terça-feira, 24 de março de 2026

RELEMBRANDO PADRE CÍCERO

A cidade de Juazeiro do Norte, no Ceará celebra hoje o aniversário de 182 anos de Padre Cícero. Cícero Romão Batista nasceu no Crato, 24 de março de 1844 e faleceu em Juazeiro do Norte, 20 de julho de 1934. Carismático, Padre Cícero ou “Padim Ciço”, obteve grande prestígio e influência sobre a vida social, política e religiosa do Ceará e da Região Nordeste do Brasil.

Padre Cícero, foi o primeiro prefeito de Juazeiro do Norte, em 1911, quando o povoado foi elevado a cidade. Voltou ao poder, em 1914, quando o governador Marcos Rabelo foi deposto. No final da década de 1920, o Padre Cícero começou a perder a sua força política, que praticamente acabou depois da Revolução de 1930. Seu prestígio como santo milagreiro, porém, aumentaria cada vez mais.

Em 1° de novembro de 1969 no alto do Horto, em Juazeiro do Norte foi erguido uma estátua (a terceira maior do mundo) em homenagem ao Padre Cícero Romão Batista. Em 22 de março de 2001 “Padim Ciço” foi eleito o cearense do século.

A trajetória religiosa e política de Padre Cícero é relatada na excelente biografia Padre Cícero: poder, fé e guerra no sertão, do jornalista Lira Neto. A obra é primorosa, resultado trabalho intenso de dez anos de pesquisa, baseada em documentos raros e inéditos tornam a biografia a mais completa obra sobre a vida do mais amado e controvertido religioso que o Brasil já teve, Padre Cícero, para os romeiros e fiéis, o “Padim Ciço”.

Clique aqui e ouça a música Viva meu Padim, composta pelo Rei do Baião, Luiz Gonzaga e João Silva para homenagear Padre Cícero. A canção tem a participação especial de Benito di Paula.

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CRIAMOS A CATEGORIA DELAÇÃO SÉRIA

Artigo de Fernando Gabeira

O advogado de Daniel Vorcaro procurou a PF e disse que seu cliente queria fazer uma delação séria. São coisas do Brasil. A delação premiada existia em alguns países antes de chegar aqui. Tivemos várias. Mas, bem cedo, chegamos a essa categoria de delação séria, pois, como para muitas outras coisas no Brasil, temos uma versão leve. Sem açúcar, sem gordura, sem glúten, sem agrotóxicos.

Outro front bem brasileiro é o sigilo processual. A antiga canção diz: segredo é pra quatro paredes. No entanto um segredo guardado entre quatro paredes frequentadas por mais de 20 deputados é um segredo de mentirinha.

Vivemos o maior escândalo financeiro de nossa história. Cerca de R$ 40 bilhões serão pagos pelo Fundo Garantidor de Créditos. Outros bilhões foram para o espaço. Teoricamente, o esforço deveria se concentrar na recuperação dessa fortuna roubada. Mas vazaram conversas íntimas de Vorcaro com a namorada, e elas passaram a ser o centro das atenções.

É um sinal dos tempos, mas há um viés cultural. No passado, quando a imprensa profissional detinha a hegemonia, havia um filtro na divulgação das notícias. Hoje, com milhares de comunicadores nas redes sociais — muitos buscando aumentar sua audiência —, um diálogo íntimo empolga os seguidores. Simplesmente não há como controlar nosso ímpeto latino. Se o órgão sexual da mulher foi chamado, carinhosamente, de “peleleca” ou “cherolaine”, essas palavras estarão entre as trends dominantes na internet.

Segundo tenho lido nos jornais, Vorcaro fará uma delação tão séria que não pretende citar ministros do Supremo Tribunal Federal. Os R$ 130 milhões do contrato com a mulher de Alexandre de Moraes foram apenas para uma cartilha de compliance que, ironicamente, resultou na Operação Compliance Zero para botá-lo na cadeia. O dinheiro investido no resort em que familiares de Dias Toffoli tiveram participação era apenas um bom investimento — tão bom que empresas poderosas como a J&F também investiram. E o que foi destinado ao filho de Nunes Marques era apenas o reconhecimento ao jovem talento, como há muitos em Brasília, todos filhos de alguém importante na República.

São problemas que deveriam estar na pauta. Mas competem com outros, como as festas na casa de Trancoso. Foram trazidas algumas mulheres do Leste Europeu que não tinham a mínima ideia dos homens com quem festejariam. A grande expectativa são as fotos e vídeos dessas festas. Como se Vorcaro e seus convidados fossem descuidados o bastante para permitir isso. As pessoas estão sintonizadas no escândalo errado, o de Jeffrey Epstein, nos Estados Unidos.

Isso não significa que não tenha havido festas e, possivelmente, que as mulheres não tenham sido vítimas de algum tipo de exploração criminosa. Pode ser até que Vorcaro tenha instalado câmeras secretas em Trancoso. Mas por que usaria essa tática se possivelmente comprou a fidelidade de políticos e juízes com muito dinheiro?

A realidade sem festas — gente com pouca roupa, louras europeias beijando maduras autoridades republicanas — é apenas a realidade de milhares de pequenos investidores roubados. Não podemos nos afastar dela no exame da responsabilidade de Vorcaro e seus cúmplices na política e na Justiça.

Artigo publicado no jornal O Globo em 24 / 03 / 2026

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O ENCONTRO DE PADRE CÍCERO E LAMPIÃO

Paulo Henrique Rodrigues, o PH, Diário do Nordeste

Há 100 anos, Padre Cícero e Lampião se encontravam no Cariri

Era final da tarde de 4 de março de 1926, quando Lampião e seu bando saltavam dos cavalos em Juazeiro do Norte. Vinham a convite do então deputado federal Floro Bartolomeu da Costa. Tinham como missão fazer parte de um exército montado às pressas pelo governo federal para lutar contra o movimento revolucionário comandado por Luís Carlos Prestes.

Lampião não encontrou Floro, que, doente, tinha viajado a Fortaleza e depois ao Rio de Janeiro, onde morreu no dia 8 daquele mesmo mês. Também não cruzou o caminho da Coluna Prestes, que, naquele momento, já marchava em outro ponto do Sertão. Mas Lampião não perdeu a viagem.

Permaneceria em Juazeiro do Norte até o dia 7, protagonizando uma sequência de acontecimentos, todos pacíficos, que só aumentariam a sua fama.

Na ausência de Floro, coube ao Padre Cícero encontrar Lampião para entregar a ele a patente de capitão do chamado batalhão patriótico criado pelo governo federal. Gesto que custou caro ao Padim, criticado em 9 de cada 10 jornais que noticiaram aquele encontro.

Lampião fez questão de frequentar as manchetes. Foi em Juazeiro do Norte que o cangaceiro concedeu sua primeira entrevista, feita pelo médico Otacílio Macedo, que morava no Crato e correra à cidade vizinha para encarar um entrevistado temido por todos e cercado de homens armados.

As respostas publicadas em "O Ceará" podem ser encontradas acompanhadas de comentários essenciais na literatura do Cangaço de Frederico Pernambucano de Mello, "Benjamin Abrahão: entre anjos e cangaceiros", e Robério Santos, do recém saído do prelo "O Santo e o Cangaceiro".

Além da entrevista, rica em detalhes, em que Lampião falava sobre a vida no cangaço e celebrava a oportunidade de visitar Juazeiro do Norte e de ver pessoalmente o Padre Cícero, foram registradas também imagens dele. 

As lentes de Pedro Maia, que veio do Crato, e Lauro Cabral, vindo de Barbalha, fotografaram um Lampião jovem, com chapéu sem testeira, numa pose que o deixaria famoso. Os originais de Maia estão guardados no Museu Orgânico da Fotografia do Cariri Telma Saraiva, no Crato.

Lampião ainda conheceria uma pessoa que o faria voltar às manchetes com mais força. Benjamin Abrahão, jornalista sírio então secretário do Padre Cícero, após a morte deste, procuraria o cangaceiro e, em 1936, faria um documentário com equipamento de uma empresa que tinha sede em Fortaleza, preciosidade do cinema brasileiro, que hoje conquista admiradores em Hollywood. Um filme que pode ser encontrado no YouTube e que tem tantos detalhes do cotidiano do grupo que levaram Pernambucano de Mello a dizer que Lampião parece ter codirigido a película.

A passagem pelo Cariri durou cerca de 72 horas. Tempo suficiente para que ele entrasse um cangaceiro de rosto quase anônimo e saísse capitão famoso, mesmo que a patente não valesse um pequi roído. 

*Este texto reflete, exclusivamente, a opinião do autor.

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CONDENAÇÃO MANTIDA

Do Tempo Real

Justiça mantém condenação e Crivella terá de pagar R$ 100 mil por determinar apreensão ilegal na Bienal do Livro

A 4ª Câmara de Direito Público do Rio manteve a condenação do ex-prefeito Marcelo Crivella (Republicanos) ao pagamento de R$ 100 mil por danos morais coletivos, em ação civil pública movida por entidades de defesa dos direitos da população LGBTQIA+ por ele ter mandado recolher exemplares de livro que tinha como ilustração um beijo entre pessoas do mesmo gênero.

Hoje deputado federal — e também bispo da Igreja Universal do Reino de Deus — Crivella havia recorrido da punição, mas seus argumentos foram rejeitados pelos desembargadores. A informação é do jornalista Ancelmo Gois, em sua coluna no jornal “O Globo”. Os R$ 100 mil, segundo a decisão original mantida, serão destinados “a políticas públicas de combate à discriminação por orientação sexual”.

