quinta-feira, 16 de julho de 2026

MORRE RENATO MACHADO

Do g1 Rio

Renato Machado, referência do telejornalismo brasileiro, morre aos 83 anos no Rio

Jornalista morreu na manhã desta quinta-feira (16) na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul da capital fluminense.

O jornalista Renato Machado, ex-apresentador do Bom Dia Brasil, morreu na manhã desta quinta-feira (16), aos 83 anos, na Clínica São Vicente, na Gávea, Zona Sul do Rio de Janeiro. A causa da morte não foi divulgada.

Um dos principais nomes do telejornalismo brasileiro, Renato Machado construiu uma carreira de mais de quatro décadas na TV Globo, onde também apresentou o Jornal da Globo e o RJTV, integrou a bancada do Jornal Nacional e atuou como correspondente internacional e repórter especial.

Entre 1996 e 2010, ele foi apresentador e editor-chefe do Bom Dia Brasil, período em que ajudou a reformular o telejornal. Ao lado de Leilane Neubarth e, posteriormente, de Renata Vasconcellos, adotou um formato mais dinâmico, com maior interação entre os apresentadores, entradas ao vivo de repórteres e comentaristas e um uso mais amplo do estúdio.

Trajetória

A trajetória de Renato Machado no jornalismo começou em 1969, como repórter do Jornal do Brasil. Treze anos depois, ingressou na TV Globo, onde participou da cobertura da Guerra das Malvinas, um de seus primeiros grandes trabalhos na emissora.

Em 1983, tornou-se correspondente em Londres. De lá, acompanhou fatos históricos como os atentados terroristas em Paris, em 1986, e o desastre nuclear de Chernobyl. De volta ao Brasil, em 1988, passou a atuar como repórter especial da TV Globo.

Em 1990, Renato deixou a Globo para trabalhar na TV Manchete. Lá, ele cobriu a Guerra do Golfo. No ano seguinte, em 1991, ele voltou à TV Globo. Nos cinco anos seguintes, foi repórter especial e cobriu o impeachment de Fernando Collor e a morte do piloto Ayrton Senna.

Em depoimento ao Memória Globo, Renato Machado definiu o telejornalismo como um aprendizado permanente. "Para ser telejornalista é necessário um acúmulo de conhecimento. É saber curiosidades sobre grua, tráfego de câmera, enquadramento, cores, texto, edição. É uma troca. Um universo de aprendizado que, a cada dia, você vê que você erra", disse.

Correspondente internacional

Em setembro de 2011, Renato Machado voltou ao posto de correspondente internacional da TV Globo em Londres. De lá, participou da cobertura de acontecimentos marcantes, como os ataques terroristas ao jornal francês Charlie Hebdo, em 2015, os 95 anos de Nelson Mandela e a crise econômica na Grécia.

Na Europa, também teve espaço para explorar uma de suas grandes paixões: os vinhos. Em 2014, produziu para o Jornal Hoje uma série sobre a região da Provença, na França, em que percorreu aspectos da produção da bebida, além de histórias ligadas à culinária, ao comportamento e à cultura local.

“Nossa última matéria é a minha favorita, porque falamos sobre vinho. A Provença é uma região produtora de vinhos e também é corredor de um vento famoso que vem dos Alpes, o mistral. Esse vento sopra algumas vezes por ano e é gelado: as pessoas sempre levam um casaco, caso ele apareça. Entre as particularidades dele está a característica de afastar o vento quente e limpar as vinícolas, conservar melhor a uva”, disse Renato na época.

Nos últimos anos, Renato continuou compartilhando o interesse pelo universo dos vinhos nas redes sociais. Sobre a reportagem na Provença, destacou a relação entre a bebida, o território e as características da região, como o mistral, vento frio que sopra dos Alpes e ajuda a preservar as vinícolas.

Em janeiro de 2016, Renato Machado passou o posto de correspondente em Londres para a repórter Cecília Malan.

Ele retornou ao Rio de Janeiro como repórter especial do Globo Repórter. Entre seus trabalhos mais marcantes no programa está a edição “A arte como passaporte”, de 2016, na qual mostrou como a oportunidade de aprender música e dança pode transformar a vida de famílias pobres no Brasil. O programa foi indicado ao Emmy Internacional na categoria atualidade. Ele deixou a Globo em novembro de 2021.

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ELIZETH CARDOSO, A DIVINA

Há exatos 106 anos nascia Elizeth Cardoso, a Divina. Elizeth Moreira Cardoso  nasceu no Rio de Janeiro, em 16 de julho de 1920 , faleceu em 7 de maio de 1990). Conhecida como A Divina, Elizeth é considerada uma das maiores intérpretes da música brasileira e um das mais talentosas cantoras de todos os tempos, reverenciada pelo público e pela crítica.

Biografia

Infância

Elizeth Moreira Cardoso nasceu na Rua Ceará, no subúrbio de São Francisco Xavier, próximo ao morro da Mangueira. Era filha do seresteiro e tocador de violão Jaime Moreira Cardoso e de Maria José Pilar, que adorava cantar. Elizeth tinha cinco irmãos: Jaimira, Enedina, Nininha, Diva e Antônio, para eles ela apresentava teatrinhos em que cantava o repertório de Vicente Celestino.

A família toda, principalmente seu tio Pedro, acompanhava a cena musical da cidade, frequentando inclusive as reuniões na casa de Tia Ciata.

Com apenas 5 anos, apresentou-se no palco da histórica Sociedade Familiar Dançante Kananga do Japão, pedindo para "dar uma canja" junto ao pianista. Pediu para cantar "Zizinha" enquanto ele a acompanhava.

Já em 1930, aos 10 anos, começou a trabalhar para contribuir com o sustento da família, exercendo funções como vendedora, costureira de peles, fabricante de sabonetes e cabeleireira.

Descoberta

A família toda morava na Rua do Rezende, 87, inclusive seu tio Pedro com sua esposa, sua tia Ivone. Foi nessa casa que realizaram a festa de aniversário de 16 anos da Elizeth, e na presença de convidados ilustres. Compareceram PixinguinhaDilermando Reis e Jacob do Bandolim. O tio Pedro incentivou a jovem a cantar com os músicos, Jacob se impressionou com sua voz e a convidou para um teste na Rádio Guanabara.

Carreira: as rádios

Apesar da oposição inicial do pai, fez o teste na Rádio Guanabara no Programa Suburbano, ao lado de Vicente CelestinoAraci de AlmeidaMoreira da SilvaNoel Rosa e Marília Batista. Na semana seguinte foi contratada para um programa semanal na rádio por um cachê de 10 mil réis por programa. Foi ali que se apresentou sempre ao lado de Jacob do Bandolim, começava uma amizade que duraria mais de 60 anos.

Logo depois, passou a integrar a equipe da Rádio Educadora, onde participou do programa Samba e Outras Coisas, comandado pelos irmãos Marília e Henrique Batista. Posteriormente, migrou para a Rádio Transmissora, destacando-se no programa Rádio Novidades, onde cantou pela primeira vez acompanhada por uma orquestra, sob a regência do maestro Fon-Fon. Em seguida, foi para a Rádio Mayrink Veiga, onde teve a oportunidade de colaborar com o então jovem Dorival Caymmi.

A partir de 1939, começou a se apresentar em circos, clubes e cinemas. Foi nesse período que desenvolveu, ao lado de Grande Otelo, um quadro que se tornou um enorme sucesso por mais de uma década: Boneca de Piche, inspirado na composição de Ary Barroso e Luís Iglésias. Seu talento chamou a atenção, levando-a a ser convidada para integrar a Companhia de Teatro de Pedro Gonçalves. Foi nessa companhia que conheceu o gaúcho Ari Valdez, conhecido como Tatuzinho, com quem acabou se casando no fim de 1939.

Elizeth estava grávida, mas o casamento com Ari Valdez durou pouco. As condições financeiras estavam difíceis e, depois de se separar, passou a trabalhar como taxi-girl (dançarina de aluguel) na famosa boate Dancing Avenida.

