sábado, 2 de maio de 2026

CONGRESSO CONFIRMA TRADIÇÃO GOLPISTA

Flávia Oliveira, O Globo

O bolsonarismo, em conluio com o Centrão, viabilizou um próximo golpe

Sem surpresa. Com duas palavras, o historiador Carlos Fico resumiu a mobilização robusta do bolsonarismo e aliados para demolir, mais que o veto integral de Lula à Lei da Dosimetria, o arcabouço legal de proteção ao Estado Democrático de Direito, aprovado pelo mesmo Congresso Nacional e sancionado em 2021 por Jair Bolsonaro, o ex-presidente condenado e preso por tentativa de golpe e outros crimes. Quem venceu anteontem — de novo — foi a tradição brasileira de tratorar a democracia.

— De acordo com a tradição republicana, o Congresso Nacional se posiciona beneficiando responsáveis por tentativa de golpe de Estado. Sempre foi assim, desde 1905 — escreveu Fico numa rede social.

Ele é professor titular da UFRJ, especialista em História do Brasil República, autor de “História do Brasil contemporâneo” (2015) e “Utopia autoritária brasileira” (2025), entre outras obras.

Numa tabela que tornou pública, enumerou 15 golpes (tentados ou consumados) e pronunciamentos militares. Na meia dúzia que fracassou (1902, 1922, 1924, 1956, 1959 e 1961), houve anistia. A sétima, o Legislativo pavimentou ontem, ao restabelecer a vigência do PL 2162/2023, que reduz tempo de prisão e facilita a progressão de regime dos condenados pela trama golpista de 2022-2023, incluindo Bolsonaro, três generais e um almirante. O Legislativo ressuscitou um projeto que fere os princípios constitucionais da impessoalidade, da proporcionalidade e da isonomia. E que foi sancionado mesmo sem passar pela Câmara após alterações do Senado.

Toda a reputação internacional que o Brasil conquistou nos últimos anos por punir quem atentou contra a democracia está em xeque. A legislação prevê que, nos crimes com violência ou grave ameaça, os condenados têm de cumprir ao menos 25% (primários) e 30% (reincidentes) em regime fechado. A Lei da Dosimetria abre exceção para os ataques ao Estado Democrático de Direito (Título XII do Código de Processo Penal). Estes ficam sujeitos a 1/6 da pena.

Não é só. A anistia branda de anteontem — ainda há parlamentar defendendo a plena — também pôs fim ao concurso material (soma integral das penas) nos crimes de golpe tentado e abolição violenta do Estado Democrático. Em lugar, passará a valer o concurso formal (punição de um crime e adição de 50% da pena do outro). Em atos de multidão, a pena cairá em até dois terços. É um baita incentivo a reunir aliados em acampamentos e atacar os Poderes se o resultado nas urnas não agradar. O bolsonarismo, em conluio com o Centrão, viabilizou um próximo golpe.

Mais que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, foram nocauteados o STF e boa parte de um Brasil que se dispôs a defender a democracia, a ponto de identificar, denunciar, julgar e condenar os golpistas do 8 de Janeiro de 2023 e seus líderes. De 1.402 responsabilizados, 111 ainda estão detidos e 55 em prisão domiciliar. A maioria esmagadora da Câmara e do Senado agiu em prol de Jair Bolsonaro e seu grupo, ainda que 54% do eleitorado, segundo o Datafolha, se declarem contra a anistia.

Um Congresso francamente punitivista alivia autores de crimes contra a democracia. Uma aliança entre Davi Alcolumbre, presidente do Senado, Flávio Bolsonaro, senador escolhido sucessor pelo pai condenado e preso, e até Alexandre de Moraes, ministro do STF, segundo a colunista do GLOBO Malu Gaspar, sepultou a entrada de Jorge Messias no Supremo. O advogado-geral da União foi indicado por Lula e recebeu apoio escancarado de André Mendonça, o ministro terrivelmente evangélico de Bolsonaro, hoje relator do caso Master e vice-presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

Lula foi derrotado por adversários políticos, mas também perdeu por trocar institucionalidade por lealdade pessoal nas indicações ao STF. Pode ganhar votos e enriquecer a biografia, se fizer do revés um ato político de aceno à própria base. Sempre que agiu assim, se impôs. Basta lembrar dos projetos de isenção do Imposto de Renda até R$ 5 mil, taxação dos mais ricos, PEC da Blindagem e até no enfrentamento ao tarifaço dos Estados Unidos.

O presidente anunciou o nome de Messias para o STF no último 20 de novembro, Dia Nacional da Consciência Negra, desprezando o clamor de anos da sociedade civil por uma jurista preta. Tem o condão de restituir uma fração da representatividade que falta ao Supremo e, ao mesmo tempo, empurrar para a oposição o custo político-eleitoral de boicotar a chegada da primeira ministra negra à Corte. Há nomes de altíssima qualidade, com mais de 35 anos, reputação ilibada e notório saber jurídico, como exige a Constituição.

Talvez Lula não saiba, mas as negras brasileiras atuam na Justiça há muito tempo. Em 1770, uma escravizada do interior do Piauí denunciou ao governador da capitania, em carta, maus-tratos, separação da família, trabalho forçado e interdição da fé. O Conselho Federal da OAB, em 2022, reconheceu o documento como a petição inaugural do país. A primeira advogada do Brasil era negra, leal aos direitos humanos, à liberdade e se chamava Esperança (Garcia).

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MORRE RAIMUNDO RODRIGUES PEREIRA

Do g1 Rio

Jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morre no Rio aos 85 anos

Um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira, Raimundo foi uma figura central na resistência democrática durante o período da ditadura militar no país.

O jornalista Raimundo Rodrigues Pereira morreu na manhã deste sábado (2), no Rio, aos 85 anos. Um dos nomes mais importantes da história da imprensa brasileira, Raimundo foi uma figura central na resistência democrática durante a ditadura militar no país. O corpo do jornalista será cremado no domingo (3), no Cemitério da Penitência, no Caju.

Pernambucano de Exu, Raimundo construiu uma trajetória marcada pela defesa de um jornalismo crítico e independente, voltado, segundo suas próprias palavras, à “elevação do padrão material e cultural do povo”.

Ao longo da carreira, ele passou por veículos de grande prestígio, como a revista Realidade e o jornal O Estado de S. Paulo, onde se destacou pela qualidade das reportagens e pela profundidade das análises. Foi, no entanto, na chamada imprensa alternativa que consolidou seu papel histórico.

Luta pela democracia

Durante a ditadura militar no Brasil, período marcado por censura e repressão, integrou uma geração de jornalistas que enfrentou o autoritarismo com informação, análise crítica e defesa da democracia.

Fundado em 1975, o jornal Movimento tornou-se um dos principais símbolos dessa resistência. Sob a liderança de Raimundo, o veículo ganhou destaque ao denunciar abusos do regime e ao construir uma narrativa crítica em defesa das liberdades democráticas. Mais do que um jornal, o Movimento funcionou como espaço de articulação política e social, reunindo vozes silenciadas pela repressão.

A atuação do periódico ocorreu sob forte pressão. O jornal enfrentava censura prévia, cortes frequentes e dificuldades financeiras. Em diversas edições, espaços em branco evidenciavam a interferência do regime e a limitação à liberdade de imprensa. Ainda assim, Raimundo manteve uma linha editorial firme, apostando no jornalismo como instrumento de transformação social.

Em uma fase posterior da carreira, criou o projeto “Retrato do Brasil”, voltado à interpretação da realidade nacional, reunindo reportagens aprofundadas e análises estruturais sobre o país.

Raimundo deixa um legado que se confunde com a própria história da resistência democrática no Brasil. O jornal Movimento permanece como símbolo de um período em que exercer o jornalismo exigia coragem e compromisso com a informação.

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sexta-feira, 1 de maio de 2026

FAKE NEWS ÀS GARGALHADAS

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

A expressão em breve fará dez anos e continua a ser o sustentáculo de Trump e Bolsonaro

Mestre da fake news, Bolsonaro convenceu milhões de que, no governo dele, não havia corrupção

Você se lembra de quando ouviu pela primeira vez a expressão "fake news"? Foi em 2017, nos noticiários de TV. E sabe por quem? Donald Trump, candidato à Presidência dos EUA. Trump não a inventou. Com ou sem este nome, as fake news sempre foram uma arma política dos regimes autoritários e totalitários, para jogar seus apoiadores contra opositores, minorias e potenciais adversários. Ou para criar confusão, como neste exemplo real: "Papa Francisco apoia Trump". Até ser desmentida, causou grande estrago.

