sexta-feira, 26 de junho de 2026

UM PAÍS QUE SÓ EXISTE HOJE E ATÉ A ESQUINA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O analfabetismo caiu, mas pergunte a alguém quando se proclamou a República, em 1822 ou 1889

Pelo menos, há um livro que está vendendo aos milhões: o álbum de figurinhas da Copa

Faça um teste com qualquer pessoa das que lhe prestam serviços, em sua casa, no seu prédio ou na rua. Pergunte-lhe se sabe o que aconteceu no Brasil em 1964. Ou sobre qual veio primeiro, se a Segunda Guerra ou a Guerra do Paraguai. Ou em que ano foi proclamada a República, 1822 ou 1889. Não quero antecipar nada, mas temo que as respostas não sejam muito animadoras. Converso com muita gente, de todas as classes e categorias, e sinto nelas um distanciamento crescente entre as premências da vida real e um conhecimento básico do país. É como se, para elas, o Brasil só existisse hoje e até a esquina.

Todos recebemos com satisfação os dados do recente levantamento do IBGE, que registrou a queda do analfabetismo para, pela primeira vez, abaixo de 5% da população. É uma vitória –há cerca de 100 anos, a taxa era de monstruosos 80%. Um fator fundamental para a escalada da alfabetização foi a transferência da população rural para as cidades nas décadas de 1960 e 1970. Mais da metade dos 4,9% atuais que não sabem ler nem escrever tem acima de 60 anos, o que confere com o dado anterior. São os brasileiros que ficaram para trás, e os governos não foram até a eles para alfabetizá-los.

Mas, para mim, o chocante são os 29% da população entre 15 e 60 anos, hoje, que sabem identificar as palavras e os números, mas não conseguem entender textos pouco além da cartilha nem multiplicar 3 vezes 9 ou dividir 12 por 4. Chama-se a isso analfabetismo funcional e atinge até quem está nas faculdades. Pode-se aceitar que 12% dos atuais matriculados no ensino superior sejam analfabetos funcionais? Serão esses os nossos profissionais do futuro?

Dos 16 anos que se exigem de alguém para se educar (nove no ensino fundamental, três no médio e quatro no superior), o brasileiro passa só dez anos na escola. O americano, 14. Sim, temos bolhas de alta realização –sempre as tivemos. Só que todos os países também as têm e, na média, mais do que nós.

Mas chega de pessimismo. Neste momento, há um livro vendendo aos milhões no país: o álbum de figurinhas da Copa.

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TEMPOS DE ARRAES - A REVOLUÇÃO SEM VIOLÊNCIA

Antônio Fausto Nascimento*, Democracia Política

O governo de Miguel Arraes de Alencar (1963/1964), em Pernambuco, ao lado de Seixas Dória, de Sergipe, foram os únicos a serem imediatamente depostos pelo golpe civil-militar de 1964. Governou o Estado por um ano, mesmo tempo em que ficou encarcerado na Ilha de Fernando de Noronha.

Ameaçado de nova prisão pela ditadura, teve de se exilar na Argélia, onde permaneceu por 14 anos, regressando ao Brasil com a Lei de Anistia de 1979. A partir das eleições gerais de 1982, foi eleito Deputado Federal por várias legislaturas e novamente governador por dois mandatos. O povo pernambucano lhe fez justiça, em seu retorno ás atividades políticas.

Pernambuco, em seu primeiro governo, foi o estado mais democrático da Federação (1).

É que coincidiu com a extensão da legislação trabalhista aos trabalhadores rurais pelo governo do Presidente João Goulart (1961/1964).

Atraso de vinte anos, nos quais cerca de duzentos mil trabalhadores das Usinas e Engenhos da Zona da Mata, em Pernambuco, não auferiam nenhum direito, ao tempo em que fora criado o décimo-terceiro salário e aprovada a Lei Orgânica da Previdência Social.

Acrescem a sindicalização rural, fundação de Sindicatos rurais, uma Federação estadual e preço favorável do açúcar no mercado internacional.

Também ao amparo do Estatuto do Trabalhador Rural - Lei 4.214, de 02/03/1963, aprovada pelo Congresso Nacional, foi feito o Acordo do Campo, regulando o trabalho no meio rural, onde, secularmente, vigoravam relações de produção pré-capitalistas.

Fonte de referência: Antonio Callado Repórter - Tempo de Arraes e Vietnã do Norte - Ediouro Publicações S.A - 2005.

*Antonio Fausto de Nascimento, foi dirigente sindical, bancário e secretário de Trabalho governo Arraes (1963-1964)

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ENSINANDO UMAS COISINHAS

Charge do Miguel Paiva

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quinta-feira, 25 de junho de 2026

PODEMOS NOS PREPARAR PARA CHEGAR A LUGAR NENHUM NO CASO MASTER

Julia Duailibi, O Globo

Investigações já chegaram a tantos, que muito pouca gente quer que prossigam

A entrevista do ministro Gilmar Mendes ao “Roda viva”, da TV Cultura, revelou, nas entrelinhas, o que devemos esperar do escândalo envolvendo o Master. Depois de meses discutindo os tentáculos de Daniel Vorcaro, do Centrão ao Supremo, do candidato à Presidência pelo PL ao líder do governo no Senado, podemos nos preparar para chegar a lugar nenhum. O que não seria grande novidade. Das tragédias brasileiras, está esta de pularmos de escândalo em escândalo, com uma expectativa quase pueril de que “agora vai ser diferente”. A entrevista nos lembra que, quando o assunto envolve os donos do poder, melhor adotar a cautela.

Ficou evidente que a delação de Vorcaro não deverá sair. E não sairá porque as investigações já chegaram a tanta gente, que muito pouca gente quer que prossigam. São poucos os sensibilizados com as mesadas, os contratos advocatícios, os negócios imobiliários e toda sorte de extravagâncias que deslumbraram o poder: de degustação de uísque em Nova York e Londres a festinhas com eslavas e esqui em Courchevel. É muita gente querendo abafar uma delação que, se bem feita, poderia ajudar a desvendar as contrapartidas que Vorcaro obteve ou tentou obter dos agentes públicos. Sem ela, fica mais difícil.

Em momentos da entrevista, Gilmar aponta preocupações com abusos cometidos noutras investigações, como a Operação Lava-Jato. Ele tem razão quando volta a esse ponto. O suicídio, em 2017, do reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Luiz Carlos Cancellier, citado por ele, nos obriga a manter um olhar crítico com as informações que vêm dos investigadores. Não se deve comprá-las pelo valor de face, sob risco de cometer injustiça. O ministro também criticou o fato de delações poderem ser feitas com investigados ou seus parentes presos. Outro ponto que demanda reflexão. O Estado não pode agir com tortura psicológica para alcançar nenhum objetivo. Não se combate o crime cometendo crime, disse Gilmar.

Chama a atenção, no entanto, que ele não tenha manifestado a mesma preocupação com excessos noutras ocasiões. A jornalista do Valor Econômico Maria Cristina Fernandes perguntou sobre a delação de Mauro Cid, que teve cinco versões e foi negociada entre idas e vindas da prisão. Na relatoria, Alexandre de Moraes, à época, pelo trabalho de defesa da democracia, imune a críticas dos pares e de parte expressiva da imprensa. Gilmar agora aponta como “erro crasso” de André Mendonça o que foi modus operandi do próprio STF na tentativa de golpe. A condenação dos golpistas, ato da maior importância para a democracia do país, poderia ter entrado para a História sem as inovações jurídicas às vésperas do julgamento, como a mudança na regra do foro privilegiado ou a análise pela turma e não pelo plenário. As provas contra Bolsonaro e seu entorno eram suficientes, e exageros no caso só serviram para dar argumento a quem era contra condená-los.

O mesmo serve para o escândalo do momento. Forçarmos a mão para punir os inimigos ou pegarmos o lustra-móveis para passar o pano para os amigos repete um script já conhecido. De escândalo em escândalo, continuamos cometendo os mesmos erros e chegando a lugar nenhum.

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ELES SABEM O QUE FAZEM (MAS NÃO SABEM TUDO)

Eugênio Bucci *, O Estado de S. Paulo

Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima 

Pior do que legislar pelo medo, pelo ódio, pelo ressentimento e pela ignorância é legislar pela exploração intencional do medo, do ódio, do ressentimento e da ignorância. Os parlamentares que insistem na tentativa de baixar a maioridade penal de 18 para 16 anos (ou menos ainda) fazem exatamente isso. Eles se aproveitam do sentimento de desproteção que assombra a gente brasileira e prometem fazer leis para conter a criminalidade. Só querem, porém, é ganhar dividendos nas urnas, isso em pleno ano eleitoral. Deliberadamente, premeditadamente, desinformam a sociedade e deformam a opinião pública. Eles sabem o que fazem.

