terça-feira, 18 de agosto de 2026

MORRE LAURA CARDOSO

Do g1, Karina Cordeiro

Laura Cardoso, um dos principais nomes da dramaturgia brasileira, morre aos 98 anos

A informação foi divulgada em seu perfil oficial no Instagram. De acordo com uma das filhas da atriz, ela faleceu em sua casa, em São Paulo, após se sentir mal.

Morreu, aos 98 anos, a atriz Laura Cardoso, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira. A informação foi divulgada em seu perfil oficial no Instagram, na madrugada desta terça-feira (18).

"Nossa grande estrela se despediu de nós 🌟❤️ Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso", diz a publicação.

De acordo com Fátima Cardoso, filha da atriz, Laura faleceu na noite desta segunda-feira (17), após se sentir mal em sua residência, no bairro de Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, por volta das 23h20.

A cerimônia de velório da atriz acontecerá nesta terça-feira, entre 8h e 14h, no bairro da Bela Vista, na região central de São Paulo.

Laurinda de Jesus Balleroni nasceu em 1927 e começou a atuar aos 15 anos. Ela estreou na TV com 25, em 1952, em "Tribunal do Coração", da TV Tupi. Desde então, trabalhou em mais de 60 novelas, sendo a atriz com mais títulos na carreira do país. Seu último trabalho na TV foi na novela "A Dona do Pedaço", em 2019, e no filme "Dona Rosinha", de 2025.

A atriz estreou na TV Globo em 1981, na novela "Brilhante", a convite do diretor Daniel Filho. E acabou contratada dois anos depois, quando atuou no folhetim "Pão Pão, Beijo Beijo". Em 1993, Laura Cardoso viveu um de seus papéis mais emblemáticos na TV, Dona Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, em "Mulheres de Areia".

No ano seguinte, outro papel reforçou o talento da atriz e até hoje segue como um de seus personagens mais lembrados, Dona Guiomar, de "A Viagem", onde contracenou com Miguel Falabella, que homenageou a atriz na madrugada desta terça em seu Instagram.

"Laura era gigante, compulsiva e tinha um talento que não cabia em seu corpo pequeno", disse o ator.

Ao longo de décadas de carreira, Laura Cardoso colecionou indicações e prêmios por suas atuações na TV, no teatro e no cinema. Entre eles, cinco troféus da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), prêmio Oscarito, do Festival de Gramado, por sua contribuição ao cinema brasileiro, e em 2006, foi laureada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a Ordem do Mérito Cultural, por sua contribuição à cultura brasileira.

*Reportagem em atualização.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

PARA RUBIO, AMÉRICA LATINA É QUINTAL DOS EUA

Demétrio Magnoli, O Globo

O alinhamento dos novos líderes da região à Casa Branca isola regionalmente o Brasil

‘A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.

“A América para os americanos” de Monroe era uma mensagem às potências europeias, contra a ingerência delas nas novas nações independentes do que os Estados Unidos passavam a denominar “Hemisfério Ocidental”. A ideia de domínio — mas não a palavra! — emerge no final do século XIX e ganha justificativa com o Corolário Roosevelt. Sua abrangência, porém, circunscrevia-se à América Central/Caribe. Marco Rubio almeja estendê-la ao conjunto da América Latina.

O vice, J.D. Vance, e o secretário de Estado, Rubio, personificam as duas vertentes ideológicas conflitantes do segundo mandato de Trump. O primeiro é um arauto do isolacionismo populista do Make America Great Again (Maga), enquanto o segundo representa o internacionalismo agressivo da ala mais tradicional do Partido Republicano. No início de sua carreira, Rubio alinhou-se aos neoconservadores de Geoge W. Bush. Sua adesão tardia a Trump exigiu uma renúncia parcial ao internacionalismo imperial, que ficou circunscrito ao “Hemifério Ocidental”.

Numa entrevista concedida em 2025, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, declarou a necessidade de recuperar a influência “perdida para a China” no “quintal” dos Estados Unidos. Rubio concebeu a “Doutrina Donroe”, inscrita na nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Seu foco é restaurar o “quintal”, termo cunhado na época do intervencionismo de William McKinley e do próprio Theodore Roosevelt, entre 1897 e 1909. Eis aí o pano de fundo das sanções tarifárias e da intensa pressão diplomática aplicadas pela Casa Branca ao Brasil.

De Milei, na Argentina, a Bukele, em El Salvador, passando por Kast (Chile), Keiko Fujimori (Peru), Noboa (Equador) e Espriella (Colômbia), uma onda da direita dura espraiou-se pela América Latina. Os sucessivos êxitos da direita devem-se, fundamentalmente, às tensões ligadas à ascensão do crime organizado, à imigração e à corrupção. Trump teve escassa, ou nenhuma, contribuição para tais desenlaces eleitorais. Contudo o alinhamento dos novos líderes à Casa Branca isola regionalmente o Brasil. Mais uma vez, como no século XIX, nossa diplomacia encara o desafio de impedir o surgimento de uma coalizão hostil entre os vizinhos sul-americanos.

Nicolás Maduro, sequestrado por forças especiais dos Estados Unidos em janeiro, aparece como destaque no vídeo emanado do Departamento de Estado. A ditadura venezuelana segue em pé, mas agora obedece às ordens de Rubio. Desenrola-se uma operação de submissão do regime cubano, possivelmente em colaboração com Raulito Castro, “El Cangrejo”, neto do nonagenário Raúl Castro. Pelas urnas ou pelas canhoneiras, avança o projeto hemisférico do secretário de Estado.

Tanto Vance quanto Rubio mantiveram-se, prudentemente, à distância da aventura iraniana. A desastrosa guerra contra o Irã derivou da decisão de um Trump embevecido pelo sucesso na Venezuela e pela promessa de célere vitória de Netanyahu. O humilhante fracasso presidencial no Golfo Pérsico solicita a compensação de triunfos no teatro da América Latina.

O vídeo ameaçador é narrado pelo embaixador no Panamá, Kevin Cabrera, sinal de que veicula um recado direto ao país do canal. Entretanto o recado mais relevante, indireto, tem o Brasil como endereço: o governo dos Estados Unidos engajou-se na campanha de Flávio Bolsonaro.

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A ELEIÇÃO SERÁ DECIDIDA PELOS ENDIVIDADOS

Bruno Carazza, Valor Econômico

Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da população que está com nome sujo na praça

Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa. Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18 anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro. São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027.

Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.

A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do mundo.

De lá para cá, porém, as questões econômicas vêm influenciando as escolhas dos cidadãos de formas diferentes, pois nem sempre variáveis como inflação e emprego são indicativos diretos do bem-estar da população.

