quinta-feira, 21 de junho de 2018

RECORDANDO BRIZOLA

Há exatos 14 anos, um dos políticos mais contundentes da política brasileira, Leonel Brizola fez sua última viagem em 21 de junho de 2004. Nascido em 22 de janeiro de 1922, em Carazinho, município pertencente de Passo Fundo, Rio Grande do Sul.
Brizola entrou na política lançado por Getúlio Vargas. Uma das façanhas de Brizola foi governar dois estados diferentes: Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro, eleito pelo povo.
Leonel Brizola teve uma extensa carreira política: foi prefeito de Porto Alegre, deputado estadual e governador do Rio Grande do Sul, deputado federal pelo Rio Grande do Sul e pelo extinto estado da Guanabara, e duas vezes governador do Rio de Janeiro.
Ingressou na política partidária no antigo Partido Trabalhista Brasileiro (PTB), por recomendação pessoal de Getúlio Vargas – seu padrinho de casamento – sua primeira candidatura a cargo eletivo foi para deputado estadual e foi eleito.
Sua influência política no Brasil durou aproximadamente cinquenta anos, inclusive enquanto exilado pelo Golpe de 1964, contra o qual foi um dos líderes da resistência. Por duas vezes foi candidato a presidente da República do Brasil pelo PDT, partido que fundou em 1980, não conseguindo se eleger.
Brizola era casado com Neusa Goulart, irmã do ex-presidente João Goulart, com ela teve três filhos: Neusa, José Vicente e Otávio. Em 21 de junho de 2004, Brizola morreu aos 82 anos de idade, vítima de problemas cardíacos.
No aniversário de 90 anos de Brizola, foi lançado na Associação Brasileira de Imprensa (ABI), no Rio de Janeiro o livro Leonel Brizola - a Legalidade e outros pensamentos conclusivos, organizado por Osvaldo Maneschy, Apio Gomes, Madalena Sapucaia e Paulo Becker.
A trajetória política, a vida pessoal de Leonel Brizola rende muitos livros – como já rendeu. Um dos mais recentes livros é Brizola que foi escrito por quem conviveu lado a lado com ele: Clóvis Brigagão e Trajano Ribeiro.
Outro livro lançado recentemente sobre Brizola é o Minha vida com meu pai, Leonel Brizola conta em detalhes a vida de Brizola sob o ponto de vista de seu filho, João Otávio. Não é uma daquelas biografias “chapa branca”, onde sobram elogios. Da forma mais imparcial possível, João revela como era o seu pai no cotidiano.A trajetória política, a vida pessoal de Leonel Brizola rende muitos livros – como já rendeu. 
O livro que mostra para as novas gerações o lugar de Leonel Brizola na política brasileira revivendo grandes momentos da história de Brizola, conseguirmos entender o quanto foi fundamental a sua dedicação ao Brasil.
Em 2015, em Porto Alegre, Brizola foi homenageado com uma estátuacolocada entre o Palácio Piratini – sede do governo gaúcho – e a Catedral. A cerimônia contou com a presença de vários políticos, entre eles: os ex-governadores Alceu Colares e Germano Rigotto, o ex-senador Pedro Simon e do então governador Tarso Genro.
Para as novas gerações e para quem gosta do tema política, o blog Sou Chocolate e Não Desisto dá uma dica para conhecer sob outro ponto de vista, um pouco mais sobre a história desse homem que desafiou a Rede Globo nos anos 80 e venceu o governo do estado do Rio de Janeiro, vale a pena ler El Caudillo– um perfil biográfico do jornalista FC Leite Filho.
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quarta-feira, 20 de junho de 2018

MORRE JOSÉ MARQUES DE MELO

Do G1, AL
Faleceu na tarde desta quarta-feira (20) o jornalista e professor doutor José Marques de Melo, aos 75 anos, vítima de um infarto em sua residência, no bairro de Pinheiros, em São Paulo. Nascido em Alagoas, ele era um dos nomes mais reconhecidos da área da Comunicação em todo o país.
A informação foi confirmada pelo primo dele, o desembargador José Carlos Malta Marques, do Tribunal de Justiça de Alagoas (TJ-AL). Segundo ele, o jornalista passou mal logo depois do almoço.
“Ele vinha bem, estava trabalhando, produzindo. Aí hoje, por volta do meio-dia, ele se sentiu mal e acabou tendo um infarto fulminante. Há uns 15 dias ele esteve no médico fazendo um check-up, e não foi encontrado nada de errado. Ele tinha o Mal de Parkinson, mas a doença estava controlada há muito tempo”, relata o desembargador.
O jornalista será velado e enterrado em São Paulo, no cemitério do Morumbi, às 11h.
A professora Rossana Gaia, do Instituto Federal de Alagoas (Ifal) trabalhou com Melo de 1999 a 2014, realizando pesquisas na área da comunicação e também colaborou em alguns dos livros dele. Ela lamentou a morte, e diz que sua inspiração continuará sendo sentida pelas novas gerações.
“Ele sempre me dizia que tinha muita pressa [para pesquisar], muita urgência, em função de seu quadro de saúde. O professor refletiu sobre Alagoas e seus intelectuais, e também fez história na comunicação brasileira. Sou muito grata a ele por todos os ensinamentos que recebi. Esse é um dia muito triste, principalmente porque vivemos uma falência do pensamento crítico”, afirma a professora.
José Marques de Melo nasceu em 1943, em Palmeira dos Índios, no Agreste de Alagoas. Ele era jornalista, professor universitário, pesquisador científico e consultor acadêmico, além de ter sido o primeiro doutor em jornalismo do país, em 1973, e docente-fundador da Escola de Comunicações e Artes da Universidade de São Paulo (ECA-USP).
O alagoano trabalhou em jornais de Maceió e do interior do estado antes de mudar para São Paulo, onde continuou atuando na área e também, se dedicando às pesquisas.
Em toda sua carreira, escreveu dezenas de livros de jornalismo e comunicação social, que viraram referência para professores e estudantes dessas áreas.
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segunda-feira, 18 de junho de 2018

NENHUM BRASILEIRO É UMA ILHA

Artigo de Fernando Gabeira
No dia da estreia do Brasil na Copa, resolvi subir a montanha para conhecer o lago de Kezenoy. Duas horas de viagem, numa estrada sinuosa, cheia de cabras e vacas. Queria relaxar e fazer um vídeo curto sobre a montanha chechena. Relaxar e filmar paisagens, para mim, são sinônimos.
De um modo geral, não tenho ansiedade com meu trabalho, exceto com cumprir prazos. Mas como torcedor, no momento em que a Copa começa para todo o Brasil, domingo era um dia especial. Aqui na Chechênia, gostam do futebol, mas não tanto quanto nós.
Visitei o hotel onde está a seleção egípcia, cuja estrela é Salah. A Chechênia é muçulmana. Ele é um craque da mesma religião, um ídolo no mundo árabe. O estádio construído para os treinos egípcios e o novo hotel erguido com capital árabe estão num quarteirão bloqueado pela polícia.
Meu filme seria mudo, pois meu diálogo com o motorista e todos os outros possíveis personagens era feito com ajuda de aplicativos de tradução. Mesmo assim, ele parecia saber que eu era do Brasil. Disse qualquer parecida com “Hoje, Brasil. Marcelo super”.
Foi uma viagem muito bonita, um dia de sol. Paramos para tomar água na montanha. Diante da fonte, havia uma foto de Akhmad Kadyrov e seu filho Ramzan, presidente da Chechênia.
O estádio de futebol se chama Arena Akhamad Kadyrov; no rádio do carro, segundo o motorista, tocava uma canção sobre Akhmad; em todo lugar há um retrato dele. Akhmad morreu num atentado. Sua presença é tão disseminada que os críticos de Sarney no Maranhão iam achá-lo discreto se visitassem a Chechênia.
Na descida da montanha, um acidente. Começou a chover e cair pedra na estrada. Uma imensa barreira, com pedra, água e barro, bloqueou o caminho. Fiquei assustado, o motorista também. Será que ia perder o jogo do Brasil? Ele me confortou dizendo que, se saíssemos muito tarde, poderia ver na televisão de um tio dele no vilarejo de Harachoy. Mas o tio morava a quatro quilômetros montanha abaixo. Como descê-la com chuva e equipamento nas costas?
Felizmente, ao contrário dos motoristas bloqueados na Transamazônica, dois tratores vindos de direções diferentes resolveram a situação em três horas. A estrada continuava perigosa. Na subida, a névoa já era envolvente. Quase não vimos uma cabra que amamentava o filhote no meio da estrada.
O motorista mostrou a tabela da Copa no telefone, apontou para o jogo da Alemanha com o México e fez um sinal de que este iria para o espaço. Dei de ombros: afinal, minha questão era o jogo do Brasil. Independentemente do resultado, ele, eu e o tio vivemos juntos a mesma expectativa.
O Presidente da Chechênia deve ter acompanhado o jogo. Razam Kadyrov gosta do futebol brasileiro e, uma vez, trouxe para um jogo aqui Romário, Bebeto e Cafu. Mas o presidente da Chechênia escolheria um jornalista estrangeiro como a penúltima opção para compartilhar um grande jogo. A última certamente seria um gay.
Mas isso é um outro jogo, sobre o qual falaremos um dia. A emoção da estreia passou.
P.S. Peço desculpas por dois erros. Maior país do mundo, a Rússia tem 17 milhões de quilômetros quadrados e não metros. Perdeu mais de 20 milhões de pessoas na II Guerra, e não 20 mil. Foi digitação apressada e não ignorância.
Artigo publicado no Globo em 18/06/2018
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MORRE ELIEZER BATISTA

