terça-feira, 15 de setembro de 2026

A BATALHA DO SUPREMO E A EXAUSTÃO DO ELEITOR

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

A sessão desta terça não é a de um processo judicial mas de uma disputa política

Em uma semana, o grupo formado pelos ministros do Supremo Tribunal Federal, Gilmar Mendes, Flávio Dino, Cristiano Zanin e Alexandre de Moraes, transformou o clima de linchamento em praça pública deste último num ambiente em que também pairam suspeitas de partidarismo na atuação do ministro André Mendonça.

Vem daí a aposta de que agirão no limite para evitar que a sessão desta terça siga o rito anunciado: leitura do relatório do caso pelo presidente do STF, manifestação da Procuradoria-Geral da República, defesa de Moraes e a apresentação do primeiro voto, de Edson Fachin, que também é do relator. Este é o rito para uma corte judicial. O que se verá nesta terça é uma sessão política.

Ao acolher todos os pedidos de quebra de sigilo, Fachin tentou equilibrar sua decisão de deixar a investigação de Mendonça proposta por Moraes, para a sessão do dia 23, mas acabou franqueando prerrogativas que são suas.

Já esticou mais a corda do que pretendia, como na decisão de avocar a troca de mensagens entre Moraes e Daniel Vorcaro, mas o fez, na avaliação de Oscar Vilhena (FGV), um dos arregimentadores da carta de apoio a Fachin divulgada neste domingo, para proteger a integridade do tribunal.

Não há muita dúvida de que o presidente do STF se manifestará pela abertura da investigação. Conta, para isso, com manifestos tão amplos quanto aqueles que, em 2022, se opuseram ao golpismo.

Entre os signatários da carta deste domingo, estão presidentes de todas as centrais sindicais, da CUT à UGT, e um rol que vai de André Lara Resende a Marcos Mendes, de Cristina Pinotti a Luiz Felipe Alencastro, de Josué Gomes da Silva a Luis Stuhlberger. São pessoas que se colocariam em lados opostos em quase tudo, mas subscreveram uma carta pela apuração dos fatos e pela responsabilização dos que violaram a lei e a dignidade de seus cargos.

A despeito de tudo isso e dos 13 ex-ministros do STF que estarão perfilados na primeira fila da Corte, Fachin terá dificuldade de atravessar o mar de preliminares para chegar a seu voto. Na condição de investigado, Moraes teria que se afastar da Corte, desfalcando sua turma no confronto com a de Mendonça. As decisões tomadas por Dino no domingo e nesta segunda podem ser lidas como uma tentativa de mostrar que, se a turma de Moraes ficar desfalcada, a do outro lado agirá para dar vitória ao candidato do PL à Presidência e senador Flávio Bolsonaro.

Dino fez isso com a decisão que abriu o sigilo do “Dark Horse” e, principalmente, com a desta segunda que autorizou operação de busca e apreensão em imóveis do deputado federal, Cezinha de Madureira (PL-SP). A partir da quebra de sigilo da ex-assessora da Câmara, Mariângela Fialek, alvo de outra operação no âmbito das emendas parlamentares, mostrou como o deputado agia, supostamente a soldo, para influenciar decisões em tribunais superiores.

A decisão expõe a articulação de Cezinha para a visita do banqueiro Daniel Vorcaro ao instituto de Mendonça, em São Paulo, já reconhecida pelo ministro, e a aposta do deputado e de Fialek de que a pressão sobre o ministro Kassio Nunes resultaria em votos favoráveis aos seus clientes. Da busca e apreensão nos imóveis do deputado poderão chegar a um outro caso, o do Master.

Há relatos de que o deputado chegou a despachar, em São Paulo, no escritório de Daniel Bialski, um dos mis recentes advogados de Daniel Vorcaro. Bialski é advogado da Assembleia de Deus e de um de seus principais pastores, Samuel Ferreira, se diz amigo do deputado, mas nega que tenha cedido o escritório a Cezinha.

A quebra de sigilo já autorizada e ainda em curso, dos pagamentos efetuados por Vorcaro, concretizará a transformação do Master de caso criminal em comissão da verdade, dada a amplitude de personagens, da política e do Judiciário, a serem atingidos. O imperativo eleitoral faria prevalecer o esclarecimento sobre o que aconteceu e quem esteve envolvido, em detrimento da possibilidade de se processarem punições de um caso tão amplo.

A distopia escancarada pela disputa política em curso no STF é que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva tem buscado se distanciar de Moraes (“Quem quiser ficar rico não pode ir para o STF”) e tem adotado um discurso mais agressivo contra Flávio Bolsonaro associando-o mais diretamente ao Master. Lula queria transformar esta campanha num plebiscito sobre seu governo, mas foi convencido de que não tinha alternativa. A Quaest desta segunda, porém, mostrou que não tem se beneficiado nem de uma nem de outra investida.

A despeito disso, petistas que estão na linha de frente da eleição, como a ex-prefeita de Contagem (MG) e candidata que lidera a disputa ao Senado em seu Estado, Marilia Campos (PT), não vê alternativa. Os programas e obras do governo foram, paulatinamente, sendo apropriadas pela oposição. E, assim, a associação de Lula com feitos de seu governo, diz, já esbarrou no teto.

A crítica mais pesada a Flávio também tem um limite porque o eleitor bolsonarista, na avaliação de quem está todo dia na rua pedindo voto, não acredita na honestidade do senador do PL mas desgosta da conciliação do petismo com corruptos. Daí porque não restaria alternativa a Lula senão se afastar de Moraes. A dúvida é sobre o impacto, sobre um eleitor já exausto pelo endividamento, de uma sucessão de decisões confusas e conflituosas deste caso.

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SUPREMO DIRÁ, SE O BRASIL TEM, OU NÃO, UM TRIBUNAL DE CONFIANÇA

Dora Kramer, Folha de S. Paulo

Acusações, postergações e acordos de ocasião não devolvem ao STF a reputação derretida

A pior escolha será os ministros se esconderem sob o frágil biombo de proteção à democracia

De gente com larga experiência adquirida na vida, e autoridade conferida pela lei maior, espera-se que enxergue com clareza o que se passa à sua volta, avalie as circunstâncias e daí tome a melhor decisão. Requisitos básicos à função do julgador.

Não é o que se vê prevalecer nas atitudes de ministros do Supremo Tribunal Federal ativos nos embates internos e passivos ante o imperativo de recuperação da credibilidade da corte. Descontada a hipótese de surto coletivo de carência de percepção, a indiferença ao ponto central da crise só pode ser proposital.

Ocorre que fugir do problema com acusações, cobranças, sessões secretas e postergações diversas não devolve ao STF a reputação derretida. A primeira e imediata resposta a ser dada pelo colegiado ao público é se o Brasil tem uma corte suprema digna de confiança.

A sugestão de adiamento, por ora rechaçada pelo presidente Edson Fachin, sinaliza que haverá solicitação de vista na sessão marcada para esta terça-feira (15) para examinar indicativos, apurados pela Polícia Federal, de relações impróprias entre o ministro Alexandre de Moraes e o fraudador master Daniel Vorcaro.

Tudo pode acontecer nessa reunião. O melhor será o colegiado mostrar-se arguto à demanda do bom senso e seguir o caminho da investigação rigorosa e transparente.

O pior será a repetição do ocorrido no exame da conduta de Dias Toffoli como relator do caso Master, quando a escolha foi atuar em prol do "Supremo futebol clube", nas palavras do ministro Flávio Dino.

As escaramuças patrocinadas pelo ativismo político-judicial não aconselham expectativas otimistas. Ao contrário, indicam preferência pela vereda tortuosa dos obstáculos processuais em detrimento da estrada reta do esclarecimento dos fatos —saída em tese mais simples.

Tal solução se complica quando se enreda nos interesses de autoproclamadas divindades refratárias ao exercício da impessoalidade e do desprendimento, deixando o tribunal ao sabor das tormentas que por ali vicejam.
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O JULGAMENTO DE XANDÃO

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Catimba da bancada gilmarmendista e guerra dos rabos-presos querem afogar o Supremo

Pesca probatória, empilhamento de terabytes, blitz de suspeições e blindagem a serviço de que nada seja julgado

A bancada gilmarmendista catimba. Quer transformar em “Julgamento de Xandão”, como se sessão derradeira de processo penal, o que seria deliberação sobre se Alexandre de Moraes deve ser investigado. Catimba-se porque Moraes não pode ser investigado – o que significaria sabermos o que respondeu a Vorcaro, o que compartilhou com ele. Não pode. Então: blitz e blindagem.

Cada um a seu modo, Gilmar Mendes, Cristiano Zanin, Flávio Dino e o próprio Moraes (que Xandão talvez já tivesse mandado afastar) investem no afogamento do Supremo – o propósito da batalha de petições por meio das quais sucessivamente exigem informações tão volumosas quanto estranhas ao objeto definido por Edson Fachin para o julgamento: se os dados disponíveis sobre as relações entre Moraes e Vorcaro, a todos os integrantes do tribunal formalmente entregues, seriam suficientes para que o ministro fosse investigado. São suficientes? Você sabe a resposta.

