quinta-feira, 2 de abril de 2026

'FLÁVIO' DESCOBRIU QUE 'BOLSONARO' É PALAVRÃO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Chamar um Bolsonaro pelo prenome é um suspeito sinal de simpatia, quase amor

E tratá-los por 'Zero Um', 'Zero Dois' ou 'Zero Três' é uma ofensa ao número zero

Alexandra Moraes, nossa ombudsman, chamou a atenção (14/3) para a familiaridade com que, de repente, a imprensa passou a se referir a Flávio Bolsonaro. Assim que ungido presidenciável, o oleoso senador, portador de um sobrenome sinônimo de violência, insenbilidade e golpismo, tornou-se nas reportagens apenas "Flávio", algo assim como um afável vizinho de porta. Isso em veículos que, para manter a objetividade ou evitar repetições, costumam chamar, digamos, Camila Pitanga de "Pitanga" e Ratinho Junior de "Junior".

Os EUA tiveram Teddy Roosevelt na Casa Branca e, alguns presidentes depois, seu primo Franklin Roosevelt, e nem por isso o The New York Times reduziu o segundo Roosevelt a um coloquial Franklin. Os dois eram chamados de "Mr. Roosevelt". É verdade que não temos o hábito de tratar nossos presidentes por "Sr.", nem eles fazem por merecer, mas chamar um Bolsonaro pelo prenome é um suspeito sinal de simpatia, quase amor.

Quando Bolsonaro assumiu a presidência, em 2019, decidi quase de saída nunca chamá-lo aqui de "Presidente Jair Bolsonaro", nem mesmo de "Jair Bolsonaro" e muito menos de "Jair". Não se tratava de economizar espaço, mas de preservar a dignidade da coluna, já que Bolsonaro não preservava a dele. Com isso, até hoje, sempre o chamei apenas de "Bolsonaro", o que pode ser checado por qualquer leitor. Outra decisão foi a de não aderir ao meigo tratamento dado por alguns aos filhos —Carlos Bolsonaro, de "Carlucho", e Eduardo Bolsonaro, de "Bananinha". E, por respeito ao número zero, evitei chamá-los de "Zero Dois" ou "Zero Três".

O que "Flávio" precisa ser chamado é a responder pelas "rachadinhas", a compra de mansões com dinheiro vivo, a lavanderia nos fundos da loja de chocolate, a intimidade com milicianos, as informações privilegiadas para garantir impunidade judicial e, surpresa, o possível envolvimento em esquemas do INSS com operações de entidades fantasmas.

"Flávio", com razão, não quer ser chamado de Bolsonaro. Descobriu que agora é um palavrão.

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SEM ANISTIA

Cida Barbosa, Correio Braziliense

Fingir que nada aconteceu, passar uma borracha, "esquecer" — como querem pré-candidatos, no vale-tudo pela Presidência — é permitir que ocorram novas ofensivas

É lastimável que pré-candidatos à Presidência da República apresentem como cartão de visitas a promessa de anistia ampla, geral e irrestrita a golpistas condenados. Postulantes ao comando do país não têm pudor de enfatizar que o principal contemplado com o perdão será o chefe da organização criminosa que atentou contra a democracia. Chefe este, diga-se, que desfruta de prisão domiciliar humanitária — benefício possível apenas no Estado de Direito que ele tentou derrubar.

O argumento acintoso desses pré-candidatos é que a pacificação do país passa pela anistia. Livrar da cadeia os que planejaram assassinato de autoridades? Os que depredaram os prédios dos Três Poderes? Os que bradaram por intervenção militar e queriam mergulhar o Brasil novamente num período de trevas?

Lembremos: ainda temos uma imensa dívida com nossa história. Nunca houve responsabilização pelas barbáries cometidas na ditadura militar. Quem perseguiu, reprimiu, torturou, estuprou e assassinou acabou perdoado. Mas até hoje há vítimas desaparecidas. Até hoje, há famílias sem respostas. E lá se vão 62 anos — completados na última terça-feira — desde o início daqueles tempos de terror.

O regime que envergonha este país foi tão brutal que não poupou nem crianças. A vítima mais jovem da ditadura, Carlos Alexandre, tinha 1 ano e oito meses, em 1974, quando foi torturado por agentes da repressão. Ele nunca se recuperou do trauma. Em 2013, tirou a própria vida.

A impunidade da corja que afligiu o Brasil durante mais de duas décadas instigou a investida que vimos recentemente. Os golpistas de agora só não alcançaram êxito porque as instituições funcionaram. E funcionaram tão bem que vimos, pela primeira vez, um ex-presidente ser condenado e ir para a cadeia por tentar derrubar a democracia, vimos punição de militares de alta patente, vimos o bando de radicais antipatriotas do 8 de Janeiro ser trancafiado. Um trabalho inestimável do Supremo Tribunal Federal. A Corte mostrou como golpistas devem ser tratados.

Fingir que nada aconteceu, passar uma borracha, "esquecer" — como querem pré-candidatos, no vale-tudo pela Presidência — é permitir que ocorram novas ofensivas. É permitir que o autoritarismo coloque novamente suas garras para fora, para tolher liberdades, calar vozes, assassinar. Os golpistas têm de cumprir suas sentenças, como criminosos que são. Sem redução de pena, sem anistia.

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quarta-feira, 1 de abril de 2026

O CONGRESSO FATURA COM A INDIGNAÇÃO MORAL

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

Legislativo federal passou a operar sob a lógica das redes

A encenação de superioridade moral se impõe sobre a deliberação racional e pragmática

A política brasileira atravessa um processo de transformação que, apesar de barulhento e exaustivo, pode passar despercebido. Não se trata apenas da radicalização do debate público nem da intensificação das disputas ideológicas. O que está em curso é algo mais complicado: a política parlamentar passou a viver de ondas de indignação moral.

Não por acaso, nos últimos anos, aprendemos a reconhecer esse fenômeno nas redes sociais. Plataformas digitais passaram a premiar conteúdos que despertam indignação, convocam juízos morais extremos e se baseiam em uma classificação nítida entre bons e maus. Nada engaja mais —nem estimula tanto a produção de conteúdo— do que uma boa revolta moral.

O que talvez ainda não tenhamos formulado com suficiente clareza é que essa lógica transbordou das redes e passou a organizar também a política institucional. O Parlamento —que deveria operar como espaço de deliberação e negociação— passou a mimetizar o padrão de interação das plataformas digitais. O governo também.

A dinâmica é reconhecível. Em vez de discutir políticas públicas, intervenções governamentais ou projetos de lei em termos de consequências e prioridades, o debate se organiza como uma competição moral. O adversário, evidentemente, não é alguém de quem se discorda, mas alguém que encarna o erro ou a perversidade.

Os episódios recentes no Congresso são ilustrativos. A criminalização da misoginia, o debate em torno da representação de Erika Hilton, a tipificação do vicaricídio, a acusação feita por dois senadores contra o relator da CPI do INSS de estupro de vulnerável e tentativa de suborno —todos esses casos compartilham uma mesma estrutura. Não são apenas controvérsias políticas, mas um conjunto de "performances de virtude".

A pesquisa recente tem dado nome a esse fenômeno: ostentação moral ("moral grandstanding"). Trata-se do uso da retórica moral como instrumento de afirmação pública da própria virtude. E ele opera em duas direções complementares. De um lado, a busca de prestígio: apresentar-se como mais justo, mais sensível, mais comprometido do que os demais, conquistando admiração dentro do próprio campo. De outro, a busca de dominância: constranger, desqualificar e expor o adversário como moralmente inferior, afirmando superioridade por meio da humilhação pública.

Essas duas lógicas estruturam o comportamento parlamentar contemporâneo. Discursos em plenários ou comissões, declarações a jornalistas e os inúmeros posts em redes sociais que se seguem não são apenas argumentos. São performances voltadas à obtenção de reconhecimento. Intervenções não visam apenas convencer —visam também marcar posição em uma hierarquia moral visível. Acompanhe uma semana de seu deputado ou senador favorito e veja como esse jogo se joga.

Em ambientes digitais, expressões de indignação moral geram visibilidade, aprovação e engajamento. E, logo, à performance parlamentar juntam-se ativistas, jornalismo profissional, influenciadores e outras figuras públicas, todos ávidos por participar da grande competição de moralismo nacional. À medida que o bolo do engajamento cresce —na mídia digital, eletrônica e impressa—, cria-se um incentivo poderoso: vale a pena moralizar, acusar, dramatizar. Ao longo do tempo, forma-se um padrão de aprendizado coletivo em que a moralização tende a aumentar.

Por um lado, os benefícios individuais do exibicionismo moral são claros e crescentes: mais atenção, reconhecimento e capital político. Cada autor de um projeto de lei —desses apresentados como resposta a uma "injustiça que clama aos céus" ou como restauração da decência diante de uma "situação de calamidade ética"— torna-se o campeão moral de sua tribo. Por outro lado, os custos dessa dinâmica são difusos e coletivos: aumento da polarização, deterioração do debate e redução da capacidade de deliberação. O ator individual ganha ao participar do jogo; o sistema perde.