Vencedor, Trump não só elegeu as fake news seu método de governo como aperfeiçoou-as, ao passar a acusar seus opositores de justamente propagar fake news. E estas incluíam qualquer informação vinda da mídia independente. A intenção era desmoralizar essa mídia e convencer os americanos a só acreditar no que liam, viam e ouviam nos canais que lhe eram fiéis. Deu certo, porque ele voltou ao trono.

No Brasil, Bolsonaro, o Trump jeca, mas tão finório quanto o original, levou seus 1.461 dias no poder dedicando-se a defecar fake news. Exceto as relativas à pandemia, que ajudaram a matar 700 mil brasileiros, a principal foi a de que em seu governo não havia corrupção. Bolsonaro repetiu-a dezenas de vezes, contrariando os fatos que expunham as tripas de um governo tão corrupto quanto qualquer outro —e que, à falta de um mensalão, também podia se orgulhar de formidáveis assaltos ao dinheiro público.

Alguns deles: rachadinhas flavianas, funcionários fantasmas, cheques de Fabrício Queiroz para dona Michelle, senador aliado com dinheiro na cueca, gabinete clandestino do MEC, extração ilegal de madeira pelo ministro e superfaturamento na compra de vacinas, tratores, ônibus escolares e caminhões de lixo. Etc., etc. Culminando o rombo, o orçamento secreto —a distribuição de bilhões de reais em verbas federais para o centrão, a fim de lhe garantir apoio, proteção contra o impeachment e ajuda na reeleição.

Para Bolsonaro, tudo era fake news. Ainda se ouvem suas gargalhadas ao dizer aquilo.

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VOTO SECRETO AJUDOU A CRUCIFICAR MESSIAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Sigilo foi concebido para tentar assegurar a independência de senadores

Ele representa, porém, uma violação à ideia central da democracia representativa

Enquanto ainda tentamos entender se a rejeição do nome de Jorge Messias pelos senadores foi mais uma espetada no governo Lula ou um recado para o STF, proponho discutir um outro aspecto da questão que está passando meio batido: o voto secreto.

Não tenho como assegurar que, se votações para a aprovação de ministros do Supremo fossem nominais e abertas, o desfecho teria sido outro, mas suspeito que sim. Entre os 42 senadores que disseram não a Messias, deve haver pelo menos alguns com sólidos interesses no Executivo ou turvas pendências com o Judiciário que teriam agido de outra forma se tivessem de se manifestar sem a proteção do anonimato. A blindagem contra pressões políticas e retaliações é, aliás, a razão alegada para que a Câmara e o Senado mantenham algumas votações sigilosas. Mas será que elas se justificam?

A votação secreta confere aos parlamentares uma espécie de invisibilidade. É impossível aqui não recordar do mito grego do anel de Giges. Numa das versões, Giges era um pastor da Lídia que um dia encontrou um anel mágico que o tornava invisível. Assim, foi ao palácio real, seduziu a rainha, matou o rei e se apoderou do trono. Para Platão, o anel significa a capacidade de cometer injustiças com a certeza de não ser punido. É um tema que enseja fascinantes reflexões éticas, psicológicas e filosóficas. Sugiro vivamente o livro "O Anel de Giges", de meu amigo Eduardo Giannetti, que esgota e amplia o assunto.

Voltando ao Senado, até entendo a ideia de promover o segredo para tentar reforçar a independência de congressistas. Entendo, mas não compactuo. Creio que o sigilo no Parlamento perverte a ideia central da democracia representativa. Se não sei como meu parlamentar vota, não tenho como decidir se ele está me representando bem. Antes de deverem satisfações a suas consciências, deputados e senadores as devem ao eleitor.

No mais, se o político não tem a coragem de contrapor-se ao presidente ou de dizer o que pensa sobre um juiz, deveria procurar outra profissão.

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1º DE MAIO REAFIRMA SEU SENTIDO ORIGINAL DE LUTAR PELO TEMPO DE VIDA

Folha de S. Paulo, Vários autores (nomes ao final do texto)

Redução da jornada se impõe porque condições atuais de trabalho permitem maior equilíbrio na produção

Resgatar essa agenda histórica mantém viva a busca por dignidade e justiça social no Brasil

Dia do Trabalhador, comemorado nesta sexta-feira (1º), está diretamente ligado à luta pela redução da jornada. A origem da data remete à greve geral ocorrida em Chicago (EUA), em 1º de Maio de 1886, cuja principal reivindicação era reduzir o tempo de trabalho —a jornada chegava a 17 horas diárias. A mobilização, que completa 140 anos, foi duramente reprimida, transformando-se em símbolo de resistência e luta.

Desde então, trabalhadores no Brasil e no mundo obtiveram importantes conquistas. Por aqui, o principal marco foi a Consolidação das Leis do Trabalho (CLT), em 1943, que, entre outras melhorias, estabeleceu a jornada de 8 horas diárias e 48 horas semanais —um avanço significativo em um contexto em que a jornada frequentemente ultrapassava 14 horas por dia, com escalas que invadiam os sábados e até as manhãs de domingo.

Outro momento decisivo foi a Constituição de 1988. Ao consolidar uma luta sindical construída nas campanhas salariais de 1985, diminuiu a carga horária semanal de 48 para 44 horas.

Diante desse histórico, surge a pergunta: por que, em 2026, ainda empunhamos a bandeira da redução da jornada —hoje também expressa na luta pelo fim da escala 6x1?

Em 140 anos, importantes conquistas promoveram regulamentação e atenuaram os abusos do início da industrialização. No entanto, as condições de trabalho também se transformaram e hoje permitem maior equilíbrio na organização do tempo e da produção e na distribuição dos ganhos. Avançar nesse sentido é fundamental para construir uma sociedade mais justa.

Além disso, a partir da década de 1980, com as crises do capitalismo, houve uma desestruturação dos setores produtivos, marcada pelo aumento do desemprego, pela expansão da terceirização e pelo crescimento da informalidade.

Esse cenário foi aprofundado com a reforma trabalhista de 2017, que abriu brechas para a precarização e para o aumento da jornada, ao flexibilizar regras de contratação e normas relacionadas ao tempo de alimentação, descanso e deslocamento.

Para os trabalhadores na informalidade, a situação é ainda pior. Muitos revivem os abusos do início da industrialização, com jornadas que chegam àquelas 17 horas diárias do século 19. Trata-se de um contingente que permanece à margem das conquistas acumuladas ao longo destes 140 anos de luta.

Diante desse quadro, a defesa da redução da jornada não é apenas uma pauta histórica —é uma necessidade contemporânea. E ela envolve mais do que o tempo de trabalho: a carga horária excessiva provoca desgaste físico, rebaixamento salarial, dificulta o acesso à formação e agrava a saúde mental.

Assim, ao completar 140 anos, o 1º de Maio reafirma seu sentido original: a luta pelo tempo de vida. Em um mundo marcado por avanços tecnológicos, de um lado, e novas formas de exploração, de outro, resgatar essa luta é atualizar o significado histórico da data, mantendo viva a busca por dignidade, equilíbrio e justiça social para a classe trabalhadora.

Miguel Torres
Presidente da Força Sindical

Sérgio Nobre
Presidente da CUT

Ricardo Patah
Presidente da UGT

Adilson Araújo
Presidente da CTB

Antonio Neto
Presidente da CSB

Sônia Zerino
Presidente da Nova Central Sindical

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O HORIZONTE ECONÔMICO E FINANCEIRO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Lideranças do Congresso dizem que projetos vão andar, mas não nos termos do governo

Além das derrotas políticas, há risco de juros altos persistentes e inflação em alta

É difícil de acreditar que a maioria de deputados e senadores vote contra a aprovação de projetos de lei que distribuam dinheiro ou que tenham caído no gosto do povo. Um desses projetos que deveria entrar em discussão em breve é o de redução da jornada, a mexida na escala 6x1. A redução do imposto federal sobre a gasolina estava na pauta de urgência do governo. Talvez o novo plano de apoio à renegociação de dívidas de pessoas físicas, o Desenrola 2, exija alguma medida legislativa.

Em tese, parte dos projetos seria aprovada, imaginava o governo, que vai catar décimos de porcentagem de popularidade e de votos como puder, pois a reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva está no bico do corvo, no momento. Em tese. Depois do atropelamento desta quarta (29), não se sabe bem como a oposição vai tentar equilibrar a fome de votos com a vontade de enterrar Lula 3 e matar Lula 4. A oposição animada agora tem uns 70% da Câmara e mais da metade do Senado.

