sábado, 7 de novembro de 2026

ARY BARROSO, 123 ANOS

Hoje, 7 de novembro, é dia de celebrar o aniversário de Ary Barroso, um dos maiores compositores do Brasil.  Nascido em 7 de novembro de 1903, em Ubá, Minas Gerais, Ary Barroso faleceu em 9 de fevereiro de 1964, no Rio de Janeiro. Aquarela do Brasil, de Ary Barroso é a música brasileira mais gravada.

Biografia - Ary Evangelista Barroso, filho de João Evangelista Barroso e Angelina de Resende Barroso, fica órfão ainda menino e passa a ser criado pela avó, Gabriela Augusta de Rezende, e pela tia, Rita, que o ensina a tocar piano.

Aos 12 anos, começa a trabalhar como pianista auxiliar no cine Ideal, em Ubá. Aos 17, recebe uma herança do tio Sabino Barroso, ex-ministro da Fazenda, e muda-se para o Rio de Janeiro com a intenção de estudar advocacia. Começa a faculdade, mas acaba gastando todo o dinheiro em restaurantes, bebidas e roupas.

No ano seguinte, é reprovado e, já sem dinheiro, tem de trabalhar: faz fundo musical para filmes mudos no cine Íris, no largo da Carioca. Em 1923, passa a tocar com a orquestra do maestro Sebastião Cirino, na sala de espera do teatro Carlos Gomes.

Em 1926, Ary consegue voltar para o curso de direito, mas não abandona a atividade de pianista, oferecendo-se para tocar em bailes e festas. Dois anos depois, é contratado pela orquestra do maestro Spina, de São Paulo, para uma temporada em Santos e Poços de Caldas. Durante os oito meses de viagem, compõe várias músicas.

Volta para o Rio em 1929. "Vamos Deixar de Intimidade" é gravada pelo amigo e colega de faculdade Mário Reis e transforma-se no primeiro sucesso de Ary Barroso. Ele conclui o curso de direito e compõe a marcha "Dá Nela". Inscrita no concurso de músicas carnavalescas da Casa Edison para o Carnaval de 1930, a música obtém o primeiro lugar. Com o prêmio (cinco contos de réis), Ary paga algumas dívidas e se casa com Ivone Belfort de Arantes.

Em 1931, produz várias composições para o teatro musicado. Em junho daquele ano, o teatro Recreio encena a revista "É do Balacobaco". A música "Na Grota Funda", de Ary, com letra do caricaturista J. Carlos, é parte do espetáculo. Na estréia, Lamartine Babo, encantado com a música, resolve escrever outra letra para a melodia. Assim nasce "No Rancho Fundo", lançada dias depois no programa que Lamartine comandava na Rádio Educadora do Rio.

Em 1932, Renato Murce convida Ary para trabalhar na Rádio Philips. Além de pianista, Ary se torna locutor esportivo, humorista e animador. Em 1934, depois de ter ido à Bahia como pianista da orquestra de Napoleão Tavares, ele cria na Rádio Cosmos (São Paulo) o programa "Hora H". Compõe "Na Batucada da Vida" (regravada por Elis Regina em 1974).

No ano seguinte, leva seu programa para a Rádio Cruzeiro do Sul (Rio de Janeiro) e compõe "Inquietação", lançada por Sílvio Caldas naquele ano (e regravada por Gal Costa em 1980).

Em 1937, Ary lança outro programa na Cruzeiro do Sul: "Calouros em Desfile" (que, nos anos 1950, será levado para a TV Tupi). O programa exige que os candidatos cantem somente música brasileira e anunciem o nome dos compositores. Nele se apresentarão, entre outros, Angela Maria e Lúcio Alves.

Ary estréia na Rádio Tupi em 1938, como comentarista, humorista, ator e locutor. Compõe "Na Baixa do Sapateiro" (gravada por Carmen Miranda) e chama a atenção do mundo com a trilha sonora do desenho animado "Você Já Foi à Bahia?", de Walt Disney.

"Aquarela do Brasil" é lançada em 1939 no espetáculo "Joujoux et Balangandans", de Henrique Pongetti. Aquele samba-exaltação, de melodia extensa, apoiado em grande orquestra, conquista o mercado internacional e faz sucesso no Brasil na gravação de Francisco Alves. Ele abre com estes versos, dentre os mais famosos da música popular brasileira: "Brasil/ Meu Brasil brasileiro/ Meu mulato inzoneiro/ Vou cantar-te nos meus versos/ O Brasil, samba que dá/ Bamboleio que faz gingar/ O Brasil do meu amor/ Terra de Nosso Senhor/ Brasil!/ Brasil!/ Pra mim./ Pra mim."

Em 1944, Ary vai conhecer os EUA e compõe "Rio de Janeiro" para o filme "Brasil". Fica oito meses lá, ganhando mil dólares por semana e compondo a canção-tema do filme "Três Garotas de Azul". No ano seguinte, volta à América do Norte para musicar o filme "O Trono das Amazonas", que teria 18 composições suas mas não chega a ser concluído (por causa da morte do produtor).

Nas eleições de 1946, candidata-se a vereador na Guanabara pela União Democrática Nacional (UDN) e tem a segunda maior votação da Câmara do então Distrito Federal (só perde para Carlos Lacerda). Em seguida, participa ativamente da escolha do local onde se construirá o Maracanã.

Aurora Miranda (irmã de Carmen) grava "Risque" em 1952, mas é na voz de Linda Baptista que esse samba-canção obterá sucesso. Naquele mesmo ano, Ary compõe "Folha Morta", gravada por Dalva de Oliveira em Londres (para a Odeon) e lançada no Brasil com estrondoso sucesso. Quatro anos depois, a música é regravada por Jamelão, na Continental.

A princípio, Ary Barroso não gosta da Bossa Nova, mas isso não o impedirá de colocar "A Felicidade" (Tom Jobim e Vinicius de Moraes) entre as dez melhores músicas populares de todos os tempos.

Ary Barroso e Heitor Villa-Lobos se encontram no palácio do Catete em 1955, para receber a Ordem do Mérito, concedida pelo presidente Café Filho. Em 1957, Ary é homenageado com o espetáculo "Mr. Samba", produzido por Carlos Machado e montado na boate Night and Day (Rio de Janeiro); o roteiro faz alusão à biografia de Ary, utilizando as próprias composições dele.

Em 1961, Ary adoece de cirrose hepática e vai morar num sítio em Araras (RJ). No ano seguinte, parcialmente restabelecido, retoma o programa "Encontro com Ary" (TV Tupi), transmitido aos domingos. Em 1963, é internado com nova crise de cirrose. Recupera-se no Natal, mas volta a ser internado e morre na noite de 9 de fevereiro de 1964, um domingo de Carnaval, no momento em que a escola de samba Império Serrano entra na avenida com o enredo "Aquarela do Brasil". Em homenagem ao compositor, faz-se um minuto de silêncio.

Biografia de Ary Barroso, UOL Educação
Bookmark and Share

sexta-feira, 6 de novembro de 2026

MORRE NILTON TRAVESSO

Do g1 SP

Morre Nilton Travesso, diretor que ajudou a construir a história da televisão brasileira

Com mais de sete décadas de carreira, Travesso participou da criação de programas como 'Fantástico', 'TV Mulher' e 'Som Brasil' e dirigiu atrações que marcaram a história da televisão brasileira, como 'Balão Mágico'.

Morreu nesta sexta-feira (6), aos 92 anos, Nilton Travesso, diretor de televisão que participou de alguns dos principais momentos da história da TV brasileira. Com mais de 70 anos de carreira, ele dirigiu programas que marcaram diferentes gerações e trabalhou em emissoras como Globo, Record, Bandeirantes, Manchete e SBT.

O corpo de Nilton será velado neste sábado (7) na Funeral Home, Bela Vista, região central de São Paulo, das 10h às 17h.

Travesso começou a carreira em 1953, junto com a fundação da TV Record, da qual foi um dos primeiros profissionais. Na Globo, foi convidado por José Bonifácio de Oliveira Sobrinho, o Boni, para trabalhar no "Fantástico", em 1974, e participou da criação do programa.

No ano seguinte, produziu "América do Sul", com Ney Matogrosso, considerado o primeiro videoclipe da televisão brasileira. A gravação foi feita fora do estúdio, em meio à floresta.

Nos anos 1980, ajudou a criar atrações como "Som Brasil" e "TV Mulher". Também esteve à frente de projetos como o infantil "Balão Mágico" e foi diretor executivo do "Chico Anysio Show", em 1986.

Ao longo da carreira, Travesso também dirigiu novelas e programas de diferentes formatos. Era reconhecido pela capacidade de estruturar núcleos de dramaturgia e liderar equipes. Trabalhou ainda em atrações como "Mais Você", onde foi diretor, e manteve amizades com profissionais que acompanharam sua trajetória, como Jô Soares.

Em entrevista ao "Conversa com Bial", em 2017, foi lembrado pelo apresentador Pedro Bial e por Jô Soares como uma figura importante para a televisão brasileira.

Em uma participação no "Mais Você", em 2000, a apresentadora Ana Maria Braga o descreveu como alguém que ajudou a construir a televisão brasileira e destacou seu carinho pela equipe. Travesso, por sua vez, afirmou que não saberia fazer outra coisa além de televisão: "É fascinante".

Em 2001, Nilton Travesso fundou a Nilton Travesso Oficina de Atores, em Pinheiros, em São Paulo, com a proposta de preparar artistas para o mercado de trabalho sem abrir mão da essência do teatro. A escola oferece formação em diferentes áreas das artes cênicas e do audiovisual. Além de interpretação, os alunos têm contato com conteúdos de produção executiva e artística, operação técnica, cenografia e figurino.

