terça-feira, 11 de agosto de 2026

O RETRATO DA CONFRARIA DO ORÇAMENTO SECRETO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Na piscina, a confraria dos independentes, proprietários de bilhões de reais em emendas

A turma representativa – a democracia representativa dos oligarcas do Congresso – aboletada na piscina. O retrato da confraria dos independentes, os autossuficientes. Independentes da República, no sentido de que à margem dos rigores para com a coisa pública, deputados e senadores, sovacos ao alto, unidos e festivos pela perversão autoritária – a propriedade sobre dezenas de bilhões de reais do Orçamento da União, um fundo eleitoral paralelo – que os desobrigou de fazer política e que consagrou o mandato parlamentar como um fim em si mesmo.

O retrato da confraria dos independentes. Vê-se Arthur Lira, em destaque, então presidente da Câmara, soberano do Legislativo e um dos donos do orçamento secreto. Avista-se Juscelino Filho, deputado federal pelo Maranhão, àquela altura ministro das Comunicações de Lula, vip do orçamento secreto cujas emendas pavimentaram estrada que leva até a fazenda da família. Mira-se também o codevásfico Elmar Nascimento, que – para suceder a Lira – fundeava a sua campanha no discurso do orçamento secreto como espécie de direito adquirido do parlamentar.

O retrato da confraria dos independentes, quentinhos no mijão do advogado. Eles se acertam, inconstitucionalmente, entre si, partidos e ideias à parte – para você que briga por ramagens e outros coronéis: eles mergulham juntos, cervejinha à mão, enquanto você rompe com afetos em função de paixões populistas. Willer os une. O advogado, prestador de serviços, dono da piscina. Willer Tomaz.

Onipresente.

Eles: os filhos – produtos – do orçamento secreto na piscina do advogado-empresário. É o que documenta a fotografia que a Polícia Federal encontrou no celular de Weverton Rocha, do PDT maranhense, vicelíder do governo Lula no Senado. Registro de abril de 2023. Está lá, eternizado, o bolsonarista antissistema Alexandre Ramagem. Antissistema de fachada, relaxado no banheirão ecumênico do advogado irmão de Flávio Bolsonaro. Business.

Por suposta fachada, a PF investiga a operação de empresas de Tomaz, o Willer, que transferiram cerca de R$ 11 milhões para a esposa de Weverton, o inquérito ademais apontando indícios de que a casa em que mora o senador, em Brasília, fora comprada pelo advogado. Da revista piauí, que divulgou a foto: “a Polícia Federal, diante desses elementos, suspeita que Weverton e Willer tentavam ‘ocultar ou dissimular a origem’ de dinheiro obtido ilegalmente”.

O advogado-anfitrião, dono da casa em que posaram os independentes das emendas parlamentares, e a intimidade prestativa com esses portentos da República nominal. Padrão.

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APRENDENDO COISA ERRADA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Indivíduos definem seus padrões de comportamento olhando para os pares

Sucessão de escândalos na alta política mostra persistência da corrupção

Onde aprendemos o certo e o errado? Há respostas para todos os gostos. Para alguns, tudo o que é preciso saber acerca do bem e do mal está nas Escrituras. Para outros, é questão de berço: são os pais que ensinam aos filhos o que deve ou não ser feito. Há até quem diga que são os livros de filosofia que cumprem essa função.

Não afirmo que essas explicações estão todas erradas, mas elas me parecem subcasos de uma resposta mais geral. Para saber como devemos nos comportar, nós olhamos para o lado e vemos o que as pessoas costumam fazer. Não é uma coincidência que as palavras "ética" e "moral" derivem respectivamente dos termos grego ("éthe") e latino ("mores") para "costumes". Assim, se você vive numa comunidade religiosa, se comportará como os religiosos a seu lado, que se inspiram numa determinada escola de interpretação da Bíblia. Se vive num bairro afluente de cidade grande, se comportará como seus vizinhos e todos dirão que o padrão foi fixado pela educação recebida no lar.

Gosto dessa resposta porque ela dá conta de diferenças entre povos e da própria história. Explica, por exemplo, por que a escravidão foi aceita como natural durante tanto tempo. Explica até mesmo a mudança. Já comentei aqui o processo de normalização do voto na direita radical.

Fiz esse longo introito para falar de corrupção. No Brasil já não temos um problema de pequena corrupção generalizada, pela qual cidadãos são achacados para conseguir coisas básicas como uma vaga na escola pública ou uma consulta no SUS. Nas altas esferas da política, porém, como atesta a sucessão de escândalos envolvendo os dois polos e os três Poderes, desvios e conflitos de interesse ainda parecem ser a regra. Os agentes olham para o lado, constatam que todos (ou grande parte, ao menos) estão fazendo e se sentem liberados para fazer também.

Operação Lava Jato foi uma tentativa de romper o padrão, mas seus condutores cometeram erros, o sistema reagiu e, realizando a profecia de Jucá, a sangria foi estancada com Supremo e com tudo.

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ORLANDO DIAS - O REI DO BREGA-ROMÂNTICO

Do O 80TISTA

Em 11 de agosto de 2001, há 25 anos, a música popular brasileira perdia Orlando Dias, nome artístico de José Adauto Michiles, um dos personagens mais marcantes da história da canção romântica nacional. Nascido em Recife (PE), em 1º de agosto de 1923, Orlando cresceu cercado pela música: era neto de um violonista e poeta, de quem herdou a vocação artística. Ainda muito jovem, aos 11 anos, começou a se apresentar com o conjunto vocal A Turma dos Onze e, posteriormente, passou pelos programas de calouros e pela Rádio Clube de Pernambuco, onde conquistou espaço como cantor. 🎶🇧🇷

Sua trajetória profissional ganhou novos rumos quando deixou definitivamente o Recife, em 1950, seguindo para o Rio de Janeiro. Em 1952, realizou sua primeira gravação em disco pela Todamérica, iniciando uma carreira que atravessaria décadas. Durante os anos 1960, tornou-se um dos grandes nomes da música popular de forte apelo romântico, alcançando enorme popularidade com canções como “Tenho Ciúme de Tudo”, de Valdir Rocha, lançada em 1961, além de “Com Pedra na Mão”, “Coração de Pedra”, “Perdoa-me pelo Bem que Te Quero” e “Sinfonia da Mata”. 💿❤️🎼

Orlando não era apenas reconhecido pela voz: suas apresentações eram verdadeiros espetáculos. O lenço branco, os gestos dramáticos, a declamação emocionada dos versos e o costume de ajoelhar-se no palco tornaram-se marcas registradas de sua personalidade artística. Ao final das apresentações, costumava acenar para o público com seu inseparável lenço e agradecer às fãs, criando uma identificação que ultrapassava as próprias gravações. Por seu estilo, é considerado um dos precursores do brega-romântico, gênero que ajudou a consolidar na música brasileira. 🎤🧣✨

