Diálogos entre militares, cheio de palavrões e saudações
de bando, mostram a desenvoltura com que preparavam o golpe
Tudo o que não se pode fazer neste momento é subestimar as
revelações trazidas pela investigação da Polícia Federal. Não era um grupo
pequeno de aloprados, um exército de Brancaleone. Era uma conspiração perigosa,
bem plantada no coração do poder. O palavreado chulo e a linguagem de facção
criminosa trazidas pelos áudios só agravam o fato de que os golpistas eram
militares de alta patente e autoridades no Palácio do Planalto, dentro do
Estado, com poder real de mobilizar tropas e impor um retrocesso institucional
de 50 anos no país.
A minuta do gabinete de crise, encontrada com o general
Mário Fernandes, tinha organograma e estratégia de um governo autoritário,
semelhante ao pior momento da ditadura. Parece surreal, mas eles falavam sério,
eles tinham as armas, eles preparavam a estrutura do novo poder e tinham planos
homicidas. As conversas foram em parte transcritas no relatório da PF, mesmo
assim é um espanto ouvir o que falavam. Os áudios foram divulgados pelo
repórter Maurício Ferraz, do Fantástico, no domingo e, ontem, no Blog de Fausto
Macedo, do Estado de S. Paulo.
A maioria do Alto Comando não aceitou, e os
comandantes de duas das três Forças disseram não, mas a conspiração foi
construída lentamente e com muitas conexões. Vários áudios foram enviados pelo
general Fernandes para o coronel Marcelo Câmara, assessor do então presidente
Bolsonaro, todos começando com a saudação: “Força, caveira”. Há um momento em
que o general Mário Fernandes informa a Mauro Cid que
estava orientando o “pessoal do agro e dos caminhoneiros”. Pede a Cid que o
presidente mande o Ministério da Justiça impedir a Polícia Federal de cumprir
qualquer ordem judicial de busca e apreensão no acampamento em frente ao
quartel general do Exército em Brasília, alegando que os caminhões “estão
dentro da área militar”. Ao que Mauro Cid responde que ninguém iria se meter em
área militar. Ou seja, a área pública em frente ao Exército era usada como
local para acoitar criminosos. Foi de lá que saiu o caminhão levando bombas
para o aeroporto de Brasília no dia 24 de dezembro. De lá saíram os que
quebraram as sedes dos Três Poderes no dia 8 de janeiro.
Em áudio no dia 4 de novembro, Mário Fernandes, tem conversa
reveladora para o general Ramos, secretário-geral da Presidência, e seu chefe.
Com minhas desculpas aos leitores da coluna, deixarei os termos que um general
usava ao falar a outro general.
— Força, kid preto. Pô general o senhor deve ter assistido à
live argentina. Caíram todos os vídeos. Porra, nego tá atacando essa merda.
General, pô. Vou mandar para o senhor aqui, já mandei para o general Laerte e o
Vergara e o MD assistiu à live, um relato rápido, um resumo dessa live
argentina (que falava da suposta fraude). Mas kid preto, porra, o senhor tem
que dar uma forçada de barra com o Alto Comando, com o general Freire
Gomes, com o general Paulo Sérgio. O relatório do MD não pode ser diferente
do que diz essa live argentina. Isso é impactante, essa porra. Tá na cara que
houve fraude. Não dá mais para a gente aguentar essa porra, general, tá foda.
Nem que seja para divulgar e inflamar a massa, para que ela se mantenha nas
ruas e aí sim porra. Talvez seja isso que o Alto Comando e a Defesa quer. O
clamor popular como foi em 64. Como o senhor disse mesmo, boa parte do Alto
Comando, pelo menos do Exército, não tá muito disposto né? Ou não vai partir
para a intervenção a não ser que o start seja feito pela sociedade. General
reforce isso aí. Eu estou fazendo o trabalho junto ao pessoal de brigada e de
divisão da minha turma. Força, kid preto”.
O general Ramos não foi indiciado. Não há áudio respondendo
a essa autoexplicativa fala de Fernandes a ele. Outro áudio foi enviado a
Ramos, no dia 14 de novembro, Fernandes diz que tem informação de que o
“comandante da Força” iria ao Planalto para sinalizar ao presidente que ele
“poderia dar a ordem”. E acrescenta que ele, Ramos, deveria blindar o
presidente contra “qualquer desestímulo, qualquer assessoramento diferente”.
Era assim que se conversava no governo em Brasília. Quem
falava não tinha rodeios. Eram conversas que revelam uma trama em andamento
havia muito tempo. O único caminho seguro é o do esclarecimento completo da
tentativa de golpe, para as devidas punições.
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