Na disputa de 2024, a inflação nos Estados Unidos tinha caído de 9,1% no auge do pós-pandemia, em junho de 2022, para 2,4% ao ano. Já a taxa de desemprego estava em 4%, patamar considerado de pleno emprego. No entanto, mais do que a senilidade, a economia foi considerada determinante para a desistência de Joe Biden e o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

Naquela época, “affordability” foi o termo utilizado para resumir a insatisfação do eleitor com a situação econômica. Apesar do sucesso do Fed em conter a inflação sem agravar o desemprego, os reajustes de preços acumulados ao longo da gestão Biden, assim como as taxas de juros, elevadas em relação a seu padrão histórico, afetavam drasticamente a capacidade de pagamento dos consumidores.

Aqui no Brasil, talvez estejamos observando fenômeno similar. A inflação, ainda que acima do centro da meta, está relativamente sob controle (4,44% ao ano) - o que é um mérito, considerando o choque na cotação do petróleo depois do início da guerra no Oriente Médio. O desemprego, em 5,4%, continua entre os mais baixos da série iniciada em 2012.

Ainda assim, a avaliação do governo e a intenção de voto em Lula patinam. E a explicação para isso pode estar no endividamento expressivo e na preocupante inadimplência prevalentes entre os brasileiros.

O raciocínio é simples: mesmo com uma taxa de ocupação elevada - tanto entre os formais e os MEIs, quanto nos sem carteira que complementam com bicos os benefícios governamentais - e com a contenção da pressão altista dos preços nos supermercados, as pessoas estão estranguladas com os boletos em atraso e os pagamentos de juros, que vêm sendo reduzidos em doses homeopáticas pelo Copom.

Não é à toa que as pesquisas têm captado que medidas do governo como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, o Desenrola e o fim da taxa das blusinhas têm tido fôlego curto na avaliação dos eleitores.

As causas para chegarmos a este ponto podem ser resumidas em três forças. De um lado, aproximadamente 40 milhões de indivíduos se bancarizaram a partir da pandemia graças ao auxílio emergencial, à popularidade do Pix e à proliferação dos aplicativos bancários. Como esse novo público era em sua imensa maioria de baixa renda e escolaridade limitada, sem conhecimentos básicos sobre os produtos financeiros, tornou-se presa fácil de ofertas de crédito abusivas de bancos e fintechs - sim, o sistema financeiro tem bastante culpa pela inadimplência recorde. Para piorar, bets e canetas emagrecedoras (legais e ilegais) induziram novas rodadas de descontrole das finanças pessoais.

Apesar de o endividamento ser um dos principais problemas do país, não se veem nas declarações dos candidatos à Presidência da República propostas concretas para lidar com esse problema de dezenas de milhões de pessoas e centenas de bilhões de reais.

Discutir saídas para a armadilha da inadimplência é um imperativo social, econômico e financeiro.

Social, porque são milhões de brasileiras e brasileiros que vivem estressados vendo seus ganhos serem corroídos por juros extorsivos.

É também um desafio econômico, pois o endividamento drena recursos que poderiam ser empregados no consumo, estimulando setores que estão rateando.

Por fim, é preciso conter a escalada da inadimplência para evitarmos uma crise bancária. Quem alerta é o Fundo Monetário Internacional, que na sua mais recente avaliação sobre a estabilidade do sistema financeiro (FSAP, na sigla em inglês) brasileiro recomendou a adoção de práticas responsáveis de concessão de crédito e limites mais rígidos na rolagem das dívidas.

Economistas do mercado cobram de Lula e seus adversários soluções para estabilizar a dívida do governo. No entanto, um desafio muito mais complexo e urgente está em outro tipo de endividamento: o das famílias. E sobre ele quase ninguém fala.

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PETISTA USA COMPARAÇÃO COM BOLSONARO PARA RESPONDER POR FUTURO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Campanha do PT coloca como estratégia central a comparação de indicadores das gestões Lula e Bolsonaro para desconstruir Flávio

A cobrança por sinalizações de futuro sobre a campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), no domingo (16), num tom de quem se cansa com a cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.

Saiu, então, comparando indicadores da redução da evasão escolar do ensino médio, enumerando indicadores que, na redução da evasão escolar no ensino médio, inflação, desemprego, geração de postos de trabalho, investimentos públicos, crédito para a indústria e crescimento da economia.

É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.

A deputada e ex-presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), candidata ao Senado, ensaiou uma explicação: “Na corrupção, batemos de cá e eles devolvem de lá. Na comparação de governo não há como eles fazerem contraponto”.

Lula disse ainda que, “em 10 ou 15 dias”, ele e o vice, Geraldo Alckmin, candidato a permanecer na chapa, vão lançar outro programa de governo com a numeralha comparativa. O primeiro, divulgado há dez dias, foi uma prestação de contas de mais de 80 páginas. O discurso do presidente sugere que o próximo cotejará esta prestação de contas com aquela do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A prestação de contas não deixa de ser um olhar pelo retrovisor, mas o deputado federal e candidato à reeleição, Carlos Zarattini (PT-SP), também presente, contesta: “É a única maneira de tirar o eleitor da guerra ideológica das redes sociais e chamar o cidadão à responsabilidade para que o país não volte a piorar.”

Lula cortou seu discurso exatamente pela metade em relação àquele da convenção do partido de duas semanas atrás. Falou por 36 minutos. Sua fala, porém, foi antecedida por vídeos em que seus companheiros de sindicato, que teve aquele estádio como sede das greves históricas da virada dos anos 1980, falaram sobre Lula, por breves discursos de ministros presentes, de Alckmin e do ex-ministro e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.

Numa reparação ao ato da convenção, quando a primeira-dama, Janja da Silva, foi a única mulher a discursar, empurrada pelo marido, desta vez, a ex-governadora do Rio e candidata ao Senado, Benedita da Silva (PT), ficou encarregada de repor a lacuna com uma fala de apelo religioso.

Janja voltou a falar, desta vez, num discurso lido. Foi o discurso mais surpreendente do evento. Pela primeira vez desde que Lula assumiu o relacionamento, ao deixar a prisão, em Curitiba, em 2019, Janja falou de dona Marisa em público. Marisa Letícia Lula da Silva foi companheira de Lula entre 1973 e 2017, quando morreu, vítima de um acidente vascular cerebral, no auge da Lava-Jato. Casou com Lula já com um filho quando ambos haviam acabado de enviuvar, e dele teve outros três filhos.

Janja citou-a como alicerce, junto à geração de mulheres de metalúrgicos do ABC dos anos 1980, sem o qual “essa história toda tivesse sido diferente”. Lembrou ainda a primeira bandeira do PT, costurada por dona Marisa, e lhe dedicou “toda a minha admiração”.

A falta de reconhecimento ao papel da mãe na história do PT e na do pai sempre foi um motivo de queixa dos filhos do presidente. A largueza do gesto foi interpretada por petistas presentes como um aceno à rejeição de Lula e da própria primeira-dama como também aos próprios filhos do presidente, o mais velho dos quais, Fábio Luís, voltou a trazer dissabores à campanha do pai pelas relações com a lobista Roberta Luchsinger, investigada por tráfico de influência no governo.