(O que eles não sabem é que, com sua pregação apelativa, desacreditam não só os adversários, mas toda a cultura política. Dissolvendo a credibilidade dos outros, dissolvem a deles mesmos. Eles não sabem que ficarão gritando sozinhos, sem ninguém para ouvi-los. Acham que vão ter tempo de se divertir sobre os escombros das instituições. Mas, calma. Só tratarei do que eles não sabem ao final deste artigo. Antes, vou me dedicar a esmiuçar o que eles sabem, mesmo quando simulam não saber. Sigamos.)

Eles têm consciência da fraude que vai embutida em sua oratória. De saída, sabem que a redução da maioridade penal viola o limite da constitucionalidade. Juristas, à esquerda e à direita, alertam para o óbvio, mas eles não tomam conhecimento. Até os que veem pertinência na redução da maioridade penal afirmam que não dá para atropelar a Lei Maior dessa maneira. Entre outros, Ives Gandra Martins, ouvido pelo repórter André Fleury Moraes, da Folha de S. Paulo, advertiu: “O jovem tem o direito de não ser apenado antes dos 18 anos. Isso está na Constituição. Se isso foi assegurado como direito individual, torna-se evidente que a essa altura esta já é uma cláusula pétrea.” O dr. Ives Gandra admite que a tese é “lógica” e “razoável”, mas não aceita a correria intempestiva: “Entendo que hoje não cabe”.

Este jornal também tentou alertar. “Uma matéria tão complexa não pode ser contaminada pela exploração eleitoreira”, ponderou o editorial (Debate sério na hora errada, 13/6, A3). Em vão. Os fomentadores do sensacionalismo parlamentar não ouvem. Eles já estão informados de que a hora é inadequada e têm perfeita noção de que a ideia poderá gerar efeitos catastróficos. Sabem que, na quadra em que se encontra o tema da segurança no Brasil, o projeto, além de não reduzir a incidência de crimes hediondos, vai criar condições para piorar o que já é muito ruim. Jogar adolescentes nas prisões de adultos só servirá para ajudar o crime organizado a recrutar mão de obra ainda mais jovem e mais barata, mas eles não ligam a mínima. Jurando combater o crime, prestarão um favor inestimável para o crime.

Eles também sabem que uma pessoa de menos de 18 anos, quando comete um delito, não fica impune, pois está sujeita à restrição de liberdade nas formas da lei. Mesmo assim, alardeiam que vão acabar com a impunidade – impunidade que sabem não existir. E seguem em frente. Cientes de que quase ninguém tem acesso a estudos atualizados sobre os mecanismos que favorecem o crescimento dos homicídios, saem pelas tribunas falando absurdos sobre absurdos, certos de que não serão contestados.

E não são, ou quase não são. Eles sabem que a redução da maioridade no Brasil, se aprovada no embalo da raiva e do oportunismo, vai se traduzir na elevação da desumanidade, da indiferença, da insensibilidade, do egoísmo, da crueldade e da desigualdade perante a lei. Vai ser uma tragédia. Mais uma.

Os parlamentares sensacionalistas estão atropelando a Constituição, a razoabilidade, a compaixão, a inteligência e a verdade dos fatos. Transformaram a ignorância em seu cabo eleitoral. Mentem com fervor, banalizam a mentira e assim vêm convencendo os cidadãos desenganados, que não têm mais a quem recorrer. Uma pesquisa Ipsos-Ipec, publicada no ano passado, mostrou que 65% dos brasileiros apoiavam a redução da maioridade penal. Outro levantamento (Real Time Big Data), divulgado em maio, revela que o índice subiu para 90%. Esses parlamentares sabem o que fazem, e fazem com inegável sucesso.

(Agora, o contrapé, no contrafluxo. Eles se imaginam os campeões da esperteza e se deleitam em tapear o mundo inteiro todo o tempo. Há coisas entre o céu e a Terra, no entanto, das quais nem desconfiam. No afã de acender suas falsidades, põem fogo na madeira do palanque em que estão encarapitados. Eles se declaram religiosos, policiais, empresários, militares e até “influencers”, mas nunca políticos – isso, não. Incineram a credibilidade do poder público sem saber que queimam junto a autoridade dos postos que ocupam ou que planejam ocupar. Eles afrontam os direitos dos outros sem perceber que, no mesmo golpe, destroem a legitimidade do Estado no qual pretendem se empoleirar. Expoentes do cinismo sádico, desmantelam os laços sociais enquanto fazem pose – intragável – de sabidos.)

Eles fingem que não sabem o que sabem, mas sabem muito bem (e não sabem o que fingem, muito mal, que sabem). Serão perdoados? Vai saber.

*Jornalista, é professor da ECA-USP

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DOIS PRESOS, DUAS MEDIDAS

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

Quais são os critérios para o Supremo definir os destinos de Vorcaro e Bolsonaro

Dentre as muitas divisões que o Supremo Tribunal Federal (STF) vive hoje, uma delas é estrutural. A Corte é dividida em duas turmas. Por força do acaso, cada uma ficou com um dos temas de maior sensibilidade política da temporada: a Primeira Turma, de Alexandre de Moraes, julga os processos ligados à tentativa de golpe de Estado e a Segunda, de André Mendonça, está com as fraudes do Banco Master.

O destino dos protagonistas dos dois escândalos deve ser definido em breve pelos relatores dos processos. Moraes está para decidir se Jair Bolsonaro seguirá na prisão domiciliar depois que um segurança foi flagrado com uma arma do ex-presidente dentro do carro em uma blitz. Mendonça vai definir se Daniel Vorcaro, o dono do Master, continua em uma cela na Superintendência da Polícia Federal em Brasília, ou se será transferido para um presídio.

Moraes permitiu que Bolsonaro ficasse em casa por questões de saúde. A revelação de que mantém uma arma e a preocupação do condenado com a manutenção do equipamento podem mudar a situação. O problema é que, segundo boletins médicos da equipe que atende o ex-presidente, ele continua com a saúde frágil.

O entorno de Moraes considera pouco provável que ele mande o ex-presidente de volta para a Papudinha, pelos cuidados médicos que demanda. Em ano eleitoral, uma piora do quadro de saúde causada por falta de estrutura do estabelecimento poderia servir de motivo para novos ataques ao STF. Como solução, o relator poderá impor novas restrições ao réu na prisão domiciliar.

Já pessoas próximas de Mendonça apostam que o ministro mande Vorcaro para um presídio. Depois que a proposta de delação premiada foi recusada duas vezes pelos investigadores, não faria sentido manter o ex-banqueiro na superintendência da PF. Se Mendonça retirar Vorcaro de lá, deixará claro que a terceira tentativa de delação, aventada pela defesa, está fora de cogitação.

Sejam quais forem as decisões dos relatores, os dois devem ter as decisões confirmadas em votações posteriores nas turmas que integram. Mas por motivos diferentes.

Ao fortalecer Moraes, a Primeira Turma enfraquece o time de Bolsonaro em ano eleitoral. Lembrando que o ex-presidente foi condenado não apenas por ameaçar a democracia, mas por ameaçar o funcionamento do próprio STF.

A maioria da Segunda Turma apoia Mendonça não somente em nome da punição dos culpados pelas fraudes do Master, mas para fortalecer o bloco do ministro na briga interna contra o grupo de Gilmar Mendes, que tem atacado o relator pela forma como ele conduz as investigações.

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RACISMO RELIGIOSO DE UM ESTADO POLICIAL-CRISTÃO

Thiago Amparo*, Folha de S. Paulo

Por cumprir seu papel, diretora de escola infantil foi intimidada por PMs

Tratar de orixás nas escolas é tratar da cultura brasileira

Doze policiais, um deles com uma metralhadora, intimidaram a diretora de uma escola em São Paulo após o pai de uma aluna, ele mesmo policial militar, ter contestado uma atividade escolar sobre cultura afro-brasileira.

O pai da estudante mente: a escola apenas aplicou uma atividade pedagogicamente adequada e determinada pela lei federal 10.639/2003, que tornou obrigatório o ensino de história e cultura afrobrasileira. Os professores estavam trabalhando o livro "Ciranda de Aruanda", de Liu Oliveira, que apresenta os orixás em linguagem para crianças.

