quinta-feira, 6 de agosto de 2026

AMADO, O JORGE AMADO

Do History

Há 25 anos, o Brasil se despedia de Jorge Amado, um dos maiores escritores da literatura nacional.

Autor de obras que retrataram a cultura, o povo e as contradições sociais do Brasil, ele deixou um legado que atravessa gerações e continua inspirando leitores em todo o mundo.

Nascido em Itabuna (BA), em 10 de agosto de 1912, Jorge Amado escreveu 49 livros, publicados em dezenas de idiomas e adaptados para o cinema, o teatro e a televisão. Entre suas obras mais conhecidas estão "Gabriela", "Cravo e Canela", "Dona Flor e Seus Dois Maridos", "Tieta do Agreste", "Capitães da Areia" e "Teresa Batista Cansada de Guerra".

Sua literatura deu protagonismo ao povo brasileiro, abordando temas como desigualdade social, cultura popular, religiosidade, política, folclore e a riqueza das tradições da Bahia. Além da carreira literária, também foi jornalista e atuou na política, chegando a viver períodos de exílio por suas convicções ideológicas.

Em 1961, foi eleito para a Academia Brasileira de Letras e recebeu importantes reconhecimentos nacionais e internacionais ao longo da vida. Suas histórias permanecem entre as mais adaptadas da literatura brasileira e seguem conquistando novos leitores décadas após sua publicação.

Vinte e cinco anos após sua morte, Jorge Amado continua sendo um dos escritores mais influentes da cultura brasileira e uma referência da literatura mundial.

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INSANA CORRIDA PARA TENTAR SALVAR O BRB

Maria Clara R. M. do Prado, Valor Econômico

Na ponta do lápis, as contas não fecham, a menos que escolas, postos de saúde e outros serviços prestados à população do DF deixem de funcionar

Há muito tempo não se via uma movimentação política tão intensa para salvar um banco quebrado. Desde que assumiu carteiras de créditos podres em negociação suspeita com o banco Master, o Banco de Brasília (BRB) se arrasta aos trancos e barrancos, com problemas de liquidez e de patrimônio. Como não há publicação de balanço (o último data do segundo trimestre de 2025) não se sabe ao certo o tamanho do buraco. Sabe-se, sim, que é expressivo, qualquer que seja a indicação de prejuízo que se queira considerar.

De acordo com o governo do Distrito Federal — dono do BRB, com participação de 53,71% — o rombo é de R$ 8,8 bilhões. Analistas do setor financeiro estimam um déficit de pelo menos R$ 12 bilhões, o valor da carteira de créditos podres comprada do Master. Segundo o Ministério da Fazenda, se liquidado, o BRB causaria prejuízo de R$ 17 bilhões ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC). O FGC, para lembrar, é alimentado com recursos dos bancos com vistas a cobrir depósitos e aplicações de correntistas e investidores em caso de falência de alguma instituição financeira até o limite de R$ 250 mil.

O GDF, com a ajuda do Banco Central, da AGU e do STF, vem empurrando o problema com a barriga, à espera de alguma solução antes do primeiro turno das eleições, que têm a atual governadora Celina Leão (Progressistas) entre os candidatos. A última novidade no rol de tentativas para esticar a corda foi anunciada esta semana com a convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária (AGE) do banco para o próximo dia 24. Na pauta consta a autorização para que os acionistas proponham ações de responsabilidade civil contra os ex-administradores da instituição, tendo em vista a Operação Compliance Zero, desencadeada pela Polícia Federal no inquérito das fraudes praticadas pelo Banco Master.

O objetivo da AGE soa um tanto redundante, uma vez que o ex-presidente do BRB envolvido nas operações com o Master está preso e certamente responderá na Justiça pelos atos que tenha praticado, incluindo o ressarcimento pelos danos causados ao banco que, no frigir dos ovos, correspondem a prejuízos aos acionistas. Outros antigos gestores do BRB por ocasião das fraudes são alvos de medidas cautelares.

A governadora espera que os grandes bancos brasileiros possam salvar o BRB, apesar de nada terem a ver com as fraudes em investigação. Ela busca um empréstimo de R$ 6,6 bilhões justamente junto ao FGC — aquele que sofreria um rombo de R$ 17 bilhões com a liquidação do BRB — pelo prazo de 15 anos, com dezoito meses de carência, e propõe juros atrelados à evolução do IPCA mais 4,5% ao ano.

Os principais bancos entrariam no esquema como garantidores do empréstimo via FGC ao BRB, tendo como contragarantia recursos futuros do Fundo de Participação dos Estados (FPE) e do Fundo de Participação dos Municípios (FPM). Esses fundos envolvem recursos arrecadados pela União que são depois repassados aos Estados, municípios e ao Distrito Federal.

Estima-se que o GDF receberá de ambos os fundos cerca de R$ 1,6 bilhão este ano, verba usada com educação, saúde, saneamento e demais gastos do governo.

Na prática, bancos como Itaú, Bradesco, Santander e Banco do Brasil, entre os maiores, entrariam em um esquema de resultado duvidoso para salvar um banco estatal que se meteu em operações fraudulentas por conta própria e que estará sempre sujeito às interferências políticas do acionista majoritário, ao sabor dos próprios interesses. O BC não pode assegurar que o “acordo” proposto pelo GDF será cumprido nem que resultará positivo para as partes a médio prazo. Nem mesmo a governadora Celina pode estar segura do sucesso da sua proposta, ainda que venha a ser eleita para o próximo mandato.

Os problemas dos bancos estaduais no Brasil são fartamente conhecidos. Um a um, foram desaparecendo por absoluta impossibilidade de sobrevivência. No caso atual do BRB, um dos últimos remanescentes, há um complicador adicional: as finanças do GDF estão totalmente amarradas aos limites legais, o que impede gastos extras além do autorizado. Por isso, precisou de uma lei específica para contratar aquela operação, com previsão de custo astronomicamente alto.

Se for adiante, nos termos propostos pelo GDF, o empréstimo custaria cerca de R$ 100 milhões por mês a partir de 2028, ou seja, R$ 1,2 bilhão por ano. Esse valor corresponde ao montante estimado das receitas que o GDF deve receber este ano com repasses do FPE. A receita prevista com o FPM é muito menor, cerca de R$ 380 milhões. Na ponta do lápis, as contas não fecham, a menos que escolas, postos de saúde e outros serviços prestados à população do Distrito Federal deixem de funcionar.

É importante notar que os alardeados efeitos de uma eventual liquidação do Banco de Brasília no Fundo Garantidor de Crédito não passam por enquanto de ameaça velada. Se o BC achar que o BRB tem salvação, pode optar por uma intervenção ou por um Regime de Administração Especial Temporária (Raet), o que certamente desagradaria a governadora Celina Leão neste momento. Se tiver de liquidar o BRB, o BC o fará munido dos fundamentos técnicos que cabem em tal situação. Só não dá para entender a demora da decisão, por tudo o que se conhece.

Já aqui seria o caso de perguntar a respeito da conveniência de ser introduzido no uso do FGC algum tipo de salvaguarda de modo a evitar abusos e desvios de função. Sim, porque se o governo do DF não honrar com os compromissos que pretende assumir caberá aos grandes bancos fazer os aportes necessários para evitar o colapso do fundo e, neste caso (e até mesmo antes), dar as devidas explicações aos respectivos acionistas.

Do ponto de vista da finalidade para o qual foi criado, faria sentido um escalonamento de valores para o ressarcimento dos depósitos garantidos de acordo com as características da falência da instituição financeira, se resultou de algum movimento externo e abrangente ou se resultou de decisões tomadas deliberadamente dentro da instituição para proveito próprio.

Também deveria ser proibida a divulgação da cobertura do FGC como peça de propaganda para a venda de papéis ou qualquer tipo de captação como foi largamente usada pelo dono do Master, Daniel Vorcaro. É como se ele tivesse transformado o fundo garantidor de crédito em cúmplice das suas falcatruas.

A mesma tábua de salvação pretende usar agora o GDF em desesperada tentativa de não perder o BRB. Afinal, para os políticos, um banco estadual funciona como se fosse a galinha dos ovos de ouro da fábula de Esopo.

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COM TARIFAÇO E INTERFERÊNCIA NAS NOSSAS ELEIÇÕES, TRUMP PODE DAR UM TIRO PELA CULATRA

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

Conflito fortalece a narrativa de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas alimenta críticas da oposição à diplomacia de Lula

“O Brasil não é para principiantes”, atribuída ao compositor e maestro Tom Jobim, a frase serve como uma luva para Marco Rubio, secretário de Estado norte-americano e principal arquiteto da mudança de orientação dos Estados Unidos para a América Latina. A política de pressão concebida em Washington que pretende enfraquecer o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pode ser um tiro pela culatra.

Até agora, deu a Lula a oportunidade de transformar a crise diplomática numa disputa em defesa da soberania nacional. O tarifaço contra produtos brasileiros, os contatos de integrantes do governo Trump com aliados de Flávio Bolsonaro, a tentativa de enviar funcionários do Departamento de Estado para discutir a integridade das urnas e a revogação do visto da embaixadora Maria Luiza Ribeiro Viotti são iniciativas consideradas ingerências nas eleições deste ano pelo Palácio do Planalto. Washington condiciona a restauração do visto de Viotti à aprovação de Daniel Perez como embaixador dos Estados Unidos.

