sexta-feira, 25 de setembro de 2026

SUPLENTES SEM VOTO EVOCAM HERANÇA DA DITADURA NO SENADO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Legislativo é o único dos Poderes cuja composição depende 100% das escolhas da sociedade

Exceção são os senadores reservas, que não passam pelo crivo do eleitor e distorcem a representação dos estados

Pesquisa recente Atlas/Estadão sobre a confiança do público nas instituições traz a esperada queda no conceito do Supremo Tribunal Federal e confirma que o Congresso Nacional tem o mais baixo índice no quesito: só 8% confiam nos próprios representantes.

O Parlamento e os partidos sempre figuraram nos últimos lugares nesse tipo de levantamento. Dessa realidade emerge um paradoxo: o Poder Legislativo é o único dos três pilares da República cuja composição depende 100% das escolhas da população.

Portanto, uma hipotética e idealística tomada de consciência coletiva do eleitorado poderia levar à decisão de fazer da Casa legislativa um ambiente à altura das expectativas de confiabilidade. Tal enunciado teórico esbarra no fato de que, bem ou mal, os congressistas são o espelho da sociedade —que lhes repudia o desempenho, mas não leva em conta os critérios de qualidade na hora da votação.

Problema do sistema proporcional, o distrital resolveria? Talvez, mas e o Senado formado por eleição em voto majoritário?

Os pesquisadores dizem que os representantes da chamada Casa alta são os últimos a serem escolhidos. Ora, se isso é feito praticamente na boca da urna com relação aos titulares, a desatenção é total quando se trata dos suplentes.

Os dois estepes não passam pelo crivo do eleitor. Entram nas chapas parentes, financiadores de campanha, amigos, políticos aposentados, funcionários ou qualquer pessoa que atenda às conveniências dos candidatos.

Esse ponto está longe de ser irrelevante. Primeiro, porque as substituições não acontecem apenas por motivo de força maior. Muitas vezes ocorrem por acertos de cessão do lugar de senador acidental por meses e, a depender do trato, por boa parte do mandato.

Houve períodos em que quase metade —mais de 40%— do Senado foi ocupado por gente sem voto. Além de distorcer a representação dos estados, isso remete ao senador biônico criado pela ditadura militar em 1977, extinto na abertura, mas na prática em vigor até hoje.

Bookmark and Share

LONGE DO BAFO DO POVO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Bocas-livres, putas, surubas, charutos, uísques, jatinhos, comissões e contratos

Só provincianos, cafonas e deslumbrados se deixam vender por tão pouco

Ninguém precisa acreditar, mas, há pouco mais de cem anos, ministros de Estado, parlamentares da pesada e juízes superiores iam de bonde para o trabalho. Aguardavam na fila, subiam pelo estribo e sentavam-se ao lado de pessoas como você e eu. Todos moravam no Rio, em casa comprada com seus recursos ou alugada de particulares. Suas mulheres organizavam chás de caridade, lanchavam na Colombo e participavam de saraus literários. Seus filhos estudavam em escolas públicas, remavam no Flamengo e trabalhavam no comércio. O Rio era a capital federal e, em torno do poder, situado no centro da cidade, havia uma coisa chamada povo.

A mudança da capital para Brasília, promovida por JK em 1960, criou um problema: ninguém queria ir para lá. O Executivo, o Legislativo e o Judiciário eram obrigados, mas seus membros, individualmente, precisaram ser subornados para aceitar a transferência. E dá-lhe de salários duplicados, bônus por comparecimento, casas à beira do lago construídas para eles, carro com motorista e, mais importante, passagens aéreas para o Rio ou para seus estados. O mesmo, em escala menor, se fez com os funcionários públicos. O que era descarado suborno cristalizou-se no que hoje se chama mordomia. E a cornucópia nunca estancou.

Até por isso, o material humano de que se compõe o poder piorou muito nesses 66 anos. Provincianizou-se, acafonou-se. Nossos maiores são uns deslumbrados que dão expediente em palácios na praça dos Três Poderes, a 300 metros um do outro e a um infinito de distância de um brasileiro normal. Como não têm de ir à esquina nem para comprar um retrós (não há mais retroses e, esquinas, nunca houve), não sentem o bafo do povo e acham natural ser movidos a agrados.

Daí, tome-lhe também de bocas-livres, putas, surubas, charutos, uísques, jatinhos, desconto em hotéis de luxo, temporadas de esqui, ingressos para a Fórmula 1, camarote na Sapucaí, contratos em nome de terceiros, comissões.

Só provincianos, cafonas e deslumbrados se deixam vender por tão pouco.

Bookmark and Share

GUERRAS INTESTINAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Polarização e empate virtual colocaram campanhas em modo vale-tudo

Moderação deixou de ser virtude, mas eleitor centrista ainda deverá ter palavra final

Sempre gostei da expressão "guerras intestinas". O adjetivo "intestino" denota com precisão etimológica que o conflito se dá entre facções "internas" a um país e, ao mesmo tempo, torna quase inafastável a interpretação conotativa de que se trata de uma guerra que envolve sujeira e baixarias. Nós quase sentimos o cheiro ruim da disputa. A campanha presidencial brasileira se tornou uma guerra intestina.

Os dois campos principais parecem ter perdido o pudor e recorrem a estratégias e truques que provavelmente evitariam num embate menos polarizado. Populismo e mentiras sempre se fizeram presentes em campanhas, mas agora correm quase sem limites. A cara de pau e a hipocrisia, idem. E ambos os lados mobilizam todos os recursos que têm à sua disposição, incluindo suas respectivas bancadas no STF, que vai acumulando mais camadas de degradação institucional.

Quanto a nós, eleitores, vamos dormir na esperança de acordar com o vazamento que implodirá a candidatura que mais rejeitamos. Isso não acontecerá. Rodrigo Tavares mostrou num ótimo artigo que o mundo em que o grosso do eleitorado reagia de forma uníssona a escândalos não existe mais. Lulistas e bolsonaristas típicos tudo perdoam a seus ídolos e veem qualquer indício contra o adversário como prova de crime.

Seria a morte da moderação, que por muito tempo foi a marca das democracias liberais? Sim e não. A versão virtuosa do teorema do eleitor mediano, segundo a qual os próprios candidatos assumiam posições equilibradas para atrair o maior número possível de votantes, saiu de moda. Mas, com o pleito virtualmente empatado, a definição da contenda continuará cabendo à fatia dos eleitores que não se identifica organicamente nem com Lula nem com os Bolsonaros. São esses cidadãos que as campanhas buscam agora influenciar com táticas de guerrilha.

A perspectiva de que a palavra final não esteja com os radicais é positiva, mas é pena que a moderação tenha deixado de ser um valor democrático para tornar-se mero artefato estatístico.

Bookmark and Share

quinta-feira, 24 de setembro de 2026

STF TEM ENCONTRO COM CÓDIGO DE ÉTICA

Carolina Brígido, O Estado de S. Paulo

A depender das decisões tomadas, Corte poderá evitar ou acelerar interferência externa

Passadas as eleições, dois assuntos que foram empurrados para debaixo do tapete vão pautar o Supremo Tribunal Federal. O primeiro é decidir o que fazer com indícios de que ministros receberam vantagens indevidas de Daniel Vorcaro. Em paralelo, Cármen Lúcia anunciou a pessoas próximas que vai apresentar o texto de um código de ética para os integrantes do tribunal.

Hoje, a probabilidade de um código ser aprovado no tribunal é mínima. Ainda assim, o presidente Edson Fachin insiste no projeto. A estratégia não é teimosia, mas uma espécie de redução de danos. Para ele, apontar desvios éticos ou indícios de cometimento de crimes dos pares não tira credibilidade do tribunal – ao contrário, mostraria que a Corte tem mecanismos internos capazes de resolver as próprias crises.

O tribunal provou o contrário até agora. Além de não ter decidido o que fazer com os indícios contra Alexandre de Moraes e a acusação a André Mendonça, cancelou sessões de julgamento do plenário devido ao clima belicoso entre os ministros. Ao mesmo tempo, decisões individuais ganharam destaque. Os poderes de cada ministro engoliram a coletividade, quando deveria ser o contrário em uma Corte constitucional.

Se o Supremo seguir resistindo a cortar na própria carne, abrirá caminho para intervenção externa. Fica cada dia mais provável o Senado abrir processos de impeachment de integrantes do tribunal a partir de 2027. O risco, porém, é de que os afastamentos não sejam pelos erros cometidos pelos ministros na relação com Vorcaro, mas por revanche política, com base em decisões jurídicas tomadas de forma legítima antes de a crise estourar.

Com a movimentação no Senado, o terreno estará fértil para Legislativo e Executivo discutirem uma reforma do Judiciário que imponha perda de poderes ao Supremo. Uma das propostas é retirar a competência criminal da Corte, para dar destaque à atribuição constitucional. Talvez, a Corte precise desinchar para recuperar a reputação, o equilíbrio e a funcionalidade.

