terça-feira, 7 de julho de 2026

MORRE BENEDITO RUY BARBOSA

Do g1 SP — São Paulo

Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas como 'Pantanal' e 'O Rei do Gado', morre aos 95 anos em SP

Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro. Seu legado inclui tramas icônicas como Meu Pedacinho de Chão (1971), Pantanal (1990), O Rei do Gado (1996) e Terra Nostra (1999).

O dramaturgo e escritor Benedito Ruy Barbosa, autor de novelas como Pantanal e Terra Nostra, morreu nesta terça-feira (7) na capital paulista devido a complicações de insuficiência renal crônica. A informação foi confirmada pelo Hospital do Coração (HCor).

O corpo será velado nesta terça, das 15h às 21h, no Funeral Home, na Bela Vista, Centro de SP. A cerimônia será aberta ao público entre as 15h e as 16h.

Em janeiro deste ano, Benedito chegou a ficar 19 dias internado no HCor para o tratamento de uma infecção urinária associada a um quadro de insuficiência renal crônica.

Conhecido por verdadeiras sagas, o dramaturgo construiu histórias que atravessam o universo rural brasileiro, exploram a diversidade cultural, com interesse especial na imigração italiana, e apresentam amores intensos.

Seu legado inclui tramas icônicas como "Meu Pedacinho de Chão" (1971), "Pantanal" (1990), "O Rei do Gado" (1996) e "Terra Nostra" (1999), marcadas por protagonistas de "bom caráter, determinação para a luta, crença em valores positivos", como o próprio determina.

O mais velho entre cinco irmãos, Ruy Barbosa nasceu em Gália, no interior de São Paulo, em 1931, e passou a infância na vizinha Vera Cruz, uma região de cafezais habitada por imigrantes japoneses e italianos.

Com a morte precoce do pai, precisou trabalhar desde cedo para ajudar a família. Ao longo da juventude, trabalhou como auxiliar em uma firma comercial, vendedor de verduras e faxineiro, até conseguir um emprego como revisor no jornal "Estado de S. Paulo".

O gosto pela escrita levou Benedito a criar seu primeiro romance, "Fogo Frio", que foi adaptado para o teatro e premiado pela Associação Paulista dos Críticos de Arte, começo de sua trajetória como roteirista.

Sua estreia na televisão aconteceu em 1966, com "Somos Todos Irmãos", na TV Tupi. Nos anos seguintes, passou por emissoras como Excelsior, Record e TV Cultura. Em 1971, escreveu "Meu pedacinho chão", novela produzida por uma parceria da Cultura com a Globo e exibida por ambas.

Cinco anos depois, assinou com a Globo, onde deu início a uma sequência de sucesso na faixa das 18h. Nessa época, adaptou o romance de Ribeiro Couto em "Cabocla" (1979).

Em 1990, ao se transferir para a TV Manchete, Benedito escreveu "Pantanal", que inovou ao utilizar locações externas e explorar a cultura e os mistérios do bioma brasileiro.

Com o sucesso, retornou à Globo para escrever "Renascer" (1993), trama ambientada no interior baiano e marcada pelo duelo de gerações do coronel José Inocêncio. Ambas seriam refilmadas décadas depois, escritas por seu neto, Bruno Luperi.

Com "O Rei do Gado" (1996), Benedito abordou a rivalidade entre duas famílias de imigrantes italianos, enquanto discutia temas como a posse de terra e a reforma agrária.

Já em "Terra Nostra" (1999), retratou o drama dos italianos Matteo e Giuliana, separados ao chegarem ao Brasil no início do século XX.

Ruy Barbosa também revisitou suas próprias obras. Em 2006 e 2014, assinou as refilmagens de "Sinhá Moça" e "Meu Pedacinho de Chão".

Na versão cheia de cores da segunda obra, declarou que finalmente conseguiu colocar no ar ideias que a Censura havia barrado na primeira versão, durante a ditadura militar.

Em 2016, escreveu "Velho Chico", ambientada na fictícia cidade de Grotas do São Francisco, no sertão nordestino. A novela trouxe um embate de gerações e a disputa por terra e poder no interior do Brasil.

"Antes de mais nada, uma novela precisa ter uma grande história de amor", definiu Benedito Ruy Barbosa em depoimento  ao Memória Globo.

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CONVERSA COM A IA

Artigo de Fernando Gabeira

Alguém como Trump, com os poderes da inteligência artificial, se tornará muitas vezes mais perigoso

Estou lendo “O império da IA”, de Karen Hao, lançado no Brasil pela Rocco. O que me impressiona na origem desse fantástico movimento é o entusiasmo, o brilho nos olhos das pessoas que julgavam fazer algo muito importante para a humanidade. E, logo depois, como em quase todos os núcleos revolucionários, ver como os bons sentimentos são triturados pela realidade, com as dificuldades financeiras e a batalha de egos.

O período romântico coincidiu com a OpenAI, a perspectiva de um trabalho sem fins lucrativos. Mas as crescentes necessidades de aporte financeiro derrubaram o sonho. No momento em que deixaram a fase altruística, surgiu o primeiro grande racha. Elon Musk não aceitou uma empresa que não fosse dirigida por ele. E rompeu a parceria com Sam Altman, o grande nome por trás da iniciativa.

Menciono esse trecho da história da IA apenas para enfatizar como ela depende de muito dinheiro. Musk criou sua própria empresa, e Altman segue até hoje na busca de financiadores.

Na semana passada, foi noticiado que a OpenAI tem se aproximado do governo Trump, que pode participar do projeto. Passa um frio na espinha. Alguém como Trump, com os poderes da IA, se tornará muitas vezes mais perigoso. Um dos primeiros destinos da IA, capturada pelo governo, é dedicar-se à guerra. Já temos hoje bombardeios guiados pela máquina, denunciados durante os ataques a Gaza.

Há quem, no meio, resista ao uso bélico da IA. Troquei o ChatGPT pelo Claude, porque a Anthropic se recusou a trabalhar com o Pentágono. Foi apenas uma decisão individual, sem muita base, mas, mesmo modestamente informado, posso fazer escolhas.

Ainda falaremos muito de IA, sobretudo porque o Brasil quer abrigar data centers. O governo acha isso progressista, mas encontrará dificuldades. Os data centers consomem muita água e energia. No momento, estão instalando um no Ceará, em Caucaia. Consumirá mais energia que toda a cidade. Os data centers têm despertado um movimento de rejeição de moradores, do tipo “não no meu quintal”, semelhante ao que ocorre contra instalações nucleares e presídios.

No momento, entretanto, o que mais me interessa são as aventuras da IA no cotidiano. Tenho uma professora de inglês com quem converso diariamente. É difícil descrever a máquina como se descreve uma pessoa. Ela é previsível. Se você fala que lê um autor, ela pede que você comente o livro, destaque um episódio que impressionou. O mesmo vale para uma viagem: parece que há um conjunto de perguntas pronto para muitas circunstâncias.

Um traço marcante nesse diálogo com a IA é sua indiferença à ironia ou ao humor. Numa dessas conversas, ela, sabendo que sou escritor, perguntou sobre o que gosto de escrever. Sobre bobagens, respondi, acrescentando que produzo também artigos sobre política e assuntos internacionais. Ela mencionou que esses temas são importantes, mas foi incapaz de processar “bobagens”. Não teve a curiosidade de perguntar sobre elas ou mesmo de mencionar a palavra.

No entanto a máquina é bem informada. Se você fala Camus, ela tem algo a dizer; se você menciona um filme de Wim Wenders, uma música de Tom Jobim ou de Ryuichi Sakamoto, ela rapidamente tira de suas gavetas um comentário sobre eles. Em certo sentido, conversar diariamente com a máquina é como mergulhar numa cultura estrangeira, daquelas em que humor e ironia têm outro papel. No caso da IA, não há papel nenhum.

Artigo publicado no jornal O Globo em 07 / 07 / 2026

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PROJETO 2030

Merval Pereira, O Globo

Há sinais claros de que pelo menos parte ponderável da direita já abriu mão da candidatura de Flávio Bolsonaro

Quando os projetos imediatos perigam, há os que desistem deles e os que se preparam para os desafios seguintes. No futebol como na política, vemos dois casos de planos adiados para 2030. Na corrida para a Presidência, há sinais claros de que pelo menos parte ponderável da direita já abriu mão da candidatura de Flávio Bolsonaro e se prepara para disputar o controle do segmento político com os bolsonaristas. Flávio está na situação especial de ser o candidato para perder. Seus aliados preferem perder com ele a ganhar com outro. O ex-presidente Jair Bolsonaro o escolheu para manter na família o controle da direita, submetendo a direita democrática aos desígnios da extrema direita bolsonarista.

