sexta-feira, 4 de setembro de 2026

O TESTAMENTO INACABADO DE GETÚLIO VARGAS

José de Souza Martins*, Valor Econômico

O discurso-testamento de 1951 falava em social-democracia e em protagonismo dos trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder

No primeiro 1º de maio após seu retorno à Presidência da República, em 1951, depois da deposição em 1945 e 15 anos de poder e de ter sido novamente eleito presidente em 1950, Getúlio Vargas pronunciou um significativo discurso no Estádio de São Januário, no Rio de Janeiro.

A memória de Getúlio Vargas tem sido desfigurada e manipulada para nele ressaltar o ditador, que ele foi no Estado Novo, de 1937 a 1945. Ele foi um estadista peculiar, de um país atrasado, em que uma minoria de pessoas esclarecidas, como Roberto Simonsen, fundador da Fiesp, tinha clareza de que o Brasil tinha possibilidade de diferençar-se do que fora até 1929.

Havia, difusa, entre nós, uma ideologia nacionalista e desenvolvimentista que vislumbrava a necessidade política de que o país se desvencilhasse das amarras da economia colonial dos ciclos sucessivos - pau-brasil, cana-de-açúcar, ouro, café.

Já nos anos 1920 e praticamente desde o fim da escravidão várias regiões do Brasil haviam começado a desenvolver a indústria de bens de consumo para o mercado interno. E, também, nos interstícios dessa industrialização, uma indústria de bens de capital como seções complementares à de bens de consumo.

O clima de guerra da década de 1930, o desencadeamento da guerra em 1939 e a entrada dos americanos na guerra em 1941 definiram uma conjuntura de possibilidades para o desenvolvimento industrial brasileiro. Em 1942 foi instalada a Base Aérea americana de Natal. Através de um esquema de apoio e cooperação, os militares brasileiros tiveram a perspicácia de evitar uma ocupação militar americana do Nordeste. Em 1943, foi criada a Força Expedicionária Brasileira, que entrou na guerra na Itália, em 1944.

Nesse clima de disponibilidade americana para negociar e de demora brasileira para entrar no campo de batalha, Getúlio conseguiu dos americanos os meios para instalação da Companhia Siderúrgica Nacional em Volta Redonda. Base para alicerçar o Brasil industrial.

Em 1932, os paulistas haviam se rebelado contra Getúlio na Revolução Constitucionalista e perderam. De grande lucidez política, Getúlio tinha clara consciência de que sem São Paulo o Brasil não superaria a crise de 1929. A indústria se tornara inevitável como saída para o Brasil.

A salvação da economia estava no mercado interno. O discernimento do ministro da Fazenda de Getúlio, o paulista José Maria Whitaker, exportador de café e banqueiro, como se vê em seu relatório de 1933, implantou a política de compra e queima dos estoques de café, de modo a fazer da crise um instrumento do fluxo de renda com o qual os fazendeiros pagavam os colonos que assim podiam comprar os produtos de consumo que não havia como importar sem moeda forte. Consumindo produtos da indústria brasileira. Quando a guerra terminou, o Brasil já estava industrializado.

O temor americano de uma potência industrial latino-americana no quintal de casa foi sutilmente combatido por meio da proximidade e aliança entre militares brasileiros e americanos firmada durante a guerra, cilada para o projeto personificado por Vargas.

No discurso de 1951, Getúlio dirigiu-se aos trabalhadores em defesa da proposta nacionalista. O projeto nacional de um Brasil livre e autônomo, industrializado e desenvolvido, estava ameaçada. Sua deposição em 1945 fora o sinal evidente disso. Como foram evidentes os pretextos e os objetivos.

Getúlio começou com o pausado e solene “Trabalhadores do Brasil!”, que estabelecia uma conexão automática com a massa de seus ouvintes, ao vivo ou pelo rádio. Ele conseguia fazer da massa sua coadjuvante. Ele se antecipava na definição de objetivos sociais da política do Estado, com a particularidade de nela sempre ter presente metas de emancipação da classe trabalhadora.

Getúlio retomava o que não era um outro e novo discurso, mas o discurso interrompido por sua deposição, o discurso de um projeto de nação com o protagonismo da classe trabalhadora. O discurso-testamento falava em social-democracia e em protagonismo dos trabalhadores. Quando, enfim, até mesmo um trabalhador poderia chegar ao poder.

Uns dias antes do suicídio de Getúlio, em 1954, foi criada a Diocese de Santo André no âmago da região industrial de São Paulo. O novo bispo, Dom Jorge Marcos de Oliveira, veio para transformar os operários católicos em protagonistas da história social.

Lá na Vila Carioca, ao lado da Favela de Heliópolis, onde morava e jogava futebol de várzea, em campinhos que eu também conheci, Lula tampouco tinha ideia de que ele era o escolhido do projeto histórico-social pelo qual Getúlio morrera. Nem Dom Jorge teve oportunidade de ver o poder abrir-se para o protagonismo dos trabalhadores.

*José de Souza Martins é sociólogo. Professor Emérito da Faculdade de Filosofia da USP. Professor da Cátedra Simón Bolivar, da Universidade de Cambridge e fellow de Trinity Hall (1993-94). Pesquisador Emérito do CNPq. Membro da Junta de Curadores do Fundo Voluntário da ONU contra as Formas Contemporâneas de Escravidão, em Genebra (1996-2007. Entre outros livros, é autor de “Desavessos” (Editora Com Arte).

Bookmark and Share

OS IRMÃOS CARA DE PAU, O SUPREMO E A AGENDA DE LULA NO CONGRESSO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

A tensão deixou de envolver apenas dois ministros: as gravações arrastaram para o centro do palco o STF, a PGR e a própria PF

Cenas antológicas de “Os Irmãos Cara de Pau (The Blues Brothers)”, comédia musical dirigida por John Landis em 1980, parecem ter sido filmadas para servir de metáfora à atual crise política brasileira. Jake e Elwood Blues, interpretados por John Belushi e Dan Aykroyd, respectivamente, reúnem uma antiga banda para levantar o dinheiro necessário à salvação do orfanato católico onde foram criados. Acreditam estar numa “missão divina”, embora sejam perseguidos pela polícia, por neonazistas, por uma ex-noiva vingativa e por uma banda de música country.

No Bob’s Country Bunker, os músicos sobem ao palco protegidos por uma tela de arame, atrás da qual continuam tocando enquanto garrafas são atiradas pela plateia. Mais tarde, no grande concerto do Palace Hotel Ballroom, o espetáculo prossegue em meio à presença de policiais, rivais e adversários dispostos a capturar os irmãos. A confusão toma conta do salão, mas a banda não interrompe a música. O repertório se adapta às circunstâncias, o ritmo é mantido e o público dança em meio ao caos.

É mais ou menos o que está acontecendo no Congresso. Enquanto o Supremo Tribunal Federal mergulha numa crise sem precedentes por causa das revelações do Caso Master, Câmara e Senado tentam manter a música tocando. A orquestra parlamentar executa uma pauta negociada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com os presidentes da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), e do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP) que é pura música para os eleitores: a chamada “taxa das blusinhas”, além do fim da escala 6 x 1.

Do outro lado da Praça dos Três Poderes, porém, voam garrafas e cadeiras. O ministro André Mendonça retirou o sigilo de um relatório da Polícia Federal (PF) que reúne mensagens extraídas do celular do ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Segundo a investigação, elas teriam sido trocadas com o ministro Alexandre de Moraes em momentos críticos das apurações sobre o Master. Os registros mencionam o procurador-geral da República, Paulo Gonet, e o diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e sugerem tentativas do ex-baqueiro de obter informações ou proteção diante do avanço das investigações.

Moraes reagiu e questiona Mendonça por permitir uma apuração capaz de atingi-lo sem autorização prévia do Plenário. Mendonça, por sua vez, pediu que a Corte analisasse publicamente o caso. Gonet entrou na disputa para sustentar que o relator não tinha competência para investigar um colega do Supremo e pediu a anulação dos elementos relacionados a Moraes. A tensão deixou de envolver apenas dois ministros: as gravações arrastaram para o centro do palco o STF, a PGR e a própria PF. O presidente da Corte, Edson Fachin, parece perdido diante de uma crise sem precedentes no Supremo.

Mensagens, encontros e relações pessoais precisam ser examinados no devido processo legal. Entretanto, a tentativa de anular as provas antes do esclarecimento completo dos fatos, em vez de dissipar, amplia as suspeitas. A Corte que exigiu transparência e rigor quando investigou políticos, empresários, militares e manifestantes será capaz de adotar os mesmos critérios quando as dúvidas alcançam seus integrantes? Esse é a questão.

Segue o baile

É inevitável a politização do episódio. Candidatos de oposição passaram a exigir o afastamento de Moraes, enquanto aliados do governo cobram a retirada integral do sigilo da investigação. A eventual colaboração premiada de Vorcaro — ainda dependente de negociação, formalização e homologação — assombra autoridades de diferentes Poderes e partidos. O banqueiro construiu uma rede de relações que atravessava fronteiras ideológicas. Por isso, quase todos têm interesse em descobrir o que ele sabe, mas muitos não querem que seja divulgado.

