domingo, 13 de setembro de 2026

TERREMOTO NO SUPREMO

Míriam Leitão, O Globo

A crise no STF está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível

Soterrado por muitos gigabytes de informação, o Brasil tenta entender o que está acontecendo enquanto caminha para as urnas, dentro de três semanas, numa eleição diferente de todas as outras. Não há programas, não há ideias, nada. O debate incandescente é o Supremo Tribunal Federal. A crise está longe do fim, mas o ministro Luiz Edson Fachin deu corajosos passos na direção certa, a da mais ampla transparência possível.

A corrupção de Daniel Vorcaro espalhou-se, e atingiu mais fortemente alguns atores. O ministro Alexandre de Moraes está cercado por uma montanha de dúvidas e a maior delas é sobre o seu futuro na Corte. A previsão é ele assumir a presidência do STF daqui a um ano. O ministro André Mendonça é acusado de selecionar politicamente alvos de investigação, poupando outros, e continuar fazendo isso até na quebra de sigilo.

O contrato do escritório da mulher do ministro Alexandre de Moraes com Daniel Vorcaro tem dupla personalidade. Diz que o motivo é implantar um sistema de integridade, o que em si seria curioso num banco que já estava se envolvendo em tantas falcatruas. Pode-se argumentar que no começo de 2024 não eram conhecidas as fraudes do Master. Mas por que uma assessoria para implantação de compliance deve incluir “consultoria estratégica” junto ao Banco Central, Polícia Federal, Polícias Civis, Receita Federal e “processos judiciais em todas as instâncias do Poder Judiciário”?

Se era mesmo a implantação de sistema de conformidade, como o escritório nada percebeu dos muitos desconformes do banco? O texto fala até em “revisão do código de ética”. A amplitude do contrato e a lista dos órgãos junto aos quais o escritório prestaria serviços advocatícios eram uma porta aberta para conflitos de interesse, dada a posição ocupada por Alexandre de Moraes.

O candidato Flávio Bolsonaro está sendo investigado por lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção, organização criminosa. Os dados, no celular de Daniel Vorcaro, previam investimento de US$ 24 milhões, equivalente a R$ 134 milhões na época, supostamente no filme Dark Horse. As premissas de retorno eram hollywoodianas. Os custos inflados. O dinheiro navegava por caminhos tortuosos até desaguar numa caixa vazia. O Fundo Havengate não tinha fundos. Era do advogado de Eduardo Bolsonaro e ficou quatro anos inativo até receber os repasses. Flávio Bolsonaro era o aflito cobrador das parcelas. Teve papel central. O banqueiro doador tinha se capitalizado tirando dinheiro de servidores aposentados e arruinando um banco público. Nunca foi dinheiro privado.

A crise institucional começou a ser enfrentada com as decisões fortes de Edson Fachin, em ambiente dramático. Ainda está longe de arrefecer. A próxima semana promete ser eletrizante. Já houve guerra de liminares e disparo de notas entre gabinetes. Teremos agora o duelo em plenário dos ministros com as mesmas iniciais: Alexandre de Moraes e André Mendonça.

É importante voltar à primeira cena deste filme de terror e crime. O Banco Central impediu a compra do Master pelo BRB em 3 de setembro de 2025. O presidente Gabriel Galípolo enfrentou pressão do centrão, do governador Ibaneis Rocha, de políticos da oposição, do TCU. A fiscalização encontrou sinais de crime financeiro no Master e o BC denunciou à Polícia Federal. Encontrou indícios de corrupção interna e afastou os diretores Paulo Sérgio de Souza e Belline Santana.

Com as informações divulgadas revelam-se novos detalhes da corrupção dos dois. No bloco de notas do celular, Vorcaro registrava as informações. Foi informado até dos nomes dos delegados da Polícia Federal com quem o BC conversou. Há provas do que eles tiveram em troca. Recebiam desde 2019. Eles trabalhavam “de casa” e ganhavam viagens a Paris e Disney. Entre muitos outros mimos. Inexplicavelmente nunca foram presos. Permanecem apenas com tornozeleiras.

O governo do Distrito Federal não resolveu ainda o rombo do BRB. Quer jogar em colo alheio. A governadora Celina Leão tenta usar o ministro Luiz Fux para empurrar o custo do saneamento do banco para o Tesouro. Fux deu prazo ao Ministério da Fazenda para se explicar. O governo federal já avisou que não vai pagar a conta do saque ao BRB, que foi permitido pelo governo do Distrito Federal.

Bookmark and Share

DEZ ESCORPIÕES NUMA GARRAFA

Elio Gaspari, O Globo

Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça

O Supremo atravessou ditaduras sem maiores crises e em 2026 meteu-se na maior encalacrada de sua história. Se pudessem ser isolados os atritos produzidos por choques de egos ou surtos de onipotência, sobraria muito pouco da crise. Não há um fiapo de política pública separando Alexandre de Moraes e André Mendonça. Moraes até hoje não explicou sua relação com o então banqueiro Daniel Vorcaro e Mendonça já chamou Jair Bolsonaro (que o indicou para o STF) de “profeta”.

Para se ter uma ideia do ritual monárquico que enfeita o cotidiano das excelências, os ministros são servidos por funcionários denominados “capinhas” que têm, entre outras funções, a de puxar a cadeira para que eles sentem ou levantem. (Um ministro explicou que esse serviço é necessário porque a toga enrosca nas rodinhas da cadeira. Vá lá.)

Indo-se ao histórico dos quatro personagens da crise — Dias Toffoli, Alexandre de Moraes, Flávio Dino e André Mendonça — vê-se que Toffoli e Moraes entraram no processo do banco Master preocupados em apagar as luzes da sala. Toffoli sabia que a turma do Master havia comprado parte do resort Tayayá Aquaparque. Destemido, aceitou a relatoria do caso, colocou-o sob sigilo e blindou-o. Deu no que deu.

Moraes sabia o tamanho do ervanário recebido do Master pelo escritório de sua mulher. Ainda assim, permitia que Vorcaro lhe pedisse conselhos. Novamente, deu no que deu.

Os ministros tinham motivos para suspeitar que seus desassombros custariam caro às suas biografias e tisnariam a imagem do tribunal. Nenhum deles precisava se expor. Expuseram-se porque julgaram-se invulneráveis. Enganaram-se e levaram seus colegas junto.

Cármen Lúcia cantou a pedra

Se os ministros do Supremo tivessem juízo, eles teriam ouvido a ministra Cármen Lúcia na sessão do dia 12 de fevereiro, quando ela disse:

“Todo taxista que eu pego fala mal do Supremo. A população está contra o Supremo”.

Não eram só os taxistas. Diante de revelações da Polícia Federal em torno da venda de parte do Tayayá, o STF deu-se ao ridículo. Solidarizou-se com Toffoli, condenou as revelações e, discretamente, sugeriu que deixasse a relatoria, o que ele fez. Em uma fala que deverá entrar para a história do Supremo, Dino disse do documento da ligação da Polícia Federal dos familiares de Toffoli com o resort Tayayá:

“Essas 200 páginas (de relatório da PF), para mim, são um lixo jurídico. Não adianta discutir esse lixo jurídico.”

As camas do Master

Foram expostas à exaustão as festas e farofas de Daniel Vorcaro. No meio desses agapes, degustavam-se uísques e charutos. Só?

Mensagens já conhecidas apontam para a existência de uma traficância de favores sexuais semelhante, em ponto menor ao do americano Jeffrey Epstein. Vorcaro era servido pelo promotor de eventos Diogo Batista, conhecido como “o conciérge dos VIPs”.

Em 2022, num passeio pela França, o banqueiro gastou R$ 11,2 milhões. Meses depois, o banqueiro patrocinou uma festa indígena na praia de Trancoso, enfeitada por convidadas estrangeiras, inclusive russas e ucranianas. No ano seguinte o Master foi um dos patrocinadores da equipe de Fórmula 1 da Aston Martin e da sua festa para 190 convidados e consumo de 180 garrafas de bebidas. Novamente, foram trazidas convidadas do Leste Europeu.

Em 2024, Vorcaro desentendeu-se com Diogo Batista e foi parcialmente substituído por Karolina Trainotti.

Vorcaro também foi assessorado por Stheve Lopes, sócio de Batista. As repórteres Joana Cunha e Julia Mouras mostraram que ele recrutava convidadas e submetia fotografias a Vorcaro que as avaliava nas categorias “wow”, “loirinha top” ou “+ -”.

Em junho de 2004, Lopes ajudou Vorcaro com eventos simultâneos à 12ª edição do Fórum Jurídico de Lisboa, conhecido como Gilmarpalooza. O roteiro que Vorcaro bancou em Portugal ficou em US$ 1,6 milhão.

Em agosto de 2025 Vorcaro e sua ex-noiva, Martha Graeff, trataram das festas, e ela reclamou que Vorcaro mantinha contato na rede social com mulheres que ela considerava “putas”.

“Fazia parte do meu ‘business’. Nunca te escondi o que fiz, e por que fiz. Fiz festa com 300 desse tipo”, respondeu o ex-banqueiro nas mensagens extraídas de seu celular pela PF.

Falta saber qual era o “business” dos convidados de Vorcaro.

Promessas amazônicas

Lula entra na reta final da campanha azucrinado por más notícias. Há algo de desigual nessa má sorte. Afinal, noves fora as traficâncias de alguns ministros do Supremo, que são encrencas pessoais, nada há no seu passivo que se compare ao ervanário que circulou em torno do filme “Dark horse”, uma biografia apologética de Jair Bolsonaro.

Habituada ao salto, sua equipe achou razoável criar quatro unidades de preservação ambiental no Amazonas.

Tudo bem, mas cadê a Autoridade Ambiental, prometida durante a campanha eleitoral? Em janeiro de 2023, a ministra Marina Silva, do Meio Ambiente, prometeu:

“Até março deste ano, será formalizada a criação da Autoridade Nacional de Segurança Climática, no âmbito do Ministério do Meio Ambiente, além da criação de um conselho sobre mudança do clima, a ser comandado pelo próprio presidente da República, e com a participação de todos os ministérios que estão agora nesta Esplanada, da sociedade civil, dos estados e municípios.”

Veio março e nada. Em setembro de 2024, em Manaus, Lula prometeu a criação da Autoridade Climática. Nada, nem explicação.

Mulheres no STF

Com o Supremo atolado na crise, importa registrar que em 218 anos de existência o Supremo Tribunal Federal só teve três mulheres: Ellen Gracie, nomeada em 2000 por Fernando Henrique Cardoso; Cármen Lúcia, nomeada por Lula 1.0; e Rosa Weber, nomeada por Dilma Rousseff.

