Não foi preciso esperar cem dias para se admitir que os
brasileiros elegeram um líder político com agudas dificuldades para o exercício
do posto maior da República. Desde janeiro os atropelos se seguem, com
bate-cabeça de auxiliares, recuo de ministros, demissão de dois deles, vários
disse-desdisses do presidente, causando estupefação e desorientação. Tudo isso
sem que houvesse influência direta da oposição.
Jair Messias Bolsonaro carrega um passivo de bravatas que
lhe rendeu a imagem de homofóbico, racista, antiparlamentar,
anti-institucional, antirreformista, antidemocrata, e assim por diante. Essa
imagem negativa afeta o presidente da República e parece ser de difícil
superação. Mesmo porque Jair Bolsonaro faz questão de se apresentar como o
líder de um governo de “destruição” de tudo o que se havia construído nos 30
anos de vigência da Constituição de 1988, durante os quais se implementou,
reformou e inovou, tanto quanto possível, o que previa a Carta Magna.
Não há sentido em sustentar a impostura de vincular os
governos Fernando Henrique Cardoso ou mesmo os de Lula da Silva ao socialismo.
Foram governos de políticas semelhantes e distintas entre si, dentre elas uma
inclinação à privatização das empresas públicas e à manutenção do equilíbrio
fiscal, pautas liberais que marcam os últimos decênios em nível mundial. Os
problemas advindos do modelo de relação do Estado com a economia, que abrange
excesso de estatização, controle de preços, hipertrofia fiscal, centralização
de recursos, etc., vem de muito antes desses governos, em especial do período
militar, que Bolsonaro louva tanto.
Quem bloqueou a adoção do modelo bolivariano no Brasil, que
muitos petistas vocalizavam, foram a sociedade, a imprensa, a opinião pública
e, em especial, os institutos políticos que emanam da Carta Constitucional de
1988. Isso precisa ficar claro, para que os bolsonaristas percam a ilusão de
que foram eles que barraram a continuidade do petismo e também para que não
imaginem que será fácil construir no Brasil, a partir da “destruição” a que se
refere Bolsonaro, um novo regime político, fazendo sucumbir a nossa
institucionalidade democrática perante uma plataforma de tipo iliberal. Bolsonaro
admira um Donald Trump iliberal, mas se esquece de que os Estados Unidos
permanecem uma democracia liberal institucionalmente consolidada.
Do governo Bolsonaro emanam vetores que se entrecruzam e até
se opõem. Os claros e cada vez mais evidentes conflitos entre os generais que
compõem o governo (o vice-presidente Hamilton Mourão incluso) e o grupo
“palaciano” comandado pelos filhos do presidente, especialmente em relação ao
tema da Venezuela, não são de pouca monta e podem provocar uma quebra irreparável
na sustentação política do governo.
Mas o ponto mais agudo advém da reforma da Previdência,
alcunhada de “Nova Previdência”. O ministro da Economia, Paulo Guedes, faz
blague com a noção de “revolução”. Mas se a inspiração de Paulo Guedes é
Chicago e sua aplicação no Chile de Augusto Pinochet, não deixa de haver
sentido. Pinochet liderou uma “revolução neoliberal” inversa ao programa
socialista em vigor nos anos de Salvador Allende.
Enquanto Pinochet vocalizava que seu governo “não tinha
prazos, mas metas”, seus ministros e intelectuais falavam de “revolução
silenciosa”. Não há que estranhar a obsessão com a palavra. Contudo o cenário
brasileiro é de democracia, sustentada pela Carta Constitucional e suas
instituições, situação inteiramente distinta da do Chile nos anos Pinochet.
Imaginar uma ruptura política no Brasil está, por enquanto,
apenas no plano das utopias e os militares parecem pouco inclinados a uma
aventura como essa. No governo federal são poucos os que percebem que há que
fazer política e que se trata de uma maratona de quatro anos, e não de poucos
meses.
Na chamada área dos “costumes” ou mais “ideológica”, na qual
predomina uma orientação católica ultramontana combinada com um pentecostalismo
radical que se fia na letra da Bíblia como orientação para toda a vida social,
institucional, educacional e pessoal – o que carrega uma boa dose de hipocrisia
–, o governo Bolsonaro se faz parecer mais com o franquismo e o salazarismo,
que tiveram a Igreja Católica como apoiadora essencial, do que com o fascismo e
o nazismo, que se fundamentavam mais em dimensões econômicas do moderno.
Há, ainda, uma menção mais remota que se pode fazer, a
título de reflexão, ressalvando os anacronismos. Se a dimensão religiosa se
fixar como conduta central ou ponto de referência maior do governo, Bolsonaro,
por seu evidente plebeísmo, poderá ser aproximado ao monge Girolamo Savonarola,
que liderou, em 1494, uma revolta contra o poderio oligárquico dos Médicis em
Florença.
Savonarola instaurou uma “República popular” fundada na
religião e na condenação das artes e da vida social das elites, que, para ele,
representavam a decadência de Florença. Savonarola adotou medidas drásticas,
como um índex de livros proibidos e a queima deles em praça pública. Seu
destino não foi propriamente feliz. Maquivel, em O Príncipe, diz que Savonarola
“fracassou na sua tentativa de reforma quando o povo começou a não lhe dar
crédito. E ele não tinha meios para manter firmes aqueles que haviam
acreditado, nem para fazer com que os incrédulos acreditassem”.
Eleito democraticamente, Jair Bolsonaro mantém seus apoios,
mas já vê uma parte deles fugir por entre os dedos. É ilusória sua fé obsessiva
nos milhões de apoiadores das redes sociais, sem articulação política e sem que
os resultados econômicos se produzam, e desastrosa sua desconfiança em relação
aos membros do seu próprio governo, com exceção dos próprios filhos.

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