Próxima quarta-feira, 26 de maio, completa 27 anos que José
Parente Prado faleceu. Para lembrar a trajetória política desse líder, o
blog Sou Chocolate e Não Desisto realiza a 17ª edição da
“Semana Bandeira Branca”.
Um dos maiores líderes políticos do Ceará, Zé Prado foi
secretário municipal, deputado estadual por três legislaturas e duas vezes
prefeito de Sobral (CE).
A “Semana Bandeira Branca” terá fotos, jingles, vídeos e
postagens com histórias que marcaram as campanhas políticas de Zé Prado.
Paulo Motoryn, Laís Martins, Eduardo Goulart, Leandro Becker
e Mauricio Moraes, The Intercept Brasil
ÁUDIO: Mario Frias agradeceu Daniel Vorcaro por apoio a
filme sobre Jair Bolsonaro
Essa é uma edição especial da newsletter Cartas Marcadas,
assinada por boa parte dos autores da investigação que chacoalhou o Brasil nos
últimos dias. A proposta inicial do mês de maio é que esse espaço seria
dedicado apenas a reportagens sobre a tramitação da escala 6×1.
Fizemos isso nas primeiras duas semanas, nos debruçando
sobre o lobby empresarial que usa a extrema direita para atravancar a proposta.
Mas, no meio do caminho, veio um turbilhão. O Intercept Brasil publicou o
maior furo jornalístico do país desde as revelações da Vaza Jato:
as mensagens secretas que colocam a família Bolsonaro no centro do escândalo do
Banco Master, de Daniel Vorcaro.
É claro que não abriremos mão de nossa cobertura da urgente
luta dos milhões de trabalhadores que suportam o desumano regime 6×1. Mas
faremos uma pausa porque sabemos que a nossa audiência anseia por mais
informações sobre a relação do bolsonarismo com o Banco Master.
Portanto, resolvemos mudar os planos e, nesta semana,
brindar os leitores com mais um capítulo de nossa investigação: o áudio e as
mensagens de texto que revelam a proximidade de mais um líder da extrema
direita no Congresso com Daniel Vorcaro. Vamos aos fatos.
Pouco menos de uma hora após o horário em que estava
previsto um encontro entre o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro,
e o dono do Banco Master, Daniel Vorcaro, no dia 11 de dezembro de 2024, em
Brasília, o deputado federal Mario Frias, do PL de São Paulo, enviou um áudio
ao banqueiro agradecendo pelo apoio ao filme “Dark Horse”.
Na gravação, obtida com exclusividade pelo Intercept, Frias
afirma que o longa sobre Jair Bolsonaro “vai mexer com o coração de muita
gente”, será “muito importante para o nosso país” e pede autorização para
informar Vorcaro sobre o andamento da produção.
O registro mostra intimidade entre Frias e Vorcaro, algo que
o deputado vem tentando esconder. Na semana passada, após o Interceptrevelar
que o senador Flávio Bolsonaro havia
negociado R$ 134 milhões com Vorcaro para financiar o filme “Dark
Horse”, Frias disse que o banqueiro não
havia dado “um único centavo” para o longa-metragem.
Cerca de 20 horas depois, o deputado emitiu outra nota e
disse que havia “uma
diferença de interpretação sobre a origem formal do investimento”. Ele
destacou apenas que Vorcaro ou o Banco Master não haviam aparecido como
investidores. A postura demonstra um distanciamento entre os dois – uma versão
que um áudio e mensagens obtidas com exclusividade pelo Intercept desmontam.
O conteúdo indica que, além de produtor-executivo de “Dark
Horse”, o ex-secretário especial de Cultura de Jair Bolsonaro atuava
diretamente na articulação do filme financiado pelo banqueiro, que viria a ser
investigado pela maior fraude bancária da história do país.
Na gravação, enviada por WhatsApp para Vorcaro em 11 de
dezembro de 2024, às 18h24, Frias diz: “Só te agradecer, meu irmão. Vamos mexer
com o coração de muita gente e vai ser muito importante para o nosso país, tá?
Preciso de vez em quando te falar como as coisas vão andando, tá?”
Imediatamente depois, Vorcaro responde: “Eu to numa ligação te chamo em
seguida”. Frias diz “Blz” e, às 19h06, os dois se falam por ligação de voz
durante cerca de 2 minutos.
Como já apontamos no início do texto, o agradecimento veio
menos de uma hora após o horário previsto para o encontro entre Flávio
Bolsonaro e Vorcaro, naquele dia, na residência do banqueiro em Brasília.
Segundo mensagens reveladas pelo Intercept, a reunião foi organizada por Thiago
Miranda, fundador e sócio do Portal Leo Dias, para tratar do financiamento do
filme biográfico internacional sobre Jair Bolsonaro.
Flávio Bolsonaro participava de uma reunião da Comissão de
Constituição, Justiça e Cidadania, a CCJ, no Senado naquele dia e deixou a sua
cadeira por volta de 17h30, no horário em que havia sido marcado o encontro. Só
voltou às 18h, o que indica que uma possível participação na reunião teria
ocorrido de forma remota ou em outro local. O Intercept não conseguiu confirmar
se o encontro, de fato, ocorreu.
Na sequência do áudio, Frias mandou novas mensagens ao
banqueiro. Em 15 de dezembro de 2024, o deputado enviou uma captura de tela a
Vorcaro que exibe uma troca de mensagens entre ele e o diretor Cyrus Nowrasteh,
revelando negociações preliminares para a produção de uma obra sobre “um homem
comum que se tornou presidente por um milagre”.
No diálogo, o diretor se compromete a conversar com o ator
Jim Caviezel sobre o projeto, alertando, contudo, que o astro fará duas
perguntas: “1) Posso ler o roteiro? 2) Eles vão me pagar bem?”.Frias
respondeu que o ator “será imortalizado por esse papel”.
Abaixo do print, Frias escreveu para Vorcaro:
“Milagres só são possíveis quando a fé”, “Esse é um desses milagres” e “Vai ser
a maior super produção de uma história brasileira”. Aparentemente, na primeira
frase, o parlamentar quis dizer “quando há fé”.
Em 22 de dezembro de 2024, houve outra conversa entre o
deputado e Vorcaro. O banqueiro disse, às 10h19, que estava na igreja e
prometeu chamá-lo quando saísse. Frias não se conteve e, uma hora e 16 minutos
depois, antes mesmo que Vorcaro avisasse que estava disponível, escreveu que o
filme seria “o grande milagre”, capaz de tocar “milhões de pessoas em todo
mundo”, e teria “um papel histórico imprescindível para as futuras gerações”.
Disse ainda que o longa-metragem sobre o ex-presidente era uma “questão de
justiça divina”, ao que Vorcaro respondeu, às 11h40: “Tenho certeza disso”. “JB
precisa ter sua verdadeira história revelada”, acrescentou Mario Frias. Em
outra mensagem, afirmou: “2026 é do Brasil” e depois, frisou: “Deus te abençoe
meu Brother”.
As mensagens mostram que a relação entre Frias e Vorcaro ia
além de um contato protocolar entre um potencial investidor e um produtor. O
deputado também chamava o banqueiro de “meu irmão”, fazia elogios em tom
religioso e demonstrava acompanhar de perto o desenvolvimento da obra.
Frias, que foi produtor-executivo de “Dark Horse” e
peça-chave na articulação da obra com o banqueiro investigado pela maior fraude
bancária do país, passou a propagar mentiras nas redes sociais, na tentativa de
descredibilizar as reportagens do Intercept.
Como revelamos no
último sábado, o parlamentar compartilhou, no dia 14 de maio, publicações
falsas alegando que o Intercept teria recuado sobre as cifras do filme sobre a
vida do ex-presidente Jair Bolsonaro.
O rastreamento da autoria dos conteúdos compartilhados por
Frias expõe uma rede de desinformação financiada e estruturalmente ligada ao
PL, partido do deputado. O site diario360, por exemplo, pertence a Fagner
Leandro de Lima, secretário parlamentar do também deputado federal André
Fernandes, do PL do Ceará e tesoureiro da sigla no estado.
