segunda-feira, 15 de junho de 2026

SÓ NÃO GOSTA DO MARCO DO FOMENTO QUEM NÃO FAZ CULTURA

Margareth Menezes*, Folha de S. Paulo

Estamos migrando de um controle meramente formalista e burocrático para uma sistemática orientada a resultados

O objetivo é um só: usar bem os recursos públicos para que a cultura brasileira floresça em todos os seus tons e cores

O debate público sobre o fomento à cultura é, e deve ser, constante. É um reflexo da vitalidade de um setor que pulsa em cada canto do nosso país, gerando emprego, renda e, acima de tudo, identidade.

Recentemente, a imprensa trouxe à tona discussões sobre a prestação de contas no Ministério da Cultura (MinC), ecoando preocupações legítimas sobre a gestão dos recursos públicos. É fundamental, contudo, que essa discussão seja pautada pela verdade dos fatos e pelo reconhecimento dos avanços que estamos implementando.

É preciso, antes de tudo, contextualizar. O passivo de prestações de contas que o MinC enfrenta hoje não é uma criação da gestão atual. É um desafio histórico, acumulado ao longo de décadas, sob diferentes governos e regras. A desestruturação e o desmonte do Ministério da Cultura em períodos anteriores agravaram essa situação, deixando um legado de processos represados e equipes insuficientes.

Chegamos para reverter esse cenário, não para ignorá-lo.

Nesse contexto, o MinC tem liderado uma verdadeira virada de paradigma no modelo de controle do fomento cultural. Com a autorização legal da lei 14.903, de 2024, aprovada pelo Congresso Nacional, estamos migrando de um controle meramente formalista e burocrático para uma sistemática orientada a resultados. Essa abordagem não é uma invenção isolada; ela se alinha a um modelo consolidado por legislações como a lei 13.019, de 2014 (Marco Regulatório das Organizações da Sociedade Civil), a Lei Paulo Gustavo (Lei 14.148, de 2021) e o Marco Legal de Ciência, Tecnologia e Inovação (lei 13.243, de 2016). Todas essas normativas convergem para a importância de focar na efetividade da entrega do objeto e não apenas na conferência exaustiva de papéis.

É crucial desmistificar a ideia de que o foco em resultados significa abrir mão da análise financeira. Pelo contrário. A legislação é clara: a análise financeira permanece um procedimento crucial nos casos em que a execução do projeto não é efetivamente comprovada. O que muda é o método. Em vez de exigir a apresentação prévia de notas fiscais em dezenas de milhares de processos —uma exigência que, na prática, gerava filas e não impedia desvios—, concentramos a energia da fiscalização onde ela é mais eficaz: no controle prévio à liberação dos recursos, no monitoramento concomitante à execução e na avaliação dos resultados por objeto.

A documentação fiscal não desaparece; ela permanece exigível e verificável, sob a lógica da proporcionalidade e da boa-fé. O agente cultural é obrigado a guardar toda a documentação de execução física e financeira por cinco anos, à disposição dos órgãos de controle, e a rejeição das contas acarreta a devolução dos recursos, proporcional à inexecução verificada e com correção monetária, além da suspensão do direito de celebrar novos instrumentos de fomento.

Os resultados dessa nova abordagem já são visíveis. Em 2025, o MinC analisou mais de 11 mil prestações de contas, um recorde histórico, reduzindo o passivo para 10.077 casos pendentes, o menor patamar desde 2010. Nosso compromisso é afastar o risco de novas prescrições e, mais importante, liberar nossas equipes para se concentrarem em ações que realmente previnem e combatem ilícitos. Isso significa menos burocracia e mais cultura chegando à ponta.

As observações dos órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), são sempre bem-vindas e contribuem para o aprimoramento contínuo de nossas políticas. O diálogo permanente com essas instituições é parte essencial de nossa gestão, garantindo que o rigor no uso do dinheiro público caminhe lado a lado com a realidade da produção cultural em um país de dimensões continentais. Não se trata de ausência de controle, mas de um controle mais inteligente, moderno e eficaz.

No fim das contas, o objetivo é um só: usar bem os recursos públicos para que a cultura brasileira floresça em todos os seus tons e cores, vibrante e acessível a todas as pessoas do país. Como bem disse o grande Gilberto Gil, quando ministro da Cultura: "Quem faz cultura é a sociedade e não o Estado".

Cabe a nós, no MinC, garantir as condições e a transparência para que essa cultura aconteça. E, quem não entende essa premissa, talvez ainda não tenha compreendido a verdadeira essência do fomento cultural.

*Ministra da Cultura

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O PAÍS DIVIDIDO TAMBÉM NO COMPARECIMENTO ELEITORAL

Lara Mesquita*, Folha de S. Paulo

Sanções eleitorais ajudam a explicar por que a participação cresce com a escolaridade

Punições afetam mais a classe média escolarizada, para quem passaporte, concurso e CPF regularizado importam diretamente

A obrigatoriedade do voto no Brasil talvez funcione menos como instrumento de inclusão democrática do que como filtro burocrático de classe. Essa é uma das conclusões mais provocativas do novo livro de Jairo Nicolau"O País Dividido: Duas Décadas de Eleições Presidenciais no Brasil".

Nicolau usa dados de comparecimento, abstenção e justificativa de ausência para recolocar a discussão sobre voto obrigatório. No debate brasileiro, a defesa do voto facultativo costuma vir acompanhada de um argumento elitista: a democracia melhoraria se eleitores mais pobres deixassem de votar. A ciência política, por sua vez, parte da premissa oposta: o voto obrigatório impediria a exclusão dos mais pobres das urnas. Seria, portanto, um instrumento para mitigar o risco de que a desigualdade econômica se traduza também em desigualdade política.

Nicolau nos mostra que o Brasil frustra essa expectativa. Mesmo sob voto obrigatório, o comparecimento cresce quase linearmente com a escolaridade. A diferença de participação entre analfabetos e eleitores com diploma universitário chega a 37 pontos percentuais.

A explicação não está na mobilização política nem na consciência cívica. A multa por ausência, de R$ 3,51, sem reajuste desde 1993, perdeu capacidade de coerção. O que pesa são as sanções associadas à falta de quitação eleitoral: dificuldade para tirar ou renovar passaporte ou tomar posse em concurso público, por exemplo.

Essas punições afetam mais a classe média escolarizada, para quem passaporte, concurso e CPF regularizado importam diretamente. Para os mais pobres, a ameaça é menos concreta. Quem falta a três eleições seguidas sem justificar nem pagar multa pode ter o título cancelado. Para muitos, porém, essa é uma punição quase invisível no cotidiano.

Os dados da eleição de 2022 evidenciam essa assimetria. Entre os eleitores que faltaram ao primeiro turno, apenas 17% daqueles com ensino fundamental incompleto justificaram a ausência. O índice sobe para 31% entre os que completaram o ensino médio e chega a 47% entre os universitários. São estes que recorrem ao e-Título para evitar as sanções do Estado.

O comportamento por idade reforça a hipótese. Jovens de 16 e 17 anos e idosos acima de 70, dispensados da obrigação, comparecem menos. Mas os jovens de 18 a 29 anos, já sujeitos à obrigatoriedade, registram a maior abstenção entre as faixas obrigadas a votar.

Para Nicolau, a variável decisiva não é a idade, mas a escolaridade. São as condições sociais do eleitor que definem se as sanções burocráticas terão efeito prático sobre sua vida.

Se essa leitura estiver correta, o debate sobre o fim da obrigatoriedade precisa ser refeito. O temor de que o voto facultativo entregaria as urnas a uma elite ilustrada ignora que essa elite já é quem mais comparece, justamente porque é ela que mais tem a perder quando fica em débito com a Justiça Eleitoral.

A defesa tradicional do voto obrigatório sempre se apoiou numa imagem invertida da realidade: sem ele, os de baixo desapareceriam das urnas e os de cima votariam sozinhos. Para os defensores dessa visão, os dados reunidos por Nicolau sugerem algo mais incômodo: livres das sanções, talvez os eleitores mais escolarizados sejam os primeiros a abandonar as urnas.

*Professora na Escola de Economia de São Paulo (FGV-EESP) e pesquisadora do Cepesp. Doutora em ciência política pelo IESP-UERJ

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GILBERTO FREYRE E O 'FOOT-BALL MULATO'

Marcus André Melo*, Folha de S. Paulo

Para ele, nossos triunfos deviam-se a termos abandonado a restrição a negros que vigia também no Itamaraty

O autor argumenta que o futebol criara as condições para, finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros

Gilberto Freyre são atribuídos alguns mitos populares. Mas a tese de que a superioridade do futebol brasileiro se deve à miscigenação —ou, mais precisamente, ao "mulatismo"— não está entre eles. Provavelmente deveria estar. Em artigo intitulado "Foot-ball mulato", em sua grafia original, denotando as origens inglesas ainda muito presentes, Freyre escreveu: "Uma das condições dos nossos triunfos este ano me parecia a coragem que afinal tivéramos completa de mandar à Europa um team fortemente afro-brasileiro. Brancos alguns, é certo; mas grande número de pretilhões bem brasileiros e mulatos ainda mais brasileiros".

O contexto era a Copa do Mundo de 1938, quando o país ficou em terceiro lugar e Leônidas foi eleito o melhor jogador. Era também o início da ditadura do Estado Novo que viria a persegui-lo e a confiscar sua correspondência.