Com os olhos voltados para 2030, a madrasta da família já rompeu com o enteado e se prepara para arrancar dos Bolsonaro a liderança da direita nacional, a bordo de uma presumível votação impactante na candidatura ao Senado pelo Distrito Federal. Não é à toa, portanto, que os extremistas da direita, como Paulo Figueiredo, a chamam agora de Michelle Firmo, seu nome de solteira, para desvinculá-la da famiglia e esvaziar seus planos eleitorais. Os restantes continuarão unidos, tentando manter o controle da direita brasileira, por isso Bolsonaro pai não quis apoiá-la, nem ao governador de São Paulo, Tarcísio de Freitas, que está às vésperas de poder vencer no primeiro turno a reeleição.

Em outros tempos, seria um reforço grande para a candidatura. Caso o governador de São Paulo participasse da campanha com o empenho dos aliados, poderia conseguir uma diferença de votos muito grande a favor do candidato de sua coligação, uma boa alavancada para Flávio, e seria um baque para a candidatura à reeleição de Lula, já que a eleição geralmente se define em São Paulo. Há a coincidência de que ninguém se elege presidente sem ganhar em Minas, que representa o país como um todo, uma amostragem do Brasil, com regiões incluídas na Sudene, outras desenvolvidas industrialmente, outras representando o agronegócio, outras ainda vizinhas ao Rio de Janeiro. Mas é fundamental vencer em São Paulo.

Liberado da campanha de governador, Tarcísio poderia trabalhar para a eleição de Flávio. Há evidências estatísticas de que sempre que um governador de estado importante eleitoralmente vence no primeiro turno a reeleição e se dedica à campanha presidencial pode até mudar o rumo das pesquisas. Além do mais, a situação deixaria Lula sem palanque em São Paulo no segundo turno. Há ainda o fato, demonstrado nas pesquisas, de que Lula já não tem no Nordeste a maioria esmagadora que já teve. A diferença deverá ser menor a seu favor e, se a oposição conseguir ampliar a vitória em São Paulo, reduzirá a vantagem. Em 2022, a diferença a favor de Bolsonaro em São Paulo foi de 2.696.651 votos, maior que a diferença final a favor de Lula no país todo, de 2.139.645.

Misturando futebol e política eleitoral, que nada têm a ver a não ser neste momento de Copa do Mundo, fiquei com a impressão de que também Carlo Ancelotti, o treinador da seleção, entrou na Copa para tentar ganhar por pontos, chegar o mais longe possível, já olhando para 2030. O mister colocou a seleção na retranca, para jogar por uma bola. Teve duas, pelo menos: o pênalti mal batido e o gol que Endrick perdeu. Se desse certo, estaria mais uma vez consagrado.

Para 2030, pode ser que ele continue e, com tempo, monte uma boa equipe, aproveitando a geração nova que está surgindo. Mas pode ser também que, assim como os Bolsonaros, não tenha mais tempo para recomeçar de novo. Pode ser que a única da famiglia Bolsonaro que tenha um mandato importante seja Michelle, e a anistia do Bolsonaro pai vá pelo ralo. A direita, nesse caso, se reorganizará longe desse triste legado. No caso de Ancelotti, assim como a Copa do Mundo não é a Champions League, pois não tem o jogo de volta, temos hábitos estranhos aqui, abaixo do Equador. Respeitar contratos não é um deles.

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A ORDEM QUE O MERCADO DESFEZ

Luiz Schymura, Valor Econômico

O verdadeiro desafio não é escolher entre estabilidade e concorrência, mas construir uma regulação capaz de preservar ambas

Todo mercado muito concentrado desenvolve uma gramática própria. Não apenas domina preços e margens, mas também define o que é produto legítimo, quem é contraparte confiável, quem tem direito de ser ouvido. O regulador, formado por essa gramática e por ela avaliado, tende a regular dentro dos parâmetros que o incumbente já aceitou. A concentração raramente precisa capturar o Estado de forma explícita. Em geral, basta estar presente o suficiente para que o Estado aprenda a enxergar o setor pelos olhos de quem sempre o controlou.

O sistema financeiro brasileiro foi, por décadas, uma expressão particularmente clara desse mecanismo. Os cinco grandes bancos de varejo - Itaú, Bradesco, Banco do Brasil, Caixa e Santander - não apenas dominavam o mercado: definiam o que era um banco, o que era risco aceitável e detinham poder decisivo sobre a concessão de crédito e seu custo. O Banco Central, formado e avaliado dentro desses mesmos parâmetros, regulava o que os incumbentes haviam naturalizado como ordem. O regulador dependia em larga medida de informações produzidas pelos próprios incumbentes. Essa dependência coexistiu com décadas em que os grandes bancos participaram intensamente das câmaras técnicas e consultas públicas que historicamente ajudaram a moldar a regulação.

A chegada das fintechs e dos bancos digitais alterou esse equilíbrio com uma velocidade que o aparato supervisor não conseguiu acompanhar. O open banking e as mudanças regulatórias do período recente abriram uma porta que a velha arquitetura de supervisão não havia projetado. Novos atores entraram sem história de balanço consolidada, sem relacionamento institucional, sem lugar reconhecido na distribuição anterior. Entraram porque a tecnologia permitiu e a regulação não os impediu.

Até aqui, a narrativa seria virtuosa: mais competição, mais acesso, spreads menores. O problema é que abertura de mercado e solidez institucional são coisas distintas. Parte do que entrou pelo portão da democratização financeira trouxe governança fraca, superavaliação de ativos e uso oportunista das garantias públicas. A desordem que se seguiu não foi apenas o saudável ruído de um mercado contestável. Foi também risco moral em estado bruto. E o regulador não tinha nem o vocabulário nem as ferramentas para identificar o que estava acontecendo antes que o dano se tornasse visível.

O Banco Master tornou-se o maior teste recente da solidez do sistema financeiro brasileiro. Controlado por Daniel Vorcaro, o banco captou dezenas de bilhões em CDBs com rentabilidades de até 140% do CDI.

O episódio envolvendo o conglomerado Master - banco e suas conexões - mobilizou mais de R$ 49 bilhões em ressarcimentos do Fundo Garantidor de Crédito, sendo R$ 40,6 bilhões referentes ao Banco Master propriamente dito, o equivalente a cerca de um quarto do patrimônio do fundo, segundo dados públicos do FGC. Investigações da Polícia Federal apontam suspeitas de carteiras de crédito sem lastro econômico suficiente e balanços com ativos superavaliados.

O Digimais repete o padrão com lógica própria. Com R$ 8,5 bilhões em CDBs emitidos e investigado pela Operação Miragem, o banco é suspeito de ter transferido carteiras problemáticas para fundos de investimento sem a devida transparência, melhorando artificialmente seus indicadores contábeis enquanto baseava sua captação na cobertura oferecida pelo FGC. A garantia pública foi vendida ao investidor de varejo como substituto da análise de risco.

Enquanto o Master apostava na opacidade de balanço, o Digimais explorava a assimetria entre o que o garantidor cobre e o que o regulador consegue verificar a tempo. Os mecanismos diferem, embora o efeito econômico seja similar, pois ambos os bancos usaram as salvaguardas do sistema como alavanca para sustentar modelos que não sobreviveriam ao escrutínio prudencial ordinário.

O Banco Central, é preciso dizer, não foi apenas uma vítima de captura intelectual pelos incumbentes. Parte do atraso regulatório é estrutural: toda inovação financeira relevante gera defasagem entre o que o mercado cria e o que o supervisor consegue ler a tempo. O Brasil não foi exceção.

De fato, os primeiros sinais de deterioração do Master remontam a 2021, quando o próprio BC já exigia ajustes, e a liquidação extrajudicial só veio em novembro passado. A resposta desde então segue um roteiro previsível - endurecimento das exigências de liquidez para bancos médios, revisão dos critérios de acesso ao FGC, maior escrutínio sobre captação no varejo - com fundamento real, mas que chega depois de quatro anos durante os quais um modelo que só funciona com captação crescente triplicou de tamanho. Vale registrar que os grandes bancos estiveram entre os primeiros a defender o endurecimento regulatório após o escândalo, com argumentos tecnicamente consistentes e alinhados aos seus interesses econômicos.

Há uma diferença relevante entre exigir que bancos digitais sejam sólidos e exigir que sejam idênticos aos incumbentes. Requisitos calibrados para o perfil dos grandes bancos tradicionais, aplicados uniformemente, podem funcionar como barreira à entrada disfarçada de prudência. O resultado seria devolver aos incumbentes, pela via regulatória, a vantagem competitiva que a tecnologia havia começado a corroer. Toda exigência regulatória tem um custo fixo, e esse custo pesa proporcionalmente menos sobre quem já opera em grande escala.

