quinta-feira, 7 de maio de 2026

A EXPECTATIVA DA REUNIÃO COM TRUMP

Míriam Leitão, O Globo

Viagem de Lula tem vários objetivos: manter canal aberto, avançar no combate ao crime e responder a pressões comercias

O governo brasileiro quer, na visita do presidente Lula a Washington, “manter o diálogo de alto nível e tratar muito concretamente temas que formem uma agenda positiva”. Foi o que ouvi de pessoa próxima ao presidente. Parece simples, mas é difícil no atual contexto. Mais do que algum acordo, o objetivo é manter o canal de diálogo presidencial, apesar de todas as diferenças. Além disso, o Brasil tem o desejo de que avance a cooperação na área de combate ao crime organizado.

Houve um momento na terça-feira em que a Casa Branca ainda não havia confirmado oficialmente a reunião, mas inúmeros funcionários envolvidos no encontro, inclusive o cerimonial, tratavam com suas contrapartes no Brasil. Aqui decidiu-se continuar os preparativos. Só no fim do dia veio a confirmação. A conversa estava prevista havia tempos, nunca chegou a ter data e foi sendo adiada por causa da guerra.

O presidente Lula chegará lá com uma proposta concreta de acordo bilateral de combate ao crime organizado, que amplia as trocas de informações entre agências governamentais envolvidas no enfrentamento ao narcotráfico e lavagem de dinheiro. Por isso, integram a comitiva o ministro da Fazenda, Dario Durigan, o da Justiça, Wellington Lima e Silva, e o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues.

Em uma entrevista ontem ao “Bom Dia, Ministro”, programa produzido pelo próprio governo, Durigan disse que recentemente foi feita uma parceria do Ministério da Fazenda e da Polícia Federal com a Aduana americana. E que isso está estreitando o intercâmbio de dados como, por exemplo, o raio-x dos milhares de contêineres que saem de lá e vêm para o Brasil. Segundo ele, de maio de 2025 a abril deste ano, o país apreendeu, vindo dos Estados Unidos, mais de meia tonelada de armas e equipamentos bélicos. Acrescentou que os americanos têm sido informados sobre as drogas sintéticas que chegam aqui para que possam fazer o rastreio. É essa cooperação que se quer intensificar.

A comitiva brasileira vai com a intenção de dar respostas às questões que têm sido levantadas pela investigação da seção 301 da lei comercial americana. Só sobre desmatamento foram feitas 80 perguntas. O governo Donald Trump nunca teve preocupação ambiental, mas esse pode ser um caminho para impor tarifas ao Brasil com o pretexto de que a devastação reduziu custo de produção e levou à concorrência desleal que querem provar.

Entrevistei ontem, na GloboNews, o cientista ambiental Raoni Rajão, da Universidade Federal de Minas Gerais. Ele afirmou que, apesar da queda de 50% no desmatamento, o que ocorreu em governos anteriores se tornou uma das fragilidades do país no comércio.

A China, explicou Rajão, identificou como um dos seus problemas o fato de depender 80% de soja importada. Decidiu aumentar o volume local produzido e investir em novas formas de produção de proteína animal que dependam menos do grão.

— Eles estão projetando reduzir em cerca de 25% a quantidade de soja brasileira que compram até 2030. Enquanto isso, o Brasil, nas suas projeções lineares, olha os últimos dez anos e acha que os próximos dez anos serão iguais. Por isso, projeta um aumento de exportações de 30%. A gente vai desmatando, derrubando a Moratória da Soja para plantar mais soja que não vai ser comida pelos chineses.

A Moratória da Soja foi um pacto, muito bem-sucedido, entre produtores e compradores para evitar o cultivo do grão em área de desmatamento recente. Foi encerrada na prática por pressão de sojicultores ligados ao desmatamento, mas ainda se discute na Justiça. O que Rajão explica é que, como a China comprará menos, deverá escolher de quem vai importar o produto. E um dos critérios de análise será evitar soja de desmatamento. Se houver um acordo entre EUA e China, um dos pontos será aumentar a compra da commodity nos Estados Unidos.

Mesmo que o governo norte-americano não seja sincero quando faz 80 perguntas sobre a questão ambiental no Brasil, o país deveria se preocupar com o fato de que, tanto nos EUA quanto na China, o desmatamento pode ser usado como pretexto para sanções comerciais.

Cada ponto da agenda entre Trump e Lula se desdobra em várias outras questões. O presidente brasileiro viajou com objetivo de fazer acordo contra o crime organizado e fortalecer o comércio. Mas o principal é o de manter o diálogo presidencial e, assim, neutralizar a tentativa da oposição de usar a pressão americana como uma de suas armas na disputa eleitoral.

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O TRABALHO INFANTIL DO ZEMA

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Ex-governador de Minas ajuda Flávio Bolsonaro a parecer mais palatável ao eleitorado

Zema já criticou restrições ao trabalho infantil e chamou beneficiários do Bolsa Família de imprestáveis

O ex-governador de Minas Gerais, Romeu Zema (Novo) está fazendo um ótimo trabalho para que Flavio, o outro presidenciável que já foi denunciado por rachadinha e elogiou milicianos como um "novo tipo de policiamento", pareça palatável quando não o é. Zema tem defendido posições extremistas em sua pré-candidatura à presidência que fazem qualquer Delfim Moreira, presidente entre 1918-1919 que tinha fama de ter alucinações, parecer um político são e equilibrado.

Até o momento, Zema já defendeu que trabalho infantil não deveria ser proibido no Brasil, considerando "lamentável" quem reclama que se "está escravizando a criança"; classificou beneficiários do Bolsa Família de uma "geração de imprestáveis" e "marmanjões" que preferem ficar em casa a trabalhar; e que idosos deveriam contribuir por mais tempo antes de se aposentarem sem cravar quando isto seria.

As falas de Zema não são apenas cortes feitos para viralizar nas redes sociais, são mentiras que desvirtuam problemas reais atrás de uma cortina de fumaça. Minas Gerais, ocupa o segundo lugar no ranking de denúncias de trabalho infantil do Ministério Público do Trabalho, sendo 918 em 2025, mais do que o dobro do que em 2021 (429). Zema mente sobre o Bolsa Família: em 10 anos, 60,7% dos beneficiários conseguiram deixar o programa, longe de serem o estereótipo propagado por Zema.

Com apenas 4% das intenções de voto no Datafolha de meados de abril, Zema sabe que não vai ganhar a eleição, mas confia que pode ganhar, ao menos, projeção num mundo digital em que posições extremistas são recompensadas com visibilidade. Zema dobrou o engajamento e triplicou o número de publicações no mês de abril, crescendo 56% nas redes, segundo levantamento da consultoria Datrix.

Zema, o governador que deixou o cargo com um rombo nas contas públicas de R$ 11,3 bilhões e cujo alto escalão foi alvo de operação contra esquema de corrupção de licenças ambientais, preciso explicar, antes de polemizar, o seu deplorável trabalho na gestão pública.

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A CRISE É SÉRIA, MAS NÃO INSTITUCIONAL

Hermínia Tavares, Folha de S. Paulo

Eleitor vota em presidente de esquerda, mas no Legislativo escolhe a direita

Esquerdas sempre foram minoritárias nas duas casas legislativas federais

Na semana passada, o Senado rejeitou a indicação do presidente Lula para uma vaga no Supremo Tribunal Federal; no dia seguinte, o Congresso derrubou os vetos do Planalto ao PL da Dosimetria. Esses dois fatos, somados à erosão do prestígio da corte e à crispação pré-eleitoral, avivaram o perene debate sobre as instituições da República e a necessidade de reformá-las.

Até agora as manifestações têm produzido mais fogo do que luz. Respeitável analista afirmou que o presidencialismo foi substituído pela ditadura do Congresso; outro, de igual calibre, considera que vivemos sob um "presidencialismo congressual". Na terça-feira (5), o ministro Gilmar Mendes, do STF, defendeu ampla mudança do sistema político e um pacto pela reforma do Estado.

A rigor, convém separar o que resulta do desenho institucional da República daquilo que é provocado pelas preferências e estratégias dos agentes políticos. Relembro aqui a coluna da colega Lara Mesquita, publicada nesta Folha na segunda-feira (4).

O presidencialismo brasileiro é inevitavelmente multipartidário, em razão do sistema eleitoral proporcional e da organização federativa do Estado; ambos multiplicam os partidos representados no Congresso. Ainda que venha se reduzindo, seu número continua muito elevado. Dado que nenhuma agremiação logra conquistar maioria no Legislativo, governar requer coalizões, nas quais o partido do presidente é um dos participantes —nem sempre o maior, porém. Esse é um dos efeitos do desenho institucional.

Embora sendo vantajoso governar com coalizões politicamente mais homogêneas; quando isso não ocorre, cobra-se maior habilidade do governante para negociar e ceder. Os governos encabeçados pelo PT sempre tiveram que se basear em coalizões com partidos de direita, pois as esquerdas nunca deixaram de ser minoritárias em ambas as casas legislativas. Isso não se deve ao desenho institucional, mas às escolhas dos eleitores: mesmo ao sufragar um presidente de esquerda, reiteradamente preferem senadores e deputados do variado campo da direita.