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'SOSIA' DE ALEXANDRE DE MORAES É ASSEDIADO EM ATO DE FLÁVIO BOLSONARO

Bernardo Mello Franco, O Globo

De toga e fraldão, candidato a deputado posou para selfies em área reservada de comício do PL em Copacabana

Um 'sósia' de Alexandre de Moraes chamou a atenção no comício que abriu a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

De gravata e toga semelhante à dos ministros do Supremo, Julio Sergio Carneiro Marques, o Julinho Dborais, circulou na área reservada do ato do PL em Copacabana.

Foi assediado por bolsonaristas, posou para selfies e puxou assunto com figurões da direita como o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio.

Julinho é candidato a deputado federal pelo Partido Novo. Usa um lema inusitado: "Não vote em ladrão, vote no doidão".

Sua fantasia deste domingo tinha um complemento. Sem calças, ele usava um fraldão e carregava uma tampa de privada com a foto do presidente Lula.

Curiosamente, o imitador de Moraes já esteve do outro lado da luta política. Em 2004, foi candidato a vereador pelo PT de São João de Meriti, usando o apelido Julinho Coração de Leão. Teve 395 votos e não conseguiu se eleger.

Jair, Michelle, Tarcísio, Malafaia... a longa lista de ausências no lançamento de Flávio Bolsonaro

Bolsonaristas ilustres não deram as caras em primeiro comício da corrida presidencial

Em prisão domiciliar, Jair Bolsonaro não foi a única ausência ilustre no lançamento da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

A primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador paulista Tarcísio de Freitas também não apareceram no trio elétrico montado na Praia de Copacabana.

O pastor Silas Malafaia, que organizou as últimas grandes manifestações bolsonaristas, tampouco deu as caras. Enviou um áudio curto em que jurou "apoio irrestrito" a Flávio.

O senador Romário, reeleito em 2022 pelo PL, foi mais uma ausência notada no comício. Na sexta-feira, ele pediu desfiliação do partido para apoiar Eduardo Paes na disputa pelo governo do Rio.

Sem aliados de peso no plano nacional, Flávio teve a companhia do vice, Alfredo Gaspar, do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de políticos bolsonaristas do Rio.

Foram convidados a discursar o deputado Douglas Ruas, presidente da Assembleia Legislativa e candidato a governador, o senador Carlos Portinho e o deputado Carlos Jordy.

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O CRIME NOS TRINQUES

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Nossos bandidos são hoje mais ricos do que os mais famosos gângsteres americanos

Por que então não se vestem de acordo e continuam parecendo pés-de-chinelo?

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.

A pergunta tem a ver com os filmes americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se tratar.

É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show business —cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então, a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.

Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.

Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.

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FAMÍLIA DEVERIA SER SINÔNIMO DE ACOLHIMENTO

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Novela escancara toxicidade e ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero

Teledramaturgia tem o condão de reforçar ou de questionar hábitos e valores tidos como tradicionais

Parei de acompanhar telenovelas há décadas, mas confesso que às vezes me entrego ao impulso de deixar a mente divagar diante da TV enquanto a tela exibe um folhetim. Foi assim que um dia desses assisti a uma cena sobre preconceito, sexualidade e autoaceitação na novela "Quem Ama Cuida".

Observando a angústia e a insegurança suportadas por um dos personagens diante da intolerância do avô, me peguei refletindo sobre o quanto a família, que deveria ser um espaço seguro e de acolhimento, muitas vezes é tóxica e impregnada de ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero em desacordo com o padrão cis-heteronormativo.

O apoio familiar serve de base para a saúde mental e o pleno desenvolvimento de todos os indivíduos, o que, obviamente, abrange as minorias sexuais. Esse acolhimento ajuda a reduzir a ansiedade, o medo e a depressão de quem carrega o fardo de não se enquadrar no padrão de uma sociedade que discrimina tudo que foge do convencional.

Há famílias que apoiam, amparam e buscam letramento (em livros, cartilhas, palestras...) e orientação, mas ainda são minoria. Estamos entre os países mais violentos e hostis à população homossexual e transexual. Em 2019, a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, tornando-se passíveis de punição penal.

Contudo, a violência psicológica, física e os homicídios continuam a impactar drasticamente a vida da população LGBTQIAPN+. Ano passado, foram registradas 257 mortes violentas nessa comunidade, número equivalente a um assassinato a cada 34 horas (Grupo Gay da Bahia).

Para além do caráter ficcional, a teledramaturgia retrata a realidade e exerce influência sobre padrões estéticos, costumes e uma porção de coisas. Nesse sentido, tem o condão de reforçar ou de questionar hábitos e valores tidos como tradicionais.

Torcendo para que a novela contribua para que a nossa sociedade se torne mais segura e solidária. Família deveria ser sinônimo de acolhimento e amor.

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MAR DE LAMA OU INSTITUIÇÕES FUNCIONANDO ?

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Cada operação da PF conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições

Tensões entre direção da Polícia Federal e o relator do escândalo do INSS no STF são reveladoras

A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.

A sucessão quase diária de operações da PF (Polícia Federal) e de denúncias envolvendo instituições antes relativamente preservadas —tribunais superiores, Banco CentralTCU— produz dois efeitos com sinais opostos. O primeiro é o sinal do mar de lama: a criminalidade organizada e a corrupção teriam penetrado profundamente o Estado, alcançando instituições que deveriam justamente controlá-las. Não se trata dos suspeitos usuais —empresas contratistas de obras públicas (empreiteiras), parlamentares, membros do Executivo. A degradação também pode ser enxergada nos numerosos mob lawyers que assessoram o crime ou dele se beneficiam. Os escândalos do Master e do INSS revelam as entranhas do entrelaçamento entre interesses dentro e fora do Estado. O caso do Rio de Janeiro é o microcosmo desses desmandos.

Mas há também o sinal oposto, da resistência institucional: as investigações demonstram que ainda existem setores e indivíduos dispostos a revelar e enfrentar essa penetração. E não só nas instituições de Estado —a mídia e até jornalistas individuais também são baluartes contra a degradação. Pelo protagonismo que assume, a Polícia Federal adquire grande centralidade nessa resistência. As tensões entre sua direção e o relator do escândalo do INSS no Supremo são reveladoras. Isso remete a questões sobre o profissionalismo de seus quadros e a lealdade política de seu centro de comando em questões eleitoralmente sensíveis.

O paradoxo, portanto, é que o mesmo fato —uma nova operação da Polícia Federal— pode servir de evidência tanto de degradação quanto de resiliência institucional. A operação revela o crime, mas também revela a existência de quem o investiga. E remete a um temor justificado: quem controlar a Polícia Federal terá poder desmedido. Até quando a instituição se manterá independente?

