Ao ler recente coluna do escritor José Paulo Cavalcanti
Filho, na revista Será?, de Pernambuco, lembrei que toda nação requer um
Panteão, onde lembrar personagens e heróis que fizeram o passado e formaram o
presente. Estátuas são parte desses panteões. Mas, de vez em quando,
descobrem-se pecados dos heróis e aparecem movimentos para lhes retirar o nome
e a estátua do Panteão. Nas últimas semanas, surgiram movimentos contra
personagens que deram contribuições positivas ao mundo, mas patrocinaram
escravidão e racismo.
José Paulo alerta para os riscos desses gestos
bem-intencionados: ao derrubar estátuas de escravocratas, derruba-se parte da
história da escravidão. Melhor do que pôr ao chão estátuas seria escrever os
crimes no pedestal – escravocrata, torturador, explorador, colonialista –
transformando homenagens em denúncias, sem apagar a história. Com isso, não se
presta a homenagem do esquecimento a um escravocrata fundador de uma
universidade, por exemplo.
Ao derrubar a estátua, os alunos se esqueceriam da origem do
dinheiro que serviu para construir o prédio onde assistem às aulas, a
biblioteca onde estudam, os laboratórios onde pesquisam. Todas as grandes e
tradicionais universidades americanas foram fundadas por donos ou traficantes
de escravos. Recentemente, elas assumiram os pecados.
Se criarmos estátuas apenas de personagens perfeitos, raros
papas estariam ainda firmes em pedestais, raros filósofos resistiriam ao
escrutínio de hoje, provavelmente nenhum general ou político. Porque o valor
das lembranças é medido pelo que pensam as gerações no presente. Além disso, as
estátuas não são apenas história e homenagem, são também obras de arte, e com
valor e transcendência estética que merecem respeito, independentemente do que
representam.
A estátua em pedestal é para homenagear e formar sentimento
coletivo de nação. Para tanto, é preciso combinar memória e explicação plena da
biografia do homenageado. Sem esquecer que foram escravocratas, mas lembrando
que a sociedade do passado tolerava essa maldade.
No Brasil, ainda não fizemos a autocrítica. Até o final do
século 19, quase todos
os que não eram escravos tinham escravos. Diz-se que alguns ex-escravos livres
no Quilombo dos Palmares tinham cativos. Até então, prédios de faculdades eram
construídos por escravos. Até hoje, são erguidos por operários com mínimos
salários, e raros de seus filhos estudarão nelas. Algum brasileiro de hoje
mereceria uma estátua, no futuro, quando forem lembrados os privilégios
usufruídos por ele, diante das relações sociais perversas ao redor, graças à
concentração de renda?
Quando cheguei ao Senado, minha sala ficava na Ala Senador
Felinto Muller, lembrado por ter sido chefe da tortura nos tempos do primeiro
governo Vargas. Eu não podia mudar o nome oficial, mas nos meus cartões
colocava Ala da Biblioteca do Senado. Fui favorável a mudar o nome da Ponte Costa
e Silva para Honestino Guimarães. A luta do estudante pela liberdade e
igualdade tinha valor mais sintonizado com o futuro desejado do que a obra
autoritária do general.
O casamento da lembrança histórica com os valores morais do
presente fizeram Ruy Barbosa cometer crime contra a história ao queimar
documentos da escravidão, apagando nome de escravos e seus donos com o
propósito de expor a “virtude a favor do futuro”, impedindo que descendentes
dos donos pedissem indenização ao Estado brasileiro.
Verdade, história e estética devem ser a base para
justificar a permanência da homenagem e seu papel pedagógico. Formar a memória
completa dos povos com os erros e acertos de seus heróis. No lugar de derrubar
estátuas, melhor criar uma ala para manter o nome e a cara dos escravocratas,
dos racistas, dos colonialistas. Nessa ala, os visitantes poderiam vaiar e
cuspir nos malditos.
Teríamos dois panteões, uma ala para os bons e outra para os
maus. Espécie de Divina Comédia da História, teríamos duas alas: a dos heróis e
a dos malditos. Dependeríamos do humor de Deus na história que, de tempos em
tempos, mandaria mudar o endereço da estátua – embora tenhamos o direito de
desejar que racistas e escravocratas enferrujem no antipanteão.
*Professor Emérito da Universidade de Brasília

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