quinta-feira, 18 de junho de 2026

A DOENÇA DO NEGACIONISMO

Cida Barbosa, Correio Braziliense

O estágio atual de enfrentamento às doenças é resultado de décadas de exaustivo trabalho. Só não conseguimos ainda o antídoto contra o negacionismo que tenta minar essa evolução

Há poucos dias, apareceu para mim uma postagem ligando vacinas à destruição do sistema imunológico. Em três ou quatro frases — com a imagem de um pseudoespecialista —, a mensagem sustentava que imunizantes fazem mal à humanidade. Lamentavelmente, alguém que está na minha rede social concordou com essa sandice, com essa irresponsabilidade criminosa e resolveu compartilhar.

É revoltante que um conteúdo danoso assim possa ser disseminado em plataformas digitais, com potencial imenso de alcance —  porque, quando se trata de mentiras, a propagação é assustadoramente ampla e veloz. Esse negacionismo de grupos antivacina pode ter consequências devastadoras, com capacidade de influenciar o retorno ou o aumento de doenças evitáveis.

Na definição da Academia Brasileira de Letras, negacionismo é "atitude tendenciosa que consiste na recusa a aceitar a existência, a validade ou a verdade de algo, como eventos históricos ou fatos científicos, apesar das evidências ou argumentos que o comprovam".

E as evidências mostram que, graças aos espetaculares avanços da ciência no desenvolvimento e na produção de vacinas, podemos viver mais e melhor, porque estamos blindados contra uma série de enfermidades.

Um estudo publicado pela revista científica The Lancet, em 2024, mostrou que, nas últimas cinco décadas, os esforços globais de vacinação salvaram cerca de 154 milhões de pessoas — o equivalente a seis vidas a cada minuto. A grande maioria foi de crianças: 101 milhões.  

O estudo, liderado pela Organização Mundial da Saúde (OMS), apontou que o imunizante contra o sarampo, por exemplo, teve o impacto mais significativo na redução da mortalidade infantil: responsável por 60% das vidas salvas. Também destacou que, por meio da vacinação contra a poliomielite, mais de 20 milhões de pessoas, que teriam sofrido paralisia, hoje podem andar.

Há que se ressaltar que o levantamento cobre o impacto da vacinação contra 14 doenças, mas existem imunizantes para mais de 30 enfermidades letais, ou seja, a quantidade de vidas salvas certamente foi muito maior.

Vacinas são uma conquista formidável da humanidade. Eliminam ou reduzem o risco de contrair doenças perigosas ou de evoluir para quadros graves. E, aqui no Brasil, a proteção é gratuita, acessível a todos. 

O estágio atual de enfrentamento às doenças é resultado de décadas de exaustivo trabalho. E com pesquisas e investimentos, a ciência continuará na batalha para debelar males que ameaçam a humanidade. Só não conseguimos ainda o antídoto contra o negacionismo que tenta minar essa evolução.

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TRUMP VOLTA A CRITICAR O BRASIL, E LULA PEDE QUE NÃO SE META NAS ELEIÇÕES

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O episódio do G7 talvez seja apenas o primeiro capítulo de uma campanha eleitoral em que Washington terá presença muito maior do que em pleitos anteriores

O choque político e ideológico entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, no contexto das eleições brasileiras, estava escrito nas estrelas. Não é um episódio isolado, provocado apenas pelas recentes declarações de Trump sobre a política brasileira ou pela reação de Lula durante a reunião do G7. O conflito tem raízes mais profundas: a estreita ligação política e ideológica entre o bolsonarismo e a atual administração republicana, o novo posicionamento internacional do Brasil sob o governo Lula e a própria complexidade histórica das relações entre Brasília e Washington. A disputa pode reavivar uma polarização que marcou a vida política nacional nas décadas de 1950 e 1960: o confronto entre nacionalistas e "entreguistas", sob novas circunstâncias e narrativas.

As declarações de Trump na França, ao comentar a situação política brasileira e manifestar simpatia pelos Bolsonaro, não surgiram do nada. O presidente norte-americano tem afinidade política com o ex-presidente Jair Bolsonaro e seus filhos desde seu primeiro mandato. Essa proximidade foi reforçada pela atuação internacional do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), principal adversário de Lula nas eleições, e do ex-deputado Eduardo Bolsonaro junto aos círculos conservadores norte-americanos. Ele se autoexilou e se coloca como vítima de perseguição, o que aparentemente foi corroborado por sua condenação a quatro anos e dois meses de prisão em regime semiaberto por "coação" da Justiça. O elo mais importante dessa conexão é o secretário de Estado dos EUA, Marco Rubio.

Figura central da política externa do governo Trump, Rubio compartilha com o bolsonarismo não apenas uma visão conservadora dos costumes, mas também uma visão geopolítica marcada pela oposição à China, pela crítica aos governos de esquerda latino-americanos e pela defesa de um alinhamento preferencial com Washington. A classificação do Primeiro Comando da Capital (PCC) e do Comando Vermelho como organizações terroristas pelo Departamento de Estado, a pressão tarifária sobre produtos brasileiros e as críticas dirigidas às instituições brasileiras refletem essa convergência entre setores do governo Trump e a oposição bolsonarista.

Ao reagir, Lula não fez apenas a defesa das instituições brasileiras. Reafirmou uma concepção tradicional da política externa brasileira baseada na soberania nacional e na não intervenção nos assuntos internos dos Estados. Ao dizer a Trump que não se meta nas eleições brasileiras, o presidente procurou estabelecer um limite diplomático que remete à tradição do Itamaraty desde o Barão do Rio Branco. O problema é que a relação entre Brasil e Estados Unidos sempre foi complexa. É tecida por interesses econômicos, afinidades culturais e disputas geopolíticas que remontam ao século XIX.

Cosmopolitismo

Maior país da América do Sul, sempre houve uma combinação contraditória de cooperação e tensão com Washington. Houve momentos de estreita convergência, como na Primeira República, no governo Dutra e nos primeiros anos do regime militar. Mas também períodos de atrito, como durante os governos de Getúlio Vargas e João Goulart. Agora, o contexto é mais complexo. Embora os Estados Unidos continuem sendo uma referência econômica, tecnológica e cultural para a sociedade brasileira, a China se tornou o principal parceiro comercial do Brasil.

O governo Lula aposta numa política externa de múltiplos alinhamentos, fortalecendo relações com os países do Brics, ampliando laços com Pequim e defendendo uma ordem internacional multipolar. Essa estratégia colide frontalmente com a visão geopolítica de Trump e Rubio, para os quais a contenção da influência chinesa constitui prioridade absoluta. Nesse cenário, era inevitável que a política externa ganhasse densidade no embate eleitoral. O bolsonarismo busca apresentar Lula como representante de um projeto alinhado à China. O lulismo, por sua vez, acusa o bolsonarismo de ter complexo de vira-latas e subordinar os interesses nacionais aos interesses norte-americanos. O episódio do G7 talvez seja apenas o primeiro capítulo de uma campanha eleitoral em que Washington terá presença muito maior do que em eleições anteriores.

Essa tensão não é nova. Remete-nos ao velho debate que dividiu o Brasil durante a industrialização do pós-guerra. De um lado, os nacionalistas, defensores do desenvolvimento autônomo, da proteção da indústria nacional, da soberania sobre recursos estratégicos e de uma política externa independente. De outro, os chamados "entreguistas", acusados de favorecer interesses estrangeiros em detrimento de um projeto nacional de desenvolvimento.

Celso Furtado e outros economistas defenderam a necessidade de um desenvolvimento apoiado na inovação tecnológica e na redução da dependência externa. Em sentido oposto, setores liberais e conservadores apostavam numa integração mais estreita ao capitalismo internacional liderado pelos Estados Unidos. A disputa marcou os governos Vargas, Juscelino Kubitschek e João Goulart e foi um dos componentes da crise política que desembocou no golpe de Estado de 1964.

Entretanto, o mundo é outro. A economia brasileira foi globalizada. Numa inversão de papéis, quem se opõe à globalização e adota uma política protecionistas são os Estados Unidos. Nossa economia está integrada às cadeias globais, o agronegócio exporta principalmente para a China e a própria noção de soberania nacional ganhou novos contornos diante da revolução tecnológica e do nosso cosmopolitismo. No entanto, a essência do conflito permanece: qual é o lugar do Brasil no mundo? Um país capaz de formular seu próprio projeto de desenvolvimento ou uma nação dependente das decisões tomadas pelas grandes potências?

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quarta-feira, 17 de junho de 2026

MORRE BAPTISTA CHAGAS DE ALMEIDA

Alessandra Mello, Estado de Minas

Morre, aos 62 anos, o jornalista Baptista Chagas de Almeida

Ex-editor de Política do Estado de Minas foi um dos mais influentes colunistas de Minas Gerais

Faleceu nesta quarta-feira (17/6), aos 62 anos, em Belo Horizonte, Baptista José Patrus Chagas de Almeida, um dos mais importantes jornalistas da imprensa mineira, que construiu sua carreira nos Diários Associados, onde foi editor de Política no Estado de Minas, mantendo uma coluna diária. Atuou também como editor no “Correio Braziliense”.

Natural de Belo Horizonte e formado em jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC Minas), Baptista começou sua carreira como estagiário do Estado de Minas, aos 20 anos. Depois tornou-se repórter, editor-assistente, editor de Política e colunista, cargo que o projetou definitivamente no cenário da cobertura dos bastidores do poder, área em que deixou sua marca registrada.

Assinou durante cerca de três décadas a coluna “Em dia com a política”, na qual analisava os fatos mais importantes do poder em Minas e no Brasil, trazendo sempre informações exclusivas, com uma dose de humor e ironia.