Dada a polarização atual, os sinais opostos são processados com vieses. A oposição enfatiza a extensão da corrupção, vinculando-a ao governo e à degradação institucional do país. Os governistas enfatizam a autonomia da PF e apresentam as operações como prova de que as instituições estão funcionando. O contingente crescente de eleitores sem identificação partidária pode combinar as duas avaliações: perceber uma degradação assustadora e, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda existem "ilhas de resistência".

Cada operação da Polícia Federal conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições. A endogeneidade entre os dois fenômenos não é especificidade nossa; é universal, como mostra a literatura sobre corrupção. Deve-se ao fato de que a corrupção é em geral corrupção revelada. Mas o mar de lama —a penetração de grossa corrupção em setores nunca antes atingidos— não é produto apenas de uma maior capacidade institucional. É uma mudança qualitativa. E é real.

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domingo, 16 de agosto de 2026

O VAI E VEM DAS PESQUISAS

Juliana Diniz*, O Povo

A explicação para a dança dos números que se observa nas pesquisas envolve muitas variáveis, mas uma delas é estrutural: o eleitorado está se comportando de uma forma que torna o resultado mais imprevisível

Já começamos a temporada de intensificação das pesquisas de intenção de voto. Ao longo dos últimos pleitos, uma maior variabilidade de resultados encontrados entre os diferentes institutos de pesquisa tem sido observada de forma mais frequente, além da ampliação do número de institutos operando. Afinal, para que servem as pesquisas e por que os números têm nos parecido tão instáveis?

Avaliar as intenções do eleitorado e mapear a sua evolução ao longo das campanhas é algo importante em uma eleição. Os números nos permitem observar não apenas quem está numericamente à frente, mas movimentos de crescimento, queda, estabilidade, rejeição, indecisão e transferência de votos.

Além disso, permitem que tenhamos um cenário mais confiável sobre as tendências que de fato estão se dando na sociedade. Quando a informação vem de uma fonte não diretamente interessada no resultado, ela tem mais credibilidade e grau de confiança maior.

É por isso que dizemos que a boa informação qualifica o debate público e democratiza o acesso a dados que, de outro modo, ficariam restritos a campanhas e partidos. É esse poder de servir de termômetro que torna as pesquisas um ponto de conflito permanente. Há uma relação direta entre bons resultados de pesquisas e criação de ondas favoráveis a projetos eleitorais.

A legislação eleitoral estabelece parâmetros para que as pesquisas não virem uma arma de manipulação. Tanto a lei como as resoluções do TSE disciplinam aspectos como o modo de registro da pesquisa (quem contratou; valor e origem dos recursos; metodologia; critérios de ponderação; margem de erro; nível de confiança; sistema de controle da coleta; responsável estatístico; e quem realizou o pagamento), além de estabelecer o modo de divulgação dos resultados. Qualquer irregularidade pode contaminar o resultado e justificar a suspensão.

O que temos observado, em termos de novidade, é uma dança dos números, o fato de que os resultados têm aparecido de forma muito diversa a depender do instituto e do momento de captação. A explicação envolve muitas variáveis, mas uma delas é estrutural: o eleitorado está se comportando de uma forma que torna o resultado mais imprevisível.

Enquanto pelo menos dois estratos da sociedade são extremamente polarizados e leais ao seu candidato, permanecendo com ele aconteça o que acontecer, há um campo de votos muito voláteis e permeáveis às flutuações do noticiário. São esses votos, menos de 5%, que têm sido decisivos às vésperas do pleito.

Por isso, daqui até outubro, é preciso muito nervo, bom senso e sangue frio para ler as pesquisas. Elas dizem menos sobre certezas e mais sobre os humores efêmeros do eleitor nessa montanha russa chamada campanha eleitoral. 

*Doutora em Direito (USP) e professora da Universidade Federal do Ceará

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MORRE LUIZ GUTEMBERG

Laura Tizzo, Gabriella Braz, TV Globo e g1 DF

Morre Luiz Gutemberg, referência no jornalismo em Brasília, aos 88 anos

Natural de Alagoas, fez carreira como jornalista político e comentarista no DF, com passagem pela Band, Veja e Jornal de Brasília; ele deixa cinco filhos

Morreu, na tarde deste domingo (16), o jornalista Luiz Gutemberg, aos 88 anos. Natural de Maceió (AL), Gutemberg construiu carreira de sucesso no Distrito Federal.

Ele estava internado com pneumonia.

Referência na cobertura política, Gutemberg iniciou a carreira na década de 1950, no Jornal do Brasil, no Rio de Janeiro.

Já na capital federal, atuou na fundação do Jornal de Brasília e do semanal Jornal José, além de atuar na Veja. O jornalista ficou mais conhecido como comentarista na Band.

Jornal de Brasília lamentou a perda.

"Gutemberg foi um grande inovador em sua passagem pelo Jornal de Brasília. Montou uma equipe de nomes de peso na cobertura política, como Cristiana Lôbo, e também na economia. Era um craque na confecção da primeira página, na sugestão de pautas, sem falar que era muito querido e respeitado por todos da redação e pelos leitores. Uma grande perda para o jornalismo de Brasília e do Brasil", escreveu Ricardo Nobre, editor-chefe da versão impressa do Jornal de Brasília.

A relevância para o jornalismo da capital rendeu a Gutemberg o título de Cidadão Honorário de Brasília em 1995.

Luiz Gutemberg era casado com a também jornalista Rosangela Bittar. Ele deixa cinco filhos.

O velório acontece nesta segunda-feira (17), das 14 às 16h, na capela 10 do Cemitério Campo da Esperança da Asa Sul.

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A ÚLTIMA DEMOCRACIA

Vagner Gomes*, Voto Positivo

Dedico aos alunos José Gabriel, Cassiano Salvador e Vanderson Braga, da Rede Estadual de ensino, que me ajudaram a pensar na necessidade de elaborar esse texto.

"Por outro lado, a missão da qual Cristo nosso Salvador encarregou seus apóstolos e discípulos foi de proclamar seu Reino, não presente, mas vindouro; e ensinar a todas as nações; e batizar aos que acreditassem; e entrar nas casas dos que os recebessem; e quando não fossem recebidos, sacudir contra eles a poeira de seus pés, mas não invocar o fogo dos céus para destruí-los, nem obrigá-los à obediência pela espada. Em tudo isto nada há de poder, mas apenas de persuasão. Ele enviou-os como ovelhas entre lobos, não como reis entre seus súditos. Eles não tinham a missão de fazer leis, mas a de obedecer e ensinar obediência às leis existentes; consequentemente não podiam fazer de seus escritos cânones obrigatórios, sem a ajuda do poder civil soberano. Portanto, as Escrituras do Novo Testamento só se tornam lei quando o poder civil legítimo assim as torna. E nesse caso o rei ou soberano também faz delas uma lei para si mesmo, com o que se sujeita, não ao doutor ou apóstolo que o converteu, mas ao próprio Deus, e a seu Filho Jesus Cristo, de maneira tão imediata como o fizeram os próprios apóstolos." (Thomas Hobbes – Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil.)