(Para que não se chegue à pergunta, chamarão a tese de Gonet sobre a nulidade do relatório da PF em que é citado – saudoso da “máquina” Vorcaro, saudoso talvez do clube do uísque vorcárico em Londres.)

Moraes deve ser investigado? A bancada gilmarmendista trabalha para que nem sequer se chegue a essa arguição; para que o Plenário não debata as mensagens em que Vorcaro, à antevéspera de ser preso, discutia conteúdo judicial sigiloso – a própria ordem de prisão, talvez – com ministro do STF, a quem consultava sobre se deveria fugir do país. (Vigente então o contrato – a R$ 3 milhões líquidos por mês – entre Master e o escritório de advocacia da mulher do juiz. “O careca não pode atrasar”.)

De petição em petição, sob o texto oportunista de que se junte tudo sobre o caso Master ao processo, a bancada empilha terabytes para que nada seja investigado. Pedem milhares e milhares de documentos, que nada têm a ver com a matéria a ser julgada, para depois algum pedir vista. Muita coisa para examinar e pouco tempo... Vista!

Para que nada seja investigado, estão agora mesmo fazendo pesca probatória no celular de Vorcaro, em busca de subsídios para constranger-intimidar inimigos no tribunal. A guerra dos rabos-presos. Quantas arguições de suspeição teremos?

Chicanas à parte, os ministros do STF todos já têm as provas de que André Mendonça dispunha quando remeteu a Fachin o material sobre as relações entre Moraes e Vorcaro – e é com fundamento nelas que o caso precisa ser julgado. Não se trata de apreciação final de ação penal sobre ministro do Supremo. Bem antes, trata-se de avaliar se se abrirá investigação sobre ministro do Supremo – algo para o que, assim é para os mortais, bastaria um conjunto de indícios capaz de formar juízo de mera possibilidade.

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PT ERRA COM EVANGÉLICOS PELA TERCEIRA ELEIÇÃO CONSECUTIVA

Juliano Spyer, Folha de S. Paulo

Escolha de Janja como porta-voz expõe a falta de afinidade do partido com o segmento  

Quaest apresentou Flávio Bolsonaro pela primeira vez à frente. Se Lula for derrotado em outubro, uma parte da responsabilidade será do PT, que, pela terceira vez, terá perdido a oportunidade de dialogar com os 26,9% de evangélicos brasileiros.

Nada mudou no desempenho do PT desde a derrota de Fernando Haddad em 2018. A pesquisa BTG/Nexus, divulgada em 8 de setembro, aponta que Flávio Bolsonaro abriu 18 pontos sobre Lula entre evangélicos no primeiro turno. Em um eventual segundo turno, Flávio marca 58%, e o presidente, 31%.

Quais foram os pecados do partido em relação a evangélicos? A direção não tem afinidade nem simpatia pelo segmento e permite que ele seja tratado de maneira amadora. Não existe um nome no partido com poder de decisão para ser cobrado por seu desempenho.

O PT tem o Setorial Inter-religioso e o Núcleo de Evangélico do PT (Nept) como interfaces para dialogar com esse grupo. O trabalho dos dois é discreto e sem ousadia. Neste momento, eles distribuem santinhos eletrônicos, que são imagens com mensagens como "Sou evangélico e voto em Lula" e "Fé não tem partido".

Há também a Frente Evangélicos pelo Estado de Direito, um coletivo de pastores e teólogos progressistas com acesso ao presidente e à primeira-dama. Representam igrejas pequenas e são mais influentes no Rio de Janeiro. Por esses motivos, sua mensagem não chega ao crente comum espalhado pelo país.

O nome mais conhecido e de confiança do presidente para lidar com evangélicos é um católico. Ex-chefe da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto de Carvalho já trabalhou para representar Lula e costurar diálogos institucionais do governo com grandes pastores e suas denominações.

O maior exemplo do amadorismo do PT para lidar com o segmento é a atuação da primeira-dama, Janja da Silva, como porta-voz informal da campanha para dialogar com mulheres evangélicas.

Janja é feminista —um termo rejeitado em igrejas, inclusive por mulheres— e se apresenta como representante das religiosidades de matriz afro, o grupo politicamente mais distante do movimento evangélico.

Apesar disso, Janja aparece cantando um jingle de inspiração gospel desde o lançamento da campanha, em agosto. E, na semana passada, pegou carona no debate sobre o ministro André Mendonça para chamar Lula de "verdadeiro ungido de Deus".

É um vocabulário que ela não domina, e o gesto soa oportunista e eleitoreiro. Essas aparições públicas, falando como se fosse crente, dão origem a material negativo espalhado pela candidatura adversária.

Na semana passada, o Datafolha registrou que a crise no STF não muda o voto da maioria dos eleitores. A menos que surja algo muito grave, teremos Flávio e Lula no segundo turno, com eleitores evangélicos escolhendo o vencedor.

O que resta ao PT é esperar que haja alguma denúncia que exponha seu adversário no quesito moral. É a única coisa que, a esta altura do campeonato, desestimularia evangélicos a votar nele nesta eleição.

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ALÉM DE BETS, BRASILEIROS ELEGEM CANETAS EMAGRECEDORAS

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Uso das seringas supera o negacionismo que prejudica a cobertura vacinal no país

Medicamentos revolucionários para obesidade viram objeto de desejo e alvo do crime organizado

Esqueça o futebol, os candidatos ao Planalto e os ministros do STF. O que entusiasma os brasileiros são as canetas emagrecedoras e as apostas eletrônicas.

O curioso é que as canetas são canetas apenas no nome. Na verdade são seringas preenchidas com medicamentos injetáveis. O uso delas, no entanto, consegue superar o medo, a desconfiança e o preconceito que envolve injeções e agulhas e o negacionismo que, promovido de maneira criminosa pelo governo Bolsonaro no período da pandemia, ainda prejudica a cobertura vacinal no país.

Vendidos sob diversos nomes comerciais, as drogas semaglutida, liraglutida, dulaglutida e tirzepatida são uma revolução no tratamento da obesidade e do diabetes tipo 2. Retardam o esvaziamento do estômago e prolongam a sensação de saciedade por horas, tirando a vontade de beliscar. Estudos clínicos apontam sua alta eficácia, com reduções médias de 15% e 20% do peso corporal e, em alguns casos, de até 30%, nível associado ao da cirurgia bariátrica.

Um dos segmentos mais expressivos da indústria farmacêutica —entre maio de 2025 e maio de 2026 movimentou R$ 13,3 bilhões—, elas vendem como pão quente. O medicamento não é barato. Uma caixa de Mounjaro (com quatro canetas para um mês de tratamento) custa em média R$ 1.400. Com a aprovação pela Anvisa de cinco novas canetas à base de semaglutida após a queda da patente da molécula e a incorporação de dois genéricos de liraglutida no mercado brasileiro, os preços devem cair, mas não no curto prazo.

Enquanto isso, o crime organizado fatura em cima do objeto de desejo da população. Aumentaram as operações da Polícia Federal para combater a produção de canetas emagrecedoras em farmácias clandestinas. Até estudantes de medicina servem de mulas, cooptados para fazer contrabando na fronteira com o Paraguai. Os produtos sem registro na Anvisa são promovidos por influenciadores, atrizes, cantores e ex-BBBs. O esquema é semelhante ao utilizado pelas bets.

Quem compra as canetas fajutas não tem medo de virar jacaré.

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TERÇA, 15 / 9

Artigo de Fernando Gabeira

Os problemas do STF não se esgotam no comportamento de Moraes, mas demandam reforma profunda na instituição

Hoje não passa de um dia perdido no tempo. Mas pode se tornar uma data histórica, um 15 do 9 nos arquivos nacionais. Tudo depende do que acontecer no Supremo Tribunal Federal (STF).

A hipótese inicial é iniciar uma investigação a respeito das ligações do ministro Alexandre de Moraes com o Banco Master. O material já é conhecido, passa por um contrato de R$ 130 milhões entre Vorcaro e a família Moraes e mais de 50 mensagens trocadas pelo banqueiro com o ministro às vésperas da prisão.

Outros ministros, como Dias Tofolli, também estão envolvidos. Mas o pedido de investigação é específico sobre Moraes. E há outro sobre André Mendonça.

Podemos esperar muita confusão, troca de acusações, manobras dispersivas, dessas que eletrizam a imprensa, mas não levam a lugar algum. Se acontecer alguma coisa hoje, será apenas um começo. Os problemas do STF não se esgotam no comportamento de Moraes, mas demandam uma reforma profunda na instituição.

Pelo menos dois problemas precisam ser resolvidos. Um deles é a politização exacerbada da Corte. Os candidatos, em caso de vitória, já contam com a possibilidade de indicar quatro amigos fiéis nos próximos quatro anos e, com isso, asseguram a hegemonia sobre a Corte, matando a demora aos poucos. O que esperamos deles é uma discussão séria sobre o mecanismo de indicação de ministros.

