domingo, 30 de agosto de 2020

O ADVOGADO DO DIABO

Eudes Lima, ISTOÉ
O advogado Frederick Wassef é conhecido no Ministério Público Federal e na Polícia Federal como o “anjo” da família Bolsonaro e dos amigos do presidente envolvidos nas “rachadinhas” promovidas no gabinete do senador Flávio quando ele era deputado estadual no Rio de Janeiro. “Anjo”, no entanto, não protege os familiares e amigos dos Bolsonaro com a benevolência angelical implícita no apelido. Ele está sendo muito bem pago para isso. O advogado é acusado de se beneficiar de diversas operações financeiras que têm engordado suas contas pessoais com milhões de reais, às custas do acesso privilegiado aos membros do clã presidencial. Ele já representou na Justiça o presidente e seus filhos, e foi o responsável por suspender as investigações contra o 01 por crimes como peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa.
Quando Wassef ajudou a esconder Fabrício Queiroz em sua casa em Atibaia (SP), disse que o fez por questão humanitária, já que o ex-assessor de Flávio estava com câncer e precisava de ajuda. Mas agora sabe-se que essa relação foi além da preocupação com a saúde. Extratos de suas contas bancárias mostram que Wassef era uma espécie de caixa dois da família. Ele pagou R$ 10 mil ao médico urologista Wladimir Alfer, que atendeu Queiroz no Hospital Albert Einstein. Há dúvidas também se partiu de Flávio e do advogado o pagamento de R$ 133,6 mil, em dinheiro vivo, para a operação no estômago que Queiroz fez no local para se curar de um câncer.
E Wassef não pagou apenas médicos de Queiroz. Da conta de seu escritório de advocacia saíram os R$ 276 mil pagos ao advogado que defendeu Bolsonaro no STF quando ele foi acusado de apologia ao estupro e injúria contra a deputada Maria do Rosário (PT-RS). O advogado Arnaldo Faivro Busato Filho disse que defendeu o presidente de graça, mas nem Wassef e nem Bolsonaro conseguem explicar a origem desse pagamento.
O prestígio de Wassef junto a Bolsonaro, inclusive, o faz ter trânsito livre tanto nos palácios do governo como em solenidades ministeriais. Na posse do atual ministro das Comunicações, Fábio Faria, em 17 de junho, o advogado foi uma das figuras proeminentes na solenidade. As suas ligações com o governo são, a cada dia, mais comprometedoras. Suas suspeitas ligações com a empresa Globalweb, fundada pela sua ex-mulher, Maria Cristina Boner Leo, têm levado à constatação de que há a formação de um triângulo financeiro envolvendo o casal e negócios duvidosos com o governo Bolsonaro. Além de Wassef ter conseguido a suspensão de uma multa de R$ 27 milhões aplicada pelo Dataprev à Globalweb, a empresa comandada por Cristina e sua filha Bruna Boner Leo aumentou seus ganhos com o governo em R$ 53 milhões. Em razão dessas relações espúrias, o advogado recebeu repasses de R$ 3,2 milhões, em 19 operações realizadas pela ex-enteada Bruna Boner Leo, que hoje dirige a Globalweb porque a mãe precisou se afastar do negócio em razão de inúmeros processos que responde na Justiça.
Por que a JBS pagou R$ 9 milhões a Wassef?
Outro negócio operado por Wassef com a participação dos Bolsonaro é a ajuda à JBS para que a empresa mantenha o acordo de delação premiada junto à Procuradoria-Geral da República (PGR). O procurador Augusto Aras deu prazo de 10 dias para que a JBS explique por que pagou R$ 9 milhões ao advogado. A PGR pediu, ainda, que o MP-RJ envie detalhes das operações que aparecem nos relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) envolvendo Wassef com a empresa dos irmãos Batista.
Wassef tem também participação ativa na defesa de Flávio no caso da “rachadinha”, embora depois da prisão de Queiroz tenha sido destituído do caso. Mas, quando ainda era defensor do 01, em julho de 2019 o advogado conseguiu paralisar a ação envolvendo seu cliente, investigado por ser o principal beneficiário de R$ 1,2 milhão movimentados entre 2016 e 2017 por Queiroz. Hoje, sabe-se que parte desse dinheiro pode ter ido parar na fantástica loja de chocolates de Flávio no Rio. O MP constatou que a loja recebeu mais de 1.500 depósitos feitos em dinheiro vivo, sempre em valores fracionados de R$ 2.000 ou R$ 3.000, para não atingir valores controlados pelo Coaf.
Segundo o MP, o senador realizou retiradas de valores da loja logo depois dos depósitos em espécie. O senador sacou R$ 978.225 entre março de 2015 e novembro de 2018, coincidindo com o período em que ocorreram os depósitos, levando à suspeita de lavagem de dinheiro. Diferentemente do filme, na vida real nenhum dos dois, nem o advogado e nem o senador, apresentam características de mocinho. O enredo da história envolvendo a família Bolsonaro mostra como o tráfico de influência no governo se mantém mesmo com a mudança dos inquilinos do Planalto. Flávio e Wassef são dois lados da mesma moeda.
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