terça-feira, 3 de março de 2026

IRANIANOS FICAM ENTRE A DITADURA LOCAL E O IMPERIALISMO AMERICANO

Artigo de Fernando Gabeira

A tática dos EUA é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais

Quem tem memória lembra bem a guerra do Iraque. Colin Powell foi à ONU com umas fotos estranhas, para demonstrar que Saddam Hussein tinha armas de destruição maciça. Agora, Donald Trump, de boné com a inscrição “USA”, afirma que o Irã é uma ameaça nuclear à segurança do povo americano.

Saddam não tinha armas de destruição maciça. E a capacidade nuclear do Irã, segundo a própria inteligência americana, foi retardada em décadas pelos bombardeios de 2025. Tanto a guerra no Iraque como a no Irã são guerras de escolha. Na avaliação de Trump, o governo dos aiatolás, que massacrou recentemente centenas de manifestantes, está mais fraco.

Neste momento em que todos buscam notícias e em que, como no início de guerras, elas são muito desencontradas, creio ser possível demonstrar um tipo de angústia que domina os iranianos. Eu intuía isso, mas escrevo agora baseado em depoimentos deles, postados no fim de semana passado. Um desses depoimentos diz:

— Como iraniano, posso afirmar que a situação não é mais apenas política, mas existencial. Caímos numa armadilha de duas estruturas em colapso, uma interna, outra externa.

O depoimento mostra que a esperança interna foi dissipada pela constante repressão às tentativas de reforma. Mas acentua aí o paradoxo: estão aterrorizados pelo colapso do regime injusto porque conhecem os resultados das intervenções ocidentais em países como Iraque, Líbia, Síria e Afeganistão.

O depoimento afirma ainda que os iranianos não confiam nos Estados Unidos e em Israel. Não porque apoiem o regime repressor do Irã, mas porque sabem como os poderes imperiais tratam as nações “liberadas” do Oriente Médio.

O que aparece para muitos iranianos é um dilema entre a terrível repressão dos aiatolás e a alternativa oferecida pelos ocidentais, que não é liberação, mas colapso. Para eles, o país é refém de um regime, como se vivessem numa casa de ódio, aterrorizados pelo fogo exterior — pelo destino de seus vizinhos.

Essa visão interna do Irã nos ajuda a compreender como é difícil obter um dos objetivos de Trump: a mudança de regime. Uma chuva de bombas, inclusive algumas que atingem escolas e hospitais, não consegue mudar o regime, mesmo matando seu líder máximo, um homem velho e doente, cuja substituição já era preparada.

No fundo, a política externa de Trump usa o termo mudança de regime como retórica. A tática é intimidar e favorecer um governo mais flexível aos interesses imperiais, como na Venezuela. Trump inaugurou uma política de violência, baseada em intimidação, bombardeio e ações de comando. Mas tem uma limitação evidente: seus eleitores não perdoariam as botas no terreno, uma invasão real.

Alguns do movimento Make America Great Again já não apoiam nem a própria guerra do Irã, vista como de interesse apenas de Israel.

Artigo publicado no jornal O Globo em 03 / 03 / 2026

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APOSTA DE TRUMP NA GUERRA DO IRÃ

Míriam Leitão, O Globo

O presidente norte-americano posa de vencedor no conflito com o Irã e aposta que a população deixará questões internas em segundo plano na eleição

Não há no mundo falta de petróleo. O que é previsível, com o ataque dos Estados Unidos e Israel ao Irã, é uma crise logística no escoamento do Oriente Médio, que pode fazer com que os países não tenham acesso ao petróleo e gás. O fechamento do Estreito de Ormuz estrangula o fluxo, o que afeta muito mais a Ásia. A Índia, por exemplo, depende drasticamente do gás natural liquefeito do Catar, que ontem suspendeu o fornecimento. O Catar é a Arábia Saudita do GNL, e seu gás é escoado por navios.

Quem explica é o especialista David Zylbersztajn, professor do Departamento de Energia da PUC. Ele avalia que, neste momento, ninguém se atreveria a optar por esse caminho.

—Há, no Estreito, duas vias para navios, uma que vai, outra que volta, cada uma com três quilômetros. Então para bombardear um petroleiro é a coisa mais simples do mundo. Não precisa de grande sofisticação. O Irã não precisa colocar navios ou uma força militar. De onde está, pode bombardear. É um caminho muito estreito. Quem tem um petroleiro não o colocará em risco. A insegurança contra a integridade do navio faz com que o transportador não passe por lá — explica Zylbersztajn.

O conflito decorrente da morte de Ali Khamenei pelo ataque americano-israelense encontra o mundo super ofertado de petróleo. O barril tinha caído a níveis de US$ 60. Na última segunda-feira, havia subido para US$ 71 já com as trombetas da guerra soando. Ontem, a cotação do petróleo avançou e pode manter a trajetória de alta nos próximos dias. O Citibank projeta um nível de US$ 90, mas segundo Zylbersztajn o preço não deve se sustentar.

— Esse petróleo da segunda-feira, ou da terça-feira, é de papel. É um preço especulativo. Nos dias seguintes, muita gente vai ganhar dinheiro por que vendeu na alta e vai comprar mais barato. A oferta de petróleo tem crescido três vezes mais do que a demanda.

Nas últimas décadas, a produção de petróleo se espalhou pelo mundo. Os Estados Unidos têm seu próprio petróleo e gás. O Brasil se tornou um exportador, tanto que ontem a ação da Petrobras subiu. Não é mais aquele mundo que dependia totalmente do Oriente Médio, como nas crises dos anos 1970 do século passado.

Mesmo assim, o conflito adicionou muita incerteza à economia global. O presidente Donald Trump fala que a duração do ataque pode ser de quatro ou cinco semanas. Isso é o suficiente para fazer um grande estrago. O mundo não é mais tão dependente quanto já foi, mas o problema logístico é o suficiente para afetar a economia de diversas formas.

Do ponto de vista político, o Irã está isolado externamente e enfraquecido internamente, lembra o embaixador Rubens Ricupero. Ele avalia que os Estados Unidos estão experimentando uma nova estratégia, primeiro com a Venezuela e agora com o Irã, que é remover o líder. A diferença é que enquanto no país latino, Trump não mexeu com o regime, e no Irã, este era o objetivo declarado.

—A morte do líder não significa automaticamente a queda do regime. No Irã não se tem uma oposição organizada, houve movimentos espontâneos de protesto que mostraram a impopularidade do regime, que só consegue se manter na base da repressão. Pode ser que tenha chegado a hora desse regime que está no poder há 47 anos. Diante do poderio americano, ninguém pode reagir. Na região, eles estão totalmente isolados. Os vizinhos são quase todos hostis — diz o embaixador.

A situação do presidente norte-americano também não é tão fácil. Numa guerra há sempre o imponderável. Ele não consegue marcar a data do fim do confronto. A alta do petróleo afetará o preço interno que, nos Estados Unidos, segue automaticamente a cotação internacional. Trump disse que não iniciaria uma nova guerra e está fazendo o oposto do que prometeu. Garantiu que derrubaria a inflação e está elevando o preço do combustível na bomba. As eleições de meio de mandato podem ser um acerto de contas desse eleitor com Trump. Por outro lado, conseguiu prender Maduro e matar Khamenei. E, na visão de Ricupero, o próximo alvo pode ser Cuba, que neste momento está vivendo uma aguda escassez de tudo. Trump joga com a aposta de que o eleitor esquecerá seu envolvimento nos arquivos de Jeffrey Epstein, seu desrespeito à Constituição dos Estados Unidos, os assassinatos de americanos pela sua polícia migratória. Neste momento, todos os olhos estão no Irã e Trump posa de vencedor.

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MARCELO CERQUEIRA, ADVOGADO DE PRESOS POLÍTICOS E DEPUTADO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O ex-parlamentar foi um dos principais advogados de perseguidos da ditadura militar do Rio de Janeiro e protagonizou no Congresso a campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela

A história da redemocratização brasileira não pode ser contada sem referência a Marcelo Cerqueira, um dos mais combativos advogados e parlamentares do período autoritário. Militante da causa democrática, notabilizou-se por sua atuação jurídica em defesa de perseguidos políticos e pela presença destacada na campanha da anistia, ao lado do senador Teotônio Vilela, o “Menestrel das Alagoas”, que percorreu o país conclamando a sociedade à reconciliação nacional.

Conheci Cerqueira na campanha eleitoral de 1978, quando foi candidato a deputado federal pelo MDB, a convite do falecido dirigente do Partido Comunista Brasileiro (PCB) Antônio Ribeiro Granja, com apoio no Rio de Janeiro, em Niterói e na Baixada Fluminense. Fez dobradinha com o deputado estadual Alves de Brito (MDB), que concorria à reeleição. Lembro-me de seu principal panfleto de campanha, intitulado “Dá-lhe, povo”, inspirado no lendário jóquei Luiz Rigoni.

Formado em direito, Cerqueira construiu sua trajetória na interseção entre a advocacia e a política. Não era apenas de um advogado militante, mas um jurista atento às garantias constitucionais e aos limites do poder punitivo. Ex-vice-presidente da União Nacional dos Estudantes (UNE), ingressou no antigo Partido Comunista Brasileiro (PCB) pelas mãos do falecido cineasta Leon Hirszman (Cinco Vezes Favela, Eles Não Usam Black-Tie, entre outros).

