O que têm em comum o advogado e ex-juiz Wilson Witzel, do
Rio, de direita e do PSC, e o engenheiro agrônomo e professor Camilo Santana,
do Ceará, de esquerda e do PT? Os dois integram a nova força emergente, e de
resistência, nessa tão emaranhada e preocupante política brasileira: a frente
de governadores.
Bastou o presidente Jair Bolsonaro ameaçar não prorrogar o
uso da Garantia da Lei e da Ordem (GLO) e lavar as mãos diante da crise no
Ceará para Witzel e os governadores de Pernambuco, Paulo Câmara (PSB), e de São
Paulo, João Doria (PSDB), articularem o envio de tropas para socorrer o colega
Santana e a população cearense.
Doria se dispôs a enviar 100 homens, 20 viaturas e dois
drones da PM paulista, enquanto fazia consultas à procuradoria sobre o seguro
para os homens da operação em outro Estado. O importante, para os governadores,
era dar o recado para Bolsonaro e não deixar o Ceará ilhado entre bandidos
agindo à luz do dia e PMs amotinados.
Simultaneamente, Camilo Santana estudava entrar com recurso
no Supremo para obrigar o presidente a manter o Exército no Estado, de acordo
com a Constituição. Em live na internet, Bolsonaro referiu-se à “minha GLO”. A
GLO não é dele, muito menos deve ficar ao sabor de disputas politicas, mas
mesmo assim seria drástico jogar o Supremo na mais nova crise entre Planalto e
governadores e mais lenha na fogueira entre os Poderes.
Foi pela dupla pressão, dos governadores e da possível
interferência do Supremo, que Bolsonaro decidiu e finalmente anunciou a
prorrogação da GLO no Ceará, onde as negociações entre o governador e os PMs
rebelados empacaram numa palavra: anistia.
Bolsonaro parece tratar tudo isso na base do “bem feito!”.
Não percebe que quem está contra a parede hoje é o petista Camilo Santana, mas
quem poderá estar amanhã é o País todo. Se o Ceará ceder e anistiar facções de
uma força armada que tomaram de assalto quartéis, fecharam o comércio, tomaram
viaturas policiais, desfilaram encapuzados e miraram para matar num senador
licenciado, isso será um pavio de pólvora. Bolsonaro não lucra nada com isso.
Em reunião no Ministério da Defesa, quinta-feira, ele ouviu
um balanço da presença da Força Nacional e do Exército no Ceará e tomou para si
a decisão de prorrogar ou não a GLO. No caso dele, uma decisão envolvendo dados
reais, a disputa ideológica e, digamos, o seu jeito de ser. A vontade
irresistível de dar mais um tranco nos governadores. Eu sou presidente, eu
posso…
Como pano de fundo, há a complexa questão das PMs, que são
militares, mas não são subordinadas às Forças Armadas e sim aos governos
estaduais. Convivem com as regras políticas dos governadores e lembram que são
militares quando, por exemplo, tentam absorver regras camaradas na reforma da
Previdência.
O fato é que 20 dos 27 governadores unem-se ao Supremo e ao
Congresso para defender o equilíbrio da República, a democracia, os bons modos
e o velho princípio de que “respeito é bom e eu gosto”. Os de São Paulo e Rio
dão voz à reação, os do Nordeste tratam de controlar as contas públicas, atrair
investimentos e manter os ganhos sociais. Há muitas divergências entre eles,
mas trabalham o que há de comum.
É isso que Bolsonaro deveria fazer: marcar posição no que há
de divergente, mas atuar em conjunto no que é de interesse do País e da Nação.
Aliás, como ocorre quando governo federal e governo de São Paulo somam esforços
contra um inimigo de todos, o coronavírus. Essa, sim, é uma ação republicana,
ninguém perde, todos ganham. Mas é preciso algo que parece em falta: postura de
estadista, noção da importância e dos limites do cargo. Ou seja, grandeza
política e pessoal.

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