terça-feira, 17 de março de 2026

HABERMAS E A IMPRENSA

Merval Pereira, O Globo

Habermas definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação

Esfera pública é um conceito difundido pelo filósofo alemão Jürgen Habermas (falecido no sábado aos 96 anos). Define o espaço em que os assuntos públicos são discutidos pelos atores, públicos e privados, levando à formação da opinião pública, que reflete os anseios da sociedade civil, pressionando os governos. Esse conceito é fundamental para compreendermos o papel do jornalismo, que Habermas entendia como mediação entre Estado e sociedade civil. Ele definia como dupla função do que chamava de “imprensa de qualidade” atender à demanda por informação e formação.

No texto “O valor da notícia”, ressalta que estudo sobre fluxos de comunicação mostra que, ao menos no âmbito da comunicação política, a imprensa de qualidade desempenha papel de “liderança”. O noticiário político de rádio e TV depende dos temas e das contribuições provenientes do que chama de jornalismo “argumentativo”. Sem o impulso de uma imprensa voltada à formação de opinião, capaz de fornecer informação confiável e comentário preciso, a esfera pública não tem como produzir essa energia, dizia Habermas.

O tema, sempre central em sua obra, levou-o a escrever um último livro intitulado “Uma nova mudança estrutural da esfera pública”, em que se dedica a analisar as consequências da comunicação digital na sociedade moderna. O filósofo francês Jean Baudrillard já advertia que “a desinformação vem da profusão da informação, de seu encantamento, de sua repetição em círculos”. Pois Habermas registrou que as redes geram “ruídos incessantes em bolhas de opinião autossustentáveis”, levando a esfera pública a se fragmentar sob o domínio das big techs, que têm compromisso apenas com o lucro, provocando degeneração da democracia.

Para Habermas, a legitimidade da democracia depende da comunicação entre a sociedade civil e o centro de poder, deteriorada pelos ruídos da polarização estimulada pelas redes sociais. A importância de uma imprensa livre e profissional na produção de informação confiável é essencial para o funcionamento da esfera pública e da democracia, afirmava Habermas. O conceito de degradação da esfera pública pode ser aplicado a cenários como o uso indevido de canais de comunicação por figuras públicas para misturar interesses pessoais e privados, como acesso de familiares de políticos a redes sociais oficiais, ou os casos de corrupção como acompanhamos com o Banco Master, com diversas figuras públicas envolvidas.

Frequentemente o ambiente político brasileiro é afetado por ações estratégicas (focadas apenas no poder/sucesso individual ou partidário) em detrimento de uma ação comunicativa voltada para o entendimento mútuo, conceito central na obra de Habermas, referência para defender o jornalismo profissional e a democracia contra investidas populistas ou autoritárias. O filósofo alemão revelou, em artigos, seu temor de que os mercados não façam justiça à dupla função que a imprensa de qualidade, segundo ele, até hoje desempenhou.

A tal ponto que Habermas chegou a sugerir que os governos democráticos deveriam subsidiar os jornais “de qualidade” para garantir que se encarreguem de continuar alimentando a esfera pública para o debate das grandes questões. A proposta tinha por base a tese de que uma imprensa livre é vital para uma sociedade democrática. A ideia não foi adiante, e o próprio Habermas admitiu que a possibilidade de manipulação desse estímulo oficial poderia interferir nesse debate, o deslegitimando.

Bookmark and Share

HABERMAS E A RECONSTRUÇÃO ÉTICA DA ECONOMIA

Giovanni Beviláqua*, Correio Braziliense

Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da Vida na economia.

A partida de Jürgen Habermas, em 14 de março de 2025, aos 96 anos, não representa apenas o fim da trajetória de um dos últimos gigantes da filosofia do século XX, mas marca o momento em que sua obra deixa de ser uma promessa teórica para se tornar uma necessidade prática urgente. Em um mundo fragmentado por crises de alteridade e pela tecnocracia asfixiante, Habermas nos legou a bússola da racionalidade comunicativa, uma ferramenta indispensável para quem busca repensar a economia a partir de sua base: os pequenos negócios e o desenvolvimento territorial.

O núcleo da provocação habermasiana reside na tensão dialética entre o "Sistema" e o "Mundo da Vida". Para o pensador, o Sistema — composto pelo mercado e pelo Estado — opera sob uma lógica instrumental, centrada na eficácia, no lucro e no poder. Já o Mundo da vida é o espaço da cultura, da identidade e da solidariedade, onde a linguagem serve ao entendimento e não apenas ao resultado. O grande drama da modernidade, segundo ele, é a "colonização do mundo da vida", um processo patológico onde a frieza dos números e a burocracia tentam silenciar as relações humanas espontâneas e os valores compartilhados.

Quando transpomos essa lente para a realidade brasileira, em especial para os pequenos negócios, a potência do pensamento de Habermas torna-se clara e profundamente transformadora. Sob essa perspectiva, os pequenos negócios não são meras unidades estatísticas ou engrenagens de baixa produtividade; eles são, em essência, os últimos redutos do Mundo da vida na economia. Enquanto as grandes corporações operam sob o domínio da racionalidade instrumental pura, o pequeno empreendedor sobrevive e prospera por meio do agir comunicativo. Nesses espaços, o valor não se reduz à transação financeira; ele se expande na construção de confiança, na formação de reputação e no reconhecimento mútuo. É uma economia enraizada nos territórios, onde o diálogo é o ativo mais valioso e a intersubjetividade é a base da sustentabilidade do negócio.

Essa perspectiva é revolucionária para a formulação de políticas públicas e para o desenvolvimento social. Habermas nos ensina, em sua obra monumental Direito e democracia, que a legitimidade de qualquer norma ou política depende da deliberação. No Brasil, contudo, ainda vivemos uma profunda exclusão comunicativa. A esfera pública econômica é frequentemente capturada por grandes interesses financeiros, enquanto os milhões de brasileiros que sustentam a economia real são tratados como meros destinatários de decisões tomadas em gabinetes distantes.

Uma sociedade verdadeiramente justa, inclusiva e próspera exige o que podemos chamar de justiça comunicativa. Isso significa reconhecer o pequeno empreendedor como um sujeito deliberativo legítimo. O desenvolvimento social não pode ser um pacote pronto entregue pelo Estado; ele deve ser o resultado de um consenso ético construído de baixo para cima, respeitando o capital social e simbólico de cada território. Quando falamos em acesso ao crédito, por exemplo, não estamos tratando apenas de liquidez financeira; estamos falando de autonomia. O crédito, sob a ótica habermasiana, deve ser um instrumento que fortalece o Mundo da vida, permitindo que o sujeito exerça sua capacidade de agir e transformar sua realidade, e não um mecanismo de pressão que aprofunda a colonização sistêmica.

Habermas nos instiga a pensar que a prosperidade não é um acúmulo solitário de capital, mas uma construção coletiva de sentidos e bem-estar. Uma economia plural é aquela que valoriza as muitas vozes de seus agentes e entende que o dinamismo econômico é indissociável do amadurecimento democrático. A racionalidade comunicativa nos oferece o caminho para uma gestão mais humana, onde a escuta e o entendimento mútuo superam a mera busca por resultados imediatistas e despersonalizados.

Honrar o legado de Habermas é trabalhar para que o Brasil real tenha não apenas o direito de produzir, mas o direito de falar e de ser ouvido. É acreditar que a reconstrução ética da economia brasileira passa pela valorização dos pequenos negócios como agentes de cidadania e racionalidade pública. Como ele mesmo defendia, a razão não se realiza no isolamento, mas no ruído produtivo do encontro entre iguais que buscam, por meio do diálogo, construir o mundo em que desejam viver. Que a nossa economia aprenda, finalmente, a ouvir a base que a sustenta.

*Giovanni Beviláqua — Doutor em economia pela Universidade de Brasília (UnB)

Bookmark and Share

OLHE PARA A LENTE DA VERDADE

Há exatos 17 anos morria em Brasília no Hospital Santa Lúcia, o deputado federal, Clodovil Hernandes, 71 anos. A morte cerebral foi anunciada pelo diretor do hospital, após 30 horas de ser encontrado desmaiado em sem seu apartamento, em Brasília. O texto abaixo é do Estadão de 2019, quando completou uma década sem Clodovil Hernandes.

Do Estadão

Em 17 de março de 2009, há exatamente 10 anos, morria o apresentador, estilista e deputado federal Clodovil Hernandes. Conhecido por sua personalidade forte, seus comentários ácidos e seu frequente envolvimento em polêmicas, Clodovil conquistou uma legião de fãs e outra de desafetos ao longo da carreira.

O estilista passou por quase todas as emissoras de TV aberta no Brasil, algumas das quais nem existem mais. Dono de uma personalidade forte, dificilmente conseguia se manter na mesma emissora por muito tempo - e colecionava inimigos por onde passava.

Na Globo, por exemplo, tinha desafetos com Marília Gabriela. Na RedeTV!, chegou a chamar Luisa Mell, então namorada de um diretor da emissora, de 'Rita Cadillac do futuro'. Na Band, fez críticas a Adriane Galisteu, envolvida com o patrocínio de seu programa.

"Comecei a fazer televisão com 20 anos. Fiz muito programa vespertino com a Janete Coutinho, aquelas mulheres, na Tupi. Fiz muitas vezes a Rede Record, que era o máximo à época, e tal, muitas entrevistas", afirmava Clodovil, em vida. "Saí brigado de todas as emissoras que trabalhei, mas é porque eu, burramente, defendia os interesses do proprietário", justificava.

Foi em 1977, no extinto 8 ou 800, da Globo, apresentado por Paulo Gracindo, que Clodovil teve uma de suas primeiras participações marcantes na televisão brasileira.

