sexta-feira, 21 de agosto de 2026

A FORÇA E A FRAQUEZA DO STATUS QUO BRASILEIRO

Fernando Luiz Abrucio, Valor Econômico

É preciso discutir o dilema imposto pela necessidade de reformas em um ambiente em que muitos com poder resistem às mudanças

Um grande dilema vai marcar o início do próximo quadriênio (2027-2030). De um lado, o país precisará fazer reformas econômicas, administrativas e político-institucionais para não entrar numa grave crise, o que inviabilizaria o mandato do novo presidente num momento de incerteza internacional e aumento da desconfiança do eleitorado. Por outro, os atores que representam o status quo atual tendem a continuar fortes, especialmente os congressistas sob a hegemonia do Centrão, e mesmo o Judiciário, que tem perdido popularidade, ainda tem muita capacidade de resistir à mudança.

O enfrentamento desse dilema é a questão mais importante após a eleição, mas já deveria ser discutido desde já, pois a sociedade precisa saber dessa dificuldade política e dos custos de não resolvê-la. Ainda mais porque os principais presidenciáveis pouco falam da realidade que enfrentarão no ano que vem, seja a das políticas públicas, seja a da complexa governabilidade.

A herança das políticas públicas de Lula III tem coisas boas e ruins. A política ambiental foi retomada depois da hecatombe bolsonarista. O sucateamento do SUS realizado pelo governo anterior foi estancado, com algumas novidades, como o uso inteligente da telemedicina como instrumento para combater as desigualdades territoriais. O MEC voltou a ter protagonismo, com diversos avanços importantes, com destaque para a política federativa de colaboração com os estados e municípios na alfabetização, com impacto no desempenho escolar já no presente quadriênio.

Outras medidas positivas poderiam ser destacadas, realçando que o principal mérito governamental foi reconstruir parcelas do Estado que tinham sido destruídas pelo bolsonarismo - algo que poderá se repetir no próximo quadriênio. Mas a fórmula lulista de governo já não tem a efetividade dos dois primeiros mandatos de Lula. O mundo e o Brasil mudaram, e há novos desafios, que exigem agendas e estratégias renovadas.

Três exemplos podem ilustrar esse desgaste na fórmula lulista de governar. O primeiro é a incapacidade de gerar um novo ciclo de desenvolvimento para além do modelo baseado na ampliação da renda e, sobretudo, do crédito. O país tem de construir mais riquezas aumentando a produtividade e o investimento. Não se trata mais, como na ditadura militar, de reclamar da falta de combate às desigualdades, porque o lulismo efetivamente levou adiante o modelo da Constituição de 1988 e teve uma herança bendita de FHC para criar várias políticas redistributivas de recursos e de oportunidades, um dos seus maiores méritos. Só que se o crescimento se tornar insustentável nos planos fiscal e monetário, já não há mais coelho na cartola que empurre por mais anos o ajuste institucional das contas públicas.

Em segundo lugar, novas agendas e atores surgiram nos últimos anos, de modo que o mundo das políticas públicas se tornou mais complexo. Parte dos grupos emergentes são, inclusive, derivados do sucesso da fórmula lulista de governar, e é preciso readequar as políticas públicas para esse novo cenário. Tão relevante quanto dialogar, entender e descobrir novas soluções para os novos atores é incorporar uma lista de temas que não eram centrais no lulismo. O apoio às mulheres da classe C que vivem nos eixos metropolitanos vai exigir um arsenal de políticas sociais diferentes. Mais importante ainda, a política de segurança pública tem de ganhar maior centralidade na ordem de prioridades lulista.

Aliás, um erro fatal foi não ter criado, desde o início do mandato, um ministério específico para essa questão, o que evitaria a narrativa de que a esquerda acredita que o problema da violência é apenas uma questão social. Isso já não é verdade faz algum tempo e nem a direita tem sido efetiva no assunto - basta ver o fracasso da política de segurança do governador Tarcísio de Freitas, com a explosão de feminicídios e dos roubos ou furtos de celulares. Entretanto, mesmo tendo ao final do governo proposto legislações importantes como a lei Antifacção e a PEC do Sistema Único de Segurança Pública (SUSP), a demora em colocar a temática em maior evidência custou credibilidade eleitoral ao presidente Lula.

Fechando a lista de exemplos, o lulismo não tem sido capaz de renovar boa parte de suas lideranças. É verdade que novos nomes com grande talento surgiram, como o governador do Piauí, Rafael Fonteles, e figuras do governo federal como Fernando Haddad e Camilo Santana foram bem-sucedidas em vários pontos reformistas e vão além da agenda passadista de boa parte do petismo.

Entretanto, a renovação precisa ser maior, incorporando novas lideranças sociais e se aproximando mais do povo. Cresci na periferia de São Paulo entre as décadas de 1970 e 1980, e na época as comunidades eclesiais de base estavam por toda parte. Vários dos políticos petistas que ascenderiam mais tarde ao poder estavam constantemente, como dizia Mário Covas, sujando o pé no barro - e hoje estão muito distantes de uma boa parte das camadas populares. Isso para não falar da escassez de lideranças de centro-esquerda no mundo das redes sociais.

A dificuldade de ir além do modelo lulista dos dois primeiros mandatos também se deveu ao novo cenário político. Nele, estiveram presentes uma oposição forte e com uma estratégia contra as instituições, um Congresso revigorado nos poderes, mas não nas responsabilidades, além de um sistema de Justiça que teve fraturas no meio do caminho entre seu papel central na defesa da democracia e o corporativismo de suas lideranças e da magistratura, algo que está sendo rechaçado pela sociedade. Ao conturbado cenário interno somou-se a desordem e perseguição externa provocada pelo governo Trump, que nos atingiu com o tarifaço e com a ameaça de intervir na eleição presidencial de 2026.

O cenário não será menos conturbado no próximo mandato presidencial. Aí voltamos ao dilema das necessidades imperiosas da mudança versus o poder do status quo. Em relação ao primeiro ponto, um ajuste fiscal e da estrutura de governança administrativa vai ser necessário logo no início do mandato. O ponto nevrálgico é que as dívidas dos cidadãos e do governo se tornaram insuportáveis, e com a Selic nas alturas o problema tende a se agravar muito rapidamente. Bom, então por que não se reduz numa tacada só a taxa de juros? Já se fez isso antes, e os resultados não foram, digamos, muito bons.

Na verdade, se o próximo presidente conseguir reformular o arcabouço fiscal para que ele seja crível por anos em sua tarefa de estancar o crescimento da dívida pública, por meio de reformas na lógica orçamentária, nos gastos com os penduricalhos da elite do setor público e na redução das renúncias tributárias, seria até possível recalibrar a meta de inflação, que de fato é irrealista para nossas condições. O casamento desses dois componentes seria positivo, mas depende antes de um projeto de longo prazo de reforma do Estado, que o torne sadio financeiramente e efetivo na provisão dos serviços públicos.

O problema está no descasamento da urgência da reforma com a defesa do status quo de quem é mais forte no sistema atual. Um exemplo diz tudo: a redução do número de concorrentes à Câmara Federal em 2026 em comparação ao passado recente. A oligarquização é hoje um traço marcante na seleção dos deputados federais. A soma de emendas parlamentares bilionárias e sem paralelo no mundo com os amplos recursos de campanha nas mãos dos partidos tem dificultado muito a renovação congressual. Ora, as reformas teriam que passar, em alguma medida, pela redução dos recursos que favorecem os que vão continuar com hegemonia em Brasília.

Há outros vencedores dos últimos anos que podem ser atingidos por reformas no próximo governo. O sistema de Justiça se fortaleceu, com alguns impactos positivos para salvaguardar a ordem constitucional, mas com efeitos negativos para o controle republicano de seus comportamentos e rendimentos. Também há os grupos lobistas que reforçaram seus interesses e seus laços com a elite dos congressistas. O caso do setor elétrico é paradigmático aqui, com poucos jogadores obtendo altos rendimentos em detrimento dos consumidores e da sustentabilidade do setor.

