sexta-feira, 24 de abril de 2026

A SINCERIDADE DE LULA NA ESPANHA

Artigo de Fernando Gabeira

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso histórico em Barcelona. Ele descreveu a essência do momento político mundial, caracterizado pelo declínio da social-democracia e a ascensão do populismo de direita. Muitos pesquisadores e estudiosos já o fizeram. Mas a fala de Lula, com palavras simples, tem o valor existencial de alguém que detém o poder por muitos anos.

“O progressismo não conseguiu superar o pensamento econômico dominante. O projeto neoliberal prometeu prosperidade e entregou fome, desigualdade e insegurança. Provocou crise atrás de crise. Ainda assim, sucumbimos à ortodoxia. Temos sido os gerentes das mazelas do neoliberalismo. Governos de esquerda ganham as eleições com discurso de esquerda e praticam austeridade. Abrem mão de políticas públicas em nome da governabilidade. Nós nos tornamos o sistema. Por isso, não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema.”

Casualmente, eu estava na Inglaterra durante a eleição de Tony Blair, e o Partido Trabalhista estava fora do poder há 15 anos. Havia muita expectativa. Mas seus movimentos foram de absorção do que se considerava o sucesso de Margaret Thatcher.

Conforme descreve John Gray: Blair engoliu a fé thatcherista no mercado como um elixir capaz de revivificar o partido e levá-lo de volta ao poder. Blair aceitou a política econômica neoliberal.

Embora exista em várias escolas de pensamento, o neoliberalismo tem em comum algumas convicções fundamentais. Considera que a principal condição da liberdade individual é o mercado. O alcance da ação governamental tem de ser estritamente limitado. O livre mercado, pensam os neoliberais, é o sistema econômico mais produtivo, portanto, deve ser estendido a todos os países do mundo.

Em outros países da Europa, essa influência também se propagou, como descrevem as pesquisadoras Sheri Berman e Maria Snegovaya, no Journal of Democracy, os social democratas deixaram de se ver como defensores da sociedade diante dos aspectos negativos do capitalismo e passaram a apresentar sua missão cada vez em termos tecnocráticos de eficiência.

Essa política da esquerda fez sentido no curto prazo no fim dos anos 70 e início dos anos 80, mas sua repercussão seria profunda: “E representou uma transformação do perfil histórico da esquerda e até mesmo de sua identidade que se baseava na luta contra o capitalismo. O sucesso da esquerda, na verdade, o sucesso da Europa ocidental após 1945, baseava-se na ideia de que o Estado Democrático era capaz de domar, ou mesmo eliminar, as consequências perigosas do capitalismo”.

Concluem as autoras: “Ao abandonar essa visão, a esquerda tradicional estava mal posicionada para capturar o ressentimento e a raiva que haviam se materializado quando o enfraquecimento da ordem social-democrata do pós-guerra produziu sua consequência: desigualdade e insegurança econômica dramáticas. A crise financeira de 2008 agravou essas tendências intensificando a frustração popular com o neoliberalismo e os partidos e elites que o abraçaram. Com a esquerda incapaz de capturar esse descontentamento, surge uma outra força empreendedora: o populismo.”

Os que viveram o século 20, observam agora que a condição de vanguarda antissistema migrou da esquerda para a direita. O interessante é que a história já avançou.

A experiência populista de Jair Bolsonaro no Brasil foi efêmera. Mais madura do que ela, a de Viktor Orbán, na Hungria, também terminou, apesar de ter se preparado para a eternidade no poder, dominando Congresso, Judiciário e imprensa.

Tanto a esquerda quanto a direita populista se encontram diante de uma tarefa difícil num capitalismo em movimento: como realizar seus projetos com recursos menores do que a expectativa e as necessidades? Ninguém monta por muito tempo esse cavalo bravio.

Lula parece ter feito um compromisso entre os gastos e a austeridade. Ele acha que o governo gastou pouco. Mas a pressão por um equilíbrio fiscal vem não só do mercado, mas de toda a imprensa. Ele resistiu às privatizações, caras ao projeto neoliberal. Mas tem dificuldade em manter instituições deficitárias como os Correios. O enunciado de seu discurso em Barcelona – o programa de campanha precisa ser cumprido – não explicita uma tarefa fácil. Sua sinceridade funciona um pouco como autocrítica, palavra comum no século passado, hoje estigmatizada pela esquerda no poder.

Pena deixar reflexões tão importantes para o exterior: o discurso foi recebido aqui, no Brasil, como mais um discurso. Mas tem contornos históricos.

A dinâmica do capitalismo impulsiona a tendência a se endividar tanto no plano pessoal quanto no de governos. A permanente frustração com os dirigentes políticos acaba produzindo também uma irresistível rotatividade. Se não me engano, ao observar essa tendência, a conclusão deveria ser um antídoto para o hubris dos políticos que chegam ao poder aspirando se manter nele para sempre.

Às vezes, isso se manifesta no desejo de nunca mais deixar que o adversário vença. Margaret Thatcher tinha como objetivo varrer o trabalhismo do mapa político da Inglaterra. E não é que ele voltou e sobrevive até hoje?

Artigo publicado no jornal Estadão em 24 / 04 / 2026

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UM BEIJA-MÃO FORA DE MODA

José Roberto Batochio*, O Estado de S. Paulo

No figurino em que está talhada, a peregrinação aos senadores costura-se fora das linhas da Constituição e da compostura republicana

A romaria que todos os indicados do presidente da República para o Supremo Tribunal Federal (STF) fazem aos gabinetes dos senadores é um beija-mão tão anacrônico quanto inapropriado. Nessa jornada, tem se movimentado o advogado-geral da União, dr. Jorge Messias, em visita aos gabinetes do Senado enquanto aguarda a sabatina a que se submeterá na Casa em 29 de abril. Se há inquirição, arguição pública para que os parlamentares possam perguntar (em rigor, discursar...) o que bem entendam, para avaliar a qualificação do indicado ao cargo, por que razão manter esse ritual prévio com os senadores que nada mais simboliza do que um pleito de voto a quem mais tarde poderá ser julgado pelo ministro?

O beija-mão é um hábito que a República não aceitou da monarquia. Com base no poder moderador, o imperador nomeava os ministros do então Supremo Tribunal de Justiça sem ouvir ou ter o referendo do Parlamento, mas mantinha a autoridade de suspendê-los ou removê-los do cargo.

O beija-mão monárquico também fazia parte do cerimonial de nomeação dos senadores. O processo de escolha era o inverso do atual: os eleitores votavam em candidatos nas províncias e uma lista tríplice era encaminhada ao imperador para a escolha final. Mais de uma vez, houve desentendimentos nesse processo, o mais célebre deles entre o escritor José de Alencar e d. Pedro II. O consagrado autor de Iracema já fora ministro da Justiça, mas, panfletário nos jornais, tornara-se um crítico do Império. Ao recebê-lo para o beija-mão no palácio, d. Pedro alegou que Alencar era muito jovem (tinha 41 anos; a Constituição de 1824 estabelecia a idade mínima de 40), ao que o escritor redarguiu com sua verve de punhal, segundo conta o Visconde de Taunay em suas Memórias: “Por esta razão, Vossa Majestade devia ter devolvido o ato que o declarou maior antes da idade legal”. Referiu-se ao que ficou conhecido como golpe da maioridade, que pôs d. Pedro no trono com apenas 14 anos. Poderia ter citado também o pai, d. Pedro I, que colocou a coroa imperial na cabeça de 24 anos.

A República acabou com essa etiqueta aristocrática. Desde a Constituição de 1891, as indicações ao STF são feitas pelo presidente e somente num período o Senado deixou de referendar algumas, em 1894, quando Floriano Peixoto teve cinco indicações recusadas. A tensão escalou quando o tribunal, provocado por Rui Barbosa, concedeu habeas corpus a presos pelo governo por causa da Revolta da Armada, ao que o “marechal de ferro” teria ameaçado: “Se os seus ministros concederem ordens de habeas corpus contra os meus atos, eu não sei quem amanhã dará aos ministros os habeas corpus que eles, por sua vez, necessitarão”. Desde então, não se repetiu semelhante tensão entre o STF e o Executivo, com exceção das cassações pelo Ato Institucional n.º 5 (AI-5) em 1969 dos ministros Evandro Lins e Silva, Hermes Lima e Victor Nunes Leal.

No figurino em que está talhada, a peregrinação aos senadores costura-se fora das linhas da Constituição e da compostura republicana. A Carta Magna estabelece apenas, no parágrafo único do art. 101, que “os ministros do Supremo Tribunal Federal serão nomeados pelo presidente da República, depois de aprovada a escolha pela maioria absoluta do Senado Federal.”

O interregno entre a indicação do presidente e a arguição seguida de votação no Senado foi preenchido com incabível campanha eleitoral. A arguição, sim, é o comício final – palco adequado para o indicado demonstrar, entre outras virtudes, o “notável saber j urídico” exigido pela Constituição.

Qual o teor das audiências intramuros? O candidato apresenta seu programa aos eleitores? Aceita responder a qualquer questionamento, antecipando seu voto em processos momentosos já em discussão na Corte? Dirá que “mata no peito”? Como está em campanha, agirá como é próprio aos políticos, dizendo o que o eleitor quer ouvir? É simples cerimônia de angariar simpatia, ou, ao menos, de desarmar antipatias, sem compromisso de cumprir promessas, como tanto se atribui aos políticos nos palanques?

Manda o dever de justiça ressalvar que o dr. Jorge Messias está eximido de qualquer responsabilidade por essa antiga prática. Jurista ético e probo, altamente qualificado para o cargo, não foi ele quem a criou nem lhe cabe, unipessoalmente, extingui-la – salutar medida que deve provir de acordo de cavalheiros entre o Executivo e o Senado.

Ainda que pudesse sentir-se constrangido, recusar-se à ritualística do beija-mão seria uma afronta à tradição que até agora tem passado como inócua, além de um menosprezo aos senadores.