A questão que o episódio do Master e do Digimais coloca não é apenas técnica. A regulação que emerge dessa crise vai conseguir distinguir fraude de contestabilidade legítima? Vai preservar a abertura que reduziu spreads e ampliou acesso, enquanto impõe disciplina prudencial efetiva? Ou vai usar o a rgumento inquestionável da estabilidade sistêmica para reconstruir, com nova nomenclatura, a geometria anterior?

O verdadeiro desafio não é escolher entre estabilidade e concorrência. É construir uma regulação capaz de preservar ambas, distinguindo inovação de fraude antes que o mercado volte a se fechar em nome da prudência. Quando toda contestação passa a parecer ameaça, a prudência vira pretexto.

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TRUMP REPETE MUSSOLINI, SUBMETE A FIFA E DESAFIA O MUNDO E O BRASIL

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

Trump repete Mussolini, intervém na Fifa e ataca juiz brasileiro em meio à tensão Brasil-EUA

A interferência de Donald Trump na submissa Fifa, para anular a expulsão de um jogador norte-americano e jogar suspeitas sobre um juiz brasileiro, é um escândalo internacional, que confirma a velha prepotência dos EUA, potencializada por Trump, e ocorre num momento de tensões e decisões nevrálgicas entre Brasil e EUA.

A ação de Trump e a suspeita sobre o árbitro Raphael Claus jogam uma pitada de pimenta no que já está ardido. Nesta segunda-feira, começou em Washington a audiência pública em que representantes brasileiros apresentam argumentos e dados concretos contra novas sanções comerciais.

No mesmo dia, veio a público um documento do chanceler Mauro Vieira admitindo, duas vezes, o risco de Trump usar força militar em território brasileiro, no rastro da classificação de PCC e CV como terroristas.

Ao telefonar para o presidente da Fifa, Gianni Infantino, Trump não sugeriu, mas exigiu a anulação do cartão vermelho para Folarin Balogun e a participação dele no jogo dos EUA contra a Bélgica. E atacou Claus.

Sem entender patavina de futebol, Trump justificou, ao admitir o telefonema para a Fifa: “Eu vi o lance, e sou uma pessoa que ama esportes... Aquilo não foi uma falta. Nem mesmo uma infração. Esse árbitro é um pouco suspeito...”

Ou seja, o presidente dos EUA não se satisfaz em ver o jogo, achar isso ou aquilo e xingar o árbitro, como qualquer torcedor, mas usa o seu cargo e o fato de ser anfitrião para algo inédito: decretar que não aceita a expulsão e que Balogun vai jogar, sim.

Ele não considerou uma hipótese: e se os EUA vencessem a Bélgica com gol de Balogun? E se levassem a taça? Trump poderia até comemorar, mas o mundo aceitaria calado?

O episódio remete à Copa de 1934 na Itália, quando o ditador Mussolini escolheu jogadores e influenciou resultados para não só dar a vitória ao seu país, como usar essa vitória para uma fenomenal propaganda fascista.

Afora a vassalagem vergonhosa de Infantino e da própria Fifa, a ação de Trump confirma o que o mundo todo sabe – e teme. Ele não tem escrúpulos, limites e se sente imperador do mundo.

Logo, é capaz de tudo e é com ele que o governo e o setor privado brasileiros têm de negociar para evitar as novas tarifas inventadas por Trump, por influência direta de Flávio Bolsonaro, que participa da audiência pública de Washington nesta terça-feira, tentando consertar seu imenso erro.

Ele foi se meter onde e com quem não deveria, e tenta desfazer o mal que tentou fazer ao Brasil e acabou fazendo à sua própria candidatura. Imaginem agora, com a intervenção na Fifa e o ataque ao juiz brasileiro...

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MICHELLE SERÁ CULPADA POR EVENTUAL FRACASSO DE FLÁVIO NAS URNAS

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Evangélicos veem ex-primeira-dama como vilã, vítima ou força inquestionável

Sem o apoio de mulheres evangélicas, candidatura de Flávio fica vulnerável

Quem venceu a guerra entre Michelle Bolsonaro e os filhos de Jair? Por que ela se rebelou contra a campanha de Flávio Bolsonaro? Registrei algumas das narrativas —em que ela é vilã, vítima ou liderança vencedora.

Evangélicas mais à esquerda entendem que Michelle colhe o que plantou. Diante de tantos ataques, estaria sentindo na pele o que significa ser recatada e do lar. O tratamento seria educativo para quem desfruta das conquistas do feminismo enquanto defende a submissão da mulher no casamento.

Uma visão mais popular do que essa também a trata como vilã, mas por outro motivo. Michelle seria a mulher sem juízo que lava roupa suja em público e age por ser temperamental ou inapta. A atitude estaria condenando o Brasil a mais quatro anos de PT.

Outra posição, também popular, a vê como vítima. Segundo essa narrativa, analistas estariam atribuindo significados ocultos ao que é apenas uma briga familiar. Os filhos de Jair atacaram a madrasta, que revidou.

Michelle aparece como alguém de personalidade difícil, mas ainda exausta pelo que viveu desde a facada —pandemia, julgamento do marido, internações, batalha para transferi-lo para casa, responsabilidade pela filha adolescente.

Nessa condição de fragilidade, Michelle vem sendo atacada em sua honra, apontada como ingênua e ameaçada de violência física. Teria feito bem em se defender, mas não tem plano. Ao falar no evento com as mulheres conservadoras, Flávio sugeriu que ela estaria sendo induzida a prejudicá-lo.

Há a imagem de Michelle como vitoriosa —uma mulher que se parece com lideranças de igrejas pentecostais, como a pastora Helena Raquel, que viralizou ao criticar o machismo que encobre a violência contra mulheres nas igrejas.

Representam uma alternativa ao feminismo que, em vez de ver a Bíblia como um livro que promove o machismo, percebe nas escrituras um caminho para o igualitarismo. Homens e mulheres estão submetidos à mesma moralidade e o homem é mais defensor do que cabeça da casa.

Michelle é vista como essas mulheres que se entregam a projetos por suas igrejas mas são mantidas sob controle por lideranças masculinas. Defendem a submissão, mas, na prática, dão exemplo de empoderamento.

Na disputa com Flávio, seria uma liderança política que fez por merecer seu espaço. Viajou, mobilizou igrejas, abriu diretórios do PL Mulher, ampliou em quase 50% o número de mulheres eleitas pela legenda em 2024. Seria atacada pela esquerda porque disputa o monopólio desse campo sobre as necessidades de mulheres. E sai por cima.

Para alguns, ainda sonharia em ser a salvadora da direita caso escândalos tirem Flávio do jogo. Outros a veem se blindando: teria informação sobre novos materiais ligando Flávio ao caso Vorcaro, sai da linha de fogo e guarda capital político para 2030, sem Lula.

Duas ideias sobressaem: sem o apoio de mulheres evangélicas, a candidatura de Flávio fica vulnerável em uma eleição tão disputada. Se acontecer, Michelle será apontada como culpada.

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INTERVENÇÃO DO BEM NO RIO DE JANEIRO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Edson Fachin marcou para 19 de agosto a retomada do julgamento sobre como será – seria – a eleição para mandato-tampão de governador no Rio de Janeiro. Seria; porque não será. Palhaçada teatral destinada a cumprir, como se sob rito legal, o que foi decisão autoritária tomada no instante em que Cláudio Castro renunciou ao Guanabara, em março. Haverá eleição suplementar nenhuma, direta ou indireta. E todo mundo sabe disso.

Haverá eleição suplementar nenhuma, qualquer que seja a decisão do Supremo, porque, àquela altura, a deflagração de pleito extra treparia no processo eleitoral regular, cuja votação será em 4 de outubro. Não haveria tempo. Sobraria insegurança jurídica. Escassezes de tempo e de segurança jurídica forjadas pela maneira como Flávio Dino geriu um pedido de vista feito em 9 de abril.

Ao pedir vista, o placar marcava 4 a 1 pela eleição indireta, na Alerj, condição em que Douglas Ruas, deputado estadual e pré-candidato ao governo pelo PL, venceria – e governaria o Estado eleição ordinária de outubro adentro. O STF não queria. Dino pediu vista.

Naquela ocasião, prometeu que devolveria a matéria à deliberação quando da publicação do acórdão, pelo TSE, relativo ao julgamento que condenara Castro à inelegibilidade. O acórdão foi divulgado em 23 de abril, ocasião em que disse que esperaria pela apreciação dos recursos, cujo produto teve publicação em 16 de junho. O ministro devolveu a vista em 30 de junho, véspera do recesso do Judiciário.