Bookmark and Share

PAISAGEM DEPOIS DA BATALHA

Artigo de Fernando Gabeira

As eleições trouxeram novidades substanciais para os dois lados. À esquerda, o extraordinário movimento dos eleitores que deram mais 10 milhões de votos a Lula abre a possibilidade para um mandato mais rico do que os outros. À direita, a segunda derrota de um Bolsonaro em eleições majoritárias deve trazer um momento de recomposição e busca de novos nomes para liderar a corrente política.

Em alguns países do mundo com sistema parlamentarista, eleitores costumam votar num presidente à direita e num Congresso à esquerda, em busca de equilíbrio. No Brasil, não parece ter havido essa intencionalidade. Mas o fato de o Congresso ter representado uma guinada maior para os conservadores pode ter contribuído para uma importante variável: o medo da volta dos Bolsonaro ao poder central. Essa variável já era alta nas pesquisas, mas certamente cresceu diante do perigo de concentração de poder num candidato que muitos consideram imaturo, temor reforçado pela performance de Flávio nos debates.

O campo que se abre para Lula parece mais amplo do que o aberto em 2022. Não apenas pela intensa mobilização do segundo turno, mas também pela análise da votação. Tudo indica que os eleitores do campo da direita que, no primeiro turno, votaram em Cury, Zema, Renan e Caiado, no segundo turno, preferiram majoritariamente Lula.

Isso significa que a possibilidade de uma política de frente pode isolar a direita mais radical e realizar o trabalho que não foi possível em 2022. Bolsonaro foi derrotado e condenado, mas sua influência permaneceu intensa entre os que se opunham ao governo.

Um dos problemas centrais do governo que começa é econômico. As eleições suscitaram muitas promessas. A expectativa com as políticas sociais é alta. Como cumprir o prometido num contexto de redução de despesas?

Ao que se depreende de seus discursos, Lula não fará o ajuste fiscal que o chamado mercado espera dele. Ele foi bastante explícito no seu discurso na Espanha ao comentar o declínio da social democracia que governa com uma visão econômica neoliberal. Na campanha, então, foi mais específico e popular, chamando de “babaquice” a preocupação com superávits.

Mas isso não significa que não se tentará algum tipo de ajuste, com a condição de que não sacrifique as políticas sociais nem pese de qualquer forma sobre as populações mais vulneráveis.

Uma pretensão desse tipo vai depender de criatividade, algo que os economistas brasileiros, em outras circunstâncias, já demonstraram, criando o Plano Real. Sugestões de leigos também não faltam: enxugamento da máquina por meio da revolução digital, combate aos supersalários, por exemplo.

O processo precisa ser bem-sucedido, caso contrário, há o perigo de aumento da inflação, que pode atingir os pobres e frustrar também eleitores da classe média que votaram em solidariedade a eles. Ao menos foi o que ouvimos em inúmeras declarações de voto nas redes sociais.

O governo reduziu o desmatamento e é considerado um grande interlocutor no diálogo planetário sobre o meio ambiente. Hospedou a COP e prepara para apresentar ao mundo, na Turquia, um mapa do caminho para reduzir emissões e combater as mudanças climáticas.

O lugar do Brasil na política internacional é o de um dos líderes nos esforços globais pelo meio ambiente, sobretudo no empenho para manter em pé as florestas tropicais, daqui, da África e da Ásia.

Isso tudo não significa que o caminho será fácil. Em primeiro lugar, o Orçamento continua sendo dividido com o Congresso. Como realizar projetos de campanha, se o dinheiro é parcialmente pulverizado nas mãos de deputados e senadores? Lula chegou a mencionar o uso de emendas parlamentares para financiar seu projeto de transporte coletivo grátis no fim de semana. Seriam R$ 16 bilhões, quase um terço das verbas que o Congresso terá à sua disposição. Mas quem convenceria os deputados e senadores?

De qualquer forma, a relação do governo com o Congresso majoritariamente conservador será algo especial. Na verdade, o Congresso sempre teve maioria de direita, e em todos os seus quatro mandatos, Lula terá de encarar esse problema. Experiência não falta, assim também como não faltam tropeços nessa trajetória acidentada.

O que pode atenuar esse processo é a habilidade política. O Brasil, nos últimos, anos esteve dividido de forma muito severa. O novo governo terá a possibilidade de lançar na mesa alguns temas de unidade nacional, desses em que todos votam diante de um inimigo comum, um grande desastre natural, uma agressão estrangeira.

Não é possível prever tudo o que acontecerá nos próximos anos. As correntes políticas diferentes vão sobreviver. Mas a partir de 2030 possivelmente, os grandes líderes carismáticos não estarão na linha de frente. É uma perda, mas também uma situação com novas possibilidades.

Elas podem ser aumentadas ainda pelas mudanças na conjuntura internacional. Hungria e Polônia já não são as mesmas, os EUA vivem uma semana decisiva para o futuro do país. A derrota de Trump nas eleições de meio termo pode ser um grande passo para um novo tempo.

Artigo publicado no jornal Estadão em 06 / 11 / 2026

Bookmark and Share

EFEITO TRUMP AO CONTRÁRIO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

‘Nova direita’ da América do Sul sofre com crises, queda de popularidade e derrota de Trump

As voltas que o mundo dá... O trono do imperador Donald Trump começa a ruir e já há sinais de que, assim como puxou para cima a tal “nova direita” na América do Sul, passe a puxar para baixo a partir de agora. Aliás, como está acontecendo neste momento no Paraguai e foi previsto aqui na coluna em maio.

O Brasil foi o líder da resistência à invasão americana na região e consolidou espetacularmente essa posição com a eleição de Lula e a derrota de Flávio Bolsonaro, comemoradas por governos, entidades e cidadãos ao redor do mundo, inclusive nos EUA, como vitória da democracia e da soberania.

Do outro lado, estão praticamente todos os demais países sul-americanos, inclusive dois vizinhos-chave e parceiros do Brasil no Mercosul, Argentina e Paraguai, não apenas aliados de Trump, mas subservientes às suas vontades, que, convenhamos, são quase sempre inaceitáveis. Trump vai ter de enfrentar a maioria democrata, pedidos de impeachment e eleitos muito simbólicos, como um gay, um muçulmano, vários latinos e três governadores em especial: a primeira negra e a primeira indígena no país e o primeiro negro na Flórida. Tudo que ele rejeita.

Mas não é só isso. Trump se julgava dono do mundo e não consegue segurar nem o partido Republicano. O presidente da Câmara vai renunciar ao cargo. Parlamentares querem a demissão do secretário de Defesa, Pete Hegseth. A mídia prevê Marco Rubio fora do Departamento de Estado para cuidar da própria campanha presidencial.

Trump tem, ainda, que sair das guerras em que se meteu, sem tempo, pois, para sequestrar o presidente, assumir o controle do petróleo local, atacar embarcações ao gosto dos EUA ou desestruturar o comércio mundial com tarifaços.

Depois do Paraguai, onde o presidente Santiago Peña tenta renunciar para não sofrer impeachment, a “nova direita” de Javier Milei (Argentina), José Antonio Kast (Chile), Rodrigo Paz (Bolívia) e Daniel Noboa (Equador), já vem perdendo popularidade e deve ficar de barbas de molho. O que tem mais a se preocupar com os dissabores de Trump é Milei, com aprovação desabando e o risco Argentina disparando. Quem vai financiar suas maluquices? E vai insistir em Trump como referência?

Lula, portanto, recupera liderança no Mercosul e boas condições para conversar com Trump, possivelmente, em 15 de dezembro, na reunião de presidentes do G-20, na Flórida. Onde, aliás, o Itamaraty torce para que ele seja mais “badalado” do que o anfitrião.

Mas Lula que não suba no salto alto... O equilíbrio das contas e as previsões de crescimento, inflação e juros não são questões distantes, são do bolso, da casa e da vida de cada brasileiro.

Bookmark and Share

A INSURREIÇÃO SILENCIOSA

José de Souza Martins, Valor Econômico

O milhão de jovens na avenida Paulista mostrou a cara de um novo sujeito político: os que recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns

Até os últimos minutos da apuração dos resultados eleitorais do pleito presidencial de 25 de outubro, havia sérias dúvidas quanto a qual dos candidatos seria o eleito para a Presidência da República. As dúvidas tinham fundamento na comprovada eficácia aos recursos ilícitos criados e movimentados nas últimas décadas para impedir a alternância democrática de governo.

A disputa não era e nem tem sido entre esquerda e direita. Nem tem sido uma manifestação da luta de classes. É inútil invocar esses chavões da história do último século para explicá-la. Aqui há cientistas sociais que propõem essa compreensão da realidade política.

Esses marcos estão referidos a uma concepção de temporalidade histórica de um agora de horas e minutos próprios do imediato da sociedade de consumo e não próprios do processo histórico e político. Os de uma sociedade que teve sua concepção de destino usurpada pelos beneficiários das urgências da reprodução ampliada do capital. As de um capital rentista, anticapitalista. Uma riqueza de mera reprodução do subdesenvolvimento econômico e social.

Uma forma de reprodução da riqueza que emergiu das profundezas da realidade para que nela não se expressem politicamente as necessidades sociais radicais geradas pelas injustiças sociais. As que manifestem o clamor do possível, sem cuja realização o capitalismo privado de transformações sociais e políticas não pode se atualizar.

Nesse sentido, em todas as partes e aqui no Brasil, em particular, antes de qualquer outra mudança social e política, as esquerdas têm a função e a missão histórica de desbloquear o capitalismo para que ele cumpra por sua vez sua missão de promover o desenvolvimento. Não é o comunismo que aqui ameaça o capitalismo de destruição por inviabilizá-lo. É a direita.

Sem admitir o povo como autor da história, a sociedade brasileira acabará se tornando caricatura da civilização, uma sociedade de vítimas de privações descabidas e degradantes.

