É impressionante a sorte do Brasil. Já deitado em berço
esplêndido de reservas cambiais recordes, graças ao tsunami de dinheiro
derramado pelos países desenvolvidos na crise de 2008, duas novidades
anunciadas neste feriadão têm tudo para prolongar o atual período de
tranquilidade do País.
Ontem, soube-se que Jerome Powell vai presidir o Banco
Central americano a partir de fevereiro. É um advogado com experiência de
mercado financeiro, e que já compõe a diretoria do Banco. Tem fama de ser
gradualista em matéria de política monetária, e de se alinhar entre os que
defendem cautela no aumento dos juros, baixíssimos desde a grande recessão
deflagrada em 2008.
Também ontem, outro Banco Central, o da Inglaterra, aumentou
os juros pela primeira vez em dez anos, dobrando-os. Era um movimento há muito
esperado. E o comunicado que o acompanhou não deixou dúvidas: a curva de
aumento será lentíssima.
Como sabemos, o Brasil, mesmo em meio à pior crise política
da história recente, com impeachment de presidente, poderosos na cadeia, e a
maior recessão de todos os tempos, não sofreu abalos em suas divisas.
Atrás de nossos juros altíssimos, o dinheiro estrangeiro
continuou a vir pra cá aos borbotões.
Afinal, os países desenvolvidos, com medo da quebradeira
bancária, optaram por inundar os mercados com dinheiro público e, assim,
irrigar economias enfraquecidas. Com a oferta abundante, os juros despencaram.
Diante da ameaça de uma depressão como a de 1929, Estados
Unidos, Europa e Grã-Bretanha, fizeram de tudo para amenizar a crise.
Japão e China não hesitaram, e também seguiram emitindo
dinheiro para manter os juros no chão, incentivando investimentos e crédito em
geral.
Quem queria melhor rendimento, se arriscava mais – e
apostava, por exemplo, no real.
O resultado é nosso saldo recorde de reservas externas, hoje
em mais de US$ 300 milhões.
Só que a crise de 2008 acabou, o mundo desenvolvido voltou a
crescer, e, como sabemos, os juros negativos não duram para sempre.
Nossa tranquilidade cambial depende dos movimentos de
normalização da política monetária no exterior.
O Banco Central da Europa já vinha reiterando sua decisão de
reverter a curva de modo muito homeopático.
Ontem, seu par inglês, ao aumentar a taxa, também não deixou
dúvida, explicitando que será muito cuidadoso. (De fato, seria arriscado
demais, pra eles, experimentar mudanças mais audaciosas em plena incerteza
sobre o Brexit, a demorada saída da União Europeia.)
E nos Estados Unidos, entre a lista dos candidatos sobre os
quais se especulava, escolheu-se o nome mais light para a presidência do Banco
Central a partir do ano que vem.
Você pergunta: puxa, mas diante de tamanha maré favorável, o
Brasil aproveita o bom momento para arrumar a casa e acertar as contas
públicas, diminuindo a horrorosa e gigantesca dívida doméstica?
Pois é.
Nesta hora, volto a me lembrar da célebre frase do
ex-ministro Mário Henrique Simonsen: “inflação aleija, mas balanço de
pagamentos mata”.
Vide o caso da Venezuela, que hoje está convocando os
credores para renegociar sua dívida externa.
Tanto mergulhou na inflação, na dívida e nos desmandos, que
se viu insolvente.

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