Talvez a História nunca tenha estado tão insegura entre a
verdade e a mentira. Nunca, nem mesmo o presente foi posto tanto em dúvida.
Será que descobrimos, de repente, que a verdade no estado puro não existe e que
tudo pode ser verdadeiro e falso ao mesmo tempo?
Vejamos o Brasil. Tudo parece ser uma coisa e o contrário.
Há até quem chegue a perguntar a si mesmo se o capitão Jair Bolsonaro,
que conseguiu 57 milhões de votos nas urnas não se sabe como, existe realmente
ou é uma miragem. Coloca-se em dúvida até mesmo que tenha
sido esfaqueado.
Em um mundo no qual até intelectuais chegam a pôr em dúvida
a existência do Holocausto judeu, com um saldo seis milhões de pessoas —
homens, mulheres e crianças — exterminadas nos campos de concentração,
podemos ter a impressão de que a verdade não existe e não será possível
conhecê-la.
Isso é positivo ou negativo? É verdade que dessa forma todos
nos sentimos mais vulneráveis e inseguros ao não ser capazes de distinguir
entre verdade e mentira. E, ao mesmo tempo, talvez tenhamos de nos acostumar a
conviver em uma realidade mais complexa do que pensávamos, que nos obriga a
estar mais vigilantes, já que os limites entre realidade e aparência, entre
notícia e fake
news, estão ficando cada vez mais tornam-se se fazem cada dia mais
tênues e indefinidos.
O que sentimos hoje como uma inquietação, talvez porque
estivemos séculos sentados tranquilos sobre nossas certezas, pode acabar sendo
uma importante purificação. Durante séculos vivemos alimentados pelos dogmas
que poder civil ou religioso nos impôs. Tudo era, sem que precisássemos nos
preocupar em descobrir, branco ou preto, verdadeiro ou falso, bom ou mau, justo
ou injusto. Era assim mesmo, ou será que tínhamos nos acostumado a conviver com
a verdade imposta, o que nos dispensava da dúvida? As coisas eram como eram,
porque sempre tinham nos ensinado assim. Teria dado muito trabalho colocá-las
em discussão.
Sempre acreditamos nos livros de História, como se fossem
textos sagrados que não pudessem ser discutidos. E se, na verdade, os livros de
História nos quais bebemos durante séculos fossem, em sua maioria, uma
grande fake news? Nós nos esquecemos de que, em grande parte, a
História foi escrita pelos vencedores, nunca pelos perdedores. Como teriam
escrito os mesmos fatos aqueles que perderam as guerras, as vítimas, os
analfabetos que não podiam escrevê-la, mas que a sofreram em sua pele?
Será que estaria a salvo da contaminação das fake
news o grande livro da Humanidade, a Bíblia, escrita no espaço de
mil anos por autores desconhecidos, que as Igrejas cristãs consideram ter sido
inspirada por Deus e, portanto, verdadeira? E se descobríssemos que
historicamente a Bíblia não resistiria a uma crítica séria? Ou será que alguém
pode acreditar que existiram seus personagens mais famosos, como Abraão, Noé,
Matusalém e Moisés?
E analisando apenas os quatro evangelhos canônicos que os
católicos consideram inspirados por Deus, quanto neles há de histórico e quanto
há de catequese religiosa ou política? Qual é a versão verdadeira sobre o
julgamento e condenação à morte do profeta Jesus se entre
as versões dos quatro evangelistas há inúmeras diferenças bem visíveis? Qual é
a figura real de Jesus, a que é apresentada aos judeus da época, cuja morte é
totalmente atribuída aos romanos, ou aquela narrada aos gentios e pagãos, em
que se carrega nas tintas contra os judeus e fariseus?
Talvez a inquietude que todos sentimos hoje, na nova era em
que a Humanidade entrou ao não saber se estamos lidando com notícias
verdadeiras ou falsas nem o quanto isso pode condicionar a convivência política
e social, se deva, no fim das contas, a algo positivo, embora seja preciso se
recompor e recuperar a serenidade para entender que vivemos em um mar agitado,
no qual é difícil distinguir um peixe vivo de um pedaço de plástico.
Essa positividade que alguns pensadores começam a farejar na
situação angustiante que vivemos, na qual verdade e mentira convivem abraçadas,
talvez nasça de algo novo e ao mesmo tempo positivo que não existia no passado.
Hoje, pela primeira vez, a crônica cotidiana, a história que estamos vivendo,
não é narrada exclusivamente pelo poder, como no passado. Não é narrada pelos
que se consideravam donos da verdade e a impunham com a espada na mão, se fosse
necessário. Todos os poderes, civis e religiosos, fizeram isso. Hoje, a crônica
começa a ser escrita e filtrada também pelos de baixo, pela periferia, por
aqueles que não têm mais poder do que o oferecido pelas redes sociais.
Isso sem dúvida levará, como já está ocorrendo, a crises de
identidade e à quebra de velhos paradigmas de segurança, como o que os dogmas e
as verdades oficiais ofereciam antes. Era tudo mais cômodo e causava menos
angústia. Mas não éramos também mais escravos do pensamento único do poder? O
fato de não termos de nos preocupar em saber se o que nos ofereciam como
história era verdade ou não, ou se era só a verdade de uma parte e não da
outra, dava-nos tranquilidade. Hoje, estamos no meio de um ciclone que parece
arrastar tudo e não é estranho que nos sintamos inseguros, irritados e até com
medo.
Tão inseguros que ainda há quem não saiba realmente quem é
Bolsonaro ou se ele é uma invenção, ou se os médicos de dois hospitais de
prestígio inventaram a história da facada. E Lula? E Moro?
Como se escreverá amanhã a história atual do Brasil? Será que os historiadores
de hoje conseguirão nos contar no futuro a verdade ou a fake news sobre
o que está vivendo uma sociedade que se sente presa entre a verdade e o boato,
entre o que ela gostaria que fosse e o que efetivamente é a realidade —
que, afinal, tem possivelmente tem tantas caras e nuances quanto as cores do
arco-íris.
É melhor não sofrer tanto e aprender a conviver em um mundo
que já não é nem será aquele em que nossos pais viveram. E essa sim é uma
verdade. Se opressora ou libertadora, só poderemos saber quando baixar a poeira
dessa agitação em torno de verdade e falsidade ou de meias verdades e meias
mentiras. O famoso filósofo espanhol Fernando Savater me lembrava de que “se o
mundo parasse de mentir, acabaria despedaçado em poucos dias”. Às vezes, uma
meia verdade pode salvar o mundo de uma catástrofe. Até a Igreja católica, com
seus séculos de experiência em conduzir o poder, cunhou as famosas “mentiras
piedosas”.
Para terminar, é verdade que Bolsonaro existe, com mais
sombras do que luzes e mais incógnitas do que realidades. E também existe Lula,
com toda sua história e todas suas contradições. O que não sabemos é como a
História nos contará um dia este momento, que em outras colunas em já chamei de
dor de parto, mais do que de funeral e morte. E em todo parto existe, ao mesmo
tempo, dor e felicidade, ansiedade e esperança.
E, acima de tudo, a certeza de que a vida, com todas suas
amarguras e crueldades, verdades e mentiras, é o único e o melhor que temos.
Que no Brasil predomine, apesar de tudo, a cultura da vida e não a da morte.
Essa é a grande aposta e a grande resistência. Para isso, todos deveríamos
andar de mãos dadas.

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