Freyre, que viria a ser consagrado como o pai do mito da democracia racial, faz dura crítica ao racismo do Estado brasileiro: "a escolha de jogadores brasileiros para os encontros internacionais andou por muito tempo obedecendo ao mesmo critério do Barão do Rio Branco quando senhor todo-poderoso do Itamaraty. Nada de pretos nem de mulatos chapados, só brancos ou então mulatos tão claros que parecessem brancos. Ou, quando muito, caboclos, deviam ser enviados ao estrangeiro mulatos do tipo do ilustre Domício da Gama, a quem Eça de Queiroz costumava chamar na intimidade de mulato cor-de-rosa".

Na senda aberta por Freyre, Mário Filho produziu, quase dez anos depois, uma obra-prima, "O Negro no Futebol Brasileiro" (1947). No prefácio da obra, Freyre acrescenta um argumento novo: o futebol permitiu a sublimação —sim, ele foi pioneiro em mobilizar conceitos freudianos entre nós— de elementos irracionais e primitivos de nossa cultura, domesticando-os. E especula sobre o que teria acontecido com o samba, a capoeiragem e a malandragem. Seu vaticínio quanto ao cangaceirismo é profético, mas em sentido oposto ao que imaginou: "o cangaceirismo teria provavelmente evoluído para um gangsterismo urbano, com São Paulo degradada numa sub-Chicago de Al Capones ítalo-brasileiros".

Mário Filho descreve a transformação ocorrida. O futebol não alterava a ordem das coisas. Pelo contrário. "Os ídolos do futebol, todos brancos. Quando muito, morenos. Preto só entrava no escrete uma vez na vida e outra na morte. E quando um branco que devia jogar estava fora, doente ou coisa que o valha. Então o preto podia jogar."

E, mostrando que foi muito mais do que um cronista esportivo, arrematava: "O mulato e o preto eram, assim, aos olhos dos clubes finos, uma espécie de arma proibida. Não um revólver, uma navalha. Se nenhum grande clube puxasse a navalha, os outros podiam continuar lutando de florete".

Freyre argumenta que o futebol criara as condições para, finalmente, o surgimento de heróis nacionais negros, como o dionisíaco Leônidas. Seu antípoda, Domingos, que jogava sem floreios, era "uma espécie de inglês desgarrado nos trópicos, como Machado de Assis" —mas, ainda assim, "tinha alguma coisa de concentradamente brasileiro", de "mulatismo". Freyre escreveu essas linhas em 1947, antes de surgirem Pelé e Garrincha.

*Professor da Universidade Federal de Pernambuco e ex-professor visitante do MIT e da Universidade Yale (EUA)

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domingo, 14 de junho de 2026

SALDANHA, ENTRE UM CIGARRO E OUTRO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Na série 'A Saga do Tri', ele fuma em todos os takes; na vida real, era quase isso mesmo

Seu intérprete Rodrigo Santoro, não fumante, acende 200 cigarros nos cinco episódios

Em clima de Copa, assisti a "Brasil 70: A Saga do Tri", a série de Pedro e Paulo Morelli sobre a seleção no México em 1970. Os personagens principais são um Zagallo enfezado e morrinha, como ele era, um Pelé mais angustiado do que os personagens de Kafka ou Dostoievski —como ele não era— e um delicioso João Saldanha, arguto, debochado, pródigo em bordões, fingindo acreditar nas histórias que contava.

Como todo mundo aqui no Rio, conheci Saldanha, claro. Era figura fácil no Bar do Osmar, um botequim na rua Miguel Lemos, em Copacabana, em que bebuns, ex-craques, jornalistas esportivos (Hans Henningsen, Sergio Noronha, Sandro Moreyra), intelectuais, poetas, ministros do Supremo, todos superbem informados, bebiam em pé e discutiam os segredos da República. Saldanha pontificava sobre a seleção como se treiná-la fosse a coisa mais fácil do mundo. Um dia, em 1969, foi da Miguel que ele saiu para falar com João Havelange, presidente da então CBD, e ser convidado a assumi-la.

Na série, Saldanha é mostrado como fumante impenitente —o que ele era. Rodrigo Santoro, magnífico no papel, deve acender uns 200 cigarros (Continental, acho) nos cinco episódios. Não há um único take em que Saldanha não esteja fumando. Mas, pelo que via dele ao vivo, às vezes dava alguns minutos entre um cigarro e outro. Não adiantou —morreu aos 73 anos, de um enfisema brabo, em Roma, durante a Copa de 1990, para a qual viajou contrariando os médicos.

Eu, que parei há 21 anos e hoje considero que fumar foi a coisa mais estúpida que fiz na vida, posso imaginar o fim de Saldanha sem conseguir andar ou respirar. Por isso, fiquei preocupado com Rodrigo Santoro —se já não fosse fumante, só podia ter se tornado depois desse papel. E os que teve de fumar nos ensaios e nos muitos takes de cada cena? O cigarro não precisa de tanto para fazer um dependente.

Mas fui pesquisar e descobri que tudo bem. Santoro não fumava e seus cigarros eram cenográficos, feitos de ervas e flores, sem tabaco e nicotina. Assim, até eu.

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TSE DEVE GARANTIR LISURA SEM INTERFERIR NA ELEIÇÃO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A boa notícia é que Nunes Marques não teve o apoio automático de seus pares no tribunal eleitoral

Será péssima notícia se o colegiado resolver prestar um desserviço à liberdade de opinião

A boa notícia é que os ministros do Tribunal Superior Eleitoral não se alinharam automaticamente a Kássio Nunes Marques na decisão que cria um precedente para a censura não só às pesquisas de intenções de votos, mas a análises dos responsáveis pelos institutos sobre o conteúdo dos levantamentos.

Se tivessem aderido aos argumentos do presidente do TSE, daqui em diante estariam vetadas as explicações sobre o significado dos números e proibidas quaisquer referências a informações conhecidas na metodologia de captação de tendências do eleitorado.

Na sustentação da tese de que houve indução indevida na consulta, Nunes Marques incluiu entrevista em que o presidente do AtlasIntel, Andrei Roman, interpretava os dados da pesquisa, note-se, depois da divulgação. Ou seja, persuasão a posteriori.

O instituto explicou inúmeras vezes que o áudio de Flávio Bolsonaro (PL) pedindo dinheiro a Daniel Vorcaro foi mostrado depois do questionário sobre intenção de voto, sem possibilidade de mudança de opinião. Não houve interferência nem o uso de material de origem duvidosa. A conversa estava no celular de Vorcaro apreendido pela polícia.

Além disso, o dado principal —a perda de adesão à candidatura de Flávio Bolsonaro— foi confirmado, e até ampliado, por pesquisas de todos os institutos. Portanto, não se pode falar em manipulação das opiniões captadas pelo AtlasIntel.

Interferência no processo eleitoral houve sim, mas por parte do ministro Nunes Marques. Indução à opinião do público também é de autoria dele, na apresentação de alegações falaciosas e da distorção da realidade naquilo que está parecendo afã de agradar o filho de quem o indicou para o Supremo Tribunal Federal.

A decisão pegou mal até no STF e será uma péssima notícia se o colegiado do TSE embarcar na onda persecutória e intervencionista que presta desserviço às liberdades de ação e opinião e fica a serviço de quaisquer partidos, políticos e autoridades do Judiciário aos quais desagradem os resultados das pesquisas.

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A HISTÓRIA PERDIDA DO LIBERALISMO

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Livro faz uma arqueologia do conceito, mostrando sua origem, desenvolvimento e contradições

Liberalismo é compatível tanto com ideias de esquerda como com de direita

Você é liberal? A pergunta é capciosa, porque "liberal" e "liberalismo" podem significar mais ou menos qualquer coisa e o seu contrário. Nos EUA, o termo "liberal" é sinônimo de "de esquerda". Mas o liberalismo também é compatível com as ideias de Von Mises e Hayek, autores de direita. No meio do caminho, temos Adam Smith, Stuart Mill e Keynes. Liberalismo é um conceito não só naturalmente polissêmico como também um que adquiriu diferentes significados em diferentes momentos históricos.

Eu não conhecia Helena Rosenblatt, mas ela deu uma entrevista ao The New York Times, que me chamou a atenção. Fui atrás de seu livro, que já foi até vertido para o português. É "A História Perdida do Liberalismo", no qual ela põe um pouco de ordem no caos. Ou revela a verdadeira dimensão da balbúrdia, para os que a ignoravam. Seja como for, é uma obra muito interessante.

A autora começa na Roma Antiga. Naquele tempo não havia nada que hoje identifiquemos com o liberalismo, mas já tínhamos Cícero defendendo um conjunto de virtudes típicas do homem livre que deveriam fazer parte da República. A palavra "liberalismo" e sua identificação com doutrinas políticas só vão surgir no século 19, principalmente pela pena de Benjamin Constant. A ideia do francês era tentar preservar os avanços da revolução de 1789 dos movimentos reacionários que a sucederam.

Hoje, quando pensamos em liberalismo, pensamos também em democracia. O binômio "democracia liberal" nos parece até inevitável. Mas nem sempre foi assim. Liberais do século 18 e 19 desconfiavam da democracia. Não dá para dizer que não tinham motivos. A primeira eleição com sufrágio universal, para a Convenção Nacional de 1792, desembocou no terror. E a ditadura de Napoleão foi aprovada em plebiscito.