A insurreição eleitoral de 25 de outubro não seguiu os cânones da polarização esquerda/direita, que expressa politicamente o bloqueio a que me refiro. Ela deu visibilidade aos seres humanos que, das profundezas das ocultações mencionadas, expressam as necessidades radicais do carecimento de transformações sociais.

O milhão de jovens na avenida Paulista, em São Paulo, dias antes do pleito, mostrou a cara juvenil desse novo sujeito político. A dos que recusam a iniquidade de nascer para o abandono de uma sociedade cada vez mais rica e de alguns e cada vez menos de todos. E que se descobrem membros de uma categoria social que não é uma classe social nem agentes da luta de classes, que se descobrem nos avós e nos velhos, nos desvalidos.

Netos que foram às urnas e levaram até nos braços os avós para que fizessem valer no voto uma outra concepção das diferenças e das carências sociais. E escolheram o único candidato que, por experiência vivencial própria, tinha condições de ouvir e compreender o recado do voto insurgente.

Seria injusto não levar em conta os agentes de mediação dessa revolta. Que não são necessariamente petistas. O mais criativo e corajoso deles, André Janones, evangélico, com o seu Exército de Lula. Filho de empregada doméstica e de pai cadeirante, ele próprio foi cobrador de ônibus, aluno de escola pública, bolsista, formou-se em direito. Sua consciência crítica e sua prontidão para perceber o perigo das ameaças ao destino de todos com a altamente provável condenação do povo brasileiro a um destino carneiril.

Outro sinal mais do que significativo dessa explosão de consciência e ação é Ana Elisa Santos Silva, de 21 anos, eleita deputada federal (MG) com bem mais de meio milhão de votos, estudante de direito, preta, dotada de uma maravilhosa consciência crítica a respeito de nossa realidade e de nossas injustiças. Tem grande lucidez sobre as anomalias das classificações ideológicas que nos enganam e aprisionam. Para ela, corretamente, direita é uma coisa, e bolsonarismo é outra. Bolsonaro e sua família de políticos se apoderaram de um campo de expressão e ação política que é a direita. É preciso mostrar à direita que ela é outra coisa.

Ana Elisa poderia ir adiante e mostrar aos eleitores capturados pelo bolsonarismo que, provavelmente, a maioria deles é conservadora, enquanto os bolsonaristas são negacionistas e reacionários. Essa direita conservadora quer transformações sociais no marco das tradições, quer um lugar para seus filhos e netos na história possível. Enquanto os Bolsonaros e os bolsonaristas querem os benefícios do desenvolvimento econômico só para eles, mesmo que à custa de ações que têm terminado em processos na Justiça.

Bookmark and Share

O POVO SEGUROU A DEMOCRACIA

Vera Magalhães, O Globo

No Brasil e nos Estados Unidos foi a sociedade civil que conteve movimentos que colocavam em risco as instituições e os direitos civis; a Lula e aos democratas resta entender as razões da vitória

As realidades das eleições no Brasil e nos Estados Unidos são em tudo distintas, mas os tombos que bolsonarismo e trumpismo levaram num intervalo de poucos dias têm em comum a resposta rotunda da sociedade dos dois países a riscos concretos e já experimentados para a normalidade democrática. O povo foi às ruas, às redes e às urnas e disse, alto e bom som, que a democracia é um valor absoluto e que líderes com propensões autocráticas e uma agenda personalíssima podem ter seu apelo, mas não são capazes de dar respostas duradouras e seguras aos desafios complexos de um mundo em profunda e rápida transformação.

A fuga canhestra de Flávio Bolsonaro dois dias depois de sua derrota encolheu drasticamente sua votação de quase 60 milhões de votos. Se ainda não havia, espantosamente, clareza para uma parcela da população de quanto sua candidatura à Presidência da República atendia apenas e tão somente ao projeto de poder da família, o roteiro de filme B de sua saída do Brasil escancarou.

Muito ainda se discute sobre a resiliência do bolsonarismo, e ainda há aquele núcleo duro que defende a fuga como medida necessária diante de uma perseguição injusta. Mas o campo da direita nunca esteve tão aberto para uma renovação em bases mais racionais, que apresente ao Brasil um programa diferente da esquerda, não apenas uma promessa fraudulenta de copiar programas sociais ao mesmo tempo que acena ao mercado com um ajuste rigoroso — um estelionato evidente que, nem assim, conseguiu dissuadir largo contingente de eleitores de depositar um voto em alguém com tantas denúncias, filho de um ex-presidente que tentou perpetrar um golpe de Estado.

Não foi só o PT que virou o jogo entre o primeiro e o segundo turnos, e Lula precisará ter o tirocínio de entender as múltiplas razões de sua improvável virada. A largada de seu quarto mandato se dá num ritmo ainda lento, de quem parece querer acreditar que recorrer aos velhos parceiros e às ideias de sempre será suficiente para fazer frente à missão de governar com um Congresso de direita, ruas que o puxam à esquerda e contas que exigem austeridade.

Quanto a Donald Trump, o tsunami democrata foi um basta, assustadoramente tardio, a um rosário de bizarrices da economia à geopolítica, tendo como ápice a desarrazoada guerra no Irã. Depois de espantosamente reconduzirem o republicano à Casa Branca após experimentarem seu estilo e seu completo desapreço pelas instituições e pela tradição democrática, os americanos parecem ter acordado da letargia que lhe permitiu avançar jardas na depredação desses pilares nos últimos dois anos e ainda espalhar pelo mundo todo rastros de sua sanha destruidora.

Num mundo em que trilionários pareciam convencidos de que seu dinheiro inevitavelmente determinaria nas mãos de quem o poder ficaria, foi um fator demasiadamente humano, a reação popular, que pautou a mudança de rota. Tal movimento já mostra ter plantado sementes noutros continentes e confirma uma das maiores belezas da democracia: seu caráter pendular e sua capacidade de recalcular a rota quando um grupo político, um populista incontido ou um extremo ideológico promovem caos econômico e perseguição a grupos sociais, religiosos ou étnicos, estigmatizam ou perseguem a ciência, as instituições que têm de atuar na fiscalização e na contenção e, no limite, ameaçam o futuro da humanidade ao investir contra a paz e a necessidade de conter a emergência climática.

Nas mãos dos vencedores, sejam eles Lula, no Brasil, ou os democratas, nos Estados Unidos, foi depositada a enorme responsabilidade de entender a vitória como circunstancial e condicionada à capacidade de dar respostas a todos esses fatores para lá de espinhosos.

A tal primavera democrática só florescerá se servir para enterrar sectarismos e dar início a uma era em que prevaleçam bom senso, comedimento de governos e parlamentos e visão de que o futuro tem de ser construído. A saúde civil demonstrada pela sociedade aqui e acolá é um bom combustível, mas só será útil se for catalisada por políticos comprometidos que compreendam seu tempo histórico.

Bookmark and Share

A ILUSÃO PARAGUAIA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Antes de crise bancária, bolsonarismo vendia Paraguai como ‘exemplo para a América Latina’

Flávio exaltou 'visão de futuro' de Santiago Peña, que renunciou em meio a escândalo bancário

O chamado foi feito por Luciano Hang, dono das lojas Havan. “Empresários brasileiros, venham para o Paraguai!”, conclamou. “Aqui empresário não paga a ineficiência do governo. Aqui você paga poucos impostos. Pode se desenvolver, pode crescer”, animou-se o bilionário catarinense.

O Louro José do bolsonarismo estava empolgado. Convidado pelo presidente Santiago Peña, aproveitou a viagem para propagandear as maravilhas de Assunção. “Olha só os prédios. Muita modernidade! Você nota nas ruas e nas pessoas a alegria. Parabéns, Paraguai!”, derramou-se.

Os áulicos de Peña devem ter se enciumado. Em visita ao palácio presidencial, Hang descreveu a gestão de direita como um “exemplo para toda a América Latina”. “Fiquei impressionado. Eles estão no governo para servir o país”, enalteceu, estendendo as loas a ministros e assessores.

Até a vitória da seleção paraguaia sobre a Alemanha, uma das maiores zebras da Copa, virou pretexto para bajular o presidente. “Fazendo o certo, dá certo”, enalteceu o dono da Havan. A sabujice não deu sorte aos anfitriões. O Paraguai foi eliminado no jogo seguinte, ao perder para a França. Peña renunciou ontem, quatro meses depois da visita de Hang.

O presidente caiu em meio a uma onda de protestos pela quebra do Ueno Bank. O escândalo deixa o caso Master no chinelo. Em três anos, o banco paraguaio acumulou quase 3 milhões de correntistas, o equivalente a 60% da população adulta do país.

Peña tem tudo a ver com a crise. Acionista do Ueno até o ano passado, entregou o comando do Banco Central do Paraguai a um ex-diretor do conglomerado. Apesar dos aportes de dinheiro público, o banco maquiava balanços para esconder sua insolvência.

O autodenominado Véio da Havan não foi o único brasileiro a vender a ilusão paraguaia. Em campanha ao Planalto, Flávio Bolsonaro elogiou o aliado de Donald Trump por “modernizar o Estado” e “investir em governo digital”. “Parabéns ao Paraguai pela visão de futuro”, exaltou. Se escapar da cadeia, Peña é candidato a reencontrá-lo em breve. Na Flórida.

Bookmark and Share

OÁSIS FISCAL PARAGUAIO ERA UMA MIRAGEM QUE ATRAIU EMPRESAS BRASILEIRAS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte

A crise do Ueno Bank e a derrocada de Santiago Peña desfizeram uma ilusão vendida a empresários brasileiros de que bastaria atravessar a fronteira para encontrar impostos baixos, energia barata e segurança permanente para investir. Peña apresentou sua renúncia nesta quinta-feira, enquanto avançava na Câmara a acusação para seu impeachment. O desmoronamento de seu governo já expõe a fragilidade do paraíso anunciado.

