O presidente Jair Bolsonaro entrou em modo reeleição. Há uma
bipolaridade nessa atitude: o lado negativo é perder o foco na gestão para
priorizar a disputa política, dois anos e meio antes do pleito de 2022; o
positivo, a aposta na eleição, ou seja, na política, o que significa uma
mudança de rumo, se considerarmos a escalada de confrontos com o Supremo
Tribunal Federal (STF) e o Congresso em que vinha, uma ameaça real à
democracia. Não há novidade nenhuma nessa antecipação, o mesmo foi feito pelo
presidente Luiz Inácio Lula da Silva, quando se sentiu ameaçado pelo mensalão;
e pela presidente Dilma Rousseff, depois dos protestos de maio de 2013. É óbvio
que a campanha antecipada merece críticas, mas daí negar a aposta nas eleições
como uma mudança em relação à postura golpista em que vinha é um grave
equívoco.
Desde a aprovação do instituto da reeleição, no primeiro
mandato do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (PSDB), todo governante é
favorito nas disputas eleitorais. Mesmo em situações dificílimas, como
aconteceu com Lula, no pleito de 2006, e Dilma Rousseff, em 2014. A força de
inércia do Estado brasileiro é formidável, seja por causa da centralização
crescente da arrecadação tributária nas mãos da União, e que o ministro da Economia,
Paulo Guedes, quer centralizar ainda mais, seja pelo fato de termos um Estado
ampliado, que mexe com a vida dos cidadãos em todo o território nacional. A
rigor, somente o estado de São Paulo, que também tem muitos tentáculos, se
basta em relação ao governo federal do ponto de vista dos serviços que oferece
aos seus cidadãos. Não à toa é o único em condições de sustentar frontal e
permanentemente oposição ao governo federal, sem colocar em risco a própria
governabilidade.
Para ir direto ao assunto, quem quiser que se iluda, o
presidente Jair Bolsonaro é o favorito nas eleições de 2022. Quando nada porque
o governo federal é a forma mais concentrada de poder, e isso pesa na balança
quando o governante concorre à reeleição. Significa que Bolsonaro seja imbatível?
Não. Mas é preciso levar em conta que, historicamente, desde a adoção da
reeleição, nenhum presidente deixou de renovar seu mandato. O sujeito precisa
fazer muita trapalhada para perder a reeleição, ou ser apeado do cargo, como
aconteceu com Fernando Collor de Mello, quando não havia ainda reeleição, e
Dilma Rousseff, que estava no segundo mandato. Isso explica, de certa maneira,
a deriva dos partidos do Centrão em direção ao governo, numa articulação dos
militares do Palácio do Planalto com os caciques Ciro Nogueira (Progressistas),
Roberto Jefferson (PTB), Valdemar Costa Neto (Republicano) e Gilberto Kassab
(PSD).
A reeleição de Jair Bolsonaro será favas contadas? É claro
que não, ninguém ganha eleição de véspera. Bolsonaro terá de suar muito a camisa,
abraçar criancinha, andar de jegue, fazer acordos que até ontem dizia que não
faria, posar para fotos com políticos enrolados na Lava-Jato etc. Aliás, sua
estreia nesse quesito foi durante a semana que passou, no Piauí, onde posou ao
lado do senador Ciro Nogueira no santuário arqueológico da Serra da Capivara,
bem ao lado do emblemático desenho rupestre conhecido como “Cena do beijo”.
Mais do que isso, porém, precisará acertar o rumo de seu governo, que se
encontra à beira da insolvência em razão da dívida pública astronômica e do
deficit fiscal crescente.
Obstáculos
Há variáveis no meio do caminho da reeleição que Bolsonaro não controla, precisa adaptar-se a elas. A primeira é a recessão mundial, que parece mais profunda e duradoura do que se imaginava, se considerarmos os resultados econômicos do primeiro semestre deste ano, principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha, que tinham uma expectativa de recuperação em V. A outra variável nesse terreno é a China, nosso maior parceiro comercial, com a qual o governo tem uma relação esquizofrênica, com alguns ministros trabalhando para aumentar as vendas do agronegócio e atrair investidores em infraestrutura, e outros só atrapalhando. A terceira é a eleição dos Estados Unidos, na qual o presidente Donald Trump corre o risco de não se reeleger, pois o democrata Joe Biden continua na liderança. De tão desesperado, Trump já pensa em adiar as eleições. Se o democrata vencer, o Brasil terá de ajustar sua política externa.
Há variáveis no meio do caminho da reeleição que Bolsonaro não controla, precisa adaptar-se a elas. A primeira é a recessão mundial, que parece mais profunda e duradoura do que se imaginava, se considerarmos os resultados econômicos do primeiro semestre deste ano, principalmente nos Estados Unidos e na Alemanha, que tinham uma expectativa de recuperação em V. A outra variável nesse terreno é a China, nosso maior parceiro comercial, com a qual o governo tem uma relação esquizofrênica, com alguns ministros trabalhando para aumentar as vendas do agronegócio e atrair investidores em infraestrutura, e outros só atrapalhando. A terceira é a eleição dos Estados Unidos, na qual o presidente Donald Trump corre o risco de não se reeleger, pois o democrata Joe Biden continua na liderança. De tão desesperado, Trump já pensa em adiar as eleições. Se o democrata vencer, o Brasil terá de ajustar sua política externa.
Entre as variáveis controláveis por Bolsonaro, a mais
importante é a política econômica. Todos os economistas fazem um diagnóstico
sombrio sobre a capacidade de recuperação da economia brasileira nos próximos
dois anos. A narrativa de que teremos uma recuperação econômica espetacular, do
ministro da Economia, Paulo Guedes, não se sustenta nos fatos. O xis da questão
é a dívida pública, que pode chegar a 100% do PIB, o que a torna um fator
inflacionário inequívoco. A alta do dólar está aí para mostrar que o dragão
está acordado e ruge, somente não dando as caras porque a atividade econômica é
muito baixa. As saídas são uma reforma tributária competente e a reforma
administrativa, mas isso não costuma dar votos para os governantes a curto
prazo. Pelo contrário, tiram.

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