No final dos anos 1960, ganhara a confiança da cúpula do PCB, sobretudo Granja, ao transportar em seu fusca, coberto por cachos de banana, o cadáver do ex-tenente do Exército Ivan Ribeiro, que falecera de infarto, em plena reunião do clandestino Comitê Central do Partidão, em Itaguaí (RJ). Levado para a Santa Casa da Misericórdia, o médico Isnard Teixeira, outro dirigente comunista, emitiu o atestado de óbito e entregou o corpo à família, para que tivesse um enterro digno.

Cerqueira foi um dos principais advogados de presos políticos do Rio de Janeiro, ao lado de Humberto Jansen, Alcione Barreto e Modesto da Silveira, que também se elegeria deputado federal em 1978. Outra de suas proezas foi impedir a transferência do ex-líder bancário José Raymundo da Silva da Polícia do Exército para a Casa da Morte, em Petrópolis, no começo dos anos 1970, ao se postar à porta do quartel, na Rua Barão de Mesquita, para interceptar a viatura que o transportava e denunciar sua prisão.

Deputado federal, transformou a tribuna da Câmara em espaço de resistência institucional. Ali, denunciou arbitrariedades, criticou o cerceamento das liberdades públicas e defendeu a restauração do Estado de Direito. Num contexto em que o Congresso funcionava sob vigilância e sob a ameaça constante de cassações, sua voz assumiu especial significado político.

No final da década de 1970, o regime militar ensaiava uma abertura “lenta, gradual e segura” e a bandeira da anistia ampla, geral e irrestrita tornou-se o eixo de mobilização da sociedade civil. Comitês de anistia se espalharam pelo país, articulando familiares de presos e desaparecidos, estudantes, sindicalistas, artistas, advogados e parlamentares. Marcelo Cerqueira esteve entre os protagonistas dessa articulação. Ao lado de Teotônio — então senador pela Arena —, percorreu estados, participou de comícios e audiências públicas, dialogou com movimentos sociais e contribuiu para dar densidade jurídica e política à reivindicação.

Parceria

A parceria entre ambos simbolizava a amplitude do movimento: um advogado e deputado comunista e um senador conservador dissidente da Arena convergiam na defesa da reconciliação nacional. A anistia seria um passo decisivo para a redemocratização do país. O esforço culminaria na aprovação da Lei 6.683, de 1979, durante o governo do general João Figueiredo.

Embora marcada por controvérsias, sobretudo pela extensão da anistia aos agentes do Estado acusados de tortura, a lei abriu caminho para o retorno de exilados, a libertação de presos políticos e a reorganização partidária, preparando o terreno para a transição democrática. Na votação da anistia, Cerqueira faria um discurso antológico: “Não se faz Nuremberg com Hitler no poder”. A referência ao Tribunal de Nuremberg, que julgou os crimes do nazismo após a derrota da Alemanha na II Guerra Mundial, era uma resposta às vozes que, ainda sob o regime, defendiam a punição exemplar dos responsáveis pela repressão.

Cerqueira não relativizava a gravidade das violações, mas advertia que o contexto político, com os militares no comando do Estado, não oferecia condições institucionais para um julgamento imparcial e efetivo. Seu argumento era realista, reconhecia a correlação de forças e a necessidade de avançar passo a passo na transição, porém estratégico, pois a anistia foi o instrumento possível naquele momento para desmontar o aparato dos sequestros, torturas e assassinatos e restaurar as liberdades.

Em termos históricos, o episódio condensava o dilema da relação da sociedade com às Forças Amadas: como conciliar memória, verdade e responsabilização com a necessidade de assegurar uma passagem pacífica para a democracia? Ao evocar Nuremberg, convenceu a maioria da oposição de que não havia outra opção.

Cerqueira estava tetraplégico desde janeiro de 2016, em razão de uma queda em seu apartamento, em Copacabana. Faleceu no sábado, aos 87 anos, de pneumonia e infecção generalizada. Seu corpo foi cremado ontem, no Memorial do Carmo, no Rio de Janeiro, em cerimônia que reuniu familiares e uma legião de admiradores e amigos.

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segunda-feira, 2 de março de 2026

O SUPREMO RISCO DE OS HERÓIS VIRAREM VILÕES

Bruno Carazza, Valor Econômico

Supersalários, contrato com escritório de familiares, transações milionárias e blindagem corporativista criam caldo de cultura para revolta

Passados mais de dez anos, até hoje se discute por que um aumento de vinte centavos na passagem de ônibus levou milhões de pessoas às ruas de todo o país em junho de 2013.

Assim como acontece na química, certos fenômenos históricos são fruto de uma energia acumulada que, a partir de uma faísca ou descarga elétrica, ultrapassa um ponto crítico e se precipita numa reação abrupta e violenta, abalando todo o sistema que parecia em equilíbrio.

Na quinta (26), o ministro Gilmar Mendes proferiu discurso em comemoração aos 135 anos do Supremo. Das onze páginas lidas em plenário, foram feitos uma reconstituição histórica da atuação do STF desde a proclamação da República, uma autoelogiosa pregação sobre sua atuação nos últimos anos e, por fim, um ataque àqueles que, na sua visão, criticam injustamente as práticas da Corte.

É inegável o papel que os ministros do Supremo tiveram ao afirmar a autonomia dos governadores e prefeitos contra a atitude negacionista do governo Bolsonaro durante a pandemia de covid-19.

Da mesma forma, o STF não se curvou ao medo das fardas e dos tanques e, de forma inédita, condenou um ex-presidente e seus auxiliares de alta patente nas Forças Armadas por tentativa de golpe de Estado.

Por terem “literalmente, salvado milhares de vidas” e ao evitarem “a debacle da democracia brasileira”, os ministros do STF deveriam, no entender do ministro, ser tratados com “maior parcimônia” pela imprensa brasileira.

“Caso um alienígena chegasse ao Brasil e acompanhasse apenas o noticiário dos últimos dias, ele provavelmente imaginaria que todos os problemas do país se restringem ao Supremo, e que essa seria a única instituição brasileira a merecer aprimoramentos”, considerou Gilmar Mendes.

Para o decano do STF, “um profundo senso de dever público (...) guia a atuação de cada um de seus integrantes”, que exercem seu trabalho “com altivez e integral dedicação - muitas vezes sob um custo pessoal altíssimo e pesados sacrifícios individuais em prol do país”.

Também não haveria por que questionar a conduta de seus colegas de Corte: “a impessoalidade e independência que caracterizam nossa atuação não se dobram a pressões e interesses de qualquer natureza”, assegurou.

Quem lê essas palavras deve se questionar, isso sim, em que planeta vive Gilmar Mendes. Afinal, os acontecimentos dos últimos meses exigem esclarecimentos sobre dois dos membros do Supremo - mas as decisões tomadas pelos seus pares vão na direção oposta, da defesa corporativista dos colegas sob suspeita.

Quando investigações policiais (e não uma imprensa ressentida, como insinuou Gilmar Mendes) revelam que um réu fazia pagamentos mensais de R$ 3,6 milhões para o escritório da esposa e dos filhos de um ministro e o mesmo acusado realizou aportes de R$ 35 milhões num empreendimento que tinha outro ministro e seus irmãos como sócios, é urgente que as duas autoridades venham a público demonstrar que essas relações não são o que toda a sociedade desconfia: pagamento de propina em troca de proteção judicial.

Ao silêncio constrangedor dos ministros se soma a cumplicidade na resposta que o STF tem dado aos casos.

Afastar Dias Toffoli da relatoria do processo do Master não elimina as dúvidas sobre as suas relações com Daniel Vorcaro. Pior ainda foi a decisão de Gilmar Mendes de vetar a quebra de sigilo fiscal e bancário da empresa do ministro pela CPMI do Crime Organizado.

Aliás, o mesmo Gilmar Mendes que no discurso de 135 anos do STF louvou o habeas corpus como “escudo universal contra qualquer violência ou coação por ilegalidade ou abuso de poder” usou do mesmo instrumento para travar uma investigação parlamentar sobre uma possível ilegalidade ou abuso de poder praticada por seu colega.

Na mesma preleção, Gilmar Mendes também destacou - numa fala de improviso, não registrada no discurso oficial - “a importância histórica do inquérito das fake news”. Esse mesmo expediente, de tão questionada legalidade, foi usado pelo mesmo ministro Alexandre de Moraes para constranger, com uma investigação policial, servidores da Receita Federal acusados de pesquisar dados sobre integrantes do STF e seus parentes.

Enquanto a mancha da suspeição se espalha sobre todo o STF, entidades da sociedade se mobilizam. Na semana passada a OAB pediu publicamente o fim do inquérito das fake news. Hoje, diversas entidades se reúnem na Faculdade de Direito da USP para proclamar que “ninguém está acima da lei”.

É preciso que o STF se mova antes que seja tarde demais. Um caldo de cultura, fermentado com notícias diárias sobre supersalários na magistratura, se forma contra o Poder Judiciário brasileiro.

As eleições de outubro para o Senado terão como principal tema a necessidade de fazer o impeachment de ministros do STF. E a população brasileira está a ponto de aderir a qualquer populista que se levantar à direita com uma motoserra ou à esquerda com eleições diretas para a escolha de juízes, como aconteceu na Argentina e no México.

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PT AGUARDA ALIANÇAS COM PARTIDOS PARA ANUNCIAR PALANQUES

Sofia Aguiar e Caetano Tonet / Valor Econômico

Estratégia é diferente da adotada pelo PL, que tem anunciado acordos nos Estados

Enquanto o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL-RJ), anuncia os palanques na disputa eleitoral deste ano, a estratégia adotada pelo PT e pelo governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é esperar para divulgar os nomes para os quais fará campanha depois de fechado o maior número de alianças nos Estados.