Já a página Hora Brasília é registrada em nome de uma
empresa de Hugo Alves dos Santos, aliado próximo do bolsonarista Oswaldo
Eustáquio. A firma de comunicação atuou nas eleições de 2024 como fornecedora
de duas campanhas do PL, recebendo R$ 55 mil de candidatos a vereador, em
Atibaia, no interior de São Paulo. Foi nessa cidade que Fabrício Queiroz,
ex-assessor de Flávio Bolsonaro, foi
preso, em 2020, na casa do advogado da família Bolsonaro, Frederik
Wassef, num desdobramento da investigação que apurava o esquema de rachadinhas
na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro.
Outro lado
Após a publicação da primeira reportagem da série, a defesa
de Mario Frias confirmou que o deputado manteve contato com Vorcaro, mas
afirmou que as mensagens “refletem apenas uma relação legítima entre
idealizador do projeto e um potencial apoiador privado da iniciativa”. Segundo
os advogados, Frias não exerceu papel de articulador político ou financeiro em
nome do banqueiro.
A defesa acrescentou que o entusiasmo manifestado nas
conversas privadas decorria da “dimensão artística e cultural do projeto”.
Procuramos Mario Frias nesta terça-feira, 19, por meio de sua assessoria. Não
houve resposta até a publicação desta reportagem.
O PL também foi procurado, mas não respondeu. O espaço segue
aberto.
A defesa de Daniel Vorcaro foi procurada, mas informou que
ele não vai se manifestar.
Na semana do inferno astral de Flávio Bolsonaro, com
opiniões abundantes no ar, meus pensamentos me levaram ao passado, às primeiras
eleições que acompanhei. Lembro-me do Brigadeiro Eduardo Gomes e de como era
mencionado: brigadeiro, bonito e solteiro.
Desde que me entendo por gente, a direita sempre perdeu
eleições para candidatos populares. Por isso tenho visto tantos golpes,
fracassados ou não. A redemocratização trouxe novidades. Collor foi uma delas.
Passagem meteórica pelo governo. Bolsonaro, em 2018, foi outra. Passagem quase
meteórica, pois não se reelegeu.
Em 2018, no auge da luta identitária, Bolsonaro conseguiu
algo que a direita tradicional não conseguia ter: um grande eleitorado. Soube
encontrar o caminho explorando sentimentos como machismo e homofobia. Nas
mesmas circunstâncias, Carlos Lacerda não teria o talento adequado. Mais
intelectual, o brilhante polemista teria sido incapaz de encarnar os
sentimentos que Bolsonaro mobilizou.
A verdade é que a direita encontrou um caminho mais popular
e trabalha com certa sensação de cansaço com os governos do período
democrático, expressa também no antipetismo. Apesar de tudo isso, sempre
afirmei, em artigos e comentários, que Lula é o favorito. Outro dia, em Nova
York, agências americanas também afirmaram o favoritismo de Lula; nem citaram
as candidaturas adversárias. Nossas previsões coincidem. Para mim, imerso na
realidade brasileira, não é nenhuma vantagem.
A realidade com que trabalho tem orientado meus artigos.
Dedico-me, em textos mais longos, a falar de programa de governo, numa
esperança de que o ritmo do próximo mandato seja maior. A idade do presidente
não é um fator tão importante quanto a possibilidade de buscar um gran finale,
pois será seu último mandato.
Movimentos como a transição energética podem ser continuados
em velocidade maior. Ela já existe, e o governo trabalha com a realidade das
mudanças climáticas.
Uma aceitação maior da revolução digital na prática do
governo seria importante para facilitar a vida de cidadãos e empresas. Além do
mais, poderia tornar a máquina mais leve e eficaz. Racionalizar a máquina é um
ponto importante não só para a reforma administrativa. Isso liberaria mais
recursos e ajudaria a reduzir a pressão pelo equilíbrio fiscal.
É preciso fugir da redução de investimentos pela economia de
gastos da própria máquina. Uma política fiscal severa e lógica abre uma brecha
para o declínio de visões do tipo social-democrata e para a ascensão do
populismo de direita. O próprio Lula reconheceu isso com muita lucidez em seu
discurso de Barcelona, que, infelizmente, teve pouca repercussão por aqui.
Claro que modernizar a máquina estatal não basta. Será
essencial uma reforma política que, entre outras coisas, corrija a aberração de
o Congresso usar uma parte considerável do Orçamento.
A vida não será fácil a partir de 2027. Se não forem tomadas
medidas audaciosas que revigorem a democracia, em 2030 o cansaço poderá trazer
novidades. E não será razoável culpar quem clama por mudanças.
Artigo publicado no jornal O Globo em 19 / 05 / 2026
A extrema direita brasileira atravessa uma das semanas mais turbulentas desde o início da pré-campanha presidencial. Em poucos dias, três frentes distintas de investigação e desgaste público atingiram nomes importantes do campo bolsonarista: o senador Flávio Bolsonaro, hoje tratado como principal herdeiro eleitoral do pai, e o ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro (PL).
Embora os casos não façam parte da mesma investigação, eles passaram a se acumular no mesmo ambiente político e produziram um efeito dominó dentro da direita. O resultado foi uma crise de narrativa. Flávio, que tentava transformar o caso Banco Master em desgaste exclusivo para o governo Lula, agora precisa responder sobre aliados envolvidos em operações policiais, suspeitas financeiras e negociações milionárias.
A primeira pancada no bolsonarismo veio com a quinta fase da Operação Compliance Zero, deflagrada pela Polícia Federal em 7 de maio. A ação, autorizada pelo ministro André Mendonça, do STF, teve como um dos alvos o senador Ciro Nogueira, ex-ministro da Casa Civil de Bolsonaro e aliado do clã..
Segundo a PF, a investigação apura suspeitas de corrupção, lavagem de dinheiro, organização criminosa e crimes contra o Sistema Financeiro Nacional relacionados ao Banco Master. A decisão autorizou buscas, bloqueio de R$ 18,85 milhões e medidas cautelares.
O ponto mais sensível para Ciro é a suspeita de que seu mandato parlamentar teria sido usado em favor de interesses do Banco Master. A investigação apura se uma emenda apresentada pelo senador para ampliar a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos teria sido elaborada por pessoas ligadas ao banco. O caso ficou conhecido nos bastidores como “Emenda Master”.
A operação atingiu diretamente a imagem de Ciro como articulador do Centrão e peça importante da estratégia da direita para 2026. A defesa do senador nega irregularidades e afirma que ele está à disposição da Justiça.
A segunda frente da crise veio com os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro, banqueiro preso na investigação do Banco Master. As mensagens reveladas pelo Intercept Brasil mostram Flávio negociando recursos para financiar Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro estrelado por Jim Caviezel.
O valor negociado chegou a cerca de R$ 134 milhões. Segundo os documentos revelados, ao menos R$ 61 milhões teriam sido direcionados ao projeto. A produtora responsável pelo filme nega ter recebido dinheiro de Vorcaro ou de empresas ligadas a ele.
O desgaste político aumentou porque Flávio inicialmente negou a informação. Depois da divulgação dos áudios, admitiu que buscou recursos com Vorcaro, mas afirmou que se tratava de investimento privado.
Em entrevista à GloboNews, o senador não conseguiu se explicar e deixou mais dúvidas que respostas.
As declarações abriram uma nova frente de questionamentos. Se o dinheiro foi realmente destinado ao filme, a produtora precisa explicar por que nega ter recebido recursos de Vorcaro. Se não foi para a produção, cresce a pressão sobre o destino efetivo dos valores.
A Polícia Federal apura se os recursos solicitados a Vorcaro foram de fato usados na produção ou se o filme pode ter servido como justificativa para outras movimentações financeiras. O caso também passou a envolver suspeitas sobre emendas parlamentares e verbas públicas ligadas à rede da produtora e levou o ministro Flávio Dino a pedir investigação.