Assim que teve a oportunidade de retornar a trabalhar depois da gravidez, aceitou o convite de Grande Otelo para se apresentar no Circo Olimecha. Em 1945, mudou-se para São Paulo, onde atuou no Salão Verde do Edifício Martinelli e participou do programa Pescando Humoristas na Rádio Cruzeiro do Sul. Em 1946, já de volta ao Rio de Janeiro, trabalhou como crooner da Orquestra de Dedé no Dancing Avenida. Em 1948, foi contratada pela Rádio Mauá para integrar o programa Alvorada da Alegria e, pouco tempo depois, passou a trabalhar na Rádio Guanabara.

Carreira: os discos

Com o incentivo de Ataulfo Alves, gravou seu primeiro disco em 1949 pela gravadora Star, acompanhada pela orquestra de Acir Alves. O reconhecimento veio com seu segundo disco, lançado em 1950 pela gravadora Todamérica, que incluiu o sambas “Canção de Amor”, de Chocolate e Elano de Paula. O sucesso de “Canção de Amor” rendeu-lhe um convite para integrar a equipe da Rádio Tupi, no Rio de Janeiro.

Em 1951, participou da estreia da recém-inaugurada TV Tupi no Rio de Janeiro, apresentando a aclamada Canção de Amor. No mesmo ano, fez sua estreia no cinema, interpretando essa mesma canção no filme “Coração Materno”, dirigido por Gilda de Abreu.

Em 1953, conquistou grande sucesso com o samba Alguém como Tu, de José Maria de Abreu e Jair Amorim. Nesse mesmo ano, gravou outras obras marcantes, como Nem Resta a Saudade, de Norival Reis e Irani de Oliveira; e os sambas Graças a Deus, de Carioca, e Amor que Morreu, de Nelson CavaquinhoRoldão Lima e Gilberto Teixeira. Ainda em 1953, integrou o show Feitiço da Vila, realizado na boate Casablanca, no Rio de Janeiro. O espetáculo foi um grande sucesso e foi para a boate Esplanada, em São Paulo. Entre 1953 e 1954, acabou firmando contratos com a Rádio e TV Record, Rádio Tupi e TV Rio.

Ao lado de Dick FarneyEmilinha Borba e Gilberto Milfont, Elizeth participou da histórica gravação da Sinfonia do Rio de Janeiro, de Tom Jobim e Billy Blanco, com arranjos de Radamés Gnattali. Nessa época, foi convidada para um jantar oferecido em homenagem à Carmen Miranda. O produtor Aloysio de Oliveira declarou que Carmen Miranda ao voltar para os EUA disse:

“Conheci no Rio de Janeiro uma mulata que canta pra chuchu. Chama-se Elizeth Cardoso”. Carmen Miranda

Em 1967, lançou o LP A Enluarada Elizeth, produzido por Hermínio Bello de Carvalho, com participações de CartolaPixinguinhaClementina de Jesus e Codó. O álbum incluiu clássicos como Carinhoso, de Pixinguinha e João de Barro, e Isso é que é Viver, com Pixinguinha, além de sambas da Mangueira com Cartola e Clementina.

Em 1960, gravou jingle para a campanha vice-presidencial de João Goulart. Nos anos 1960 apresentou o programa de televisão Bossaudade (TV Record, Canal 7, São Paulo). Em 1968, realizou um show histórico no Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, o espetáculo reuniu Elizeth, Jacob do Bandolim e seu conjunto Época de Ouro, além do Zimbo Trio, sob direção de Hermínio Bello de Carvalho. O evento, muito elogiado pela crítica, foi gravado e lançado em dois discos. Entre as canções apresentadas está a Barracão, de Oldemar Magalhães e Luiz Antônio, talvez um dos maiores sucessos da cantora.

O show foi considerado um encontro histórico da música popular brasileira, no qual foram ovacionados pela platéia; long-plays (LPs) foram lançados em edição limitada pelo MIS. Em abril de 1965 conquistou o segundo lugar na estréia do I Festival de Música Popular Brasileira (TV Record) interpretando Valsa do amor que não vem (Baden Powell e Vinícius de Moraes); o primeiro lugar foi da novata Elis Regina, com Arrastão. Serviu também de influência para vários cantores que viriam depois, sendo uma das principais a cantora Maysa.

Elizeth Cardoso lançou mais de 40 LPs no Brasil e gravou vários outros em PortugalVenezuelaUruguaiArgentina e México.

Morte

Em 1987, quando estava em uma excursão no Japão, os médicos japoneses diagnosticaram um carcinoma gástrico, o que obrigou a cantora a uma cirurgia. Apesar disso, a doença ainda a acompanharia durante os três últimos anos de vida. A cantora faleceu às 12h28 do dia 7 de maio de 1990, na Clínica Bambina, no bairro carioca de Botafogo. Foi velada no Teatro João Caetano, onde compareceram milhares de fãs. Foi sepultada, ao som de um surdo portelense, no Cemitério do Caju.

Estilo

Destacou-se como intérprete de sambas, tornando-se responsável pela consagração de inúmeros sambistas esquecidos na década de 1960. Além do choro, Elizethfoi uma das grandes intérpretes do gênero samba-canção (surgido na década de 1930), ao lado de MaysaNora NeyDalva de OliveiraÂngela Maria e Dolores Duran. O gênero, comparado ao bolero, pela exaltação do tema amor-romântico ou pelo sofrimento de um amor não realizado, foi chamado também de dor-de-cotovelo ou fossa. O samba-canção antecedeu o movimento da bossa nova (surgido ao final da década de 19501957).

Elizeth migrou do choro para o samba-canção e deste para a bossa nova gravando em 1958 o LP Canção do Amor Demais, considerado axial para a inauguração deste movimento, surgido em 1957. O antológico LP trazia ainda, também da autoria de Vinícius de Moraes e Tom JobimChega de SaudadeLucianaAs Praias Desertas e Outra Vez. A melodia ao fundo foi composta com a participação de um jovem baiano que tocava o violão de maneira original, inédita: o jovem João Gilberto.

Discografia

  • De 1950 até 1954, Elizeth Cardoso só lançou canções em discos 78 rpm.

Álbuns de estúdio solo

Álbuns de estúdio em conjuntos

  • Sax Voz (1960)
  • Sax Voz nº 2 (1961)
  • A Bossa Eterna de Elizeth e Cyro (1966)
  • A Bossa Eterna de Elizeth e Ciro nº 2 (1969)
  • Elizeth Cardoso e Silvio Caldas Vol. I (1971)
  • Elizeth Cardoso e Silvio Caldas Vol. II (1971)
  • Todo o Sentimento (1991)

Álbuns ao vivo solo e em conjuntos

  • Ao Vivo no Teatro João Caetano Vol. I (1968)
  • Ao Vivo no Teatro João Caetano Vol. II (1968)
  • Elizeth e Zimbo Trio Balançam na Sucata (1969)
  • Elizeth no Bola Preta com a Banda do Sodré (1970)
  • É de Manhã (1970)
  • Elizeth Cardoso em Tokyo (1977)
  • Elizethíssima (1981)
  • Recital (1982)
  • Elizeth - Uma Rosa para Pixinguinha (1983)
  • Leva Meu Samba (1984)
  • Luz e Esplendor (1986)  

Texto: Wikipedia

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quarta-feira, 15 de julho de 2026

VISITAS VETADAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Efeito eleitoral de proibição de contatos entre Flávio Bolsonaro e Jair é ambíguo

Parece lícito afirmar, contudo, que campanha não perde um grande estrategista

Alexandre de Moraes proibiu Flávio Bolsonaro de visitar Jair por 90 dias. A medida prejudica ou beneficia a campanha presidencial do primogênito? Esse é um daqueles casos em que é possível encontrar argumentos verossímeis para sustentar ambas as alternativas. Se é verdade que a decisão priva o candidato de contato com seu principal avalista político, também é fato que oferece à campanha o discurso da perseguição judicial, para mencionar apenas uma antinomia.

