Por Helena Chagas, Fato Online
Renan Calheiros lançou uma boia para Dilma Rousseff, e lá
está o governo firmemente agarrado a ela, evitando o afogamento. Mas boias
furam, principalmente se os quase afogados brigam pelo espaço a cotoveladas. Politicamente, a
situação do governo pode ter melhorado, mas continua frágil. Se ganhou fôlego
para, por enquanto, manter ao largo as tentativas de aprovar seu impeachment, a
presidente continua sofrendo derrotas no Congresso hostil, como a mudança do
critério de correção do FGTS aprovada na Câmara.
O pior que poderia acontecer agora a Dilma é desvestir um
santo para cobrir o outro. Ou seja, confiando no recém-celebrado acordo com o
PMDB de Renan, acabar atropelando o de Michel Temer, seu coordenador político,
vice-presidente e sucessor constitucional. Há preocupantes sinais disso nas
conversas de peemedebistas nos últimos dias, segundo as quais Temer estaria a
um passo de devolver de uma vez por todas a coordenação política à presidente.
O vice pode até ter cometido uma gafe ao falar em “alguém”
capaz de unir o Brasil há duas semanas. Não se tratou, porém, de um episódio
grave o suficiente para justificar a onda de intrigas de petistas e aliados
contra Temer. Mas, apesar das negativas da presidente, que se recusou inclusive
a aceitar o cargo que o coordenador colocou à disposição, o clima azedou.
Azedou porque Dilma, no dia-a-dia, deve ter ouvido dezenas
de observações, intriguinhas e fofocas de que o vice estaria conspirando contra
ela. É da natureza de porco-espinho do PT, especialmente de alguns petistas com
influência sobre a presidente, espetar. E é da natureza de Dilma acreditar em
teorias conspiratórias.
Então, o que se ouve
por aqui é que há certo clima de desconforto no Jaburu em função de algumas
atitudes da presidente nos últimos dias. Além de ter estabelecido um canal
direto com Renan – prescindindo da intermediação do vice –, Dilma tomou a
frente de certas articulações, sobretudo na distribuição de cargos a aliados.
A dificuldade na liberação das nomeações prometidas,
atribuída ao ministro da Casa Civil, Aloizio Mercadante, e outros petistas, já
vinha sendo a principal queixa de Michel Temer e seus operadores. Nesta semana,
Dilma fez questão de deixar claro que quem manda é ela.
Dilma avisou que arbitraria disputas como a do PSD e do PP
pelo comando da CBTU (Companhia Brasileira de Trens Urbanos) – que, afinal, vai
ficar com o partido de Gilberto Kassab. O ministro das Cidades, inclusive,
ganhou dois presentes no seu aniversário: além da CBTU, a presidente compareceu
à festinha.
Que bom, finalmente Dilma está articulando, conversando com
os aliados, indo até a batizado de boneca – festejam alguns. Em termos. Sem
precisão e cuidados, esses movimentos podem provocar mais estragos do que
ganhos.
É o que parece estar acontecendo no caso da delicada relação
com o PMDB, que é de Renan, de Temer e também de Eduardo Cunha e outros que
trabalham pelo impeachment da presidente da República. É preciso avaliar os
riscos e não dar passos em falso.
Um cenário capaz de furar a boia poderia ser produzido, por
exemplo, a partir da eventual saída do vice da coordenação política. No dia em
que o ponderado Temer devolver essa missão à presidente da República e lavar as
mãos, ter-se-á aquela clássica situação de um governante frágil, acossado por
tentativas de afastamento somado a um sucessor em potencial no mínimo
descomprometido com a defesa do titular. Traduzindo: nitroglicerina pura.
A equação que traz Temer fora da coordenação política traz
também Eduardo Cunha e o PMDB oposicionista mais fortes. O PSDB, que tenta sair
de sua crônica divisão interna e marchar unido para tentar derrubar Dilma, já
percebeu isso. Aécio Neves e outros caciques já estão marcando reuniões com os
peemedebistas favoráveis ao impeachment.
Nesse contexto, poderia ficar mais difícil segurar o fiel da
balança e conter uma nova onda pró-impeachment, ainda que o senador Renan
Calheiros continue ajudando o governo. Afinal, o Congresso é bicameral e
ninguém vive somente com o apoio do
Senado, assim como não se anda com uma perna só.
É bom ficar claro: a boia ainda não furou. Mas o equilíbrio
de forças que hoje sustenta o governo é extremamente débil, para lá de
delicado. Não há espaço para intrigas domésticas e disputas menores. E nem para
salto alto sob a ilusão de que o pior já passou, porque pode não ter passado.

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