Eu já contei, recontei, vez por outra lembro, e quem me fez
lembrar de novo foi o Tanto Tupiassu, colecionador de causos e histórias. No
Twitter, ele mencionou a psiquiatra Nise da Silveira. Em meados de 1987,
repórter talvez caçula do “Segundo Caderno”, telefonei para a doutora. Do alto
da minha ignorância, não sabia que o marido dela se chamava Mário… Magalhães.
Pior, não tinha ideia de que ele morrera menos de um ano antes.
Nise atendeu, eu me apresentei e ouvi um “Ahnn?!?”. Repeti o
meu nome algumas vezes, caprichando na pronúncia e incrementando os decibéis,
até ela entender que um homônimo do sanitarista Mário Magalhães gostaria de
entrevistá-la sobre o novo filme de Leon Hirszman, “Imagens do inconsciente”.
Estive em seu apartamento na rua Marquês de Abrantes, morada também de uma
turma de gatos. Sempre que evocam essa mulher fascinante eu recordo que quase a
matei de susto aos 82 anos. Nise da Silveira viveu até os 94.
Lembrei-me da doutora Nise, e, em associação geográfica, de
um ex-morador do prédio vizinho lindeiro ao dela no Flamengo. Agildo Barata
ficara marcado na história. Em novembro de 1935, comandara na Praia Vermelha o
malogrado levante comunista no 3º Regimento de Infantaria. Ele era capitão do
Exército, militava no PCB e se divertia com amigos abaixando as calças de
integralistas ao flagrá-los, na avenida Rio Branco, trajados com os uniformes
de galinhas-verdes. Nas negociações para a rendição, um oficial provocou: “Quem
é esse filho da puta do Agildo Barata?” O capitão vermelho encarou-o: “O Agildo
Barata sou eu. O filho da puta és tu?”
Esse episódio Barata recapitulou em seu livro “Vida de um
revolucionário”. Outro, uma história de amor pelo pai, quem me contou foi seu
filho Agildo Barata Ribeiro Filho _o humorista Agildo Ribeiro. Em 1964, já
rompido com o partido, mas firme no flanco esquerdo, o velho capitão e antigo
vereador testemunhou a chegada ao seu edifício de agentes da polícia política
da Guanabara.
Sofrera um derrame, por isso caminhou devagarinho até a
janela do apartamento. Ao avistar os tiras do Dops, supôs que iria em cana.
“Maria, arruma a minha roupa, que eles vieram me prender”, pediu à esposa, cuja
valentia nada devia à do marido _Maria Barata vale uma biografia. O alvo,
porém, era outro: cidadãos chineses, acusados pela recém-parida ditadura de
serem agentes do voraz comunismo internacional.
“Olha que frustração”, me disse o Agildo Ribeiro, no fim de
uma tarde de abril de 2004. Estávamos num restaurante do Leblon, e o filho de
Agildo Barata depunha para o livro em que eu trabalhava desde o ano anterior,
uma biografia de Carlos Marighella. Comovido com a tristeza do pai, que se
abalara por ter sido desprezado pelos beleguins do regime nascente, o Agildo
cogitou um plano: “A gente quase forjou, pegou um conhecido meu qualquer, um
figurante de teatro, sei lá, de televisão, para fingir: ‘Capitão, eu sou da
polícia, nós viemos aqui falar com o senhor’. Para ele ficar realizado. Ele
continuou com espírito revolucionário; doente, levantava com a bengala”.
Agildo Ribeiro tinha 12 anos e era conhecido como Agildinho
quando lhe informaram que o pai seria libertado naquele abril de 1945. O filho
costumava visitá-lo na Ilha Grande, onde ficava um presídio político. Ao tomar
conhecimento da anistia a ser assinada pelo presidente Getúlio Vargas, capo do
Estado Novo, Agildinho não resistiu à tirada: “Ditador filho da puta! Acabou
com as nossas férias na Ilha Grande”.
Isso o Agildo também me falou à mesa no Leblon, bairro por
onde ele caminhava com seus indefectíveis tamancos. No finzinho da conversa,
fiz uma indagação. Formulei-a assim, como leio agora na transcrição da
gravação: “Com os velhinhos, eu sempre acabo a entrevista perguntando o que
eles acham do mundo hoje…”. Eu me referia aos veteranos do PCB, não ao meu
interlocutor. A resposta do filho de Agildo Barata: “Eu acho que só tem uma
saída, que ainda é o socialismo, o comunismo”.