No programa, exibido nas noites de domingo, os participantes precisavam responder perguntas sobre um tema ou personalidade em busca do prêmio máximo de 800 mil cruzeiros. Clodovil escolheu Dona Beija, figura brasileira do século 19. E saiu vitorioso.

TV Mulher com Marília Gabriela (Globo)

Desde a estreia do TV Mulher, em 1980, até o ano de 1982, Clodovil possuía um quadro no programa em que dava dicas de estilo, desenhava modelitos e entrevistava nomes conhecidos do mundo da moda.

Posteriormente, ele passou também a ler cartas de telespectadoras para aconselhá-las sobre quais roupas usar em determinadas ocasiões.

O primeiro programa solo de Clodovil (Band)

Em 21 de março de 1983, às 21h, foi ao ar o primeiro programa solo de Clodovil, levando seu nome, na Bandeirantes.

"O público exigiu minha volta. Foram nove meses de conversação, até que eu me decidisse a fazer o programa, cuja proposta é levar ao público uma coisa bem brasileira", afirmava o apresentador, que estava longe das telas havia quase um ano.

No programa, Clodovil cantava, dançava e conversava com diversas personalidades sobre os mais variados temas.

Rede Manchete e a polêmica com Ulysses Guimarães

Em 23 de janeiro de 1984, Clodovil estreou na Rede Manchete, emissora que havia sido fundada há menos de um ano. Seu primeiro trabalho no canal foi participando do Manchete Shopping Show, divulgado como "um programa de atualidades, serviços e informação dirigido à mulher moderna [...]Um encontro diário com colunistas, gente famosa e convidados especiais".

Em 1985, apresentou o De Mulher para Mulher, exibido nas tardes da emissora. No ano seguinte, veio Clô Para Os Íntimos, investindo no formato ao qual já estava acostumado.

No programa, o apresentador conseguiu a presença de inúmeras personalidades da época, como Fernanda Montenegro, Myrian Rios, Luiz Carlos Barreto, Augusto Boal, Malcolm Roberts e Elizeth Cardoso.

Em 1988, porém, uma indisposição com o então presidente da Assembleia Nacional Constituinte realizada no Brasil, Ulysses Guimarães, custou seu cargo na emissora.

"Quando falei naquela época na televisão: 'Escuta aqui, isso é uma constituinte ou uma prostituinte?', o Ulysses Guimarães ligou pra Manchete e disse assim: "Tire esse viado filho de uma p*** do ar hoje!", relembrou Clodovil anos depois.

Retorno à Manchete

Em junho de 1992, Clodovil foi chamado para um retorno à Manchete. Pouco depois, em 13 de julho, estreou o Clodovil Abre O Jogo.

Com o bordão "Olhe para a tela da verdade e me diz", o programa era vendido bem ao estilo do apresentador: "Talk-show é talk-show. Mas sob o comando de Clodovil, é algo mais. É jogo aberto. Nada de meias palavras. Muito sincero e sempre surpreendente, o que Clodovil diz para as lentes faz da sua TV uma tela da verdade".

"Vocês querem que eu ponha o dedo nas feridas, mas não estou gostando muito desse papo de mandar abrir o jogo. Lavar roupa suja no meu programa? Vai virar O Povo na TV, é?", questionava à sua equipe durante as primeiras gravações.
A atração contava também com o pianista Ronaldo Pelicano, chamado de "Paixão" por Clodovil. Ele, porém, não gostava muito do apelido: "Não que eu ache chato, mas isso precisa ser reconversado, porque não quero ser apenas o 'Paixão do Clodovil'".

Com o programa gravado, Clodovil não escondia seu desapontamento com o fato: "Eu preferia que fosse ao vivo. Imagine se na vida real a gente para de repente para arrumar a luz?"

No primeiro semestre de 1993, Clodovil deixou novamente a emissora, e não poupou críticas. "Pior do que eu estava na Manchete? Cortaram os telefones por falta de pagamento, cheguei a fazer programa sem plateia porque não havia dinheiro para pagar os ônibus que traziam o público e nem o lanche".

A saída de Clodovil se deu em meio a uma disputa judicial sobre o canal, na qual a gestão de Hamilton de Lucas de Oliveira foi obrigada a devolver a emissora para Adolfo Bloch. Clodovil reclamava uma dívida de 115 mil dólares, à época.

"Que mal fiz para o pessoal da Manchete para eles me tratarem assim? [...] É o segundo calote que levo. No primeiro, me puseram na rua sem nada. E depois estamparam na capa da [revista] Amiga que eu estava com aids. Eles usam a desgraça para ganhar dinheiro".

Clodovil Abre o Jogo na Rede OM / CNT

Em 23 de maio de 1993, Clodovil estreou na Rede OM, que pouco depois passaria a se chamar CNT (Central Nacional de Televisão), rede que chegou a contar com o locutor Galvão Bueno em sua equipe de contratados naquela época.

O nome de seu programa continuou como Clodovil Abre o Jogo. Além disso, também passou a apresentar um programa semanal, o Em Noite de Gala.

Clodovil afirmava que, mesmo com "várias" propostas de SBT, Record e Bandeirantes, havia optado pela emissora por conta do pedido de uma antiga cliente sua, a mãe de José Carlos Martinez, dono da rede - além, é claro, de uma proposta financeira mais vantajosa. "A emissora é pequena porque não tem grandes estrelas", dizia.

Em janeiro de 1994, enquanto fazia uma viagem a Paris, a emissora trocou toda a equipe de produção de seu programa. Em novembro daquele mesmo ano, chegou ao fim o contrato de Clodovil na CNT. A emissora entrou com uma ação pedindo rescisão por justa causa por "desrespeito à hierarquia e sucessivos desentendimentos com a casa".

"Ele gerou tanta confusão que acabou tornando insustentável a sua permanência. Chegava tarde para as gravações e não era raro vê-lo destratar técnicos ou mesmo convidados", afirmava José Carlos Martinez à época.

O ponto final foi uma entrevista com Adriane Galisteu. Nela, Clodovil questionou se Ayrton Senna, que havia sido seu namorado até a sua morte, meses antes, seria gay. "A ofensa a um ídolo nacional não podia ser tolerada", justificava Martinez.

Clodovil, por sua vez, alegava que a demissão era uma retaliação contra suas reclamações por salários atrasados, estimados entre mais de R$ 100 mil, incluindo cachês publicitários. O apresentador chegou a dar uma entrevista ao jornal O Globo criticando a direção da emissora cerca de três semanas antes de ser despedido. "Nunca deixamos de pagar religiosamente o salário de R$ 40 mil", garantia Martinez.

Clodovil com Bala na Agulha na Rede Mulher
Em agosto de 1995, Clodovil foi contratado pela Rede Mulher para apresentar o Clodovil com Bala na Agulha, com formato elaborado por Eduardo Sidney, ex-redator da Escolinha do Professor Raimundo.

A expectativa dos diretores da rede, à época, um canal acessível apenas para quem tivesse TV a cabo ou antena parabólica, o que reduzia bastante o alcance de seus programas, era que o nome de Clodovil impulsionasse a audiência. "O fato de poucos assistirem não me impede de manter a qualidade", afirmava.

No programa, Clodovil fazia entrevistas e falava sobre moda e temas polêmicos. Seus atritos com o canal começaram antes mesmo de sua contratação. O então superintendente da Rede Mulher, Percival Palesel, chegou a anunciar sua estreia. Clodovil, porém, negava a existência de um contrato: "Por enquanto é tudo conversa. Sou um produto caro".

Clodovil conseguia levar seus programas a conquistar até três pontos de audiência na contagem da época, o que era significativo, uma vez que a emissora estava acostumada ao 'traço'.

Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.

"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.

Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.

Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.

Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".

A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.

Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.

O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.

"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.

Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.

Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.

Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".

Além disso, nomes importantes toparam lhe dar entrevistas na Rede Mulher, como Fernanda Montenegro e o então jogador de futebol Edmundo.

"Não tive problemas na Rede Mulher, mas eu era muita areia para o caminhãozinho deles", afirmou Clodovil após sua saída da emissora, na qual passou cerca de seis meses.

Flores, porém, foram o estopim para sua saída. Assustada com o valor da nota da conta de uma floricultura, a direção da emissora exigiu que Clodovil realizasse o pagamento de seu próprio bolso, o que foi negado. Na sequência, a relação que já não vinha bem, chegou ao fim.

Mesmo assim, o canal continuou exibindo reprises da atração durante algum tempo, o que fez com que alguns telespectadores sequer soubessem de sua saída.

Clodovil e seus Retratos: de volta à CNT
Dois anos depois, em 29 de julho de 1996, ele retornou à emissora para apresentar o Retratos, alegando ter refletido sobre sua forma de conduzir entrevistas: "É provável que tenha afastado algumas pessoas. Eu aprendi que ser temido não significa o mesmo que ser respeitado".

A proposta era que o programa trouxesse o estilista desenhando algumas criações de improviso enquanto falasse sobre temas ligados ao universo feminino, além de contar com entrevistados.

Clodovil queria que a estreia contasse com uma entrevista bombástica de PC Farias, tesoureiro do então presidente Fernando Collor que acabou morrendo poucas semanas antes de uma possível gravação.

O apresentador pretendia conquistar a confiança de Farias com a ajuda de um amigo em comum entre os dois, cogitando até mesmo realizar a gravação em Alagoas e não abordar processos criminais durante a conversa.

"O carma dele era horrível. Ter a energia do inconsciente coletivo de todo um País contra você não é brincadeira", dizia Clodovil após a morte do tesoureiro.