Tratar de orixás nas escolas é falar de cultura brasileira. Da mesma forma que estudantes se debruçam sobre mitologia greco-romana e sobre o papel do cristianismo na história do país — seja levantando a cruz, seja empunhando a espada— , devem, sim, aprender sobre Iansã, sobre Ogum, sem os quais nunca conseguirão ler um Jorge Amado, uma Conceição Evaristo, um Itamar Vieira Junior, nunca entenderão nossas festas populares nem nossa própria língua.

Invadir uma escola infantil armado não é apenas intolerância; é racismo religioso praticado por um Estado policial-cristão, para o qual liberdade religiosa tem cor e um credo.

Chamar de racismo religioso, não apenas de intolerância, ressalta o caráter sistemático e odioso desse tipo de discriminação que atinge primordialmente religiões de matriz africana. Os policiais devem ser punidos no rigor da lei, por crime de racismo e por abuso de autoridade ao servir como capangas privados, não como agentes republicanos da lei.

Não se trata de um caso isolado. Religiões de matriz africana predominam entre os casos de intolerância religiosa no Disque 100 —76% dos terreiros relataram ter sofrido violências físicas e/ou verbais, de acordo com estudo de 2025. Discriminação religiosa é um dos principais motivos de perseguição a professores e funcionários, de acordo com OLE (Observatório da Laicidade na Educação). O Brasil que veste branco todo fim de ano e fala Oxalá entra em escola infantil com metralhadora com a certeza da impunidade que apenas o racismo propicia.

*Advogado, é professor de direito internacional e direitos humanos na FGV Direito SP. Doutor pela Central European University (Budapeste),

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ARTILHEIROS NA BATATA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Messi já fez 18 gols em Copas. E daí? Quantos jogos levou para chegar a essa marca?

Os grandes goleadores são o húngaro Kocsis e o francês Fontaine; confira suas médias

Como diria Nelson Rodrigues, a imprensa teve espasmos de cachorro atropelado diante do 18º gol de Messi em Copas do Mundo. A julgar pelos gritos dos narradores e das manchetes, os gols do argentino contra a Áustria foram um momento da história, como o da fissão do átomo em 1938, da chegada do homem à Lua em 1969 e do sequenciamento do genoma em 2003. Ao fim da Copa, campeão ou não, Messi será desfilado pelos estádios numa bandeja de prata e com uma maçã na boca, para usar mais uma imagem rodrigueana.

Eu só me pergunto se essa suposta avalanche de gols faz jus à realidade. Messi está na sua sexta Copa do Mundo e levou 27 partidas para marcar os ditos 18. É uma média de 0,59 gol por jogo, significando que, em praticamente uma a cada duas partidas, foi para o vestiário com as mãos abanando. O alemão Klose, que ele teria superado, marcou 16 gols em 24 jogos –média de 0,67, melhor que a dele.

Quanto aos nossos artilheiros, fizeram melhor ainda. Ronaldo, em quatro Copas, marcou 15 gols em 19 partidas —0,79 gol por jogo. Pelé, também em quatro, foi às redes 12 vezes em 14 partidas, numa média de 0, 86. E Vavá, em duas Copas, nove gols em 10 partidas, média de 0,90. Nada mal, não?

Como temos por tradição esnobar o passado, ignoramos que Ademir, o Queixada, marcou nove gols em apenas seis jogos na única Copa que disputou, a de 1950, deixando a fabulosa média de 1, 50 gols. E que a de Leônidas da Silva foi ainda maior: 1,60, por oito gols em cinco partidas nas Copas de 1934 e 1938.

Mas vamos deixar a patriotada. Os artilheiros na batata (mais uma de Nelson) são o francês Fontaine, 13 gols em seis partidas em uma única Copa, a de 1958, com a já absurda média de 2, 17, e o húngaro Kocsis, 11 gols em cinco partidas, em sua também única Copa, a de 1954 —2, 20! Messi, meu chapa, supere isso.

Estamos falando de vetustas Copas, com a bola pesando 500 gramas (contra os 400 gramas de hoje), zero de substituições e sem pausas para hidratação. Pausas, só para a comemoração dos gols.

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DIGIMAIS DO PAU OCO


Charge do Aroeira

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DONALD TRUMP E AS ELEIÇÕES PRESIDENCIAIS NO BRASIL

Maria Hermínia Tavares*, Folha de S. Paulo

Preferências eleitorais parecem organizar visão dos brasileiros sobre EUA

Diferenças desaparecem, porém, diante da pergunta sobre os limites aceitáveis da intervenção

O presidente Donald Trump afirmou na rede Truth Social, na terça-feira (23), que a votação no Brasil será seu próximo desafio. E se declarou —quem diria— preocupado com a integridade do sistema eleitoral do país e com a necessidade de que a disputa seja livre e justa. Para ele, assim será se o Brasil vier a "se juntar à crescente lista de nações que se movem à direita".

Não poderia ser mais explícito: joga a favor do candidato direitista. Como, por enquanto não se sabe. Mas desde já o mandatário americano se alinha à tática da família Bolsonaro de disparar suspeitas sobre o nosso sistema de votação e sobre as regras que asseguram condições necessárias à livre competição nas urnas.

A declaração extemporânea dá mais um passo na direção de colocar as relações entre Brasil e EUA como um dos temas importantes do debate eleitoral. Bem diferente do que ocorria no passado, quando a política externa não fazia parte do rol de questões relevantes para a definição da imagem dos candidatos presidenciais, muito menos para a escolha dos votantes.

Se assim for, vale a pena olhar como potenciais eleitores encaram a ingerência ianque em assuntos nacionais. Também na terça, este jornal publicou a pesquisa Datafolha sobre a decisão da Casa Branca de incluir as facções criminosas Primeiro Comando da Capital e Comando Vermelho na lista de organizações terroristas estrangeiras que ameaçariam a segurança nacional dos EUA. O ato unilateral abre caminho à interferência direta de Washington em nossos assuntos domésticos.

O Datafolha mostra a grande repercussão do fato, medida pela elevada porcentagem de brasileiros que se julgam informados sobre a iniciativa americana. Majoritária é também a parcela dos que consideram que "organização terrorista" é um rótulo adequado às duas facções.

Ainda assim, a opinião pública se divide quase meio a meio quando se trata de caracterizar as intenções americanas, vendo nelas um gesto bem-intencionado para ajudar o Brasil no combate ao crime organizado ou, inversamente, uma desculpa para mandar no país.

As diferenças de avaliação estão associadas à preferência por partidos; à autoclassificação no gradiente esquerda-direita; à crença religiosa e ao apoio aos pré-candidatos Lula e Flávio Bolsonaro. Os partidários deste último creem mais no altruísmo dos americanos, enquanto os lulistas acreditam que aqueles se guiam pela crua ambição de poder.

As preferências eleitorais parecem assim organizar a visão dos brasileiros sobre as intenções dos EUA. As diferenças desaparecem, porém, diante da pergunta sobre os limites aceitáveis da intervenção americana.

Quase 3 em 4 entrevistados contestam o direito de Trump de atacar unilateralmente o crime organizado, sem avisar o governo brasileiro.

Por analogia, os resultados do citado levantamento sugerem que há limites para o discurso que mobilize a defesa da soberania diante de possível interferência trumpista no processo eleitoral deste ano.

Não obstante, assinalam que uma intervenção desabrida e prepotente —a marca por excelência do titular de turno da Casa Branca— poderá prejudicar seu candidato preferido.

*Professora emérita da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, é pesquisadora do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap)

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BRASIL CONDENADO INJUSTAMENTE

Míriam Leitão, O Globo

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas

Os negociadores brasileiros não têm muitas esperanças de reverter a decisão do governo americano de impor novas tarifas. A decisão final será no mês que vem e o país prepara as suas considerações finais. Um experimentado negociador me disse que este tem sido o mais difícil processo do qual já participou. Outro funcionário do governo brasileiro me explicou o seguinte: “É muito difícil evitar as tarifas porque há um claro desinteresse dos Estados Unidos em chegar a um acordo”. O presidente Donald Trump quer condenar o Brasil e não por motivos comerciais.

O que me explicaram é que no processo contra 59 países e a União Europeia, em que alegaram que essas nações não têm legislação eficiente contra importação de países que usem trabalho forçado, a decisão americana será cobrar as taxas. É muito difícil para os países se defenderem, e os Estados Unidos querem arrecadar.

—Eles não vão reverter para ninguém, porque querem substituir as tarifas de base, que foram derrubadas. Na cabeça de Donald Trump, é preciso arrecadar alguma coisa. Ele gosta do dinheiro entrando. E é curioso porque em países ricos o imposto de importação não deveria ter caráter arrecadatório. Trump mudou toda a lógica.