Nenhuma das três envolveu-se em farofas ou episódios nebulosos.

El Presidente

Se um candidato a presidente latino-americano oferecesse US$ 5 mil a cada adulto caso seu partido vença a eleição, a promessa seria associada à irresponsabilidade fiscal dos latinos.

Pelo andar da carruagem, Trump poderá perder a maioria na Câmara. Até aí nada de novo, porque em geral os presidentes perdem as eleições do meio do mandato.

A novidade é a promessa.

Bookmark and Share

sábado, 12 de setembro de 2026

FLÁVIO BOLSONARO É UM CANDIDATO SOB SUSPEITA

Editorial O Estado de S.Paulo

Com autorização de André Mendonça, Flávio Bolsonaro é formalmente investigado pela PF por sua relação financeira com Daniel Vorcaro e segue devendo explicações convincentes ao País

O País acaba de tomar conhecimento de que Flávio Bolsonaro, candidato a presidente da República pelo PL, é oficialmente investigado pela Polícia Federal (PF) por sua associação com o banqueiro Daniel Vorcaro para o suposto financiamento do filme Dark Horse, cinebiografia do ex-presidente Jair Bolsonaro. A investigação, autorizada pelo ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) André Mendonça, apura se Flávio cometeu os crimes de corrupção, lavagem de dinheiro e evasão de divisas. Como se sabe, Flávio pediu de viva voz R$ 134 milhões a Vorcaro, tendo recebido mais de R$ 60 milhões, segundo a PF. O candidato, inclusive, esteve pessoalmente com o banqueiro vigarista no curto interstício em que ele esteve livre, condicionado ao uso de tornozeleira eletrônica, entre uma prisão e outra.

É gravíssimo o fato de um candidato favorito, de acordo com as pesquisas de intenção de voto, concorrer à Presidência da República na condição de investigado – e sob tão sérias suspeitas. Isso só reforça que Flávio Bolsonaro não reúne condições morais nem sequer para disputar cargos eletivos, quanto mais para ser chefe de Estado e de governo.

Ao que tudo indica, o financiamento do tal filme pode ter sido apenas um meio de obtenção de dinheiro sujo da rede de operações de Vorcaro para bancar uma série de gastos de figuras de proa do bolsonarismo – desde a produção do filme propriamente dita até o sustento da vida de playboy que o deputado cassado Eduardo Bolsonaro, irmão de Flávio, leva nos Estados Unidos. Um fundo de investimentos no Texas, cujo titular é um advogado amigo de Eduardo, recebeu dinheiro de sócios de Vorcaro para, supostamente, cobrir despesas da produção de Dark Horse, uma transação inusual no setor audiovisual. Ademais, há suspeita, ainda a ser investigada, de que parte dos milhões recebidos por Flávio de Vorcaro possa ter sido usada no financiamento de sua própria campanha eleitoral, o que caracterizaria “caixa dois”.

Louve-se aqui a iniciativa do presidente do STF, ministro Edson Fachin, de pedir a Mendonça, relator do caso Master na Corte, que levantasse o sigilo das investigações, pedido este atendido, ainda que parcialmente. Por mais graves que sejam as informações que ora vêm a público, é incerto se elas prejudicarão a candidatura presidencial de Flávio. Mas isso pouco importa. O eleitor tem o direito de ir às urnas sabendo exatamente de tudo o que pesa contra quem pretende governá-lo. A decisão de voto diz respeito apenas à sua consciência.

Diante dessa mixórdia entre interesse público e interesses privados, Flávio não só segue devendo explicações convincentes ao País, como chega a ser cínico ao insistir que tudo não teria passado de uma relação “privada”, envolvendo dinheiro “privado”. É uma dupla mentira. Em primeiro lugar, porque há fundadas suspeitas de que recursos de emendas ao Orçamento da União do deputado federal Mario Frias (PL-SP) tenham sido direcionados para o orçamento de Dark Horse, como revelou a Operação Make Up, deflagrada pela PF há poucos dias. Em segundo lugar, porque o dinheiro de Vorcaro não pode ser tratado naturalmente como recurso privado: trata-se de fruto da maior fraude financeira de que o País já teve notícia. O que Flávio trata como dinheiro “privado” é o prejuízo de milhões de correntistas, investidores, servidores públicos e aposentados, o maior rombo já coberto pelo Fundo Garantidor de Créditos.

Se Flávio Bolsonaro considera normal financiar uma hagiografia do pai – e sabe-se lá mais o quê – com recursos de origem tão gritantemente espúria, a fragilidade jurídica da defesa é o menor de seus problemas. Está-se diante, isso sim, de sua própria falência ética. Espera-se que um candidato à Presidência da República saiba distinguir entre o certo e o errado, o público e o privado, o lícito e o ilícito. Alguém que se perde entre essas noções elementares, evidentemente, não está qualificado para governar o Brasil.

Pode não parecer, mas caráter ainda importa. E ele se revela nas escolhas feitas por um candidato. Flávio fez as suas: chamou Vorcaro de “irmão” no áudio em que lhe pediu R$ 134 milhões e não teve pudor em ignorar a origem do dinheiro. Que os eleitores se perguntem que espécie de irmandade é essa – e o que ela diz sobre quem aspira à Presidência da República.

Bookmark and Share

POR QUE ELEITOR DEMOROU A SABER DE INVESTIGAÇÃO SOBRE FLÁVIO BOLSONARO ?

Flávia Oliveira, O Globo

Eleitorado só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois

Polícia Federal (PF) pediu e a Procuradoria-Geral da República (PGR) não se opôs à apuração de possíveis crimes de lavagem de dinheiro, evasão de divisas, corrupção passiva, entre outros, atribuídos ao senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ). O ministro André Mendonça, relator no Supremo Tribunal Federal (STF) do caso Banco Master/Daniel Vorcaro, autorizou a abertura de investigação em 22 de julho, três dias antes da convenção partidária que tornou o primogênito de Jair Bolsonaro candidato à Presidência. O eleitorado brasileiro, contudo, só tomou conhecimento de que o vice-líder nas pesquisas de intenção de voto no primeiro turno é investigado ontem, quase dois meses depois. Por quê?

Não fosse o enfrentamento entre Mendonça e o colega Alexandre de Moraes, relator da ação penal que condenou por golpe de Estado o ex-presidente da República, o país desconheceria uma variável relevante na disputa eleitoral de 2026. Em março passado, dois terços dos eleitores brasileiros disseram à Quaest que a maior fraude bancária da História seria levada em conta para decidir o voto. Quatro em dez evitariam votar em qualquer candidato envolvido no escândalo; 29% levariam os desdobramentos em consideração, além de outras pautas.

Seis meses atrás, as relações de Flávio não eram conhecidas. Tornaram-se públicas pelo jornalismo independente. O site The Intercept divulgou em 13 de maio o áudio em que o senador, eleito em 2018 com quase 4,5 milhões de votos, cobra do então banqueiro o dinheiro para financiar a cinebiografia do pai. Ao longo dos meses, muitos contatos, investigações e operações da PF enredando políticos ao Master vieram à tona. Ciro Nogueira (PP-PI), Jaques Wagner (PT-BA), ACM Neto (União-BA), Cláudio Castro (PL-RJ) são exemplos.

Há fundadas suspeitas contra os ministros Moraes e Dias Toffoli, do STF. Os nomes do diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e do procurador-geral da República, Paulo Gonet, estão sob escrutínio. Foi revelado que o filho mais velho do presidente da República, Fábio Luís Lula da Silva, é alvo de três inquéritos derivados do escândalo do INSS por suspeita de tráfico de influência no setor público. O Brasil soube de tudo isso. Só não fora informado, até ontem, que o presidenciável do PL é investigado.

A campanha eleitoral começou oficialmente em 16 de agosto. O primeiro debate, da Band, se deu na semana seguinte, quando também os candidatos foram sabatinados no Jornal Nacional. Desde o fim do mês passado, está no ar a propaganda eleitoral gratuita em rádio e TV. Flávio tem desviado das perguntas sobre a relação com Vorcaro, alegando acordo privado para o financiamento do filme “Dark horse”, como se fosse natural um senador da República pedir patrocínio a um banqueiro, como se fosse um produtor cultural a um mecenas.

A informação de que ele é alvo de inquérito não poderia ser ocultada da sociedade brasileira. Mas foi. É direito do eleitor ter todas as informações disponíveis sobre cada candidatura, seja para presidente, senador, deputado federal ou estadual. Sonegar procedimentos jurídico-policiais que afetam o voto também é forma de atacar a democracia.

Impressiona nesse caso é que saberíamos de nada, não fosse a pressão coletiva por quebra total do sigilo sobre o caso Master, em decorrência do enfrentamento entre Mendonça e Moraes. O Brasil precisou de uma crise que quase implodiu o STF para saber do procedimento investigatório contra Flávio. O momento sombrio no Judiciário produziu o efeito colateral positivo, quando o presidente da Corte, ministro Edson Fachin, determinou o fim do segredo, na noite de anteontem.

Ao longo da semana, Mendonça, ex-ministro da Justiça e ex-advogado-geral da União, indicado por Jair Bolsonaro ao STF por ser “terrivelmente evangélico”, homologou ao menos uma colaboração premiada igualmente relevante para o caso envolvendo a cinebiografia do ex-presidente e Vorcaro. O delator Antônio Carlos Freixo Júnior, alcunha Mineiro, confessou à PGR ser o homem da mala do ex-banqueiro. Em meia década, movimentou R$ 1,3 bilhão em dinheiro vivo, entregue em malas a destinatários determinados pelo Master, revelaram Andréia Sadi e Reynaldo Turollo Jr, na GloboNews e no portal g1. Foi Mineiro quem transferiu o suposto patrocínio ao filme “Dark horse” ao fundo americano ligado a Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro, o ex-deputado que, dos Estados Unidos, atua por sanções contra o Brasil para beneficiar o pai.

Completamente estarrecidos com o conjunto de mensagens de Vorcaro a Moraes, o acirramento da briga entre ministros, a letargia no STF e a seletividade na divulgação das investigações sobre o Master a cargo de Mendonça, setores da sociedade civil — a começar por um conjunto de 13 ministros aposentados do Supremo em carta — cobraram de Fachin transparência e celeridade no acesso às informações. O presidente do STF mostrou-se disposto a provar que a instituição é capaz de se reordenar. A dúvida é se os demais colegas estarão imbuídos do mesmo senso de responsabilidade.