Haverá eleição suplementar nenhuma, direta ou indireta. E todo mundo sabe disso. O STF não quer. Tampouco quer – e todo mundo sabe disso – que o presidente da Alerj assuma a cadeira de governador que lhe caberia, considerada a linha sucessória estadual. Não permitirá que Douglas Ruas, olha ele aí de novo, da turma que sustentava Castro, governe e se cacife como adversário competitivo de Eduardo Paes. O STF quer mudança. Porque – você sabe – o eleitor fluminense vota mal...

O Rio está sob intervenção do Supremo. Escrevo a respeito pela terceira vez neste jornal. Não é algo popular de se dizer, porque a interposição do Judiciário alijou do poder, no ano eleitoral, o grupo político bolsonarista, o mesmo de Ruas, que pilhara o Estado nos últimos anos e sobre o qual o cronista só tem certezas. A população desprezava Castro e seus bacelares – e ora celebra a moralização tocada por um juiz salvador da pátria.

Intervenção, portanto, virtuosa; ao que se somará, como cartaz, o trabalho de saneamento promovido pelo governador-desembargador-interventor Ricardo Couto, presidente do TJ. Um herói, cujo período artificialmente alongado de heroísmo planta vários precedentes. (Como se sabe, os precedentes só viram problema quando usados contra os nossos.)

Para que fique claro: o STF determinou que Couto passará a faixa (tudo o mais constante) a Paes, em janeiro. Até lá, encene esse teatro quem quiser.

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FUTEBOL, CONHECIMENTO E TRAGÉDIA

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Delay na TV em alguns casos funciona como simulação do dom da clarividência

Mas é um conhecimento do futuro do tipo trágico, que não comporta alteração

A eliminação precoce do Brasil na Copa me privará de um prazer que eu vinha cultivando secretamente: assistir aos jogos da seleção com delay. Eu confesso, sou um fã do delay. Em ambientes urbanos densamente povoados nos quais uma maioria barulhenta tem clara preferência por um dos times, o delay nos permite experimentar a sensação de conhecer o futuro. Eu sabia com antecedência de dezenas de segundos quais os ataques promissores do Brasil que se desenhavam na tela da TV que se converteriam em gol e quais os que terminariam frustrados. Se o delay mata o prazer da surpresa, ele também traz a tranquilidade de não sermos surpreendidos por eventos que não controlamos.

Não se trata aqui daquela presciência instrumental dos filmes de ficção científica com a qual viajantes no tempo enriquecem fazendo apostas em resultados esportivos que já conhecem ou comprando as ações que sabem que irão se valorizar. É mais a clarividência trágica de Ésquilo. Prometeu, cujo nome em grego significa justamente "aquele que aprende antes", sabia os castigos cruéis a que seria submetido por desobedecer a Zeus e mesmo assim entregou o fogo aos homens, escolhendo, por uma combinação de heroísmo com amor à humanidade, submeter-se a 10 mil anos de sevícias. É só na continuação da peça, texto do qual só restam fragmentos, que Prometeu daria uma espécie de volta por cima.

E Ésquilo é literariamente menos sádico que Sófocles que faz com que seus personagens tomem conhecimento do futuro por profecias, se esforcem para alterar o destino e que seja justamente essa tentativa a causa de sua perdição.

Tanto em Ésquilo como em Sófocles como na minha TV com delay, saber o futuro é inútil. Estamos condenados ao papel de testemunhas do destino. Não que a ignorância seja muito melhor. Epimeteu, o irmão menos esperto de Prometeu, cujo nome significa "aquele que só aprende depois", por imprudência, casou-se com Pandora e teve participação direta na libertação de todos os males do mundo.

Ainda bem que só perdemos uma Copa.

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'DIREITA DÁ TIRO NO PÉ AO FOCAR IMPEACHMENT DO STF'

Augusto Tenório e Raphael Di Cunto, Folha de S. Paulo

Direita dá tiro no pé ao focar impeachment do STF, povão quer fim da 6x1, diz nova líder de Lula no Senado

Teresa Leitão afirma que redução da jornada será trunfo eleitoral mesmo se não for aprovada

Substituta de Jaques Wagner, ela diz que antecessor se dedicará à defesa e que PF tem liberdade para investigar

Brasília - A nova líder do governo Lula no SenadoTeresa Leitão (PT-PE), afirma que a direita dará "um tiro no pé" ao apostar no impeachment de ministros do STF (Supremo Tribunal Federal) na campanha para o Senado neste ano e que o fim da escala 6x1 será um trunfo eleitoral para os candidatos de esquerda, mesmo se a PEC (Proposta de Emenda à Constituição) não for aprovada antes das eleições.

"A direita vai dar um tiro no pé ao dizer que quer se eleger para fazer impeachment de ministros. O que é que o povão sabe disso? O povão sabe da PEC, 80% sabem da PEC, sabem o que é que ela vai mudar na sua vida", afirma Teresa Leitão em entrevista à Folha. "Cinegrafista, diarista, maquiador, esse povo de serviços, tá todo mundo me perguntando quando é que essa PEC vai ser votada. Ela pegou no imaginário."

Segundo pesquisa Datafolha de maio, 71% dizem ser favoráveis à redução da jornada. A direita bolsonarista tem destacado a campanha ao Senado pelo fato de a Casa decidir o impeachment de ministros do Supremo, tribunal que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) por tentativa de golpe de Estado.

Ela afirma que tem "resistido muito a fazer esse apelo eleitoral" e que deseja separar o debate em torno da redução da jornada da disputa eleitoral, mas reconhece que o tema é sensível e será abordado na campanha independentemente do resultado. "Ela serve aprovada ou não, serve de mérito para quem aprovou. Quem não aprovou vai ser listado por quem quer aprovar", afirmou Teresa Leitão.

No Planalto, a avaliação é a mesma que a da senadora. Interlocutores do presidente Lula dizem acreditar que se o Senado segurar a PEC do fim da 6x1, o PT poderá reeditar a campanha "Congresso inimigo do povo".

O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), tem dito a aliados que não pautará o fim da escala 6x1 até conversar com Lula. Eles estão afastados desde a rejeição da indicação do advogado-geral da União, Jorge Messias, ao STF.

A nova líder do governo diz que ainda não há previsão de reunião entre Lula e Alcolumbre. Ela ressalta que a relação institucional nunca foi rompida e que o presidente do Senado tem linha direta com qualquer ministro do governo. Já um encontro pessoal ainda está sendo avaliado. "Se isso for necessário, acho que a gente precisa construir, mas eu ainda estou avaliando como é que vou atuar nessa linha."

Alcolumbre não antecipou qual o teor da conversa que deseja ter com Lula, segundo a petista, que assumiu a função no lugar de Jaques Wagner (PT-BA), após o senador ser alvo de operação da PF (Polícia Federal) por suspeitas de receber favores dos então donos do Banco Master, como ingressos para shows, caronas em jatinhos e um apartamento de R$ 2,5 milhões, para atuar nas pautas de interesse do banco.

Questionada se o presidente do Senado poderia tratar da investigação do escândalo do Master, após reclamar publicamente no plenário de se sentir perseguido, ela afirma que esse assunto não prosperaria numa conversa com Lula.

"Ele [Alcolumbre] sabe como é que a Polícia Federal atua. Quando ele disse isso [que estaria sendo perseguido], uma semana depois a vítima foi Jaques. Então não é coisa de governo. O governo atuar contra o seu próprio líder?", diz Teresa. "Isso é uma conduta histórica do PT, nós queremos que a investigação prospere", afirma.

A nova líder do governo diz que "muita gente lamentou" a saída de seu antecessor na função, pelo perfil conciliador e pela longa experiência política de Jaques Wagner, mas que o afastamento foi para que ele possa se defender. "Ele tem obrigação com ele próprio, com a história dele", diz. O senador tem rejeitado as acusações e dito que, na verdade, atuou contra os interesses do Master no Congresso.

Teresa afirma que deixará a discussão sobre o Master para a campanha eleitoral e que o assunto está atualmente fora da pauta do Legislativo. "Tem três pedidos de CPI do Banco Master. Todos nós do PT assinamos. Mas não tem CPI, então acho que em relação a isso, está entregue à Justiça. Vai ter debate político? Vai. Vamos evitar que ele se dê aqui [no Congresso]. Mas na campanha ele vai se dar, é evidente."

