Retroescavadeira e bala. Essa — a do aterramento, do
excludente de ilicitude moral — é a linguagem brasileira corrente. O próprio
espírito do tempo. Retroescavadeira e bala. Remover entulho — para a nova
ocupação de espaços de poder outrora políticos — e atirar, a imposição de um
modo de comunicar instigador de violências e que não se acanha ante a possibilidade
de matar.
É onde estamos: a truculência que se pretende manifestação
política; que despertou — que anima — a alma ressentida dos que dão corpo à
febre reacionária; que faz sentido, vende transgressão, a uma juventude
desesperançada em busca de formas para existir.
Retroescavadeira e bala. As forças de destruição que
materializam a percepção da democracia como empecilho. O próprio espírito do
tempo. O Zeitgeist que autoriza — não pense que sem encadeamento, leitor —
jornalista a dar na cara de entrevistado; que legitima parlamentar a se valer
de calúnia para disseminar a misoginia característica do reacionarismo que
capturou o imaginário nacional; que endossa o investimento do presidente da
República contra a imprensa, difamando uma mulher, como se o ofício fosse
prostituição; que impulsiona o chefe do Executivo federal a desafiar
governadores; que estimula um general do Exército — chefe da inteligência
institucional do governo — a apostar na instrumentalização do povo nas ruas
para emparedar o Poder Legislativo; que fundamenta o sentimento da elite
financeira que visita a China e volta encantada com aquele tipo de sistema em
que tudo se ergue com rapidez, no que vai contida, embora não declarada, a
ideia de que a vida seria mais fácil sem essas chatices de democracia
representativa e de estado de direito.
Retroescavadeira existe — Cid Gomes sabe — para limpar
terreno; esvaziá-lo do indesejado. Avaliemos, pois, a mensagem difundida por
seu uso contra pessoas. Avaliemos a mensagem disseminada por seu uso — nas mãos
de uma autoridade, contra cidadãos — como ferramenta de ação política. Ou
alguém duvidará de que o recurso empregado pelo senador — ex-governador —
contra os policiais cearenses fora pensado como um gesto político para efeito
midiático? Decerto calculou que sairia do teatro como um corajoso herói em nome
do povo. Esse é o lugar autoritário em que a razão se acoelhou: o do trator
como expressão do discurso político.
Veja, leitor, a gramática da negociação que prepondera: um
senador da República que trata policiais grevistas tentando lhes passar o
trator por cima; uma polícia amotinada que tapa o rosto e reage metendo bala
num senador da República.
Não é pouca a ousadia desses agentes da segurança pública,
os primeiros a violar a fronteira — a da prudência — que separa Estado e
bandidagem. A Constituição veda qualquer tipo de movimento grevista por
policiais — o Supremo foi expresso a esse respeito em decisão de 2017. Aqueles
policiais, no entanto, não apenas se amotinaram em greve; mas foram às ruas
para promover o terror — determinar toque de recolher, mandar fechar o
comércio, como fazem os traficantes — e ameaçar a população que juraram
proteger. Mais precisamente: usaram a vida da população para chantagear
governante.
Para que não reste dúvida: um sujeito, armado pelo Estado
como prerrogativa de sua função profissional, que atira — que usa sua condição
de vantagem — não em defesa da sociedade, sob o que regra a lei, mas em
benefício de interesses corporativos, não é policial. É miliciano.
Não tardaria, entretanto, para que os teóricos da revolução
reacionária começassem a ensaiar — aliás, assim como quando da greve criminosa
dos caminhoneiros — o texto de que o terrorismo dessa milícia seria
manifestação popular de liberdade… A quem interessa incentivar — dar lastro
intelectual — a levantes policiais Brasil adentro? A quem interessaria — senão
a um projeto autocrata — o enfraquecimento dos governos estaduais?
Atos como os havidos no Ceará — conjunto de erros alarmante
— ilustram o conceito de que, testada com rara frequência, esticada sob
intensidade sem precedentes em tempo democrático, a corda da democracia, quando
brevemente afrouxada, nunca volta ao lugar anterior. As imagens de um senador
que pretendeu tratorar indivíduos, os quais poderia matar, e que recebe como
resposta tiros disparados a esmo, em meio à multidão, por policiais em atitude
de milícia, corroboram isso; são a expressão de que os envolvidos — todos os
enredados na barbárie de Sobral — já se moviam num terreno avançando da regência
autoritária, e sem necessariamente perceber.
A ideia de que se deva tomar partido no que é — de qualquer
possível lado — barbárie absoluta representa a falência do equilíbrio político
entre nós. A brutalidade tribalista é a régua identitária mais atraente que há.

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