitos trabalhistas. Não há remuneração mínima nem benefícios como seguro-desemprego, mas é grande a flexibilidade de horário e baixo o controle das plataformas, com inúmeras disputas judiciais.

Na França, o sistema é mais protetivo, e a informalidade, a norma. Os motoristas assinam contrato comercial com a plataforma, porém a Justiça pode reclassificá-los como empregados, caso haja controle excessivo, punições e dependência econômica. Existe remuneração mínima por corrida e exige-se transparência sobre como o algoritmo define preços e corridas. São obrigatórias contribuições para aposentadoria, seguridade social e seguro-doença. A plataforma paga o seguro de acidente de trabalho e não há férias remuneradas, salário fixo e seguro-desemprego.

O trabalho informal sem proteção, como já foi dito, não se resume aos aplicativos, porque está em todos os setores. Mais cedo ou mais tarde, o problema terá que ser encarado pelo Legislativo. Não para impor a velha CLT, mas para criar alguma regulamentação que impeça a instalação do “vale-tudo” nas relações trabalhistas.

E a dona Amélia?

Sim, dona Amélia resolveu o problema dela sem nenhum apoio policial. Na quinta-feira em que foi roubada, ela voltou para casa e cancelou o cartão antes que fosse usado pelo larápio. Não fez boletim de ocorrência e adotou um hábito bastante difundido em São Paulo: ao sair de casa, leva o “celular do ladrão”, um aparelho antigo, sem acesso à internet e ao banco. No sábado, vai ver bloquinhos de carnaval com ele na bolsa.

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O FIM DA ESCALA 6X1, A "ECONOMIA DO AFETO" E A REELEÇÃO DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Governo e partidos da base do presidente Lula já disseram ser favoráveis a uma redução da jornada de trabalho, mas dificilmente a jornada de 4 x 3 será aprovada

O presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), anunciou, ontem, o envio da Proposta de Emenda da Constituição (PEC) que põe fim à escala 6 x 1 para a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ). Admitida a constitucionalidade, será formada uma comissão especial para ouvir economistas, empregados e patrões para se chegar a uma mudança “com equilíbrio e responsabilidade”.

“O mundo avançou, principalmente na área tecnológica, e o Brasil não pode ficar para trás”, disse Motta, que aglutinou os projetos da deputada Erika Hilton (PSol-SP), que acaba com a escala 6 x 1, e um texto apresentado pelo deputado Reginaldo Lopes (PT-MG), sobre o mesmo assunto. A redução da jornada de trabalho é música aos ouvidos do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que aposta na “economia do afeto” — a essencia do lulismo, na feliz expressão do historiador Alberto Aggio– para se reeleger.

Lula já se beneficia dos programas de transferência de renda, como Bolsa Família e Vale Gás, e dos aumentos de salário real, da queda da taxa de emprego e da isenção do pagamento de Imposto de Renda para quem recebe até R$ 5 mil. O fim da jornada de 6 x 1 possibilitará a mobilização dos trabalhadores via sindicatos, depois do fracasso do governo ao discutir propostas de regulamentação do trabalho por aplicativos, que enfrentou forte rejeição dos interessados. De certa forma, essa redução será associada à ampliação da possibilidade de trabalho via aplicativos e, também, de empreendedorismo, com o aumento das horas vagas.

No Brasil, a questão do trabalho tem um sentido especial. Muitas vezes foi tratada como caso de polícia. A escravidão, com sua violência estrutural, impregnou a estrutura social de tal forma que as relações de trabalho se mantiveram como conflito, mesmo depois da Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), a grande herança da Era Vargas. Daí decorre o desrespeito, os assédios sexual e moral, a redução dos direitos sociais, o trabalho sem carteira assinada e as jornadas excessivas sem pagamento das respectivas horas extras, as diferenças salariais entre homens e mulheres e em relação aos negros e pardos.

Não passamos pela construção de uma “ética do trabalho”. Max Weber, em A Ética Protestante e o Espírito do Capitalismo (Companhia das Letras), destaca o trabalho árduo, racional e disciplinado como “vocação”, impulsionado pela ética calvinista, que transformou o acúmulo de riqueza fruto do trabalho em sinal de salvação.

Aqui, trabalho árduo, racional e disciplinado veio acompanhado dos grilhões e, depois, acompanhado, na maioria das vezes, de uma péssima remuneração. O trabalho intelectual é tão desvalorizado quanto o manual. A categoria dos professores, cujo trabalho é considerado “vocação”, é um bom exemplo. Como o “chão de fábrica” como locus do trabalho produtivo é cada vez mais minoritário, o fim da jornada 6 x 1 beneficiará diretamente os trabalhadores desses e de outros setores que ainda são obrigados a marcar o relógio de ponto.

