quarta-feira, 13 de maio de 2026

'ESTOU E ESTAREI CONTIGO SEMPRE'

Do Intercept Brasil

Paulo Motoryn, Eduardo Goulart, Laís Martins, Andrew Fishman, Cecília Olliveira, Leandro Becker e Mauricio Moraes

ÁUDIO: Flávio Bolsonaro negociou com Daniel Vorcaro R$ 134 milhões para bancar filme sobre Jair

“Irmão, estou e estarei contigo sempre, não tem meia conversa entre a gente. Só preciso que me dê uma luz! Abs!”, escreveu o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, ao dono do Banco MasterDaniel Vorcaro, em uma mensagem enviada pelo WhatsApp em 16 de novembro de 2025.

Um dia após a mensagem de Flávio, Vorcaro foi preso enquanto tentava fugir do país por operar um esquema de fraude que gerou um rombo de R$ 47 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito, o FGC. No dia seguinte, 18 de novembro, seu banco foi liquidado pelo Banco Central.

A frase escrita pelo hoje pré-candidato à Presidência da República é parte de uma série de registros que indicam a existência de uma negociação em que Vorcaro se comprometeu a repassar um total de 24 milhões de dólares (na época equivalentes a cerca de R$ 134 milhões) para financiar a produção de “Dark Horse”, o filme biográfico sobre Jair Bolsonaro.

Documentos e mensagens obtidos com exclusividade pelo Intercept Brasil indicam que pelo menos 10,6 milhões de dólares — cerca de R$ 61 milhões, considerando a cotação do dólar nos períodos das transferências — haviam sido pagos entre fevereiro e maio de 2025, em seis operações, para financiar o projeto cinematográfico ligado à família Bolsonaro. 

Os registros incluem um cronograma de desembolso, um comprovante bancário e cobranças relacionadas às parcelas previstas para a produção. Não há evidências nas mensagens de que Vorcaro tenha feito os outros oito pagamentos previstos para o projeto.

O envolvimento de Vorcaro foi negociado diretamente por Flávio Bolsonaro, mas teve outros intermediários, como o irmão e deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, e o deputado federal Mario Frias, também do PL paulista, que foi secretário da Cultura no governo Bolsonaro.

As conversas privadas e os documentos de Vorcaro revelam os profundos laços financeiros e a estreita relação entre o clã Bolsonaro e o banqueiro que se tornou o homem mais radioativo de Brasília. Flávio já havia negado tais conexões, da sua família e da extrema direita, chegando a dizer que isso era uma “narrativa falsa que o Lula tem criado”. 

Quando foi noticiado, em março deste ano, que o cunhado de Vorcaro – o pastor Fabiano Zettel – havia feito uma doação de R$ 3 milhões para a campanha presidencial de Jair Bolsonaro, Flávio disse à CNN que isso aconteceu “sem nenhuma vinculação, sem nenhuma contrapartida, sem nenhum contato pessoal, inclusive”. 

“Essa conta do Banco Master está longe de chegar perto da direita”, afirmou o senador. Em evento da pré-campanha em João Pessoa, na Paraíba, dois dias antes, ele classificou o caso como um “grande esquema de roubalheira que está dando nojo a todo o país”.

Na manhã desta quarta-feira, 13, Flávio Bolsonaro foi questionado presencialmente pelo Intercept sobre o financiamento de Vorcaro ao filme e respondeu: “De onde você tirou essa informação? É mentira”. Em seguida, deu uma gargalhada e se retirou de onde concedia entrevista à imprensa, próximo ao Supremo Tribunal Federal, o STF – antes, o senador havia se reunido com o ministro Edson Fachin, presidente da corte.

Flávio já havia sido contatado sobre o assunto – por telefone, WhatsApp e e-mail, mas não retornou até a publicação da reportagem. A defesa de Daniel Vorcaro foi acionada, mas não houve resposta. Eduardo Bolsonaro também não respondeu aos questionamentos enviados pelo Intercept. O espaço segue aberto e, caso haja resposta, o texto será atualizado.

Em nota enviada ao Intercept após a publicação da reportagem, a defesa do deputado federal Mario Frias confirmou os contatos entre o parlamentar e Vorcaro, mas disse que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”.

Também destacou que Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em nome de Vorcaro. Ainda negou qualquer uso do mandato parlamentar para “promoção de lobby privado ou favorecimento empresarial”.

O advogado do deputado informou, ainda, que, na época da troca de mensagens, Vorcaro era conhecido como um empresário do mercado financeiro e “não havia qualquer informação pública que indicasse eventual irregularidade financeira” atribuída ao banqueiro. “Conversas privadas envolvendo exibição de conteúdo audiovisual ou encontros sociais entre pessoas públicas e empresários não configuram irregularidade”, destacou a defesa do parlamentar.

Sobre o filme, a defesa pontuou que Frias participou do desenvolvimento criativo e institucional do projeto audiovisual e que “o entusiasmo manifestado nas mensagens privadas decorre da dimensão artística e cultural do projeto, considerado por sua equipe como uma produção inédita dentro do cinema nacional independente”.

Vorcaro bancou filme do clã Bolsonaro

Os diálogos, um comprovante de uma ordem de pagamento de 2 milhões de dólares e uma tabela com previsão de valores a serem pagos analisados pelo Intercept indicam que pelo menos parte do dinheiro foi transferida pela Entre Investimentos e Participações, que atuava em parceria com empresas de Vorcaro, para o fundo Havengate Development Fund LP, sediado no Texas, nos Estados Unidos, e controlado por aliados de Eduardo Bolsonaro.

Os registros ainda sinalizam a participação direta nas operações de outros dois intermediários: o empresário Thiago Miranda – fundador e sócio do Portal Leo Dias –, e Fabiano Zettel, apontado pela Polícia Federal como o principal operador financeiro de Vorcaro.

As mensagens obtidas pelo Intercept abrangem o período de dezembro de 2024 a novembro de 2025 e incluem diálogos do banqueiro com diversos interlocutores. O conteúdo do vazamento foi verificado por meio de cruzamento de informações contidas nos diálogos com dados públicos e sigilosos. Entre os elementos que confirmaram a autenticidade do material estão dados bancários e telefônicos, inquéritos policiais, registros do Congresso Nacional e de redes sociais.

De acordo com as conversas a que tivemos acesso, o relacionamento entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro para viabilizar a produção internacional do filme contava com um intermediário no fim de 2024 e, no ano seguinte, evoluiu para uma interlocução direta, marcada por cobranças para a liberação de dinheiro, tratativas operacionais e demonstrações de proximidade pessoal.

As conversas também indicam que Daniel Vorcaro acompanhava pessoalmente o andamento dos pagamentos e atribuía prioridade ao filme em relação a outros compromissos financeiros.

O Intercept entrou em contato por e-mail com advogados do ex-presidente Jair Bolsonaro, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

‘Flavio está ciente de tudo’

A primeira aproximação registrada pelas conversas obtidas pelo Intercept ocorreu em 8 de dezembro de 2024, quando o empresário Thiago Miranda, então CEO do Portal Leo Dias, organizou um encontro entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro em Brasília. 

Na mensagem para confirmar o encontro, Miranda afirmou ao banqueiro que o senador queria tratar do “filme do presidente e do SBT $$” [uma possível referência ao canal de televisão SBT], acrescentando que “Flavio está ciente de tudo”. 

Thiago Miranda e Leo Dias foram contatados para comentar as trocas de mensagens. Até a publicação da reportagem, não houve resposta. O espaço segue aberto e, caso haja retorno, o texto será atualizado.

O SBT, por sua vez, respondeu que, “nunca teve qualquer tipo de contrato com o Banco Master” e que “o produto CredCesta, vinculado ao Grupo Master, fez ações comerciais de fevereiro a dezembro de 2024 em programa do SBT” e que “a relação do SBT com o Banco Master foi a mesma que com todos os seus anunciantes, com estritamente a comercialização de espaços publicitários”.

A reunião foi marcada, segundo os registros, para 11 de dezembro, às 17h30, na residência de Vorcaro em Brasília. Naquele dia, Flávio Bolsonaro participou de uma reunião deliberativa na Comissão de Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ. O vídeo disponível no canal do Senado no YouTube mostra que, por volta das 17h30, ele recebe um telefonema, se levanta e sai da sala

As imagens mostram Flávio voltando a se sentar na sua cadeira poucos minutos depois das 18h, o que sugere que uma possível participação na reunião poderia ter ocorrido de forma remota ou em outro local.