A questão é que se nada ou pouco for feito, a crise virá. O tamanho dela ainda é controverso, mas com certeza vai impactar vários atores sociais e a popularidade do novo presidente. A economia ficará pior do que neste ano, o que se junta a um cenário geopolítico bem difícil, além dos possíveis efeitos climáticos do El Niño. O quanto o status quo irá resistir à perda geral de bem-estar? Se a resiliência do atraso for o saldo líquido do jogo político, a crise do sistema político já será sentida fortemente nas eleições municipais de 2028, ou até antes, com o crescimento de outsiders, o que seria a antessala de um processo incontrolável de recomposição do poder.

Caso haja uma crise, o que é bem provável, o status quo precisará entregar os anéis para não perder os dedos. O que ainda não sabemos, e deveria ser discutido pragmaticamente pelos presidenciáveis e pela sociedade, é quantos anéis são necessários para construir um caminho mais seguro para o futuro do país.

*Fernando Abrucio, doutor em ciência política pela USP e professor da Fundação Getulio Vargas

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quinta-feira, 20 de agosto de 2026

A SOLIDÃO DE FLÁVIO BOLSONARO

Maria Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Incentivos institucionais e cálculo político explicam a neutralidade da direita pragmática

Coligações de partidos não definem as escolhas do eleitor, mas têm importantes efeitos indiretos

Aberta a temporada eleitoral, a candidatura de Flávio Bolsonaro vive um paradoxo. Ele é o preferido dos que jogam no campo antipetista. Pesquisa após pesquisa o situa perto —às vezes até empatado— com o presidente Lula. Na sondagem de agosto da Quaest, tem 30% das preferências, contra 39% do incumbente que pleiteia a reeleição. Ao mesmo tempo, o filho do ex-presidente amarga notável isolamento das lideranças do vasto campo das direitas.

Flávio Bolsonaro não logrou construir coligação eleitoral e terminou lançado apenas pela sua legenda, o PL (Partido Liberal). Desde 1989, é a primeira vez que um candidato competitivo não se apoia numa coligação. Até seu pai, um inimigo declarado do "sistema", teve a seu lado, além do PSL (Partido Social Liberal), o pequeno PRTB (Partido Renovador Trabalhista Brasileiro). O filho tampouco conseguiu atrair um vice com luz própria, capaz de somar algo a uma disputa que se prevê acirrada. E o alagoano Alfredo Gaspar (PL), político de projeção apenas local, chega à campanha sob o peso de ter de se defender de graves denúncias sobre seu comportamento na vida privada.

Sintomáticas são também as atitudes da direita pragmática. Espertas, as agremiações que formam o chamado "centrão" —Movimento Democrático Brasileiro (MDB), União Brasil, Partido Progressistas (PP) e Republicanos (PR)— se refugiaram numa posição oficial de neutralidade na disputa nacional, sem lançar candidatos próprios ao governo, nem apoiar formalmente qualquer dos concorrentes ao Palácio do Planalto no primeiro turno.

Incentivos institucionais e cálculo político explicam a neutralidade. Os generosos recursos dos fundos eleitoral e partidário poderão ser totalmente empregados no que mais interessa na hora do vamos ver, porque lhes acresce poder: as eleições para o Congresso Nacional e, a depender das circunstâncias, para os governos estaduais. Já a neutralidade confere flexibilidade política à escolha das coligações subnacionais. Ali onde o PT é forte, não haverá por que hostilizar seu candidato à Presidência. Por trás de tudo, a certeza de que o vitorioso sempre dependerá do apoio das forças majoritárias no Parlamento.

A existência e a amplitude das coligações estão longe de ser os determinantes maiores do voto. Este resulta de um conjunto de fatores que incidem de diferentes formas sobre diferentes tipos de eleitor e incluem também a existência de identificação do votante com um partido; simpatia pelo candidato; e a própria campanha eleitoral e seus múltiplos recursos de persuasão. Os cientistas políticos concordam que as coligações partidárias têm ainda importantes efeitos indiretos. Multiplicam os recursos para campanhas; trazem tempo e dinheiro para a propaganda eleitoral gratuita no rádio e na TV e para a comunicação nas redes sociais; asseguram capilaridade em todo o território; e sinalizam a existência de apoios que fazem a candidatura —e um futuro governo— parecer politicamente viáveis.

Assim, não será à toa que, no chocho comício inaugural da campanha de Bolsonaro-2, domingo passado (16/8), em Copacabana, seja mais fácil contar quem não foi. Por lá não se viram políticos conhecidos, nem bolsonaristas notórios. Prova viva da solidão política do candidato da extrema direita.

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DIPLOMA NÃO É DOCUMENTO

Merval Pereira, O Globo

Quem faz blogs e se diz jornalista, mas não é, pode ser processado pela lei penal, por injúria, difamação ou qualquer outro crime

A exigência de diploma para jornalistas foi imposta por decreto da Junta Militar em 1969 e vigorou durante 40 anos no Brasil, até que o Supremo Tribunal Federal (STF) a revogou, em 2009, considerando que a proibição de exercer a profissão violava a liberdade de expressão e de informação. Na primeira ocasião, a obrigatoriedade agradava aos que tinham faculdades de jornalismo e atuavam em um mercado de trabalho controlado pelo oficialismo governamental: ministérios, secretarias, sindicatos e associações chapas-brancas.

Mas a exigência tinha também o sentido de controlar quem podia ser jornalista, pois o registro era dado pelo governo, a ditadura militar. Hoje, a situação é mais complexa por causa das redes sociais, que inundam os usuários de informações nem sempre fidedignas, sem o controle de qualidade exigido pelo jornalismo profissional. É uma situação diferente da que tínhamos quando se decidiu que não era preciso ter diploma.

Comecei a trabalhar há 60 anos, quando não se precisava ter diploma. A falta dele não me impediu de ser visiting scholar na Universidade Columbia, nos Estados Unidos, considerada a melhor faculdade de jornalismo do mundo. Ganhei também uma bolsa para estudar na Universidade Stanford, na Califórnia, da John S. Knight Foundation — cuja base era a política internacional, no momento em que ruía a União Soviética e o Japão parecia no caminho de dominar o mundo —, um programa de aperfeiçoamento para jornalistas de várias partes do planeta, sem que me exigissem diploma. Nos Estados Unidos, e em vários outros países, não há obrigatoriedade de graduação em faculdade de jornalismo, embora nada impeça de cursá-las quem quiser.

Muitos jornalistas têm blogs, mas outros só têm blogs pessoais e nunca trabalharam em jornalismo. Não é o caso do blogueiro maranhense Luís Pablo, jornalista registrado que trabalha há muitos anos. A ligação entre a retomada da proposta de obrigatoriedade do diploma e o caso do Maranhão é praticamente direta, mas equivocada.

O sigilo da fonte jornalística não pode ser quebrado por ninguém, por maior que seja seu cargo na República. Justamente para impedir que as autoridades atuem para constranger ou prejudicar o jornalista que deu a informação indesejada pelas autoridades. Como dizia Millôr Fernandes: “Notícia é tudo o que os governantes não querem que seja publicado. O resto é secos e molhados”. A imprensa nasceu no século XV, com a prensa de tipos móveis inventada por Gutenberg, para dar condições à sociedade civil de se contrapor à força do Estado absolutista e legitimar suas reivindicações no campo político, denunciando abusos dos governantes.

