Sob o manto da Portela, pelas lentes da Flávia Moraes, é
como se o Brasil fizesse um travesseiro dos seus braços
Lá vem Portela,
com Milton em seu altar. Lado a lado, a águia altaneira e o passarim preto de
terno azul e branco. E, quando o solidário que não quer solidão emergir daquele
rio de asfalto e gente, os tambores de Minas soarão.
Soarão como samba trazendo alvorada, feito uma reza, um
ritual. Com sabor de vidro e corte, com cheiro de cravo e canela, para lembrar
que o azul e branco da Portela é o mesmo do Cruzeiro. (Milton merecia um samba
feito por Paulinho
da Viola e Paulo César Pinheiro.) Que falasse dos bailes da vida, do
Beco do Mota, dessa gente que ri quando deve chorar — e inventasse na avenida
um cais ligando Minas ao Rio, ao mar. Um samba para mostrar à arquibancada que
o que importa é ouvir a voz que vem do coração e para deixar mestre-sala e
porta-bandeira com a roupa encharcada — e a alma repleta de chão.
Um samba que trouxesse, como puxadoras, Elis, Gal,
Lília, Rita Lee e
juntasse — numa esquina da Sapucaí, a lembrar que nada será como antes, amanhã
— os irmãos Borges, Bituca, Beto, Bastos, Brant. Que abrisse as janelas ao
negro do mundo lunar e não nos deixasse esquecer que todo amor é sagrado, que
qualquer maneira de amor vale amar.
Se na madrugada da Quarta-Feira de Cinzas
Milton encerra o desfile como a majestade do samba da Portela, na noite do dia
20 é na tela que estará. Ele é a estrela — de três, quatro, cinco mil pontas —
de “Milton Bituca Nascimento”, filme em que o olhar atento e afetuoso da
cineasta Flávia Moraes acompanha a “Última sessão de música”, sua turnê de
despedida.
O enredo vai das grutas onde o menino descobriu (ou
inventou) o poder de sua voz, ao quarto de hotel onde, octogenário, evoca
Guimarães Rosa: “O real não está no início, nem no fim; ele se mostra pra gente
é no meio da travessia”. Do rádio em que ouvia Ângela Maria aos palcos de Los
Angeles; da gótica Union Chapel de Londres às igrejas barrocas de Ouro Preto.
Parte da esquina de Santa Teresa, em Belo Horizonte, e chega aonde se cruzam
Lisboa, Rio, Nova
York, Veneza.
Ali onde o cidadão do mundo encontra os que o guardam do lado esquerdo do
peito: Pat Metheny, Wayne Shorter, Herbie Hancock, Quincy Jones, Paul Simon,
Spike Lee. E Chico, Gil, Caetano, Simone, João Bosco, Ivan Lins, Criolo, Mano
Brown, Esperanza Spalding, Carminho — e a nova geração que o redescobre (e o
reinventa) agora.
O samba não diz, mas Milton esteve desde sempre no cinema.
Foi parceiro de Ruy Guerra em “Os deuses e os mortos”; de Nelson Pereira dos
Santos, em “A terceira margem do rio”; de Paulo César Saraceni, em “O
viajante”. Escreveu as canções de “Tostão, a fera de ouro”, naqueles anos 1970
em que o Brasil era o país do futebol e também “da dor e do medo/da ferida
aberta, veneno/que nos mata mais cedo”. Se embrenhou na Amazônia com Werner
Herzog em “Fitzcarraldo”, e com Carlos Alberto Prates Correia nas “Noites do
sertão”.
Sua música insuflou anima aos bailarinos do grupo
Corpo, em “Maria Maria”, e os conduziu pelos trilhos de “O último trem”. Seu
timbre de bronze, forjado nas vozes femininas, embalou versos de Gullar,
Pessoa, Drummond e do Brasil mais profundo — que se chama Minas.
Na passarela ou na tela do cinema, sob o manto da Portela,
pelas lentes da Flávia Moraes, é como se o Brasil fizesse um travesseiro dos
seus braços, e não há como o coração não se deixar levar. Por Milton Bituca
Nascimento, pela azul e branco, por Minas Gerais.

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