É nesse ambiente que o Congresso atua como a orquestra que toca freneticamente durante o conflito generalizado. A Câmara e o Senado aprovaram a toque de caixa o fim da chamada “taxa das blusinhas”, imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50. O texto preserva a cobrança do ICMS pelos estados e estabelece avaliações periódicas dos efeitos da isenção sobre emprego, arrecadação, comércio e indústria nacionais. É uma medida de forte apelo popular, principalmente entre consumidores de baixa renda.

A pauta avançou graças a um acordo de Lula com Motta e Alcolumbre. O governo revogou uma taxa que ele próprio havia criado, mas pretende apresentar a decisão como demonstração de sensibilidade social. O que importa é o consumidor voltar a comprar produtos baratos no exterior sem o imposto federal.

Entretanto, o fim da escala 6 x 1 está a meio caminho. A proposta reduz gradualmente a jornada semanal de 44 para 40 horas, assegura dois dias de descanso e proíbe a redução salarial. O tema enfrenta objeções empresariais e da oposição, que alertam para o aumento dos custos de contratação, sobretudo no comércio, na gastronomia, na saúde, na logística e nos serviços de funcionamento contínuo.

Para contornar essas resistências, o MDB propôs uma PEC paralela com transição gradual, negociação coletiva, ampliação do banco de horas e mecanismos de compensação. Mesmo assim, a aprovação da proposta na Comissão de Constituição e Justiça (CCJ) representa uma vitória de Lula. Às vésperas da eleição, poucos parlamentares desejam explicar aos eleitores por que votaram contra mais tempo de descanso para os trabalhadores.

Bookmark and Share

POLÍTICA NÃO É UM MUNDO PARALELO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

O momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse

As eleições constituem o principal instrumento para que os políticos ouçam, dialoguem e respondam à sociedade. Isso não quer dizer que os governantes e representantes também não tenham de prestar contas ao longo de seus mandatos. Ocupar um cargo eletivo sempre envolve ser monitorado e responsabilizado por seus atos. Mas é no processo eleitoral que os cidadãos têm mais força para listar as prioridades e buscar soluções para os problemas públicos. O que estamos vendo em 2026, infelizmente, é um uso muito insatisfatório e reduzido desse momento estratégico da democracia.

O Brasil passou por muitas transformações positivas desde o início da redemocratização. Nesta lista estariam o acesso universal à saúde, a expansão da educação para camadas sociais que tinham sido alijadas ou expulsas das escolas, a criação de políticas que reduziram a pobreza, a estabilização da economia com o Plano Real, bem como a adoção de programas para proteger o meio ambiente e minorias sociais, como negros, mulheres e indígenas. Tudo isso só foi possível porque houve eleições, com participação dos cidadãos, pressões de organizações da sociedade e apresentação de propostas por candidatos competindo entre si.

A eleição de 2026 tem toda a estrutura para ser o terreno de construção de melhores políticas públicas frente aos diversos problemas que o país terá de enfrentar nos próximos quatro anos. Entretanto, até agora, o debate e as disputas eleitorais têm sido pobres em ideias, fugindo dos principais problemas que vão afligir o próximo presidente e o Congresso Nacional. Trata-se de um pleito em que a política está rodando em torno de si mesma, quase num mundo paralelo.

A explicação para esse comportamento no plano dos concorrentes ao Legislativo resume-se a uma palavra da ciência política: oligarquização. Essa é a característica mais marcante do sistema político brasileiro iniciada pelo comando de Eduardo Cunha na Presidência da Câmara Federal e que foi lapidada nos últimos dez anos por uma série de reformas institucionais. Quem entrou no clube dos eleitos nos últimos anos dificilmente sairá do jogo, e quem está fora começa a corrida eleitoral em grande desvantagem.

Entre as medidas que produziram a oligarquização, destacam-se, primeiramente, a ampliação gigantesca do tamanho das emendas parlamentares, que se tornaram menos transparentes e dominadas por uma pequena elite política, formada pelos cardeais do Congresso Nacional e alguns presidentes de partidos. Soma-se a isso o crescimento enorme dos Fundos Partidário e Eleitoral, comandados pelas cúpulas das agremiações partidárias, definindo assim os pouco donos do dinheiro e vencedores dentro das legendas. Também pode ser agregada aqui a redução do tempo de campanha, o que cria uma barreira de entrada para os que estão fora desse sistema oligárquico, diminuindo a competição eleitoral.

O predomínio da oligarquização política torna mais difícil o debate sobre as disputas legislativas, ainda mais no sistema eleitoral brasileiro, em que voto proporcional por lista aberta enfileira nomes e mais nomes sem que o eleitor saiba claramente as propostas partidárias. A vinculação do voto às benesses locais clientelistas ficou mais poderosa nos últimos dez anos, num retrocesso em relação aos avanços que tínhamos conseguido com a criação de normas mais objetivas e impessoais para o acesso às políticas públicas, especialmente a partir do governo Fernando Henrique.

As eleições majoritárias - Senado, governadorias e Presidência da República - fornecem melhores condições para um debate além do clientelismo localista ou do voto ligado a identidades religiosas ou profissionais. Não obstante, o contexto importa muito, e a grande maioria do eleitorado brasileiro hoje está dividida entre a polarização e o cansaço, mostram as pesquisas qualitativas.

A maioria do eleitorado, cerca de 70%, abraçou o comportamento polarizado, e dentro destes a maior parcela discute cada vez menos as questões nacionais a fundo, e espera saber o que seu lado fala sobre o assunto. Entre os que estão cansados, há um forte sentimento de desânimo, o que leva tais eleitores a procurar mais um perfil fora das brigas e escândalos recentes do que propostas concretas - isso explica o crescimento nas últimas semanas de Augusto Cury.

A lógica da guerra das rejeições entre os dois líderes das pesquisas é mais um ponto que dificulta o debate de ideias. Evidentemente que a sociedade precisa saber tudo sobre os candidatos, com destaque para suas condutas éticas. A questão é que as respostas para tais escândalos tendem a ser mais objetivas quando feitas por apurações independentes. Sabendo que o outro lado também tem telhados de vidro, Flávio Bolsonaro e Lula continuarão discutindo os erros do outro para aumentar a rejeição alheia, fator que deve ser decisivo numa eleição em que os independentes e indecisos, verdadeiros fiéis da balança, tendem a anular ou escolher o menos rejeitado entre os dois.

No conjunto dos candidatos, outro problema tem dificultado o debate: a adoção de paradigmas equivocados de políticas públicas. O apoio à política de segurança pública em El Salvador é um desses casos. Sem analisar o funcionamento efetivo do modelo, presidenciáveis têm abraçado integralmente o que mal conhecem. Mas o que importa aqui é criar um discurso salvacionista, em que as impressões valem mais do que as evidências. Seria muito mais importante analisarem os números brasileiros, as experiências subnacionais mais bem-sucedidas, como Niterói e Rio Grande do Sul, em vez de propor algo estranho às nossas singularidades.

A fragilidade do diagnóstico dos acertos e erros do passado também enfraquece o debate público. Algumas discussões e propostas sobre juros ou Bolsa Família ignoram o que já conhecemos sobre tais temas. Vale mais dizer que será feita uma mudança grande mesmo que o diagnóstico seja pobre e equivocado. Neste campo, o apoio à anistia de Bolsonaro é uma amnésia perigosíssima porque poderá abrir portas para golpes no futuro, jogando uma pá de cal na democracia.

Sabe-se que políticos, em muitas democracias, tendem a evitar os temas espinhosos que exigem soluções que desagradarão a parte importante do eleitorado. Políticos brasileiros não fogem dessa regra. Porém, é igualmente verdadeiro que quem promete o céu e entrega o ajuste logo no início do mandato, especialmente levando-se em conta que os resultados positivos do processo demandam algum tempo, pode ter dificuldades de governabilidade. Por isso, o pragmatismo político indica que é melhor não fugir do diagnóstico e ser mais honesto com o eleitorado. Há espaço eleitoral para dizer que uma repactuação do problema fiscal trará ganhos para todos. Todavia, a pobreza do debate prefere o silêncio ou o populismo.

Mais problemático é o fato de que a maioria dos candidatos não está discutindo a fundo propostas apresentadas por organizações da sociedade para resolver os problemas do país e estabelecer um projeto de futuro ao país. Participei de algum modo de proposições feitas pela Todos Pela Educação, pelo Iedi e pelo Derrubando Muros, que podem ter defeitos, mas apresentam um conjunto rico de diagnósticos e prognósticos que está sendo ignorado pelos principais presidenciáveis. Citei tais documentos e poderia falar de outros posicionamentos setoriais muito interessantes que foram publicados recentemente e que não foram nem citados pelos programas de governo.