O Parlamento, mimetizando as redes, torna-se um palco privilegiado dessa dinâmica. Sessões se convertem em performances, discursos são moldados para circulação digital e conflitos se intensificam porque é deles que depende a atenção pública. Quanto mais gente chocada, furiosa ou brigando, melhor para o exibicionismo moral.

Não se trata de injetar mais ética no sistema, e sim de maximizar o lucro pessoal do parlamentar no mercado de indignação. A prioridade não são discussões substantivas em nome do interesse público, mas prevalecer na luta de pavões, vistosamente empenhados em exibir superioridade moral.

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ENTRE PERDAS E DANOS

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

Os ativos financeiros de Brasil e Colômbia perderam menos que os de outros países com a guerra

Após um mês inteiro de conflito no Oriente Médio, o Brasil e a Colômbia estão entre os países emergentes que apresentaram o melhor desempenho de seus ativos financeiros – perdas menores das Bolsas de Valores e das moedas – em meio à turbulência geopolítica mundial, que levou à disparada nos preços do petróleo e à valorização do dólar, para onde correram os investidores globais em busca de refúgio.

Em comum, Brasil e Colômbia são exportadores líquidos de petróleo, enquanto Índia, China, Filipinas e Chile precisam importar quase todas suas necessidades de petróleo e derivados. A Europa também tem uma dependência energética elevada. Não à toa, as Bolsas europeias acumularam forte queda no aniversário de um mês da guerra no Irã.

Além disso, Brasil e Colômbia estão entre os países emergentes com menor déficit em conta corrente, isto é, dependem menos de buscar financiamento externo, justamente no momento em que a tensão global tornou bem mais caro o custo do dinheiro. Em situação oposta, estão a África do Sul e a Coreia do Sul. Sem falar que as taxas básicas de juros no Brasil e na Colômbia estão mais elevadas do que em outros países, o que deixa suas moedas atrativas para os investidores que buscam ganhar com a diferença em relação aos juros nos EUA. No Brasil, a Selic está em 14,75%. Na Colômbia, os juros estão em 11,25%.

O principal índice de ações colombiano fechou, na sextafeira passada (véspera de um mês de guerra), com queda acumulada de apenas 0,46%. Já o Ibovespa registrou uma perda de 3,83%. O que surpreendeu foi a entrada de capital estrangeiro na Bolsa brasileira nesse período: mais de R$ 8 bilhões. Na Coreia do Sul, a Bolsa caiu 12,9%, enquanto na Índia o recuo acumulado foi de 10,6%. Aliás, o banco UBS cortou sua recomendação para a Bolsa da Índia para “neutro”, citando a vulnerabilidade do país a um choque de petróleo. A Bolsa mexicana caiu 6,6%, enquanto a da África do Sul recuou 13%.

No câmbio, o dólar valorizou-se em relação a quase todas as moedas no primeiro mês de conflito. Em relação a uma cesta com seis moedas fortes, incluindo o euro, a alta foi de 2,6%. Ante o real brasileiro, o ganho foi de 2,1%. Em comparação ao peso chileno, a alta foi de 6%. Na África do Sul, a valorização foi até maior: 7,5%. Na Colômbia, porém, o dólar caiu 2,1%.

É impossível deixar de observar que no Brasil e na Colômbia (com eleições presidenciais em maio) os candidatos apoiados pelos investidores estão em alta nas pesquisas de intenção de voto. Ou seja, outro alívio no meio da turbulência. 

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ALCKMIN FICA !

Vera Rosa, O Estado de S. Paulo

Ala do PT que esnobou Alckmin para vice na chapa da reeleição só pensa no ‘pós-Lula’

Presidente bem que tentou ampliar a aliança, mas foi alertado até por Dirceu de que tirar o vice equivaleria a correr sério risco eleitoral

A decisão do presidente Lula de manter a dobradinha com o vice Geraldo Alckmin (PSB) na chapa da reeleição foi um sinal importante para o eleitorado mais conservador em uma disputa polarizada como a que ocorrerá em outubro. Afinal, Alckmin vinha sendo “bombardeado” por uma ala do PT, sob a alegação de que era preciso ampliar a aliança para a centro-direita. Mas, quem diria, acabou defendido pela velha-guarda petista que antes o esnobava.

O ex-ministro da Casa Civil José Dirceu, por exemplo, chegou a afirmar que tirar o ex-governador da chapa significava pôr em risco a reeleição de Lula. O próprio presidente, porém, ficou em dúvida e Alckmin foi sendo “empurrado” de lá para cá na montagem dos palanques.

Discreto, não disse uma palavra, até que Fernando Haddad resolveu a questão. Candidato ao governo de São Paulo, o ex-ministro da Fazenda foi taxativo: afirmou que o melhor lugar para Alckmin era ao lado de Lula. E ponto final.

De qualquer forma, as críticas feitas no sábado pelo senador Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência, durante a conferência da CPAC, nos Estados Unidos, serviram de munição para a campanha petista.

Flávio deu uma alfinetada na gestão de Donald Trump, que reduziu o “tarifaço” imposto aos nossos produtos, ao observar que o americano se aproximou de aliados errados no Brasil.

O detalhe é que, além do Itamaraty, um dos maiores negociadores com os EUA foi justamente Alckmin, à frente do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio.

Na reunião ministerial de ontem, Lula fez referência ao pronunciamento de Flávio nos EUA, ressuscitou o discurso da soberania e aproveitou para elogiar o “companheiro Alckmin”, de saída do ministério. Mesmo com o “tarifaço”, o Brasil bateu recordes de exportações: somente no ano passado, foram US$ 348,7 bilhões.

De ferrenhos rivais em eleições passadas, “sapo barbudo” e “picolé de chuchu” se tornaram amigos. Mas o ciúme do PT é porque uma ala do partido só pensa no pós-Lula. E, embora Haddad seja o “candidato natural” a partir de 2030, se Alckmin estiver sentado na cadeira de vice, tudo pode acontecer.

Sem um capitão do time como em mandatos anteriores, Lula vive no fim deste 3.º governo, guardadas as proporções, uma situação semelhante à do técnico Gentil Cardoso, que, nas décadas de 50 e 60, treinava os jogadores munido de um megafone.

Irritado com as bolas nas costas sofridas pelo time, o então presidente do Sport Clube do Recife, Adelmar da Costa Carvalho, perguntou a Gentil: “O que falta nessa equipe?” O técnico não titubeou. “Entrosamento”, respondeu. Foi então que Adelmar deu a ordem: “Contrate!”

Nos bastidores do governo, a história é mais uma das muitas lembradas por ministros que, a exemplo de Alckmin, adoram contar “causos”. Na prática, porém, Lula precisa mesmo contratar esse tal de “entrosamento”. Mas, a seis meses das eleições, será que ainda adianta? •

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PARA O PSD, O INIMIGO AGORA É FLÁVIO BOLSONARO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Ronaldo Caiado deixou muito claro que a ideia inicial é avançar no eleitorado da família Bolsonaro

Eduardo Leite daria um colorido de centro à candidatura, mas não conseguiria ocupar a vaga da direita no 2º turno

Na escolha de Ronaldo Caiado em detrimento de Eduardo Leite, o PSD deixou claro seu plano, ao menos na linha inicial: avançar no eleitorado de Flávio Bolsonaro (PL) para tentar uma vaga no segundo turno.

Ou seja, investir em 2026 e não na construção de possibilidade para 2030. Assim seria se a opção tivesse sido pelo governador gaúcho, hipótese preferida pela ala de centro com plumagem tucana que orbita em torno do projeto alternativo, hoje tendo como referência Gilberto Kassab, mas sem garantia de efeito duradouro.

No ato inicial da indicação, a ideia obvia foi garantir impacto em termos de manchetes e cortes de internet com a retomada do tema anistia para Jair Bolsonaro e companhia. Isso enquanto o primogênito do ex-presidente precisa deixar certos radicalismos de lado para emplacar a figura do moderado.

Por ora, tal anistia é um terreno na Lua, mas serve para mexer no bolsonarismo e nos setores à direita que ainda não demonstraram especial entusiasmo com Flávio Bolsonaro. Dois são mais evidentes: os evangélicos e o agronegócio. Um candidato com identificação conservadora nítida teria, na visão dos arquitetos auxiliares de Kassab, potencial para estabelecer pontes e deslocar apoios.

Caiado pegou leve com o presidente Luiz Inácio da Silva, limitando-se a pregar a retirada do PT da cena do poder. Em relação a Flávio Bolsonaro, foi específico: atacou nos flancos da inexperiência e no ímpeto da juventude versus predicados de equilíbrio.

Outra aposta do PSD é na resistência do goiano para neutralizar e rebater ataques. Um político "cascudo", no dizer dos correligionários, tem mais capacidade de enfrentar Lula nos debates e fazer frente à ofensiva do PT ao longo da campanha.

Eduardo Leite daria à candidatura um colorido mais ao centro com pitadas de esquerda. Mas dificilmente conseguiria tirar a direita da disputa final.

Nessa perspectiva, Caiado falaria mais à maioria conservadora refratária a fanatismos. Dará certo? Impossível saber, mas esse é o plano.

