Ao emergir do chamado baixo clero da Câmara e chegar ao
poder, o presidente eleito, Jair Bolsonaro, confirmou a tese de que a
Presidência da República não é apenas um querer, é destino. Fez uma campanha
eleitoral disruptiva e antissistêmica, que derrotou os maiores partidos do
país, falando o que maioria dos eleitores queria ouvir. A desmoralização dos
políticos pela Operação Lava-Jato e uma facada na barriga que quase o matou,
entre outros fatores que estão no terreno da fortuna, não lhe tiram o mérito de
político sagaz, que soube agarrar a oportunidade com as duas mãos. Isso é o que
Maquiavel chamou de virtù.
O “mito”, porém, está diante da uma realidade inescapável:
governar é uma atividade essencialmente política, na qual a fortuna e a virtù
se correlacionam; quando mudam as circunstâncias, certos atributos positivos
viram negativos. Além disso, a velha política é muito resiliente, contraria a
retórica dos que acham que tudo mudará na marra. Não é por outra razão que a
montagem do novo governo começa a mostrar padrões tradicionais, entre os quais,
o de que a tropa de assalto não serve para a ocupação.
O primeiro a ficar de fora do governo foi o senador capixaba
Magno Malta (PRB-ES), que recusou o convite para ser vice de Bolsonaro, mas foi
um baluarte de sua campanha. Perdeu a reeleição no Espírito Santo e esperava
ter uma vaga na equipe ministerial. Acabou surpreendido pela indicação da
pastora Damares Alves, sua ex-assessora parlamentar, para a pasta de Direitos
Humanos, Família e Direitos da Mulher. Magno não foi sequer consultado, a
advogada teve apoio da bancada evangélica e da ala de mulheres bolsonaristas da
Câmara.
Outro comandante da tropa de assalto corre risco de não
tomar posse. É Onyx Lorenzoni, o coordenador da equipe de transição e futuro
ministro da Casa Civil, que começou a ser fritado pelos militares do governo e
pelo próprio Bolsonaro, cujos comentários podem ser interpretados como uma
sugestão para o auxiliar cair fora. Na quarta-feira, o presidente eleito disse
que vai “usar a caneta” se houver “denúncia robusta” contra o futuro ministro
da Casa Civil. Na sexta, Onyx perdeu a cabeça e abandonou uma coletiva. O
ministro é alvo de denúncias de executivos da J&F de que teria recebido um
repasse de R$ 100 mil por meio de caixa dois em 2012. O fato está sendo apurado
pela Procuradoria-Geral da República por determinação do ministro Edson Fachin,
relator da Lava-Jato no Supremo Tribunal Federal (STF).
Onyx já assumiu o caso e pediu desculpas, mas não deu
informações sobre suposto recebimento de outros R$ 100 mil. Conforme os
delatores da J&F, o repasse foi feito em 30 de agosto de 2012 em dinheiro
vivo. É, por isso, que o futuro ministro está na frigideira. O chefe de cozinha
é o vice-presidente Hamilton Mourão: “Uma vez que seja comprovado que houve a
ilicitude, é óbvio que o ministro Onyx terá de se retirar do governo, mas, por
enquanto, é uma investigação e ele prossegue aí com as tarefas dele. Nada mais
do que isso”, disse o general ferrabrás, ao comentar o mesmo assunto.
Em família
Nada é mais constrangedor, porém, do que o caso de Fabrício
Queiroz, ex-assessor do deputado estadual e senador eleito pelo PSL Flávio
Bolsonaro, filho mais velho do presidente eleito. Ele foi exonerado do gabinete
do deputado em 15 de outubro deste ano. O Conselho de Controle de Atividades
Financeiras (Coaf), do Ministério da Fazenda, apontou movimentações bancárias
suspeitas na conta de Queiroz de mais de R$ 1,2 milhão, entre 1º de janeiro de
2016 e 31 de janeiro de 2017. O relatório faz parte da Operação Furna da Onça,
que prendeu 10 deputados estaduais no Rio e investiga 75 servidores da
Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj).
Fabrício Queiroz era motorista de Flávio Bolsonaro e ganhava
R$ 23 mil mensais. Uma das operações era um depósito de R$ 24 mil na conta da
futura primeira-dama, Michelle de Paula Bolsonaro, supostamente em pagamento de
um empréstimo. “Não foram R$ 24 mil, foram R$ 40 mil. Se o Coaf quiser
retroagir um pouquinho mais, vai chegar nos R$ 40 mil”, afirmou Jair Bolsonaro,
em defesa da mulher. Segundo o presidente eleito, foram 10 cheques de R$ 4 mil.
Outra parte do relatório do Coaf revela saques em espécie no
total de R$ 324.774, e R$ 41.930 em cheques compensados. Além disso, o Coaf
identificou um grande volume de depósitos e saques inferiores a R$ 10 mil, o
que, segundo o relatório, seria para dificultar a identificação da origem e do
destino do dinheiro. Nathalia Melo de Queiroz, 29 anos, foi funcionária de
Flávio Bolsonaro entre 2007 e 2016; depois, foi nomeada para o cargo de
secretária parlamentar de Jair Bolsonaro na Câmara dos Deputados. Recebeu do
pai R$ 84 mil. Além de Nathalia, a mulher de Fabrício, Márcia Oliveira de
Aguiar, e outra filha dele, Evelyn Melo de Queiroz, trabalharam no gabinete de
Flávio. No total, sete assessores fizeram depósitos na conta de Queiroz.
Nathalia foi exonerada do gabinete de Bolsonaro na Câmara
dos Deputados em 15 de outubro, mesmo dia em que o pai dela deixou o gabinete
de Flávio Bolsonaro na Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj). O
episódio queima o filme do senador eleito pelo Rio de Janeiro, que chega ao
Senado confrontando o ex-presidente da Casa Renan Calheiros (PMDB-AL), velha
raposa política, que já empossou três presidentes da República como presidente
do Congresso e sobreviveu a todos. Dos filhos de Bolsonaro, Flávio Bolsonaro é
o mais experiente e articulado; passa a mão na cabeça do ex-assessor: “Ele me
relatou uma história bastante plausível. Garantiu-me que não teria nenhuma
ilegalidade nas suas movimentações”. As investigações sobre Queiroz, titular da
“caixinha”, mostrarão o que houve.
Em tempo – Vou tirar uma semana de descanso.
Do Blog Luiz Carlos Azedo, Correio Braziliense

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