Argumentos adicionais para convencer um bolsonarista raiz de que a família é vítima da "ditadura da toga" até servem para movimentar as redes sociais, mas tendem a afetar pouco o cômputo dos votos. Esse é um cidadão que já votará em Bolsonaro mesmo que o jovem senador venha a complicar-se ainda mais no caso Master e em outros escândalos possíveis.

A questão é menos descobrir qual é a resultante de todos os impactos imagináveis da proibição e mais tentar aferir se e como a medida afetará o eleitor nem-nem (nem lulista, nem bolsonarista), ao qual provavelmente caberá definir uma disputa que vai se desenhando como acirrada. E vale lembrar que o próprio eleitor nem-nem se divide em vários subgrupos que podem responder diferentemente a um mesmo evento. O evangélico levemente progressista nem sempre concordará com o moderado com visão liberal da economia. São muitas variáveis e de ajuste muito fino, o que torna arriscadas as tentativas de computar esses efeitos.

Meu palpite é o de que eventuais danos tendem a ser limitados. O principal ativo eleitoral que Jair poderia dar a Flávio, que é o sobrenome, já lhe foi transmitido no nascimento e reforçado mais recentemente com a unção como candidato. Não sei se o ex-presidente tornado presidiário teria muito mais a oferecer. Jair tem carisma, mas tenho dificuldade para vê-lo como um estrategista. Se nem suas interações com objetos têm sido muito exitosas, como vimos nos casos da tornozeleira eletrônica e da Glock, o que não dizer de pessoas, que tendem a ser mais complicadas?

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DO CARTÃO VERMELHO AO TARIFAÇO, TRUMP IMPÕE A LEI DO MAIS FORTE

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

A intervenção no caso Balogun expôs um método que vai muito além do futebol

Primeiro vem a vontade do presidente; depois se fabricam pretextos para legitimá-la

A comemoração mais memorável da eliminação dos Estados Unidos da Copa aconteceu no vestiário da Bélgica. Depois da goleada por 4 a 1, os jogadores imitaram a dança desengonçada de Donald Trump ao som de "Y.M.C.A.". Nas redes sociais, a seleção belga arrematou: "Overturn this" —reverta esta.

A zombaria tinha endereço certo. Expulso contra a Bósnia por uma pisada no tornozelo de um adversário, Balogun deveria cumprir suspensão automática na partida seguinte. Trump telefonou a Infantino, disse que o lance nem sequer fora falta, chamou o árbitro brasileiro Raphael Claus de suspeito e pediu uma "segunda olhada". A Fifa manteve o cartão vermelho, mas suspendeu por um ano a execução da pena. Balogun enfrentou a Bélgica.

A intervenção indignou por ser uma intromissão inadmissível. Mas o caso apenas expõe, num campo de jogo, um método aplicado em arenas mais graves, como a política e as relações internacionais.

No método trumpista, a vontade de Trump, a única que importa, vem primeiro; as justificações não apenas vêm depois, como não precisam ser honestas ou convincentes. Afinal, a honestidade e o esforço lógico ficam reservados para quem se respeita ou para quem tem força para reagir —e Trump não respeita nem teme. Ele decide o que quer e, depois, alguém que se vire para arrumar um pretexto e uma lei. Se os fatos desmentem a acusação, procura-se outra. Se a regra impede a medida, encontra-se uma exceção. Não é a justificativa que conduz à decisão; razões são fabricadas retrospectivamente para dar ao decidido algum aspecto de legitimidade.

Os trumpistas gostam de chamar isso de "negociação dura". Não é. Negociar supõe reconhecer interesses, direitos e uma capacidade legítima de recusa da outra parte. Trump não busca composição, mas imposição e capitulação. Mobiliza a assimetria de poder, ameaça com custos desproporcionais e torna a resistência insuportável. O mais fraco deve ceder justamente porque é o mais fraco.

A humanidade conhece esse método há milênios. Numa fábula de Fedro, o leão caça com outros animais e, na hora da partilha, toma para si todas as porções. A primeira lhe pertence, justifica, porque ele é o leão; a segunda, porque participou da caça; a terceira, porque é o mais forte. A última razão é apenas uma ameaça: "Ai de quem se atrever a pegar alguma coisa". As justificações ornamentam o fato essencial de que o leão fica com tudo porque tem força —e pronto.

Em outra fábula, o lobo já decidiu devorar o cordeiro, mas antes se justifica. Acusa-o de turvar a água do riacho em que bebe. O cordeiro mostra que está abaixo na correnteza. O lobo diz que ele o insultou no ano anterior. O cordeiro responde que ainda não havia nascido. Se não foi ele, foi seu irmão, seu pai ou alguém da família. E o devora. Cada refutação apenas obriga o predador a inventar novo pretexto.

La Fontaine resumiu a moral: "A razão do mais forte é sempre a melhor". A frase denuncia a facilidade com que a força se fantasia de razão. O predador não argumenta para se submeter aos fatos, mas para encenar que a presa merece o destino já decidido.

Leis, direitos, tribunais, acordos e instituições democráticas foram inventados para domesticar essa lógica arcaica. Nem mesmo o governante mais poderoso deveria conseguir tudo o que quer apenas porque é o mais poderoso. As razões devem preceder as decisões, as provas devem sustentar as acusações e as regras devem valer também quando contrariam quem governa. Com Trump, as razões já não limitam o poder, apenas servem para as aparências.

O Brasil conhece bem a lógica do lobo. Para impor tarifas de 50%, Trump transformou o julgamento de Jair Bolsonaro e as decisões do STF numa "ameaça incomum e extraordinária" à segurança nacional, à política externa e à economia americanas. Para sancionar Alexandre de Moraes pela Lei Magnitsky, converteu decisões judiciais brasileiras em violações de direitos humanos. Depois, a pressão comercial ganhou novos fundamentos: balança comercial, comércio digital, meios de pagamento, propriedade intelectual, etanol, combate à corrupção e desmatamento.

O caráter pretextual aparece na ordem dos fatores, na desproporção das medidas e na facilidade com que os motivos são substituídos, acumulados ou abandonados. A punição permanece; a justificativa muda. Como no riacho, cada resposta do cordeiro convoca uma nova acusação. Trata-se da restauração de uma ideia de governo que a democracia julgava ter superado: a de que "porque sou o leão" pode voltar a ser a primeira e a última razão do poder.

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A CIDADANIA POR DIREITO DE NASCIMENTO É LIBERAL

Deirdre Nansen McCloskey, Folha de S. Paulo

Todos os países liberais adotavam essa prática, a menos que fossem dominados por um ódio iliberal aos imigrantes

Todos pensávamos que as instituições jurídicas nos salvariam, mesmo que os políticos fossem antiéticos

Em 33 países, principalmente os das Américas com grande presença de imigrantes, como o Brasil e os Estados Unidos, qualquer pessoa nascida lá é cidadã —independentemente da situação de seus pais. Até 1983, o Reino Unido, por exemplo, tinha esse direito à cidadania por nascimento. Minha filha nasceu em Londres em 1974 e, portanto, teve direito a um passaporte britânico e a um estadunidense.

Todos os países liberais adotavam essa prática, a menos que fossem dominados por um ódio iliberal aos imigrantes. Nos EUA, isso acontece com frequência. A "Lei de Estrangeiros e Sedição", já em 1798, demonizava os estrangeiros. Em inglês, a palavra "alien", que designa "extraterrestre", também significa simplesmente "estrangeiro". Na década de 1840, odiávamos os irlandeses. Em 1882, restringimos a imigração da China. Em 1925, cortamos a imigração de todos os países, exceto os do noroeste da Europa. Nessa época, os irlandeses eram tolerados. Não os judeus, italianos e eslavos.

Nos Estados Unidos, vivemos um episódio semelhante hoje, impulsionado pelo velho ódio de Donald Trump por estrangeiros —com exceção de duas de suas três esposas (República Tcheca; Eslovênia), sua mãe (Escócia), seu avô (Alemanha) e outros brancos, exceto muçulmanos e latino-americanos. Ele disse certa vez que queria imigrantes da Noruega.

