João Guató, Pasquim Cuiabano
Nunca subestime a capacidade de um político em fim de feira de reinventar a própria biografia. Ciro Gomes, outrora o “cinturão amarelo” das bravatas progressistas, decidiu atravessar a rua — não na faixa de pedestre da coerência, mas na vala profunda onde o bolsonarismo lava sua roupa suja. E ali, chapinhando naquele brejo ideológico, nasceu seu novo nome artístico: “Cirolipa”, o humorista involuntário da República, especialista em fazer rir quem ainda leva a política a sério.
A pirueta veio completa: trocou o PDT pelo PSDB, abriu mão da retórica ensolarada contra o fascismo de ocasião e mergulhou no afeto bruto de André Fernandes, o influencer do bolsonarismo raiz no Ceará. A dupla rendeu uma parceria tão improvável que, se Lampião levantasse da tumba, pedia direito autoral pela cena.
A confusão, claro, foi imediata. O PL local acenou que poderia apoiar Cirolipa ao governo do Ceará. Foi o bastante para Michelle Bolsonaro — sempre ela, a guardiã moral da banheira — soltar uma rajada digital, chamando Ciro de “ladrão de galinha”. É curioso como Michelle reescreve a fauna política do país: o galo que canta antes da hora, o rato da PEC, o tatu-bola que some na hora de depor, e agora o frango desossado do PSDB.
Mas o melhor veio depois: Flávio, Eduardo e Carlos Bolsonaro entraram em cena defendendo o suposto novo aliado, dizendo que tudo estava “autorizado” por Seu Jair, lá da cela, onde os pássaros cantam através das grades e o Wi-Fi espiritual parece funcionar melhor que o 4G do Planalto. Flávio ainda criticou Michelle por ser “autoritária”. A família atravessa seu momento Shakespeare do subúrbio: todo mundo quer mandar, ninguém sabe quem está no comando, e o protagonista continua preso atrás de um emoji de tornozeleira.
Do outro lado da história, Cid Gomes observava a pantomima com a serenidade de quem vê seu irmão virar manchete no universo paralelo. Chamou tudo de “constrangedor”, reafirmou apoio ao governador Elmano, e seguiu sua vida. A esquerda, naturalmente, fechou o camburão simbólico: Cirolipa virou persona non grata em rodas onde antes era tratado como primogênito rebelde.
E, no entanto, as pesquisas mostram empate técnico entre Ciro e Elmano. O eleitor cearense, esse sábio antropólogo do absurdo nacional, parece indeciso entre a sobriedade petista e a comédia dramática do ex-ministro itinerante que agora se veste de azul-tucano com coração verde-amarelo do presidiário Bolsonaro.
A verdade é que o Ceará se tornou o laboratório onde o bolsonarismo tenta se reorganizar e Cirolipa tenta provar que ainda existe plateia para sua dramaturgia política. Talvez exista. O Brasil, afinal, é um país em que os artistas de stand-up ganham mais espaço no Congresso que os técnicos de planejamento.
Enquanto isso, eu, João Guató, observo a cena e pergunto: será que Cirolipa acredita mesmo no que está fazendo, ou só está tentando evitar o destino natural de todo político que perde três eleições seguidas — virar comentarista político de podcast?
Seja como for, no palco da política brasileira, Cirolipa encontrou seu novo papel: “o trapalhão oficial da direita”, sempre pronto para surpreender a plateia com mais uma acrobacia moral, mais uma guinada inesperada, mais uma gargalhada involuntária.
No fim, fica a lição: no Brasil, quem não tem coerência caça com bolsonarista. E quem caça com bolsonarista, meu amigo… acaba sendo chamado de galinha por Michelle.

Nenhum comentário:
Postar um comentário