quarta-feira, 12 de agosto de 2026

CLARA NUNES - A GUERREIRA DA UTOPIA

Rafaela Damasceno, Letras

Há 84 anos, nascia Clara Nunes

Clara Nunes: relembre a biografia da cantora

Em sua breve vida, Clara Nunes conseguiu o que muitos tentam durante anos de carreira e não conseguem: firmou-se como uma importante artista brasileira, exaltada e elogiada até hoje pelo público e pela crítica.

Em busca do seu sonho, largou o trabalho como tecelã para se apresentar nas rádios de Belo Horizonte. Em pouco tempo, já estava se mudando para o Rio e conhecendo o samba e o mar.

Eram as duas inspirações que faltavam para que ela se tornasse um exemplo de mulher na música, um meio que até então era dominado pelos homens.

Conhecer a biografia de Clara Nunes é também aprender mais sobre a evolução do samba e o destaque feminino no cenário musical brasileiro. Por isso, continue lendo para se apaixonar ainda mais por essa verdadeira estrela! 

A biografia de Clara Nunes

Considerada uma das maiores intérpretes do Brasil, Clara Nunes não era só cantora e compositora. Ela também pesquisou muito sobre a música popular brasileira, os ritmos nativos e o folclore nacional.

Clara Nunes dedicou a sua arte para difundir a nossa cultura para o mundo. Em sua história de vida, conseguimos perceber tudo isso. Vem ver!

A órfã tecelã

Clara Nunes é a caçula dos sete filhos de um casal muito humilde de Cedro (atual Caetanópolis), em Minas Gerais. Nascida em 12 de agosto de 1942, com apenas 6 anos, ela já era órfã de pai e mãe e foi criada por seus irmãos Maria, a Dindinha, e José, o Zé Chilau.

Já naquela época, nas aulas de catecismo, Clara cantava as ladainhas em latim no coro da igreja. Parecia ter puxado o talento musical do pai, que era violeiro. Tanto que venceu o seu primeiro concurso de canto ainda na infância, na sua cidade.

Aos 14 anos, ela começou a trabalhar como tecelã para ajudar nas despesas da casa. Mas um acontecimento drástico a fez mudar às pressas para Belo Horizonte: Zé Chilau, seu irmão, assassinou o ex-namorado da cantora, que estava difamando a garota pela cidade por não aceitar o fim do relacionamento. 

A fugitiva na capital

Após o crime cometido pelo irmão, que ficou anos foragido, Clara Nunes passou a viver com outros dois irmãos, Vicentina e Joaquim. Na capital, continuou o seu trabalho como tecelã e iniciou os seus estudos no curso normal, para se formar como professora.

Nos finais de semana, participava do coral da igreja do bairro. Porém, aos poucos, por influência de uma amiga de infância, foi se afastando do catolicismo e se converteu ao kardecismo

Foi nessa época que ela conheceu o violonista Jadir Ambrósio, que ficou encantado com a sua voz. Ele a levou para as rádios de BH e a garota começou a se apresentar com o seu nome de batismo, Clara Francisca. 

O nascimento de Clara Nunes

A cantora foi ficando cada vez mais conhecida pelos belo-horizontinos e conquistando o seu espaço na música. Em 1960, conheceu Aurino Araújo, com quem namorou por 10 anos. Durante o relacionamento, ele a apresentou a diversos artistas da cidade, que a apoiaram e influenciaram. 

Foi nesse período que ela resolveu adotar o nome artístico de Clara Nunes, que era o sobrenome de sua mãe. A sugestão foi do produtor musical Cid Carvalho. 

Apesar de ainda trabalhar como tecelã, a artista não perdia a oportunidade de participar de eventos musicais. Ela venceu a etapa mineira do concurso A Voz de Ouro ABC, com a música Serenata do Adeus, de Vinícius de Morais. Sinta um gostinho dessa apresentação memorável:

A dedicação de Clara Nunes à carreira musical 

A partir do concurso, Clara recebeu o título de “melhor cantora de Minas Gerais”. Os trabalhos foram aumentando e ela se apresentava também em clubes e boates. 

Foi aí que ela teve de deixar a fábrica de tecidos e os estudos para se dedicar exclusivamente ao seu sonho. E deu certo!

Depois de se apresentar pela primeira vez na TV, no programa da Hebe Camargo, em 1963, ela ganhou um programa só dela na TV Itacolomi, o Clara Nunes Apresenta. 

O encontro com o mar e o samba

Clara viveu em Belo Horizonte até 1965, até que Aurino a convidou para ir com ele para o Rio de Janeiro. Como ele tinha família na cidade, ela aceitou a proposta.

A cantora alugou um quarto em Copacabana e foi lá que viu o mar pela primeira vez na vida. Ela ficou tão encantada e hipnotizada que resolveu incorporá-lo em muitas de suas canções.

Em terras cariocas, a sua participação na televisão aumentou. Além disso, também se apresentava em escolas de samba e casas noturnas. Foi lá que ela entrou em contato com sambistas e religiões de matriz africana.

A conexão foi tão grande que ela deixou os boleros que cantava no início da carreira, passou a cantar samba e se converteu ao candomblé

Os primeiros álbuns de Clara Nunes

O primeiro LP de Clara Nunes foi gravado em 1965, com a participação de outros artistas, graças a um teste que ela passou para ser cantora da Odeon. No ano seguinte, foi contratada pela gravadora.

O primeiro álbum exclusivo foi lançado no ano seguinte, mas não teve muito sucesso. Por influência da gravadora, ela só cantou boleros e músicas mais românticas, o que já não era tanto o estilo da artista. 

Foi só no segundo que Clara gravou mais faixas de samba e mostrou a sua personalidade. Assim, ela conquistou o coração do público com Você Passa e Eu Acho Graça, que dá título ao LP:

A estrela do samba

Transcendendo os limites do Brasil, a cantora se apresentou em Luanda, na Angola, em 1970. No mesmo ano, desmanchou o seu noivado com Aurino Araújo, após descobrir uma traição.

