Meu querido mestre Sergio Bermudes conseguiu vencer o
covid-19 depois de meses de muita luta. Grande notícia. Resolvi estudar Direito
depois dos 40. Teria cinco anos de curso pela frente e estava impaciente para
aprender. Pedi uma lista de leitura a um jovem professor. Com ar blasé ele
respondeu: “melhor esperar”. Tudo tem seu tempo. Quase desisti do curso ali.
Um amigo me sugeriu conversar com Bermudes. Eu só o conhecia
de nome por conta de uma vitória emblemática durante a ditadura. Muito jovem,
foi o autor da petição inicial do caso Vladimir Herzog. Propôs uma ação civil
pedindo que o Judiciário reconhecesse a responsabilidade do Estado pela morte
do jornalista. Pela primeira vez, o Estado reconhecia que o Estado usava a
tortura como instrumento.
Tomei coragem e pedi uma reunião, sem muitas esperanças. Me
recebeu em sua casa para um delicioso almoço, em todos os sentidos.
Após quatro horas, saí de lá não só com uma lista de livros,
mas com o convite para usar sua famosa biblioteca no escritório.
No antigo prédio da Marechal Câmara não havia espaço para me
acomodar, nem mesmo uma mesa disponível. Sergio cedeu o sofá de sua sala e, na
sua ausência, sua própria mesa. Isso foi em abril de 2002. Nesses 18 anos, fui
estagiária, consultora para assuntos econômicos, sócia, e, acima de tudo, ele
foi meu confidente, amigo e parceiro de dança.
Ouvindo suas teses nas discussões de casos com meus colegas
aprendi muito mais que nos cinco anos de faculdade. Nos almoços, na disputada
mesa da copa, as histórias, as piadas e a poesia são a sua marca, nada de
trabalho. Me lembro dele declamando A Carolina, de Machado de Assis, em uma de
nossas reuniões. Foi o primeiro de vários poemas e sonetos por ele recitados.
Tem uma memória melhor do que elefante.
Nestes três meses que esteve lutando pela vida, Sergio não
presenciou o criminoso tratamento deste governo com os infectados pelo vírus.
Não ouviu o presidente debochar da gravidade da epidemia. Perdeu a demissão de
dois ministros da Saúde e a entrega do cargo, de forma interina, a mais um dos
militares, entre os 3 mil, que compõem este governo. Quando voltar a ler seu
jornal diário vai ver que o número de mortos consegue lotar um Maracanã. Vai
ficar surpreso com o fato que ainda não temos um ministro da Saúde e que as
estatísticas confiáveis agora são aquelas divulgadas pelo pool de veículos da
imprensa. Já imagino ele me perguntando: “o piloto sumiu?” Sumiu, está
alimentando emas no palácio.
Sergio adora comentar as notícias do dia. Nos almoços,
sempre vem com as inevitáveis perguntas sobre futebol, especialmente quando o
Botafogo perde, e a economia do país: “e o dólar?” “Essa privatização da
Eletrobrás sai mesmo?” E, em uma piada interna, vai perguntar o que estou
achando do Pacheco, o personagem do Eça de Queiroz que é usado entre nós para
identificar uns economistas que se acham.
Fui resgatar as frases de Guedes ditas desde o início da
pandemia para contar a ele as peripécias de um Pacheco. Comecei com a “com 3,4
ou 5 bilhões a gente aniquila o vírus e os “40 milhões de testes semanais que o
amigo inglês garantiu que vão chegar na semana que vem”, junto com a reforma
tributária.
Nessa pesquisa das melhores piores frases de Guedes,
encontrei uma dita ainda no início da campanha:
“Bolsonaro reconheceu que não entendia nada de economia (…)
Queria um cara que estivesse ‘na lua’ e eu, por acaso, estava na lua”.
Profética.
Sergio é o avesso da superficialidade. Mesmo sendo o grande
processualista que é, e sabendo os Códigos de cor, continua, a cada caso, a
buscar na lei a confirmação da estratégia escolhida para atender ao cliente.
Filólogo, tem o Houaiss ao alcance da mão. Participar dos seus ditados para uma
petição é um privilégio. Das teses jurídicas ao correto significado de cada
palavra, tudo se aprende.
As peças do escritório tem sua marca pessoal. Usa títulos
que levam o leitor direto à tese usada para explicar o mérito do pedido.
Nada de receita de livro-texto, como “Das Preliminares” ou
“Do Pedido”. Os estagiários do escritório sofrem nas mãos de professores
caretas. Eu quase fui reprovada por usar na prova seu estilo.
Sergio não gosta de petições longas e uma de suas expressões
que mais me diverte é “Dispensem-se rios de tinta para demonstrar a nitidez da
situação”. Descrever de forma concisa uma questão complexa é difícil, mas torna
temas áridos em leitura acessível. Não vê necessidade de mostrar sua erudição
mesmo tendo lido centenas de livros, no original.
Para escrever tudo que Sergio contribuiu para o Direito no
país, e, especialmente, para minha vida, teria que gastar um rio Amazonas.
*Economista e advogada

Nenhum comentário:
Postar um comentário