Entenda os motivos da condenação de Crivella

Em 2019, durante a Bienal do Livro, Crivella, então prefeito, mandou recolher exemplares de um livro com uma illustração de um beijo gay. A atitute gerou polêmica e muitas críticas de perseguição e discriminação sexual. Com a repercussão, a publicação esgotou na feira.

“A repercussão nacional do caso concreto, inclusive em decorrência da exposição voluntária nas redes sociais do Réu, justifica a compreensão segundo a qual a mera cassação do ato administrativo ilegal é insuficiente para reparar a lesão aos interesses difusos em jogo”, diz o acórdão.

Para desembargador, “compreensão desigual” de formas de afeto

A ação foi movida por diversas associações de civis de defesa dos direitos das pessoas homossexuais e transexuais.

Segundo o desembargador relator Guilherme Peña de Moraes, “Ao mobilizar a máquina pública para lacrar as revistas em quadrinhos cujas capas contivessem representações de atos afetivos entre pessoas do mesmo gênero, demonstrou-se uma compreensão desigual de que determinadas formas de afeto – no caso, beijos entre duas figuras masculinas – são inapropriadas para o público juvenil, como se tivessem teor pornográfico ou de perversão sexual, ao passo em que semelhante tratamento não foi conferido às obras literárias que trouxessem representações de afeto entre homens e mulheres.”

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segunda-feira, 23 de março de 2026

MORRE GERSON BRENNER

Do g1

Gerson Brenner, ator de 'Rainha da Sucata', morre aos 66 anos

Galã fez sucesso em novelas dos anos 1990. Em 1998, foi baleado em uma tentativa de assalto, o que afetou sua locomoção e fala.

Morreu nesta segunda-feira (23), aos 66 anos, o ator Gerson Brenner, em decorrência de falência múltipla dos órgãos. Ele estava internado no Hospital São Luiz, no Itaim, em São Paulo. A morte foi confirmada pela esposa, Marta Brenner.

Conhecido por seus papéis como galã na TV Globo, ele enfrentava, há décadas, as sequelas de um tiro sofrido durante uma tentativa de assalto em 1998, o que o manteve afastado da vida pública.

"Ele tinha muito amor pela TV Globo. Não assistia nenhum outro canal. A vida dele era a televisão", disse a esposa.

Segundo a família, as informações sobre velório e sepultamento devem ser divulgadas posteriormente.

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Carreira

Gerson Brenner se destacou na televisão durante os anos 90, em novelas da TV Globo. Ele ficou famoso pelos papéis cômicos, quase sempre interpretando personagens fortões de bom humor e bom coração.

Em "Rainha da Sucata" (1990), interpretou um de seus papéis mais marcantes, como Gerson Giovanni, um instrutor de paraquedismo e filho mais velho de Armênia (Aracy Balabanian).

Outro papel de destaque foi o de Giovanni Barbieri na novela “Perigosas Peruas” (1992). Na trama, ele era um policial fortão, grosso, ignorante e trapalhão, que disputava o amor de Joana (Fabiana Scaranzi) com um colega.

Na novela "Corpo Dourado" (1998), viveu Jorginho, um fazendeiro ingênuo que disputava o amor da protagonista Selena (Cristiana Oliveira) com o empresário Arturzinho (Marcos Winter). Jorginho era mais um personagem divertido, que acabou formando um casal com Alicinha (Danielle Winits) no final da trama.

Tentativa de assalto

Quando interpretava Jorginho, o ator sofreu a tentativa de assalto que interrompeu sua carreira no auge.

Em 17 de agosto de 1998, Gerson Brenner estava na estrada indo de São Paulo para o Rio gravar o último capítulo da novela das 8 quando foi baleado na cabeça, na Rodovia Dutra.

Pedras foram colocadas na pista por assaltantes e estouraram dois pneus de seu carro. Na troca dos pneus, dois homens tentaram assaltá-lo. Gerson reagiu e foi baleado na cabeça.

A bala atravessou o hemisfério esquerdo do cérebro e ficou alojada na altura da nuca. Áreas do cérebro responsáveis pela locomoção e fala foram atingidas. Brenner ficou na cadeira de rodas e desde então teve dificuldades para falar. Nunca mais atuou.

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MORRE ROBERTO MARQUIS, O ETERNO GUARDA JUJU

Augusto de Sousa, DCM

Roberto Marquis, o eterno Guarda Juju, de “A Praça é Nossa”, morre aos 83 anos

O ator, humorista e cantor Roberto Marquis, conhecido pelos personagens Teobaldo e o inesquecível Guarda Juju do humorístico “A Praça é Nossa”, exibido pelo SBT, morreu aos 83 anos. Nascido em São Paulo, em 30 de março de 1942, Roberto construiu uma longa trajetória artística que atravessou décadas e diferentes áreas do entretenimento.

Seu personagem mais popular surgiu inicialmente em um comercial na década de 1970. O sucesso foi tão grande que Teobaldo migrou para o humor televisivo, tornando-se figura querida em “A Praça é Nossa”, programa comandado por Carlos Alberto de Nóbrega. Além do Guarda Juju, Roberto também interpretou personagens como Tanaka e Osório no tradicional banco da praça.

Roberto Marquis iniciou sua carreira na TV Tupi em 1962. Na publicidade, criou bordões famosos como o “Boko Moko”. Também se dedicou à música, gravando nove discos, muitos com marchinhas de carnaval. No cinema, produziu o infantil “Dani, Um Cachorro Muito Vivo”. O artista deixa sua marca na história do entretenimento brasileiro.

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CRIME DE ÓDIO

Miguel de Almeida, O Globo

Nega-se à deputada Erika Hilton o 'lugar de fala': sendo trans, não poderia tratar de questões das 'mulheres biológicas'

Às preocupações do brasileiro com o perigo de um conflito nuclear e ao espanto com as cafonices de Daniel Vorcaro, somou-se a batalha entre Ratinho e a deputada federal Erika Hilton. O apresentador mostrou-se indignado com a eleição da deputada ao cargo de presidente da Comissão da Mulher da Câmara. Irritado, disse-se contrário a que uma pessoa trans ocupe a vaga. E explicitou sua visão de mundo:

— Ela é trans. Para ser mulher tem que ter útero, menstruar, tem que ficar chata três, quatro dias. Eu sou contra [a eleição dela]. Eu acho que deveria deixar uma mulher.

Para não deixar dúvidas, acrescentou:

— Mulher, para ser mulher, tem de ser mulher (...). Quero dizer que não tenho nada contra a deputada, ou deputado, não sei.

A deputada acionou o Ministério Público, que pediu a condenação do apresentador e da emissora. No contrapé, o Partido Novo solicitou a cassação da parlamentar, acusada de usar o mandato “como instrumento de intimidação (...) contra críticos que expressaram opiniões legítimas sobre temas como sexo biológico e identidade de gênero”.

Ratinho e o Partido Novo, em suas intervenções, não informaram que o Brasil, no ranking mundial, lidera o número de homicídios de pessoas LGBTQIA+. As fontes para minha afirmação (Grupo Gay da Bahia, Observatório de Mortes e Violências LGBTI+ no Brasil, entre outros) divergem bastante, e alguns estados deixam de informar os dados. Mas isso não alivia as mortes por ódio.

O imbróglio (chamemos assim) poderia ser polarizado da seguinte forma: Erika é uma deputada trans de esquerda; o Partido Novo está à direita e Ratinho vai na mesma seara, além de seus comentários em geral ofensivos. Ainda no campo ideológico, um relatório do Instituto Democracia em Xeque mostrou o impacto nas redes sociais. Em sete dias pesquisados, foram 956 mil posts com 15,6 milhões de interações dos usuários. Houve predomínio da direita (7 milhões) sobre a esquerda (4,2 milhões), com o restante espalhado por outras tendências. No conteúdo, embora se reconheça a luta das mulheres trans, ocorre a diferenciação entre elas e as “mulheres biológicas” — mas questiona-se a legitimidade de Erika para ocupar o cargo de presidente da Comissão da Mulher. É negado à deputada o “lugar de fala”. Sendo trans, não poderia tratar de questões das “mulheres biológicas”.

Se ficarmos nas estatísticas, em 2024 ocorreu uma morte a cada 30 horas, segundo o Grupo Gay da Bahia. No ano anterior, a frequência foi de uma morte a cada 34 horas. A maioria das vítimas (60,8%) tinha entre 19 e 45 anos. Salvador, em termos proporcionais de população, é a capital mais violenta. No ranking mundial, em 2024, 30% das mortes ocorreram no Brasil. Há divergências entre as fontes: em 2023, o GGB contou 257 homicídios, e o Observatório de Mortes e Violências LGBTIA+ no Brasil, 230; diferem as sistematizações. Nos métodos usados, estão armas brancas e de fogo; espancamentos, asfixia e apedrejamento. E ainda esquartejamento e carbonização.

Mesmo para um país violento como o Brasil — 20,8 assassinatos a cada 100 mil habitantes em 2024, segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública —, os números são estarrecedores. Daí que não é questão a ser discutida por uma posição maniqueísta como ocorre nas redes, com eco num apresentador com altos índices de audiência.

