sábado, 1 de agosto de 2026

FLÁVIO BOLSONARO É UM BONECO NAS MÃOS DA EXTREMA DIREITA TRANSNACIONAL

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

O esquema que sabota o processo democrático é difundido por Trump

O alinhamento golpista se revela nas mentiras de Flávio sobre urnas eletrônicas

Como diria um velho caudilho dos pampas, Donald Trump está costeando o alambrado. Em seu segundo mandato como presidente dos Estados Unidos, nomeou negacionistas eleitorais para postos-chave, alterou regras para dificultar o voto popular e afastou funcionários que desmascararam suas teorias de conspiração sobre o pleito de 2020.

Para lançar dúvidas acerca das eleições legislativas de novembro —as pesquisas indicam que os democratas terão maioria—, usa a derrota de seis anos atrás diante de Joe Biden para afirmar que as votações no país não são legítimas. Claro, só aquelas que ele não vence.

No show do bufão delirante e obcecado em não passar para a história como um perdedor, vale tudo: acusar sem provas a China e até a Venezuela de terem interferido no processo eleitoral norte-americano. Durante um jantar com correspondentes estrangeiros na Casa Branca, no fim de julho, disse que pretende disputar um novo mandato, o que a Constituição dos EUA não permite: "Estou ficando muito bom em concorrer à Presidência. Fiz isso três vezes e fui muito bem na segunda". Alguns jornalistas observaram que ele falou em tom de brincadeira. Pois sim.

Autocrata é autocrata, pouco importa se se apresenta como de esquerda ou de direita. Em sua sabotagem do processo democrático, o Senhor Laranja está ficando igual a Daniel Ortega, o ditador da Nicarágua, que avisou: "Não haverá mais eleições aqui", usando de absoluta sinceridade, palavra que inexiste no dicionário trumpista. No embalo, o presidente de El SalvadorNayib Bukele —aliado de Trump e queridinho de políticos brasileiros—, em busca do terceiro mandato, já adota medidas para abolir a alternância de poder.

No Brasil, o filho 01, à testa de uma candidatura oca, copia o manual da extrema direita. É um alinhamento golpista, que reedita a mentira sobre urnas eletrônicas e, ao mesmo tempo, improducente —52% dos brasileiros, segundo o Datafolha, acreditam que, com as sanções que prejudicam o país, Trump quer ajudar o bolsonarismo.

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EM LEGÍTIMA DEFESA DE CRIANÇAS E JOVENS

Miguel Reale Júnior, O Estado de S. Paulo

A sociedade deve, uníssona, em legítima defesa, proteger a infância e a juventude da malvadeza digital

A inteligência artificial (IA), que tantos benefícios tem trazido e trará, pode, no entanto, colocar em risco a mais importante parcela da sociedade: nossas crianças e nossos adolescentes. Tim Wright, dirigente no Reino Unido da Agência Nacional de Combate ao Crime, observa: “As ferramentas de inteligência artificial estão se tornando mais poderosas, mais acessíveis e mais fáceis de usar, e estamos vendo criminosos explorá-las para atingir crianças de novas maneiras. Imagens podem ser manipuladas para criar conteúdo sexualizado sem o conhecimento da criança ou dos pais.”

Esse perigo está presente na possibilidade de se forjar, por IA, cena dificilmente contestada, com imagem de determinada adolescente que fala à câmera e pratica ato sexual com homem adulto. Essa imagem destruidora para a moça e sua família gera vergonha, medo e insegurança absoluta. Daí o alerta de Kerry Smith, CEO da Internet Watch Foundation (IWF), sobre como avanços tecnológicos podem ser usados para “devastar a vida de uma criança”.

Por essa razão, a proteção à criança no universo online tornou-se urgente: relatório recentíssimo de especialistas da

União Europeia (Segurança das Crianças Online) propõe o acesso às redes sociais só para maiores de 13 anos; há poucos dias a França proibiu o acesso às redes sociais a menores de 15 anos. A IWF verificou em 2025, no Reino Unido, o aumento de 260% de imagens e vídeos gerados por IA com cenas de abuso sexual infantil, apresentados com efetivo realismo.

Entre nós, é crescente o número de crianças e adolescentes com acesso à internet, como revela a recente pesquisa do Comitê Gestor da Internet no Brasil (CGI.br), por seu departamento Núcleo de Informação e Coordenação do Ponto BR (NIC.br), intitulada TIC Kids Online Brasil 2025. A pesquisa, voltada à verificação do acesso à internet por crianças e adolescentes, aponta que 92% dos brasileiros de 9 a 17 anos são usuários de internet, o que corresponde a 24 milhões de pessoas, com significativo crescimento nas classes D e E, e na área rural.

São 8% os usuários de internet de 9 a 17 anos que relatam ter tido contato com imagens ou vídeos de conteúdo sexual online. Entre os usuários de 11 a 17 anos, 20% receberam mensagem ou solicitação com conteúdo sexual.

Maior a gravidade, ao se alcançar, com o surgimento da IA, técnica apurada, sendo cada vez mais fácil produzir falsidades e cada vez mais difícil detectá-las.

Verificar o falso tem se revelado impossível. Hany Farid, professor da Universidade de Berkeley, na Califórnia, reconhecido especialista na detecção de falsidade, em entrevista de primeira página no New York Times (24/6), reconhece já não distinguir foto real de criação digital, voz real de clone gerado por IA, ou vídeo real de um fabricado.

O professor Hany Farid denunciou: “A tecnologia está sendo usada como arma contra nós”. Perguntado por aluno se a criação de deep fakes é fácil e barata enquanto a constatação é cara e difícil, respondeu com constrangedor sim e completou: “Estamos bem ferrados”.

Apesar dos obstáculos probatórios, deve-se aprimorar a repressão penal aos abusos, mas a prioridade cumpre ser a prevenção com controles pelos fornecedores de produtos ou serviços de tecnologia da informação, com capacitação dos pais, professores e cuidadores para saberem lidar com as artimanhas da IA, conscientes dos imensos perigos, aprendendo a enfrentar a questão junto às crianças e adolescentes.

A sociedade já realiza trabalho essencial pelos canais de denúncia de abuso sexual na internet, instituídos pelo SaferNet e pela IWF, duas entidades privadas voltadas à proteção de infantes e jovens.

Temos agora aparato legal que permite com urgência enfrentar a árdua tarefa de conscientização de pais e professores e de aprendizagem pelos infantes e jovens para não caírem na armadilha dos perversos. Este aparato é formado pelo Eca Digital, Lei n.º 15.211/25 e pelos Decretos 11.856/23 e 12.573/26, que estatuíram respectivamente a Política Nacional de Cibersegurança

e a Estratégia Nacional de Cibersegurança, nos quais se ressalta o objetivo de prevenção graças à educação digital, visando à proteção da incolumidade física e psíquica de crianças e adolescentes.

Ressalto a cartilha publicada pelo Ministério Público do Rio Grande do Sul em conjunto com a IWF, contendo recomendações aos pais e professores de como abordar a questão do abuso sexual via internet com filhos e alunos.

Igualmente importante o convênio assinado pelo Conselho Nacional do Ministério Público (CNMP) com a SaferNet Brasil, permitindo ao Ministério Público o acesso aos dados das denúncias anônimas recebidas por esse canal (www.denuncie.org.br) unindo esforços para prevenir e combater o abuso sexual infanto-juvenil.

Estamos diante de um imenso desafio. A sociedade deve, uníssona, em legítima defesa, proteger a infância e a juventude da malvadeza digital que toma diversas formas, justificando-se só permitir aos menores de 15 anos (início do ensino médio) acesso à internet de modo restrito. •

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BOLSONARISMO É AGORA AMEAÇA EXISTENCIAL A MORAES

Thaís Oyama, O Globo

Renovado em dois terços, o Senado arbitrará entradas e, possivelmente, saídas de juízes do Supremo

Até agora, o conjunto das pesquisas estaduais aponta um claro favoritismo da direita e da centro-direita na corrida deste ano ao Senado. A projeção mais abrangente disponível estima que, juntas, as duas forças políticas poderão reunir pelo menos 40 das 81 cadeiras a partir de 2027 — uma a menos, apenas, da maioria absoluta. Valdemar Costa Neto, com o otimismo regulamentar dos caciques, declarou que só seu PL poderá eleger em outubro 20 novos senadores. Somados aos oito atuais que, em sua conta, permanecerão no partido e no Senado, eles formarão uma bancada de 28 parlamentares. Pela projeção, basta ao PL conquistar 13 votos na centro-direita para reunir os 41 necessários à eleição do presidente da Casa. O presidente do Senado é o único com poder de dar início a processos de impeachment de ministros do Supremo.

Isso significa que esta eleição deverá afetar os três Poderes. Além de definir o nome que comandará o Executivo, poderá redesenhar a cúpula do Judiciário por meio de um Senado que, renovado em dois terços, arbitrará entradas e — possivelmente — saídas de ministros do Supremo. O PL sempre deixou claro que era seu objetivo na eleição ao Senado formar uma bancada favorável ao impeachment de magistrados — em especial, Alexandre de Moraes.