Até a abolição da escravidão em nossos países, os escravos não eram cidadãos, é claro. O Brasil deve ter uma emenda constitucional que acabou com as castas de negros ou brancos. Nos EUA, isso aconteceu em 1868, na primeira seção da 14ª Emenda à Constituição: "Todas as pessoas nascidas... nos Estados Unidos... são cidadãs dos Estados Unidos... Nenhum Estado... poderá restringir os privilégios... dos cidadãos". Um cidadão é um cidadão. Nascido é nascido.

Bastante claro, não? Há cerca de uma semana, porém, três dos nove juízes da Suprema Corte dos EUA rejeitaram a proposta e disseram que Trump poderia negar cidadania a uma criança nascida nos EUA —se ela não for norueguesa, imagino. E um dos outros seis juízes disse que o Congresso, se quisesse, poderia aprovar uma simples lei com essa finalidade. Uma Constituição é uma lei fundamental, não uma lei promulgada. A 14ª Emenda é uma lei fundamental.

Felizmente, por essa maioria de 6 a 3, nossa Constituição foi (parcialmente) salva. Os brasileiros tiveram experiências recentes com uma Suprema Corte fazendo coisas incomuns. A atual Suprema Corte dos EUA é o caso dos EUA.

A Corte atribuiu poderes incomuns a Trump, como imunidade para qualquer crime que ele cometa enquanto presidente. É verdade que o Congresso também vem fazendo isso há um século ou mais. Para obter o livre comércio, o Congresso, há 50 anos, abdicou de seu poder sobre as tarifas. Não imaginava que um presidente usaria isso para extorquir concessões do Brasil ou para punir o Canadá por insultá-lo.

O Congresso acreditava ter criado agências "independentes", como os órgãos reguladores de rádio e televisão, o Departamento de Justiça ou o Banco Central. Os funcionários dessas agências deveriam ser profissionais e "objetivos". Presumia-se que um presidente não usaria meios legais e ilegais para corromper as agências.

Todos pensávamos que as instituições jurídicas nos salvariam, mesmo que os políticos fossem antiéticos.

Se me enganar uma vez, a culpa é sua, dizemos. Na segunda, a culpa é minha.

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INQUÉRITOS SOBRE EMENDAS PODEM LEVAR A RPISÃO DE PARLAMENTARES

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Há seis anos, desde 2022, o Supremo tenta sem sucesso impor critério ético aos avanços no Orçamento

A desobediência abusiva de congressistas é objeto de dezenas de ações em curso no tribunal

Conversando outro dia com experiente figura da República, deputado destacado na Constituinte, ministro em governos do PSDB e do PT, hoje no setor privado, ouvi que só há um jeito de levar o Congresso a cumprir a exigência de transparência no uso das emendas parlamentares: a prisão de meia dúzia de abusadores do Orçamento da União.

Falávamos sobre as mudanças nos meios de modos de se fazer política no Brasil, desde o início da abertura, nos últimos dois períodos da ditadura, até hoje quando a arte de negociação para construção de consensos foi substituída por uma era de impasses que se acumulam sem solução.

O interlocutor em tela está longe de ser um radical, firmou-se na política como negociador na escrita da Constituição, cujo texto implicou concessões à direita e à esquerda.

A proposta extrema de prisões como freio às exorbitâncias com recursos em tese destinados ao atendimento de demandas regionais da população decorre da resistência do acordo proposto em agosto de 2024 em reunião com representantes dos três Poderes na sede do Supremo Tribunal Federal.

Os termos eram objetivos: não haveria restrições ao uso das emendas, desde que cumpridos requisitos de transparência e rastreabilidade inerentes à decisão judicial de 2022, sobre a inconstitucionalidade do chamado orçamento secreto.

Pois não só houve o descumprimento, como a desobediência foi ampliada para novas modalidades de fraude —como a apropriação das emendas por gente sem mandato parlamentar— e a retomada parcial (ainda) da destinação de verbas sem identificação.

A hipótese de condenações e prisões não é um devaneio autoritário. Pode vir a ser consequência do resultado de algumas das dezenas de inquéritos que correm no STF para apurar ilegalidades cometidas por deputados e senadores.

Fica, contudo, a dúvida sobre a eficácia presumida pelo experiente espectador das coisas da política sobre se seria fator de inibição das práticas obscuras ou o deflagrador de novo impasse entre os Poderes da República.

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O PARADOXO DO CAGED

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

O mercado de trabalho está esfriando? Um fenômeno põe em xeque os indicadores

Alguns economistas observam que empresas não estão contratando - e, portanto, deixando de criar vagas - porque há uma escassez de trabalhadores disponíveis

Quando os dados do Caged sobre a criação de postos de trabalho em maio vieram muito abaixo do consenso das estimativas dos analistas, houve quem dissesse que, finalmente, o mercado de trabalho estava esfriando, refletindo uma desaceleração da atividade econômica em linha com o cenário traçado pelo Banco Central. Mas será mesmo?

Só para lembrar: em maio, segundo o Caged, a economia brasileira registrou a abertura de 72.960 postos de trabalho, enquanto os analistas previam a criação líquida de 120 mil vagas. Foi o menor saldo para meses de maio desde 2020.

O que alguns economistas vêm defendendo é que, ao contrário do que possa parecer, o número mais baixo de vagas formais criadas é resultado de um mercado de trabalho ainda aquecido e de uma atividade econômica resiliente. Na avaliação deles, os últimos dados do Caged refletem uma restrição na oferta de mão de obra: empresas e indústrias brasileiras não estão contratando – e, portanto, deixam de criar vagas – porque há escassez de trabalhadores disponíveis. Tudo isso ocorre em um cenário de taxa básica de juros de 14,25% ao ano, de um lado, e de forte estímulo fiscal promovido pelo governo, de outro.

A taxa de desemprego, de 5,6% no trimestre encerrado em maio, segue próxima do menor nível da série histórica. Há, inclusive, menos desocupados no País hoje (5,9 milhões) do que em dezembro de 2014 (7,1 milhões), ao fim do primeiro mandato da ex-presidente Dilma Rousseff, apesar do crescimento da população nesse período. No fim do primeiro trimestre deste ano, apenas 0,6% da força de trabalho desocupada procurava emprego havia entre um e dois anos, enquanto 1% buscava uma vaga havia mais de dois anos. No auge da pandemia de covid-19, no segundo trimestre de 2021, 3,6% dos desempregados estavam nessa condição havia mais de dois anos.

Outro indício da escassez de mão de obra é o porcentual de desligamentos a pedido sobre o total de desligamentos. Em geral, quem pede demissão o faz porque encontrou uma oportunidade com remuneração maior ou porque acredita que conseguirá se recolocar com facilidade. Em maio, segundo o Caged, 36,1% dos desligamentos ocorreram por iniciativa do trabalhador. Em igual mês de 2025, esse porcentual foi de 35,9%. Em maio de 2021, era de 29,5%.

A massa de rendimento real do trabalho – resultado da combinação entre emprego e rendimento médio – acumulou crescimento de 6,1% nos últimos 12 meses. Não por acaso, ao menos nos níveis salariais que podem ou estão dispostas a oferecer, muitas empresas seguem com dificuldade para preencher vagas abertas.

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A AMEAÇA COLOMBIANA

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

General revela a ameaça colombiana ao Exército brasileiro na Amazônia que substituiu Nicolás Maduro

Remanescentes das Farc se tornaram a principal ameaça aos homens do Exército após captura do ditador venezuelano

Toda semana soldados da 2.ª e da 16.ª Brigadas de Infantaria de Selva são atacados e trocam tiros com integrantes do Grupos Armados Organizados Residuais (GAOR). Trata-se de dissidentes das Farcs (Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia) que se recusaram a aderir ao acordo de paz de 2016 e formam um dos mais fortes cartéis do narcotráfico da América do Sul.

