O presidente tem vocação para piadista de boteco. Na frente
do Alvorada, ele mantém um programa de auditório, em que tenta fazer rir uma
turma que grita “mito, mito”.
Nesses shows cômicos (para a tal turma), os objetos
frequentes de escárnio e bullying são a imprensa e os/as repórteres, os quais
preenchem o mesmo lugar dos judeus nas cervejarias de Munique nos anos 1920-30
ou dos negros nos pubs para brancos do Alabama nos anos 1950. À diferença de
judeus e negros naqueles anos, a imprensa é obrigada a presenciar sua própria
zombaria (cf.
a ombudsman desta Folha).
As/os repórteres aguentam o desrespeito do presidente e a
estupidez cúmplice da claque dele porque acreditam na função moral da imprensa:
informar mesmo os que não querem ser informados.
Num
desses shows,
o presidente quis desacreditar a investigação de Patrícia Campos Mello,
repórter especial da Folha, sobre disparos
ilegais de mensagens de Whatsapp nas
últimas eleições. Ele suscitou o riso de sua claque com a ideia de que Campos
Mello teria tentado seduzir uma testemunha para conseguir as informações que
ela procurava. O que foi? Será que o presidente se sentiu visado pela
investigação? Ou será que há mais alguma razão pela raiva presidencial?
Campos Mello testemunhou os maiores dramas das últimas
décadas; escreveu do Afeganistão, da Síria, do Iraque, do Líbano e de Serra
Leoa durante a epidemia de ebola, em 2015. Em “Lua
de Mel em Kobane” (Cia das Letras), ela relata a história de um homem
e uma mulher sírios que ela conheceu quando tentavam sobreviver à expansão do
Estado Islâmico.
A experiência de Campos Mello nas piores guerras do século
deve ser insuportável para um jovem que quis ser soldado e acabou reformado sem
nunca ver a sombra de um combate (salvo seus protestos por melhores
salários).
Por competência e caráter, a desproporção é assustadora: o
presidente parece um defensor amador, numa pelada, desistindo da bola e
tentando chutar a canela de um craque de primeira divisão.
Alguns dirão que não precisa procurar longe: o presidente é
simplesmente grosso. Pode ser. Mas a grosseria tem significação e
consequências. Explico.
Dou muita importância às boas maneiras —faca na mão direita
e garfo na esquerda, esperar que as pessoas saiam do elevador antes de entrar
etc. Crianças, no bonde, esperávamos que chegasse um idoso para ver qual de nós
lhe ofereceria seu lugar mais prontamente.
Mas para o que servem as boas maneiras? Por que não comer
com as mãos e arrotar livremente? Esse, aliás, era o clima rebelde no fim dos
anos 1960, quando li “O Processo Civilizador”, de Norbert Elias (que é um dos
200 livros que é preciso ler na vida, Zahar).
Elias quer entender como chegamos até à convivência social
moderna, dita “civilizada”. Ele começa mostrando como elaboramos as boas
maneiras, que mudaram, aos poucos, nosso comportamento. Por exemplo, paramos de
limpar a boca ou assoar o nariz na manga do casaco do vizinho e inventamos
guardanapo e lenço. As regras de etiqueta revelam que descobrimos que os outros
existem, enxergamos a humanidade de nossos semelhantes.
Esse é o primeiro volume da obra de Elias. O segundo, menos
lido, é sobre a formação do Estado moderno, que centraliza o monopólio da
violência dita “legítima”.
Qual a conexão entre os dois volumes? As boas maneiras são
um pressuposto básico do sonho libertário —que se possa viver no respeito do e
ao outro sem nem sequer recorrer ao Estado para administrar a convivência.
Inversamente, o Estado autoritário é inevitável numa sociedade de malcriados. A
história confirma: governante tosco é sempre seduzido pelo autoritarismo,
porque ele não enxerga os outros como seus semelhantes.
Bolsonaro deu nesses dias mais uma confirmação dessa leitura
de Elias. As
bananas, que ele fez diante das perguntas dos jornalistas, valem para todos
nós, os governados que poderiam questioná-lo, e elas têm o mesmo sentido
do “foda-se”
que Augusto Heleno endereçou ao Congresso.
“República das bananas” adquire assim um novo sentido
—não designa apenas pequenos países da América Central com ditadores que
entregam os frutos da monocultura local à exploração estrangeira.
Agora, república das bananas designa também o país onde quem
governa faz bananas aos governados.
O Brasil, apesar de sua economia diversificada e de seu
tamanho, torna-se enfim uma república das bananas.
Contardo Calligaris
Psicanalista, autor de 'Hello Brasil!' (Três Estrelas),
'Cartas a um Jovem Terapeuta' (Planeta) e 'Coisa de Menina?', com Maria Homem
(Papirus)

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