Tendência mundial

A iniciativa nasceu do Movimento Vida Além do Trabalho (VAT), que ganhou força nas redes e somou 1,5 milhão de assinaturas em um abaixo-assinado que pede à Câmara dos Deputados a revisão da escala 6 x 1. A proposta de Erika Hilton prevê estabelecer que a jornada de trabalho normal não poderá ser superior a oito horas diárias; não poderá ultrapassar 36 horas semanais; e será de quatro dias por semana.

Segundo o texto, as mudanças entrariam em vigor depois de 360 dias da eventual promulgação da PEC. De acordo com a legislação vigente, a jornada-padrão é de oito horas diárias, somando 44 horas semanais, e um dia de folga por semana, preferencialmente aos domingos. Se o trabalhador ultrapassar essa jornada, a CLT garante que receba adicional de 50% sobre a hora extra (e 100% em domingos e feriados, se aplicável).

Nada impede uma empresa no Brasil que encurte a jornada de trabalho para apenas quatro dias por semana. Mas uma mudança geral exigiria emenda constitucional aprovada pelo Congresso, onde a correlação de forças é desfavorável à mudança dessa ordem. O governo e partidos da base de Lula já disseram ser favoráveis a uma redução, mas dificilmente a jornada de 4 x 3 será aprovada. O mais provável é que se aprove a jornada 5 x 2, que já ocorre em muitos setores — ou 4,5 x 3,5 se houver um avanço maior.

A gradativa redução da jornada de trabalho nasceu nos Estados Unidos. Em meados do século XIX, trabalhar mais de 70 horas por semana era comum. Eram jornadas de 12 horas, seis dias por semana. Em 1926, a Ford Motor Company, sob a liderança de Henry Ford, instituiu uma semana de trabalho de oito horas por dia e cinco dias por semana.

Hoje, o Brasil ocupa a 29ª posição no ranking global (OCDE) de carga horária, com uma jornada padrão de oito horas diárias e 44 horas semanais. Entre os países com as menores jornadas de trabalho estão a Alemanha, com uma carga média de 26,3 horas semanais; a Dinamarca, 27,3 horas; a Noruega, 27,5 horas; a França, 30 horas; e a Itália, com média de 35,6 horas semanais. Jornadas reduzidas resultam em melhor saúde mental, maior qualidade de vida e maior eficiência no ambiente de trabalho.

 

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A FOLIA DOS SUPERSALÁRIOS

Artigo de Fernando Gabeira

Quando menino, o carnaval era uma festa de acasalamento: Ai, morena/ Seria meu maior prazer/ Passar o carnaval contigo/ Beijar a sua boca e depois morrer.

Aos olhos do adulto, o carnaval é apenas um filtro político. Que enredos sobreviverão a ele, quantos escândalos ainda serão lembrados, pois, no Brasil, depois do carnaval é que começa o ano, com seu sabor de novidade. Algumas CPIs já estão no final, como a do crime organizado e a do assalto aos velhinhos do INSS. Seu último esforço é se agarrar à cauda do cometa, o escândalo do Banco Master.

A do crime organizado tenta convocar Viviane Barci de Moraes, mulher de Alexandre de Moraes, para explicar o contrato milionário com o Banco Master: R$ 3,6 milhões por mês, num total de R$ 130 milhões. A do INSS tenta trazer o próprio Daniel Vorcaro. Todas buscam um gran finale para seu trabalho e, com isso, apostam, como nós, que o escândalo do Master tem uma generosa sobrevida depois do carnaval.

Outro tema com expectativa de longa vida é a luta contra os supersalários nos três Poderes da República. O ministro Flávio Dino proibiu os penduricalhos, que elevam os salários às alturas, e pediu regras claras para as verbas indenizatórias. Auxílio-panetone no Natal e auxílio iPhone estão entre os artifícios bizarros para turbinar os salários, assim como excesso de folgas, que passam a ser vendidas como trabalho extra. Segundo alguns cálculos, os supersalários — remuneração de 53 mil servidores — custam R$ 20 bilhões ao ano, com a parcela maior no Judiciário, R$ 10,5 bilhões. Isso para juízes, pois, no Ministério Público, o custo é de R$ 3,2 bilhões.

Os supersalários são aqueles acima do máximo permitido pela Constituição, equivalente ao salário de um ministro do Supremo, R$ 46,4 mil. Com ou sem penduricalhos, quem ganha mais que isso está fora da lei — vale dizer que boa parte dos juízes do Brasil está nessa condição.

A Câmara tem um projeto para regulamentar tudo isso. Nele, não se podem receber penduricalhos, exceto em 30 casos. Equivale simbolicamente a um queijo suíço. De qualquer forma, o Supremo analisará a decisão de Dino e pode dar uma ajuda proibindo os penduricalhos. Isso pode melhorar sua imagem num momento difícil. Apenas melhorar, pois o caso Master continua desgastando dois de seus ministros: Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

Bem que fizeram discursos defensivos na retomada dos trabalhos do Judiciário. Esgrimiram argumentos contra acusações hipotéticas e se esqueceram de responder a seus reais problemas.