Pouco menos de uma hora após o horário previsto para o encontro, às 18h24, as mensagens obtidas pelo Intercept mostram que Mario Frias enviou um áudio para Vorcaro agradecendo pelo apoio ao projeto. Frias afirmou que o filme “vai mexer com o coração de muita gente” e seria importante para o país. Na sequência, ele e o banqueiro fizeram uma ligação telefônica entre si.

Nos meses seguintes, as mensagens indicam avanço das negociações. No início de 2025, Miranda e Flávio pressionam Vorcaro para destravar os contratos e iniciar os aportes.

No dia 20 de janeiro, Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Flávio Bolsonaro pedia que o jurídico do investidor fosse pressionado para concluir o processo. Horas depois, Vorcaro respondeu a Miranda, na época CEO do Portal Leo Dias: “Vou atras aqui”.

As conversas mostram que o cronograma de pagamentos passou a ser acompanhado diretamente pelo banqueiro e por Fabiano Zettel, apontado nas mensagens como responsável pela operacionalização jurídica e financeira do aporte. Entramos em contato com o advogado de Zettel, Celso Vilardi, mas ele não respondeu aos questionamentos feitos pela reportagem.

No dia 21 de janeiro, Zettel explicou a Vorcaro que o filme teria um fluxo específico de pagamentos: dez parcelas de 2,5 milhões de dólares. Meses depois, em agosto do mesmo ano, Miranda enviou a Daniel Vorcaro um documento com uma tabela indicando que o fluxo de pagamentos acordado foi diferente: 14 parcelas – 12 delas de 1,666 milhão de dólares e duas de 2 milhões de dólares.

Ainda em janeiro, no dia 28, Vorcaro demonstrou preocupação com os atrasos nos repasses financeiros e afirmou que o projeto cinematográfico era prioridade absoluta ao definir o pagamento como “o mais importante disparado”. E deu uma ordem: “Nao pode falhar mais”.

As mensagens também revelam dificuldades operacionais para a remessa internacional dos recursos. Em fevereiro, Zettel relatou sucessivas recusas do setor de câmbio do Banco Master para realizar a operação e que informações de cadastro eram “meio estranhas”. Vorcaro, então, orientou que o pagamento fosse realizado “via entre”, uma referência à empresa Entre Investimentos e Participações.

Embora o Grupo Entre Investimentos e Participações e Vorcaro neguem qualquer vínculo societário, de controle ou governança entre as partes, processos judiciais e administrativos obtidos pelo Intercept evidenciam uma conexão operacional e financeira entre o grupo e o banqueiro. Em março de 2026, após o Banco Central decretar a liquidação extrajudicial da Entrepay, uma empresa que pertencia ao Grupo, autoridades passaram a investigar a suspeita de que Vorcaro atuaria como dono oculto da empresa.

Segundo matérias publicadas por Metrópoles e Estadão, investigadores avaliam que Antônio Carlos Freixo Júnior — executivo ligado ao Grupo Entre e identificado nas mensagens do vazamento obtido pelo Intercept como Mineiro — funcionaria como operador de interesses do banqueiro dentro da companhia.

Apesar das negativas oficiais, as mensagens indicam haver uma ligação entre Vorcaro e Freixo. Em fevereiro de 2025, segundo os registros, Fabiano Zettel perguntou a Vorcaro se poderia “pedir pro Minas” logo após o banqueiro sugerir fazer a operação “via entre”. O telefone de Freixo foi salvo na agenda de contatos de Vorcaro como Mineiro.

O Intercept enviou mensagem por WhatsApp e telefonou para Antônio Carlos Freixo Júnior, mas não obteve retorno até a publicação desta reportagem.

Dias depois, em 14 de fevereiro de 2025, Zettel encaminhou ao banqueiro o comprovante de uma transferência internacional de 2 milhões de dólares para o Havengate Development Fund LP, identificado nas mensagens como o fundo ligado à produção do filme. A Entre Investimentos e Participações aparece no registro como a remetente do valor.

O Grupo Entre, controlador da Entre Investimentos e Participações, também foi contatado pela reportagem. No entanto, não houve retorno até a publicação.

Documentos societários obtidos pelo Intercept mostram que o fundo Havengate Development Fund LP foi registrado no Texas, nos Estados Unidos, e tem como agente legal o escritório “Law Offices of Paulo Calixto PLLC”, de Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro.

Nos registros, o fundo aparece como sendo pertencente à companhia quase homônima Havengate Development Fund GP LLC, registrada no mesmo endereço comercial em Dallas.

Os documentos desta segunda firma apontam o corretor de imóveis Altieris Santana como membro do quadro societário do fundo e Paulo Calixto como membro e administrador. Ambos aparecem vinculados ao mesmo endereço comercial utilizado pelo Havengate.

Em março de 2025, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept, Vorcaro voltou a cobrar a quitação das parcelas ainda pendentes. Em uma mensagem enviada no dia 12 daquele mês, ele encaminhou um cronograma de desembolsos indicando que apenas a primeira parcela havia sido paga até então. O documento previa seis parcelas somando 10,6 milhões de dólares entre janeiro e maio de 2025.

Em contato telefônico, Altieris Santana se recusou a prestar informações à reportagem, indicando Paulo Calixto como representante legal. Paulo Calixto, por sua vez, não respondeu aos contatos telefônicos, por e-mail e via mensagem feitos pelo Intercept.

Crise do Master atrapalha ‘Dark Horse’

No dia 21 de março, o nome de Eduardo Bolsonaro apareceu pela primeira vez nas conversas a que tivemos acesso. Thiago Miranda encaminhou a Vorcaro uma captura de tela em que um número atribuído a Eduardo sugere alternativas para facilitar o envio dos recursos aos EUA – e informa que Altieris Santana, controlador do fundo Havengate, estaria disponível para reuniões presenciais relacionadas à operação financeira.

No contato com a reportagem do Intercept, Altieris Santana se recusou a comentar a relação com o filho do ex-presidente ou a intermediação dos pagamentos. O Intercept também questionou por e-mail o ex-deputado Eduardo Bolsonaro, mas não recebeu resposta até a publicação deste texto.

O cronograma de financiamento do filme coincidiu com a tentativa fracassada de Vorcaro de vender o Master para o Banco de Brasília, o BRB, e com a crescente atenção das autoridades, que culminaria na sua prisão. Ao longo do segundo semestre de 2025, as mensagens indicam aumento da pressão financeira sobre Vorcaro e uma intensificação do contato direto com Flávio Bolsonaro.

Em agosto, Miranda enviou ao banqueiro a imagem de uma tabela intitulada “Funding Schedule Havengate Dev Fund”, segundo a qual 10,6 milhões de dólares já haviam sido transferidos de um total previsto de 23,9 milhões de dólares. Vorcaro respondeu: “segunda fazemos duas”, e Miranda afirmou estar “monitorando essa reta final”.

A reportagem do Intercept telefonou para Miranda e enviou questionamentos a ele por WhatsApp, mas não obteve resposta até a publicação desta reportagem.

Pouco depois, em 8 de setembro, alguns dias antes de Jair Bolsonaro ser condenado pela trama golpista, Flávio Bolsonaro enviou um áudio diretamente a Vorcaro cobrando o saldo pendente e alertando para o risco de paralisação da produção do filme.

Na gravação, o senador diz que havia preocupação com o atraso nos pagamentos a profissionais internacionais envolvidos na produção. “Imagina a gente dando calote num Jim Caviezel [ator que interpreta Jair Bolsonaro no filme], num Cyrus [Nowrasteh, diretor do filme], os caras, pô, renomadíssimos lá no cinema americano e mundial. Pô, ia ser muito ruim”, afirmou Flávio.

Flávio também disse que o não cumprimento dos compromissos financeiros poderia comprometer contratos, elenco, direção e toda a equipe do longa. “Agora que é a reta final que a gente não pode vacilar, não pode não honrar com os compromissos aqui, porque senão a gente perde tudo”, declarou.

Na resposta, Vorcaro pediu desculpas, afirmou que a semana anterior havia sido muito difícil para ele e prometeu resolver a situação até o dia seguinte. Na mesma noite, os dois fizeram uma ligação telefônica de cerca de dois minutos e meio, de acordo com os registros obtidos pelo Intercept.

Cinco dias antes dessas mensagens entre Flávio e Vorcaro, o BRB anunciou que o Banco Central havia reprovado a venda do Master. 

‘Tudo isso só está sendo possível por causa de vc’

As conversas seguintes mostram a manutenção do contato frequente entre ambos. Ainda em setembro, Flávio e Vorcaro realizaram quatro ligações e marcaram encontros presenciais em São Paulo.