Sobre o impacto para a campanha de Lula, a senadora adota a estratégia do PT de tachar a fraude financeira como uma crise gestada pelo governo Bolsonaro (PL). "Sempre é bom lembrar: o Banco Master e Vorcaro têm um nascedouro, e esse nascedouro é o [governo] Bolsonaro. Tem vídeos, conversas telefônicas, contatos, mensagens de Vorcaro e Flávio Bolsonaro", diz.

A líder afirma que Lula pediu que, além da PEC 6x1, ela trabalhe pela aprovação de outras duas propostas consideradas prioritárias. A PEC da Segurança Pública, que dá mais competência a governo federal para atuar nessa área, e o projeto que cria a Política Nacional de Minerais Críticos e Estratégicos. Ambas, no entanto, estão menos avançadas, admitiu a parlamentar.

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BRIGA DE FAMÍLIA QUE DERRUBOU PRESIDENTE AGORA AMEAÇA CANDIDATO

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

A regra nos clãs no Brasil é se protegerem a fim de se perpetuarem nos espaços de poder

Os Collor de Mello e os Bolsonaro são exceções, cujas brigas não foram nem estão sendo boas conselheiras

fator família não é novo nem raro na política brasileira em boa parte composta por filhos que sucedem os pais e netos que se fazem a partir do legado dos avós. Quem está nessa lida há décadas hoje fala com fulano neto e conversa com beltrano filho do interlocutor original, herdeiro do mesmo sobrenome.

O inusitado, embora não inédito, são as brigas como essas que assolam a grei Bolsonaro. Na regra, os clãs se preservam para se perpetuarem. Daí a atenção ao furdúncio envolvendo Michelle e os filhos de Jair Bolsonaro.

A mulher do ex-presidente deu tiros na candidatura do primogênito Flávio, mas nada (ainda) parecido com o petardo de Pedro Collor na Presidência do irmão Fernando. Ali, o desastre foi deflagrado pela negação da mãe ao filho caçula até então predileto, substituído no afeto pela cobiça referida no cargo do detentor do poder maior da República.

Aqui, o que se tem é uma disputa pelo legado do chamado bolsonarismo, que ainda está por provar ser uma corrente comparável a outros ismos caracterizados pela fidelidade das bases social e política ao chefe, sem ingerências familiares.

A despeito do liame da rixa em ambiente doméstico que se desdobra em consequências para o cenário nacional, a sociologia do babado contida em casos de famílias conflagradas é muito diferente entre um caso e outro.

Nos Collor de Mello o evento foi pontual. Depois de dada a tragédia, o clã sumiu do mapa da política para se transformar em tema de tramas dramáticas em podcast, documentário e projeto de série de ficção baseada naquele fato.

Nos Bolsonaro, o enredo se desenrola por décadas, desde o filho adolescente posto numa eleição contra a mãe por vingança do pai, até o episódio ainda em curso da madrasta em guerra com os enteados pela herança política do patriarca preso e doente.

Da rusga entre irmãos, decorreu um impeachment do qual o país saiu institucionalmente salvo. Do litígio atual, a solução virá da resposta que o Brasil der à família em questão.

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ESPERAR O QUE DA NOSSA SELEÇÃO ? PRECISAMOS CHAMAR FEITO À ORDEM !

Elias Gomes*, Blog do Magno

O técnico Carlo Ancelotti, em um dos momentos da sua chegada ao Brasil: “É 100% certo de que não sou um gênio e também é 100% certo de que não sou um tonto”. É importante cairmos na real e olharmos um pouco para trás e enxergarmos a precariedade resultante da politicagem que tem presidido o nosso órgão máximo do futebol – CBF, que vive à sombra da falta de transparência e do cartolismo arraigado e maléfico.

Para chegarmos ao atual técnico, tivemos outros 3 treinadores nesta fase de preparação, sendo dois deles interinos como Ramon Menezes e Fernando Diniz para chegarmos a Dorival Júnior que teve uma breve passagem. Esta sucessão de técnicos, demonstra instabilidade e de falta de planejamento por parte do órgão responsável pela nossa seleção, o que ajuda-nos a compreender o porquê do nosso insucesso nesta disputa da copa, pois não há lugar para improvisos ou amadorismo numa competição do porte de uma copa do mundo.

Veja-se o exemplo de países emergentes no futebol, como o Japão e as seleções de países africanos que têm os seus treinadores à frente das suas seleções há bastante tempo, no caso do país oriental, há oito anos treinando a equipe japonesa, só para ficar neste exemplo.

Nosso caso não é falta de talento dos nossos jogadores, pois eles estão brilhando nas maiores equipes de futebol do mundo. A questão é de uma estratégia clara, estabilidade no comando da nossa equipe e fatores extracampo.

O futebol e a nossa  seleção são patrimônios nacional e isto não tem haver apenas com a Confederação Brasileira de Futebol – CBF, e isto requer uma atitude mais proativa por parte da nação brasileira, nesse sentido o governo nacional, deveria despachar o seu ministro dos esportes para chegar junto aos nossos dirigentes desportivos e chamar o feito à ordem, firmando um pacto com a CBF, visando renovar e arejar as Diretrizes para a nossa seleção principal e as Diretrizes para o futebol brasileiro, visando corrigir as conhecidas debilidades e construir um robusto conjunto de Diretrizes para a nossa seleção, patrimônio nacional e dos nossos clubes profissionais.

Não se trata de ingerência do governo nos órgãos dirigentes de futebol, mas de uma atitude, no momento em que todo o povo brasileiro vive a frustração por repetidos fracassos da sua seleção mais vencedora do mundo, “afinal somos os únicos penta campeões do mundo” e alguém tem que chamar o feito à ordem – repito.

Como o próprio Ancelotti falou que é certo de que ele não é gênio, não é razoável que diante de tanta improvisação e cartolagem, um técnico que chegou apenas há um ano de antecedência para a copa, viesse fazer milagres!

*Ex-prefeito do Cabo e de Jaboatão, ex-secretário de Justiça e Direitos Humanos de PE

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TRUMP DEVERIA INVESTIGAR O CRIME ORGANIZADO NA ALERJ

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Cláudio Castro, Alexandre Ramagem e deputados estaduais aparecem em lista de propina

Na planilha do bicheiro Adilsinho está o pastor Márcio Poncio, suplente de deputado federal

Em 30 de junho, um dia antes de entrar em recesso, a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro —que ocupa o centro de uma investigação da Polícia Federal sobre a simbiose entre bandidos e parlamentares— aprovou 430 homenagens. Faltou a medalha Justo Veríssimo, com o nome do personagem de Chico Anysio ("Quero que o pobre se exploda!"), premiando o deputado mais corrupto.

Dois dias depois, a operação Unha e Carne revelou a análise de planilhas apreendidas com o bicheiro Adilsinho, um dos mais sanguinários do Rio e chefe da máfia do cigarro ilegal. Os documentos registram doações eleitorais, pagamentos indevidos a políticos e contabilidade paralela para ocultar a movimentação de recursos ilícitos. A PF prendeu Márcio Poncio, suplente de deputado federal, pai da deputada estadual Sarah Poncio, empresário do ramo de tabaco e conhecido, por suas pregações religiosas numa tal Igreja da Nuvem, como "pastor do cigarro".

No listão do bicho constam os nomes do ex-governador Cláudio Castro, do ex-presidente da Alerj Rodrigo Bacellar (preso por fornecer informações ao Comando Vermelho e que foi conduzido à PF carregando uma Bíblia versão luxo com letras "ultragigantes"), do ex-diretor da Abin Alexandre Ramagem (golpista condenado e foragido nos EUA), do deputado estadual Rodrigo Amorim (aquele que quebrou a placa de Marielle), do ex-deputado federal Marco Antônio Cabral, filho do ex-governador Sérgio Cabral (provando que a infiltração criminosa é permanente).

Entre as auditorias realizadas pelo governador interino do Rio, Ricardo Couto, destaca-se um caso de fraude com ramificações no além-túmulo: um curso online de capacitação para defuntos, ao custo de R$ 50 milhões. Sob Castro, 77 órgãos da máquina fluminense tinham funcionários que nunca trabalharam. Fantasmas assumidos.

Crescem rumores sobre a delação de Bacellar e a prisão de Castro, com reflexos na campanha presidencial do filho 01.

Fingindo que nada tem a ver com o peixe, ele abandonou a base bolsonarista no estado. Só pensa em Trump.