É à luz desse cenário que se conclui estarem apenas no início as escaramuças entre Flávio Bolsonaro — como o pai, sempre pronto a testar os limites da lei — e Moraes, ávido para ampliar as fronteiras entre sua jurisdição e a da Justiça Eleitoral, como se viu na semana passada, quando se apressou em cobrar de Bolsonaro explicações sobre o vídeo produzido pela campanha do filho.

O embate interessa aos dois. Para Flávio, Moraes é o algoz do bolsonarismo — o inimigo número 2. Antagonizá-lo é uma maneira eficiente de eletrizar a tropa, sobretudo quando se está vários pontos atrás do inimigo número 1 nas pesquisas. Para Moraes, o grupo de Flávio é aquele que, ao elegê-lo como adversário, transformou-o em “herói da democracia”. Confrontar o bolsonarismo é a melhor forma de preservar os apoios conquistados no campo oposto.

No caso do vídeo deepfake de Bolsonaro, a campanha de Flávio esticou a corda com o TSE e continuará esticando até quando o tribunal permitir. Fará isso não só porque a imagem de Bolsonaro é o principal ativo eleitoral de Flávio — senão o único, dirão alguns. Resultados de pesquisas que circulam por outra campanha, mas que certamente são de conhecimento da equipe dele, revelam que a piora na imagem do primogênito de Bolsonaro, a partir do caso “Dark Horse”, foi curiosamente acompanhada da subida na popularidade de Bolsonaro pai. Flávio vira pó sem seu cabo eleitoral e entusiasta maior (senão o único, diriam alguns).

Se Flávio vencer, poderá indicar três ministros ao STF. Lula já tem de preencher o lugar de Luís Roberto Barroso, que Jorge Messias não conseguiu ocupar. Se reeleito, terá as vagas abertas pela aposentadoria de Luiz FuxCármen Lúcia e Gilmar Mendes. Ao fim desse ciclo, o petista terá feito 14 nomeações ao Supremo ao longo da carreira presidencial e poderá ter escolhido sete dos 11 ministros em atividade. Em termos de influência sobre a renovação da Corte, Lula só compete consigo mesmo. Nos dois primeiros mandatos, indicou oito ministros, e sete deles chegaram a ficar simultaneamente no tribunal.

Dependendo dos nomes escolhidos, uma vitória petista poderia fortalecer politicamente Moraes e seus aliados dentro do Supremo. A eventual mudança na correlação de forças na Corte, porém, não mudaria a aritmética das urnas nem dissiparia a ameaça vinda do Senado. Daqui em diante, portanto, convém acrescentar à leitura dos embates entre Flávio e Moraes duas pressões permanentes: Flávio precisa esticar a corda; Moraes precisa sobreviver.

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BOLSONARISMO PÕE DISPUTA ELEITORAL SOB ESTRESSE DEMOCRÁTICO

Flávia Oliveira, O Globo

O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política

Desde que o bolsonarismo ganhou protagonismo político no Brasil, a corrida presidencial se desenrola sob estresse das instituições democráticas. O golpismo tornou-se variável obrigatória nos cenários de análise política. Quatro anos atrás, a campanha se iniciava sob o impacto do encontro do então presidente da República com embaixadores estrangeiros para lançar suspeitas sobre o sistema eleitoral e as urnas eletrônicas. A saraivada de ataques — que envolveu até operação da Polícia Rodoviária Federal no Nordeste para impedir eleitores de Lula de votar — deu na inelegibilidade de Jair Bolsonaro e, posteriormente, na condenação dele próprio e de seu grupo por tentativa de golpe de Estado. Em 2026, a trama se repete.

O Brasil ganhou prestígio na política e na opinião pública global por ter sido capaz de preservar o regime e punir os que contra ele atentaram, incluindo o ex-presidente, três generais e um almirante. Em 2022, antes mesmo do início formal da campanha que opunha Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, acadêmicos e representantes da sociedade civil realizaram ato em defesa do Estado Democrático de Direito no Salão Nobre da histórica Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo (USP).

— Brasileiras e brasileiros, diálogo e negociação são normais nas relações diplomáticas, violência e arbítrio, não! Nossa soberania é inegociável. Quando a nação é atacada, devemos deixar nossas eventuais diferenças políticas para defender nosso maior patrimônio. Sujeitar-se a esta coação externa significaria abrir mão da nossa própria soberania, pressuposto do Estado Democrático de Direito, e renunciar ao nosso projeto de nação — dizia a carta tornada pública na ocasião.

O texto elaborado para aquele levante pode, sem ressalva, ser repetido agora, quando a democracia brasileira é, de novo, empurrada para o corner. Desta vez, o risco se apresenta numa aliança da extrema direita local com a internacional. Nos últimos meses, não apenas foi sepultada a relação cordial que Lula e Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, ensaiavam desde setembro de 2025. É evidente também o conjunto de iniciativas para estressar relações bilaterais com sanções econômicas e ofensas políticas; tensionar a convivência do bolsonarismo com o Judiciário; minar a legitimidade do pleito de outubro.

Em duas semanas, os Estados Unidos taxaram duas vezes o Brasil, em 25% e 12,5%, por motivação mais política que técnica. Postagem do próprio secretário de Estado, Marco Rubio, compartilhada pelo senador Flávio Bolsonaro, não deixou dúvida. No último sábado, os ataques do presidente argentino a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, no palco da convenção do PL que formalizou o filho Zero Um como candidato à Presidência, deram ao Palácio do Planalto e à diplomacia brasileira a certeza do alinhamento entre Javier Milei, a ala ideológica do governo Trump — Rubio à frente — e o bolsonarismo.

Estaria em andamento a ação para submeter o Brasil, maior economia da América do Sul, ao campo magnético do trumpismo. Até a reação do governo paraguaio, também aliado dos Estados Unidos, à declaração inoportuna do presidente brasileiro sobre a guerra entre os países no século XIX foi vista como parte do empreendimento de perturbação política.

No período que antecedeu as eleições de 2022, Lula percorreu o mundo democrático para arregimentar apoio ao processo eleitoral brasileiro. Visitou AlemanhaFrança e Espanha. Nos Estados Unidos, contou com o governo do democrata Joe Biden. A possibilidade de interferência externa foi afastada; e os Poderes locais garantiram a lisura do pleito e a posse do eleito. Bolsonaro, para não passar a faixa presidencial, deixou o país no fim do período de transição, marcado por aliados reivindicando intervenção militar em acampamentos no entorno de quartéis.

O bolsonarismo conseguiu fraturar o arcabouço legal de proteção à democracia por meio da Lei da Dosimetria, que atenua penas para golpistas. É visível também a articulação para desqualificar, novamente, o processo eleitoral. Flávio já se reuniu com diplomatas e lançou dúvidas sobre as urnas eletrônicas. Citando a CIA, agência de inteligência dos Estados Unidos, repetiu ao grupo informação, já desmentida pelo Tribunal Superior Eleitoral (TSE), de que as urnas brasileiras têm a mesma origem de equipamentos relacionados a um plano de fraude do governo venezuelano, em 2012.

Semana sim, semana também, há novo estresse com o STF, relacionado à prisão de Bolsonaro pai, ou com o TSE, sobre o regramento das eleições 2026. O risco é crescente. Um Brasil exausto de batalhar por um regime democrático nunca implementado plenamente terá de arrumar forças para se levantar, outra vez, contra o golpismo continuado.

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sexta-feira, 31 de julho de 2026

CONTROLE MÁXIMO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Legisladores e magistrados tentam e não conseguem criar boas regras a priori para regular eleições

Risco de normas ultradetalhistas é transferir do eleitor para juízes decisão sobre quem governa

O problema da modernidade é que precisamos viver em sociedades de massa cada vez mais informatizadas com um cérebro que evoluiu para nos fazer prosperar no Pleistoceno, quando o último grito da tecnologia era o domínio sobre o fogo. O ordenamento eleitoral brasileiro padece de descompasso semelhante.

Não é preciso mais do que uma passada de olhos sobre a Lei Eleitoral, a 9.504/97, para perceber que ela foi concebida para um tempo que já não existe. Está preocupada em regular o layout dos santinhos e o tamanho máximo de cartazes, quando a realidade das campanhas é marcada por IA, deepfakes e impulsionamentos. É verdade que temos uma coleção de resoluções do TSE que buscam dar atualidade ao arcabouço regulatório, mas não as classificaria como particularmente felizes.

O problema é que os magistrados, bebendo da mesma fonte de inspiração dos legisladores originais, também se propuseram a exercer controle máximo sobre o processo —algo que não tem como dar certo. Mesmo quando a regra estabelecida é clara, simpatias, confessas ou inconfessas, de um ou mais juízes se encarregam de criar obscuridades. Estamos vendo isso agora com as exuberantes interpretações de Kassio Nunes Marques para deepfakes e a divulgação de pesquisas eleitorais.

E o regramento da Justiça, embora mais atual, não é necessariamente bom. Os dispositivos contra trucagens com IA, por exemplo, acabam vedando usos que me parecem legítimos. Não vejo mal em produzir o material de TV sem a necessidade das caras filmagens externas ou até dispensando o candidato de ir ao estúdio. Sou cético quanto à possibilidade de fazer uma boa regulação a priori sobre a matéria.