O outro problema da Corte, bem diagnosticado por um jornal alemão, é a cobiça. É o desejo de ampliar a economia pessoal por meio dos ganhos familiares, que, legalmente, podem advogar junto ao STF. Entram nesse pacote as viagens internacionais patrocinadas por empresas milionárias com interesses em processos em julgamento.

A Constituição define as condições de escolha de um ministro. Nem sempre foram levadas em conta por um Senado relapso. Se tudo se encerrar apenas com uma investigação sobre Moraes, o serviço estará incompleto.

Quando surgiram as denúncias, cheguei a defender o fim do Supremo tal como existe hoje. Para variar, apanhei, e houve gente que defendia até a prisão para uma proposta tão audaciosa.

Mas a denúncia foi esquecida e, felizmente, também se esqueceram de mim. Com a nova revelação das mensagens, aconteceu o que meu amigo Marinho Calestino chamava “a volta do retorno”.

De novo, se deram conta da gravidade do problema. Mesmo Tofolli, que andava meio escondido, voltou à cena, pois a polícia desconfia de que guarda R$ 34 milhões nas Ilhas Virgens, fruto de uma negociação com Vorcaro. Quando a PF fez um relatório sobre Tofolli, o documento foi classificado como lixo pelos ministros. Apenas tiraram a relatoria do caso Master das mãos dele, que continuam livres para sentenças estapafúrdias em benefício de grandes empresas.

Hoje, portanto, é um dia em que podemos começar a limpar tudo o que varremos para debaixo do tapete. A opinião pública nacional foi despertada. A repercussão nos jornais estrangeiros também não é nada favorável à imagem do Brasil.

Aparentemente, estamos diante de um processo irreversível. Não subestimo a capacidade nacional de empurrar com a barriga. Mas os ventos internacionais soprando para a extrema direita nos convidam a cuidar da nossa democracia, antes que seja tarde demais.

Artigo publicado no jornal O Globo em 15 / 09 / 2026

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VAMOS ACABAR COM AS TOGAS

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Vestes talares foram concebidas para indicar impessoalidade e imparcialidade da Justiça

Na percepção popular, porém, esses trajes hoje passam a ideia de diferenciação e hierarquia

Para uma época que prefere travar batalhas simbólicas a resolver problemas substantivos, minha sugestão no que diz respeito à crise no STF é simples: vamos eliminar as togas. No Brasil, o uso de vestes talares, em sua versão plena ou simplificada, por magistrados é uma exigência legal, aplicada em geral a partir da segunda instância e nos tribunais do júri.

A semiologia é bonita. Usar roupas até o calcanhar (é isso que "talar" significa aqui) serviria para esconder o corpo do juiz, apagando-lhe qualquer traço de individualidade e revestindo-o assim do manto da impessoalidade e da imparcialidade. A prática teria tido início na Idade Média e persistido até nossos dias.

Nem meus pendores iconoclastas fazem com que eu deixe de apreciar essa bela história, mas receio que a coisa tenha envelhecido mal. Creio que, na percepção popular corrente, a toga funcione muito mais como um elemento de diferenciação do que de nivelamento. Um incômodo adicional para nossos tempos multiculturais é que o uso de vestes compridas para encobrir formas individuais é mesma lógica por trás das burcas que interpretamos como quintessência do atraso e da opressão.

Voltando aos juízes, creio que as togas e pelerines também produzem um efeito psicológico adverso. Usar um traje exclusivo e fazer-se chamar de "vossa excelência" acaba por convencê-los de que são mesmo mais excelentes que o resto dos cidadãos, o que é uma traição ao princípio republicano de que todos são iguais diante da lei. Numa daquelas inversões irônicas da história, a simbologia da toga se tornou o avesso do que originalmente significava. Vários países, notadamente os mais igualitários, como os nórdicos, já tiraram as vestes talares do dia a dia da Justiça.

Não acho obviamente que a eliminação das togas resolverá a crise no STF, mas, diante do impasse que se arma, essa desponta como uma das poucas reformas com chance de aprovação. Ainda que só no plano das batalhas simbólicas, nos daria o consolo de dizer que modernizamos a Justiça.

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A IA NOS MATARÁ ?

Pedro Doria, O Globo

Bill Gates afirmou que os modelos em desenvolvimento já cruzaram inúmeros limiares de risco

No último dia 26, agosto já terminando, Bill Gates publicou em seu site pessoal um longo ensaio a respeito de inteligência artificial. Afirmou que os modelos em desenvolvimento já cruzaram inúmeros limiares de risco. Já são capazes de desenvolver bioarmamento, quebrar cibersegurança, manipular psicologicamente pessoas, destruir empregos. Ainda assim, não temos qualquer conversa organizada sobre como gerenciar quaisquer riscos. Pois Gates publicou o ensaio, passou o dia na TV dando entrevistas. E aí nada aconteceu. No dia 11 agora, sexta-feira passada, foi a vez de Yoshua Bengio se manifestar num ensaio. Ele é um dos três padrinhos da IA. Pediu que o ritmo de atualização fosse mais lento. Que as empresas desacelerassem. No sábado, veio Dario Amodei com seu ensaio. O CEO da Anthropic e criador do Claude diz que há risco existencial para a humanidade. Quando chegou domingo agora, se manifestaram concordando com Gates, Bengio e Amodei tanto Sam Altman, da OpenAI (GPT), quanto Elon Musk, da x/AI (Grok).

Quando os homens que mais ganharam com uma tecnologia até aqui dizem que o cenário está perigoso, no mínimo deveríamos prestar atenção. Se a mensagem é que a inteligência artificial, no ritmo que é desenvolvida, impõe riscos que podem levar ao extermínio da humanidade, talvez esse seja o tema mais relevante em debate no momento.

É claro que passa em branco por aqui. Hoje o Supremo Tribunal Federal mergulhará numa sessão histórica. Pela primeira vez, um ministro pode vir a ser investigado com autorização da Corte. A briga tem impacto imenso na eleição. Mas, enquanto o Brasil discute seu futuro imediato, também escolhe ausentar-se de um debate com impacto imensamente maior.

O alerta de Gates, Amodei, Altman e Musk não é unânime. No início de agosto, Mark Zuckerberg, da Meta, disse que a ameaça da IA vem de monopólios. Não da tecnologia. Na Casa Branca de Donald Trump, o alerta foi encarado com ceticismo. David Sacks, ex-czar de IA do governo, foi além. Diz que se trata de um estratagema das empresas para suspender as regras antitruste e criar um cartel. Hoje, empresas de um mesmo setor não podem se juntar para decidir como rumarão, juntas, na direção do futuro. Sua tese não é absurda.

Arvind Narayanan e Sayash Kapoor, da Universidade de Princeton, vão além. Argumentam que IAs vêm sendo descritas como entidades quase vivas, capazes de autonomia e vontade própria. Mas a autonomia, dizem, é concedida. IAs não são como vírus cibernéticos, e nós, humanos, não somos deuses que criamos uma espécie. O que criamos foi uma tecnologia imensamente capaz de repetir padrões que lhe são ensinados. Ela é capaz de refazer aquilo que é replicável. Faz o que aprendeu a fazer. Não é capaz de criar do zero. Acelera nosso trabalho de inventar, não inventa ela própria. Para eles, o risco está na ausência de regulação técnica. É preciso garantir legalmente que a tecnologia seja implementada com controles, e a sociedade é que deve ditar estes controles. Não as empresas.

Há outra tese circulando. O problema do setor não é a ameaça de extinção da humanidade. É outro: treinar modelos de ponta é muito, muito caro. O valor está na casa dos US$ 700 milhões —e subindo. Mas, muito em virtude da aceleração da própria tecnologia, treinar um modelo de uma ou duas gerações atrás sai por até US$ 10 milhões. A diferença é absurda. Quem disputa a fronteira da tecnologia paga mais de dez vezes o que os concorrentes logo atrás custeiam. Em essência, o que se cria por quase US$ 1 bilhão hoje vira commodity em menos de um ano.

Se empresas como OpenAI e Anthropic pararem agora, os chineses as alcançarão em seis meses e, depois, as ultrapassarão. Não podem parar. E bateram no limite da capacidade de financiar o desenvolvimento constante da tecnologia. Estar na frente não compensa como negócio. E, como são empresas de capital fechado, se acaso quebrarem, o impacto será sentido por um número pequeno de investidores. O que precisam é de uma história boa para contar, que justifique desacelerar até que abram o capital. Tanto uma como a outra pretendem entrar na Bolsa nos próximos meses.

Mas eles é que estão criando a mais estupenda tecnologia que já vimos. E se estiverem certos?

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FLÁVIO GANHA VANTAGEM, MAS PESQUISA INDICA ELEIÇÃO ABERTA

César Felício, Valor Econômico

Simulação de segundo turno é ponto de partida, e não de chegada

Aumentou a chance do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) vencer as eleições presidenciais deste ano. A pesquisa Quaest divulgada na segunda-feira (14) mostrou diversos vetores indicam para o cenário de sua vitória. O mesmo levantamento, contudo, indica que a rejeição a seu nome não cede, o que faz com que a eleição ainda esteja em aberto.