Da Folha de S.Paulo
Morreu nesta segunda (18) no Rio o ex-ministro e ex-presidente da Vale Eliezer Batista, 94. Ele estava internado no Hospital Samaritano, mas a causa da morte ainda não foi confirmada.
Eliezer era engenheiro e ocupou o ministério de Minas e Energia durante o governo João Goulart. No governo Fernando Collor de Mello, foi secretário de Assuntos Estratégicos.
Ele começou a trabalhar na Vale em 1949. Em 1961, foi nomeado presidente da mineradora pela primeira vez, sendo afastado com a deposição do presidente em 1946.
Após experiência na iniciativa privada, retornou à presidência da Vale em 1979. Sob seu comando, a companhia desenvolveu o Projeto Ferro Carajás, hoje o principal polo produtor de minério de ferro do Brasil.
Eliezer era viúvo de  Jutta Fuhrken, com quem teve sete filhos entre eles, o empresário Eike Batista. Ele se casou pela segunda vez em 2009, com Inguelore Sheunemann Batista.
OITO IDIOMAS
Àqueles que, em dúvida, perguntavam se a pronúncia correta de seu nome era "Eliézer" ou "Eliezér", o engenheiro Eliezer Batista da Silva costumava responder: "At your option" (em tradução livre, "como você preferir").
Em uma só frase mostrava duas de suas muitas características marcantes: as citações frequentes em um dos oito idiomas que dominava e a capacidade de adaptação.
No Brasil, era Eliezér, oxítono, mas acostumou-se a ser Eliézer em suas andanças pelo mundo para fechar milionários contratos de venda de minérios para a Vale.
Podia, dependendo da situação, assumir outros nomes. Nos anos 70, no auge de mais uma das muitas crises entre árabes e israelenses, fazia check in em um hotel na Árabia Saudita quando ouviu de um desconfiado funcionário: “Eliezer é um nome judeu”.
Respondeu de imediato: “No meu país se escreve assim, mas se lê Ahmad”. Desconcertou o interlocutor e conseguiu o quarto.
Nasceu em 1924, na minúscula Nova Era (MG), no vale do rio Doce. Lá conheceu aquela que, nas palavras da alemã Jutta Fuhrken Batista (1931-2000), sua mulher por 50 anos e mãe de seus sete filhos, seria sua amante por toda vida: a Companhia Vale do Rio Doce, onde trabalhou, com alguns breves intervalos,  entre 1949 e 1997, ano da privatização, e que presidiu por dois períodos.
Com Eliezer, a Vale se transformou de uma pequena mineradora que extraía ferro das montanhas de Minas Gerais —mas deixava nas mãos de terceiros todos os passos seguintes, como venda, beneficiamento, transporte— em uma das maiores do mundo ainda na década de 1980.
De suas ideias, vistas muitas vezes como megalomaníacas, surgiram marcos do desenvolvimento nacional, como o porto e a siderúrgica de Tubarão, no Espírito Santo, e o projeto Carajás, no Pará.
O segredo para a ascensão da empresa, dizia o engenheiro, era o “planejamento sistêmico-holístico”. “O que adiantava ter ferrovias se havia um gargalo no porto? Tive um estalo. Era tudo questão de logística”.
“Logística” vem do grego logistikos, aquele que sabe calcular racionalmente. E isso Eliezer fazia muito bem.
Ao assumir a presidência da Vale pela primeira vez, em 1961, aos 36 anos, tinha como meta tornar a empresa responsável por todas as fases, da extração do minério à entrega a compradores do outro lado do mundo.
Queria também aumentar a exportação de minério de ferro, à época na faixa de 1,5 milhão de toneladas/ano e, quem sabe, vender o produto já beneficiado, com preço mais alto.
“Nenhum país fica rico exportando apenas matéria-prima”, dizia.
Encontrou nos japoneses os parceiros ideais. O país precisava da matéria-prima para reconstruir seu parque industrial, destruído na Segunda Guerra Mundial.
Neste ano, Eliezer Batista fez a primeira de suas 178 viagens oficiais ao Japão. Firmou contratos de venda de longo prazo e capitalizou a Vale. Mas precisava de um porto que recebesse navios de grande porte para tornar o negócio rentável.
Em sua imaginação, os navios sairiam do Brasil abarrotados de minério de ferro e voltariam com petróleo árabe. Se não fechasse a equação, a operação seria economicamente inviável.
Com o apoio do então ministro da Fazenda, San Tiago Dantas, conseguiu tirar do papel a construção do porto de Tubarão, no Espírito Santo.
Orçado em US$ 100 milhões, o projeto não encontrava financiadores. Convencido da importância do novo porto, San Tiago Dantas, mandou, nas palavras de Eliezer, “rodar a guitarra”: imprimir mais dinheiro para bancar as obras.
“Hoje levaríamos um tiro na fronte desses fundamentalistas da moeda”, disse em depoimento aos jornalistas Luiz Cesar Faro, Claudio Fernandes e Carlos Pousa, para o livro “Conversas com Eliezer”, publicado em 2005.
Faltavam os navios. Nos cálculos do engenheiro, seriam necessárias embarcações com capacidade para transportar 120 mil toneladas de carga. No início dos anos 60, os maiores navios brasileiros levavam 10 mil toneladas; o maior do mundo levava 35 mil toneladas.
“Armadores europeus disseram que aquela ideia era a mais louca desde que Vasco da Gama contornara o Cabo da Boa Esperança”, contou.
Premidos pela necessidade do minério, estaleiros japoneses embarcaram na aventura e ajudaram Eliezer.
Deram-lhe, ainda, a condecoração da Ordem do Sol Nascente, a mais alta honraria do país e que lhe foi entregue pelo imperador Hiroito.
A grandiloquência do projeto lembra o que, cinco décadas depois, o empresário Eike Batista, um de seus sete filhos, tentou fazer no Porto do Açu, no norte-fluminense, reunindo em um só lugar porto, siderúrgica, estaleiros e uma série de empreendimentos diversos.
A ousadia de Eliezer aumentou a exportação anual da Vale de 1,5 milhão de toneladas por ano para 5 milhões de toneladas/ano. O empreendimento de Eike patina em um emaranhado de desistências de empresas e em processos na Justiça que buscam recuperar financeiramente e saldar dívidas de partes do grupo EBX, como o estaleiro OSX e a petroleira OGX.
BARÃO DE CURITIBA
Um dos seis filhos do seleiro José Batista da Silva, que fabricava arreios para cavalos e burros, e da dona de casa Maria Natividade Pereira, Eliezer deixou Nova Era no início dos anos 1940 para estudar em um colégio de religiosos holandeses em São João Del Rei. Durou pouco tempo. Foi expulso em um ano, considerado pelos frades má influência para os outros alunos.
Não voltou para a cidade natal, que chamava de “a selvagem New Was”, em referência à pobreza e falta de perspectivas na região. Foi para Curitiba, onde se formou em engenharia na Universidade do Paraná em 1948.
Lá descobriu o mundo. “Dizem que é uma cidade chata, sem graça, mas foram os melhores anos da minha vida”, contou em entrevista. Usava roupas extravagantes, como uma gravata borboleta vermelha que fez com que os amigos o apelidassem de barão de Nova Era.
Nadava, praticava saltos ornamentais e pólo aquático, o que lhe rendeu porte atlético, apesar da baixa estatura, e sucesso com o público feminino.
“Não diria que eu era um galã, mas dava muita sorte com as mulheres.”
Decidiu aprender a tocar piano, mas foi desestimulado por um professor alemão que lhe disse que tinha “mãos de moça” —pequenas, o que torna difícil a prática do instrumento. Recomendou que procurasse um grupo de canto gregoriano, onde sua voz de barítono, quase baixo, faria sucesso.
Como grande parte das obras para canto gregoriano foram compostas em russo, a sugestão o levou a aprender o primeiro dos muitos idiomas que falava —mais tarde passou a dominar o inglês, francês, alemão, italiano, espanhol e “arranhar” grego e japonês.
Manteve o hábito de cantar no idioma ao longo da vida. “Não há nada melhor para o espírito do que um bom canto gregoriano pela manhã”, contou à Folha em conversa em outubro de 2012.
Sua história com a mineradora começou em 1949. Recém-formado, passara um ano estudando nos Estados Unidos e voltara para visitar a família. Encontrou Nova Era mudada. A cidade estava tomada por americanos, empregados da Morrison-Knudsen, que reformava a ferrovia Vitória-Minas, da Vale.
Arrumou emprego ali mesmo. Dez anos e alguns cursos no exterior depois já era o superintendente da ferrovia; em mais dois anos, presidente da Vale. Em 1962, a convite de João Goulart, passou a acumular a presidência da estatal com o cargo de ministro de Minas e Energia, o que manteve até junho do ano seguinte.
O prazer que o conhecimento do idioma russo lhe trouxe também aborrecimentos. Logo após o golpe de 1964, foi exonerado da presidência da Vale e quase foi preso. Aqueles que pediam sua cabeça apresentavam três justificativas: defendia os direitos de seus empregados, para quem construía casas, escolas e hospitais; tinha sido ministro de João Goulart; e falava russo.
Teria sido, inclusive, grampeado em uma ligação telefônica com o ditador iugoslavo Joseph Broz Tito. No telefonema, Eliezer explicou anos depois, convencia o marechal a construir um porto em Balkar, que abriu caminhos para que a estatal entrasse nos mercados europeus.
“Aos olhos do novo regime, a participação no governo João Goulart e o fato de ser fluente em russo eram suficientes para me tingir de vermelho da cabeça aos pés”, disse, em entrevista para o livro “Conversas com Eliezer”.