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MINAS GERAIS, O PÊNDULO DA CAMPANHA DE 2026

Gaudêncio Torquato, O Estado de S. Paulo

O ponto central é reconhecer que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários ‘Brasis’ convivendo lado a lado

Minas Gerais, terra das grandes “raposas” da sapiência política (José Maria Alckmin, Gustavo Capanema, Juscelino Kubitschek e Tancredo Neves, entre outros), voltará a ser, em 4 de outubro de 2026, o maior “termômetro” da eleição presidencial. Não é superstição: é estatística, geografia humana e política comparada. O Estado reúne cerca de 16,5 milhões de eleitoras e eleitores – o segundo maior colégio eleitoral do País, atrás apenas de São Paulo – e, por tamanho e capilaridade, impõe uma realidade simples: quem quer vencer no Brasil precisa competir de verdade em Minas.

A máxima “quem ganha em Minas, ganha no Brasil” nasceu de uma recorrência histórica que virou frase de campanha. Em 2022, por exemplo, a votação mineira ficou muito próxima do retrato nacional no primeiro turno e, no segundo, o vencedor no Estado coincidiu com o vencedor do País – reforçando a ideia de que Minas “acerta” o resultado com frequência. Mas o ponto central não é tratar o eleitor mineiro como um oráculo: é reconhecer que Minas funciona como síntese porque abriga, numa mesma unidade, vários “Brasis” convivendo lado a lado.

Há a região metropolitana de Belo Horizonte, urbana e terciária, com debates sobre serviços públicos, mobilidade, segurança, custo de vida e emprego. Há o Triângulo, conectado ao agro e à logística, atento a crédito, infraestrutura, energia e regras do jogo. Há o Sul de Minas, com economia diversificada e forte peso de valores comunitários. Há a Zona da Mata, com sua tradição industrial e universitária. E há o Norte (onde se localiza Montes Claros, cidade com mais de 400 mil habitantes, a maior da região), além dos vales, onde a agenda social, a presença do Estado e oportunidades concretas – saúde, renda, educação, água – pesam de modo decisivo. Quando uma candidatura consegue atravessar esse mosaico – sem falar para um só público – ela tende a estar calibrada para o País inteiro.

Por isso, a disputa mineira costuma revelar três coisas antes do resto do Brasil: 1) o tamanho real da rejeição, porque o eleitorado local é sensível a “climas” e ao humor econômico; 2) a capacidade de uma campanha furar bolhas, já que Minas tem interior robusto e metrópole relevante; e 3) o desempenho do “voto útil” e do pragmatismo: quando a eleição aperta, cresce a pressão por escolhas com aparência de governabilidade, e Minas costuma traduzir esse movimento cedo.

Em 2026, com a eleição marcada e o segundo turno previsto para 25 de outubro, a tendência é Minas virar prioridade desde a largada: mais presença física, mais alianças regionais, mais disputa de narrativas locais e menos “slogan nacional” genérico. Quem tratar o Estado como um bloco homogêneo errará o alvo; quem se limitar a “pautas de costume” ou a “macroeconomia abstrata” também. O mineiro – como o brasileiro – vota com a cabeça e com o bolso, mas também com o senso de ordem, de pertencimento e de expectativa de futuro.

Em termos práticos, vencer em Minas significa dominar a agenda do cotidiano: inflação percebida, emprego e renda, segurança, saúde (fila e acesso), educação, infraestrutura, mineração e meio ambiente, energia e custo de serviços. Significa ainda compreender que Minas premia a moderação no tom e consistência na proposta: não basta emocionar; é preciso parecer capaz de entregar. Por isso, o Estado tende a “decidir” não por misticismo, mas por lógica: se uma candidatura consegue ser majoritária na síntese, ganha musculatura para ser majoritária no todo.

O que diriam, hoje, as “raposas” da matreirice mineira? José Maria Alckmin provavelmente lembraria que Minas não decide por arroubos, mas por ponderação. Lembraria que o mineiro não vota por slogans: pesa, compara, desconfia. Gustavo Capanema, com seu olhar de construtor institucional, talvez advertisse contra a tentação de reduzir Minas a um território a conquistar. Diria que o Estado reage mal à política de ruído. E que Minas prefere projetos de longo prazo, estabilidade administrativa, linguagem civilizada. Quem fala alto perde o ouvido mineiro. Quem promete milagres tropeça na memória coletiva.

Juscelino Kubitschek diria que Minas não oscila por capricho, mas orienta por prudência. Lembraria que o mineiro não se deixa levar por ventos passageiros, consultando o mapa, medindo distâncias, calculando riscos. Foi assim que guiou seus passos na construção de Brasília. Lembraria que o voto mineiro responde a projetos, não a bravatas. Como apreciador de frases de impacto, JK talvez advertisse: “Não tentem empurrar Minas. Minas escolhe quando reconhece o horizonte”.

Já Tancredo Neves, mestre da conciliação, provavelmente sorriria com ironia. E lembraria que o pêndulo mineiro não oscila ao acaso: ele se move quando percebe risco institucional, excesso ideológico ou ameaça ao equilíbrio democrático. Tancredo costumava lembrar o dístico da bandeira consagrada como divisa dos inconfidentes mineiros do século 18: “Libertas quae sera tamen” (“a liberdade, mesmo que venha depois, ainda vale o preço”.

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LULA CONFIRMA ALCKMIN NA VICE. LEITE NÃO DECIDE O RUMO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O governador gaúcho, que foi preterido por Gilberto Kassab, está recebendo convites para disputar a Presidência por outros partidos, como o PSDB-Cidadania e o Solidariedade

O tabuleiro das eleições presidenciais está quase armado. Ontem, em reunião ministerial, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva anunciou que o vice-presidente Geraldo Alckimin (PSB), que deixa o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, será mesmo seu companheiro de chapa. Até agora, 14 ministros estão deixando o cargo para disputar as eleições — mais quatro poderão seguir o mesmo caminho.

Com isso, a cena eleitoral da disputa pelo Palácio do Planalto está quase definida. A incógnita é a decisão do governador gaúcho Eduardo Leite (PSD), que foi preterido por Gilberto Kassab, presidente da legenda, e está recebendo convites para disputar a eleição por outros partidos, como o Cidadania e o Solidariedade. O mais provável, por ora, é que conclua o mandato e tente fazer o sucessor.

Assim, o quadro eleitoral de 2026 chega à fase de definição com uma disputa polarizada entre Lula e Flávio Bolsonaro, ao mesmo tempo em que as candidaturas alternativas permanecem fragmentadas e com baixo desempenho nas pesquisas. Os levantamentos mais recentes dos institutos Genial/Quaest, Datafolha e AtlasIntel convergem para um diagnóstico claro: a liderança de Lula no primeiro turno se mantém, mas empate técnico no segundo sinaliza que a eleição está aberta e muito competitiva.

No primeiro turno, Lula aparece com cerca de 45% das intenções de voto, mantendo uma dianteira confortável sobre os adversários. Já Flávio surge na faixa de 37% a 38%, consolidando-se como o principal herdeiro do capital político do bolsonarismo. Esse desempenho revela a capacidade de transferência de votos do ex-presidente Jair Bolsonaro, mesmo diante de sua inelegibilidade e dos desdobramentos judiciais que marcaram o pós-2022. Além disso, as sucessivas internações de seu pai, até a recente adoção do regime de prisão domiciliar, vitimizaram ex-presidente e, com isso, suavizou a imagem e reduziu a rejeição de Flávio. A polarização persiste, mas se reorganiza com a presença de novos coadjuvantes, sem perder sua intensidade.

No segundo turno, o cenário se estreita. A Quaest indica 43% para Lula contra 41% para Flávio; o Datafolha aponta 46% a 43% em favor do petista; enquanto a AtlasIntel/Bloomberg registra uma inversão dentro da margem de erro, com 47,6% para o senador e 46,6% para o presidente. Esses números revelam um padrão: Lula lidera no ponto de partida, mas enfrenta dificuldades para ampliar sua vantagem na chegada, um eventual confronto direto, enquanto Flávio cresce à medida que a disputa se mantém entre em dois polos direita x esquerda.

Novos fatores estruturais complicam a vida de Lula, que mantém um eleitorado fiel, com forte presença entre os mais pobres e no Nordeste, sustentado pela memória de seus governos e pelas políticas sociais. Enfrenta um ambiente mais adverso do que em eleições anteriores, marcado pela percepção de aumento do custo de vida, mesmo em contexto de melhora de indicadores macroeconômicos, devido ao endividamento das famílias. O choque de petróleo, provocado pela guerra do Irã, impacta a inflação e limita a redução de juros, uma externalidade negativa difícil de mitigar. Já Flávio capitaliza o voto conservador, antipetista e religioso, além de mobilizar uma base altamente engajada nas redes sociais e no debate público.

Dinâmica plebiscitária

Fora desse eixo principal, as candidaturas alternativas apresentam desempenho modesto, com o encolhimento do espaço para uma terceira via. Ronaldo Caiado, candidato do PSD, aparece com cerca de 4% das intenções de voto. Seu perfil combina experiência política e discurso de segurança pública, mas sua tentativa de se apresentar como alternativa à polarização é prejudicada por posicionamentos que o aproximam do campo bolsonarista, como a defesa de anistia ao ex-presidente e a aliados.

