Cada vez mais os suspeitos de sempre do centrão e
facilidades desreguladas do mundo das finanças aparecem lado a lado no caso
Esquerda não é santa e conexões com gente ligada ao
petismo podem surgir, mas até aqui mercadismo e direitistas se desgastam
Com a destituição do abafador geral Dias Toffoli, as
investigações e revelações sobre o escândalo do Banco Master, agora
nas mãos do relator André Mendonça, vão oferecendo uma melhor visão do
iceberg que se tentava manter oculto.
A coisa, para dizer o mínimo, é muito feia e envolve
práticas milicianas e mafiosas, com
ameaças físicas a jornalistas, como Lauro Jardim, e outras barbaridades.
Pelo que se revela, a turma do Master não deve ser comparada ao crime
organizado –ela é o crime organizado.
Entre os primeiros, destacam-se os
suspeitos de sempre da direita, a turma boa centrão, representada por nomes
como Ciro
Nogueira, do indefectível PP, chamado por Daniel Vorcaro, o capo da máfia, de
"grande amigo". Caso também do governador do Rio, Cláudio Castro,
do PL bolsonarista, personagem do mais baixo gabarito. Há muitos outros na
chuva, como o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, do União Brasil, e uma
matilha tentando se abrigar.
Soubemos também que funcionários do Banco Central estavam
levando propina do chefão —talvez um sinal de que possa haver mais fio a puxar
na instituição que se tornou autônoma no período Bolsonaro.
Do mesmo modo, há suspeitas em torno de figurões do Supremo
Tribunal Federal, um deles pelo menos, o ministro Alexandre de Moraes,
amplamente apoiado pelas esquerdas, por bons e maus motivos.
Feitas as contas, contudo, é sobretudo a direita que vai
neste momento entrando pelo cano com agentes financeiros e aqueles que propalam
a visão fantasiosa do mercado como ente virtuoso que se autorregula e dispensa
controles.
Já são mais do que evidentes as condições propícias
oferecidas pelo mercado financeiro a atividades ilícitas que rodam dinheirama
suja, orquestram falcatruas, e fazem lavagem para facções criminosas. Uma
espécie de matrioska de fundos, por exemplo, com donos e sócios secretos,
serviu aos propósitos criminosos do esquema de Daniel Vorcaro.
Certamente não estamos diante apenas daqueles fundos ligados
à Reag, descobertos já por ocasião da Operação Carbono Oculto, que colocou a
Faria Lima no baile sinistro do PCC. Que profundezas sem luz do sol continuam
sendo navegadas pelos escafandristas das finanças?
Lembremos, ainda, que o affair Master foi precedido pelo
assustador escândalo contábil das Americanas, negócio
de gente não raro incensada pelo mercadismo de plantão, como o Trio Lemann.
Não esqueçamos também que a grande trapaça de Vorcaro foi
arquitetada, como
escreveu meu colega Vinicius Torres Freire, para terminar com "a
desova de um cadáver no colo do que, no fim das contas, é o governo, o público
em geral". Um velho modus operandi, diga-se.
Em que pese manifestação de protesto do MBL em torno do
escândalo, a esquerda vai cada vez mais se sentindo à vontade, em contexto de
campanha eleitoral, para colar o episódio na direita. "Ah, mas é para
ocultar o Lulinha e outros problemas", pode-se argumentar.
Sim, a esquerda não é nenhuma santa e até que se
restabeleçam as bases do acordão em crise, se isso ocorrer, a disputa vai se
acirrar. Ainda estamos em brumas e não se pode descartar um envolvimento mais
consistente de alguém ligado ao petismo.
É difícil, porém, não considerar que a fotografia até aqui é
desfavorável a mercadistas e direitistas.

