Lideranças da oposição dizem que essas "pautas", projetos de interesse de Lula, não são do governo e que serão discutidas, mas nos termos do Congresso. Que Lula terá de dançar miudinho. Etc. Em resumo, ficou mais difícil, mas não impossível, embora a articulação política do governo seja ainda mais bisonha do que a do início de Lula 3.

O horizonte econômico e financeiro ficou mais azedo, no curto prazo. Há certos aspectos da economia com resultados ainda muito bons, como os do emprego e do salário, como se viu na Pnad de março. Mas, como sabemos, esse desempenho não vitaminou a popularidade de Lula.

As taxas de juros ficarão mais altas por mais tempo. Com Desenrola, com tudo, o aperto financeiro vai diminuir pouco. A inflação média começou a subir por causa da guerra, mas o efeito pior ainda virá. O preço dos alimentos vai voltar a aumentar, possivelmente para o mesmo nível do IPCA ao fim deste ano, para mais de 4% ao menos. Dado que o nível de preços da comida foi para as alturas desde a epidemia e de lá pouco baixou, uma carestia extra, mesmo que não lá das piores, irrita. Irrita ainda mais porque parte do aumento considerável da renda está sendo comido por juros, em particular para quem ganha até três salários-mínimos, por aí.

Não é uma pintura de cenário de desastre. É de dificuldades adicionais em uma situação de déficit de popularidade de Lula. Para resumir: 1) impacto pequeno ou nenhum de medidas que deveriam ser populares, como a isenção do IR para quem ganha até R$ 5.000; 2) reaquecimento de preços, com risco de encarecimento da comida; 3) juros persistentemente altos; 4) dúvidas sobre a aprovação de projetos de emergência econômico-eleitoral (combustíveis, Desenrola) e do que vai sobrar do projeto de redução de jornada de trabalho.

O problema vai além do terceiro mandato de Lula 3. De acordo com a mais recente das previsões de "o mercado", as do Boletim Focus, a Selic baixa apenas para 13% no final deste 2026. No mercado, as negociações de dinheiro indicam Selic a mais de 13,5% na virada do ano. Com IPCA previsto de 3,5% para 2029, a Selic ainda estaria em 9,75%. Ou seja, a taxa real de juros ficaria acima de 6% depois de passados três quartos do mandato do próximo presidente da República; há outros rolos macroeconômicos sérios. Sem um plano econômico de impacto ou milagres, esse cenário não muda muito. Caso Lula 3 vença, Lula 4 vai estrear em uma situação difícil.

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AS INSTITUIÇÕES ESTÃO DOENTES

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Decisões do Congresso são vitória do bolsonarismo e derrota de Lula, STF e Congresso

Davi Alcolumbre e Alexandre de Moraes fazem pacto de proteção por conta do caso Master

Está confirmado: uma semana, duas derrotas para o presidente Lula, que vai perdendo energia, vantagem segura nas pesquisas e a confiança de possíveis aliados que poderiam ir para um lado ou outro e estão indo em massa para o dos seus adversários. Lula, porém, não é o único derrotado. Também perdem as instituições, em particular STF e Senado, e o andamento do caso Master.

O pacto entre o ministro do STF Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, não foi só para impedir que Jorge Messias vestisse a toga da Corte nem para se desconectar de vez de Lula.

Ambos estão enrolados no escândalo do Banco Master e o tal pacto, ou acordão, tem cara e cheiro de “você salva a minha pele e eu salvo a sua”.

Ex-ídolo nacional antigolpe, Moraes tem bons motivos para temer o Senado e um pedido de seu impeachment, algo praticamente inédito, mas que parece avançar contra Moraes e outros ministros do STF, em especial os envolvidos no caso Master, como ele, depois da revelação dos R$ 130 milhões de contrato entre o banco e o escritório da sua família.

Já Alcolumbre teme o STF tanto no caso das emendas quanto no do Master, com foco no fundo de previdência dos funcionários do Amapá, que, apesar dos alertas, investiu R$ 400 milhões no banco de Daniel Vorcaro. Alcolumbre pôs um aliado na presidência e o próprio irmão no conselho fiscal da entidade.

A sequência é clara: a articulação contra uma CPI do Master, a liminar, depois retirada, para dificultar o impeachment de ministros do STF no Senado, a aproximação de Moraes e Alcolumbre e o afastamento de ambos do Planalto.

O resultado são as duas derrotas de Lula e vitórias do bolsonarismo: contra a nomeação de Jorge Messias para o STF e os vetos do presidente ao projeto de dosimetria que favorece os golpistas do 8/1 e, lá na ponta, Jair Bolsonaro.

Curioso o ineditismo da derrubada do nome do presidente da República para o STF, o quórum em semana de feriadão e o fatiamento do veto de Lula para aliviar o texto aprovado no Congresso e excluir, por exemplo, crimes de facções criminosas. Aí, era demais...

Lula escancarando os cofres para comprar votos pró-Messias (nome questionável desde o início) e o jantar de Moraes e Alcolumbre, na noite anterior à sabatina de Messias, são sintomas do quanto as instituições andam doentes no Brasil, sem previsão de recuperação.

É bom ficar de olho no caso Master. Com Messias, o relator André Mendonça ganharia mais um aliado para ir fundo. Sem ele, o grupo que manda no Supremo vai continuar com a faca e o queijo na mão. A favor, por exemplo, de Moraes e de Alcolumbre. Eles merecem?

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MORAES E ALCOLUMBRE UNIRAM FORÇAS

Raquel Landim, O Estado de S. Paulo

Moraes e Alcolumbre uniram forças para mostrar que petista depende deles para governar

O ministro Alexandre de Moraes e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, uniram forças e mostram ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva que ele perdeu condições de governar e virou refém.

Depois de não emplacar um ministro para a Suprema Corte em 132 anos com a derrota de Jorge Messias, a derrubada de veto do PL da Dosimetria foi só mais um passo.

Moraes não perdoava Lula por ter dito que “quem quer enriquecer tem que sair do Supremo”, um sinal inequívoco de que o petista ameaçava soltar a mão do ministro em meio ao escândalo do banco Master.

Somado a isso, Messias deixou claro que era contra o interminável inquérito das fake news e se aproximou do ministro André Mendonça. Eram todas evidências da insatisfação de Lula com o estrago feito pelo caso Master em sua campanha.

Os petistas sabem que alguma reforma do Judiciário seria inevitável, mesmo em caso de reeleição de Lula. Moraes não quis cair sozinho, afinal foi o Supremo que garantiu a governabilidade do presidente durante todo seu terceiro mandato, quando o Congresso derrubava suas medidas econômicas.

Moraes é muito próximo de Alcolumbre, e o presidente do Senado também estava disposto a cobrar a fatura. Dado que o Senado também segurava as pontas quando os deputados aprovavam projetos ruins, sentiu-se no direito de tomar a prerrogativa presidencial de indicar um ministro do STF.

Alcolumbre nunca engoliu a negativa de Lula de não indicar Rodrigo Pacheco, em vez de Messias. Trabalhou na surdina e intensamente. Conforme mapeamento do governo, conseguiu PP, União Brasil, PSD e parte do MDB. Humilhou o governo, que não tem condições de reagir.

Contaram ainda com o surpreendente apoio de Flávio Dino, que deve sua cadeira no Supremo a Lula e foi ministro do governo, mas se deixou levar por rinha com Messias da época em que ambos disputavam a vaga no STF. No campo petista, o ressentimento é grande.

Pessoas próximas a Dino e Moraes negam qualquer articulação, mas, no Planalto, existe a convicção de que os dois atuaram. Para essas fontes, Dino acreditava que Lula não deveria ter enviado o nome de Messias e Moraes se absteve de atuar dada sua proximidade com Alcolumbre.

O que importa agora, porém, é o enfraquecimento do governo. Lula e Moraes partem para um abraço de afogados. Sem se desvencilhar do ministro e do caso Master, Lula terá dificuldades de atrair o centro e vencer a eleição. A derrota de Messias será, inclusive, utilizada na campanha. Moraes pode até tentar se aproximar do précandidato da oposição Flávio Bolsonaro (PL), mas a base bolsonarista nunca o perdoará. •

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ATALHO CONSERVADOR AO SUPREMO

Pablo Ortellado, O Globo

Rejeição de Messias cria atalho conservador ao Supremo

Direita ganhou a oportunidade de construir maioria no STF se vencer a próxima disputa presidencial

Com a rejeição da indicação de Jorge Messias ao Supremo e a sinalização de Davi Alcolumbre de que não deverá pautar uma nova indicação antes da eleição, a direita ganhou a oportunidade de construir maioria no STF se vencer a próxima disputa presidencial.