O filme A Última Casa atingiu o nível de milhões de expectadores ao redor de um mundo em que, assim como a casa em ruínas da família Delgado, a Democracia está com riscos de desabar em muitos casos. A volta da incerteza sobre a Democracia está acompanhando as incertezas sobre o futuro da humanidade. O suspense está no ar e percebemos que esse é o gênero que muito tem animado o olhar dos jovens na atualidade. Muito diverso do suspense-denúncia da ganância do “livre mercado” que observamos em dois filmes de Steven Spielberg: “Tubarão” (1975) e “Jurassic Park: O Parque dos Dinossauros” (1993). Nesses dias de iliberalismo político observamos os jovens testando suas ansiedades em filmes de roteiros sombrios, como que se estivessem antevendo um tragédia que não se sentem capazes de evitar. Isso exposto, nos faz pensar de como o filme “A Odisseia” (2026) ganhou um profundo silêncio entre os jovens.

Não podemos deixar despercebido que a família Delgado é resultado do enlace de imigrantes nos Estados Unidos onde Jason (nome que nos faz lembrar a sequência de filmes de terror “Sexta-feira 13”, iniciada em 1980) é um Engenheiro desempregado que está “afogado” em dívidas. Greta Lee – celebrizada por sua atuação no filme romântico “Vidas Passadas” (2023) – faz a personagem materna do filme, e pouco se sabe dela além de sua capacidade em cuidar dos seus familiares com o reaproveitamento das sementes. Não há nenhuma menção de como os dois se conheceram. Isso não é importante num mundo em que as relações sociais foram transferidas para as telas dos smartphones. Os dois filhos vivem a clássica relação do irmão mais velho e a irmã mais nova, mas o evento que faz iniciar a trama os faz repensar essa relação ao longo do filme.

Trata-se de uma desolada classe média norte-americana em que os vizinhos não se comunicam e a Casa seria um refúgio de segurança e manifestação de seu individualismo. Nessa sociedade fragmentada, o sistema político funciona como se fosse um condomínio de casas, mantendo a sociedade isolada. E o evento que causa pânico na família Delgado aprisiona todos no isolamento como se fosse uma forma de manter a resistência. Nos primeiros momentos aparece uma frase das “Teorias Conspiratórias”: “Isso é coisa do Governo”. Mas uma criança diz: “Parece que querem nos punir”. Como se houvesse uma divindade nos julgando em algum lugar.

O confinamento social nos reinsere a inversão do “Mito da Caverna” de Platão (428 A.C. – 347 a.C.). Segundo o filósofo grego, presos acorrentados numa caverna achavam que as sombras refletidas na parede da mesma eram monstros reais. No filme, as sombras eram monstros reais enquanto que a família estava presa numa fantasia de harmonia. “Vamos sobreviver”. Como se esse fosse o legado futuro da humanidade que desfere um arrepio diante das palavras como Democracia e tolerância política. Além disso, muitos na juventude não reconhecem na sabedoria e no método científico uma oportunidade de sair do confinamento de suas realidades. Os jovens desejam os vazios de sabedoria dos pátios escolares ao contrário da persistência da “pesca” de animais, que Jason empreende no filme em uma sequência de experiências. Temos um debate sobre o conteúdo que se deve estudar numa realidade atípica, ou seja, “vamos aprender algo que vocês precisam saber para o usarem no futuro”: limpar peixes.

Os pescadores foram convidados para seguir Jesus Cristo. E o engenheiro revela que um dia foi um pescador. O peixe está na simbologia do cristianismo assim como a compaixão. Os dois elementos estão no filme de uma forma que talvez poucos tenham percebido, uma vez que uma leitura sobre um filme nos faz muito pensar sobre os malefícios que desejam para o sistema democrático, principalmente através de atalhos por experiências de “democraduras” (perfis autoritários com legitimidade no voto).

Neste sentido, provavelmente essa seja a explicação da aparição do Leviatã no filme. Então, o livro de Tomas Hobbes (1588 – 1679) emerge das profundezas do mar de nossas considerações como se estivesse a clamar por mais atenção. Hobbes escreveu Leviatã ou Matéria, Forma e Poder de um Estado Eclesiástico e Civil (1651) em plena Guerra Civil Inglesa, o que nos instiga a pensar sobre um contexto de muitas conjecturas sombrias no debate do sistema político. Dividido em quatro partes, nos chama a atenção que a Terceira Parte se chame “Do Estado Cristão” que antecede “Do Reino das Trevas”. Uma suposta explicação para um desfecho do filme numa bela crítica aqueles que observam pontos positivos numa suposta “democracia imediata e polarizante”.

*Vagner Gomes é Doutorando no PPGCP-UNIRIO e professor de História na Rede Estadual de Ensino no Rio de Janeiro.

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UM CACIQUE CONTRA TEMPESTADES

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

Acordo entre Prefeitura do Rio e Fundação Cacique Cobra Coral desperta troll das redes sociais

Pretensão à racionalidade absoluta é contradição em todo fiel religioso

Publicado no Diário Oficial, um acordo entre a Prefeitura do Rio de Janeiro e a Fundação Cacique Cobra Coral despertou o troll das redes sociais. No caso, a trollagem é máscara pública do senso comum quando se trata do sobrenatural popular, fora do escopo oficial. Para o melhor juízo, é perfeitamente natural o sobrenatural da religião (católica, evangélica, islâmica), não qualquer outro que se candidate à crença. O "creio porque é absurdo", relativo à ressurreição de Cristo, vigora até hoje, desde a sua sugestão por Tertuliano (155-220). Absurdo ("ineptus", em latim), com o sentido de não racional, tem dono teológico.

Mas não é propriedade consensual, tamanha a diversidade da fé. Quando 86% dos eleitores brasileiros opinam numa pesquisa recente que um candidato à Presidência deveria acreditar em Deus, se a resposta não é preconceituosa, vale para a divindade de todas as crenças. O acordo oficializado é, na verdade, renovação de um convênio de administrações anteriores do Instituto Geotécnico da Prefeitura com a organização mística. Desde 1931, a fundação oferece prestação gratuita de serviços que amenizariam a fúria dos elementos naturais, como tempestades e inundações. Isso, por ação sobrenatural de uma entidade denominada Cacique Cobra Coral, incorporado pela médium Adelaide Scritori.

Até aqui, o absurdo já arrepia as belas almas, senão o discurso cientificista que rege a formação do senso comum. O plus é que esse convênio não é exclusivo do Rio, por ser longa a lista de instituições, no Brasil e no exterior, que sempre solicitaram os préstimos do Cacique Cobra Coral. Ela inclui a realeza britânica, observatórios de prestígio, centros militares e administrações estatais. Os EUA e a Argentina mantinham acordos que acabam de ser cancelados pela fundação, como retaliação pela animosidade contra os brasileiros. O cacique é nacionalista.