Por culpa da grande maioria dos políticos e também de boa parte da cobertura da imprensa, o debate eleitoral está muito distante de uma radiografia precisa dos problemas e de modelos baseados em evidências que construam soluções exequíveis. Seria muito mais interessante confrontar as ideias dos candidatos com as propostas formuladas por várias entidades da sociedade civil. E se concordarem com tais propostas ou com parcela delas, os candidatos à Presidência da República poderiam se comprometer e assinar compromissos que deixariam mais claro o que farão se vencerem as eleições.

Naquilo em que haja polêmica ou concordância parcial em relação às propostas da sociedade civil, o diálogo com os presidenciáveis poderia gerar um cardápio de soluções, dentro do qual as linhas ideológicas dos candidatos optariam por ficar um pouco mais à esquerda ou à direita. De todo modo, sair das meras generalidades ou de mitos equivocados sobre políticas públicas seria um passo muito positivo para usar a democracia como um meio potente de melhorar o país. Até agora, estamos distantes disso, e o mundo paralelo da política prevalece no debate eleitoral. O problema é que o distanciamento do que é efetivamente relevante nos trará uma conta bem pesada nos próximos quatro anos.

Para os eleitores fora da polarização, a eleição de 2026 parece caminhar pela escolha de quem é menos pior. Evitar um caminho mais equivocado ou perigoso para o Brasil é uma justificativa legítima e correta do voto. Mas o momento democrático poderia ser mais bem aproveitado se a qualidade do debate melhorasse. O papel da sociedade é aumentar o sarrafo, o máximo possível, pressionando para que projetos estruturados de país sejam, no mínimo, discutidos e levados em conta pelos presidenciáveis.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

Bookmark and Share

O INÍCIO DE UM SETEMBRO SANGRENTO NO SUPREMO E NA ELEIÇÃO PRESIDENCIAL


Bernardo Mello Franco, O Globo

Em guerra aberta, Mendonça e Moraes sabem que resultado da urna também definirá futuro da Corte — e deles próprios

Em conversa recente, um ministro do Supremo previu a chegada de um “setembro sangrento”. Falava da eleição presidencial, não da crise que estava por explodir na Corte.

A um mês das urnas, é difícil encontrar a fronteira que deveria separar os dois assuntos. Tudo se mistura no noticiário e na cabeça do eleitor, bombardeado por cifras milionárias e sinais explícitos de corrupção.

As novas suspeitas sobre o ministro Alexandre de Moraes inflamaram a militância bolsonarista. Depois do fiasco no lançamento da campanha em Copacabana, o PL espera usar o caso para arrastar uma multidão à Avenida Paulista no 7 de Setembro.

A direita ganhou um mote para voltar a bradar por impeachment no Supremo. Pouco importa que Flávio Bolsonaro tenha pedido R$ 134 milhões ao mesmo Daniel Vorcaro que prometeu R$ 130 milhões ao escritório da mulher de Moraes.

A semelhança entre as quantias prometidas pelo dono do Banco Master é mais uma ironia mórbida do escândalo, que lançou uma nuvem de descrédito sobre a elite política e a cúpula do Judiciário.

No Supremo, o clima é de bangue-bangue. André Mendonça atirou primeiro ao divulgar os diálogos que comprometem Moraes. Ontem Moraes revidou ao pedir que Mendonça seja investigado por abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade.

O presidente Edson Fachin, que não conseguia aprovar regras simples sobre viagens, presentes e palestras, agora se vê obrigado a arbitrar uma guerra aberta e sem precedentes da história do tribunal.

Entrincheirados, Mendonça e Moraes não dão sinais de recuo. Os dois sabem que o resultado da eleição também definirá o futuro do Supremo — e de suas próprias trajetórias.

Divulgada ontem, a nova pesquisa do Datafolha agravou a tensão em Brasília ao mostrar uma disputa emparelhada. Na simulação de segundo turno, Lula e Flávio aparecem em empate técnico: 46% a 44%.

Agora falta apenas um mês para a eleição. Setembro será sangrento. E está apenas começando.

Bookmark and Share

VORCARO RI SOZINHO E LUCRA COM CRISE

Eliane Cantanhêde; O Estado de S. Paulo

Como os líderes do PCC e CV, Vorcaro mantém seu poder na prisão e lucra com a crise institucional

Assim como os líderes do PCC e do CV mantêm comando sobre as facções, mesmo presos em penitenciárias de alta segurança, o ex-banqueiro Daniel Vorcaro sustenta seu poder destrutivo contra as instituições, mesmo depois de meses trancafiado na Papudinha, em Brasília.

Tal como cooptou figuras centrais de Legislativo, Judiciário e Executivo quando era biliardário e estava solto, Vorcaro continua sendo personagem-chave na guerra que sacode a capital da República, com ação calculada para jogar os ministros do Supremo uns contra os outros e a Polícia Federal e a PGR no meio da fogueira.

De burro, Vorcaro não tem nada. Ele é estratégico e tira partido de um ambiente institucional poluído e repugnante, em que Alexandre de Moraes, reconhecido como aliado de Lula, está no fundo de um poço sem volta, e André Mendonça, admitido como aliado dos Bolsonaro, é quem dá as cartas no escândalo Master no Supremo.

Com Flávio Bolsonaro diretamente envolvido, Vorcaro age para puxar o governo Lula junto e reforçar a percepção popular de que “não sobra ninguém”, o que favorece “acordões”, dificulta soluções, condenações e prisões definitivas. O melhor dos mundos para um criminoso como o ex-banqueiro.

O PGR Paulo Gonet entra na história como da “turma do Gilmar Mendes” e aliado (ou advogado?) de Moraes, mas também na situação constrangedora de autodefesa. Afinal, é mais um dos “amigos” que gosta, e desfruta, dos charutos e do uísque de Vorcaro. Qualquer decisão que tome no caso seria usada contra ele, como foi e continuará sendo.

Vorcaro tenta produzir o mesmo efeito contra o delegado Andrei Rodrigues, que comanda a PF, instituição mais respeitada nessa confusão toda. No dia em que deveria depor à PF, o ex-banqueiro escapuliu e foi escondido para o gabinete de Mendonça no STF, para jogar insinuações e dizer que tem “relação cordial” com o delegado.

Não foram só Gonet e Andrei Rodrigues, porém, que se encontraram com Vorcaro, mas o próprio Mendonça. Mesmo que não haja nada demais nesse encontro, a revelação reforça a triste e avassaladora percepção nacional de que “todos são iguais”.

Em nota, o Instituto Não Aceito Corrupção (INAC) elogia a quebra de sigilo das investigações sobre Moraes, mas pedindo que Mendonça “quebre o sigilo igualmente dos casos INSS e Dark Horse”, inclusive para evitar impacto nas eleições.

O País exige transparência e igualdade para o caso de Moraes, Lulinha e Flávio e espera que tanto Gonet, Rodrigues e o próprio Mendonça expliquem, sem tergiversar, qual o grau de relação com Vorcaro – o único ser no País e no planeta que se beneficia da tragédia institucional.

Bookmark and Share

ALCOLUMBRE AGUARDA AS URNAS PARA DECIDIR SOBRE MORAES

Andrea Jubé, Valor Econômico

Chefes dos Poderes jogam com o tempo

Político astuto sabe a hora de agir. No “Grande Sertão: Veredas”, que completou 70 anos, Riobaldo afirmou que o líder dos jagunços, Zé Bebelo, não se tornou político como sonhava porque perdeu tempo. “Raposa que demorou”, lamentou.

Na maior crise institucional desde a redemocratização, os chefes dos Poderes jogam com o tempo antes de prestarem contas à sociedade sobre o escândalo vinculando ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) ao ex-banqueiro Daniel Vorcaro. Sob pressão para pautar um dos pedidos de impeachment do ministro da Corte Alexandre de Moraes, de quem é próximo, o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), queixou-se das agressões que vem sofrendo, inclusive de colegas, e pediu tempo: “No momento adequado eu vou falar”.

Na mesma linha, o presidente do STF, ministro Edson Fachin, advertiu que não agirá com açodamento. Em evento na quarta-feira (2), disse que “nos próximos dias” concluirá a análise dos fatos, e, “no tempo devido e sem precipitação”, anunciará as medidas cabíveis e necessárias.

Num momento em que a promessa de apoiar o impeachment de ministros do STF, principalmente, de Moraes, se destaca nas campanhas dos candidatos de direita a uma vaga no Senado, uma fonte do entorno de Alcolumbre explicou à coluna que ele não cederá à pressão para pautar a matéria. A percepção do presidente do Senado é de que o “momento adequado” para se posicionar será após o segundo turno, quando emergirem das urnas os nomes do novo presidente da República e dos 54 novos senadores.

Segundo o mesmo interlocutor, o perfil do novo chefe do Executivo e a fotografia do novo Senado indicarão se um pedido de impeachment avançará na Casa, e se terá como réu Alexandre de Moraes ou André Mendonça.