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) permaneceu no patamar de 36% na simulação de primeiro turno, com crescimento de Flávio de 29% para 31%. Em julho, esta diferença era de 40% a 28%. Na simulação de segundo turno entre os dois, Lula recuou pela quinta vez consecutiva, pontuando em 40%, ante 42% de Flávio.

De acordo com a Quaest, considerando a margem de erro, Lula pode não ganhar absolutamente nada entre um turno e outro e Flávio ficar com cerca de dois terços da soma dos adversários, que atingem 16%. Considerando o noticiário que impera no Brasil desde que uma onda de vazamentos seletivos lançou suspeitas de tráfico de influência sobre o filho do presidente, o empresário Fábio Luís Lula da Silva, conhecido como “Lulinha”, a ascensão da corrupção como grande preocupação nacional está sendo letal para Lula, que já vinha com uma avaliação de governo claudicante desde o fim das eleições municipais de 2024. A corrupção é citada como chaga por 22% dos pesquisados no levantamento da Quaest. Estava em 14% há um mês.

A condição de Flávio Bolsonaro como formalmente investigado no caso Master, tornada pública na sexta-feira (11), é notícia recente para impregnar a pesquisa de agora e está meio perdida em meio ao tumulto que convulsiona o Supremo Tribunal Federal (STF), onde o ministro Alexandre Moraes também é suspeito de manter relação com o ex-banqueiro Daniel Vorcaro.

O desprestígio do Supremo — 56% dos pesquisados não confiam no STF — agrava a situação de Lula, dado que Moraes foi o protagonista da condenação do ex-presidente Jair Bolsonaro, e ser filho de Jair é a única credencial de Flávio para a disputa.

O que reveste o senador de favoritismo é o fato de aparentemente ter cauterizado o impacto do caso Master depois que o ministro André Mendonça, relator de investigações no Supremo, mudou a pauta do país e paralisou a discussão eleitoral. Flávio retorna às mesmas posições do tabuleiro em abril, antes de vir à tona o áudio em que pede dinheiro para Vorcaro. Em abril, a diferença entre os dois na simulação de primeiro turno na Quaest também era de cinco pontos percentuais. Lula tinha 37% e Flávio 32%, os adversários somavam 15%. No segundo turno, igualdade com o escore atual.

O principal dado a favor de Flávio é a avaliação do governo Lula, que não sobe, contrariando uma regra com candidaturas de incumbentes, que sempre veem a aprovação aumentar à medida em que a campanha eleitoral avança. Na fotografia de abril, o governo Lula era aprovado por 43%. Cinco meses depois, continua em 43%. A desaprovação teve uma leve oscilação de 52% para 50%. Se a fotografia é ruim para Lula, o filme é pior. De março a julho, na fase pré-escândalo como eixo narrativo do país, a aprovação vinha melhorando, e chegou a ser maior que a desaprovação: 48% a 47%. De julho pra cá, fase pós-escândalo, restabeleceu-se o cenário de abril.

Há um marco zero desta reversão que tende a levar à derrota de Lula. O momento inaugural foi no dia 1 de agosto, quando se tornou público que o então secretário particular do presidente, Marco Aurélio Santana, conhecido como Marcola, prestou favores à lobista Roberta Luchsinger depois de aceitar repasses financeiros.

Neste momento é possível dizer que Flávio já pode se preocupar em definir o rito da posse e escalar o ministério? Não. Um dos quadros da Quaest indica que a eleição ainda não está definida. A rejeição a Flávio Bolsonaro não recua: está em 55%, três pontos percentuais acima do que tinha em abril. E o seu potencial de voto, ou seja, o índice daqueles que admitem a possibilidade de votar no candidato, cresce lentamente, se situando no momento em 43%, com 2% de desconhecimento. Em abril, no seu melhor momento nas pesquisas, tinha 39%, com 9% de desconhecimento. Já no caso de Lula a rejeição é idêntica a de Flávio, no mesmo percentual de abril, mas o potencial de voto é de 45%.

Flávio não conta mais com a mesma blindagem no Supremo, dado que as circunstâncias obrigaram André Mendonça a revelar que, no sigilo, sem que nada vazasse, ele vinha sendo investigado.

Muito destaque se dá ao resultado da simulação de segundo turno, mas ele está marcado para 25 de outubro, e não para o dia 4. O cruzamento da simulação atual com a de potencial de voto indica que, faltando um mês e meio para a rodada decisiva, Flávio está no teto de sua potencialidade máxima, ou muito próximo disso, e Lula abaixo desse limiar. O erro de igualar em importância o resultado de segundo turno e o de primeiro turno em uma pesquisa é ignorar que há 21 dias entre uma baliza e a outra. A simulação de segundo turno é ponto de partida, e não de chegada.

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A 20 DIAS DA ELEIÇÃO

Eliane Cantanhêde, O Estado de S. Paulo

STF e inversão nas pesquisas se somam numa pergunta: qual seria o Brasil de Flávio?

A sessão do Supremo hoje, sobre abrir ou não investigação sobre Alexandre de Moraes, ocorre quando Flávio Bolsonaro, apesar do empate técnico, passa a frente numericamente do presidente Lula e assume a dianteira na eleição presidencial. Logo, o dia 14 de setembro de 2026 pode se transformar no marco de uma reviravolta histórica.

Somadas as duas hipóteses, de vitória de Flávio e de derrota da justiça e da realidade na decisão do Supremo, o Brasil pode dar uma cambalhota atordoante em 2027, anulando os movimentos pró-democracia, liderado pelo STF, e pró-soberania, capitaneado por Lula, para cair numa incógnita.

Como seria, ou será, um governo do filho 01 de Jair Bolsonaro, classificado como o “mais moderado da família” pelos aliados e “o pior dos Bolsonaro” pela campanha de Lula? Como Flávio, a exemplo dos demais candidatos, não discutiu programas e não se comprometeu com quase nada, é caso para suposições.

Pelo pai, madrastas, irmãos e histórico político, pode-se imaginar que Flávio vá dobrar a aposta bolsonarista na área de costumes, ampliar a desenvoltura do Congresso no manejo das emendas, partir para cima do Supremo e conceder indulto, não apenas para o próprio pai, mas para os generais, financiadores e pausmandados da trama golpista.

Até aqui, o STF estava em alta, comemorado como o salvador da Pátria, e os golpistas estavam em baixa, atrás das grades ou fugitivos no exterior. A partir de agora, tudo isso pode se inverter. Vai depender de Flávio, sim, mas também do próprio Supremo.

A questão hoje não é se Moraes encarna a candidatura de Lula, e André Mendonça, a de Flávio, mas se a decisão – caso não haja pedido de vista – é a favor do STF e da Justiça, ou corporativista e em causa própria. “E se eu for o Xandão amanhã?” Esse medo tende a favorecer o crescimento de Flávio.

Já era previsto, mas o fato de Flávio ultrapassar Lula numericamente no segundo turno é mais importante do que um dado em si, ou do que dois pontos porcentuais a mais. É que o cruzamento das curvas ocorre a apenas três semanas da eleição.

Eleição é “onda” e Flávio entra na reta final como “novidade” e com os ventos a favor de atrair os eleitores independentes, indecisos, que não aguentam mais tantas notícias ruins.

Como já dito aqui, não é Flávio quem avança, é Lula quem o empurra para redutos eleitorais de vida ou morte: Sudeste, mulheres, católicos, baixa renda... Com consequências não só na eleição, mas no futuro do País.

A primeira medida de Flávio, se subir a rampa, será abrir portas, riquezas e autonomia do Brasil para Donald Trump. As bandeiras dos EUA e de Israel nos seus comícios não deixam dúvidas.

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segunda-feira, 14 de setembro de 2026

CRISE NO STF MUDA ESTRATÉGIA ELEITORAL DE LULA E FLÁVIO

Joelmir Tavares, Valor Econômico

Líderes das pesquisas ajustam discursos e incorporam propostas para o futuro do tribunal, enquanto tentam conter desgastes do caso Master

Com a escalada da crise no Supremo Tribunal Federal (STF), o futuro da Corte ganhou centralidade nos discursos dos líderes da corrida presidencial e passou a ser usado como estratégia eleitoral pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e pelo senador Flávio Bolsonaro (PL), ao mesmo tempo que buscam se desvencilhar dos impactos negativos do escândalo do Banco Master para as respectivas campanhas.