Nenhuma dessas medidas, isoladamente, decide uma eleição. Juntas, porém, permitem que Lula apresente o confronto como uma disputa entre os interesses nacionais e uma potência estrangeira interessada no resultado das urnas. Ocupa o lugar institucional de chefe de Estado agredido por pressões externas, enquanto Flávio Bolsonaro corre o risco de ser associado a uma articulação internacional contra seu próprio país.

Trump e Rubio talvez tenham subestimado a complexidade da política brasileira. A pressão externa costuma estimular reações nacionalistas. Lula mobiliza a militância de esquerda, busca apoio de setores democráticos e de eleitores moderados. Quanto mais explícita e truculenta for a tentativa norte-americana de influenciar o processo eleitoral, maior será a possibilidade de Lula se apresentar como defensor da autonomia do país. Entretanto, se a condição de vítima o favorece, o santo é de barro. Lula precisa calibrar suas reações para não agir com soberba e irresponsabilidade.

A Casa Branca promove a reorganização da direita latino-americana. Marco Rubio procura consolidar um eixo conservador no continente, conter a presença econômica da China e apoiar governos identificados com a agenda de Trump. No Cone Sul, Javier Milei tornou-se a principal expressão desse movimento. Sua participação no lançamento da candidatura de Flávio Bolsonaro, em São Paulo, e os ataques feitos a Lula e ao ministro Alexandre de Moraes provocaram uma deterioração sem precedentes nas relações entre Brasil e Argentina.

A América Latina não é um tabuleiro no qual Washington movimenta aliados sem provocar reações locais. O conflito fortalece a narrativa oficial de que existe uma frente internacional empenhada em derrotar o governo brasileiro, mas também gera críticas da oposição à diplomacia de Lula. Jogar na defensiva não é vergonha para o Itamaraty. Brasil e Argentina compartilham fronteira, comércio, cadeias produtivas e o Mercosul. Milei pode mobilizar sua base atacando Lula, mas não pode romper os vínculos econômicos entre os dois países sem impor custos à própria Argentina.

Resiliência

Trump dispõe de instrumentos poderosos, principalmente o acesso ao mercado norte-americano, as sanções e as tarifas. Ainda assim, poder econômico não se converte automaticamente em influência eleitoral. A pesquisa Genial/Quaest divulgada ontem mostra essa ambivalência. Lula continua na liderança, com 39% contra 30% de Flávio Bolsonaro no primeiro turno e 44% a 39% no segundo. Entretanto, o senador recompôs parte da unidade da direita, reduziu a rejeição e aumentou a convicção de seus eleitores.

Mas a reconciliação com Michelle Bolsonaro e a reação às restrições judiciais para visitar o pai contribuíram mais para sua recuperação do que o confronto de Lula com os Estados Unidos. O outro lado da moeda são os limites dos dividendos nacionalistas. Em julho, 51% consideravam que ele defendia melhor o Brasil, contra 34% que apontavam Flávio. Agora, a diferença caiu de 17 para oito pontos: 46% a 38%.

Ao mesmo tempo, a avaliação da resposta do governo ao tarifaço passou de um saldo positivo de três pontos para um saldo negativo de cinco: 43% consideram que Lula reagiu mal e 38%, bem. Portanto, a pressão de Trump continua favorecendo a narrativa do presidente, mas a administração efetiva da crise já começa a ser cobrada. Será uma corrida contra o tempo mitigar os efeitos negativos da crise diplomática até as eleições.

A grande incógnita é o impacto econômico das tarifas. O comércio com os Estados Unidos representa cerca de 2% do PIB brasileiro, proporção que permite ao governo sustentar que o país dispõe de escala, mercado interno, reservas internacionais e parceiros comerciais suficientes para absorver o choque.

A diversificação das exportações, principalmente em direção à China, à União Europeia e aos demais países do Sul Global, reduz a capacidade de Washington estrangular a economia brasileira. Essa resiliência macroeconômica, entretanto, não elimina os prejuízos para empresas exportadoras, cadeias industriais integradas aos Estados Unidos e regiões dependentes de produtos de exportação para os Estados Unidos. Isso repercute eleitoralmente nos setores e estados mais atingidos.

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EM NOME DO PAI

Merval Pereira, O Globo

O tempo é curto para uma virada de posições tão radical quanto a necessária para retirar Flávio do segundo turno

Os números se movem nas pesquisas eleitorais para presidente da República. Os dois candidatos mais bem cotados se aproximam e se distanciam à medida que as notícias vão se desenrolando, mas o que trava a corrida de cada um são os escândalos de corrupção envolvendo os dois. O que muda menos é o índice de rejeição de cada, e partimos para uma disputa entre quem é menos corrupto que o outro.

“Em nome do pai” é o slogan da campanha de Flávio Bolsonaro, uma admissão de que está concorrendo por ser filho de Jair. A escolha do relator da CPI do INSS para vice na chapa de Flávio revela que o tema será objeto direto da campanha da oposição, e o relatório da comissão, que não foi aprovado por trabalho do governo e pedia até mesmo o indiciamento de Lulinha, filho do presidente, deve ser ressuscitado como se fosse a verdade encoberta pelo poder do pai.

De um lado, um filho de ex-presidente candidato a presidente, apanhado com a boca na botija em conversa de milhões com o ex-banqueiro Vorcaro. De outro, um filho de presidente suspeito em diversas acusações de corrupção ligadas ao roubo dos aposentados do INSS. Com uma rede de contatos envolvendo a burocracia governamental e práticas de tráfico de influência para favorecer negócios do “Careca do INSS”. Uma lobista conhecida em Brasília, sua amiga, ligada ao “Careca”, apareceu também em escândalo paralelo, emprestando dinheiro ao chefe de gabinete do presidente Lula. Serão mesmo escândalos paralelos?

Impressionante como o governo que lançou o programa de renegociação de dívidas “Desenrola” tem entre seus principais assessores e aliados pessoas com a mania de pedir dinheiro emprestado a lobistas, não aos bancos. O senador Jaques Wagner é outro que ganhou um apartamento de um sócio de Vorcaro, para pagar mais tarde. Wagner teve de deixar a liderança do governo no Senado para acalmar a crise. “Marcola”, que pelo apelido não se perca, teve de se afastar da coordenação da campanha presidencial de reeleição de Lula para evitar estrago maior.

A campanha de Flávio erra até mesmo na criação de expectativas, pois anunciou que a escolha do vice seria “uma decisão histórica”, e a montanha acabou parindo um rato. Vice não dá voto, mas revela a fragilidade da candidatura. Todos os candidatos de oposição a Lula tiveram de fazer chapa pura por falta de acordos partidários.

A pesquisa Quaest aponta alguns problemas para a campanha de Lula, como o sentimento de déjà-vu que suas promessas transmitem, a recuperação de Flávio entre os que o abandonaram depois do escândalo do filme “Dark Horse”, financiado por Vorcaro a preços mais que hollywoodianos nunca explicados. Esses, especialmente os homens, os evangélicos, estão lentamente voltando a apoiá-lo.

O candidato do Missão, Renan Santos, com seus planos mirabolantes de desfavelização e combate ao crime organizado, chama a atenção dos jovens e cresce nas pesquisas. Pode superar no primeiro turno os ex-governadores Ronaldo Caiado e Romeu Zema. Há os que acreditam nele, e há os que querem transformá-lo num novo “Cacareco”. Há, no entanto, a esperança entre os que apoiam Caiado de que os ataques e contra-ataques entre Lula e Flávio abram caminho para o ex-governador de Goiás chegar ao segundo turno como candidato da direita, hoje dividida, mas que tende a se unir no segundo turno, seja qual for o candidato.

Como Lula e Flávio tendem a não comparecer aos debates, os demais candidatos podem ter espaço para se apresentar ao eleitorado fora dessa polarização negativa. O tempo, porém, é curto para uma virada de posições tão radical quanto a necessária para retirar Flávio do segundo turno. As pesquisas mostram que a convicção dos eleitores já está em ampla margem definida. Mas, como tudo pode acontecer, até mesmo nada, ainda teremos 60 dias de expectativa até que as urnas indiquem o vencedor.

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TARCÍSIO PASSA RECIBO E PIORA A IMAGEM DAS PRIVATIZAÇÕES

Marcos Augusto Gonçalves, Folha de S. Paulo

Governador acusou greve de política, mas é o que faz com as concessões apressadas

Caso dos trens foi atestado de políticas mal planejadas, que também atingem parques

O governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, acusou a greve de ferroviários em seu estado, já encerrada, de política. Greves são políticas em sentido amplo e essa característica pode se acentuar em períodos eleitorais. Na disputa, acusações sempre aparecem.

O fato é que o movimento teve uma dimensão trabalhista. Por outro lado, não há dúvida de que certas concessões e privatizações em curso em São Paulo se enquadram bem no rótulo de políticas —ainda que mal feitas.

