‘Sofrimento será de duração curta, mas os ganhos de
duração longa’, disse Pete Hegseth. Não está sendo uma coisa nem outra
Enquanto atuou como comentarista de assuntos militares no
canal noticioso Fox News, Pete Hegseth disparou certezas sem precisar de fatos.
Dono de feições e físico altamente telegênicos, esmerou-se em aprimorar o
visual e a oratória ariano-Maga. Acabou por conquistar o presidente Donald
Trump, que procurava um garoto-propaganda de impacto para comandar o Pentágono.
E foi como secretário de Defesa do colosso militar que Hegseth, aos 45 anos,
anunciou, na estreia da Operação Fúria Épica contra o Irã:
— O sofrimento será de duração curta, mas
os ganhos de duração longa.
Não está sendo uma coisa nem outra. Na sexta-feira, dia 13,
o Comando Central dos Estados Unidos (Centcom) reconheceu que seis militares
americanos haviam morrido durante a operação. Não em combate, mas no interior
de um avião de reabastecimento. Estavam em missão de apoio a uma guerra que não
fora debatida, votada ou aprovada pelo Congresso, nem pela opinião pública do
país atacante (em Israel, país coatacante, o apoio é maciço). Somados aos sete
soldados mortos que haviam caído na semana anterior, já são 13 os caixões de
alumínio envoltos na bandeira americana a desembarcar na Base Aérea de Dover,
em Delaware, reservada a militares mortos no exterior.
Todo comandante em chefe com assento na Casa Branca detesta
cumprir a obrigação litúrgica de se fazer presente na chegada desses sarcófagos
lacrados. Alguns presidentes o fazem com compaixão e pesar genuíno. Outros,
como George W. Bush, proibiram o acesso da imprensa à chegada dos caixões. Mas
todos sabem quanto a imagem lhes custará na eleição seguinte. No caso de Trump,
a ojeriza deve ser duplamente aguda — é famoso seu comentário de 2018 de que
quem morre em combate é um loser (perdedor), um sucker (otário).
O avião-tanque KC-135, com seis militares a bordo, foi a
quarta aeronave militar perdida pelos Estados Unidos em duas semanas de guerra
— nenhum deles por fogo inimigo. Ao contrário dos caças alvejados
anteriormente, o KC-135 de reabastecimento não possui assentos ejetáveis,
diminuindo as chances de sobrevivência da tripulação. Tiveram sorte as
tripulações de outras três aeronaves, que saíram com vida de queda semelhante
na semana anterior.
Um posto de combustível voador fora de combate pode, em
tese, fragilizar a cadeia logística da operação, visto que os
caças-bombardeiros passam a operar por tempo bem mais limitado. Nada crítico,
por ora, considerando a imensa supremacia do atacante sobre o Irã. Porém
indigesto, com possível fratura na linha de frente.
Em Washington, para uma entrevista coletiva inescapável
diante da confusão mundial, Hegseth compareceu ligeiramente alterado — alguns
poucos fios de sua melena estavam em desalinho.
— Coisas ruins acontecem — informou, ao comentar as perdas
da semana, fazendo contraponto aos mais de 15 mil alvos iranianos que afirmou
terem sido atingidos.
Uma média de mais de mil por dia. A um custo oficial de mais
de US$ 1 milhão por dia, apenas com armamento.
Hegseth não confirmou se a escola primária do sul do Irã —
atingida por um míssil Tomahawk no primeiro dia de guerra, deixando cerca de
110 crianças destroçadas — estava entre os 15 mil alvos. A escola ficava no
terreno de uma base iraniana e, segundo as investigações em andamento a que o
New York Times obteve acesso, o Centcom usou dados de inteligência
desatualizados que apontavam a escola como alvo militar. O homem forte do
Pentágono tentou não perder o aplomb:
— Não permitiremos que uma reportagem nos leve a sugerir que
algo que aconteceu em determinadas circunstâncias...
Não encontrou um final para a frase. Preferiu reiterar que
“a guerra em busca da paz se faz necessária”.
Trump, enquanto isso, passou a semana ensaiando como
declarar vitória caso as consequências da guerra que deflagrou venham a lhe
bater à porta. Suas postagens anunciam a derrota que está infligindo aos
“escrotos dementes” do Irã e proclamam ter dizimado Marinha, Força Aérea,
capacidade nuclear e várias gerações de lideranças do inimigo — o que, em boa
parte, ocorreu. Mas se esquece de levar em conta que o Irã dos aiatolás nunca
teve a intenção de fazer uma guerra nos termos definidos pelos Estados Unidos.
Deixará passar a primeira investida, talvez até se autodestruir, se preciso.

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