Desde 1947 o Brasil faz o primeiro discurso na
Assembleia-Geral da ONU. Com a construção da sede da ONU em Nova York, o
segundo discurso passou a ser o do anfitrião, o presidente norte-americano.
Muito se especulou sobre os discursos de Lula e Donald Trump, já que um falaria
exatamente antes do outro. No entanto, os discursos feitos ali tendem a ser
esquecidos, sobretudo quando acontecem fatos extraordinários como os 39
segundos nos quais Trump e Lula se saudaram e se abraçaram nos corredores da
ONU.
Segundo o presidente dos EUA, houve uma “química excelente”
entre eles. Trump disse que gostou de Lula e Lula gostou dele. Combinaram um
encontro na semana seguinte. Esses 39 segundos tendem a passar para a História
porque podem desbloquear caminhos que dezenas de viagens e telefonemas não
conseguiram viabilizar. Se abstrairmos os discursos, algo positivo poderá
surgir. Os discursos foram um pouco como o equinócio da primavera, em que dia e
noite são claramente separados. Mas o tema principal a ser resolvido, mantidas
as diferenças, é a questão das tarifas. Uma conversa racional pode levar Trump
a reconsiderar as tarifas impostas ao Brasil, completamente deslocadas da
realidade comercial dos dois países. E isso poderá ser considerado um grande
avanço.
Ficou bastante claro que a questão política apontada por
Trump é insolúvel. Lula mencionou isso em seu discurso, enfatizou a soberania
nacional e foi aplaudido pela primeira vez. Por outro lado, respeitada a
soberania brasileira, é possível a cooperação entre os dois países, tal como
Trump sugere. Ele disse que a única forma de o Brasil ter sucesso é estando ao
lado dos EUA. Pode não ser a única, mas se forem respeitadas todas as
diferenças, não precisa ser descartada a possibilidade.
É de esperar que os dois líderes se concentrem no clima
amistoso do encontro e deixem em suspenso a contradição entre seus discursos.
Lula foi aplaudido quando falou de Gaza e do reconhecimento da Palestina. Foi
esse um movimento importante da Assembleia-Geral. França, Canadá, Austrália,
Reino Unido, Portugal e Luxemburgo reconheceram o Estado Palestino. Trump
manteve-se fiel ao governo Netanyahu. Seus planos para a Palestina estão mais
próximos da limpeza étnica de Gaza com a construção de um resort de luxo na
região.
Lula chamou a atenção para o problema ambiental, pediu
responsabilidade dos líderes mundiais e convocou para a COP-30 na Amazônia.
Trump considera uma bobagem o consenso científico mundial sobre as mudanças
climáticas. Na opinião dele, a economia verde está destruindo a Europa, ao lado
da invasão de imigrantes.
Mesmo nos detalhes, por exemplo, o combate ao tráfico de
drogas, há divergências sérias. Trump classifica o tráfico como terrorismo,
algo que Lula não aceita, pois prioriza outros métodos e teme a morte de
inocentes. Essa divergência acabará se manifestando no cerco à Venezuela, logo,
a impressão geral é de que será preciso um grande nível de tolerância mútua
para avançar nas negociações.
Como nas questões de fundo não há nenhuma esperança de
convergência, resta a possibilidade de concentrar toda a energia no debate
comercial, afinal, é o tema que mais incomoda no momento. Em outras palavras, o
duelo que se esperava na ONU não aconteceu. Os discursos acabaram em segundo
plano diante da esperança de um diálogo.
Uma pura análise da fala de Trump e de Lula revelaria que
não encontrariam ponto de contato. Mas a empatia pode se restringir ao
econômico e talvez uma conversa sobre a paz. Trump continua esperando um Prêmio
Nobel por ter, segundo ele, acabado com sete guerras, inclusive uma entre o
Azerbaijão e a Armênia, que normalmente confunde com a Albânia.
Talvez sobre a Ucrânia e esses conflitos espalhados pelo
mundo possa haver algum consenso. Se não houver, qual o problema, uma vez que
discordam em tudo? Mas podem corrigir essa medida irracional que foi a
aplicação da tarifa de 50% aos produtos brasileiros.
Vencida essa etapa, será possível reconstruir com calma as
relações entre os dois países. A ideia de cooperação é boa. O simples fato de
Trump ter mais interlocutores no Brasil, inclusive aquele que responde de fato
pelo País, pode contribuir, indiretamente, para acalmar os ânimos.
A ideia de que os EUA iriam usar sua força para conseguir
alterar o quadro político brasileiro era utópica por muitas razões. Os países
mudam por fatores internos. Se os EUA fossem tão onipotentes, Maduro não teria
sobrevivido no poder. Quatro mil soldados não invadem a Venezuela. Seriam
necessários 200 mil. O que conta são a oposição interna e uma recompensa de US$
50 milhões pela cabeça do ditador.
Quando uma interferência prejudica o País no conjunto, ela
enfraquece os próprios aliados de Trump. É impressionante a capacidade desses
aliados de darem tiros no próprio pé. Em menos de três meses, conseguiram o
impacto das tarifas e o escândalo da PEC da Blindagem. Nem dez Trumps seriam
capazes de resgatá-los da armadilha que cavam para si próprios.
Artigo publicado no jornal Estadão em 26 / 09 / 2025

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