Instituições evoluem. A capacidade do liberalismo de adaptar-se a novos tempos é que o transformou num sistema que, hoje, dando mais peso a métodos de governança do que a teses específicas, pode ser defendido tanto pela esquerda como pela direita.

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FLÁVIO BOLSONARO, UM CANDIDATO PESADO

Elio Gaspari, O Globo

O senador, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda

O filme parcialmente financiado por Daniel Vorcaro, a diplomacia suicida e a plataforma oca de Flávio Bolsonaro cobraram seu preço na última pesquisa Quaest. Lula ultrapassou-o, marcando 44% contra 38%. Junho é cedo para se prever o resultado de uma eleição marcada para outubro, mas alguma coisa vai mal com o candidato.

Lula conseguiu sair de um viés de queda para outro, de alta, na segunda metade de um terceiro mandato e a poucos meses da eleição. De novo, nesta eleição, até agora a única novidade é a recuperação do presidente. Essa proeza foi conseguida muito mais pelos escorregões e abulias dos adversários do que por mais de três anos de desempenho.

Flávio, como o pai, cavalga o antipetismo, e só. Os eleitores independentes migraram e passaram ao largo de Romeu Zema e Ronaldo Caiado. Em 2026 o antipetismo está num nicho, encolhido por falta de agenda. Bolsonaro deu a Lula o auriverde pendão desta terra e ele está enrolado nela. Zema e Caiado parecem sem rumo. Como a campanha ainda não começou, qualquer dos três anti-Lula pode, em tese, dar uma disparada, mas quem melhor cultiva a pista é Lula. Ele semeou-a mudando a tabela de alíquotas do Imposto de Renda e oferece a escala 5x2. A proximidade de Lulinha com o Careca do INSS não tem o efeito do áudio de Flávio Bolsonaro com Daniel Vorcaro.

Até agora, o antipetismo tem só dois ativos, a segurança pública e Donald Trump. No primeiro, o governo apresenta planos árduos e a oposição põe na mesa chacinas como a da Penha. No segundo, depois da carta neurastênica do ano passado, Trump bombardeia o Brasil com tarifaços que afetam a economia nacional e, com ela, os eleitores.

No século passado, John Kennedy asfixiava o governo de João Goulart enchendo a bola dos governadores da oposição com programas de moradia e agendas reformistas. Trump enche a bola dos Bolsonaro com fotografias e frases banais.

(Vale lembrar que em janeiro de 1964, quando a derrubada de Goulart já estava no baralho, o embaixador americano Lincoln Gordon passou por Washington e pediu para ser recebido pelo presidente Lyndon Johnson. Pedido negado. Gordon baixou a bola e pediu para tirar uma fotografia com Johnson, pois isso o ajudaria no Brasil. Pedido igualmente negado.)

Trump recebeu sua bancada brasileira.

Eremildo, o idiota

Eremildo é um idiota a está convencido de que as russas e ucranianas levadas para as farofas do banqueiro Daniel Vorcaro eram estudiosas do Direito. O que o cretino não entende é a fogueira de vaidades em que se transformou o processo de sua colaboração com a Viúva.

Pelo que lhe contam, Vorcaro se julga inocente, vítima de uma perseguição. É possível. Nesse caso, nada há a negociar. Ele espera o julgamento. Se for absolvido vai pra casa. Condenado, rala.

Aventureiros e larápios

Está chegando às livrarias “Aventureiros e larápios - Histórias de quem abalou e quase quebrou os mercados”, de Roberto Teixeira da Costa e Fábio Pahim Jr. Um conhece o mercado e foi o primeiro presidente da Comissão de Valores Mobiliários e o outro é um repórter com larga experiência no mercado.

É um livrinho pequeno (202 páginas) com a história de 15 figuras e um manual para quem tem dinheiro a perder (ou a ganhar). Seis personagens são brasileiros: O Barão de Mauá, Naji Nahas, Edemar Cid Ferreira, Eike Batista, Carlos Ghosn e Daniel Vorcaro.

Nem todos, como Mauá, são simples aventureiros/visionários, muito menos larápios. Outros, como Elizabeth Holmes da empresa de exames médicos Theranos (encarcerada), são vigaristas que espelharam a ganância do andar de cima do mundo da tecnologia. Com o capítulo de Jesse Livermore (matou-se), visita-se a crise de 1929 e com a de Bernard Madoff a reencarnação de Charles Ponzi que ralou na cadeia e morreu no Rio, aposentado pelo falecido IAPC.

Nenhum conseguiu eleger o filho John presidente dos Estados Unidos, como o fauno germanófilo Joseph Kennedy. Todos deixaram marcas na economia e/ou na política de seus países.

Cada um deles teve ao seu lado uma versão da Faria Lima.

EUA e Argentina

Com jeito de quem não quer nada, a Argentina e os Estados Unidos assinaram um convênio com duração de cinco anos pelo qual as Marinhas dos dois países estreitaram seus laços. A Marinha americana colaborarão na modernização da argentina, inclusive com o fornecimento de drones.

O convênio faz parte de um “Programa de Proteção a Bens Comuns Globais” e permitirá que o Comando Sul dos EUA participe do patrulhamento do mar argentino.

A oposição argentina não gostou. Incomodou-se com a expressão “bens comuns globais”.

Bandidos protestam

Foram presos o ex-chefe dos investigadores da Delegacia de Entorpecentes de Campinas (SP), um ex-policial civil e um ex-estagiário do Ministério Público, acusados de serem quadros do Primeiro Comando da Capital. O Sindicato dos Bandidos Autônomos de São Paulo voltará ao governador Tarcísio de Freitas para protestar contra a concorrência desleal que lhe faz a máquina da segurança pública de São Paulo.

A trinca é acusada de planejar o assassinato de um procurador que estava no encalço de ramificações do PCC.

Desalento no Judiciário

O ministro Edson Fachin, presidente do Supremo Tribunal Federal criou um grupo de trabalho no Conselho Nacional de Justiça para passar um pente-fino nos penduricalhos da magistratura. Foram escolhidos cinco juízes. Em tese, os magistrados não devem receber mais que um ministro do STF (R$ 46.366 mensais).

Num único ano, o quinteto recebeu cerca de R$ 8 milhões. Quem recebeu menos, ganhou o equivalente a R$ 72,4 mil mensais e quem levou mais recebeu R$ 175,7 mil.

O coordenador do comitê teve a melhor remuneração, somando R$ 2,7 milhões no ano (R$ 1,7 milhão líquidos). Em dezembro, o contracheque do doutor foi de R$ 332 mil brutos. R$ 102 mil eram de indenizações e abonos de férias, R$ 71 mil referiam-se a pagamentos retroativos acumulados e mais uma gratificação natalina de R$ 65 mil. Tudo legal.

Como ensinou o Barão de Itararé, de onde menos se espera, é que não sai nada.

Fila do INSS

Tendo prometido acabar com a “vergonhosa fila do INSS” no seu primeiro dia do seu terceiro mandato, Lula promete acabar com ela até o fim do ano.

Já a nova presidente do INSS, Ana Cristina Silveira, é mais precisa e diz que zera a fila até setembro, um mês antes da eleição.

Ela está em queda mas tem 2,2 milhões de vítimas.

A ver.

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QUANDO ZERO QUER FAZER SENTIDO

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

É que perderam relevância marcadores de sentido que orientavam a percepção pública, a exemplo da economia

Sem nada dizer, erige-se como totem de uma espécie humana atormentada pela falta de esperanças, vulnerável ao marketing do nada

Era um júri no interior nordestino, desses a que se assistiam por obrigação acadêmica, quando o advogado de defesa contestou o promotor: "A minha objurgatória é peremptória no rechaço às ilações vitriólicas de Vossência". Exatamente assim. É difícil saber por que não se esquece linguagem de sentido obscuro, mas sonoramente marcante. Acontece, porém, mesmo quando se trata da empolação verbal que relega significação ao segundo plano do som. A palavra nua, o nome, para além de uma etiquetagem prática, guarda velado poder simbólico.

No caso de sobrenome, pode haver expectativa em vez de conhecimento dos atributos de alguém. Bolsonaro, por exemplo. Seria redundante enfatizar o seu grau zero de qualidades humanas ou discorrer sobre sua nefasta passagem pelo poder. Até mesmo os seguidores sabem disso. Mas na percepção deles permanece um favorável "efeito halo": fenômeno de influência febril, com matizes histéricos, transmissível, virótico. Isso o antigo grego chamava propriamente de epidemia ("epi+demos"), excitação ou efeito patológico que incide diretamente sobre o povo.

Essa é ao menos uma hipótese sugestiva para a questão intrigante de como zeros à esquerda, candidatos adequados a reality shows, obtêm resultados surpreendentes em urnas eleitorais de verdade. Veja-se a grei Bolsonaro, que espalha brasas desde a prisão até legislativos nacionais e lobbies antibrasileiros. Nessa trilha, o inexpressivo vereador carioca 03 pode transitar para a candidatura ao Senado em outro estado; o apagadíssimo 04 postular a Câmara Federal; o 02, foragido lobista, conspirar com antinacionais, e o "garoto inteligente" de Trump, com jeitão de aluno de quinta série, medíocre senador 01, pontuar nas pesquisas presidenciais. Incluindo-se o 00, prisioneiro, tem-se uma quinta-coluna a serviço da recolonização do país.