A avaliação de fontes da legenda é de que Lula busca negociar o apoio ou a neutralidade dos grandes partidos “no atacado”, e não “no varejo”. Para isso, a estratégia é colocar o presidente do PT, Edinho Silva, para percorrer o país dialogando com as legendas, mas com as decisões ficando sempre na caneta do atual chefe do Executivo.

A avaliação interna é que Lula precisa ter segurança quanto às indicações e à consolidação dos palanques antes de qualquer anúncio. Por isso, o processo não deve ser acelerado, mesmo com Flávio tornando públicos seus apoios. A expectativa é que o desenho geral com a chancela petista seja fechado entre o fim de abril e o começo de maio.

Segundo fontes, a definição do presidente precisa ser amplamente alinhada, de modo a evitar brechas para críticas de aliados ou episódios de fogo-amigo. A estratégia é blindar a montagem das chapas para preservar inclusive a imagem de Lula, que tentará reeleição.

Aliados do chefe do Executivo minimizam o documento divulgado na semana passada com os cotados por Flávio no cenário de aliança nos Estados. As fontes avaliam que alguns dos nomes que estão nos papéis do senador não estarão no palanque de Lula, como a governadora de Pernambuco, Raquel Lyra (PSD). Ela deve concorrer contra o prefeito de Recife, João Campos (PSB).

Outro motivo para Lula não ter pressa é a federação formada por União Brasil e Progressistas. Os partidos têm como objetivo aumentar suas bancadas no Congresso e, para isso, não podem ficar fechados contra Lula, principalmente no Nordeste. Dessa maneira, o PT articula individualmente cada Estado, o que acaba adiando a conclusão o processo de construção das chapas.

“Lula está tentando trabalhar com presidentes de partidos, no âmbito nacional, alianças e neutralidades numa tentativa de obter um efeito cascata para chegar aos Estados”, afirmou uma fonte do PT.

Apesar da cautela adotada, interlocutores da sigla reconhecem que o impasse em Estados estratégicos está travando o processo. Um dos exemplos é o maior colégio eleitoral do país, São Paulo. Nos últimos meses, Lula negocia para que o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, saia como candidato ao Palácio dos Bandeirantes. No cenário, tido como “ideal” pelos petistas, as ministras Marina Silva (Rede) e Simone Tebet (MDB) seriam as candidatas ao Senado. Marina negocia voltar ao PT para concorrer e Simone poderá se filiar ao PSB.

O presidente também acompanha de perto, segundo aliados, a tentativa do PL de emplacar André do Prado, presidente da Assembleia Legislativa de São Paulo, como vice do governador Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP), que tentará a reeleição. A aposta é que, se confirmado o movimento, a saída do atual vice-governador, Felício Ramuth (PSD), abra as portas para a legenda comandada por Gilberto Kassab não entrar de cabeça na campanha de reeleição do governador paulista e, consequentemente, não trabalhar para Flávio no Estado.

Em Minas Gerais, apesar de as negociações com o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) estarem avançadas para que ele saia como nome ao governo apoiado por Lula, petistas dizem que ainda falta uma confirmação pública do parlamentar para caminhar com as indicações para os demais postos. Isso porque, segundo interlocutores, bater o martelo em torno do candidato à gestão mineira é peça fundamental para destravar tanto a escolha do vice quanto do Senado.

Coordenador da campanha de Flávio, o senador Rogério Marinho (PL), líder da oposição no Senado, afirmou ao Valor que a ideia é acelerar o processo de escolha dos palanques estaduais. “Onde não for possível, vamos aguardar. Existem várias ações que precisam ser implementadas e que naturalmente vão ficar muito mais fáceis se a gente for definindo os palanques estaduais”, disse.

Para ele, eventuais dificuldades de composição, como no caso de Santa Catarina, onde a chapa para reeleição do governador Jorginho Mello (PL) terá Carol de Toni e Carlos Bolsonaro ao Senado, todos do PL, excluindo o senador Esperidião Amin (PP), se justificam pelo crescimento da legenda. “Se nós fôssemos um partido como o PT, que só tem a cabeça e não tem corpo, não teríamos essa dificuldade. Teríamos a possibilidade de fazer uma negociação bem mais confortável em cada Estado da federação”, comentou.

Marinho vê com naturalidade que partidos, como o União Brasil e o PP, acomodem seus apoios nos Estados ao lado tanto de Flávio quanto de Lula, a depender da circunstância local.

“Isso cai para os dois lados e é absolutamente normal. Na hora em que as definições acontecerem, você só precisa fazer uma conta de somar e acertar mais do que errar. O Flávio tem sido muito aberto nesse processo de composição”, declarou.

Sobre a questão da disputa pela vice de Tarcísio poder afastar eventualmente o PSD de Flávio, Marinho argumenta que a legenda de Kassab tem candidatura à Presidência e, por isso, eventuais costuras ficam para o segundo turno. “A circunstância da campanha é quem vai dizer como os partidos vão se comportar”, disse.

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O MUNICÍPIO É O PROTAGONISTA

Preto Zezé, O Globo

Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade

Em ano eleitoral, o foco se volta para políticas públicas concretas, e não apenas para candidatos. A intenção é analisar experiências que possam se tornar parte de uma agenda de Estado contínua, pois é no município que a política se torna realidade, impactando diretamente a vida das pessoas. O debate sobre desenvolvimento no Brasil, geralmente centrado em Brasília e nos estados, raramente considera o município como protagonista. Maricá, no Rio de Janeiro, desafia essa lógica.

A cidade usa os royalties do petróleo como ferramenta de reorganização estrutural, buscando se posicionar como centro de inovação social e econômica. Maricá desenvolveu o maior ecossistema integrado de políticas sociais do país, incluindo a Renda Básica de Cidadania (com a Moeda Social Mumbuca, que atende 32 mil famílias), a Tarifa Zero no transporte, o Restaurante Popular e o Passaporte Universitário.

O diferencial está na interconexão dessas políticas. A moeda social fortalece a economia local, a mobilidade amplia o acesso ao trabalho, e a educação qualifica a população. As transferências de renda são vistas como ponte para a autonomia, não como dependência. A estratégia reconhece a importância da economia informal e dos pequenos empreendedores, resultando na abertura de novas empresas e na busca pela diversificação produtiva, com projetos como o Porto de Maricá e o complexo hoteleiro Maraey, que somam bilhões em investimentos e preparam a cidade para o futuro pós-royalties.

A vitória da União de Maricá — que ganhou a Série Ouro e desfilará no Grupo Especial do Rio em 2027 — é exemplo do sucesso do investimento contínuo em cultura e economia criativa, gerando visibilidade, renda e fortalecendo a identidade local. O carnaval é tratado como cadeia produtiva, uma política pública bem-sucedida que projeta a marca da cidade e reforça o sentimento de comunidade.

Maricá investiu na integração com as forças policiais estaduais, no monitoramento por câmeras inteligentes e na regulamentação do porte de arma para a Guarda Municipal, tratando segurança pública como infraestrutura essencial ao desenvolvimento econômico. O turismo também foi reposicionado como política de Estado, com foco na diversificação e na inserção global.

A continuidade dessas políticas ao longo do tempo criou um ambiente de previsibilidade social e segurança jurídica, algo raro no Brasil. A população, o comércio e os investidores se beneficiam do cenário estável. Maricá funciona como laboratório de transição entre proteção social e desenvolvimento econômico, entre subsídio e crescimento.

Para construir uma agenda pública que realmente reduza desigualdades, é preciso olhar para as cidades. O futuro do desenvolvimento brasileiro pode estar mais próximo do municipalismo do que se imagina. Maricá oferece um repertório valioso que merece ser estudado e compreendido em profundidade.

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domingo, 1 de março de 2026

OPERAÇÃO SABOTAGEM

Bernardo Mello Franco, O Globo

Sem força para derrotar proposta em ano eleitoral, partidos pedem apoio a empresários para impedir votação

A direita decidiu cerrar fileiras contra o fim da escala 6x1. Na semana que passou, três presidentes de partido atacaram a ideia de mudar a lei para que todo trabalhador tenha direito a dois dias de descanso por semana. As falas revelam mais sobre a mentalidade da turma do que sobre o mérito da proposta.

O chefão do União Brasil, Antonio Rueda, definiu a mobilização como “um desatino”. “É muito danosa para a economia e o setor produtivo”, decretou, sem mencionar os trabalhadores. O dono do PL, Valdemar Costa Neto, disse que o fim da escala 6x1 seria “uma bomba” e se solidarizou com a classe dirigente: “Não é fácil para os empresários que já reclamam dos nossos impostos e tudo mais”.

Em jantar com endinheirados em São Paulo, os dois políticos prometeram se empenhar para impedir a mudança. “A gente tem que ter inteligência e segurar essa votação”, afirmou Rueda. “Vamos trabalhar para não deixar votar. Vamos dar a vida para isso”, empolgou-se Valdemar, sob aplausos da plateia.

Num acesso de sinceridade, a dupla admitiu que a única forma segura de barrar a proposta é sabotar sua tramitação. “Se puser em pauta, é muito difícil não passar”, reconheceu o dono do PL. “Se for a plenário, vai ser avassaladora (a aprovação)”, emendou o capo do União Brasil.

Com a experiência de quem renunciou a dois mandatos de deputado para não ser cassado, Valdemar avisou que o debate na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara será “uma guerra”. Faltou dizer que do outro lado estarão trabalhadores desarmados, que não administram verbas milionárias do fundo partidário e só vão a jantares de bacanas na condição de garçons.