Há também pouca expectativa de que não seja aplicada a tarifa de 25%, da seção 301 da lei de comércio. O Brasil foi “investigado” com base neste item da lei por supostos erros no comércio com os Estados Unidos. Esse foi um processo específico contra nós.

— No caso da 301, temos perguntado a eles o que querem em certas áreas investigadas. Por exemplo, no desmatamento, querem mais dinheiro para o Ibama? Mais dinheiro do BNDES para o arco do reflorestamento? Eles não dizem, nem pedem nada. É como dizem, nem se o Brasil oferecer o céu, eles mudariam a atitude punitiva — me disse um dos negociadores brasileiros.

Outro integrante do governo diz que é difícil contrapor qualquer coisa. Contou que o lado americano pergunta o que o Brasil vai oferecer e não pede nada específico. Um dos itens das acusações trata dos acordos que temos com o México e a Índia.

– Eles dizem, ‘esses acordos estão atrapalhando as exportações dos Estados Unidos’. Falam como se eles mesmos não tivessem acordos com vários países.

Por mais que o Brasil explique que o desmatamento tem caído, que há leis contra pirataria, que as vendas para a Índia e México são pequenas, e que o Pix não compete com serviços americanos, eles continuam nas suas posições.

Essa onda de tarifas altas começou porque os Estados Unidos acusavam os países de lucrar com superávits permanentes no comércio bilateral. Mostramos que não é o nosso caso porque temos déficit. Mas isso não melhorou a situação para o país. É como se fingissem não entender essa diferença. Em janeiro, contudo, o representante comercial da Casa Branca, Jamieson Greer, se vangloriou em rede social de ter superávit com o Brasil.

Apesar do ceticismo com que os integrantes das equipes negociadoras do Brasil avaliam a realidade, a decisão política é a de continuar tentando um acordo. Agora têm acontecido as audiências públicas, os hearings. O governo não participa. São ouvidos apenas os integrantes do setor privado. Os negociadores preparam essas alegações finais reapresentando todos os nossos pontos e argumentos.

Durante a negociação, por exemplo, foi perguntado quais produtos e linhas os Estados Unidos querem que as tarifas sejam reduzidas. Exceto do etanol, os americanos nada pediram.

- Falam de um modo geral, em setores industriais, o automotivo, o médico, mas eles sabem que, se abrirmos, os grandes vencedores serão os países asiáticos que são mais competitivos. Perguntamos isso desde o ano passado. Reiteramos nos últimos meses e semanas. Eles sempre respondem de forma genérica — explicou um integrante da missão negociadora brasileira.

A guerra tarifária de Donald Trump é para arrecadar mais e tentar impor sua vontade aos países parceiros. No caso do Brasil, o bombardeio tem sido uma tentativa de interferir no processo que condenou Jair Bolsonaro. Foi um pedido dos bolsonaristas, primeiro de Eduardo e depois de Flávio Bolsonaro. Agora eles tentam mudar a história, com pedidos para serem ouvidos nas audiências, nas quais, dizem, defenderão que não haja taxação. O Brasil será tributado com taxas punitivas, as empresas terão prejuízo, porque os Bolsonaro fizeram lobby contra o Brasil.

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quarta-feira, 24 de junho de 2026

TRETA NO CLÃ BOLSONARISTA

 

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SALVE SÃO JOÃO !

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DRIBLES DO ACASO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Aleatoriedade tem mais influência no futebol do que em outros esportes coletivos

Raridade do gol e abundância de eventos imprevistos estão entre as razões da diferença

O ser humano é um bicho esquisito. Como espécie, temos horror ao acaso. Inventamos as religiões precisamente para fingir que ele não existe. Mas, quando se trata de eleger um esporte, a maior parte do mundo civilizado fica com o futebol. E o que caracteriza o futebol é justamente expor-se muito mais ao acaso do que outros esportes coletivos. É o imponderável que dá sabor à coisa. No basquete, é altamente improvável que um time muito ruim vença um muito bom, mas, no futebol, zebras fazem parte da ordem natural dos acontecimentos.

Causou frisson em 2013 o lançamento do livro "Os Números do Jogo", em que Chris Anderson e David Sally, depois de analisar com rigor estatístico um sem-número de partidas, tiram uma série de conclusões interessantes. Um de seus achados é que, no futebol, o acaso explica 50% dos resultados, deixando os outros 50% para a habilidade dos jogadores e a estrutura tática.

Um jeito prático de ver isso é olhando para os prognósticos em casas de apostas. Ali por volta de 2013, os times favoritos venciam apenas 50% das vezes. No handebol, eram mais de 70%. Vários fatores conspiram para a imponderabilidade. Um dos principais é que o gol é um desfecho raro. Uma partida pode envolver até 4.000 eventos como chutes, dribles, passes, impedimentos. Os gols, normalmente, não passam de três. Quando um time mete quatro, já chamamos de goleada.

Outra forma intuitiva de visualizar isso é observando o desenvolvimento de uma jogada. É raro tudo sair como o armador planejou. Quase sempre, ocorre algum imprevisto, como uma interceptação, um rebote, um passe errado e outras patadas do acaso. É em cima dessa generosa estocasticidade que as jogadas se constroem.

Meu palpite é que gostamos do futebol porque ele imita a vida. As características humanas que mais nos interessam também são, pelas metanálises de genética comportamental, o resultado de um complexo jogo de interações entre genes (habilidades?) e ambiente não compartilhado (acaso?) numa razão próxima a 50/50.

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HOJE É DIA DE SÃO JOÃO E DE XANGÔ

O sincretismo religioso – reinterpretação de elementos de diferentes religiões – permite que este dia 24 de junho seja celebrado tanto pelo catolicismo quanto pelas religiões de matriz africana. Na data é comemorado o dia de São João Batista e também de Xangô.

Conhecido como “santo festeiro”, São João é apontado pelo catolicismo como parente de Jesus. Ele teria previsto a chegada de Cristo e o identificado como filho de Deus.

Já Xangô, considerado pelas religiões de matriz africana como “divindade da justiça”, era o rei governante da cidade de Oyó. Na Umbanda, o orixá é considerado líder maduro, conhecedor do mal e do bem.

Festa Junina

Considerada umas das mais antigas festas populares, a Festa Junina é marcada pela valorização de tradições de povos das diferentes regiões do país. Um de seus elementos mais marcantes, a fogueira, tem como origem a tradição pagã de comemorar o solstício de verão.

No Brasil, a festa conta com comidas típicas, jogos e brincadeiras, além da famosa quadrilha.

Xangô, Deus do fogo

Representado pelo fogo e pelas cores marrom e vermelho, as celebrações de Xangô também são marcadas pelas fogueiras.

A festividade do orixá da justiça também é caracterizada como “festa da fartura”. Durante as comemorações, o milho é um dos principais ingredientes na culinária.

Além disso, nos festejos são servidos pratos de gbègìrì, comida predileta de Xangô, que possui ingredientes como o quiabo, azeite de dendê e camarão.

Via Destaque Notícias Fonte: Portal Brasil de Fato (Foto:PMSJA)

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O HOMEM QUE VIROU CINEMA

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Alfredo Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE

Alfredo Bertini faleceu durante cirurgia de transplante de órgão no terceiro dia da 30ª edição do Festival de Cinema de Pernambuco, que ele idealizou e realizou anualmente desde 1996. Se esse fosse o roteiro de um filme, o diretor seria acusado de falsificar a realidade para servir ao drama; a crítica diria que a vida do personagem — economista, cinéfilo, escritor, filósofo, pai de família, agregador de amigos e realizador do festival — seria suficiente para dispensar esse recurso teatral; os assistentes da 30ª edição do Cine/PE sentiram a emoção de viverem a realidade mais surpreendente do que a ficção a que assistiam na tela. Na sua 30ª edição, Bertini foi mais do que o organizador do Cine/PE, foi seu principal personagem. 

Sua vida — desde a infância na Praia do Pina, em Recife, sua formação profissional, atuação na realização do Porto de Suape e no Ministério da Cultura, a produção de artigos, o pioneirismo no estudo da economia do audiovisual, a extraordinária capacidade de colecionar amigos — pode ser captada por um bom diretor, mas dificilmente alguém conseguiria reproduzir em tela a emoção coletiva vivida dentro do centenário Teatro Cinema do Parque naquelas noites da 30ª edição. Nos primeiros dias, todos estávamos voltados para o hospital esperando sua resistência e recuperação, sentindo a presença de Alfredo. Faleceu no instante em que se iniciava a exibição de um dos filmes de longa-metragem. Mas a notícia veio depois que a sessão terminou e as luzes se acenderam. Não houve anúncio bombástico nem choros públicos, apenas a dor de quem se sentia em dívida com o amigo que realizou o evento que nos reuniu no momento de sua partida.