"E agora, José?", perguntaria Drummond. "Sobrenatural de Almeida pede a palavra", responderia Nelson Rodrigues. Era um personagem, entidade invisível a cargo do absurdo no futebol. Explicar o inexplicável, tal o desafio que essa invenção literária hoje compartilharia com adeptos reais dos prodígios do cacique. O personagem jornalístico jamais chegou ao teatro de Nelson, mas há algo de teatral na atitude pública desses adeptos: a hipocrisia. É palavra complexa. "Hypokrites", no teatro grego da Antiguidade, era o ator que expressava, por meio da máscara de um personagem, sentimentos alheios à sua pessoa real. Hoje se aplica a quem finge certos valores e age de forma contrária. Ou então, quem diz o que não pensa, como no troll.

É o caso dos atores sociais que apelam aos serviços do Cacique Cobra Coral, enquanto o denegam publicamente. São reféns do embaraço ocidentalista presente em toda crença no sobrenatural, seja qual for a divindade: o cruzamento entre mito e história. Por isso, acredite quem quiser, sem culpa. O que aqui está em questão não é a veracidade do fenômeno, mas a contradição de todo fiel religioso que se pretenda absolutamente racional. Corajoso, no mínimo, é o ato da prefeitura: recusou oficialmente a hipocrisia oficial.

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LIXÃO DE CACARECOS EM ÓRBITA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Começou com o humilde Sputnik em 1957; hoje há mais de 1 milhão de objetos no espaço

Uma arruela de 2 centímetros, voando a 28 mil quilômetros por hora, pode esburacar uma nave

Começou em outubro de 1957, quando a URSS botou no espaço o Sputnik, o primeiro satélite artificial. Dava 15 voltas por dia ao redor da Terra e, quando passava sobre os EUA, seu "bip-bip" —o único som que emitia— era captado pelos radioamadores e aterrorizava os ingênuos americanos. Um mês depois, em novembro, antes que os EUA pudessem respirar, a URSS mandou outro, o Sputnik 2, tendo a bordo uma infeliz cachorrinha vira-lata, Laika, que não sobreviveu para contar. Os EUA, já com 2 a 0 contra, lançaram o deles em janeiro de 1958, o Explorer, e logo depois equilibraram o jogo. Começava a guerra nas estrelas, com um infernal disparo de satélites.

Em 1959, um deles caiu no galinheiro de Oscarito, no filme "O Homem do Sputnik", dirigido por Carlos Manga, talvez a melhor chanchada da Atlântida. No Carnaval de 1961, em "A Lua é dos Namorados", marchinha de Klecius Caldas e Armando Cavalcanti, Ângela Maria protestou com "Lua, ó Lua/ Querem te passar pra trás/ Lua, ó Lua/ Querem te tirar a paz".

Em 1965, Pery Ribeiro e Leny Andrade intitularam "Gemini V", missão tripulada da Nasa que ficou uma semana no espaço, um dos shows mais vibrantes da chamada Space Age. E, em 1967, Gilberto Gil fez coro à angústia de "A Lua é dos Namorados" com a marcha bossa nova "Lunik 9", sonda soviética que pousara na Lua e enviava fotos para a Terra.

O problema é que tudo que se manda para o espaço, exceto os humanos, fica por lá e, nesses quase 70 anos, o cinturão de cacarecos em órbita chegou a níveis dramáticos. Estima-se que haja hoje 1 milhão de objetos de até 10 cm em órbita, voando a 28 mil quilômetros por hora, e dezenas de milhares maiores do que isso. Só que o choque de uma arruela de 2 cm contra uma nave pode furar o revestimento desta e provocar despressurização. Colisões geram mais detritos e estes, ainda mais poluição.

O homem não se contenta em emporcalhar as terras, os mares e a atmosfera. Manda sua sujeira até para o espaço e periga fazer de nós o galinheiro do Oscarito.

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MESMO SE FLÁVIO BOLSONARO PERDER, DIREITA MASTER DEVE GANHAR TODO O RESTO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, caso foi o petrolão da direita

Público pode achar que Lulinha fazendo lobby na Saúde é comparável ao maior escândalo financeiro do Brasil

As forças políticas que roubaram com o Master, tentaram salvar o Master e receberam dinheiro do Master devem ser as grandes vencedoras da eleição deste ano.

Talvez não consigam eleger Flávio Bolsonaro presidente. Mas devem ganhar o resto. E, mesmo se Lula vencer, terá que fazer acordos com eles.

Como já amplamente demonstrado nesta coluna, o Banco Master foi o petrolão da direita. A prevalência de direitistas entre os envolvidos é esmagadora. A direita roubou muito mais com o Master, ganhou muito mais dinheiro do Master e tentou salvar o Master praticamente sozinha.

Se algum jornalista ou político de direita quiser discutir esses números em público, será um prazer.

Infelizmente, a democracia brasileira não tem sistema imunológico para lidar com esses fatos. Direitistas específicos podem ser denunciados e presos, mas ninguém com poder, inclusive na mídia, está disposto a denunciar a direita quando isso de fato ameaça a hegemonia conservadora no sistema político brasileiro.

E se a imprensa não fizer, quem fará? O Congresso, que é dominado pela direita porque fizemos nossa transição democrática com a classe política herdada da ditadura? O Judiciário, que tem gente grande envolvida com o Master e sabe que sua melhor chance de sobreviver é ajudar a direita a matar a investigação? Desde o impeachment de Dilma Rousseff sabemos que a direita tem mais poder para abafar escândalos do que a esquerda.

A direita não vai pagar preço nenhum por ter causado a maior fraude do sistema financeiro brasileiro. Os direitistas que perderem seus cargos por seu envolvimento com o Master devem ser substituídos por outros candidatos dos partidos que bancaram o Master.

O caso mais emblemático deve ser o Distrito Federal. A conta da operação bolsonarista para salvar o Master com o BRB mal começou a chegar. Há um risco real de Brasília ficar sem seringas nos hospitais e sem merenda nas escolas. Mesmo assim, os bolsonaristas do Distrito Federal devem conquistar as duas vagas para o Senado em disputa este ano.

O público brasileiro foi exposto a uma visão tão difusa dos culpados do Master que pode perfeitamente achar que Lulinha fazendo lobby por canabidiol no Ministério da Saúde é comparável ao que a direita fez durante o maior escândalo financeiro da história brasileira.

É possível que Augusto Lima, responsável pelo único braço do esquema Master ligado ao PT (a Bahia), faça uma delação premiada. Se acontecer, o público conhecerá mais detalhes sobre o único braço do esquema em que o PT está envolvido (a Bahia). Isso seria bom, se os outros braços do esquema, responsáveis por desvios incomparavelmente maiores, tivessem sido apresentados ao público com a associação correspondente à direita.