Romeu Zema, por sua vez, oscila entre 2% e 3%. Com trajetória de gestor e discurso liberal, tenta se firmar como opção técnica e moderada, mas enfrenta dificuldades para ganhar densidade eleitoral em um cenário dominado por identidades políticas fortes. Sua candidatura dialoga com setores empresariais e com o eleitorado que rejeita tanto o PT quanto o bolsonarismo, mas ainda não conseguiu transformar esse nicho em base competitiva. Além disso, sua mineirice exagerada acaba confundida com provincianismo e confina sua candidatura aos limites de Minas.

No campo mais ideológico da direita, do Missão, Renan Santos aparece entre 1% e 2%. Sua candidatura tem forte presença nas redes e no debate político, mas baixa capilaridade nacional. Já Aldo Rebelo (Democracia Cristã), também na faixa de 1% a 2%, tenta ocupar um espaço nacionalista e crítico da polarização, apoiado em sua longa trajetória política. Mas igualmente enfrenta limitações, porque não tem apoio partidário expressivo nem forte presença nas redes sociais.

Resumo da ópera: a ausência de uma candidatura competitiva de centro é um dos elementos mais relevantes deste ciclo eleitoral, com Eduardo Leite e Ratinho Junior fora da disputa presidencial, seja por decisões partidárias, seja por cálculos estratégicos. O primeiro foi escanteado pelos caciques do PSD porque buscava uma liderança autônoma de centro. O segundo, pela conjuntura eleitoral do seu estado, em razão do favoritismo do senador Sergio Moro (PL).  Com isso, o eleitorado moderado continua órfão e refém de uma dinâmica plebiscitária.

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CAIADO TERÁ DE BATER MUITO EM FLÁVIO BOLSONARO PARA NÃO SER ASSISTENTE DE PALCO DO SHOW DA DIREITA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Candidato do PSD tem de disputar voto da direita braba e não tem base política digital

Político goiano também não terá apoio de seu partido na maior parte dos estados

Na falta de notícias políticas que não sejam caso de polícia, o lançamento de Ronaldo Caiado a presidente pelo PSD teve alguma atenção do público, pelo menos de quem se ocupa um pouco de política. Foi bem pouco mesmo, dizem aqueles que medem interesses populares nas redes.

Mas qual papel Caiado pode ter em 2026? O governador de Goiás tem uns 4% nas pesquisas. Pode ser candidato a descer a 1% ou a fazer figuração maior —isso quando o povo prestar atenção à eleição, bem depois da metade do ano. Sua campanha terá de lidar com situações incontornáveis: 1) O grosso dos votos que pode virar estão na direita e na extrema direita; 2) Não terá apoio da maioria folgada de seu partido; 3) Para aliviar tais limitações, Caiado teria de se tornar uma estrela da política digital, empurrado por militância experiente e conectada com humores e odores desse ambiente —não deve acontecer, né.

sarcástico. Candidato a presidente em 1989, montado em um cavalo branco, era da direita braba quando isso não era modinha —o contrário. O que dirá ao público que quer novidades? Teria o que dizer àqueles que prefeririam não ter de votar em Luiz Inácio Lula da Silva ou em Flávio Bolsonaro (PL)?

Em resumo, Caiado não terá chance de crescer além da candidatura nanica se não bater com força em Bolsonaro filho —é hipótese restante, não uma previsão. Como conciliar esse imperativo com a tentativa de agradar a bolsonaristas, dizendo que, se eleito, vai anistiar Jair Bolsonaro e o resto do bando golpista? O eleitor "nem-nem", nem Lula nem Bolsonaro filho, aceitará a camaradagem golpista de Caiado?

A esta altura de ano de eleição, os eleitores não costumam estar pensando muito no assunto. Têm mais o que fazer da vida, não sabem muito bem quem são os pré-candidatos mais novos, não os viram em vídeos virais, menos ainda na TV; não receberam torrentes de mensagens pelo celular. Pode ser que mudem de ideia quando virem uma cara ou jeito ou show desconhecidos.

Isto posto, a julgar pelas pesquisas de março, ao menos um quarto do eleitorado se diz lulista convicto, ou algo assim, um quarto se diz bolsonarista também convicto. Embora o eleitor não esteja sob cabresto, é improvável que Caiado consiga virar muitos votos lulistas convictos ou mesmo conquistar eleitores "Simone Tebet" de 2022. Por falar nisso, não haverá uma candidatura tal qual a da ex-ministra do Planejamento de Lula 3. Lula 4 vai de Geraldo Alckmin de vice, pois não terá aliados além dos seus companheiros de viagem de sempre, como era previsto, até porque esnobou o centro. Do outro lado, haverá direita braba, direita dura e antissistema, como a do partido Missão, e extrema direita. O resto é "nada e nures de néris de reles de ralo de raro e nacos de necas", para citar o poeta Haroldo de Campos (1929-2003), coitado de ser trazido a esta conversa.

Caiado não terá apoio de seu partido no Nordeste, afora no Rio Grande do Norte, nem no Pará, no Amazonas, no Mato Grosso ou no Rio de Janeiro. Em Minas Gerais há confusão, mas de lá não sairá grande coisa para Caiado, assim como no Rio Grande do Sul do preterido e magoado Eduardo Leite. Caiado tem Goiás e Paraná e, olhe lá, São Paulo.

Se não quiser ser figurante, assistente de palco ou escada do show de Bolsonaro filho, Caiado teria de bater pesado em Flávio e refrescar a memória sobre o candidato de milícias. Vai?

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NA LUTA PELA SOBREVIVÊNCIA, VICE JOGOU PARADO

César Felício, Valor Econômico

Pressões para que Alckmin disputasse em São Paulo começaram ainda em 2023

No dia 5 de fevereiro, em entrevista ao portal UOL, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva expôs à luz do dia uma articulação que se processava nos bastidores praticamente desde o início do seu governo. Colocou em dúvida a permanência do vice-presidente Geraldo Alckmin na chapa, afirmando que ele e o então ministro da Fazenda, Fernando Haddad, “tinham um papel a cumprir em São Paulo”. Hoje, na reunião ministerial que formalizou a saída de parte da equipe para concorrer às eleições, Lula confirmou a manutenção de Alckmin na chapa. Foi a volta do que não foi. O que mudou?

Alckmin jogou parado. Diante do movimento para expeli-lo da chapa, sinalizou que preferia não concorrer a nada do que disputar o governo ou o Senado por São Paulo. Quem prevalece sem se mover se beneficiou das circunstâncias. Até onde se sabe, trata-se do único aliado do presidente que conseguiu tal mudança de curso. Outros atenderam a uma convocação.

Para entender por que Alckmin ficou, é preciso compreender as esquinas pelas quais ele passou sem ser atropelado.

A primeira pressão contra Alckmin vinha do PT, movido até o ano passado por uma análise bastante otimista do cenário da eleição presidencial de 2026. Havia a crença de que o alijamento do ex-presidente Jair Bolsonaro do processo sucessório tornava a reeleição de Lula muito provável. Com um quarto mandato de Lula, a vice se tornaria um posto mais estratégico do que já é, por sinalizar o possível candidato governista em 2030. E o PT angustia-se com a falta de perspectiva de poder no pós-Lula. A portas fechadas, discutiram-se, desde 2023, ainda no primeiro ano do governo, cenários de chapas puro sangue: Lula/Camilo Santana, ou Lula/Haddad, ou mesmo Lula/Rui Costa.

Pressões para que Alckmin disputasse em São Paulo começaram ainda em 2023

O otimismo deixou de prevalecer, mas a pressão contra Alckmin continuou movida por outro fator: a necessidade de se ampliar a aliança eleitoral de modo a incorporar forças de centro-direita. O alvo era o MDB. Um encontro entre Lula e senadores da sigla, em dezembro, tracionou a conversa para uma eventual chapa Lula/Renan Filho ou Lula/Helder Barbalho.

A conversa não foi adiante porque, em um partido dividido como o MDB sempre foi, os governistas não tinham maioria. Uma contabilidade interna da sigla apontou que dois Estados desequilibravam a balanço para o lado contra o governo: Rio de Janeiro e Minas Gerais. A tendência do MDB é de não apoiar ninguém na eleição presidencial.

Para mudar essa tendência seria necessário uma ofensiva política comandada pelo presidente, mas a relação custo/benefício também pesou. O MDB não tem mais o porte que teve nas décadas passadas, em que a aliança com o partido definia a governabilidade. Um vice emedebista do Nordeste ou do Norte pouco agregaria em termos eleitorais.

O vice-presidente manteve a sua posição na chapa porque os fundamentos que justificariam uma troca na composição não criaram raízes. Lula chega às portas da campanha eleitoral frágil, sem opções para ampliar aliança e não podendo criar arestas com o PSB.

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ALCKMIN DEU UPGRADE AO MDIC NA HORA CERTA

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Atuação como ministro é alvo de elogios de representantes do empresariado

O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (Mdic) viveu nos últimos três anos e três meses um período de destaque inédito, enquanto esteve comandado pelo vice-presidente Geraldo Alckmin.

