domingo, 23 de agosto de 2015

O SALTO ALTO PODE FURAR A BOIA

Por Helena Chagas, Fato Online
Renan Calheiros lançou uma boia para Dilma Rousseff, e lá está o governo firmemente agarrado a ela, evitando o afogamento. Mas boias furam, principalmente se os quase afogados brigam pelo  espaço a cotoveladas. Politicamente, a situação do governo pode ter melhorado, mas continua frágil. Se ganhou fôlego para, por enquanto, manter ao largo as tentativas de aprovar seu impeachment, a presidente continua sofrendo derrotas no Congresso hostil, como a mudança do critério de correção do FGTS aprovada na Câmara.    
O pior que poderia acontecer agora a Dilma é desvestir um santo para cobrir o outro. Ou seja, confiando no recém-celebrado acordo com o PMDB de Renan, acabar atropelando o de Michel Temer, seu coordenador político, vice-presidente e sucessor constitucional. Há preocupantes sinais disso nas conversas de peemedebistas nos últimos dias, segundo as quais Temer estaria a um passo de devolver de uma vez por todas a coordenação política à presidente.
O vice pode até ter cometido uma gafe ao falar em “alguém” capaz de unir o Brasil há duas semanas. Não se tratou, porém, de um episódio grave o suficiente para justificar a onda de intrigas de petistas e aliados contra Temer. Mas, apesar das negativas da presidente, que se recusou inclusive a aceitar o cargo que o coordenador colocou à disposição, o clima azedou.
Azedou porque Dilma, no dia-a-dia, deve ter ouvido dezenas de observações, intriguinhas e fofocas de que o vice estaria conspirando contra ela. É da natureza de porco-espinho do PT, especialmente de alguns petistas com influência sobre a presidente, espetar. E é da natureza de Dilma acreditar em teorias conspiratórias. 
 Então, o que se ouve por aqui é que há certo clima de desconforto no Jaburu em função de algumas atitudes da presidente nos últimos dias. Além de ter estabelecido um canal direto com Renan – prescindindo da intermediação do vice –, Dilma tomou a frente de certas articulações, sobretudo na distribuição de cargos a aliados.
A dificuldade na liberação das nomeações prometidas, atribuída ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e outros petistas, já vinha sendo a principal queixa de Michel Temer e seus operadores. Nesta semana, Dilma fez questão de deixar claro que quem manda é ela.
Dilma avisou que arbitraria disputas como a do PSD e do PP pelo comando da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos) – que, afinal, vai ficar com o partido de Gilberto Kassab. O ministro das Cidades, inclusive, ganhou dois presentes no seu aniversário: além da CBTU, a presidente compareceu à festinha.
Que bom, finalmente Dilma está articulando, conversando com os aliados, indo até a batizado de boneca – festejam alguns. Em termos. Sem precisão e cuidados, esses movimentos podem provocar mais estragos do que ganhos.
É o que parece estar acontecendo no caso da delicada relação com o PMDB, que é de Renan, de Temer e também de Eduardo Cunha e outros que trabalham pelo impeachment da presidente da República. É preciso avaliar os riscos e não dar passos em falso.
Um cenário capaz de furar a boia poderia ser produzido, por exemplo, a partir da eventual saída do vice da coordenação política. No dia em que o ponderado Temer devolver essa missão à presidente da República e lavar as mãos, ter-se-á aquela clássica situação de um governante frágil, acossado por tentativas de afastamento somado a um sucessor em potencial no mínimo descomprometido com a defesa do titular. Traduzindo: nitroglicerina pura.
A equação que traz Temer fora da coordenação política traz também Eduardo Cunha e o PMDB oposicionista mais fortes. O PSDB, que tenta sair de sua crônica divisão interna e marchar unido para tentar derrubar Dilma, já percebeu isso. Aécio Neves e outros caciques já estão marcando reuniões com os peemedebistas favoráveis ao impeachment.
Nesse contexto, poderia ficar mais difícil segurar o fiel da balança e conter uma nova onda pró-impeachment, ainda que o senador Renan Calheiros continue ajudando o governo. Afinal, o Congresso é bicameral e ninguém vive somente  com o apoio do Senado, assim como não se anda com uma perna só.
É bom ficar claro: a boia ainda não furou. Mas o equilíbrio de forças que hoje sustenta o governo é extremamente débil, para lá de delicado. Não há espaço para intrigas domésticas e disputas menores. E nem para salto alto sob a ilusão de que o pior já passou, porque pode não ter passado.
Bookmark and Share

Nenhum comentário:

Postar um comentário