Lula viajou pelos sete mares propondo uma nova governança mundial para o meio ambiente, a reforma do Conselho de Segurança da ONU e novas moedas para as transações internacionais. Tudo muito bonito, mas, quando ele voltar ao Planalto, terá um país onde coisas mais imediatas e graves estão queimando nas panelas.
1- O Supremo Tribunal Federal e o Congresso estão em curso de colisão com temas como o aborto e a demarcação de terras indígenas.
2- A base de apoio parlamentar do governo virou uma paçoca, com o Centrão pedindo a entrega da Caixa Econômica de “porteira fechada”. Ou ainda o loteamento da Funasa.
3- A segurança pública nacional está acuada entre a anomia e a selvageria. De um lado, o crime tornou-se um poder paralelo na Amazônia. De outro, a Bahia tornou-se campeã nas estatísticas de letalidade policial. De lá, vêm as notícias de que foram mortos “nove suspeitos” numa operação contra traficantes realizada na periferia de Salvador. O que vem a ser um “suspeito” morto? Essa figura pertencia à necropolítica do Rio de Janeiro. A Bahia tem governos petistas desde 2007. Um de seus ex-governadores é o atual chefe da Casa Civil; outro lidera a bancada do governo no Senado.
Nenhuma dessas mazelas foi criada pelos petistas. Todas caíram nas suas costas, e, enquanto não vem a reforma do Conselho de Segurança da ONU, há uma visível paralisia do governo para lidar com os problemas.
Não se pode pedir a Volodymyr Zelensky que negocie o acervo da Caixa Econômica com o doutor Arthur Lira. Também não se pode pedir a Joe Biden que faça a mediação das relações do Congresso com o Supremo Tribunal. Lula é quem precisa entrar em agendas nas quais parece estar ausente.
Lula elegeu-se com uma pequena diferença de votos (1,8 ponto percentual) mas é o exclusivo mandatário do poder Executivo. Num contrapeso, assumiu com um Congresso à sua direita. No Chile, o choque de realidade obrigou o presidente Gabriel Boric a reequilibrar suas metas. No Brasil, essa busca está emperrada alimentando-se de realidades paralelas como a do déficit zero em 2024, enquanto na vida real fechou-se agosto de 2023 com um rombo de R$ 104,6 bilhões.
No primeiro consulado petista, aquilo que pareciam ser pequenas dificuldades, ou ainda dificuldades alheias, desembocaram numa crise. Faltou a percepção de que o governo precisa conversar ouvindo o outro. O Supremo Tribunal que manteve Lula preso foi o mesmo que anulou suas condenações.
À primeira vista, faltaria ao governo um coordenador político. Se o problema estivesse na falta de uma pessoa, seria fácil de resolver, mas o que falta é propósito. Ele existiu durante a campanha eleitoral, quando Lula apresentou-se como um fator de pacificação e novas ideias. Do candidato restou pouca coisa.
O veneno tem nome: reeleição
O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, expôs o veneno que debilita a política nacional:
— Eu indago: o instituto da reeleição no poder Executivo fez bem ao Brasil? A minha percepção é de que não foi bom para o país. Quando se coloca no colégio de líderes, todos tendem a acreditar que o fim da reeleição seja bom para o Brasil.
O instituto da reeleição para cargos executivos, criado em 1997, tornou-se uma anomalia política. O presidente, governador ou prefeito assume pensando só nela. Desde seu surgimento, já patrocinou políticas econômicas e sanitárias ruinosas, chegando às articulações golpistas de Jair Bolsonaro.
O Brasil já teve instituições ruinosas como a escravidão, a legislação sobre terras e até mesmo a organização tributária. Todas elas nasceram de interesses econômicos. Beneficiavam ou beneficiam classes sociais. A reeleição saiu do nada, impulsionada apenas pelo interesse dos indivíduos de permanecer no poder. Seu patrono, o então presidente Fernando Henrique Cardoso, reconheceu, em 2020, que historicamente foi um erro. Lula e Jair Bolsonaro candidataram-se combatendo-a. Sentando na cadeira, mudaram de ideia.
Pacheco diz que o Senado está “muito ávido” para debater o fim da reeleição. É improvável que se consiga acabar com ela de chofre, mas é possível que o Congresso vote uma emenda constitucional que acabe com a reeleição para presidentes, governadores e prefeitos eleitos a partir de 2026.
O almirante de Bolsonaro
Pela sua própria função, o tenente-coronel Mauro Cid era a figura mais ostensiva da copa de Jair Bolsonaro. Mais discreto, mais influente e mais expansivo, ainda que desligado do trato com assuntos pessoais do chefe, era o almirante Flávio Rocha, que irá para a reserva no ano que vem. Ele chefiava a Secretaria de Assuntos Estratégicos.
Na fatídica reunião de Bolsonaro com os embaixadores estrangeiros para desacreditar as urnas eletrônicas, Cid apareceu bastante, mas Rocha teve muito mais peso, da concepção à execução.
Desigualdade ministerial
A ministra da Igualdade Racial, Anielle Franco, precisa conferir o seu prazo de validade.
Colocada numa pasta destinada a impulsionar agendas positivas, conseguiu torná-la fonte de inércia e encrencas.
Madame Natasha
Madame Natasha está triste com a aposentadoria da ministra Rosa Weber. Respeitou-a pelo que disse e também pela forma civilizada com que administrou seu silêncio.
Natasha encantou-se com a classificação que a ministra deu ao 8 de janeiro: “Dia da Infâmia”.
A boa senhora reconhece que não cabia à ministra registrar a mais famosa referência a um dia infame, mas não custa relembrar a fala do presidente Franklin Roosevelt ao Congresso americano depois do ataque à base naval de Pearl Harbor:
“Ontem, 7 de dezembro de 1941, um dia que viverá na infâmia, os Estados Unidos foram súbita e deliberadamente atacados por forças navais e aéreas do Império do Japão....”.
O CNJ e a República de Curitiba
Em surdina e com relatórios técnicos, a correição do Conselho Nacional de Justiça está produzindo uma descrição minuciosa da onipotência da Operação Lava-Jato e da Vara Federal dirigida pelo então magistrado Sergio Moro.
A Corregedoria não fala, investiga e escreve. Quem lê suas peças, aprende. Quem não as lê, que as lesse
Outubro de 1963
Hoje, há 60 anos, Jacqueline Kennedy viajou para um cruzeiro de duas semanas a bordo do iate do milionário grego Aristóteles Onassis, que acabaria se tornando seu segundo marido. Três dias depois, o primeiro, presidente dos Estados Unidos, combinou que no dia 22 de novembro iria a Dallas, no Texas.
Lee Oswald, um sujeito que, aos 24 anos, nunca acertara o passo na vida, estava no México. Ao voltar para os Estados Unidos, decidiria ir para Dallas, onde sua mulher russa vivia com a filha.

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