No ano seguinte, gravou vários sucessos, como Ê Baiana e Ilu Ayê, em seu quarto LP. Na capa do disco, Clara Nunes fez um permanente nos cabelos e usou turbante e vestes brancas. 

Essa passou a ser a sua vestimenta em apresentações. Assim, não só nas letras e no ritmo, a artista também reforçava as suas convicções com o figurino e o penteado. Faz todo sentido, já que, em 1971, ela se converteu à umbanda, religião que seguiu e difundiu até o fim de sua vida.

Em seguida, a cantora também afirmou a sua predileção pelo samba, ao lançar o álbum Clara Clarice ClaraFoi um trabalho muito elogiado, com canções lembradas até hoje pelo público brasileiro e com mensagens marcantes no samba, como Seca do Nordeste.

O sucesso comercial de Clara Nunes

Clara Nunes estava cada vez mais presente nas rádios e nos programas de TV brasileiros. Sem falar das apresentações em teatros e auditórios, como o show O poeta, a moça e o violão, que ela apresentou ao lado de Vinicius de Moraes e Toquinho.

Sucesso também internacional, ela representou o Brasil no Festival do Midem, em Cannes, e teve um álbum lançado na Europa, em 1974. O LP foi recorde de vendas de cantoras brasileiras no exterior.

Em 1975, a cantora se casou com o poeta, compositor e produtor Paulo César Pinheiro. Sem deixar o trabalho até mesmo na lua de mel, o casal percorreu vários países europeus em turnê logo depois do casamento.

O sonho de ser mãe

Além da carreira estrondosa e da vida de casada, Clara Nunes também tinha o sonho de ser mãe. Apesar de muito tentar, depois de três abortos espontâneos, a artista teve de passar por uma histerectomia, para remover miomas no útero, o que impossibilitou uma gravidez. 

Ela tentou diversos tratamentos médicos e espirituais, mas não conseguiu realizar o desejo da maternidade. Essa foi uma grande dor que a cantora carregou por toda a sua vida e afetou a sua saúde emocional.

Todo esse processo é retratado na biografia Clara Nunes: Guerreira da Utopiade Vagner Fernandes.

Esse sofrimento fez com que a cantora se entregasse de corpo e alma à música e interpretasse canções cada vez mais dramáticas, com grande carga emocional.

Os últimos cantos de Clara Nunes

Na década de 1980, inúmeros hits foram lançados por Clara Nunes, como Morena de Angola, que é um marco de sua carreira até hoje. E muitos trabalhos já estavam planejados por sua gravadora.

Mas, infelizmente, no auge do sucesso, a vida da cantora foi interrompida no dia 2 de abril de 1983, por complicações em uma simples cirurgia de varizes.

Na época, a mídia fez muitas especulações sobre a causa da morte, mas ficou comprovado que foi uma reação alérgica ao anestésico. 

Apesar de ter tido uma curta vida, já que Clara Nunes tinha apenas 40 anos quando faleceu, o seu legado ainda está muito vivo.

Ela continua a ser uma das cantoras antigas mais lembradas no Brasil, não só pelas suas canções emblemáticas, mas pela defesa das religiões de matriz africana e pela cultura afro-brasileira. 

Ouça mais artistas do samba

Você acaba de descobrir o quanto o samba foi um estilo musical importante na carreira de Clara Nunes e impactou a sua biografia. Agora, que tal aproveitar o embalo e conhecer os 10 maiores sambistas antigos?

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terça-feira, 11 de agosto de 2026

O RETRATO DA CONFRARIA DO ORÇAMENTO SECRETO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Na piscina, a confraria dos independentes, proprietários de bilhões de reais em emendas

A turma representativa – a democracia representativa dos oligarcas do Congresso – aboletada na piscina. O retrato da confraria dos independentes, os autossuficientes. Independentes da República, no sentido de que à margem dos rigores para com a coisa pública, deputados e senadores, sovacos ao alto, unidos e festivos pela perversão autoritária – a propriedade sobre dezenas de bilhões de reais do Orçamento da União, um fundo eleitoral paralelo – que os desobrigou de fazer política e que consagrou o mandato parlamentar como um fim em si mesmo.

O retrato da confraria dos independentes. Vê-se Arthur Lira, em destaque, então presidente da Câmara, soberano do Legislativo e um dos donos do orçamento secreto. Avista-se Juscelino Filho, deputado federal pelo Maranhão, àquela altura ministro das Comunicações de Lula, vip do orçamento secreto cujas emendas pavimentaram estrada que leva até a fazenda da família. Mira-se também o codevásfico Elmar Nascimento, que – para suceder a Lira – fundeava a sua campanha no discurso do orçamento secreto como espécie de direito adquirido do parlamentar.

O retrato da confraria dos independentes, quentinhos no mijão do advogado. Eles se acertam, inconstitucionalmente, entre si, partidos e ideias à parte – para você que briga por ramagens e outros coronéis: eles mergulham juntos, cervejinha à mão, enquanto você rompe com afetos em função de paixões populistas. Willer os une. O advogado, prestador de serviços, dono da piscina. Willer Tomaz.

Onipresente.

Eles: os filhos – produtos – do orçamento secreto na piscina do advogado-empresário. É o que documenta a fotografia que a Polícia Federal encontrou no celular de Weverton Rocha, do PDT maranhense, vicelíder do governo Lula no Senado. Registro de abril de 2023. Está lá, eternizado, o bolsonarista antissistema Alexandre Ramagem. Antissistema de fachada, relaxado no banheirão ecumênico do advogado irmão de Flávio Bolsonaro. Business.

Por suposta fachada, a PF investiga a operação de empresas de Tomaz, o Willer, que transferiram cerca de R$ 11 milhões para a esposa de Weverton, o inquérito ademais apontando indícios de que a casa em que mora o senador, em Brasília, fora comprada pelo advogado. Da revista piauí, que divulgou a foto: “a Polícia Federal, diante desses elementos, suspeita que Weverton e Willer tentavam ‘ocultar ou dissimular a origem’ de dinheiro obtido ilegalmente”.