E o problema, quando se mantêm um estoque quase infinito de normas eleitorais ultradetalhistas em ambientes hiperjudicializados, é que acabamos transferindo dos cidadãos para magistrados a decisão sobre quem vai governar. A demo

cracia eleitoral tem uma série de problemas e comporta aperfeiçoamentos, mas não penso que tirar o eleitor da equação seja um caminho.

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SEM LULA NA TV, FLÁVIO FOGE PARA NÃO VIRAR ALVO DA DIREITA

Do Blog do Noblat, Metrópoles

Flávio se esconde atrás de Lula para não ter que explicar propostas nem encarar a própria oposição

No programa do Noblat, a bancada analisou o cálculo político por trás da fuga dos debates no primeiro turno e o enquadramento jurídico que aguarda a cúpula do PL no Supremo Tribunal Federal.

A sinalização de que Lula pode faltar aos confrontos de TV abriu uma janela para Flávio Bolsonaro tentar escapar do mesmo palco. Por trás do pretexto de “não ir onde o petista não vai”, o herdeiro do PL busca disfarçar suas conhecidas limitações oratórias e o pavor de virar alvo da própria direita. Sem Lula em cena, candidatos conservadores como Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos fariam de Flávio o saco de pancadas da rodada, já que a única chance de a direita tradicional chegar ao segundo turno é desidratar o pré-candidato do PL.

No campo judicial, o programa abordou a expectativa em torno da decisão do ministro Alexandre de Moraes sobre o uso ilegal de inteligência artificial na convenção do partido. Ao rebater as tentativas bolsonaristas de criar uma falsa equivalência com a situação de Lula em 2018, Ricardo Noblat destacou que o cenário é juridicamente incomparável: ao contrário do petista, que não tinha sentença transitada em julgado nem veto de comunicação, Jair Bolsonaro cumpre pena definitiva de 27 anos e está sob restrição expressa da Justiça que o proíbe de interferir no jogo político.

O uso de avatares e montagens sintéticas na convenção expõe não apenas o desrespeito a duas resoluções expressas do TSE, mas o desespero do clã em burlar as ordens do STF. A tentativa de transformar a pré-campanha em um circo digital reflete a incapacidade do candidato em debater propostas e a opção por atalhos ruidosos para segurar a militância – uma estratégia que aprofunda a rejeição do PL e escancara a fragilidade de quem tenta governar o país fugindo dos debates e desafiando a lei.

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O BRASIL PICOU ?

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Em inglês, 'to peak', picar, é chegar ao pico, ao máximo; e se o Brasil já tiver picado?

Ou se, com os bolsonaros, vorcaros, malafaias e neymares, o Brasil estiver picando hoje?

Os americanos, que vivem em competição doentia com os outros e entre eles próprios, têm uma expressão: "to peak". Significa atingir o pico, o ponto mais alto, o máximo de alguma coisa. Só que eles a usam como verbo: picar. Fulano picou na profissão, a música tal picou em décimo lugar nas paradas, a temperatura ontem picou em 35ºC. No Brasil, não falamos assim, mas poderíamos —e deveríamos. Para um país que há séculos se diz do futuro, o que fazer se, ao contrário do que queremos acreditar, o Brasil já tiver picado?

Ivan Lessa, arguto pensador popular, era dessa opinião. Para ele, o Brasil picou em algum momento entre os anos 1950 e 1960 —de Juscelino a, digamos, 1963. Foi quando tivemos vasta industrialização, urbanização e politização; o país começou a ser exaustivamente "pensado"; a criatividade em todas as categorias chegou a níveis absurdos; éramos adultos, responsáveis e otimistas; e tudo num clima de total liberdade democrática. Claro que esta é só a opinião de Ivan Lessa. Outros poderão atribuir outras épocas ao pico do Brasil. O que interessa é se o Brasil ainda tem jeito ou se já picou mesmo.

Desiludido, Ivan se mandou para Londres em 1978 e morreu lá, em 2012. Imagino se soubesse do Brasil de hoje, o paraíso dos bolsonaros, vorcaros, malafaias, neymares e outros luminares, dedicados a nos fazer de otários em primeiro grau. Eis alguns:

Políticos ligados a milicianos e facções. Influenciadores promovendo estilos de vida irrealizáveis. "Consultores" financeiros recomendando investimentos com lucros fabulosos em ativos sem lastro na economia real. Vendedores de cursos online sobre como ficar rico. Aliciadores de menores na internet. Sem falar em torcedores não mais de futebol, mas de "fubetol" (obrigado, Sérgio Rodrigues), cantores de sofrência pagos em milhões por prefeituras de cidades sem escolas e hospitais; mulheres com peitos pneumáticos, boca de peixe e bochechas de Fofão; etc.

Dúvida atroz: e se, em vez de ter picado no passado, o Brasil estiver picando agora?

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PF TENTOU DRIBLE

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

A PF enviou para a presidência do STF pedido de inquérito contra Lulinha sob um novo relator

A Polícia Federal tentou dar um drible no ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça e retirar da sua batuta as investigações envolvendo Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho do presidente Lula.

Nas apurações do caso do INSS, cujo relator é Mendonça, os investigadores descobriram as ligações de Lulinha com Antonio Carlos Antunes, conhecido como o “Careca do INSS”.

E, lá no meio, estava também uma suspeita de tráfico de influência do filho do presidente Lula a favor do canabidiol junto ao Ministério da Saúde. Antunes chegou a levar Lulinha numa viagem a Portugal sobre o tema.

É praxe em investigações policiais surgirem procedimentos autônomos, vinculados ao eixo principal. Só nos casos Master e INSS, as duas investigações mais polêmicas hoje, chegam a quase 200 inquéritos diferentes.

Sem consultar Mendonça, a PF decidiu que Lulinha merecia um tratamento especial e enviou para a presidência do STF um pedido de abertura de inquérito sob um novo relator. Nas férias do presidente do tribunal, Edson Fachin, quem assume o posto é o primeiro-vice-presidente, o ministro Alexandre de Moraes.

Moraes enviou o tema à Procuradoria-Geral da República (PGR), que não se opôs à escolha de um novo relator. Assim, o inquérito sobre Lulinha partiu para um sorteio. Por aquelas ironias do destino, o sorteado foi o próprio Mendonça. O drible quase funcionou.

Os embates entre a PF e Mendonça nas investigações do INSS não vêm de hoje, mas chegaram ao ponto mais tenso do jogo. Já foram trocados pela cúpula da instituição três delegados que conduzem o caso e um perito. Pessoas que acompanham o assunto de perto dizem que são evidências de pressão política, mas a PF nega.

Mendonça fez uma reclamação formal sobre a morosidade das apurações e a falta de informações sobre o caso nos autos, e cobrou imparcialidade. Recebeu um relatório de oito páginas e voltou a protestar. A PF reagiu e enviou um pedido à Advocacia-Geral da União (AGU) para que encontre um “remédio jurídico” para frear a atuação do ministro e o que considera uma interferência na autonomia da instituição. Mendonça foi indicado para o STF pelo ex-presidente Jair Bolsonaro (PL).

O jogo é pesado, envolve o filho de Lula, que é candidato à reeleição e, vale lembrar, o pleito ocorre em outubro. O senador Flávio Bolsonaro (PL), filho de Jair Bolsonaro, é o principal candidato da oposição.

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¡ARRIBA ARGENTINA !

José Sarney*, Correio Braziliense

A fronteira entre Brasil e Argentina está aí para nos unir, convivendo com a mesma terra, as mesmas árvores, os mesmos problemas, as alegrias e tristezas, sem afetar a união dos povos

Vou tratar de um assunto delicado e até repetitivo, pois muitas vezes o tenho abordado, com a autoridade de quem negociou o fim das relações afastadas, e muitas vezes conflituosas, entre Brasil e Argentina.

É que agora estamos assistindo, depois de um progressivo afastamento entre nossos dois países, a uma série de despautérios do presidente da Argentina contra o presidente Lula, do Brasil, e contra o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), fora dos limites da civilidade, como disse o presidente da Corte, Edson Fachin, com a palavra apropriada e respeitando o vocabulário neutro, domínio da linguagem oficial.

 Este meu artigo se situa, também, no contexto de uma excelente carta feita pela deputada Marcela Pagano, da nação Argentina, ao presidente Lula da Silva, pedindo leniência para o Brasil, para que tenha esquecimento e quase perdão das desastrosas intervenções do Sr. Milei. Não posso deixar de repetir as palavras da deputada Pagano, de total propriedade sobre o que representa o chefe de uma nação:

"Um Estado não é um governo, não é um homem. As nações são entidades históricas: duram mais que os mandatos, mais que as conjunturas e, certamente, mais que os destemperos. O que foi dito não representa a República argentina."

A tese construída que iniciou essa rivalidade entre nossos dois países era — e é — absolutamente falsa: quem dominasse a Bacia do Prata dominaria a América do Sul, ou precisamente, o Cone Sul. Chegou-se mesmo a vislumbrar, naquele tempo das lendas, fantasiosos que nas nascentes estariam o Reino de Prestes João, onde os lagos seriam de águas de ouro. Falava-se de uma criação que nem Deus fizera na face da Terra: rios e lagos dourados.