Foi salvo pelo empresário Augusto Trajano Azevedo Antunes, fundador do grupo Caemi. Amigo do general Castello Branco, Azevedo Antunes o convenceu a retirar Eliezer da lista de cassados.
Mas não evitou sua demissão da Vale. Levou-o então para trabalhar em uma das empresas de seu grupo, a Minerações Brasileiras Reunidas (MBR). De comunista, passou a ser tachado de entreguista —a MBR tinha como sócia a norte-americana Hanna Mining.
A birra dos militares com o executivo não durou muito. Em 1968, foi designado presidente da recém-criada Rio Doce Internacional S/A, subsidiária da Vale com sede em Bruxelas.
Foram onze anos na Europa. Em março de 1979, foi chamado para uma conversa com o novo presidente da República, general João Figueiredo. “Esqueça o passado, o Brasil precisa de você”, ouviu do general ao ser convidado para reassumir a presidência da estatal.
Figueiredo queria que Eliezer fizesse avançar a exploração das reservas de Carajás, estimadas em 18 bilhões de toneladas de ferro de alto teor e mais uma infinidade de metais, como bauxita, ouro, manganês, cobre, cassiterita, caulim, fosfato.
A reserva, no sul do Pará,  tinha sido descoberta em 1967 pela US Steel, que detinha 49,1% dos direitos de lavra —os 50,9% restantes eram da Vale.
“Estamos com esse projeto Carajás enguiçado. Vê se dá um jeito nisso”, disse o presidente.
O “enguiço” era uma divergência entre os sócios. Os americanos pretendiam construir um porto para navios de pequeno porte, que seriam usados para levar o minério para os Estados Unidos.
Brasileiros, empolgados com a bem-sucedida empreitada de Tubarão, queriam um porto capaz de receber grandes navios que escoariam a produção para o sudeste asiático.
Depois de negociações tensas, a US Steel vendeu sua participação para a Vale, mas ainda havia o problema de como financiar as obras.
Em suas memórias, Eliezer conta que pediu a Figueiredo orientação sobre o que fazer. “Não tem orientação nenhuma, isso é problema seu”, respondeu o presidente.
Mais uma vez, Eliezer recorreu a seus amigos japoneses que, em troca de novos contratos de fornecimento de longo prazo, fizeram surgir dinheiro para o Projeto Carajás.
JUDAS
A expansão da Vale incomodava alguns. Eliezer era criticado por afastar a empresa do que, no mundo dos negócios, se chama “core business” —seu objetivo principal.
A estatal criada para ser uma mineradora já tinha uma siderúrgica (a Companhia Siderúrgica de Tubarão), uma empresa de frete de navios (Docenave), outras de reflorestamento e de produção de celulose, ferrovias e continuava a se espalhar.
Pouco após a posse de Figueiredo, seu ministro de Minas e Energia, Cesar Cals, declarara que devido à importância da exportação de minérios na balança comercial, a Vale concentraria suas atividades na extração.
“Apanhei feito Judas, amarrado no poste da ignorância”, disse no livro “Conversas com Eliezer”.
Mas dedicou-se ao Projeto Ferro Carajás. E paralelamente, desenvolveu dois outros, Alumínio do Brasil (Albrás) e Alunorte (Alumina), em sociedade com o consórcio japonês Nalco.
Sua avaliação era a de que o Brasil se encontrava em uma sinuca no comércio exterior. “Terá que decidir entre se tornar uma potência exportadora, capaz de singrar as longas distâncias marítimas ao menor custo, ou se perpetuar como um vendedor de urucum, penas de arara e castanha de caju”.
Carajás se tornou um de seus grandes orgulhos, apesar das críticas pesadas de ambientalistas que o acusavam de destruir a floresta e a quem, em revide, acusava de “ecolatria” —ecologia sem conhecimento científico.
Aos amigos, contava que foi depois de uma visita ao projeto, em 1991, que o suíço Stephan Schmidheiny criou o conceito de desenvolvimento sustentável. “Foi a prática que criou a teoria”, gabava-se.
A preocupação com o desenvolvimento econômico sem descuidar da questão ambiental era antiga. Em 1958, quando cuidados com o meio ambiente não faziam parte da agenda das grandes empresas, usou um subterfúgio para convencer o conselho da Vale a comprar uma área de floresta de 23 mil hectares em Linhares, norte do Espírito Santo.
Disse que a madeira seria usada para fazer dormentes para as estradas de ferro da mineradora. Hoje a Reserva de Linhares é uma das poucas áreas de mata atlântica preservadas no Estado.
Deixou a presidência da estatal pela segunda vez em 1986, no início do governo Sarney, e voltou para a direção da subsidiária internacional, na Europa.
Em 1990, recusou um convite de Fernando Collor para assumir o Ministério da Infraestrutura. Alegou questões de saúde, mas aos mais próximos dizia que “do poder, me basta o acesso a quem o tem”.
Já ameaçado de impeachment, Collor voltou à carga em 1992 e convenceu Eliezer a assumir a SAE (Secretaria de Assuntos Estratégicos). “Decidiu-se, em um gesto híbrido de desespero e bom senso, cercar-se de nomes como Célio Borja e Adib Jatene. Não foi um convite, foi uma convocação para a guerra”, afirmou anos depois. Saiu quando a Câmara aprovou a abertura do processo para o afastamento do presidente.
Na SAE, voltou suas preocupações para a matriz energética do país, excessivamente dependente de hidrelétricas. Há 20 anos previu que, sem mudanças, haveria o risco de blecautes e de falta d’água nos grandes centros.
Insistiu na implantação de usinas térmicas para que as hidrelétricas pudessem recompor seus níveis de água em períodos de menor consumo; esforçou-se para que fossem firmados contratos para compra de gás boliviano e para a construção do gasoduto que agora liga os dois países.
Alguns anos depois, já no governo Fernando Henrique Cardoso, envolveu-se nos debates sobre a privatização da Vale, mas se afastou por discordar do modelo adotado. Defendia o desmembramento da empresa para a venda em blocos, o que impediria a formação de monopólios e aumentaria seu valor.
RISO, SONO E MÚSICA
Quando Jutta dizia que a Vale era a amante de seu marido, Eliezer respondia, bem-humorado, que a amante tinha sido a responsável por tê-la encontrado. Os dois se conheceram em Hannover, quando o executivo fazia um curso de especialização.
Casaram-se em 1954 e tiveram sete filhos: Helmut, artista e coreógrafo; Werner, empresário que mora em Boca Ratton, na Flórida; Harald trabalha em uma empresa de criação de ferramentas high tech para finanças em Palo Alto, na Califórnia; Lars, envolvido com a indústria de videogames, e Monika, arquiteta, vivem em São Francisco; Dietrich, que se formou em medicina na Alemanha, voltou para o Brasil e montou uma empresa de informática; e Eike, aquele que, segundo o pai, herdou seu espírito empreendedor.
Dos dez netos, só os três filhos de Eike —Thor e Olin, de seu casamento com Luma de Oliveira, e Balder, com Flavia Sampaio— vivem no Brasil. Nas férias, filhos e netos se reuniam com o patriarca no sítio Pedra Azul, pedaço de terra comprado por Eliezer e Jutta no Espírito Santo na década de 1950.
As intermináveis viagens do marido pelo mundo deixaram com Jutta a responsabilidade de criar os sete filhos. “Poderia ter aproveitado mais as crianças, mas, se fizesse isso, não teria condições de lhes dar a educação que dei”, disse.
Em entrevista para o cineasta Victor Lopes, que dirigiu o documentário “Eliezer Batista, o Engenheiro do Brasil”, Eike contou que voltou a se conectar com o pai aos 30 anos, quando já tinha seus próprios negócios. Executivos que passaram pelo grupo EBX contam que o empresário sempre se preocupou com as opiniões do pai sobre seu trabalho.
Eliezer foi acusado de ter entregue a Eike um mapa com as minas que a Vale descartara, para que o filho as explorasse. Especulação que nunca seria provada. Eike sempre rejeitou veementemente qualquer insinuação a esse respeito, argumentando que, em toda a sua carreira, o pai nunca permitira que ele se aproximasse da Vale.
“Quando Deus resolveu dar dons ao meu pai, deu tudo para ele. É um homem da renascença. Mas Deus deixou um talento para mim, o de ganhar dinheiro. Todos os outros ele deu para meu pai”, disse ao documentarista em 2009.
Quando o império montado pelo filho começou a se desfazer, Eliezer partiu em sua defesa e disse que ele era mal compreendido no país. “É uma das pessoas mais generosas que conheço. Não tem nada de avarento”, disse.
Meses depois, pediu demissão do Conselho de Administração da OSX, o estaleiro do grupo agora em recuperação judicial.
Eliezer passou os últimos anos de sua vida dividindo seu tempo entre a casa no alto do Jardim Botânico, mesmo bairro da zona sul onde mora Eike, e o escritório no prédio da Firjan, no centro do Rio, onde atuava como consultor.
No escritório, um CD player tocava sempre peças de Wagner e de Bach, seus compositores favoritos.
Na casa, de uma “simplicidade escandinava”, como costumava dizer, tinha a companhia da mulher, a ex-reitora da Universidade de Pelotas Inguelore Scheunemann, com quem se casou discretamente em um cartório carioca em setembro de 2009 —os filhos foram avisados depois.
“É muito ruim viver sozinho e sou fã de mulheres, no sentido amplo”, disse.
Para levar a vida, dizia, usava três antidepressivos: o riso, uma boa noite de sono e a música.
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sábado, 16 de junho de 2018