O advogado-anfitrião, dono da casa em que posaram os independentes das emendas parlamentares, e a intimidade prestativa com esses portentos da República nominal. Padrão.

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APRENDENDO COISA ERRADA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Indivíduos definem seus padrões de comportamento olhando para os pares

Sucessão de escândalos na alta política mostra persistência da corrupção

Onde aprendemos o certo e o errado? Há respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que são os livros de filosofia que cumprem essa função.

Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.

Gosto dessa resposta porque ela dá conta de diferenças entre povos e da própria história. Explica, por exemplo, por que a escravidão foi aceita como natural durante tanto tempo. Explica até mesmo a mudança. Já comentei aqui o processo de normalização do voto na direita radical.

Fiz esse longo introito para falar de corrupção. No Brasil já não temos um problema de pequena corrupção generalizada, pela qual cidadãos são achacados para conseguir coisas básicas como uma vaga na escola pública ou uma consulta no SUS. Nas altas esferas da política, porém, como atesta a sucessão de escândalos envolvendo os dois polos e os três Poderes, desvios e conflitos de interesse ainda parecem ser a regra. Os agentes olham para o lado, constatam que todos (ou grande parte, ao menos) estão fazendo e se sentem liberados para fazer também.

Operação Lava Jato foi uma tentativa de romper o padrão, mas seus condutores cometeram erros, o sistema reagiu e, realizando a profecia de Jucá, a sangria foi estancada com Supremo e com tudo.

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ORLANDO DIAS - O REI DO BREGA-ROMÂNTICO

Do O 80TISTA

Em 11 de agosto de 2001, há 25 anos, a música popular brasileira perdia Orlando Dias, nome artístico de José Adauto Michiles, um dos personagens mais marcantes da história da canção romântica nacional. Nascido em Recife (PE), em 1º de agosto de 1923, Orlando cresceu cercado pela música: era neto de um violonista e poeta, de quem herdou a vocação artística. Ainda muito jovem, aos 11 anos, começou a se apresentar com o conjunto vocal A Turma dos Onze e, posteriormente, passou pelos programas de calouros e pela Rádio Clube de Pernambuco, onde conquistou espaço como cantor. 🎶🇧🇷

Sua trajetória profissional ganhou novos rumos quando deixou definitivamente o Recife, em 1950, seguindo para o Rio de Janeiro. Em 1952, realizou sua primeira gravação em disco pela Todamérica, iniciando uma carreira que atravessaria décadas. Durante os anos 1960, tornou-se um dos grandes nomes da música popular de forte apelo romântico, alcançando enorme popularidade com canções como “Tenho Ciúme de Tudo”, de Valdir Rocha, lançada em 1961, além de “Com Pedra na Mão”, “Coração de Pedra”, “Perdoa-me pelo Bem que Te Quero” e “Sinfonia da Mata”. 💿❤️🎼

Orlando não era apenas reconhecido pela voz: suas apresentações eram verdadeiros espetáculos. O lenço branco, os gestos dramáticos, a declamação emocionada dos versos e o costume de ajoelhar-se no palco tornaram-se marcas registradas de sua personalidade artística. Ao final das apresentações, costumava acenar para o público com seu inseparável lenço e agradecer às fãs, criando uma identificação que ultrapassava as próprias gravações. Por seu estilo, é considerado um dos precursores do brega-romântico, gênero que ajudou a consolidar na música brasileira. 🎤🧣✨

Ao longo da carreira, lançou diversos LPs, entre eles “Se a Vida Fosse um Sonho Bom” (1963), “O Ator da Canção” (1966), “O Atual” (1968) e “O Cantor Mais Popular do Brasil” (1973). Nos anos 1980, continuou percorrendo o interior do país para divulgar seu trabalho e também realizou apresentações na Europa. Em 1997, revisitou seus grandes sucessos no CD “Vinte Supersucessos”. Sua importância também pode ser percebida na influência exercida sobre artistas como Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto e Reginaldo Rossi, que reconheceram a importância de Orlando em suas formações musicais. 🎶🇧🇷

Nos últimos anos de vida, Orlando Dias enfrentava problemas de saúde e sofria de Parkinson. Em 11 de agosto de 2001, dez dias depois de completar 78 anos, morreu no Rio de Janeiro, vítima de um infarto. Seu sepultamento ocorreu no dia seguinte, no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador. 🕯️🥀

Orlando Dias partiu, mas sua voz permaneceu registrada em discos, rádios, memórias e na história da música popular brasileira. Seu lenço branco, sua interpretação teatral e suas canções de amor fizeram dele um artista único de uma época em que a dor, o ciúme, a paixão e a saudade também encontravam lugar de destaque na música. Hoje, 11 de agosto, a lembrança é para aquele que ficou conhecido como um dos grandes nomes do brega-romântico brasileiro. 🕊️🎙️❤️

📅01/08/1923 — 11/08/2001

🕯️25 anos de saudade, Orlando Dias.

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PARA FLÁVIO BOLSONARO, A MELHOR MULHER É SEMPRE UM HOMEM

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, senador do PP envolvido na teia Master

Escolha do deputado Alfredo Gaspar evidencia o isolamento da candidatura bolsonarista

A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para companheiro na chapa presidencial mostra que, para Flávio Bolsonaro e sua base mais radicalizada, a melhor mulher é sempre um homem.

Toda a busca de meses por uma vice mulher funcionou como tentativa de ganhar tempo diante dos reveses da campanha bolsonarista —as revelações do caso Dark Horse e a ligação íntima do filho 01 com o empresário picareta Daniel Vorcaro. E sobretudo a briga pública com a ex-primeira-dama Michelle, alvo de discursos misóginos nas redes.