Mas vamos aos tempos atuais. Agora mesmo, na assinatura do Tratado do Mercosul com a União Europeia, eu escrevi, e o artigo foi publicado no La Nación, de Buenos Aires, que nada se teria construído sem a Argentina, sem Raúl Alfonsín, o grande estadista das Américas, e Sáenz Peña, grande amigo do Brasil; este autor da tese verdadeira "Tudo nos une, nada nos separa", que deve presidir e nortear a diplomacia dos nossos dois países.

Tudo se pode mudar no mundo, menos a geografia. As nossas fronteiras comuns dizem que não podemos nos separar. Estamos unidos para sempre. Miguel Torga, grande intelectual e poeta português, define no seu poema "Fronteira" aquilo que ela tem de manter: o sentimento de pátria sem dividir o sentimento de união. Ele diz: "De um lado terra, doutro lado terra; / De um lado gente; doutro lado gente; / (…) Mas uma força que não tem razão, / Que não tem olhos, que não tem sentido, / Passa e reparte o coração / Do mais pequeno tojo adormecido".

A fronteira está aí para nos unir, convivendo com a mesma terra, as mesmas árvores, os mesmos problemas, as alegrias e tristezas, sem afetar a união dos povos.

Alfonsín foi nesses fatos ainda recentes o grande artífice dessa união. Sem ele, não existiria o Mercosul, nem a Ata de Iguaçu, nem o tratado de morte à corrida nuclear, na concretização da pesquisa nuclear para a paz, apenas para fins pacíficos, civis, de bem-estar do povo.

Quando me reuni com Alfonsín, em Foz de Iguaçu, em 1985, e apertamos as mãos (a deputada Marcela Pagano se refere a esse encontro inaugural), começava um novo tempo, no Brasil, chamado Nova República, para benefício da humanidade, pois, dali, saiu ser a América do Sul o único continente do mundo sem armas nucleares. Ali eu propus ao Alfonsín que iniciássemos uma nova era para a América do Sul, com a política de cooperação entre nossos países, e não de confrontação. De integração. Devo recordar também de Julio María Sanguinetti, então presidente do Uruguai, que acreditou em nosso projeto e foi o primeiro a apoiá-lo.

Agora me dirijo à brilhante deputada Marcela. Ela disse que os dois presidentes daquela época, da Ata de Iguaçu, não estavam mais vivos: "Nenhum dos dois está mais vivo." Estou aqui, deputada Marcela, para repetir aquilo que sempre digo: fui o presidente do Brasil que mais amor teve pela Argentina. E para dizer mais: torci e sofri pela Argentina na Copa do Mundo. E não sou fanático pelo futebol. Contei essa história de meu amor pela Argentina a toda minha família, que participou dessa torcida pelo seu país: eu, com 96 anos, três filhos, 15 netos e 23 bisnetos!…

Gonçalves Dias, o maior poeta brasileiro, foi dado como morto na Europa. No Rio, foram celebradas missas, uma do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Ele, quando soube, escreveu uma carta de próprio punho dizendo: "Não morri! Nem morro! Nem hei de morrer nunca mais!".

Eu não digo tal, apenas peço que não esqueçam aquele trabalho pela paz, meu e de Alfonsín. Pelo que fizemos. Do Mercosul. Do banimento das armas nucleares entre Brasil e Argentina, tornando a América do Sul o único continente no mundo livre dessa ameaça de destruição.

Símbolo dessa amizade indestrutível foi o meu convite a Raúl Alfonsín para inaugurar a Usina Secreta de Aramar, onde se processava o enriquecimento de Urânio. Convite eternizado na placa ali posta: 

"Esta usina foi inaugurada pelo presidente da Argentina Raúl Alfonsín". 

Essa atitude é tida como um exemplo para o mundo.

Só pudemos chegar a essas metas porque Alfonsín e eu fomos os presidentes que implantaram a democracia depois da ditadura e do regime autoritário. Agora, sempre juntos, jogando no mesmo time, Pelé e Messi, Maradona e Ronaldo Fenômeno, Sarney e Alfonsín, Argentina e Brasil.

*José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras

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FALAR SOBRE A GUERRA DO PARAGUAI É DOS PECADOS CAPITAIS DA NOSSA DIPLOMACIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O Paraguai sofreu uma catástrofe demográfica: perdeu quase 90% da população masculina adulta, e sua população foi reduzida a menos da metade. O corpo de López foi profanado

Um dos sete volumes da coleção Plenos Pecados, da Editora Objetiva, Xadrez, Truco e Outras Guerras, do escritor José Roberto Torero, é inspirado na Guerra do Paraguai, o maior conflito armado internacional em que o Brasil esteve envolvido no continente. O livro é uma sátira macabra envolvendo personagens em conflito durante a Guerra do Paraguai. Seu pecado capital é a ira. A narrativa acompanha, de forma ficcional, a implacável perseguição ao mariscal Francisco Solano López, ditador do Paraguai, por determinação do príncipe francês Gastão de Orléans, o Conde d’Eu, comandante-chefe do Exército imperial na fase final da guerra. Casado com a princesa Isabel, herdeira do trono brasileiro, o príncipe francês era mau como o pica-pau.

A guerra começou em 1864, com a apreensão do navio brasileiro Marquês de Olinda e a invasão da então província de Mato Grosso pelas forças paraguaias, e terminou em 1870. O Paraguai sofreu uma catástrofe demográfica: perdeu quase 90% da população masculina adulta, e sua população foi reduzida a menos da metade. Não há provas de que a Inglaterra teria provocado a guerra para destruir um Paraguai industrializado e autônomo.

A memória do conflito permanece tão sensível que boa parte da documentação histórica é cercada por controvérsias sobre seu sigilo. Em 2004, o governo paraguaio chegou a pedir oficialmente acesso a arquivos brasileiros sobre a guerra e da posterior demarcação das fronteiras. Para o Itamaraty, mexer nesse passado sempre significa reabrir feridas que a integração bilateral procura cicatrizar.

Solano López morreu em Cerro Corá, ou Aquidabanigui, em 1º de março de 1870, na última batalha da guerra. Depois da derrota paraguaia em Campo Grande, em agosto de 1869, o que restava de seu exército havia sido reduzido a algumas centenas de combatentes, entre velhos, adolescentes e crianças, famintos, malvestidos e precariamente armados. Em 26 de fevereiro de 1870, o general José Antônio Correia da Câmara avançou contra o acampamento de López à frente de mais de 2 mil homens. Francisco, o Panchito, filho de López, com apenas 15 anos, morreu durante a resistência. Foi uma operação rápida e brutal, de cerco e aniquilamento.

López tentou escapar acompanhado de poucos oficiais, mas foi alcançado por soldados brasileiros. A narrativa oficial sustenta que recusou a rendição e morreu em combate; outra hipótese é que tenha sido executado quando já estava gravemente ferido. O cabo José Francisco Lacerda, o Chico Diabo, atingiu-o com uma lança. Depois, houve um disparo de autoria controversa. Seu cadáver foi mutilado e seus objetos pessoais transformados em troféus.

A espada de López foi enviada ao imperador Dom Pedro II. Sua condecoração ficou com o então visconde do Rio Branco; o general Câmara, com seu relógio, mais tarde doado a um museu. Chico Diabo tomou para si uma faca de prata e ouro com as iniciais FL, de Francisco López. O saque dos objetos pessoais e a profanação do cadáver sintetizam uma campanha de extermínio, na qual a eliminação física de Solano López se confundiu com a destruição do que restava de seu país.

Terreno minado

Outro símbolo desse passado é o canhão El Cristiano, de 12 toneladas, hoje exposto no Museu Histórico Nacional, na Praça Marechal Âncora, no Rio de Janeiro. Fundido com o bronze dos sinos de igrejas paraguaias, foi capturado como troféu. Para os paraguaios, é uma lembrança material da devastação sofrida. Uma boa ideia seria devolvê-lo.

Lula pisou nesse terreno minado: “A gente não pode se esquecer que um belo dia o Paraguai resolveu invadir o Brasil, invadiu Corumbá, ao mesmo tempo invadiu o Uruguai, invadiu a Argentina e aquela guerra, que parecia que era nada, durou cinco anos”. E simplificou um conflito complexo: o Paraguai invadiu territórios do Brasil e da Argentina, mas não invadiu o Uruguai, porque Solano López apoiava o governo blanco uruguaio e considerava a intervenção brasileira naquele país uma ruptura do equilíbrio regional.

A reação de Assunção às declarações era previsível. O presidente Santiago Peña telefonou a Lula, e o embaixador brasileiro, José Antônio Marcondes de Carvalho, foi convocado para receber uma nota oficial. Esse é um gesto formal de descontentamento. O Paraguai se enxerga como vítima de um massacre.

O estresse diplomático ocorre durante as negociações do Anexo C do Tratado de Itaipu, que define as bases financeiras e comerciais da energia produzida pela hidrelétrica. A tarifa foi fixada em US$ 19,28 por quilowatt até 2026, mas continua pendente a definição das regras para a comercialização do excedente paraguaio. Cada país tem direito a 50% da energia, e o Paraguai cede ao Brasil a parcela que não consome. Assunção quer negociar essa energia no mercado e obter uma remuneração maior. Itaipu é estratégica para o sistema elétrico brasileiro.