Sem essa informação, o público pode acabar associando o Master ao PT. Nesse cenário, a direita ganhará todos os cargos em disputa este ano como recompensa por ter cometido a maior fraude bancária de nossa história.

Como brasileiro de esquerda que defendeu a Lava Jato e passou anos pedindo uma autocrítica do PT, só posso dizer que me sinto feito de palhaço. São justamente os grandes justiceiros de 2016 que hoje mentem que o caso Master "não tem ideologia". Sim, estou falando de Moro e de Dallagnol. Mas não só deles.

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CUBA É TROFÉU PARA OS EUA

Dorrit Harazim, O Globo

País é a tentação fundamental para todo ocupante da Casa Branca desde que os barbudos de Fidel Castro tomaram o poder

Dias atrás, o secretário de Defesa dos Estados Unidos, Pete Hegseth, mostrou-se satisfeito por ser inquirido sobre Cuba. Era, finalmente, uma ocasião de ostentar musculatura fácil, mudar o foco da desconcertante humilhação que vem sofrendo há seis meses com a exasperante guerra sem heróis contra o Irã.

— Todas as opções estão na mesa, o que inclui opções militares, e seria sensato por parte de Cuba prestar atenção às declarações do presidente Trump sobre as prerrogativas estratégicas dos americanos — respondeu. — Com certeza [Cuba] não é páreo para os Estados Unidos... Estou animado com as muitas opções que temos.

Vestia uma camiseta verde-oliva que deixava à mostra o “We the People” da Constituição tatuado em letras garrafais no antebraço direito.

Imagem, para Hegseth, é crucial. Apesar de estar no comando do Pentágono e rebatizá-lo de Departamento de Guerra, ele conta com pouco mais do que sua estampa para sobreviver no cargo até o fim do mandato de Trump, em 2028. A audácia do rapto e substituição de Nicolás Maduro na calada da noite, na Venezuela, lhe rendeu bons louros graças à indiferença do mundo diante de violação tão gritante da ordem internacional. Mas, de resto, nada mais parece funcionar para Hegseth — nem no Irã, nem no Oriente Médio, nem com seus éditos sobre o baixo nível de testosterona nas casernas. Até o presidente Trump vem dando mostra de exasperação com seu protegido.

É nesse panorama que Cuba se apresenta de forma tentadora também para Hegseth. O “também”, no caso, importa, pois tem gente mais graúda de olho nesse troféu. Antes de tudo, Cuba é a tentação fundamental para todo ocupante da Casa Branca desde que os barbudos de Fidel Castro tomaram o poder na ilha em 1959. Já são 13 os presidentes americanos consecutivos, de Dwight Eisenhower a Donald Trump (seis democratas e sete republicanos), que tentaram remover, isolar ou mudar estruturalmente o regime cubano. Alternaram-se apenas as abordagens táticas — de tentativas de assassinato e operações clandestinas a décadas de asfixiamento econômico e alguma diplomacia na era Barack Obama. Trump, que já prometeu acabar com duas guerras em 24 horas e está atolado em três, deposita no almejado retorno de Cuba à esfera de influência dos Estados Unidos a chance de conseguir o que a História certamente lhe negará — ser chamado de estadista.

O secretário de Estado, Marco Rubio, tem interesses mais terrenos: se conseguir colocar as mãos em Cuba em tempo hábil, suas chances como presidenciável republicano em 2028 dão um salto de catapulta. A ponto de empalidecer seu concorrente mais imediato, o atual vice-presidente J.D. Vance, cuja esfera de poder passa ao largo do Hemisfério Ocidental idealizado por Trump.

Com esse pano de fundo, merece atenção um relatório divulgado duas semanas atrás pelo Departamento de Estado de Rubio. “Cuba, a Capital Comunista do Século XXI”, diz o título. O preâmbulo não é menos alarmado:

— O ataque de Cuba aos Estados Unidos nunca foi, em sua essência, uma disputa sobre política econômica, soberania ou mesmo posse de um determinado território. Foi uma revolução contra a própria civilização ocidental — travada, em parte, pelo método inédito e insidioso de persuadir os filhos do Ocidente a se voltar contra sua própria herança. Essa é a campanha que Castro lançou em 1959, e é a campanha que seus herdeiros estão travando.

Ao longo de 99 páginas, o relatório afirma que “mesmo com sua economia à beira do colapso, o objetivo fundamental do regime cubano permanece sendo a revolução marxista hemisférica capaz de apagar os Estados Unidos da face da Terra”. Não fica muito claro como ela se daria. Isso porque, “um dos maiores, mais sofisticados e perigosos vetores de influência estrangeira hostil na História moderna americana” são, segundo o documento, as ONGs, organizações ativistas, redes ideológicas e grupos de fachada cubanos. Dos tumultos antirracistas decorrentes do assassinato a frio de George Floyd à explosão do ativismo pró-Palestina nos campi universitários, tudo tem ligação “de alguma forma, à influência cubana” e sua “revolução existencial contra os Estados Unidos”. Caramba!

Philip Agee foi agente da CIA por nove anos na década de 1960. Nascido na Flórida de Rubio (cujos pais cubanos emigraram antes da revolução), morreu na Havana de Fidel Castro em 2008, execrado pela agência por ter publicado um catatau autobiográfico de quase 700 páginas narrando sua vida de espião. “Dentro da ‘Companhia’: Diário da CIA”, publicado no Brasil pelo Círculo do Livro em 1974, tornou-se um clássico. A avaliação de Agee dos motivos que levam os Estados Unidos a precisar estrangular Cuba foi feita em entrevista ao programa de TV “Alternative View” e data dos anos 1970:

— Se Cuba, um país pobre, conseguisse demonstrar que é capaz de oferecer cuidados de saúde melhores e outros avanços sociais, isso representaria uma ameaça à narrativa dos Estados Unidos sobre a superioridade de seu modelo. Muitos americanos poderiam olhar para Cuba e pensar: “Se eles conseguem fazer isso com uma renda per capita de US$ 2.000/US$ 2.500, enquanto a nossa é de US$ 22.500, que problemas existem em nosso próprio sistema?

Continua valendo.

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A HORA E A VEZ DA DIPLOMACIA

Míriam Leitão, O Globo

Em meio a tensões com diversos parceiros, o Brasil terá que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas vezes, ser o único adulto na sala

A decisão do governo brasileiro de iniciar um processo pela Lei de Reciprocidade contra os Estados Unidos foi tomada basicamente para não desmoralizar a lei, segundo fontes do governo. Ela foi criada exatamente para defender o Brasil em casos como esse, em que os países adotem medidas unilaterais e injustificadas. A lei existe, precisa ser acionada. Mas isso é bem diferente de retaliar os Estados Unidos, o que seria um tiro no pé.

— Não pode ser uma lei para inglês ver porque ignorá-la serviria de incentivo a novas medidas contra o Brasil, venham de onde vierem. Mas se vamos adotar as medidas de reciprocidade é outra história — explica essa fonte.