O mais incrível é que, durante a operação "Procura-se uma Mulher Desesperadamente", Michelle surgiu como uma das hipóteses para compor a chapa. Outros nomes de uma lista quase interminável: Daniella Marques (Republicanos), economista apontada como o "Posto Ipiranga" de Flávio Bolsonaro, Bia Kicis (PL-DF), Júlia Zanatta (PL-SC), Simone Marquetto (PP-SP), Priscila Costa (PL-CE), Clarissa Tércio (PP-PE) e, não por último, Tereza Cristina (PP-MS), tida como a "vice dos sonhos" por seu diálogo com o agronegócio.

Não tem tu, vai tu mesmo. Não foi apenas a falta de vontade política que determinou a opção por Gaspar, relator da CPMI do INSS, que será usado para reforçar o assunto Lulinha na campanha. Decidida menos de 24 horas antes do anúncio, a indicação evidenciou o isolamento do filho 01, que não conseguiu atrair a ala fisiológica que se disfarça sob o apelido de centrão. Ao adotar a neutralidade, a cúpula do Progressistas vetou a chance de composição com Tereza Cristina.

O verdadeiro vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, conforme Flávio Bolsonaro admitiu ao se lançar candidato. Quando o senador do PP entrou na mira da Polícia Federal por envolvimento na teia Master, o 01 tentou amenizar a fala, classificando-a como "cortesia".

Após rasgar a máscara de moderado, Flávio está mais à vontade para dizer o que pensa. A declaração sobre o futuro das filhas é um exemplo perfeito: "Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim porque as mulheres são assim".

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O BRASIL NÃO ESTÁ SÓ

Artigo de Fernando Gabeira

A revogação do visto da embaixadora em Washington é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os EUA vêm tomando

Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.

Não há dúvida de que nem todos na Argentina aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.

Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.

Nas escaramuças diplomáticas, o Brasil não está só. A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os Estados Unidos vêm tomando.

A França sofre o mesmo tipo de pressão. O embaixador Aurélien Lechevallier não consegue receber o agrément de Trump. A razão: a delegação francesa criticou um voto americano na ONU, contrário à renovação do mandato do alto comissário de Direitos Humanos, Volker Türk. Os Estados Unidos votaram com Rússia, Coreia do Norte e Nicarágua, e os franceses fizeram aquele clássico comentário: quem te viu, quem te vê.

O caso mais grave aconteceu com o embaixador da África do Sul nos Estados Unidos. Ebrahim Rasool fez postagens no X criticando o movimento de supremacia branca. Associou as críticas de Trump à África do Sul, por suposta perseguição aos brancos, à tentativa de enfraquecer um país que luta contra o supremacismo.

Aqui no Brasil, o país examina o agrément para o embaixador de Trump, Daniel Perez. O Brasil se apoia na Convenção de Genebra, e Trump há muito deu um pontapé em todas as regras internacionais. Ele mesmo declarou que se orienta pela própria cabeça, e não por convenções internacionais.

Estamos falando uma língua diferente de Trump. Mas não estamos sós. Neste momento, toda a querela com o governo americano fortalece a campanha de Lula. É razoável que seja usada como trunfo eleitoral.

Mas eleições passam. E Trump continua por lá, possivelmente tentando eleger Vance ou Marco Rubio. É preciso pensar nesse longo prazo e nas inúmeras dimensões preparatórias que ele pede. Soberania transcende a palanques e discursos inflamados.

Neste momento, já é necessário compreender que não estamos sós, ampliar relações comerciais, alianças políticas e contar com mudanças nos Estados Unidos. Por meio de uma simples alteração na correlação de forças nas eleições de novembro, Trump pode perder uma das Casas do Parlamento. E não mais será o mesmo. Não terá paz para isso.

Artigo publicado no jornal O Globo em 11 / 08 / 2026

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AUTONOMIA FINANCEIRA DÁ LUGAR ÀS ALIANÇAS PARTIDÁRIAS

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Novas regras eleitorais e financiamento público desestimulam coligações na disputa à Presidência

Na base do cada um por si no plano nacional, partidos investem nos estados para crescer no Congresso

Nesta eleição, está combinado, a maioria dos partidos vai jogar separado. Só o PT entra na disputa presidencial do jeito tradicional, coligado a seis legendas: PSB, PSOL-Rede, PDT, PV e PC do B.

Não deixa de ser uma ironia o partido com vocação a protagonista, cuja política de alianças só foi aceita por imposição da realidade, ser o único que concorre acompanhado. No campo limitado à esquerda, é verdade, mas ali com um Geraldo Alckmin (PSB) na figuração do centro.

Sabemos, contudo, que a força da candidatura não está nos aliados; está onde sempre esteve nas últimas décadas: em Lula. Fosse outro o candidato e não ocupasse a Presidência, provavelmente nem essa aliança existiria.

Alterações nas regras eleitorais e no equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo mudaram a cena. Acabaram as coligações proporcionais, os partidos têm autonomia financeira, há uma barreira de desempenho a ser ultrapassada e pouco a disputar no plano nacional onde imperam os eleitorados cativos dos favoritos.

Manifestam-se preocupações entre os espectadores da política com o fato de ser esta a primeira eleição desde a volta das diretas a praticamente não ter alianças na corrida ao Palácio do Planalto. Mas ninguém explicita qual o risco presumidamente embutido; por acaso a fartura anterior de coligações influiu para melhor ou pior na performance dos dois Poderes em questão?

A suspeita é que o critério de análise esteja superado. Considerando que fidelidade partidária e identificação doutrinária foram critérios de ferro e fogo, o que vemos de novo é a remoção do verniz da teoria para dar lugar à corriqueira prática, agora sem as máscaras.

Não é real a alegada neutralidade, pois há engajamento frenético nos estados. onde grassam as alianças. Nas diferentes bases, os partidos preferem apostar na eleição de grande quantidade de congressistas.

Cabe ao eleitorado acionar o modo olho vivo e faro fino para investir na melhoria da qualidade dos respectivos representantes.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

AMADO, JORGE AMADO

Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.

