O monge retraído e corpulento de 33 anos talvez não
imaginasse que desencadearia a ruptura da cristandade quando afixou uma grande
folha impressa em latim com caracteres tipográficos minúsculos à porta da
igreja do castelo de Wittenberg, Saxônia, norte da Alemanha, em 31 de outubro
de 1517. Com suas Noventa e Cinco Teses, Martinho Lutero, ou Martin Luder
(1483-1546), converteu uma lista de proposições numeradas em um dos mais
poderosos movimentos sociais da história.
O texto que inaugurou a Reforma Protestante foi impresso e
divulgado por um obscuro professor de teologia de uma universidade sem
prestígio, situada em uma cidade pobre, suja e enlameada. Lutero se lamentava
de que Wittenberg ficava tão distante da civilização que “um pouco mais e
estaria em terra bárbara”.
Talvez não medisse as consequências do gesto. Os relatos do
momento foram mencionados pelo estudante Philip Melâncton e pelo secretário de
Lutero, Georg Rörer. Ambos afirmam que o monge pregou o texto de forma teatral,
armado de um martelo. Mas nem um nem outro se encontrava na cidade naquele dia.
Há quem creia que as teses foram simplesmente coladas à porta do templo.
O fato é que a Reforma e a fratura irremediável da unidade
da Igreja Católica foram ocasionadas por um único texto, que não pretendia
pregar verdades, e sim formular suposições a serem verificadas em discussões
acadêmicas posteriores. A primeira tese dizia: “Quando nosso Senhor e Salvador
Jesus Cristo disse ‘penitenciai-vos’, ele queria que toda a vida do fiel fosse
de arrependimento”.
Com essa proposição, Lutero desejava restaurar a pureza dos
sacramentos católicos, a começar pela graça do perdão obtida com a contrição
sincera da parte do fiel. Foi assim que, naquele mesmo dia, encaminhou as teses
ao o arcebispo Albrecht de Mainz, a autoridade eclesiástica máxima da Alemanha,
acompanhadas por uma carta em que pedia providências do prelado em relação a
seu rebanho. Albrecht reagiu violentamente ao tom do monge e mandou puni-lo,
dando início ao processo que resultou na excomunhão do “herege”, por causa de
sua reinterpretação da penitência.
Sem purgatório
O motivo do confronto entre arcebispo e monge revelou-se
prático: por trás daquela pletora de ideias mais ou menos encadeadas, Lutero
atingia o cerne do sistema de indulgências, que movia o Vaticano desde a Idade
Média. Lutero escolhera por alvo o frei dominicano Johannes Tetzel, da vizinha
cidade de Jüterbog, conhecido por ter organizado um lucrativo esquema de
indulgências na região. Seu lema era: “Quando a moeda no cofre tilintar, a alma
do purgatório vai se livrar”.
A raiva de Lutero extravasou quando Tetzel pregou em um
sermão que suas indulgências se mostravam tão eficazes que, mesmo que o pecador
tenha estuprado a Virgem Maria, teria garantida a absolvição no purgatório,
mediante o pagamento do perdão, que poderia ser facilitado em suaves
prestações. O sistema ajudava a manter as atividades da igreja e, naquele ano,
especificamente, patrocinava a construção da Catedral de São Pedro em Roma.
Albrecht devia dinheiro ao papa, e estava pessoalmente empenhado em arrecadar o
máximo com a venda de perdões.
A história é conhecida. O “escândalo das indulgências” se
espalhou, Lutero arrebanhou milhões de leitores em todos os reinos germânicos e
em seguida na Europa, e se tornou famoso da noite para o dia. Banido pela
igreja, refugiou-se no forte de Wartburg, em Eisenach, na Turíngia, cidade de
seus parentes maternos. Lá, perseguido por atiradores, escondido em um
cubículo, teria lutado dia e noite com o Demônio, golpeando-o com a tinta de
sua pena, enquanto traduzia a Bíblia Vulgata em latim para o alemão, com o
objetivo de utilizar o texto liturgicamente. Foi o início do cisma que tanto
divide o cristianismo há quinhentos anos como também marcou a consolidação da
língua alemã moderna como veículo de conhecimento preciso.