Nesta sexta-feira (15), outra frente de desgaste atingiu o bolsonarismo. O ex-governador do Rio de Janeiro Cláudio Castro foi alvo de busca e apreensão na Operação Sem Refino, da Polícia Federal.
A investigação mira suspeitas de irregularidades envolvendo um grupo econômico do setor de combustíveis ligado ao empresário Ricardo Magro, dono da Refit. A ação foi autorizada pelo STF e apura ocultação patrimonial, evasão de recursos ao exterior e possíveis conexões com agentes públicos.
A operação contra Castro não é uma fase do caso Master, mas politicamente ampliou a sensação de cerco sobre a direita. Castro é do PL e foi uma das principais vitrines do bolsonarismo no Rio de Janeiro.
A Justiça determinou bloqueio de cerca de R$ 52 bilhões em ativos financeiros e suspensão das atividades econômicas das empresas investigadas. A defesa de Castro afirmou que ele colaborou com as buscas e disse desconhecer os fundamentos da decisão.
Os três episódios criaram uma crise simultânea para a extrema direita. Ciro Nogueira representa o elo com o Centrão. Flávio Bolsonaro representa o projeto presidencial da família Bolsonaro. Cláudio Castro representa uma das principais bases estaduais do PL.
Em menos de dez dias, os três passaram a ocupar manchetes relacionadas a operações policiais, áudios, suspeitas financeiras e decisões do STF. O problema para a direita deixou de ser apenas jurídico. Passou a ser político, eleitoral e policial.
A narrativa anticorrupção usada durante anos contra adversários perde força quando aliados de primeira linha precisam responder sobre banco investigado, financiamento milionário de filme, emendas parlamentares e operações da Polícia Federal.
A extrema direita entrou na semana tentando usar o caso Master contra Lula. Sai dela tendo que explicar Ciro Nogueira, Flávio Bolsonaro, Daniel Vorcaro, Refit e Cláudio Castro.
A notícia foi confirmada pela Portela, a escola de samba
de coração do compositor. Noca integrava a ala de compositores desde os anos
1960.
Morreu neste domingo (17), o sambista e compositor Osvaldo
Alves Pereira, o Noca da Portela, aos 93 anos. O velório será aberto ao público
na quadra da Portela na terça-feira (19), das 8h às 14h.
Noca internou, no último dia 30 de abril com infecção
urinária em um hospital em São Cristóvão, na Zona Norte do Rio. Neste período,
Noca recebeu visitas dos netos que passavam o tempo com o com ele cantando
músicas da coletânea Flores em Vida, lançada em homenagem ao compositor.
A partir do sábado (9), o sambista sofreu uma piora no
quadro de saúde. Segundo as netas por adquirir pneumonia no hospital.
Desde o dia 10 de maio estava no Centro de Tratamento
Intensivo (CTI), da unidade. A causa da morte não foi informada.
Noca deixa dois filhos, sete netos e três bisnetos. A
Portela, escola de coração do sambista, decretou três dias de luto.
Mineiro de Leopoldina, Noca mudou-se criança para o Rio de
Janeiro. A relação com a música começou com o estudo de violão e teoria musical
na Ordem dos Músicos do Rio de Janeiro.
Nos anos 1960, foi levado pelo cantor e compositor Paulinho
da Viola para a Portela.
Compôs sambas-enredo e várias músicas de sucesso, gravadas
por cantores consagrados, como Virada, na voz de Beth Carvalho.
O compositor integrou o Trio ABC da Portela, ao lado de
Picolino e Colombo, e deixou sua marca em obras como “Portela Querida”,
defendida por Elza Soares, e no samba-enredo “O Homem de Pacoval”, de 1976.
Noca venceu sete vezes a disputa de samba-enredo na Portela,
marca que o coloca como um dos maiores vencedores da história da agremiação.
Entre seus sambas vitoriosos estão “Recordar é viver”, de
1985, “Gosto que me enrosco”, de 1995, “Os olhos da noite”, de 1998, e
“ImaginaRIO, 450 Janeiros de uma Cidade Surreal”, de 2015.
Algumas passagens da vida e carreira de Noca da Portela:
Anos
1960 ingressou na ala de compositores da Portela a convite de Paulinho da
Viola;
Na
Portela, foi compositor de 7 sambas-enredo;
Em
2006, foi nomeado Secretário Estadual de Cultura do Rio de Janeiro,
pela governadora Rosinha Garotinho, permanecendo no cargo até 1° de
janeiro de 2007;
Em
2008, foi candidato a vereador pelo PSB;
Em
2017, aos 84 anos, lançou o disco "Homenagens" com belas
composições entre as quais “Cabidela” em homenagem a Portela;
Em
2025 foi lançada em sua homenagem a "Coleção Flores Em
Vida", que contou com a participação de grandes nomes da música
brasileira
Sambistas homenageiam Noca
A notícia da morte de Noca da Portela levou sambistas e
artistas a prestarem homenagem ao compositor:
"Meu amigo de longa data, vá com Deus, grande Noca
da Portela. Seu legado será lembrado eternamente, não só no samba, mas na
cultura do nosso país. Que Deus conforte o coração de toda a família. Vá com
Deus, meu irmão", Neguinho da Beija-flor.
"Mais uma estrela no céu de Madureira. Vá em paz meu
amigo. Por aqui vamos seguindo com nossa Portela", a sambistaTia
Surica.
"Hoje, infelizmente, nos despedimos do nosso mestre
Noca, uma voz eterna da Portela, um grande poeta que transformou sentimentos em
canções e deixou sua marca na história do nosso samba", o músico Mauro
Diniz.
A Portela postou uma mensagem em sua página oficial sobre o
falecimento do sambista:
"Com profundo pesar, o G.R.E.S. Portela comunica o
falecimento do nosso eterno baluarte Noca da Portela.
Mineiro de origem, Noca chegou ao Rio de Janeiro ainda na
infância e construiu uma trajetória marcante no samba. No fim dos anos 60, a
convite de Paulinho da Viola, ingressou na ala de compositores da Majestade do
Samba.
Na Portela, ele é compositor de sete sambas-enredo, sendo
um dos maiores vencedores de disputas da escola. Entre suas obras eternizadas
estão os sambas de 1995 e 2015, verdadeiros clássicos do Carnaval.
Figura querida e sempre presente em nossa quadra, Noca
fará muita falta para toda a Família Portelense.
Em nome da presidência do G.R.E.S. Portela, ficam
decretados 3 dias de luto oficial.
Enviamos todo o nosso carinho e solidariedade aos
familiares, amigos e admiradores deste grande artista.
Em breve iremos divulgar informações de velório e
sepultamento.
Os áudios de Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro desmoronam
a fantasia de cruzada moral, ao revelar vínculos do clã Bolsonaro com o
banqueiro mais tóxico do Brasil
Em seus textos, o filósofo francês Clément Rosset
costumava ressaltar o aspecto particularmente cruel da realidade. Cabe ao
leitor e leitora ter em mente que Rosset fazia isso mirando não o sentido
sádico ou moral da palavra “cruel”, mas o aspecto bruto e incontornável que a
própria ideia de realidade carrega consigo.
Imagine algo que simplesmente “é”; algo que,
independentemente da nossa vontade, jamais poderá ser outra coisa que si mesmo,
sem sentido oculto, sem justiça superior ou qualquer possibilidade de
compensação mística.
Essa é a realidade em seu aspecto mais cru – cruel. É
aterrorizante pensar nisso, especialmente porque a realidade vive à espreita,
sempre em busca de uma oportunidade para se fazer presente em nossas vidas,
ameaçando nossas fantasias reconfortantes, nossos mitos apaziguadores.
Ameaçando as casinhas imaginárias que criamos para nos proteger, justamente,
dos fatos que insistem em continuamente desabar sobre nossas cabeças.
E por isso mesmo, quanto mais duros são os fatos, quanto
maior a sua “crueldade”, maiores serão os esforços imaginativos e fabulatórios
necessários para contê-los, para lhes emprestar algum sentido ou até mesmo
para, no limite, negá-los.