Durante meses na lista de espera, ele aguardou por um fígado compatível. Nesse período, dialogou com amigos sobre a vida no corredor da vida que é a espera por um órgão. Falou sobre a realidade de nosso tempo, em que a ciência criou corredores para a vida sem abolir os corredores para a morte, seja pela guerra, pela penalidade jurídica, pela violência nas ruas ou pela pobreza. Manifestou com tristeza que o número de órgãos disponíveis aumentou em consequência do crescimento de morte de jovens em acidentes de trânsito, especialmente com motocicletas. Não deixou de refletir e compartilhar a ambiguidade existencial de sua sobrevivência depender da morte de outra pessoa. No conto Os dois corações, um jovem se conforma da falta de doador lembrando que tinha frágil coração biológico, mas sólido coração moral que lhe dava o privilégio de viver na era em que há técnicas para o transplante, mas ainda não ética para a doação automática. Bertini necessitava de um novo fígado, mas viveu até o último instante com aquele que recebeu no nascimento e usando plenamente sua capacidade moral de lutar por um Brasil melhor e por valores estéticos por um mundo mais belo, sobretudo pelo cinema.

Quem participa do mundo cinematográfico conhece a importância e a dificuldade para realizar um festival, ainda mais mantê-lo por 30 edições consecutivas. A escolha dos filmes, a agenda de atores, diretores e críticos, o transporte e o alojamento, sobretudo a engenharia financeira, são tarefas que parecem insuperáveis. Mas,  sem os festivais, os filmes não têm a divulgação de que precisam para chegar ao grande público. Sem o Cine/PE, dezenas de obras, longas e curtas-metragens, ficariam perdidas. Devemos a Bertini o lançamento de dezenas de filmes brasileiros, inclusive do novo cinema pernambucano, que hoje orgulha o Brasil.

Apesar do sentimento de dor, não havia a sensação de morte: ele continuava sendo a parte mais importante e presente do festival e continuará presente a cada ano, quando as futuras edições acontecerem. Ele era o condutor, mas o festival sempre foi resultado de uma equipe liderada também por Sandra Bertini, pelos filhos e por seus colaboradores. Foram eles que conseguiram levar adiante a 30ª edição, na qual o próprio autor, ao morrer, passou a integrar sua obra. Guardando o choro e sem reduzir o esforço, fizeram integralmente aquela edição, com a homenagem à atriz Claudia Abreu, e certamente darão continuidade ao festival. 

Bertini deixa de ser organizador, articulador, arquiteto artístico e engenheiro financeiro para tornar-se o vento que conduzirá cada futura edição do Cine/PE, rebatizado como Festival Bertini do Cinema Brasileiro. Estará sempre presente porque virou ele próprio um filme, sobretudo se o cinema que abrigou o festival receber o nome de Cinema do Teatro do Parque Alfredo Bertini.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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SALVE SÃO JOÃO !

24 de Junho SÃO JOÃO BATISTA

São João Batista é uma das figuras mais importantes do cristianismo. Sua missão foi preparar o caminho para a chegada de Jesus, convidando o povo à conversão e ao batismo como sinal de arrependimento.

● O nascimento milagroso

Seus pais, Zacarias e Santa Isabel, já eram idosos e não conseguiam ter filhos. Um anjo anunciou a Zacarias que Isabel daria à luz um menino escolhido por Deus. Quando Maria visitou Isabel, o menino estremeceu de alegria no ventre da mãe, episódio conhecido como a Visitação.

● Sua missão

João viveu uma vida simples no deserto, pregando a conversão, a justiça e a humildade. Batizava as pessoas nas águas do rio Jordão e proclamava:

> "Preparai o caminho do Senhor."

Foi ele quem batizou Jesus, testemunhando a manifestação da Santíssima Trindade: o Filho nas águas, o Espírito Santo em forma de pomba e a voz do Pai.

● O martírio

João denunciou publicamente as injustiças do rei Herodes, que o mandou prender. Mais tarde, a pedido de Salomé e por influência de Herodíades, João foi decapitado, tornando-se mártir da fé.

● Por que sua festa é tão celebrada?

Na tradição católica, poucos santos têm comemorado o nascimento, e São João Batista é um deles, pois desde o ventre materno foi santificado pela presença de Jesus. Sua solenidade, em 24 de junho, lembra a alegria de seu nascimento e a esperança que ele trouxe ao povo.

Texto de Alento da Alma

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terça-feira, 23 de junho de 2026

POLÍCIA FEDERAL FAZ OPERAÇÃO CONTRA BANCO DE EDIR MACEDO

Isabela Leite, Léo Arcoverde, Bruno Tavares, GloboNews, TV Globo e g1 SP — São Paulo

PF faz operação contra fraudes no sistema financeiro e bloqueia até R$ 670 milhões em bens ligados ao Digimais

Operação Miragem cumpre nove mandados de busca e apreensão em São Paulo. Investigação aponta manipulação de balanços, ocultação da situação financeira de instituição e operações supostamente ilegais.

A Polícia Federal realizou, na manhã desta terça-feira (23), a Operação Miragem para desarticular um esquema fraudulento voltado à prática de crimes contra o Sistema Financeiro Nacional, no âmbito da gestão do Banco Digimais.

Mais de 50 policiais federais cumpriram nove mandados de busca e apreensão expedidos pela Justiça Federal em São Paulo contra 10 empresas e 8 pessoas físicas, incluindo o bispo Edir Macedo, fundador da Igreja Universal do Reino de Deus (IURD).

🔎Fundado em 1981 como Banco Renner, o Digimais tornou-se um banco digital em 2020, quando passou ao controle integral de Edir Macedo. Hoje, tem foco em operações de crédito, especialmente financiamento de veículos (leia mais abaixo).

Macedo é um dos investigados na operação por ser proprietário do banco, mas, como reside no exterior, não foi solicitado mandado de busca e apreensão contra ele neste momento.

Segundo as investigações, o esquema envolvia a manipulação de balanços do banco, a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas para ocultar a verdadeira situação da instituição.

Procurado, o Banco Digimais informou que permanece à disposição para colaborar com a investigação. "A instituição reafirma seu compromisso com a transparência, a conformidade regulatória e a plena colaboração com as autoridades competentes", disse em nota.

O escritório que defende o bispo Edir Macedo afirmou que não tiveram acesso aos autos da operação e “nada vai comentar, por se tratar de instituição financeira”.

A decisão judicial também autorizou o afastamento dos sigilos bancário e fiscal dos investigados, incluindo Macedo, além do sequestro e bloqueio de bens e valores de até R$ 670.348.945,70.

Segundo a Polícia Federal, durante as investigações foram analisados relatórios produzidos pelo Banco Central do Brasil que apontaram graves irregularidades na condução dos negócios pelos administradores da instituição financeira.

Os investigados poderão responder, na medida de suas responsabilidades, pelos crimes de gestão fraudulenta, inserção de dados falsos em demonstrativos contábeis e realização de operações de crédito vedadas, previstos na Lei nº 7.492/1986, que define os crimes contra o Sistema Financeiro Nacional.

Em nota, a corretora ID CTVM, que é citada na operação, informou que, "sente-se no dever de esclarecer que a corretora adota rigorosos padrões de governança e esclarecerá as autoridades sobre suas atividades e comprovará a lisura das suas operações".

Entenda a investigação

As apurações indicam que o esquema envolvia a manipulação sistemática de balanços e resultados contábeis com o objetivo de ocultar a real situação econômico-financeira da instituição e aparentar solvência perante os órgãos de controle.

Ainda de acordo com a investigação, a prática teria permitido a supervalorização de ativos e a geração artificial de receitas no montante de centenas de milhões de reais.

Segundo a Polícia Federal, o Banco Digimais adotou práticas financeiras consideradas temerárias, análogas às do extinto Banco Master.

A PF também investiga operações financeiras supostamente ilegais realizadas em benefício da empresa controladora do banco, além da possível falsificação e manipulação de informações inseridas em sistemas oficiais de registro do órgão regulador.

O que é o Digimais?

O Banco Digimais foi fundado em 1981, em Porto Alegre (RS), com o nome de Banco Renner.