O código de ética e a reforma do Judiciário foram incluídos no Brasil Adiante, projeto do Estadão em formato de ciclo de debates que reuniu especialistas, empresários e a sociedade civil para propor soluções práticas aos principais desafios do País. O ideal seria colocar as duas ideias em prática em tempos de calmaria, mas as últimas décadas mostraram que o cenário perene no STF é o oposto.

Entre os ministros, a expectativa é de que a crise interna ganhe proporções maiores nos próximos meses. Enquanto vigorar a atual composição do tribunal, não deve haver trégua nem do grupo de Moraes nem da ala de Mendonça.

Bookmark and Share

UMA ELEIÇÃO BEM DIFERENTE

Míriam Leitão, O Globo

A 10 dias do primeiro turno, o Brasil segue sem discutir propostas. Nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta campanha

A eleição deste ano não tem qualquer discussão de política pública, e o processo está sendo soterrado por um tsunami de notícias sobre escândalos. Algumas sérias, outras usadas para confundir. Em ambiente assim, é melhor separar o fato da fumaça feita para esconder a realidade. O candidato Flávio Bolsonaro entrar com uma notícia-crime contra o presidente Lula por suposta relação com Daniel Vorcaro, e por, talvez, ter recebido um whisky, é pura fumaça. Vamos aos fatos. O Banco Central não permitiu a compra do Master pelo BRB, liquidou o Master e denunciou os indícios de crime. A Polícia Federal investigou e prendeu Vorcaro, o pai do Vorcaro, o primo e o cunhado. Em que o governo beneficiou o ex-banqueiro?

Flávio Bolsonaro diz que “conforme foi noticiado”, o advogado Walfrido Warde, que defendia Vorcaro à época, “relata ao seu cliente sucessivas ações destinadas a aproximá-lo do presidente Lula e de autoridades do governo federal”. Registra a reunião que houve no Planalto e cita que “pouco mais de um mês depois” o advogado encaminhou ao Vorcaro “mensagem que indica o recebimento de presente (whisky) do banqueiro por parte do presidente Lula”.

Vamos novamente aos fatos. Flávio Bolsonaro pediu dinheiro a Vorcaro e recebeu. Insistiu em ter novas parcelas e visitou Vorcaro, após a prisão do então banqueiro, para cobrar mais dinheiro. Não se sabe muito bem, porque ele jamais explicou, o montante que foi para o filme Dark Horse e que caminho percorreu até o seu destino. O candidato do PL é o único dos candidatos ao Planalto que está sendo investigado por suspeita de lavagem de dinheiro, corrupção ativa, corrupção passiva e organização criminosa no caso Master. Segundo a notícia-crime que Flávio Bolsonaro apresentou, Lula teria se utilizado do cargo para “atender interesses ilícitos de Daniel Vorcaro”. Foi o senador que disse ao então banqueiro: “fala irmãozão, estarei contigo sempre”.

As notícias sobre a existência de uma suposta “Turma do KN” resultaram numa boa medida preventiva. O Corregedor Nacional de Justiça, Benedito Gonçalves, ordenou o cancelamento do pagamento de R$ 4,73 bilhões em precatórios de usinas de açúcar. Esses papéis foram vendidos ao Banco Master. O dinheiro que estava em contas oficiais será devolvido ao Tesouro. Esse velho pleito dos usineiros, como já disse aqui, é um desses engodos que vão se eternizando no sistema de justiça. Os usineiros disseram que haviam sido prejudicados pelo congelamento do Plano Cruzado, o que não faz qualquer sentido para quem acompanhou os fatos da época. Eles tiveram perdas e ganhos com o congelamento, mas sobretudo foram sempre subsidiados. Vorcaro comprou esses papéis podres e o truque era encontrar magistrados que quisessem dar ganho de causa aos donos dos precatórios. O ministro Kassio Nunes Marques conduziu a segunda turma para o voto em que reconhecia direito dos detentores de precatórios. Direito muito questionável e que agora o ministro Gilmar Mendes quer que seja analisado no plenário.

Nessa enxurrada de notícias sobre os negócios ilícitos e as tentativas de Daniel Vorcaro de corromper a República, muita coisa está se esclarecendo ou exigindo explicação, como as várias comunicações do ministro Alexandre de Moraes com Vorcaro, cliente do escritório de sua mulher. No Supremo Tribunal Federal, uma ala quer que o foco permaneça apenas em Alexandre de Moraes, sobre o qual há fortes indícios. Outra ala defende que sejam todos investigados. Até agora há três ministros citados, ou talvez quatro. Que todas as dúvidas sejam esclarecidas, mas que essa proposta de investigação ampla não seja uma forma de acender o forno de pizza.

O ambiente no país está beligerante, com trocas de acusações, algumas reais, outras resultantes de manipulação. Nesta reta final do processo eleitoral, o Brasil não teve qualquer chance de pensar sobre propostas de políticas públicas em área alguma. Há muito tempo, a polarização extremada tem substituído o bom debate sobre programas de governo, mas nunca se foi tão longe nesse processo de alienação da realidade quanto nesta eleição.

O risco é terminarmos o processo de escolha de novos governantes sem saber o que decidimos para o futuro do país em qualquer área. E a sombra da falta de compromisso com a democracia por parte do candidato Flávio Bolsonaro permanece rondando o país.

Bookmark and Share

CAMPANHA DESANIMADORA

Merval Pereira, O Globo

Os dois lados não procuram atrair o eleitor pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente.

A campanha presidencial está tão anódina que ambos os lados aguardam um escândalo para destravá-la. Não procuram atrair o eleitor pelo que podem vir a fazer, mas pelo que pode afetar o concorrente. A disputa de rejeições parece determinar os passos de cada um, não as qualidades próprias ou os projetos para o país. Nunca, também, houve tanto sexo nas elucubrações da boataria; a festa dos astronautas promovida pelo banqueiro-bandido Daniel Vorcaro parece que mexeu com a criatividade do pessoal de marketing das equipes.

À falta de materialidade, divulgam roteiros engenhosos de vídeos imaginados com parlamentares nus, mas sobriamente de gravata; outros, mais comedidos, mergulhando na piscina de cuecas; mulheres estrangeiras satisfazendo a empresários e políticos tupiniquins, enfim um dossiê completo à Epstein, que, aliás, já se concretizou em parte com o suicídio do tal Sicário, assim como o proxeneta americano. Vorcaro parece não ter essa disposição toda e luta nos bastidores para conseguir uma prisão domiciliar que o deixe mais confortável.

Atribuem a ele os vazamentos em série, que pegam de Chico a Francisco, da esquerda à direita, confundindo o eleitor, misturando indícios e mentiras, verdades e fantasias. Seria uma espécie de salve-geral para os antigos aliados, que hoje tentam contestá-lo. Ficam assim, os eleitores, cidadãos comuns, à espera do que virá a acontecer. Chega-se ao ponto de o candidato Flávio Bolsonaro dar uma entrevista coletiva para negar boatos de que o empresário Luciano Hang financiou o filme “Dark Horse”; que os ministros Luiz Fux e Kassio Nunes Marques surgirão em diálogos mais explícitos com Vorcaro; negócios do ministro André Mendonça por meio de seu Instituto Iter, de cuja direção saiu recentemente, e por aí vai.

Seriam acusações contra ministros do Supremo considerados apoiadores de Flávio, depois de vários outros ministros, identificados como apoiadores de Lula, aparecerem em situações no mínimo delicadas, algumas desqualificantes por qualquer Código de Ética. Também o presidente Lula, candidato à reeleição, aborda com tranquilidade boatos contra seu adversário. Como dificilmente a eleição presidencial terminará no primeiro turno, tudo indica que teremos um segundo turno sangrento. O tom agressivo que estava guardado para esse segundo turno foi antecipado, diante da imutabilidade das tendências.

O empate técnico nos dois turnos, previsto por todas as pesquisas, faz com que os dois se armem para o embate final. A tentativa de usar o voto útil para abreviar a disputa, se acontecer, deverá beneficiar Flávio, pois Lula não conseguiu manter a campanha de união nacional que o elegeu em 2022. Pela Quaest, o candidato da oposição herdará a maioria dos votos dos candidatos “nanicos”. Os partidos do Centrão preparam-se para apoiá-lo no segundo turno, e isso pode fazer a diferença numa disputa tão apertada.