Em uma troca de mensagens no dia 17, Vorcaro perguntou “14:30?”, ao que Flávio respondeu: “Blz”. Em outubro, as cobranças se intensificaram novamente. No dia 22, Flávio informou que as filmagens já estavam no terceiro dia e que a produção havia chegado “no limite”. O senador afirmou que, caso o apoio financeiro não pudesse continuar, seria necessário avisar para que a equipe buscasse “outro caminho”. O banqueiro o tranquilizou: “Deixa comigo”.

No mesmo dia, Flávio convidou Vorcaro para um jantar em São Paulo com o ator Jim Caviezel e o diretor Cyrus Nowrasteh em 2 de novembro. O banqueiro sugeriu realizar o encontro em sua própria residência e que poderia reorganizar sua agenda para comparecer, pois “tinha uma viagem”. Flávio sugeriu, mais tarde, a data de 6 de novembro. Não há confirmação, nos registros, se o jantar de fato ocorreu.

Enviamos questionamentos para Nowrasteh e Caviezel, mas não houve resposta até o momento de publicação.

No dia 7 de novembro, após enviar a Vorcaro um vídeo de visualização única, Flávio escreveu: “Tá perdendo, irmão! Tudo isso só está sendo possível por causa de vc”. Vorcaro responde: “Que demais”. Em seguida, diz: “Ficou perfeito”.

Em dezembro de 2025, o Intercept revelou que Karina Ferreira da Gama, produtora do filme no Brasil, havia recebido pelo menos R$ 108 milhões da Prefeitura de São Paulo para operar um contrato de Wi-Fi público sem concluir entregas previstas. Desde março, o Ministério Público está investigando o contrato. A origem do dinheiro que custeou a super produção permanecia, no entanto, uma incógnita. Enviamos questionamentos para Gama, mas não houve resposta até a publicação. O espaço segue aberto.

O protagonista Jim Caviezel chegou a anunciar a estreia do filme “Dark Horse” para 11 de setembro de 2026, poucas semanas antes da eleição presidencial que Flávio Bolsonaro espera vencer. O site oficial do filme, no entanto, não confirma que a produção tem data para chegar ao Brasil.

Contribuíram nesta reportagem: Ana Clara Barbosa, Angélica Neiva, André Garavatti, Bianca Pyl, Eduardo Lima, Rafaela Silva, Samantha Prado, Sarah Germano e Thalys Alcântara

Atualização: 13 de maio de 2026, 16h29
O texto foi atualizado para incluir as respostas da defesa do deputado federal Mario Frias, do PL de SP, aos questionamentos do Intercept.

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A ALFORRIA DO OLHAR A PARTIR DAS FAVELAS DO RIO

Denise Mota, Folha de S. Paulo

Experiências e projetos em comunidades cariocas ocupam papel central na revista aMARÉlo

Combate a estereótipos pontua série sobre Carlinhos Brown e seu Candeal em Salvador

Eu não sabia que há quase 15 anos um homem pedala pelas ruas da Maré levando cinema para crianças em vários rincões da favela —a partir de um projetor doado e de potes de óleo de cozinha usados que ele recicla para vender e manter o projeto.

Eu também não conhecia a obra de Albarte, jovem e instigante artista plástico que mora em Guadalupe, na Zona Norte do Rio, e que tece sua criação em consonância com o território que habita. Eu não sabia. Eu não conhecia. Estava fora do radar.

Em meio ao barulho permanente das redes sociais que parecem falar sempre das mesmas coisas —de comentários vazios sobre reality shows a análises catastrofistas do noticiário ou métodos milagrosos para rejuvenescer, emagrecer ou ascender espiritualmente em suaves prestações—, voltar a maravilhar-se com histórias reais e diversas não é pouca coisa.

Elas se reproduzem no cotidiano das favelas e em uma polifonia de personagens reunidos em aMARÉlo, revista lançada pelo projeto homônimo de jornalismo cultural realizado pelo Observatório de Favelas.

Coletivos e veículos de comunicação popular que cobrem as zonas Sul, Oeste e Norte e o Centro do Rio de Janeiro integram a iniciativa, que tem por objetivo central ampliar e atualizar (corrigir?) imaginários (estereótipos?) frequentemente associados à favela (e extensivos à pobreza, em geral).

A partir da relação de confiança estabelecida com seus vizinhos, os comunicadores de aMARÉlo conseguem descrever existências em primeira pessoa, fora do laboratório teórico. E refletir uma dinâmica de vivências que não são passivas, para além de concepções de escassez e violência, e que produzem pensamento e interpretações da realidade.

Sair do piloto automático é um convite que permeia também a biografia documental de Carlinhos Brown, "Meia Lua Inteira", série em exibição pela HBO. Outro filho mais da periferia —um Candeal hoje referência urbana, mas onde não havia nem saneamento quando Brown nasceu (como ele mesmo conta no primeiro episódio)—, o músico, compositor e transformador social fala nas entrelinhas das incontáveis vezes em que rompeu com expectativas, estereótipos e estatísticas.

"Eu venho aqui com todo o respeito/ Apresentar a história de um sujeito/ Que nunca foi um marginal/ E ganhou o mundo com o agogô, pandeiro, timbal e berimbau", enuncia na introdução que se repete a cada episódio. É a tônica desse auto-retrato.

Sua construção não se vincula à marginalidade social (por conta de noções de pertencimento fincadas no elo com o simbólico, o afetivo e o ancestral, traduzidos em capital comunitário, e não pecuniário). Nem a ideias de marginalidade cultural —as distintas origens étnicas e filiações artísticas e intelectuais de Brown colocam a multiplicidade no eixo de sua existência e criação, um universo inteiro atravessado por todos os outros. Muito menos à esfera criminal: "A percussão é uma reestruturadora social. Uma comunidade quando se junta em torno de um benefício comum ressoa positividades".

Neste maio em que oficialmente celebramos a "libertação" dos africanos e descendentes outrora escravizados —povos que compõem a medula da nossa identidade—, um pequeno e transformador passo íntimo de liberdade é a alforria do olhar.

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O EXEMPLO LULA

Cristovam Buarque*, Correio Braziliense

Lula tem sido um raro exemplo de líder que tenta defender ao mesmo tempo os desejos e valores específicos do Brasil sem ignorar os compromissos humanistas com o mundo inteiro

O mapa-múndi não é mais a soma de países independentes, cada um com a própria cor; a globalização transformou cada país em um pedaço do mundo, com interesses entrelaçados. Mas a política continua por país. Os líderes ficam perplexos porque seus países são pedaços do mundo, seus habitantes vivem problemas globais, mas seus eleitores continuam nacionais na defesa dos interesses do seu país no presente. Embora estejam entrelaçados pela crise ecológica, pressão demográfica e drama social, seus líderes não têm propostas que atendam aos interesses específicos de seus eleitores e ofereçam solução para os problemas globais. Diferentemente do que ocorria até algumas décadas atrás, a democracia nacional hoje se opõe ao humanismo planetário. A Europa se adaptou ampliando suas fronteiras formando a Comunidade Econômica Europeia, mas tratando os habitantes dos demais países como imigrantes indesejáveis, como se fossem invasores. Ao unirem-se, isolaram-se para atender aos desejos dos eleitores europeus, em detrimento dos seres humanos do restante do mundo. 

Lula tem sido um raro exemplo de líder que tenta defender ao mesmo tempo os desejos e valores específicos do Brasil sem ignorar os compromissos humanistas com o mundo inteiro. Estadista com dois chapéus: o do país e o da humanidade. Mostrou isso ao liderar a COP30, mas entendendo que o eleitor brasileiro ainda está mais preocupado com o preço da gasolina hoje do que com o nível do mar na próxima década. Apresentou mapa do caminho para abolir o uso de combustíveis fósseis no mundo, mas contraditoriamente atendeu ao interesse do eleitor do Amapá por produção de petróleo na Amazônia. Pode pagar um preço eleitoral quando os interesses locais e imediatos defenderem com vigor a construção de barreiras contra a imigração social dos pobres, muros contra a imigração geográfica de estrangeiros e desregramento da proteção do patrimônio ambiental que pertence aos imigrantes geracionais, que ainda não nasceram. 

Desde a posse de Donald Trump, em nenhum momento Lula deixou de falar com altivez, representando os eleitores brasileiros, e ao mesmo tempo os habitantes do chamado Sul Global, inclusive os pobres dos EUA e da Europa. Enquanto dirigentes, inclusive de grandes países, se apequenavam assustados com as consequências do tarifaço, Lula enfrentou o problema buscando novos mercados e aprovando medidas de reciprocidade contra os Estados Unidos. Defendeu a soberania nacional, sem deixar de defender os povos do Sul Global. Denunciou o genocídio praticado por Israel contra o povo de Gaza, mesmo diante da pressão dos que acusam de antissemitismo aqueles que criticam especificamente ao atual governo de Israel. Criticou a invasão da Ucrânia sem cair no discurso antirrusso dos membros da Otan. Apoiou a não disseminação de armas nucleares, mas não apoiou o bombardeio ao Irã. 

