Adriana Calcanhotto desfolha bandeira dos 60 anos como a
legítima discípula modernista da canção pop brasileira
♬ Adriana
Calcanhotto desfolha hoje a bandeira dos 60 anos. Nascida em 3 de
outubro de 1965, em Porto Alegre (RS), a gaúcha mais cosmopolita e tropicalista
da música brasileira se torna sexagenária com a aura de modernidade que
caracteriza o som e a imagem da cantora, compositora e violonista.
Houve um ou outro disco errante no caminho que deu no mar do
Rio de Janeiro (RJ) em fins dos anos 1980, sobretudo o inicial Enguiço (1990),
mas o saldo da obra é positivo, gigante.
Sob o manto modernista, Calcanhotto foi capaz de abrigar
tanto um trip hop ancorado na Bahia preta (Ogunté, música lançada em
2019 no álbum Margem) como uma canção tristonha de Leno
& Lilian, dupla da Jovem Guarda da qual a cantora se apropriou da
balada Devolva-me (1966) em disco ao vivo editado no ano 2000.
Calcanhotto sempre andou pelo mundo prestando atenção no que
toca na rádios e playlists, na última novidade apontada pela imprensa musical
cult e na produção dos poetas. Tudo é matéria-prima que pode ser liquidificada
no caldeirão pop pós-tropicalista da artista.
Em cena desde 1986, ano em que pôs em cena na Porto Alegre
(RS) natal o show Sei que estou errada, Adriana Calcanhotto
se aproxima dos 40 anos de carreira sem perda do prestigio. Por se escorar no
romantismo da canção nacional, madeira de lei que nenhum modismo corrói, a
mulher do Pau Brasil construiu discografia sólida em que sobressaem os
álbuns Senhas (1992), A fábrica do
poema (1994) e Maritmo (1998), trilogia
matricial e autoral que ancora e norteia tudo o que foi feito depois pela
artista.
Por destilar a sofrência com elegância, sem
resvalar no melodrama inapropriado para a voz fina de tonalidade suave,
Calcanhotto ofereceu abordagem depurada do amargurado cancioneiro do compositor
conterrâneo Lupicínio Rodrigues (1914 – 1974) no álbum ao vivo e DVD Loucura (2015),
decorrentes de show apresentado pela cantora para celebrar o centenário de
nascimento de Lupi.
A artista sempre transitou com sofisticação entre a
vanguarda – mote de álbuns como Cantada (2002), no qual
ela se juntou para sempre à geração de músicos como Domenico Lancelotti e
Moreno Veloso – e a canção popular.
Sem fronteiras estéticas, Calcanhotto se deixou pegar pelo
micróbio do samba, entrou na roda infantil – sob o heterônimo Adriana Partimpim
e, como tal, sairá em turnê pelo Brasil a partir deste mês de outubro de 2025
com o show O quarto no palco – e se tornou nome
recorrente na ficha técnica dos discos de Maria Bethânia desde Âmbar (1996).
Enfim, Calcanhotto parece entrar na casa dos 60 anos com
tudo aceso nela, tudo plugado, conectando a música brasileira de A a Z como
legítima discípula, herdeira e estilista modernista da geleia geral da canção
nacional. A artista parece pronta para as novas manhãs tropicais que iniciam a
partir de hoje, dia dos 60 anos da mulher do Pau Brasil.
Se a tristeza da canção é sempre um porto seguro, como provam exitosas baladas autorais como Mentiras (1992) e Metade (1994) a alegria do samba é a prova dos nove que tempera os banquetes de signos e biscoitos finos servidos pela já sexagenária Adriana Calcanhotto às massas em quase 40 anos de carreira. Como diria o apresentador Chacrinha (1917 – 1988), tropicalista de primeira hora nos programas de auditório, palmas para ela que ela merece!


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