Tarefa hercúlea para impedir que a verdade atinja o
eleitorado
E é exatamente isso que observamos após a divulgação
dos áudios que mostram que, a despeito do que dizia Flávio
Bolsonaro, ele e o banqueiro Daniel Vorcaro não apenas se conheciam, como
compartilhavam intimidades, com direito a declarações de lealdade, e – digamos
assim para evitar processos – “interesses de investimento”.
Desde a divulgação dos áudios, a direita e a extrema direita
se lançaram numa tarefa hercúlea para criar um verdadeiro castelo
fantasmagórico que, imaginam desesperadamente, seja capaz de impedir que a crua
(cruel) verdade caia sobre o eleitorado.
E, até o momento, um castelo de areia literal seria mais
eficaz nessa tarefa.
Pois o fato, além de grave (cruel) em si mesmo, não
surge de forma isolada; soma-se
a outros que, no passado, foram incapazes de transpor os muros da
fantasia direitista. Mas que agora, reforçados pela
intimidade de Flávio e Vorcaro, ganham novo fôlego e ameaçam o novo
projeto de poder da família Bolsonaro.
Suspeitas que há muito orbitavam
o próprio filme “Dark Horse”. A começar pelo orçamento da produção: 24
milhões de dólares, o que faria dele o filme mais caro da história do cinema
brasileiro.
Um número ainda mais estranho diante do que foi apresentado até agora: apesar
do elenco internacional e da campanha grandiloquente, nada visto até o momento
parece justificar um investimento dessa magnitude.
Muito pelo contrário. As filmagens no Brasil foram atravessadas
por denúncias de atrasos e calotes, cachês muito abaixo do padrão de
mercado, comida estragada e até relatos de agressão física. O próprio Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo
acionou o Ministério do Trabalho diante da quantidade de denúncias acumuladas.
E o resultado de toda essa epopeia milionária?
Até agora, um “teaser-trailer”
composto basicamente por imagens de bastidores e takes inacabados, todos com
uma inegável aparência amadora, e embalados ao som de Survivor, do grupo
Destiny’s Child. Há, porém, um pequeno e delicioso detalhe final: a música
teria sido utilizada sem autorização. Representantes
jurídicos da cantora Beyoncé chegaram a tomar medidas legais para
retirar o material do ar.
O que nos leva a uma pergunta crucial: como uma produção que
afirma ter mobilizado milhares de dólares de empresários aparentemente não
conseguiu pagar nem pelos direitos da própria trilha sonora? Estranho, no
mínimo.
Tão estranho quanto o fato de uma ONG
presidida pela produtora executiva do filme, Karina Ferreira da Gama,
ter recebido mais de 100 milhões de reais da gestão de Ricardo Nunes para
instalar pontos de Wi-Fi em comunidades da cidade de São Paulo, conforme
denúncia do Intercept. E tudo isso apesar de a entidade não possuir histórico
relevante na área de telecomunicações e dos pagamentos terem ocorrido antes
mesmo da entrega final do serviço.
E a história não termina aí. A mesma Karina também aparece
ligada a outra ONG que teria recebido ao menos 2,6 milhões de reais em emendas
parlamentares de deputados bolsonaristas como Mario Frias, Bia Kicis e Marcos
Pollon.
Como se denúncias dessa magnitude já não fossem
suficientemente graves por conta própria, soma-se agora uma acusação ainda mais
explosiva: a de que o filme teria sido financiado com dinheiro ligado ao
banqueiro Daniel Vorcaro.
Um dinheiro que, ao contrário da narrativa repetida por Flávio Bolsonaro e seus
aliados, não seria simplesmente “financiamento privado”, mas recursos que,
segundo investigações da própria Polícia Federal, teriam origem em operações
financeiras fraudulentas.
Propaganda política
E aqui pesa um elemento ainda mais inquietante: “Dark
Horse”, como sugerem os trechos do roteiro e as imagens vazadas, é antes de
tudo uma propaganda política. Uma obra inteiramente comprometida com a
reescrita do passado e a reorganização da memória histórica para transformar
Jair Bolsonaro e seus aliados em figuras não apenas heroicas, mas quase
messiânicas. Enquanto isso, do outro lado, seus adversários políticos surgem
reduzidos a caricaturas pueris: demônios irascíveis, “marxistas drogados”,
criminosos e terroristas.
Menos um filme do que uma cosmologia moral rudimentar, onde
a política abandona qualquer pretensão de realidade para assumir a forma de
guerra santa audiovisual.
E talvez seja justamente aqui que a realidade, em seu
aspecto mais cruel, volte a bater à porta. Pois toda essa mitologia construída
por “Dark Horse” – esse esforço quase litúrgico para transformar Jair Bolsonaro
e seus aliados em paladinos incorruptíveis de uma cruzada moral contra o
“sistema” – começa a desmoronar no instante em que o dinheiro entra em
cena.
O dinheiro é a própria realidade.
E quando olhamos para ela, percebemos o que existe por trás
da fantasia, da estética messiânica, dos discursos sobre patriotismo, Deus,
família e liberdade. Aquilo que, justamente, o clã Bolsonaro jurou destruir:
relações promíscuas com empresários, banqueiros e operadores políticos,
esquemas nebulosos, verbas públicas suspeitas e figuras constantemente
orbitadas por denúncias graves.
E talvez esse fosse o verdadeiro ponto de Rosset: a
realidade é cruel porque ela sempre retorna.
Não importa quantos filmes sejam produzidos, quantos
mártires sejam fabricados ou quantas guerras morais sejam encenadas. Em algum
momento o real se faz presente. O dinheiro aparece. Os contratos aparecem. Os
áudios aparecem. Os banqueiros aparecem.
Enquanto desfilava com camiseta atacando o governo,
Flávio Bolsonaro atuava como parça de Vorcaro e recebia repasses milionários.
As reportagens do Intercept revelando a proximidade do clã Bolsonaro
com o maior bandido do Brasil atingiram o bolsonarismo com requintes de
crueldade.
Os episódios que antecederam à publicação das reportagens e
os que a sucederam parecem fazer parte de um roteiro escrito por alguém que
odeia muito a família Bolsonaro. É cinema absoluto!
Há uma semana, Flávio Bolsonaro divulgou nota cobrando “ampla apuração” do
caso de corrupção envolvendo o Banco Master. Ciro Nogueira, um dos maiores aliados da sua
candidatura, tinha sido pego recebendo um mensalão de Vorcaro. Mas Flávio se
fez de louco e manteve o personagem indignado. Como se não tivesse nada a ver
com isso, o senador passou a desfilar com uma camisa estampada com os dizeres:
“O Pix é do Bolsonaro. O Master é do Lula.” O cinismo e a desfaçatez
foram ousados, o que faria o tombo ser ainda maior.
‘Militante’
Eis que o jornalismo trouxe à tona os fatos que o senador
tentou esconder. Horas antes da #VazaFlavio ser publicada, o repórter do
Intercept Thalys Alcântara perguntou
para Flávio pessoalmente se ele negociou com Vorcaro pagamentos
para a produção do filme sobre o seu pai. Flávio ficou desnorteado com a
pergunta. Em um intervalo de 20 segundos, ele negou os pagamentos, gargalhou
forçadamente, chamou o jornalista de “militante”, virou-se de costas e
resmungou: “é dinheiro privado! é dinheiro privado”.
O senador começou a resposta negando os pagamentos, quase
teve uma síncope e terminou admitindo. Foi uma cena tão constrangedora que
quase fiquei com pena do senador (mentira).
Pouco tempo depois, o Intercept completou o drible da vaca e
publicou conversas em que Flávio e Vorcaro se tratavam como grandes amigos.
“Estou e estarei contigo sempre”, prometeu o senador para o maior ladrão do
Brasil um dia antes dele parar na cadeia.
De lá pra cá, o senador não só omitiu essa intimidade com o
banqueiro como negou de forma veemente qualquer relação com ele. Pior que isso:
Flávio se apresentou como um dos maiores indignados com a lama do Banco Master.