As vítimas da escala 6x1 costumam ralar muito e receber pouco. Ganham a vida em ofícios como como balconista, caixa de supermercado, motorista de ônibus, frentista e auxiliar de limpeza. Sem perspectiva de melhorar a renda, esses trabalhadores passaram a sonhar com mais tempo para descansar e conviver com a família. É uma demanda justa, mas há quem prefira tratá-la com desprezo.

Em entrevista à Folha de S.Paulo, o presidente do Republicanos, Marcos Pereira, declarou que “ócio demais faz mal”. “A população vai fazer lazer onde? O povo não tem dinheiro, infelizmente. Vai ficar mais exposto a drogas, a jogos de azar”, desdenhou. Deputado e bispo da Igreja Universal, ele comanda o partido do presidente da Câmara, Hugo Motta, e do governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas.

Desde que o tema entrou na pauta, nas eleições de 2024, entidades patronais repetem previsões apocalípticas sobre o fim da escala 6x1. Trombeteiam um futuro de quebradeira, demissões em massa e derretimento do PIB. O terrorismo econômico não tem surtido efeito nas pesquisas, o que talvez explique a mudança de discurso dos últimos dias.

No jantar com os grã-finos paulistas, Valdemar conclamou o lobby empresarial a impor sua força em Brasília. “Temos que trabalhar para não deixar votar de jeito nenhum. Pedir a pressão dos empresários em cima de seus deputados”, disse, enfatizando as quatro letras do pronome possessivo.

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sábado, 28 de fevereiro de 2026

MORRE DENNIS CARVALHO

Do g1 Rio

Dennis Carvalho, ator e diretor, morre aos 78 anos no Rio

Um dos nomes mais influentes da televisão brasileira estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio.

O ator e diretor Dennis Carvalho, um dos nomes mais influentes da televisão brasileira, morreu na manhã deste sábado (28), no Rio de Janeiro, aos 78 anos.

Entre muitos programas de sucesso, Dennis dirigiu as novelas Vale TudoDancin DaysFera FeridaO Dono do MundoCelebridade Paraíso Tropical. Como ator, também teve papéis em produções marcantes como Roque Santeiro, Brega e Chique entre outras.

Dennis estava internado no Hospital Copa Star, em Copacabana, na Zona Sul do Rio. A unidade de saúde confirmou o falecimento do diretor. A causa da morte não foi divulgada.

"O Hospital Copa Star confirma com pesar o falecimento de Dennis de Carvalho neste sábado e se solidariza com a família, amigos e fãs por essa irreparável perda. O hospital também informa que não tem autorização da família para divulgar mais detalhes."

Em dezembro de 2022, Dennis foi internado com septicemia – infecção generalizada. Alguns dias depois ele teve alta hospitalar após evolução positiva em seu quadro clínico.

O corpo do ator e diretor será velado em um cemitério na Zona Portuária do Rio na manhã deste domingo (1º), em uma uma cerimônia de despedida reservada exclusivamente à família e amigos próximos.

Dennis Carvalho teve trajetória marcada por sucessos tanto diante das câmeras quanto nos bastidores.

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Início da carreira

A relação de Dennis com a televisão começou em meados da década de 1960. Ele passou pela TV Paulista e pela TV Tupi antes de chegar à TV Globo, em 1975. Na emissora, foi contratado inicialmente para atuar na novela “Roque Santeiro”, cuja exibição acabou proibida pela censura na época.

Foi em “Locomotivas” (1977), interpretando o personagem Netinho, que teve a primeira experiência como diretor, conduzindo cenas nas semanas finais da trama. A partir dali, consolidou uma carreira dupla que marcaria sua trajetória artística.

No seriado “Malu Mulher” (1979), deu vida a Pedro Henrique e aprofundou sua vocação para a direção. Dennis costumava lembrar que aproveitava os intervalos das gravações para aprender com o diretor Daniel Filho, acompanhando de perto o trabalho técnico nos estúdios.

Diretor de sucessos

Ao longo das décadas seguintes, Dennis Carvalho dirigiu algumas das produções mais emblemáticas da teledramaturgia brasileira.

Sua parceria com o autor Gilberto Braga resultou em obras como “Vale Tudo” (1989), “Anos Rebeldes” (1992) e “Celebridade” (2003). Os trabalhos são considerados marcos da televisão por abordarem temas políticos e sociais e promoverem inovações na linguagem de direção.

Dennis também esteve à frente de novelas como “Babilônia” (2015) e “Segundo Sol” (2018), além de ter participado de inúmeros outros projetos na TV Globo.

Conhecido pelo estilo firme nos estúdios, popularizou bordões como “Fora, Vídeo Show!” e o característico “Silêncio!”, ao iniciar gravações.

Formador de diretores

Além dos trabalhos autorais, Dennis Carvalho foi reconhecido como um dos principais formadores de diretores da emissora. Diversos profissionais que hoje ocupam posições de destaque na dramaturgia passaram por sua equipe e destacam a influência dele na formação técnica e artística.

Seu método de trabalho combinava rigor técnico e criatividade. Ao mesmo tempo, colegas ressaltam o bom humor nos bastidores, marcado por brincadeiras com elenco e equipe.

Ao longo da carreira, Dennis Carvalho atuou e dirigiu produções que marcaram gerações de telespectadores. Sua contribuição ajudou a moldar a linguagem da novela brasileira e consolidou padrões estéticos e narrativos que influenciaram a televisão nas décadas seguintes.

A morte do artista encerra uma trajetória de mais de cinco décadas dedicadas à dramaturgia nacional. Ele deixa familiares, amigos, colegas de profissão e um legado considerado fundamental para a história da TV no Brasil.

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sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

O CONGRESSO É RESPONSÁVEL POR NOSSO FUTURO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

O fortalecimento do Legislativo nos últimos dez anos não produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país

A eleição presidencial já está na rua e vem a pergunta que não quer calar: qual é o plano de governo dos principais candidatos? Será muito importante cobrar os presidenciáveis para que tenham uma plataforma consistente, centrada nos principais problemas do país e voltada para uma construção de uma agenda congruente com os desafios do século XXI. Porém, de nada adianta construir um bom projeto nacional se o Congresso Nacional não acompanhar esse processo, pois uma enorme frustração virá no dia seguinte ao da posse presidencial. Não há como almejar um futuro com essa dissociação.

Aqui está uma das maiores fissuras do sistema político brasileiro: eleitos de forma muito fragmentada e, em sua maior parte, com propostas localistas ou muito voltadas a grupos de interesses específicos, os congressistas em geral não têm uma visão ampla sobre os problemas e possíveis soluções do país. Pode-se retrucar que isso caberia aos partidos políticos. Só que no atual modelo institucional as legendas partidárias não congregam seus candidatos em torno de um programa coerente que enfrente os principais desafios do Brasil.

Em outras palavras, o individualismo míope da maioria dos deputados e senadores não se deve apenas à sua eleição orientada por temas paroquiais ou com grande restrição temática. Ele se relaciona fortemente com partidos que juntam pessoas em torno de ideais muito vagos e contra grupos adversários, mas não conseguem nem desejam ter uma proposta crível de país que possa ser cobrada pela sociedade.

As agremiações partidárias, salvo raras exceções, têm preferido aumentar o seu bolo no financiamento público, o que significa ter de procurar políticos com mais votos, e no máximo criam uma diferenciação genérica dentro da polarização política maior, ainda dominada pela oposição entre lulistas e bolsonaristas.

Sem reduzir significativamente o divórcio entre a eleição presidencial e a representação parlamentar nacional, o Brasil terá muitas dificuldades para enfrentar os problemas do presente e, sobretudo, para construir um projeto de futuro. A elite da classe política é responsável por essa anomalia, contudo ela só sairá de sua posição cômoda caso a sociedade cobre uma transformação dos candidatos e das instituições.

O primeiro passo é organizar a sociedade, em todo o país, para acompanhar mais as campanhas a deputado federal e a senador, independentemente da coloração partidária. Evidente que é essencial monitorar as eleições do ponto de vista do uso dos recursos públicos, como algumas ONGs já fazem e devem continuar fazendo. Só que é fundamental ampliar o foco para a cobrança em torno de temas essenciais ao país, sobretudo em relação ao nosso futuro. O papel de estimulador de debates de questões centrais, inclusive de conteúdo polêmico, deve ser exercido pela sociedade civil e a mídia. Obviamente que os candidatos precisam falar com seu público local para obter votos, mas os projetos no Congresso Nacional vão muito além dos temas paroquiais ou corporativos.

A capacidade de expandir além do local as campanhas ao Legislativo nacional é o grande desafio. Sempre haverá mais espaço para as questões regionais, ainda mais numa federação tão grande, heterogênea e desigual. Isso se amplificou com o crescimento da importância das emendas parlamentares, que ganharam uma dimensão de muitos milhões para cada deputado e senador individualmente. Eis aqui mais um dos efeitos deletérios do aumento desmedido do emendismo no orçamento federal: a piora da qualidade do debate eleitoral. A nação ficou mais longe do interesse dos candidatos à reeleição para o Congresso.

O reforço do localismo convive ainda com múltiplas formas de organização de interesses específicos. São evangélicos, sindicalistas, defensores do agro, ambientalistas, feministas, a bancada da bala, entre outros. É bastante legítimo que grupos busquem defender as questões que representam. O problema é quando o Legislativo e os partidos se transformam apenas em aglomerados de posições fragmentadas que praticamente só falam sobre seus temas. O recrudescimento do isolacionismo temático é outro ponto de piora na democracia brasileira recente.