A situação chegou a tal ponto que a principal ameaça ao Brasil enfrentada pelo Comando Militar da Amazônia (CMA) deixou de estar na fronteira de Roraima com a Venezuela, área da 1.ª Brigada de Infantaria de Selva (BIS). Com sede em Boa Vista, ela havia recebido o 18.º Regimento de Cavalaria Mecanizado em 2023 em razão do risco de o ditador Nicolás Maduro usar o Brasil para se apossar da região de Essequibo, na Guiana. Para lá também havia sido enviado o primeiro lote de mísseis antitanque Max 1.2 AC, adquiridos pelo Exército, além de artilharia antiaérea de baixa altura.

A revelação sobre o tamanho da crise provocada pelos ataques da narcoguerrilha colombiana aos Pelotões Especiais de Fronteira (PEF) foi feita pelo chefe do Estado-Maior do Exército, general Francisco Humberto Montenegro Júnior, no auditório do quartelgeneral do Exército, durante o seminário A Evolução da Guerra: Desafios para o Componente Terrestre.

“O cenário mudou. Hoje, a gente tem um cenário muito preocupante no CMA. Nossos pelotões, nossos tenentes e sargentos, estão combatendo toda semana, trocando tiro com guerrilheiros dos GAORs colombianos que passam a nossa fronteira para escoar a droga, particularmente com destino ao continente europeu e africano pela rota do Solimões e pela rota Caipira, entrando pelo centro-oeste. Hoje, talvez, a nossa prioridade seja ali”, afirmou o general.

Um outro dado também retrata a dimensão do crime organizado transacional em nossas fronteiras. Ele foi divulgado pelo comando do Exército em maio: A Força Terrestre provocou um prejuízo de R$ 600 milhões aos criminosos em 4 mil ações em 2025. Foi assim que o 2.º PEF, da 16.ª BIS, apreendeu uma tonelada de skunk na madrugada do dia 27 de fevereiro de 2025, no Rio Içá, na fronteira com a Colômbia. “A gente está pesando o que comprar de novos equipamentos para o pessoal que está no combate diário”, completou o general.

Enquanto as forças políticas do Brasil discutem o “sexo do crime” – com a direita insistindo em mudar o nome das facções para terrorismo como se isso fosse resolver algo –, os bandidos continuam a se infiltrar no País: na política, na economia e nas fronteiras. A nova ameaça revelada pelo general Montenegro é prova disso. •

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DANO COLATERAL DA GUERRA NO AMBIENTE DE NEGÓCIOS

Fernando Exman, Valor Econômico

Há um dano colateral da guerra no Oriente Médio no ambiente de negócios do Brasil, mais especificamente no setor de petróleo. Ele tem nome e sobrenome: Imposto de Exportação.

Empresas privadas que atuam no segmento têm levado essa preocupação para seus interlocutores em Brasília, na esperança de que ocorra uma recuperação da previsibilidade fiscal, enquanto tentam se preparar para os leilões de blocos que ocorrerão em outubro. Existe também a expectativa, como disse o próprio presidente Luiz Inácio Lula da Silva, de que “em pouco tempo” a Petrobras anuncie se há petróleo na Margem Equatorial e o potencial econômico dessa região que abrange a faixa marítima de mais de 2,2 mil quilômetros entre o Amapá e o Rio Grande do Norte. A mudança abrupta no regime tributário foi uma péssima notícia para quem tem que convencer a matriz a investir no Brasil.

Mas, se as companhias privadas tratam esse “risco político” com relativo desembaraço, na Esplanada dos Ministérios a discussão é feita com discrição.

O Imposto de Exportação sobre petróleo foi instituído em março, com alíquota de 12%, após o recrudescimento da guerra de Estados Unidos e Israel contra o Irã, por meio de medida provisória que também estabeleceu uma subvenção à comercialização de óleo diesel de uso rodoviário. Ao Congresso, o Palácio do Planalto argumentou que o novo imposto tinha caráter regulatório. Sua finalidade seria “capturar e transferir” à sociedade parcela do ganho extraordinário gerado pela valorização abrupta do preço internacional de um recurso natural não renovável, diz a exposição de motivos da MP, assim como contribuir para a mitigação dos efeitos do choque de preços sobre a população e os setores produtivos.

O setor reagiu. Queixou-se que a medida tinha viés arrecadatório, até porque próprio governo reconhecia que parte das receitas adicionais poderia ser usada para compensar a redução da contribuição para o PIS/Pasep e da Cofins incidentes sobre a importação e a comercialização de óleo diesel.

Pode-se argumentar que vários países adotaram medidas emergenciais para mitigar os efeitos da guerra em suas economias. Ela elevou custos de importação e, também, o risco de desabastecimento em diversos países que não são autosuficientes. Isso sem falar na deterioração das expectativas em relação à inflação.

Em um país com eleições gerais no calendário próximo, como o Brasil, não era de se supor que um governante que busca a reeleição ficaria de braços cruzados. Mas ainda assim a calibragem do Imposto de Exportação, que na semana passada ficou mantido em 12% por decisão do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior (Gecex-Camex), foi objeto de discussões internas. Antes, portanto, do novo recrudescimento do confronto.

Houve quem ponderasse que dificilmente o mercado retomaria as condições anteriores ao conflito no curto prazo, ainda que as cotações apresentem quedas eventuais.

Diante disso, manter integralmente a alíquota de 12% não refletiria o cenário mais agudo que justificou a MP. Mas eliminar totalmente o imposto de uma hora para a outra, embora fosse o desejo do setor produtivo, enfraqueceria o argumento de que a medida tinha função regulatória. Afinal, a situação no Estreito de Ormuz também não estava normalizada.

Uma saída debatida foi a redução do imposto para 6% durante 60 dias, com uma revisão em 30 dias. Não se abriria mão da ferramenta imediatamente, mas pelo menos seria dada uma sinalização de transição, sob o argumento de que uma redução gradual poderia contribuir para uma maior previsibilidade dos agentes econômicos. Já a retirada integral do imposto e sua reintrodução logo depois em 12% seria o pior cenário, pois ampliaria ainda mais a “volatilidade regulatória”, dificultaria a formação de preços e prejudicaria a gestão de riscos por parte dos exportadores.

É um claro exemplo de imprevisibilidade no ambiente de negócios apontado por especialistas em risco político.

Executivos do setor vão além, ao alertar que os investimentos privados serão fundamentais já na próxima década para evitar que a produção nacional de petróleo entre em trajetória declinante. Os impactos sobre a arrecadação e a balança comercial não deveriam ser desprezados, acrescentam, uma vez que mudanças abruptas na tributação podem afetar decisões de investimento.

Informações desses interlocutores que circulam em Brasília ressaltam ainda a crescente competição internacional por capital, em um momento que a América Latina vive um novo ciclo de expansão da indústria petrolífera em países como Guiana, Suriname e Venezuela. O Brasil, contudo, é visto como menos amigável do ponto de vista fiscal do que esses concorrentes.

Nos últimos dias, um novo acrônimo inspirado na culinária mexicana começou a fazer sucesso em Wall Street. Depois de “Taco”, em referência à expressão cuja tradução é que “Trump sempre amarela”, veio o “Nacho”. São as operações do mercado baseadas na percepção de que o Estreito de Ormuz permanecerá fechado por muito tempo, ou seja, “Not A Chance Hormuz Opens”. No Brasil, o sabor desse “nacho” já está sendo amargo, mas ele pode gerar efeitos de longo prazo ainda mais indigestos se acabar afastando investimentos em uma área estratégica.

