domingo, 31 de maio de 2026

FLÁVIO BOLSONARO É TERRORISTA ?

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Senador é aliado de Bacellar, apontado como chefe do núcleo político do CV, e se declarou irmão de Vorcaro

Discordo de quem acha que Flávio, CV e PCC são terroristas, mas respeito os argumentos

Flávio Bolsonaro é aliado de Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. A Polícia Federal considera Bacellar "o chefe do núcleo político do Comando Vermelho".

Ou seja: se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio é aliado de um importante líder terrorista.

Flávio Bolsonaro também já se declarou "irmão" de Daniel Vorcaro, dono do Banco Master.

O Master tinha relações tão próximas com a Reag Investimentos, acusada de lavar dinheiro do PCC, que, segundo matéria desta Folha de 28 de agosto de 2025, administrava o fundo que era dono da casa de Daniel Vorcaro.

Ou seja, se o Departamento de Estado americano estiver certo, Flávio Bolsonaro ganhou R$ 60 milhões inexplicáveis de um sócio da turma que lavava dinheiro do grupo terrorista PCC.

Discordo do Departamento de Estado americano: embora o CV e o PCC de fato mantenham um reinado de terror nos territórios que ocupam, isso é diferente do que faz a Al Qaeda, ou do que fazia o IRA irlandês: CV e PCC não têm objetivos políticos ou ideológicos.

O único argumento realmente bom a favor da nova definição proposta pelo Departamento de Estado americano é justamente o conjunto de vínculos suspeitos entre o CV, o PCC e o bolsonarismo.

Afinal, o bolsonarismo realizou o único atentado terrorista incontestável de nossa história recente: a tentativa de explodir o aeroporto de Brasília na véspera de Natal de 2022, conduzida por um ex-assessor do ministério de Damares Alves e um comparsa. Um dos terroristas, inclusive, estava no Congresso no dia 30 de novembro de 2022, quando a bancada bolsonarista se reuniu para pedir golpe de Estado.

O atentado da véspera de Natal se encaixa muito melhor na definição tradicional de terrorismo do que as barbaridades perpetradas por CV e PCC. Os terroristas de Brasília buscavam, por métodos violentos dirigidos à população civil, criar um clima de caos que levasse a uma adesão dos militares à tentativa de golpe de Estado conduzida por Jair Bolsonaro.

Flávio Bolsonaro é o herdeiro da liderança do movimento que fez o atentado da véspera de Natal em 2022. Mesmo assim, sou generoso o suficiente para hesitar antes de chamar Flávio Bolsonaro de terrorista.

O que resta investigar é se Flávio e outros líderes bolsonaristas são criminosos comuns, como os do CV ou os do PCC.

As novas descobertas da Polícia Federal mostram que o dinheiro dos aposentados roubado pelo governo bolsonarista do Rio de Janeiro e transferido à quadrilha Banco Master chegava a quase R$ 4 bilhões. Ainda na semana passada, foi feito um acordo para fechar um rombo de R$ 6,5 bilhões do BRB que o governo bolsonarista do Distrito Federal deu para o Master.

Discordo de quem acha que Flávio Bolsonaro, o CV e o PCC são terroristas, mas respeito os argumentos de quem acha que são.

O que é indiscutível é que não podemos deixar Flávio usar essa polêmica para abafar um escândalo que tirou de cofres públicos administrados por bolsonaristas um mínimo de R$ 10 bilhões que poderiam ter sido usados para treinar e pagar o salário de um policial para patrulhar a rua em que você mora.

Ao invés disso, foram gastos com surubas de políticos de direita, uísque em evento de US$ 1 milhão e o filme do Bolsonaro.

*É doutor em sociologia pela Universidade de Oxford (Inglaterra) e autor de "PT, uma História"

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OS PATRIOTAS PELO AVESSO

Míriam Leitão, O Globo

O patriotismo histriônico e estigmatizado não tem nada a ver com o verdadeiro amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses do Brasil

Talvez o momento mais verdadeiro do nacionalismo da direita tenha ocorrido quando manifestantes bolsonaristas estenderam a bandeira norte-americana na Avenida Paulista em pleno dia da pátria brasileira. Eles se denominam “patriotas” e se cobrem de verde e amarelo, mas comemoram barreiras contra as exportações brasileiras, pedem intervenção americana nas eleições nacionais e, agora, tratam como uma vitória o que é um evidente risco para o país e suas instituições.

É um patriotismo pelo avesso. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, chegou a colocar o boné com a marca “Make America Great Again” na época da posse de Donald Trump. Mas já estava claro para qualquer pessoa que, na visão trumpista, os Estados Unidos só podem ser grandes em detrimento de outros países. A conta não tardou muito, em abril do ano passado, o presidente norte-americano anunciou o tarifaço contra o mundo. O Brasil ficou com uma das maiores tarifas e elas feriram duramente as empresas do estado governado por Tarcísio. Foi o governo Lula que dissolveu a maior parte desse ônus para a economia brasileira.

O patriotismo histriônico e estigmatizado que berra, agarra a bandeira, militariza os símbolos nacionais em atos patéticos não tem nada a ver com o verdadeiro e sereno amor à pátria ou o entendimento de quais são os reais interesses dos que nasceram nesta terra ou a escolheram como sua.

São muitos os riscos decorrentes da definição das facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Uma das primeiras consequências práticas pode ser o enfraquecimento dos mecanismos atuais de cooperação no combate a essas quadrilhas. O Brasil perde interlocução com o FBI e o assunto passa para a alçada da CIA. Combater o tráfico de drogas e armas deixa de ser uma questão policial, em que organismos dos dois países podem trocar informações. O tema passa ser uma questão da segurança nacional americana, portanto, entregue aos espiões. A partir dessa decisão do governo americano, ficam legalmente permitidas missões de espionagem da CIA no Brasil, sem a anuência ou conhecimento do governo brasileiro.

Há ameaças econômicas também. Num mercado financeiro globalizado, bancos nacionais operam o tempo todo no mercado americano. Qualquer dúvida que paire sobre instituições brasileiras pode se transformar em limitação para as suas operações. Empresas também que tenham negócios com firmas americanas podem encontrar constrangimentos.

O senador Flávio Bolsonaro comemorou a decisão do governo Trump como uma vitória política. O ato é visto como uma tábua de salvação para uma candidatura que está em apuros pela revelação da intimidade que ele mantinha com o banqueiro corruptor Daniel Vorcaro. Como a decisão do governo americano ocorreu logo após seu encontro com o presidente dos Estados Unidos, Flávio Bolsonaro pode reivindicar autoria do atentado.

O Comando Vermelho e o Primeiro Comando da Capital são de fato terríveis organizações, extremamente perigosas, que se expandem. Qualquer pessoa pode se sentir ameaçada pelo terror que elas espalham com suas ações e concluir que faz sentido defini-las como terroristas. Não é a definição em si o problema, e sim o que isso implica do ponto de vista legal.

Vale a esta altura da comemoração bolsonarista perguntar a Flávio Bolsonaro: e as milícias, senador? Curiosamente, ele guarda silêncio sobre a organização criminosa que também aterroriza cidadãos do Rio de Janeiro. No passado recente, ele já elogiou, empregou e condecorou milicianos e seus familiares.

Há um fio que liga as patriotadas do governo militar e o comportamento dos líderes bolsonaristas. Tanto na ditadura quanto agora, a direita declara ser a detentora única do amor à pátria quando na verdade é capaz das maiores traições. Tanto o ataque ao patrimônio natural do país, quanto os acordos entreguistas que beneficiam outros países em detrimento do Brasil. Têm ainda em comum a devoção à potência estrangeira.

O assunto se presta a muita confusão, manipulação e falsidade. E é a essa tarefa que Flávio Bolsonaro está dedicado no momento. Ele está usando o sentimento natural de repúdio das pessoas contra as organizações criminosas, e tratando a decisão do governo americano como um serviço ao país. O que isso pode significar na prática, contudo, não lhe interessa. Flávio Bolsonaro continuará no seu show de bajulação ao presidente dos Estados Unidos. E chamará a isso patriotismo.

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A ESCALA E A URNA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Vitória contra escala 6x1 mostra que proximidade da eleição faz milagres

Proposta tirou esquerda da inércia, emparedou Centrão e deixou bolsonarismo sem saída

A proximidade da eleição faz milagres. Na quarta-feira, a Câmara aprovou o fim da escala 6x1 e a redução da jornada de trabalho para 40 horas semanais. Meses atrás, pouca gente em Brasília acreditava que a proposta iria adiante. Não só foi, como passou com folga: teve apoio de 95% dos deputados presentes.