A miragem não estava na existência de vantagens competitivas paraguaias. Estava na promessa de que elas dispensariam instituições sólidas, fiscalização independente e proteção efetiva da poupança. Os baixíssimos impostos melhoravam os resultados das empresas, porém já não garantem que o dinheiro destinado à folha de pagamento estará disponível na manhã seguinte. Quando o aplicativo do banco já não funciona e os depósitos são bloqueados, o oásis da simplicidade tributária vira uma miragem sem encantamento.



A presença brasileira na economia paraguaia mostra que essa aposta era alta e ultrapassou o comércio de fronteira. Alcançou indústrias, fornecedores de grandes redes e pequenos empreendedores que transferiram negócios e economias. Para muitos, o Paraguai representava uma alternativa aos custos e à burocracia brasileiros. A crise trouxe uma conta que não estava nas planilhas de custos: o risco institucional. A vantagem fiscal se esvanece quando há perda de confiança no sistema financeiro.

O Ueno tornou esse problema concreto. É o Banco Master deles, sem o arcabouço institucional de um sistema financeiro robusto. A instituição cresceu rapidamente, recebeu recursos públicos e chegou a quase três milhões de clientes. Sua intervenção atingiu poupadores e comprometeu o acesso a dinheiro ligado à previdência. O episódio também colocou sob escrutínio as relações entre o banco, o governo e os responsáveis pela supervisão financeira. O colapso de uma instituição alcançou, assim, a própria Presidência.


Não se pode decretar a falência da economia paraguaia nem subestimar a capacidade instalada do sistema produtivo, do qual grandes empresas brasileiras fazem parte. Entretanto, estabilidade macroeconômica e segurança jurídica não são sinônimos. Inflação comportada e incentivos duradouros são vulneráveis quando faltam barreiras entre interesses privados, recursos públicos e poder político.

Para o Brasil, conter a crise paraguaia é muito importante. Empresas com dinheiro bloqueado atrasam salários, pagamentos a fornecedores e encomendas. Uma retração do consumo paraguaio afeta o comércio regional; dificuldades de crédito podem alcançar cadeias produtivas integradas ao comércio mundial. A dimensão desses efeitos dependerá da recuperação dos depósitos e da capacidade de conter a desconfiança. Não há contágio bancário no Brasil, mas há razões para acompanhar de perto essa crise.

Energia da Itaipu

A questão mais estratégica está em Itaipu. Um governo enfraquecido, pressionado a recuperar investimentos e credibilidade, pode negociar em condições piores o uso de seu principal ativo econômico. A crise amplia o poder de barganha de grupos capazes de oferecer bilhões de dólares e promessas de modernização a um país em crise. É nesse terreno que a expansão da infraestrutura de inteligência artificial merece atenção.

Em outubro, a norte-americana Crusoe anunciou uma parceria com a paraguaia Araico para desenvolver infraestrutura de computação alimentada pela energia de Itaipu. O anúncio teve respaldo diplomático dos Estados Unidos. A imprensa paraguaia também levantou dúvidas sobre a transparência das condições de fornecimento pela administração elétrica nacional. São iniciativas anteriores à queda de Peña; a crise pode aumentar a pressão para apresentá-las como salvação econômica.

A “colonização” da economia paraguaia pelas big techs é um risco político, não ainda um fato consumado. O conceito faz sentido quando um país fornece eletricidade, território e benefícios fiscais, enquanto o controle tecnológico, os serviços de maior valor e as decisões permanecem no exterior. Centros de dados podem, sim, trazer desenvolvimento. Mais que obras e consumo de energia: formação profissional, precisam deixar fornecedores locais, arrecadação e capacidade tecnológica. Sem contrapartidas, a abundância energética pode sustentar uma nova dependência.

O Brasil arca com as consequências dessa escolha. O Tratado de Itaipu divide a energia igualmente e reconhece a cada país o direito de adquirir a parcela não utilizada pelo outro. Se o consumo paraguaio crescer, o excedente disponível ao Brasil poderá diminuir. Isso exige planejamento, sem negar ao vizinho seu direito ao desenvolvimento. Não há transparência nos compromissos assumidos e seus efeitos sobre a operação binacional.

O governo brasileiro tem a responsabilidade de combinar assistência aos brasileiros atingidos, diálogo institucional e defesa de transparência em Itaipu. Uma crise no Paraguai, mesmo que derrube um governo de direita adversário, não é motivo para comemoração. Trata-se de uma vulnerabilidade numa fronteira decisiva. O fracasso da promessa de um paraíso sem riscos não deve dar origem a uma saída que comprometa a energia barata por décadas, sem benefícios proporcionais para a sociedade. A miragem fiscal teria apenas mudado de aparência.

Bookmark and Share

ESQUERDA PRECISA REVER IDEIAS SOBRE SEGURANÇA PÚBLICA

Pablo Ortellado, O Globo

Concepção simpática ao crime permanece difusa na cultura política

Concluo hoje a série de colunas sobre os desafios da esquerda. Na série, argumento que a missão atual da esquerda é dupla: precisa oferecer respostas alternativas aos problemas colocados pelo populismo radical de direita, mas sem se deixar confundir com ele. Em outras palavras, tem de enfrentar as questões levantadas pelo conservadorismo moral, pelas novas formas de trabalho e pelo populismo penal, oferecendo uma abordagem alternativa que seja distintivamente progressista. A nova conjuntura, porém, pode levá-la a adiar mais uma vez a tarefa de se reinventar, apostando que a vitória nas eleições presidenciais abre o horizonte de vitórias eleitorais sucessivas, até que o populismo de direita morra de cansaço e desapareça por si só.

Em outubro de 1968, durante a temporada de shows de Gil, Caetano e Os Mutantes na boate Sucata, pendia sobre o palco uma bandeira-poema de Hélio Oiticica com uma serigrafia retratando o corpo estendido no chão do assaltante de banco Alcir Figueira da Silva. Sobre a imagem, o lema “Seja marginal, seja herói”. Num texto de 1968 (“O herói anti-herói e o anti-herói anônimo”), Oiticica explica assim sua obra:

— Tanto o ídolo, inimigo público nº 1 [Cara de Cavalo, bandido executado pela polícia em 1964], quanto o anônimo [Alcir Figueira da Silva] são a mesma coisa: a revolta visceral, autodestrutiva, suicida, contra o contexto social fixo (“statu quo” social). Essa revolta assume, para nós, a qualidade de um exemplo — esse exemplo é o da adversidade em relação a um estado social: a denúncia de que há algo podre, não neles, pobres marginais, mas na sociedade em que vivemos. Aqui isto aparece no plano visceral e imediato. Num outro plano, mais geral e com outras conotações, estariam as mais heroicas experiências: Lampião, Zumbi dos Palmares, mais adiante o exemplo mais vivo em nós, grandioso e heroico, que é o de Guevara.

A obra é símbolo máximo de certa postura progressista com relação ao crime. Ela consiste em olhar o crime ora como mero efeito da desigualdade social, ora como desobediência pré-política, às vezes até pré-revolucionária. De um lado, os criminosos são vítimas das injustiças sociais, empurrados ao banditismo pela fome e pela miséria. De outro, o crime — em especial o roubo — é um desafio às leis que sustentam a desigualdade social; é também um impulso libertário, uma rebeldia antissistêmica, a um passo da consciência de classe. Foi nessa chave que a cultura progressista celebrou o cangaço, do Cinema Novo a “Bacurau”. E é ela que, ainda hoje, leva uma deputada como Erika Hilton a sugerir a Oruam, filho de Marcinho VP, que se organize politicamente.

Essa concepção simpática ao crime permanece difusa na cultura política da esquerda. Ao mesmo tempo, alimenta a direita populista e afasta a esquerda da classe trabalhadora — a mais vulnerável diante do crime. Quando há um crime e a polícia age, a simpatia da esquerda muitas vezes vai primeiro para o bandido, vítima do abuso policial, e só depois para o trabalhador, vítima do crime contra a propriedade. Sofrer um assalto é a segunda coisa que mais revolta quem trabalha. A primeira é alguém demonstrar simpatia pelo assaltante.

A esquerda precisa inventar um jeito de fazer política de segurança pública que seja imediatamente empática com o trabalhador e não se resuma a conter a violência policial e a melhorar as condições nas prisões. Garantir que as forças policiais respeitem os direitos humanos e façam uso proporcional da força deve certamente fazer parte dessa política, mas a ênfase precisa ser combater o crime e proteger o trabalhador.

As leis da nossa sociedade podem muitas vezes ser injustas, mas também protegem quem trabalha. Para quem comprou um celular Android em 24 prestações, as leis de propriedade são a defesa de seu frágil patrimônio. Não há nada mais desconectado da realidade social do que esperar de um trabalhador que tolere o roubo porque compreendeu que, no fundo, as leis de propriedade oprimem sua classe social.

No capítulo final de “Senhores e caçadores” (publicado no Brasil pela Paz e Terra), o historiador marxista E.P. Thompson discute a importância do Estado de Direito diante da crítica marxista ao deduzir, do fato de as leis serem injustas, que elas não mereciam ser protegidas:

— Existe uma diferença entre o poder arbitrário e o domínio da lei. Devemos expor as imposturas e injustiças que podem se ocultar sob essa lei. Mas o domínio da lei em si, a imposição de restrições efetivas ao poder e a defesa do cidadão diante das pretensões de total intromissão do poder parecem-me um bem humano incondicional. Negar ou minimizar esse bem, neste século perigoso, é um erro temerário de abstração intelectual. Mais que isso, é um erro que se reproduz e aumenta por si mesmo, estimulando-nos a desistir da luta contra as más leis e a nos desarmarmos perante o poder. Significa lançar fora toda uma herança de luta pela lei, e dentro das formas da lei, cuja continuidade jamais poderia se interromper sem lançar homens e mulheres num perigo imediato.