Enfim, vamos ver como o carnaval filtra tudo isso para que mergulhemos de novo num ano eleitoral. De novo, teremos esperanças, promessas de novos tempos, enfim, o ritual clássico de uma eleição.

Cada vez mais, no entanto, alguns problemas se repetem tristemente no Brasil, e não encará-los é perigoso, porque a democracia pode ser vista como farsa. Nesse caso, teremos profundo desânimo ou sinal verde para aventureiros autoritários, inclusive no poderoso Congresso.

Artigo publicado no jornal O Globo em 10 / 02 / 2026

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segunda-feira, 9 de fevereiro de 2026

ERA DE AUTORREGULAÇÃO DAS BIG TECHS ESTÁ CHEGANDO AO FIM

Oliver Stuenkel, O Estado de S. Paulo

Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos

O avanço coordenado entre governos europeus indica que a lógica de autorregulação das big techs está se enfraquecendo. Na semana passada, a Espanha deu mais um passo nessa direção ao anunciar planos para proibir o acesso de menores de 16 anos às redes sociais – o que reforça a tendência regulatória no continente. O premiê Pedro Sánchez disse que a iniciativa é para proteger crianças e adolescentes de um “ambiente digital sem lei”, marcado por abuso, vício, pornografia, discurso de ódio e manipulação algorítmica.

Em dezembro, a Austrália se tornou o primeiro país do mundo a banir redes sociais para menores de 16 anos, obrigando empresas como TikTok, Instagram e Snapchat a remover milhões de contas e a implementar mecanismos mais rígidos de controle. França, Reino Unido, Dinamarca, Grécia e Irlanda avaliam medidas parecidas.

Trata-se de uma reafirmação do Estado diante de empresas privadas que, ao longo de anos, acumularam escala, recursos e influência política em grau incompatível com qualquer noção tradicional de soberania democrática. À medida que as plataformas se tornaram infraestruturas centrais de comunicação, informação e mobilização, a retomada do poder público na definição de regras é um desfecho inevitável – sobretudo considerando que os próprios donos dessas plataformas, como Elon Musk, passaram a intervir de forma agressiva na política europeia.

A proposta espanhola ainda tem de ser aprovada pelo Parlamento, mas integra um pacote mais amplo de medidas. Entre elas, estão a exigência de sistemas de verificação de idade, a responsabilização de executivos por conteúdos ilegais e a criminalização de práticas deliberadas de amplificação algorítmica de material ilícito.

A reação das big techs e de seus líderes tem sido previsível. Musk chamou Sánchez de “tirano” e “fascista”, enquanto Pavel Durov, fundador do Telegram, enviou mensagens em massa a usuários espanhóis acusando o governo de promover censura e vigilância.

Por trás da resistência das big techs está um modelo de negócio: quanto mais tempo o usuário permanecer conectado, maior a coleta de dados e mais lucrativa a venda de publicidade. Moderação robusta e checagem sistemática de fatos são caras, complexas e reduzem o alcance de conteúdos virais. Evitá-las sempre foi, do ponto de vista comercial, a opção mais racional, mesmo que enfraquecesse a democracia.

É nesse contexto que se entende a aproximação de grandes plataformas com Donald Trump, ressalta o jurista David Allen Green no Financial Times.

Diante da expectativa de regulações mais duras na União Europeia – e em países como o Brasil –, empresas como Meta e X concluíram que não podem enfrentar sozinhas governos e sistemas jurídicos fora dos EUA.

Essa lógica se mostrou no caso brasileiro, quando, após resistir a ordens do STF, o X acabou cumprindo as determinações. Buscar o apoio da Casa Branca tornou-se parte central da estratégia. Green observa que essa guinada não revela força, mas fragilidade: se essas empresas fossem realmente capazes de conter a regulação por conta própria, não precisariam de apoio americano.

A história mostra que, em confrontos decisivos, o Estado tende a prevalecer sobre corporações. A Companhia das Índias Orientais – empresa mais poderosa do mundo até então – foi dissolvida pelo Parlamento britânico em 1874. O Bell System, que dominava as telecomunicações nos EUA, foi desmembrado por leis antitruste nos anos 1980. Empresas podem acumular poder extraordinário, mas, como l embra Green, sua existência jurídica e seus direitos dependem, em última instância, da legislação.

Críticas alertam para o risco de empurrar jovens para espaços digitais ainda menos regulados ou de abrir margem para excessos estatais. A Europa aposta que, assim como ocorreu com energia, finanças e telecomunicações, o mundo digital entrou na fase em que o interesse público volta a impor limites ao poder privado – e o Estado, pressionado pela magnitude dessas empresas, reassume o papel de árbitro.

Apesar dos riscos, a guinada é positiva. Não porque o Estado seja infalível, mas porque só ele dispõe de mandato democrático, instrumentos de coerção legítima e autoridade para estabelecer limites quando interesses privados passam a ameaçar o funcionamento da própria democracia. •

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