O placar de 472 a 22 pode dar a impressão de que os parlamentares fizeram uma autocrítica e decidiram se irmanar em defesa da classe trabalhadora. Não foi bem isso. A derrubada da 6x1 é resultado de uma articulação rara, que tirou a esquerda da inércia, emparedou o Centrão e deixou o bolsonarismo sem saída.

O primeiro passo foi dado nas redes, onde um balconista de farmácia viralizou ao desabafar contra a rotina exaustiva. Rick Azevedo se elegeu vereador no Rio pelo PSOL e ofereceu uma nova bandeira ao campo progressista. A causa ganhou tração. Em março, o Datafolha informou que 71% dos brasileiros defendiam os dois dias de descanso semanal.

O Planalto aproveitou o embalo e anunciou o envio de um projeto com urgência constitucional, que precisaria ser votado em 45 dias. Sob pressão, o deputado Hugo Motta resolveu pautar as propostas de redução de jornada que já adormeciam em sua gaveta. Pensava na própria reeleição e no risco de ver seu grupo ser carimbado, mais uma vez, com a pecha de “inimigo do povo”.

A guinada do Centrão desnorteou os bolsonaristas. Com medo da derrota, eles passaram a bater cabeça em público. Tentaram atrasar a votação, propuseram uma transição de dez anos e, na última hora, lançaram o factoide da escala 4x3.

Nada colou, e parlamentares que demonizavam a proposta se viram premidos a endossá-la. Num discurso inusitado, Nikolas Ferreira, do PL, declarou voto a favor e vaticinou que o fim da 6x1 provocaria demissões em massa. “Esse dia vai ser maravilhoso”, acrescentou, sem corar. Em 2022, o jovem bolsonarista foi premiado por 1,47 milhão de mineiros com a maior votação do país.

Deputados que se mantiveram fiéis aos lobbies empresariais acusaram colegas da direita de traição. “São todos boca de mousse, não têm coragem de dizer não”, esbravejou Gilson Marques, líder do Novo. “Há muita gente que defende uma coisa no bastidor, mas na hora de colocar a digital não tem coragem”, reforçou Kim Kataguiri, do Missão.

Quando Motta abriu a sessão, quase todos já sabiam que a proposta seria aprovada com facilidade. Quem se surpreendeu devia estar desatento aos sinais emitidos por figuras como o chefão do PL, Valdemar Costa Neto. Em fevereiro, num jantar com grã-finos paulistas, o dono do partido de Bolsonaro havia prometido bloquear qualquer tentativa de acabar com a 6x1.

“Vamos trabalhar para não deixar votar. Vamos dar a vida para isso”, assegurou, sob aplausos. Passados três meses, ele se rendeu ao instinto de sobrevivência política. “Nós não podemos ser contra”, disse, na segunda-feira. “Se nós não aprovarmos a 6x1, o Lula ganha a eleição”, justificou-se.

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sábado, 30 de maio de 2026

HOJE A FESTA É NOSSA !

Olha onde chegamos ! Hoje, este blog completa 21 anos. Em 30 de maio de 2005 estreava esse blog político Sou Chocolate e Não Desisto. Um dos primeiros blogs de política do país, atrás apenas do blog do jornalista Ricardo Noblat que teve suas atividades iniciadas em abril de 2004.

Com 7.670 dias no ar, mais de 58 milhões de visitas dos seis continentes, a cada dia o blog tem se destacado na blogosfera. Nesses 20 anos, o blog Sou Chocolate e Não Desisto participou de alguns prêmios, entre eles o TopBlog, a maior premiação voltada para a blogosfera brasileira.

Desde a criação do Prêmio TopBlog em 2009, o nosso blog tem ficado entre os 100 blogs (2009, 2010, e 2012) mais votados na categoria política/pessoal pelo júri popular. Em 2011, em segundo lugar pelo júri acadêmico.  Em 2013 ficamos em terceiro lugar pelo júri popular. Neste ano, ficamos entre os 100 blogs mais votados pelo júri popular.

É uma honra ter o reconhecimento desse trabalho. A responsabilidade a cada dia aumenta.  Que venha os próximos 21 anos ! Obrigado a todos leitores e visitantes. Forte abraço.

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O PECADO DA ESCRAVIDÃO

Jamil Chade, CartaCapital

A primeira encíclica de Leão XIV une-se à posição da ONU na crítica ao neocolonialismo

Sem o carisma e a vitalidade de Francisco, o antecessor, o papa Leão XIV finalmente saiu da sombra e deu sentido ao seu pontificado. Na segunda-feira 25, o norte-americano ­Robert Prevost lançou a encíclica Magnifica ­Humanitas, que trata da salvaguarda dos seres humanos na era da Inteligência Artificial. O papa aproveitou a oportunidade para uma reparação histórica. “Em nome da Igreja, peço sinceramente perdão”, declarou, em referência à chancela da Santa Sé a séculos de escravidão. O reconhecimento papal deu-se dois meses depois de a Assembleia-Geral das Nações Unidas ter aprovado uma resolução na qual declara a escravatura como o maior crime contra a humanidade de todos os tempos.

Os dois enunciados não aconteceram por acaso. A declaração do Vaticano ocorre justamente num documento no qual o papa alertava para o impacto da IA e as novas formas de escravidão por conta da revolução digital e pela cobiça das grandes empresas do mundo por recursos naturais, uma vez mais depositados em solo de países que, nos últimos séculos, foram colônias. O pontífice foi claro sobre esse aspecto. Segundo ele, a Inteligência Artificial gera “novas formas de escravidão”, como a dos corpos “marcados, feridos e desgastados” daqueles que trabalham na extração dos “elementos de terras-raras” necessários para a tecnologia. Portanto, Leão XIV ressalta a importância do combate à escravidão moderna como mais um “teste decisivo para o discernimento ético” na transformação digital. Segundo ele, “a Igreja renova sua firme condenação a todas as formas de escravidão, tráfico e mercantilização de pessoas­” e não reagir a ou tolerar graves violações da dignidade humana significa tornar-se cúmplice. “Uma corrida por algoritmos cada vez mais poderosos e conjuntos de dados maiores, impulsionada pelo desejo de garantir o domínio geopolítico ou comercial”, denuncia na encíclica.

O futuro repete o passado. O avanço do processo tecnológico e o desenvolvimento da IA recolocaram o acesso aos recursos no centro da diplomacia e das canhoneiras. Governos como o dos Estados Unidos declaram abertamente o intento de anexar territórios. Há três meses, o presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa, alertou, na cúpula da União Africana, para a ameaça de uma “nova forma de colonialismo” em curso. “Não deve mais acontecer de rochas, solo e poeira serem exportados da África sem serem beneficiados.”

A defensiva dos países em desenvolvimento ocorre num momento em que magnatas, Donald Trump e a extrema-direita articulam uma operação sofisticada para desqualificar qualquer expansão de direitos ou o reconhecimento do custo da escravidão. Um dos passos fundamentais tem sido o de tentar reescrever a história e impedir que os atos do passado sejam tratados como crimes. Só assim, alegam observadores, haverá um espaço supostamente legítimo para perpetuar a exploração de terras e populações.

Em contraponto, magnatas, os EUA e a extrema-direita exaltam o passado colonial

Nos EUA, Trump assinou um decreto no qual dita que museus apenas terão recursos públicos se “glorificarem” a história do país. Empresas que estabelecem cotas raciais foram proibidas de ter contratos com o governo federal. Em fevereiro, o governo abriu um processo contra a Nike por suposta “discriminação contra empregados brancos”.

O racismo também foi institucionalizado na política externa. Quando Trump divulgou sua Estratégia de Segurança Nacional, no fim de 2025, uma frase se destacava: “Apagamento civilizacional”. Especificamente em relação à Europa, o documento alertava que “as políticas migratórias que estão transformando o continente” fazem parte de uma série de tendências que ameaçam torná-lo “irreconhecível em 20 anos ou menos”. Para diplomatas, o supremacismo branco estava instaurado de forma oficial.