No afã de cunhar uma marca eleitoral e ganhar pontos com o empresariado e a opinião pública antipetista, Tarcísio —recente anfitrião do presidente da Argentina, o libertário Javier Milei— vem contribuindo para o questionamento do dogma liberal que afirma ser sempre preferível privatizar, pois aquilo que a iniciativa privada for capaz de fazer, fará melhor do que o setor público.

Não é bem isso que vemos em São Paulo. O exemplo mais candente são justamente as privatizações das linhas 11-coral, 12-safira e 13-jade da CPTM, concedidas à empresa Trivia Trens, no fim de junho.

Falhas gritantes, entre as quais um grave incêndio na linha 12, levaram o governador a cancelar a concessão por 90 dias, recolocando os ramais sob controle da companhia de trens do estado. Difícil imaginar um recibo de incompetência técnica e motivação política mais evidente do que esse recuo.

O caso, diga-se, não é pioneiro em problemas ferroviários: as linhas 8 e 9, concedidas à ViaMobilidade pelo governo de João Doria, em 2021, também ficaram marcadas por mau funcionamento e má prestação de serviço aos usuários.

Em outras áreas, equívocos também se acumulam, caso das concessões para alguns parques. O que poderia ser uma boa alternativa para melhorar a qualidade dessas áreas verdes da cidade tornou-se um portal aberto para a agressão à natureza e a mercantilização desenfreada e pouco inteligente das unidades.

Tenho eu mais de dez anos, quase que diários, de lugar de fala como frequentador do parque Villa-Lobos, onde os descalabros vão de vento em popa, com cervejarias chamativas, praças de alimentação duvidosas a até pedaços inteiros de vegetação cercados e cobertos com leds, com bilheteria na porta para quem quiser pagar para ver o luminoso desastre. Tapumes se erguem por todas as partes, enquanto o piso das pistas para pedestres, sobre as quais um patrocinador imprime sua marca, se encontra esburacado, com os bancos caindo aos pedaços.

Estou entre aqueles que não são principistas em matéria de privatizações. Reconheço, com senso pragmático, as vantagens em diversos casos. Em outros, não. Há situações em que a opção, se bem planejada e estruturada, é preferível, mesmo com eventuais problemas.

Por exemplo, apesar dos inconvenientes que podem nos desesperar na relação com as empresas de telefonia e internet, companhias como a Telesp e a Telerj não deixaram saudade. Também seria melhor não pagar pedágio, mas é claro que as concessões de rodovias em São Paulo deram bom resultado.

Não é o caso de algumas das privatizações levadas a toque de caixa pelo governador paulista, com resultados muitas vezes sofríveis e contrários ao interesse maior da sociedade. E isso pode respingar na própria imagem do mandatário privatista.

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O EFEITO BUMERANGUE DA ESCOLHA DE GASPAR

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Escolha de vice mostra Flávio Bolsonaro de costas para as mulheres e agarrado na pauta da corrupção que também pode ricochetear em sua candidatura

“Na maior parte das vezes, quem tem que tomar conta dos idosos são justamente as mulheres. Eu fiz duas filhas exatamente para isso, quando eu ficar velhinho quem vai tomar conta de mim são elas”.

O candidato do PL à Presidência fez este preâmbulo ao anunciar o deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) como vice. A visão tacanha sobre o papel da mulher é uma das explicações sobre o risco tomado por Flávio Bolsonaro com a escolha.

No último dia da CPMI do INSS, depois de o deputado Lindbergh Farias (PT-RJ) irromper a sessão acusando-o de estuprador, Gaspar, que foi o relator da comissão, negou a acusação. Atribuiu o protagonismo a um primo e fez exame de DNA que, disse, não comprovaria a paternidade da criança. Em vídeo, a filha em questão confirmou sua versão.

Como o crime de “estupro de vulnerável” pressupõe apenas a existência de uma relação sexual com um menor de 14 anos, o deputado e a senadora Soraya Thronicke (Podemos-MS) protocolaram uma notícia-crime no Supremo Tribunal Federal que é relatada pelo ministro Gilmar Mendes, em segredo de justiça.

O relator pediu um parecer da Procuradoria-Geral da República, que, por sua vez, solicitou diligências à Polícia Federal. A campanha eleitoral transcorrerá, portanto, com esta investigação em aberto.

Outra explicação para o risco é a tensão nunca superada de sua relação com a ex-primeira-dama. A pesquisa Genial/Quaest divulgada no mesmo dia do anúncio de Gaspar mostra que a reconciliação entre Flávio e Michelle Bolsonaro foi aprovada por seis em cada dez eleitores. Em um mês passou de 38% para 46% a proporção daqueles que acreditam em mais chance de vitória em função do apoio da ex-primeira-dama ao enteado.

A despeito de Michelle ter publicado mensagem em apoio a Gaspar, a escolha desagradou a seu grupo. A presença da ex-primeira-dama ou de uma aliada consolidaria a imagem de conciliação aprovada pelo eleitorado.

A disputa pelo espólio do pai parece superar, em importância, aquela pela Presidência da República. A desconfiança foi resumida, no X, pelo irmão foragido, Eduardo Bolsonaro: “Com Alfredo Gaspar, não compensará fazer impeachment de Flávio Bolsonaro”.

A pauta da segurança pública tampouco parece ser suficiente para explicar a escolha. Promotor público e ex-procurador-geral de Justiça do Estado, Gaspar era um expoente da linha dura quando foi escolhido para secretário de segurança da gestão Renan Filho (MDB) em Alagoas com êxito na redução de homicídios.

A despeito de a pauta ter apelo regional, pela escalada da violência em Estados governados pelo PT, como Ceará e Bahia, políticos da região apostam que o sobrenome Bolsonaro dispensa adendos quando o objetivo é sinalizar para a radicalização da política de segurança. Gaspar, nesta matéria, é anil sobre o azul.

Sua saída da disputa alagoana pelo Senado facilita, sim, a candidatura do deputado Arthur Lira (PP), que deixa de ter um concorrente no eleitorado de direita. Por mais pretensões que Lira cultive, porém, não seria capaz de levar o candidato do PL a sacrificar a escolha de um vice mais producente para resolver um imbróglio estadual.

Ainda mais em Alagoas, onde verbas destinadas por Gaspar em emendas Pix nunca chegaram aos pretendidos fins. Auditoria do TCU identificou que R$ 6,2 milhões destinados ao município de São José da Laje sumiram sem que fossem registradas obras ou serviços deles decorrentes. O parlamentar nega ser investigado e atribui à prefeitura a responsabilidade pela execução dos recursos.

Resta, portanto, uma única motivação para a escolha de Gaspar, a relatoria da CPMI do INSS, que trouxe à tona o envolvimento de Fábio Luís da Silva, filho do presidente da República, com a lobista Roberta Luchsinger. O fôlego tomado por Flávio nas pesquisas tem este carimbo.

A preocupação com corrupção numa campanha com a presença do presidente Luiz Inácio Lula da Silva sempre o prejudica, não importa se seu adversário tiver recebido de um corruptor um valor 244 vezes superior àquele que seu ex-chefe de gabinete o fez. Tampouco importa se o valor do imprevidente Marco Aurélio Santana foi devolvido e o de Flávio teve destino incerto. Todo respingo em Lula vira enchente.

É nisso que o PL aposta com a escolha de Gaspar, um relator que arquivou o requerimento de convocação do cunhado de Daniel Vorcaro, Fabiano Zettel. A CPI tinha evidências fartas da participação de Zettel no manejo de R$ 40 milhões de um esquema que também envolvia desvio do crédito consignado. No leque de destinatários dos recursos operados pelo cunhado de Vorcaro se incluem até a campanha de 2022 de Jair Bolsonaro e Tarcísio de Freitas.

A escolha de Alfredo Gaspar, portanto, sugere que Flávio Bolsonaro se agarrará à mesma pauta que motivou a ascensão do seu pai à Presidência oito anos atrás. A diferença é que, de lá para cá, no poder e fora dele, o bolsonarismo acumulou muitas contas a pagar neste escaninho.

O bombardeio sobre Flávio está concentrado em Renan Santos (Missão). A campanha de Lula já estava decidida a partir pra cima do candidato do PL tão logo seu registro eleitoral fosse irremediável. O sinal enviado com a escolha do vice é declaração de guerra.

A chapa pura de Flávio o deixa em desvantagem em relação ao tempo de Lula no rádio e TV. De um lado estará um presidente cujo entorno parece acometido pela amnésia do que se viu em Curitiba. Do outro, um adversário cujo escritório de advocacia ainda nem entrou no jogo.

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EUA IGNORAM VIAS LEGAIS E ESCOLHEM O MÉTODO DO CAOS

Thiago Amparo, Folha de S. Paulo

Ao revogar visto de embaixadora brasileira, os EUA decidem reverter a ordem prevista na lei internacional

Governo Trump usa alavanca para que a direita ganhe as próximas eleições no Brasil

A única explicação plausível para que o governo Trump tenha decidido revogar o visto da embaixadora brasileira em Washington é a aposta no caos como alavanca para que a direita ganhe as próximas eleições no Brasil e, assim, a onda neotrumpista latina possa inundar o Planalto Central. Este, ao menos, é o sonho de Marco Rubio, secretário de Estado americano.