Inicialmente, atuou como financeira e, ao longo da década de 1980, expandiu suas operações para o crédito direto ao consumidor (CDC) voltado ao financiamento de veículos. Em 1991, passou a operar como banco múltiplo (instituição financeira autorizada a oferecer vários tipos de serviços bancários sob uma mesma estrutura).

Em 2009, o empresário e líder religioso Edir Macedo tornou-se acionista minoritário da instituição.

Anos depois, em 2018, o banco iniciou sua transformação digital e, em 2020, foi reestruturado para atuar como banco digital, adotando o nome Digimais.

Na mesma época, Macedo assumiu o controle integral da instituição ao adquirir a totalidade das ações.

Atualmente, o Digimais concentra sua atuação no mercado de crédito, com destaque para o financiamento de automóveis, além de oferecer produtos voltados ao varejo, como Certificado de Depósito Bancário (CDB) e fundos de investimento distribuídos por terceiros.

Nos últimos anos, o banco passou por mudanças relevantes em sua estrutura societária e de gestão.

Em janeiro de 2025, uma tentativa de venda do controle para o empresário Maurício Quadrado, do grupo BlueBank, acabou não sendo concluída.

Embora a operação tenha recebido aval do Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), o comprador desistiu do negócio alegando deterioração das condições de mercado.

Já em janeiro de 2026., Aldemir Bendine assumiu a presidência executiva (CEO) do Digimais após homologação do Banco Central.

Em abril de 2026, o BTG Pactual anunciou a assinatura de um acordo vinculante para adquirir o controle acionário do banco.

O valor da operação não foi divulgado, e a conclusão do negócio permanece condicionada à realização de um processo competitivo, à confirmação da proposta do BTG como vencedora e à obtenção das aprovações regulatórias necessárias, incluindo as do Banco Central e do Cade.

Enquanto a negociação segue em andamento, o Digimais enfrenta desafios financeiros e de governança.

A agência de classificação de risco Fitch rebaixou a nota de crédito da instituição para “CCC(bra)”, um nível que indica elevado risco financeiro.

Na prática, a agência avaliou que o banco tem pouca margem de segurança para enfrentar dificuldades e que, caso sua situação piore, existe uma possibilidade real de não conseguir honrar seus compromissos financeiros.

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ONDE ESTÁ A MAGIA DO FUTEBOL BRASILEIRO ?

Artigo de Fernando Gabeira

Como a maioria dos brasileiros, sou apaixonado por futebol. Isso me dá o direito de escrever sobre o tema, dentro de certos limites. Perguntar, por exemplo, onde está a velha magia do nosso futebol. O que fazer para recuperá-la?

No passado, sempre reagiam com um sorriso ao saber que éramos brasileiros. Brasil? Ah, sim, Pelé, Garrincha, Rivelino. O futebol era nosso principal recurso em soft power, era a forma pacífica de afirmar a influência nacional.

Foi usado no Haiti, em 2004, para fortalecer o papel militar do Brasil na pacificação daquele caos que motivou a presença da ONU. Nossos craques desfilaram nos tanques que faziam o patrulhamento de áreas perigosas, como a favela Cité Soleil. Arrastaram multidões para saudá-los e agregaram simpatia às nossas tropas, que continuariam ali para patrulhar a turbulenta vida cotidiana.

Mas ali, em 2004, já desfrutávamos glórias passadas. Em 2014, descobrimos perplexos que havia algo errado com nosso futebol. O placar de 7 a 1 passou a ser a medida nacional para uma derrota desastrosa. Sempre que algo sai errado, dizemos: perdemos de 7 a 1.

De lá para cá, no futebol, não conseguimos ainda dar a volta por cima. Às vezes, fico preso aos detalhes. Não temos mais laterais como antigamente. Cafu, Carlos Alberto, Roberto Carlos, o lendário Nilton Santos, só vemos os sobreviventes nos camarotes da Copa. Não são um retrato na parede, mas um rápido zoom das câmeras de TV.

Às vezes penso que o calendário é o nosso problema. Muitos jogos. Talvez isso explique por que acho o futebol mais intenso na Europa. Será que é o cansaço que nos obriga a um jogo tão pouco vertical? Por que fazemos um gol e passamos a administrar o resultado? Somos devagar.

Na minha busca por respostas, às vezes, me volto aos cartolas que me parecem tão sospechosos, como aqueles políticos que pintam o cabelo e dão um beliscão no bumbum da secretária. Leio nas redes que o presidente da CBF levou a mulher e amante para a Copa, hospedando uma nos Estados Unidos, outra no México. Ele se submete ao mesmo rigoroso regime imposto por Trump ao time do Irã: joga nos Estados Unidos, mas dorme no México.

A Argentina continua brilhando. Seus cartolas não são melhores que os brasileiros. Não devemos descartar esse item, mas não podemos superestimá-lo. De qualquer forma, será necessário um esforço nacional para reerguer o futebol do Brasil. As empresas que faturam em cima da paixão deveriam destinar parte de seus investimentos a esse projeto. Quando começarmos a nos sentir como os neozelandeses sentem por sua seleção, a galinha dos ovos de ouro estará morta.

Talvez fosse pedir muito que o governo também se interessasse pelo assunto, embora seu papel seja secundário. As bets conseguiram monetizar a paixão. Grande parte dos impostos vai para os cofres públicos. Uma boa parte desse dinheiro deveria ser reinvestida no estímulo ao futebol. De talento, ruas, praias e becos estão cheios. O enigma é reencontrar a velha magia e nosso perdido soft power.

Artigo publicado no jornal O Globo em 23 / 06 / 2026

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O HOMEM APAGADO

Rodrigo Craveiro, Correio Braziliense

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade

Não era apenas um objeto. O homem largado sobre a cadeira de rodas era um ser humano. Repleto de sonhos, de frustrações. Quem sabe de amores perdidos ao longo da vida? Talvez por ser uma pessoa em situação de rua, o homem foi apagado aos olhos dos outros. Morreu dentro da Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Recanto das Emas, em circunstâncias que estão sendo apuradas. De repente, o homem deixou este mundo. Parou de respirar. O corpo, inerte sobre a cadeira de rodas, somente foi percebido tempos depois por uma mulher, enfermeira, que estava na sala de espera com o marido.  Mas era tarde demais.

O homem apagado estava sem sinais vitais. Virou número, estatística, dado que provavelmente será usado para evitar novos apagamentos em unidades de saúde. No dia seguinte, ganhou identidade pelas autoridades: Vilmar da Silva, 49 anos. Antes de morrer, contou a um grupo de religiosos que não se alimentava havia 15 dias. Acredita-se que estivesse ali para se proteger do frio e para aliviar a sede. Dessa vez, parece ter sido ignorado. Até partir. 

Outros homens, mulheres e crianças apagados cobram o preço de sua mera existência mundo afora. Os palestinos sofrem apagamento quase diariamente. Bombardeios israelenses arrastaram para a morte dezenas de milhares de moradores da Faixa de Gaza. E o mundo se cala, parece acostumado à política de matança. Dia desses me deparei no Instagram com a história de um palestino assassinado em ataque aéreo enquanto buscava os convites de seu casamento. Quase diariamente, nós, jornalistas, recebemos fotos das agências de notícias em que pais e mães da Palestina se desesperam e se debruçam sobre os corpos dos filhos envoltos em mortalha. Assim como Vilmar, que morreu sobre uma cadeira de rodas na UPA de Recanto das Emas, retiraram-lhes o direito de viver. 

Mas não é preciso ir tão longe para ver homens anulados pela sociedade. Muitos de nós estamos presos ao individualismo, ao egoísmo, à busca do enriquecimento e da prosperidade. Nós nos preocupamos tanto conosco e não olhamos para o próximo, para o lado. Quantos filhos abandonam seus pais em asilos e os apagam da própria história? Tantas vezes, quando o fazem, levam meses ou anos sem uma visita. O idoso alimenta aquela esperança, irreal, a cada fim de semana. Do outro lado, muitos encontram silêncio, desprezo e esquecimento em vida. Também quantos pais ignoram a existência de seus filhos e não lhes oferecem o mínimo suporte afetivo e financeiro? Destroem a saúde psicológica de quem deveriam amar.

Perto de nós existem outros como Vilmar. Pessoas com nome e CPF, mas lançadas à margem da sociedade. Estão nos semáforos, nas portas dos supermercados, sob as pontes e os viadutos, lançados na sarjeta. Dependem unicamente da empatia alheia, que quase sempre inexiste. Quando o Estado lhes dá atenção, normalmente é para sepultá-las.