Saudades

Zuenir Ventura, imortal da Academia Brasileira de Letras (ABL), era o jornalista que todos queríamos ser. Era nosso espelho. Culto, generoso, era repórter e comentarista, editor e redator, chefe e orientador, intelectual e popular, professor e aluno. Tinha um senso de humor refinado. O melhor exemplo foi o banho de tinta marrom que deu num desafeto. É autor de livros seminais para entender o Brasil: “1968, o ano que não terminou”, “Cidade partida”. Poucos atingem o cume, ele foi um desses. Foi um ambientalista genuíno, suas reportagens sobre a morte de Chico Mendes foram marcantes nessa luta. Sua generosidade ficou ressaltada pela decisão de trazer do Acre ao Rio, para sua casa, o menino Genésio, testemunha do assassinato do líder defensor do meio ambiente ameaçado de morte. Tinha várias qualidades e mais uma: era torcedor do Fluminense e do Império Serrano. Como eu. Hoje a ABL faz sua tradicional Sessão da Saudade, em homenagem àquele que nos deixou um legado de vida.

Bookmark and Share

FLÁVIO BOLSONARO MIRA VOTO ÚTIL NA RETA FINAL

Julia Duailibi, O Globo

Candidato aposta na tese de que é o principal destinatário dos votos dos demais concorrentes

O ex-deputado federal Eduardo Bolsonaro foi às redes sociais fazer um apelo aos eleitores dos candidatos à Presidência que estão no terceiro pelotão das intenções de voto.

— Votar no FB no primeiro turno é tirar a chance de defesa do inimigo — afirmou, numa referência às iniciais de Flávio Bolsonaro, aos eleitores de Augusto Cury, Ronaldo Caiado, Romeu Zema e Renan Santos.

A ação faz parte de uma ofensiva maior pelo voto útil nos últimos dias, colocada em campo por Flávio e aliados, inclusive pelo governador de São Paulo e candidato à reeleição, Tarcísio de Freitas:

— Vamos olhar a coisa com pragmatismo. Não dá mais para ter o PT. Está na hora de todo mundo vir com Flávio.

A possibilidade de a eleição presidencial ser resolvida já no primeiro turno passou a ser mais debatida nas campanhas em razão da disputa acirrada entre Lula e Flávio e da perda de musculatura dos demais candidatos. O eleitor anteciparia para o dia 4 de outubro a discussão sobre “evitar o mal maior”, feita geralmente no segundo turno. Para que isso ocorra, no entanto, o vencedor tem de levar metade mais um dos votos dados aos candidatos, excluindo os brancos e nulos. Os únicos exemplos desse feito desde a redemocratização foram em 1994 e 1998, com Fernando Henrique Cardoso.

Flávio aposta na tese de que é o principal destinatário dos votos dos demais candidatos, porque todos eles, em maior ou menor grau, estão mais à direita. Além disso, aposta na abstenção no dia da eleição, tradicionalmente maior no eleitor de menor renda e menor escolaridade, e no antipetismo na reta final, mencionado ontem pelo professor Mauricio Moura em sua coluna no GLOBO.

As pesquisas mostram que as candidaturas de Cury, Caiado, Renan Santos e Zema têm potencial de voto maior entre bolsonaristas e eleitores da direita não bolsonarista. Mostram ainda que o eleitor desses candidatos, na comparação com os de Flávio e Lula, não é tão convicto e que quase metade pode trocar de voto. Mas, para Flávio levar essa maré de eleitores, que somam 15% das intenções de voto, e resolver a eleição no primeiro turno, um cenário pouco provável teria de ocorrer: Lula não ser beneficiado por esse movimento de voto útil. Como a rejeição de Flávio também é alta, parte dos votos que venham a deixar os demais candidatos pode beneficiar Lula, ainda que em escala menor.

A aposta na abstenção também é complexa. Eleições mais apertadas podem mobilizar mais o eleitor e diminuir a abstenção. Uma particularidade de 2026 também embaralha o cenário: há 30% menos candidatos que na comparação com 2022. Os candidatos a deputado, grandes mobilizadores de voto, estão em menor número. Isso pode ter impacto tanto para um lado quanto para o outro.

Outra dúvida é se há ainda espaço para esses candidatos da terceira via desidratarem ainda mais diante de uma campanha eficiente de voto útil. Muitos têm voto ideológico, como os votos de protesto. Embora o cenário de término da eleição no primeiro turno não seja hoje impossível, não parece ser agora o mais provável.

Bookmark and Share

A GRANDE FICHA, ELA TEM QUE CAIR

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

Está em jogo a renúncia da soberania territorial, financeira, tecnológica e ambiental

O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais

Nunca foi fácil realizar debate eleitoral profundo nas democracias de massa. Ainda menos em sociedades tão desiguais e diversas. A competição por votos tende a convidar a demagogia e a mentira. Fair-play é para losers.

Por isso o ideal de eleições "livres e justas", em que cidadãos se informem e façam escolhas autônomas, sempre pareceu inflacionado. Nos contentamos com regulação de campanhas, com a contagem fidedigna dos votos, a regularidade formal do processo.

E ficou muito mais difícil na última década.

A frustração com a insegurança material que a democracia tem entregado, somado a um ambiente informacional governado por plataformas pluto-algorítmicas, só fazem turbinar as dissonâncias cognitivas, o medo do futuro e a tentação por soluções messiânicas. O voto se descolou ainda mais de fatos, da análise comparativa de políticas públicas, das soluções para angústias reais.

Laerte, em meio aos protestos de junho de 2013, publicou uma tira: "A Grande Ficha. Em algum momento... ela vai cair". Em março de 2020, início da pandemia, Laerte gritou em caixa alta nas redes: "A Ficha caiu porraaaa!!!" A metáfora expressou nossa inabilidade para entender, senão tardiamente, as causas de nossas aflições e o tamanho dos desafios coletivos.

A Grande Ficha demora a cair. É mais fácil vê-la em retrospectiva. Foi mais fácil ver em 2022 o que se temia em 2018.

A Grande Ficha continua a mostrar que a continuidade da democracia está pressionada por muitas frentes. A desigualdade, a crise climática, o crime organizado, a tensão militar, a expansão do poder corporativo sobre o poder político, a apropriação privada do bem comum, o definhamento de capacidades estatais. Projetos autocráticos não saíram do vácuo.

Nesta eleição, nenhuma candidatura tem vocação ou capacidade para entregar um Brasil digno das promessas constitucionais ou à altura dos nossos problemas. Nenhuma salva a democracia dos seus múltiplos riscos existenciais que marcam a época histórica.

Mas apenas uma candidatura está inscrita oficialmente no projeto global de autocratização. Um projeto que combate nossa liberdade individual, profissional e econômica. E busca tirar do Estado até os meios para proteger a vida, a família e a propriedade. Até mesmo as competências para viabilizar o livre-mercado de ideias, bens e serviços.

A institucionalidade pública, afinal, dificulta o projeto. A ordem pública é adversária. O servidor público imparcial é adversário. O jornalista, o cientista, o professor, o juiz íntegro são inimigos.

Essa candidatura propõe um Brasil que renuncia a qualquer pretensão à soberania territorial, financeira ou tecnológica, à soberania alimentar, mineral ou ambiental. Uma autocratização de tipo subalterno. Nela não cabe sequer a ideia de interesse nacional.

Está comprometida com privatizar o futuro. Mais precisamente, sequestra qualquer projeto coletivo e contrata futuro oligárquico.

Essa Grande Ficha, ela tem que cair. Resta saber o quão tarde e o grau de destruição e sofrimento necessários para perceber a gravidade do erro. Ou se vamos dar conta de nossa cumplicidade e elaborar visão alternativa de futuro. Futuros nunca estão inteiramente abertos, nem inteiramente fechados.

Bookmark and Share

O BRASIL DE SEMPRE NAS NAÇÕES UNIDAS

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Discurso de Lula é perfeito contraponto à fala arrogante e belicosa de Trump

Presidente reiterou compromissos que definem a personalidade internacional do Brasil

A cada ano, o primeiro dia da Assembleia Geral da ONU é um momento de alta retórica política. Ali, ao apresentar a sua agenda internacional, cada país projeta a imagem a que aspira.

Ao abrir a sessão deste ano, na terça (22), o presidente Lula reiterou compromissos que de há muito definem a personalidade internacional do Brasil; também enfatizou a agenda social, marca registrada do PT, e falou de prementes temas conjunturais.

Permanentes e longevas são a defesa da paz e de soluções negociadas para desavenças internacionais; a rejeição a soluções unilaterais; a aposta no multilateralismo. Constante também é a demanda de reforma da ONU, em especial de seu Conselho de Segurança —que congela a hierarquia de poder estabelecida no final da 2ª Guerra Mundial e concede, por meio do direito de veto, o "privilégio da insensatez", na forte expressão do brasileiro, às grandes potências que ali têm assento permanente.

Urgência e indignação marcaram o discurso do presidente, uma e outra justificadas pela proliferação de conflitos armados e pela inoperância do órgão máximo das Nações Unidas responsável por promover a paz. Ele também denunciou a paralisia da Organização Mundial do Comércio e o desmonte da Organização Mundial da Saúde.