A relação já havia sido agastada pela revelação de que a Agência Brasileira de Inteligência teria invadido sistemas do governo paraguaio para obter informações sobre a posição de Assunção nas negociações, no governo Jair Bolsonaro e no início da atual administração. O secretário de Estado norte-americano, Marco Rubio, defende que o excedente energético seja utilizado para alimentar centros de dados e projetos de inteligência artificial das big techs, que seriam instalados no Paraguai. A alternativa fortalece o poder de barganha de Assunção.

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UMA BOA E UMA MÁ NOTÍCIA PARA FLÁVIO BOLSONARO

Vera Magalhães, O Globo

Ele recebeu aceno favorável da vice dos sonhos e teve de trocar de marqueteiro pela segunda vez em poucos meses

No dia em que recebeu um aceno favorável da senadora Tereza Cristina, a vice dos sonhos para sua chapa, Flávio Bolsonaro teve de escolher o terceiro marqueteiro em poucos meses. A boa notícia ainda precisa de confirmação, e a má evidencia o caos que reina na comunicação da campanha, fruto da propensão da família a intervir nessa área mais que nas outras.

A dobradinha com a colega de Senado e ex-ministra da Agricultura de seu pai traria para Flávio dois atributos de que ele carece: credibilidade e ascendência junto ao eleitorado feminino. Tereza Cristina é uma política respeitada em setores da economia que não se restringem ao agronegócio. Conseguiu a proeza de ficar do início ao fim do governo Bolsonaro sem se envolver em polêmicas, saiu ilesa em episódios como a ideia de “passar a boiada” nas pautas antiambientais ou os questionamentos sobre a eficácia das vacinas e sobre as urnas eletrônicas.

É vista como nome técnico num mar de ideológicos, moderada em meio aos radicais, uma âncora de estabilidade num agrupamento que adora uma treta. Apesar de não ser uma feminista militante ou uma defensora em especial das pautas de gênero, sua presença ajudaria a aplacar a imagem associada ao bolsonarismo: a reprodução de falas e atitudes misóginas ou machistas. Ela também poderia desempenhar um papel para apaziguar os ânimos entre Flávio e Michelle Bolsonaro e para atenuar o estrago feito pelo vídeo da ex-primeira-dama, que reforçou a ideia de que o enteado trata as mulheres com desprezo e desrespeito.

O obstáculo para a concretizar a chapa é a preferência da conturbada federação União Progressista por ficar livre, leve e solta na eleição presidencial, para que cada seção estadual possa conduzir suas próprias alianças sem a obrigatoriedade de compromisso com o presidenciável do PL.

Há vários emissários imbuídos da tentativa de convencer o agrupamento comandado a muitas mãos a topar oficializar a aliança —algo que seria mais fácil quando Flávio estava mais próximo de Lula nas pesquisas. Mas é inegável que houve um avanço importante, uma vez que, até o encontro com o pré-candidato na quinta-feira, ela repetia a cada oportunidade que seu plano era concorrer à reeleição e postular a presidência da Casa.

O imbróglio no marketing parece mais difícil de contornar. A chegada do jornalista Alexandre Oltramari parecia apontar para a profissionalização da campanha, mas a gestão das sucessivas crises da pré-campanha evidenciou que a última palavra nessa seara sempre será da família.

Ideias que se mostraram contraproducentes — como a ida de Flávio a Washington seguida do anúncio de novo tarifaço contra o Brasil ou o convite a Javier Milei para participar da convenção do PL e cuspir marimbondos na direção de Lula e Alexandre de Moraes — são exemplos de intervenções diretas de Eduardo Bolsonaro que o time da comunicação teve de engolir.

Duda Lima, o terceiro titular a assumir a missão de dar uma roupagem “moderada” ao filho Zero Um de Jair, enquanto os irmãos forçam a mão na sinalização à ala mais radical e já convertida do bolsonarismo, ao menos tem a vantagem de já ser gato escaldado na maneira nada técnica como o clã toca a comunicação. A vitória em 2018, a partir de perfis do Facebook, mensagens de WhatsApp e nenhum tempo de TV, ajudou a consolidar a ideia duvidosa de que Carlos Bolsonaro é uma espécie de entendido em marketing político.

Nem as muitas crises no governo, como o gabinete do ódio ou o “sequestro” de senhas do presidente da República pelo filho, nem a derrota em 2022 tiraram seu trânsito na área, e Flávio, o menos ideológico dos três filhos do primeiro casamento, tem pulso suficiente para conter os irmãos. Diante da deserção do segundo escolhido, Duda voltou atrás em sua alegada disposição de se aposentar do marketing político e conta com a carta branca de Valdemar Costa Neto para se blindar dessa ingerência. O tempo dirá se funcionará.

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FLÁVIO BOLSONARO TROCA MARQUETEIRO, MAS PARECE PRECISAR DE UM MILAGREIRO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Campanha do PL produz crises em série desde revelação de diálogos com Vorcaro

Quando as coisas vão mal na política, sempre surge alguém para culpar a equipe de comunicação. A sina se repete na campanha de Flávio Bolsonaro, que acaba de demitir o segundo marqueteiro em dois meses.

Em maio, o PL rifou Marcello Lopes, o Marcellão. O partido explicou que desejava profissionalizar a propaganda, trocando um amigo do candidato por um publicitário renomado.

Ontem a sigla dispensou Eduardo Fischer, que fazia dobradinha com o consultor Alexandre Oltramari. A dupla foi substituída por Duda Lima, que coordenou a campanha derrotada de Jair Bolsonaro em 2022.

O novo marqueteiro de Flávio é homem de confiança do presidente do PL, Valdemar Costa Neto. Até há pouco tempo, jurava que não participaria mais de eleições. Deve ter ouvido milhões de argumentos para mudar de ideia a menos de 70 dias das urnas.

Até aqui, a campanha do senador tem se mostrado imbatível na produção de crises. A maior foi o pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro, a pretexto de financiar um filme sobre o pai.

Os áudios colaram a imagem do candidato a um corruptor serial, que distribuía mesadas, mordomias e outras benesses a figurões da República. O efeito nas pesquisas foi imediato, e o presidente Lula voltou a abrir vantagem nas simulações de segundo turno.

Depois surgiu o vídeo-bomba de Michelle Bolsonaro, que acusou o enteado de desrespeitá-la e humilhá-la na disputa pelo espólio do capitão. Em seguida, Flávio foi a Washington beijar a mão de Donald Trump, associando-se a um novo tarifaço contra o Brasil.

Na semana passada, o senador ressuscitou o fantasma do golpismo, atacando a urna eletrônica com acusações já desmentidas pelo TSE. Para sorte dele, o atual presidente da Corte não parece muito preocupado em defendê-la.

Na tentativa de gerar um fato positivo, ontem o PL fez circular um acerto para que a senadora Tereza Cristina seja a vice de Flávio. Falta combinar com a cúpula do PP, que resiste a embarcar na chapa diante de tantos problemas.

Enquanto o candidato continuar chutando contra o próprio gol, não adianta mudar o marqueteiro. Melhor procurar um milagreiro.

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O CERCO AMERICANO AO CAPITALISMO

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá

Para entender as aberrações de conduta política do presidente americano e de seu secretário de Estado em relação a países como o nosso, é sociologicamente incorreto imputar a Lula e às esquerdas a responsabilidade pela polarização ideológica que nos sufoca e cerceia.

Responsabilizá-los ainda é parte do jogo político da polarização promovida pelo “centro”. Em várias partes, as esquerdas da era pós-stalinista jogam o jogo já feito para nele identificar e superar seus erros, suas brechas, e ocupá-las.

As esquerdas já entenderam que não são elas que fazem o jogo político contemporâneo pois já feito pelas irracionalidades, pelas ambições de riqueza e poder, pela corrupção, que delas decorre. Há muito, o mundo não está polarizado entre capitalismo e comunismo. Está determinado pelo mero crescimento econômico a qualquer preço, de lucro imediato e desmedido, sem desenvolvimento social.

As esquerdas assumiram a função política de agentes de consciência social crítica das contradições autodestrutivas do capital.

Tudo sugere que o modelo capitalista americano está em decadência. Defende-se combatendo o capitalismo no país dos outros, como o nosso, o México, o Canadá. Isso não é coisa de agora. Em relação a nós, vem de longe.

É preciso definir as temporalidades do crescente processo de ação americana em suas relações internacionais no sentido de monitorar e limitar economias do Terceiro Mundo e, no que nos interessa, cercear o desenvolvimento capitalista na América Latina e, em particular na Argentina, no México e no Brasil.

O capitalismo se desenvolveu mais típica e caracteristicamente na Inglaterra, onde ocorreu a primeira revolução econômica capitalista. O Brasil nasceu, como país independente, patrocinado e financiado pela Inglaterra, que concebeu nossa independência e a financiou como parte do projeto inglês de potência econômica colonial. Esse plano está num documento de 1805 da Biblioteca Britânica, de Londres.