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QUANDO A "PEQUENA POLÍTICA" PÕE EM RISCO O PAPEL DO ESTADO DEMOCRÁTICO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Se a distribuição dos investimentos da União deixa de obedecer critérios técnicos, de transparência e de avaliação de resultados, o Estado passa a ser fragmentado, mas ningém é responsável pelos resultados

A reação do presidente nacional do PL, Valdemar Costa Neto, às decisões do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), revela algo mais profundo do que uma disputa judicial em torno de emendas parlamentares. Ao tratar como natural a participação de um dirigente partidário sem mandato na indicação de verbas públicas — prática também atribuída pela Polícia Federal ao ex-presidente da Câmara Eduardo Cunha —, Valdemar expõe uma cultura política dominante no Congresso Nacional que passou a considerar o Orçamento da União patrimônio compartilhado por cúpulas partidárias, líderes do Congresso e operadores instalados na máquina legislativa.

Segundo a investigação, 21 emendas relacionadas ao dirigente do PL movimentariam R$ 119,2 milhões, dos quais cerca de R$ 104 milhões já teriam sido pagos. A defesa nega dolo, fraude e obtenção de vantagem pessoal e anuncia que contestará as medidas. No caso de Eduardo Cunha, são investigadas 29 emendas, no valor de R$ 6,1 milhões, registradas como indicações da liderança do Republicanos, embora o ex-deputado não exerça mandato. Cunha também nega irregularidades.

Em ambos os episódios, a questão central não é o diálogo político, mas a possível existência de “cotas orçamentárias informais” administradas por agentes sem competência constitucional para dispor do Orçamento. A decisão mais recente de Dino reafirma que a indicação de emendas é um ato funcional e personalíssimo. Emendas não são propriedade particular, não podem ser cedidas, emprestadas ou vendidas, nem administradas por ex-parlamentares, dirigentes partidários, empresários ou intermediários.

Depois do fim do orçamento secreto, coibido pelo Supremo, a opacidade voltou a se instalar por outros caminhos. E não se resume às suspeitas envolvendo Valdemar ou Cunha, nem pode ser atribuído exclusivamente ao PL ou ao Republicanos. Trata-se de uma prática generalizada, que beneficia principalmente os grandes partidos, do PL ao PT, passando pelas legendas do Centrão.

É um iceberg. Auditoria da Controladoria-Geral da União examinou R$ 20,7 bilhões em emendas Pix distribuídas, entre 2020 e 2024, a 5.335 municípios — 95% das cidades brasileiras. Numa amostra de 15 municípios, 12 apresentaram transparência e rastreabilidade inadequadas. Entre as 14 prefeituras que já haviam executado os recursos, nove apresentaram irregularidades graves, como indícios de direcionamento de contratações, sobrepreço e superfaturamento.

Na saúde, 75 auditorias do Departamento Nacional de Auditoria do Sistema Único de Saúde, realizadas em 48 municípios de 23 unidades da Federação, identificaram impacto financeiro de R$ 25,9 milhões sobre R$ 53,3 milhões fiscalizados. Desse total, R$ 20,6 milhões foram classificados como danos efetivos ao erário e R$ 5,3 milhões como desvios de recursos.

Disparidade de armas

Não se trata de demonizar as emendas. Uma coisa é atender necessidades locais ignoradas pela burocracia federal e aproximar o Orçamento das demandas dos municípios. Outra é transformar um instrumento complementar no eixo dominante da política fiscal e eleitoral. Quando a distribuição deixa de obedecer a planejamento nacional, critérios técnicos, transparência e avaliação de resultados, o Estado passa a ser fragmentado, mas ninguém se responsabiliza pela efetiva execução dos recursos nem com a política a que servem.

O pensador italiano Antônio Gramsci distinguia a “pequena política” — feita de intrigas, articulações de bastidores e interesses fisiológicos — da “grande política”, relacionada à organização do Estado, às estruturas econômicas e sociais e aos grandes interesses nacionais. No Brasil, as emendas inverteram essa hierarquia. A pequena política apropriou-se de parcela tão expressiva do Orçamento que se transformou numa questão de Estado, ou seja, da grande política.Se antes foram os “anões do Orçamento”, agora é o colégio de líderes de bancada.

Em 2024, o conjunto das emendas chegou a aproximadamente R$ 47,4 bilhões, valor próximo dos R$ 55 bilhões destinados ao Programa de Aceleração do Crescimento, em 2024. O volume executado dessas emendas atingiu R$ 9,3 bilhões em 2025 e chegou a R$ 12,1 bilhões no Orçamento de 2026. A Transparência Brasil identificou R$ 1,3 bilhão executado em 2025 por meio de 1.341 emendas registradas apenas em nome de líderes partidários. A Comissão de Saúde concentrou R$ 818,1 milhões dessas indicações sem autoria nominal.

Em vez de desaparecer, o orçamento secreto mudou de nome, de modalidade e de operador. PP, União Brasil, Republicanos, PL, Avante, Podemos e Solidariedade utilizaram as chamadas emendas de liderança em 2025. Em 2026, o PT também passou a empregar o modelo. A generalização explica a resistência do Congresso. A consequência eleitoral é uma disparidade de armas quase intransponível entre quem tem e quem não tem mandato e a formação de um regime no qual um pequeno grupo de líderes de bancada detém o controle da maior parte dos investimentos da União. E que coloca em risco o processo democrático, ao manipular a competitividade nas eleições parlamentares.

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CENÁRIO DE OITO MESES ATRÁS

Vera Magalhães, O Globo

Presidente conseguiu, à base de uma sequência de medidas com viés eleitoral, interromper a trajetória de deterioração; impulso inicial de senador se dissipou após uma sequência de reveses

Lula conseguiu praticamente “zerar” o desgaste do primeiro semestre, período em chegou a ver a dianteira nas pesquisas eleitorais ameaçada por Flávio Bolsonaro e teve o favoritismo questionado por analistas graças à reprovação maior que a aprovação ao seu governo. Flávio, por sua vez, voltou praticamente ao patamar de intenções de votos que tinha em dezembro, quando foi apontado por seu pai, Jair, como candidato a substituí-lo na disputa presidencial.

Essas são as principais conclusões a partir da rodada de julho da pesquisa Genial/Quaesta última antes do início oficial da campanha.

Lula conseguiu, à base de uma sequência de medidas com viés eleitoral lançadas nos últimos meses, interromper a trajetória de deterioração justamente quando ela ameaçava se transformar numa mudança estrutural do cenário eleitoral.

Até abril, o governo acumulava más notícias. A desaprovação crescia, a avaliação negativa ultrapassava a positiva e Flávio chegava a aparecer numericamente à frente do petista no cenário de segundo turno.

A pesquisa Quaest de julho mostra outra fotografia. Lula volta a liderar todos os cenários de segundo turno, recupera terreno na aprovação do governo e vê a avaliação positiva empatar com a negativa. Mais importante do que a melhora em si é o fato de ela interromper uma tendência que parecia consolidada.

A curva de Flávio vai em sentido oposto. Quando foi ungido pelo pai como sucessor, em dezembro, aparecia sete pontos atrás de Lula no segundo turno. Nos meses seguintes, capitalizou a transferência do espólio bolsonarista, reduziu a diferença e chegou a abrir vantagem. Agora retorna exatamente ao mesmo patamar de dezembro. O impulso inicial se dissipou após uma sequência de reveses que começou com o caso Dark Horse e se agravou com os ruídos provocados pela relação com Donald Trump e, por fim, o vídeo-desabafo de Michelle Bolsonaro.

Talvez o dado mais relevante da pesquisa seja justamente aquilo que ela diz sobre os limites da oposição. Existe um eleitorado claramente disposto a votar contra Lula. Mas esse contingente continua sem produzir um candidato capaz de romper o teto da direita. Flávio Bolsonaro, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos aparecem separados por poucos pontos nos cenários de segundo turno contra o presidente.

Evidentemente, eles têm graus muito diferentes de conhecimento público e densidade política. Ainda assim, o recado da pesquisa é que, hoje, nenhum deles consegue transformar o voto anti-Lula em uma vantagem competitiva diante do presidente.