Talvez seja necessário fazer uma distinção entre jornalista e os que dão opinião em blogs nas redes. O jornalista tem todo o apoio da legislação e não pode ser atingido pela tentativa de controle da informação ou da fonte. Mas, ao mesmo tempo, não se pode ficar sujeito a que qualquer um abra seu próprio blog, se diga jornalista e comece a caluniar e atingir outras pessoas. É um assunto que terá de ser discutido em algum momento, mas, enquanto isso não acontece, a fonte é preservada com todos os direitos pela Constituição, e o jornalista não pode ser pressionado por questões políticas.

Evidente que os ministros do STF trazem de volta o tema para dizer que não quebraram o sigilo da fonte de um jornalista — e não violaram a Constituição —, mas sim de alguém que não tem a responsabilidade que um jornalista precisa ter. Não é o caso, porém, do jornalista maranhense. Quem faz blogs e se diz jornalista, mas não é, pode ser processado pela lei penal, por injúria, difamação ou qualquer outro crime, sem que haja necessidade de burlar a Constituição ou de criar exigências como o diploma.

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W.O. EM DEBATE DEVERIA CUSTAR VOTO

Julia Duailibi, O Globo

A ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota

Ser candidato numa eleição significa cumprir algumas obrigações básicas, principalmente quando a candidatura é para inquilino da Presidência da República. Entre os deveres não previstos em lei, está participar de debates. Trata-se não só de demonstração de respeito, mas de evidente obrigação moral com o eleitor. Por isso a ida a esse tipo de confronto deveria ser tratada com mais cerimônia por aqueles que dependem da boa vontade de quem vota para chegar ao poder.

Na eleição deste ano, a campanha de Lula anunciou que ele não deverá participar do primeiro debate na TV, promovido pela Band. Flávio Bolsonaro aproveitou para pegar carona e também não deverá ir. Alguns candidatos a governador, líderes em seus estados, seguiram a mesma receita. Uma vergonha do ponto de vista histórico — o debate televisionado entre os governadores, em 1982, ainda durante o regime militar, foi pioneiro, uma vez que os confrontos estavam até então suspensos pela Lei Falcão.

A lógica do Q.G. petista é a mesma que norteia o PL. No confronto com os demais candidatos, Lula é a principal vidraça. Está no poder, é o líder nas pesquisas, e os principais adversários são da direita. Na ausência de Lula, a vidraça é Flávio. Ele se torna alvo dos demais candidatos, que tentarão usá-lo como escada para ser mais conhecidos e abocanhar, assim, parte de seu eleitorado de direita.

O raciocínio não está errado. É fato que Lula ocupa a pole position dos alvos, e Flávio é o P2 (segunda posição no grid). O compromisso deles, no entanto, não deveria ser com a autopreservação, mas sim com o debate de ideias típico de democracias consolidadas, por mais duro e, muitas vezes, abaixo da linha da cintura que esses confrontos sejam — daí as regras e punições acordadas pelas equipes antes.

Os candidatos veem participar nos debates como principal risco — e não faltar a eles. Desde a redemocratização, todos os principais candidatos a presidente já deram cano nos confrontos televisivos, prática que não vem de agora. Na eleição de 1960, a TV Tupi tentou inovar com um debate entre os presidenciáveis, mas Jânio Quadros acabou arranjando um compromisso no Nordeste para faltar.

Nos Estados Unidos, que difundiram o confronto nacional na televisão, com Nixon versus Kennedy em 1960, faltar a um debate ainda é exceção. Os debates por lá só não ocorreram em 1964, 1968 e 1972. Tudo bem que, no geral, são apenas dois candidatos, republicanos e democratas (raramente entra um independente). Mas, mesmo correndo risco de ser engolidos pelos adversários, todos se submeteram ao confronto, em maior ou menor grau. Que o digam Nixon no embate contra Kennedy (e olha que o republicano foi a quatro debates), Carter versus Reagan (que jantou o democrata com a célebre pergunta sobre a vida estar melhor ou pior que quatro anos antes) e até Biden (cuja candidatura foi ceifada em 2024 depois de uma atuação constrangedora no debate contra Trump).

A participação em debates deveria ser parte inegociável da agenda dos candidatos numa eleição. Quer disputar, então tem de debater. O Brasil foi normalizando o W.O. nos confrontos, e os líderes nas pesquisas ficaram à vontade para dar o cano no eleitor — muitas vezes, sem nem se dar ao trabalho de fazer um R.S.V.P.

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quarta-feira, 19 de agosto de 2026

JANONES DESAFIA A ESQUERDA A ABANDONAR 'CAMPANHA FOFA'

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

Deputado defende usar contra a direita as mesmas armas da guerra digital

Conflito nas redes podem mobilizar militantes, mas não necessariamente conquistar novos eleitores

André Janones anunciou no X que está de volta à linha de frente da campanha de Lula. Disse ter "aceitado a missão", publicou uma foto com o presidente e prometeu seguir a estratégia que, segundo ele, a esquerda precisa adotar para enfrentar a direita: abandonar a "campanha fofa" e entrar na guerra digital "sem medo, sem pudor e sem remorso".

Tudo isso, porém, compõe até agora um roteiro apresentado pelo próprio Janones nas redes. A campanha de Lula não confirmou publicamente que o deputado tenha sido incorporado à sua estratégia eleitoral.

O roteiro vem sendo escrito há semanas. Primeiro, Janones anunciou que a meta deveria ser o "extermínio completo do bolsonarismo" e declarou-se pronto para "matar ou morrer". Depois, acusou seu campo de "treinar fofo", enquanto os bolsonaristas já estariam dominando as narrativas e o engajamento.

Em seguida vieram a fotografia, o anúncio da suposta missão e a declaração de guerra. Finalmente, convocou a militância a abandonar a "esquerda limpinha" e escolher suas armas, prometendo "tiro, porrada e bomba nas redes, 24 horas por dia".

Pode ser apenas Janones reivindicando para si um lugar que a campanha de Lula não lhe concedeu. De toda forma, é interessante como ele revela uma concepção bastante precisa de comunicação eleitoral que é compartilhada por parte considerável da militância: não se pode ter nojo de sujar as mãos e lutar na lama, se necessário.

Campanhas eleitorais sempre combinam estilos de comunicação. Há a campanha oficial, submetida à legislação, às pesquisas, às alianças e ao cálculo reputacional do candidato. E há partidos, parlamentares, influenciadores, militantes e redes de apoio que atuam com graus de coordenação e autonomia. Alguns podem assumir as tarefas que o núcleo oficial não quer incorporar à sua voz.

É esse lugar que Janones reivindica. "Um governo tem limitações que nós não temos aqui pelas redes", escreveu ao absolver Lula, o governo e a Secom daquilo que considera a incompetência digital da esquerda. A proposta é uma divisão do trabalho: enquanto a campanha oficial preserva o candidato, outros provocam, ridicularizam, alarmam, atacam reputações e brigam por atenção nas plataformas.

Não é invenção sua. Figuras muito diferentes da direita digital, como Carlos Bolsonaro e Pablo Marçal, também operam num repertório em que conflito, choque, linguagem direta, quebra de liturgias e provocação têm valor estratégico. Janones adota parte dessa gramática, mas acrescenta uma justificativa: não se entra no esgoto porque seja bom, mas porque o adversário já está lá. Recusar suas armas seria aceitar lutar em desvantagem.

Daí o desprezo pela "campanha fofa", pela "esquerda limpinha", pelos "cirandeiros" e "arrogantes de salto alto". O alvo interno é quem supostamente confunde escrúpulo e correção de linguagem com eficácia eleitoral. O janonismo cultural reaparece, assim, como uma doutrina de espelhamento: se a extrema direita prosperou com agressividade, transgressão e guerra permanente por atenção e impacto, a esquerda deveria fazer o mesmo.

Há, contudo, bons motivos para se ter cautela com esta doutrina. O primeiro tem a ver com prudência política. Quem escolhe a destruição reputacional e a guerrilha de narrativas como armas deve contar com a reciprocidade do inimigo. Janones deveria saber que quem tem telhado de vidro não está especialmente protegido em uma guerra de pedras e que, com dois escândalos políticos suspensos como lâminas sobre o pescoço dos candidatos este ano, talvez não seja sábio esticar demais a corda.