Retorno à Band por três meses: polêmica com Adriane Galisteu
Em janeiro de 1998, passou um período isolado em Ubatuba e chegou a afirmar que "só voltaria à TV se fosse na tela da Globo". Meses depois, já estava negociando com a CNT, mas acabou fechando com a Band em agosto, para a apresentação do Clodovil Soft.

Afastado da TV havia quase um ano, Clodovil tinha perdido cerca de 10 quilos. "Cansei de ficar esperando e fui falar com o Johnny Saad (então vice-presidente da Band)", afirmava sobre o contrato de dois anos.

Inicialmente com o vespertino Clodovil Soft, que estreou em 24 de agosto almejava voos maiores com um programa em horário nobre: "À tarde, a gente ganha fama. À noite, prestígio".

O programa contava com a presença da personagem Mamãe Mídia (Lourdes Rosa), sua 'secretária', além de um ajudante de palco e um bizarro fantoche de uma câmera de vídeo afeminada chamada Pink Pintosa - talvez uma tentativa de entrar no embalo do sucesso de Louro José, de Ana Maria Braga, e de Xaropinho, do Ratinho.

orém, em novembro, o clima mudou. Ao receber Roberto Justus, então noivo de Adriane Galisteu, Clodovil sugeriu que ela "iria cair de paraquedas nas joias da futura sogra". O detalhe é que uma sopa vendida por Galisteu era a principal patrocinadora do programa.
A Band alegou que Clodovil foi "ofensivo a um patrocinador" e encerrou a atração. Clodovil, à época, afirmava que a Band se recusava a pagar os custos de sua demissão e ameaçou levar o caso à Justiça.

Volta à Rede Mulher e briga com Edir Macedo
Em 1999, o apresentador retornou à Rede Mulher à frente do Clodovil. A ideia era recriar um clima inspirado na praia de Ubatuba, onde morava, semelhante à Ilha da Fantasia (seriado da década de 1960).

"A primeira coisa que pergunto é se a entrevista é com você ou sobre você. Receberei todo tipo de pessoa", planejava o apresentador, que garantia que deixaria seus convidados à vontade.

Para fechar os programas, o jargão: "Fale qualquer coisa que sempre teve vontade, mas nunca teve coragem."

O Clodovil, que ia ao ar diariamente às 21h50, estreou em 22 de março daquele ano, mas durou menos de um mês. Em 15 abril, a emissora foi adquirida pela Rede Família, ligada à Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo, que também é proprietário da Record TV.

Os novos donos pareceram não ter gostado muito da imagem de Clodovil ligada ao canal, o que gerou desavenças. Em 19 de abril, o apresentador foi demitido. "Edir Macedo me processou por difamação, mas ganhei. Ele recorreu e vou ganhar de novo, a não ser que o processo caia nas mãos de um juiz comprado. Quero mandar um recado para esse senhor", criticava Clodovil em entrevista a Luciana Gimenez na RedeTV! em setembro de 2002.

"Sr. Edir Macedo, vou responder pela minha vida diante de Deus e o senhor também. Eu só quero ver como o senhor vai se comportar por ter vendido o nome de Deus em benefício próprio. Nem que passasse fome trabalharia na Record. Minha forma de encarar Deus é diferente da deles. Não tenho uma misericórdia fingida. Vender religião com uma proposta comercial por trás, em nome de Deus, é o que eles fazem", criticava, de forma incisiva.

Anos depois, Clodovil falou sobre sua saída da emissora em entrevista a Xuxa Meneghel: "Fui mandado embora da Rede Mulher porque a Igreja Universal comprou a emissora, achou que eu não era conveniente pro comportamento da igreja e me mandou embora no mesmo dia. Mas, claro, mostrou todos os programas que estavam gravados, né? Porque aí era questão de dinheiro e isso é uma outra história..."

Gravação de piloto no SBT
Pouco depois, em maio de 1999, Clodovil chegou a gravar o piloto de um programa no SBT. A emissora pretendia criar o TeleShow, semelhante ao Vídeo Show, da Globo, mostrando os bastidores da casa com apresentação de Márcia Golschmidt, Otávio Mesquita, Marcelo Augusto e Sonia Abrão. A ideia, porém, não foi para a frente.

"O quadro do Clodovil será um dos principais. Ele já pensou em alguns sofás vermelhos para cenário, onde vai fazer suas entrevistas", afirmou Sonia Abrão ao Estado, à época.

Segundo a Folha, ele teria exigido um camarim separado dos outros apresentadores durante uma gravação.

Em 2001, Clodovil esteve entre os principais nomes pedidos pelo público para participar da 2ª edição da Casa dos Artistas no SBT, mas não chegou a participar do reality.

'Passeio' pela Globo

Em entrevista ao Estado, em 2003, Clodovil falou sobre a emissora: "A grande verdade é que todo artista quer trabalhar na Globo. Pensei bem e concluí que o meu talento é meu título de nobreza e eu sou eu em qualquer lugar."

Anos antes, em agosto de 1999, Clodovil deu um "passeio" pela rede Globo e participou de diversos programas da casa, apesar de não ter sido contratado. Para o Zorra Total, gravou o quadro Rosto a Rosto, exibido em 14 de agosto, no qual era entrevistado por Alberto Roberto, clássico personagem de Chico Anysio. Ele ainda participou do quadro Fernandinho e Ofélia, estrelado por Lucio Mauro e Cláudia Rodrigues, que foi ao ar em 4 de setembro.

Não foi a primeira vez que Chico e Clô se encontraram na TV. Onze anos antes, em 1988,  ele participou de esquetes do Chico Anysio Show, quando foi 'entrevistado' pela personagem Neide Taubaté.

No Domingão do Faustão que foi ao ar em 8 de agosto, conversou ao vivo com o apresentador durante quase uma hora.

Segundo a edição da Istoé Gente de 21 de fevereiro de 2000, os dois apresentadores eram amigos. "Há um ano, ele [Faustão] soube que Clodovil enfrentava uma fase financeira difícil e não hesitou. Mandou imediatamente um buquê de flores ao estilista, algumas notas graúdas presas por um grampo de ouro, que, somadas, chegavam a R$ 40 mil, e um cartão escrito à mão: 'Não é dinheiro. É um presente de um amigo.'"

Anos depois, Clodovil ainda fez uma participação na novela O Clone, exibida entre 2001 e 2002, em que aparecia com seu cachorrinho no colo durante a inauguração de uma boate na trama.

Frente e Verso: mais um retorno de Clodovil à CNT
Em março de 2000, a CNT / Gazeta pretendia contar com o apresentador, conforme afirmava Silvio Alimari, criador do programa Mulheres e superintendente-geral da Gazeta: "Queremos o Clodovil conosco. As negociações com ele estão bastante adiantadas."

No mesmo ano, Clodovil ainda chegou a apresentar um prêmio ao lado de Max Fivelinha no VMB da MTV.

A expectativa era de que seu programa estreasse ainda em dezembro, mas foi adiado para janeiro de 2001, quando foi ao ar o Frente e Verso, exibidos às terças e quartas-feiras, às 22h. A convidada de seu primeiro programa foi Vera Loyola com sua cadela, Pepezinha.

Questionado se sentia falta de estar em uma grande emissora, Clodovil era contraditório: "Não tenho saudade de nada. Para que serve estar em uma emissora com uma audiência enorme se ninguém está interessado no que eu estou dizendo? É claro que eu queria estar em uma emissora maior. Mas não me chamam. Outro dia fui ao Domingão do Faustão e dei um ibope de mais de 40 pontos. Ainda assim, ninguém me chamou para voltar", complementava.

Mulheres

Em 1º de maio de 2001, Clodovil passou a apresentar o Mulheres, da TV Gazeta, ao lado de Cristina Rocha, com quem apresentou o programa até fevereiro de 2002. No início de setembro de 2002, foi demitido da emissora, que, à ocasião, dispensou mais da metade de seus artistas.

Dias depois, Clodovil foi cotado para apresentar o Bom Dia Mulher na RedeTV!. Porém, antes de a possibilidade se concretizar, participou do Falando Francamente e, em entrevista a Sonia Abrão, insinuou que não queria dividir a apresentação do programa com Solange Frazão e Solange Couto.

Irritada com as declarações, a direção da RedeTV! encerrou as negociações, que já contava até com um pré-contrato assinado com o apresentador. Elas foram retomadas posteriormente, e, um ano depois, as coisas foram diferentes.

A Casa É Sua e a chegada de Ofrásia

Cerca de um ano depois, em novembro de 2003, o apresentador fechou contrato com o canal, substituindo Leonor Corrêa, irmã de Faustão, no A Casa É Sua. "O público está cansado daquela porcaria que se tornou a TV à tarde. A programação vespertina estava cheirando mal, só explorando a violência, crimes, escândalos. Não venham me dizer que os programas mostram a realidade. Toda casa tem esgoto e privada, mas também tem sala, dormitório, living e jardim. Mas o que a gente enfatiza é o esgoto. É gente que não vê a beleza, por isso que as pessoas aceitaram bem meu programa", afirmava à época.

Entre os quadros do programa estavam o Hora das Flores, em que oferecia um arranjo de flores a uma personalidade, o Moda & Estilo, o Fuxico na Cozinha e o De Frente com o Espelho. Foi no A Casa É Sua que Clodovil passou a conviver com sua fiel escudeira Ofrásia (Vida Vlatt).

Em seus primeiros momentos no canal, o apresentador continuava ferino, como sempre. "É um entra e sai nesse estúdio, parece a Rua Direita" e "Gente, eles fazem cara de retardado, é a APAE aqui?" foram algumas das frases ditas por ele durante as gravações.