Entre empresas, associações de classe do setor produtivo, embaixadores especializados no assunto e professores de política internacional há um quase consenso de que teria um efeito bumerangue. As tarifas que subissem iriam prejudicar o consumidor brasileiro com alta dos preços, que rebateriam na inflação. Além de prejudicar ainda mais os negócios do país com os Estados Unidos.

O que se ouve no governo é que o processo tem prazos longos exatamente para tentar abrir espaço para a negociação com os Estados Unidos, tendo alguma coisa para fortalecer a posição do Brasil.

— Estaremos na mesa com algum instrumento do nosso lado. É importante ter recursos de ação e um mínimo de equilíbrio de forças para se buscar um acordo.

Esta é a estratégia do país, usar a lei para que ela não se desmoralize, aproveitar os prazos amplos para encontrar algum caminho de negociação, tendo um instrumento na mão.

A conversa com especialistas mostra que se o governo realmente quiser retaliar será desastroso. O embaixador José Alfredo Graça Lima, com uma enorme especialização no assunto, afirma que a retaliação não faz sentido do ponto de vista econômico, comercial e eleitoral. Ele acha que não haverá ganho eleitoral nenhum se a medida causar mais prejuízos às empresas, além dos que estão enfrentando com o tarifaço em si. O diplomata admite que acionar a lei pode ser a estratégia para abrir o caminho da negociação.

— A questão é o que o Brasil vai oferecer nessa negociação. Se ele não tiver um ás na manga, o movimento será inócuo — diz Graça Lima que já foi o principal negociador comercial brasileiro e hoje é vice-presidente do Centro Brasileiro de Relações Internacionais (Cebri).

O embaixador avalia que, das questões apresentadas pelos Estados Unidos no processo da seção 301 da Lei de Comércio, o único ponto que pode ser discutido é a tarifa cobrada pelo Brasil no etanol americano. Porque sobre o Pix não tem uma conversa possível. E os americanos têm ignorado os avanços brasileiro contra o desmatamento.

Durante todo o período em que se deu a “investigação” americana, os negociadores brasileiros relataram que perguntavam diretamente o que eles queriam. E não obtinham resposta. No caso do desmatamento, o Brasil mostrava os dados provando que o país está colhendo este ano os menores números de desmatamento desde o início do monitoramento. Eles ignoravam as evidências estatísticas de que o problema estava sendo enfrentado por este governo. Aliás, no período Bolsonaro, as taxas de desmate aumentaram. Os negociadores então perguntavam se eles queriam mais investimentos em prevenção, fortalecimento do Ibama, mais recursos do BNDES, o que atenderia às preocupações deles. E jamais receberam resposta. Porque, evidentemente, o governo Trump nunca teve interesse real em proteção ambiental no Brasil.

O governo Lula precisará recorrer a toda a tradição, habilidade e conhecimento acumulado da diplomacia brasileira na reta final deste mandato. Há conflitos com vários parceiros. Os Estados Unidos tomaram medidas contra o país que são desleais e ferem abertamente as leis de comércio internacional. O presidente argentino atacou o presidente brasileiro de forma insultuosa diversas vezes. A China, nosso principal parceiro, estabeleceu uma cota para a compra de carne que já se esgotou, deixando produtores brasileiros sem destino para as exportações. No caso chinês é protecionismo, no argentino é provocação, no americano é agressão que tem, entre outras, motivações eleitorais. O Brasil terá que ser o bom negociador que sempre foi e, muitas vezes, ser o único adulto na sala. Esta é a hora da diplomacia.

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UM RETRATO DO LOBBY DAS BETS EM BRASÍLIA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Oxfam alerta para 'avanço predatório' da jogatina e 'captura' de instâncias decisórias

Ernildo Júnior debutou no mundo das apostas num salão de sinuca em Campina Grande, no interior da Paraíba. Hoje voa de jatinho, circula entre celebridades e comanda uma das maiores bets do país.

Na quinta-feira, o dono da Pixbet se viu na mira da Polícia Federal. Ele e o advogado Nelson Willians foram os principais alvos da Operação Arena, que apura um esquema de lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio com conexão em Curaçao.

Sócio do cantor Wesley Safadão e dono de uma Lamborghini, o empresário paraibano é um dos novos magnatas da jogatina online, liberada no Brasil desde 2018. Um relatório inédito da Oxfam mostra como as casas de apostas capturaram a renda de milhões de famílias, agravando o endividamento e a concentração de riqueza.

“O avanço predatório das bets drena a renda das famílias das periferias brasileiras, transformando o orçamento da subsistência e do consumo essencial em lucro financeiro privado e gerando um endividamento em massa que penaliza fortemente os mais vulneráveis”, afirma o documento “Um retrato das desigualdades brasileiras: poder, privilégio e a captura da democracia”, que será divulgado na quarta-feira.

O relatório alerta para a influência das bets na política, com forte lobby em Brasília para blindar as empresas de impostos e fiscalização. Entre 2023 e 2024, as casas de apostas participaram de ao menos 78 reuniões oficiais com ministros e secretários do governo federal, segundo levantamento da ONG Fiquem Sabendo.

Depois a pressão se transferiu para o Congresso, onde parlamentares barraram a tentativa da Fazenda de elevar a taxação do setor de 12% para 18% e enterraram uma CPI sem relatório final e sem indiciamentos.

“O encerramento da CPI das Bets sem qualquer responsabilização prática ou indiciamento, a despeito das claras evidências de envolvimento ligando influenciadores digitais, artistas e agentes do alto escalão político às empresas do setor, revela a profundidade com que esses oligopólios digitais capturaram o núcleo decisório do Estado”, afirma a Oxfam.

Para a organização fundada no Reino Unido, a regulação frouxa abriu caminho para “a evasão legalizada de bilhões de reais em rendimentos que deveriam irrigar o fundo público e financiar políticas de proteção social”. “Trata-se de uma dinâmica perversa de socialização de perdas e privatização absoluta de superlucros”, resume.

O relatório conclui que o poder corporativo das bets atua “de forma circular e regressiva”. “Asfixia o orçamento doméstico na base ao mesmo tempo em que financia campanhas e estruturas de lobby permanentes para vetar qualquer tentativa de controle ou taxação progressiva.”

Alvo da operação desta quinta, Ernildo Júnior se destaca pela atuação aberta na política. É próximo ao presidente do União Brasil, Antonio Rueda, que ofereceu a legenda para ele emplacar um funcionário como prefeito de sua cidade natal, Serra Branca. O eleito responde pelo apelido de Alexandre Pixbet.

Neste ano, o barão da jogatina já anunciou apoio a cinco candidatos na Paraíba. Sua aposta para o Senado é Nabor Wanderley, ex-prefeito de Patos e pai do presidente da Câmara, Hugo Motta.

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