O fenômeno é elástico, comprova o notório evento Gilmarpalooza: sem jamais ter produzido uma única frase jurídica significativa, a etiqueta arrasta elites a Lisboa. É que fatos só existem pela linguagem e pelas descrições que os produzem. Mas então há significações e sentido. Isolado, um nome próprio, mesmo com eventual significado, apenas classifica parentesco. "Bolso", em italiano, quer dizer "oco", "vazio", e não seria por isso que comparece em Bolsonaro. No entanto, o fato social por ele produzido, até avaliações atrás, alçava 01 ao empate com Lula: do túmulo do sentido emana uma tóxica nulidade existencial, espelhada em um segmento de almas semimortas, bem vivas só em pesadelos cívicos.

É que perderam relevância marcadores de sentido que orientavam a percepção pública, a exemplo da economia. Eleitores desconsideram indicadores econômicos, não votam em PIB. Até mesmo a corrupção, que indignava à esquerda e à direita, já não atiça tanto os espíritos, de tão corriqueira. Se fosse o caso, 01, o popular Rachadinha, não teria adeptos sequer nas hostes extremistas.

Resta o recado oculto: sem nada dizer, erige-se como totem de uma espécie humana atormentada pela falta de esperanças, vulnerável ao marketing do nada. De competitivo, 01 tem apenas um nome, já necrosado, zero referencial. O sentido é, então, desnecessário, a objurgatória é mesmo peremptória.

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OS PROBLEMAS QUE A COPA NÃO RESOLVE

Rolf Kuntz, O Estado de S. Paulo

Depois da Copa do Mundo, que tal olhar um pouco mais para a economia frágil?

Copa do Mundo, eleição e desemprego contido, embora distante da meta, têm garantido alguma animação no Brasil, apesar da inflação de 3,20% de janeiro a maio e de 4,72% em 12 meses, muito acima do alvo oficial de 3%. Se o governo insistir na gastança, o quadro pode piorar. Segundo projeções do mercado, a alta dos preços ao consumidor poderá superar 5% neste ano e 4% no próximo, pressionando mais duramente, como sempre, as famílias pobres e também as de renda média baixa. Essas famílias têm sido favorecidas muito mais pelo assistencialismo e pelo populismo do que pelas oportunidades de avanço profissional, de modernização econômica e de conquista de maior independência.

Inflação contida, mas distante da meta, soma-se a um escasso investimento produtivo e a um baixo ritmo de expansão econômica, mantendo o País num atoleiro de mediocridade e de enorme desperdício de potencial. No ano passado, o setor público e o setor privado investiram em meios físicos de produção – máquinas, equipamentos, obras e instalações – uma soma correspondente a 16,8% do Produto Interno Bruto (PIB). Outros emergentes alcançaram taxas iguais e até superiores a 18%, ampliando muito mais velozmente seu potencial de crescimento e de modernização.

Enquanto analistas mostram inquietação diante das estimativas de alta de preços, o governo avança em medidas populistas, como linhas de crédito facilitado para compras de caminhões, ônibus e táxis, com novos custos para o poder federal. Pesquisas têm apontado ampliação da vantagem eleitoral de Lula em relação ao senador Flávio Bolsonaro (PL), pré-candidato da oposição à Presidência da República. Mas esse avanço é atribuível também a fatores estranhos ao desempenho do governo.

Pelo menos em parte, o enfraquecimento da candidatura oposicionista tem sido atribuído ao relacionamento, recentemente exposto, do filho de Jair Bolsonaro com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, suposto fornecedor de recursos para um filme sobre o ex-presidente. O uso de expressões como “irmão” nas comunicações entre o senador e o bilionário indica uma aparente proximidade, pouco recomendável neste momento. Políticos da oposição defenderam a renúncia de Flávio Bolsonaro à candidatura, mas a ideia foi rejeitada pelo menos inicialmente.

Carente de propostas, projetos e programas, a disputa eleitoral se mantém, pelo menos até agora, polarizada entre a extrema direita, representada pelo bolsonarismo e por grupos ultraconservadores, e, do outro lado, pela esquerda e por grupos do centro liberal e do liberal-esquerdista. Marcado principalmente pelo confronto ideológico, o cenário contém pouquíssima indicação dos possíveis caminhos econômicos, sociais e institucionais disponíveis para os brasileiros nos próximos anos.

Nenhum dos candidatos mais competitivos apresentou roteiros de trabalho ilustrados com prioridades econômicas e sociais, projetos de obras, programas de inclusão, propostas educacionais, sequências de investimentos, formas de cooperação entre os setores público e privado, compromissos de recuperação e estabilização das finanças públicas e aperfeiçoamento de relações entre os Poderes da República. Os candidatos já conhecidos ou ainda potenciais pouco ou nada representam, até agora, além de compromissos mais ou menos firmes com a direita, a esquerda e um conjunto vagamente rotulado de Centrão.

Enquanto isso, o presidente Lula vai usando os meios governamentais para favorecer grupos profissionais, como taxistas e motociclistas, num esforço para ampliar e consolidar segmentos de uma base eleitoral. Esforço semelhante vem sendo aplicado na tentativa de atrair grupos ideológicos e religiosos diferenciados, como algumas correntes evangélicas.

Apesar desse esforço, também o governo continua devendo, pelo menos ao público mais atento, um discurso mais claro e mais detalhado sobre planos e projetos para a economia e para a organização social e política.

Estarão o presidente e seus auxiliares dispostos a aceitar por mais quatro anos o crescimento medíocre observado na maior parte deste século? Estarão pensando em como ampliar o investimento produtivo e modernizador? Terão desenhado roteiros de desenvolvimento setorial, com programas e projetos para a indústria de transformação, a agropecuária, o mundo financeiro, o riquíssimo segmento mineral, a valorização dos diferentes biomas, cuidando ao mesmo tempo da expansão e da diversificação da economia externa? Quais serão suas ideias e ambições para a ciência e a tecnologia?

O Brasil tem sido há muito tempo um emergente promissor, mas condenado, aparentemente, a um crescimento anual próximo de 2%, completado por uma inflação mais ou menos contida, mas persistente. Em sua última projeção, o Banco Mundial reviu de 2% para 1,9% a expansão do PIB brasileiro estimada para este ano. Juros altos são parte da explicação, mas o Banco Central justifica esses juros apontando a inflação resistente e a insegurança das contas públicas. O presidente da República, no entanto, parece continuar olhando para outro lado.

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HISTÓRIA, MEMÓRIA ... E FHC

Pedro Malan*, O Estado de S. Paulo

As palavras de FHC continuam expressando no Brasil de hoje, passados mais de 32 anos, necessidade, relevância e urgência

Este artigo é uma homenagem aos 95 anos de Fernando Henrique Cardoso (FHC) e à sua contribuição para a modernização do Brasil. É também um apelo por uma resposta, com visão de futuro, para a situação econômica, social e político-institucional do Brasil nesta quadra difícil e perigosa em que se encontram nosso País e o mundo. Já o fizemos no passado. Será necessário voltar a tentar, e com sentido de urgência.

Em 13 de junho de 1993, menos de um mês depois de FHC ter assumido o Ministério da Fazenda, foi dado a público o Programa de Ação Imediata. Visto em perspectiva histórica, o documento representa um marco importante por razões que guardam relevância para a situação do Brasil de hoje. O programa abre com a seguinte frase: “Somente quatro países do mundo tiveram inflação superior a 1.000% (em 1992): a Rússia, a Ucrânia, o Zaire (Congo) e o Brasil.” O documento deixava claro que o fim da inflação não era objetivo que se esgotasse em si mesmo.

O desafio à frente era assim sintetizado: “1) O Brasil só consolidará sua democracia e reafirmará sua unidade como nação soberana se superar as carências agudas e os desequilíbrios sociais que infernizam o dia a dia da população; 2) A dívida social só será resgatada se houver ao mesmo tempo a retomada do crescimento autossustentado da economia; 3) A economia brasileira só voltará a crescer de forma duradoura se o País derrotar a superinflação que paralisa os investimentos e desorganiza a atividade produtiva; 4) A superinflação só será definitivamente afastada do horizonte quando o governo acertar a desordem das suas contas, tanto na esfera da União como dos Estados e municípios; e 5) E as contas públicas só serão acertadas se as forças políticas decidirem caminhar com firmeza nessa direção, deixando de lado interesses menores”.

Havia sentido de rumo, direção e visão de curto, médio e longo prazos, que foram reafirmados nos meses subsequentes, com a conclusão dos acordos da dívida externa com credores privados. E, fundamentalmente, com a Exposição de Motivos (EM) n.º 395, de dezembro de 1993, intitulada “Programa de Estabilização”.

O importante documento continha “um breve diagnóstico da crise fiscal brasileira e proposições relativas à estabilização da economia em três frentes de atuação: a) equilíbrio orçamentário no biênio 1994-1995; b) sugestões à revisão constitucional; c) reforma monetária”. Esta última consistia na criação da Unidade Real de Valor (URV), a que se seguiria a introdução da nova moeda, que naquele momento ainda não havia sido batizada de Real. Esse conjunto consubstanciou, no dizer preciso de Edmar Bacha, o que se convencionou chamar de Plano Real.