Da tradição do PT vem a ênfase no combate à fome e à desigualdade no mundo, na defesa da taxação dos super-ricos e na reiteração da agenda climática, deixada de lado em fóruns multilaterais. Das ameaças presentes nasce a referência ao combate ao crime organizado, à regulação da esfera digital e à defesa da democracia.

A fala de Lula não se resumiu às denúncias do descalabro internacional. Para cada problema, ele citou alguma contribuição positiva do Brasil, tanto por meio de iniciativas domésticas como por soluções que ultrapassam fronteiras. Dessa forma, alicerçou a permanente defesa da soberania nacional em comprovadas capacidades de lidar com as ameaças internas e de contribuir para encarar os desafios mundiais.

A menos de duas semanas da sucessão, o discurso do presidente Lula —devidamente picotado— será uma peça de campanha. Ainda assim seria um equívoco tomá-lo apenas como tal.

Seguido pela fala arrogante e belicosa de Donald Trump, o mandatário brasileiro lhe fez perfeito contraponto. Nesse sentido, a dele não foi manifestação isolada. Soma-se a um movimento mais amplo de reorganização do sistema internacional, diante da decadência da hegemonia dos EUA, abrindo novos desafios para países de poder médio como o Brasil.

Não por acaso, o presidente Lula chegou a Nova York a bordo da iniciativa P4M-Partners for Multilateralism (Parceiros pelo Multilateralismo), cuja proposta, publicada pelo diário britânico Financial Times no dia 20, reúne o mandatário brasileiro, o primeiro-ministro do Canadá, o presidente do Conselho Europeu e o presidente do Quênia. De sua parte, o líder canadense negocia que seu país se torne membro associado da União Europeia.

Navegar neste novo mundo de oportunidades e perigos requer do país uma concepção do seu lugar no mundo e o respeito por nossa robusta tradição diplomática. Tudo que passa a anos-luz do universo maniqueísta onde se move o bolsonarismo.

Bookmark and Share

COMO SERIA UM PRESIDENTE AMIGO DE MILICIANO ?

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Flávio negociou liberação de emendas com miliciano envolvido no assassinato de Marielle

Imagine se Flávio decidir usar o Planalto para beneficiar amigos de longa data

Se ganhar a eleição para presidente da República —como tem chances reais de fazê-lo—, Flávio Bolsonaro seria o mais próximo que já tivemos de um chefe do Executivo federal com laços milicianos. Uso aqui milícia não como figura de linguagem, mas literalmente: em sua trajetória, Flávio Bolsonaro tem mantido relação direta com integrantes de grupos armados que usam de coação com discurso moralizante para aferir lucro individual por meio do uso da violência e outros negócios escusos.

Como seria, portanto, um presidente da República amigo de miliciano no mais alto cargo? Primeiro, um presidente amigo de miliciano repassaria dinheiro para seus amigos milicianos. Não seria uma novidade. Como revelado nesta segunda (21) em O Estado de S. Paulo, Flávio destinou quase R$ 200 mil a um projeto na área de influência dos mandantes da morte de Marielle Franco, tendo negociado a liberação de emendas com miliciano envolvido no assassinato da vereadora.

Segundo, um presidente amigo de miliciano faria de tudo para esconder o dinheiro que milicianos lavarem. Não seria novidade, pois foi o que seu pai fez. O Bolsonaro pai cortou a verba do Coaf (Conselho de Controle de Atividades Financeiras), órgão que justamente identifica movimentações suspeitas de bandidos como milicianos e afins. Fica no ar a dúvida de por que os Bolsonaros querem dificultar que se monitore o dinheiro do crime, inclusive da milícia.

Terceiro, um presidente amigo de miliciano empregaria alguns deles no próprio Estado. Não seria novidade. Como deputado estadual, Flávio empregou a mãe e a mulher do ex-policial militar Adriano da Nóbrega, morto em 2020, acusado de comandar a maior milícia do Rio de Janeiro. O PM não era um desconhecido. Flávio homenageou duas vezes o ex-policial miliciano na Assembleia do Rio; em 2003, por sua "dedicação, brilhantismo e galhardia".

Se o clã Bolsonaro logrou empregar miliciano e repassar dinheiro para miliciano, dificultando seu monitoramento, imagine se Flávio tiver a chave do Palácio do Planalto e decidir usá-la para beneficiar amigos de longa data.

Bookmark and Share

AINDA HÁ UMA ALTERNATIVA AO CAOS GLOBAL

Rui Tavares, Folha de S. Paulo

Há dez anos, Guterres assumia a secretaria-geral da ONU, e a vitória de Trump nas eleições dos EUA era improvável

Mundo de hoje é o de Putin, Netanyahu e outros genocidas; as Nações Unidas acabaram por se resumir a papel defensivo

Em novembro de 2016, em Nova York, fui à Assembleia Geral das Nações Unidas para assistir à eleição oficial de António Guterres como secretário-geral da ONU. A decisão já vinha encaminhada do Conselho de Segurança mas, ainda assim, o ambiente era de expectativa.

Num banco a poucos metros de mim, Samantha Power, então embaixadora dos Estados Unidos, rascunhava o seu discurso para a ocasião, em que falou de Timor-Leste e do malogrado diplomata brasileiro Sérgio Vieira de Mello. Outros representantes falaram da reforma da instituição, de direitos humanos ou dos objetivos de desenvolvimento do milênio.

Era outro mundo. Poucos dias depois, fui ao Museu de História Natural da cidade, onde um especialista em estatística garantia que Hillary Clinton seria eleita presidente dos EUA. Sendo assim, caberia a ela nomear para a Suprema Corte o substituto (ou substituta) do juiz conservador Antonin Scalia.

Falava-se da possibilidade de que essa nova composição, mais progressista, pudesse vir a aplicar uma moratória federal na pena de morte. O ambiente na cidade era de otimismo. Cinco sedes de campanha de Hillary distribuíam ingressos para o que imaginavam ser a sua festa de vitória. Tentei também, por interesse histórico, conseguir bilhetes para a festa de Donald Trump; mas foi impossível, a própria campanha parecia não acreditar na sua vitória.

Na verdade, não acreditei. Como europeísta, tinha vivido a fundo a história do referendo do brexit e da surpresa da vitória de última hora, no fio da navalha, da opção de saída da União Europeia, que então todos julgavam impossível. A partir daí, a minha atitude perante a história da nossa última década foi sempre de "otimismo trágico": a cada passo esperando o pior e tentando dele extrair algum sentido.

Quer isso dizer que houve ali uma bifurcação na história. O planeta para que foi eleito António Guterres, e no qual ele teria sido um extraordinário secretário-geral, não é o mundo que aconteceu na prática. Este é o mundo de Vladimir Putin, Binyamin Netanyahu e outros genocidas. As Nações Unidas acabaram por se resumir a um papel defensivo.

E agora? A comparação com outros ciclos históricos sugere-me que o pior ainda está para vir. Afinal, estamos ainda nos anos 20. É nos anos 30 que as piores tragédias acontecem.

Bookmark and Share

POR QUE DEBATER FICOU MAIS ARRISCADO ?

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

O efeito Marçal mostrou como um candidato pode arrastar os demais para o conflito

Hoje, 15 segundos bem editados viram narrativas distribuídas milhões de vezes

Os principais candidatos à Presidência estão refugando os debates eleitorais de 2026. A explicação convencional é simples: quem está bem colocado nas pesquisas tem pouco a ganhar numa arena em que todos os outros têm interesse em atacá-lo. Isso sempre foi verdade. Mas talvez tenha se tornado muito mais verdadeiro depois de 2024.

A eleição para prefeito de São Paulo mostrou de forma impressionante o que um debate pode se tornar na era das redes sociais. Pablo Marçal percebeu que sua função já não precisava ser apenas comparar propostas. O debate podia ser também uma prova de estresse do adversário em público, que consistia em submetê-lo à pressão, tirá-lo do roteiro e usar sua reação como demonstração de caráter, equilíbrio ou capacidade. Em suas próprias palavras, tratava-se de descobrir "quem aguenta o tranco", "quem é de verdade" e até de "expor o caráter de cada um".

Havia, além disso, outra camada. O programa não terminava quando as câmeras eram desligadas. Cada insulto, zombaria, acusação pessoal, provocação ou reação indignada podia virar vídeo curto, meme e cena destinada a circular durante dias em ambientes digitais. O objetivo não precisava ser vencer o argumento, mas produzir cortes capazes de apresentar o adversário como despreparado, desequilibrado ou indigno do cargo e fornecer matéria-prima para a campanha nas redes sociais.

Uma pesquisa que coordeno analisou 848 falas dos candidatos nos 11 debates do primeiro turno paulistano. Procurávamos saber quando o confronto permanecia argumentativo e quando se deteriorava até colapsar. Encontramos um volume sem precedentes de ataques pessoais, zombarias, acusações, provocações, tentativas de humilhação e grosserias várias que degradavam a discussão argumentativa em conflito feroz entre os candidatos.