Assim, o "Congresso inimigo do povo", como alardeia a propaganda que vem inundando as redes de esquerda, resulta da escolha dos mesmos eleitores que levaram ao Planalto um presidente amigo do povo —aliás, presidente e senadores eleitos segundo a mesma regra majoritária.

É certo que mudanças institucionais recentes diminuíram, mas não eliminaram, os meios ao alcance do Executivo para obter apoio parlamentar às suas iniciativas. Administrar a coalizão ficou mais difícil; o que não mudou foi nosso sistema presidencial. É oportuno lembrar que o descasamento político entre o presidente Lula e aquela banda da direita de sua coalizão não impediu que, em seu terceiro mandato, ele obtivesse importantes triunfos legislativos: o arcabouço fiscal; a reforma tributária; a mudança no Imposto de Renda; o Pé-de-Meia; e a lei antifacção.

O que se viu na semana passada foi menos manifestação de crise do presidencialismo multipartidário do que resultado de uma estratégia presidencial que mediu mal as forças de que dispõe e de um sinal de que a direita pragmática está desembarcando do governo para entrar no navio pirata do bolsonarismo.

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NÃO SE IRRITE; FALE DO SEU

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Essas frases não são minhas, quisera eu: são de Arthur Mühlenberg, grande torcedor do Flamengo

Mühlenberg nos deixou em abril; ficará sem ver o que o Flamengo ainda nos reserva pela eternidade

Esta coluna se compõe de frases sobre o Flamengo. Se você for Flamengo, vai adorar. Se não for, não se irrite atacando-o —em vez disso, fale das maravilhas do seu clube.

"A vida é aquilo que acontece entre dois jogos do Flamengo." "Gosto de pensar que a célula rubro-negra original já estava presente quando eu era apenas um homozigoto. Mas me lembro vagamente de algumas emoções flamengas enquanto eu ainda boiava em semiconsciência no líquido amniótico no útero da mamãe." "A grandeza do Flamengo transcende meros patrimônios imobiliários. O Flamengo tem o Maracanã, do qual ocupa 80% de sua capacidade há décadas, a Inter de Milão e o Milan não têm estádios próprios. Já o Chievo e o Siena têm. Você acha que alguém em Milão se preocupa com isso?"

"O Flamengo é feito de aço, mas revestido de teflon. Nada pega nele." "Você conhece algum ex-Flamengo? Não —90% das casacas brasileiras são viradas a nosso favor, nunca ao contrário." "O torcedor do Flamengo só conhece dois estados mentais: crise na Gávea e oba-oba." "Para o Flamengo, toda crise é vitamina." "Entre as maiores qualidades do Flamengo estão o poder de dar saltos mortais na hora em que a água bate no queixo e a capacidade de se reinventar quantas vezes forem necessárias." "O que enche de ira nossos fregueses são as nossas ressurreições após atestados de óbito apressadamente expedidos."

"Flamengo: trem pagador do futebol brasileiro." "Flamengo roubado. Instituições funcionando normalmente." "Usar de preconceito para lançar ofensas à torcida do Flamengo é o mesmo que fabricar bumerangues." "Não importa se você torce pelo Flamengo ou não —um dia, ele vai deixá-lo puto." "A principal função social do Clube de Regatas do Flamengo é deixar todo mundo que não é Flamengo muito puto."

Essas frases não são minhas, quisera eu. São de Arthur Mühlenberg, o querido Muhlamba, carioca, ator, publicitário, cineasta, blogueiro e autor de sete livros sobre o Flamengo, que partiu a contragosto no dia 23 último, aos 62 anos.

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ADVOGADOS DA UNIÃO QUEREM PERMISSÃO PARA FAZER BICO NO SETOR PRIVADO

Adriana Fernandes, Folha de S. Paulo

Carreiras jurídicas federais poderão advogar no setor privado caso projeto avance no Congresso

Querem o melhor dos mundos, com mais privilégios

Um abre alas geral e institucionalizado para o popular bico no trabalho. É o que querem os advogados da União, procuradores da Fazenda Nacional, procuradores federais e procuradores do Banco Central.

Os servidores dessas carreiras jurídicas federais poderão advogar no setor privado, fora das suas atribuições funcionais, caso a tramitação de um projeto, aprovado nesta semana na Comissão de Constituição e Justiça, avance no Congresso.

Querem o melhor dos mundos dos setores privado e público.

Essas carreiras jurídicas do serviço público já têm direito a estabilidade no emprego e honorários de sucumbência, as verbas pagas pela parte perdedora em processos judiciais e rateadas entre eles. Além de outras regalias, como a ampliação do auxílio saúde para academia e práticas esportivas.

Só em honorários de sucumbência, em 2025 os membros da AGU receberam R$ 6,1 bilhões. Um recorde turbinado por pagamentos de verbas retroativas e auxílios de alimentação e saúde —quase o triplo do montante pago em 2024.

A dupla função entre o público e o privado expõe o servidor a conflitos de interesse, risco de uso de informações privilegiadas e comprometimento no horário do expediente.

Mesmo que o projeto estabeleça salvaguardas importantes, como a proibição de advogar contra o setor público, o controle dessas restrições é de difícil implementação.

Caberá à AGU publicar na internet a lista atualizada de todos os profissionais que optarem por exercer a advocacia privada. Mais trabalho para os órgãos de controle, como a CGU (Controladoria-Geral da União).

O projeto, de 2016, é do Executivo e foi votado uma semana depois do atual AGU, Jorge Messias, ter seu nome vetado para o STF e em meio à pressão da sociedade contra os privilégios no serviço público escancarados pelos chamados penduricalhos.

Mesmo após a decisão do STF que limitou o pagamento dessas verbas extras, tribunais de Justiça e ministérios públicos discutem criar novos penduricalhos.

Desafiam a todos. Penduricalhos e privilégios são como praga e proliferam facilmente em Brasília.

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O DESENROLA QUE SE PERPETUA

Celso Ming, O Estado de S. Paulo

Desenrola 2.0: em tempos de eleições, endividado fica esperando o perdão ou benefícios do governo

Programa que pretende aliviar o endividamento das famílias foi criado para amolecer a disposição do eleitor à Lula

A operação Desenrola-2, que pretende produzir alívio no endividamento das famílias, é tecnicamente limitada e, do ponto de vista estrutural, traz mais malefícios do que benefícios. Mas tem de ser vista sob o ponto de vista do objetivo a que se destina, que é eleitoreiro. Foi criada para amolecer a disposição do eleitor em relação à candidatura Lula e, nisso, pode ter lá sua eficácia.

Os números assustam. Levantamentos do Serasa mostram que há quase 83 milhões de pessoas com ficha suja no País. O Banco Central aponta uma inadimplência de 4,3% e o comprometimento de quase 30% da renda dos endividados. O Serasa inclui não apenas dívidas financeiras, mas também comerciais e com outros fornecedores, como os de energia elétrica e água ou obrigações contratuais, como as despesas de condomínio. Por esse critério, entre 72% e 80% da renda das famílias está comprometida com pagamento de dívidas.

O Desenrola-2 garante descontos de 30% a 90% do principal, estica o prazo de amortização e permite o uso do Fundo de Garantia para integrar a operação. Mas o benefício se limita a quem ganha até 5 salários mínimos (R$ 8.105,00).

A principal falha do programa é a de que não atua sobre as causas do superendividamento. Limita-se a atacar seus efeitos. Entre as causas, a mais apontada são os juros, que encarecem o crédito e engrossam a dívida. Só que os juros estão nos 14,5% ao ano porque foi preciso atacar a inflação que, por sua vez, é em grande parte obra da gastança do governo. Se fosse para reverter o superendividamento, o governo teria de combater o rombo.

O governo reconhece que as apostas nas bets corroem o orçamento das famílias. Por isso, proíbe que os beneficiários do Desenrola-2 derramem dinheiro nessas apostas por pelo menos um ano.

Entre as outras causas do forte endividamento estão os estímulos ao consumo, e não ao investimento. Quando subsidia os combustíveis, por exemplo, o governo está facilitando o consumo. Ao permitir que o comércio parcele uma compra em 5, 10 ou mais vezes “sem juros” e incorpore ao preço à vista o equivalente aos juros da operação, está também facilitando o consumo.

Tanto o Desenrola-1 de 2023, quanto este Desenrola-2 carregam dois vícios. Premiam, se não o calote, pelo menos a inadimplência. Quem honra suas obrigações financeiras não tem nenhuma vantagem. O segundo vício é o de que cria a cultura do deixa pra depois. O endividado fica esperando sempre o perdão, descontos ou benefícios despejados pelo governo, pelo menos em tempo de eleições.