Era conhecido entre os repórteres, principalmente pelos “focas”, termo usado para definir os iniciantes na profissão, pelas inúmeras fontes, informações exclusivas, texto impecável, memória excepcional, paixão pela literatura e pela música e gentileza no trato cotidiano.

Formou inúmeros profissionais, sempre com paciência e boas dicas, entre eles um de seus filhos, o jornalista João Henrique Almeida, que também trabalhou no Estado de Minas e hoje é repórter, comentarista e apresentador da rádio 98 FM.

Baptista era casado com a educadora Maria Angélica Almeida, com quem teve três filhos, Pedro Gabriel, Mateus e João Henrique, e quatro netos.

“Meu pai sempre foi uma pessoa que conquistava todos e de diferentes formas, por sua inteligência, educação, irreverência e lealdade. Deixa um legado gigantesco para a nossa família e amigos. Na profissão, foi e é exemplo para muitos jornalistas. Ainda é comum ouvir de colegas jornalistas a frase: ‘O Bapt é o melhor editor que já tive’. Concordo e completo: é o melhor pai e melhor amigo”, disse João Henrique Almeida.

“Baptista foi um dos profissionais mais brilhantes com quem já trabalhei. Sua força de trabalho era absurda. Sua dedicação, seu profissionalismo o fizeram um dos mais talentosos jornalistas da nossa geração. É uma perda enorme para o jornalismo mineiro”, afirmou Josemar Gimenez de Resende, presidente dos Diários Associados e diretor de Redação do Estado de Minas quando Baptista exerceu o cargo de editor de Política.

“Além das qualidades conhecidas por todos os profissionais com quem trabalhou, Baptista se destacava pelo tom de humor e de ironia que empregava para comentar os fatos, tornando a cobertura de política menos sisuda e mais atraente para o leitor”, lembrou o atual diretor de Redação do EM, Carlos Marcelo Carvalho, que também trabalhou com o jornalista. “Incansável. Admirável. Baptista foi um grande mestre na redação”, afirmou Renata Neves, editora-executiva do Estado de Minas.

Políticos

Para o deputado federal e ex-governador Aécio Neves (PSDB), Minas Gerais perdeu “um de seus mais bem informados jornalistas políticos”. “Durante anos, a coluna ‘Em dia com a política’, assinada por Baptista Chagas, que, mesmo na função de editor jamais deixou de ser exímio repórter, foi referência para quem buscava informação de qualidade e análises precisas da política nacional e em especial, de nosso estado. Perde o jornalismo mineiro e eu perco um amigo. Em meu nome e de minha família, deixo meu abraço solidário a seus familiares, colegas e amigos”, disse Aécio, também presidente nacional do PSDB.

O conselheiro do Tribunal de Contas do Estado de Minas Gerais (TCE-MG) Alencar da Silveira Júnior, ex-deputado estadual, também lamentou a passagem do “repórter mais bem informado da imprensa mineira”. “A gente ficava em dia com a política mineira lendo sua coluna 'Em dia com a política'”, afirma o conselheiro, que foi vereador e deputado estadual durante 36 anos.

O também ex-deputado e conselheiro do TCE-MG Agostinho Patrus disse, por meio de nota, que “Baptista marcou época em Minas Gerais e em Brasília, com suas emblemáticas colunas políticas”. Segundo ele, Minas, o jornalismo brasileiro e a família Patrus “perdem hoje uma grande pessoa”. “Ele cativava fontes, escrevia com irreverência e conquistou gerações de leitores com seu talento. Um amigo para todas as horas. Seu legado permanecerá para sempre conosco”, disse o conselheiro, também primo do jornalista.

O ex-procurador de Justiça de Minas Gerais Jarbas Soares (PSB), pré-candidato ao governo de Minas, também lembrou a trajetória de Baptista e disse que ele marcou época no jornalismo mineiro. “Astuto, inteligente, responsável, bem informado, guardava ainda assim um toque de ironia, beirava a picardia. Era a forma sutil que tinha para criticar. Fui vítima da sua verve muitas vezes, mas sempre entendi como um recado de um bom jornalista, de alguém maior do que eu. Amadureci com isto”, afirmou.

A presidente do Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Minas Gerais, Lina Rocha, destacou a trajetória do jornalista e lembrou que sempre lia suas colunas para se inteirar dos bastidores da política no estado. “Não o conheci pessoalmente, só pelas suas colunas sempre recheadas de informações exclusivas, mas sei que era admirado e muito querido pelos repórteres que trabalhavam com ele, prova inequívoca de que era um editor muito bom em todos os quesitos.”

A causa da morte não foi divulgada pela família. O velório está marcado para as 11h desta quinta-feira e o sepultamento, para as 15h no Cemitério Bosque da Esperança. 

DEPOIMENTOS

“Dono de uma memória fenomenal, Baptista Patrus Chagas de Almeida era capaz de ouvir uma fonte sem escrever uma única palavra e reproduzir o que lhe era dito com a maestria e fidelidade que o tornaram um dos maiores repórteres de política da sua geração. Reconhecido pelo mundo político de Minas Gerais, Baptista era habilidoso em apurar informações que lhe valeram muitas colunas de análise, pautando o meio político da capital mineira. Como editor de Política do Estado de Minas, coordenou com tranquilidade toda uma equipe de profissionais, sempre ensinando e corrigindo de forma a permitir a evolução dos profissionais.”

Marcílio de Moraes
Subeditor de Política/Economia do Estado de Minas

A memória brilhante, o pensamento e a escrita ágeis e o bom humor eram marcas registradas de Baptista Chagas dentro e fora da redação do Estado de Minas. Durante uma década e meia, sentado bem ao lado dele, pude acompanhar essa destreza incansável para conseguir o furo jornalístico, as novidades diárias do mundo político para a sua coluna na página 2, uma das mais nobres do jornal. Tinha o jornalismo na veia e dessa forma contribuiu para a formação de um número incontável de repórteres. Baptista deixa a lição do compromisso incondicional com a notícia.”

Paulo Nogueira
Subeditor de Política/Economia do Estado de Minas

“Baptista foi um dos principais nomes do jornalismo político de Minas durante décadas. Sempre bem informado e com muitas fontes, era brilhante no que fazia, como colunista e como editor de Política. Amava a profissão como poucos. Vai deixar muita saudade.”

Renato Scapolatempore
Editor de Política/Economia do Estado de Minas, que trabalhou com Baptista Chagas por quase 20 anos

“Com o perdão do clichê, o Baptista era um animal político. Inteligente, tinha faro para perceber o ‘lado oculto’ das articulações no mundo do poder. A política, na verdade, estava no sangue: era primo do ex-prefeito de BH Patrus Ananias, deputado federal pelo PT; sobrinho de Agostinho Patrus (1939-2008), que presidiu a Assembleia Legislativa de Minas Gerais e comandou várias secretarias em Minas; primo de Agostinho Patrus Filho, também ex-presidente daquela Casa. O raciocínio rápido, a facilidade para escrever e o talento para organizar edições, sobretudo aquelas maiores e mais complexas, eram características dele. Chefe boa-praça, tinha espírito boêmio. Nunca vou me esquecer de seu bordão: ‘Qual é a da night?’, que, hoje, certamente viraria meme.”

Ângela Faria
Editora-assistente de Cultura do Estado de Minas, foi subeditora quando Baptista comandou a editoria de Política do jornal

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NOVAS REVELAÇÕES ACUAM CIRO E RODAM MOTTA NO CASO MASTER

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Mensagens mostram o banqueiro solicitando reservas para “Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no hotel Four Seasons Ritz de Lisboa

As novas informações tornadas públicas pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), sobre as investigações da Operação Compliance Zero, que investiga o caso Master, colocam o presidente do Progressistas, senador Ciro Nogueira (PI), expoente do Centrão, em situação cada vez mais delicada perante a Justiça, ao mesmo tempo em que aproximam o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), do perímetro das investigações.

O foco do relatório é a relação entre Daniel Vorcaro, ex-controlador do banco, e Ciro. Segundo a Polícia Federal (PF), o parlamentar teria recebido uma série de vantagens econômicas enquanto atuava politicamente em favor dos interesses do banqueiro. Pagamentos mensais foram classificados pelos investigadores como uma espécie de “mesada”, que variaria entre R$ 300 mil e R$ 500 mil, além da aquisição de participação societária em empresa e do custeio de viagens internacionais de alto padrão.

Hospedagens em hotéis de luxo, voos em jatos particulares, refeições em restaurantes sofisticados e até compras de roupas para viagens de esqui foram pagos por Vorcaro, em Paris, Nova York, Lisboa e Courchevel, nos Alpes Franceses, famosa por suas estações de esqui e hotéis de alto luxo. Os benefícios econômicos diretamente relacionados às viagens ultrapassam R$ 468 mil, sem contar os custos dos voos privados.

A PF sustenta que existe uma relação direta entre os benefícios recebidos e a atuação parlamentar de Ciro em favor dos interesses financeiros de Vorcaro e do Master. É justamente essa conexão que transforma os presentes, viagens e pagamentos em potenciais elementos de corrupção, tráfico de influência e lavagem de dinheiro.

O busílis dessa conexão seria a chamada “Emenda Master”. Segundo a investigação, uma proposta de alteração da PEC 65/2023 teria sido elaborada pela própria assessoria do banco e, posteriormente, apresentada por Ciro no Senado. A emenda buscava modificar regras do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), ampliava possibilidades de negócios para a instituição financeira investigada e transferia riscos ao sistema de garantia bancária. A PF afirma ter encontrado mensagens, metadados e minutas que indicariam que o texto protocolado pelo senador reproduzia integralmente a versão produzida pelo Master.