Foi mais democracia, não menos, que permitiu ao Brasil saber da investigação contra o filho de Bolsonaro. Democracia é o lugar em que a sociedade se manifesta, reivindica, manda, e o poder recua, age, obedece. Autoritarismo é o ambiente em que o agente público está livre para interferir, dissimular, negar, transgredir, mentir, atacar. É como atua a extrema direita brasileira.

Bookmark and Share

O STF OLHOU PARA O ABISMO, O ABISMO AGORA OLHA PARA ELE

Thaís Oyama, O Globo

Se o inquérito das fake news se tornar público, virão à luz procedimentos mantidos há quase oito anos em sigilo

Ao emergir de sua meditação profunda, Edson Fachin tomou nesta semana uma série de medidas para suspender o bangue-bangue do STF — a última delas, a determinação para que André Mendonça levante integralmente o sigilo dos procedimentos do caso Master. As ações do presidente do Supremo se provaram tão tardias quanto vãs. Na quarta-feira, quando foram divulgadas, a Corte já parecia terra sem lei; e até ontem o tiroteio entre os ministros não dava mostra de arrefecer. Duas das providências anunciadas por Fachin, porém, ainda podem mudar os rumos do tribunal, caso sobrevivam à cortina de fumaça com que se pretende desviar o foco do que importa.

A primeira foi a retirada das mãos de Alexandre de Moraes do inquérito das fake news. O UOL revelou ontem que a teratologia jurídica criada por Dias Toffoli e conduzida por Moraes deu origem, ou serviu de base, a mais de cem procedimentos, a maioria sob sigilo. Fachin agora considera torná-los públicos. Se fizer isso, virão à luz procedimentos mantidos em segredo ao longo de quase oito anos. Também se conhecerá a extensão das heterodoxias processuais empregadas por Moraes para conduzir casos formalmente públicos, como o processo ainda em curso contra um advogado por uma malcriação proferida há oito anos contra Gilmar Mendes num aeroporto de Madri.

Será a oportunidade de o Supremo acertar as contas com um inquérito que nasceu para proteger ministros e seus familiares de investigações inconvenientes e cujos métodos foram tolerados por parte da sociedade e pela totalidade da Corte, sob o pretexto de defender a democracia. A depender de Fachin, o inquérito das fake news pode agora deixar a cena para entrar para a História como uma das páginas mais vergonhosas do STF.

A segunda providência capaz de corrigir os rumos da instituição foi a promessa de levar o Supremo a enfrentar a questão de fato premente, por sua gravidade e por ter sido a origem da presente crise: as gritantes suspeitas de prática de crime por um de seus integrantes, o ministro Alexandre de Moraes. Sem enfrentá-la, o Supremo não sairá do atoleiro. E a pesquisa Meio/Ideia divulgada na quarta-feira mostra quanto ele é profundo.

O levantamento apontou que quase metade dos brasileiros (49,7%) confia pouco ou nada no STF. A descrença atravessa praticamente na mesma proporção todos os segmentos demográficos: homens e mulheres, jovens e idosos, ricos e pobres, religiosos e sem religião. Não é uma desconfiança de nicho, mas descrédito generalizado.

Há notícia pior. Segundo o levantamento, 51,6% dos brasileiros concordam com a ideia de que os ministros do STF decidem “mais por interesse próprio do que pela lei”. Isso significa que, quando os dez integrantes da Corte chegam ao plenário com suas togas negras e seus semblantes graves, sob a liturgia vetusta da instituição, mais da metade dos brasileiros os enxerga não como guardiões da Constituição, mas como magistrados que atuam em causa própria.

A gravidade da situação está em a legitimidade do poder de julgar repousar justamente sobre a crença de que juízes atuam como terceiros imparciais: não integram o conflito, não têm interesse pessoal em seu desfecho e decidem segundo o Direito, ainda que contrariem maiorias. Uma Corte que consome sua reserva de legitimidade pode manter o poder de decidir, mas perde a autoridade.

No próximo dia 15, o plenário poderá seguir o que diz a lei: diante de indícios, investigue-se, diante de uma investigação, afaste-se o investigado, diante de uma acusação, dê-se a ele o direito de defesa. Ou pode optar por esconder suas chagas atrás de pedidos de vista e de uma sessão a portas fechadas. Nesse caso, confirmará a percepção pública de que, entre a lei e a autoproteção, escolhe sempre o abismo.

Bookmark and Share

O QUE FAZER COM A AfD ?

Hélio Schwartsman, Folha de S. Paulo

Estratégia de isolar partidos da direita radical pode estar com os dias contados

Forças democráticas precisam buscar meios de reduzir virulência dessas legendas

Até aqui, a estratégia dos partidos mainstream europeus de isolar a direita radical para impedir que ela chegue ao poder tem experimentado sucesso relativo. Exemplos desse mecanismo de "cordon sanitaire" incluem a eleição presidencial portuguesa de fevereiro, quando o ultradireitista André Ventura, do Chega, foi derrotado, e as duas vezes, 2017 e 2022, em que sua congênere francesa, Marine Le Pen, perdeu o segundo turno do pleito para Emmanuel Macron.

O "Brandmauer" (porta corta-fogo), que é a versão alemã do cordão sanitário, poderá funcionar agora e evitar que o partido extremista AfD (Alternativa para a Alemanha) comande o estado da Saxônia-Anhalt, apesar de ter obtido 44% dos votos e ter ficado a três cadeiras da maioria que lhe permitiria governar sem depender de ninguém.

O ponto é que essa estratégia não funcionará para sempre. Le Pen já figura como favorita para o pleito presidencial francês de 2027, e a AfD tem crescido rapidamente na preferência dos alemães. Se o "cordon sanitaire" tem a virtude de evitar que representantes de uma ideologia perigosa assumam postos de comando do Estado, também carrega o ônus de conceder a esses partidos o duplo benefício de poderem posar de vítimas do sistema, o que tem apelo eleitoral, e de poupá-los do desgaste do poder, que tem sido inclemente com governantes.

Se a direita radical continuar crescendo, não restará outro caminho às forças democráticas que não o abandonar a estratégia do isolamento e tentar reduzir a virulência dessas legendas, mesmo que ao preço de negociar com elas. Não é impossível. Marine Le Pen já ficou menos radical que seu pai, o fundador do movimento. A italiana Giorgia Meloni, eleita por um partido com origens fascistas, faz um governo institucionalmente bem-comportado. Até se afastou de Vladimir Putin para estreitar a ligação com a UE (o sistema).

O avanço da ultradireita é um pouco como a mudança climática. Precisamos tentar agir tanto sobre as causas (mitigação) como sobre os efeitos (adaptação).

Bookmark and Share

PARA BOLSONARISTAS, MENDONÇA VALE MAIS QUE TRUMP

Alvaro Costa e Silva, Folha de S. Paulo

Personagem das eleições, ministro do STF vive hoje seu momento BBB

De interferência na PF ele entende desde os tempos em que substituiu Moro na pasta da Justiça

A menos de um mês do comparecimento às urnas, quando o debate de propostas e programas deveria alcançar o ponto máximo nas ruas e redes, todas as atenções se voltam para a rinha de galos no STF. É mais uma falsificação que busca se intrometer e deturpar o processo eleitoral. De esporada em esporada, de golpinho em golpinho, morre a democracia.

Até o mais ingênuo lobo-guará de Brasília sabe que o ministro André Mendonça —indicado por Bolsonaro com credenciais de "terrivelmente evangélico"— age para favorecer uma certa candidatura. Louve-se a ausência de cinismo nas maquinações. É um jogo pesado, mas às claras.

A determinação de Mendonça, relator do caso Master, de afastar a cúpula da Polícia Federal —a mesma que revelou ao Brasil a roubalheira do banco e as relações íntimas do poder com o picareta Daniel Vorcaro— foi aceita sem vacilação por Luiz Fux e Nunes Marques. No dia seguinte, Flávio Dino a derrubou. Logo depois, Edson Fachin cancelou as decisões de Mendonça e Dino. E tome polca.

De interferência no trabalho da PF André Mendonça entende. Em 2020, atuando como advogado-geral da União no governo Bolsonaro, acompanhou de perto o pedido de demissão de Sergio Moro, que deixou o Ministério da Justiça criticando a insistência do ex-presidente em trocar o comando da PF e afastar as investigações sobre o filho Flávio.

Foi Mendonça quem substituiu Moro na pasta. Sua realização mais notável foi elaborar uma lista com 500 servidores, arrolados como "antifascistas", que deveriam ser monitorados pela PF. O dossiê acabou proibido pelo STF, mas sei de pelo menos uma pessoa que, tendo ficado fora da lista, nunca mais recuperou a autoestima.

Em sua diatribe contra a PF, Mendonça citou o livro "1984", de George Orwell. Faz sentido, pois ele vive hoje seu momento BBB: uma celebridade de toga considerada pelos bolsonaristas o maior cabo eleitoral do filho 01. No ato de 7 de Setembro na Paulista, seu pixuleco inflável foi muito mais aplaudido que o de Donald Trump.

Bookmark and Share

SOBRE COMO SE BLINDA

Carlos Andreazza, O Estado de S. Paulo

Como se arma a blindagem para impedir a investigação sobre Moraes no STF

Nunca um ministro da Corte foi investigado e não será essa composição do tribunal, com juízes agentes políticos e empresariais amarrados em rabos presos, que vai fazê-lo

A sessão do Supremo marcada para 15 de setembro tem como fundamento uma mentira: a de que seria competência exclusiva do plenário autorizar investigação contra ministro. Isso inexiste na Lei e no Regimento do STF – invenção destinada a tornar ainda mais difícil o impossível.

Este artigo parte de um pressuposto: o de que o Supremo não autorizará investigação contra Alexandre de Moraes; consultor de Vorcaro sobre se o banqueiro com ordem de prisão expedida contra si – sabedores ambos dessa informação sigilosa, que discutiam – deveria fugir do País. O cronista quer estar errado. Nunca um ministro do STF foi investigado. Não será esta composição do tribunal a fazê-lo.

Em fevereiro, numa reunião clandestina, os ministros pactuaram por proteger Dias Toffoli. Tinham diante de si um relatório da PF que esmiuçava a relação do colega com Vorcaro e uma arguição de suspeição contra ele. Optaram, todos sabendo do que se tratava, por classificar o documento como “lixo jurídico”.