Bookmark and Share

quinta-feira, 5 de novembro de 2026

'DARK HORSE', SÓ NA NUVEM; SE NÃO CHOVER

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O filme classificado por Flávio Bolsonaro como obra-prima ameaça não chegar aos cinemas

Parte do dinheiro da produção mandada para lavar no Texas poderá sustentar senador nos EUA

Que pena, estamos ameaçados de nunca ver a obra-prima "Dark Horse", cinebiografia de Jair Bolsonaro, numa tela de cinema! Obra-prima é como o filme foi classificado por seu produtor-associado, levantador de dinheiro, filho do personagem e talvez receptador de parte do orçamento, Flávio Bolsonaro. Não sei das credenciais do ex-futuro presidente da República como crítico de cinema, mas sua insistência em dizer que "Dark Horse" é uma obra-prima nos faria ir correndo conferir. Obras-primas do cinema —algumas— são "Em Busca do Ouro" (1925), de Chaplin, "Ladrões de Bicicletas" (1948), de Vittorio de Sica, "Um Corpo que Cai" (1958), de Hitchcock. Estaria "Dark Horse" nesse time?

A chamada Sétima Arte está cheia de possíveis obras-primas que seus diretores levaram anos tentando filmar e, por vários motivos —um deles, falta de dinheiro—, nunca conseguiram terminar ou mesmo começar. Exemplos são "Que Viva México!", de Eisenstein;"Dom Quixote", de Orson Welles, "Napoleão", de Stanley Kubrick. Dinheiro não foi problema para "Dark Horse" —Daniel Vorcaro prometeu a Flávio R$ 134 milhões dos bilhões que desviou de aposentados e mandou-lhe R$ 61 milhões, quase metade da bufunfa.

Mas, se você pensa que isso é suficiente para realizar uma obra-prima, é porque não entende nada de cinema. Imagine o custo da peruca usada pelo subastro Jim Caviezel para interpretar o velho Bolsonaro —tanto que Flávio, numa famosa mensagem gravada, arrastou-se pedindo a Vorcaro que lhe mandasse mais. Como parte do dinheiro já recebido tinha ido para os EUA a fim de ser lavado por uma firma no Texas e nunca voltou, faltou aqui para os sanduíches da equipe.

E, agora, o problema. Surrado no segundo turno da eleição e investigado exatamente por lavar dinheiro, Flávio foi para os EUA com a família, sem data para voltar. O salário de senador que receberá até janeiro sem trabalhar não bastará para se manter. Precisará sacar da verba de "Dark Horse" depositada lá.

E, com isso, só teremos o filme na nuvem —se não chover.

Bookmark and Share

NA INTENSIDADE DO TEMPO ATUAL

Míriam Leitão, O Globo

Derrota de Donald Trump reduz a instabilidade global, mas falta de horizonte fiscal leva Banco Central a frear corte da Selic

A decisão do Copom de manter os juros foi tomada no meio do maior bombardeio que o Banco Central independente já enfrentou. Diante da incerteza do tempo presente, manter os juros era o certo a fazer. O ruído dos últimos dias contra o BC torna mais pesado esse começo de um governo que foi consagrado por uma forte vitória nas urnas. O que houve no Brasil, na eleição, foi a reafirmação da democracia como valor e escolha política. O que houve nos Estados Unidos foi a reafirmação da democracia e da diversidade como valor. Num poema do novo livro de Geraldo Carneiro, há um verso que diz: “Amou o semelhante e o diverso”. Foi o que me veio à cabeça quando vi a impressionante representatividade que saiu das urnas americanas.

Alguém pode considerar essa coluna meio confusa já que comecei a falar de Copom, fui para a eleição brasileira, a americana e citei um poeta. Mas convenhamos está difícil na intensidade do tempo atual fazer um texto sobre um tema só. Eles se misturam e se conectam. O mundo é menos separado do que parece. Fui dormir na terça-feira embalada pelos primeiros sinais da onda azul e acordei sabendo que ela havia se transformado em tsunami. “O mar sempre o deixou pasmo de azul”, outro verso do mesmo poeta invadindo a minha coluna, que teria que ser econômica e não lírica.

Voltemos ao Copom. As projeções de inflação pioraram, o dólar subiu fortemente, o governo não explicou como vai incluir todas as promessas que fez, as decisões que tomou no orçamento e como será a trajetória das contas públicas. Vários dirigentes do PT mostraram que sonham com uma solução mágica para a queda dos juros, fazendo uso simplista de um pensamento complexo. O que fazer diante da incerteza? Parar de reduzir a Selic. Poderá cair, quem sabe, mais adiante. Há uma boa expectativa em relação ao pronunciamento que o presidente Lula fará no domingo sobre a questão fiscal. É mesmo necessário que o presidente apresente mais informações sobre o que pretende fazer. Isso ajudará a melhorar o ambiente.

A vitória democrata nos Estados Unidos tem relação diretamente com a economia. A guerra contra o Irã até agora aumentou o preço do petróleo, reduziu as reservas globais de óleo, tornou mais incerto o suprimento de fertilizantes e elevou a inflação. Além disso, com o seu poder absoluto nos primeiros dois anos, Trump impôs tarifas altas para o mundo inteiro. Contra nós, foram decretadas uma das maiores taxas, mesmo o Brasil sendo deficitário no comércio bilateral. Ele o fez por razões políticas. Agora, Trump terá limites e isso deve reduzir a incerteza econômica.

Mas o mais importante da derrota de Trump é a vitória da democracia. As instituições americanas estavam sob ataque nestes primeiros dois anos do segundo mandato. Os valores da diversidade pareciam estar sendo esmagados pelo supremacismo trumpista. E, de repente, houve uma chuva de diversas primeiras vezes. A primeira governadora negra da Geórgia; a primeira governadora latina no Texas; o primeiro senador muçulmano; a primeira governadora e a primeira senadora indígenas, o primeiro senador assumidamente gay; primeiro governador negro de Wisconsin. O jovem pastor presbiteriano progressista James Talarico no Texas é o primeiro senador democrata do estado desde 1988. As mulheres avançaram.

A lufada de ar fresco que veio dos Estados Unidos produziu queda de 9% no petróleo, deixando a cotação abaixo de US$ 100 em muito tempo. O dólar caiu aqui depois de ter subido por seis pregões seguidos numa alta de 9%. Para o Brasil, é bom ter queda de petróleo e de dólar, depois de movimentos tão negativos. A economia tem sempre suas urgências. A incerteza econômica aumentou de fato. E quem vê as realocações de ativos pode dar outro significado a esses versos. “A vida é veloz: de repente/ tudo o que era pré/ vira pós”. Certamente não era essa materialidade que estava na cabeça do poeta, quando escreveu o seu “Ensaios sobre o mar”.

Ao contrário do que se vê nas cotações tão instáveis, há mais certezas no mundo depois da eleição americana. O foco principal da instabilidade estará sob contenção democrata na próxima legislatura. E isso terá bons efeitos políticos, geopolíticos, econômicos e humanos. Assim quem sabe não será estranho ter versos na coluna de economia. “Amou o semelhante e o diverso/ o que não soube dizer em prosa/ virou verso”.

Bookmark and Share

O SONHO AMERICANO, A PERSEGUIÇÃO AOS HISPÂNICOS E A DERROTA DE TRUMP

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump é uma ameaça à democracia

Publicado em 1909, “Martin Eden”, de Jack London (1876-1916), conta a história de um jovem marinheiro autodidata que luta para se tornar escritor. Inspirado na trajetória do autor, o romance acompanha a conquista do reconhecimento e a desilusão com uma sociedade que mede o valor dos indivíduos pelo dinheiro e pelo prestígio. Também retrata o “sonho americano” na ótica dos trabalhadores que ajudaram a construir os Estados Unidos.

London escreveu o livro durante sua viagem pelo Pacífico a bordo do Snark, quando já era conhecido por “O chamado da selva”, “O lobo do mar” e “Caninos brancos”. Seu alcance ultrapassa a autobiografia. Mostra a correlações entre trabalho, nacionalidade e posição social, as contradições de um país que sempre precisou dos braços de estrangeiros enquanto estabelecia a hierarquias entre eles.

Essa história é bem contada em “Nós, o povo”, de Leo Huberman (1903-1968), uma interpretação da formação dos Estados Unidos pelo trabalho e pelas disputas em torno da riqueza. A imagem do país como um grande ímã de povos traduz a realidade de que sua expansão econômica foi inseparável da chegada de milhões de pessoas de diferentes nacionalidades, religiões, profissões, culturas e condições sociais.

“Gente branca, preta, amarela, de pele escura; católicos, protestantes, huguenotes, quakers, batistas, metodistas, unitarianos, judeus; espanhóis, ingleses, alemães, franceses, noruegueses, suecos, dinamarqueses, chineses, japoneses, holandeses, boêmios, italianos, austríacos, eslavos, poloneses, romenos, russos – e a lista está apenas começando; fazendeiros, mineiros, aventureiros, soldados, marinheiros, ricos, pobres, mendigos, ladrões, sapateiros, alfaiates, atores, músicos, ministros religiosos, engenheiros, escritores, cantores, cavadores de valas, industriais, açougueiros, padeiros e fabricantes de velas”, destaca Huberman.

Todos abriram caminhos, ergueram cidades e transformaram costumes. A diversidade da vida norte-americana resulta desse processo, cujo êxito decorre da tradução da identidade étnica pelo sonho de uma vida melhor. É um erro, porém, desconsiderar seus conflitos. A imigração voluntária não se confunde com o tráfico de africanos escravizados, assim como a expansão territorial não apaga a expropriação dos povos indígenas.

Na verdade, a hostilidade aos estrangeiros e as restrições raciais à entrada e à cidadania também fazem parte da trajetória dos Estados Unidos e suas elites, ingredientes incorporados por Trump à sua política. O estrangeiro sempre foi necessário à economia e, simultaneamente, apresentado como ameaça ao emprego, à segurança e à identidade nacional.

