O fortalecimento do Legislativo nos últimos dez anos não
produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país
A eleição presidencial já está na rua e vem a pergunta que
não quer calar: qual é o plano de governo dos principais candidatos? Será muito
importante cobrar os presidenciáveis para que tenham uma plataforma
consistente, centrada nos principais problemas do país e voltada para uma
construção de uma agenda congruente com os desafios do século XXI. Porém, de
nada adianta construir um bom projeto nacional se o Congresso Nacional não
acompanhar esse processo, pois uma enorme frustração virá no dia seguinte ao da
posse presidencial. Não há como almejar um futuro com essa dissociação.
Aqui está uma das maiores fissuras do sistema político
brasileiro: eleitos de forma muito fragmentada e, em sua maior parte, com
propostas localistas ou muito voltadas a grupos de interesses específicos, os
congressistas em geral não têm uma visão ampla sobre os problemas e possíveis
soluções do país. Pode-se retrucar que isso caberia aos partidos políticos. Só
que no atual modelo institucional as legendas partidárias não congregam seus
candidatos em torno de um programa coerente que enfrente os principais desafios
do Brasil.
Em outras palavras, o individualismo míope
da maioria dos deputados e senadores não se deve apenas à sua eleição orientada
por temas paroquiais ou com grande restrição temática. Ele se relaciona
fortemente com partidos que juntam pessoas em torno de ideais muito vagos e
contra grupos adversários, mas não conseguem nem desejam ter uma proposta
crível de país que possa ser cobrada pela sociedade.
As agremiações partidárias, salvo raras exceções, têm
preferido aumentar o seu bolo no financiamento público, o que significa ter de
procurar políticos com mais votos, e no máximo criam uma diferenciação genérica
dentro da polarização política maior, ainda dominada pela oposição entre
lulistas e bolsonaristas.
Sem reduzir significativamente o divórcio entre a eleição
presidencial e a representação parlamentar nacional, o Brasil terá muitas
dificuldades para enfrentar os problemas do presente e, sobretudo, para
construir um projeto de futuro. A elite da classe política é responsável por
essa anomalia, contudo ela só sairá de sua posição cômoda caso a sociedade
cobre uma transformação dos candidatos e das instituições.
O primeiro passo é organizar a sociedade, em todo o país,
para acompanhar mais as campanhas a deputado federal e a senador,
independentemente da coloração partidária. Evidente que é essencial monitorar
as eleições do ponto de vista do uso dos recursos públicos, como algumas ONGs
já fazem e devem continuar fazendo. Só que é fundamental ampliar o foco para a
cobrança em torno de temas essenciais ao país, sobretudo em relação ao nosso
futuro. O papel de estimulador de debates de questões centrais, inclusive de
conteúdo polêmico, deve ser exercido pela sociedade civil e a mídia. Obviamente
que os candidatos precisam falar com seu público local para obter votos, mas os
projetos no Congresso Nacional vão muito além dos temas paroquiais ou
corporativos.
A capacidade de expandir além do local as campanhas ao
Legislativo nacional é o grande desafio. Sempre haverá mais espaço para as
questões regionais, ainda mais numa federação tão grande, heterogênea e
desigual. Isso se amplificou com o crescimento da importância das emendas
parlamentares, que ganharam uma dimensão de muitos milhões para cada deputado e
senador individualmente. Eis aqui mais um dos efeitos deletérios do aumento
desmedido do emendismo no orçamento federal: a piora da qualidade do debate eleitoral.
A nação ficou mais longe do interesse dos candidatos à reeleição para o
Congresso.
O reforço do localismo convive ainda com múltiplas formas de
organização de interesses específicos. São evangélicos, sindicalistas,
defensores do agro, ambientalistas, feministas, a bancada da bala, entre
outros. É bastante legítimo que grupos busquem defender as questões que
representam. O problema é quando o Legislativo e os partidos se transformam
apenas em aglomerados de posições fragmentadas que praticamente só falam sobre
seus temas. O recrudescimento do isolacionismo temático é outro ponto de piora
na democracia brasileira recente.
Na última década, algumas associações da sociedade civil
procuraram atrair políticos de vários partidos por meio de cursos e palestras
que apresentavam diagnósticos e prognósticos mais amplos sobre o Brasil. Houve
alguns resultados interessantes, mas o impacto foi bem menor do que o imaginado
inicialmente. Há ainda a formação realizada em movimentos sociais,
universidades e fundações partidárias, porém, novamente, com efeitos pequenos
na quebra das visões localistas e de isolacionismo temático.