Com um ano de idade, foi para Ilhéus, onde passou a infância. Fez os estudos secundários no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, em Salvador. Neste período, começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos Rebeldes.

Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931. Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse ano publicou seu segundo romance, Cacau.

Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1935. Militante comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942, período em que fez longa viagem pela América Latina. Ao voltar, em 1944, separou-se de Matilde Garcia Rosa.

Em 1945, foi eleito membro da Assembléia Nacional Constituinte, na legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Jorge Amado foi o autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso. Nesse mesmo ano, casou-se com Zélia Gattai.

Em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. Jorge Amado teve que se exilar com a família na França, onde ficou até 1950, quando foi expulso. Em 1949, morreu no Rio de Janeiro sua filha Lila. Entre 1950 e 1952, viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma.

De volta ao Brasil, Jorge Amado afastou-se, em 1955, da militância política, sem, no entanto, deixar os quadros do Partido Comunista.

Dedicou-se, a partir de então, inteiramente à literatura. Foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira de número 23, da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis.

A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.

Jorge Amado morreu em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001. Foi cremado conforme seu desejo, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas, no dia em que completaria 89 anos.

A obra de Jorge Amado mereceu diversos prêmios nacionais e internacionais, entre os quais destacam-se: Stalin da Paz (União Soviética, 1951), Latinidade (França, 1971), Nonino (Itália, 1982), Dimitrov (Bulgária, 1989), Pablo Neruda (Rússia, 1989), Etruria de Literatura (Itália, 1989), Cino Del Duca (França, 1990), Mediterrâneo (Itália, 1990), Vitaliano Brancatti (Itália, 1995), Luis de Camões (Brasil, Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959, 1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).

Recebeu títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens da Venezuela, França, Espanha, Portugal, Chile e Argentina; além de ter sido feito Doutor Honoris Causa em 10 universidades, no Brasil, na Itália, na França, em Portugal e em Israel. O título de Doutor pela Sorbonne, na França, foi o último que recebeu pessoalmente, em 1998, em sua última viagem a Paris, quando já estava doente.

Jorge Amado orgulhava-se do título de Obá, posto civil que exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.

Da Fundação Casa de Jorge Amado

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BATISMO DE SANGUE

Há exatos 52 anos, prestes a completar 29 anos, morria o homem que foi o símbolo da luta pelos direitos humanos na ditadura militar: Tito de Alencar Lima, conhecido como Frei Tito.

Enforcou-se na zona rural do convento de L’Arbresle, nos arredores de Lyon, França, já enlouquecido pelo trauma de ter passado 14 meses nos porões da ditadura militar.

A tragédia que tirou a vida do frei acontecera na noite do dia dez de agosto de 1974, quando a repressão da qual ele foi vítima ainda continuava a prender, torturar e assassinar no Brasil.

Pensei em iniciar este resumo com os nomes dos seus torturadores conhecidos, porém a náusea não me permitiu.

Desde muito novo Tito concluíra que só a vida religiosa daria sentido luminoso aos seus passos e que só na Igreja – consoante visões febris de Isaias – viria fazer justiça aos pobres da terra. Para ele, a Igreja não é templo dos ricos; ao contrário, é ainda a fraternidade subversiva das catacumbas romanas, sem profanações do dinheiro, e para sempre incumbida da construção de um futuro de justiça e liberdade, do futuro sem peias, quando Deus mesmo estará com seu povo.

Em 1969, Tito cursava Filosofia na Universidade de São Paulo e já tinha em seu currículo um histórico de militância: fora dirigente regional e nacional da Juventude Estudantil Católica, um dos movimentos de vanguarda da militância cristã da época.

Na madrugada do dia 3 para o dia 4 de novembro, Tito foi preso junto com outros dominicanos no convento em que morava pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu primeiro torturador. Nesse dia, a sua igreja lhe faltou.

Entre os presos estava Frei Betto, suspeito de participar de um esquema comandado pelo líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, grande vulto brasileiro que pregava a luta armada. Começava, assim, o martírio de Frei Tito e dos seus irmãos. Como instrumento de intriga, os agentes da repressão espalharam a história que os dominicanos traíram os participantes da ALN, sendo este mal entendido esclarecido apenas em 1982, com a publicação do formidável Batismo de Sangue, livro do frei Betto.

Foram vários meses de horrores e vilanias. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”, disse-lhe um torturador. O frade dominicano passou pelo pau-de-arara, sentou na cadeira do dragão e recebeu choques elétricos na cabeça, nos ouvidos e nos tendões do pé.

Deram-lhe pauladas nas costas, no peito e nas pernas, incharam suas mãos com palmatória, revestiram-no de paramentos e o fizeram abrir a boca "para receber a hóstia sagrada" - descargas elétricas na boca. Queimaram pontas de cigarro em seu corpo e fizeram-no passar pelo "corredor polonês". Apesar da intensa tortura que sofrera, Frei Tito nunca falou. “É preferível morrer do que perder a vida”, anotou em sua Bíblia, depois que um de seus torturadores avisou que, se não falasse, seria quebrado por dentro.

Em janeiro de 1971, foi banido do país; voou para o Chile e, depois, para Roma, Paris e Lyon. Mas o sonho da morte o habitava. A tortura que sofrera no Brasil havia rebentado seu espírito e continuava atormentando-o sem parar. “Longe vem o retirante... vem dizer que nos esquecemos de amar”, ele disse nos poemas. Tito sentia “um silêncio de Deus”. Certa vez, escreveu: “Não busco o céu, mas talvez a terra, um paraíso perdido”. Mas, o paraíso na terra estava perdido para sempre: em agosto de 1974 Frei Tito livra-se da tortura e morre, na certeza de poder viver depois da morte.

Na cruz que lhe coube entre os bosques de L’Arbresle, está gravado: "Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido, atormentado até a morte, por ter proclamado o Evangelho, lutando pela libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra estrangeira".

A inscrição termina com estas palavras cortantes de Lucas: “Digo-vos que, se os discípulos se calarem, as próprias pedras clamarão”.