Além disso, a análise mostrou que o comportamento era contagioso. Uma provocação produzia resposta hostil, que provocava réplica ainda mais agressiva. Aos poucos, candidatos interessados em propostas eram arrastados para o terreno de quem tinha maior interesse em produzir conflito. O problema não era alguém ocasionalmente se comportar mal, mas um único candidato poder deteriorar a qualidade do debate dos outros.

No limite, os debates produziram aquilo de que todos se lembram: cadeirada, expulsões, acusações, insultos e encenações destinadas a sobreviver ao programa. Mais que confronto entre projetos, foram um teatro de pirraças, provocações e brigas desmoralizantes. É difícil acreditar que as campanhas presidenciais de 2026 não tenham aprendido alguma coisa com aquilo.

Para um candidato com 3%, o debate é oportunidade extraordinária: por algumas horas, ocupa o mesmo palco do favorito e pode criar uma cena capaz de mudar sua campanha. Para quem tem 30% ou 40%, os ganhos de visibilidade são pequenos, enquanto o prejuízo de uma frase infeliz, de uma reação emocional ou de uma provocação bem-sucedida pode ser enorme.

As redes ampliaram brutalmente essa assimetria. Antes, uma resposta ruim desaparecia com o programa ou sobrevivia na reportagem do dia seguinte. Hoje, 15 segundos bem editados podem virar narrativas e memes distribuídos milhões de vezes.

Por isso, é interessante que os candidatos pareçam preferir entrevistas ao vivo. Num artigo de 2012 sobre entrevistas presidenciais de 2010, argumentei que o jornalista compensava a impossibilidade de editar o candidato tentando controlar sua fala: interrompia, reiterava perguntas, tentava encurralá-lo e recusava desvios.

Mas há uma diferença decisiva. O jornalista pode pressionar o político, porém não disputa seus votos e atua dentro de uma gramática profissional previsível. A campanha consegue antecipar assuntos difíceis e preparar respostas. No debate, cada adversário tem incentivo eleitoral direto para provocar o pior momento do interlocutor.

A entrevista não se tornou confortável. O debate é que se tornou comparativamente mais perigoso, não apenas porque basta um candidato disposto a provocar e insultar para arrastar os demais para um jogo que não escolheram mas porque a possibilidade de se sair bem já não depende apenas do próprio desempenho no debate real. Não há como prever o efeito político de um debate quando o poder de cortar, editar, reenquadrar e viralizar suas cenas está também nas mãos dos adversários.

Isso não significa, naturalmente, que seja desejável que candidatos à Presidência deixem de debater. Mas não há como negar que o risco de participar tenha aumentado consideravelmente nos últimos tempos.

Bookmark and Share

MÃO NA CABEÇA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

O que esperar de ministros do STF que não gostam de seus crânios nus e implantam cabelos?

Tardiamente careca, eu também deveria fazer isso; o problema é que não tenho nada a esconder

Está certo, não se deve passar a mão na cabeça de quem cometeu um erro. O erro ficará impune e continuará a ser alegremente cometido. Tome os vários juízes do Supremo Tribunal Federal acusados, e com razão, de erros terríveis. Passar a mão na cabeça deles significaria um aval para se colocarem acima das leis do país. Mas há uma atenuante: poderia também revelar um pouco de suas personalidades.

A cabeça do ministro Alexandre de Moraes, raspada a zero há cerca de 20 anos aos sinais de uma calvície precoce, é uma calva assumida, preparada para levar vento, chuva, granizo, tempestade de areia e o que mais vier pelos ares. Ou, pelo menos, era o que se pensava. Durante o processo da tentativa de golpe, Moraes a exibiu indômito, pouco ligando a ser chamado de careca pelos bolsonaristas. No atual caso Vorcaro, no entanto, Moraes está tentando cobri-la com um vergonhoso boné jurídico que, não importa o que faça, não conseguirá escondê-la.

Já André Mendonça era careca quando ministro da Justiça de Jair Bolsonaro e, para agradar o chefe, ameaçava processar jornalistas inofensivos por crime de opinião, um deles, eu. Hoje no STF, ostenta razoável crina, graças a um implante que, por mais bem-sucedido, não apaga de todo a aridez capilar de até há pouco –fotografado de cima, o ministro terrivelmente evangélico ainda exibe uma coroa no alto da cabeça, um pequeno círculo sem pelos, como a tonsura reduzida que os padres usavam no passado.

Seu colega de parto Kassio Nunes Marques ressurgiu das últimas férias judiciais com igual e inédita pelagem, idem, implantada a ferros. E o que dizer da feroz e abundante juba do ministro Luiz Fux? Também, segundo ele próprio, resultado de

implante –pena não ter revelado a marca do adubo. O que se pode esperar de juízes que retocam tão comicamente a aparência? Se fazem isto com seus crânios, o que não farão com o resto? E tudo por um reles pente.

Tardio portador de uma calva, esse assunto de implante deveria me interessar. O problema é que não tenho nada a esconder.

Bookmark and Share

quarta-feira, 23 de setembro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO E A SOMBRA DOS MILICIANOS

Editorial O Estado de S. Paulo

É extremamente preocupante que um candidato à Presidência tenha mantido vínculo tão próximo, até pouco tempo atrás, com um miliciano condenado pelo Supremo pela morte de Marielle

Este jornal informou na primeira página de sua edição de ontem que, em 2023, uma assessora do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) negociou pessoalmente com o miliciano Robson Calixto, vulgo “Peixe”, o repasse de quase R$ 200 mil provenientes de emenda parlamentar em troca de vantagens indevidas. A negociata já seria escandalosa se Flávio não fosse candidato à Presidência da República e se o tal “Peixe” fosse um sicário qualquer, desses com os quais a população do Rio de Janeiro, lamentavelmente, acostumou-se a conviver. Ocorre que Flávio não só é candidato, como tem boas chances de ser eleito. E “Peixe”, definitivamente, não é um ilustre desconhecido do sistema de Justiça.

Em fevereiro deste ano, por unanimidade, “Peixe” foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a nove anos de prisão em regime fechado por ter participado do assassinato da vereadora carioca Marielle Franco e de seu motorista, Anderson Gomes, em 14 de março de 2018. O indigitado era uma espécie de “faz-tudo” para os irmãos Domingos e Chiquinho Brazão, mandantes do crime, e elo da dupla com a milícia da zona oeste da capital fluminense de onde saiu o facínora Ronnie Lessa, autor dos disparos. Todos cumprem pena presos.

É extremamente preocupante, para dizer o mínimo, que um candidato à Presidência da República tenha mantido vínculo tão próximo com um criminoso de sangue até pouco tempo atrás. Para piorar, confrontado com um fato dessa gravidade, Flávio se limitou a dar uma resposta protocolar, afirmando, por meio de nota, que “a emenda foi destinada dentro da legislação vigente” e que a responsabilidade pela prestação de contas é de quem recebe os recursos, não do parlamentar. Sobre o fato mais escabroso – a proximidade entre o senador e um miliciano condenado –, Flávio não deu uma satisfação sequer aos eleitores.

Talvez seja mesmo difícil para o candidato tratar do tema com mais objetividade. Afinal, faz mais de duas décadas que, por onde quer que ande, Flávio Bolsonaro está sempre acompanhado pela sombra dos milicianos do Rio de Janeiro com os quais se relaciona, abertamente, desde o seu primeiro mandato como deputado estadual, iniciado em 2003. A ligação entre Flávio e “Peixe”, por mais problemática que seja, não é um desvio pontual.

Recorde-se que, em 2007, Flávio subiu à tribuna da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj) para legitimar as milícias como um “novo tipo de policiamento”. Na ocasião, o então deputado estadual reduziu os crimes praticados por milicianos – não raro policiais e bombeiros corruptos – a “casos isolados”. Em outro discurso, Flávio chegou a dizer que “não se importaria” em pagar mensalidades de “R$ 30 ou R$ 40” às milícias para “ter mais segurança”. Ele sabia do que falava. Além de condecorar dezenas de milicianos, pouco tempo depois, Flávio empregara em seu gabinete na Alerj familiares de um dos mais temidos matadores do País, Adriano da Nóbrega, capo da milícia Escritório do Crime, baseada em Rio das Pedras.

Adriano seria morto durante troca de tiros com a polícia em 2020, escondido sob nome falso no interior da Bahia. Mas o grupo criminoso que ergueu em Rio das Pedras, envolvido no assassinato de Marielle Franco, sobreviveu a ele – e agora volta às páginas do jornal pela negociação do tal “Peixe” e a assessora de Flávio Bolsonaro.

Estamos a poucos dias da eleição que definirá o futuro presidente do Brasil. Por óbvio, não é questão menor ter entre os postulantes à chefia de Estado e de governo um candidato cuja biografia política está indelevelmente marcada por vínculos estreitos e reiterados – e jamais devidamente explicados – com membros de organizações criminosas responsáveis por execuções sumárias, extorsões, exploração ilegal do comércio e controle social, na base do terror, sobre larguíssimas porções do território do Rio de Janeiro.

