domingo, 30 de agosto de 2026

CARLOS LACERDA E SUA MÁQUINA DO ÓDIO

Elio Gaspari, O Globo

Resultado de anos de pesquisas, livro responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas

Está nas livrarias “Lacerda — Coração de tempestade”, do repórter Mário Magalhães. É o primeiro volume e vai de 1914 a 1955, quando o golpe do general Henrique Lott levou-o a um breve exílio. Resultado de anos de pesquisas, responde perguntas que sobreviveram por muitos anos em torno de uma figura que esteve no centro da política brasileira por décadas.

Antes de se tornar um expoente da direita, Lacerda foi comunista? Foi. Pertenceu ao Partido Comunista? Não.

Quem feriu o pé de Lacerda no atentado que levou Getúlio Vargas ao suicídio em agosto de 1954? Um dos pistoleiros da guarda pessoal do presidente, financiada pelo caixa dois do Sistema S.

Seu nome — Carlos Frederico — é uma homenagem do pai a Karl Marx e Friedrich Engels? Não.

Seu primeiro amor foi a poeta Cecília Meireles. Ela tinha 28 anos e ele 17 incompletos.

Naqueles anos tumultuados, Lacerda foi da esquerda para a direita. Já Dom Hélder Câmara e Alceu Amoroso Lima foram da direita para a esquerda. Cecil Borer, o ferrabrás dos calabouços do Estado Novo, ficou onde estava, na meganha a serviço do Palácio. Ele prendeu Lacerda aos 19 anos, três dias antes da chegada de Adolf Hitler ao poder.

Jornalista de grande talento, tinha raciocínio rápido, escrita clara e dedos velozes. Em 1934, lendo “São Bernardo”, viu em Graciliano Ramos um grande romancista.

O general De Gaulle chamava-o de “demolidor de presidentes”. Demolia tudo que tinha por perto, inclusive o próprio pai: “demagogo de merda”.

Feroz adversário de Getúlio Vargas, foi um mobilizador de vivandeiras e o caricaturista Lan eternizou-o como Corvo. Lacerda tinha uma escolta de oficiais, nove dos quais da Força Aérea. (Havia alguns do Exército, entre eles Emílio Garrastazu Médici.)

Nas primeiras horas do dia 5 de agosto de 1954, o major Rubens Vaz escoltava-o de volta ao seu apartamento da Rua Tonelero, em Copacabana. Dois pistoleiros atiraram e morreu o major. Dezenove dias depois, às portas da deposição, Getúlio Vargas se matou. Em cerca de 40 páginas Mário Magalhães conta esses dois episódios, com a minúcia e clareza de um repórter policial.

Afora um breve epílogo, o volume termina com a partida do “matador de Getúlio” para o exílio dos Estados Unidos. Lacerda defendia um regime de exceção para que Vargas não fosse eleito em 1950, não tomasse posse em 1951 e não governasse a partir daí. Ao fim, perdeu.

Em 1955, o presidente morto elegeu Juscelino Kubitschek. O general Henrique Lott, ministro da Guerra, derrubou dois presidentes na noite de 11 de novembro e garantiu-lhe a posse. O vencedor de 1954 teve que deixar o país.

Magalhães reconstrói os primeiros 41 anos dessa vida contorcida num período tumultuado. Espremendo-se o legado desse Lacerda sobra um sujeito inteligente e combativo, para pouco, quase nada. Em 1934, aos 20 anos, ele tentou se matar. Prevaleceu em 1954 e fracassou em 1955. Teria mais triunfos e fracassos até 1977, quando a morte física pegou-o aos 63 anos.

JK tirou o país da mediocridade

Com Lacerda nas livrarias e a campanha presidencial na rua, o livro de Mário Magalhães é como um salto do passado no presente. Lacerda cavalgava o moralismo, combatendo o “mar da lama” do governo de Getúlio. Era pouco mais que um exagero.

Juscelino Kubitschek tomou posse em 1956 prometendo 50 anos e 5 e uma nova capital no Planalto Central. Com um sorriso inesquecível e um otimismo contagiante, entregou quase tudo o que prometeu, mais uma economia envenenada pela inflação.

No epílogo do seu “Lacerda”, Mário Magalhães salta de 1955 para Lisboa, em 1966, quando eram dois proscritos da ditadura e pensavam que, juntos, podiam ir a algum lugar. Foram a lugar algum. Passado meio século, pode-se medir o legado dos dois.

Deus os havia poupado da mediocridade.

Lacerda deu ao Rio água e a alma do Aterro, concebida pela doidivanas Lota de Macedo Soares. Tisnou-se defendendo a ditadura que o mastigou. JK fez estradas e hidrelétricas, mas seu pedestal é o compromisso com as liberdades democráticas e a fé no “monstro”.

Em dezembro de 1974, a oposição havia derrotado a ditadura nas urnas, elegendo 16 dos 21 senadores, JK estava num almoço quando lhe perguntaram o que aconteceria no Brasil.

— O que vai acontecer, não sei. Soltaram o monstro. Ele está em todos os lugares.

Abaixou-se, como se procurasse alguma coisa embaixo da mesa, e prosseguiu:

— Ele está em todos os lugares, aqui, ali, onde você imaginar.

— Que monstro?

— A opinião pública.

Dois anos depois JK morreu num acidente de automóvel e o monstro carregou-o nos ombros ao avião que o levaria a Brasília. Lá, ocorreu a maior manifestação popular desde a deposição de João Goulart, em 1964.

Corrupção e candidatos

A corrupção é e será um tema central da campanha eleitoral. Ela o era ao tempo de Lacerda e JK.

Em 1960, cavalgando uma vassoura, Jânio Quadros elegeu-se presidente. Um ano depois, tentou dar um golpe de maluco e foi-se embora.

Em 1964, instalou-se a ditadura das propostas de Lacerda.

Cinco anos depois, terroristas roubaram um cofre na casa da namorada do ex-governador paulista Ademar de Barros.

A senhora disse que o cofre estava vazio, e os generais acreditaram.

Tinha 2,5 milhões de dólares; 22,75 milhões em dinheiro de hoje.

Renan e sua bomba

Renan Santos parece excêntrico ao dizer que o Brasil deve ter uma bomba atômica, mas a verdade é que, desde 1945, sempre houve alguém no governo trabalhando por ela. Às vezes, tinha poder e, às vezes, pensava que tinha.

O campeão da ideia de uma política nuclear foi o almirante Álvaro Alberto (1889-1976), primeiro presidente do Conselho Nacional de Pesquisas, que empresta seu nome à usina de Angra.

Em 1951, o Conselho de Segurança Nacional discutia a construção de um reator nuclear. (Só no ano seguinte Israel criou sua Comissão de Energia Atômica.)

Em julho de 1954, um grupo de cientistas alemães montou e testou três centrífugas para enriquecer urânio. O Brasil havia pedido licença para importá-las, e os Estados Unidos a haviam negado. Álvaro Alberto foi em frente, e elas estavam prontas para embarque no porto de Hamburgo quando foram apreendidas.

As centrífugas acabaram vindo em 1956, mas só começaram a funcionar em 1970, quando Israel já era uma potência nuclear desde 1966 ou 1967.

Maus ventos

Em poucas semanas a economia nacional levou os trancos das recuperações judiciais da Braskem e das Casas Bahia. Em seguida, foi para a UTI a rede de lojas Habib’s.

Na terça-feira, pela segunda vez, a Justiça decretou a falência da Oi, que chegou a ser a maior operadora de telefonia fixa do país. Ela surgiu no festim privatista de 1998, com o nome de Telemar. No BNDES era conhecida como Telegang. No final do século passado foi uma das “campeãs” nacionais. Sobreviveu por dez anos na UTI da recuperação judicial.

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SOBREVIVER É PROVA DE RESISTÊNCIA EM GAZA

Dorrit Harazim, O Globo

Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade

Na semana passada morreu o pintor e escultor palestino Sliman Mansour. Vivera 79 anos. Até o fim, ano após ano, década após década, ele repetia um mesmo mantra:

— A solução de dois Estados independentes, um para a Palestina, outro para Israel, se dará um ano depois da minha morte.

A depender do Estado de Israel, essa fantasia precisa ser enterrada. Mansour fazia parte da geração de artistas gerados na primeira intifada dos anos 1970, que buscou uma linguagem visual para retratar o significado da memória — da memória do que é ser palestino. Um pé de oliveira adquiria a força-símbolo de terra e continuidade, Jerusalém ora representava pertencimento, ora anseio, cenas do cotidiano emanavam perda, identidade, resistência. Mansour foi quem mergulhou mais fundo nessa busca. Uma colheita na primavera, um vilarejo rural, duas palestinas tocando flauta — a resistência em sua obra é implícita.

Seu quadro mais icônico, “Camel of hardship”, de 1973, até hoje adorna um sem-número de lares palestinos mundo afora, em forma de pôster. A obra mostra uma figura humana em andrajos, curvada sob o peso de um imenso fardo preso à testa por uma corda, e dentro do fardo está a cidade de Jerusalém, com o Domo da Rocha em destaque. É o retrato de um povo que continua a carregar no corpo pátria e memória, identidade e cultura, o sonho do retorno. O restante da tela é um espaço vazio e abstrato, sem horizonte claro. Vale a pena conferi-lo na internet.