Não se trata de um segredo. Em junho, Rubio afirmou em audiência no Senado dos EUA que o Brasil "no meio de um ciclo eleitoral" não está entre as nações amigáveis aos EUA. Erra quem tenta ver nas ações da extrema-direita racionalidade maior que isso; o método é o caos.

Se o governo dos EUA quisesse mostrar desagravo com a condução da política externa brasileira, poderia ter escolhido a via da lei internacional, que existe e se chama declaração de persona non grata. Escolheu, no entanto, a via mais nuclear: revogar o visto da embaixadora e, portanto, virtualmente expulsá-la.

Pela Convenção de Viena sobre Relações Diplomáticas —tratado que rege o tema, em seu Artigo 9º, descreve o passo a passo—, os EUA poderiam declarar a embaixadora persona non grata, e o Brasil teria a opção civilizada de retirá-la. A cláusula preserva, de um lado, a soberania de não se ter quem não se quer em seu território e, de outro, o respeito aos ritos diplomáticos pacíficos que substituem medidas coercitivas.

Tampouco procede a razão dada pelos EUA para a revogação do visto da representante brasileira, qual seja a demora em conceder o aval (agrément) para o embaixador nomeado pelos EUA para o Brasil, Daniel Perez. A praxe é que o país que envia o diplomata certifique-se de que ele possui o aceite do país para onde irá, e caso o país de destino não aceite, sequer precisa justificar a negativa. É o que expressamente prevê o Artigo 4º do Tratado de Viena.

De novo, os EUA decidem reverter a ordem prevista na lei internacional e fazer com que o Brasil concorde calado. Incomoda-lhes que o Brasil se veja como igualmente soberano num mundo acostumado à subserviência.

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PARABÉNS, SOCORRO PRADO !

Hoje é dia de parabenizar nossa querida amiga, a guerreira dona Socorro Prado, ou para os íntimos, Tia Bô. Socorro Prado é exemplo de luta, força, coragem, amizade e fraternidade.

Ex-primeira-dama (duas vezes) de Sobral (CE), desenvolveu excelente trabalho como secretária de Ação Social. Socorro Prado, parabéns, saúde e felicidade! Abraço.

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FLÁVIO CONTA COM MÃOZINHA DO PT

Julia Duailibi, O Globo

Nesta semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao adversário

O PT prestou um serviço para Flávio Bolsonaro. O candidato do PL estava em baixa, sem conseguir nenhuma aliança e passando o chapéu pelo Centrão em busca de um vice. Até que o Q.G. de Lula colocou a bola no pé do adversário. À moda Vorcaro, uma lobista do INSS conseguiu chegar com seus tentáculos à antessala do gabinete presidencial — isso depois de já ter alcançado a família do presidente. Flávio, tóxico para os mais versados na arte da política depois do caso “Dark Horse”, viu que daquele limão dava para fazer uma limonada.

Ciente do estrago potencial que o discurso sobre Lulinha, INSS e afins pode trazer à campanha do PT, o candidato do PL fabricou um vice e tentará vendê-lo ao público como o xerife da investigação que tentou desvendar quem roubou o dinheiro dos aposentados. O deputado Alfredo Gaspar (PL-AL) foi o relator da CPMI do INSS e chegou a pedir o indiciamento do filho do presidente. Isso por si só já era uma peça de propaganda para quem pretende surfar no caso. Mas a abertura de três inquéritos no STF envolvendo Lulinha e o dinheiro que a lobista do INSS emprestou, em tese, a Marcola, ex-chefe de gabinete de Lula, deram musculatura ao personagem.

Há dúvidas sobre a qualidade do escolhido e sobre quanto ele pode agregar à campanha — ou, no limite, até desagregar. Fora que o INSS também é telhado de vidro para o governo Bolsonaro. Mas, num cenário de escassez de possibilidades, o candidato do PL inventou um vice que, por enquanto, ajuda no discurso contra Lula, principalmente entre os eleitores independentes, que definem a eleição. Segundo a Quaest divulgada ontem, Lula perdeu 7 pontos percentuais, entre julho e agosto, nesse eleitorado, enquanto Flávio avançou 3 — o presidente tem 33% das intenções de voto dos independentes no segundo turno, ante 30% de Flávio.

É fato que Flávio não tem a menor condição de se colocar como arauto dos bons costumes e da ortodoxia no manejo dos recursos públicos depois do escândalo da rachadinha, do emprego da parentada dos milicianos no gabinete e, mais recentemente, do flagra do pedido de dinheiro a Daniel Vorcaro — milhões que até hoje não se sabe ao certo onde foram parar. A questão aqui, porém, é o impacto que o discurso da corrupção tem entre os independentes que o PT precisa conquistar. E o caso INSS, a própria campanha admite, atrapalha essa conquista.

A indicação de Gaspar até ajuda num impasse que o PL tinha com aliados sobre uma das duas vagas para a disputa pelo Senado por Alagoas — o deputado queria concorrer como senador e dificultava a composição local com a chapa montada por Arthur Lira (PP-AL), que também concorrerá. Mas a ajuda que o PL dá a Lira em seu estado não se compara à ajuda, involuntária, que o PT deu à campanha de Flávio. Tanto que, nesta semana, os mais lúcidos aliados de Lula lamentavam a entrega de munição ao adversário. O assombro maior, no entanto, era perceber como os erros do passado não serviram de alerta para muita gente do entorno presidencial. Agora, o estrago político está feito.

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quarta-feira, 5 de agosto de 2026

O ISOLAMENTO DE FLÁVIO BOLSONARO NA NOVA PODRIDÃO DO SISTEMA POLÍTICO

Vinicius Torres Freire, Folha de S. Paulo

Novo poder do Congresso explica apenas em parte solidão partidária do candidato do PL

Parlamento-centrão começa a institucionalizar novo modo de saque extrativista do Estado

O isolamento partidário de Flávio Bolsonaro (PL) em parte confirma a impressão de que a perda de poder do governo federal para o Congresso diminui a relevância de alianças firmes com presidentes para o objetivo de dominar dinheiros do Estado. É isso, mas não só. Vai além da eleição, é outra história.

O Congresso-centrão institucionaliza um outro modo de extração de recursos estatais, em parte concatenada com crimes diversos, corrupção entre eles. Emendas são parte disso. De modo legal ou ilegal, servem para valorizar o capital político e o capital privado de políticos (e de associados).

Note-se também o caso Vorcaro, o mais explícito dos sintomas pornopolíticos do favorecimento empresarial extrativista no Parlamento e de associação da política com fundos da finança bandida. É ingenuidade chamar o aumento do poder do Congresso de "semiparlamentarismo", mesmo de modo provisório.

Quanto à eleição, o mais importante, se diz do centrão ao direitão, é fazer bancadas grandes de modo a ter mais controle sobre emendas, fundos partidários e eleitorais e sobre poucos cargos ainda rendosos (em termos de dinheiro e prestígio) ou que facilitam negócios com empresas e finança.

Quase tão óbvias são as explicações do motivo de o apoio a Flávio Bolsonaro ameaçar a eleição de bancadas grandes. Há, por exemplo, o risco de mais vexames eleitoralmente daninhos do candidato do PL. Não se sabe também como o eleitorado vai reagir a Bolsonaro filho, que não foi testado em eleição nacional.

De resto, não há indício seguro de que Flávio Bolsonaro vá ganhar, ainda mais com margem folgada —mais risco para o benefício ora mais limitado oferecido pelo Executivo. Em um segundo turno, quando candidatos parlamentares já tiverem resolvido a vida, Bolsonaro filho terá de pedinchar apoios, de qualquer modo.

O candidato do PL também ameaça acordos regionais (mais lulistas ao norte, mais bolsonaristas ao sul do país), embora o desalinhamento entre candidaturas a presidente e arranjos locais esteja longe de ser novidade. Além do mais, como dizem deputados do centrão ao direitão, Flávio não transfere votos como o fez Jair Bolsonaro nas eleições de 2016 a 2022. Bolsonaro filho também não serve para reforçar candidaturas porque não é governo, não tem recursos da máquina à mão, como o pai em 2022. De resto, não teria organização e habilidade para fazer acordos políticos.

O PL de Jair Bolsonaro se aliou oficialmente a PP e a Republicanos em 2022. No segundo turno, a direita quase inteira (centrão inclusive) o apoiou, embora a aliança do governo Bolsonaro com o centrão tivesse sido tumultuada e de má vontade (o objetivo mesmo era algum golpe).

Em vez do padrão vigente de 1994 a 2014, não houve vontade mesmo do centrão mais centrista de embarcar em Lula 3 (houve adesões pessoais). Um eleitorado mais dividido, quase metade antiesquerdista, antipetista ou antilulista, dificultou barganhas em um Congresso direitista. Os mesmos motivos do isolamento de Flávio Bolsonaro também pesaram, além do desprezo de Lula 3 pela "frente ampla".

