quinta-feira, 9 de abril de 2026

A FARSA ANTISSISTEMA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Se você quer alguém novo, de fora, para livrar o Brasil da corrupção, prepare-se para ser tapeado

O sistema é o que os antissistema querem derrubar para impor seu próprio sistema, seja qual for

Não paga dez. Pelo que as trombetas já anunciam, o principal adversário dos candidatos a candidatos à Presidência pela oposição, mais do que o odiado incumbente, será um ente invisível, impalpável, incolor e inaudível —o sistema. A palavra já está na boca de vários, salivante, sibilante, pronta a ser pronunciada com uma profusão de "Ss", fazendo dos discursos uma sinfonia de assobios. O que a torna paradoxalmente significativa é o fato de que tanto esses candidatos quanto seus potenciais eleitores não precisam saber o que ela significa.

O sistema é mais fácil de atacar do que de definir. De modo geral, é um conglomerado de políticos que mamam nas tetas do povo, sendo nós os mamados. O candidato antissistema é um puro, um impoluto, vindo de alguma estratosfera, a salvo de mamatas, desvios e negociatas. Votando nele, você estará dizendo que não agüenta mais a política oficial, não acredita em partidos e quer "alguém novo, de fora, para livrar o Brasil da corrupção".

O eleitor, esse parvo, não percebe que o candidato antissistema também faz parte do sistema —é um político profissional, vindo de uma família de políticos profissionais, cercado por uma quadrilha de políticos profissionais— e vota nele assim mesmo. Os antissistemas mais vitoriosos da República foram Jânio Quadros em 1960, Fernando Collor em 1989 e Jair Bolsonaro em 2018. Três messias de hospício. Fizeram-se de antipolíticos, puseram-se acima dos partidos e prometeram varrer a corrupção. O Brasil sabe o quanto cada um lhe custou.

O sistema é aquilo que os antissistema precisam derrubar para impor o seu próprio sistema, seja qual for. Mas é impossível disfarçar: ambos se valem por igual da corrupção. E, para piorar, sem o sistema (leia-se os políticos) cai-se na ditadura militar —que, como a nossa demonstrou à larga, também é corrupta.
Não há sistema sem corrupção. A diferença é que, na democracia, ela pode ser denunciada, investigada, julgada e condenada. Na ditadura, ela também existe e você é só um ente impotente.

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quarta-feira, 8 de abril de 2026

MASTER PAGOU R$ 27 MI AO METRÓPOLES

Vinícius Valfré, O Estado de S.Paulo

Master pagou R$ 27 mi ao Metrópoles, que fez ‘débito imediato’ a empresas da família de Luiz Estevão

Repasses aparecem em documento do Coaf que aponta suspeita de ‘movimentação em benefício de terceiros’; ex-senador afirma que pagamentos dizem respeito a patrocínio de transmissão da Série D do Brasileirão 2025 e que ‘faz o que quiser com o dinheiro que recebe’

BRASÍLIA - O Banco Master repassou R$ 27,2 milhões, entre 2024 e 2025, ao Metrópoles, site de notícias comandado pelo ex-senador Luiz Estevão, segundo documento do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

O relatório registra os pagamentos como suspeitos ao apontar que o veículo fez “débito imediato” de valores recebidos do Master em direção a outras empresas da família de Luiz Estevão, o que “pode configurar possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.

Além disso, o documento classifica os aportes do Master como “inusitados” e aponta uma movimentação do Metrópoles “incompatível com o faturamento médio mensal”.

Procurado, o ex-senador afirmou que os pagamentos dizem respeito ao patrocínio do Will Bank, que pertencia ao Master, à transmissão da Série D do Campeonato Brasileiro de 2025, feita pelo Metrópoles, e à venda dos naming rights da competição . Em relação às transferências para empresas da família, ele diz que pode dar a destinação que quiser ao dinheiro recebido (leia mais abaixo).

Ao todo, o Master enviou R$ 27.283.800 à empresa Metrópoles Marketing e Propaganda LTDA. No segundo semestre de 2024, o banco fez dois pagamentos que totalizaram R$ 838,8 mil. Todo o restante foi transferido entre janeiro e outubro de 2025.

Este período foi crucial para a instituição financeira. O banqueiro Daniel Vorcaro tentou vendê-la ao BRB, em março, virou alvo de investigações por suspeita de fraude financeira bilionária e viu sua empresa acabar liquidada pelo Banco Central, em novembro. Vorcaro está preso.

De acordo com o relatório, o Master aparece como “principal remetente” de recursos ao Metrópoles nos período analisados em 2025, com pagamentos variados que chegam a R$ 5,7 milhões.

Embora esses repasses tenham começado em janeiro de 2025 e Luiz Estevão os atribua ao contrato de patrocínio da Série D, as transmissões só começaram a exibir a logomarca do Will Bank três meses depois do início do campeonato.

A competição começou em 19 de abril de 2025. O Metrópoles e a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) anunciaram, nos dias 2 e 3 de julho, respectivamente, um acordo referente apenas à transmissão dos jogos. As primeiras partidas exibidas no YouTube, gratuitamente, foram as da 11ª rodada da Série D, com 15 jogos transmitidos nos dias 5 e 6 de julho.

Luiz Estevão também tinha negociado com o banco a venda dos naming rights. O campeonato passou a ser chamado de “Brasileirão Série D Will Bank”. Foi a primeira vez que a competição, organizada pela CBF, teve os “direitos sobre o nome” comercializados.

Mas a logomarca do Will Bank só foi instalada na placa de publicidade central dos campos de jogo a partir de 26 de julho, na 14ª rodada, a última da primeira fase. Portanto, mais de três meses após o início do campeonato e seis meses após o Master começar a injetar dinheiro no Metrópoles.

A parceria do ex-senador com a empresa de Vorcaro foi revelada pelo Estadão.

O documento do Coaf destaca que o Metrópoles fez “débito imediato” de valores recebidos pelo Master para empresas como Madison Gerenciamento S/A, Sense Construções e Participações S/A e Macondo Construções e Participações S/A.

As três firmas têm Luiz Estevão e filhas no quadro societário ou em funções de direção. Segundo o relatório, esse fluxo financeiro “pode configurar, possível movimentação de recursos em benefício de terceiros”.

As comunicações ao órgão de controle foram feitas pela Caixa Econômica Federal. Nos alertas, o banco também pontuou uma “movimentação de recursos incompatível com o faturamento médio mensal”, “recebimento de transferências de valores inusitados”, com as do Master.

“A comunicação ao Coaf é justificada pois no período analisado foi movimentado recursos incompatíveis com o faturamento médio mensal da pessoa jurídica, identificamos o recebimento de transferências de valores inusitados, a movimentação foi caracterizada pelo recebimento de crédito com o débito imediato dos valores, há indícios de movimentação de recursos em benefício de terceiros e movimentação com pessoas expostas politicamente”, frisa o documento.

Will Bank na série D

A reportagem sondou operadores do mercado de futebol e eles disseram que a Série D, geralmente, não é rentável para quem exibe o torneio e, historicamente, há poucos interessados na competição.

Luiz Estevão nega que os valores negociados com o Master tenham sido superdimensionados. Segundo ele, os pagamentos deveriam ter sido ainda maiores, mas foram cortados com a liquidação do banco.

“O valor foi maior. Eles não pagaram tudo. Ainda estão devendo dinheiro e estamos atrás de receber”, disse, antes de completar: “O valor não está nada fora. E ainda temos que comprar os direitos da CBF, que não disponibiliza gratuitamente, não.”

O ex-senador também frisou que não há nenhum tipo de problema com os “débitos imediatos” feitos pelo Metrópoles.

“O dinheiro que eu recebi passa a ser meu e faço com ele o que eu quiser. Posso comprar publicidade no Estadão, posso transferir esses recursos para outras empresas minhas, comprar um imóvel, fazer o que quiser“, afirmou.

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SAIA DO REBANHO POLÍTICO, OUSE PENSAR POR SI MESMO

Wilson Gomes*, Folha de S. Paulo

Em meio à patrulha ideológica, pensar por conta própria tornou-se um ato de resistência

A vida pública se transformou em uma sucessão de testes morais e alinhamentos forçados

Se você já não aguenta mais gente patrulhando cotidianamente a sua opinião, exigindo-lhe um posicionamento moral explícito sobre qualquer coisa como condição para decidir se você presta ou não, se já não suporta militante apertando a sua mente e forçando a sua mão, você não está sozinho. Há muitos brasileiros como você —e me incluo entre eles— sentindo-se como a bola de um pinball político alucinado, arremessada para lá e para cá, à procura de uma saída em meio a tanto barulho e histeria.