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segunda-feira, 22 de junho de 2026

LIÇÕES DE RESISTÊNCIA AO RACISMO

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Ritmo de transformação do Brasil é tímido demais, mesmo com políticas públicas de ação afirmativa

Professor e ativista Helio Santos propõe equidade racial como política central para o país

"No dia 14 de maio, eu saí por aí/ Não tinha trabalho, nem casa, nem pra onde ir/ Levando a senzala na alma, subi a favela/ Pensando em um dia descer, mas eu nunca desci."

As estrofes iniciais da canção "14 de Maio", de Lazzo Matumbi, descrevem o pós-abolição e ilustram a construção dos alicerces de um dos países mais desiguais do planeta —o nosso.

Assim como a concentração de renda e de patrimônio no Brasil é branca, a pobreza também tem cor: é negra. Essa realidade é fruto da escolha política de um Estado-nação que optou pelo extermínio de povos nativos, substituição da mão de obra escravizada por imigrantes europeus e adoção de um modelo institucional de gestão que exclui e marginaliza negros.

O agronegócio brasileiro é um bom exemplo. Embora a maioria dos trabalhadores do campo seja negra, as grandes propriedades rurais pertencem aos brancos. Isso é fruto da Lei de Terras (1850), que impediu o acesso dos ex-escravizados à propriedade de terras no pós-escravidão.

Sim, a realidade nacional está mudando em razão de políticas públicas de ação afirmativa adotadas no fim do século 20 —após muita peleia dos movimentos sociais negros. Mas o ritmo dessa transformação é tímido demais frente ao tamanho dos problemas criados pelo racismo.

Militante histórico dos movimentos sociais negros, o professor e ativista Helio Santos está entre os que entendem que, apesar do êxito já conquistado, nossas políticas afirmativas ainda são insuficientes e precisam ser elevadas a outro patamar. Nesta terça-feira (23), ele lança o livro "14 de Maio – Lições de Resistência ao Racismo" (às 19h, no Itaú Cultural, na avenida Paulista, em São Paulo-SP).

Na obra, propõe a equidade racial como política central para o Brasil. "Precisamos radicalizar na democracia, o que implica reduzir drasticamente as desigualdades raciais, que são o principal obstáculo para o desenvolvimento nacional com sustentabilidade moral."

Concordo plenamente com ele. E você?

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PARABÉNS, MARCO PRADO !

E a segunda-feira (22) amanheceu achocolatado, hoje é dia de abraçar e parabenizar o ex-vereador de Sobral (CE), Marco Prado, o Chocolate.

O jovem político da família Prado desenvolveu um excelente trabalho quando esteve vereador na Câmara Municipal de Sobral.

Os sobralenses que acompanharam suas atividades parlamentares no legislativo sobralense se sentiram representados. O povo teve voz e vez.

A perseverança tem sido a marca desse político que não economiza esforços em defesa da população de Sobral.

Marco Prado demonstrou em suas ações que ainda é possível fazer politica com ética, competência e respeito.Chocolate, saúde, paz e felicidade. Parabéns, Marco Prado!

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domingo, 21 de junho de 2026

O NOVO POWERPOINT DO MASTER

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Para cada acusado de esquerda, surgem quatro ou cinco novos de direita

Desenhe o gráfico, pinte os direitistas de azul, os esquerdistas de vermelho, os juízes de preto, e me diga o que você vê

A operação contra o líder do governo no Senado, Jaques Wagner (PT-BA), é uma boa oportunidade de revisar o PowerPoint do caso Master.

Em minha coluna de 28 de março, "O PowerPoint certo do Banco Master", propus separar, no gráfico, quem foi acusado de roubar com o Master, de tentar salvar o Master e de receber dinheiro do Master. O que mais descobrimos desde aquele dia?

Jaques Wagner é acusado de receber dinheiro do Master através de familiares. Além disso, a decisão que autorizou a operação menciona conversas com Augusto Lima (um dos operadores do esquema) que, caso confirmadas, devem deslocar o senador baiano da seção "recebeu dinheiro" para "tentou salvar o Master".

No meu PowerPoint de 28 de março, o PT da Bahia já estava na seção "roubou com o Master" pelas suspeitas envolvendo o CredCesta. Seria bom se a PF nos ajudasse a substituir a legenda pelo nome de pessoas concretas.

Já na direita a fila para entrar no PowerPoint é mais longa, e inclui peixes bem maiores.

O candidato a presidente da direita, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), agora domina o campo "recebeu dinheiro do Master", mas a dúvida é se não deve migrar para "roubou com o Master". Afinal, se Vorcaro lhe deu milhões, os governadores bolsonaristas deram bilhões (muito mais do que sabíamos em 28 de março) dos aposentados para o Master.

O mesmo raciocínio vale para o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), que a revista Veja acusa de receber R$ 150 milhões do Master. A previdência do Amapá, que colocou dinheiro dos aposentados no Master, é controlada por seus aliados.

Hugo Motta (Republicanos-PB), presidente da Câmara dos Deputados, está na mesma: seus familiares receberam um empréstimo camarada do Master. Motta é autor de um projeto que obrigaria entidades de previdência privada a investir no mercado de estoques de carbono. Se o dinheiro tiver sido dado em troca do projeto, o deputado vai para a seção "roubou com o Master". Vorcaro queria essa aprovação porque inflava sua carteira de investimentos com um empreendimento picareta na Amazônia.

Filipe Barros (PL-PR) estava no PowerPoint em "tentou salvar o Master" por ter apresentado o projeto de lei que copiava a "Emenda Master", que Ciro Nogueira (PP-PI), hoje sabemos, recebeu pronta de Vorcaro. Pelo que já expliquei na última coluna, Eduardo Bolsonaro merece ter seu nome inscrito no PowerPoint ao lado do deputado paranaense.

Agora desenhe o gráfico, pinte os direitistas de azul, os esquerdistas de vermelho, os juízes de preto, e me diga o que você vê. Mude os critérios, se quiser: veja que lado ganhou mais dinheiro, que lado tem mais gente envolvida, o quanto os envolvidos são importantes para seu próprio lado.

O resultado será o mesmo. Para cada acusado de esquerda citado nas investigações, surgem quatro ou cinco novos acusados de direita, cada vez mais poderosos e movimentando cada vez mais dinheiro. Não é mais questão de saber quantos líderes da direita estão no PowerPoint do Master, mas qual deles não está.

Saudades de quando criticávamos a direita, de modo meio idiota, por só pensar em números, não em pessoas. Hoje em dia é difícil ensiná-los a contar bolinhas em um gráfico.

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sábado, 20 de junho de 2026

AMOR, FÉ E DEVOÇÃO POR MARIA BETHÂNIA

Flávia Oliveira, O Globo

Ela é intérprete de um Brasil que nos faz 'compreender a marcha e ir tocando em frente', como nos versos de Almir Sater que eternizou em disco de 1990, quando festejou um quarto de século de estrada

Parem os relógios, silenciem os telefones, suspendam a internet. Tomo emprestada a inspiração de W.H. Auden no poema “Funeral blues”, não para prantear uma morte, mas celebrar uma vida. Maria Bethânia fez 80 anos. Suspendamos o tempo para festejar a voz que há seis décadas canta como ninguém as brasilidades. Por um momento, não existem fraude Master nem dinheiro-vivo-mal-explicado; delação premiada nem tarifaço; Neymar machucado nem Endrick no banco; golpismo bolsonarista nem Lei da Dosimetria. Nada de mulheres violadas, crianças maltratadas, motociclistas desembestados, comunidades aterrorizadas.

A filha biológica de Dona Canô (1907-2012) e espiritual de Mãe Menininha do Gantois (1894-1986), irmã de Caetano Veloso, cria do Recôncavo Baiano, cujo nome foi tirado de uma canção de Capiba na voz de Nélson Gonçalves, é mais um talento artístico-musical que os anos 1940 legaram ao Brasil. São da mesma década os octogenários Erasmo Carlos e Roberto Carlos, de 1941; Nara Leão, Nei Lopes, Gilberto Gil, Caetano Veloso, Clara Nunes, Tim Maia, Milton Nascimento, Paulinho da Viola, todos de 1942; Chico Buarque, de 1944; Elis Regina, Geraldo Azevedo, Ivan Lins e Raul Seixas, de 1945. Benza Deus!

Bethânia completou oito décadas de vida e saúde, corpo a serviço da palavra — lida e cantada. É leitora voraz, curadora exímia de prosa e verso — está aí seu “Caderno de poesias” (UFMG, 2015) a provar. De tão reverente à língua portuguesa, canta com crase. Se duvidar, preste atenção à interpretação de “Você perdeu” (Márcio Valverde e Nélio Rosa), no álbum “Tua” (2013): “Hoje a minha vida rima/E agradeço àquele adeus”. Juro.