Foi nessa ocasião que Dino declarou que só por motivo de estupro ou pedofilia admitiria arguição contra um par. Naquela

ocasião, o Supremo de Fachin decidiu pela solução puxadinho em que Dias Toffoli renunciaria à relatoria do caso Master; que passaria a Mendonça, desde então omisso sobre o que a PF apresentara relativamente ao amigo. Um relatório formal, da mesma natureza daquele sobre Moraes, assinado pelos mesmos delegados, merecedor de atenção nenhuma.

Isso será instrumentalizado para catimbar. As prioridades de Mendonça – e a facilidade como se pode fazer de Dias Toffoli um boi de piranha – já ofertando condições para que a imparcialidade do relator seja questionada. Haverá uma blitz por suspeição generalizada. E haverá Gonet, confrade no clube do uísque de Vorcaro, que não viu razão para a prisão preventiva do obstrutor de Justiça, mui à vontade para se manifestar pela nulidade do relatório da PF que documenta a saudade que o PGR sentia do banqueiro “matador”.

O pressuposto pode ser refinado: o Supremo nem sequer chegará a deliberar sobre se investigação contra Moraes deveria ser aberta. A questão sendo como a Corte constitucional procederá para que não investigado seja um dos seus. Os termos da blindagem são negociados agora, articulando-se todos os zanins, tentada a embolação xandônica de julgamentos. As preliminares – as barragens de fachada processual – estão erguidas e se avolumam.

Fachin pode ter ofertado mais uma senha à suspensão. Ao solicitar a Mendonça que remetesse aos ministros todos os procedimentos contidos na investigação sobre o Master, estabeleceu conexão entre esses milhares de arquivos e a petição que será julgada. O imenso volume, associado à escassez de tempo, forjaria o pretexto para pedido de vista. Visto está o jogo. Será inflexão na história do Brasil se se superar o teatro dos vícios. •

Bookmark and Share

O AUTO DA COMPADECIDA AMERICANO

Fabio Gallo, O Estado de S. Paulo

Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5 mil a cada americano. A plateia aplaude

Não sei, só sei que são US$ 5.000! Diria Chicó, que estaria feliz com a oferta de Trump. Ariano Suassuna talvez tivesse dificuldade para imaginar uma cena melhor. Donald Trump sobe ao palco e promete US$ 5.000 a cada americano adulto se os republicanos mantiverem o controle do Congresso. A plateia aplaude. Alguém pergunta quanto vai custar. Cerca de US$ 1,2 trilhão.

De onde virá o dinheiro? Das tarifas, dizem seus defensores. Mas elas estão arrecadando algo próximo de um décimo do necessário.

Quem exatamente receberá? Inicialmente, todos os adultos. Depois, talvez apenas trabalhadores e classe média.

Como será aprovado? O Congresso ainda terá de decidir. Uma promessa eleitoral que deixa de ser política econômica e passa a ser apenas a distribuição de uma conta que ainda não existe.

A comparação chega a ser injusta com Ariano Suassuna. João Grilo e Chicó precisavam da esperteza para sobreviver à pobreza do sertão. Os Estados Unidos são a maior economia do mundo e emitem a principal moeda de reserva internacional. Ainda assim, a lógica da promessa é de quiproquó: distribuem-se US$ 5.000 antes de se explicar quem pagará a conta. Chamar de “dividendo” não resolve o problema. Dividendo pressupõe algo para distribuir. Essa história deixa de ser engraçada.

No teatro, a esperteza termina quando cai o pano. Na política fiscal, a conta continua depois da eleição. Essa proposta deixou de ser apenas uma frase espetacular de Trump. A resistência começou a aparecer dentro do próprio Partido Republicano e entre economistas conservadores. Eleitores de Trump começaram a repetir: “Não precisamos de US$ 5.000, precisamos que o custo das coisas caia”.

É um verdadeiro paradoxo: o governo pretende combater a insatisfação com o custo de vida colocando mais de US$ 1 trilhão de demanda numa economia sem grande capacidade ociosa – correndo o risco de pressionar novamente os preços que pretende tornar mais suportáveis. A promessa deu margem a ironia dos adversários que lançaram a ideia de se os democratas ganharem Câmara e Senado, todos receberão US$ 10.000, um pônei e sorvete grátis pelo resto da vida.

É engraçado, mas economicamente contém uma pergunta séria: por que US$ 5.000? A melhor reposta ainda é de Chicó que só sabe que são US$5.000. Keynes talvez ficasse arrepiado. Não por ver o governo gastando – disso dificilmente poderia acusá-lo, mas por gastar trilhão de dólares sem que haja uma depressão para combater.

No Auto da Compadecida, as histórias mais improváveis de Chicó sempre terminavam da mesma maneira: “Não sei, só sei que foi assim”. Talvez nem Ariano Suassuna achasse graça. Uma coisa é fazer do absurdo uma obra-prima. Outra é transformar a realidade em um absurdo.

Bookmark and Share

PREVIDÊNCIA: EIS A QUESTÃO !

Marcus Pestana, Congresso em Foco

Há uma questão absolutamente central, complexa e de grande repercussão social que é solenemente tangenciada nas discussões eleitorais: o futuro do sistema previdenciário.

O mundo moderno surgiu a partir da Revolução Industrial, no final do século XVIII. Inaugurou-se uma longa etapa apelidada de capitalismo selvagem. Não havia direitos dos trabalhadores, nem políticas públicas sociais. As jornadas de trabalho eram exaustivas. As condições de vida (alimentação, moradia e saneamento) eram sub-humanas. Neste ambiente residem as raízes do movimento e do pensamento socialistas e das estruturas sindicais. A luta dos trabalhadores e o avanço da democracia política resultaram na consolidação paulatina do Estado do Bem-Estar Social. Surgiram previdência, educação e saúde públicas e reformas e leis para humanizar o sistema.

Uma das preocupações maiores era com a vida dos trabalhadores que, pelo avanço da idade, não teriam mais capacidade laboral para garantir seu sustento e de sua família. O primeiro sistema de previdência social de cunho nacional e amplo do mundo moderno foi criado pelo chanceler alemão Otto von Bismarck, em 1889, como seguro social para dar suporte a trabalhadores com idade igual ou superior a 70 anos. A partir daí, os sistemas previdenciários foram assumindo características peculiares em cada país.

Para oferecer renda aos aposentados e pensionistas há basicamente dois modelos: o de repartição e o de capitalização. No primeiro, os trabalhadores ativos pagam os benefícios de quem já se aposentou. No segundo, é feita uma poupança individual ou coletiva, que é aplicada para gerar reservas financeiras que honrarão os benefícios contratados. O Brasil optou pelo modelo de repartição, tanto para os trabalhadores celetistas ligados ao INSS, quanto para servidores públicos civis e militares. O sistema de capitalização existe de forma complementar para funcionários de empresas como Petrobras, Banco do Brasil, Caixa Econômica, Vale, entre outras, em fundos como Petrus, Previ, Funcef e Valia; para os servidores públicos civis federais mais novos, a partir de 2012, com a criação do FUNPRESP; e, para pessoas que individualmente contratam planos de previdência privada junto ao sistema financeiro.

De início, o sistema de repartição não era problema. As taxas de natalidade e fecundidade eram altas. Em 1960, ano em que nasci, vieram ao mundo 42 crianças brasileiras para cada mil habitantes e a taxa de fecundidade era de 6,28 bebês para cada mulher. Em 2026, com as mudanças sociais e culturais, a taxa de natalidade passou a ser de 11 crianças para cada mil habitantes e a fecundidade despencou para 1,6 bebês para cada mulher, o que sequer repõe o casal. Por outro lado, graças aos avanços da medicina e a melhoria das condições gerais de vida, as pessoas felizmente estão vivendo mais. Em 1960, a expectativa de vida do brasileiro ao nascer era de 52,5 anos. Já em 2026, o horizonte médio de vida do brasileiro ao nascer subiu para 76,6 anos. Isto é a chamada transição demográfica, com profundas implicações no sistema previdenciário. Menos gente nascendo, trabalhando e contribuindo. Mais gente aposentando, vivendo e usufruindo. Por si só, a dinâmica demográfica introduz um enorme problema para o equilíbrio atuarial do sistema de repartição.   

Voltarei ao assunto.

Bookmark and Share

O PREÇO DA NEGOCIAÇÃO

André Gustavo Stumpf, Correio Braziliense

Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população

Eleição presidencial é sinônimo de crise institucional. A rima é pobre, mas o assunto é rico. A perspectiva de mudança no poder do Brasil dá origem a disputa violenta, com diversos golpes abaixo da linha da cintura. E não há juiz capaz de interromper o tiroteio. Nem os ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Eles, aliás, tornaram a situação ainda mais grave. Só depois das eleições, será possível restabelecer o ambiente de relativa tranquilidade na política nacional. Até o fim de outubro, a troca de ofensas será a constante no cenário político brasileiro.  

Há que se distinguir algumas proezas nesse teatro de agravos maiores ou menores. O ex-banqueiro Daniel Vorcaro, atualmente preso na Papuda, em Brasília, merece destaque. Audácia inacreditável. Conseguiu chegar perto das principais autoridades brasileiras. Corrompeu a maioria delas com dinheiro vivo, benesses e chuva de vantagens para esposas, filhos e protegidos. Os meninos receberam empregos fabulosos, cartões de crédito generosos, perspectivas profissionais maravilhosas, enquanto seus pais frequentavam convescotes temperados pelo melhor uísque e charutos cubanos de ótima procedência. Tudo isso à custa da sangria de aposentados e pensionistas de diversos estados brasileiros, desde o Rio de Janeiro até o Amapá. Exceção foi o Distrito Federal. O Banco de Brasília (BRB) foi saqueado e chegou à beira da falência. A população será convidada a pagar o prejuízo.

É com esse pano de fundo que transcorre a eleição de 2026. Os ingredientes da política brasileira são evidentes. Há forte pressão contra o petismo do presidente Lula. E, também, existe significativo movimento contra bolsonaristas e correlatos. As duas forças se equivalem no tamanho e na presença pública. Ambas são capazes de colocar o povo na rua. Na eleição passada, o Partido dos Trabalhadores conseguiu eleger o presidente da República por margem muito pequena. Mas não fez maioria na Câmara dos Deputados, nem no Senado Federal. A situação permanece. As mais recentes pesquisas de opinião colocam Flávio Bolsonaro e Luís Inácio Lula da Silva em posição de empate técnico. Situação que eleva a tensão a seu nível máximo.  

