O presidente Jair Bolsonaro está na defensiva antes mesmo de
completar seis meses de governo. Ao atacar mais uma vez as investigações sobre
as falcatruas do filho Zero Um no exercício de seu mandato de deputado
estadual, Bolsonaro afirmou que elas não o alcançarão. “Não vão me pegar”,
disse o presidente. Para se mostrar inocente, ele chegou a oferecer a abertura
de seus sigilos bancário e fiscal. Foi da boca para fora, evidentemente. O
curioso foi ter usado uma desculpa adotada por dez entre dez pessoas acusadas
de malfeitos. Não precisava, o presidente não é acusado deste crime. Mas a
declaração serviu para revelar um homem acuado, com medo.
Bolsonaro está com medo de ser pego com a mão na botija?
Não. Até porque não dá para afirmar isso por ora. É muito cedo. Mas ele está
tremendo de pavor de ver um filho seu, ou quem sabe dois deles, acertando
contas com a Justiça. A saída possível para o Zero Um fica cada dia mais
difícil. O Ministério Público já chama de “organização criminosa” o grupo que o
filho do presidente montou na Assembleia Legislativa do Rio. Ele, sua mãe, o
seu irmão mais novo (o que não está na política), a ex-mulher do seu pai,
primos, amigos e funcionários do seu gabinete terão suas contas bancárias e
suas declarações de renda escarafunchadas pelo MP e pela Polícia Federal.
No total, 55 funcionários, 12 pessoas da família Bolsonaro
ou diretamente ligadas a ela e nove empresas tiveram seus sigilos fiscais e
bancários quebrados por ordem da Justiça. Serão analisadas contas e declarações
de renda de um período de 11 anos. Foi nesse intervalo que a mulher do
presidente, Michelle Bolsonaro, recebeu cheques do assessor/motorista Fabrício
Queiroz. Dinheiro que, segundo o marido dela, foi pagamento de um empréstimo
que o então capitão deputado fez ao assessor/motorista do filho. Esquisito?
Sim, mas tudo bem. As contas abertas podem comprovar ou desmentir esta
alegação.
De qualquer forma, também não é isso que assusta Jair
Bolsonaro. Pela Constituição, ele não pode ser julgado, portanto nunca será
condenado, por crimes que não tenham sido cometidos em ligação direta com o
exercício de seu mandato. A ele nada ocorrerá mesmo que o filho, ou os dois
filhos, a mulher e a ex-mulher sejam condenados por mau uso do dinheiro
público. O problema é outro. O que arrepia o presidente é a hipótese de o
núcleo formado por ele e pelos filhos Flávio, Carlos e Eduardo ser quebrado. Se
isso acontecer, sua integridade moral e psicológica pode ruir. E com ela o seu
projeto de poder.
Escrevi aqui no final de março sobre um estudo em que o
economista Dado Salem, mestre em Psicologia do Desenvolvimento e especialista
em gerir conflitos familiares, mostra como são estruturadas as “famílias
simbióticas indiferenciadas”. Elas agem como um bloco monolítico e que não se
quebra por razões internas. São fechadas em si e agem como um ser único. Assim
funcionam Jair Bolsonaro e seus três filhos políticos. A única chance de um
núcleo desses se dissolver é se um dos seus vértices resolver fazer um voo
solo, ensina Salem. Nesse caso, o sistema de funcionamento da família seria
aliviado de sua permanente ansiedade, abrindo espaço para a entrada de outros
no núcleo indivisível. O que seria a sua destruição como bloco.
Como esta hipótese não é contemplada no caso dos Bolsonaro,
a alternativa do núcleo só se romperá quando e se o Zero Um for condenado. Se
Flávio for afastado da família compulsoriamente, em razão do resultado das
investigações, a vida da família será bruscamente modificada. Com um dos pés
quebrados, o governo Bolsonaro também sofrerá consequências, avalia Salem. A
saída de um dos vértices abrirá espaço para a possibilidade de relacionamentos
construtivos que hoje estão fora da bolha acabarem sendo absorvidos pelo núcleo
dividido. Desse ponto de vista, o resultado da investigação tem o potencial de
até mudar o governo para melhor. É disso que Bolsonaro tem medo.
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