Ratinho alega liberdade de expressão para propagar seus preconceitos. É o recurso usado à direita e à esquerda quando se é pego na cena do crime. Não é de agora que os meios de massa são usados para validar a opressão. Sob a ditadura, apresentadores acusavam artistas de ser comunistas. Aconteceu com Gil e Caetano, que acabaram presos e exilados por anos, embora não tenha havido um processo formal contra os dois. A fala de Ratinho pode ensejar violência. Ou solidificar a hostilidade contra o público LGBTQIA+. Com as consequências conhecidas.

Não importa, como se argumentou, que a Erika tenha votado contra o aumento de pena para crimes de feminicídio. E agora seja presidente da Comissão de Direitos da Mulher. A discussão é outra e precisa ser maior — pessoas são mortas. Não é tema para ser polarizado pela política ou religião (infelizmente se misturam no Brasil). Podemos lembrar a Ratinho que a escravidão era legal e defendida em nome da liberdade de propriedade. E o que é visto como liberdade de expressão, hoje, pode ser crime de ódio.

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SEM MAIS SILÊNCIO

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

As pessoas que atracam os fones às orelhas o dia inteiro isolam-se da vida

Eles são um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo

O jovem de fones ao ouvido atravessou a rua fora do sinal, costurando entre os carros em movimento e tirando fino das motos entre eles. Perplexo, eu assistia a tudo da calçada. Mas nada aconteceu. O garoto chegou ao outro lado e retomou tranquilo o seu caminho, como se o asfalto fosse uma extensão de sua casa. Perguntei-me que maravilhas estariam saindo dos fones, abafando tudo e permitindo-lhe ignorar as buzinas. Rockrapforrók-pop?

Outra cena que sempre me intriga é a dos jogadores descendo do ônibus do clube para o jogo de dali a pouco, no qual, em tese, eles deveriam estar totalmente concentrados. Todos trazem alguma coisa ao ouvido. Como 90% dos atuais jogadores são evangélicos, imagino que devem estar escutando os hinos e pregações que os levarão à vitória. Mas, se o repertório de seus fones vier do cafonejo, e ainda por cima perderem o jogo, não podem culpar Deus pela derrota.

Digo tudo isso ao ler sobre os efeitos dos headphones nas pessoas que hoje os atracam às orelhas para correr, caminhar, pedalar, motocar, dirigir, dormir, trabalhar e até estudar, alheios à vida ao redor. É como se se isolassem da vida. Usam-nos também para reduzir o estresse, relaxar ou, ao contrário, excitar-se, tudo exceto refletir. É um passaporte para a alienação, o individualismo, o não-tou-nem-aísmo.

Por sorte, quem usa esses fones tem a liberdade de tirá-los para, às vezes, dar um alívio aos fatigados tímpanos. Mas, e se uma pessoa for obrigada a ouvi-los, sem poder arrancá-los ou implorar a alguém para fazer isso?

Foi o que me contaram de um conhecido meu, homem de seus 80, nos estágios finais de um mal que o impedia de mover-se ou comunicar-se. Todos sabiam do amor que, em dias mais felizes, ele dedicara a Lizst, Chopin e Tchaikovski. Daí, seus netos prepararam 24 horas de playlist com suas sinfonias favoritas e, todos os dias, aplicavam-lhe os fones pelo dia inteiro.

É o terror: ser condenado a escutar sem parar o que você ama, quando tudo que quer é o silêncio.

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domingo, 22 de março de 2026

A DEMOCRACIA DESAFIADA

Marco Aurélio Nogueira, Ateliê de Humanidades

INTRODUÇÃO

O presente livro se propõe a interpelar a sociedade e o modo como vivemos, privilegiando alguns de seus aspectos principais, hoje submetidos a amplo debate público. Não pretende oferecer uma teoria abrangente, que dê conta dos múltiplos aspectos da vida como ela é. Trata-se de um ensaio. Não há nele nenhum estudo de caso. Poderei me deixar sensibilizar pelos fatos que transcorrem em meu país, o Brasil, mas o interesse não estará aí. Meu propósito é assumidamente modesto e circunscrito: chamar atenção para certos gargalos que asfixiam a vida atual e sugerir caminhos para compreendê-los.

No centro dos capítulos que se seguirão está a questão da democracia. Trata-se de uma escolha sustentada pela convicção de que não teremos um futuro promissor sem arranjos democráticos sustentáveis. Podemos e devemos discutir de “qual democracia” estamos a falar, que peso deverão ter nela os princípios liberais e socialistas, de que modo será feita a participação dos cidadãos, se os partidos políticos devem ter maior relevo do que as redes sociais, qual o melhor regime para a tomada de decisões, e assim por diante. Mas não há como renunciar à democracia como valor estratégico. Sem isso estaremos sempre a um passo da escuridão autoritária.

Somos protagonistas de uma grande transição. Ela se estrutura sobre três eixos dominantes: (a) a vida nacional se globalizou; (b) o capitalismo industrial se converteu em capitalismo informacional; e (c) a modernidade se radicalizou e se tornou hipermodernidade. Cada um desses eixos tem repercussões fortíssimas no dia-a-dia, na organização social, nas formas da política, no Estado, na economia e na cultura, no corpo e na alma das pessoas.

Nos diferentes capítulos do livro, pretendo explorar a hipótese de que essa grande transição está se materializando mediante o avanço de alguns processos perturbadores: a fragmentação, que problematiza a coesão e o pacto social; a individualização, que exacerba o distanciamento entre os indivíduos e os grupos de referência; a aceleração, que altera o ritmo existencial; e a digitalização, que modifica o modo como interagimos uns com os outros e nos relacionamos com a tecnologia.


O transcorrer desses processos assemelha-se a um vulcão que entra em erupção e, ao fazê-lo, libera uma lava que corrói as defesas sociais e existenciais. Vulcões, como se sabe, não liberam somente lava, mas também fumaça, poeira, vapor e pedra, que descem enlouquecidamente por suas laterais. O calor por eles produzido é insuportável. Emitem toneladas de gás e partículas finas que permanecem suspensas na atmosfera durante anos, formando uma neblina que não se vê a olho nu, mas que tem efeitos catastróficos. Empregá-los como metáfora significa dizer que o mundo atual está sendo atacado por múltiplos desastres.

Os processos em curso se desorganizam e se reorganizam, fazendo com que a vida seja vivida como se estivesse em ebulição permanente. Por estarem em plena eclosão, convivem com restos de épocas pretéritas e ainda não deram origem a novas rotinas e instituições. Donde a sensação de insegurança e incerteza prevalecer em cada um de nós. Donde as crises sucessivas e as dificuldades governamentais, o declínio dos partidos políticos e os problemas de realização da democracia.

Escrito entre maio de 2022 e maio de 2023, este não é um livro acadêmico. Foi pensado para o grande público, leitores não especializados e pessoas interessadas em compreender a vida atual. Nasceu carregando uma inquietação e um desejo de diálogo e comunicação.

Nossa época é estranha. Todas as épocas talvez sejam assim: quem vive nelas sempre tem a sensação do inusitado, de algo que não se manifestou antes, de que seu tempo é diferente dos anteriores. Mas a nossa é paradoxal demais. Encanta e assusta. Confunde, perturba, excita. Parece vazia de esperança e otimismo, como se não conseguíssemos enxergar o quanto avançamos e temêssemos o que nos aguarda à frente.

O estranhamento vem em pílulas. Um belo dia, percebemos que há algo esquisito no mundo que nos cerca, algo que parece não encaixar. A sensação surge no modo como consumimos, como processamos informações, como nos relacionamos com a cultura, o entretenimento e a inovação. Nossos gadgets (televisores, celulares, computadores, tablets, traquitanas eletrônicas) envelhecem antes mesmo de serem utilizados. A linguagem muda, movida a memes e neologismos. Os pais se surpreendem com o comportamento precoce dos filhos, com a demora deles de amadurecer, com o jeito como tratam a escola, o estudo, o emprego, o futuro. Formas aberrantes de violência e discriminação chegam-nos ao conhecimento dia após dia.

São pílulas que se esparramam e nos angustiam.

Atravessamos dois anos de pandemia, mas hoje, na metade de 2023, não é certo que tenhamos absorvido, assimilado e compreendido o impacto do coronavírus sobre nossas vidas e nosso mundo. Sabemos muito mais a respeito de ataques virais, temos vacinas e medicamentos para combatê-los, mas faltam-nos políticas sanitárias, coordenação e cooperação mundiais. Dentro de cada país, as orientações seguem ritmo próprio. Na pandemia, houve de tudo: solidariedade e negacionismo, cuidados e desleixo. Muitos governos e muitas lideranças, por exemplo, usaram o vírus para açular seus cidadãos e lhes vender falsas ilusões.

Vivemos em sociedades sempre mais abertas, individualizadas, repletas de opções. Os lugares já não estão mais demarcados. Há muita mobilidade. As forças subterrâneas e as instituições que organizavam os espaços sociais, as posições, os modos de pensar e se comportar, perderam vivacidade, tornaram-se opacas, sem poder de coesão ou de imposição.

Há margens maiores de liberdade e autonomia. Podemos escolher como viver a vida. Nem sequer percebemos as orientações que, em silêncio, insidiosamente, valendo-se de algoritmos e estratégias de marketing, modulam e padronizam os comportamentos coletivos, onde quer que estejamos. Vivemos em sociedades de massas e de indivíduos, autônomos mas homogeneizados, em boa medida controlados. Não há exagero na hipótese de Shoshana Zuboff de que estamos imersos em uma “era do capitalismo de vigilância”, na qual redes sociais, empresas e aplicativos têm mais poder do que muitos Estados nacionais. É uma era que problematiza a democracia e exige sua defesa permanente.