Reconhece o ambiente? Ele impõe, semana após semana, uma rotina de julgamentos morais, como se fosse preciso decidir o tempo todo quem merece crédito e quem não na vida e na política. Ele transforma tudo —ideias, pensamentos, atitudes e comportamentos, seus e dos outros— em questão política, sujeita à vigilância e à punição segundo critérios ideológicos. Ele exige que você tenha —e exiba— uma opinião política (frise-se o adjetivo "política") sobre quase tudo: o estreito de Hormuz, projetos de lei sobre antissemitismo e antimisoginia, o powerpoint da GloboNews, uma declaração de Trump sobre a mulher de Macron, a não convocação de Neymar ou de Endrick, ou até se, afinal, "lá ele!" é uma expressão homofóbica .

O mais curioso é que o remédio mais eficiente para enfrentar essa sensação é um clássico do Iluminismo e vem na forma de um imperativo: atreva-se a pensar com a sua própria cabeça. "Sapere aude". Tenha a audácia de pensar; ouse servir-se do seu próprio entendimento.

Isso pode significar muitas coisas nos dias que correm. Um dos seus significados é que ninguém manda em você, quer dizer, no seu juízo, no seu modo de ver as coisas. Nem o seu círculo de afinidade social, nem o seu grupo de pertencimento ideológico. Divergir e desafiar valores e pontos de vista de quem está no "outro lado" é fácil, e todo mundo faz isso. Emancipação intelectual de verdade é ter a ousadia de resistir ao soft power dos "nossos", é não aderir automaticamente, é se recusar a substituir o próprio julgamento pela voz do próprio rebanho. Há um custo —grupos punem dissidentes, desafiantes e até hesitantes com isolamento. Dane-se! Esse é o preço a pagar para ser o capitão própria alma, senhor das próprias ideias.

Outra decorrência da máxima iluminista é a liberdade de rediscutir consensos, reabrir decisões ideológicas que os grupos dão por encerradas, reexaminar premissas e pressupostos já adotados. Isso é o que significa recusar os dogmas do grupo e as suas bíblias particulares, assim como se recusar a confundir afinidades ideológicas, que é uma coisa normal, com conversão sectária e suicídio intelectual. Não conceda a autoridades, livros e bulas papais do seu campo o direito de decidir o que você deve considerar certo ou errado, discutível ou intolerável. Mantenha esse direito como uma prerrogativa política e humana pessoal.

Em um momento em que os campos políticos, tantos e tão fragmentados, reforçam os apelos por coesão grupal e por hostilidade contra os inimigos externos, tenha a liberdade de escolher contra o que lutar, se preciso, e por que razão o faria, se necessário. Contra a pressa do grupo por movimentos de manada, retarde o seu julgamento; contra a pressão por um incessante ativismo de guerrilha, suspenda por um tempo o seu julgamento até que as coisas fiquem mais claras; contra as simplificações de quem vê tudo em preto e branco, assuma a atitude mais rebelde de todas: faça distinções e aceite paradoxos.

Você vai descobrir como é libertador, por exemplo, apoiar um princípio —sei lá, a condenação da misoginia e do antissemitismo— e, ao mesmo tempo, reprovar a solução proposta com a criminalização. Ou pedir evidências quando todos estão entronados em certezas, demandar que sejam demonstradas crenças que os grupos consideram sagradas, desconfiar de soluções fáceis para problemas difíceis, pensar a contrapelo quando todos buscam nos consensos grupais a estima de que tanto precisam, dispor-se a ouvir os outros lados e a entender as suas razões, mesmo quando não concorda com elas.

Talvez você fique surpreso ao notar que um tal individualismo —que não é isolamento, mas autonomia de juízo— pode ser, paradoxalmente, mais democrático que os coletivismos que anulam a liberdade de pensar e dissolvem a autonomia do pensamento individual nas obrigações de lealdade e coesão grupal. Mas é isso mesmo. A voz do rebanho sempre serviu melhor a outros regimes; a democracia depende, desde sempre, de indivíduos capazes de pensar com liberdade e independência.

*Professor titular da UFBA, doutor em filosofia e autor de “Transformações da Política na Era Digital”, “A Democracia no Mundo Digital” e “A Tirania da Virtude”

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QUÃO RESILIENTE É FLÁVIO BOLSONARO ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Candidato do clã deverá ser questionado por esquema de rachadinha

Ele também mostra inabilidade com declarações que espantam eleitor moderado

Quão resiliente é Flávio Bolsonaro? A resposta a essa pergunta será decisiva na disputa eleitoral. O primogênito de Jair Bolsonaro herdou os votos e a rejeição do pai, mas não foi ainda, enquanto ser autônomo, submetido ao teste de estresse.

A lista de passivos do postulante do PL é densa. Ele foi flagrado num insofismável esquema de rachadinha, que os mais preciosistas chamam de peculato. Desdobramentos do esquema incluiriam lavagem de dinheiro numa franquia da loja de chocolates da Kopenhagen e a compra de uma mansão em Brasília com valor acima de seus rendimentos oficiais.

O jovem Bolsonaro chegou a ser denunciado pelo MP fluminense pelos delitos de organização criminosa, lavagem de dinheiro, apropriação indébita e peculato, mas se livrou da investigação após intervenção de cortes superiores com base em detalhes processuais. Traduzindo para o bolsonarês, se Lula é um descondenado, Flávio é um desinvestigado.

A partir de agora, o senador-candidato deverá ser mais cobrado em relação aos aspectos não ortodoxos de sua vida financeira. O caso também deverá ser explorado pela campanha petista. Vamos ver como o legatário da família Bolsonaro atuará sob um pouco mais de pressão e se terá, como o pai e como Lula, aquela camada de teflon que faz com que denúncias e suspeitas, mesmo as graves, não colem em sua pessoa.

Para vencer uma eleição, não basta desvencilhar-se de problemas velhos; é preciso também não criar novos. Nesse quesito, Flávio Bolsonaro parece ter herdado do pai, além dos votos e da rejeição, uma certa inabilidade essencial. Nove entre dez analistas afirmam que o pleito será acirrado, de modo que caberá a eleitores moderados definir milimetricamente a parada. Aí, em vez de tentar cativar esse eleitor mais centrista, Flávio Bolsonaro vai a uma conferência de partidos conservadores nos EUA e faz declarações totalmente antissistema, que assustam qualquer um que tenha apego às instituições.

Não posso dizer que tanta incompetência não tenha um lado tranquilizador.

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LEO DIAS RECEBEU R$ 9,9 MILHÕES DO MASTER E R$ 2 MILHÕES DE EMPRESA QUE TEVE APORTES DO BANCO

Vinícius Valfré e Pedro Augusto Figueiredo, O Estado deS.Paulo

Leo Dias recebeu R$ 9,9 milhões do Master e R$ 2 milhões de empresa que teve aportes do banco

Jornalista afirmou que valores são referentes a contrato de publicidade firmado com Will Bank, banco que pertencia ao conglomerado de empresas de Daniel Vorcaro

BRASÍLIA E SÃO PAULO — Uma empresa do jornalista Leo Dias, que publica notícias e fofocas sobre famosos, recebeu ao menos R$ 9,9 milhões diretamente do Banco Master. A informação consta de um relatório do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) ao qual o Estadão teve acesso.

O documento aponta que o banco de Daniel Vorcaro fez seis pagamentos para a Leo Dias Comunicação e Jornalismo entre fevereiro de 2024 e maio de 2025. Leo Dias recebeu outros R$ 2 milhões de uma firma que teve aportes do Master como principal fonte de receita, segundo outro informe do Coaf.

Leo Dias disse por meio de nota que os pagamentos são relativos a um contrato de publicidade firmado com o Will Bank, que fazia parte do conglomerado do Master e também foi liquidado pelo Banco Central.

“O Grupo Master, por meio da marca Will Bank, manteve contrato publicitário com empresas do Grupo Leo Dias Comunicação no período de outubro de 2024 a outubro de 2025”, afirmou.

Vorcaro foi procurado, mas não havia se posicionado até a publicação desta reportagem.

De acordo com o documento do Coaf, R$ 34,9 milhões entraram nas contas da empresa de Leo Dias nos 15 meses analisados pelo órgão. Dessa forma, os valores depositados pelo Master correspondem a 28% do faturamento da Leo Dias Comunicação no período.

O Coaf aponta ainda que as saídas da empresa no período somaram R$ 35,7 milhões e que houve pagamento de boletos em nome de terceiros. “Diante do exposto, identificamos que: indícios de movimentações em benefício de terceiros, (boletos), sem causa aparente, a movimentação em conta é superior a capacidade financeira declarada pela empresa, e recebimento de créditos com o imediato débito dos valores, sem aparente justificativa”, conclui o órgão de monitoramento financeiro.

