sexta-feira, 26 de setembro de 2025

O TRUMPISMO MEQUETREFE DE NUNES

Editorial O Estado de S.Paulo

Ao romper contrato com empresa porque esta não demitiu funcionário que criticara o ativista trumpista Kirk, o prefeito importa o que há de pior nos EUA e que nada interessa a SP

O prefeito de São Paulo, Ricardo Nunes (MDB), decidiu rescindir o contrato com a organização social (OS) Sustenidos, gestora do Theatro Municipal, porque esta recusava-se a afastar um funcionário que compartilhou nas redes sociais uma postagem que tratava o ativista americano Charlie Kirk como “nazista”. Ao fazê-lo, o prefeito infringiu várias regras da boa administração e da boa política ao mesmo tempo.

O ativista Charlie Kirk foi assassinado a tiros no dia 10 passado, quando dava uma palestra numa universidade em Utah. O caso provocou comoção pela violência em si e pelo fato de Kirk, alinhado ao presidente dos EUA, Donald Trump, ter se notabilizado por se dispor a debater com pessoas de ideologia diferente da sua. Todo o establishment político americano, à esquerda e à direita, lamentou o ocorrido, mas o presidente Trump e seus seguidores mais radicais juraram vingança contra a “esquerda radical” e ameaçaram usar o peso do Estado para combater esses desafetos imaginários. Hoje nos EUA, quem questione Kirk ou suas opiniões é tratado como inimigo do Estado, passível de censura, perda de emprego e linchamento virtual.

Aqui no Brasil, como sempre, políticos bolsonaristas, que macaqueiam o que há de pior no trumpismo, também decidiram infernizar a vida de qualquer um que ousasse falar mal de Kirk. Aqueles que vivem a acusar o Judiciário de “censura” e defendem que o direito à liberdade de expressão seja absoluto agora exigem que críticos de Kirk sejam silenciados ou punidos. O deputado Nikolas Ferreira (PL-MG), por exemplo, tem cobrado, no Brasil, a demissão de funcionários públicos e da iniciativa privada que ele considera detratores de Kirk.

Foi assim que um grupo de vereadores liderados por bolsonaristas foi cobrar do prefeito Ricardo Nunes a demissão do tal funcionário da Sustenidos, a despeito do fato de que o referido profissional apenas exerceu seu direito de se manifestar, previsto nas Constituições do Brasil e dos EUA. Ao invés de esclarecer aos indignados edis que ele nada podia fazer, porque nenhuma lei havia sido violada, o alcaide deu guarida à absurda reivindicação e, como um Trump do Anhangabaú, disse que não poderia preservar o contrato de uma empresa que mantém em seus quadros alguém que “incentiva a violência”.

Na hipótese benevolente, o prefeito de São Paulo, maior cidade da América Latina, deixou-se escravizar pelo esgoto da política paulistana e precisa abraçar causas estúpidas como essa para não perder apoio. Mas não se pode condenar quem acredita que o sr. Nunes esteja sendo sincero e tenha subordinado voluntariamente a gestão do patrimônio cultural da cidade a uma agenda alienígena, que nem remotamente diz respeito aos interesses dos cidadãos que aqui vivem e trabalham.

O prefeito argumenta que a rescisão do contrato com a Sustenidos está em consonância com alertas emitidos pelo Tribunal de Contas do Município (TCM), que desde 2021 aponta supostas irregularidades no edital que concedeu a gestão do Complexo Theatro Municipal à OS, em julho daquele ano. A postagem do funcionário da empresa teria sido apenas a “gota d’água”. Ora, se os problemas eram de fato graves, como sugere a Prefeitura, o contrato deveria ter sido rescindido a tempo certo e pelas razões administrativas corretas, e sabe-se lá por quais razões não foi. Agora que lhe convém, a questão técnica é usada como verniz de uma decisão tomada, a rigor, em razão de pressões externas e de seu eventual interesse em concorrer ao governo do Estado em 2026 com apoio do bolsonarismo.

É lamentável que a Prefeitura seja tratada como palco de uma encenação eleitoreira, no melhor cenário, ou de um ato administrativo ilegal, no pior. Nunes deveria saber que a boa avaliação de um prefeito não decorre de seu alinhamento a pautas alheias ao interesse local, mas do enfrentamento competente dos problemas reais de sua cidade. E isso o prefeito continua devendo.

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