Além da vaga atual, três outros ministros — Luiz FuxCármen Lúcia e Gilmar Mendes — se aposentam no decorrer do próximo mandato presidencial. Essas quatro indicações, somadas às duas feitas por Jair Bolsonaro (Kassio Nunes Marques e André Mendonça), formariam uma maioria conservadora de seis dos 11 ministros. Ela poderia ainda ser engrossada com mais uma ou duas vagas se a direita obtiver o impeachment de Alexandre de Moraes e Dias Toffoli.

O horizonte de maioria conservadora no Supremo anima a direita brasileira, que assistiu ao impacto do respaldo que a Suprema Corte conservadora tem dado a Donald Trump nos Estados Unidos.

Em 2024, a Corte decidiu que presidentes desfrutam imunidade por atos cometidos dentro de sua autoridade constitucional. Isso significa que, nesse domínio, está imune à lei penal — sob o argumento de que processar um ex-presidente por essas ações “inibiria uma ação presidencial vigorosa”.

A Suprema Corte também respaldou a visão de que o presidente tem controle total sobre agências e funcionários do Executivo — base para as demissões em massa da era Doge (sigla em inglês do Departamento de Eficiência Governamental) e para a demissão de integrantes de comissões independentes. Além disso, decidiu que juízes federais de primeira instância não têm o poder de emitir ordens que bloqueiem leis ou políticas federais, eliminando o principal instrumento que magistrados usavam para paralisar medidas do Executivo.

O apoio da Suprema Corte a um governo de direita que busca expandir os poderes do Executivo é o sonho dos conservadores brasileiros. Mas, nos Estados Unidos, esse projeto foi levado a cabo com muito empenho por mais de 40 anos. Começou com a fundação da Sociedade Federalista, formada em 1982 por um pequeno grupo de estudantes de Direito de Harvard, Yale e Chicago para reverter o isolamento dos conservadores nas universidades de elite. No decorrer dos anos, a sociedade se expandiu para quase todas as universidades importantes e, em seguida, estabeleceu grupos profissionais de advogados e revistas especializadas, criando uma contraelite intelectual e profissional capaz de desafiar a ortodoxia liberal nas instituições jurídicas.

Essa rede adotou uma teoria chamada “originalismo”, que combate o ativismo judicial. A corrente defende que a interpretação da Constituição deve começar pelo texto e ser elucidada pelas evidências do que se entendia por aquelas palavras à época da ratificação. Opõe-se à ideia de que os juízes podem atualizar o significado da Constituição com base em preferências sociais ou ideologias contemporâneas.

Ao congelar o significado da Constituição americana no período em que foi escrita — final do século XVIII —, o originalismo torna ilegítima, por definição, a expansão de direitos produzida pelo ativismo judicial progressista dos séculos XX e XXI, como direito ao aborto, direito à privacidade e direito das populações LGBT+, entendidos como imperativos constitucionais.

Embora o originalismo tenha sido concebido para intervir politicamente no debate constitucional, ele se apresenta como o oposto de uma posição política. Seu argumento central é que os juízes conservadores não impõem — ao contrário, os magistrados progressistas é que impõem os deles. O originalismo deu aos ministros conservadores uma cobertura doutrinária para decidir politicamente sem parecer que decidiam politicamente.

Tudo isso, claro, está muito distante do que acontece no Brasil. Aqui, os juristas conservadores mal se organizaram politicamente, muito menos desenvolveram uma teoria jurídica contemporânea capaz de influenciar amplamente a doutrina. Ives Gandra Martins, jurista ligado ao Opus Dei, desenvolveu uma teoria jusnaturalista católica e uma rede de organizações conservadoras que têm incidido em temas como aborto, homeschooling, Direito da família e liberdade religiosa. Mas esse grupo nunca teve ampla penetração nas universidades de elite, nas instituições do Direito e na doutrina convencional, como aconteceu com os federalistas americanos.

Além disso, se a abordagem originalista nos Estados Unidos empurra para uma interpretação conservadora da Constituição de 1787, no Brasil a interpretação originalista da Constituição de 1988 empurraria o intérprete de volta ao projeto progressista de uma Carta voltada à proteção social.

Sem os meios intelectuais e sem a paciência histórica de fazer o caminho dos originalistas americanos, os conservadores brasileiros pretendem tomar um atalho que passa por indicar para a Corte juristas alinhados politicamente. O risco do atalho é que, sem cobertura doutrinária, a captura do Supremo será imediatamente legível como captura — aprofundando a politização do tribunal que os próprios conservadores denunciam, sem a ficção de neutralidade que fez a estratégia americana perdurar por décadas.

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FLÁVIO BOLSONARO SOBE NO SALTO

Bernardo Mello Franco, O Globo

Flávio Bolsonaro sobe no salto e canta vitória a cinco meses da eleição

Empolgado com vitórias no Congresso, senador se antecipa às urnas e decreta fim do governo Lula

O bolsonarismo viveu a melhor semana desde a derrota do capitão nas urnas. Na noite de quarta, o Senado quebrou tradição de 132 anos e rejeitou uma indicação ao Supremo Tribunal Federal. Menos de 24 horas depois, o Congresso derrubou o veto de Lula ao projeto que reduz as penas dos golpistas.

Empolgado com os resultados, o senador Flávio Bolsonaro cantou vitória antecipada nas eleições de outubro. “O governo Lula acabou”, decretou, após a reprovação de Jorge Messias. Ontem ele avisou que já tem “vários nomes” para indicar ao Supremo. Estimulado a decliná-los, disse: “Não vou antecipar isso, não sou presidente ainda”.

Pesquisas recentes apontam um empate técnico entre Lula e Flávio nas simulações de segundo turno. Os dois também ostentam índices de rejeição quase idênticos, o que sugere uma disputa equilibrada e com desfecho imprevisível. Ao subir no salto, o filho de Bolsonaro passa a impressão de que já se considera eleito. A soberba pode cobrar um preço alto à sua campanha.

Em declarações sopradas por marqueteiros, Flávio vinha se apresentando como um “Bolsonaro vacinado”, que não teria herdado o extremismo do pai. Ontem ele escancarou que o famigerado PL da Dosimetria foi apenas um passo para garantir impunidade aos golpistas. A meta é emplacar uma anistia que tire Jair da prisão até o fim do ano, “para que ele possa subir a rampa comigo”.

O senador também saiu do script ao ser provocado pela deputada Talíria Petrone, que citou seus laços com o miliciano Adriano da Nóbrega. Disse que o ex-PM, segurança de bicheiros e matador de aluguel, era visto como “grande exemplo para sua tropa”. Deixou de mencionar que ele já estava preso por homicídio, o que levou Flávio a entregar a condecoração na cadeia.

Depois de pular e dançar no plenário e receber um caloroso abraço de Davi Alcolumbre, o presidenciável voltou ontem à prisão. Foi visitar o pai no cárcere domiciliar em Brasília. Na saída, informou que Jair está “muito feliz” com as notícias do Congresso.

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O MODERNISMO E O BARROCO NAS ELEIÇÕES DE SÃO PAULO E BAHIA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A liderança de Tarcísio expressa a São Paulo pragmática, voltada à gestão, à infraestrutura e à segurança, que dialoga com setores médios e empresariais. Já na Bahia, o quadro eleitoral remete a outra tradição: a do barroco crítico e satírico de Gregório de Matos

Tem certas coisas na política brasileira que merecem uma leitura meio antropológica, digamos, pela força da cultura local. É o caso do quadro eleitoral em São Paulo e na Bahia, quando analisado à luz de duas matrizes profundas do país: o modernismo de Mário de Andrade e o barroco satírico de Gregório de Matos. Mais do que referências literárias, ambos expressam formas de perceber o poder, a sociedade e suas contradições.

A obra "Pauliceia Desvairada", publicada em 1922 por Mário de Andrade, é um marco fundador do modernismo brasileiro. Promoveu uma ruptura estética e cultural com o passado, que traduzia em São Paulo a vertiginosa transformação industrial, cosmopolita e socialmente fragmentada daquele estado, onde o Convênio de Taubaté (1906) financiou a acelerada modernização com recursos do café, enquanto em outros estados o patrimonialismo está diretamente associado à decadência econômica, sobretudo após a crise do café de 1929.