Também há suspeitas de ocultação patrimonial. De acordo com os investigadores, empresas familiares, circulação de recursos entre pessoas próximas, utilização de dinheiro em espécie e interposição de terceiros teriam sido empregados para dificultar o rastreamento financeiro dos benefícios recebidos. A suspeita é de que tais mecanismos pudessem caracterizar lavagem de capitais, tendo Ciro como possível beneficiário final.

Tour em Lisboa

Há também a investigação sobre um episódio envolvendo o transporte de R$ 350 mil em dinheiro vivo em uma aeronave ligada ao grupo de Vorcaro. O piloto afirmou ter ouvido referências ao nome de Ciro durante a operação. Embora a própria PF reconheça que ainda não há comprovação material da entrega dos recursos ao senador, o relato foi considerado compatível com o conjunto de fatos investigados e permanece sob apuração.

O mesmo relatório faz com que as investigações passem a rondar Hugo Motta. O presidente da Câmara aparece vinculado a uma viagem para Lisboa, em junho de 2024, cuja hospedagem teria sido paga por Vorcaro. Mensagens encontradas pela PF mostram o banqueiro solicitando reservas para “Ciro e Hugo”, seguidas de conversas sobre a disponibilização de duas suítes no hotel Four Seasons Ritz Lisboa. Em outra mensagem, Vorcaro manifesta preocupação com privacidade e segurança do encontro, pedindo controle rigoroso do ambiente.

Os investigadores cruzaram as mensagens com documentos encontrados nos e-mails de Vorcaro. O confronto dos registros levou a PF à conclusão de que os pagamentos identificados correspondem efetivamente à hospedagem de Ciro e Motta em Lisboa. As diárias teriam custado cerca de R$ 18 mil. A situação do deputado, porém, é muito distinta da do senador. O relatório não atribui ao presidente da Câmara participação em esquemas de favorecimento legislativo, nem o aponta como beneficiário de pagamentos sistemáticos.

As novas revelações acuam Ciro e, ao mesmo tempo, rondam Motta porque o colocam pela primeira vez dentro do contexto factual das investigações, associado a benefícios pagos por Vorcaro e citado em comunicações consideradas relevantes pela PF. Nesse sentido, o relatório amplia o alcance político do caso Master e continua produzindo efeitos sobre figuras centrais do Congresso.

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CRESCIMENTO PARA POUCOS: A ARMADILHA DO CAPITALISMO

Roberto Amaral*, CartaCapital

“O empresário tende inevitavelmente a se transformar em rentista e a dominar cada vez mais aqueles que só possuem sua força de trabalho. Uma vez constituído, o capital se reproduz sozinho, mais rápido do que cresce a produção. O passado devora a produção.” — Thomas Piketty, O capital no século XXI.

Ao contrário do que afirma Paulo Gala em seu excelente “Rumo a 2050” (Carta Capital, 27/05/2026), o crescimento da economia, por si, não altera a estrutura distributiva. Ao contrário, não apenas convive com alta concentração de renda, como a promove. 

Trata-se, simplesmente, de determinismo da lógica de acumulação do capitalismo, e sua consequência irrecorrível é a concentração da riqueza, na contramão da valorização do trabalho como um dos fatores da produção. Mesmo o aumento da produtividade não implica aumento proporcional dos salários. De um lado, os lucros do capital são reinvestidos, ampliando a escala do capital e, como em um círculo vicioso, reforçando sua concentração; doutra parte, o desemprego estrutural — alimento do exército industrial de reserva — pressiona os salários para baixo, quadro tendencial da globalização do capitalismo, a que se somam o desenvolvimento científico e as novas tecnologias, poupadoras de mão de obra e intensivas em capital, e a articulação de grandes e poucas corporações operando em escala global, de forma oligopolista, transitando para o monopólio, com níveis inéditos de concentração de mercado e de poder político, frequentemente avançando sobre as soberanias nacionais.

A história testemunha que o crescimento da renda per capita pode conviver com estagnação relativa ou perda do poder aquisitivo dos trabalhadores. Marx, no século XIX, explicou a contradição entre a expansão das forças produtivas e as relações sociais de produção. Tal disfunção se agrava na periferia do capitalismo contemporâneo, onde o desenvolvimento econômico se conjuga com setores altamente atrasados. Celso Furtado, ainda nos anos 1960, referia-se ao que denominou “difusão restrita do progresso técnico”: os ganhos de produtividade concentram-se em setores modernos, todavia sem irradiar para o conjunto da economia, acentuando as desigualdades. 

Como em uma ordem de vasos comunicantes, as elites econômicas reproduzem padrões de consumo dos países centrais, canalizando renda para setores de alto valor agregado e baixa absorção de mão de obra.

Segundo o coeficiente Gini (que varia de 0 — igualdade total — a 1 — desigualdade máxima), nosso índice de desigualdade já chega a 0,51. Nesse coeficiente encontram-se -- segundo dados do Banco Mundial--, Madagascar e Ruanda, e, em suas vizinhanças, Moçambique (0,54) e Zâmbia (0,57). Mas, ao contrário desses países, extremamente pobres, somos a décima economia do mundo. Ou seja, a desigualdade social que nos assola é fruto da concentração da riqueza, acumulada pelo capital, que cresce mesmo em sua expressão financeira — capital fictício, segundo Marx — e passa à margem da produção.

Dados recentes do IBGE, lamentavelmente sem revelarem novidade, dizem que os 10% de brasileiros “mais ricos” — algo como 20,3 milhões de pessoas em uma população estimada em 213,5 milhões — concentram cerca de 40% da renda total, ou seja, 13 a 14 vezes mais que os 40% mais pobres, estimados em 81,2 milhões. Em 2018, essa diferença chegou a 17 vezes.

A massa de rendimentos domiciliares em 2025, foi de cerca de R$ 5,8 trilhões, e os 10% “mais ricos” se apropriaram de algo como R$ 2,4 trilhões/ano, considerando o PIB de R$ 12,7 trilhões. Ou seja, 18% do PIB escorrem diretamente para o fosso desses 10% mais ricos, como renda corrente.

Entre os “mais pobres” — brasileiros integrados no processo produtivo, trabalhadores e assalariados de um modo geral — situam-se os que percebem renda mensal variante entre R$ 400 e 500 mensais (o salário-mínimo nacional é de R$ 1.621), contra R$ 7 mil e 9 mil, renda estimada dos 10% mais ricos.

Mas o sistema rentista nada tem a reclamar. É o que proclamam os lucros médios dos cinco maiores bancos privados que atuam no Brasil: Itaú, 46,8 bilhões de reais; Bradesco, 24,6 bilhões; Santander, 15,6 bilhões; BTG Pactual, 16,7 bilhões; e Safra, 3,9 bilhões.

É o Brasil que a direita pretende preservar.

A hegemonia das finanças e as transformações tecnológicas aceleradas dos últimos anos, ao alterarem as regras do sistema produtivo, estamparam a tendência estrutural do capitalismo como fator de desigualdade. Longe de se dissipar com o desenvolvimento econômico, o capitalismo globalizado das últimas décadas reina sob novas formas e novos mecanismos de reprodução, refazendo-se após crises sistêmicas constitutivas do seu funcionamento, como, no século passado, a estagflação dos anos 1970,  e, mais recentemente,  a crise financeira global de 2008.

Marx observou que o capital, ao se acumular, tende inevitavelmente à concentração. A concorrência entre capitais individuais, escreveu, leva à centralização — os maiores absorvem os menores, e o sistema se reorganiza continuamente em torno de unidades cada vez mais poderosas. Esse movimento não é acidental, mas constitutivo do próprio funcionamento do capitalismo. Em sua lógica interna, não há freios naturais para esse processo, mas a busca incessante por lucro e expansão sem fim, de que depende.

O desenvolvimento científico e tecnológico, ao tempo em que traz para nossos dias um futuro inimaginável há poucas décadas, vem reforçar a concentração de renda e riqueza. A chamada quarta revolução industrial — marcada pela disseminação da inteligência artificial, da automação avançada e das grandes plataformas digitais — redefine a relação entre capital e trabalho. Empresas intensivas em tecnologia requerem investimentos crescentes em capital e, ao mesmo tempo, reduzem drasticamente os postos de trabalho.

A substituição do trabalho humano por máquinas e algoritmos comprime a participação dos salários na renda nacional, enquanto amplia os ganhos do capital. O trabalho, antes principal meio de distribuição de renda, é subsumido pelo capital — especialmente o capital financeiro. As consequências, como lembrava o conselheiro Acácio, vêm depois: a queda dos postos de trabalho, o crescimento dos exércitos de reserva, as restrições aos direitos sociais dos trabalhadores e a queda do poder aquisitivo dos salários.

Nada está fora das regras de funcionamento do capitalismo, e isso nos diz que o desenvolvimento econômico não é uma autarquia, condicionado que está por opções políticas. A classe dominante brasileira, herdeira do latifúndio e do escravismo, é que optou por este sistema, e o sustenta qualquer preço, como nos lembra a ditadura militar.

A financeirização da economia, traço marcante do capitalismo globalizado, determina a subordinação das economias nacionais à lógica da valorização financeira e, assim, desfaz-se dos projetos de expansão e crescimento para optar pela maximização do valor para o acionista, especialmente por meio da distribuição de dividendos. Os Estados nacionais, por sua vez, tornam-se cada vez mais condicionados pelos mercados financeiros globais, limitando sua capacidade de intervenção redistributiva. 