O isolamento partidário de Flávio e de Lula tem um tanto de circunstancial, pois, inclusive o fato de Lula e Bolsonaros criarem "polarizações". Mas parece acontecer mudança na política institucional, um sistema em mutação que ainda não entendemos direito, um sistema que é também um empecilho para reformas profundas (de "esquerda" ou de "direita").

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ELEITORADO NESTE ANO VAI ÀS RUAS RESSENTIDO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Há menos uma guerra ideológica que um embate de sentimentos negativos mutuamente alimentados

Favoritos alimentam esse ambiente de mal-estar geral, na falta de terem algo melhor a dizer à população

Eleições são ganhas com apoio popular, respaldo político-partidário e expertise para se valer de erros do campo adversário. Foi assim que Tancredo Neves chegou vitorioso ao colégio eleitoral de 1985, marco fundador da transição democrática.

O mineiro administrou a frustração com a derrota da emenda Dante de Oliveira, atraiu o capital da movimentação nacional em prol das diretas-já, aproveitou-se da desorganizada divisão do governo em torno dos nomes de Paulo Maluf, Mário Andreazza, Aureliano Chaves e do desejo do que seria o último ditador em prorrogar o próprio mandato.

A história do Brasil nos fornece lições. Na campanha em curso, nenhum dos favoritos é detentor de apoio irrestrito. Ambos têm rejeições que os colocam num cenário de aceitação que decorre do repúdio ao oponente.

Não há a materialidade de um plano econômico, como o que fez o eleitorado aderir ao projeto de saída do inferno da inflação e levou Fernando Henrique Cardoso à Presidência numa aliança da centro-esquerda com a direita. Ali, o PT errou ao se opor ao Plano Real, contrapondo-se à preferência nacional.

Não há a mobilização da esperança por um país mais igual, socialmente inclusivo, que fez o eleitorado abrir à esquerda o espaço que três vezes negara a Luiz Inácio da Silva. Ali, os tucanos erraram ao não saber dar continuidade ao próprio legado.

Hoje, o que há? Um embate de ressentimentos que se convencionou qualificar como guerra ideológica, cujo caráter doutrinário não se sustenta à luz de pesquisas que mostram eleitores ditos de esquerda escolhendo Flávio Bolsonaro (PL) e declarados direitistas preferindo votar em Lula.

Ocupados com a repulsa que sentem uns pelos outros, os grupos que aparecem como retratos da maioria interditam o espaço para escuta dos demais candidatos ou até de gente que, estimulada, poderia vir a concorrer.

Os chefes dessas torcidas se alimentam do mal-estar na falta de algo melhor a dizer ao eleitor, que vê na urna um poço de mágoas.

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MILEI PODE TER SIDO UM ERRO NA LARGADA DE FLÁVIO BOLSONARO

Wilson Gomes, Folha de S. Paulo

Ao entregar palco ao argentino, candidato agradou aos convertidos e pode ter afastado eleitores de que precisa

Convidado do PL proclamou a liberdade no Brasil e voltou ao seu país para policiar mensagens de torcedores

Talvez Flávio Bolsonaro ainda não tenha calculado o tamanho do erro cometido na largada de sua campanha. Para devolver à base bolsonarista o prazer de ouvir Lula e Alexandre de Moraes sendo xingados, trouxe a São Paulo Javier Milei, entregou-lhe o palco da convenção do PL e deixou que o argentino fizesse o serviço.

Milei chamou o presidente da República de ladrão e presidiário e tratou um ministro do Supremo como "lixo careca". A plateia vibrou. Resta saber quem, além dela, foi conquistado.

A eleição presidencial tem tudo para ser um campeonato de rejeição, vencido não pelo candidato mais amado, mas por quem provocar menos aversão. Flávio e Lula lideram a lista daqueles em quem os eleitores afirmam que não votariam de jeito nenhum.

Numa disputa assim, a tarefa não é entusiasmar quem já lhe pertence, mas deixar de assustar quem ainda poderia aceitá-lo. Ou, dito de maneira mais crua, trata-se de diminuir o contingente dos que tapam o nariz para votar em alguém de que não gostam apenas porque têm verdadeiro horror ao seu concorrente.

Foi justamente nesse terreno que Flávio resolveu pisar com os dois pés. Para o núcleo duro do bolsonarismo, Milei ofereceu uma noite de catarse. Depois de anos de cautelas jurídicas e discursos defensivos, alguém voltou a um grande palco da direita para esculhambar Lula e Moraes com a desinibição dos velhos tempos.

O problema é que a base que se divertiu já estava com Flávio. Os votos de que ele precisa estão entre os que podem até não ter simpatia por Lula nem confiança no Supremo, mas consideram, no mínimo, de mau gosto que um presidente argentino venha ao país insultar autoridades brasileiras durante o lançamento de uma candidatura. Um patriota como Flávio devia entender mais de nacionalismo.

Parte desse eleitorado censura Lula, com razão, quando ele indica e apoia favoritos em eleições alheias. Não é fácil convencê-lo de que a intromissão deixa de ser imprópria quando o visitante é de direita, o candidato favorecido é Bolsonaro e os insultos agradam à plateia.

E, convenhamos, não é um bom momento para um candidato presidencial brasileiro ser visto de mãos dadas com Milei. Flávio não trouxe apenas o histrionismo do argentino, mas o personagem inteiro, com suas crises, sua rejeição e suas contradições.

Poucos dias depois de proclamar a liberdade em São Paulo, o líder que transformou em marca registrada e em assinatura institucional o grito de guerra "viva la libertad, carajo" assinou um decreto que autoriza o Estado argentino a impedir a entrada ou cancelar a residência de estrangeiros que dirijam "mensagens de ódio" contra argentinos por causa de sua nacionalidade, incitem violência ou ultrajem símbolos nacionais. Trata-se, claro, do velho "discurso de ódio" da esquerda, com outra roupa.

O contexto torna o destinatário político pouco misterioso: os brasileiros são um alvo. Depois da Copa, deu-se, de fato, o "cancelamento" internacional da Argentina nas redes sociais. Ele começou com a exibição do mau comportamento dos jogadores da seleção e do racismo da torcida, mas acabou contaminando a imagem do próprio país.

Nas cordas diante da opinião pública, Milei se aproveitou da ressaca nacional com a derrota da seleção para aderir à tese de uma conspiração geopolítica dirigida contra a Argentina, que teria os brasileiros como protagonistas.

Declarou que "o lugar de onde vieram mais ataques foi o Brasil" e acusou os governos do Brasil e do México e o Partido Democrata americano de financiarem uma campanha mundial contra seu país. Nada foi demonstrado, mas pouco importa.

Então veio o decreto —e vimos o mais libertário dos líderes mundiais da extrema direita contradizer o núcleo do que propagava. Num texto digno dos identitários progressistas, a identidade coletiva nacional é declarada vítima de mensagens de ódio e o braço forte do Estado é convocado a policiar posts.

O presidente que atravessa fronteiras para insultar chefes de Estado ergue uma fronteira contra estrangeiros que insultem seu país ou o acusem de racismo. ¿Y dónde quedó la libertad, carajo?

Flávio imaginou que Milei lhe emprestaria ousadia, projeção internacional e a energia transgressora de que o bolsonarismo tem saudade. Pode ter importado, junto com isso, a indisposição dos brasileiros com quem vem de fora insultar suas autoridades e a contradição de um libertário que, incapaz de suportar as gozações após a derrota no campo e nas redes, recorre ao braço forte do Estado para punir torcedores. Não parece uma largada muito auspiciosa.

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COMO A GRANDE MÍDIA TENTA RECONFIGURAR A DISPUTA DE 2026

Chico Cavalcante, Fórum

O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público.

A oitava rodada da pesquisa Nexus, contratada pelo BTG Pactual, divulgada nesta segunda-feira, traz números que merecem mais do que uma leitura superficial. O levantamento, realizado entre 31 de julho e 2 de agosto com 2.002 eleitores, aponta Lula com 41% das intenções de voto no primeiro turno contra 37% de Flávio Bolsonaro. No segundo turno, o empate técnico se confirma, 46% a 45%. Mas o dado mais relevante não está na margem de erro de dois pontos percentuais para mais ou para menos. Está na inflexão detectada pelo instituto e no que provocou tal inflexão.

O que se viu na semana que antecedeu a pesquisa foi uma operação clássica de Agenda Setting, orquestrada pela grande imprensa com a precisão de quem conhece o poder de pautar o debate público. Formulada por McCombs e Shaw, a teoria do agendamento, na qual baseio essa análise, sustenta que a imprensa não diz ao público o que pensar, mas sobre o que falar. E, nesta semana, a pauta foi propositalmente montada para desgastar um lado e blindar o outro.