Ao longo da carreira, lançou diversos LPs, entre eles “Se a Vida Fosse um Sonho Bom” (1963), “O Ator da Canção” (1966), “O Atual” (1968) e “O Cantor Mais Popular do Brasil” (1973). Nos anos 1980, continuou percorrendo o interior do país para divulgar seu trabalho e também realizou apresentações na Europa. Em 1997, revisitou seus grandes sucessos no CD “Vinte Supersucessos”. Sua importância também pode ser percebida na influência exercida sobre artistas como Agnaldo Rayol, Agnaldo Timóteo, Cauby Peixoto e Reginaldo Rossi, que reconheceram a importância de Orlando em suas formações musicais. 🎶🇧🇷

Nos últimos anos de vida, Orlando Dias enfrentava problemas de saúde e sofria de Parkinson. Em 11 de agosto de 2001, dez dias depois de completar 78 anos, morreu no Rio de Janeiro, vítima de um infarto. Seu sepultamento ocorreu no dia seguinte, no Cemitério da Cacuia, na Ilha do Governador. 🕯️🥀

Orlando Dias partiu, mas sua voz permaneceu registrada em discos, rádios, memórias e na história da música popular brasileira. Seu lenço branco, sua interpretação teatral e suas canções de amor fizeram dele um artista único de uma época em que a dor, o ciúme, a paixão e a saudade também encontravam lugar de destaque na música. Hoje, 11 de agosto, a lembrança é para aquele que ficou conhecido como um dos grandes nomes do brega-romântico brasileiro. 🕊️🎙️❤️

📅01/08/1923 — 11/08/2001

🕯️25 anos de saudade, Orlando Dias.

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PARA FLÁVIO BOLSONARO, A MELHOR MULHER É SEMPRE UM HOMEM

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, senador do PP envolvido na teia Master

Escolha do deputado Alfredo Gaspar evidencia o isolamento da candidatura bolsonarista

A escolha do deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) para companheiro na chapa presidencial mostra que, para Flávio Bolsonaro e sua base mais radicalizada, a melhor mulher é sempre um homem.

Toda a busca de meses por uma vice mulher funcionou como tentativa de ganhar tempo diante dos reveses da campanha bolsonarista —as revelações do caso Dark Horse e a ligação íntima do filho 01 com o empresário picareta Daniel Vorcaro. E sobretudo a briga pública com a ex-primeira-dama Michelle, alvo de discursos misóginos nas redes.

O mais incrível é que, durante a operação "Procura-se uma Mulher Desesperadamente", Michelle surgiu como uma das hipóteses para compor a chapa. Outros nomes de uma lista quase interminável: Daniella Marques (Republicanos), economista apontada como o "Posto Ipiranga" de Flávio Bolsonaro, Bia Kicis (PL-DF), Júlia Zanatta (PL-SC), Simone Marquetto (PP-SP), Priscila Costa (PL-CE), Clarissa Tércio (PP-PE) e, não por último, Tereza Cristina (PP-MS), tida como a "vice dos sonhos" por seu diálogo com o agronegócio.

Não tem tu, vai tu mesmo. Não foi apenas a falta de vontade política que determinou a opção por Gaspar, relator da CPMI do INSS, que será usado para reforçar o assunto Lulinha na campanha. Decidida menos de 24 horas antes do anúncio, a indicação evidenciou o isolamento do filho 01, que não conseguiu atrair a ala fisiológica que se disfarça sob o apelido de centrão. Ao adotar a neutralidade, a cúpula do Progressistas vetou a chance de composição com Tereza Cristina.

O verdadeiro vice dos sonhos sempre foi Ciro Nogueira, conforme Flávio Bolsonaro admitiu ao se lançar candidato. Quando o senador do PP entrou na mira da Polícia Federal por envolvimento na teia Master, o 01 tentou amenizar a fala, classificando-a como "cortesia".

Após rasgar a máscara de moderado, Flávio está mais à vontade para dizer o que pensa. A declaração sobre o futuro das filhas é um exemplo perfeito: "Quando eu ficar velhinho, eu vou ter quem vai tomar conta de mim porque as mulheres são assim".

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O BRASIL NÃO ESTÁ SÓ

Artigo de Fernando Gabeira

A revogação do visto da embaixadora em Washington é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os EUA vêm tomando

Um autor argentino que nos visitou recentemente mandou mensagens para os amigos, lamentando os ataques de Milei a autoridades brasileiras. Segundo ele, essas patacoadas não representam grande parte do país.

Não há dúvida de que nem todos na Argentina aprovam a forma como Milei expressa suas posições. Assim como não deve haver dúvida de que os Estados Unidos não apoiam, em sua maioria, as escaramuças diplomáticas que o governo Trump usa contra o Brasil.

Para começar, as próprias tarifas aplicadas ao Brasil e a outros países sofrem grande resistência interna. Vinte e cinco estados americanos entraram na Justiça condenando a decisão de Trump de taxar sob o argumento de que os países não combateram adequadamente o trabalho forçado. Os estados governados por democratas consideram a taxação contrária à lei.

Nas escaramuças diplomáticas, o Brasil não está só. A revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti é apenas uma decisão arbitrária entre muitas que os Estados Unidos vêm tomando.

A França sofre o mesmo tipo de pressão. O embaixador Aurélien Lechevallier não consegue receber o agrément de Trump. A razão: a delegação francesa criticou um voto americano na ONU, contrário à renovação do mandato do alto comissário de Direitos Humanos, Volker Türk. Os Estados Unidos votaram com Rússia, Coreia do Norte e Nicarágua, e os franceses fizeram aquele clássico comentário: quem te viu, quem te vê.

O caso mais grave aconteceu com o embaixador da África do Sul nos Estados Unidos. Ebrahim Rasool fez postagens no X criticando o movimento de supremacia branca. Associou as críticas de Trump à África do Sul, por suposta perseguição aos brancos, à tentativa de enfraquecer um país que luta contra o supremacismo.

Aqui no Brasil, o país examina o agrément para o embaixador de Trump, Daniel Perez. O Brasil se apoia na Convenção de Genebra, e Trump há muito deu um pontapé em todas as regras internacionais. Ele mesmo declarou que se orienta pela própria cabeça, e não por convenções internacionais.

Estamos falando uma língua diferente de Trump. Mas não estamos sós. Neste momento, toda a querela com o governo americano fortalece a campanha de Lula. É razoável que seja usada como trunfo eleitoral.

Mas eleições passam. E Trump continua por lá, possivelmente tentando eleger Vance ou Marco Rubio. É preciso pensar nesse longo prazo e nas inúmeras dimensões preparatórias que ele pede. Soberania transcende a palanques e discursos inflamados.

Neste momento, já é necessário compreender que não estamos sós, ampliar relações comerciais, alianças políticas e contar com mudanças nos Estados Unidos. Por meio de uma simples alteração na correlação de forças nas eleições de novembro, Trump pode perder uma das Casas do Parlamento. E não mais será o mesmo. Não terá paz para isso.