Flávio, que é investigado em inquérito sobre repasses do ex-banqueiro Daniel Vorcaro para o financiamento do filme “Dark Horse”, repete a acusação de perseguição e tenta explorar a indignação de parcelas do eleitorado apresentando-se como quem poderá mudar a composição do tribunal. Na quinta-feira, classificou como “terceira facada” a decisão do ministro Flávio Dino de levantar sigilos sobre as investigações que envolvem a produtora Karina Gama, do filme “Dark Horse”. Na sexta-feira, quando se tornou público que ele era formalmente investigado no inquérito sobre responsabilidade de Mendonça, procurou demonstrar tranquilidade. “Para mim a melhor coisa que pode acontecer é a transparência total sobre esse assunto, porque vão só confirmar o que eu sempre falei”, disse, em visita a Manaus. No sábado (12), não comentou o tema. No domingo (13), cancelou toda a sua agenda pública, prevista em Presidente Prudente (SP), alegando mau tempo.

Lula, que tenta rebater a associação feita pelos adversários entre seu governo e Moraes, incorporou às suas propostas a reforma do Judiciário, com a defesa de mandatos para novos integrantes do Supremo. Na sexta-feira, em entrevista ao SBT, foi enfático ao demarcar distância em relação aos ministros da Corte. “Se o Alexandre de Moraes é culpado, ele tem que pagar. Se o Mendonça é culpado, ele tem que pagar. Se o Fachin é culpado, ele tem que pagar”, afirmou. No sábado, em agenda em Curitiba, foi além: “ninguém pode ser ministro da Suprema Corte para ficar rico”, disse.

Pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (11) mostrou Lula com 39% dos votos no primeiro turno e Flávio com 35%, com variações dentro da margem, de erro de dois pontos percentuais, em relação à pesquisa da semana anterior (Lula, 38%, e Flávio, 33%). No segundo turno, o presidente teria 46% e o senador, 44%, mesmos percentuais da rodada anterior, em empate técnico.

Segundo a pesquisa, 76% dos entrevistados pensam que “ministros do STF têm poder demais” e 71% acham que “o STF é essencial para proteger a democracia”. Para 85% dos eleitores, as acusações contra Moraes não mudaram a decisão de voto para presidente, enquanto o pedido de investigação contra André Mendonça não afetou a escolha eleitoral de 86%.

Os ajustes de rota mobilizaram os bastidores das campanhas nos últimos dias e, segundo estrategistas de ambos os lados, têm sido definidos de acordo com os desdobramentos da crise a cada dia, já que o controle do assunto está nas mãos do STF. Para analistas, o debate se tornou incontornável às vésperas da eleição e evidencia a contaminação da Corte pela polarização, com prejuízos institucionais.

A transformação do STF em arma eleitoral de Flávio ficou exposta em seu discurso na manifestação de 7 de Setembro na avenida Paulista, com a promessa do senador de, caso eleito, indicar cinco ministros para o STF de perfil conservador. O cálculo do candidato inclui as três vagas previstas com aposentadorias, mais a cadeira que está vazia desde a saída do ministro Luís Roberto Barroso e a vaga aberta com eventual impeachment de Moraes, bandeira dos bolsonaristas.

Ajustes de rota mobilizaram os bastidores das campanhas nos últimos dias

Na avaliação de auxiliares, Flávio pode atrair eleitores independentes se conseguir transmitir a capacidade de modificar a composição do Supremo. Além disso, a pauta tem potencial de aglutinar a base conservadora, em razão do histórico de confronto da família Bolsonaro com o STF e a queixa de perseguição à direita.

A necessidade de reação à crise levou a campanha do PT a fazer acenos a eleitores insatisfeitos com o STF, defendendo o aprofundamento das investigações que envolvem ministros e propondo medidas como código de ética para o Judiciário e o Ministério Público, além do fim dos supersalários. Lula também se disse favorável à discussão sobre mandatos com duração limitada para ministros do Supremo, afirmando que “ninguém pode ficar 40 anos no mesmo cargo”. Ele defendeu, ainda, rever a atuação no Supremo de escritórios de advocacia ligados aos magistrados.

O presidente nacional do PT, Edinho Silva, admitiu que a conjuntura da eleição “mudou totalmente” com a escalada da crise, mas ainda há discussões sobre como conciliar os aspectos institucionais da Presidência com uma resposta às cobranças do eleitorado diante das suspeitas e conflitos trazidos à tona no STF. O PT tem apostado na vinculação de Flávio a Vorcaro para tentar ampliar a rejeição do adversário e ligá-lo à questão da corrupção. Em resolução, os petistas apoiaram a reforma do Judiciário e disseram que ninguém está acima da lei.

O pelotão dos candidatos menos cotados tentou de alguma forma capitalizar o episódio. O terceiro colocado nas pesquisas, Augusto Cury (Avante), publicou em suas redes a frase “não vota em quem está na agenda do Vorcaro”. De alta depois de uma internação por pneumonia em São Paulo, Ronaldo Caiado (PSD) fez uma constatação: “O processo do Supremo sobrepôs o processo eleitoral. Ninguém está discutindo eleição.”

A consolidação do STF como pauta dos candidatos ilustra o que a cientista política Graziella Testa classificou, em entrevista ao Valor, como “instrumentalização” dos Poderes. Para ela, que é professora da Universidade Federal do Paraná (UFPR), a situação foi acentuada após o 8 de Janeiro, que reforçou o antagonismo entre dois lados e impactou a forma como o STF é percebido.

Testa avaliou como nociva a visão do STF como “ator político-partidário”, por comprometer a confiança no sistema democrático. “A ideia de que ser contra ou ser a favor do Supremo é estar encaixado numa ideologia específica é prejudicial para a democracia e para os debates representativos”, observou. Sobre o protagonismo do STF na campanha eleitoral, a professora foi cética a respeito de um debate aprofundado de mudanças no Judiciário, acreditando que a dinâmica do ambiente eleitoral favorece uma “personalização” do conflito.

Segundo Sergio Denicoli, CEO da AP Exata, os monitoramentos de redes sociais feitos pela empresa mostram que o STF “tomou a dianteira”, mas já vinha aparecendo entre os temas que mobilizariam a agenda da eleição, por motivos como a “politização” de inquéritos em andamento na Corte. O cientista de dados disse que ainda é preciso medir os impactos para Lula e Flávio, mas o momento é agudo para as campanhas, com variações mínimas podendo ser decisivas e uma disputa pelos votos dos moderados.

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AO EXPOR SUSPEITA SOBRE O PCC, DINO DESAFIA MENDONÇA E EXPÕE FLÁVIO BOLSONARO

Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico

Ministro diz que segue métodos de Mendonça e expõe suspeitas sem comprovação 

Se a tragédia que abate o Supremo Tribunal Federal – e o país – neste caso Master se transformasse numa história em quadrinhos, a cena produzida na manhã deste domingo (13) com a decisão do ministro Flávio Dino o reproduziria, em frente ao ministro André Mendonça e uma simples frase escrita num balão: “Vai encarar?”. As armas em seus coldres não têm a mesma munição.'

O desafio está escancarado numa decisão que não se limita a reproduzir, com ironia, trechos do despacho do relator do Master com  diálogos entre o ministro Alexandre de Moraes e o banqueiro Daniel Vorcaro em que são mencionados artigos da Constituição em defesa da transparência. Dino os reproduz em profusão, a começar pelo inciso LX do artigo 5: “A lei só poderá restringir a publicidade dos atos processuais quando a defesa da intimidade ou o interesse social o exigirem”.

Em sua provocação, Dino inclui o presidente do Supremo Tribunal Federal ao mencionar despachos do ministro Edson Fachin tornados públicos em investigações que ainda estão em fase de instauração. Ao fazê-lo, diz Dino, o presidente da Corte executa diretriz emanada do ministro André Mendonça. Por isso, conclui haver uma “viragem jurisprudencial em curso à qual devo me adaptar, em homenagem ao princípio da colegialidade”.

Dino, porém, vai muito além de uma ode à ironia. Expõe, com uma clareza cristalina como a dos Lençóis Maranhenses, o que está em curso na transformação de um processo criminal numa comissão da verdade. Se é para abrir o sigilo de Moraes, que a perda de confidencialidade valha para todos, inclusive para aqueles que são candidatos e seus potenciais vínculos com o crime organizado.

Numa canetada, o ministro expôs ao escrutínio público as evidências do que parece ser uma grande lavanderia internacional que envolveu Karina Gama, sócia tanto da produtora do filme quanto da empresa investigada por suspeita de contrato fraudulento de wifi na periferia de São Paulo, o deputado Mario Frias (PL-SP), produtor do filme e autor das emendas parlamentares que lhe repassaram verbas, Antonio Carlos Freixo, intermediador das remessas aos EUA, Daniel Vorcaro, financiador da lavagem, e o senador e candidato a presidente pelo PL, Flávio Bolsonaro, negociador dos recursos desta operação.

Nos arquivos abertos por Dino, o personagem investigado por prestar serviços tanto a este esquema do ‘Dark Horse’ quanto ao PCC é Alex Leandro Bispo dos Santos. O empresário, que havia sido preso em dezembro do ano passado por suspeita de feminicídio, foi solto em agosto e teve novo mandado de prisão expedido quatro dias depois. Hoje está foragido.   Karina Gama terceirizou para algumas empresas, entre as quais a de Santos, Favela Conectada, o serviço de wifi na periferia durante a gestão Ricardo Nunes, num contrato de R$ 12 milhões. No contrato, o empresário é identificado apenas por “Alex”.