A benevolência dos magnânimos pode contra-argumentar com o axioma “agir de boa-fé é ter a consciência tranquila, mesmo quando ninguém está olhando”. A isso chama-se ética, um valor moral para atitude não abrangida pela lei, logo por ela não proibida. Mas na fortuna e miséria das relações humanas, no caso do beija-mão, se impõe a riqueza vulgar do ditado popular que por elegância eufemística forjamos no latim: “Non est illicitum, sed non bene spectat”, ou “não é ilegal, mas não fica bem”.

*Advogado criminalista, foi presidente do Conselho Federal da OAB e Deputado Federal

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MASTER: FILA DE DELATORES ENFRENTA BARREIRA

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Com investigações avançadas, fila de delatores do Master enfrenta barreira

O que mais os delatores, incluindo Vorcaro, podem entregar nesse núcleo central?

Formou-se uma fila de possíveis delatores do caso do Banco Master: o banqueiro Daniel Vorcaro, o cunhado e operador financeiro dele, Fabiano Zettel, o ex-presidente do BRB Paulo Henrique Costa.

À medida que as investigações apertaram o cerco, todos adotaram a mesma estratégia. Trocaram de advogado e passaram a buscar um acordo.

Seus advogados, porém, têm ouvido a mesma coisa de interlocutores na Polícia Federal, na Procuradoria-Geral da República (PGR) e no gabinete do relator do caso, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça. Não vai ser fácil.

O mesmo motivo que os levou a buscar uma delação premiada é o que se transforma agora numa barreira para que consigam avançar no caminho do perdão judicial em troca de informações: as investigações da PF avançaram demais.

Entre os investigadores, o caso Master é tratado por ramos distintos. A trama central – que é a fraude financeira provocada pela quebra do Master e a tentativa frustrada de compra do banco pelo BRB – está praticamente elucidada.

Graças ao trabalho inicial do Banco Central, à extração minuciosa da PF dos celulares e computadores e, claro, ao descuido dos alvos, poucas vezes se viu uma investigação de corrupção tão bem detalhada.

Já estão praticamente comprovadas a gestão fraudulenta das carteiras do Master, o que provocou um rombo no Fundo Garantidor de Crédito (FGC), e a tentativa de cooptar a cúpula do BRB para tentar encobrir os malfeitos. Aliás, as mensagens entre Paulo Henrique Costa e Vorcaro são para lá de comprometedoras.

O que mais os delatores, incluindo Vorcaro, podem entregar nesse núcleo central?

A resposta é simples. Praticamente nada, a não ser que cheguem a eventuais políticos que tenham facilitado as falcatruas. O ex-governador do DF Ibaneis Rocha, por exemplo, tinha ciência do que se passava?

Estará Vorcaro disposto a esclarecer as suspeitas sobre suas relações para lá de nebulosas com os ministros do Supremo Tribunal Federal já reveladas pela imprensa?

Cabe aqui dizer que não é uma caça às bruxas. Os investigadores não têm alvos predeterminados, porque isso fere o próprio princípio da colaboração. Mas a questão técnica é: os delatores serão capazes de ampliar o escopo da investigação? Isso sem falar no risco de que um delator “esvazie” o outro.

Uma colaboração bem-sucedida precisa de fatos adicionais, tem de oferecer recuperação de patrimônio e entregar provas ou elementos que permitam aos investigadores chegar a essas provas. Caso contrário, nada feito.

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ME ENGANA QUE EU GOSTO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Dois ‘outsiders’ de 2018 caíram em desgraça e um é candidato à Presidência

Os três foram eleitos governadores com ampla margem de votos impulsionados pelo bolsonarismo e pelo discurso contra a política

Três ilustres desconhecidos, que surgiram do nada, lançaram-se na política e foram eleitos governadores em 2018, na onda do bolsonarismo e contra o “sistema, a política, a corrupção e a violência”, tornam-se hoje ótimos “cases” sobre “outsiders” na política. Dois caíram em desgraça, um virou candidato a presidente.

Os dois que não deram certo vieram da área jurídica, hoje tão abalada por revelações chocantes, e apresentaram-se como impecáveis cumpridores da lei e impolutos guerreiros contra a corrupção. Ibaneis Rocha, advogado muito bem-sucedido e ex-presidente da OAB-DF, foi eleito e reeleito no DF, mas... E Wilson Witzel, ex-juiz federal (vejam só!), foi tão efêmero como governador quanto meteórico como candidato no Rio.

Ibaneis teve um fim dramático, com muita coisa a explicar sobre como o BRB, banco estatal, foi embolado com o Master e dilapidado na sua gestão. Grande “azarão”, Ibaneis teve 70% dos votos no segundo turno de 2018 e foi reeleito já no primeiro turno em 2022. Será que não tinha a menor ideia do assalto ao BRB, como não teve no 8 de janeiro do golpe?

Quanto a Witzel, foi afastado do governo do Rio, um ano e sete meses depois de eleito, e finalmente sofreu o impeachment, por unanimidade, meses depois. Por quê? Por fazer o oposto do que prometera na campanha – como Ibaneis, que sobreviveu, mas ainda vai enfrentar uma longa batalha na polícia e na Justiça.

Witzel caiu da toga, mergulhou na campanha do Rio como “outsider” e “contra a velha política” e pulou de 1% nas pesquisas para 4,7 milhões de votos (60%) no segundo turno contra o veterano Eduardo Paes, que fora prefeito da capital por dois mandatos, aliás, bem avaliados.

Quem elegeu Witzel foram petrolão, mensalão e sucessivos escândalos no Rio, que não apenas tiraram votos do “candidato do sistema” como produziram 4,6 milhões (41%) de abstenções e votos nulos e brancos, mais do que Paes. Os que lavaram as mãos e não votaram definiram o resultado.

O terceiro “outsider” foi Romeu Zema, empresário, formado em Administração pela FGV, com especialização em Harvard, que se filiou ao Partido Novo em Minas e venceu com 7 milhões de votos (72%) no segundo turno contra Antônio Anastasia, ex-governador tucano, que sucumbiu com o fim do PSDB e do PT no terceiro PIB do País.

Zema lançou-se à Presidência e, enquanto Lula, Flávio e Caiado estão cheios de dedos ao falar do STF, ele roubou a bandeira do “anti-Supremo” e soltou a língua, ainda mais depois de Gilmar Mendes virar seu maior cabo eleitoral. De outsider, Zema não tem mais nada, mas essa continua sendo sua fantasia em 2026.

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CHEGA DE PUBLICIDADE DE BETS !

Orlando Thomé Cordeiro*, Correio Braziliense

Cabe às pessoas decidirem, livremente, se querem apostar, fumar e beber. O que não se pode é permitir o incentivo ao consumo

As apostas fazem parte da cultura brasileira há séculos, atravessando períodos de proibição e legalização, refletindo as mudanças sociais e econômicas do país. No século 18, as primeiras casas de apostas começaram a surgir, impulsionadas pelo sucesso das corridas de cavalos, que se tornaram um passatempo popular, especialmente entre as classes mais altas.

No século 19, precisamente em 1892, surge o jogo do bicho. Uma ideia colocada em prática pelo barão João Batista Viana Drummond como forma de aumentar a arrecadação financeira do jardim zoológico criado por ele quatro anos antes. Como funcionava? Quando o visitante adquiria o ingresso, recebia uma figurinha de um dos 25 bichos da lista a serem sorteados. Quem tivesse a figura do bicho sorteado ganhava um prêmio em dinheiro. Em pouco tempo, essa iniciativa quase ingênua ultrapassou os limites do zoológico e ganhou as ruas do Rio de Janeiro e, posteriormente, de várias regiões do país, permanecendo viva até os dias atuais.

A primeira metade do século 20 vivenciou o surgimento dos cassinos que foram legalizados em 1933 pelo presidente Getúlio Vargas. Combinando jogos com shows de artistas renomados no cenário nacional e internacional, essas casas se tornaram verdadeiros centros de entretenimento. No Rio de Janeiro, eram três: Cassino Atlântico, Cassino Copacabana Palace e Cassino da Urca. No estado de São Paulo, destacavam-se o Monte Serrat, em Santos, e o Cassino Paulista, na capital. Já Poços de Caldas, em Minas Gerais, com mais de 20 cassinos em funcionamento, chegou a ser apelidada de "Las Vegas brasileira".

Porém, em 30 de abril de 1946, três meses depois de assumir a Presidência da República, o general Eurico Gaspar Dutra pegou o país de surpresa e, com um decreto-lei, ordenou o fim dos jogos de azar, pondo fim ao fervilhante negócio dos cassinos. A justificativa para sua decisão, que permanece válida nos últimos 80 anos, era apoiada na "tradição moral, jurídica e religiosa" do brasileiro, que seria incompatível com os jogos, por serem nocivos aos bons costumes.

Dando um pequeno salto no tempo, em 15 de setembro de 1962 tivemos a realização do primeiro sorteio da Loteria Federal sob a administração da Caixa Econômica Federal. Posteriormente, foram criadas a loteria esportiva, popularmente conhecida como Loteca (1970), a Quina (1994), a Mega Sena (1996), a Lotomania (1999), a Dupla Sena (2001), a Lotofácil (2003) e a Timemania (2008).

O breve histórico acima mostra que a tradição de apostas no Brasil é longa e diversificada, mas, a partir de 2018, teve início uma mudança significativa desse panorama com a legalização das bets. Essa modalidade de jogo tornou-se uma verdadeira febre! 

E não é um crescimento fortuito. O relatório intitulado Investimentos Bets 2025 - Análise Estratégica do Setor de Apostas Esportivas, elaborado pela Tunad, indica que, apenas no ano passado, essas empresas fizeram investimentos em publicidade superiores a R$ 1,4 bilhão, somando TV aberta, TV paga, rádio e streaming. Em uma ação agressiva, o segmento já está entre os cinco primeiros lugares no ranking, dividindo o pódio com o varejo e a indústria farmacêutica, segundo dados de diversas pesquisas de mercado.