A revelação na terça-feira (1) dos diálogos entre Moraes e Vorcaro implodiu o mundo político, chacoalhou as campanhas e deixou os brasileiros perplexos, esperando explicações das autoridades. O relatório da Polícia Federal (PF) sobre as mensagens foi elaborado por ordem do ministro André Mendonça, relator do caso Master, para identificar os interlocutores. A PF concluiu que o destinatário de Vorcaro era Moraes.

A percepção de políticos e ministros do STF é de que Moraes e Mendonça erraram, e de que ambos devem explicações sobre seus atos. Moraes pelos laços de proximidade com o ex-banqueiro investigado pela PF, e Mendonça pelos métodos, porque não poderia investigar um colega sem o consentimento da Procuradoria-Geral da República (PGR) e do plenário da Corte.

Enquanto a crise aprofunda, Alcolumbre tenta se preparar para a eleição das Mesas Diretoras, em fevereiro de 2027, quando tentará a recondução para a presidência da Casa. Ele sabe que, para continuar na cadeira, terá de dar uma resposta sólida aos seus pares e à sociedade, já que cabe aos senadores julgarem os pedidos de impeachment contra magistrados do STF.

A eventual reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva é o cenário mais favorável à renovação do mandato de Alcolumbre na direção da Casa. Em troca do avanço dos projetos sobre o fim da jornada 6 x 1 e a regulamentação da exploração dos minerais críticos, Lula acenou com apoio à recondução do aliado. No entanto, na hipótese de vitória do candidato do PL, Flávio Bolsonaro, o coordenador da campanha, senador Rogério Marinho (PL-RN), despontará como o mais competitivo para o cargo.

Mais do que o apoio do Palácio do Planalto, entretanto, a eleição para a presidência do Senado depende da distribuição de forças na Casa. Por isso, Alcolumbre não poderá se movimentar até as urnas revelarem, no início de outubro, quem elegeu mais senadores: a direita, a esquerda ou o Centrão. Essa fotografia será decisiva para impulsionar eventual impeachment contra Alexandre de Moraes ou André Mendonça, ou manter os pedidos na gaveta.

Nessa semana, Alcolumbre reclamou dos 109 requerimentos de impeachment contra 10 titulares da Corte, a maioria contra Moraes: “Isso não é normal”, protestou, sem justificar porque não despachou nenhum. O presidente do Senado ainda saiu em defesa de Moraes: “Todo mundo esqueceu que pediram 130 milhões [de reais] para as mesmas pessoas para fazer um filme, e agora o culpado é só o ministro Alexandre de Moraes”, desabafou, em menção velada ao presidenciável do PL, Flávio Bolsonaro, flagrado em áudio pedindo dinheiro a Vorcaro para a cinebiografia de Jair Bolsonaro. Flávio argumenta que os recursos são de origem privada, e não haveria ilegalidade.

Moraes não se pronunciou sobre o conteúdo dos diálogos, e dobrou a aposta, cobrando a investigação de Mendonça por supostos atos de improbidade. Por sua vez, Mendonça teve que admitir um encontro com Vorcaro em 2025, revelado pela imprensa, mas negou irregularidade na confecção do relatório sobre o colega.

A um mês da eleição, só o tempo dirá qual o impacto da crise nas campanhas, e quem sobreviverá ao bombardeio. São “tempos estranhos”, diria o ex-ministro do STF Marco Aurélio Mello. Ou imperfeitos, na visão de Riobaldo, para quem o “tempo é a vida da morte: imperfeição”.

Bookmark and Share

SUPREMO VAI ESCOLHER ENTRE EXPOR OU ESCONDER SUAS MAZELAS

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

É tarefa dos três Poderes responder ao imperativo de preservar a confiabilidade das instituições

A transparência exibe as chagas, mas pode cicatrizar feridas e impedir o alastramento da infecção

Daniel Vorcaro está preso, seu banco liquidado e a vida que previra construir arruinada.

Seria apenas o destino de um transgressor se na trajetória dos ilícitos não tivesse arrastado consigo ministros do Supremo Tribunal Federal, um procurador da República, parlamentares da cúpula do Congresso e quem mais ainda esteja por aparecer envolvido nessa macabra teia de cooptações e traficância de influências.

Ao que já se sabe, foram-se os anéis. Resta agora aos verdadeiros defensores do Estado de Direito impedir que se percam os dedos, na metáfora representados pelas instituições pilares da República.

Aos comandantes dos três Poderes cabe sair do modo passivo para se colocarem à disposição do imperativo de preservar a lisura e a confiabilidade da Presidência, do Supremo e do Parlamento. Por ora, os presidentes da República, do STF e do Congresso Nacional não têm se mostrado à altura do desafio.

Luiz Inácio da Silva busca consultoria de magistrados para se desviar dos estilhaços, Edson Fachin adia "medidas cabíveis" para tempo indeterminado e Davi Alcolumbre diz que não tem de "achar nada" sobre o andamento dos pedidos de impeachment.

Os citados Alexandre de Moraes e Paulo Gonet sentaram-se à mesa da primeira sessão do tribunal depois da explosão da bomba numa simulação de normalidade levada ao extremo no intervalo, quando Moraes, Fachin, Gilmar Mendes e Cristiano Zanin são fotografados aos risos em roda de colegas. Estão todos —porque são todos responsáveis pela higidez da legalidade—, mas principalmente a Corte Suprema, diante de uma escolha: expor, examinar e julgar os fatos com transparência ou mais uma vez estender o manto da impunidade sobre a sujeira que se avoluma e não desaparece.

A primeira hipótese expõe as chagas, mas pode conter a infecção. A segunda produz outro esqueleto no armário onde o colegiado já havia depositado o Tayayá de Dias Toffoli e que, pelo clima do dia seguinte, parece julgar ainda haver espaço para acomodar mais um.

Bookmark and Share

SEM SAÍDA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Ruína da imagem do STF não tem solução fácil e deverá arrastar-se por anos

Excesso de foro especial é ao mesmo tempo ingrediente e agravante da crise

Se um juiz da Suprema Corte dos EUA for flagrado cometendo um crime, ele será julgado na primeira instância. No Brasil, não. Pela regra do foro especial, um ministro do STF só pode ser julgado por seus colegas do Supremo.

foro especial não é uma jabuticaba brasileira. Metade das nações da OCDE, o clube dos países desenvolvidos, conta com um mecanismo semelhante. O que nos torna um caso único é a escala com que distribuímos a garantia. Enquanto nas nações que contam com algum tipo de desaforamento ele está restrito a um punhado de ocupantes de posições da alta hierarquia, no Brasil ele abarca dezenas de milhares de autoridades e ex-autoridades de todos os níveis. Especificamente sob jurisdição do STF devem estar atualmente um pouco mais de mil políticos que podem carregar consigo outros milhares de corréus.

A conversão de cortes superiores em juizados de instrução criminal para poderosos é ao mesmo tempo um ingrediente e um agravante da crise em que o STF se enredou. Ministros não só julgam os acusados como exercem algum controle sobre aqueles que os investigam. É isso que levou Daniel Vorcaro a buscar aproximar-se de magistrados. E, ao exercer tamanho poder sobre políticos, o STF se vê tragado para a arena política. Suas decisões, mesmo que fossem impecavelmente técnicas (não são), seriam lidas como políticas e, portanto, suspeitas.

Para piorar, tanta gente com foro e protagonismo judicial aparece nos relatórios da PF sobre o Banco Master que nenhuma decisão que venha a ser tomada poderá ser levada muito a sério. Familiares de ao menos três ministros do STF receberam vultosas somas em generosos contratos ligados ao banco. E nem falo dos que só receberam agrados em viagens e boquinhas. O próprio PGR é mencionado e, por prudência, deveria afastar-se do caso. Não se afastou.

Não vejo saída para essa crise, que deverá arrastar-se por anos. Mas, para que um STF do futuro não recaia nos mesmos problemas, a corte precisaria deixar de ser a primeira instância criminal de tantos políticos.

Bookmark and Share

CONFUSÃO, SILÊNCIO E GARGALHADAS

Vera Magalhães, O Globo

Tática dos enredados na teia de Vorcaro é fazer um fogo de encontro que iguale as suspeitas e evite qualquer apuração célere

A tática dos enredados na teia cada vez mais ampla de Daniel Vorcaro para evitar que suas relações com autoridades sejam investigadas a fundo e gerem consequências está clara: apostar na confusão embalada por um silêncio que só não é mais aviltante do que as sonoras gargalhadas, daquelas de sacudir o corpo todo, em que ministros do Supremo Tribunal Federal foram flagrados pelo repórter fotográfico Brenno Carvalho, do GLOBO.

A refrega se deu na saída de uma sessão em que Suas Excelências fizeram um esforço claramente teatral para afetar cordialidade enquanto fingiam não haver um elefante de tamanho Master sentado no meio do plenário. Horas antes, o presidente da Corte, Edson Fachin, havia mandado recados a todos os envolvidos de que estava disposto a, uma vez mais, contemporizar, parar a bola enquanto estudam, sempre a portas fechadas, uma maneira de reduzir danos para si mesmos.

