O ser humano é dotado de memória. Mas também se esquece. Há,
contudo, pessoas que se transformam em ícones: essas não há como esquecer. Este
ano, 2020, se vivos estivessem, e não só em nossa memória, fariam 100 anos
Celso Furtado e Florestan Fernandes. Um deixou marcas na economia, o outro na
sociologia. Ambos, em nossa história intelectual.
Conheci bem os dois. Fui formado na Faculdade de Filosofia
da USP por muitos “mestres”. No meu caso, nenhum foi mais importante do que
Florestan, desde que me deu um curso introdutório, em 1949. Celso conheci
quando eu fazia, em 1962, uma pesquisa sobre o papel dos empresários no
desenvolvimento econômico e fui ao Recife, com Leôncio Martins Rodrigues, para
entrevistar alguns deles. Celso, então, já era diretor-superintendente da
Sudene. Posso tê-lo visto antes em alguma conferência em São Paulo – também
minha memória, aos poucos, está repleta de esquecimentos…
Não me esqueço, porém, de dois episódios. Fomos procurá-lo
em seu apartamento, modesto, na Praia de Boa Viagem. Emprestou-nos um jipe da
Sudene, com um motorista. Aproveitamos a visita que um casal de jornalistas
iugoslavos faria ao Engenho da Galileia, famoso pelas ocupações de Francisco
Julião, líder das Ligas Camponesas, para conhecermos a Zona da Mata. Anos mais
tarde, eu detido na Oban, fui minuciosamente inquirido sobre os dois
“comunistas” que haviam ido comigo àquelas plagas. Não os conhecia, foram
apenas companheiros de viagem. O motorista era também informante da polícia…
Quando Celso e eu já éramos amigos, estava em Barcelona, no
inverno de 1986, visitando minha filha Beatriz, que estudava lá. Uma bela manhã
tocou o telefone. Era Celso, queria saber se eu também seria nomeado ministro,
pois ele fora convidado por José Sarney para ocupar a pasta da Cultura. Teria
de deixar a Embaixada do Brasil junto à Comunidade Europeia, em Bruxelas, para
onde fora nomeado. Celso, servidor público por excelência, além de grande
intelectual, era falado para outros ministérios, como o da Fazenda ou do
Planejamento. Coube-lhe o da Cultura, que organizou e ao qual emprestou o
prestígio de seu nome.
Disse-lhe que eu não poderia sequer ser cogitado para uma
função ministerial porque era senador exercendo a suplência e quem ocuparia
minha função no Senado seria o segundo suplente, que era prefeito de Campinas.
Teria de renunciar à prefeitura para assumir o Senado. Aconselhei-o a aceitar o
ministério, sem que me houvesse perguntado.
Quiseram os fatos que fôssemos amigos. Em Paris, mais de uma
vez fiquei no seu apartamento. Da mesma maneira, inúmeras vezes Celso ficou em
meu apartamento em Brasília quando eu era senador.
Também frequentes foram nossos encontros quando morávamos na França. Ao longo de 1961, Celso, Luciano Martins, de quem ele era muito chegado, eu, e, eventualmente, Waldir Pires almoçávamos juntos.
Também frequentes foram nossos encontros quando morávamos na França. Ao longo de 1961, Celso, Luciano Martins, de quem ele era muito chegado, eu, e, eventualmente, Waldir Pires almoçávamos juntos.
A amizade, que se manteve, nunca me fez esquecer que foi com
seus livros, especialmente A Formação Econômica do Brasil, que comecei a
entender as mudanças que ocorreram no País.
Quando, em 1964, estivemos (Celso por alguns meses antes de
ir para Yale) a viver em Santiago, moramos juntos. E conosco Francisco Weffort
e Wilson Cantoni. Celso havia trabalhado antes na Cepal e, além de ser amigo
dos economistas chilenos, era admirado por Prebisch, nosso inspirador e chefe
do Ilpes e do BID.
Não sei de outro economista (mais do que isso: cientista
social) que tenha influenciado tanto a minha geração como Celso. E muitas
outras mais. Não só pelo que renovou na visão sobre a economia (somando Keynes
a Prebisch e Kaldor), mas como homem público exemplar.
Inteligente, culto e modesto. Dele as gerações futuras não
apenas se recordarão, como lhe serão agradecidas. Celso mostrou-nos o quanto a
economia brasileira se integrava à economia mundial e como sem uma ação do
Estado teria sido impossível (ou muito mais difícil) avançar tanto quanto
avançou. Além do mais, sabia escrever: iniciara a vida na literatura.
O mesmo digo sobre Florestan Fernandes: homem de cultura
enciclopédica, conhecia tanto sociologia como antropologia e os escritos dos
economistas clássicos não eram misteriosos para ele. De Marx a François
Simiand, conhecia-os bem. Mais do que isso: desvendou não só os males da
escravidão e dos preconceitos de cor, como também mostrou as bases burguesas em
que se assentava o poder no Brasil. Amava as pesquisas, tanto as sociológicas
como as antropológicas, mas sabia que sem hipóteses os dados não falam. Sabia
interpretar o que conhecia pelas pesquisas. A ele devo o ter-me dedicado à
sociologia, que era sua paixão.
Do mesmo modo que no caso de Celso, os escritos de Florestan
vieram para ficar. Tanto os sobre A Organização Social dos Tupinambá e A Função
Social Da Guerra Na Sociedade Tupinambá, como os estudos sobre os negros no
Brasil e sobre o caráter pouco democrático da nossa forma de viver e,
sobretudo, de mandar. É de intelectuais dessa têmpera que o Brasil precisa. Que
pesquisem e saibam antever o que pode acontecer. Sem medos nem arrogâncias. Com
sabedoria.
*Sociólogo, foi presidente da República

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