Mais e mais é consumida a soberania das nações não hegemônicas.

A clivagem não é necessariamente entre países desenvolvidos e subdesenvolvidos — ou emergentes, como se queira —, nem entre nações ricas e pobres, mas entre ricos e pobres no interior de cada país.

Retornemos a Celso Furtado lembrando-nos  que a concentração de renda não é um efeito colateral do crescimento econômico, mas elemento constitutivo de certas formas de desenvolvimento capitalista dependente, precisamente aquela pela qual as elites econômicas brasileiras optaram.

Para Celso, o problema central das economias periféricas não se concentrava apenas na escassez de capital, pois muito resultava da forma como ele se distribuía e se utilizava. Ou seja, de sua concentração. A modernização produtiva coexistia com estruturas sociais arcaicas, gerando crescimento que beneficiava poucos e excluía muitos. Essa interpretação permanece atual, especialmente quando se observa a integração subordinada dessas economias às cadeias globais de valor e aos fluxos financeiros internacionais.

Esse quadro vem se agravando à medida que se consolida a globalização capitalista, potencializada pela ascensão do neoliberalismo, com seus penduricalhos: a desregulamentação como conditio sine qua non; a liberalização financeira como regra; a redução do papel do Estado; as privatizações; as políticas fiscais regressivas; o enfraquecimento dos sindicatos; a flexibilização do mercado de trabalho; e a precarização dos mecanismos de previdência social. 

Ao fim e ao cabo, a fragilidade dos sindicatos — isto é, dos mecanismos de defesa do trabalho e dos trabalhadores — altera a correlação de forças, condiciona o processo político e, nesses termos, interfere no andamento da história. O capital continua a se expandir, a se acumular e a se concentrar em escala planetária e em velocidade impensável no século passado.

A desigualdade — que cresce em ritmo insustentável — não é, jamais foi, uma disfunção do sistema capitalista, mas sua consequência lógica, acelerada nas últimas décadas pela revolução tecnológica.

O resultado é uma dinâmica cumulativa: o capital gera mais capital, enquanto o trabalho perde participação relativa. A concentração de renda e riqueza — um projeto de classe — é o fundamento da concentração do poder político.

Em última instância, a questão da desigualdade remete ao próprio sentido do desenvolvimento, que é uma decisão política. Diz respeito ao projeto de país. A pergunta é: crescer para quem?

A questão que se coloca não é a óbvia necessidade de desenvolvimento econômico, mas a afirmação de que sociedade se deseja construir. Uma sociedade em que o desenvolvimento econômico e o progresso tecnológico se traduzam em bem-estar compartilhado pela universalidade dos brasileiros — projeto que deve ser da esquerda e das forças progressistas de um modo geral — ou uma sociedade socialmente ainda mais atrasada, projeto da direita brasileira? 

A resposta poderá ser ouvida nas eleições de outubro próximo.

Até aqui nenhuma novidade. O que é de serra acima, e assusta, é que esses números — a certidão do capitalismo globalizado, perverso de um modo geral e especialmente perverso nos países do Sul Global — estejam passando ao largo das reflexões e do discurso da esquerda brasileira e da ação de nossos governos. Ausentes na denúncia do sistema de opressão, confundimo-nos, no governo e na ação política, com os partidos da ordem e somos  assim justamente condenados como comprometidos com o “sistema” porque, por incapacidade de leitura correta do processo histórico, assumimos o destino frustrado da socialdemocracia: simplesmente administrar o capitalismo, suavizando seus males.

À noite, todos os gatos são pardos.

***

Os patriotas pelo avesso- Este é o título do precioso artigo de Míriam Leitão estampado pelo Globo, na edição de 31 do finado mês de maio. Deveria ter sido lido no jornal da "Vênus platinada”.  Mas seria exagero esperar coragem da famiglia Marinho. Resta-nos divulgar.

Descompostura — Não cansa de impressionar a hubris, ou desmedida, de certa categoria de agentes políticos que chega ao poder e nele se deslumbra. Ora, ninguém ignora os problemas —violência, pobreza, enchentes, falta de moradia etc. — que afligem a maior parte da população fluminense. Pois bem, ficamos agora sabendo que, entre outras mutretas, o sujeito que comandava o RJ até outro dia - mais um de uma sequência infeliz de governadores - se permitiu voar a NYC para uma "degustação de whisky" bancada pelo amigo banqueiro delinquente (hoje preso), brincadeira essa ao custo de US$ 1,013 milhão (mais de R$ 5 milhões, na cotação atual), retribuída sobejamente com recursos da Rioprevidência. Que nome dar a isso? Corrupção é pouco.

O Abolicionismo, hoje I — Passados 138 anos da sanção da Lei Áurea (204 da chamada Independência), impressiona ver os esforços que ainda precisamos fazer para tornar realidade o fim da escravidão – algo que Joaquim Nabuco, lá atrás, previra que aconteceria. Assim, o fim da infame escala 6x1 avança a duras penas (embora impulsionado pelas circunstâncias de um ano eleitoral), sob o bombardeio esperável da classe rentista, e o Programa Bolsa Família ainda precisa existir, e ainda precisa ser defendido de ataques do patriciado.

O Abolicionismo, hoje II — O “Bolsa”, como é carinhosamente chamado por quem o conhece de perto, nunca pretendeu ser revolucionário, embora opere microrrevoluções nas relações de gênero, e ameace o velho coronelismo ainda vivo entre nós. Mais que um simples mecanismo de transferência de renda, o PBF serve para 1) auxiliar o Estado a realizar suas obrigações em relação à educação, à saúde e à assistência social; 2) evitar que pessoas sejam submetidas a superexploração de sua força de trabalho (incluindo situações análogas à escravidão); e 3) dinamizar a economia real, ao fomentar a demanda com a introdução de renda onde quase não havia. É, no fundamental, um complemento à Lei Áurea e aos ditames da Constituição Cidadã. Não admira que incomode os coronéis de novo tipo, que grassam nos meios eletrônicos.

Perder ganhando — No cenário regional, a direita institucional enfrenta dificuldades, mesmo no poder: o bufão Milei se desgasta na Argentina, como Noboa no Equador, enquanto Kast e Paz enfrentam fortes protestos pouco após assumirem o poder no Chile e na Bolívia, respectivamente. No Brasil esse campo se estapeia pelo espólio do bolsonarismo, em face do naufrágio da candidatura miliciana do PL. No Paraguai, por outro lado, o governo conservador se mostra estável até aqui - e até se envolve em tenebrosas transações com os EUA de Trump -, enquanto na Colômbia a extrema-direita termina o 1º turno em perigosa vantagem, e no Peru o espectro político parece todo ele estilhaçado. Em que pesem os percalços citados, o grande trunfo do conservadorismo parece ser o de haver conseguido estabelecer os parâmetros do imaginário e do fazer político, de tal modo que mesmo as alternativas mais à esquerda, na região, têm como horizonte a meta de "humanizar o capitalismo", isto é, salvar um pouco de welfare das garras do grande capital. Um pouco que passou a parecer muito.

Cúmplices na assessoria — O presidente Lula tem sido honradamente firme na denúncia do genocídio praticado por EUA e Israel contra o povo palestino, e por isso mesmo sofrido injúrias por parte do deplorável lobby sionista. Assim, é de lamentar que esse mesmo lobby — useiro  e veseiro em defender o indefensável -— tenha assento na alta cúpula do nosso governo, chegando mesmo à antessala do gabinete presidencial.

Terceira via -- Nas eleições de outubro próximo, a procurada “terceira via”  é o codinome da direita envergonhada.

*Com a colaboração de Pedro Amaral

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CAIU A FICHA DO COPOM ?

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

Caiu a ficha do Copom? Não é o cenário externo o principal obstáculo ao ciclo de corte de juros

Se decidir cortar a Selic para 14,25%, como é a aposta da maioria dos analistas em razão da sinalização dada na reunião anterior, há risco real de descontrole das expectativas de inflação

Quando o Copom começou a cortar a taxa Selic em março, a guerra no Irã já havia causado um choque de oferta de petróleo, o que gerou desconfiança quanto à prudência de um ciclo de afrouxamento monetário nessa conjuntura. Mas o argumento de todo mundo, incluindo o Banco Central, era de que a pressão externa – com a alta nos preços de combustíveis e de matérias-primas – seria temporária; que o conflito no Oriente Médio iria acabar logo; e que o Brasil poderia seguir cortando os juros “livre, leve e solto”.

O crescente otimismo com o fim da guerra no Irã, de fato, tirou da mesa a pressão externa, mas o que os analistas começaram a perceber – e quiçá, em alguma medida, até os próprios diretores do BC – é que o principal obstáculo ao ciclo de corte de juros não é o cenário externo: são os fatores domésticos. E muita gente vem fazendo, publicamente, a seguinte pergunta: por que mesmo o BC está cortando os juros?

Desde a última reunião do Copom, em abril, os dados mostraram um mercado de trabalho ainda apertado, com a taxa de desemprego caindo para 5,8% e o rendimento médio habitual dos trabalhadores brasileiros crescendo 5,4% na taxa anual. Outros indicadores registraram uma aceleração da atividade econômica – e não um esfriamento, como o BC esperava.

A inflação corrente vem surpreendendo para cima, com as principais métricas de preços subjacentes (que apontam para a dinâmica da inflação) rodando perto de 5%.

Para agravar a situação, as expectativas de inflação deram um salto. A mediana das projeções para o IPCA, conforme a pesquisa Focus, subiu para 5,30%, em 2026, e 4,10% em 2027. Estão cada vez mais distantes da meta de 3%. Aliás, o Copom prevê inflação de 3,5% no quarto trimestre de 2027. Essa estimativa ficou defasada.