A prefeitura informa que a responsabilidade de sua contratação é de Karina Gama e esta, que no momento da contratação, não havia óbices contra a Favela Conectada. O que ainda está por ser provado são os atuais vínculos desta empresa com o PCC. Antes de ser preso pela suspeita de feminicídio, Santos cumpriu pena por outros delitos em  presídios onde estão detidos integrantes da cúpula do PCC. Decisão de Dino de 3 de setembro atribui a “órgãos de inteligência da polícia”, citados na imprensa, a informação de que Santos seria integrante da facção.  O que foi divulgado, até aqui, não permite quantificar dinheiro do PCC no filme ou identificar filiação à facção dos integrantes do circuito.

A outra frente de vínculos com o crime organizado investigada são as operações entre a empresa de Freixo (Entre Investimentos), que teve sua delação homologada por Mendonça, o fundo Gold Style (administrado pela Reag), o BK Bank, a Aster Petroleo, e a ACX ITC, que tiveram o fio de suas relações com o PCC puxado pela operação Carbono Oculto, conduzida pelo MP-SP, a Polícia Federal e as polícias civil e militar de São Paulo. A hipótese de lavagem de dinheiro ainda carece do liame entre todas essas camadas.

Dino já decidiu favoravelmente ao pedido da PF para que as investigações saiam da Polícia Civil e fiquem sob sua responsabilidade, por envolver investigados com foro privilegiado e suspeita de transações internacionais de lavagem de dinheiro. Com a PF no comando das operações, a expectativa é de que o vínculo com o PCC da teia que transferiu, aos EUA, os recursos dados por Vorcaro ao Dark Horse a pedido de Flávio Bolsonaro, seja provado. Até o momento, não está.

Para complicar um pouco mais, Michael Davis, sócio americano da Go Up, produtora do filme, disse que não entregará documentos de sua empresa à Polícia Federal sem ordem expressa da Justiça americana. Sem esses documentos, a investigação sobre os repasses para o fundo Havengate, administrado pelo advogado do ex-deputado Eduardo Bolsonaro, foragido nos EUA, pode vir a ficar prejudicada.

A PF teria que recorrer ao Departamento de Recuperação de Ativos e Cooperação Jurídica Internacional, que integra o Ministério da Justiça, para fazer valer o cumprimento de sua solicitação em território americano. Teoricamente, o vínculo com o crime organizado, poderia facilitar a cooperação, uma vez que esta é uma das prioridades da segurança nacional do governo Donald Trump. Na prática, as injunções políticas decorrentes dos vínculos entre bolsonaristas e a Casa Branca podem impor um desfecho lento e descompassado da urgência do calendário eleitoral.

E esta é a chave da decisão de Dino, ou, para ficar na cena de HQ, é isso que está por trás da provocação a Mendonça que perpassa a decisão. Ao abrir os diálogos entre Moraes e Vorcaro, o relator do Master teria respaldado sua decisão de tornar públicas as suspeitas sobre os vínculos de uma operação desencadeada pelo pedido de recursos de um candidato a presidente da República ao banqueiro do maior escândalo financeiro da história. Ainda que nada fique provado, a suspeita terá um carimbo judicial grave a ser explorado à exaustão.

Há quem aposte na repetição do Fiat Elba que derrubou Fernando Collor de Mello. Para isso, teria que haver a comprovação de que Flávio Bolsonaro se beneficiou de uma operação de lavagem de dinheiro comandada pelo PCC. Em 1992, os esquemas de corrupção do empresário Paulo Cesar Farias no governo Collor já estavam comprovados mas não se provavam benefícios dele auferidos pelo ex-presidente. Até que apareceu o cheque que comprou carro. Naquele caso, tudo só seria comprovado três anos depois da eleição de Collor.

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MULHERES TÊM DE MARCAR POSIÇÃO NA ELEIÇÃO

Ana Paula Araújo, O Globo

Um voto parece pouco, mas é o que nos cabe dentro de uma construção coletiva. E é um direito conquistado com muita luta

‘Eu não deixava!’ Essa era a senha para atiçar qualquer conflito na escola. Quando alguém estava quase levando um desaforo para casa em nome de evitar confronto, vinha a frase que reanimava a briga. E afinal, como diria o gênio Marcelo Yuka, paz sem voz é medo. Às vezes também é desleixo, tédio, desinteresse. Nenhum desses sentimentos deveria prevalecer quando se trata do que impacta nossa vida.

Um pouco depois dessa fase escolar mais selvagem, já era universitária quando boa parte dos brasileiros votou pela primeira vez para presidente, em 1989. Estudante da Universidade Federal de Juiz de Fora e engajada, fui a comícios, tive meus primeiros embates políticos e cheguei a panfletar santinho de candidato. Acredite, as pessoas paravam para me ouvir e trocar ideias. Eu tinha 17 anos.

Na eleição seguinte, como estagiária de uma rádio, percorria seções eleitorais para checar a contagem dos votos. Memória distante para quem já havia nascido, o voto em cédula de papel era contado manualmente. Eu perambulava ao lado de colegas jornalistas por um ginásio enorme, com cercadinhos onde as urnas eram abertas na presença de representantes dos partidos, e anotava os números que os mesários totalizavam em voz alta. A imprensa corria para fazer uma contabilidade paralela e antecipar alguns resultados, no que hoje me parece quase insalubre. De lá pra cá, sigo mediando debates, entrevistando candidatos, reportando as campanhas e os dias de votação. Nunca me desliguei de nenhuma eleição porque exercer a democracia foi além do meu papel de cidadã, virou também parte do meu ofício. Mas como é para quem não tem essa obrigação profissional? Às vésperas de mais uma, quis checar como está o ânimo das mulheres com a eleição.

Pedi ao Instituto Quaest um recorte das pesquisas sobre as eleitoras da minha geração, com 50 anos ou mais. Aparecemos bem divididas entre muito interessadas, pouco interessadas ou sem nenhum interesse no pleito que se aproxima. Setenta e seis por cento já têm uma decisão definitiva sobre em quem votarão. E fizeram sua escolha baseadas principalmente nas propostas dos candidatos. É uma fatia do eleitorado que se mostra pouco influenciável pela opinião de amigos, familiares ou pelos apoios de políticos e de famosos. Compartilhamos com a população em geral a preocupação número um dos brasileiros com a segurança. Logo em seguida, para nós, aparece a saúde. Na comparação com o eleitorado masculino e com os mais jovens, é um grupo que demonstra maior apoio à tributação dos ricos e menor aprovação à privatização de serviços de saúde e educação.

E no outro lado da equação, onde estão as mulheres? Um levantamento da cientista política Marcela Machado, da Universidade de Brasília, mostra que neste ano temos um total de 36% de candidaturas femininas. Já é uma minoria, e, quanto mais poder tem o cargo, menos mulheres aparecem na disputa. Na votação para governador, ocupamos mais de 40% das nomeações para vice e menos de 17% para o cargo titular. Também há mais mulheres concorrendo como suplente do que como senadora. O prédio do Senado tem uma galeria com fotos daquelas que já ocuparam uma cadeira durante toda a República. Não preenche nem uma parede inteira. Para as negras, a escada é ainda mais íngreme. Elas são 18% das candidaturas para deputada federal e apenas 8% entre quem tenta o Senado. Na composição atual do Congresso, dos 513 deputados, 88 são mulheres. No Senado, a bancada feminina ocupa 15 entre 81 cadeiras. Uma sub-representação para 52% do eleitorado.

No mês passado, estive em Brasília gravando uma série de reportagens que vai ao ar nesta semana no Bom Dia Brasil, da TV Globo. Conheci uma família com quatro gerações de eleitoras. A matriarca nasceu no ano em que o voto feminino se tornou um direito no país. Aos 94, já desobrigada por lei, faz questão de votar. Mesmo compartilhando o desânimo generalizado com o naipe dos nossos políticos, não abre mão de exercer sua cidadania. Um voto parece pouco, mas é o que nos cabe dentro de uma construção coletiva. E é um direito conquistado com muita luta. É a nossa voz. E aí, vai deixar?

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ELEIÇÃO VAI PARA A PRORROGAÇÃO

Preto Zezé, O Globo

Quem decide é quem ainda não vestiu a camisa de nenhum time: o eleitor cansado, desconfiado e ainda disponível

Rato de estádio como eu sabe que em jogo apertado ninguém comemora antes do apito final. Muita torcida já soltou foguete aos 44 do segundo tempo e voltou para casa calada. Pesquisa é placar de intervalo, não é taça. Na Quaest, Lula lidera o primeiro turno por 36% a 29% e empata o segundo em 41% a 41%. Os dois carregam uma rejeição enorme: 53% não votariam em Lula, 55% não votariam em Flávio. Flávio pode vencer, e Lula pode perder, mas nenhuma das duas frases é resultado consumado.

