Em meio a crédito privado duvidoso, bolha de IA e medo
crescente, fundos restringem resgates nos EUA
Uncle Sam tem seus dias de desconfiança no crédito privado,
lá como cá.
Uma decisão da BlackRock suscitou nossa ousadia de recorrer
à analogia entre o fracking e a química dos mercados financeiros. O fracking
quebra a rocha para liberar gás de xisto. Os três ingredientes-chave – água,
areia e produtos químicos – são misturados e bombeados para o poço sob pressão
extremamente alta, por meio de grandes motores a diesel.
Fracking na rocha negra, vulgo BlackRock,
quebrou a rocha e não liberou o dinheiro. Para liberar gás de xisto injeta
água, areia e produtos químicos. Para não liberar liquidez aos investidores,
misturam-se crédito privado duvidoso, a bolha de IA e o medo. O que funciona na
química mineral, não funciona na química dos ativos financeiros.
Conhecem aquela frase famosa antes do estouro da bolha
subprime: “muito grande para quebrar”? Até a rocha negra mais resistente tem
suas fissuras de 26 bilhões de dólares. Fundo que proíbe resgate entra em
cracking. Pasmem, a BlackRock proibiu! Seus investidores ficaram sem gás, sem
seu precioso dinheiro. Quanto maior o ativo, maior a queda.
Segundo a Bloomberg: o HPS Corporate Lending Fund, que
reúne 26 bilhões de dólares, e é um dos maiores portfólios de crédito, em
empresas em desenvolvimento, não negociado em bolsa, informou em comunicado
nesta sexta-feira que os cotistas solicitaram o resgate de 9,3% de suas participações.
A administração decidiu limitar as solicitações a 5%. Embora o valor total
fosse de perto de 1,2 bilhão de dólares, segundo cálculos da Bloomberg, os
investidores receberão de volta em torno de 620 milhões que o fundo detinha no
fim do ano.
Jamie Dimon, o todo-poderoso chairman do J.P.Morgan,
avisou: “Quando você vê uma barata, provavelmente há mais”, para alertar sobre
riscos ocultos e falhas no mercado de crédito privado e bancos regionais dos
EUA. E as baratas chegaram no fundo da BlackRock. Uma das três maiores gestoras
de ativos no mundo restringiu o resgate. Where is the money?
Quando a roda-gigante dos preços dos ativos gira ao
contrário, temos a tal desalavancagem. Deságio na precificação dos ativos
financeiros, variação patrimonial negativa, o fundo encolhe, o dinheiro do
investidor some. Lembramos aos nobres leitores que, ao pedir resgate de um
fundo, o administrador é obrigado a vender o ativo. Se muitos investidores
tomam a mesma decisão, há uma venda maciça do ativo, queda expressiva do seu
valor, a riqueza diminui. Esse fundo não era negociado em Bolsa, portanto, tem
liquidez limitada. Assim, é dever da BlackRock garantir sua liquidez. Vários
outros fundos de crédito privado sofreram corridas para resgatar.
“Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando
para uma onda de pedidos de resgate, à medida que crescem a preocupação com as
práticas de empréstimo do setor e a exposição a empresas que podem ser
impactadas pela Inteligência Artificial.” (Bloomberg)
Executivos da HPS Investment Partners, adquirida pela
BlackRock, afirmaram, após a queda das ações na Bolsa americana, que a medida
de restringir os resgates ajudaria o fundo a investir em oportunidades de
investimento atraentes em meio à incerteza e volatilidade. Você acredita?
Dinheiro é um bicho altamente sensível e nervoso, qualquer
perturbação e quebra de confiança todos correm atrás dele. Nessa hora, é a
preferência pela liquidez, tradução: quero meu dinheiro.
Os fundos de crédito privado, em geral, estão se preparando
para uma onda de pedidos de resgate
Na toada de 2023, Jason Calacanis, um proeminente empresário
e investidor da internet, apertou o botão do teclado e twittou um aviso sobre
o colapso do Silicon Valley Bank: “Você deve estar absolutamente aterrorizado
agora – essa é a reação adequada a uma corrida bancária e ao contágio. Isso vai
se transformar em caos”.
A rápida queda do banco regional do setor de tecnologia
derrubou os costumes no Vale do Silício. Investidores como Calacanis, que
normalmente repreendem os reguladores por sufocar a inovação, voltaram-se para
Washington em sua hora de necessidade. A maioria alertou para graves
repercussões, caso os depositantes percam o acesso permanente ao seu dinheiro.
As angústias de Calacanis trazem à memória os temores de um
experiente administrador de fundos, em meio à tormenta do subprime, a
Grande Recessão de 2008/2009: “Quando todos à sua volta estão fazendo negócios
à velocidade do raio, é incrivelmente fácil ser carregado pela onda de otimismo
e fazer coisas das quais você vai se arrepender. Nesses momentos, a atitude
mais corajosa é não fazer nada”.
David Sacks, sócio-gerente da empresa de capital de risco
Craft Ventures, que assim como Calacanis é um associado próximo de Elon Musk e
tem muitos seguidores no Twitter, alertou para novas corridas aos bancos.
“Transfira os fundos do SVB para um dos quatro maiores bancos”, ele tuitou.
“Faça isso antes da abertura do mercado na segunda-feira, ou haverá contágio e
a crise se espalhará.” Investidores como o empreendedor e investidor de
tecnologia Jason Calacanis, que geralmente reclamam de ser sufocados pela
regulamentação, recorreram a Washington após o colapso do SVB. Seus apelos
surtiram efeito.
Dois dias após a Corporação Federal de Seguro de Depósitos
(FDIC) assumir o controle dos ativos do banco, o Tesouro, o Federal Reserve e a
FDIC anunciaram que os depositantes teriam acesso a todo o seu dinheiro na
manhã de segunda-feira. O alívio, no entanto, foi atenuado pelas críticas ao
papel desempenhado por alguns investidores de capital de risco na crise do SVB.
Quando as preocupações com o balanço patrimonial do SVB aumentaram na semana
passada, empresas de capital de risco, incluindo o Founders Fund de Peter
Thiel, incentivaram as empresas de seu portfólio a agir em seu próprio
benefício e retirar seus fundos. Isso contribuiu para desencadear uma corrida
aos bancos. Existe uma acusação mais ampla de hipocrisia em relação a alguns
dos investidores de capital de risco que se opõem à regulamentação
governamental da tecnologia, mas exigiram que os reguladores interviessem para
ajudar os depositantes do SVB. Recorrer à internet para pedir apoio “foi um
momento de ‘ateu em uma trincheira’”, disse um executivo de um fundo de capital
de risco, que zombou da conversão de seus colegas.
My friend, a rocha negra virou areia. Desconfie de fundos
que restringem resgates.
Publicado na edição n° 1404 de CartaCapital, em 18
de março de 2026.

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