Esta primeira quase metade de gestão Jair Bolsonaro vem
sendo marcada pelo sonho oposicionista de que o governo é uma construção
frágil, pronta a desabar pela ação do próximo “fato novo”. Foi assim quando das
manifestações em defesa da educação, logo no comecinho do mandato. Mais
recentemente, as esperanças da oposição passaram a ser depositadas nos efeitos
econômicos e sanitários da pandemia da Covid-19.
E de tempos em tempos os olhos brilham quando surge alguma novidade
no “Caso Queiroz”.
A realidade, porém, é que Bolsonaro por enquanto defende com
sucesso a fatia de mercado conquistada por ele em 2018. O Brasil tinha então
147 milhões de eleitores e o candidato do PSL recolheu no primeiro turno 33%
desse eleitorado, 49 milhões de votos, tudo em números arredondados. A esta
altura você já percebeu. Os fatos vêm e vão, mas o percentual de “ótimo” e
“bom” do presidente oscila sempre em torno desse mesmo um terço.
A taxa de aprovação de Bolsonaro só pode ser medida se se
pergunta “você aprova ou desaprova?”, e não deve ser confundida com o
ótimo+bom. Ela também oscila pouco, em torno de 40%. Interessante notar que
essa ordem de grandeza corresponde ao market share do capitão no segundo turno.
Aliás é também o patamar da fatia que aposta que o governo será bom ou ótimo ao
final do mandato em 2022.
Eis por que é furada a tese do “somos 70%”. Serve como
propaganda, mas estrategistas políticos que acreditam cegamente na própria
propaganda estão a caminho de ter problemas.
Há, é claro, as variações. Uma foi em meados do ano passado,
quando o tema das queimadas na Amazônia ganhou visibilidade. Outra, agora
mesmo, na decolagem da pandemia. Mas essas oscilações costumam deslocar mais do
“regular” para o “ruim/péssimo” que qualquer outra coisa. E Bolsonaro tem
mostrado resiliência. Quando a pressão afrouxa, as curvas de avaliação dele
tendem a voltar para o padrão de “um terço, um terço, um terço”.
Sempre supondo que a conjuntura correrá pelos trilhos desse
“normal”, fica claro portanto que a base social de sustentação de Jair
Bolsonaro é consistente e ampla o suficiente para ele se segurar na cadeira e
ser competitivo em 2022. Poderá ser derrotado? Sim, desde que se encontre um
candidato capaz de aglutinar todo o restante do eleitorado e que além disso
consiga ganhar alguma margem levando para votar uma parte dos que têm insistido
no absenteísmo.
Não é simples. Implicaria costurar uma alternativa em que
todas as facções do antibolsonarismo estejam contempladas. Como diz o ditado, seria
o casamento do jacaré com a cobra d’água. Por enquanto, o que cada facção
antibolsonarista vem pedindo às demais é a capitulação incondicional em nome do
combate ao adversário comum. Na real, hoje ainda inexiste na oposição um
sentimento autêntico de “qualquer um menos Bolsonaro”. Aliás, é o contrário.
Outro problema: a cada gesto de distensão do presidente, os
ensaios de coalizão são lipoaspirados. E Bolsonaro tem sido hábil (ou tido
sorte) na política, como mostrou a votação do Fundeb.
Enquanto o novelo não desenrola, vem restando ao
antibolsonarismo repetir o antipetismo praticado na maior parte do extenso
período do PT no poder. Promover agitação e criar espuma dentro da própria
bolha. Não deixa de ser uma maneira de passar o tempo fazendo algo útil.
*Alon Feuerwerker é jornalista e analista político/FSB Comunicação

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