Eleitores de ambos fazem críticas parecidas sobre segurança, saúde, economia e corrupção, pagam pela mesma comida, enfrentam a mesma fila e conhecem alguém endividado. Sobre esses mesmos problemas, os dois lados oferecem instrumentos diferentes: proteção social, presença do Estado e salário, de um lado; autoridade, controle de gastos e liberdade econômica, do outro. Quando o diagnóstico é comum, a eleição muda de natureza. Deixa de ser sobre o que fazer e vira uma disputa sobre em quem confiar para fazer.

Lula sofre o desgaste de quem governa, mas não só. A crise do STF ajuda a direita a construir uma narrativa, porque credibilidade se perde por associação. Só que o buraco principal está mais perto da mesa que dos tribunais. Metade da população desaprova o trabalho do presidente, 49% dizem que a economia piorou, e 28% afirmam estar muito endividados. O indicador pode melhorar, mas a urna não pergunta pelo PIB. Pergunta, em silêncio, se o dinheiro chegou ao fim do mês.

Flávio precisa convencer quem rejeita Lula sem assustar quem também rejeita o bolsonarismo e mostrar que representa mudança sem significar uma nova temporada de conflito permanente. Sua candidatura cresce quando transforma indignação em alternativa e encontra teto quando parece continuação da guerra do pai. Lula precisa fazer o caminho contrário: mostrar que ainda pode ser mudança estando no governo, falar de segurança sem mudar de assunto, reconhecer a frustração econômica sem apresentar planilha e defender as instituições sem parecer defensor dos privilégios de quem as ocupa.

Nas favelas, o recado chega sem filtro e já tem trilha sonora há 30 anos. Em 1994, Cidinho e Doca lançaram o “Rap da Felicidade” e resumiram tudo numa linha que o país inteiro sabe cantar: Eu só quero é ser feliz. O que vinha em seguida era o pedido de andar em paz no lugar onde se nasceu. O refrão saiu do baile, entrou no estádio, virou jingle de campanha e continua sem resposta. O desejo mais citado hoje é o mesmo da música: poder ir e vir com tranquilidade, antes de moradia, saúde, saneamento, educação e renda. A esquerda traduz isso como política pública; a direita como punição. Nenhuma das duas traduz como o que é: um direito básico que o Estado nunca garantiu naqueles territórios, sob nenhum governo.

A eleição vai para a prorrogação porque os dois lados têm torcida, camisa, hino e adversário marcado. Só que prorrogação não se ganha na arquibancada, se ganha com perna cansada e cabeça fria, e quem decide é quem ainda não vestiu camisa nenhuma: o eleitor cansado, desconfiado e ainda disponível, que não procura um salvador, procura algum controle sobre a própria vida. Comida que caiba no orçamento, segurança sem espetáculo, serviço público que funcione e um governo que não transforme todo dia numa nova guerra. A torcida organizada faz mais barulho, mas gol se faz dentro de campo. Ganha quem conseguir diminuir o medo antes de tentar aumentar a esperança.

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O PODER, A GLÓRIA E O DINHEIRO

Demétrio Magnoli, O Globo

Brasil tende a idolatrar a figura do juiz-redentor, como se viu antes, nos casos de Joaquim Barbosa e Sergio Moro

Em seu esforço para decifrar o capitalismo, Karl Marx imaginou que os indivíduos buscam, acima de tudo, o vil metal. Errou, como mostra a História: o que mais almejam é o poder e a glória. A trajetória de Alexandre de Moraes, que entra em seu outono, evidencia os riscos de atribuir prerrogativas excepcionais a um juiz e, também, de cercá-lo de louros excessivos.

Moraes fez carreira profissional como promotor e lançou-se à política como secretário estadual de Segurança Pública em São Paulo. Quando chegou ao STF, confundiu o papel de juiz com o de acusador — e, talvez por isso, foi escolhido arbitrariamente por seu colega Dias Toffoli para a relatoria de um inquérito de exceção.

Era março de 2019, início do quadriênio de turbulência do governo Bolsonaro. O inquérito das fake news, um anômalo ato de ofício do STF, foi inventado para punir uma revista que publicara reportagem associando Toffoli à delação de Marcelo Odebrecht. Seu ato inaugural foi uma ordem ilegal de censura à imprensa.

Ao longo de sete anos, o inquérito desdobrou-se em várias frentes, englobando desde manifestações retóricas e atos públicos de cunho golpista até meras opiniões políticas discutidas em redes sociais privadas. A emergência nacional provocada por um presidente engajado na destruição das instituições democráticas serviu como pano de fundo e justificativa legitimadora das iniciativas judiciais abusivas. Coletivamente, o STF referendou cada uma das decisões de Moraes, conferindo-lhe um poder similar, ou até maior, que o da Presidência da República.

A glória tende a acompanhar, como sombra, o poder exagerado. Num sinal de desconfiança nos representantes eleitos, o Brasil tende a idolatrar a figura do juiz-redentor, como se viu antes, nos casos de Joaquim Barbosa e Sergio Moro. A esfera lulopetista saltou da qualificação de “fascista”, aplicada a Moraes nos seus tempos de secretário de Alckmin, para a de herói nacional. Mais grave: jornalistas independentes, formadores de opinião pública, perfilaram-se no coro de louvação do juiz-promotor, justificando cada uma de suas exorbitâncias (inclusive as ordens de censura!) em nome da proteção da democracia.

A submissão voluntária a Moraes fabricou até uma narrativa enviesada da resistência ao golpe bolsonarista. Na prática, a trama golpista foi barrada pela maioria legalista do Alto-Comando das Forças Armadas. Contudo, na história conveniente difundida por tantos áulicos, atribuiu-se ao STF — e, especialmente, ao relator do inquérito de exceção — o malogro da conspirata cívico-militar. Tudo por Moraes era a ordem do dia, até outro dia. Nada aprendemos com as aventuras de Moro no pântano da lei da selva?

Marx não errou tanto assim: o dinheiro conta e, no caso de Moraes, acendeu o pavio do incêndio. A família do juiz, coligada por uma holding, enriqueceu em poucos anos, graças ao contrato fabuloso firmado pelo escritório de advocacia com o Master. Mensagens enviadas por Vorcaro ao juiz nas horas anteriores à prisão do escroque sugerem perigosa conivência. Diz-se que o poder em excesso corrompe excessivamente.

As arbitrariedades do inquérito passaram, num país que tende a ignorar abusos dos poderosos, mas a suspeita do pacto com o bandido implodiu o mito. O STF vendou seus próprios olhos, até a eclosão pública do escândalo. Fachin só resolveu agir quando um precipício abriu-se sob seus pés. Mesmo assim, uma ala dos ministros rejeita investigações, quase declarando explicitamente que a lei só vale para a plebe.

A história de poder, glória e dinheiro já terminou. Antes do posfácio que será escrito na sessão do STF de deliberação sobre investigações, deixa um rastro de ruínas. Os juízes supremos dividem-se em blocos antagônicos, alinhando-se às candidaturas de Lula ou Flávio e convertendo as leis em ferramentas de represálias mútuas. Para júbilo dos Bolsonaros, que tentam esculpir um novo herói na figura de André Mendonça, envenenou-se a credibilidade do julgamento do núcleo golpista e destruiu-se a autoridade moral da Corte suprema. O preço da delinquência dos juízes de capa preta recai sobre todos nós.

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O RISCO LULA 4.0 ?

Carlos Pereira, O Estado de S. Paulo

A alternância do poder preserva a independência das instituições de controle

Qual o principal risco institucional de um quarto mandato de Lula? Talvez não esteja nos poderes da Presidência, mas em algo menos visível: os efeitos de um período excepcionalmente longo sem alternância de poder sobre as instituições encarregadas de controlar o próprio Executivo.

O Supremo ilustra esse risco. Dos dez atuais ministros, seis foram indicados por governos petistas: Cármen Lúcia e Dias Toffoli por Lula; Luiz Fux e Edson Fachin por Dilma; Cristiano Zanin e Flávio Dino novamente por Lula. Além da vaga aberta com a saída de Luís Roberto Barroso, outros quatro ministros atingirão a aposentadoria compulsória no próximo mandato.

Isso significa que esses ministros, necessariamente, votarão de acordo com os interesses de quem os indicou? Evidentemente, não. O julgamento do mensalão é provavelmente o melhor contraexemplo. Ministros indicados por governos petistas impuseram custos judiciais elevados a figuras centrais do próprio PT. Nomeação não necessariamente implica subordinação.

O problema é outro. Uma fonte importante da independência dos órgãos de controle é a competição política. Quando diferentes forças se alternam no governo, nenhuma sabe quem ocupará a Presidência amanhã. Essa incerteza cria incentivos para preservar instituições suficientemente independentes para controlar tanto adversários quanto aliados. A alternância também diversifica quem escolhe seus integrantes, dificultando que uma única força política molde sua composição por longos períodos.