É um grau de cinismo alto demais até mesmo para os padrões de quem foi criado
por Jair Bolsonaro.
Encontro com JB na casa de D
O senador ficou nu em praça pública enquanto era coberto por
uma pororoca de mentiras. Segundo a agência de checagem Aos Fatos, ele contou ao menos 12 mentiras sobre o
caso antes da publicação da reportagem. Ninguém pode se dizer surpreso, já que
Flávio é reconhecidamente um mentiroso contumaz desde os tempos em que desviava
dinheiro do seu gabinete para financiar prédios das milícias no Rio de
Janeiro.
Na última quinta-feira, uma nova reportagem do Intercept revelou que a proximidade dos
Bolsonaros com o mafioso era ainda maior do que se imaginava. Conversas
privadas mostraram que Vorcaro topou receber Jair Bolsonaro em sua mansão em
Brasília para “assistirem juntos” a um documentário, possivelmente “A colisão
dos destinos” sobre a trajetória do ex-presidente. A reunião tinha como
objetivo pedir o apoio de Vorcaro para financiar a produção do
longa “Dark Horse”. Não se sabe se a reunião aconteceu, mas se sabe que o Pix
para o filme caiu.
Explicar o inexplicável
A #VazaFlávio foi trágica para o bolsonarismo. Enquanto
algumas figuras expoentes da fauna bolsonarista largaram a mão de Flávio,
outros entraram em desespero na tentativa de encontrar uma narrativa que
explique o inexplicável.
Cada um falou uma coisa diferente. Flávio admitiu que
recebeu o dinheiro de Vorcaro para o filme, mas a própria produtora — endossada
por Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo — negou ter recebido qualquer centavo.
Ninguém conseguiu explicar até agora onde foi parar a grana
que Vorcaro deu pro Flávio. Parece que o filme realmente não recebeu os R$ 61
milhões combinados, já que, segundo
o G1, há denúncias na produção de ”comida estragada, alimentação
insuficiente, longas jornadas de trabalho e atrasos de pagamento”.
Cadê a grana?
Mas, afinal, onde está a grana do Vorcaro? A Polícia
Federal suspeita que ela foi usada para financiar as
despesas de Eduardo Bolsonaro nos EUA, cuja atividade principal é conspirar
contra o governo brasileiro.
O dinheiro prometido a Flávio teria sido transferido pela Entre Investimentos e Participações,
empresa ligada a Vorcaro, a um fundo controlado por aliados de Eduardo e
sediado no Texas, nos EUA. Trata-se da mesma empresa utilizada no financiamento
do filme sobre Jair Bolsonaro. Nunca foi tão fácil ligar os pontos.
A ligação carnal de Vorcaro com o bolsonarismo sempre foi
límpida e clara.
Por mais que a máfia tenha tragado diversos partidos e
poderes para lama, o escândalo do Banco Master sempre foi essencialmente
bolsonarista. A roubalheira do Vorcaro não seria possível sem a leniência do
Banco Central sob o governo Bolsonaro e sem o apoio de Ciro Nogueira.
O maior bandido do Brasil doou milhões para campanhas bolsonaristas e investiu
pesado em um filme panfletário sobre a vida de Jair Bolsonaro a ser lançado em
ano de eleição. Será que Vorcaro é bolsonarista? Será?
Cinismo apoiando cinismo
Se antes já estava difícil para a grande imprensa sustentar
a tese do “escândalo suprapartidário”, agora ficou ainda mais, certo? Errado. O
powerpoint da GloboNews foi só um aperitivo. Poucas horas após a publicação da
#VazaFlavio, Lauro Jardim estampou a seguinte manchete em sua coluna no O Globo: “Vorcaro também financiou
filmes sobre Lula e Temer”.
Pronto! Foi servida a carniça para a urubuzada bolsonarista arrastar o
principal adversário de Flávio para a sua lama. A apuração do jornalista se
limitou a falas de “pessoas ligadas a Vorcaro”. Não há um mísero indício que
sustente a manchete. Isso é tudo, menos jornalismo. Não há absolutamente nenhum
indício de que Vorcaro financiou o filme sobre Lula.
Dois dias depois, veio a capa da revista Veja, mostrando que
a grande imprensa não está para brincadeira em ano eleitoral.
Num passe de mágica, conseguiram transformar uma hecatombe
bolsonarista em suprapartidária. O cinismo de Flávio Bolsonaro agora está
apoiado pelo cinismo da grande imprensa. A militância bolsonarista, que estava
murcha e sem saída, recebeu a munição necessária para voltar a babar nas redes
sociais.
Dessa vez, a narrativa não foi fabricada no computador do Carluxo, mas
publicada pela Veja e por um jornalista do grupo Globo.
Ora, ora. Parece que agora, sim, estamos diante do chamado “jornalismo
militante”, não é mesmo? As verdades que o jornalismo sério revelou foram
ofuscadas por um jornalismo empenhado em defender a candidatura da extrema
direita.
Enquanto uma reportagem está embasada por provas
irrefutáveis, as outras estão embasadas por amiguinhos anônimos do bolsonarista
Daniel Vorcaro. Podem continuar forçando a barra, mas dificilmente vão conter a
força avassaladora das verdades contidas na #VazaFlávio.
Enquanto uns jornalistas militam pela democracia e pela
verdade, outros militam pelo candidato escolhido pelo maior ladrão do Brasil.
‘Dark Horse’: ‘produção hollywoodiana’ foi filmada no Brasil
de modo irregular
O filme sobre a vida do ex-presidente Jair Bolsonaro, “Dark
Horse”, foi rodado no Brasil pela produtora Go Up Entertainment Ltda. sem que
nenhuma das obrigações legais exigidas pela Agência Nacional do Cinema, a
Ancine, tenha sido cumprida. A empresa responsável pelo longa-metragem operou
sem registro da produção, sem contratos apresentados, sem comprovação de vistos
de trabalho para seu elenco majoritariamente estrangeiro e sem o pagamento de
direitos trabalhistas devidos a parte da equipe brasileira.
Reportagem exclusiva do Intercept Brasil revelou que o
deputado federal cassado Eduardo Bolsonaro, do PL de São Paulo, assinou um
contrato como produtor-executivo do filme e tinha poder sobre o dinheiro usado
no projeto. Já o senador Flávio Bolsonaro, do PL do Rio de Janeiro, negociou
repasses equivalentes a R$ 134 milhões para custear a produção do
longa-metragem com o banqueiro Daniel Vorcaro – valor superior ao de muitos
filmes ganhadores do Oscar.
No entanto, funcionários contratados no Brasil reclamaram de
condições degradantes no set, de terem sido enganados quanto à verdadeira
natureza do filme e até de agressão física, como relatou Revista Fórum em
dezembro de 2025.
Em documento obtido pelo Intercept, a Ancine confirmou, em
dezembro de 2025, que a Go Up jamais protocolou qualquer documentação em seus
sistemas.
Pela instrução normativa nº 79, de 2008, da agência
reguladora, toda obra audiovisual estrangeira filmada no Brasil — com exceção
daquelas de natureza jornalística — deve ser realizada sob responsabilidade de
uma produtora brasileira registrada na agência.
A produtora não é mera intermediária. Antes de qualquer
câmera ser ligada no território brasileiro, ela precisa comunicar previamente a
produção à Ancine, enviando quatro documentos obrigatórios: o contrato firmado
com a empresa estrangeira com responsabilidades, remuneração e prazo; a
tradução do contrato quando em outro idioma; o plano provisório de filmagem com
datas e locais; e as cópias das folhas de identificação do passaporte de cada
profissional estrangeiro envolvido.
Só depois disso a Ancine emite o ofício que permite à
representação diplomática conceder os vistos de trabalho adequados. Nada disso
aconteceu com “Dark Horse”.
Como não houve protocolo, análise ou tramitação de
documentos por parte da produtora, não havia documentação a ser disponibilizada
pela agência.