Só essa atitude foi capaz de evitar que os ministros extravasassem no plenário a ira que cultivam uns em relação aos outros. Entre alinhamentos mais ou menos definidos e aqueles cuja posição hoje parece mais difícil de cravar, a unanimidade triste é a aquiescência de todos, enredados ou não, com esse pacto de silêncio em público — e a galhofa quando imaginam estar preservados atrás das cortinas.

A revolta, ontem, daqueles que não se dignam a vir a público prestar contas à sociedade de que são servidores, era com o fotógrafo. Que injustiça, uma vez que estavam rindo de uma engraçadíssima piada sobre PIS/Cofins contada por Flávio Dino, e não fazendo graça com a crise que arrasta a instituição de que são parte para a lama.

É sempre assim. Quando foram flagrados ensaiando votos e trocando impressões pelo aplicativo interno de mensagens nas sessões de recebimento da denúncia do mensalão, em 2007, os ministros tomaram como providência tirar repórteres e fotógrafos dos lugares localizados atrás de suas próprias cadeiras. Só falta quererem repetir a dose agora, eliminando os jornalistas, e não o bode Vorcaro, da sala.

Fachin alimentou muita expectativa de que faria uma gestão inovadora em termos de transparência e prestação de contas no Judiciário. Demonstrou não ter força sequer para dar a largada. Agora, aceita de bom grado a função de armar a retranca para os colegas e representantes máximos do Ministério Público e da Polícia Federal, que beberam uísque e fumaram charuto em festas além-mar para as quais ele não foi convidado. Triste papel.

Desde que o relatório da PF centrado em Alexandre de Moraes e sua relação umbilical com Daniel Vorcaro vieram à tona, a barafunda criada com vazamentos em todas as direções e andanças de aliados do ministro por gabinetes na Praça dos Três Poderes só tem um objetivo: criar uma cacofonia tal que faça com que não se distinga o que de mais grave existe num cenário de corrupção generalizada, promovida por alguém que imaginava poder comprar inimputabilidade — e quase conseguiu. O auge desse diversionismo foi o anúncio, por parte de Moraes, de pedido para investigar o colega André Mendonça no inquérito das fake news. A inação de Fachin fez com que Moraes se sentasse na cadeira dele.

Nesse cenário em que se sacrificam as instituições para salvar o que resta da imagem de alguns, chama a atenção a disposição de políticos e até intelectuais em fechar os olhos e praticar contorcionismo para relevar o injustificável, quando quem mete a mão na cumbuca está no seu “lado” do cada vez mais burro alinhamento ideológico.

Nessa toada, o mais surreal é ver a esquerda dando a vida para defender Moraes, nomeado pelo “golpista” Michel Temer, só pelo “papel em salvar a democracia”. Preservar a Constituição e a democracia, quando se é um magistrado da Corte constitucional, não é favor, é dever inescapável. Julgar e condenar golpistas não é heroísmo, é função precípua do STF.

Fazer isso para, em seguida, se valer das garantias conferidas à função para se blindar de qualquer investigação é conspurcar a mesma democracia, de outra forma. Já passou da hora de deixar de lado esse papo de “dívida de gratidão”.

Bookmark and Share

SALVEM A DEMOCRACIA, NÃO MORAES

Pablo Ortellado, O Globo

Seus erros e acertos viraram erros e acertos do Supremo

A crise no Supremo precisa ser enfrentada com o afastamento do ministro Alexandre de Moraes. Desde a abertura do inquérito das fake news, o STF conferiu poderes demais a um indivíduo para atuar em defesa da instituição. Seus erros e acertos na condução do processo viraram erros e acertos da Corte.

Agora, é preciso que suspeitas sobre má conduta em sua vida profissional não virem suspeitas sobre má conduta da instituição — e comprometam a legitimidade das condenações dos atos antidemocráticos. É preciso afastar Moraes para salvar o Supremo — e para salvar a democracia.

A concentração de poderes foi a saída que a Corte encontrou para reagir aos movimentos antidemocráticos, diante da inação da Procuradoria-Geral da República. A abertura de inquérito de ofício e a mistura de papéis pela Corte — ao mesmo tempo vítima, investigadora e juiz — criaram um vício de origem.

Os vícios de origem talvez tenham sido a saída possível diante das circunstâncias. Mas o desgaste desse momento fundacional precisaria ter sido compensado com uma atuação técnica e equilibrada. Não foi o que aconteceu. Moraes mudou o entendimento sobre como lidar com conteúdos ilícitos nas redes, bloqueou perfis e canais inteiros — praticando censura prévia. Aplicou contra os investigados uma política de mano dura que produziu sentenças desproporcionais. Além disso, o inquérito teve muita dificuldade de provar os vínculos do golpismo de Bolsonaro e dos generais com o vandalismo do 8 de Janeiro.

A acusação contra Bolsonaro precisou do 8 de Janeiro para dar materialidade à trama golpista e, diante das fracas evidências que ligavam uma coisa à outra, acabou forçando a conexão — a um custo alto de legitimidade pública. Até hoje, a maioria dos brasileiros não considera o 8 de Janeiro uma tentativa de golpe de Estado — percepção que alcança até parcela expressiva dos eleitores de Lula.

O resultado foi que o Supremo perdeu legitimidade e foi estigmatizado como uma Corte injusta e parcial. Os erros de Moraes tornaram-se os erros da instituição — não apenas por associação, mas também porque a Corte formalmente os endossou. Moraes recebeu poderes extraordinários porque o STF considerou extraordinária a ameaça à democracia. A situação exigia também um extraordinário padrão de confiança pública.

O Brasil não estava preparado para a contestação antidemocrática dos anos 2021-2023. O arranjo improvisado naquele período concedeu poderes demais a um só indivíduo e tornou indistinguível sua ação pessoal da ação institucional. Agora, uma séria suspeita sobre sua conduta funcional pode contaminar a Corte e consumir o que ainda lhe resta de legitimidade.

O escritório da mulher do ministro fechou com o Master um contrato de R$ 130 milhões, assinado dias depois de um almoço de Moraes com Vorcaro em Campos do Jordão. A minuta do contrato parece ter sido editada pelo próprio ministro. Depois de assinado o contrato, o banqueiro lhe pediu que “reforçasse” sua posição com o diretor-geral da PF e o procurador-geral da República. Na véspera da prisão, perguntou se deveria fugir do país. Nada disso ainda está provado — mas juiz não precisa ser condenado para perder a autoridade moral de julgar.

A esta altura, não importa se o timing da revelação das conversas entre Moraes e Vorcaro tem motivação eleitoral. O relatório já foi tornado público, e seu conteúdo torna a permanência do ministro insustentável.

O Supremo tem a chance de agir por iniciativa própria. Fachin prometeu anunciar as medidas cabíveis “no tempo devido e sem precipitação”. Esse tempo devido, porém, está em descompasso com o tempo da crise. A cada dia de inação, mais as suspeitas sobre Moraes transbordam para a instituição.

Se a reação seguir o padrão adotado na crise de Toffoli — um acordo entre os 11 para poupá-lo —, a Corte não terá defendido Moraes, terá se implicado no escândalo. Nesse caso, não restará à sociedade outra saída que não pressionar o Senado pelo impeachment. É uma saída traumática e muito exposta à captura pelos adversários da democracia liberal. A responsabilidade por termos de recorrer a ela será inteiramente do Supremo.

Bookmark and Share

quinta-feira, 3 de setembro de 2026

MORRE GLORIA STEINEM

Do g1

Gloria Steinem, ícone do feminismo nos EUA, morre aos 92 anos

Jornalista foi uma das principais vozes do movimento feminista dos EUA, encabeçou manifestações que motivaram mudanças constitucionais, fundou diversas organizações e também publicações. Fundação que leva seu nome disse que ela morreu em casa, em Nova York, "de forma pacífica".

A jornalista e ativista norte-americana Gloria Steinem, um dos maiores ícones do movimento feminista nos Estados Unidosmorreu aos 92 anos em Nova York, anunciou nesta quinta-feira (3) a fundação que leva seu nome.

De acordo com a fundação, Steinem, que por mais de cinco décadas lutou pelos direitos reprodutivos e por mais participação das mulheres na política, além de fundar publicações e diferentes organizações, morreu em sua casa na quarta-feira (2). A causa da morte não foi divulgada.

"Ontem, Gloria Steinem faleceu pacificamente em sua casa na cidade de Nova York, cercada por algumas das muitas pessoas que a amavam. O quase um século de vida de Gloria foi bem vivido, e ela continuou trabalhando pela igualdade até o fim", anunciou a fundação Gloria Steinem.

Fundadora da "Ms.", revista que existe desde a década de 1970, escrita por mulheres e dedicada à cobertura de notícias ligadas ao feminismo, Steinem foi uma das vozes mais ativas e conhecidas do movimento feminista dos Estados Unidos.

Ela emergiu como um nome forte do movimento na segunda onda do feminismo nos EUA, no fim da década de 1960. Desde então, lutou por mais direitos para mulheres e pela inclusão de mulheres na vida política dos Estados Unidos e do mundo.