A partir de outubro de 2023, com a saúde já declinante, Sliman Mansour não conseguiu mais tirar os olhos de Gaza:

— Todas as imagens que me vêm à mente são horrendas. Algumas delas não consigo apagar de mim.

Sua linguagem tornou-se mais abstrata para que a memória, a dor, a beleza e a resistência pudessem perdurar. Para ele, permanecer enraizado sempre foi o ato de resistência maior.

É precisamente contra esse enraizamento no chão, contra a resistência existencial dos palestinos que Israel luta por uma solução final. Tome-se o raciocínio do general reformado Giora Eiland, que serviu por 33 anos nas Forças de Defesa de Israel (FDI), condensado em entrevista recente para a emissora de rádio 103FM:

— Israel não tem interesse em ver Gaza reconstruída. É melhor para nós que a Faixa permaneça destruída por várias gerações... Eles nos atacam quando têm esperança, não quando estão desamparados, portanto, quanto maior a desesperança e a destruição, melhor.

Apesar do seu linguajar exterminador, Eiland nem é considerado ultraextremista no panorama atual da política israelense — ele apoia um eclético bloco partidário contrário ao primeiro-ministro Benjamin Netanyahu, curiosamente descrito como de centro.

— Gaza se tornará um lugar onde nenhum ser humano poderá viver — acrescentou.

Israel está doente de si mesmo. Avi Dichter, de 73 anos, é filho de sobreviventes do Holocausto. Já foi chefe do Serviço de Segurança Interna do país e hoje ocupa o cargo de ministro da Agricultura e Segurança Alimentar.

— Conquistaremos Gaza e não deixaremos um só palestino vivo — prometeu.

Sua colega de gabinete May Golan, ministra da Igualdade Social, é de outra geração, tem apenas 40 anos, mas certezas igualmente consolidadas.

— Eu me sinto pessoalmente orgulhosa das ruínas de Gaza — declarou ela em plenário do Knesset dois anos atrás, quando o número de civis mortos pela ação militar israelense ainda não tinha chegado a 30 mil. Hoje já são mais de 73.400.

— Gaza e sua gente precisam ser queimados. Toda criança nascida neste minuto em Gaza já nasce terrorista. Não podemos viver com essas criaturas perto de nós. — ecoou o ex-ministro da Educação Nissim Vaturi em fevereiro de 2025.

— Não restarão árabes na Faixa de Gaza — concluiu a voz mais engajada na anexação definitiva de toda a Palestina ocupada.

— Vamos fazer pelo Estado o que o Estado não pode fazer — explicou, referindo-se a forçar os 2,2 milhões de palestinos entulhados em Gaza a abandonar um chão tornado estéril.

Não que o Estado judaico esteja em compasso de espera enquanto adia o máximo possível a fase 2 do claudicante cessar-fogo em Gaza, instituído pela Casa Branca dez meses atrás. Ainda nesta semana, por ordem do ministro da Defesa, Israel Katz, a população do enclave foi informada de que as FDI poderiam alvejar qualquer criança ou adulto que soltasse uma pipa pelos céus do território. Alguns desses brinquedos de papel colorido haviam sido detectados pelos serviços de segurança em mãos infantis e considerados “atos de guerra”. Como justificativa foi citado o precedente de 2018, quando palestinos de fato lançaram balões e pipas contendo material incendiário por ocasião de uma marcha de protesto no enclave.

Hoje, as crianças de Gaza que soltam pipas sem explosivos sobre sua terra arrasada talvez servissem de tema para uma última obra de Sliman Mansour. Pelo simples fato de terem sobrevivido, são resistentes.

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DALVA DE OLIVEIRA, A RAINHA DA VOZ

Há exatos 54 anos, morria a cantora e compositora Dalva de Oliveiral. Dalva nasceu na cidade de Rio Claro (SP), em 5 de maio de 1917. Faleceu no Rio de Janeiro em 30 de agosto de 1972.

Dalva de Oliveira de voz afinada, e bela, considerada a Rainha da Voz ou o rouxinol brasileiro, sua extensão vocal ia do Contralto ao Soprano.

Segundo a revista Rolling Stone, Dalva de Oliveira foi considerada uma das maiores vozes da música brasileira de todos os tempos.

Biografia de Dalva de Oliveira

Dalva de Oliveira (1917-1972) foi uma cantora brasileira que fez sucesso nos anos 30, 40 e 50. Com uma extensão vocal que ia do contralto ao soprano, recebeu o apelido de “Rouxinol do Brasil”.

Dalva de Oliveira, nome artístico de Vicentina de Paula Oliveira, nasceu em Rio Claro, interior do Estado de São Paulo, no dia 5 de maio de 1917. Era filha mais velha de Mário de Oliveira, um carpinteiro, e da portuguesa Alice do Espírito Santo.

Seu pai que era músico nas horas vagas, tocava clarinete e organizava serenatas com seus amigos músicos. Com oito anos Dalva ficou órfã de pai e em busca de trabalho, sua mãe mudou-se para São Paulo levando as quatro filhas. Em São Paulo, trabalhou como governanta e colocou as filhas em um internato.

Em 1934, a família mudou-se para o Rio de Janeiro. Dalva passou a frequentar o Cine Pátria onde conheceu e logo iniciou um namoro com Herivelto Martins, que trabalhava ao lado de Francisco Sena formando o dueto Preto e Branco.

Dalva ingressou no grupo e passou a se apresentar como “Dalva de Oliveira e Dupla Preto e Branco”. Em 1936, Francisco faleceu sendo substituído por Nilo Chagas. Em 1937 lançaram “O Trio de Ouro”, nome dado por César Ladeira. Nesse mesmo ano, Dalva e Herivelto se casaram. Dessa união nasceu, Peri, que se tornou um grande cantor conhecido como Pery Ribeiro e Ubiratan.

Com o trio, Dalva gravou diversas músicas de sucesso, entre elas: “Ceci e Peri”, “Batuque no Morro”, “Adeus Estácio”, “Lamento Negro” e “Lá na Mangueira”. Em 1947, com a separação do casal, o trio se desfez. Era o início de uma longa batalha judicial pela guarda dos filhos, que acabaram sendo levados para um internato.

Em 1950, Dalva retomou a carreira solo e em 1951 lançou as músicas “Tudo Acabado”, “Olhos Verdes” e “Ave Maria do Morro”. Em 1952 recebeu o título de “Rainha do Rádio”.

Ainda em 1952, em uma excursão a Buenos Aires, Dalva conheceu o ator Tito Climent, que se tornou seu empresário e mais tarde seu segundo marido. Morando em Buenos Aires, o casal adotou Dalva Lúcia Oliveira Climent. Em 1963 o casal se separou e Dalva retornou ao Brasil, perdeu a guarda da filha e passou a morar sozinha em seu casarão no Rio de Janeiro. Todos os anos ela dava um tempo em sua agenda e recebia seus filhos na sua casa durante as férias escolares do mês de janeiro.

Em 1965, Dalva sofreu um grave acidente automobilístico, ao lado de seu namorado, Manuel Nuno, modesto rapaz, vinte anos mais jovem que ela, sendo obrigada a dar um tempo na carreira.

No fim dos anos 60, Dalva casou-se com Manuel e comemorou com uma festa em sua mansão. Dalva de Oliveira, que fez grande sucesso com as músicas “Bandeira Branca”, “Ave Maria do Morro”, “Tudo Acabado”, “Errei Sim”, “Hino ao Amor”, “Estão Voltando as Flores”, entre outras, foi considerada uma das maiores vozes da música brasileira.

Dalva de Oliveira faleceu no Rio de Janeiro, no dia 30 de agosto de 1972.

Texto de Dilva Frazão, E-biografia

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sábado, 29 de agosto de 2026

DESAFIOS NACIONAIS

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Falta uma política corajosa para enfrentar os problemas da Amazônia e revertê-los em favor dos brasileiros

A campanha eleitoral esconde os problemas brasileiros. Os candidatos habitam outra realidade. Os debates são vazios, cheios de ideias genéricas e afirmações coléricas sobre questões aleatórias. Um deles mencionou até a possibilidade de o país construir a bomba atômica. Retórica pura. Longe da realidade. Houve candidato que chegou perto. Ronaldo Caiado afirmou que a bandidagem transformou a Amazônia em santuário porque ali os traficantes agem livremente. A região se transformou na Disneylândia dos criminosos.

Esse é o resultado do abandono da Amazônia durante séculos. Em tempos recentes, os ambientalistas começaram a gritar em favor da preservação da floresta. Apareceu a política de criar reservas florestais enormes. A dos ianomamis, no norte de Roraima, por exemplo, possui área maior do que o território de Portugal. Os indígenas ali localizados somam no máximo três mil pessoas. Não há força armada, no Brasil, capaz de defender de maneira eficiente, aquele território na região de fronteira com a Venezuela.

Os jornais publicam reportagens sobre ação da Polícia Federal na repressão a garimpos clandestinos. Enxugar gelo. Segundo estimativas oficiais, operam na Amazônia cerca de 20 mil garimpeiros. É muita gente. E muito dinheiro envolvido, o que favorece a corrupção. O Brasil é refém da chantagem dos países desenvolvidos, que acusam os brasileiros de não preservar a floresta. Os europeus não preservaram nada. Os norte-americanos mataram os índios, avançaram sobre as planícies do meio-oeste e cultivaram suas imensas plantations. Eles dizem farms here, forests there. Fazendas aqui e florestas lá. Ou seja, eles fazem agricultura, mas os brasileiros devem se limitar a preservar a Amazônia para que os gringos venham fotografar macaco e jacaré.