O segundo é elementar: eleição não é guerra. Ninguém precisa matar nem morrer. Uma campanha existe para convencer pessoas, inclusive algumas que votaram no adversário. A retórica da aniquilação pode excitar militantes, mas não é evidente que seja o melhor idioma para persuadir quem ainda pode mudar de lado.

Finalmente, "livrar o país" de um campo político é uma fantasia de militantes radicais. Eleições derrotam candidatos; não exterminam os milhões de cidadãos que votam neles. O bolsonarismo mostra o quanto a promessa de eliminar o inimigo mobiliza os fiéis e, ao mesmo tempo, reduz a política a uma batalha moral sem fim.

A esquerda pode aprender com a direita digital sobre velocidade, presença nas redes e capacidade de resposta. Não precisa aprender que política é guerra nem que adversários existem para ser exterminados. Uma campanha pode até precisar entrar na lama de vez em quando. O erro é imaginar que é no lodo que estão os eleitores que faltam para vencer.

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terça-feira, 18 de agosto de 2026

A FALHA DAS MÁQUINAS NA MORTE DA MENINA

Artigo de Fernando Gabeira

A morte da menina de 13 anos numa transmissão ao vivo na plataforma Discord trouxe um grande e importante debate. Apesar de tantas intervenções esclarecedoras, fiquei com muitas dúvidas.

O Discord comunicou ao governo que suas máquinas de aprendizagem detectaram o problema, mas foram incapazes de mensurar sua gravidade e acionar o alarme. Na verdade, quem parece ter acionado o alarme foi a vigilância humana de um núcleo digital da Polícia Civil de São Paulo.

Minha primeira questão: se as máquinas de aprendizagem foram incapazes de acionar o alarme, não seria o caso de voltarem para a escola, aprenderem melhor a lição? Não sei como funcionam, mas, se obedecem à lógica da inteligência artificial, trabalham basicamente com linguagem.

A história da IA mostra que nem sempre as máquinas de aprendizagem estão maduras para uso humano em sua fase inicial. Esse é o tema de um grande debate entre os grupos que trabalham na segurança de um modelo e os que o desenvolvem e precisam colocá-lo no mercado. Os grupos de segurança querem precisamente evitar tragédias, enquanto os outros precisam correr para responder aos investidores, ávidos pelo retorno de seu capital.

No caso dos grandes modelos de IA, houve muita discussão na época do lançamento do GPT-3. O sistema depende da infusão de milhões de dados, colhidos na internet. É difícil filtrá-los. Nos primórdios, as máquinas produziam textos simpáticos aos supremacistas brancos e elogiavam Hitler.

Um famoso artigo de pesquisa intitulado “Sobre os perigos dos papagaios estocásticos: os modelos de linguagem podem ser grandes demais?” foi durante algum tempo referência no debate. Sua coautora, Timnit Gebru, chegou a perder o emprego pela ousadia de denunciar a imaturidade dos sistemas de IA.

No caso do GPT-3, alguns usuários chegaram a denunciar os delírios do modelo. Se alguém perguntasse sobre o problema da Etiópia, a máquina responderia: o problema da Etiópia é a própria Etiópia; a solução é destruir a Etiópia. Durante a semana, me perguntei se as máquinas de aprendizagem do Discord não sofrem da mesma imaturidade, se não foram postas em ação antes de todos os testes de segurança.

Muitos pesquisadores afirmam que esses sistemas aprendem com a prática. É preciso escala, muita prática para que se aperfeiçoem. Mas a pergunta fundamental permanece: quando estão prontos para a comercialização, qual é a margem de segurança adequada?

Creio que a mesma pergunta vale para os carros autônomos. Dependem da análise de milhões de imagens para rodar com segurança. Essas imagens que absorvem são analisadas por milhares de trabalhadores no Quênia e também na Venezuela. Mas qual o momento para afirmar que estão prontas para sair por aí se dirigindo? Houve casos, nos testes, de atropelamentos de alguém empurrando uma bicicleta. Não notaram a imagem.

Essas reflexões não são uma oposição ao desenvolvimento tecnológico. Ele deveria obedecer às necessidades humanas e sociais de segurança. No entanto, obedece à lógica do retorno do capital investido. Às vezes fico pensando que a menina morta é uma vítima desse mecanismo. Espero que as investigações respondam a essa pergunta e transcendam a questão superficial de banir ou não uma plataforma.

Artigo publicado no jornal O Globo em 18 / 08 / 2026

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MORRE GLÓRIA MENEZES

Luiz Antônio Costa, g1 Rio e TV Globo

Glória Menezes, uma das maiores atrizes do país, morre no Rio aos 91 anos

Viúva de Tarcísio Meira marcou a televisão brasileira em mais de seis décadas de carreira e participou de mais de 40 novelas da Globo, além de trabalhos no teatro e no cinema.

A atriz Glória Menezes, um dos grandes nomes da história da dramaturgia brasileira, morreu nesta terça-feira (18), em seu apartamento no Rio de Janeiro, aos 91 anos.

Segundo a assessoria de imprensa da artista, a morte foi por causas naturais.

Glória construiu uma carreira de mais de seis décadas no teatro, no cinema e na televisão e atuou em mais de 40 novelas da Globo.

Glória Menezes nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934. Seu nome de batismo era Nilcedes Soares de Magalhães. Ela iniciou a carreira artística no teatro e posteriormente se destacou na televisão e no cinema.

A atriz Glória Menezes, um dos grandes nomes da história da dramaturgia brasileira, morreu nesta terça-feira (18), em seu apartamento no Rio de Janeiro, aos 91 anos.

Segundo a assessoria de imprensa da artista, a morte foi por causas naturais.

Glória construiu uma carreira de mais de seis décadas no teatro, no cinema e na televisão e atuou em mais de 40 novelas da Globo.

Glória Menezes nasceu em Pelotas, no Rio Grande do Sul, em 19 de outubro de 1934. Seu nome de batismo era Nilcedes Soares de Magalhães. Ela iniciou a carreira artística no teatro e posteriormente se destacou na televisão e no cinema.

Na Globo, estreou em 1967, na novela "Sangue e Areia", como a heroína Doña Sol. Na trama, fez par romântico com Tarcísio Meira (morto de Covid em 2021), com quem manteve uma das uniões mais conhecidas da televisão brasileira. Os dois foram casados por quase seis décadas, até a morte do ator, em 2021.

"Existe um respeito mútuo no trabalho de cada um e uma colaboração amiga, porque não existe amigo maior do que o Tarcísio – e eu me considero a melhor amiga dele também. Trocamos críticas construtivas, para que estejamos sempre melhorando", disse Glória em entrevista ao Memória Globo.

Ao lado de Tarcísio, Glória protagonizou outras produções marcantes e também estrelou o seriado "Tarcísio & Glória", exibido em 1988.

MAIS SOBRE GLÓRIA MENEZES:

Carreira na televisão

Glória Menezes atravessou diferentes fases da teledramaturgia brasileira e esteve em novelas de grande repercussão.

Entre seus trabalhos estão "Irmãos Coragem" (1970), "O Homem que Deve Morrer" (1971), "Cavalo de Aço" (1973), "Pai Herói" (1979), "Guerra dos Sexos" (1983), "Brega & Chique" (1987), "Rainha da Sucata" (1990), "Deus nos Acuda" (1992), "A Próxima Vítima" (1995), "Torre de Babel" (1998), "Senhora do Destino" (2004), "A Favorita" (2008) e "Totalmente Demais" (2015).