Primeiro, pela natureza da pasta. Ela está fora do núcleo duro da estrutura do governo federal - tanto que já foi extinta e rebaixada a secretaria duas vezes desde a redemocratização, em 1990 e em 2018. Por essa condição, só tem sucesso em suas agendas quando o ministro é influente no Palácio do Planalto. Foi o caso.

Segundo, por causa do tarifaço de Donald Trump. O interesse da população foi tamanho que Alckmin esteve no programa de Ana Maria Braga, na TV Globo, para explicar o que estava acontecendo. A reação diante da crise rendeu ao governo de Luiz Inácio Lula da Silva o melhor momento de popularidade no atual mandato.

Terceiro, pelo legado que deixará com a assinatura dos acordos Mercosul-União Europeia, Mercosul-Singapura e Mercosul-Efta (Suíça, Islândia, Noruega e Liechtenstein). O acordo com os gigantes europeus, “o maior do mundo entre blocos econômicos”, como costuma dizer, entra em funcionamento provisório no dia 1º de maio. O conjunto coloca o país em outra liga, em termos de integração internacional.

Por fim, Alckmin liderou a Nova Indústria Brasil (NIB), uma política industrial estruturada em seis áreas, chamadas de “missões”: cadeias agroindustriais sustentáveis; complexo industrial da saúde; infraestrutura, saneamento, moradia e mobilidade; transformação digital; bioeconomia e descarbonização; tecnologias de soberania e de defesa.

Certamente a NIB não deu conta de todos os problemas da indústria, nem mesmo dos setores escolhidos como “missões”. Por exemplo, falta colocar recursos nas pesquisas em tecnologia para processar minerais críticos. Hoje, praticamente só a China detém esse conhecimento, o que lhe dá poderes para controlar o mercado.

A NIB se deu em um ambiente de juros muito elevados, o que cria dificuldades para empresas.

Ainda assim, a passagem de Alckmin é elogiada por seus interlocutores no setor privado.

“Sua capacidade de diálogo, com abertura permanente ao setor empresarial, combinada ao peso institucional da vice-presidência, contribuiu para reduzir tensões e restabelecer canais de interlocução com o governo americano, criando condições para possíveis avanços na agenda bilateral”, comentou o CEO da Amcham Brasil, Abrão Neto.

“Arrisco dizer que atuou como elo do setor produtivo com o próprio governo”, avaliou o presidente da Associação Brasileira da Indústria de Máquinas e Equipamentos (Abimaq), José Velloso.

A adoção de um regime de depreciação superacelerada, a criação das Letras de Crédito do Desenvolvimento (LCD), o carro sustentável, o Move Brasil e o Mover foram destacadas pelo presidente-executivo da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Igor Calvet. No Brasil, o setor automotivo tem crescido ano a ano - poderia ser mais, não fosse o juro elevado, comentou.

“Acho que foi uma passagem histórica pelo Mdic, que, pela primeira vez, teve como ministro não só o vice-presidente, mas um político que tem uma carga de capacidade administrativa como muito poucos outros têm no país”, avaliou o presidente do grupo FarmaBrasil, Reginaldo Arcuri. Ele ressaltou a volta do “funcionamento efetivo” da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) e do Instituto Nacional de Propriedade Industrial (Inpi), que eram problemas essenciais para o funcionamento do setor.

Na visão do presidente da Confederação Nacional da Indústria (CNI), Ricardo Alban, Alckmin reconstruiu pontes entre o governo e o setor produtivo e foi “parceiro” em pautas relevantes, como o tarifaço e o acordo Mercosul-União Europeia. Outro ponto é a NIB. “A CNI espera que esse legado se consolide e que a NIB se torne uma política de Estado.”

“Há um renascimento da prática de políticas industriais, sobretudo em países desenvolvidos”, comentou o professor da Fundação Getulio Vargas Lucas Ferraz, que foi secretário de Comércio Exterior no governo de Jair Bolsonaro. “Aqui no Brasil, a gente vem tentando imitar essas práticas, só que de uma forma equivocada, que é fazer isso baseado em proteção comercial.”

Outro ponto criticado pelo professor é a agenda internacional. A renegociação de pontos do acordo Mercosul-União Europeia, que estava praticamente concluído desde 2019, atrasou seus efeitos sobre a economia. Mesmo no Mercosul, mereceria mais atenção o esforço de se negociar uma espécie de acordo regional para o setor automotivo.

A própria existência do Mdic é polêmica entre os que defendem maior ou menor interferência do Estado na economia. O que parece inequívoco é que áreas como minerais críticos e descarbonização precisam de atenção, como propôs a NIB. E que foi positiva a presença de um político poderoso e experimentado à frente do comércio exterior quando sobreveio o tarifaço.

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A ONDA QUE O SUPREMO CONSEGUE ANTEVER

Fernando Exman, Valor Econômico

Alguns integrantes do STF se arriscam a dizer que o que se avista no horizonte pode ser um tsunami

Do alto do anexo do edifício-sede do Supremo Tribunal Federal, onde estão instalados os gabinetes dos ministros do STF, é fácil perceber para onde vão os ventos da política e se eles estão formando alguma onda.

Na natureza, a mecânica é conhecida. Quando o vento sopra, exerce um atrito na superfície do mar que transfere energia para as partículas de água. Pequenas ondulações se formam, as quais crescem e viram ondas maiores de acordo com a força e a constância do vento, até que o mar fica raso. A parte de baixo da água desacelera, e a de cima continua rápida. Como resultado, a onda fica instável e “quebra”, fazendo a alegria dos surfistas e gerando pavor entre os que não sabem nadar.

Para um ministro do STF, diferentemente do que ocorreu nos pleitos de 2018 e 2022, a eleição para presidente deste ano não será ditada por alguma “onda” arrebatadora. Portanto, acrescenta, deve-se esperar um maior debate sobre propostas. Mas isso não quer dizer que o Judiciário irá se livrar do escrutínio que os candidatos de direita pretendem fazer sobre sua atuação, sobretudo com o objetivo de eleger um maior número de senadores.

A eleição de 2018 foi marcada por uma onda anticorrupção. Chegou vencedor à praia o ex-presidente Jair Bolsonaro, um militar reformado que acumulou polêmicas durante o período em que foi deputado federal, mas que soube catalisar por meio das redes sociais a insatisfação da população com o PT e a política tradicional.

A onda de 2022 foi na direção oposta. Além de mobilizar os eleitores que demonstravam receio com os ataques do então presidente às instituições e à democracia, sua principal característica foi a rejeição ao modo com o qual Bolsonaro lidou com a pandemia de covid-19. Os familiares e amigos dos cerca de 700 mil mortos pelo coronavírus jamais perdoariam Bolsonaro e isso se refletiria nas urnas. Não faltaram alertas de ministros ao então presidente sobre a onda que estava se formando.

Poucas semanas antes do primeiro turno, cerca de metade do eleitorado o rejeitava, após esse índice alcançar patamares recordes em 2021. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) surfou a onda e ainda conseguiu reunir uma frente ampla contra a reeleição de Bolsonaro, a qual, registre-se, acabou perdendo força e espaço ao longo do mandato.

Hoje, é Lula quem tem dificuldades de convencer o eleitor de que merece receber um quarto mandato.

Integrantes da equipe econômica chegaram a falar de uma proposta de reformulação dos programas sociais federais: a nova arquitetura, que ainda não havia sido submetida ao presidente Lula, prevê uma fusão de benefícios. Poderia proporcionar uma renda básica a uma parcela considerável da população, num momento de crescimento da informalidade e dúvidas sobre o impacto da inteligência artificial (IA) no mercado de trabalho, e, ao mesmo tempo, abrir espaço para a implementação de mecanismos que desacelerem o crescimento de despesas obrigatórias. No entanto, não se falou mais no assunto.

A defesa da soberania tende a ser uma importante bandeira, levantada já desde a época do tarifaço imposto pelos Estados Unidos. E outra promessa que deve ganhar corpo na campanha petista é a tarifa zero para transporte urbano. É pouco.

Confirmado pré-candidato, Ronaldo Caiado (PSD) adotou como estratégia anunciar de largada que irá anistiar todos os condenados por golpe de Estado, justamente com o objetivo de abrir caminho para defender propostas temáticas e fugir de um assunto que exerce papel central no movimento de polarização política protagonizado por PT e PL. Além de segurança pública, ele sinalizou também que quer expor suas ideias sobre inteligência artificial, por exemplo.

Do lado de Flávio Bolsonaro, a cúpula do PL trabalha há meses em um programa de governo. Fontes comentam que já existem propostas setoriais para biotecnologia, IA, regulação e educação. Nos bastidores, aliados do senador afirmam ter as minutas de aproximadamente 800 decretos que seriam editados nos primeiros dias de governo. Para integrantes da pré-campanha de Flávio, porém, três temas serão determinantes para o desfecho da eleição: segurança pública, inflação de alimentos e corrupção. Em relação a este último assunto, inclusive, a expectativa é que as declarações de Flávio Bolsonaro e seus porta-vozes mirem o Supremo.