Mistura-se a isso a enxurrada de notícias falsas que recebemos. Agindo simultaneamente com as informações que temos de processar diariamente, querendo ou não, a desinformação forma uma massa tóxica, que nos perturba e nos rouba sabedoria. A informação desvirtuada e o excesso de informações ajudam a que se forme uma cortina de fumaça que contamina e cega.

E o que dizer da multiplicação de lideranças autoritárias, cujas atitudes e estratégias minam os valores democráticos e manipulam parcelas importantes da população? Há governantes que governam contra seu povo, outros que combatem o sistema eleitoral de seu próprio país, depois de terem dele se beneficiado. Chegam ao poder embalados por mentiras e falsas expectativas, vestem-se de nacional-populistas e se dedicam a introduzir medidas reacionárias no plano da moral, dos costumes e das políticas sociais. Agridem a imprensa, rasgam Constituições, esvaziam instituições concebidas para proteger a democracia e as liberdades. Dividem a sociedade e constroem muros para separar “bons” e “maus”. Tudo é ressignificado e deformado por eles.

Nossa época não está sendo caracterizada por uma onda de bons políticos, daqueles que reúnem carisma, postura de estadista, convicções, firmeza, elegância, capacidade analítica, conteúdo programático e boa comunicação. Há muitos apelos populistas, à esquerda e à direita, pouca atenção para as transformações em curso. Juntamente com as elites (políticas, intelectuais, empresariais, artísticas), os representantes do povo parecem confusos, concentrados em seus interesses particulares e na captura de votos. Nem sequer oferecem sonhos e fantasias razoáveis. Ficaram tomados pelo pragmatismo e pelo realismo duro.

Vivemos em redes. A cada dia, mais pessoas caem nelas, voluntariamente, cedendo a seus encantos e facilidades. Redes são prisões ou estradas para a liberdade? Isolam-nos em bolhas e nos roubam do contato com o mundo exterior, alienando-nos? Ou são estratégias de sobrevivência, lugares de fuga de uma realidade sempre mais difícil de ser suportada e compreendida?

O que há de pernicioso, alienante e dispersivo nas redes pode ser, sem muita dificuldade, contraposto ao que elas trazem de retomada de contatos e de manutenção de uma conversação frugal que também faz parte da vida. Estar em redes é usufruir de uma fonte de contatos e oportunidades, é adquirir uma visibilidade que, bem dimensionada, nos retira da privacidade excessiva e da individualidade fechada. É poder trabalhar com maior agilidade e viver como “nômades digitais”, para quem o lugar e a localização não são indispensáveis. É poder interagir e dialogar com públicos amplos. É fazer política de um modo novo.

Em nossa época, há mais liberdade e mais igualdade, mas também enfado, repetição, cansaço. Podemos compreender as razões disso. Cada indivíduo tem de traçar seus próprios caminhos existenciais, construir as “narrativas” com que se insere no tecido social e nos ambientes de convivência. As pessoas fazem isso no silêncio de seus quartos, nas interações com os outros e sobretudo nas redes sociais, que exigem posicionamentos contínuos, embaralham as cartas do pensamento e subvertem valores e verdades estabelecidas. O ciberespaço superpõe-se às atividades presenciais, físicas, que perdem visibilidade e ficam menos importantes. A frenética interação digital ajuda a deixar as pessoas sem suportes existenciais seguros.

Nossas sociedades ficaram inapelavelmente mundializadas: interagem com um mundo que está estruturado, mas não regulado ou controlado politicamente. Já não temos uma guerra fria entre Estados Unidos e União Soviética, como houve até 1991. Aquele sistema internacional conseguia gerar, por vias tortas, algum equilíbrio e certa estabilidade. O mundo atual, repleto de crises, conflitos e tensões, gira em falso, desgovernado. Parte dos problemas decorre do próprio capitalismo e dos regimes econômicos dominados pela financeirização. Outra parte deriva da irrupção política de forças de extrema-direita, regra geral populistas, que se dedicam a questionar a democracia liberal e a mobilizar as populações contra o “Ocidente”. No Leste Europeu, essa configuração de alguma maneira gira em torno da Rússia de Putin, desejosa de recuperar sua posição imperial. Outros conflitos vêm da ascensão da China como potência global. Só que, agora, as disputas entre as potências não têm mais uma roupagem ideológica (tipo capitalismo vs. socialismo), organizam-se no terreno da supremacia econômica, comercial, tecnológica, além de se distribuírem no eixo democracia-autocracia. O que também abala a paz e a harmonia entre as nações, além de servir de alimento para exacerbações nacionalistas e étnicas.

O mundo globalizado arrasta indivíduos, grupos, Estados e empresas para um mesmo circuito de conexão. Cria uma sensação de pertencimento cosmopolita, que, no entanto, permanece em um plano mais abstrato do que concreto. Todos sabem que integram um só mundo, mas cada um cuida mais de seus próprios interesses do que de um generoso interesse comum.

A hiperconectividade abre mil portas em termos de comunicação e conhecimentos, mas cria, simultaneamente, fantasias igualitaristas, como se estivéssemos todos inseridos do mesmo modo nas searas digitais que frequentamos. A liberdade não é igual para todos, assim como não há igualdade em termos de renda, de possibilidades de escolha e de oportunidades. As épocas humanas sempre foram ricas em desigualdades. Não é diferente com a nossa. Hoje, elas são exuberantes, acachapantes. Atingem os mais variados aspectos da existência humana: a qualidade e a expectativa de vida, a posse de bens e propriedades, a higiene e a saúde, os efeitos climáticos e ambientais, a educação, a paridade de gêneros, a educação, os direitos, a justiça, a renda, a cultura. Não há, a rigor, nada que seja distribuído de modo justo.

A percepção disso pesa como uma rocha sobre os ombros de cada um de nós, independentemente do nível de consciência crítica que tenhamos da realidade. Tira-nos o fôlego, rouba-nos a esperança, sem que consigamos nos dar conta. Sentimo-nos incomodados pelas atrocidades diárias, pela miséria, pela violência, pela fome, pelo desemprego, pelos deslocamentos populacionais, por guerras insensatas, pelo descaso público, pela falta de civismo e generosidade, pela truculência. Transitamos pela vida tentando não tropeçar nessas armadilhas, que incomodam, deprimem, geram indiferença. Em termos morais e emocionais, o mal-estar é corrosivo.

Hoje temos de responder a perguntas incômodas. Antes de tudo, desejamos continuar a viver de modo tecnológico, digital, em redes? Prosseguiremos aceitando o domínio do mercado? Continuaremos a assistir sem reação à destruição do planeta, ao aquecimento global, à crise climática? Como estamos assimilando as postulações identitárias e as lutas por reconhecimento? Que pensar diante do avanço das máquinas inteligentes, da Inteligência Artificial? Temos algum poder de escolha? Temos à disposição um modelo alternativo de “boa vida” e “boa sociedade”? A democracia institucionalizada está nos ajudando? Estamos cooperando o suficiente?

Podemos reunir essas perguntas aos problemas dramáticos do mundo em que vivemos: a guerra russa na Ucrânia, o desmatamento da Amazônia, o desrespeito desumano pelos povos originários, a violência generalizada, a crise econômica recorrente, o desemprego, o desentendimento, as polarizações que abalam a democracia, a fome que assola muitas regiões, as desigualdades que não cessam de se reproduzir, as inúmeras manifestações de ódio e soberanismo. A esperança fica impotente diante de tanto descalabro. O conhecimento também.

Os temas e problemas desse modo angustiante de vida compõem um elenco que não tem obtido respostas cabais, categóricas, que expliquem a realidade social como um todo articulado, cujas partes e segmentos dialogam entre si, como um complexo de complexos, sistemas e subsistemas entrelaçados. Temos de compreender as razões dessa lacuna. Épocas de transformação rápida, de transições sistêmicas, de metamorfoses, não são épocas de fácil tradução teórica. As ciências sociais também se postam com espanto diante dessa realidade mutante, que escapa de modelos, esquemas interpretativos e conceitos. O caráter fluido e fragmentado da vida chega mesmo a vetar construções teóricas abrangentes, empurrando os cientistas sociais para a especialização e a compartimentação.

A dificuldade de compreender o presente embaça o futuro e força o olhar para trás, como um esforço para, quem sabe, deslindar épocas em que a maior simplicidade estrutural fornecia bases mais sólidas de segurança. O medo e a perda do futuro latejam em cada um de nós, ferindo particularmente os jovens, que têm uma vida pela frente mas não dispõem de mapas confiáveis para delinear o que virá para além do agora imediato. Agarram-se ao presente que lhes dá alguma orientação e com isso deixam de construir utopias realistas que poderiam movê-los mais além. Protestam, reclamam, esperneiam, agitam as agendas, produzem ruídos críticos e novos direitos: de algum modo são atores relevantes, que irrompem no palco sem um roteiro claramente concebido. Rejeitam a política tradicional, politizam-se pelas redes, ocupam praças e ruas, mas não conseguem passar para o campo político institucionalizado.