Falta uma política corajosa para enfrentar os problemas da Amazônia e revertê-los em favor dos brasileiros. Agora, surge petróleo no Amapá. Os ambientalistas gritam em favor da preservação da floresta. Não gritaram quando o petróleo apareceu nas costas de São Paulo, Rio de Janeiro e do Espírito Santo. As cidades do litoral fluminense desfrutaram de notável desenvolvimento. Uma delas criou até moeda própria. O petróleo do pré-sal salvou a economia dos estados do centro-sul e retirou o Brasil de situação econômica difícil. O país importava a maior parte do petróleo que consumia. Era um impedimento ao crescimento da economia nacional. Até Fernando Gabeira, em artigo recente, admitiu a prospecção de petróleo no Norte brasileiro.

Em 1982, a importação de petróleo pelo Brasil alcançou US$ 8 bilhões, ou 44% do total das exportações nacionais, com o preço médio do barril em torno de US$ 34. Agora está perto de US$ 100. Até aquela data, o país estava estrangulado pela chamada conta petróleo, que crescia sem parar. Hoje, o Brasil produz mais de quatro milhões de barris e exporta um milhão deles. A descoberta do pré-sal reinventou o Brasil. Abriu novas possibilidades e permitiu que os brasileiros começassem a pensar em se tornar um país desenvolvido. Os políticos, no entanto, ainda estão nos anos setenta. O mundo mudou. A China inventou o capitalismo de estado, copiado pelo Vietnã. Cuba vai pelo mesmo caminho. A Albânia, que foi comunista radical, tornou-se membro da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) e candidato a integrar a União Europeia.

Donald Trump é evento passageiro. Ele encontrou seu Vietnã na guerra contra o Irã, que não sabe como terminar. O mundo assiste a decadência de um colosso. O Brasil descobriu a necessidade de buscar novos mercados. Acordou do sono que o embalava em berço esplêndido. A descoberta de petróleo no Norte do país significará, dentro de alguns anos, a geração de recursos necessários para integrar a região ao resto do país. Deverá haver dinheiro para fazer a correta defesa da floresta, colocar garimpeiros na moldura certa e combater traficantes de todas as espécies. E integrar o Norte do país.

A pequena Oiapoque, na fronteira com a Guiana Francesa, tinha aeroporto modesto. Foi reformado pela Petrobras para receber os aviões que trazem operários qualificados. E atender a voos regulares. Os helicópteros também já estão operando ali. Apareceram forasteiros, comerciantes, padres, advogados, meninas disponíveis e gente em busca de emprego. A estrada que liga a cidade a Macapá deve receber asfalto em curto prazo. Estava em estado bruto desde que o Barão do Rio Branco fixou a fronteira na negociação com os franceses, no início do século 20. Há outra possibilidade que vai provocar ainda mais os ambientalistas: é a possibilidade de petróleo em terra firme na região do Rio Tacutu, em Roraima. Do outro lado da fronteira, na Guiana, na bacia do mesmo rio, jorrou o óleo negro no poço denominado Karanambo I. 

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sexta-feira, 28 de agosto de 2026

'DARK HORSE' , ESTRANGEIRO ONDE ?

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O verdadeiro produtor de um filme é aquele que o financiou e cujo nome nem sempre aparece

Se o filme sobre Bolsonaro for nacional, ele nos deve, sim, satisfações sobre seus custos

Flávio Bolsonaro está se jactando de que as especulações sobre "Dark Horse" , filme sobre seu pai, são "página virada". A Ancine (Agência Nacional do Cinema) deu ao filme o registro de "obra estrangeira", o que o põe a salvo de investigações sobre a origem, a trajetória e o destino do dinheiro usado na produção. Com isso, por ser uma produção "americana", ninguém tem nada a ver com o fato de que esse dinheiro, gerado no Brasil, foi dar um passeio pelos EUA e voltou para pagar as contas aqui. Mas será ele, tecnicamente, uma "obra estrangeira"?

Como definir se uma produção cinematográfica é nacional ou estrangeira? Ao contrário do que se pensa, não é pelo nome do produtor que, nos pôsteres, vem logo abaixo dos atores e do diretor. Ele é apenas o produtor executivo, o que contrata os astros e a equipe, supervisiona as filmagens, controla o organograma e acompanha o processo até o último corte e a exibição. É um funcionário, assim como todos que passam às pressas nos créditos ao fim do filme, só um pouco mais graduado. O verdadeiro produtor, cujo nome nem sempre aparece, é o que pôs o dinheiro.

Este é o dono do filme, o proprietário legal do produto final, ou seja, do arquivo ou do negativo original, da distribuição e exibição em outras mídias e, importante, do copyright. Enfim, o produtor é o financiador, aquele que pagou para que o filme fosse possível –e que, certamente, exigirá muita coisa em troca, seja em dinheiro ou, talvez, favores institucionais. Quem botou o dinheiro para filmar "Dark Horse"?

Não me parece plausível que produtores americanos invistam num filme cuja bilheteria é duvidosa até no Brasil. Além disso, o país inteiro escutou Flávio Bolsonaro suplicar milhões a Daniel Vorcaro a fim de pagar os atrasados aos bacanas americanos. Será então Vorcaro o produtor? Nesse caso, "Dark Horse" é uma produção nacional e nos deve satisfações, sim.

Ficam assim informados a Ancine, a Polícia Civil de São Paulo , a PF, a PGR, o STF e o, no caso, descansado ministro André Mendonça.

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TERAPIA DE GUICHÊ

José de Souza Martins*, Valor Econômico

O Brasil é, a seu modo, inovador na questão de filas e suas práticas correlatas. Somos criativos

Nossa sociedade gosta de filas e de esperas, provavelmente mais do que muitas outras. Um jeito de puxar conversa com o vizinho de fila e ocupar o tempo da espera para ser atendido com queixas e reclamações justamente contra filas e esperas. O típico assunto para matar tempo e falar sobre tema de falta de assunto.

Quase sempre, para pôr a culpa no funcionário do banco, da repartição pública ou do hospital pela lentidão no atendimento.

O Brasil é, a seu modo, inovador na questão de filas e suas práticas correlatas. Somos criativos. Quase sempre, nessas pequenas questões populares, o somos pelo avesso do que usualmente são os nativos de países desenvolvidos. A começar pelo fato de que sentimos compulsão de preencher o tempo vazio que é o de uma prática entre momentos de obrigação do trabalho.

Essa ocupação de desocupado até mesmo fica em nossa memória para sempre. Motivo de lembranças e de comentários ocasionais, de reforço de uma ocorrência nova que lembre antiga. Às vezes até como comentário educativo para filhos e netos.

Houve uma época, na adolescência, em que me cabia pagar na agência da prefeitura a conta de água de lá de casa todo mês. Lembro-me de detalhes de uma história de fila. Todos muito irritados na fila lenta, para pagar a conta de água racionada.

Um senhor à minha frente, quando lhe tocou a vez de ser atendido pelo caixa, que o conhecia, perguntou-lhe a que vinha: “Vim pagar o ronco da água”, respondeu agressivo. Quando se abria a torneira vinha somente um ronco pelo cano. De fato, paga-se pelo ronco, pois ainda não havia registros para medir a água consumida. Era uma mensalidade, com água ou sem água.

A conversação de fila tornava-se assim um fato político, onde quer que ocorresse.

Quando finalmente o serviço de água se tornou acessível a todos, ficou a frustração pela falta de assunto para a maledicência contra o governo, fosse ele o responsável ou não pelos problemas das queixas. Todos se vangloriando pelo fato do problema ter acabado como resultado das queixas e reclamações de fila. A queixa de fila era supostamente poderosa em si mesma.

A maledicência da prosa de fila vinha e vem ainda da cultura rústica de roça. Ninguém pode estar em presença de outra pessoa, parado, sem dirigir-lhe a palavra, ignorando-a. É esse entre nós profundo desrespeito. Além do que, sinal de soberba, coisa de gente metida a besta, que se acha superior aos outros. E frequentemente se acha mesmo.

Em nossas filas, onde ainda existem, ao chegar ao guichê ou à entrevista o cliente encaixando comentários pessoais no meio do atendimento. Para incluir assuntos tão descabidos e irrelevantes quanto a receita de um caldinho de peixe ótimo para curar falta de apetite. Ou xarope caseiro de guaco para curar tosse na hora do sono. É claro, sabemos desde sempre que chá de erva cidreira combate a insônia e xarope de maracujá resolve problemas cardíacos.

O sujeito vai ao hospital para fazer uma consulta e quem acaba ouvindo diagnóstico e receita é o médico, tratado como paciente do consulente impaciente.

Sempre que vou ao Hospital Universitário da USP para fazer meus exames periódicos de laboratório, em jejum, no final passo na lanchonete para o café da manhã. Numa das vezes, estava sentado perto de um médico, no trabalho desde muito cedo, que descera para tomar um lanche. Da outra ponta do salão, um sujeito grita: “Doutor! Mamãe está curada!”.

O médico levantou os olhos com expressão de indagação tentando lembrar-se quem era mamãe. “Lembra? O sr. viu os exames dela e diagnosticou que ela estava com câncer. Demos nela um banho de oração, refizemos os exames e o câncer sumiu.”