Uma das principais consequências é o aumento de casos de problemas de saúde mental, como comprovam inúmeros relatos publicados na mídia. Além disso, há casos e mais casos de pessoas que simplesmente perderam todas as suas economias. Na verdade, é um comportamento típico de viciados.

Como enfrentar tal situação? Creio que precisamos criar movimentos de pressão sobre o Congresso Nacional de modo a proibir a publicidade das bets em TV aberta, rádios e revistas. Analogamente, no ano 2000 foi possível fazer o mesmo para os fabricantes de cigarro. Quem acompanhou esse movimento na época certamente se lembra da resistência do lobby daquela indústria e dos setores por ela patrocinados, mas a força da mensagem conseguiu ser vitoriosa.

Vencida essa etapa, poderíamos aproveitar para fazer o mesmo em relação às bebidas alcoólicas, já que o alcoolismo é o mais grave problema de saúde pública, com quatro pessoas hospitalizadas por hora e uma morte a cada cinco minutos por consumo excessivo. Cerca de 10% da população sofre com esse tipo de dependência.

Não se pode discutir tais medidas com base em moralismo. Cabe às pessoas decidirem, livremente, se querem apostar, fumar e beber. O que não se pode é permitir o incentivo ao consumo. Por tudo isso, agora é hora da campanha com o mote "chega de publicidade de bets".

*Orlando Thomé Cordeiro — consultor em estratégia

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DIRCEU VÊ LULA AJUSTANDO A ROTA COM 'AUTOCRÍTICA'

Andrea Jubé, Valor Econômico

Partido se depara com um fantasma do passado que assombra forças progressistas no mundo todo

No momento em que se reúne para debater o seu futuro, o PT se depara com um fantasma do passado que assombra não apenas o partido, mas as forças progressistas no mundo todo. Instado a elaborar um roteiro com experiências internacionais de partidos de esquerda para o 8º Congresso Nacional do PT, o diretor de Cooperação Internacional da Fundação Perseu Abramo, Valter Pomar, sugeriu a leitura de “O Alfaiate de Ulm”, do intelectual e dirigente comunista Lucio Magri.

Obra de referência de intelectuais da esquerda, o livro reconstitui a história do Partido Comunista Italiano (PCI), da sua criação ao apogeu, até o fim melancólico em 1991, junto com a dissolução da União Soviética. No auge do poder, em meados dos anos 1970, o PCI era o maior partido comunista do Ocidente.

Na Segunda Guerra, o partido lutou na Resistência Italiana ao lado de socialistas, católicos e liberais para derrubar o fascismo de Mussolini. Mas em pleno apogeu, no ano de 1978, prestes a firmar uma aliança histórica com a Democracia Cristã (DC) para governarem juntos a Itália, o assassinato do líder da DC, Aldo Moro - atribuído aos comunistas - deflagrou uma fase de decadência da sigla. Anos depois, a história mostrou que os comunistas não estavam envolvidos no crime.

Valter Pomar, que é líder da tendência “Articulação de Esquerda”, em artigo de 2017 sobre “O Alfaiate de Ulm”, disse que, ressalvadas as diferenças, “é impossível não enxergar certas semelhanças entre os dilemas vividos pelo Partido Comunista Italiano nos anos 1970 e 1980 e os impasses vividos mais de vinte anos depois pelo Partido dos Trabalhadores brasileiro”. Segundo o historiador, a peculiaridade do PCI era a de ser um “partido de massas” que “fazia política” e agia no país, “mas também se instalava nas instituições e as usava para conseguir resultados e construir alianças”.

Em contraponto, o ex-ministro e ex-presidente do PT José Dirceu rechaçou, em conversa com a coluna, comparações entre o PT e o PCI. “O PT não foi criado por intelectuais, por uma vanguarda marxista-leninista”, descartou, em alusão à origem da sigla associada a Antonio Gramsci. “O PT tem raízes sociais, políticas, culturais, o petismo é uma cultura, o PT não é um só um partido eleitoral”, prosseguiu. “Por que você acha que o PT sobreviveu à Lava-Jato, e o [Fernando] Haddad teve 32 milhões de votos em 2018 e foi para o segundo turno?”, desafiou.

Para Dirceu, equivoca-se quem acredita que o senador Flávio Bolsonaro (RJ), pré-candidato do PL à Presidência, tem chance de sair vencedor do pleito de outubro. Até o momento, o primogênito de Jair Bolsonaro se consolidou como principal adversário do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que buscará a reeleição.

Dirceu alertou que a campanha nem começou, e adiantou uma das estratégias para descontruir o discurso de Flávio de que ele seria uma versão “moderada” do pai, o “Bolsonaro que tomou vacina”. O líder petista lembrou declaração de Flávio de que, se vencer, subirá a rampa do lado do pai. “Você acha que é ele quem vai governar? E ele disse que o Eduardo Bolsonaro vai ser o ministro de Relações Exteriores, isso quer dizer que vamos apoiar as guerras do [presidente Donald] Trump? E vamos entregar nossas riquezas para os Estados Unidos? É isso que o Flávio vai propor para o Brasil?”, provocou.

Questionado se Flávio não estaria repetindo a estratégia bem-sucedida que foi abraçada pelo próprio Lula na campanha de 2002, quando Duda Mendonça criou o “Lulinha Paz e Amor” - e o petista saiu vencedor -, Dirceu minimizou. “Nós ganhamos cinco das seis eleições que disputamos, tivemos 45 milhões de votos no segundo turno [em 2022], temos uma ampla coalizão, com partes de partidos do centro, nós que estamos governando, eles é que têm de ganhar de nós”, ressaltou.

O ex-ministro reconheceu, contudo, que a população está insatisfeita com o atual “padrão de vida”. Mas observou que Lula captou esse sentimento e ajustou o discurso. “Ele já fez a autocrítica”, salientou, citando a recente fala de Lula em Barcelona, no dia 18 de abril. “Nós nos tornamos o sistema, por isso não surpreende agora que o outro lado se apresente como antissistema, não podemos nos eleger com um programa e implementar outro, não podemos trair a confiança do povo”, afirmou Lula. “A extrema direita soube capitalizar o mal-estar das promessas não cumpridas do neoliberalismo, nosso papel é apontar o dedo para os verdadeiros culpados”, completou o presidente.

No contexto do “fantasma do PCI”, questionado sobre o futuro do PT no pós-Lula, Dirceu ressaltou que não existe essa possibilidade. “Não haverá PT sem Lula, quando ele não for mais presidente, ele estará no PT e será o maior líder popular do Brasil”, ressaltou. O ex-ministro ponderou, contudo, que o pós-Lula depende de o PT se firmar como um partido forte, consolidado, organizado, “que superou todo esse momento que viveu”. Citou novas lideranças, como Fernando Haddad. “A vida não vai ficar parada dentro do PT”, destacou.

Retomando o PCI, vale lembrar que o mundo deu voltas, e de certa forma, o partido retornou ao poder, quando o ex-comunista Massimo D'Alema se elegeu primeiro-ministro da Itália em 1998, pelo Democráticos de Esquerda (DS), o sucessor do PCI.

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CONGRESSO DO PT DEFINIRÁ DIRETRIZES E ESTRATÉGIA ELEITORAL

Andrea Jubé / Valor Econômico

Desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica e tecnológica

A cinco meses das eleições, o PT reunirá em Brasília, a partir desta sexta-feira (24), dirigentes e delegados no 8º congresso nacional, instância máxima decisória da sigla, a fim de debater a conjuntura política, definir estratégias para a disputa eleitoral e aprovar diretrizes para o futuro do partido, que completou 46 anos em fevereiro.

Tendo como prioridade a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o desafio é atualizar o discurso para a nova realidade geopolítica, a revolução no mundo do trabalho diante das novas tecnologias, e as mudanças nas demandas sociais e econômicas, a fim de tentar convencer os brasileiros de que o partido merece continuar no poder. Lula irá discursar no encerramento do evento no domingo (26). O presidente nacional da legenda, Edinho Silva, abre o congresso com uma análise do cenário político, e o lançamento de nova campanha de filiação.

Com uma pauta extensa, as lideranças e os 600 delegados de todo o país, eleitos pela militância, devem concentrar os debates sobre dois documentos, que traçam os caminhos para a eleição de outubro: o primeiro, da subcomissão que discutiu conjuntura e tática eleitoral; e o segundo, do grupo que elaborou uma proposta de programa de governo, a ser submetido à campanha de Lula à reeleição. Segundo fontes que participam dos trabalhos, as discussões sobre o novo programa partidário, a atualização do estatuto e a remodelação da Fundação Perseu Abramo devem ficar para 2027.

Relator do novo programa partidário, o ex-ministro e ex-presidente do PT José Dirceu disse ao Valor que a necessidade de realizar este congresso é discutir a “sucessão presidencial”, e, “principalmente, as mudanças geopolíticas, como o crescimento da extrema direita e do fascismo no mundo, a política de guerra do [presidente Donald] Trump, a interferência no Brasil pelo tarifaço, a tentativa de influenciar o Supremo”.

A última vez que o PT discutiu o programa partidário foi em 2017, ano da prisão de Lula e um ano antes da eleição de Jair Bolsonaro, observou Dirceu. Quase dez anos depois, é Bolsonaro quem se encontra preso, cumprindo pena pela tentativa de golpe de Estado, enquanto, no mundo, a China tem um papel muito maior, os Brics se consolidaram e a hegemonia dos Estados Unidos está em xeque, acrescentou. Ainda nesse período, “tivemos a pandemia, a invasão da Venezuela, as guerras envolvendo Estados Unidos, Israel, Irã, e Rússia e Ucrânia”, completou.