Isso também tira, ao menos por ora, de Flávio e do PL o trunfo com que se apresentavam sobretudo ao mercado: a única possibilidade de vencer Lula. O retrato de julho é que, no segundo turno, ele não vai muito melhor que os demais postulantes —que, nas últimas semanas, mudaram a estratégia e passaram a tentar se descolar do senador no discurso, na esperança de crescer no primeiro turno, o que a pesquisa mostra que ainda está longe de acontecer.

O eleitor independente, tradicionalmente o segmento mais sensível às oscilações da conjuntura, descreveu nos últimos meses um retorno paulatino a Lula. Foi ele quem abandonou presidente no início do ano. É ele quem agora volta a se aproximar. A aprovação do governo entre os independentes sobe até empatar com a desaprovação, e, no segundo turno, Lula volta a abrir vantagem justamente nesse grupo. Em eleições polarizadas, é quase sempre aí que o resultado acontece.

Há uma coincidência temporal difícil de ignorar. O conhecimento do Desenrola 2.0 subiu de 57% para 66%, e a avaliação positiva, de 50% para 55%. Entre os beneficiários, os que sentiram aumento significativo da renda passaram de 15% para 24%. A recuperação de Lula ocorre justamente quando essas políticas começam a ser percebidas pelo eleitorado.

Isso não significa que a eleição esteja resolvida. Ao contrário. Os índices de rejeição continuam elevados e a polarização permanece sendo o principal motor da disputa. Mas a pesquisa sugere que, depois de um primeiro semestre em que o governo parecia jogar apenas na defesa, Lula conseguiu recuperar a iniciativa política.

Um dos dados que mais atestam essa melhora é o dos que acham que Lula merece ou não um novo mandato: há um mês, 55% achavam que Lula não merecia mais quatro anos, e 41% achavam que merecia. Agora essa diferença caiu para 6 pontos percentuais: 51% a 45%.

O levantamento mostra também que a oposição, apesar de preservar um sólido eleitorado, ainda não encontrou uma candidatura capaz de transformar o desgaste do presidente em maioria eleitoral.

Em outras palavras, a fotografia de julho se parece muito mais com a de dezembro do que com a de abril. Lula supera a fase mais adversa de seu mandato e volta a ocupar a posição de favorito. Flávio Bolsonaro continua sendo o nome preferido da direita, mas ainda não conseguiu provar que é capaz de ir além do bolsonarismo, como sugere sua queda entre a direita não-bolsonarista, de 82% para 75%.

O problema dos adversários de Lula é que em dezembro faltavam 10 meses para a eleição, e agora faltam três. Para quem precisa virar o jogo, quanto menos tempo, pior.

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O MERCADÃO DAS EMENDAS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Mercadão de emendas abre novos negócios para políticos sem mandato

STF vê 'privatização do orçamento' em repasses operados por Cunha e Valdemar

Eduardo Cunha foi cassado e preso, mas não largou o osso. Sem mandato desde 2016, o ex-deputado encontrou uma nova forma de roer o orçamento. Abocanhou emendas reservadas para parlamentares em exercício.

O contrabando foi descoberto pela Polícia Federal. Em ofício ao Supremo, os investigadores descreveram Cunha como “beneficiário direto de malfeitos”. O ministro Flávio Dino mandou bloquear R$ 6 milhões em bens do ex-deputado, que nega irregularidades.

A PF cruzou dados e identificou 21 emendas terceirizadas para Cunha. Ele destinou o dinheiro a pequenas cidades no interior de Minas Gerais, sua nova base eleitoral. Em diálogo com uma operadora do esquema, o fundador da Jesus.com se mostrou impaciente com prefeitos recrutados para a barganha. “Não aguento mais esses mineiros enrolados”, queixou-se.

O pai de Dani Cunha não está sozinho. O chefão do PL, Valdemar Costa Neto, também se assenhorou de emendas alheias. Sem mandato desde 2013, ele destinou ao menos R$ 119 milhões a aliados. Ontem o ex-deputado definiu a prática como a “coisa mais natural do mundo”. “Eu faço sugestão, o líder assina se quiser”, disse à GloboNews.

Num dos casos rastreados pela PF, uma emenda de um deputado do Rio de Janeiro pagou o cachê de uma dupla sertaneja no interior de São Paulo. O show de Thaeme & Thiago custou R$ 280 mil. A grana foi torrada em Guaimbê, município de 5,5 mil habitantes cuja prefeita é ligada a Valdemar.

Na última década, o Congresso avançou com fúria sobre os cofres federais. Os parlamentares criaram regras para morder fatias cada vez maiores do dinheiro dos impostos. A novidade é a usurpação de emendas por políticos sem mandato.

O ministro Dino define a prática como “privatização do orçamento público”. O Congresso criou um mercadão de emendas, em que parlamentares passaram a se sentir livres para negociar suas cotas no varejo. No domingo, o deputado Hugo Motta reclamou dos bloqueios e acusou o Supremo de “tentar criminalizar a atividade política”. Pupilo de Cunha, o presidente da Câmara conhece bem o que defende.

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A DIREITA ESTÁ ESFARELADA

Elio Gaspari, O Globo

Na segunda metade do século passado, a esquerda brasileira foi uma das mais divididas do mundo. Integrantes famosos de suas organizações geralmente passaram por três delas. Dilma Rousseff passou por quatro: Política Operária (Polop), Comando de Libertação Nacional (Colina), Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) e Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), todas clandestinas. Hoje é a direita que se esfarela. O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, potencial candidato ao Planalto, resolveu ficar de fora. Restou o bolsonarismo dinástico. Ao tempo dos Bragança, D. Pedro II se dava mal com o cunhado, o Conde D’Áquila, mas a rusga ficou circunscrita ao palácio. Hoje, Michelle Bolsonaro grava vídeo alfinetando Flávio Bolsonaro, que, por sua vez, tem o apoio do pai encarcerado.

Como ensina o repórter Octavio Guedes, eles se desentendem seguindo um roteiro de novelas de televisão, em capítulos sem vestígio de interesse público.

Da velha direita sobrou pouca coisa. Ronaldo Caiado e Romeu Zema ainda não conseguiram decolar. Flávio, por sua vez, arrisca ser abatido em voo.

O resultado desse esfarelamento está refletido nas pesquisas. O governo de Lula 3.0 é reprovado por um percentual maior que o dos que o aprovam, mas ele lidera as preferências eleitorais em todas as prévias.

A direita brasileira perfilou-se diante de Jair Bolsonaro em 2018, depois do terremoto provocado pela Operação Lava-Jato. Quatro anos depois e mais de 700 mil mortos na pandemia de Covid, uma parte considerável do voto conservador dispensou-o. Preservando-o, arriscou-se. Mantendo-se alinhada depois que o Supremo Tribunal Federal o encarcerou, dobrou a aposta. Acreditar que ela continuará alinhada depois que Bolsonaro assumiu, por necessidade, a posição de chefe de uma dinastia, exige que a aposta seja triplicada, o que parece ser improvável. Resultado: segundo o Datafolha, em junho, 19% daqueles que se dizem potenciais eleitores de Flávio Bolsonaro podem ser colocados à esquerda do espectro político, e 24% estariam à direita. (Só 3% dos que preferem Bolsonaro podem ser considerados de esquerda.) A conclusão provável é de que um pedaço da direita (leia-se conservadorismo) migrou.

Isso já aconteceu depois que, em 1981, a tigrada explodiu uma bomba no Riocentro, matando o sargento que a carregava no colo. Três anos depois, a campanha das Diretas teve o apoio de luminares do conservadorismo e até mesmo de alguns signatários do Ato Institucional nº 5, em 1968.

Lula busca essa direita. Não foi à toa que ele disse à diretora-geral do Fundo Monetário Internacional que nunca foi esquerdista. Foi, e sempre será, uma “metamorfose ambulante”. (Palavras suas.)

A novela da famiglia Bolsonaro reflete perplexidade e, pelo lado dos eleitores, cansaço com a polarização. O arco antipetista de 2018 formado em torno de Bolsonaro se dissolveu.

Até agora, os candidatos de uma possível terceira via não sabem o que fazer com o voto bolsonarista e já se chegou à metade de julho. Pelo andar da carruagem, o rabo continuará correndo atrás do cachorro.