Ainda é cedo para saber se o exemplo do estadismo humanista e planetário de Lula terá sucesso eleitoral suficiente para lhe dar mais um mandato ou se uma eventual derrota impedirá que ele inspire lideranças políticas de outros "pedaços do mundo" a se tornarem lideranças para o mundo inteiro. Mas, desde já, ele marcou a história como um líder planetário, talvez o primeiro a tentar combinar democracia com humanismo. Já é, portanto, um exemplo. 

Graças ao seu talento e firmeza, mas sobretudo por ser presidente do Brasil: país que, além do expressivo tamanho, é aquele que mais se parece com o conjunto da atual civilização com seus sucessos e fracassos. Diferentemente de outros países pequenos, mais desenvolvidos ou mais atrasados, os problemas do Brasil são problemas do mundo, e nossas soluções servem para o mundo. Na fronteira cuidamos dos imigrantes venezuelanos, na defesa dos nossos povos primitivos regularizamos os arrozais, e na proteção do meio ambiente enfrentamos garimpeiros e regulamentamos o agronegócio para proteger nossas matas. Com  o Bolsa Escola/Família, mostramos como cuidar com humanismo da pressão migratória interna. Daqui pode partir o exemplo da ideia de um Bolsa Família Internacional que, no lugar de barrar imigração com muros, faz desnecessária a emigração graças a uma renda mínima local.

*Cristovam Buarque — professor emérito da Universidade de Brasília (UnB).

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CLAMOR POR CPI DO MASTER TEM INTENÇÕES OCULTAS

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

É de se desconfiar do súbito empenho suprapartidário para levar as investigações para o palco do Parlamento

Quanto mais se espalha a lama na arena política, menor a chance de um campo ideológico ficar no prejuízo

O senador Ciro Nogueira (PP-PI) é o mais graúdo, mas não deve ser o único peixe do Congresso a cair na rede da Polícia Federal na investigação do caso Master. O próprio Daniel Vorcaro confirmou em depoimentos e mensagens no celular como era ampla sua influência no mundo político.

Questão de tempo, portanto, que apareçam outros a criar embaraços partidários. E, talvez, suprapartidários. Quanto mais gente estiver envolvida, quanto mais ideologicamente ecumênico for o alcance dos atingidos, menor a chance de que esse ou aquele campo político em disputa arque com o prejuízo na eleição.

Essa pode ser a conta que governo e oposição fazem quando saem de modo célere e estridente em defesa da instalação de uma comissão de inquérito para levar o escândalo do Master para a arena do Parlamento.

Independentemente de quem assinou ou deixou de assinar os vários pedidos de CPI antes de a polícia chegar em um dos capas-pretas do centrão, ninguém de verdade queria saber de entrar a fundo no assunto. Tanto que houve acordo para o presidente do Senado pautar sessão de vetos presidenciais sem a exigência regimental da leitura de requerimento para a criação de uma comissão.

Subitamente, despertou-se não só o interesse mas uma disputa para cada força se mostrar mais empenhada na defesa do inquérito parlamentar.

Há duas hipóteses para tanto empenho. Uma, a de que seja apenas uma forma de fazer pose ética para o eleitorado, confiando no espírito de corpo de Davi Alcolumbre (União-AP) para refrear os ímpetos investigativos. Outra, a intenção exposta acima, de que quanto mais se espalhe a lama maior a chance de a conta acabar em soma zero.

No terreno das intenções mais ou menos ocultas se inscreve também a confiança dos congressistas em restrições impostas pelo Supremo Tribunal Federal a comissões de inquérito recentes. Na perda de poderes, as CPIs esvaziam-se na prática para deleite e segurança dos pragmáticos que fazem da defesa da ética uma proveitosa figuração eleitoral.

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COMO O DETERGENTE E A INFLAÇÃO AFETAM AS CAMPANHAS ELEITORAIS DE LULA E TRUMP

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Preços comem os salários nos EUA e ameaçam maioria dos republicanos no Congresso

Preferências políticas por vezes delirantes afetam modo de enxergar a situação da economia

O salário médio nos Estados Unidos perdeu para a inflação nos últimos 12 meses, o que não acontecia desde meados de 2023. Quer dizer, o poder de compra diminuiu.

Em novembro, haverá eleição nos EUA. Em outubro, no Brasil. Os preços aumentam também por aqui. O salário médio, no entanto, cresce 5% mais do que a inflação, ao ano. Mesmo assim, a situação de Lula 4 é periclitante. Está evidente desde o segundo ano de Lula 3 que as melhoras econômicas não influenciam o voto de muita gente ou são relativas.

"Polarização" ajuda a explicar insatisfações e preferências, assim como regionalismos, mudança demográfica e uma desconfiança grande do Estado, do "sistema" e dos impostos. Aliás, em canetada eleitoreira vexaminosa, Lula zerou a "taxa das blusinhas".

Não ajuda também a persistência de problemas que surgiram ainda na epidemia, como nível de preços alto ou aumento do crédito bancário em relação à renda. Mas parece haver mais. Para citar um exemplo anedótico do que são as mentalidades deste mundo, um detergente é motivo de identificação e combate políticos. Não quer dizer que salário, preço e lucro não sejam assunto. Quer dizer que o modo de se enxergar tais coisas está em convulsão.

O prestígio de Donald Trump está no pior nível desde o início do governo, segundo a média das pesquisas calculadas pelo Silver Bulletin: 58,1% dos americanos desaprovam o governo. Na posse, em janeiro de 2024, eram 40%. No que diz respeito a inflação, a desaprovação é de 67,4%.

Preços parecem ter sido um motivo da derrota do Partido Democrata para Trump em 2024. Ainda em meados de 2023 os salários perdiam da inflação. A amargura durou até a eleição. Em 2024, a confiança na economia não era tão baixa desde 1961, com exceção de 2022, ano ainda desgraçado pela Covid (trata-se aqui do índice anual de confiança do consumidor da Universidade de Michigan). Esses números, porém, ainda não explicavam grande coisa.

Para 39% dos americanos, a vida estava então melhor do que em 2020, segundo pesquisa Gallup feita mês e meio antes daquela eleição. Entre os democratas, a vida estava melhor para 72%. Entre os republicanos, para 7%. Entre os minoritários independentes, para 35%.

No Brasil também é assim. A adesão a Lula ou a Bolsonaro em parte define a opinião sobre a situação econômica, e não o contrário, para ficar em apenas uma complicação.

Parecia que os americanos de 2024 viviam em situações socioeconômicas muito diferentes —era verdade apenas em parte. Em parte, viviam em universos diferentes, com prioridades programáticas divergentes. Como no Brasil.

As ideias podem ser diferentes também sobre o que se chama de "costumes", segurança, benefícios sociais etc. em combinações que não se alinham por "esquerda" ou "direita". Mais do que isso, é possível que os eleitores prefiram "detergentes" diferentes, por assim dizer. A politização digital de ninharias da vida cotidiana, como no caso da adesão sectária ao "partido do detergente", indica que a formação de preferências pode ser delirante.

Isto posto, sim, inflação faz diferença. Ou melhor, como se escreve nestas colunas faz um par de anos, um nível de preços alto desde a epidemia, em particular de alimentos, não foi compensado por alta suficiente de salários. Nesta situação, inflação adicional irrita ainda mais —e vem um tanto mais de carestia até o final do ano, com subsídio para combustível, com tudo.

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VORCARO NÃO COMPROU O BRASIL POR UM TRIZ

Roberto DaMatta*, O Estado de S. Paulo

A questão que nos envergonha é a incapacidade de sustentar a imparcialidade estrutural da democracia pelo controle da inevitável parcialidade dos interesses pessoais

Quero novamente ressaltar o dilema do formalismo bacharelesco que marca o campo político brasileiro; tal como ele é conceituado pela IA, em sua capacidade extracorpórea de ser uma excepcional máquina pensante.

A inteligência artificial define política como “o conjunto de práticas, decisões e ações utilizadas para organizar, governar e administrar sociedades, visando ao bem comum, a mediação de conflitos e a distribuição de poder. Originada do grego polis (cidade), refere-se à gestão da vida coletiva, elaboração de leis e definição de rumos para a comunidade”. Beleza, mas a sua prática – a nossa conhecida politicagem – é qualificada por dois malditos apêndices: crise e corrupção.