Artigo publicado no jornal O Globo em 11 / 08 / 2026

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AUTONOMIA FINANCEIRA DÁ LUGAR ÀS ALIANÇAS PARTIDÁRIAS

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Novas regras eleitorais e financiamento público desestimulam coligações na disputa à Presidência

Na base do cada um por si no plano nacional, partidos investem nos estados para crescer no Congresso

Nesta eleição, está combinado, a maioria dos partidos vai jogar separado. Só o PT entra na disputa presidencial do jeito tradicional, coligado a seis legendas: PSB, PSOL-Rede, PDT, PV e PC do B.

Não deixa de ser uma ironia o partido com vocação a protagonista, cuja política de alianças só foi aceita por imposição da realidade, ser o único que concorre acompanhado. No campo limitado à esquerda, é verdade, mas ali com um Geraldo Alckmin (PSB) na figuração do centro.

Sabemos, contudo, que a força da candidatura não está nos aliados; está onde sempre esteve nas últimas décadas: em Lula. Fosse outro o candidato e não ocupasse a Presidência, provavelmente nem essa aliança existiria.

Alterações nas regras eleitorais e no equilíbrio de forças entre Executivo e Legislativo mudaram a cena. Acabaram as coligações proporcionais, os partidos têm autonomia financeira, há uma barreira de desempenho a ser ultrapassada e pouco a disputar no plano nacional onde imperam os eleitorados cativos dos favoritos.

Manifestam-se preocupações entre os espectadores da política com o fato de ser esta a primeira eleição desde a volta das diretas a praticamente não ter alianças na corrida ao Palácio do Planalto. Mas ninguém explicita qual o risco presumidamente embutido; por acaso a fartura anterior de coligações influiu para melhor ou pior na performance dos dois Poderes em questão?

A suspeita é que o critério de análise esteja superado. Considerando que fidelidade partidária e identificação doutrinária foram critérios de ferro e fogo, o que vemos de novo é a remoção do verniz da teoria para dar lugar à corriqueira prática, agora sem as máscaras.

Não é real a alegada neutralidade, pois há engajamento frenético nos estados. onde grassam as alianças. Nas diferentes bases, os partidos preferem apostar na eleição de grande quantidade de congressistas.

Cabe ao eleitorado acionar o modo olho vivo e faro fino para investir na melhoria da qualidade dos respectivos representantes.

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segunda-feira, 10 de agosto de 2026

AMADO, JORGE AMADO

Jorge Amado nasceu a 10 de agosto de 1912, na fazenda Auricídia, no distrito de Ferradas, município de Itabuna, sul do Estado da Bahia. Filho do fazendeiro de cacau João Amado de Faria e de Eulália Leal Amado.

Com um ano de idade, foi para Ilhéus, onde passou a infância. Fez os estudos secundários no Colégio Antônio Vieira e no Ginásio Ipiranga, em Salvador. Neste período, começou a trabalhar em jornais e a participar da vida literária, sendo um dos fundadores da Academia dos Rebeldes.

Publicou seu primeiro romance, O país do carnaval, em 1931. Casou-se em 1933, com Matilde Garcia Rosa, com quem teve uma filha, Lila. Nesse ano publicou seu segundo romance, Cacau.

Formou-se pela Faculdade Nacional de Direito, no Rio de Janeiro, em 1935. Militante comunista, foi obrigado a exilar-se na Argentina e no Uruguai entre 1941 e 1942, período em que fez longa viagem pela América Latina. Ao voltar, em 1944, separou-se de Matilde Garcia Rosa.

Em 1945, foi eleito membro da Assembléia Nacional Constituinte, na legenda do Partido Comunista Brasileiro (PCB), tendo sido o deputado federal mais votado do Estado de São Paulo. Jorge Amado foi o autor da lei, ainda hoje em vigor, que assegura o direito à liberdade de culto religioso. Nesse mesmo ano, casou-se com Zélia Gattai.

Em 1947, ano do nascimento de João Jorge, primeiro filho do casal, o PCB foi declarado ilegal e seus membros perseguidos e presos. Jorge Amado teve que se exilar com a família na França, onde ficou até 1950, quando foi expulso. Em 1949, morreu no Rio de Janeiro sua filha Lila. Entre 1950 e 1952, viveu em Praga, onde nasceu sua filha Paloma.

De volta ao Brasil, Jorge Amado afastou-se, em 1955, da militância política, sem, no entanto, deixar os quadros do Partido Comunista.

Dedicou-se, a partir de então, inteiramente à literatura. Foi eleito, em 6 de abril de 1961, para a cadeira de número 23, da Academia Brasileira de Letras, que tem por patrono José de Alencar e por primeiro ocupante Machado de Assis.

A obra literária de Jorge Amado conheceu inúmeras adaptações para cinema, teatro e televisão, além de ter sido tema de escolas de samba em várias partes do Brasil. Seus livros foram traduzidos para 49 idiomas, existindo também exemplares em braile e em formato de audiolivro.

Jorge Amado morreu em Salvador, no dia 6 de agosto de 2001. Foi cremado conforme seu desejo, e suas cinzas foram enterradas no jardim de sua residência na Rua Alagoinhas, no dia em que completaria 89 anos.

A obra de Jorge Amado mereceu diversos prêmios nacionais e internacionais, entre os quais destacam-se: Stalin da Paz (União Soviética, 1951), Latinidade (França, 1971), Nonino (Itália, 1982), Dimitrov (Bulgária, 1989), Pablo Neruda (Rússia, 1989), Etruria de Literatura (Itália, 1989), Cino Del Duca (França, 1990), Mediterrâneo (Itália, 1990), Vitaliano Brancatti (Itália, 1995), Luis de Camões (Brasil, Portugal, 1995), Jabuti (Brasil, 1959, 1995) e Ministério da Cultura (Brasil, 1997).

Recebeu títulos de Comendador e de Grande Oficial, nas ordens da Venezuela, França, Espanha, Portugal, Chile e Argentina; além de ter sido feito Doutor Honoris Causa em 10 universidades, no Brasil, na Itália, na França, em Portugal e em Israel. O título de Doutor pela Sorbonne, na França, foi o último que recebeu pessoalmente, em 1998, em sua última viagem a Paris, quando já estava doente.

Jorge Amado orgulhava-se do título de Obá, posto civil que exercia no Ilê Axé Opô Afonjá, na Bahia.

Da Fundação Casa de Jorge Amado

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BATISMO DE SANGUE

Há exatos 52 anos, prestes a completar 29 anos, morria o homem que foi o símbolo da luta pelos direitos humanos na ditadura militar: Tito de Alencar Lima, conhecido como Frei Tito.

Enforcou-se na zona rural do convento de L’Arbresle, nos arredores de Lyon, França, já enlouquecido pelo trauma de ter passado 14 meses nos porões da ditadura militar.