Efeito catalisador

Trump fez da imigração um instrumento de mobilização eleitoral contra o outro. Fechar as fronteiras passou a funcionar como resposta para inseguranças que nascem do custo de vida, das transformações no trabalho e da perda de perspectivas de ascensão social. A perseguição a imigrantes, porém, atingiu famílias e comunidades muito além daqueles sujeitos à deportação. Foi uma agressão ao que existe de mais profundo e antropológico no imaginário da formação do povo norte-americano.

As eleições de 3 de novembro expuseram os limites dessa estratégia. Os democratas reconquistaram o Senado e a Câmara, avançando sobre territórios republicanos. James Talarico venceu no Texas; Roy Cooper conquistou a vaga da Carolina do Norte; Sherrod Brown recuperou espaço em Ohio. Kansas também mudou de lado. Inflação, denúncias de corrupção, a guerra com o Irã e a brutalidade do governo contra os hispânicos produziram uma rejeição que atravessou fronteiras sociais e partidárias. Rompeu-se a confiança nas grandes promessas feitas por Trump.

O afastamento de eleitores hispânicos em redutos históricos de Trump integra esse quadro. Muitos nasceram nos Estados Unidos, em famílias estabelecidas há gerações; somente os cidadãos naturalizados podem votar nas eleições federais. Não existe um voto latino automático. Como em toda eleição, renda, religião, segurança e expectativas econômicas pesam nas escolhas. Mas acontece que a frustração material se combinou com a hostilidade dirigida às comunidades hispânicas, que catalisou o sentimento de que Trump representa uma ameaça à democracia. Prometeu prosperidade, entregou conflitos e insegurança.

Surgiram novos líderes democratas. Talarico simboliza a possibilidade de disputar um estado há décadas identificado com os republicanos. Jon Ossoff, na Geórgia, ampliou sua força. Em Michigan, Jocelyn Benson emergiu na disputa pelo governo, enquanto o progressista Abdul El-Sayed avançou para o Senado. A onda azul favoreceu diferentes correntes, entre as quais a socialista, mas os democratas moderados demonstraram maior capacidade de ampliar alianças.

O desafio democrata é transformar a rejeição a Trump numa maioria duradoura. O novo Congresso poderá conter iniciativas e investigar abusos, mas Trump permanece na Casa Branca. E o trumpismo conserva suas raízes, ancorado no movimento MAGA (Make America Great Again) e no “supremacismo branco” de anglo-saxões e nórdicos.

Bookmark and Share

PATO MANCO

Merval Pereira, O Globo

A derrota de Trump e a vitória de Lula significam a mesma coisa

A derrota de Donald Trump, demolidora, instalou em Washington um novo foco de poder que altera não apenas a política interna dos Estados Unidos, como a internacional. Os três maiores países do continente americano — Canadá, Brasil e México — são os que enfrentaram os arroubos autoritários de Trump nestes dois primeiros anos de governo. O sonhado “quintal” dos Estados Unidos não voltará a ser a nossa região, e certamente a fraqueza de Trump poderá gerar uma força adicional nos países do nosso entorno.

Ela mostra que um ciclo se fecha. A tendência é que a direita — que dominava a política internacional a partir da vitória de Trump e de sua influência nas eleições — se enfraqueça. É claro que os Estados Unidos continuam sendo o país mais poderoso do mundo, militar e economicamente, e que Trump tem mais dois anos de mandato. A única indicação é que talvez seja mais fácil negociar com o gigante fragilizado.

Do nosso ponto de vista interno, ao grupo bolsonarista que se refugia nos Estados Unidos, capitaneado agora pelo derrotado Flávio Bolsonaro, caberá conviver com um governo que terá problemas maiores a resolver do que cair na rede de intrigas e fofocas que eles montam. A fragilização de Marco Rubio, secretário de Defesa dos Estados Unidos, fará com que os canais que o ligam à Casa Branca estejam fortemente obstruídos. A derrota nas eleições faz Trump perder força na liderança mundial, mas temo que ele perca também a cabeça e acelere algumas medidas.

É preciso ver o que acontecerá com o Brasil, porque acredito que todas as taxações serão derrubadas pelo novo Congresso americano, e Trump procurará algum meio de retaliar. Talvez, tendo crises mais sérias para tratar agora que o Congresso está dominado pelos democratas, se esqueça de perseguir todo mundo e pense mais em salvar-se da crise que criou para si próprio.

Será um período difícil para o mundo, porque não se sabe qual será o comportamento de Trump sem a perspectiva de poder. Tratá-lo como “pato manco”, gíria americana para definir um político que não tem mais cargo a aspirar, nem expectativa de poder, será mexer com seu ego gigantesco. Sua primeira reação foi surpreendentemente civilizada, talvez tentando se convencer de que a derrota não foi dele, que seu nome não estava na cédula, como salientou. Mas o próprio Trump pediu que os eleitores votassem como se estivesse, e a resposta não foi boa para ele.

Com seu enfraquecimento, a direita mundial, amplamente baseada em sua liderança, ficará atordoada num primeiro momento. Mas é muito claro que a tendência do pêndulo político favorece a centro-esquerda no mundo. A movimentação popular e arregimentação de apoios por meio dos novos meios de comunicação que aconteceu na eleição brasileira, dando a vitória a Lula, é um fato relevante, e os americanos que não são de extrema direita têm razão de comemorar a vitória do brasileiro como da democracia sobre os extremistas.

A derrota de Trump é a vitória do multilateralismo e da democracia. Mostra que não foi por acaso que o Brasil viveu essa onda e que o país está conectado com a necessidade de equilíbrio democrático e de tomar decisões com a maior amplitude possível. O Congresso, agora dominado pelos democratas, provavelmente mudará a direção do apoio no âmbito da Otan, e não apenas na guerra da Ucrânia. A guerra do Irã, considerada por todos como um dos principais motivos da derrota, terá outra configuração, em busca de acordo que permita a normalização do comércio internacional e a queda do preço do petróleo, refletido duramente sobre a inflação americana. Interessante constatar que a derrota de Trump e a vitória de Lula significam a mesma coisa, mesmo guardadas as devidas proporções de cada uma.

Bookmark and Share

NÃO EXISTE CARTA BRANCA NO LULA 4

Julia Duailibi, O Globo

Apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula

Não tem Palocci 2, Posto Ipiranga ou carta branca para quem assumir a economia no Lula 4. Aviso aos navegantes que, apesar das expectativas, Lula será, na prática, o ministro da Fazenda de Lula. Isso significa que o próximo governo não pretende fazer um “cavalo de pau na economia”, nos moldes do que ocorreu em 2003, segundo definiu à época o então capitão do time, José Dirceu.

Lula quer fazer de Lula 4 algo mais impactante que Lula 3, mas a toada que desenha por enquanto é a mesma. Com exceção de uma ou outra medida de viés mais agressivo, a ideia é não mexer nos compromissos da campanha. Por isso Lula 4 não deve ser o que o mercado quer nem o que parte dos economistas vê como caminho obrigatório para interromper a trajetória de crescimento da relação dívida/PIB e levar à queda dos juros.

No momento, o ajuste em discussão prevê busca pelo centro da meta de superávit (0,5% do PIB em 2027 e 1,5% em 2030); manter de maneira permanente o gatilho que exclui determinadas receitas do cálculo dos gastos com saúde — hoje permitido apenas em caso de déficit; maior flexibilidade para bloquear ou contingenciar; corte de gastos tributários e o famoso pente-fino das despesas. Será apresentado um Projeto de Lei Complementar, em negociação também com a cúpula do Congresso, que pavimentará o caminho para enviar o Orçamento de 2027, agora readequado às promessas da campanha.

A notícia do colunista Lauro Jardim de que Lula se encontraria com o economista André Lara Resende alimentou a expectativa de que o presidente pudesse buscar uma nova abordagem à questão fiscal. Em artigo de setembro, o economista propôs uma faixa fixa para a Selic, levando em consideração meta de inflação e PIB potencial. A taxa de juros atual seria cortada gradualmente, e as reservas internacionais seriam usadas para evitar a depreciação cambial. As conclusões de ALR animaram o entorno do presidente, pois colocam o foco no patamar dos juros, e não nos gastos primários. Aliados mais próximos de Lula, no entanto, não o veem aderindo à pressão por alguma medida que force a derrubada dos juros. É verdade que ele deixou a turma fazer barulho com a ideia, já que a discussão engaja sua base mais à esquerda.

Lula pretende conversar com diferentes economistas nos próximos dias e fazer um pronunciamento no final de semana dizendo que tem compromisso com a questão fiscal, mas também com os mais pobres, exatamente o discurso que usou no palanque eleitoral.

Quando definir o nome que tocará a economia, não haverá a carta branca, tão almejada pelo mercado. Só a compra quem lê o Lula de hoje pelo retrovisor do Lula 1. Fernando Haddad, com toda a moral que tinha com Lula, não a conseguiu. Basta lembrar que, no final de 2024, Haddad trabalhou para que o anúncio do ajuste fiscal não fosse feito no mesmo dia que a divulgação das medidas de isenção do Imposto de Renda. Não conseguiu, e o mercado reagiu mal. Por que agora com Rafael Fonteles, governador reeleito do Piauí e cotado para a Fazenda, seria diferente? Até onde se sabe, a influência de Fonteles, ou de qualquer um que aparecer para assumir o cargo de ministro, sobre Lula ainda é menor que a de Haddad. Não haverá Posto Ipiranga.