Não é absurdo querer mexer na meta de 3% da inflação”

— José Dirceu

O texto do programa de governo que será debatido enumera 13 itens que deverão ser prioridade de eventual quarto mandato, como a defesa da democracia por uma frente ampla progressista, a maior proteção dos direitos das mulheres, com combate à escalada dos feminicídios, garantia dos direitos elementares dos cidadãos, em especial, das minorias, como indígenas e LGBTQ+, valorização do agronegócio e ampliação da reforma agrária, proteção do meio ambiente.

Prevê ainda soberania energética e mineral, “pautada por um Plano Nacional para a exploração responsável do pré-sal, da Margem Equatorial e de minerais críticos”; a “regulação democrática das big techs e o combate à desinformação”; e a construção de uma inteligência artificial nacional.

No trecho sobre a economia, o PT critica o avanço neoliberal, e considera “imperativo construir uma alternativa à captura estrutural do Banco Central pelos agentes rentistas, cujo funcionamento atual submete a política de câmbio e crédito à lógica da especulação financeira”. O partido defende uma gestão “democratizada e compartilhada com os setores produtivos e representantes do trabalho” para assegurar a autonomia técnica da instituição. Defende uma “meta permanente de juros de um dígito”, com apoio nas reservas internacionais e no controle inflacionário.

Além dos juros elevados, Dirceu também defende que o centro da meta de inflação de 3% seja revisto. “Não é absurdo querer mexer na meta, essa meta de 3% é um erro gravíssimo que foi cometido por nós mesmos”, criticou. “O país pode viver com juros de 9%, nós temos que ter esse objetivo a médio prazo”, reforçou. Para isso, ele sustenta que são necessárias reformas no BC, no Conselho Monetário Nacional (CMN), prosseguir com a reforma tributária e aprovar uma reforma política. A meta contínua de 3% foi definida em 2024 pelo CMN, do qual fazem parte os ministros da Fazenda, do Planejamento e o presidente do BC.

O secretário nacional de comunicação do PT, Éden Valadares, explicou que a proposta de programa de governo em debate é apenas um “texto-guia”, que ainda poderá ser modificado até o fim do congresso.

Dirceu ressaltou que não se trata do futuro programa de governo da campanha de Lula. Uma proposta nesse sentido ainda será elaborada e submetida pelo PT, posteriormente, aos demais partidos que farão parte da frente ampla pela reeleição de Lula, como PSB, PCdoB, PV, Psol, Rede e PDT. “O PT tem um programa, mas isso não quer dizer que será o programa que o Lula vai defender”, concluiu.

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BRASILEIROS MANDADOS DE VOLTA

José de Souza Martins*, Valor Econômico

Deportações nos EUA em condições deploráveis ignoram o fato de que esse imigrante, mesmo irregular, cria riqueza por preço muito menor que o cobrado pelos nativos

A cada tantos dias, um avião fretado pelo governo americano traz de volta ao Brasil algumas dezenas de brasileiros que desembarcam em diferentes aeroportos. Um deles é o de Confins, em Belo Horizonte. A mídia tem descrito as não raro deploráveis formas de detenção dessas pessoas nos EUA e igualmente deploráveis condições da viagem de volta à pátria.

Isso não é propriamente muito diferente do que foi a vinda para cá de ancestrais, até não muito antigos, de milhões de brasileiros de hoje. As viagens em navios cuja terceira classe trouxe para o Brasil milhares de imigrantes europeus e asiáticos, durante décadas, para trabalhar nas fazendas brasileiras em condições que não eram propriamente muito diferentes das dos escravizados da escravidão recém-abolida. Não eram viagens turísticas. Meus avós maternos e meus tios lembravam dos penosos detalhes da travessia, em 1913.

Essa memória provavelmente está nas razões para que netos e bisnetos dessas pessoas se sintam motivados a “voltar à estrada” pela qual os antepassados enveredaram há mais de cem anos.

Foi quando a chamada acumulação originária deu no capitalismo que se expandia sobre realidades sociais pré-capitalistas, especialmente no campo, com a modernidade desenraizando camponeses pré-modernos e tradicionalistas. Com a disponibilidade para emigrar a um país estrangeiro mais próspero que o país de origem, ampliou-se a sequência de gerações de uma mesma linhagem, como nos lugares de origem seus parentes ainda se definem. Dispostas a continuar a busca de um lugar.

Portanto, massas humanas sociologicamente definíveis como de pessoas sem lugar. Uma anomalia de alta motivação para migrar porque são pessoas originadas de sociedades comunitárias, vinculadas a um lugar ancestral. Em busca do lugar utópico perdido.

Se, nos EUA, milhões de cidadãos daquele país para lá emigraram, especialmente da Europa e da China, em condições não necessariamente muito diferentes nos últimos mais que cem anos, há ali uma diferença: esses americanos de terceira ou quarta geração têm uma consciência histórica de sua origem e de sua realidade culturalmente peculiar, porque residual, de integração na sociedade americana. Uma consciência, no fundo, antropologicamente protetiva contra a discriminação e a eventual inferiorização social.

A sociedade americana é também consciente de que deve proteger suas fronteiras contra os que chegam por último e às pressas, supostamente para colher sem ter semeado, sem ter seguido as regras da ascensão social possível, mas limitada e relativamente lenta, penosa.

Essa não deveria ser uma concepção cultural de recepção de estranhos e forasteiros em países propriamente civilizados, que em alta dose muito devem ao imigrante, mesmo ao irregular, porque este cria riquezas por preço muito menor do que o preço cobrado pelos nativos.

Do imigrante, o preço que a sociedade de livre mercado cobra é o de quem nele é tratado como equivalente de mercadoria antes de ser reconhecido como gente. As deportações americanas de brasileiros são deportações de equivalentes de coisas, de certo modo têm essa característica. Uma mal disfarçada característica de todas as emigrações de massa desde o século XIX.

Frequentemente, é injusta porque naquele país, como em outros na Europa, são os que trabalham clandestinamente por salários um tanto maiores do que os salários brasileiros, mas muito menores do que os salários americanos. O brasileiro que acaba sendo deportado é sociologicamente um brasileiro barato. A deportação o define por isso como brasileiro descartável, porque como tal é tratado.

Os serviçais dessa tarefa têm mostrado que com facilidade ajustam sua concepção da vítima da deportação para o estereótipo redutivo de um ser que não há como classificar na estrutura social peculiar que vigora no interior de uma aeronave de passageiros: primeira classe, classe executiva, classe turística.

Na prática, as deportações americanas criaram uma permanente sociedade transitória que dura o tempo que vai da detenção e da desorganização da sociedade do imigrante até o seu desembarque num aeroporto brasileiro. A sociedade temporariamente de ninguéns. Gente que não é coisa nenhuma.

Quando se agravou o surto das expulsões decorrentes da nova política “social” de Trump, a da América para os americanos, a do fazer a América grande de novo, o lema teve adeptos não só lá, mas aqui também. Muitos se lembrarão de políticos brasileiros com o boné vermelho da campanha de Trump do “make America great again”. No mesmo momento em que brasileiros eram lá considerados descartáveis para desembarcarem em aeroportos brasileiros, depois de viagens penosas e descabidas.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

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MAIS FORÇA À DEMOCRACIA, NÃO MENOS

Fernando Abrucio*, Valor Econômico

Melhorias do sistema político têm de se ancorar na aceitação do dissenso, construção de negociações, valorização de controles democráticos sobre governantes e crença na verdade das urnas

O Brasil nunca viveu período democrático tão longo e sólido como o inaugurado em 1985 com o fim da ditadura militar. A consolidação do novo regime veio com a Constituição Cidadã, como Ulysses Guimarães a definiu. Além dela, o aperfeiçoamento incremental das regras, muita negociação e controles dos governantes foram as chaves do sucesso. Crises também ocorreram, mas a democracia permaneceu. A tentativa de golpe liderada por Bolsonaro fracassou e ele foi preso. O quadro atual, porém, é marcado pelo crescimento do discurso antissistema e pela dificuldade em respondê-lo.

Muitas críticas podem ser feitas hoje ao sistema político brasileiro, mas a grande questão é saber se o caminho de quem as faz é pelo fortalecimento da democracia ou para gerar seu enfraquecimento. Não basta apontar os erros e problemas. É preciso propor medidas cujo objetivo seja o aperfeiçoamento democrático. A história mostra, ademais, que muitos movimentos que captavam anseios populares e propunham discursos antissistema redundaram em autoritarismo ou totalitarismo. Assim foi com o fascismo italiano ou com o nazismo.

Se é necessário evitar a fulanização das propostas, algo que só favorece a polarização estéril que tomou conta do país, não se pode igualmente esquecer onde estavam determinados atores políticos em momentos estratégicos para a democracia e o que dizem sobre a nossa ditadura militar ou outras autocracias e autocratas pelo mundo afora. A discussão das ideias deve ser valorizada, mas é preciso cotejar a relação delas com trajetórias históricas e posicionamentos de seus proponentes. Se mudaram de posição em relação à defesa de déspotas e autoritarismos, ótimo, mas que digam isso em alto e bom som.

Realçar as posições e trajetórias é uma forma de evitar a fácil hipocrisia política de se construir uma imagem de reformador das instituições, embora nem sempre tenha defendido a democracia. O espírito de 8 de janeiro de 2023 estava recheado de palavras de ordem vinculadas ao repasse do poder ao povo. Como se comprovou nos últimos anos, contudo, o que estava por trás daquilo era um projeto autocrático de golpe de Estado.

Neste sentido, melhorias do sistema político não dependem apenas de mudanças institucionais. Elas têm de se ancorar, profundamente, em valores democráticos, que aceitem o dissenso, saibam construir negociações, valorizem os controles democráticos sobre os governantes e acreditem na verdade das urnas.

Antes de pensar o que pode ser colocado como contraponto ao sentimento antissistema que domina o ambiente atual, é essencial destacar o que gerou o sucesso da democracia pós-1988. Partir do pressuposto de que deu tudo errado na política contemporânea brasileira ou é pura ignorância em relação à história brasileira, marcada mais por autoritarismos e falta de cidadania à maioria da população, ou é uma forma de não entender o significado da democracia.