Estadão também teve acesso a um segundo registro do Coaf, que aponta que a Leo Dias Comunicação recebeu mais R$ 2 milhões de uma empresa chamada LD Produções, em dois pagamentos feitos entre novembro de 2024 e outubro de 2025.

Apesar das iniciais remetendo ao nome do jornalista, o proprietário da LD é Flávio Carneiro, empresário mineiro que é próximo de Vorcaro e foi parceiro de negócios de Fabiano Zettel, cunhado e operador financeiro do banqueiro, em ao menos uma ocasião – eles foram sócios na Foone, uma empresa que oferecia serviços de tecnologia para sites (leia mais abaixo). Dos R$ 3,7 milhões recebidos pela LD entre novembro de 2024 e outubro de 2025, 90% (R$ 3,3 milhões) vieram do Master.

Carneiro foi procurado para esclarecer as movimentações, mas respondeu que estava em um voo e que a equipe de Leo Dias responderia aos questionamentos da reportagem. Na nota enviada pela assessoria do jornalista não há menção específica à transação de R$ 2 milhões.

Estadão também teve acesso a prints de um vídeo publicado por Leo Dias em seu perfil no Instagram em 2023 que mostram o jornalista participando de uma reunião no escritório da Moriah Asset, gestora de investimentos fundada por Fabiano Zettel.

Sem detalhar o conteúdo do encontro, Leo Dias escreveu na legenda: “Estamos preparando um 2024 cheio de novidades para vocês”. Sobre a mesa, é possível ver inclusive uma garrafa d’água com o logotipo da Moriah Asset.

Questionado no mês passado sobre o encontro, Leo Dias afirmou que a reunião foi “estritamente comercial” e teve como objetivo discutir o patrocínio do Will Bank ao seu site.

“Durante o encontro, também foram discutidas possíveis oportunidades publicitárias envolvendo marcas ligadas ao Grupo Moriah, tratativas que, ao final, não chegaram a ser concretizadas”, disse a nota enviada à reportagem em março.

O texto afirmava ainda que nem Leo Dias nem suas empresas receberam investimentos “por meio de participação societária, aportes diretos ou qualquer outro tipo de investimento” feitos por Vorcaro ou Zettel.

“A única relação tratada no período foi a publicidade realizada pelo Will Bank com o Grupo Leo Dias de Comunicação”, acrescentou a empresa.

O relatório do Coaf revela ainda uma outra ligação entre Zettel e Flávio Carneiro de um lado, e Leo Dias do outro. A empresa do jornalista pagou R$ 2,6 milhões para a Foone Serviços Internet.

Como revelou o Estadão, Carneiro e Zettel foram sócios na Foone, que por sua vez foi sócia dos proprietários dos sites Brazil Journal e PlatôBR. Segundo Carneiro, o objetivo da Foone era oferecer soluções tecnológicas aos sites de jornalismo. No final do ano passado, ele havia afirmado ao Estadão que a empresa deu errado por causa de mudanças na Lei Geral de Proteção de Dados que inviabilizou seu modelo de negócios.

Até outubro do ano passado, Leo Dias era dono de 100% da Leo Dias Comunicação e Jornalismo. Naquele mês, ele cedeu 10% das ações para Thiago Miranda, que, conforme revelado pelo Estadão, esteve envolvido na contratação de influenciadores para atacar o Banco Central pela decisão de liquidar o Banco Master.

Após a transferência do percentual em outubro, Leo Dias e Thiago Miranda transformaram a empresa de sociedade limitada para sociedade anônima. Com a mudança, a informação sobre quem são os atuais sócios e suas respectivas participações na empresa deixou de ser pública.

“Reiteramos ainda que, conforme esclarecido em nota oficial publicada em janeiro de 2026, Thiago Miranda deixou o cargo de CEO em junho de 2025. Desde então, não exerce qualquer função de gestão, participação em decisões estratégicas ou atuação operacional no grupo. Dessa forma, não possui qualquer controle administrativo, vínculo de governança ou influência sobre as atividades atualmente desempenhadas pela empresa”, disse a nota de Leo Dias enviada nesta quarta-feira.

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TRUMP AMARELA

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Trump amarela e pode conseguir um jeito de mentir sobre a guerra para os americanos

Ataque destrutivo contra Irã provocaria retaliação e pioraria crise do petróleo

Presidente dos EUA vai tentar fazer com que assunto da guerra 'morra', mas crise não acabou

Donald Trump arrumou um jeito de contar uma mentira em casa e, talvez, de se livrar até das consequências mais extremas da desgraça que provocou para si —crise econômica e derrota eleitoral.

Depois de ameaçar varrer o país da face da Terra, Trump recuou do quarto ultimato que deu ao Irã. Não era para valer também a exigência de "rendição incondicional", anunciada no sétimo dia da guerra.

Trump vai dizer que acabou com as armas do Irã, matou suas lideranças piores, "mudou o regime", que a guerra acabou "no prazo" (qualquer prazo). Dirá que sua ameaça de solução terminal levou o regime da Guarda Revolucionária teocrática a reabrir Hormuz, que Trump desdizia ser um objetivo de guerra. Seus ultimatos, porém, vão ser testados por todos os seus adversários e inimigos.

Deve haver alívio no preço de gasolina e diesel. Trump pode confiar na memória curta da humanidade, ainda pior com o vício em redes, e desistir da guerra, deixá-la em suspenso para sempre, mesmo que o Irã não aceite mais nenhuma exigência americana.

O Supremo Conselho Nacional de Segurança do Irã afirmou que atingiu seus objetivos de guerra e que pretende manter o estreito de Hormuz sob controle. A passagem de navios pelo estreito será "coordenada" pelas Forças Armadas do Irã, que assim terá uma "posição econômica e geopolítica única".

Mais do que isso, o Irã mantém seu plano de dez pontos para a paz. Entre outras coisas, exigem controle de Hormuz, direito de enriquecer urânio, fim de sanções dos EUA, da ONU ou quaisquer, reparações de guerra, retirada de tropas americanas da região, fim da guerra de Israel no Líbano. A aceitação de qualquer um desses pontos é derrota americana. O que vai ser? Trump vai deixar o assunto morrer ou vai arriscar a piora do problema econômico?

Haverá um cessar-fogo caso o Irã cumpra a promessa de não atacar navios no estreito de Hormuz —os americanos disseram que interromperam o bombardeio assim que Trump anunciou a suspensão da guerra, por um trumpite em sua rede social.

Não vamos saber o que seria da promessa de Trump de acabar com a "civilização" no Irã, se é que era promessa, se não era delírio de show business ou de filme D. Mas sabia-se do risco. Talvez os iranianos ainda tivessem bala na agulha bastante para destruir instalações de produção, processamento e transporte de petróleo e combustíveis em países do golfo. Se tivessem sucesso, provocariam altas imediatas do preço do petróleo e em taxas de juros pelo mundo. Por um tempo comprido, haveria combustíveis caros, inflação e outras crises, nos Estados Unidos também.

Como se sabe, há eleições legislativas marcadas para o final do ano. Trump pode perder maioria no Congresso (se não tentar roubar a eleição). Em caso de desastre eleitoral, os democratas poderiam conseguir maioria suficiente no Senado até para aprovar a deposição de Trump. É possível que agora, com leite e muito sangue derramado, isso que é por ora o presidente dos Estados Unidos tivesse se dado conta de que atraiu desgraça também para si. Segundo a média das pesquisas de opinião calculada por Nate Silver, a aprovação de Trump desceu ao menor nível desde a posse, embora ainda em 39%. Pouco antes da guerra, estava perto de 41%. O morticínio e o risco de inflação não comoveram os trumpistas resistentes, mas essa taxa de aprovação costuma dar em derrota nas urnas.

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BANCO MASTER FEZ REPASSES MILIONÁRIOS A EMPRESAS DO APRESENTADOR RATINHO

Barbara Schiontek, TRIBUNA DO PARANÁ

Documentos enviados pela Receita Federal à CPI do Crime Organizado mostram que duas empresas do Grupo Massa, do apresentador Ratinho, pai do governador do Paraná, Ratinho Junior, receberam repasses do Banco Master, de Daniel Vorcaro. Ao todo, as empresas somam pelo menos R$ 24 milhões em transações registradas pelo banco.

Conforme consta nos documentos, obtidos e divulgados nesta quarta-feira (08/04) pelo jornal Folha de S. Paulo, os repasses ocorreram entre 2022 e 2025 para dois negócios: Massa Intermediação e Gralha Azul Empreendimentos e Participações.

Para a Massa Intermediação, de Carlos Roberto Massa, o apresentador Ratinho, foram repassados R$ 21 milhões entre 2022 e 2025. Já a Gralha Azul Empreendimentos e Participações, que pertence ao Grupo Massa, somou R$ 3 milhões em 2022.