Entre teoria e prática, existe uma fratura que denuncia como é fácil adotar e como é um dilema praticar, porque a democracia exige uma separação radical entre público e privado, sem o que não há igualitarismo. Discursar fantasias com alicerces escravocratas ou tomar consciência para chegar ao centro de um sistema que, em 1979, no livro Carnavais, Malandros e Heróis, denunciei como dilemático.

Nele, heróis como os “caxias” e os certinhos, vistos como trouxas seguidores de regras, e o malandro atuam simultaneamente. Essa ambiguidade, lida como piada, inventa o “jeitinho” – esse caminho entre o imparcial e o parcial que promove anistias e certezas de impunidade. É plenamente possível, diz Pedro Malasartes aos seus afilhados que roubaram o INSS e a Daniel Vorcaro, comprador dos donos do poder, enriquecer por amizade, como nos velhos tempos do rei.

Não é por acaso que a política é atropelada pela politicagem de um republicanismo atropelado por elos de parentesco, camaradagem e amizade. Esse estilo, jamais criticado, é até hoje visto como “corrupto” e não como a base a ser rejeitada do legado monárquico.

Como ensina a IA: politicagem é o uso da política para fins pessoais, caracterizada por trocas de favores. Seus traços são: interesses pessoais, foco na vantagem própria ou de um grupo restrito. Ou seja: elos pessoais ou amizades instrumentais.

Enquanto a política foca o interesse público, a politicagem foca a manutenção do poder a qualquer custo e a ausência de ações concretas para a sociedade.

Nessa veraz conceituação, não se enxerga a nossa incapacidade (inconsciente e malandra) de distinguir o impessoal do pessoal, numa canibalização não prevista por Max Weber – a da dominação burocrática pela tradicional.

A questão que nos envergonha é a incapacidade de sustentar a imparcialidade estrutural da democracia pelo controle da inevitável parcialidade dos interesses pessoais que, em todo lugar, promovem desigualdade e, no nosso caso, devido a uma estrutura administrativa personalista e hierarquizada.

PS: Daniel Vorcaro não comprou o Brasil por um triz.

*É antropólogo, escritor e autor de ‘Carnavais, malandros e heróis’

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A ÂNCORA DAS CONTAS EXTERNAS

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

Âncora externa: melhora na balança comercial blinda o mercado do estresse com as contas públicas

Favorecido pela exportação de petróleo em meio às restrições no Oriente Médio em guerra, o superávit comercial em abril foi de US$ 10,5 bilhões, quase 38% a mais do que igual mês de 2025

As contas externas passaram a ser uma das principais âncoras da economia brasileira desde que a guerra no Irã aumentou a tensão nos mercados globais, fazendo disparar os preços do petróleo e de outras matérias primas. Com uma das taxas de juros mais elevadas e um dos mais baixos déficits em conta corrente entre os países emergentes, o Brasil atraiu um grande fluxo do capital estrangeiro em busca de refúgio, em meio à turbulência geopolítica, levando à valorização do câmbio.

A balança comercial tem sido crucial para a melhora nas contas externas do Brasil. Em abril, o superávit comercial foi de US$ 10,5 bilhões, quase 38% a mais do que em igual mês de 2025. Também em abril, as exportações atingiram o recorde histórico para o mês: US$ 34,1 bilhões. Esse desempenho foi influenciado não somente pela alta nos preços do petróleo, como também pelo aumento das vendas do produto pelo Brasil, favorecido pela restrição de oferta com a interrupção do fluxo de petroleiros no Estreito de Ormuz. Também contribuíram para o maior superávit comercial os embarques de soja. Aliás, petróleo e soja representam quase 40% das exportações brasileiras.

Não à toa, os analistas vêm revisando para cima tanto o saldo da balança comercial quanto o déficit em conta corrente do Brasil em 2026. Antes do início da guerra no Irã, o consenso das estimativas para o superávit comercial era de US$ 68,4 bilhões, conforme a pesquisa Focus. Agora, está em US$ 75 bilhões. O banco Itaú projeta um saldo de US$ 80 bilhões, enquanto o BTG Pactual prevê US$ 90 bilhões em 2026 – e o risco é de o número final superar esse patamar, com a possibilidade de o preço do barril do Brent permanecer em nível elevado por um período mais longo e a perspectiva de maior produção de petróleo pelo Brasil. O reflexo sobre as contas externas do País seria relevante. Os economistas da XP estimam redução do déficit em conta corrente de 3% do PIB em 2025 para 2,1% neste ano.

“Embora a balança comercial já esteja mostrando aceleração relevante na margem, essa melhora ainda não se refletiu integralmente no fluxo comercial”, explicaram os analistas do BTG, em nota a clientes, ao revisarem a projeção para o dólar no fim do ano de R$ 5,20 para R$ 4,90. “À frente, há espaço para fortalecimento adicional do fluxo cambial à medida que o segmento comercial incorpore de forma mais plena a melhora da balança.”

Se o risco fiscal piorou nos últimos meses, com a proximidade da eleição presidencial, a melhora das contas externas vem compensando esse estresse do mercado.

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TREZE DE MAIO

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ATRITOS NO INÍCIO DA REFORMA TRIBUTÁRIA

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Penduricalhos inseridos na regulamentação pós-reforma inviabiliza o drawback, regime que vinha funcionando bem desde 1961

O mundo dos tributaristas, contadores e administradores tributários ferve após a publicação dos regulamentos dos novos tributos sobre o consumo, o Imposto sobre Bens e Serviços (IBS) e a Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS), no fim de abril. Pelo menos dois pontos de preocupação já emergiram: drawback suspensão e utilização dos créditos tributários. Além disso, já há decisões judiciais colocando em xeque pontos da legislação do novo sistema.

O drawback suspensão é o principal mecanismo existente hoje para o Brasil fazer o que o mundo faz: não exportar impostos. Quando uma indústria importa um insumo para fabricar algo que será destinado ao mercado externo, ele ingressa no país com a cobrança dos tributos suspensa. Se o produto de fato for destinado ao mercado externo, a suspensão se converte em isenção.

É um sistema que funciona bem desde 1961, aponta o ex-secretário de Comércio Exterior Welber Barral, do escritório Barral Parente Pinheiro. Foi mantido pela reforma tributária, mas o detalhamento das regras preocupa. “Na regulamentação agora, que é um decreto, eles criaram um monte de critérios adicionais que não existiam, que torna o sistema muito mais complicado”, afirmou à coluna.

Segundo Barral, o governo argumenta que a suspensão de tributos é desnecessária, uma vez que o novo sistema garante a devolução dos tributos recolhidos ao longo da cadeia. “Mas ninguém sabe como vai ser essa devolução”, comenta. “Além disso, vai haver um impacto gigantesco no fluxo financeiro das empresas.”

Grande parte das exportações de manufaturados brasileiros é realizada por cerca de 2 mil empresas de médio porte. “Se não conseguirem preencher todos os novos requisitos, vão perder a oportunidade de utilizar drawback”, acrescenta.

Ele considera ser esse um “retrocesso grande” na reforma. Vê uma janela aberta para a judicialização.

Também ex-secretário de Comércio Exterior, Lucas Ferraz, coordenador do Centro de Estudos de Negócios Globais da Fundação Getulio Vargas (FGV), considera que a complexidade trazida pela regulamentação inviabiliza o regime. “Sem esse regime, as empresas brasileiras, sobretudo as pequenas e médias, estarão em clara desvantagem no mercado internacional.”

O decreto estabelece que para usufruir do drawback a empresa depende de habilitação na Receita Federal e no Comitê Gestor do Imposto sobre Bens e Serviços (CGIBS). Não haverá mais o crivo da Secretaria de Comércio Exterior (Secex), o que Ferraz considera um erro de competência. Precisa cumprir 14 requisitos, entre eles apresentar um relatório detalhado de capacidade industrial.

“A gestão de risco costuma ser mais rigorosa no comércio exterior porque a cobrança do tributo é medieval, é no momento que a mercadoria está entrando ou saindo”, diz Adriano Pereira Subirá, presidente do Comitê Tributário Brasileiro (CTB). A tendência mundial é de aperto nas empresas, e não nas operações em si, acrescenta.

Mário Sérgio Carraro Telles, diretor de Economia da Confederação Nacional da Indústria (CNI), aponta para outro aspecto dessa discussão: a isonomia entre insumos nacionais e estrangeiros. A lei complementar da reforma tributária diz que o drawback suspensão se aplica a insumos importados e “poderá” ser usado também nas aquisições internas. Os regulamentos confirmam que o regime abarcará compras no mercado interno.