A fila e a espera, sua correlata, deram lugar a uma “medicina” paralela e popular, que chamo de “terapia de guichê”, em que o protagonista “se cura” do imenso buraco de fala que surgiu entre nós em decorrência do descompasso entre a reclusão da casa e o vazio da rua e dos estabelecimentos comerciais e de serviços em que a pessoa é apenas uma coisa que paga e recebe, que se coisifica na impessoalidade da relação.

É esse um dado da realidade social da alienação e do estranhamento entre a pessoa e o mundo em que vive. E, também, da anomia, situações e momentos em que a realidade parece destituída de regras sociais, embora as tenha no automatismo do silêncio.

Os recintos das filas e esperas se institucionalizaram entre nós de modo oposto ao que ocorreu em outros países. Aqui, parte dessa terapia se manifesta na cultura da burla de filas. Somos a favor das filas para burlá-las, especialmente em cinemas e teatros. Furar a fila é uma técnica de esperteza só nossa. O espertalhão se aproxima de algum conhecido, puxa conversa e vai ficando.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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MARGEM EQUATORIAL E TERRAS RARAS, NOVO FRONTS DE LUTA

Artigo de Fernando Gabeira

Oceano e terras raras, o progresso nos empurra para novas dimensões do debate ambiental no Brasil. Do fundo do mar, nas camadas do pré-sal, o País explora a riqueza do petróleo; do fundo do mar, quando o pré-sal se esgotar, o País vai tirá-lo na Margem Equatorial, próxima à foz do Rio Amazonas.

A nova frente de exploração do petróleo é delicada. O Brasil hospedou a COP-30 em Belém com o objetivo de mostrar a importância e a vulnerabilidade da Amazônia. O País se comporta como um líder na transição energética e um interlocutor indispensável nos esforços para combater e mitigar as mudanças climáticas. É uma contradição, portanto, explorar novas fontes de petróleo na Amazônia. Ocorre que a correlação de forças internas aponta irresistivelmente para a realização desse projeto. A única saída é considerar a contradição como não antagônica e levá-la adiante sem que um dos polos seja eliminado. A equação será explorar o petróleo com rigorosos cuidados ambientais. Se depender de políticos do tipo Alcolumbre, os cuidados vão para o espaço. Se depender da opinião internacional, o ideal seria deixar a Amazônia em paz.

Viajei algumas vezes para a região. Inclusive escrevi um texto para o belo livro de fotos de João Farkas, Costa Norte. O objetivo de uma das viagens foi documentar os manguezais da região, os maiores do mundo. Os manguezais são berçários da vida e hospedam uma grande biodiversidade. Lá na região, há árvores de até 30 metros. Vi muitas pessoas saindo do mato, com fieiras de enormes caranguejos. Na pequena cidade de Bragança, próxima do mangue, o cardápio no restaurante é basicamente caranguejo. Numa viagem ao Amapá, cruzei o Estado e visitei Oiapoque, onde há uma inscrição “aqui começa o Brasil”. Oiapoque é o lugar onde a Petrobras construiu um centro de apoio à fauna porque está mais próxima da área de exploração do petróleo. A cidade não tinha saneamento básico nem água corrente em todos os bairros. Vai passar por um grande crescimento, porque milhares se deslocarão para lá em busca de trabalho. Esse processo na Margem Equatorial servirá para colocarmos o oceano na agenda.

O Brasil está um pouco atrasado em relação à Austrália, por exemplo, na proteção à sua área costeira, ameaçada por inúmeros perigos, inclusive o da pesca predatória internacional. Demos um passo criando o Parque Nacional do Albardão, com um milhão de hectares, no extremo sul do País.

As terras raras são o grande tema econômico do momento. Não são tão raras assim, existem em abundância na China e no Brasil. Chamam-se raras porque, quando foram descobertas em Ytterby, na Suécia, ocorriam em minerais incomuns, difíceis de isolar um dos outros. No momento, americanos exploram as terras raras em Minaçu (Goiás), lugar que se celebrizou pela grande produção de amianto, algo que conseguimos proibir por lei, mas infelizmente ainda sobrevive por meio de artimanhas jurídicas. Empresas australianas estão se preparando para extrair terras raras em Poços de Caldas, Minas Gerais, sob vigilância e oposição de grande parte da cidade.

Vale a pena conhecer a pré-história das terras raras no Brasil. Há um livro da jornalista Tânia Malheiros que descreve a extração de areia monazítica no Brasil no período da 2.ª Guerra. A monazita contém tório, urânio, ilmenita, zirconita e terras raras. O tório e o urânio eram os metais mais procurados pelos americanos. Cientistas escapados do nazismo conseguiam separar os minerais na monazita, e contribuíram para a primeira instalação nuclear no Brasil, em Santo Amaro, bairro de São Paulo. Um dos donos da empresa era o poeta Augusto Frederico Schmidt.

Houve muita discussão nacional sobre a exportação dos minerais e, inclusive, se criou, para variar, uma CPI no Congresso. O governo acabou encampando a Orquiza e passou a tocar o negócio com o nome de Usam Nuclemon, subsidiária da holding Nuclebrás. O livro de Tânia Malheiros conta a história dos trabalhadores atingidos pela radiação. Começaram a trabalhar antes de Hiroshima e Nagasaki, antes do desastre de Goiânia, não tinham consciência do perigo para sua vida.

As terras raras passaram hoje a simbolizar o objeto de desejo da indústria civil e militar. Servem para ímãs, telas de smartphones e TV e também para equipamentos militares. A empresa que extrai terras raras em Goiás está para ser comprada por outra ligada ao Pentágono.

Por outro lado, a regulamentação brasileira foi aprovada na Câmara e adormece no Senado. A exploração está se dando à margem do Rio Tocantins, onde está a represa da Serra da Mesa, maior reservatório brasileiro em volume de água doce. Em Poços de Caldas as terras raras serão exploradas por australianos, sob vigilância crítica. No planalto de Poços de Caldas há uma unidade das Indústrias Nucleares do Brasil (INB) que abriga entre 12 mil e 15 mil toneladas de resíduos radioativos, além de antigas estruturas de processamento de urânio. A extração de terras raras num lugar já traumatizado, sobretudo em Minas, que conheceu as tragédias de Mariana e Brumadinho, será delicada. Assim como será delicado explorar petróleo na Amazônia. Novos fronts numa luta já tão vasta.

Artigo publicado no jornal Estadão em 28 / 08 /2026

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quinta-feira, 27 de agosto de 2026

RELEMBRANDO DOM HELDER CÂMARA

27 anos sem Dom Helder Camara: relembre a trajetória do líder religioso, marcada pela caridade e luta por direitos humanos, na reportagem abaixo do g1 publicado nos 25 anos da morte de Dom Helder Camara. 

Beatriz Castro, TV Globo, g1

25 anos sem Dom Helder Camara: relembre a trajetória do líder religioso, marcada pela caridade e luta por direitos humanos

Arcebispo emérito de Olinda e Recife é tema de uma série de reportagens especiais da TV Globo.

Religioso, poeta e humanista. Os títulos, apesar de justos, são insuficientes para traduzir quem foi Dom Helder Camara. O “Dom da Paz”, como é conhecido, morreu no dia 27 de agosto de 1999, há 25 anos, mas seu legado segue vivo até hoje nas obras sociais e projetos fundados por ele (veja vídeo acima).

Um dos líderes religiosos, mais relevantes da história do país, Dom Helder teve um trabalho marcante na luta por direitos humanos, sendo um exemplo de caridade e humildade. Também fundou a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, foi bispo auxiliar no Rio de Janeiro e comandou a Arquidiocese de Olinda e Recife por 21 anos.

Para celebrar a história de Dom Helder Camara, a TV Globo preparou uma série especial de reportagens sobre a vida e trajetória do religioso. Aqui no g1, você vai conferir quem foi o arcebispo, o legado social e religioso dele e o processo de beatificação em andamento que corre no Vaticano.

Quem foi Dom Helder

Helder Pessoa Camara nasceu em Fortaleza, no dia 7 de fevereiro de 1909, numa família simples e numerosa. Era o 11º dos 13 filhos do jornalista e bibliotecário João e da professora da educação infantil Adelaide.

A vocação religiosa de Dom Helder se revelou desde muito cedo, graças à mãe. Helder cresceu frequentando missas aos domingos e dias santos. Teve aulas de catecismo e gostava de brincar de celebrar missas como um padre. Ainda na infância, teve a certeza do que queria fazer no resto da vida e, aos 14 anos, entrou no seminário.

“Desde pequeno, eu dizia: ‘Quero ser padre, quero ser padre’. Talvez eu nem soubesse direito o que era ser padre. Um dia, meu pai chegou e disse: ‘Meu filho, sempre [...] escuto você dizer que quer ser padre. Você sabe o que é ser padre?’. [...] Ele apresentou o retrato de um padre que eu achei uma coisa lindíssima, formidável. Quando ele terminou, eu disse: ‘Meu pai, é um padre assim que eu quero ser’. Pois bem, ele disse: ‘Deus te abençoe’”, contou Dom Helder em entrevista ao Bom Dia Pernambuco de 15 de agosto de 1991.

O religioso precisou de uma autorização especial do Vaticano para se ordenar padre aos 22 anos, já que não tinha a idade mínima exigida de 24 anos. Segundo o padre e historiador Tiago Oliveira Gomes, o início da trajetória do cearense como sacerdote foi influenciada pela formação conservadora no seminário.