Com versos livres, Mario de Andrade captura um mosaico de tensões, ambições e identidades em disputa: "As ruas se cruzam num delírio de aço e de nervos,/ A cidade cresce como um organismo febril,/ E o homem corre, fragmento perdido no tumulto". Essa São Paulo "desvairada" — caótica, dinâmica e contraditória — é a mesma que se revela no atual cenário eleitoral, no contrafluxo daquele que elegeu Tarcísio de Freitas (Republicanos) governador de São Paulo, em 2022. A vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na megalópole paulista, porém, foi muito importante para a sua volta à Presidência.

A liderança de Tarcísio, com cerca de 38% das intenções de voto, expressa a São Paulo pragmática, voltada à gestão, à infraestrutura e à segurança, que dialoga com setores médios e empresariais. Contudo, o crescimento de Fernando Haddad (PT), que aparece com 26% e mantém forte presença entre mulheres e eleitores mais velhos, revela a persistência da outra São Paulo, mais social, mais estatal, mais sensível às políticas públicas e à inclusão.

Essa dualidade é tipicamente modernista: não há síntese, mas coexistência de contrários. A capital paulista, em particular, amplifica essa tensão. É nela que se destaca a candidatura ao Senado de Simone Tebet (PSB), que lidera cenários com cerca de 14% a 15% das intenções, e ocupa um espaço de centro político que dialoga com a pluralidade urbana. Sua força na cidade reflete a busca por moderação e racionalidade institucional, em contraste com a polarização nacional.

O que surpreende não é o favoritismo de Tarcísio, mas a capacidade de resiliência e reorganização do campo progressista, representado por Haddad e por candidaturas ao Senado mais alinhadas à centro-esquerda, que acena ao centro por meio de Tebet. São Paulo continua, como na leitura de Mário de Andrade, um organismo vivo, em permanente mutação, onde o novo não elimina o velho — reconfigura.

Personalismo estruturado

Já na Bahia, o quadro eleitoral remete a outra tradição: a do barroco crítico e satírico de Gregório de Matos. Nascido em Salvador no século XVII, o poeta — conhecido como "Boca do Inferno" — fez da linguagem uma arma contra o poder estabelecido, denunciou a corrupção, a hipocrisia e os vícios da elite colonial. Sua obra é marcada pela ironia mais mordaz: "Que falta nesta cidade?... Verdade./ Que mais por sua desonra?... Honra./ Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha". Trata-se de uma sociedade profundamente hierarquizada, tensionada por conflitos sociais e políticos latentes.

A herança barroca ajuda a compreender a persistência de estruturas políticas tradicionais na Bahia, especialmente o chamado carlismo, tradicionalmente influente no interior, hoje representado por ACM Neto (União), cujo principal patrimônio eleitoral, porém, está fortemente enraizado em Salvador, onde foi prefeito de 2013 a 2020. Com cerca de 41% das intenções de voto, ele lidera numericamente, em empate técnico com o atual governador Jerônimo Rodrigues (PT), que aparece com cerca de 36% a 37%.

Será exagero afirmar que o cenário eleitoral baiano reflete um barroquismo político, marcado por contrastes, continuidades e ambiguidades? De um lado, o carlismo renovado, que se apresenta como alternativa de gestão, mas carrega a herança de um sistema político tradicional. De outro, a força do petismo, ancorada em políticas sociais e na liderança de Lula, que mantém elevada influência no estado.

A resiliência dessas duas forças, como na poesia de Gregório de Matos, desnuda modernização econômica sem ruptura completa com estruturas de poder tradicionais e desigualdades persistentes. A política baiana não se organiza em torno de uma ruptura modernista, como em São Paulo, mas de uma tensão barroca, em que o novo, quando se sobrepõe, não consegue erradicar o antigo.

Não uma exclusividade baiana, a singularidade está no "modo de fazer política", que não pode ser reduzido a caricaturas de personalismo ou atraso. Na leitura do cientista político Paulo Fábio Dantas Neto, é um sistema sofisticado, historicamente moldado, que combina forte enraizamento territorial e um personalismo estruturado, com redes políticas duradouras, baseadas na lealdade, na mediação de interesses e na capilaridade.

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TRABALHAR PARA VIVER, NÃO VIVER PARA TRABALHAR

Luiz Marinho*, Correio Braziliense

A escala 6 X 1 é um sistema que drena energia, patrocina a perda de tempo de convivência familiar, reduz a qualidade de vida e limita o potencial produtivo

Quando debatemos o fim da escala 6 X 1 no Brasil, estamos, no fundo, discutindo o tempo: o tempo dedicado ao trabalho, ao descanso e, sobretudo, à vida. Trata-se de uma escolha sobre o tipo de país que queremos construir — um país que valoriza o trabalho digno ou que mantém um modelo ultrapassado, herdado do século passado, que já não se sustenta.

A escala 6 X 1 surgiu em um contexto de baixa tecnologia aplicada ao mundo do trabalho, em que a produtividade dependia da presença contínua do trabalhador e da trabalhadora. Hoje, essa lógica não se aplica. O resultado é outro: exaustão e adoecimento. É um sistema que drena energia, patrocina a perda de tempo de convivência familiar, reduz a qualidade de vida e limita o potencial produtivo.

Os dados são claros. Análise do eSocial em dezembro de 2025, com base em 50,3 milhões de vínculos, mostra que, embora 74% dos trabalhadores formais tenham contratos de 44 horas semanais, 66,8% já operam no regime 5 x 2, enquanto 33,2% ainda estão presos à escala 6 X 1. Ou seja, não se trata de necessidade econômica — é uma escolha cultural. E mais: essa incidência praticamente não varia entre médias e grandes empresas, o que reforça que não é o tamanho do negócio que determina essa prática.

Manter a 6 X 1 gera custos ocultos.  Jornadas longas aumentam o estresse, reduzem o sono e elevam riscos de acidentes. Trabalhadores mais cansados faltam mais, produzem menos e têm maior dificuldade de aprendizado. A rotatividade cresce, elevando custos com demissões, contratações e treinamento. Descansar não é o oposto de produzir — é condição para produzir melhor, com mais qualidade e mais eficiência.

A transição é possível e responsável. O impacto direto estimado é de 4,7% na massa salarial, valor plenamente absorvível pela economia brasileira. O risco de aumento expressivo de horas extras é limitado: mais da metade dos trabalhadores não recebe horas extras e, entre os que recebem, a média é de apenas três horas semanais. E os ganhos são concretos: estudo da Fundação Getulio Vargas, também de 2025, com 19 empresas mostra que 72% aumentaram a receita e 44% melhoraram o cumprimento de prazos após reduzir a jornada.

O mundo já avançou. A Islândia registrou crescimento econômico com redução da jornada. No Japão, a Microsoft teve aumento de 40% na produtividade com semana de quatro dias. Na América Latina, Chile e Equador lideram esse movimento, demonstrando que é possível conciliar competitividade com qualidade de vida.

O presidente Lula já enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei com urgência constitucional para enfrentar essa questão. A proposta representa um passo decisivo para retirar a escala 6 X 1 como padrão e valorizar o descanso, fortalecendo a negociação coletiva e modernizando as relações de trabalho no Brasil.

Estamos falando de um projeto de país. Um Brasil que cresce com pessoas inteiras, não exauridas. Um país que entende que tempo livre também movimenta a economia, fortalece vínculos sociais e melhora a vida em comunidade.

O tempo de viver é agora. Trabalhar não pode significar abrir mão da vida. Os parlamentares aprovarem essa proposta representa dar um passo necessário rumo a um país mais justo, mais produtivo e mais humano.

*Luiz Marinho — ministro do Trabalho e Emprego

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quinta-feira, 30 de abril de 2026

REJEIÇÃO DE MESSIAS É VITÓRIA DA BAIXA POLÍTICA

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Davi marcou a sabatina de indicado de Lula para 'matar'

Presidente do Senado esperava acordo para indicar Rodrigo Pacheco ao STF

Festa na oposição bolsonarista e frustração na base governista. A derrota histórica que o presidente do SenadoDavi Alcolumbre, impôs ao presidente Lula é um divisor de águas.

Davi acreditava que tinha um acordo de bastidores com Lula para indicar o ex-presidente do Senado Rodrigo Pacheco para o Supremo Tribunal Federal após a indicação e aprovação do ex-ministro da Justiça Flávio Dino —hoje, o caçador de emendas parlamentares.