Cada eleitor tem a liberdade assegurada pela Constituição para dar seu voto a qualquer candidato regularmente registrado na Justiça Eleitoral. Mas que todos estejam cientes de que, dado o histórico, a candidatura presidencial de Flávio Bolsonaro embute o risco da ascensão das milícias ao topo do poder da República.

Bookmark and Share

O BRASIL DE ZUENIR VENTURA

Bernardo Mello Franco, O Globo

Em quase 70 anos de carreira, jornalista percorreu o país "para olhar e depois contar"

Zuenir Ventura estava em Paris em agosto de 1961, quando Jânio Quadros renunciou à Presidência e deixou o Brasil à beira do abismo. Pego de surpresa em viagem à China, o vice João Goulart arrumou as malas para voltar ao país. Ainda não sabia se seria empossado ou preso por militares golpistas.

Em escala na capital francesa, o trabalhista se viu diante de outro impasse. Ele não falava o idioma local, e os jornalistas não entendiam uma palavra de português. Sobrou para o correspondente da Tribuna da Imprensa, que precisou se virar como tradutor.

“Essa história de intérprete foi meio folclórica”, diria Zuenir, que saiu em jornais do mundo inteiro ao lado do futuro presidente. Modesto, ele brincava que a função deu mais trabalho do que notícia. “Passei três dias e três noites quase sem dormir e, pior, sem tomar banho”, anotou, tempos depois.

Avesso à autocelebração, o repórter batizou seu livro de memórias com um título que dizia muito sobre sua personalidade: “Minhas histórias dos outros”. “Não viemos à Terra para julgar, nem para prender ou condenar, viemos para olhar e depois contar. Não somos juízes, não somos promotores, somos jornalistas, somos testemunhas de nosso tempo”, escreveu.

Antes de pisar numa redação, Zuenir ralou como pintor de parede, faxineiro de bar, balconista e office boy. Em quase 70 anos de carreira, viu o Brasil atravessar múltiplas crises políticas, econômicas e existenciais.

“Alternando depressão e euforia, desencanto e esperança, o país se submeteu a um processo de ciclotimia crônica. Atravessou anos dourados, anos rebeldes e anos de chumbo. Chorou de alegria e tristeza, conheceu o arbítrio, a censura, a tortura, mas acabou reconquistando a democracia”, resumiu.

Ele sabia o valor dessa luta. Na ditadura, foi perseguido e preso, embora nunca tenha militado em partidos políticos. Fiel à máxima de que lugar de repórter é na rua, Zuenir já era referência na profissão quando foi ao Acre cobrir o assassinato de Chico Mendes, cruzou o sertão na Caravana da Cidadania e acampou em Vigário Geral para entender e explicar a cidade partida.

Em sua última coluna no GLOBO, em 2022, ele lamentou que o Brasil ainda fosse um país “preconceituoso e racista”. Bem diferente do paraíso tropical que seus amigos franceses idealizavam no tempo de Pelé e Garrincha.

Bookmark and Share

UMA APOSTA PERDIDA

Elio Gaspari, O Globo

A jogatina faz seu estrago, e só

Está saindo do forno uma Medida Provisória que limita a jogatina liberada pelo governo. Lula gostaria de acabar com ela, mas, como já explicou, não é dono do país. A favor mesmo, só o Ministério da Fazenda. Ele calcula que, se as apostas fossem proibidas, a Viúva deixaria de arrecadar R$ 12 bilhões.

A teia de interesses que gravitam em torno da jogatina fortalece-se a cada dia. Basta dizer que os clubes de futebol ameaçam com o fim do esporte no Brasil caso as apostas sejam proibidas. Como o Brasil ganhou cinco Copas do Mundo sem o patrocínio de casas de apostas, ninguém explica. Também não explicam por que no ano da Copa das Apostas, a seleção voltou para casa depois das oitavas de final.

A jogatina foi legalizada com o propósito de bombar a arrecadação e, com esse objetivo, descuidou-se dos detalhes. Como lembrou Lula, com os celulares, cada sala de jantar virou um cassino. Em 2025, as apostas drenaram R$ 62,5 bilhões dos orçamentos familiares, e o comércio perdeu R$ 143,8 bilhões em dois anos. Parte desse dinheiro vai embora do país.

(Não se acredite que com um Bolsonaro a coisa melhore, pois Jair prometeu ao rei dos cassinos de Las Vegas abrir as casas de jogo.)

É improvável, mas era possível, que o Brasil abrisse um mercado de apostas de forma ordenada. Como as tratativas deram-se no escurinho de Brasília, o resultado foi o pior possível. Disso resulta que o governo está tonto, correndo atrás do prejuízo social e sujeito aos mais diversos tipos de pressão.

A iniciativa que tentou limitar a publicidade durante a Copa do Mundo foi um tiro que saiu pela culatra e permitiu aos interessados atribuir a lambança ao Palácio do Planalto. Produzida no caos, a legislação da jogatina viceja no caos e, se ninguém se mexer, o caos servirá de justificativa para a desordem que ele mesmo provoca.

Se o crime organizado consegue se infiltrar em fundos de investimento da Faria Lima, o que ele não consegue fazer em casas de apostas? Um ex-funcionário do Banco Master lava dinheiro no jogo do tigrinho. A banda da jogatina tem alguma má consciência. Só isso explica a tentativa de impor 100 anos de sigilo às negociações para autorizar o funcionamento de casas de apostas.

O ex-ministro da Fazenda e atual candidato ao governo de São Paulo Fernando Haddad defende que as casas de apostas sejam proibidas. Como? A ver. Seus argumentos são fortes: “Isso não está fazendo bem para ninguém”.

— Não gera emprego, há evasão de divisas, o que vai de dinheiro para fora é uma montanha de dinheiro, e nós podemos estar falando em alguma coisa entre 0,5% e 1% do PIB. É muito dinheiro para uma coisa que está gerando o quê de bem-estar? Não está gerando bem-estar nenhum — afirmou.

Cinco capitais e dois estados já criaram regras que restringem a publicidade das apostas.

No mundo digital, é impossível acabar com as apostas com uma canetada, como fez o presidente Dutra em 1946, mas pode-se pôr alguma ordem na festa. Se as restrições impostas às apostas seguirem o modelo das que são aplicadas aos cigarros e às bebidas, já é um bom começo.

Bookmark and Share

NA ONU, LULA APRESENTA ELEIÇÃO COMO EMBATE ENTRE DEMOCRACIA E AUTORITARISMO E FAZ VACINA CONTRA TRUMP

Patrícia Campos Mello, Folha de S. Paulo

Mandatário gabaritou lista de críticas a americano, mencionando desde Irã e Israel até América Latina e IA

Presidente brasileiro usa pronunciamento para reforçar discurso de soberania e enfatizar plataforma de campanha

O discurso do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na abertura da Assembleia Geral da ONU combinou vacinas contra interferências americanas na eleição brasileira com uma apresentação do pleito ao mundo como embate entre autoritarismo e democracia.

Na fala de quase 22 minutos, diante dos 18 minutos do ano passado, Lula caracterizou a eleição brasileira como uma luta entre o retrocesso autoritário simbolizado pela volta da família Bolsonaro ao poder e o aprofundamento de um projeto progressista que ainda não entregou resultados suficientes para parte da população. E, como esperado, o tema da soberania permeou o pronunciamento.

"No dia 4 de outubro, milhões de brasileiras e brasileiros vão às urnas para definir o seu destino. Não vão apenas eleger o presidente da República, governadores estaduais e representantes do Poder Legislativo. Vão decidir entre democracia e negacionismo."

O discurso foi recheado de recados eleitorais e alfinetadas em Donald Trump.

"A democracia está novamente em xeque. Voltamos a presenciar a ingerência externa em processos eleitorais", disse Lula. "Não permitiremos que os inimigos da democracia, internos e externos, atentem contra a vontade popular. A democracia brasileira pertence aos brasileiros. O Brasil continuará sendo um país soberano."

Lula gabaritou a check-list de críticas a Trump, mesmo sem nomeá-lo.

"Ameaçar civilizações de extinção não trará estabilidade para o Oriente Médio", discursou o mandatário, referindo-se à frase de Trump, em abril, sobre o Irã, na qual afirmou que "uma civilização inteira morrerá esta noite". Ele também mencionou a alta dos combustíveis e de fertilizantes, resultado da guerra contra o Irã iniciada por Trump e pelo primeiro-ministro israelense, Binyamin Netanyahu.

O brasileiro afirmou que a relatora especial da ONU, Francesca Albanese, não pode ser "silenciada por dizer a verdade" e condenou a perseguição a membros do Tribunal Penal Internacional –eles foram alvos de sanções por parte do governo Trump por suas ações em relação a Israel.