“Para nós, essa equiparação em termos de isonomia competitiva é muito importante”, afirma Telles. “É um avanço, mas para que ele fosse alcançado foi entendido pelo Comitê Gestor e pela Receita Federal que deveria haver aumento nas exigências em relação ao que tem hoje.”

A coluna questionou a Receita e o Comitê Gestor, mas não obteve resposta.

A redução das exigências paras habilitação no drawback é uma das sugestões que a CNI pretende apresentar à Receita e ao Comitê Gestor.

Outro ponto da regulamentação que preocupa a CNI diz respeito ao “coração” da reforma tributária: a devolução de saldos credores de tributos. Há risco de uma empresa que tenha débito com exigibilidade suspensa não receber os créditos. “Esse débito está sendo discutido”, explica. “Então, não faz sentido não devolver o saldo credor.”

“De longe, essa questão da operacionalização da devolução dos créditos é o principal ponto de atenção na reforma como um todo”, comenta a tributarista Fabiana Ribeiro Bastos, sócia do Heleno Torres Advogados. Ela observa que a regulamentação traz alguns elementos que protegem o contribuinte, como fixar prazos para devolução e estabelecer a correção dos créditos pela taxa Selic. Mas ainda há questões em aberto, como o que acontece se o crédito não for pago no prazo máximo de 90 dias.

É positivo que Receita e Comitê Gestor tenham aberto um prazo até o fim deste mês para receber sugestões dos contribuintes. Com diálogo, será possível encontrar um meio-termo entre o rigor necessário à fiscalização e a fluidez exigida pelos negócios, e superar as dificuldades naturais da implementação de uma mudança tão profunda como é a reforma tributária.

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BACTÉRIA NO GARGALO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Detergente no gargalo é novo retrato do vale-tudo bolsonarista nas redes

Políticos atacam Anvisa e fazem discurso anticiência em busca de engajamento e voto

O vídeo circula desde domingo, impulsionado por perfis de extrema direita. Um homem de boné e camiseta bebe um frasco de detergente até a última gota. Suga o líquido com vontade, como se matasse a sede após atravessar o deserto. Em seguida, vira-se para a câmera e faz um gesto obsceno. “Aqui para você, petista”, provoca, exibindo o dedo médio.

O detergente é da marca Ypê, que teve a fabricação suspensa na semana passada. A decisão foi da Agência Nacional de Vigilância Sanitária, que apontou risco de contaminação num lote inteiro de produtos de limpeza. Para os bolsonaristas, tudo não passou de um complô. O objetivo seria prejudicar a empresa, cujos donos doaram R$ 1,5 milhão à campanha do capitão em 2022.

O homem de boné não está sozinho. As redes sociais ficaram apinhadas de vídeos semelhantes, em que anônimos e subcelebridades se lambuzam de detergente sob suspeita. “Já tomei banho com Ypê”, garante um ator de telenovelas. “Se eu não usar, passo até mal”, jura uma cantora de funk.

Enquanto os aspirantes à fama caçam cliques, políticos usam o tema para caçar votos. A ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro publicou uma foto do detergente ao sol, sob a legenda “Que dia lindo”. O senador Cleitinho Azevedo se deixou filmar espirrando o produto num córrego com esgoto a céu aberto, como se uma bactéria justificasse a outra. O deputado Sargento Fahur preferiu usar um frasco na versão amarela para lavar o bigode.

Não é a primeira vez que a turma se insurge contra decisões técnicas da Anvisa. Na pandemia, Jair Bolsonaro se irritou porque a autoridade sanitária não aceitou receitar vermífugo como remédio contra a Covid-19. Depois estrilou quando a agência autorizou a vacinação de crianças. “Qual é o interesse da Anvisa por trás disso aí?”, questionou, no mesmo tom dos patriotas que agora fazem degustação de detergente.

O discurso anticiência já foi sinônimo de ignorância. Hoje parece ser visto como uma ferramenta a mais na batalha política. Em busca de engajamento nas redes, extremistas espalham desinformação e investem contra a saúde pública. Para mobilizar a tropa, vale tudo. Até tomar bactéria no gargalo.

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LULA ACELERA MEDIDAS: HAVERÁ TEMPO ?

Vera Magalhães, O Globo

Presidente atira para todos os lados em busca de popularidade, mas pacote improvisado terá de vencer cansaço mais profundo demonstrado pelo eleitor

Com a água subindo perigosamente ao casco do navio, Lula resolveu acelerar ideias que estavam tempo demais em gestação para turbinar simultaneamente a avaliação de seu governo e suas chances eleitorais. No curso de pouco mais de uma semana, saíram o novo Desenrola, um plano de combate ao crime organizado com injeção de R$ 11 bilhões e, como bônus, o fim da “taxa das blusinhas”.

São medidas que apontam para todo lado, diferentemente do receituário de última hora adotado por Jair Bolsonaro em 2022. Este apostou quase unicamente em iniciativas populistas de repasse de renda e concessão de benefícios tributários, furando o teto de gastos e contrariando até vedações da lei eleitoral (que proíbe alguns repasses em período de campanha) — depois, trechos da PEC Kamikaze, que aprovou a derrama com votos até da esquerda, foram considerados inconstitucionais.

No caso de Bolsonaro, as benesses de última hora — que incluíam o aumento do Auxílio Brasil de R$ 400 para R$ 600 só até dezembro de 2022, redução de impostos dos combustíveis, aumento do vale-gás e um abono para caminhoneiros — não foram suficientes para levar à reeleição, mas as pesquisas mostraram melhora de sua competitividade à medida que o dinheiro era colocado na praça.

O arsenal de Lula é mais variado, além de incluir medidas coerentes com o que ele pregou na campanha e com iniciativas já adotadas desde o início do mandato, como a reforma do Imposto de Renda e a segunda edição do programa de refinanciamento de dívidas. Mas a decisão de atirar em várias direções, e tão tardiamente em muitos casos, evidencia alguns dos problemas estruturais deste terceiro mandato, apontados, muitas vezes, por integrantes do próprio Executivo.

A dificuldade de o Planalto coordenar as ações das demais pastas, arbitrar divergências de visões e definir a linha a seguir foi uma tônica desde 2023. Rui Costa, agora fora da cadeira, era frequentemente criticado pelos colegas por não deixar que as coisas andassem. Todas as medidas que saem do forno agora estavam marinando havia meses, algumas havia anos.

O diagnóstico de que o governo precisaria ser mais presente no tema da segurança pública vem da campanha. A disputa entre os que defendiam a manutenção da área no guarda-chuva do Ministério da Justiça e dos que pressionavam pela criação de uma pasta específica nunca foi devidamente arbitrada por Lula. Nos estertores do mandato, ele diz que pode optar pela cisão do ministério caso a PEC da Segurança passe no Senado. Fazer isso agora segue uma lógica unicamente eleitoreira. Pouco ou nenhum resultado efetivo dessa mudança poderá ser apresentado ao cidadão/eleitor.

A razão dos anúncios parece ser menos atender às demandas específicas e mais compor um pacote robusto o suficiente para criar a percepção de um governo em plena atividade. Os estrategistas acreditam que o volume de ações, devidamente propagandeadas, pode fazer diferença nas pesquisas. Mas ainda é cedo para colher algum fruto. Qualquer mudança, para melhor ou para pior, que seja detectada na nova pesquisa Quaest que sai hoje será devida a fatores anteriores à máquina de soltar medidas.

O cansaço detectado por diversos institutos com Lula e sua administração parece algo mais profundo e espalhado por diferentes segmentos de renda, escolaridade, religião e por boa parte do país. A reversão desse sentimento pode passar, sim, pela constatação de que o governo age para melhorar a vida da população, mas, num cenário polarizado, é na comparação com o outro candidato que reside a decisão de voto.

O embate direto com Flávio Bolsonaro é a parte 2 da estratégia lulista, até aqui entregue a aliados do presidente, antes que ele próprio entre no ringue. Tanto para as entregas de governo quanto para esse confronto com o bolsonarismo, o tempo exíguo contribui para tornar o desafio de Lula mais complexo.

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ALCOLUMBRE NÃO VAI A ANÚNCIO DO PLANO DE SEGURANÇA E FRUSTRA LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O litígio entre os dois se acirrou com a rejeição do nome de Jorge Messias para uma vaga no STF, articulação liderada pelo próprio presidente do Senado

A ausência do presidente do Congresso, Davi Alcolumbre (União-AP), no lançamento do programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, no Palácio do Planalto, frustrou as expectativas do presidente Luiz Inácio da Silva de que pode haver uma agenda de colaboração entre o Palácio do Planalto e o Senado, que cicatrize as feridas da rejeição do nome do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao Supremo Tribunal Federal (STF). Essa foi a maior derrota Lula no Congresso.