Na outra ponta, a valorização ingênua de épocas pretéritas, tidas como mais palpáveis e “ordenadas”, faz com que integrantes das velhas gerações sejam capturados por ideologias e narrativas reacionárias, quase sempre impulsionadas pela desinformação. A operação também seduz os ressentidos, os que se julgam castigados pelas injustiças sistêmicas ou por escolhas governamentais. Há um gatilho de raiva disparando toxinas sobre os cidadãos.

As aceleradas mudanças tecnológicas, sociais, culturais e ecológicas dificultam a compreensão da realidade complexa, pondo em xeque as estratégias educacionais até então seguidas. Os jovens passam a ficar expostos a uma espécie de “desorientação” geral, com pouca privacidade, quase nada de proteção institucional e muita ilusão comunicacional.

Nossa época está repleta de recursos para alavancar um novo tipo de Iluminismo – um pós-Iluminismo, que não mais celebrará o império unilateral da racionalidade e do progresso. O conhecimento acumulado é fabuloso. Já não é mais hegemônica a visão que pregava a submissão unilateral da natureza aos desígnios humanos. Hoje, há mais compreensão do valor intrínseco da diversidade cultural, mais respeito pelas culturas originárias. A sustentabilidade é uma ideia que se generaliza, assim como a preocupação com um trato não destrutivo da natureza. A tecnologia da informação, que avança aceleradamente, mostra sua utilidade estratégica em diversos setores, da economia à gestão pública, do ensino à democracia.

A democracia permanece como valor e aspiração, mas não goza de prestígio inconteste quando passa para a vida política prática, aquela na qual atuam os governos, os partidos políticos, os Estados-nacionais, as burocracias públicas, as grandes empresas. A situação é tão complicada que é como se a democracia atuasse de algum modo contra ela mesma: eleições se sucedem, mas os governos governam pouco e mal, muitas decisões são tomadas longe do olhar público, as oligarquias se reproduzem, sacrificando os destinos coletivos. Há no ar mais frustração do que confiança.

Vivemos pressionados, com futuros incertos. A tranquilidade e a serenidade não são companheiros da viagem que somos obrigados a fazer dia após dia. Essa pressão despenca sobre cada um de nós em função de múltiplas exigências: a obtenção de sucesso, a busca de reconhecimento dos próprios direitos e da própria dignidade, a conquista de renda e emprego, a produtividade, a competição, a felicidade, a eliminação das desigualdades.

Minha convicção é que a política é o principal recurso que possuímos para construir saídas coletivas. Ela, hoje, está igualmente sufocada pelas transformações aceleradas que reviram a vida. Faltam-lhe bases sólidas de sustentação, que lhe deem ao mesmo tempo sinalizações e referências. Faltam-lhe, também e sobretudo, programas de ação, atores organizados e lideranças. O mundo está sem estadistas e dentro de cada país o que prevalece são líderes de baixa consistência, governos erráticos e pouco produtivos.

Uma mudança de rota é nossa boia de salvação. É onde estamos hoje: mudar ou sofrer, quem sabe perecer. Uma “política de civilização”, que também seja uma política de civilidade, é o caminho sugerido por Edgar Morin para resistirmos às catástrofes anunciadas, a corrosão da democracia, a violência, as epidemias virais, as guerras, a desigualdade, a fome, a emergência climática, o desemprego, as manifestações de ódio, as polarizações improdutivas. O descalabro é tão grande que parece faltar frestas por onde escapar. Temos de aprender a “não ignorar as nossas ignorâncias” e a não perder a esperança e a paixão pela diversidade.

Há processos de longa duração em curso, que pedem cautela analítica. Vivemos um tempo de metamorfoses e assimilações. Estamos sendo forçados a incorporar novos processos aos nossos cálculos existenciais. Precisamos recuperar sabedorias básicas, fundamentos da convivência, da educação, da saúde, da higiene. Fazer com que o diálogo volte a prevalecer sobre a defesa categórica de posições, a generosidade afaste o ódio, a paciência vença a raiva.

Estamos encharcados de informações e melhoramos nosso entendimento de inúmeras coisas que antes nos intimidavam e assustavam. Distanciamo-nos da aceitação passiva dos problemas que nos desafiavam. Aperfeiçoamos nossa compreensão de que o passado ficou no passado, como uma concha que nos explica de onde viemos, que modela parte importante da vida mas que não determina tudo e está sendo literalmente varrido pelo processo de transformação em curso. Aquilo que era sólido se dissolveu no ar. Intuímos que nada mais será como antes, tamanha é a percepção de que as mudanças, as descobertas, as novidades científicas e tecnológicas, os novos valores se impõem a cada um de nós, sem apelação. É uma situação que assusta e desorienta, turbinada pelo volume avassalador de informações. O fato é que não sabemos como desvendar o futuro, que se aproxima velozmente, impulsionado pela aceleração geral, pela rápida inovação tecnológica e científica.

Os capítulos deste livro pretendem fornecer uma visão organizada de alguns dos principais temas que estão em discussão. A expectativa é que se possa desenhar uma agenda reflexiva.

O drama que se descortina no palco não é animador. Mas a história é sempre um espocar de contradições, avanço e retrocesso, paralisia e transformação. Não estamos partindo do zero. Quando olhamos o conjunto da obra, temos muito que comemorar. Em períodos de transições aceleradas, como são os nossos, o perigo nos ronda o tempo todo, oportunidades se abrem e se fecham. Estamos aprendendo a viver sob pressão e com futuros incertos. Novas perspectivas e novos abismos se anunciam sem que tenhamos pontes para atravessá-los.

No entanto, a capacidade humana de reação – o homem é um ser que responde às suas circunstâncias – impede que fechemos os olhos para o que já foi conquistado e para a vida que flui. Ela pulsa nas batalhas cotidianas pela felicidade e nas lutas pela liberdade, pela democracia, pelo futuro.

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sábado, 21 de março de 2026

CARMEN LÚCIA E A ESPERANÇA ÀS MULHERES

Juliana Diniz, O Povo

A sua proposição "parem de nos matar, porque nós não vamos morrer" traduz de forma didática uma reflexão filosófica muito profunda: a de que é impossível negar a liberdade de uma mulher ou de qualquer ser humano

É difícil para uma mulher bem informada se manter confiante e esperançosa nos tempos que vivemos. As razões são múltiplas, e cito algumas só para ilustrar o quão grave é o nosso problema. Falo da evidência cotidiana da violência generalizada que vitimiza tantas mulheres; da deficiência do Estado em proteger e promover mudanças estruturais; do déficit de representação política que dificulta uma transformação mais profunda da sociedade; do empobrecimento econômico que atua como obstáculo substancial para a autonomia e desenvolvimento feminino.

O cenário é de desigualdade extrema entre homens e mulheres, alimentada por uma organização da sociedade que atua para reproduzir as assimetrias, condenando as mulheres a um ciclo vicioso de vulnerabilidade, pobreza e dependência. Um panorama tão sombrio parece nos condenar ao pessimismo e à desistência de qualquer projeto emancipatório mais ousado, e todas as pessoas que trabalham para a mudança desse estado de coisas precisam, entre seus desafios, administrar a própria fadiga e desmotivação. Há momentos em que a justiça parece mesmo uma quimera impossível.

Nesses momentos da história, vozes capazes de levantar o ânimo coletivo e renovar a esperança de cada indivíduo são muito valorosas. Foi com esse espírito de fôlego renovado que o auditório da Faculdade de Direito da UFC, lotado com centenas de pessoas, aplaudiu de pé o discurso da ministra Carmen Lúcia, juíza do STF, na última segunda-feira.

A ministra preparou uma fala acessível, forte e muito bem articulada, por meio da qual defendeu enfaticamente a dignidade feminina e o nosso direito a dizer não, a viver e a prosperar. A sua proposição "parem de nos matar, porque nós não vamos morrer" traduz de forma didática uma reflexão filosófica muito profunda: a de que é impossível negar a liberdade de uma mulher ou de qualquer ser humano.

Afinal, não é a imposição violenta da morte uma manifestação da ideia de que as mulheres podem ser aniquiladas se quiserem exercer sua autonomia? Não é o feminicídio um ato de negação da humanidade da mulher? Uma forma de dizer que o "não" é, para nós, um luxo impossível? Quando a ministra afirma, corajosamente, que não vamos morrer, que temos o direito de escolher a vida de queremos e de traçar os nossos caminhos, ela reconhece nossa aptidão inalienável à liberdade, mesmo quando toda a realidade quer nos convencer do contrário.

Sobreviver e lutar pela sobrevivência das outras mulheres se torna, assim, um exercício de resistência, uma afirmação política de nosso potencial de autonomia. E, por mais repetitivo que pareça, é preciso reafirmar, violência após violência: nós somos dignas, somos livres e temos direito a viver sem medo.

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ESQUECERAM A BRIGITTE BARDOT

Eduardo Affonso, O Globo

Ela fez mais pelo cinema do que faria uma atriz. Foi um ícone, quando a palavra ainda queria dizer alguma coisa

Bastava uma consulta à IA — ou, como faziam os antigos millennials, ao Google: “Personalidades do cinema mundial que morreram em 2025”. Em segundos, a lista estaria na tela. Completa. Incluindo diretores malianos e malaios, designers de som e de produção.

Seria enorme, claro — morrem muito mais celebridades do que nascem; não sei como elas ainda não se extinguiram. E haveria que separar quem entraria como camarote, no vídeo exibido durante a cerimônia de entrega do Oscar, e quem teria de se conformar a ir de pipoca, só no site da Academia de Artes e Ciências Cinematográficas. Brigitte Bardot, acredite, ficou no segundo escalão.