Sugestões à revisão constitucional eram, portanto, parte integrante do Programa de Estabilização. Ao justificar as emendas propostas, em parágrafo escrito pelo próprio ministro Fernando Henrique, que havia participado da Constituinte, a Exposição de Motivos dizia: “Faltou-nos (aos constituintes de 1988) a percepção realista dos mecanismos de financiamento do gasto social e faltounos a decisão de efetivamente reconstruir o Estado em bases de competência e eficiência.”

As palavras de FHC continuam expressando no Brasil de hoje, passados mais de 32 anos, necessidade, relevância e urgência. Estamos num desses momentos críticos para tal, no Brasil, como no mundo. Afinal, as três perguntas de Marcos Mendes continuam a reverberar como o “deciframe ou te devoro” da esfinge milenar: 1) Por que o Brasil cresce pouco?; 2) Por que o Brasil é um país tão desigual?; e 3) Por que é tão difícil fazer reforma no Brasil (para lidar com as duas perguntas anteriores)? Entendamos os desafios, ou seremos vencidos por eles.

Toda sociedade precisa ter algum grau de consciência de seu passado para que, com base em seus acertos e desacertos, orgulho e autoestima, possa vislumbrar seus possíveis futuros. Iniciativas recentes do Centro de Debate de Políticas Públicas (CDPP), da Casa das Garças e do Movimento Brasil Adiante representam tentativas sérias que espero possam motivar parte relevante da sociedade a pensar o Brasil e seu futuro e melhorar a qualidade do debate público nesses meses que antecedem as eleições deste ano. Foi em outro mês de junho, em 2002, que o então candidato à Presidência da República, Luiz Inácio Lula da Silva divulgou sua carta-compromisso ao povo brasileiro na qual afirmava que, se eleito fosse: “Faria o esforço fiscal necessário para estabilizar a relação dívida/PIB, comprometiase a respeitar contratos, a preservar a inflação sob controle”. Quão bom seria se Lula reeditasse os seus compromissos de junho de 2002 neste conturbado junho de 2026.

“O passado não está morto, não é nem mesmo passado”, escreveu William Faulkner em Requiem for a nun. A bela frase lembra Borges, para o qual sempre haveria “o presente do passado, ao qual chamamos memória”. Um presente que sempre contém sonhos, desejos e expectativas – de pessoas e de países – sobre o por vir. E estes, quer se realizem, quer não, constituem o que Borges chamou de Memórias do futuro. O Brasil terá de se erguer à altura dos seus inúmeros desafios. Já o fizemos no passado.

*Economista, foi ministro da Fazenda no governo FHC.

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PLANO DE ESTOURAR OS COFRES PÚBLICOS

Míriam Leitão, O Globo

O Senado ataca os cofres públicos ao aprovar bombas fiscais para atingir ao governo Lula, mas, na verdade, erra o alvo e acerta o país

Todo ano eleitoral, os políticos, de governo e oposição, ampliam gastos públicos, mas é difícil encontrar paralelo ao que está acontecendo agora. O Senado resolveu atacar os cofres públicos com dois objetivos, ambos condenáveis: fazer demagogia eleitoral e constranger o presidente Lula. O que se diz em Brasília é que o senador Davi Alcolumbre, por rancor, continua tentando atirar em Lula. Errou o alvo, senador, e acertou o Brasil.

Os senadores da oposição estão acusando o governo de gastador e fazendo o elogio da austeridade. Ao mesmo tempo, criam mais despesas. Quando criticam a gestão atual têm razão em vários pontos, mas as pautas que avançam no Senado desequilibram o país.

Nove medidas que tramitam no Senado e na Câmara estão contratando um gasto extra de R$ 111 bilhões por ano, segundo nota do governo. Na última semana, o Senado aprovou a renegociação da dívida rural no plenário. A senadora Tereza Cristina, ex-ministra do governo Bolsonaro, justificou a gastança dizendo que era para “um setor que carrega o Brasil nas costas”.

O agronegócio não carrega o Brasil, mas é importante. Esta dívida rural, que pode ser renegociada, havia sido contratada com juros subsidiados. Dar novo desconto em cima de dinheiro já incentivado é transferir mais renda para o agronegócio. Pela proposta, a dívida rural passará a ter taxas ainda menores, além do perdão de juros e multas por atraso. O custo seria coberto pelo Fundo Social formado com receitas do pré-sal. O governo fala no valor de R$ 140 bilhões em 13 anos.

Outras propostas andaram em comissões. Uma delas prevê um salto no piso de médicos e dentistas. Sai de R$ 3.600 para R$ 13.600 e dá outras vantagens. A alta pesa nas contas dos governos federal, estaduais e municipais. Um trecho estabelece que estados e municípios poderão transferir alguns custos para a União. De novo, a contradição. Senadores que são contra a redução da jornada, defendendo a livre negociação entre patrões e empregados, votam a favor de um projeto que fixa com quantos minutos de trabalho o profissional tem que fazer uma pausa. O projeto que favorece os agentes comunitários de saúde e de combate às endemias vai no sentido inverso ao que o país tem de ir. Antecipa a aposentadoria desses servidores, quando todo o esforço do país tem sido o de adiar as aposentadorias.

Também no sentido contrário ao que seria sensato, o Congresso está aprovando a ampliação das renúncias fiscais para as igrejas. O projeto é de Marcelo Crivella, que legisla em causa própria. O custo do benefício tributário aos templos já é muito alto. Agora eles não pagarão impostos nos serviços e bens que comprarem.

O Congresso quer fazer agrados a segmentos do eleitorado e deixar com o governo o ônus de vetar. É uma briga irresponsável por votos com o dinheiro público. O tamanho da conta e quem vai pagá-la não interessa aos congressistas. No Senado, na semana passada, foram vários projetos com o mesmo efeito de arrombar os cofres públicos. Alcolumbre transformou a sua presidência em instrumento para se vingar do governo.

— Na verdade, a motivação é essencialmente política, colocar o governo no córner num ano de eleições, quando o próprio governo segue um caminho de expansão fiscal com “bondades”. Vamos denominar isso de uma corrida populista para o fundo do poço fiscal — diz o economista Claudio Frischtak da Inter.B Consultoria.

A economista Juliana Inhasz, do Insper, também usa a mesma imagem.

— A gente não consegue enxergar o fundo desse poço.

Há a possibilidade de o governo, lembrou a economista, recorrer ao STF, mas isso agravaria ainda mais o conflito entre os Poderes.

O governo Lula passou três anos reclamando do peso fiscal deixado por Jair Bolsonaro com as medidas eleitoreiras de 2022. Agora tem feito a mesma coisa. A isenção do imposto de renda para salários até R$ 5 mil é parte do plano de justiça tributária. Mas alguns projetos são apenas populismo eleitoral.

O problema de o governo e a oposição juntos quebrarem os cofres públicos é que, no ano que vem, a conta chegará para quem for administrar o país. O pagador de todas as promessas é o contribuinte. Não existe dinheiro em abstrato. O governo paga contas com o nosso dinheiro ou se endivida em nosso nome. Com bombas fiscais e bondades eleitorais, o Brasil contratará uma enorme crise para breve.

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LULA FESTEJA QUEDA NO DESMATAMENTO, E FLÁVIO BOLSONARO PROMETE AFROUXAR LEIS AMBIENTAIS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Em campanha, candidatos ao Planalto expõem visões opostas sobre a Amazônia

A Amazônia entrou na pauta da corrida presidencial. Na quinta-feira, Lula e Flávio Bolsonaro expuseram suas ideias sobre a região. Vale a pena conferir o que disseram.

Em Brasília, o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais anunciou uma nova queda no desmatamento. A devastação recuou ao menor patamar em uma década. No último ano, a redução foi de 37,5%.

Lula festejou os números e defendeu a preservação da floresta. “Enquanto o desmatamento pode enriquecer uma ou duas pessoas, não desmatar ajuda o Brasil, a Amazônia e o mundo”, discursou.

O presidente aproveitou para fazer um alerta aos desmatadores: “Não faça coisa errada, que vai ser punido, porque nós queremos que a nossa floresta seja preservada para o bem da Humanidade”.

O filho de Jair Bolsonaro expôs outra visão em comícios no Pará. Em Belém, prometeu afrouxar as leis ambientais em favor do agronegócio e da mineração. “Vamos mudar a legislação para acelerar, tirar essa riqueza que está embaixo da terra e distribuir para vocês”, disse.

Em Altamira, o senador exaltou os migrantes que chegaram à floresta na década de 1970, incentivados pela propaganda da ditadura e pela obra da Transamazônica: “São vocês que garantem que a Amazônia é nossa”.

Lula aposta na imagem de defensor do meio ambiente. Neste terceiro mandato, devolveu o ministério a Marina Silva e estimulou operações contra o garimpo e a grilagem de terras.

O petista irritou ambientalistas ao pressionar o Ibama a liberar a prospecção de petróleo na Margem Equatorial. Apesar da contradição, o saldo do governo é favorável ao verde. Ao frear a destruição da Amazônia, o país recuperou prestígio internacional e sediou pela primeira vez a cúpula do clima das Nações Unidas.

Na visita à cidade da COP30, Flávio tratou a legislação ambiental como entrave ao progresso. Dirigindo-se a ruralistas de verde e amarelo, ele prometeu “tirar o Estado do cangote de vocês”. Só faltou atacar a demarcação de terras indígenas, interrompida no governo do pai.