👉 Anos depois, Steinem revelou que ingressou no ativismo após ter diversas reportagens sobre o feminismo negadas em publicações por onde trabalhou no início da carreira jornalística. Steinem afirmou que teria se limitado apenas à escrita se os editores da época estivessem dispostos a deixá-la escrever sobre o movimento feminista.

Mas eles não estavam interessados. "Então, acabei saindo para falar em público, o que era o meu pesadelo", afirmou ela em entrevista à agência de notícias Asssociated Press em 2015.

Ainda assim, Steinem fez trabalhos marcantes no jornalismo e ganhou prêmios. Um deles foi uma reportagem de 1963 sobre as condições degradantes no império da revista "Playboy", de Hugh Hefner. Para o trabalho, se disfarçou de "coelhinha da Playboy" durante 11 dias.

Em 1968, escreveu um artigo intitulado "Depois do 'Black Power', a Libertação das Mulheres", na revista "New York Magazine", que também ajudou a fundar. O texto a consolidou como líder feminista em um período de intensas transformações sociais. Logo depois, foi capa da revista "Newsweek", que a batizou de "A Nova Mulher".

No ativismo, ela mergulhou na luta política. Steinem encabeçou diversas manifestações que forçaram o Congresso norte-americano a aumentar os direitos para as mulheres. Ela fundou o Caucus Político Nacional para Mulheres em 1971, juntamente com as ex-deputadas americanas Bella Abzug e Shirley Chisholm e a escritora Betty Friedan — cujo livro, "A Mística Feminina", de 1963, inaugurou a segunda onda do feminismo.

Também criou organizações como a Coalizão de Mulheres Sindicalistas, o Centro de Mídia de Mulheres, a Eleitores pela Escolha e a Fundação Ms. para as Mulheres. Em 2013, o então presidente Barack Obama concedeu a Steinem a Medalha Presidencial da Liberdade, a mais alta honraria civil dos EUA (veja na imagem abaixo).

Steinem nasceu em 25 de março de 1934, em Toledo, Ohio, a mais nova de duas filhas. Seu pai era um negociante de antiguidades itinerante. Como a família se mudava com frequência, ela não frequentou a escola regularmente até por volta do sétimo ano.

Ela decidiu não ter filhos e casou-se aos 66 anos com o empresário e ambientalista sul-africano David Bale, pai do ator Christian Bale. David Bale morreu em 2003.

Luta pelo direito ao aborto

Mas o grande marco que a fez mergulhar no ativismo feminista, segundo a própria Steinem revelou mais tarde, foi a luta pelo direito ao aborto nos EUA. Ela própria havia passado por um aborto secreto aos 22 anos.

"Ou o controle sobre nossos próprios corpos é igualitário, independentemente de sexo ou raça, ou não estamos vivendo em uma democracia", disse a ativista.

Grande parte de sua vida como ativista foi dedicada a viajar, discursando em campi universitários, centros comunitários, comícios e marchas. Nos últimos anos, Steinem organizava rodas de conversa para centenas de pessoas em sua casa.

"Não dá para fazer isso por telefone ou pela internet", disse ela à agência de notícias norte-americana Associated Press em uma entrevista de 2015. "É preciso estar presente com todos os cinco sentidos. Deveria ser óbvio que as pessoas não conseguem sentir empatia umas pelas outras a menos que estejam no mesmo ambiente."

O tempo pouco diminuiu o ritmo de Steinem. Já na casa dos 80 anos, ela viajava pelo mundo e se manifestava sobre questões importantes para ela.

Essas pautas incluíam desde a mutilação genital até a reconciliação coreana, mas a igualdade para as mulheres era a prioridade.

"Ser feminista significa ver o mundo como um todo, em vez de apenas a metade", disse ela em entrevista. "Isso não deveria precisar de um nome e, um dia, não precisará".

Vida na arte

Com o passar dos anos, a visibilidade de Steinem permaneceu, e o mundo das artes começou a homenageá-la.

Aos 83 anos, ela sentou-se na primeira fila de seu primeiro desfile de moda, como convidada do estilista Prabal Gurung.

Poucos dias após completar 85 anos, ela conduziu uma "roda de conversa" feminina durante uma peça "off-Broadway" que celebrava sua vida. Uma a uma, mulheres da plateia — muitas segurando as lágrimas — levantavam-se para agradecê-la e contar suas próprias histórias de discriminação.

Em 2020, sua vida foi tema do longa-metragem "The Glorias" ("The Glorias: A Life on the Road"), baseado em suas memórias de 2015 e estrelado por Julianne Moore (veja na imagem abaixo).

"De porta-voz relutante a um farol de mudança positiva, a trajetória dela é singular. É uma líder americana capaz de falar com todos nós", disse a diretora de cinema e teatro Julie Taymor, que dirigiu o filme, em uma entrevista de 2017 ao jornal "The New York Times.

E, aos 91 anos, ela colaborou em um livro ilustrado com a ativista pela paz liberiana e ganhadora do Prêmio Nobel Leymah Gbowee, com o objetivo de inspirar jovens a mudar o mundo. "Rise, Girl, Rise: Our Sister-Friend Journey. Together for All ("Levante-se, Garota, Levante-se: Nossa Jornada de Irmãdade/ Amizade. Juntas para Tudo", em tradução livre) foi publicado em fevereiro de 2026.

Bookmark and Share

SOBRE O VÍCIO E O LUCRO

Eugênio Bucci, O Estado de S. Paulo

Só quem pode remediar um pouco a tirania viciosa do capital é a ordem democrática

O capital remunera o vício, jamais a virtude. Muita gente desconhece, e mais gente ainda insiste em desconhecer, mas é assim que é. Só quem pode remediar um pouco a tirania viciosa do capital é a ordem democrática.

A história nos dá provas disso. Foram as democracias nascentes que impuseram aos primeiros industriais, contra a vontade deles, os direitos trabalhistas. No século 19, em Londres, crianças trabalhavam em jornadas extenuantes dentro das fábricas insalubres como parte da normalidade. Não, não foi o capitalismo que assegurou as garantias mínimas de saúde e dignidade, mas a política. A ideia de justiça não faz tilintar a caixa registradora.

Entregue à sua própria dinâmica, o capital aplaude o direito à propriedade e repudia todos os outros, sejam eles os fundamentais, os sociais ou os difusos. Se pudesse, condenaria a nossa espécie àquilo que, certa vez, Florestan Fernandes chamou de “capitalismo selvagem”.

John Keynes, ainda em 1936, invocou a expressão spiritus animalis para designar o impulso do empresário que, diante de evidências racionais, teima em investir. Olhando de longe, é possível detectar aí um jogo viciante: quando acerta, o capitalista acumula mais; quando erra, toma fôlego para reincidir. Espírito animal.

Nas guerras modernas, a fome de lucro ateia fogo às cidades. Em tempos de paz (ou de suposta paz), ao menos segundo o credo de boa parte dos economistas, o spiritus animalis de um entraria em duelo com o spiritus animalis de outro e, nesse enfrentamento civilizado, ambos acabariam se limitando. Graças a essa ideia curiosa, ou mesmo excêntrica, a competição de mercado cuidaria de conter os excessos mais danosos.

Não esqueçamos que, em A riqueza das nações, de 1776, Adam Smith enalteceu o egoísmo, não a generosidade, do homem de negócios: “Ao perseguir seus próprios interesses, o indivíduo muitas vezes promove o interesse da sociedade muito mais eficazmente do que quando tenciona realmente fazê-lo.” No início do século 18, Bernard Mandeville publicou a Fábula das Abelhas, em que afirmava que os vícios privados (vaidade, avareza, cobiça), concorrendo entre si, redundariam no benefício público (riqueza social, prosperidade coletiva, abastecimento, crescimento da oferta, do emprego e do salário). Moral da história: a ambição é o motor da economia; a esperteza, seu método.

Sabemos disso desde sempre. Não é por amor às virtudes que as fábricas de medicamentos contratam cientistas a peso de ródio. Quando os donos do dinheiro remuneram talentos admiráveis, só o fazem porque veem nisso um atalho para lucrar mais. A ambição e a esperteza não têm escrúpulos em jogar migalhas para a criatividade, a inteligência e a beleza. O vício não tem princípios: quando necessário, chega ao cúmulo de se aliar ao que é justo, bom e belo.

Nem Adam Smith nem Mandeville viram bondade no capitalismo. Eles apenas acreditavam que o vício ganancioso de um seria contido pelo vício ganancioso do outro, de modo a fazer prevalecer, no fim, um equilíbrio tendente ao crescimento econômico. Vem daí a crença de que a competição supostamente saudável civiliza. Há controvérsias, mas, aqui, elas não importam.