Em "Rainha da Sucata", Glória interpretou Laurinha Figueroa, uma das personagens mais lembradas de sua carreira. A novela voltou a ser exibida pela Globo em 2025 e 2026, colocando novamente a atriz em destaque entre o público.

Seu último trabalho em uma novela foi "Totalmente Demais", em 2015. Depois, a atriz passou a ter uma rotina mais discreta e longe das produções de televisão. Em 2026, ela voltou a ser homenageada pela Globo na Calçada da Fama da emissora.

Uma vida ao lado de Tarcísio Meira

Glória Menezes e Tarcísio Meira se conheceram trabalhando e construíram uma parceria que durou mais de cinco décadas, na vida e na televisão. Os dois já haviam contracenado no teleteatro da Tupi quando, em 1964, protagonizaram "25499 Ocupado", da TV Excelsior, considerada a primeira novela diária da televisão brasileira. Durante a produção, iniciaram um romance e se casaram. Juntos, formaram um dos casais mais marcantes da dramaturgia nacional.

Na Globo, os dois estrearam juntos em "Sangue e Areia" (1967), depois de também terem atuado lado a lado em "A Deusa Vencida" (1965) e "Almas de Pedra" (1966), na Excelsior. O público voltou a vê-los juntos em novelas como "Rosa Rebelde" (1969), "Irmãos Coragem" (1970), "O Homem que Deve Morrer" (1971), "Cavalo de Aço" (1973), "O Semideus" (1973) e "Espelho Mágico" (1977). Em "Irmãos Coragem", Glória interpretou Lara, Diana e Márcia, três mulheres com personalidades distintas.

Em 1988, a parceria ganhou um novo formato com o seriado "Tarcísio & Glória", criado por Daniel Filho, Euclydes Marinho e Antonio Calmon. Além de protagonistas, os dois também foram produtores da atração, que inaugurou uma linha de coprodução da Globo. Tarcísio chegou a dirigir alguns episódios. Na série, Glória interpretava Ava Becker, uma cientista extraterrestre que chegava à Terra para estudar os homens e acabava se envolvendo com o empresário corrupto Bruno Lazzarini, personagem de Tarcísio.

A relação profissional era marcada, segundo Glória, por respeito e colaboração. "Trocamos críticas construtivas, para que estejamos sempre melhorando", afirmou a atriz sobre a parceria com o marido.

Tarcísio morreu em agosto de 2021, aos 85 anos, vítima de complicações da Covid-19. Na época, Glória também havia sido internada com a doença. Anos depois, o filho do casal, Tarcísio Filho, contou como foi difícil comunicar à mãe a morte do marido.

Glória também tinha outros dois filhos, de seu primeiro casamento.

Mais de 40 novelas na Globo

Segundo o Memória Globo, Glória Menezes atuou em mais de 40 telenovelas da emissora.

Além de "Sangue e Areia", sua estreia na Globo, a lista inclui "Passo dos Ventos", "Rosa Rebelde", "O Grito", "Espelho Mágico", "Jogo da Vida", "Corpo a Corpo", "Porto dos Milagres", "O Beijo do Vampiro", "Da Cor do Pecado", "Páginas da Vida", "Joia Rara" e "Totalmente Demais".

No cinema, também teve uma trajetória de destaque. Entre seus trabalhos está "O Pagador de Promessas", filme dirigido por Anselmo Duarte que venceu a Palma de Ouro no Festival de Cannes em 1962.

Ao longo da carreira, Glória Menezes se consolidou como uma das principais atrizes de sua geração e como uma das protagonistas da história da televisão brasileira.

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MORRE LAURA CARDOSO

Do g1, Karina Cordeiro

Laura Cardoso, um dos principais nomes da dramaturgia brasileira, morre aos 98 anos

A informação foi divulgada em seu perfil oficial no Instagram. De acordo com uma das filhas da atriz, ela faleceu em sua casa, em São Paulo, após se sentir mal.

Morreu, aos 98 anos, a atriz Laura Cardoso, um dos maiores nomes da dramaturgia brasileira. A informação foi divulgada em seu perfil oficial no Instagram, na madrugada desta terça-feira (18).

"Nossa grande estrela se despediu de nós 🌟❤️ Laura Cardoso estará para sempre em nossos corações. Obrigada por tudo, nossa amada e eterna Laura Cardoso", diz a publicação.

De acordo com Fátima Cardoso, filha da atriz, Laura faleceu na noite desta segunda-feira (17), após se sentir mal em sua residência, no bairro de Sumaré, na Zona Oeste de São Paulo, por volta das 23h20.

O velório da atriz está marcado para acontecer nesta terça-feira, entre 8h e 14h, no bairro da Bela Vista, na região central de São Paulo.

Trajetória

Laurinda de Jesus Balleroni nasceu em 1927 e começou a atuar aos 15 anos. Ela estreou na TV com 25, em 1952, em "Tribunal do Coração", da TV Tupi. Desde então, trabalhou em mais de 60 novelas, sendo a atriz com mais títulos na carreira do país. Seu último trabalho na TV foi na novela "A Dona do Pedaço", em 2019, e no filme "Dona Rosinha", de 2025.

A atriz estreou na TV Globo em 1981, na novela "Brilhante", a convite do diretor Daniel Filho. E acabou contratada dois anos depois, quando atuou no folhetim "Pão Pão, Beijo Beijo". Em 1993, Laura Cardoso viveu um de seus papéis mais emblemáticos na TV, Dona Isaura, mãe das gêmeas Ruth e Raquel, em "Mulheres de Areia".

No ano seguinte, outro papel reforçou o talento da atriz e até hoje segue como um de seus personagens mais lembrados, Dona Guiomar, de "A Viagem".

Na vida pessoal, Laura Cardoso foi casada com o ator e diretor Fernando Balleroni, com quem permaneceu de 1949 até a morte dele, em 1980.

O casal teve três filhos: Fátima, Fernanda e José, que morreu apenas três dias após o nascimento. Viúva aos 58 anos, Laura chegou a dizer em entrevistas que nunca pensou em se casar novamente, por não ter encontrado outro amor. Ao longo da vida, também se tornou avó e bisavó.

No ano seguinte, outro papel reforçou o talento da atriz e até hoje segue como um de seus personagens mais lembrados, Dona Guiomar, de "A Viagem", onde contracenou com Miguel Falabella, que homenageou a atriz na madrugada desta terça em seu Instagram.

"Laura era gigante, compulsiva e tinha um talento que não cabia em seu corpo pequeno", disse o ator.

Ao longo de décadas de carreira, Laura Cardoso colecionou indicações e prêmios por suas atuações na TV, no teatro e no cinema. Entre eles, cinco troféus da APCA (Associação Paulista de Críticos de Arte), prêmio Oscarito, do Festival de Gramado, por sua contribuição ao cinema brasileiro, e em 2006, foi laureada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva com a Ordem do Mérito Cultural, por sua contribuição à cultura brasileira.

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segunda-feira, 17 de agosto de 2026

PARA RUBIO, AMÉRICA LATINA É QUINTAL DOS EUA

Demétrio Magnoli, O Globo

O alinhamento dos novos líderes da região à Casa Branca isola regionalmente o Brasil

‘A Doutrina Monroe moldou a política externa dos Estados Unidos por mais de dois séculos. O domínio americano no Hemisfério Ocidental nunca mais será questionado.’ A legenda do vídeo divulgado há uma semana pelo Departamento de Estado incorre num erro histórico e escolhe uma palavra-chave ausente da doutrina original. Assinala, porém, em meio à desordem estratégica do governo Trump, uma nítida prioridade.

O presidente James Monroe delineou o conceito no discurso do Estado da União do final de 1823. A doutrina ganhou uma versão imperial com o Corolário Roosevelt (1904). Finalmente, tornou-se secundária com a Doutrina Truman (1947), que “moldou” a estratégia dos Estados Unidos do Pós-Guerra, baseando-a na aliança com a Europa Ocidental. O vídeo erra de propósito: na hora em que Trump abandona o compromisso com a proteção da Europa, inventa-se uma narrativa em que desaparece a Guerra Fria.