Não que estivesse em má companhia. Também acabaram fora do telão Björn Andrésen (o Tadzio, de “Morte em Veneza”) e Richard Chamberlain. Mas, a Brigite Bardot...

Ela não era uma maria ninguém. No sexto dia após o bigue-bangue, a equipe de desenvolvimento de produtos trabalhou pesado no projeto do pterossauro, do shar-pei, do tucano – e Deus... Deus criou a mulher. E era a Brigitte Bardot. Ele a fez louramente desalinhada, sob medida para o biquíni e para encarnar a liberdade feminina. E viu que era bom. (Num Gênesis apócrifo, que ainda vou escrever, foi de uma vértebra de Brigitte que Deus criou Alain Delon, mas isso é assunto para outro dia.)

Pode ser que ela tenha, para os atuais padrões hollywoodianos, envelhecido mal. Física e politicamente. Antes dos 40, se cansou de ser o que era e resolveu ser quem sempre quis. Adotou as rugas e a defesa dos direitos dos animais, com aquela visceralidade de quem sabe que abraça uma causa (por enquanto) perdida. Trocou os holofotes pela salvação das focas abatidas a pauladas no Canadá. Foi atuar para pôr fim à barbárie contra os touros na Espanha e ao suplício de cobaias em testes de laboratório mundo afora. Encaretou. Fez comentários xenofóbicos e não poupou o feminismo woke do #MeToo.

Será que daqui a (muitos!) anos, esquecerão de honrar a memória de Woody Allen por causa das tretas com Mia Farrow? Esnobarão Catherine Deneuve por ter sido crítica ao “novo puritanismo” — esse que pune homens por assédio, “quando tudo o que eles fizeram foi tocar o joelho de alguém ou tentar roubar um beijo”? Ou, se a maré virar — e a maré sempre vira —, os desprestigiados serão Sean Penn, Robert De Niro?

Muito antes de o Banco do Brasil virar BB, BB era Brigite Bardot. E continuará a ser, bem depois de o banco ter deixado de existir. Ela fez mais pelo cinema do que faria uma atriz. Foi um ícone, quando esta palavra ainda queria dizer alguma coisa. E, sem ela, Búzios seria só um punhado de conchas de moluscos.

É normal esquecer chaves, senhas, datas. O que um dia caiu na prova. Coloquem na Dutra ou na Washington Luís um pedágio cuja tarifa seja saber quem foram Dutra e Washington Luís. Quem souber, não paga; quem não souber, paga em dobro. E vejam o milagre da arrecadação.

Esquecemos em quem votamos para deputado, a hora do dentista e até aquele começo inesquecível, como lembrou o Aldir Blanc.

Alguém já disse que a memória é aquilo que, depois da luta inglória para esquecer, permaneceu lá. Mas, bicho, como é que alguém esquece a Brigitte Bardot?

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CLÁUDIO CASTRO TEME SER DESCARTADO PELO FLÁVIO BOLSONARO

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Flávio Bolsonaro quer evitar que a sujeira na segurança pública do Rio respingue na campanha

No julgamento do TSE, governador depende dos votos de Kássio Nunes e André Mendonça

Cláudio Castro é acusado de gastar R$ 1 bilhão de recursos obtidos com a privatização da companhia de água e esgoto –privatização aprovada com o objetivo de tirar o Rio de Janeiro da falência– para a compra de cabos eleitorais na campanha da reeleição em 2022.

A investigação do Ministério Público aponta abuso de poder econômico, com saques na boca do caixa feitos por funcionários fantasmas. Após pedido de vista do ministro Nunes Marques, o caso volta ao Tribunal Superior Eleitoral na terça-feira (24). No placar, dois votos pela cassação e a declaração de inelegibilidade do governador.

Castro ocupa o Palácio Guanabara há cinco anos e meio, tempo de total submissão aos interesses do bolsonarismo. Seu antecessor, Wilson Witzel, foi afastado do poder quando passou a incomodar a família. A história pode se repetir. O governador desconfia que um grupo político, sob influência de Flávio, o filho 01, quer livrar-se dele, como se fosse uma peça defeituosa.

No TSE, Castro depende dos votos de Nunes Marques e André Mendonça, ministros indicados por Bolsonaro. Temendo uma decisão desfavorável, ele avalia renunciar antes do fim do julgamento. Caso escape da condenação, tentará uma das duas vagas ao Senado nas eleições de outubro. O cenário é incerto. Estão na disputa o ex-prefeito Marcelo Crivella, a petista Benedita da Silva, o ex-capitão do Bope Rodrigo Pimentel, o deputado Otoni de Paula, aliado de Eduardo Paes, líder das pesquisas para governador. O nome preferido de Flávio Bolsonaro é Márcio Canella, ex-prefeito de Belford Roxo.

Em outubro, a matança nos complexos do Alemão e da Penha deu popularidade a Castro. Hoje, no entanto, sua imagem está manchada. Recentes operações da Polícia Federal no Rio prenderam 35 agentes de segurança pública acusados de corrupção e envolvimento com o crime organizado.

Defensor do argumento que equipara traficantes de drogas a terroristas, o filho 01 quer evitar que a sujeira na gestão fantoche de Cláudio Castro respingue na campanha presidencial.

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BOLSONARO FOI DE EX-ATLETA IMORRÍVEL A IDOSO FRÁGIL

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Mortalidade um ano após pneumonia aspirativa chega a 49%

Domiciliar se justifica, mas teria de valer para todos os presos com doença grave

Se você se frustrou (ou ficou feliz) com a recuperação de Jair Bolsonaro, saiba que a situação ainda está longe de resolvida. Os números falam por si. Um estudo sul-coreano de 2019 com 550 pacientes de pneumonia aspirativa, a moléstia que levou o ex-presidente à UTI, mostra que a mortalidade um ano após o evento atinge 49% e vai a 76,9% após cinco anos.

O problema aqui é menos as bactérias, que, afinal, parecem estar sendo controladas pelos antibióticos, e mais o que a doença revela sobre o estado geral do paciente. A pneumonia aspirativa é hoje vista pelos médicos como um marcador inequívoco de vulnerabilidade, especialmente para idosos. Numa daquelas ironias da história, o sujeito com histórico de atleta que nada sofreria com a Covid-19 é agora oficialmente um idoso frágil. O fato de a infecção de Bolsonaro ter atingido os dois pulmões e as notícias de que ele não tem conseguido se alimentar direito tornam seu quadro ainda mais delicado.

A causa principal dos males que acometem Bolsonaro é conhecida: as várias cirurgias a que ele teve de ser submetido após a facada de 2018 provocaram complicações digestivas, como esofagite e refluxo, que têm se mostrado refratárias a controle. Ele pode voltar a aspirar conteúdo gástrico e desenvolver novas pneumonias.

Como já disse aqui, não é Bolsonaro quem vai me fazer desistir do humanismo penal que sempre defendi. Sua situação de saúde é compatível com a conversão da prisão em regime fechado em domiciliar. Mas, se o STF for por esse caminho, aí, em nome do princípio republicano, o ex-presidente precisaria se tornar "benchmark", isto é, idêntico tratamento teria de ser estendido a todos os enfermos graves que se encontrem no sistema. E não basta dizer que eles fariam jus aos mesmos benefícios. É preciso um esforço do Judiciário para identificar esses presos, que nem sempre contam com bons advogados e médicos que produzam laudos sombrios, e mandá-los para casa.

Seria até uma forma de o STF começar a resgatar a credibilidade perdida.

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CANÇÃO DO MAR

Homenagem ao grande diretor e ator Juca de Oliveira que faleceu hoje em São Paulo, aos 91 anos. Essa música era o tema de abertura da novela “As Pupilas do Senhor Reitor”, exibida pelo SBT em 1994. Juca de Oliveira era o “Reitor”.

A novela "As Pupilas do Senhor Reitor" era uma adaptação do clássico romance português de Júlio Dinis, publicado em 1867, que narra os amores de Margarida e Clara, órfãs tuteladas por um reitor no interior de Portugal do século XIX.

A trama foca no romance das irmãs com dois irmãos, enfrentando diferenças sociais e a resistência de seus familiares.

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A HERMENÊUTICA DO ORNITORRINCO

Luiz Gonzaga Belluzzo e Cláudio Balieiro Jr., CartaCapital

O capital financeiro, ao subordinar o valor presente da riqueza aos rendimentos, se conserva, se nega e se supera

A Economia Capitalista Monetária da Produção só pode ser compreendida como um processo histórico, no qual produção, circulação e valorização se articulam desde o início sob a mediação do dinheiro. Não se trata, portanto, de uma teoria do valor tomada em sua forma pura ou abstrata, mas de relações inerentes e socialmente fetichizadas, nas quais a valorização do valor se impõe como princípio organizador da vida social.

Em O Capital, no Livro III, ao analisar o processo de nivelamento da taxa de lucro “sobre o qual repousa toda a produção capitalista”, Marx desloca o foco da concorrência entre capitais individuais para a mobilidade do capital enquanto totalidade social. A centralização do capital monetário e o desenvolvimento do sistema de crédito reduzem os custos de circulação, diminuem a necessidade de retenção de fundos ociosos e aceleram o processo de reprodução ampliada do capital. O crédito permite que a acumulação avance muito além das possibilidades de cada capital industrial isolado, ao mesmo tempo que generaliza a concorrência, intensifica a realização contraditória do valor e torna imanentes as crises de superprodução.