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segunda-feira, 6 de julho de 2026

COMBINARAM DE NOS MATAR

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Pessoas negras foram vítimas em 71% das mortes pela polícia em 2025, aponta estudo com 9 estados

Número de crianças e adolescentes mortos cresce 5% e alcança 312 vítimas nas regiões pesquisadas

Levantamento da Rede de Observatórios da Segurança aponta 4.330 mortos em intervenções policiais, aumento de 6,4%

"O Estado tirou o direito de ver meu filho crescer" (Bruna Silva). "Como confunde marmita com revólver"? (Fabiana Hoytil da Silva); "O Estado acabou com a minha vida." (Rosicleide Cruz Bispo de Jesus).

As declarações saíram das bocas de três mulheres que perderam filhos para a violência policial no Brasil nos últimos anos. Além da juventude, Marcus Vinícius da Silva (14), Gabriel Hoytil Araújo (19) e Michel Cruz (21) tinham outro traço em comum: a negritude.

Para vergonha nacional, esse é um padrão que se repete. Os números falam por si e demonstram, ano a ano, que o futuro é um tempo marcado para não se realizar nas vidas de parcela expressiva de brasileiros.

Em 2025, o aumento da letalidade policial foi de 6,4% em relação a 2024. O percentual equivale a 4.330 pessoas mortas em decorrência de intervenção policial (entre as quais, 312 crianças e adolescentes de até 17 anos) em nove dos 27 estados do país.

Pretos e pardos representam 86% dos mortos em razão da intervenção policial. A maioria é de homens jovens, moradores das periferias e favelas, que tiveram as vidas ceifadas antes dos 30 anos.

É que "falar de racismo e segurança pública é incorrer num paradoxo insustentável", como consta na sétima edição do relatório "Pele Alvo: entre racismo e letalidade, o amanhã", divulgado recentemente pela Rede de Observatórios de Segurança com dados do AM, BA, CE, MA, PA, PE, PI, RJ e SP.

O estudo lança luz ao debate sobre a letalidade policial, denuncia desigualdades contra a população negra e fomenta o debate público. Coisa oportuna e necessária diante da persistência do perfil racial das vítimas da polícia e da disparidade entre a demografia e a proporção de pretos e pardos mortos.

O extermínio de vidas negras por agentes do Estado é mais um dos frutos do racismo institucionalizado numa nação que naturaliza a desigualdade étnico-racial e insiste em negar direitos e cidadania à maioria do povo. Como bem disse a escritora negra Conceição Evaristo, "eles combinaram de nos matar…" 

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OS EUA INVENTARAM O PRESIDENCIALISMO, SO WHAT ?

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Medeiros e Albuquerque viu na abolição brasileira e na Guerra Civil americana os efeitos de dois sistemas de governo

Aos 250 anos, a mais influente invenção institucional americana continua a dividir os estudiosos da democracia

Os Estados Unidos inventaram o presidencialismo e difundiram-no quando o modelo parlamentarista ainda não havia se consolidado na Inglaterra, onde surgiu. Os 250 anos dos EUA servem para perguntar se sua exportação institucional foi uma boa ideia. Tocqueville reverenciou o modelo institucional do país em "A Democracia na América" (1835). Mas a América aqui era a Nova Inglaterra, uma sociedade fortemente igualitária de camponeses livres, não o Sul escravocrata, que mais se parecia com o Brasil.

O Sul, à época, representava apenas 28% da população total dos EUA, e sua população livre, apenas 16%. O Sul permaneceu, assim, um enclave na democracia americana. E a escravidão, o contencioso central da Constituição que, com as dez primeiras emendas (Bill of Rights), é um marco do constitucionalismo moderno. Embora minoritários, os estados do Sul lograram vetar mudanças no status quo na região.

As 13ª (1865) e 14ª (1868) emendas, que aboliram a escravidão e garantiram cidadania e tratamento igualitário, foram aprovadas manu militari, quase 80 anos depois. No pós-guerra, o compromisso perverso foi adotado em 1877 para o Sul ocupado: autonomia para implantar medidas restritivas que negavam na prática a igualdade legal. Este estado de coisas —o sistema "separados, porém iguais"— persistiu e só foi eliminado com o Civil and Voting Rights Acts (1964-1965).

Mas o sistema de governo importa para a evolução política do país? Se o Brasil tivesse adotado o presidencialismo após a independência, como os demais países da América Latina, nossa história teria sido diferente? Para Medeiros e Albuquerque autor de "O Regime Presidencial no Brasil", de 1914, a resposta é positiva. "O regime parlamentar no Brasil fez a abolição pacificamente, ao passo que o regime presidencial nos EUA desencadeou uma revolução tremenda."

Medeiros e Albuquerque foi o primeiro a fazer um exercício contrafactual relacionando sistema de governo e abolição. Foi institucionalista avant la lettre. Se os EUA fossem parlamentaristas, conjeturava, não teria havido a Guerra de Secessão. O parlamentarismo tem uma válvula de pressão: a moção de desconfiança. A orientação muda quando o governo perde apoio parlamentar, ao contrário do presidencialismo, no qual os mandatos são fixos. As quedas de ministérios ocorrem sem fortes descontinuidades. Já o presidencialismo, argumentava, seria inflexível: os presidentes são forçados a manter seus pontos de vista "por teima ou coerência" até o fim do mandato.

"Se, em 1887, o Brasil fosse República presidencial e tivesse de eleger o seu presidente, não elegeria um abolicionista incondicional e sem indenização." Mas o processo era dinâmico: "um ano depois, esta solução se impunha e se realizava suavemente após se sacrificar vários ministérios". Assim, "esgotadas as outras soluções, restava apenas a da abolição e incondicional".

A avaliação negativa sobre o presidencialismo é associada ao professor Juan Linz da Universidade Yale (1926-2013). O debate continua. O presidencialismo é ruim para a governabilidade e/ou crescimento? O parlamentarismo promove mais igualdade e inclusão social?

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POR QUE ESQUECEMOS EM QUEM VOTAMOS ?

Carlos Pereira, O Estado de S. Paulo

Não é memória curta, mas um sistema eleitoral que torna lembranças pouco relevantes

A pesquisa Datafolha que revelou que 75% dos brasileiros não conseguem citar o nome de um senador e 68% não se lembram de um deputado federal provocou uma enxurrada de diagnósticos pessimistas sobre a democracia brasileira. Para muitos, os números seriam prova do desinteresse dos cidadãos pela política, da baixa qualidade do voto ou da incapacidade do Congresso de se conectar com a sociedade.

Em vez de perguntar por que o eleitor esquece em quem votou, deveríamos perguntar por que o sistema eleitoral lhe daria incentivos para lembrar. A memória política não é apenas uma característica individual. Ela é, em grande medida, produzida pelas instituições.

Em democracias que adotam distritos eleitorais pequenos, como Estados Unidos e Reino Unido, cada parlamentar representa uma comunidade claramente delimitada. A relação entre representante e representado tende a ser direta, territorial e personalizada. O eleitor sabe quem é seu deputado, e o deputado sabe quem são seus eleitores.

No Brasil, porém, a lógica é outra. Elegemos deputados pelo sistema proporcional de lista aberta em distritos de enorme magnitude. Nesse ambiente, a representação deixa de ser uma relação direta para se transformar em uma representação em rede. Entre o parlamentar e o eleitor surgem prefeitos, vereadores, lideranças religiosas, associações comunitárias, sindicatos, empresários locais e inúmeras outras organizações que fazem a ponte entre ambos. São esses intermediários que mobilizam votos, acompanham a atuação do parlamentar e ajudam a transformar recursos públicos em apoio político.

O parlamentar, portanto, depende de manter ativa essa rede de relações. Em vez de responder diretamente a milhões de cidadãos dispersos, o parlamentar presta contas continuamente às lideranças locais que sustentam sua base eleitoral.

Isso ajuda a compreender a importância das emendas parlamentares na política brasileira. Ao proporcionar capacidade individual dos parlamentares de direcionar recursos para municípios e organizações locais, elas fortalecem justamente essas redes de intermediação. Quanto mais recursos um deputado controla, maior o incentivo para cultivar lideranças locais e menor a necessidade de investir na construção de uma reputação junto ao eleitorado como um todo.

Isso não significa que o eleitor seja alienado ou que a democracia esteja necessariamente em crise. Significa apenas que nosso sistema eleitoral recompensa um tipo específico de conexão entre representantes e representados: uma conexão indireta, mediada por redes políticas locais.

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MAIS FUZIS DO QUE PÁS NA VENEZUELA

Demétrio Magnoli, O Globo

A segurança da camarilha no poder, não o auxílio às vítimas dos terremotos, é a prioridade absoluta do governo

Não faltou ajuda internacional. No socorro às vítimas dos terremotos na Venezuela, engajaram-se 17 países com equipes de resgatistas, especialistas, equipamentos, hospitais de campanha. Mas, diante de tragédias naturais de grandes proporções, nenhuma operação humanitária externa substitui eficientemente os recursos internos. À medida que passavam as horas e os dias, ficou patente o colapso estatal venezuelano.

