Há algo de perturbador quando um ministro da Educação, a
pretexto de defender a profissão docente, a qualifica com estas palavras:
“Hoje, ser um professor é ter quase que uma declaração de que a pessoa não
conseguiu fazer outra coisa”.
A frase ofensiva de Milton
Ribeiro, atual titular do ministério, em entrevista ao
jornal O Estado de S. Paulo, poderia ser só um deslize. O conjunto de suas
respostas, entretanto, mostra que o presidente Jair Bolsonaro escolheu outro
despreparado para a pasta estratégica —o quarto em série desastrosa.
Ribeiro exime-se de responsabilidade e se limita a pregar
ideias fixas preconceituosas do presidente. Repete assim o padrão aloprado de
Ricardo Vélez, Abraham Weintraub e
Carlos Decotelli, aquele que, exposto como fraudador
da biografia, não chegou a tomar posse.
A declaração mais ultrajante foi sobre o impacto da pandemia
no ensino e o aumento da desigualdade entre alunos pobres e ricos. Disse o
ministro: “Esse não é um problema do MEC, é um problema do Brasil”.
Os percalços da educação brasileira são muitos e antecedem a
Covid-19, mas têm de ser resolvidos por todos sob coordenação e liderança do
governo federal. Vale dizer, do MEC, que até agora nada apresentou de
substancial para corrigir as deficiências, velhas ou novas.
Ribeiro escuda-se em variante da desculpa
andrajosa fabricada por Bolsonaro para justificar sua inação diante da
pandemia, de que as medidas competem a governadores e prefeitos. “Essa é uma
responsabilidade de estados e municípios, que poderiam verificar e ter as
iniciativas para tentar minimizar esse tipo de problema”, esquivou-se Ribeiro
ao falar da falta
de acesso de muitos alunos à internet.
Assim se omite o ministro de um governo que, em agosto de
2019, anunciou pregão para compra de 1,3 milhão de computadores para a rede
pública de ensino, ao custo de R$ 3 bilhões. Apontadas suspeitas de fraude
no edital, a chamada acabou suspensa —sem que as suspeitas tivessem
esclarecimento.
Sobre a questão sanitária em si, Ribeiro exibiu mais
incoerência. Depois de afirmar que a jurisdição sobre escolas cabe a estados e
municípios, anunciou que prepara um protocolo de biossegurança para escolas
básicas retomarem aulas.
De resto, o ministro, que é pastor
presbiteriano, recitou o credo obscurantista de Bolsonaro, discorrendo
sobre a homossexualidade como produto de famílias desajustadas, os valores
marxistas de Paulo Freire e o golpe de 1964.
Em meio à pior emergência sanitária da história do país, com
efeitos desastrosos na educação, o presidente enxerga apenas moinhos de vento
ideológico para combater. Encontrou agora mais um escudeiro à altura de sua
pequenez.

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