Dali a dias, Agildo Ribeiro completou 72 anos. Ele morreu
aos 86, em 2018. Seu pai, em 1968, aos 63. Quando eu relembro a insurreição na
Praia Vermelha, não esqueço que o meu pai nasceu dois dias depois, na rua
Paissandu _e se foi em 2016, aos 80.
Sérgio Sant’Anna partiu aos 78, em maio de 2020, abatido
pelo novo coronavírus. Antes da pandemia, em meus passatempos intelectuais
vadios, eu encucava com o duelo: quem era o maior escritor brasileiro vivo,
Rubem Fonseca ou Sérgio Sant’Anna? Jamais cheguei a uma conclusão. Em abril o
Zé Rubem, como o tratavam seus amigos, morreu de infarto aos 94 anos. Só o
conhecia como leitor devoto e de vê-lo passeando pelo Leblon. O Sérgio, não;
fui seu aluno. Não somente de aprender lendo seus contos e romances, mas ao pé
da letra.
Na Escola de Comunicação da UFRJ, nos idos dos anos 1980,
surpreendi-me ao saber que o professor Sérgio era carioca. Infelizmente,
tricolor. Eu o tinha na conta de mineiro, devido à amizade com o pessoal do
Clube da Esquina. Ele não parecia se entusiasmar dando aulas de comunicação
comparada, mas expressava prazer genuíno nos bate-papos sobre arte e cultura,
que acabavam, para sorte nossa, deixando em segundo plano o conteúdo da
disciplina que ele condensava em anotações nas cartolinas amassadas que afixava
no quadro.
Convidei-o para ser um dos avaliadores do meu trabalho de
conclusão do curso de jornalismo. Escrevi-o de uma sentada, das dez da noite às
oito da manhã, no quarto e derradeiro prazo, numa máquina elétrica Olivetti
Praxis. O título era “Assis Chateaubriand: Caubói que deu dois tiros de uma
vez”. Não devo ter obedecido a uma só norma técnica da academia. Passei
raspando, e o Sérgio me deu a nota mínima suficiente para receber o canudo.
“Tava legal, mas não dava pra dar mais”, ele se desculpou, sugerindo que
pegaria mal me presentear com um notão. Põe mal nisso.
Com o Sérgio tive uma lição que guardei, o zelo obsessivo
pela palavra certa. Ele encomendou um texto a cada estudante, e eu resenhei o
filme “O deserto dos tártaros”, de Valerio Zurlini. Empreguei impropriamente o
substantivo “libelo” ao descrever a trama sobre o tempo, a solidão e a guerra
que não vem. O Sérgio ensinou: se o filme reproduzia o espírito do romance em
que se baseava, obra de Dino Buzzati, não tinha o caráter de libelo.
Padeço de memória ruim para a literatura. Mas não esqueci o
começo do romance “Amazona”, que o Sérgio lançou na época em que era docente da
ECO. Um personagem escroto come croquete de boca aberta num convescote e
acelera, ensandecido, o carro pelas curvas da avenida Niemeyer. Meses antes da
pandemia, a Companhia das Letras reeditou “Amazona”, e numa livraria eu folheei
o volume. A memória não me trapaceara, por mérito da prosa do Sérgio; ele
escrevera mesmo aquilo.
Assim vão passando os tempos da Covid-19, com lembranças
amalgamadas das perdas e o medo de que venham mais despedidas.
No álbum “Clube da Esquina”, de 1972, o encarte contém uma
montagem caleidoscópica com mais de uma centena de fotos. Uma delas mostra
Sérgio Sant’Anna. Dois anos antes, Milton Nascimento gravara a canção “Clube da
Esquina”, parceria com os irmãos Lô e Márcio Borges. Eu a tenho ouvido muito.
Na escuridão da ditadura, a letra do Márcio preserva um fio de esperança: “Um
grande país eu espero/ Espero do fundo da noite chegar”.
Eu adoraria ainda acreditar nisso.

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