O pano de fundo para a piora no cenário doméstico é o estímulo fiscal – com medidas de crédito, de subsídios e de reforço de renda – adotado pelo governo Lula neste ano, de olho na eleição presidencial. Há quem calcule que essas medidas podem adicionar quase 1,5 ponto porcentual ao PIB de 2026. Para compensar, em parte, esse forte impulso fiscal, afetando a inflação e as expectativas inflacionárias, muitos analistas defendem uma política monetária mais dura do que se imaginava.

Se, hoje, o Copom decidir cortar a Selic de 14,50% para 14,25%, como ainda é a aposta da maioria dos analistas, em razão da sinalização dada na sua última reunião, há um risco real de descontrole das expectativas de inflação. O espaço para corte ficou exíguo. Resta saber se a ficha caiu para o BC.

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EDUARDO BOLSONARO VIVE EM MUNDO PARALELO E SE CONSOLIDA COMO 'CAMISA 10' DA CAMPANHA DE LULA

Roseann Kennedy, O Estado de S. Paulo

Resultado do julgamento no STF tem potencial para prejudicar mais a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência

A história política do País registrou um capítulo irônico nesta terça-feira, 16. Ao ser condenado por unanimidade no Supremo Tribunal Federal (STF) por coação de ministros no curso do processo sobre a tentativa de golpe de Estado, o ex-deputado Eduardo Bolsonaro (PL-SP) consolidou seu papel de “camisa 10” no time do presidente Lula.

De forma involuntária, o filho “Zero Três” do ex-presidente Jair Bolsonaro transformou-se em um grande cabo eleitoral do petista. Além de presentear Lula com o discurso em defesa da soberania nacional, ele ainda corre o risco de tirar a próprio família de campo.

Curiosamente, enquanto Eduardo era sentenciado a 4 anos e 2 meses de prisão — acusado de articular, nos Estados Unidos, sanções contra o Brasil e ministros do STF —, o presidente Lula cumpria agenda no exterior justamente propagando a bandeira da soberania nacional.

O resultado do julgamento no STF tem potencial para prejudicar mais a pré-candidatura do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à Presidência da República. Eduardo sempre foi o principal fiador do nome do irmão no grupo político, a despeito de todas as críticas e das sinalizações de que uma chapa de centro-direita teria mais força para enfrentar Lula.

Vivendo em uma espécie de mundo paralelo nos Estados Unidos, Eduardo acabou colando a imagem do irmão às ameaças de um novo “tarifaço” americano contra produtos brasileiros, sobretudo após articular o recente encontro de Flávio com Donald Trump. Essa associação afasta o eleitor independente — que deve decidir o pleito deste ano —, uma vez que o teto dos votos radicais já está estabelecido.

Aliados que circulam no núcleo duro do bolsonarismo e da pré-campanha já identificam um movimento de sabotagem interna para que Flávio desista da disputa eleitoral de 2026.

É claro que a pressão está muito mais associada ao seu derretimento nas pesquisas após as revelações de conversas em que pedia dinheiro ao banqueiro Daniel Vorcaro, além do temor de novos escândalos. Contudo, a condenação de Eduardo joga combustível na crise. Os primeiros passos, segundo apurou a Coluna, sinalizam uma tentativa de viabilizar o nome do senador Rogério Marinho (PL-RN) para substituí-lo.

Ou seja, embora a bolha bolsonarista aposte em uma espécie de “VAR” jurídico para virar o jogo — forçando um paralelo do caso de Eduardo com o desfecho do julgamento de Carla Zambelli na Corte italiana, que apontou a parcialidade do ministro Alexandre de Moraes —, o risco real é de o grupo imitar a seleção da Itália: ver os Bolsonaros fora desta “Copa” eleitoral.

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EDUARDO BOLSONARO PRODUZIU E DIVULGOU PROVAS QUE O CONDENARAM

Bernardo Mello Franco, O Globo

Na segunda-feira, Eduardo Bolsonaro abasteceu as redes sociais com um vídeo num clube de tiro americano. De boné e camiseta, o ex-deputado se exibiu disparando com três armas: uma pistola, um fuzil e uma metralhadora. Não parecia preocupado com o julgamento marcado para o dia seguinte no Brasil.

O Zero Três foi denunciado pelo crime de coação no curso do processo. Ao pedir sua condenação, o subprocurador-geral Antônio Edílio Magalhães disse que o caso era “relativamente simples”. O próprio réu produziu as provas contra si mesmo, em entrevistas, declarações e postagens virtuais.

Eduardo abandonou o país e o mandato em fevereiro de 2025. Ao desembarcar nos Estados Unidos, anunciou que sua nova “meta de vida” era articular medidas contra o ministro Alexandre de Moraes, relator do processo contra o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Não se pode dizer que a missão tenha sido um fiasco. Usando seus contatos no governo Trump, o Bananinha conseguiu o tarifaço contra o Brasil, a revogação do visto americano de oito ministros do Supremo e a aplicação da Lei Magnitsky contra Moraes. Para seu azar, o Supremo não se curvou à chantagem e condenou o capitão pela tentativa de golpe.

Em gravação exibida no julgamento de ontem, Eduardo admite que a campanha causaria “sacrifício” à economia de seu país. “Na megalomania criminosa, o réu acha que os brasileiros deveriam aceitar o sacrifício do tarifaço em favor da impunidade do pai dele”, criticou Moraes. A ministra Cármen Lúcia observou que o ex-deputado fez questão de documentar o “percurso criminoso” para coagir o Supremo.

Eduardo se recusou a indicar um advogado, o que forçou a Defensoria Pública da União a representá-lo na Corte. O Zero Três vive numa mansão de R$ 6 milhões no Texas, mas obrigou o contribuinte brasileiro a bancar sua defesa. No ano passado, ele já havia recebido salário da Câmara sem trabalhar.

Condenado e inelegível, o ex-deputado deve continuar na terra dos caubóis para não ser preso. Terá tempo de sobra para treinar a mira e encenar o papel de vítima na internet.

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'BONDADES' E MOTIVOS PARA UM LULA 'REATIVO'

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Não há hoje ministros com peso político ou vontade para ponderar as iniciativas de um Palácio do Planalto em modo eleição

Há, evidentemente, o modo palanque. Mas também existe, por trás do tom mais elevado com que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem atacado os que criticam o excesso de gastos do governo e alertam para os impactos disso na taxa de juros, uma dupla frustração. A primeira é o espaço fiscal apertado para lançar novos programas que considera essenciais. A segunda, a falta de reconhecimento pelo esforço feito no atual mandato para melhorar a situação das contas públicas.

“Ele está reativo assim porque o governo tem uma limitação fiscal gigantesca e toda vez que ele quer fazer alguma coisa bate no teto” contou à coluna um interlocutor do presidente, referindo-se ao limite de despesas permitido pelo arcabouço fiscal. “E as pessoas só batem, dizem que tudo é gastança que está tudo descontrolado.”

No dilema entre não gastar além do permitido em lei e tentar ganhar uma eleição, o governo se especializou em fazer “bondades” que não atentam contra o arcabouço fiscal.

No caso, linhas de crédito cujos juros são reduzidos por efeito de fundos garantidores que fazem com que a União seja fiadora desses empréstimos. Outro exemplo são as subvenções temporárias que ajudam a reduzir os preços dos combustíveis. Essas são bancadas por meio de créditos extraordinários ao Orçamento, que por sua natureza imprevista e urgente (a guerra) não são contabilizados no limite de despesas do arcabouço.

Para cumprir esse teto, fixado em R$ 2,393 trilhões, o governo bloqueou R$ 23,7 bilhões em despesas. Corte na carne, tem repetido o ministro da Fazenda, Dario Durigan. Além disso, os ministérios não estão liberados para gastar tudo o que escapou do bloqueio. Há um cronograma de liberação, chamado faseamento, que mantém retidos outros R$ 27,1 bilhões.

Nem todo mundo percebeu, e o governo não bombou a informação. Mas em 2024 Lula concordou em limitar o aumento real do salário mínimo a 2,5% ao ano. Com isso, despesas como o piso de aposentadorias, o seguro-desemprego, o abono salarial e os Benefícios de Prestação Continuada crescerão junto com o teto de despesas estabelecido pelo arcabouço.

Além disso, programas como o seguro-defeso e o Proagro, que apresentavam forte crescimento, passaram a ser submetidos a um limite de gastos.

Com ajustes como esses, as despesas crescerão, em 2027, R$ 80 bilhões a menos do que aumentariam se nada tivesse sido feito, diz o governo.

São demonstrações do ajuste fiscal realizado no atual mandato, afirmou o interlocutor de Lula. Além desses, a arrecadação cresceu primordialmente graças ao fechamento de “torneiras”. O ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad não fez nenhum aumento “relevante” de alíquota, comentou. Na sua visão, é injusto dizer que nada foi feito.

Isso, porém, não tem sido suficiente para dar aos agentes econômicos um horizonte de estabilização da dívida pública, que este ano deverá fechar em 83% do PIB, segundo projeções de mercado da pesquisa Prisma Fiscal divulgadas esta semana.

Até Durigan e o ministro do Planejamento e Orçamento, Bruno Moretti, têm reafirmado a necessidade de aprofundamento do ajuste fiscal. Mas parece baixa a crença nisso. No Prisma, as projeções de mercado para o déficit primário do governo central em 2027 aumentaram R$ 7 bilhões de maio para junho. O movimento coincide com a queda nas intenções de voto no candidato do PL à Presidência da República, o senador Flávio Bolsonaro (RJ).

