Rolf Kuntz,
O Estado de S. PauloBrasil poderá seguir um de dois caminhos principais:
ingressar no grupo de países subordinados a Washington ou permanecer na
condição de parceiro relevante
Donald Trump, Marco Rubio ou George Washington – quem deverá
substituir os Andradas no monumento inaugurado em 1922 na Praça da
Independência, em Santos? Talvez as três figuras norte-americanas, juntas?
Nenhuma? A resposta, se vier, só deverá aparecer depois de conhecido o vencedor
da eleição presidencial no Brasil. Por enquanto, a pergunta é justificável e
inquietante, talvez, para uma parte do eleitorado. Para outra, nem tanto, ou
talvez até animadora. Pelo balanço possível neste momento, têm peso nas eleições
os grupos menos interessados na combinação de valores como soberania e
cooperação.
Os Andradas, para esses grupos, devem ser,
simplesmente, figuras de um passado hoje irrelevante – ou assustador, talvez,
quando se pensa na antecipação, por José Bonifácio, o tal Patriarca da
Independência, da mudança da capital do País para a região central do Brasil.
Mas historiadores nunca atribuem ao Andrada mais famoso a previsão, há cerca de
dois séculos, do ambiente político mais associado, hoje, à imagem da sede dos
Três Poderes.
A eleição brasileira poderá, como já se observou, afetar de
modo interessante a configuração geopolítica da América do Sul. A depender do
resultado, o Brasil poderá seguir um de dois caminhos principais: ingressará no
grupo de países subordinados a Washington ou permanecerá na condição atual,
como parceiro relevante, mas independente, da maior potência ocidental e
capitalista.
Se ingressar no grupo dos subordinados, o Brasil se juntará,
nessa conversão diplomática, a algumas das maiores economias da região, já
alinhadas, sem disfarce, aos interesses da Casa Branca. Não será preciso
continuar disfarçando o clube da subordinação como um grupo de combate ao crime
organizado.
Não por acaso, esse clube, formado por 14 países
latino-americanos e caribenhos, batizado como Escudo das América, foi
apresentado oficialmente ao mundo, em setembro, numa reunião internacional nos
Estados Unidos. Quem o apresentou foi o presidente americano, prometendo, na
ocasião, combater e punir 24 organizações criminosas, por ele descritas como
narco-terroristas. O grupo inclui duas organizações brasileiras, o Comando
Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC). O Brasil ficou fora do
clube, mas é difícil dizer se manterá essa posição se for eleito um seguidor de
Trump.
Se Brasília continuar preferindo o caminho independência, os
órgãos brasileiros de segurança, a começar pela Polícia Federal, poderão
simplesmente articular-se com os de outros países para enfrentar os traficantes
e outros criminosos. Não será preciso estimular, nesse caso, a presença, já
ostensiva, de forças dos Estados Unidos na região.
Essa presença continuará justificável, e até útil, em casos
de exercícios militares conjuntos e de programas de cooperação, potencialmente
benéficos, por exemplo, para a indústria brasileira. A expansão da Embraer em
mercados estrangeiros, incluído o americano, é um exemplo de como o País pode
lucrar com a cooperação em segurança. Resultados como esse nada têm a ver com
as políticas de subordinação defendidas por algumas alas da política
brasileira.
Prioridades brasileiras, programas, planos e projetos foram,
no entanto, assuntos pouco examinados e discutidos durante o primeiro turno da
eleição presidencial. O ministro da Fazenda, o economista Dario Durigan, expôs
nos últimos dias algumas ideias sobre finanças públicas e sobre a condução das
contas federais. O presidente Lula, no entanto, quase destruiu qualquer
possível compromisso de estabilização fiscal, praticamente reduzindo o assunto
a uma questão de crescimento econômico. Se a economia crescer, disse o
presidente, a arrecadação também crescerá e o Orçamento será favorecido.
O presidente mantém, portanto, o movimento já observado de
retorno ao petismo de meio século atrás e à sua contraposição entre prudência
fiscal e desenvolvimentismo. O anúncio de renovação e manutenção dos subsídios
a combustíveis, em parte explicável pelo interesse eleitoral, combina com essa
orientação da política econômica.
Anúncios desse tipo são insuficientes para substituir a
análise e a discussão das condições econômicas atuais, assim como das medidas
necessárias para a sustentação de um crescimento seguro. Não há sinal de
aumento, pelo menos significativo, do investimento privado em meios de
produção, nem de mudança relevante nas condições de crescimento econômico.
Nada indica um movimento de modernização e ampliação
importantes do potencial produtivo. Podem assinalar-se, talvez, alguns avanços,
ocorridos em vários anos, na educação, um setor pouco valorizado pelo
presidente Jair Bolsonaro. Talvez seu filho Flávio, se eleito, atribua alguma
relevância ao trabalho educacional, mas essa, por enquanto, é apenas uma
hipótese um tanto otimista. Indigente em propostas e programas, a campanha
eleitoral proporcionou, até agora, pouca informação para um debate sobre como a
eleição afetará a evolução de setores política e socialmente importantes,
incluídos educação e pesquisa.