A tragédia que tirou a vida do frei acontecera na noite do dia dez de agosto de 1974, quando a repressão da qual ele foi vítima ainda continuava a prender, torturar e assassinar no Brasil.

Pensei em iniciar este resumo com os nomes dos seus torturadores conhecidos, porém a náusea não me permitiu.

Desde muito novo Tito concluíra que só a vida religiosa daria sentido luminoso aos seus passos e que só na Igreja – consoante visões febris de Isaias – viria fazer justiça aos pobres da terra. Para ele, a Igreja não é templo dos ricos; ao contrário, é ainda a fraternidade subversiva das catacumbas romanas, sem profanações do dinheiro, e para sempre incumbida da construção de um futuro de justiça e liberdade, do futuro sem peias, quando Deus mesmo estará com seu povo.

Em 1969, Tito cursava Filosofia na Universidade de São Paulo e já tinha em seu currículo um histórico de militância: fora dirigente regional e nacional da Juventude Estudantil Católica, um dos movimentos de vanguarda da militância cristã da época.

Na madrugada do dia 3 para o dia 4 de novembro, Tito foi preso junto com outros dominicanos no convento em que morava pela equipe do delegado Sérgio Paranhos Fleury, seu primeiro torturador. Nesse dia, a sua igreja lhe faltou.

Entre os presos estava Frei Betto, suspeito de participar de um esquema comandado pelo líder da Aliança Libertadora Nacional (ALN), Carlos Marighella, grande vulto brasileiro que pregava a luta armada. Começava, assim, o martírio de Frei Tito e dos seus irmãos. Como instrumento de intriga, os agentes da repressão espalharam a história que os dominicanos traíram os participantes da ALN, sendo este mal entendido esclarecido apenas em 1982, com a publicação do formidável Batismo de Sangue, livro do frei Betto.

Foram vários meses de horrores e vilanias. “Se sobreviver, jamais esquecerá o preço de sua valentia”, disse-lhe um torturador. O frade dominicano passou pelo pau-de-arara, sentou na cadeira do dragão e recebeu choques elétricos na cabeça, nos ouvidos e nos tendões do pé.

Deram-lhe pauladas nas costas, no peito e nas pernas, incharam suas mãos com palmatória, revestiram-no de paramentos e o fizeram abrir a boca "para receber a hóstia sagrada" - descargas elétricas na boca. Queimaram pontas de cigarro em seu corpo e fizeram-no passar pelo "corredor polonês". Apesar da intensa tortura que sofrera, Frei Tito nunca falou. “É preferível morrer do que perder a vida”, anotou em sua Bíblia, depois que um de seus torturadores avisou que, se não falasse, seria quebrado por dentro.

Em janeiro de 1971, foi banido do país; voou para o Chile e, depois, para Roma, Paris e Lyon. Mas o sonho da morte o habitava. A tortura que sofrera no Brasil havia rebentado seu espírito e continuava atormentando-o sem parar. “Longe vem o retirante... vem dizer que nos esquecemos de amar”, ele disse nos poemas. Tito sentia “um silêncio de Deus”. Certa vez, escreveu: “Não busco o céu, mas talvez a terra, um paraíso perdido”. Mas, o paraíso na terra estava perdido para sempre: em agosto de 1974 Frei Tito livra-se da tortura e morre, na certeza de poder viver depois da morte.

Na cruz que lhe coube entre os bosques de L’Arbresle, está gravado: "Frei da Província do Brasil. Encarcerado, torturado, banido, atormentado até a morte, por ter proclamado o Evangelho, lutando pela libertação de seus irmãos. Tito descansa nesta terra estrangeira".

A inscrição termina com estas palavras cortantes de Lucas: “Digo-vos que, se os discípulos se calarem, as próprias pedras clamarão”.

Em 1970, sob custódia da “Operação Bandeirantes”, frei Tito escreveu sobre a sua tortura num documento que rodou o mundo, tornando-se um dos símbolos da luta pelos direitos humanos na ditadura. Quando foi solto, em dezembro do mesmo ano, pediu exílio no Chile, de onde seguiu para Itália e França.

As feridas de seu corpo cicatrizaram, mas as torturas deixaram marcas incuráveis em sua alma. Era constantemente atormentado pelos fantasmas do passado, via Fleury em todos os lugares, ouvia suas ameaças. Fez terapia, mas de nada adiantou: seus traumas eram demasiadamente profundos. Enlouquecido, sozinho, atormentado, Tito morreu sob a copa de um álamo. “Se minha alma está morta, quem a ressuscitará?”, escrevera ele pouco antes de morrer. Esse discípulo não se calou. Afirmou seus princípios no paraíso da meninice, nos longos dias de combate e no inferno que finalmente o consumiu.

Quando, só em 25 de março de 1983, o corpo de Frei Tito chegou ao Brasil, foi realizada em São Paulo uma missa de corpo presente acompanhada por mais de 4 mil pessoas.

Fontes: jornais e Grupo Tortura Nunca Mais.

Conteúdo do blog Ainda Espantado

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O LIMITE DESIGUAL DAS DOAÇÕES ELEITORAIS

Lara Mesquita, Folha de S. Paulo

Ao permitir que doadores repassem até 10% da renda, a lei transforma desigualdade econômica em desigualdade de influência política

Há um abismo entre doações dos cidadãos comuns e aqueles capazes de movimentar milhões de reais

Passadas as convenções e definidas as candidaturas, as atenções se voltam para o financiamento das campanhas eleitorais. Os fundos públicos respondem hoje pela maior parte do financiamento eleitoral —67,7% dos recursos em 2018 e 81,4% em 2022—, mas ainda há espaço para doações privadas.

Rodrigo Tamussino Roll defendeu recentemente dissertação de mestrado dedicada à análise das estratégias dos doadores de campanhas eleitorais no Brasil, no Instituto de Estudos Sociais e Políticos da UERJ.

A pesquisa identifica quatro tipologias de doadores, a partir da dispersão das doações entre cargos e estados e entre campos ideológicos. Nos extremos estão os pragmático-dispersos, que financiam candidaturas de diferentes ideologias, cargos e estados, e os ideológico-concentrados, que restringem as contribuições a um mesmo campo ideológico e a poucos alvos eleitorais.

Até a proibição das doações empresariais, em 2015, as empresas respondiam por quase 91% dos recursos do grupo pragmático-disperso. Já os ideológico-concentrados são majoritariamente pessoas físicas.

Os dois perfis são muito diferentes também financeiramente. Embora os pragmáticos representem cerca de 1% dos doadores, respondem por aproximadamente 34% do valor privado doado.

O grupo ideológico, por sua vez, representa cerca de 96% dos doadores e suas doações concentram-se em valores baixos. Esses doadores têm maior preferência por candidaturas de direita e a cargos do Legislativo. Dados do TSE consultados mostram que a doação mediana desse grupo foi de R$ 1.394 em 2018 e caiu para praticamente R$ 2,21 em 2022. Mas essa é apenas uma face da moeda.