Quatro características foram centrais para os sucessos do presidencialismo de coalizão em seu auge, quando foi, por um lado, capaz de manter eleições livres, competitivas e justas, e, por outro, propiciou um ambiente institucional e social que favoreceu melhorias nos direitos de cidadania dos brasileiros. Desse modo, houve um avanço concomitante da liberdade e da igualdade.

O primeiro pilar do avanço democrático foi o aperfeiçoamento incremental das instituições. Várias reformas legais em prol de maior democratização foram feitas, podendo ser citadas a redução do poder do Executivo nas medidas provisórias, a proibição das coligações em eleições proporcionais para evitar a inflação de partidos, o maior controle das contas públicas com a Lei de Responsabilidade Fiscal, a Lei da Ficha Limpa, entre outras. Mesmo uma medida controversa como a permissão da reeleição apresenta, segundo as pesquisas feitas na ciência política brasileira, mais pontos positivos do que negativos.

Tais modificações institucionais foram importantes, mas não seriam suficientes para alicerçar um jogo pluralista liberal-democrático. Aqui entra um segundo pilar do pós-1988: a construção de valores democráticos mais sólidos do que noutros períodos históricos, tanto no plano da classe política como na sociedade. Os políticos aceitaram mais as derrotas e a necessidade de diálogo e negociação, sobretudo se comparamos com o pré-1964, quando a intransigência política era tônica e o golpismo, a linguagem predominante de todas as forças políticas.

A disputa entre PT e PSDB no auge do presidencialismo de coalizão, que se dava não só no plano nacional como também em estados e cidades importantes, é a maior prova de uma cultura política de competição democrática que se manteve, pelo menos até 2014, nos trilhos do jogo político pluralista e tolerante. Uma boa discussão sobre esse processo pode ser vista no livro “Democracia negociada: política partidária no Brasil da Nova República” (FGV Editora), de Leonardo Weller e Fernando Limongi.

A democracia sempre tem de ser vista sob um duplo aspecto: ela dá poder de escolha soberana aos eleitores, mas também estabelece limites aos governantes eleitos. Esse é um terceiro ponto que foi central para o desenvolvimento recente do regime democrático brasileiro. O controle democrático se fortaleceu de quatro maneiras.

Uma foi a maior força dada à Constituição e às leis, cujo cumprimento ganhou maior peso na prática dos governos, com forte contribuição do STF. Além disso, os órgãos de controle, como os tribunais de contas e ministérios públicos, ganharam maior capacidade de atuação para garantir direitos e evitar corrupção. O Congresso se tornou um ator central do sistema político, e não é possível - ainda bem - governar autocraticamente sem coalizão. E ainda foram criados mecanismos de participação social, especialmente em políticas públicas no plano local, que constituíram uma pressão popular nova na história brasileira.

Completando o conjunto de avanços, uma marca do período pós-1988 foi uma luta constante pela republicanização e transparência do poder público. Nem sempre esse processo foi bem-sucedido, e isso deixou problemas até hoje não resolvidos. No entanto, muitas legislações e formas de funcionamento do Estado geraram uma administração pública mais aberta e mecanismos mais efetivos de combate à corrupção.

Exemplos nesta linha foram a Lei de Acesso à Informação e a ampliação do poder e da competência da Polícia Federal e da Receita Federal. Para quem tem dúvidas das melhorias republicanas, basta lembrar que foi uma burocracia mais autônoma e de qualidade que resistiu aos arroubos autoritários do governo Bolsonaro, em lugares como o Itamaraty ou entre os servidores do SUS.

Os avanços democráticos sofreram reveses nos últimos anos, ao que se somam problemas mais estruturais que não foram resolvidos. De todo modo, não se pode jogar a criança com a água do banho: o legado da Constituição Cidadã deve ser o alicerce de qualquer proposta de aperfeiçoamento do sistema político. É preciso valer seus princípios de soberania popular, transparência governamental, garantia de direitos e um sistema de divisão de Poderes.

A necessidade de algum grau de mudança é verdadeira. Isso se deve ao desequilíbrio no presidencialismo de coalizão, ao crescimento de emendas parlamentares pouco transparentes, ao aumento da descrença no Sistema de Justiça, ao reforço da polarização estéril e de um comportamento antissistêmico de representantes eleitos, cujo maior exemplo foi a patética tomada da mesa da Câmara pelos bolsonaristas.

O desejo da mudança, para não ser casuístico, precisa dizer o que quer para a democracia brasileira. É fundamental melhorar o desempenho do Judiciário, combater seus privilégios e tornar o STF um órgão mais colegiado e transparente. Mas isso deve ser feito também corrigindo os problemas do Congresso, especialmente o emendismo desmedido e que, da maneira como se estabeleceu, tem piorado a qualidade dos gastos públicos, o que afeta a efetividade da cidadania.

O mesmo vale para a melhoria da qualidade das instituições públicas subnacionais, pois o caso do Rio de Janeiro, em especial, mostra que o buraco profundo do sistema político está de braços dados com o crime organizado. Transparência e republicanismo para todos, e não só para alguns, deveria ser o lema de quem quer aperfeiçoar o modelo democrático brasileiro.

Para levar adiante uma agenda sistêmica de aperfeiçoamento de nossa democracia, e que não vise apenas os “inimigos” eleitorais ou se ancore em demagogias antidemocráticas, será necessário olhar crítico e independência, mas também capacidade de sustentar um diálogo baseado na universalidade da mudança: o que vale para um, vale para todos. Será que as forças políticas brasileiras estão preparadas para essa visão ampla e essencialmente democrática?

Numa eleição que deve ser marcada por intensa polarização, por uma facilidade em defender argumentos antissistêmicos e por grandes chances de tentativa de interferência externa, será preciso uma combinação rara de coragem e moderação para propor melhorias que fortaleçam a democracia brasileira. Uma agenda mais ampla e sistêmica exigirá coragem; sua implementação dependerá de muita negociação e responsabilidade para evitar a abertura de portas para os autoritários que estão à espreita.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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A VERDADEIRA 'TIMES SQUARE' PAULISTANA

Charge do Cláudio Mor, Folha de S.Paulo

Essa é a real ‘Times Square’ Paulistana que os bolsonaristas Tarcísio de Freitas (governador) e Ricardo Nunes (o prefeito da capital) querem esconder.

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MARIMBONDO DE FOGO

O político brasileiro com maior longevidade política - indiretamente ainda está na ativa - Sarney completa hoje 96 anos de vida. Ele permaneceu no poder por 65 anos. José Sarney de Araújo Costa, nascido José de Ribamar Ferreira de Araújo Costa, (em 1965 adotou o ‘Sarney’ para homenagear o pai, Sarney de Araújo Costa) nasceu em 24 de abril de 1930, em Pinheiro, Maranhão.

Sarney foi o 31º presidente do Brasil (1985-1990). Anteriormente, fora também governador do Maranhão (1966-1971) e senador pelo mesmo estado (1971-1985). Depois de deixar a presidência, foi novamente senador, em 1991 (dessa vez pelo recém criado estado do Amapá, por não ter conseguido apoio da cúpula do PMDB do Maranhão à sua candidatura),2 tendo presidido a câmara alta brasileira por três vezes.

José Sarney é o político brasileiro com mais longa carreira (59 anos) no plano nacional, superando o senador Limpo de Abreu (53 anos de carreira política e 36 como senador vitalício). Ruy Barbosa, o mais duradouro político no período republicano, foi senador por 31 anos contra os 36 de Sarney e Limpo de Abreu.

Durante sua vida pública José Sarney atuou sob quatro constituições (1946, 1967, 1969 e 1988, esta última convocada por ele, no exercício da Presidência da República) e quatro governos sob a Constituição de 1946, seis no governos militares e, depois de seu mandato presidencial, cinco sob a Constituição de 1988 — 15 governos.

Como parlamentar integrou 13 legislaturas, quatro como deputado federal e seis como senador. Era parte da oposição ao governo antes de 1964 e, a partir daí, parte das forças de apoio ao regime militar. Paradoxalmente, acabou sendo o primeiro presidente civil após o regime militar, em razão da morte de Tancredo Neves.

O blog Sou Chocolate e Não Desisto indica a leitura de dois livros sobre a paradoxal carreira política de Sarney, esse brasileiro que é um mito da política. A biografia autorizada por Sarney, escrita pela jornalista Regina Echeverria, Sarney – a biografia.

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SER OU NÃO SER CANDIDATO À REELEIÇÃO, DRAMA DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Essa hipótese está nas cabeças dos aliados de Lula e de muitos petistas, a favor ou não da candidatura. Quem ficou na berlinda foi o ex-ministro Fernando Haddad

Na versão da peça Hamlet, de William Shakespeare, filmada para a tevê pela emissora estatal britânica BBC, o ator escocês David Tennant aparece sozinho em cena no começo do terceiro ato. Com ar de quem reflete profundamente e com grande sofrimento, murmura lentamente: “Ser ou não ser: eis a questão”. A frase foi imortalizada porque serve de analogia para todos os momentos de decisões difíceis. É a síntese de um drama humano e político ao mesmo tempo.

Nascido por volta de 1564, morto em 1616, Shakespeare (escreveu A Tragédia de Hamlet por volta de 1599. Grande autor reconhecido em seu próprio tempo, sua peça mais longa foi aclamada desde a primeira encenação. Outras frases muito conhecidas de Hamlet também ganharam vida própria na peça. Por exemplo: “Há algo de podre no reino da Dinamarca” e “Há mais coisas no céu e na terra, Horácio, do que as sonhadas por sua filosofia”. Quando analisamos a conjuntura política, na qual o presidente Luiz Inácio Lula da Silva é candidato à reeleição, todas se aplicam ao contexto.