Questionada, a Ancine afirmou, em nota enviada ao Intercept,
que “as filmagens estrangeiras – obras e produções estrangeiras de produtoras
estrangeiras – devem ser comunicadas” à agência. “Não existe tal obrigação na
hipótese de obras brasileiras, ou mesmo estrangeiras, filmadas por produtoras
brasileiras. No caso do filme em questão não houve qualquer comunicação ou
autorização pela Ancine”, explica.
A agência reguladora disse ainda que não houve pedido de
registro para o lançamento comercial no Brasil e que, por isso, “não dispõe
atualmente de informações sobre a produção, o financiamento ou os detalhes
técnicos” de “Dark Horse”. A Ancine não sabe sequer se o filme pode ser
classificado como obra brasileira ou estrangeira. O Intercept obteve com exclusividade o contrato de produção do longa,
que é estrangeiro.
A pergunta e a resposta que expõem tudo
Em 9 de dezembro de 2025, foi protocolado na Ancine um
pedido de acesso à informação questionando pontos específicos da legislação
audiovisual sobre o filme “Dark Horse”. A solicitação pedia a íntegra da
documentação enviada pela Go Up Entertainment para a autorização das filmagens.
Citou a norma correta e descreveu com exatidão os documentos que deveriam
existir.
O Serviço de Informação ao Cidadão, ou SIC, encaminhou o
pedido à Coordenação de Programas Internacionais de Cooperação e Intercâmbio —
a unidade técnica responsável por fiscalizar exatamente esse tipo de produção.
Dois dias depois, a unidade técnica respondeu: “Após consulta aos registros
internos e aos sistemas administrativos desta Coordenação, verificou-se que não
consta qualquer comunicação de filmagem estrangeira apresentada pela empresa GO
UP ENTERTAINMENT LTDA referente ao projeto ‘THE DARK HORSE’”.
A conclusão foi assinada pelo coordenador Daniel Toledo Piza
Tonacci. Não houve protocolo, tampouco análise ou tramitação de qualquer
documento. Em 12 de dezembro do ano passado, o SIC emitiu a resposta
oficial.
A decisão recebeu uma classificação técnica de “informação
inexistente”, pois não havia documentos para apresentar porque a produção, do
ponto de vista regulatório, nunca existiu. O prazo para recorrer abriu e fechou
sem que ninguém se manifestasse. Em 29 de dezembro de 2025, o processo foi
arquivado definitivamente.
Calote aos trabalhadores
Em 14 de janeiro deste ano, munido da confirmação oficial da
Ancine, o Sindicato dos Trabalhadores na Indústria Cinematográfica e do
Audiovisual dos Estados de São Paulo, Rio Grande do Sul, Mato Grosso, Mato
Grosso do Sul, Goiás, Tocantins e Distrito Federal, o Sindcine,
protocolou denúncia formal, um pedido de informações e um requerimento de
providências.
De acordo com o sindicato, houve “notícia consistente de
contratações sem formalização adequada e pagamentos sem os parâmetros mínimos
de regularidade”. A Go Up Entertainment não havia cumprido as obrigações
contratuais assumidas com técnicos cinematográficos brasileiros. A Ancine disse
que “os processos de apuração estão em curso, observando os prazos e ritos
normativos” e que notificou a Go Up.
Notícia publicada pelo jornal O Globo em 14 de maio
referenda as preocupações do sindicato. Ao menos 14 figurantes que trabalharam
nas gravações de “Dark Horse” articulam ações judiciais contra a produção. Eles
afirmam ter enfrentado condições degradantes no set, incluindo episódios de
agressão, restrições ao uso de celular e banheiro e falta de informação prévia
sobre o conteúdo político da obra. Os figurantes disseram ainda que só
descobriram o tema do longa durante as filmagens.
O mesmo não aconteceu com profissionais em cargos mais
altos. De acordo com fontes ouvidas pelo Intercept, ao saberem o teor do filme,
muitos profissionais declinaram a proposta e isso inflacionou a produção. Para
conseguir contratar esses profissionais, precisaram pagar bem mais que o valor
de mercado. Com vergonha de participar, muitos não quiseram se identificar.
Eles assinam a obra com nomes fictícios.
As denúncias coincidem com relatos recebidos pelo Sindicato
dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado de São Paulo, o
Sated-SP, que aponta problemas como atrasos de pagamento, alimentação imprópria
para consumo e maus-tratos a atores e figurantes. Diante das queixas, o
sindicato enviou representantes ao local das gravações.
Flávio é visto com desconfiança, não só por sua tentativa
de parecer menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A
revelação sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de
Michelle
A divulgação do áudio com a voz do pré-candidato Flávio
Bolsonaro pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro foi o fato político mais
importante da semana, não só pelo conteúdo das mensagens em si, mas pelos
desdobramentos após a notícia ser veiculada. As manifestações constrangidas ou
forçosamente indignadas dos aliados são reveladoras de um aspecto evidente da
candidatura: sua fragilidade.
Embora Flávio Bolsonaro seja um candidato
muito competitivo, sobretudo em razão do nome que carrega, a conjuntura que o
ungiu é um campo minado: a direita conservadora nunca esteve tão fragmentada, e
as reações ao áudio o demonstra bem. Romeu Zema afirmou que o áudio é
um "tapa na cara do Brasil", dizendo ainda que é "preciso ter
credibilidade para mudar o Brasil". Ronaldo Caiado, outro
presidenciável, cobrou um posicionamento, dizendo que Flávio Bolsonaro deve
explicações sobre as mensagens.
A rapidez das reações e o tom indignado mostram que o senso
de oportunismo falou mais alto do que o cálculo dos custos de se bater de
frente com a família. No passado, a simples ideia de ser considerado infiel
pelo núcleo duro de Jair Bolsonaro suscitava o medo de políticos de
direita cuja sobrevivência dependia do capital político angariado pelo
bolsonarismo raiz. Essa dependência, hoje, parece mais tênue.
As causas são várias e convergentes. Existe uma disputa
aberta pelo protagonismo e liderança dentro do campo. Flávio e Michelle
Bolsonaro parecem traçar projetos distintos. A ex-primeira-dama resiste a ceder
espaço, justamente por perceber a importância do seu nome, em termos
eleitorais, para o êxito de qualquer candidatura à direita. Depois da prisão de
Jair Bolsonaro, foi Michelle, e não um dos filhos, que personificou, no
imaginário do eleitor bolsonarista, a identidade leal aos valores do grupo. Flávio,
em contrapartida, é visto com desconfiança, não só por sua tentativa de parecer
menos radical, mas pelo passivo de escândalos envolvendo seu nome. A revelação
sobre o Master prejudica muito Flávio Bolsonaro e reforça o peso de
Michelle. Para ela, chegou como um golpe de sorte.
Embora o desempenho da pré-candidatura bolsonarista tenha
empolgado os seus articuladores e despertado o temor de uma virada em favor da
direita, ainda há muita instabilidade no cenário. Longos meses nos afastam da
eleição e, num cenário de polarização cristalizada, os resultados são tão
imprevisíveis quanto cambiantes.
Não é possível afirmar que a revelação da semana tenha comprometido de forma
definitiva a viabilidade de Flávio Bolsonaro, mas certamente deve evidenciar o
quão frágil é a posição do filho do ex-presidente e, por consequência, de todos
os aliados que vão para o tudo ou nada nesta eleição de recall.
No que Vorcaro investia ao investir no filme sobre
Bolsonaro?
Caso revela um senador da República que subordina o
mandato a um acordo obscuro entre privados
“Flávio diz dinheiro privado, mas verba do Master
vinha de operações do banco com dinheiro público”
Flávio Bolsonaro primeiro disse que era mentira, confrontado
com a informação verídica de que pedira – e levara – dinheiros de Daniel
Vorcaro para bancar o filme sobre Jair Bolsonaro. Depois, ante a exposição de
suas mensagens, teve de admitir a verdade; isso após seis meses de omissões e
mentiras sobre suas relações com o miliciano comprador de burocratas e
autoridades. Comportamento idêntico ao de Dias Toffoli: o ministro que, tendo
sido sócio da rede vorcárica no tal hotel, ocultou a sociedade e permaneceu
como relator do caso no STF.