A construção da narrativa

As manchetes, sincronizadas em todos os grandes jornais e telejornais, convergiram para um único tema: a autorização do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal, para a Polícia Federal investigar Lulinha, filho do presidente, por suposto tráfico de influência. A notícia, por si só, já teria impacto. Mas o tratamento editorial dado ao caso transformou uma investigação em curso — ainda sem acusação formal — em uma condenação a priori. A repetição incessante do fato, associada à grafia de palavras como “tráfico de influência” e à vinculação automática ao Planalto, criou no eleitor a percepção de que há fumaça e, portanto, fogo.

O efeito foi potencializado pelo contexto: enquanto o filho de Lula era exposto a uma cobertura implacável, o silêncio sobre a vasta trajetória de Flávio Bolsonaro era absoluto. As suspeitas que cercam o senador — desde as “rachadinhas” na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro até sua relação com o banqueiro Daniel Vorcaro, preso e em negociação de delação premiada — foram reduzidas a notas de rodapé ou esquecidas nas redações. A blindagem editorial não é fruto de conspiração, mas de escolhas. E escolhas têm consequências.

O silêncio como discurso

A ausência de escrutínio sobre Flávio Bolsonaro não é um acaso. A grande imprensa, ao tratar a investigação do filho de Lula como manchete principal e relegar os episódios do senador a segundo plano, opera um duplo movimento. Primeiro, fixa na mente do eleitor a associação entre o governo atual e corrupção; segundo, impede que o eleitor da oposição seja confrontado com as contradições de seu candidato.

Os números da Nexus refletem esse esforço. A pesquisa mostra que a rejeição a Lula permanece elevada entre os eleitores com maior escolaridade e nas regiões Sul e Sudeste, exatamente onde o agendamento da grande imprensa tem maior penetração. Flávio Bolsonaro, por sua vez, mantém seu patamar sem sofrer erosão, beneficiado pelo silêncio que o cerca.

O papel da imprensa no jogo eleitoral

É um erro comum atribuir a formação da opinião pública às redes sociais. O WhatsApp e os blogs são canais de reverberação, não fontes primárias. A matéria-prima que alimenta os comentários, os recortes e os disparos em grupos de família tem origem na grande imprensa. É ela que define os temas, os enquadramentos e a intensidade com que cada assunto será tratado inclusive nos blogs, nos podcasts, nos grupos de tele-mensagem.

A semana que antecedeu a pesquisa Nexus é um exemplo didático desse mecanismo. A cobertura concentrada em Lulinha, a transformação de uma investigação em condenação prévia e o silêncio sobre Flávio Bolsonaro, que funciona como presunção de inocência, produziram o efeito esperado. Deslocaram o centro do debate para o terreno mais desfavorável ao governo e ao presidente Lula, enquanto preservavam a imagem do principal adversário.

O que os números escondem

A pesquisa, registrada no TSE sob o número BR-02874/2026, traz outros dados que corroboram essa leitura. A avaliação do governo Lula, por exemplo, mostra que 35% dos entrevistados o consideram péssimo, contra apenas 16% que o avaliam como ótimo. A aprovação do presidente empata com a desaprovação: 47% a 48%. Esses números, no entanto, não flutuam por acaso. Eles são o resultado de uma construção diária, alimentada por escolhas editoriais que, nesta semana, favoreceram claramente a oposição.

A decisão longe das urnas

A disputa de 2026 não se decide apenas nas urnas, mas nas redações. A pesquisa Nexus captura um momento, mas o que realmente importa é o processo que o produziu.

A semana que antecedeu a divulgação da oitava rodada não foi um acaso estatístico. Foi o resultado de uma operação coordenada de pauta. A investigação sobre Lulinha foi alçada à condição de escândalo consumado, enquanto a trajetória de Flávio Bolsonaro, marcada por “rachadinhas”, milícias, relações com a criminalidade carioca e intimidade com o banqueiro Daniel Vorcaro, foi varrida para debaixo do tapete das redações.

A imprensa, ao definir o que é notícia e o que é silêncio, exerce seu papel mais poderoso, que é o de arbitrar o que merece a atenção do país. O eleitor, cercado por esse ecossistema de manchetes e omissões, não escolhe entre narrativas. Ele herda um direcionamento, um ponto de vista, um viés. E é essa herança, construída dia após dia nos porões da grande imprensa, que a pesquisa Nexus, no fim das contas, apenas contabiliza.

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LULINHA É PROBLEMA PARA LULA ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Investigações sobre filho do presidente, mesmo que avancem, não devem mudar muito panorama das pesquisas eleitorais

Revelação de conexão entre Flávio Bolsonaro e Vorcaro não fez candidatura murchar, como deveria ocorrer em mundo racional

As investigações da PF contra Lulinha estão avançando. O Lulão deve se preocupar com isso? Um pouco. Seria obviamente preferível iniciar o período oficial de campanha sem carregar um filho contra o qual pesam suspeitas, mas é improvável que o cerco policial, mesmo que revele coisas mais concretas do que o que apareceu até aqui, mude muito o panorama eleitoral.

A melhor prova disso é Flávio Bolsonaro. O bolsonarismo saltou da insignificância para o Palácio do Planalto em 2018 como um movimento de reação à corrupção envolvendo o PT e outros partidos. Num mundo minimamente racional, a revelação de que o sucessor do capitão reformado e postulante à Presidência pediu e recebeu dezenas de milhões de reais de Daniel Vorcaro, a figura que hoje representa a quintessência da corrupção, faria sua candidatura murchar como um suflê fracassado. O que vimos, porém, é que o escândalo Dark Horse lhe custou num primeiro momento só quatro pontos percentuais no Datafolha.

E isso nos leva à polarização afetiva. Um dos vieses cognitivos responsáveis por esse fenômeno é a aversão a perdas. O eleitor tem tamanho pavor de ver o candidato que mais rejeita triunfar que aceita qualquer coisa daquele que identifica como alternativa com maior chance de derrotar o desafeto. Acaba funcionando como um amplo habeas corpus preventivo, que opera no sentido inverso ao da responsabilização política, um elemento valioso para a democracia.

E a responsabilização política não é a única vítima. Outro efeito daninho a que estamos assistindo é que os postulantes principais, acomodando-se ao papel de "eu sou aquele que vai evitar o mal maior", se sentem desobrigados de apresentar planos de governo. Nem Lula nem Flávio dirão claramente como pretendem enfrentar a encrenca fiscal em que o país se enredou.

O próprio sistema eleitoral sai chamuscado. Adotamos os dois turnos justamente para dar ao eleitor a oportunidade de votar "a favor" de alguém no primeiro escrutínio e guardar a rejeição para o segundo.

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terça-feira, 4 de agosto de 2026

BAIXARIAS NA CASA BRANCA

Artigo de Fernando Gabeira

A gente vive dizendo que o mundo anda estranho. Não pretendo dissecar toda a estranheza do mundo, apenas afirmar que parte dela vem do norte, onde vive o homem mais poderoso do mundo, Donald Trump. Quando não está bombardeando o distante Irã, está insultando os repórteres que cobrem a Casa Branca. É nossa ração quase diária de amargor.

Trump tem problemas cognitivos. Mas talvez essa seja a parte mais amena de seu embate com a imprensa. Está ficando gagá, e sua sobrinha, Mary Trump, psicóloga, acha que é Alzheimer, escorando-se no histórico familiar, com base na doença do avô. É impossível diagnosticar dessa forma, mesmo porque os escorregões de Trump não têm um padrão. Podem ser influenciados pela agenda intensa.

Em maio deste ano, em discurso na Academia da Guarda Costeira, ele tropeçou na palavra strength (força) e teve dificuldades em pronunciar outras palavras. Em julho, durante a Cúpula da Otan, cometeu três erros em dez minutos. O último deles é inesquecível. Referindo-se ao Irã, chamou o país de República Islâmica do Japão. O inventário é longo. Tropeçou nas palavras stock market (mercado de ações), anonymous (anônimo), confundiu nomes de líderes estrangeiros e chamou o TikTok de TicTac.

Claro que isso traz uma discussão permanente sobre seu poder cognitivo. Mas as coisas ficam pesadas mesmo quando os repórteres na Casa Branca fazem perguntas diretas sobre suas incongruências, sobre o caso Epstein, sobre o perdão a criminosos próximos à família. Quase diariamente, Trump chama um repórter de estúpido, de pessoa horrível. Não contente em processar empresas e ameaçar cancelar licenças de emissoras de TV, se esforça por humilhar os outros.

Recentemente, em discurso no jantar dos correspondentes, resolveu virar sua metralhadora verbal contra a repórter Kaitlan Collins, da CNN. Ela seria premiada, e Trump a associou a fake news, dizendo que era uma pessoa que nunca sorria. O que Collins faz com Trump para ele odiá-la? Apenas faz perguntas diretas, ouve todos os insultos e registra tudo com acuidade:

Ao mesmo tempo que Trump se vangloria da grandeza da América, diz que um país civilizado não pode ter a imprensa que os Estados Unidos têm. Fica furioso com perguntas elementares. Um dia diz que os dirigentes iranianos são racionais; no outro diz o contrário e os animaliza. No meio dessas contradições, distribui insultos aos jornalistas que as apontam.

