Ao tratar evangélicos que se reuniram com Lula como
falsos cristãos, Silas Malafaia e Michelle Bolsonaro deixam claro que fé
‘verdadeira’ é aquela que atende a seus interesses político-eleitorais
O recente encontro entre o presidente Luiz Inácio Lula da
Silva e o bispo Samuel Ferreira, líder da Assembleia de Deus Madureira,
deflagrou uma disputa que extrapolou as fronteiras da religiosidade e avançou
sobre o mundano terreno da política. A reunião – acompanhada pela ministra de
Relações Institucionais, Gleisi Hoffmann, e pelo advogado-geral da União, Jorge
Messias, um dos nomes cotados para ingressar no Supremo Tribunal Federal (STF)
– foi interpretada pela oposição bolsonarista como um gesto de aproximação de
Lula com o eleitorado evangélico. Se foi, o gesto é legítimo. Afinal, Lula é o
presidente de todos os brasileiros e, ademais, o chefe de um Estado laico. Mas
o que veio a seguir mostra o quanto certos líderes religiosos exploram a fé
alheia como reles instrumento de obtenção de poder político.
O fato de um pastor orar com o presidente da República no
Palácio do Planalto provocou uma reação furiosa da parte do segmento evangélico
alinhado ao bolsonarismo. Em um vídeo publicado em suas redes sociais, o pastor
Silas Malafaia, o mais estridente porta-voz desse neopentecostalismo
hiperpolitizado, acusou Samuel Ferreira, ainda que indiretamente, de trair a
“verdadeira fé cristã”. Aos berros, Malafaia afirmou que “um verdadeiro cristão
não apoia Lula”, como se a ele coubesse definir os contornos da fé e determinar
quem pode ou não manifestar suas predileções políticas. Como é típico desse
cidadão, Malafaia reivindicou o monopólio da virtude e colocou a religião, mais
uma vez, a serviço do projeto de poder que ele defende.
Outra a afetar indignação pelo encontro entre Lula e o bispo
Samuel Ferreira foi Michelle Bolsonaro. Em tom cifrado, a ex-primeira-dama
publicou versículos bíblicos nas redes sociais que evocam o conflito entre o
“bem” e o “mal”. À luz de sua interpretação maniqueísta, orar com o presidente,
sobretudo na presença de outro evangélico cotado para ser ministro do Supremo,
equivale a firmar um pacto com o diabo. É irônico, para dizer o mínimo. Em
dezembro de 2021, a mesma Michelle celebrou efusivamente a aprovação do
“terrivelmente evangélico” André Mendonça para o STF, indicado pelo então
presidente Jair Bolsonaro. A fé, naquele caso, servia como selo de
legitimidade. Agora, a bênção virou maldição apenas porque o País, ora vejam,
passou por uma democrática transição de poder. Nunca é demais lembrar que, em
uma república democrática, a religião se circunscreve à vida privada; a
política, à esfera pública.
A rusga entre os evangélicos expõe essa mixórdia promovida
por lideranças que buscam transformar fiéis em eleitores cativos. O fenômeno
não é novo, mas vem se agravando à medida que o campo evangélico se consolida
como uma força social de grande peso eleitoral. O Censo 2022 do IBGE mostrou
que cerca de 27% da população brasileira se identifica como evangélica. É
natural, portanto, que um segmento dessa dimensão desperte o interesse de
políticos que vivem de votos. O problema é quando um evangélico pretende falar
em nome de todos os outros, como se formassem um bloco monolítico e suas
consciências e visões de mundo fossem uniformes. Ou pior: quando um líder
religioso se arvora em árbitro da fé, definindo o que significa ser um
“verdadeiro cristão”.
A liberdade religiosa é um dos pilares da República. Mas, ao
que parece, para alguns essa liberdade só é válida quando serve a seus
interesses políticos. Esse uso instrumental da religião é um dos mais perversos
traços da degradação política nacional. Ele subverte a objetividade do debate
público, transforma o púlpito em palanque e corrompe a fé ao subordiná-la a
desejos terrenos. Religiões prestam-se ao conforto espiritual, não devendo ser
manipuladas como instrumento de segregação político-ideológica ou via de acesso
ao poder institucional, no melhor cenário, ou ao enriquecimento pessoal, no
pior.
É legítimo que Lula busque diálogo com todos os setores da
sociedade, inclusive com as lideranças evangélicas, assim como é legítimo que
essas lideranças apresentem suas preocupações e reivindicações ao governo
federal. O que não é legítimo é instrumentalizar a fé alheia, interditar a
oração ou desconjurar quem pensa ou professa fé diferente.

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