OLHAR BRASILEIRO NA RÚSSIA DE PUTIN

Artigo de Fernando Gabeira
Apesar das leituras, não me arrisco a analisar a política russa. Apenas comparar o que li com o que vejo e tentar, através da experiência, entender um pouco o Brasil.
O momento em que Vladimir Putin surgiu na cena política russa é parecido, por razões diferentes, com a atual situação do Brasil. Depois de uma década de transição para o capitalismo, os russos sentiam o país mergulhado no caos e ansiavam por algo que Putin oferece: estabilidade.
Tanto lá, naquele período, como no Brasil de agora, há uma sensação de perda de importância no cenário internacional de baixa autoestima e um desejo difuso por mais comando e autoridade.
Como um ex-coronel da KGB, que atuou em Dresden, na época Alemanha Oriental, Putin se aproveitou da ampla campanha positiva em torno da KGB, dirigida pelo seu mais ilustre dirigente: Yuri Andropov.
Um dos pontos altos da campanha foi uma série sobre um espião russo que se tornou herói nacional: Maxim Isaev. Sob o nome de Max Otto von Stierlitz, ele se se infiltrou no governo alemão e impediu com seu trabalho um acordo entre Estados Unidos e Alemanha, destinado a prejudicar a União Soviética.
Stierlitz foi tema de uma série de extraordinário sucesso, intitulada “17 Momentos da Primavera”. Virou tema popular, jogos infantis de guerra. Segundo Arkady Ostrovsky, no livro “A invenção da Rússia”, Putin fez uma bela apariçao em cena, emulando o herói Stierlitz. No programa de TV em que foi apresentado, a música de fundo era a mesma da série, ele dirigia o mesmo carro Volga, enfim, era o homem certo para salvar a Rússia, nessa nova dificuldade.
Deu certo. A Rússia esperava alguém que a arrancasse da insegurança. E Putin passou a representar isto. Tanto que os jovens no período de seu governo são chamados de os filhos da estabilidade.
Putin é criticado pela oposição por falta de liberdades políticas. No entanto, certamente usando a máquina, consegue se reeleger com facilidade e também ao seu sucessor de plantão: Dimitri Medvedev.
O Brasil não passou por uma década de capitalização selvagem. Pelo contrário, o último período foi marcado por uma experiência estatizante, focada em aspirações socialistas.
A ascensão de Michel Temer não só não trouxe estabilidade, como transmitiu a certeza de que a corrupção continuava instalada no poder: eram todos do mesmo bloco predatório.
A greve dos caminhoneiros acentuou a sensação de desamparo dos brasileiros.
Fernando Henrique, numa entrevista, considerou a situação pré-revolucionária.
Discordo. Não vivemos um momento pré-Lenin. Estamos mais próximos de um momento pré-Putin.
Felizmente não temos nenhum herói nacional para ser emulado. Mas a televisão é um grande instrumento.
Influenciado pelo marxismo, analistas costumam culpar os asiáticos pelos traços autoritários na Rússia. Diziam que o Czar Nicolau era o Gengis Khan com telégrafo e Stalin o Gengis Khan com o telefone.
Os tempos passam, podem surgir Gengis Khan com televisão ou talvez até com internet.
Nessa plataforma, no entanto, será difícil prosperar, porque pelo menos teoricamente é um espaço democrático, uma Atenas digital.
Artigo publicado no Segundo Caderno, no Globo em 16/06/2018
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sexta-feira, 15 de junho de 2018

