Tombo na popularidade de Lula fez Nísia virar ministra
'trocável'
Primeira mulher a comandar a Saúde resistiu ao Centrão, mas
sucumbiu a fritura do Planalto
No sétimo mês de governo, Lula declarou que não demitiria
Nísia Trindade do Ministério da Saúde. “Tem ministros que não são trocáveis.
Tem pessoas e funções que são uma coisa da escolha pessoal do presidente da
República”, disse. “A Nísia não é ministra do Brasil, ela é minha ministra”,
acrescentou.
A titular da Saúde estava na mira do Centrão, que tentava
derrubá-la para pegar a chave do cofre do SUS. Sem filiação partidária, ela
conseguiu resistir aos torpedos disparados do Congresso. Ontem sucumbiu ao fogo
amigo do Planalto.
Nísia passou dois anos e dois meses no cargo. Enfrentou
diversas crises, mas só se tornou “trocável” quando pesquisas apontaram um
tombo na popularidade do governo. Transformada em bode expiatório, ela viu sua
cadeira virar alvo de cobiça no PT. Agora será substituída pelo deputado
Alexandre Padilha, que deixa o abacaxi da articulação política para assumir um
dos maiores orçamentos da Esplanada.
A escalação de ministros é prerrogativa do
presidente, mas Lula deveria ter poupado sua auxiliar da fritura pública.
Respeitada no meio acadêmico, Nísia foi exposta a uma demissão em câmera lenta.
Na semana passada, sua pasta teve que emitir uma nota oficial para informar que
ela ainda integrava o governo. A ministra acompanhou a própria queda pela
imprensa, sem que o chefe se dignasse a procurá-la.
O constrangimento chegou ao ápice ontem, quando Nísia foi ao
palácio anunciar um acordo com o Butantan para a produção de vacinas. A
ministra falou em tom de despedida e foi ovacionada pela plateia. Lula
permaneceu em silêncio e não leu o discurso que sua assessoria havia preparado.
Horas depois, o Planalto confirmou a troca e informou que “o presidente
agradeceu a ministra pelo trabalho e dedicação”. Ele poderia ter feito isso
diante das câmeras, mas optou pela demissão por escrito.
Primeira mulher a comandar o Ministério da Saúde, Nísia
herdou uma pasta arrasada pelo governo Bolsonaro. Sua gestão teve problemas,
como a explosão dos casos de dengue em 2024, mas expurgou o negacionismo e
tirou o país do mapa do sarampo. Já seria o suficiente para que ela tivesse
direito a uma saída mais honrosa.

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