A história é a seguinte: o fantasma do rei da Dinamarca pede a seu filho, o príncipe Hamlet, que vingue sua morte. Ele diz ao filho que quem o matou foi seu próprio irmão, tio de Hamlet e atual rei, Claudius, agora casado com a mãe de Hamlet, Gertrude. À beira ou fingindo insanidade, Hamlet reflete sobre a vida e a morte, e planeja matar seu tio. Claudius também faz planos para matar o sobrinho. A peça culmina com um duelo no qual Claudius e Hamlet morrem. Assim, Fortinbras, o príncipe da Noruega, toma o poder na Dinamarca.

Interpretar Hamlet é o sonho de todos os grandes atores. Laurence Olivier, Ian McKellen, Ralph Fiennes, Keanu Reeves e Kenneth Branagh foram alguns. No Brasil, Sérgio Cardoso, Walmor Chagas, Wagner Moura e Thiago Lacerda. Eis a sequência da reflexão sobre a vida e a morte que desafiou a todos: “Será mais nobre suportar na mente/ As flechadas da trágica fortuna,/ Ou tomar armas contra um mar de escolhos/ E, enfrentando-os, vencer?”.

O monólogo expressa a obsessão de Hamlet com uma questão moral. Sua alma seria condenada à danação eterna ou estaria considerando cometer suicídio? O mundo de Hamlet não tem vida, é cheio de desesperança, corrupto e fedido. Valeria a pena viver nesse mundo? As dúvidas são existenciais: “É melhor ficar vivo ou dar fim à minha vida? É mais nobre enfrentar o que a vida coloca no meu caminho ou dar um fim a mim mesmo?”

Essas indagações, em sentido figurado, talvez estejam passando pela cabeça de Lula. A especulação faz sentido diante do cenário eleitoral, por causa da grande rejeição do presidente da República e de comentários que rondam o Palácio do Planalto e já emergem nos bastidores do PT desde quando o jornalista e ex-assessor Ricardo Kotscho, em 12 de abril passado, analisou a possibilidade de Lula não disputar a reeleição em 2026. Kotscho destacou como algo atípico o fato de o presidente ter admitido, publicamente, dúvidas sobre sua candidatura.

Aviões de carreira

Na sua avaliação, Lula demonstrou insegurança sobre a candidatura, em razão de pesquisas desfavoráveis. “Lá pelas tantas, assim de passagem, como não quer nada, em meio a muitos outros assuntos, Lula deixou a dúvida no ar. Falou que só vai tomar uma decisão em junho, na convenção do PT. Como assim? O que aconteceu? Acordou de mau humor, falou brincando ou está achando que uma vitória ficou mais difícil?” Ao abordar a falta de um nome competitivo claro no PT caso Lula decida não concorrer, Kotscho acabou abrindo o debate sobre quem poderia assumir o lugar.

Kotscho destacou que esse comportamento não é uma característica de Lula, ao contrário: “Quando as pesquisas eram desfavoráveis, era sempre ele quem procurava animar os companheiros e militantes, o primeiro a acordar e o último a ir dormir, achando que ainda daria para virar o jogo, como aconteceu em 1994, depois do tsunami do Plano Real”. É aí que a jornalista Mônica Bergamo, colunista do UOL, na avaliação de Kotscho, avançou duas casas: “Para surpresa dela e dos leitores, os homens do dinheiro grosso, que não perdem tempo, até já tinham ido sondar Fernando Haddad sobre a possibilidade de ele entrar no lugar de Lula, como aconteceu em 2018, quando o amigo estava preso.”

Essa hipótese está nas cabeças dos aliados de Lula e de muitos petistas, a favor ou não da candidatura à reeleição. Quem ficou na berlinda foi o ex-ministro da Fazenda, que disputou a eleição contra Jair Bolsonaro, em 2018, com um bom desempenho, considerando que fez três semanas de campanha e chegou ao segundo turno. Haddad deixou a pasta a pedido de Lula, contra a vontade, para ser candidato a governador de São Paulo. Desde então, nas conversas com empresários e aliados para discutir a disputa pelo Palácio dos Bandeirantes, o petista passa pelo constrangimento de ser perguntado sobre essa possibilidade e negá-la. Mas “há mais coisas no ar do que os aviões de carreira”, como diria o Barão de Itararé.

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quinta-feira, 23 de abril de 2026

MORRE LÚCIO BRASILEIRO

Penélope Menezes, Thays Maria Salles, O POVO

Morre Lúcio Brasileiro, do O POVO, jornalista diário mais antigo do mundo

O colunista social do O POVO havia celebrado recentemente seu Jubileu de Platina, marcando sete décadas de produção ininterrupta

O jornalista Lúcio Brasileiro, colunista social do O POVO, morreu na noite desta quinta-feira, 23, aos 87 anos, após complicações de uma queda. Em 2025, alcançou 70 anos de carreira jornalística, sendo reconhecido como o jornalista diário mais antigo do mundo.

O profissional mantinha coluna diária no O POVO e um programa na Rádio O POVO CBN. Ele estava hospitalizado em Lisboa, Portugal, desde o sábado, 11, durante roteiro de viagem que incluiria passagens por Nice (França) e Barcelona (Espanha), rumo a Ibiza. Não há informações relacionadas ao enterro. 

Nascido no dia 6 de abril de 1939 em Aurora, no Cariri cearense, iniciou sua carreira aos 16 anos, no jornal Gazeta de Notícias. Antes de se estabelecer como colunista, colaborou com O POVO e O Estado em textos voltados ao futebol. 

Em 1968, depois de colaboração com o caderno de Esporte, passou a publicar uma coluna diária no O POVO. Em 2005, completou o seu Jubileu de Ouro, com 50 anos de produção. 

Personalidades e amigos lamentam morte de Lúcio Brasileiro

Para Luciana Dummar, presidente institucional do O POVO, Lúcio é o "símbolo de uma geração, testemunha das grandes mudanças que a sociedade cearense passou".

"Viveu períodos intensos, com a Fame, recolheu-se no Cumbuco, celebrou a vida em Ibiza. Criou um personagem particularíssimo em torno de si próprio, tendo sido ao mesmo tempo Francisco Newton, Lúcio e Paco. O POVO se despede dele com carinho e respeito", homenageia.

Diretor de Jornalismo da Rádio O POVO/CBN e CBN Cariri, o colunista Jocélio Leal definiu Lúcio como "profissão esperança, de recados curto e doce sob os auspícios de seus amigos, que eram tantos". Segundo ele, Lúcio era muitos.

"Era educar gente de poucas telas na parede. Era tirar onda direto do Cumbuco com suas hilárias pílulas de um minuto pela rádio O POVO CBN. Era o carinho com o Anuário do Ceará como seu anfitrião maior e de coração. Era o trafegar de sua coluna por faunas e salões em extinção e ainda assim sendo menino. Lúcio deixa o lamento de termos dividido suas gargalhadas menos do que a gente queria".

O governador Elmano de Freitas (PT) lamentou a morte do jornalista e colunista. “Lúcio Brasileiro foi um dos maiores nomes do jornalismo cearense e brasileiro. Um ícone da profissão, que em 70 anos de carreira uniu informação e opinião com ética e credibilidade. Com sua coluna diária, que bateu recorde de tempo no ar, retratou durante décadas as principais notícias da sociedade cearense". 

Lúcio foi homenageado, em 2012, com a Medalha da Abolição, a principal comenda entregue pelo Governo do Ceará. O chefe do Executivo estadual também ressaltou seu agradecimento ao "grande cearense" pelos serviços prestados ao jornalismo do Estado.

O prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), também compartilhou nota de pesar. "Lúcio marcou seu nome na imprensa cearense, sobretudo no colunismo social, onde detinha o recorde de colunista há mais tempo na ativa em todo o mundo, através das páginas do jornal O POVO", disse.

"Era um dos grandes conhecedores da história do nosso futebol, em especial da seleção brasileira e das Copa do Mundo. Deixo meu sincero abraço à legião de amigos e admiradores de Lúcio", completou.

Assessor de Lúcio Brasileiro por 49 anos, Franzé de Lima relembra o talento para narrar histórias do jornalista, além de sua gargalhada contagiante e um profundo respeito pelos amigos.

"Foram 70 anos de jornal, 70 anos de coluna diária. E nunca o Lúcio foi capaz de ofender qualquer ser humano. Ele jamais botou alguém para baixo, através da coluna ou mesmo fora dela, como pessoa", afirmou.

"O momento é difícil, pois estamos todos de luto com a partida dele. Uma cabeça brilhante, uma memória fantástica", destacou.

A presidente do Instituto Sérvulo Esmeraldo, Dodora Guimarães, comentou em publicação na rede social do O POVO sobre a partida do jornalista. "A sociedade fortalezense perde o seu biógrafo e o colunismo social, o seu atacante mais longevo e brilhante. Brasileiro, você fez uma era!".

Jornalistas relembram trajetória de Lúcio Brasileiro

Lúcio tornou-se referência para gerações de colunistas. Antes, foi repórter, como lembra o editor-adjunto do Núcleo de Audiovisual do O POVO e cronista, Demitri Túlio

"Há jornalistas que também são personagens do jornalismo. Lúcio Brasileiro foi primeiro repórter e, depois, personagem dele mesmo. Escolheu um modo próprio de narrar sobre o que achava que era o seu derredor. Foi um cronista, de modo bem particular, da política, do esporte e da vida dos privilegiados da sociedade cearense. Gostava de ouvi-lo e lê-lo sobre uma das faces de Fortaleza”. 

Poeta e escritora, a jornalista Lêda Maria diz que Lúcio deixa para seus companheiros de imprensa um legado de dedicação ao trabalho, elegendo a seriedade e a precisão de informar bem. "Era criativo e tinha a paz como caminho. Era harmonioso nas conversas. Fiel às suas fontes noticiosas, e cativante".