Em pesquisa recente com Marcus André Melo e Gabriel Negretto sobre 18 democracias latino-americanas entre 1978 e 2024, mostramos que presidentes fortes não produzem, por si sós, maior erosão democrática. O principal fator associado à resiliência é o legado de instituições que demonstraram capacidade de limitar o Executivo. Restrições que funcionaram no passado tornam-se mais críveis no presente. A rejeição pelo Senado da indicação de Jorge Messias mostra que esses freios continuam funcionando. Mas também revela por que competição e alternância importam.

O risco de Lula 4.0 é, portanto, diferente do risco de Bolsonaro 2.0. Não requer um presidente disposto a atacar, deliberadamente, as instituições. Pode resultar do efeito cumulativo de uma mesma força política permanecer tempo suficiente no poder para influenciar, por mecanismos perfeitamente constitucionais, a composição das instituições encarregadas de controlá-la. Alternância de poder não é apenas consequência da democracia. É também um dos mecanismos que ajudam a qualificá-la e a preservá-la.

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O RETROCESSO DEMOCRÁTICO QUE VEM DO PODER JUDICIAL

Marcus André Melo, Folha de S. Paulo

Crise do STF não é obra de uma maçã podre, mas de facções judiciais que transformaram prerrogativas processuais em instrumentos de proteção recíproca

De alvo do retrocesso democrático, o Judiciário converteu-se em agente da erosão institucional

Há algum tempo inverti o título da obra clássica de Alexander Bickel, "The Least Dangerous Branch", para advertir que o Supremo havia se tornado o poder mais perigoso da República. Em outras colunas, recorri à imagem das "facções judiciais" mob lawyers. O escândalo atual mostra que não eram apenas figuras de linguagem.

O problema do STF não se resume a uma maçã podre. Quando duas ou três maçãs estão comprometidas, elas formam maiorias em turmas e podem integrar maiorias no plenário. Como o tribunal é um órgão coletivo, desvios individuais passam a contaminar suas decisões institucionais.

No Brasil, a tarefa é hercúlea porque a maçã não está isolada. Formou-se um sistema de proteção recíproca que combina monocratismo, distribuição fortuita de relatorias, decisões sobre colegas, sigilos reiterados e capacidade de formar maiorias defensivas. No STF, alianças defensivas não impediram a reiterada prática de autoblindagem individual quando alguma suspeita recai sobre membros da corte. Pelo contrário, a autoblindagem se dá de forma aberta pela manutenção de relatorias de processos nos quais o próprio relator está citado.

Assim, combinam-se estratégias individuais e "faccionais". Toffoli manteve a relatoria mesmo depois de virem a público suas conexões com o universo do Master. A crise levou à sua saída e ao sorteio de novo relator. A resposta, contudo, não demorou: na sequência, uma decisão monocrática de Gilmar Mendes anulou a quebra dos sigilos bancário e fiscal do Fundo Arleen, aprovada pela CPI do Crime Organizado. Ligado à Reag, o fundo havia adquirido participação no resort da família Toffoli.

A proteção conta ainda com pontos de veto externos. O principal é o presidente do Senado, que pode impedir qualquer acusação contra ministros de avançar. O bloqueio parlamentar não é exercido num vácuo: lideranças legislativas também aparecem cercadas por denúncias e interesses no escândalo do Master. A CPI sobre o banco foi obstruída por vetos no Congresso, mas também por decisões do próprio Supremo.

Suprema ironia: não houve instalação de CPI em um dos maiores escândalos de corrupção da história da república. A separação de Poderes deu lugar a uma rede de sobrevivência compartilhada. Uma espécie de omertà institucional?

A literatura sobre retrocesso democrático foca cortes que se tornam a longa manus do Executivo. O Brasil revela uma modalidade distinta, também presente na Europa do leste: a degradação endógena, por práticas informais e/ou não republicanas, como analisado por Sipulova e Kosar em artigo no German Law Journal.

A erosão não chega ao Judiciário de fora para dentro. Nasce dentro dele.

Esse equilíbrio perverso, contudo, parece ter sido rompido. A janela de oportunidade aqui resultou da concentração aparentemente fortuita de relatorias decisivas em um outsider (Mendonça), não vinculado à facção defensiva, e um presidente (Fachin) cuja inação escalou a crise aberta. A reação desmedida da facção acabou expondo o próprio sistema de proteção. Proponho ao leitor um experimento contrafactual: o que teria ocorrido se o relator e o presidente da corte fossem outros ministros?

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VOTO ANTIRRACISTA TEM PODER DE DEFINIR A ELEIÇÃO E TRANSFORMAR O BRASIL

Ana Cristina Rosa, Folha de S. Paulo

Por que as desigualdades étnico-raciais não estão no centro do debate político?

Só os políticos que reconhecem o impacto do racismo nas vidas de milhões de cidadãos brasileiros deveriam merecer voto

A três semanas das eleições gerais —pleito para escolher presidente e vice-presidente da República, governador e vice-governador dos estados e do Distrito Federal, senadores e deputados federais, estaduais e distritais (TSE)— decidi compartilhar algumas indagações que me acompanham sobre o voto no Brasil.

Considerando que o papel dos políticos é representar os interesses dos cidadãos para garantir que as decisões levem em conta direitos e necessidades do povo:

Por que as desigualdades étnico-raciais (que constituem um dos principais entraves nacionais ao desenvolvimento e ao estabelecimento de uma sociedade mais justa, próspera e democrática) não estão no centro do debate político?

Por que nenhum candidato diz claramente que ações afirmativas em prol da equidade também favorecem pessoas brancas pobres?

Por que os partidos seguem dificultando o acesso das candidaturas negras, indígenas e quilombolas aos recursos (ao menos 30%) do Fundo Especial de Financiamento de Campanha e do Fundo Partidário previstos na Constituição?

Por que a sub-representação das mulheres é tão persistente diante do contingente majoritariamente feminino (52,8%) do eleitorado?

Por falar em mulheres, quem sabe responder de cabeça e de pronto os nomes das duas candidatas (uma é negra) que concorrem à Presidência da República?

Por que a eleição de candidatos pretos e pardos não é representativa e proporcional à demografia num país majoritariamente negro como o nosso?

Já imaginou como seria se o eleitorado negro (62,6%, segundo o TSE) decidisse votar maciçamente em candidatos pretos e pardos?

E se tivéssemos mais mulheres pretas e pardas no Congresso Nacional e nos Legislativos Estaduais?

Essas são algumas questões sobre as quais acredito que todo eleitor que se julga antirracista deveria refletir antes de votar. No país mais miscigenado do mundo (projeto DNA do Brasil), apenas políticos que reconhecem o impacto do racismo nas vidas de milhões de cidadãos brasileiros deveriam merecer voto.

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BABANDO NA GRAVATA

Ruy Castro, Folha de S. Paulo

Além dos cochilos em reuniões e das pernas inchadas, Trump pode estar ficando gagá

O problema é se o trumpismo depende dele para existir, assim como o bolsonarismo

Fotos de Donald Trump o mostram com hematomas nas mãos, pernas inchadas e dificuldade de ficar acordado em cerimônias. Alguns veem nisso sinais de decrepitude. A Casa Branca desmente. Segundo ela, as manchas são provocadas pelos apertos de mão que Trump tem de cumprir —mas, como elas aparecem também em sua mão esquerda, será porque, às vezes, ele cumprimenta canhotos? As pernas inchadas se deveriam às horas que passa sentado com outros líderes —mas estes cumprem a mesma rotina em seus países e não aparentam o problema. Quanto a cochilar nas cerimônias, por que não se Trump mal escuta o que dizem nelas?

A internet tem centenas de artigos discutindo, além das mazelas físicas, a decrepitude mental de Trump. Não são só as palavras trocadas, ideias repetidas e contradições flagrantes, mas também os delírios bélicos (quantas vezes já não anunciou a destruição do Irã?), espasmos hidrófobos (ao mandar repórteres calar a boca) e coices em aliados (Canadá, Japão, Coreia do Sul, Alemanha, França, o próprio Reino Unido e, claro, o Brasil).

Trump está vendo sua popularidade derreter pela guerra sem sentido em que meteu os EUA e da qual não consegue sair. As elites que subjugou no grito —política, econômica, jurídica, universitária e até jornalística— começam a reagir. E tudo indica que ele levará uma surra nas eleições de novembro, que devolverão aos democratas o comando do Congresso. Além de babar na gravata, como diria Nelson Rodrigues, pode se tornar um pato manco antes ainda do esperado.

Mas a pergunta é se o trumpismo precisará de Trump para continuar existindo. Todo o aparato autoritário que impôs no lugar das agências e das instituições que asfixiou ou fechou continuará existindo com J.D. Vance ou Marco Rubio, se eles o sucederem.

O autoritarismo como antessala do fascismo não depende mais dos titulares, como Trump, nos EUA, ou Jair Bolsonaro, no Brasil. Aprendeu a se erigir em sistema, de forma a sobreviver com os reservas, como Rubio ou Vance, ou fetos, como Flávio Bolsonaro.

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