Asfixiar a agenda do movimento negro passou a ser também um projeto regional. Dias antes de o papa lançar sua encíclica, os bastidores da diplomacia apontavam para uma manobra reveladora. Com a ameaça de retirar o visto de autoridades, chantagens e pressão sobre os países mais pobres da região, o governo Trump e a aliança ultraconservadora na América Latina conseguiram barrar um projeto de Brasil e Colômbia em defesa da população negra do hemisfério. O objetivo era a criação de uma Declaração Interamericana dos Direitos das Pessoas Afrodescendentes, tema que deveria estar na agenda da Assembleia-Geral da Organização dos Estados Americanos marcada para o fim de junho, no Panamá.

Um dos instrumentos de Trump foi ativar a aliança de governos ultraconservadores, como Argentina, Chile e Paraguai. A operação também passou pelo Caribe, região que possui grande população afrodescendente. O Departamento de Estado ameaçou retirar o visto de autoridades, caso esses países não aderissem ao esforço para enterrar o projeto. Os embaixadores do Haiti, Jamaica e Belize foram alvo de ultimatos. Outros países menores da região receberam recados de que a insistência em levar a declaração à assembleia seria encarada como afronta aos EUA. Diante da debilidade­ de vários desses governos, a pressão surtiu efeito. O embaixador norte-americano, Leandro Rizzuto, disse a interlocutores de diversos países que não admitiria que o tema dos direitos dos afrodescendentes conste da agenda do evento.

O êxito da Casa Branca em asfixiar o projeto foi interpretado como um sinal da força da aliança de extrema-direita na região, do poder de pressão dos EUA e da existência de um plano de sufocar a agenda progressista em direitos humanos. Se até agora a pauta ultraconservadora de Trump e o fim da agenda de diversidade eram uma realidade interna, a operação diplomática da Casa Branca revela que a estratégia é a de abafar também o avanço dos direitos das minorias no continente.

Em discurso perante os delegados da OEA, o representante da Colômbia alertou: a decisão era “uma mensagem profundamente desanimadora aos mais de 200 milhões de afrodescendentes nas Américas”. Para Bogotá, “o silêncio, a inação e o adiamento” da defesa dos direitos da população negra “perpetuam dinâmicas de exclusão e racismo”. A perpetuação não é, portanto, um acidente. •

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

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O VALE=TUDO DO PROJETO DE PODER BOLSONARISTA

Flávia Oliveira, O Globo

À espreita do Brasil, estão o risco de intervenção, inclusive militar, dos Estados Unidos e sanções econômico-financeiras

Não há limite para o projeto de poder do bolsonarismo. Vale duvidar das urnas eletrônicas, minar a credibilidade de autoridades e do sistema eleitoral, confrontar Legislativo, Judiciário e até a ciência. Vale tramar golpe de Estado e assassinato de presidente e vice eleitos, bem como de ministro do Supremo Tribunal Federal. Vale incitar nação estrangeira a aplicar tarifas, abrir investigação contra o Brasil por concorrência desleal e impor sanções a personalidades da República. Agora, vale também buscar classificação de organizações criminosas, caso de PCC e Comando Vermelho, como terroristas e sujeitar o país a graves retaliações econômicas e financeiras pela maior economia do planeta, segundo maior parceiro comercial brasileiro.

O empreendimento bolsonarista para desestabilizar economicamente o Brasil em proveito da própria família começou há pouco mais de um ano. E não cessa. Após encontro com os irmãos Flávio e Eduardo Bolsonaro, filhos do ex-presidente condenado por golpe de Estado, e Paulo Figueiredo, neto do último general ditador, o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, anunciou que o país qualificou as duas facções transnacionais brasileiras como Terroristas Globais Especialmente Designados (SDGT, na sigla em inglês). No próximo dia 5 de junho, as designará como Organizações Terroristas Estrangeiras (FTO). O par de ações representa uma guinada nas relações bilaterais, ameaça a soberania brasileira e impõe riscos às operações de empresas e bancos.

Em nota horas depois do anúncio, festejado pelo senador e pré-candidato à Presidência, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), que reúne os maiores especialistas do país na área, alertou sobre os impactos na soberania e autonomia do Brasil; na economia e no sistema financeiro; nos mecanismos de cooperação regional e internacional. As organizações que integram a rede Pacto pela Democracia advertiram sobre a possibilidade de “sanções, pressão diplomática indevida e interferência em assuntos internos brasileiros”.

Os agentes econômicos temem que, se aplicada, a retaliação a bancos, corretoras e meios de pagamento, Pix incluído, traga prejuízos ou inviabilize comércio exterior, fluxo de investimentos e turismo para o Brasil; eleve custos financeiros e de seguros; desvalorize o real; pressione risco país e taxa de juros; restrinja acordos com organizações multilaterais, como o BID. Não é exagero. Tudo isso pode acontecer, a depender da disposição de Donald Trump e sua trupe.

A Colômbia sofreu implicações de 1997 a 2021, período em que vigorou a classificação pelos Estados Unidos das Farc como organizações terroristas. A União Europeia fez o mesmo entre 2002 e 2017. O Líbano ainda convive com efeitos no câmbio, nos juros e nos investimentos, em decorrência da designação do Hezbollah. Em julho passado, os Estados Unidos impuseram sanções a dois grandes bancos e uma corretora de valores do México, acusados de movimentação financeira de cartéis de drogas.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, destacou que o “ato eleitoral” do governo americano pode prejudicar a economia do Brasil. Ele já foi procurado por empresários e banqueiros temerosos. O promotor Lincoln Gakiya, do MPSP, maior autoridade do país no enfrentamento ao PCC, já havia afirmado que a mudança imposta pelos Estados Unidos mais atrapalha que ajuda no combate ao crime organizado. Isso porque o compartilhamento regular de informações de Polícia Federal e MP brasileiros e DEA e FBI deve cessar, em razão da classificação sigilosa imposta por CIA e Pentágono nos assuntos de defesa.

É curioso como os filhos de Bolsonaro, em nome da disputa eleitoral, agiram por medidas que Jair Bolsonaro, quando presidente da República, não reivindicou. Governado por bolsonaristas desde 2018, o Rio de Janeiro viu milícias e facções do tráfico se expandirem até o Legislativo. Aliado de Flávio Bolsonaro e do ex-governador Cláudio Castro, Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj, está preso por envolvimento com o CV. O próprio Flávio ainda não conseguiu esclarecer as condições contratuais nem o caminho do dinheiro que Daniel Vorcaro, a pedido do senador, destinou à cinebiografia de Bolsonaro pai. O escândalo do Banco Master alcança fundos de investimento suspeitos de lavagem de dinheiro do PCC.

À espreita do Brasil, estão o risco de intervenção, inclusive militar, dos Estados Unidos e sanções econômico-financeiras. E hipótese remota, quase inexistente, de eficácia no combate às facções. Especialistas são unânimes em afirmar que o crime não arrefeceu, para ficar em dois exemplos, nem na Colômbia nem no México, em razão das retaliações impostas pelos americanos.

O Brasil tem o desafio de combater o crime e a violência desmedida de PCC, CV e demais grupos armados espalhados pelo país — 88 ao todo, segundo o Ministério da Justiça. Há de haver coordenação entre instâncias de governo, cooperação com outros países, inteligência e estratégias de asfixia financeira das facções, retomada de territórios dominados, presença do Estado nas comunidades. São medidas que prescindem da intervenção dos Estados Unidos, que ameaça não o governo Lula, mas todo e qualquer presidente que o Brasil venha a ter enquanto vigorarem as medidas.

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MORRE VIRGILDÁSIO DE SENNA

Yuri Abreu, A TARDE

Virgildásio de Senna morre aos 102 anos

Ele foi gestor da capital baiana entre 1963 e 1964, mas foi afastado pela ditadura militar

O ex-prefeito de SalvadorVirgildásio de Senna, morreu neste sábado, 30, aos 102 anos. Segundo a família, que confirmou o óbito, ele está sendo sepultado no Cemitério do Campo Santo, no bairro da Federação.

Senna foi chefe do Executivo soteropolitano entre 1963 e 1964, quando teve o mandato interrompido pela ditadura militar. Ele ainda chegou a ser deputado federal por dois mandatos consecutivos, entre 1º de fevereiro de 1983 e 31 de janeiro de 1991.

Natural de Santo Amaro da Purificação, no Recôncavo baiano, ele se formou engenheiro pela Universidade Federal da Bahia (UFBA). Na política, foi filiado aos seguintes partidos: PTB (atual PRD), MDB e PSDB.

Já no funcionalismo público, atuou no Serviço de Obras da Secretaria da Educação da Bahia entre 1948 e 1951; como superintendente de Urbanização da Capital, em Salvador (1959); e secretário municipal de Viação e Obras Públicas do prefeito Heitor Dias Pereira (1959-1961).