Durante o lançamento, ao lado do presidente da Câmara, deputado Hugo Motta (Republicanos-PB), Lula não deixou por menos: “O dia que o Senado aprovar a PEC da Segurança, nos próximos dias, nós criaremos Ministério da Segurança Pública neste país”, afirmou. Lula mencionou, também, que sempre se opôs à criação de um Ministério da Segurança Pública sem que antes fosse definido o papel do governo federal na área.

A PEC é o coração do programa “Brasil Contra o Crime Organizado”, iniciativa do governo federal voltada ao enfrentamento das organizações criminosas no país. A Constituição de 1988 concentrou a responsabilidade da segurança nos estados como reação ao período em que a política de segurança era conduzida pelo governo federal sob comando militar.

“Agora, nós estamos sentindo a necessidade de que o governo federal volte a participar ativamente, mas com critério e com determinação, porque nós não queremos ocupar espaço de governadores nem o espaço da polícia estadual. Mas o dado concreto é que se não trabalhar junto, a gente não consegue vencer. E o crime organizado se aproveita da nossa divisão”, argumentou Lula.

O texto da PEC aguarda despacho de Alcolumbre para início da tramitação na Casa. Porém, enfrenta uma disputa política que se traduz em diferentes narrativas sobre o enfrentamento do problema. A violência é a principal preocupação do brasileiro urbano, inclusive nas médias cidades, e está no centro do debate eleitoral. Parlamentares e governadores de estados da oposição se opõem à PEC, com o argumento de amplia de forma excessiva as atribuições do governo federal.

A PEC prevê, entre outros pontos, maior integração entre União e estados e a constitucionalização do Sistema Único de Segurança Pública (Susp). Com razão, o Palácio do Planalto avalia que medidas isoladas adotadas por estados não são suficientes para enfrentar estruturas criminosas que atuam de forma interestadual e internacional. Com o lançamento do programa, ontem, Lula tenta destravar as negociações com estados e o Centrão, para acelerar a adoção de medidas mais amplas de combate ao crime organizado.

No lusco-fusco da queda de braço, a chamada “bancada da bala” não perde a iniciativa. Ontem, a Comissão de Segurança Pública da Câmara aprovou um projeto que autoriza o uso do Fundo de Garantia do Tempo de Serviços (FGTS) para comprar armas de fogo. Apesar do absurdo, o projeto foi aprovado em cerca de um minuto, sem discussão dos parlamentares.

A proposta agora seguirá para as comissões de Finanças e Tributação, de Trabalho e Constituição e Justiça. De autoria do deputado Marcos Pollon (PL-MS), o projeto foi relatado na comissão pelo deputado Paulo Bilynskyj (PL-SP), que se posicionou favorável à proposta. O valor do saque deverá ser igual ao preço da arma, da cota anual de munições correspondentes à arma adquirida e acessórios essenciais à sua guarda segura do armamento.

Rota de colisão

Com Lula e Alcolumbre em rota de colisão, a PEC da Segurança Pública naufragará. O litígio entre os dois se acirrou com a rejeição do nome de Jorge Messias para uma vaga no STF, articulação liderada pelo próprio presidente do Senado, insatisfeito com a não indicação do senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) para o cargo no Supremo, como gostaria.

Há outras agendas conflituosas. Alcolumbre aliou-se ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) na derrubada dos vetos de Lula à mudança na dosimetria das penas dos condenados da tentativa de golpe de Estado de 8 de janeiro de 2023, o que sinaliza um desembarque do projeto de reeleição. Após a derrota, porém, o governo evitou demitir aliados de Alcolumbre, como o ministro da Integração e do Desenvolvimento Regional, Waldez Góes.

Como presidente do Senado, Alcolumbre se colocou numa posição de força. Seu jogo bruto também tem a ver com o Caso Master, cujas investigações pretende circunscrever ao escândalo financeiro. Por essa razão, bloqueou a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito sobre o banco. Segundo relatos, Alcolumbre acertou com a oposição o arquivamento da CPI em troca da votação de outras prioridades dos bolsonaristas, como o veto à dosimetria.

Investigado pela PF, o caso Master envolve suspeitas de irregularidades financeiras que agora chegaram a um dos principais aliados de Alcolumbre, o senador Ciro Nogueira (PI), presidente do Progressistas. O nome de Alcolumbre constaria na lista de contatos de Daniel Vorcaro, dono do banco. Investigações apontam que a Amapá Previdência, cujo comando era ligado a Alcolumbre, investiu milhões em papéis do Master, o que levantou suspeitas sobre a relação entre o senador e o banqueiro, que está preso.

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terça-feira, 12 de maio de 2026

DEBAIXO DESSE ANGU, TEM MUITO MASTER, E A REPÚBLICA JÁ SENTE O CORAÇÃO NA BOCA

Tom Farias, Folha de S. Paulo

Laços de Ciro Nogueira e Daniel Vorcaro levantam dúvidas

Banco era o centro nervoso da bancarização do crime no Brasil

Se havia dúvidas da ligação de Daniel Vorcaro, preso nas dependências da Polícia Federal, em Brasília, com políticos de alta patente, as incertezas caíram por terra com a revelação das conexões do ex-dono do banco Master com o senador Ciro Nogueira (PP-PI). E não deve ser caso único, pela expectativa da proposta de delação premiada sob análise da PF e da Procuradoria-Geral da República (PGR). Por conta dela, a própria República está na iminência de expelir o coração pela boca.

"Grandes amigos da vida", como rezam as mensagens no celular de Vorcaro. Essa relação sugere que debaixo desse angu há caroço grosso, dada a magnitude das transações e a bilateralidade criminosa que compartilham. De um lado, propinas de até R$ 500 mil mensais; de outro, uso do mandato em favor do ex-banqueiro. Uma promiscuidade presente no nosso imaginário, mas jamais vista nesses termos.

A interferência legislativa nas negociatas de Vorcaro, expressa na "emenda Master", dentro da PEC 65/2023, abriria perigoso precedente à economia se concretizada. Difícil acreditar que, pela oferta de favores e jatinhos de luxo, os "serviços prestados" por Ciro Nogueira se restrinjam a uma emenda rejeitada. É ingenuidade do colunista ou estamos diante de algo maior?

"Namoro ou amizade?", diria minha centenária avó. O certo é que os escândalos do banco Master, foco da Operação Compliance Zero, configuram o maior esquema financeiro criminoso da nossa história contemporânea.

Trocando em miúdos, a proposta de delação de Vorcaro, embora considerada "fraca" pela PGR, carrega potencial de implosão institucional. Se as provas dos celulares confirmarem o que se especula em Brasília, não restará pedra sobre pedra nos três Poderes.

Revelará o que até os bobinhos já sabem: o banco Master não era apenas uma instituição financeira, mas o coração pulsante da bancarização do crime no Brasil.

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O ALTO CUSTO DA GUERRA DE TRUMP

Míriam Leitão, O Globo

Conflito iniciado por Trump já fez o americano pagar US$ 35 bi a mais com a alta dos combustíveis. Efeito atinge também a inflação brasileira

O custo da guerra para os Estados Unidos não é apenas a cifra anunciada de US$ 25 bilhões de despesas orçamentárias extras. Essa é a ponta do iceberg, disse a professora de Harvard Linda Bilmes ao Financial Times. É preciso fazer a conta dos gastos indiretos, como o aumento da despesa com alimentos e com combustíveis, especialmente diesel. O conflito contra o Irã é parte do cotidiano dos cidadãos norte-americanos.

Numa reportagem sobre os impactos mensuráveis, o FT afirma, com base num estudo da Watson School of International and Public Affairs, da Brown University, que o consumidor americano já pagou US$ 35 bilhões a mais com combustíveis desde o início da ofensiva. Resultado da alta de 50% no galão de gasolina e do reajuste do diesel. “Equivale a US$ 268 por família, aproximadamente o valor de uma semana de compras de supermercado”.

As famílias lidam com isso de maneira desigual, como sempre. O terço mais rico não mudou os hábitos, o terço mais pobre cortou o consumo e recorre a caronas e ao transporte público. O querosene de aviação subiu mais de 70%, o que está claramente afetando os preços das passagens aéreas e foi uma das razões da falência de uma companhia aérea low cost, a Spirit Airlines.