Em 1970, sob custódia da “Operação Bandeirantes”, frei Tito escreveu sobre a sua tortura num documento que rodou o mundo, tornando-se um dos símbolos da luta pelos direitos humanos na ditadura. Quando foi solto, em dezembro do mesmo ano, pediu exílio no Chile, de onde seguiu para Itália e França.

As feridas de seu corpo cicatrizaram, mas as torturas deixaram marcas incuráveis em sua alma. Era constantemente atormentado pelos fantasmas do passado, via Fleury em todos os lugares, ouvia suas ameaças. Fez terapia, mas de nada adiantou: seus traumas eram demasiadamente profundos. Enlouquecido, sozinho, atormentado, Tito morreu sob a copa de um álamo. “Se minha alma está morta, quem a ressuscitará?”, escrevera ele pouco antes de morrer. Esse discípulo não se calou. Afirmou seus princípios no paraíso da meninice, nos longos dias de combate e no inferno que finalmente o consumiu.

Quando, só em 25 de março de 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil, foi realizada em São Paulo uma missa de corpo presente acompanhada por mais de 4 mil pessoas.

Fontes: jornais e Grupo Tortura Nunca Mais.

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O LIMITE DESIGUAL DAS DOAÇÕES ELEITORAIS

Lara Mesquita, Folha de S. Paulo

Ao permitir que doadores repassem até 10% da renda, a lei transforma desigualdade econômica em desigualdade de influência política

Há um abismo entre doações dos cidadãos comuns e aqueles capazes de movimentar milhões de reais

Passadas as convenções e definidas as candidaturas, as atenções se voltam para o financiamento das campanhas eleitorais. Os fundos públicos respondem hoje pela maior parte do financiamento eleitoral —67,7% dos recursos em 2018 e 81,4% em 2022—, mas ainda há espaço para doações privadas.

Rodrigo Tamussino Roll defendeu recentemente dissertação de mestrado dedicada à análise das estratégias dos doadores de campanhas eleitorais no Brasil, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

A pesquisa identifica quatro tipologias de doadores, a partir da dispersão das doações entre cargos e estados e entre campos ideológicos. Nos extremos estão os pragmático-dispersos, que financiam candidaturas de diferentes ideologias, cargos e estados, e os ideológico-concentrados, que restringem as contribuições a um mesmo campo ideológico e a poucos alvos eleitorais.

Até a proibição das doações empresariais, em 2015, as empresas respondiam por quase 91% dos recursos do grupo pragmático-disperso. Já os ideológico-concentrados são majoritariamente pessoas físicas.

Os dois perfis são muito diferentes também financeiramente. Embora os pragmáticos representem cerca de 1% dos doadores, respondem por aproximadamente 34% do valor privado doado.

O grupo ideológico, por sua vez, representa cerca de 96% dos doadores e suas doações concentram-se em valores baixos. Esses doadores têm maior preferência por candidaturas de direita e a cargos do Legislativo. Dados do TSE consultados mostram que a doação mediana desse grupo foi de R$ 1.394 em 2018 e caiu para praticamente R$ 2,21 em 2022. Mas essa é apenas uma face da moeda.

Entre as pessoas físicas, porém, há superdoadores capazes de movimentar milhões de reais e distribuir recursos entre diferentes candidaturas ao Executivo e ao Legislativo.

Por exemplo, Rubens Ometto (Cosan) doou R$ 8 milhões em 2018; os irmãos Pedro e Alexandre Grendene destinaram, juntos, mais de R$ 11,5 milhões a candidatos em 2022; Salim Mattar (Localiza) doou R$ 4,1 milhões em 2018. São exemplos da escala que doações individuais podem alcançar.

Há um abismo entre as doações dos "cidadãos-comuns" e dos "superdoadores". Enquanto os primeiros contribuem majoritariamente com valores simbólicos, a elite usa a doação pessoal como ferramenta de acesso e influência, ocupando o papel que as empresas exerciam até serem proibidas de doar em 2015.

A proibição das doações empresariais, em 2015, retirou as empresas da disputa, mas não eliminou a possibilidade de grandes concentrações privadas. Pessoas físicas continuam podendo doar até 10% dos rendimentos brutos declarados no ano anterior à eleição.

Na prática, esse limite autoriza tetos muito diferentes. Para quem recebeu R$ 100 mil em 2025, o máximo é R$ 10 mil; para quem recebeu R$ 100 milhões, são R$ 10 milhões. Na prática, esse teto apenas acentua as desigualdades de uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.

Apenas um teto nominal, fixo e igual para todos, preservaria a doação cidadã e reduziria a capacidade de uma pequena elite de exercer influência financeira desproporcional sobre as campanhas. Essa mudança poderia até reabrir a discussão sobre doações de empresas, mas esse já é assunto para outra coluna.

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'O CONTO DE AIA' EM VERSÃO BRASILEIRA

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Na ficção, uma das formas de opressão feminina é a supressão de direitos civis e políticos

Democracia requer a participação de todos os segmentos da sociedade, o que, por óbvio, inclui as mulheres

voto feminino tem o poder de decidir as eleições gerais de 2026. Quase 84 milhões dos eleitores aptos a irem às urnas (53%) são mulheres (TSE). Entre elas, pretas e pardas são maioria, considerando a demografia: 28% das brasileiras são negras (IBGE).

Mas, num país machista, misógino e racista, tamanho poder em mãos femininas (e negras) incomoda e desagrada a muita gente. A ponto de deflagrar uma campanha disparatada contra o voto feminino e em defesa de uma dita "democracia familiar".

Olhando em perspectiva, fica evidente que a controvérsia instalada por um segmento bem determinado na sociedade brasileira faz oposição à autonomia feminina conquistada nas últimas décadas. Não por acaso, a tal da "democracia familiar" está centrada num padrão de família nuclear no qual mulheres se submetem aos homens.

Historicamente, a participação feminina no cenário público (o que inclui os direitos políticos) foi rejeitada por séculos. É como se política não fosse assunto de mulher. Esse entendimento (absurdo e equivocado) se fez presente mundo afora.