Vereador e sobrinho lamenta

Em nota publicada em seu perfil nas redes sociais, o vereador de Salvador, Téo Senna (PSDB), lamentou a morte do tio. Ele destacou "a trajetória marcada pela retidão de caráter, competência administrativa e dedicação à nossa cidade e ao nosso país".

"Sua vida atravessou gerações inspirando homens e mulheres da vida pública a exercerem seus mandatos com equilíbrio, firmeza, lucidez e respeito às pessoas. Que Deus o receba em Sua infinita misericórdia. Seu exemplo permanecerá vivo na memória de Salvador e na história da Bahia", acrescentou Téo Senna.

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O JOGO DE FLÁVIO BOLSONARO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Trump dá sua contribuição à agenda de Flávio Bolsonaro, à qual Lula terá dificuldade de contrapor

Não é fácil aplicar a defesa clássica da soberania nacional diante do discurso bolsonarista de libertar o brasileiro de um ‘governo paralelo’

Não desfazendo da obstinação do bolsonarismo eduardista por estabelecer relações na Casa Branca, a conta do acesso de Flávio Bolsonaro ao primeiro escalão da administração Trump – sobretudo a Marco Rubio e J.D. Vance – não fechará sem a variável lobby-de-algum-grupo-econômico-pesado.

Isto parece ser condição fundamental para se chegar ao presidente dos EUA: ter o apoio de bilionários de cujos investimentos o governo, donde o projeto de poder trumpista, dependa. Lula tem os seus empresários abridores de portas em Washington. Está explícito. Nem sempre será, talvez porque os de Flávio – o cronista especula – sejam financiadores do Partido Republicano e do movimento MAGA. Atenção a isso.

Atenção também às consequências de terem os dois principais postulantes à Presidência se lançado a uma competição por exibir, como ativo eleitoral, o que tiraria a melhor fotografia com Donald Trump; a quem assim convidaram às eleições brasileiras. A primeira interferência – por ora de natureza político-eleitoral – está feita.

A foto de Flávio representou ao mesmo tempo o marco de uma posição – em prol de o governo americano declarar terroristas PCC e CV – e uma aposta: a de que o faria antes das eleições. A declaração veio no dia seguinte à sua última reunião na Casa Branca, encontro vendido como tendo o tema por centro. O ato é contribuição direta à agenda-campanha bolsonarista, associado Lula a gestões formais contrárias à reclassificação, doravante pressionado a se posicionar a respeito.

Não será fácil. Porque já está ligado o moedor discursivo eleitoral, os argumentos técnicos tornados pretexto para “proteger bandido”. Não será fácil. Porque não é fácil aplicar à questão corrente a defesa clássica da soberania nacional. O caso das tarifas baixadas contra o País tinha poucas nuances. O presidente deitou e rolou então, os Bolsonaro como “entreguistas” etc. Agora é mais complexo. Flávio fala em “libertar você” – o brasileiro – “do governo paralelo”.

Há uma batalha pela captura da percepção do indivíduo-eleitor. Uma disputa entre soberania macro – a defesa dos interesses pátrios contra a interferência estrangeira – e soberania micro, aquela cuja inexistência é atestada no mundo real, na experiência das ruas, lá onde as gentes, sob coação permanente de um Estado marginal, não têm o direito de ir e vir, territórios cada vez maiores sob controle das facções.

Não é fácil se opor – no Brasil, num ano eleitoral, sendo a segurança assunto decisivo – ao que fez o governo Trump. Porque posta está a armadilha da contradição. Afinal, o discurso atual de Lula – contra o magnata morador de Miami cuja operação no mercado financeiro serviria à lavagem transnacional de recursos do crime organizado – é consistente com o objeto da nova diretriz americana.

Ante a evidência de que os governos locais, federal incluído, não conseguem resolver o problema da segurança pública, o cidadão será tentado pelo desejo de testar solução radical inédita. É isso que Flávio Bolsonaro quer instrumentalizar.

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A NOVA ABOLIÇÃO

André Barrocal, CartaCapital

A despeito da pressão empresarial, a Câmara aprova o fim da escala 6×1. O Senado tende a corroborar

O fim do trabalho escravo no Brasil, último país a abolir a prática, foi seguido por cerca de quatro décadas de expedientes laborais inclementes: 12 horas diárias, 14 horas, 16 horas. Getúlio Vargas, nos anos 1930 e 1940, impôs limites: 8 horas por dia e 48 por semana. Era o início da chamada escala 6 por 1. Passaram-se mais quatro, cinco décadas e a Constituição que enterrou a ditadura reduziu a carga semanal para 44 horas. E agora, 38 anos depois, o Brasil está à beira de outro passo histórico para dar mais tempo livre àqueles que o carregam nas costas. Os deputados acabam de aprovar a jornada de 40 horas por semana, realidade na Europa desde o século passado, sem corte de salário. Basta o endosso dos senadores, e as pistas indicam que eles não vão nadar contra a maré, para a mudança constitucional entrar em vigor de forma escalonada: 42 horas em 60 dias e 40 horas, em um ano. Será a abolição da escala 6 por 1.

A menos de seis meses das eleições, a aprovação na Câmara foi um passeio, apesar do “terrorismo patronal”, para usar as palavras do secretário-geral da Presidência, Guilherme Boulos, e do festival de hipocrisia do PL, o partido dos Bolsonaro e empresários. Placares finais: 471 a 22 na primeira votação e 461 a 19, na segunda. “É um momento único, de vitória efetiva da classe trabalhadora. Uma conquista sem concessão para o outro lado. Fizemos história”, diz o deputado Alencar Santana, do PT paulista, presidente da comissão especial que preparou o texto. “Nossa elite patronal é predatória (…) Eles compraram a imprensa, pagaram comentaristas para pregarem a destruição da nossa economia se o trabalhador tivesse direito de descansar dois dias na semana sem diminuição do salário”, afirmou o deputado Otoni de Paula, bolsonarista arrependido do PSD do Rio de Janeiro, durante a deliberação na comissão.

Ao longo da discussão, a autodenominada mídia profissional deu voz e destaque a análises catastrofistas sobre as consequências da jornada menor. O argumento é basicamente um só, a redução obrigará as empresas a contratar mais trabalhadores, para manter o nível de negócios e de lucro, as admissões significarão custos mais altos e estes serão repassados aos preços, ou seja, virá inflação. O presidente da Confederação Nacional da Indústria, Ricardo Alban, foi explícito a respeito. A Confederação Nacional do Comércio traduziu o alegado desastre com a cifra de 122 bilhões de reais em perdas no setor. A Folha de S.Paulo estampou em fevereiro que o impacto no PIB será negativo em 6%.

“É um momento único, de vitória efetiva da classe trabalhadora”, comemora o deputado Alencar Santana

O terrorismo, note-se, sempre acompanha avanços civilizacionais e trabalhistas no Brasil. Recorde-se a manchete de O Globo na época da criação do 13°, no golpeado governo de João Goulart, em 1962: “Considerado desastroso para o país­ um 13º mês de salário”.

Segundo a Unicamp, a redução da jornada é capaz de levar à abertura de 4,5 milhões de vagas. Seria a quantidade necessária para preservar o nível da atividade empresarial. O desemprego está nos menores patamares, 5,8%, ou 6,3 milhões de trabalhadores, daí os sindicatos acumularem força para reivindicar aumento salarial. Dos 102 milhões de empregados, 37 milhões cumprem jornada de 44 horas por semana e serão favorecidos, conforme o governo. O alívio tem potencial para proporcionar a Lula mais dividendos eleitorais do que a isenção do Imposto de Renda a salários de até 5 mil reais. Aqueles 37 milhões de trabalhadores correspondem a 23% do eleitorado. A isenção total de imposto beneficiou 10 milhões e a parcial (salários de 5 mil a 7,5 mil), 5 milhões. Eis a razão do impacto diminuto da medida até aqui na popularidade presidencial. Pouca gente foi premiada, 9% dos eleitores.

