Artigo de Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico
Foi uma ofensiva em três atos. Começou no domingo com o
artigo do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso, foi seguida pelo manifesto
dos economistas tucanos e teve seu clímax ontem com o lançamento da candidatura
do senador Tasso Jereissati à presidência do partido. A primeira resposta dos
governistas ao início do desembarque do PSDB foi a ameaça de convocação do
ministro das Cidades, Bruno Araújo, acusado pelos pemedebistas de privilegiar
seu Estado natal (Pernambuco) e o de Geraldo Alckmin (São Paulo), com obras do
Minha Casa Minha Vida.
O rompimento também é a senha que aliados de Michel Temer
aguardavam para por na rua candidaturas que o presidente possa chamar de suas,
como a do presidente da Câmara, Rodrigo Maia, e do ministro da Fazenda,
Henrique Meirelles. Mas Tasso Jereissati não dá por desfeita a perspectiva de
uma aliança eleitoral para 2018. A esse amálgama, que o ex-presidente Fernando
Henrique Cardoso um dia chamou de vanguarda do atraso, o senador dá uma
definição mais bem comportada – “Numa eleição tudo é possível desde que o
protagonismo seja do PSDB”.
A ofensiva tucana parte do pressuposto de que o impulso
eleitoral é de rejeição à política tradicional. Luiz Inácio Lula da Silva e
Jair Bolsonaro seriam seus filhos diletos e só haveria espaço para mais um se o
terceiro rebento vier a mostrar repúdio a tudo o que está aí. Foi isso que
moveu o mea culpa do programa de TV do partido em agosto e conduz a candidatura
de Tasso. Resguardados, naturalmente, mandato e foro do senador Aécio Neves.
Com protagonismo tucano, aliança de 2018 estaria mantida.
O PSDB partiu para o tudo ou nada e Tasso parece disposto a
nadar contra a corrente para mostrar que é possível romper com aliados
históricos bem aquinhoados no poder sem cair na segunda vala. Das arapucas
armadas no caminho dos tucanos, a mais ardilosa é a ameaça de concorrência dos
partidos que gravitam no entorno do Palácio do Planalto. Nem Maia, nem
Meirelles parecem ter futuro eleitoral, mas embaçam o meio de campo da
candidatura do governador paulista que custa a chegar a dois dígitos. “Ninguém
tem nome forte”, reconhece Tasso, “mas o PSDB pelo menos está fazendo um esforço
de se conectar com a população”.
Das medidas que julga capazes de reverter a rejeição ao
partido está a redação de um novo código de ética e a contratação de um
profissional de compliance. Um executivo do gênero não teria como se impor a
parlamentares ou governantes eleitos pelo voto popular, mas Tasso diz que sua
função seria a de denunciar à Executiva do partido as irregularidades que vier
a constatar.
Para gerir este programa de compliance, o senador do PSDB
cearense chamou o deputado paulista Carlos Sampaio que tem no pedido de
recontagem de votos das eleições de 2014 o capítulo mais importante de sua
biografia. Como a governança tucana quer olhar para frente, não vai estrear
pelas estripulias do candidato derrotado, Aécio Neves. No seu artigo, o
expresidente apela publicamente para que o senador mineiro seja poupado.
O PSDB já tem assegurado o apoio do PTB, mas o senador diz
que ainda é cedo para definir os critérios da política de alianças tucana.
Esnobados pelos tucanos, os governistas não vão deixar barato. A gestão Temer
está na medida para seus propósitos. Sem força para exigir a votação de medidas
impopulares, o governo tem prazo de validade a cumprir e uma anistia a ser
arrancada do Congresso. Até o PAC ressuscitou, para a alegria geral de seus
aliados. Por que os partidos governistas abandonariam o Planalto num momento
como este para ir atrás de uma candidatura tucana que ainda está por mostrar
sua viabilidade?
“Todos os partidos terão que passar por um processo de
recriação”, diz Tasso, que rejeita a ameaça de isolamento do PSDB e cita a
desconexão generalizada com o enunciado da idílica infância tucana, de
agremiações que permaneçam longe das benesses do poder, mas perto do pulsar das
ruas.
O sinal é trocado e não há perspectivas que se inverta. Os
parlamentares já se assenhoraram de normas eleitorais que sugerem baixa
renovação para enfrentar as incertezas de 2018. Mas a campanha de vacinação não
para por aí. A liberação dos jogos de azar facilitaria a vida de quem achou
pouco um fundo eleitoral de R$ 2 bilhões. Se as malas de dinheiro de Rodrigo
Rocha Loures e Geddel Vieira Lima passearam à sombra do Coaf, do BC e da
Receita, quem impedirá que cassinos e lavanderias funcionem sob o mesmo teto?
A baixa renovação do próximo Congresso pode vir a ameaçar
tempos difíceis para quem quer que assuma o poder em 2019. Para este
enfrentamento, o senador tucano preconiza a elaboração de um programa de
governo a ser abertamente discutido com o eleitor, sem subterfúgios ou
mistificações. A base deste programa é o manifesto elaborado pelos economistas
do partido e lançado na segunda feira em apoio à candidatura de Tasso à
presidência do PSDB. A ex-diretora do BNDES, Elena Landau, uma das cinco
signatárias do documento, diz que o acúmulo de promessas cumpridas e
desvirtuadas das últimas disputas obriga o partido a ser o mais transparente
possível para não ser acusado de estelionato eleitoral.
É um texto mais liberal que o “Ponte para o futuro” do PMDB.
Diz que o governo tem que prover educação e saúde de qualidade mas que, para
isso, não precisa ter escolas ou hospitais nem precisa contratar professores ou
médicos, e sim adotar indicadores de eficiência na gestão dos recursos dessas
áreas. O “programa radical de privatização” anunciado no texto não
necessariamente incluiria a Petrobras, explica Tasso. “Mas há 300 ou 400
empresas estatais hoje sem eficiência e que viraram cabides de emprego”.
No seu trecho mais provocativo, o manifesto anuncia como
tarefa urgente o fim da captura política das agências reguladoras. Presidente
da Comissão de Assuntos Econômicos do Senado, Tasso é quem comanda a sabatina
dos diretores das autarquias. Foi sob sua presidência que a CAE assistiu a uma indicada
para a superintendência do Cade ser trocada pelo Palácio do Planalto, às
vésperas da sabatina, por um indicado do centrão. A manobra é um exemplo da
ordem com a qual o senador tucano se diz disposto a romper, a de liberais que
só sobrevivem à sombra do poder. Não surpreende o alvoroço em que se encontram
o PSDB e seus aliados.

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