É desolador ver e ouvir tudo isso. Lembra-me um filme de Ingmar Bergman, “Morangos silvestres”, em que um casal pede carona de carro e passa um trecho da estrada brigando. Quando sai do carro, leva consigo todo o astral pesado.

O problema é que a Casa Branca não pode sair do carro. Nem os repórteres, presos a seu dever profissional, podem deixar Trump falando sozinho. Estamos condenados às baixarias, e elas contribuem para a sensação de estranheza do mundo. Sem falar na produção nacional ou mesmo nos algoritmos que adoram uma baixaria.

Artigo publicado no jornal O Globo em 04 / 08 / 2026

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GENTE OU PASSARINHO ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Banco Central Europeu lança consulta pública para ajudar a definir desenho de cédulas de euro

É preciso escolher entre personagens históricos ou figuras de aves para estampar a frente das notas

O Banco Central Europeu (BCE) lançou consulta pública para ajudar a definir o desenho das futuras cédulas de euro. A questão mais premente é determinar se o anverso (frente) das notas será ilustrado por personalidades históricas ou por figuras de aves. O convite para votar foi feito a cidadãos europeus, mas qualquer um pode opinar. A consulta não tem efeito vinculante. A decisão final caberá ao BCE.

George Steiner, em "Uma Ideia de Europa", tenta traçar uma distinção entre o velho continente e os EUA a partir dos nomes de ruas. As vias europeias tendem a homenagear políticos, artistas e cientistas do passado, enquanto as americanas, quando não se limitam a desfilar números ordinais, costumam aludir a nomes de árvores (pine, maple, oak). Para Steiner, essa diferença na toponímia, amplificada pelo próprio traçado das vias, produz experiências existenciais muito diversas.

Caminhar por ruas europeias é mergulhar na história e ser constantemente assombrado por uma rede de fantasmas que evocam memórias do passado, tanto as luminosas como as sufocantes. Nos EUA, a mesma experiência se torna inarredavelmente pragmática, muito mais impessoal e nominalmente desumanizada.

Minha intuição para o problema das notas acompanha Steiner. Usar dinheiro é uma atividade peculiarmente humana e irredutivelmente social. Faria muito mais sentido, assim, ilustrar as cédulas com personagens do passado. Elas ganhariam densidade histórica e reforçariam os vínculos comunitários.

Hesito um pouco antes de abraçar completamente essa tese por uma razão conjuntural. Passamos a viver numa época, ainda não a-histórica, mas dada a anacronismos e ávida por cancelamentos. Não é difícil imaginar um cenário em que se descubra algo controverso acerca de uma das figuras escolhidas para as notas que leve a uma reavaliação de seu papel histórico. Aí, uma decisão tomada para unir os europeus se tornaria motivo de cizânia.

Prefiro gente, mas reconheço que passarinhos têm menor vulnerabilidade a cancelamentos.

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NA ERA DA IA, MG OPTA PELA DEGRADAÇÃO NATURAL

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Nem a inteligência artificial seria capaz de reproduzir o capítulo final da novela da candidatura Cleitinho

A inteligência artificial tem sido a geni desta reta final de campanha, com peças como o avatar do ex-presidente Jair Bolsonaro na convenção do PL, mas não se pode atribuir aos seus predicados o capítulo final da novela da candidatura ao governo de Minas do senador Cleitinho Azevedo (Republicanos). O vídeo divulgado na tarde desta segunda-feira pelo presidente do Republicanos e deputado federal Marcos Pereira (SP), ao lado do senador e do presidente estadual do partido, Euclydes Pettersen, é fruto da degeneração natural da política brasileira.

Favorito à disputa estadual, o senador, que foi eleito em 2022 nas asas do bolsonarismo, manteve suspense até a semana passada. Faltou à convenção de 25 de julho, mas publicou um vídeo de inteligência artificial em que aparecia com dois parentes já falecidos, o pai e o irmão. Recebia, do primeiro, um incentivo e, do outro, a bandeira de Minas.

Na cronologia dos fatos exposta por Marcos Pereira, o partido esperou uma decisão de Cleitinho até a noite de terça-feira. Como esta decisão não aconteceu, o Republicanos divulgou, em nota, que ele não seria candidato. Na quarta-feira, Cleitinho deu uma entrevista em que, exaltado, diz ter 40% nas pesquisas e reitera a candidatura: “a voz do povo é a voz de Deus”.

O picadeiro ficou armado até o fim de semana quando Marcos Pereira disse que, por pressão da chapa de deputados estaduais e federais, reabriria a discussão com Cleitinho. Desta reunião, realizada em Brasilia nesta segunda, resultou o vídeo imune a imitações. Nele, o presidente do Republicanos, um ex-pastor da Igreja Universal em quem Cleitinho, numa entrevista a O Globo no início de junho, professou sua desconfiança, relatou, ao seu lado, suas idas e vindas na disputa e pediu que o senador, um “homem sentimental”, confirmasse sua desistência.

Cleitinho desatou a chorar, pediu perdão, mas disse que não conseguia cuidar nem de si mesmo, dirá do povo mineiro. Em seguida, Pereira se dirigiu a Pettersen, ex-deputado federal indiciado em inquérito da Polícia Federal por suspeita de ser o “agente mais bem remunerado” do esquema de fraudes em descontos associativos do INSS, disse que era preciso acatar a “vontade de Deus”.

Ao embargar a voz para falar do próprio pai falecido, o dirigente estadual do Republicanos passou o microfone para Pereira que relatou sua origem de filho adotado e, em novo dueto com Cleitinho, concluiu que o senador não estava bem mas contava com suas orações. A pressão da bancada de deputados estaduais e federais desapareceu tão rapidamente quanto surgiu e o líder das pesquisas ficou de fora da disputa.

No meio desse puxa-encolhe, Marcelo Aro (PP), ex-Casa Civil de Romeu Zema, integrante do núcleo mais próximo do ex-presidente da Câmara, Eduardo Cunha, e ex-diretor de ética e transparência da CBF na gestão Marco Polo Del Nero, banido do futebol pela Fifa por corrupção, suborno e propina, entrou em negociação com Republicanos, União e PP para disputar o governo.

O governador Mateus Simões (PSD), candidato à reeleição com apoio de Zema e Gilberto Kassab, definiu Aro, com quem vivia às turras no governo, como “oportunista de plantão” apoiado pelo “presidiário cassado” Eduardo Cunha. Zema completou: “É ave de rapina”. Aro avisou que, oportunamente, se pronunciará e nesta segunda, foi confirmado candidato.

Em convenção fechada nesta terça, o Republicanos deve firmar neutralidade na disputa nacional, negando a legenda para a ex-presidente da Caixa, Daniela Marques, ser a vice de Flávio Bolsonaro. O PL acende duas velas. Uma vai para o Centrão, que pode colocar em pé a candidatura da tríplice aliança Ciro Nogueira, Antonio Rueda e Eduardo Cunha no Estado cujas licenças ambientais, alvo de operações da PF, serão alvo de cobiça a partir da aprovação do marco regulatório de exploração dos minerais de terras raras.

A outra vai para Lula, por levar a disputa ao 2º com um provável palanque reunindo dois ex-prefeitos de BH, Alexandre Kalil (PDT), cuja iconoclastia pode lhe levar a herdar o voto antissistema de Cleitinho, e Patrus Ananias (PT), contra Simões ou Aro, provável palanque de Flávio Bolsonaro.

Um 2º turno, porém, como deixou claro na convenção, é tudo que o presidente não quer, mas a fatura de 1º turno também tem na disputa nacional por Minas, segundo maior colégio do país, com mais de 10% do eleitorado, um de seus principais obstáculos. Primeiro candidato mineiro à Presidência desde que Aécio Neves chegou, competitivo, contra Dilma Rousseff, ao 2º turno de 2014, Zema não repetirá o feito, mas atravanca a vida de Lula.

Na Genial/Quaest da semana passada, enquanto, nacionalmente, Lula aparecia com 13 pontos percentuais acima de Flávio entre as mulheres, registrava, em Minas, empate técnico (26% x 24%) nesta fatia do eleitorado. Quem lhe tira o voto das mineiras é Zema que, segundo Felipe Nunes, diretor da Quaest, é popular entre as eleitoras (14%), principalmente do Norte de Minas, onde fica o Vale do Jequitinhonha, outrora reduto petista.

Se o Estado não falhar no papel de espelho do país, o que se vê são disputas dramáticas em que o Centrão deixou de apostar no histriônico e se vale de um profissional de suas hostes para o Palácio da Liberdade, mas joga para se manter como fiel da balança para quem quer que esteja no Palácio do Planalto.

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DISPUTA PELA PRESIDÊNCIA ESTÁ ABERTA E POLARIZADA NA LARGADA ELEITORAL

Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

O horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, embora já não tenham o mesmo peso de outras eleições, será um instrumento de projeção nacional de candidaturas regionais

A realização das convenções eleitorais foi marcada pela polarização nas eleições à Presidência de República, que está aberta, com pequena vantagem para o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que pleiteia a reeleição, em relação a Flávio Bolsonaro (PL). Esse cenário provavelmente se manterá até o início da campanha eleitoral no horário gratuito de rádio e televisão, em 28 de agosto. Essa data é importante para os demais candidatos que aspiram um lugar no segundo turno e estão embolados em torno de 3% ou 4% dos votos.