Entre os assalariados, Lula não tem larga vantagem sobre Flávio Bolsonaro em intenção de voto. No grupo com carteira assinada, vence por 36% a 33% no primeiro turno e perde de 47% a 41% no segundo, de acordo com uma pesquisa recente do Datafolha. No caso dos sem-carteira, sai-se melhor: ganha por 44% a 30% no turno inicial e de 50% a 37%, na volta seguinte. Entre os que se declaram “empresários”, muda tudo: 51% a 20% para o filho de Bolsonaro no primeiro turno e 68% a 25% depois. Entre os autônomos e profissionais liberais, o senador também é o preferido e conta com rejeição inferior. Essas três categorias (empresários, assalariados e autônomos) somam metade da amostra do Datafolha. A outra metade é composta de servidores públicos, desempregados, aposentados, donas de casa e estudantes. Nesses estratos, Lula triunfa em todos.

O presidente foi decisivo para a aprovação da redução da jornada pelos deputados. Abraçou a bandeira e tremulou-a no pronunciamento do Natal passado e do 1° de Maio. Há algumas semanas, enviou ao Congresso uma lei destinada a encurtar a jornada. Esses lances dobraram o chefe da Câmara, Hugo Motta, do Republicanos da Paraíba, que inicialmente tinha má vontade com a ideia, por ser um aliado do empresariado. O presidente e o deputado reuniram-se na antevéspera da votação e acertaram os detalhes finais do texto, como a transição escalonada. Pelo que se ouve na Câmara, Motta dobrou-se por algumas razões. Estava em dívida com o governo após tirar das mãos de Lula e dar à oposição a Lei Antifacção e de comandar a aprovação de pena menor para golpistas condenados. Ele torce, no mínimo, pela neutralidade do petista na eleição ao Senado na Paraíba. Seu pai, Nabor Wanderley, quer uma das duas­ vagas, mas o PT inclina-se por rivais.

O texto aprovado na Câmara nasceu de uma proposta de 2019 do deputado Reginaldo Lopes, do PT de Minas Gerais, e de outra de 2025 da deputada ­Erika Hilton­, do PSOL de São Paulo. Ambas fixavam a jornada semanal em 36 horas e foram alteradas pelo relator, deputado Leo Prates, do Republicanos da Bahia. A jornada de 40 horas não valerá para quem recebe salário acima de duas vezes e meia o teto de aposentadoria do INSS (cerca de 21 mil reais). Há mais excepcionalidades. Funcionários terceirizados do setor público terão um ano para que seus contratos sejam renegociados. E uma lei futura terá de definir regras específicas para micro e pequenas empresas, a fim de atenuar o impacto. A nova jornada vai valer dois meses após a aprovação definitiva no Congresso. Como o recesso parlamentar começa em meados de julho, a expectativa é de vigência em setembro, reta final da campanha eleitoral.

Numa sinuca de bico diante de uma proposta de apelo popular tão perto da eleição, o PL deu um show de cinismo. O partido defende a remuneração por horas trabalhadas, lógica parecida com aquela do motorista de Uber. A medida foi proposta pelo deputado gaúcho Mauricio Marcon no ano passado e é defendida por Flávio Bolsonaro. Depois a legenda engrossou a tentativa de segurar por dez anos a redução da jornada, foi quem mais deu apoio a uma emenda apresentada pelo deputado gaúcho Sérgio Turra, do PP, que permitia em alguns casos expedientes de até 52 horas semanais. Por fim, o líder da bancada na Câmara, Sóstenes Cavalcante­, do Rio, resolveu fazer o contrário: defender em plenário uma jornada ainda menor, de quatro dias de trabalho por semana. Queria constranger os governistas. Fez o anúncio ao mesmo tempo que o líder da legenda no Senado e coordenador da pré-campanha de Flávio, o potiguar Rogério Marinho, chamava de “muito ruim” e “desastre” o fim da escala 6 por 1.

No discurso, o PL se disse contra. Na votação…

Em desfaçatez ninguém superou, no entanto, o deputado mineiro Nikolas Ferreira. Ele encampou a alegação patronal de que a mudança na jornada quebrará o País, por isso dizia que era contra a redução, embora afirmasse, veja bem, ser a favor. No dia da votação, gravou um vídeo para as redes sociais, no qual proclamava ser este o mais importante da sua vida. Repetia os argumentos empresariais e terminava por declarar apoio à escala 4 por 3, pregava inclusive sua vigência imediata, sem carências. “Que a quebradeira comece antes das eleições”, comentou, “a gente quer mostrar que, quando der merda, a culpa é deles (governistas, petistas).”

E no Senado? Abandonados por ­Motta, os patrões fizeram lobby com ­Davi ­Alcolumbre, o presidente do Senado. Uma comitiva liderada pelo presidente da Fiesp, Paulo Skaf, foi ao senador do União Brasil do Amapá pedir que não haja a votação. A avaliação nos corredores da Casa é que a redução da jornada tem apelo popular demais para ser boicotada. Dois terços dos senadores ficam sem mandato neste ano, muitos tentarão renová-lo em outubro. Pouco antes da votação na Câmara, o senador-empresário Oriovisto Guimarães, do Podemos do Paraná, tinha dito na sessão plenária que a proposta era um “absurdo” e vai “provocar desemprego”. E rogava a Alcolumbre para não a colocar em votação. O discurso seguinte, de Cleitinho Azevedo, do Republicanos de Minas, cobrava o oposto. “Não é uma pauta ideológica”, afirmou, “vamos parar de hipocrisia.” O amapaense ficou quieto. Nos bastidores, as pistas são de que ele não criará dificuldade para a votação.

Lula está em guerra fria com Alcolumbre­, após a fatídica derrota no Senado de um indicado para o Supremo Tribunal Federal, em abril. Os dois devem conversar nos próximos dias pela primeira vez desde aquele episódio, e o assunto será justamente a mudança na jornada laboral. O senador mandou ao petista, via emissários, o recado de que topa a reconciliação. Segundo um governista a par das negociações, o presidente da República só tem a ganhar com o papo. Ou arranca de Alcolumbre o apoio à jornada menor ou estará de novo numa posição antagônica ao Congresso, o poder mais mal avaliado nas pesquisas. A votação célere no Senado seria até pior para Lula, pois tiraria do petista a possibilidade de usar a bandeira para arrastar militantes às ruas na campanha. O chefe do PL, Valdemar ­Costa Neto, comentou publicamente na antevéspera da votação na Câmara: “Se não aprovarmos, o Lula ganha as eleições”. 

Publicado na edição n° 1415 de CartaCapital, em 03 de junho de 2026.

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sexta-feira, 29 de maio de 2026

BRUNO E A JORNADA 6X1

José Sarney*, Correio Braziliense

A verdade é que eu também sou a favor, como o meu bisneto, do fim da jornada 6 x 1 não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social

Meu bisneto, Bruno, de 12 anos, me surpreende sempre com perguntas de gente grande, já que ele tem acesso, pela leitura de jornais e revistas, à pauta política. Foi assim que, de supetão, ele me perguntou:

— Meu bisavô, o senhor é a favor ou contra a jornada de trabalho de cinco dias?

Eu me surpreendi, mas pensei que, com a internet e as redes sociais, os problemas maiores e menores invadem a sociedade, alcançando todas as camadas sociais e faixas etárias, chegando mesmo à quase meninice. Na verdade, a era digital apressou o desenvolvimento cognitivo das crianças, que passaram a amadurecer seus questionamentos de maneira mais célere.

No Japão, o uso do ensino pela televisão visa, sobretudo, equalizar o nível de aprendizagem das classes. Assim, os alunos que não acompanham o ritmo regular, apresentando algum atraso no aprendizado, são matriculados em turmas que utilizam métodos visuais, de modo a acelerarem o aprendizado e alcançarem o nível da classe da qual foram retirados.

Na verdade, comecei a divagar e já me desviava da curiosidade de meu bisneto, que percebeu minha esquiva ao não querer impor-lhe uma posição. Ele insistiu:

— Meu bisavô, o senhor não respondeu à minha pergunta. Diga-me se o senhor é contra ou a favor da diminuição do tempo de trabalho para cinco dias.

Eu, então, repliquei. 

— Pois bem, se você quer saber, não é para orientar-se, mas para conhecer minha opinião. Então, me diga primeiro: qual é a sua?

Ele retrucou: — Eu sou a favor.

— Por quê?

— Porque é mais justo. 

— O que é ser justo?

— Trabalhar menos — ele respondeu. 

Vi, então, que sua opinião era simplista, sem entrar, em razão da sua pouca idade, no âmago da questão.

A verdade é que eu também sou a favor, não só por motivos de justiça, mas por outros de natureza social.