“A América para os americanos” de Monroe era uma mensagem às potências europeias, contra a ingerência delas nas novas nações independentes do que os Estados Unidos passavam a denominar “Hemisfério Ocidental”. A ideia de domínio — mas não a palavra! — emerge no final do século XIX e ganha justificativa com o Corolário Roosevelt. Sua abrangência, porém, circunscrevia-se à América Central/Caribe. Marco Rubio almeja estendê-la ao conjunto da América Latina.

O vice, J.D. Vance, e o secretário de Estado, Rubio, personificam as duas vertentes ideológicas conflitantes do segundo mandato de Trump. O primeiro é um arauto do isolacionismo populista do Make America Great Again (Maga), enquanto o segundo representa o internacionalismo agressivo da ala mais tradicional do Partido Republicano. No início de sua carreira, Rubio alinhou-se aos neoconservadores de Geoge W. Bush. Sua adesão tardia a Trump exigiu uma renúncia parcial ao internacionalismo imperial, que ficou circunscrito ao “Hemifério Ocidental”.

Numa entrevista concedida em 2025, o chefe do Pentágono, Pete Hegseth, declarou a necessidade de recuperar a influência “perdida para a China” no “quintal” dos Estados Unidos. Rubio concebeu a “Doutrina Donroe”, inscrita na nova Estratégia de Segurança Nacional de Trump. Seu foco é restaurar o “quintal”, termo cunhado na época do intervencionismo de William McKinley e do próprio Theodore Roosevelt, entre 1897 e 1909. Eis aí o pano de fundo das sanções tarifárias e da intensa pressão diplomática aplicadas pela Casa Branca ao Brasil.

De Milei, na Argentina, a Bukele, em El Salvador, passando por Kast (Chile), Keiko Fujimori (Peru), Noboa (Equador) e Espriella (Colômbia), uma onda da direita dura espraiou-se pela América Latina. Os sucessivos êxitos da direita devem-se, fundamentalmente, às tensões ligadas à ascensão do crime organizado, à imigração e à corrupção. Trump teve escassa, ou nenhuma, contribuição para tais desenlaces eleitorais. Contudo o alinhamento dos novos líderes à Casa Branca isola regionalmente o Brasil. Mais uma vez, como no século XIX, nossa diplomacia encara o desafio de impedir o surgimento de uma coalizão hostil entre os vizinhos sul-americanos.

Nicolás Maduro, sequestrado por forças especiais dos Estados Unidos em janeiro, aparece como destaque no vídeo emanado do Departamento de Estado. A ditadura venezuelana segue em pé, mas agora obedece às ordens de Rubio. Desenrola-se uma operação de submissão do regime cubano, possivelmente em colaboração com Raulito Castro, “El Cangrejo”, neto do nonagenário Raúl Castro. Pelas urnas ou pelas canhoneiras, avança o projeto hemisférico do secretário de Estado.

Tanto Vance quanto Rubio mantiveram-se, prudentemente, à distância da aventura iraniana. A desastrosa guerra contra o Irã derivou da decisão de um Trump embevecido pelo sucesso na Venezuela e pela promessa de célere vitória de Netanyahu. O humilhante fracasso presidencial no Golfo Pérsico solicita a compensação de triunfos no teatro da América Latina.

O vídeo ameaçador é narrado pelo embaixador no Panamá, Kevin Cabrera, sinal de que veicula um recado direto ao país do canal. Entretanto o recado mais relevante, indireto, tem o Brasil como endereço: o governo dos Estados Unidos engajou-se na campanha de Flávio Bolsonaro.

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A ELEIÇÃO SERÁ DECIDIDA PELOS ENDIVIDADOS

Bruno Carazza, Valor Econômico

Candidatos precisam apresentar propostas para 50% da população que está com nome sujo na praça

Entre vários números preocupantes da economia brasileira, um deles é dramático: o país tem 83,9 milhões de pessoas negativadas no Serasa. Isso significa 51% dos CPFs ativos atualmente. E, à exceção dos menores de 18 anos e dos maiores de 70, a maioria desses endividados vai votar em outubro. São eles que decidirão quem subirá a rampa do Palácio do Planalto em 5 de janeiro de 2027.

Nas eleições americanas de 1992, o consultor político James Carville deu um conselho ao jovem democrata Bill Clinton, que desafiava George H. Bush em sua tentativa de reeleição: “É a economia, estúpido”.

A mensagem, escrita em letras garrafais num cartaz pregado na parede do comitê de campanha em Little Rock, Arkansas, lembrava ao candidato que ele deveria sempre destacar os efeitos da recessão sobre a população durante entrevistas e debates. A tática deu certo. Clinton derrotou Bush e desde então o mote vem sendo repetido a cada pleito, em qualquer lugar do mundo.

De lá para cá, porém, as questões econômicas vêm influenciando as escolhas dos cidadãos de formas diferentes, pois nem sempre variáveis como inflação e emprego são indicativos diretos do bem-estar da população.

Na disputa de 2024, a inflação nos Estados Unidos tinha caído de 9,1% no auge do pós-pandemia, em junho de 2022, para 2,4% ao ano. Já a taxa de desemprego estava em 4%, patamar considerado de pleno emprego. No entanto, mais do que a senilidade, a economia foi considerada determinante para a desistência de Joe Biden e o retorno de Donald Trump à Casa Branca.

Naquela época, “affordability” foi o termo utilizado para resumir a insatisfação do eleitor com a situação econômica. Apesar do sucesso do Fed em conter a inflação sem agravar o desemprego, os reajustes de preços acumulados ao longo da gestão Biden, assim como as taxas de juros, elevadas em relação a seu padrão histórico, afetavam drasticamente a capacidade de pagamento dos consumidores.

Aqui no Brasil, talvez estejamos observando fenômeno similar. A inflação, ainda que acima do centro da meta, está relativamente sob controle (4,44% ao ano) - o que é um mérito, considerando o choque na cotação do petróleo depois do início da guerra no Oriente Médio. O desemprego, em 5,4%, continua entre os mais baixos da série iniciada em 2012.

Ainda assim, a avaliação do governo e a intenção de voto em Lula patinam. E a explicação para isso pode estar no endividamento expressivo e na preocupante inadimplência prevalentes entre os brasileiros.

O raciocínio é simples: mesmo com uma taxa de ocupação elevada - tanto entre os formais e os MEIs, quanto nos sem carteira que complementam com bicos os benefícios governamentais - e com a contenção da pressão altista dos preços nos supermercados, as pessoas estão estranguladas com os boletos em atraso e os pagamentos de juros, que vêm sendo reduzidos em doses homeopáticas pelo Copom.

Não é à toa que as pesquisas têm captado que medidas do governo como a isenção do imposto de renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais, o Desenrola e o fim da taxa das blusinhas têm tido fôlego curto na avaliação dos eleitores.

As causas para chegarmos a este ponto podem ser resumidas em três forças. De um lado, aproximadamente 40 milhões de indivíduos se bancarizaram a partir da pandemia graças ao auxílio emergencial, à popularidade do Pix e à proliferação dos aplicativos bancários. Como esse novo público era em sua imensa maioria de baixa renda e escolaridade limitada, sem conhecimentos básicos sobre os produtos financeiros, tornou-se presa fácil de ofertas de crédito abusivas de bancos e fintechs - sim, o sistema financeiro tem bastante culpa pela inadimplência recorde. Para piorar, bets e canetas emagrecedoras (legais e ilegais) induziram novas rodadas de descontrole das finanças pessoais.

Apesar de o endividamento ser um dos principais problemas do país, não se veem nas declarações dos candidatos à Presidência da República propostas concretas para lidar com esse problema de dezenas de milhões de pessoas e centenas de bilhões de reais.

