É suicida aceitar que fenômenos como seca extrema, ondas
de calor intenso e incêndios de grandes proporções farão invariavelmente parte
do cotidiano das cidades, demandando a resiliência de seus moradores para se
adaptarem aos novos tempos
Impulsionada pelo Globo de Ouro, Fernanda Torres tinha uma
série de compromissos em Los Angeles, na última semana, para pavimentar o
caminho de Ainda estou aqui rumo ao Oscar. A Califórnia, porém, arde
em chamas desde terça-feira, comprometendo a rotina da icônica cidade
norte-americana. Fernanda saiu de cena para se proteger de "uma tempestade
de fogo histórica e perfeita", resultado da combinação sem precedentes de
incêndios florestais, ventos fortes, seca extensa, pouco controle e múltiplos
focos. Mas o enredo é muito mais dramático: o desafio de lidar com os recordes
climáticos se espalha pelo planeta junto com a perigosa sensação de que se
configura um "novo normal" a partir da recorrência dos fenômenos
extremos.
Relatórios divulgados nos últimos dias por diferentes
centros de estudo climático confirmam a gravidade da situação. Como esperado,
2024 foi o ano mais quente da história, mas também o primeiro em que se
ultrapassou o teto de aumento de temperatura de 1,5ºC, em relação a níveis
pré-industriais, definido no Acordo de Paris, em 2015. O limite foi
estabelecido, à época, para 2100. Porém, em três quartos dos dias de 2024, a
média registrada pelos termômetros ultrapassou o combinado, segundo o
observatório Copernicus, da União Europeia.
O Brasil fechou o ano passado com um aquecimento médio de
1,8ºC, conforme o Berkeley Earth. O centro climático estadunidense também
calcula que 40% da população mundial, o equivalente a 3,3 bilhões de pessoas,
enfrentou calor recorde nos últimos 12 meses — o número de atingidos é mais um
inédito. Na avaliação da Organização das Nações Unidas, o compilado de dados
prova "que o aquecimento global é um fato incontestável".
Irrefutável, mas não definitivo.
É suicida aceitar que fenômenos como seca extrema, ondas de
calor intenso e incêndios de grandes proporções farão invariavelmente parte do
cotidiano das cidades, demandando a resiliência de seus moradores para se
adaptarem aos novos tempos. Ultrapassar o teto estipulado em Paris não pode ser
entendido como o fim do acordo ou da esperança de que é viável estabelecer uma
relação sustentável com o planeta.
Ao Correio, Ernesto Rodríguez Camino, meteorologista da
Associação Meteorológica da Espanha, ressaltou que o mais importante é evitar
que os números recordes se tornem "uma nova norma de longo prazo", o
que demanda a adoção de outras medidas para limitar as emissões de gases de
efeito estufa, já que as atuais são "claramente insuficientes". Não à
toa, espera-se que os países cheguem à próxima Conferência do Clima com as
metas climáticas revistas e mais ambiciosas.
Nesse sentido, fará diferença a postura adotada pelo Brasil
nas próximas mesas de negociação climática. O país é sede da COP30, em
novembro, e preside, neste ano, o Brics, grupo com integrantes que estão entre
os maiores emissores de gases de efeito estufa do mundo, como China, Rússia e
Índia. A volta de Donald Trump, adepto do negacionismo climático, à presidência
dos Estados Unidos, deixa a agenda ainda mais desafiadora. Com tantos conflitos
de interesse e a comprovada trajetória acelerada de aquecimento, é plausível
esperar que 2025 não fuja da curva e também registre os seus recordes. Mas que
seja em um momento de redefinição de rota. A barreira da sobrevivência ainda
não foi definitivamente ultrapassada.

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