Ratinho fez propagandas do CredCesta, um cartão consignado do Banco Master e voltado para servidores públicos, com a proposta de permitir compras e saques vinculados à folha de pagamento. Assim como em diversos estados, o cartão era ofertado para servidores do Paraná e teve o uso bloqueado em novembro de 2025.

De acordo com nota enviada pelo Grupo Massa à Tribuna do Paraná, “o governador Ratinho Jr não faz parte do quadro societário das empresas Massa Intermediação e Gralha Azul.”

Outros nomes também aparecem nos documentos enviados à CPI, como Michel Temer, Antônio Rueda, ACM Neto, Guido Mantega, Fábio Wajngarten, Henrique Meirelles e Ricardo Lewandowski.

O que são as empresas citadas nos repasses do Banco Master

A Massa Intermediação e Assessoria Empresarial está ativa desde 2021 e tem sede em Marumbi, na região norte do Paraná. Conforme consta no registro, a empresa presta consultoria em gestão empresarial.

A Gralha Azul Empreendimentos e Participações está inscrita no bairro Parolin, em Curitiba, no mesmo endereço onde funciona a Rede Massa. O registro aponta que a principal atividade econômica do negócio é intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral.

Grupo Massa se manifesta

Procurado pela Tribuna do Paraná, o Grupo Massa afirmou, por meio de nota, que “possui mais de 30 anos de atuação em diversos setores econômicos. Ao longo desse período, construiu uma trajetória pautada por práticas amplamente reconhecidas pelo mercado com rendimentos declarados à Receita Federal, incluindo campanhas publicitárias e parcerias com diversas marcas e empresas. Sua atuação não se confunde com a conduta de terceiros com os quais manteve relações contratuais. No caso dos contratos.

No caso dos contratos citados, esclarecemos que o governador Ratinho Jr não faz parte do quadro societário das empresas Massa Intermediação e Gralha Azul.”

Também procurada pela Tribuna do Paraná, a defesa de Daniel Vorcaro disse que não vai se manifestar sobre o tema.

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A GUERRA NO ESTREITO DE ORMUZ ESTÁ CHEGANDO AQUI

Aylê-Salassié Filgueiras Quintão*, Democracia Política

Dá para ficar tranquilo diante da guerra no Golfo Pérsico? Não dá. O Brasil importa cerca de 20% do petróleo produzido na região, além do que 70% dos fertilizantes usados na agricultura (42 milhões de toneladas), 30% passa pelo Estreito de Ormuz. São mais de 10 milhões de toneladas. Como efeito da guerra, Putin resolveu suspender por um mês, renovável por mais um, as exportações desses insumos. No Brasil essa interrupção cai justamente na época de plantios. Significa, portanto, que a safra brasileira de grãos, projetada para 354 milhões de toneladas, que supre o mercado interno e torna o Brasil um dos principais produtores de grãos do Planeta, corre sérios riscos de ter, em 2026, uma menor produtividade e, em consequência, uma redução significativa da produção. Não sei se pode faltar alimentos, mas tudo tende a ficar mais caro.

Diante desse cenário que se projeta pelo mundo, a queda de regimes políticos, a mudança de ideologias, as anexações de países deixaram momentaneamente de inspirar conspirações, invasões e derrubadas de governos. Aparentemente, está sendo provocado um redesenho das alianças globais. A globalização se fragmenta e surgem diferentes polos de Poder. Mas, o protagonismo está agora com os "Estreitos", essas passagens naturais ou artificiais de largura e profundidade adequadas, que conectam mares ou oceanos, permitindo o comércio, a navegação de grandes graneleiros e petroleiros, bem como o exercício pleno de uma geopolítica. De repente, contudo, ao invés de ajudar no diálogo, descobriu-se que eles contêm os gérmens de grandes conflitos.

Bab el- Mandeb, Ormuz, Suez e Málaca são apenas quatro dos 49 Estreitos que, protagonizam o comércio mundial. Por eles passam o petróleo, o gás natural, os fertilizantes, as importações e exportações que dinamizam a economia e alimentam a população do Planeta. Eles abrem as portas, diminuem as distâncias e reduzem os custos do transporte. Os mais estratégicos são mesmo o de Ormuz, no golfo Pérsico, por onde transita 20% do petróleo no mundo; o de Gibraltar, entre o Marrocos e a Espanha, que conectam o Oceano Atlântico aos países do norte da África, do sul da Europa e do Oriente Médio; o de, Malaca, entre a China e a Indonésia, que permite o acesso aos países asiáticos; e o de Bab el-Mandeb facilita o acesso ao canal de Suez, à Ásia, à Europa e vice-verso. Dover, entre a França e a Gran Bretanha, permite o tráfego livre dos dos países nórdicos; e o de Bhering, separando a Rússia e os Estados Unidos (Alasca) da mesma forma. Mas alguns, como pontos de passagem, enfrentam embates políticos sérios com vizinhos, como o do o mar Báltico, um mar interior, que opera como um Estreito para o tráfego de vários países. O de Suez já gerou várias crises internacionais.

Todos eles estão ligados aos países que banham com suas águas, e que exercem sobre eles um direito de soberania, embora funcionem como vias internacionais. Em alguns o trânsito é livre, em outros é preciso de autorização do país detentor dessa autonomia. O fechamento de qualquer um desses estreitos gera, contudo, crises econômicas ou políticas, com dezenas de outros que usam aquela passagem para transportar seus produtos importados ou exportados. Certas cargas são gêneros de primeira necessidade, até perecíveis, outros combustíveis que alimentam parques industriais ou movem os sistemas produtivos. A discussão, por isso, é complicada. A ONU dispõe de uma agência especializada, a IMO (Organização Marítima Internacional), para regular a segurança e o tráfego do transporte marítimo mundial, encarregada de definir padrões técnicos, de segurança e ambientais para navios em escala global. Funciona! Não sei, mas que chega sempre atrasada, é verdade.

Enquanto o Irã tenta usar o Estreito de Ormuz como arma de guerra ou de chantagem, na ONU a China articula um veto contra o uso da força para sua reabertura, mesmo que seja para proteger o tráfego de 20 % do petróleo e do gás natural que alimenta os sistemas energéticos no mundo. Os pequenos países árabes do Golfo Pérsico, também produtores e exportadores de petróleo, reagiram às ameaças "globais" do Irã e o denunciaram na ONU. O Conselho de Segurança da ONU está votando uma resolução do Bahrein para proteger a navegação por Ormuz.

A resolução em debate autoriza "todos os meios defensivos necessários" para proteger os navios comerciais. A medida valeria por pelo menos seis meses, segundo a proposta original finalizada pelo Bahrein - um dos ameaçados -, que preside o Conselho. Tem 15 membros, entre os quais está o Brasil. A diplomacia brasileira está preocupada com o desfecho institucional, mas o o governo do Brasil tem sido um dos estimuladores das reações do Irã à possibilidade de invasão dos EUA, Israel, Otan e outros países do Leste. A Rússia, que também apoia do Irã, é uma das afetadas. Sem arriscar-se a se meter diretamente no conflito, ela reforça as pressões para o fim da guerra. Suspendeu por 30 dias a exportação de fertilizantes. Ela detém mais de 40% dos suprimentos desses insumos agrícolas para o mundo.

O Brasil está dentro dessa armadilha, que parece caminhar em direção ao caos: escassez de combustíveis, de gás natural, de hélio (para resfriamento de microprocessadores digitais, e, sobretudo, de fertilizantes). O agronegócio do Brasil, esse que alimenta os brasileiros e gera saldo na balança comercial, está ficando sem acesso aos fertilizantes importados. Os demais fornecedores não têm condições de substituir os fornecimentos russos. Significa então que em 2026 a produtividade será menor, a próxima safra de produtos agropecuários mais reduzida, a oferta de produtos alimentares diminuirá e a inflação vai subir. A guerra está chegando aqui no consumidor, nas donas de casa. Vamos torcer para que não agrave a fome no mundo.

*Jornalista e professor

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DECLARAÇÃO DE AMOR A ORBÁN

José Henrique Mariante, Folha de S. Paulo

Vice de Trump visita Hungria e faz declaração de amor a Orbán às vésperas de eleição

Vance critica burocratas de Bruxelas em linha com campanha antieuropeia de primeiro-ministro

Magyar, opositor que lidera pesquisas, afirma que história húngara não é escrita por Washington

Juras de amor a Viktor Orbán e críticas aos "burocratas de Bruxelas" marcaram a visita de J. D. Vance a Budapeste nesta terça-feira (7). A presença do vice-presidente dos Estados Unidos, tentativa de dar peso internacional ao contestado primeiro-ministro, ocorre dias antes da eleição parlamentar que pode tirá-lo do poder após 16 anos.