NEM DE LONGE PARECE NORMAL

Artigo de Fernando Gabeira
Estou em Moscou. Às vezes, de longe temos a ilusão de ver melhor o Brasil. Mas não há garantia de que essa situação complexa seja desvendada de fora.
Um dos temas que às vezes nos aproximam do mundo é esta sensação de que o centro político está em declínio. Mesmo assim, corremos o risco de estar falando de centros políticos diferentes, de declínios impulsionados também por forças distintas.
No Brasil, o principal estímulo para tratar do assunto são as pesquisas eleitorais. Nos Estados Unidos, é um exame mais prolongado da retirada de cena de políticos democratas e republicanos mais próximos do centro, mais propensos ao diálogo e a soluções negociadas. Ao longo das eleições, seu número vem caindo.
Na Europa, sucessivas derrotas da social-democracia acionaram o alarme para o crescimento das forças demagógicas, centradas na repulsa aos imigrantes e nas consequências da globalização. O Brexit pode ser atribuído a essa tendência, assim como a eleição de Trump nos EUA.
O centro difere da esquerda na medida em que não se baseia no conflito para crescer. E difere da direita ao afirmar que é necessário atenuar as distorções sociais que o capitalismo produz no seu curso triunfante.
Se for realmente isso, o centro parece ter perdido substância ao acreditar que as mudanças sociais e culturais na globalização seriam resolvidas, naturalmente, pelo crescimento econômico. E errou mais ainda ao subestimar a temática nacional, supondo que a mística em torno da terra e da cultura fosse apenas nostalgia.
Uma das incaraterísticas do centro é apostar numa crescente liberdade, envolvendo todos os grupos minoritários. Nesse ponto, a esquerda que dominou o Brasil foi um alento para muitas lutas identitárias, também contempladas por Barack Obama.
O problema é que, à medida que essas lutas cresceram, declinou a energia necessária para uma coesão nacional. Muitas lutas identitárias se veem em confronto com a sociedade abrangente. Fixam-se no que chamam de seu território e seus valores próprios.
Como recuperar a ideia de um projeto nacional, algo que envolva a todos, apesar de suas diferenças?
Ainda assim, esses elementos típicos da globalização me parecem ter um peso relativo diante do fator corrupção. Centro, direita e esquerda naufragaram no combate direto à roubalheira.
Nem todas as forças foram colhidas com a mesma intensidade. E nenhuma delas foi capaz de encarnar as aspirações sociais de transparência e condenação dessa prática.
Se alguma o fizesse, comeria o pão que o diabo amassou, pois bateria de frente com uma cultura enraizada no meio político. Pagaria com o isolamento e a hostilidade na convivência cotidiana. Mas de certa forma sobreviveria não só para contar a história, mas para juntar os cacos e prosseguir o seu curso.
A situação do Brasil, ao que me parece, não é apenas a do declínio do centro, mas de todas as forças organizadas que passaram pelo furacão investigativo. As intenções originais de votos em Lula, nos níveis do fim do século passado, sobreviveram, ao que indicam as pesquisas. Mas quando transplantadas para nomes do seu partido caem vertiginosamente.
Os instrumentos tecnológicos à disposição revelam, no entanto, um avanço na consciência e na participação popular. Apontam para mais democracia, quem sabe uma complexa Atenas digitalizada.
No entanto, não aparecem os sinais de encontro entre esse mundo horizontal e uma ideia de governo. Os últimos foram marcados também por uma desconfiança na distribuição de renda, pelo alto preço que seus promotores cobraram da sociedade em desvios de verba pública e assalto às empresas estatais.
E nas últimas semanas Michel Temer enfraqueceu a ideia de democracia, usando-a para descrever a essência de sua reação à greve, titubeante e inepta.
Florescem no mundo, hoje, muitos governos autoritários, sobretudo em grandes países, como aqui, precisamente porque as pessoas associam a democracia liberal a um estado de bagunça e sonham em se tornar um “país normal”, isto é, que não se desintegre por falta de autoridade. Parecem preferir abrir mão de ampla liberdade pela sensação de viver num país estável.
Ao associar seus erros e trapalhadas à democracia, e não à sua condição de remanescente de uma grande quadrilha, Temer contribui para aumentar o desencanto com essa forma de governo.
Não parece acidental que a polarização atual caminhe para duas personalidades fortes, que assustam o mercado. Mas o mercado, creio, é menos vulnerável a impulsos autoritários. Ele se adapta muito melhor do que os livres-pensadores, os que batalham pela liberdade de expressão e sonham com um modelo de democracia ocidental num conjunto de países emergentes onde ela não é a preferida.
Pesquisas eleitorais revelam apenas um instante. O inquietante nelas não é exatamente a posição dos atores em disputa. O inquietante é o que revelam da situação de fundo, bastante mais difícil de se transformar. Não só porque é complexa, mas também porque, num momento eleitoral, a tarefa dos candidatos não é entendê-la, mas explorá-la.
É um tipo de contradição, mais nova no Brasil: um grande avanço tecnológico que expandiu a consciência coletiva e a decadência assustadora do universo político, que poderia potencializá-la para grandes saltos de qualidade.
Essa intensa troca de ideias num plano horizontal é uma espécie de antídoto contra o autoritarismo. Mas a decomposição do mundo político é um grande convite à sua chegada.
Não tenho fé religiosa na tecnologia. É uma ilusão avaliar as redes apenas pelo que têm de melhor. Uma corda serve para escalar a montanha ou para se enforcar. Daí, minha angústia.
Artigo publicado no Estadão em 15/06/2018
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sexta-feira, 8 de junho de 2018

DEBORAH COLKER: PRÊMIO NA RÚSSIA 'FOI O PRIMEIRO GOL DO BRASIL NA COPA'

Artigo de Fernando Gabeira
Moscou – Foi o primeiro gol do Brasil na Copa. Com essa frase, Deborah Colker comemorou o prêmio internacional Benois de La Danse que ela recebeu na noite desta terça-feira (dia 5) no Teatro Bolshoi, ao lado dos melhores bailarinos do mundo.
Deborah venceu pela coreografia do espetáculo “Cão sem plumas”, de 2017, baseado no poema homônimo de João Cabral de Melo Neto publicado em 1950, e comemorou ao lado de Gringo Cardia, responsável pelos cenários da peça e colaborador da companhia que completa agora um quarto de século.
Como em muitos espetáculos anteriores, o trabalho de Deborah é sempre recebido com críticas do tipo “isso não é dança”. No entanto, foi reconhecido por um júri internacional e emocionou os espectadores no teatro-sede do Ballet Bolshoi, um ícone da dança clássica mundial.
— Fizemos uma viagem de 25 dias por Pernambuco, montando oficinas e discutindo com a população ribeirinha. Mas o poema de João Cabral não trata apenas dos ribeirinhos do Capibaribe: é uma mensagem universal sobre o sofrimento e a resiliência humanas — disse a coreógrafa e diretora da companhia que leva o seu nome.
O “Cão sem plumas” de Deborah Colker utilizou também imagens de cinema realizadas por Claudio Assis. Não foi apenas mais um espetáculo com imagens. Imagens e bailarinos interagem de uma forma diferente, a impressão que quis dar é que pertencem a um universo único, transitando da tela para o palco e vice-versa.
Deborah e Gringo Cardia estavam no Hotel Metropol, um clássico hotel de Moscou, vizinho ao Teatro Bolshoi, ao Kremlin e à Praça Vermelha. A entrada do Metropol é decorada com um cartaz do Benois de La Danse.
Quando ela afirmou que sua vitória internacional era o primeiro gol do Brasil na Copa não estava longe da realidade. A letra O no cartaz lembra uma bola e a Copa do Mundo — que para dizer a verdade não empolga os russos tanto quanto a dança e a literatura.
Foram esses admiradores da dança que ficaram emocionados em ver, num telão instalado no palco, os bailarinos cobertos de lama, representando pessoas exploradas e esquecidas, mas resistindo com dignidade.
Os russos conhecem bem o sofrimento humano. Sua história é marcada por ele, desde as invasões mongóis entre os séculos XIII e XV, o cerco a Leningrado na Segunda Guerra Mundial, os exílios na Sibéria e os gulags promovidos pelo estalinismo.
A vitória do espetáculo “Cão sem plumas”, segundo Deborah, não é apenas da dança e da poesia de João Cabral, mas da resiliência do povo brasileiro.
Artigo publicado no Segundo Caderno do Globo em 06/06/2018
Foto: Gabeira
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quinta-feira, 7 de junho de 2018

CRITÉRIOS SUBJETIVOS

Da Folha de S.Paulo
O governo do Reino Unido nunca rejeitou tantos pedidos de cidadania como agora.
E o motivo mais comum para o recorde de rejeições parece ser perigosamente subjetivo: as autoridades consideram que muitos candidatos simplesmente não demonstram ter “bom caráter”.
A legislação de imigração define todos os critérios para as pessoas se candidatarem à cidadania britânica.
A grande maioria desses pontos é bem objetiva e justa. Os candidatos têm, por exemplo, que provar residência legal por pelo menos cinco anos no país para obter um visto permanente. Depois de 12 meses podem pedir naturalização.
Além disso, precisam passar por um teste de proficiência em inglês, outro de conhecimentos gerais sobre o país e comprovar a intenção de permanecer na ilha no futuro.
O problema é que uma parte da legislação foi alterada em 2014, na esteira de uma política do governo conservador de criar um “ambiente hostil” aos imigrantes ilegais e diminuir a imigração a menos de 100 mil pessoas por ano.
Essa alteração tocou, entre outras coisas, na definição do que é ter um "bom caráter".
Até então, a lei barrava a concessão de cidadania apenas a pessoas condenadas judicialmente, suspeitos de envolvimento com terrorismo ou culpados por alguma contravenção séria. Nestes casos, os candidatos poderiam ser considerados como “mau-caracteres” –e não conseguiam o passaporte.
Em dezembro de 2014, no entanto, o Ministério do Interior (na época liderado pela atual primeira-ministra Theresa May) publicou novas normas ampliando a definição do mau-caratismo para efeitos de imigração.
A partir de então, passaram a poder ser classificados como mau-caracteres pessoas que continuam cumprindo a lei, mas, por exemplo, são vistas como “excêntricas” em suas comunidades.
Também deixaram de ser bem-vindas ao país pessoas que são consideradas promíscuas sexualmente ou que ficam endividadas de maneira recorrente.
Problemas com o álcool ou jogo e até pequenas multas de trânsito também podem impedir os candidatos de obter a almejada cidadania britânica.
A norma chega a dizer que, isoladamente, nenhum desses fatores impede necessariamente a concessão da naturalização. Mas deixa a porta aberta para que burocratas neguem os pedidos se observarem que alguns desses comportamentos acontecem repetidamente.
Já houve casos de crianças que tiveram os pedidos negados por infrações causadas pelos pais. Segundo a legislação, qualquer um com mais de 10 anos de idade tem que cumprir as mesmas exigências.
Tudo isso vem ajudando a aumentar o número de pedidos barrados.
Em 2016, as autoridades negaram um total de 13.893 pedidos de naturalização –um recorde e o dobro do total de rejeitados em 2012.
Desse total, nada menos do que 5.525 candidatos falharam no teste de “bom caráter” e não conseguiram o passaporte do país. Mas os motivos exatos não foram detalhados.
Na semana passada, por exemplo, a revista The Economist tentou descobrir com o Ministério do Interior quantos desses casos diziam respeito a pessoas consideradas promíscuas. Não chega a ser surpreendente, mas as autoridades não conseguiram dar essa informação.
Américo Martins
Jornalista escreve sobre a vida em Londres, onde mora pela terceira vez --num total de 15 anos.
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domingo, 3 de junho de 2018