“Ele se envolve muito nestes dois campos de atuação, educação e mundo operário, defendendo a visão católica daquela época. Ele se aproxima do integralismo e vai desagradando algumas pessoas”, declarou o estudioso.

Fundado em 1932 pelo jornalista Plínio Salgado, o integralismo foi um movimento nacionalista de extrema-direita que pregava a defesa da tradição da família e dos valores militares. Segundo o escritor, teólogo e padre Marcelo Barros, apesar do envolvimento inicial, Dom Hélder se afastou do movimento e, por vezes, precisou justificar sua mudança de pensamento.

“Ele disse: meu filho, quem tem inteligência muda, eu estou aberto a mudanças permanentemente. Eu soube mudar. O grande problema na vida é quando a gente não sabe mudar”, contou o padre Marcelo Barros em entrevista à TV Globo.

Acervo preservado

Líder da Igreja Católica em Pernambuco por mais de duas décadas (1964–1985), Dom Helder Camara foi um poeta com vasta produção, tendo escrito mais de 7 mil poesias (veja vídeo acima).

"Tinha a poesia nas suas veias, no seu sangue, na sua pele. Dom Helder conversava conosco de modo poético. Vivia como poesia, se movia, ria, andava poeticamente", afirmou o padre e teólogo Marcelo Barros.

O acervo do arcebispo reúne mais de 220 mil páginas, que estão tombadas a partir de um decreto do governo do estado. O material reúne cartas, crônicas, mensagens e discursos reunidos em mais de 300 caixas.

A preservação desse conteúdo, no entanto, foi ameaçada após o local onde estava guardado o acervo ter sido invadido em 2020. Equipamentos foram quebrados e roubados do instituto que protegia as obras.

A partir de então, foi iniciado um processo que está sendo mantido em sigilo para organização, limpeza e, posteriormente, digitalização. Segundo o historiador do Instituto Dom Helder Camara (Idhec), Felipe Xavier, o religioso tinha o costume de anotar tudo o que pensava: "É por isso que nós temos esse grande acervo", contou.

Outras instituições também fazem parte da salvaguarda do legado literário do Dom da Paz. A Companhia Editora de Pernambuco (Cepe) é parceira no projeto do Idhec, tendo digitalizado 120 mil páginas e feito o tratamento de 16 mil fotos que contam a história de parte do século 20 no estado.

De acordo com a superintendente de digitalização e gestão documental da Cepe, Simone Farias, as imagens do acervo passaram a ter uma maior nitidez. "Quando a gente fala em serviço de digitalização é preservar a informação além do tempo", afirmou.

Segundo a coordenadora do curso de história da Universidade Católica de Pernambuco (Unicap), Maria do Rosário da Silva, o material ficará à disposição de todos para que pesquisadores e pessoas que admiram a história do arcebispo "possam ter acesso de forma democrática, já que ela fica disponível como um acervo digital", diz.

Com os 25 anos da morte do religioso, o desafio é construir um novo centro de documentação para guardar todos os arquivos em segurança. De acordo com o Idhec, o terreno já foi comprado, e a nova sede do Centro de Documentação (Cedoc) tem previsão de começar a ser construída ainda em 2024.

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A ULTRADIREITA PÔS A POLÍTICA EXTERIOR NA URNA

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Interferência externa é possibilidade considerada e divide a opinião pública

Metade dos eleitores vê chance de países estrangeiros se intrometerem na disputa

Uma enorme bandeira dos EUA, estendida na horizontal, cobria parte do minguado público presente no comício de lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, no ensolarado domingo (16), na praia de Copacabana. Impossível adivinhar os motivos de quem teve a iniciativa.

Nas atuais circunstâncias, não deixa de parecer um gesto de júbilo pelas manifestações explícitas de apoio do governo Trump ao candidato da extrema direita —e, talvez, do desejo de que elas prossigam sob outras formas, mais diretas e continuadas.

A interferência da Casa Branca nas eleições presidenciais brasileiras é uma possibilidade real. O uso político das tarifas, a tentativa de enviar funcionários para verificar a integridade do sistema eletrônico de votação e a crescente crispação nas relações diplomáticas parecem anunciar a intenção de influir no resultado das urnas e de criar um clima favorável à sua contestação, caso o PT leve a melhor.

O que se viu até agora não tem paralelo na história recente das relações EUA-Brasil, baseadas no pragmatismo e na negociação das diferenças. Guarda semelhança com a atuação americana nas nossas eleições parlamentares de 1962, em plena Guerra Fria. Foi quando jorraram dólares para que organizações de direita financiassem candidatos ao Congresso.

A interferência externa é uma possibilidade também considerada pela opinião pública —e a divide. Segundo pesquisa do Datafolha publicada no domingo (23), metade dos eleitores acredita que há chance de países estrangeiros se intrometerem na disputa brasileira. E quase 1/5 (18%) não vê problema nisso.

A aceitação da ingerência externa varia muito conforme a opção política do entrevistado. Entre os que dizem preferir o filho de Jair Bolsonaro, essa porcentagem é 3,5 vezes a dos tendentes a votar em Lula. Da mesma forma, a porcentagem de bolsonaristas declarados que não se incomodam com que outros países tentem influir no pleito é o triplo da dos petistas e pouco menos do que a dos declarados independentes.

Por outro ângulo, os dados confirmam que a radicalização de posições, impulsionada pela ascensão da extrema direita, colocou a política internacional na agenda eleitoral.

Até a segunda década deste século, questões de política externa não faziam parte do rol de temas que diferenciavam os candidatos majoritários e vertebravam a competição por votos. Foi o populismo de direita que as transformou em divisores de opinião e em indicadores de identidade política —mesmo quando não eram questões centrais na política exterior brasileira. Assim, o relacionamento com a Venezuela ou com Cuba ganhou, nas críticas aos governos petistas, dimensão —e espaço— que nunca teve na agenda do Itamaraty.

A retórica perante os Estados Unidos variou conforme o ocupante da Casa Branca. Foi de alegre subserviência com Trump-1, desapareceu do discurso durante o governo Biden e agora volta a ocupar lugar central na agenda bolsonarista.

Mais uma vez, não se trata de desenhar uma política bilateral que contemple o respeito e os ganhos mútuos. O que se busca, como sempre, é o interesse da família Bolsonaro acima de tudo e a qualquer preço.

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QUEM COMANDA O SUPREMO TRIBUNAL FEDERAL ?

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

A troca de comando no Supremo Tribunal Federal (STF) está prevista para setembro de 2027 – mas, na prática, a transição já começou. Alexandre de Moraes, o próximo presidente, tem representado a Corte em encontros com chefes do Executivo e do Legislativo, além de promover reuniões com lideranças do Judiciário.

Moraes abriu a semana conduzindo uma audiência pública com presidentes de tribunais de todo o País para discutir combate ao crime organizado. Também chamou integrantes do Ministério da Justiça, da Procuradoria-Geral da República (PGR), da OAB e de prefeituras. O ministro convocou as reuniões por ser relator de ações que contestam a Lei Antifacção. Edson Fachin, o presidente do STF, compareceu como convidado.

No recesso de julho, quando foi presidente interino do tribunal, Moraes foi ao Planalto participar da cerimônia de sanção de leis voltadas à proteção das mulheres. Depois do evento, aceitou o convite do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) para tomar um café.

Há duas semanas, Moraes abriu as portas de sua própria casa, em Brasília, para receber Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União BrasilAP).

O jantar, que não estava na agenda de ninguém, serviu para reaproximá-los – e, de quebra, conectar Moraes a ambos.

Moraes corre o risco de sofrer impeachment em 2027 e quer se cacifar com Alcolumbre e Lula. Se o senador for mantido no comando da Casa, pode impedir a abertura do processo, como tem feito. Se Lula for reeleito, pode dar uma mãozinha nesse sentido. Lula, por sua vez, precisa ampliar a base de apoio no STF – especialmente com André Mendonça no encalço de Lulinha em meio à campanha eleitoral.

Moraes sinalizou que está disposto a colaborar. Em julho, mandou sortear entre os ministros da Corte novos inquéritos sobre Lulinha, embora o primeiro já estivesse com Mendonça. Uma das fatias da investigação foi parar no gabinete de Flávio Dino, aliado de Moraes.

Na semana passada, a PGR recomendou que as investigações sobre Lulinha relatadas por Mendonça seguissem para a primeira instância. Não fez o mesmo com o inquérito relatado por Dino.

Mendonça reagiu às investidas discretamente. Em um encontro de juízes evangélicos, reclamou que o cargo traz “limitações pessoais, pressões e momentos difíceis”. E confessou que, muitas vezes, pediu a Deus “uma vida mais normal”.

Fachin tem uma carta na manga. A aposta é que, até o fim do mandato, ele encerre o inquérito das fake news, de relatoria de Moraes. Na avaliação de uma ala do STF, o caso alimenta a polarização política do País.

Em tese, o fim do inquérito representaria perda dos poderes de Moraes. O plano funcionaria, não fosse por um detalhe: quando assumir a presidência do Supremo, ele poderá instaurar um novo inquérito nos mesmos moldes e repetir, assim, o feito de Dias Toffoli em 2019.

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quarta-feira, 26 de agosto de 2026

POR QUE CANDIDATOS DE DIREITA BUSCAM CONFRONTO NO CAMPUS ?