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quarta-feira, 6 de maio de 2026

DOAÇÕES DO ALÉM

Cleber Lourenço, ICL NOTÍCIAS

MP aponta doadores mortos e suspeita de laranjas na última campanha de Tarcísio em SP

De acordo com a representação, o total de irregularidades alcança cerca de R$ 25,2 milhões

A prestação de contas da campanha de Tarcísio de Freitas ao governo de São Paulo em 2022 reúne uma série de inconsistências apontadas pelo Ministério Público Eleitoral de São Paulo, incluindo doação atribuída a uma pessoa já falecida, repasses feitos por doadores com renda incompatível e despesas milionárias sem comprovação suficiente.

Os apontamentos constam em representação formal apresentada à Justiça Eleitoral com base no artigo 30-A da Lei nº 9.504/97, que trata da captação e do uso ilícito de recursos em campanhas eleitorais. No documento, a Procuradoria Regional Eleitoral sustenta que as irregularidades podem, em tese, levar à cassação do diploma dos eleitos.

A peça é direta ao tratar da dimensão do problema. Segundo o Ministério Público Eleitoral, “o candidato não comprovou a regularidade de despesas eleitorais contraídas em montante superior a vinte e cinco milhões de reais”, grande parte quitada com recursos públicos do Fundo Eleitoral e do Fundo Partidário.

De acordo com a representação, o total de irregularidades alcança cerca de R$ 25,2 milhões, o equivalente a aproximadamente 67,5 por cento das despesas contratadas pela campanha.

Doação em nome de pessoa morta

Um dos pontos mais sensíveis citados no documento envolve uma doação de 600 reais atribuída a Tereza Akemi Nozaki Setoguchi. Segundo a Procuradoria, a suposta doadora constava no sistema de controle de óbitos.

Na avaliação do Ministério Público, o caso indica “possível arrecadação irregular” e levanta dúvidas sobre a origem real dos recursos utilizados na campanha.

Doadores com renda incompatível

Outro eixo da representação trata de doações feitas por pessoas com renda incompatível com os valores transferidos. Nomes como Regina Celia Procopio Grisi, Gardel Rodrigues do Amaral e José Ivelto Castagna aparecem como doadores de valores elevados, apesar de renda formal incompatível.

Para o Ministério Público Eleitoral, a situação pode caracterizar o uso de terceiros para ocultar a origem do dinheiro.

Na peça, o órgão aponta que esse tipo de prática compromete a transparência do financiamento eleitoral e pode configurar irregularidade grave.

“O recebimento de recursos provenientes de fontes vedadas é considerado inconsistência grave, que denota o financiamento da campanha com recursos ilícitos”, afirma o Ministério Público na representação.

Empresas sob suspeita

As inconsistências também atingem contratos firmados pela campanha. Um dos casos envolve a empresa Inove Administração Gestão e Participações em Serviços Médicos.

Segundo o Ministério Público, a empresa não teve a despesa devidamente comprovada e apresenta indícios de incompatibilidade operacional. Relatório citado na representação aponta que a sócia está inscrita no Cadastro Único de programas sociais, o que levanta dúvidas sobre a capacidade da empresa para prestar os serviços contratados.

Outro foco da investigação é a Beacon Comunicações Ltda., que concentrou a maior parte dos gastos da campanha.

Beacon concentrou mais de 65 por cento das despesas

A empresa recebeu 24 milhões, 385 mil e 500 reais, o equivalente a 65,46 por cento do total de despesas da campanha.

Segundo o Ministério Público Eleitoral, não foram apresentados documentos suficientes para comprovar a regularidade integral dos serviços prestados.

A representação aponta ausência de detalhamento adequado, contratos incompletos e descrição genérica das atividades.

“As irregularidades comprometeram a transparência e a fiscalização” dos recursos utilizados na campanha, afirma o Ministério Público.

Análise jurídica aponta gravidade e risco de cassação

Para a advogada e especialista em direito eleitoral Maíra Reccia, o artigo 30-A da Lei das Eleições trata diretamente da captação e da destinação ilícita de recursos financeiros em campanhas.

“O artigo 30-A fala da captação e ou destinação ilícita de recursos financeiros na campanha. A consequência, via de regra, é cassação”, afirmou.

Segundo ela, trata-se de uma conduta de alta gravidade dentro do sistema eleitoral.

“É uma conduta grave. A gente tem que analisar esses casos sob a ótica da gravidade e da má-fé, porque a consequência é também de extrema gravidade”, explicou.

A advogada destaca que, em situações como essa, o impacto pode atingir diretamente o mandato.

“Pode haver cassação do diploma. No caso de quem já está no exercício do mandato, é a cassação do diploma”, disse.

Maíra Reccia também ressalta que a legislação busca preservar a igualdade entre os candidatos.

“Essa legislação é importante porque tenta garantir a isonomia de condições entre os candidatos e coibir eventuais abusos”, afirmou.

Ela aponta ainda que casos envolvendo valores elevados e doações incompatíveis com a capacidade financeira dos doadores podem ser enquadrados como situações de extrema gravidade.

“Uma vez comprovada arrecadação ou gastos ilícitos dessa envergadura, com valores altos e doadores que eventualmente não tinham condições de contribuir, você pode estar diante de uma hipótese gravíssima”, avaliou.

Segundo a especialista, além do artigo 30-A, esse tipo de situação pode também ser analisado sob a ótica de abuso de poder econômico.

“Para além do artigo 30-A, também se discute abuso de poder econômico, que pode levar à cassação e à inelegibilidade”, completou.

Campanha também pagou esposa de aliado

Os apontamentos sobre as contas eleitorais se conectam a outro episódio envolvendo aliados do governador. A campanha de Tarcísio pagou 75 mil reais à jornalista Vanessa Mauri Campetti, esposa do deputado estadual Danilo Campetti, do Republicanos.

Danilo Campetti atuou próximo à campanha de 2022 e, posteriormente, assumiu mandato na Assembleia Legislativa de São Paulo. Entre as contratações feitas em seu gabinete está Mauricio Pozzobon Martins, cunhado de Tarcísio, que passou a atuar como assessor parlamentar.

Mauricio Pozzobon também prestou serviços à campanha eleitoral, tendo recebido 60 mil reais por atividades descritas como administração financeira.

TRE aprovou contas com ressalvas

Apesar dos apontamentos do Ministério Público Eleitoral, a prestação de contas da campanha foi aprovada com ressalvas pelo Tribunal Regional Eleitoral de São Paulo em maio de 2023.

Na ocasião, foi determinado o recolhimento de 613 mil 780 reais ao Tesouro Nacional por irregularidades no uso de recursos públicos.

O caso seguiu para o Tribunal Superior Eleitoral, que manteve a aprovação com ressalvas, aplicando critérios de proporcionalidade.

Governo se manifesta

Procurada, a assessoria de comunicação do governador afirmou que a campanha contou com mais de 600 doadores e foi conduzida com total respeito às leis eleitorais.

Segundo a nota, a prestação de contas foi analisada e aprovada pela Justiça Eleitoral sem qualquer pendência.

A legislação eleitoral prevê que, comprovada a captação ou o gasto ilícito de recursos, pode haver cassação do diploma do candidato eleito.

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MORRE TED TURNER

Da DW

Morre aos 87 anos Ted Turner, fundador da CNN

Emissora foi pioneira no serviço de notícias 24 horas. Empresário vinha lutando contra doença generativa desde 2018.

O empresário americano Ted Turner, fundador da CNN, morreu nesta quarta-feira (06/05), aos 87 anos, informou a emissora. Nascido em 1938 em Cincinnati, Turner revolucionou o panorama informativo mundial com o lançamento, em 1980, do primeiro canal de notícias 24 horas por dia.

Além disso, construiu um influente império de mídia que incluiu canais como TBS e TNT, transformando a CNN em referência internacional.

O projeto mais emblemático de Turner, a CNN, assumiu um papel central na cobertura de todos os tipos de eventos globais, desde conflitos e guerras até eleições presidenciais e catástrofes naturais, consolidando o conceito de informação em tempo real em escala mundial, que o próprio Turner descreveu como "a maior conquista de sua vida".

Não foi divulgada a causa da morte, mas desde 2018 Turner vinha lutando contra a demência com corpos de Lewy, uma doença neurodegenerativa pouco conhecida.

Esportista e filantropo

Nascido em Cincinnati, Robert Edward "Ted" Turner 3° nunca concluiu seus estudos na Universidade de Brown. Ele passou a assumir os negócios de publicidade da família depois que seu pai tirou a própria vida, devido a problemas financeiros.

Turner comprou inicialmente várias estações de rádio antes de adquirir uma emissora de notícias em dificuldades em Atlanta, em 1970, sua primeira incursão no mundo da televisão.

Ele também foi proprietário do Atlanta Braves, time de beisebol, defendeu a Taça América em vela em 1977 e doou um bilhão de dólares a instituições de caridade das Nações Unidas. Casou-se três vezes, incluindo com a atriz Jane Fonda.

Em 1991, foi nomeado Pessoa do Ano pela revista Time por sua influência e pelo papel que desempenhou na transformação da comunicação moderna.