Não há força hegemônica no Brasil atual. A inexistência de um poder definido colocou o STF no centro dos debates. E os ministros, por consequência, tomaram partido. O tribunal se dissolveu em brigas menores e decisões judiciais apressadas, sem o devido fundamento legal. Partido político não tem legitimidade para pedir a exoneração de funcionário público. O presidente da Corte, Edson Fachin, foi obrigado a sair de sua confortável posição e agir para desautorizar as duas partes em litígio. Aproveitou para enterrar o famoso processo das fake news que já durava mais de sete anos. O próximo capítulo deverá ocorrer na próxima semana, quando o plenário da Casa se reunir. Os ministros vão permitir sessão pública, com transmissão ao vivo pela TV Justiça?

Ao lado dessa confusão, é preciso estar atento a um detalhe: o secretário de Estado dos Estados Unidos, Marco Rubio, o cubano ressentido, está em visita a três países no continente: Colômbia, Equador e Peru. Ele pretende aumentar o poder de Washington na região. Isolar a China. Na época da Operação Lava-Jato os norte-americanos tiveram papel importante. Entregaram aos juízes de Curitiba provas do desvio de recursos ocorrido na Petrobras. Os supremos, tempos depois, reverteram a investigação e anularam provas até daqueles que confessaram ter colocado dinheiro público no bolso. Inocentaram a classe política. Tremendo favor, que merece generoso pagamento. 

O súbito vigor do bolsonarismo tem origem na agitação que seus aliados fazem desde Washington. Os norte-americanos possuem bom serviço secreto, muito dinheiro e força bélica evidente. Eles podem influir na política brasileira. Na impossibilidade de fazer prevalecer a vontade norte-americana na Europa e no Oriente Médio, resta o exercício da força e do convencimento no quintal sul-americano. Neste momento, depois das aventuras de Trump pelo mundo, é razoável prestar atenção no trabalho dos bolsonaristas aliados aos norte-americanos.

A tradição política brasileira é a conciliação, desde a Proclamação da República. No atual caso, alguns ministros estão muito expostos. Em tempos recentes, Dias Toffoli foi flagrado em situação constrangedora. Varreram a sujeira para debaixo do tapete. Quando a temperatura retornar ao normal, os supremos estarão aptos a reconstruir parcerias e, de novo, promover o esquecimento geral. O acordo deverá abranger o presidente da República, já eleito e comprometido com as novas lideranças. No Brasil, as brigas são rituais. A constante é o acordo. Tem custo, mas quem paga é a população.

Bookmark and Share

O STF DIANTE DE SEUS PRÓPRIOS LIMITES

Juliana Diniz*, O Povo

Quando a política se transforma em vale-tudo, o Direito Constitucional deixa de operar, se torna inócuo. Testemunhamos um momento inédito de disputa fratricida entre ministros, e o risco é de que o STF perca sua legitimidade social, sua autoridade

Supremo Tribunal Federal está imerso em crise profunda, e o momento nos oferece a oportunidade de entender o quão delicado (e importante) é o equilíbrio das instituições em uma democracia. Disfunções, violações de formalidades, invasões de competência e desrespeito à independência entre os poderes cobram um preço alto, e quem paga é a sociedade como um todo.

Convido os leitores a pensarem especificamente sobre o papel institucional do STF. Como corte constitucional, o Supremo tem o papel de zelar pela integridade e cumprimento da constituição. Ele pode declarar que leis são inconstitucionais e tem, excepcionalmente, o papel de julgar criminalmente autoridades da cúpula dos poderes da República.

Sua autoridade para julgar não é ilimitada ou discricionária, porque a corte precisa decidir conforme normas estabelecidas no direito escrito: e é justamente aqui que reside a complexidade do papel do STF, e o ponto onde o equilíbrio pode desandar.

Isso porque a constituição é um complexo de normas muito peculiar. Dizemos que ela é a ponte entre o Direito e a Política. Ela traduz, em linguagem jurídica, opções políticas fundamentais sobre a espinha dorsal do nosso sistema. Os direitos básicos, as instituições, os ritos e procedimentos, ela os estrutura, os estabelece, os organiza.

Por se tratar de um documento não só jurídico, mas também político, seu texto é permeado de normas mais abertas, que exigem uma interpretação muito viva e sensível às transformações da sociedade. Interpretar uma constituição é difícil e implica uma parcela de poder considerável.

A abertura semântica da constituição é frequentemente utilizada como desculpa para justificar abusos dos ministros do STF. Abusos de poder que aparecem na forma de interpretações extravagantes e subversões de formalidades bem previstas e organizadas. Assim, uma característica típica de uma constituição democrática, sua abertura, sua complexidade, sua extensão, é usada contra a própria constituição, para potencializar voluntarismos decisórios.

A semana ofereceu um prato cheio de exemplos. Decisões monocráticas esdrúxulas e sobrepostas, que ignoram as regras do direito processual e do regimento interno do STF, inquéritos excessivamente alongados, com objeto obscuro, manipulação seletiva do sigilo com o objeto de produzir fatos políticos com impacto eleitoral. Vimos de tudo, com choque e consternação.

Quando a política se transforma em vale-tudo, o Direito Constitucional deixa de operar, se torna inócuo. Estamos testemunhando um momento inédito de disputa fratricida entre ministros, e o risco é de que o STF perca sua legitimidade social, sua autoridade. O custo para a democracia é difícil de mensurar (e suportar).

*Doutora em Direito e professora da Universidade Federal do Ceará.

Bookmark and Share

RESSENTIMENTO E SAUDOSISMO

Sérgio C. Buarque *, Revista Será?

A vitória da AfD (Alternative für Deutschland), partido de extrema direita, nas últimas eleições no Estado da Saxônia-Anhalt despertou grande inquietação mundial ao confirmar a força política de um partido de inspiração nazista na Alemanha. A Saxônia-Anhalt é um dos menores Estados alemães, com apenas 2,1 milhões de habitantes, o equivalente a 2,5% da população do país. Mesmo assim, a ascensão da AfD assusta, especialmente porque, em se tratando da Alemanha, desperta também o fantasma do nazismo, de triste memória.

Com 43,8% dos votos nessas eleições estaduais, o partido necessita de apenas mais três assentos no parlamento local para assumir o governo da Saxônia-Anhalt. Para isso, pode contar apenas com o apoio do BSW (Bündnis Sahra Wagenknecht), que conseguiu 5,3% dos votos. Trata-se de um estranho partido, formado a partir de uma dissidência do Die Linke (A Esquerda), que combina uma concepção de esquerda na economia — salários mais altos, fortalecimento da previdência e do Estado de bem-estar social e taxação de grandes fortunas — com o populismo antiwoke, a crítica à política ambiental e posições direitistas semelhantes às da AfD: rejeição à imigração, euroceticismo e defesa de uma aliança com a Rússia.

O resultado dessa eleição na Saxônia-Anhalt confirma a força da direita nos cinco Estados que formavam a antiga Alemanha Oriental e que, apesar dos investimentos na privatização e na modernização dessa parte do país a partir da reunificação, continuam sendo os mais pobres e apresentando os mais baixos salários médios da Alemanha.

A AfD obtém suas maiores votações precisamente nesses Estados, que também estão entre os menos populosos (à exceção de Saarland e das cidades-Estado de Hamburgo e Bremen) e apresentam os menores PIBs per capita da Alemanha. Ao comparar a distribuição dos votos na AfD nas eleições de 2025 para o Bundestag (parlamento alemão), nas quais o partido alcançou 20,8% dos votos, com o PIB per capita dos Estados, percebe-se uma correlação inversa: quanto menor o PIB per capita, maior o percentual de votos para o partido de extrema direita (ver gráfico).

Fonte: Elaborado com base em dados do Gemini.

Por outro lado, embora uma das principais bandeiras da AfD seja a restrição à imigração, os cinco Estados em que o partido consegue a maior adesão eleitoral têm os menores percentuais de estrangeiros na população. Neles, os estrangeiros representam menos de 7% dos habitantes, percentual quase insignificante quando comparado aos 19% de Hesse e aos 16% da Renânia do Norte-Westfália, para não falar de Berlim, onde chegam a 23%. Na realidade, esses Estados se caracterizam mais pela emigração do que, propriamente, pela imigração. Desde a reunificação, milhões de alemães orientais emigraram para a parte ocidental do país, em geral jovens qualificados em busca de oportunidades. Deve-se considerar, de qualquer forma, que o relativo isolamento da Alemanha Oriental limitou o contato da região com estrangeiros e com outras culturas, à exceção do contato com imigrantes da parte oriental do bloco soviético.

O que pode explicar esse predomínio da extrema direita nesses Estados, incluindo sua inclinação para uma aliança com a Rússia? Os cidadãos alemães da antiga Alemanha Oriental devem sentir ressentimento precisamente por serem a parte pobre de um país muito rico, além de frustração diante das promessas de prosperidade associadas à reunificação e à incorporação ao capitalismo ascendente da Alemanha Ocidental. Para se ter uma ideia dessa frustração com as promessas do capitalismo, nessas eleições estaduais, 61% dos operários e mais da metade dos trabalhadores autônomos votaram na AfD (Euronews, 07/09/2026).

A população dos Estados a leste da Alemanha não tinha o nível de renda e a modernidade de que dispõe agora, como parte da Alemanha unificada, mas deve se sentir entre os perdedores da reunificação e da globalização. Na antiga Alemanha Oriental, os alemães não tinham liberdade — o país tinha um dos regimes mais autoritários do bloco soviético —, mas talvez sentissem ordem, estabilidade, segurança e previsibilidade. Não que a Alemanha seja um país instável e inseguro, mas enfrenta grandes incertezas e padece das dificuldades econômicas e políticas comuns às democracias no mundo contemporâneo.

Os cidadãos da antiga Alemanha Oriental deviam se comparar mais com os habitantes dos países do bloco soviético do que com os da Alemanha Ocidental, que devia ser vista como outro país, sob outro regime — o capitalismo liberal, demonizado pela propaganda e pela Guerra Fria —, inacessível do outro lado do muro. Na época, a República Democrática da Alemanha, como era chamada, era uma das nações mais bem-sucedidas do bloco soviético. Até a reunificação, os Estados da antiga Alemanha Oriental eram a parte rica de um aglomerado de países que gravitavam em torno da União Soviética. Agora, são a parte pobre de um país muito rico.

Parece razoável considerar, ainda, que, além da decepção e do ressentimento com os alemães ricos, os eleitores da extrema direita (AfD) são motivados pelo saudosismo do velho regime autoritário e estatizado — resquício do stalinismo —, desmantelado em 1989. Como um sintoma de ligação com o passado, a AfD rejeita, em seu programa, o apoio da Alemanha à Ucrânia, invadida pela Rússia, e defende o ensino de russo nas escolas alemãs. Se assumir o governo da Saxônia-Anhalt, provavelmente implantará essa modalidade de ensino de língua estrangeira. A vitória da ultradireita alemã, vale a pena acrescentar, foi saudada com entusiasmo pelo presidente Vladimir Putin.