O senador também informou pelo que não disse. Nos dois discursos de quinta, ele evitou mencionar palavras como clima, aquecimento e poluição.

O avanço da direita na Amazônia mostra que o discurso antiambiental dá voto. Flávio sabe disso e tem a quem puxar. No oitavo mês no Planalto, Jair deixou claro que não se preocupava em ser visto como aliado dos desmatadores. “Eu sou o Capitão Motosserra”, proclamou.

Flávio e Fernando

Na visita ao Pará, Flávio Bolsonaro vestiu uma camiseta azul com a inscrição “A Amazônia é nossa”. Dois dias antes, na Bahia, desfilou com a mensagem “Lula taxa. A gente planta”.

A marquetagem das estampas não é nova. Foi lançada por Fernando Collor em suas corridas matinais ao redor da Casa da Dinda.

Alguns slogans da época: “O tempo é o senhor da razão”. “Fé roxa no Brasil”. “Não fale em crise. Trabalhe”. “Deixe meu ozônio livre”.

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sábado, 13 de junho de 2026

SALVE, SANTO ANTÔNIO !

 Salve, Santo Antonio!

“Que seria de mim meu Deus / Sem a fé em Antônio “, no dia de hoje, sem dúvida, muita gente entoará esses versos em louvor a Santo Antônio, que nasceu Fernando de Bulhões, no ano de 1195, em Lisboa e tornou-se um dos santos mais queridos dos católicos e um dos mais festejados do ciclo de festas juninas em todo o país.

A sua popularidade vem muito da fama de casamenteiro, mas também é conhecido por ser o padroeiro dos pobres, daí a tradição do “pão de Santo Antônio”. As homenagens se dão em forma de trezenas, com reza durante os 13 primeiros dias do mês de junho, ou em tríduo, com celebrações nos dias 11, 12 e 13 de junho.

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SEM MEDO DE SER DE ESQUERDA

Maria Inês Nassif, CartaCapital

Se não assumirem uma posição política clara, Lula e o PT correm o risco de ressuscitar Flávio ou eleger um Congresso pior que o atual

“A história se repete, a primeira como tragédia, a segunda como farsa.” A frase de Marx, que inicia O 18 de Brumário de Luís ­Bonaparte, sobre a ascensão do sobrinho de Napoleão Bonaparte ao poder, em 1851, na França, por meio de um golpe, poderia ter sido repetida nos últimos 175 anos em várias súbitas viradas políticas ocorridas ao redor do mundo. Não cabe, todavia, para definir o bolsonarismo. Jair Bolsonaro foi o líder medíocre, a exemplo de Luís Bonaparte, mas personificou uma tragédia tão marcada por farsas, e farsas tão marcadas por tragédias, que torna difícil qualificar seu filho como o sujeito de todas as farsas, ou como o farsante que quer ocupar o lugar de um grande líder.

Nenhum é grande líder. Ambos, Jair e Flávio, são produtos de grandes farsas. Mas Flávio Bolsonaro rema contra a maré.

Jair, o líder fascista, ergueu-se na esteira da ascensão internacional da extrema-direita, da ação sub-reptícia estadunidense contra governos de esquerda, da briga mortal por mercados e insumos estratégicos, do uso indiscriminado do neo­pentecostalismo para mobilização de uma pequena burguesia colocada à margem de um capitalismo selvagem e da naturalização de uma concentração de renda brutal. Flávio tenta emergir em um cenário onde o maior representante da plutocracia que toma o planeta Terra (e quer estender o seu poder ao sistema solar), ­Donald Trump, tornou todos os países do mundo potenciais vítimas de sanções, ameaças às suas soberanias, armações contra seus sistemas políticos e guerras decididas do nada, contra qualquer alvo.

O imperialismo saiu das sombras nesse período. Sob o neoliberalismo pré-Trump, o império norte-americano, decadente e sob ameaça da China (sem que o país adversário desse um só tiro para se firmar no cenário internacional), se manteve hegemônico mesmo com um dólar claudicante e guerras subterrâneas. O neoliberalismo com Trump, motorista de um caminhão de dólares em chamas, tem como combustível a violência, ou a ameaça de violência.  E o medo é um tênue liame numa situação em que silenciar ou calar, para a maioria dos países do planeta, representa o mesmo risco: os EUA podem agora mirar no Irã, ou na Venezuela, ou no Brasil, mas para todos os outros países do planeta a metralhadora insana do líder estadunidense torna-se um perigo iminente. Em situações extremas como essa – esta é uma situação extrema, como foi a Segunda Guerra Mundial –, as chances de sobrevivência não são maiores ao lado dos vencedores de guerras imperialistas. Pode ser mais seguro aliar-se contra elas.

Quando foi beijar a mão de Trump nos EUA, em 26 de maio, Flávio comemorou o fato de o governo dos EUA ter enquadrado organizações criminosas brasileiras como terroristas. Tentou consertar a situação depois que o republicano passou a ameaçar, novamente, de sobretaxa os produtos brasileiros. Não conseguiu. Sua viagem será indelevelmente marcada pela repercussão das sanções dos EUA ao Brasil no ­custo de vida e o presidente Lula não poderá ser responsabilizado por isso. O preço dos alimentos era o calcanhar de aquiles do governo petista. Flávio pode ter assumido esse custo ao preço módico de uma passagem de ida e volta a Washington. Na volta, trouxe ao eleitor brasileiro outro medo que não existia no imaginário nacional, o de invasão do território do País.

Neste exato momento do ano eleitoral, o uso do medo como arma política pode ter fugido das mãos das forças conservadoras. Antes, o insuflamento ao “medo do PT” e de Lula regava as eleições. Agora, o risco chama-se Flávio e atende pelo sobrenome Bolsonaro.

Com mais de 20 anos de governos nas costas, o PT nunca ameaçou as instituições, nem colocou o País em risco. Ainda assim, o risco Lula, ou risco PT, permaneceu como motor da pressão dos mercados sobre a política, e da pressão das forças conservadoras sobre o voto da classe média. Em 2026, apresentar o PT como risco e deixar a família Bolsonaro à solta, tramando contra o Brasil e a democracia, superaria todas as farsas que se sucederam em eleições, desde 1989. Seria uma piada de mau gosto.

Talvez seja a hora de Lula e o PT perderem a vergonha de ser de esquerda e assumirem um programa efetivamente progressista, não apenas um elenco de medidas que possam beneficiar muita gente, mas um projeto de classe e de país que requer a adesão e pertencimento da grande maioria da população, uma defesa enfática da soberania, um programa que tenha rosto, personalidade e não peça desculpas. Lula e o PT têm de parar de pedir desculpas por serem de esquerda.

A outra opção é dar espaço para a extrema-direita se reerguer dos mortos e conseguir eleger outro Bolsonaro. Ou acuar o próximo governo Lula com um Congresso ingovernável. 

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

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OS 'MONSTROS' QUE MALTRATAM ANIMAIS

Eduardo Affonso, O Globo

Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular após ser espancada com pedras e barras de ferro no Rio

O Ministério Público de Santa Catarina concluiu que o cão Orelha não foi torturado e morto, e o caso acabou arquivado. Escrevi aqui, na ocasião, sobre “os monstros da Praia Brava”. Apontei “meninos ricos” como os culpados. Errei. Os monstros que imaginei continuam existindo — só não eram aqueles, e não estavam apenas lá. São muitos mais, de todas as idades e classes sociais. E contam, se não com a cumplicidade, com a omissão da família, da sociedade e da lei.

Uma capivara sofreu traumatismo craniano e lesão ocular após ser espancada com pedras e barras de ferro na Ilha do Governador. Uma “empresária” paulista foi presa (e solta em seguida) por torturar e matar coelhos, pintinhos e gatos, esmagando-os com os pés, em performances de zoossadismo vendidas em vídeo. Sim, há plateia para isso.

Não são casos isolados: há redes criminosas que aliciam crianças e adolescentes para radicalização on-line. O sadismo começa com os animais domésticos, mais vulneráveis, e evolui para automutilação, abuso sexual, ataques violentos, indução ao suicídio. Surgem sinais: mudança de comportamento dos pets, que também podem aparecer feridos ou mortos sem motivo aparente. O Núcleo de Prevenção à Violência Extrema, do Ministério Público do Rio Grande do Sul, desenvolveu estudos sobre o tema, organizados por Fábio Costa Pereira, com a colaboração de Michele Prado e Taís Soares Olympio. É uma tomografia desse horror.

A polícia de São Paulo estima que ocorram até 15 sessões de tortura on-line de pets cada madrugada. Talvez não sejam tantos, mas são certamente dezenas por mês. E os monstros entrevistos, por engano, na Praia Brava, podem estar agindo no apartamento (ou no quarto) ao lado.

O esvaziamento de empatia tem início fora do submundo da internet, na naturalização do animal como mera fonte de proteína ou de entretenimento. A expressão “chorando igual bezerro desmamado” fala do sofrimento do bebê separado de sua mãe, ainda na fase de lactação. É dessa dor que se alimenta a indústria de laticínios. Não é ainda a crueldade pela crueldade, mas a insensibilização começa lá. E, se nos deixamos seduzir pelos ovos saudáveis de “galinhas felizes”, é porque está implícita a infelicidade das que passam a vida engaioladas, com seu ciclo natural alterado para produção de ovos em escala industrial.