Criação da CNN

O feito mais conhecido de Turner foi a criação da CNN, a primeira cadeia de televisão dedicada exclusivamente a notícias, com transmissão 24 horas por dia, em 1980.

O momento decisivo da emissora ocorreu durante a Guerra do Golfo com o Iraque, em 1991. A maioria dos jornalistas de televisão tinha fugido de Bagdá, alertados sobre um iminente ataque americano . A CNN ficou e captou imagens impressionantes do início da guerra.

Após a venda da empresa jornalística à Time Warner por 7,3 mil milhões de dólares, em 1996, os novos donos prometeram a Turner que o empresário continuaria desempenhando um papel na CNN. O ex-dono, no entanto, foi gradualmente afastado.

"Cometi um erro", afirmaria ele mais tarde. "O erro que cometi foi perder o controle da empresa", disse.

Naquele mesmo ano de 1996, Turner assistiu ao nascimento do Fox News Channel e à chegada de um novo magnata dominante no mundo das notícias, Rupert Murdoch.

Ele deixa cinco filhos, 14 netos e dois bisnetos, segundo a CNN.

Trump envia mensagem de condolências

O presidente dos EUA, Donald Trump, lamentou a morte do fundador da CNN e o elogiou como "um dos maiores de todos os tempos" da radiodifusão. "Ted Turner, um dos maiores de todos os tempos, acaba de falecer", escreveu Trump no Truth Social.

O republicano lembrou que Turner ficou "pessoalmente devastado" depois de vender a estação, alegando que os novos proprietários "destruíram" a CNN. "Ela tornou-se 'politicamente correta', o oposto do que ele defendia", acrescentou Trump.

Apesar das frequentes divergências políticas entre ambos, o presidente americano descreveu Turner como "um dos grandes nomes da história da radiodifusão" e "um amigo". "Sempre que precisei dele, ele estava lá, sempre pronto para lutar por uma boa causa", escreveu Trump.

Durante a campanha presidencial americana de 2016, apoiou publicamente a candidata democrata Hillary Clinton, adversária de Trump.

Na sua mensagem, Trump manifestou esperança de que os futuros proprietários da CNN consigam "restaurar a antiga credibilidade e glória" da estação. A declaração surge semanas depois de os acionistas da Warner Bros. Discovery, grupo que controla a CNN, terem aprovado uma fusão com a Paramount Skydance.

A nova estrutura será liderada por David Ellison, filho do empresário Larry Ellison, conhecido por ser próximo a Trump. A operação ainda depende de aprovação regulatória, mas as empresas esperam concluir a fusão no terceiro trimestre deste ano.

Fcl/md (Lusa, EFE, DW)

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NEM GUERRA NEM PAZ É PURGATÓRIO PARA RICOS, MAS INFERNO PARA POBRES

Rui Tavares*, Folha de S. Paulo

Guerra de EUA e Israel contra Irã deve agravar crises alimentares em países da África

Mesmo com fim da tensão no Oriente Médio, normalidade no fornecimento de combustíveis levaria meses

Conta-se que, quando Lenin enviou Trótski a Brest-Litovsk para negociar uma paz com o Império Alemão, as condições impostas pelos emissários do kaiser eram tão duras que era impossível aceitá-las, mas voltar para casa sem a paz prometida era inconcebível.

Trótski tentava fugir ao dilema, e os alemães perguntavam-lhe sempre: "Afinal o que é que vocês querem, paz ou guerra?". Trótski teria respondido: "Nem guerra nem paz".

A resposta lembra o que se passa agora entre Donald Trump e Irã. Não temos guerra ativa; também não temos paz. A situação tanto pode degenerar quanto ficar congelada durante semanas ou meses, dependendo da capacidade de sofrimento de cada lado.

Em princípio, o Irã leva vantagem nesse quesito. Trump tem um povo que detesta pagar US$ 4,50 por galão de gasolina e há eleições de meio de mandato em novembro.

Mas mesmo que a guerra acabasse amanhã, a normalidade demoraria meses a ser reposta nos fornecimentos de combustíveis, e já não haveria tempo, neste ano, para repor os fornecimentos de fertilizantes.

Cerca de um terço de todo o comércio marítimo mundial de fertilizantes passa pelo estreito de Hormuz. O que podia ser plantado já foi decidido nestas condições de escassez. Sem falar nos compostos de enxofre, indispensáveis tanto à transformação do fosfato em fertilizante absorvível quanto à indústria de semicondutores que sustenta o setor hoje em maior pujança econômica: o da inteligência artificial.

Isto não afeta toda a gente da mesma forma. O mundo rico vive numa situação em que, pagando mais ou menos pela comida, não se passa fome.

No resto do mundo, e particularmente em regiões como o Chifre de África, vive-se como viviam os nossos antepassados. Um mau ano agrícola significa primeiro consumir as provisões do inverno, depois pular refeições, depois abater os animais que já não se conseguem alimentar e, depois, pegar a família e fugir à fome antes de morrer por ela. Essa pode ser, daqui a uns meses, a situação na Somália.

E é aqui que o problema bate à porta da Europa, que ficará na linha da frente do acolhimento de quem fugir. A mesma Europa que tem hoje uma agenda anti-imigrante; quando há uns anos a União Europeia pagava aos países europeus para receberem refugiados, estes agora pagam ao bloco para não receberem.

E são os mesmos governos que, por outro lado, decidiram cortar ajuda ao desenvolvimento. Aliás aqui também com o exemplo pioneiro dos EUA, que destruíram por dentro a Usaid apesar de saberem que esta agência de cooperação fornecia comida a países onde esse alimento faz a diferença entre vida e morte.

Olhamos para uma humanidade equipada com inteligência artificial, com tudo o que seria preciso para resolver um problema que é logístico e político, e vemos líderes que não só não fazem nada para o resolver como ainda lhe acrescentam a guerra. Só falta a peste para um retorno à Idade Média.

O mais deprimente nesta situação infernal é que não há um único elemento nela que fosse inevitável. Tudo são escolhas políticas. Nos nossos tempos, parece que um excesso de inteligência artificial nos corresponde a um excesso igual de estupidez natural.

*Historiador, deputado na Assembleia da República de Portugal e ex-deputado no Parlamento Europeu; autor de 'Agora, Agora e Mais Agora

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AZUIS E VERMELHOS

Bernardo Mello Franco, O Globo

Com STF e STJ em crise, surge um novo escândalo no TST

Enquanto internet discute se juízes são azuis ou vermelhos, ministros recebem cachê para ensinar advogados a atuar em tribunal trabalhista

A fala viralizou no fim de semana. Num congresso jurídico em Brasília, o presidente do Tribunal Superior do Trabalho (TST) se referiu a uma suposta divisão da Corte entre ministros azuis e ministros vermelhos. “Eu diria que não tem azul nem vermelho. Tem quem tem interesse e quem tem causa. Nós, vermelhos, temos causa”, disse Luiz Philippe Vieira de Mello.

O tribunal das redes sociais decidiu rápido. O presidente do TST foi julgado e condenado como um juiz parcial. Por um vídeo de um minuto e meio, transformou-se no novo símbolo de uma Justiça capturada pela política.

Na segunda-feira, a história ganhou novos contornos. Vieira de Mello disse que a gravação foi retirada de contexto. Ele derrapou nas palavras, mas a distinção entre azuis e vermelhos havia sido feita pelo ministro Ives Gandra Filho.

Em curso para advogados, Gandra dividiu os colegas entre “liberais” e “intervencionistas”, deixando claro que jogava no time azul. Enquanto a internet debatia as cores dos juízes, o escândalo estava em outro lugar: ministros receberam para ensinar profissionais do Direito a atuar no tribunal.

“Participei, não vi problema, fui convidado por um colega”, defendeu-se Gandra. O jornal O Estado de S. Paulo mostrou que ele não está sozinho. Dos 27 ministros do TST, ao menos 14 deram aula ou foram anunciados como professores dos cursos do Instituto de Estudos Jurídicos Aplicados, com inscrições de R$ 1.000 a R$ 1.500.

Trocando em miúdos, mais da metade do TST cobrou cachê para treinar advogados que atuam na Corte. “Se isso não é conflito ético, o que mais seria?”, questionou Vieira de Mello. Era o que faltava na cúpula da Justiça. Com o STF e o STJ tragados por crises, surge um novo racha no órgão máximo da Justiça do Trabalho.

Na sessão de segunda-feira, Gandra reafirmou o que disse aos advogados pagantes. Alinhado ao discurso das entidades patronais, sustentou que ampliar direitos trabalhistas prejudicaria as empresas e acusou os sindicatos de estarem “mais preocupados com sua fonte de receita do que com a defesa do trabalhador”.

Gandra nunca escondeu suas cores. No governo Bolsonaro, era comensal do palácio, confraternizava com a primeira-dama e foi filmado aplaudindo quando o então presidente ameaçou descumprir ordens judiciais. Na sessão de segunda, o ministro se descreveu como “legalista”. Para ele, ativistas são os outros.