Acontece que os ex-governadores de Goiás Ronaldo Caiado (União) e de Minas Romeu Zema (Novo), por serem menos conhecidos fora de seus estados, até agora não conseguiram nacionalizar suas candidaturas. O horário eleitoral gratuito de rádio e televisão, embora já não tenham o mesmo peso de antes nas eleições, será um instrumento de projeção de suas candidaturas para fora dos dois estados. O raciocínio vale também para o candidato do Missão, Renan Santos, mais conhecido em São Paulo.

Domingo, na convenção do PT, Lula apresentou sua candidatura como continuidade de seu governo, mas procurou afastar a ideia de simples repetição. “A minha quarta presidência é para mudar muita coisa nesse país”, afirmou. Ao tratar das prioridades programáticas, colocou a educação no centro de um eventual novo mandato: “Sem educação, a gente não chegará aonde nós temos o direito de chegar.” Também convocou o partido a preparar uma campanha apoiada nas realizações do governo: “Nós temos time, nós temos futebol, nós temos o que entregar, nós temos argumento.”

Lula tenta ancorar sua campanha na experiência, nas políticas sociais e na promessa de renovação. O presidente sabe que precisa defender os resultados do governo, mas isso não é suficiente. Ao dizer que não quer ser lembrado apenas pelo Bolsa Família e pelo Brasil Sorridente, Lula reconhece que sua candidatura necessita apresentar um horizonte de mudanças. A defesa do legado mobiliza sua base, porém não elimina as resistências que enfrenta entre eleitores de centro e independentes.

Flávio e Caiado

Flávio Bolsonaro conseguiu absorver os desgastes da crise interna de sua campanha, com a reaproximação de Michele Bolsonaro e a equalização dos danos de imagem com o caso Vorcaro. “Está na hora de virar essa página triste da história do nosso Brasil”, afirmou Flávio na convenção de seu partido, referindo-se ao governo. Procura capitalizar o prestígio de Jair Bolsonaro, seu pai: “Sei exatamente o tamanho da responsabilidade que meu nome carrega.”

A anistia dos condenados e investigados pelos atos de 8 de janeiro, entre os quais o ex-presidente Jair Bolsonaro, continua no centro de sua agenda. Seu discurso reúne três elementos: continuidade do bolsonarismo, crítica ao Judiciário e promessa de mudança econômica e política. Essa estratégia fortalece sua posição no primeiro turno, mas pode dificultar a conquista dos moderados.

Ronaldo Caiado procura se diferenciar dos dois líderes por meio da experiência administrativa e de uma imagem de autoridade. “Eu sou galo de terreiro, sou acostumado na briga, mas brigo pelo que interessa ao Brasil”, declarou. Defende o agronegócio como instrumento de inserção internacional: “É o único país continental que tem a maior área produtiva do mundo”. Ao afirmar que “quem resolve o problema do Brasil somos nós”, Caiado rejeita tanto a interferência externa quanto a submissão política aos dois polos da disputa. A apresentação de Gilberto Kassab como vice garante estrutura partidária, mas não elimina o risco de cristianização.

Zema e Renan

Romeu Zema adotou um discurso mais ideológico e diretamente antipetista: “A minha bandeira é estar contra o PT, eu vi o PT destruir o Brasil”, afirmou. Na área fiscal, resumiu sua mensagem numa frase de efeito: “Não falta recurso no Brasil, sobra ladrão.” O candidato também colocou o Supremo Tribunal Federal (STF) no centro de sua campanha, ao dizer que “alguns ministros do STF são uma vergonha não só para o STF como para o Brasil”.

O problema de Zema é que a radicalização do discurso não resultou, até agora, em crescimento eleitoral. Sua experiência em Minas Gerais continua sendo um ativo, mas não se transformou numa narrativa nacional que empolgue o eleitor de capaz de direita.

Quem mais se encaixa no figurino de candidato antissistema é Renan Santos, que centraliza sua campanha na radicalização do discurso da segurança pública, ao lado da defesa do ajuste fiscal e das críticas simultânea a Lula e Flávio. Ao apresentar as prioridades iniciais de seu governo, afirmou: “Os brasileiros precisam sentir nos seis primeiros meses uma queda nos juros, um aumento no poder de compra e a redução do medo de sair na rua.”

Apesar disso, reconhece que, em regiões sem atividade econômica, “o Bolsa Família se torna uma necessidade”. As duas frases mostram uma candidatura que tenta reunir liberalismo econômico, endurecimento na segurança e manutenção temporária da proteção social. Entretanto, o tom agressivo empregado contra Lula, Flávio e o crime organizado pode não sair da sua bolha, em vez de ampliar sua aceitação junto ao eleitorado moderado.

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OS SEM-SEM

Merval Pereira, O Globo

A eleição presidencial dentro de dois meses parece mais uma etapa da travessia política para 2030 do que a possibilidade de renovação

A eleição presidencial dentro de dois meses parece mais uma etapa da travessia política para 2030 do que a possibilidade de renovação que dê ao brasileiro esperança de quatro anos iniciais de uma retomada do crescimento econômico e melhoria social. Nada de “50 anos em 5”, como o slogan de JK em 1955. Nada parecido com o Plano Real de 1994. Nada comparável à vitória de Lula em 2002, depois de três derrotas seguidas. Nessas e noutras ocasiões, a maioria votou com o olho no futuro imediato, com a sensação de que as coisas melhorariam. Agora, vota-se para impedir a continuação de Lula ou Bolsonaro.

O futuro está distante. Será preciso atravessar um próximo governo que não empolga ninguém para chegar a 2030, quando realmente as coisas poderão mudar pelo esgotamento dos modelos anteriores. Quando acabou o prazo do governo tucano de Fernando Henrique Cardoso, havia à espreita o ciclo de Lula. O próprio FH estava orgulhoso de passar a faixa presidencial a um líder operário que pela primeira vez subiria a rampa do Planalto. Não foi exatamente a reeleição que estragou a sucessão presidencial, mas a ambição de permanecer no poder. A Presidência de Dilma nasceu desse equívoco de Lula — ele achava que poderia manipulá-la à vontade. Foi surpreendido pela recusa dela de dar lugar a ele na própria sucessão, como estava tacitamente combinado.

Seguidos governos de vices que ascenderam ao estrelato — “Vice é um nada às vésperas de tudo”, já dizia Golbery — deram conta do recado. Sarney garantindo a democracia, Itamar abrindo caminho para o Plano Real, Temer elaborando a reforma previdenciária aprovada no governo Bolsonaro — todos acabaram transformando o cargo em jogo decisivo para a chapa presidencial. FH contou com a sorte para escolher Marco Maciel, que passou a ser modelo de vice. O país contou com a sorte de Collor ter escolhido Itamar, seu oposto. Temer mostrou-se mais capaz de governar que Dilma. Lula adotou, entre outras coisas, o modelo de FH com a escolha de José Alencar e Geraldo Alckmin, ambas com finalidade: Alencar representando o capital unido ao trabalho; Alckmin juntando a social-democracia à gestão de um ministério fundamental, da Indústria e Comércio, especialmente durante a crise que vivemos com o governo Trump.

Pois hoje temos vários candidatos sem vice, denotando não apenas a falta de acordo partidário, como o esvaziamento político do cargo. Vice não dá voto, mas dá prestígio, dá credibilidade, dá margem a acordos eleitorais. Entre os da direita, Flávio ampliou seu próprio prazo até 15 de agosto para tentar tirar uma coelha da cartola (quer uma vice mulher). Caiado teve de se contentar com o presidente de seu partido, Gilberto Kassab, chapa pura que denota fragilidade da candidatura. Zema ainda procura um sentido para sua candidatura. Renan Santos escolheu um militar para seu vice, ele que se define como uma mistura de Bukele, o ditador de El Salvador, com o argentino Milei, que não sabe se comportar em público.

Temos candidatos na maioria sem programa, outros sem vice. Temos partidos que na maioria ficarão neutros, esperando para ver o lado para onde o vento sopra no segundo turno. São os sem-sem. A neutralidade, nesse caso, não é escolha política, uma decisão que desabona os candidatos rejeitados, mas esperteza, pois não necessitam do presidente para nada. Não se comprometem com apoios desnecessários ou fazem favor a um dos candidatos mantendo-se neutros. Política deveria ser outra coisa, defesa de conceitos, de modelos de gestão, de valores cívicos.

Seria necessário que os partidos se posicionassem, para que as negociações para um segundo turno fossem feitas de maneira a revelar um norte do futuro governo. Exemplo: nenhum dos candidatos principais se atreve a tratar do problema econômico que encontrará ao assumir, embora ambos saibam que terão de fazer reformas radicais em vários setores para poder governar. Ninguém fala em restrições orçamentárias nem em equilíbrio fiscal. Ninguém fala em reforma administrativa ou previdenciária. O mundo real está fora da campanha.

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