Direita mentiu, e culpa de ofensiva autoritária é de quem
ficou do lado dos Elon Musks desse mundo
A liberdade de expressão está sob ataque nos Estados
Unidos. Trump está destruindo a autonomia universitária, prendendo
estudantes por suas opiniões políticas e ameaçando recusar
visto de entrada no país para quem criticar seu governo em redes sociais.
A culpa dessa ofensiva autoritária é de quem ficou do lado
dos Elon Musks desse mundo, contra os Alexandres de Moraes desse mundo, dizendo
que defendia a liberdade de expressão.
Se você fez escândalo quando as contas golpistas em redes
sociais foram suspensas em 2022, lamento, foi você quem prendeu os jovens
estudantes americanos pró-Palestina. Se você deu razão aos bolsonaristas
contra Alexandre
de Moraes, você declarou guerra
a Harvard. Se você disse que Elon Musk tinha
razão contra o STF brasileiro,
ou se opôs aos "fact-checkers", você é pessoalmente responsável pelo
estabelecimento de censura política na concessão de vistos americanos.
Lá, como aqui, a questão sempre foi
simples: há movimentos poderosos que buscam destruir a democracia. O
bolsonarismo aqui, o trumpismo lá. Quando as instituições democráticas
reagiram, você ficou do lado de quem?
Do ponto de vista prático, é só isso que interessa, filho.
Você achar que agiu por princípio não importa, seu apego à performance
"acima da polarização" não importa. Se você ficou com Jair, Musk ou
Trump, você trabalhou pelo autoritarismo de Trump e por coisas infinitamente
mais violentas que teriam acontecido no Brasil se o golpe de Bolsonaro tivesse
sido bem-sucedido.
Você o fez brincando de jogar "liberdade de
expressão" no modo "easy", como se jogava 30 anos atrás, antes
da emergência de movimentos autoritários de massa com penetração institucional
fortíssima e capacidade real de ameaçar a democracia.
Alguns anos atrás, participei de um debate sobre Alexandre
de Moraes com Glenn Greenwald,
colunista desta Folha. Como advogado, Greenwald, que é judeu, defendeu os
direitos de um militante neonazista. A pergunta que Glenn nunca me respondeu é
a seguinte: até que mês de 1933 ele ainda defenderia os direitos dos nazistas
se estivesse em Berlim? E se os "stakes" não fossem só o risco de um
idiota ofender gente no Twitter, mas o risco de vitória de um movimento
poderoso que destruiria a democracia?
Vale conferir o que estão fazendo os críticos do STF diante
da ofensiva liberticida trumpista.
Na semana passada o deputado Nikolas
Ferreira deu seu apoio à censura trumpista contra
alunos que querem estudar nas universidades americanas ("comunistinhas
de meia-tigela"). Google e Meta, as
"vítimas" da regulação, participaram do seminário de comunicação
do Partido
Liberal, a principal organização autoritária brasileira, e ouviram de Jair
Bolsonaro que "estão do lado certo". O próprio governo
Trump, culpado dos crimes listados no primeiro parágrafo, ameaça punir o STF
brasileiro pela defesa da democracia. Musk fazia parte do governo Trump até a
semana passada.
O exemplo americano mostra que a defesa da liberdade de
expressão pela extrema direita de Musk, Bolsonaro e Trump era estelionato. Se
você caiu nessa, fica a dica: da próxima vez que te chamarem para defender o
direito de marchar, não custa nada abrir a janela e checar se os fascistas
estão marchando sobre Roma.

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