E, em se tratando da Alemanha, não é estranho que esse saudosismo de um regime autoritário desperte também o fantasma do nazismo, com o antissemitismo alimentando a rejeição à imigração. O partido de extrema direita defende uma reformulação do currículo escolar para reduzir a presença da “cultura da memória”, centrada nos crimes do período nazista, e promover, em seu lugar, eras de “sucesso”. A grande votação obtida pela AfD entre os jovens na Saxônia-Anhalt — 42% dos eleitores de 18 a 24 anos — pode invalidar a hipótese de saudosismo ou, ao contrário, indicar a seletividade da memória das novas gerações, que minimizariam a ditadura violenta e o desastre humano do nazismo. Entre os eleitores mais velhos, acima de 70 anos, a extrema direita teve a menor votação, mas foi na faixa de 35 a 49 anos que o partido encontrou a maior adesão: 52% votaram na AfD.

Apesar de se tratar de uma eleição num pequeno Estado da Alemanha, o resultado é preocupante, na medida em que confirma o crescimento da extrema direita no conjunto do país e demonstra a fragilidade da liderança do chanceler alemão, Friedrich Merz. Além disso, a ascensão da AfD anima as forças de direita na Europa e reforça o euroceticismo e a xenofobia, especialmente na França, na Itália e na Espanha, países onde a direita já é forte e que têm eleições previstas para os próximos anos. Do outro lado do Atlântico, não custa lembrar, Donald Trump aposta na fragmentação da Europa e no fortalecimento da direita mundial.

*Economista com mestrado em sociologia, foi jornalista da Deutsche Welle (de 1975/1979) e correspondente da IstoÉ na Alemanha (1977) e professor titular da FCAP/UPE (de 1982/2014).

Bookmark and Share

PRESENÇAS IMPRÓPRIAS E AUSÊNCIAS LASTIMÁVEIS

Elimar Nascimento *, Revista Será?

Outra vez a nação está atolada no lodaçal dos malfeitos. O escândalo do Banco Master atingiu um novo patamar. O envolvimento de juízes, procuradores, senadores, deputados, ministros, burocratas e governadores ganha contornos mais nítidos. A sensação é de que meio mundo se locupletou. Daniel Vorcaro é um astro. Ninguém conseguiu tanto. Nenhum escândalo neste século envolveu tanto dinheiro e tantas autoridades públicas. A OAB e o presidente da República pedem que todas as investigações se tornem públicas e que cesse a quebra seletiva de sigilo, como a promovida pelo ministro André Mendonça. O presidente do STF, ministro Fachin, tem diante de si um desafio que jamais imaginou.

O escândalo do Banco Master tem muitos efeitos, nem todos ainda claros. Um desses efeitos, decorrente dos últimos acontecimentos, é que a disputa eleitoral saiu da campanha, das ruas e das mídias e ganhou um novo locus. Agora, por incrível que pareça, o teatro é o STF. E cada personagem desse teatro age em função de seus interesses: pessoais e eleitorais, de poder e do vil metal. É uma consequência clara do crescente protagonismo da Alta Corte no processo político.

A divulgação do relatório de investigação da Polícia Federal sobre os telefonemas de Vorcaro mostrou o ministro Alexandre de Moraes como conselheiro do malfeitor. As intenções do ministro André Mendonça, relator do processo, parecem ser duas (podem existir outras): a primeira, contribuir para a eleição de seu candidato, Flávio Bolsonaro, e para o fortalecimento da extrema direita no Senado; a segunda, contribuir para anular o processo que condenou o ex-presidente Jair Bolsonaro, que o indicou ao STF, e propiciar o impeachment de seu “inimigo” na Corte.

Por sua vez, a reação de Moraes, pego em flagrante como conselheiro do malfeitor, parece visar à nulidade do processo do Banco Master, para que ele se salve das penalidades. Vorcaro não vai deixar de agradecer, assim como Ibaneis, Ciro Nogueira, Jaques Wagner e os demais citados nas investigações em curso. Reza a lenda que boa parte dos ministros do STF está torcendo para que isso aconteça; pelo menos cinco já foram citados.

Se um dos efeitos do escândalo do Banco Master foi criar uma nova arena de disputa eleitoral, outro foi aumentar a despolitização. Não se discutem propostas; no máximo, promessas, muitas de caráter populista.

As questões estratégicas do desenvolvimento do país caem no esquecimento. Se já não estavam presentes na campanha eleitoral, agora menos ainda.

Praticamente ninguém fala do ajuste das contas públicas e, se o faz, é de forma genérica e pueril. Sem esse ajuste, estaremos condenados a um crescimento econômico medíocre.

Sobre a educação de qualidade para todas e todos paira um silêncio criminoso. Nos últimos resultados do Programa Internacional de Avaliação dos Alunos (PISA), recentemente publicados, o Brasil mantém o 67º lugar, na mesma posição do Líbano. Ficou na 71ª posição em matemática e na 52ª em leitura. Em ciências, manteve o 67º lugar, atrás do Uruguai, do Chile, do México, da Costa Rica, do Peru e da Colômbia. Com a educação lastimável que temos, não haverá futuro na sociedade do conhecimento que se ergue diante de nós.

E, finalmente, ninguém se pronuncia sobre a crise ecológica que vivemos nem sobre as mudanças climáticas que nos ameaçam.

Um dia desses, a TV do Senado me entrevistou a respeito das propostas para o próximo presidente sobre a “questão ambiental”. Arrependo-me de não ter começado dizendo que não existe essa questão; o que existe é uma questão civilizacional. Ou mudamos nossa forma de produzir e nosso padrão de consumo, ou as aquisições civilizacionais podem ir para as calendas gregas. Caminhamos para um desastre que os reacionários negam e a população, incluindo os políticos, ignora.

Desculpem-me a conclusão: não caminhamos rumo ao futuro; chafurdamos no lodaçal do presente. Pena. E corremos o risco de retroceder.

*Sociólogo, doutor em sociologia, professor associado II da Universidade de Brasília, ex- diretor do Centro de Desenvolvimento Sustentável/UnB (2007/2011).

Bookmark and Share

A ELEIÇÃO NÃO ENCERRARÁ A CRISE

Murillo de Aragão, Veja

As urnas distribuem poder, mas não corrigem as instituições

Quando escrevo este artigo, faltam 25 dias para o primeiro turno da eleição. Para quem tem telhado de vidro, três semanas podem parecer uma eternidade, sobretudo num ambiente em que revelações constrangedoras surgem quase diariamente e se incorporam à disputa política. Muita coisa ainda pode acontecer até o eleitor chegar à urna.

O que chama atenção não é apenas a exposição dos candidatos presidenciais, mas a dificuldade das instituições para assegurar que o processo eleitoral transcorra dentro do mínimo de normalidade. A disputa de 2026 apresenta, nesse sentido, duas características que a diferenciam das anteriores.

A primeira é a entrada explícita da geopolítica na campanha. O tarifaço de Donald Trump, os movimentos do bolsonarismo nos EUA e um cenário internacional tumultuado transformaram questões externas em componentes da disputa doméstica.

A segunda novidade talvez seja ainda mais relevante: o STF tornou-se questão eleitoral. No 7 de Setembro, Flávio Bolsonaro afirmou que quem votar em Lula estará votando em Alexandre de Moraes. Um ministro do Supremo passou a ser apresentado como razão para votar ou deixar de votar em determinado candidato à Presidência. A judicialização da política e a politização da Justiça não são fenômenos recentes. O que parece novo é o estágio no qual a atuação de ministros da Corte ingressa diretamente no cálculo eleitoral.

“Chama atenção a dificuldade para assegurar que o processo transcorra dentro da normalidade”

Surge daí uma situação paradoxal. Decisões destinadas, em tese, a proteger a ordem institucional podem produzir efeitos políticos favoráveis justamente aos que se apresentam como adversários do Supremo. Com provocação, pode-se dizer que Alexandre de Moraes corre o risco de transformar-se involuntariamente em cabo eleitoral de Flávio Bolsonaro, porque suas decisões passaram a integrar a narrativa utilizada pela oposição para mobilizar eleitores.

O problema mais grave está além dos candidatos. As instituições e seus líderes demonstram dificuldade para processar, dentro de uma dinâmica constitucional rápida e previsível, crises como as do INSS e do Banco Master. Há autoridades mencionadas, agentes privados investigados e fatos que exigem esclarecimento, mas predomina a impressão de lentidão e paralisia.

Cria-se a impressão de que parte do sistema prefere esperar para ver como fica após a eleição. Questões graves avançam em ritmo de samba-­canção enquanto todos observam as pesquisas e calculam o cenário posterior às urnas. É uma situação perigosa, porque instituições não deveriam funcionar de acordo com conveniências eleitorais. Em menos de um mês, o Brasil conhecerá uma nova composição do Congresso e saberá quais forças disputarão o segundo turno presidencial.

A correlação política poderá mudar substancialmente. O que dificilmente acontecerá é a eleição, por si só, resolver a crise institucional. As urnas distribuem poder e conferem legitimidade aos eleitos, mas não corrigem instituições que perderam capacidade de funcionar com previsibilidade, equilíbrio e respeito aos próprios limites. A eleição poderá encerrar uma campanha. Não encerrará a crise. Talvez seja depois das urnas que o problema institucional revelará a sua verdadeira dimensão.

Publicado em VEJA de 11 de setembro de 2026, edição nº 3012

Bookmark and Share

A CRISE NO STF

Luiz Gonzaga Belluzzo, CartaCapital

As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade

Nada mais trágico para a sociedade brasileira do que a perda de legitimidade e de reputação do Poder Judiciário. Não escapa aos olhos dos cidadãos mais atentos que a regra da separação e equilíbrio harmônico dos poderes tem sido substituída pela autonomização das instituições republicanas, em clara violação dos princípios erigidos e rediscutidos ao longo de séculos de consolidação do Estado de Direito.

A crise no Supremo Tribunal Federal expõe a rivalidade antirrepublicana entre poderes autônomos e rivais preocupados em assegurar as próprias prerrogativas, usurpando a soberania do povo a quem devem a legitimidade de suas ações. Essa lógica fatal contamina as instâncias decisivas do poder estatal. Não se trata apenas de que as distintas instituições do Estado Democrático de Direito buscam abocanhar frações crescentes do poder. Pior que o pior: comportam-se, diante do cidadão, como forças estranhas e hostis, usurpando os poderes que deveriam ser exercidos em nome do interesse público. As autoridades judiciárias afundam sua ­reputação no lodaçal do narcisismo.

