sexta-feira, 3 de novembro de 2017

MARÉ FAVORÁVEL. ATÉ QUANDO ?

É impressionante a sorte do Brasil. Já deitado em berço esplêndido de reservas cambiais recordes, graças ao tsunami de dinheiro derramado pelos países desenvolvidos na crise de 2008, duas novidades anunciadas neste feriadão têm tudo para prolongar o atual período de tranquilidade do País.
Ontem, soube-se que Jerome Powell vai presidir o Banco Central americano a partir de fevereiro. É um advogado com experiência de mercado financeiro, e que já compõe a diretoria do Banco. Tem fama de ser gradualista em matéria de política monetária, e de se alinhar entre os que defendem cautela no aumento dos juros, baixíssimos desde a grande recessão deflagrada em 2008.
Também ontem, outro Banco Central, o da Inglaterra, aumentou os juros pela primeira vez em dez anos, dobrando-os. Era um movimento há muito esperado. E o comunicado que o acompanhou não deixou dúvidas: a curva de aumento será lentíssima.
Como sabemos, o Brasil, mesmo em meio à pior crise política da história recente, com impeachment de presidente, poderosos na cadeia, e a maior recessão de todos os tempos, não sofreu abalos em suas divisas.
Atrás de nossos juros altíssimos, o dinheiro estrangeiro continuou a vir pra cá aos borbotões.
Afinal, os países desenvolvidos, com medo da quebradeira bancária, optaram por inundar os mercados com dinheiro público e, assim, irrigar economias enfraquecidas. Com a oferta abundante, os juros despencaram.
Diante da ameaça de uma depressão como a de 1929, Estados Unidos, Europa e Grã-Bretanha, fizeram de tudo para amenizar a crise.
Japão e China não hesitaram, e também seguiram emitindo dinheiro para manter os juros no chão, incentivando investimentos e crédito em geral.
Quem queria melhor rendimento, se arriscava mais – e apostava, por exemplo, no real.
O resultado é nosso saldo recorde de reservas externas, hoje em mais de US$ 300 milhões.
Só que a crise de 2008 acabou, o mundo desenvolvido voltou a crescer, e, como sabemos, os juros negativos não duram para sempre.
Nossa tranquilidade cambial depende dos movimentos de normalização da política monetária no exterior.
O Banco Central da Europa já vinha reiterando sua decisão de reverter a curva de modo muito homeopático.
Ontem, seu par inglês, ao aumentar a taxa, também não deixou dúvida, explicitando que será muito cuidadoso. (De fato, seria arriscado demais, pra eles, experimentar mudanças mais audaciosas em plena incerteza sobre o Brexit, a demorada saída da União Europeia.)
E nos Estados Unidos, entre a lista dos candidatos sobre os quais se especulava, escolheu-se o nome mais light para a presidência do Banco Central a partir do ano que vem.
Você pergunta: puxa, mas diante de tamanha maré favorável, o Brasil aproveita o bom momento para arrumar a casa e acertar as contas públicas, diminuindo a horrorosa e gigantesca dívida doméstica?
Pois é.
Nesta hora, volto a me lembrar da célebre frase do ex-ministro Mário Henrique Simonsen: “inflação aleija, mas balanço de pagamentos mata”.
Vide o caso da Venezuela, que hoje está convocando os credores para renegociar sua dívida externa.
Tanto mergulhou na inflação, na dívida e nos desmandos, que se viu insolvente.
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