Não que a grife Bolsonaro seja sinônimo de ajuste fiscal. Flávio classificou como “fake news” propostas como reajustar o salário mínimo apenas pela inflação, estudadas pela sua assessoria econômica. Repete o pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, que interditou discussões semelhantes.

Com a saída de Fernando Haddad e da ex-ministra do Planejamento Simone Tebet, não restaram na Esplanada ministros com peso político ou vontade para ponderar as iniciativas de um Palácio do Planalto em modo eleição. O anúncio de medidas ocorre em ritmo acelerado. Mas o uso de recursos esquecidos para fortalecer o Fundo Garantidor de Operações (FGO) e colocar em pé o Desenrola 2, por exemplo, já entrou na mira do Tribunal de Contas da União. O órgão de controle também pediu mais transparência no uso de fundos para financiar políticas públicas.

Para economistas do mercado, as novas linhas de crédito são problemáticas também porque injetam dinheiro na economia, dificultando o trabalho do Banco Central de reduzir a inflação. Esse problema é negado pelos dois ministros da área econômica.

Para piorar o cenário, o Congresso Nacional aprovou um conjunto de pautas-bomba que podem elevar as despesas em R$ 111 bilhões ao ano. Se não for possível derrubá-las pela negociação, o governo recorrerá ao Supremo Tribunal Federal. O entendimento no Executivo é que as despesas são inconstitucionais, porque não têm fonte de financiamento. Sendo assim, não será possível realizá-las.

O Comitê de Política Monetária decide hoje a nova taxa de juros do país. A dúvida é se será cortada em pouco ou em nada. Com o possível fim da guerra no Irã, pode ser amenizado um fator que atualmente alimenta a cautela da autoridade monetária. Nesse quadro, aumentarão as atenções sobre os efeitos da política fiscal.

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A COPA DO BANANÃO E DA MISOGINIA

Ricardo Mezavila, via Facebook – charge Gervásio

A Copa do Mundo de futebol realizada nos EUA, México e Canadá é a maior em participações de países. Ao todo, são quarenta e oito seleções que disputam, em doze grupos de quatro, quem avançará na competição até a final, em dezenove de julho.

Fora dos gramados, o que vem chamando atenção é a disputa entre Sportv e Cazé TV, não pela parte técnica dos narradores e comentaristas, que se nivela por baixo, nem pela justa briga por audiência, mas pelo circo dos horrores protagonizado pela mistura de jornalistas, ex-jogadores e ex-técnicos na hora dos comentários.

A experiente Fernanda Gentil, após o empate entre a seleção do Ancelotti e Marrocos, perguntou ao senador Romário, que está comentando a Copa pela Cazé TV em vez de estar honrando seu mandato, se aquele empate tinha “gosto de derrota” — uma afirmação que todos faziam — e recebeu de volta um comentário misógino: “Só quem não entende de futebol pensa como você!”.

Romário, como todos lembram, tornou-se golpista quando votou a favor do golpe contra a presidenta Dilma Rousseff. Depois, apoiou Jair Bolsonaro em 2018, negando sua raiz humilde, do Jacarezinho à Vila da Penha.

Do outro lado, André Rizek tem perdido várias oportunidades de ficar calado quando tece comentários sociopolíticos. O mais contundente foi quando comparou a atuação da FIFA no Brasil, em 2014, com a dos EUA. A Copa do Mundo no Brasil foi há doze anos, e nunca esse jornalista se manifestou contra as imposições da FIFA na sua organização.

Rizek, em um momento xenófilo, demonstrou sua admiração pelo fato de os EUA não se curvarem à FIFA. No clímax do viralatismo supremo, chegou a afirmar que o Brasil foi um “bananão” por ter cedido, como país-sede, às regras da entidade máxima do futebol. Se o Brasil não tivesse sido parceiro na organização, teriam dito que o governo era comunista e bolivariano.

Ainda não vi nenhum desses jornalistas denunciar a humilhação e o constrangimento impostos à delegação do Irã, ao árbitro da Somália e o excesso de revista nas torcidas latinas e africanas. O governo Trump está se refastelando no exercício do que faz de melhor: a xenofobia!

São sabujos que, sentados em um estúdio na Times Square, observando uma multidão de torcedores do New York Knicks, equipe que havia se sagrado campeã da NBA, ficam excitados, e o porta-voz do capachismo olha para a câmera e diz: “Gente, é uma manifestação ordeira”.

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TRUMP FAZ GUERRAS COMO QUEM JOGA FLIPERAMA

Elio Gaspari, O Globo

Ninguém sabe por que atacou o Irã e ninguém sabe por que ele suspendeu os bombardeios

Ninguém sabe por que Donald Trump atacou o Irã, e ninguém sabe por que ele suspendeu os bombardeios. Nem ele sabe que resultados conseguirá depois de uma guerra que já custou aos americanos perto de US$ 30 bilhões. Esse é o preço das guerras teatrais.

Trump foi atrás do Irã depois de um êxito surpreendente contra a Venezuela. Sequestrou o ditador, absorveu a ditadura e embolsou o petróleo. Começou a guerra com o Irã matando o líder supremo Ali Khamenei, tentou decapitar o regime dos aiatolás e atolou.

Nos primeiros dias da guerra, Trump soltou uma exigência e uma ameaça. Primeiro disse que os ataques prosseguiriam até que se conseguisse a “rendição incondicional” do Irã, depois ameaçou mandar milhões de iranianos “de volta à Idade da Pedra”.

Nenhuma das duas expressões era original. Uma foi posta na mesa dos Aliados, em 1943, pelo presidente americano Franklin Roosevelt. Dois anos depois, quando os alemães assinaram a rendição, o general americano Dwight Eisenhower nem sequer estendeu a mão ao alemão.

A ameaça foi uma bravata do general Curtis LeMay contra os vietnamitas. Falhou, e os americanos voltaram para casa depois de ter perdido 58 mil militares. (Desde então, os presidentes americanos evitam usar a infantaria em suas guerras.)

As duas falas mostram que Trump faz guerras como quem joga fliperama. Se der, deu. Se não, proclama-se vitória e sai-se de campo. Ao fim, a oposição iraniana que se levantaria ficou menor.

Até novembro, quando uma eleição poderá tirar dos republicanos o controle da Câmara dos Representantes, Trump sairá atrás de uma vitória, e Cuba é a primeira candidata. A Venezuela mostrou-se uma barbada porque a ditadura era corrupta, impopular e mantida à custa de uma eleição roubada.

O Irã está encravado na confusão do Oriente Médio, e Trump tem um aliado em Israel, com sua agenda própria. No Caribe, passado mais de meio século da revolução castrista, com sua aura romântica, a pista parece livre.

Em Cuba, a crise energética levou a ruína para o cotidiano dos habitantes, gostem ou não do regime. O estabelecimento de uma nova ordem em Cuba dá a Trump uma vitória cuja extensão ainda é imprevisível. Dá ao secretário de Estado, Marco Rubio (filho de cubanos), um êxito que o coloca mais perto da Casa Branca em 2028 e pode dar alguma sobrevida ao complexo comercial e burocrático das Forças Armadas, como sucedeu na Venezuela.

Cuba tem um especial atrativo para Trump e sua turma: uma mudança de regime, mesmo parcial, trará consigo um boom imobiliário de grandes proporções. Grosseiramente, pode-se estimar que, com a venda de um estúdio em Miami, será possível comprar um apartamento de três quartos e sala novo na ilha.

Nenhum iraniano ganharia com a guerra de Trump. No caso de Cuba, o negócio é outro, e o primeiro a ganhar será ele mesmo, que pensou em fazer uma Riviera na Faixa de Gaza.

O último sinal de que os Estados Unidos preparam alguma encrenca com Cuba veio do secretário da Guerra, Pete Hegseth, que ameaçou com um confronto se Havana comprar armas capazes de atingir o território americano ou a base militar de Guantánamo.

Ora, Guantánamo fica em Cuba.

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MOMENTO DELICADO PARA A CAMPANHA DE FLÁVIO BOLSONARO

Fernando Exman, Valor Econômico

Senador enfrenta uma fratura na sua base de apoio por causa da forma que lidou com a revelação de que havia pedido dinheiro a Daniel Vorcaro para financiar filme sobre o pai

Duas passagens da corrida presidencial de 2018, disputada entre Jair Bolsonaro e Fernando Haddad, ajudam a explicar o momento sensível pelo qual passa a campanha de Flávio Bolsonaro. As pesquisas mostram o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ampliando a vantagem após o caso Master, segue o desconforto dos aliados de Flávio com o episódio “Dark Horse” e, para piorar, o Centrão tenta descolar-se da sua chapa.

Surfando no antipetismo e na repulsa da população à corrupção, Jair Bolsonaro percorreu em 2018 o país com um slogan bíblico: “E conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará”, dizia a todo momento, citando João 8:32. Pois Flávio enfrenta agora uma fratura na sua base de apoio justamente por causa da forma que lidou com a revelação de que havia pedido dinheiro a Daniel Vorcaro, dono do Master, para bancar o filme em homenagem ao seu pai.

Como diz um aliado, a discussão vai além de “se houve ou não corrupção, se é dinheiro público ou privado”. A questão é, também, ter mentido ou omitido. Há um dano intangível entre a imagem construída em 2018 pela família Bolsonaro e a que precisa ser trabalhada agora.

A outra conexão com a campanha de 2018 se refere à forma como foi lançada sua pré-candidatura. A comparação inevitável é com o anúncio da escolha do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad por Lula, à época em que o presidente estava preso em Curitiba.