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

Denúncia, provocação, reação e vídeo compõem um método político moldado pelas redes

A guerra cultural encontrou nos campi um cenário ideal para gerar indignação e engajamento

Na quinta-feira, dia 20, o deputado estadual Diego Castro, do PL, entrou na Faculdade de Comunicação da Universidade Federal da Bahia com o kit básico desse tipo de ação política: seguranças, alguém encarregado de filmar e um roteiro na cabeça.

Filmou, retirou adesivos eleitorais, fez discursos, encenou sua revolta diante da câmera e de estudantes que correram para o espetáculo. E, como se diz no futebol, "esperou o contato, o contato veio", na sequência prevista: berros, dedos na cara, empurrões, boletins de ocorrência, notas de repúdio, reportagens e vídeos para as redes. No dia seguinte, um influenciador que se apresenta como Heitor Bolsonaro voltou ao local, também com o celular ligado, à procura de adesivos, placas de banheiro e reação.

É tentador descrever os episódios como "confusões". Não são. Confusão é aquilo que ninguém planejou e todos prefeririam que não tivesse acontecido. Esse tipo de confronto em universidades públicas é uma ação política com método, repertório e incentivos conhecidos no Brasil há pelo menos uma década.

O método começa pela escolha do flagrante. É preciso encontrar algo capaz de indignar a audiência: propaganda, pichações, banheiros, palavras de ordem, símbolos progressistas, qualquer material que possa ser apresentado como prova de que a universidade foi capturada pela esquerda ou transformada em território de reprodução ideológica. O objetivo é voltar com imagens que confirmem uma narrativa pronta.

A locação não é escolhida ao acaso. Quem produz esse gênero de conteúdo raramente vai pescar imagens nas áreas de engenharia ou na medicina. Prefere humanidades e artes, onde encontra a combinação ideal entre material visual, antagonismo ideológico e alta probabilidade de reação. Para o corte, indiferença é fracasso. Gritos, cercos e agressões são o que se busca.

A característica decisiva é que, embora corporal, essa ação política é inteiramente digital. O conflito não é simplesmente filmado porque aconteceu, mas acontece para ser filmado. Gritos na cara, sopapos e exibição de macheza destinam-se menos ao adversário presente do que à audiência ausente, que verá depois apenas cortes de 30 segundos.

Não é preciso imaginar combinação entre os atores: todos conhecem o roteiro. O provocador sabe quais botões apertar, a militância sabe o que se espera e cumpre o papel. Ligadas as câmeras, começa a ação política. Se a coisa terminar em alguma violência, melhor para a narrativa.

É aí que o mercado da indignação moral faz sua mágica. O mesmo acontecimento produz duas narrativas antagônicas e dois vencedores. De um lado, a épica do cidadão de direita cercado pela horda intolerante de "vagabundos maconheiros marxistas" que domina a universidade pública; do outro, os estudantes de esquerda que enfrentaram com bravura mais uma "incursão fascista".

Um lado corta a cena em que é cercado e agredido e confirma o autoritarismo da esquerda. O outro corta a cena em que o adversário recua e confirma a força da resistência antifascista. Cada público recebe uma prova para reafirmar suas crenças.

Até o pós-jogo integra a coreografia. Boletins de ocorrência, notas de repúdio e reportagens jornalísticas deixam de ser consequências e se tornam suítes do produto original. Voltam às redes como certificados externos de importância e alimentam novas exibições de virtude.

A esquerda estudantil conhece bem esse repertório. Quando a iniciativa é sua, o mecanismo se inverte. Um convidado considerado intolerável é cercado, interrompido ou expulso. O tumulto oferece um espetáculo de força interna. Centros acadêmicos e diretórios estudantis, cada vez menores e menos representativos, encontram nesses confrontos uma oportunidade de demonstrar relevância.

É um jogo de ganha-ganha. O influenciador ganha conteúdo, seguidores e capital político. O candidato demonstra coragem diante da sua base eleitoral. A militância estudantil confirma o heroísmo da resistência ao fascismo. Todos se valorizam dentro do próprio grupo.

Talvez só haja um perdedor: a universidade. Para milhões que jamais pisaram num campus público, a instituição existe através desses cortes. Não aparecem laboratórios, pesquisa, formação profissional ou extensão, mas paredes pichadas, gritos, socos, slogans e militantes. Quando a universidade precisa defender legitimidade e orçamento diante de uma sociedade e de um Congresso cada vez menos simpáticos a ela, servir de locação para a guerra cultural é um péssimo negócio.

Os brigões saem cantando vitória, porque a conta fica toda para a instituição.

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PERIGO DO "TRIÂNGULO DAS BERMUDAS" (SP, MG E RJ) DESAFIAM LULA E FLÁVIO BOLSONARO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Os três estados concentram parcela decisiva do eleitorado e podem engolir qualquer vantagem construída no restante do país. O equilíbrio nacional está assentado em grandes assimetrias

“Um dia de cada vez”, máxima consagrada pelos Alcoólicos Anônimos, aplica-se sob medida às campanhas dos dois candidatos que polarizam a eleição presidencial: Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteia a reeleição, e Flávio Bolsonaro, herdeiro político do ex-presidente Jair Bolsonaro. A sucessão de fatos negativos produz oscilações nas pesquisas e obriga os marqueteiros das duas campanhas a ter menos ansiedade com o futuro e mais atenção aos problemas do presente, sobretudo àqueles aparentemente pequenos, mas capazes de assumir grandes proporções.

Ao menos provisoriamente, a crise entre Flávio e sua madrasta, Michelle Bolsonaro, foi superada, com reflexos imediatos nas pesquisas em favor do enteado. Agora, é Lula quem está na berlinda. Seu filho Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, e antigos auxiliares envolvidos em investigações relacionadas à atuação de uma lobista fragilizam a agenda social de Lula como defensor das camadas de menor renda.

 

Flávio, porém, também enfrenta vulnerabilidades próprias e não pode imaginar que os desgastes do adversário sejam suficientes para lhe garantir a vitória. As pesquisas nacionais mostram uma eleição muito apertada. No levantamento Datafolha divulgado na semana passada, Lula aparece com 39% e Flávio com 33% no primeiro turno. Numa simulação de segundo turno, o petista vence por 47% a 43%, diferença situada no limite da margem de erro. A rejeição dos dois é praticamente igual: 45% dizem que não votariam em Lula, e 46%, em Flávio. O cenário confirma que a polarização está consolidada, mas não significa que o resultado esteja definido.

A disputa presidencial, entretanto, não será decidida apenas pelos números nacionais. É aí que o “Triângulo das Bermudas” formado por São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, por analogia, justifica o apelido. Na navegação, é uma região famosa no Atlântico Norte associada a lendas de desaparecimentos inexplicáveis de navios e aviões, compreendida entre a Flórida (Estados Unidos), as Ilhas Bermudas e Porto Rico.

Os três estados concentram parcela decisiva do eleitorado brasileiro e podem engolir qualquer vantagem construída no restante do país. O equilíbrio nacional está assentado em duas grandes assimetrias regionais. Lula conserva ampla vantagem no Nordeste, enquanto Flávio lidera no Sul. Segundo o Datafolha, numa eventual disputa de segundo turno, o petista vence por 61% a 30% entre os nordestinos, enquanto o candidato do PL supera Lula por 50% a 38% no Sul. No Sudeste, há empate técnico. Isso significa que uma redução da vantagem de Lula no Nordeste ou de Flávio no Sul pode alterar o resultado nacional.

São Paulo continua sendo o principal problema de Lula. A nova pesquisa Quaest mostra empate entre Lula e Flávio, com 30% para cada um no primeiro turno, mas o Datafolha aponta vantagem do candidato do PL por 47% a 42% numa simulação de segundo turno. Uma derrota petista por cinco pontos no maior colégio eleitoral do país seria administrável, desde que Lula mantenha larga superioridade no Nordeste. Uma abertura maior, porém, poderia comprometer sua reeleição.

Palanques regionais

O palanque paulista favorece Flávio. O governador Tarcísio de Freitas lidera a disputa pela reeleição com 40%, contra 27% de Fernando Haddad. No segundo turno, Tarcísio venceria por 47% a 30%. A dúvida é se o governador vencer no primeiro turno, o que fará no segundo. Em tese, oferece a Flávio uma estrutura política robusta, apoio empresarial, capilaridade municipal e uma vitrine administrativa. Haddad, o candidato de Lula, carrega rejeição elevada e ainda precisa provar que pode reduzir a hegemonia da direita no interior paulista.

Minas Gerais apresenta desafio diferente. Lula e Flávio estão tecnicamente empatados, com pequena vantagem numérica para o presidente. O estado tem uma tradição de acompanhar o vencedor nacional e funciona como uma espécie de síntese política e social do país. É grande demais para ser compensado por outro colégio eleitoral e diversificado demais para ser conquistado inteiramente.

O problema é que nenhum dos dois presidenciáveis dispõe, até agora, de um palanque estadual confiável. Cleitinho Azevedo lidera a disputa pelo governo, mas procura preservar um perfil independente e popular. Pode receber votos de eleitores bolsonaristas sem sair do muro. Ao mesmo tempo, o campo governista não conseguiu consolidar um nome capaz de unificar a base de Lula e polarizar a eleição estadual. Essa indefinição transforma Minas no estado mais perigoso para os dois lados. Em Minas, mais do que em São Paulo, a ausência de uma engenharia política sólida pode custar a Presidência.