Toda essa movimentação para qualificar e ampliar o foco dos
candidatos ao Legislativo também não teve muito impacto na capacidade de gerar
maior conversa entre os diferentes. Este é um outro mecanismo que obriga os
parlamentares a não ficarem somente num individualismo míope derivado de sua
expressão local ou temática. Ao contrário do que almeja o modelo democrático, o
último quadriênio mostrou um Congresso mais conflagrado, incluindo a “tomada da
Mesa da Câmara”, que foi a Bastilha da extrema direita. O comportamento
beligerante aumentou tanto quanto a dificuldade de pensar conjuntamente o país,
num cenário em que se veta mais do que se constroem novas soluções.
O fato é que o fortalecimento do Congresso Nacional nos
últimos dez anos, tornando-o um Poder mais forte e com maior capacidade de
barganha junto ao Executivo, não produziu uma instituição capaz de gerar uma
agenda maior ao país. Não é o Congresso de Ulysses Guimarães, e sim o dos
presidentes do sindicato dos congressistas. Nos seus piores momentos, houve
muita aprovação de medidas que continuam reforçando o poder dos parlamentares,
por vezes inclusive transformando-os em uma casta acima da sociedade.
Sim, tem havido votações e reformas importantes, como a
tributária. Contudo, são medidas fragmentadas demais, por vezes contraditórias
e sem uma visão sistêmica, que interligue os assuntos na resolução dos
problemas da sociedade brasileira. Esse último ponto é um grande obstáculo para
o enfrentamento dos desafios do século XXI, uma vez que as temáticas que vão
definir o futuro não são monotemáticas. As questões climática, demográfica, da
primeira infância, do uso da tecnologia para aumentar a eficiência governamental
e a competitividade do país, entre outras, precisam de um olhar mais amplo,
intersetorial e com perspectiva de atuação temporal de longo prazo para serem
devidamente planejadas e equacionadas. Como esperar de um Congresso cada vez
mais localista e isolacionista temático uma postura adequada aos desafios
complexos que temos pela frente?
O Congresso Nacional, ademais, não é apenas o somatório dos
partidos e representantes que ocupam suas cadeiras parlamentares. É possível
escolher algumas temáticas complexas e essenciais ao futuro do país, de modo a
produzir um debate maior com a sociedade, realizar estudos mais profundos - a
equipe técnica de ambas as Casas é excelente - e propor diagnósticos que
ancorem mudanças legislativas mais sistêmicas e voltadas ao longo prazo.
Um bom exemplo de uma construção institucional mais ampla
foi o diagnóstico que a Assembleia Legislativa do Ceará produziu, em 2004,
sobre a situação da alfabetização de suas crianças. O resultado desse estudo
foi fundamental para a criação futura, em 2007, do Programa de Alfabetização na
Idade Certa (Paic), política pública extremamente bem-sucedida e que tornou o
estado referência na alfabetização no país.
Ora, por que o próximo Congresso Nacional não escolhe dois
ou três temas estratégicos ao Brasil e faz um grande diagnóstico, com ampla
participação da sociedade e de especialistas, para garantir um futuro melhor a
todos nós? Isso traria efeitos extremamente positivos ao país e à própria
imagem dos congressistas, vistos nas pesquisas de opinião como políticos que
majoritariamente só pensam em si.
De todas as medidas que podem mudar o individualismo míope
que predomina entre os congressistas, a mais importante passa por mudar a
lógica atual dos partidos. A combinação da ampliação do emendismo com o
crescimento vertiginoso do financiamento público gerou o recrudescimento das
oligarquias partidárias, que nunca foram tão poderosas como agora em qualquer
momento da redemocratização. Neste cenário, as legendas são máquinas de buscar
votos dominadas por elites pouco controladas e transparentes. Alguns desses
dirigentes, ressalte-se, estão no centro do escândalo do Banco Master, embora
poucos eleitores saibam disso e ainda há poucas chances de punição ao modelo
patrimonialista que cultivaram.
O espaço de pressão da sociedade junto às campanhas ao
Legislativo e a discussão sobre o Congresso Nacional ter uma visão
institucional mais voltada ao longo prazo são peças relevantes para mudar o
individualismo míope dos parlamentares. No entanto, sem mexer com os incentivos
que dominam o sistema partidário-eleitoral atual, será muito difícil termos
partidos e congressistas que pensem para além de uma representação
isolacionista e sem diálogo com os diferentes. O futuro do país precisa de um
outro modelo de congressista, pois o presidente, quem quer que seja, não dará
conta sozinho dos desafios do século XXI.

















