O Carnaval deixou pânico no lugar da ressaca. Há gente
apavorada com o coronavírus, há gente apavorada com Jair Bolsonaro e há gente
apavorada com os dois, discutindo qual pânico deveria ser maior.
No caso do coronavírus, não é nos hospitais que se observam,
por ora, os maiores efeitos da doença no Brasil. São mais visíveis na torrente
de mensagens apavoradas seguidas por conselhos médicos falsos que circulam pelo
WhatsApp e no tombo da Bolsa, jogando sombra numa recuperação que já não era
grande coisa.
A infodemia do coronavírus se alastrou bem mais rapidamente
do que a doença, que ainda não é classificada como pandemia. Até aqui, as
pessoas infectadas pelo coronavírus no mundo são cerca de 81 mil, sendo
apenas uma
delas no Brasil, até onde se sabe. O que realmente não se sabe ao
certo é o número de contaminados pelo golpismo, o elemento por trás do outro
pânico —e a incógnita, vale notar, constitui por si só um elemento de terror.
No caso dessa desinfodemia, o propagador-chefe é o próprio
presidente da República, que manda pelo celular vídeos convidando pessoas
a um ato contra o Congresso e diz achar que está tudo bem.
Também aqui o prejuízo se materializa já na divulgação. Pois
foi a Câmara o motor da reforma da Previdência, principal feito do primeiro ano
deste governo. Não é razoável esperar dos deputados a mesma disposição para as
demais tarefas.
Sem elas, sobrará apenas um país em interminável circuit
breaker. Pilotando o roteiro estará gente como o ministro da Educação, que usa
o feriado para documentar em vídeo seu corte de barba, e o presidente do
Supremo Tribunal Federal, que um dia produziu um pacto de convivência entre os
Poderes —inexistente, como ficou claro.
É difícil manter a calma com os pânicos já instalados, mas a
medicina e as instituições (a despeito de seus integrantes) continuam sendo as
melhores apostas possíveis nos dois casos.
Roberto Dias
Secretário de Redação da Folha.

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