As recentes exibições de narcisismo das autoridades judiciárias na mídia e nas redes sociais são um exemplo impecável de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência aos valores do mundo das celebridades, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado da magistratura. Os cidadãos ainda vão ficar à mercê de um juiz youtuber.

Os processos sociais e econômicos que assolam o mundo contemporâneo são cruéis em suas contradições: adulam o sucesso individual e, no mesmo movimento, exercem o controle de mulheres e homens no propósito de aniquilar os resíduos de sua cidadania. Na era do ciberespaço, o domínio dos corações e das mentes é exercido com os métodos desenvolvidos nos laboratórios midiático-repetitivos encarregados de remover as sobras de razão que os indivíduos imaginam preservar.

A degradação do aparelho judiciário tem avançado sem qualquer reação daqueles que percebem o fenômeno e o abominam, mas que preferem se recolher diante da contundência e da ousadia dos que buscam substituir as regras da (inter)dependência dos poderes pelos festivais de exibição midiática, encenados em um ambiente social entregue às farândolas do Pouco Pão e Muito Circo.

Não há limites à ação pessoal de autoridades atraídas pelos frêmitos e cintilações da “sociedade do espetáculo”, o brilhareco de 15 minutos de fama. São exemplos impecáveis de como os deveres republicanos se dissolvem diante dos esgares incontroláveis da subserviência ao exibicionismo das telas e das manchetes, coadjuvada pelo corporativismo mais escancarado.

As relações promíscuas entre as autoridades judiciais e a mídia colocam os cidadãos brasileiros diante da pior das incertezas: a absoluta imprecisão dos limites da legalidade. As conquistas da modernidade, das quais não se pode abrir mão, têm sido pisoteadas por quem deveria defendê-las. Ocultam à sociedade, em cujo nome dizem agir, a dedicação com que laboram para tecer a corda em que enforcarão as garantias individuais. É comum e corriqueira entre nós a transformação das prerrogativas funcionais em privilégios individuais e pessoais.

Nas repúblicas modernas, se é que temos aqui algo parecido com isso, figuram entre as cláusulas pétreas aquelas relativas à representação legitimada pelo voto, à impessoalidade na administração pública e à constituição de um sistema de poderes e garantias fundado na lei. O sistema de poderes e garantias ancorado na lei é o núcleo central do Estado de Direito. É isso que o obriga a punir, no exercício do monopólio da violência, as tentativas de opressão arbitrária de um indivíduo sobre o outro. O descumprimento dos deveres do ente público termina por solapar a solidariedade que cimenta a vida civilizada, lançando a sociedade no desamparo e na violência sem quartel. Os códigos da cidadania moderna foram concebidos como uma reação da maioria mais fraca contra o individualismo anarquista daqueles que se consideram com mais direitos e poderes.

Diria Hannah Arendt que a banalidade do mal se transmuta no mal da banalidade. 

Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.

Bookmark and Share

CORTE EM PEDAÇOS

André Barrocal, CartaCapital

As recentes decisões de Edson Fachin não garantem o fim da crise no STF

Flávio Bolsonaro bem que tenta, mas Dark Horse não é página virada. O homem encarregado de fazer com que o dinheiro de Daniel Vorcaro, dono do finado Banco Master, chegasse aos realizadores do filme sobre Jair Bolsonaro acaba de ter a delação premiada homologada no Supremo Tribunal Federal e os detalhes sobre o envio dos dólares começam a vir a público. Um dia depois, a Polícia Federal foi às ruas apreender documentos e vasculhar endereços da dona da produtora da cinebiografia, ­Karina Ferreira da Gama, e do roteirista da obra, o deputado Mario Frias, secretário de Cultura no governo do capitão. A batida policial foi autorizada pelo ministro Flávio Dino, encarregado no STF de um inquérito sobre o repasse de uma emenda parlamentar de Frias a uma ONG de Karina, o Instituto Conhecer Brasil. A ONG é alvo da Polícia Civil paulista por causa de um contrato de 108 milhões de reais com a prefeitura da capital, e o delegado do caso, Antônio Carlos Munuera Silveira, aponta “consistentes suspeitas” de que o acordo serviu para bancar Dark Horse. Em agosto, Dino havia liberado a PF para ter acesso total às investigações em curso em São Paulo.

Os advogados de Gama e Frias não queriam estar na mira de apurações policiais supervisionadas por Dino. Preferiam André Mendonça, relator de um inquérito sobre a cinebiografia criado após a revelação pelo Intercept Brasil, em maio, de que Flávio cobrou dinheiro de Vorcaro para o filme. “Apesar de você ter dado a liberdade, Daniel, de a gente te cobrar, eu fico sem graça de ficar te cobrando, tá?”, disse o senador em um áudio de WhatsApp de 8 de setembro de 2025, dois meses antes da primeira prisão preventiva do banqueiro. “É porque tá num momento muito decisivo aqui do filme, e como tem muita parcela pra trás, cara, tá todo mundo tenso.” Uma semana após a cobrança, o fundo Havengate recebeu 1,6 milhão de dólares de Vorcaro, conforme relatório do Coaf, o órgão federal de combate à lavagem de dinheiro, revelado pela revista Piauí. O fundo é sediado nos Estados Unidos e administrado pelo advogado de Eduardo Bolsonaro, ex-deputado em autoexílio em Tio Sam desde fevereiro de 2025. Desse fundo os recursos seguiram à produtora do filme, a Go Up, que tem Gama como sócia.

A nova operação que visa o financiamento ao filme Dark Horse faz parte do movimento das peças na batalha em curso no tribunal

O clã Bolsonaro alega que o patrocínio de Vorcaro à cinebiografia foi uma relação entre particulares, sem verba pública envolvida. Não é bem assim. Quando estava na beira do abismo, a partir de 2024, o Master conseguiu aportes bilionários de fundos de pensão de servidores públicos. E há ainda outro problema: Eduardo tramou nos EUA o tarifaço de Donald Trump contra o Brasil, cujo objetivo era salvar a pele do pai de uma condenação por tentativa de golpe, julgamento ocorrido no STF há exatamente um ano. O “zero três” começou o complô em fevereiro de 2025, mês da primeira remessa financeira de Vorcaro a Dark Horse. O Supremo considerou a conspiração uma atitude criminosa, uma “coação no curso do processo”, e sentenciou o ex-deputado a quatro anos de prisão. A permanência nos EUA pode ter sido financiada por Vorcaro, ou seja, o banqueiro fora da lei pode ter patrocinado o tarifaço e a “coação”.

No fim de agosto, Mendonça, um dos indicados de Bolsonaro no STF, abriu o gabinete a Vorcaro. Deu-lhe palanque para posar de herói. “Lutar contra todo o sistema não é fácil”, declarou o banqueiro no depoimento, cuja transcrição é pública. Na versão do interrogado, o ingresso no sistema financeiro tinha por objetivo enfrentar bancos que cobram juro alto. A “ousadia” teria levado rivais a persegui-lo. Para se defender, ele teria buscado socorro em agentes públicos e políticos e cruzado a linha da moralidade no trato com esses personagens. Vorcaro se diz arrependido e estaria disposto a delatar os envolvidos, mas a PF barraria o intento. Seus alvos? “Pessoas do núcleo do atual governo, que eu acabei fazendo relação para me proteger dos ataques que eu estava sofrendo.” Uma delas seria o diretor-geral da Polícia Federal, Andrei Rodrigues, afastado do cargo na terça-feira 8 por Mendonça e devolvido ao posto no dia seguinte, primeiro por Dino, sob o argumento de que as apurações sobre Dark Horse não podiam parar, e depois por Edson Fachin, presidente da Corte, com a justificativa de que Mendonça tinha atropelado procedimentos.

O depoimento de Vorcaro a Mendonça havia sido solicitado pelo banqueiro. Dias depois, soube-se que os dois haviam se reunido pessoalmente em março do ano passado, na sede do instituto educacional fundado por Mendonça em 2023, o Iter, notícia que levou o magistrado a anunciar sua retirada da sociedade. Naquela época, Mendonça ainda não era relator do caso Master. Um mês antes da reunião, havia ido a uma alfaiataria na companhia de um advogado conhecido de Vorcaro, conforme revelado pelo jornalista Paulo Motoryn em sua newsletter. Em áudio de WhatsApp ao banqueiro naquele dia, Ciro Soares comentou: “Fala, Vorcarinho, trabalhando por você. Levei o André lá no Vasco agora, pra fazer um terno”. Em outro, afirmou: “O André Mendonça disse que quer te receber junto comigo (…) Ele sabe, soube da situação do Banco Central toda. Eu contei. Ele já sabia”.

Vorcaro corrompeu dois dirigentes do BC, segundo descobertas da PF, na tentativa de proteger o Master na batalha contra a concorrência. Foi o BC de Bolsonaro, recorde-se, que autorizou o banco a funcionar, depois de uma negativa na gestão Temer. Apesar de ser o relator do inquérito sobre o pedido de financiamento de Flávio Bolsonaro a Vorcaro e de todo o caso Master, Mendonça prefere outra linha apuratória: a relação do colega de Corte Alexandre de Moraes com o banqueiro. Essa postura jogou o Supremo em uma crise sem precedentes. Em 15 de setembro, o tribunal realizará uma sessão plenária para examinar um relatório da PF encomendado por Mendonça que aponta vários encontros pessoais e trocas de mensagens entre Vorcaro e Moraes por quase dois anos, a partir de dezembro de 2023. Menos de um mês após o início dos contatos, o banqueiro contratou a esposa do ministro como advogada, um acordo vigente quando Vorcaro foi preso pela PF pela primeira vez, em novembro de 2025. O relatório policial de 218 páginas sobre Moraes é nulo, por ter nascido de duas decisões ilegais de Mendonça: abrir por conta própria uma investigação sobre um colega e tê-lo feito sem ouvir os colegas do STF. É o que sustenta o procurador-geral da República, Paulo Gonet, autor de um pedido de anulação da papelada-documento, algo também a ser avaliado pelo tribunal na terça-feira 15.