Marx apreende a gênese dessas formas ao expor o capital já constituído em suas determinações, ainda que sua exposição se inicie pela forma elementar da mercadoria. No capital a juros, o capital aparece como se buscasse a valorização a partir de sua própria circulação, parecendo negar seus fundamentos produtivos, mas trata-se de uma forma necessária de manifestação de relações reais transformadas. Essa forma suprema do capital expressa uma contradição efetiva: a valorização parece autonomizar-se, mas o faz apenas porque a socialização produtiva mediada pelo crédito amplia a escala do desenvolvimento das forças produtivas e torna o capital funcionalmente interdependente.

Concomitantemente, a separação entre capital enquanto propriedade e capital enquanto função faz com que toda remuneração apareça sob a forma de juro, que se impõe como critério geral de valorização do capital total. Assim, todas as formas de renda, inclusive os salários, tendem a aparecer como rendas capitalizadas, e a taxa de juros afirma-se como limite inferior da aplicação de qualquer capital, funcionando como taxa interna de retorno que orienta a avaliação de ativos e investimentos.

O capital financeiro assume, assim, importância teórica central. Ele redefine o cálculo capitalista ao subordinar o valor presente de toda riqueza aos rendimentos esperados descontados pela taxa de juros de mercado. Não se desloca o fundamento sistêmico da acumulação, mas o eixo de sua manifestação histórica, performando a taxa de juros como referência autorreferenciada da dinâmica contemporânea de valorização. Trata-se de um movimento que só pode ser compreendido com uma análise sistêmica, no sentido hegeliano da Aufhebung, no qual o capital se conserva, se nega e se supera a si mesmo.

O capital financeiro subordina toda riqueza aos rendimentos futuros descontados pela taxa de juros

Nesse movimento de financeirização da economia capitalista monetária da produção, o capital financeiro organiza o espaço global de acumulação, determinando fluxos, preços de ativos e hierarquias monetárias. A moeda e a dívida como ativo primordial não são neutras nem exógenas. A criação monetária ocorre como produção de liquidez mediada pelo crédito e por arranjos institucionais, não como simples “impressão de dinheiro”. A narrativa que reduz a política econômica à obsessão fiscal obscurece esse funcionamento real e subordina a ação do Estado às exigências de valorização financeira, comprimindo o espaço fiscal enquanto instrumento político.

O investimento não é função da poupança, mas das expectativas de lucro e da confiança quanto à realização futura do excedente. Essa lógica se projeta sobre a circulação internacional de capitais, movida por expectativas de rentabilidade financeira e segurança cambial. Em contextos de incerteza, o flight to quality provoca fuga de capitais das economias periféricas, e esse deslocamento repercute imediatamente sobre a curva de juros doméstica. A pressão cambial leva o Banco Central a elevar a Selic Over para conter a depreciação e ancorar expectativas. Eleva-se a curva curta, distorce-se a estrutura a termo e, com a marcação a mercado diante da fuga de capitais, empina também a ponta longa. O custo de rolagem da dívida pública aumenta e o espaço fiscal se comprime, afetando o investimento.

Como advertia o velho Mohr de ­Tréveris:

“A dívida pública torna-se uma das alavancas mais poderosas da acumulação primitiva, como um toque de varinha mágica, ela infunde força criadora no dinheiro improdutivo e o transforma, assim, em capital, sem que, para isso, tenha necessidade de se expor aos esforços e riscos inseparáveis da aplicação industrial e mesmo usurária. Na realidade, os credores do Estado não dão nada, pois a soma emprestada se converte em títulos da dívida, facilmente transferíveis, que, em suas mãos, continuam a funcionar como se fossem a mesma soma de dinheiro vivo (…) a dívida pública impulsionou as sociedades por ações, o comércio com papéis negociáveis de todos os tipos, a agiotagem, numa palavra: o jogo da Bolsa e a moderna bancocracia”. (Marx, 2013, p. 824)

Tratar política monetária e política fiscal como indissociáveis é um equívoco teórico e político. Essa separação repousa em modelos herdados da física newtoniana, da tradição walrasiana e dos equilíbrios gerais, incapazes de apreender o capitalismo como processo histórico e contraditório. No capitalismo monetário da produção, decisões monetárias e produtivas se determinam conjuntamente no espaço-tempo. A economia é um movimento social mediado pela moeda, pelo crédito e pela expectativa.

O risco de cooptação da acumulação social pela riqueza abstrata, que consome a vida e reduz as possibilidades econômicas para nossos netos, é evidente. Não por acaso, em 1930, um homem público ousou sonhar com o fim dessa lógica, chamavam-no de Maynard, assim tratado por respeito entre aqueles que ainda carregam valores humanistas. Cultivemos a humanidade dos primitivos que carregam consigo o maxilar inferior de seus mortos, como dizia Drummond. Ou, como diria Caetano Veloso: “Gente é pra brilhar, não pra morrer de fome”. 

Publicado na edição n° 1405 de CartaCapital, em 25 de março de 2026.

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O ESCUDO GILMAR

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Escudo Gilmar evidencia a impossibilidade de que ministros do STF sejam investigados

O acordo sério que se urde não é o de delação. É o de empastelamento. Para que nunca saibamos o que se comprou quando comprada aquela parte do hotel. Para que nunca saibamos o que se contratou quando contratado aquele escritório de advocacia. (Ou aquela consultoria.) Para que nunca saibamos do que tratavam quando tratavam sobre bloquear algo.

O caso Master bateu no teto – nas togas – das possibilidades investigativas deste país. E a história nos ensina que aqui paramos. O caso Master chegou ao Supremo e o Brasil voltou ao lugar em que decidirá pela acomodação; o que significa asfixiar a investigação. Chegamos de novo – a história se repete – a Dias Toffoli, vários “os amigos dos amigos” de alguém que precisa ter a ação contra si bloqueada. Vários agora os que precisam ter as ações contra si bloqueadas.

Não é a história que se repete. A história nos ensina. Não saímos do lugar. Desse lugar tendo saído – por Dias Toffoli, para Dias Toffoli – o inquérito xandônico onipresente e infinito. Desde esse lugar tendo se procedido – por Dias Toffoli – à destruição de provas sobre corrupção. Dias Toffoli é a fachada. Expressão de que o limite se aproxima.

Chegou-se ao momento em que advogado de provável delator precisa garantir que a colaboração do cliente será “séria”. Garantia necessária porque o banqueiro passara a testar mercados sobre a hipótese de uma delação seletiva, poupados ministros do Supremo. Não há mesmo estímulos para que fale de suas relações com Dias Toffoli, Alexandre de Moraes e Nunes Marques, membros do tribunal que homologará o seu acordo e que o julgará. Os dois primeiros ainda membros do clube do uísque londrino de Vorcaro, em cuja mesa também se sentaram Paulo Gonet e Andrei Rodrigues, chefes das instituições portas-de-entrada à delação.

Não voltamos ao mesmo lugar. Nunca saímos do lugar. Não há razões para crer em que seja séria a delação. Estão aí as gestões de Gilmar Mendes – baixado o escudo Gilmar – para evidenciar a impossibilidade de que ministros do STF sejam investigados. Ele tranca a Corte e manda recados. Não se pode saber nem quanto nem de quem a empresa de Dias Toffoli recebeu em suas transações com a teia vorcárica. Tampouco se pode saber quanto e a quem o fundo sócio da empresa de Dias Toffoli pagou – fundo que nos levará à Reag, enredada na Operação Carbono Oculto, sobre trânsitos entre PCC e mercado financeiro.

Mendes criou uma prevenção-puxadinho para si – relatorblindador de tudo quanto se refira à busca por dados sobre relações de ministros-empresários com Vorcaro. Dias Toffoli – a proteção a Dias Toffoli – sendo apenas objeto de partida. O cerceamento à prerrogativa investigatória das CPI, apenas parte do projeto. O recado é também ao banqueiro. Não valerá o esforço.

Entregar políticos do centrão bolsonarista, governadores ferrados, o PT baiano e burocratas do Banco Central é fácil – e o acordo que se tece poderia fazer ser suficiente. A delação de Vorcaro só será séria se detalhar também suas relações e de seus zetteis com ministros do STF. Não será. •

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DEPOIS DAS BETS, AGORA TUDO É APOSTA

Fabio Gallo, O Estado de S. Paulo

Os ‘prediction markets’ criam incentivos para a ocorrência de eventos negativos

O mercado de apostas no Brasil e em outros países tem crescido sistematicamente. Dados recentes mostram que estamos entre os maiores mercados globais das bets, com um volume de apostas entre R$ 120 bilhões e R$ 150 bilhões anuais. Nos Estados Unidos, as apostas digitais movimentaram US$ 167 bilhões em 2025. Algo que fere a racionalidade, porque todos os dados mostram de forma consistente que em torno de 95% dos apostadores perdem dinheiro. Não se trata de jogo de azar, os números sorteados não são aleatórios, mas estruturais, sendo as chances ajustadas e a margem das casas de apostas garantidas.