Bookmark and Share

quarta-feira, 4 de novembro de 2026

COMANDO DO CONGRESSO E MINISTRO DA FAZENDA DEFINIRÃO NOVO GOVERNO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A convergência com Centrão pelo controle do Congresso não elimina os conflitos sobre o Orçamento, a distribuição de cargos e o alcance das políticas públicas

A agenda legislativa na ordem do dia depois da reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva também tem como objetivo político a manutenção de Hugo Motta (Republicanos-PB) e Davi Alcolumbre (União-AP) nos comandos da Câmara e do Senado, respectivamente. A votação de propostas de grande repercussão social, como a PEC da Segurança Pública, aprovada nessa terça-feira, e a regulamentação do fim da escala 6 x 1, a negociação de espaços no futuro ministério e as articulações para preencher vagas em tribunais integram a construção da maioria que deverá sustentar o quarto mandato de Lula. Nesse sentido, a governabilidade dependerá do Centrão.

Logo após o segundo turno, Lula sinalizou apoio à recondução de Motta e Alcolumbre, para impedir que a reorganização do Congresso fosse comandada pela oposição bolsonarista. Em contrapartida, espera encontrar disposição para aprovar matérias que permitam apresentar resultados antes mesmo da posse. O fim da escala 6 x 1 e emenda constitucional da segurança pública são agendas de amplo apelo popular que o Centrão tem oportunidade da faturar politicamente.

Leia também: Lula comemora aprovação da PEC da Segurança e reforça criação de ministério

Entretanto, é um engano acreditar que se trata de uma adesão programática do Centrão ao quarto mandato de Lula, cujo projeto ainda não está suficientemente explicitado. Trata-se de uma aliança de conveniência conjuntural entre forças com bases eleitorais, prioridades e ambições próprias, que não confiam plenamente umas nas outras. A convergência pelo controle do Congresso não elimina os conflitos sobre o Orçamento, a distribuição de cargos e o alcance das políticas públicas. A eleição das mesas diretoras é apenas a primeira prova dessa composição entre Lula, Motta e Alcolumbre. O xis da questão serão as decisões que distribuem custos em vez de benefícios.

A montagem do ministério faz parte da mesma negociação. A possível permanência de Gustavo Feliciano, no Turismo, e de Waldez Góes, na Integração e Desenvolvimento Regional, sinaliza a preservação de espaços vinculados aos presidentes do Congresso. A hipótese de entregar a Secretaria de Relações Institucionais a um parlamentar do Centrão, como Silvio Costa Filho, vai além da acomodação partidária: significaria trazer para dentro do Planalto um representante das forças com as quais o governo precisará negociar diariamente.

Mas essas conjecturas não se traduziram ainda em convites formais — são especulativas. A presença de um integrante do Centrão no comando da articulação política, entretanto, pode inverter a mão das negociações, com um representante exclusivo das demandas parlamentares dentro do Executivo. O desafio será encontrar alguém capaz de levar as prioridades presidenciais ao Congresso e incorporar à ação governamental reivindicações legítimas dos aliados.

Riscos políticos

As conversas sobre a indicação de Rodrigo Pacheco ao Supremo Tribunal Federal e sua eventual sucessão no Tribunal de Contas da União revelam a mudança de paradigma e a extensão dos compromissos que estão sendo tecidos por Lula com seus aliados no Centrão. A indicação de integrantes do STF e outras cortes superiores com base em critérios exclusivamente políticos tornou-se mais problema do que solução. São escolhas duradouras, que ultrapassam o calendário do próximo governo. Por isso mesmo, precisam ser justificadas por critérios públicos de qualificação e independência. Quando aparecem apenas como contrapartidas entre autoridades, alimentam a percepção de que as instituições se tornaram peças de um acordo de conservação do poder e, por isso mesmo, vetores de crise, como aconteceu com o STF e o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) nas eleições.

Lula precisa construir uma maioria ampla heterogênea e duradoura. Os bolsonaristas não são cachorro morto. A derrota eleitoral e a fuga de Flávio Bolsonaro provocaram desorganização e disputas de liderança, mas não dissolveram suas bases sociais, suas redes de mobilização ou sua presença parlamentar. Tampouco todos os eleitores do candidato derrotado podem ser tratados como integrantes de um bloco extremista. A boa política sugere ao governo separar as duas oposições: a que representa setores democráticos descontentes com o governo, que buscam uma alternativa de centro-direita para 2030, e a extrema-direita representada pelo clã Bolsonaro.

É aí que a sucessão da Câmara e do Senado será decisiva. Uma aliança com o centro pode reduzir a capacidade de comando do bolsonarismo sobre a direita e assegurar o funcionamento institucional. Mas o isolamento dos radicais não pode servir de justificativa para interditar adversários ou alterar regras eleitorais conforme as conveniências dos vencedores. O direito ao dissenso é um dos pilares da democracia. A própria estabilidade institucional do governo depende da existência de oposição responsável, conforme as regras do jogo democrático.

O caráter do governo Lula, porém, não será dado apenas pela incorporação de integrantes do Centrão ao governo. A chave é a escolha do novo ministro da Fazenda. Seja Rafael Fonteles, Geraldo Alckmin ou outro nome cogitado até agora, Lula precisa expressar uma orientação compreensível. Não basta anunciar compromisso com o equilíbrio das contas. Recuperar a confiança exige enfrentar a trajetória da dívida, melhorar a qualidade do gasto e negociar prioridades compatíveis com os recursos disponíveis. Mas é justamente aí que surge o risco de estelionato eleitoral.

Leia mais: Governo prioriza PEC da Segurança, bets, CBS e Orçamento até o fim do ano

Lula não poderá agradecer os votos, reafirmar suas promessas e, logo depois, apresentar uma política econômica que transfira aos beneficiários dessas promessas todo o custo do ajuste. Também não poderá fingir que as restrições fiscais desapareceram com a vitória. Precisará explicar escolhas, estabelecer prazos, rever privilégios e repartir sacrifícios, inclusive entre os grupos com maior capacidade de pressão.

A maioria que Lula busca construir deverá responder a essa contradição. Motta e Alcolumbre terão de demonstrar se o compromisso inclui compartilhar responsabilidades ou apenas assegurar posições. Governabilidade duradoura exige mais do que votos para eleger as mesas diretoras e distribuir ministérios. Exige condições para governar sem desmentir o mandato recebido. Se o acordo preservar os aliados e frustrar os eleitores, o bolsonarismo encontrará o combustível para sua recuperação.

Vale a pena ler de novo:

Esquerda aguarda derrota de Trump e festeja vitória de Lula

Lula tira por menos a fuga de Flávio, mas subestimar Bolsonaro é um erro

Nas entrelinhas: todas as colunas no Blog do Azedo

Bookmark and Share

NÃO ME DEIXES

Em 4 de novembro de 2003, Rachel de Queiroz fez sua última viagem. Raquel, a pioneira cearense – primeira mulher a entrar na Academia Brasileira de Letras, 1977 – conhecida pelas belas histórias contadas em suas obras, o carinho que tinha pelas palavras, seja nas crônicas, nas peças de teatro ou nos romances, ela era uma mulher à frente do seu tempo. Na politica, Rachel de Queiroz enveredou, e teve uma vida intensa.

A consagrada carreira de escritora e jornalista, parte dos brasileiros já conhece, mas, na política é desconhecida pela maioria da população brasileira. Rachel se tornou membro do Partido Comunista ao lado de amigos de sua geração, uma turma politizada e ‘comunizada”, como relatou ela na autobiografia Tantos Anos, de 1998. Foi presa duas vezes.

Em 1931, após passar dois meses no Rio de Janeiro – tinha ido receber o Prêmio Graça Aranha, dado a O Quinze – Rachel volta ao Ceará, com credenciais do Partido Comunista, já politizada e com a missão de promover e reorganizar o Bloco Operário e Camponês, movimento político o qual ela tinha participado.

Rachel passou a fazer parte do Partido Comunista, mesmo sem ter feito uma ficha, assinado alguma ata. Aliás, não se podia deixar nenhum rastro de papéis, livros ou qualquer tipo de documento, a polícia era brutal e se pegasse algum vestígio, levava todos para a cadeia: às pessoas e os papéis. Com a chegada de Getúlio Vargas ao Rio, a polícia ficou mais feroz.

Em 1937, com a decretação do Estado Novo de Getúlio Vargas, os livros de Rachel de Queiroz foram proibidos e, num fato marcante, várias de suas obras acabaram queimadas em praça pública em Salvador (BA), junto a livros de Jorge Amado, José Lins do Rego e Graciliano Ramos, todos classificados de subversivos.

O desligamento do Partido Comunista aconteceu após ela ver censurado pelo próprio Partido o romance João Miguel. No romance João Miguel, ‘campesino’ bêbado, matava outro ‘campesino’. O aviso: só permitiria a publicação da obra, se Rachel fizesse as modificações apontadas pelo presidente do Partido Comunista. Segundo o Partido, a trama era carregada de preconceitos contra a classe operária.

Jamais se curvou as imposições feitas a sua obra, Rachel de Queiroz não aceitou as tais modificações exigidas pelo Partido Comunista, pegou o original que tinha datilografado e saiu em disparada, como relatado por ela no capítulo O Rompimento, da autobiografia Tantos Anos.

Em sua obra Caminho de Pedras (1937), Rachel trata desse momento político que viveu no Partido Comunista, porque fazer política na década de 20, ser comunista era muito perigoso. A ideia de comunismo era distorcida e alguém que ousasse se apresentar como comunista pagaria um preço alto, até com a própria vida.

Foi numa noite cheia de estrelas, dormindo em sua rede que Rachel de Queiroz faleceu em sua casa no Rio de Janeiro, em 4 de novembro de 2003, longe de sua "Não Me Deixes".