Na última década, algumas associações da sociedade civil procuraram atrair políticos de vários partidos por meio de cursos e palestras que apresentavam diagnósticos e prognósticos mais amplos sobre o Brasil. Houve alguns resultados interessantes, mas o impacto foi bem menor do que o imaginado inicialmente. Há ainda a formação realizada em movimentos sociais, universidades e fundações partidárias, porém, novamente, com efeitos pequenos na quebra das visões localistas e de isolacionismo temático.

Toda essa movimentação para qualificar e ampliar o foco dos candidatos ao Legislativo também não teve muito impacto na capacidade de gerar maior conversa entre os diferentes. Este é um outro mecanismo que obriga os parlamentares a não ficarem somente num individualismo míope derivado de sua expressão local ou temática. Ao contrário do que almeja o modelo democrático, o último quadriênio mostrou um Congresso mais conflagrado, incluindo a “tomada da Mesa da Câmara”, que foi a Bastilha da extrema direita. O comportamento beligerante aumentou tanto quanto a dificuldade de pensar conjuntamente o país, num cenário em que se veta mais do que se constroem novas soluções.

O fato é que o fortalecimento do Congresso Nacional nos últimos dez anos, tornando-o um Poder mais forte e com maior capacidade de barganha junto ao Executivo, não produziu uma instituição capaz de gerar uma agenda maior ao país. Não é o Congresso de Ulysses Guimarães, e sim o dos presidentes do sindicato dos congressistas. Nos seus piores momentos, houve muita aprovação de medidas que continuam reforçando o poder dos parlamentares, por vezes inclusive transformando-os em uma casta acima da sociedade.

Sim, tem havido votações e reformas importantes, como a tributária. Contudo, são medidas fragmentadas demais, por vezes contraditórias e sem uma visão sistêmica, que interligue os assuntos na resolução dos problemas da sociedade brasileira. Esse último ponto é um grande obstáculo para o enfrentamento dos desafios do século XXI, uma vez que as temáticas que vão definir o futuro não são monotemáticas. As questões climática, demográfica, da primeira infância, do uso da tecnologia para aumentar a eficiência governamental e a competitividade do país, entre outras, precisam de um olhar mais amplo, intersetorial e com perspectiva de atuação temporal de longo prazo para serem devidamente planejadas e equacionadas. Como esperar de um Congresso cada vez mais localista e isolacionista temático uma postura adequada aos desafios complexos que temos pela frente?

O Congresso Nacional, ademais, não é apenas o somatório dos partidos e representantes que ocupam suas cadeiras parlamentares. É possível escolher algumas temáticas complexas e essenciais ao futuro do país, de modo a produzir um debate maior com a sociedade, realizar estudos mais profundos - a equipe técnica de ambas as Casas é excelente - e propor diagnósticos que ancorem mudanças legislativas mais sistêmicas e voltadas ao longo prazo.

Um bom exemplo de uma construção institucional mais ampla foi o diagnóstico que a Assembleia Legislativa do Ceará produziu, em 2004, sobre a situação da alfabetização de suas crianças. O resultado desse estudo foi fundamental para a criação futura, em 2007, do Programa de Alfabetização na Idade Certa (Paic), política pública extremamente bem-sucedida e que tornou o estado referência na alfabetização no país.

Ora, por que o próximo Congresso Nacional não escolhe dois ou três temas estratégicos ao Brasil e faz um grande diagnóstico, com ampla participação da sociedade e de especialistas, para garantir um futuro melhor a todos nós? Isso traria efeitos extremamente positivos ao país e à própria imagem dos congressistas, vistos nas pesquisas de opinião como políticos que majoritariamente só pensam em si.

De todas as medidas que podem mudar o individualismo míope que predomina entre os congressistas, a mais importante passa por mudar a lógica atual dos partidos. A combinação da ampliação do emendismo com o crescimento vertiginoso do financiamento público gerou o recrudescimento das oligarquias partidárias, que nunca foram tão poderosas como agora em qualquer momento da redemocratização. Neste cenário, as legendas são máquinas de buscar votos dominadas por elites pouco controladas e transparentes. Alguns desses dirigentes, ressalte-se, estão no centro do escândalo do Banco Master, embora poucos eleitores saibam disso e ainda há poucas chances de punição ao modelo patrimonialista que cultivaram.

O espaço de pressão da sociedade junto às campanhas ao Legislativo e a discussão sobre o Congresso Nacional ter uma visão institucional mais voltada ao longo prazo são peças relevantes para mudar o individualismo míope dos parlamentares. No entanto, sem mexer com os incentivos que dominam o sistema partidário-eleitoral atual, será muito difícil termos partidos e congressistas que pensem para além de uma representação isolacionista e sem diálogo com os diferentes. O futuro do país precisa de um outro modelo de congressista, pois o presidente, quem quer que seja, não dará conta sozinho dos desafios do século XXI.

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ALÔ, ALÔ, EU VOU CHAMAR O MARQUETEIRO : SIDÔNIO !

Andrea Jubé, Valor Econômico

Diferença de 0,1 ponto percentual em pesquisa fez o chão tremer para a ala racional do PT

Ninguém irá passar recibo, mas a sucessão de reveses nos últimos dias dividiu o time lulista entre os sinceramente preocupados, os aflitos e os negacionistas. Estes minimizaram o resultado da pesquisa Atlas/Bloomberg, divulgada na quarta-feira (25), que mostrou pela primeira vez o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) numericamente à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva na simulação de segundo turno: 46,3% a 46,2%, respectivamente. Uma diferença de 0,1 ponto percentual, que fez o chão tremer para a ala racional do PT.

O levantamento que ouviu 4.986 pessoas entre 19 e 24 de fevereiro mostrou um crescimento relevante de Flávio em relação à rodada anterior, quando os percentuais eram de 49,2% para o petista e 44,9% para o adversário. O repórter especial do Valor César Felício observou que os números representariam o estrago na imagem de Lula provocado pelo desfile da “Acadêmicos de Niterói”, que na homenagem ao petista, fez críticas aos conservadores que a oposição transformou em ataques às famílias brasileiras, fazendo barulho nas redes sociais. Para a turma negacionista do PT, entretanto, a repercussão nas plataformas digitais teria sido obra de “robôs”.

Um dia depois da divulgação da pesquisa, a explosão de nervos com a aprovação na comissão parlamentar mista de inquérito (CPMI) do INSS da quebra de sigilo fiscal do filho mais velho do presidente, Fábio Luís Lula da Silva, ficou evidente com a troca de socos entre deputados no plenário da comissão, com transmissão em tempo real para todo o país.

A bancada governista recorreu do resultado, acusando o presidente da CPMI, senador Carlos Viana (Podemos-MG) de violar o regimento na apuração dos votos. Simultaneamente, entretanto, surgiu a notícia de que o relator do processo sobre as fraudes no Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), ministro André Mendonça, havia deferido a quebra do sigilo de “Lulinha”, a pedido da Polícia Federal (PF).

O cenário, na descrição de um petista escaldado pelas crises, é de bate-cabeça no governo e no partido. “Não tem comando, não tem [pré-]campanha nos Estados, não tem coordenação política”.

A percepção de um grupo é que a esquerda não bateu em Flávio até agora porque o “Palácio do Planalto quis escolher o candidato”. Ou seja, o senador, cheio de “esqueletos no armário” - mas que vem sendo poupado de ataques -, seria um adversário menos difícil do que o governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos). Em contrapartida, outra ala tem receio de perder o “timing” para começar a desconstruir o adversário do PL. E se for tarde demais? Outro governista calejado de crises minimiza o quadro: “a campanha nem começou”.

Nessa conjuntura de “vaca não reconhecer bezerro”, como diria um político dos grotões, a saída foi chamar o marqueteiro. O ministro da Secretaria de Comunicaçào Social, Sidônio Palmeira - que deverá se afastar do cargo em julho para assumir a coordenação da campanha lulista - é esperado para uma reunião com deputados do PT na próxima semana, a convite do novo líder, Pedro Uczai (SC).

Há apreensão com a indefinição dos palanques nos dois maiores colégios eleitorais. Nessa quinta-feira, circulou a notícia de que Lula teria convencido o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, a se candidatar ao governo de São Paulo. E o senador Rodrigo Pacheco (PSD-MG) também teria cedido aos apelos para concorrer ao governo de Minas Gerais, com o suposto apalavrado de que se não ganhar, seria a próxima indicação para o Supremo Tribunal Federal (STF).

Petistas se queixam da falta de comando na votação do PL antifacção, pela não exigência de votação nominal do destaque que excluiu a tributação de 15% sobre bets, que renderia R$ 30 bilhões para a segurança pública. Com a votação simbólica, o governo não pode apontar o dedo para quem se opôs ao recurso para o setor. Enquanto isso, um dos discursos de Flávio é de que o governo Lula seria omisso na segurança pública.

O PT também se irritou com a fala do ministro da Justiça, Wellington César Lima e Silva, que concordou com uma consulta popular sobre a redução da maioridade penal, prevista no relatório do deputado Mendonça Filho (União Brasil-PE) na proposta de emenda constitucional (PEC) da segurança pública.

A declaração contraria uma posição histórica do partido, e resultou em nota de repúdio da bancada do PT: “A proposta, além de politicamente retrógrada, incorre em teratologia jurídica, tendo em vista que os direitos fundamentais de crianças e adolescentes integram o núcleo intangível da Constituição Federal e, portanto, não são passíveis de deliberação por maiorias eventuais”.