O regime chavista dilapidou sistematicamente os bens públicos ao longo de anos. Na hora da catástrofe, as vítimas foram deixadas à própria sorte por uma camarilha habituada apenas a roubar e reprimir. Faltou tudo, inclusive combustível, num país que se jacta de possuir as maiores reservas petrolíferas do planeta.

Em Los Corales, no litoral caribenho, a menos de 40 quilômetros de Caracas, o operador de uma retroescavadeira governamental não apareceu na cena, de modo que os residentes fizeram uma vaquinha para remunerar um substituto.

— Havia pessoas respondendo sob as ruínas quando as chamamos, mas agora estão mortas — testemunhou Rosalia Bustamante, moradora local.

Lá, mais de uma dúzia de cadáveres foram recuperados de um edifício destroçado. Na ausência de sacos apropriados, terminaram embrulhados em plásticos de lixo e começaram a se decompor sob o sol dos trópicos.

Centenas de voluntários deslocaram-se em motos de Caracas a Cátia La Mar, em La Guaira, para auxiliar os resgates. Uma barreira policial tentou bloquear-lhes o trajeto.

— Aqui, há mais fuzis que pás, irmão! — gritou um deles aos homens armados.

O general reformado Antonio Rivero registrou que o governo poderia ter convocado as Forças Armadas com seus caminhões, geradores e sensores, mas não convocou. Ángel Rangel, ex-chefe da agência de defesa civil, explicou:

— Eles estão preparados para distúrbios sociais, não desastres naturais.

Terremotos implodem ditaduras cleptocráticas. Na Nicarágua, depois da catástrofe de dezembro de 1972, o roubo descarado da ajuda internacional pelo tirano Anastasio Somoza impulsionou a guerrilha sandinista que acabaria por derrubá-lo sete anos mais tarde.

Na Venezuela, do desespero, tristeza e desalento brotou uma indignação sólida. Autoridades foram vaiadas nas ruas e insultadas nas redes. O terremoto abalou as fundações do plano da Casa Branca de reforma da ditadura venezuelana.

A extração de Nicolás Maduro e sua substituição por Delcy Rodríguez (na prática, pelo novo homem forte, o ministro do Interior Diosdado Cabello) assinalaram uma brusca reorientação geopolítica. Os Estados Unidos converteram a Venezuela em protetorado informal, trocando acordos petrolíferos e minerais pela sustentação do regime falido. A ideia era deflagrar um ciclo de recuperação econômica, por meio da reativação da indústria do petróleo, a fim de estabilizar a ditadura reinventada como governo títere. Mas as ramificações políticas da tragédia ameaçam demolir o plano.

María Corina Machado, a líder opositora que concentrou as esperanças do povo, ganha nova oportunidade. Em janeiro, ao apoiar o sequestro de Maduro, imolou o princípio da soberania nacional na expectativa frustrada de um retorno triunfal patrocinado pelos Estados Unidos. Depois, acomodou-se às conveniências do governo Trump, curvando-se à vaga promessa de uma transição adiada. A crise aberta pelo desastre natural a coloca numa encruzilhada.

Dias atrás, uma dura advertência americana barrou seu ensaio de voltar clandestinamente ao país, via Curaçao. Segundo alega a Casa Branca, seria preciso evitar tensões políticas no pós-terremoto. Delcy Rodríguez invocou o mesmo álibi para impor a exigência de autorização oficial à chegada de voos internacionais a Caracas. Fuzis, em lugar de pás. A segurança da camarilha no poder, não o auxílio às vítimas, é a prioridade absoluta do governo.

Há indícios de que o terremoto servirá como pretexto, tanto em Caracas como em Washington, para enterrar a perspectiva de eleições livres. Corina Machado encara uma escolha decisiva: permanecer alinhada a Trump, à custa de sua liderança popular, ou empunhar a bandeira da democracia, correndo os riscos do retorno.

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SABER DO PAÍS VAI ALÉM DO 'SOFT POWER'

Preto Zezé, O Globo

Brasil desenvolveu formas originais de organizar pessoas, gerar confiança e resolver problemas complexos

Nos últimos meses, uma cena tem se repetido nas redes sociais. Vídeos sobre o Brasil viralizam em diferentes idiomas. Milhões falam de nossa música, nosso futebol, nossas festas e jeito de viver. Em Bangladesh, a Seleção Brasileira mobiliza uma paixão que atravessa gerações. O funk domina pistas na Europa. O samba continua sendo um idioma universal. Norte e Nordeste passam a ocupar um novo lugar no imaginário global, como territórios de cultura, turismo e inovação.

É tentador explicar tudo isso apenas pelo nosso soft power. Mas essa resposta é incompleta. O que chama a atenção do mundo não é apenas a cultura brasileira. É o tipo de conhecimento que ela produziu. Samba, capoeira, futebol e as redes de solidariedade das periferias não são fenômenos isolados. Todos nasceram como respostas a um mesmo desafio: criar convivência, criatividade e cooperação numa sociedade profundamente desigual.

A ginga não surgiu porque alguém desenhou uma estratégia de identidade nacional. Apareceu quando jogadores negros precisaram reinventar um esporte que não havia sido pensado para eles. O samba nasceu como forma de preservar memória e pertencimento diante da exclusão. A capoeira transformou perseguição em técnica. Nas favelas, a cooperação virou condição de sobrevivência muito antes de receber o nome de inovação social.

Quase sempre olhamos para essas experiências como manifestações culturais. Raramente as tratamos como produção de conhecimento. Esse talvez seja um dos maiores equívocos brasileiros.

Enquanto importamos teorias para explicar o país, prestamos pouca atenção ao conhecimento que produzimos. Nossas universidades estudam o Vale do Silício, mas ainda pesquisam pouco as soluções das periferias, das comunidades tradicionais, dos terreiros, das escolas de samba e dos coletivos culturais. É como se reconhecêssemos valor apenas quando nossas ideias recebem selo estrangeiro.

Não se trata de romantizar a pobreza. A desigualdade continua sendo um dos maiores obstáculos ao desenvolvimento nacional. O ponto é outro: reconhecer que, diante da escassez, o Brasil desenvolveu formas originais de organizar pessoas, gerar confiança e resolver problemas complexos.

Isso ficou evidente na pandemia, nas enchentes do Rio Grande do Sul e noutras crises. Em poucas horas, comunidades, empresas e organizações construíram redes de apoio que muitas vezes chegaram antes das estruturas formais. O que movia tais iniciativas não era só solidariedade. Era uma inteligência coletiva construída pela experiência.

Num mundo marcado por guerras, polarização, envelhecimento da população e isolamento social, esse conhecimento ganha um valor novo. Talvez o maior ativo brasileiro já não esteja apenas debaixo da terra, mas na forma como aprendemos a conviver em meio às diferenças.

A questão é saber se continuaremos exportando apenas produtos culturais ou se passaremos a reconhecer que também produzimos conhecimento. O mundo talvez tenha percebido antes de nós que o Brasil não exporta só música, futebol ou alegria. Exporta maneiras de criar vínculos, produzir confiança e transformar diversidade em cooperação.

Se compreendermos isso, deixaremos de tratar nossa cultura apenas como entretenimento e passaremos a enxergá-la como fonte de inovação para um mundo que, cada vez mais, desaprende a conviver.

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AS REFORMAS SÃO NECESSÁRIAS, MAS FALTA LIDERANÇA

Carlos Alberto Sardenberg, O Globo

O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas

‘Hoje nós temos uma convicção muito grande de que a República está podre. Hoje os Poderes estão contaminados com ineficiência, e isso acaba abalando a confiança da sociedade brasileira na República.’ O diagnóstico, contundente, é de Gilberto Kassab, presidente do PSD. Foi enunciado na semana passada, quando o político assumiu a posição de vice na chapa do ex-governador Ronaldo Caiado, pré-candidato a presidente. Caiado não deixou por menos. Disse que a política brasileira está tomada por práticas de corrupção, negociatas e acordos ilegais e imorais. A imprensa registrou, o mundo político tomou conhecimento... e ficou por isso mesmo.

Não que as denúncias sejam infundadas. As operações da Polícia Federal têm apanhado figuras dos três Poderes, envolvidas em práticas “imorais e ilegais”. Se não é toda a República que está podre, pode-se dizer que há muita podridão em muitas esferas do poder. A imprensa independente tem colocado nas manchetes essas operações. Por que não fez o mesmo com as denúncias de Caiado e Kassab? Por um motivo simples: fatos valem mais do que declarações. E a chapa do PSD mal passa dos 3% nas pesquisas.

