Vigário episcopal para
a população de rua da Arquidiocese de São Paulo
A população
em situação de rua cresce
em todo o Brasil e nas grandes cidades do mundo. O IBGE (Instituto
Brasileiro de Geografia e Estatística) não faz o censo dos
que sobrevivem nas ruas por considerá-los sem domicílio. Já o Ipea (Instituto
de Pesquisa Econômica Aplicada) aponta que há 220 mil pessoas pelas ruas das
cidades do país.
A população em situação de rua é heterogênea e necessita
de propostas
que comtemplem a diversidade humana. Respostas únicas, como centros de
acolhida, não respondem mais às reais necessidades. Precisamos ampliar
respostas que priorizem a autonomia, a não burocratização e a não
institucionalização. Nesse sentido, a locação social e o acesso às políticas de
moradia são fundamentais. O binômio moradia e trabalho são inseparáveis.
As respostas das chamadas políticas públicas têm sido
ineficazes e pífias por serem insuficientes e cerceadoras da autonomia. É comum
ouvir dos administradores públicos: “Há vagas
sobrando!”. As autoridades esquecem que quem precisa de vagas são carros. Pessoas
precisam de lugar! Lugar com significado, pertencimento e autonomia.
As cidades são muitas vezes governadas pela especulação
imobiliária. As pessoas são expulsas
das regiões centrais, invisibilizadas, reprimidas e tratadas com repressão
e violência. A propriedade e a especulação ferem e matam.
Conviver com a população em situação de rua é resistência e
denúncia da opressão e da banalização da miséria a que são submetidos. A vida,
em todas as dimensões, é negada e reprimida. Não se levam em conta os
sentimentos, as emoções. A sexualidade é negada, e a diversidade, reprimida e
moralizada.
Respostas humanizadoras são prementes! Não aceitamos a
zeladoria urbana que considera as pessoas como lixo, que furta seus poucos
pertences. Não aceitamos segurança pública racista que sempre os trata como
suspeitos.
A população em situação de rua não é toda dependente
de álcool e de outras drogas. Muitos padecem de sofrimento mental, são
pessoas que perderam quase tudo na vida e esperam resistir e superar desafios
imensos.
Todos os dias me pedem trabalho, querem ser reconhecidos.
Precisam ser reconhecidos e tratados com respeito e humanidade.
Refugiados urbanos, expulsos e indesejáveis. Dizem sempre:
“Leve para casa!” Queria que fossem para uma casa. A casa deles, onde tivessem
a chave, a cama, a mesa e os alimentos.
As pessoas que sobrevivem, que sofrem
e morrem pelas ruas nos questionam a construir uma cidade mais humana,
que tenha lugar para todos.
Não podemos idealizar nem demonizar, mas humanizar. Nem
flores nem bombas. Mas, sim, respostas humanas e dignas!
Neste tempo de pandemia, precisamos refletir e nos
comprometer a olhar com compaixão o sofrimento dos descartados, que não têm
sequer onde lavar as mãos, onde dormir com privacidade e proteção e praticar o
isolamento social.
Não são as pessoas em situação de rua que adulteraram álcool
em gel nem superfaturaram respiradores durante a pandemia. Muitos ficaram
abandonados pelas ruas e praças à espera de socorro —que, em vários lugares,
tardou a chegar. As redes hoteleiras poderiam ter sido mais solidárias e acolhedoras.
Os consultórios de rua deram exemplo e testemunho de presença, como na cidade
de São Paulo. Aqui, é comum dizerem: “Há mais casa sem gente do que gente sem
casa”.
As ruas não são lugares para ninguém viver —e muito menos
para morrer! Que os sofrimentos, ameaças e ataques destes tempos nos ajudem a
lutar para sermos fiéis e não desanimarmos na busca de mais fraternidade e
partilha.
A renda mínima será uma boa resposta em todo o país, mas que
poderia ser iniciada em nível municipal para que as desigualdades desapareçam e
as pessoas em situação de rua cresçam em esperança e possibilidades.
Reprimir
e criminalizar é pouco eficiente, além de desumano, e não dignifica
ninguém. A coragem de considerar fraternalmente a população em situação de rua
é um desafio para todos e todas que se consideram humanos e dignos de
credibilidade.

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