Davi nunca mudou de posição. Sempre foi contra Messias e avisou que tinha marcado a sabatina para "matar".

Convenceu os colegas de Senado de que essa era uma resposta altiva da Casa ao STF, que está em baixa na opinião pública e em uma crise com ministros envolvidos no escândalo do Master. Davi também tem ligações perigosas com o banco de Daniel Vorcaro e está incomodado com a ação da Polícia Federal no seu estado, o Amapá.

O governo que se virasse para conseguir os votos.

O presidente do Senado exortou a oposição: "Não me peçam para votar impeachment se perderem essa oportunidade." Em termos de resposta ao STF, rejeitar o nome de ministro é quase isso.

Dois fatores deixaram o senador indignado: a falta de sensibilidade para com Pacheco e o fato de Lula ter mandado a indicação sem combinar a data com ele.

Davi queria que Lula mandasse a indicação depois das eleições. Lula ignorou, assim como ignorou a sugestão do nome do Pacheco.

Do ponto de vista de Lula e do governo, é um revés forte em ano eleitoral e com uma pauta de projetos a ser aprovada no Congresso.

Mas é acima de tudo um monumento à baixa política, com o presidente do Senado querendo mostrar quem manda. Não tem nada a ver com valores, com orientações para ocupar uma cadeira na Suprema Corte.

Tem também oportunismo político dos governantes, com apreço pelo modelo de indicação de amigos para o Supremo. A única condição que deveria orientar a escolha seria optar por um jurista de boa qualidade. Virou agora ser alguém de confiança extrema do presidente de plantão.

A oposição sozinha não teria os votos para derrubar Messias.

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PODERÁ O STF TER UM MINISTRO ATEU ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Messias foi crucificado por briga entre o Planalto e o Senado

Suas afirmações sobre religião e STF parecem contraditórias; e são

Jorge Messias é um jurista competente. Foi um erro o Senado tê-lo rejeitado, numa derrota que tem o peso histórico de 132 anos.

Messias foi crucificado na disputa entre o presidente do Senado e o presidente da República, como uma demonstração de força de Alcolumbre de que, um, a eleição já começou e ela não está ganha e, dois, o impeachment dos ministros do STF –que requer apoio de 54 senadores– não está fora de questão.

A derrota de Messias é menos sobre Messias e mais sobre as eleições de 2026 e o ego de Alcolumbre. Se os senadores pensassem que Lula teria enorme vantagem nas eleições (o que não tem), e se Alcolunbre pensasse que bolsonaristas não seriam a principal força política do Senado em 2027 (devem ser), não valeria o desgaste. Acontece que nem a conduta de bom samaritano de Messias —colocando-se como terrivelmente evangélico e com dor de ofício pelas prisões do 8 de Janeiro– o salvou.

Falando em Messias, a sabatina trouxe à tona a questão de qual o papel da religião dos ministros do STF? Antes de ser rejeitado pelo plenário do Senado, Messias afirmou que "é possível interpretar a Constituição ‘com fé’, e não ‘pela fé’", que possui "respeito absoluto à laicidade", que "os princípios cristãos" o "acompanham" e que "há 40 anos" se vê como um "servo de Deus".

Se as afirmações de Messias sobre religião e STF parecem contraditórias entre si, é porque o são, intencionalmente: o candidato não almejou em ser coerente, mas, sim, em ser palatável a todos. Falhou.

Três reivindicações aqui se misturam. Primeiro, a demanda por representatividade: evangélicos, como cidadãos, podem ocupar postos de poder e já o fazem. Segundo, a demanda por liberdade de religião: evangélicos possuem o direito a exercer sua fé. Terceiro, a demanda por domínio: religiosos não podem usar de seu cargo público para impor princípios de sua fé àqueles que não compartilham de sua crença.

Poderá o STF ter um ministro ateu? Se essa pergunta soa tão absurda no dia de hoje, é porque não se sabe ainda até onde vai a extrema direita teocrática para impor o seu projeto.

Hoje soubemos que está disposta a jogar um século de história pela janela.

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PRONUNCIAMENTO: DIA DO TRABALHADOR E TRABALHADORA

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NADA SERÁ COMO ANTES PARA LULA DEPOIS DA REJEIÇÃO DE MESSIAS

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O resultado abala a liturgia da Presidência e tem impacto na autoridade de Lula. No presidencialismo, nomear ministros de cortes superiores é exercício de poder

A rejeição do nome de Jorge Messias para o Supremo Tribunal Federal (STF) pelo Senado marca um ponto de inflexão na política brasileira e reposiciona a relação entre os Poderes. Mais do que um fracasso do indicado, é uma derrota do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O resultado de 42 votos contrários, 34 favoráveis e uma abstenção revelou que o governo perdeu o controle de sua base no Senado. E cometeu graves erros de avaliação e condução das negociações, apesar das advertências do líder do governo no Congresso, Randolfe Rodrigues (PT-AP), aliado de Alcolumbre na política do Amapá.

A indicação ao STF sempre foi tratada como prerrogativa presidencial de alto prestígio, cuja aprovação dependia mais de rituais políticos do que de disputas abertas. Ao romper essa tradição, o Senado deixou de ser uma instância homologatória e assumiu protagonismo político explícito, com capacidade de veto efetivo sobre o Executivo. Desde quando Lula rejeitou o nome do ex-presidente do Senado, Rodrigo Pacheco (PSB-MG), para o cargo, desconsiderando um pedido do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União), e indicou Messias, o advogado-geral da União, as relações do Palácio do Planalto com o Senado ficaram estremecidas.

Lula retardou ao máximo a indicação formal de Messias por causa disso, mas resolveu fazê-lo mesmo sem um acordo com Alcolumbre, por pressentir o perigo com a aproximação do processo eleitoral. Pagou para ver e perdeu a aposta. O dado mais relevante, porém, não está apenas no resultado, mas na engenharia política que o produziu: a convergência entre Alcolumbre e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) sinaliza a formação de um novo eixo de poder dentro do Congresso.

Alcolumbre, que até então operava como mediador e, em muitos momentos, como anteparo institucional contra iniciativas mais agressivas da oposição, deslocou-se para uma posição de maior autonomia — ou mesmo de alinhamento tático com forças oposicionistas. Esse movimento rompe uma lógica de contenção que vinha permitindo ao governo administrar crises sem sofrer derrotas frontais. A partir de agora, cada votação relevante exigirá negociação real, concessões concretas e maior capacidade de articulação política.

O governo perde não apenas votos, mas previsibilidade. E, em política, a perda de previsibilidade costuma ser mais grave do que a perda episódica de maioria. Há também implicações diretas para o próprio STF. A rejeição de um indicado presidencial reabre o debate sobre os critérios de escolha e sobre o grau de politização da Corte. Nos últimos anos, consolidou-se a percepção de que o tribunal passou a desempenhar papel central na arbitragem de conflitos políticos, o que elevou o custo das indicações.

Ao barrar Messias, o Senado envia um recado ao Executivo, de que não aceitará indicações automáticas, e ao Supremo, de que sua composição passou a ser objeto de disputa política aberta. Lula tenta assimilar a derrota como um revés parlamentar e não uma ruptura definitiva. A seus auxiliares, disse que tinha o direito de indicar Messias e o Senado, de rejeitar.

Liturgia do cargo

Mas não é essa a leitura da oposição e dos aliados do Centrão que traíram o governo. Do ponto de vista histórico, o episódio é raro. Desde o início da República, ainda sob Deodoro da Fonseca e Floriano Peixoto, não se registrava uma rejeição dessa natureza com impacto político comparável. Isso confere à derrota de Lula um caráter simbólico poderoso: ela representa não apenas um revés e quebra de um padrão institucional que atravessou diferentes regimes e conjunturas, mas fragilidade do projeto de reeleição, ou seja, perda de expectativa de poder.

Politicamente, o impacto é profundo. Lula construiu seu terceiro mandato com base em uma estratégia de recomposição de alianças amplas com o Centrão, buscando apoio nos estados para garantir governabilidade. A derrota expõe os limites dessa estratégia. Mostra que o chamado “centrão ampliado” não opera como base orgânica, mas como um conjunto de forças voláteis, que respondem a incentivos específicos e a correlações de força momentâneas.