O tempo passou. Sobre as ruínas morais da alegada livre concorrência, o monopólio se impôs com brutalidade e, bem a propósito, selvageria. O império desmedido das big techs, esses conglomerados avaliados em US$ 4 trilhões ou US$ 5 trilhões cada um, é a demonstração dessa verdade. Para piorar as coisas, os líderes políticos da temporada, em vez de cuidar dos direitos dos cidadãos, apressam-se no papel de sabujos do capital. Donald Trump encabeça a lista, embora não tenha cabeça. O vírus da ambição e da esperteza entra na corrente sanguínea de ministros de Estado, de parlamentares, de policiais e de próceres do Poder Judiciário, em países longínquos ou próximos. Em vez de fixar regras para barrar o vício, a política passa a confinar a virtude.

Está tudo aí, diante de nós. Crianças de três ou quatro anos de idade passam horas deslizando os dedos em telas digitais. Não parece, mas estão trabalhando de graça para as big techs. Seus pais, envaidecidos, acham que elas estão apenas se divertindo e aprendendo. O pior dos mundos entra em cartaz. Os viciosos posam de virtuosos e as plateias aplaudem, sorridentes, neutralizadas.

Por essas razões, além de algumas outras que agora não comento, escrevi nestas páginas, há duas semanas, que o capital só remunera a ambição e a esperteza. Só. Dentro dessa fórmula, outros traços morais podem ser recrutados pela ambição e pela esperteza, mas são as duas que comandam o processo.

No sábado retrasado, dia 22 de agosto, o engenheiro Eduardo Vaz, nesta mesma seção, Espaço Aberto, redigiu um comentário divergente, em linguagem respeitosa e elevada (O reducionismo do fator redutor, A6). Temos visões discrepantes, mas não obtusas, pois não se pretendem excludentes. Meu artigo de hoje vai em homenagem ao diálogo. Vai também em repúdio a tudo aquilo que, no capital – e nos poderes de Estado que o adulam –, é surdo, sombrio, estupidificante e corrosivo.

Bookmark and Share

COM A DITADURA NO BOLSO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Se vencer, Flávio B. subirá a rampa com um subitamente lépido Jair Bolsonaro sem soluços

Não será surpresa se, ao receber a faixa do antecessor, ele disparar uma cusparada em Lula

Diante da hipotética possibilidade de Flávio Bolsonaro vencer a eleição presidencial (afinal, está concorrendo), vamos a um rápido e razoável exercício de adivinhação sobre o que poderá acontecer. Na posse, como já prometeu, ele subirá a rampa do Planalto de braço com seu pai, um subitamente ágil e lépido Jair Bolsonaro, sem soluços e com os movimentos peristálticos funcionando. Ao receber a faixa das mãos de seu antecessor, não será surpresa se Flávio B. retribuir esse gesto democrático com uma cusparada no rosto do ex-presidente.

Como seu primeiro ato será assinar a anistia dos criminosos do 8/1, a cerimônia será abrilhantada pelos oficiais condenados por tentativa de golpe e assassinato de autoridades, adrede libertados das prisões onde cumpriam pena. Ao seu lado, na foto oficial, Antônio Cláudio Ferreira, destruidor do relógio de Dom João 6º, dona Fátima de Tubarão, hidrófoba senhora que ia "pegar o Xandão", e Fábio de Oliveira, que se sentou na cadeira do ministro no STF. Com os pés no assento do Rolls na carreata comemorativa, estará não apenas o 02 Carlos Bolsonaro, repetindo sua façanha de 2019, como o 03 Eduardo Bolsonaro, desembarcado em segredo naquela manhã.

O discurso de moderação desaparecerá assim que o novo presidente destampar a caneta. Empossado, Flávio B. tirará do bolso o plano urdido por seu pai para o segundo mandato que não houve: o de aferrolhar por dentro as instituições —militares, jurídicas e policiais— e instituir a ditadura.

O Supremo sofrerá intervenção imediata, com a demissão dos ministros independentes e sua substituição por sequazes invertebrados. A maioria dos parlamentares, como é de tradição da categoria, se acoelhará à nova ordem —isto se o Congresso não for fechado. Órgãos de comunicação, cultura e ensino serão arrolhados pela censura ou asfixiados financeiramente. A Faria Lima estourará champanhas e, dispensando intermediários, um dos seus comandará a economia.

Metade do país aplaudirá essas medidas. Falta combinar com a outra metade.

Bookmark and Share

DUAS PROPOSTAS PARA A SEGURANÇA PÚBLICA

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Tema é o que mais distancia centro-esquerda da extrema direita na eleição

Proposta de Lula aposta em coordenação de ações em âmbito nacional e com países amazônicos

A segurança disputa com a saúde o primeiro lugar entre as preocupações dos brasileiros. Com razão: a violência faz parte da áspera experiência cotidiana da população, especialmente dos pobres, em casa ou na rua; praticada por um parente, por desconhecidos, pela polícia.

Discute-se qual será o lugar do assunto na próxima disputa pelo Palácio do Planalto. Seja qual for, a importância da segurança como aspiração coletiva justifica o exame das propostas de governo dos dois candidatos que hoje lideram a corrida pela Presidência. Nenhum outro ponto distancia tanto a centro-esquerda da extrema direita.

A coalizão encabeçada pelo PT deu um passo formidável ao abandonar a ideia enraizada na esquerda de que o crime resulta da pobreza e da desigualdade e que, daí, sua solução decorre da superação das nossas mazelas sociais.

A fronda progressista também começa a deixar para trás a repulsa aos meios repressivos e às forças policiais que os aplicam.

No programa de Lula, segurança é direito, proteção à vida; combina repressão qualificada —com ampla utilização do muito que a tecnologia tem a oferecer à prevenção do crime— e respeito às liberdades civis. Parte da constatação de que o problema tem muitas dimensões e formas de se manifestar nos territórios, além de mobilizar complexa rede de organismos públicos.

No centro da proposta há muita criação institucional para viabilizar a coordenação de ações, seja em âmbito federativo —por meio do Sistema Unificado de Segurança Pública em debate no Congresso e de um ministério exclusivamente dedicado ao problema—, seja entre diferentes agências estatais; ou ainda na cooperação entre países amazônicos.

Já o programa de Flávio Bolsonaro repete o roteiro seguido por candidatos da direita desde Paulo Maluf: a ênfase incide na repressão pela força, sem considerar os fatores que hoje a tornam mais letal que eficiente. Segurança é "guerra contra o crime" que justifica medidas de exceção. Ou, na profissão de fé de seus adeptos: "Bandido bom é bandido morto". A prevenção aparece como resultado visado pela mão dura contra os criminosos: autorização para matar, redução da maioridade penal e castração química de condenados por estupro e abuso contra crianças. No centro de tudo há a promessa de expansão e endurecimento prisional, abertamente inspirada no modelo de El Salvador. Há propostas de uso de tecnologia e de envolvimento das Forças Armadas contra o crime organizado na Amazônia —dissociadas, porém, de qualquer esforço de coordenação entre governos e entre agências.

A proposta de Lula não promete uma solução imediata, mas um caminho que requer o compromisso de dar prioridade ao tema. Seu êxito dependerá também da capacidade que o governo tenha de vencer rotinas burocráticas e interesses constituídos; de convencer a opinião pública; de reprimir dentro da lei e de apagar o fogo amigo alimentado por visões ultrapassadas em seu próprio campo.

O projeto de Flávio B. é atraente para quem gostaria de acreditar que existe a mítica bala de prata para acabar com o crime —ou mesmo bala de chumbo, desde que em profusão. É resposta simples para um problema complexo —e, como tal, errada.

Bookmark and Share

À PROCURA DE INSUSPEITOS NA JUSTIÇA

Conrado Hübner Mendes, Folha de S. Paulo

Uma instituição desinstitucionalizada precisa de outro nome

Procure a coerência jurídica, aquela estabilidade rotinizada que nos permite saber qual rito será seguido

Procure quem não foi a fóruns de Lisboa, não participou de festa em Trancoso, degustação de uísque e charuto em Londres; quem declinou convite à amizade de Vorcaro, Esteves, irmãos Batista, bet-boys; quem evitou frívolas trocas de WhatsApp terminadas em "kkk" com os novos amigos ricos.

Procure agora quem não tem empreendimento privado financiado por empresa interessada no tribunal; ou instituto que vende serviços ao poder público; quem não pegou "carona" em aviões particulares, quem não frequentou camarotes em Mônaco ou em jogo do Real Madrid.

Quão tardia foi a percepção pública da gravidade?

Procure ainda quem não tem parente-advogado enriquecendo através da remuneração de sete a oito dígitos gerada pelo pedágio da família, esse modelo de acesso cordial à Justiça; procure os "advogados-brokers", que entram repentinamente no caso, com ou sem procuração, em parceria com advogados originários da causa, para dar outra velocidade e direção ao processo; pergunte quais qualidades os brokers dispõem para acelerar ou desacelerar ações conforme o cliente.

Procure, enfim, a compostura, a discrição e a linha entre o público e o privado nos tribunais superiores. Aproveite a viagem e fuce também na PGR.