No final de maio, foi eutanasiada em Nova York uma elefanta que passou a vida — mais de cinco décadas — trancada num zoológico. Não é a única, não será a última. Não participou das complexas redes sociais de sua espécie, não percorreu as grandes distâncias que são seu aprendizado. Seu mundo foi um cercadinho. Era uma criatura que se reconhecia no espelho, que tinha consciência de si mesma. Privada de seus direitos mais elementares, foi batizada, ironicamente, de Happy.

Já não usamos choques elétricos e metais afiados para adestrar animais em circos, mas os mantemos confinados com a desculpa de estimular o interesse pela vida selvagem. Um documentário que os mostre livres, nas florestas, desertos, savanas, oceanos, ensina muito mais.

A comoção por Orelha terá sido injusta e desproporcional, mas simboliza o que sentimos por outros seres — os torturados para gozo dos sádicos; os sacrificados para o deleite gastronômico; os aprisionados para nossa diversão. Os monstros estão entre nós, não na distante Praia Brava.

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COM CENSURA A PESQUISAS, FLÁVIO BOLSONARO MISTURA AUTORITARISMO E BURRICE

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro cai nas pesquisas porque não consegue explicar dinheiro de Vorcaro

Presidente do TSE, Nunes Marques prometeu neutralidade, mas agiu de modo intervencionista

Foi mais um tiro no pé de quem vive fazendo gesto de arminha, levantando o polegar e estendendo o indicador para simular o cano e o gatilho de uma arma.

Se houvesse menos autoritarismo, vida inteligente ou mesmo harmonia (os dois principais articuladores, Valdemar Costa Neto e Rogério Marinho, não se bicam) na campanha presidencial do filho 01, o PL pensaria duas vezes antes de pedir ao Tribunal Superior Eleitoral a suspensão da pesquisa Atlas/Bloomberg que mostrava queda de seis pontos nas intenções de voto do senador.

Um tiro no pé disparado por quem se diz defensor da liberdade de opinião —desde que seja a seu favor. Ao investir contra um levantamento divulgado em 19 de maio que mediu o impacto negativo das mensagens íntimas trocadas com Daniel Vorcaro, Flávio contribuiu para que o problema não saísse da pauta. Com o tempo, a crise se cristalizou, como atestam os institutos de pesquisa (ainda) não censurados. A Quaest mostra que Lula abriu 13 pontos entre os chamados independentes. No primeiro turno, está 39% a 29%.

Seis em cada dez brasileiros condenam o pedido de dinheiro ao picareta das surubas.

Ao propor a censura, Flávio agiu como o pai agiria (ou foi instruído pelo pai de dentro da cadeia). Sob Bolsonaro, em outubro de 2022, o deputado Ricardo Barros, então líder do governo na Câmara, apresentou um PL de fazer inveja aos ditadores da Coreia do Norte e do Afeganistão, criminalizando pesquisas e estipulando pena de prisão para donos de institutos. Na época, Jair aparecia atrás de Lula nas sondagens e fazia de tudo para desacreditar o processo eleitoral.

Se Flávio Bolsonaro quiser evitar o colapso da candidatura, só há uma saída: explicar o destino do dinheiro sujo do esquema Master supostamente repassado ao filme. Só que ele não consegue.

Em tempo: para quem assumiu a presidência do TSE prometendo neutralidade, o ministro Kassio Nunes Marques, ao suspender a pesquisa Atlas, começou mal. Sua decisão intervencionista vai acabar, como de praxe no país, no STF.

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GUERRA ESPIRITUAL

Cláudio Couto, CartaCapital

A tática da extrema-direita de demonizar os adversários representa uma afronta ao Estado laico e à própria democracia, que pressupõe o respeito à pluralidade

Na quinta-feira 4, feriado do Corpus Christi, a cidade de São Paulo abrigou a já tradicional Marcha para Jesus, capitaneada pelo casal Estevam e Sônia Hernandes, líderes da neopentecostal Igreja Apostólica Renascer em Cristo. Como de costume, além de milhares de fiéis, marcaram presença na manifestação religiosa diversos políticos, quase todos de direita ou ultradireita. Dentre eles destacavam-se o governador paulista, Tarcísio de Freitas, o prefeito paulistano, Ricardo Nunes, e o candidato presidencial do PL e de sua família, Flávio Bolsonaro. Mais discretamente compareceu o advogado-geral da União, Jorge Messias, cumprindo o duplo papel de representar o governo Lula e os evangélicos de esquerda.

Também como de hábito, os políticos direitistas fizeram da Marcha um evento político-partidário, neste ano especialmente eivado de caráter eleitoral. E o filho Zero Um de Jair Bolsonaro não aliviou na vinculação entre religiosidade e proselitismo polarizador. Do alto de um palco, envergando uma camisa azul ­Lacoste estampada com o tema do evento, desafinou um hino gospel e proclamou não estar ali como candidato, mas como cristão. Apesar dessa ressalva, logo emendou: “Vamos orar pelo nosso Brasil, essa guerra é espiritual. E, hoje, é a maior resposta que nós podemos dar ao mundo­ do mal, que vai ser expulso do governo desse Brasil esse ano. Em nome do Senhor Jesus, Amém!” Para expressar mais claramente seu intento e o sentido de sua intervenção, talvez devesse ter substituí­do “orar” por “votar”. Mais do que orações, inclusive para seu pai em prisão domiciliar, Flávio pedia votos.

Não se trata de mera instrumentalização da fé pela política, por si só algo inaceitável num Estado laico. Há outro aspecto especialmente preocupante nessa manifestação do candidato de ultradireita: a transformação da disputa democrática numa contenda entre o bem e o mal absolutos. A noção de guerra espiritual por ele invocada supõe um enfrentamento entre as forças de Deus e as de Satanás. E, para que não houvesse dúvida, Flávio deixou claro que o mal deveria “ser expulso do governo do Brasil”, no momento ocupado pelo presidente Lula, do PT. A demonização dos oponentes, aqui, não é apenas metáfora, foi feita diretamente.

Nisso, justiça seja feita, Flávio não inovou, nem sequer no âmbito do bolsonarismo. Na campanha de 2022, sua madrasta, Michelle Bolsonaro, repetiu essa mesma cantilena em repetidos eventos pelo Brasil. A então primeira-dama foi bem clara ao descrever a destinação dada às dependências do governo pelos antecessores de seu marido (por seguidos mandatos, petistas): “Durante muito tempo, aquele lugar foi consagrado a demônios, cozinha consagrada a demônios, Planalto consagrado a demônios, e hoje é consagrado ao Senhor Jesus”, disse ela num culto-comício realizado em Belo Horizonte, na Igreja Batista da Lagoinha – a mesma frequentada por Daniel Vorcaro e seus parentes. Assim, enquanto o exercício governamental pelos adversários teria significado consagrar o País e seu governo a Satanás, a gestão de seu marido os exorcizara, colocando-os nas mãos de Deus.

Tal associação não foi esporádica, mas um mantra da primeira-dama naquela campanha eleitoral. Noutro culto-comício, desta feita em Goiânia, disse Michelle: “A gente luta contra a luz das trevas, contra o mal que quer ser instalado no nosso País. E a gente vê como o inimigo é sujo, é astuto, agindo dentro da casa do Senhor”. Em Porto Alegre, ressignificou a sigla do PT: “Precisamos dissipar esse câncer que foi o Partido das Trevas do Brasil. Estamos vivendo uma guerra espiritual do bem contra o mal”. Em Brasília, pontificou: “Não estamos lutando contra homens e mulheres, mas contra principados e potestades. É uma guerra espiritual. Só não vê, só não enxerga quem não quer. Aquele que é baseado na palavra, tem sua fé fundamentada na Bíblia, sabe que nós estamos lutando contra as hostes espirituais malignas”.

Tal discurso é incompatível com a democracia, pois esta supõe o pluralismo, no qual posições divergentes e adversários são legítimos. Imputando-lhes uma natureza demoníaca, em mensagens destinadas a um público para o qual tal diferenciação é uma questão existencial, o bolsonarismo sinaliza que seus oponentes não são partícipes legítimos do jogo democrático, mas diabos traiçoeiros. E, na guerra contra tais entidades, qualquer recurso é lícito – mesmo a violência.

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ELEITORES PERCEBERAM QUE FLÁVIO BOLSONARO É UM FALSO EVANGÉLICO

Do Blog do Noblat, Metrópoles

O risco do oportunismo religioso cobrar o preço político de Flávio Bolsonaro

No programa do Noblat desta sexta-feira (12), Ricardo e Guga Noblat comentam a desistência de parte dos eleitores evangélicos do Flávio Bolsonaro, de acordo com dados recentes da pesquisa Quaest. O desgaste expõe as contradições do senador, rotulado como um “falso evangélico”

Para Noblat, o uso eleitoreiro da fé perdeu o fôlego e cansou um segmento que agora cobra coerência.