Entre as pessoas físicas, porém, há superdoadores capazes de movimentar milhões de reais e distribuir recursos entre diferentes candidaturas ao Executivo e ao Legislativo.

Por exemplo, Rubens Ometto (Cosan) doou R$ 8 milhões em 2018; os irmãos Pedro e Alexandre Grendene destinaram, juntos, mais de R$ 11,5 milhões a candidatos em 2022; Salim Mattar (Localiza) doou R$ 4,1 milhões em 2018. São exemplos da escala que doações individuais podem alcançar.

Há um abismo entre as doações dos "cidadãos-comuns" e dos "superdoadores". Enquanto os primeiros contribuem majoritariamente com valores simbólicos, a elite usa a doação pessoal como ferramenta de acesso e influência, ocupando o papel que as empresas exerciam até serem proibidas de doar em 2015.

A proibição das doações empresariais, em 2015, retirou as empresas da disputa, mas não eliminou a possibilidade de grandes concentrações privadas. Pessoas físicas continuam podendo doar até 10% dos rendimentos brutos declarados no ano anterior à eleição.

Na prática, esse limite autoriza tetos muito diferentes. Para quem recebeu R$ 100 mil em 2025, o máximo é R$ 10 mil; para quem recebeu R$ 100 milhões, são R$ 10 milhões. Na prática, esse teto apenas acentua as desigualdades de uma sociedade tão desigual quanto a brasileira.

Apenas um teto nominal, fixo e igual para todos, preservaria a doação cidadã e reduziria a capacidade de uma pequena elite de exercer influência financeira desproporcional sobre as campanhas. Essa mudança poderia até reabrir a discussão sobre doações de empresas, mas esse já é assunto para outra coluna.

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'O CONTO DE AIA' EM VERSÃO BRASILEIRA

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Na ficção, uma das formas de opressão feminina é a supressão de direitos civis e políticos

Democracia requer a participação de todos os segmentos da sociedade, o que, por óbvio, inclui as mulheres

voto feminino tem o poder de decidir as eleições gerais de 2026. Quase 84 milhões dos eleitores aptos a irem às urnas (53%) são mulheres (TSE). Entre elas, pretas e pardas são maioria, considerando a demografia: 28% das brasileiras são negras (IBGE).

Mas, num país machista, misógino e racista, tamanho poder em mãos femininas (e negras) incomoda e desagrada a muita gente. A ponto de deflagrar uma campanha disparatada contra o voto feminino e em defesa de uma dita "democracia familiar".

Olhando em perspectiva, fica evidente que a controvérsia instalada por um segmento bem determinado na sociedade brasileira faz oposição à autonomia feminina conquistada nas últimas décadas. Não por acaso, a tal da "democracia familiar" está centrada num padrão de família nuclear no qual mulheres se submetem aos homens.

Historicamente, a participação feminina no cenário público (o que inclui os direitos políticos) foi rejeitada por séculos. É como se política não fosse assunto de mulher. Esse entendimento (absurdo e equivocado) se fez presente mundo afora.

Por estas terras, a tradição "mansa e pacífica" de negar às mulheres o direito de votar e ser votada só começou a mudar com o Código Eleitoral de 1932, há menos de 100 anos. E, ainda assim, o sufrágio feminino não era obrigatório, uma discricionariedade que mantinha as mulheres afastadas do processo eleitoral por uma série de razões, entre as quais destaco o jugo masculino.

Pensando na atual investida contra o voto feminino, lembrei do livro "O Conto da Aia", escrito pela canadense Margaret Atwood, que deu origem a uma série assustadora para quem preza a democracia e valoriza os direitos humanos.

Na ficção, uma das formas de opressão feminina é a supressão de direitos civis e políticos —inclusive com o apoio de certas mulheres. Qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. Democracia requer a participação de todos os segmentos da sociedade, o que, por óbvio, inclui as mulheres.

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CONTRA O GODZILLA DIGITAL

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Na Flórida, um jovem dependente das redes sociais obriga o TikTok a propor um acordo

Assim como os fabricantes de bebidas e cigarros, as redes sociais sabem do mal de seus produtos

Nos EUA, é assim. Quando um caso judicial é encerrado mediante "acordo", significa que a parte acusada, sabendo que vai perder, interrompe o processo e consegue abafar a história por um bom dinheiro em sigilo para o acusador. Que vantagem ela leva nisso? Impede que uma derrota pública deságue numa hemorragia de outros processos do gênero. O TikTok, por exemplo, acaba de fazer um "acordo" com um jovem de 15 anos, residente na Flórida, que acusou a rede social de danos à sua saúde mental causados pela dependência aos seus recursos.

É o segundo "acordo" que o garoto aceitou —o anterior, há alguns meses, foi com o Google, e pelos mesmos motivos. Mas ele ainda tem mais dois em andamento, contra o Meta e o Snapchat, e não importa que, em vez de vencê-los, ele aceite mais "acordos". Ficará caracterizado que as redes sociais podem ser desafiadas por quem sinta sua saúde lesada por elas. O julgamento já está em curso em Los Angeles e, de seu resultado, devem pipocar inúmeras ações acusando as redes de provocar dependência psíquica.

Alguém dirá que o garoto é um esperto aproveitador e que, se não quisesse que as redes sociais lhe provocassem dependência, era só "saber usá-las". Assim como acontece com o álcool e as drogas, os leigos acreditam que seja uma questão de moderação, "força de vontade". Não aceitam que, uma vez instaurada a dependência, não se trata mais de saber ou não usá-los, e muito menos com moderação. O dependente não tem escolha —por isso é dependente— e ninguém está a salvo de se tornar um.

Os fabricantes de bebidas e cigarros e os traficantes de drogas sabem do que seus produtos são feitos e os efeitos que provocam a médio prazo. Tanto quanto eles, as redes sociais também sabem do estressedepressãoansiedade, insatisfação com o próprio corpo, ideias suicidas, submissão à luz da tela, pavor de se ver sem o celular e outras consequências de seu uso, mesmo "moderado". É o que as torna trilionárias.

Um jovem luta contra o Godzilla digital. Eu torço por ele.

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DO CAÇADOR DE EMPREGOS À CAPTURA DO ESTADO

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Concurso público conteve o clientelismo no ingresso, mas não a apropriação política dos postos de comando

Os políticos podem preferir coletivamente uma burocracia imparcial, mas hesitam em se desarmar primeiro

"Um cargo ou a sua vida!": esses eram os dizeres de um cartaz empunhado por Charles Guiteau, assassino do presidente americano James Garfield, em uma charge publicada pela revista Puck em 1881. A legenda o apresentava como "o caçador de emprego modelo". Guiteau atentou contra Garfield por acreditar que seu apoio à campanha lhe dava direito a um alto cargo público —expectativa frustrada.