Em um ato solene, realizado em frente à carceragem e com a presença da militância, foi lida uma carta escrita por Lula para lançar Haddad e justificar sua decisão. Aproveitou-se para divulgar várias realizações de seu representante durante gestões petistas, e o candidato estava acompanhado de sua vice e lideranças partidárias. Deixou-se pouco espaço para contestação de correligionários e aliados.

O movimento de Flávio foi distinto. Alguns dias depois de visitar o pai na prisão, ele publicou nas redes sociais mensagem na qual informava que recebera a missão de dar prosseguimento ao projeto de seu grupo político. Havia uma disputa na família pelo posto. Centrão e mercado preferiam o governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas (Republicanos). E teve até quem duvidou da informação, mas o presidente do PL, Valdemar Costa Neto, buscou acabar logo com a discussão: “Flávio me disse que o nosso capitão confirmou sua pré-candidatura. Então, se Bolsonaro falou, está falado”, escreveu nas redes sociais.

Vinte dias depois, Flávio leu em frente a um hospital em Brasília uma carta escrita à mão por seu pai reafirmando a decisão, antes de o ex-presidente ser submetido a uma cirurgia de correção de hérnia. Apenas Carlos Bolsonaro, seu irmão, estava com ele na fotografia que eternizou o momento.

Uma liderança do Centrão nota que Flávio deveria ter se cercado de aliados estratégicos, para dar corpo e legitimidade ao anúncio. E cita três personagens que não poderiam faltar naquela foto: o próprio Tarcísio, a ex-primeira-dama Michelle Bolsonaro e o deputado Nikolas Ferreira (PL-MG).

Até hoje aliados de Flávio lamentam o fato de o governador do maior colégio eleitoral do país não estar presente a todos os atos de campanha em São Paulo.

Michelle, por sua vez, construiu ampla rede de aliados durante o período que viajou pelo país presidindo o PL Mulher. Além de reduzir a resistência do público feminino em relação ao enteado, poderia garantir-lhe maior interlocução com os evangélicos. Já Nikolas Ferreira é um potente influenciador digital, referência entre jovens conservadores e importante puxador de votos em Minas Gerais, segundo maior colégio eleitoral do Brasil.

Mas eles não foram convidados e ainda passaram a sofrer pesado “fogo amigo”. Há dúvidas sobre o nível de engajamento que terão durante a disputa.

É nesse contexto que Flávio Bolsonaro tenta dar uma chacoalhada na campanha. Nos últimos dias, sinalizou à parcela mais pobre da população com a manutenção do Bolsa Família. Disse que o programa social é “direito adquirido” e, portanto, não irá acabar. Nos bastidores, integrantes de seu comitê argumentam que será necessário calibrá-lo à frente, mas a ordem é evitar polêmicas agora.

Em uma piscadela para o mercado, foi confirmada a entrada da ex-presidente da Caixa Econômica Federal Daniella Marques na campanha. Ligada ao ex-ministro Paulo Guedes, ela passa a ser referência da equipe para os assuntos econômicos.

A estratégia é concentrar o debate sobre política fiscal na trajetória crescente da dívida pública e, ao mesmo tempo, evitar a antecipação de medidas impopulares.

Os bolsonaristas argumentam que a Dívida Bruta do Governo Geral (DBGG) estava em 71,68% do Produto Interno Bruto em dezembro de 2022 e passou para 80,19% do PIB em abril deste ano. O governo projeta que esse índice feche 2026 em 83,6%. Petistas rebatem, também com razão, que receberam o país com diversas bombas-fiscais de efeito retardado. Mas é fato que ambas as gestões terão dificuldades em contrapor as críticas sobre as diversas medidas eleitoreiras implementadas tanto em 2022 como agora.

Este é um debate fundamental, mas incapaz de mobilizar a militância bolsonarista ainda impactada pelas notícias do caso Master. Talvez uma decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) que acabe com a prisão domiciliar de Jair Bolsonaro tenha esse condão.

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O EFEITO AZARÃO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Tendência de torcer pelo competidor mais fraco é reconhecida como viés cognitivo

Fenômeno se materializa tanto na Copa como em eleições, com diferentes consequências

Você vibrou com as defesas de Vozinha no empate sem gols que a seleção de Cabo Verde arrancou da Espanha? Sorriu de satisfação ao saber que a fraca Austrália derrotou por 2 a 0 a mais robusta Turquia? Pois saiba que você não está só. O ímpeto de, em determinadas circunstâncias, torcer pelo competidor mais fraco, nos esportes, na política ou mesmo na vida, é um viés cognitivo inscrito em nossos cérebros e leva o sugestivo nome de efeito azarão (underdog effect).

O efeito azarão é especialmente intenso quando há pouco ou nada a perder com o desfecho. Um bom exemplo de situação de baixo custo é justamente assistir a uma partida de futebol pela TV sem ter colocado dinheiro num bolão. Mas, se você é um frequentador de bets, espero que tenha tido o bom senso de não apostar que Curaçao meteria sete gols na Alemanha. Quando há riscos reais envolvidos, não podemos nos dar ao luxo de ficar contra as probabilidades em nome do desejo meio metafísico de reequilibrar os pratos da balança da justiça universal.

O fenômeno é particularmente interessante na política, já que torcer e votar são atividades até certo ponto relacionadas e, nas democracias, candidatos que recebem mais votos são eleitos. É preciso cuidado, porém, para não superestimar o efeito azarão. Se ele fosse ubíquo, eleições seriam sempre vencidas por cabos Daciolos e padres Kelmons, o que, felizmente, não é o que ocorre. É que ao underdog effect contrapõe-se um outro viés, o efeito manada (bandwagon effect), que leva o eleitor a seguir aquilo que acredita ser o movimento da maioria. O desejo no comando aqui é o de pertencimento e conformidade social.

De um modo geral, o efeito manada prevalece sobre o azarão, mas situações de crise ou de fadiga com o statu quo podem aumentar dramaticamente as chances de candidatos que se vendem como o David que enfrenta o Golias. É mais perigoso encantar-se com o político antissistema do que torcer por Cabo Verde na Copa, ainda que as duas coisas tenham as mesmas raízes psicológicas.

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O 82º SENADOR

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

 O documento da federal que mostra como Vorcaro se tornou o 82.º senador da República

Banqueiro não foi eleito nem se filiou a partido, mas liderava uma bancada silenciosa

Ele não teve um voto. Não era filiado a nenhum partido político. Também não apareceu no horário eleitoral ou nas audiências públicas no Congresso. Mas conseguia propor projetos, mobilizar lideranças, convocar autoridades para alterar não apenas leis, mas para emendar até mesmo a Constituição do Brasil. Tudo para facilitar os seus negócios.

A atuação parlamentar de Daniel Vorcaro transformou o banqueiro no 82.º senador da República. Apesar de não ter gabinete ou cadeira no plenário do Senado, o chefe da organização por trás da fraude bilionária do Banco Master dispunha de uma bancada silenciosa, que podia provocar “hecatombes” em Brasília. Como? Para entender o funcionamento dos tentáculos do banqueiro, o eleitor deve ler as 87 páginas da informação de polícia judiciária 1381577/2026, cujo sigilo foi levantado pelo ministro André Mendonça.

Na página 18, os federais registraram uma mensagem de 17 de maio de 2024 do banqueiro para a namorada Martha Graeff, que questionou quem era o homem ao lado de Vorcaro em uma foto. “Ciro Nogueira. É um senador. Muito amigo meu. Quero te apresentar. Um dos meus grandes amigos de vida.”

Vorcaro tinha muitos amigos.

O banqueiro perdulário pagava viagens e despesas em hotéis de luxo do senador e de deputados, como Hugo Motta e Doutor Luizinho. Dava festas com ucranianas e russas e promovia degustações de charutos e uísque.

Adquiriu o direito de redigir a Emenda 11 à PEC 65/2023, que propunha ampliar de R$ 250 mil para R$ 1 milhão o limite de cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). “Saiu exatamente como mandei”, disse Vorcaro, após ler a emenda, de autoria de Ciro. Em mensagem ao banqueiro, um assessor definiu o efeito que a medida teria: “Você sextuplica seu negócio”.

O FGC informou em 17 de janeiro de 2026 que pagou R$ 40,6 bilhões em garantias aos 800 mil clientes do Master. Isso equivalia a 32,5% da liquidez do fundo, o que dá uma ideia da sangria que haveria no FGC se a tal emenda tivesse sido aprovada.

O 82.º senador da República ainda teria participado da redação de outros dois projetos de lei. Os federais concluíram que o amigo Ciro atuava para “defender os interesses do banqueiro em troca de vantagens indevidas”. O senador e ex-ministro de Jair Bolsonaro se diz inocente e vítima de perseguição. Além da vida nababesca, ele receberia do 82.º senador uma mesada de R$ 300 mil e participações societárias adquiridas com deságio – ganhou R$ 11 milhões em uma dessas operações. A PF o acusa de corrupção, de organização criminosa, de lavagem de dinheiro e de crime contra o sistema financeiro nacional durante o tempo em que seu amigo ocupava a 82.ª cadeira no Senado.

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QUER SER PRESIDENTE ? ME DÊ MOTIVO

Mauricio Moura, O Globo

É uma ilusão achar que cinco milhões de eleitores decisivos não querem dinheiro, só amor sincero

Tim Maia, famoso cantor brasileiro que revolucionou a música popular com sua voz inconfundível e uma fusão rítmica que uniu black music americana ao samba e baião. Uma das mais famosas canções do artista é “Me dê motivo”. Certamente uma metáfora do estado mental dos eleitores que devem decidir a eleição presidencial de 2026.