No Rio de Janeiro, ocorre uma aparente contradição. Flávio disputa em casa, conta com a força histórica do bolsonarismo e aparece numericamente à frente de Lula, embora em situação de empate técnico. Ao mesmo tempo, o favorito ao governo é Eduardo Paes, aliado de Lula, que lidera com 37%, contra 14% de Douglas Ruas, candidato do PL. Num eventual segundo turno, Paes venceria Ruas por 50% a 20%.

Paes oferece a Lula um palanque forte, mas ambíguo. Precisa do apoio presidencial e das forças de centro-esquerda, porém evita colar no petismo para não perder eleitores conservadores. Flávio enfrenta o problema inverso: é forte na eleição presidencial, mas seu candidato ao governo ainda não acompanha esse desempenho. O “Triângulo das Bermudas” pode neutralizar a vantagem nordestina do presidente ou conter o avanço oposicionista no Sul.

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CARGOS DE QUE NÃO PRECISAMOS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Suplente de senador é posição que passa quase totalmente despercebida pelo eleitor

Isso dá margem a arranjos familiares ou para recompensar doadores de campanha

Michelle Bolsonaro designou o irmão para ocupar o posto de primeiro suplente na chapa que ela encabeça para uma das vagas de senador pelo Distrito Federal. Bia Kicis, que concorrerá à segunda vaga pelo mesmo PL da ex-primeira-dama, pôs o filho. Helder Barbalho, que pretende tornar-se senador pelo Pará, escolheu o pai, o eterno Jader Barbalho.

Arranjos familiares desse tipo são corriqueiros em eleições para o Senado. Também é comum ver financiadores de campanha galgados à posição de suplente. É um investimento que pode "se pagar", quando se considera que, na atual legislatura, 20 suplentes já chegaram a exercer, ainda que momentaneamente, o mandato. O suplente substitui o titular em caso de morte, afastamento, renúncia ou cassação.

O mecanismo tem sua lógica. Determinar desde a origem quem são os "vices" dos senadores é uma forma de economizar recursos. O mandato de oito anos é longo, então não são pequenas as chances de substituição fazer-se necessária. O problema é que esse sistema exige mais recursos atencionais do que o eleitor mediano é capaz de oferecer.

No Brasil, eleições para o Executivo e para o Legislativo são casadas, e são as primeiras que mobilizam as atenções. Falamos muito da disputa presidencial, um pouco dos pleitos para governador, e as legislativas, que talvez sejam até mais importantes, ficam a reboque. Não é exagero afirmar que o eleitor escolhe seu candidato a senador só quando sai de casa para votar. Em 2018, Dilma Rousseff liderava todas as pesquisas de intenção de voto para o Senado por Minas, mas ficou em quarto lugar.

Se nem nos senadores o eleitor presta muita atenção, o que não dizer dos pobres deputados estaduais? Nesse contexto, os suplentes de senador se tornam menos que curiosidades abstratas. Eles ficam tão cognitivamente escondidos que concorrer como suplente é um bom jeito de "fazer passar a boiada".

Não vou tão longe a ponto de defender o descasamento entre eleições para o Executivo e para o Legislativo, mas poderíamos ao menos extinguir os suplentes.

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CANDIDATOS NO OLIMPO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Candidatos fogem de confronto e encerram entrevistas ao ouvir questões incômodas

Flávio Bolsonaro estava à vontade. Escoltado por Paulo Skaf, desfilou pelos salões da Fiesp como novo escolhido do empresariado paulista. O senador esbanjou bom humor até se deparar com um grupo de repórteres. Mudou de semblante ao ouvir uma pergunta sobre o caso “Dark horse”, que revelou suas relações com Daniel Vorcaro.

“Gente, olha só... vocês vão parar no tempo?”, reagiu, sem disfarçar a irritação. “Não adianta, vocês não vão me colocar na mesma página desse cara. Hoje o governo Lula é que deve explicações. Vão cobrar explicações dele”, ordenou, antes que uma assessora encerrasse a entrevista.

O candidato do PL engrossou com os jornalistas na noite de segunda-feira. Na manhã de terça, foi a vez de Lula abandonar uma coletiva após ser questionado sobre os rolos do filho Fábio Luís. O presidente havia caminhado até os repórteres ao fim da cerimônia do Dia do Soldado. Falou o que quis sobre soberania e investimentos em Defesa. Ao ouvir uma pergunta sobre Lulinha, deu as costas e bateu em retirada.

Lula e Flávio são muito diferentes, mas têm adotado táticas semelhantes. Querem fazer campanha no olimpo, a salvo do escrutínio e do contraditório. Por isso, fogem de entrevistas longas, sabatinas e debates. Preferem falar em ambientes controlados, onde não precisam enfrentar temas incômodos.

O presidente passou a abrir o palácio a youtubers e influenciadores que só faltam lhe pedir autógrafo. O senador reeditou as lives em que o pai pregava para a bolha da extrema direita. No domingo, os dois se uniram no boicote ao debate da Band. Usaram desculpas variadas: a presença de nanicos, o risco de pegadinhas, o formato previamente aceito por seus próprios assessores.

O mau comportamento dos presidenciáveis já foi imitado por candidatos a governador. Eduardo Paes e Sergio Moro também faltaram aos primeiros debates no Rio e no Paraná. Esconderam-se atrás da liderança nas pesquisas, descrevendo como estratégia o que foi apenas soberba e desrespeito ao eleitor.

Se pudessem, Lula e Flávio se limitariam a recitar discursos e gravar peças de propaganda. Os dois só confirmaram presença na bancada do Jornal Nacional, onde falarão nos próximos dias, porque sabem que o custo da ausência seria maior.

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LULA TENTA MUDAR DE ASSUNTO

Vera Magalhães, O Globo

Os conselheiros da campanha petista sabem que o presidente não tem muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida

O vento virou, e o favoritismo que vinha sendo atribuído a Lula desde o escândalo “Dark Horse” e os entreveros na família Bolsonaro se esvaiu diante das revelações das andanças de Lulinha por gabinetes estrelados de Brasília. Levado de volta ao incômodo tema da corrupção às vésperas do início da campanha na TV, e sem ter mais como se esquivar de debates e sabatinas como fez até aqui, o petista busca desesperadamente mudar de assunto. O irônico é ter de contar com o Congresso, que já está em ritmo de letargia eleitoral, para ter alguma boa notícia para apresentar ao eleitor.

Soa um tanto a desespero achar que notícias pontuais ou ainda por vir — como o fim da taxa das blusinhas ou a abolição da escala de trabalho de 6 dias por 1 de folga — operarão aquilo que bilhões despejados em medidas desde o ano passado não conseguiram: uma melhora substantiva na aprovação do governo, indicador considerado fundamental por especialistas em pesquisas para que o presidente possa sonhar com uma corrida um pouco mais tranquila ao quarto mandato. Mas é exatamente este o clima para os lados do PT: temor diante da escassez de cartas na manga.

O cientista político Maurício Moura, do Instituto Ideia, observa que todas as vitórias de Lula até aqui se deram com um discurso que vendia otimismo: de bonança econômica em 2002 e em 2006 (a ponto de, naquela reeleição, nem os escândalos do mensalão e dos aloprados serem capazes de abalar a popularidade do incumbente) e de defesa da democracia há quatro anos.

Agora, o que foi apresentado ao eleitor, de isenção de Imposto de Renda a sucessivos programas de renegociação de dívidas, foi recebido com um entusiasmo apenas momentâneo, mas não suficiente para talhar a imagem de um governo exitoso, capaz de fazer jus àquela maré de otimismo dos anos 2000.

A própria narrativa da preservação da democracia, em que Lula investiu depois do 8 de Janeiro e que imaginava prevalecer após a condenação de Jair Bolsonaro, perdeu força depois que os ministros do Supremo Tribunal Federal mais atuantes nesses casos foram colhidos pelo furacão Master, levando com eles a imagem da instituição.

Diante desse panorama, em que a aprovação de seu governo permanece em patamares rigorosamente iguais à reprovação, e, mês após mês, a rejeição pessoal de Lula grita números proibitivos, cresce no entorno presidencial o medo do que pode acontecer num segundo turno contra Flávio Bolsonaro — que, vejam só, era tido como adversário dos sonhos até ontem.

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Os conselheiros da campanha petista sabem que Lula não tem muito de onde buscar votos na segunda etapa da corrida e passaram a reforçar junto a candidatos nos estados e a cabos eleitorais na ponta das cidades a ideia de um mutirão para garantir a vitória já em primeiro turno. Os bons números do presidente no Sudeste, mostrados pela Quaest, foram celebrados como essenciais para o sucesso dessa estratégia.

Nesse esforço de sprint final, qualquer catadão de boas notícias passa a ser visto como o combustível que você coloca com os trocados da carteira só para o veículo chegar ao destino. O fim da escala 6 x 1 será embalado na propaganda da TV, de que Lula tem a maior fatia, como epílogo da história que seus marqueteiros tentarão contar: de um governo que atuou para os mais pobres, contra os bilionários matreiros.

É por isso que a ênfase no discurso contra o alto preço dos alimentos, tendo a picanha como símbolo maior, é visto como notícia com potencial de estrago igual ou maior que as traficâncias de Lulinha, Marcola e companhia. Nada mais fatal para a tentativa de vender esperança com um personagem tão desgastado quanto Lula que a evidência de que ele prometeu algo muito concreto — a volta do churrasco e da cerveja—, e isso nunca chegou à mesa do eleitor que agora é chamado a conduzi-lo ao Planalto pela quarta vez, para perfazer 16 anos no poder, algo inédito numa democracia ainda tão jovem.