SÃO PAULO É UMA PARADA

Celebrando a diversidade, a Parada do Orgulho LGBT (Lésbicas, Gays, Bissexuais e Transgêneros) de São Paulo chega a sua 22ª edição. A Parada será neste domingo (03), a partir do meio-dia na Avenida Paulista, com o tema "Eleições” e o slogan “LGBTI+, Nosso voto, nossa voz”.  Com 18 trios elétricos, 30 DJs, os organizadores do evento pretendem levar mais de 3 milhões de participantes.
Neste ano tem eleições, não será difícil encontrar políticos em cima de um trio elétrico. Em ano eleitoral, os trios elétricos viram palanques para políticos oportunistas. Em busca de aparecer na mídia arco-íris, eles disputam cada metro quadrado nos trios que até parece camarote de cervejaria na Marquês de Sapucaí.
Porém, haverá políticos no evento que estão engajados com a causa LGBT há muitos anos, por exemplo, a ex-ministra da Cultura, senadora, Marta Suplicy (PMDB-SP), que participou de todas  as edições da Parada do Orgulho Gay de São Paulo.
Marta é autora do projeto de lei de união civil entre pessoas do mesmo sexo que estava engavetado na Câmara há mais de 19 anos. Em maio de 2011, o Supremo Tribunal Federal (STF) reconheceu a união homoafetiva.
Junto o com o Salão do Automóvel e a Fórmula 1, a Parada do Orgulho Gay de São Paulo já faz parte oficialmente do calendário de eventos  de São Paulo.  Segundo o Guinness Book – o livro dos recordes – é a maior manifestação mundial do gênero. Em São Paulo, segundo informações, o evento só perde para a Fórmula 1 em faturamento.
Segundo pesquisa realizada nesta semana na capital paulista, cada frequentador da Parada gasta por dia cerca de R$ 1.850 com hospedagem, alimentação e preparativos para o dia da Parada. O clima de festa arco-íris começa uma semana antes do dia do evento.
A Parada tem se tornado uma espécie de carnaval, mas sem perder o foco principal; a luta da comunidade LGBT e a cada ano o viés político tem se fortalecido no evento, onde os defensores do movimento gay colocam em discussões as políticas públicas da causa LGBT.
Entre as lutas da comunidade gay, está a aprovação do Projeto de Lei Complementar 122 /06 que pune a homofobia no Brasil. O PLC 122/06 está abafado no Senado, sem previsão de ser colocado em pauta.
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sábado, 2 de junho de 2018

PARA NUNCA MAIS PARAR

Artigo de Fernando Gabeira
Semana que vem, deixo o Brasil por um bom tempo: missão profissional.
Já estava acertada desde o início do ano. Passei esses meses, um pouco aos trancos, estudando a história cultural da Rússia. Espero fazer um trabalho interessante.
Mas saio do Brasil com uma pergunta no ar: como é possível impedir que o país pare do novo, como aconteceu na greve dos caminhoneiros?
Já escrevi um artigo mostrando a fragilidade do governo. Mas evolui para considerar que, independente da incapacidade do governo, o Brasil não pode parar. É uma questão de estado.
De um ponto de vista legal, não deveria haver problema. Se um presidente gosta do diálogo e da negociação, ótimo. Mas está fora do seu alcance tolerar uma paralisação nacional que coloque o país de joelhos.
Acho que o Brasil tem a obrigacão, depois dessa, de formular um plano que impeça o país de parar.
Minha sugestão é um plano que envolva Brasilia e estados e que passe por uma simulação. Não há nada de errado em simular. Os japoneses fazem com frequência, para vários perigos em potencial.
Aqui no Brasil já fizemos simulacão de um desastre em Angra. Houve alguns problemas. O pior deles: o policial rodoviário que daria apoio à operação morreu num desastre no perigoso trecho da BR101.
Deveria ter percebido com mais clareza que as estradas são o nosso ponto fraco. Hoje, fica bastante claro que a opcão quase total pelas rodovias nos coloca um problema singular de segurança nacional, não apenas pelas greves mas diante de um potencial inimigo externo.
Felizmente as coisas estão voltando à normalidade. Percorri algumas cidades da serra fluminense, para documentar a epopeia de nossa salada, que sumiu das mesas na primeira semana.
Tudo volta à normalidade mas com um rombo de R$75 milhões. E uma normalidade que expôs como o país pode se tornar refém de grevistas.
Não tenho nada contra greves. É razoável que, em certas condicões, as pessoas cruzem os braços. Mas paralisando apenas sua atividade, deixando que as outras possam fluir.
Simplesmente, recusando-se a transportar sua carga, os caminhoneiros já teriam um enorme poder de barganha.
Ao bloquear estradas e refinarias, eles multiplicaram seu poder. Tornaram-se momentaneamente mais fortes que o estado brasileiro. Quando Temer resolveu agir, era tarde demais. A própria ideia de convocar as Forcas Armadas naquele momento já tornava a tarefa muito mais difícil.
Quando ouvi na tevê que os militares estavam em dúvida se teriam gasolina para realizar sua tarefa ao longo de estradas bloqueadas e refinarias fechadas, cheguei à conclusão de é preciso fazer alguma coisa para que isso não aconteça nunca mais.
Nenhuma causa justifica bloquear combustível, alimentos, deixar hospitais em emergência, adiar cirurgias, aterrorizar pacientes que dependem de hemodiálise.
É preciso definir alguns limites.
Compreendo também que as vezes uma greve tem a simpatia popular. Isso é ótimo para ela. Mas ainda assim, mesmo num caso em que a maioria apoie o bloqueio, ela não tem o direito de impô-lo aos outros.
O que aconteceu com o governo e os politicos demonstra mais uma vezes que vivem num universo paralelo. Não percebem que os gastos monumentais da máquina, inclusive com as mordomias, contribuem com nossa pesada carga tributária. E quando se precisa dela, a máquina entra em pane.
O tamanho dela não cabe no Brasil. E até compreenssível ter falhado ao deixar o Brasil parar. Sua lógica cotidiana já é de reduzir o nosso ritmo, ampliar nossa pobreza.
Artigo publicado no jornal O Globo, em 02/06/2018
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PUTA DAY

Hoje é dia de parabenizar todas as profissionais do sexo; 2 de junho é Dia Internacional da Prostituta, atividade mais antiga do mundo. A data remonta ao ano de 1975, onde prostitutas francesas se reuniram na busca pelo direito à não-marginalização por parte do Estado.
Em 2007, a Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) vetou o projeto de Lei do deputado Fernando Gabeira (PV-RJ) que legalizaria o trabalho das prostitutas, dando-as carteira de trabalho assinada.
Atualmente, projeto semelhante apresentado por Gabeira tramita na Casa, de autoria do deputado Jean Wyllys (PSOL-RJ), o Projeto de Lei 4211/2012, batizado pelo parlamentar de projeto Gabriela Leite tem como objetivo regulamentar as atividades das profissionais do sexo.
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sexta-feira, 1 de junho de 2018