Fachin se recusava a decidir, mas acabou obrigado a agir por conta das pressões externas e da escalada da crise

A sessão transcorrerá diante das tevês, como queria Mendonça ao ressuscitar métodos lavajatistas a um mês da eleição? Ou a portas fechadas, como a Corte fez de maneira informal em fevereiro, ao debruçar-se sobre outra papelada de 200 páginas preparada pela PF? À época, quem estava na mira por razões similares àquelas que comprometem Moraes (proximidade excessiva com Vorcaro, e talvez movida a dinheiro) era mais um togado supremo, José Dias Toffoli, então relator do escândalo do Master. Toffoli acabou por deixar o processo, assumido em seguida por Mendonça graças a um sorteio eletrônico. Mas seus colegas salientaram que o documento da PF não tinha valor, por motivos parecidos com aqueles invocados agora por Gonet em relação a Moraes. “A palavra do ministro Toffoli tem fé pública”, disse Mendonça naquela reunião, a propósito da negativa do par de que houvesse “intimidade” com o banqueiro. Mendonça ascendeu na Advocacia-Geral da União, quando Toffoli comandava o órgão nos governos passados de Lula. E foi aprovado para o Supremo no Senado com apoio do agora colega de Corte.

O relatório contra Toffoli havia sido levado por Rodrigues, o diretor da PF, a Fachin, acompanhado de um pedido de suspeição do juiz no caso Master, jamais apreciado pelo tribunal. Ao convocar a sessão plenária para examinar a situação de Moraes, o presidente do tribunal não detalhou o formato. Além de mandar o colega à fogueira, tirou poder dele ao evocar o inquérito das fake news. A investigação foi instaurada pelo Supremo em 2019, para proteger-se da cruzada anti-STF do bolsonarismo. O ex-deputado Daniel Silveira foi condenado a oito anos de cadeia em 2022 graças ao inquérito. Havia gravado vídeo com ameaças de violência física contra juízes da Corte. Moraes será mantido na relatoria de ações penais decorrentes dessa investigação, contudo as apurações pendentes correrão agora sob a batuta de Fachin, que busca o encerramento do processo desde que assumiu o leme da Corte, há um ano. Ele vai estudar os autos para separar o que cabe enviar à PF para ser aprofundado e o que pode ir a Gonet, para ser convertido em acusação formal perante a Justiça.

“Vou indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio Bolsonaro na esvaziada manifestação no 7 de setembro

Manter o inquérito vivo era visto como ato necessário por uma ala da Corte que enxerga no bolsonarismo um risco à democracia e ao tribunal. Dino integra essa corrente. “É possível a um julgador, qualquer que seja ele, ‘prometer o final de um inquérito’ como se fosse um candidato ou para receber aplausos?”, escrevera em uma rede social às vésperas da decisão de Fachin. Colocar um cabresto no Judiciário é uma prática da extrema-direita na atualidade. Foi assim na Hungria nos anos de Viktor Orbán e é assim em El Salvador de Nayib Bukele, entre outros. No Brasil, o Supremo foi uma barreira de contenção ao extremismo de Bolsonaro, condenado pelo tribunal há exatamente um ano por tentativa de golpe. O filho do capitão que concorre a presidente não esconde o desejo de subjugar a Corte. “Vou indicar cinco ministros para o Supremo Tribunal Federal, porque Alexandre de Moraes vai cair”, afirmou Flávio em um ato público da oposição em 7 de setembro.

Incendiados pela decisão de Mendonça de detonar uma guerra contra Moraes, militantes bolsonaristas não perderam a oportunidade de usar mais um Dia da Independência para malhar o Supremo. Na sabatina no Jornal Nacional, da Rede Globo, em 28 de agosto, Flávio tinha uma “cola” na mão com as palavras “mudança”, “futuro” e “7/set”, uma pista de que a iniciativa de Mendonça contra Moraes não havia sido aleatória, mas parte de um plano. Foram várias manifestações pelo País, estreladas por candidatos ao Senado, a casa legislativa com poder para cassar integrantes do STF. O principal ato, o da Avenida Paulista, mais uma vez deixou a desejar em público, nem um boneco inflável do impopular (nos EUA) Donald Trump evitou o fiasco. Pesquisas existentes hoje apontam avanço do PL no Senado.

São 11 integrantes no STF. Uma das cadeiras está vaga há quase um ano, com a aposentadoria precoce de Luís Roberto Barroso. No próximo governo, três vão pendurar a toga por idade. Eis a conta dos “cinco” de Flávio: as vagas de Barroso, Moraes e dos futuros aposentados. Somados aos dois indicados de Jair que já compõem a Corte (Mendonça e Kassio Nunes Marques), um novo governo Bolsonaro teria a mais alta Corte na mão. Entre auxiliares de Lula, há uma ­disputa silenciosa por um lugar no Supremo. De um lado, Jorge Messias, o AGU. De outro, Wellington César Lima e Silva, o ministro da Justiça. Messias foi indicado por Lula e rejeitado pelo Senado em maio. Na busca pela aprovação, havia se aliado a Mendonça, evangélico como ele. Sonha em ser escolhido de novo, daí a AGU não peitar o juiz em nome da PF e ter resistido por semanas aos apelos de Rodrigues para integrar o esforço de demonstrar a parcialidade de Mendonça nos casos Master e INSS. Lima e Silva foi outro a fazer cara de paisagem diante da batalha. “O Andrei está isolado no governo”, comentava um ministro de Lula na semana anterior à decisão de Mendonça de afastar o diretor da polícia.

Messias e Wellington Silva só entraram em campo por Rodrigues após uma ordem de Lula, no dia do afastamento do delegado. A dupla foi a Fachin, antes de a AGU entrar com um recurso na Corte para devolver o chefe da polícia ao posto. O presidente do tribunal concedeu a liminar, mas só após Dino ter derrubado a decisão de Mendonça, a pedido do próprio delegado.

Para aplauso dos bolsonaristas, Fachin retirou das mãos de moraes o inquérito das fake news, instalado há sete anos

A hesitação de Fachin diante do vale-tudo entre colegas contribuiu para a escalada da crise no STF. Moraes tinha revidado o relatório policial encomendado por Mendonça com um despacho, no qual, também baseado em papéis da PF, apontou fortes indícios de que o oponente teria cometido abuso de autoridade, improbidade administrativa e crime de responsabilidade. E defendia que a situação fosse objeto de providências. Fachin queria baixar a temperatura e ganhar tempo, conversou com alguns colegas com esse objetivo, segundo um interlocutor. Os ânimos estão, no entanto, acirrados demais para uma solução dessa natureza. Fachin gostaria ainda de construir uma solução mais ou menos consensual, mas esbarrou na geopolítica interna de forças. Essa geopolítica não permite antecipar o desfecho da sessão de 15 de setembro. Moraes chegou a convocar um pronunciamento para a manhã da quinta-feira 10, dia da conclusão desta reportagem, mas adiou o evento para a segunda-feira 14, véspera da sessão plenária.

O relatório da PF sobre as relações com Vorcaro mostram Moraes em uma posição indefensável. Ele mentiu aos pares, ao divulgar uma nota, em março, na qual negava que certas mensagens de WhatsApp enviadas por Vorcaro em 17 de novembro de 2025 tivessem ele (Moraes) como destinatário. Naquela data, o banqueiro foi preso pela PF pela primeira vez, em um aeroporto, quando tentava embarcar para o exterior. Em uma das últimas mensagens a Moraes, Vorcaro escreveu: “Alguma novidade? Conseguiu ter notícia ou bloquear?” Por “bloquear” leia-se “melar” a operação policial a caminho. Na véspera, banqueiro e juiz haviam tido uma reunião. Em seguida, o primeiro escreveu ao segundo: “Se o Andrei conseguir atrasar pra outra semana, pois tem feriado, o banco não quebra. Tenta chamar ele e sensibilizar isso se achar possível”. Trata-se do diretor-geral da PF. Não houve atraso, a polícia algemou Vorcaro.

A Advocacia-Geral da União e o Ministério da Justiça só entraram na briga entre a Polícia Federal e Mendonça após o presidente Lula reclamar da omissão dos subordinados

Na antevéspera da prisão, o banqueiro tinha procurado Moraes por mensagem. “Que loucura, bem na semana que estou resolvendo tudo. Aquele mesmo juiz Ricardo? E o Galípolo, tá sabendo? Conseguimos fazer algo? Acha que na segunda já tenho que estar fora?” E prosseguiu: “Não conseguimos reverter isso com Paulo ou Andrei?” Essas mensagens resumem a relação entre os dois e delineiam o papel do magistrado. “Juiz Ricardo” é Ricardo Soares Leite, da 10a Vara Federal de Brasília, autor da decisão sobre a prisão preventiva de novembro. Galípolo é o presidente do BC, que liquidou o Master no dia da prisão de Vorcaro. Paulo é Gonet, o procurador-geral da República. Ao se observarem as mensagens em conjunto e à luz dos acontecimentos, é inevitável concluir que Vorcaro contratou a banca advocatícia da esposa de Moraes para ter acesso direito ao togado. Descobrir a existência de investigações policiais e de medidas judiciais contra o Master era uma das missões de Moraes. Procurar autoridades que pudessem auxiliar o banco e seu dono, outra.

A crise no Supremo é um assunto delicado para Lula e tem impacto potencialmente negativo na tentativa de reeleição. Em parte da opinião pública, Moraes é visto como inimigo do bolsonarismo, em razão da postura dele à frente da Justiça Eleitoral na campanha de 2022 e na condenação do ­ex-presidente por tentativa de golpe. Por tabela, seria “lulista”. Flávio esforça-se para colar o juiz ao presidente. Mendonça inflou essa estratégia ao levantar suspeita contra o diretor da PF. Lula tem dado declarações genéricas sobre o STF nas redes sociais. Sem citar nomes, defende que todo mundo seja investigado, “doa a quem doer”.

O domínio absoluto do tema no noticiário é outro abacaxi para o petista. A insistência monocórdica da mídia tira visibilidade do debate de ideias. Um colaborador presidencial cita um caso: no dia da decisão de Mendonça sobre Moraes, Lula fez uma longa reunião no Palácio do Planalto, com gente de dentro e de fora do governo, para discutir restrições às bets, da limitação à publicidade à possibilidade de proibição total das apostas esportivas, ideia apoiada pela maioria do País. O assunto praticamente não teve espaço midiático. Daí o presidente torcer por uma solução rápida para a crise no Supremo. A sessão de 15 de setembro pode ser o início desse desfecho. Ou, ao contrário, alimentar ainda mais a fogueira. Até lá, a campanha petista tentará manter Lula a uma prudente distância de Moraes. •

Publicado na edição n° 1430 de CartaCapital, em 16 de setembro de 2026.

Bookmark and Share