Andei dizendo por aí que o 18 de junho deveria ser feriado. Na Bahia, onde Bethânia nasceu. Mas também no Rio de Janeiro, cidade/estado que escolheu para inaugurar, em 1965 (no espetáculo “Opinião”, de Augusto Boal), a carreira ora consolidada em 19 obras e 2.059 gravações cadastradas no Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad).

Bethânia não é apenas a cantora da minha vida, mas a intérprete de um Brasil que nos faz “compreender a marcha e ir tocando em frente”, como nos versos de Almir Sater que eternizou em disco de 1990, quando festejou um quarto de século de estrada. É no país que ela canta que a gente acredita, insiste.

Em 2010, cruzou Brasil e Europa com a turnê “Amor, festa e devoção”, cenário formado por rosas vermelhas, em celebração aos 45 anos de ofício. Show e álbum ao vivo foram dedicados à mãe. As três palavras que deram nome ao projeto, ela contou no palco, eram os ensinamentos de Dona Canô para o bem viver.

O trio de substantivos também resume a contribuição de Bethânia ao país. Ela canta o amor, num repertório tão vasto quanto sincero. Vai de Roberto e Erasmo Carlos a Chico Buarque, de Caetano Veloso a Djavan, de Dominguinhos a Paulo Sérgio Valle, de Chico César a Gonzaguinha, de Ângela Ro Ro a Sueli Costa.

Visita as festas brasileiras, do litoral ao sertão. Vai do samba de roda ao sertanejo, do carnaval ao São-João, do forró à Sapucaí. Foi homenageada pela Estação Primeira de Mangueira em 1994, com Caetano, Gil e Gal Costa, os Doces Bárbaros. Em 2016, enredo concebido por Leandro Vieira, levou a escola ao campeonato.

É, além de festa, devoção, porque não há quem tenha vivido e cantado com tamanha intensidade e frequência a religiosidade brasileira. É mulher de novena, mandinga e vigília; de procissão e desfile. Em tempos de aguda intolerância e perseguição à fé alheia, escancara a fé nos orixás do candomblé e nos santos católicos. Filha de Iansã e devota de Nossa Senhora, ensina que a convivência respeitosa é, mais que possível, desejável.

Adentrou a profissão berrando “Carcará”, nos primeiros anos da ditadura militar. Gravou “Cálice”, hino de Chico Buarque e Gilberto Gil contra o arbítrio, no álbum “Álibi” (1978), ainda durante o regime. Três anos atrás, quando o Tribunal Superior Eleitoral condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro por abuso de poder político e uso indevido dos meios de comunicação, disparou de cima do palco, pés descalços, sílaba por sílaba: i-ne-le-gí-vel. Tem firmeza e coragem.

Maria Bethânia ganhou com Caetano, em fevereiro passado, aos 79, o Grammy de Melhor Álbum de Música Global. O reconhecimento veio pelo disco nascido da turnê dos dois irmãos, em 2025. Está viva e produtiva e forte e engajada e coerente, como sempre. O Brasil — de ontem, hoje, amanhã — precisa dela como nunca.

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sexta-feira, 19 de junho de 2026

HORA DE JOGAR COM A CABEÇA NA COPA

Artigo de Fernando Gabeira

De um ponto de vista geopolítico, esta Copa do Mundo é um projeto frustrado. A Fifa optou por um caminho, a propósito, ampliando de 32 para 48 o número de participantes. Estados Unidos, México e Canadá, quando resolveram hospedar o torneio, pensavam em projetar a imagem de uma América do Norte unida, próspera e, até certo ponto, aberta para o mundo. Mas, no meio do caminho, havia a rígida política migratória de Donald Trump.

O presidente da Fifa, Gianni Infantino, ainda tentou bajular Trump com um prêmio da paz que ele mesmo inventou para compensar a frustração com a perda do Prêmio Nobel. Além da rígida política migratória, Trump decidiu entrar em guerra contra o Irã, um dos países que participam da Copa. Resultado: os ares da guerra foram transplantados para o campo esportivo. A seleção do Irã disputa jogos nos Estados Unidos, mas seus jogadores são obrigados a dormir no México. Dois deles nem sequer conseguiram entrar nos Estados Unidos, assim como alguns membros da delegação. Gianni Infantino foi visitar o time do Irã no vestiário, fez uma preleção edificante e ouviu os lamentos de um país que, neste aspecto esportivo, está sendo discriminado.

Os problemas não pararam aí. Na verdade, continuaram com a decisão americana de barrar um competente árbitro de futebol. Foi recebido como herói nacional ao voltar ao país. Isso apesar de Omar Artan vir de um país pobre, com pouca tradição esportiva. Nas suas divergências com a deputada Ilhan Omar, que nasceu na Somália, é muçulmana e democrata, Trump já se referiu a esse país africano como um lixo.

Outro país africano, Senegal, sofreu com a aduana americana. Os jogadores foram severamente inspecionados como se houvesse algum problema especial de segurança com os senegaleses. Eram africanos, só isso.

Diante de tantas atitudes de discriminação numa Copa que se pretende inclusiva, um jornal francês fez uma charge de Gianni Infantino, como se fosse um fantoche de Trump.

Quem não se lembra do rigor da Fifa para que o Brasil hospedasse a Copa do Mundo? Cento e quarenta e uma exigências, além de um Caderno de Encargo. Além de isenções de impostos, a entidade exigia vistos rápidos, assim como autorização de trabalho. O processo revelou uma Fifa dócil diante dos Estados Unidos e com um comportamento imperial diante do Brasil.

Em 2026, a Copa é para nós, brasileiros, um processo mais tranquilo. Não foi assim no tempo do governo militar, na Copa de 1970. Os generais, ávidos de popularidade, foram aconselhados a se meter com o futebol. Garrastazu Médici fazia embaixadinhas diante de fotógrafos. Muitos quadros de esquerda pensaram em torcer contra o Brasil para que a ditadura militar não capitalizasse a vitória. Na hora do jogo mesmo, os cálculos políticos desabavam e todos gritavam “vamos, Brasil”.

Um dos grandes nomes daquele período foi o técnico e jornalista João Saldanha. Os militares queriam que ele convocasse Dadá Maravilha, um jogador do Atlético Mineiro, para a seleção. João se recusou e disse que o presidente escalava seu ministério, mas ele é quem escolhia os jogadores da seleção.

Nos dias de hoje, o conflito está bem atenuado. Os candidatos usam a camisa amarela da seleção porque todos torcem para ela. O único argumento de Flávio Bolsonaro é o de que Lula usa a camisa durante a Copa do Mundo, e ele usa o ano inteiro. Mas de vez em quando levanta a bandeira dos Estados Unidos, diriam os adversários. O peso dos debates sobre a Copa do Mundo não é mais o mesmo porque nosso futebol decaiu, tem escassas chances de vitória final, daí a relativa frieza. As causas da decadência ainda não foram profundamente discutidas. Ainda temos grandes nomes no futebol europeu, alguns jovens promissores, mas aquele Brasil do passado não existe mais.

No momento, esboça-se uma crítica à CBF, mas é um problema de costumes. Segundo algumas notícias, o presidente da entidade teria levado a esposa e a amante para a Copa, hospedando uma no México e a outra nos Estados Unidos. Nesse enredo jornalístico, seu destino é parecido com o da delegação iraniana. Ele joga nos Estados Unidos e dorme no México, ou vice-versa, quem saberá de seus segredos.

A verdade é que, assim como a Copa não tem o impacto geopolítico imaginado há algum tempo, o futebol brasileiro perdeu um pouco de sua magia e da capacidade de ser uma dimensão do nosso soft power.

Não maravilhamos mais o mundo com a habilidade dos pés, mas sempre é tempo para achar talento em outras partes do corpo – o cérebro, por exemplo. Na verdade, se a performance do Brasil for desapontadora como foi sugerido na estreia, certamente abre-se o caminho para uma grande reformulação no futebol brasileiro, a começar pelo campeonato nacional, os processos de formação de base, uma maior introdução da tecnologia, enfim, elementos que estão presentes em seleções que nos desafiam e que, há apenas alguns anos, eram facilmente batidas pelo Brasil.

Toda essa energia que vemos, nascida do impulso comercial de ganhar dinheiro com a paixão do brasileiro por torcer pelo nosso time na Copa, precisa apoiar a renovação. A possibilidade de a fonte secar é muito grande.

Artigo publicado no jornal Estadão em 19 / 06 / 2026

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