Essa discussão tomou conta do país. Mas devo confessar que o debate realizado pelo Correio Braziliense foi o mais abrangente de todos: foram bons e competentes os debatedores ao dissecar os prós e contras das posições. O ministro Gilmar Mendes foi brilhante em suas conclusões de que "o desafio está menos em escolher entre proteção social e dinamismo econômico e mais em compatibilizar os dois setores".

Penso que o Projeto de Emenda Constitucional nº 221/19, aprovado pela Câmara dos Deputados, demonstra a capacidade de articulação e o prestígio do presidente Hugo Motta ao reduzir a resistência a apenas 19 votos contrários. E o resultado mostra que as premissas do ministro Gilmar Mendes foram plenamente recepcionadas, ou seja, o equilíbrio entre o social e o econômico prevaleceu.

A proposta inicialmente buscava a redução da jornada de trabalho para 36 horas semanais, mas avançou no Congresso como base para a instituição da jornada de 40 horas semanais, com dois dias de repouso remunerado (fim da escala 6x1), alterando o ar. 7º, XIII e XV, da Constituição Federal. 

Nenhum assunto debatido recentemente teve tanta participação da comunidade e da mídia, nem seminários com tamanha amplitude de debatedores, quanto este.

Recordo que, quando comecei a implantar o sistema digital e a internet no Senado Federal, falei que um dia o desenvolvimento da informatização nos levaria de volta à democracia direta, aquela que, nos primórdios do regime democrático, era o sistema praticado em Atenas.

O nosso grande historiador João Lisboa — que Capistrano de Abreu, seu concorrente como escritor desse gênero literário, considerava o melhor historiador do país e dono da melhor escrita — tem um livro, intitulado Jornal de Timon, em que se dedica às eleições na Antiguidade. Nele, estuda os diversos métodos eleitorais, desde o Palmômetro (Aplausômetro), aquele sistema de aferição de resultados pela intensidade das palmas na praça pública, até outras formas que buscavam a democracia direta. A internet, no futuro, fará isso.

Mas, para responder ao meu bisneto Bruno, manifesto minha opinião de que sou favorável à diminuição dos dias de trabalho, como já ocorre em muitos países.

Assim, vou encerrar este artigo e gozar de um pouco de preguiça que eu não conhecia durante toda a vida, mas de que agora desfruto em minha velhice, porque ninguém é de ferro.

*José Sarney — ex-presidente da República, escritor e imortal da Academia Brasileira de Letras 

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BOIA LANÇADA PÓR TRUMP PODE VIRAR ÂNCORA E AFUNDAR FLÁVIO BOLSONARO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ao classificar facções criminosas como terroristas, Casa Branca cria riscos para economia e soberania brasileiras; candidato do PL já pediu bombas na Guanabara

Com o barco ameaçando fazer água, Flávio Bolsonaro remou até Washington para pedir socorro a Donald Trump. A direita festejou a foto do senador na Casa Branca. A questão é saber se ela servirá como boia ou como âncora para suas ambições presidenciais.

A viagem rendeu um alívio momentâneo ao Zero Um. A imagem com Trump cumpriu a tarefa de desviar as atenções do escândalo do Master. Pela primeira vez em duas semanas, Flávio apareceu nas manchetes sem a companhia do “irmão” Daniel Vorcaro.

O problema, para o senador, é que a foto no Salão Oval logo deixará de ser novidade. E a associação que ele tanto buscou pode vir a atrapalhá-lo na campanha.

No ano passado, Trump impôs um tarifaço de 60% aos produtos brasileiros. Foi uma chantagem explícita: ao anunciar a punição, ele cobrou o arquivamento dos processos contra Jair Bolsonaro. O resultado não foi bem o esperado. Em vez de encerrar os casos, o Supremo mandou o capitão para a cadeia. Lula engrenou um discurso nacionalista e reconquistou pontos nas pesquisas.

Ontem a Casa Branca anunciou a classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas. Reivindicada por Flávio, a medida arrisca causar efeitos mais nocivos que o tarifaço. À economia e à soberania nacional.

O anúncio do Departamento de Estado marca o início da interferência americana no processo eleitoral do Brasil. No limite, pode servir de pretexto para ações militares unilaterais. Sob a alegação de combater o “narcoterrorismo”, o governo Trump tem atacado embarcações estrangeiras no Pacífico e no Caribe. Flávio se diz patriota, mas já disse torcer por um bombardeio americano à Baía de Guanabara.

Ao bajular o presidente americano, o candidato do PL também mostra ignorar sua fama de pé-frio. Desde que voltou ao poder, o republicano acumula derrotas ao tentar eleger aliados em países como Canadá, Austrália, Romênia e Hungria. Em outubro, saberemos se o trumpismo terá mais sorte por aqui.

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REGIME REPRESENTATIVO DE QUÊ ?

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no quê estou votando

Teoricamente, o regime político brasileiro é um regime representativo. Mas exatamente de quê? Ou, de quem? Monitoro os políticos do Legislativo para descobrir, no que falam e no que fazem, a quem e o que estão representando. Descobri, eu e grande número de brasileiros preocupados com a representação política, que meu voto não decide em quem estou votando e menos ainda no que estou votando. Qual é a causa política e social que quero ver representada em meu voto?

A eleição é aqui uma armadilha bem montada por interesses que não são os meus, políticos, econômicos, religiosos. E até mesmo os do crime organizado. Ou seja, na representação política brasileira, quem menos conta é o candidato e menos ainda o eleitor. Entre o voto e o poder estão os misteriosos “eleitores” invisíveis que precisam se ocultar para mandar.

Hoje as candidaturas são entre nós meramente indiciais. Quem se prepara para votar, semanas antes da eleição, não busca nas listas nomes que lhe digam alguma coisa quanto ao que seja propriamente a busca da representação política. Buscam indícios de alguém que corresponda ao representante procurado.

Os partidos funcionam como grupos organizados de interesses, geralmente outros e até mesmo inconfessáveis, que usurparam a representação política para representar e defender interesses que não são políticos nem são os da consciência política dos eleitores.

Esse embaralhamento de valores e possibilidades atinge, hoje, intensamente o campo das religiões. Há mais igrejas do que interesses a serem representados em nome da fé. Dentro de alguns partidos há mais que um partido e nada tem a ver com a sigla que os identifica.

Não somos pluralistas, somos despistados e despistáveis. Vítimas da semicidadania, manipulada, servil. Porque temos sido privados, cada vez mais, de referência identitária para nos defendermos como o que julgamos ser.

Somos um povo carneiril, que se acha esperto e não sabe a diferença entre o esperto e o espertalhão, o que é negócio e o que é corrupção, o que é trabalho livre e o que é escravidão.

Acreditamos em Papai Noel e achamos que o pastor da igreja é o dono de Deus, o que ele diz, diz em nome do Senhor e é expressão da vontade de Deus. Quando prega que ter fé nada significa se eu não provar que a tenho e só a provarei com o dízimo.

Quanto maior o dízimo, especialmente se for mais do que os 10% do salário que ganho com o suor do meu rosto, se for vintízimo, trízimo, o que me colocará, no mínimo, quando chegar minha hora, diante da porta do céu. Bater nela e conseguir que São Pedro a abra já são outros tostões. Se a palavra do pastor que vai por aí significa alguma coisa, significa que Deus é um negociante e até mesmo que está à venda.

Em vez de as neorreligiões do negócio negarem o ócio, negam a fé. A religiosidade das novas religiões é a da espera, pague o dízimo e espere. São antipolíticas porque meramente eleitorais. Se você elege alguém de sua igreja, indicado pelo pastor ou pelo próprio candidato pastor, sua representação política está garantida. Porque ela é a representação do pastor e da igreja, não a sua. Você vota para se calar e se conformar, para concordar com o que não sabe o que é.

Estamos em face de um imenso sistema de bandalheiras e nos comportamos como se isso fosse natural. “Isso já está nos planos de Deus”, explicou-me alguém há muito tempo. Deus dissemina a corrupção, a bandalheira, o deboche político para testar a fé de suas ovelhas. O anômalo é normal.

No nascimento da República, em 1889, algumas restrições republicanas foram feitas quanto a quem tem direito eleitoral, quem pode votar. Não podiam votar as praças de pré, porque pessoas sob ordens e comando de terceiros, sem vontade própria. Os membros das ordens monásticas tampouco podiam votar porque sujeitos de obediência. Os analfabetos também não, pelo não acesso à informação. Hoje, algumas religiões dessa linha cerceadora podem existir e eleger.

O pressuposto republicano era o de que o discernimento é a condição fundamental para ser eleitor e cidadão, para ser politicamente representado e até mesmo representante.