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AGRAVAMENTO DE PENA E MUDANÇA DE FAIXA NÃO REDUZEM CRIMINALIDADE

Flávia Oliveira, O Globo

A convivência com criminosos experientes no sistema carcerário teria o condão de, em vez de afastar, formar jovens para a delinquência

Uma década atrás, Daniel Cerqueira, um dos grandes especialistas do país em indicadores de segurança pública, produziu com Danilo Santa Cruz Coelho, seu colega no Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), uma nota técnica sobre redução da maioridade penal. O estudo foi decorrência da aprovação, em 2015, na Câmara dos Deputados, da PEC 171/1993, que baixava de 18 para 16 anos a idade em que adolescentes passariam a ser responsabilizados como adultos por crimes que cometessem. Em vez de medidas socioeducativas, como estabelece o Estatuto da Criança e do Adolescente, o cárcere. Já naquela época, os pesquisadores afirmavam, com base em evidências, que agravamento de pena e mudança de faixa etária não reduzem criminalidade.

“Não há racionalidade econômica que explique que o jovem, ao completar 18 ou mesmo 16 anos, se absterá de cometer crimes em função de uma suposta lei mais dura. Além de o custo esperado da punição, que depende da probabilidade de ser preso e condenado, ser baixíssimo no Brasil, os potenciais benefícios de curto prazo do crime são altíssimos — como ostentar uma arma, obter bens materiais e simbólicos antes não permitidos — vis-à-vis a alternativa da invisibilidade social. Perde-se tempo com retórica que dá votos e se sacia a sede de vingança da população assustada, quando se deveria focar em mecanismos para aumentar a efetividade da investigação policial e da Justiça criminal como um todo; e garantir oportunidades, supervisão e orientação para que o garoto de hoje não seja o bandido de amanhã”, escreveram os pesquisadores na época.

O populismo penal do então presidente da Câmara, Eduardo Cunha, acabou arquivado pelo Senado no ano seguinte. Ressuscitou, agora, pelas mãos dos deputados da Comissão de Constituição e Justiça que, por 44 votos a favor e 18 contra, concordaram em derrubar na Constituição a inimputabilidade dos menores de 18. Mostram-se mais interessados em produzir cortes para a campanha eleitoral nas redes sociais e livrar o pré-candidato bolsonarista de cobrança pelas relações com Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, do que em propor soluções eficazes contra a crise que mais apavora a população.

Na pesquisa Quaest desta semana, violência é o principal problema do país, com 30% de menções. No entanto, como há dez anos, pesquisadores continuam afirmando não haver evidência de que redução da maioridade penal contenha o crime. Tanto experiências internacionais quanto estudo empírico sobre o Brasil mostram o contrário. A transferência de jovens para tribunais de adultos não diminui a reincidência. Aqui, ela é menor nas instituições socioeducativas que nos presídios. A convivência com criminosos experientes no sistema carcerário teria o condão de, em vez de afastar, formar jovens para a delinquência. Cadeias, afinal, gestaram as duas principais facções do tráfico de drogas do país, CV e PCC.

— O estudo mais robusto feito no Brasil concluiu que a redução da maioridade, em convergência com a literatura internacional, não gera dissuasão. Diz, na verdade, que ela é criminogênica, ou seja, aumenta a reincidência — comenta Cerqueira, citando o estudo “Homicides and the age of criminal responsibility in Brazil: a density discontinuity approach”, de Francisco Costa, João de Faria, Felipe Iachan (EPGE/FGV) e Barbara Caballero (ISP-RJ).

Samira Bueno, diretora executiva do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que não há nenhum diagnóstico no país indicando que adolescentes infratores cometam mais homicídios nem crimes graves. Entre 2015 e 2024, caiu a menos da metade o número de menores em medidas socioeducativas em meio fechado: de 26.868 para 12.054, segundo o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Em privação de liberdade, o Conselho Nacional de Justiça registrava, em fins de maio, 788.538 adultos, quase todos pretos, quase todos pobres, quase todos de origem periférica e baixa escolaridade, quase todos sem atividade laboral no cárcere.

O recém-divulgado Atlas da Violência trouxe um capítulo que, sim, deveria tirar o sono das Excelências preocupadas com o futuro do país. Desde 2014, 301.835 brasileiros com idade entre 15 e 29 anos foram assassinados. É praticamente a população inteira de Palmas (TO), segundo o Censo 2022. Por dia, 75 jovens foram vítimas de morte violenta intencional. O Anuário de Segurança contou, só em 2024, 2.103 homicídios de adolescentes de 12 a 17 anos; 404 foram mortos pela polícia; oito em dez eram pretos ou pardos; 87% foram alvejados por arma de fogo. Em vez de se ocuparem de políticas públicas para proteger a vida e afastar crianças e adolescentes do crime, deputados brasileiros fecham os olhos ao extermínio e ameaçam empurrar os jovens para penitenciárias, outro tipo de morte.

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A COPA DA VERGONHA

Aldo Fornazieri, CartaCapital

Nem mesmo a Alemanha de Hitler, ao sediar os Jogos Olímpicos de 1936, estabeleceu as interdições e exclusões que vemos agora nos Estados Unidos

Os EUA e a Fifa, Donald Trump e Gianni Infantino, estão escrevendo a página mais triste, degradante e vergonhosa da história das Copas do Mundo. As interdições, as exclusões, as deportações, as perseguições e as proibições que estão praticando contra atletas, profissionais e torcedores de determinados países ofendem a tradição e o sentido histórico dos grandes eventos esportivos de caráter global.

Todos sabem que a Grécia Antiga não era propriamente um país, mas uma região constituída por várias cidades independentes, fundadas por quatro ou cinco tribos que vieram dos Bálcãs e que tinham em comum elementos étnicos, linguísticos e religiosos. Todos diziam-se helenos por terem em comum o deus Heleno como fundamento originário.

Com frequência, as cidades gregas travavam guerras entre si. A partir de 776 a.C., passaram a promover, de quatro em quatro anos, os Jogos Olímpicos. Durante sua realização, os conflitos eram suspensos, permitindo que os atletas afluíssem em segurança à cidade-santuário de Olímpia. As competições também tinham um caráter cívico e religioso e, além do culto ao vigor e às capacidades físicas, visavam promover a união pan-helênica.

Na era moderna, os Jogos Olímpicos foram idealizados pelo Barão Pierre de ­Coubertin, culminando na criação do Comitê Olímpico Internacional, em 1894, e na realização dos Jogos de Atenas, dois anos depois. O objetivo principal era substituir os conflitos bélicos por disputas saudáveis entre os representantes dos países participantes. O evento passou a simbolizar a união global, consagrada na bandeira dos cinco anéis entrelaçados, que representam os cinco continentes, e no lema latino citius, altius, fortius – communiter (“mais rápido, mais alto, mais forte – juntos”).

A criação da Copa do Mundo de futebol, em 1928, com sua primeira edição em 1930, no Uruguai, teve inspiração nas Olimpíadas, inclusive no ciclo de quatro anos. Além dos impactos econômicos e sociais, o evento tem como valor a promoção da paz e da união de diferentes culturas e povos.

Com os atos grotescos patrocinados pelos EUA, com o beneplácito da Fifa, na atual Copa, esses valores fundantes estão sendo apunhalados e pisoteados de forma inédita e inaceitável, confirmando que o mundo passa por uma grave crise de sentido e que a humanidade vive um momento de extravio no seu caminho civilizatório. Há um desalentador processo de desumanização, marcado pelo preconceito, pela xenofobia e pela exclusão.

A equipe do Irã, que disputará partidas em estádios norte-americanos, teve de se basear no México e nem sequer pode pernoitar nos EUA. Os iranianos foram impedidos de adquirir ingressos para torcer por sua seleção nas arenas esportivas. Um dos principais atletas do Iraque foi interrogado por sete horas no aeroporto. O árbitro somali Omar Abdulkadir Artan, um dos melhores do mundo, foi detido e deportado, ficando impedido de apitar jogos da Copa.

A seleção do Senegal foi submetida a um repugnante constrangimento no aeroporto, ao ter de passar por uma rigorosa e demorada inspeção. Milhares de estrangeiros foram proibidos de entrar nos EUA. Apenas atletas e torcedores de países ocidentais e de maioria branca não tiveram problemas. Nem mesmo a Alemanha de Hitler, ao sediar os Jogos Olímpicos de 1936, estabeleceu as interdições e exclusões que vemos agora.

Recentemente, Trump classificou os somalis como “repugnantes” e “imundos”. Ameaçou também apagar da história a civilização iraniana. A estupidez e a grosseria do presidente dos EUA não têm limites. Seu governo e suas políticas persecutórias e antidemocráticas são expressão do seu ser demente, delirante, doentio.

Em parte, Trump e seu governo refletem o estado de espírito do que os EUA se tornaram: um império decadente, corrupto e decrépito. Trata-se de uma decrepitude política, moral e mental. O governo e o país parecem buscar refúgio e isolamento na demência.

Perigosa demência, porque criminosa. Associados ao genocida governo do ­premier israelense Benjamin Netanyahu, promovem guerras sem sentido, destruição e massacres de crianças e mulheres. Perderam qualquer senso de honra, de limite moral e de humanidade.

Esta Copa do Mundo é também a Copa da Vergonha, porque um dos países-sede é promotor da absurda guerra contra o Irã e apoia o massacre de palestinos, a destruição de Gaza e do Líbano. Os esportistas deveriam protestar contra esses abusos. E a História não poderá se esquecer deste triste momento em que vivemos. •

Publicado na edição n° 1417 de CartaCapital, em 17 de junho de 2026.

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