Pesquisas de opinião colocam Péter Magyar, um ex-aliado, com vantagem superior a dez pontos percentuais no pleito de domingo (12). No X, o candidato classificou a visita de Vance de interferência externa. "A história da Hungria não é escrita em Washington, Moscou ou Bruxelas. Ela é escrita nas ruas e praças da Hungria."

A mensagem de Magyar pareceu elaborada para esvaziar o principal argumento de Vance, de que a interferência externa é da União Europeia, bandeira da campanha de Orbán —até aqui, sem grande aderência. Segundo a narrativa, UE e Ucrânia conspiram contra a Hungria, que não quer se envolver na guerra do país vizinho e depende do gás russo.

"Os burocratas de Bruxelas tentaram destruir a economia da Hungria. Tentaram diminuir a independência energética da Hungria. Tentaram aumentar os custos para os consumidores húngaros. E fizeram tudo isso porque odeiam esse cara", disse Vance na capital húngara, apontando para Orbán a seu lado.

"O presidente ama você", disse Vance, reiterando a aposta do chefe.

No último dia 21, Donald Trump descreveu Orbán como um "sujeito fantástico" em vídeo transmitido durante a etapa de Budapeste da conferência conservadora Cpac.

As afinidades de fato são muitas. Em um ano, o americano fez o que o húngaro levou quatro para fazer: minou as instituições democráticas a tal ponto que o último relatório do instituto V-Dem, termômetro global das democracias ligado à Universidade de Gotemburgo, rebaixou a classificação do país.

Enquanto os EUA foram rebaixados para "democracia eleitoral", a situação húngara já é, graças a Orbán, uma construção mais antiga e iliberal, "autocracia eleitoral" —como RússiaSérvia e boa parte do Leste Europeu, em que 65% da população vive sob regime parecido.

Antes de Vance, por sinal, foi da Sérvia que saiu a última pedrada na campanha de Magyar. Autoridades do país, no fim de semana, afirmaram terem encontrado dois pacotes de explosivos próximos a um gasoduto. A instalação alimenta a Hungria com gás da Rússia, fazendo Orbán sugerir uma sabotagem ucraniana.

"A Ucrânia vem trabalhando há anos para isolar a Europa da energia russa", declarou o premiê na noite de domingo (5). Logo surgiram a negativa ucraniana ("nada a ver com isso") e a sustentação russa à tese ("altamente provável").

A Hungria é um dos últimos países europeus dependentes do produto russo, que a UE procura boicotar desde a eclosão da guerra, em 2022. Segundo reportagens investigativas, além do alinhamento político com Moscou, Orbán tem pessoas próximas que faturaram com contratos de importação do gás.

Magyar, que creditou a suposta tentativa de atentado aos serviços de inteligência russa, tem como bandeira de campanha justamente a corrupção no país, o que é corroborado por pesquisas de opinião. Sua liderança nas pesquisas é inédita na era Orbán, ainda que alguns analistas façam questão de lembrar do fracasso de um bloco de oposição unido no pleito de 2022.

Orbán, 62, entre as inúmeras manobras que realizou para enfraquecer as instituições do país, também promoveu reformas eleitorais, que, segundo analistas, minam a representatividade do voto na Hungria.

A União Europeia acompanha o pleito com preocupação, mas tem evitado maiores manifestações para não alimentar a narrativa da campanha do primeiro-ministro. Há duas semanas, por exemplo, quase não se manifestou sobre reportagem do jornal americano The Washington Post acerca do fato de o governo húngaro ter vazado reuniões do Conselho Europeu para o Kremlin.

Nesta terça-feira, Bruxelas também economiza nos comentários sobre as críticas de Vance, segundo membro do alto escalão do governo dos EUA a visitar Orbán, mais um ingrediente para o momento de crise que vivem os dois lados do Atlântico. Em fevereiro, foi a vez de Marco Rubio, secretário de Estado, passar por Budapeste.

Orbán, além do perfil autocrático, que fere os fundamentos da UE, vem sendo um entrave para o apoio do bloco econômico à Ucrânia, cada vez mais vital para o país invadido desde que Trump voltou ao cargo no ano passado. O presidente americano, que chegou a dizer que acabaria com a guerra em questão de dias, adota uma posição ambígua em relação ao conflito.

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O DILEMA MACHISTA

Roberto DaMatta, O Estado de S. Paulo

O senhor já quis comer a mulher de um amigo? – perguntou o motorista que me levava ao aeroporto. Surpreendido, tergiversei e tentei dialogar sobre problemas muito mais fáceis de resolver, tipo: se era possível julgar casos nos quais a esposa era advogada do réu; se a última novidade no campo da corrupção era esse banco que rouba dinheiro; sobre a crise climática e a arrogância de Trump.

– Você diz trair uma amizade por machismo?

– Isso mesmo. Comer a mulher do melhor amigo. Ela me contou que o marido entrou numa seita religiosa e não comparecia mais em casa...

– Não vinha para casa? – Não, doutor, ele não trepava! Deixava um baita mulherão sem amor.

– E como você sentiu que dava pé? – perguntei.

– Num almoço, ela passou o tempo todo passando o pé no meu pé. Naquela noite, não dormi e, o pior, é que pensava mais no amigo do que nela. No dia seguinte, voltei e, na varanda, dei um beijo nela, o que só piorou as coisas, porque, com o beijo, eu tinha me obrigado a comer a mulher do meu melhor amigo.

– Você ficou entre a amizade e o amor – resumi.

– Um lado meu queria, mas a amizade me bloqueava.

Na semana dessa confusão do Banco Master e do Supremo, ela disse que ficaria sozinha. O marido ia viajar em penitência. – E aí?

– Bem, doutor – disse o taxista, olhando-me com olhos aflitos, realçados pelo espelho retrovisor –, não era um convite, era uma ordem: se você é homem, venha cá e me coma! Mas, em vez de ficar alegre, fiquei na covardia da dúvida. Como é que eu ia comer a mulher do meu melhor amigo?

– Você foi?

– Fui com muito medo. Consolei-me porque ouvi dizer que o ex-presidente Bolsonaro é imbrochável, mas, ora bolas, eu sou comum!

Parados no estacionamento do aeroporto, perguntei:

– A dúvida passou?

– Que nada. Fui salvo pelo meu anjo da guarda. Bati na porta, ela abriu e foi logo dizendo, meio sem graça, que a peregrinação tinha sido suspensa, e o marido estava em casa. Meu risinho de alívio a deixou com raiva. E, para piorar as coisas, soltei um: “Ótimo, então vamos ver o jogo Brasil x Croácia!”.

– Ótimo, né, seu putinho – ela disse entre dentes –, a merda do jogo é melhor que eu?

Olhei o relógio, paguei e, mais uma vez, vi um brasileiro afligido pelo machismo.

– Será, doutor, que, se eu trair meu amigo, o Lula perde a eleição? – perguntou o patético taxista quando saí do carro.

Aliviado e no avião, pensei em fazer uma crônica sobre o pensamento dos chamados selvagens, uma visão de mundo encantada que liga tudo com tudo. Foi quando me dei conta de que o dilema do meu amigo – adultério ou lealdade, mentira ou honra – era a questão nacional.

O avião levantou voo roncando. Eu, calado, fiquei com essa história.

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VORCARO E O CASO TORTORA

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

Quantos bilhões e quem Vorcaro vai entregar em troca de sua liberdade?

Delação aos procuradores do banqueiro não pode se transformar em mais um blefe para manter seu dinheiro ou criar no Brasil um caso Enzo Tortora

Era 17 de junho, 4h30. Em Via del Corso, em Roma, carabineiros prendiam o jornalista Enzo Tortora, apresentador de um dos programas de maior audiência da Itália: Portobello. Começava o calvário daquele que é considerado o maior erro judicial da história recente da Itália.

Quem quiser conhecer melhor essa história basta ir à HBO Max para assistir à série dirigida por Marco Bellocchio. Tortora era um Fausto Silva em seu país. Foi denunciado por dois integrantes da Nova Camorra Organizada como traficante de droga. Os bandidos precisavam entregar um nome excelente aos procuradores a fim de que lhes fossem concedidos os benefícios da delação premiada. Tortora foi a cereja no bolo dos malandros, que “confessaram” como arrependidos. Após três anos, o jornalista, que renunciou à imunidade do mandato no Parlamento Europeu para responder como simples cidadão ao processo, provou sua inocência.

Quarenta anos depois do caso Tortora, é este o desafio para a Procuradoria-Geral da República por trás da colaboração premiada do banqueiro Daniel Vorcaro. Afinal, o que o acusado planeja? Advogados que conhecem o banqueiro afirmam que o montante de dinheiro que Vorcaro vai entregar será a melhor medida para saber a idoneidade de sua colaboração. Quantos bilhões o homem está disposto a devolver às vítimas de sua arruaça financeira? O segundo ponto levantado é sobre quem Vorcaro pretende entregar.