"Me perguntaram se eu já não tinha loucos demais na emissora. O que eu espero é que o Clodovil lute por audiência. Admitiremos qualquer posicionamento dele, desde que ele demonstre garra ao trabalho", afirmava o então vice-presidente da RedeTV!, Marcelo Carvalho.

Na RedeTV!, Clodovil ficou marcado por uma briga com os integrantes do programa Pânico, por quem se dizia perseguido.

Em 29 de março de 2004, outro fato inusitado: após se atrapalhar com uma tesoura e fazer um corte profundo em seu dedo durante o programa ao vivo, Clodovil sumiu de cena durante uma hora para ir até um hospital, levar três pontos e, em seguida, retornar elegantemente ao ar.

Em 14 de janeiro de 2005, Clodovil foi demitido por meio de um fax enviado pela direção da emissora. Desta vez, ele havia chamado a apresentadora Luisa Mell, à época namorada de Amilcare Dallevo Jr., presidente da emissora, de "Rita Cadillac do futuro".

À época, o comentário não chegou a ir ao ar, já que seu programa era pré-gravado.

Em 2008, Clodovil disse ter saudades do período que passou na emissora: "Foi quase um ano de alegria. Eu ia com alegria pra televisão, uma vontade de chegar logo na emissora. Fui posto pra fora de lá por uma amante de uma das pessoas de lá, fazer o quê?"

Por Excelência, o último programa de Clodovil

Em 2007, já como deputado federal, Clodovil apresentou seu último programa na TV, o Por Excelência.

Após sofrer um AVC, porém, acabou se afastando das gravações e teve seu contrato rescindido pela emissora, "tendo em vista o período em que o apresentador absteve-se de gravar o programa".

"Seu impedimento permanente, por mais de um mês e meio, causado pela enfermidade a qual foi acometido, importou na rescisão contratual", informou comunicado divulgado pela TVJB, à época.

As imitações de Clodovil na TV

Por conta de sua personalidade forte, era comum ver humoristas imitando o jeito de Clodovil. Durante sua participação no Domingão do Faustão, em 1999, o apresentador falou sobre o tema. "Primeiro, pra ser imitado, é preciso que a gente exista. Um Zé Mané qualquer por aí não será imitado, ninguém nem sabe que ele existe. Me sinto reverenciado toda vez que os artistas me imitam, ou melhor, tentam me imitar".

E prosseguiu: "Toda pessoa que faz uma caricatura, faz com tintas fortes. É preciso que seja assim, porque, se não, não tem graça. Se fosse idêntico... Mas queria que vocês soubessem que tenho um lema de vida: exijo que as pessoas riam comigo, mas que não riam de mim."

Porém, nem sempre tudo foram flores. Clodovil já teve divergências com humoristas que o imitavam ao longo da vida, como Wellington Muniz, o Ceará, do Pânico, e Agildo Ribeiro, que criou o personagem Clô Clô em Planeta dos Homens.

Clodovil chegou a entrar na Justiça após Agildo aparecer interpretando o personagem em um comercial de TV, em novembro de 1981. No ano seguinte, em 23 de maio, o Fantástico promoveu um encontro para fazer as pazes entre os dois.

"Não me dou com o personagem, a caricatura do Clodovil, que é uma coisa bem triste, né? Mas me dou com o Agildo. Engraçado é você, o outro [imitação] é triste", afirmou o estilista ao comediante, à época.

Diversos outros nomes também chegaram a imitar Clodovil na TV, como Tom Cavalcante, Zé Américo, Pedro Manso e Diego Varejon.

Bookmark and Share

A SEDUÇÃO DE VORCARO

Artigo de Fernando Gabeira

Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida do qual não poderiam mais se afastar

A festinha promovida por Daniel Vorcaro em Londres já foi muito abordada nas redes sociais. Não voltarei a ela para fazer considerações morais. Ela custou US$ 640 mil, consistiu na degustação de uísque Macallan, charutos e alguma comida. Deve ter sido financiada com dinheiro roubado aos aposentados e pequenos investidores.

Volto a essa festa de que participaram Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Ricardo Lewandowski, entre outros, para reafirmar uma intuição que já expressei em livro e debates pelo Brasil. No meu entender, a política brasileira se degradou no momento em que dependeu de caras campanhas pela televisão. Até então, os eleitores financiavam os candidatos com sorteios, festas onde se cobrava um pouco mais pela caipirinha. Essa forma mais ingênua foi superada quando se precisou de muito dinheiro para pagar marqueteiros e suas superproduções televisivas.

O convívio com empresários que mantinham negócios com o governo ou gostariam de ter passou a ser um dado da realidade. Para vencer, era importante ter dinheiro, e muito, e a relação com os eleitores foi relativizada. Políticos que eram funcionários públicos com salário apenas digno para alguém da classe média começaram a emular seus interlocutores milionários. O caso mais típico foi Sérgio Cabral, com origem modesta, mas que, de repente, passou a debater a qualidade dos mais caros restaurantes europeus e desejou abertamente um helicóptero igual ao de Eike Batista, bilionário na época.

Creio que Vorcaro intuitivamente compreendeu isso. Seduzir políticos e juízes para o consumo de luxo seria uma forma de viciá-los num estilo de vida de que não poderiam mais se afastar. Toffoli, com seu resort, já estava ganho para essa nova vida. Moraes, com o contrato milionário da mulher com o Master, mansão cara e viagens a Dubai, também já tinha acesso às altas esferas de consumo. Hugo Motta certamente avança de bom grado para esse mundo.

No entanto o diretor da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, e o procurador-geral da República, Paulo Gonet, são apenas funcionários públicos. Eram os mais vulneráveis a esse mundo fantástico de uísque e charuto caríssimos, clubes luxuosos. Certamente,Vocaro contava agradar seus amigos milionários e seduzir aqueles que viviam numa esfera mais próxima das pessoas comuns.

É muito difícil o antídoto para esse tipo de sedução, excluída, é claro, a vigilância sobre a evolução da riqueza. No entanto há certas ironias nisso tudo. Vorcaro alugou o Hotel Four Seasons em Taormina, na Sicília, para dar uma festa milionária. Antes dele, o mesmo hotel foi cenário de uma série de TV chamada “The white lotus”. O tema da série era exatamente o vazio e o tédio da vida das grandes fortunas que transitavam por ali.

Mas não podemos contar com essa verdade profunda. Ficar muito rico ainda é um sonho majoritário, muito mais sedutor que servir humildemente ao país. Daí a força dos Vorcaros da vida.

Artigo publicado no jornal O Globo em 17 / 03 / 2026

Bookmark and Share

domingo, 15 de março de 2026

DIREITA PODE GANHAR ELEIÇÃO POR TER QUEBRADO UM BANCO

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

Quando Toffoli ou Moraes protegem Vorcaro, quem escapa da cadeia é a direita brasileira

STF só chegou no final do escândalo

Do jeito que as coisas vão, há boas chances de a direita brasileira ganhar a Presidência como recompensa por ter quebrado um banco.

Ah, dirá o leitor, tem gente de esquerda enrolada no Master. Bom, tinha muito mais gente de direita no petrolão do que tem gente de esquerda no Banco Master. É um escândalo de Faria Lima e igreja evangélica, dois ambientes com poucos esquerdistas.

Dos 18 entes federativos (estados e municípios) que aplicaram dinheiro de aposentados no Banco Master, 17 eram governados pela direita. Vamos colocar aí a turma do PT da Bahia, que tinha um esquema com um sócio do Vorcaro? Ok, 18 a 2. Entre esses, quem, por larga margem, colocou mais dinheiro de aposentados no Master? Cláudio Castro, direita, R$ 1 bilhão.

Quem deu um rombo estimado entre R$ 8 bi e R$ 15 bilhões no Banco de Brasília para tentar salvar o Master? Ibaneis Rocha, direita. Quem tentou quadriplicar a cobertura do FGC, isto é, destruir nosso sistema financeiro, para salvar o Master? Ciro Nogueira (Emenda 11 à PEC 65/2023), direita, e Filipe Barros (PL 4395/2024), direita.

Em setembro de 2025, enquanto o Banco Central decidia o futuro do Master, que partidos assinaram o pedido de urgência (Req. 3651/2025) para um projeto antigo (PLP 39/21) que permitia ao Congresso derrubar diretores do Banco Central? PP, direita, PL, direita, Republicanos, direita, União Brasil, direita, MDB, vá lá, centro, e, ok, o PSB de esquerda. Quem assinou nota de apoio a Toffoli quando ele deixou a relatoria do Master? PP, direita, e União Brasil, direita.

Os políticos apoiados pela Igreja da Lagoinha, enfiada até o pescoço no escândalo Master, eram de que lado? Direita, incluído aí Nikolas Ferreira, direita. Fabiano Zettel, cunhado de Vorcaro, dividia suas doações de campanha igualmente entre direita e esquerda, como fazia, por exemplo, o cartel das empreiteiras? Não: Zettel é o maior doador individual das campanhas de Tarcísio de Freitas, direita, e Jair Bolsonaro, direita.

Na esquerda temos, além do já citado PT da Bahia: Guido Mantega, atuando desavergonhadamente como lobista, organizou uma reunião de Vorcaro com Lula e Galípolo. Não há registro de nada que Lula tenha feito por Vorcaro, antes ou depois da reunião. Galípolo foi o presidente do Banco Central que liquidou o Master. Ricardo Lewandowski tinha um contrato de advocacia com Vorcaro que passou para seu filho quando virou ministro da Justiça de Lula, o que é imoral. De qualquer maneira, a Polícia Federal, sob comando de Lewandowski, prendeu Vorcaro.

