O governo Bolsonaro mente como método. É um governo
mentiroso — de um presidente mentiroso. Que faz desse procedimento a principal
engrenagem da fábrica de crises artificiais de que se alimenta o bolsonarismo,
fenômeno reacionário que investe em falar para algo como 20% do eleitorado;
base que — alargada pelo influente peso da caneta presidencial — garantiria a
Jair Bolsonaro um lugar firme no segundo turno de 2022. Esse é o cálculo.
A comunicação direcionada a um grupo da sociedade, mas como se
tal fosse o povo brasileiro ele mesmo, fundamenta-se na própria fé totalitária
que o bolsonarismo prega: a do poder popular, soberano, que se confunde com o
líder populista até não ser mais possível distinguir um de outro — o que
validaria o aterramento da democracia representativa. É o projeto.
Bolsonaro mente. Forja inimigos de fantasia. Manipula
auxiliares. Com frequência, anui que um grupo de colaboradores negocie e,
acordo fechado, deixa um outro bloco de subordinados bombardear o pacto e
desautorizar o próprio governo. Assim, consegue ser ao mesmo tempo situação e
oposição — com o que escolhe as adversidades com as quais lidará, dirige o
debate público e tira do primeiro plano tanto a incapacidade (ou desinteresse)
em fazer avançar as reformas quanto as dúvidas sobre a morte do miliciano
Adriano da Nóbrega e o exame acerca da relação de agentes do bolsonarismo com o
motim havido no Ceará.
Vejamos o caso do Orçamento impositivo —o novo combustível
para a indústria de conflitos destinados a enfraquecer o Parlamento. No curso
de 2019, a matéria teve adesão quase absoluta dos bolsonaristas; isto a ponto
de merecer — ainda em março — palavras de exaltação de Eduardo Bolsonaro. Era,
segundo o deputado, vitória do Legislativo e da independência entre poderes.
Tratava-se, então, das emendas de bancada — rubrica que transferia parte do
orçamento às mãos do Congresso. O governo avalizara.
Nada mudaria em dezembro, quando da votação da Lei de
Diretrizes Orçamentárias, ocasião em que se aprovou o hoje controverso controle
parlamentar sobre a execução das emendas de relator — os R$ 30 bilhões cujo
domínio está em xeque. De minha parte, penso ser mesmo — esse ponto específico
— avanço excessivo, gerador de desequilíbrio, do Parlamento sobre o Orçamento.
Mas o que posso fazer senão falar?
A hoje indignada bancada bolsonarista, no entanto, votou,
caladinha, a favor da lei — com parcas exceções, entre as quais não Eduardo
Bolsonaro. Ele, líder do PSL, poderia ter proposto um destaque e enfrentado a
porção ora nociva — de súbito tornada mecanismo para chantagem contra o governo
— da LDO; mas não o fez. E não o fez, só pode ser isto, por incompetência — por
não saber o que se votava.
Fato consumado, lei aprovada, Executivo estrangulado, veto
do presidente anunciado, o governo correu, por meio da dupla general Ramos e
Paulo Guedes, para montar um plano B, um acordo que minimizasse os prejuízos e
partilhasse aquele montante entre Congresso e ministérios — acordo que
elementos do mesmo governo não hesitariam em dinamitar.
O governo funciona assim: na planície, sem publicidade,
costura e negocia, lançando mão do que se poderia, segundo critérios
bolsonaristas, chamar de toma lá dá cá; no Planalto, contando com a
multiplicação desinformante de seus milicianos digitais, nega o que pactuou,
trai a palavra empenhada, joga pra galera e ataca aquele com quem
(legitimamente) se acertara. No caso, o Parlamento. Tem sido assim desde o
começo.
É o que permite ao governo — o que mais liberou emendas
parlamentares em primeiro ano de gestão da história — propagandear-se como
vítima da conspiração de um Congresso chantagista. Para essa distorção dos
fatos servem figuras como general Heleno, aquele que disparou o gatilho da nova
rodada de intimidação do Legislativo; aquele, chefe do GSI, que teve — sem
querer — declarações de afronta ao Congresso captadas por uma transmissão ao
vivo gerada pelo próprio governo. Ok. Acredito.
Ato contínuo, decerto sem qualquer coordenação, lá estavam
os movimentos de rua bolsonaristas convocando para protesto contra o
Parlamento. Não demorou até que montagens com fotos de generais — vendendo a
ideia de intervenção militar — circulassem como peças de divulgação das
manifestações. E não tardaria para que o presidente compartilhasse vídeos
chamando para os atos — seguramente (né?) sem qualquer intenção de que sua
mensagem fosse vazada à imprensa. Foi.
Teve início, então, um novo ciclo de imposturas sobrepostas,
de ataque a jornalistas — e de exposição da misoginia que caracteriza o
bolsonarismo. Sob o estado de guerra em que se move um Bolsonaro em campanha
permanente, tudo vale. É o que explica — mesmo com seus embustes descortinados
pela exibição da verdade — haver dobrado a aposta na mentira. Ele sabe o que
quer — nada a ver com as reformas estruturais de que o país precisa — e para
quem fala.

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