Quando a crise do capitalismo abateu o capitalismo inglês, o eixo da economia internacional se deslocou para os EUA. Surgiu a “doutrina” da América Latina como quintal americano, agora ainda invocada pelo governo Trump. O chamado imperialismo surgiu geopoliticamente como um modo de impedir a expansão territorial do capitalismo, para concentrar na metrópole sua poderosa capacidade de produzir riquezas e distribuí-las parcimoniosamente por menos do que o apetecido pelos subdesenvolvidos.

Antes mesmo de consolidar-se a transferência da hegemonia econômica da Inglaterra para os EUA, os americanos já temiam e estavam preocupados com o desenvolvimento da indústria no Brasil. Nos anos 1920, o Departamento de Comércio realizou na Argentina e no Brasil uma pesquisa sobre o desenvolvimento industrial nos dois países.

Descobriu que ambos tinham um desenvolvimento industrial significativo, com capacidade ociosa para atender a demanda interna de produtos industrializados numa eventual crise que dificultasse a importação de bens de consumo. Nossa industrialização não nasceu da crise do café, como equivocadamente supôs Celso Furtado, que não examinou os documentos americanos para explicá-la.

Os nossos engenheiros, mesmo os formados nas escolas militares, e nossa mão de obra qualificada, foram capazes de inventar peças e máquinas, começaram a substituir importações substituindo peças desgastadas de máquinas importadas por peças fabricadas aqui mesmo, artesanalmente, com a reciclagem de ferro-velho. Ou importação de matéria-prima.

Mesmo a espionagem industrial entrou no jogo. Antônio Pereira Inácio, que seria sogro de José Ermírio de Moraes, expressão da burguesia nacional, fez isso em empresas americanas. Quando decidiu voltar ao Brasil e montar sua própria indústria, devolveu à empresa que espionara todos os salários recebidos.

O exemplo que entre nós evidencia o quanto o capitalismo americano é anticapitalista é o da biografia de Roberto Cochrane Simonsen, industrial e político. Com o fim da Segunda Guerra Mundial, os americanos montaram o Plano Marshall para aplicar recursos de rápido desenvolvimento econômico nos países vencidos, especialmente na Europa.

Roberto Simonsen foi aos EUA defender que o Plano Marshall fosse estendido à América Latina, que se transformaria numa potência econômica. Os americanos recusaram o apoio. Sem dizê-lo, não queriam que a América Latina se transformasse numa potência capitalista. Ficamos confinados nos limites bem definidos de um subcapitalismo, como o definiu Fernando Henrique Cardoso.

O golpe de 1964 foi patrocinado pelo governo americano em nome da geopolítica da dominação econômica. Para não sermos o que tínhamos condições de ser.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL E SUA AÇÃO NOS TRÓPICOS

Artigo de Fernando Gabeira

Existe um abismo entre o avanço da inteligência artificial (IA), governantes e instituições que precisam interagir com a tecnologia. Estou no fundo desse abismo. Mas resisto. Tirei férias da TV e direcionei meus estudos para o tema. Há muito que aprender com os mais avançados e com os próprios setores da tecnologia que reconhecem esse abismo e querem cooperar por entender que o impacto da IA será muito produtivo se a sociedade se preparar para ele.

Quando leio uma entrevista como a de Elon Musk à The Economist ainda tenho algumas dúvidas. Musk prevê uma era de abundância na qual todos serão contemplados, inclusive os mais pobres, com uma renda mínima universal. É razoável supor que a riqueza será ampliada com a IA. Mas é preciso explicar como teremos uma idade do ouro, com uma extraordinária produção, se nossos recursos naturais são limitados, alguns deles tendem a ficar escassos no futuro próximo. Como a riqueza humana se multiplicará quando minguam os recursos naturais?

Nem Musk nem autores mais contidos entram nesses detalhes. Em artigo intitulado O que a humanidade precisa para florescer na nova década, três autores, Glen Weyl, James Evans e Chris White, mencionam apenas os ajustes sociais à revolução da IA, mas não tocam no assunto dos grandes eventos climáticos e da exaustão dos recursos naturais.

Minha suposição é a de que todos eles acreditam na capacidade tecnológica de superar todos esses problemas. No caso de Musk, a esperança de colonizar Marte adiciona mais um fator de autoconfiança.

A conquista do espaço pode tornar supérflua a preocupação com a escassez terrena. Mas o artigo de Weyl, Evans e White nos dá uma boa ideia do que temos pela frente para avançarmos para mudanças que revolucionarão nossas vidas. Há nela uma importante lembrança. Bilhões de dólares são investidos na tecnologia da IA. No entanto, quase não se investe na sociedade para que possa se adaptar e tirar proveito dos avanços. Não há dinheiro para formar funcionários públicos, preparar políticos, fortalecer grupos sociais para que sejam parceiros nesse empreendimento.

Um dos resultados dessa disparidade é o fato de que os governos não são capazes de analisar um novo modelo de IA para autorizar seu funcionamento. Musk sugere que as próprias empresas se reúnam e analisem os lançamentos. Seria uma espécie de autoregulação por incapacidade dos órgãos públicos.

Dá para confiar nos donos das empresas? Quem lê a história da IA, constata que todos são idealistas no princípio, querem construir algo para a humanidade. Mas a história da OpenIA mostra que quando se pensou em dinheiro para manter o projeto, Musk e Sam Altman se separaram. Musk não aceitava não ser o presidente e marcharia para construir a sua própria empresa. Altman, por seu lado, passou a acreditar que só o monopólio interessava à empresa, porque muitos competidores são bons para os usuários, mas não para o empresário.

Em síntese, os mais claros impulsos capitalistas passaram a dominar o campo. Com isso, abrem um espaço para um competidor especial: a China. Não dá para abordar todas as questões em jogo. Mas no tópico IA e democracia é necessário enfatizar a experiência do partido japonês Team Mirai, um dos que mais crescem no País. É um partido atualizado com a IA que processa as sugestões de seus simpatizantes e os transforma em propostas concretas.

O Team Mirai foi criado por um engenheiro eletrônico, Takashiro Anno, e teve um crescimento espetacular nas últimas eleições japonesas. Esse salto tecnológico do Team Mirai o colocou à altura da democracia digital. Os eleitores opinam diretamente e não precisam perder tempo em fazer contato com os políticos.

A própria inteligência artificial os entrevista e suas ideias são colocadas em painéis que orientam as decisões do partido. Isso não significa que todos devam seguir o mesmo caminho nem que os eleitores de outros países vão levar a sério a experiência como os japoneses.

Esses mecanismos democráticos, de alguma maneira, já foram experimentados no Brasil, antes da IA. Curitiba, por exemplo, tem uma interação com os moradores, responde às suas queixas, e os alista como colaboradores. Com isso, ganha uma lista de pessoas que podem ser consultadas em caso de obras ou projetos na sua área.

A verdade é que a IA vai multiplicar as oportunidades no campo político. Infelizmente ainda precisa resolver muitas coisas, uma delas no plano pessoal. Como proteger as pessoas de imitações, da falsificação de sua voz e imagem? Há um debate intenso nesse campo, com sugestões que certamente resolverão o problema. Mas estamos diante de transformações muito amplas, correndo num ritmo alucinante comparado com o das instituições sociais: o abismo pode se transformar em algo muito perigoso.

A iniciativa de um grupo político, um pequeno partido que fosse, talvez pudesse alterar o rumo de governos e instituições para o abismo e obrigasse a uma reflexão mais ampla sobre como se adaptar à nova tecnologia, sobretudo um país com tanto futuro como o Brasil.

Artigo publicado no jornal O Estado de S.Paulo em 31 / 07 /2026

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É DIFÍCIL COMBATER DESCONFIANÇA NO SISTEMA ELEITORAL

Pablo Ortellado, O Globo

Um cidadão típico não consegue entender toda a cadeia de controle das eleições

Na semana passada, Flávio Bolsonaro deu declarações expressando desconfiança no sistema eleitoral brasileiro em evento com diplomatas. Alguns dias depois, segundo reportagem do Washington Post, o governo Trump designou dois assessores do Departamento de Estado para viajar para o Brasil e produzir um relatório sobre a integridade do nosso sistema. Ao que tudo indica, o tema da confiança nas urnas eletrônicas mais uma vez se tornará central nas eleições.

A desconfiança no sistema de votação tem se tornado um problema global, não apenas no Brasil. Assistimos, porém, não ao aumento global da desconfiança, mas à organização política de uma desconfiança que sempre foi significativa. A série global mais sólida de que dispomos, da Gallup, mostra que, em democracias liberais, a desconfiança vem oscilando nos últimos 20 anos, sempre em torno de um terço da população. É uma parcela significativa, mas não tem crescido.

Esse nível de desconfiança tem uma explicação simples. Um cidadão típico não consegue entender toda a cadeia de controle das eleições: detalhes da programação, preparação das máquinas, arquivamento dos votos, transmissão, totalização e diferentes métodos de auditoria. A confiança é delegada. A assimetria entre a complexidade e invisibilidade do processo eleitoral e a capacidade individual de verificá-lo produz desconfiança residual na população.