Discutir saídas para a armadilha da inadimplência é um imperativo social, econômico e financeiro.

Social, porque são milhões de brasileiras e brasileiros que vivem estressados vendo seus ganhos serem corroídos por juros extorsivos.

É também um desafio econômico, pois o endividamento drena recursos que poderiam ser empregados no consumo, estimulando setores que estão rateando.

Por fim, é preciso conter a escalada da inadimplência para evitarmos uma crise bancária. Quem alerta é o Fundo Monetário Internacional, que na sua mais recente avaliação sobre a estabilidade do sistema financeiro (FSAP, na sigla em inglês) brasileiro recomendou a adoção de práticas responsáveis de concessão de crédito e limites mais rígidos na rolagem das dívidas.

Economistas do mercado cobram de Lula e seus adversários soluções para estabilizar a dívida do governo. No entanto, um desafio muito mais complexo e urgente está em outro tipo de endividamento: o das famílias. E sobre ele quase ninguém fala.

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PETISTA USA COMPARAÇÃO COM BOLSONARO PARA RESPONDER POR FUTURO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Campanha do PT coloca como estratégia central a comparação de indicadores das gestões Lula e Bolsonaro para desconstruir Flávio

A cobrança por sinalizações de futuro sobre a campanha do PT deverá vir por meio de comparações entre as entregas do atual governo e aquele que o antecedeu. Foi isso que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva sinalizou, ao lançar sua campanha no estádio da Vila Euclides, em São Bernardo do Campo (SP), no domingo (16), num tom de quem se cansa com a cobrança: “Eu vou dizer pra vocês o que é pensar no futuro”.

Saiu, então, comparando indicadores da redução da evasão escolar do ensino médio, enumerando indicadores que, na redução da evasão escolar no ensino médio, inflação, desemprego, geração de postos de trabalho, investimentos públicos, crédito para a indústria e crescimento da economia.

É por aí que a demanda da militância por desconstrução da candidatura de seu principal opositor, o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), deve vir. Quando dirigentes petistas falam em “tocar o terror” na campanha do PL, é o apelo, junto ao eleitor, contra a volta ao passado, que enfatizam. A ausência de menções a escândalos como o Master sugere que a desconstrução virá mais da comparação do que pela exploração da corrupção.

A deputada e ex-presidente do PT, Gleisi Hoffmann (PR), candidata ao Senado, ensaiou uma explicação: “Na corrupção, batemos de cá e eles devolvem de lá. Na comparação de governo não há como eles fazerem contraponto”.

Lula disse ainda que, “em 10 ou 15 dias”, ele e o vice, Geraldo Alckmin, candidato a permanecer na chapa, vão lançar outro programa de governo com a numeralha comparativa. O primeiro, divulgado há dez dias, foi uma prestação de contas de mais de 80 páginas. O discurso do presidente sugere que o próximo cotejará esta prestação de contas com aquela do ex-presidente Jair Bolsonaro.

A prestação de contas não deixa de ser um olhar pelo retrovisor, mas o deputado federal e candidato à reeleição, Carlos Zarattini (PT-SP), também presente, contesta: “É a única maneira de tirar o eleitor da guerra ideológica das redes sociais e chamar o cidadão à responsabilidade para que o país não volte a piorar.”

Lula cortou seu discurso exatamente pela metade em relação àquele da convenção do partido de duas semanas atrás. Falou por 36 minutos. Sua fala, porém, foi antecedida por vídeos em que seus companheiros de sindicato, que teve aquele estádio como sede das greves históricas da virada dos anos 1980, falaram sobre Lula, por breves discursos de ministros presentes, de Alckmin e do ex-ministro e candidato ao governo de São Paulo, Fernando Haddad.

Numa reparação ao ato da convenção, quando a primeira-dama, Janja da Silva, foi a única mulher a discursar, empurrada pelo marido, desta vez, a ex-governadora do Rio e candidata ao Senado, Benedita da Silva (PT), ficou encarregada de repor a lacuna com uma fala de apelo religioso.

Janja voltou a falar, desta vez, num discurso lido. Foi o discurso mais surpreendente do evento. Pela primeira vez desde que Lula assumiu o relacionamento, ao deixar a prisão, em Curitiba, em 2019, Janja falou de dona Marisa em público. Marisa Letícia Lula da Silva foi companheira de Lula entre 1973 e 2017, quando morreu, vítima de um acidente vascular cerebral, no auge da Lava-Jato. Casou com Lula já com um filho quando ambos haviam acabado de enviuvar, e dele teve outros três filhos.

Janja citou-a como alicerce, junto à geração de mulheres de metalúrgicos do ABC dos anos 1980, sem o qual “essa história toda tivesse sido diferente”. Lembrou ainda a primeira bandeira do PT, costurada por dona Marisa, e lhe dedicou “toda a minha admiração”.

A falta de reconhecimento ao papel da mãe na história do PT e na do pai sempre foi um motivo de queixa dos filhos do presidente. A largueza do gesto foi interpretada por petistas presentes como um aceno à rejeição de Lula e da própria primeira-dama como também aos próprios filhos do presidente, o mais velho dos quais, Fábio Luís, voltou a trazer dissabores à campanha do pai pelas relações com a lobista Roberta Luchsinger, investigada por tráfico de influência no governo.

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'SOSIA' DE ALEXANDRE DE MORAES É ASSEDIADO EM ATO DE FLÁVIO BOLSONARO

Bernardo Mello Franco, O Globo

De toga e fraldão, candidato a deputado posou para selfies em área reservada de comício do PL em Copacabana

Um 'sósia' de Alexandre de Moraes chamou a atenção no comício que abriu a campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

De gravata e toga semelhante à dos ministros do Supremo, Julio Sergio Carneiro Marques, o Julinho Dborais, circulou na área reservada do ato do PL em Copacabana.

Foi assediado por bolsonaristas, posou para selfies e puxou assunto com figurões da direita como o senador Rogério Marinho, coordenador da campanha de Flávio.

Julinho é candidato a deputado federal pelo Partido Novo. Usa um lema inusitado: "Não vote em ladrão, vote no doidão".

Sua fantasia deste domingo tinha um complemento. Sem calças, ele usava um fraldão e carregava uma tampa de privada com a foto do presidente Lula.

Curiosamente, o imitador de Moraes já esteve do outro lado da luta política. Em 2004, foi candidato a vereador pelo PT de São João de Meriti, usando o apelido Julinho Coração de Leão. Teve 395 votos e não conseguiu se eleger.

Jair, Michelle, Tarcísio, Malafaia... a longa lista de ausências no lançamento de Flávio Bolsonaro

Bolsonaristas ilustres não deram as caras em primeiro comício da corrida presidencial

Em prisão domiciliar, Jair Bolsonaro não foi a única ausência ilustre no lançamento da campanha presidencial de Flávio Bolsonaro neste domingo, no Rio.

A primeira-dama Michelle Bolsonaro e o governador paulista Tarcísio de Freitas também não apareceram no trio elétrico montado na Praia de Copacabana.

O pastor Silas Malafaia, que organizou as últimas grandes manifestações bolsonaristas, tampouco deu as caras. Enviou um áudio curto em que jurou "apoio irrestrito" a Flávio.

O senador Romário, reeleito em 2022 pelo PL, foi mais uma ausência notada no comício. Na sexta-feira, ele pediu desfiliação do partido para apoiar Eduardo Paes na disputa pelo governo do Rio.

Sem aliados de peso no plano nacional, Flávio teve a companhia do vice, Alfredo Gaspar, do presidente do PL, Valdemar Costa Neto, e de políticos bolsonaristas do Rio.

Foram convidados a discursar o deputado Douglas Ruas, presidente da Assembleia Legislativa e candidato a governador, o senador Carlos Portinho e o deputado Carlos Jordy.

