domingo, 2 de março de 2025

HIPERMALVADEZA ACIMA DA RAZÃO SOCIAL

Muniz Sodré, Folha de S. Paulo

A personalização do poder é própria a sistemas em que a autoridade é alguém carismático que simboliza o Estado

Talvez sem relevância sociológica, é de interesse analítico uma curta frase em entrevista recente do ator Robert De Niro: Donald Trump não é um homem mau, e sim um malvado. A distinção fica mais clara em inglês, onde "bad character", mau, tem conotação diversa de "perverse person", "mean", "wicked", malvado, cruel. Faz sentido prático estabelecer diferenças dessa ordem, como quando se diz que a droga mata, mas o narcotráfico assassina. Por igual que seja o efeito danoso, na avaliação dos riscos sociais muda a estratégia preventiva.

De Niro já interpretou vários homens maus no cinema e bem sabe que a morfologia desse personagem comporta alguma coragem, capaz de ser aferida como virtude. Para enfrentar adversários, o mau precisa de um caráter, que pode oscilar entre o negativo e o positivo na percepção do público. Já o malvado está mergulhado em si mesmo, sem alteridade possível, como o Drácula lendário desprovido de reflexo no espelho, atuando como máquina humana tipo "idiot savant", o autista que incorpora um mecanismo computacional. Mas diferente deste, o malvado, agente ativo do caos, apenas destrói.

Essa não é perspectiva comum ao campo habituado a pautar análises por disciplinas sociais que sobrepõem o coletivo ao individual, centradas em condições concretas como classes, produção e Estado. No entanto, a personalização do poder é tendência própria a sistemas em que o titular da autoridade é alguém carismático que simboliza o Estado e assume responsabilidade pelas ações. A performance individual é então maior do que a impessoalidade burocrática da coerção.

A essa linha crítica se adequa a tese da maior responsabilidade de Hitler com seu círculo imediato na biopolítica de extermínio do Terceiro Reich. Embora o antissemitismo deite raízes seculares no cristianismo europeu, a obsessão pessoal de Hitler foi decisiva para a implantação dos campos de concentração e para a extensão do ódio a ciganos e outras minorias. Himmler, o organizador dos campos, seguia o impulso, mas como derivação da potência infecciosa do Führer.

É que o malvado infecta. Diferente do homem mau, não vê na vítima um oponente direto, como o inimigo na guerra, mas um alvo de aniquilação programada, contagiosa ao ponto que crie um consenso. Isso fez o hitlerismo por meio do rádio e das marchas triunfais. É também o que as redes sociais fazem pelo trumpismo. Entre nós, calcula-se que deepweb e fundamentalismo religioso sejam correias de ativação infecciosa do vírus extremista.

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