Trata-se de um ambiente de retorno esperado negativo, no qual a probabilidade de perda é uma característica estrutural do sistema – e não ocasional. Os resultados desse ambiente estamos assistindo, com a deterioração mensurável da saúde financeira das famílias, o crescimento de problemas de saúde mental e evidências de maior propensão a suicídio em grupos vulneráveis. Não sendo apenas um problema individual, mas um fenômeno macroeconômico emergente: transferência de renda das famílias – especialmente de baixa renda – para plataformas de apostas, com efeitos diretos sobre consumo, poupança e estabilidade financeira.

Mas, se isso tudo não bastasse, está virando moda nos EUA e agora chegando no nosso quintal os chamados “prediction markets”. Não se trata de uma inovação isolada, mas uma simples extensão das bets. São plataformas que ampliam o escopo das apostas para qualquer evento econômico, político ou social, mantendo – e potencialmente ampliando – os mesmos riscos estruturais.

Os “prediction markets” representam uma nova fronteira da financeirização: transformam eventos políticos, sociais e até tragédias humanas em derivativos negociáveis. Embora se apresentem como instrumentos de informação – baseados na “sabedoria das multidões” –, sua estrutura é essencialmente a de opções binárias altamente especulativas, com riscos adicionais de manipulação e uso de informação privilegiada. A aposta em eventos como guerras, crises humanitárias ou desastres naturais ainda levanta questões éticas profundas, pois transforma sofrimento humano em ativo financeiro.

Diferentemente de mercados tradicionais, onde o risco pode ser gerido ou transferido, os “prediction markets” criam incentivos econômicos para a ocorrência de eventos negativos. Além disso, introduzem riscos de manipulação e de profecias autorrealizáveis. No limite, não se trata apenas de prever o futuro, mas de criar um sistema no qual o pior cenário possível pode se tornar financeiramente desejável. Em meio a tudo que estamos vivendo, isso é o que faltava!

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MORRE JUCA DE OLIVEIRA

Laura Pereira, TV Globo, g1

Morre, aos 91 anos, o ator Juca de Oliveira

Ele estava internado no Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo, desde o dia 13 de março por causa de uma pneumonia e de uma condição cardiológica.

O ator e dramaturgo Juca de Oliveira morreu aos 91 anos na madrugada deste sábado (21) em São Paulo. A informação foi confirmada à TV Globo pela assessoria da família.

Ele estava internado na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Hospital Sírio-Libanês, desde o dia 13 de março em decorrência de um quadro de pneumonia associado a uma condição cardiológica.

Em nota, a família informou que seu estado de saúde era delicado e agradeceu "as manifestações de carinho e solidariedade".

"Com pesar, comunicamos o falecimento do ator, autor e diretor Juca de Oliveira, ocorrido nesta madrugada de 21 de março de 2026, aos 91 anos. Reconhecido como um dos grandes nomes das artes cênicas brasileiras, Juca de Oliveira construiu uma trajetória sólida e admirada no teatro, na televisão e no cinema", diz um trecho do comunicado.

José Juca de Oliveira Santos nasceu no dia 16 de março de 1935, em São Roque, interior de São Paulo, e iniciou sua carreira no teatro nos anos 1950.

Ao todo, participou de mais de 30 novelas e minisséries, além de ter integrado o elenco de mais de dez longas-metragens e 60 peças de teatro, incluindo aquelas em que trabalhou como autor.

Seu papel mais marcante na TV foi na novela "O Clone", de Glória Perez. Ele interpretou o médico geneticista Doutor Albieri, responsável pela produção de um clone humano.

O velório será realizado no Funeral Home, no bairro da Bela Vista, região central da capital, das 15h às 21h deste sábado. A cerimônia será restrita a amigos e familiares.

O início da carreira

Antes do teatro, Juca chegou a cursar a faculdade de Direito na Universidade de São Paulo (USP) e a trabalhar em um banco. No entanto, a veia teatral falou mais alto e ele decidiu largar o emprego e trancar a faculdade para focar no seu desenvolvimento na Escola de Arte Dramática.

Ainda na década de 1950, fez parte do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC), tendo contracenado com nomes como Aracy Balabanian e encenado peças como “A Semente”, de Gianfrancesco Guarnieri, e “A Morte do Caixeiro Viajante”, de Arthur Miller.

Nos anos 1960, em parceria com Guarnieri, Augusto Boal, Paulo José e Flávio Império, comprou o Teatro de Arena, uma referência da cultura brasileira em meio à ditadura militar. Juca, que também era ligado ao Partido Comunista Brasileiro, acabou sendo perseguido pelo Estado brasileiro e se exilou na Bolívia.

“Não foi por acaso que o Teatro de Arena foi brutalmente atingido pela ditadura militar. O teatro foi fechado, nós fomos perseguidos. Uma tragédia”, disse em depoimento ao projeto Memória Globo.

Ao voltar para o Brasil, fez sua primeira novela, ainda em 1964: "Quando o Amor É Mais Forte", da TV Tupi. O ator estreou na TV Globo em 1973, interpretando o personagem Alberto Parreiras em "O Semideus".

O auge na TV

Nos anos 1980, Juca teve passagens por Bandeirantes, onde atuou em "A idade da Loba", e pelo SBT, tendo participado de "Os Ossos do Barão".

Em 1993, voltou à TV Globo para fazer "Fera Ferida" e, ainda nos anos 1990, integrou o elenco de "Torre de Babel".

Com "O Clone", exibida entre 2001 e 2002, viveu um dos seus grandes momentos na TV. Na trama, após a morte do seu afilhado, Diogo (Murilo Benício), seu personagem, Dr. Albieri, decidiu realizar o sonho de ser o primeiro médico a realizar clonagem humana. Para isso, ele acaba clonando o irmão de Diogo, Lucas.

“Esse personagem tem uma particularidade excepcional do ponto de vista do texto. Eu fico até arrepiado quando penso nisso. É muito bonita a maneira como ele se refere à dor da perda daquele menino que era toda a sua vida, que dava sentido inclusive à sua existência. A perda é tão grande que daí ele parte para a construção de um igual para substituir”.

Seu último papel na TV foi 'O Outro Lado do Paraíso', em 2018, interpretando Natanael. Nos últimos anos, o ator focou seu trabalho no teatro — o qual ele nunca deixou de lado — e no cuidado da sua fazenda de gado para corte.

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MORRE ARIOSTO HOLANDA

Do Diário do Nordeste

Morre o ex-deputado federal Ariosto Holanda, aos 86 anos

Natural de Limoeiro do Norte, ele exerceu seis mandatos na Câmara dos Deputados.

O ex-deputado federal Ariosto Holanda morreu neste sábado (21), aos 86 anos. Natural de Limoeiro do Norte, ele exerceu seis mandatos na Câmara dos Deputados e foi secretário da Ciência e Tecnologia do Ceará durante o Governo de Tasso Jereissati (PSDB).

Engenheiro Civil e professor, ele recebeu diversas homenagens, como a Medalha Nacional do Mérito Científico, Classe Comendador – Ordem Nacional do Mérito Científico (1997), a Medalha da Ordem Nacional do Mérito Educativo (2002) e a Medalha do Conhecimento do Governo Federal (2007).

Ele também foi homenageado ao nomear a comenda concedida pelo Instituto Iracema Digital desde 2023, chamada de Comenda Ariosto Holanda de Ciência, Tecnologia e Inovação.

O funeral foi realizado durante a manhã deste sábado, com a missa marcada para às 14h30, na Funerária Ternura. O sepultamento ocorre no Cemitério Parque da Paz, a partir das 17hs.

Lideranças políticas lamentaram a morte de Holanda. O governador Elmano de Freitas (PT) destacou a atuação do ex-deputado federal na área da Ciência e Tecnologia, inclusive como gestor da pasta. 

"(Ariosto Holanda) colaborou muito para o desenvolvimento do nosso Ceará. Meus sentimentos a todos os familiares e amigos".

O senador Cid Gomes (PSB) também prestou sua homenagem nas redes sociais.

O ex-senador Tasso Jereissati também lamentou o falecimento de Ariosto Holanda. "Ariosto foi um visionário que dedicou a vida a família e ao trabalho promovendo inovações fundamentais em educação e tecnologia", ressaltou. 

Sua contribuição ao desenvolvimento do Ceará é imensurável e seu legado, marcado pelo pioneirismo, será sempre lembrado com gratidão", disse em publicação no Instagram.

O prefeito de Fortaleza, Evandro Leitão (PT), prestou solidariedade à família de Ariosto.

Contribuição de Ariosto Holanda para a Ciência e Tecnologia

Atual presidente do Instituto Centec, Acrísio Sena relembrou que o órgão foi criado, há 27 anos, durante a gestão de Ariosto Holanda na Secretaria de Ciência e Tecnologia. 

"Quando esse assunto ainda nem ocupava espaço nas discussões, ele já acreditava que a ciência, a tecnologia e a inovação seriam caminhos reais de transformação.
E ele não ficou no discurso, ele construiu", disse. 

"Criou o Centec e, a partir disso, abriu possibilidades onde antes não existiam, levou oportunidade a quem nunca teve e ajudou a transformar a realidade de milhares de pessoas", enfatizou.

O deputado estadual Salmito Filho também prestou homenagem a Holanda. "O Ceará perdeu um dos maiores homens públicos de sua história", disse.

"Deputado Ariosto Holanda reuniu destacadas virtudes praticadas como um missionário da boa política com uma visão larga e qualificada sobre o desenvolvimento, compreendeu e implantou a importância estratégica da inovação tecnológica como ferramenta de transformação sócioeconômica e de elevado espírito público no exercício do mister de um respeitável homem público", elencou.

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