Além disso, a articulação que levou à rejeição fortalece a oposição liderada por Flávio Bolsonaro, que passa a demonstrar capacidade de influenciar decisões estratégicas mesmo sem maioria formal. Isso já é resultado da expectativa de poder gerada pelos reiterados empates técnicos com Lula nas pesquisas de intenção de votos. Esse dado tem implicações diretas para o cenário eleitoral de 2026, pois indica que a oposição não apenas resiste, mas consegue impor derrotas relevantes ao governo no terreno institucional. Ou seja, passou à ofensiva no Congresso.

Outro aspecto é o enfraquecimento da autoridade de Lula. O resultado da votação abala a liturgia da Presidência e tem impacto na autoridade presidencial. Em sistemas presidencialistas, a capacidade de nomear ministros de cortes superiores é um dos instrumentos mais relevantes de poder. Ao ver sua indicação rejeitada, Lula sofre um desgaste que transcende o episódio específico e atinge sua imagem de liderança política de forma irremediável neste mandato.

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DERROTA DE MESSIAS VIRA O JOGO DA ELEIÇÃO

Malu Gaspar, O Globo

Com rejeição de Messias, Alcolumbre ajuda Flávio Bolsonaro a virar o jogo contra Lula

Ofensiva contra indicado do presidente teve ajuda de ministros do STF como Alexandre de Moraes

Um dia antes de o Senado Federal derrotar a indicação de Jorge Messias para ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), Davi Alcolumbre (União Brasil-AP) mandou um recado aos senadores da oposição bolsonarista. Se perdessem a oportunidade de derrubar o indicado de Lula no plenário, que não viessem lhe pedir para colocar em pauta um dos cerca de cem pedidos de impeachment de ministros que ele mantém engavetados. No dia seguinte, o mesmo Alcolumbre, conhecido por nunca atender o celular, passou o tempo todo ao telefone falando com qualquer parlamentar que tivesse condição de ajudá-lo. Nas conversas, variações do mesmo tema — faça seu papel que farei o meu —, terminando sempre com “hoje será um dia histórico”.

Com o primeiro vaticínio confirmado, dois novos passaram a ser ouvidos em Brasília. O primeiro: o governo “acabou”. Outro: o próximo passo é o impeachment de ministros do Supremo. É difícil cravar agora com 100% de certeza se tais previsões se confirmarão.

Um teste importante ocorre já hoje, quando o Congresso avalia o veto de Lula ao projeto que abre espaço à redução de pena dos condenados pelo 8 de Janeiro, aprovado em dezembro por ampla maioria. Há pouca dúvida de que o veto de Lula será derrubado. Isso, além de agravar a crise no governo, também fará aumentar a cotação de Flávio Bolsonaro (PL-RJ) nas bolsas de apostas para a campanha presidencial.

Se há algo mais que comprovado pela experiência, é que, assim como as piranhas da Amazônia, os políticos partem para o ataque quando sentem o cheiro de sangue. Outra máxima é que a perspectiva de poder atrai, e isso explica o movimento de alas do Centrão, sem as quais o nome de Messias nunca teria sido rejeitado no plenário.

Não é segredo para ninguém que Alcolumbre se lançou na disputa com o Palácio do Planalto depois que o presidente da República decidiu não indicar Rodrigo Pacheco (PSB-MG) à vaga aberta com a aposentadoria de Luís Roberto Barroso, ainda no ano passado. De lá para cá, ele nunca deixou de dizer que se sentiu traído pelo governo. Nos últimos dias, repetiu algumas vezes a interlocutores: “O que fizeram comigo não faço com ninguém”. E se mostrava decidido a mostrar a Lula quem manda de verdade.

Mas, pragmático, muito provavelmente teria cedido se achasse que teria mais a lucrar que a perder. Foi o que fez nestes três anos de governo, sempre lucrando. Se não fez agora, é porque chegou à conclusão de que o jogo eleitoral está virando e decidiu pular do barco antes que ele afundasse.

Daí o discurso propagado nos bastidores não só pelo próprio Alcolumbre, mas também pelos líderes da oposição, segundo o qual a derrota de Messias era o “impeachment possível”. O mesmo diagnóstico foi feito por ministros do governo que estavam no plenário na noite de ontem, ao afirmar que o candidato de Lula era julgado por crimes que não cometeu.

É aí que entra um outro xadrez: o do próprio STF. Por mais paradoxal que possa parecer, a vitória de Messias também não interessava ao maior aliado de Alcolumbre no Tribunal, Alexandre de Moraes. Para este, a nomeação de Messias poderia desequilibrar o jogo de forças no Supremo e dar ainda mais poder a André Mendonça, o relator do caso Master que se tornou seu principal antagonista na Corte.

Moraes sabe que tem muito a perder se as investigações sobre os esquemas de Daniel Vorcaro e o contrato de R$ 130 milhões de sua mulher com o Banco Master continuarem avançando. E não se furtou a mandar, ele mesmo, recados a senadores com processos ou inquéritos pendurados no STF, para que pensassem em seus próprios interesses ao apertar os botões no plenário.

Moraes obviamente não ignora que a derrota de Messias assanha a oposição a trabalhar por seu impeachment. Mas conta com a blindagem do amigo Alcolumbre, igualmente enrolado com o Master, entre outras coisas em razão do investimento de R$ 400 milhões que o fundo de pensão do Amapá, seu estado, fez em papéis do banco. Alcolumbre precisa de Moraes forte, por isso as chances de algum pedido de impeachment de ministro ser submetido ao plenário é menor que zero.

O que interessa para eles é o fato de a derrota de Messias lhes dar tempo para planejar os próximos passos. Certamente já planejaram como faturar com a grande ajuda que acabam de dar a Flávio ao humilhar Lula no plenário, de preferência encontrando uma forma de enterrar o caso Master no Supremo nos próximos meses. O problema em casos assim é sempre o mesmo: quem instala o caos nem sempre é capaz de controlá-lo. O jogo pode ter virado agora, mas ainda está muito longe de acabar.

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DUAS TRANSPARÊNCIAS

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

Autoridades que validam penduricalhos, ocultam negociatas e depois saem por aí fazendo pose de sacerdotes da transparência estão nos enganando

A imprensa cumpre seu papel quando dá transparência a paredes que os poderosos gostariam de manter opacas. Manchete de anteontem aqui no Estadão: Fazenda de SP pagou, em 1 mês, R$ 111 milhões em penduricalhos (28/4, A8). A reportagem de Felipe de Paula e Fausto Macedo abriu a planilha para o público, ou seja, tornou transparentes os tapumes que a escondiam. Um auditor sozinho recebeu R$ 513 mil. Líquidos. Num único mês. E este é apenas um dos muitos absurdos que se tornaram visíveis.

Também anteontem, um dos editoriais do jornal, Inação ante os supersalários (A3), deu visibilidade a outro fator deprimente: “Congresso mantém parado desde 2023 projeto que limita abusos no serviço público, enquanto avança com rapidez em propostas que ampliam benefícios e revela resistência a enfrentar privilégios”. As informações, detalhadas e precisas, foram apuradas pela reportagem deste matutino. De novo, ponto para o jornalismo e ponto para a transparência.

Fora isso, é bom tomar cuidado com a palavra. Há malversações de sentido em torno dela. Basta ver que os mesmos agentes que viabilizam os penduricalhos também se declaram campeões da transparência. Não podem ver um microfone na frente que já começam a escandir o substantivo feminino mais amado da temporada. Sim, é uma contradição. A transparência aberta pelo bom jornalismo os constrange, mas eles não passam recibo. Quando pegos no contrapé, emudecem no casulo de suas sacrossantas privacidades. Nenhuma vírgula sobre dinheiros vultosos que acumulam e regalias de que desfrutam. Logo em seguida, recompostos, desfiam sermões sem fim à causa sonora, pomposa e melíflua da transparência. Nessas horas, parece que alguém estatizou o cinismo. Repito: é bom tomar cuidado.

Na raiz dessa contradição mora um embaralhamento semântico. Há duas acepções de transparência se enroscando e se confundindo. De um lado, existe o significado republicano da palavra. Aí, a expressão “dar transparência” significa “dar publicidade” e “dar publicidade” quer dizer abrir os gabinetes do Estado para que a sociedade possa ver melhor o que se passa lá dentro. As divisórias, os biombos e os muros da máquina pública não podem ocultar o destino dos recursos públicos. Ao contrário, devem ser transparentes. Foi a isso que Rui Barbosa se referiu quando escreveu, lá se vai um século, que “aqueles que se consagram à vida pública, até à sua vida particular deram paredes de vidro”.