Nos anos 90, o publicitário Washington Olivetto, morto em 2024, fundador da “W/Brasil”, convidou Jorge Ben Jor a compor uma música para o aniversário da agência. A letra tem críticas aos problemas do Brasil, da violência à política, mencionando o confisco de Collor: “Lá da rampa mandaram avisar/ Que todo dinheiro será devolvido/ Quando setembro chegar/Num envelope azul índigo/Chama o sindico! Tim Maia!” Num cenário de caos e reveses para o PT e para o Brasil, com a crise do Master assombrando os Poderes, a saída é chamar o marqueteiro. Alô, alô, lá vem o Brasil, descendo a ladeira.

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PENDURICALHOS NO SERVIÇO PÚBLICO LEMBRAM 'A REVOLUÇÃO DOS BICHOS'

José de Souza Martins, Valor Econômico

Privilégios evidenciam a sobrevivência de arcaísmos dos tempos coloniais

“A revolução dos bichos”, de George Orwell, é um desses livros que a gente lê com a estranha sensação de que já o havia lido e até mesmo de que já esteve no lugar ali descrito e até presenciou os acontecimentos ali ocorridos. O livrinho trata do poder das entrelinhas e do avesso na edificação da lógica perversa e oculta da dominação política fora dos marcos da grande herança da Revolução Francesa.

A familiaridade que a leitura nos sugere dá a impressão de que Orwell esteve no Brasil (ou Brazil?). Não só a gente já viu isso, mas ainda está vendo.

Tudo começa com uma insurreição dos bichos da chácara de Mr. Jones. Preguiçoso e bêbado, ele descuidava dos animais e os maltratava. Os animais haviam espalhado que Major, um porco premiado, tinha tido um sonho que gostaria de contar a todos logo que o dono da granja fosse dormir. E começou: “Será esta nossa terra tão pobre que não ofereça condições de vida decente aos seus habitantes?”. Ressaltou as condições adversas em que viviam os animais: “A vida do animal é feita de miséria e escravidão: essa é a verdade nua e crua”.

Para encurtar a história, que é mera epígrafe, eles decidem se revoltar, expulsar o dono, mudar o nome da granja para dar-lhe um sentido social, revogar várias normas opressivas. Dividem o trabalho, reorganizam a sociedade.

Numa ampla parede do estábulo, lugar da reunião, um dos animais, que sabia escrever, anotou, em letras bem legíveis, sete mandamentos sugeridos democraticamente pelos animais. Tinham por referência avessa os homens e suas maldades. Uma espécie de constituição da sociedade que estava sendo criada pelos insurgentes.

O sétimo e último mandamento dizia significativamente: “Todos os animais são iguais”. Como no artigo 3º da Constituição brasileira de 5 de outubro de 1988: “Todos são iguais perante a lei, sem distinção de qualquer natureza...”.

Lá, tudo corria bem. Aqui, nem tanto. Os animais estavam felizes. Quase todos os animais foram alfabetizados. Talvez por isso aguçaram a sensibilidade, desenvolveram uma personalidade mais atenta e lúcida, chegaram ao pensamento crítico, que alerta contra a tirania e assegura a igualdade dos animais.

De repente começaram a notar que havia coisas diferentes do combinado. Um dia, ao voltarem do trabalho no corte do feno, perceberam que o leite havia desaparecido. Mais adiante, descobriram que estava sendo misturado com a ração dos porcos que agora administravam o novo país da igualdade. E foram notando que havia uma certa desigualdade na distribuição dos frutos do trabalho de todos. Aos poucos, justamente em nome dos valores dos sete mandamentos, grandes mudanças implantadas pelos porcos foram sendo feitas na granja, que voltava a ser basicamente a mesma da época de Jones.

Os mandamentos, interpretados pelo avesso, asseguravam privilégios aos porcos, para o fingimento de que, no formato imaginariamente invertido, serviam ao bom cumprimento dos valores sociais neles proclamados. Já aqui, avessos estão nas emendas constitucionais e nos penduricalhos. De modo que surgiram indícios e boatos de promiscuidade entre animais e homens.

Um dia os bichos resolveram conferir os mandamentos escritos na parede do estábulo para ver se as surpresas e apreensões resultavam de algo que lhes havia escapado quando os ditaram para que fossem escritos. Agora, havia um só mandamento: “Todos os animais são iguais, mas alguns são mais iguais”.

Os bichos foram, então, conferir a notícia da convivência de porcos com os homens, “mas já era impossível distinguir quem era homem, quem era porco”.

Em dias recentes, notícias de corte de penduricalhos em vencimentos de servidores públicos em diferentes poderes chamaram atenção para o fato de que privilégios patrimoniais no serviço público evidenciam a sobrevivência de arcaísmos dos tempos coloniais, sem contar os inventados pela própria República. Com uma característica, ao que parece muito nossa. Tudo tem nome que disfarça o fato de que se trata de aumento salarial ilegal para alguns, mas não para todos.

Temos no Brasil indicações históricas da variação da categoria dos mais iguais. Como em “A revolução dos bichos”, ser mais igual não é para os ínfimos. Não é para os crédulos das procissões falsamente religiosas para viabilizar a ilegalidade de manifestações partidárias. Não é vestir cueca e calcinha de tecido verde e amarelo para fingir patriotismo e participar de demonstrações politicamente destrutivas, como a da intentona de 8 de janeiro de 2003.

É preciso ter poder e estar no poder para ser mais igual. Quando os animais descobrem, tardiamente, que não há diferença entre quem é gente e quem é porco, confirma-se o fato consumado que gente virou porco.

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CRISE PARA ALÉM DAS ELEIÇÕES

Artigo de Fernando Gabeira

Conversando com um amigo sobre o futuro, sem nenhuma pretensão de prevê-lo com rigor, afirmei que, infelizmente, as eleições deste ano não resolvem a crise que a democracia vive no Brasil.

Para começar, uma das instituições mais criticadas, o Congresso, deve emergir da disputa com uma configuração semelhante à que está aí. O mecanismo das emendas parlamentares, que hoje avançam sobre o Orçamento, não é apenas irracional e vulnerável à corrupção. Ele é uma garantia da continuidade de deputados e senadores.

Na verdade, é possível que o Senado se posicione mais à direita ainda porque há uma estratégia de aumentar o número de senadores para solucionar outra crise institucional: a do Supremo Tribunal Federal (STF).

Nesse caso, é uma tentativa de punição de alguns ministros pelo caminho do impeachment. Há outras propostas para tratar o caso do Supremo. Uma delas foi apresentada pelo jurista Walter Maierovitch, que propõe emenda constitucional para reformular a Corte, com mandatos de nove anos. O que fazer com os ministros que só se aposentariam com 75 anos? Seriam colocados em disponibilidade. Iriam para o banco, para usar uma linguagem de futebol. Emenda constitucional dessa envergadura só seria apresentada por um presidente que fosse muito forte e que estivesse disposto a comprar essa reforma.

Acontece, portanto, que tanto o Congresso quanto o STF são de difícil reforma e não podemos contar com isso para 2027. Resta indagar se as eleições conseguem equacionar o problema da segurança pública no Brasil. Ele depende da conjugação das forças federais, estaduais e municipais. Isso pode ser conseguido por meio de emenda constitucional. E deverá ocorrer.

O problema, no entanto, é mais profundo. Como vencer as desconfianças entre as polícias locais e a Polícia Federal? Será preciso um intenso trabalho de articulação. Um trabalho desse tipo anda muito melhor quando orientado pelo presidente.

Lula é o favorito. Terá 80 anos ao vencer. Muitos questionam sua saúde para exercer um cargo desse tipo. Também já tive 80 anos e acho que ele consegue com os recursos que tem, superar tranquilamente esse obstáculo. Nessa análise, numa mesa de bar, simplesmente ignorei a idade de Lula. Minha pergunta não é se Lula terá saúde, mas se terá paciência.

Nesse terceiro mandato, já demonstrou uma ligeira fadiga com as articulações políticas, principalmente com deputados e senadores. A conjuntura internacional o empurrou para uma série de viagens pelo mundo. É necessária, porque a abertura de novos mercados, que era importante em si, tornou-se mais decisiva ainda com os rompantes de Trump.

Num mundo efervescente, as viagens devem continuar sendo um tópico importante na agenda. Muda-se de clima, vê-se um novo país, mergulha-se em nova cultura. Mas com o tempo, essas experiências tornam-se previsíveis, não tanto quanto uma conversa com deputados, mas com menos encanto do que agora.

Paradoxalmente, é possível que se tenha um presidente com menos paciência, num país mais complexo e nervoso, portanto mais impaciente. Chegará um tempo em que o presidente terá de tomar grandes decisões num país em crise. Alguns dos seus aliados podem avaliar a crise como estrutural e aconselhá-lo a dar passos para a frente, rumo ao socialismo. De qualquer forma, serão necessários muita sabedoria e um governo enérgico para enfrentar o caos.

Nesse momento da análise, o amigo lembrou que as eleições ainda nem começaram, que haverá alguns debates importantes, alianças surpreendentes, sem contar com o fato de que a popularidade de Trump está em declínio. Sim, esses fatores são importantes e pode ser que com outras variáveis mais confortáveis, Congresso e STF consigam celebrar um imenso acordo que garanta sua sobrevivência sem sobressaltos. E o presidente eleito tenha apenas de tocar o barco, aparando uma ou outra aresta, empurrando com a barriga as questões insolúveis até agora.

De qualquer forma, será necessária muita paciência. Um cenário de monotonia não costuma ser frequente no Brasil.