Não seria exatamente uma novidade a oposição atacar o STF. Agora, contudo, a tática vai além: a intenção é colar a imagem de Lula à do Supremo, em meio aos desdobramentos do caso Master, uma vez que Executivo e Judiciário jogaram juntos muitas vezes a partir de janeiro de 2023.

Esta onda, aliás, ministros do Supremo já conseguem antever. E alguns integrantes do STF se arriscam a dizer até que, na verdade, o que se avista no horizonte pode ser um tsunami.

Para um magistrado, a tensa sessão plenária realizada na semana passada ocorreu diante do receio dos potenciais impactos desses fenômenos na Corte. Por ampla maioria, a decisão de André Mendonça de prorrogar a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito do INSS à revelia do presidente do Congresso foi derrubada, sinalizando uma disposição do Tribunal de transpor o discurso de “autocontenção” à prática. Mas as falas dos ministros expuseram as profundas rachaduras já existentes nas relações entre o Judiciário e o Parlamento. A oposição só está esperando a onda “quebrar” para surfá-la.

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CAIADO ENTROU NA DISPUTA

Elio Gaspari, O Globo

Ele mira os eleitores  de Bolsonaro

Ao oferecer a anistia para os condenados pela trama golpista de 2022-2023, Ronaldo Caiado saltou atrás das linhas de Flávio Bolsonaro. É lá que estão os votos capazes de viabilizar uma terceira via. Os próximos meses dirão se esse caminho existe. Coberto de razão, o atual governador de Goiás disse que “você só alimenta um projeto político da polarização quando você se beneficia dele”.

Com 88% de aprovação em seu estado e fala mansa, Caiado é uma esperança para quem não quer Lula ou um Bolsonaro no Palácio do Planalto. Pelas pesquisas, ele patina com um só dígito. Faltam seis meses para a eleição, e nada impede que tente chegar ao segundo turno. Afinal, ao seu lado está o clarividente Gilberto Kassab.

Caiado critica o PT, mas seu alvo é Flávio Bolsonaro. Oferece um passado de democrata, gestor com militância conservadora e mais de 80% de aprovação.

Se Caiado não conseguir colocar a terceira via de pé, isso demonstrará que, para o bem ou para o mal, ela não existe — e a polarização está encravada na sociedade brasileira, como o trumpismo está encravado na sociedade americana.

Qualquer previsão mecânica feita em abril para uma eleição marcada para outubro é um exercício fútil.

Caiado foi candidato a presidente em 1989 carregando a bandeira do agronegócio, quando a palavra mal existia. Havia outros 21 candidatos, e ele ficou com magros 488.846 votos. Naquele ano, tudo indicava que a disputa ficaria entre Fernando Collor e Leonel Brizola. Em agosto, Lula tinha 5% nas pesquisas. Em novembro, foi Lula quem chegou ao segundo turno contra Collor, que o derrotaria na votação seguinte.

Aos 76 anos, com meio século de vida pública, Caiado parece uma colagem dos políticos desse período. Quando fala da segurança pública, ecoa Paulo Maluf. Se trata da polarização, ecoa Tancredo Neves. Como gestor, ecoa Juscelino Kubitschek (sem o sorriso no rosto e o otimismo nas veias). Ao defender a anistia, Caiado repetiu a decisão de JK ao patrocinar o perdão aos militares rebelados de Jacareacanga e Aragarças. O paralelo mostra que JK pacificou seu governo, mas não pacificou os insurretos, que ressurgiram em 1964.

Com uma direita pendurada no estilo de confrontos e irracionalismo dos Bolsonaros, Flávio copia o pai. (A triste piada em que comparou Lula a um Opala comprova essa suspeita.) Só o tempo dirá a consistência dessa ligação.

Uma coisa é certa: com a entrada de Caiado na disputa, a campanha eleitoral perdeu o gosto ruim da monotonia. Lula x Bolsonaro pai ou filho é uma disputa velha.

Na mesma segunda-feira em que Caiado anunciou sua candidatura, o deputado petista Kiko Celeguim, presidente do PT em São Paulo, propôs que Gilberto Kassab entre como candidato a vice no lugar de Geraldo Alckmin.

Pareceu uma excentricidade, mas mostrou que o PT tem um pé na capacidade de articulação de Kassab que, por sua vez, tem um pé no PT. Celeguim foi contestado, mas explicou:

— O PSD (de Kassab) é o partido-chave para ganhar a eleição.

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O COMPLÔ SELENITA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Datafolha mostra que 34% dos brasileiros não acreditam que homem pisou na Lua

Embora mais instruídos, americanos também creem em seu quinhão de bobagens

Deu no Datafolha que 34% dos brasileiros não acreditam que o homem já pisou na Lua. Não é algo que devesse ser colocado em dúvida. O esforço científico para levar astronautas ao satélite natural da Terra e trazê-los de volta está fartamente documentado.

O primeiro passeio de Neil Armstrong em território selenita foi transmitido ao vivo pela TV em 1969 e testemunhado por milhões de terráqueos. Para ser cético em relação à conquista da Lua é preciso ter fé cega em conspirações secretas.

O complô lunar não é a única crença demonstravelmente falsa exibida por minorias significativas de brasileiros. Sondagens anteriores do Datafolha mostraram que 25% creem em Adão e Eva e numa Terra com menos de 10 mil anos; a proporção de terraplanistas entre nós é de 7%. A resposta quase automática de quem toma conhecimento desses números é "precisamos de mais escola!".

A própria pesquisa do Datafolha sugere que, nos estratos mais instruídos, é menor o índice de selenicéticos. Mas não penso que educação baste para resolver o problema. Os americanos têm mais anos de instrução que os brasileiros (13,7 contra 10,1) em sistemas de melhor qualidade, mas isso não os impede de acreditar em seu quinhão de bobagens.

Dois terços dos americanos acreditam em anjos e demônios; 75% creem em fenômenos paranormais; e 20% pensam que o Sol gira em torno da Terra. Num tributo à paranoia, 33% julgam que o governo age em conluio com a indústria farmacêutica para esconder "curas naturais" que existem para o câncer.

Embora tenha se tornado um lugar-comum afirmar que a democracia depende de um consenso em torno dos fatos, Jonathan Rauch, que já citei aqui, observa que esse tipo de unanimidade nunca existiu. O que havia e era importante para a, digamos, estabilidade epistêmica, era que uma elite de políticos, cientistas e outros detentores de postos-chave estivessem de acordo sobre o método para estabelecer os fatos e regras básicas para interpretá-los. É esse consenso mais elitista que vai mostrando trincas.

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FLÁVIO BOLSONARO SEGUE OS PASSOS DO PAI E PLANTA SEMENTES DA DESCONFIANÇA ELEITORAL

Ana Luiza Albuquerque, Folha de S. Paulo

Em discurso na maior conferência conservadora dos EUA, senador pediu 'pressão diplomática' para eleições livres e justas no Brasil

Assim como Jair Bolsonaro em 2018, pré-candidato à Presidência disse que vencerá se os votos forem contados corretamente

Para os que ainda têm fé no bolsonarismo moderado, é recomendável assistir ao discurso do senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato à Presidência, na Cpac, a maior conferência conservadora dos Estados Unidos.

No fim de semana, em Dallas (Texas), Flávio seguiu à risca a cartilha do pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), disseminando teorias conspiratórias, colocando em xeque a lisura do processo eleitoral brasileiro e vestindo a roupagem do populismo autoritário e antissistema que assola democracias ao redor do mundo.

O discurso contrasta com a imagem de moderação que a pré-campanha do senador tenta construir, em busca do eleitorado independente que será o fiel da balança de uma acirrada disputa eleitoral contra o presidente Lula (PT).

Aos conservadores do Maga ("Make America Great Again", movimento liderado pelo presidente Donald Trump), Flávio Bolsonaro fez um apelo por "pressão diplomática" para garantir eleições livres e justas no Brasil.

"Meu apelo não só à América, mas a todo o mundo livre, é esse: observem as eleições do Brasil com enorme atenção, aprendam sobre e entendam nosso processo eleitoral, monitorem a liberdade de expressão do nosso povo, e apliquem pressão diplomática para que nossas instituições funcionem adequadamente", afirmou.

Em sua fala, Flávio disse estar certo da vitória e, assim como o pai e líderes de linhagem populista, como o ditador Nicolás Maduro, que tanto critica, lançou mão do pronome possessivo para se referir ao eleitorado. "Vou vencer porque é a vontade do meu povo", afirmou.

O senador, porém, fez um alerta: para que essa vontade seja preservada, é preciso haver "eleições livres e justas". Isso, segundo ele, é "um grande desafio" e só acontecerá "se nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e os votos forem contados corretamente".

Nos meses anteriores às eleições de 2018, quando enfrentou Fernando Haddad (PT), Bolsonaro afirmou que "a grande preocupação" não era perder no voto, mas sim "perder na fraude". "Isso só pode acontecer por fraude, não por voto, estou convencido", afirmou em transmissão ao vivo nas redes sociais em outubro.

