O presidente da República convocou
seus seguidores para uma manifestação contra os outros dois Poderes da
República. Em um dos cartazes do evento, fotos dos generais do governo aparecem
sobre a legenda “os militares estão esperando o chamado do povo”. Outro cartaz
mostra o presidente da Câmara dos Deputados, Rodrigo Maia (DEM-RJ), sendo
cozinhado como um porco. Há mais de um cartaz pedindo um novo AI-5.
O deputado federal bolsonarista Daniel Silveira (PSL), do
Rio de Janeiro, disse que era melhor o Congresso obedecer aos militares (“os
homens dos botões dourados”), ou eles eliminariam os comunistas utilizando
métodos “menos ortodoxos do que o politicamente correto”.
Todo o núcleo bolsonarista no Parlamento trabalha pela
passeata, assim como ministros do governo e a secretária da Cultura, Regina
Duarte. Eduardo Bolsonaro (PSL-SP) disse que, se jogarem uma bomba no
Congresso, ninguém sentirá falta.
Imaginem um cartaz que dissesse “Congresso, STF, cobrem
impostos dos ricos ou nossos generais vermelhos, inspirados no glorioso
Marechal Zhukov, os esmagarão como esmagaram os nazistas que hoje adubam
Stalingrado”. Sobre o texto, as fotos de
Heleno, Villas Bôas e Mourão photoshoppados com uniformes soviéticos,
talvez com um Lamarca promovido a general ali no meio para dar aquela
provocada.
As Forças Armadas ficariam em silêncio se um governo de
esquerda usasse essa imagem para convocar uma manifestação contra o Congresso e
o STF? Suspeito que não.
Mas os extremistas no governo são de direita. Por isso, nos
contentamos em dizer que a democracia venceu toda vez que ainda não tiver sido
essa semana que teve golpe de estado.
É bom lembrar, o golpe não está sendo chamado para resolver
qualquer impasse institucional, muito pelo contrário. Como já disse aqui, só o
Congresso trabalha pela aprovação das reformas
de Guedes. Trabalha enquanto os bolsonaristas se empolgam com motim de PM.
Houve reação. As principais lideranças políticas de esquerda
e da direita não-fascista protestaram, toda a mídia protestou. Meu xará no STF
disse o que tinha que ser dito, e as associações dos procuradores da República
e dos procuradores do Trabalho soltaram uma nota importante.
Mas que preço concreto Jair Bolsonaro pagou
por ter cometido esse atentado contra a democracia? Nenhum. Nada. Zero.
Não
foi aberto processo de impeachment, ninguém foi cassado, ninguém foi preso.
Nenhum ministro golpista caiu. Rodrigo Maia reiterou seu compromisso com a
aprovação das reformas. Se se elas gerarem bons resultados econômicos,
Bolsonaro vai dizer que o Congresso só trabalhou sob ameaça de golpe.
As Forças Armadas não vieram a público deixar claro que se
opõem ao golpe e que, aliás, se Bolsonaro tentá-lo, quem cai é ele.
As instituições brasileiras parecem querer ensinar
democracia para Bolsonaro pelo método Paulo Freire, fixando alguns limites e
tentando conduzi-lo à consciência democrática por sua própria reflexão.
Tenho a impressão de que, no caso dos bolsonaristas, o
próprio Freire diria que tem que apertar os moleques ou eles vão se encher de
crack e tacar fogo na escola.
Se o golpismo não começar a custar caro, ele vai até o fim.
Celso Rocha de Barros
Servidor federal, é doutor em sociologia pela Universidade
de Oxford (Inglaterra).

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