O desembargador que ofendeu os guardas não está sozinho. Em
Brasília, multiplicam-se episódios de autoritarismo e incivilidade entre homens
da lei. Um deles se deu na sexta-feira, em sessão do Conselho Superior do
Ministério Público.
Em cruzada contra a Lava-Jato, o procurador-geral Augusto
Aras enfrentou uma rebelião de colegas. Quando o subprocurador Nicolao Dino
tentou contestá-lo, foi calado aos gritos. “Não aceitarei ato político em
sessão de orçamento”, exaltou-se Aras.
Mais tarde, ele permitiu a manifestação dos insatisfeitos.
“Um Ministério Público desacreditado, instável e enfraquecido somente atende
aos interesses daqueles que se posicionam à margem da lei”, afirmou Dino. Foi a
senha para um novo bate-boca.
Irritado, Aras passou a se dizer vítima de fake news. “Sob a
voz lânguida de algum colega, existe a peçonha da covardia de não mostrar a
cara”, engrossou. Em seguida, ele fez um comentário machista sobre a
subprocuradora Luiza Frischeisen. Depois impediu uma fala do subprocurador
Nívio de Freitas. “Vossa excelência não tá com palavra, não. Não vai ter
palavra”, decretou.
Num monólogo enfezado, o procurador-geral acusou os colegas
de promoverem “anarcossindicalismo”. Também atacou a imprensa, que viveria “a
babar por sangue e reputações”. Finalmente, declarou que a sessão estava
encerrada e se levantou da cadeira, sem ouvir a resposta dos ofendidos.
O Aras esbravejante de sexta lembrava pouco a figura dócil
que confraternizou com advogados na terça-feira. Em live do grupo
Prerrogativas, ele prometeu acabar com o “lavajatismo” e acusou procuradores de
guardarem uma “caixa de segredos”em Curitiba. A força-tarefa cometeu erros e
abusos, mas aquele não era o tom nem o lugar para o chefe do Ministério Público
Federal espinafrá-la.
O procurador-geral ainda sugeriu, sem provas, a existência
de fraudes em votações do MPF. Ele foi indicado por Jair Bolsonaro sem
concorrer na eleição da lista tríplice, e tem atuado em sintonia fina com o
presidente.
Após a fala, um dos anfitriões disse que a advocacia estava
“em festa”. “Saio com a alma lavada. Era isso o que eu queria ouvir há muito
tempo”, desmanchou-se o advogado Lenio Streck, um dos mais notórios críticos da
Lava-Jato.
Noronha
O presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha, chamou de “analfabetos” os jornalistas que o criticaram por libertar Fabrício Queiroz. Que o doutor não gosta de ser contestado, já se sabia. Mas ele deveria tomar mais cuidado com o que diz.
O presidente do Superior Tribunal de Justiça, João Otávio de Noronha, chamou de “analfabetos” os jornalistas que o criticaram por libertar Fabrício Queiroz. Que o doutor não gosta de ser contestado, já se sabia. Mas ele deveria tomar mais cuidado com o que diz.
Ao atacar a imprensa, o ministro afirmou que “não existe
isso de dar um habeas corpus coletivo”. Tentava justificar a decisão em que
negou o benefício dado a Queiroz aos demais presos que estão no grupo de risco
da Covid-19.
Candidato a uma vaga no Supremo, Noronha deveria saber que a
Corte já concedeu um habeas corpus coletivo. Foi em 2018, em favor de gestantes
e mães de crianças com até 12 anos.
A soltura de Queiroz é mais uma entre várias decisões do
ministro que facilitaram a vida de Bolsonaro. Faltam 25 dias para ele desocupar
a cadeira de presidente do STJ.

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