"Na conjugação de qualidades humanas e éticas, sabia oferecer aos seus amigos a solidariedade como bem maior. Passava distante da infelicidade, elegendo o bom papo, as histórias e as boas gargalhadas", relembra a colunista do O POVO.

Editor de cultura e entretenimento do O POVO, o colunista Clóvis Holanda lembra que o "eterno Paco" tinha uma maneira única de ver a vida e seus habitantes e que ficará na lembrança com "seu sorrisão aberto no rosto após contar mais uma de suas ótimas".

"Jogava com as palavras, virando e revirando as frases, em seu estilo próprio de escrita, da mesma forma com que tratava seus dias, deixando que o inesperado o encantasse em qualquer esquina, do Cumbuco ou do mundo. De poucas palavras, tirava profundas reflexões, puxões de orelha, dicas infalíveis. Será para sempre um capítulo fundamental na história da Imprensa Cearense, assim como deixa um vácuo como guardião das memórias do tempo".

Arlen Medina Néri, ex-diretor-geral de Jornalismo do O POVO, conhecia Lúcio há mais de 30 anos. Para ele, o colunista "não morre pois deixa memória eterna em cada um de nós".

"Lúcio era partilha. Adorava receber, convidar e contar suas histórias (inúmeras) a todos. Na Redação do O POVO, ele rompia barreiras e sabia cativar e conviver com diferentes gerações. Penso que não estamos de luto! Estamos agradecidos por sua convivência e pelo que muito ainda vai nos contar".

Henrique Araújo, colunista do O POVO e apresentador do programa Debates do O POVO da Rádio O POVO CBN, conta que Lúcio foi sempre uma personagem sobre quem teve curiosidade pelo tipo de colunismo social que fazia.

"Os cacoetes, as frases, as observações sobre o mundanismo da elite cearense, tão provinciana e deslumbrada nas suas crônicas. A seu modo, era ótimo contador de causos de uma Fortaleza que tentou viver o sonho dourado do cosmopolitismo, mas que sofria de uma falta de criatividade quase patológica, à mercê desse referencial estrangeiro. Reclamava frequentemente que faltava arte na vida dos ricos. Entre nós, era como se o dinheiro nunca produzisse um lastro cultural. E o Lúcio soube captar esse traço da sociabilidade local. Tinha um olhar atento para isso, mesmo enfronhado nesse universo".

Para o jornalista Wilton Bezerra Jr., Lúcio Brasileiro foi uma de suas "referências civilizatórias"; ele lamentou a notícia. "Era leitor quase assíduo da sua coluna e trajetória. Lúcio inseriu a gente cearense numa questão civilizatória. Um estado de espírito, mas sobretudo uma postura de encantamento perante a existência, transmitida aos seus contemporâneos".

Lúcio Brasileiro recebeu Medalha da Abolição, maior honraria do Estado, em 2012

O jornalista foi homenageado em 2012 com a mais alta comenda do Estado, entregue anualmente em 25 de março (Data Magna do Ceará): a Medalha da Abolição. A honraria busca celebrar as personalidades que fizeram contribuições relevantes ao Ceará.

A cerimônia de entrega, que também concedeu a medalha ao desembargador Ernani Barreira, teve a presença do então governador Cid Gomes.

“É extremamente gratificante, para mim, colocar a Medalha da Abolição no peito do jornalista Lúcio Brasileiro e do desembargador Ernani Barreira, pessoas que aprendi a admirar, cada um em seu campo de atuação profissional”, comentou o político.

Para Lúcio, o momento foi acolhido com “total importância”.  “Recebo-a com muita humildade. Ela é um reconhecimento ao trabalho, que pelo menos fez alegrar muito o povo cearense”.

A outorga para os dois cearenses homenageados foi publicada no Diário Oficial do dia 14 de março de 2012 (decreto nº 30.847 de 12 de março de 2012).

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GUERRA DE LEGO

Paulo Siqueira, Democracia Política

"O sentimento de pertencimento, é o que permeia a nossa troca de afeto, e nos faz querer estar com o outro; ainda que o outro, não seja nosso igual, basta ter sentimentos.” Rossane Correia

Na chamada terceira guerra do golfo, que se inicia com o bombardeio dos EUA e Israel ao Irã a partir do dia 28 de fevereiro de 2026, o Irã empreendeu a chamada guerra assimétrica, quando uma força, se reconhecendo muito inferior em termos militares e econômicos a outra força, utiliza recursos que contornem essa diferença pra conseguir o sucesso político/estratégico.

No campo da comunicação/propaganda, o Irã utilizou-se de recursos de inteligência artificial em larga escala para impor sua narrativa e posicionamento. O país criou diversas empresas de IA, com muito jovens, e entendeu a lógica dos algoritmos da redes- sociais e canais de internet americanos e globais. Basicamente criaram perfis de publicação e outros de compartilhamento para que os algoritmos expusessem pra mais pessoas os conteúdos. Entre os conteúdos, um, que chamou bastante a atenção, foram as animações em estilo Lego, aquele brinquedo famoso de montar, que depois se tronou jogo digital, que não são bloqueados pelas ferramentas, têm alto apelo popular e trazem um apelo lúdico. 

Do ponto de vista de posicionamento, o Irã se colocou como o defensor do momento de todos os povos agredidos e injustiçados pelo imperialismo americano, pode colocar aspas se preferir, mas é o posicionamento deles, além de se apresentar como o herdeiro de uma longa tradição civilizatória que vem dos antigos persas e da religião humanista islâmica. A narrativa é a da luta contra o imperialismo decadente, corrupto e degenerado, que inclusive oprime o próprio povo americano, além de se aliar ao sionismo, apresentado como uma sombra, ou o cerne do deep state mundial. 

O Objetivo do Irã foi reverberar dentro de seus apoiadores e franjas que mesmo que não o apoiem, se colocam contra imperialismo americano ou o sionismo, aproveitando as práticas agressivas e até criminosas do atual governo israelense nas guerras em Gaza e no Líbano, misturando e confundindo esse governo com o projeto do estado de Israel fundado em 1948, como também. sensibilizar as franjas das vertentes de esquerda, as populações e fiéis muçulmanos ou os nacionalistas nesse contexto de contraposição ao movimento de globalização desde o fim da segunda guerra mundial e que está em crise.

Utilizando sensos comuns, preconceitos enraizados ao lado de críticas contundentes e justas, sensibiliza focos múltiplos de simpatizantes para com isso, quebrar a espiral de silêncio e oferecer argumentos para que as pessoas se sintam apoiadas.

Quebrar a espiral de silêncio é um feito, do ponto de vista de propaganda importante, o ser humano, animal social, necessita se sentir apoiado, sentir que não está só em sua opinião e visão, quando isso acontece, o indivíduo se torna um difusor da sua narrativa e essa vai se espalhando pelas bolhas.

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PADROEIRO DO BRASIL

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O CAVALO DE TRÓIA ELEITORAL MONTADO A GALOPE POR KASSIO NUNES

Hildegard Angel, Jornal Brasil Popular

Na mesma sessão em que foi eleito Presidente do TSE, Kássio Nunes inaugura tese teratológica sobre a Cassação exclusiva do Governador e a preservação do Vice

Era uma vez um candidato que concebeu um plano astuto: praticar, de forma isolada, toda sorte de atos antirrepublicanos capazes de alterar o resultado das eleições com a certeza de que seria cassado, mas com a segurança de que, mantido o vice afastado das falcatruas, este herdaria o cargo. Até ontem, isso era apenas uma fantasia. Hoje, graças ao voto vista do Ministro Kássio Nunes Marques no TSE, tornou-se uma estratégia juridicamente viável.

O princípio da unicidade da chapa

Ao longo de décadas, a jurisprudência do TSE consolidou o princípio da unicidade da chapa nas eleições majoritárias: governador e vice integram um único ente eleitoral, juridicamente indivisível. A lógica é clara ambos disputaram juntos, ambos se beneficiaram da campanha, ambos receberam os votos que aquela chapa angariou. Por corolário lógico, se o julgado reconhece que ocorreram condutas vedadas que comprometeram a lisura da eleição e alteraram o resultado do pleito, a chapa eleita não representa a vontade popular autêntica, mas uma vontade viciada, antidemocrática e intolerável - e, portanto, deve ser integralmente cassada.

Cassar apenas o Governador, autor imputado das condutas, e manter o Vice no cargo é desafiar essa lógica. É reconhecer a fraude e, ao mesmo tempo, preservar seus frutos.

A tese inaugurada: o vice era secretário de Estado

O argumento do Ministro Kássio Nunes Marques para preservar o Vice foi o de que, durante a campanha, ele exercia o cargo de Secretário de Estado - e que, por isso, não poderia ser responsabilizado pelos crimes eleitorais da chapa. A tese é problemática por razões elementares.

Primeiro: o cargo de secretário estadual e a condição de candidato a vice-governador são relações jurídicas completamente distintas. Ser nomeado secretário não extingue a candidatura nem a responsabilidade eleitoral dela decorrente. O candidato permanece integrante da chapa e sujeito às consequências de sua cassação.

Segundo: não há, na legislação eleitoral nem na jurisprudência do TSE, qualquer dispositivo que exclua da cassação da chapa o candidato ao cargo de vice que tenha exercido função no governo durante a campanha. A tese cria uma exceção ex nihilo sem amparo legal, sem antecedente jurisprudencial, sem fundamento no direito eleitoral brasileiro.

Terceiro, e mais grave: a tese cria um incentivo perverso. Se essa lógica prosperar, a estratégia ótima para qualquer candidato que planeje praticar fraudes eleitorais será nomear seu vice como secretário de Estado durante a campanha, para garantir, em caso de cassação, que um aliado herde o cargo. O direito eleitoral, concebido para proteger a vontade popular, converte-se em manual de fraude institucionalizada.