Por último, procure a coerência jurídica, aquela estabilidade rotinizada que nos permite saber qual rito será seguido no processo, qual decisão o ministro deve tomar se respeitar sua decisão de outro dia. Essa senhora está sumida. Anda sumido também o seu parceiro, o argumento jurídico.

Quando esse casal some, os abusos de hoje deixam de ser abusos porque os de ontem criaram precedentes liberatórios do abuso. Num lugar com mais exceção do que regra, como distinguir o abuso da normalidade? Uma instituição desinstitucionalizada precisa de outro nome.

O choque de realidade frustra a expectativa de algum "governo das leis, não dos homens". Dá vitória teórica e empírica aos cínicos. Em vez de Estado de Direito, um estado de confraternidade é operado por parceiros no idioma jurídico da arbitrariedade.

André Mendonça acumula hoje as quatro investigações mais quentes do país. Todos eles exalam o cheiro mais ou menos óbvio de "coisa errada". Envolvem Vorcaro, Flávio Bolsonaro com Banco Master-Dark HorseLulinha, Moraes, Gonet e outros colegas de corte. Os casos não chegaram lá por conexão ou avocação, ou por inquérito que tudo atrai, mas por distribuição aleatória.

Que ele tenha poder monocrático discricionário para dosar nossa dieta pública de notícias escandalosas, um mês antes das eleições, dá uma nova amostra do grau de disfuncionalidade procedimental no STF.

Mas o que fizeram ministros do STF e o PGR nos últimos verões para nos ajudar a mostrar como e por que André está errado? Quando prestaram contas, ouviram críticas, tentaram atenuar excepcionalismos e resgatar alguma normalidade regimental? Como justificaram a especificidade de cada sigilo?

Pois André parece, de fato, estar errado. Parece selecionar e calcular o timing e o elenco da notícia. Mas errado à luz de que padrão? Em que instituição?

Não temos o mapa para restaurar a confiança e a institucionalidade. Daqui se enxerga pouca gente disposta a liderar o processo coletivo. Gente de espírito público, que se organize e assuma risco. Gente elegante, satisfeita com o salário. Que entende a pobreza de um Vorcaro.

Bookmark and Share

OS DEMÔNIOS ESTÃO À SOLTA NO SUPREMO

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

O que importa saber é como e por quem os demônios das ambições serão contidos

Por transparência, todo o sigilo das investigações do Banco Master deve ser levantado

Se os ministros do Supremo fossem anjos, nenhum controle sobre eles seria necessário. Se anjos julgassem a nós, os homens, não seriam necessários controles externos nem internos.
Ao instituir um tribunal que será administrado por homens sobre homens, a grande dificuldade está nisto: primeiro, é preciso capacitar o tribunal para julgar seus jurisdicionados; em seguida, obrigá-lo a controlar a si próprio.

Eis aqui a licença poética de (mal) parafrasear uma das maiores passagens da filosofia política ocidental: James Madison, em "O Federalista", número 51, de 1788.

Não se discute qual autoridade no STF é mais angelical; o que importa saber, na corte e fora dela, é como e por quem os demônios das ambições serão contidos.

Para controlar as ambições existem os ritos.

Por haver procedimentos, atropelar o rito de investigação de um colega, divulgar, à la Moro, de forma seletiva, documentos antes sigilosos, de acordo com o tempo eleitoral, e manter instituto ligado a ministro do STF, não cai bem.

Por transparência republicana, todo o sigilo das investigações do caso Banco Master, inclusive o dinheiro ao filme "Dark Horse", deveria ser levantado.

Por haver regras de parcialidade, editar contrato milionário com banqueiro e manter com ele relação de proximidade, segundo as investigações, não cai bem. Por respeito ao STF, Moraes deveria dar esclarecimentos, ser investigado e, caso se confirme, que seja decidido seu futuro na corte.

Por haver a altivez do cargo, manter relações calorosas com banqueiro não cai bem para altas autoridades da PGR.

Paulo Gonet deve explicar as citações a ele no relatório da PF e justificar quais medidas tomará, se alguma, para que o caso do Banco Master não caia no esquecimento, sob pena de colher os frutos de descrédito da instituição centralizada em sua figura por falta de reforma da PGR pós-Augusto Aras.

Anos de seletividade e aversão a críticas fizeram do STF instituição que corre o risco de descrédito; e quem ganha com isso é quem quer o tribunal vandalizado, não quem o quer de pé e legítimo.

Bookmark and Share

BRIGAS E CRISES AGITAM BRASÍLIA

Míriam Leitão, O Globo

STF vive crise sem precedentes, AGU ignora pedido da PF na briga com André Mendonça. Alexandre de Moraes tem explicações a dar ao país

A maior crise da história do Supremo terá que ser enfrentada pelos ministros com a consciência de que é a confiança na democracia que está em jogo. Se o ministro Alexandre de Moraes, que colocou tantos golpistas na cadeia — um fato inédito no país — não for cobrado pelos indícios fortes de ligações indevidas com Daniel Vorcaro, vai se diluir a confiança na própria instituição. Um dos ingredientes dessa crise é uma guerra aberta entre a Polícia Federal e o ministro André Mendonça. O momento da divulgação não podia ser melhor para o bolsonarismo: falta um mês para o primeiro turno das eleições gerais brasileiras.

Fui a Brasília entender melhor a crise entre a PF e Mendonça. Interlocutores dos dois lados dão versões inteiramente opostas. A Polícia Federal acha que o ministro relator dos casos Master e INSS tem tempos diferentes para a tomada de decisão diante dos requerimentos da investigação. É rápido quando o alvo é da esquerda, é lento quando é para investigar a direita. Nove dias para autorizar a operação contra o senador Jaques Wagner, dois meses e meio para decidir sobre Cláudio Castro, 24 horas para o pedido de inquérito contra Fábio Luís Lula da Silva e 30 dias quando a mesma requisição foi sobre o senador Ciro Nogueira. “Há prazos diferentes e condutas diferentes”, garante uma fonte.

No gabinete do ministro André Mendonça, nega-se o duplo tratamento com a explicação de que são casos diferentes. Sobre Cláudio Castro, por exemplo, houve dúvidas se existia alguém com prerrogativa de foro. Como governador deveria ser o STJ. No caso Dark Horse, o que se diz é que o gabinete ainda aguarda informações pedidas à Polícia Federal.

A PF acha que o ministro exorbitou de suas funções em vários momentos. Por exemplo, quando requereu todo o material bruto e indexado coletado pela PF, o que permitiria buscas específicas e redirecionamento da investigação. No gabinete do ministro, a afirmação que ouvi é que há como provar o tratamento cuidadoso dado ao material.

A Polícia Federal considera que as suas prerrogativas de polícia judiciária estão sendo desrespeitadas e sua autonomia colocada em risco por decisões centralizadoras do ministro André Mendonça. A Advocacia Geral da União foi acionada para defender o órgão e ignorou o pedido da PF. No dia 23 de julho, a Polícia Federal pediu à AGU para recorrer da decisão do ministro sobre esses procedimentos. Dois dias depois, a AGU solicitou esclarecimentos. Eles foram prestados em documento minucioso, em que a Polícia Federal diz que “a disponibilização integral e antecipada dos dados brutos produz diversos riscos e impactos”. Um deles é que o acesso direto do “órgão julgador ao acervo probatório bruto compromete a equidistância e a imparcialidade” do juiz. Em vez de recorrer, a AGU tentou intermediar uma conversa com os dois lados. “O que muda decisão judicial é recurso e não um encontro”, disse um investigador.

No meio desse ambiente conflituoso, o ministro André Mendonça fez o pedido à Polícia Federal para descobrir o interlocutor de uma determinada conversa de Daniel Vorcaro. O relatório da PF mostrou que era Alexandre de Moraes e que o ministro teve, ao todo, 52 conversas. Na segunda-feira, antes de o sigilo ser levantado, Moraes já sabia o que se preparava e foi até ao gabinete de Mendonça. A conversa foi dura. “Foi difícil para os dois lados”, me contou uma fonte.

Mendonça tirou o sigilo do relatório da Polícia Federal antes mesmo de enviar ao presidente do STF. O ministro Edson Fachin divulgou uma nota em que afirma que “os indícios reclamam o devido encaminhamento institucional”, ou seja, ele deve levar o relatório ao plenário. O procurador-geral da República entendeu que tudo isso é nulo porque juiz não pode investigar. Ontem saíram informações sobre encontro de Mendonça com Vorcaro fora do gabinete.

Em resumo, o Supremo está na mais grave guerra interna. Mendonça e Polícia Federal estão em confronto direto. A AGU não defende um órgão do governo. De tudo, o mais grave é o seguinte: o ministro Alexandre de Moraes tem que dar explicações urgentes ao país e deveria estar pensando principalmente no futuro da democracia que ajudou a defender. Para começo de conversa, o contrato entre o escritório Barci de Moraes e Vorcaro jamais deveria ter sido firmado. Vorcaro tinha as mais obscuras intenções quando fez a oferta milionária.

Bookmark and Share