Lula fez referência à Doutrina Donroe, codificada na estratégia de segurança nacional dos EUA, que estabelece hegemonia americana no Hemisfério Ocidental. "Na América Latina e no Caribe, a proximidade geográfica com a maior potência militar do mundo é inescapável. Sobretudo num contexto de recrudescimento de tentações hegemônicas. O Brasil não cabe no quintal de ninguém."

Também rechaçou o tarifaço —os que "usam tarifas como armas de coerção e chantagem"— e a oposição de Trump à regulação de IA. "Um punhado de tecno-oligarcas quer ressuscitar uma versão de neoliberalismo digital, sem regras nem transparência."

Sobrou também para o governo americano no tema da saúde. Lula criticou as campanhas contra vacinas, incentivadas pelo secretário de Saúde de Trump, Robert F. Kennedy, e a retirada dos EUA da Organização Mundial de Saúde.

A única menção direta ao mandatário americano entrou em um contexto de imunização contra sanções americanas iminentes a bancos e entidades brasileiras acusadas de envolvimento com o crime organizado. Desde que o governo americano designou PCC e CV como entidades terroristas, a pedido do senador e candidato presidencial Flávio Bolsonaro (PL-RJ), espera-se uma saraivada de sanções contra empresas e indivíduos brasileiros, tal como ocorreu no México.

"Mas não vamos terceirizar a responsabilidade de defender nossas fronteiras e de garantir à população o direito de viver sem medo. Não precisamos de porta-aviões vigiando nossas águas. Precisamos de cooperação para estancar o fluxo de armas e de dinheiro que abastecem o crime. Esse é o espírito da proposta que entreguei pessoalmente ao presidente dos Estados Unidos."

A soberania foi enfatizada no pronunciamento. O tema foi abraçado como uma das principais plataformas eleitorais após a reação firme de Lula contra o tarifaço de Trump render apoio popular. Neste ano, não estão tão claros os dividendos políticos do discurso da soberania, mas a campanha de Lula continua apostando no mote.

Dentro do contexto eleitoral, Lula tentou retratar Flávio Bolsonaro como o candidato que será subserviente aos Estados Unidos.

"Teremos um pleito transparente e competitivo, em que todos os candidatos desfrutam da mais ampla liberdade de expressão. Sabemos que alguns abusam dessa liberdade para se associar a interesses estrangeiros contrários ao país."

E fez menção implícita ao envolvimento do candidato do PL no escândalo do Banco Master. "Crime organizado e corrupção andam juntos. O combate à corrupção continuará implacável, doa a quem doer. Ninguém está acima da lei."

Os petistas afirmam que o ministro André Mendonça, relator do caso Master no Supremo, protege Flávio, que foi flagrado em um áudio pedindo milhões a Daniel Vorcaro para financiar o filme "Dark Horse". O candidato é investigado por corrupção e lavagem de dinheiro desde julho, mas isso só veio à tona recentemente.

Outro check-list que Lula gabaritou foi o eleitoral. Ele mencionou os principais pontos que vem enfatizando em sua campanha: restrições a bets, escala 6x1, proteção do Pix, processamento de minerais críticos com transferência de tecnologia para o Brasil, ECA digital, luta contra o feminicídio, reajuste do salário mínimo, ampliação do crédito.

Mas o mandatário brasileiro reconheceu, em trecho do discurso, a maré negativa que se abateu sobre os progressistas nos últimos tempos. Governos e partidos do espectro ideológico ao redor do mundo enfrentam dificuldades para ganhar apoio popular e têm perdido eleições para lideres populistas de direita.

"Existe, em todo o mundo, um anseio legítimo por mudanças. Mas mudar não é retroceder. Não é subtrair direitos. Não é reeditar teorias de supremacia racial ou de submissão feminina. Não é recolonizar o Sul Global. Mudar é avançar para um futuro de mais participação e mais conquistas."

Bookmark and Share

LULA DEVERÁ AGIR CONTRA AS BETS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Em busca de reeleição, presidente adota medidas com apelo popular

Risco é restringir demais e empurrar apostadores para mercado paralelo

Entre as medidas reeleitorais que Lula deve anunciar em breve, devem constar providências contra as bets. Dado que as casas de aposta se tornaram uma unanimidade negativa, podemos esperar ações contundentes. Meu receio é que Lula opte pelo que trará mais votos e não pelo que é melhor.

Sempre defendi e continuo defendendo que não cabe ao Estado proibir o cidadão de fazer o que achar melhor com o seu dinheiro ou seu corpo, incluindo jogar e consumir drogas. O alcoolismo é uma doença de maior prevalência do que a ludopatia e não seria difícil juntar várias histórias tristíssimas de dependentes. Mas ninguém cogita de resolver o problema proibindo o comércio de bebidas. Os EUA tentaram isso e não deu muito certo.

Algo semelhante vale para o jogo. O Brasil não liberou as bets por convicções filosóficas. Fez isso, entre outras razões, porque as pessoas já estavam apostando e o país não arrecadava os impostos incidentes sobre a atividade. Fazia e continua fazendo todo o sentido regular e tributar. E é na parte do "regular" que o Brasil não foi bem.

Até adotamos alguns mecanismos de redução de danos efetivos, como a possibilidade de autoexclusão e o limite máximo de perda, mas deixamos de implementar a mais óbvia e necessária das medidas, que é a restrição da publicidade. As bets jogaram pesado numa propaganda enganosa maciça que encontrou uma população com baixo letramento financeiro. O resultado foi um aumento muito rápido dos jogadores problema e dos ludopatas, além da explosão do endividamento.

É preciso tentar corrigir isso. Mas, como ensinava Dilma Rousseff, a pasta de dentes não volta facilmente para o tubo. Já temos uma legião de jogadores que não renunciarão ao hábito. Se Lula proíbe demais, essa turma migrará para o mercado paralelo. Ficaríamos com o problema e sem a arrecadação e as ferramentas para minorar os danos. Eu baniria a publicidade, os patrocínios e iria para a microrregulação para reduzir a gratificação dopaminérgica de algumas modalidades de jogo.

Bookmark and Share

QUE ACENO LULA FARÁ AO PIB ?

Vera Magalhães, O Globo

Expectativa para jantar do presidente com empresários é de reconhecimento de necessidade de mudança na política fiscal e, se possível, de nome para comandar a economia

Em dezembro, o clima no Planalto e no PT era de “já ganhou”. Jair Bolsonaro, condenado e preso, havia esnobado Tarcísio de Freitas e apontado um dos filhos, Flávio, que não era a primeira escolha nem na prole, como seu candidato a presidente. A reforma do Imposto de Renda havia sido aprovada, Lula havia surfado bem a onda do tarifaço, sua popularidade se recuperava de forma que parecia consistente.

Não demorou três meses para a maré virar. Os ganhos de avaliação obtidos no semestre anterior rapidamente se esvaíram. O bem-estar econômico sumiu das pesquisas. E Flávio, mesmo diretamente envolvido no escândalo do Banco Master, chega à reta finalíssima empatado com Lula no primeiro e no segundo turnos.

Depois de um período de negação da própria dificuldade, o presidente parece ter entendido o risco real de derrota. Tanto que encerrou seu discurso na abertura da Assembleia Geral da ONU falando que isso representaria uma vitória do autoritarismo contra a democracia.

Na semana passada, a mudança de estratégia já havia ficado clara com a decisão de reajustar o Bolsa Família depois de quatro anos, às vésperas do pleito. Mas não é só. Outros gestos em costura poderão ser feitos na direção de setores mais refratários à sétima candidatura e à possibilidade de um quarto mandato de Lula. A dúvida é se ainda há tempo e se há com que acenar que não soe mera reedição do apelo à frente ampla de 2022.

A decisão de Lula se reunir na sexta-feira com um grupo de empresários ligados ao grupo Esfera, com organização do grupo Prerrogativas, vem da constatação de que é preciso propor pontes e defender a política econômica e fiscal. Ele estará acompanhado do ex-ministro da Fazenda Fernando Haddad, do atual, Dario Durigan, e de outros ministros como Bruno Moretti (queridinho do empresariado) e Miriam Belchior. Insistirá em dizer que herdou de Jair Bolsonaro e Paulo Guedes um estado de descontrole fiscal e entregará a meta do atual arcabouço cumprida. Entre uma coisa e outra, existem várias nuances, a depender do indicador e do recorte, mas será esse o tom.

Lula dirá que foi presidente três vezes e nunca cometeu despautérios econômicos, menos ainda atentou contra a democracia, a ciência, a educação ou a defesa do meio ambiente, como Bolsonaro. Lembrará os dados de crescimento desta sua gestão, das anteriores e os riscos contidos nas declarações que Flávio já deu de capitulação aos interesses americanos. A ideia é sensibilizar o setor produtivo, que predomina no Esfera em relação ao financeiro.

