Empresa pediu aos bancos um prazo de três anos de
carência para se recuperar. E promete ajuste com redução de quadro e agilidade
logística
Não haverá aporte de R$ 6 bilhões do Tesouro nos Correios.
Menos mal. Essa seria a opção caso não fosse possível o empréstimo
de R$ 12 bilhões de um consórcio de bancos, entre eles Banco do
Brasil e Caixa, mas a operação está avançando. É muito dinheiro, com
aval do Tesouro, e não há qualquer garantia de retorno. Emmanoel Rondon, novo
presidente que assumiu em setembro, está preparando o plano de reestruturação
da empresa e deve anunciar em breve. A falta de informação oficial sobre o
futuro só piora a situação.
Os Correios perderam, nos primeiros meses do ano, R$ 2,2
bilhões em receita porque os clientes se irritaram com a qualidade dos serviços
e passaram a fazer as entregas eles mesmos. A deterioração do caixa da estatal
vem da piora da operação e acaba gerando mais perda de caixa. Virou um círculo
vicioso.
A estatal perdeu também muita receita desde
o início da “taxa das blusinhas”. Até 2024, a empresa tinha 100% das encomendas
vindas do exterior, agora tem 24%. Como se tratava de falsas compras
internacionais, com simulações de venda de pessoa a pessoa, a estatal tinha o
monopólio. Quando acabou a simulação, lojas como a Shein e Shopee passaram
a transportar até o Brasil e apenas o trecho interno é dos Correios. Funciona
assim: outras empresas fazem a parte mais lucrativa e mais fácil, trazer até um
grande centro de distribuição no país. Quem leva aos mais variados pontos
dentro do vasto território brasileiro são os Correios.
Há muitas explicações para o que está acontecendo com a
empresa. Este é um tempo em que sua principal função, a do serviço postal, está
em irremediável declínio, mas não pode ser abandonada em um país do tamanho do
Brasil. Em vários países do mundo, há subsídios ao serviço postal. Mas nada
justifica uma estatal pedir R$ 20 bilhões sem mostrar o fim do túnel. O valor
foi reduzido, mas continua inquietante o fato de não haver qualquer garantia
que seja suficiente.
Marcus Pestana, da Instituição Fiscal Independente, que foi
conselheiro dos Correios de 1999 até 2002, alerta que “se o Tesouro der aval a
um empréstimo num cenário em que o mercado da empresa segue se deteriorando,
isso vira um problema fiscal”.
O governo Jair
Bolsonaro preparou durante anos um modelo de privatização, mas não o
executou. Não foi aprovado pelo Congresso. Mas a partir do momento em que foi
colocada no Programa Nacional de Desestatização, a empresa perdeu a autonomia
para fazer investimento sem aprovação prévia do governo. Como seus concorrentes
do setor privado investiram muito, ela perdeu competitividade e mercado
rapidamente.
O salário médio da empresa é de R$ 6 mil, o que não é alto,
mas o problema está no número de pessoas e a dificuldade de fazer uma
reestruturação. Por exemplo, há muitos carteiros e muito menos cartas hoje. Há
necessidade de haver mais gente trabalhando no gerenciamento de estoques.
Atualmente, qualquer empresa postal é uma empresa de logística. Mas nos
Correios quem é carteiro só pode ser carteiro, não pode ser realocado no setor
de estoques.
A empresa está prisioneira de outros círculos viciosos. Teve
perda de liquidez e por isso não consegue honrar o contrato, aí perde o
contrato e mais liquidez. Qualquer programa de demissão voluntária precisa de
caixa para fazer o desligamento. Não tem caixa para fazer PDV e continua com o
quadro inchado.
Pestana alerta que é preciso entender que se a estatal
receber esse empréstimo com aval do Tesouro será um valor alto. “Se a empresa
está dando prejuízo, e deve fechar o ano com algo entre R$ 8 bilhões e R$ 10
bilhões, mesmo que venda ativos, desative unidades e promova programa de
demissão voluntária, nada indica que a situação deficitária será superada.”
A empresa pediu aos bancos um prazo de carência de três anos
para ter tempo de recuperação, mas a operação só se viabiliza com o aval da
União. Isso que é conforto para o credor e o devedor, é risco para o avalista,
ou seja, o contribuinte. A empresa pretende reduzir o número de funcionários em
15 mil, mesmo assim permanecerá com 65 mil. Tem um programa de eficiência de
centros logísticos, que já foi testado em Goiânia e apresentou bons resultados.
Planeja fechar cerca de mil pontos pouco rentáveis e redundantes. Há postos a
300 ou 400 metros de outro. A preocupação é nunca encerrar a operação em
lugares onde os Correios são a única presença do Estado. Estes pontos são
deficitários, porém imprescindíveis.

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