Em seu discurso na Cpac, antes do apelo ao "mundo livre", Flávio ofereceu um meio e um fim para convencer os trumpistas da necessidade de se envolver com os assuntos eleitorais brasileiros.

Primeiro, o meio. Por cinco vezes, mencionou os cartéis de droga do Brasil, afirmando que os grupos criminosos exportam armas e drogas para os Estados Unidos. As acusações de "narcoterrorismo" têm sido utilizadas pelo governo Trump como fundamento para a intervenção americana em outros países, como ocorreu com a destituição de Maduro do poder na Venezuela.

Segundo, o fim. Flávio vendeu a imagem do Brasil como o "campo de batalha onde o futuro do hemisfério será decidido", essencial para quebrar a dependência dos EUA das exportações chinesas de minerais críticos. Assim, o senador posicionou o país como um potencial fornecedor de terras raras —grupo de elementos químicos usados em produtos de alta tecnologia e na energia limpa.

"A América precisa de cadeias de suprimento seguras para materiais críticos, um parceiro confiável no hemisfério e um mercado massivo para bens e serviços americanos."

O filho de Jair Bolsonaro se inseriu, com esse discurso, no ecossistema da direita radical global, replicando a teoria conspiratória de que o ex-presidente americano Joe Biden teria financiado a eleição de Lula em 2022. Flávio repetiu por quatro vezes essa acusação sem provas.

Como mostrou a Folha, essa teoria nasceu no início do ano passado, a partir de uma conversa de vídeo gravada entre o ideólogo Steve Bannon, antigo conselheiro de Trump, e Mike Benz, que se apresentava no X como ex-funcionário do Departamento de Estado e diretor de uma ONG contra a censura.

Nessa gravação, Benz afirmou que a Usaid, uma agência federal posteriormente dissolvida por Trump, havia trabalhado pela eleição de Lula, financiando projetos de combate à desinformação e advogados que teriam atuado junto ao TSE para reprimir conteúdos de Bolsonaro no WhatsApp.

A narrativa foi rapidamente alardeada como um grande escândalo pelo ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro (PL), que costuma fazer a ponte entre as direitas bolsonarista e trumpista, e que mais uma vez discursou na Cpac.

Em sua fala, Flávio também aludiu a narrativas e termos abraçados pela direita radical americana e europeia, como quando afirmou que lutará contra a "agenda woke" (em referência aos grupos que militam pela redução das disparidades sociais, raciais e de gênero), contra a "agenda ambiental radical" e contra "os interesses da elite global".

O senador fez ainda uma promessa que revela sua descrença em relação à acelerada erosão democrática com a concentração de poderes na Presidência no segundo mandato de Trump, em meio a ataques às agências federais, às universidades, ao Judiciário e à imprensa.

"Trump 2.0 está sendo muito melhor que Trump 1.0, certo? Bolsonaro 2.0 também será muito melhor."

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ESOPO NA CASA BRANCA: A MORAL DA HISTÓRIA QUE TRUMP ESQUECEU

Roberto DaMatta*, O Estado de S. Paulo

Cada especialista em Brasil apontou alguma ausência: faltaram pureza racial, um colonizador mais avançado, partidos políticos com valores definidos. Talvez fosse melhor falar do que temos de sobra, como hipocrisia e carisma na sua forma mais degradante: o populismo e uma incurável parcialidade. Entre nós, ignorar a lei e o bom senso é sinal de importância social.

Nosso modo de encarar esse dilema segue um inabalável legalismo. Criamos regras acreditando que um confuso aparelhamento burocrático soluciona problemas de costumes, tal como Donald Trump acredita que seus desmesurados portaaviões agenciem a rendição do Irã. É a velha ilusão de que foguetes e drones resolvem guerras, destruindo muito e perdendo pouco, pois temos a maior força militar do planeta. Um planeta, aliás, que deixou de ser vivido em sincronia com a natureza.

Lançar foguetes é como usar a “canetada” para salvar colegas ou refazer hierarquias em espaços igualitários. Fica-se na ilusão de que as leis existem, mas elas não são universalmente aplicadas. Não para nós, mas para eles.

No Brasil, nossos drones, foguetes e porta-aviões são as leis produzidas pelo nosso “caga-regrismo”, que até hoje imagina que o poder de legislar opera resolvendo intelectualmente, mas – como os foguetes trumpistas – aumenta frustrações. É muito mais fácil cair na ilusão de que a lei resolve do que discutir o que a lei representa numa sociedade que sabe como sua aplicação é abafada ou simplesmente anulada para certas categorias sociais.

Desde os tempos de Esopo, a fabulação serve como exemplo para intenções, vaidades e pecados humanos. Uma fábula muito conhecida é a dos órgãos do corpo humano que um dia resolveram imitar Donald Trump e determinar qual era o mais poderoso. “Sou eu”, disse o olho. “Não”, berrou a boca, debaixo da discórdia do nariz, ouvidos, estômago, mãos e pés.

Em meio à polêmica, ouviuse a pequena voz do escondido ânus e, em seguida, a sua imediata expulsão, como a de um cidadão de última categoria. “És”, disse o nariz, “um órgão inferior e sujo; não tens nenhuma importância!”. O humilhado cu retrucou, piscando: “Vou me fechar e vocês verão o meu poder”. Após alguns dias, todos os órgãos que se achavam donos de um indiscutível poder dos fortes pediram perdão ao ânus, que voltou a funcionar, devolvendo – graças ao poder dos fracos – funcionalidade ao corpo.

Assim reza a fábula que, hoje, é literalmente replicada na estreiteza do Estreito de Ormuz – uma passagem estratégica que, se retraída, estrangula a fisiologia do mercado energético planetário. O Estreito de Ormuz ressalta que, antes de sermos países ricos e pobres isolados nos nossos egoísmos coletivos, somos e continuamos a ser, como diz a fábula, parte de um conjunto cuja funcionalidade não pode ser trocada pela selvageria da guerra, a qual nega o que temos de mais sagrado: a nossa humanidade.

*É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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O REI DO GADO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Chá de revelação do PSD sepulta ilusão de 'terceira via' kassabista

Caiado promete indulto a Bolsonaro, mas quer disputar rebanho que já tem dono

Gilberto Kassab apresentou seu novo candidato ao Planalto. É Ronaldo Caiado, o patriarca da direita ruralista. O escolhido já tem experiência em eleições presidenciais. Terminou a de 1989 em décimo lugar, com 0,7% dos votos.

Ao se lançar na disputa, Caiado anunciou que seu primeiro ato no poder seria um indulto a Jair Bolsonaro. No mesmo discurso, prometeu “desativar a polarização”.

Difícil entender como uma coisa levaria à outra. A história mostra que dar impunidade a golpistas não pacifica o país. Ao contrário: aprofunda divisões e serve de incentivo para novas tentativas de ruptura.

A indicação de Caiado sepultou a ilusão de que o PSD encarnaria uma “terceira via” centrista. O candidato deixou claro que trafega na mesma pista que o bolsonarismo. “Nós ganhamos do PT em 2018”, disse, enfatizando a primeira pessoa do plural.

Caiado acrescentou que seu objetivo é garantir que o petismo “não seja mais opção no país”. A frase ecoou uma célebre declaração de Jorge Bornhausen, que planejava “se ver livre dessa raça” por 30 anos. Aos 88, o ex-senador segue na ativa como conselheiro de Kassab.

O chá de revelação do PSD frustrou Eduardo Leite, que ainda sonhava convencer o dono da sigla a lançá-lo. Sua promessa de apoiar o vencedor da disputa interna durou pouco. Ele criticou a escolha e evitou declarar voto em Caiado.

O gaúcho não está sozinho. Dos sete governadores do PSD, quatro ignoraram o anúncio do presidenciável. Na maioria dos estados, os chefes da legenda já se comprometeram com Lula ou Flávio Bolsonaro.

Boicotado na própria legenda, Caiado terá pouco tempo para se mostrar competitivo. Seu maior trunfo é o alto índice de aprovação em Goiás, onde sua família está ligada ao poder desde o Império. Em dois mandatos de governador, ele investiu no discurso linha-dura na segurança. A aposta deve ser reprisada na campanha ao Planalto.

O desafio é suavizar o jeitão de rei do gado para buscar votos fora do cinturão do agro. Não será tarefa fácil. A julgar pelas pesquisas, o rebanho que ele cobiça já tem dono.

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UMA EMERGÊNCIA CHAMADA BRASIL

Vagner Gomes, Democracia Política

A Sociologia da Medicina é Sociologia: é a aplicação de critérios de métodos metodológicos de análise e de interpretação de processos  sociais, de relações interpessoais e de relações intergrupais, àquela matéria de interesse médico constituída pela Etiologia e Ecologia Sociais de doenças, pelos componentes sociais ou socioculturais de terapêutica e, ainda, pelas relações  entre médicos e enfermos, entre enfermos e suas famílias, entre médicos e famílias e ambientes socioculturais de enfermos, entre médicos – higienistas, sanitaristas, psiquiatras – e comunidades e aquelas suas instituições e aqueles seus complexos mais relacionados com os problemas de deterioração da saúde, de conservação e de defesa da saúde, de promoção da saúde. Saúde compreendida no seu sentido mais amplo, isto é, além do físico, e alcançando o bem-estar psicossocial das pessoas sociais, membros de um grupo, em particular, e de uma comunidade e, mais do que isto, de um sistema sociocultural em geral.

