domingo, 31 de maio de 2020

MIRANDO O PASSADO

Ascânio Seleme, O GLOBO

Que importância têm PT, PSOL, PCdoB? Nenhuma. No momento, nem oposição fazem corretamente. No futuro, talvez, mas terão de rebolar muito para conseguirem voltar a ter a preponderância que culminou nas eleições de Lula da Silva e Dilma Rousseff. Então, por que Bolsonaro, seus filhos, seus ministros mais engajados e toda a ala ideológica do governo não param de falar nesses partidos? Porque não têm mais desculpa para o fracasso político do chefão. O presidente, que poderia ter governado em paz, mesmo tocando aqui e ali sua tresloucada pauta conservadora, perdeu completamente o rumo e a liderança quando os escândalos de seus filhos começaram a bater em sua porta. E então apontou seus canhões para o passado.

Os alvos de Bolsonaro e sua turma passaram a ser os partidos de esquerda, sobretudo o PT, do qual o presidente se julga o verdadeiro antagonista. Por isso, todas as vezes que se vê confrontado parte para cima do que já passou, do que virou história. Discurso contra a bandeira vermelha é de uma obviedade sem limites. Atacar os governos de Lula e Dilma virou quase um bordão na boca do presidente e de seus aliados. O que eles fazem é explorar o sentimento de rejeição ao PT que transbordou pelos quatro cantos do país depois da desilusão provocada pelos escândalos do petismo.

Tem o mesmo valor o continuado discurso anticorrupção do clã, que também motiva a militância bolsonarista. Não há um dia em que Bolsonaro, um de seus zeros, um de seus ministros ou um aliado importante não fale que a era da corrupção acabou no país. Em seus monólogos para sua claque e alguns microfones na portaria do Palácio da Alvorada, Bolsonaro não se cansa de repetir: “querem a volta da corrupção”; “perderam a boquinha e querem a mamata de volta”; “estou há 500 dias no governo e não há nenhum caso de corrupção contra mim”. Claro que combater a corrupção é importante, mas não é tudo.

Alguém tem dúvida de que mais cedo ou mais tarde vão começar a eclodir casos de corrupção no governo, sobretudo agora que Bolsonaro embarcou a turma do centrão em postos que comandam orçamentos de bilhões de reais? Ninguém. Quando houver, têm de ser cortados, corrigidos e os responsáveis devem ser punidos. É assim que a banda toca. Esta é uma questão bem encaminhada no país. Com a Lava-Jato, abriu-se um caminho nunca antes trilhado no combate à corrupção. Nem por isso, aliás, Bolsonaro deixou de tirar seu ministro-símbolo, Sergio Moro, para poder manipular a Polícia Federal em favor dos meninos, da família e de amigos, como ele mesmo explicou.

Mas estes argumentos têm prazo de validade. Os militantes mais sofisticados e sinceros e menos engajados e radicais já começam a perceber que Bolsonaro quer tapar o sol que queima a todos com a peneira dos partidos de esquerda e os escândalos de corrupção da era petista. E, mais grave, usa uma cortina de fumaça para tentar esconder o que mais o apavora, a fragilidade dos filhos enrolados com a Justiça. Bolsonaro se exaspera, eleva a voz e xinga desbragadamente por um único motivo, percebe que a navalha se aproxima de sua garganta.

Os novos inimigos de Bolsonaro, Supremo e Congresso servem eventualmente como argumento substituto dos partidos de esquerda e da corrupção. Na ótica de sua excelência, tem a mesma intenção, impedir que o capitão purifique a nação do comunismo e da roubalheira. A indigência intelectual dessa lógica é óbvia, mas dela a turma do Palácio do Planalto não se afasta. Naquela já famosa reunião ministerial, quando Abraham Weintraub se volta na cadeira e aponta para a Praça dos Três Poderes, ele falava dos dois Poderes instalados ali do lado. Embora tenha mencionado apenas o Supremo, queria mandar prender também “os vagabundos” do Congresso. Seu gesto e sua fala não deixam margem para a dúvida.

O aloprado prestou depoimento ontem à Polícia Federal. Não disse nada, exercendo o direito de não produzir prova contra ele mesmo (e precisava?). Mas se tivesse falado, com certeza diria que defendia o Brasil, a moralidade e os bons costumes, que tratava retoricamente de um retrocesso do país ao tempo da corrupção e da ameaça vermelha. Weintraub é tão atrasado e retrógrado quanto Bolsonaro. Pior do que Bolsonaro, porque é de uma sabujice de fazer inveja ao Barão de Pindaré, um dos maiores puxa-sacos de Dom Pedro II. Weintraub é a prova incontestável de que este governo só mira o passado, mesmo quando tenta sobreviver no futuro.