O BLOQUEIO DAS IDEIAS

Artigo de Fernando Gabeira
Aos poucos volta a gasolina aos postos e os alimentos às prateleiras. É tempo também de reorganizar a cabeça, depois desse movimento dos caminhoneiros que parou o País.
Sim, é preciso reorganizar a cabeça. Não vai nisso nenhuma subestimação da inteligência. É que os fatos nos obrigam a uma constante revisão.
Esta semana, por exemplo, lembrei-me duma viagem a Santa Maria, no Rio Grande do Sul. Isso foi na década dos 90. Rodávamos por estradas precárias e perguntei por que não as reparavam. Alguém me disse que as estradas ali estavam perto da fronteira com a Argentina. Eram tão ruins que desestimulavam uma invasão militar.
Achei bizarro. Afinal, estamos de bem com a Argentina, já havíamos resolvido a questão nuclear fraternalmente. Aquilo era uma desculpa esfarrapada.
Voltando atrás no tempo, sigo pensando que as estradas devem ser as melhores possíveis. Mas percebo, com a paralisação da semana, que num país como o nosso deveriam ser um tema dominante na defesa nacional.
Um país não pode ser tão vulnerável. As notícias de perdas se sucedem: portos, agricultura, comércio, indústria, quase todos os setores da economia nacional foram atingidos.
Isso não quer dizer que nunca mais haverá greve de caminhoneiros. Simplesmente não podem ser devastadoras como esta.
A segunda ideia: como as coisas acontecem sem que sejam detectadas no País. As manifestações de 2013 começaram por causa dos 20 centavos a mais no preços das passagens. E surpreendentemente evoluíram para um protesto geral.
Onde estávamos todos? Talvez mais concentrados no jogo político de Brasília do que propriamente nas tensões sociais. Onde estava o governo, que recebeu uma indicação clara da greve e a subestimou?
Se fosse um pouco mais franco e transparente, pelo menos avisaria à sociedade que algo de muito grave estava para acontecer. Se não quisesse nos defender, ao menos acionaria nossos instintos de autodefesa. Não são necessariamente negativos como uma corrida aos supermercados. Havia muito o que fazer para salvar vidas, garantindo oxigênio, material de hemodiálise, enfim, artigos decisivos para a saúde pública.
As refinarias foram bloqueadas. Como, assim, as refinarias podem ser bloqueadas simultaneamente? Os grevistas chegaram primeiro, embora tenham avisado que iriam desfechar o movimento.
Compreendo a revolta difusa contra políticos que vivem no mundo da lua. Creio que ela é inevitável no Brasil de hoje, em que a sociedade já esgotou sua cota de tolerância.
O governo Temer está preocupado em fugir da polícia e influenciar as eleições. Ele merece uma dose de caos para cair na real. Mas a sociedade, não. Ele já vem sofrendo ao longo desses anos de crise, corrupção, assalto às empresas públicas, como a Petrobrás.
Existe alguma fórmula para evitar que um governo fraco fique de joelhos sem que para isso o próprio País também tenha de se ajoelhar?
O que me ocorre, as ideias ainda não voltaram todas às prateleiras: é um instrumento de Estado, uma lei talvez, que defina que o País não pode parar, independentemente das hesitações do governo.
Ao governo caberia negociar, mas dentro de um quadro em que estradas e refinarias não poderiam ser bloqueadas. Isso subordinaria as próprias negociações.
Por mais rastejante que fosse o governo, por mais concessões que estivesse pronto a oferecer, não estaria ao seu alcance permitir que o País parasse.
Finalmente, uma ideia que me faz lembrar 2013: uma revolta política despojada de uma visão real do que fazer, para onde ir.
Não se deve ignorar a presença no movimento de grupos que defendem a intervenção militar. Mesmo ignorados, estão crescendo. É preciso encará-los. Eles estão vendo a mesma decadência política que nós. Só que propõem uma saída absurda, não só pelas condições internas, mas também pelo isolamento internacional que isso representaria para o Brasil.
Foi num precário processo democrático que chegamos até aqui. E por meio dele vamos encontrar uma saída.
Já vi caminhoneiros precipitarem a queda do governo de Salvador Allende, no Chile. Estava defronte ao Palácio de La Moneda quando os aviões o sobrevoavam, anunciando o golpe. Augusto Pinochet acabou como alguns políticos brasileiros, alquebrado, de bengala, sempre nos colocando o dilema: cadeia ou prisão domiciliar para morrer em casa?
Voltar ao passado não é uma solução. É uma espécie de morte viver a História como uma repetição mecânica.
Não deixa de ser estranho ver tanta gente usando a rede social, que ampliou o potencial humano de livre expressão, pedindo uma ditadura militar. É como usar uma boia para se afogar com ela. Já não é apenas viver a História como morte, mas como suicídio.
Estamos num ano eleitoral. O País em frangalhos, uma esfera política desmoralizada, é nessa aridez que teremos de plantar a flor da mudança.
Um poeta consegue plantá-la no asfalto. Nossa tarefa não é tão difícil: derrubar pelo voto a maioria dos picaretas, eleger gente nova e empurrá-la para uma aliança com alguns sobreviventes, para que a inexperiência não venha a pesar tanto nas suas decisões.
Conviver com este governo e com todo o universo político é bastante doloroso. Mas não há alternativa. Em outubro já haverá um novo presidente, um novo Parlamento. Podem não ser ideais. Mas a lição destes anos é de que as más escolhas podem levar o País à desintegração.
Os adeptos do voto nulo deveriam parar um minuto e refletir sobre isso. Não existe outro mundo. Você pode deixar os políticos de lado, mas eles têm o poder de arrasar seu cotidiano.
Por favor, nada de suicídios, como a intervenção, nem masoquismo, como o voto nulo. Pelo menos, vamos tentar sair dessa maré.
Artigo de hoje 01/06/2018, no Estadão.
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QUADRILHA É O QUE NÃO FALTA

Charge do Roque Sponholz
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quinta-feira, 31 de maio de 2018

MACHO MAN

Da Folha de S.Paulo
O pré-candidato do PDT à sucessão presidencial, Ciro Gomes, criticou nesta quinta-feira (26) o hábito de se pedir o impeachment de um presidente quando não se concorda com a sua política de governo.
Em discurso a uma plateia de vereadores, ele disse que, caso seja eleito, não será fácil retirá-lo do comando do Palácio do Planalto, já que não é como a ex-presidente Dilma Rousseff, que sofreu impedimento em 2016.
“Não vai ser fácil não [me derrubar], porque eu não sou a Dilma Rousseff, eu sou do ramo. Você acha que um marginal como [o ex-presidente da Câmara dos Deputados] Eduardo Cunha me derrubaria? É preciso ser muito mais homem que eu para me derrubar”, disse.
Segundo ele, a tentativa de se retirar mandatários do Poder Executivo já está “escrita na história do país” e é necessário um presidente com força política, apoio popular e que retome a confiança da sociedade na democracia.
“Se não tivermos apoio aqui embaixo, eles vão derrubar o terceiro, o quarto e o quinto [presidentes]. Isso está escrito neste país enquanto não virarmos o jogo”, afirmou.
Ele lembrou que, desde a queda de Fernando Collor, são protocolados pedidos de impeachment contra presidentes em exercício e que foi contra, por exemplo, quando Luiz Inácio Lula da Silva apresentou solicitação para a saída de Fernando Henrique Cardoso.
“O impeachment derrubou uma presidente honrada, embora estivesse fazendo um governo que eu achava muito ruim, mas respeito quem pensa diferente”, disse.
Ciro participou de evento da XVI Marcha dos Vereadores, em Brasília. No discurso, sem citar nomes, disse que integrantes do Poder Judiciário que  dão muitas entrevistas deixaram de fazer justiça para fazer política.
Para ele, o ativismo judiciário ocorre quando os Poderes Executivo e Judiciário entram em colapso e deixam um espaço público. “O poder não aceita o vácuo. Se ele não é exercido por alguém, outro o exerce”, disse.
Ele criticou o discurso de desmoralização do Poder Legislativo e disse que, na época que era deputado federal, apenas um terço do Câmara dos Deputados era formado por “batedores de carteira, estupradores, assaltantes e gente da pior categoria”.
“O outro terço é de gente muito séria e muito competente. E o outro terço é de sobreviventes, pessoas que jogam o jogo do Poder Executivo”, disse.
PROPOSTAS
O pré-candidato afirmou ainda que, no início de maio, irá disponibilizar na internet um esboço de seu programa de governo para que seja analisado e criticado pela sociedade. Segundo ele, após ser readaptada, a plataforma oficial será lançada em junho.
No evento, ele defendeu propostas como a manutenção do Ministério da Segurança Pública e a federalização da investigação dos crimes de narcotráfico, facção criminosa, contra a administração pública e lavagem de dinheiro.
Para isso, ele disse que o efetivo da Polícia Federal será ampliado, mas não detalhou com que recursos. Ele afirmou que ainda não tomou uma decisão sobre se acabaria com o Ministério da Justiça ou o fundiria a Segurança Pública.
“Ele [Segurança Pública} não precisa rivalizar, da forma oportunista como foi feito, com a Justiça. É preciso trazer o tema à centralidade da política pública nacional”, disse.
O pedetista disse ainda que pretende, nos primeiros seis meses de mandato, realizar uma reforma conjunta fiscal e previdenciária. E que, caso ela não prospere junto ao Congresso Nacional, irá propor um plebiscito ou um referendo.
No discurso, criticou a proposta previdenciária apresentada pelo presidente Michel Temer e disse que pretende implementar um modelo de capitalização, ou seja, com a aplicação dos recursos em fundos de pensão públicos para que gerem lucro.
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DISCURSO E PRÁTICA DIFERENTES