Uma tese sem precedente na história do TSE

Não há registro, na história do Tribunal Superior Eleitoral, de voto que tenha dissociado a cassação da chapa com base no exercício de cargo público pelo vice durante a campanha. Trata-se, na prática, de uma tese inédita o que, por si só, deveria exigir fundamentação extraordinariamente robusta. O que se viu, ao contrário, foi uma construção argumentativa que, na melhor das interpretações, desafia a lógica jurídica consolidada; na pior, corrobora a intenção da fraude: vão-se os anéis, mas ficam os dedos.

Manter o Vice no cargo é o mesmo que condenar um ladrão, mas permitir que o produto do roubo permaneça com seus comparsas. A condenação individual sem a restituição do bem jurídico violado - a lisura do pleito é uma sanção vazia.

O cavalo de Tróia eleitoral

Uma decisão local, aparentemente circunscrita ao caso de Roraima, pode funcionar como um cavalo de troia no sistema eleitoral brasileiro. Se a tese for incorporada à jurisprudência, o impacto nas eleições presidenciais de 2026 será imediato e profundo: estaremos diante do vale-tudo institucionalizado.

O perigo está precisamente em subestimar seus efeitos. Decisões que rompem com princípios estruturantes do direito eleitoral não ficam confinadas ao processo que as originou. Elas migram, são invocadas como precedente, são ampliadas por interpretações subsequentes. Quando nos dermos conta da extensão do dano, o impacto já terá se consolidado.

A pergunta que fica é desconfortável, mas necessária: a tese teratológica inaugurada nesta sessão - a mesma em que Kássio Nunes Marques foi eleito Presidente do TSE - é uma excepção ou um presságio?

Charge: Gervásio Castro Neto

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quarta-feira, 22 de abril de 2026

O SEQUESTRO DA PAISAGEM

Bernardo Mello Franco, O Globo

São Paulo desfigura Lei Cidade Limpa em pastiche da Times Square

Vinte anos depois, maior cidade do país arma retrocesso no combate à poluição visual

Aprovada em 2006, a Lei Cidade Limpa impôs um freio à poluição visual na maior cidade do país. A norma devolveu aos cidadãos a paisagem sequestrada pela publicidade. Em vez de celebrar seus 20 anos, as autoridades de São Paulo querem desfigurá-la.

Na segunda-feira, o governador Tarcísio de Freitas divulgou um vídeo em que gigantescos painéis de LED cobrem os prédios da Avenida São João. “Por enquanto, as imagens aqui são de inteligência artificial. Mas daqui a uns dias, elas vão ser realidade”, anunciou. O prefeito Ricardo Nunes também mostra entusiasmo com a ideia.

O projeto tem sido chamado de Times Square paulistana, uma imitação jeca do famoso largo de Nova York. Na verdade, trata-se de uma cópia da cópia. O primeiro pastiche foi inaugurado em Balneário Camboriú, que já se apresentou como a Dubai brasileira.

O plano de São Paulo se destaca pela megalomania. Os telões poderão cobrir 70% da fachada de edifícios históricos. Terão até 25 metros de altura, o suficiente para esconder oito andares das construções. A desculpa, como sempre, é revitalizar o Centro e atrair investimentos.

Há controvérsias. O Instituto dos Arquitetos do Brasil apontou “risco iminente de desfiguração da cidade e de reintrodução massiva da poluição visual”. O urbanista Mauro Calliari observou que a contrapartida aos cofres públicos, de R$ 2 milhões por ano, é “quase ofensiva de tão pequena”.

Em março, a Companhia de Engenharia de Tráfego avisou que os painéis podem provocar “sérios problemas de segurança viária”. O estudo enfatizou que o excesso de propaganda luminosa ofusca a visão de motoristas e aumenta o índice de acidentes. Apesar de tudo, o projeto foi aprovado pelos conselhos municipais que deveriam proteger o patrimônio e a paisagem urbana.

No Rio, uma lei inspirada na Cidade Limpa chegou a vigorar por seis anos. Foi revogada em 2019, quando os vereadores autorizaram a volta dos anúncios gigantes em fachadas e laterais de prédios. Hoje a prefeitura também dá mau exemplo ao emporcalhar as orlas da praia e da Lagoa com placas publicitárias, a pretexto de divulgar eventos.

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MORRE EDVALDO DE MELO

Barbara Schiontek, Tribuna do Paraná

Morre aos 82 anos Edvaldo de Melo, ex-vice-presidente do GRPCOM

Morreu nesta quarta-feira (22/04), aos 82 anos, Edvaldo de Melo, ex-vice-presidente do Grupo Paranaense de Comunicação (GRPCOM). Ele estava internado no Hospital São Vicente, em Curitiba.

Melo teve importante atuação na comunicação e longa trajetória no GRPCOM, o maior grupo de comunicação do Paraná.

Além de já ter sido vice-presidente do Grupo, ele atuou como gerente geral da antiga TV Coroados, atualmente a RPC Londrina. Foi também, durante muitos anos, membro do Conselho do GRPCOM.

O velório será realizado nesta quinta-feira (23/04), no Crematório Vertical de Curitiba, das 9h30 às 13h30. 

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terça-feira, 21 de abril de 2026

A HISTÓRIA ENSINA QUE OS IMPERADORES PASSAM, MAS O PAPADO PERMANECE

João Pereira Coutinho*, Folha de S. Paulo

Por que Leão 14 não demonstra temor ou deferência diante de Donald Trump?

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições

Tempos interessantes. Os Estados Unidos fazem 250 anos em julho. Mas, como lembrou o especialista em assuntos religiosos Damian Thompson na revista Spectator, nunca se viu um conflito aberto entre um presidente americano —Trump— e um papa —Leão 14. Isso é um vício europeu, mais medieval do que moderno, embora existam exceções.

Amantes de história sabem do que estou falando —e, nos últimos tempos, tenho lido comparações inevitáveis para explicar a mais recente bizarrice trumpista.

Alguns lembram Henrique 4º, imperador do Sacro Império, que transformou Gregório 7º em inimigo na famosa "questão das investiduras", a disputa sobre quem podia nomear bispos e outros membros da Igreja. Gregório resistiu e excomungou o imperador.

Não acabou bem para Henrique. Aliás, o imperador terminou de joelhos, em Canossa, pedindo perdão ao papa.

Há quem prefira o conflito de Filipe 4º da França contra Bonifácio 8º. Dinheiro, tudo é dinheiro —e Filipe precisava taxar o clero para financiar suas guerras. Bonifácio se opôs. Dessa vez, o confronto terminou mal para o papa.

E que dizer de Henrique 8º e da recusa de Clemente 7º em anular o casamento do rei com Catarina de Aragão? É um dos conflitos mais conhecidos da história, que levou à ruptura com Roma e ao nascimento da Igreja Anglicana.

Em todos esses confrontos, a questão foi repetidamente a mesma: quem manda? Antes da modernidade política —ou seja, até a Revolução Francesa— o poder temporal disputou com frequência o espaço com o poder espiritual. E vice-versa. 

Donald Trump é o nome mais recente dessa linhagem anacrônica. Como é possível que o papa Leão 14 não abençoe sua guerra no Oriente Médio? Mais: como é possível que se oponha a ela?

Pior ainda: por que não demonstra temor ou deferência diante do imperador de Washington?

Curiosamente, ao formular essas perguntas e considerar a personalidade de Trump, é Napoleão Bonaparte e seu conflito com Pio 7° o exemplo histórico mais próximo que encontro.

Tudo começou bem entre os dois: em 1801, Napoleão e o papa assinaram uma concordata que devolvia parte das terras e dos direitos que a Igreja havia perdido com a Revolução Francesa. Em troca, Roma reconhecia a república.

Mas a concordata já nasceu torta, porque os dois lados enxergavam coisas diferentes no documento. Para Napoleão, ela selava a supremacia do Estado sobre a Igreja. Para o papa, era o primeiro passo para restaurar a aliança entre o trono e o altar na França pós-revolucionária.

No fundo, a pergunta "quem manda?" continuava pairando sobre os dois poderes —e rapidamente envenenou a cabeça de Napoleão. Tudo começou com um drama doméstico: o irmão de Bonaparte, Jérôme, queria obter de Roma a anulação do seu casamento com uma americana protestante.

Sem isso, a política de alianças e matrimônios que Napoleão arquitetava para os seus familiares na Europa ficaria comprometida. O papa recusou.

Mas foi a guerra, ontem como hoje, que acabou sendo a gota d’água. Napoleão exigiu que os Estados Pontifícios fechassem seus portos aos ingleses, contribuindo assim para o sucesso do chamado "bloqueio continental". Pio 7º não aceitou ser parte do conflito.

O que aconteceu em seguida foi descrito de forma definitiva pelo historiador Ambrogio Caiani no livro "To Kidnap a Pope, sequestrar um papa, em português. As tropas napoleônicas invadiram o Palácio do Quirinal em 1809 e sequestraram o papa.

Depois de anos de cativeiro, Pio 7º acabou cedendo ao poder do imperador com uma segunda concordata, em 1813, no exílio de Fontainebleau.

É possível que, em seus momentos mais delirantes, Donald Trump sonhe com uma missão semelhante. Se funcionou com Nicolás Maduro na Venezuela, por que não com Leão 14?

Eu desaconselharia. Até porque a história do conflito entre Napoleão e o papa não acabou bem para o imperador. Um ano depois da segunda concordata, Napoleão foi derrotado em Paris e, em 1815, definitivamente esmagado em Waterloo.

O papa, por sua vez, voltou a Roma. Foi recebido como um herói, um mártir e uma referência moral para toda a Europa.

Mais uma vez, confirmava-se a velha máxima: imperadores passam, mas o papado permanece.

Não sei se o vice J.D. Vance, em suas aulas de catequese para adultos, aprendeu essas lições. Elas seriam valiosas para tentar esfriar os impulsos do chefe.

A história é pródiga em napoleões que, embriagados pelo poder, acreditam mesmo governar este mundo e o outro.

*Escritor, doutor em ciência política pela Universidade Católica Portuguesa.

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