Saudades de FH e Lula
Tolerância é a mola que movimenta a política. Sem ela, não se faz política. Os últimos presidentes brasileiros deram show de tolerância. Michel Temer foi objeto de uma denúncia de altíssima combustão, não saiu das páginas dos jornais e teve seu governo contaminado por ela, mas jamais perdeu a fleuma. Dilma foi impedida de continuar governando e nunca ameaçou qualquer tribunal ou casa legislativa. Lula foi julgado e acabou preso depois de ser denunciado em cinco casos de corrupção. Nem por isso ameaçou descumprir a sentença, apesar de aloprados ao seu redor aconselharem que não se entregasse ou se refugiasse numa embaixada. Fernando Henrique foi denunciado por compra de votos na emenda da reeleição e acusado no falso dossiê Cayman e nunca ameaçou virar o barco. Eram outros tempos.

Degenerativa
Professores gostam de dar nomes a etapas da História. Batizaram de “República do Café com Leite” a política dos anos 30, de “Nacional Populismo” a ditadura Vargas, de “Nova República” a transição democrática de Tancredo Neves e Ulysses Guimarães. Chamaram de “Social-Liberalismo” a era FH, e de “Reformista” a de Lula. Difícil encontrar um nome para atual etapa da (turbulenta) vida nacional. Há os que já chamam o governo de Bolsonaro de “Neofascista”, mas o ex-deputado e professor de História Chico Alencar prefere a designação de “República Degenerativa do Brasil”. Faz sentido.

Reconhecendo a fake
A frase de Bolsonaro é esclarecedora. No monólogo irresponsável em que ameaçou não cumprir determinação do Supremo Tribunal Federal, produziu mais uma confissão de culpa: “(Querem tirar) a mídia que tenho a meu favor”. Oras, presidente, mídia a favor não se têm. Compra-se. No seu caso, o que existe é mídia paga ou ideologicamente comprometida. É mídia mentirosa, falsa e criminosa.

Indo às compras
Em qualquer lugar do mundo o gesto seria tratado como um acinte à Justiça. No Brasil desses dias parece apenas mais uma bobagem do presidente. Ao afirmar que o procurador Augusto Aras é merecedor de uma terceira vaga no STF, Bolsonaro mostrou que está disposto a pagar qualquer preço para o processo contra ele não caminhar no Supremo. Além de, embora diga que não, estar desejando a aposentadoria (ou a morte) precoce de um dos ministros do tribunal.

Ex-futuro ministro
Muito dificilmente o ministro da Justiça, André Mendonça, ganhará cadeira no Supremo Tribunal Federal. Pode até ser indicado para a vaga por Bolsonaro, mas depois da aberração que produziu, na forma de um habeas corpus em favor do colega Abraham Weintraub, a coisa se complicou para ele. Primeiro, será discretamente detonado pelos atuais ministros do STF. Depois, vai ter que se explicar no Senado onde será sabatinado. O problema é que seu caso não tem explicação.

Ódio a índio
O amalucado ministro da Educação disse naquela reunião memorável no Palácio do Planalto que tem “ódio da expressão povos indígenas”. Pois é. No início desta semana, o general Eduardo Pazuello, ministro interino da Saúde, inaugurou uma ala de hospital no Amazonas que atenderá exclusivamente a índios, onde disse: “A gente vai ter capacidade de recebê-los num local preparado para eles, na sua cultura, na sua essência como povo indígena”. E agora, Weintraub?

Influência
“Sou a deputada mais influente do Congresso, que mais tem visualização de vídeos”, disse esta semana, orgulhosa, Carla Zambelli. Saudades do tempo em que influência na Casa se media pela participação em comissões, pelo número de projetos aprovados, pela capacidade de aglutinar e produzir entendimentos.

Benedita fora
O jornalista José Maria Trindade, da Rádio Jovem Pan, comentando esta semana a ação da PF contra o governador do Rio, Wilson Witzel, lembrou que quatro dos últimos cinco mandatários estaduais já foram presos, só Benedita escapou. E disse que perguntou a ela por que nunca foi alcançada. Bené teria respondido, segundo Zé Maria, “fiquei pouco tempo, meu filho”.

Bacana SP 1
Casas chiques em subúrbios e condomínios elegantes no entorno de São Paulo, como Boa Vista e Terras de Itú, estão sendo alugadas para a quarentena por até R$ 100 mil por mês. O proprietário de uma dessas mansões alugou a sua por quatro meses e com o dinheiro comprou uma quitinete para sua filha nos Jardins.

Bacana SP 2
Outra novidade desta crise é o aumento importante do interesse por residências fora das áreas mais densas da cidade, já que as pessoas perceberam que dá para trabalhar sem sair de casa. Em São Paulo, o Jardim Guedala, um bairro bacana mas de baixíssima valorização, de repente virou o queridinho de quem tem algum dinheiro e quer sair da muvuca. Três casas foram vendidas na mesma rua do Jardim Guedala na semana passada. Uma delas estava encalhada há mais de dois anos.

Bacana SP 3
Quase todas as lojas de decoração da Alameda Gabriel Monteiro da Silva, em São Paulo, estão funcionando a todo vapor, apesar de não serem essenciais e por decreto estarem proibidas de abrir. Basta chegar e bater na porta. Muitos dos que alugaram casas no interior durante a pandemia estão aproveitando para fazer reformas nas suas casas paulistanas. E as lojas de decoração são indispensáveis numa hora dessa, não é mesmo?

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