Por estas terras, a tradição "mansa e pacífica" de negar às mulheres o direito de votar e ser votada só começou a mudar com o Código Eleitoral de 1932, há menos de 100 anos. E, ainda assim, o sufrágio feminino não era obrigatório, uma discricionariedade que mantinha as mulheres afastadas do processo eleitoral por uma série de razões, entre as quais destaco o jugo masculino.

Pensando na atual investida contra o voto feminino, lembrei do livro "O Conto da Aia", escrito pela canadense Margaret Atwood, que deu origem a uma série assustadora para quem preza a democracia e valoriza os direitos humanos.

Na ficção, uma das formas de opressão feminina é a supressão de direitos civis e políticos —inclusive com o apoio de certas mulheres. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Democracia requer a participação de todos os segmentos da sociedade, o que, por óbvio, inclui as mulheres.

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CONTRA O GODZILLA DIGITAL

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Na Flórida, um jovem dependente das redes sociais obriga o TikTok a propor um acordo

Assim como os fabricantes de bebidas e cigarros, as redes sociais sabem do mal de seus produtos

Nos EUA, é assim. Quando um caso judicial é encerrado mediante "acordo", significa que a parte acusada, sabendo que vai perder, interrompe o processo e consegue abafar a história por um bom dinheiro em sigilo para o acusador. Que vantagem ela leva nisso? Impede que uma derrota pública deságue numa hemorragia de outros processos do gênero. O TikTok, por exemplo, acaba de fazer um "acordo" com um jovem de 15 anos, residente na Flórida, que acusou a rede social de danos à sua saúde mental causados pela dependência aos seus recursos.

É o segundo "acordo" que o garoto aceitou —o anterior, há alguns meses, foi com o Google, e pelos mesmos motivos. Mas ele ainda tem mais dois em andamento, contra o Meta e o Snapchat, e não importa que, em vez de vencê-los, ele aceite mais "acordos". Ficará caracterizado que as redes sociais podem ser desafiadas por quem sinta sua saúde lesada por elas. O julgamento já está em curso em Los Angeles e, de seu resultado, devem pipocar inúmeras ações acusando as redes de provocar dependência psíquica.

Alguém dirá que o garoto é um esperto aproveitador e que, se não quisesse que as redes sociais lhe provocassem dependência, era só "saber usá-las". Assim como acontece com o álcool e as drogas, os leigos acreditam que seja uma questão de moderação, "força de vontade". Não aceitam que, uma vez instaurada a dependência, não se trata mais de saber ou não usá-los, e muito menos com moderação. O dependente não tem escolha —por isso é dependente— e ninguém está a salvo de se tornar um.

Os fabricantes de bebidas e cigarros e os traficantes de drogas sabem do que seus produtos são feitos e os efeitos que provocam a médio prazo. Tanto quanto eles, as redes sociais também sabem do estressedepressãoansiedade, insatisfação com o próprio corpo, ideias suicidas, submissão à luz da tela, pavor de se ver sem o celular e outras consequências de seu uso, mesmo "moderado". É o que as torna trilionárias.

Um jovem luta contra o Godzilla digital. Eu torço por ele.

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DO CAÇADOR DE EMPREGOS À CAPTURA DO ESTADO

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Concurso público conteve o clientelismo no ingresso, mas não a apropriação política dos postos de comando

Os políticos podem preferir coletivamente uma burocracia imparcial, mas hesitam em se desarmar primeiro

"Um cargo ou a sua vida!": esses eram os dizeres de um cartaz empunhado por Charles Guiteau, assassino do presidente americano James Garfield, em uma charge publicada pela revista Puck em 1881. A legenda o apresentava como "o caçador de emprego modelo". Guiteau atentou contra Garfield por acreditar que seu apoio à campanha lhe dava direito a um alto cargo público —expectativa frustrada.

O episódio teve papel decisivo na aprovação, em 1883, do Pendleton Act, marco do recrutamento meritocrático no serviço público federal americano. Mas o que interessa não é a emergência de reformas, mas, sim, sua sustentabilidade.

Escândalos abrem janelas de oportunidade; não garantem que as mudanças se consolidem. Em uma democracia, a reforma dificilmente "pega" quando uma força política controla de forma duradoura e desproporcional os recursos de patronagem. Quem está no poder recorre às nomeações para recompensar aliados e ganhar eleições. Por que renunciaria a essa vantagem?

Se duas forças políticas controlam parcelas semelhantes dos empregos públicos, ambas sacrificariam recursos equivalentes caso o patronato fosse restringido. Ao apoiar a reforma, nenhuma concederia vantagem decisiva ao adversário. Cada uma poderia preferir eliminar uma disputa onerosa por cargos e reivindicar o crédito por um governo mais íntegro e eficiente.

O argumento se assemelha a um dilema do prisioneiro. Os políticos podem preferir coletivamente uma burocracia imparcial, mas hesitam em se desarmar primeiro. Um partido que renuncie às nomeações enquanto seus adversários as conservam corre o risco de ser derrotado. As regras de recrutamento por mérito funcionam, assim, como mecanismo de desarmamento mútuo. A reforma se torna mais provável quando as principais forças esperam perdas semelhantes e nenhuma teme ficar em desvantagem. Barbara Geddes encontrou esse padrão na América Latina; Michael Ting e coautores identificaram mecanismo semelhante nos estados americanos.

O Brasil seguiu trajetória pioneira e peculiar. O concurso apareceu na Constituição de 1934, mas sua implantação ganhou impulso sob o Estado Novo, sobretudo com a criação do DASP, em 1938. A experiência autoritária instituiu núcleos burocráticos profissionais. Com a democracia do pós-guerra, esses núcleos sobreviveram, embora a profissionalização tenha avançado de forma desigual. A Constituição de 1988 generalizou o concurso para estados e municípios como regra de ingresso.