O sentido republicano da palavra é o que vale tanto para a prática do jornalismo quanto para o conceito de democracia. Quanto mais forte é o regime democrático, mais os palácios dos Poderes da República têm “paredes de vidro” – e mais a intimidade dos cidadãos é respeitada. Quando o totalitarismo leva a melhor, o Estado fica opaco e a intimidade dos cidadãos, exposta.

(Na década de 1980, Mikhail Gorbachev criou a Glasnost para varrer o totalitarismo da União Soviética e desativar o Estado opaco do stalinismo, que violava a privacidade de todo mundo. Deu errado, você sabe. Gorbachev caiu e a carcaça stalinista ficou. Putin que o diga. Em tempo: Glasnost, em russo, quer dizer transparência.)

Passo agora à segunda acepção da palavra. Eu a chamo de acepção demagógica.

Agora, a transparência deixa de ser um meio racional para garantir que os assuntos públicos sejam expostos ao público na justa medida e se converte em virtude absoluta. Pessoas, empresas, igrejas, times de futebol, partidos políticos ou tribunais só vão para o céu se pregarem a transparência com fervor. O que vale é a propaganda. O que vale é o melodrama. Só é bom quem não esconde nada, nem de si, nem de ninguém.

Por óbvio, estamos diante de uma empulhação. Ninguém é transparente por inteiro. Não há como ser transparente por inteiro. Nelson Rodrigues tinha razão: “Se todos conhecessem a intimidade sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”. O convívio social exige alguma opacidade exterior, assim como a saúde psíquica exige um pouco de opacidade interior.

A transparência demagógica ignora o óbvio. Vive de montar circos e de encenar atrações vazias e pirotécnicas. Ser supostamente “transparente” vale mais do que ser íntegro, respeitoso ou decente. Trump e Bolsonaro se beneficiam dessa mentalidade: pronunciam atrocidades e são aplaudidos porque são “sinceros” e “autênticos”. A língua solta, chula e estúpida vira um trunfo moral.

A propósito, acaba de sair um livro que é uma aula preciosa sobre a matéria: Contra a transparência, do jornalista Hamilton dos Santos (Editora Iluminuras). Erudito, elegante e didático, o autor ensina: “Fazemo-nos sujeitos no mundo escondendo o que há por trás da máscara – segredo para os outros, mistério para nós mesmos. Nós existimos porque nosso rosto é opaco.” Pobre de quem não sabe disso.

As autoridades que validam penduricalhos (com rebotalhos), ocultam negociatas (com mamatas) e depois saem por aí fazendo pose de sacerdotes da transparência do Estado Democrático de Direito – a gente conhece o estilo – estão nos enganando. A transparência deles suja a democracia.

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AUTORIDADES A BORDO DO BONDE DO TRIGRINHO É UM ESCÁRNIO

Julia Duailibi, O Globo

Ministros do STF, deputados e senadores continuam aceitando caronas em jatinhos de empresários

Dois deputados federais, um senador da República e o presidente da Câmara dos Deputados pegaram carona no jatinho de um empresário do ramo das bets em meio a uma CPI que investigava justamente esse mesmo empresário do ramo das bets. Enquanto colegas trabalhavam em Brasília para tentar descobrir se Fernando Oliveira Lima, o Fernandin OIG, havia cometido lavagem de dinheiro, dissimulação patrimonial ou evasão de divisas, os quatro parlamentares acharam que tudo bem embarcar no avião dele, que tinha como destino o Caribe.

A viagem aconteceu em abril de 2025, quando Fernandin OIG já havia prestado depoimento aos senadores e estava na mira do Congresso — ou de parte dele — por suspeita de usar marketing e serviços digitais para encobrir recursos vindos de jogos de azar não regulados. Isso, por si só, já seria um escândalo para qualquer homem público. Mas tornou-se um escárnio por se tratar daqueles que estão entre os mais poderosos do Congresso: o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), o presidente do PP, senador Ciro Nogueira (PI), e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões (MDB-AL).

Na CPI, o influenciador foi questionado sobre seu envolvimento, especificamente, com o jogo do Tigrinho. Negou qualquer vinculação, mas as investigações apontaram “movimentações atípicas e possíveis práticas ilícitas”. A análise bancária mostrou aporte de R$ 50 milhões num banco, mas o empresário do jatinho disse possuir apenas um imóvel de R$ 110 mil. O relatório final disse que havia “elementos suficientes” para apontar dissimulação de recursos do empresário, suspeitos de vir do jogo ilegal. O relatório final, da senadora Soraya Thronicke (PSB-MS), propôs o indiciamento, mas o documento não foi aprovado pela maioria dos senadores da comissão.

Os deputados e senadores que estavam no tour, no entanto, parecem não ter se preocupado com os indícios levantados pelos colegas. A viagem só se tornou pública porque cinco bagagens que estavam no avião de Fernandin furaram a fiscalização e não passaram pelo raio-X na chegada ao Brasil. Entraram no país sabe-se lá com o que dentro. Imagens do inquérito aberto pela Polícia Federal, sob suspeita de descaminho e prevaricação de um auditor da Receita, mostram que o piloto teve autorização para passar mochilas, caixas e sacolas por fora do raio-X.

O que temos de concreto até agora é a carona recebida pelos parlamentares, comum no jogo político. Escândalo após escândalo, ministros do Supremo, deputados e senadores continuam aceitando caronas em jatinhos de empresários, que prestam tais gentilezas não pela cor dos olhos das autoridades, mas pelo interesse que seus negócios têm com elas. A literatura política está recheada de exemplos. Dois recentes: Dias Toffoli indo a jogo de futebol com advogado do caso Master e Nikolas Ferreira em campanha com jatinho de Vorcaro.

Se uma funcionária da Receita não tivesse registrado que bagagens do voo não haviam sido fiscalizadas, a carona seria desconhecida do público. Nesse sentido, os quatro não tiveram sorte. Talvez a história mude no STF, que pode resolver, em ano de eleição, arquivar a investigação.

 

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O AVISO DA DERROTA DE MESSIAS

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

STF vê derrota de Messias no Senado como aviso sobre impeachment de ministros

Rejeição ao nome do advogado-geral representa revés não apenas à ala do Supremo que apoiou a candidatura, mas ao tribunal como instituição

A rejeição histórica do Senado ao nome de Jorge Messias foi interpretada de duas formas por integrantes do Supremo Tribunal Federal. A primeira é a desmoralização do governo Lula perante o Congresso. A segunda é que o Senado enviou à Corte um recado: se hoje a Casa tem maioria para descartar um candidato a ministro, amanhã terá poder suficiente para afastar quem já compõe o tribunal.

Na avaliação de um ministro que falou sob condição de anonimato, a votação da indicação de Messias foi uma demonstração de força do presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), e da direita – que, juntos, somam 42 votos. Outro ministro viu a derrota como um alerta de que, em 2027, quando a bancada da direita tende a ser maior no Congresso, integrantes do tribunal correm sério risco de sofrerem impeachment.

Um terceiro ministro acredita que a representação do senador Alessandro Viei r a (MDB-SE) à PGR contra o ministro Gilmar Mendes contribuiu para o resultado da votação. Na visão desse ministro, prevaleceu o espírito de corpo no Senado em reação ao arquivamento do pedido de investigação a Gilmar.

O mesmo ministro contou que conversou ontem com senadores e não havia indicação de que Messias seria rejeitado, embora houvesse uma concordância geral no sentido de que a aprovação seria difícil. No dia anterior, ministros estavam preocupados com a situação do candidato.

O primeiro a se manifestar publicamente sobre a rejeição a Messias foi André Mendonça, o principal cabo eleitoral do advogado-geral da União para a vaga no STF. No X, ele escreveu que respeitava a decisão do Senado, mas ponderou: “O Brasil perde a oportunidade de ter um grande ministro do Supremo”.

O presidente do STF, Edson Fachin, afirmou que o tribunal “reafirma seu respeito à prerrogativa constitucional do Senado” e reconhece “que a vida republicana se fortalece quando divergências são tratadas com elevação, urbanidade e responsabilidade pública”.

Flávio Dino e Alexandre de Moraes, que estão no setor mais articulado politicamente do STF, não se mexeram para ajudar Messias. Por outro lado, Mendonça, Nunes Marques, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin atuaram perante os senadores para abrir caminho para o candidato. 

O grupo de apoiadores não teria conseguido furar o principal entrave ao advogado-geral: Alcolumbre. Agora, a derrota de Messias não será amargada apenas pelo governo, mas pelo STF como um todo, e não só pela ala que vestiu a camisa do advogado-geral na campanha.

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