A confiança no sistema eleitoral não parece ter a ver com a qualidade. Um levantamento editorial na respeitada revista acadêmica Public Opinion Quarterly constatou que não há qualquer relação estatística entre a qualidade do sistema de votação — medida por um painel de especialistas — e a confiança nas eleições — medida em pesquisa de opinião. Um país como o Irã, que os especialistas consideram ter processo eleitoral frágil, conta com alta confiança da população. Ao mesmo tempo, Brasil e Estados Unidos, que eles julgam ter sistemas confiáveis, têm um dos índices mais baixos.

Sabemos pouco sobre o que gera a desconfiança. Uma das poucos fatos conhecidos é que apoiadores do vencedor tendem a considerar a votação mais confiável que adeptos do derrotado. Isso não significa necessariamente uma crença oportunista: o resultado altera emoções e a interpretação sobre o que aconteceu.

Uma pesquisa nos Estados Unidos com quem acreditava que Trump provavelmente venceu as eleições de 2020 mostrou que suas conclusões raramente dependiam de uma prova decisiva. Eram sustentadas por um acúmulo de suspeitas: sobre fragilidades nas urnas e no voto pelo correio, mudanças no padrão da contagem, comportamento da imprensa e impressão de que muitas perguntas permaneciam sem resposta. Muitos reconheciam não ter prova definitiva, mas consideravam que a soma das “coisas estranhas” tornava a fraude plausível e provável.

Aparentemente, as crenças sobre a confiabilidade do sistema eleitoral, das autoridades eleitorais e do resultado final formam um sistema interligado coerente, difícil de desarticular. Um esclarecimento pontual pode levar à substituição de uma suspeita por outra, que segue mantendo a desconfiança de pé — de maneira que é fácil chancelá-la e muito difícil desmontá-la. No caso do Brasil, além do sistema de desconfiança difuso constituído pelas suspeitas sobre o código-fonte, a sala de contagem “secreta” e mudanças “bruscas” na apuração, há também uma Justiça que se esforçou por não parecer técnica e equilibrada.

A desconfiança não parece baseada em certezas, mas em suspeitas vagas, produzindo comportamentos ambíguos. Os bolsonaristas dizem acreditar que quem ganhou as eleições em 2022 foi Bolsonaro — 62% deles acreditam nisso, segundo pesquisa da More in Common/Quaest de 2025 —, mas seu comportamento participando e endossando as eleições em 2024 e agora em 2026 não parece consistente com uma convicção forte num sistema fraudado. Acontece o mesmo com os lulistas que chamavam o impeachment da Dilma de golpe, mas seguiram agindo como se vivessem num sistema essencialmente democrático.

Talvez nosso problema atual seja fruto de um sistema de votação complexo e invisível que, combinado com o viés de perdedor e com o desgaste institucional da Justiça, produz incertezas e dúvidas, exploradas por lideranças populistas. Podemos mitigar marginalmente a desconfiança com propaganda de esclarecimento, mas o que será decisivo para nossa estabilidade democrática é o comportamento mais ou menos responsável das lideranças bolsonaristas.

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quinta-feira, 30 de julho de 2026

MINISTROS VEEM ABUSO E QUEREM FREAR IA

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Ministros do TSE veem abuso em vídeo com Bolsonaro e querem frear uso exagerado de IA em campanhas

Irregularidade não deve causar cassação do registro de Flávio Bolsonaro, mas pode gerar alerta para candidatos

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) está diante do primeiro grande desafio sobre o uso de inteligência artificial nas campanhas deste ano. A Corte está para decidir se configura ou não abuso o vídeo exibido na convenção do PL com um avatar de Jair Bolsonaro pedindo voto para o filho Flávio, candidato a presidente.

Três dos sete ministros do TSE falaram à coluna em caráter reservado. Para um deles, não houve abuso. Segundo esse ministro, a tecnologia pode ser usada em qualquer situação, desde que não seja para disseminar notícia falsa ou para prejudicar alguém.

Outro ministro diz que houve, sim, abuso na exibição do vídeo. Ele alerta para o trecho da norma do tribunal que proíbe o uso da IA “para prejudicar ou para favorecer candidatura”, ainda que haja autorização da pessoa cuja imagem foi modificada – no caso, Jair Bolsonaro.

Um terceiro integrante da Corte concorda e acrescenta que, além da irregularidade no uso da IA, houve pedido de voto antes do período eleitoral, o que também pode resultar em condenação.

Os ministros que enxergam irregularidade na exibição do vídeo ponderam que não há potencial para ensejar cassação do registro da candidatura de Flávio. Se houver condenação, a pena deve ser o pagamento de multa e a ordem de retirada do conteúdo do ar. A convenção do PL foi reproduzida em postagens nas redes sociais e no YouTube.

Um dos ministros sugere que o caso do PL seja um divisor de águas na tentativa de frear o uso disseminado de IA em campanhas.

Ele defende que, no julgamento, o TSE declare que o uso sistemático e exagerado de IA configura abuso – e, portanto, pode ter como consequência a cassação de candidaturas.

O caso será analisado pelo presidente do tribunal, Kassio Nunes Marques, e, somente depois, deve ser submetido ao plenário. Integrantes do TSE apostam que o presidente não verá problema na exibição do vídeo com IA de Bolsonaro na convenção.

A discussão passa não apenas pela seara eleitoral, mas respinga na criminal. Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), vai decidir se o episódio configura descumprimento de ordem judicial por parte de Bolsonaro. Condenado por tentativa de golpe de Estado, o ex-presidente está em prisão domiciliar e foi proibido de se manifestar sobre política.

A expectativa é a de que, ainda que considere que houve ilícito no episódio, Moraes não mande Bolsonaro de volta para a prisão. Em outra frente, a decisão do TSE de punir ou não Flávio pode ser alvo de recurso ao Supremo. É esperado que o STF considere irregular a exibição do vídeo, gerando punição para a candidatura. 

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UM BANANA NO PLANALTO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Flávio B. em campanha se reduz a um coadjuvante choramingas de quem estiver ao seu lado

Se é pífio como candidato, imagine como presidente; mas, e se for isso que a Faria Lima quer?

O sujeito não para em pé, suspira a Faria Lima. Na pífia cerimônia do lançamento de sua candidatura à Presidência na semana passada, em São Paulo, Flávio Bolsonaro deu mais um motivo para os agros, financistas e empresários suspeitarem que (por falar em cavalo) estão apostando no cavalo errado. Flávio B. reduziu-se a coadjuvante de seu convidado, o bufão Javier Milei, e de um telão estrelado por uma piedosa IA de seu pai e por sua madrasta, a gélida Michele. É o papel historicamente reservado ao 01 –sempre próximo de zero.

A essa tíbia performance, os mais atentos acrescentarão o áudio em que Flávio B. implorou a seu chapa Daniel Vorcaro que mandasse mais dinheiro para "Dark Horse", seu megafilme B.: "A gente tá passando por um dos momentos mais difíceis da nossa vida, meu irmão. Não sei como vai ser daqui pra frente. Tá nas mãos de Deus aí. Apesar de você ter dado liberdade pra gente te cobrar, fico sem graça de ficar te cobrando, mas tem muita conta pra pagar. Tá todo mundo tenso, imagina a gente dando calote nesses caras renomadíssimos do cinema mundial. Se você puder dar um toque... Desculpa o áudio longo, tá? Fica com Deus, cara".

Outras choramingas se deram quando Flávio Bolsonaro descobriu que o mortífero tarifaço que pedira e conseguira de Donald Trump reverteria em votos para Lula. Aflito, mandou uma mensagem a Trump suplicando que suspendesse as taxas até a eleição —depois elas poderiam voltar— e sugerindo que, se eleito, conduziria a economia brasileira de acordo com os interesses dos EUA. Trump ignorou-o e mandou as taxas do mesmo jeito.

O que dizer da incompetência de B. Junior para firmar alianças, garantir palanques, aliciar partidos que lhe dêem mais tempo de mídia e desencavar uma mulher para vice? E se lhe der um treco e ele desmaiar de novo num debate, como em 2016?

Se Flávio Bolsonaro é tão banana enquanto candidato, como seria se presidente? É o que os farialimers se perguntam. Ou talvez seja exatamente o que a Faria Lima quer —um bom banana no Planalto.

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FLÁVIO BOLSONARO REPETIRÁ TRUMP E MILEI SOBRE A OMS ?

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Candidato irá se comprometer publicamente a manter o Brasil na organização ou a saída do órgão faz parte dos seus planos de governo?

Desfiliação tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo por Trump e seu colega argentino

A desfiliação da OMS (Organização Mundial da Saúde) tornou-se uma bandeira da direita nas Américas, implementada pelo presidente Donald Trump e o seu colega argentino Javier Milei.

A saída do Brasil também chegou a ser cogitada por Jair Bolsonaro em 2020. No auge da pandemia da Covid-19, Bolsonaro disse que poderia deixar de integrar a organização se ela não abandonasse o que chamou de viés ideológico.

Dada a proclamada proximidade dos Bolsonaros com Trump e Milei, é mais do que natural que na campanha eleitoral se queira saber se o candidato Flávio Bolsonaro irá se comprometer publicamente a manter o Brasil na OMS ou se a saída do órgão faz parte dos seus planos de governo.