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terça-feira, 25 de agosto de 2026

DILEMA BRASILEIRO NA MARGEM EQUATORIAL

Artigo de Fernando Gabeira

O Brasil hospedou a COP30 na Amazônia para mostrar ao mesmo tempo a importância e a vulnerabilidade da região. O país se apresenta como líder na transição energética. Descobriu hidrocarbonetos a 175 quilômetros da costa do Amapá e pretende abrir 15 poços na Margem Equatorial, faixa de bacias sedimentares, que vai do Amapá ao Rio Grande do Norte. Estamos diante de uma contradição.

Um estudo do WWF estimou que o Brasil gastará R$ 47 bilhões que poderiam ser investidos em energia renovável e biocombustíveis. É o que um líder em transição energética faria. Mas a realidade é esta: a correlação de forças pende para os querem explorar o petróleo. Não adianta dar murros em ponta de faca.

É preciso ver a contradição como do tipo não antagônico, dessas em que um dos polos não desaparece. Em suma, uma contradição que segue seu caminho, no caso explorando o petróleo e tendo rigorosa atenção com o meio ambiente. De um lado, a pressão dos políticos, como Davi Alcolumbre, que querem resultados rápidos; de outro a vigilância internacional sobre uma região que o próprio Brasil mostrou como essencial à saúde do planeta.

Tive a oportunidade de viajar pela região para documentar no Pará a área com os maiores manguezais do mundo. Escrevi também um texto para o belo livro de fotos de João Farkas sobre a Costa Norte. Os manguezais são impressionantes. Árvores de 30 metros, as pessoas saindo da mata com fieiras de enormes caranguejos. No restaurante da cidade de Bragança, o caranguejo era o principal prato.

]A região concentra 80% dos manguezais do Brasil. Até 2005, pensava-se que os maiores manguezais estavam na Índia e em Bangladesh. Um mapeamento por satélite revelou que a maior extensão está Costa Amazônica: aproximadamente 8 mil quilômetros quadrados. Manguezais, sabe-se bem, são berçários marinhos e abrigam grande biodiversidade. São um pouco ignorados, mas sua riqueza não monetária é muito superior ao petróleo que possa ser encontrado ali.

Numa das viagens, cruzei o Amapá da capital até Oiapoque, simpática cidade de cerca de 30 mil habitantes. Há uma inscrição: “Aqui começa o Brasil”, porque é o extremo norte do país. Ela está à margem do Rio Oiapoque, diante da Guiana Francesa. A julgar pelas cidades litorâneas do Rio, como Macaé, o petróleo atrai muita gente, e grandes hotéis serão construídos. No entanto, não vi saneamento básico na cidade, e seu hospital é bastante precário. Fomos atingidos por uma intoxicação alimentar. Diante do quadro hospitalar, a saída foi a automedicação.

Oiapoque abriga hoje o centro veterinário construído pela Petrobras. Exigência do Ibama, o centro atenderá à fauna em caso de vazamento. O tema é um pouco vasto para só um artigo. Uma das linhas de debate pode ser a comparação com os resultados do pré-sal nas cidades litorâneas do Rio. Ele vai se esgotar, e a Margem Equatorial é a esperança de renovação. Será que a Região Norte poderá aproveitar melhor a transitória riqueza do petróleo? O que funcionou e não funcionou no Litoral Fluminense?

O tema é vasto, mas a vantagem é que o tempo é generoso. Assim como em Oiapoque se diz que “aqui começa o Brasil”, aqui começa uma nova aventura com o petróleo.

Artigo publicado no jornal O Globo em 25 / 08 / 2026

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segunda-feira, 24 de agosto de 2026

POR QUE O DEBATE DA BAND FOI O PIOR DAS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS DESDE 1989

Bernardo Mello Franco, O Globo

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, encontro será lembrado por um vice dormindo enquanto seu candidato falava

Esvaziado pelos ausentes e avacalhado pelos presentes, o debate da Band foi possivelmente o pior encontro de presidenciáveis já transmitido pela TV brasileira.

À frente nas pesquisas, Lula e Flávio Bolsonaro já haviam informado que não compareceriam. No domingo, Romeu Zema surpreendeu ao se juntar ao boicote.

Dos seis convidados, restaram três, que por pouco não se reduziram a dois.

O psiquiatra Augusto Cury já estava na portaria da Band quando deixou repórteres perplexos ao avisar que daria meia-volta para casa. “Vocês não percebem a minha mágoa?”, perguntou.

Minutos depois, ele desistiu da desistência e se juntou a Ronaldo Caiado e Renan Santos no estúdio. Eles se acomodaram num cenário melancólico, com três púlpitos vazios.

Apesar do esforço da emissora, não havia muito o que extrair dali. Os nanicos pareciam mais interessados em criticar os favoritos do que em apresentar propostas para justificar suas candidaturas.

Renan Santos mostrou a que veio ao exibir duas fraldas com os nomes de Lula e Flávio. Ao longo do debate, despejou falas misóginas e xingou eleitores dos adversários. Chegou a ser repreendido por Cury, que se disse espantado com sua agressividade.

Também estreante em eleições, o psiquiatra se mostrou uma metralhadora de chavões de autoajuda embrulhada num exótico terno verde. Faltou explicar o que faz na corrida presidencial.

Ronaldo Caiado não soube aproveitar o fato de ser o único presente com experiência política. Gastou a maior parte do tempo descrevendo Goiás como um paraíso nos trópicos. A imagem do vice cochilando enquanto ele falava resume sua participação no debate.

Difícil criticar Gilberto Kassab pela soneca. Quem resistiu uma hora e meia diante da TV é que merecia uma medalha.

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CONVENÇÕES QUE JÁ NÃO DECIDEM

Lara Mesquita, Folha de S. Paulo

Cada vez mais a escolha dos candidatos tem passado longe das convenções

Decisões antes tomadas por uma instância coletiva ficam nas mãos de um pequeno grupo

Idas e vindas na definição de candidaturas ganharam destaque no noticiário recentemente. Dois exemplos são o senador mineiro Cleitinho, do Republicanos, cuja candidatura ao governo atravessou sucessivas reviravoltas, e o ex-prefeito de Maceió JHC (João Henrique Caldas), do PSDB, que ora concorreria ao Senado, ora ao governo. E as indefinições sobreviveram às convenções partidárias.

As convenções, realizadas entre 20 de julho e 5 de agosto, deveriam ser o momento em que os partidos decidem não apenas se lançarão candidatos, mas quem serão eles.

A Lei das Eleições é clara: cabe às convenções a escolha dos candidatos. Mas o que vimos foram os partidos postergando essa decisão até 15 de agosto, data limite para registro das candidaturas. Mas como isso é possível?

Fui às atas das convenções partidárias. Descobri primeiro que, apesar de sua relevância, elas não estão disponíveis para download no portal de dados abertos da Justiça Eleitoral: é preciso acessá-las individualmente por estado, partido e eleição —alô, TSE. Com ajuda de pesquisadores, jornalistas e ferramentas de inteligência artificial, reuni as atas nacionais e estaduais de 2018, 2022 e 2026.

O que eu descobri? Analisando as convenções estaduais, com foco nos cargos majoritários estaduais, encontrei que, entre 2018 e 2026, a fatia de convenções que decidem não lançar candidato próprio ficou estável, o que mudou foi outra coisa: quem escolhe o nome dos candidatos. A delegação desta decisão à comissão executiva passou de 12% para 36% dos casos, esvaziando a convenção como instância de escolha dos candidatos. E esse recuo da convenção como instância decisória é mais frequente entre os partidos de centro e direita, como o Republicanos de Cleitinho e o PSDB de JHC. Em 2026, esses partidos delegaram a escolha em 46% dos casos, contra 29% entre os partidos de centro-esquerda e esquerda.

Em muitos casos, a delegação vai além da escolha de nomes ainda indefinidos. As atas autorizam a comissão executiva a rever decisões tomadas pela própria convenção, inclusive sobre candidaturas e coligações. Ou seja, a instância coletiva não apenas deixa de decidir, pode ter suas decisões completamente revistas.

O efeito é concentrar decisões antes tomadas por uma instância coletiva nas mãos de um pequeno grupo, quando não de um único dirigente. Mais uma mostra do distanciamento dos partidos da sociedade.

Cabe destacar que esse esvaziamento das instâncias de decisão coletivas conta com a chancela da Justiça Eleitoral. Pelo menos desde 2002 o TSE considera lícito que convenções deleguem à comissão executiva a escolha posterior dos candidatos, inclusive sem indicar nomes. O tratamento contrasta com o dado às comissões provisórias dos partidos, que muitas vezes substituem os diretórios. O STF derrubou a regra que permitia sua duração por até oito anos, por entender que órgãos compostos por dirigentes indicados, e não eleitos, poderiam minar a democracia interna.

Nos dois casos, o problema é semelhante, concentrar poder, retirando-o de instâncias coletivas. Só em um deles o Judiciário resolveu impor limites.

Um detalhe: em muitos partidos, a comissão executiva que recebe o poder de escolher os candidatos é ela própria nomeada por uma comissão provisória.

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