Bookmark and Share

terça-feira, 3 de novembro de 2026

ENTRE MUROS E CAMINHOS

Jorge J. Okubaro, O Estado de S. Paulo

É preciso reforçar que a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população

Das dezenas de milhões de brasileiros que suspiraram com alívio e júbilo no momento em que se confirmou o resultado do segundo turno da eleição presidencial disputada em 25 de outubro, um grupo muito restrito teve motivos especiais para celebrar. Trata-se das pessoas que conheceram o que de pior a ditadura militar (19641985) praticou: as prisões arbitrárias, a perseguição política, a tortura, os assassinatos e os desaparecimentos de opositores do regime. Fora outros atributos naturais e familiares que o aproximam das milícias e dos grandes esquemas de corrupção, o candidato derrotado tem um especial, herdado do pai: o de admirar e exaltar as terríveis práticas da ditadura militar. É de ter um tipo desses no principal cargo da República que o País se livrou.

A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva, que lhe assegura o inédito quarto mandato presidencial, é, por isso, uma vitória dos que querem um Brasil democrático. A igualmente inédita virada entre o primeiro e o segundo turno deveuse certamente à sua liderança e a seu carisma, mas foi impulsionada por outros fatores, um dos quais o fato de sua candidatura representar o bastião para conter o avanço da extrema direita. Por isso, a reeleição de Lula é muito maior do que um feito do PT ou da esquerda. Ela resultou do apoio de forças democráticas que rejeitaram a extrema direita.

É ilusório imaginar, porém, que com a derrota e a fuga de Flávio Bolsonaro, o bolsonarismo esteja liquidado. Não se pode esquecer que o candidato derrotado teve praticamente 60 milhões de votos. Foi apoiado por quase a metade dos eleitores que compareceram às urnas. Temporariamente, a oposição de extrema direita, até há pouco liderada por Bolsonaro, está sem um comando firme, mas ela tem condições de se recompor e exercer um papel de grande relevância ao longo do próximo governo, que tomará posse em 5 de janeiro. A partir de 2027, é importante frisar, o PL, partido de Bolsonaro, terá 28 senadores e 121 deputados federais, o que significa que deterá as maiores bancadas nas duas Casas do Congresso. Se suas lideranças parlamentares atuarem com competência, poderão impor grandes dificuldades à gestão do presidente Lula.

Além disso, o PL elegeu seis governadores. Outros eleitos por diferentes partidos integram o grupo bolsonarista. O exemplo mais óbvio é o do reeleito governador paulista, Tarcísio de Freitas, filiado ao Republicanos, mas considerado o provável sucessor de Flávio Bolsonaro na liderança dos bolsonaristas. Tarcísio deve disputar a função com a senadora eleita pelo Distrito Federal, Michelle Bolsonaro.

Esse quadro dá a dimensão das dificuldades que o quarto governo Lula enfrentará. Em seus pronunciamentos após a vitória, Lula falou em governar de maneira diferente da que mostrou nos mandatos anteriores e de estar mais sintonizado com a população. É difícil saber o que isso significará na prática. Mas que mudança deve haver não há dúvida, para se alcançar uma gestão que preserve o que de importante foi feito no campo social e que saiba enfrentar os novos desafios. São desafios que parte do PT não vê, mas que estão moldando um novo mundo.

As rápidas mudanças tecnológicas geram novas formas de trabalho, às quais nem sempre os organismos estatais sabem reagir com a presteza e a eficácia necessárias para impedir danos a direitos e para capacitar o mundo do trabalho a responder às novas exigências. A questão ambiental terá de perder o tom de discurso político e merecer atenção científica adequada e políticas públicas eficientes. As mudanças sociais que ocorrem a partir das inovações nos sistemas de produção e distribuição de bens exigem nova visão do poder público sobre seu papel.

E continuam abertas questões que, para grande parte dos militantes do PT, só interessam ao grande capital, como a necessidade de ter as contas públicas organizadas. Mas há petistas preocupados com o tema. “A trajetória da dívida pública tem de ser sustentável em algum horizonte de tempo”, disse ao Estadão o governador eleito do Piauí, Rafael Fonteles, um dos nomes citados para ocupar o Ministério da Fazenda no novo governo. “Eu não costumo usar a palavra ajuste. Eu uso a palavra equilíbrio fiscal, justamente para demonstrar que são múltiplas as possibilidades de se buscar esse equilíbrio. Isso envolve corte de privilégios e de desperdício e não vai envolver, com o presidente Lula, qualquer prejuízo social, qualquer corte em programas sociais.”

São muitos os muros na rota do novo governo. Não há muitos caminhos para contorná-los. Espera-se que os escolhidos sejam os melhores. Há sensatez. Há, pelo menos no discurso, a disposição do presidente reeleito de incorporar a população na sua gestão. É preciso reforçar que, se de fato houver essa tentativa, a parcela dos que votaram no candidato derrotado não pode ser esquecida. Nenhum governo decente pode esquecer metade da população.

Bookmark and Share

ESQUERDA AGUARDA DERROTA DE TRUMP E FESTEJA VITÓRIA DE LULA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da disputa partidária americana

Donald Trump não está na cédula das eleições norte-americanas de hoje, mas seu governo está em julgamento. Os dois principais cenários desenhados pelas pesquisas representam derrotas políticas para a Casa Branca: perder a Câmara dos Representantes ou entregar também o Senado aos democratas. O segundo seria o pior dos mundos. A expressão "pato manco", usada para definir presidentes em fim de mandato e com influência declinante, ganharia conteúdo imediato. Trump conservaria poderes importantes, mas encontraria obstáculos para transformar suas decisões em políticas duradouras.

É preciso, porém, distinguir o favoritismo da sentença das urnas. As pesquisas finais do The New York Times/Siena mostram democratas numericamente à frente nos sete estados considerados decisivos para o Senado, inclusive Texas e Kansas, tradicionais fortalezas republicanas. O próprio instituto adverte que a maioria permanece em disputa. Há precedentes de subestimação do voto trumpista, cujos eleitores resistem mais a responder aos pesquisadores. O tamanho da onda azul dependerá de quem efetivamente for às urnas.

Custo de vida, combustíveis, insegurança econômica e os gastos da guerra no Irã formam o coquetel que corrói a promessa de prosperidade de Trump. A repressão migratória também tem efeitos colaterais: parte dos eleitores que apoiou o controle da fronteira rejeita operações que atingem trabalhadores, desorganizam famílias e retiram mão de obra das empresas. Entre os hispânicos, protagonistas do avanço republicano em 2024, há uma espécie de mea culpa.

Trump e Barack Obama protagonizam os polos nacionais desse confronto, embora o Partido Democrata reúna lideranças e correntes diversas. O presidente tenta converter a votação numa prova de fidelidade pessoal. O ex-presidente mobiliza a oposição para transformar o descontentamento em participação. Nos distritos e estados competitivos, entretanto, a disputa exige candidatos capazes de dialogar com valores religiosos e comunidades locais, cujas preocupações materiais podem atravessar fronteiras que pareciam intransponíveis.

É nesse ambiente que a vitória de Luiz Inácio Lula da Silva adquire significado internacional. A derrota de Flávio Bolsonaro frustrou a possibilidade de um alinhamento do maior país sul-americano com o projeto de poder associado a Trump. Nesse sentido, está sendo interpretada pela opinião pública mundial como uma derrota política do presidente norte-americano. Preserva a presença de um Brasil como uma das âncoras dos BRICS, empenhado em manter autonomia diplomática e interlocução com diferentes centros de poder. Uma vitória bolsonarista seria disruptiva do ponto de vista da política externa brasileira. 

Pragmatismo

Na Europa, a vitória de Lula ofereceu às esquerdas uma referência para enfrentar a sensação de inevitabilidade do avanço da extrema-direita. Seu valor é político e simbólico, pois mostra que mobilização social, alianças amplas e defesa das instituições podem produzir uma vitória do campo da democracia. Isso não significa que o eleitorado europeu reproduzirá o brasileiro, nem que protestos e campanhas tenham passado a obedecer a um impulso vindo de Brasília. Cada país tem seus próprios conflitos.

A derrota de Flávio, que está nos Estados Unidos, também favorece aos democratas norte-americanos. Defender a democracia exige respostas às condições de vida que alimentam a insatisfação popular. Quando a política perde contato com emprego, renda, preços e segurança, deixa um espaço que os adversários ocupam. A experiência brasileira foi uma combinação de defesa institucional e compromisso social. Essa não uma receita exportável, mas enfraquece a ideia de que a onda conservadora seja um destino.

O México ocupa posição particular nessa equação. A integração econômica com os Estados Unidos convive com pressões sobre imigração, segurança e comércio. A relação de "morde e assopra" decorre dessa interdependência: Washington ameaça, mas também precisa negociar. Para mexicanos e brasileiros, uma eventual derrota republicana pode ampliar os interlocutores no Congresso e criar obstáculos a iniciativas coercitivas. Não elimina, contudo, os instrumentos de pressão da Casa Branca nem dissolve interesses nacionais conflitantes.

Para Lula, um Trump enfraquecido oferece oportunidades e riscos. Uma Câmara democrata ampliaria a fiscalização, a perda do Senado dificultaria nomeações e elevaria o custo político de iniciativas do governo. Mas o presidente conservaria o veto e instrumentos executivos relevantes. Pressionado internamente, poderia procurar compensações na política externa e na sua nova doutrina de defesa nacional. O Brasil precisa ampliar as pontes, inclusive com republicanos, sem transformar o relacionamento bilateral numa extensão da disputa partidária americana.

O fato é que a vitória brasileira e uma possível onda azul nos Estados Unidos podem marcar limites à projeção internacional de Trump, ancorada no seu poder militar e tecnológico. É precipitado anunciar seu esgotamento, diante da força de intervenção que ainda deterá. O Brasil precisa combinar firmeza na soberania, cautela diante das provocações e perseverança diplomática. Com Trump derrotado nas urnas, administrar as relações com os Estados Unidos não comporta soberba e continuará exigindo pragmatismo.

Bookmark and Share