Os tenentes das revoluções tenentistas dos anos 1920, que chegaram ao poder com Getúlio Vargas e a Revolução de Outubro de 1930, incluíam no seu programa a ditadura por tempo definido até que todo o povo estivesse alfabetizado e, portanto, preparado para discernir criticamente sobre sua representação política. De maneira muito suspeita, no golpe de Estado de 1964 cassaram os políticos de esquerda que estavam mais do que preparados para representar politicamente os que neles votaram e pouparam os oportunistas e corruptos que lhes seriam dóceis e úteis.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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quinta-feira, 28 de maio de 2026

A MANSÃO DE EDUARDO BOLSONARO

Cecília Olliveira, Eduardo Goulart e Steven Monacelli, The Intercept Brasil

EXCLUSIVO: Eduardo Bolsonaro mora em casa de luxo de R$ 6 milhões no Texas

Eduardo Bolsonaro tem seus bens bloqueados pela justiça brasileira. Ele não diz publicamente se trabalha de forma remunerada nos Estados Unidos, apenas que “mora de aluguel” e tem dificuldade para pagar contas. Ao mesmo tempo, o deputado federal cassado no Brasil mora em uma mansão no Texas que oferece “uma vida de resort”, de acordo com anúncios imobiliários. 

Intercept Brasil localizou o refúgio luxuoso do filho de Jair Bolsonaro na cidade de Southlake, entre as comunidades mais ricas do país. E tocamos a campainha. Fomos recebidos pela esposa de Eduardo, a coach e influencer Heloísa Bolsonaro, que confirmou educadamente que sua família morava ali e se recusou a conceder uma entrevista.

Avaliada em torno de R$ 6 milhões, a casa já foi colocada para alugar por cerca de R$ 30 mil por mês, segundo anúncios imobiliários ativos até fevereiro deste ano. O luxo e os custos do imóvel evidenciam um alto padrão de vida e levantam dúvidas sobre como Eduardo se sustenta desde que se mudou para os Estados Unidos, em fevereiro de 2025. 

A Polícia Federal já investiga se o ex-deputado federal pelo PL de São Paulo está sendo bancado com o dinheiro sujo do banqueiro Daniel Vorcaro, de acordo com G1.

Na sua última prestação de contas ao Tribunal Superior Eleitoral, o TSE, antes das eleições de 2022, Eduardo declarou um patrimônio de R$ 1,76 milhão, do qual R$ 1 milhão corresponde a um imóvel financiado. Ainda declarou R$ 160 mil de um imóvel quitado e R$ 600 mil depositados no banco que foram obtidos, segundo ele, pela venda de um curso online.

Em um vídeo publicado no Instagram em 17 de maio, Eduardo Bolsonaro negou ser dono de uma outra casa nos Estados Unidos, em Arlington, que foi o foco de várias reportagens na imprensa brasileira nas últimas semanas. Ele também afirmou que mora “de aluguel” e, inclusive, revelou que tem dificuldades para “honrar as parcelas” do financiamento de um imóvel “parcelado em décadas” no Brasil.

Em uma live com o amigo Paulo Figueiredo divulgada no mesmo dia 17, Eduardo afirmou que se mantém nos Estados Unidos com “renda passiva” e citou que recebeu R$ 2 milhões de uma campanha feita pelo pai. Jair Bolsonaro revelou, em junho de 2025, ter feito uma transferência via pix neste valor. 

O ex-deputado federal não citou na conversa, entretanto, outros repasses ou fontes de dinheiro nem explicou por que ele não conseguiria pagar as prestações da casa financiada no Brasil se recebeu R$ 2 milhões.

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O Intercept confirmou o endereço onde Eduardo vive em Southlake a partir de registros públicos do estado do Texas, dados comerciais de inteligência, do cruzamento de publicações da própria família Bolsonaro nas redes sociais e reportagem de campo. 

O próprio Eduardo Bolsonaro também ajudou a confirmar nossa apuração ao registrar um boletim de ocorrência na polícia após um repórter do Intercept ir até a residência para verificar a informação e pedir uma entrevista, na sexta-feira passada, 22.

Ao chegar até a mansão, em uma rua que tem acesso público e livre, ele caminhou pela calçada e tocou a campainha. Heloísa, esposa de Eduardo, abriu. O repórter informou que trabalhava para o Intercept, perguntou se o ex-deputado estava e se o casal estava disponível para uma entrevista. Após a negativa, agradeceu e foi embora.

Minutos depois, Eduardo acionou a polícia local alegando que um indivíduo estava batendo na porta e rondando a casa. Os policiais estiveram no local para atender o chamado.

No boletim de ocorrência, ao qual tivemos acesso, e em resposta ao Intercept, a polícia de Southlake informou que não há investigação aberta sobre o caso – ou seja, não houve crime. Nos Estados Unidos, o exercício livre da imprensa está garantido pela Primeira Emenda da Constituição. 

No entanto, o clã Bolsonaro e seus aliados passaram o fim de semana acusando falsamente o Intercept de crimes e proferindo ameaças em antecipação a esta reportagem.

O Intercept tentou um novo contato com Eduardo nesta quarta-feira, 27, para questioná-lo sobre os pontos citados nesta reportagem. Não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.

Mansão à beira lago foi alugada em fevereiro

A mansão onde mora Eduardo Bolsonaro pertence, desde 12 de setembro de 2019, ao Bunce Family Trust, um fundo familiar privado registrado em nome dos trustees, os administradores legais, Christopher Bunce e Natalie Bunce. O Intercept tentou contatá-los, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem. Trust, no direito dos Estados Unidos, é uma figura sem equivalente exato no Brasil, mas com lógica próxima à de uma holding familiar.

Até fevereiro passado, a mansão estava disponível para alugar e foi listada pela corretora Sotheby’s, conhecida pela atuação no segmento de imóveis de alto padrão. O valor anunciado era de 5.950 dólares por mês – cerca de R$ 30 mil mensais. Um anúncio em outra plataforma de locação informa que a casa foi alugada em 4 de fevereiro de 2026.

Anúncios imobiliários ativos até fevereiro deste ano mostram estrutura da mansão (Fotos: Homes.com/Reprodução)

Com quatro quartos e piscina, a mansão onde Eduardo mora no Texas tem 424 metros quadrados de área total construída em um terreno de 1.366 metros quadrados. Também desfruta de acesso a um clube com quadras de tênis e a uma lagoa.

No Zillow, o principal portal imobiliário dos Estados Unidos, a propriedade é avaliada em 1,22 milhão de dólares (mais de R$ 6 milhões) – quatro vezes maior do que a média do estado.

Eduardo vive fora do Brasil há mais de um ano

O paradeiro de Eduardo Bolsonaro nos Estados Unidos é rodeado de mistério desde que ele saiu do país, em fevereiro de 2025, e começou a articular à distância medidas contra o Brasil – o que o tornou alvo de uma investigação aberta pelo Supremo Tribunal Federal, o STF. 

Os registros oficiais da Câmara dos Deputados mostram que Eduardo, então deputado pelo PL de São Paulo, entrou com pedidos de licença de 122 dias, em 20 de março do ano passado. A justificativa do afastamento foi por motivos médicos e para tratar de assuntos pessoais. 

Mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept mostram que, no dia 21 de março de 2025, uma mensagem escrita por Eduardo foi encaminhada por Thiago Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, atualmente preso preventivamente em Brasília.

Neste registro, Eduardo dá orientações sobre como facilitar o envio de milhões de dólares aos Estados Unidos para a produção de “Dark Horse”. Na época, o ex-deputado já havia assinado um contrato como produtor-executivo do filme sobre a trajetória do pai, o que ocorreu em janeiro de 2024.

Eduardo disse a Miranda, de acordo com a mensagem, que a solução seria “enviar o máximo possível ainda neste sistema atual, com o remetente atual”. Também afirmou que o corretor de imóveis Altieris Santana – um dos controladores do fundo Havengate, juntamente com o advogado Paulo Calixto – estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira do filme. 

O Intercept entrou em contato com Altieris Santana, Paulo Calixto, Thiago Miranda e a defesa de Daniel Vorcaro. Não houve retorno até a publicação desta reportagem.

Daniel Vorcaro se comprometeu a pagar R$ 134 milhões para financiar o filme “Dark Horse”. Os registros obtidos pelo Intercept confirmam que pelo menos R$ 61 milhões foram enviados entre janeiro e maio de 2025.