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O CRIME NOS TRINQUES

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Nossos bandidos são hoje mais ricos do que os mais famosos gângsteres americanos

Por que então não se vestem de acordo e continuam parecendo pés-de-chinelo?

De vez em quando estouram um reduto do PCC ou do CV, apreendem um caminhão de drogas, armas e dinheiro, e o que vemos de material humano? Um brasileiro normal, de seus 30 anos, baixinho, quilos a mais, barba por fazer, camiseta regata, bermuda e de chinelo, num fundo de garagem de bairro pobre ou de comunidade. Se sua aparência reflete seu estilo de vida, parece incompatível com as toneladas de pó que ele movimenta ou os milhares de narizes sob seu controle em bairros chiques do Rio ou São Paulo. Eu me pergunto para onde vai o dinheiro que esse sujeito ganha.

A pergunta tem a ver com os filmes americanos, novos ou clássicos, em que os gângsteres dos anos 1920 se vestem bem, moram em belos apartamentos e têm sempre uma loura decotada à mão. E, se você pensa que isso é coisa de cinema, saiba que é verdade —eles gostavam de se tratar.

É verdade que, no começo, não era assim. Os gângsteres surgiram com a Lei Seca, em 1920, e, enquanto se limitavam a vender gororobas fabricadas em banheiras, eram esculhambados como os nossos. Mas eles logo tomaram também a prostituição, os speakeasies, as casas de jogo e até o show business —cantores, músicos, night-clubs, tudo ficou nas mãos deles. E, então, a começar por Al Capone, vieram os ternos bem cortados, os chapéus de feltro, a pérola na gravata, as abotoaduras de ouro, as metralhadoras último tipo.

Nossos traficantes hoje superam aqueles gângsteres em dinheiro e poder. Por que, então, continuam a parecer pés-de-chinelo? Você dirá que os verdadeiros chefões do crime organizado são os magnatas, que moram nas mansões de luxo e não sabemos quem são. Mas, no americano, era a mesma coisa. Os bacanas não apareciam, e os famosos, como John Dillinger, Pretty Boy Floyd, Baby Face Nelson, Machine Gun Kelly e outros, eram como o nosso segundo escalão, só que nos trinques.

Nos trinques ou não, não adiantou. Quando o FBI desbaratou o comando, fechando a torneira econômica, eles tiveram de trocar seus ternos risca-de-giz pelo pijama listrado ou de madeira.

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FAMÍLIA DEVERIA SER SINÔNIMO DE ACOLHIMENTO

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Novela escancara toxicidade e ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero

Teledramaturgia tem o condão de reforçar ou de questionar hábitos e valores tidos como tradicionais

Parei de acompanhar telenovelas há décadas, mas confesso que às vezes me entrego ao impulso de deixar a mente divagar diante da TV enquanto a tela exibe um folhetim. Foi assim que um dia desses assisti a uma cena sobre preconceito, sexualidade e autoaceitação na novela "Quem Ama Cuida".

Observando a angústia e a insegurança suportadas por um dos personagens diante da intolerância do avô, me peguei refletindo sobre o quanto a família, que deveria ser um espaço seguro e de acolhimento, muitas vezes é tóxica e impregnada de ódio quando o assunto é orientação sexual ou identidade de gênero em desacordo com o padrão cis-heteronormativo.

O apoio familiar serve de base para a saúde mental e o pleno desenvolvimento de todos os indivíduos, o que, obviamente, abrange as minorias sexuais. Esse acolhimento ajuda a reduzir a ansiedade, o medo e a depressão de quem carrega o fardo de não se enquadrar no padrão de uma sociedade que discrimina tudo que foge do convencional.

Há famílias que apoiam, amparam e buscam letramento (em livros, cartilhas, palestras...) e orientação, mas ainda são minoria. Estamos entre os países mais violentos e hostis à população homossexual e transexual. Em 2019, a homofobia e a transfobia foram equiparadas ao crime de racismo, tornando-se passíveis de punição penal.

Contudo, a violência psicológica, física e os homicídios continuam a impactar drasticamente a vida da população LGBTQIAPN+. Ano passado, foram registradas 257 mortes violentas nessa comunidade, número equivalente a um assassinato a cada 34 horas (Grupo Gay da Bahia).

Para além do caráter ficcional, a teledramaturgia retrata a realidade e exerce influência sobre padrões estéticos, costumes e uma porção de coisas. Nesse sentido, tem o condão de reforçar ou de questionar hábitos e valores tidos como tradicionais.

Torcendo para que a novela contribua para que a nossa sociedade se torne mais segura e solidária. Família deveria ser sinônimo de acolhimento e amor.

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MAR DE LAMA OU INSTITUIÇÕES FUNCIONANDO ?

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Cada operação da PF conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições

Tensões entre direção da Polícia Federal e o relator do escândalo do INSS no STF são reveladoras

A profusão de operações policiais no país produz simultaneamente uma crise de confiança e uma demonstração de capacidade institucional. Quanto mais o sistema de controle funciona, mais corrupção se torna visível; quanto mais corrupção se torna visível, mais a sociedade pode concluir que o sistema inteiro está apodrecido.

A sucessão quase diária de operações da PF (Polícia Federal) e de denúncias envolvendo instituições antes relativamente preservadas —tribunais superiores, Banco CentralTCU— produz dois efeitos com sinais opostos. O primeiro é o sinal do mar de lama: a criminalidade organizada e a corrupção teriam penetrado profundamente o Estado, alcançando instituições que deveriam justamente controlá-las. Não se trata dos suspeitos usuais —empresas contratistas de obras públicas (empreiteiras), parlamentares, membros do Executivo. A degradação também pode ser enxergada nos numerosos mob lawyers que assessoram o crime ou dele se beneficiam. Os escândalos do Master e do INSS revelam as entranhas do entrelaçamento entre interesses dentro e fora do Estado. O caso do Rio de Janeiro é o microcosmo desses desmandos.

Mas há também o sinal oposto, da resistência institucional: as investigações demonstram que ainda existem setores e indivíduos dispostos a revelar e enfrentar essa penetração. E não só nas instituições de Estado —a mídia e até jornalistas individuais também são baluartes contra a degradação. Pelo protagonismo que assume, a Polícia Federal adquire grande centralidade nessa resistência. As tensões entre sua direção e o relator do escândalo do INSS no Supremo são reveladoras. Isso remete a questões sobre o profissionalismo de seus quadros e a lealdade política de seu centro de comando em questões eleitoralmente sensíveis.

O paradoxo, portanto, é que o mesmo fato —uma nova operação da Polícia Federal— pode servir de evidência tanto de degradação quanto de resiliência institucional. A operação revela o crime, mas também revela a existência de quem o investiga. E remete a um temor justificado: quem controlar a Polícia Federal terá poder desmedido. Até quando a instituição se manterá independente?

Dada a polarização atual, os sinais opostos são processados com vieses. A oposição enfatiza a extensão da corrupção, vinculando-a ao governo e à degradação institucional do país. Os governistas enfatizam a autonomia da PF e apresentam as operações como prova de que as instituições estão funcionando. O contingente crescente de eleitores sem identificação partidária pode combinar as duas avaliações: perceber uma degradação assustadora e, ao mesmo tempo, reconhecer que ainda existem "ilhas de resistência".

Cada operação da Polícia Federal conta duas histórias: a da expansão do crime organizado e a da resistência das instituições. A endogeneidade entre os dois fenômenos não é especificidade nossa; é universal, como mostra a literatura sobre corrupção. Deve-se ao fato de que a corrupção é em geral corrupção revelada. Mas o mar de lama —a penetração de grossa corrupção em setores nunca antes atingidos— não é produto apenas de uma maior capacidade institucional. É uma mudança qualitativa. E é real.

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