O resultado, contudo, não foi a substituição do patrimonialismo pela meritocracia, mas sua acomodação. Consolidaram-se carreiras profissionais e burocracias setoriais —"ilhas meritocráticas", sobretudo no nível federal. Ao mesmo tempo, cargos de comando e decisão nos três Poderes continuaram permeáveis a redes partidárias, familismo e interesses escusos.

Nos estados e municípios, contratações temporárias, excesso de comissionados e outras portas laterais pouco republicanas mantiveram vivo o clientelismo e a corrupção. Essa combinação é a característica central do Estado brasileiro: mérito no acesso à parte expressiva da burocracia, patronagem na disputa pelo seu controle, como mostrei aqui. É ela que sustenta o novo mote do sicário: "A decisão ou sua vida".

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domingo, 9 de agosto de 2026

LIVRO TRAÇA UMA RADIOGRAFIA DA TRADIÇÃO ANTI-IGUALITÁRIA NOS EUA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais

Encarnação mais recente é a dos bilionários do Vale do Silício

"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Essas belas palavras estão na Declaração de Independência dos EUA, de 1776. Mas entre o que se escreve e o que se pratica pode haver um abismo. O princípio fortemente igualitário que animou a revolução americana não se aplicava a negros, por exemplo. A escravidão só foi oficialmente banida em 1865.

Em "Country of Lords", a historiadora Kim Phillips-Fein (Columbia) não chega a afirmar que o ideal de igualdade nunca passou de uma balela, mas mostra que, desde o início, ele se fez acompanhar de um discurso e uma tradição política anti-igualitários, que seguem até nossos dias.

A primeira encarnação do anti-igualitarismo aparece já entre os "founding fathers". John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais, para os quais havia uma hierarquia social que não poderia ser rompida sem grande perigo. Eles se esforçaram para criar os mecanismos constitucionais que diluíam a participação popular na tomada de decisões.

Aos aristocratas naturais seguiram-se darwinistas sociais, racistas utilitaristas, evangelistas da produção e meritocratas de mercado. A mais recente manifestação de anti-igualitarismo é a que vem de bilionários do Vale do Silício, como Peter Thiel e Elon Musk. Para todos esses grupos, ainda que com nuances, os talentos das pessoas variam, de sorte que a distribuição do poder político também precisa variar. Os mais capazes devem ter mais poder.

É complicado. Até acompanho a ideia de que talentos e aptidões variam. É um dado da realidade. Mas não consigo ver um argumento razoável para sustentar que a loteria cósmica das habilidades justifique tratamento legal diferenciado ou privação do poder político. Já experimentamos isso ao longo da história e não funcionou. Pelo menos não para os amplos contingentes de excluídos.

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MENTIRAS DE NIKOLAS SOBRE FAUCI SÃO BOA OPORTUNIDADE PARA LEMBRAR DE BOLSONARO NA PANDEMIA

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras

Foram dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo dizendo que os diários de Anthony Fauci provam que Jair Bolsonaro tinha razão quando defendeu a cloroquina e se opôs à vacinação, ao isolamento social e ao uso de máscaras durante a pandemia da Covid-19. Como todo parágrafo que começa com "Nikolas Ferreira gravou um vídeo", esse também termina com "era tudo mentira".

Nada disso está nos diários de Fauci. Se você duvida, consulte sua agência de fact-checking favorita.

Mesmo assim, agradeço a Nikolas por trazer a Covid-19 de volta ao debate público brasileiro. É uma ótima oportunidade para mostrar que Bolsonaro matou mais gente do que pensávamos.

Já citei aqui algumas vezes o número de 700 mil mortes totais, sendo um mínimo de 100 mil mortos por culpa de Jair durante a pandemia por falta de vacina. São cálculos feitos com números produzidos pelo próprio governo Bolsonaro.

O "mínimo de 100 mil mortos" é baseado na estimativa do epidemiologista Pedro Halal. Usando um modelo estatístico com premissas bastante favoráveis a Bolsonaro, Halal estimou em 95 mil os mortos entre janeiro e junho de 2021 por falta de vacina só entre janeiro e junho de 2021.

Na verdade, o número total de mortes é mais próximo de 900 mil. Esse é o número de "mortes em excesso" ("excess deaths") ocorridas no Brasil durante a pandemia: isto é, quanta gente morreu a mais do que seria normal, dado o padrão histórico e o que sabemos sobre o número de mortes por outras doenças (que permaneceu igual).

A estimativa do número de mortos por falta de vacina no primeiro semestre de 2021, auge da segunda onda da Covid-19, também aumentou. Usando um modelo estatístico com 24 variáveis explicativas, uma equipe liderada pelo professor de matemática aplicada da FGV-SP Eduardo Massad estimou em 145 mil o número de mortes que teriam sido evitadas se o Brasil tivesse começado a vacinar o mais cedo possível, com todas as ofertas de vacina que Jair recusou.

No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras. Só 2,7% dos seres humanos são brasileiros.

O que isso quer dizer? Os mortos por causa de Jair Bolsonaro são mais que o dobro, e talvez o triplo, do número de brasileiros que morreram na Guerra do Paraguai (cerca de 50 mil). São dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão. Jair não apertou.

Fica pior.

Quando Jair começou a implementar sua política de "imunidade de rebanho" —deixar a população adquirir imunidade pós-contágio e que se dane quem morrer– a vacina ainda não havia sido descoberta. Se João Doria não tivesse corrido atrás de vacina em São Paulo, o ritmo da vacinação no Brasil seria ainda menor. Quantos Bolsonaro teria matado se não tivesse sido impedido pela descoberta da vacina e pelo governador de São Paulo?

Por justiça poética, a polícia conseguiu as provas do golpe de 2022 quando Mauro Cid foi preso por falsificar um certificado de vacina para Bolsonaro.

Nikolas Ferreira nos lembra que, se a direita vencer a próxima eleição presidencial, a anistia aos golpistas garantirá que nem a justiça poética será aplicada aos assassinos da pandemia.

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