O episódio teve papel decisivo na aprovação, em 1883, do Pendleton Act, marco do recrutamento meritocrático no serviço público federal americano. Mas o que interessa não é a emergência de reformas, mas, sim, sua sustentabilidade.

Escândalos abrem janelas de oportunidade; não garantem que as mudanças se consolidem. Em uma democracia, a reforma dificilmente "pega" quando uma força política controla de forma duradoura e desproporcional os recursos de patronagem. Quem está no poder recorre às nomeações para recompensar aliados e ganhar eleições. Por que renunciaria a essa vantagem?

Se duas forças políticas controlam parcelas semelhantes dos empregos públicos, ambas sacrificariam recursos equivalentes caso o patronato fosse restringido. Ao apoiar a reforma, nenhuma concederia vantagem decisiva ao adversário. Cada uma poderia preferir eliminar uma disputa onerosa por cargos e reivindicar o crédito por um governo mais íntegro e eficiente.

O argumento se assemelha a um dilema do prisioneiro. Os políticos podem preferir coletivamente uma burocracia imparcial, mas hesitam em se desarmar primeiro. Um partido que renuncie às nomeações enquanto seus adversários as conservam corre o risco de ser derrotado. As regras de recrutamento por mérito funcionam, assim, como mecanismo de desarmamento mútuo. A reforma se torna mais provável quando as principais forças esperam perdas semelhantes e nenhuma teme ficar em desvantagem. Barbara Geddes encontrou esse padrão na América Latina; Michael Ting e coautores identificaram mecanismo semelhante nos estados americanos.

O Brasil seguiu trajetória pioneira e peculiar. O concurso apareceu na Constituição de 1934, mas sua implantação ganhou impulso sob o Estado Novo, sobretudo com a criação do DASP, em 1938. A experiência autoritária instituiu núcleos burocráticos profissionais. Com a democracia do pós-guerra, esses núcleos sobreviveram, embora a profissionalização tenha avançado de forma desigual. A Constituição de 1988 generalizou o concurso para estados e municípios como regra de ingresso.

O resultado, contudo, não foi a substituição do patrimonialismo pela meritocracia, mas sua acomodação. Consolidaram-se carreiras profissionais e burocracias setoriais —"ilhas meritocráticas", sobretudo no nível federal. Ao mesmo tempo, cargos de comando e decisão nos três Poderes continuaram permeáveis a redes partidárias, familismo e interesses escusos.

Nos estados e municípios, contratações temporárias, excesso de comissionados e outras portas laterais pouco republicanas mantiveram vivo o clientelismo e a corrupção. Essa combinação é a característica central do Estado brasileiro: mérito no acesso à parte expressiva da burocracia, patronagem na disputa pelo seu controle, como mostrei aqui. É ela que sustenta o novo mote do sicário: "A decisão ou sua vida".

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domingo, 9 de agosto de 2026

LIVRO TRAÇA UMA RADIOGRAFIA DA TRADIÇÃO ANTI-IGUALITÁRIA NOS EUA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais

Encarnação mais recente é a dos bilionários do Vale do Silício

"Consideramos estas verdades como evidentes por si mesmas, que todos os homens são criados iguais, dotados pelo Criador de certos direitos inalienáveis, que entre estes estão a vida, a liberdade e a busca da felicidade". Essas belas palavras estão na Declaração de Independência dos EUA, de 1776. Mas entre o que se escreve e o que se pratica pode haver um abismo. O princípio fortemente igualitário que animou a revolução americana não se aplicava a negros, por exemplo. A escravidão só foi oficialmente banida em 1865.

Em "Country of Lords", a historiadora Kim Phillips-Fein (Columbia) não chega a afirmar que o ideal de igualdade nunca passou de uma balela, mas mostra que, desde o início, ele se fez acompanhar de um discurso e uma tradição política anti-igualitários, que seguem até nossos dias.

A primeira encarnação do anti-igualitarismo aparece já entre os "founding fathers". John Adams, o segundo presidente, liderava a ala dos aristocratas naturais, para os quais havia uma hierarquia social que não poderia ser rompida sem grande perigo. Eles se esforçaram para criar os mecanismos constitucionais que diluíam a participação popular na tomada de decisões.

Aos aristocratas naturais seguiram-se darwinistas sociais, racistas utilitaristas, evangelistas da produção e meritocratas de mercado. A mais recente manifestação de anti-igualitarismo é a que vem de bilionários do Vale do Silício, como Peter Thiel e Elon Musk. Para todos esses grupos, ainda que com nuances, os talentos das pessoas variam, de sorte que a distribuição do poder político também precisa variar. Os mais capazes devem ter mais poder.

É complicado. Até acompanho a ideia de que talentos e aptidões variam. É um dado da realidade. Mas não consigo ver um argumento razoável para sustentar que a loteria cósmica das habilidades justifique tratamento legal diferenciado ou privação do poder político. Já experimentamos isso ao longo da história e não funcionou. Pelo menos não para os amplos contingentes de excluídos.

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MENTIRAS DE NIKOLAS SOBRE FAUCI SÃO BOA OPORTUNIDADE PARA LEMBRAR DE BOLSONARO NA PANDEMIA

Celso Rocha de Barros, Folha de S. Paulo

No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras

Foram dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão

O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG) gravou um vídeo dizendo que os diários de Anthony Fauci provam que Jair Bolsonaro tinha razão quando defendeu a cloroquina e se opôs à vacinação, ao isolamento social e ao uso de máscaras durante a pandemia da Covid-19. Como todo parágrafo que começa com "Nikolas Ferreira gravou um vídeo", esse também termina com "era tudo mentira".

Nada disso está nos diários de Fauci. Se você duvida, consulte sua agência de fact-checking favorita.

Mesmo assim, agradeço a Nikolas por trazer a Covid-19 de volta ao debate público brasileiro. É uma ótima oportunidade para mostrar que Bolsonaro matou mais gente do que pensávamos.

Já citei aqui algumas vezes o número de 700 mil mortes totais, sendo um mínimo de 100 mil mortos por culpa de Jair durante a pandemia por falta de vacina. São cálculos feitos com números produzidos pelo próprio governo Bolsonaro.

O "mínimo de 100 mil mortos" é baseado na estimativa do epidemiologista Pedro Halal. Usando um modelo estatístico com premissas bastante favoráveis a Bolsonaro, Halal estimou em 95 mil os mortos entre janeiro e junho de 2021 por falta de vacina só entre janeiro e junho de 2021.

Na verdade, o número total de mortes é mais próximo de 900 mil. Esse é o número de "mortes em excesso" ("excess deaths") ocorridas no Brasil durante a pandemia: isto é, quanta gente morreu a mais do que seria normal, dado o padrão histórico e o que sabemos sobre o número de mortes por outras doenças (que permaneceu igual).