Enquanto nada disso acontece, não há outro caminho, exceto lutar por um Congresso melhor, enfatizando a importância de uma boa escolha. E também lutar pela transparência em escândalos como o do Banco Master. É importante saber quem se envolveu, políticos e juízes. A verdade é que tudo o que sabemos sobre Dias Toffoli nos deixa mais confusos ainda: como é possível que se faça tudo que ele fez e não aconteça nada? Aí voltamos à crise do próprio STF, que se tornou uma Corte insustentável.

Vamos votar num presidente sabendo que não terá dinheiro para realizar seu programa. Com todos os senões, vamos adiante. É o que nos resta.

Artigo publicado no jornal Estadão em 27 / 02 / 2026

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ESPETÁCULO TURBINADO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Maior escândalo financeiro em ano de eleição hiperpolarizada aumenta a indefinição mas é Mendonça quem mais surpreende governo

A CPMI do INSS pautou e aprovou, no atropelo do regimento, a quebra do sigilo bancário e fiscal de Fábio Lula da Silva, filho do presidente da República. A mesma comissão sequer pautou a convocação de Letícia Caetano dos Reis, administradora do escritório de advocacia do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). Letícia é irmã de Alexandre Caetano dos Reis, sócio do empresário Antônio Carlos Camilo Antunes, mais conhecido como “Careca do INSS”. Os dois controlam uma empresa sediada nas ilhas Virgens Britânicas, suspeita de lavagem de dinheiro.

Na véspera, durante a sessão da outra CPI, a do Crime Organizado, no Senado, esta sob controle governista, a convocação de Letícia foi, pelo menos, pautada. Como o senador que propôs sua convocação não estava presente no momento em que foi requerida a defesa de seu requerimento, a proposição foi derrotada por 7 votos a 3.

Esta CPI do Crime Organizado aprovou outras três convocações referentes às fraudes nos benefícios dos aposentados. Já a do INSS aprovou 11 requerimentos referentes ao banco Master que tem dominado os trabalhos lá na CPI do Crime Organizado. Esta comissão convidou o atual presidente do BC, Gabriel Galípolo, e o ministro da Casa Civil, Rui Costa, mas convocou o anterior, Roberto Campos Neto, e o ex-ministro da Economia Paulo Guedes, tornando o comparecimento compulsório.

Essas comissões se confundem nos seus propósitos e convocações, entre outras razões, porque este é um ano eleitoral e o maior escândalo financeiro da história do país é alvo de um inquérito no Supremo Tribunal Federal. Presidentes e relatores destas comissões, o senador Carlos Viana (Podemos-MG) e o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL), na CPMI do INSS, e o senador Fabiano Contarato (PT-ES) e o senador Alessandro Vieira (MDB-SE), na CPI do Crime Organizado, buscam a recondução dos seus mandatos. A exceção é Gaspar, que sonha mais alto. Quer derrubar seja o deputado Arthur Lira (PP-AL), seja o senador Renan Calheiros (MDB-AL) na disputa pelo Senado do seu Estado.

Todo ano de eleições gerais é a mesma coisa. As CPIs, que já têm vocação para o palco na era das redes sociais, têm um incentivo exponencial para o espetáculo em ano eleitoral. O ministro André Mendonça, que conduz tanto o inquérito do INSS quanto o do Master, no Supremo Tribunal Federal, baixou algumas das cortinas ao tornar facultativo o depoimento dos irmãos do ministro Dias Toffoli na CPI do Crime Organizado. Pautou-se na jurisprudência do Supremo. Por outro lado, liberou a quebra de sigilo bancário e fiscal de Lulinha, com uma fundamentação desconhecida uma vez que a decisão está em segredo de justiça.

O governo, aparentemente, foi pego de surpresa pela informação de que o sigilo de seu filho já havia sido quebrado pela PF por autorização de Mendonça, em janeiro passado. Ao assumir o inquérito do Master, o ministro disse que proibiria o compartilhamento de informações para superiores hierárquicos, na PF, da mesma forma que o fez no inquérito do INSS, do qual também é relator. Com o diretor-geral da PF excluído do que se passa na investigação do Master, não custará ao Palácio do Planalto ser também surpreendido pela condução do inquérito. Se Mendonça não tem motivos para proteger Lula, Flavio Bolsonaro tampouco pode ser considerado um nome de sua predileção. O senador trabalhou contra sua indicação e aprovação para o Supremo, em 2021. É um jogo mais sutil do que aquele que se passa no Congresso.

As CPIs estão incorporadas ao grande circo das operações anticorrupção que varrem o país há décadas. Noves fora a espetacularização, aproximam o cidadão comum de investigações que, no mais das vezes, correm em segredo de justiça ou cifradas no hermetismo da linguagem dos tribunais. O que há de se perguntar é se, na balança entre espetáculo e esclarecimento, seu funcionamento em anos eleitorais não pende excessivamente para a primeira bandeja, deixando o leitor mais distante das luzes e dos fatos.

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quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

O BRASILEIRO É PREGUIÇOSO ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Nas entrelinhas da objetividade econométrica, encontra-se escondido o reavivamento acrítico do mito colonial da preguiça

Quando deixamos os números falarem sem contexto, o que nos resta é o mito e não a verdade

Eu li a matéria nesta Folha intitulada "Brasileiro trabalha menos que a média mundial" na voz manhosa de Macunaíma lamentando "Ai! Que preguiça!". Para o estudo que fundamenta a reportagem, o que explicaria o "desvio brasileiro" por menos trabalho seria, nota-se, uma "questão cultural", isto é, "uma preferência por mais quantidade de lazer". Imaginei Macunaíma, o preguiçoso herói sem nenhum caráter de Mario de Andrade, lendo isso sentado numa rede entre dois cajueiros onde dorme por dias a fio. Ai! Que preguiça!

Da literatura à colonização, o mito da preguiça do brasileiro foi historicamente cunhado pelas elites locais para justificar a exploração do trabalho alheio ou dela zombar. Massacrados, povos indígenas foram gradualmente substituídos no Brasil por africanos e seus descendentes não por uma inaptidão daqueles ao trabalho escravo, mas por ser mais conveniente controlar africanos traficados ao Brasil do que povos originários. Em "Coisa de Rico", Alcoforado mostra como ricos hoje dizem-se ocupados todo o tempo, e como tal mito meritocrático é central para diferenciação social.

O Brasil é o país que depois de mais de três séculos de açoite contra negros deu-lhes de presente um Código Penal de 1890 que previa punição de prisão a vadios, capoeiristas, mendigos e ébrios. Mais escala 6x1, menos "exercícios de agilidade e despreza corporal" nas "ruas e praças públicas". Mais trabalho, menos Carnaval. A ditadura de Vargas reproduziu o despautério como contravenção penal em 1941, criminalizando o ócio, e punindo-o com internação em colônia agrícola ou instituto de trabalho.

Interessa-me que, nas entrelinhas da objetividade econométrica, encontra-se escondido o reavivamento acrítico do mito colonial da preguiça em pleno século 21. Deixo aos economistas e técnicos a crítica aos números: brasileiro trabalha mais do que países desenvolvidos europeus, mais do que o esperado contando determinantes institucionais e a pesquisa ignora tempo de deslocamento que, em SP, chega a mais de 2h.

Quando deixamos os números falarem sem contexto, o que nos resta é o mito e não a verdade.

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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

A MILÍCIA NO BANCO DOS RÉUS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Julgamento do caso Marielle põe a milícia no banco dos réus

Investigação escancara ligação entre política, polícia e crime organizado no Rio

O julgamento do caso Marielle levou ao Supremo uma realidade conhecida dos cariocas: a ligação entre política, polícia e crime organizado.

A Procuradoria-Geral da República expôs a conexão dos irmãos Brazão, acusados de encomendar o assassinato da vereadora, com grupos armados que dominam territórios nas zonas Norte e Oeste do Rio. Esses laços não são novos. Já haviam sido mapeados pela CPI das Milícias, concluída em 2008.

Depois daquela investigação, o clã continuou a expandir seu poder. Domingos Brazão, que era deputado estadual, foi alçado a conselheiro do Tribunal de Contas do Estado. Chiquinho Brazão, então vereador, chegou a Brasília como deputado federal. Agora os dois estão presos, mas o sobrenome continua na ativa. Manoel Inacio Brazão, que não é citado no caso Marielle, exerce o segundo mandato na Assembleia Legislativa.

Além de garantir votos, as milícias ajudaram a família a enriquecer à margem da lei. Segundo a PGR, os irmãos Brazão faturaram alto com a grilagem de terras nas regiões de Jacarepaguá e Rio das Pedras. Acumularam ao menos 87 imóveis, num esquema que envolvia uso de laranjas e falsificação de documentos.

Os pistoleiros eram recompensados com proteção política e nacos da máquina pública. A Polícia Federal descobriu que Domingos Brazão pendurou a mulher de um miliciano na folha de pagamentos da Alerj. Preso há dois anos, o conselheiro ainda recebe salário do TCE. Neste mês, seu contracheque chegou a R$ 56 mil brutos, incluindo R$ 14 mil em penduricalhos.

Para a Procuradoria, Marielle Franco foi morta porque enfrentou as milícias e se tornou um risco para os negócios do clã. A vereadora do PSOL pagou por não se render a uma estrutura de poder corrompida, que aposta na intimidação e no cinismo para se perpetuar.

Ontem o advogado de Chiquinho Brazão, Cleber Lopes, tentou naturalizar a convivência de detentores de mandato com o crime. “Quem faz política no Rio e nunca pediu voto para traficante ou para miliciano que atire a primeira pedra”, disse. Hoje a Primeira Turma do Supremo pode dar uma resposta a quem acha isso normal.