A conta pode ser revisada à luz de novas informações, mas, até aqui, há muito mais gente de direita do que de esquerda envolvida no caso Master. Se ponderarmos os casos pelo que cada indivíduo de fato fez pelo Master, seja roubando com ele, seja tentando impedir que ele fosse liquidado, seja tentando salvá-lo com dinheiro público, o padrão é mais claro ainda.

Por que isso é importante?

A atuação do STF no caso Master foi desastrosa, mas o tribunal só chegou no escândalo no final. Quem estava lá desde o início eram os direitistas. Que já crescem nas pesquisas porque o público não foi informado de que, quando Toffoli ou Moraes protegem Vorcaro, quem escapa da cadeia é a direita brasileira.

Bookmark and Share

SEMANA RUIM PARA OS EUA NA GUERRA

Dorrit Harazim, O Globo

‘Sofrimento será de duração curta, mas os ganhos de duração longa’, disse Pete Hegseth. Não está sendo uma coisa nem outra

Enquanto atuou como comentarista de assuntos militares no canal noticioso Fox News, Pete Hegseth disparou certezas sem precisar de fatos. Dono de feições e físico altamente telegênicos, esmerou-se em aprimorar o visual e a oratória ariano-Maga. Acabou por conquistar o presidente Donald Trump, que procurava um garoto-propaganda de impacto para comandar o Pentágono. E foi como secretário de Defesa do colosso militar que Hegseth, aos 45 anos, anunciou, na estreia da Operação Fúria Épica contra o Irã:

— O sofrimento será de duração curta, mas os ganhos de duração longa.

Não está sendo uma coisa nem outra. Na sexta-feira, dia 13, o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) reconheceu que seis militares americanos haviam morrido durante a operação. Não em combate, mas no interior de um avião de reabastecimento. Estavam em missão de apoio a uma guerra que não fora debatida, votada ou aprovada pelo Congresso, nem pela opinião pública do país atacante (em Israel, país coatacante, o apoio é maciço). Somados aos sete soldados mortos que haviam caído na semana anterior, já são 13 os caixões de alumínio envoltos na bandeira americana a desembarcar na Base Aérea de Dover, em Delaware, reservada a militares mortos no exterior.

Todo comandante em chefe com assento na Casa Branca detesta cumprir a obrigação litúrgica de se fazer presente na chegada desses sarcófagos lacrados. Alguns presidentes o fazem com compaixão e pesar genuíno. Outros, como George W. Bush, proibiram o acesso da imprensa à chegada dos caixões. Mas todos sabem quanto a imagem lhes custará na eleição seguinte. No caso de Trump, a ojeriza deve ser duplamente aguda — é famoso seu comentário de 2018 de que quem morre em combate é um loser (perdedor), um sucker (otário).

O avião-tanque KC-135, com seis militares a bordo, foi a quarta aeronave militar perdida pelos Estados Unidos em duas semanas de guerra — nenhum deles por fogo inimigo. Ao contrário dos caças alvejados anteriormente, o KC-135 de reabastecimento não possui assentos ejetáveis, diminuindo as chances de sobrevivência da tripulação. Tiveram sorte as tripulações de outras três aeronaves, que saíram com vida de queda semelhante na semana anterior.

Um posto de combustível voador fora de combate pode, em tese, fragilizar a cadeia logística da operação, visto que os caças-bombardeiros passam a operar por tempo bem mais limitado. Nada crítico, por ora, considerando a imensa supremacia do atacante sobre o Irã. Porém indigesto, com possível fratura na linha de frente.

Em Washington, para uma entrevista coletiva inescapável diante da confusão mundial, Hegseth compareceu ligeiramente alterado — alguns poucos fios de sua melena estavam em desalinho.

— Coisas ruins acontecem — informou, ao comentar as perdas da semana, fazendo contraponto aos mais de 15 mil alvos iranianos que afirmou terem sido atingidos.

Uma média de mais de mil por dia. A um custo oficial de mais de US$ 1 milhão por dia, apenas com armamento.

Hegseth não confirmou se a escola primária do sul do Irã — atingida por um míssil Tomahawk no primeiro dia de guerra, deixando cerca de 110 crianças destroçadas — estava entre os 15 mil alvos. A escola ficava no terreno de uma base iraniana e, segundo as investigações em andamento a que o New York Times obteve acesso, o Centcom usou dados de inteligência desatualizados que apontavam a escola como alvo militar. O homem forte do Pentágono tentou não perder o aplomb:

— Não permitiremos que uma reportagem nos leve a sugerir que algo que aconteceu em determinadas circunstâncias...

Não encontrou um final para a frase. Preferiu reiterar que “a guerra em busca da paz se faz necessária”.

Trump, enquanto isso, passou a semana ensaiando como declarar vitória caso as consequências da guerra que deflagrou venham a lhe bater à porta. Suas postagens anunciam a derrota que está infligindo aos “escrotos dementes” do Irã e proclamam ter dizimado Marinha, Força Aérea, capacidade nuclear e várias gerações de lideranças do inimigo — o que, em boa parte, ocorreu. Mas se esquece de levar em conta que o Irã dos aiatolás nunca teve a intenção de fazer uma guerra nos termos definidos pelos Estados Unidos. Deixará passar a primeira investida, talvez até se autodestruir, se preciso.

Bookmark and Share

POLÍCIA NO PALANQUE

Bernardo Mello Franco, O Globo

Cláudio Castro festeja prisão sem provas e leva polícia do Rio para o palanque

Operação contra vereador aliado de Paes reaviva suspeita de uso político de investigações

Na manhã de quarta-feira, a Polícia Civil do Rio prendeu o vereador Salvino Oliveira numa operação batizada de Red Legacy. Pouco depois, o governador Cláudio Castro foi às redes anunciar a captura do “braço direito do Comando Vermelho dentro da Prefeitura do Rio”.

“Esse é o mesmo vereador que vivia atacando nosso governo e as polícias. Hoje, finalmente, estamos conhecendo o seu real lado: trabalhava para bandido e não para o povo!”, festejou.

Numa das cenas do vídeo publicado pelo governador, um agente vasculha o armário de Salvino e levanta uma placa de campanha com a foto de Eduardo Paes. Era um sinal de uso da polícia para atingir adversários políticos.

Logo surgiriam outros. Para embasar o pedido de prisão, a polícia de Castro citou o fato de o vereador se apresentar como “cria” da Cidade de Deus. Sua presença numa comissão que debateu políticas públicas para favelas virou indício de “instrumentalização do mandato em benefício do crime”.

O discurso parece reavivar velhos preconceitos contra moradores de favelas. E transfere do Estado para os habitantes a responsabilidade pelo domínio armado de territórios.

Em outro vídeo sobre o caso, o secretário da Polícia Civil, Felipe Curi, associa o vereador ao “narcoterrorismo”. Assíduo nas redes, o delegado deve se lançar candidato na chapa de Castro.

No relatório da investigação, a polícia transcreve uma mensagem em que um certo “Corretor Gardênia Melhoria” pergunta ao traficante Edgar Alves de Andrade, o Doca, se o vereador estaria “autorizado” a atuar na comunidade da Gardênia Azul. O criminoso responde com uma chamada de voz, cujo conteúdo não é conhecido.

Salvino é citado, mas não participa do diálogo. Mesmo assim, foi acusado de associação criminosa, corrupção ativa e lavagem de dinheiro. O delegado Pedro Cassundé acrescentou que o vereador teria incorrido em “hipocrisia”, ainda não tipificada no Código Penal. O motivo: ele criticou o envolvimento de políticos com o crime após a prisão do deputado Rodrigo Bacellar, aliado do governador.

Alvo de questionamentos, a polícia afirmou ter outras provas contra o aliado de Paes. Se for verdade, faltou citá-las nos autos. Na sexta-feira, o desembargador Marcus Basílio revogou a prisão. Anotou que seu fundamento era “bastante precário”, sustentando-se numa conversa de terceiros em março de 2025.

Castro sabe que é ter aliados em apuros. Na segunda-feira, a Polícia Federal prendeu Alessandro Carracena, seu ex-secretário de Esporte, em outra operação contra o tráfico. Ele foi o quarto secretário ou ex-secretário do governador a ir em cana por suspeitas semelhantes. Antes dele, caíram Allan Turnowski, por ligação com bicheiros, Raphael Montenegro, suspeito de negociar com o CV, e o próprio Bacellar, acusado de vazar investigações sigilosas.

O governador tem mais razões para estar ansioso. O Tribunal Superior Eleitoral marcou para dia 24 a retomada do julgamento que pode cassá-lo. E as apurações do caso Master devem avançar sobre a gestão temerária do Rioprevidência, que enterrou R$ 1 bilhão em títulos podres de Daniel Vorcaro.

O uso da polícia como arma política não é novidade em eleições no Rio. Em 2018, outra ação espetaculosa abriu caminho à vitória de Wilson Witzel. Castro conhece bem essa história: era o vice do ex-juiz.

Bookmark and Share

ÁGUAS DE MARÇO

Bookmark and Share

sábado, 14 de março de 2026

O QUINTAL SOB VIGILÂNCIA

Jamil Chade, CartaCapital

Trump dá curso à ofensiva pela militarização da América Latina

O governo de Donald Trump deu os primeiros passos para implementar uma estratégia deliberada de militarização do continente, incentivado pelo êxito do sequestro de ­Nicolás Maduro e o controle do governo venezuelano. O anúncio da ofensiva regional não poderia ter ocorrido em outro lugar a não ser na Flórida, bunker da extrema-direita latino-americana e foco da busca dos republicanos pelo voto latino.

Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e lançartr o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile, Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.

Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.

A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações criminosas da região ganharam esse status.

Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025 por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a militarização do continente era um dos pilares.

Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai. Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou taxas.

Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez, ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.

Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países e seus povos”, afirmou Jamieson Greer,­ representante de Comércio dos EUA.

Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de cooperação espacial com Pequim.

Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma “força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e antecipar ações dos EUA.

A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de 518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a governos no Hemisfério Ocidental.

Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em curso. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

TRANSLÚCIDA


Sebastião Reis Júnior (Editor), Rodrigo Haidar (Editor), Amazon

Translúcida -Composto de 45 imagens de presas transexuais fotografadas pelo ministro Sebastião Reis Junior, do Superior Tribunal de Justiça, o livro traz 42 textos e 4 ilustrações que têm, como objetivo central, provocar um debate sobre direitos humanos, cárcere e o direito à própria identidade. As fotos foram tiradas pelo ministro no Centro de Detenção Provisória Pinheiros II, em São Paulo.

Pessoas com diferentes formações – como profissionais do Direito, militares, médicos e artistas – aprofundam a reflexão sobre direitos humanos por meio de múltiplas linguagens, expressando-se da forma como quiseram. O livro, assim, combina as fotos com cartas, ilustrações, contos, poesias e ensaios.

“Não é um livro de fotos. Também não é um livro que se limita a discutir a questão prisional. É muito mais do que isso. As fotos serviram para provocar, para falarmos sobre algo que não pode ficar escondido atrás dos muros de uma prisão, nem embaçado por preconceitos e mentiras. Temos que falar abertamente sobre as pessoas transexuais. Não só das presas, mas de todas que estão ao nosso redor, com quem convivemos no dia a dia”, enfatiza o ministro na apresentação da obra.

Visitar presídios é algo que faz parte da rotina do ministro Sebastião. Ministro da 6ª Turma e da 3ª Seção do STJ, que julga Direito Penal, ele acredita que todo juiz tem de saber para onde vão as pessoas que ele sentencia. Sem conhecer a realidade, impossível julgar com Justiça. Fotógrafo, o ministro passou a pedir autorização dos presos para retratá-los. E assim surgiu a ideia central de Translúcida.

Esta segunda edição, revista e ampliada com novos textos e fotos, tem prefácio de Renan Quinalha, professor de Direito da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp), onde coordena o Núcleo TransUnifesp. Também é editor e colunista da seção Livros e Livres, dedicada à Literatura LGBTI+ na Revista 451 e Presidente do Grupo de Trabalho de Memória e Verdade LGBTQIA+ do Ministério de Direitos Humanos e Cidadania (MDHC).

Nas palavras do professor Renan Quinalha, para quem atua na área jurídica e de direitos, Translúcida é uma obra fundamental, quase um memorial: "Ela nos obriga a sair da abstração das teses e a encarar a realidade material. A Justiça só será justa quando enxergar a humanidade por trás da cela, por trás do preconceito, e atuar ativamente para que a translucidez dos muros se transforme na transparência da igualdade e do respeito".

"Pessoas trans e travestis, em geral, convivem com diferentes tipos de vulnerabilidades. As violências se iniciam no seio de suas famílias, que tendem a não reconhecer ou aceitar sua identidade de gênero. São evadidas das instituições de ensino em decorrência da discriminação transfóbica, são alijadas do mercado de trabalho formal e, no geral, encontram na prostituição compulsória o modo de sobreviver".
ERIKA HILTON

Bookmark and Share

FRACKING DE LIQUIDEZ

Luiz Gonzaga Belluzzo e Manfred Back, CartaCapital

Em meio a crédito privado duvidoso, bolha de IA e medo crescente, fundos restringem resgates nos EUA

Uncle Sam tem seus dias de desconfiança no crédito privado, lá como cá.

Uma decisão da Black­Rock suscitou nossa ousadia de recorrer à analogia entre o ­fracking e a química dos mercados financeiros. O fracking quebra a rocha para liberar gás de xisto. Os três ingredientes-chave – água, areia e produtos químicos – são misturados e bombeados para o poço sob pressão extremamente alta, por meio de grandes motores a diesel.

Fracking na rocha negra, vulgo ­BlackRock, quebrou a rocha e não liberou o dinheiro. Para liberar gás de xisto injeta água, areia e produtos químicos. Para não liberar liquidez aos investidores, misturam-se crédito privado duvidoso, a bolha de IA e o medo. O que funciona na química mineral, não funciona na química dos ativos financeiros.

Conhecem aquela frase famosa antes do estouro da bolha subprime: “muito grande para quebrar”? Até a rocha negra mais resistente tem suas fissuras de 26 bilhões de dólares. Fundo que proíbe resgate entra em cracking. Pasmem, a BlackRock proibiu! Seus investidores ficaram sem gás, sem seu precioso dinheiro. Quanto maior o ativo, maior a queda.

Segundo a Bloomberg: o HPS ­Corporate Lending Fund, que reúne 26 bilhões de dólares, e é um dos maiores portfólios de crédito, em empresas em desenvolvimento, não negociado em bolsa, informou em comunicado nesta sexta-feira que os cotistas solicitaram o resgate de 9,3% de suas participações. A ­administração decidiu limitar as solicitações a 5%. Embora o valor total fosse de perto de 1,2 bilhão de dólares, segundo cálculos da Bloomberg, os investidores receberão de volta em torno de 620 milhões que o fundo detinha no fim do ano.

Jamie Dimon, o todo-poderoso ­chairman do J.P.Morgan, avisou: “Quando você vê uma barata, provavelmente há mais”, para alertar sobre riscos ocultos e falhas no mercado de crédito privado e bancos regionais dos EUA. E as baratas chegaram no fundo da BlackRock. Uma das três maiores gestoras de ativos no mundo restringiu o resgate. Where is the money?

Quando a roda-gigante dos preços dos ativos gira ao contrário, temos a tal desalavancagem. Deságio na precificação dos ativos financeiros, variação patrimonial negativa, o fundo encolhe, o dinheiro do investidor some. Lembramos aos nobres leitores que, ao pedir resgate de um fundo, o administrador é obrigado a vender o ativo. Se muitos investidores tomam a mesma decisão, há uma venda maciça do ativo, queda expressiva do seu valor, a riqueza diminui. Esse fundo não era negociado em Bolsa, portanto, tem liquidez limitada. Assim, é dever da BlackRock garantir sua liquidez. Vários outros fundos de crédito privado sofreram corridas para resgatar.

“Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando para uma onda de pedidos de resgate, à medida que crescem a preocupação com as práticas de empréstimo do setor e a exposição a empresas que podem ser impactadas pela Inteligência Artificial.” (Bloomberg)

Executivos da HPS Investment Partners­, adquirida pela BlackRock, afirmaram, após a queda das ações na Bolsa americana, que a medida de restringir os resgates ajudaria o fundo a investir em oportunidades de investimento atraentes em meio à incerteza e volatilidade. Você acredita?

Dinheiro é um bicho altamente sensível e nervoso, qualquer perturbação e quebra de confiança todos correm atrás dele. Nessa hora, é a preferência pela liquidez, tradução: quero meu dinheiro.

Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando para uma onda de pedidos de resgate

Na toada de 2023, Jason Calacanis, um proeminente empresário e investidor da internet, apertou o botão do teclado e twittou­ um aviso sobre o colapso do ­Silicon Valley Bank: “Você deve estar absolutamente aterrorizado agora – essa é a reação adequada a uma corrida bancária e ao contágio. Isso vai se transformar em caos”.

A rápida queda do banco regional do setor de tecnologia derrubou os costumes no Vale do Silício. Investidores como Calacanis, que normalmente repreendem os reguladores por sufocar a inovação, voltaram-se para Washington em sua hora de necessidade. A maioria alertou para graves repercussões, caso os depositantes percam o acesso permanente ao seu dinheiro.

As angústias de Calacanis trazem à memória os temores de um experiente administrador de fundos, em meio à tormenta do subprime, a Grande Recessão de 2008/2009: “Quando todos à sua volta estão fazendo negócios à velocidade do raio, é incrivelmente fácil ser carregado pela onda de otimismo e fazer coisas das quais você vai se arrepender. Nesses momentos, a atitude mais corajosa é não fazer nada”.

David Sacks, sócio-gerente da empresa de capital de risco Craft Ventures, que assim como Calacanis é um associado próximo de Elon Musk e tem muitos seguidores no Twitter, alertou para novas corridas aos bancos. “Transfira os fundos do SVB para um dos quatro maiores bancos”, ele tuitou. “Faça isso antes da abertura do mercado na segunda-feira, ou haverá contágio e a crise se espalhará.” Investidores como o empreendedor e investidor de tecnologia Jason Calacanis­, que geralmente reclamam de ser sufocados pela regulamentação, recorreram a Washington após o colapso do SVB. Seus apelos surtiram efeito.

Dois dias após a Corporação Federal de Seguro de Depósitos (FDIC) assumir o controle dos ativos do banco, o Tesouro, o Federal Reserve e a FDIC anunciaram que os depositantes teriam acesso a todo o seu dinheiro na manhã de segunda-feira. O alívio, no entanto, foi atenuado pelas críticas ao papel desempenhado por alguns investidores de capital de risco na crise do SVB. Quando as preocupações com o balanço patrimonial do SVB aumentaram na semana passada, empresas de capital de risco, incluindo o Founders Fund de Peter Thiel, incentivaram as empresas de seu portfólio a agir em seu próprio benefício e retirar seus fundos. Isso contribuiu para desencadear uma corrida aos bancos. Existe uma acusação mais ampla de hipocrisia em relação a alguns dos investidores de capital de risco que se opõem à regulamentação governamental da tecnologia, mas exigiram que os reguladores interviessem para ajudar os depositantes do SVB. Recorrer à internet para pedir apoio “foi um momento de ‘ateu em uma trincheira’”, disse um executivo de um fundo de capital de risco, que zombou da conversão de seus colegas.