A bateção bolsonarista de cabeças foi
intensa e pública, até que Flávio plantasse a versão que ora prospera – a do
“contrato de confidencialidade”. Não podia falar a respeito do lance porque
impedido formalmente, o que o levaria a mentir, faz dois meses, declarando-se
“sem nenhum contato pessoal” com o banqueiro. Um senador da República que
subordina o contrato com a democracia representativa, o mandato, a um acordo
entre privados que produzira o pagamento de cerca de US$ 10 milhões – por meio
de empresa laranja metida com PCC e máfia italiana – a um fundo nos EUA gerido
pelo advogado de Eduardo Bolsonaro.
Operação que deixaria de ser fedida – sob a suspeita de que
haveria sobras de caixa – com a apresentação dos registros formais do fluxo de
remessas-entradas da bufunfa toda, totalmente transferida à produtora do filme.
Nunca se tratou de filho pedindo dinheiro para produção
sobre o pai. Experimentasse você pedir dinheiro a Vorcaro para bancar homenagem
a papai. Era um senador da República, filho de ex-presidente e cotado como
candidato à Presidência, alguém influente sobre essa escolha; alguém a ser
agradado. Vide Ciro Nogueira, de oposição também, cujo mandato foi, segundo a
PF, instrumentalizado a serviço de interesses vorcáricos.
Estamos ante uma questão ainda – ainda – de natureza
político-comunicacional, sob a qual a pergunta decisiva permanece a mesma. O
que Vorcaro contratava, ao contratar o escritório de advocacia? O que comprava,
ao comprar parte do resort?
Pode Flávio fazer essas perguntas? No que Vorcaro investia,
ao investir no filme?
Existe o padrão vorcárico de estabelecimento de relações.
Inexiste a hipótese de que alguém acreditasse – em novembro de 2025, à véspera
da prisão do cara – em que o dinheiro “privado” de Vorcaro fosse limpo,
proveniente que era de traficâncias com fundos de pensão e da venda de créditos
fraudulentos.
Flávio fala como se suas conversas com o sujeito fossem
restritas a dezembro de 2024. Começaram em dezembro de 24; se intensificaram em
2025, à medida que a situação do Master se degradava, chegando àqueles termos
íntimos (“Irmão, estou e estarei contigo sempre. Não tem meia conversa entre a
gente.”) depois de as investigações sobre o banco se tornarem públicas, o que
ocorrera entre agosto e setembro de 25.
Naquele momento, o senador da República deveria ter feito
cessar o contrato-contato e revelado a existência do acordo e as razões por que
o encerrava. Prevaleceu o homem de negócios.
A mentira não triunfa só quando convence, mas quando as
pessoas já não se dão ao trabalho de separá-la da verdade
A gargalhada que Flávio Bolsonaro deu diante da pergunta do
repórter do site Intercept Brasil é daquelas cenas destinadas aos anais da
política — evidentemente, não por engrandecê-la.
— Mentira. De onde você tirou isso? — disse o senador quando
confrontado pelo jornalista com a informação de que o filme sobre Jair
Bolsonaro havia sido financiado por Daniel Vorcaro.
Nas imagens, à
disposição na internet, Flávio lança uma rápida olhada para as câmeras
simulando incredulidade, então solta a risada de ator canastrão.
— Pelo amor de Deus — desdenha, virando as costas.
Quando, pouco mais tarde, teve de divulgar
uma gravação desmentindo a si próprio, e à sua gargalhada, não se viu em seu
rosto sinal de rubor nem se ouviu em sua fala menção à negativa de momentos
antes:
— O que aconteceu foi um filho procurando patrocínio privado
para um filme privado sobre a história do próprio pai — disse, agora
consternado e cândido.
A negativa de Flávio, e sua gargalhada cenográfica, levaram
a mentira a um novo patamar de cinismo —mas isso parece importar cada vez menos
no Brasil.
Na reunião de emergência com sua equipe de campanha após o
episódio, o pré-candidato à Presidência pelo PL jurou que nada mais aparecerá
contra ele — no que, obviamente, ninguém acreditou. Os R$ 61 milhões que
recebeu de Vorcaro, segundo Flávio para financiar a cinebiografia de Jair
Bolsonaro, nunca chegaram à empresa responsável pelo longa, a Go Up, dizem os
responsáveis. E o fato de ao menos parte desse dinheiro ter ido parar num fundo
nos Estados Unidos, gerido pelo advogado de seu irmão, o ex-deputado Eduardo
Bolsonaro, tampouco ajuda a dirimir as suspeitas de que Flávio fingiu pedir
dinheiro para fazer um filme sobre o pai, e Vorcaro fingiu acreditar que o
desembolso era para isso mesmo.
Diante de tantos e escrachados descalabros, a candidatura de
Flávio ainda não caiu. Integrantes da campanha dizem que a ideia é reavaliá-la
na hipótese de um “evento catastrófico”, como se refere um deles à
possibilidade de novas e graves revelações. Por via das dúvidas, Michelle
Bolsonaro vem sendo testada em monitoramentos internos do PL como vice da
senadora Tereza Cristina (PP) e aparecerá em pelo menos uma pesquisa pública na
semana que vem como alternativa a Flávio. O plano B do PL, ainda que costurado
com outros partidos, depende das duas opiniões que de fato contam: a de Jair
Bolsonaro e a de Valdemar Costa Neto.
Sobre o primeiro, um político próximo diz que Jair não tem
“condições nem psicológicas” de, preso, suportar a ideia de ver a mulher
candidata — ao menos como titular da chapa. Valdemar se guia por um critério
único e bem menos sentimental: vale o candidato, ou candidata, capaz de levar
mais deputados ao partido (cem cadeiras na Câmara, sua meta, equivalem a R$ 1
bilhão em fundo partidário). Ele trabalhará para substituir Flávio apenas se a
hipótese do “evento catastrófico” tornar o filho de Jair um elemento radioativo
em vez de puxador de bancada.
Na mesma linha, especialistas em pesquisas de opinião
avaliam que, nada mais acontecendo por ora, os próximos levantamentos não
mostrarão uma queda de Flávio capaz de sepultar sua candidatura. Uma parcela do
voto antipetista pode migrar para os pré-candidatos Romeu Zema, Ronaldo Caiado
ou Renan Santos, mas, no curto prazo, os bolsonaristas tendem a engolir o que
Flávio disser, e os indecisos continuarão preocupados mais com as contas por
vencer que com corrupções e lorotas de políticos. É prova de que a mentira não
triunfa só quando convence, mas quando as pessoas já não se dão ao trabalho de
separá-la da verdade. A gargalhada de Flávio Bolsonaro mostra que ele sabe
disso.
Levantamentos recentes dão pistas sobre o interesse dos
brasileiros no escândalo do Banco Master
É certo que o furacão que varreu figuras da direita
brasileira neste maio influenciará a posição do eleitorado em consultas
vindouras sobre o pleito de outubro. Afinal, não é todo dia que um mandachuva
do Centrão é alvo de operação da Polícia Federal, por suspeita de pôr o mandato
de senador a serviço do protagonista da maior fraude bancária da História.
Tampouco é sempre que um senador içado pelo pai a presidenciável é descoberto
em relações financeiras e amistosas com o mesmo ex-banqueiro. Nem que um ex-governador
tornado inelegível por fraudar o processo eleitoral sofre busca e apreensão por
favorecimento ao maior sonegador de impostos da República.
Está por vir a safra de pesquisas
pós-revelações do envolvimento de Ciro Nogueira (PP-PI), ex-chefe da Casa Civil
de Jair Bolsonaro, e Flávio Bolsonaro (PL-RJ) com Daniel Vorcaro, preso desde
março; e de Cláudio Castro com Ricardo Magro, dono da Refit, ora incluído na
lista vermelha da Interpol. Mas levantamentos recentes dão pistas sobre o
interesse dos brasileiros no escândalo do Banco Master. Na pesquisa Quaest de
março, 38% do eleitorado declarou que evitaria votar em candidato envolvido no
caso; 29% levariam as investigações em consideração. Nada menos que dois terços
dos brasileiros relacionam o tema à corrida político-eleitoral deste ano.