No caso da OMS, é bom rever o passado recente. Trump determinou a saída da organização em janeiro de 2025, no dia de sua posse para o segundo mandato. A retirada tornou-se efetiva em janeiro de 2026.

A Argentina seguiu o mesmo caminho. Javier Milei divulgou a saída 16 dias depois do anúncio do americano, repetindo as críticas feitas pelo republicano.

É legítimo criticar a OMS e defender reformas. O que não faz sentido é tratar uma eventual saída do Brasil como um tema secundário. A organização coordena a rede internacional de vigilância de epidemias, que permite identificar surtos, compartilhar informações e coordenar respostas a emergências sanitárias.

O Brasil tem uma responsabilidade especial nesse debate. Foi um dos países que ajudaram a idealizar a organização, que teve o brasileiro Marcolino Candau como o diretor-geral mais longevo de sua história. O país também construiu uma tradição de liderança em saúde pública reconhecida internacionalmente.

É um tema de extrema relevância para a população —e, assim como o financiamento do SUS e tantos outros, está fora do debate. A dois meses das eleições, discussões rasas, planos de governo genéricos e um modelo de campanha de estímulo à polarização dificultam o debate.

Sem compromissos assumidos, não tem como cobrar depois. É voto no escuro.

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NUNES MARQUES PODE CRIAR O DEEPFAKE DO BEM

Julia Duailibi, O Globo

Se ele inovar, na contramão do tribunal que preside, lançará o conceito da desinformação inofensiva

Quis o destino — ou o sistema de distribuição dos processos do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) — que a ação movida pelo PT contra o senador Flávio Bolsonaro, pelo uso de IA na convenção do PL, fosse parar nas mãos do ministro Nunes Marques. Caberá agora ao presidente do TSE decidir se segue o entendimento atual, que proíbe o uso de deepfake nas campanhas, ou se inova e propõe a liberação da tecnologia na eleição deste ano, endossando os argumentos da campanha de Flávio.

O TSE proíbe o uso de IA para criar imagem e voz de pessoas de maneira realista nas eleições, conhecido como deepfake. Resolução de 2019, alterada e reforçada por outras duas, em 2024 e em 2026, veda a tecnologia, seja para prejudicar ou favorecer determinada candidatura, seja com ou sem autorização daquele cuja imagem e voz foram sintetizadas.

A defesa de Flávio diz que deepfake não é necessariamente deepfake. Numa inovação sobre o conceito, sentencia que o recurso só existe quando há “falseamento profundo e inescapável”. Bolsonaro pai apoia Bolsonaro filho, seja sinteticamente ou em carne e osso. Por isso, diz não haver “enganosidade” nem indução do eleitor a erro. A defesa conclui que o vídeo de Bolsonaro sintético é apenas a ampliação de recursos que sempre foram usados, como os “bonecos de papel” nas convenções partidárias: “Houve apenas a criação de um ‘boneco tecnológico’”.

Recentemente, o TSE reforçou o entendimento contra o deepfake, na contramão do que sustenta a defesa. Num julgamento em março sobre o uso da tecnologia na eleição em Fortaleza, em 2024, o TSE condenou de maneira unânime seu uso. E mais importante: disse que o deepfake está proibido “independentemente da comprovação de potencialidade para induzir o eleitor em erro”. O caso envolvia a campanha do candidato do PT à Prefeitura, que usou a tecnologia para divulgar vídeos de Barack Obama, Taylor Swift e Tom Cruise pedindo votos para ele — o conteúdo era todo sintético, é claro. Ninguém acreditou nos cabos eleitorais, mas não importa. A regra do TSE, como se viu, não leva isso em consideração. Proíbe o uso e ponto.

A proibição veio em 2024, por sugestão do Clube Associativo dos Profissionais de Marketing Político ao TSE. À época, o presidente da entidade, Bruno Hoffmann, disse:

— Essa vedação expressa é crucial. Não podemos dar margem ou autorizar, mesmo com advertência, algo que tenha fake no nome.

O ministro Alexandre de Moraes, ex-presidente do TSE, disse que é pacífico o entendimento atual do tribunal sobre o uso de deepfake. Moraes analisa as implicações da tecnologia noutra seara, a execução penal de Bolsonaro. Se ele autorizou a divulgação de sua imagem sintética, descumpriu regra da prisão domiciliar e pode voltar à Papudinha — Bolsonaro nega que tenha autorizado.

Nunes Marques votou contra o uso do deepfake no caso de Fortaleza, mas agora pode adotar visão distinta. Indicado por Jair ao STF, evita polemizar com a campanha de Flávio. Os próprios colegas da Corte avaliam que ele deveria ter sido mais firme na recente crise aberta por Flávio ao mentir sobre as urnas. Se o presidente do TSE resolver inovar, na contramão do próprio tribunal que preside, lançará o conceito da desinformação inofensiva. O deepfake do bem.

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O RISCO QUE LULA CORRE NA ELEIÇÃO

Míriam Leitão, O Globo

Interlocutores do governo identificaram um clima de “já ganhou” entre autoridades, o que é um duplo erro. É preciso ter projeto para o mandato

Há uma avaliação entre interlocutores do atual governo, de que teria se espalhado dentro da administração a convicção de que a eleição está ganha. Em vez de apresentar um projeto para o próximo período, a presidência e os ministros apenas dizem que os programas seriam a continuidade do atual. O erro primeiro é que nenhuma eleição está resolvida de véspera; apesar do favoritismo do presidente Lula há incertezas pela frente. O segundo equívoco é não perceber que o próximo mandato presidencial tem desafios específicos que precisam ser enfrentados com propostas sólidas.

Uma questão que preocupa os economistas é o desequilíbrio fiscal. O déficit primário caiu no atual mandato na comparação com os quatro anos anteriores, mas a PEC da Transição produziu uma história nessa gestão diferente do que normalmente acontece. Em geral, apertam-se os gastos nos primeiros anos para ampliá-los no final. Desta vez houve um forte relaxamento fiscal no início. O governo diz que encontrou um Orçamento impossível de ser executado e despesas escamoteadas. É verdade. Os precatórios não estavam sendo pagos, o governo Bolsonaro elevou benefícios sociais durante a eleição, mas não incluiu previsão para esses novos patamares de gastos no Orçamento de 2023. Por isso houve a PEC da Transição.

O problema é que as despesas previdenciárias subiram muito fortemente porque foram retomados os aumentos reais do salário mínimo ao qual quase todos os benefícios estão vinculados. O arcabouço fiscal substituiu um parâmetro em ruínas que era o teto de gastos. Mas ao abusar do expediente de tirar gastos da conta final, o próprio arcabouço perdeu a credibilidade.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, teria indicado em conversas com o mercado financeiro que pode apertar as regras do arcabouço. Segundo reportagem de Fábio Graner e Manoel Ventura, em conversas de bastidores Durigan tem dito que pode ser reduzido o ritmo de crescimento do teto de gastos que hoje é 2,5%. Cairia para 1,5% ou 2%. Isso é pouco e tarde. É preciso ter um programa mais forte para implementar no ano que vem, até porque contingências como a guerra no Oriente Médio e o novo tarifaço americano levaram o governo a implementar planos para ajudar as empresas atingidas.

Em qualquer área o “mais do mesmo” está longe de ser o suficiente num país com tantas carências. O início em ministérios como Saúde, Educação, Cultura e Meio Ambiente foi o de mudar a conduta do governo anterior, reequipando a máquina e reimplantando políticas públicas. Houve resultados concretos. O Meio Ambiente reverteu a tendência de alta do desmatamento e derrubou a taxa a níveis historicamente baixos. Mas este não é o único problema da área ambiental.

Todo governo precisa de um projeto, com metas, avaliação de resultados, correções de rumo. É por isso que cada mandato é dividido em quatro anos. O caminho mais fácil para errar é o de achar que o resultado favorável na eleição está garantido.

O quadro eleitoral está instável, a campanha ainda não começou, as chapas estão se formando. Basta ver o desencontro de informações sobre quem será candidato em Minas Gerais, um dos mais importantes e decisivos colégios eleitorais do país.

O candidato do PL à Presidência, Flávio Bolsonaro, enfrenta o desgaste de todos os seus erros, não tem o apoio de partidos que se alinharam à direita. O candidato do PSDRonaldo Caiado, tenta abrir brecha na direita e se apresentar como a alternativa ao antipetismo. O candidato do Novo, Romeu Zema, faz apenas a defesa do partido que pode ficar sem bancada. De qualquer maneira todas as peças estarão se movendo no tabuleiro nestes próximos dois meses.

A formulação do programa foi entregue a petistas históricos em vez de se ampliar o arco de alianças, dado que a campanha precisa enfrentar novamente as ameaças à democracia. O debate e a divulgação do que se pretende fazer não teve qualquer visibilidade. Os interlocutores do governo se impressionam com o fato de que eles falam do ano que vem como se não houvesse uma eleição pela frente. Falam com a certeza de que nada vai mudar. Era o mesmo comportamento que tinha o governo Bolsonaro com o detalhe de que naquela administração se conspirava por um golpe. Vinha daí a certeza da continuidade. Eles foram derrotados. O governo atual precisa ainda ganhar a eleição. Nada está decidido de véspera numa democracia.

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