O que não se sabia era a motivação íntima de Lutero. Com base na psicanálise e em revisão de fontes primárias, a historiadora australiana Lyndal Roper propõe uma reflexão inédita sobre a influência da personalidade de Lutero e como ela foi determinante para a instauração do protestantismo no livro “Martinho Lutero: renegado e profeta”, publicado originalmente em 2016 e agora lançado pelo selo Objetiva da Companhia das Letras. Seu propósito foi mostrar como um indivíduo do século XVI enxergava o mundo e por que o via assim. Também investigou sua personalidade para compreender suas ideias sobre carne e espírito, em uma época em que não havia separação entre mente e corpo.
O que não se sabia era a motivação íntima de Lutero. Com base na psicanálise e em revisão de fontes primárias, a historiadora australiana Lyndal Roper propõe uma reflexão inédita sobre a influência da personalidade de Lutero e como ela foi determinante para a instauração do protestantismo no livro “Martinho Lutero: renegado e profeta”, publicado originalmente em 2016 e agora lançado pelo selo Objetiva da Companhia das Letras. Seu propósito foi mostrar como um indivíduo do século XVI enxergava o mundo e por que o via assim. Também investigou sua personalidade para compreender suas ideias sobre carne e espírito, em uma época em que não havia separação entre mente e corpo.
Demônio em tudo
Lutero, segundo Roper, ostentava uma personalidade polêmica,
teatral e contraditória. Sabia ser rude e até brutal com os inimigos, embora
piedoso com os seguidores e intenso com os amigos. Melâncton achava que “seu
caráter era quase a prova máxima de sua doutrina”. Disposto a brigar por suas
convicções, possuía o dom de repercutir tudo o que fazia e dizia, nem sempre de
forma piedosa. Achava que “o lugar das mulheres era em casa, por causa de suas
ancas largas” e acreditava que os judeus haviam assassinado Cristo.
“É difícil lidar com sua inquietante obsessão pelo Demônio,
o virulento antissemitismo e o gosto pela polêmica rude e grosseira”, diz
Lyndal Roper. “Mas de sua personalidade brotou uma nova fé.” Apesar de seu
conservadorismo, preconizou o sexo antes do casamento e o prazer carnal para
homens e mulheres indistintamente.
Para Roper, é possível entender melhor a teologia de Lutero,
se for analisada à luz de seus conflitos psicológicos, presentes em textos, de
cartas a sermões. “A Reforma de Lutero rompeu a unidade da Igreja Católica e
deu início à secularização no Ocidente”, afirma. O paradoxo mais fascinante,
repousa na diferença entre as intenções do teólogo e os resultados práticos de
sua ação na história. “A herança teológica de Lutero consiste numa concepção de
natureza humana que escapava à separação entre carne e espírito que perseguiu
uma enorme parte da história do cristianismo, gerando profunda desconfiança da
sexualidade. Não com Lutero: ele podia ser tudo, mas desmancha-prazeres não
era”, diz. “Considerava a sexualidade pecaminosa, mas apenas na medida em que
todas as nossas ações são pecaminosas, e essa perspectiva lhe permitiu adotar
uma abordagem positiva do corpo e da experiência física.”
Como lutero difundiu sua crença
O monge Martin Luder ganhou fama atacando as indulgências da
Igreja Católica. Seu primeiro seguidor foi o teólogo Andreas Karlstadt
(1486-1541), detrator dos votos monásticos (no alto à eq.,. 1541-42). Ele
formou o grupo de Reformadores (no alto à dir.). Acima à esq., é retratado em
1520 com auréola e pomba do Espírito Santo. Casou-se em 1525 com a freira
Katharina von Bora (pintura de Cranach, o Velho, c. 1529)
As controvérsias da época
Lutero se encarregou de realizar uma tradução acessível da
Bíblia, para ser usada na liturgia, e protagonizou violentas polêmicas
teológicas. Abaixo à esq., gravura representa de Lucas Cranach, o Velho,
intitulada “As origens do Anticristo”. Apresenta o papa morto, cercado por
demônios tentam ressuscitá-lo. À dir., panfleto de 1525 caricaturiza Lutero
firmando o pacto com o Demônio, em trajes de camponês.

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