My friend, a rocha negra virou areia. Desconfie de fundos que restringem resgates. 

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

LULA: LÍDER, MAS SEM PAZ

Renato Meirelles, CartaCapital

A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança

pesquisa Meio/Ideia de março traz um retrato incômodo para quem torce por respostas simples. Lula lidera, segue competitivo e continua como o nome mais forte do campo governista. Mas isso não significa que tenha convencido o País de que sua permanência é a escolha natural. Ao contrário. A força eleitoral do presidente convive com um desejo relevante de mudança. E exatamente dessa tensão nasce o paradoxo do momento.

O dado mais importante da pesquisa não é apenas a intenção de voto. É o fato de que 50,6% dizem que Lula não merece continuar, contra 46,7% que defendem sua permanência. Em paralelo, a maneira como ele exerce a Presidência é desaprovada por 50,5% e aprovada por 47,2%. Isso não desenha um governo derrotado. Mas desenha, sim, um governo em disputa, que não conseguiu transformar a condição de incumbente em sensação majoritária de recondução.

Ainda assim, Lula continua à frente. Na espontânea, aparece com 33,4%, enquanto Flávio Bolsonaro marca 18,5%. Num eventual segundo turno entre os dois, Lula tem 47,4% contra 45,3% do adversário. O retrato é claro: o presidente segue na dianteira, mas sem margem para soberba. Está na frente, mas não está folgado. É favorito, mas não está protegido.

O que explica isso? A primeira resposta é que o eleitorado não julga governo pela planilha de Brasília. Julga pela vida real. O Locomotiva tem mostrado isso há bastante tempo. Quando a conversa sai da abstração e entra no cotidiano, o julgamento político passa pela feira, pelo medo de sair à noite, pela fila do atendimento e pelo aperto para fechar o mês. O eleitor não mora no dado macroeconômico. Mora no boleto.

É aí que os sinais de alerta aparecem com força. A pesquisa mostra que a segurança pública é hoje a área mais mal avaliada do governo, com 54,3% de ruim ou péssimo. Saúde também aparece como ponto de pressão, com 41,5% de avaliação negativa nessa dimensão. Esses números permitem entender por que a melhora de ambiente econômico, sozinha, não reorganiza o humor do eleitor. Quando a sensação de desordem continua alta, a reeleição deixa de ser um prêmio natural e vira uma prova oral diante do País.

Existe, porém, um lado positivo para Lula que não pode ser subestimado. Mesmo sob desgaste, ele preserva densidade eleitoral. Continua a ser o nome mais presente na memória do eleitor e o polo mais robusto do seu campo. Além disso, a oposição ainda não encontrou um caminho de unificação fora do sobrenome Bolsonaro. Isso é decisivo. Porque o presidente não enfrenta uma alternativa ampla, nova e consensual. Enfrenta um adversário competitivo, mas carregado de rejeição e de memórias intensas.

A pesquisa mostra ainda que a disputa deixou de ser apenas partidária. Ela ganhou um componente institucional muito forte. Entre quem conhece o caso Master, 70% dizem que o STF perdeu credibilidade. E 44% afirmam que teriam mais chance de votar para o Senado em alguém que defendesse o ­impeachment de ministro do Supremo. Some-se a isso o fato de que 54% dizem não acreditar que Jair Bolsonaro tenha planejado um golpe. O resultado é um ambiente no qual o discurso antissistema ganha oxigênio, e isso tende a favorecer a oposição.

Esse talvez seja o ponto mais sensível para Lula. Se a eleição fosse apenas comparação entre biografias, experiência e memória social, ele entraria com mais conforto. Mas a pesquisa sugere outra coisa: há um pedaço importante do eleitorado querendo menos debate ideológico e mais demonstração de comando, ordem e capacidade de fazer a vida voltar a caber dentro do dia. Quando a campanha passa a ser lida por essa régua, a vantagem de quem governa diminui, pois o governo responde pelo que prometeu e pelo que ainda não entregou na percepção dos eleitores.

Minha conclusão é que Lula chega forte, mas vigiado. Tem ativo eleitoral, tem recall, tem base social e segue plenamente no jogo. Mas carrega um problema que não pode ser maquiado: sua liderança ainda não virou tranquilidade. A reeleição é possível, e até plausível. Só não será um passeio.

O erro do campo governista seria achar que estar na frente basta. Não basta. E o erro da oposição seria imaginar que o desgaste de Lula, por si só, entrega a eleição. Também não entrega. O que a pesquisa mostra é um país que ainda reconhece em Lula estatura competitiva, mas que continua cobrando uma resposta mais convincente para a vida concreta. Em 2026, não vence apenas quem tiver mais estrutura partidária ou mais barulho de militância. Vence quem parecer mais capaz de organizar o cotidiano de um Brasil cansado de promessas e com pressa de alívio. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

A POLÍTICA COMO VOCAÇÃO

Marcus Pestana, Congresso em Foco

Volta e meia, há uma forte onda antipolítica que ameaça contaminar a alma da sociedade brasileira. Tivemos as decepções no afastamento de Collor e Dilma e as manifestações de rua difusas de insatisfação em 2013. A eleição disruptiva de 2018, fruto das revelações da Lava Jato e da criminalização da política, patrocinou um vendaval de contestação, com a ascensão de outsiders que encarnaram o repúdio ao que foi apelidado de “velha política”. E aí, uma nova safra de frustrações veio ao se constatar que o novo não era tão novo e que tudo que é novo não necessariamente é bom, unicamente por ser novo.

Agora, a crise envolvendo o Banco MASTER coloca em xeque novamente a estrutura do poder e as instituições republicanas, com denúncias que alcançam de A a Z nos mais diversos segmentos do espectro ideológico e engolfa setores dos três poderes da República.

Democracia implica em um governo em que o povo exerce a sua soberania através de dirigentes e representantes eleitos pelos cidadãos em eleições livres. O Estado, peça central na vida do País, conduzido pela força política conjunturalmente majoritária, sob o olhar e a ação plural do Congresso, e restringido pelas leis e pela ação do sistema judiciário, precisa de legitimação permanente junto à sociedade. Afinal a vitória eleitoral não concede uma procuração em branco para o governo. São os desafios dessa invenção humana chamada democracia – o melhor caminho descoberto para arbitrar conflitos de ideias e interesses presentes na sociedade. As ditaduras espalhadas pela América Latina, Ásia, África e Oriente Médio não enfrentam estes dilemas.

Ao andarmos pelas ruas e convivermos em ambientes comunitários, fora das bolhas militantes e apaixonadas, é fácil perceber crescente desalento e falta de esperança, em pleno ano eleitoral. Isto sempre ocorre quando o sistema político deixa de gerar respostas eficientes para as angústias e os problemas do povo e a corrupção se alastra.

Max Weber, em seu clássico texto “A política como vocação”, demonstra como a legitimidade do poder nasce ou da tradição ou do carisma ou da legalidade. Quando as boas tradições são abandonadas, as lideranças não exercem carisma que seduza a população e a legalidade é vista como mar de interrogações, graças a má conduta de líderes das instituições republicanas, se forma o caldo de cultura da antipolítica, gerando riscos imponderáveis. Weber identifica como qualidades dos líderes políticos a paixão, a responsabilidade e o senso de proporção. Quando elas vão pelo ralo, é natural o aparecimento de um abismo entre cidadãos e elites no poder. Desaparecem tanto a ética da consciência, absoluta em suas intenções puras focadas no salvamento da alma e nos princípios, mas não só ela, também a ética da responsabilidade, centrada nos objetivos e fins pretendidos, ainda que com concessões e relativização parcial do rigor com os meios. Resta um estranhamento dos cidadãos em relação à dinâmica de funcionamento do poder e suas elites.

Com a palavra, Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai: “A pessoa que gosta muito de dinheiro tem que ser retirada da política. Quer dizer que tem que ser castigada? Não. Tem que ir para o comércio, para a indústria, para onde se multiplica a riqueza, na aventura do risco empresarial. Aí sim. Mas não na política”. 

Bookmark and Share

MAIS DO MESMO

Leonardo Avritzer e Rômulo Paes de Sousa, CartaCapital

Os vazamentos reabrem a lógica lavajatista e tensionam o cenário eleitoral

Os intensos vazamentos referentes aos escândalos do Banco Master e do INSS têm produzido notícias capazes de modificar a conjuntura política do País. Em 4 de março, foi divulgado pelo site Metrópoles o sigilo bancário do filho do presidente Lula, solicitado pela CPMI do INSS. No dia seguinte, também saíram no mesmo Metrópoles e no jornal O Globo o registro de supostas trocas de mensagens entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro.

Os dois casos sugerem uma dinâmica recorrente que dominou a cena política durante a Operação Lava Jato. Uma relação direta entre a Polícia Federal e integrantes da CPI com certos jornalistas. Nos dois casos mencionados, inaugura-se uma lógica de vazamentos reservados para repórteres selecionados, que escolhem os alvos da execração pública. Como é sabido, alguns desses jornalistas tiveram papel destacado durante a Lava Jato e ficaram conhecidos como porta-vozes de grupos próximos ao juiz Sergio Moro, de quem recebiam o que a República de Curitiba estava interessada em pautar. Nenhuma notícia sobre as relações próximas e ilegais entre o ex-magistrado e o Ministério Público ou quanto às formas de chantagem abertas que poderiam ter se constituído em furos espetaculares fez parte da cobertura da operação. A pergunta que volta a nos assombrar é se essa mesma dinâmica está de volta à política brasileira, em um ano eleitoral.