Há, no entanto, uma explicação mais interessante do que a aritmética eleitoral. É uma espécie de lei das campanhas presidenciais: quanto menos pontos tem o candidato, mais contundente é seu programa. O corolário é igualmente confiável — quanto mais ele sobe nas pesquisas, mais prudente se torna.

Caiado e Kassab estão livres para dizer o que pensam precisamente porque ninguém espera que cheguem ao segundo turno. Nenhum dos dois, registre-se, foi apanhado em qualquer malfeito — mas talvez o eleitorado, cansado, esteja mesmo em busca de gente nova, e isso já baste para explicar o desinteresse.

Em circunstâncias normais, essa prudência crescente é até positiva. Melhor um moderado que um radical. Ocorre que o Brasil não vive um momento normal — e é aí que a lei das campanhas vira armadilha. Ignorar o mensageiro, desta vez, tem um custo: não invalida a mensagem. O Estado é disfuncional: gasta mais do que arrecada; gasta mal; é ineficiente na maior parte de suas políticas. E a velha política segue tomada por práticas imorais e ilegais.

Dito de outro modo: os dois, Caiado e Kassab, podem estar isolados nas pesquisas e, ainda assim, estar certos. Têm razão, inclusive nas propostas: reforma administrativa para eliminar privilégios e rever subsídios; corte de despesas correntes; mais investimentos públicos; e nada de aumento de impostos.

Eis onde estamos: o país precisa de reformas, especialmente na economia e, mais especialmente ainda, na Previdência. Mas não se vê no horizonte nenhuma liderança capaz e com vontade de comandá-las. Entre economistas independentes, circula o entendimento de que as reformas fiscais serão necessariamente feitas no ano que vem, impostas pela realidade.

Os dados são eloquentes. Há uma tendência de aumento do gasto público, que tem sido pago com elevação de impostos e dívida pública. E uma inflação que tem sido controlada com juros muito altos, asfixiando empresas e famílias. Se essa tendência não for invertida, o futuro não distante aponta para outro período de recessão com inflação — como visto na gestão de Dilma Rousseff.

Sim, é grave assim.

Nada disso aparece nas campanhas de Lula e Flávio Bolsonaro, os ponteiros nas pesquisas. O governo Lula aumentou os gastos todos os anos e acelerou neste momento eleitoral. Mais: o presidente não perde oportunidade de criticar quem sugere políticas de ajuste fiscal. Flávio é herdeiro de um governo Bolsonaro que também aumentou os gastos no ano eleitoral, além de ter cometido pecados ainda mais graves no período da pandemia e na tentativa de golpe. Além disso, a polarização impede a abertura de um debate consistente.

A criação do Real foi mais difícil. Mas havia FH para liderar a inédita e brilhante reforma monetária. O problema atual é mais simples do que liquidar a hiperinflação. Todo mundo sabe o que é um ajuste fiscal. Mas falta a liderança.

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MUDANÇAS NO CENÁRIO INDICAM PIB MAIS FORTE EM 2026

Sergio Lamucci, Valor Econômico

O quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da economia no ano que vem

Após um primeiro semestre atribulado, o cenário que se vislumbra hoje para a economia brasileira em 2026 tem algumas diferenças significativas em relação ao que se via há seis meses, o que deverá ter efeitos não desprezíveis sobre o quadro que se desenha para 2027. Neste ano, o PIB tende a crescer mais do que se imaginava no fim de 2025, avançando perto de 2%, a inflação será mais alta, atingindo um nível um pouco acima de 5%, e os juros deverão ficar perto de 14% ao ano - consideravelmente acima dos 12% a 12,5% projetados em dezembro do ano passado.

O impacto do conflito no Oriente Médio sobre os preços do petróleo pressionou as cotações de combustíveis e alimentos (neste caso, pelo efeito sobre fretes e fertilizantes), ao mesmo tempo em que os estímulos fiscais têm impulsionado a demanda, reduzindo o espaço para cortes da Selic, ainda que a taxa, em 14,25% ao ano, esteja nas alturas. As incertezas sobre as contas públicas, num ambiente de déficit nominal (incluindo gastos com juros) elevadíssimo e dívida pública crescente, contribuem para que os juros sigam altos.

Esse quadro de mais crescimento, mais inflação e mais juros neste ano terá consequências importantes para as projeções de desempenho da economia no ano que vem, ainda que obviamente elas tenham elevado grau de incerteza. Bancos e consultorias têm reduzido as estimativas de expansão do PIB para 2027, indicando que o ganhador das eleições presidenciais deste ano assumirá com uma atividade em ritmo mais lento. O Bradesco, por exemplo, revisou a previsão de avanço do PIB em 2027 de 2% para 1,5%, ao mesmo tempo em que elevou a deste ano de 1,8% para 2%. A consultoria 4intelligence, por sua vez, trabalha com um número ainda mais baixo para o ano que vem - cortou no mês passado a estimativa de 1,6% para 1,2%. Para 2026, a 4intelligence também trabalha com 2%, como o Bradesco.

O crescimento neste ano será mais forte do que se imaginava em boa parte devido aos estímulos à economia do governo num ano eleitoral. A 4intelligence observa que várias iniciativas têm efeito significativo” sobre a expansão do PIB em 2026, “como a ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda (IR), a liberação de recursos extraordinários do FGTS e a aceleração do investimento público, da União e dos governos subnacionais, com destaque para os Estados”, aponta a consultoria, em relatório. Como a política fiscal não deverá repetir “o substancial impulso que vem dando à atividade econômica neste ano eleitoral”, o PIB tende a sofrer uma desaceleração relevante em 2027, diz a 4intelligence.

Na revisão do cenário divulgada na semana passada, o Bradesco também ressalta o impacto dos “fortes estímulos que se contrapõem à política monetária” para explicar a avaliação de uma economia mais forte em 2026, que levou à revisão do crescimento de 1,8% para 2%. Com uma política fiscal expansionista, o Banco Central (BC) tem ainda mais dificuldades para reduzir os juros, algo já complicado num cenário de pressão dos combustíveis e dos preços de alimentos.

Com perspectivas mais favoráveis para o petróleo, após a diminuição das tensões entre EUA e Irã, o quadro inflacionário pode ser menos desfavorável do que se temia há algumas semanas, mas as previsões continuam a apontar um Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) entre 5% e 5,5% neste ano, distante da meta de 3% perseguida pelo BC. Além disso, um IPCA mais alto neste ano contamina o indicador do ano que vem, por meio da inércia, o fenômeno pelo qual a inflação passada alimenta a inflação futura. Em 2027, o IPCA deverá ficar acima de 4%, segundo as previsões dos economistas.

Os juros, nesse quadro, ficarão mais altos do que se estimava na virada do ano. O Bradesco ainda vê a Selic em 13,75% no fim de 2026, 0,5 ponto percentual abaixo do nível atual da taxa. A 4intelligence, porém, espera que os juros continuem em 14,25% até o fim deste ano. Com isso, “o espaço para expansão do crédito tende a permanecer limitado” no ano que vem, “em linha com a expectativa de condução mais conservadora da política monetária”, avalia a consultoria. É mais um dos motivos que justificam o crescimento mais fraco da economia em 2027, ainda que a 4intelligence tenha elevado a projeção de aumento da massa de renda de 2,7% para 3,5%, descontada a inflação, por causa da força do mercado de trabalho. O ponto é que, além do efeito dos juros altos sobre o crédito, “estará em curso um processo de desalavancagem financeira das famílias”, diz a consultoria, para quem, “diante de um nível de endividamento historicamente elevado, parcela relevante do aumento de renda será direcionada à amortização de dívidas, em detrimento do consumo”.

A desaceleração da atividade em 2027 deverá diminuir a pressão da demanda sobre os preços, o que pode ajudar a abrir espaço para um ciclo de queda um pouco mais intenso dos juros, à medida que o ano avance. No entanto, para que a Selic possa cair para níveis mais baixos, algo urgente num país em que muitas empresas e famílias estão endividadas e o setor público tem despesas financeiras pesadíssimas, será fundamental que o presidente eleito neste ano enfrente de fato o desequilíbrio das contas públicas, com um ajuste concentrado no lado das despesas. Se isso for feito, haverá uma redução dos estímulos do governo à economia e uma melhora da percepção de risco fiscal do país. Não é algo fácil do ponto de vista político, mas é essencial para que a Selic e os juros de longo prazo possam recuar mais e para o câmbio ficar valorizado, contribuindo para o controle da inflação.

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