Afinal, seu desejo é se vingar de quem liquidou seu banco e o mandou para a cadeia? Para preservar seu dinheiro, ele pretende produzir que tipo de acusações? E contra quem? Vai tentar esconder os políticos que, de forma notória, tentaram protegêlo, questionando até mesmo a liquidação do Master? Vai contar o que o moveu a se relacionar com ministros do STF ou vai delatar só aquilo que a PF já sabe? Vai contar o papel de Benjamin Botelho na história do Master? Vai dizer onde está seu dinheiro? Enfim...

Ao depor na Corte de Apelação, Tortora disse: “A continuar assim, os homens serão divididos em duas categorias: os criminosos irredutíveis e os arrependidos ( delatores), com uma terrível terceira possibilidade: a dos irredutivelmente inocentes”. Tortora mostrou as armadilhas da delação. A ansiedade do público para saber os nomes dos acusados e a instrumentalização política de casos como o de Vorcaro recomendam cautela. Nos comitês políticos, poucos se interessam sobre como e quais benefícios Vorcaro vai obter com o acordo. Se preservar seu dinheiro, será visto apenas como um novo Joesley Batista. Quanto aos nomes que fizer, os cínicos sempre poderão dizer que não há inocentes neste mundo.

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A PRIMEIRA CAMPANHA ELEITORAL DA PÓS-REALIDADE

José Vicente Pimentel*, Correio Braziliense

Um aspecto da eleição húngara que nos interessa de perto é o uso intenso de recursos de inteligência artificial (IA) na propaganda do primeiro-ministro, Viktor Orban. O baixo nível impera

No próximo domingo, dia 12, as atenções do mundo estarão voltadas para as eleições parlamentares na Hungria. Embora não tenha relevância econômica, o país se tornou um símbolo do movimento global autocrático-religioso de extrema-direita, que o seu primeiro-ministro, Viktor Orban, prefere qualificar de iliberal.

Quando o Pacto de Varsóvia se dissolveu em 1991, havia expectativas generalizadas de que a Hungria emergiria rapidamente da pobreza a que havia sido relegada pelo regime soviético. Não foi o que aconteceu. Pelas estatísticas da União Europeia (UE), ela é hoje um dos mais pobres países europeus. A produção industrial vem decaindo, o desemprego é galopante e a população vem diminuindo. Dois terços da população consideram o sistema educacional ruim ou péssimo, o sistema de saúde pública está decadente, muito em consequência da migração de médicos. Para piorar, nos últimos três anos a Hungria transformou-se no país mais corrupto da UE. Mesmo o "índice de liberdade econômica", publicado pela conservadoríssima Heritage Foundation, considera a Hungria o pior país europeu no quesito integridade governamental.

A despeito disso, o prestígio de Orban junto às principais lideranças da direita mundial segue inabalável. Sua atual campanha eleitoral recebeu o endosso dos líderes da direita alemã, holandesa, polonesa e até do insólito Javier Milei. Marco Rubio esteve em Budapeste para sublinhar o apoio de Trump, que considera Orban o seu maior aliado na Europa. Dois outros amigos importantes são Vladimir Putin, que vem recebendo a ajuda de Orban para bloquear ajuda militar da UE à Ucrânia, e Jair Bolsonaro, que declarou considerar Orban "praticamente um irmão". 

Segundo Kevin Roberts, presidente da Heritage Foundation, "a Hungria moderna é não apenas um modelo, e, sim, O modelo de governança conservador". O Projeto 2025 da Heritage inspirou-se no modelo húngaro, que privilegia técnicas de comunicação agressivas, ou guerras culturais. Orban potencializa o medo. Há anos dirige a opinião pública contra bodes expiatórios que, a rigor, não têm impacto direto no cotidiano dos cidadãos. Um desses é a imigração, transformada pela retórica oficial na grande ameaça ao bem-estar do povo, apesar de não existirem no país imigrantes em número estatisticamente considerável. O inimigo externo (é muito útil ter um...) é a Ucrânia de Zelensky. Outro alvo habitual é a ideologia de gênero. A repulsa ao movimento feminista e LGBTQ é trabalhada sobretudo pelo lado da religiosidade: esses movimentos seriam indignos, por contrariarem a Bíblia.

Em 16 anos ininterruptos de governo, Orban desenvolveu as ferramentas para se assenhorear das instituições. Várias vezes emendou a Constituição e alterou as regras eleitorais em benefício do seu partido político, o Fidesz; interveio no serviço público, substituindo funcionários; desarticulou o Poder Judiciário, nomeando juízes alinhados com as teses ultradireitistas; aplicou pressão econômica e criou regulamentações específicas para enfraquecer a liberdade de imprensa; fez aprovarem-se leis que limitam os direitos das minorias; retirou fundos de apoio a universidades; e forçou a Universidade Centro-Europeia, fundada por George Soros, a transferir-se para Viena. 

Esse é, em síntese, o modelo decantado por Kevin Roberts e seguido hoje como uma cartilha pelo Partido Republicano, nos EUA.

E eis que as pesquisas eleitorais indicam que, agora, o Fidesz poderá perder para o Tisza, partido liderado por Peter Magyar, que também é de direita, porém moderado, em particular no cenário europeu. Caso vença, a Europa deverá liberar-se do veto húngaro e voltar a falar com uma só voz nas questões geopolíticas.

Um aspecto da campanha eleitoral húngara que nos interessa de perto é o uso de recursos de inteligência artificial (IA) na propaganda de Orban. A utilização é tão intensa que a escritora Anne Applebaum a qualificou de "primeira campanha política da pós-realidade". A imagem de Orban quase não aparece. Cede lugar a vídeos de tik tok com versões de Zelensky ou Peter Magyar contando dinheiro, cheirando cocaína ou tripudiando de militares húngaros. O baixo nível impera.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE), com certeza, acompanha o desenrolar da campanha eleitoral húngara. Dada a probabilidade da aplicação de golpes baixos semelhantes nas nossas eleições de novembro, é essencial preparar-nos para neutralizar as transgressões e punir os transgressores.

*José Vicente Pimentel — embaixador aposentado 

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NOTÍCIAS DISTÓPICAS DA GUERRA ENTRE DONALD TRUMP E OS AIATOLÁS DO IRÃ

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Durante décadas, mesmo sob tensões, o sistema internacional operou com previsibilidade, instituições, normas e mediação. Esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento

“Distopia” é a representação de uma sociedade imaginária marcada por opressão, caos ou degradação extrema — um “lugar ruim”, no qual a violência, a perda de liberdade e a ruptura das normas civilizatórias se tornam regra. Mais do que coisa da literatura ou do cinema, a distopia é alerta: projeta no futuro tendências já presentes no mundo real. É aí que os acontecimentos no Oriente Médio, com a escalada retórica e militar envolvendo os Estados Unidos, Israel e o Irã assombram as chancelarias das grandes potências mundiais e impactam a vida das pessoas em todo mundo.

O episódio mais recente no Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas — com o veto de Rússia e China a uma resolução sobre o Estreito de Ormuz — mostra o esgotamento das possibilidades de solução do conflito pelas vias do direito internacional e da diplomacia. A ONU já não é capaz de produzir consensos mínimos entre as potências nos momentos de crise como essa. Nesse vácuo diplomático, a lógica da força bruta ganha centralidade, sobretudo na política externa do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que tenta reverter o declínio da hegemonia econômica norte-americana pela via da supremacia militar.

No terreno das ameaças, até essa terça-feira à noite, Trump havia posicionado os Estados Unidos num patamar raramente visto, mesmo em contextos de guerra: “Uma civilização inteira morrerá esta noite, para nunca mais ser ressuscitada”, ameaçou. E advertiu que poderia “eliminar o Irã em uma noite”, caso suas exigências não fossem atendidas. Era a noite dessa terça-feira, mas o Irã pagou para ver. Trump recuou e anunciou uma trefgua de duas semanas. Mesmo admitindo que tudo não passou de blefe, recurso que o presidente norte-americano utiliza com frequência, esse tipo de ameaça desloca o conflito para um terreno muito perigoso.

A resposta do Irã, controlado pelos aiatolás xiitas e sua guarda revolucionária islâmica, já demonstrou que as ameaças não estão surtindo efeito. Ataques iranianos com mísseis e drones atingiram ou foram direcionados a países do Golfo, como Catar, Bahrein e Emirados Árabes Unidos, além de instalações americanas no Iraque. Ao mesmo tempo, o Estreito de Ormuz — por onde transita cerca de um quinto do petróleo mundial —, epicentro estratégico da crise, continuou fechado, com impactos imediatos sobre o comércio global e os preços da energia.

