Artigo de Fernando Gabeira
Que período é este em que entramos após a rejeição da
segunda denúncia contra Temer? Imagino um remanso político até o fim do ano e
entrada em cena da campanha de 2018.
Alguns analistas acham que os políticos se fortaleceram.
Outros, que eles descobriram ser possível enfrentar com êxito a opinião
pública. Esquecem que estão em confronto com a sociedade, logo, ela
enfraqueceu.
O maior golpe nas expectativas positivas veio do Supremo. Há
uma pressão contra o foro privilegiado. Ele foi amplificado com a decisão de
submeter medidas cautelares contra parlamentares ao Congresso.
Nos três anos de Lava Jato, o Supremo manteve regularidade
no seu índice de condenação dos políticos envolvidos: zero. Numa país onde
algumas pessoas se colocam acima da Justiça, estamos, na verdade, sujeitos à
lei da selva, isto é, à lei do mais forte.
As concessões que Temer fez para se preservar no cargo
transformaram o esforço de reduzir os gastos numa tarefa de Sísifo. Os acertos
da dívida das empresas com o governo ficaram mais flexíveis. Perda de
arrecadação. Os políticos aliados barraram a privatização do Aeroporto de
Congonhas.
Se o capital do Estado agoniza no vaivém de cortes e
concessões, o capital político de Temer, que já era modesto, foi abalado por
dois acordos.
Na primeira denúncia, Temer determinou a abertura de uma
reserva mineral na Amazônia. Em outra, amenizou a lei de combate ao trabalho
escravo. Ambos são temas passíveis de uma discussão racional. No entanto, o
acordo com os ruralistas impunha uma decisão monocrática.
Um Congresso blindado e um presidente que apenas sobrevive
no cargo são um peso morto. A semana foi marcada por relatórios indicando o
crescimento da violência no País. Não se fala disso. O plano de segurança de
Temer não saiu do papel. O tema passa ao largo de todo o universo político.
Apenas Jair Bolsonaro trata dele, o que dá a impressão de que suas propostas
são as únicas para enfrentar o problema. Naturalmente, os candidatos
apresentarão as suas. Mas é evidente que, se não mergulham no tema desde agora,
serão menos convincentes.
Nesta ligeira calmaria na política, a vida real não dá
trégua. O ministro da Justiça nos colocou, os que vivem no Rio, numa situação
delicada. Ele afirma haver conluio entre o governo e o crime organizado e que
os comandantes da PM estão no esquema. Segundo Torquato Jardim, nem o
governador nem o secretário de Segurança controlam a polícia e isso só mudará
depois das eleições de 2018. Ainda estamos em novembro.
A generalização do ministro da Justiça é incorreta. Há bons
comandantes e muitos policiais que perdem a vida nas ruas.
É um remanso perigoso este. Ele certamente vai influenciar o
período que lhe sucede: as eleições.
A ainda débil retomada econômica e ligeira recuperação do
emprego não bastam para evitar a tensão. No front cultural já é uma incômoda
realidade, conflitos em torno de temas que poderiam ser tratados racionalmente
terminam em insultos.
O próprio Supremo, de quem se espera frieza e serenidade,
sobretudo neste momento do País, transmite ao vivo discussões agressivas como a
travada por Gilmar Mendes e Luís Roberto Barroso.
São fatores de instabilidade que tornam mais difícil o
caminho da mudança, pois contribuem, indiretamente, para a polarização
esquerda-direita, como se nos lançassem, na máquina do tempo, ao período da
guerra fria. Uma intensa luta ideológica é inevitável. Mas se domina a cena
morre com ela a chance de um diagnóstico mais próximo da realidade. E,
consequentemente, ressalta fórmulas esgotadas como a do governo militar e a
experiência lulopetista.
Para ser coerente com sua tática de negação dos seus crimes,
o PT analisa que errou por não ser duro, não ter confrontado os conservadores.
Daí a proposta de controlar os meios de comunicação, a ameaça de retaliar
procuradores e juízes.
Bolsonaro sonha com a militarização das escolas no Brasil.
Apoia-se no melhor rendimento dos colégios militares. E diz que a disciplina é
a razão da boa qualidade do ensino. Talvez esteja pensando com os padrões da
revolução industrial, do treinamento de trabalhadores fabris. No mundo complexo
em que vivemos, a iniciativa, a criatividade são instrumentos de sobrevivência,
assim como ser flexível para sobreviver diante da precarização do trabalho.
Isso não significa defender a indisciplina. Apenas afirmar
que cada época demanda uma combinação de restrições e liberdades que preparem
as pessoas para sobreviver nela.
Se erramos a mão, corremos o risco de formar um exército de
desempregados, disciplinados, que se levantam quando entra o professor e cantam
o Hino Nacional. Da mesma forma, se usarmos o método Paulo Freire, concebido
para ser um instrumento de vanguarda para formar revolucionários, corremos o
risco de incendiar a juventude com sonhos sepultados pela História. Esse é
apenas um lance da polarização no setor mais importante para alavancar a
mudança.
O colapso do sistema político-partidário não deixou pedra
sobre pedra. O encastelamento, no fundo, é uma tática do tipo depois de nós, o
dilúvio.
No Rio, parte da sociedade não achou o caminho para evitar o
que lhe pareciam duas regressões: uma esquerda do século passado ou um mergulho
na Idade Média, quando Igreja e Estado se confundiam. Houve um grande número de
votos em branco, mas venceu uma das regressões.
Não creio que o Brasil caia na mesma armadilha: de um lado,
a nostalgia do governo militar; de outro, a estrada para a Venezuela. Mas é
preciso levar em conta que o sistema político apodrecido nos empurra para isso.
O período é favorável para refletir sobre alternativas. Uma
corrente mais colada nos fatos pode até perder. Mas é uma chama que não pode se
apagar. Um dia, escaparemos da máquina do tempo.
Artigo publicado no Estadão em 03/11/2017

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