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terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

PAES TERÁ PALANQUE COM LULA E BOLSONARISTA 'FICHA SUJA'

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Indicada a vice na chapa, Jane Reis é irmã do cacique de Caxias

Estratégia é ampliar diálogo com evangélicos e avançar na Baixada

Em 2020, a advogada Jane Reis disputou a eleição à Prefeitura de Magé, na Baixada Fluminense, a 50 quilômetros da capital, com população de 228.127 habitantes, segundo o Censo 2022 do IBGE. O município se destaca na produção de mandioca. Jane obteve 7.966 votos, equivalente a 5,92% do total, ficando na sexta colocação, atrás dos candidatos Boneco e Sargento Lopes. Seis anos depois, ela pode se tornar a vice-governadora do Rio de Janeiro, se as pesquisas que indicam o favoritismo de Eduardo Paes nas eleições de outubro se confirmarem.

Pode-se dizer que Jane era a mandioca que faltava à farofa eleitoral de Paes. Apresenta a opção de uma mulher na chapa majoritária, aumenta o diálogo com os evangélicos (Jane tem ligação com a Assembleia de Deus), incorpora o MDB à coligação PSD-PT e avança na Baixada e no interior. Além disso, o movimento é uma tentativa de minar a força do bolsonarismo no estado que o viu nascer.

É, no entanto, uma aposta arriscada. Nome desconhecido da população, Jane não tem experiência administrativa. No seu Instagram, define-se como "cristã, mãe e esposa". Preside o MDB Mulher em Duque de Caxias. Traduzindo: ela é irmã de Washington Reis, presidente estadual da legenda e cacique da Baixada. Um bolsonarista até a cutícula punido na Ficha Limpa.

Por ironia, Jane é casada com o pastor Rafael Corato, que chegou a ser cotado para vice de Alexandre Ramagem na eleição municipal de 2024 —contra Eduardo Paes. A farofa é tão saborosa que, dois dias após a indicação da irmã, Washington Reis anunciou que continua apoiando a candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência. De lambuja, criticou a gestão Lula. Vai passar a campanha pulando do palanque amigo ao palanque inimigo, com a certeza de que com qualquer resultado sairá vitorioso.

Sem força partidária no Rio —o PT tem três prefeituras contra 22 do PL e 17 do PP—, Lula nem sequer foi comunicado da escolha de Paes. A esperança é usar a mandioca para trazer o MDB e outros centrões da vida à campanha da reeleição.

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SUPREMA CORTE VAI CONTER TRUMP ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Decisão sobre tarifas mostra que Judiciário ainda não foi totalmente cooptado

Vamos ver se magistrados reafirmam independência nos próximos julgamentos

Numa rara boa notícia que vem dos Estados Unidos, a Suprema Corte declarou, pelo placar de 6 a 3, que o tarifaço de Donald Trump é inconstitucional. A decisão dos magistrados não põe fim aos desatinos econômicos do Agente Laranja, mas indica que a erosão institucional em curso naquele país ainda não foi tão longe quanto se poderia temer. O tribunal, que em outras ocasiões deu rédeas à hipertrofia dos poderes presidenciais, ainda não se tornou um órgão que apenas carimba ordens da Casa Branca.

Em termos práticos, Trump não está impedido de tarifar outros países. Precisa apenas fazê-lo através de outros dispositivos legais e com melhores justificativas. O que a corte estabeleceu é que o presidente extrapolou ao criar as chamadas tarifas recíprocas com base na Lei de Poderes Econômicos de Emergência Internacional (Ieepa). Essa norma não dá ao Executivo o poder de tributar sem o aval do Congresso. Daí não decorre que o arsenal da Casa Branca tenha sido esvaziado. O governo pode decretar taxas temporárias de até 15% e punir com sobrepreço países que pratiquem deslealdades comerciais, mas aí caso a caso e só após investigação.

O presidente, como era previsível, xingou os magistrados que lhe impuseram essa derrota, mas não sugeriu que desobedeceria à ordem judicial. Nas próximas semanas, a Suprema Corte deve divulgar outras decisões importantes relativas ao alcance dos poderes de Trump. Há o caso da conselheira do Fed (o BC americano) que ele mandou demitir, violando a independência do banco; há o decreto pelo qual ele pretendeu tirar o direito de cidadania a filhos de imigrantes ilegais nascidos nos EUA; e há a questão da detenção generalizada de imigrantes.

Vamos ver se a corte vai se converter num contraponto institucional aos abusos do Agente Laranja e como ele reage a eventuais novas derrotas. Vamos descobrir se ainda existem juízes em Washington e se os EUA seguem sendo uma democracia ou se já se converteram numa republiqueta de bananas das que abundam nas Américas.

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LIMITES À POLÍTICA DO PORRETE

Jorge J. Okubaro. O Estado de S. Paulo

Por decisões políticas ou judiciais, algum limite está sendo imposto ao uso do porrete como política de Estado que Trump tentou consagrar

O mundo está perdendo o medo de Trump? Enfim, parece que até a Europa Ocidental agora entende os danos que um governo norteamericano chefiado por uma pessoa descontrolada e insensível às relações internacionais pode provocar no cenário mundial. Alguns dos principais dirigentes europeus reunidos na Conferência de Segurança de Munique reconheceram que a ordem mundial, construída logo depois do fim da 2.ª Guerra Mundial e aperfeiçoada nas últimas décadas – e que assegurou um mínimo de paz para o desenvolvimento da humanidade –, acabou. “A ordem mundial baseada em direitos e regras está sendo destruída”, disse o chanceler alemão, Friedrich Merz, durante o encontro. É um reconhecimento tardio dos estragos que Donald J. Trump está espalhando pelo mundo.

Esta reunião é realizada desde 1963, com a participação dos países da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan). Em tempos normais, tem sido uma confraternização dos países que, com os Estados Unidos, formam a aliança militar criada para se contrapor à ameaça do Leste Europeu (até o início da década de 1990, os países dessa região, liderados pela então União Soviética, formavam o Pacto de Varsóvia) e de outros da Europa Central que se integraram ao grupo.

O governo Trump mudou esse clima afável no ano passado. Ao falar em nome do governo que se iniciara pouco antes, o vice-presidente dos Estados Unidos, J. D. Vance, fez duras críticas aos países europeus, sobretudo às suas políticas internas, que acusou de serem tolerantes com imigrantes indesejados e não protegerem liberdades individuais, e a sua baixa capacidade de autodefesa, acusando-os de não estarem preparados para enfrentar as ameaças globais sem a ajuda dos Estados Unidos. É provável que Vance tivesse alguma razão na questão militar, mas seu tom foi obviamente exagerado. Mas Vance é mais exagerado que Trump.

Neste ano, o representante norte-americano, o secretário de Estado Marco Rubio, foi menos agressivo, e até falou que os destinos dos Estados Unidos e da Europa Ocidental estarão “sempre entrelaçados”. Duros foram alguns dirigentes europeus. Merz, por exemplo, fez seu discurso em inglês, para deixar claro a quem dirigia preferencialmente suas palavras sobre a destruição da ordem mundial conhecida até agora.

Outro que falou em inglês, com o mesmo objetivo, foi o presidente francês, Emmanuel Macron, talvez dando uma resposta muito atrasada para as críticas feitas por Vance no ano passado. “A Europa tem sido vilipendiada como um lugar de imigração descontrolada e repressão à liberdade de expressão. Mas todos deveriam seguir o nosso exemplo, em vez de nos criticar ou de tentar nos dividir”, disse Macron.

Na semana passada, em outro episódio de resistência europeia, a primeira reunião do Conselho da Paz criado unilateralmente por Trump foi marcado não pelas presenças, mas pelas ausências. Os principais aliados dos Estados Unidos recusaram-se a participar da encenação. A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, rejeitou o convite. Entre outros dirigentes que não foram a Washington estão os do Reino Unido, da Alemanha e da França.

Trump havia retirado o convite ao primeiro-ministro canadense Mark Carney, que fez um discurso muito crítico à política externa dos Estados Unidos no Fórum Econômico Mundial, na localidade suíça de Davos.

Mas a pi or der r ot a de Trump foi no plano interno. A decisão da Suprema Corte dos Estados Unidos, tomada na sexta-feira passada, de considerar ilegais as tarifas impostas por Trump às importações originárias de dezenas de países desmonta um dos principais programas do governo norte-americano. O objetivo do presidente dos Estados

Unidos era, por meio de tarifas, impor ao mundo uma nova ordem para o comércio mundial decidida exclusivamente na Casa Branca, destruindo o que ainda restava de regras universais para as trocas internacionais pacientemente construídas nas décadas que seguiram à criação do Acordo Geral de Tarifas e Comércio (Gatt), em 1947, até sua transformação na Organização Mundial do Comércio (OMC), em 1995.

De acordo com a decisão da Suprema Corte, a fixação de tarifas de importação é competência exclusiva do Congresso. Mas Trump não desistiu. A Casa Branca informou que utilizará outros instrumentos legais para sobretaxar as importações. Há, de fato, meios legais para isso, ainda que algumas medidas sejam temporárias e outras, de aplicação mais difícil, pois exigem investigações de práticas desleais de comércio. O caso terá desdobramentos.

Mesmo assim, por decisões políticas ou judiciais, algum limite está sendo imposto ao uso do porrete como política de Estado que Trump tentou consagrar. Como disse o ex-embaixador dos Estados Unidos no Brasil e ex-subsecretário de Estado Thomas Shannon em entrevista ao Valor Econômico, a abordagem do mundo que gera o caos, como Trump tem feito, é desconfortável até para os norteamericanos. •

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