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RELEMBRANDO JERÔNIMO PRADO

Há 117 anos nascia Jerônimo Medeiros Prado. Nasceu em 15 de julho de 1909, no povoado de São Vicente, distrito de Jaibaras, Sobral (CE). Em 1932 Jerônimo Prado mudou-se para Sobral com a família e dar início a uma nova fase de sua vida, começa a ser comerciante.

Em 1940 Jerônimo Prado funda em Sobral a Brasil Oiticica, era a pioneira no comércio de oleaginosas da zona norte do Ceará. Com o sucesso da empresa, Jerônimo Prado mais uma vez se aventura e investe na cultura sobralense e cria o primeiro cinema da cidade, o Cine Alvorada, que se tornou referência cultural no Ceará.

Em 1966, Jerônimo Prado é eleito prefeito de Sobral, começa então a saga da família Prado na política sobralense como exemplo de boa gestora. De 1967 a 1971, Sobral foi administrada por Jerônimo Prado. Por meio da Lei Municipal número 214, de 23 de outubro de 1968 é criada a Universidade Vale do Acaraú – UVA. A Universidade se torna referência no ensino superior e cultural em Sobral e na zona norte do estado do Ceará.

Jerônimo Medeiros Prado, o início de um legado de respeito e perseverança ao lado do povo sobralense.

*15/07/1909

+17/10/2003

Abaixo, leia reportagem de 2015 de Thiago Alves, Cantinho da Saudade, do Correio da Semana, via Blog do Artemísio da Costa

Dentre os grandes líderes que Sobral já conheceu, o ex-prefeito Jerônimo Medeiros Prado foi o último a desaparecer. Em 2002, por ocasião do transcurso dos seus 93 anos, ele prestou histórica entrevista ao companheiro Artemísio da Costa (Poucas & Boas), em que falou sobre sua vida, sua história pessoal e política. Confira abaixo.

Através das mãos da parteira dona Maria da Cruz, Jerônimo Medeiros Prado veio ao mundo no dia 15 de julho de 1909, na localidade de São Vicente - Jaibaras, distrito de Sobral (CE). Eram seus pais Maria Raimunda de Souza Aguiar e José do Nascimento Prado. Sua escolaridade foi por pouco tempo, no ano de 1920, com as professoras Joana Prado e Nazaré Ferreira da Ponte.

Já aos 16 anos conseguiu seu primeiro emprego no comércio do Sr. José Rocha, no distrito de Jordão. Em 1932 tornou-se comerciante em Sobral, exercendo essa atividade profissional por muitos anos, desfrutando de elevado conceito. Em 1940, começou suas atividades de agropecuarista, que exerceu até perto do final de seus dias.

Em 28 de novembro de 1929 casou-se com Francisca Gomes Parente Prado, filha de José Inácio Gomes Parente e Leonília Gomes Parente. Dessa união nasceram oito filhos: Zilar (falecida), José Prado (falecido), Leda, Ivone, Marlene, Zulene, Yara, Regina Coeli.

Jerônimo Prado também atuou como primeiro agente da Brasil Oiticica, no período de 1950 até o encerramento de suas atividades neste município. Foi proprietário de fornecimento de frentes produtivas no período de 1958 a 1970. No ramo da diversão, foi sócio-proprietário (com João Anastácio Dias) no Cine Alvorada, de 1964 a 1995.

Jerônimo Prado ingressou na política na extinta União Democrática Nacional (UDN). Segundo ele, desde 1950 passou a dar continuidade ao trabalho do seu estimado amigo e chefe, Dr. José Saboya de Albuquerque.

Em 1963 foi candidato a prefeito de Sobral, mas não foi bem sucedido, apesar de ter obtido boa votação. Em 1966 candidatou-se novamente, sendo, dessa vez, eleito com expressiva votação, vencendo Joaquim Barreto Lima.

Contando com seu fiel aliado, Pe. José Palhano de Saboia, Jerônimo administrou a Sobral no período de 1967 a 1970.  Recordava que contou com grandes colaboradores, tais como: Dr. Luciano Arruda Coelho, Procurador do Município; Pe. Moésia Nogueira Borges, secretário de Educação; Engenheiro Washington, responsável pelo setor de Edificações, e com o Cônego Francisco Sadoc de Araújo, que foi primeiro Reitor da Fundação Universidade Vale do Acaraú (UVA), atualmente Universidade Estadual Vale do Acaraú.

Dentre suas principais realizações, Jerônimo Prado dava destaque para as seguintes obras: Construção do Estádio Plácido Aderaldo Castelo; construção do Centro Social Urbano (CSU); construção da Avenida do Estudante (hoje Dr. Guarany); construção e implantação do sistema de abastecimento de água da adutora de Jaibaras; Estação de tratamento de água; construção de 500 casas populares no bairro Sinhá Saboia; construção de dezenas de escolas; construção e reformas de praças. Mas garante que a principal foi a criação da hoje Universidade (UVA), com a imprescindível colaboração do Côn. Sadoc de Araújo e do Dr. Luciano Arruda, através da Lei Municipal nº 215, de 23 de outubro de 1968.  Também enalteceu a valorosa contribuição de Dom Walfrido Teixeira Vieira, bispo da Diocese de Sobral à época, que cedeu o prédio e as instalações do antigo Seminário da Betânia. Na entrevista fez questão de destacar um desses seus importantes colaboradores: “Sobre a UVA, o Sadoc foi tudo. Mesmo com poucos recursos ele fez tudo”.

Jerônimo Prado falava com orgulho do sucesso obtido como prefeito de Sobral. Afirmava que todos os seus projetos foram muito bem aceitos e as contas todas pagas. “Nunca houve uma denúncia. Durante a minha administração nunca houve injustiça para com os municípios”, dizia sempre. Citava, também, que política era uma coisa muito difícil: “O adversário não mede o que vai dizer; ele quer é ofender. Mas eu nunca fiz política com ofensas”.  O ex-prefeito relembrava que o Estado ajudava apenas com uma pequena verba para a Educação e que a maioria das obras era feita com recursos da prefeitura.

Sobre suas alegrias na vida, o ex-prefeito afirmava com convicção que uma foi ter saído da política sem nunca ter recebido nenhuma vantagem, e com seu nome respeitado: “Saí da política com o nome intacto, limpo. Não saí com ladrão”. Quando lhe foi indagado sobre a maior tristeza, respondeu, em lágrimas: “A morte do meu filho”. Referia-se ao também ex-prefeito José Parente Prado, falecido em Sobral, aos 66 anos, em 26 de maio de 1999.

Apesar da pouca escolaridade, Jerônimo Prado era conhecido por humildade, sua inteligência e perspicácia.  Era admirado pela maneira peculiar de ouvir mais para aprender sempre; falar pouco para errar menos e pensar muito antes de tomar uma decisão importante. Em 1993, ano da entrevista, ele já falava: “Antes se trabalhava muito para promover a sociedade e o Estado; hoje está tudo diferente: só se vê corrupção. Mas eu desejo ao povo de Sobral que seja muito feliz, sempre na nossa religião”.

Sobre ter vida longa, chegar aos 93 anos, em 2002, comentava: “Fazer 93 anos faz me sentir compensado porque até essa data, graças a Deus, não cheguei a cometer nenhuma indignidade”.

Jerônimo Medeiros Prado faleceu em Sobral, aos 94 anos, no dia 17 de outubro de 2003, acha-se sepultado no cemitério São José desta cidade. É lembrado em instituições que levam seu nome na sede e distritos e com um busto na (UVA). Jerônimo Medeiros Prado ainda dá nome a uma rua (bairro Dom José), a uma avenida (bairro Cidade Pedro Mendes Carneiro) e a um bairro, onde fica o condomínio Village Betânia, todos na cidade de Sobral.

Por Thiago Alves, Cantinho da Saudade, do Correio da Semana, via Blog do Artemísio da Costa

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