Na consulta divulgada nesta semana — antes de o áudio e as
mensagens de Flávio e o contrato de Eduardo Bolsonaro com a produção do filme
biográfico sobre o ex-presidente, pai deles, tornarem-se públicos pelas
reportagens do Intercept Brasil —, a Quaest informou que 46% dos brasileiros
acreditam que o escândalo afeta negativamente dos governos Bolsonaro e Lula ao
Congresso, do STF ao Banco Central. Dois meses atrás, a proporção estava em
40%.
Felipe Nunes, diretor da empresa de pesquisa, antevê três
eixos de impacto político dos episódios. Uma hipótese, diz, é consolidar a
percepção de escândalo sistêmico, de responsabilidade coletiva, difusa. É
cenário que tanto pode beneficiar um outsider, movido pela antipolítica, o
famoso “candidato contra tudo que está aí”, quanto fermentar o desalento,
multiplicando a proporção dos votos brancos e nulos, além da abstenção.
— Por outro lado, se a percepção do eleitor mudar na direção
do bolsonarismo, quem pode se beneficiar é o presidente da República — diz
Nunes.
Na pesquisa da semana, a Quaest já detectara recuperação de
popularidade e de intenções de voto no pré-candidato à reeleição, na esteira do
lançamento do Novo Desenrola Brasil e da reunião de três horas com Donald
Trump, na Casa Branca.
Pré-candidatos da direita acenaram, de imediato, à base
bolsonarista. O mais ferino foi Romeu Zema (Novo-MG), ex-governador de Minas
Gerais, que chamou de imperdoável o áudio de Flávio cobrando repasses de
Vorcaro. Foi atacado sem piedade até por correligionários. Cauteloso, o
ex-governador Ronaldo Caiado (PSD-GO) se apresentou como alternativa ao
herdeiro de Bolsonaro, sob o manto do antipetismo. Renan Santos (Missão-SP),
fundador do MBL, é a encarnação do antissistema.
A corrupção desde março aparece como o segundo maior
problema do país na pesquisa Quaest, com 18%. Mas, entre eleitores
autodeclarados de direita, bolsonaristas ou não, ambos com 34%, está no topo. É
cenário capaz de movimentar as intenções de voto, na medida em que integrantes
da família Bolsonaro e nomes relevantes da base de apoio estejam envolvidos com
as fraudes do Banco Master, que avançou até sobre os fundos de pensão de
servidores dos estados do Rio de Janeiro, do Amapá, além de fundações municipais.
A violência é a principal preocupação dos brasileiros (31%).
Lidera também entre lulistas (36%) e não lulistas (29%), bem como no eleitorado
independente (31%), tido como fiel da balança no pleito, até aqui novamente
polarizado entre Lula e a família Bolsonaro. O governo lançou um programa de
enfrentamento ao crime organizado nesta semana. Lula prometeu combate ao
tráfico de armas, asfixia financeira das facções, integração com estados,
cooperação internacional. Prometeu criar o Ministério da Segurança Pública, se
o Congresso aprovar a PEC da Segurança, empacada há meses.
Mas não necessariamente a preocupação que brasileiros
expressam com violência se relaciona ao crime organizado. O Fórum Brasileiro de
Segurança Pública encomendou ao Datafolha uma pesquisa sobre medo do crime. De
13 episódios de violência enumerados, em 11 mais de metade dos entrevistados
manifestou temor. A lista contém de golpe financeiro por internet e celular
(83,2%) a roubo a mão armada (82,3%); de ser vítima de bala perdida (77,5%) a
ter a casa invadida ou arrombada (76,1%); de ser vítima de agressão sexual
(66,2%) a ser agredido por preferência política ou ideológica (59,6%).
Ao todo, 96% dos brasileiros manifestaram algum medo; quatro
em dez sofreram alguma violência. As respostas carregam assimetrias de gênero,
raça e classe. Entre as mulheres, é maior o medo de violência por companheiros
ou ex, consistente com a escalada de violência doméstica e dos feminicídios, e
de circular nas ruas após o anoitecer. Ricos temem perder patrimônio; pobres e
pretos, a vida. Cerca de 40% vivem em áreas dominadas por grupos armados; 13%
já tiveram familiar ou conhecido assassinado. Compreender o que os brasileiros
temem é essencial ao debate político-eleitoral de 2026, sob o risco de as
receitas dos candidatos produzirem, em vez de esperança, mais desconfiança e
desalento.
Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser
catapultado, sem escalas, à ultradireita
Há dois prefixos de origem latina que, depois de séculos de
excelentes serviços prestados ao idioma, encaram um fim melancólico.
Ultra era, na juventude, um exagerado, um extremista. Onde
quer que se encostasse, passava do limite. Se “super” indicava algo acima do
normal (vide supermercado, superlativo) e “hiper” levava tudo a um nível ainda
mais elevado ou mais intenso (hipermercado, hipertensão), “ultra” era outro
patamar — ao infinito e além (tanto que nunca existiram ultramercado nem
ultratireoidismo).
A radiação com energia superior à da luz
visível era a ultravioleta. As ondas sonoras com frequências superiores ao
limite de audição humana eram o ultrassom. Enquanto o Super-Homem beirava 1,90
metro e, talvez, 100 quilos, o Ultraman tinha 40 metros de altura e 30 mil
toneladas.
Ultra excedia o que quer que fosse. Tente pensar na
distância que há entre secreto (aquele seu caso extraconjugal) e ultrassecreto
(a cartela de vacinação do presidente antivax, a agenda da primeira-dama).
As definições de ultra nos dicionários, entretanto, estão
ultrapassadas. Agora basta acreditar na biologia, seguir as regras gramaticais
ou ficar com um pé atrás em relação a uma novidade e você é ultraconservador.
Critique algum exagero progressista e prepare-se para ser catapultado, sem
escalas, à ultradireita. E não é preciso se exceder: um reles questionamento já
é considerado um ultraje. Se bobear, nec plus ultra não será mais o ápice de
nada, só algo mediano — e olhe lá.
O mesmo aconteceu com trans. Desde uns 700 a.C. o prefixo
significa “além de”, “através de”, “do outro lado”. A Gália além dos Alpes era
a Gália Transalpina (a “do lado de cá”, do ponto de vista dos romanos, era a
Cisalpina). Daí serem transexuais os que estavam “do lado de lá” de um sexo e
cruzaram a fronteira.
Isso até resolverem que “mulher trans é mulher”. O que,
convenhamos, é um oximoro: exceto na superposição quântica, não se pode estar
lá e cá simultaneamente. Trans é quem nasceu com um sexo e fez uma transição
(não necessariamente cirúrgica) para o sexo oposto. Mulheres trans têm, sem
dúvida, os mesmos direitos das mulheres — mas, se fossem mulheres, não
precisariam do prefixo que traduz mudança, travessia.
Ele serve para os transatlânticos — que, por um desses
mistérios insondáveis, também cruzam o Pacífico, o Índico etc. Para a
Transamazônica, aquele atoleiro que insiste em impedir que se atravesse a
Amazônia. O próprio verbo transportar indica que se leva alguma coisa de um
lugar a outro. E, se mulher trans é mulher, então não existe transfobia, só
misoginia.
Tá legal, eu aceito o argumento de que a língua é dinâmica,
mas um pouco de ortodoxia na semântica vai bem. Ou de agora em diante trânsfuga
não precisa mudar de lado, transeunte pode estar parado, a transformação deixa
igual e “transgênico é orgânico” pode vir a ser o novo mote do agro.
Se a tendência não for revertida a tempo, é provável que os
Estados Unidos, ao ganharem sua primeira Copa do Mundo, neste ano, já se possam
declarar pentacampeões, empatando conosco. E daqui a pouco os prefixos
aparecerão no final das palavras. Como não reclamamos quando rebaixaram o ultra
e neutralizaram o trans, ninguém poderá dizer nada.