Mesmo com a reabertrura de Ormuz, o balanço objetivo dos efeitos da guerra mostrará que os prejuízos não serão apenas conjunturais, por causa dos danos à infraestrutura. No plano econômico, houve oscilações do preço do petróleo, com picos recentes que pressionam a inflação global e afetam diretamente economias dependentes de combustíveis fósseis. No plano militar, a ampliação das operações, que já inclui ataques indiretos a aliados regionais e ameaças a outras rotas marítimas, enquanto não houver um acordo de paz duradouro, o risco de o conflito recrudescer e atingir proporções inimagináveis permanece.

Uma nova ordem

Por trás da fragmentação diplomática, dois blocos de países se formam nessa guerra, cada qual com suas próprias contradições: os Estados Unidos, as potências europeias e as monarquias árabes de um lado; Rússia, China e parte do chamado Sul Global de outro. Qual será a arquitetura da nova ordem mundial que emergirá dessa guerra? Aquela do pós-Segunda Guerra Mundial, inspirada na Paz de Westfália, está morrendo. Firmada em Münster e Osnabrück, em 1648, estabeleceu as bases da diplomacia moderna: o princípio da soberania territorial, a não ingerência em assuntos internos e a igualdade jurídica entre nações, consolidando a separação entre religião e política.

Com suas ameaças, Trump trouxe à crise uma dimensão histórica e existencial preocupante. Herdeiro de uma civilização milenar que remonta ao Império Persa, o Irã não é apenas um ator geopolítico contemporâneo, mas um polo cultural cuja trajetória já foi marcada, em diferentes momentos, por estratégias de integração e tolerância. A evocação da destruição de uma “civilização” nos remetes aos piores momentos da História. Tais declarações podem ser enquadradas, ao menos em tese, como incitação a crimes de guerra.

A sensação é de ruptura de paradigma. Durante décadas, mesmo sob tensões, o sistema internacional operou com algum grau de previsibilidade, ancorado em instituições, normas e mecanismos de mediação. Hoje, esses instrumentos mostram sinais claros de esgotamento. A incapacidade de o Conselho de Segurança produzir uma resposta efetiva não apenas reflete a divisão entre as grandes potências, mas também a consolidação de um mundo multipolar, no qual não há mais árbitros inconteste.

A transição de um sistema baseado em regras para um ambiente dominado pela correlação de forças é o tipo de inflexão que sugere os cenários distópicos, como em “Aqui não pode acontecer” (Editora Martin Claret, em inglês It Can’t Happen Here), de Sinclair Lewis, que narra a ascensão de um populista autoritário nos EUA, frequentemente associado ao estilo de governo de Trump. Não se trata, porém, de uma distopia literária, há uma realidade que incorpora alguns de seus elementos centrais: a banalização da violência, a erosão das normas, a substituição da negociação pela imposição e a crescente incerteza sobre o futuro.

O risco maior, nesse contexto, não é apenas a continuidade da guerra, mas a ausência de limites claros para sua escalada. Quando as estruturas que organizam a vida coletiva colapsam, o que se impõe não é uma nova ordem estável, mas um período prolongado de instabilidade, no qual a força, e não a lei, passa a ditar os rumos da história.

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AMPLIAÇÃO DO OPEN FINANCE PARA REDUZIR JUROS

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Medida estrutural faz parte do conjunto de ideias que o governo tem para o setor

O governo estuda ampliar o open finance para melhorar a avaliação de crédito de pessoas e empresas e, com isso, ajudar a reduzir os juros nos empréstimos. Essa é uma medida de caráter estrutural que integra o conjunto de estudos que estão em andamento no Ministério da Fazenda, com o objetivo de atacar os altos índices de endividamento.

O open banking permite que uma pessoa disponibilize seus dados aos operadores do sistema financeiro para receber ofertas de crédito, explicou à coluna o secretário de Reformas Econômicas, Regis Dudena. O open finance já foi uma ampliação que trouxe mais dados.

“Se a gente conseguir espraiar isso trazendo valores mobiliários, trazendo seguros e trazendo previdência privada para dentro, começamos a ter de fato uma pessoa dona dos seus dados e possibilitando que o sistema financeiro a precifique da melhor forma possível”, comentou. “O risco é sempre precificado para mais, então, quanto mais informações há, mais próximo do razoável será a avaliação.”

 

Ou seja: uma coisa é oferecer um empréstimo com juro baseado no histórico da relação do cliente com os bancos. Outra coisa é considerar outros recursos que a pessoa possui, como, por exemplo, uma previdência privada que pode estar em outra instituição. Ou títulos mobiliários que usualmente não são aceitos como garantia.

Há outro conjunto de medidas em formulação que atacam de forma mais imediata o problema do endividamento, como a reedição simplificada do Desenrola. Como disse o ministro da Fazenda, Dario Durigan, em entrevista a Miriam Leitão, na GloboNews, a ideia é beneficiar prioritariamente pessoas com renda de até três salários mínimos, que teriam desconto em suas dívidas e possibilidade de refinanciar o restante com novas formas de garantia que possibilitem juros menores.

Outra iniciativa em discussão no governo é a regulamentação uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS) como garantia nas operações do crédito consignado privado. Espera-se, com isso, que os juros nessas operações caiam. Além disso, estão em estudo mudanças nos sistemas que vão facilitar ao trabalhador migrar seu empréstimo para outra instituição.

A expectativa do governo é que as pessoas troquem dívidas caras, como as do rotativo do cartão de crédito, por operações menos onerosas, como é o caso do consignado.

A ampliação do open finance integra uma discussão muito mais ampla do que o pacote de ajuda aos endividados, embora possa vir a integrar o conjunto. Trata-se da modernização do arcabouço regulatório do sistema financeiro.

Há dois anos, o Ministério da Fazenda iniciou discussões para adotar no Brasil o modelo chamado Twin Peaks. Houve resistências dentro do próprio governo e a ideia pouco avançou. Mas escândalos como o do Banco Master e, anteriormente, o das Americanas mostraram que a supervisão precisa ser modernizada.

No Brasil, a regulação e supervisão do mercado financeiro é dividida. O Banco Central (BC) monitora bancos, a Comissão de Valores Mobiliários (CVM), os títulos privados, e a Superintendência de Seguros Privados (Susep), os seguros. O Twin Peaks propunha outra configuração: haveria uma autarquia voltada à questão prudencial, ou seja, da solidez das instituições e outra supervisora de condutas - um “xerife” que, em tese, detectaria mais rapidamente os problemas como os que levaram aos dois escândalos.

“Não estamos apaixonados pela solução, estamos apaixonados por entender o problema e em pensar se separar prudência e condutas faz sentido”, disse Dudena a respeito do Twin Peaks.

Em vez de insistir nesse projeto, o ponto central dos estudos passou a ser como melhorar a troca de dados entre os órgãos. “Por exemplo, hoje me parece que já há um fluxo bastante importante de informações entre CVM e Banco Central”, comentou. “A comunicação já existe e pode ser melhorada, mas para isso eu preciso de uma única autarquia? Não sei. Preciso entender se isso é necessário.”

Os dois projetos, o da ampliação do open finance e o da regulação do sistema financeiro, devem ser concluídos até o fim do ano. Até lá, o Ministério da Fazenda pretende dialogar com as autarquias envolvidas e com os regulados, para ter um texto mais amadurecido.

Garantia é um elemento importante para a definição do custo do crédito e, nos anos recentes, houve muitos avanços nesse campo. Durante a pandemia, o Fundo Garantidor de Operações (FGO) deu base às linhas de crédito para micro e pequenas empresas, o Pronampe. Esse fundo agora pode ser usado para dar garantia nas renegociações de saldos devedores das famílias atendidas pela nova versão do Desenrola.

O novo marco de garantias permitiu às famílias usar um imóvel financiado, ou seu saldo depositado em um fundo de previdência privada, como garantia para empréstimos, o que reduziu o custo das operações de crédito. Garantias melhores são também a base do consignado privado, lançado no atual governo.

Esses avanços têm sido atropelados pelo cenário macroeconômico. Com juros básicos nas alturas, não há medida para baratear crédito que se sustente.

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NOSSAS RAÍZES DEMOCRÁTICAS

Vagner Gomes, Democracia Política

Livro resenhado: MAESTRINI, Alexandre Müller Hill. Nossas riquezas pretas: biografias afro-juizforanas. Juiz de Fora (MG). EDITAR. 2025.