Ao analisar a lógica dos vazamentos, devemos perceber que ela distorce dois elementos centrais da política. Em primeiro lugar, em vez de ocorrer uma investigação baseada em evidências, o que se busca é tentar convencer a opinião pública da culpa de certos integrantes do sistema político baseada apenas no conteúdo seletivamente publicizado. Muitas vezes, os fatos relatados não são verdadeiros ou não nos permitem ir além de uma suspeita, como foi, por exemplo, a conspiração para a fuga de Nestor Cerveró do Brasil que levou à prisão de um senador e nunca veio a ser comprovada. Em segundo lugar, os vazamentos provocam o chamado fishing. No episódio do vazamento dos dados bancários do filho do presidente Lula, ficou claro que ele não teria recebido depósitos de Roberta Luchsinger. Contudo, nenhuma linha foi escrita sobre o que teria motivado a quebra do sigilo. As editorias não parecem se importar com a ilegalidade da contínua exposição das movimentações bancárias de Fábio Luís da Silva, que produzem forte repercussão política.

A mesma coisa pode ser dita em relação aos vazamentos de mensagens atribuídas ao ministro Alexandre de Moraes.­ O formato dos arquivos referentes às trocas de mensagens entre o réu e o ministro entregues à CPI é diferente do obtido pela jornalista do Globo, indicando a Polícia Federal como a possível fonte e permitindo a hipótese de que o réu teria deixado de propósito “pistas” que apontassem para algumas autoridades da República. Evidentemente, não é possível negar a priori o não envolvimento do ministro, mas tampouco é possível afirmar de prima facie o contrário com base em mensagens cujas emissão do celular de Vorcaro­ e recepção pelo celular do ministro não estão comprovadas. Da mesma forma, não se sabe qual teriam sido as eventuais respostas do magistrado a essas mensagens.

Forma-se, outra vez, o caldo de cultura para candidaturas outsiders

Especula-se que tais mensagens foram enviadas a mais de um contato, entre eles o presidente do União Brasil, Antônio Rueda, o senador Irajá Abreu, a advogada Viviane Moraes e outros políticos, que negam ter recebido tais mensagens. Assim, é possível perceber um padrão de direcionamento de suspeitas contra determinadas figuras por parte da PF e da mídia, que passam a ser consideradas culpadas antes mesmo de ser investigadas. Em relação aos vazamentos no curso das investigações, não sabemos por qual tipo de relação direta isso se estabelece pela imprensa e jornalistas.

Temos uma reorientação da conjuntura política na direção de uma percepção de que todos estão envolvidos com a corrupção. Cria-se, desse modo, um caldo de cultura favorável a candidatura de outsiders­ do sistema político. Assim como no tempo da Lava Jato, há uma imprevisibilidade muito grande no cenário político, tanto pelo conteúdo das mensagens vazadas quanto pelo tratamento dado pela mídia ao que vier a ser fornecido por seus informantes. Contudo, interessa ao Centrão, que controla as duas casas legislativas e cujas bombas deixadas por Vorcaro­ repousam no seu colo, que o escândalo não beneficie politicamente ninguém. Interessa ao mercado que a incerteza provocada pelo Banco Master e a cadeia de empresas a ele vinculadas pare de atrapalhar os negócios. Interessa aos bolsonaristas que a lista de candidatos financiados direta e indiretamente pelo banqueiro e seus operadores não seja revelada.

Ainda que o modus operandi do caso Master seja o mesmo da Lava Jato, o escândalo produzido pela psicopatia de Vorcaro é muito diferente daquela produzida pelos seus equivalentes de Curitiba em dois aspectos: temos uma maioria no STF mais atenta às manipulações entre policiais e jornalistas e temos uma PF um pouco mais profissionalizada. Mesmo assim, surpreende aos observadores políticos que a própria corporação ainda não tenha tomado medidas para conter os vazamentos que prejudicam a sua imagem e reputação.

Os episódios recentes indicam que a política brasileira volta a conviver com uma lógica de vazamentos seletivos que desloca o centro do debate público das evidências para a construção de narrativas. Quando informações parciais, muitas vezes não verificadas, são tornadas públicas em meio a investigações em curso, cria-se um ambiente de suspeição generalizada que fragiliza instituições, distorce o devido processo legal e contamina o debate eleitoral. Ainda que o contexto institucional atual apresente alguns freios inexistentes no auge da Lava Jato, a persistência dessa dinâmica revela o risco de que disputas­ políticas e interesses corporativos passem a operar por meio da exposição pública seletiva, produzindo instabilidade e incerteza justamente em um momento sensível da vida democrática do País. O desafio que se coloca, portanto, é garantir que investigações ocorram no limite da institucionalidade dos órgãos envolvidos e com transparência, sem que vazamentos e espetacularização substituam o trabalho efetivo de apuração dos fatos. 

*Leonardo Avritzer é cientista político e professor aposentado da UFMG; Rômulo Paes de Sousa é pesquisador da Fiocruz e presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva.

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share

OS FINS E OS MEIOS

Pedro Serrano, CartaCapital

As quebras de sigilo não podem servir de pretexto para a destruição de imagem

E interessante observar como a sociedade do espetáculo evidencia uma de suas facetas mais perversas em episódios de extrema complexidade e que exigem rigor legal e ético em sua condução. A espetacularização tem dado as caras ao longo das investigações do caso Master, marcadas pelo vazamento de informações sigilosas, de forma criminosa, por agentes públicos.

Embora André Mendonça, ministro do Supremo Tribunal Federal, tenha reduzido o nível de sigilo para as análises da Polícia Federal de dispositivos eletrônicos apreendidos na operação, precisamos nos atentar para os limites ultrapassados na divulgação de dados, que chega a adentrar perigosamente os territórios da ilicitude. Faz-se necessário lembrar que o sigilo, em um inquérito, protege dois tipos de interesse e direito simultaneamente.

O primeiro deles é o da própria investigação, uma vez que, quando se trata de averiguações relativas a organizações criminosas, como se dá no contexto do Master­, as buscas nunca são eficientes se tornadas públicas. O sigilo é um elemento fundamental para que a investigação seja bem-sucedida. O vazamento de informações permite que réus e investigados se preparem para as apurações em curso, tomando medidas que eventualmente lhes sirvam de blindagem, em desfavor do inquérito. Esse problema se acentua quando os investigados têm poder político e econômico e podem lançar mão de influência como artimanha de autoproteção. Assim, a divulgação de informações sigilosas, especialmente se realizada de forma seletiva, só favorece os criminosos e o espetáculo, não o interesse público.

Tal mecanismo se torna ainda mais grave quando se considera a possibilidade de o vazamento ser feito de maneira deliberada justamente para proteger quem está sob investigação. Reportagem recente do jornal O Globo afirma que, quatro meses antes de ser alvo de uma ordem de prisão expedida pela Justiça Federal de Brasília, o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, teve acesso a três procedimentos que tramitavam sob sigilo no Ministério Público Federal – um deles justamente apurava irregularidades na compra do Master pelo BRB –, possíveis detonadores de sua prisão em novembro de 2025. Um vazamento dessa monta, feito com a finalidade direta de informar o investigado, precisa ser devidamente apurado.

O segundo ponto fundamental dessa discussão diz respeito ao direito de preservação da intimidade dos cidadãos, mesmo quando esbarram em investigações. A finalidade da investigação é apurar um crime, não destruir a imagem de alguém. Claro que divulgar o cometimento de um delito faz parte do interesse público, divulgação essa a ser realizada no momento certo e adequado, em geral ao término do processo. A diversidade de informações coletadas durante as apurações é, no entanto, vasta e invariavelmente envolve conteúdos que nada acrescentam à elucidação dos fatos investigados. Levar a público recortes de vida privada que não tenham ligação direta com os crimes em questão consiste em prática ilícita de vulneração de intimidades.

O Estado não pode divulgar informações privadas obtidas ocasionalmente em razão da investigação, como aconteceu também no caso do banqueiro, que teve mensagens com sua ex-namorada divulgadas com alarde pela mídia. Conversas de cunho íntimo do casal, cujo teor nada agrega ao objetivo que motivou a busca de dados, caíram em domínio público, ocasionando evidente prejuízo à imagem da modelo e influenciadora Martha Graeff, que cogita ir à Justiça contra a exposição.

Há uma junção de despudor e perversão da sociedade ao explorar publicamente a intimidade de mulheres. A autoridade pública, ao vazar esse tipo de informação, comete ato ilícito. Por sua vez, um jornalista que porventura receba tal conteúdo tem o direito legal de publicá-lo, podendo inclusive preservar sua fonte, garantia dada pela Constituição brasileira. Cabe, a meu ver, a esse profissional da comunicação, nessas situações, acionar um filtro de natureza ética, para evitar que determinada divulgação se preste apenas ao exercício da espetacularização perversa.

Ceder, nessas circunstâncias, à tentação do sensacionalismo é desrespeitar direitos fundamentais e humanos e atentar contra os princípios democráticos que os prezam. Corretamente, o ministro Mendonça determinou a abertura de investigação sobre o cometimento de crimes de agentes públicos que vazaram informações sigilosas no caso Master. Esperamos que haja rigor na apuração e que os responsáveis pelos vazamentos sejam adequadamente punidos, tanto no campo administrativo quanto no criminal. •

Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de março de 2026.

Bookmark and Share