Da Folha de S.Paulo
Autor de um mensagem nas redes sociais prometendo revogar qualquer multa aplicada a caminhoneiros pelo governo de Michel Temer, Jair Bolsonaro (PSL) é autor de projeto que, em sentido contrário, pune com até quatro anos de cadeia aqueles que impedirem ou dificultarem o trânsito de veículos e pedestres nas vias públicas.
O projeto foi apresentado em agosto de 2016 na Câmara dos Deputados.
"A proposição é pautada na necessária preservação dos direitos individuais e coletivos dos cidadãos, vítimas de ações irresponsáveis daqueles que desprezam as liberdades do outro quando da busca de suas demandas sociais", escreveu Bolsonaro na justificativa do projeto.
O texto estabelece que "impedir ou dificultar o trânsito de veículos e pedestres, sem autorização prévia da autoridade competente" resulta em "reclusão, de um a três anos”, pena agravada em um terço caso o ato prejudique o funcionamento de serviços de emergência. ​
Pré-candidato à Presidência, o deputado se apressou em ir às redes sociais apoiar a atual greve dos caminhoneiros, mas nas manifestações iniciais criticou a obstrução de vias.
"Caminhoneiros, parabéns, vocês estão fazendo algo muito mais importante até do que uma eleição. Só peço uma coisa, não bloqueiem a estrada. Com toda a certeza, onde por ventura esteja havendo bloqueio tem algum infiltrado do PT, do MST, da CUT", afirmou em vídeo divulgado na sexta (25).
Bolsonaro é crítico recorrente de manifestações em vias públicas promovidas por grupos de esquerda.
Neste domingo, porém, o presidenciável publicou em sua conta no Twitter: "Qualquer multa, confisco ou prisão imposta aos caminhoneiros por Temer/Jungmann será revogada por um futuro presidente honesto/patriota."
A Folha encaminhou perguntas para sua assessoria de imprensa e para o presidente interino do PSL e advogado de Bolsonaro, Gustavo Bebianno, mas ainda não houve resposta.
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quarta-feira, 30 de maio de 2018

MORRE AUDÁLIO DANTAS

Da Folha de S.Paulo

Morreu nesta quarta-feira (30) o jornalista e escritor Audálio Dantas, aos 88 anos, no Hospital Premiê, em São Paulo, onde estava internado desde abril. Ele tratava um câncer de intestino desde 2015, quando foi operado, mas a doença acabou por atingir o fígado e os pulmões depois disso.

O repórter era conhecido por seu olhar humanitário sobre os temas do cotidiano e sua atuação em prol da defesa de direitos durante a ditadura militar, característica que lhe rendeu, em 1981, o Prêmio de Defesa dos Direitos Humanos da ONU (Organização das Nações Unidas).

Nascido em Tanque D'Arca, pequeno município do agreste alagoano, Audálio iniciou a carreira no jornalismo aos 17 anos. Vindo do Nordeste para a capital paulista, o filho de um comerciante e uma dona de casa revelava imagens do fotógrafo Luigi Mamprin, no jornal Folha da Manhã, um dos títulos que dariam origem à Folha.


Uma das reportagens que marcaram sua história se deu numa apuração sobre a favela do Canindé, às margens do Tietê, em São Paulo. Lá, o repórter conheceu Carolina de Jesus, moradora local que registrava um diário do seu cotidiano de fome, violência e dificuldade em criar os três filhos pequenos trabalhando como catadora de papel.

Os escritos de Audálio revelaram Carolina, que mais tarde se tornaria best seller, publicando livros no Brasil e no exterior, o mais famoso deles "Quarto de Despejo", de 1960.

Sua personalidade também ficou evidente quando assumiu a presidência do Sindicato dos Jornalistas do Estado de São Paulo, à época do assassinato do jornalista Vladimir Herzog, em outubro de 1975. Audálio denunciou que Herzog havia sido torturado e morto no DOI-CODI, contrariando a versão oficial do governo, que falava em suicídio.

Após isso, em 1978, sua atividade sindical lhe rendeu um mandato como deputado federal por São Paulo, pelo antigo MDB (1979-1983). Audálio também foi o primeiro presidente eleito por voto direto da Fenaj (Federação Nacional dos Jornalistas). Até esta quinta, integrava o conselho consultivo da ABI (Associação Brasileira de Imprensa).

A carreira de Audálio também registra passagens como redator e chefe de reportagem na revista O Cruzeiro, publicação que deixou para ser editor de turismo na revista Quatro Rodas.

Ele foi correspondente de guerra em Honduras pela Veja e trabalhou na revista Realidade, onde produzia reportagens sobre as mudanças econômicas e sociais por que passava Minas Gerais. Foi chefe de Redação da revista Manchete e editor da Nova.

Escritor, Audálio lançou livros, dentre eles "As Duas Guerras de Vlado Herzog" (Record), pelo qual recebeu o prêmio Jabuti e o prêmio Juca Pato de Intelectual do Ano, em 2013.

O jornalista deixa a mulher Vanira Kunc, quatro filhos e netos. O velório ocorre no Sindicato dos Jornalistas de São Paulo, a partir das 10h (rua Rego Freitas, 530, Vila Buarque).

AUTORIDADES E AMIGOS LAMENTAM MORTE
O ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB) lamentou a morte de Audálio Dantas. "Foi um batalhador. Sua ação no combate à ditadura foi constante e firme. A voz jamais calou e a presença fez-se notar sempre. Deixa um nome íntegro e saudades.”

O governador do estado de São Paulo Márcio França falou do jornalista em nota. "O interesse pela política nacional e os direitos humanos marcaram a atuação profissional de Audálio Dantas. O Brasil estava no centro de suas preocupações. Ele deixa seu nome gravado na história da imprensa paulista e brasileira."

O jornalista Ricardo Kotscho também recebeu com tristeza a notícia da morte do seu amigo, a quem visitou no hospital há poucos dias.

"Nas nossas últimas conversas, ele já estava desesperançado de que a nossa geração ainda conseguisse ver o Brasil com que sonhamos a vida toda, mais justo, mais humano, mais decente", escreveu em seu blog.

Ele descreve Audálio como um "sertanejo valente dos sertões das Alagoas, um brasileiro de muito talento e firmeza, um dos protagonistas da passagem da ditadura para a democracia quando falar a verdade era correr risco de vida".
Chico Pinheiro, apresentador e jornalista da TV Globo, também lamentou a morte do colega de profissão. "Audálio, grande amigo e mestre. Daqui de Portugal, lamento profundamente perder você, meu presidente e amigo", escreveu no Twitter.

Em nota, o Instituto Vladimir Herzog comentou a morte do repórter alagoano. "Sob a direção dele, o Sindicato dos Jornalistas se tornou uma das principais trincheiras, uma referência para a sociedade na luta contra a repressão."

"Em defesa do Estado de Direito, da verdade, da justiça e da memória do amigo que acabara de ter a vida interrompida, Audálio enfrentou os poderosos do momento e exigiu que a morte de Herzog fosse esclarecida", diz a nota. "Audálio foi testemunha e protagonista, escreveu a história e nela foi inscrito."

O escritor Laurentino Gomes, autor de "1808" (Planeta) e "1822" (Globo Livros), também lamentou a morte em rede social.

"Triste pela morte do meu amigo pessoal, exemplo de coragem e de lucidez para todos os jornalistas de nossa geração. Era inteligente, divertido, generoso. Lutou pela democracia como poucos. Fará muito falta neste Brasil tão carente de luz e de esperança", escreveu no Twitter.
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HOJE A FESTA É NOSSA !

Em 30 de maio de 2005 estreou o blog político Sou Chocolate e Não Desisto. Um dos primeiros blogs de política do país, atrás apenas do blog do jornalista Ricardo Noblat que teve suas atividades iniciadas em abril de 2004.
Com 4.748 dias no ar, mais de 2,8 milhões de visitas visitas dos seis continentes, a cada dia o blog tem se destacado na blogosfera. Nesses 13 anos, o blog Sou Chocolate e Não Desisto participou de alguns prêmios, entre eles o TopBlog, a maior premiação voltada para a blogosfera brasileira.
Desde a criação do Prêmio TopBlog em 2009, o nosso blog tem ficado entre os 100 blogs (2009, 2010, e 2012) mais votados na categoria política/pessoal pelo júri popular. Em 2011, em segundo lugar pelo júri acadêmico.  Em 2013 ficamos em terceiro lugar pelo  júri popular. Neste ano, ficamos entre os 100 blogs mais votados  pelo júri popular.
É uma honra ter o reconhecimento desse trabalho. A responsabilidade a cada dia aumenta. Obrigado a todos os leitores, amigos e parceiros. Valeu, galera!
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