A estimativa do número de mortos por falta de vacina no primeiro semestre de 2021, auge da segunda onda da Covid-19, também aumentou. Usando um modelo estatístico com 24 variáveis explicativas, uma equipe liderada pelo professor de matemática aplicada da FGV-SP Eduardo Massad estimou em 145 mil o número de mortes que teriam sido evitadas se o Brasil tivesse começado a vacinar o mais cedo possível, com todas as ofertas de vacina que Jair recusou.

No auge da segunda onda da pandemia, mais de 30% das pessoas que morriam de Covid-19 no mundo eram brasileiras. Só 2,7% dos seres humanos são brasileiros.

O que isso quer dizer? Os mortos por causa de Jair Bolsonaro são mais que o dobro, e talvez o triplo, do número de brasileiros que morreram na Guerra do Paraguai (cerca de 50 mil). São dois Maracanãs cheios de mães, pais, filhos, avós brasileiros, que teriam sido salvos se Jair tivesse apertado um botão. Jair não apertou.

Fica pior.

Quando Jair começou a implementar sua política de "imunidade de rebanho" —deixar a população adquirir imunidade pós-contágio e que se dane quem morrer– a vacina ainda não havia sido descoberta. Se João Doria não tivesse corrido atrás de vacina em São Paulo, o ritmo da vacinação no Brasil seria ainda menor. Quantos Bolsonaro teria matado se não tivesse sido impedido pela descoberta da vacina e pelo governador de São Paulo?

Por justiça poética, a polícia conseguiu as provas do golpe de 2022 quando Mauro Cid foi preso por falsificar um certificado de vacina para Bolsonaro.

Nikolas Ferreira nos lembra que, se a direita vencer a próxima eleição presidencial, a anistia aos golpistas garantirá que nem a justiça poética será aplicada aos assassinos da pandemia.

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O 'COMUNISTA' DE TRUMP

Dorrit Harazim, O Globo

Pelo receituário do presidente dos EUA, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário

Cassius Clay tinha só 22 anos e uma insolência já borbulhante quando proclamou, na histórica noite de 25 de fevereiro de 1964:

— Sou o rei do mundo! Sou lindo e malvado! Eu sacudi o mundo.

Era verdade. Ele acabara de derrotar por nocaute técnico o campeoníssimo Sonny Liston, favorito absoluto nas casas de apostas globais. O feito no ringue fez dele muito mais que um fenômeno do boxe — tornou-se força cultural duradoura. Nove dias depois, anunciou ao mundo sua conversão ao islamismo e passou a se chamar Muhammad Ali.

O sanitarista americano Abdul El-Sayed, nascido no estado de Michigan 42 anos atrás, não precisou trocar de nome — Abdulrahman Mohamed El-Sayed é muçulmano de berço. Suas primeiras palavras ao saber que será o nome do Partido Democrata para disputar uma cadeira no Senado, em novembro próximo, foram inspiradas em Ali:

— Nós sacudimos o mundo.

O mundo, ele e seus eleitores não sacudiram, mas o neurastênico cenário político-partidário americano, certamente. El-Sayed saiu-se vencedor nas primárias da terça-feira passada montado num programa arriscado, por progressista e populista:

1) A favor da abolição do ICE (o Serviço de Imigração e Controle Aduaneiro que, sob o governo de Donald Trump, atua como caçador de imigrantes sem documentação regularizada);

2) A favor da ampliação do esquálido seguro hospitalar e médico, o Medicare, que nos Estados Unidos contempla apenas contribuintes com mais de 65 anos e portadores de deficiências;

3) Radicalmente oposto a qualquer ajuda dos Estados Unidos ao governo de Israel;

4) A favor de mais impostos para os mais ricos e contra o predomínio do dinheiro sobre o exercício da política.

El-Sayed teve por adversária Haley Stevens, uma experiente congressista moderada de quatro mandatos no Capitólio. Ela contou com o apoio ostensivo do establishment democrata — a mesma liderança partidária que, há anos encastelada, acumula erros e foi perdendo o pulso da nação. Não fosse o incontornável senador Bernie Sanders, que aos 84 anos continua sendo o grande ícone mobilizador do eleitorado jovem e progressista, El-Sayed talvez não tivesse alcançado o 1% de votos que faltou a Stevens.

Contudo coube ao poderoso lobby pró-Israel agrupado sob a sigla Aipac (Comitê Americano de Assuntos Públicos de Israel) o inglório papel de goleador contra a candidatura que apoiava. A derrama de mais de US$ 30 milhões na campanha da congressista que se orgulha de ser sionista bateu de frente com os itens 3 e 4 do programa de El-Sayed. Afugentou um eleitorado democrata cada vez menos disposto a defender Israel acima de tudo, como se a desumanização de Gaza e a metódica erradicação da vida palestina na Cisjordânia não existissem. A sigla Aipac começou a tornar-se tóxica quando acoplada a candidaturas democratas — segundo divulgou o New York Times na semana passada, a palavra “Israel” praticamente sumiu da maioria das peças de propaganda eleitoral financiadas pela entidade. A causa agora atende pelo nome de United Democracy Project.

Por ora, a maioria dos analistas dá como pouco provável a eleição do epidemiologista e Rhodes Scholar El-Sayed em novembro — ele seria o primeiro muçulmano a ocupar assento no Senado dos Estados Unidos. Até porque o estado de Michigan, como um todo, é um dos campos eleitorais mais imprevisíveis e cambiantes do país (Trump saiu-se vencedor em 2016, perdeu em 2020 e venceu em 2024, sempre com margens apertadíssimas).

Para o ocupante da Casa Branca, El-Sayed é “esse comunista que odeia os judeus e Israel”, fácil de ser derrotado pelos republicanos. O epíteto “comunista” tem sido usado por Trump a torto e a direito em suas postagens e discursos. Não raro, atropela e embaralha cruamente o que, exatamente, entende por “comunista”, “marxista” ou “leninista”. Compreende-se: quando até a centenária The Economist, que Lênin descreveu como publicação para milionários britânicos, admitiu em edição recente que empresas capitalistas têm poucas chances de competir com a China “ecoautoritária e leninista, governada por Xi Jinping, um pioneiro do capitalismo de risco”, o xingamento pode parecer elogio.

Pelo receituário de Trump, saúde pública é commodity, educação é mercadoria, moradia é mercado imobiliário, e pobreza é defeito do indivíduo. Privatizada a sobrevivência, dá-se ao que sobra da vida o nome de liberdade. Faltam três meses para o eleitor americano dizer do que tem mais medo.

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DE ED MORGAN@EDU PARA MARCO RUBIO

Elio Gaspari, O Globo

Crises alimentadas pelo secretário de Estado americano prejudicam relação entre os dois países e levarão tempo para serem resolvidas

Estimado Secretário de Estado Marco Rubio:

Fui o embaixador mais duradouro dos Estados Unidos no Brasil, de 1912 a 1933. Acredite que nunca aprendi a falar português. Temos um ponto em comum, pois vivi três anos em Cuba e de lá eu trouxe o hábito de servir aos convidados uma mistura de suco de limão com aguardente, o daiquiri de lá, a batida daqui.