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quarta-feira, 27 de maio de 2026

CLÁUDIO CASTRO MIROU BRASÍLIA, MAS ESTÁ MAIS PERTO DE TERMINAR EM BANGU

Bernardo Mello Franco, O Globo

Ex-governador foi alvo de duas operações da PF em 12 dias; decisão aponta 'vínculo estreito' com Vorcaro

As manhãs já foram mais tranquilas no condomínio de Cláudio Castro na Barra da Tijuca. Pela segunda vez em menos de duas semanas, o ex-governador do Rio acordou com batidas na porta. Era a Polícia Federal.

No dia 15, Castro foi despertado por uma operação que apurou favorecimentos à Refit. A refinaria que não refina pertence ao foragido Ricardo Magro, apontado como o maior sonegador de impostos do país. Ontem os agentes voltaram em busca de provas de um esquema com o Banco Master, do presidiário Daniel Vorcaro.

Na decisão, o ministro André Mendonça apontou “vínculo pessoal estreito” entre Castro e o banqueiro preso. Os dois mantinham uma rotina de “encontros frequentes” no Brasil e no exterior. A cada conversa, sugere o inquérito, os aposentados do estado ficavam um pouco mais pobres.

Ao ordenar as buscas, o ministro do Supremo citou um “almanaque de irregularidades” que permitiu o derrame de dinheiro do Rioprevidência nas contas de Vorcaro. Até aqui, sabia-se que o fundo havia enterrado quase R$ 1 bilhão no Master. Agora apareceram — ou melhor, desapareceram — outros R$ 2 bilhões.

As investigações da Refit e do Master descrevem o mesmo modus operandi. O governador se aproximava de empresários suspeitos, que passavam a ser presenteados com favores bilionários da gestão estadual. A diferença estava na fonte do butim. Um esquema desfalcou o Fisco. O outro assaltou aposentados e pensionistas.

Além de alegar inocência, os advogados de Castro disseram ver “motivação política” para atingi-lo. A tese omite que as operações foram autorizadas pelos ministros Mendonça e Alexandre de Moraes, líderes de alas rivais no Supremo.

Ontem o ex-governador recebeu a PF numa cobertura avaliada em R$ 4 milhões. Uma evolução e tanto para quem declarou patrimônio de R$ 194 mil na última eleição. Depois de renunciar para fugir da cassação, o bolsonarista sonhava ressurgir em Brasília como senador. Agora parece mais perto de outra mudança. Da Barra para Bangu.

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PASSAGEM DE BASTÃO CIVILIZATÓRIO

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Trata-se do início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais

O mundo assistiu à passagem do bastão de superpotência mundial das mãos do líder americano para o líder chinês. Isso era previsível desde que a República Popular da China começou a mostrar os resultados das reformas iniciadas há 50 anos por Deng Xiaoping: a adoção da eficiência produtiva e do empreendedorismo capitalista, sem perder a perspectiva do interesse nacional, com uma estratégia social de longo prazo, sem instabilidade política nem descontinuidade a cada eleição. Outras transições semelhantes já ocorreram: da Grécia para Roma; da Espanha e de Portugal para a Inglaterra; e desta para os Estados Unidos, compartida com a URSS devido ao poder nuclear. Diferentemente, a mudança atual não ocorre apenas de uma nação para outra, mas de um tipo de poder para outro: além da China, a primazia mundial será exercida por outros países e por empresas internacionais.

Em Pequim, maio de 2026, houve mais do que uma "armadilha de Tucídides" entre uma potência ascendente e outra decadente; houve o início da passagem do protagonismo dos governantes políticos, que representam seus respectivos países, para empresários "donos do planeta" que dominam tecnologias e representam interesses acima das fronteiras nacionais. Não por acaso, ao lado de Trump estavam CEOs de empresas de alta tecnologia.

O bastão ainda passou de um país a outro, mas começou também a passar de uma era civilizatória para outra: Xi e Trump representam um tempo em que o mapa-múndi era composto por países, cada um com sua cor; mas hoje cada país é um pedaço do mundo cujos donos já não são os políticos, embora estes ainda mantenham poder para iniciar guerras, sem, contudo, desenvolvê-las ou sustentá-las sem o apoio dos novos "donos do planeta".

A China pode ser o país cujo estilo político parece melhor preparado para combinar presidentes e CEOs, porque sua cultura política, moldada há mais de 2.000 anos, inclusive por um educador chamado Confúcio, permite a combinação da eficiência e ambição privadas, com os propósitos da ambição coletiva nacional. Um pequeno livro, A cortina de ouro, publicado em 1995 pela antiga Paz e Terra, levantava essa hipótese ao afirmar que o mundo começava a ter "donos da Terra": não mais banqueiros, industriais, proprietários de minas ou comerciantes de commodities, mas criadores de patentes e investidores em alta tecnologia digital, informática, medicinal, espacial, logística.

Nesses 30 anos, o mundo testemunhou a confirmação dessa previsão: a Nasa passou a concorrer com empresas privadas, e é possível que a primeira viagem tripulada a Marte não seja realizada por países, mas por empresas. A rede de satélites que controla o fluxo de informações é privada; a epidemia da covid foi enfrentada graças a vacinas produzidas por empresas privadas que dominam a produção de fármacos e equipamentos médicos; a produção e a distribuição de alimentos estão sob controle de grandes conglomerados, assim como as operações de logística que movem o mundo. A grande revolução da inteligência artificial (IA) será conduzida por empresas, utilizando governos e países, mas com o controle fora das mãos daqueles que ocupam o poder político. O presidente da Fifa conseguiu impor a Trump a recepção dos jogadores do Irã para a Copa do Mundo, e a marca Nike aparece com tanta visibilidade na camisa do Brasil quanto o próprio nome do país.

Tudo indica que o mundo atravessa a passagem do bastão não apenas de uma nação para outra, mas também a consolidação de um novo tipo de poder: o das empresas detentoras de capital, especialmente do capital do conhecimento, em um mundo no qual cada país deixou de ser uma unidade isolada e passou a integrar o conjunto global. Nesse contexto, o poder deixa de ser exercido exclusivamente por políticos em nome de governos nacionais e passa a ser controlado por grupos organizados em empresas, com vantagem para a China, que encontrou o caminho para equilibrar a eficiência de curto prazo do mercado com os interesses de longo prazo da nação.

A passagem do bastão ocorreu entre Trump e Xi, dos Estados Unidos para a China, mas também de um modelo civilizatório para outro. A armadilha contemporânea vai além daquela formulada por Tucídides, citada por Xi durante a reunião: transfere também o bastão dos presidentes nacionais para os "donos da Terra". A "geopolítica" passa o bastão para um tempo de "ecotecnogeopolítica", da era da abundância para uma era de escassez devido aos limites ecológicos e fiscais.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB)

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terça-feira, 26 de maio de 2026

MORRE ANTONIO SALIM CURIATI

Do g1 SP — São Paulo

Antonio Salim Curiati, ex-prefeito de SP e ex-deputado federal, morre aos 98 anos

Parlamentar iniciou sua trajetória política na década de 1960 e participou da Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988. Curiati morreu na segunda (25).

O ex-prefeito de São Paulo Antonio Salim Curiati morreu na segunda-feira (25), aos 98 anos. A informação foi compartilhada pela Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo.

Curiati também foi deputado estadual e, como deputado federal, participou da Assembleia Nacional Constituinte entre 1987 e 1988.

Segundo informações da Alesp, o parlamentar era médico, filho de imigrantes e iniciou sua trajetória política na década de 1960.

Assumiu seu primeiro mandato na Assembleia Legislativa em 1967 e, ao todo, exerceu dez mandatos como deputado estadual. Em 2016, tornou-se o primeiro parlamentar paulista a receber o Colar de Honra ao Mérito Legislativo.

Foi prefeito de São Paulo entre 14 de maio de 1982 e 14 de março de 1983.

Ao longo de sua vida pública, ocupou os cargos de secretário estadual da Promoção Social, entre 1979 e 1982; secretário municipal da Família e Bem-Estar Social, entre 1993 e 1994; e secretário municipal de Assuntos Comunitários, entre 1995 e 1998.

Em 2014, foi eleito para seu décimo mandato como deputado estadual, último cargo público de sua trajetória política.

"Neste momento de dor, a Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo manifesta solidariedade aos familiares, amigos e admiradores de Antonio Salim Curiati, reconhecendo sua contribuição à política e à vida pública paulista", destacou a Alesp.

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