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LULA E O 'SISTEMA'

Vera Magalhães, O Globo

Ao buscar justificativa para derrotas e pesquisas adversas, presidente replica discurso perigoso que tem fragilizado instituições

A grande surpresa do longo e pouco empolgante pronunciamento de Lula no Primeiro de Maio foi o apelo a um expediente tão gasto quanto capcioso para tentar explicar as recentes derrotas no Congresso e a dificuldade de implementar sua agenda de governo: na falta de outra justificativa, o presidente resolveu culpar o “sistema”.

Não dá para colocar na conta de um desabafo circunstancial tamanha inflexão política e retórica. Afinal, se há um político que não só foi forjado no sistema, como praticamente passou a defini-lo, este é Luiz Inácio Lula da Silva. Ele refundou um sindicato, fundou uma central sindical, depois um partido, foi candidato em quase todas as eleições presidenciais desde a redemocratização, foi deputado constituinte… Na última campanha, fez um apelo justamente ao “sistema”, encampando a defesa de instituições que haviam sido atacadas, perseguidas ou enfraquecidas por Jair Bolsonaro.

No cenário internacional, Lula tem tentado se diferenciar de Donald Trump e similares ao pregar o fortalecimento de organismos multilaterais, justamente o “sistema” erigido após a Segunda Guerra Mundial para reconstruir a governança global e reconfigurar as relações entre países e blocos geopolíticos.

Tudo o que o PT e a esquerda vêm denunciando nas últimas eleições é o risco de fatias cada vez maiores do eleitorado serem seduzidas por discursos que pregam a redução drástica do Estado e dos impostos ou soluções fáceis e baseadas na apologia do individualismo, justamente por parte daqueles aventureiros que usam a lábia “antissistema” com forte apelo nas redes sociais.

Portanto, cabe entender que sistema é esse de que Lula se queixa por não deixá-lo governar. Suas recentes derrotas graves no Congresso se devem ao fato de, além de não ter conseguido eleger coalizão majoritária, ter perdido apoio ao longo dos anos, por uma ruptura cada vez maior entre sua agenda e a do Parlamento.

Isso pode até incomodar Lula, mas atribuir um dos pilares de qualquer democracia — a divisão de Poderes e o papel do Legislativo como parte da tomada de decisões — a um complô de um sistema obscuro é simplificador e denota enorme vazio de ideias e de capacidade de reação por parte dele.

O outro pilar da democracia é o voto, e as pesquisas mostram que Lula ainda lidera, mas enfrenta enormes dificuldades na busca do quarto mandato. Começar, a cinco meses da eleição, a enxergar fantasmas para explicar o humor do eleitor não é nem de longe um caminho de fortalecimento da institucionalidade. Basta lembrar que o último presidente que se vendeu como antissistema, e trabalhou de fato para levar o arcabouço institucional ao colapso, chegou a colocar em dúvida a lisura das eleições.

A falta de governabilidade de Lula tem várias razões, todas elas concretas: o descasamento de sua vitória e da escolha de Câmara e Senado predominantemente conservadores, a ineficiência da articulação política montada pelo próprio Lula, sua capitulação diante do deslocamento de poder do Executivo ao Legislativo graças às emendas, a arrogância de achar que poderia enfiar um nome como Jorge Messias goela abaixo de um Senado com esse perfil, e por aí vai.

O presidencialismo de coalizão implica negociação constante com um Congresso cada vez mais fragmentado. A dificuldade não é nova nem exclusiva deste mandato, mas tende a ser crescente. Nos mandatos anteriores, Lula operou com habilidade dentro desse mesmo “sistema” e terminou seu segundo governo com níveis recordes de aprovação, superiores a 80%.

As principais mudanças desde então foram, além da farra das emendas, o deslocamento da mobilização política das ruas e sindicatos para as redes sociais e a guinada conservadora da sociedade brasileira. Lidar com essas variáveis é o que se espera de qualquer um que deseje comandar o país e inseri-lo num mundo igualmente sujeito a essas condições.

Ao se colocar como vítima de “forças ocultas” que não o deixam entregar resultados, Lula acaba investindo contra a política formal em que foi forjado e prosperou. Dos vários sinais de enfraquecimento que vem dando, esse é um dos mais notáveis.

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EROSÃO INSTITUCIONAL

Zeina Latif, O Globo

Rejeição ao indicado ao STF vai além da polarização de extremos, algo mais grave corrói as instituições

A histórica rejeição do Senado ao indicado ao STF pelo presidente é mais um sinal de alerta para o mau funcionamento das nossas instituições.

São várias as versões, de motivação política, para esse episódio, enquanto não se discutiu a norma constitucional, que condiciona a investidura no cargo ao notável saber jurídico e à reputação ilibada — o que não surpreende considerando o padrão nas últimas décadas.

Levantam-se elementos pouco convincentes para explicar a derrota do governo, como a falha nas negociações entre Lula e o presidente do Senado, Davi Alcolumbre, apesar da liberação de emendas parlamentares; o incômodo com a identificação partidária de Jorge Messias, o que não é algo inédito em candidatos; e a ambição de reeleição de Alcolumbre em 2027, em meio à fraqueza política do presidente e ao esperado crescimento da bancada bolsonarista nas próximas eleições.

Uma outra versão, mais verossímil, seria a existência de conluios entre figuras da República que buscam blindagens no caso das fraudes do Banco Master. Isso por conta do alinhamento de Messias com o ministro André Mendonça, que assumiu a relatoria do inquérito.

Mendonça tem tomado decisões que ampliam a autonomia da Polícia Federal e revisam procedimentos controversos estabelecidos pelo antigo relator, o ministro Dias Toffoli. O esforço para conter os danos políticos teria amalgamado um acordão.

O livro “Como as Democracias Morrem”, de Daniel Ziblatt e Steven Levitsky, ajuda a refletir sobre a importância desse episódio. O ponto de partida dos autores é que o fim de democracias não é necessariamente fruto de golpes de Estado, mas sim de um processo lento de corrosão das instituições.

Os freios e contrapesos da democracia vão se enfraquecendo devido à utilização indevida de prerrogativas institucionais por mandatários e funcionários dos três Poderes.

O poder precisa ser exercido com comedimento, respeitando as normas informais ou os usos e costumes. Seria inadequado, por exemplo, o presidente propor uma emenda à Constituição para alterar o número de membros da Corte, transformando o Judiciário em uma ferramenta de apoio ao governo, como teria desejado o presidente Bolsonaro.

O Congresso, por sua vez, precisa evitar obstrução dos trabalhos legislativos.

Nos EUA, Franklin Roosevelt tentou aparelhar a corte em 1937 para obter aprovação do New Deal, o que gerou críticas duras generalizadas entre democratas e republicanos. A proposta morreu no Senado, com ampla maioria, mesmo sendo extremamente popular.

Em relação ao direito de barrar indicações para a Suprema Corte e outras posições, historicamente, o Senado dos EUA tem sido parcimonioso no seu uso, havendo um consentimento de que cabe ao presidente fazer as indicações.

O governo de Bill Clinton é citado como o momento em que as grades de proteção da democracia americana começaram a sofrer pressões inéditas, com um “jogo duro” institucional — o uso de manobras legalmente permitidas, mas que violam o espírito da lei e as normas não escritas de convivência democrática, enfraquecendo o presidente.

O adversário passa a ser visto como um inimigo que precisa ser neutralizado. A cortesia e a reciprocidade, ingredientes necessários inclusive para não inviabilizar acordos futuros, foram deixados de lado.

Desde então, assistiu-se a uma escalada de hostilidades de lado a lado. Nos anos George W. Bush, foram várias as obstruções promovidas pelos democratas. Com Obama, houve ainda mais obstruções, e a reação do próprio presidente e dos democratas implicou maior rompimento de normas informais, como no maior uso de ordens executivas.

Em 2016, último ano de governo, os republicanos negaram a autoridade de Obama para indicar um juiz para a Corte. O quadro de rompimento de tradições se aprofundou ainda mais com Donald Trump, enfraquecendo a democracia.

No Brasil, com bases mais frágeis, o problema vai além da polarização de extremos, que não teria sido exatamente a responsável pela rejeição de Messias para o STF. Algo mais grave corrói as instituições: o STF cada vez mais contaminado pela política; os sinais de maior aparelhamento estatal, com corrupção e infiltração do crime organizado; e a crise do presidencialismo de coalizão refletida no grande descolamento do Legislativo em relação a agendas republicanas do Executivo.

A erosão institucional assusta mais do que a polarização.

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DESTRUIÇÃO DE DEMANDA

Fábio Alves, O Estado de S. Paulo

Destruição de demanda: se Estreito de Ormuz não for reaberto até o fim do mês, consumo terá colapso

Muitos analistas passaram a estimar picos de US$ 150 a US$ 200 o barril do petróleo Brent; e um novo conceito econômico, com consequências sombrias, poderá entrar para o vocabulário dos leigos

Com a guerra no Irã em seu terceiro mês, os analistas redobraram as previsões mais sombrias acerca da economia mundial e do impacto da disparada do preço do petróleo, da gasolina, do combustível de aviação e de outros derivados. Se até o fim deste mês o Estreito de Ormuz permanecer praticamente fechado, afetando um quinto da produção global de petróleo, um novo conceito econômico poderá entrar para o vocabulário dos leigos: destruição de demanda.