Disponível gratuitamente aqui: 

https://institutoautobahn.com.br/index.php/nossas-riquezas-pretas-jf/

Pode-se dizer, então, que desde o seu parecer antiprotecionista, Rebouças começara a aproximar a Alemanha do seu quadro de referência, concedendo-lhe uma densidade ética comparável à da aristocrática Inglaterra e, por via de consequência, ao yankismo que preconizava para o Brasil. Rebouças mudaria também a sua definição de Estado: a qualificação do Estado como “gendarme” das “classes feudais” seria alterada pelo reconhecimento da multiplicidade de interesses abrigados sob o Estado modernizador do século XIX. (…)

Maria Alice Rezende de Carvalho – O Quinto Século: André Rebouças e a Construção do Brasil, p. 207.

As abordagens sobre o racismo na sociedade brasileira lança luz sobre os caminhos em que a democracia foi construída em nosso país após a proclamação da República. O debate da escravidão do pensamento político brasileiro se iniciou há muitos anos atrás a partir dos escritos de Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e André Rebouças (1838 – 1898). Segundo Nabuco, a escravidão era um grande mal para a sociedade brasileira que deveria, em seguida, se democratizar com um programa político de descentralização. Por outro lado, Rebouças foi mais ousado, numa perspectiva democrática e social ao defender uma distribuição de terras aos ex-escravos como possibilidade de elevação do liberto a cidadão. Por fim, foi Clovis Moura (1925 – 2003) que em tempos republicanos se preocupou com a inclusão dos negros na história de nosso povo, o que lhe conferiu um pioneirismo pouco reconhecido e compreendido nas novas gerações das lideranças do movimento negro.

Então, as pequenas memórias e autobiografias de pessoas simples, com o auxílio da metodologia da História Oral, são oportunidades para se verificar como o legado da conciliação e reforma, nos dizeres de José Honório Rodrigues, se fizeram presente na construção da consciência de uma negritude no qual as interpretações de György Lukács (1885 – 1971) teriam contribuído. Tamanha é a envergadura dessa nossa hipótese diante a publicação do livro Nossas Riquezas Pretas – Biografias Afro-juizforanas, de autoria de Alexandre Müller Hill Maestrini, que pelos caminhos da “fortuna” se aproxima da tradição autobiográfica de Joaquim Nabuco em Minha Formação (1900) e André Rebouças em seus Diários (1863 – 1889). A memória como uma oportunidade de revelação de uma consciência mais do que individual sobre um grande problema social.

As linhas do acaso de nossa historia política fizeram convergir o centenário da abolição da escravidão com o ano da “Carta Cidadã” de 1988. Esse livro de fácil leitura faz a apresentação de 54 (cinquenta e quatro) entrevistas de moradores de Juiz de Fora, os quais viveram os dilemas do preconceito racial desde os tempos da Ditadura Militar (1964 – 1985) até os tempos da chamada transição democratizadora da sociedade brasileira (1985 – 2002). Esses registros estão livres de teorias mas repletos de emoções de vidas e lembranças. Além disso, eles nos chamam a atenção para uma cidade de grande importância econômica, política e social em Minas Gerais e suas conexões com outras municipalidades mineiras, como se o tema da democratização social pela via da educação e leitura fosse um ponto comum a esses protagonistas de um transformismo na sociedade, onde o grande desafio seria a reinvenção na política do programa reformista de André Rebouças.

O leitor terá a oportunidade de se reconhecer nas biografias uma vez que faz parte de uma qualidade das raízes de nossa luta democrática, que está precisando de novos quadros políticos para fazer valer o reformismo social. Um livro que poderia se reproduzir em tantos outros municípios de Minas Gerais, porque o tema democrático está sob forte pressão nesse estado da federação. As forças do autoritarismo inorgânico e ideologizado são um problema que questiona o legado da mineirice na política nacional. Temos um “livro-semente” para que tenhamos condições de desvendar os silêncios sobre a negritude até de Antônio Francisco Lisboa, que foi biografado pela primeira vez em 1858.

*Vagner Gomes é Doutorando do PPGCP-UNIRIO.

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A SEIS MESES DA ELEIÇÃO, OS DESAFIOS DE LULA E FLÁVIO BOLSONARO

Fernando Exman, Valor Econômico

Presidente busca dar novo gás na reta final do governo; senador tenta conter exposição

A esta altura do campeonato, seis meses antes do primeiro turno, as campanhas do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e do senador Flávio Bolsonaro (PL) adotam estratégias distintas. Lula não tem tempo a perder: candidato à reeleição, o presidente busca dar novo gás ao governo nesta reta final de seu terceiro mandato.

Pouco tempo se passou entre o anúncio dos ministros que decidiram concorrer a algum cargo eletivo e a nomeação dos respectivos substitutos. No entanto, há semanas se vivia no Palácio do Planalto um clima de transição, o qual, para alguns integrantes do Executivo, foi longo demais. Ainda nem está claro o papel que todos os ex-ministros desempenharão nas eleições, e agora a prioridade de Lula passou a ser o desenho de novas medidas econômicas para tentar melhorar o humor da população.

Já o conselho dado ao principal pré-candidato da oposição é recolher-se, jogar parado e, desta forma, tentar errar o menos possível. Mas não parece que será um plano de fácil execução.

Em poucos dias de exposição, o senador desacreditou as urnas eletrônicas, defendeu que os Estados Unidos tutelassem a liberdade de expressão no Brasil e abriu um flanco para a esquerda novamente questionar a forma com a qual oferece oportunidades para os americanos explorarem terras raras em território nacional. Deu margem a ataques daqueles que questionam a verossimilhança do termo “Bolsonaro moderado” e, em outra frente, para que Lula possa reerguer a bandeira nacionalista que lhe garantiu melhores índices de popularidade num passado recente.

Em outra ocasião, Flávio Bolsonaro disse que o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos), seria um candidato a presidente mais preparado do que ele próprio. Na prática, esperou acabar o prazo de desincompatibilização para só então realizar um novo gesto ao aliado que, embora lhe fizesse sombra por ser o preferido do Centrão e do mercado, acabara preterido pelo pai na escolha do candidato bolsonarista ao Palácio do Planalto. Mas com isso pelo menos tentou garantir que o governador do maior colégio eleitoral do país entre para valer na sua campanha. Entre aliados de Bolsonaro, é dado como fato que a pré-candidatura de Ronaldo Caiado (PSD) irá tirar votos de Flávio no primeiro turno.

Também se viu nova briga na base bolsonarista, e o senador precisou agir para evitar uma escalada na discussão entre o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) e Eduardo Bolsonaro, seu irmão. Estancou a crise, mas acabou reforçando a impressão entre agentes do mercado de que as potenciais instabilidades criadas pela sua família devem ser vistas como um risco político real, caso vença a eleição.

Em vez disso, era um momento para comemorar o resultado da janela partidária. Como previsto pela cúpula do seu partido, o PL saiu com a maior bancada do período de um mês em que a legislação deixa o deputado federal trocar de legenda sem perder o mandato. Com um saldo positivo de dez parlamentares, o PL chega às vésperas do pleito de outubro com 97 representantes na Câmara.

Além disso, esses números escondem alguns aspectos que não podem ser ignorados. O primeiro é que a ala bolsonarista saiu fortalecida na sigla, atraindo aliados estratégicos nos Estados e tirando do partido deputados com projetos nacionais distintos ou com outros interesses em seus Estados.

Esse resultado da janela partidária também reforçou os argumentos da campanha bolsonarista de que Flávio será o único candidato à direita com o apoio congressual necessário para aperfeiçoar o sistema tributário e o regime previdenciário, assim como realizar o ajuste fiscal capaz de fazer brilhar os olhos dos agentes do mercado. A meta do PL é eleger a maior bancada da próxima legislatura, sendo que líderes do partido chegam a falar em mais de 120 deputados federais de um total de 513. É um objetivo arrojado.

Do lado do governo, o desafio é outro. Corre-se contra o tempo para colocar de pé um programa que gere algum alívio às pessoas endividadas, tentando jogar sobre o colo dos integrantes do Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central (BC) a maior parte da responsabilidade pelo problema enfrentado por milhões de famílias.

Para executivos do sistema financeiro, porém, também seria um bom momento para autoridades do Palácio do Planalto refletirem sobre as outras possíveis causas da redução da renda disponível dessa parte da população. Entre elas, decisões que acabaram minguando o acesso a linhas de crédito mais baratas, como as que acabaram por limitar o crédito consignado e o saque-aniversário do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS).

Uma avaliação a ser feita é se houve uma migração dessas linhas para produtos mais caros, como o cheque especial e o rotativo do cartão de crédito. Outra é se, ao prometer um programa que irá abater parte considerável de dívidas correntes, o governo não acabou por incentivar o adiamento da quitação desses débitos em aberto. Por mais que pareça um paradoxo, o próprio governo pode ter alimentado o aumento da inadimplência nestes últimos dias.

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