Em um ambiente amplamente dividido, entre os que aprovam e desaprovam o governo federal, entre os que acreditam ou não que Lula merece continuar, entre os que se dizem lulistas ou antipetistas ou qualquer outra divisão produzida pela decisão binária que o sistema eleitoral brasileiro proporciona, acreditamos que esse grupo realmente persuasível não passa de 3% do eleitorado. Do Leme ao Pontal, esses são quase cinco milhões de eleitores ainda órfãos de um motivo para decidir seu voto. O que, então, vai conquistar as mentes e corações desse grupo crítico?

O PT venceu inúmeras eleições presidenciais com argumentos econômicos contundentes. Em 2002, Lula prometeu gerar dez milhões de empregos para vencer José Serra (que prometia somente oito milhões). Em 2006, a reeleição veio na esteira da escala do Bolsa Família, um programa de transferência de renda amplamente popular. Naquela disputa, o petismo ampliou e mudou o perfil da sua base eleitoral.

Em 2010, Dilma Rousseff, apresentada como a mãe do PAC (Programa de Aceleração do Crescimento), prometia um crescimento chinês; o que nunca se materializou. Em 2014, sem o crescimento, o argumento era a manutenção dos programas sociais e dos empregos. Em 2022, Lula voltou com a promessa de reestabelecer o consumo dos mais pobres com a metáfora da picanha e cerveja.

Do outro lado, Fernando Henrique venceu duas eleições (1994 e 1998) em primeiro turno como bastião da defesa contra a inflação. A derrubada da inflação foi o cabo eleitoral mais eficiente da história do país.

Já Fernando Collor, autointitulado “caçador de marajás” em 1989, e Jair Bolsonaro, em 2018 se colocando como de fora do sistema, tiveram o combate à corrupção como pilar central de suas campanhas. Num passado mais distante, Jânio Quadros também teve êxito nacional se apresentando como de fora do sistema e varredor da corrupção. Um posicionamento bem mais mundano que os 50 anos em 5 de Juscelino Kubitschek.

Até o momento, nenhum candidato fez acender o farol dos eleitores decisivos. O PT que sempre vendeu esperança de prosperidade econômica corre o risco de ir para as eleições oferecendo um reajuste da tabela do IR, um programa de refinanciamento de dívidas, uma redução (depois de aumentar) de taxa de blusinhas e uma promessa de se trabalhar menos no futuro (se, quando e como o Congresso permitir). Para eleitor que “gostava tanto de você” (ou do PT) e votou em Lula em 2022, isso ainda parece pouco para aliviar o sentimento das durezas econômicas do dia a dia.

Do outro lado, nem um descobridor dos sete mares sabe qual a esperança econômica a oposição irá oferecer na campanha. Não basta somente ventilar que vão tirar o PT. Esse argumento que ao tirar o PT tudo melhora nunca foi vencedor (nem realista). Também é difícil imaginar, em 2026, que a vitória virá com a bandeira de combate à corrupção. Com o escândalo do Master, poucos em Brasília se sentem em um ambiente azul da cor do mar nessa área. Em alguns casos, membros da oposição estão mais próximos de virar “réu confesso”.

Portanto, é uma ilusão achar que esses cinco milhões de eleitores decisivos não querem dinheiro, só amor sincero. A economia será decisiva novamente. Será fundamental para a conquista dos 3% que as candidaturas ofereçam um projeto real, uma ideia inspiradora, uma esperança de vida, com melhores oportunidades, menos dívidas e mais conforto. Ou, se tudo isso for muito difícil a essa altura, que tal somente um motivo. Um motivo que se sustente na rua, na chuva, na fazenda e nas urnas.

 

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CONDENAÇÃO DE EDUARDO BOLSONARO ELEVA ALERTA NO STF PARA RISCO DE AÇÃO DOS EUA

César Felício, Valor Econômico

Integrantes do Supremo creem que o princípio de extraterritorialidade está arraigado no Executivo e no Judiciário americanos e não descartam ação contra Moraes

A condenação do ex-deputado Eduardo Bolsonaro por coação a justiça deve elevar o grau de alerta no Supremo Tribunal Federal (STF). Aumenta a possibilidade de uma ofensiva dos Estados Unidos contra integrantes do Judiciário, em especial contra o ministro Alexandre Moraes, que também foi relator do processo que condenou por golpismo o ex-presidente Jair Bolsonaro.

Integrantes da Corte creem que o princípio de extraterritorialidade está arraigado no Executivo e no Judiciário americano e não descartam a possibilidade de uma ação direta contra Moraes. No ano passado, na reta final do julgamento de Bolsonaro, o governo americano enquadrou o ministro e sua esposa, Viviane Barsi, no âmbito da Lei Magnitsky, concebida contra violadores de direitos humanos, que permite o bloqueio de ativos, independentemente da nacionalidade e da residência do titular. A pressão do governo do presidente Donald Trump não ficou por aí e envolveu também a cassação dos vistos de 8 dos 12 ministros do Supremo e do procurador-geral da República, Paulo Gonet.

A crise paradoxalmente amainou depois da prisão de Bolsonaro. Em dezembro, Moraes e a mulher tiveram as sanções levantadas. Na mesma semana, o Congresso aprovou o projeto de lei da dosimetria, que pode levar a uma redução da pena de golpistas. A norma, contudo, está com a aplicação suspensa pelo Supremo desde maio, por decisão de Moraes, para a análise da constitucionalidade da medida.

Decisões de Moraes têm recebido contestação internacional. No início do mês, a Corte de Cassação da Itália, órgão máximo do Judiciário daquele país para matérias criminais, negou a extradição da ex-deputada Carla Zambelli. Ela foi condenada pelo STF por violação do sistema do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), para inserir um mandado de prisão falso contra Moraes. O ministro participou do julgamento que condenou Zambelli a dez anos em regime fechado. De acordo com os magistrados italianos, houve quebra de imparcialidade, já que Moraes foi vítima, relator e julgador.

No caso de Eduardo, Moraes faz parte da Primeira Turma que julgou o ex-parlamentar, também como relator. E foi alvo direto da ação considerada criminosa: Eduardo foi condenado por ter se mudado para os Estados Unidos para fazer lobby por sanções contra o ministro, tendo pedido a aplicação da Lei Magnitsky a funcionários do governo americano e parlamentares daquele país.

A decisão da justiça italiana indignou integrantes do Supremo, que consideraram desairoso a corte do país europeu questionar o entendimento do Tribunal brasileiro. Mas optaram por uma resposta comedida, já tendo em mente que será necessário elevar o tom quando a pressão vier dos Estados Unidos.

Nesse sentido, aponta-se que o Supremo deve ter papel proativo em defesa de Moraes. No ano passado, o entendimento foi de permanecer em posição de expectativa, abrindo caminho para negociações de bastidores do governo brasileiro que desarmaram as sanções de Trump. Desta vez, um dos caminhos estudados é o de envolver organismos multilaterais. O Brasil preside, por exemplo, a subcomissão de Direitos Fundamentais da Comissão de Veneza, órgão consultivo do Conselho Europeu para matérias constitucionais, além de integrar a Corte Interamericana de Direitos Humano.

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PRÉ-CANDIDATOS FAZEM PROMESSAS VAGAS DE AJUSTE FISCAL EM 2027

Idiana Tomazelli, Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro (PL) defende 'tesouraço', e auxiliares de Lula (PT) acenam com revisão de gastos

Sem detalhes de eventuais medidas, resultado será grave crise ou estelionato eleitoral

desequilíbrio das contas é uma realidade concreta, a ponto de os dois principais pré-candidatos à Presidência ou o seu entorno precisarem acenar com ajuste fiscal a partir de 2027. Isso agrada a Faria Lima, mas não nos enganemos: são promessas vagas o suficiente para evitar qualquer possível desgaste com a maioria que vota.

O senador Flávio Bolsonaro (PLdefende há meses um "tesouraço" nas despesas, mas não diz o que pretende cortar se for eleito. O ministro Dario Durigan (Fazenda), hoje o principal auxiliar de Lula (PT) na área econômica, fala em revisão de gastos obrigatórios, mas tampouco detalha o que mudaria.

Idealmente, o eleitor deveria ser esclarecido sobre tais planos para decidir de forma consciente. Na prática, ninguém vai querer aprofundar o debate agora, pois pode desaguar em desvinculação entre benefícios e salário mínimo, extinção de políticas desfocalizadas e outras medidas que só subtraem votos em vez de agregar.

O passado recente ainda nos permite duvidar da verdadeira disposição de ambos os lados para enfrentar o problema. O governo Lula abriu os cofres para conter preços de combustíveis e ofertar crédito barato, a pretexto de minimizar efeitos da guerra no Irã e impedir uma freada brusca na economia. O ex-presidente Jair Bolsonaro (PL), pai do senador, permitiu a expansão das emendas parlamentares, menos eficientes e em alguns casos protagonistas de esquemas de corrupção. Além disso, acionou o modo turbo nos gastos nas eleições de 2022.

Mesmo que não sejam promessas vazias, o Congresso está aí para mostrar que apoia o ajuste fiscal até a página dois. Quando quer fustigar o governo ou atender ao mercado, cobra gestão séria das contas, mas quando vê na berlinda o privilégio de grupos aliados, reage para manter tudo como está ou até ampliar as benesses.

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Essa equação complexa só pode produzir dois resultados: uma grave crise ou um estelionato eleitoral. Em 2015, tivemos os dois.

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