Isso acontece quando o poder de compra de consumidores sofre um tombo por conta da disparada nos preços de um produto ou serviço, ou ainda quando um choque de oferta limita a capacidade dos consumidores de comprar bens e serviços. Muitos analistas passaram a estimar picos de US$ 150 a US$ 200 para o barril do petróleo Brent, caso o Estreito de Ormuz siga fechado nas próximas quatro a seis semanas.

Isso porque a liberação de estoques de petróleo e derivados – das reservas estratégicas soberanas dos países e também de reservas comerciais – vem segurando as cotações. Mas até quando os estoques globais vão conseguir amortecer esse choque de oferta? O banco JPMorgan estima que os estoques globais de petróleo e derivados somavam 8,4 bilhões de barris antes da guerra no Irã e que o limite de estresse operacional é de 7,6 bilhões. Esse nível de estresse já deverá ser atingido no início de junho se o fluxo de navios pelo Estreito de Ormuz não for retomado. O risco é de anúncios de racionamento de combustíveis em vários países.

Até o dia 23 de abril, o JPMorgan estimou a liberação de 280 milhões de barris desses estoques. Pode parecer pouco, mas os analistas lembram que o petróleo e seus derivados armazenados no mar (em tanques flutuantes ou navios-petroleiros) podem ser acessados rapidamente, mas não o produto armazenado em instalações em terra devido a questões operacionais. De um total de 6,5 bilhões de barris armazenados em terra, apenas 580 milhões podem ser liberados de imediato.

A Agência Internacional de Energia alertou no dia 16 de abril que a Europa poderia ficar sem querosene de aviação dali a seis semanas. Aliás, o preço do querosene de aviação passou de US$ 80 por barril, antes da guerra, para mais de US$ 200 no auge do estresse. O efeito foi imediato: a Lufthansa anunciou o corte de 20 mil voos; a United Airlines disse que poderá reajustar as tarifas em até 20%. Outras companhias aéreas também estão reduzindo suas rotas ou elevando preços. Algumas alertam para o risco de falência. Com tal destruição de demanda, cresce o risco de recessão global.

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LULA E O FANTASMA DAS LARANJEIRAS

Marcelo Godoy, O Estado de S. Paulo

O último dos fantasmas que ronda Brasília aparece a Lula nas noites insones do Alvorada

Não são apenas o novo mundos do trabalho com seus entregadores, as relações com os militares e a crise do Supremo que tiram o sono do presidente

Em 30 de outubro de 1897 o Jornal do Brasil noticiou em sua primeira página: “Às primeiras badaladas da meia-noite, descia a Ladeira do Ascurra nas Laranjeiras, no Rio, em direção ao Largo do Machado, um vulto de mulher, ora decapitado, ora ostentando uma cabeça povoada de cabelos negros”. Milhares acorreram nos dias seguintes à ladeira para tentar flagrar a assombração.

A história do fantasma que apavorou a capital federal meses antes do atentado contra o presidente Prudente de Morais está no livro 1897, A República polarizada e o atentado contra Prudente de Morais, do professor Ely Carneiro de Paiva, da Unicamp. Ela marcou o último ano do primeiro governo civil da República. Na noite de quinta-feira, dia 30 de abril, milhares de pessoas se aglomeraram na Praça Charles Miller, no Pacaembu, no centro de São Paulo. Chegaram pouco a pouco em suas motocicletas e com seus baús e mochilas.

Um deles explicou à coluna. Estava lá para “assar uma carne”, “conversar”, “confraternizar”. Entregadores, sem outro vínculo que não o de seu trabalho – de forma que alguns desavisados chamariam de “espontânea” –, inundaram a praça com seu destino comum, suas vidas, esperanças e inseguranças. Todos invisíveis ao governo e às centrais sindicais. Ali passeava um fantasma. Não o da mulher sem cabeça, mas o de uma esquerda que não soube conversar com esse mundo, como mostrou a repórter Cristiane Barbieri em sua série sobre a nova realidade do trabalho. De fato, na noite de quinta-feira, não havia um único dirigente da CUT ou do PT na Praça Charles Miller.

O fantasma da falta de conexão com o novo mundo do trabalho não é o único a apavorar Lula e o PT neste 2026. A ele se junta o fantasma das relações civis e militares. Se a oficialidade se descolou, em sua maioria, do bolsonarismo em 2023, tampouco passou a nutrir simpatias pelo petismo, mesmo após os ataques da extrema direita ao Exército, que se manteve na legalidade e não embarcou no Plano Punhal Verde e Amarelo.

Uma terceira assombração resolveu reaparecer em Brasília. E à luz do dia. Ela não se mostrava assim desde o governo de Floriano Peixoto, o marechal que antecedera Prudente de Morais. Trata-se da crise do mundo político com aquele habitado, hoje, por dez magistrados. Há muita gente se preparando para assistir a um novo espetáculo, que até bem pouco só existia no mundo sobrenatural. O desfile de decapitados de 2027 não descerá a Ladeira do Ascurra – dizem esses áugures –, mas ocorrerá no STF. Por fim, o último dos fantasmas que rondam Brasília é o que aparece a Lula nas noites insones do Alvorada. Ele tem as vestes do Bolsonaro Acorrentado e sobe a rampa do Planalto.

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O SOFT POWER DE FLÁVIO BOLSONARO EM BUSCA DOS VOTOS VOLÁTEIS DO CENTRO

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Lula mantém sua base social tradicional nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão e dialogar com o eleitor moderado

Por definição, a expressão soft power, ou seja, “poder brando”, é usada nos meios diplomáticos para explicar a capacidade de um país influenciar o comportamento e as preferências de outras nações por meio da atração e persuasão, em vez de coerção militar ou econômica (hard power). Ou seja, tudo ao contrário do que faz o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump.

O termo foi criado por Joseph Nye, que foi professor e reitor de Harvard, o pioneiro ao defender a projeção de poder de forma intangível, por meio da música, do cinema, da gastronomia, da literatura, da cooperação e do humanismo, entre outras formas. É uma estratégia para ganhar “corações e mentes” em vez de território. O bolsonarismo não tem nada a ver com o soft power, certo? Errado. Um vídeo de Flávio Bolsonaro que viraliza nas redes mostra o principal candidato de oposição em contraponto, digamos, imagético, ao próprio pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro.

O candidato da extrema-direita se apresenta como principal polo de oposição moderada ao governo Lula, com foco na conquista do eleitorado de centro, a partir de uma narrativa de crítica à gestão econômica e à crise de governabilidade. A peça enfatiza a ideia de que o país vive um momento de esgotamento político, marcado por escândalos, inflação persistente e perda de poder de compra. Flávio Bolsonaro busca dialogar com o sentimento difuso de insatisfação presente nas pesquisas de opinião.

Dirigindo o próprio carro, apresenta-se como um cidadão comum, dedicado à vida familiar em primeiro lugar. Evita o tom ideológico e aposta numa abordagem mais pragmática, voltada à classe média e aos eleitores indecisos. Ao mesmo tempo em que associa sua imagem a ordem, eficiência administrativa e responsabilidade fiscal, explora a percepção de fragilidade do governo no Congresso. As referências ao bolsonarismo são indiretas e suavizadas; o perfil é institucional, menos militante.

Flávio Bolsonaro ainda busca um marqueteiro para chefiar sua campanha, porém, Marcos Carvalho, estrategista digital de Jair Bolsonaro em 2018, é quem já cuida das redes sociais. O rumo da campanha está dado, tem a cara do coordenador, senador Rogério Marinho (PL-RN), e não dos irmãos Carlos e Eduardo. O vídeo sugere que há espaço para mudança, reforça a ideia de que Flávio Bolsonaro pode representar uma alternativa viável; procura neutralizar resistências, evita temas polarizadores e prioriza a estabilidade e a previsibilidade. O objetivo é capturar o eleitor moderado, que hoje oscila entre rejeições e busca uma opção competitiva fora do campo governista.

É esse eleitor que anda fugindo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O cenário eleitoral captado pela pesquisa Realtime Big Data divulgada ontem mostra porque a estratégia de Flávio Bolsonaro é uma ameaça à reeleição do petista. O país está preso entre rejeições elevadas, polarização persistente e ausência de uma alternativa capaz de reorganizar o centro.

Swing voters

Os dados revelam um sistema travado, no qual a disputa segue sendo estruturada mais pelo antagonismo do que pela construção de maiorias sociais estáveis. Nesse ambiente, o soft power da extrema-direita não chega a ser uma surpresa, porque na política brasileira o que se fala, na maioria das vezes, não é o que se faz. Mas sua capacidade de penetrar no eleitorado flutuante, não por adesão ideológica, mas por captura do descontentamento, não pode ser subestimada.

