terça-feira, 15 de agosto de 2023

A HISTÓRIA DO SINDICALISTA QUE INVENTOU A TRANSIÇÃO JUSTA

Daniela Chiaretti, Valor Econômico

Americano Anthony Mazzocchi cunhou o termo que se tornaria a principal contribuição sindical à política de transição verde

 “A transição é inevitável; a justiça, não”, diz o site da Climate Justice Alliance, movimento americano que nasceu há dez anos e reúne gente de Michigan, Indiana, Nevada e Califórnia. A intenção, diz ali, é incluir na transformação verde da sociedade aspectos de raça, gênero e classe social. Alguns de seus membros são comunidades de Detroit, a cidade que moldou sua fama e decadência à luz da indústria automobilística. Do lado de lá do Atlântico, a Comunidade Econômica Europeia tem sigla e mecanismo para não deixar ninguém pra trás na transformação verde do bloco. O JTM, ou Just Transition Mechanism, busca mobilizar €55 bilhões para o período 2021-2027 e aliviar os impactos socioeconômicos da economia descarbonizada nas regiões mais afetadas. Áreas mineradoras de carvão são prioridade. No Brasil, contudo, o tema é pouco sexy.

Na matriz energética brasileira carvão é fonte inexpressiva, mas petróleo e gás, não. O setor deveria incluir a transição justa nas planilhas de planejamento.

Para ter uma ideia da dimensão global do conceito, as palavras “just transition” remetem a 968 milhões de resultados no mecanismo de busca do Google; a tradução em português leva a 5,6 milhões.

O termo foi cunhado pelo líder sindical americano Anthony Mazzocchi. Tony, como era conhecido, nasceu no Brooklyn em 1926, em uma família pobre de origem italiana. A mãe morreu de câncer quando o menino tinha 6 anos e os Mazzocchi perderam a casa para pagar os custos médicos. Aos 16, mentiu sobre a idade, alistou-se no Exército e desembarcou na Europa na Segunda Guerra Mundial -ajudou a libertar o campo de concentração de Buchenwald. Ao ser dispensado, virou operário da Ford em Nova Jersey. Depois trabalhou na construção civil e na siderurgia, voltou a estudar e se formou em uma escola técnica.

Aos 26 anos, prometendo igualdade salarial para as mulheres, virou presidente de um sindicato de trabalhadores das indústrias de gás e química. Não só conseguiu a equiparação salarial como também negociou um plano de saúde que incluiu a primeira cobertura de seguro dentário do setor privado nos EUA. Anos depois tornou-se líder do sindicato dos trabalhadores da indústria do petróleo, química e atômica.

Na década de 1960, Mazzocchi começou a se aproximar do movimento ambientalista, preocupado com a saúde dos trabalhadores da indústria química. Esteve à frente de uma forte campanha sobre os perigos do amianto e teve muita influência na legislação americana sobre saúde e segurança no trabalho.

“Mazzocchi se deu conta de que a saúde das comunidades e dos trabalhadores seria afetada por aquelas indústrias e começou a construir elos entre trabalhadores e o setor ambiental. Criou uma aliança pela transição justa onde sindicatos e movimentos sociais se sintonizavam com as preocupações ambientais”, contou o especialista em políticas sociais Francesco Chiodi, durante palestra sobre transição verde justa em evento preparatório à cúpula de líderes europeus e da América Latina e Caribe em Bruxelas, em julho.

Na segunda metade da década de 1990, Tony Mazzocchi propôs um “superfundo para os trabalhadores”, inspirado em um programa para a limpeza de substâncias tóxicas da Agência de Proteção Ambiental dos Estados Unidos, a EPA. “Temos de dar aos trabalhadores a garantia de que não terão de pagar pela água e pelo ar limpos com os seus empregos, o seu nível de vida ou o seu futuro”, escreveu Mazzocchi. Argumentava que os trabalhadores empregados em setores responsáveis por danos ambientais deveriam ser apoiados e compensados à medida em que transitavam para novos empregos menos perigosos. “Hoje o conceito de transição justa é a principal contribuição sindical à política de transição verde e seu reconhecimento institucional se deu no Acordo de Paris, em 2015”, seguiu Chiodi, da organização internacional Ítalo-Latinoamericana ILLA.

Transição justa, contudo, é um conceito ambíguo e bastante amplo. Há pelo menos três grandes abordagens - aquela que foca no trabalho, a que mira aspectos ambientais e a terceira, centrada na sociedade. Não são divergentes. A primeira vertente se preocupa com as perdas de empregos que podem vir com a transição ecológica e analisa o mercado de trabalho futuro. A outra linha enfatiza a justiça ambiental. A terceira aborda as mudanças radicais que devem acontecer nos modelos econômicos atuais. “Mas quando se fala em justiça social não há unanimidade de visões. O conceito está sobrecarregado de subjetividades”, observou Chiodi.

“Quando falamos de transição ecológica, digital e demográfica nos referimos a megatendências que estão marcando uma mudança na história da humanidade. São movimentos estruturais que pontuam o antes e o depois de uma mudança de época”, disse. “A grande questão é se o nosso sistema estará em condições de gerar novas medidas, produzir novas respostas, criar novos financiamentos e novas ideias que fiquem no centro da transição verde”, alertou Chiodi. O sucesso da transição verde depende também de sua capacidade de produzir bem-estar na Europa, na América Latina ou em qualquer outro lugar.

Anthony Mazzocchi morreu em Washington, em 2002, de câncer no pâncreas. Teve seis filhos. Tinha 76 anos.

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