Trump dá curso à ofensiva pela militarização da América
Latina
O governo de Donald Trump deu os primeiros passos para
implementar uma estratégia deliberada de militarização do continente,
incentivado pelo êxito do sequestro de Nicolás Maduro e o controle do governo
venezuelano. O anúncio da ofensiva regional não poderia ter ocorrido em outro
lugar a não ser na Flórida, bunker da extrema-direita latino-americana e foco
da busca dos republicanos pelo voto latino.
Trump interrompeu sua agenda bélica no Irã para encontrar líderes do continente e
lançartr o “Escudo das Américas”. Oficialmente, trata-se de uma aliança
entre Washington e uma dezena de países da região, entre eles Argentina, Chile,
Paraguai e Panamá. Na prática, o “Escudo” representa uma subordinação ao
poderio militar dos EUA. O republicano não escondeu, em seu discurso, sua
disposição de alocar mísseis e usá-los, se necessário.
Se a aliança foi estabelecida para lutar contra o
narcotráfico na região, vozes do governo brasileiro destacam que esse argumento
parece frágil quando se nota que nem Colômbia nem México, dois dos centros de
atuação de grupos criminosos, foram convidados ou consultados.
A ofensiva da Casa Branca ainda inclui a classificação de
facções criminosas, ao estilo do PCC e do Comando Vermelho, como grupos
terroristas, o que abriria caminho para o governo Trump “justificar” eventuais
operações em território brasileiro. Mais de uma dezena de organizações
criminosas da região ganharam esse status.
Observadores e diplomatas destacaram, porém, que a
iniciativa parece o início da tradução, na prática, das políticas enumeradas
nos documentos sobre estratégia de defesa nacional divulgados no fim de 2025
por Washington. A ambição declarada da Casa Branca era criar um arcabouço
político que pudesse frear o avanço chinês na região. Para isso, a
militarização do continente era um dos pilares.
Um dos acordos nessa direção foi assinado com o Paraguai.
Pelo tratado, os EUA ficam autorizados a estabelecer uma base militar no país
sul-americano. Os termos do tratado ainda revelam o grau de submissão do
governo de Assunção. Pelo entendimento, se um integrante das forças
armadas norte-americanas violar a lei paraguaia, poderá ser julgado apenas em
seu próprio país e só obedecerá às ordens de seus comandantes. Militares e
civis entrarão em território paraguaio com imunidade total, o que lhes permite
portar armas e burlar os controles locais. Também não pagarão impostos ou
taxas.
Outro campo de testes passou a ser o Equador, destacado pelo
Secretário de Guerra, Pete Hegseth, como um dos focos norte-americanos. Um dia
antes do encontro na Flórida, os dois países realizaram, pela primeira vez,
ataques coordenados contra grupos do narcotráfico, inclusive na selva
amazônica. Em fevereiro, representantes das forças navais dos dois países
realizaram uma rodada de negociações em Quito. O objetivo é traduzir as
políticas de segurança em ações concretas por meio do compartilhamento de
informações, planejamento conjunto e metas mensuráveis em segurança marítima.
Além da militarização, a ofensiva inclui “cenouras”. Ou
seja, benefícios para determinados setores. No caso do Equador, o governo de
Quito está prestes a fechar um acordo comercial com os EUA para ampliar as
exportações. “Esse acordo representa uma nova plataforma para promover a
prosperidade. Sua rápida entrada em vigor ajudará a expandir e diversificar o
comércio e o investimento bilaterais para o benefício mútuo de ambos os países
e seus povos”, afirmou Jamieson Greer, representante de Comércio dos EUA.
Argentina, El Salvador e Guatemala também assinaram acordos
comerciais que vetam esses países de fazer certos negócios com a China. Em
alguns deles, os governos locais se comprometem a não entrar em tratados de
cooperação espacial com Pequim.
Analistas alertam, porém, para o fato de que essa reocupação
geográfica pode ser mais difícil do que se imagina. O governo chinês criou uma
“força-tarefa” para tentar preservar sua posição diplomática na região e
antecipar ações dos EUA.
A realidade é que deslocar o dragão chinês pode não ser uma
tarefa das mais simples. O comércio da China com a região atingiu o recorde de
518 bilhões de dólares em 2024, com Pequim emprestando mais de 120 bilhões a
governos no Hemisfério Ocidental.
Os chineses contam com o apoio de uma extensa rede
portuária, com mais de três dezenas de portos, mais infraestrutura espacial do
que qualquer outra região do mundo fora da China continental, e a empresa
estatal Huawei se inseriu em ao menos uma dúzia de redes de telecomunicações em
toda a região. Em 2025, mesmo com toda a ofensiva de Trump, o comércio
entre a China e a América Latina cresceu 7%. A disputa pela região está em
curso. •
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18 de
março de 2026.

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