Sou um diplomata da velha escola, Harvard, colarinho duro e horror aos dias quentes do Rio. Eu vivia em Petrópolis e aqui estou sepultado.

Escrevo-lhe para ponderar que o senhor está armando tantas crises e ressentimentos nas relações com o Brasil que levaremos tempo para remendá-las. Revogar o visto da embaixadora foi uma criancice. Tomar o partido de um candidato à Presidência castra nossa influência em favor dos chineses.

Veja o meu caso. Cheguei aqui na Presidência do marechal Hermes da Fonseca e, até 1930, atravessei cinco governos daquela que os brasileiros chamam, erradamente, de República Velha. Em março de 1930 o paulista Júlio Prestes elegeu-se, derrotando Getulio Vargas. Acompanhei-o numa visita ao presidente Herbert Hoover. Ela correu tão bem que até na capa da revista Time ele saiu.

Deu-se uma revolução e Vargas foi para o Palácio do Catete. O presidente Washington Luís e Júlio Prestes viram-se exilados na Europa. Eu havia ficado longe da fogueira e continuei no posto por quase três anos. Não tive qualquer dificuldade com Vargas.

Naquele tempo eu achava que o Brasil deveria investir em transporte e comunicação. Infelizmente, nunca concordei com os métodos de Percival Farquhar, vice-rei da infraestrutura brasileira, mas suas empresas ofereciam serviços aos brasileiros.

O que temos hoje? Seu governo hostiliza o governo de Lula em torno de mixarias e tarifas leoninas, enquanto os chineses ocupam espaços nas comunicações, nos portos e nos transportes. Farquhar, com quem me reconciliei, contou-me que a China poderá comprar 20% da Rumo, passando a controlá-la. Trata-se da maior operadora de cargas ferroviárias do país, com 14 mil quilômetros de malha. Os carros elétricos chineses estão tomando o mercado brasileiro, suplantando montadoras americanas protegidas há 70 anos. A China tornou-se o maior parceiro comercial do Brasil e avança nos investimentos, sem se meter com candidaturas.

Secretário Rubio, nós estamos rosnando por mixarias enquanto não fazemos nosso serviço. O presidente Trump, durante seu primeiro governo, passou a negar vistos aos parceiros de diplomatas homossexuais. Mesmo hoje, trava a carreira de nossos profissionais. Com semelhante postura, os presidentes Taft, Wilson e Harding não teriam me designado para o Brasil.

Em 1937, o presidente Franklin Roosevelt mandou para o Rio o meu grande colega Jefferson Caffery. Ele ficou aqui até 1944, se deu muito bem com Vargas e aparou as arestas com os generais germanófilos.

Encontrei outro dia numa festa o subsecretário de Estado Sumner Welles (1937-1943). Ele foi demitido porque saiu do armário num trem. Welles me contou que a intriga contra ele partiu do hétero William Bullittt, cuja mulher era lésbica.

Naquele tempo ficávamos no armário, mas o serviço diplomático fazia seu serviço, porque havia, e há, coisa séria a fazer.

Do seu humilde servidor

Edwin Vernon Morgan

Fantasias de marqueteiro

Pela ação de seus adversários internos e externos, Lula chega ao fim do seu mandato estranhado com os presidentes dos Estados Unidos e da Argentina. Ambos dizem o que lhes vêm à cabeça. Em 2023, quando voltou ao Planalto, seus áulicos viam-no numa caminhada em direção ao prêmio Nobel da Paz. Lá atrás, Lula achava que podia ajudar a acabar com a guerra da Ucrânia.

Argentina

Quem conhece o estilo de Javier Milei acredita que o presidente argentino passará de incendiário a socorrista depois da eleição de outubro.

Sinuca

Ao anunciar em público que pretende ter uma nova conversa com Donald Trump, Lula meteu-se numa encrenca típica da diplomacia de palanque.

Se a conversa acontecer depois da concessão de agrément a Daniel Perez, ficará a impressão de que cedeu. Se não acontecer depois, ele ficará como intransigente.

Dez anos da Olimpíada

Numa trapaça da História, o Rio de Janeiro está de novo no colo do ex-prefeito Eduardo Paes, dez anos depois do delírio da Olimpíada de 2016. Comentando a ruína do prometido “legado” dos jogos o atual prefeito, Eduardo Cavaliere, disse o seguinte:

“Poucas cidades no mundo conseguiram preservar e dar uso permanente ao legado de uma Olimpíada como o Rio”. Falso. Os jogos de Atenas (2004) e do Rio (2016) são exemplos do contrário. Já os de Londres (2012), Barcelona (1992) e Tóquio (1964) cabem na louvação de Cavaliere.

Londres botou uma parte da vila olímpica numa região parecida com a Baixada Fluminense, sem os tiros. Revitalizada, seu shopping center tornou-se um dos maiores da Europa, com três hotéis, 70 restaurantes e 300 lojas. Barcelona mudou de cara e voltou-se para o mar e a de Tóquio apresentou ao mundo o trem-bala. Ganha um fim de semana em Teerã quem viu coisa parecida no Rio.

Jogatina

Depois de ter escancarado a jogatina eletrônica para aumentar a arrecadação, Lula 3.0 cogita colocar um esparadrapo na ferida onde mais de 100 milhões de pessoas fazem apostas.

Uma portaria obrigará o cidadão a esperar cinco segundos entre uma aposta e outra. Ganha outro fim de semana em Teerã quem souber porque o intervalo entre uma aposta e outra não foi fixado em um minuto.

A fama de Marco Buzzi

Antes mesmo das denúncias de assédio sexual do ministro Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça, sua fama entre os colegas não era a pior, mas era uma das piores. Sua degola mostrou que o pescoço de ministro de tribunal de Brasília não está livre da lâmina.

As frituras da Federal

O ministro André Mendonça entrou em curso de colisão com a Polícia Federal. Mau negócio. Deixando-se de lado frituras nacionais recentes e indo-se a um precedente americano, foi um ex-agente do FBI, a Federal americana, quem deu o empurrão que ajudou a fritar Richard Nixon em 1974, derrubando-o da Presidência dos Estados Unidos.

A Casa Branca tentou grampear a sede do partido democrata em junho de 1972 e cinco aloprados foram presos. Em outubro, Nixon desconfiava que um agente do FBI estivesse alimentando a imprensa.

Bingo. Mark Felt, ex-vice-diretor do FBI, apelidado Garganta Profunda (título de um filme pornô da época), na redação do Washington Post, era uma de suas fontes. Era dele que Nixon desconfiava.

Hoover e a carta da PF

Se 27 superintendentes do FBI tivessem assinado uma carta sobre seja lá o que for, J. Edgar Hoover (1895-1972), criador e eterno diretor da Federal americana, teria se enforcado no banheiro de sua casa.

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