Gilberto Freyre, Médicos, doentes e contextos sociais: uma abordagem sociológica. p. 61.

No ano de 1987 o Brasil estava nos debates constituintes, que nos proporcionaram a Carta Democrática de 1988. Foi nesse ano que houve o acidente radioativo com o Césio 137, que a NETFLIX acertou em investir no tema como uma série brasileira em cinco capítulos, alguns anos após a emergência sanitária por conta da COVID-19 e em tempos de manifestações negacionistas sobre as Vacinas. Assim, “Emergência Radioativa” ganha uma força reflexiva para além de uma memória, mas nos permite observar como a gestão pública pode lidar com situações de emergência.

Relembremos dos gestores da cidade turística onde ocorre o filme Tubarão, que temiam o “pânico” desnecessário na população, que afastaria os lucros com essa atividade. A ideia de que a “economia não pode parar” é um valor do fundamentalismo neoliberal que não compactua com os princípios democráticos. Aqueles que um dia se deixaram levar por esse “atalho” devem se posicionar com suas manifestações pretensamente moderadas diante do que se passou recentemente em nossa história política brasileira.

A qualidade da série parte da importância do quanto uma “governança protetora” se forma em condições de uma emergência que poderia atingir proporções inimagináveis. Intelectuais e vida pública são observados na correria de Doutores em Física Nuclear para salvar vidas. As medidas restritivas são feitas no intuito de contenção de ricos que colocariam a saúde pública sobre um alto nível de pressão nos atendimentos hospitalares. Além disso, o debate sobre a ética da convicção e a ética da responsabilidade se faz presente na cena da Assembleia dos Profissionais de Saúde em Greve; no momento que profissionais da saúde da Marinha se apresentam como voluntários para o Diretor do Hospital Naval Marcílio Dias, com intuito de salvar mais vidas, ou na cirurgia, ou na entrada do “camarada médico” soviético na cirurgia, no limite do tempo para garantia de seu sucesso.

O elenco das principais vítimas foi um grande acerto na seleção não apenas na interpretação, quanto na percepção de serem negros e pardos, ou seriam “quase brancos e quase pretos” naquele terremoto de outro tipo. Destaque para Bukassa Kabengele que, em alguns momentos, me fez lembrar as interpretações marcantes do saudoso Milton Gonçalves (1933 – 2022 que foi garoto-propaganda da Frente Republicana Presidencialista no plebiscito de 1993. Além disso, o público perceberá outro Paulo Gorgulho, ou seja, muito mais amadurecido que aquele que esteve nas telas na minissérie Decadência de Dias Gomes em 1995. Por fim, somos brindados pela atuação de Tuca Andrada como o Governador Roberto Correa (nome fictício para o Governador Henrique Santillo, que nos faz pensar sobre “história comparada” quanto à relevância do fator político e democrático na gestão pública de saúde).

Lembremos que Vigilância Sanitária é hoje muito mencionada. Logo, a atitude de personagem-ficção Antônia Quadrado, que leva para a mesma a fonte de contaminação – mesmo após o classificar como “força do mal” – demonstra um pouco das características femininas com o cuidado com a saúde. Um indicador de que o tema da saúde pública não pode estar distante dessa “fala feminina” que muito bem coloca a relevância da ciência nesses tempos de negacionismo. Nós observamos muito melhor o lado feminino daquela Goiás de 1987, onde as mulheres ainda ganhavam espaço nas suas conquistas sociais.

Além disso, estamos em tempos em que o SUS não existia, o que faria um telespectador desavisado não perceber o grau de dificuldades sobre o tema da saúde pública diante de um “contrato quebrado” entre dois entes privados que implica em impactos no tratamento com uso de radioterapia. A coleta dos dados tanto dos que foram impactados pela emergência radioativa quanto sobre a emergência da COVID-19 nos permitiria quais teorias fundamentadas? Por hora, um presidenciável formado em medicina sai de Goiás após aumentar os valores da pensão vitalícia das vítimas (grupo de 603 pessoas que estavam sem reajuste há sete anos). Ou seja, as vidas e os números das finanças públicas podem mudar ao sabor da conjuntura política.

*Vagner Gomes é Doutorando do PPGCP-UNIRIO.

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terça-feira, 31 de março de 2026

GOLPISMO DA DIREITA PERMANECE NO CENTRO DA DISPUTA ELEITORAL

Míriam Leitão, O Globo

Flávio Bolsonaro deu novas demonstrações de fazer o mesmo caminho do pai. Caiado promete anistia a Bolsonaro e o defendeu em palanque

O golpismo da direita continua sendo o problema da eleição. Da mesma forma que foi nas duas disputas presidenciais anteriores. O senador Flávio Bolsonaro, como seu pai, não tem credencial democrática, e já demonstrou desrespeito institucional. Infelizmente, outras forças da direita não quiseram condenar o golpismo. O PSD, de Gilberto Kassab, teve uma chance com o governador Eduardo Leite, que demonstrou ter entendido o ponto central. Neste fim de semana, Flávio Bolsonaro repetiu o pai e pôs em dúvida, diante de uma plateia estrangeira, a lisura do processo eleitoral brasileiro. Hoje, 62 anos depois do golpe militar, estamos de volta à quadra um.

Dia 31 de março precisa ser tempo de reflexão no Brasil. O país viveu uma dor política que atravessou 21 anos. Dos escombros, os constituintes escreveram um novo pacto democrático baseado no repúdio à ditadura. Na economia, o autoritarismo deixou hiperinflação e superendividamento externo. Este novo pacto deveria ter sido para sempre, mas Jair Bolsonaro chegou ao poder desprezando a democracia e, no governo, bombardeou as instituições. Uma das armas usadas foi dizer que a eleição pelo voto eletrônico era fraudada.

Para surpresa de ninguém, Flávio Bolsonaro começa a mesma ladainha. No Texas, na Conferência de Ação Política Conservadora, o senador pediu “pressão diplomática para que nossas instituições funcionem corretamente”. Quer acompanhamento externo para as eleições. O Tribunal Superior Eleitoral sempre convidou observadores. Mas não é disso que ele está falando. Afirmou que é para “assegurar que a vontade do povo será preservada”. E concluiu: “se o nosso povo puder se expressar livremente nas redes sociais e se os votos forem contados corretamente, nós vamos vencer”. Na versão que ele apresentou no encontro da ultradireita internacional, seu pai está preso “por defender nossos valores conservadores” e não por ter sido condenado por uma tentativa de golpe de Estado.

O pré-candidato do PL já exibiu várias vezes os mesmos maus propósitos institucionais do pai. Em junho do ano passado defendeu à Folha de S. Paulo, a eleição de alguém que enquadre o Supremo Tribunal Federal. E foi explícito: “a gente está falando da possibilidade do uso da força”.

No 8 de janeiro e no julgamento dos golpistas ficaram explícitas as provas da conspiração contra a democracia por parte de Bolsonaro e seus asseclas militares e civis. Diante disso, o natural seria as forças políticas, de direita, de centro-direita, demarcarem o terreno que as separa da extrema-direita bolsonarista. Não foi o que aconteceu. A ambiguidade, o apoio disfarçado ou explícito continuou imperando.

O governador Ronaldo Caiado teve pelo menos duas chances de se diferenciar. Durante a pandemia, quando por ser médico defendeu a vacina, e na eleição municipal em que enfrentou o candidato do ex-presidente e venceu. Apesar disso, esteve em palanques bolsonaristas, e nunca condenou o golpismo.

O governador Eduardo Leite foi direto e contundente ao se apresentar. No programa de Júlia Duailibi, da GloboNews, na semana passada, Leite disse que o que está faltando nesta eleição é o centro. “Com todo o respeito ao governador Caiado, o que ele busca representar já tem representante.” Criticou o governo Lula, mas acrescentou: “presidente da República que articula movimento golpista, que busca uma ruptura institucional como o presidente Bolsonaro, na investigação ficou demonstrado que fez, tem que ser julgado e preso”.

Caiado repetiu ontem que “o meu primeiro ato será a anistia ampla, geral e irrestrita”. Em discurso este ano, ele elogiou Bolsonaro. “Esse homem que conseguiu levantar o Brasil e dizer em alto e bom som: vamos caminhar pela liberdade e democracia plena”. Em entrevista ao Roda Viva no ano passado, questionado se houve ditadura, respondeu que houve um “tempo de restrição por atos institucionais” mas relativizou: “os dois lados cometerem excessos”. Ontem, ele disse que “democracia no Brasil é uma falácia”. Falava do necessário combate ao crime organizado, mas não valoriza o que o país construiu.

Dois dos três pré-candidatos da eleição de 2026 não mostram apreço pela democracia. Flávio Bolsonaro é de uma família que sempre defendeu a ditadura, e quer sua repetição. Caiado nunca condenou a de 1964, nem o último golpe. Por isso, a questão democrática permanece no centro da política brasileira.

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