Volta e meia, há uma forte onda antipolítica que ameaça
contaminar a alma da sociedade brasileira. Tivemos as decepções no afastamento
de Collor e Dilma e as manifestações de rua difusas de insatisfação em 2013. A
eleição disruptiva de 2018, fruto das revelações da Lava Jato e da
criminalização da política, patrocinou um vendaval de contestação, com a
ascensão de outsiders que encarnaram o repúdio ao que foi apelidado de “velha
política”. E aí, uma nova safra de frustrações veio ao se constatar que o novo
não era tão novo e que tudo que é novo não necessariamente é bom, unicamente
por ser novo.
Agora, a crise envolvendo o Banco MASTER
coloca em xeque novamente a estrutura do poder e as instituições republicanas,
com denúncias que alcançam de A a Z nos mais diversos segmentos do espectro
ideológico e engolfa setores dos três poderes da República.
Democracia implica em um governo em que o povo exerce a sua
soberania através de dirigentes e representantes eleitos pelos cidadãos em
eleições livres. O Estado, peça central na vida do País, conduzido pela força
política conjunturalmente majoritária, sob o olhar e a ação plural do
Congresso, e restringido pelas leis e pela ação do sistema judiciário, precisa
de legitimação permanente junto à sociedade. Afinal a vitória eleitoral não
concede uma procuração em branco para o governo. São os desafios dessa invenção
humana chamada democracia – o melhor caminho descoberto para arbitrar conflitos
de ideias e interesses presentes na sociedade. As ditaduras espalhadas pela
América Latina, Ásia, África e Oriente Médio não enfrentam estes dilemas.
Ao andarmos pelas ruas e convivermos em ambientes
comunitários, fora das bolhas militantes e apaixonadas, é fácil perceber
crescente desalento e falta de esperança, em pleno ano eleitoral. Isto sempre
ocorre quando o sistema político deixa de gerar respostas eficientes para as
angústias e os problemas do povo e a corrupção se alastra.
Max Weber, em seu clássico texto “A política como vocação”,
demonstra como a legitimidade do poder nasce ou da tradição ou do carisma ou da
legalidade. Quando as boas tradições são abandonadas, as lideranças não exercem
carisma que seduza a população e a legalidade é vista como mar de
interrogações, graças a má conduta de líderes das instituições republicanas, se
forma o caldo de cultura da antipolítica, gerando riscos imponderáveis. Weber
identifica como qualidades dos líderes políticos a paixão, a responsabilidade e
o senso de proporção. Quando elas vão pelo ralo, é natural o aparecimento de um
abismo entre cidadãos e elites no poder. Desaparecem tanto a ética da
consciência, absoluta em suas intenções puras focadas no salvamento da alma e
nos princípios, mas não só ela, também a ética da responsabilidade, centrada
nos objetivos e fins pretendidos, ainda que com concessões e relativização
parcial do rigor com os meios. Resta um estranhamento dos cidadãos em relação à
dinâmica de funcionamento do poder e suas elites.
Com a palavra, Pepe Mujica, ex-presidente do Uruguai: “A
pessoa que gosta muito de dinheiro tem que ser retirada da política. Quer dizer
que tem que ser castigada? Não. Tem que ir para o comércio, para a indústria,
para onde se multiplica a riqueza, na aventura do risco empresarial. Aí sim.
Mas não na política”.

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