Há a perda do que não aconteceu. Não houve o corte de juros. Antes da crise, a previsão era de dois cortes de 0,25 ponto percentual, pelo menos. As reduções não foram feitas. E nem poderão ser, mesmo com a mudança do presidente do Fed que será agora em maio, porque a inflação está em 3,5%, bem acima da meta de 2%. A despesa dos juros mais altos do que estariam se não fosse a guerra é calculada na matéria do Financial Times em US$ 200 bilhões. Juros menores estimulam a demanda, portanto, há também a ausência do estímulo que não ocorrerá.

Os fretes subiram de forma geral, até nas rotas que não passam pelo Oriente Médio, elevando os custos de produção da cadeia industrial e dos alimentos. Segundo a reportagem, os economistas estão prevendo que demorará seis meses até os efeitos desse choque chegarem aos preços da comida. Mas o valor do diesel, fretes mais altos e energia cara vão bater na inflação de alimentos. Tudo pode ser pior porque há ainda os fertilizantes que ficam mais caros e com menor oferta no mercado. Os países da região do Golfo são grandes fornecedores do produto. “O preço dos fertilizantes nitrogenados – muitos produzidos no Oriente Médio – subiu mais de 30% desde o início da guerra”, diz o jornal inglês.

Todos os países estão sentindo em maior ou menor grau o efeito do confronto em sua estrutura de preços. O Brasil, inclusive. A inflação de abril, que será divulgada hoje, mostrará a pressão dos preços provenientes da tensão geopolítica. Aqui, os combustíveis só não subiram tanto por dois motivos: a decisão de subsidiar o diesel e a política da Petrobras de segurar o reajuste da gasolina. Até que ponto isso é sustentável? Tanto o subsídio quanto o represamento de preços da gasolina têm peso elevado no gasto direto ou na receita que não vai entrar. Os juros aqui caíram, mas menos do que se projetava antes do confronto.

Além dos devastadores reflexos deste conflito, que o presidente Donald Trump iniciou intempestivamente e não sabe como terminar, paira ainda o temor do El Niño. Vários especialistas avaliam que o fenômeno climático poderá ser mais forte do que em anos anteriores. O resultado será mais inflação. Cálculos da G5 Partners mostram que em anos com El Niño, a média da inflação da alimentação no domicílio é de 11,6% contra 6,1% em anos sem esse fenômeno.

No ano passado, a alta do real e a falta de eventos climáticos extremos fizeram com que os alimentos registrassem alta de apenas 1,42%. Em 2026, só temos a valorização cambial jogando a favor.

Há nove semanas, o Boletim Focus vem aumentando a projeção do IPCA e há quatro semanas a previsão para 2026 é de estouro do teto da meta, o que piora o quadro para um governo que está disputando a reeleição. Ruim também é o impacto da operação no Irã no eleitorado que estará votando para renovar a Câmara dos Representantes e parte do Senado nos Estados Unidos. A aprovação de Trump nunca foi tão baixa. Ele prometeu não iniciar novas guerras, encerrar algumas, manter a inflação baixa e gasolina barata. Mas a realidade é o oposto do que o seu eleitor estava esperando.

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COM TRAFICANTES E AMANTES, RIO É UM CABARÉ EM CHAMAS

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Em sete meses, três deputados da tropa bolsonarista foram presos

Apesar das retaliações, governador interino não descansa na faxina

Virou rotina. Em sete meses, três parlamentares do Rio foram presos, entre eles o presidente da Alerj, Rodrigo Bacellar, acusado pela Polícia Federal de vazar uma operação contra o Comando Vermelho em que o alvo era o deputado TH Joias. A bola da vez é Thiago Rangel, que desviou verbas da Secretaria de Educação e concedeu cargos na pasta a pessoas indicadas por um traficante, de acordo com as investigações.

Os três integravam a tropa bolsonarista que, desde 2019, se especializou em aparelhar as instituições e depenar os cofres públicos, aliando-se a organizações criminosas. Estas, livres para atuar, se agigantaram.

Rangel, do Avante, é considerado um peixe pequeno no esquema de corrupção. Mas um peixinho que tinha um Porsche último tipo guardado na garagem e cujo patrimônio saltou de R$ 224 mil em 2020, quando se candidatou a vereador, para R$ 3 milhões em 2023, ano em que já era deputado. Segundo a Polícia Federal, sua função era lavar dinheiro de propina por meio de uma rede de postos da gasolina, além de liderar uma quadrilha que fazia ameaças a adversários na região de Campos de Goytacazes.

Há pânico nos bastidores da política fluminense. Depois da Secretaria de Educação, a operação Unha e Carne irá se concentrar no setor da saúde, controlado há oito anos pelo deputado federal Doutor Luizinho, cupincha do encrencadíssimo senador Ciro Nogueira. Por diversas vezes Nogueira quis emplacar Luizinho como ministro da Saúde no governo Lula. Não conseguiu.

O governador em exercício do Rio, desembargador Ricardo Couto, continua limpando a máquina administrativa, sem se incomodar com chantagens e retaliações. Na Segurança, quer dar autonomia à perícia criminal, desvinculando-a da Polícia Civil, o que garante investigações independentes em casos de letalidade policial.

Inconformados com a exoneração de mais de mil funcionários fantasmas, deputados estaduais ameaçam divulgar uma lista de amantes de desembargadores que também recebem sem trabalhar na Alerj. O cabaré está pegando fogo.

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É MELHOR NÃO SE ILUDIR COM A DELAÇÃO DE VORCARO

Artigo de Fernando Gabeira

Não sou dessas pessoas que o tempo inteiro dizem: “Vai acabar em pizza, vai acabar em pizza.” Mas confesso que estou um pouco cético sobre a delação de Daniel Vorcaro, o homem que iluminaria toda a escuridão da República. Vorcaro não entende a delação como fim de carreira. Faz planos. Para começar, não entregará todo o dinheiro que amealhou. Precisa de recursos para recomeçar adiante. Há muita coisa que não poderá esconder, pois o conjunto de mensagens no celular revela seu movimento financeiro. Mas aquilo que não está a descoberto, ele deve considerar um fundo de sobrevivência para a nova etapa, pois certamente não conta com um longo período de prisão.

Outro ponto vulnerável na delação de Vorcaro são os próprios advogados. Ele é apenas um caso fortuito, e provavelmente muito lucrativo, para os advogados. Mas nada se compara à relação estratégica e permanente que precisam manter com o STF. Quando se trata de apontar as armas para a Corte, faltará pólvora ou, no mínimo, ela estará molhada.

Detesto a expressão “acochambrar”. Para coisas feias, palavras feias. Na semana passada, um ministro do TSE, aliado de Alexandre de Moraes, Floriano Marques, encontrou-se com o advogado de Vorcaro num hotel de Brasília. O encontro se deu um dia depois da apresentação da proposta de delação. O ministro admite que conversou superficialmente sobre a delação e comentou:

— Puxa vida, que coisa!

Ninguém pode provar que a conversa não foi superficial. Marques foi indicado por Lula, por sugestão de Moraes. São colegas na Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo.

Por uma tentativa de conhecer a delação premiada do tenente-coronel Mauro Cid, o general Braga Netto foi para o espaço. O advogado de Vorcaro sabe disso. Por coincidência, Braga Netto também é seu cliente. O ministro e o advogado são amigos. Quem não é amigo, conhecido, camarada? “Meu caro, que prazer, vamos tomar algo para combater essa secura de Brasília.”

A Polícia Federal trabalha firme e com competência. Mas será difícil romper esse cipoal de relações e favores. No caso do senador Ciro Nogueira, houve indícios, casa, mesada, cartão e um ato de ofício: a emenda apresentada por Ciro, subindo de R$ 250 mil para R$ 1 milhão a garantia de ressarcimento aos credores de um banco quebrado. Vorcaro saudou essa emenda nas conversas com a namorada. Possivelmente, outros amigos de Vorcaro na política terão dado bandeira e cairão também. Mas o núcleo mais duro, que envolve ministros do Supremo, talvez não seja tocado.

Quem quer brigar com o Supremo? A qualquer momento, nosso destino pode estar nas mãos deles. Se julgam e condenam, apelar para quem? Você fica com a corda no pescoço, com a espada na cabeça e com uma parte da esquerda jurando que você é de extrema direita.

No entanto será preciso reclamar. O caso Master não pode dar em pizza. Haja farinha, molho de tomate e orégano para cobrir 8 milhões de quilômetros quadrados. Mas é preciso não ter grandes ilusões. O Brasil não é fácil.

Artigo publicado no jornal O Globo em 11 / 05 / 2026

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