No primeiro turno, Lula aparece com 40% das intenções de voto, contra 34% de Flávio Bolsonaro, enquanto Ronaldo Caiado e Romeu Zema pontuam apenas 5% e 4%, respectivamente. A fragmentação do campo alternativo é evidente. Mesmo quando o cenário muda, Lula recua a 38% e Flávio a 33%, mantendo-se praticamente inalterada a lógica de dispersão do centro. Ou seja, há uma oferta de candidaturas, mas não há um polo competitivo capaz de romper a polarização.

O dado mais revelador, entretanto, está no segundo turno. Flávio Bolsonaro aparece com 44% contra 43% de Lula, em empate técnico com leve vantagem para a candidatura de direita. Mais do que a fotografia, importa o movimento: entre março e maio, Flávio cresce de 41% para 44%, enquanto Lula oscila de 42% para 43%, graças ao eleitor moderado, exatamente aquele grupo que o cientista político Carlos Melo, ontem, em artigo no Globo, descreveu como os swing voters, que migram conforme o humor do momento.

No centro político, diferente dos “indecisos”, esses eleitores são conscientes e escolhem quem melhor representa seus interesses naquela conjuntura. Nesse contexto, as candidaturas de Ronaldo Caiado e Romeu Zema assumem um papel peculiar. Os números mostram que são intercambiáveis com Flávio Bolsonaro. Vão levar a eleição para o segundo turno, mas Lula não pode contar com eles.

O presidente mantém sua base social tradicional, ancorada nos estratos de menor renda, mas enfrenta limites claros para expandir sua coalizão. A rejeição elevada e a percepção de governo estreito dificultam o diálogo com o eleitor moderado. Como sugere Melo, Lula parece ter subestimado a necessidade de reconstruir pontes com esse segmento, apostou num capital político que já não possui. Seu isolamento relativo é agravado porque o Congresso ampliou seu poder e reduziu a capacidade de coordenação do Executivo. Nesse cenário, o Centrão opera como força autônoma, à espera da hora certa de apoiar quem for ganhar.

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ESCRAVIDÃO, TRABALHO E ATRASO

Tiago Cavalcanti*, Valor Econômico

A inovação tecnológica não é neutra e pode ser direcionada para contornar restrições de fatores produtivos

História econômica é um campo de pesquisa fascinante. Um aspecto importante da minha formação como economista sempre foi o seu estudo, seja nas disciplinas da graduação e do doutorado, seja nas minhas horas de lazer. Há uma discussão sobre a redução do número de cadeiras obrigatórias no curso de economia da Universidade de Cambridge. Sou totalmente contra.

Na graduação na UFPE, tive ótimos cursos sobre a formação econômica do Brasil e do Nordeste com o professor Policarmo Lima. O livro que estudei sobre o Nordeste foi escrito pelo meu sogro, o professor Leonardo Guimarães Neto. A obra tem uma bela capa, com a foto de uma fazenda com escravos, provavelmente na zona da mata pernambucana. Em um contexto de forte interesse pelas raízes do atraso econômico regional, influenciado por trabalhos de Celso Furtado, como o documento GTDN de políticas públicas para o desenvolvimento regional, Leonardo Guimarães Neto analisa a trajetória do Nordeste, enfatizando suas relações comerciais com o mundo e com o restante do país.

Até meados do século 17, o Brasil apresentava níveis de renda per capita, comparáveis aos da Inglaterra e dos EUA

No meu doutorado na Universidade de Illinois, para onde fui a convite do professor Werner Baer, especializei-me em história econômica. Foi lá, em 2000, que assisti à palestra do então jovem economista do MIT, Daron Acemoglu, sobre como a mortalidade de europeus nas colônias moldou instituições e continua a influenciar o desenvolvimento. Confesso que, à época, apesar da criatividade ao explorar dados históricos, achei que a teoria não era propriamente inovadora. A distinção entre colônias de exploração e de povoamento já aparecia na literatura. Trabalhos como os de Stanley Engerman e Kenneth Sokoloff já enfatizavam como diferentes estruturas coloniais geraram trajetórias distintas nas Américas. Mas Acemoglu, com coautores, quantificou esses efeitos, contribuição que anos depois seria reconhecida com o Prêmio Nobel de Economia em 2024.

Com o professor Stephen Parente, participei de um grupo de leitura de história econômica. Lembro de ter lido “The Lever of Riches”, de Joel Mokyr, “The Rise and Decline of Nations”, de Mancur Olson, e “The Wealth and Poverty of Nations”, de David Landes. Três excelentes obras que procuram entender trajetórias heterogêneas de desenvolvimento. O trabalho de Mokyr também recebeu reconhecimento máximo ao lhe render o Prêmio Nobel de Economia em 2025. O próprio Parente, com Edward Prescott, laureado em 2004, escreveu “Barriers to Riches”.

Um dos desafios de escrever sobre história econômica e testar hipóteses é o acesso a dados confiáveis. Nosso primeiro censo demográfico foi realizado em 1872, registrando uma população de aproximadamente 9,9 milhões de habitantes, incluindo cerca de 1,5 milhão de escravos. Já os dados de contas nacionais só começaram a ser desenvolvidos nos anos 1930, com os trabalhos de Simon Kuznets, e foram posteriormente aperfeiçoados pelo professor de Cambridge Richard Stone, sobretudo nos anos 1940, quando estruturou o sistema moderno de contas nacionais.

Para construir dados anteriores ao século XX, é preciso acessar arquivos comerciais, registros paroquiais e fazer hipóteses sobre representatividade e padrões de consumo. Foi assim que Guilherme Lambais e Nuno Palma construíram, no artigo “How a Nation Was Born: Brazilian Economic Growth”, 1574–1920, uma nova série de PIB per capita entre 1574 e 1920, quando antes havia estimativas apenas a partir de 1820. Na prática, essa reconstrução combina diferentes fontes, incluindo documentos públicos e registros das Santas Casas, como livros de contabilidade e recibos, que permitem construir séries de salários reais urbanos e inferir padrões de renda e custo de vida.

A nova série sugere que o Brasil apresentava níveis relativamente elevados de renda per capita até meados do século XVII, comparáveis aos da Inglaterra e dos Estados Unidos e superiores aos de Portugal e da Espanha. A partir de 1650 e até 1850, observa-se um longo período de declínio e estagnação, com episódios pontuais de crescimento que não alteraram essa trajetória. Trata-se de uma trajetória distinta da observada na Inglaterra e nos Estados Unidos, marcada por fortes ganhos de produtividade associados à Revolução Industrial. Só a partir de meados do século XIX surge um crescimento sustentado no Brasil, ainda assim modesto em comparação com as economias do Atlântico Norte.

Em 1920, a economia brasileira tinha um PIB per capita de aproximadamente 20% do PIB per capita americano. Hoje, esse valor é cerca de 25% do observado nos Estados Unidos. Ou seja, mesmo após mais de um século de transformação estrutural, com a transição de uma economia rural para urbana e o início do processo de industrialização, os ganhos de produtividade no país foram relativamente modestos quando comparados aos de diversas outras nações, como a Coreia do Sul ou o Chile, que conseguiram reduzir de forma significativa a distância em relação às economias mais desenvolvidas.

Uma possível interpretação desses resultados documentados por Lambais e Palma é que o fraco desempenho de longo prazo esteja intimamente ligado à estrutura escravista da economia. Como enfatiza Samuel Pessôa em resenha sobre o artigo, a oferta elástica de trabalho escravizado mantinha salários baixos e reduzia os incentivos ao progresso técnico, limitando a difusão de ganhos de produtividade. Nesse contexto, o crescimento só começa a aparecer quando a escravidão entra em declínio, com o fim do tráfico e, posteriormente, da própria instituição, sugerindo que o principal entrave ao desenvolvimento não era apenas a inserção externa ou a especialização produtiva, mas a própria organização do mercado de trabalho e da sociedade.

O passado traz experiências para o presente e para o futuro, inclusive para o debate sobre como a organização do trabalho e a escassez de fatores podem afetar a eficiência produtiva. Como mostram diversos trabalhos de Daron Acemoglu, que considero sua agenda de pesquisa mais original, a inovação tecnológica não é neutra e pode ser direcionada para contornar restrições de fatores produtivos.

*Tiago Cavalcanti é professor Titular de Economia da Universidade de Cambridge e da FGV-SP.

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TRUMP, TARIFAÇO E A NOVA LEI DE TERRAS RARAS

Lu Aiko Otta, Valor Econômico

Encontro com presidente americano será uma oportunidade para Lula fazer funcionar sua química

Aguardada pelo lado brasileiro para esta quinta-feira, depois de haver ficado em suspenso durante semanas por causa da guerra no Irã, a reunião do presidente Luiz Inácio Lula da Silva e o mandatário dos Estados Unidos, Donald Trump, ocorre sob sombra de um possível novo tarifaço, por causa de supostas práticas desleais do Brasil, em temas que vão de Pix a desmatamento. O Brasil é investigado com base na Seção 301 da Lei do Comércio, o que pode resultar em tarifas adicionais.