O quórum confirmado é de quase 300 empresários, então a chance é o encontro reverberar mais que o frio jantar de semanas atrás no Alvorada, em que um Lula ainda em negação não se conformava com a avaliação negativa de seu governo. Mas esse roteiro pode ser insuficiente. Empresários que confirmaram presença no encontro esperam compromissos mais concretos. Sonham que Lula possa anunciar o futuro ministro da Fazenda e arriscam até o nome: Luiz Carlos Trabuco Cappi, ex-presidente do Bradesco. Esta, sim, seria uma cartada capaz de balançar o extremo ceticismo que existe hoje não só no mercado, mas também no empresariado, com mais quatro anos de Lula no poder.

Equivaleria, na avaliação de interlocutores do presidente que olham para as pesquisas com preocupação crescente, ao calmante dado com a nomeação de Henrique Meirelles para o Banco Central em 2002 e com a surpreendente escolha de Geraldo Alckmin para vice, 20 anos depois. Ambos foram tiros certeiros e alianças exitosas, lembram.

Lula tirou uma carta da manga ao reajustar o Bolsa Família, mas ela foi destinada a quem já vota nele. Fazer um gesto de impacto como esse seria descer do salto, admitir a chance de derrota, alertar quem tem o dinheiro sobre o risco da volta da instabilidade bolsonarista e comprometer-se com mudanças profundas — cuja necessidade ainda não reconheceu — para conter gastos e a expansão da dívida. Não se sabe, porém, se ele está disposto a ir tão longe.

Bookmark and Share

O BRASIL NÃO CABE NO QUINTAL DE NINGUÉM

Bookmark and Share

O BOLSONARO MAIS PERIGOSO PODE SER O MAIS MODERADO

Diogo Cunha*, Folha de S. Paulo

Flávio pode ter aprendido que, para esvaziar uma democracia, é melhor não declarar guerra contra ela

Ele parece mais disciplinado, integrado ao sistema partidário e capaz de negociar com aqueles que Jair preferia ameaça

Flávio Bolsonaro, candidato do PL à Presidência da República, é mais perigoso para a democracia do que o pai, Jair. Não por ser mais radical, mas por parecer mais moderado.

O pai tentou dar um golpe seguindo uma cartilha ultrapassada, um tanto demodê, e fracassou. Jair é impulsivo, errático e dado ao confronto. Flávio parece mais disciplinado, mais integrado ao sistema partidário e mais capaz de negociar com aqueles que o pai preferia ameaçar. Em determinados contextos, contudo, a moderação pode tornar mais eficaz o radicalismo dos objetivos. Não há entre eles diferença de convicções —basta olhar a trajetória do 01—, mas uma diferença de método: confronto, no caso do pai; acomodação, no caso do filho. Diferentemente de 2018, em 2026 estão dadas as condições para que Flávio possa subverter a democracia por dentro.

Em 2018, muito se discutiu sobre a capacidade de resiliência da democracia diante de um populista autoritário que chegava à Presidência da República. Para uns, a democracia brasileira corria, sim, um risco; para outros, esse risco era mínimo ou mesmo inexistente.

O argumento do segundo grupo se apoiava sobretudo no desenho institucional brasileiro e em seus mecanismos de freios e contrapesos: um sistema consensual, marcado pela dispersão do poder e por múltiplos pontos de veto. A fragmentação partidária, a existência de legendas disciplinadas e centralizadas no Legislativo, um Congresso fortalecido, o federalismo, um Judiciário constitucionalmente forte e independente e órgãos de controle relativamente autônomos constituíam obstáculos que dificultavam significativamente um "executive takeover" por parte de Jair Bolsonaro.

Obstáculos institucionais, contudo, não são garantia da sobrevivência da democracia. Se o Legislativo pode funcionar como contrapoder, nada garante que um Congresso Nacional conservador não possa se tornar aliado de um eventual processo de autocratização. Mais significativo, na conjuntura de 2026 —e diferentemente da de 2018— é que não apenas o Supremo Tribunal Federal (STF) está enfraquecido por uma crise de legitimidade sem precedentes como também quatro ministros podem ser nomeados pelo próximo presidente.

Há, enfim, outra diferença em relação a 2018: um segundo governo Donald Trump elevou a interferência na América Latina a um novo patamar e está determinado a influenciar as eleições para favorecer a vitória de candidatos da extrema direita em todo o continente. Ao estudar os autoritarismos competitivos, Steven Levitsky e Lucan Way ("Competitive Authoritarianism: Hybrid Regimes After the Cold War") mostraram que, após o fim da Guerra Fria, a influência ocidental aumentava os custos da autocratização. O que se vê hoje é uma inversão desse mecanismo: a principal potência hemisférica, sob o comando de Trump e Marco Rubio, deixou de elevar os custos da erosão democrática e passou até mesmo a recompensá-la —desde que praticada por governos ideologicamente alinhados a Washington.

O cenário mais perigoso talvez não seja o de tanques nas ruas, mas o de uma sucessão de decisões formalmente legais, aprovadas por maiorias parlamentares conservadoras, respaldadas pelos EUA e justificadas como correções dos "abusos" de um STF agora "moralizado", sem Alexandre de Moraes e com novos ministros bolsonaristas, além de André Mendonça, Kassio Nunes Marques e Luiz Fux.

Em 2022, a democracia brasileira sobreviveu a Jair, que anunciava quase diariamente sua disposição de golpeá-la. Talvez o perigo maior venha de Flávio, que pode ter aprendido que, para esvaziar uma democracia, é melhor não declarar guerra contra ela.

*Doutor em história (Université Paris 1 Panthéon Sorbonne), é professor-adjunto do Departamento de Ciência Política da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE); foi pesquisador visitante na Universidade de Oxford e na Universidade Paris-Saclay

Bookmark and Share

UM DEBATE DECISIVO

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

Depois de 48 anos, o Senado voltou a ser decisivo para o governo e para a oposição

‘Estadão’ e FAAP promovem nesta quarta o debate com os candidatos ao Senado em São Paulo diante do papel determinante que os eleitos terão na resolução da crise do STF

Lá se vão 48 anos. Franco Montoro e Fernando Henrique Cardoso disputavam o voto do eleitor de São Paulo pelo MDB, enquanto Cláudio Lembo era o candidato da Arena. O regime militar estava no fim. Prefeitos das capitais, governadores e o presidente da República eram eleitos de forma indireta, pelo Colégio Eleitoral. Restava ao eleitor apenas um pleito majoritário, em que a oposição e o governo mediam forças: a eleição para o Senado.

Já em 1982, o povo brasileiro pôde eleger pelo voto direto os governadores e, em São Paulo, escolheu Montoro, o senador eleito em 1978. A campanha, então, apresentou uma novidade: um debate eleitoral na TV entre os cinco candidatos ao governo. Ali apareceu pela primeira vez na cédula eleitoral o nome do atual presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Candidato ao Palácio dos Bandeirantes, ele amargou o quarto lugar no pleito.

O protagonismo deixava os candidatos ao Senado e passava aos candidatos ao Executivo. E assim se manteve em 1986, mesmo com a eleição dos constituintes. São Paulo elegeu Orestes Quércia como governador, mas a eleição para o Senado trouxe dois nomes que dominariam a política no Estado nas décadas seguintes: Mário Covas e Fernando Henrique. Após 1989, com a volta da eleição direta para presidente, o debate político deslocou-se para Brasília. E o eleitor continuou a comparar os candidatos nos debates. FHC foi ao de 1994 e ouviu um desaforo de Leonel Brizola sobre o Plano Real. Mas a estabilização da moeda garantiria a FHC a eleição e a reeleição em 1998.

Desde então, a cada eleição lá estão os debates e as ausências, em alguns deles, dos candidatos mais bem colocados. Bolsonaro faltou aos de 2018. Culpou a facada. Lula pulou alguns em 2022. Queria distância de Padre Kelmon, o candidato bolsonarista do PTB, e de outros adversários dispostos a fustigá-lo.

Em 2026, algo mudou. O eleitor poderá assistir a uma campanha de primeiro turno quase sem debates de presidenciáveis e de candidatos ao governo paulista. Ao mesmo tempo, ninguém parece se importar com o que eles fazem em suas agendas: só se deseja saber qual é a última notícia do STF. É assim que, novamente, a eleição ao Senado, pelas vias tortas da Justiça, ganhou novo protagonismo.

O eleitor quer saber dos candidatos como cada um se comportará, se eleito, diante da crise da Corte. Vai admitir o impeachment de ministro? Aprovará mudanças nas competências do tribunal e na forma de indicação de seus integrantes? É diante dessas questões que os sete principais candidatos ao Senado vão comparecer hoje ao debate promovido pelo Estadão e pela FAAP. Há muito o debate entre eles não era tão decisivo.

Bookmark and Share