Por outro lado, Lula tem em mãos o trunfo das terras raras, que são no momento o maior ponto de interesse dos Estados Unidos no Brasil.

O brasileiro chegará ao diálogo sem uma definição firme sobre como o país vai se posicionar nesse tema. No seu entorno há quem defenda uma política nacionalista e a criação da estatal Terrabras. Mas também há os que querem criar condições para atrair investimentos estrangeiros - o que, por sua vez, esbarra nas limitações das contas públicas apertadas.

Para piorar, o tema subiu aos palanques. Opositores de Lula como os pré-candidatos à Presidência Flávio Bolsonaro e Ronaldo Caiado defendem um alinhamento aos Estados Unidos.

Em meio a divisões no governo e no Congresso, a política brasileira para terras raras começa a ganhar contornos. A Câmara dos Deputados pode votar nesta quarta-feira o Projeto de Lei 2.780/2024, que institui a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Será apreciado o relatório do deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), que foi recebido com um misto de aprovação e preocupação pelo setor privado.

Os pontos que agradaram às empresas são os que estabelecem mecanismos de incentivo ao investimento. A proposta cria um fundo garantidor de R$ 2 bilhões para operações de crédito relacionadas ao setor e institui créditos financeiros às empresas no valor total de R$ 1 bilhão por ano de 2030 a 2034.

Esses créditos serão maiores conforme o grau de processamento do mineral aqui.

Além disso, o relatório permite que empresas do setor se financiem com a emissão de debêntures incentivadas e debêntures de infraestrutura. Podem também utilizar o Regime Especial de Incentivos para o Desenvolvimento da Infraestrutura (Reidi). Jardim disse que queria estender a elas o uso dos incentivos da Lei do Bem, relacionada a tecnologia, mas recuou após diálogos com o Ministério da Fazenda sobre a questão fiscal.

Um ponto que causa preocupação nas empresas são os poderes dados ao Conselho Especial de Minerais Críticos e Estratégicos, a ser criado pela lei. O colegiado avaliará previamente “mudanças de controle societário, participação relevante ou influência significativa de pessoas jurídicas estrangeiras em empresas detentoras de direitos minerários dos minerais e contratos, acordos ou parcerias internacionais que envolvam fornecimento dos minerais críticos e estratégicos”.

Chamou a atenção do diretor-presidente do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Pablo Cesário, o inciso I do artigo 8º, que coloca o “estabelecimento de parâmetros, condicionantes, requisitos técnicos ou compromissos de agregação de valor vinculados à exportação” como instrumentos para atingir os objetivos da política. “Dá uma carta branca para o governo dizer qualquer coisa”, comentou. “É uma aplicação tão ampla que pode ser inaplicável.”

O mesmo dispositivo abre espaço para a cobrança do Imposto de Exportação, outro ponto que era acompanhado com preocupação pelas empresas.

À coluna o ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços, Márcio Elias Rosa, disse que o texto elaborado por Jardim avança na direção desejada. “A ideia de industrialização e defesa do interesse nacional estão presentes.”

Os incentivos que agradaram ao setor privado vão demandar mais discussão, segundo informou ao Valor o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron. Há um diálogo com o Congresso para definir qual o limite para se fazer algo positivo para o setor de minerais críticos sem prejudicar a economia como um todo, disse.

“Tudo que não tem compensação nos preocupa”, afirmou, referindo-se à ampliação de renúncias tributárias. “Claro que aqui tem uma importância estratégica para o país de diferentes dimensões, então não dá para colocar na mesma caixinha de outras discussões, mas também tem que ter cuidado e razoabilidade.”

Um negociador que atuou no caso do tarifaço avalia que as terras raras são um tema com “enorme potencial” para aprofundar a agenda de cooperação entre os dois países. O fato de possuir a segunda maior reserva do planeta de um produto essencial para a indústria moderna, a tecnologia, a transformação energética e a indústria de defesa “aumenta o capital estratégico do Brasil numa agenda geopolítica”

O encontro com Trump será uma oportunidade para Lula fazer funcionar sua química. Para ajudar a evitar um novo tarifaço e para lançar bases para uma cooperação no processamento das terras raras.

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MUDANÇA NA EXPECTATIVA DE PODER ALERTA ALIADOS DE LULA

Fernando Exman, Valor Econômico

Próxima indicação para o STF terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula

Um “choque de realidade” com consequências ainda imprevisíveis. Assim é classificado, nos bastidores do governo, o episódio que culminou na rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, para o Supremo Tribunal Federal (STF).

As pontes do Palácio do Planalto com o STF e a cúpula do Senado não serão mais as mesmas. As bases dessas relações foram rachadas.

Também ficou a percepção, para interlocutores do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que o palanque do petista em Minas Gerais pode estar sendo erguido sobre areia movediça e algo precisa ser feito. O Estado é o segundo maior colégio eleitoral brasileiro, território fundamental para quem quer vencer uma eleição presidencial. Mas, sobretudo, o que mais pesa nas avaliações de alguns interlocutores de Lula é o fato de o senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), que arrancou nas pesquisas de intenção de voto e transformou-se num incômodo adversário antes do que se esperava, sair com um importante troféu desta etapa preliminar da campanha.

Isto é, em uma campanha que terá o Supremo como tema central, Flávio Bolsonaro conseguiu passar a mensagem de que apenas como pré-candidato já é capaz de também encabeçar um movimento para barrar indicações para o STF. “A mensagem que ele mandou para o eleitor e lideranças partidárias é: imagine como presidente.”

Some-se a isso a inegável força gravitacional gerada pelo senador sobre o Centrão nas sessões da semana passada, acrescenta um auxiliar de Lula. Ficou evidente para quem estava no plenário do Senado na última quarta-feira (29), durante a rejeição do nome de Messias, e no dia seguinte, quando caiu o veto presidencial ao projeto que reduziu as penas dos condenados por golpe de Estado, como parlamentares do Centrão faziam questão de direcionar gestos políticos para o pré-candidato da oposição.

Diante desse cenário, passou-se a fazer um diagnóstico das causas da histórica derrota, para que Lula e seus articuladores políticos pudessem então tatear os possíveis caminhos a seguir.

Além da óbvia grave falha de articulação, a autópsia constatou que insatisfações de aliados com as negociações para a formação de palanques estaduais podem ter incentivado traições. Seria a forma encontrada por aqueles que não conseguem ser ouvidos dizer que o exercício da política segue abaixo das expectativas.

Faltou a presença de aliados na linha de frente da articulação, inclusive no plenário na hora da votação. Em paralelo, a máquina federal não teria rodado adequadamente para impulsionar a candidatura do Planalto.

Além disso, poderia ter ocorrido maior mobilização para adiar a votação, mas a opção geral foi a de mantê-la. Essa também era a disposição no Planalto: embora representasse um vexame histórico, uma eventual derrota ainda daria a chance de Lula fazer nova indicação ao STF até dezembro.

A diferença entre as projeções que circulavam entre os governistas e o resultado estampado no painel do Senado chegou a 20%, ou seja, um abismo entre os 41 votos necessários para a nomeação e os 34 obtidos por Messias. Uma margem surpreendente e ao mesmo tempo inaceitável, na visão de integrantes do governo.

Como resultado, uma ala passou a defender a radicalização contra o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a começar pela exoneração de seus aliados instalados em cargos federais.

Esse grupo também acredita que Centrão e oposição têm mais a perder com o avanço das investigações do caso Master. Existe a expectativa de que Lula saia ileso dos fatos apresentados por Daniel Vorcaro na delação que está sendo negociada com a Polícia Federal (PF) e a Procuradoria-Geral da República (PGR). A revitalização da campanha “Congresso inimigo do povo”, com pressão para a instalação de Comissões Parlamentares de Inquérito (CPIs) na Câmara e no Senado, é outro resultado prático vindo dessa turma. Assim como tentar implodir o palanque que estava sendo construído pelo presidente em Minas Gerais, diante da avaliação de que o senador Rodrigo Pacheco (PSB-MG) também teria sua parcela de responsabilidade pelo destino do advogado-geral da União.

Em contraposição, há quem argumente ao presidente que essa radicalização tornaria a crise ainda mais imprevisível. Para esses aliados, que defendem a manutenção de uma aliança que contemple o centro e temem os efeitos da crise sobre a agenda legislativa de interesse do Planalto, Lula precisa identificar os interlocutores que ainda podem garantir o mínimo diálogo com Alcolumbre. E Pacheco seria um deles.

Movido pela possibilidade de uma indicação ao Supremo depois de outubro, argumentam nesta segunda ala, Pacheco deveria continuar sendo motivado pelo presidente a trabalhar pela vitória de sua chapa em Minas.

Isso porque uma próxima indicação para o STF inevitavelmente terá que ser dialogada com o Senado, ainda que a ficha tenha voltado para as mãos de Lula. O presidente tem um trunfo novamente para negociar, mas o que mudou a dinâmica do jogo neste momento foi a expectativa de poder de Flávio Bolsonaro.

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